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Sociologia Rural e Urbana

Autor: Prof. Adilson Rodrigues Camacho


Colaboradoras: Profa. Josefa Alexandrina da Silva
Profa. Angélica Carlini
Professor conteudista: Adilson Rodrigues Camacho

Doutor em Ciências pelo Programa de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo – FFLCH‑USP (2008), com mestrado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho – FCT‑UNESP (1994) e graduação em Geografia pela Universidade de São Paulo (1990).

Professor titular na Universidade Paulista – UNIP e na Fundação Armando Alvares Penteado – Faap, em cursos de
graduação e pós‑graduação. Tem experiência em estudos socioambientais municipais e regionais. Atua principalmente
nas linhas de pesquisa ligadas à Epistemologia da Geografia e às metodologias de planejamento, qualificação dos usos
territoriais do ambiente (diagnóstico e prognóstico socioambiental) associada à adequação das políticas públicas às
demandas locais.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C172s Camacho, Adilson Rodrigues.

Sociologia Rural e Urbana. / Adilson Rodrigues Camacho - São


Paulo: Editora Sol.

148 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXI, n. 2-161/15, ISSN 1517-9230.

1. Sociologia rural. Sociologia urbana. 3. Agentes sociais. I.Título

CDU 301

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
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Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Aline Ricciardi
Lucas Ricardi
Virgínia Bilatto
Sumário
Sociologia Rural e Urbana

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................8

Unidade I
1 TEORIAS, CONCEITOS, IMAGINÁRIOS: ALÉM DAS PRÁTICAS CONCRETAS............................... 11
1.1 Conceitos.................................................................................................................................................. 20
2 EXPERIÊNCIAS NAS ESCALAS LOCAIS DO RURAL E DO URBANO................................................ 25

Unidade II
3 ESTADO E DEMAIS AGENTES SOCIAIS: DESIGUALDADE, INTERESSES E CONFLITOS............. 47
4 ESTRUTURAS SOCIAIS E FUNDIÁRIAS: PERSPECTIVA HISTÓRICA E REGIONAL DA
PROPRIEDADE E MEDIAÇÃO TERRITORIAL – FOCO SOCIOECONÔMICO........................................ 53
4.1 Mais questão agrária........................................................................................................................... 57
4.2 Modelos agrários de produção atuais.......................................................................................... 59
4.3 Formas de exploração da terra........................................................................................................ 60
4.4 Tipos de lavouras................................................................................................................................... 60
4.5 Relações de trabalho............................................................................................................................ 61
4.6 Principais produtos agrícolas........................................................................................................... 61
4.6.1 Principais lavouras................................................................................................................................... 61
4.6.2 Culturas temporárias.............................................................................................................................. 63
4.6.3 Culturas permanentes............................................................................................................................ 63
4.6.4 Cana‑de‑açúcar........................................................................................................................................ 64
4.6.5 Café............................................................................................................................................................... 64
4.6.6 Cacau............................................................................................................................................................ 66
4.7 Atividade pecuária................................................................................................................................ 68
4.7.1 Características gerais.............................................................................................................................. 68

Unidade III
5 POPULAÇÃO E PRODUÇÃO DO CAMPO E DA CIDADE: NOVAS
FIGURAS TRABALHISTAS E LOCALIZAÇÕES DE ATIVIDADES – GRUPOS ECONÔMICOS........... 72
5.1 Metodologias de diagnóstico e prognóstico socioambiental............................................. 79
5.1.1 Avaliação de Impacto Ambiental – AIA.......................................................................................... 79
5.1.2 Metodologias de Diagnóstico Socioambiental............................................................................ 79
5.1.3 Componentes e objetivos da AIA...................................................................................................... 80
5.1.4 Estudo de Impacto Ambiental – EIA................................................................................................ 80
5.1.5 Roteiro básico para a elaboração do EIA........................................................................................ 80
5.1.6 Relatório de Impacto Ambiental – Rima........................................................................................ 81
5.1.7 Diagnóstico ambiental e prognóstico............................................................................................. 81
5.1.8 Impactos...................................................................................................................................................... 82
5.1.9 Metodologias de diagnóstico socioambiental............................................................................. 82
5.1.10 Metodologia GUT.................................................................................................................................. 83
5.1.11 Metodologia GEO Cidades................................................................................................................. 83
5.1.12 Modelo de trabalho de levantamento de dados para diagnóstico e prognóstico
socioambiental de áreas urbanas e rurais – Junção das Ciências Sociais e Ambientais....... 84
5.1.13 Abordagem estrutural com registro cartográfico.................................................................... 85
5.1.14 Recomendações para o trabalho de campo e de compilação............................................ 86
5.1.15 Bibliografia sugerida como apoio (anexos)................................................................................ 86
5.1.16 Recomendações para a apresentação em xx/xx/20xx............................................................ 87
5.1.17 Apêndice................................................................................................................................................... 87
6 CIDADANIA SELETIVA PARA OS HABITANTES DOS ESPAÇOS
RURAL E URBANO: O PESO DA NORMA E AS SAÍDAS PELA CULTURA.......................................... 89
6.1 Cidadania seletiva para os habitantes dos espaços rural e urbano:
o peso da norma........................................................................................................................................... 91
6.2 A ação sobre o mundo rural............................................................................................................. 92
6.3 A ação sobre o meio urbano............................................................................................................. 93
6.4 A fenomenologia do espaço, a totalidade do diabo e a sensação das perdas............. 93
6.5 Movimentos diferentes, contrariedades ao modelo único do capitalismo global...... 94

Unidade IV
7 TENSÕES ENTRE DIREITOS E NORMAS: PERDAS E GANHOS........................................................104
8 SOLUÇÕES: APONTAMENTOS E PERSPECTIVAS.................................................................................109
8.1 Soluções da tensão entre direitos e normas diante das
perdas de sentido do trabalho e de seu produto...........................................................................111
8.2 Dimensões e conceitos de convergência: dimensões física,
orgânica e cultural coincidindo na paisagem.................................................................................121
8.2.1 Aspectos físicos das cidades e dos campos: rios e relevo.................................................... 123
APRESENTAÇÃO

O texto contempla os vários objetivos, dos mais gerais aos mais específicos. Os mais genéricos vão
desde identificar as interfaces acadêmicas no trato das questões rurais e urbanas; conhecer e refletir
sobre os principais processos sociais, direta ou indiretamente associados à vida social nos espaços rurais
e urbanos, suas particularidades e universalidades, organizações e conexões e diferenças; compreender
a urbanização em países dependentes (hoje, emergentes); além de analisar os principais paradigmas
sociológicos sobre as questões rurais e urbanas.

Ainda do ponto de vista geral, cumpre salientar as abordagens teóricas e metodológicas das Ciências
Sociais que definem espaços rurais e urbanos, juntamente com o rol de conceitos daí advindos, como:
região, modo de vida (tipicamente rural e urbano), produção (tipicamente agrária e urbana) e reprodução
social (cultural e normativa), circuitos produtivos e produtividade. É também fundamental relacionar as
estruturas e organizações da vida social no campo e na cidade, bem como as especificidades produtivas
e interdependências mercantis entre os espaços agrários (áreas de agricultura e de pecuária) e as cidades
(áreas, que, desde a Revolução Industrial, são associadas à industrialização). A produção e o consumo
são atividades‑chave tanto agrárias, como urbanas.

Dentre os objetivos mais específicos, temos o exercício de diferentes versões teóricas sociológicas,
consideradas em suas relações com a Antropologia, Geografia, Ciências Políticas, discutindo os modelos
explicativos das realidades rurais e urbanas estudadas.

E, por fim, aprender a reconhecer na realidade social, urbana e rural, os interesses expressos em
projetos, teorias, conceituações, experimentos, ações tanto privadas quanto públicas. Aprendizagem que
implica identificar o Estado, nele reconhecendo sua composição e perfil; o papel estrutural do modelo
de propriedade da terra; os agentes envolvidos em sua manutenção; o cerne dos movimentos políticos,
sejam com ênfase econômica ou cultural, nas áreas rurais e nas cidades, considerados com base nas
referências às transformações das tradições.

Os objetivos contemplam a orientação do estudante de Sociologia no contato com padrões de


fatos e processos socioespaciais e na problematização de suas razões e desdobramentos, aventando
alternativas de organização social.

O caminho escolhido para viabilizar os objetivos parte do plano teórico (que vê os acontecimentos
na história, com os olhos da mente), passa pelo dos usos ou atividades (que reúnem o ser humano e o
ambiente ainda num território colonial português), delineia as formas dos agentes públicos e privados
(Estado, corporações e demais cidadãos, sejam eles investidores ou não) já sob as normas de um Estado
brasileiro mais efetivo no controle da ocupação e dos usos e costumes, correlacionando (equiparando)
as estruturas social e fundiária. Fechamos assim a primeira e a segunda unidades.

Na terceira e quarta unidades, apresentamos a população e os lugares classificados como rurais e


urbanos (viver e trabalhar nos lugares), assim como as experiências daí advindas (percepção e padrões
culturais), além do plano normativo, da cidadania pelo trabalho social (teórico). Encerramos o roteiro
considerando ações e consciências críticas.
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INTRODUÇÃO

Este texto tem seu norte na relação de ensino‑aprendizagem à procura de uma situação em que
todos aprendam. Nosso objeto de interesse é clássico no meio acadêmico das Ciências Sociais: as relações
sociais tradicionalmente associadas às paisagens rurais e urbanas.

Almejamos tratar dessas práticas a partir do que se convencionou chamar “campo” ou “espaço
rural” em oposição ao “espaço urbano”, com sua forma “cidade”, seja por meio da “morfologia social” de
Dukheim, das “regiões” de Vidal de La Blache, das interações sociais de Simmel. Ambos, campo e cidade,
são produto de relações entre racionalidades territoriais constituintes do processo de urbanização que
determina certa interdependência econômica (agricultura e pecuária camponesas que abastecem as
cidades). A urbanização instaura sentido às relações e à dinâmica social, fornecendo conteúdo imaterial
e material a essas paisagens, seja nos modos de vida rural, seja nos modos de vida urbana.

As diferenças, que já foram muito marcantes, vão cedendo lugar às formas sociais misturadas,
tomando a noção de Serres (1993). É notória a tendência a olhar para as duas categorias como entidades
de distinções indiscutíveis, reproduzidas como pares de cidades e seus campos de cultivo nos conjuntos
municipais pelo mundo afora. Imagens desse tipo são abundantes em pinturas, romances, poesias,
mas também em muitos estudos científicos sobre a vida no campo e na cidade, idílios e estereótipos
estudados por Williams (2011).

Optamos por caminhar entre os motivos clássicos que focalizam as diferenças e aqueles mais
contemporâneos, que procuram as sínteses socioespaciais das fronteiras cada vez mais difíceis de
divisar. E, como convém a um texto didático, interessa‑nos apresentar o debate e quem está em cada
lado: agentes e interesses, com discursos e práticas que anuviam os sentidos e dificultam a aproximação
teórica. O problema é básico nas ciências por envolver a procura pelos elementos universais, pelos
padrões de organização, assim como pelo que é singular na realidade, sem que tenhamos de fazer
escolhas excludentes; a figura do debate, na suposição de diálogo, ajuda‑nos a sustentar a riqueza das
contradições sociais. Por essa razão, citamos Serres (1993), que vem se dedicando a um movimento de
(re)integração de natureza e símbolo, o que é defendido também nos trabalhos de Morin (2004).

Insistimos na figura do debate sem descartar sujeitos, seus projetos e argumentos, sem que antes se
possam expressar e, é claro, a menos que sejam antiéticos, atentando contra a vida humana. A ideia do
debate é uma necessidade metodológica em uma sociedade desigual: colocar as vozes ou projetos para
se expressarem, para debaterem delineando o diálogo.

As relações sociais de nosso interesse são multidimensionais (de cunho político, geográfico,
econômico e cultural) e conectam sujeitos e grupos em estruturas das mais diversas escalas e propósitos
(tribos, comunidades e nações), reunidos sob os processos de territorialização, simbolização, produção
e de organização. Faremos, assim, a difícil caminhada, fora de moda, de tratar da complexidade social
sem a exclusividade do enfoque econômico; este ainda muito preso às classificações quantitativas,
embora a referida trilha passe pelos estudos também clássicos de Clark (1967), adaptados aos estudos
regionais por Berry (1972) que estabeleceram a tradicional classificação geográfica e econômica da
produção em setores primário, secundário e terciário. Claro que a classificação está, de muitas maneiras,
8
ultrapassada pelas transformações, porém, facilita hoje, como facilitava, a abordagem das situações
produtivas, agrárias e industriais, como dissemos, também hoje misturadas (agroindústrias). Essas são
as questões teóricas e conceituais do primeiro tópico.

Prosseguindo, no segundo tópico, falamos de aspectos da vida no campo e na cidade, por


meio de suas mais marcantes atividades e representações, considerando as migrações. Aqui, a vida
é concreta com trabalho concreto e dá‑se nos lugares, e o território é a um só tempo importante
categoria de análise, de administração e de planejamento do uso dos recursos, que permite entender sua
concentração: trata‑se da longa história de poder nas mãos de poucos proprietários privados de terras.

No terceiro tópico, veremos o papel do Estado e demais agentes sociais, chegando a alguns
dos desdobramentos das práticas espaciais: desigualdade, interesses e conflitos. O foco é político,
distinguindo os âmbitos público e privado da vida social.

No quarto tópico, trazemos a estrutura fundiária como expressão espacial da estrutura social em
suas muitas combinações possíveis. Trata‑se das condições para existir socialmente, habitando, trabalhando.

