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Mapas de Kernel como Subsídio à Gestão Ambiental:

Análise dos Focos de Calor na Bacia Hidrográfica


do Rio Acaraú, Ceará, nos Anos 2010 a 2015

Heat Maps Applied to Environmental Management:


An Analysis of Hot Spots in Acaraú River Basin,
Ceará, 2010-2015

Ulisses Costa Oliveirai


Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará – SEMACE
Sobral, Ceará

Petrônio Silva de Oliveiraii


Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará – SEMACE
Crato, Ceará

Resumo: Este trabalho visou analisar a densidade de pontos de incêndio localizados na


bacia hidrográfica do rio Acaraú, nos anos de 2010 a 2015, usando mapas gerados atra-
vés do estimador de densidade Kernel. Para a manipulação dos dados foi utilizado o soft-
ware QGIS Wien, versão 2.8. Foram gerados mapas, classificados com densidades relati-
vas, usando escala de cores, divididas em cinco classes representadas pelas cores branca
(muito baixa), verde (baixa), amarelo (média), laranja (alta) e vermelho (muito alta). Os
resultados mostram que ao longo dos anos os focos de calor estiveram concentrados na
porção da bacia que abrange o baixo e médio curso do rio Acaraú, acompanhando o
seu curso bem como nas áreas mais próximas à Chapada da Ibiapaba, em sua porção
sudoeste. Além disso, o ano de 2015 foi o que apresentou número de focos mais expres-
sivos, totalizando 3.813 focos de calor, mais do que o dobro dos quatro anos anteriores.

Palavras-chave: Focos de Queimada; Método de Kernel; Bacia Hidrográfica.

Abstract: Using maps generated through the Kernel density estimator this work analyzes
the density of fire points located in the Acaraú River Basin during the years 2010-2015.
Data was processed using QGIS Wien software, version 2.8. Maps were generated and
heat densities were classified using a color scale, divided into five classes, represented
by the colors white (very low), green (low), yellow (average), orange (high) and red (very
high). The results show that over the years the hot spots were concentrated in the portion

i
Fiscal Ambiental na Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará, Parque de Exposição
José P. Dias, S/N, b. Colina, Sobral/Ceará. ucoliveira@gmail.com.
ii
Gestor Ambiental na Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará, Av. Pedro Felício
Cavalcante, 2530 – Bairro: Parque Granjeiro, Crato/Ceará. petronio-oliveira@hotmail.com.

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of the basin which covers the low and middle reaches of the Acaraú River as well as in
the areas near the Ibiapaba Plateau in its southwestern part. The year 2015 witnessed the
most significant number of outbreaks of fire, totaling 3,813 hot spots, more than double
the previous four years.

Keywords: Fire Spots; Kernel Method; River Basin.

