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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

O IDEALISMO TRANSCENDENTAL DE KANT SOB A PERSPECTIVA DO SENTIDO NA LINGUAGEM

Trabalho apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Filosofia, sob a orientação do Professor Doutor Valério Rohden

Porto Alegre - RS Janeiro de 1997

CÉSAR ROMERO FAGUNDES DE SOUZA

e-mail: caesarsouza@gmail.com

Para a Val, minha partner.

AGRADECIMENTOS

Eu gostaria de expressar meu agradecimento, inicialmente, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq ), pelo financiamento de cinco semestres de estudo e pesquisa para a realização deste trabalho; à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); ao Goethe Institut de Porto Alegre, pela concessão de incentivo financeiro para o estudo do idioma alemão; aos colegas Alfredo Storck e Raquel Rodrigues; e ao Prof. Dr. Nelson Boeira do Departamento de Filosofia da UFRGS.

Em especial, agradeço ao Prof. Dr. Valério Rohden por ter apoiado minha opção pelo tema e pelo enfoque desta investigação, por ter estimulado minha criatividade e também por seu acompanhamento crítico e contínuo no desenvolvimento das idéias contidas nesse trabalho. Ao cumprir essa tarefa, ele demonstrou ser muito mais que um orientador, foi principalmente um amigo.

SUMÁRIO

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

 

5

PRIMEIRA PARTE

 

Questão geral: Por que fazer a crítica ao uso puro da razão?

 

9

1.

Esboço de uma fundamentação para uma leitura da Crítica da razão pura como uma 'Gramática

Transcendental'

 

14

 

I

. O uso da palavra 'razão' na Crítica da razão pura

 

15

II.

'Razão' como 'linguagem': uma interpretação gramatical acerca do uso da palavra 'razão'

na Crítica da razão pura

 

18

III.

A Crítica da razão pura como 'gramática transcendental'

 

23

2.

A gramática transcendental do conhecer e do pensar

 

26

 

I.

O juízo enquanto unidade do sentido

 

27

II.

Os artífices do objeto do conhecimento e seus produtos

 

34

 

A. Sensibilidade e intuições puras e empíricas

34

B. Entendimento e conceitos puros e empíricos

36

C. Imaginação e esquemas puros e empíricos

48

D. Pensamento e conhecimento

 

59

SEGUNDA PARTE

 

1.

Que é o idealismo transcendental

 

61

 

I.

Percepção e apercepção: da consciência da representação de si à certeza da existência de

objetos externos

 

65

II.

Idealismo empírico e realismo transcendental versus idealismo transcendental e realismo

empírico

 

67

III.

O

fenômeno como

mera representação: a interpretação convencional do idealismo

transcendental

 

70

IV.

A distinção transcendental e empírica entre aparência (fenômeno) e realidade (coisa em

si): a interpretação corrigida do idealismo transcendental

 

74

2.

Como Kant chega ao idealismo transcendental

 

79

 

I

. O contexto da descoberta: (a fase ''pré-crítica'')

 

79

 

A.

Espaço e tempo como entes extensos: a posição de Newton

 

B.

Espaço e tempo como ordenação das relações entre as coisas: a posição de Leibniz

 

84

C.

A

posição

newtoniana

de

Kant

acerca

do

espaço absoluto no texto das

contrapartidas incongruentes: a primeira refutação da posição de Leibniz

 

87

 

II.

O contexto da justificação: (a fase ''crítica'')

 

90

 

A. Espaço e tempo como formas puras da intuição sensível

 

90

B. A

''prova

direta''

do

idealismo

transcendental:

as

exposições

'metafísica'

e

'transcendental' dos conceitos de espaço e tempo na Estética Transcendental

 

94

 

1. Sobre o caráter a priori do espaço e do tempo

 

97

 

a. O argumento da pressuposição

 

98

b. O argumento da necessidade

99

 

2. Sobre o caráter intuitivo do espaço e do tempo

 

101

 

a. O argumento do caráter singular

102

b. O argumento do caráter omnicompreensivo

 

104

c. Como podemos conceber o espaço como infinito?

 

104

d. Como podemos considerar espaço e tempo como dados?

 

105

 

3. Sobre o caráter ideal do espaço e do tempo

 

107

 

a. A parte ''se'' do argumento

 

110

b. A parte ''somente se'' do argumento

 

111

BIBLIOGRAFIA

 

114

APRESENTAÇÃO

O objetivo com o qual estive inicialmente comprometido nesse trabalho foi o de investigar os

pressupostos da doutrina crítica kantiana segundo a ordem das razões, i.e. investigar as razões da formulação, desenvolvimento, justificação e defesa dos princípios fundamentais em que está assentado o corpo da doutrina do idealismo transcendental de Kant; em especial, investigar quais os

motivos que levaram Kant a formular sua doutrina da idealidade transcendental das representações

do espaço e do tempo não se tratando, portanto, de uma investigação histórica de seus conceitos.

Esta investigação deveria limitar-se estritamente à Primeira Crítica e aos trabalhos próximos a ela, tanto os imediatamente anteriores quanto os imediatamente posteriores: no primeiro caso, alguns escritos da fase pré-crítica, bem como a Dissertatio, e, no segundo caso, os Prolegomena.

Através do exame desses textos, minha intenção era localizar os argumentos que Kant apresenta em favor do caráter intuitivo, a priori e ideal das representações do espaço e do tempo, sob a luz dos principais comentários. Com este procedimento, no percurso de minha investigação,

eu

deveria poder responder, minimamente, as seguintes perguntas:

1.

No que consiste a doutrina do espaço e do tempo de Kant?

2.

A posição de Kant sobre o estatuto das representações do espaço e do tempo na Dissertatio difere

da

sua posição acerca do estatuto dessas na Estética Transcendental?

3.

Que significa considerar espaço e tempo como formas puras a priori da intuição sensível?

4.

Espaço e tempo são a priori porque são ideais, i.e. a aprioridade destes depende da sua idealidade,

ou, ao contrário, espaço e tempo são ideais porque são a priori, i.e. a idealidade destes depende de

sua aprioridade?

5. Por que espaço e tempo não podem ser propriedades das coisas tais como são em si mesmas?

Em linhas gerais, penso tê-las respondido, especialmente na segunda parte do trabalho, na qual me ocupo em pormenor desses pontos, com a chamada ''prova direta'' do idealismo transcendental.

No entanto, minha investigação resulta em algo mais: termino por apresentar uma

interpretação do idealismo transcendental de Kant a partir de uma perspectiva um pouco diferente

da que freqüentemente estamos habituados a ver. A diferença consiste em supor que, subjacente à

doutrina do idealismo transcendental de Kant, tal como ele a desenvolve na KrV, podemos encontrar uma investigação sobre as condições de possibilidade do sentido na linguagem. Em outros termos, com base na afirmação de Loparic, em seu artigo Kant e o ceticismo, segundo a qual o problema de Kant, ao fundamentar a priori a metafísica, consiste em ''estabelecer uma semântica a

priori de proposições sintéticas em geral, tanto a priori como a posteriori'', procuro indicar alguns fundamentos para uma interpretação da KrV como uma 'Gramática Transcendental', e, com isso, ver o Idealismo Transcendental de Kant como uma investigação gramatical acerca das condições de possibilidade do sentido do juízo sintético em geral, ou seja, uma investigação acerca dos limites

do sentido na linguagem. 1

Nessa direção, procuro inicialmente mostrar que é possível, na KrV, ler a palavra 'razão' como 'linguagem', fundamentando esta interpretação em Hamann, Herder, Cassirer (entre outros), e

1 Os fundamentos dessa interpretação podem ser encontrados, além do artigo de Loparic, no próprio Kant, nos seus escritos 'pré-críticos', em particular, em 'Untersuchung über die Deutlichkeit der Grundsätze der Natürlichen Theologie und der Moral (1763)', na 'Kritik der reinen Vernunft (A/B)', nos 'Vorlesungen über die Metaphysik (± 1775)' e nos 'Prolegomena'. A proposta dessa interpretação, porém, é resultado principalmente da influência das leituras dos trabalhos de Wittgenstein, em especial, do "Tractatus logico-philosophicus" e das "philosophische Untersuchungen" e do artigo ''Vernunft und Sprache'' do texto Urteilskraft und Vernunft: Kants ursprüngliche Fragenstellung, de Manfred Riedel.

na Lingüística contemporânea, especialmente em Chomsky. A seguir, com o auxílio de instrumentos da Lingüística contemporânea, procuro justificar o uso que Kant faz na KrV do termo 'razão' como um uso metonímico (pars pro toto); i.e. 'razão' estaria, na KrV, por 'linguagem' 1 . Com base nisso, tento mostrar que a razão da qual Kant trata na KrV é uma ''razão lingüística''. 'Razão' é 'linguagem', mas uma ''linguagem de tipo especial'' 2 , uma linguagem conceitual que obedece ao princípio de contradição.

A partir disso, procuro apresentar elementos que possam fundamentar uma interpretação do idealismo transcendental como uma Gramática Transcendental, pois, conforme Kant, nas Vorlesungen über die Metaphysik, ''se nós analisássemos os conceitos transcendentais, isso seria então uma Gramática Transcendental <transcendentale Grammatik>, que conteria o fundamento <Grund> da linguagem humana <menschlichen Sprache>'', na qual “a Lógica conteria o uso formal

do entendimento'' 3 , e a Estética, o uso material. Em outros termos, ver o Idealismo Transcendental de Kant como uma semântica a priori de objetos (conforme Loparic), na qual as categorias (os conceitos puros do entendimento) dariam as condições formais, e o espaço e o tempo (formas puras

a priori da sensibilidade) dariam as condições materiais para os objetos serem pensados pelo

entendimento. Desse modo, na Estética e na Lógica Transcendental Kant nos apresentaria as condições universais da possibilidade do sentido de nossos juízos sobre objetos: a Estética Transcendental, as condições fornecidas pela sensibilidade, e a Lógica Transcendental, as condições fornecidas pelo entendimento (elementos de uma semântica transcendental, nos termos de Loparic).

Loparic estabelece em Scientific problem-solving in Kant and Mach três condições de possibilidade dos juízos sintéticos: uma condição formal, o princípio de contradição, e duas condições semânticas, a saber: a aplicabilidade de conceitos a objetos e a interpretação sensível das categorias e das formas lógicas do juízo 4 . Eu procuro percorrer essas condições, dando ênfase ao papel da imaginação e da sua respectiva operação o esquematismona determinação do sentido no caso dos juízos sintéticos.

A primeira parte dessa dissertação pode ser lida, portanto, como uma tentativa de apresentar e desenvolver elementos básicos que possam levar-nos a ver o idealismo transcendental como uma investigação sobre o sentido na linguagem. Mas eu me limito a isto, ou seja, procuro apenas mostrar que e não comoo idealismo transcendental pode ser interpretado como uma

investigação gramatical sobre as condições de possibilidade do sentido do juízo sintético em geral.

E sob este aspecto meu trabalho se apresenta incompleto, pois no trajeto de minha investigação

indico inúmeros caminhos que não chego a percorrer. Isto equivale a dizer que deixo muitos pontos a descoberto nesse percurso. Por outro lado, estes mesmos pontos deixam indicado um

1 Riedel, no capítulo intitulado Vernunft und Sprache, denomina o problema sobre a determinação de como a filosofia se manifesta exteriormente de ''problema esotérico da relação entre razão e linguagem'' <das esoterische Problem des Verhältnises von Vernunft und Sprache>, p. 44. Para Riedel, há dois tipos de solução para este problema: a solução lingüística e a racionalista. De acordo com a solução lingüística do problema da relação entre razão e linguagem, a razão ''é lingüisticamente condicionada; ela se materializa em atos de fala <Sprechakten> e situações de fala <Sprechsituationen>, que são relativas a uma comunidade lingüística espaço-temporalmente determinada''. Segundo a solução racionalista, a razão ''excede a todos os atos e situações de fala; sua realização é interlingüística <interlingual>, ou seja, não necessita de nenhuma comunidade lingüística espaço-temporal. Pela primeira solução se decidiu a crítica da linguagem e a hermenêutica, enquanto a segunda, de acordo com os melhores aportes à especulação do 'logos' grego, predomina na moderna filosofia da consciência de Descartes a E. Husserl. Ambas são no sentido dogmático, e de modo algum poderiam considerar em seu respectivo princípio outras possibilidades teóricas senão: ou a razão fundamenta a linguagem ou ao contrário aquela fundamenta esta, não existe uma terceira. Embora a solução lingüística relativize o aspecto da razão e com isso favoreça mais o ceticismo, ela concorda com o postulado fundamental racionalista. Razão e linguagem se relacionam uma e outra como forma e matéria, fundamento e fundamentado''. Op.cit., pp. 47-48.

2 Cf. Bennett, J. La ''Crítica de la razón pura'' de Kant, I, p. 96.

3 Cf. Kant, I

comenta o trabalho que realizou na dedução das categorias, no § 39, A 118, dos Prolegomena, p. 92.

4 Ver Loparic, Z., Scientific problem-solving in Kant and Mach, pp. 9-10.

Vorlesungen über die Methaphysik, pp. 77-78. Lemos uma posição bastante similar, quando Kant

caminho para a pesquisa futura que deve dar continuidade ao aspecto do trabalho que aqui se encontra apenas esboçado.

O prosseguimento dessa análise deve verificar se, na determinação do sentido tanto dos juízos analíticos como dos metafísicos, concorre, além do princípio de contradição (a condição formal), ao menos uma das duas condições semânticas supracitadas. Em outros termos, a fim de estabelecer essa hipótese de interpretação em toda a sua extensão, eu deveria ainda verificar se o sentido dos juízos analíticos (na Analítica) e metafísicos (na Dialética) obedecem às mesmas condições a que estão submetidos os juízos sintéticos. Caso contrário, será necessário determinar quais são as condições de possibilidade do sentido a que estão submetidas esses juízos.

Para tanto, além da Analítica Transcendental e da Dialética Transcendental, na KrV, devem ser examinados pelo menos outros três trabalhos de Kant que parecem fundamentais no tratamento dos temas com os quais estou ocupado aqui, a saber, as Reflexionen, a Correspondência e a Controvérsia Kant-Eberhard, além dos comentários. Isso, então, permitirá proceder à apresentação e ao exame do que Kant chamou, em B 534, a demonstração indireta do idealismo transcendental. 1

1 Cf. Paton, nós devemos ter presente que a discussão acerca da idealidade transcendental do espaço e do tempo ''é o primeiro dos três principais argumentos por meio dos quais Kant procura estabelecer seu idealismo transcendental os outros dois sendo a Dedução Transcendental das Categorias e as Antinomias.''. Paton, Kant's Metaphysic of Experience, I, p. 184.

PRIMEIRA PARTE

Questão geral: Por que fazer a crítica ao uso puro da razão?

De acordo com a tradição, há inúmeros motivos que levaram Kant a escrever a KrV, dentre eles, podemos destacar: os quatro problemas cosmológicos; o problema de Hume acerca da impossibilidade de um princípio universal da causalidade; a controvérsia Leibniz x Newton (Clarke) acerca do espaço e do tempo ou como relações entre os objetos ou como entes extensos.

Alguns autores defendem a posição que o próprio Kant menciona várias vezes, segundo a qual o que o levou a escrever a KrV, na verdade, tenha sido o problema da causalidade (ou da indução), posto por Hume. De acordo com essa posição, com a KrV, e com a determinação da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, Kant pretenderia refutar a tese de Hume de que o

princípio de causalidade não passaria de um juízo sintético a posteriori, com fundamento indutivo,

e, portanto, sem validade universal.

Kant formula o problema em torno da possibilidade desse princípio através da pergunta acerca da possibilidade dos juízos sintéticos a priori que se encontrariam nos princípios de toda ciência. Esse modo de formular o problema só foi possível graças à distinção que ele estabeleceu com nitidez entre dois tipos de juízos, os analíticos e os sintéticos, e as suas correspondentes modalidades oriundas de suas fontes, a saber, o seu caráter a priori (com sede na razão) ou a posteriori (com sede na experiência).

Na verdade, o que Kant diz pretender resolver, com a KrV, é o problema gerado pelo nosso mau uso da razão na investigação de problemas que extrapolam os limites da experiência possível. Pois, em determinados domínios do conhecimento, freqüentemente nos vemos envolvidos por questões que nos são impostas pela natureza e cujas respostas ultrapassam as nossas possibilidades racionais. Isso ocorre porque, na tentativa de darmos respostas a essas perguntas, partimos de princípios empíricos, mas, por meio destes, elevamo-nos cada vez mais acima da própria experiência, onde esses princípios não têm valor algum. 1

Mas o que nos leva, então, a extrapolar por meio da razão os limites da experiência? Para Kant 2 , o que nos leva a isso é a busca por aquele elemento ou princípio que condiciona os objetos da experiência, i.e. que é deles a sua causa ou condição. Pois nos defrontamos no domínio empírico com um conjunto de objetos condicionados, e uma vez que um condicionado é dado, a nossa tarefa, considerando o modo pelo qual operamos com a razão, é perguntar por aquele/aquilo que o condiciona, e ir em busca dele. De acordo com Kant, esse elemento ou princípio é o incondicionado.

Ao procedermos assim, mesmo partindo de princípios empíricos, distanciamo-nos tanto que chegamos através da razão a domínios em que tais princípios não têm nenhum sentido, nenhuma validade, onde, portanto, nada pode ser verificado. 3

Os filósofos, à época de Kant, estavam ocupados com esse tipo de perguntas. Mas por não fazerem a distinção necessária dos limites até onde, por meio da razão, era possível ir com a intenção de conhecer, ao darem respostas a essas perguntas, terminavam caindo no ceticismo ou no dogmatismo. Tal procedimento transformou a Metafísica num campo de contradições e incertezas.

E foi devido a essa condição em que se encontrava a Metafísica que Kant propôs que se procedesse

a um exame do modo humano de conhecer, delimitando o campo em que pudéssemos operar com a razão puramente, i.e. sem referência à experiência. Com isso, Kant pretendia livrar a razão de todos

1 Kant, I., Crítica da Razão Pura (Primeira Edição [A]) , tr. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Gulbenkian, Lisboa, 1985., A VII.