Alguns termos dos estudos sobre os espaços rurais são muito importantes, também são nós e obstáculos
ao conhecimento; tais como: aldeamento, área, rural, vila, cidade, metrópole, além dos papéis das “leis de
terras” no desigual processo de urbanização do País, isto é, de ocupação e acesso seletivos à propriedade.

Das intenções, nos planos teórico e prático, decorrem seus instrumentos de gestão correspondentes,
gerando toda a morfologia social brasileira (no encontro de matrizes autóctones ou europeias), as
regiões e as formações econômico‑sociais, diriam os materialistas dialéticos. É necessário que dirijamos
nossos olhares às transformações pelas quais vêm passando o modo de vida e de sobrevivência na lida
com a terra. Terra, cuja organização e interdição tornam‑na objeto de diversos estratagemas restritivos
à sua posse pelo trabalho das pessoas que a pleiteiam. Assim, fechamos a unidade II.

E no quinto tópico da unidade seguinte, procuramos o trabalho abstrato, globalizado das regiões
antes, caracteristicamente, camponesas. São as áreas de agricultura e de pecuária de exportação, com
as relações organizadas de fora.

Procuramos também os modos como o trabalho concreto interage com as determinações externas
aos locais de trabalho, os imensos impactos das novas formas de trabalho, as novas figuras trabalhistas
e localizações de atividades tão bem estudadas por Moura (1986). O foco é o da economia normativa
que enquadra a vida econômica prévia.

O sexto tópico traz experiências, práticas e percepções condicionadas pelas estruturas consolidadas
e em transformação: grupos culturais como criadores, fomentadores originais de arte, reduzidos como
demanda. O foco é o cultural. Falamos das perdas e ganhos da modernidade.

No sétimo tópico da quarta unidade, o olhar recai nas organizações e movimentos sociais em
busca de melhoria das situações. O foco é o da política, e considera a cidadania nos planos formal e real
para os habitantes dos espaços rural e urbano.
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E, finalmente, o último tópico é o das possibilidades (ações políticas anunciadas no tópico anterior),
afirmativas das possibilidades abertas diante das perdas de sentido do trabalho e de seu produto, seja
em território rural, urbano, o rurbano. Busca‑se um caminho de reconhecimento da obra, da parte de
quem a fez, recuperando o direito ao conhecimento daquilo que vivenciamos, usamos, e com o qual
operamos; os objetos que nos rodeiam.

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SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Unidade I
1 TEORIAS, CONCEITOS, IMAGINÁRIOS: ALÉM DAS PRÁTICAS CONCRETAS

Antes de tratarmos de qualquer assunto, é preciso dizer “de onde” ele vem, “como” chegou e de que
forma se comportará!

O assunto da disciplina, sociologias específicas do campo e da cidade, virá com uma passagem pelo
contexto do pensamento social que lhe serve de plano de fundo, com o propósito de, como se diz de
modo informal em sala de aula: “mostrar de onde vem e por que o tal assunto resolveu cair no meio
deles”; assim, mostrar sua trajetória. Partamos de alguns esquemas.

Os esquemas não são para serem decorados, simplesmente memorizados, mas para servirem de
mapa, de roteiro no mundo das ideias a fim de facilitar o enquadramento de uma parte da realidade que
se destaca à percepção do aluno. Ou melhor, que tipo de sociologia quero fazer? Eu, que gosto do modo
de vida rural, das relações no campo? E, ainda mais especificamente: quais são os significados da forma
como os habitantes desse meio se casam, do tipo de música que ouvem, das festas que frequentam, dos
valores locais, do valor de uso de troca da terra e dos imóveis?

E o mesmo pode ser dito para os hábitos, costumes, comportamentos urbanos, sobre os significados
da velocidade, do valor de uso de troca da terra e dos imóveis, do isolamento, das gangues e guetos, das
áreas de submoradia, entre outras questões.

Fisiologia social

Moral Religião
Sagrado
Representações
Consciência coletiva coletivas
Profano

tipo Direito
Mecânica repressivo
Solidariedade social

Sociedade
(complexo integrado de
Anomia

fatos sociais)
tipo

Orgânica Direito
restritivo
ão
erç

Co

o
Co

erç

mic
fu

ão

anô
õe
s

Coerção
Indivíduo Grupos e instituições altruís
ta
Divisão do egoísta
trabalho Suicídio

Morfologia social

Figura 1

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Unidade I

O esquema apresentado por Rodrigues (1981) a fim de facilitar a visualização da teoria sociológica
de Durkheim, embora represente certa violência, é um esforço de simplificação didática dessa teoria.
Desse modo, o esquema é um roteiro de leitura da obra do pai da sociologia.

Pode‑se encontrar no esquema os elementos principais da teoria durkheimiana, sem seus contextos
e exposições de argumentos (seus porquês); para os quais devemos recorrer a seus textos. Rodrigues
(1981) segue apresentando os planos diacrônico e sincrônico da figura.

O esquema pretende ser tanto diacrônico como sincrônico, por se supor que ambas as diretivas
possam ser encontradas na teoria sociológica de Durkheim. A diacronia é representada horizontalmente,
tendo a solidariedade social – ponto de partida da teoria durkheimiana ao iniciar seus cursos em
Bordeaux – como ponto de partida também da organização social; e a anomia como fim, melhor
dito, quando ela afrouxa seus laços e permite a desorganização individual, ou ausência dos liames
e normas da solidariedade. A sincronia é simultaneamente representada na vertical – tal como uma
estrutura – a partir de um fundamento concreto e objetivo, que é a morfologia social, até atingir a
fisiologia social (1981).

Todas essas questões ou pedaços da realidade poderiam tornar‑se pontos de partida de muitas
pesquisas, desde que correspondentes àquelas ideias associadas nos esquemas, que ajudam a ganhar
sentido. Algo como um mapa para guiar‑nos em meio aos objetos do mundo.

O panorama intelectual da modernidade europeia é marcado pela fundação e desenvolvimento da


Sociologia.

O positivismo representa um esforço intelectual e político evolucionista na esteira da visão


de progresso do Iluminismo, em perseguição impossível da harmonia como marca de equilíbrio no
conjunto social, com um pensamento imbuído de um modelo organicista de sociedade e de cidade de
base biológica (nascimento, crescimento e morte das organizações), com lugar para um funcionalismo
de bases matemática e biológica (principalmente geométrico e anatômico).

As Ciências Sociais afirmam‑se de acordo com as Ciências Físicas ou da Natureza: uma determinada
observação na raiz do conhecimento. Infelizmente, de tanta ênfase na observação em meio ao pensamento
positivista, ao negá‑lo, passamos a viver em sociedades de abstração; de sentidos extrínsecos, isto é,
não gerados por toda coletividade, mas a ela atribuídos “de fora”. Os exemplos são abundantes da
Antropologia (valores absolutos) à Geografia (arranjos socioespaciais padronizados para localidades
diferentes), Economia (desenvolvimento exógeno), entre outros.

O positivismo, desde sua fundação por Auguste Comte, mudou muito e foi se adaptando às levas
críticas que sofria. Porém, alguns aspectos são essenciais, tais como:

• Os objetos de estudo são dados inquestionáveis.

• Rejeição peremptória a qualquer ideia que não seja facilmente demonstrável em laboratório,
como metafísica e teologia.
12
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

• Ancora‑se num cientificismo, cabendo toda explicação à ciência, orientada metodologicamente


pela filosofia.

• O que a ciência não explica “não tem explicação”; deve permanecer sem resposta, afastado da
pauta de pesquisas como veleidades e metafísicas.

Observação

O caráter evolucionista, bem como os traços funcionalistas e organicistas,


estão interligados e atravessam todas as formas e procedimentos de
indagação científicas, numa filosofia do “como”, que afasta o “porquê”;
esta é a principal marca do positivismo, e estudá‑la é obrigatório para
entendermos o modo de desenvolvimento vigente.

O quadro a seguir é um resumo esquemático de introdução à Sociologia, estritamente com propósito


didático:

13
14
Quadro 1 - Panomarama intelectual da modernidade européia e os fundadores da Sociologia
Positivismo (Iluminismo) progresso, harmonia, organicismo, funcionalismo, evolucionismo.
Ciências Sociais em função das ciências físicas: observação na raiz do conhecimento
Unidade I

Pensador Conceitos principais Método Espaço Tempo


Uma “lógica indutiva” que permite,
Hierarquia científica; religião da razão; dividiu a Sociologia em dois campos principais: estática social, ou o
enfim, a cada inteligência renovar à Concepção linear e
estudo das forças que mantêm unida a sociedade; e dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças
sua vontade a história geral do espírito universalizante
sociais. Dando nova roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith, afirmou que os princípios subjacentes Ocupação racional
August Comte positivo, ao passar, de modo quase (1. eológica, 2. metafísica,
da sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão social se do espaço.
insensível, das mais insignificantes 3. positiva); progresso com
mantém por meio de um governo e um estado fortes. Autor de “Discurso Preliminar Sobre o Espírito
idéias matemáticas aos mais altos base na ordem.
Positivo”.
pensamentos sociais.
Fato social (coisa): 1. generalidade, 2. exterioridade (objetividade neutralidade), 3· coercitividade ( educação
consciência coletiva: forma moral, funcional, vigente que define, portanto, a imoralidade, o reprovável, a Positivismo: aplicação do método.
criminalidade). Ex. “O suicídio” (individualidade e Concepção linear da
Émile
sociologia/generalização de fatos Morfologia social. história, baseada, portanto,
Durkheim Organicismo (sociedade saudável, normal, doente). Evolucionismo: progresso da solidariedade mecânica à
até então considerados estritamente na previsibilidade.
orgânica.
individuais).
Harmonia I anomia: entre o geral e o particular. Autor de “As Regras do Método Sociológico”.
Alienação social (econômica, política e cultural): proporcionada pela propriedade dos meios de produção.
Ser humano fragmentado nas relações de produção.
Dialético: materialismo histórico –
Classes sociais: desigualdade social como motor da história. estrutura de uma sociedade expressa a
produção social.
Valor: dos tempos despendidos em cada processo de produção da mercadoria. Mercadoria: produto das Modo de produção
Karl Marx relações sociais de produção; realiza-se no mercado. Salário: valor da força de trabalho considerada como Aplicação do método. Ex. “O Capital” Concepção dialética.
territorializado.
mercadoria; não como coisa, mas como capacidade, que deve ser mantida viva). Mais-valia: diferença entre (política e economia/composição e
o salário e o lucro obtido com o sobretrabalho, origem do lucro. dinâmica social do capital, alienação e
revolução).
Modo de produção: produção social, forças produtivas (condição material da produção) e relações de
produção (organização social para produzir). Socialismo; comunismo. Autor de “Manifesto Comunista”.
Tipo ideal: concepção das particularidades e das generalizações sociológicas no método para atribuir aos
fatos esparsos um sentido social e histórico. Confronto de racionalidades.
Compreensivo/culturalista: a aplicação Primazia das abordagens
Ação social: fundada no individualismo metodológico, com motivo revelador de sentido (social), pois
do método, a ex. da “Ética protestante genéticas e de formação,
Max Weber há uma necessária implicação de relacionamento (com sentido compartilhado), dimensões individual Locacional.
e o espírito do capitalismo” (religião e em detrimento daquelas
(motivação) e social (motivação e conscientização).
economia/valor e ação). preocupadas com estágios.
Contrário às teses da exterioridade, da objetividade (parcialidade na análise sociológica; é o método de
reflexão que garantiria a cientificidade), ao evolucionismo.

1. Dado inquestionável... 3. Cienticismo, cabendo toda explicação à ciência; filosofia responsável pela orientação metodológica das ciências...
2. Rejeição de qualquer metafísica e teologia... 4. O que a ciência não explica, “não tem explicação“; deve permanecer sem resposta.

Adaptado de: Costa (1997).


SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Feito tais adendos sobre as bases da Sociologia, segue uma enumeração que se baseia em classificação
do campo de estudos da Sociologia elaborada por Florestan Fernandes (1972), expandindo a de Karl
Mannheim, e indica seis áreas básicas:

• Sociologia sistemática: plano de ordenamento, nexos, das relações, nas frentes da “sociologia
sistemática estática” (estruturas e funções, como nas ações sociais, por exemplo), e da “sociologia
sistemática dinâmica” (processos de competição e de cooperação, por exemplo).

• Sociologia descritiva: afeita à observação da realidade a ser recomposta sensorial e intelectualmente,


portanto, dependente de trabalhos de campo que dá sua configuração presumidamente acabada
(pesquisa participante em comunidades, por exemplo).

• Sociologia comparada: procura tanto o que há em comum como o que há de particular nos
agrupamentos estudados, com objetivos prescritivos; além da evolução de determinados aspectos
ou comportamento de indivíduos e grupos, focalizando‑os como processos (comportamento e
adaptação simbólica de rituais aos diferentes contextos históricos, como aqueles do judaísmo
transformados pelo catolicismo, por exemplo).

• Sociologia diferencial: procura a individualidade de cada grupamento estudado; sua alma, ou


psique (carnaval brasileiro, os quilombos, por exemplo).

• Sociologia aplicada: prescritiva, normativa, estabelece as melhores condições para implantar e


planejar (pesquisa participante em comunidades, por exemplo).

• Sociologia geral ou teórica: encampa as demais, verificando sua facticidade e alcance (discussão
sobre a validade, consistência e coerência dos instrumentos de pesquisa, por exemplo).

Saiba mais

Como todo esquema é redutor, seu emprego é justificado apenas com


objetivos didáticos, como faz José Albertino Rodrigues. Para conhecer
melhor o autor, consultar:

RODRIGUES, J. A. (Org.). Durkheim. São Paulo: Ática, 1981. (Coleção


Grandes Cientistas Sociais).

