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GÊNESIS

Original em inglês:

GENESIS

The Second Book of Moses, Called Genesis

Commentary by Robert Jamieson

Tradução: Carlos Biagini

Gênesis 1 Gênesis 11 Gênesis 21 Gênesis 31 Gênesis 41


Gênesis 2 Gênesis 12 Gênesis 22 Gênesis 32 Gênesis 42
Gênesis 3 Gênesis 13 Gênesis 23 Gênesis 33 Gênesis 43
Gênesis 4 Gênesis 14 Gênesis 24 Gênesis 34 Gênesis 44
Gênesis 5 Gênesis 15 Gênesis 25 Gênesis 35 Gênesis 45
Gênesis 6 Gênesis 16 Gênesis 26 Gênesis 36 Gênesis 46
Gênesis 7 Gênesis 17 Gênesis 27 Gênesis 37 Gênesis 47
Gênesis 8 Gênesis 18 Gênesis 28 Gênesis 38 Gênesis 48
Gênesis 9 Gênesis 19 Gênesis 29 Gênesis 39 Gênesis 49
Gênesis 10 Gênesis 20 Gênesis 30 Gênesis 40 Gênesis 50
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 2
Gênesis 1

Vv. 1, 2. A CRIAÇÃO DO CÉU E A TERRA.


1. No princípio — um período de antiguidade longínquo e
desconhecido, escondido nas profundidades das idades eternas; e assim
se usa a frase em Pv_8:22-23.
criou — não formou de materiais preexistentes, mas fez do nada.
Deus — o nome do Ser Supremo, que significa em hebraico,
“Forte”, “Poderoso”. É expressivo de poder onipotente; e por seu uso
aqui na forma plural, introduz-se obscuramente no próprio início da
Bíblia, uma doutrina claramente revelada em outras partes da mesma;
quer dizer, que embora Deus seja um, há uma pluralidade de pessoas na
deidade — Pai, Filho e Espírito, que estavam ocupados na obra criadora
(Pv_8:27; Jo_1:3, Jo_1:10; Ef_3:9; Hb_1:2; Jó_26:13).
os céus e a terra — o universo. Este primeiro versículo é uma
introdução geral ao volume inspirado, que declara a grande e importante
verdade de que todas as coisas tiveram seu princípio: que nada por toda a
ampla extensão da Natureza existia da eternidade, nem se originou pela
sorte nem pela perícia de algum agente inferior; mas sim todo o universo
foi produzido pelo poder criador de Deus (At_17:24; Rm_11:36). Depois
deste prefácio, o relato se limita à terra.
2. A terra, porém, estava sem forma e vazia — ou em “confusão
e tolice”, como se traduzem as palavras em Is_34:11, na versão inglesa.
Este globo terrestre, tendo sido convulsionado em algum período
desconhecido, era uma extensão desolada, obscura e alagada, até que,
dentre este estado caótico, surgiu a atual estrutura do mundo.
o Espírito de Deus pairava — literalmente, continuava cobrindo-a,
como faz a ave incubando os ovos. A agência imediata do Espírito,
operando sobre os elementos mortos e discordantes, combinava-os,
resolvia e preparava adaptando-os para ser a cena de uma nova criação.
O relato desta nova criação corretamente começa no final deste segundo
versículo; e os detalhes do processo se descrevem da maneira natural
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 3
como o teria feito um espectador, que via as mudanças que
sucessivamente se efetuavam.

Vv. 3-5. O PRIMEIRO DIA.


3. Disse Deus — Esta frase, que se menciona tão repetidamente no
relato, quer dizer “resolveu, decretou, estabeleceu”; e a vontade
determinante de Deus foi seguida em cada caso por um resultado
imediato. Seja que o sol fosse criado ao mesmo tempo que a terra, ou
muito antes, a densa acumulação de neblinas e vapores que envolvia o
caos, havia coberto nossa esfera com uma escuridão absoluta. Mas pela
ordem de Deus, a luz fez-se visível; as grandes nuvens lôbregas foram
dissipadas, quebradas ou rarefeitas, de modo que a luz se difundiu sobre
a expansão de águas. O efeito se descreve no nome DIA, que em
hebraico significa calor; enquanto que o nome NOITE significa
ENVOLVER. pois a noite envolve todas as coisas num manto obscuro.
4. separação entre a luz e as trevas — refere-se à alternância ou
sucessão da uma à outra, produzida pela rotação diária da terra sobre seu
eixo.
5. tarde e manhã, o primeiro dia — Dia natural, como o
determina claramente a menção de suas duas partes. Moisés calcula,
segundo o uso oriental, de pôr-do-sol a pôr-do-sol, e portanto não diz
“dia e noite” como nós, mas sim “a tarde e a manhã”.

Vv. 6-8. O SEGUNDO DIA.


6. firmamento — coisa estendida à força de golpear, como um
prato de metal; nome dado à atmosfera por sua aparência ao observador
de ser uma abóbada de céu, que sustentava o peso das nuvens aquosas.
Pela criação de uma atmosfera, as partes mais levianas das águas que
cobriam a superfície da terra, foram absorvidas para acima e suspensas
nos céus visíveis, enquanto a massa grande e mais pesada ficava abaixo.
O ar então estava “em meio das águas”, quer dizer, separava-as; e como
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este era o uso aparente do ar, é o único mencionado, ainda que a
atmosfera serve para outros usos, como meio de vida e luz.

Vv. 9-13. O TERCEIRO DIA.


9. Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar — O
mundo tinha que ser uma esfera terráquea, e isto se efetuou por uma
convulsão vulcânica em sua superfície, soerguendo algumas partes, e
afundando outras, e a formação de grandes ocos nos quais as águas se
lançaram impetuosamente, como se descreve tão graficamente.
(Sl_104:6-9). (Hitchcock.) Assim uma boa parte da terra ficou como “a
seca”, e assim também foram formados os oceanos, mares, lagos e rios
que, tendo todos os seus próprios leitos ou canais, estão unidos com o
mar (Jó_38:10; Ec 1:7).
11. Produza a terra — O solo despido se cobriu de vegetação, e é
de notar-se que as árvores, as plantas e as ervas—três divisões do reino
vegetal, aqui mencionadas — não foram chamados à existência da
mesma maneira que a luz e o ar; foi-lhes feito crescer, e cresceram,
assim como ainda crescem dentre a terra — mas não pelo lento processo
da vegetação, mas por poder divino, sem chuva, nem orvalho nem
processo algum de trabalho — brotando e florescendo num só dia.

Vv. 14-19. O QUARTO DIA.


14. Haja luzeiros no firmamento — Estando completamente
purificada a atmosfera, pela primeira vez o sol, a lua e as estrelas foram
revelados em toda a sua glória no céu limpo; são descritos como “no
firmamento”, como aparecem a nossos olhos, embora sabemos que estão
a uma distância enorme da terra.
16. os dois grandes luzeiros — Como o dia se calculava
começando ao pôr do sol, a lua seria primeiro vista no horizonte,
pareceria “um grande luzeiro”, comparada com as pequenas estrelas
cintilantes; ainda que o pálido resplendor dela seria eclipsado pelo
deslumbrante brilho do sol. Quando seu brilhante círculo se levantasse
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 5
de manhã e gradualmente chegasse a sua glória meridiana, pareceria “o
grande luzeiro” que ia senhorear no dia. Estes dois luzeiros, diz-se foram
“feitos” no quarto dia — não criados, pois aqui se usa uma palavra
diferente, mas sim constituídos, destinadas ao importante e necessário
ofício de servir como luzeiros ao mundo, e de regular por seus
movimentos e sua influência o progresso e as divisões do tempo.

Vv. 20-23. O QUINTO DIA. Os sinais da vida animal aparecem nas


águas e no ar.
20. seres viventes — todos os animais ovíparos, entre as criaturas
de barbatanas e as de penas — notáveis por sua rápida e até prodigiosa
multiplicação.
aves — todo animal que voa. A palavra traduzida “seres viventes”,
inclui também os crocodilos, tubarões, etc., de modo que dos
inumeráveis cardumes de peixes até os grandes monstros do mar, do
diminuto inseto até o rei dos pássaros, às águas e ao ar foi posto
repentinamente em abundância criaturas formadas para viver e prosperar
em seus respectivos elementos.

Vv. 24-31. O SEXTO DIA. Neste dia houve mais progresso na


criação de animais terrestres, todas as diferentes espécies dos quais estão
incluídas em três classes — isto é, o gado, herbívoros, capazes de
trabalho e domesticação.
24. animais selváticos — animais silvestres, cuja natureza voraz
foi então refreada, e todas as diferentes forma de
serpentes — todo tipo de répteis até os insignificantes vermes.
26. Chegando agora a última etapa no progresso da criação,
disse Deus: Façamos o homem — palavras que mostram a
peculiar importância da obra que estava para ser feita, a formação de
uma criatura, que tinha que ser o representante de Deus, investida de
autoridade e domínio como visível cabeça e monarca do mundo.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 6
à nossa imagem, conforme a nossa semelhança — Esta é uma
distinção peculiar, cujo valor aparece no fato de que as palavras se
repetem duas vezes. E no que consistia esta imagem de Deus?—não na
forma reta ou vertical ou nas facções do homem, não em sua
inteligência, porque a este respeito o diabo e os anjos são muito
superiores; não em sua imortalidade, porque não tem, como Deus, uma
eternidade passada como uma futura, mas nas disposições morais de sua
alma, usualmente chamadas justiça original (Ec_7:29). Como a nova
criatura não é senão uma restauração desta imagem, a história de uma
lança luz sobre a outra; e somos informados que é renovada segundo a
imagem de Deus em conhecimento, justiça e verdadeira santidade
(Ef_4:24; Cl_3:10).
28. Sede fecundos, etc. — a raça humana em todos os países e em
todas as idades foi a descendência da primeiro casal. De todas as
variedades achadas entre os homens, alguns negros, outros de cor
acobreada como também brancos, as investigações da ciência moderna
chegam à conclusão, todas completamente de acordo com a história
sagrada, de que todos são de uma espécie e de uma família (At_17:26).
Que poder na palavra de Deus! “Ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e
tudo passou a existir.” [Sl_33:9] “Que variedade, SENHOR, nas tuas
obras! Todas com sabedoria as fizeste” [Sl_104:24]. Admiramos aquela
sabedoria, não só no progresso regulado da criação mas em sua perfeita
adaptação enfim. Representa-se a Deus como fazendo uma pausa a cada
etapa para contemplar sua obra. Não é maravilha que a contemplasse
com complacência. Cada objeto estava em seu devido lugar, cada
processo vegetal progredia segundo sua estação, todo animal estava em
sua estrutura e instinto ajustado a seu modo de vida, e a seu uso na
economia do mundo. Viu todas as coisas que tinha feito, respondendo ao
plano que sua eterna sabedoria tinha concebido, “E EIS QUE ERA MUITO
BOM” [Gn_1:31].
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Gênesis 2

V. 1. O RELATO DA CRIAÇÃO EM SEIS DIAS,


CONTINUADO. O curso do relato foi inoportunamente interrompido
pela divisão do capítulo.
os céus — o firmamento, ou atmosfera.
exército — Palavra que nas Escrituras refere-se geralmente só aos
céus, mas aqui à terra também, significando tudo o que eles contêm.
foram acabados — a obra consumada. Desde então nenhuma
mudança permanente se fez no curso do mundo; nenhuma espécie de
animais foi formada; nenhuma lei da natureza foi ab-rogada nem
nenhuma acrescentada. Teriam podido ser “acabados” num momento
assim como em seis dias, mas a obra da criação foi gradual para a
instrução do homem, como também, talvez, para a de outras criaturas
(Jó_38:7).

Vv. 2-7. O PRIMEIRO SÁBADO.


2. terminado no dia sétimo a sua obra ... descansou nesse dia —
não para repousar de esgotamento pelo trabalho (veja-se Is_40:28), mas
cessou de trabalhar, dando um exemplo, que equivale a um mandato,
para que nós também suspendamos todo tipo de trabalhos.
3. abençoou Deus o dia sétimo e o santificou. — tornando-o uma
distinção peculiar sobre os outros seis dias, que mostra que foi dedicado
a fins sagrados. A instituição do sábado é tão antiga como a criação,
dando origem à divisão semanal do tempo, a qual prevaleceu nas épocas
mais remotas. É uma lei sábia e benéfica, pois proporciona aquele
intervalo regular de descanso que requer a natureza física do homem e
dos animais empregados em seu serviço, e a inobservância do mesmo
traz em ambos os casos uma decadência prematura. Além disso, se o
descanso foi necessário no estado da inocência primitiva, quanto mais
agora, quando o homem se inclina a esquecer a Deus e suas demandas!
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 8
4. Esta é a gênese dos céus e da terra. — a história ou relato de
sua produção. De onde conseguiu Moisés este relato tão diferente das
ficções pueris e absurdas dos pagãos? Não de uma fonte humana, porque
o homem não existia para poder contemplá-lo; não da luz da natureza e
da razão, porque ainda que elas proclamam o poder e a divindade pelas
coisas que foram feitas, não podem dizer como foram feitas. Ninguém
senão o próprio Criador poderia dar esta informação, e portanto “Pela fé,
entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus”
(Hb_11:3).
5-6. neblina. — veja-se Gn_1:11.
7. Aqui o escritor sagrado nos proporciona mais alguns dados a
respeito da primeiro casal.
formou — Tinha formado o homem do pó da terra. A ciência
provou que a substância de sua carne, tendões e ossos, consiste nos
mesmos elementos do solo que formam a casca da terra e a pedra
calcária que está no interior da terra. Mas daquele material tão ruim, que
admirável estrutura se formou no corpo humano! (Sl_139:14).
fôlego de vida — literalmente, em hebraico, “vidas” — não só a
vida animal mas também a espiritual. Se for admirável o corpo, quanto
mais a alma com todas as suas variadas faculdades!
soprou nas narinas o fôlego de vida — não que o Criador
literalmente executasse esse ato, mas sendo a respiração o meio e o sinal
de vida, usa-se esta frase para mostrar que a vida do homem se originou
de uma maneira diferente da de seu corpo, pois foi implantada
diretamente por Deus (Ec_12:7), e portanto também na nova criação da
alma, Cristo soprou sobre seus discípulos (Jo_20:22).

Vv. 8-17. O JARDIM DO ÉDEN.


8. Éden — foi provavelmente uma região muito extensa na
Mesopotâmia, segundo se crê, distinguida por sua beleza natural e a
riqueza e variedade de seus produtos. Daí seu nome que significa delícia.
Deus plantou um jardim “na direção do Oriente”—um parque extenso,
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um paraíso, no qual foi posto o homem para ser ensinado na piedade e
utilidade, sob o cuidado paternal de seu Criador.
9. a árvore da vida — assim chamada por seu caráter simbólico
como sinal e selo da vida imortal. Sua posição proeminente “no meio do
jardim”, onde seria objeto de observação e interesse diários, estava
admiravelmente adaptada para lhes fazer lembrar constantemente a Deus
e o futuro eterno.
árvore do conhecimento do bem e do mal — assim chamado
porque tinha por objeto pôr à prova a obediência por meio da qual nossos
primeiros pais tinham que manifestar se eram bons ou maus, obedientes
a Deus ou rebeldes a seus mandamentos.
15. o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar —
não só para lhe dar um emprego agradável, senão para o pôr à prova, e
como o indica o título do jardim, o jardim de Jeová (Gn_13:10;
Ez_28:13), era com efeito um templo no qual ele adorava a Deus, e se
ocupava diariamente em oferecer os sacrifícios de agradecimento e
louvor.
17. não comerá … morrerá — não se dá nenhuma razão para a
proibição, mas a morte seria o castigo da desobediência. Um mandato
positivo como este, não só era a prova mais singela e mais fácil, mas sim
a única a qual poderia expor-se sua fidelidade.

Vv. 18-25. A CRIAÇÃO DA MULHER, E A INSTITUIÇÃO DO


CASAMENTO.
18. Não é bom que o homem esteja só — No meio da abundância
e os deleites, o homem era consciente de sentimentos que não podia
satisfazer. Para fazê-lo sensível a suas necessidades, Deus criou a
mulher.
19. Deus ... trouxe-os ao homem — nem todos os animais
existentes, mas sim os principais que estavam nas cercanias, e os que
deviam ser úteis.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 10
o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o
nome deles — Seus poderes de percepção e inteligência estavam
sobrenaturalmente aumentados para que conhecesse o caráter, os hábitos
e usos de cada espécie que lhe era trazida.
20. para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que
lhe fosse idônea — O propósito desta cena singular era o de lhe mostrar
que nenhum dos seres viventes que ele via, era de condição igual a ele, e
que enquanto cada espécie tinha seu companheiro da mesma natureza,
forma e hábitos, só ele não tinha companheira. Além disso, ao lhes dar
nomes, ele foi induzido a exercer suas faculdades de fala, e assim
preparar-se para o trato social com sua companheira, criatura ainda a ser
formada.
21. sono — provavelmente um êxtase ou arrebatamento como os
dos profetas, quando tinham visões ou revelações do Senhor, porque
provavelmente toda a cena foi visível aos olhos mentais de Adão, e daí
sua exclamação maravilhosa.
tomou uma das suas costelas — “Ela não foi de uma parte de sua
cabeça para se sobressair a ele, nem de seus pés para ser pisoteada, mas
sim de seu lado para ser igual a ele, e de perto de seu coração para lhe
ser querida.”
mulher — heb. ishshah, proveniente de ish, homem
24. uma só carne — o casal humano se diferenciava de todos os
demais casais, em que, pela formação peculiar de Eva, eram um. Nosso
Senhor apela a esta passagem para provar que o casamento é instituição
divina (Mt_19:4-5; Ef_5:28). Assim, pois, Adão aparece como criatura
formada à imagem de Deus, mostrando seu conhecimento ao dar nomes
aos animais, sua justiça por sua aprovação da relação conjugal, e sua
santidade por seus princípios e sentimentos, achando a satisfação deles
no serviço e a felicidade com Deus.
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Gênesis 3

Vv. 1-5. A TENTAÇÃO.


1. serpente — A queda do homem foi efetuada pelas seduções de
uma serpente. Que tenha sido uma serpente verdadeira, é evidente pelo
estilo claro e natural da história, e pelas muitas alusões feitas a ela no
Novo Testamento. Mas a serpente material foi o instrumento ou a
ferramenta de um agente superior, Satanás ou o Diabo, a quem os
escritores sagrados aplicam por este incidente o nome infamante de “a
serpente”, “o antigo dragão” [Ap_20:2]. Embora Moisés não faça
menção deste espírito malévolo — nos deu só a história do mundo
visível — entretanto, nos descobrimentos mais completos do evangelho,
insinua-se claramente que Satanás foi o autor do complô (Jo_8:44;
2Co_11:3; 1Jo_3:8; 1Tm_2:14; Ap_20:2).
mais sagaz que todos — É proverbial a sabedoria das serpentes.
(Mt_10:16). Mas estes répteis eram no princípio, muito superiores em
beleza e sagacidade do que são em seu estado atual.
disse — Não havendo no coração puro do primeiro casal nenhum
princípio de mal sobre o qual agir, uma incitação para pecar não poderia
vir senão de fora, como no caso análogo de Jesus Cristo (Mt_4:3); e
como o tentador não pôde assumir a forma humana, havendo no mundo
só dois seres humanos, Adão e Eva, a agência de uma criatura inferior
tinha que ser empregada. O Dragão-serpente (Bochart) parecia o mais
apto para o vil propósito; e Deus permitiu ao Diabo fazer a prova, tirar
sons invertebrados e claros da boca do animal.
à mulher — o objeto do ataque, devido ao conhecimento que tinha
da fragilidade dela, por ter estado só um curto tempo no mundo, e por
sua limitada experiência das tribos animais, e sobretudo estando ela
sozinha, não protegida pela presença e os conselhos de seu marido.
Embora sem pecado e santa era ela agente livre, propensa a ser tentada e
seduzida.
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É assim que Deus disse: ...? — É verdade que Ele os limitou no
uso das frutas deste lugar delicioso? Isto não parece coisa de um ser tão
bom e bondoso. Certamente há algum erro. Insinuou uma dúvida quanto
à opinião dela a respeito da vontade divina, e apareceu como “anjo de
luz” (2Co_11:14), oferecendo conduzi-la à verdadeira interpretação. É
evidente pelo fato de que ela o considerava como enviado especialmente
com aquela mensagem que, em vez de assustar-se de que o réptil falasse,
recebeu-o como mensageiro celestial.
2. Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim
podemos comer — Em sua resposta, Eva elogiou a grande extensão da
liberdade que eles desfrutavam em andar livremente entre todas as
árvores — excetuando uma só — com relação aos quais ela declarou que
não havia nenhuma proibição de tristeza. Mas motivo há para crer que
ela já tinha recebido uma impressão danosa, porque usando as palavras
“para que não morrais” em vez de “certamente morrerás” [Gn_2:17], ela
falou como se pensasse que a árvore tivesse sido proibido porque seu
fruto fosse venenoso. Vendo isto o tentador, fez-se mais atrevido em
suas afirmações.
4. não morrereis — ele procedeu não apenas só a lhe assegurar
uma perfeita impunidade, mas também a prometer grandes benefícios ao
participar dele.
5. se vos abrirão os olhos — Suas palavras significavam mais do
que recebeu o ouvido. Num sentido seus olhos foram abertos; porque
adquiriram uma experiência horrível do “bem e do mal”, da felicidade de
uma condição santa, e da miséria de uma condição pecaminosa. Mas ele
ocultou este resultado a Eva, a qual, entusiasmada por um generoso
desejo de conhecimento, pensou só em elevar-se à posição e aos
privilégios de seu visitante celestial.

Vv. 6-9. A QUEDA.


6. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer — Sua
imaginação e seus sentidos foram completamente vencidos; e a queda de
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Eva foi logo seguida pela de Adão. A história de todas as tentações, e de
todo pecado, é a mesma: o objeto exterior de atração, a comoção interior
da mente, o aumento e triunfo do desejo apaixonado; terminando na
degradação, escravidão e ruína da alma (Tg_1:15; 1Jo_2:16).
8. ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim — O
Ser divino apareceu da mesma maneira que antes, emitindo as bem
conhecidas palavras de bondade, caminhando em alguma forma visível –
não correndo com ímpeto, como alguém impelido pela influência de
sentimento de ira. Quão belamente expressivas são estas palavras
referentes à maneira familiar e condescendente em que antes tinha
comunhão com o primeiro casal!
pela viração do dia — na tardinha fresca.
esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua
mulher — Vergonha, remorso, temor, uma sensação de culpa,
sentimentos que até agora tinham sido estranhos a eles, transtornaram
suas mentes, e os levaram a esconder-se dAquele cuja chegada antes
recebiam com alegria. Que estupidez pensar em escapar de Sua
presença! (Sl_139:1-12).

Vv. 10-13. O EXAME.


10. porque estava nu, tive medo — aparentemente uma confissão,
linguagem de pesar; mas evasivo, sem sinais de verdadeira humildade e
penitência; cada um trata de lançar a culpa sobre o outro.
12. A mulher que me deste — Ele culpa a Deus (Calvino). Como a
mulher lhe tinha sido dada como companheira idônea, ele tinha comido
da árvore por amor a ela; e vendo que estava arruinada, ele resolveu não
defendê-la. (M’Knight.)
13. me enganou — enrolou-a com mentiras lisonjeiras. Este pecado
do primeiro casal foi atroz e agravante; não foi simplesmente o ato de
comer uma maçã, mas sim amor de si mesmos, desonra a Deus,
ingratidão a um benfeitor, desobediência ao melhor dos mestres,
preferência da criatura sobre o Criador.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 14
Vv. 14-24. A SENTENÇA.
14. Então, o SENHOR Deus disse à serpente — O juiz pronuncia
um juízo sobre a serpente material, que é amaldiçoada sobre todas as
criaturas; de um modelo de graça e elegância na forma, veio a ser o tipo
de tudo o que é odioso, repugnante e vil (Leclerc, Rosenmuller); ou a
maldição converteu sua condição natural em castigo; agora é assinalada
com infâmia e evitada com horror. Depois sobre a Serpente espiritual, o
sedutor. Já caído, ele tinha que ser degradado ainda mais, e seu poder
totalmente destruído, pela semente dos que ele tinha enganado.
15. a tua descendência — não só os espíritos ímpios, mas também
homens perversos. semente da mulher—o Messias e sua Igreja. (Calvino,
Hengstenberg).
Porei inimizade entre ti e a mulher — Só se pode dizer que Deus
opera assim deixando “à serpente e sua semente à influência de sua
própria corrupção; e aquelas medidas, seguidas para a salvação dos
homens, enchem a Satanás e a seus anjos de inveja e furor.”
tu lhe ferirás o calcanhar — A serpente fere o calcanhar que a
esmaga; e assim Satanás terá permissão de afligir a humanidade de
Cristo, e trazer sofrimento e perseguição sobre seu povo.
Este te ferirá a cabeça — o veneno da serpente está na cabeça; e
uma ferida nessa parte é fatal. Assim, será fatal o golpe que Satanás
receberá de Cristo; mas é provável que ele não entendesse no princípio a
natureza e a magnitude da condenação.
16. E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos
da tua gravidez — Ela foi condenada como esposa e mãe, a sofrer dor
do corpo e angústia da mente. De companheira e auxiliar do homem e
partícipe de seu carinho [Gn_2:18, 23], sua condição daí em diante seria
a de humilde sujeição.
17-19. a Adão disse — obrigado a ganhar a vida lavrando a terra;
mas o que antes da queda fazia com facilidade e prazer, não conseguiria
se depois sem esforços penosos e perseverantes.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 15
19. até que tornes à terra — O homem converteu-se em mortal;
embora não morresse no momento em que comeu a fruta proibida, seu
corpo experimentou uma mudança, e aquela mudança o levaria à
dissolução. Tendo sido dissolvida a união entre sua alma e Deus, ficava
exposto a todas as misérias desta vida, e aos sofrimentos do inferno para
sempre. Que lúgubre capítulo é este na história do homem! Dá-nos o
único relato verdadeiro da origem de todos os males físicos e morais que
há neste mundo, enquanto que apóia o caráter moral de Deus; demonstra
que o homem, feito justo, caiu por não poder resistir uma leve tentação; e
fazendo-se culpado e miserável, sumiu a toda sua posteridade no mesmo
abismo (Rm_5:12). Quão assombrosa a graça que naquele momento deu
a promessa de um Salvador; e conferiu sobre aquela que tinha a
ignomínia de introduzir o pecado, a honra futura de introduzir o
Redentor! (1Tm_2:15).
20. deu o homem o nome de Eva a sua mulher — provavelmente
com referência a que ela seria a mãe do Salvador prometido, como
também de toda a humanidade.
21. Fez o SENHOR Deus vestimenta de peles — Os ensinou a
fazê-las. Isto abrange a instituição do sacrifício de animais, que
certamente era por ordem divina, e a instrução no único modo de culto
aceito para criaturas pecaminosas, pela fé num Redentor. (Hb_9:22).
22. disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como
um de nós — não dito com ironia, como geralmente se supõe, mas com
profunda compaixão. As palavras deveriam traduzir-se: “Eis aqui, o que
chegou a ser o homem que era como um de Nós!” formado no princípio
à nossa imagem, conhecendo o bem e o mal—quão triste sua condição
agora!
Agora para que ele não estenda a mão, e tome também da
árvore da vida (TB) — sendo a árvore uma garantia de vida imortal
com a qual devia premiar-se a obediência, o homem, na queda, perdeu
todo direito à árvore; e portanto, para que não comesse dela, ou se
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fizesse a ilusão de que comendo dela, recuperaria o que tinha perdido, o
Senhor o desterrou do jardim.
24. pôs os querubins — A passagem deveria traduzir-se: “E ele
habitou entre os querubins a leste do jardim de Éden, e um fogo terrível
(ou shekinah) desenvolvendo-se para guardar o caminho da árvore da
vida.” Este era o modo de culto estabelecido agora, para mostrar a ira de
Deus pelo pecado, e ensinar a mediação do Salvador prometido, assim
como o caminho da vida, e também de acesso a Deus. Estas eram as
mesmas figuras que mais tarde estavam no tabernáculo e no templo; e
agora, como então, Deus disse: “do meio dos dois querubins ... falarei
contigo” (Êx_25:22).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 17
Gênesis 4

Vv. 1-26. NASCIMENTO DE CAIM E ABEL.


1. Eva … disse: Adquiri um varão com o auxílio do SENHOR
— quer dizer: “pela ajuda de Jeová”, expressão de gratidão piedosa, e o
chamou Caim, “uma possessão”, como se o valorizasse sobre todas a
coisas; enquanto que a chegada de outro filho, que lhe lembrou a miséria
que ela havia trazido sobre sua descendência, levou-a a chamá-lo Abel,
“vaidade” (Sl_39:5), ou “pesar” “lamentação”. Caim e Abel eram
provavelmente gêmeos; e se tem crido, neste primeiro período da
humanidade, os filhos nasciam em pares (Gn_5:4). (Calvino.)
2. Abel foi pastor de ovelhas — literalmente, “alimentador de
rebanho”, que nos países orientais, sempre incluíam cabras e ovelhas.
Embora Abel fosse o mais novo, menciona-se primeiro, provavelmente
pela preeminência de seu caráter religioso.
3. no fim de uns tempos — Heb. “no fim de dias”, talvez em dia de
descanso e culto.
trouxe … uma oferta ao SENHOR — Ambos manifestaram pelo
mesmo ato de ofertar, sua fé na existência de Deus e no Seu direito à sua
reverência e culto; e se o tipo de oferta era deixada à iniciativa
individual, nada mais natural que um trouxesse “do fruto da terra” e que
o outro, “das primícias do seu rebanho” [Gn_4:4].
4,5. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo
que de Caim e de sua oferta não se agradou — As palavras “agradou-
se” ou “olhou propício”, significam no hebraico, olhar uma coisa com
olhar penetrante, ansioso; que foram traduzidas “inflamar em fogo” de
modo que a aprovação divina do sacrifício de Abel, viu-se em que foi
consumido no fogo (veja-se Gn_15:17; Jz_13:20).
7. Se procederes bem, não é certo que serás aceito? — Na
margem (versão inglesa), “Não terá você a excelência?” que é o sentido
verdadeiro das palavras, referindo-se ao alto privilégio e à autoridade
pertencentes ao primogênito em tempos patriarcais.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 18
o pecado jaz à porta — pecado, isto é, oferta pelo pecado, senso
comum da palavra nas Escrituras, como em Os_4:8; 2Co_5:21; Hb_9:28.
O intento da divina repreensão é este: “Por que te zangas, como se fosse
tratado injustamente? Se fizeres o bem—se fores inocente e sem pecado,
uma oferta de gratidão teria sido aceita como sinal de sua submissão
como criatura. Mas como não fazes o bem, isto é, és pecador, uma oferta
pelo pecado é necessária, e ao trazê-la terias achado aceitação, e
conservado as honras de primogênito”. A linguagem indica que tinham
sido dadas instruções prévias quanto ao modo de adorar. Abel ofereceu
pela fé (Hb_11:4).
a ti cumpre dominá-lo — A alta distinção conferida pela
prioridade de nascimento está descrita em Gn_27:29; e foi a convicção
de Caim de que esta honra lhe tinha sido tirado pela rejeição de seu
sacrifício, e conferida sobre seu irmão. Daí a secreta chama de ciúme,
que se acendeu e chegou a ser um ódio obstinado, e terrível vingança.
8. falou Caim com o seu irmão Abel (RC) — Sob pretexto de uma
familiaridade fraternal, escondeu Caim seu propósito premeditado, até
que houvesse o tempo e o lugar convenientes para o homicídio
(1Jo_3:12; Jd_1:11).
9. Não sei — uma mentira. Um pecado conduz a outro.
10. A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim —
Caim, para acalmar suspeitas, provavelmente tinha estado ocupando-se
nas solenidades da religião, onde foi desafiado diretamente dentre a
visível manifestação de Deus.
11. És agora, pois, maldito por sobre a terra — Uma maldição
acrescentada além da maldição geral por causa do pecado do Adam.
12. fugitivo e errante — condenado a exílio perpétuo, banido,
degradado, miserável vítima de uma consciência acusadora.
13. disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já
não posso suportá-lo — Que sentido entristecedor de miséria! Mas não
há sinal de arrependimento nem clamor por perdão.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 19
14. quem comigo se encontrar me matará — Isto mostra que a
população do mundo já tinha aumentado grandemente.
15. qualquer que matar a Caim — Por um ato especial de divina
paciência, a vida de Caim foi perdoada no então pequeno estado da raça
humana.
pôs ... um sinal em Caim — não uma marca visível, ou sinal feito
com fogo em sua fronte, mas sim um sinal ou garantia de que sua vida
seria respeitada. Alguns pensam que o sinal seria uma ferocidade
selvagem no aspecto, que o tornava objeto de horror universal e que pelo
mesmo seria evitado por todos.
16. Retirou-se Caim da presença do SENHOR — do lugar
estabelecido para o culto. Deixando-o, Caim não só se separou de todos
os seus parentes, mas abandonou as ordenanças da religião,
provavelmente rejeitando todo temor de Deus, de modo que a última
condição deste homem seria pior que a primeira. (Mt_12:45).
terra de Node — “terra de fuga ou desterro”, que alguns supõem
que era a Arábia Pétrea, que foi amaldiçoada com esterilidade por causa
dele.

Vv. 17-22. edificou uma cidade — foi nas cidades onde a raça
humana obteve sempre o maior progresso social; e vários dos
descendentes de Caim se distinguiram por seu talento criativo nas artes.
19. Lameque tomou para si duas esposas — Esta é a primeira
transgressão da lei do casamento na história, e a prática da poligamia,
como todas as transgressões das instituições de Deus, foi fonte de
corrupção e miséria.
23, 24. disse Lameque às suas esposas — Este discurso está em
forma poética, provavelmente é um fragmento de um poema, irradiado
até o tempo de Moisés. Parece indicar que Lameque tinha dado morte a
um homem em defesa própria, e o propósito era o de assegurar a suas
esposas, segundo a preservação de Caim, que um homicida sem
intenção, como ele o era, não poderia estar em perigo.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 20
26. daí se começou a invocar o nome do SENHOR — O povo de
Deus, provavelmente um nome dado em zombaria pelos mundanos.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 21
Gênesis 5

Vv. 1-32. GENEALOGIA DOS PATRIARCAS.