2 Kant, I., Crítica da Razão Pura (Segunda Edição [B] ), trad. de Valério Rohden e Udo Moosburger, SP, 1980, B XX.

3 A VIII.

os nossos modos incorretos e viciados de pretendermos conhecer o incognoscível. Esta tarefa Kant chamou de crítica da razão pura. 1

Essa crítica da razão pura, para Kant, deve ser uma crítica da capacidade da razão, considerada de modo geral, no que diz respeito a todos os conhecimentos a que podemos pretender chegar, por meio dela, a priori. Nela, ele pretende apresentar o domínio em que podemos operar

com a razão, seus limites e objeto, procurando estabelecer, assim, a Metafísica como ciência, e com isso eliminar todos os erros que pudéssemos cometer operando com a razão fora para alémdos limites da experiência 2 . E esses erros que cometemos, e a condição de freqüentemente nos encontrarmos em situações judicativas em que colocamos nossa razão em conflito consigo mesma,

é o que Kant vai chamar de antinomias.

Em vez de pretender dar resposta à pergunta acerca da natureza da alma ou acerca do começo do mundo ocupação daqueles que seu trabalho quer criticar, Kant se ocupará na KrV da razão e do seu uso no pensar puro <reinen Denken>, cujo conhecimento nós devemos encontrar em nós mesmos. 3

A pergunta essencial que Kant se coloca, portanto, nessa investigação é sobre até que ponto

ele pode pretender conhecer apoditicamente com a razão sem o concurso da experiência, i.e. a priori. E, para Kant, interessa sobretudo esclarecer não como podemos conhecer com a razão, mas, sim, o que e até onde podemos conhecer com ela, independentemente da experiência. 4

A sua ocupação primordial, na KrV, será portanto com a razão pura, tarefa essa que, segundo

Kant 5 , pertence à Metafísica, que ''outra coisa não é senão o inventário, sistematicamente ordenado, de tudo o que possuímos pela razão pura''. 6

Para Kant 7 , a Lógica Geral (Formal), que é aristotélica, encontra-se a seu tempo plenamente acabada. Ela possui limites claramente determinados, sendo uma ciência que tem a função de expor

e provar e não de demonstrarcom rigor as regras formais de todo o pensamento, a priori ou a

posteriori 8 . Para esse fim, conforme Kant 9 , a Lógica é e deve ser limitada, abstraindo de todos os

objetos do conhecimento, restringindo-se à mera forma do entendimento enquanto tal 10 . Mas, no uso da razão pelo entendimento, a razão 11 , além de se referir a si mesma, tem de se ocupar também de objetos.

Para Kant, nós devemos buscar conhecimento através das ciências, mas nelas é sempre pressuposta uma lógica que as julga. Nesse sentido, conforme Kant, há razão nas ciências; e é essa parte racional delas que temos de conhecer a priori.

Este conhecimento por meio da razão, por sua vez, pode referir-se ao seu objeto de dois modos: ou apenas para determinar esse conhecimento e seu conceito, que tem de ser dado de antemão; ou para torná-lo efetivo. O primeiro tipo de conhecimento por meio da razão é conhecimento teórico, e o segundo é conhecimento empírico. E, independentemente do conteúdo de

1 A XI-XII.

2 A XII.

3 A XIV.

4 Ibid., loc.cit.

5 A XX.

6 Ibid., loc.cit.

7 B VIII.

8 Ibid., loc.cit.

9 B IX.

10 Ibid, loc.cit

11 Ibid., loc.cit.

tais conhecimentos, a parte pura de ambos, aquela em que determinamos por meio da razão ''o seu objeto de modo completamente a priori, tem que ser exposta antes sozinha, sem com ela mesclar o que provém de outras fontes''. E, para Kant, a Matemática 1 e a Física são exemplos de dois conhecimentos teóricos da razão que determinam seus objetos a priori.

De acordo com Kant, a Metafísica, que é ''um conhecimento especulativo da razão inteiramente isolado que através de simples conceitos [sem aplicá-los à intuição], se eleva completamente acima do ensinamento da experiência na qual portanto a razão deve ser aluna de si mesma'' 2 , até seu tempo não conseguira atingir o estatuto de uma ciência, mesmo lidando com meros conceitos. Por quê? Porque até então supôs-se que todo nosso conhecimento fosse empírico,

i.e. que ele tivesse ''que se regular pelos objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento,

fracassaram

Para verificar o verdadeiro progresso da Metafísica, Kant sugere que admitamos que os objetos tenham que se regular pelo nosso modo de conhecer, ''o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que deve estabelecer algo sobre os mesmos antes de nos serem dados'' 4 . Para tanto, ele propõe que na Metafísica se faça algo semelhante ao que fez Copérnico na Física, onde, em vez de se conceber os astros como girando em volta do observador, propôs que se concebesse este se movendo em torno daqueles; i.e. no que concerne à intuição sensível dos objetos, se ela ''tivesse que se regular pela natureza dos objetos'', não haveria como sabermos dela algo a priori. Mas se, ao contrário, o objeto, enquanto objeto dos sentidos, se regulasse ''pela natureza de nossa faculdade de intuição'', esse conhecimento a priori da Natureza seria possível. 5

Mas isso não basta para Kant, pois, caso pretendamos chegar a conhecimentos, essas intuições não nos são suficientes, uma vez que necessitamos referi-las, enquanto representações, ''a algo como objeto'' e determiná-lo através delas. Nesse caso, devemos supor ou que os ''conceitos através dos quais realizo esta determinação também se regulam pelo objeto'', ou ''que os objetos ou, o que é o mesmo, a experiência unicamente na qual são conhecidos (como objetos dados), se regula por esses conceitos'': no primeiro caso, encontramo-nos novamente embaraçados quanto ao modo como podemos ''saber algo a priori a respeito'' da Natureza; no segundo caso, encontramos uma

saída mais fácil porque a própria experiência é um modo de conhecimento que requer entendimento, cuja regra tenho que pressupor a priori em mim ainda antes de me serem dados objetos e que é expressa em conceitos a priori, pelos quais portanto todos os objetos da experiência têm necessariamente que se regular e com eles concordar. 6

Conforme Kant, no que diz respeito aos objetos, enquanto podem ser pensados necessariamente por meio da razão, sem que possam ser dados na experiência do mesmo modo que por meio dela os pensamos, essas tentativas possíveis de pensar os objetos da experiência se

sob esta pressuposição''. 3

1 Porque ela é totalmente construída pela razão, tanto seus conceitos (que são factícios quanto à matéria e quanto à

forma) quanto seus objetos. Por exemplo: ''O primeiro a demonstrar o triângulo isósceles [gleichschenkligen Triangel]

teve um lampejo, pois achou que não devia rastrear o que via na figura ou o simples conceito da mesma para

através disso aprender suas propriedades, mas que devia produzir (por construção) o que segundo conceitos ele mesmo introduziu pensando e se representou a priori e que, para saber de modo seguro algo a priori, não precisava acrescentar nada à coisa a não ser o que resultasse necessariamente daquilo que ele mesmo havia posto nela conforme seu

) (

conceito''. Conforme B XI - XII. A esse respeito, ver Lógica de Jäsche, sobre os conceitos factícios e B 755, na Anfibologia, sobre a definição.

2 B XIV.

3 Ibid., loc.cit.

4 B XVI.

5 B XVII.

6 B XVII-XVIII.

constituirão num ''método transformado da maneira de pensar, a saber, que das coisas conhecemos a priori só o que nós mesmos colocamos nelas''. 1

Para Kant, se procedermos assim, podemos encaminhar a Metafísica ao desejado caminho ''de uma ciência". Pois é só com essa mudança na nossa maneira de pensar os objetos da experiência que poderemos dar conta da ''possibilidade de um conhecimento a priori e, mais ainda, dotar de provas satisfatórias as leis que subjazem a priori à natureza enquanto conjunto dos objetos da experiência, coisas impossíveis segundo a maneira de proceder adotada'' até então.

De sua análise do estado das ciências bem estabelecidas em sua época (a Física e a Matemática) e dos problemas que a Metafísica enfrentava, Kant chegou à conclusão de que era necessário determinar como tarefa da Metafísica o estabelecimento de um corpo de conhecimentos a priori, que estivessem nos princípios de todas as ciências. Esses princípios deveriam ter validade universal, certeza apodítica, e serem totalmente a priori, i.e. independente da experiência empírica, mas não de sua possibilidade. Em outros termos, tais princípios deveriam levar em conta como objetos são dados na experiência humana finita. E tal tarefa deveria ser realizada no âmbito exclusivo da razão puramente, i.e. sem a intervenção de qualquer elemento empírico.

Esses princípios, segundo Kant, seriam todos juízos sintéticos a priori. E determiná-los seria tarefa de uma filosofia transcendental, que deveria levar em conta o modo como os objetos são dados a uma experiência possível. Mas para Kant não basta, por meio da investigação transcendental, descobrir aquilo que no entendimento podemos realizar meramente pelo seu uso empírico, mesmo que tal saber acerca do uso do entendimento nos permita progredir em nosso conhecimento. O fim principal da investigação transcendental tem de ser o de ''determinar para si mesma os limites do seu uso e saber o que pode situar-se dentro ou fora de sua esfera total''. Caso contrário, nós, de posse apenas do conhecimento sobre o funcionamento do entendimento em relação ao seu uso empírico, estaríamos sempre a mercê de ultrapassarmos seus limites (os limites da experiência possível) sem que o soubéssemos. Pois é necessário que tenhamos sempre presente a regra que diz que só podemos fazer uso a priori dos princípios do entendimento ''ou de todos os seus conceitos um uso empírico e jamais um uso transcendental''. 2

Para tanto, Kant diz ser necessário depurar a razão de modos viciados e incorretos de conhecermos para além dos limites da experiência possível, domínio este no qual nada nos pode ser dado a conhecimento, e portanto onde nenhum princípio que valha para a experiência tenha sentido. Este procedimento comum até então à Metafísica, de ir por meio da razão pura para domínios que ultrapassam seus limites, i.e. os limites humanos de conhecer, é o objeto da KrV de Kant.

A questão capital, portanto, que orientará sua investigação, i.e. aquilo que, ao ser determinado enquanto possível, configurará todo o processo, será a determinação da possibilidade dos juízos sintéticos a priori. Pois os limites da possibilidade destes coincide com os limites até onde podemos ir com a razão puramente sem o concurso da experiência na intenção de conhecer.

Para esse fim, Kant nos convida então a investigar com a KrV a possibilidade dos juízos sintéticos a priori, e com esta a determinação dos limites e objeto da razão pura, dos quais deve se ocupar a Metafísica. E ao estabelecer a possibilidade de tais princípios, e com eles os limites do conhecimento puro, Kant estaria também colocando a Metafísica em seu estado maduro ao lado das demais ciências.

Retomando: Por que fazer a crítica ao uso puro da razão para além da experiência? Uma crítica da razão pura seria uma crítica a todo o uso da razão para além das condições de possibilidade da experiência; i.e. uma crítica ao uso dos conceitos puros do entendimento para objetos que não podem ser dados não podem ocorrerna série empírica presente nem futura. Esse uso não empírico dos conceitos puros do entendimento em juízos transcendentais que Kant

1 B XVIII. Ver B XIX.
2 B 297.

condena já na Introdução à KrVé um uso transcendente, e contraria toda a finalidade destes conceitos, que devem ser apenas para uso empírico, que Kant chama de imanente. 1

Disso, Kant conclui que só o uso empírico de conceitos do entendimento pode ocorrer, porque, dado um conceito do pensamento em geral, é necessário: (i) que se apresente a sua forma lógica e (ii) que ele possa vir a se referir a um objeto; i.e. tem de ser possível aplicarmos esse conceito a um objeto qualquer no domínio da experiência possível. Pois, sem ''esse objeto, o conceito não possui nenhum sentido <Sinn> e é inteiramente vazio de conteúdo <Inhalt>'' 2 , mesmo que por meio dele realizemos a função lógica de converter determinados dados em um conceito.

Mas, conforme Kant, somente na intuição um objeto pode ser dado a um conceito. E sendo a intuição pura a simples forma da intuição empírica (i.e. dos objetos segundo o modo pelo qual nos são dados, a saber, enquanto fenômenos), ela é possível a priori antes do objeto, mas só podemos obtê-lo, ''por conseguinte [, a sua] validez objetiva, mediante a intuição empírica''. 3

Para Kant, portanto, todos os conceitos e princípios do entendimento, mesmo que sejam também possíveis a priori, têm de se referir a intuições empíricas, enquanto dados de uma experiência possível. Caso contrário não são objetivamente válidos, reduzindo-se a mero jogo de representações, seja da imaginação seja do entendimento.

Conforme Kant, na Matemática produzimos princípios e representações de objetos ''inteiramente a priori na mente <Gemüt>'', os quais ''não significariam absolutamente nada se não pudéssemos sempre mostrar a sua significação <Bedeutung> nos fenômenos (objetos empíricos)''. Para Kant, é necessário que se torne ''sensível um conceito abstrato'', mostrando ''na intuição o objeto correspondente a ele''. Caso contrário, o conceito ''permaneceria (como se diz) privado de sentido <Sinn>, isto é, de significação <Bedeutung>''. 4

Para Kant, na Matemática, ao construirmos suas figuras, que são fenômenos presentes nos sentidos (não obstante serem construídas de modo a priori), damos conta da exigência de ''tornar sensível um conceito abstrato''. E mesmo que os conceitos, bem como todos os princípios sintéticos e fórmulas produzidas por meio deles, sejam sempre produzidos a priori, o seu uso, porém, assim como ''a sua relação com eventuais objetos não podem, enfim, ser procurados em nenhum outro lugar a não ser na experiência, cuja possibilidade (segundo a forma) aqueles conceitos contêm a priori''.

De acordo com Kant, o mesmo ocorre com todas as categorias e também com os princípios que delas são derivados, i.e. mesmo constituídas inteiramente a priori, e sendo portanto abstratas,

5

1 B 352-353. Ver também B 365, 383. Cf Kant, B 352-353, a sua tarefa na Dialética Transcendental não consiste em

tratar da ilusão empírica [

capacidade de juízo é desviada pela influência da imaginação, e sim tratar unicamente da ilusão transcendental, que

mas, contra todas as advertências da Crítica, conduz-

nos inteiramente para além do uso empírico das categorias e entretém-nos com a fantasmagoria de uma ampliação do entendimento puro. Queremos denominar imanentes os princípios cuja aplicação se mantém completamente nos limites de uma experiência possível; transcendentes, porém, aqueles princípios que devem sobrepassar tais limites. Por estes

não entendo o uso ou abuso transcendental das categorias que é um simples erro da capacidade de julgar que não é

refreada convenientemente pela crítica e que não presta suficientemente atenção aos únicos limites de terreno em que é permitido o jogo do entendimento puro; mas entendo por eles princípios efetivos que nos impelem a derrubar aquelas barreiras a atrever-se a um terreno completamente novo que em geral não conhece nenhuma demarcação. Por isso

devem ser de uso meramente

empírico e não de uso transcendental, i.e. que ultrapasse os limites da experiência. Um princípio, porém, que elimina esses limites, antes, ordene ultrapassá-los, denomina-se transcendente. Se a nossa crítica pode chegar ao ponto de descobrir a ilusão destes pretensos princípios, então aqueles princípios do uso meramente empírico poderão denominar- se, em oposição aos últimos, princípios imanentes do entendimento puro.'' Ver também B 593-4.

transcendental e transcendente não são idênticos. Os princípios do entendimento puro [

influi sobre princípios cujo uso jamais se apóia na experiência [

que se encontra no uso empírico de regras, aliás, justas do entendimento, e pela qual a

],

]

]

2

Ibid., loc.cit

3

4

Ibid., loc.cit.

B 299.

5

Ibid., loc.cit.

tem de ser possível torná-las sensíveis, apresentando para elas um objeto ao qual se apliquem, caso contrário, não têm sentido algum. Porque, segundo Kant,

[n]ão podemos definir de modo real <real> nenhuma categoria, i.e. tornar compreensível a possibilidade de seu objeto sem descer imediatamente às condições da sensibilidade, por conseguinte à forma dos fenômenos, aos quais, como seus únicos objetos, elas devem conseqüentemente limitar-se; porque se esta condição é eliminada, desaparece toda significação <Bedeutung>, i.e. a relação <Beziehung> com o objeto, e mediante nenhum exemplo podemos compreender que espécie de coisa é propriamente entendida com tais conceitos. 1

1. Esboço de uma fundamentação para uma leitura da Crítica da razão pura como uma 'Gramática Transcendental'

Como vimos, Kant pretende com a KrV fazer uma 'crítica ao uso puro da razão para além da experiência'. Mas, ao falar assim, o que Kant entende por 'razão'? Qual o significado desta palavra no texto da KrV ? Na verdade, se quisermos entender o intento de Kant, o primeiro passo deve ser dado na direção do esclarecimento do que parece ser o ponto fundamental da sua trama conceitual, a saber, o conceito de 'razão'. Por quê? Principalmente, porque Kant não inicia sua exposição, na KrV, dizendo o que ele entende por 'razão'; e, além disso, ao longo da KrV, não apresenta um uso unívoco desta palavra, utilizando-a, muitas vezes, no lugar de outras dentre essas, 'entendimento', 'pensamento' e 'linguagem', parecendo assim equivocar-se quanto ao significado dessas palavras. Desse modo, o uso da palavra 'razão', na KrV, parece substituir o de outras palavras, cujos significados são tratados, por meio desse uso, indiretamente.

