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[ capitulo 2 ESTATISTICA BASICA PARA TESTAGEM De modo geral o progresso da ciéncia ¢ acompanhade da invengéo de instrumen- 10s de mensuraciio e avangos em seus procedimentos e técnicas. A ciéncia da astro- nomia, por exemplo, decolou realmente nos séculos XVII ¢ XVIII apés a invencio de um telescépio adequado & observagio do cosmos e do desenvolvimento da geo- metria analitica por Descartes, que levou ao célculo mais preciso das distancias entre os corpos celestes, entre outras coisas. Igualmente, os enormes avangos aruais, no campo da neurociéncia devem muito ao desenvolvimento de téenicas como a tomografia por emisséio de positron (PET} e 2 ressonancia magnética fincional (RMD, que permitem aos cientistas visualizar e medir pequenas alteragbes ¢ even- cos bioquimicos no cérebro. Como vimos no Capitulo 1, 0 maderno campo da testagem psicoldgica tam- bém teve seu inicio com a invengio de ferramentas bem-sucedidas. As escalas de inteligéncia Binet-Simon possibilitaram a mensuragio de processos cognitivos impor- tantes - como a compreensio, o julgamento € a meméria ~ por meio de amostras, de comportamento calibradas conforme a idade, «A invengao des itens objetivos de multipia escolha por Arthur Otis levou aos primeiros testes grupais de inteligéncia geral, Técnicas estatisticas desenvolvidas aproximadamente na mesma época cue 0s primeiros testes permitiram a anatise dos dados coletados por meio destes. ‘A MENSURACAO © conceito de mensurago esté no centro da testagem psicaldgica como atividade cientifica voltada para o estudo de compertamento humano. A mensurago envolve ‘© uso de certos dispositives ou regras para atribuir nimetos a objetos ou eventos (Stevens, 1946). Se aplicarmos este processo sistematicamente, os fendmenos medi- dos estarao mais facilmente sujeitos A confirmagao e andlise ¢, portanto, tornar-se-éo mais objetivos. Em outras palavras, ao analisarmos, categorizarmos e quantificarmos sistematicamente os fendmenos observaveis, nds os trazemos para a arena cientifica, 4A Susana Urbina ¥ central para a definicao dos testes psicoldgicos 0 fato de que os fendmenos consistem em amostras cuidadosamente escolhidas de comportamentos as quais é aplicado um sistema numérico ot categdrico segundo alguns padrées preestabe- lecidos. A testagem psicalégica é amplamente co-extensiva ao campo da psicametria, ou mensuragio psicolégica, ¢ é uma das ferramentas primédrias para a ciéncia ea pritica da psicologia, O uso de numeros na testagem requer que nos aprofundemos em estatistica. Para muitos estudantes de psicologia, 0 uso de estatistica e dados quantitatives em geral repzesenta um problema que pode parecer insuperdvel: lidar com ntimeros fende @ causar alguma ansiedade. Esta ansiedade esté ligada as dificuldades muitas vezes encontzadas nas aulas de matematica ¢ estatistica por motives que podem estar relacionados tanto a fatores emocionais ¢ comportamentais quanto aos temas em si ow ao modo como cles t8m sido tradicionalmente ensinados. Este capitulo apresenta 05 conceites estatisticos necessdrios para a comprecnsio dos principios bésicos da testagem psicolégica. Os leitores que dominam a estatistica bésica talvez possam pular tedo o capitulo ou a maior parte dele, mas quanto ao resto, qualquer leitor motivado deste livre pode obter uma compreensao instrumental dos concei- tos que serfio apresentados. E importante, no entanto, perecber que estes conceites seguem uma progressio ldgica: para passar a umm novo tpico, é essencial dominar os precedentes, Um auxilio adicional na compreensia dos métodos estatisticos bé- sicos est disponivel em muitas obras excelentes, como aquelas listadas ne auadro Consulta Répide 2.1, Conselhos sobre estatistiea Promissas basicas 1. Para compreender os testes psicolégicos, é preciso lidar com nimeros ¢ esiatislicn. 2. Compreender o estatistica € possivel pore qualquer leitor deste livro. 