1. livro da genealogia —Veja-se Gn_11:4.
Adão — usado aqui ou como o nome próprio do primeiro homem,
ou da raça humana em geral.
5. Viveu Adão — O aspecto mais chamativo deste catálogo é a
longevidade da Adão e seus descendentes imediatos. Dez são
enumerados em sucessão direta cujas vidas em muito excederam os
limites comuns que conhecemos nós, sendo a vida mais curta de 365
anos [Gn_5:23], e a mais longa de 930 anos [Gn_5:27]. É inútil
perguntar que causas secundárias teriam contribuído a esta prolongada
longevidade — talvez um físico vigoroso, a natureza de sua alimentação,
a temperatura e salubridade do clima; ou, finalmente, como esta lista
inclui só os verdadeiros adoradores de Deus—se sua longa idade se
deveria ao melhor governo de suas paixões e ao curso tranquilo e
pacífico de sua vida. Como não podemos ter evidência satisfatória sobre
estes pontos, é sensato relacionar o assunto à soberana vontade de Deus.
Podemos, entretanto, traçar algumas das causas importantes devido às
quais isto era útil na anterior economia da Providência. Foi o meio
principal de perpetuar o conhecimento de Deus, das grandes verdades da
religião, como também a influência da piedade genuína. De modo que,
como seu conhecimento era obtido pela tradição oral, eles estariam em
situação de conservá-lo na maior pureza.
21. Enoque … gerou a Metusalém — Este nome significa “Ele
morre e envia”, de modo que Enoque o deu como profético do dilúvio.
Calcula-se que Matusalém morreu no ano da grande catástrofe.
24. Andou Enoque com Deus — Uma frase comum no oriente que
significa trato constante e familiar.
já não era, porque Deus o tomou para si — Em Hb_11:5 nos é
dito que foi trasladado ao céu — um grande milagre, que tinha por
motivo efetuar o que os meios comuns de ensino não tinham obtido, dar
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 22
uma prova evidente a uma era de incredulidade quase universal, de que
as doutrinas que ele tinha ensinado (Jd_1:14-15), eram verdadeiras, e de
que sua dedicação à causa de Deus e da justiça no meio da oposição, era
agradável à mente de Deus.
26. Lameque — pessoa distinta da que se menciona no capítulo
anterior. Como seu tocaio, entretanto, este também falou em forma
poética por ocasião do nascimento de Noé — isto é, “descanso” ou
“consolo”. “A alusão, sem dúvida, faz referência às consequências
penais da queda nos afãs e sofrimentos terrestres, e a esperança de um
Libertador, inspirada pela promessa a Eva. Que esta expectativa se
fundou numa comunicação divina, inferimo-lo pela importância a ela
dada e a confiança de sua expressão” (Peter Smith).
32. Era Noé da idade de quinhentos anos e gerou — Que ele e
outros patriarcas fossem de idade avançada, antes que lhes nascessem
filhos, é uma dificuldade explicada provavelmente pela circunstância de
que Moisés aqui não faz constar seus filhos nascidos antes, mas sim só
aos que formam a sucessão desde Adão por meio de Sete até Abraão.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 23
Gênesis 6

Vv. 1-22. A MALDADE DO MUNDO.


2. vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram
formosas — Os primeiros são os descendentes da família de Sete, que
eram religiosos por profissão; as segundas são da família de Caim, o
apóstata. Casamentos mistos, entre pessoas de princípios e práticas
opostos eram necessariamente fontes de grande corrupção. As mulheres,
sendo irreligiosas, como esposas e mães exerceriam uma influência fatal
à existência da religião em suas casas, e por conseguinte o povo daquela
época posterior se afundou até a mais abjeta depravação.
3. carne (TB) — totalmente viciada e sem esperança.
Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para
sempre no homem — Cristo, como Deus, por seu Espírito que inspirava
a Enoque, a Noé e talvez a outros profetas (1Pe_3:20; 2Pe_2:5; Jd_1:14),
tinha pregado o arrependimento aos antediluvianos; mas eles foram
incorrigíveis.
e os seus dias serão cento e vinte anos — É provável que a
corrupção do mundo, que agora tinha chegado a seu topo, teria estado
aumentando por longo tempo e gradualmente, e esta ideia acha apoio na
longa trégua concedida.
4. gigantes — a palavra em hebraico dá a entender nem tanto a
ideia de grande estatura como a de ferocidade desenfreada, seres ímpios
e atrevidos, que estendiam a destruição e mortandade por toda parte.
5, 6. Viu o SENHOR … se arrependeu … lhe pesou — Deus não
pode mudar (Ml_3:6; Tg_1:17); mas, para adaptar a linguagem à nossa
natureza e experiência, Ele é descrito como se estivesse prestes a mudar
Seu visível proceder para com a humanidade; e de misericordioso e
paciente, fosse transformar-se num Deus de juízo; e, como aquela raça
ímpia tinha enchido a medida de suas iniquidades, Ele estava prestes a
fazer uma terrível demonstração de Sua justiça (Ec_8:11).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 24
8. Porém Noé achou graça diante do SENHOR — Que terrível
estado de coisas quando um só homem ou uma família piedosa e virtuosa
existia entre os que professavam ser filhos de Deus!
9. Noé foi um homem justo e perfeito (TB) — não absolutamente;
porque da queda do Adam, nenhum homem esteve livre do pecado,
exceto Jesus Cristo. Mas como vivia pela fé, era justo (Gl_3:2; Hb_11:7)
e perfeito — isto é, sincero em seu desejo de fazer a vontade de Deus.
11. A terra estava ... cheia de violência. — Em ausência de algum
governo bem organizado, é fácil imaginar-se quantos males haveria. Os
homens faziam o que lhes parecia bem a seus próprios olhos e, não
havendo nenhum temor de Deus, abundavam a destruição e a miséria.
13. Disse Deus a Noé — Quão alarmante seria o anúncio da
destruição ameaçada? Não havia nenhuma manifestação visível dela. O
curso da natureza e da experiência parecia contrário à probabilidade de
que ocorresse. A opinião pública zombaria de semelhante anúncio. Todo
mundo se juntaria contra Noé. Entretanto, persuadido de que a
comunicação vinha de Deus, pela fé (Hb_11:7) começou a preparar os
meios para salvar-se a si mesmo e a sua família da calamidade
ameaçadora.
14. Faze uma arca — arca, enorme caixa (Êx_2:3).
de tábuas de cipreste — Provavelmente de madeira de cipreste,
famosa por sua durabilidade, e abundante nas montanhas de Armênia.
compartimentos — camarotes, pequenas celas.
a calafetarás com betume por dentro e por fora — breu mineral,
asfalto, ou alguma substância betuminosa que, estendida sobre a
superfície e endurecida, a tornaria impermeável.
15. Deste modo a farás — Segundo a descrição a arca não era um
casco de navio, mas sim uma casa imensa da forma e estrutura das casas
no Oriente, destinada não para navegar, mas sim só para flutuar. Como o
côvado equivalia a 446 milímetros, a arca seria de 133.8 metros de
comprimento; 22,8 de largura com 13,38 de altura — três vezes o
comprimento de um couraçado da marinha britânica.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 25
16. Uma abertura — provavelmente uma clarabóia no teto, feita
de algum material transparente.
de um côvado de altura — indicação de levantar o teto no centro,
aparentemente para formar um declive para fazer correr a água de cima.
17-22. Eu vou trazer o dilúvio de águas (TB) — A repetição do
anúncio para estabelecer sua certeza (Gn_41:32). Seja qual for a opinião
que se tenha a respeito da operação de leis e agências naturais no dilúvio,
foi trazido pela palavra de Deus como castigo pela enorme maldade dos
habitantes.
18. Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança — uma
promessa especial de livramento, para o convencer da confiança que se
devia pôr nEle. A substância e os termos da aliança constam em
Gn_6:19-21.
22. Assim fez Noé — Ele começou sem demora a preparar a obra
colossal, e em cada passo de seu progresso seguia fielmente as direções
divinas que tinha recebido.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 26
Gênesis 7

Vv. 1-24. A ENTRADA NA ARCA.


1. Disse o SENHOR a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa
— A arca já estava terminada; e agora, com o espírito de uma fé
implícita, que tinha influenciado em toda sua conduta, Noé esperava
ordens de Deus.
2, 3. De todo animal limpo … das aves — casais de toda espécie
de animais, exceto os habitantes dos mares, tinham que ser tomados para
a conservação de suas respectivas classes. Esta foi a regra geral de
admissão; mas quanto aos animais que se chamavam “limpos”, foram
tomados três pares, tanto de animais como de aves; e a razão foi que sua
rápida multiplicação era assunto de suma importância, quando a terra
fosse renovada devido a sua utilidade como artigos de alimento ou para o
serviço do homem. Mas para que era o sétimo indivíduo de cada classe?
Evidentemente estava reservado para o sacrifício; de modo que durante a
estada de Noé na arca, e depois de sua volta à terra seca, foi feita
provisão para celebrar os ritos do culto segundo a religião do homem
caído. Noé não deixou para trás sua religião, como muitos. Fez provisão
para ela durante sua prolongada viagem.
4. daqui a sete dias — Uma semana para que o mundo se
arrependesse! Que pausa solene! Continuariam ridicularizando e rindo-se
da loucura de Noé? Aquele cujos olhos viram e cujo coração sentiu a
medida completa da iniquidade e da perversidade humana, nos contou de
seu desprezo temerário (Lc_17:27).
9. entraram para Noé, na arca, de dois em dois — Sem dúvida
eram guiados por um impulso divino. O número não foi tão grande como
à primeira vista se imaginaria. Calculou-se que não há mais de trezentas
espécies distintas de animais e aves, e que as inumeráveis variedades
quanto ao tamanho, forma e cor, devem-se à influência do clima e outras
circunstâncias.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 27
16. e o SENHOR fechou a porta — Literalmente, “cobriu-lhe ao
redor”. Este ato de encerrá-lo deu a entender que este homem tinha vindo
a ser objeto de Deus, e que para os de fora a época da graça tinha
terminado. (Mt_25:10).
17. cresceram as águas e levantaram a arca — Parece que foi
levantada tão gradualmente que, talvez, quase não foi perceptível o
movimento aos que ocupavam a arca.
20. Quinze côvados acima deles … os montes foram cobertos —
uns sete metros acima dos montes mais altos. Esta linguagem não é
consequente com a teoria de um dilúvio parcial.
21. Morreram todos os seres … aves ... animais domésticos ...
animais selvagens (NTLH) — foi um princípio uniforme no proceder
divino que, quando os juízos de Deus se executam no mundo, ficam
incluídas todas as coisas associadas com os que provocaram Sua ira
(Gn_19:25; Êx_9:6). Além disso, agora que a raça humana estava
reduzida a uma só família, era necessário que os animais fossem
proporcionalmente reduzidos, pois de outra maneira por seu grande
número eles teriam adquirido a preponderância e dominado aos poucos
que tinham que repovoar a terra. Assim a bondade estava mesclada com
a severidade; o Senhor exerce juízos em sabedoria, e na ira se lembra da
misericórdia.
24. cento e cinquenta dias — Um período de cinco meses. Embora
fazia muito que toda criatura vivente teria desaparecido, tão longa
continuação do dilúvio tinha por propósito mostrar o profundo desagrado
de Deus pelo pecado e os pecadores. Pensemos em Noé durante tal crise.
Sabemos (Ez_14:14) que ele era homem que vivia e respirava
habitualmente numa atmosfera de devoção; e havendo no exercício desta
elevada fé feito de Deus o seu refúgio, não temia “ainda que as águas
tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam”
[Sl_46:3].
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 28
Gênesis 8

Vv. 1-14. A DIMINUIÇÃO DAS ÁGUAS.


1. Lembrou-se Deus de Noé — Se cumpriu o propósito divino
nesta terrível dispensação, e o mundo tinha sofrido aquelas mudanças
necessárias que o preparavam para ser a residência do homem sob uma
nova economia da Providência.
de todos os animais … na arca — Bela ilustração de Mt_10:29.
Deus fez soprar um vento sobre a terra — Ainda que a divina
vontade teria podido secar a massa líquida num instante, emprega-se a
agência de um vento (Sl_104:4), provavelmente um vento quente, o qual,
pela evaporação rápida, voltaria a absorver uma das águas na atmosfera;
e pela qual a restante seria gradualmente secada ao infiltrar-se sob a
terra.
4. sétimo mês — sétimo do ano, e não do dilúvio, o qual durou só
cinco meses.
repousou — evidentemente indicando um movimento quieto e
suave.
sobre as montanhas de Ararate — A montanha onde a tradição
diz que repousou a arca, agora chama-se Ara Dagh, montanha do dedo.
A cúpula consta de dois picos, o mais alto dos quais chega a 5.679
metros sobre o nível do mar, e o outro a 4.294 metros.
5. as águas foram minguando — O decréscimo das águas foi por
motivos sábios, extremamente lento e gradual, sendo o período de
baixada quase dobro do da ascensão.
6. Ao cabo de quarenta dias — É fácil imaginar o ardente anseio
que sentiriam Noé e sua família, de desfrutar novamente da vista da terra
como também de respirar ar fresco; mas era completamente compatível
com a fé e a paciência, fazer averiguações quanto a se a terra estava já
preparada para eles.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 29
7. e soltou um corvo — O aroma da carniça o atrairia a ficar, se a
terra estava já em estado habitável. Mas seguiu revoando pelo lugar, e,
sendo ave solitária, provavelmente deveu posar sobre coberta.
8-11. Depois, soltou uma pomba — Ave que voa baixo e tem
tendência de voltar ao lugar de seu domicílio.
10. de novo soltou a pomba — Seu voo, julgando pelo tempo que
esteve fora prosseguiu a grande distancia, e a folha de oliveira que trouxe
em seu pico, talvez por algum impulso sobrenatural, dava prova de que
os picos dos montes já estavam livres.
12. enviou a pomba; porém ela não voltou mais para ele (TB) —
Nestes resultados, percebemos uma sabedoria e prudência muito
superiores à inspiração do instinto; discernimos a influência de Deus que
guiava todos os movimentos desta ave, para o ensino de Noé e para
avivar as esperanças da família.
mais sete dias — uma forte presunção de que Noé observava o
sábado durante sua estada na arca.
13, 14. Noé removeu a cobertura da arca — talvez só o suficiente
para lhe proporcionar uma vista da terra em redor. Ainda por quase dois
meses, não se moveu de sua morada, enquanto não recebesse a
permissão expressa da parte de Deus. Nós devemos esperar que a direção
da Providência divina guie cada passo de nossa jornada.

Vv. 15-22. A SAÍDA DA ARCA.


15, 16. disse Deus a Noé: Sai da arca — Saíram da maneira mais
ordenada: primeiro os seres humanos, e logo os animais de toda carne
(v. 17), literalmente, “segundo suas famílias” [v. 19], indicando que
tinham aumentado na arca.
20. Levantou Noé um altar ao SENHOR — literalmente, “um
lugar alto”, talvez um montão de terra, sobre o qual se ofereceu um
sacrifício. É extremamente interessante e belo saber que o primeiro
cuidado deste devoto patriarca era o de dar graças por esta assinalada
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 30
prova de misericórdia e bondade que ele e sua família tinham
experimentado.
e, tomando de animais limpos e de aves limpas — Por tão grande
libertação, um reconhecimento especial era necessário.
21. o SENHOR aspirou o suave cheiro — O sacrifício devotado
pela fé de um justo como Noé, foi aceito como o incenso mais fragrante.
disse (o Senhor) consigo mesmo — isto é: “jurei que as águas de
Noé não mais inundariam a terra” (Is_54:9).
porque — quer dizer, “embora o pensamento seja perverso” em
vez de infligir outro dilúvio destruidor, Eu os perdoarei, para que
desfrutem das bênçãos da graça, por meio do Salvador.
22. Enquanto durar a terra — A consumação sugerida em
2Pe_3:7, não viola a promessa que era válida só durante a continuação
daquele sistema. Não haverá dilúvio entre este dia e aquele, quando a
terra será consumida por fogo (Chalmers).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 31
Gênesis 9

Vv. 1-7. A ALIANÇA.


1. Abençoou Deus a Noé — Aqui se apregoa de novo a lei da
natureza que foi anunciada a Adão, consistindo, como originalmente, em
várias partes.
Sede fecundos, etc. — Esta primeira parte refere-se à transmissão
da vida, sendo anunciada de novo a bênção original nas mesmas palavras
em que tinha sido prometida no princípio [Gn_1:28].
2. Pavor e medo de vós virão — a segunda parte estabelece
novamente o domínio do homem sobre os animais inferiores: mas agora
se funda não como no princípio no amor e na bondade, mas no temor:
este temor do homem prevalece tanto entre os membros fortes como nos
fracos das tribos animais, e afasta de suas habitações a todos menos
aqueles empregados em seu serviço.
3. Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento — A terça
parte tem que ver com os meios de sustento de vida. Pela primeira vez,
como parece, foi permitido ao homem o uso de alimento animal, a carne,
mas foi concedido com uma restrição.
4. Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não
comereis. — A única intenção desta proibição foi prevenir aqueles
excessos de ferocidade, de canibalismo consistente em comer a carne de
animais vivos, ao qual eram propensos os homens nas primeiras épocas
da terra.
5. Certamente, requererei o vosso sangue, o sangue da vossa
vida — A quarta parte estabelece um novo poder para proteger a vida. A
instituição de magistrados civis (Rm_13:4), armados de autoridade
pública e oficial para reprimir a comissão da violência e do crime. Tal
poder não tinha existido na sociedade patriarcal.
6. Se alguém derramar o sangue do homem … porque Deus fez
o homem segundo a sua imagem — É verdade que aquela imagem foi
obscurecida pela queda, mas não se perdeu. Em vista disto, a vida de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 32
cada homem tem um alto valor, até a do mais pobre e mais humilde, e na
destruição desta vida se envolve uma terrível criminalidade.

Vv. 8-29. O ARCO-ÍRIS.


13. porei nas nuvens o meu arco — Colocado, ou constituído.
Este fenômeno comum e familiar é a promessa de paz, e sua aparição
quando começam as chuvas, seria recebida com os mais vivos
sentimentos de alegria.
20. Noé … plantou uma vinha (RC) — Noé tinha sido criado
provavelmente no cultivo da terra, e começou de novo aquele trabalho ao
sair da arca.
21. Bebendo do vinho, embriagou-se — Talvez nas festividades
da colheita de uvas. Esta única mancha no caráter de um homem tão
eminentemente piedoso, seria, crê-se, o resultado de sua ancianidade ou
da inadvertência.
24. Este incidente sucederia escassamente como vinte anos depois
do dilúvio; porque Canaã, cuja conduta foi mais ofensiva até que a de
seu pai, nasceu depois. É provável que haja um longo intervalo incluído
entre estes versículos, e que esta profecia, como a de Jacó sobre seus
filhos, não fosse pronunciada senão até perto do fim da vida de Noé,
quando o espírito profético chegou a ele; esta presunção acha apoio no
fato de que se menciona sua morte imediatamente depois.
25. Maldito seja Canaã — Esta maldição se cumpriu na destruição
dos cananeus, na degradação do Egito, e na escravidão dos africanos,
todos descendentes de Cam.
26. Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem — antes, “Bendito de
Jeová, meu Deus, seja Sem”, uma insinuação de que os descendentes de
Sem seriam particularmente honrados no serviço do verdadeiro Deus,
sendo estabelecida entre eles (os judeus) por séculos, sua igreja, e deles
veio Cristo, segundo a carne. Eles tomaram posse de Canaã, e os
habitantes daquela terra foram feitos suas servos ou por conquista, ou,
como os gibeonitas, por submissão [Js_9:25].
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 33
27. Engrandeça Deus a Jafé — significando um vasto aumento em
descendência e posses. Com efeito, seus descendentes foram os mais
ativos e empreendedores, estenderam-se sobre as porções melhores e
maiores do mundo, em toda a Europa e uma parte considerável da Ásia.
habite ele nas tendas de Sem — Está sendo cumprida esta profecia
hoje em dia; assim na Índia está estabelecido o governo britânico, e estão
os anglo-saxões no poder da Europa até a Índia, e da Índia sobre todo o
continente americano. Que profecia tão maravilhosa em poucos
versículos (Is_46:10; 1Pe_1:25)!
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 34
Gênesis 10

Vv. 1-32 GENEALOGIAS.


1. filhos de Noé — O historiador não resolveu este catálogo
segundo a ordem dos nascimentos; porque o relato começa com os
descendentes de Jafé, e a linhagem de Cam vem antes da de Sem, ainda
que se diga expressamente que aquele era o filho mais novo de Noé; e
Sem era irmão mais velho de Jafé (Gn_10:21), a verdadeira interpretação
dessa passagem.
gerações, etc. — o relato do estabelecimento das nações existentes
no tempo de Moisés, talvez só as principais; porque ainda que a lista
inclua os filhos de Sem, Cam e Jafé, todos os seus descendentes não são
enumerados. Aqueles descendentes, com uma ou duas exceções, são
descritos por nomes indicativos de tribos ou nações, com a terminação
no hebraico im (que indica o plural).
5. as ilhas das nações — frase pela qual os hebreus descreviam
todos os países que eram acessíveis por mar (Is_11:11; Is_20:6;
Jr_25:22). Tais eram com relação a eles os países da Europa, a península
da Ásia Menor e a região de além do Mar Negro. Então, era nestas partes
onde os primeiros descendentes de Jafé se assentaram.
6. filhos de Cam — emigraram rumo ao sul, e suas colônias eram:
a de Cuxe na Arábia, a de Canaã no país conhecido por seu nome (em
Palestina), e a de Mizraim no Egito. Crê-se geralmente que Cam
acompanhou a Mizraim, e pessoalmente dirigiu a colonização, de onde o
Egito chama-se “a terra de Cam” [Sl_105:23, Sl_105:27; Sl_106:22].
8. Ninrode — menciona-se como sobressalente de toda sua família
em renome. Logo se distinguiu por suas valentes e atrevidas proezas em
caçar animais ferozes. Por estes serviços úteis se granjeou o direito à
gratidão pública; e, tendo estabelecido uma influência permanente sobre
o povo, fundou a primeira cidade do mundo [Gn_10:10].
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 35
10. O princípio do seu reino foi Babel — Este reino,
naturalmente, naquele então considerado grande, seria comparativamente
limitado em extensão, e as cidades eram só pequenas fortalezas.
11. Daquela terra saiu ele para a Assíria — ou, como está à
margem de algumas bíblias: “Ele (Ninrode) à cabeça de seu exército saiu
para a Assíria”; quer dizer, para levar lá seus conquista.
e edificou Nínive — diante da cidade de Mosul, sobre o rio Tigre, e
outras cidades próximas. Esta expedição a Assíria, foi uma invasão aos
territórios de Sem, e daí o nome “Ninrode” que significa “rebelde”, se
pensa que foi conferido por causa de sua atrevida rebelião contra a
divina distribuição.
21. A Sem — O historiador o introduz com assinalada distinção
como “pai de todos os filhos de Héber”, o antepassado dos hebreus.
23. Arã — Na divisão geral da terra, os países de Armênia,
Mesopotâmia e Síria couberam a seus descendentes.
24. Arfaxade — A colonização de seus descendentes foi no
extenso vale do Sinar, sobre o Tigre, rumo à parte sul de Mesopotâmia,
incluindo o país de Éden e a região a leste do rio.
25. Pelegue, porquanto em seus dias se repartiu a terra —
Depois do dilúvio (Gn_11:10-16) os descendentes de Noé se localizaram
a seu bel-prazer e desfrutavam do produto do terreno inteiro. Mas
segundo instrução divina, dada talvez por meio de Héber, quem parece
haver-se distinguido por sua piedade e caráter profético, a terra foi
dividida, e o nome de seu filho “Pelegue” foi dado em comemoração do
acontecimento. Veja-se Dt_32:8; At_17:26.
32. São estas as famílias dos filhos de Noé, segundo as suas
gerações, nas suas nações — Esta divisão foi feita da maneira mais
organizada; e o historiador inspirado evidentemente insinua que os filhos
de Noé foram distribuídos segundo suas nações, e cada nação segundo
suas famílias, de modo que cada nação tinha seu território assinalado, e
em cada nação as tribos, e em cada tribo, as famílias estabeleciam-se por
si mesmas.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 36
Gênesis 11

Vv. 1-32. A CONFUSÃO DE LÍNGUAS.


1. toda a terra tinha uma só linguagem (TB) — Os descendentes
de Noé, unidos pelo forte vínculo de um idioma comum, não se tinham
separado, e apesar do mandato divino de “encher a terra”, estavam com
má disposição a separar-se. Os mais piedosos e bem dispostos,
naturalmente, obedeceriam a vontade divina; mas o corpo numeroso,
aparentemente a horda agressiva mencionada (Gn_10:10), resolveram
agradar-se a si mesmos, ocupando a região mais bela a que tinham
chegado.
2. terra de Sinar — o vale fértil, regado pelos rios Eufrates e
Tigre, foi escolhido como o centro de sua união e sede de seu poder.
3. tijolos — como não há pedra nessa região, o tijolo era e é o único
material usado para edificar, como se vê no montão de ruínas no Birs
Nimroud, que pode ter sido a mesma cidade fundada por aqueles antigos
rebeldes. Alguns dos tijolos foram secados ao sol, outros queimados em
fornos e são de diferentes cores.
betume — mineral natural abundante na Mesopotâmia, que
endurecido forma um cimento forte, usualmente empregado na Assíria
hoje em dia, e forma a mescla achada nos tijolos queimados antigamente.
4. uma torre cujo tope chegue até aos céus — expressão
figurativa comum de grande altura (Dt_1:28; Dt_9:1-6).
para que não sejamos espalhados — edificar uma cidade e uma
torre não era um crime; mas fazê-lo para frustrar os conselhos de Deus
para impedir a emigração, era insensato, ímpio e justamente ofensivo a
Deus.
6. não haverá restrição para tudo que intentam fazer —
declaração aparente de que o propósito era viável, e se teria levado a
cabo, se não tivesse sido pela interposição divina.
7. confundamos ali a sua linguagem — literalmente, “seu lábio”;
era um defeito na pronúncia, dando origem a uma diferença em dialeto,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 37
que era inteligível só aos da mesma tribo. Com tanta facilidade foi
frustrado seu propósito por Deus, e foram obrigados à dispersão que eles
mesmos se confabularam para prevenir. É somente pelas Escrituras que
aprendemos a verdadeira origem das diferentes nações e idiomas no
mundo. Pelo milagre das línguas os homens foram espalhados, e
gradualmente se afastaram da verdadeira religião. Por outro milagre as
barreiras nacionais foram derrubadas, para que todos os homens
pudessem ser trazidos de novo a Deus.
28. Ur (agora Orfa) — ou seja, luz, fogo. Seu nome talvez se
derivou do fato de ser dedicada aos ritos do culto ao fogo. Tera e sua
família estavam igualmente contagiados por aquela idolatria como os
outros habitantes (Js_24:15).
31. Sarai seu nora — a mesma Isca [Gn_11:29], neta de Tera,
provavelmente de uma segunda esposa, e segundo costumes primitivos
considerada pronta para o casamento com seu tio Abraão.
foram até Harã — viagem de dois dias de Ur (Orfa) em direção
sul-sudoeste, caminho direito ao vau do rio Eufrates em Rakka, rota mais
próxima e conveniente a Palestina.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 38
Gênesis 12

Vv. 1-20. A CHAMADA DE ABRAÃO.


1. disse o SENHOR a Abrão — Agradou a Deus, quem muitas
vezes foi achado pelos que não O buscam, revelar-se a Abrão talvez por
um milagre. A conversão de Abrão é uma das mais notáveis na história
bíblica.
Sai da tua terra — Provavelmente ele tinha chegado ao
conhecimento e culto do verdadeiro Deus muito tempo antes. Esta
chamada inclui duas promessas: primeiro, que lhe mostraria a terra de
sua futura descendência; e segundo, que em sua posteridade toda a terra
seria bendita (Gn_12:2). Abrão obedeceu, e este ato é frequentemente
mencionado no Novo Testamento como um caso de fé extraordinária
(Hb_11:8).
5. Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram — com sua
esposa e seu sobrinho órfão chegaram a seu destino com toda segurança,
e assim foi cumprida a primeira promessa.
6. até Siquém — ou Sequem, um vale pastoril naquele então
desocupado (Gn_33:18).
até ao carvalho de Moré — antes, leia-se “árvore terebinto” de
Moré, muito comum na Palestina, notável por sua larga ramagem e sua
folhagem verde escura. É provável que em Moré houvesse um bosque
destas árvores, cuja bela sombra levou a Abrão a escolhê-lo para seu
acampamento.
7. Darei à tua descendência esta terra — Deus estava tratando
com Abrão não meramente em sua capacidade pessoal e particular mas
com um olhar dirigido aos interesses mais altos e mais importantes nos
séculos vindouros. Aquela terra deviam ocupá-la seus descendentes
durante séculos como um povo peculiar; as sementes do conhecimento
divino deviam ser ali semeadas para benefício de toda a humanidade; e
considerada em sua situação geográfica, foi escolhida aquela terra com
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 39
sabedoria divina como a mais própria de todas as terras para servir de
berço a uma revelação divina destinada para todo o mundo.
Ali edificou Abrão um altar ao SENHOR — Por este solene ato
de devoção Abrão fez profissão pública de sua religião, estabeleceu o
culto ao verdadeiro Deus, e declarou sua fé na promessa.
10. Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abrão ao Egito —
não retornou ao lugar de seu nascimento, como se lhe tivesse pesado sua
peregrinação e desprezasse a terra prometida, mas se retirou por um
tempo a um país vizinho (Hb_11:15).

Vv. 11-13. A tez de Sarai, sendo que ela vinha de um país


montanhoso, seria fresca e lisa comparada com o rosto pálido das
mulheres egípcias. O conselho que Abrão lhe deu, era verdadeiro quanto
às palavras, mas foi uma estratagema proposta para dar a impressão de
que ela não era mais que uma irmã dele. Sua conduta foi culpada e
inconsequente com seu caráter de servo de Deus; indicava uma
confiança em astúcias mundanas mais que fé na promessa de Deus, e
nisto não só pecou ele mas também tentou a Sarai a pecar.

14. Tendo Abrão entrado no Egito — Parece, segundo os


monumentos daquele país, que já no tempo da visita de Abrão, existia
uma monarquia desde alguns séculos. A sede do governo estava no
Delta, a parte mais setentrional do país, a mesma parte aonde Abrão
tinha que chegar. Era uma raça de reis pastores, em estreita aliança com
os habitantes de Canaã.
15. e a mulher foi levada para a casa de Faraó — Os reis
orientais por muitos séculos reclamaram o privilégio de levar a seu
harém qualquer mulher solteira de quem gostassem. O pai ou irmão
poderá lamentar tal ato como uma calamidade, mas nunca se faz
resistência nem se discute o suposto direito real.
16. Este, por causa dela, tratou bem a Abrão — Os obséquios
eram precisamente os que um chefe pastoril faria a outro.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 40
18-20. Aqui há uma reprimenda humilhante, e Abrão a merecia. Se
Deus não se houvesse interposto, Abrão teria podido sentir a tentação de
ficar no Egito, e esquecido a promessa (Sl_105:13, Sl_105:15). Ainda
Deus repreende com frequência a seu povo, e lhe faz lembrar por meio
de seus inimigos que este mundo não é seu descanso.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 41
Gênesis 13

Vv. 1-18. A VOLTA DO EGITO.


1. Saiu, pois, Abrão do Egito para o Neguebe — Sendo a
Palestina um país montanhoso, a entrada do Egito pela fronteira
meridional é uma ascensão contínua.
2. Era Abrão muito rico — comparado com as tribos pastoris a
que pertencia. Um xeque árabe se considera rico, se tiver cem ou
duzentas carpas; de sessenta a cem camelos, mil ovelhas e cabras
respectivamente. E sendo Abrão “muito rico”, excederia em muito
aquela quantidade de propriedade pastoril. Como a “prata e ouro” são
escassos entre essa gente, a quantidade que tinha Abrão, talvez tinha
provindo da venda de fazenda no Egito.
3. Fez as suas jornadas — seu progresso seria a marchas lentas e
acampamentos frequentes, pois tinha que governar seus movimentos pela
perspectiva de água e lugar de pastagem.
até o lugar … entre Betel e Ai — “uma costa sobressalente—sua
cúpula mais alta descansa sobre pendentes penhascos mais abaixo, e
distingue-se por seus bosques de oliveiras—que oferecia uma base
natural para o altar e sombra adequada para a tenda do patriarca”.
(Stanley.)
4. e aí Abrão invocou o nome do SENHOR — Sentiu um desejo
forte de reanimar sua fé e piedade mais que na cena do culto anterior;
pode ser que para expressar sua humildade e arrependimento por sua má
conduta no Egito, ou sua gratidão por sua libertação dos perigos, e para
aproveitar a primeira oportunidade, ao voltar para a Palestina, levar a sua
família a renovar a aliança com Deus e oferecer os sacrifícios típicos que
assinalavam para as bênçãos da promessa.
7. Houve contenda — O caráter de Abrão aparece aqui a uma luz
mais amável. Tendo um firme sentido da religião, temia fazer algo que
pudesse danificar seu caráter e trazer desonra sobre seu nome.
Corretamente julgou que essas más consequências se produziriam, se
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 42
chegassem a uma desavença duas pessoas às quais a natureza e a graça
tinham unido tão estreitamente [Gn_13:8]. Renunciando a seu direito de
decidir, deu a Ló a liberdade de escolha. A conduta de Abrão não só foi
desinteressada e pacífica mas sim generosa e condescendente em grau
extraordinário, exemplificando os preceitos das Escrituras (Mt_6:32;
Rm_12:10-11; Fp_2:4).
10. Levantou Ló os olhos — os viajantes dizem que da cúpula
desta colina, um pouco “ao oriente de Betel” [Gn_12:8], podem ver o
Jordão, as largas pradarias em cada ribeira, e uma ondulante linha verde
que assinala o curso do rio.
11. Então, Ló escolheu para si toda a campina — Uma escolha
excelente de um ponto de vista terrestre, mas inconveniente para os
melhores interesses de Ló. Ainda que homem bom, parece ter estado
muito sob a influência de um espírito egoísta e avarento. Quantos,
infelizmente, fazem perigar a bem de suas almas pela perspectiva de
vantagens terrestres!
14, 15. Ergue os olhos … toda essa terra que vês — Uma vista
tão extensa do país, por todos os lados, não se pode ter de outro ponto na
vizinhança; e aquelas planícies e colinas, naquela época despovoados
perante os olhos do patriarca, tinham que ser habitados por uma
poderosa nação “como o pó da terra em número”, como com efeito o
eram no tempo de Salomão (1Rs_4:20).
18. nos carvalhais de Manre … onde edificou um altar — A
renovação da promessa foi reconhecida por Abrão com um novo tributo
de gratidão.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 43
Gênesis 14

Vv. 24. UMA GUERRA.