Mas por que Kant assim o faz? Por que ele teria se descuidado de um aspecto tão importante e polêmico de seu trabalho? Sugiro três hipóteses: ou (i) Kant realmente equivocou-se quanto ao significado da palavra 'razão', tendo sido vítima de uma falta de precisão de seu vocabulário; ou (ii) não havia necessidade de apresentar um conceito de 'razão', uma vez que seu trabalho se encontrava ''colado'' a um contexto de discussão, no qual a palavra 'razão' era um elemento do instrumental lingüístico vigente, cujo significado se encontrava muito bem assentado; ou (iii) Kant tinha a intenção mesma de fazê-lo assim, valendo-se da especificidade do significado da palavra 'razão', com o fim de, primeiro, elevar a sua argumentação a todo o domínio de atividades humanas ao qual fosse aplicável o conjunto dos conceitos que ele enunciava em sua doutrina, i.e. a todas as atividades humanas ditas racionais; e, segundo, com isso, obter uma economia de palavras e de equívocos.

As suposições (ii) e (iii) parecem estar mais de acordo com o que se esperaria do trabalho de Kant. Com a exposição que seguirá, pretendo desenvolver a hipótese de que Kant se vale de um ''princípio de economia lingüística'' ao utilizar a palavra 'razão' na KrV, i.e. 'razão' estaria por uma formulação mais complexa, a saber: 'linguagem simbólica de tipo especial, que opera por meio de conceitos 2 , segundo uma regra estrita, o princípio de contradição'.

Para demonstrar essa hipótese, primeiro, apresento uma breve reconstrução histórica do contexto de discussão, à época de Kant, acerca do significado da palavra 'razão', do qual extraio a

1 B 300-2. 2 Apoio esta formulação na posição de Bennett acerca da 'linguagem humana como uma linguagem de tipo especial que opera por meio de conceitos'. Bennett, em seu comentário à KrV, trata conceitos como 'capacidades e não como 'estados mentais', uma vez que se diz que alguém possui um conceito quando é capaz de usá-lo; pois, alguém usa um conceito, e os seus coligados, ''corretamente, i.e. de acordo como as normas que aceitam a maioria dos falantes não analfabetos'' de uma língua em questão, quando ''entende estas palavras ou sabe o que significam''. Pois, para Bennett, a ''capacidade de um homem para usar corretamente uma palavra, não só sugere, senão que prova que tem o conceito correspondente''. Bennett, J. La ''Crítica da razón pura'' de Kant: 1. A Analítica (Kant's Analytic; Cambridge University Press, 1966); tr. A. Montesinos, Alianza editorial, Madrid, 1979, p. 96.

afirmação de que 'razão é linguagem'; a seguir, desenvolvo duas provas: uma intrínseca e outra extrínseca; a primeira se encontra na própria KrV, e sustenta que Kant se vale de um recurso sintático-semântico na utilização da palavra 'razão'; e a segunda consiste em conceber a KrV como uma 'gramática transcendental', que se ocuparia com estabelecer as condições de possibilidade do sentido do juízo em geral. Essa prova que se apoia no depoimento explícito de Kant acerca de como poderíamos interpretar o que fez na KrV como uma gramática transcendentalse encontra em dois outros trabalhos seus: um anterior e outro posterior à KrV, a saber, nas Vorlesungen über die Metaphysik e nos Prolegomena.

Em termos mais precisos, pretendo, primeiro, justificar gramaticalmente a utilização que Kant faz da palavra 'razão', em lugar dos seus ''afins'', freqüente na KrV, a partir da suposição de que ele partiu de uma ''regra sintático-semântica'' de seleção lexical de elaboração frasal, a saber, a metonímia, a qual pretendo explicitar. Esse recurso sintático-semântico, uma vez analisado, se mostrará o mais acertado, no que diz respeito à clareza da sua exposição, na eliminação de um possível desvio de objetivos, e, principalmente, porque assegura o caráter universal dos seus resultados, para os fins a que se dirige. Esta análise, por sua vez, deverá preparar o caminho para que possamos a seguir mostrar, segundo Kant ao contrário do que alguns seguidores e opositores contemporâneos seus afirmaramque é possível ler a KrV enquanto uma investigação acerca do uso da linguagem na e para além da experiência, i.e. acerca do uso tanto empírico quanto puro da linguagem.

I . O uso da palavra 'razão' na Crítica da razão pura

No final do século XVIII, Kant foi ostensivamente acusado por autores contemporâneos seus, como Hamann (em Metacrítica sobre o Purismo da Razão, de 1784), e Herder (em Abhandlung über den Ursprung der Sprache, de 1772, e em Verstand und Erfahrung: Eine Metakritik sur Kritik der reinen Vernunft, de 1799), de não ter reservado um lugar para o tratamento da linguagem em sua doutrina crítica mais especificamente, na Primeira Edição da KrV 1 . Com eles iniciou-se a reação à chamada 'visão racionalista da linguagem'. Seus trabalhos introduziram os pressupostos do que se denominou posteriormente a 'filosofia não-analítica da linguagem do romantismo alemão' 2 , desenvolvida e aprofundada mais seriamente por Wilhelm von Humboldt (em especial, no seu Über die Vershiedenheit des Menschlichen Sprachbaues, de 1836).

Dadas as nossas limitações, bem como as de nossa investigação, é impossível desenvolver aqui, minimamente, os pormenores da discussão envolvida nesses trabalhos, cuja retomada das idéias centrais impulsionou fortemente os estudos lingüísticos, bem como a própria filosofia da linguagem, no início de nosso século 3 . Proceder a semelhante tarefa fugiria completamente ao caráter de nossos propósitos. No entanto, é necessário que, ao menos, procuremos situar a KrV no contexto geral dessa discussão, a fim de determinarmos, tanto quanto possível, o conceito de 'razão' e de 'linguagem' vigente na época, e que, isso sim, interessa à nossa investigação, sobretudo no que diz respeito ao fato de terem sido, muitas vezes, concebidos como termos sinônimos.

Ao examinarmos, com alguma atenção, o contexto dessa discussão, vemos que, progressivamente, a palavra 'razão' foi sendo sobrepujada pela palavra 'linguagem'; e, mais que as

1 De acordo com Riedel, ''que o autor da 'Crítica da razão pura' não esclareceu esse problema, sim, passou por alto calado, esta é uma das principais objeções <Haupteinwände>, que já tinham sido feitas a ele pelos seus primeiros leitores. A crítica da razão de Kant, conforme o argumento de Herder, que se assemelha também ao de Hamann e Jacob, que não procede de maneira suficientemente crítica, transcende a linguagem que nós falamos e com isso a condição fundamental <Grundbedingung> da possibilidade da experiência, que o verdadeiro filósofo crítico tem de investigar''. Riedel, M., Vernunft und Sprache, Grundmodell der transzendentalen Grammatik in Kants Lehre vom Kategoriengebrauch (pp. 44-61), in: Urteilskraft und Vernunft, Kants ursprüngliche Fragenstellung, Suhrkamp Verlag Frankfurt am Main, 1989, p. 45.

2 Cf. Chomsky, N. Linguagem e pensamento (Language and Mind), tr. Francisco M. Guimarães, Vozes, RJ, 1971.

3 Ver Chomsky: Lingüística Cartesiana, Linguagem e Pensamento, Sintatic Structures, Aspects of Sintax Theory.

palavras, podemos dizer que houve uma subsunção mesmo da própria noção de uma à da outra. Por conseguinte, passou-se a reconhecer entre ambas uma relação de dependência, cuja ênfase era dada na direção de uma subordinação da razão à linguagem como a sua verdadeira fonte 1 .

Esse modo de encarar o problema acerca da relação entre razão e linguagem, e do estatuto de ambas com respeito ao conhecimento humano servia bastante bem aos propósitos emergentes do movimento romântico alemão como veremos adiante, que se enraizava no alargamento e aprofundamento do conceito de 'subjetividade', que se encontrava, naquele momento, em progressiva elaboração pela filosofia moderna.

Conforme Cassirer, o novo modo de conceber as 'atividades do espírito', i.e. o surgimento de ''uma nova concepção verdadeiramente universal da espontaneidade do espírito'', trouxe consigo, por assim dizer, um ''novo momento constitutivo da atividade da linguagem''. A linguagem passa a ser vista não mais meramente como ''o signo e o delegado de uma representação, mas também [como] o signo emocional do afeto e da pulsão sensível'' 2 .

Em linhas gerais, o traço comum da posição desses autores, segundo Chomsky, era a importância concedida ao ''aspecto criador do uso da linguagem, como característica essencial e definidora da linguagem humana'' 3 . Essa concepção da linguagem, por sua vez, derivava em grande parte do desenvolvimento das posições fundamentais da chamada ''lingüística cartesiana''. De acordo com Chomsky, Descartes 4 atribuía a diferença entre o homem, o animal e um autômato à natureza criadora da linguagem humana. Para Descartes, o uso da linguagem por parte dos animais e por parte dos autômatos poderia ser explicado em termos meramente mecânicos, i.e. como manifestações de impulsos e estímulos 5 , mas o uso humano não 6 .

Segundo, ainda, Chomsky, a chamada concepção cartesiana da linguagem humana expressa tanto por Descartes, como por seus seguidores e opositoresconsistia na admissão de que, ''em seu uso normal, a linguagem humana é livre de controle de estímulos e não serve a uma função meramente comunicativa, mas é antes um instrumento para a livre expressão do pensamento e para a resposta apropriada às novas situações'' 7 . (Considerada de um modo geral, era essa a posição compartilhada em grande medida pelos seguidores do movimento romântico alemão, dentre eles, Hamann, Herder, Humboldt, Schlegel) 8 .

1 Cf. Cassirer, E., Antropologia Filosófica, trad. por Eugenio Ímaz, Fundo de Cultura Econômica, México, 1992, p. 48.

2 Cassirer, E. La philosophie des formes simboliques, 1. le langage; tr., de l'allemand Philosophie der symbolischen Formen, par Ole Hansen-love et Jean Lacoste, Éditions de Minuit, Paris, 1972, p. 94.

3 Chomsky, N. Lingüística Cartesiana (Cartesian Linguistics, 1966), trad. de Francisco M. Guimarães, Vozes e Edusp, 1972, RJ, p. 30.

4 Ver Descartes, R., Discurso do Método, in: Obra Escolhida, tr. De Gilles-Gaston Granger, Difusão Européia do Livro, SP, 1973, Parte V.

5 Cf. Bennett, ''A classe das linguagens possíveis se divide naqueles cujo uso consiste, e aqueles cujo uso não consiste, unicamente em um padrão de respostas a estímulos sensoriais.'' Bennett, p. 112. Bennett trata com profundidade desse assunto em Racionality (Londres, 1964, §§ 9-11).

6 Chomsky, Lingüística Cartesiana, pp. 13-23. Cf. Chomsky, ''O papel decisivo da linguagem no argumento de Descartes é ressaltado ainda mais claramente em sua correspondência subseqüente. Em sua carta ao marquês de Newcastle (1646), afirma que ''não há nenhuma de nossas ações externas que assegure aos que as examinam que nosso corpo seja algo mais do que uma máquina que se move a si mesma, mas que tem em si também um espírito que pensa, exceto as palavras ou outros sinais efetuados com relação a quaisquer objetos que se apresentam, sem referência a alguma paixão''. Esta condição final é acrescentada para excluir ''os gritos de alegria, de dor e coisas semelhantes'', assim como ''tudo aquilo que pode ser ensinado a algum animal pela arte''.''. Segundo Chomsky, para Descartes ''não existe homem algum tão imperfeito que não use a linguagem para exprimir seus pensamentos e ''nenhum animal tão perfeito que tenha feito uso de um sinal para informar os [sic.] outros animais sobre alguma coisa que não tenha relação

com suas paixões''

''segundo Descartes observou muito corretamente, a linguagem é um bem particular da espécie humana e mesmo em níveis baixos de inteligência, em níveis patológicos, encontramos um domínio da linguagem totalmente inatingível por uma macaco, o qual pode, em outros aspectos, sobrepujar um imbecil humano em capacidade de resolver problemas e outros comportamentos adaptativos.''. Chomsky, Linguagem e Pensamento, p. 23.

7 Chomsky, Lingüística Cartesiana, p. 23.

8 Cf. Cassirer e Chomsky.

''.

Chomsky, ibid., p. 15. A esse respeito, Chomsky comenta, em outro trabalho, o seguinte:

Os trabalhos de Hamann um dos protagonistas dessa nova perspectiva acerca da linguagem, e um dos iniciadores, portanto, da reação à concepção racionalista da linguagem, assim como os de Herder que, inicialmente foi, além de aluno, seguidor de Kant, têm por alvo, fundamentalmente, as posições que Kant desenvolve na KrV.

Porém, ao lermos com atenção alguns de seus textos em que tratam de apresentar suas posições acerca da origem e importância da linguagem, criticando o sistema e os conceitos formulados por Kant, na KrV, vemos claramente que ambos demonstram não ter compreendido o que estão a criticar: pois suas críticas às posições de Kant podem ser consideradas, sem dúvida, além de mal formuladas, equívocas.

Todavia, fica claro que a notoriedade de seus trabalhos não marcou época pelos equívocos em relação à doutrina crítica de Kant, mas pelo modo assistemático sob a forma de ensaioscom que formularam os pressupostos da nova perspectiva acerca do caráter criativo da linguagem. Nesse sentido, as considerações que eles tecem serão, em inúmeros aspectos, de inestimável importância para os desenvolvimentos futuros da pesquisa no campo da filosofia da linguagem, bem como da lingüística.

Posteriormente, a partir do desenvolvimento das idéias contidas em germe na obra desses dois autores, bem como da releitura séria da doutrina crítica de Kant, Humboldt irá construir os fundamentos sólidos da nova visão acerca da função da linguagem nos processos cognitivos, ao incluir, na descrição das línguas particulares, elementos culturais. Conforme Chomsky, para Humboldt, ''uma língua humana, como totalidade organizada, interpõe-se entre o homem e 'a natureza interna e externa que atua sobre ele' 1 ''. Pois, mesmo que ''as línguas tenham propriedades universais, atribuíveis à mentalidade humana enquanto tal, cada língua oferece um 'mundo de pensamento' e um ponto de vista de tipo único. Ao atribuir este papel na determinação dos processos mentais às línguas individuais, Humboldt separa-se radicalmente do quadro da lingüística cartesiana, evidentemente, e adota um ponto de vista que é mais tipicamente romântico''. Mas ao considerar a ''linguagem primordialmente como meio de pensamento e auto- expressão mais do que como um sistema funcional de comunicação de tipo animal'', pois, para ele, ''o homem 'cerca-se de um mundo de sons para captar e elaborar em si mesmo o mundo dos objetos' 2 '', Humboldt permanece dentro dos pressupostos gerais da lingüística cartesiana. De acordo com Cassirer, para Humboldt,'' 'o que distingue as línguas, não são os sons e os signos, mas as próprias visões do mundo.' 3 É aí que se encontra em Humboldt, o fundamento objetivo último de toda a pesquisa sobre a linguagem.'' 4 .

Por outro lado, as considerações sobre razão e linguagem, tanto de Hamann como de Herder, mesmo equívocas no que dizem respeito às suas interpretações ''críticas'' aos elementos da doutrina crítica de Kant, interessam, sob inúmeros aspectos, aos propósitos de nossa investigação. Porque algumas de suas formulações, tanto acerca da razão como da linguagem mesmo contra a pretensão desses autores, podem ser utilizadas em nossa tentativa de mostrar que Kant, na KrV, tinha claramente a intenção de fazer uma crítica ao uso da linguagem, principalmente, como veremos, porque o objeto de sua crítica era o campo da formulação e da aplicação dos juízos da Metafísica. Mas, se Kant tinha essa intenção, por que, em vez de falar em razão, não falou de linguagem? Vejamos o que segue.

die innerlich und äusserlich auf ihn einwirkende Natur''. Humboldt, W., Über die Vershiedenheit des

Menschlichen Sprachbaues (1836), p.74., apud Chomsky, N., Lingüística Cartesiana, p. 31.

umgiebt sich mit einer Welt von Lauten, um die Welt von Gegenständen in sich aufzunehmen und zu bearbeiten''.

Humboldt, W., 1836, p. 70, apud Chomsky, N., ibid., p.31. Conforme Chomsky, esta posição é compartilhada por Schlegel, em seu livro Kunstlehre, ao dizer que não ''podemos traçar analogias entre a função intelectual humana e a animal. Os animais vivem num mundo de ''situações'' <Zustände>, não de ''objetos'' <Gegenstände> no sentido humano Schlegel, A.W. apud Chomsky, N., ibid., p. 29.

3 Humboldt, W., 1836, apud Cassirer, E., La philosophie des Formes Simboliques, p. 106-107.

4 Cassirer, ibid., p. 106-107.

''[

2

''[

]

]

1

II. 'Razão' como 'linguagem': uma interpretação gramatical acerca do uso da palavra 'razão' na Crítica da razão pura

De acordo com Cassirer 1 , a tradição identificou seguidamente a linguagem com a razão ''ou com a verdadeira fonte da razão'', e pelo fato de possuir a linguagem o homem foi considerado um animal racional. Conforme Cassirer, tal definição, porém, não permite com que vejamos todo o campo recoberto pela linguagem. Por quê? Porque, sob essa perspectiva, deixa-se de ver uma diferenciação importante, uma vez que o domínio da linguagem abrange também a esfera da linguagem racional, e não apenas esta.

Conforme Cassirer, considerar a linguagem como razão é ter uma visão restrita da linguagem, uma vez que, vista desse modo, ''uma parte se toma pelo todo: pars pro toto'' 2 .

Enquanto meio objetivo de manifestação de estados subjetivos, toda a linguagem é constituída por

signos (sinais) sonoros, gráficos, gestuais, etc

primitivas de linguagemlimita-se às manifestações emotivas 3 . E, nesse caso, o signo é imanente àquilo do que ele é signo, ou seja, não há outra instância. Em outros termos, o signo está direta e univocamente vinculado àquilo que ele sinaliza.

Consideremos isso de uma outra maneira. A linguagem, tal como a temos descrito, pode ser considerada como um meio de representação, i.e. como algo que está por algo diferente dela. E nesse sentido, mesmo uma linguagem primitiva, que se dá meramente por signos (sinais), é uma linguagem representacional. Porque um signo qualquer, emitido como manifestação exterior de um estado interior, é um algo que está por um algo diferente dele. Porém, nesse nível de linguagem, o signo nunca ultrapassa o limite da referência, que é sempre imediata, seja interior seja exterior, i.e. o signo nunca é signo de outro signo. Em outros termos, não há aqui ainda aquilo que chamamos sentido.