Segue, nesse sentido, mais um auxílio de Fernando de Azevedo (apud LAKATOS, 1990, p. 26), na
forma de esquema relacionado às regras de estudo da Sociologia (figura a seguir), ao modo de uma
abordagem sistemática ou taxonômica:

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Unidade I

Sociologia geral 1. Conceitos fundamentais


2. Sociologia dos grupos
(teoria sociológica) que tem 3. Organização e estrutura social
por objeto 4. Dinâmica sócio-cultural

pura ou teórica
5. Métodos e técnicas de investigação social
Sociologia especial
Sociologia
1. Sociologia Antropológica
(estudo de categorias 2. Sociologia do Direito
específicas de fatos sociais) 3. Sociologia Econômica
Sociologia

4. SociologiaPolítica etc.

Geral ou especial: técnicas de


ação social e política social 1. Descoberto o jogo das leis naturais, aplicar-se
aplicação de suas teorias)

(ajustamentos, reajustamentos em regular a conduta segundo elas““, ou


(técnica de ação como

e reformas), em que a conduzir a vida social pela corrente da lei


Sociologia aplicada

aplicação das teorias é natural


oganizada de um destes dois
pontos de vista 2. Conhecido o jogo das leis naturais, que supóe
a idéia de mudança, regular a conduta não
“segundo elas“, mas “por meio delas“, ou
fazendo-nos servir por elas

Figura 2 – Áreas de estudo da Sociologia, de acordo com Fernando de Azevedo

Agora sim, voltamos para o núcleo de nossa questão: as sociologias especiais, conforme Lakatos (1990).

A Sociologia da comunidade, Sociologia rural e Sociologia urbana estudam, respectivamente, a


organização, os problemas sociais das comunidades e a diferenciação do espaço socioecológico; o modo
de vida rural e a natureza das diferenças rurais e urbanas; as alterações socioculturais que ocorrem no
contínuo rural‑urbano, origem e evolução das cidades e o urbanismo como modo de vida: mudanças
socioeconômica‑culturais determinadas pela concentração de uma elevada população, de composição
heterogênea, em limitada área geográfica. (1990).

Para Lakatos, são exemplos dessas áreas de estudos específicos, “as relações de vizinhança; as
resistências às mudanças no meio rural; a desumanização do homem na grande cidade” (1990, p. 28). É
claro que a abordagem de tais temas tornou‑se extremamente complexa, o que veremos mais adiante.

Almejamos tratar dessas práticas a partir do que se convencionou chamar “campo ou espaço rural
em oposição ao espaço urbano”, com sua forma cidade, lançando mão, ora da “morfologia social” de
Dukheim, ora das interações sociais de Simmel, e até mesmo das “regiões” de Vidal de La Blache. Tais
visões não trarão as cidades e as áreas rurais atuais, mas ajudarão a entender as transformações pelas
quais passaram e no que estão se tornando.

Nosso caminho começa com questões mais diretas:

• O que é o campo e, por extensão, o rural e o agrário? E, daí, o que é então a cidade, o urbano?

• Como as pessoas vivem nesse campo, o lugar da pergunta anterior? Podemos chamá‑las de
camponeses? São trabalhadores rurais? São empregados? Podemos opô‑las ao homem da cidade,
ao homem urbano?

16
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Questões diretas e de simplicidade aparente.

Valorizamos aqui a integração e não a separação de categorias e conceitos que, de fato, encontram‑se
todos conectados; entretanto, a opção didática em alguns momentos requer que façamos listas e
decomposições para mostrar aspectos da realidade que, em sua totalidade, não seriam visíveis.

Apoiamos nosso raciocínio de junção em Raymond Williams (2011), mais especificamente, quando
esse considera tanto sua experiência de habitante de área rural quanto sua experiência das vidas
de seu pai e avô. E tais experiências patrilineares, trazidas pelas recordações de Raymond Williams,
são carregadas de afetividade, evocativas de sua memória com forte acento geográfico, ao modo
de uma cartografia emocional bastante detalhada por conta de suas vivências atravessadas pela
espacialidade das localizações das atividades dos familiares que ele herda de suas raízes parentais. A
afetividade é enaltecida pela patrilinearidade, quando conta do avô, do pai, passando por ele mesmo,
cuja historicidade e territorialidade conhecida lhe permitem atribuir valores sentimentais aos lugares
ocupados e desocupados por moradia e trabalho dos protagonistas de sua narrativa, reconhecendo
valores diversos, inclusive monetários. Aborda a transformação territorializada das redes pessoais,
institucionais e corporativas, constituídas pelos sujeitos de sua história pessoal.

A genealogia dramática de Williams (2011) liga vertical e horizontalmente os lugares, constituindo


lugaridades – ou microterritorialidades, no sentido de essências empregado por Holzer (2013) – pelas
biografias de seus familiares mais próximos que conectam campos e cidades, com a mediação simbólica
da aldeia em que também ele próprio morou, que lhe possibilitou vivenciar essas realidades conceituadas.

Tais alusões põem‑nos a pensar sobre o quanto até mesmo o trivial nos escapa: o que é o condomínio
ou a rua em que moramos? Muito menos conhecemos os ingredientes e a profusão de aditivos artificiais
do que compramos nos supermercados e o que comemos nas cadeias de fast‑food!

Vamos considerar algumas teorias sobre os espaços sociais rurais e urbanos. As Ciências Sociais
(Sociologia e suas interfaces com a Geografia, Antropologia, Demografia e com as Ciências Políticas) e
suas linhas de pesquisa das relações nas cidades, nos campos de moradia e cultivo e de seus vínculos.

Os conceitos fundamentais do tema são:

• sociedade;

• comunidade;

• Estado;

• urbanização;

• organizações e espaço rural, agrário;

• organizações e espaço urbano e da cidade.


17
Unidade I

Por ora registremos que sociedade é tipo ideal weberiano com vínculos teóricos e concretos dos
mais diversos graus de coesão entre os agentes sociais, e cuja existência se manifesta na trama de ações
das diversas relações que despontam para os próprios agentes que as engendram.

Comunidade é “o que essa palavra evoca, é tudo aquilo de que sentimos falta e de que precisamos
para viver seguros e confiantes” (BAUMAN, 2003, p. 9).

O Estado, para Bobbio (1987), era mais fácil ser definido negativamente (como sociedade política
em oposição à sociedade civil) do que positivamente, isto é, mais fácil afirmar o que ele não é. Haveria,
assim, três variantes principais:

[...] o Estado como negação radical e, portanto, como eliminação e inversão


do estado de natureza, isto é, como renovação ou restauração ab imis com
relação à fase do desenvolvimento humano anterior ao Estado (modelo
Hobbes‑Rousseau); o Estado como conservação‑regulamentação da
sociedade natural e, portanto, não mais como alternativa, porém como
realização verdadeira ou aperfeiçoamento em relação à fase que o precede
(modelo Locke‑Kant); o Estado como conservação e superação da sociedade
pré‑estatal (Hegel), no sentido de que o Estado é um momento novo e não
apenas um aperfeiçoamento (diferentemente do modelo Locke‑Kant), sem,
porém, constituir uma negação absoluta e, portanto, uma alternativa (à
diferença do modelo Hobbes‑Rousseau) (BOBBIO, 1982, p. 20).

Armando Corrêa da Silva (1984) afirma que, para Ratzel, não só a sociedade e o Estado têm uma
base territorial, mas com estes se relacionam. Por isso, diz Ratzel, “A sociedade é o intermediário pelo
qual o Estado se une ao solo. Segue‑se que as relações da sociedade com o solo afetam a natureza do
Estado em qualquer fase do seu desenvolvimento que se considere” (RATZEL, apud SILVA, 1984, p. 105).

Urbanização é o processo totalizante que molda os espaços, adequando‑os à logica do sistema


produtivo global (SANTOS, 1999).

As organizações rurais e agrárias englobam tanto os aspectos produtivos quanto os culturais e,


evidentemente, seu arranjo territorial. Procurando “sistematizar a cadeia de relações entre objetos,
atividades, elementos materiais, cristalizações e organizações espaciais específicas, que originam a
global capitalista” (CORRÊA, 2000, p. 52‑3). Ele apresenta a esquematização a seguir.

As apresentações e as visões das cidades são muitas. Enquanto, na figura 3, temos um quadro de
elementos distribuídos de acordo com a organização territorial do modo de produção capitalista. As classes
sociais, o regime de propriedade e a segregação derivada da concentração de capital e poder são conceitos
destacados dessa visão. Os expoentes dessa tradição, aqui trabalhados, são Karl Marx e Henri Léfèbvre.

Na figura 4, temos um exemplo do geométrico, da matemática e da evolução (ecologia e biologia),


como concepções de fundo teórico para os modelos: vemos as áreas naturais de Park e de Burgess.

18
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

No quadro I, observamos tanto o linear, o funcional e o orgânico, que condicionaram a visão evolucionista
do campo à cidade, no positivismo de Émile Durkheim. Também, no quadro I, é possível perceber as
características do pensamento de Max Weber: o cultural, o mercado e os motivos das ações sociais.

Nessa tradição cultural, porém com mais elementos do pensamento de Marx, Raymond Williams traz
o campo, a cidade e os fios que os unem e os misturam.

O indivíduo, as interações, o stress e o deserto da cidade opressora vêm pelo pensamento de Georg Simmel.

Objetivo Atividade Elemento Cristalização Organização espacial


material específica
Indústrias disperas ou
Fábrica Ponto concentradas
Produção Mina
Campo Área Áreas rurais especializadas

Organização espacial global


Acumulação Terminal Ponto Centros de comunicações
de capital Depósitos
Circulação Canal
Dutos
Rodovias Linha Sistema viário
etc.
Banco
Controle e Escritório Centros administrativos
decisão Escola Centros universitários
Templo Centros religiosos
Quartel Ponto
Localidades centrais
Loja
Reprodução Consumo Hospital
social Cinema
Habitação Área Áreas sociais

Figura 3 – Organização espacial capitalista – um quadro conceitual

Urbano e cidade são, respectivamente, conteúdo (modo de vida) e forma‑cidade (construção,


governo e negócio). A legitimidade da formação e dos vínculos de vizinhança e compartilhamento dos
lugares, fortalecidos no dia a dia vem, ao longo das últimas décadas (pós‑anos 1970 com o acirramento
da globalização capitalista), cedendo lugar à institucionalização.

Rural e agrário são, respectivamente, conteúdo (modo de vida) e forma agrária (trato com a terra,
atividades agropecuárias).

Há um rol de conceitos implicados nessas definições, como:

• Território, propriedade, conflitos, recursos, mobilidade, inviabilidade.

• Imaginário rural, urbano, enraizamento e desenraizamento: mobilidade real e ilusões e


transformações das referências.

19
Unidade I

• As especificidades do espaço rural e suas transformações produtivas, ambientais e culturais:


o debate acadêmico e político entre aqueles que acreditam em permanências de aspectos
fundamentais do modo de vida rural (os adeptos da reforma agrária e a Escola do Rurbano, por
exemplo) e aqueles que acreditam na urbanização generalizada (de um capitalismo globalizado
aniquilador da essência desse estilo de vida).

1.1 Conceitos

Postas as questões deste trabalho, passemos às bases sociológicas da análise do rural e do urbano,
por Henri Léfèbvre e por Marcella Delle Donne, para contextualizar essa espécie de estudo e, assim,
prosseguirmos em nosso percurso por esses lugares.

No que diz respeito ao nascimento da Sociologia urbana, Donne (1983) afirma a importância dos
Estados Unidos como modelo, seguido, aprimorado ou mesmo negado, diríamos.

Segundo Eufrásio (1995), o desenvolvimento da Sociologia nos Estados Unidos da América pode ser
dividido em cinco fases: de surgimento, difusão, consolidação, funcionalista e de diversificação, como segue:

• Surgimento: durante as duas últimas décadas do século XIX, introduziram‑se cursos de Sociologia
em diversas universidades.

• Difusão: entre 1900 e 1920, a Sociologia se difundiu entre as universidades e faculdades dirigidas
às humanidades e às letras e, em 1905, foi criada a American Sociological Society.

• Consolidação: entre 1920 e 1935, foram criadas linhas originais de trabalho nos mais importantes
centros de ensino e pesquisa de Sociologia no país, que se firmaram em tradições próprias, e
paralelamente à ampliação do ensino de graduação e de pós‑graduação. Multiplicaram‑se as
revistas especializadas e os contatos internacionais, ocorreram o desenvolvimento de subdisciplinas
especializadas e a formação de equipes de pesquisa. Nesse período, predominou a orientação que
se desenvolveu em Chicago, caracterizada por uma ecologia humana e uma psicologia social,
ambas sociológicas e, secundariamente, a orientação surgida em Colúmbia; na década de 1930.
Pelo prestígio e a importância que ganhou dentro e fora dos círculos acadêmicos, a Sociologia
tornou‑se conhecida como “a ciência americana”, difundindo‑se e influenciando a de outros
países.

• Período de maior diversificação inicial, mas no qual acabaria por vir a exercer a influência mais
importante, o funcionalismo de Harvard, secundado pelo interacionismo simbólico, surgido em
parte em Chicago. Na década de 1960, emergiu o movimento da chamada “Sociologia crítica”.

• Etapa de grande diversidade de orientações teórico‑metodológicas e na qual se consolida a


proeminência internacional da Sociologia americana.