1. Sucedeu — Este capítulo apresenta a Abrão no caráter
imprevisto de guerreiro. A ocasião foi esta: O rei de Sodoma e os reis
das cidades vizinhas, depois de terem sido tributários do rei de Elão,
uniram-se para libertar-se do seu jugo. Para castigar sua rebelião, como
ele considerava, Quedorlaomer, com a ajuda de três aliados, invadiu o
território dos príncipes rebeldes, derrotou-os numa batalha campal, onde
a natureza do terreno favoreceu a seu exército (Gn_14:10), e se apressou
a voltar em triunfo, com uma grande quantidade de cativos e despojos.
12. Tomaram também a Ló … e dos seus bens e partiram —
Como agora a consciência daquele jovem reprovaria o seu egoísmo e
ingratidão por se separar de seu parente tão bondoso e pio! Sempre que
nos desviamos da caminho do dever, afastamo-nos da proteção de Deus,
e não podemos esperar que a escolha que fazemos, seja para nosso bem
permanente.
13. veio um, que escapara — Abrão teria podido desculpar-se de
fazer algo a favor de seu “irmão”, ou seja, sobrinho, quem pouco
merecia que seu tio corresse dificuldades e perigos por causa dele. Mas
Abrão, longe de devolver mal por mal, resolveu tomar medidas
imediatas para o resgate de Ló.
14. Ouvindo Abrão que seu sobrinho estava preso, fez sair
trezentos e dezoito homens ... nascidos em sua casa — escravos
domésticos, que são comuns em países orientais ainda, e são
considerados e tratados como membros da família. Se Abrão pôde levar
trezentos e dezoito escravos e deixar número suficiente para cuidar dos
rebanhos, quão grande era o seu acampamento!
15, 16. repartidos contra eles de noite — Esta guerra entre os
pequenos príncipes da antiga Canaã, é exatamente igual às refregas e
escaramuças entre os xeques árabes de hoje em dia. Quando a parte
derrotada resolve perseguir o inimigo, espera até que todos estejam
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 44
dormindo, então, como não põem sentinelas, lançam-se em cima vindo
de todas as partes, e derrubam as tendas. Se há briga, é uma contenda
desorganizada. Usualmente segue uma desordem, e toda a contenda
termina com poucas perdas ou nenhuma de ambas as partes.
18. Melquisedeque — Esta vitória conferiu um benefício público
para aquela parte do país; e Abrão, ao voltar, foi tratado com alto
respeito e consideração, especialmente pelo rei de Sodoma e
Melquisedeque, quem parece ter sido um dos poucos príncipes nativos,
se não o único, que conhecia e adorava ao “Deus Altíssimo”, a quem
Abrão servia. Este rei, que era um tipo do Salvador (Hb_7:1), deveu
abençoar a Deus pela vitória que tinha sido ganha, e em nome de Deus a
abençoar a Abrão, por cujas armas foi obtida—um reconhecimento
piedoso que nós deveríamos imitar ao ter êxito em qualquer empresa
legítima.
20. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo — Aqui há uma evidência
da piedade de Abrão como também de seu valor; porque foi a um
sacerdote ou mediador oficial entre Deus e ele, a quem Abrão deu a
décima parte dos despojos, sinal de sua gratidão e em honra da divina
ordenança (Pv_3:9).
21. Então, disse o rei de Sodoma … Dá-me as pessoas —
Segundo os costumes de guerra ainda existentes entre as tribos árabes,
Abrão teria podido reter todos os bens resgatados, e este direito foi
reconhecido pelo rei de Sodoma. Mas com sincera dignidade e
generosidade desconhecida naquela parte do mundo, ele respondeu com
frases comuns no Oriente: “Levanto a mão” (isto é, faço juramento) “ao
SENHOR ... e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um
fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a
Abrão” [Gn_14:22-23].
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 45
Gênesis 15

Vv. 1-21. UM ESTÍMULO DIVINO.


1. Depois destes acontecimentos — a conquista dos reis invasores.
veio a palavra do SENHOR a Abrão — frase usada, quando vai
acompanhada de uma visão, para assinalar uma mensagem profética.
Não temas, Abrão — Quando terminou a excitação pela empresa,
possivelmente chegou a ser presa do desalento e o terror pensando na
possível vingança que se estaria meditando contra ele. Para dissipar seu
temor, foi favorecido por este anúncio tão favorável. Tendo tal promessa,
que bem lhe convinha, e a todo o povo de Deus que tem a mesma
promessa, desfazer-se de seus temores e lançar suas cargas sobre o
Senhor! (Sl_27:3).
2, 3. SENHOR Deus, que me haverás de dar …? — Em sua
mente a declaração: “Eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo
grande” [Gn_15:1] não tinha senão um sentido, ou era considerado sob
um só aspecto referente ao cumprimento da promessa, e ainda ele estava
experimentando o desalento da esperança diferida.
é o damasceno Eliézer?… um servo nascido na minha casa será
o meu herdeiro — Segundo o costume das tribos nômades, o servo
confidente, principal, seria herdeiro das posses e dos honras. Mas este
homem teria podido chegar a ser filho só por adoção; mas quão
tristemente afastado teria ficado isto das esperanças de paternidade que
Deus lhe tinha animado a acariciar! Sua linguagem revelou um espírito
latente de mau humor, ou talvez uma decadência momentânea da mesma
virtude pela qual ele é tão renomado – uma submissão absoluta aos
planos de Deus como também a sua maneira de cumprir sua promessa.
4. Não será esse o teu herdeiro — Nenhuma resposta foi dada à
primeira parte de seu discurso; mas tendo renovado sua pergunta com
um espírito de submissão mais conveniente, “no que conhecerei que a
devo herdar?”, ele teve a satisfação de receber uma promessa mais
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 46
categórica quanto à Canaã, promessa que foi imediatamente confirmada
por uma cerimônia notável.
9-21. Toma-me uma novilha, etc. — Em ocasiões de grande
importância, quando duas ou mais pessoas se unem num compromisso,
ou observam exatamente os mesmos ritos que Abrão observou, ou se
não, invocam a lâmpada como sua testemunha. Segundo estas ideias, que
desde tempo imemorial estão gravadas na mente do povo oriental, o
Senhor mesmo condescendeu em entrar numa aliança com Abrão. Não
houve sacrifício de por meio, e o motivo foi que nesta transação ele não
se obrigou a nada. Ele pediu um sinal, e Deus teve prazer em dá-lo a ele,
pelo qual, segundo as ideias orientais, ficava obrigado. Da mesma
maneira Deus entrou numa aliança conosco; e na glória de seu Filho
unigênito, quem se interpôs entre Deus e nós, todos os que creem, como
Abraão, têm um sinal e garantia no dom do Espírito, pelo qual eles
podem saber que herdarão a Canaã celestial.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 47
Gênesis 16

Vv. 1-16. A ENTREGA DE AGAR.


1. Sarai … tinha uma serva egípcia (TB) — escrava, uma das
compradas no Egito.
3. Sarai … deu-a por mulher a Abrão, seu marido — “mulher”
usa-se aqui para descrever uma relação inferior, ainda que não
degradante, em países onde prevalece a poligamia. No caso destas
escravas, que são propriedade pessoal da esposa, se são compradas antes
de seu casamento ou lhe são dadas como obséquio especial a ela,
nenhuma pode vir a ser a esposa secundária do marido sem o
consentimento ou permissão da senhora. Este costume parece ter existido
em tempos patriarcais; e Agar, a escrava do Sarai, da qual ela tinha
inteiro direito de dispor, foi dada pelo oferecimento espontâneo de sua
senhora, para ser a mulher secundária de Abrão, na esperança de
conseguir o herdeiro por longo tempo esperado. Mas foi um passo
errado, que indicava uma falta de confiança singela em Deus, e Sarai foi
primeira em colher os amargos frutos de seu erro.
5. E disse Sarai a Abrão: Me injuriam por tua causa (Versão
Jünemann) — Arrebatamentos de ira, ou golpes, como o original pode
indicar, sucederam-se, até que enfim, percebendo Agar a situação
desesperadora de manter a contenda desigual, resolveu escapar do que
para ela tinha vindo a ser, na realidade como seu nome o indica, uma
casa de escravidão.
7. o Anjo do SENHOR a encontrou no deserto, perto de uma
fonte (NTLH) — Este poço, assinalado pela tradição, estava ao lado do
caminho das caravanas, em meio do Sur, um deserto arenoso a oeste da
Arábia Pétrea, com uma extensão de 241 quilômetros, entre Palestina e
Egito. Por ter tomado este caminho, parece que ela pensava retornar a
seus familiares no Egito. Nada mais que o orgulho, a paixão e a teimosia
poderiam ter levado uma pessoa sozinha a enfrentar os perigos de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 48
semelhante ermo inóspito; e ela teria morrido, se não a tivessem
chamado à reflexão e ao dever a aparição e as palavras do anjo.
11. Ismael — Como outros nomes hebreus, este tinha seu
significado, e se forma de duas palavras – “Deus ouve”. A razão se
explica.
12. Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem —
literalmente, “asno montês, homem”, expressando que a rusticidade do
Ismael e seus descendentes se pareceriam com a dos asnos monteses.
a sua mão se levantará contra todos — descritivo do caráter rude,
turbulento e saqueador dos árabes.
habitará fronteiro a todos os seus irmãos — habitará, levantará
sua tenda. O sentido é que eles manterão sua independência apesar de
todas as tentativas de destruí-los ou subjugá-los.
13. Então, ela invocou o nome — comum em tempos antigos o
nomear os lugares pelas circunstâncias; e o nome dado a este poço foi
em reconhecimento e gratidão da benévola aparição de Deus na hora de
sua aflição.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 49
Gênesis 17

Vv. 1-27. A RENOVAÇÃO DA ALIANÇA.


1. Quando atingiu Abrão a idade de noventa e nove anos —
Treze anos depois do nascimento do Ismael [Gn_16:16]. Durante aquele
intervalo ele tinha desfrutado dos consolos da comunhão com Deus, mas
não tinha sido favorecido com nenhuma revelação especial como antes,
talvez por causa de seu apressado e culpado casamento com Agar.
apareceu-lhe o SENHOR — alguma manifestação visível da
presença divina, provavelmente a shekiná ou glória radiante de
resplendor subjugador.
Eu sou o Deus Todo-poderoso — o nome pelo qual se dava a
conhecer os patriarcas (Êx_6:3), designado para expressar o sentido de
todo-suficiente” (Sal_16:5-6; Sal_73:25).
anda na minha presença e sê perfeito — reto, sincero (Sal_51:6)
de coração, palavra e conduta.
3. Abrão prostrou-se com o rosto em terra (TB) — atitude da
mais profunda reverência assumida pelo povo oriental. Consiste em que
o corpo prostrado descanse sobre as mãos e joelhos, com o rosto
inclinado até tocar a terra. É uma expressão de humildade consciente e
reverência profunda.
4. Eu faço com você esta aliança (NTLH) — faz-se nova menção
da aliança como base da comunicação que segue. É a aliança da graça
feita com todos os que creem no Salvador.
5. Abrão já não será o teu nome, e sim Abraão — Em países
orientais uma mudança do nome é o anúncio de alguma circunstância
nova na história, posição ou religião do indivíduo que o leva. Faz-se a
mudança de várias maneiras: às vezes abandonando por completo o
velho nome pelo novo; ou combinando o velho com o novo; ou algumas
vezes se introduzem umas poucas letras, de modo que a forma mudada
expresse a diferença no estado ou perspectiva do dono. É surpreendente
a rapidez com que um novo nome chega a conhecer-se e se espalha pelo
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 50
país o significado da mudança. Ao tratar com Abraão e Sarai, Deus
sentiu prazer em ajustar seu modo de proceder às ideias e costumes do
país e da idade. Em lugar de Abrão “pai alto” tinha que chamar-se
Abraão “pai de multidão de nações” (Ap_2:17).
8. Dar-te-ei … a terra — Anteriormente tinha sido prometida a
Abraão e sua posteridade (Gn_15:18). Aqui lhe é prometido como
“herança perpétua”, era portanto tipo do céu, “uma pátria melhor”
(Hb_11:16).
10. todo macho entre vós será circuncidado — Esta é o sinal da
Igreja do Antigo Testamento como o batismo o é no Novo, e portanto
chama-se a “aliança da circuncisão” (At_7:8; Rm_4:11). Os termos da
aliança eram estes: de um lado Abraão e seus descendentes tinham que
observar o rito da circuncisão; e do outro, Deus prometia como resultado
de tal observância, lhes dar Canaã como possessão perpétua, ser Deus
para ele e a sua posteridade, e que nele e seus descendentes seriam
benditas todas as nações.
15, 16. A Sarai … dela te darei um filho — Os propósitos de
Deus gradualmente se dão a conhecer. Fazia tempo que tinha sido
prometido um filho a Abraão. Agora, finalmente, se lhe informa que será
um filho de Sarai.
17. se prostrou Abraão, rosto em terra, e se riu — Não é a risada
burlesca de incredulidade, mas sim um sorriso de alegria perante a
probabilidade do acontecimento (Rm_4:20).
18. Tomara que viva Ismael diante de ti — a solicitude natural de
um pai. Mas os pensamentos de Deus não são como os pensamentos do
homem [Is_55:8].
19, 20. As bênçãos da aliança estavam reservadas para Isaque, mas
bênçãos comuns foram prometidas em abundância a Ismael; e ainda que
a igreja visível não descendeu de sua família, entretanto, pessoalmente
ele poderia desfrutar de seus benefícios, e é de esperar-se que
efetivamente tenha desfrutado deles.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 51
Gênesis 18

Vv. 1-8. ELE HOSPEDA A ANJOS.


1. Apareceu o SENHOR a Abraão — outra manifestação da
presença divina, mais familiar que qualquer outra relatada até agora;
mais parecida com a que houve no cumprimento dos tempos, quando o
Verbo se fez carne.
carvalhais de Manre — antes, terebinto ou carvalho de Manre –
uma árvore alta e frondosa, ou uma arvoredo.
assentado à entrada da tenda — como a tenda é sufocante e
calorosa ao meio-dia, geralmente se busca a parte junto à porta onde há
sombra e possibilidade de circulação de ar.
2. Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens — Os viajantes
naquela parte do mundo empreendem suas viagens à saída do sol, e
caminham até meio-dia, hora em que buscam algum lugar de descanso.
correu … ao seu encontro — Quando o visitante é uma pessoa
comum, o dono da casa simplesmente se levanta; mas se for pessoa de
posição superior, o costume é avançar um pouco na direção do estranho,
e depois de uma profunda reverência, voltar-se e conduzi-lo à tenda,
pondo um braço ao redor de sua cintura, ou lhe dando palmadas no
ombro, enquanto caminham, para lhe assegurar cordiais boas-vindas.
3. Senhor meu, se tenho achado graça nos teus olhos (TB) — A
hospitalidade oferecida é justamente a mais adequada e agradável, e mais
grata, sendo a primeira coisa observada ainda, pelo povo pastoril de
Hebrom, a água refrescante para os pés expostos ao calor e ao pó pelo
uso das sandálias.
5. visto que chegastes até vosso servo — Não lhes fez pergunta
alguma. Mas Abraão conheceu seu propósito pelo caminho que
tomaram, aproximando-se diretamente em frente da tenda do xeque, a
qual sempre se distingue das demais, e mostrando assim seu desejo de
ser hospedados.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 52
6. Apressou-se, pois, Abraão para a tenda de Sara … Amassa
depressa três medidas de flor de farinha e faze pão assado ao
borralho — O pão se faz diariamente, e só a quantidade necessária para
a família, e o fazem sempre as mulheres, usualmente, a esposa. É um
processo curto. A farinha se mescla com água para formar a massa, que
se resolve em tortas. Estas ficam num forno de terra previamente
esquentado pelo fogo. Tirando o fogo, colocam-se as tortas no solo do
forno e cobertas pelas brasas, logo se cozem, e se comem imediatamente.
7. Abraão, por sua vez, correu ao gado, tomou um novilho. —
Alimento animal nunca se provê exceto para pessoas de posição
superior, quando se carneia um cordeiro ou cabrito. Um novilho é uma
amostra ainda mais alta de hospitalidade, e provavelmente seria
cozinhado, como quando há pressa, assado íntegro ou cortado em
pedacinhos postos em assadeiras sobre o fogo. Come-se sempre com
grão cozido boiando em gordura derretida em que também se põe cada
bocado de carne posto num pedaço de pão, antes de levá-lo à boca.
8. leite — um tigela de leite de camela completa o refrigério.
permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore — O anfitrião,
ainda que tenha suficientes serventes, considera um indispensável ato de
cortesia, ficar em pé enquanto seus visitantes comem, e Abraão fez isto,
evidentemente, antes de notar o verdadeiro caráter dos visitantes.

Vv. 9-15. REPREENSÃO A SARA. Uma pergunta a respeito de


sua esposa, coisa muito surpreendente de parte de estranhos, foi o tema
da conversação assim como o cumprimento, dentro de um tempo
especificado, da promessa há muito tempo acariciada; isto mostrou a
Abraão que estava hospedando a pessoas que eram mais que viajantes
comuns (Hb_13:2).
10. Sara o estava escutando, à porta da tenda, atrás dele — O
compartimento das mulheres está na parte traseira da carpa, dividido por
um tabique delgado do dos homens.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 53
12. Riu-se, pois, Sara no seu íntimo — A longa demora parece
que tinha debilitado sua fé. Sara tomou como incrível o anúncio, e
quando foi reprovada por sua risada silenciosa, ela acrescentou a mentira
à sua desconfiança. Isto agravou a ofensa (At_5:4), e só a graça a salvou
(Rm_9:13).

Vv. 16-22. REVELAÇÃO DA DESTRUIÇÃO DE SODOMA.


16. levantaram-se aqueles varões … Abraão ia com eles (RC) —
é costume que o anfitrião acompanhe a seus visitantes um curto trecho.
17. Disse o SENHOR: Ocultarei a Abraão …? — o Senhor dos
visitantes, o próprio Deus, revelou a Abraão o terrível juízo que estava
por ser infligido sobre Sodoma e outras cidades da planície por causa de
sua enorme maldade.
21. Descerei e verei — linguagem usada segundo a maneira dos
homens. Estas cidades seriam exemplos para todas as idades futuras
sobre a severidade de Deus; e portanto é dada uma ampla prova de que o
juízo não foi nem temerário nem excessivo (Ez_18:23; Jr_18:7).

Vv. 23-33. A INTERCESSÃO DE ABRAÃO.


23. Chegando-se Abraão, disse (TB) — A cena descrita está cheia
de interesse e instrução, pois demonstra de uma maneira inequívoca a
eficácia da oração e intercessão. (Veja-se também Pv_15:8; Tg_5:16).
Abraão raciocinou justamente a respeito da retidão do proceder divino
(Rm_3:5-6), e muitas cidades ímpias e nações foram perdoadas por
causa do povo de Deus (Mt_5:13; Mt_24:22).
33. Logo que acabou de falar com Abraão, Jeová foi embora e
Abraão voltou para seu lugar — Por que deixou Abraão de levar mais
adiante sua intercessão? Ou, porque creu estar seguro de que as cidades
seriam salvas (Lc_13:9); ou porque o Senhor impedisse que seguisse
intercedendo (Jr_7:16; Jr_11:14). Mas não havia ali “dez justos”. Houve
um só, e ele poderia ter perecido sem injustiça na ruína geral (Ec_9:2).
Mas às vezes se faz uma diferença, e é nesta ocasião que a graça de Deus
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 54
foi manifestada de uma maneira notável por amor de Abraão. Que
bênção é a de estar relacionado com um santo de Deus!
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 55
Gênesis 19

Vv. 1-38. LÓ HOSPEDA.


1. vieram os dois anjos — mais provavelmente dois dos que
tinham estado com Abraão, comissionados para executar o juízo divino
contra Sodoma.
estava Ló assentado à porta de Sodoma (RC) — Nas cidades do
Oriente este lugar é o mercado, sede de justiça, de trato social e
entretenimento, favorito lugar de descanso preferido especialmente à
tardinha, como é o arco do pórtico, dá boa sombra.
2. vinde para a casa do vosso servo, pernoitai nela —
oferecimento da mesma generosa hospitalidade que se descreve em
Gn_18:2-8, e que ainda se pratica espontaneamente nas cidades
pequenas.
Responderam eles: Não; passaremos a noite na praça — Onde
não há hospedarias nem há conhecidos, é frequente que os viajantes
durmam na rua envoltos em seus mantos.
3. entraram em casa dele — Ao ir viver na planície, Ló pensou
primeiro viver em sua tenda além do povo [Gn_13:12]. Mas
gradualmente foi atraído, habitou na cidade, e sua família se relacionou
com os residentes pelos laços matrimoniais.
4. os homens daquela cidade cercaram a casa — Nisto se veem
provas espantosas de sua maldade. É evidente que “as más companhias
tinham corrompido os bons costumes”, pois de outra maneira, Ló não se
teria conduzido como se conduziu.
12, 13. Tens aqui alguém mais dos teus? … vamos destruir este
lugar — A autoridade apostólica declarou “homem justo” a Ló
(2Pe_2:8); no fundo, bom, embora se contentasse em lamentar os
pecados que via, em vez de agir segundo as suas convicções e retirar-se
com sua família de tal centro de corrupção. Mas foi favorecido; e até
seus parentes corrompidos tiveram por amor dele, um oferecimento de
libertação, o qual foi ridicularizado e rejeitado (2Pe_3:4).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 56
15-17. O interesse bondoso que tomaram os anjos na preservação
de Ló, é demonstrado de maneira bela. Mas Ló se demorava (v. 16). Foi
pela tristeza em face da perspectiva de perder todas as suas propriedades
adquiridas durante muitos anos? ou foi que seu coração generoso ficou
paralisado pelos pensamentos da terrível crise? Esta é uma maneira
caridosa de explicar uma demora que lhe teria sido fatal, se não tivesse
sido pela bondosa insistência e a urgência do anjo.
18, 19. Respondeu-lhes Ló: Assim não, Senhor meu! … não
posso escapar no monte — Que estranha falta de fé e fortaleza!, como
se aquele que tinha intervindo para seu resgate, não o teria protegido nas
solidões da montanha.
21. Quanto a isso, estou de acordo — Seu petição foi concedida,
prevaleceu a oração de fé, e para convencê-lo, por experiência própria,
de que teria sido melhor e mais seguro seguir implicitamente certamente
as advertências divinas.
22. Apressa-te … pois nada posso fazer, enquanto não tiveres
chegado lá — A ruína de Sodoma foi suspensa até que ele esteve
seguro. O cuidado que Deus tem de seu povo (Ap_7:3)—que prova do
amor de Deus para um homem bom ainda que fraco!
24. Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo — Ao levar a
cabo seus propósitos, Deus opera imediata ou mediatamente por Seus
agentes; e há poderosos motivos para crer que foi por este método como
Ele efetuou a destruição das cidades da planície; que foi com efeito, por
meio de uma ação vulcânica. O ato de chover fogo e enxofre do céu
concorda perfeitamente com a ideia, pois estas mesmas substâncias,
levantadas ao ar pela força do vulcão, cairiam numa chuva ardente sobre
a região circundante. Parece que esta opinião foi sustentada por Jó
[Jó_1:16; Jó_18:15]. Se foi produzido milagrosamente ou por meios
naturais empregados por Deus, não é de muita importância determiná-lo;
pois foi um juízo divino, predito e designado para o castigo daqueles
grandes pecadores.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 57
26. Ló foi acompanhado por sua esposa e duas filhas. Mas se foi
por uma curiosidade irresistível, ou por perturbação de seus sentidos, ou
se estava para voltar para salvar algo, sua esposa se deteve, e enquanto
assim desobedecia o conselho final do anjo de “não olhes para trás, nem
pares em toda a campina” [Gn_19:17], a corrente de lava líquida a
envolveu, de sorte que ela deveu ser vítima de sua supina indolência ou
de uma ousadia temerária.
27. Tendo-se levantado Abraão de madrugada, etc. — Abraão
vivia naquele então no Manre, perto de Hebrom, e faz tempo um viajante
verificou a verdade desta passagem. “Da altura que olha para Hebrom,
onde estava em pé o patriarca, o observador hoje em dia tem uma vista
extensa diante de si na direção do Mar Morto. Uma nuvem de fumaça
subindo da planície seria visível a uma pessoa em Hebrom hoje, e
portanto pôde ser vista por Abraão, quando ele olhou em volta de
Sodoma na manhã de sua destruição por Deus.” (Hackett.) Deve ter sido
uma vista horrível, a qual se faz frequente alusão nas Escrituras
(Dt_29:23; Is_13:19; Jd_1:7). “A planície agora coberta pelo Mar Morto,
ou Mar Salgado, mostra na grande diferença de nível entre o fundo da
parte norte e a parte sul do lago – sendo o desta 3 metros e daquela 415
metros – que a parte sul era de formação recente, e foi inundada por
ocasião da ruína das cidades.” (Lynch.)
29. Quando Deus destruiu as cidades (TB). — Este incidente é
mais grato e instrutivo depois de um relato tão doloroso. Mostra-nos que
enquanto Deus é um “fogo consumidor” para os ímpios [Dt_4:24;
Hb_12:29], é amigo dos justos. “Lembrou-se” das intercessões de
Abraão, e quanta confiança isto deveria nos dar a nós em que Ele Se
lembrará das intercessões de um maior que Abraão a nosso favor.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 58
Gênesis 20

VV. 1-18. ABRAÃO NEGA A SUA ESPOSA.


1. Partindo Abraão dali ... habitou entre Cades e Sur —
Deixando o acampamento, dirigiu-se à fronteira sul de Canaã. Na
vizinhança de Gerar havia terra de pastoreio, rica e bem regada.
2. Disse Abraão de Sara, sua mulher: Ela é minha irmã — O
temor às pessoas entre quem se achava, o tentou a mentir. Sua conduta
foi grandemente culpada. Foi um engano, deliberado e premeditado; não
houve nenhuma pressão repentina sobre ele; foi a segunda falta deste
tipo [veja-se Gn_12:13]; de qualquer maneira foi um ato surpreendente
de desconfiança em Deus e capaz de produzir efeitos desastrosos entre os
pagãos vizinhos, cujas tendências perversas não demoraram para
manifestar-se.
Abimeleque … enviou e tomou a Sara (TB) — para fazê-la uma
de suas esposas. Em exercício de um privilégio reclamado pelos
soberanos orientais, já explicado (veja-se Gn_12:19).
3. Deus, porém, veio a Abimeleque em sonhos — Em tempos
primitivos, os sonhos eram com frequência o meio de comunicar
verdades importantes; e este método foi usado para a preservação de
Sara.
9. Então, chamou Abimeleque a Abraão e lhe disse: Que é isso
que nos fizeste? — Em que humilhante perplexidade aparece o patriarca
agora! Ele, um servo do Deus verdadeiro, repreendido por um príncipe
pagão! Quem não preferiria estar no lugar de Abimeleque antes que no
do honorável patriarca tristemente culpado! Que digna atitude a do rei!,
com calma e justiça repreendendo o pecado do profeta, mas respeitando
sua pessoa, e ao mesmo tempo amontoando brasas de fogo sobre sua
cabeça pelos obséquios liberais que lhe fez.
11. Respondeu Abraão: Eu dizia comigo mesmo: Certamente
não há temor de Deus neste lugar — Devido aos horríveis vícios de
Sodoma, parece que se formou a ideia de que todas as demais cidades de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 59
Canaã eram igualmente corrompidas. Pode ser que tenha havido poucos
ou talvez ninguém que temesse a Deus, mas quão triste é quando homens
do mundo demonstram um sentido de honra e um ódio ao crime maior
que um verdadeiro adorador de Deus!
12. ela, de fato, é também minha irmã — Que pobre defesa fez
Abraão! Sua explicação o absolveu da acusação de uma mentira direta e
absoluta, mas ele tinha cometido uma falta contra a moral, pois teve a
intenção de enganar (Gn_12:11-13). A vida de Abraão teria sido
protegida mesmo sem a fraude do que com ela; e que vergonha para ele,
que desconfiança em Deus, que desonra para a religião teria sido
evitado! “Falai a verdade cada um com o seu próximo” [Zac_8:16;
Ef_4:25]
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 60
Gênesis 21

Vv. 1-13. NASCIMENTO DE ISAQUE.


1. Visitou o SENHOR a Sara — A linguagem do historiador
parece escolhida de propósito para engrandecer o poder de Deus como
também sua fidelidade à Sua promessa. Foi a graça de Deus que
produziu este acontecimento como também o de suscitar filhos
espirituais a Abraão, do qual foi típico o nascimento deste filho.
(Calvino.)
3, 4. Ao filho … pôs Abraão o nome de Isaque. Abraão
circuncidou a seu filho Isaque — Deus era reconhecido no nome que,
por mandato divino, foi dado como memorial (Gn_17:19), e também na
dedicação da criança pela administração do selo da aliança (Gn_17:10-
12).
8. Isaque cresceu e foi desmamado — os meninos são
amamentados por mais tempo no Oriente que na Europa – os varões
geralmente por dois ou três anos.
deu Abraão um grande banquete — Nos países orientais este é
sempre momento de uma festividade familiar, e o recém desmamado é
trazido formalmente, na presença dos parentes e amigos reunidos, a
participar de algumas refeições singelas. Isaque, vestido em roupa
simbólica, sinal de primogenitura—foi recebido como herdeiro da tribo.
(Rosenmuller.)
9. Vendo Sara que o filho de Agar … caçoava — Ismael era
sabedor da grande mudança em suas perspectivas, e sob do impulso da
ira e ressentimento, no que foi acompanhado provavelmente por sua
mãe, tratou ao jovem herdeiro com zombaria e talvez com violência
(Gl_4:29).
10. Pelo que disse a Abraão: Deita fora esta escrava e seu filho
(TB) — Só a expulsão de ambos agora poderia conservar a harmonia na
família. A perplexidade de Abraão foi aliviada pelo anúncio da vontade
divina, a qual em tudo, por penoso que seja para a carne e o sangue,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 61
todos os que tememos a Deus e andamos em seus caminhos, como
Abraão, obedecemos com prazer. Esta história, como a relata o apóstolo,
é “uma alegoria” [Gl_4:24], e a “perseguição” pelo filho da egípcia foi o
começo dos quatrocentos anos de aflição dos descendentes de Abraão
pelos egípcios.
12. atende a Sara em tudo o que ela te disser — o que ela disse é
chamado de “Escritura” em Gl_4:30.
13. também do filho da serva farei uma grande nação — Assim
a Providência preponderou numa disputa de família para dar origem a
dois grandes e extraordinários povos.

Vv. 14-21. A EXPULSÃO DE ISMAEL.


14. Levantou-se, pois, Abraão de madrugada, etc. — cedo para
que os viajantes encontrassem um asilo antes de meio-dia. “Pão” inclui
todo tipo de comida. Ismael era um jovem de dezessete anos, e é muito
natural que os chefes árabes enviem seus filhos dessa idade para que
vivam por sua conta: frequentemente apenas com as provisões para uns
poucos dias, numa bolsa.
Ela saiu, andando errante pelo deserto de Berseba — Na
fronteira sul da Palestina, mas fora da direção comum, um deserto muito
extenso, onde perderam o caminho.
15. Tendo-se acabado a água do odre, etc. — Ismael caiu
esgotado pelo cansaço e a sede; a mãe pôs a cabeça dele sob um arbusto
para que absorvesse a umidade, enquanto ela mesma, incapaz de ver seu
sofrimento, sentou-se a certa distância em desesperadora tristeza.
19. Deus abriu os olhos de Agar (NTLH) — Esqueceu ela da
promessa? (Gn_16:11). Quer ela tenha buscado a Deus ou não, Ele teve
consideração por ela e a dirigiu a uma fonte perto dela, mas talvez
escondida entre as sarças, por meio de cujas águas, seu filho quase
moribundo foi reavivado.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 62
20, 21. Deus estava com o rapaz, etc. — Parã, ou seja Arábia,
onde sempre habitou a posteridade dele, (Gn_16:12; também Is_48:19;
1Pe_1:25).
sua mãe o casou com uma mulher — Quando morre o pai de
família, a mãe busca esposa para seu filho, ainda que este seja jovem.
Como Ismael agora estava virtualmente privado de pai, a mãe se
encarregou de formar uma aliança matrimonial para ele, ao que parece
dentre seus familiares.

Vv. 22-34. UMA ALIANÇA.


22. Abimeleque e Ficol — Aqui há uma prova de que a promessa
(Gn_12:2) cumpre-se, num príncipe nativo que deseja formar uma
aliança solene com Abraão. A proposição era razoável, e foi aceita
[Gn_21:24].
25-31. Abraão repreendeu a Abimeleque por causa de um poço
de água — Os poços são de grande importância para um chefe pastoril,
e a feliz operação de abrir um poço novo, dava ao dono certos direitos
solenes. Mas se descuidava suas reparações, aquele que o restaurasse,
adquiria direitos de propriedade. Em terras desocupadas a possessão dos
poços dava direito de propriedade sobre a própria terra, e o temor disto
foi a causa pela qual Abraão repreendeu a Abimeleque. Alguns
descrevem quatro poços, outros cinco, em Berseba.
33. Plantou Abraão uma tamargueira (TB) — Heb., bosque de
tamargueiras, onde se ofereciam sacrifícios, como num templo
descoberto.
34. E foi Abraão, por muito tempo, morador na terra dos
filisteus — Um quadro da vida pastoril, e emblema da vida cristã.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 63
Gênesis 22

Vv. 1-19. OFERECIMENTO DE ISAQUE.