3. A melhor maneira de aumantor a compreanséo dos conceitos eslatisticos € através de sua cplicagao. CONSULTA RAPIDA 2.1 Fontes de cunilia recomendades Livros + Howell, 0.C, (2002), Statistica! method’ for psychoiogy [5* ed |, Pace Grove, CA: Dusbur. + Kick, RE, (1999), Statistics: An inicoduction (4 eg | For Work, TK: Horcout Brace. + Urdon, F.C. (2001) Statistics in ploin engi, Matueah, Ni Elbo, + Vogl, WF (1998). Dictionary of statistics and methodology: A nontechnical guide for the social sciences {2 ed), Thousand Ooks, CA Sage Video * Blatt, 1 (Produter/Aulor/Diretor). (11989), Against ail acids: inside statistics [Zita HS). |A vanda ern The Anrenberg/CP0 Prec, 901 € $1, NNW, Washiaglon, OC 2004-2006) Fundamentos da testagem psicclogica 45 VARIAVEIS E CONSTANTES Lima das distingées mais bisicas que podemos fazer em qualquer ciéneia ¢ entre variiveis ¢ constantes. Como os préprios termos indicam, uma varidvel é qualquer coisa que varia, enquanto que uma conscante é qualquer coisa que nao varia. Nosso mundo tem muitas varidveis e poucas constantes, Lm exemplo de constante € 0 p (pi), a raza0 entre a circunferéncia de um cireulo e seu diametro, um ntimero que geralmente é arredondado para 3.1416, As variaveis, por outro lado, estdo em toda parte ¢ podem scr classificadas de varias formas. Por exemplo, algumas varidveis sio visiveis (p. ex., sexo, cor dos olhos) ¢ outras invisiveis (p. ex., personalidade, inteligéncia); algumas sao definidas de tal mado que dizem respeito a canjuntos muito pequenos, € outras a conjuntos muito grandes (p. ex., o niimero de filhos de uma familia ou a renda média dos individuos de um pais); algumas so continuas, c outras, diseretas Esta Ultima distingdo ¢ importante para os nossos fins e merece uma explicacao. ‘Teenicamente, varidveis ciscretas so aquelas com uma gama finita de valores — ou potencialmente infinita, porém contavel, As varidveis dicotéinicas, por exemplo, sio varidveis discretas que podem assumir apenas dois valozes, como 0 sexe ou 0 resultado de um lance de cara ou coroa, As variaveis politémicas sio varidveis dis- cretas que podem assumir mais de dois valores, como estado civil, raga, ete. Outras, variaveis discretas podem assumir uma gama mais ampla de valores, mas ainda assim podem ser contadas como unidades separadas; exemplos destas s30 0 tama- nho de uma familia, a contagem de tréfego veicular ¢ resultados de beisebol. Embo- ra na pratica seja possivel cometer erros na contagem, em principio as varidveis discretas podem ser calculadas precisa e acertadamente. \Variaveis continuas como tempo, distancia e temperatura, por outro lado, tém. variagécs infinitas e no podem realmente ser contadas. S40 medidas com escalas que teoricamente podem ser subdividides até o infinito ¢ néo tém interrupSes centre seus pontos, como as escalas de relégios analégicos, réguas ¢ termorietros de vidro. Como nossos instrumentos de mensuracdo (mesmo os relégios atémicos!) no podem ser calibrados com preciso suficiente para medir variaveis continuas com absoluta exatidio, as mensuragées que fazemos delas so aproximages mais on menos precisas. Antes de comecarmos a lidar com mimeros, mais uma adverténcia é aconse- Thivel. Na testagem psicolégica, quase sempre estamos interessados em varivets continuas (p. ex., graus de integridade, extroversio ou ansiedade), mas nés as mensuramos com ferramentas, como testes ou inventdrios, que néo so tao preci- sas quanto as das ciéncias fisicas e bioldgicas, Mesmo nestas ciéncias, a mensuragio discreta de varidveis continuas apresenta algumas Jimitagées quanto A precisiio, Por isso, fica Sbvio que nas ciéncias comportamentais devemos estar particular. mente atentos para potenciais fontes de erros e procurar estimativas pertinentes de eco sempre que nos defrontarmos com os resultados de qualquer processo de mensuracdo. Por exemplo, se niimeros extrafdos de amostzas de eleitores em po- tencial forem usados para estimar o resultado de uma eleigao, as margens de erro estimadas devem ser divulgadas juntamente com os resultados da pesquisa.