Introdução

A vegetação é considerada um indicador de qualidade ambiental, na medida que


atua associada a outros indicadores, tais como qualidade da água, do ar, solos, fauna
e clima, na condição de elemento indispensável ao equilíbrio, seja na manutenção de
algumas necessidades do momento, seja nas ações que visam a melhoria da qualidade
de vida em áreas mais comprometidas (SOUSA, 2008).
No contexto do semiárido brasileiro, é prática cultural das populações realizarem a
remoção de vegetação, visando o uso alternativo do solo para atividades agropecuárias e
extração vegetal. Além disso, a produção agropecuária, se praticada de forma incorreta,
pode causar danos ao meio ambiente, contribuindo para a degradação dos meios físico
e biótico. A vegetação da Caatinga serve como combustível para fornos de atividades
industriais, o que promove a intensificação nos processos de degradação da vegetação,
influenciando desde a temperatura até a disponibilidade hídrica, necessitando, portanto,
de um monitoramento das condições de manejo da vegetação e do solo na região.
No semiárido, a agricultura ainda é praticada de forma itinerante na maioria das
propriedades familiares, utilizando o sistema tradicional de desmatamento e queima. A
maioria dos agricultores faz o corte raso da caatinga e a queima da vegetação, cultivando
por aproximadamente dois anos e abandonando em seguida, devido às reduções drásti-
cas na fertilidade e na produção destas áreas (CAMPANHA et al., 2010).
Faganello et al. (2006) afirma que o uso indevido do solo por meio de queimadas, é um
dos fatores que podem levar as bacias hidrográficas a um processo de degradação gerando
riscos tanto na quantidade e qualidade da água dessas bacias, bem como do solo.
Visando o monitoramento desses eventos, o Instituto Nacional de Pesquisas Espa-
ciais – INPE – disponibiliza dados de focos de calor que são obtidos de satélites polares e
geoestacionários. Esses dados são gerados a partir de coletas de sensores que operam na
faixa termal, entre 3,7 um e 4,1 um. De modo geral, queimadas com uma dimensão míni-
ma de 30 x 1 m são captadas e classificadas como foco de calor (LAZZARINI et al., 2013).
Assim, esse trabalho visa analisar, através de ferramentas de geoprocessamento, a
disposição dos focos de calor ao longo dos anos de 2010 a 2015, na Bacia Hidrográfica
do Rio Acaraú (BHA). Em função de sua extensa área (14.423 km²), a análise a partir de
técnicas de geoprocessamento se torna uma ferramenta essencial e também viável, pois
a utilização destas técnicas em trabalhos voltados para a temática ambiental traz imensos
ganhos, em função de seu baixo custo e relativa facilidade de uso.
Dessa forma, o presente trabalho proporcionará uma contribuição para o conheci-
mento da situação da referida bacia hidrográfica quanto à distribuição dos focos de quei-
madas em seu território ao longo de cinco anos. Assim, a sociedade e os órgãos públicos

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gestores disporão de informações para criar instrumentos de gestão, visando coibir ou


tornar exequíveis as atividades e/ou empreendimentos, de modo que causem o menor
dano possível, contribuindo para o seu planejamento de forma a promover a qualidade
ambiental na região através de práticas sustentáveis.

Referencial Teórico

Bacia Hidrográfica

Pode-se definir bacia hidrográfica como sendo uma região topograficamente distri-
buída de forma que a área de captação da água da chuva seja direcionada através de
escoamentos para um único ponto, definido como exutório. É composta por um conjunto
de superfícies vertentes constituídas pela superfície do solo e de uma rede de drenagem
formada pelos cursos da agua que confluem ate chegar a um leito único no ponto de saída.
O estudo da bacia hidrográfica permite a observação em detalhes da variação dos
diferentes processos que ocorrem nela, e que, com base no registro das variáveis hidro-
lógicas envolvidas, possibilita um melhor entendimento dos fenômenos e procurando
representá-los matematicamente. Isso porque a bacia hidrográfica possui características
essenciais, que permitem a integração multidisciplinar entre diferentes sistemas de ge-
renciamento, estudo e atividade ambiental, especialmente por ser um processo descen-
tralizado de conservação e proteção do ambiente (TUCCI, 1993).
Bordallo (1995) afirma que a bacia hidrográfica, como unidade de estudo, para a
gestão das distintas formas de atividade e uso das potencialidades ambientais, tem como
finalidade projetar, interceder, executar e manusear as melhores formas de apropriação e
exploração de seus recursos naturais. Com isso, pode se proporcionar o desenvolvimento
econômico e social da respectiva população que usufrui do recurso, bem como a susten-
tabilidade, mitigando o impacto negativo na qualidade de vida.
Pode-se entender a bacia hidrográfica como uma área onde a precipitação é cole-
tada e conduzida para seu sistema de drenagem natural, isto é, uma área composta de
um sistema de drenagem natural onde o movimento de água superficial inclui todos os
usos da água e do solo existentes na localidade. As bacias hidrográficas caracterizam-
-se pelas suas características fisiográficas, clima, tipo de solo, geologia, geomorfo-
logia, cobertura vegetal, tipo de ocupação, regime pluviométrico e fluviométrico, e
disponibilidade hídrica (VILLELA e MATTOS, 1975).
As bacias hidrográficas são caracterizadas pelas suas características fisiográficas,
tipo de solo, geomorfologia, geologia, clima, tipologias de uso e ocupação, cobertura
vegetal, regime fluviométrico e pluviométrico, fatores que contribuem para a disponibili-
dade hídrica numa bacia, que é o principal aspecto de uma bacia hidrográfica.
Por fim, no contexto deste trabalho, conforme destaca Silva (2001), é importante salien-
tar que os incêndios florestais causam grandes prejuízos à biodiversidade, ao ciclo hidroló-
gico e ao ciclo do carbono na atmosfera. Tais prejuízos reduzem os serviços ambientais que
a floresta, mantida em seu padrão atual, poderia proporcionar ao planeta. Uma intensa fre-
quência de fogo numa mesma região, admitida à hipótese de troca de paisagem, pode levar
a perda irreversível de parte de recursos genéticos, antes mesmo de conhecer seu potencial.