1. pôs Deus Abraão à prova — não para incitá-lo a pecar
(Tg_1:13), senão para prover ocasião para o desenvolvimento da fé
(1Pe_1:7).
Este lhe respondeu: Eis-me aqui! — imediatamente disposto para
o serviço de Deus.
2. Toma teu filho, teu único filho, etc. — Cada circunstância
mencionada significava uma punhalada mais profunda no coração do
pai. Perder seu único filho, e por um ato de sua própria mão, também!—
que multidão de sentimentos contrários entre si, suscitaria esta ordem!
Mas Abraão escutou e obedeceu sem uma queixa (Gl_1:16; Lc_14:26).
3. Levantou-se, pois, Abraão de madrugada — Para que não
houvesse aparência de demora nem desagrado de sua parte, fez todos os
preparativos para o sacrifício antes de empreender a viagem: os
materiais, a faca, os criados que os levassem, pois a viagem desde
Berseba a Moriá era de dois dias; guardou o doloroso secreto sepultado
em seu peito o tempo todo; e como um lugar tão distante teria sido
escolhido por algum motivo importante, crê-se geralmente que “O lugar
que Deus lhe disse” era um das colinas de Jerusalém, sobre o qual o
Grande Sacrifício foi devotado mais tarde.
4. Ao terceiro dia, erguendo Abraão os olhos, etc. — Deixando
os criados ao pé da colina [Gn_22:5], pai e filho subiram, levando um a
faca, e o outro a lenha para consumir o sacrifício [Gn_22:6]. Mas não
havia vítima; e a pergunta feita com toda naturalidade por Isaque
[Gn_22:7], Abraão se contentou respondendo: “Deus proverá para si,
meu filho, o cordeiro para o holocausto”. Se supôs que o propósito desta
extraordinária transação foi o de lhe mostrar, pela ação em lugar das
palavras, a maneira em que todas as famílias da terra seriam benditas; e
que em sua resposta a Isaque, ele previa alguma substituição. Mas é mais
provável que suas palavras fossem pronunciadas evasivamente,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 64
ignorando o resultado, entretanto, com uma confiança sem limites de que
aquele filho, ainda que sacrificado, de algum modo milagroso, seria
restaurado (Hb_11:19).
9. ali edificou Abraão um altar, etc. — Se o patriarca não tivesse
sido sustentado pela completa convicção de que operava em obediência à
vontade de Deus, este esforço teria sido grande demais para a resistência
humana; e se Isaque, então de mais de vinte anos de idade, não tivesse
manifestado igual fé em submeter-se, esta prova não teria podido
realizar-se.
11, 12. do céu lhe bradou o Anjo do SENHOR, etc. — O
sacrifício virtualmente já estava devotado, pois a intenção, o propósito
de fazê-lo, manifestaram-se com toda sinceridade e perfeição. A
Testemunha onisciente igualmente declarou sua aceitação em termos da
mais alta aprovação, de modo que o apóstolo fala do sacrifício como
literalmente feito (Hb_11:17; Tg_2:21).
13-19. Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um
carneiro, etc. — Nenhum método foi ideado mais admiravelmente para
dar ao patriarca uma clara ideia do propósito da graça, que esta
representação pitoresca; e dali a alusão a ela por nosso Senhor (Jo_8:56).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 65
Gênesis 23

Vv. 1, 2. A IDADE E MORTE DE SARA.


1. Foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos (TB) — A única
mulher cuja idade, morte e sepultura mencionam-se nas Escrituras,
possivelmente para fazer honra à venerável mãe do povo hebreu.
2. veio Abraão lamentar Sara e chorar por ela — Veio de sua
tenda para pôr-se à porta de Sara. O “luto” descreve sua conformidade
com o costume usual de sentar-se no solo por um tempo, enquanto que
“chorá-la” indica a natural explosão de sua dor.

Vv. 3-20. COMPRA DE UM LUGAR DE SEPULTURA.


3. Levantou-se, depois, Abraão, etc. — No Oriente as famílias
possuem um lugar próprio para sepultura. Mas a vida de fé de Abraão,
sua condição de peregrino, não permitia que ele adquirisse uma
possessão mesmo pequena (At_7:5).
falou aos filhos de Hete — pediu sua bondosa intervenção para
conseguir a possessão de uma cova que pertencia ao Efrom, um vizinho
rico.
9. Macpela—caverna dupla.
10. Efrom, o heteu, sentando-se no meio — lit., estava “sentado”
entre os filhos do Hete na porta da cidade, onde se tratava todo negócio.
Mas, ainda que era homem principal entre eles, provavelmente era
desconhecido de Abraão.
11-15. De modo nenhum, meu senhor; ouve-me: dou-te o
campo, etc. — Aqui há uma grande demonstração de generosidade, mas
foi unicamente demonstração; porque enquanto Abraão só queria a cova,
ele lhe oferece o campo e a caverna; e ainda que oferecia as duas coisas
como obséquio, esperava naturalmente alguns presentes custosos em
compensação, com os quais não teria ficado facilmente satisfeito.
Sabendo isto o patriarca, quis fazer a compra, e pediu condições.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 66
15. um terreno que vale quatrocentos siclos de prata — como se
houvesse dito Efrom: “visto que quer saber o valor da propriedade, é tal
e tal; mas isso é uma bagatela, que pode pagar ou não, como você
quiser”. Estavam falando nos termos comuns da cortesia árabe, e com
eles, esta indiferença quanto ao pagamento era pura afetação.
16. Tendo Abraão ouvido isso a Efrom, pesou-lhe a prata — o
dinheiro, somando 50 libras, foi pago na presença das testemunhas
reunidas; e foi pesado. O costume de pesar o dinheiro, que às vezes está
na forma de anéis ou entulhos, selados com seu peso, é ainda corrente
em muitas partes do Oriente; e todos os comerciantes nas portas e
bazares levam suas balanças em seu cinturão.
19. sepultou Abraão a Sara — Assim conseguiu a possessão de
Macpela, e depositou os restos de sua lamentada companheira na cova,
que era a única parcela de terra que ele possuía.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 67
Gênesis 24

Vv. 1-9. UMA DILIGÊNCIA MATRIMONIAL.


1. Era Abraão já idoso — Sua ansiedade de ver casado a seu filho
era natural em sua posição de chefe pastoril, interessado em conservar a
honra de sua tribo, e ainda mais como patriarca que tinha respeito à
promessa divina de uma posteridade numerosa.
2. Disse Abraão ao seu mais antigo servo da casa — Como
Abraão era muito idoso e como o herdeiro da promessa não estava em
liberdade de fazer uma visita a sua terra natal, teve que encomendar esta
missão delicada a Eliézer, a quem nesta ocasião fez jurar solenemente
que cumpriria a missão, ainda que era homem de toda confiança. Um
chefe pastoril hoje em dia, seguiria o mesmo caminho, se não pudesse
fazer a diligência pessoalmente.
3. não tomarás esposa para meu filho das filhas dos cananeus —
Entre as tribos pastoris os acertos matrimoniais são feitos pelos pais, e
um jovem tem que casar-se, não entre estranhos, mas sim dentro de sua
tribo, pois os costumes lhe davam o direito, ao qual raramente ou nunca
resiste, à mão de sua prima. Mas Abraão tinha um motivo superior: o
temor de que, se seu filho se casasse com mulher de uma família
cananeia, pouco a pouco fosse afastado do Deus verdadeiro.

Vv. 10-67. A VIAGEM.


10. Tomou o servo dez dos camelos, etc. — Tão grande bagagem
tinha por objetivo dar à embaixada a aparência digna da posição e
riqueza de Abraão; levar as provisões e os obséquios do compromisso
matrimonial, os quais, segundo o costume, iriam repartidos sobre vários
animais de carga além de um ou dois camelos de reserva para caso de
emergência.
partiu, rumo da Mesopotâmia, etc. — Um estranho naquelas
regiões, que deseja ter alguma informação, fica ao lado de algum dos
poços nos subúrbios da cidade, e ali pode estar seguro de ouvir todas as
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 68
notícias do lugar de parte das mulheres que os frequentam todas as
manhãs e todas as tardes. Eliézer fez isto, e deixando que descansassem
seus camelos, esperou a hora da tarde quando se tira a água.
12. E disse consigo: Ó SENHOR, Deus de meu senhor — O
servo parece digno do senhor a quem servia. Resolve seguir a direção da
Providência; e enquanto que mostrava seu bom sentido nos sinais que
fixou, para conhecer o gênio e caráter da futura esposa, nunca duvidou
de que em tal caso Deus o guiaria.
15-21. Antes que tivesse ele acabado de falar, saiu Rebeca (TB)
— como ele previu, uma jovem sem véu, como nas regiões pastoris,
apareceu com seu cântaro ao ombro. Sua aparência honesta, suas
maneiras afáveis, sua cortesia obsequiosa ao baixar as escadas do poço
para tirar água, não só para ele, senão para encher a pilha para seus
camelos, proporcionaram-lhe uma surpresa muito agradável. Ela era
precisamente a pessoa que sua imaginação lhe tinha pintado, e ele passou
a recompensar seus cuidados.
22. tomou o homem um pendente de ouro ... para as mãos dela,
etc. — O aro não era para as orelhas, senão para o nariz; e os braceletes
eram como os que as jovens da Síria e Arábia ainda levam. Levam-se do
cotovelo até o pulso, usualmente feitos de prata, cobre, bronze ou couro.
23-37. e lhe perguntou: De quem és filha? — Depois de dizer seu
nome e sua família, a bondosa donzela se apressou a ir para casa a fim de
contar a notícia da chegada do estranho.
28. e contou aos da casa de sua mãe todas essas coisas — no
compartimento das mulheres. Esta família estava num grau avançado da
vida pastoril, pois vivia em lugar fixo e em casa fixa.
29-31. Rebeca tinha um irmão … Labão … correu ao encontro
do homem — Pelo que sabemos de seu caráter, há motivo para crer que
a vista dos presentes vistosos aumentou sua pressa e acelerou seu
convite.
32-49. Então o homem entrou na casa (TB), etc. — Que belo
quadro de piedade, fidelidade e desinteresse num criado! Rejeitou toda
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 69
atenção para seu próprio conforto, enquanto não dissesse seu nome e o
objetivo de sua visita.
50. Então, responderam Labão e Betuel — Os irmãos fizeram
todos os acertos matrimoniais, pois seu pai provavelmente tinha morrido.
Sua linguagem parece indicar que eram adoradores do verdadeiro Deus.
53. e tirou jóias de ouro e de prata e vestidos — Estes são os
artigos usuais que com dinheiro, formam o dote nas tribos pastoris.
Rebeca se comprometeu, e acompanhou Eliézer a Canaã.
64. apeou do camelo — Se Isaque estivesse em pé, teria sido
descortesia de parte dela continuar sentada; um inferior, se cavalgar,
sempre se apeia na presença de uma pessoa de posição, não fazendo-se
exceção nem das mulheres.
65. tomou ela então o véu e se cobriu. — O véu é parte essencial
do vestido da mulher. Em lugares rurais frequentemente elas o tiram,
mas se aparecer um estranho, o véu é posto para cobrir toda a cara menos
os olhos. Numa noiva o véu é sinal de sua reverência e sujeição a seu
marido.
67. Isaque conduziu-a até à tenda de Sara, mãe dele —
estabelecendo-a em seguida nos direitos e honras de esposa antes de lhe
ver a cara. Desilusões com frequência se sucedem nestes momentos, mas
quando Isaque viu sua esposa, “ele a amou”.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 70
Gênesis 25

Vv. 1-6. OS FILHOS DE ABRAÃO.


1. Abraão tomou outra mulher — antes, “tinha tomado”; porque
Quetura se chama a concubina, ou esposa secundária, de Abraão.
(1Cr_1:32); e pelo fato de que ela lhe deu seis filhos, é improvável que
se tenha casado com ela depois da morte da Sara; e também como
porque em sua vida os despediu para que buscassem sua independência,
é claro que este casamento se relata fora de sua ordem cronológica,
meramente para dar cabal conclusão à história do patriarca.
5, 6. Abraão deu tudo o que possuía a Isaque. Porém, aos filhos
das concubinas que tinha, deu ele presentes — Enquanto que a parte
principal da herança coube a Isaque, os outros filhos, Ismael inclusive,
emigraram à “terra oriental”, e receberam todos uma porção do
patrimônio, talvez em gado e outras coisas; este convênio de Abraão
deve ter sido satisfatório, pois é ainda a regra seguida entre as tribos
pastoris.

Vv. 7-11. A MORTE DE ABRAÃO.


7. Foram os dias da vida de Abraão — Sua morte se relata aqui,
ainda que ele viveu até que Jacó e Esaú tinham quinze anos; justamente
cem anos depois de sua vinda a Canaã, “o pai dos crentes”, “o amigo de
Deus” [Tg_2:23], morreu; e até em sua morte se cumpriram as
promessas (Gn_15:15). Poderíamos ter desejado algum relato de suas
experiências em seu leito de morte; mas o Espírito de Deus nos negou
este relato; tampouco fazia falta; porque (veja-se Mt_7:16) ele passou da
terra ao céu (Lc_16:22). Ainda que morto, ainda vive (Mt_22:32).
9, 10. Sepultaram-no Isaque e Ismael, seus filhos — A morte
muitas vezes põe fim à contenda, reconcilia os que estiveram
distanciados; e faz com que os familiares rivais, como neste caso,
misturem suas lágrimas sobre o sepulcro de um pai.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 71
Vv. 12-18. OS DESCENDENTES DE ISMAEL. Antes de passar à
linhagem do herdeiro prometido, o historiador nos dá um breve relato a
respeito de Ismael, para mostrar que as promessas com relação àquele
filho de Abraão foram cumpridas—primeiro, na grandeza de sua
posteridade (cf. Gn_17:20), e em segundo lugar, em sua independência.
18. Ele se estabeleceu — literalmente, “ele caiu na presença de
seus irmãos” (cf. Gn_16:12).

Vv. 19-34. A HISTÓRIA DE ISAQUE.


19. São estas as gerações — relato dos acontecimentos principais
de sua vida.
21. Isaque orou ao SENHOR por sua mulher — Ainda que foi
provado de uma maneira similar a seu pai, ele não recorreu aos mesmos
meios torcidos. Vinte anos esteve sem ser abençoado com filhos, cujos
descendentes tinham que ser “como as estrelas” [Gn_26:4]. Mas em
resposta às orações de ambos (1Pe_3:7), informou a Rebeca por
inspiração divina que ela ia ser mãe de filhos gêmeos, que chegariam a
ser progenitores de duas nações independentes; que os descendentes do
menor seriam os mais poderosos e subjugariam aos do outro (Rm_9:12,
2Cr_21:8).
27. Cresceram os meninos — desde o começo contrários o um ao
outro em caráter, maneiras e hábitos.
28. Os pais estavam divididos em seu afeto pelos filhos; e enquanto
que os motivos, pelo menos da parcialidade do pai, eram fúteis, a
distinção entre os dois meninos, como sempre sucede em casos
semelhantes, levou a consequências desastrosas.
29. Tinha Jacó feito um cozinhado — feito de lentilhas ou feijões
pequenos, comuns na Síria e no Egito. É provável que fosse feito de
feijões egípcios, que Jacó teria conseguido como manjar delicioso.
Talvez para Esaú eram desconhecidos. O cozinhado destes feijões é
muito saboroso, e para o cansado caçador, debilitado pela fome, o aroma
teria sido uma tentação irresistível.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 72
31. Disse Jacó: Vende-me … teu direito de primogenitura — ou
seja, os direitos e privilégios do mais velho, os quais eram muito
importantes, sendo os principais que os primogênitos eram os sacerdotes
de família (Êx_4:22), e tinham uma porção dobrada na herança
(Dt_21:17).
32. Replicou Esaú: Eis que estou para morrer (TB) — ou seja,
diariamente estou correndo o risco de minha vida; e de que valor me será
minha primogenitura? De modo que desprezou ou não se preocupou com
ela, pelo intenso desejo de satisfazer o seu apetite. Rejeitou seus
privilégios religiosos por uma bagatela, e por este motivo é chamado
“profano” (Hb_12:16; também Jó_31:7, Jó_31:16; Jó_6:13; Fp_3:19).
“Nunca houve comida, exceto a fruta proibida, comprada a preço tão
caro, como este cozinhado de Jacó” (O Bispo Hall).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 73
Gênesis 26

Vv. 1-35. A ESTADA EM GERAR.


1. Sobrevindo fome à terra, além da primeira … foi Isaque a
Gerar — A força da fome em Canaã obrigou Isaque a trasladar-se com
sua família e rebanhos para a terra dos filisteus, onde se achava exposto
a um perigo pessoal, como tinha sucedido com seu pai, por causa da
beleza de sua esposa; mas pela oportuna intervenção de Deus foi salvo
(Sl_105:14-15).
12. Semeou Isaque naquela terra — Durante sua estada naquele
distrito, lavrou uma parcela de terra, a qual, pela bênção de Deus, foi
muito produtiva (Is_65:13; Sl_37:19), e por seu abundante rendimento,
ele aumentou tão rapidamente em riquezas e influência, que os filisteus
temerosos e invejosos de sua prosperidade, o obrigaram a sair do lugar
(Pv_27:4; Ec_4:4). Este incidente pode ilustrar-se com o fato de que até
hoje muitos pastores sírios se fixam por um ano ou dois num lugar,
alugam a terra, com o produto da qual eles comercializam no mercado
próximo, até que as pessoas, por ciúme de sua crescente riqueza, se
negam a renovar o aluguel, e os obrigam a ir para outro lugar.
15. todos os poços que os servos de seu pai tinham cavado nos
dias de Abraão, seu pai, os filisteus haviam atulhado, etc. — a mesma
vil estratagema para incomodar as pessoas contra as quais têm
ressentimento, ainda se pratica, cegando os poços com areia ou pedras, e
corrompendo-os com corpos de animais mortos.
17. vale de Gerar — leito de corrente ou wadi, com uma planície
extensa, desocupada e que dá bom pasto.
18-22. Isaque tornou a cavar os poços de água — O ato de
nomear os poços por Abraão, e o direito hereditário da família à
propriedade, a mudança dos nomes pelos filisteus para apagar todo sinal
de sua origem, a restauração dos nomes por Isaque, e as contendas entre
os respectivos pastores pela possessão exclusiva da água, são
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 74
circunstâncias que ocorrem entre os naturais daquelas regiões tão
frequentemente nestes dias como no tempo de Isaque.
26-33. Abimeleque veio a ele (RC) — Como houve um lapso de
noventa anos entre a visita de Abraão e a de Isaque, o Abimeleque e
Ficol mencionados aqui têm que ter sido os títulos oficiais de pessoas
distintas. Aqui há outra prova de que a promessa (Gn_12:2) estava-se
cumprindo, na proposta de paz que foi apresentada pelo Rei de Gerar.
Qualquer que tenha sido o motivo pelo qual a proposta foi ditada, se pelo
temor de seu crescente poderio, ou pelo pesar pelo mal trato que lhe
tinham dado, o rei e dois de seus cortesãos fizeram uma visita à tenda de
Isaque (Pv_16:7). Seu temperamento tímido e passivo se submeteu às
moléstias de seus vizinhos descorteses, mas agora que eles querem
renovar a aliança, Isaque manifesta sua profundo ressentimento pela
conduta deles, e seu assombro por seu descaramento, ou hipocrisia, em
chegar-se a ele. Mas como era de disposição pacífica, perdoou suas
ofensas, aceitou sua proposta, e os tratou com atenção com um banquete
pelo qual geralmente se ratificava uma aliança.
34. Esaú … tomou por mulher — Se o piedoso Abraão rejeitava
com horror a ideia de que Isaque formasse aliança matrimonial com
alguma mulher cananeia [Gn_24:3], este devoto patriarca se oporia
igualmente a tal união de parte dos filhos de seu filho e podemos
imaginar quanto sofreria, e a paz da família seria alterada, quando seu
errante filho favorito trouxe não menos de duas mulheres idólatras entre
eles. Aqui temos uma nova prova de que Esaú nem desejava a bênção
nem temia o castigo de Deus. Estas esposas nunca se granjearam o afeto
dos pais dele, e este distanciamento foi utilizado por Deus para manter a
família escolhida afastada dos perigos da influência pagã.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 75
Gênesis 27

Vv. 1-27. A DOENÇA DE ISAQUE.


1. Tendo-se envelhecido Isaque e já não podendo ver — Estava
no ano 137 de sua idade; e percebendo de que a morte estava perto,
preparou-se para fazer seu testamento, ato da mais grave importância,
especialmente porque incluía a doação, por um espírito profético, da
bênção patriarcal.
4. faze-me uma comida saborosa, como eu aprecio — talvez para
avivá-lo e fortalecê-lo para o dever; ou antes, como se acostumava
“comer e beber” em todas as ocasiões religiosas, ele não podia conceder
o direito, enquanto não tivesse comido da carne provida para a ocasião
por aquele que tinha que receber a bênção (Adam Clarke). (cf. Gn_18:7).
para que eu coma e te abençoe — É difícil imaginar-se que Isaque
ignorasse o propósito divino (cf. Gn_25:23). Mas o carinho natural,
prevalecendo através da ancianidade e fraqueza, o levava a conferir as
honras e poder da primogenitura sobre seu filho mais velho; e, talvez, ele
não conhecia o que Esaú já tinha feito (Gn_25:34).
6-10. disse Rebeca a Jacó, seu filho — ela estimou em sumo grau
a bênção; sabia que Deus a destinava ao filho mais novo [Gn_25:23]; e
em sua ansiedade de assegurar que fosse conferida sobre a devida
pessoa, sobre aquele que apreciava a religião, ela operou com
sinceridade de fé; mas de maneira torcida, com um zelo errado, e sobre o
princípio falso de que o fim justificaria os meios.
11. Respondeu Jacó … Esaú, meu irmão, é homem peloso (TB)
— É notável que os escrúpulos dele se fundassem não no mal do ato mas
no risco e as consequências do engano.
13-17. Respondeu-lhe a mãe: Caia sobre mim essa maldição —
Sendo acalmada sua consciência pela mãe, fizeram-se os preparativos
para levar a cabo a trapaça; que consistia, primeiro, na carne de cabrito,
que, preparada num guisado temperado com sal, cebolas, alho e suco de
limão, facilmente poderia passar por caça, para um ancião cego, de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 76
sentidos embotados; segundo, em pedaços de pele de cabra atados nas
mãos e ao pescoço, porque seu cabelo suave e sedoso assemelha-se ao da
bochecha de um jovenzinho; terceiro, no longo manto branco, roupagem
de primogênito, que, passando de pai a filho, guardava-se numa caixa
entre ervas fragrantes e flores perfumadas, que a mãe havia provido para
ele.
18-27. Jacó foi a seu pai — A trapaça preparada pela mãe tinha
que ser executada no dormitório do pai. É penoso pensar nas mentiras
deliberadas e a irreverência com que ele agiu. A simulação, ainda que
não tão perfeita, pois quase estragou toda a estratagema, conseguiu
enganar a Isaque; e enquanto lhe dava seu abraço paternal, o ancião foi
transportado a um estado de alta satisfação e deleite.
27. o cheiro do meu filho é como o cheiro do campo — Os odores
aromáticos dos campos e prados da Síria frequentemente dão uma forte
fragrância à pessoa e à roupa, como notaram muitos viajantes.

Vv. 28-46. A BÊNÇÃO.


28. Deus te dê do orvalho do céu — Na mente oriental esta frase
queria dizer, grande abundância de prosperidade. A copiosa queda do
orvalho é indispensável à fecundidade da terra, que de outra maneira
seria árida e estéril por causa do forte calor; abunda mais o orvalho nas
regiões montanhosas, como em Canaã, de onde se chama a terra
abundante (Ne_9:25, Ne_9:35).
fartura de trigo e de mosto — A Palestina era famosa por seus
vinhedos, e produzia variedades de grãos: trigo, cevada, aveia e centeio.
29. Sirvam-te povos — profecia cumprida na derrota das tribos
hostis que se opunham aos israelitas no deserto, e na preeminência e no
poder que eles alcançaram depois do estabelecimento nacional na terra
prometida. Esta bênção não foi realizada por Jacó mesmo mas por seus
descendentes; mas as bênçãos temporários prometidas não eram senão a
sombra das espirituais, as que fizeram a grande distinção na posteridade
de Jacó.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 77
30-35. chega Esaú, seu irmão, da sua caçada — Quase não se
concluiu a cena anterior, quando foi descoberto a fraude. Facilmente
podem imaginar as emoções tanto de Isaque como de Esaú: o assombro,
o alarme e a tristeza do um, o contratempo e a indignação do outro. Mas
a reflexão de um momento convenceu ao patriarca ancião de que a
transferência da bênção era “de Jeová”, e agora era irrevogável. As
importunações de Esaú, entretanto, afligiram-lhe; e como a inspiração
profética estava sobre o patriarca, ele acrescentou o que era tão
agradável a um homem do caráter de Esaú, como teria sido a outra
bênção.
39, 40. Eis que a tua habitação será nas gorduras da terra e no
orvalho dos altos céus (ASV) — a primeira parte é uma promessa de
prosperidade temporária, feita nos mesmos termos, que a de Jacó
[Gn_27:28]; a segunda refere-se à vida errante de piratas caçadores, que
ele e seus descendentes levariam. Ainda que Esaú pessoalmente não
esteve sujeito a seu irmão, sua posteridade foi tributária dos israelitas, até
o reinado do Jeorão, quando se revoltaram e estabeleceram o seu próprio
rei (2Rs_8:20; 2Cr_21:8-10).
41. Passou Esaú a odiar a Jacó — Não é de estranhar-se que Esaú
se ressentisse da conduta de Jacó, e jurasse vingar-se.
Vêm próximos os dias de luto por meu pai — frase comum no
Oriente pela morte de um pai.
42-45. Chegaram aos ouvidos de Rebeca estas palavras de Esaú
— Pobre mulher! logo começa a colher os frutos amargos de seu ardil
fraudulento; vê-se obrigada a separar-se de seu filho, para quem tinha
ideado o projeto, talvez sem mais voltar a vê-lo. E ele também sentiu a
justiça retributiva do céu cair em sua própria família futura.
45. Por que hei de eu perder os meus dois filhos num só dia? —
Isto se refere à lei do “goel”, segundo a qual o mais próximo em
parentesco estaria obrigado a vingar-se da morte de Jacó, em seu irmão
Esaú, e assim Rebeca seria privada dos dois filhos.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 78
46. Disse Rebeca a Isaque — Outro pretexto que ela ideou para ter
o consentimento de seu marido para a viagem de Jacó a Mesopotâmia; e
ela teve êxito por ter tocado o ancião patriarca num ponto fraco, que
afligia a seu piedoso coração: o casamento conveniente de seu filho mais
novo.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 79
Gênesis 28

Vv. 1-19. A SAÍDA DE JACÓ.


1. Isaque, pois, chamou a Jacó, deu-lhe a sua bênção (TB) —
Isaque se compenetrou dos sentimentos de Rebeca, de modo que o
principal de sua mensagem de despedida foi que evitasse toda aliança
matrimonial exceto com o ramo da família em Mesopotâmia. Naquela
ocasião lhe deu uma bênção solene, pronunciada antes sem o saber, mas
agora a propósito, e com espírito cordial. Também a dá mais explícita e
completa, e assim Jacó foi reconhecido como “o herdeiro da promessa”
6-9. Vendo, pois, Esaú que Isaque abençoara a Jacó — desejoso
de agradar a seus pais e, se fosse possível, fazer revogar o último
testamento, fez-se prudente quando já era tarde (veja-se Mt_25:10), e
esperava ao agradar a seus pais numa coisa, expiar todas as suas faltas
anteriores. Mas só piorou as coisas e ainda que não tomou “mulher das
filhas de Canaã”, casou dentro de uma família que Deus tinha rejeitado.
Este ato mostrou uma reforma parcial e nada de arrependimento, porque
não deu provas de moderar seus propósitos vingativos contra seu irmão,
nem de alentar aquele espírito piedoso que teria agradado a seu pai. Era
como Mica (Jz_17:13).
10. Partiu Jacó de Berseba, etc. — Sua partida da casa paterna foi
uma fuga ignominiosa; e por temor de ser seguido ou espreitado por seu
vingativo irmão, não tomou o caminho comum, mas foi por sendas
solitárias e pouco frequentadas, o que aumentou a duração e os perigos
de viagem.
11. Tendo chegado a certo lugar — A marchas forçadas tinha
chegado a Betel, como a 77 quilômetros do Berseba, e teve que passar a
noite em campo aberto.
tomou uma das pedras, etc. — “A natureza do solo é uma prova
existente sobre o relato do território pedregoso onde Jacó se deitou.”
(Clarke’s Travels).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 80
12. Jacó sonhou. Ele viu uma escada (NTLH) — Alguns
escritores opinam que não se quer dizer uma escada literal, porque é
impossível conceber uma imagem mais estranha e mais antinatural que a
de uma escada, cuja base estivesse na terra, enquanto que o topo
chegasse até o céu, sem ter no que apoiar seu extremo superior. Eles
supõem que o pequeno montão de pedras sobre o qual descansou sua
cabeça em lugar de travesseiro, era o modelo em miniatura do objeto que
apareceu a sua imaginação sendo o outro um montão gigantesco,
montanhoso, cuja ladeira, engrenada na rocha, dava a aparência de uma
escada. Não há dúvida de que este uso do termo original era comum
entre os primeiros hebreus; como Josefo, descrevendo a cidade do
Ptolemais (Acre), diz que estava cercada por uma montanha, a qual, por
suas ladeiras sobressalentes, era chamada a “escada”; e a via que
conduzia à cidade de acima, chamava-se “escada” (Ne_3:15), ainda que
eram uns degraus cortados na rocha. Mas seja que a imagem apresentada
à mente de Jacó fosse a de uma escada comum ou um montão
montanhoso como o descrito, o propósito da visão foi o de dar consolo,
ânimo e confiança ao solitário fugitivo, tanto em suas circunstâncias
atuais como em suas perspectivas futuras. Seus pensamentos durante o
dia teriam sido dolorosos; acusando-se a si mesmo de haver trazido sobre
si o desterro e privações; e sobretudo, que, embora tivesse recebido o
perdão de seu pai, tinha motivos para temer que Deus o tivesse
abandonado. A solidão dá oportunidade para a meditação; e é agora o
momento em que Deus começa a submetê-lo a um curso de ensino e
preparação religiosas. Para dissipar seus temores e acalmar o tumulto
interior de sua mente, nada melhor que a visão da escada gigantesca, que
se estendia desde ele até o céu, e sobre a qual os anjos continuamente
ascendiam e desciam do lugar do próprio Deus com suas benévolas
mensagens (Jo_1:51).
13. o SENHOR estava em cima dela e disse (RC) — Para que
Jacó não estivesse em dúvida quanto ao significado da visão, ele ouviu a
voz divina; e o anúncio de seu nome, junto com a renovação da aliança,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 81
e uma segurança da proteção pessoal, produziram em seguida em sua
mente um do mais solenes e inspiradores efeitos.
16. Despertado Jacó do seu sono — Sua linguagem e sua conduta
eram as de um homem cuja mente estava cheia do temor mais solene, de
uma piedade fervorosa, e de uma viva gratidão a Deus (Jr_31:36).
18, 19. tomou a pedra .… e a erigiu em coluna, etc. — O mero
ato de elevar a pedra poderia ter sido para assinalar o lugar para o futuro;
e esta prática ainda é comum no Oriente, em memória de algum voto
religioso ou compromisso. Mas o entornar azeite nela era um ato de
consagração. Por conseguinte, deu-lhe um nome novo, Betel, “casa de
Deus” (Os_12:4); e não parecerá coisa forçada ou antinatural chamar
casa a uma pedra, quando se considera a prática comum em países
quentes sentar-se ao ar livre junto a uma pedra, ou sobre ela, como as
deste lugar, “largas extensões de rochas despidas, algumas delas verticais
como os monumentos megalíticos dos druidas”. (Stanley.)

Vv. 20-22. O VOTO DE JACÓ.


20. Fez também Jacó um voto — Não é preciso considerar que
suas palavras indiquem uma dúvida, e menos ainda que ponham
condições ou termos sobre os quais ele se dedicaria a Deus. Se for
mudado o “se” em “visto que”, a linguagem parecerá uma expressão
justa da fé de Jacó, uma evidência de que ele realmente havia aceito a
promessa. Quão edificante a meditação de Jacó em Betel!
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 82
Gênesis 29

Vv. 1-35. O POÇO DE HARÃ.


