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O Tarô e o Machismo

Olá crianças,
O primeiro texto publicado oficialmente a respeito das
origens do tarot foi o livro “Tarô dos Boêmios” (Paris,
1889) que seguramente é o primeiro na história do tarot a
abordar os arcanos, tanto sob a ótica da metafísica
cabalística quanto dos jogos adivinhatórios em uma única
obra, pois os outros autores de sua época ou se reportavam
a um ou a outro aspecto. O livro em questão foi escrito pelo
médico espanhol, radicado na França, Gérard Anaclet
Vincent Encausse (1865-1917), conhecido como Papus.
Apesar da grande quantidade de mulheres daquela época
que jogavam cartas e faziam adivinhações sobre o futuro,
nem Papus nem nenhum outro ocultista de sua época faz
qualquer menção a elas ou a estes jogos de azar. Por quê?

Não adianta alegar que estes jogos eram secretos e raros,


nem restritos a Ordens Secretas, muito pelo contrário…
Para se ter uma idéia, entre 1583 e 1811 na Espanha, e entre
1769 e 1832 em Portugal, haviam empresas estatais que produziam cartas de tarot para
consumo interno e nas colônias ao redor do mundo… dezenas de milhares de cartas por
mês! Para jogar adivinhação com o tarot?! Não… nos museus portugueses consta que eles
eram feitos para os jogos lúdicos (e prestem atenção nisso, pois será importante no final
deste texto).

Papus e os outros ocultistas/cientistas não reconheciam o papel da mulher, achando que elas
eram todas burras e limitadas para entender algo tão complexo quanto a Kabbalah, a
Astrologia, letras hebraicas e todas aquelas deduções abstratas que obviamente eram
terreno dos homens da ciência! Como os bons céticos de hoje, achavam que “intuição” e
“sincronicidade” não existiam.
Eu sempre me perguntei por quê os ocultistas do final do século XIX exaltavam a kabbalah
e, ao mesmo tempo, ignoravam solenemente as milhares de ciganas, prostitutas e damas da
corte que liam abertamente jogos de cartomancia desde meados de 1500. O baralho tem
sido rigorosamente o mesmo desde o século XII, quando os mamelucos trouxeram os jogos
de Tarokko do Egito para as terras dos Cruzados e os Templários os trouxeram para a
Itália, onde durante o Renascimento existiram escolas dedicadas a ilustrá-los (algo que era
feito em sua quase totalidade por HOMENS). Quando e como ocorreu esta transição entre o
Tarot como instrumento de autoconhecimento e a profanação nas casas de leitura das cortes
francesas?

Na bibliografia do Tarô dos Boêmios, Papus citava os autores de sua época até, no máximo,
um século antes: Antoine Court de Gebelin (1775). Etteilla (1787), Claude de Saint Martin
(1790), Saint Yves d’Alveydre (1830), J.A.Vaillant (1850), Eliphas Levi (1854), Stanislas
Guaita (1886), Mac Gregor Mathers (1888), Piobb (1890), mas não se chega a lugar algum
porque todos citavam uns aos outros e todos possuíam como ponto de partida Gebelin e
Lévi.

Court de Gebelin e o tarô egípcio


Antoine Court de Gebelin (1725-1784) era filho do famoso pastor evangélico francês
Antoine Court (1695-1760) que restaurou a Igreja reformada na França, fundou um
importante seminário para a formação de pastores evangélicos, sendo um grande historiador
de sua época. Gebelin seguiu os passos de seu pai tornando-se um pastor e, mais tarde,
também influenciado, interessou-se por mitologia, história e lingüística.
Certo dia, como ele mesmo diz em sua obra (Le Mond Primitif…), “foi convidado a
conhecer um jogo de cartas que desconhecia e em menos de quinze minutos declarou ser
um livro egípcio salvo das chamas, explicando, imediatamente, aos presentes, todas as
alegorias das cartas”. Escreveu, em sua obra, uma retórica do tarot como sendo a chave dos
símbolos da língua primeva e da mitologia; fez uma relação dos arcanos com as letras
egípcias e hebraicas e revelou que a tradução egípcia da palavra “tarot” é “tar” = caminho,
estrada e “ot” = rei, real.
Mas esta história de Gebelin tem um pouco de Dan Brown nela… segundo ele, durante os
primeiros séculos da Igreja, os egípcios, que estavam muito próximos dos romanos (Era
Copta, conversão absoluta do Egito ao Cristianismo – 313 a 631 d.C.), ensinaram-lhes o
culto de Ísis e os jogos de cartas de seu cerimonial. Assim, o jogo de tarô ficou limitado à
Itália e Alemanha (Santo Império Romano); posteriormente, chegou ao sul da França
(Provença, Avignon, Marselha) e, ainda desconhecido, no norte (Paris, Lion).
Realmente, este foi o caminho, mas o Tarot NÃO possuía a forma de cartas nesta época,
pelo simples fato que o papel era algo caro demais para ser feito e delicado demais para
sobreviver ao deserto.