O passo decisivo dado na direção de utilizar o signo não mais meramente como representando algo físico ou subjetivo, i.e. um objeto exterior ou um estado emotivo, mas também como representando outro signo, permitiu ao homem passar de uma linguagem ''sinalizante'' para uma linguagem ''simbolizante''. É por meio desse uso da linguagem que o homem passa a poder ''descolar-se'' do real, reconstruindo o mundo dos objetos na ausência destes, simbolicamente 4 . Através desse uso da linguagem, o homem passa a elaborar abstratamente o mundo presente e o vivido. O homem passa a poder enunciar o passado e a pré-enunciar seu futuro 5 . Este uso da linguagem instaura o sentido no universo humano. De acordo com Kemp Smith, a passagem de

A linguagem dos animais ou, ainda, formas mais

1 Cassirer, Antropologia Filosófica, p. 48.

2 Ibid., loc.cit.

3 Ver Herder, J.G., Abhandlung über den Ursprung der Sprache, in: Sprachphilosophische Schriften, von Erich Heitel, Verlag von Felix Meiner, Hamburg, 1960, p. 3.

4 Bennett concorda com Kant quanto ao fato de ''que as criaturas que carecem de linguagem carecem de conceitos, ainda

que não pelo que parece ser sua razão, i.e. que as criaturas que carecem de linguagem não podem efetuar juízos''. Para Bennett, ''uma criatura não pode ter conceitos salvo que sua linguagem seja de um tipo especial. Se a conduta lingüística de alguém consiste unicamente em aplicar palavras aos fragmentos do mundo que se lhe apresentam, de maneira que nunca faz afirmações gerais e portanto não dá razões para o que diz, que questões poderiam formular-se utilmente sobre

seus conceitos? [

respostas lingüísticas a estímulos sensoriais

5 Cf. Bennett, ''as linguagens humanas têm meios para fazer ao menos dois tipos de enunciado

: enunciados gerais, e

Uma linguagem que não contenha [aplicação para seus conceitos] seria unicamente um padrão de

]

''. Bennett, p. 110.

enunciados sobre o passado. Estes não têm que ser respostas a, ou operações sobre, contextos em que se formulam.

Mais ainda, expressam juízos que não podem expressar-se, salvo em uma linguagem. Existe um sentido natural, ainda que débil, de 'expressar' no qual é verdadeiro que muitos tipos de juízo podem expressar-se mediante uma conduta não

Sem uma linguagem, não existe

nenhum modo de expressar juízos sobre o passado sem expressar ao mesmo tempo juízos gerais, ou de expressar juízos gerais sem expressar ao mesmo tempo juízos sobre o passado.''. Bennett, p. 113.

lingüística; mas os juízos gerais e no tempo passado não se encontram entre eles. [

]

um estágio a outro estabelece a diferença entre a inteligência animal e a inteligência humana, ou seja, entre o mero uso do signo para a consciência do uso do signo como signo 1 , pois conforme Kemp Smith, ''nenhum animal mostrou conclusivamente ser capaz de apreender um signo como um signo''. E se ''os animais são isentos de toda consciência de significado, a eles tem de ser negado também qualquer coisa análoga ao que nós podemos significar pelo termo consciência'' 2 .

Para Cassirer, o que caracteriza verdadeiramente a diferença entre a linguagem animal e a humana é o fato do homem ter ultrapassado o limite do uso emotivo da linguagem. Para ele, é a natureza simbólica da linguagem humana que a distingue da linguagem animal 3 . E essa característica simbólica da linguagem humana é o que vai estruturar todas as atividades humanas em todos os domínios, sejam lingüísticos ou não. Por isso, podermos designar o universo humano como simbólico, e mais, ''no lugar de definir o homem como um animal racional'', Cassirer propõe que se defina o homem, não essencialmente, mas apenas funcionalmente 4 , ''como um animal simbólico'' 5 .

Esse modo de definir, funcionalmente, o homem a partir da natureza da sua linguagem nos encaminha, pela primeira vez até aqui, para uma resposta plausível à pergunta acerca do que é razão. Nesse momento da exposição, é-nos possível, portanto, dar uma definição provisória da palavra 'razão' como o nome que designa, em geral, o 'conjunto das operações simbólicas humanas'. Reservemos esta definição para a retomarmos a seguir.

Se considerarmos a linguagem, de uma maneira abrangente, tal como Schlegel a define em Briefe über Poesie, Silbenmaß und Sprach, como ''tudo aquilo pelo qual o interior se manifesta no exterior'' 6 , devemos, pois, distinguir, dentro do domínio total da linguagem, pelo menos duas esferas, a saber: a esfera das manifestações emotivas e a esfera das manifestações não-emotivas, portanto, racionais. Sob esta perspectiva, conforme Cassirer, a razão se mostra como ''um termo verdadeiramente inadequado para abarcar as formas da vida cultural humana em toda sua riqueza e diversidade'' 7 , pois, basta observarmos o conjunto das atividades humanas, para vermos que, ''junto à linguagem conceitual temos uma linguagem emotiva; junto à linguagem lógica ou científica, a linguagem de uma imaginação poética'' 8 . E, nesse sentido, a linguagem, enquanto um meio de exteriorização, parece subsumir a razão, que se manifesta também por meio da linguagem.

Em um trecho de uma carta a Jacobi, de 6 de agosto de 1784, Hamann escreve o seguinte:

''a Razão é Linguagem, Logos. Eu não paro de roer este osso tão rico de substância e eu o roerei

1 Bennett defende a posição de que a diferença entre aqueles que podem efetuar juízos no passado e juízos gerais e aqueles que não podem fazê-lo ''justifica a comum convicção de que existe uma diferença importante de classe entre as capacidades intelectuais humanas e não humanas; [e esta diferença] está conectada com a noção de autoconsciência de tal modo que justifica inteiramente a atenção exclusiva de Kant ao tipo de capacidade intelectual que inclui uma capacidade para efetuar juízos sobre o passado e juízos gerais.''. Bennett, op. cit., p. 114.

2 Kemp Smith, Commentary to Kant's 'Critique of Pure Reason', London, 1918, p. XLIX.

3 Cf. Cassirer, é necessário ''distinguir cuidadosamente entre signos e símbolos. Parece um fato comprovado que se dá um complexo sistema de signos e sinais na conduta animal, e até podemos dizer que alguns animais, especialmente os

Mas há uma distância imensa destes fenômenos à inteligência

da linguagem simbólica e humana

domesticados, são extremamente suscetíveis a eles. [

os símbolos, no sentido próprio desta palavra, não podem ser reduzidos a meros

, sinais. Sinais e símbolos correspondem a dois universos diferentes do discurso: um sinal é uma parte do mundo físico do ser; um símbolo é uma parte do mundo humano do sentido. Os sinais são ''operadores''; os símbolos são

''designadores''.''. Cassirer, La philosophie des Formes Simboliques, p.56-7

4 Cassirer, Antropologia Filosófica, p. 109.

5 Ibid., p. 49.

alles, wodurch sich das Innere im äussern offenbart, mit Recht Sprache heißt''. Schlegel apud Chomsky, N.,

Lingüística Cartesiana, p. 27.

7 Cassirer, Antropologia Filosófica, p. 49.

8 Ibid., p. 48.

]

6

''[

]

até minha morte [sic.]

que é seu organon; e é ''aí que se encontra a Razão pura e ao mesmo tempo sua crítica'' [sic.] 2 .

''

1 . Para Hamann, a essência autêntica da razão se encontra na linguagem,

Herder, por sua vez, discípulo dissidente de Kant e seguidor das idéias de Hamann, afirma

que

a razão dispõe duma esfera própria: o imenso território dos pensamentos humanos, por

intermédio da palavra. Tudo o que puder ser expresso, retido ou tornado entendível, por meio

Por meio da língua é-

lhe dado tudo o que for susceptível de ser expresso pela linguagem, no sentido mais vasto da palavra. A razão é ela própria linguagem 4 .

de qualquer sinal, pode também entregar-se confiadamente à razão 3 [

].

Como vemos, aqui, as posições de Hamann e de Herder confluem na direção de conceber a razão como linguagem. Examinemos um pouco de perto esta afirmação. Considere o seguinte: qual a diferença entre dizer (i) 'razão é linguagem' e (ii) 'linguagem é razão'? Se a relação de atribuição entre os termos das afirmações tem uma única direção, i.e. se não é reversível, a diferença conceitual entre ambas parece simples: em (i) trata-se de conceber a classe daquilo que se denomina 'razão' incluído na classe daquilo que se denomina 'linguagem'; e em (ii), ao contrário, a classe daquilo que se denomina 'linguagem', na classe daquilo que se denomina 'razão'. Em outros termos, isso equivale a dizer que, em (i) a razão está subordinada à linguagem, e em (ii) a linguagem está subordinada à razão.

Como vimos, de acordo com Cassirer, a concepção expressa por (ii) se revelou equívoca, uma vez que não levava em conta todas as manifestações possíveis que são levadas a cabo por meio da linguagem. Se Kant fosse partidário dessa concepção, a crítica endereçada a ele pelos filósofos românticos teria sido, sem dúvida, mais que acertada, pois tal visão da linguagem é, antes de tudo, restrita. Mas a concepção expressa em (i), e que é professada por Hamann e Herder, é, como querem estes autores, incompatível com o que Kant faz na KrV? E, supondo que Kant partilhasse dessa concepção, por que ele não a explicitou, no texto da KrV, dando azo às críticas que se seguiram? Em outros termos, por que ele, na KrV, não expressou textualmente a razão como linguagem?

Se esta suposição procede, ou seja, se Kant era partidário de (i), a opção por ter utilizado, na KrV, o termo 'razão' no lugar de 'linguagem' demonstra que ele assim o fez intencionalmente. Ou seja, Kant sabia da distinção entre (i) e (ii). Mas, então, por que Kant fala em razão em vez de linguagem?

Considere a linguagem do ponto de vista da sua estrutura. Tome a frase, enquanto unidade menor de sentido, como o ponto de partida de qualquer análise lingüística. Quanto à estrutura, podemos conceber duas dimensões de desenvolvimento progressivo da linguagem: a dimensão horizontal e a dimensão vertical. A dimensão horizontal nos dá a ordem do arranjo entre os termos da frase: o eixo sintagmático ou a linha de combinação 5 ; a dimensão vertical nos dá as possibilidades lexicais de atualização nos sintagmas: o eixo paradigmático ou a linha de seleção. Cada classe de palavras do ponto de vista estrutural, gramaticalé mais geral, p.ex., o substantivo, e, dentro desta, cada palavra (significante) primária, quanto ao significado do ponto

1 Hamann, J.G., Carta a Jacobi de 6 de agosto de 1784, ed. em 1868, p. 122, VII, 151 sq., apud Cassirer, E., La philosophie des Formes Simboliques, p. 97.

2 Hamann, J.G., Carta a Scheffner, de 11 de fevereiro de 1785, ed. em 1868, VII, p. 216, apud Cassirer, E., ibid., p. 97.

3 Cf. Herder, J.G. Extractos de Entendimento e Experiência (1799) Uma Metacrítica à Crítica da Razão Pura(Aus

''Verstand und Erfahrung'': Eine Metakritik zur Kritik der reinen Vernunft, 1799), tr. de José M. Justo et alii, in: Ergon ou Energueia, Filosofia da Linguagem na Alemanha Sécs. XVIII e XIX, Apáginastantas, Lisboa, 1986, pp. 96-7. A leitura da tradução desses ''Extractos'' foi cotejada com a edição do texto de Herder de Heitel:Herder, J.G. Sprachphilosophische Schriften, von Erich Heitel, Verlag von Felix Meiner, Hamburg, 1960.

4

''[

]

Mittels der Sprache ist ihr alles gegeben, was sich durch Sprache im weitesten Sinne des Worts ausdrücken läßt.

Sie [die Vernunft] selbst ist und heißt Sprache''. Herder, Ibid., 10. Vernunft und Sprache, p. 226.

5 JAKOBSON, R., Lingüística e Comunicação, Cultrix, SP, 1995, pp. 39-40.

de vista semânticoé mais específica; o substantivo 'homem' possuiria um paradigma, p.ex., a classe dos substantivos (sintagma): homem, menino, lobo, etc.; dentro da classe do substantivo 'homem' (paradigma): Pedro, animal pensante, jogador de futebol, e assim por diante. Teríamos, portanto, duas direções de possibilidades de arranjos lexicais: a linha de combinação, no nível sintagmático i.e. entre os sintagmas, e a linha de seleção, no nível paradigmático i.e. dentro do sintagma.

Segundo uma definição gramatical tradicional clássica, a figura polar de estilo metonímia é a ''translação de sentido pela proximidade de idéias, que consiste, dentre outras combinações, em tomar a parte pelo todo [pars pro toto] ou vice-versa'' 1 . De acordo com a abordagem estrutural 2 , mais contemporânea, a metonímia é a ''vinculação de um significante [palavra] a um significado secundário associado por contigüidade com o significado primário'' 3 , i.e. tal significante que pode ser primário, p.ex., 'razão', é associado por contigüidade semântica ao significado primário 'linguagem de tipo especial', mas também pode ser vinculado a um significante secundário, p.ex., 'entendimento' ou 'pensamento', por poder designar primariamente tais significantes aos quais os traços semânticos que ele veicula primariamente pertencem a estes significantes secundariamente.

Isso posto, considere o caso que estamos examinando aqui, a propósito da correlação sinonímica entre as palavras 'linguagem' e 'razão'. Conforme a direção em que se dirija a

metonímia i.e. se do significante secundário ao significado primário, ou, ao contrário, do significante primário ao significado secundário, tal procedimento sintático-semântico é por isso considerado como consistindo em tomar a parte pelo todo <pars pro toto>, ou, o contrário. Em nosso caso, a linguagem pela razão, a razão pela linguagem, a razão pelo

pensamento/entendimento/sujeito pensante, etc

significantes 'linguagem' e 'razão', a partir dos seus traços distintivos mínimos, teremos:

Se estabelecermos uma hierarquia entre estes dois

[LINGUAGEM]

[RAZÃO]

/+signo/

/+signo/

/±símbolo/

/+símbolo/

/±ícone/

/±ícone/

/±instrumento/

/+instrumento/

/±número/

/±número/

/±palavra/

/±palavra/

/±emoção/

/-emoção/

/±pensamento/

/+pensamento/

/±humano/

/+humano/

/±sujeito ao princípio de contradição/

/+sujeito ao princípio de contradição/

Ao utilizar 'linguagem' no lugar de 'razão', restrinjo a linguagem aos traços peculiares somente às operações racionais, tomando uma parte do domínio da linguagem aquele não-

1 Bechara, E., Moderna Gramática Portuguesa, CEN, SP, 1966, p. 418.

2 Sobre lingüística e semântica estrutural, ver: Stegmüller, Greimas, Palmer, Chomsky (1965), Jakobson, Katz e Fodor, Lyons.

3 Jakobson, p. 113.

emotivo, que é expressão do pensamento, e que está sujeito ao princípio de contradição. No caso de utilizar 'razão' no lugar de 'linguagem', como este é um significante menos determinado semanticamente do que aquele, realizo a operação contrária, me valendo dos traços determinados e decisivos do significante 'razão' ser instrumento simbólico humano do pensamento, sujeito ao princípio de contradição, etc. e levo estes traços ao significante 'linguagem', que também inclui tais traços, mas não só.

Ao vincular, portanto, o significante 'razão' ao significante 'linguagem', associo, por contigüidade semântica i.e. de traços semânticoseste significante primário a um significante secundário, por este ser a ele contíguo quanto ao significado, ou seja, o significante secundário 'razão', por contigüidade semântica, pode ser associado ao significante primário 'linguagem', e vice-versa. Em ambas as seleções lexicais, opero por meio da metonímia.

Em suma, segundo esta análise dos significantes, 'linguagem' inclui 'razão', como um significante cujo campo semântico é mais geral, no entanto, o contrário não procede, pois a razão é um tipo de linguagem simbólica que obedece ao princípio de contradição, mas nem toda linguagem é uma linguagem simbólica que obedece ao princípio de contradição.

A resposta à pergunta acerca do fato de por que Kant utiliza 'razão' no lugar de 'linguagem' se torna um pouco mais clara agora. Do que foi dito acima, depreendemos facilmente que, se Kant se propusesse a fazer uma crítica ao uso da linguagem humana, deveria dar conta, em seu sistema crítico, de problemas que não interessavam à filosofia, enquanto conhecimento a priori. Pois, uma crítica ao uso da linguagem humana em geral implicaria uma crítica ao uso de todo o modo de expressão humano, que deveria dar conta também de usos emotivos da linguagem. O que certamente não interessava a Kant, na KrV. Claro está, porém, que isso não equivale a dizer que Kant não se interessou pela linguagem, ao contrário, o objeto da KrV de Kant é, sim, o uso da linguagem, mas o uso de um tipo específico de linguagem, conforme Bennett, 'uma linguagem de tipo especial' 1 , aquela esfera do domínio da linguagem em que operamos por conceitos, e que deve satisfazer o princípio regulador de todo pensamento, a saber, o princípio de contradição.

Proponho, portanto, chamar o uso que Kant faz da palavra 'razão' na KrV de uso metonímico. Por quê? Porque Kant se apropria do caráter essencial da razão, que consiste na esfera do domínio das operações simbólicas humanas. Em outros termos, por contigüidade semântica, 'razão' é utilizada, enquanto portador de um significado mais específico, para designar, em geral, todas as operações simbólicas humanas que podem ser descritas como uma 'linguagem de tipo especial que opera por meio de conceitos e obedece ao princípio de contradição'.

Em resumo, o que tem de ficar claro, aqui, sob a perspectiva que adotamos, é que podemos conceber a razão (humana) como linguagem, mas não o contrário, uma vez que a linguagem é mais do que operações simbólicas.