1. Pôs-se Jacó a caminho, etc. — Heb., “elevava seus pés”.
Continuou sua viagem na manhã seguinte, com coração alegre e passo
rápido após a visão da escada; porque as provas do favor divino tendem
a apressar o cumprimento do dever. (Ne_8:10).
e se foi à terra do povo do Oriente — A Mesopotâmia e toda a
região além do Eufrates são designadas pelos escritores sagrados como
“o este” (Jz_6:3; 1Rs_4:30; Jó_1:3). Entre a primeira cláusula e a
segunda deste versículo se inclui uma viagem de 643 ½ quilômetros.
2. Olhou, e eis um poço — Como se aproximava do lugar de seu
destino, segundo o costume, dirigiu-se ao poço junto à cidade, onde
facilmente se apresentaria a seus parentes.
3. Ajuntavam-se ali todos os rebanhos, etc. — Na Arábia, devido
às areias movediças, e em outros lugares, devido à forte evaporação, a
boca de um poço geralmente fica tampada, especialmente quando é
propriedade particular. Sobre muitos deles fica uma pedra larga e plaina,
que tem um buraco no meio, que forma a boca do poço. Este buraco é
coberto com uma pedra pesada que requer dois ou três homens para ser
tirada. Tal é a descrição do poço de Harã.
4. Perguntou-lhes Jacó: Meus irmãos — Averiguando por meio
dos pastores que repousavam ali os quais eram todos de Harã, que seus
parentes em Harã estavam todos bem, e que uma pessoa da família
chegaria logo, perguntou-lhes por que estavam ociosos ali todo o dia em
vez de dar de beber a seus rebanhos e devolvê-los ao lugar de pastagem.
8. Não o podemos, responderam eles, enquanto não se
ajuntarem todos os rebanhos — A fim de evitar as consequências de
ser aberto com muita frequência em lugares onde escasseia a água, não
só está coberta mas também é costume ter todos os rebanhos reunidos
junto ao poço antes de tirar a coberta na presença do dono ou de um de
seus representantes; e foi por este motivo pelo qual os que estavam
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 83
repousando junto ao poço com seus três rebanhos, estavam esperando a
chegada de Raquel.
9-11. Enquanto ele ainda falava com eles, Raquel veio — Entre
as tribos pastoris as filhas jovens solteiras dos xeques maiores guardam
os rebanhos, indo ao nascer do sol e continuando seu cuidado das
ovelhas até o pôr-do-sol. Dar-lhes de beber duas vezes por dia é trabalho
que requer tempo e esforço, e Jacó mostrou serviço, oferecendo sua
ajuda à jovem pastora. A entrevista foi afetuosa, a recepção cordial, e
Jacó se esqueceu de todas suas tristezas pela sociabilidade de seus
parentes da Mesopotâmia. Podemos nós duvidar de que ele desse graças
a Deus por Sua bondade no caminho?
12. contou Jacó a Raquel, etc. — Segundo costume do Oriente, a
palavra “irmão” abrange até graus remotos de parentesco, como tio,
primo ou sobrinho.
14-20. pelo espaço de um mês, permaneceu com ele — Entre o
povo pastoril um estranho é hospedado livremente por três dias; no
quarto dia se espera que diga seu nome e o objetivo de sua visita; e se
prolonga sua estada depois, deverá empreender algum trabalho,
conforme um acordo prévio. Houve um acerto semelhante no
estabelecimento de Labão, e o pagamento pelo qual o sobrinho aceitou
continuar no emprego, foi a mão de Raquel.
17. Leia tinha olhos meigos (NTLH)—ou seja, olhos de um azul
suave, considerado como um defeito.
Raquel era formosa de porte e de semblante — ou seja, garbosa
e de figura perfeita. Esta foi a preferida de Jacó.
18. Sete anos te servirei por tua filha mais moça, Raquel — A
oferta de casamento se faz ao pai sem consultar a filha, e o compromisso
se faz pelo ato de o pretendente apresentar presentes custosos à família,
ou dando em gado o valor que o pai fixa por sua filha, ou então,
prestando serviço pessoal por um período especificado. Este foi o curso
do procedimento que a necessidade tinha imposto a Jacó; e ali durante
sete anos ele se submeteu às tarefas de um pastor assalariado com a
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 84
finalidade de conseguir Raquel. Mas o tempo passou rapidamente,
porque os deveres mais severos e difíceis se tornam leves quando o
trabalho é feito por amor.
21. Disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher. — No fim do
tempo estipulado, celebraram-se as festividades nupciais. Mas Jacó foi
objeto de uma fraude infame e ao ele mostrar uma justa indignação, se
alegou como desculpa o costume do país. Nenhuma defesa semelhante
deveria admitir-se jamais contrariando os direitos da justiça. Mas isto se
passa por alto na egoísta mente dos homens, e rege a moda ou o costume
em lugar da vontade de Deus. Isto foi o que fez Labão, quando ele disse:
“Não se faz assim em nossa terra, dar-se a mais nova antes da
primogênita.” Mas, então, se isto era o costume prevalecente em Harã,
ele deveria ter informado isso ao sobrinho no tempo devido e de uma
maneira honorável. Esta ainda é, entretanto, muito amiúde a maneira de
ser das pessoas do Oriente. O dever de casar a uma filha mais velha antes
da mais nova, os ardis que usam os pais para desfazer-se de uma filha
mais velha que é feia ou contrafeita, e que são favorecidas pelo longo
véu nupcial e a prolongação da festa durante uma semana entre os
grandes xeques, concordam com as práticas do povo da Arábia e
Armênia no dia de hoje.
28. Labão lhe deu por mulher Raquel, sua filha — É evidente
que o casamento de ambas as irmãs se efetuasse quase ao mesmo tempo,
e que tais enlace eram então permitidos, ainda que mais tarde foram
proibidos. (Lv_18:18).
29. Para serva de Raquel, sua filha, deu Labão a sua serva Bila
— Um pai em boas circunstâncias ainda dá à sua filha dentre suas
criadas uma escrava, sobre a qual a jovem esposa, independentemente de
seu marido, tem domínio absoluto.
31. Leia era aborrecida (RC) — quer dizer, não era amada tanto
como deveria ter sido. O fato de que ela chegasse a ser mãe lhe
assegurou uma mais alta estima tanto do marido como da sociedade.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 85
32-35. um filho, a quem chamou Rúben — Também os nomes
tinham significado; e os que Leia deu a seus filhos, expressam seus
distintos sentimentos de gratidão ou alegria, ou são alusivos a
circunstâncias na história da família. Havia piedade e sabedoria em dar
significado aos nomes, pois isso tendia a lembrar ao que o levava o seu
dever e o direito que tinha Deus sobre ele.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 86
Gênesis 30

Vv. 1-24. CIÚMES DOMÉSTICOS.


1. Raquel … teve ciúmes de sua irmã — A maternidade confere
um alto grau de honra no Oriente, e a falta dela, é sentida como uma
afronta e lamentada como uma calamidade grave.
Dá-me filhos, senão morrerei — Ou que ela se considerava como
morta; ou que desfaleceria pela irritação e o ciúme. A intensa ânsia das
hebreias para ter filhos, provinha da esperança de dar à luz a prometida
“semente”. A conduta de Raquel era pecaminosa, e é muito diferente da
de Rebeca (cf. Gn_25:22) ou de Ana (1Sm_1:11).
3-9. Bila .… Zilpa — Seguindo o exemplo de Sara com relação a
Agar, exemplo não raramente imitado ainda, ela adotou os filhos de sua
serva. Leia seguiu o mesmo caminho. Existia uma rivalidade intensa e
amarga entre elas, ainda mais devido a seu estreito parentesco como
irmãs; ainda que ocupavam departamentos separados com suas famílias,
como é o costume uniforme onde existe pluralidade de esposas, e ainda
que o marido e pai passava um dia com cada uma em turno estrito, isto
não acalmava seus ciúme mútuos. O mal está no próprio sistema, o qual,
sendo uma violação da ordem original de Deus, não pode produzir
felicidade.
20. [Leia] disse: Deus me concedeu excelente dote — O
nascimento de um filho varão é recebido com manifestações de alegria, e
a posse de vários filhos confere sobre a mãe uma honra e uma
respeitabilidade proporcionais ao número deles. O marido concede uma
importância similar a tal possessão, e isso forma um vínculo de união o
qual torna impossível que ele jamais abandone ou seja indiferente à
esposa que lhe deu filhos. Isto explica a feliz expectação que Leia achou
na posse de seus seis filhos.
21. Depois disto, deu à luz uma filha — A estimativa inferior
posta sobre uma filha, se pode ver no anúncio direto do nascimento.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 87
Vv. 25-43. A ALIANÇA DE JACÓ COM LABÃO.
25. Tendo Raquel dado à luz a José — Um pouco depois do
nascimento deste filho, expirou o período de servidão de Jacó, e
sentindo-se ansioso para estabelecer a independência de sua família,
provavelmente, sabendo que Esaú estava fora do caminho, anunciou sua
intenção de retornar a Canaã (Hb_13:14). Nesta decisão a fé de Jacó foi
notável, porque até agora não tinha no que pôr sua confiança senão na
promessa de Deus (cf. Gn_28:15)
27. Labão lhe respondeu … Tenho experimentado, etc. — Seu
egoísta tio esteve contrário a uma separação, não por algum ardente afeto
quer por Jacó quer por suas filhas mas pelo dano que sofreriam seus
interesses. Ele tinha achado por longa observação que as bênçãos do céu
repousavam sobre Jacó, e que seu gado tinha aumentado
maravilhosamente sob seu manejo. Este é um testemunho notável de que
os homens bons são uma bênção para os lugares onde vivem. Os homens
do mundo são abençoados com benefícios temporários por causa de seus
parentes piedosos, ainda que nem sempre têm, como Labão, a sabedoria
de entendê-lo nem a graça de reconhecê-lo.
28. Fixa o teu salário, que te pagarei — Os pastores orientais
recebem por salário não dinheiro e sim certa parte do aumento ou
produto do rebanho; mas Labão naquela ocasião teria feito qualquer
coisa para assegurar os serviços continuados de seu sobrinho, e fazer
uma demonstração de liberalidade, a qual, sabia Jacó, era forçada.
31. Respondeu Jacó: Nada me darás — Um contrato novo foi
feito, a substância do qual era que ele tinha que receber sua remuneração
da maneira costumeira, mas Jacó fixou as condições.
32. Passarei hoje por todo o teu rebanho — Como as ovelhas do
Oriente são geralmente brancas, e as cabras negras, e as manchadas e
pintadas comparativamente poucas e raras, Jacó propôs apartar todas as
desta classe dentre o rebanho, e conformar-se com as que aparecessem
no tempo de parir as ovelhas e cabras. A proposta parecia tão favorável
a Labão, que ele consentiu com ela imediatamente. Mas Jacó foi acusado
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 88
de tomar vantagem sobre seu tio, e ainda que seja difícil o desculpar de
ter praticada certa dissimulação, ele só se valeu dos resultados de sua
grande perícia e experiência na criação do gado. Mas é evidente segundo
o capítulo seguinte (Gn_31:5-13) que havia nisso algo do milagroso, e
que os meios que ele empregou tinham sido sugeridos por sugestão
divina.
37. Tomou, então, Jacó varas, etc. — Há muitas variedades de
aveleira, algumas das quais são mais direitos que a classe comum, e é
provável que Jacó empregasse umas destas. São de cor vermelha clara,
quando são descascados; e junto com estas varas tomou as de outras
plantas, que descascadas tinham listas brancas. Estas varas tidas
constantemente aos olhos das fêmeas no tempo da gestação, sua
observação lhe havia ensinado, teriam influência, por meio da
imaginação, na futura cria.
38. nos canais de água e nos bebedouros — geralmente pedaços
longos de pedra cavados, onde várias ovelhas podiam beber ao mesmo
tempo, mas às vezes tão pequenas para admitir somente a uma ovelha a
beber.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 89
Gênesis 31

Vv. 1-21. A INVEJA DE LABÃO E SEUS FILHOS.


1. ouvia Jacó os comentários dos filhos de Labão — Talvez por
rumores Jacó veio a saber das invejosas recriminações que a respeito
dele expressavam seus primos; porque estavam separados à distância de
três dias de viagem.
2. Jacó, por sua vez, reparou que o rosto de Labão — lit., “não
era o mesmo de ontem nem de anteontem” — forma de falar, comum no
Oriente. As insinuações contra a fidelidade de Jacó pelos filhos de
Labão, a áspera reserva e a rude conduta do próprio Labão, tornavam
muito difícil e penosa sua permanência no estabelecimento de seu tio. É
sempre uma das moléstias que acompanham a prosperidade material o
excitar a inveja de outros (Ec_4:4); e por mais cuidadoso que seja o
homem em manter uma consciência limpa, não pode contar sempre com
a conservação de um bom nome num mundo maldizente. Isto
experimentou Jacó; e é provável que, como homem bom, tivesse
buscado direção e consolo na oração.
3. E disse o SENHOR a Jacó: Torna à terra de teus pais —
Apesar do mau trato recebido, Jacó talvez não teria crido ter a liberdade
de abandonar sua atual esfera, sob o impulso da irritação e o
descontentamento. Conduzido a Harã por Deus (Gn_28:15), e tendo
recebido uma promessa de que o mesmo Guardião celestial o traria
novamente à terra de Canaã, poderia ter pensado que não deveria sair,
sem estar claramente persuadido quanto a qual era seu dever. Assim nós
devemos pôr o Senhor diante de nós, e reconhecê-Lo em todos os nossos
caminhos, em viaje, contratos e planos da vida.
4. Então, enviou Jacó e chamou a Raquel e a Leia — Suas
esposas com suas famílias respectivas estavam em sua habitual
residência; seja que gostaria que elas estivessem presentes na festa da
tosquia, como creem alguns, ou, porque ele não podia deixar seu
rebanho, chamou ambas a virem ao campo, a fim de que, tendo resolvido
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 90
sua partida imediata, lhes pudesse comunicar suas intenções. Só foram
chamadas Raquel e Leia, porque as outras duas esposas, sendo
secundárias e ainda em estado de servidão, não tinham direito a serem
levadas em conta. Jacó agiu como um marido respeitoso ao lhes contar
seus planos; porque os maridos que amam a suas esposas, devem
consultá-las e confiar nelas (Pv_31:11).
6. sabeis que … tenho servido a vosso pai — Tendo explicado os
seus poderosos motivos de descontentamento pela conduta do pai delas,
e a má retribuição recebida por todos os seus fiéis serviços, os informou
das bênçãos de Deus, que o tinham feito rico apesar do desejo de Labão
de arruiná-lo; e finalmente da ordem recebida de Deus, de retornar a seu
próprio país, para que elas não o acusassem de capricho ou de
deslealdade a sua família, antes estivessem convencidas de que ao
resolver partir, ele agia por um princípio de obediência religiosa.
14. Raquel e Leia responderam (NTLH) — Tendo ouvido as
razões de Jacó, elas expressaram sua inteira aprovação; e por ofensas a
elas mesmas estavam tão desejosas de uma separação como ele mesmo.
Elas mostraram não só afeto conjugal mas também piedade ao conduzir-
se como o fizeram—“faze tudo o que Deus te disse” [Gn_31:16]. “As
que são ajudas idôneas de seus maridos, nunca serão estorvos para fazer
aquilo para o qual Deus os chama”. (Henry.)
17. Então, se levantou Jacó — O povo pastoril ocupa pouco tempo
numa mudança. Baixar as carpas e suas estaca, e acomodá-las entre a
bagagem; pôr suas esposas e filhos em houdas como berço, sobre os
camelos, ou em cestos grandes sobre asnos; ordenar as diferentes
partidas de gado sob seus respectivos pastores: tudo isto é um processo
curto. Uma planície que na manhã está coberta por uma longa fila de
tendas e com gado que pasta, em poucas horas pode aparecer tão deserta,
que não fica nem um vestígio do acampamento, exceto os fossas em que
tinham estado as estacas das tendas.
18. levou todo o seu gado … que chegou a possuir — ou seja o
seu, e nada mais. Não se indenizou por suas muitas perdas, levando
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 91
alguma coisa que pertencesse a Labão, mas estava contente com o que a
Providência lhe tinha dado.
21. fugiu com tudo o que lhe pertencia — O resultado
demonstrou a prudência e a necessidade de partir secretamente; de outra
maneira, Labão o poderia haver detido pela violência ou pelo engano.
Alguns creem que Jacó deveria ter dado oportuno aviso; mas quando um
homem se sente em perigo, a lei da preservação de si mesmo prescreve o
dever da fuga imediata, se pode fazer de acordo com a consciência.

Vv. 22-25. LABÃO PERSEGUE JACÓ — SUA ALIANÇA EM


GILEADE.
22. No terceiro dia, Labão foi avisado — Logo que a notícia
chegou a Labão, ele saiu no encalço de Jacó, e como não levava
bagagem, avançou rapidamente; enquanto que Jacó, com família
pequena e numerosos rebanhos, tinha que partir devagar, de modo que
Labão alcançou os fugitivos depois de sete dias de viagem, enquanto
estavam acampados no topo do Monte Gileade, uma extensa cadeia de
colinas que formam a fronteira leste de Canaã. Como vinha
acompanhado por gente sua poderia ter usado da violência, se não
tivesse sido divinamente advertido em sonhos de que não pusesse
nenhum obstáculo à viagem do sobrinho. Que mudança mais notável e
repentina! Durante vários dias tinha estado cheio de raiva, e agora em
ardente expectativa de que tomaria plena vingança quando, de repente
suas mãos são atadas por um poder invisível (Sl_76:10). Não se atreveu
a tocar em Jacó, mas houve uma guerra de palavras.
25-30. disse Labão a Jacó: Que fizeste ...? — Não se diz nem uma
palavra da acusação mencionada em Gn_31:1. Suas recriminações são de
um tipo diferente. Sua primeira acusação foi que Jacó lhe tinha privado
da satisfação de dar a ele e a sua família as saudações habituais da
partida. No Oriente é costume, quando alguém sai para uma viagem
longa, que os parentes e amigos o acompanhem a certa distância com
música e cânticos de despedida. À vista da conduta anterior de Labão,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 92
sua queixa por este motivo era pura hipocrisia. Mas sua segunda
acusação foi grave: que tinham levado seus “deuses”—heb., terafim,
pequenas imagens de forma humana, não usadas como ídolos ou objetos
de adoração, mas sim como talismãs com fins supersticiosos.
31, 32. Respondeu-lhe Jacó: … Não viva aquele com quem
achares os teus deuses — Consciente de sua própria inocência e sem
suspeitar da má ação de sua esposa favorita, corajosamente provocou um
registro dos bens, e invocou a tristeza mais grave sobre a pessoa culpada.
Uma averiguação pessoal foi feita por Labão, quem examinou todas as
tendas [Gn_31:33]; e tendo entrado na de Raquel no final, teria
descoberto as imagens roubadas, se Raquel não lhe tivesse feito uma
petição que o impediu de continuar a busca [Gn_31:34-35].
34. Raquel havia tomado os ídolos do lar, e os pusera na sela de
um camelo, e estava assentada sobre eles — a sela comum para bestas
de carga usa-se às vezes como assento ou travesseiro, contra a qual uma
pessoa sentada no solo pode apoiar-se.
36, 37. Então, se irou Jacó — A recriminação de sua parte foi
natural nas circunstâncias, e, como de costume, quando as paixões
exaltam, as acusações aumentam muito. Rapidamente enumerou suas
ofensas durante vinte anos, e em tom de severidade ilimitada pintou o
caráter miserável e as injustas exigências de seu tio, além das várias
penalidades que ele tinha sofrido com paciência.
38. não comi os carneiros de teu rebanho — Os orientais
raramente matam as fêmeas para comer, exceto quando são estéreis.
39. Nem te apresentei o que era despedaçado pelas feras — Os
pastores são estritamente responsáveis pelas perdas no rebanho, a menos
que possam provar que estas são ocasionadas pelas feras.
40. de dia consumido pelo calor, de noite, pela geada — A
temperatura com frequência muda em vinte e quatro horas aos maiores
extremos de calor e frio, muito incômodo para os pastores que têm que
guardar as marmitas. Jacó merece muita consideração. As grandes e
contínuas provocações irritam os temperamentos mais mansos e melhor
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 93
disciplinados. É difícil praticar o conselho: “Irai-vos e não pequeis”
[Ef_4:26]. Mas estes dois parentes, depois de terem dado expressão a
seus sentimentos acumulados, chegaram a um entendimento mútuo, ou
antes, Deus influiu em Labão para que fizesse uma reconciliação com
seu sobrinho mal tratado (Pv_16:7).
44. Vem, pois; e façamos aliança — A maneira em que esta
aliança foi confirmada, foi como segue: um montão de pedras postas em
círculo, para que servissem de assentos, e no centro deste círculo foi
posta uma grande, perpendicularmente, como altar. É provável que um
sacrifício fosse devotado primeiro, e logo que a festa de reconciliação
fosse comida por ambas as partes sentadas nas pedras ao redor. Até hoje
se acham nesta região montões de pedras que foram usadas como
monumentos comemorativos.
52. Seja o montão [de pedras] testemunha — Os objetos da
natureza são mencionados frequentemente desta maneira. Mas
sobretudo, houve uma invocação solene a Deus; e é perceptível que
houve uma diferença marcada nos sentimentos religiosos dos dois.
Labão falou do Deus de Abraão e de Naor, seus antepassados comuns;
mas Jacó, sabendo que a idolatria se infiltrou entre aquele ramo da
família, “jurou Jacó pelo Temor de Isaque, seu pai”. Os que têm um
único Deus, deveriam ter um só coração; e os que concordam na religião,
deveriam estar de acordo em tudo o mais.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 94
Gênesis 32

Vv. 1, 2. UMA VISÃO DE ANJOS.


1. anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo — Não se diz se esta
manifestação angélica foi feita em visão de dia ou em sonho de noite. Há
uma evidente alusão, entretanto, à aparição sobre a “escada” (cf.
Gn_28:12), e o fato de isto ter ocorrido a Jacó em sua volta a Canaã, era
um sinal alentador da presença e proteção contínuas de Deus (Sl_34:7;
Hb_1:14).
2. Maanaim — duas hostes ou acampamentos. O lugar estava
situado entre o Monte Gileade e o arroio Jaboque, perto da ribeira deste.

Vv. 3-32. UMA MISSÃO ENVIADA A ESAÚ.


3. Jacó enviou mensageiros adiante de si a Esaú — ou seja tinha
enviado. Foi uma precaução prudente o averiguar a atual disposição de
Esaú, pois o caminho, ao se aproximar dos limites orientais de Canaã,
situava-se à margem do distrito deserto onde seu irmão se achava
estabelecido.
à terra de Seir — terra montanhosa a leste e sul do Mar Morto,
habitada pelos horeus, aqueles que foram desarraigados por Esaú ou por
sua posteridade (Dt_11:12). Quando, e em que circunstâncias ele tinha
emigrado lá, se a separação proveio da conduta desobediente e os hábitos
idolátricos de suas esposas, o que fazia com que elas fossem pouco
gratas como habitantes das tendas de Isaque, ou se por sua aptidão
vagabunda ele tinha buscado um país que se prestasse para a caça e suas
aventuras, ele estava vivendo num estado de poder e abundância, e esta
localização sobre limites exteriores de Canaã, feita voluntariamente por
ele, foi usada pela Providência para abrir o caminho para a volta de Jacó
à terra prometida.
4. Assim falareis a meu senhor Esaú — O teor da mensagem foi
que, depois de uma residência de vinte anos em Mesopotâmia, ele agora
retornava a sua terra natal; que nada lhe faltava, pois tinha abundância de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 95
riqueza pastoril, mas que não podia passar sem avisar a seu irmão de sua
chegada e sem lhe render a homenagem de sua respeitosa saudação. Os
atos de cortesia tendem a desarmar a oposição e a abrandar o ódio
(Ec_10:4).
Teu servo Jacó — Ele tinha sido feito senhor sobre seus irmãos
(cf. Gn_27:29). Mas é provável que ele cresse que isto se referia a uma
superioridade espiritual; ou se era a uma superioridade temporária, teria
que realizar-se em sua posteridade. De qualquer maneira, deixando a
Deus o cumprimento daquele propósito, ele pensou que era prudente
assumir a atitude mais bondosa e respeitosa.
6. Voltaram os mensageiros a Jacó — Seu relatório deixou Jacó
numa incerteza penosa a respeito de quais seriam os propósitos e
sentimentos de seu irmão. A reticência calculada de Esaú lhe deu motivo
para temer o pior. Jacó era naturalmente tímido; mas a consciência lhe
dizia que havia muitos motivos para recear, e seu angústia foi mais
agravada porque ele tinha que prover a segurança de uma família grande
e desamparada.
9-12. orou Jacó: Deus de meu pai Abraão — Nesta grande
emergência, tinha o recurso da oração. Este é o primeiro exemplo de
oração registrado na Bíblia. É curta, ardente e estriba diretamente sobre a
situação. A petição é feita a Deus como invocando uma aliança com
relação à sua família, assim como nós devemos pôr em Cristo nossas
esperanças de aceitação com Deus. Invoca a promessa especial feita a ele
mesmo, de uma feliz volta; e depois de uma confissão humilde e
emocionante de indignidade, respira um desejo ardente de uma
libertação do perigo iminente. Foi a oração de uma marido bondoso, de
um pai carinhoso, de um firme crente nas promessas.
13-23. separou ... um presente para seu irmão Esaú — Jacó
combinou esforços pessoais com a oração fervente; e isto nos ensina que
não devemos depender da ajuda e da interposição de Deus de uma
maneira tal que exclua o exercício da prudência e previsão de nossa
parte. É costume chegar-se a pessoas superiores com presentes, e o
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 96
respeito expresso se calcula pela qualidade e quantidade do obséquio. O
obséquio de Jacó consistiu em 550 cabeças de gado de diferentes classes,
o que seria mais apreciado por Esaú. Foi um presente do mais
esplêndido, hábil e habilmente arrumado. As camelas de leite dos
camelos por si só eram de um valor imenso; porque elas formam a parte
principal da riqueza do árabe; seu leite é um artigo de alimentação
importante; e em muitos outros sentidos são de grande utilidade.
16. cada rebanho à parte — Houve grande prudência neste
arranjo, porque assim o presente teria uma aparência mais imponente. A
paixão de Esaú teria tempo para acalmar-se à medida que ia passando
cada companhia; e se a primeira era rejeitada, as outras voltariam às
pressas para levar um aviso oportuno.
17. Ordenou ao primeiro — Mandou aos mensageiros que
dissessem estritamente as mesmas palavras [Gn_32:18, 20], para que
Esaú fosse impressionado, e que a uniformidade do discurso indicasse
mais claramente que era do próprio Jacó.
21. ele, porém, ficou aquela noite no acampamento — não toda a
noite, só uma parte dela.
22. o vau de Jaboque—agora o Zerca, corrente que nasce entre as
montanhas de Gileade, e correndo deste ao oeste, desemboca no Jordão,
como 64 quilômetros ao sul do Mar da Galileia. Neste vau há uma
largura de dez metros. Às vezes é vadeado com dificuldade, porém no
verão tem pouca profundidade.
Levantou-se naquela mesma noite, tomou suas duas mulheres
— Não podendo dormir, vadeou o arroio de noite sozinho, e se tendo
convencido de sua segurança, voltou para a ribeira norte, fez cruzar a sua
família e servos, ficando ele atrás, para buscar de novo, na oração, a
bênção divina sobre os meios que ele tinha posto em movimento.
24, 25. lutava com ele um homem — Esta pessoa misteriosa é
chamada um anjo (Os_12:5) e Deus (Gn_32:28, 30; Os_12:4); e a
opinião mais apoiada é que era “o anjo da aliança”, quem, em forma
visível, apareceu para animar a mente e simpatizar com o sofrimento de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 97
seu piedoso servo. Tem sido tema de muita discussão se o incidente
descrito foi uma contenda real, ou uma cena visionária. Muitos creem
que, como o relato não faz menção em termos expressos de dormir, ou
de sonho ou visão, foi uma transação real; enquanto que outros,
considerando seu esgotamento corporal, sua grande ansiedade mental, o
tipo de ajuda que ele pedia, como também a analogia de manifestações
anteriores com as quais ele tinha sido favorecido, tal como a escada,
pensam que foi uma visão. (Calvino, Hessenberg, Hengstenberg.) O
propósito moral disso foi o de avivar o espírito abatido do patriarca, e
armá-lo com a confiança em Deus, enquanto esperava as temidas cenas
do dia seguinte. Para nós é altamente instrutivo, mostrando que, para nos
alentar corajosamente a fazer diante das provas a que somos sujeitos,
Deus nos permite atribuir à eficácia de nossa fé e orações, as vitórias que
só sua graça nos capacita a fazer.
26. Não te deixarei ir se me não abençoares — É evidente que
Jacó era sabedor do caráter dAquele com quem disputava; e, crendo que
o poder dAquele, ainda que em muito superior ao humano, estava ainda
limitado por Sua promessa de lhe fazer bem, resolveu não perder a
brilhante oportunidade de assegurar-se uma bênção. Nada dá maior
satisfação a Deus que o ver os corações de Seu povo aderir-se a Ele.
28. Já não te chamarás Jacó, e sim Israel — O nome velho não
tinha que ser abandonado; mas, como se referia a uma parte desonrosa da
história do patriarca, tinha que associar-se com outro descritivo de seu
caráter agora eminentemente santificado e devoto.
29. Jacó perguntou-lhe: Dize-me o teu nome (TB) — Foi negada
a petição para que não se exaltasse muito com sua conquista nem cresse
ter conseguido tal vantagem sobre o anjo para fazer com que fizesse o
que a ele lhe agradasse.
31. manquejava da sua coxa — Como Paulo tinha um espinho em
sua carne que o humilhava para que não se exaltasse muito pelas
revelações abundantes a ele concedidas [2Co_12:7], assim a claudicação
de Jacó tinha que fazê-lo lembrar esta cena misteriosa e que foi uma
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 98
condescendência gratuita porque foi concedida a vitória. Nas maiores
vitórias espirituais, que os filhos de Deus alcançam pela fé, há sempre
algo que os humilha.
32. o nervo do quadril — o nervo que firma o osso da coxa em seu
encaixe. O costume dos judeus de não comer isto na carne dos animais,
não está fundada na lei, mas sim é meramente hábito tradicional. O
tendão é tirado com cuidado, e onde não há pessoas bastante peritas para
esta operação, eles não comem as pernas traseiras.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 99
Gênesis 33

Vv. 1-11. A BONDADE DE JACÓ E ESAÚ.


1. Esaú se aproximava, e com ele quatrocentos homens — Tendo
cruzado o vau e colocado suas esposas e filhos em ordem, dos mais
queridos ao último, para que estivessem o menos possível expostos ao
perigo, aguardou a ansiada entrevista. Sua fé estava fortalecida, e os seus
temores acalmados (Sl_27:3). Tendo tido poder para prevalecer com
Deus, tinha confiança na eficácia do mesmo poder para com os homens,
segundo a promessa (cf. Gn_32:28).
3. prostrou-se à terra sete vezes — a maneira de fazer isto é:
olhando ao superior se inclina a parte superior do corpo até que fique
paralela com a terra; logo se avançam uns passos inclinando-se
novamente, e se repete esta saudação até que, à sétima vez, o suplicante
está na presença imediata de seu superior. Isto era sinal de profundo
respeito, e, embora muito exagerado, pareceria natural; porque sendo
Esaú o irmão mais velho, tinha direito, segundo o costume do Oriente, ao
tratamento respeitoso de seu irmão mais novo. Seus acompanhantes se
impressionariam por isso, e segundo o hábito oriental, engrandeceriam o
feito diante de seu senhor.
4. Esaú correu-lhe ao encontro — Que mudança tão repentina e
surpreendente! Seja que a vista do régio obséquio e a profundo
homenagem de Jacó tivesse produzido este efeito, ou que procedesse do
caráter impulsivo de Esaú, a hostilidade abrigada durante vinte anos,
num momento desapareceu; as armas de guerra foram postas de lado, e
os mais cálidos sinais de carinho mútuo foram mudados entre os irmãos.
Mas sem dúvida, a causa eficaz foi a influência secreta, dominante da
graça divina (Pv_21:1), que converteu a Esaú de inimigo em amigo.
5. Quem são estes contigo? — Teria sido suficiente dizer: “Eles
são meus filhos”; mas Jacó era homem piedoso, e não poderia responder
senão na linguagem da piedade (Sl_127:3; Sl_113:9; Sl_107:41).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 100
11. E instou com ele, até que o aceitou — No Oriente a aceitação
de um obséquio por um superior é prova de amizade, e por um inimigo,
o é de reconciliação. Foi por ambos os motivos pelo que Jacó ansiava
tanto que seu irmão recebesse o gado; e na aceitação de Esaú tinha ele a
prova mais firme de que um bom entendimento reconhecido pelos
orientais, ficava estabelecido.

Vv. 12-20. A PARTIDA.


12. Disse Esaú: Partamos e caminhemos — Esaú propôs
acompanhar a Jacó e sua família através do país, em sinal de respeito e
para escoltá-los e cuidá-los. Mas a oferta foi prudentemente rejeitada. A
Jacó não tinha falta de nenhuma pompa ou equipe mundana. Apesar da
presente cordialidade, os irmãos eram tão diferentes em espírito, caráter
e hábitos — um era homem do mundo, e o outro um homem de Deus—
que havia muito risco de que algo ocorresse que perturbasse a harmonia.
Como Jacó apresentasse uma desculpa muito razoável pela lentidão de
seus movimentos, os irmãos se separaram em paz.
14. até chegar a meu senhor — Parece que a intenção de Jacó era
rodear o Mar Morto e visitar seu irmão em Seir, e assim, sem cruzar o
Jordão chegar a Berseba onde estava Isaque. Mas mudou seu plano, e se
o propósito foi completo então ou numa data posterior, não se sabe.
17. Jacó partiu para Sucote — ou seja “cabanas”, sendo a
primeira estação onde Jacó se deteve ao voltar para Canaã. Seus
descendentes, quando moraram em casas de pedra, edificaram ali uma
cidade, e a chamaram Sucote, para comemorar o fato de que seu
antepassado, um “arameu prestes a perecer” [Dt_26:5], se contentou
vivendo em cabanas.
18. chegou Jacó são e salvo à cidade de Siquém — a palavra
“Shalem” em hebraico quer dizer “paz”, ou em boa saúde. A tradução
seria, pois, como em nossa versão em português: “Jacó chegou em paz à
cidade de Siquém”. Mas a maioria dos comentadores tomam Shalem”
como nome próprio, e traduzem: “veio Jacó a Shalem, cidade de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 101
Siquém”. O sítio está marcado por uma das pequenas aldeias como a 3
quilômetros a nordeste de Siquém, chamado em árabe Shalim. Um
pouco para além no vale de Siquém, “comprou uma parte do campo”,
onde levantou sua tenda, sendo assim o primeiro dos patriarcas que
chegou a ser proprietário em Canaã.
19. cem peças — peças, literalmente “cordeiros”; provavelmente
uma moeda com a figura de um cordeiro.
20. Levantou ali um altar — bela prova de sua piedade pessoal, e
uma terminação muito adequada de sua viagem, e um monumento
perdurável de um favor distinto no nome: “O Deus de Israel”. Onde quer
que tendamos nossa tenda, Deus terá seu altar.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 102
Gênesis 34

Vv. 1-31. A DESONRA A DINÁ.