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Geoprocessamento

A velocidade na obtenção, manipulação e exibição de dados e informações somada


à necessidade de espacialização de fenômenos de diversas naturezas vêm se tornando
elementos fundamentais no planejamento e gestão de diferentes propósitos nos mais
variados segmentos da sociedade (MENEZES e FERNANDES, 2013).
Na visão de Andrade et al. (2013), a utilização das geotecnologias vem evoluindo
de forma significativa nos últimos anos, abrangendo diferentes organizações nas áreas
de administração municipal, infraestrutura, gestão ambiental, educação, entre outras.
Assim, o uso de técnicas de sensoriamento remoto pode ser uma alternativa para tornar
mais objetiva a identificação de panoramas agrícolas regionais e, sobretudo nacionais.
Por meio de imagens de satélite permitem a representação por apresentarem os alvos
agrícolas em escalas compatíveis para análise ou fins de estimativas de áreas agrícolas,
prestando-se sobremaneira para essas análises evolutivo-temporais.
Nesse contexto, o geoprocessamento pode ser entendido como um conjunto de
conhecimentos e técnicas computacionais para o tratamento da informação geográfica
(CAMARA e MEDEIROS, 1998) e representa, por meio de tecnologias que envolvem
coleta e tratamento de informações espaciais, qualquer tipo de processamento de dados
georreferenciados, buscando uma representação.
Menezes e Fernandes (2013) afirmam que das geotecnologias que caracterizam o
geoprocessamento, fazem parte a modelagem numérica do terreno (MNT), o sensoria-
mento remoto, o banco de dados geográficos (BDG), o sistema de posicionamento global
(GPS) e os sistemas de informações geográficas (SIG).
O geoprocessamento engloba desde o levantamento até o processamento de dados
relativos ao meio ambiente, valendo-se de programas especializados, viabilizando diver-
sas operações, tais como interpolações e sobreposição de dados, gerando de forma efi-
ciente e barata diversas informações importantes, tais como declividade, uso e ocupação
do solo, focos de calor, hidrografia, relevo, entre outras.
Nessa perspectiva, a disponibilidade de informações detalhadas e atualizadas sobre a
localização e extensão das áreas queimadas é fundamental para avaliar perdas econômicas
e efeitos ecológicos, monitorar mudanças no uso e cobertura da terra e elaborar modelos
atmosféricos e de impactos climáticos devidos à queima de biomassa (SILVA et al., 2015).
O monitoramento operacional dos incêndios na vegetação, feito a partir dos dados de
focos de calor, é adequado a regiões remotas e sem outros meios de detecção em tempo real,
como ocorre na área de estudo e na maior parte do país (SETZER e MORELLI, 2011).

Materiais e Métodos

Área de Estudo

A área de estudo compreende a bacia hidrográfica do rio Acaraú (BHA), que loca-
liza-se na porção centro-norte do estado, limitada a noroeste pela Bacia do Coreaú, a
sudoeste pelas Bacias dos Sertões de Crateús e da Serra da Ibiapaba, a sudeste pelas Ba-
cias do Banabuiú e Curu, a leste pela Bacia do Litoral, e ao norte, pelo Oceano Atlântico