Assim, podemos compreender que regras, expressas e constituídas apenas por meio da linguagem os princípios de contradição e o do terceiro excluídopossam a priori determinar, estruturar, restringir e orientar todas as operações racionais simbólicas, representacionaisdo homem; e, por conseguinte, todo o seu pensar, assim como seus produtos, os conhecimentos empíricos e puros, pois, nesse caso, as regras da linguagem podem coincidir com as da razão, enquanto operações racionais.

Deve ficar claro também que tais regras se restringem ao uso da linguagem apenas no que concerne às operações simbólicas relacionadas ao pensar e ao conhecer; objeto da filosofia e da ciência de um modo geral. No que diz respeito ao uso da linguagem para outros domínios, igualmente humanos, tais regras podem não ter valor algum, como p.ex. no domínio dos sentimentos, desejos e paixões humanas em geral, assim como no domínio da espiritualidade

1 ''Utilizarei a expressão 'linguagem que emprega conceitos' como abreviatura de 'linguagem do tipo altamente desenvolvido em conexão com a qual pode proporcionar-se ao "conceito" uma verdadeira função, i.e. cuja metalinguagem pode conter utilmente a palavra "conceito".''. Bennett, p. 110.

humana, domínios esses em que predomina a impossibilidade da determinação do verdadeiro e do falso, seja pelo caráter inacessível dos seus objetos, seja pela nossa postura cambiante em relação a eles, que, por conseguinte, sob a perspectiva racional, i.e. sob a perspectiva das regras que legislam as atividades lingüísticas racionais, gera contradições.

Portanto, a linguagem da qual trata Kant na KrV é a linguagem ordinária em seu uso normal, considerada não em toda a sua aplicação possível, mas somente aquela esfera desta que procede segundo o princípio de contradição, que é o princípio supremo de todo o pensamento e do sentido. Por isso, quando utilizarmos o termo 'razão' aqui, ao nos referirmos à KrV, teremos sempre em mente o sentido que resultou de nossa investigação precedente, ou seja, quando nos referirmos à razão, na KrV, estaremos considerando-a como uma 'linguagem simbólica de tipo especial, que opera por meio de conceitos e obedece ao princípio de contradição'.

III. A Crítica da razão pura como 'gramática transcendental'

Convém, porém, delimitar o âmbito em que consideraremos aqui 'razão' como equivalente a linguagem; e, por conseguinte, nessa direção, uma investigação das maneiras do dizer deverá estar relacionada diretamente com uma investigação acerca das maneiras do pensar e do conhecer; em outros termos, devemos explicitar em que medida uma investigação gramatical portanto, uma investigação acerca das maneiras de dizersobre as condições de possibilidade do sentido do juízo sintético em geral uma semântica a priori de objetos, nos termos de Loparic 1 tem a ver com uma investigação epistêmica, conforme Allison 2 sobre as condições de possibilidade do conhecimento em geral; ou seja, como são possíveis juízos em geral e, em especial, juízos sintéticos a priori condições de possibilidade de todas as ciências constitutivas do saber humano.

Por isso, será necessário partirmos de um conceito unívoco de 'gramática', que seja válido para uma abordagem da razão sob a perspectiva das suas leis, no que diz respeito às condições de possibilidade do discurso significativo no domínio do pensar e do conhecer, segundo o idealismo transcendental de Kant.

À época de Kant, o paradigma vigente no tocante à teoria gramatical era a Gramática de Port-Royal de 1660, de Arnauld e Lancelot. Esta obra deu início ao que veio a ser conhecido como a tradição da gramática filosófica, cujos fundamentos foram inspirados por Descartes, continuados por Leibniz e desenvolvidos de uma forma mais acabada por Humboldt na década de 1830. Conforme Chomsky, ''uma das inovações da Gramática de Port-Royal de 1660 foi o reconhecimento da importância da noção da frase como unidade gramatical'' 3 , pois antes de Port- Royal, a teoria gramatical consistia em um estudo de ''classes de palavras e de inflexões''. O conceito de 'gramática' que temos em vista aqui é o mesmo expresso pela Gramática de Port-

1 Loparic, Z., Kant e o Ceticismo, in: Manuscrito, XI, 2 (1988), p. 73 et passim

2 Allison, H.E., El Idealismo Trascendental de Kant: una interpretación y defensa, tr. de Dulce M. Granja Castro, Barcelona, Anthropos, 1992.

3 Para Humboldt, de acordo com Chomsky, ''a pessoa que fala faz um uso infinito de meios finitos. Sua gramática, portanto, deve conter um sistema infinito de estruturas profundas e superficiais, adequadamente relacionadas. Deve também conter regras que relacionam estas estruturas abstratas com certas representações de som e significado, representações que, presumivelmente, são constituídas de elementos pertencentes respectivamente à fonética universal e à semântica universal. Na essência, este é o conceito de estrutura gramatical que está sendo desenvolvido e elaborado hoje em dia''. Chomsky, Linguagem e Pensamento, pp. 30-31. Sob essa perspectiva, Chomsky considera uma língua <language> como ''um conjunto (finito ou infinito) de sentenças, cada uma finita em extensão e construída a partir de um conjunto finito de elementos. Todas as línguas <languages> naturais em sua forma escrita ou falada são línguas <languages> nesse sentido, desde que cada língua <language> natural tenha um número finito de fonemas (ou letras em seu alfabeto) e cada sentença seja representável como uma seqüência finita destes fonemas (ou letras), mesmo que exista uma quantidade infinitamente grande de sentenças.''. Chomsky, N. Syntatic Structures (1957), Mouton, the Hague, Paris, 1968, p. 13.

Royal, por Humboldt e por Chomsky 1 , a saber: considerando uma língua (linguagem) particular L como uma relação entre som (signo) e significado, uma gramática G seria um conjunto finito de regras para dar conta da produção de um número infinito de proposições P com sentido nessa língua 2 .

Esta definição, aplicada ao domínio transcendental, i.e. aplicada ao domínio das condições de possibilidade da linguagem humana enquanto tal, teria a seguinte formulação: considerando a linguagem humana L enquanto tal, i.e. transcendentalmente, como uma relação entre signo e significado, uma 'gramática transcendental' G seria um conjunto finito de regras para dar conta das condições de possibilidade de construção de um número infinito de proposições P com sentido em nossa linguagem.

Como procurei mais ou menos indicar até aqui, na KrV, Kant parte do juízo para falar do conhecimento, da sua possibilidade e dos seus limites. A ocupação de Kant com a forma lógica dos juízos, bem como com as condições transcendentais do sentido, já seriam suficientes para entrevermos em sua investigação crítica um tipo de gramática, nos termos acima definidos. Pois, à sua época, a teoria gramatical vigente, a de Port-Royal, como vimos, também partia da frase (juízo) como unidade gramatical de sentido para estudar e estabelecer as relações da linguagem com o pensamento, e, destas, às condições de possibilidade do discurso com sentido. Se estas constatações não constituem prova suficiente, encontramos duas outras situações que vêm a corroborar essa hipótese, nas quais Kant afirma explicitamente ser possível conceber o trabalho que ele realizou na KrV como uma gramática transcendental.

A primeira destas afirmações, encontramos nas Vorlesungen über die Metaphysik, obra quase contemporânea à Primeira Edição da KrV, usada por Kant para ministrar cursos universitários, mas que, segundo de Vleeschauwer 3 , menos que uma adaptação para fins didáticos, continha já, em linhas gerais, muito do que viria ser o texto da KrV, pois ''no momento em que Kant professa o curso, a Crítica lhe estava presente diante do espírito nas suas articulações sistemáticas'' 4 .

1 De acordo com Chomsky, na ''teoria cartesiana de Port-Royal, uma frase corresponde a uma idéia complexa, e uma proposição é subdividida em frases consecutivas, que são a seguir subdivididas em frases e assim por diante, até ser

alcançado o nível da palavra. Deste modo, obtemos aquilo que poderia ser chamado a ''estrutura superficial'' da sentença

Mas é interessante que, embora a Gramática de Port-Roytal tenha sido aparentemente a primeira a

repousar de modo inteiramente sistemático na análise da estrutura superficial, reconhecia também a insuficiência desta

análise. De acordo com a teoria de Port-Royal, a estrutura superficial corresponde apenas ao som, ao aspecto físico da linguagem; mas quando o sinal é produzido, com sua estrutura superficial, tem lugar uma correspondente análise mental daquilo que podemos chamar a estrutura profunda, uma estrutura formal que se relaciona diretamente não com o som

A estrutura profunda relaciona-se com a estrutura superficial por certas operações mentais,

na moderna terminologia, por transformações gramaticais. Toda língua pode ser considerada como uma particular relação entre som e significado. Seguindo a teoria de Port-Royal até suas conclusões lógicas, a gramática de uma língua deve conter um sistema de regras que caracteriza as estruturas profunda e superficial e a relação de transformação entre elas, e se deve conter o aspecto criador do uso da linguagemque faz isso em um domínio infinito de estruturas profundas e superficiais conjugadas''. Chomsky, Linguagem e Pensamento, p. 30-31.

2 Conforme Chomsky, ''O principal objetivo na análise lingüística de uma linguagem L é separar as seqüências gramaticais que são as sentenças de L das seqüências agramaticais que não são sentenças de L e estudar a estrutura das seqüências gramaticais. A gramática de L será portanto um mecanismo que gera todas as seqüências gramaticais de L e nenhuma das agramaticais. Um modo para testar a adequação de uma gramática proposta por L é determinar se as seqüências que ela gera são atualmente gramaticais ou não, i.e. aceitáveis a um falante nativo, etc.''. Chomsky, Sintatic Structures, p. 13.

3 Vleeschauwer, H.J., de. La Déduction Transcendentale dans l'Œuvre de Kant, v. I, ch. III: La Déduction avant la Critique, D.: La Déduction transcendentale de 1770 à 1781, § 4: Vers la Critique de la Raison Pure, I. Les

mas com o significado. (

em questão. (

)

)

''Vorlesungen über die Methaphysik'',

4 De acordo com de Vleeschauwer, as Vorlesungen constituem ''a exposição sistemática de uma doutrina, cuja metade, representada pela ontologia, é a primeira exposição de uma maneira breve e precisa do criticismo, mas cuja outra metade, formada pelas três disciplinas conexas à metafísica (cosmologia, psicologia e teologia racionais), não apresentam um caráter uniforme, que nós possamos entender sob um único título de classificação. A organização do

curso evidencia que Kant repartiu sua matéria, neste momento, após o plano da Crítica, modificando sensivelmente a

ordem que os problemas seguem na obra definitiva. (

Certos detalhes nos obrigam a aproximar o curso de metafísica

)

Na passagem das Vorlesungen, na parte I, intitulada Ontologie, no tópico intitulado Die Transcendentale Philosophie, que nos interessa aqui, encontramos o seguinte:

A Filosofia Transcendental é a Filosofia dos princípios, dos elementos do conhecimento

humano a priori. Ela é ao mesmo tempo o fundamento de como uma Geometria a priori é possível. É porém muito necessária para saber como uma ciência pode irromper de nós

mesmos, e como o entendimento humano poderá portanto ter produzido algo. Esta investigação não consideraria a Geometria tão necessária, se nós não tivéssemos outros conhecimentos a priori, que para nós são muito importantes e interessantes; p.ex. da origem das coisas, da necessidade e acaso, e se o mundo é necessário ou não. Estes conhecimentos não têm semelhante evidência, como a Geometria. Por isso, nós desejamos saber como um conhecimento a priori é possível para o homem; assim nós temos que distinguir e investigar todos os conhecimentos a priori; portanto, nós podemos determinar os limites do entendimento humano, e de todas as quimeras, que aliás na Metafísica são possíveis, que seriam produzidos sob princípios e regras determinados. Agora, nós distribuímos os princípios do conhecimento humano a priori: 1) nos princípios da sensibilidade a priori, e isto é a Estética Transcendental que comporta em si o conhecimento e os conceitos a priori

de espaço e tempo; e 2) nos princípios do conhecimento intelectual humano a priori, e isto é a

Lógica Transcendental. Estes princípios do conhecimento humano a priori são as categorias

do entendimento [

destes porém mais tarde ainda outros conceitos podem ser deduzidos. Assim, se nós analisássemos os conceitos transcendentais; isto seria então uma Gramática Transcendental

Se

<transcendentale Grammatik>, que conteria o fundamento da linguagem humana [

estabelecêssemos isto, teríamos então uma Gramática Transcendental <transcendentale

Grammatik>. A Lógica conteria o uso formal do entendimento. Portanto, a Filosofia Transcendental poderia resultar na doutrina dos conceitos universais a priori. 1

],

e estas esgotam tudo aquilo que o entendimento concebe a priori nele,

].

A outra passagem que abona a interpretação que estamos propondo, encontramos em sua obra Prolegomena de 1783, que, conforme de Vleeschauwer, ''manifesta às vezes um caráter explicativo e um caráter defensivo ou polêmico'' 2 . Kant teria escrito os Prolegomena, a fim de tornar mais claros os princípios desenvolvidos na KrV, e que não haviam sido compreendidos de todo, tal o modo como tomaram suas formulações. Muito desse insucesso de Kant se deveu, conforme de Vleeschauwer, principalmente ao desinteresse de seus contemporâneos em tomar parte da discussão que ele propunha em seu trabalho inicial. De outra parte, essa dificuldade e afastamento provinham ''da extensão e aridez escolástica do debate que Kant encetava nela'' 3 . No § 39, A 118, dos Prolegomena, quando Kant comenta o trabalho que realizou na dedução das categorias, na KrV, lemos o seguinte:

Extrair do conhecimento comum os conceitos que não se fundam em nenhuma experiência particular e que, não obstante, ocorrem em todo o conhecimento de experiência, de que, por assim dizer, constituem a simples forma de conexão, não exigia uma maior reflexão ou mais discernimento do que extrair em geral, de uma língua, as regras do uso [efetivo <wiklichen>] das palavras e reunir assim os elementos de uma gramática <Grammatik> (na realidade, estes dois empreendimentos são entre si muito aparentados), sem no entanto poder indicar a razão por que cada língua possui justamente esta característica formal e não outra, ainda menos

mais da situação de 1775, em vez de o colocar na vizinhança imediata da Crítica.'' (pp. 284-5). de Vleeschauwer

mais do que como uma adaptação da

acredita que, devido a certos detalhes terminológicos, é possível ''tratar o curso [

Crítica às necessidades do ensinamento universitário''. Vleeschauwer, op.cit., pp. 285-6.

1 Kant, Immanuel. Vorlesungen über die Methaphysik, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt, 1988, pp. 77-78.

2 Cf. de Vleeschauwer, II, p. 420.

3 Ibid., p. 421.

]

porque é que, nem mais nem menos, se podem em geral encontrar tais determinações formais da mesma. 1

Convém enfatizar aqui que eu não estou supondo que Kant é um gramático, no sentido ordinário do termo, e que o que ele fez na KrV tenha sido uma gramática de alguma língua particular. Nada disso. Tem de ficar claro, aqui, que aquilo que pretendo mostrar, tal como Kant sugere, é que, subjacente ao idealismo transcendental, nós podemos entrever uma investigação gramatical sobre o sentido na linguagem, e, sob essa perspectiva, a KrV pode ser vista, analogamente, como uma 'Gramática Transcendental', mas somente na medida em que Kant esteja interessado nas condições universais da possibilidade do sentido do juízo em geral. E isto significa considerá-lo como estando ocupado, não com uma língua em particular, mas com a linguagem humana enquanto tal, no que se refere, especificamente, à possibilidade do pensar e do conhecer no sentido humano.

Portanto, como o próprio Kant sugere, o que ele realiza em seu trabalho pode ser comparado ao que se faz em uma gramática de uma língua particular, o que não equivale a dizer que este é o caso. Seu trabalho pode ser visto como uma gramática, mas somente no que diz respeito às condições de possibilidade da linguagem humana, tal como pode ser visto na passagem das Vorlesungen, supra-citada 2 . Vista assim, a KrV pode ser concebida como uma gramática apenas no sentido transcendental, i.e. enquanto se ocupa dos fundamentos da razão humana 'linguagem de tipo especial que obedece ao princípio de contradição'. Em outros termos, enquanto se ocupa com a determinação das condições de possibilidade do sentido do juízo em geral, e, por conseguinte, das condições de possibilidade do pensar e do conhecer.

2. A gramática transcendental do conhecer e do pensar

Para entendermos o que Kant diz, devemos ter uma noção inicial acerca do que ele entende por conhecimento bem como dos elementos que este envolve. Comecemos, então, perguntando o seguinte: que é conhecer? Podemos responder, provisoriamente, assim: conhecer é formular juízos. Mas formulamos juízos acerca do quê? Acerca de objetos. E de que tipo de objetos tratam os juízos? Objetos efetivos ou possíveis da experiência sensível. E como formulamos juízos, i.e. como acessamos os objetos da experiência sensível? De um lado, pelo entendimento, de outro, pela sensibilidade; i.e. por meio de conceitos e de intuições sensíveis. E por meio do que, de qual instrumento, acessamos tanto o entendimento (com os conceitos) quanto a sensibilidade (com as intuições sensíveis)? Por meio da razão, pura ou efetivamente. O uso puro da razão, nos dá conhecimento do possível e do necessário; o uso efetivo, conhecimento do efetivo.

Perguntemos agora o seguinte: qual é a sede da razão (humana)? Na direção da argumentação de Kant, na KrV, podemos dizer que a sede da razão é o entendimento. E qual a sede do entendimento? A mente. Inicialmente, podemos dizer, seguindo Kant, que a mente <Gemüt> 3 , na

1 Kant, I., Prolegômenos a toda Metafísica futura, p. 103, trad. de Artur Morão, Edições 70, Portugal, 1987, cf.: Kant, I., Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik, die als Wissenschaft wird auftrete können, p. 92, Philipp Reclam Jun. Stuttgart, 1995.