Ainda que libertado de dificuldades com os estrangeiros, Jacó se
encontrou com uma tragédia doméstica na queda de sua única filha.
Segundo Josefo, ela tinha estado assistindo a uma festa; mas é muito
provável que tivesse interagido com frequência e livremente na
sociedade do lugar, e sendo mulher simples, sem experiência e ingênua,
se teria sentido adulada pelas atenções do filho do governador. Deve ter
havido tempo e oportunidades de relacionamento, para que nascesse o
forte afeto que Siquém sentia por ela.
5. Jacó … calou-se — Como pai e homem bom, Jacó deve ter
estado profundamente aflito. Mas pouco podia fazer. No caso de uma
família de distintas esposas, não é o pai, e sim os irmãos, aos quais cabe
a proteção das filhas; eles são os protetores do bem-estar da irmã e os
vingadores de seus males. Por esta razão Simeão e Levi, os dois irmãos
de Diná por parte de Leia, sua mãe [Gn_34:25], aparecem como os
principais atores neste episódio; e ainda que os pais respectivos tivessem
chegado a um acerto amigável do assunto, a repentina chegada destes
irmãos enfurecidos introduziu um elemento novo nas negociações.
6. Hamor — ou seja, asno. Isto é prova notável das ideias muito
distintas que no Oriente estão associadas com este animal, que ali
aparece vivaz, bem proporcionado e de grande atividade. Este chefe
chama-se Emor em At_7:16 (TB).
7. entristeceram-se os varões e iraram-se muito (RC) — Homens
bons em tal caso não podiam senão afligir-se; mas tudo teria ido bem se
sua ira tivesse sido menor, e se tivessem conhecido o preceito: “Não se
ponha o sol sobre a vossa ira” [Ef_4:26]. Nenhuma injúria pode justificar
a vingança (Dt_32:35; Rm_12:9); mas os filhos de Jacó tramaram um
plano de vingança da maneira mais enganosa.
8. Disse-lhes Hamor — O príncipe e seu filho, à primeira vista
parece que agiram honestamente, e nossos sentimentos estão a seu favor.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 103
Eles não manifestaram o traidor ciúme dos poderosos pastores; ao
contrário, mostram todo desejo de estabelecer relação amigável com
eles. Mas sua conduta é injustificável porque não expressam nenhum
pesar pelo ocorrido, nem restituem Diná à sua família; e este grande erro
foi a verdadeira causa pela qual as negociações terminassem de uma
maneira tão trágica.
11. o próprio Siquém disse ao pai e aos irmãos de Diná — A
consideração da proposta correspondia a Jacó, e ele mostrou certamente
grande fraqueza em ceder tanto à veemência fogosa de seus filhos. O
resultado demonstra as consequências terríveis daquela cedência.
12. Majorai de muito o dote de casamento e as dádivas — As
dádivas se referem aos presentes feitos no compromisso de casamento,
tanto à noiva como a seus parentes (cf. Gn_24:53); o dote, a uma soma
conveniente dada à esposa quando se casa.
13. responderam os filhos de Jacó (RC) — A honra de sua família
consistia em ter o sinal da aliança. A circuncisão era o rito pelo qual uma
pessoa era admitida como membro da antiga igreja. Mas aquele rito
externo não podia fazer dos siquemitas verdadeiros israelitas; e
entretanto, não parece que os filhos de Jacó pedissem algo mais. Nada é
dito que ensinassem àquela gente a adorar ao verdadeiro Deus, mas
apenas sua insistência em que fossem circuncidados; é evidente que não
tentaram converter Siquém, mas só fizeram uma exibição de
religiosidade, para cobrir seu propósito diabólico. A hipocrisia e o
engano, em todo caso reprováveis, são imensamente mais, quando vão
acompanhados por uma exibição de religião; e aqui os filhos de Jacó, sob
o pretexto de escrúpulos de consciência, escondem um pérfido plano tão
cruel e diabólico como jamais fora perpetrado.
20. Vieram, pois, Hamor e Siquém, seu filho, à porta da sua
cidade — Aquele era o lugar onde se fazia toda declaração pública; e na
pronta submissão obsequiosa do povo a esta medida vemos uma
evidência ou do afeto extraordinário para a família governante ou do
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 104
despotismo abjeto do Oriente, onde a vontade do chefe é um mandato
absoluto.
30. disse Jacó … Vós me afligistes e me fizestes odioso — Este
ultraje atroz, perpetrado nos indefesos habitantes e suas famílias fez com
que transbordasse a taça de aflições de Jacó. Assombramo-nos de que, ao
falar do ultraje a seus filhos, Jacó não o apresentasse como um pecado
atroz, uma violação terrível às leis de Deus e dos homens, mas enfatizou
somente as consequências presentes. Provavelmente foi assim porque era
o único aspecto capaz de inflamar a fria apatia e a consciência
endurecida daqueles filhos brutais. Só o poder refreador de Deus salvou
a ele e a sua família da vingança coletiva do povo (cf. Gn_35:5). Nem
todos os seus filhos tomaram parte na matança. José era ainda um rapaz;
Benjamim não tinha nascido, e os outros oito não estiveram envolvidos
nela. Só Simeão e Levi, com seus servos, tinham sido os atores culpados
nesta tragédia sangrenta. Mas os cananeus não teriam feito exceções em
sua vingança e se todos os siquemitas foram condenados à morte pela
ofensa do filho do chefe, não teria sido estranho que os nativos
estendessem seu ódio a toda a família de Jacó.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 105
Gênesis 35

Vv. 1-15. TRASLADO A BETEL.


1. Disse Deus a Jacó: Levanta-te, etc. — Este mandamento foi
dado em tempo oportuno, e em linguagem carinhosa. Os acontecimentos
ignominiosos e perigosos que acabavam de suceder na família do
patriarca, devem ter produzido nele um forte desejo de afastar-se sem
demora das cercanias de Siquém. Oprimido pelo entristecedor
sentimento de criminalidade de seus dois filhos, pela ofensa que eles
tinham feito a Deus e a desonra trazida sobre a verdadeira fé; angustiado
também pelo temor das consequências que este ultraje poderia trazer
sobre ele e sua família, se o povo cananeu se unisse para extirpar
semelhante banda de roubadores e homicidas; deve ter considerado esta
chamada como um grande alívio a seus afligidos sentimentos. Ao mesmo
tempo o mandato trazia uma suave repreensão.
sobe a Betel — Betel estava a uns 40 quilômetros ao sul de
Siquém; e a viagem era uma ascensão de uma paragem sob a uma região
montanhosa. Ali não só estaria afastado das impressões dolorosas do
lugar anterior, mas também estaria estabelecido num lugar que avivaria
as lembranças mais agradáveis e sublimes. O prazer de voltar a visitá-lo,
entretanto, não era totalmente completo.
faze ali um altar ao Deus que te apareceu — Como sucede com
muita frequência, as impressões dos anos juvenis se apagam pelo passar
do tempo; as promessas, feitas em tempos de aflição, são esquecidas; ou,
se são lembradas ao voltar a saúde e a prosperidade, não há o mesmo
ardor e sentido de obrigação em cumpri-las. Jacó estava sob esta
acusação. Tinha caído numa indolência espiritual. Fazia oito ou dez anos
que tinha retornado a Canaã. Já tinha estabelecido residência
confortável; também tinha reconhecido as misericórdias divinas, por
meio das quais sua volta e estabelecimento tinham sido claramente
dirigidos. (cf. Gn_33:19). Mas por alguma razão não mencionada, seu
voto anterior em Betel [Gn_28:20-22], numa grande crise de sua vida
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 106
tinha ficado sem cumprimento. O Senhor agora aparece para o lembrar
do seu dever descuidado, entretanto, em termos tão suaves, que
trouxeram à sua memória mais que a lembrança de sua falta, a bondade
de seu Guardião celestial; e o que mais impressionou a Jacó a natureza
afetuosa da chamada àquela cena memorável em Betel, aparece nos
preparativos imediatos que fez para ir até lá (Sl_66:13).
2. Então, disse Jacó à sua família … Lançai fora os deuses
estranhos que há no vosso meio — Heb. “deuses dos estranhos”, de
nações estrangeiras. Jacó havia trazido, entre seus servos, alguns criados
da Mesopotâmia, que eram viciados em práticas supersticiosas; e há
algum motivo para temer que ele não poderia ter dado o mesmo
testemunho nobre quanto à direção religiosa de sua família, como o de
Abraão (Gn_18:19). Pode ter sido muito negligente até agora, tolerando
estes males entre seus criados; ou, tal vez, sucedeu que até sua chegada a
Canaã, ele soube que a pessoa mais próxima e mais querida para ele,
estava secretamente contagiada com a mesma corrupção (Gn_31:34).
Mas seja como for, ele resolveu fazer a reforma imediata e completa em
sua casa; e ordenou que tirassem os deuses estranhos. Acrescentou:
purificai-vos e mudai as vossas vestes — como se alguma
contaminação, por contato com a idolatria, ficasse entre eles. Na lei de
Moisés, foram ordenadas muitas purificações cerimoniais, e eram
praticadas por pessoas que tinham contraído alguma contaminação, e
sem a observância delas, tais pessoas eram consideradas impuras e
inaptas para tomar parte com os demais no culto social a Deus. Estas
purificações corporais eram puramente figurativas; e como se ofereciam
sacrifícios antes da lei, assim também havia estas purificações externas,
como aparece nas palavras de Jacó; e assim pareceria que desde a queda
do homem eram usados tipos e símbolos que representavam e ensinavam
duas grandes doutrinas da verdade revelada—a expiação por Cristo e a
santificação de nossa natureza.
4. deram a Jacó todos os deuses estrangeiros … e as argolas —
Deuses estranhos, os serafim (Gn_31:30), como também provavelmente
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 107
outros ídolos tomados entre os despojos de Siquém; brincos de várias
formas, tamanhos e materiais, que são usados por todos no Oriente, e
então como agora, relacionados com as artes mágicas e a idolatria (cf.
Os_2:13). O tom decidido que agora assume Jacó, foi a causa provável
da presteza com que estes objetos favoritos da superstição foram
entregues.
Jacó os escondeu debaixo do carvalho — ou terebinto, árvore
alta, que como outras da mesma classe, eram objetos atraentes na
paisagem da Palestina; e debaixo do qual o patriarca havia posto seu
tenda. Ele escondeu as imagens e amuletos, que seus subordinados lhe
entregaram, junto às raízes desta árvore. Como o carvalho era
considerado uma árvore sagrada, o ato de sepultar estas coisas entre suas
raízes era depositá-las num lugar onde nenhuma mão atrevida removeria
a terra: e daí que por esta circunstância era chamado “a campina do
Meonenim”, ou seja, “carvalho dos Adivinhadores” (Jz_9:37); pela
grande pedra que elevou Josué, “carvalho memorial” (Jz_9:6).
5. o terror de Deus invadiu as cidades — Havia muitos motivos
para temer que uma tormenta de ira estalasse de todas as partes contra a
família de Jacó, e que as tribos cananeias tivessem formado um plano
unido de vingança. Mas um terror sobrenatural se apoderou deles; e
assim, por amor do “herdeiro da promessa”, o escudo protetor da
Providência estava estendido sobre sua família.
6. chegou Jacó a Luz, chamada Betel — É provável que este lugar
fosse terra desocupada quando Jacó foi para lá a primeira vez; e depois
daquele período (Calvino), os cananeus edificaram uma cidade a qual
deram o nome de Luz [Gn_28:19], pela profusão de amendoeiras que
cresciam ali. O nome Betel, que naturalmente seria usado só por Jacó e
sua família, não substituiu o nome original senão muito mais tarde.
Agora é identificado com a aldeia moderna do Beitin, e está no declive
ocidental da montanha onde Abraão edificou um altar (Gn_12:8).
8. Morreu Débora, a ama de Rebeca — Este acontecimento
parece ter sucedido antes que começassem as solenidades. Débora
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 108
“abelha” supondo-se que tivesse cinquenta anos ao chegar a Canaã, teria
chegado à idade de 180 anos. Quando foi transferida da casa de Isaque à
de Jacó, não se sabe. Provavelmente foi em sua volta da Mesopotâmia; e
ela tem que ter sido de um valor inestimável para a jovem família. À
semelhança dela, as velhas faxineiras não só eram honradas como
também amadas como mães; e, por conseguinte, sua morte foi ocasião de
grande lamentação. Foi sepultada sob o carvalho – daí chamado de
“Carvalho dos Prantos” [Gn_35:8, BJ] (cf. 1Rs_13:14). Deus quis
aparecer novamente a Jacó, depois que terminaram os solenes ritos de
devoção. Por esta manifestação de sua presença, Deus testificou Sua
aceitação do sacrifício de Jacó; renovou a promessa das bênçãos
garantidas a Abraão e Isaque [Gn_35:11, 12]; e o patriarca celebrou a
cerimônia com a qual tinha consagrado o lugar anteriormente, que
compreendia numa taça sacramental, junto com o azeite que derramou
sobre o pilar, e a reimposição do nome memorável [Gn_35:14]. Toda a
cena estava de acordo com o caráter da dispensação patriarcal, em que as
grandes verdades da religião eram perceptíveis aos sentidos, e os velhos
patriarcas do mundo eram ensinados de uma maneira adequada à
fraqueza de uma condição infantil.
13. Deus se retirou dele, elevando-se do lugar — A presença de
Deus foi manifestada de alguma forma visível, e Sua aceitação do
sacrifício mostrada pela milagrosa descida de fogo do céu, que o
consumiu no altar.

Vv. 16-27. NASCIMENTO DE BENJAMIM — MORTE DE


RAQUEL.
16. Partiram de Betel — Não pode haver dúvida de que o patriarca
desfrutou de uma grande alegria em Betel, e que nas observâncias
religiosas solenizadas, como nas lembranças vivas da gloriosa visão ali
recebida, foram avivados poderosamente os afetos do patriarca, e que ele
deixou o lugar sendo melhor servo de Deus e mais consagrado. Quando
terminaram as solenidades, Jacó com sua família seguiu uma rota
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 109
diretamente rumo ao sul, e chegou a Efrata, quando se cobriram de luto
pela morte de Raquel, que faleceu no parto, deixando um último filho
[Gn_35:18]. Uma morte muito sensível, considerando-se quão
ardentemente ela desejava ter filhos (cf. Gn_30:1).
18. deu-lhe o nome de Benoni — A mãe moribunda deu este nome
a seu filho, significativo de suas circunstâncias; mas Jacó o mudou para
Benjamim. Alguns creem que foi originalmente Benjamim “filho de
Dias”, ou seja, da velhice. Mas com a terminação atual significa “filho
da mão direita” ou seja, particularmente querido e precioso.
19. Efrata, que é Belém — Um é o nome antigo; o outro, o novo,
significando “casa de pão”,
20. Sobre a sepultura ... levantou Jacó uma coluna que existe
até ao dia de hoje — O lugar assinalado assim como a sepultura de
Raquel concorda com o relato da Escritura, estando como a um
quilômetro e meio de Belém. Antigamente estava coberta por uma
pirâmide de pedras, mas a tumba atual é uma construção maometana.
22-26. Os filhos de Israel … que lhe nasceram em Padã-Arã —
É prática comum do historiador sagrado dizer de uma companhia ou
corpo de homens o que seria verdade quanto à maioria, mas não
aplicável a cada indivíduo. Ver Mt_19:28; Jo_20:24; Hb_11:13. Aqui
temos um exemplo, pois Benjamim nasceu em Canaã [Gn_35:16-18].

Vv. 28, 29. A MORTE DE ISAQUE.


29. expirou Isaque e morreu — A morte deste venerável patriarca
é aqui relatada, antecipadamente, pois não sucedeu senão quinze anos
depois do desaparecimento de José. Ainda que fraco e cego, viveu até
uma idade muito avançada; e é uma evidência agradável da reconciliação
permanente entre Esaú e Jacó, o fato de que eles se reuniram no Manre
para verificar os ritos funerários de seu comum pai.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 110
Gênesis 36

Vv. 1-43. A POSTERIDADE DE ESAÚ.


1. São estes os descendentes de Esaú — história dos homens e
acontecimentos principais (cf. Gn_2:4).
Esaú, que é Edom — Nome que foi dado com referência à cor
peculiar de sua pele ao nascer [Gn_25:25] e feito mais significativo por
seu gosto excessivo pela sopa vermelha, como também pelo caráter feroz
de seus descendentes (cf. Ez_25:12; Ob_1:10).
2, 3. Esaú tomou por mulheres dentre as filhas de Canaã —
Houve três, mencionadas sob nomes distintos; porque é evidente que
Basemate é a mesma que Maalate (Gn_28:9), pois ambas estão no
parentesco de Ismael e de Nebaiote como filha do primeiro e irmã do
segundo; também se pode inferir que Ada é a mesma Basemate,
Oolibama a mesma Judite (Gn_26:34). Não era estranho que naquela
primeira idade as mulheres tivessem dois nomes, como Sara era também
Isca [Gn_11:29]; e isto é mais provável no caso das esposas de Esaú, que
teriam que tomar nomes novos quando foram de Canaã para viver no
Monte Seir.
6, 7. Esaú … se foi para outra terra, apartando-se de Jacó, seu
irmão — lit., uma terra sem perspectiva certa de estabelecer-se. O
propósito deste esboço histórico de Esaú e sua família é o de mostrar
como a promessa (Gn_27:39, 40) foi cumprida. Em prosperidade
temporária sobrepuja em muito a seu irmão; e é notável que, na
providência dirigida de Deus, este enorme aumento de sua riqueza
terrestre fosse a ocasião para que deixasse Canaã e que assim facilitar a
volta de Jacó.
8. Esaú, que é Edom, habitou no monte Seir — Este foi
divinamente cedido como sua possessão (Js_24:4; Dt_2:5).
15-19. príncipes — Os edomitas, como os israelitas foram
divididos em tribos, que tomaram seus nomes dos filhos de Esaú. O
principal de cada tribo se nomeia por um termo que em nossa versão se
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 111
traduz duque, não da alta posição e riqueza de um par britânico, mas sim
como os xeques ou emires do Oriente moderno, ou os chefes de tribos
montanheses. Mencionam-se quatorze que prosperaram no mesmo
tempo.
20-30. os filhos do Seir, o horeu — chefes nativos, que foram
incorporados aos da raça edomita.
24. este é o Aná que achou as fontes termais no deserto — A
palavra “mulos” em várias versões antigas se traduz “mananciais
quentes”; e esta descoberta de alguma fonte notável era suficiente, entre
um povo nômade ou pastoril, para que merecesse uma alusão tão
marcante.
31-39. reis que reinaram na terra de Edom — O poder real não
estava baseado sobre as ruínas dos ducados, mas sim existia
contemporaneamente com eles
40-43. Recapitulação dos chefes segundo os lugares de sua
residência.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 112
Gênesis 37

Vv. 1-4. PARCIALIDADE PATERNAL.


1. Habitou Jacó na terra das peregrinações de seu pai — “pai” é
usado coletivamente. O patriarca estava agora no Manre, no vale de
Hebrom (cf. Gn_35:27); e sua morada ali continuou da mesma maneira,
e guiada pelos mesmos motivos que a de Abraão e Isaque (Hb_11:13).
2. gerações (TB) — os incidentes principais na história doméstica
de Jacó, como estão manifestados no relato que está para começar.
José … apascentava os rebanhos — Lit., tendo José dezessete
anos, era pastor do rebanho, um rapaz, como os filhos de Bila e Zilpa.
Evidentemente se entende que tinha a inspeção ou superintendência. O
posto de pastor em chefe poderia ser destinado ou por ser filho de uma
esposa principal ou por suas próprias qualidades superiores de caráter; e
se estava investido com este posto, ele agia não como fofoqueiro e sim
como mordomo fiel que informava da conduta escandalosa de seus
irmãos.
3. era filho da sua velhice — Sendo Benjamim mais novo, era
mais o “filho da sua velhice”, e por conseguinte, por este motivo se
esperava que fosse o favorito. Traduzido literalmente, é “filho da velhice
a ele”, frase hebraica que indica “filho sábio”, alguém que possuía
prudência e sabedoria superiores a seus anos, “cabeça velha sobre
ombros de jovem”.
fez-lhe uma túnica talar de mangas compridas — feita cosendo
juntos pedaços de tecido de cor diferente, e considerada como roupa de
distinção (Jz_5:30; 2Sm_13:18). A paixão por roupa de diversas cores
ainda existe entre os árabes e povos do Oriente, que gostam de vestir a
seus filhos com este adorno chamativo. Mas desde que foi introduzido a
arte de entretecer várias cores, “as roupas de cores” são diferentes agora
do que eram em tempos patriarcais, e levam uma semelhança estreita
com as variedades do tecido de lã com quadros ou listas cruzadas de
diferentes cores.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 113
4. já não lhe podiam falar pacificamente — não lhe diziam “paz
seja a ti” [Gn_43:23, etc.], a expressão habitual de boas-vindas entre
amigos e conhecidos. Considera-se um dever sagrado dar a todos esta
forma de saudação; e o recusá-lo é um sinal inequívoco de desgosto ou
hostilidade secreta. A abstenção habitual dos irmãos de José, pois, de o
encontrar com “o salaam”, mostrava o mal dispostos que estavam para
com ele. É muito natural que os pais amem os mais jovens e se mostrem
parciais com os que se sobressaem em talentos e amabilidade. Mas numa
família constituída como a de Jacó, por haver muitos filhos de mães
diferentes, ele mostrava uma indiscrição grande e ainda criminal.

Vv. 5-36. OS SONHOS DE JOSÉ.


5. Teve José um sonho — Nos tempos antigos se prestava muita
atenção aos sonhos, por isso o sonho de José, embora sendo um simples
rapaz, ocupou seriamente a atenção de sua família. Mas este sonho
evidentemente era simbólico. O significado do mesmo foi facilmente
discernido, e por ser repetido sob diferentes formas, o cumprimento era
considerado como seguro (cf. Gn_41:32), por isso foi que “seus irmãos
lhe tinham ciúmes; o pai, no entanto, considerava o caso consigo
mesmo” [Gn_37:11].
12. foram os irmãos apascentar o rebanho do pai, em Siquém —
O vale de Siquém, desde a primeira menção de Canaã, era abençoado
com uma abundância extraordinária de água. Portanto, foram os filhos de
Jacó de Hebrom a este lugar, ainda que empregariam quase vinte horas
na viagem, ou seja, ao passo de pastores, um pouco mais de 80
quilômetros. Mas o pasto ali é tão rico e nutritivo, que eles creram que
valia a pena fazer tão longa viagem e deixar o distrito de pastoreio de
Hebrom. (Van de Velde.)
13. perguntou Israel a José: Não apascentam teus irmãos o
rebanho em Siquém? — Ansioso por saber como iam seus filhos em
seu longínquo acampamento, Jacó enviou José; e aceitando o jovem a
missão com ardor, deixou o vale de Hebrom; buscou-os em Siquém; foi
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 114
informado a respeito deles por um homem no “campo”, a planície larga e
bem cultivada de Esdralom; e soube que tinham deixado aquela
vizinhança para ir a Dotã, provavelmente sendo obrigados, pela
abominação que, por causa da matança, era tido seu nome.
17. Então, seguiu José atrás dos irmãos e os achou em Dotã —
Heb., “Dothaim”, ou “dois poços” recém descobertos na moderna
“Dothán”, situada a distância de poucas horas de Siquém.
18. De longe o viram — no campo plano, onde guardavam seu
gado, eles o podiam ver se aproximando na distância, do lado de Siquém
ou Samaria.
19. Vem lá o tal sonhador — lit., “senhor de sonhos” – mofa
amargamente irônica. Considerados os sonhos como sugestões do céu,
pretender falsamente ter tido um, era ação detestável e como uma
espécie de blasfêmia; deste ponto de vista seus irmãos viam a José, como
um fingidor ardiloso. Eles já começaram a formar um complô para seu
assassinato, do qual foi resgatado apenas pela petição de Rúben, quem
sugeriu que, em vez disso, deveriam lançá-lo em um dos poços, que
estão agora, e provavelmente estavam, completamente secos no verão.
23. despiram-no da túnica ... de mangas compridas que trazia
— Imagine a José avançando com toda a ingenuidade confiante do afeto
fraternal. Quão surpreso e espantado estaria pela recepção fria, o aspecto
feroz, o tratamento brutal de seus desnaturados assaltantes! Um quadro
vivo de seu estado de agonia e desespero foi esboçado mais tarde por
eles mesmos (cf. Gên. 42:21).
25. Então se assentaram para comer (TB) — Que aspecto
apresenta esta exibição daqueles libertinos endurecidos! A rapidez, a
maneira quase instantânea em que a sugestão foi seguida pela decisão
unânime deles, e a fria indiferença, ou antes, a satisfação diabólica, com
que eles se sentaram a satisfazer-se, é assombrosa. É impossível que a
mera inveja por seus sonhos, seu vistoso traje, ou a parcialidade de seu
pai comum, os tivessem incitado a tal grau de ressentimento furioso ou
os tivessem confirmado em maldade tão completa. Seu ódio contra José
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 115
tem que ter tido uma base mais funda; tem que ter sido produzido pela
aversão a sua piedade e outras excelências, que fizeram com que sua
conduta e caráter fossem uma constante repreensão do caráter e da
conduta deles, e por causa do qual perceberam que nunca poderiam estar
à vontade enquanto não se livrassem de sua aborrecida presença. Esta foi
a verdadeira solução do mistério, assim como foi no caso de Caim
(1Jo_3:12).
Levantando os olhos, olharam, e eis que uma caravana de
ismaelita — se chamam também midianitas (Gn_37:28,36), era uma
caravana andante composta de uma associação mista de árabes. Aquelas
tribos da Arábia setentrional já se dedicavam ao comércio, e por longo
tempo desfrutavam de um monopólio, estando em suas mãos todo o
negócio de transportes. Sua chegada podia ver-se facilmente, porque seu
caminho, depois de cruzar o vau do distrito transjordânico, seguia ao
longo do declive sul das montanhas de Gilboa, e pessoas sentadas na
planície de Dotã podiam ver sua marcha com a fila de camelos à
distância quando caminhavam pelo vale, largo e ligeiramente inclinado,
que os separava. Negociando os produtos da Arábia e Índia, eles estavam
no curso comum do tráfico no caminho ao Egito. Os principais artigos de
comércio em que se ocupavam, eram as especiarias da Índia, ou seja,
uma classe de borracha resinosa, chamada storax, “bálsamo de Gileade”,
a seiva da árvore balsâmica, natural da Arábia Feliz, e mirra, uma
borracha da Arábia, com uma forte fragrância. Destes artigos deve ter
havido uma demanda enorme no Egito, pois eram usados constantemente
no processo de embalsamamento.
26-28. disse Judá a seus irmãos: De que nos aproveita matar o
nosso irmão ... ? — A vista destes comerciantes viajantes trouxe uma
mudança repentina nos projetos dos conspiradores; porque não tendo
desejo de cometer um crime maior que o necessário para obter seu fim,
eles facilmente aprovaram a sugestão de Judá, de vender o seu detestável
irmão como escravo. A proposta, naturalmente, fundou-se em seu
conhecimento de que os comerciantes árabes traficavam escravos; e há a
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 116
evidência mais clara proporcionada pelos monumentos do Egito, de que
os traficantes que tinham o costume de trazer escravos dos países através
dos quais passavam, achavam bom mercado nas cidades do Nilo.
28. os irmãos de José o alçaram, e o tiraram da cisterna, e o
venderam — Agindo impulsivamente pelo conselho de Judá, eles
tiveram preparada a sua pobre vítima para quando chegaram os
comerciantes; e como o dinheiro não era seu objeto principal, venderam-
lhe por
vinte siclos de prata — O dinheiro era provavelmente em forma de
anéis ou peças (siclos), e a prata sempre se menciona nos relatos daquela
idade primitiva antes do ouro, em razão de sua escassez. A soma,
considerada n peso do siclo, não passaria de três libras esterlinas.
levaram José ao Egito — Havia duas rotas até o Egito, uma por
terra pelo caminho de Hebrom, onde morava Jacó, e se tivessem tomado
esta, a sorte de seu desventurado filho possivelmente teria chegado aos
ouvidos paternos; a outra era diretamente rumo ao oeste desde Dotã até a
costa do mar, e por este caminho o mais seguro e mais curto, os
comerciantes levaram José ao Egito. Desta maneira uma Providência
governante levou a este conclave homicida de irmãos, como também aos
traficantes de escravos – ambos seguindo seu próprio curso – o ser
participantes num ato pelo qual Deus tinha que levar a cabo, de uma
maneira maravilhosa, os grandes propósitos de sua sabedoria e bondade
para com Sua igreja e Seu antigo povo.
29, 30. Tendo Rúben voltado à cisterna — Parece que ele tirou de
propósito uma rota tortuosa, com finalidade de resgatar secretamente o
pobre rapaz de uma morte lenta pela fome. Suas intenções eram
excelentes, e seus sentimentos foram dolorosamente machucados,
quando se deu conta do que se havia feito em sua ausência. Mas a coisa
era de Deus, quem tinha projetado que fosse efetuada a libertação por
meios diferentes dos de Rúben.
31-33. tomaram a túnica de José — O cometer um pecado
necessariamente leva a cometer outro para cobrir o primeiro; e a mutreta
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 117
enganosa que os filhos de Jacó planejaram e praticaram com seu velho
pai, foi uma consequência lógica do crime atroz que tinham perpetrado.
Que maravilha que sua cruel zombaria, “a roupa de seu filho”, e seus
esforços desesperados por consolá-lo, não despertasse alguma suspeita!
Mas a extrema tristeza, como todas as outras paixões, é cega, e Jacó,
grande como era sua aflição, não se deixou abandonar à sua dor mais do
que convinha a alguém que cria no governo de um supremo e todo sábio
Diretor.
34. Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco — os
sinais de luto no Oriente. Uma ruptura mais ou menos longa segundo os
sentimentos afligidos pelo enlutado, faz-se na saia, e um pedaço de saco
ou tecido áspero de cabelo de camelo é enrolado na cintura.
35. Chorando, descerei a meu filho até à sepultura — não à
terra, porque supunha que José tinha sido despedaçado, mas sim ao lugar
desconhecido, o lugar dos espíritos desaparecidos, onde Jacó esperava na
morte encontrar-se com seu amado filho.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 118
Gênesis 38

Vv. 1-30. JUDÁ E SUA FAMÍLIA.