A figura a seguir exemplifica boa parte desse desenvolvimento numa aplicação do notável da Escola
de Chicago: Burgess.
20
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Área urbana

Habitações singulares
Hotéis residencias

Habitações de
imigração secundária

Má vida
quartos
aluguer
sic ittle
ily
L II
Zona de III
Ghettos I transição Zona de
Deutschland Centro habitações
S operárias
ND O
S-F
CHINA SA
TOWN
VIZIO
Casa com
apartamentos
IV
Zona residencial

Área dos locais


nocturnos V
Zona dos
Bairros altos trabalhadores
pendulares
Área dos Bungalow

Figura 4 – Modelo de desenvolvimento da cidade elaborado por Burgess

Na figura anterior, temos o modelo de organização das cidades de Burgess, segundo o qual estas
se desenvolvem por círculos concêntricos, muito presentes no imaginário urbanístico de sociólogos,
arquitetos e de geógrafos ao pensarem a cidade. Burguess é expoente da Escola de Chicago e assim se
expressa sobre a realidade urbana estudada.

Na expansão da cidade, verifica‑se frequentemente um processo de distribuição


que faz a triagem, classifica e ordena indivíduos e os grupos de acordo com
a residência e a ocupação. A diferenciação em áreas cosmopolitas da cidade
americana que daí resulta segue tipicamente um único modelo, e apresenta
apenas modificações de interesse menor. No bairro comercial central ou numa
rua adjacente, encontramos o ‘coração’ da hobohemia; a fervilhante Rialto
dos nômadas do Middle West. [...]. Na zona deteriorada que circunda o bairro
comercial, encontram‑se sempre os bas fonds e as chamadas ‘terras áridas’
com as suas miseráveis regiões de pobreza, degradação e doença, e com os
delitos e os vícios da má vida. Na área deteriorada, existem os bairros com
quartos de aluguel, o purgatório das ‘almas perdidas’ (DONNE, 1983, p. 34).

21
Unidade I

Saiba mais

GOTTDIENER, M. A produção social do espaço urbano. 2. ed. São Paulo:


Edusp, 2010.

DONNE, M. D. Teorias sobre a cidade. Lisboa: Edições 70, 1983.

Especificamente para a Escola de Chicago:

EUFRASIO, M. A. Estrutura urbana e ecologia humana: a escola


sociológica de Chicago (1915‑1940). 1. ed. São Paulo: Editora 34, 1999. v. 1.

Lugar, território, paisagem e região constituída e instituída serão considerados na argumentação,


pois todos os acontecimentos e processos socioespaciais permeiam categorias morfológicas e, portanto,
ordenam‑se e localizam‑se; requerendo aportes geográficos à reflexão.

Léfèbvre auxilia‑nos com sua reflexão sobre o rural e o urbano como produtos de processos sociais
mais amplos (1978; 2001).

Do rural ao urbano

Quantos dos nossos cidadãos, intelectuais, e até mesmo os historiadores ou sociólogos,


percorrem nossas cidades e descobrem sua face original ou incerta extraída de sua monotonia
ou admirando o que houver de pitoresco, e estão cientes de que essas pessoas não podem
ser reduzidas a um amontoado acidental de homens, animais e coisas, que seu exame revela
uma organização complexa, uma “estrutura”?

O estudo de uma aglomeração rural, em qualquer país, descobre equilíbrios dos mais sutis
do que em princípio se poderia esperar: são proporcionais às extensões das terras de trabalho,
florestas, pastagens e dos grupos de seres vivos que sobrevivem de seu pedaço da Terra. Este
estudo, quando passa dos simples fatos objetivos aos fatos humanos que lhes dizem respeito,
também descobre que as proporções materiais, sem serem explícita e racionalmente procuradas
pelos homens, não são obtidas cega e mecanicamente, demonstrando uma consciência difícil
de entender e ainda mais difícil de definir. Há aqui uma curiosa mistura de prudência, iniciativa,
desconfiança, credulidade, rotina: sabedoria camponesa.

A análise descobre, finalmente, fissuras nessa ordem, incertezas nessa sabedoria, desequilíbrios
mais ou menos duráveis, devidos a causas mais ou menos profundas, como: problemas, necessidades,
tendências, conflitos, adaptações ou inadaptações. Esse organismo, que nem sempre somos capazes
de ver, nos é dado, no entanto, olhando, com sua estrutura e seu horizonte. Enquanto isso, a
consciência dessa comunidade organizada dissimula‑se na vida dos indivíduos que dela participam:
a realidade sensível é tão secreta quanto imediata. Organização e consciência contêm e continuam
22
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

sua história; apresentam um passado. Neste lugar qualquer, existiu e viveu uma pacata vila situada
numa colina, existiu muito antes das cidades tão conhecidas, únicas em manter e monopolizar
hoje nossas esperanças e sonhos! Esta cidade, que há muito está mergulhada em uma paz cinzenta
e reticente, sustentou lutas ardentes contra senhores, príncipes ou reis. Pouco se manteve desse
passado, nada permanece. Nada e, no entanto, tudo: a forma mesma da cidade.

Fonte: léfèbvre (1978, p. 19‑20, tradução nossa).

Léfèbvre (2001) ajuda‑nos a trazer também a cidade, pois suas preocupações com a interpretação
das relações sociais punham‑no diante de suas expressões espaciais e, portanto, mais do que entender
a vida nos campos e nas cidades, queria era entender os processos socioespaciais que se moldavam com
os espaços que as atividades humanas ocupavam, aproximando criticamente sua Sociologia da Filosofia
(LÉFÈBVRE, 1978) e da Geografia (LÉFÈBVRE, 1978).

Em O Direito à Cidade, de 1967, Léfèbvre traz o mote das garantias que será retomado nos últimos
anos de maneira mais visível, com os movimentos Occupy de reivindicações alternativas e de mais
espaço político pelo mundo afora, além da maior evidência no centro nervoso das finanças mundiais,
em Wall Street, principalmente, por David Harvey, em seu Cidades Rebeldes (2013), como explica:

A atual onda de movimentos juvenis em todo o mundo, desde a cidade do


Cairo até Madrid ou Santiago do Chile – para não falar da rebelião nas ruas
de Londres, seguida pelo movimento Occupy. Wall Street iniciado na cidade
de Nova York e que logo se estendeu a inumeráveis cidades estadunidenses
e de todo o mundo – sugere que haja algo politico no ar das cidades que se
debatem por expressar‑se (HARVEY, 2013, p. 173, tradução nossa).

Em seus trabalhos mais recentes, Harvey coloca o pensamento de Léfèbvre como pedra fundamental do
seu próprio, acompanhando, assim, Léfèbvre em suas advertências quanto à necessidade de alertar o leitor
quanto ao excesso de normatização da vida social. Em O Direito à Cidade, Léfèbvre explica esse ponto de vista:

Porque muito provavelmente cada leitor já terá em mente um conjunto de


ideias sistematizadas ou em vias de sistematização. Muito provavelmente,
cada leitor procura um ‘sistema’ ou encontrou o seu ‘sistema’. O sistema está
na moda, tanto no pensamento quanto nas terminologias e na linguagem.
Ora, todo sistema tende a aprisionar a reflexão, a fechar os horizontes. Este
livro deseja romper os sistemas, não para substituí‑los por um outro sistema,
mas para abrir o pensamento e a ação na direção de possibilidades que
mostrem novos horizontes e caminhos. É contra uma forma de reflexão que
tende para o formalismo que um pensamento que tende para a abertura
trava o seu combate (LÉFÈBVRE, 2001, p. 9).

Segundo Léfèbvre (2001), para apresentar e expor a problemática urbana, impõe‑se como
ponto de partida incontestável o processo de industrialização que, há um século e meio, é o motor
caracteristicamente moderno das transformações na sociedade. O autor ainda afirma:
23
Unidade I

Se distinguirmos o indutor e o induzido, pode‑se dizer que o processo de


industrialização é indutor e que se pode contar entre os induzidos os problemas
relativos ao crescimento e à planificação, as questões referentes à cidade e ao
desenvolvimento da realidade urbana, sem omitir a crescente importância dos
lazeres e das questões relativas à “cultura” (LÉFÈBVRE, 2001, p. 11).

Embora Léfèbvre atribua papel central à industrialização moderna para explicar a urbanização,
afirma que tal “não tem por consequência, inevitavelmente, o termo ‘sociedade industrial’, se quisermos
defini‑la” ((LÉFÈBVRE, 2001, p. 11). Acrescentamos que também não poderíamos rotular a sociedade
contemporânea de “pós‑industrial”. Vejamos um pouco mais da questão nas palavras de Léfèbvre:

Ainda que a urbanização e a problemática do urbano figurem entre os efeitos


induzidos e não entre as causas ou razões indutoras, as preocupações que
essas palavras indicam se acentuam de tal modo que se pode definir como
sociedade urbana a realidade social que nasce à nossa volta. Esta definição
contém uma característica que se toma de capital importância.

A industrialização fornece o ponto de partida da reflexão sobre nossa época.


Ora, a Cidade preexiste à industrialização. Esta é uma observação em si
mesma banal, mas cujas implicações não foram inteiramente formuladas.
As criações urbanas mais eminentes, as obras mais “belas” da vida urbana
(“belas”, como geralmente se diz, porque são antes obras do que produtos)
datam de épocas anteriores à industrialização. Houve a cidade oriental (ligada
ao modo de produção asiático), a cidade arcaica (grega ou romana, ligada
à posse de escravos), depois a cidade medieval (numa situação complexa:
inserida em relações feudais mas em luta contra a feudalidade da terra). A
cidade oriental e arcaica foi essencialmente política: a cidade medieval, sem
perder o caráter político, foi principalmente comercial, artesanal, bancária.
Ela integrou os mercadores outrora quase nômades, relegados para fora da
cidade (LÉFÈBVRE, 2001, p. 11).

Saiba mais

Recomendamos para ver a continuidade desse debate, os textos de


David Harvey:

HARVEY, D. Ciudades rebeldes: del derecho de la ciudad a la revolución


urbana. Espanã: Ediciones Aka, 2013.

HARVEY, D. O direito à cidade. Tradução Jair Pinheiro. Lutas Sociais. São


Paulo, n. 29, p. 73–89, jul./dez. 2012.

24
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Lembrete

Cidade e campo emergem nos estudos como síntese interdisciplinar


entre a Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Economia, a Ecologia e
Biologia, Administração e Engenharias Politécnicas.

2 EXPERIÊNCIAS NAS ESCALAS LOCAIS DO RURAL E DO URBANO

Focamos agora a vida nos lugares, rurais e urbanos (rurbanos, na síntese de Graziano da Silva) e
em fluxos (os migrantes) pelas redes de “fuga” e “destino”, tanto dos que encontram lugares para recriar
suas relações quanto dos que não conseguem refazer‑se, sendo apenas depositados em localidades, aos
quais são negados direitos de existência. As diversas figuras de uma demografia viva são: lugares de
nascimento, de saída, chegada, posse, desposse, controle, descontrole; lugares e seus recursos.

Então, olhemos para os espaços rural e urbano como âmbitos típicos, até mesmo estereotipados, para
facilitar a imaginação do desconhecido que temos como estrangeiros: no caso de citadinos nas áreas
rurais, e do pessoal do campo, na cidade. Reiteramos que as diferenças vão‑se desvanecendo, o que é
motivado por processos sociais internacionais de motor único; desvanecendo, mas não se apagando,
apenas vão‑se fundindo os elementos antes únicos em cada âmbito.

Sauer (1956) também nos ajuda sobre a importância e a diversidade da vida e da produção do
homem na Terra.

Ao falar das formas de vida camponesa e pastoril, Sauer (1992) trata das sucessivas intervenções
revolucionárias do ser humano sobre a natureza, apontando como a principal delas a que veio quando
ele selecionou certas plantas e animais tomando‑os sob seus cuidados para serem reproduzidos, criados
e domesticados cada vez mais de modo dependente dele para sobrevivência. A adaptação dessas formas
para servir às necessidades humanas é contrária, como regra, ao processo de seleção natural. Com isso
foram introduzidas novas linhas e processos da evolução orgânica, ampliando o fosso entre as formas
selvagens e domésticas. A biota, a superfície e o solo natural foram deformados, gerando paisagens
culturais instáveis.

Convencionalmente, as origens da agricultura estão localizadas no início da era neolítica, embora


seja óbvio que o registro arqueológico recente do neolítico apresente um quadro de domesticação
alcançado em plantas e animais, da agricultura e da vida pastoral que se assemelha às condições que
ainda podem ser encontradas em algumas partes do Oriente Próximo.

Carl Sauer (1992) apresenta três premissas sobre a origem da agricultura:

• Esse novo estilo de vida era sedentário, surgiu a partir de uma sociedade sedentária anterior. Na
maior parte das condições, especialmente entre agricultores primitivos, a terra plantada deve ser
vigiada continuamente contra predadores dos cultivares.

25
Unidade I

• A atividade de plantio e domesticação não foi desenvolvida a partir de fome, mas de fartura e
de tempo livre. As pessoas vítimas de fome não têm oportunidade e incentivos para a seleção
lenta e contínua de formas domésticas. Comunidades aldeãs são as que oferecem circunstâncias
favoráveis a tais progressos.

• A agricultura primitiva está localizada em terrenos arborizados. Mesmo o fazendeiro americano


pioneiro apenas invadiu pastos até meados do século passado. Seus campos foram clareiras
estabelecidas pela morte das árvores, geralmente através de corte. Quanto maior era a árvore,
mais fácil a tarefa; já o matagal requeria que se arrancasse e cortasse; as pradarias detiveram seu
avanço, enquanto não se dispusesse de arados capazes de cortar os tapetes de raízes. Os restos
no chão da floresta foram limpos com queima ocasional; troncos mortos quase não interferiram
no seu plantio. O pioneiro americano aprendia e aplicava práticas indígenas. Curiosamente,
acadêmicos, porque eles carregam em seus pensamentos as imagens nítidas de campos, arados
criados pelo agricultor europeu com o corte de árvores com um machado, terem pensado tantas
vezes que as florestas repelem a agricultura e que as terras abertas a convidam.