2 Mesmo que Kant compare seu trabalho a uma gramática tradicional, i.e., como uma ''gramática de classes de palavras e de inflexões'', na medida em que ele parte da proposição como unidade fundamental do sentido, eu estaria inclinado a supor que, ao contrário, ele está mais perto da concepção inaugurada pela Grammaire de Port Royal, que, conforme Chomsky, considera a construção de proposições sob duas perspectivas: a da estrutura de superfície e a da estrutura profunda. Vista sob a perspectiva do idealismo transcendental, a primeira se ocuparia com o arranjo dos termos, tarefa da lógica geral, e a segunda, com o significado dos conceitos e, por conseguinte, das condições de possibilidade do sentido da proposição, tarefa da lógica transcendental. Isto, porém, tem de ser investigado.

3 Cf. Rohden, na Crítica da Faculdade do Juízo, ''Kant entende o Gemüt <ânimo> como o princípio unificador das diversas faculdades em relação recíproca, tendo sentido transcendental cognitivo e também estético vivificante das faculdades de conhecimento''. Já na ''Crítica da razão pura o Gemüt aparece como a totalidade das faculdades transcendentais''. Rohden, V., em: O sentido do termo ''Gemüt'' em Kant, Rev. Analytica, v. 1, 1993, pp. 61-7. Utilizarei 'Gemüt', aqui, como mente <do latim mens, mentis>; opção ao termo ânimo <do latim animus> comentada por Rohden

perspectiva do conhecimento, é uma capacidade (faculdade) humana constituída por três outras sub- capacidades, que são: o entendimento, a sensibilidade e a imaginação. Cada uma destas sub- capacidades executa uma operação específica no processo cognitivo 1 , produzindo três elementos, sem os quais o juízo, e, por conseguinte, o conhecimento, não seria possível, a saber:

1. o entendimento, que é ativo, produz espontaneamente conceitos;

2. a sensibilidade, que é passiva, dá intuições sensíveis;

3. a imaginação, que é a capacidade mediadora, constrói os esquemas dos objetos de conhecimento.

Resumindo: a mente é uma capacidade (ou faculdade) humana, que é constituída por três outras capacidades: o entendimento, que produz conceitos de objetos; a sensibilidade, que dá intuições sensíveis múltiplas de manifestações externas aos sentidos; e a imaginação, que recolhe os dados múltiplos da sensibilidade e os organiza segundo os conceitos do entendimento, formando o esquema do objeto a ser conhecido. A intuição pura dá a forma da sensibilidade; o entendimento puro dá a forma do pensamento; e a imaginação, com os dados puros da intuição e do entendimento i.e. com os conceitos puros e com as intuições puras, constrói o esquema puro (transcendental) do objeto, i.e. um objeto em geral. A razão, por sua vez, é o meio estruturante simbólico e conceitual, sujeito ao princípio de contradição 2 por meio do qual o entendimento realiza as operações mentais envolvidas no processo de conhecimento.

Antes, porém, de analisarmos cada uma dessas sub-capacidades, bem como sua função no processo cognitivo, a fim de evitar distorções lingüísticas e conceituais futuras, em nossa interpretação, devemos determinar qual é e o que é o elemento que é o suporte inicial e final do processo do conhecimento. Pois bem, qual é então este elemento: a mente, o entendimento, a sensibilidade, a imaginação, ou a razão? Todos e nenhum em especial, pois 'aquele-que-conhece' é o sujeito, que é dotado de razão e constituído por cada uma destas capacidades operativas. E que é esse sujeito? Podemos definir, provisoriamente, esse 'sujeito-que-conhece', o sujeito cognoscente, como a mente consciente (o eu) das operações realizadas pelo entendimento, por intermédio da razão, sobre as demais capacidades. Esta consciência do sujeito de que representações são dadas em sua mente, como veremos, é o que Kant chamará de apercepção transcendental (pura), da qual provém a possibilidade e para a qual se encaminha todo o conhecimento, pois só através da unidade do entendimento na apercepção transcendental é possível o conhecimento. (Isto ficará mais claro a partir de II. C e D, e, em especial, na Segunda Parte deste trabalho).

I. O juízo enquanto unidade do sentido

A razão, enquanto meio de representação através de signos (sinais), opera segundo determinadas formas (leis/regras). Estas formas se manifestam nos juízos; i.e. elas podem ser identificadas na

em seu trabalho, e que foi proposta por Kant. Mente <Gemüt> é utilizado na tradução brasileira da segunda edição da KrV, por Rohden; diferentemente da tradução portuguesa, que utiliza espírito; e que, conforme advertência de Rohden, não leva em conta as diferenças de significado que existem entre os termos Seele <alma>, Gemüt <ânimo, mente> e Geist <espírito>, estabelecidas por Kant no próprio texto da KrV. Na introdução à Lógica Transcendental, de acordo com a tradução brasileira, lemos o seguinte: ''Nosso conhecimento surge de duas fontes principais da mente <Gemüt>, cuja primeira é receber as representações (a receptividade das impressões) e a segunda a faculdade de conhecer um objeto por estas representações (espontaneidade dos conceitos)''. B 74.

1 Cf. Strawson, a meta-linguagem da KrV é psicológica, pois Kant concebeu a sua investigação, acerca da estrutura geral e das idéias e princípios que são pressupostos em todo conhecimento empírico, ''como um estudo da estrutura e da maneira de proceder das capacidades cognoscitivas de seres tal e como nós somos''. No que se refere à nossa concepção

da experiência, qualquer necessidade encontrada por Kant foi atribuída à natureza de nossas faculdades. Strawson, P.F., Los Limites del Sentido: Ensayo sobre la Crítica de da Razón Pura de Kant, trad. de Carlos Thiebault Luis-André, Madrid, Rev. de Occidente, 1975, p. 17.

2 Cf. Kant, ''o critério meramente lógico da verdade, a saber, a concordância de um conhecimento com as leis universais

] de toda

e formais do entendimento e da razão [o princípio de contradição], é em verdade a conditio sine qua non [ verdade''. B 84. Ver, também, KrV, B 12 e seg., e Prolegomena, § 2, A 26.

maneira como estes são constituídos, pois os juízos são os veículos da razão para expressar conhecimento. Enquanto tais, os juízos são entidades lingüísticas, constituídas ou:

1. por elementos da forma da razão apenas; ou

2. por elementos da forma da razão e por elementos da forma da experiência; ou

3. por elementos da forma da razão e por elementos da experiência segundo a sua forma.

Os primeiros são os juízos puros, que se referem a objetos necessários (à razão); os segundos são os juízos puros, que se referem a objetos possíveis (na experiência); os terceiros são os juízos empíricos, que se referem a objetos efetivos (da experiência). Os juízos puros de tipo 1 e 2 são totalmente a priori, pois independem (como mostraremos abaixo) da experiência ainda que os juízos de tipo 2 não independam da forma da experiência. Os juízos empíricos do tipo 3 são a posteriori, pois dependem parcialmente da experiência efetiva de objetos, pois em todo juízo há uma parte pura a priori, tanto do lado da intuição (sua forma pura) como do lado do entendimento (as categorias ou conceitos puros) 1 .

Que significa um juízo depender ou independer da experiência? De acordo com a interpretação que estou propondo, um juízo depender ou não da experiência significa o seguinte: O juízo, enquanto entidade (unidade) lingüística (enquanto produto da razão, portanto, da linguagem), é um todo representacional: enquanto todo, é composto de partes; enquanto representacional, tem a função de estar-por-algo diferente dele. Ora, se as partes que o compõem significam i.e. referem- se a algo que não elas, o todo tem sentido, e cumpre a sua função; i.e. ele representa aquilo pelo que está. Consideremos os juízos empíricos.

Conforme Kant, na Dissertatio, a verdade do juízo empírico consiste na concordância do predicado com um sujeito dado. O sentido, i.e. a representação dos elementos do juízo, consiste na referência relação <Beziehung>, na KrVdo conceito do sujeito, enquanto fenômeno, à faculdade sensível de conhecer, por meio da qual também são dados ''os predicados observáveis sensivelmente'' 2 . É portanto pelas mesmas leis que as representações do sujeito e do predicado se constituem na mente, e, somente por isso, ''dão ocasião a um conhecimento totalmente verdadeiro'' 3 . Portanto, antes de verificarmos a verdade de um juízo, necessitamos determinar em que condições ele pode ser verdadeiro, i.e. determinar os seus valores de verdade, o que equivale a verificar se ele tem ou não sentido. Nos termos de Kant, equivale a verificar se nossas representações (os conceitos nele expressos) se referem ou não a objetos efetivos ou possíveis 4 .

Um juízo depender ou não depender da experiência, ou de sua forma, significa, portanto, que ou o seu sentido depende da experiência ou da forma desta, ou não depende da experiência nem de sua forma. Por isso, os juízos que não dependem da experiência efetiva de objetos para terem sentido serem a priori; e os juízos que dependem da experiência efetiva, segundo sua forma, serem a posteriori.

Todavia, é necessário distinguir nos juízos a priori, aqueles que não dependem da experiência para terem sentido, mas que dependem da forma desta, i.e. da sua possibilidade, da

1 Pois, conforme Kant, em A 96, em cada experiência, encontramos conceitos que contêm a priori o pensamento puro,

estes conceitos são encontrados nas categorias.

2 Kant, Immanuel. Acerca da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível (Dissertatio) tr. Leonel Ribeiro dos Santos, Imprensa Nacional, Lisboa, 1985, seção II, § 11.

3 Os fenômenos, conforme Kant, enquanto objetos indeterminados dos nossos sentidos, não são idéias dos objetos nem apresentam suas qualidades internas e essenciais. E mesmo que estes sejam a única manifestação que podemos receber dos objetos, são contudo passíveis de conhecimento verdadeiro. Porque, uma vez que são recebidos pelos sentidos, enquanto conseqüência de algo diferente do que percebemos, testemunham a presença do objeto; e isto, conforme Kant, contraria o idealismo, para o qual a existência dos objetos fora de nosso pensamento é duvidosa. Conforme Kant, mesmo que, para nós, não sejam senão fenômenos, nós podemos conhecer as coisas sensíveis, das quais não há

intelecção real mas apenas lógica. Ibid., loc.cit

4 B 300-2.

A esse respeito, ver Parte II do trabalho.

possibilidade de um objeto ser dado na série empírica futura (a experiência possível). Os juízos a priori que não dependem da experiência nem da forma desta são juízos de esclarecimento (analíticos, como veremos), e se dão no nível do entendimento apenas. Por meio deles o entendimento apenas pensa e torna claro conceitos ou representações dadas de antemão. Com eles o entendimento concebe as suas regras (os conceitos) i.e. as regras para conhecer objetos, para receber dados da experiência sensível como objetos. 1

Os juízos a priori que dependem da forma da experiência e os juízos a posteriori, que dependem da experiência efetiva de objetos, segundo a sua forma, são juízos de ampliação (sintéticos, como veremos) do conhecimento, que se dão no nível do entendimento também, mas que recebem a contribuição da forma da experiência, no primeiro caso, e da experiência segundo a sua forma, no segundo. Por meio deles o entendimento concebe objetos empíricos possíveis ou efetivos.

Os juízos de esclarecimento são, conforme Kant, analíticos, pois não é necessário que saiamos do entendimento para que determinemos seu sentido. Os juízos de ampliação (extensivos) 2 são sintéticos, porque não basta analisar seus termos para determinarmos o seu sentido meramente pelo entendimento, é necessário que saiamos deles a fim de consultarmos ou os dados da sensibilidade, segundo a sua forma, ou a sua forma; tarefa esta que consiste em, por meio da imaginação, fazermos a síntese <Synthesis> do múltiplo dado pela sensibilidade segundo a forma da experiênciasob a forma do pensamento 3 . Estes juízos (sintéticos) são, quanto à sua fonte se segundo a experiência ou à sua forma: ou a posteriori ou a priori.

Com isso, temos os seguintes tipos de juízos:

1. os juízos analíticos que são sempre a prioritêm por objeto produtos do entendimento

(conceitos) ou as suas regras de funcionamento. Tais juízos não têm referência nem possível nem

efetiva fora do entendimento, pois tratam apenas do modo pelo qual estes objetos podem ser pensados pelo entendimento, segundo suas regras, que são equivalentes às regras da razão, e têm portanto referência necessária;

2. os juízos sintéticos a posteriori, que têm por objeto dados sensíveis segundo a forma da

sensibilidade, i.e. objetos efetivos. Tais juízos têm referência efetiva, pois tiram seu sentido de sua correspondência efetiva com a realidade;

3. os juízos sintéticos a priori, que têm por objeto o modo segundo o qual objetos podem ser dados

na experiência, segundo a sua forma, i.e. objetos possíveis. Esses juízos têm referência apenas

possível, pois tiram seu sentido de sua correspondência com a forma segundo a qual objetos são dados na experiência; seu objeto é possível à medida em que se refere ao modo como objetos podem ser dados na experiência; têm por objeto, portanto, a possibilidade da experiência. Estes juízos servem de regras de reconhecimento de experiência.

Portanto, por meio de 1 pensamos; por meio de 2 e 3, conhecemos.

Nos juízos sintéticos a priori, para verificarmos a atribuição do predicado ao sujeito (o seu sentido), não basta analisar o conceito do sujeito e o do predicado; eu necessito sair do domínio meramente judicativo, i.e. do entendimento. Porém, o fundamento dessa predicação não se encontra no domínio da experiência. O que torna a síntese possível no juízo não é um recurso à experiência nem tampouco a análise do conceito do sujeito e do predicado, mas um recurso à forma da experiência. Kant dá como exemplo o juízo ''Tudo o que acontece tem uma causa''. Segundo Kant, no conceito do que acontece pensamos a existência de algo que a precede no tempo. Mas o conceito

1 Ver Allison, pp. 64-65, sobre a noção de objeto como ''sujeito de um juízo possível''.

2 Ver §2 (A 24-30) dos Prolegomena.

3 Pois, conforme Kant, estas duas propriedades são essenciais, uma vez que sem ''sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, e sem entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos <Gedanken> sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas''. B 75.

de causa está completamente fora do conceito de sucessão e ''indica algo distinto daquilo que acontece'' 1 , não estando portanto contido nessa representação. Como então posso afirmar, a partir do conhecimento de que algo em geral acontece, algo tão diverso dele como o conceito de causa enquanto lhe pertencendo? Conforme Kant, o fundamento dessa síntese não pode ser a experiência, porque ''o mencionado princípio acrescentou essa segunda representação à primeira não somente com maior generalidade, mas também com a expressão da necessidade, por conseguinte, completamente a priori e a partir de simples conceitos'' 2 .

Quanto ao sentido e à verdade, os juízos analíticos são necessários, pois são verdadeiros a priori, e seu contrário não é possível nem pensável; os juízos sintéticos a posteriori são efetivos, pois são verdadeiros somente a posteriori, e seu contrário é possível e pensável; e os juízos sintéticos a priori são apenas possíveis, pois, mesmo que sejam verdadeiros a priori, seu contrário é, além de possível, pensável. Mas o seu contrário só é possível na série empírica, que é condicionada por sua verdade. Como esses juízos estão no princípio de todas as ciências (como axiomas) e, portanto, de todo nosso conhecimento, pois os condicionam, sua verdade é indemonstrável. Por isso seu sentido ser determinado a priori, e sua verdade ser suposta.

O entendimento é estruturado pela razão, que funciona segundo regras. É por meio dessas regras que o entendimento opera. E esta operação, por sua vez, é o pensamento. Para que o entendimento funcione bem, ele deve pensar (operar) segundo essas regras. Pensar, nesse sentido, é, essencialmente, operar a razão segundo regras. Essas regras estão na base, na estrutura, do entendimento. São, pois, a forma como ele está estruturado, constituído. Nem o entendimento nem a razão produzem essas formas (regras). Ele apenas as explicita nos juízos. Cabe a nós, refletindo sobre como opera o entendimento, constituído segundo essas regras racionais, verificar os modos como os juízos se constituem, i.e. como os formamos. Daí, se a forma do dizer (do juízo) é equivalente à forma do logos (razão/ linguagem), ela é portanto lógica.

Dos modos segundo os quais os elementos, nos juízos, se relacionam, o entendimento extrai as formas lógicas dos juízos. Estas, uma vez levantadas (na Tábua das Categorias, B 106), dão toda a gama de possibilidades de combinação dos elementos que constituem o juízo; elas dão todas as possibilidades de formação de juízos. Nesse sentido, essas formas são a priori, uma vez que constituem a própria estrutura do entendimento, conforme leis inerentes. Se o entendimento opera de acordo com estas formas lógicas, que podem ser verificadas nos juízos, todas as operações do entendimento têm as mesmas formas; i.e. seguem (obedecem a) as mesmas regras, que são lógicas.

Um juízo, considerado segundo a sua forma, é uma estrutura composta por dois elementos numa relação de atribuição (ou dois lugares lógicos a serem preenchidos) 3 : ou seja, dois elementos numa relação de atribuição de algo a algo. No nível da estrutura, portanto, do juízo, i.e. no nível apenas lógico da relação de atribuição do entendimento, o lugar do elemento que recebe a atribuição o receptor do atributoé o do sujeito, por isso chamado sujeito de atribuição; e o lugar da atribuição e do atributo é o do predicado.

Estas formas, destituídas de uma relação efetiva ou possível, são vazias, e dizem respeito apenas ao modo segundo o qual nosso entendimento funciona, i.e. o modo co mo formulamos juízos. O estabelecimento dessas formas lógicas dos juízos é tarefa de uma lógica geral (formal), segundo Kant. E uma tal lógica deve levar em conta apenas a forma segundo a qual juízos são construídos, i.e. apenas a ''forma do pensamento em geral'' 4 .

1

2

B 13.

Ibid., loc.cit.

3

4

Cf. Kant, em B 78: a lógica geral ''abstrai de todo o conteúdo do conhecimento do entendimento, bem como da

diversidade de seus objetos, não se ocupando senão com a simples forma do pensamento''. E, mais adiante em B 79: ''A

lógica geral abstrai [

a forma lógica na relação dos conhecimentos entre si, i.e. a forma do pensamento em geral''. Na Lógica, lemos o seguinte em Ak 94/ A 144: ''Visto que a Lógica [geral] abstrai de todo conteúdo do conhecimento por conceitos, ou de

de todo o conteúdo do conhecimento, i.e. de toda referência do mesmo ao objeto, e só considera

Cf. Kant, em B 324, todo conceito é um lugar lógico.