1. por esse tempo — fórmula frequentemente usada pelos
escritores sagrados, não para assinalar um período fixo, mas sim um
intervalo próximo.
2. Ali viu Judá a filha de um cananeu — Como Esaú [Gn_26:34],
este filho de Jacó rejeitando as restrições da religião, casou numa família
cananeia; e não é estranho que a família que veio de tal união
inconveniente, fosse odiosa por sua maldade audaz e desavergonhada.
8. disse Judá a Onã: Possui a mulher de teu irmão, cumpre o
levirato e suscita descendência a teu irmão — O primeiro caso de um
costume que mais tarde foi incorporado entre as leis de Moisés, de que
quando morresse um marido deixando uma viúva, seu irmão que lhe
seguia, tinha que casar-se com ela, e a prole, se houvesse, tinha que ser
herdeira do finado (cf. Dt_25:5).
12. Judá, subiu aos tosquiadores de suas ovelhas, em Timna —
Esta época, que aparece na Palestina pelo fim de março, passava-se entre
uma gritaria maior que de ordinário e os senhores mais opulentos
convidavam os seus amigos, como também davam de presente a seus
servos com festins suntuosos. Por conseguinte, diz-se que Judá ia
acompanhado por seu amigo Hira.
Timna — nas montanhas de Judá.
18. O teu selo, etc. — argolas e braceletes eram levados tanto pelos
homens como pelas mulheres entre os hebreus. Mas a palavra hebraica,
aqui traduzida braceletes, em todos os outros lugares se traduz por
“encaixe” ou “cinta”; como só o anel, valia provavelmente mais que o
equivalente de um cabrito, não é fácil suspeitar por que as outras coisas
foram dadas também, exceto pela hipótese de que o anel estava preso ao
borde por uma cinta.
24. Tirai-a fora para que seja queimada — Parece que em
tempos patriarcais, os pais possuíam o direito de vida e morte sobre os
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 119
membros de suas famílias. O crime do adultério antigamente se castigava
em muitas partes com abrasamento. (Lv_21:9; Jz_15:6; Jr_29:22). Este
capítulo contém detalhes que provavelmente não teriam conseguido
lugar na história inspirada, se não tivessem que mostrar os elos
completos da cadeia que une a genealogia do Salvador com Abraão; e no
caráter desprezível da linhagem que figura nesta passagem, temos prova
notável de que “se aniquilou a si mesmo” [Fp_2:7].
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 120
Gênesis 39

VV. 1-23. JOSÉ NA CASA DE POTIFAR.


1. Potifar — Este nome significa um “devoto do sol”, a deidade
local de Om ou Heliópolis, circunstância que fixa o lugar de sua
residência no Delta, distrito do Egito que limita com Canaã.
oficial de Faraó — lit., príncipe de Faraó; ou seja, no serviço do
governo.
comandante da guarda — O sentido do termo original foi
interpretado de várias maneiras, considerando alguns que quer dizer
“chefe dos cozinheiros”, outros, “chefe inspetor de plantações”; mas
aquele que parece melhor baseado é “chefe dos executores”, “chefe da
polícia”, o mesmo que capitão da guarda, o zabut do Egito moderno.
(Wilkinson.)
comprou-o dos ismaelitas — A idade, aparência e inteligência do
escravo hebreu logo fariam com que fosse comprado no mercado. Mas a
influência invisível e imperceptível do grande Ordenador atraiu a
atenção de Potifar para ele, a fim de que em casa de alguém tão
estreitamente unido à corte, recebesse José aquele ensino prévio que era
necessário para a alta posição que estava destinado a ocupar, e na escola
da adversidade aprendesse lições de sabedoria prática que tinham que ser
da maior utilidade e importância em sua carreira futura. Assim é, que
quando Deus tem alguma obra importante a fazer, sempre prepara
agentes aptos para efetuá-la.
2. estava na casa de seu senhor egípcio. — Aqueles escravos que
tinham sido prisioneiros de guerra, geralmente eram enviados ao campo,
e sujeitos ao tratamento duro sob a “vara” dos capatazes. Mas os
comprados por dinheiro, eram empregados em trabalhos domésticos,
tratados bondosamente, e desfrutavam de tanta liberdade como os da
mesma classe no moderno Egito.
3. Vendo Potifar que o SENHOR era com ele — Ainda que
mudada sua condição, José não mudou em espírito; despojado da veste
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 121
vistosa que o tinha adornado, não havia perdido as graças morais que
distinguiam seu caráter; separado de seu pai sobre a terra, seguia vivendo
em comunhão com seu Pai no céu; em casa de um idólatra, ele
continuava como adorador do verdadeiro Deus.
5. o SENHOR abençoou a casa do egípcio por amor de José, etc.
— Poderia ser, e provavelmente foi, que uma bênção especial,
milagrosa, fosse derramada sobre um jovem, que tão fielmente servia a
Deus em meio a todas as desvantagens de sua posição. Mas será útil
notar que semelhante bênção geralmente segue o curso comum das
coisas; e os senhores mais mundanos e ímpios sempre admiram e
respeitam a religião num servo, quando veem apoiada aquela profissão
por princípios de consciência e por uma vida consequente.
6. tudo o que tinha confiou às mãos de José — Não sabemos com
que emprego entrou no serviço de Potifar; mas o olho observador de seu
senhor logo descobriu suas qualidades superiores, e o tornou seu servo
principal e confidencial (cf. Ef_6:7; Cl_3:23). A promoção de escravos
domésticos não é rara, e se considera uma grande desgraça não elevar a
alguém que tenha estado um ano ou dois na família. Mas este progresso
extraordinário de José foi obra do Senhor, embora de parte de Potifar foi
o resultado de suas observações quanto à prosperidade assombrosa que a
acompanhava em tudo o que fazia.
7. a mulher de seu senhor pôs os olhos em José — As mulheres
egípcias não eram guardadas em isolamento como as mulheres na
maioria dos países orientais o são ainda hoje. Eram tratadas de uma
maneira mais digna de um povo civilizado; com efeito, desfrutavam de
tanta liberdade em casa e fora de casa como as damas da Grã-Bretanha.
De modo que a mulher de Potifar tinha constante oportunidade de ver
José. Mas as mulheres do antigo Egito eram muito relaxadas em seus
costumes. As intrigas e a intemperança eram vícios muito gerais entre o
sexo, como os monumentos o testificam muito claramente. (Wilkinson.)
A mulher de Potifar provavelmente não era pior que muitas outras da
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 122
mesma posição, e seus requerimentos infames feitos a José resultavam
de sua superioridade de posição.
9. como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra
Deus? — Esta repreensão, quando todos os argumentos inferiores
tinham falhado, reunia em si o verdadeiro princípio da pureza moral, um
princípio sempre suficiente, onde existe, e todo suficiente.
14. chamou pelos homens de sua casa — Desapontada e
afrontada, ela jurou vingança, e acusou José, primeiro perante os servos
da casa, e logo perante o senhor em seu retorno.
Vede, trouxe-nos meu marido este hebreu para insultar-nos —
uma difamação, fingida e cega sobre seu marido por ter em sua casa a
um hebreu, a mesma abominação dos egípcios.
20. o senhor de José o tomou e o lançou no cárcere — A casa
redonda, pela forma de sua construção, geralmente unida ao domicílio de
um oficial como Potifar. Era em parte um calabouço subterrâneo
(Gn_41:14), ainda que os muros de tijolo se elevavam grandemente
sobre a superfície da terra, e estavam cobertos por uma abóbada quase na
forma de uma taça invertida. Em semelhante calabouço, no primeiro
arrebatamento de sua ira, lançou ali José, e ordenou ademais que fosse
sujeito ao tratamento mais duro possível (Sl_105:18); porque o poder
dos senhores sobre seus escravos estava muito justamente limitado pela
lei, e o assassinato de um escravo era um crime capital.
no lugar onde os presos do rei estavam — Ainda que pareça que
os cárceres eram dependências inseparáveis dos palácios, este não era
um calabouço comum; era o receptáculo dos criminosos do estado; e,
então, se pode presumir que se exercia sobre os detentos uma severidade
e vigilância mais que o comum. Em geral, entretanto, os cárceres
egípcios, como outros orientais, eram usados somente com propósitos de
detenção. As pessoas acusadas eram postas neles até que se pudessem
investigar as acusações; e embora o carcereiro fosse responsável pelo
aspecto dos que tinha sob sua custódia, entretanto, sempre que pudessem
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 123
apresentar-se quando eram chamados, nunca lhe interrogava sobre a
maneira em que ele os tinha.
21-23. O SENHOR … deu-lhe graça aos olhos do carcereiro-
mor — É muito provável, pela localização deste cárcere, (Gn_40:3), que
o carcereiro tivesse conhecido anteriormente a José, e tivesse tido meios
de conhecer sua inocência do crime de que era acusado, como também
soubesse de toda a integridade de seu caráter. Isto em parte poderá
explicar por que mostrava tanta bondade e confiança a seu detento. Mas
estava operando uma influência superior; porque “o SENHOR era com
ele, e tudo o que ele fazia o SENHOR prosperava” [v. 23]
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 124
Gênesis 40

Vv. 1-8. DOIS PRISIONEIROS DE ESTADO.


1. o copeiro-chefe — não só copeiro, mas também capataz das
vinhas reais como também das adegas, tendo talvez centenas de pessoas
sob suas ordens.
padeiro-chefe — cozinheiro, tinha a superintendência de tudo o
que estava relacionado com a provisão e preparação das refeições para a
mesa real. Ambos os oficiais, especialmente o primeiro, eram no antigo
Egito pessoas de grande posição e importância; pela natureza
confidencial de seu emprego como também por seu acesso à presença
real, eles eram geralmente dos mais elevados nobres ou príncipes de
sangue real.
2, 3. Faraó … mandou detê-los, etc. — Seja qual for o seu crime,
até que sua causa pudesse ser investigada, foram entregues à custódia do
capitão da guarda, ou seja, a Potifar, numa parte exterior de cuja casa
estava situada o cárcere real.
4. O comandante da guarda pô-los a cargo de José — não o
carcereiro, ainda que ele estava muito favoravelmente disposto, mas sim
o próprio Potifar quem, conforme pareceria, agora estava satisfeito com
a perfeita inocência do jovem hebreu; ainda que provavelmente para
evitar o escândalo em sua família, achou prudente tê-lo detido na prisão
(veja-se Sl_37:5).
por algum tempo estiveram na prisão — quanto tempo não
sabemos. Mas como foram chamados a prestar contas no aniversário do
rei, supôs-se que sua falta tinha sido cometida no aniversário anterior.
(Calvino).
5-8. Tiveram ambos um sonho (TB) — José sob a influência da
verdadeira religião sabia simpatizar com outros (Ec_4:1; Rm_12:15
Fp_2:4). Vendo-os um dia extremamente deprimidos, perguntou pela
causa de sua melancolia; e sendo informado de que se devia a um sonho
que ambos tinham tido na noite anterior, depois de dirigi-los
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 125
humildemente a Deus (Dn_2:30; Is_26:10), se ofereceu para ajudá-los,
por meio da direção divina, a descobrir o significado de sua visão. A
influência da Providência tinha que ver-se no fato notável de que ambos
sonharam tais sonhos numa mesma noite. Deus move os espíritos dos
homens.

Vv. 9-15. O SONHO DO COPEIRO.


9. Em meu sonho havia uma videira perante mim — A cena
vista em sonhos que se descreve, parece representar o rei fora de casa,
fazendo exercício, e acompanhado por seu copeiro, que lhe deu uma
bebida refrescante. Em todas as ocasiões, os reis do Egito estavam
obrigados a ser temperados no uso do vinho (Wilkinson); mas nesta
cena, é uma bebida preparada que está tomando, provavelmente um
sorvete dos de hoje em dia. Tudo é feito na presença do rei — a taça é
lavada, o suco das uvas se espreme nela; então foi passada ao rei — não
empunhada, mas sim apoiada ligeiramente sobre as pontas dos dedos.
12-15. Respondeu José: Esta é a interpretação do sonho (TB) —
falando como intérprete inspirado, disse ao copeiro que dentro de três
dias seria restaurado a todas as honras e privilégios de seu cargo; e
enquanto fazia aquele anúncio prazeroso, pedia a influência do oficial a
favor de sua libertação. Nada até agora aparece na história que indique o
estado dos sentimentos de José; mas esta ardente petição revela uma
tristeza e ânsia impaciente pela liberdade, as quais não puderam dissipar
toda sua piedade e fé.

Vv. 16-23. O SONHO DO PADEIRO.


16. eis que três cestos de pão alvo me estavam sobre a cabeça
— As circunstâncias mencionadas exatamente descrevem seu trabalho;
que, apesar de seus numerosos ajudantes, ele fazia com suas próprias
mãos.
pão alvo — lit., cheios de buracos – canastras de vime. As comidas
eram levadas à mesa em três canastras, postas uma sobre a outra; e na de
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 126
mais acima, as carnes guisadas. Ao cruzar os pátios abertos, da cozinha
ao refeitório, o furto das comidas por algum abutre, águia, íbis ou outra
ave de rapina, era acontecimento frequente nos palácios do Egito, como
ocorre hoje em dia nos países quentes do Oriente. O perigo de parte
destas aves carnívoras era maior nas cidades do Egito, pois sendo
consideradas como sagradas, era contrário à lei destruí-las; e se
multiplicavam em tal quantidade que chegavam a ser uma grande
moléstia para o povo.
18, 19. Respondeu-lhe José: Esta é a interpretação do sonho
(TB) — O significado era que em três dias se ordenaria sua execução. A
linguagem de José descreve uma forma de castigo capital que prevalecia
no Egito: o réu era decapitado, e então seu corpo sem a cabeça era
pendurado numa árvore ao lado do caminho público, até ser comido
gradualmente pelas aves de rapina.
20-22. No terceiro dia, que era aniversário de nascimento de
Faraó — Este era grande dia de festa, celebrado na corte com grande
magnificência e enaltecido com a anistia os detentos. Por conseguinte, o
que José havia predito aconteceu ao copeiro e ao padeiro. Sem dúvida,
ele sentia tristeza ao ter que comunicar notícias tão terríveis ao padeiro;
mas não pôde senão anunciar o que Deus lhe tinha revelado; e foi para
honra do verdadeiro Deus que ele falou com clareza.
23. O copeiro-chefe, todavia, não se lembrou de José — Esta é a
natureza humana. Quão dispostos estão os homens a esquecer e
descuidar na prosperidade os que foram seus companheiros na
adversidade (Am_6:6)! Ainda que sem atribuir nenhum mérito sobre o
copeiro, foi sabiamente disposto na Providência de Deus que ele se
esquecesse de José. Os propósitos divinos requeriam que José
conseguisse sua libertação de outra maneira e por outros meios.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 127
Gênesis 41

Vv. 1-24. O SONHO DE FARAÓ.


1. passados dois anos — Não é seguro se estes anos se calcularem
desde o começo do encarceramento de José, ou dos acontecimentos
relatados no capítulo anterior – este é mais provável. Que longo tempo
para que José experimentasse a tristeza da esperança frustrada! Mas o
tempo de sua exaltação chegou, quando ele tinha aprendido
suficientemente as lições de Deus determinadas para ele, e os planos da
Providência amadureceram.
Faraó teve um sonho — A palavra Faraó, derivada da palavra
egípcia “fra”, que significa o “sol”, era o título oficial dos reis do país. O
príncipe que ocupava o trono, era Afofis, um dos reis Menfitas, cuja
capital era Om ou Heliópolis; o qual é universalmente reconhecido como
um rei patriota. Entre a chegada de Abraão e a de José àquele país,
tinham passado algo mais de cem anos. Os reis dormem e sonham, assim
como os seus súditos. Este rei teve dois sonhos numa mesma noite, tão
singulares e tão similares, tão distintos e aparentemente tão
significativos, tão coerentes e tão vivamente impressos em sua memória,
que seu espírito estava turbado.
8. mandou chamar todos os magos do Egito — Não é possível
definir a diferença exata entre “magos” e “sábios”; mas formavam ramos
distintos de um corpo numeroso, que pretendia ter poder e habilidade
sobrenatural nas artes e ciências ocultas, em revelar mistérios, em
explicar eventos singulares, e, sobretudo, em interpretar sonhos. Uma
longa prática os tinha feito peritos em inventar maneiras plausíveis de
sair de toda dificuldade e de idear uma resposta adequada a cada ocasião.
Mas os sonhos de Faraó frustraram a perícia de todos juntos. Distintos de
seus irmãos assírios (Dn_2:4), eles não pretendiam conhecer o
significado dos símbolos contidos nos sonhos e a Providência de Deus
tinha determinado que todos ficassem confundidos no exercício de seus
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 128
imaginários poderes, a fim de que a sabedoria inspirada de José
aparecesse tanto mais notável.
9-13. Então, disse a Faraó o copeiro-chefe: Lembro-me hoje das
minhas ofensas — Este reconhecimento público dos méritos do jovem
hebreu, ainda que tardio, teria posto algum mérito sobre o copeiro, se
não o tivesse feito claramente para congraçar-se com seu real senhor.
Faz bem confessar nossas faltas contra Deus e contra nossos
semelhantes, quando essa confissão é feita com espírito de piedosa
tristeza e arrependimento. Mas este homem não estava muito
impressionado com o sentimento da falta cometida contra José; nunca
pensou em Deus, a cuja bondade devia estar reconhecido pelo anúncio
profético de sua libertação, e ao reconhecer sua falta anterior contra o
rei, estava praticando a arte cortesã de adular a seu senhor.
14. Então, Faraó mandou chamar a José — Agora que tinha
chegado o tempo fixado por Deus (Sl_105:19), nenhum poder, nenhuma
política podiam reter José no cárcere. Durante sua prolongada detenção,
teria estado com frequência aflito por dúvidas perturbadoras; mas o
mistério da Providência estava por esclarecer-se, e todos os seus pesares
estavam para ser esquecidos na carreira da honra e da utilidade pública
em que seus serviços seriam empregados.
ele se barbeou — Os egípcios eram os únicos orientais que
gostavam da barba feita. Todos os escravos e estrangeiros que estavam
reduzidos a essa condição, eram obrigados, em sua chegada àquele país,
a adaptar-se aos hábitos de limpeza dos nativos, fazendo a barba e a
cabeça, cobrindo-se esta com uma boina ajustada. Assim preparado, José
foi conduzido ao palácio, onde o rei parecia ter esperado ansiosamente
sua chegada.
15, 16. Disse Faraó a José. Tive um sonho (TB) — O breve relato
que o rei fez do que desejava, demonstrou a genuína piedade de José,
quem, negando-se todo mérito próprio, atribuiu à divina fonte de toda
sabedoria, os dons ou a sagacidade que ele pudesse possuir; declarou sua
própria incapacidade de penetrar no futuro; mas, ao mesmo tempo,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 129
manifestou sua convicção de que Deus revelaria o que fosse necessário
saber.
17. contou Faraó a José: No meu sonho, estava eu de pé na
margem do Nilo — os sonhos eram puramente egípcios, fundados nos
produtos daquele país e nas experiências de um nativo. Como dependia
do Nilo a fertilidade do Egito, a cena se coloca sobre a margem daquele
rio; e como os bois nos antigos hieróglifos eram simbólicos da terra e
dos alimentos, estes animais foram introduzidos no primeiro sonho.
18. subiam do Nilo sete vacas (TB) — Agora se veem diariamente
vacas, do tipo do búfalo, inundando-se o Nilo; quando sua forma enorme
emerge gradualmente, parecem “subir do rio”.
pastavam no carriçal — pasto do Nilo; plantas aquáticas que
crescem nas margens lamacentas, especialmente da classe do lótus, com
a qual o gado geralmente engordava.
19. outras sete vacas … muito feias à vista e magras (RC) —
sendo a vaca o emblema da fecundidade, os diferentes anos de
abundância e de fome foram representados adequadamente pela
condição diferente das vacas: a abundância, pelas vacas que comiam o
pasto mais rico, e a escassez, pelas vacas fracas e famintas, às quais as
angústias da fome as obrigaram a cometer atos contrários à sua natureza.
22. Depois, vi, em meu sonho, que sete espigas saíam — isto é, de
trigo egípcio, o qual, quando é “cheio e bom”, é de tamanho notável,
brotando de uma só semente sete e dez ou quatorze caules ou troncos, e
em cada caule uma espiga.
23. mirradas e crestadas do vento oriental — destrutivo em todas
as partes para o grão, mas especialmente no Egito, onde, movendo-se
sobre os desertos arenosos da Arábia, chega como vento quente,
abrasador, ao Egito, e logo seca toda a vegetação. (cf. Ez_19:12;
Os_13:15).
24. As sete espigas mirradas devoravam as sete espigas boas —
“devoravam” é palavra distinta da que se usa em Gn_41:4, e leva
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 130
consigo a ideia de destruir absorvendo para si todo o poder nutritivo da
terra ao redor de si.

Vv. 25-36. JOSÉ INTERPRETA OS SONHOS DE FARAÓ.


25. respondeu José: O sonho de Faraó é apenas um — Os dois
assinalavam o mesmo acontecimento: uma dispensação notável de sete
anos de abundância sem igual, que tinham que ser seguidos por um
período similar de carestia sem paralelo. A repetição do sonho em duas
formas diferentes foi proposta para mostrar a certeza absoluta e a pronta
chegada desta crise pública; a interpretação foi acompanhada por várias
sugestões de sabedoria prática para fazer diante de tão grande
emergência que ameaçava.
33. Agora, pois, escolha Faraó um homem — a explicação dada,
quando a chave dos sonhos foi proporcionada parece ter sido satisfatória
ao rei e a seus cortesãos; e podemos supor que se suscitaria uma ansiosa
discussão no curso da qual se perguntaria a José se tinha algo mais a
dizer. Não há dúvida de que Deus proveu a oportunidade para que ele
sugerisse o que seria necessário.
34. ponha administradores sobre a terra — supervisores,
equivalente aos beis do Egito moderno.
tome a quinta parte dos frutos da terra do Egito — ou seja, do
produto da terra; que seria comprado e acumulado pelo governo, em vez
de vender-se aos comerciantes estrangeiros.

Vv. 37-57. JOSÉ É FEITO GOVERNADOR DO EGITO.


38. Disse Faraó aos seus oficiais — Os reis do antigo Egito eram
ajudados no manejo dos assuntos de estado pelo conselho dos membros
mais distinguidos da ordem sacerdotal; e, por conseguinte, antes de
admitir a José ao novo e extraordinário cargo que se devia tinha criar,
aqueles ministros foram consultados quanto à conveniência e
legitimidade da nomeação.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 131
homem como este, em quem há o Espírito de Deus. — Um
reconhecimento da existência e o poder do verdadeiro Deus, ainda que
pálido e fraco, continuou entre as classes superiores muito tempo depois
de que ter prevalecido a idolatria.
40. Administrarás a minha casa — esta repentina mudança na
condição de um homem que acabava de ser tirado do cárcere, não
poderia suceder senão no Egito. Em tempos antigos como nos modernos,
escravos subiram a governantes. Mas a Providência especial de Deus
tinha determinado tornar José governador do Egito; e o caminho foi
preparado para isso pela convicção profunda e universal na mente do rei
e seus conselheiros de que um espírito divino animava sua mente, e lhe
tinha dado um conhecimento tão extraordinário.
à tua palavra obedecerá todo o meu povo — lit., “beijo”. Isto se
refere ao decreto que concedia a José poder oficial, para ser despachado
em forma de um carimbo, como em todos os países orientais; e todos os
que recebessem aquela ordem, a beijariam, segundo o modo oriental
habitual de mostrar obediência e respeito ao soberano (Wilkinson).
41. Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre
toda a terra do Egito — Estas palavras eram introdutórias da
investidura com as insígnias de autoridade, que eram: o anel com selo,
usado para assinar documentos públicos, e sua impressão era mais válida
que a assinatura do rei; o khelaat, ou vestido de honra, roupa de linho
primorosamente trabalhada, usada só pelos personagens mais elevados; o
colar de ouro, divisa de posição (a forma lisa ou ornamental dele
indicava o grau de posição e dignidade); o privilégio de andar em
carruagem de estado; e finalmente
43. clamavam diante dele: Inclinai-vos — “abrek” palavra
egípcia, que não se refere ao ato de prostrar-se, mas sim significando,
segundo alguns “pai” (cf. Gn_45:8), “príncipe nativo” ou seja que o
proclamava naturalizando, a fim de tirar toda aversão para com ele como
estrangeiro.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 132
44. Estas cerimônias de investidura terminaram na forma habitual
pelo rei que em conselho ratificava solenemente a nomeação.
Eu sou Faraó, contudo sem a tua ordem, etc. — modo proverbial
de expressão de grande poder.
45. Zafenate-Paneia — interpretado de várias maneiras, “revelador
de secretos”, “salvador da terra”; e pelos hieróglifos, “homem sábio
fugindo da contaminação” ou seja, adultério.
e lhe deu por mulher a Asenate, filha de Potífera — Sua
naturalização foi completada por uma aliança com uma família de alta
distinção. Sendo Om fundada por uma colônia árabe, Potífera, como
Jetro, sacerdote de Midiã, poderia ser adorador do Deus verdadeiro;
assim José, homem piedoso, ficaria livre da acusação de ter casado com
uma idólatra por motivos terrestres.
Om — Chamada “Áven” (Ez_30:17), e também Bete-Semes
(Jr_43:13). Ao ver toda esta profusão de honras repentinamente dadas a
José, não se pode duvidar que ele humildemente e com gratidão
reconheceria a mão de uma Providência especial que o conduzia por toda
sua variada carreira até um poder quase real; e nós que sabemos mais
que José, não só podemos ver que o progresso dele estava subordinado
aos propósitos mais importantes relacionados com a igreja de Deus, mas
sim aprendemos a grande lição de que uma Providência dirige os
menores acontecimentos da vida humana.
46. Era José da idade de trinta anos quando se apresentou a
Faraó — com dezessete quando foi trazido ao Egito; provavelmente três
anos no cárcere, e treze no serviço do Potifar.
andou por toda a terra do Egito — fez uma inspeção imediata,
para determinar o lugar e o tamanho das casas de armazenagem
necessitadas nas diferentes parte do país.
47. a terra produziu abundantemente — uma expressão singular,
que faz alusão não só à exuberância da colheita mas também à prática
dos ceifeiros de pegar só as espigas que eram cortadas.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 133
48. ajuntou todo o mantimento dos sete anos (RC) — Dá uma
ideia clara da fertilidade exuberante desta terra o fato de que da
superabundância dos sete anos copiosos, armazenou-se trigo para a
subsistência, não só da população mas também dos países vizinhos
durante os sete anos de escassez.
50-52. nasceram a José dois filhos — Estes acontecimentos, que
aumentaram sua felicidade temporária, demonstram a piedade de seu
caráter pelos nomes que deu a seus filhos.
53-56. Passados os sete anos de abundância — Além da porção
comprada pelo governo durante os anos de abundância, o povo poderia
ter armazenado muito para seu uso futuro. Mas imprevidentes como são
os homens usualmente em tempos de prosperidade, eles se acharam
necessitados, e teriam morrido aos milhares, se José não tivesse previsto
e provido para a calamidade prolongada.
57. a fome prevaleceu em todo o mundo — ou seja em países
contíguos ao Egito: Canaã, Síria e Arábia.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 134
Gênesis 42

Vv. 1-38. VIAJE AO EGITO.


1. Sabedor Jacó de que havia mantimento no Egito — veio a
sabê-lo por um rumor comum. É evidente pela linguagem de Jacó, que
sua família e as de seus filhos tinham sofrido grandemente pela escassez;
e pelo crescente aumento da calamidade, aqueles homens que antes
mostravam tanta atividade e ânimo, se estavam afundando no desalento.
Deus não queria interpor-se milagrosamente, quando estavam a seu
alcance os meios naturais para a conservação da vida.
5. havia fome na terra de Canaã — As chuvas tropicais, que
anualmente enchem o Nilo, são também as da Palestina; e a falta delas
produziria os mesmos efeitos desastrosos tanto em Canaã como no Egito.
Portanto, numerosas caravanas cruzavam o deserto arenoso de Suez, com
suas bestas de carga, para comprar trigo; entre outros “os filhos de Jacó”
se viram obrigados a empreender uma viagem ao qual pelas lembranças
dolorosas fortemente resistiam.
6. José era o senhor da terra — na cúpula de seu poder e
influência.
era ele quem vendia a todos os povos da terra — ou seja, ele
dirigia as vendas; porque era impossível que ele desse atenção pessoal
em todos os lugares. É provável, entretanto, que ele pessoalmente tenha
vigiado os depósitos que havia perto da fronteira de Canaã, até porque
era a parte mais exposta do país e porque ele teria previsto a chegada de
mensageiros da casa do pai.
os irmãos de José vieram e se prostraram rosto em terra,
perante ele — Seus sonhos proféticos [Gn_37:5-11] estavam em vias de
serem cumpridos, e a ferocidade terrível de seus irmãos tinha sido o
meio para efetuar a mesma situação que eles tinham querido evitar
(Is_60:14; Ap_3:9, última cláusula).
7, 8. Vendo José a seus irmãos, reconheceu-os ... porém eles não
o reconheceram — Isto não é estranho. Eles eram homens feitos já, e
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 135
ele só um rapaz, ao separar-se. Eles levavam sua roupa habitual; ele
tinha sua roupagem oficial. Eles nunca tinham sonhado que ele fosse
governador do Egito, enquanto que ele os tinha estado esperando. Eles
tinham um só rosto que olhar; ele tinha dez pessoas para reconhecer.
não se deu a conhecer, e lhes falou asperamente. — Seria uma
injustiça feita ao caráter de José supor que esta maneira áspera fosse
motivada por sentimentos vingativos; ele nunca guardou ressentimentos
contra os que lhe haviam feito mal. Mas lhes falou no tom autoritativo de
um governador a fim de obter alguma notícia, há longo tempo desejada,
a respeito do estado da família do pai, como também para trazer para
seus irmãos, mediante sua humilhação e inquietação, a um sentido dos
males que eles tinham feito a ele.
9-14. Vós sois espiões — esta é uma suspeita que se conserva a
respeito dos estrangeiros, em todos os países orientais, até hoje. Como
José bem sabia que seus irmãos não eram espiões, os acusou que uma
cruel dissimulação, de uma violação deliberada do que ele sabia que não
era verdade, ao imputar-lhes tal caráter. Mas é preciso lembrar que ele
estava em seu caráter de governador; e, com efeito, estava agindo sobre
o mesmo princípio sancionado por muitos dos escritores sagrados, e por
nosso Senhor mesmo, quem pronunciou parábolas (histórias fictícias)
para promover um bom fim.
15. pela vida de Faraó — É costume muito comum na Ásia
ocidental o jurar pela vida do rei. José falou com a maneira de um
egípcio, e talvez não cria que houvesse mal nisso. Mas nós estamos
ensinados a considerar as expressões de tal natureza à luz de um
juramento (Mt_5:34; Tg_5:12).
17-24. E os meteu juntos em prisão três dias — Seu
encerramento tinha o propósito de trazê-los à meditação saudável. E este
objetivo foi obtido, porque eles consideraram que a justiça retributiva de
Deus agora os perseguia naquela terra estrangeira. O teor de sua
conversação é um caso dos mais notáveis do poder da consciência
[Gn_42:21, 22], que temos na história.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 136
24. tomou a Simeão dentre eles e o algemou na presença deles
— Provavelmente ele tinha sido o principal instigador, o ator mais
violento no ultraje contra José, e se era assim, a escolha dele para ser o
refém encarcerado e preso até a volta de todos eles, no curso da
meditação dos mesmos, teria um significado doloroso.
25-28. Ordenou José que lhes enchessem de cereal os sacos, e
lhes restituíssem o dinheiro, a cada um. — Esta generosidade pessoal
não foi uma violação de seu dever ou defraudação das entradas do
governo. Ele fazia uso de seu livre-arbítrio; diariamente ele estava
enriquecendo o tesouro do rei. Além disso, ele poderia ter pago a soma
de seu pecúlio.
27. na estalagem — uma parada para dar de comer aos animais.
deu com o dinheiro — A descoberta os pôs numa perplexidade
maior que nunca. Se eles se estivessem felicitando por ter escapado do
insensível governador, deram-se conta de que agora ele teria uma
vantagem contra eles; e é claro que eles consideravam isto como um
juízo do céu. Assim o propósito principal de José foi conseguido porque
suas consciências tinham sido despertadas ao sentido de culpabilidade.
35. despejando eles os sacos de cereal, eis cada um tinha a sua
trouxinha de dinheiro — Parece que eles guardaram silêncio a respeito
do dinheiro descoberto na estalagem, porque seu pai poderia tê-los
reprovado por não terem retornado imediatamente com o dinheiro ao
Egito. Ainda que eles sabiam que eram inocentes, todos sentiam isto
como uma circunstância adversa, que poderia colocá-los em perigos
novos e maiores.
36. Tendes-me privado de filhos — Esta exclamação indica um
estado de sentimentos dolorosamente excitados, e mostra quão difícil é
que até um homem bom preste submissão implícita aos desígnios da
Providência. Sua linguagem não dá a entender que pensasse que seu
filho ausente tivesse sido objeto de uma má jogada de parte dos demais,
mas considera perdido a Simeão, o mesmo que José, e insinua que por
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 137
alguma palavra imprudente deles ele se via exposto ao risco de perder
também a Benjamim.
37. Rúben disse a seu pai: Mata os meus dois filhos, se to não
tornar a trazer — Esta é uma condição insensata e indesculpável;
condição que nunca pensava seriamente que o pai aceitaria. Tinha o
propósito só de dar segurança de que tomaria o maior cuidado de
Benjamim. Mas circunstâncias imprevistas poderiam apresentar-se para
tornar impossível que eles todos salvassem o jovem (Tg_4:13), e Jacó
sofria muito em face desta perspectiva. Pouco sabia ele que Deus estava
tratando com ele não com severidade mas com bondade (Hb_12:7-8), e
que todas estas coisas que ele cria serem contrárias, estavam operando
juntamente para o seu bem.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 138
Gênesis 43

Vv. 1-14. PREPARATIVOS PARA UMA SEGUNDA VIAGEM


AO EGITO.
2. disse-lhes seu pai: Voltai, comprai-nos um pouco de
mantimento — Não foi assunto fácil convencer a Jacó a aceitar as
terminantes condições sob as quais seus filhos poderiam retornar ao
Egito (Gn_42:15). A necessidade de procurar imediatamente uma nova
quantidade de provisões para a manutenção de suas famílias, venceu
qualquer consideração, e obteve o consentimento de Jacó para que
Benjamim acompanhasse a outros irmãos na viagem, a qual
empreenderam com sentimentos mistos de esperança e ansiedade; de
esperança, porque tendo completado a exigência do governador de que
trouxessem o seu irmão mais jovem, esperavam que o motivo alegado
para suspeitar deles, seria abolido e de temor porque poderia tramar-se
contra eles algo mau.
11. tomai do mais precioso desta terra ... e levai de presente —
É uma prática oriental a de nunca chegar-se a um homem de poder sem
um presente, e Jacó poderia lembrar como tinha pacificado a seu irmão
Esaú (Pv_21:14) — bálsamo, especiarias, mirra (Gn_37:25), mel, que
alguns creem que era dibs, xarope feito de tâmaras amadurecidas
(Bochart); mas outros pensam, que era o mel de Hebrom, o qual ainda se
considera como superior ao do Egito; nozes, nozes de pistacho, das quais
a Síria produz as melhores do mundo; amêndoas, muito abundantes na
Palestina.
12. levai também dinheiro em dobro — a primeira soma para ser
devolvida, e a outra para adquirir uma nova provisão. O dinheiro
devolvido na boca dos sacos foi uma coisa atormentadora. Isto poderia
ter sido feito inadvertidamente por algum dos servos – assim Jacó o
pensava – e era um pensamento feliz para sua própria paz e para a
tranquilidade dos viajantes que ele assumisse este ponto de vista. Além
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 139
do dever de restituí-lo, a honestidade neste caso era o caminho melhor e
mais seguro que poderiam seguir.
14. Deus Todo-Poderoso vos dê misericórdia perante o homem
— Jacó aqui está encomendando todos ao cuidado de Deus, e, resignado
ao que aparece como uma dura prova, pede a Deus que seja dirigida para
o bem.

Vv. 15-30. A CHEGADA AO EGITO.


15. se apresentaram perante José — Facilmente podemos
imaginar o deleite com que, entre os muitos concorrentes, o olho de José
se fixou em seus irmãos e em Benjamim. Mas ocupado em seus deveres
públicos, deixou-os aos cuidados de um servo de confiança, até que ele
tivesse terminado os assuntos do dia.
16. ao despenseiro de sua casa — Nas casas dos egípcios ricos,
um criado principal tinha a seu cargo a direção da casa (cf. Gn_39:5).
mata reses e prepara tudo — Heb. “mata uma matança”, dando a
entender preparativos para um grande festejo (Gn_31:54; 1Sm_25:11;
Pv_9:2; Mt_22:4). Os animais devem ser mortos como também
preparados em casa. O calor do clima exige que o cozinheiro receba a
carne diretamente de mão do açougueiro, e o gosto oriental, por costume,
prefere a carne recém abatida. A grande profusão de carnes, com
quantidade interminável de vegetais, era provida para os banquetes, aos
quais eram convidados os estrangeiros, porque o orgulho dos egípcios
consistia mais na quantidade e variedade, que na seleção e na delicadeza
dos pratos em sua mesa.
comerão comigo ao meio-dia — A hora da refeição era meio-dia.
18. Os homens tiveram medo — Seus sentimentos de temor ao
entrar na imponente mansão, não estando eles acostumados
absolutamente às casas, sua ansiedade a respeito dos motivos de ter sido
levados lá, sua solicitude a respeito do dinheiro devolvido, sua
simplicidade honesta em comunicar seu apuro ao mordomo, e as
seguranças dele de ter recebido seu dinheiro em “justo peso”, o
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 140
oferecimento de seu obséquio de frutos, o que, como de costume, seria
feito com certa pompa, e as saudações orientais que se mudaram entre
eles e seu hospitaleiro: tudo isto está relatado de uma maneira gráfica e
animada.