Dados, Dominós e a Kabbalah


Neste período, não se usavam cartas e a função de adivinhação estava restrita às bruxas e
videntes. Por conta da divisão entre cultos Solares e lunares, homens e mulheres
trabalhavam facetas diferentes do conhecimento ocultista. Enquanto os homens se
dedicavam à matemática, geometria, astrologia, gematria e kabbalah, as mulheres eram
treinadas nas danças iniciáticas, oráculos e magia sexual. Desta maneira, os dados foram o
instrumento utilizado pelos magistas com uma função oracular, mas que foram rapidamente
profanados e passaram a ser usados pelo povão para jogos de azar (o mesmo aconteceria
com os arcanos do Tarot mais tarde). Os dados evoluíram para o que chamamos de
Dominós. A versão com o zero (de 28 peças, a que usamos hoje) só aparece bem mais para
frente… lembremos que nesta época o zero nem sequer havia sido “inventado” ainda, só
aparecendo com os árabes muitos séculos depois.
Basicamente, os dominós representavam os 21 Arcanos Maiores do tarot. Ficava faltando o
Louco e esta é a explicação da verdadeira razão pela qual este arcano não possui um
número. Alguns autores o colocaram como número zero, outros como 22 e outros ainda
como Arcano 78… alguns até o deixam sem número. Eu já li textos onde se dizia que os
dados eram arremessados dentro de um círculo traçado na areia e este arcano se
manifestava quando algum dos dados caia fora do local demarcado (tal qual alguns jogos de
Runas) mas não existem registros garantidos disto, visto que toda a tradição iniciática era
oral.
O pesquisador e historiador especializado na história do tarot Kris Hadar defende que a
origem do tarô na Europa pode ser encontrada no século 12 na região de Oc ou Provence,
no sul da França (por isso a data simbólica 1181 na carta do 2 de Ouros encontrada em um
dos baralhos); e que a criação do baralho foi uma maneira encontrada para ocultar e
preservar, na forma de cartas de jogar, a cultura e o conhecimento daquela região (onde
nasceu a cultura trovadoresca), que a Igreja e os reis de França da época procuraram
exterminar por ser “herética”. Considera ainda que o tarot foi “o primeiro livro que
permitiu que os analfabetos fossem capazes de refletir e meditar sobre sua salvação eterna e
a busca de si mesmos”. A história dos Tarots, dados e jogos de azar acompanha o caminho
percorrido pelas Ordens Gnósticas (Sul da França e Norte do Egito).

Em 1392, surge na Europa o Tarot de Gringonneur, até hoje conhecido como o tarot mais
antigo que se tem notícias (Charles Poupart em Registre de la Chambre des Comptes,
1392).
Entre 1392 e o Famoso “Tarot de Marselha” (1761) surgem diversos tarots, dos quais temos
apenas algumas poucas cartas remanescentes, como o Poema descrevendo os 22 arcanos,
escrito por Matteo boiardo (1494), o Tarot de mantegna (1465), o sola Busca Tarot (1491),
Francesco Marcolini (1540), Catelin Geoffroy (1557). No
começo do século XVI, há um texto da inquisição acusando
uma mulher de usar o Arcano do Diabo em uma Adoração
Satânica, mas por algum motivo, o tarot é meio que deixado
de lado pela Inquisição.
Na França, temos o Tarot de Paris (1650), o Tarot de Jean
Noblet (1650) e o Tarot de Jacques Vieville (1643), na Itália
temos predominantemente o Tarocchino de Mitteli (1662).
Mitteli era um rosacruz italiano, da mesma escola de Gabriel
Ferrantini, Girolamo Curti e Angelo Colonna, o que nos traz
novamente a ligação entre Ordens esotéricas e o tarot.
Em 1761, Nicolas Convert, conhecido como “Mestre da
Guilda dos Fabricantes de Baralhos de Marselha”, produziu a
versão mais famosa e mais popular de todos os tarots, o
“Baralho de Marselha”.

Gebelin foi o primeiro a atribuir a origem Egípcia ao baralho.


A partir de então, o tarô se tornou uma febre parisiense.
Todos queriam aprender o jogo egípcio. As ciganas que eram
consideradas, à época, de origem egípcia, aproveitaram a
onda e Créu! Começaram a ler cartas e ganhar o the Money fazendo previsões!