]

Conforme Kant, o princípio que rege toda a construção dos juízos é o de contradição. Segundo esse princípio, nenhum pensamento pode contradizer-se a si próprio, no ato de sua formulação, i.e. o predicado não pode afirmar e negar uma mesma propriedade do sujeito num mesmo juízo. Este princípio garante a unidade do sentido do juízo, que é o veículo de todo nosso conhecimento de objetos.

Como o interesse de Kant na KrV é o de estabelecer os limites do pensamento e demonstrar a possibilidade dos juízos sintéticos a priori, podemos dizer que Kant não trata senão de juízos analíticos e sintéticos, e, especialmente, que está ocupado com verificar a possibilidade destes últimos, pois, somente por meio deles nós temos conhecimento acerca do mundo (dos objetos do mundo).

Juízos analíticos e juízos sintéticos, segundo Kant, são juízos categóricos, e, por conseguinte, se deixam formular segundo uma relação entre sujeito (S) e predicado (P) 1 . No caso do juízo analítico, não é necessário recorrer ao domínio da experiência para determinar seu sentido e sua verdade, pois o conceito do P está contido no conceito do S; i.e. tal juízo é analítico pois basta analisar o conceito do S para verificar se o conceito do P se aplica a ele ou não. No caso do juízo sintético, não basta analisar o conceito do S e do P, mas temos que recorrer ao domínio da experiência para o determinarmos quanto ao sentido (tal como vimos acima).

Segundo Kant, a lógica geral descreve os juízos em geral como a ''representação de uma relação entre dois conceitos'' 2 , a saber, o conceito do sujeito e o do predicado. Kant, porém, diz que esta descrição ''atende quando muito aos juízos categóricos, mas não aos hipotéticos e disjuntivos (que como tais contêm uma relação não de conceitos e sim de juízos)''. Em B 100-101, Kant apresenta as modalidades dos juízos problemáticos, assertóricos e apodíticoscomo uma função destes que se refere ao ''valor da cópula com referência <Beziehung> ao pensamento em geral''. Conforme Kant, os

[j]uízos problemáticos <[p]roblematische Urteile> são aqueles em que se admite o afirmar ou o negar como meramente possível (arbitrário); juízos assertóricos aqueles em que se o considera [o negar ou o afirmar] efetivo <wirklich> (verdadeiro) e juízos apodíticos aqueles em que se o encara como necessário. 3

Na Lógica 4 , encontramos uma referência importante e elucidativa de Kant acerca da necessária distinção entre juízo <Urteil> e proposição <Satz>, cujo fundamento residiria nas modalidades do juízo. Nela, lemos o seguinte:

toda matéria do pensamento, ela só pode considerar o conceito com respeito à sua forma, quer dizer, apenas subjetivamente; não como ele determina um objeto mediante uma característica, mas apenas como ele pode ser relacionado a vários objetos. A Lógica geral não tem, pois, de investigar a fonte dos conceitos; não como os conceitos se originam enquanto representações, mas unicamente como representações dadas se tornam conceitos no pensamento; não importa, de resto, se esses conceitos contenham algo que tenha sido tirado da experiência, ou mesmo algo de fictício, ou tomado da natureza do entendimento.'' Kant, I. , Lógica, tr. por Guido Antônio de Almeida (de Immanuel Kants Logik ein Handbuch zu Vorlesungen), RJ, Tempo Brasileiro, 1992, p. 111-12.

1 De acordo com Leibniz, a proposição categórica é o fundamento de todas as demais proposições, i.e. as modais, as hipotéticas e disjuntivas, pois a pressupõem. Proposição categórica, para Leibniz, é aquela que pode ser descrita sob a forma ''A é B, ou A não é B i.e. É falso que A é B, complementada com uma variedade de 'signum' , de modo que a proposição seja, ou universal e se entenda de todo sujeito, ou particular e se entende de algum''. Leibniz, G.W., Seis escritos de lógica, tr. por Roberto Torretti, in: Dialogos, v. 51, 1988, p. 166.

2 B 140. Porém, segundo Kant, se investigamos mais de perto em cada juízo a ''referência de conhecimentos dados e, enquanto pertencentes ao entendimento'' os distinguimos ''da relação segundo leis da imaginação reprodutiva (que possui somente validade subjetiva)'', vemos ''que um juízo não é senão o modo de levar conhecimentos <Erkenntnisse intuições, cognições, conhecimentos> o dados à unidade objetiva da apercepção'' (B 141).

3 Na Lógica de Jäsche, A 169/Ak 108, § 30, lemos o seguinte: ''Quanto à modalidade, aspecto pelo qual está determinada a relação do juízo inteiro com a faculdade de conhecer, os juízos são ou problemáticos, ou assertóricos, ou apodícticos. Os problemáticos são acompanhados da consciência da mera possibilidade; os assertóricos, da consciência da realidade efetiva; os apodícticos, por fim, da consciência da necessidade de julgar''. Kant, I., Lógica, op.cit

4 Ibid., loc.cit.

É na distinção entre juízos problemáticos e assertóricos que se funda a verdadeira distinção entre juízos e proposições, que de outro modo se costuma situar erroneamente na mera expressão mediante palavras, sem a qual não se poderia jamais julgar. No juízo, a relação de diferentes representações em vista da unidade da consciência é pensada como meramente problemática; numa proposição, ao contrário, como assertórica. 1

Toda proposição, para Kant, portanto, é um juízo, mas nem todo juízo é uma proposição, pois, antes ''de ter uma proposição, tenho primeiro que julgar; e eu julgo sobre muita coisa que não decido, o que porém tenho que fazer tão logo determino um juízo como proposição''. 2

Considere, agora, a seguinte passagem, no desdobramento de B 101, onde Kant parece esclarecer a diferença entre a modalidade problemática e a assertórica:

A proposição problemática <problematische Satz> é, portanto, aquela que só expressa possibilidade lógica (que não é objetiva), i.e. uma livre escolha de deixar valer uma tal proposição, uma acolhida meramente arbitrária da mesma no entendimento. A proposição assertórica diz da efetividade <Wirklichkeit> ou verdade <Wahrheit> lógica.

Em outros termos, a primeira se refere apenas à possibilidade, enquanto a segunda à verdade.

Na KrV, Kant se interessa por todos os tipos de juízos: os categóricos, os hipotéticos e os disjuntivos. Com base nessa elucidação, para nossos fins, porém, suporei que, na KrV, Kant se ocupará em pormenor da possibilidade dos juízos categóricos, em cuja classificação caem os juízos analíticos e sintéticos, que podem ser descritos segundo a fórmula S é P, donde S e P são conceitos colocados em relação pela cópula ''é''. Em outros termos, adoto a perspectiva segundo a qual Kant está ocupado na KrV em investigar a possibilidade dos juízos categóricos, em especial, os assertóricos, i.e. os que têm a ver com a verdade.

Supondo que, na KrV, Kant estivesse interessado, particularmente, em demonstrar a possibilidade dos juízos categóricos assertóricos a priori ou a posteriori 3 , tal como propus, como estes são proposições (conforme a Lógica), poderíamos dizer então que Kant estaria interessado, na KrV, em investigar a possibilidade da proposição em geral, em outros termos, investigar em que condições em geral uma proposição pode ter sentido.

Como procurei demonstrar nas linhas precedentes, é possível, portanto, ler a KrV como uma investigação acerca do uso da linguagem. Pois, por detrás da formulação do objetivo de Kant, com a KrV, i.e. por detrás da pergunta acerca da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, podemos encontrar uma intenção mais básica e, da mesma forma, universal, que seria a de estabelecer a possibilidade, acima de tudo, dos juízos sintéticos em geral 4 . Em outros termos, com a KrV, Kant estaria buscando responder a uma pergunta mais elementar e extremamente importante, a saber:

Como podemos falar com sentidoacerca do mundo? Ou, em termos mais aproximados: Como seriam possíveis juízos acerca de objetos?

Se seguirmos com atenção essa linha de raciocínio, o que encontramos por detrás da pergunta acerca da possibilidade da proposição em geral é uma pergunta ainda mais básica, e esta

1 Observação 3, § 30 da Lógica, A 170/Ak 109.

2 Ibid., loc.cit.

3 Por exemplo, em B 189, na analítica dos princípios, Kant escreve o seguinte: ''[e]ntretanto, também temos que falar do princípio dos juízos analíticos, e isto em oposição ao dos juízos sintéticos com os quais propriamente nos ocupamos

[

4 Cf. Bennett, os ''usos da linguagem que não são meras respostas lingüísticas a estímulos, e que expressam juízos que

não podem ser expressos exceto em uma linguagem, se solapam ou coincidem com os usos que são mais pertinentes para ver se uma linguagem dada emprega conceitos.''. Para Bennett, ''o interesse primário de Kant recai sobre os juízos acerca de estados de fatos gerais e passados, e que é por isto que ele só se ocupa dos juízos expressáveis em uma linguagem, e se limita ademais à linguagens do tipo desenvolvido que eu digo 'que empregam conceitos'.''. Bennett, p.

].''.

[grifo meu].

113.

sim essencial a todo o saber humano. Portanto, se estivermos de acordo com relação ao fato de todo

o conhecimento humano ser judicativo (discursivo) que é o resultado da operação do

entendimento sobre os dados da intuição a partir dos conceitos puros, i.e. ser mediado pela linguagem, antes de estabelecermos a fonte dos juízos, i.e. se são a priori ou a posteriori, ou se são analíticos ou sintéticos, o que temos de estabelecer é, na verdade, se tais construções sintáticas têm

ou não sentido, pois, caso contrário, não poderiam expressar pensamento algum, e muito menos descrever algo verdadeira ou falsamente.

Visto dessa maneira, poderíamos interpretar a empresa de Kant com a KrV, antes, como uma investigação acerca da possibilidade ou condiçõesdo sentido de nossas proposições, uma vez que, de acordo com o próprio Kant, o maior problema da Metafísica no seu tempo era o fato de ela não ter clareza acerca do que estava falando, não dando, por conseguinte, sentido às suas proposições.

Sob essa perspectiva, o problema com o qual Kant se defrontaria na KrV assume outra dimensão, uma vez que ele mesmo vai procurar colocar a Metafísica no seu devido lugar com o estabelecimento do domínio, dos limites e do objeto em relação aos quais nós, racionalmente (i.e. por meio da razão) podemos buscar conhecer, e até que ponto podemos ir legitimamente, com e sem a experiência o que, em outras palavras, seria determinar acerca do que nós, de posse do instrumental da razão e do material da intuição, podemos falar com sentido. E isto nada mais seria então do que estabelecer, por meio da investigação do processo da construção de juízos sobre objetos, as condições de possibilidade de sentido desses juízos.

Como a lógica que Kant desenvolve na KrV não é uma lógica geral (formal) que abstrai

do conteúdo do objeto, mas sim uma lógica transcendental, que leva em conta, não o conteúdo

do objeto, mas sim que objetos são dados a uma intuição sensível segundo as formas puras do espaço e do tempo, e que, por meio de conceitos do entendimento, deles formulamos juízos, se interessando, portanto, pela fonte desses juízos, as condições transcendentais do sentido deverão acompanhar toda a argumentação de Kant 1 .

Com base nisso, proponho que na Estética e na Lógica Transcendental Kant nos apresenta

as condições universais da possibilidade do sentido de nossos juízos sobre objetos: a Estética

Transcendental nos apresenta as condições de possibilidade fornecidas pela sensibilidade, e a Lógica Transcendental, as condições de possibilidade fornecidas pelo entendimento, em outros termos, os elementos de uma semântica transcendental. (No presente trabalho, as condições de possibilidade fornecidas pelo entendimento e pela imaginação as categorias e os esquemas, objeto da Lógica Transcendental, serão tratadas apenas introdutoriamente para encaminhar e situar

a argumentação em torno das condições de possibilidade fornecidas pela sensibilidade com que nos ocuparemos aqui em pormenor, na Segunda Parte de nossa exposição, e que são tratadas na Estética Transcendental, a saber, o espaço e o tempo como formas puras da intuição sensível.)

Esta proposta de interpretação deverá poder apresentar uma resposta à pergunta que Kant se faz na Carta a Marcus Herz, a saber: ''sobre que fundamento <Grund> repousa a relação daquilo que se chama em nós representação <Vorstellung> com o objeto <Gegenstand>?'' 2 . Em outras palavras, como são possíveis conceitos de objetos, ou, ainda, como a linguagem pode referir-se ao

1 Em outros termos, a lógica de Kant não é formal, e é, portanto, transcendental, porque ele está interessado em investigar como é possível em geral que nossas proposições tenham sentido; sua preocupação, portanto, é com a possibilidade do objeto ser dado e com a fonte do juízo, e não meramente com a sua forma. De acordo com Kant, em A XVI, a tarefa da Lógica Transcendental é determinar o valor objetivo dos conceitos puros do entendimento a priori, i.e. a sua aplicabilidade a objetos da experiência possível. 2 Kant, I., Carta a Marcus Herz, tr. de António Marques, Imprensa Nacional, Lisboa, 1985, p. 142. A tradução portuguesa desta Carta foi cotejada com a tradução francesa de ''Lettre à Marcus Herz'' de Alexis Philonenko, editada junto com a tradução de Paul Mouy de ''La Dissertation de 1770'', Paris, Vrin, 1976.

mundo. Sob essa perspectiva, a tarefa de investigar a origem e a aplicabilidade de conceitos a objetos se aproxima de uma investigação acerca da significação das palavras. 1

Visto dessa maneira, o objetivo de Kant na KrV é bastante assemelhado ao de Wittgenstein no Tractatus 2 , uma vez que, conforme o modo como lemos o trabalho de Kant, ele, ao procurar estabelecer os limites do conhecimento pela razão pura, sem a experiência, termina por estabelecer os limites da razão. Mas para Wittgenstein, estabelecer tais limites implicaria fazer aquilo que se quer evitar, uma vez que fora da razão não há sentido. Daí, não se poder falar dos limites da razão sem sair desses limites e, portanto, falar sem sentido.

O que Kant faz na KrV é muito semelhante, uma vez que, ao estabelecer o noumeno ou objeto transcendental como um parâmetro para a razão, i.e. ao estabelecer o noumeno como o limite para o conhecer, transgride o próprio limite ao postular o empiricamente impossível, o incognoscível; i.e. o próprio limite. Kant portanto infringe a regra que pretende estabelecer a fim de estabelecer a regra; ou ainda, transgride os limites do conhecimento a fim de estabelecer este limite. Se, com o estabelecimento do noumeno como limite para o conhecer, Kant estabelece o limite dos juízos e com eles os limites a que a razão pura (a razão sem referência a objetos) tem de se ater no caminho do conhecimento puro, Kant estabelece, ao mesmo tempo, os limites para o pensar com sentido, que devem coincidir com os limites do discurso significativo.

II. Os artífices do objeto do conhecimento e seus produtos

A. Sensibilidade e intuições puras e empíricas

Tanto na Dissertatio como na KrV, Kant considera o conhecimento sob sua dupla origem, a saber, a parte material (sensível) e a parte formal (intelectual, racional), que são, respectivamente, fornecidas pela sensibilidade e pelo entendimento. Tanto uma como a outra provêm, segundo Kant, de uma origem comum 3 : a ''natureza da mente <mentis naturae>'' 1 .

1 Pois, se, conforme Hobbes, os nomes são signos de conceitos, e não os signos das próprias coisas (Hobbes, T., Elementorum philosophiae, sectio prima, De corpore, I, 2, sect.5 apud Cassirer, La philosophie des Formes Simboliques, p. 80) ''[o] problema da construção dos conceitos caracteriza o instante em que o contato entre a lógica e a filosofia da linguagem é mais estreito, onde um e outro parecem se fundir em uma unidade indissolúvel. Toda análise lógica dos conceitos parece finalmente levar a um ponto onde estudar os conceitos lembra estudar as palavras e os nomes. O nominalismo conseqüente reúne estes dois problemas: a seus olhos, a validade do conceito se reporta à validade e à fecundidade da palavra. A verdade torna-se então uma determinação menos lógica que lingüística: ''Veritas in dicto, non in re consistit''. Ela é o fato de uma concordância que não é procurada nas próprias coisas, nem nas idéias, mas que se refere exclusivamente ao encadear dos signos, em particular dos signos fonéticos. Um pensamento absolutamente ''puro'', que não falasse, que não conhecesse a oposição do verdadeiro e do falso, que não produzisse senão na e pela fala. Assim a questão da validade e da origem do conceito é necessariamente referida aqui ao problema da origem da palavra: a investigação da gênese das significações e das classes aparece como o único meio de tornar inteligíveis o sentido imanente do conceito e sua função na elaboração do conhecimento.''. Cassirer, ibid., p. 247. Sobre esta posição acerca da dificuldade de estabelecimento de um limite definido entre lógica (linguagens artificiais) e semântica (linguagens naturais), ver Montague, R., Universal Grammar, in: Theoria, 36 (1970), pp. 373-398.

2 Wittgenstein, L., Tractatus Logico-Philosophicus, tr. Luiz Henrique Lopes dos Santos, Edusp, 1993.

3 Arendt sugere em seu ensaio A imaginação que esta raiz comum e desconhecida para nós é, para Kant, a imaginação. Arendt chama atenção para a seguinte passagem da KrV, em A 124: ''Os dois extremos, a sensibilidade e o entendimento, devem necessariamente articular-se graças a esta função transcendental da imaginação, pois de outra maneira ambos dariam, sem dúvida, fenômenos, mas nenhum objeto de um conhecimento empírico e, portanto, experiência alguma.''. Conforme Arendt, nessa passagem, ''Kant apela à imaginação para proporcionar a conexão entre as duas faculdades, e, na primeira edição da Crítica da razão pura, ele chama a imaginação de a ''faculdade da síntese em geral [überhaupt]'' [sic.]. Em outros lugares, onde fala diretamente do ''esquematismo'' envolvido em nosso entendimento, chama-o de uma ''arte escondida nas profundezas da alma humana'' [B 180] [sic.] (isto é, temos uma espécie de ''intuição'' de algo que nunca está presente); pelo que Kant sugere que a imaginação é de fato a raiz comum das outras faculdades cognitivas, i.e. a ''raiz comum, mas para nós desconhecida'' [sic.], da sensibilidade e do entendimento [B 29], sobre a qual ele fala na Introdução da Crítica da razão pura e em seu último capítulo, em que menciona novamente essa faculdade, mas sem nomeá-la [B 863].''. Arendt, Hannah, Lições sobre a filosofia política de Kant, trad. de Anfré Duarte de Macedo, RJ, Relume-Dumará, 1993, p. 103.