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(Figura 1). Localiza-se entre as coordenadas geográficas 40° 54’ e 39° 44’ de longitude
oeste e 2° 49’ e 4° 59’ de latitude sul, ocupa uma área de 14.423,00 km², abrangendo os
municípios de Acaraú, Alcântaras, Ararendá, Bela Cruz, Cariré, Catunda, Coreaú, Croatá,
Cruz, Forquilha, Graça, Groaíras, Guaraciaba do Norte, Hidrolândia, Ibiapina, Ipaporan-
ga, Ipu, Ipueiras, Marco, Massapê, Meruoca, Monsenhor Tabosa, Morrinhos, Mucambo,
Nova Russas, Pacujá, Pires Ferreira, Reriutaba, Santa Quitéria, Santana do Acaraú, São
Benedito, Senador Sá, Sobral, Tamboril e Varjota.

Figura 1 – Localização da Bacia do Acaraú no Estado do Ceará

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Em termos climáticos, a bacia apresenta três zonas climáticas: clima tropical chuvoso,
clima quente e semiárido, apresentando temperaturas pouco amenas, tendo seus valores
máximos variando de 32,1ºC em Acaraú (novembro) a 35,9ºC em Sobral (outubro), com
período chuvoso de janeiro a maio. Diretamente relacionada com as características cli-
máticas, a vegetação da região apresenta oito unidades fitoecológicas diferentes, quais
sejam, Complexo Vegetacional da Zona Litorânea, Floresta Subperenifólia Tropical Plúvio-
-Nebular (Matas Úmidas), Floresta Subcaducifólia Tropical Pluvial (Matas Secas), Floresta
Caducifólia Espinhosa (Caatinga Arbórea), Caatinga Arbustiva Densa, Caatinga Arbustiva
Aberta, Floresta Perenifólia Paludosa Marítima e Floresta Mista Dicotilo-Palmácea (Mata
Ciliar com carnaúba). A geomorfologia da bacia compreende basicamente cinco domí-
nios geomorfológicos: Planície Litorânea, Glacis Pré-litorâneos dissecados em interflúvios
tabulares, Depressão Sertaneja, Maciços Residuais e Planalto da Ibiapaba. Em relação aos
solos, a bacia apresenta as seguintes classes pedológicas: Latossolo vermelho-amarelo,
areias quartzosas, bruno não-cálcico, planossolo solódico, solos aluviais, litólicos eutró-
ficos e distróficos, regossolos eutróficos e distróficos. A compartimentação geoambiental
da bacia apresenta os seguintes sistemas ambientais: Cristais Residuais e Agrupamento
de Inserbergs, Glacis de Acumulação Pré-Litorâneo e Interiores, Planalto Cuestiforme da
Ibiapaba, Planície Litorânea, Planície Ribeirinha, Serras Secas e Vertentes Sub-Úmidas,
Serras Úmidas e Serras Pré-Litorâneas, Sertões Centro-Ocidentais, Sertões Ocidentais e dos
Pés-de-serra do Planalto da Ibiapaba, Sertões Setentrionais Pré-Litorâneos (SRH, 2010).

Base da Dados

Os dados deste trabalho foram adquiridos na base do Instituto Nacional de Pesquisas


Espaciais (INPE), em arquivo de texto disponibilizado em http://www.dpi.inpe.br/proar-
co/bdqueimadas.
Os dados coletados foram tabulados e, em seguida, gerou-se um arquivo de formato .csv
(Comma Separated Value) e posteriormente importou-se para ambiente SIG utilizando-se o
QGIS, versão 2.8 Wien. Em seguida, gerou-se arquivo vetorial de pontos em formato shape
ESRI, com Sistema de Referência de Coordenadas definido em WGS 84 / UTM zona 24S.
Assim foi gerada uma nuvem de pontos contendo informações por ano dos focos
de queimadas cometidas na bacia hidrográfica do rio Acaraú. Estes foram a base para
geração dos mapas de densidade. Para isto, foi utilizado o estimador de densidade kernel,
contido na ferramenta Mapa de Calor do QGIS. A partir da função Mapa de Calor, ob-
tém-se um arquivo matricial como resultado da soma do empilhamento de n outros raster
circulares de raio h para cada ponto do dado de entrada segundo a fórmula (1) abaixo:

(1)

Na qual K = função de kernel; h = raio de busca; x = posição do centro de cada célula


do raster de saída; Xi = posição do ponto i proveniente do centroide de cada polígono; e
n = número total de focos de calor.