A mais antiga forma de agricultura envolve fazer furos, muitas vezes, chamado – e, geralmente,
de maneira imprópria – “cultivo de enxada”. Esta era a única maneira conhecida no Novo Mundo, na
África Negra e nas ilhas do Pacífico. Em um nível avançado, levou aos jardins e horticultura de monções
na Ásia e, talvez, no Mediterrâneo. Suas ferramentas modernas são a pá, o forcado e a enxada, todos
derivados de formas antigas. Na América tropical, este tipo de cultura é conhecida como conuco; no
México, como milharal, sendo esta última um plantio de sementes de milho, abóbora, feijão e talvez
outras espécies anuais. O conuco é composto principalmente por raízes e videiras, em um terreno de
jardim perene. Recentemente, foi proposto o renascimento da antiga palavra norueguesa swithe ou
“roça” (SAUER, 1992).

Este horto começa detendo o crescimento das árvores, seguindo com a queima no final do período
seco, de modo que as cinzas sirvam como um fertilizante imediato. No espaço “clareado”, planta‑se
um conjunto diversificado de plantas úteis, cultivadas em linhas, se a fertilidade e a umidade forem
adequadas. No complexo de milho – feijão – abóbora, os caules e folhas desta última estendem‑se
pelo terreno; talos de milho crescem em altura e são enrodilhados por feijões. Assim, o solo está bem
protegido por um dossel, com uma boa intercepção de chuva. Cada conuco pode conter uma variedade
de plantas, a partir de gramíneas de arbustos como o algodão e mandioca, e as árvores cultivadas
cobertas de vinhas.

A aparente desordem, na verdade, corresponde a um uso completo de luz e umidade, um substituto


ecológico admirável manipulado pelo homem, talvez, equivalente à cobertura natural na proteção
oferecida à superfície do solo. No conuco tropical, um pedaço de solo adequado é escavado em locais
convenientes e a qualquer momento para extrair ou colher plantas diferentes, sem a necessidade de se
escavar toda a área plantada. A extração e o plantio de raízes podem ocorrer simultaneamente. Nossas
ideias sobre a época de colheita em que toda a produção é extraída do campo são inaplicáveis. Em
conucos, pode‑se colher algo quase em qualquer dia do ano. A mesma planta fornece verduras para
cozimento, saladas, flores ricas em pólen e para ornamento, além de frutos verdes e maduros; a mesma
lógica cabe à horticultura e ao cultivo de campos (culturas arbustivas), cada planta pode ter, assim,
26
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

vários usos domésticos. Essa ocupação múltipla do espaço cultivado permite maiores rendimentos por
unidade de área, adicionando‑se a observação de que, neste sistema, desenvolveram‑se plantas de alta
produtividade, como bananas, inhame e mandioca, cuja produção de alimentos não é de modo algum o
único uso de tais plantas (SAUER, 1992). Em suma, os conucos são os tipos de cultivo mais vantajosos.

Os sistemas agrícolas realmente não merecem os nomes degradantes que lhes forem impingidos,
tais como “corte e queima” ou “a agricultura itinerante”. O abandono dos cultivos depois de um tempo
antes dos novos rebentos de plantas selvagens lenhosas é uma forma de rotação através do qual o solo
é restaurado para nutrientes extraídos por árvores e arbustos com raízes profundas, a serem espalhados
sobre a superfície como resíduos. Tal uso da terra é livre das limitações do terreno ao campo arado. Poder
oferecer bons retornos em declives íngremes e ravinas não é um bom argumento contra o método, que
oferece uma melhor proteção contra a erosão do solo do que qualquer forma de recuperação. Também,
nesta cultura, são estabelecidos sistemas de terraceamento em encostas (SAUER, 1992).

Alguns dos problemas atribuídos ao sistema resultam do impacto tardio de nossos próprios métodos
de cultura, tais como o acesso a machadadas e facões, através da qual é possível eliminar focos de ervas
daninhas, em vez de deixar a terra descansar sob o novo crescimento das plantas; substituição de culturas
de subsistência para as culturas de rendimento; o rápido crescimento da população mundial, e demanda
por bens industriais, associado a melhores padrões de vida. Não argumentam que sob este primitivo
sistema de cultura, o homem poderia melhor satisfazer as suas necessidades, sem esgotar o solo. Em vez
disso, em seus procedimentos básicos e suas plantações, este sistema nos permite manter um alto grau
de fertilidade do solo, com altos níveis de performance. Sendo protetor e intensivo, podemos considerar
totalmente adequado às condições físicas e culturais das áreas onde ela existe. O nosso conhecimento
ocidental é orientado para o uso da terra para uma curta série de anos e não equivalente à sabedoria do
camponês primitivo enraizada em suas terras ancestrais (SAUER, 1992).

Nossas atitudes em relação ao cultivo vêm de outro tronco antigo, do qual brotam agricultores,
colheitadeiros e os ceifeiros; homens do arado, que dependem de criadores de gado leiteiro e pastores
de rebanhos. Este é o complexo que já está bem representado nos primeiros sítios neolíticos no Oriente
Próximo. O interesse desta cultura é especificamente voltado para a produção de mudas anuais,
especialmente gramas de cereal. A semente é cuidadosamente preparada com antecedência para
minimizar o crescimento de plantas daninhas e fornecer uma luz na bem trabalhada superfície do
solo em que as pequenas sementes germinam. A superfície lisa e bem trabalhada contrasta com pilhas
dispersas de terra – “colinas” na fala do camponês americano – característica do conuco e do milharal.
Em vez de uma variedade de plantas, o solo é preparado para receber sementes de um único tipo. O
Oeste da Índia é uma exceção significativa. As plantas não recebem cultivo adicional, desenvolvendo‑se
até a maturidade, quando são colhidas uma vez. Após a colheita, o campo pode ficar em pousio até
a temporada seguinte. Os instrumentos do cultivo é o arado; em segundo lugar, as grelhas, ambos
usados para preparar o solo para o plantio. Este é tradicionalmente feito lançando‑a aos punhados, e da
colheita, utilizando lâminas afiadas (SAUER, 1992).

Rebanhos de animais, gado de corte, ovinos, caprinos, cavalos, jumentos e camelos são raros ou
têm uma presença recente neste sistema. Cuidar de animais pastando ou ruminando é básico. Eles
são ordenhados, ou eram no passado. Na opinião de Sauer (1992), a ordenha é uma atividade original
27
Unidade I

e um elemento qualitativo de domesticação e, em muitos casos, se manteve sua principal utilidade


econômica, enquanto a carne e couro foram apenas os produtos de origem animal.

Este complexo espalhou‑se de seu berço no Oriente Médio, especialmente em três direções, mudando
seu caráter diante das mudanças ambientais e devido ao crescimento populacional:

• Difusão para as estepes da Eurásia, a cultura perdeu preparo e tornou‑se plenamente pastoral,
com o nomadismo real.

• Dispersão dos celtas, germânicos e eslavos para o oeste parece ter tomado seus assentamentos
históricos principalmente como criadores de gado e cavalos.

• A dispersão das culturas de plantio e pastagem para o oeste ao longo de ambos os lados do clima
mediterrânico, não sendo necessário um ajuste significativo. O trigo e a cevada continuaram
os cereais de colheita; ovinos e caprinos tiveram maior importância do que gado e cavalos [...].
(SAUER, 1992).

A descrição das transformações nas concepções e nas técnicas agropecuárias leva Sauer (1992)
à identificação de problemas, como os mais diversos tipos de erosões, de desertificação, alterações
climáticas, rupturas da biodiversidade, gerados por nossas atividades agrárias em larga escala para
o crescente mercado. Trata da importância de um saudoso manejo que promovia integração entre
plantas e animais, o que era comum nesses modelos antigos. Defende um aprofundamento dos estudos
arqueológicos para entender os papéis dos ambientes e das culturas no desenvolvimento das práticas
agrícolas menos impactantes e mais inteligentes do ponto de vista da ecologia.

A retomada histórica de nossos primórdios produtivos deve‑se à importância das origens da questão
ambiental, isto é, da problemática tão antiga quanto nosso manuseio da terra para plantar. Sempre há
impactos, de grande ou pequena extensão, diretos ou indiretos, mas sempre haverá.

Nossa jornada do neolítico para cá pode ser identificada por grandes transformações, que implicam
perdas e ganhos na qualidade de vida, de um modo geral. Essas transformações aparecem de muitas
maneiras como uma crescente desumanização da natureza do ser humano, conferindo uma ideia da
base subjetiva que compõe o assunto.

O caminho segue pelo tratamento da natureza, mesmo sem considerá‑la em toda a variedade cultural
de concepções, assumimos serem elas construídas como relações próprias aos povos; cada cultura
conforma sua própria ideia de natureza de acordo com suas influências e condições físico‑químicas e
biológicas. Reiteramos, desse modo, a dificuldade de trabalhar com tal conceito.

Se natureza é tudo, apresenta o presente e o passado, é interna e externa ao ser humano, sendo
condição da cultura e por esta também transformada. É o ponto de partida da Filosofia, dela continuamente
escapando em virtude de sua complexidade. Reiteramos que, por razões de método científico, não
nos deteremos neste nível de complexidade. Prova de que esse plano está além de nossa percepção,
entendimento e cálculo são as doenças, as cadeias energéticas e mesmo todas as ligações promovidas
28
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

pelos impactos e poluições, que indicam nosso desconhecimento dos demais seres (estruturas orgânicas
e inorgânicas), com os quais nos relacionamos em profunda ignorância. Esta parece ser a causa maior
dos tais desequilíbrios.

Registramos que é atribuição do método unir sujeito e objeto do conhecimento, no ambiente que é
a natureza conhecida, atribuindo sentido à prática, aproximando‑nos da realidade possível por meio de
roteiro e de instrumentos mais modestos.

Por motor único, junto com Milton Santos (1999), entendemos as determinantes redutoras das
relações internacionais, muito aquém dos acordos e tratados, pois deixam submetidos os países todos
ao receituário dos grandes fundos econômicos (FMI e BM) e seus cuidadores (G8). A imagem de ser
humano, posta pelo humanismo e seus desdobramentos iluministas (com todos os seus problemas), é o
que temos como parâmetro de humanidade.

Observação

O filósofo e teólogo Panikkar, (apud VESENTINI, 2000, p. 65–70),


questiona a imagem de ser humano ocidental – da Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO‑USP, [s.d.]) –;
embora a acate de modo pragmático, por não haver nenhuma outra que se
possa universalizar. Refuta a exclusividade da imagem do homem ocidental
como representante universal, assim, como a aceita por razões estratégicas.

A estocada dada por Enzensberger (1995) no coração do “monstro”, isto é, na racionalidade


subliminar às imagens e discursos institucionais de tais fundos e de seus ventríloquos é mordaz e vale
a pena contatar.

Saiba mais

Excelente obra do escritor sobre os mais diferentes aspectos da vida


moderna, da cultura à Geografia, Economia, História e Política:

ENZENSBERGER, H. M. Mediocridade e loucura. São Paulo: Ática, 1995.

E se, por um lado, temos os processos homogeneizantes, por outro, há um apelo ou deveria haver,
aos retratos etnográficos dos povos que, mesmo sendo misturados, até mesmo nivelados na base, está
fora da briga pelo topo. Sempre há especificidades, sempre devem ser resgatadas de nossas profundezas
tribais, comunais, ancestrais dos fios culturais de cada sociedade.

29
Unidade I

Saiba mais

LE CLÉZIO, J. M. G. Raga. Rio de Janeiro: Record, 2011.

MOORE, A. A voz do fogo. São Paulo: Conrad, 2012.

Na linha de raciocínio que estamos empreendendo, Claval, em Espaço e Poder (1979), ensaia uma
gênese organizacional das associações e de suas racionalidades espaciais na configuração de paisagens
e territórios conforme a estrutura de poder dos grupos sociais.

A ocupação do espaço e os usos de recursos como fenômeno territorial estão na origem, razões
e características dos povoamentos, desenvolvimento, dinâmica demográfica (crescimento, migração,
envelhecimento etc.).

A qualidade e as dimensões da urbanização capitalista como processo de expansão das relações


e das localizações urbanas, antes próprias às cidades, encarregam‑se da organização do espaço nas
cidades, com suas racionalidades; daí que não se pode falar em cidades desordenadas. Na apropriação
de modelos de urbanização, as classes ou grupos sociais com seus projetos de sociedade (de cidade,
portanto) e ordenadores dos territórios farão sua racionalidade preponderar na distribuição de bens
e nas ligações entre os lugares. Ou alguém pergunta ao mendigo qual é o seu projeto de cidade? O
banqueiro não precisa pegar trânsito, exemplificaríamos; sorte dele... Mas precisamos entender o porquê.

Há desdobramentos das práticas socioespaciais, nas escalas locais (horizontais) e verticais (espaços
heterótopos ou hierárquicos). A vida nos lugares, “rurais” e “urbanos” (rurbanos) estão em fluxo pela
rede (migrações).

O trabalho de Williams (1989) dá apoio às nossas considerações sobre a diversidade integrada de


urbano e rural pelas suas próprias experiências que emprega nas análises e como nexo entre os modos
de vida e trabalho caraterísticos. Fala de paisagens e períodos de extrema pobreza com base na literatura
e em documentos, comentando que:

Também isso é diferente agora, mas sempre que penso nas relações campo
e cidade, e entre berço e instrução, constato que se de uma história ativa e
contínua: as relações não são apenas ideias e experiências, mas também de
aluguéis e juros, situação e poder – um sistema mais amplo.