Etteilla, discípulo de Gebelin


Etteilla, pseudônimo de Alliette, era professor de álgebra, amigo íntimo de Madame
Lenormand (famosa cartomante de Napoleão, que criou seu próprio baralho também) e de
Julia Orsini, outra famosa cartomante francesa. Não se tem notícias de que tivesse
pertencido a nenhuma ordem ou fraternidade oculta. Em todas as referências é tido como
charlatão. Lévi e Papus revelam que ele se apropriou para benefício próprio das idéias da
origem egípcia, da relação das letras hebraicas e egípcias feitas por Gebelin, criando seu
próprio tarô corrigido, compilando as obras de suas amigas e escrevendo onze livros.
Instalou-se em um dos mais luxuosos hotéis de Paris, Hotel de Crillon, e começou a atender
e ensinar a nata parisiense! Voilá, cherry! Gebelin e Etteilla devem ter falecido ricos e
felizes, um sob a visão da fama científica e o outro do misticismo.

Eliphas Levi, o senhor da Kabbalah


Tanto Gebelin quanto Ettteilla mexeram com o imaginário popular da época e,
conseqüentemente, dos esotéricos e exotéricos; pois fica muito claro nas obras de todos os
ocultistas do final do século XVIII e início do XIX que no âmbito tradicional do universo
das ciências ocultas nunca se analisou ou questionou o tarô — são palavras do próprio
Gebelin e de todas as pessoas posteriores a ele, sem exceção.

Lévi, em seu primeiro livro (1854), Dogma e Ritual, e no segundo, História da Magia,
detona as obras e a conduta de Etteilla, contesta a origem egípcia de Gebelin e repudia a
palavra tar=caminho e ot=real. Vai mais além: Introduz o conceito de que Moisés escondeu
nos símbolos do tarô a verdadeira Kabbalah.
Também, pela primeira vez, um ocultista, em toda a história da magia, faz uma acalentada
tese de associações das letras hebraicas com os arcanos e diz que a palavra tarot é análoga a
palavra sagrada IHVH, sendo também uma variação das palavras Rota / Ot-tara / Hathor /
Ator / Tora / Astaroth / Tika.
Assim como no livro de Papus, numa segunda leitura, igualmente encontrei críticas às
mulheres na obra de Lévi, um pouco mais cruéis eu diria — desdenha Mlle Lenormand
chamando-a de gorda, feia e chata e duas outras cartomantes, Madame Bouche e Krudener,
de prostitutas (coquetes ou Salomé à época) (História da Magia, páginas 346 e 347). Tanto
Lévi quanto Papus condenavam as práticas femininas de cartomancia, achavam que elas
usurpavam o poder do homem na ciência oculta…
Eu também sempre havia me perguntado o que eles teriam contra as mulheres, visto que
nenhum deles tinha características gays nem nunca ninguém chegou a levantar esta
possibilidade. Quem levantou a melhor idéia foi o pesquisador Nei Naiff, autor do livro
“Tarô, ocultismo e Modernidade”:

“Comecei a pensar sobre a sociedade até o fim do século XIX: era patriarcal e misógina!
Será que houve uma descrença no sistema de cartas por causa do contexto feminino? Ou
será que pelo fato do tarô expressar símbolos comuns de sua época não teria nenhum
valor ocultista? Neste caso, eu acredito que foram ambos os fatores!
A partir da história egípcia sobre o tarô criada por Gebelin, os ocultistas viram uma
possibilidade de abarcarem as técnicas de cartomancia, sem caírem no ridículo de usarem
“uma arte feminina nos vôos da imaginação”, como disse Papus, ou usaram a arte das
“loucas e coquetes”, segundo Lévi. Como? Fizeram uma retórica metafísica impossível
delas compreenderem.
Se reparar na história do ocultismo, da magia, da cabala e da alquimia observará que não
há uma única mulher (eram todas consideradas bruxas, ignorantes e maldosas!) que
anteceda a Helena Blavatsky (1831-1891)! Ela foi muito “macho” em peitar todos os
ocultistas eruditos. Assim, não foi difícil começarem a estudar uma arte feminina, que
estava bem debaixo do nariz deles por tantos séculos, mas que nunca ousaram tocar por
puro preconceito machista.
Afinal, nada melhor do que a imaginação e a intuição feminina para desvendar o
significado simbólico das cartas em vez da razão e da lógica dos eruditos que
necessitavam de fórmulas complicadas para tudo.
Para mim ficou muito claro o porquê da ausência do estudo do tarô entre os renomados
ocultistas até o século XVIII e, principalmente, o porquê de tanto escárnio nas obras de
Lévi e Papus sobre as cartomantes ou, no caso de Etteilla, um homem que se atreveu a
jogar cartas como elas, denegrindo a imagem do “macho esotérico que conjura
demônios”… Coisas do século passado…
Embora o tarô fosse conhecido e utilizado há séculos na Itália, Alemanha, Suíça, Espanha
e França, foi precisamente em Paris que ele criou sua própria luz espiritual, tanto no
surgimento de seu nome (tarot), quanto em sua centrifugação com o ocultismo. Observe
que todos os autores que descrevemos são franceses e publicaram suas obras na Cidade
Luz”.

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