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O estimador de densidade kernel desenha uma vizinhança circular ao redor da cada


ponto da amostra, correspondendo ao raio de influência, e então é aplicada uma função
matemática de 1, na posição do ponto, a 0, na fronteira da vizinhança. O valor para a
célula é a soma dos valores kernel sobrepostos, e divididos pela área de cada raio de
pesquisa (SILVERMAN, 1986 apud SOUZA et al., 2013).
Para identificação das regiões de concentração dos focos de queimadas, utilizou-
-se a classificação assim denominada: muito baixa (branco), baixa (verde), média
(amarelo), alta (laranja) e muito alta (vermelho). Os mapas resultantes estão mostrados
na Figura 2.
Após a geração dos mapas contendo as regiões de concentração, procedeu-se a
reclassificação dos dados raster gerados com base na renderização da banda da imagem
na opção banda simples falsa-cor, categorizando-a em cinco classes, conforme descrito
no parágrafo anterior.
Em seguida, aplicou-se o algoritmo de poligonização do QGIS, visando a trans-
formação do raster em camada vetorial, gerando-se um registro para cada polígono
referente a uma região isolada de concentração de infrações ambientais. O polígono
gerado contém todas as classes de concentração. Considerando-se a necessidade de
manipulação dos dados de forma homogênea, aplicou-se a função selecionar feições,
visando a extração a partir de novos polígonos relativos apenas às respectivas classes.
Feito isso, aplicou-se no arquivo vetorial a função dissolver, visando a obtenção de
apenas cinco classes de concentração, tendo em vista que os arquivos apresentavam
um registro para cada região, ou seja, diversos polígonos referentes à mesma classe
de concentração. Por fim, calculou-se a área por classe, expressa em quilômetros
quadrados (km²).

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Figura 2 – Mapas de Concentração de Focos de Queimadas na Bacia Hidrográfica do


Rio Acaraú nos Anos 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Muito Baixa (Branco);
Baixa (Verde); Média (Amarelo); Alta (Laranja) e Muito Alta (Vermelho).

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Resultados e Discussão

Ao longo dos cinco anos analisados, foram detectados 10.682 focos de calor na
Bacia Hidrográfica do Rio Acaraú (BHA), apresentando uma média anual de 2.136 focos
de calor ao ano na área.
Os anos que apresentaram maiores valores de focos de calor foram 2011 e 2015 e
os menores valores ocorrem nos anos de 2013 e 2014. O ano de 2015 apresentou uma
quantidade de foco de calor maior do que o dobro das quantidades anuais precedentes
(Figura 3), o que indica um aumento substancial na ocorrência de queima de vegetação,
denominada “broca”, principalmente para o plantio de culturas voltadas para a agricul-
tura de subsistência.
A Figura 2 evidencia a ocorrência dos focos de calor concentrados principal-
mente nas regiões do alto e médio curso do rio, mais especificamente em sua porção
oeste, o que pode ser explicado pela ocorrência de condições ambientais mais pro-
pícias às atividades de agricultura, em função da umidade, disponibilidade hídrica,
qualidade do solo, regiões mais próximas da Chapada da Ibiapaba e Maciço Residual
Serra da Meruoca.

Figura 3 – Evolução dos Focos de Calor Durante os Anos


Monitorados na BCH do Rio Acaraú

A Tabela 1 mostra os valores das áreas, expressas em km², por região delimitada
pelas classes de concentração de focos de calor.