Assim, é este o lugar em que me encontro e, ao preparar‑me para o trabalho,


verifico que terei de resolver passo a passo experiências e questões que,
antes, moviam‑se à velocidade da luz. A vida do campo e da cidade é móvel
e presente: move‑se ao longo tempo, através da história de uma família
e um povo; move‑se em sentimentos e ideias, através de uma rede de
relacionamentos e decisões (WILLIAMS, 1989, p. 19).

30
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Williams (1989) expõe a trama que liga os espaços rural e urbano de modo multidimensional,
provocando muitas reflexões sobre as ligações entre a vida nos campos e a vida nas cidades, principalmente
quando aponta para “os fios da natureza” (WILLIAMS, 1989, p. 102‑3) persistentes, apesar da urbanização
devastadora. Seu intento é desmitificar as várias visões simplistas das relações entre a cidade e os
campos, a mais comum sendo aquelas que atrelam a vida rural à dinâmica das cidades.

As atividades agropecuárias

As atividades agrárias (agropecuárias) estão ligadas ao que há de mais característico nas paisagens
rurais. Dito isso, Andrade (2004) mostra que a pecuária e a produção de alimentos no período colonial
seguem uma lógica que se movimenta entre as determinantes econômicas da empresa colonial
portuguesa na América.

O sentido da colonização

[...] como já salientava Caio Prado Júnior, a colonização do Brasil foi um


empreendimento econômico típico de domínio do capitalismo mercantil. Os
portugueses fizeram a sua expansão pela costa africana, pela Ásia Meridional
e pela América Latina, visando a obter produtos tropicais e minerais para o
mercado europeu, obtendo lucros bastante compensadores. Daí observar
que no período colonial – 1500 a 1822 –, a história econômica do Brasil foi
marcada pelos produtos de exportação de maior importância econômica –
o pau‑brasil, o açúcar, o ouro e os diamantes, o algodão etc. – a ponto de
alguns historiadores admitirem a sua periodização em “ciclos”, ciclos que,
na realidade, não ocorreram, uma vez que a exportação de um produto
continuava no “ciclo” seguinte, não mais como o principal, mas como um
produto de menor importância, menos expressivo (ANDRADE, 2004, p. 43).

Andrade (2004) enumera as razões e reconstitui as condições socioambientais da evolução das


localizações da produção junto à própria expansão territorial brasileira.

Sendo inicialmente pequeno o número de portugueses no Brasil, não se


preocuparam eles com a produção dos alimentos necessários, preferindo
trazê‑los da metrópole, o que permitia maior utilização das embarcações em
suas viagens de ida e volta. Como a população nativa se alimentava da pesca,
da caça, da coleta florestal e de uma incipiente agricultura, os portugueses
procuraram adaptar‑se a este tipo de alimentação, substituindo produtos
tradicionais pelos da terra, como aconteceu com a farinha de trigo, que foi
substituída pela farinha “de pau” ou de mandioca (ANDRADE, 2004, p. 44).

A questão do território no Brasil

Passados os primeiros anos de mera exploração florestal, iniciaram os portugueses


a colonização e a ocupação do território por migrantes, desenvolvendo a cultura da
31
Unidade I

cana‑de‑açúcar; inicialmente, ela foi cultivada em quase todas as capitanias, só depois é


que foi se concentrando em Pernambuco e na Bahia. A sua cultura demandava um grande
emprego de mão de obra e um expressivo emprego de capitais, para a implantação dos
chamados engenhos, verdadeira plantation tropical.

Para isso, importaram em larga escala escravos negros, africanos, que eram aqui vendidos aos
senhores de engenho. A intensificação da escravidão e o crescimento populacional decorrente
da expansão dos canaviais provocaram sérios impactos e a necessidade de se produzir, na área
povoada, alimentos que se adaptassem ao clima e ao solo da colônia, para esta população em
crescimento. Daí a importação de animais e vegetais da própria Europa, assim como da África, da
Ásia e da Oceania, terras por onde se estendia a influência comercial portuguesa.

Da Europa foram trazidos, desde a primeira metade do século XVI, os animais domésticos,
sobretudo bovinos, caprinos, suínos, equinos; da África, vieram vegetais como o sorgo, o
inhame, o cará; da Ásia, fruteiras como a bananeira, a mangueira, a jaqueira e o arroz; e
da Oceania, a fruta‑pão e o coqueiro. Muitos vegetais cultivados pelos indígenas, como o
algodão, a mandioca e o milho, passaram também a ser cultivados pelos colonizadores.
Este fato é comprovado pelo depoimento dos cronistas coloniais, no século XVII, que
testemunharam haver nos engenhos de açúcar áreas cultivadas como produtos alimentícios
que garantiam a fartura das casas‑grandes e a abundância de alimentos.

A cana‑de‑açúcar só era cultivada nas terras baixas de massapê e nas encostas de “barro
vermelho”, ao passo que os solos silicosos dos interflúvios eram utilizados para a plantação
de tubérculos e de fruteiras. Daí o desenvolvimento do chamado “sistema do Brasil”, no qual
o senhor de engenho permitia que escravos cultivassem lavouras de mantimentos em áreas
marginais aos engenhos, nos dias santos, feriados e domingos, a fim de que contribuíssem
para o seu próprio sustento.

No início do século XVII, os canaviais de Pernambuco se limitavam aos vales fluviais, às


famosas várzeas, enquanto os interflúvios arenosos eram destinados à pecuária extensiva
e à produção de alimentos; no Recôncavo Baiano, porém, a cana dominou as áreas de
massapê e deixou ao fumo as áreas silicosas; o fumo ganhou importância por ser usado na
África como artigo de troca por escravos.

A permanência da pecuária nas áreas próximas às de agricultura trouxe problemas de


convivência, [uma] vez que o gado era criado solto e destruía as plantações, fazendo com que
o governo estabelecesse que os criadores de gado deviam interiorizar‑se, ficando as áreas de
criação distantes das áreas agrícolas. Isso contribuiu para a expansão do povoamento para o
interior e para a ocupação de grandes espaços, interligando as várias regiões do Brasil.

A pecuária e a produção do território

A penetração dos criadores de gado para o interior foi determinada por uma série de
fatores, como a necessidade de manter o gado afastado das áreas agrícolas litorâneas; a
32
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

ocupação holandesa, que acelerou ainda mais a transferência de criadores de gado das áreas
próximas à costa para o Sertão, utilizando os rios, sobretudo o São Francisco, como condutos
da penetração. Com a expulsão dos holandeses, já era expressivo o povoamento do Sertão, e
grupos organizados já haviam derrotado indígenas e conquistado áreas de pastagem.

Esta expansão foi muito favorecida pelas condições naturais e econômicas. Do ponto
de vista natural, o clima semiárido dificultava a proliferação de verminoses e de epizootias;
além disso, havia uma pastagem natural boa para o gado, no período das chuvas, e “ilhas”
úmidas nas margens dos rios e nas serras para onde ele poderia ser levado no período
seco. Do ponto de vista econômico, contavam os pecuaristas com um mercado certo na
área agrícola, que seria abastecido de carne, de couro e de animais de trabalho; tinham
facilmente derrotado as tribos indígenas, depois de verdadeiro genocídio, e confinado os
vencidos em aldeamentos administrados por missionários que procuravam sedentarizá‑los.
Os índios sedentarizados tornavam‑se produtores de alimentos e formavam uma reserva de
força de trabalho que podia ser recrutada pelos sesmeiros nas ocasiões em que necessitavam
de braços para os trabalhos agrícolas ou de auxiliares para combater outras tribos.

As terras conquistadas aos índios eram doadas em sesmarias a pessoas influentes com o
governador‑geral da Bahia ou com o capitão‑mor de Pernambuco, fazendo com que algumas
famílias se apossassem de grandes extensões, verdadeiros latifúndios que compreendiam
dezenas de léguas, obrigando os verdadeiros povoadores, homens humildes que haviam
enfrentado os indígenas e implantado pequenos currais, a se tornarem seus foreiros.

[...]

Formou‑se, assim, no Sertão‑Nordeste‑semiárido, uma sociedade pecuarista, dominada


por grandes latifúndios cujos detentores quase sempre viviam em Olinda ou Salvador,
delegando a administração da propriedade a empregados, e nas quais havia sítios que
eram aforados a pequenos criadores que implantavam currais. Era uma economia
inteiramente voltada para um mercado distante, situado no litoral, para onde a mercadoria
se autotransportava, em boiadas conduzidas por vaqueiros e tangerinos, por centenas de
léguas. No percurso, havia pontos de repouso e de engorda, pois a caminhada provocava
uma queda de peso dos animais. Alguns núcleos urbanos hoje existentes, como Jacobina, se
desenvolveram em virtude deste sistema de repouso dos animais.

A descoberta do ouro nas Gerais e a formação de um grande adensamento populacional


em área distante do litoral trouxeram grandes vantagens para os criadores de gado do
Sertão que passaram a abastecer os centros de mineração; a corrida do ouro, gerando grande
riqueza, fez com que se concentrasse a população e se expandisse consideravelmente o
mercado. Daí as grandes ligações abertas entre o médio e o alto São Francisco, fazendo
com que se formassem não só caminhos de gado como que se conquistassem terras aos
índios com a finalidade de criar gado para a área mineradora. A demanda de alimentos
nas Minas foi bem superior à oferta, fazendo os preços se elevarem, tornando numerosos
migrantes agricultores de mantimentos, como mandioca, milho, cana‑de‑açúcar, frutas, ou
33
Unidade I

criadores de médios e pequenos animais que eram facilmente comercializados. A pecuária


foi acompanhando, nas áreas de caatingas e de cerrados, o trajeto dos mineradores,
aproximando‑se sempre dos arraiais de garimpagem.

Daí a continuidade dos currais nordestinos por territórios, hoje de Minas Gerais, de Goiás
e do próprio Mato Grosso.

A civilização pecuarista envolveu grandes capitais, e nela, embora em menores proporções


do que na área açucareira, foi utilizado o braço escravo negro ao lado do indígena.

Ao mesmo tempo que a pecuária comandou a ocupação no Nordeste semiárido, ela teve
o mesmo papel na Campanha gaúcha [...], com o desenvolvimento da mineração, foi grande
fornecedora de animais de tração muares, sobretudo –, e de abate à zona mineradora.

Fonte: Andrade (2004, p. 44‑9).

Abramovay (2007) e Silva (1997) propõem que se olhe para as regiões rurais de outra maneira,
diferente do que se vinha fazendo, pois tendemos a ver nas transformações, progressões lineares,
absolutas. Abramovay conta que o intuito inicial no Projeto Rurbano “[...] era identificar a dispersão
geográfica das formas familiares e patronais, a maior ou menor incidência de certos produtos
agropecuários, e com isso subsidiar minimamente a definição de diretrizes de políticas públicas”
(ABRAMOVAY, 2007, p. 13).

Essa pesquisa não só atingiu seu intento inicial como colocou uma hipótese bastante inovadora na
época: as melhores configurações territoriais encontradas eram aquelas que combinavam uma agricultura
de base familiar forte com um entorno socioeconômico diversificado e dotado de infraestrutura. Um
desenho que permitia aos espaços urbanos e rurais dessas regiões, de um lado, abrigar o trabalho
excedente que deixa a atividade agrícola e, de outro, inversamente, absorver nas unidades familiares
o trabalho que é descartado nas cidades em decorrência do avanço tecnológico e do correspondente
desemprego característico dos anos 1990.

Tal pesquisa mostrou um campo novo de preocupações que viria a se delinear melhor no Brasil na
virada para a década atual: a necessidade de se entender as articulações entre formas de produção,
características morfológicas dos tecidos sociais locais e dinâmicas territoriais de desenvolvimento; ou,
na mesma direção, as articulações entre os espaços considerados rurais e urbanos. Mais do que nas
injunções setoriais, o que se sugeria é que nas dinâmicas territoriais – ainda sem usar esta denominação
– e em suas estruturas sociais, é que se poderiam encontrar as respostas para as causas do dinamismo e
da incidência de bons indicadores de desenvolvimento.

Pouco depois de terminada essa pesquisa, iniciou‑se um outro programa de


grande repercussão: o Projeto Rurbano, coordenado por pesquisadores da
Unicamp (SILVA apud ABRAMOVAY, 2007, p. 14).

34
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

E segue explicando quais foram as inovações:

O programa focalizou a formação das rendas entre as famílias não urbanas


para constatar um movimento relativamente generalizado de substituição
dos ingressos provenientes das atividades primárias por rendas não agrícolas.
Na base dessa constatação, estavam não somente a tendência de queda dos
preços de produtos primários, já conhecida, mas principalmente a crescente
interpenetração entre os mercados de trabalho tradicionalmente qualificados
como urbanos e rurais. Entre o primeiro e o terceiro dos seminários anuais
realizados pelo projeto houve, contudo, cerro deslizamento, da surpresa com
os resultados alcançados na análise dos dados que mostraram a magnitude
das rendas não agrícolas, à fragmentação de opiniões sobre seu real alcance
e sobre seus significados para a estrutura e dinâmica do rural brasileiro.
Ainda que em meio a tais incertezas, não há dúvida de que o projeto foi
uma forte demonstração de que, mesmo num país com as características do
Brasil, o rural nem de longe pode ser reduzido ao agrícola.

Mas os mesmos resultados obtidos como o Projeto Rurbano deram origem


a algumas inferências que, explicitamente, significam um questionamento
da relevância da ideia de agricultura familiar e, a fortiori, também da ideia
de ruralidade (SILVA). A primeira delas seria um suposto fim do caráter
familiar desse tipo de unidade produtiva, já que a maior parte da renda
provém agora de atividades externas ao estabelecimento familial No
entanto, sempre foi uma característica dessas unidades a combinação de
rendas internas e externas ao estabelecimento, o qual, mesmo sob uma
maior magnitude das rendas não agrícolas, continua tendo a gestão, a
posse da terra e o trabalho realizado em seu interior organizados em
base familiar. A segunda é a identificação das causas explicativas da
vitalidade do mundo rural na mera decorrência do dinamismo emanado
de economias urbanas. É verdade que a economia das áreas rurais não
pode ser compreendida isoladamente da economia das áreas urbanas
(SILVA apud ABRAMOVAY, 2007, p. 14).