Vv. 31-34. A COMIDA.


31. e disse: Ponde pão (RC) — Equivalente a “sirvam a comida”;
sendo a palavra “pão” um termo que incluía todos os manjares. A mesa
era pequena, e provavelmente de forma redonda, “pois assim as pessoas
poderiam sentar-se segundo sua hierarquia ou antiguidade, e a mesa
egípcia moderna não está sem seu posto de honra e uma graduação fixa
de lugares”. (Wilkinson.) Duas ou quando muito três pessoas ocupavam
uma mesa. O anfitrião, sendo o mais alto em hierarquia de todos os
comensais, tinha sua mesa à parte; pois assim estava arrumado para que
um egípcio não se achasse comprometido a servir o alimento das
mesmas vasilhas das quais se servia um hebreu.
32. aos egípcios não lhes era lícito comer pão com os hebreus,
porquanto é isso abominação — O preconceito provavelmente veio do
aborrecimento que, pela opressão dos reis pastores, a nação sentia contra
todos os daquela ocupação.
34. apresentou as porções ... a porção de Benjamim era cinco
vezes mais — No Egito, como em outros países orientais, havia, e há,
dois modos de prestar atenção a um convidado a quem se quer honrar: ou
dando uma porção seleta da própria mão do hospitaleiro, ou mandando a
outros que a leve ao visitante. O grau de respeito mostrado consiste na
quantidade, e enquanto que a regra ordinária de distinção é uma porção
em dobro, teria parecido um sinal muito distinguido de favor prestado a
Benjamim o ter não menos de cinco vezes mais que seus irmãos.
eles beberam e se regalaram com ele. — Heb. “beberam
livremente”, como em Cantar dos Cantares de Salomão 5:1; Jo_2:10. Em
todos estes casos a ideia de intemperança está excluída. As ansiedades e
os cuidados dos irmãos de José se dissiparam, e ficaram tranquilos.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 141
Gênesis 44

Vv. 1-34. PLANO PARA RETER SEUS IRMÃOS.


1. Deu José esta ordem ao mordomo — O motivo de colocar a
taça no saco de Benjamim era evidentemente o de pôr àquele jovem em
situação de dificuldade ou perigo, a fim de descobrir assim até que ponto
os sentimentos fraternais dos demais seriam despertados a simpatizar
com sua ansiedade, e a estimular seus esforços por conseguir sua
libertação. Mas com que propósito foi o dinheiro devolvido? Foi feito,
no primeiro caso, pelos sentimentos bondosos para com o pai; mas outro
propósito adicional parece ter sido o de evitar alguma impressão
prejudicial quanto ao caráter de Benjamim. A descoberta da taça em sua
possessão, se não tivesse havido nenhuma outra coisa pela qual julgar,
poderia ter fixado uma suspeita penosa e culpada no irmão mais jovem;
mas a vista do dinheiro no saco de cada um os levaria todos à mesma
conclusão, da qual Benjamim era tão inocente como o eram eles
mesmos, ainda que a circunstância adicional de que a taça fosse achada
em seu saco o colocaria em maior dificuldade e perigo.
2. Põe na boca do saco do mais moço a minha taça de prata
(TB) — Era uma taça grande, como indica o original, muito apreciada
por seu dono, por causa de seu material custoso ou sua feitura elegante, e
que provavelmente tinha adornado sua mesa no banquete suntuoso do
dia anterior.
3. De manhã, quando já claro, despediram-se estes homens —
Empreenderam sua viagem para seu lar com a aurora (veja-se Gn_18:2);
e poderia supor-se em bom espírito, depois de um término tão feliz de
todas suas dificuldades e ansiedades.
4. Tendo saído eles da cidade … disse José ao mordomo — Eles
foram repentinamente detidos pela aterradora notícia de que um objeto
de grande valor faltava na casa do governador. Era uma taça de prata; tão
fortes suspeita havia sobre eles, que um mensageiro especial foi
mandado despachado para inspecioná-los.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 142
5. Não é este o copo em que bebe meu senhor? — não só
guardada para o uso pessoal do governador mas pelo qual ele adivinha.
A adivinhação por meio de taças, para saber o curso do futuro, era uma
das superstições prevalecentes no antigo o Egito como o é ainda em
países orientais. Mas não é provável que José, piedoso crente no
verdadeiro Deus, entregou-se a esta prática supersticiosa. Mas se teria
valido desta crença popular para levar a cabo a feliz execução de seu
estratagema para a final prova decisiva de seus irmãos.
6, 7. alcançou-os e lhes falou essas palavras — A notícia deve ter-
lhes caído como um raio, e um de seus sentimentos mais predominantes
teria sido o sentido humilhante e ferino de ser feitos com tanta
frequência objeto de suspeitas. Protestando sua inocência, pediram ao
oficial que fizesse uma revisão, o que foi aceito [Gn_44:10, 11].
Começando pelo irmão mais velho, todos os sacos foram revisados, e
achando a taça no de Benjamim [Gn_44:12], todos voltaram com uma
indescritível agonia mental à casa do governador [v. 13], onde se
lançaram a seus pés [v. 14], com a assombrosa confissão de “achou Deus
a iniquidade de teus servos” [v. 16].
16-34. disse Judá: Que responderemos a meu senhor? — Este
discurso não necessita comentário; a princípio consiste em frases curtas,
quebradas, como se, sob a entristecedora força das emoções do orador,
sua expressão fosse afogada; mas deve ser mais livre e copiosa ao
esforçar-se em falar, à medida que continua. Cada palavra vai ao
coração; e bem pode imaginar-se que Benjamim, que estava ali calado
como vítima prestes a ser imolada sobre o altar, ao escutar o
oferecimento magnânimo de Judá de submeter-se à escravidão em
resgate dele, se sentiria ligado a seu irmão tão generoso por uma gratidão
eterna, vínculo que parece ter chegado a ser hereditário em sua tribo. A
conduta de José não deve ser vista apenas de um ponto de vista, nem em
suas partes separadas, mas sim como um todo, como um plano bem
pensado, profundamente cimentado, estreitamente unido em si; e ainda
que alguns aspectos do mesmo exibem uma aparência de dureza,
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 143
entretanto, o princípio central de sua conduta foi uma bondade real,
genuína, fraternal. Lido sob esta luz, o relato dos acontecimentos
descreve o seguimento contínuo, ainda que secreto, de um objeto fixo;
José manifesta, em sua gestão do plano, um intelecto de uma tipo muito
elevado, um coração ardente e suscetível, unidos a um juízo que exercia
um domínio completo de seus sentimentos, uma feliz criatividade em
idear os meios para a obtenção de suas finalidades e uma adesão
inflexível ao curso, por doloroso que fosse, que requeria a prudência.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 144
Gênesis 45

Vv. 1-28. JOSÉ SE DÁ A CONHECER.


1. José, não se podendo conter — A severidade do magistrado
aqui cede aos sentimentos naturais do homem e do irmão. Por melhor
que José tivesse disciplinado sua mente, resistir a eloquência sincera de
Judá, resultou-lhe impossível. Viu uma prova satisfatória na volta de
todos os irmãos em tal ocasião, de que eles já estavam unidos um ao
outro carinhosamente; tinha ouvido bastante para convencer-se que o
tempo, a meditação ou a graça divina, fizeram um feliz melhoramento no
caráter deles; e ele, talvez, teria continuado, de uma maneira tranquila e
pausada, para revelar-se a seus irmãos, como ditasse a prudência. Mas
quando escutou de parte de Judá o heroico sacrifício de si mesmo, que
estava disposto a fazer, e deu-se conta de todo o afeto daquela proposta
— proposta para a qual ele não estava preparado—perdeu o domínio de
si mesmo, sentiu-se obrigado a pôr fim à dolorosa prova.
bradou: Fazei sair a todos — Ao mandar a saída de todos para
que não houvesse testemunhas desta cena final, agiu como amigo real e
carinhoso de seus irmãos; sua conduta foi ditada por motivos de suprema
prudência, a de impedir que as anteriores iniquidades de seus irmãos
fossem conhecidas por membros de sua casa e entre o povo do Egito.
2. levantou a voz em choro — Sem dúvida devido à grande
agitação de seus sentimentos; mas entregar-se a veementes e longos
acessos de soluços é a maneira habitual em que os orientais expressam
sua aflição.
3. Eu sou José — As emoções que agora se levantaram em seu
peito como também no de seus irmãos eram muitas e violentas. Ele
estava agitado por simpatia e alegria; eles estavam atônitos, confundidos,
espantados; e mostraram seu terror, afastando-se o mais possível da
presença dele. Tão “turvados” estavam que ele teve que repetir o anúncio
de que ele era; e que termos tão afetuosos, e bondosos usou para isso!
Falou de que eles o tinham vendido, não para ferir seus sentimentos
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 145
senão para convencê-los de sua identidade; e logo, para alentar sua
mente, relatou a intervenção da Providência em seu desterro e em suas
honras atuais [Gn_35:5-7]. Não que ele queria lançar a responsabilidade
do crime deles sobre Deus; não, seu único motivo foi o de reanimar sua
segurança e persuadi-los a pôr sua confiança nos planos que ele tinha
formado para o futuro bem-estar de seu pai e deles.
6. e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem
colheita — “Ear” é palavra do velho inglês “arar” (cf. 1Sm_8:12;
Is_30:24). Esta parece confirmar a opinião dada (Gn_41:57) de que a
fome foi causada por uma seca extraordinária que impediu o
transbordamento anual do Nilo; e, naturalmente, fez com que a terra
fosse inadequada para receber as sementes do Egito.
14, 15. lançando-se ao pescoço de Benjamim, seu irmão — A
transição repentina do estado de criminoso condenado ao de irmão
acariciado, poderia ter causado um desmaio ou até a morte, se não
tivessem sido aliviados seus sentimentos tumultuosos por uma corrente
de lágrimas. Mas as atenções de José não se limitaram a Benjamim.
Carinhosamente abraçou a cada um de seus irmãos; e por este ato
mostrou seu perdão mais completamente do que teria podido fazê-lo por
palavras.
17-20. Disse Faraó a José: Dize a teus irmãos — Como José teria
podido calar por delicadeza, o próprio rei convidou o patriarca e a toda
sua família a imigrar ao Egito; e fez os mais liberais acertos para seu
traslado e seu estabelecimento subsequente. Isto manifesta com
vantagem o caráter deste Faraó, de que foi muito bondoso para com as
familiares de José, mas realmente a liberalidade maior que ele pudesse
mostrar, nunca poderia recompensar os serviços de tão grande benfeitor
de seu reino.
21. José lhes deu carros — que teriam sido uma novidade na
Palestina; porque carruagens com rodas eram e ainda são desconhecidos
nesse país.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 146
22. vestes festivais — Era e é costume dos grandes homens dar de
presente a seus amigos vestidos de distinção, e em casos onde são da
mesma classe dos descritos, o valor destes presentes consiste no número
deles. O grande número dado a Benjamim dá a conhecer o calor do afeto
de seu irmão para com ele; José sentia, devido à disposição amável que
todos agora manifestavam, que ele poderia, com toda segurança,
satisfazer esta parcialidade para com o filho da mesma mãe.
23. Também enviou a seu pai — uma provisão de tudo o que
poderia contribuir para sua manutenção e conforto; a grande e liberal
escala em que esta provisão foi feita, dá a entender que foi como as cinco
porções de Benjamim, em sinal do amor filial [veja-se Gn_43:34].
24. E despediu os seus irmãos — Ao despedir-se para sua viagem
de volta a Canaã, fez-lhes esta admoestação especial:
Não contendais pelo caminho — conselho que lhes faria falta;
porque não só na volta teriam estado ocupados em lembrar a parte que
eles tinham tomado respectivamente nos acontecimentos que terminaram
na venda de José como escravo no Egito, mas sim sua maldade logo teria
chegado ao conhecimento de seu venerável pai.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 147
Gênesis 46

Vv. 1-4. O SACRIFÍCIO EM BERSEBA.


1. Partiu, pois, Israel com tudo o que possuía — isto é, com sua
família; porque em obediência ao conselho de Faraó, deixou atrás seu
mobiliário pesado. Ao pensar em dar um passo tão importante como o
era o de deixar Canaã, que por sua idade ele não voltaria a ver, patriarca
tão piedoso buscaria a direção e o conselho divinos. Com toda sua
ansiedade para ver José, ele teria preferido morrer em Canaã sem aquela
mais alta satisfação terrena, a deixá-lo sem a convicção de levar consigo
a bênção divina.
veio a Berseba — aquele lugar, que estava sobre sua rota direta ao
Egito, tinha sido um acampamento favorito de Abraão (Gn_21:33) e
Isaque (Gn_26:25), e era memorável por sua experiência da bondade
divina; e parece que Jacó tinha adiado suas devoções públicas até ter
chegado a um lugar tão consagrado pela aliança, a seu próprio Deus e o
Deus de seus pais.
2. Falou Deus a Israel — Aqui há uma renovação virtual da
aliança e uma segurança de suas bênçãos. Além disso, há uma resposta
ao tema principal da oração de Jacó, o afastamento de toda dúvida
quanto ao passo que ele estava meditando. Em princípio a perspectiva de
fazer uma visita pessoal a José, foi contemplada com pura alegria. Mas
considerando o assunto com mais calma, apareciam no caminho muitas
dificuldades. Tinha lembrado a profecia comunicada a Abraão, de que
sua posteridade seria afligida no Egito, e também de que a seu pai Isaque
lhe havia dito que não fosse para lá [Gn_15:13; Gn_26:2]; ele poderia ter
temido a contaminação da idolatria em sua família e seu esquecimento
da terra prometida. Estas dúvidas foram dissipadas pela resposta do
oráculo e uma segurança de uma grande e crescente prosperidade foi
dada.
3. lá eu farei de ti uma grande nação. — Quão verdadeiramente
foi cumprida esta promessa, aparece no fato de que as setenta pessoas
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 148
que entraram no Egito aumentaram [Êx_1:5-7], no espaço de 215 anos, a
180.000.
4. Eu ... te farei tornar a subir — Como Jacó não poderia esperar
viver até que se cumprisse a promessa anterior, ele teria entendido que
esta promessa se realizaria unicamente em sua posteridade. A ele mesmo
foi cumprida literalmente no traslado de seus restos a Canaã; mas no
sentido mais amplo e liberal, das palavras, cumpriu-se só no
estabelecimento de Israel na terra prometida.
A mão de José fechará os teus olhos — cumprirá a última
obrigação da piedade filial; e isto dava a entender que daí em diante,
desfrutaria sem interrupção da sociedade de seu filho favorito.

Vv. 5-27. A IMIGRAÇÃO AO EGITO.


5. Jacó levantou-se de Berseba (TB) — para cruzar a fronteira e
estabelecer-se no Egito. Ainda que refrescado e fortalecido em espírito
pelos serviços religiosos em Berseba, agora estava carregado das
indisposições de sua idade avançada; e, portanto, seus filhos se
encarregaram da moléstia e do trabalho dos acertos, enquanto o
debilitado patriarca, com suas esposas e meninos, foi levado, em etapas
lentas e fáceis, nos veículos egípcios enviadas para seu conforto.
6. o seu gado e os bens que haviam adquirido — não mobiliário e
sim substância, coisas de valor.
7. filhas — como Diná era sua única filha, isto quererá dizer suas
noras.
vieram para o Egito, Jacó e toda a sua descendência — Ainda
que incapacitado por sua idade para a supervisão ativa, entretanto, como
o xeque venerável da tribo, era considerado como sua cabeça comum, e
consultado a cada passo.
8-27. Todos os que vieram com Jacó para o Egito ... eram
sessenta e seis pessoas [v. 26] — Falando estritamente, só houve
sessenta e seis que entraram no Egito; mas a estes acrescentem-se José e
seus dois filhos, e Jacó o chefe da tribo, e o número chega a setenta. No
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 149
discurso de Estêvão (At_7:14) o número mencionado é setenta e cinco,
mas como este cálculo incluía cinco filhos nascidos a Efraim e a
Manassés (1Cr_7:14-20), no Egito, os dois relatos concordam entre si.

Vv. 28-34. CHEGADA NO EGITO.


28. Jacó enviou Judá adiante de si a José — Esta medida
preventiva era evidentemente oportuna para informar ao rei da entrada
de tão grande companhia a seu território; além disso, foi necessária a fim
de receber indicação de José a respeito da localização de sua futura
morada.
29, 30. José aprontou o seu carro — A diferença entre a
carruagem de José e os carros que tinha enviado, era não somente que
aquele era mais leve e mais elegante em construção que estes, mas sim
um era puxado por cavalos e os outros por bois. Sendo homem público
no Egito, José estava obrigado a aparecer em todas os lugares em veículo
adequado à sua dignidade; pois não foi por orgulho nem por ostentação
que ele se dirigiu em sua carruagem, enquanto que a família de seu pai se
acomodou sozinho em carros rústicos e humildes.
lançou-se ao seu pescoço (RC) — em atitude de reverência filial
(cf. Êx_22:17). A entrevista foi tenra; a felicidade do pai agora estava
em seu máximo; e não tendo a vida encanto superior, no mesmo espírito
do ancião Simeão, teria podido partir em paz [Lc_2:25, 29].
31-34. Subirei, e farei saber a Faraó — Foi tributo de respeito
devido ao rei o ato de informá-lo da chegada deles. E as instruções que
ele lhes deu, eram dignas de seu caráter tanto como irmão carinhoso
como homem religioso.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 150
Gênesis 47

Vv. 1-31. APRESENTAÇÃO NA CORTE.


1. veio José e disse a Faraó — José nos dá um exemplo belo de um
homem que pôde suportar igualmente bem os extremos da prosperidade
e da adversidade. Tão alto como se encontrava, não esqueceu que tinha
um superior. Apesar de que tão meigamente amava a seu pai, e tão
ansiosamente desejava prover para toda a família, não quis entrar nos
acertos que tinha projetado para sua morada em Gósen, enquanto não
tivesse conseguido a sanção de seu real senhor.
2. tomou cinco dos seus irmãos — provavelmente os cinco de
maior idade; pois por sua velhice sua escolha causaria menos inveja.
4. Viemos para habitar nesta terra—A conversação do rei tomou
o curso que José tinha previsto (Gn_46:33), e eles responderam segundo
as instruções prévias, manifestando, entretanto, em sua determinação de
voltar para Canaã, uma fé e uma piedade que constituem um sintoma de
que todos eles, ou a maioria deles, tinham chegado a ser homens
religiosos.
7. Trouxe José a Jacó, seu pai, e o apresentou a Faraó — Um
interesse patético e muito comovedor se destaca nesta entrevista com a
realeza; e quando, com toda a simplicidade e dignificada solenidade de
um homem de Deus, Jacó singularizou sua entrada pedindo a bênção de
Deus sobre a real cabeça, facilmente pode imaginar-se que impressão
surpreendente produziria a cena (Hb_7:7).
8. Perguntou Faraó a Jacó: Quantos são os dias dos anos da tua
vida? (TB) — A pergunta foi feita devido ao profundo interesse que a
aparência do velho patriarca tinha criado na mente de Faraó e sua corte.
Nas terras baixas do Egito e pelos hábitos artificiais de sua sociedade, a
idade do homem era muito mais curta entre os habitantes daquele país,
pelo que já tinha vindo a ser no clima puro e revigorante e entre os
singelos montanheses de Canaã. Os hebreus, pelo menos, ainda
chegavam a uma velhice prolongada.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 151
9. Os dias dos anos das minhas peregrinações. — Embora sejam
130 anos, ele os contava por dias (Sl_90:12), e os chama “poucos”, como
apareciam olhando para trás; e “maus”, porque sua vida tinha sido uma
série contínua de dificuldades. A resposta é notável, quando
consideramos a escuridão relativa da idade patriarcal. (cf. 2Tm_1:10).
11. José estabeleceu a seu pai e a seus irmãos … no melhor da
terra — a melhor terra de pastoreio no baixo Egito. Gósen, “a terra de
verdor”, estava situada ao longo do braço Pelusaico ou oriental do Nilo.
Incluía parte do distrito de Heliópolis e “Om”, a capital, e a leste se
estendia a uma distância considerável até o deserto. A terra incluída
dentro destes limites era uma extensão rica e fértil de prados naturais, e
admiravelmente adaptada aos propósitos dos pastores hebreus (cf.
Gn_49:24; Sl_34:10; Sl_78:72).
13-15. Não havia pão em toda a terra — Isto provavelmente se
refere ao segundo ano da fome (Gn_45:6), quando as pequenas provisões
de indivíduos ou famílias estavam esgotadas, e quando o povo deveu
depender universalmente do governo. No princípio conseguiam
provisões por pagamento. Logo faltou o dinheiro.
16. Respondeu José: … trazei o vosso gado — “Este foi talvez o
proceder mais sábio que poderia ser adotado para a preservação tanto das
pessoas como do gado, o qual, sendo comprado por José, era mantido às
custas do governo, e muito provavelmente devolvido ao povo no fim da
fome, para tornar possível que voltassem para suas tarefas agrícolas.”
21. Quando ao povo, fê-lo passar às cidades (TB) —
evidentemente para conforto das pessoas do campo, que não estavam
trabalhando, às cidades onde estavam os depósitos de trigo.
22. Somente a terra dos sacerdotes não a comprou — Estas
terras eram inalienáveis; eram dotes por meio dos quais eram mantidos
os templos. Os sacerdotes recebiam para si uma quota anual de provisões
por parte do estado, e evidentemente teria sido o cúmulo da crueldade
reter esta quota, quando suas terras não podiam ser cultivadas.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 152
23-28. disse José ao povo: Eis que hoje vos comprei, etc. —
Como a terra tinha sido vendida ao governo (Gn_47:19, 20), a semente
seria repartida para a primeira semeadura depois da fome; e o povo
ocuparia estas terras como inquilinos, pagando o aluguel com produtos
da terra, quase a mesma regra que existe no Egito hoje em dia.
29-31. Aproximando-se, pois, o tempo da morte de Israel — Só
um de seus preparativos para morrer é lembrado, mas aquele um revela
todo o seu caráter. Tinha que ver com a disposição de seus restos, os que
teriam que ser levados a Canaã, não por mero apego romântico a seu
solo natal, tampouco, como em seus descendentes modernos, por um
sentimento supersticioso pelo solo da Terra Santa, mas pelar fé nas
promessas. Sua petição a José: “Se agora achei mercê à tua presença”; ou
seja, como primeiro ministro do Egito; ao exigir um juramento de que
seus desejos seriam cumpridos, e a forma peculiar daquele juramento,
tudo assinalava à promessa, e mostrava a intensidade de seu desejo de
desfrutar de seus bênçãos (Nm_10:29).
31. e Israel se inclinou sobre a cabeceira da cama — As camas
orientais são meras esteiras ou colchões, que não têm cabeceira, e a
tradução deveria ser “a extremidade do seu bordão”, como o traduz o
apóstolo (Hb_11:21).
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 153
Gênesis 48

Vv. 1-22. JOSÉ VISITA SEU PAI DOENTE.


1. disseram a José: Teu pai está enfermo — Foi mandado
apressadamente buscar José, e nesta ocasião ele levou consigo a seus
dois filhos.
2. Esforçou-se Israel e se assentou no leito — Na câmara onde jaz
um homem bom, pode-se esperar uma conversação espiritual e
edificante.
3, 4. O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz — O objeto de
Jacó ao referir-se à visão memorável de Betel [Gn_28:10-15] — um dos
grandes limites em sua história — foi o de assinalar as promessas
esplêndidas reservadas para sua posteridade, de ganhar o interesse de
José e assegurar sua continuada conexão com o povo de Deus, antes que
com os egípcios.
4. Eis que te farei fecundo — Esta é uma repetição da aliança
(Gn_28:13-15; 35:12). Se estas palavras tiverem que entender-se em
sentido limitado, como assinalando os muitos séculos que os judeus
foram ocupantes da Terra Santa, ou se as palavras têm um significado
mais amplo, e indicam que as tribos espalhadas têm que ser estabelecidas
novamente na terra de promessa, como sua “possessão perpétua”, são
pontos que ainda não foram satisfatoriamente resolvidos.
5. os teus dois filhos ... Efraim e Manassés — Foi a intenção do
patriarca adotar os filhos de José como deles, dando assim a José uma
dobro porção. Os motivos deste proceder estão declarados em 1Cr_5:1-2.
serão meus—Ainda que suas relações tivessem podido uni-los com
o Egito e ter aberto para eles perspectivas brilhantes na terra de seu
nascimento, eles voluntariamente aceitaram a adoção (Hb_11:25).
9. Faze-os chegar a mim, disse ele, para que eu os abençoe — O
apóstolo (Hb_11:21) escolheu a bênção dos filhos de José como o
exemplo principal, por ser o mais compreensivo, da fé do patriarca, que
proporciona toda sua história.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 154
13. tomou José a ambos — O próprio ato de pronunciar a bênção
foi notável, pois demonstra que o coração de Jacó estava animado pelo
espírito da profecia.
21. disse Israel a José: Eis que eu morro — O patriarca pôde falar
da morte com serenidade, mas quis preparar a José e o restante da
família para o transe.
mas Deus será convosco — Jacó, com toda probabilidade, não
estava autorizado para falar de sua escravidão; fez ênfase só sobre a
certeza de sua volta a Canaã.
22. Dou-te, de mais que a teus irmãos — Esta estava perto de
Siquém (Gn_33:18; Jo_4:5; também Js_16:1; Js_20:7). E é provável que
os amorreus a tenham tomado numa de suas frequentes ausências, e o
patriarca, com as forças unidas de sua tribo, a recuperasse deles por sua
espada e seu arco.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 155
Gênesis 49

Vv. 1-33. A BÊNÇÃO PATRIARCAL.


1. chamou Jacó a seus filhos — Neste capítulo, chama-se a
atenção aos ditos nem tanto do santo moribundo como do profeta
inspirado. Sob a influência imediata do Espírito Santo, ele pronunciou
sua bênção profética, e pintou a condição de seus respectivos
descendentes nos últimos dias, ou tempos futuros.

3-4. RÚBEN. — Por seu crime perdeu os direitos e honras da


primogenitura. Sua posteridade nunca foi notável; de sua tribo não
proveio nenhum juiz, profeta nem governante.

5-7. SIMEÃO e LEVI — estiveram associados em maldade, e a


mesma predição seria igualmente aplicável a suas duas tribos. Levi tinha
cidades designadas para eles (Josué 21) em todas as tribos. Por causa de
seu zelo contra a idolatria, eles foram honradamente divididos “em
Jacó”; enquanto que a tribo de Simeão, que era culpado da idolatria mais
grosseira e dos vícios com ela associados, foi ignominiosamente
“espalhada”.

8-12. JUDÁ. — Uma preeminência suprema se destina a esta tribo


(Nm_10:14; Jz_1:2). Além do honra de dar nome à Terra Prometida,
Davi e um maior que Davi, o Messias, nasceram dela. Principal entre as
tribos, cresceu de um “leãozinho”, ou seja, um poder pequeno, até chegar
a ser “leão velho”, tranquilo e quieto, entretanto ainda formidável.
10. até que venha Siló — Siló, esta palavra obscura se interpreta de
várias maneiras, para significar “o enviado” (Jo_17:3), “a semente”
(Is_11:1), o “pacífico ou próspero” (Ef_2:14), ou seja, o Messias
(Is_11:10; Rm_15:12); e quando viesse ele, “a tribo de Judá não se
gabaria mais de um rei independente nem de um juiz seu próprio”.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 156
(Calvino). Faz dezoito séculos que os judeus estão sem governador e
sem juiz, visto que veio Siló, e “a ele obedecerão os povos”.

13. ZEBULOM — tinha que ter seu lote perto da costa de mar,
junto a Sidom, e ocupar-se, como aquele estado, nas tarefas marítimas e
o comércio.

14, 15. ISSACAR. — Um asno forte agachado entre duas cargas ou


seja, tinha que ser ativa esta tribo, paciente, dada aos trabalhos agrícolas.
Estabeleceu-se na baixa Galileia, uma “terra deleitosa”, assentando-se
entre os cananeus, onde, por amor ao “descanso”, “baixou seu ombro
para levar, e serviu em tributo”.

16-18. DÃ — ainda que era filho de uma esposa secundária, tinha


que ser “como uma das tribos de Israel”. Dã, “juiz”, serpente junto ao
caminho — víbora junto à vereda, denota sutileza e estratagema; tal foi
preeminentemente o caráter de Sansão o mais ilustre de seus juízes.

19. GADE. — Esta tribo seria atacada com frequência e assolada


pelos povos hostis sobre suas fronteiras (Jz_10:8; Jr_49:1). Mas
geralmente eles sairiam vitoriosos no fim de suas guerras.

20. ASER.—“Bem-aventurada”. Sua porção era a costa de mar


entre Tiro e Carmelo, distrito fértil na produção do melhor trigo e azeite
d toda Palestina.

21. NAFTALI — A melhor tradução que conhecemos é esta:


“Naftali é uma cerva vagando em liberdade; emite belos ramos”, ou
“majestosas hastes” (Taylor’s Scripture Illustrations); parece que o
significado da profecia é que a tribo de Naftali seria localizada em
território tão fértil e tranquilo, que, alimentando-se nos pastos mais ricos,
se estenderia como a cerva estende suas hastes.
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 157
22. JOSÉ. — ramo frutífero, etc.—assinala o crescimento
extraordinário daquela tribo (cf. Nm_1:33-36; Js_17:17; Dt_33:17). O
patriarca descreve estas duas tribos como atacadas pela inveja, a
vingança, a tentação, a ingratidão, entretanto, ainda, pela graça de Deus,
triunfantes sobre toda oposição, de modo que deveram ser o sustentador
de Israel; e então segue derramando bênçãos de toda sorte sobre a cabeça
deste filho favorito. A história das tribos de Efraim e Manassés,
demonstra quão amplamente estas bênçãos foram realizadas.

27-33. BENJAMIM — devorará como lobo. Esta tribo em sua


história anterior gastou suas energias em guerras pequenas ou
ignominiosas, especialmente em contendas violentas e injustas
(Jz_19:20.), nas quais se envolvia com as outras tribos, quando, apesar
de ter obtido duas vitórias, foi quase exterminada.

28. São estas as doze tribos de Israel — ou antepassados. As


palavras proféticas de Jacó evidentemente não se referiam tanto aos
filhos mesmos como às tribos de Israel.
29. Depois, lhes ordenou — O mandato já tinha sido dado, e
solenemente aceito (Gn_47:31). Mas ao mencionar agora seus desejos, e
repetir todas as circunstâncias relacionadas com a compra da Macpela,
quis declarar com seu último alento, perante toda sua família, que ele
morria na mesma fé de Abraão.
33. Tendo Jacó acabado de dar determinações a seus filhos — É
provável que o patriarca fosse sobrenaturalmente fortalecido para este
último ofício importante, e que quando cessou a inspiração divina,
cedendo suas forças esgotadas, exalou o espírito, e foi reunido com seus
pais.
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Gênesis 50

Vv. 1-26. O LUTO POR JACÓ.


1. José se lançou sobre o rosto de seu pai, etc. — Sobre ele, como
membro principal da família, recaiu o dever de fechar os olhos de seu
venerável pai (cf. Gn_46:4) e de imprimir o beijo de despedida.
2. Ordenou José a seus servos, aos que eram médicos, que
embalsamassem a seu pai, etc. — No antigo Egito os embalsamadores
formavam uma classe à parte. O processo de embalsamamento consistia
em introduzir uma grande quantidade de substâncias resinosas nas
cavidades do corpo, depois de tirar os intestinos. Então um grau regulado
de calor aplica-se para secar os humores como também para decompor as
matérias resinosas antes introduzidas. Trinta dias durava este processo;
quarenta dias mais se dedicavam a ungir o cadáver com especiarias; o
corpo, curtido nestas operações, uma vez lavado, envolvia-se em tecidos
de linho, os bordes dos quais se uniam com borracha, e era posto numa
caixa de madeira feita em forma da figura humana.
3. os egípcios o choraram setenta dias. — Foi feito um período de
luto público, como por ocasião da morte de um personagem real.
4. falou José à casa de Faraó, etc. — Se tomou o cuidado de fazer
saber que o sepulcro da família tinha sido provido antes de sair de
Canaã, e que um juramento obrigava a família a levar lá os restos. Além
disso, José creu conveniente solicitar permissão especial para ausentar-
se; e não estando em condições adequadas, como enlutado, para aparecer
na presença do rei, fez sua petição por intermédio de outros.
7-9. José subiu para sepultar o seu pai — uma viagem de 500
quilômetros. A caravana fúnebre, de militares com sua bagagem,
apresentaria uma aparência imponente.
10. Chegando eles, pois, à eira de Atade, etc. — “Atade” pode
entender-se como nome comum, significando “a planície dos arbustos”.
Estava sobre a fronteira entre o Egito e Canaã; e como a última
oportunidade para entregar-se à dor da alma era a mais violenta, os
Gênesis (Jamieson, Fausset e Brown) 159
egípcios fizeram um alto prolongado neste lugar, enquanto os da família
de Jacó prosseguiram sozinhos ao lugar de sepultura.
15-21. Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto,
disseram: É o caso de José nos perseguir, etc. — José se afligiu
profundamente aos saber desta atitude de seus irmãos. Deu-lhes as
seguranças mais firmes de seu perdão, e com isto deu a conhecer um
belo rasgo de seu próprio caráter piedoso, e também apareceu como tipo
eminente do Salvador.
22, 23. José habitou no Egito — Viveu oitenta anos depois de sua
elevação ao poder [veja-se Gn_41:46], sendo testemunha do grande
aumento na prosperidade do reino, como também de sua própria família
e parentes.
24. Disse José a seus irmãos: Eu morro — Os sentimentos
nacionais dos egípcios se teriam oposto ao enterro dele em Canaã; mas
deu uma prova da firmeza de sua fé e seguranças da promessa, porque
“deu ordens quanto aos seus próprios ossos” [Hb_11:22].
26. embalsamaram-no — Seus funerais seriam celebrados no mais
alto estilo da magnificência egípcia, e seu corpo mumificado
cuidadosamente preservado até o Êxodo.

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