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Tabela 1 – Área em Km² e Percentual de Cada Região na BHA


Correspondente a uma Classe de Concentração de Focos de Calor

CONC./ANO 2010 2011 2012 2013 2014 2015


Muito alta 438,88 320,63 320,13 296,73 342,53 286,08
Alta 875,59 905,17 739,34 578,28 790,67 832,96
Média 2.709,49 1.723,92 1.721,40 2.674,08 1.638,79 1.487,02
Baixa 5.520,50 5.149,43 3.660,87 4.746,73 4.088,55 3.505,13
Muito baixa 4.897,19 6.342,50 7.999,91 6.145,83 7.581,11 8.330,46
TOTAL 14.441,65 14.441,65 14.441,65 14.441,65 14.441,65 14.441,65
Muito alta 3,04% 2,22% 2,22% 2,05% 2,37% 1,98%
Alta 6,06% 6,27% 5,12% 4,00% 5,47% 5,77%
Média 18,76% 11,94% 11,92% 18,52% 11,35% 10,30%
Baixa 38,23% 35,66% 25,35% 32,87% 28,31% 24,27%
Muito baixa 33,91% 43,92% 55,39% 42,56% 52,49% 57,68%
TOTAL 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00%

Observando-se a Tabela 1, verifica-se que as áreas de concentração definidas como


“muito alta” correspondem a no máximo 3% da área total da BHA, apesar de conterem
até 14% do total de focos de calor, como foi o caso de 2010, evidenciando uma alta
concentração de pontos numa porção de área extremamente menor do que as demais,
conforme evidencia a Tabela 2.

Tabela 2: Quantidade de Focos de Calor e Respectivo Percentual de Cada Região


na BHA Correspondente a uma Classe de Concentração de Focos de Calor

CONC./ANO 2010 2011 2012 2013 2014 2015


Muito alta 182 171 178 126 156 431
Alta 192 283 225 163 257 802
Média 398 355 364 437 278 724
Baixa 438 584 391 388 420 1140
Muito baixa 81 218 263 153 168 716
TOTAL 1.291 1.611 1.421 1.267 1.279 3.813
Muito alta 14,10% 10,61% 12,53% 9,94% 12,20% 11,30%
Alta 14,87% 17,57% 15,83% 12,87% 20,09% 21,03%
Média 30,83% 22,04% 25,62% 34,49% 21,74% 18,99%
Baixa 33,93% 36,25% 27,52% 30,62% 32,84% 29,90%
Muito baixa 6,27% 13,53% 18,51% 12,08% 13,14% 18,78%
TOTAL 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00% 100,00%

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Os valores mais representativos concentraram-se no ano de 2015, totalizando


3.813 focos de calor, mais do que o dobro dos quatro anos anteriores. As áreas que
englobam as concentrações “muito alta”, “alta” e “média”, equivalem a 18% da área
total da BHA, representando, em focos de calor, 51% do total de focos para aquele
ano.

Conclusões

Observou-se que os focos de calor estavam concentrados na porção da bacia que


abrange o alto e médio curso do rio Acaraú, acompanhando o seu curso bem como nas
áreas mais próximas à Chapada da Ibiapaba, em sua porção sudoeste, o que pode ser
explicado por uma maior propensão dessas áreas ao plantio e à criação de gado.
Os dados fornecidos pelo INPE indicam a existência de queimadas, porém, não
fornecem informações acerca de áreas, apesar de representarem de forma satisfatória a
disposição dos incêndios tanto espacial como temporalmente.
Através do estimador de densidade kernel foi possível a análise do compor-
tamento dos focos de calor, gerando-se informações qualitativas acerca da bacia
hidrográfica do rio Acaraú, no período estudado. É importante o aprofundamento
deste tipo de trabalho, no sentido de cruzar informações com bases de dados de uso
do solo, cobertura vegetal, unidades de conservação, unidades geoambientais, entre
outros.
Devem ser criadas ferramentas de monitoramento sistemático e periódico ao lon-
go do território da bacia hidrográfica, visando tanto o combate às práticas causadoras
de degradação pelo uso do fogo indiscriminado, como para entender a dinâmica des-
sas práticas e, assim, propor medidas que possam minimizá-las ao longo do território
da bacia.
Por fim, é importante que o poder público e a sociedade se envolvam no combate
aos incêndios, principalmente no contexto do semiárido, considerando a relação direta
entre vegetação e disponibilidade hídrica.

Referências Bibliográficas

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Hídricos. Belém: NUMA/UFPA, 1995.

CAMARA, G.; MEDEIROS, C. GIS para meio ambiente. São José dos Campos: INPE,1998.

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