E na linha que segue nosso próprio raciocínio, Abramovay e Silva afirmam que:

A superação desta dicotomia é, aliás, uma das razões da emergência da


chamada abordagem territorial do desenvolvimento. Porém, é igualmente
inegável que o dinamismo emanado do mundo urbano ou as formas de
complementaridade que ele suscita são aproveitados de maneira bastante
heterogênea pelas áreas rurais. Elas podem se beneficiar ou se esterilizar
a partir das consequências que daí surgem. E isto dependerá, sempre,
dos caracteres fundamentais das estruturas sociais e das instituições que
respondem pela configuração das áreas rurais e das interações que dela
decorrem. Ponderações, enfim, que permitem reafirmar, mesmo no auge
35
Unidade I

da urbanização e da importância das rendas não agrícolas, a permanência


da relevância empírica e teórica da agricultura familiar e da ruralidade
(ABRAMOVAY, 2007, p. 15).

Segundo Silva (1997), é cada vez mais difícil a delimitação geográfica do que é rural e do que é
urbano, mas isso não é o mais importante. Na prática, o rural hoje só pode ser entendido como um
continuum do urbano do ponto de vista espacial, e, do ponto de vista da economia, as cidades não
podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, do mesmo modo que os campos não
podem sê‑lo com a agricultura e a pecuária. E, como segue:

Em poucas palavras, pode‑se dizer que o meio rural brasileiro se urbanizou


nas duas últimas décadas, como resultado do processo de industrialização da
agricultura, de um lado, e, de outro, do transbordamento do mundo urbano
naquele espaço que tradicionalmente era definido como rural. Como resultado
desse duplo processo de transformação, a agricultura – que antes podia ser
caracterizada como um setor produtivo relativamente autárquico, com seu
próprio mercado de trabalho e equilíbrio interno – se integrou no restante
da economia a ponto de não mais poder ser separada dos setores que lhe
fornecem insumos e/ou compram seus produtos. Já tivemos oportunidade
de mostrar que essa integração terminou por se consolidar nos chamados
“complexos agroindustriais” que passaram a responder pela própria dinâmica
das atividades agropecuárias aí vinculadas (SILVA, 1997, p. 1).

Os conflitos de terras no Brasil foram acentuados pelas formações metropolitanas, devido às


megacidades e aos circuitos produtivos globalizados; produz‑se muita riqueza, pobreza e miséria na
demanda por recursos: recursos humanos para o trabalho, recursos ambientais como fontes de energia
e de capital, com produção territorial desigual de resíduos e impactos ambientais. Desigual, seletiva,
expondo nas paisagens as racionalidades convencionais a que estamos sujeitos, e a céu aberto, as
intenções em jogo no território; afinal não se pode esconder o porquê se construiu uma ponte ou uma
estrada. É o que vemos em áreas de maiores e menores impactos, cujos maiores riscos, como regra, é que
recaem sobre a população mais pobre e com menos recursos.

Alguns caminhos para enfrentar a desigualdade na base dos problemas a serem enfrentados por
qualquer projeto que se ponha como sustentável, são:

• quanto à legitimidade da gestão empresarial do ambiente que utiliza como recurso, isto é, qual é
o papel do Estado regulador nessa questão;

• a própria ciência da gestão pretender‑se gestão ambiental;

• quanto às perdas de qualidade alimentar (com inserção química não regulada ou mal gerenciada),
das condições de trabalho (com maquinário que não diminui universalmente o risco), entre outras
dimensões, quando confrontadas com modelos de integridade ou sustentabilidade;

36
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

• quanto às possibilidades reais de alternativas ao modo da racionalidade ambiental de Leff (2001), por
exemplo, rumo a um saber ambiental que aprenda com as formas ecologicamente mais inteligentes.

Saiba mais

Sobre uma análise profunda dessas questões do ponto de vista da


Geografia econômica, ver:

SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana


dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979. (Coleção
Ciências Sociais).

SANTOS, M. Economia espacial: críticas e alternativas. São Paulo:


Hucitec, 1978.

O extenso Projeto Rurbano do professor Graziano da Silva (1997; 2000), sobre o campo
contemporâneo, coloca muitas luzes diferentes ao longo dos anos; sua grande e variada equipe trazia
dados e informações novas sobre as transformações na estrutura agrária brasileira. Acaba por mostrar
que as visões sobre esse espaço agrário são carregadas de preconceitos, chamados de mitos, que
encobrem os significados reais das estruturas fundiária, familiar, produtiva, ocupacional (do trabalho),
comercial e logística dessas regiões. Os mitos são os seguintes (SILVA, 1997):

• O campo é atrasado/é próprio do campo, o atraso: sim e não, indica a pesquisa, pois tanto há
relações de trabalho escravo, além de péssimas condições sanitárias difusas, o que é inegável,
porém há amplas áreas com riqueza e excelentes condições de vida para a população local.

• A condição predominantemente agrícola do rural: há expansão de ocupações em atividades não


agrícolas, o que é curioso por subverter a imagem cristalizada do espaço rural. A mecanização é
responsável pela diminuição do emprego em atividades clássicas das regiões rurais.

• Êxodo rural como inerente ao trabalho no campo: a população volta a crescer, e as atividades do
espaço agrário não são somente agrícolas, mas também parte da cadeia produtiva que enreda essas
áreas, aumentando as chances de absorção de mão de obra e promoção de melhoria de vida. Há
o fenômeno muito interessante que é a migração de retorno, isto é, as pessoas que um dia saíram
do campo, estão voltando para suas regiões; este é um processo de imensa importância quando
se considera o planejamento global do país. Por planejamento global, entende‑se o conjunto
dos setores econômicos. Quanto ao planejamento, o autor observa que não são dispositivos de
mercado que estão fazendo as correções nos rumos.

• Outro mito é de que o desenvolvimento agrícola leva ao rural: o desenvolvimento social não é
só responsabilidade da esfera econômica, aliás, essa é inclusive a diferença entre crescimento
econômico e desenvolvimento.

37
Unidade I

• Acreditar que as pequenas e médias propriedades são de gestão familiar: há mudanças culturais, na
estrutura social como um todo e em particular na associação dos membros das famílias, com alguns
presentes e outros encaminhando‑se para outras atividades, agrárias ou não. Para o autor, “o centro
das atividades da família deixou de ser a agricultura porque a família deixou de ser agrícola e se
tornou pluriativa ou não agrícola, embora permaneça residindo no campo” (SILVA, 1997, p. 43).

Os novos mitos:

• Ocupações Rurais Não Agrícolas (Ornas) – pode ser considerado o motor do desenvolvimento
nas regiões atrasadas: as novas atividades não rurais vêm se expandindo; enquanto aquelas
especificamente agrárias têm decrescida sua participação no total de empregos. Para Silva (1997),
as Ornas têm maiores condições de avançarem “justamente naquelas áreas rurais que têm uma
agricultura desenvolvida e/ou estão mais próximas de grandes concentrações urbanas” e “nas
regiões mais atrasadas, não há emprego agrícola e muito menos ocupações não agrícolas”. E
conclui que “a falta de desenvolvimento rural na maioria das regiões ‘atrasadas’ do país se deve
fundamentalmente à falta de desenvolvimento das atividades não agrícolas” (SILVA, 1997, p. 43).

• A reforma agrária não é mais viável: é preciso entender que uma reforma agrária deve contemplar
quaisquer atividades passíveis de inserir os contingentes de desempregados no mercado de
trabalho. “Assim, é possível, e cada vez mais necessária, uma reforma agrária que crie novas
formas de inserção produtiva para as famílias rurais, seja nas ‘novas atividades agrícolas’, seja nas
Ornas” (SILVA, 1997, p. 45).

• O novo rural não precisa de regulação pública: algo como uma institucionalização ou governança,
pois a diversidade de atividades é imensa e pode “envelhecer prematuramente”, se não houver
normatização (SILVA, 1997, 45‑6).

• O desenvolvimento local leva automaticamente ao desenvolvimento da região e do país: o novo


enfoque do desenvolvimento local sustentável tem o inegável mérito de permitir a superação das
já arcaicas dicotomias urbano/rural e agrícola/não agrícola. Como sabemos hoje, o rural, longe de
ser apenas um espaço diferenciado pela relação com a terra – e mais amplamente com a natureza
e o meio ambiente – está profundamente relacionado ao urbano que lhe é contíguo.

A globalização requer organização para extrair mais recursos e, para isso, necessita que tanto a
configuração territorial quanto a estrutura social estejam aptas a remunerar e a receber os investimentos
dos agentes econômicos.

Nesse sentido, podemos dizer que o desenvolvimento local sustentável precisa ser também entendido
como desenvolvimento político no sentido de permitir uma melhor representação dos diversos atores,
especialmente daqueles segmentos majoritários e que quase sempre são excluídos do processo pelas
elites locais. No caso brasileiro, por exemplo, as ações voltadas exclusivamente para o desenvolvimento
agrícola, se bem tivessem logrado invejável modernização da base técnico‑produtiva em algumas
regiões do Centro‑Sul do país, não se fizeram acompanhar pelo tão esperado desenvolvimento rural.
Uma das principais razões para tanto foi a de privilegiar as dimensões tecnológicas e econômicas do
processo de desenvolvimento rural, relegando ao segundo plano as mudanças sociais e políticas, como a
38
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

organização sindical dos trabalhadores rurais sem terra e dos pequenos produtores. Com a globalização,
as disparidades hoje existentes em nosso país, seja em termos regionais, seja em relação à agricultura
familiar vis‑à‑vis o agrobusiness, tendem a se acentuar ainda mais.

Eram preocupações e objetivos do Projeto Rurbano, liderado por José Graziano da Silva:

• identificar os principais condicionantes de distribuição da renda das


pessoas e das famílias rurais e/ou agrícolas, tais como o grau e a
intensidade da pluriatividade na agropecuária brasileira, a distribuição
da terra segundo a posição da ocupação dos membros dos domicílios,
o efeito das diferentes formas de acesso à terra (proprietário, parceiro,
arrendatário e conta‑própria) sobre os rendimentos das famílias, as
diferentes formas de ocupação dos membros das famílias segundo
sexo, grau de escolaridade, as características dos domicílios e sua
disponibilidade de bens e serviços essenciais etc.;

• pesquisar a importância do trabalho doméstico como alternativa


de ocupação e renda das famílias rurais, isolando essa categoria de
trabalhadores como uma nova posição na ocupação e outro tipo
específico de atividade;

• pesquisar a importância da agroindústria e da indústria rural como


geradoras de emprego e renda no meio rural, em particular no estado
de São Paulo e em Minas Gerais, que têm um dos maiores parques
agroindustriais do país;

• caracterizar as famílias rurais e/ou agrícolas com aposentados e/ou


desocupados, com o objetivo de propor uma política previdenciária
ativa para as regiões desfavorecidas do meio rural brasileiro;

• caracterizar as famílias sem‑terra em relação à renda e ocupação de


seus membros em nível de grandes regiões e principais unidades da
Federação, visando delimitar o que se poderia chamar o “núcleo duro”
(core) da pobreza rural com o objetivo de subsidiar a política nacional
de assentamentos rurais.

Além de tais temas, que decorrem das conclusões e resultados preliminares já obtidos, na Fase III do
Projeto Rurbano pretende‑se realizar alguns estudos de caso com vistas a:

• identificar as possíveis causas da subestimação das rendas variáveis


nas PNADs, em particular das rendas agrícolas;

• aprofundar as dinâmicas de geração de ocupações não agrícolas


identificadas no País para algumas regiões específicas que se
destacaram nas análises anteriores (turismo no Nordeste; chácaras de
recreio no Sudeste etc.);

39
Unidade I

• investigar a questão da identidade das famílias rurais pluriativas e/


ou não agrícolas frente aos novos sujeitos sociais do novo mundo
rural, entre eles caseiros, moradores de condomínios fechados,
aposentados etc.;

• aprofundar o tema das relações entre o desenvolvimento local e


poder local destacando a competência nos diferentes níveis de ação
do poder público (municipal, estadual e federal), bem como quais
seriam as principais formas de intervenção pública e privada sobre
as áreas;

• avaliar o impacto ambiental e socioeconômico das “novas” atividades


desenvolvidas no meio rural, introduzindo a questão da legislação
ambiental, trabalhista e a necessidade de um código do uso do solo, da
água e de outros recursos naturais para a gestão do território rurbano;

• aprofundar o tema das políticas públicas para o novo rural brasileiro,


com ênfase na política de turismo rural como alternativa de geração
de novas oportunidades de negócios e ocupações no meio rural.

Para cumprir os objetivos descritos foram delineados 20 subprojetos de pesquisa, oito teses de
doutoramento, sete dissertações de mestrado, além de vários projetos de iniciação científica. O projeto
envolve atualmente 45 pessoas entre professores universitários, profissionais liberais de várias origens
e estudantes de graduação e pós‑graduação, distribuídos por 20 instituições de pesquisa em 11 estados
do país, 25 delas com título de doutor ou superior (SILVA, 2001, p. 47‑8).

Saiba mais

Recomendamos os textos de José Graziano da Silva, que prefere ver as


novas dinâmicas rurais como uma espécie de fusão de atividades urbanas e
rurais, a falar de fim do modo de vida rural. Liderou por quase duas décadas
uma linha de pesquisa multidisciplinar e com múltiplas equipes, chamada
Rurbano.

SILVA, J. G. da. Quem precisa de uma estratégia de desenvolvimento?


In: SILVA. J. G.; WEID, J. M. von der; BIANCHINI, V. José Graziano, Jean
Marc e Bianchini debatem: o Brasil rural precisa de uma estratégia de
desenvolvimento. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2001. p.
5–52. (Série Textos para Discussão nº 2).

SILVA, G. J. da. O novo rural brasileiro. Campinas: Instituto de Economia,


EdUnicamp, 1999. (Pesquisas nº 1).

40
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Lembrete

O sentido de Rurbano é oferecer uma oportunidade de desfazer


mal‑entendidos, auxiliando‑nos a enxergar a complexidade da vida social
nos espaços rurais, superando preconceitos de visões lineares que lhe
impingem a aura do atraso quando comparados às áreas urbanas.

A cidade como forma urbana: seus lugares e componentes

Passemos, agora, aos apontamentos sobre a cidade do texto de Sposito (1994), ao modo
de perguntas e considerações didáticas sobre a cidade.

Por que a cidade existe?

Para entendê‑la, é preciso considerar a geografia e a história a fim de compreender a dinâmica


urbana, expressa na produção, distribuição (comércio e serviços), circulação e consumo.

A urbanização é um processo social contraditório – aprofundamento da divisão


socioespacial do trabalho – que se formaliza na cidade; esta tem suas permanências
asseguradas nas formas e funções (atividades, objetos e contradições). A questão, aqui, é de
conteúdos e aparências.

A Sociologia, Geografia, Economia urbanas abordam o espaço, com seus lugares,


paisagens e conflitos sociais, que adquirem sentido no território.

A história ocupa‑se das diferentes funções que atribuídas às formas. Trata‑se dos
diferentes conteúdos sociais destas ao longo do tempo, a exemplo do que chamamos
praça, hoje, e na Antiguidade clássica grega; ou mesmo os significados do próprio habitar,
historicamente e para os diferentes povos.

O governo na cidade

O poder público significa a delegação de poder pelos cidadãos às instâncias constituídas,


nas esferas municipal, estadual e federal. É fundamental a questão da arrecadação, para
explicar, inclusive, as ações desse poder como empreendedor, legislador, tributador, repressor
(polícia). Não há neutralidade. Ao poder público cabe o ordenamento territorial da vida
na cidade. As demarcações de público e privado são difíceis e, mais até que jurídicas, são
essencialmente culturais.

Funções regionalizadas (moradia e trabalho)

• Infraestrutura.

41
Unidade I

• Produção.

• Construção.

• Intensidade e densidade dos fluxos.

• Disciplinamento do uso do solo urbano.

O poder público também é responsável por algumas medidas para melhorar as condições
de vida nas cidades e nas áreas sob sua influência.

Como a cidade cresce?

As cidades apresentam diferentes dimensões e paisagens, com centros de decisões


e territorialização de mercados. Podem ser consideradas de acordo com os critérios de
crescimento populacional horizontal e vertical. Quanto aos estilos e escalas do traçado,
podem ser classificadas como espontâneas, regulares e planejadas.

Chama‑se segregação socioespacial a apropriação seletiva e desigual do solo.

Como a vida circula na cidade?

É preciso considerar, basicamente, valores como democracia e funcionalidade, para


tratar dos diversos modos de transporte. A circulação de veículos, pessoas e cargas envolve a
questão de direito público e privado, legislação de trânsito de mercadorias e pessoas. Modos
e usos ótimos são aqueles que atendem o máximo de pessoas, num ideal democrático de
planejamento e gestão.

É preciso morar?

A questão da habitação na cidade é fundamental e multifacetada, apresentando um


imenso déficit e grandes disparidades na qualidade das moradias existentes; todas as áreas
das cidades modernas apresentam profundos problemas, de várias ordens e correspondentes
aos valores concentrados nos locais. É preciso pensar em soluções amplas e de baixo preço.

As atividades de transformação

A indústria é responsável pela produção de bens e da própria cidade, bem como pela
conurbação; apresenta‑se como fabricação, manufatura, meio de produção, de diversos
portes e nos vários setores. O que implica outra questão fundamental: a do (des)emprego e
mercado de trabalho.

42
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

Os meios de consumo coletivo

São fundamentais para a produção e reprodução sociais; são as escolas, os hospitais, os


ambulatórios, o lazer, as infraestruturas urbanas (energia, esgoto, telefonia etc.), os meios
de comunicação (veículos).

De quem é a cidade?

Os proprietários das diversas formas de capital materializam territorialmente suas ações,


daí, originando os conflitos entre os “donos e os não donos da cidade”, como causa principal
dos processos de marginalização e periferização de localizações. Os movimentos sociais têm
nesses processos suas raízes.

A modernidade na cidade

O tempo‑espaço no capitalismo globalizado, evidenciado na informatização e


normatização do tecido urbano, aliados à fluidez da circulação de valores monetários.

O território e o ambiente

O mau uso do solo acarreta impactos no meio, exigindo uma série de medidas e emprego
de recursos técnicos (saneamento, abastecimento de água e captação de esgotos etc.), em
correções de processos nocivos à sociedade e ao meio.

O futuro na cidade

Uma questão sombria sem a adoção de um desenvolvimento realmente sustentável.

Adaptado de: Sposito (1994).

A leitura antropológica da cidade ocupa‑se dos modos culturais de apropriação dos espaços urbanos
com seus recursos simbólicos. Logo, no primeiro capítulo de seu livro, Gilberto Velho fala do antropólogo
pesquisando em sua cidade sobre conhecimento e heresia, abordando questão crucial nos estudos de
campo com observação e levantamento para pesquisa: a distância e a proximidade que o sujeito tem
daquilo que estuda. Segue trecho de seu livro sobre o assunto.

A história da Antropologia, como de qualquer área de conhecimento,


pode ser interpretada como um processo contínuo de confrontação entre
ortodoxos e heréticos. As posições individuais mudam continuamente em
função das trajetórias, das etapas de carreira e de diversas transformações
existenciais. Nem todos os jovens antropólogos são heréticos e nem os mais
velhos são necessariamente defensores da ortodoxia. Em certas situações,
aliás, a tendência pode ser exatamente a inversa (VELHO, 1980, p. 13).

43
Unidade I

[...]

Já discuti a questão da distância como possível variável propiciadora de


maior isenção e objetividade. O ponto básico é que distância, assim como
proximidade e familiaridade, são noções que devem ser relativizadas e
colocadas no contexto adequado de discussão. Familiaridade e proximidade
física não são sinônimos de conhecimento, assim como viajar milhares de
quilômetros não nos torna livres de nossa socialização com seus estereótipos
e preconceitos. Estes atuarão em outros contextos diante de novos objetos.
Ou seja, ir para outra sociedade e/ou cultura não nos transforma em tábulas
rasas. É claro que são níveis diferentes de envolvimento e, em princípio,
poderemos estranhar situações e fatos que são naturais para o nativo. Mas,
se este estranhamente não for elaborado, poderá ser apenas uma reação
preconceituosa de espanto diante do inusitado. Poderemos privilegiar dados
que, dentro da cultura em pauta, tenham outro peso e significado, pois são
naturais. Dada a importância de procurar’ perceber como os indivíduos da
sociedade investigada constroem e definem a sua realidade, como articulam
e que peso relativo têm os fatos que vivenciam. Ora, o ponto que enfatizei
em “Observando o Familiar” é que, dentro de nossa própria sociedade existe,
constantemente, esta experiência de estranhamento. Vivemos experiências
restritas e particulares que tangenciam, podem eventualmente se cruzar e
constantemente correm paralelas a outras tão plenas de significado quanto
as nossas. A possibilidade de partilharmos patrimônios culturais com os
membros de nossa sociedade não nos deve iludir a respeito das inúmeras
descontinuidades e diferenças provindas de trajetórias, experiências e
vivências específicas. Isto fica particularmente nítido quando fazemos
pesquisa em grandes cidades e metrópoles onde a heterogeneidade provinda
da divisão social do trabalho, a complexidade institucional e a coexistência
de numerosas tradições culturais expressam‑se em visões de mundo
diferenciadas e até contraditórias. Sob uma perspectiva mais tradicional,
poder‑se‑ia mesmo dizer que é exatamente isto que permite ao antropólogo
realizar investigações na sua própria cidade. Ou seja, há distâncias culturais
nítidas internas ao meio urbano em que vivemos, permitindo ao “nativo”
fazer pesquisas antropológicas com grupos diferentes do seu, embora
possam estar basicamente próximos. Não foi à toa que alguns dos primeiros
trabalhos de Antropologia Urbana foram estudos de minorias étnicas,
imigrantes e, mais tarde, de grupos desviantes, em se tratando de trabalhos
realizados na sociedade do investigador. Não é, no entanto, uma questão
pacífica, pois, ao lado das diferenças, existiriam para vários teóricos certas
características comuns que, definindo uma cultura, envolveriam todos os
seus membros em uma rede de significados específica, em contraste com
outras culturas. A ideia básica é que a sociedade é um sistema anterior, em
termos lógicos, pelo menos, às diferenças e divergências que só podem ser
entendidas em função da lógica do todo já dado. Assim, de alguma forma,
44
SOCIOLOGIA RURAL E URBANA

mesmo os comportamentos mais contraditórios seriam de alguma maneira


complementares, ao nível do funcionamento da totalidade. O problema do
antropólogo, neste caso, seria ir além da percepção das diferenças e mesmo
dos conflitos para captar a lógica que define a especificidade da experiência
de um sistema cultural particular (VELHO, 1980, p. 15‑7).

[...]

Neste sentido, sua tarefa consiste em captar o arbitrário cultural que define
toda e qualquer sociedade. O problema teórico com que nos defrontamos
é perceber a abrangência destes sistemas de classificação a representações.
Interpretar o arbitrário que caracteriza e distingue experiências culturais
é tarefa complexa em qualquer investigação antropológica, seja qual for
a distância envolvida. Mas com isso não nego a existência de problemas
metodológicos particulares de que deve estar consciente o antropólogo
de sua própria sociedade. De qualquer forma, ele partilha representações
com círculos mais amplos. Volta‑se à questão clássica mannheimiana
sobre as possibilidades do intelectual alçar‑se, desprender‑se de suas
determinações sociológicas mais imediatas, atingindo uma visão mais
globalizadora e abrangente. Talvez a posição do antropólogo seja muito
específica, mas é possível que, de certa maneira, constitua um caso limite
dentro da intelligentsia. Isto porque para realizar seu trabalho precisa
permanentemente manter uma atitude de estranhamento diante do que se
passa não só à sua volta como com ele mesmo (VELHO, 1980, p. 18).

É por isso que a questão ambiental, tornada acessível pela sua dimensão territorial, já está no nível
do conhecido (plano que nos permite a reprodução e a produção de artefatos), a partir da sistematização
da realidade visível e intervenção. Assumem‑se, portanto, os limites da razão para poder em seguida
expandir o conhecimento que se pode ter. Reduz‑se para, em seguida, expandir‑se.

Resumo

O caminho escolhido foi iniciar estabelecendo o plano teórico, passando


pelos usos, ou atividades, típicos dos espaços rurais e urbanos.

As teorias sociológicas axiais sobre os espaços sociais rurais e urbanos


são aquelas ligadas aos desdobramentos do materialismo histórico de Marx,
do positivismo francês de Durkheim, dos trabalhos da Escola de Chicago, de
Park e Burgess.

As interfaces das Ciências Sociais são exploradas, com foco na Sociologia,


Geografia, Antropologia, Demografia e com as Ciências Políticas; bem como
foram apresentadas suas linhas de pesquisa das relações nas cidades, nos
45
Unidade I

campos de moradia e cultivo e de seus vínculos. Os conceitos fundamentais


do tema são: sociedade, comunidade, Estado, urbanização, organizações e
espaços rural, agrário, urbano e da cidade.

Os conceitos implicados nesse tratamento são: território, propriedade,


conflitos, recursos, mobilidade, inviabilidade; imaginário rural, imaginário
urbano, enraizamento e desenraizamento: mobilidade real e ilusões e
transformações das referências. Assim buscamos apoio em teorias, conceitos
e em casos imaginários ou de ficção, além das práticas concretas, que serão
destacados de relatos literários e de entrevistas.

Passamos ao segundo tópico tratando da ocupação do espaço e usos


territoriais do ambiente: origem, razões e características dos povoamentos,
desenvolvimento, dinâmica demográfica (crescimento, migração,
envelhecimento etc.). Usos que reúnem o ser humano e o ambiente desde
território colonial português.

As especificidades do espaço rural e suas transformações produtivas,


ambientais e culturais, tocando no debate acadêmico e político entre
aqueles que acreditam em permanências de aspectos fundamentais do
modo de vida rural (os adeptos da reforma agrária e a Escola do Rurbano,
por exemplo) e aqueles que acreditam na urbanização generalizada, com
um capitalismo globalizado aniquilador da essência desse estilo de vida.

Surge a urbanização capitalista (sua qualidade e dimensões) como


processo de expansão das relações e das localizações urbanas antes
próprias às cidades: organização do espaço da cidade, suas racionalidades
e referências a outros modelos de urbanização. Aqui, o cuidado é o de não
recair no “modo fácil” de explicar as transformações, como um transcurso
linear simples.

Aludimos, então, aos desdobramentos das práticas socioespaciais, nas


escalas locais (horizontais) e verticais (espaços não contíguos e hierárquicos),
localizando a a vida nos lugares, “rurais” e “urbanos” (rurbanos) e em
movimento pelas regiões (fluxos pelas redes), considerando as migrações.

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