Na Dissertatio, Kant define sensibilidade <sensualitas> como a ''receptividade do sujeito <receptivitas subiecti>, mediante a qual é possível que o seu estado representativo seja afetado de uma certa maneira em presença de algum objeto'' 2 ; enquanto tal, ela é uma capacidade de receber representações <Vorstellungen>, segundo a sua forma; é por isso uma receptividade <Rezeptivität>. 3

Na representação dos sentidos há uma forma e uma matéria: a forma é a espécie <species> das coisas sensíveis, ''que se revela na medida em que as coisas que afetam os sentidos, mesmo sendo múltiplas, são todavia coordenadas por uma certa lei natural da alma <animi lege coordinatur>'' 4 ; a matéria é o efeito <Wirkung> do algo dado à sensibilidade <Sinnlichkeit> sobre a capacidade de representação <Vorstellungfähigkeit>, e é chamada sensação <Empfindung> 5 . A sensação do algo sensível dado à sensibilidade fornece à mente o material com o qual ela elabora a representação deste algo. Este algo representado na mente é uma intuição 6 . Esta intuição, por se referir ao objeto por meio da sensação, é empírica <empirisch> e, enquanto tal, é uma representação indeterminada do objeto tal como ele é dado à sensibilidade; i.e. tal como aparece. E esta representação indeterminada do objeto da sensibilidade é o fenômeno <Erscheinung> do objeto 7 . Portanto, o objeto da sensibilidade é o sensível; e este, em relação ao objeto em si mesmo, é chamado de phaenomenon <Erscheinung> do objeto; em relação à sensibilidade, intuição; e, em relação à mente, representação indeterminada.

Como a matéria do fenômeno é o que é sentido, sua sensação, a forma do fenômeno <Form der Erscheinung> é o modo como ele se apresenta (ordenado sob certas relações) à mente por meio da sensibilidade; é o que permite organizar a multiplicidade do que é recebido na sensibilidade, segundo certas relações, na mente. O modo como este múltiplo, recebido na sensibilidade, se apresenta organizado na mente, segundo certas relações, é a forma do intuído empiricamente (o fenômeno); e esta forma é conferida a esse múltiplo pela sensibilidade, i.e. o múltiplo sensível é intuído segundo a forma da sensibilidade, e é concebido na mente, qua representação de um algo ainda indeterminado como objeto, tal como este aparece, i.e. como fenômeno.

Conforme Kant, assim como a matéria da representação sensível indica a presença de algo sensível, mas que depende da capacidade do sujeito ser afetado por objetos, do mesmo modo a forma da representação sensível denuncia ''uma certa consideração e relação às coisas sentidas'' 8 . Esta forma, porém, segundo Kant, ''é apenas uma certa lei ínsita na mente <menti insita>, para esta coordenar para si mesma as sensações nascidas da presença do objeto'' 9 . Porque, na sensação, o que os sentidos recebem não é a forma dos objetos, e para que as suas múltiplas propriedades possam reunir-se num todo representacional, ''é necessário um princípio interno da mente'' 10 , por meio do qual este múltiplo possa ser ordenado de uma certa maneira ''segundo leis estáveis e inatas <stabiles

1 Dissertatio, I, § 1. A leitura da tradução portuguesa, acima citada, foi cotejada com a edição do ''De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis'' dos ''Kleinere philosophische Schriften'', de Kant, in: ''Immanuel Kant's:

sämtliche Werke in sechs Bänden'', Band IV, Leipzig, 1923, e com a edição bilíngüe da tradução francesa de ''La Dissertation de 1770'' de Paul Mouy, Paris, Vrin, 1976.

2 Ibid., II, § 3.

3 B 33.

4 Dissertatio, II, § 4.

5 B 34.

6 Cf. Paton, as intuições, ''nos seres humanos são sensíveis <sensuous>. Quer dizer, elas chegam até nós por meio da sensibilidade passiva. Elas não são criadas por nós, mas simplesmente recebidas. Nós somos capazes de intuir somente na medida em que um objeto é dado a nós, e um objeto é dado a nós somente na medida em que ele afeta nossa mente e produz uma sensação''. Paton, H. J., Kant's Metaphysic of Experience, in two volumes, U.S.A., Humanities Press inc., 1970, v. I, p. 95.

7 Sobre a noção de objeto, ver Paton, I, p. 96, e Allison, p. 64-65.

8 Dissertatio, II, § 4. Cf. Allison, na KrV , Kant nega ''a possibilidade de qualquer conhecimento teórico de entidades inteligíveis''. Allison, H., The Non-Spatiotemporality of Things in Themselves for Kant, Journal of the history of Philosophy, 1976, v. 14, p. 317.

9 Dissertatio, id., loc.cit. 10 Ibid., loc. cit.

et innatas leges>'' 1 . Esta forma, conforme Kant, segundo a qual o intuído é ordenado na mente, de acordo com o modo como é recebido na sensação, não pode, por sua vez, ser recebida na sensação; i.e. não pode ser sentida; ela tem de estar a priori na mente, a fim de que a matéria do fenômeno possa ser ordenada na mente sob certas relações e assim se tornar representação do objeto tal como aparece. A matéria do fenômeno, a sensação, é recebida a posteriori na mente, segundo uma forma, que é a priori. Por isso, a forma da sensação está separada dela 2 . Só a matéria é percebida, a forma não. Quando a matéria sensível é recebida na sensibilidade, ela já chega à mente segundo uma determinada forma. A recepção da matéria do fenômeno na sensibilidade e sua recepção na mente qua representação indeterminada do objeto pode ser dita um processo de ''formatação'' da matéria sensível segundo a forma desta recepção. A mente já recebe o material da sensibilidade segundo esta forma; não são dois momentos (no tempo) do processo de intuir o sensível, mas dois aspectos do mesmo. Portanto, a formatação da matéria sensível na mente é simultânea à sua recepção na sensação. (Ver Segunda Parte do trabalho).

Nós podemos, mentalmente, representar a forma da matéria da sensação sem sua matéria, mas, não o contrário, i.e. podemos representarmo-nos a forma da sensação sem sua matéria, mas não podemos representar essa matéria sem nenhuma forma; porque a representação da matéria pressupõe sua forma. A representação desta forma sem a matéria da sensação, na mente, Kant chama pura <rein>, em contraste com a representação da matéria da sensação segundo a forma da intuição, que é empírica, porque é sensível. Kant chama a representação da forma pura <reine Form> de representação a priori, e a representação da matéria da sensação de representação a posteriori 3 . A forma pura da sensibilidade, que se encontra a priori na mente, é chamada de intuição pura, pois é uma intuição em que a mente se representa algo sem nada do sensível, empírico, i.e. ''vazia de sensações''. 4

Abstraídas todas as propriedades sensíveis do algo sensível dado à sensibilidade, restam ainda formas a extensão e a figuraque pertencem à intuição pura 5 ; i.e. que ocorrem ''a priori na mente como simples forma da sensibilidade''; e.g. posso pensar a extensão sem o extenso, mas não posso pensar o extenso sem a extensão; ou, posso pensar, i.e. representar-me, mentalmente um espaço vazio passível de ser preenchido por um algo sensível, mas não posso pensar um algo sensível extenso fora do espaço 6 .

B. Entendimento e conceitos puros e empíricos

De acordo com a definição que propus acima de razão, permita que eu defina o entendimento como a capacidade simbólica humana, i.e. a capacidade humana de operar por meio de símbolos. Enquanto tal, o entendimento é a capacidade da mente que opera segundo as leis (a forma) da razão; é o receptáculo das operações das outras duas capacidades. Por isso, nos termos de Kant, em

1 Ibid., loc.cit.

2 B 34.

3 B 35.

4 Dissertatio, II, § 12. Cf. Kant, ''só de uma maneira é possível que a minha intuição seja anterior à [efetividade do objeto <Wirklichkeit des Gegenstandes>] e se produza como conhecimento a priori, quando nada mais contém além da forma da sensibilidade que, no meu sujeito, precede todas as [impressões efetivas <wirklichen Eindrücken>] pelas quais eu sou afetado pelos objetos.''. Prolegomena, § 9, A 52.

5 A intuição pura humana, conforme Kant, ''não é um conceito universal ou lógico sob o qual, mas sim um conceito singular no qual quaisquer coisas sensíveis são pensadas e, por isso, contém os conceitos de espaço e de tempo'', que são objetos de conhecimento. Ibid., loc.cit. 6 Cf. Paton, ''nós podemos ser conscientes do espaço e do tempo fora de qualquer objeto individual, embora não possamos ser conscientes de qualquer objeto individual fora do espaço e do tempo''. Porém, nós não podemos, conforme Paton, ''perceber o espaço e o tempo vazios''. De acordo com Paton, para que possamos perceber tempo e espaço, nós devemos perceber coisas no tempo e no espaço, e nós obtemos idéias de espaço e tempo absoluto ou vazio somente por eliminação ou pensando objetos distantes no tempo e no espaço''. Paton, I, p. 113.

A 126, o entendimento pode ser definido ''como a faculdade das regras''. Sob essa descrição ele é a capacidade racional stricto sensu (a capacidade lingüística).

O entendimento opera por meio da razão de duas maneiras: pura ou efetivamente. Quando o entendimento trabalha com a razão puramente, trabalha sem os dados da experiência sensível: pode trabalhar com a forma desta, i.e. o modo segundo o qual tais dados são acessados, ou sem levar em conta essa forma. Sob a primeira condição, o entendimento obtém conhecimento a priori de objetos possíveis; sob a segunda, conhecimento a priori e necessário. Quando o entendimento trabalha com a razão efetivamente, trabalha com os dados da experiência sensível, segundo a forma com que são acessados pelo aparato perceptual humano. Sob esta condição, o entendimento obtém conhecimento a posteriori de objetos efetivos da experiência.

Na Dissertatio, Kant chama esta distinção entre os dois usos do entendimento, na elaboração das representações intelectuais, de uso lógico <usus logicus> (efetivo) e uso real <usus realis> (puro). No uso lógico do entendimento, os conceitos inferiores, independente da sua origem, são submetidos aos superiores, que contêm as características comuns, ''e comparados entre si segundo o princípio de contradição'' 1 . O que precede o uso lógico do entendimento se chama aparência <apparentia>; e o que o sucede é o conhecimento reflexivo, que resulta da comparação de várias aparências, e que se chama experiência <experientia>. É somente por meio da reflexão, e em conformidade com o uso lógico do entendimento, que podemos passar da aparência para a experiência. Os conceitos da experiência, que advêm da comparação de várias aparências, são chamados empíricos <empirici> e os objetos, ainda indeterminados, da experiência são chamados, como vimos, fenômenos <phaenomena>. Segundo Kant, as leis da experiência e de todo o conhecimento empírico são chamadas ''leis dos fenômenos'' 2 . Por isso, os conceitos empíricos nunca podem tornar-se intelectuais ''na acepção real <in sensu reali> mediante a redução a uma maior universalidade, e não ultrapassam o gênero do conhecimento sensível, mas, por muito que subam na abstração'' 3 , permanecem sempre empíricos 4 .

No uso real do entendimento, ''são dados os conceitos mesmos, seja das coisas seja das relações'' 5 , a partir da sua própria natureza, i.e. eles não são ''abstraídos de qualquer uso dos sentidos, nem contêm forma alguma de conhecimento sensível enquanto tal'' 6 . (Estes são os conceitos intelectuais que, na KrV, serão chamados conceitos puros do entendimento, as categorias).

Conforme Kant, o ''uso lógico do entendimento é comum a todas as ciências, mas não o uso real'' 7 , pois em todas as ciências há uma parte racional, e é esta que devemos conhecer a priori 8 . O uso lógico do entendimento, nos conhecimentos sensíveis, subordina as coisas sensíveis a outras

1 Dissertatio, II, § 5.

2 Ibid., loc.cit.

3 Ibid., loc.cit.

4 Conforme Kant, o homem não possui intuição dos noumenos coisas intelectuais, inteligíveis, as coisas tal como são em si mesmas<intellectualium non datur (homini) intuitus>, mas apenas um conhecimento simbólico <cognitio symbolica>. Nós só podemos pensar estes objetos por meio de conceitos universais, abstratamente, e não por meio de ''um singular concreto''. Toda a nossa intuição, que é apenas sensível, ''está limitada por um certo princípio da forma'', unicamente pelo qual algo pode ser concebido pela mente imediatamente como um algo singular, e não ''apenas discursivamente mediante conceitos gerais''. Este ''princípio formal da nossa intuição'' é a única ''condição sob a qual algo pode ser objeto dos nossos sentidos'', e, como tal, ''como condição do conhecimento sensível, não serve de meio para a intuição intelectual''. O conceito de noumeno, enquanto objeto meramente inteligível, está completamente ''destituído de todos os dados da intuição humana'', que é passiva e, portanto, ''só é possível na medida em que algo pode afetar os nossos sentidos''. Ibid., II, § 10. Cf. Strawson, ou nós não podemos conhecer a coisa em si mesma, ou essa coisa em si supra-sensível é criada por nossa consciência ''e não existe independentemente dela''. Pelo fato de pensarmos esse supra-sensível como objeto possível de uma consciência não sensível (intuição intelectual) é que ele se denomina ''noumeno''. Strawson, p. 212.

5 Dissertatio, II, § 5.

6 Ibid., § 6.

7 Ibid., § 5.

8 B IX-X.

''como seus conceitos comuns, e os fenômenos são subordinados às leis mais gerais dos fenômenos'' 1 . O uso real do entendimento cabe somente à metafísica, que, segundo Kant, é a ''filosofia que contém os primeiros princípios do uso do entendimento puro'' 2 . Na metafísica, porém, não podemos encontrar princípios empíricos, pois a origem de seus conceitos deve ser buscada ''na própria natureza do entendimento puro, não como conceitos inatos <conceptus connati>, mas como conceitos abstraídos das leis ínsitas na mente (atendendo às ações desta por ocasião da experiência), sendo, por conseguinte, adquiridos <acquisiti>'' 3 . Os conceitos de possibilidade, existência, necessidade, substância, causa, são conceitos deste tipo, e, como tais, ''dado que nunca entram como partes em nenhuma representação dos sentidos, de modo nenhum puderam ser daí abstraídos''. 4

Em boa parte dos escritos pré-críticos, bem como na KrV, Kant compara insistentemente a filosofia com a matemática, e, em especial, com a geometria, que, segundo Kant, é constituída a partir de juízos sintéticos a priori. Mas, ao iniciarmos a leitura da KrV, não sabemos bem ao certo o que significa um juízo sintético a priori, mesmo que conheçamos o objeto e o método da geometria, e por isso deixamos de entender por que Kant insiste tanto em reclamar para a filosofia um método sintético a priori em comparação com aquela ciência, e em que consiste sua virtude que o faz realçá-la tantas vezes. Na verdade, a terminologia com que Kant formula, na KrV, a sua comparação da geometria com a filosofia não é acessível facilmente, desde um primeiro momento, e podemos passar ao largo daquilo que é o mais importante por não entendermos adequadamente o que ele está falando.

O texto pré-crítico Sobre a nitidez dos princípios da teologia natural e da moral 5 , de 1763, elucida-nos muita coisa a respeito dessa comparação, e, mais ainda, naquilo que toca à tarefa da filosofia, qua elucidação de conceitos obscuros 6 , como uma ocupação com palavras e seus significados. A construção desse texto é sobremaneira clara, e nos leva a entender como poucos outros, em que medida, tanto a filosofia como a matemática, são atividades simbólicas; i.e. que lidam com conceitos universais, aos quais podemos chegar de dois modos: ou pela síntese arbitrária de conceitos ou pela análise da representação cognitiva. 7

Conforme Kant, a matemática chega aos seus conceitos, geralmente, por meio da síntese, enquanto a filosofia, pela análise 8 . Tanto a matemática quanto a filosofia consideram o universal por meio de signos <Zeichen> 9 , porém, a diferença fundamental que há entre o procedimento simbólico da matemática em relação ao da filosofia consiste no fato de que a matemática ''considera o universal sob os signos <Zeichen> in concreto; a filosofia <Weltweisheit>, o universal mediante os signos in abstracto'' 10 . O que isto quer dizer? Basicamente que, na matemática, o conceito a ser definido nunca é dado antes de sua definição; i.e. um conceito matemático seu significadoé dado ao ser definido in concreto. Por exemplo, na geometria, o conceito de reta: ao concebermos o

1 Dissertatio, II, § 5.

2 Ibid., § 8.

3 Ibid., loc.cit.

4 Ibid., loc.cit.

5 Kant, Immanuel. Sobre a nitidez dos princípios da teologia natural e da moral trad. por Roberto Torretti, in: Rev.

Dialogos, v. 27, novembro de 1974, pp. 57-87

über die Deutlichkeit der Grundzätze der Natürlichen Theologie und der Moral. Zur Beantwortetung der Frage, welche die Königl.Akademie der Wissenscahften zu Berlin auf das Jahr 1763 Aufgegeben hat'', in:Immanuel Kant's, sämtliche Werke, in sechs Bänden, Band IV, op. cit.

A leitura desta tradução foi cotejada com a edição de ''Untersuchung

6 De acordo com Kant, esta diferença, porém, entre o claro e o obscuro, quanto a conceitos (entendimento) e representações (sensibilidade), tão exaltada por Leibniz e outros, como a tarefa da filosofia, não é meramente lógica, mas transcendental, pois se refere também à origem e ao conteúdo do conhecimento. B 61-62. Ver, também,

Dissertatio, II, § 7, de Vleeschauwer, tome I, pp. 150-151, Paton, I, p. 133.

7 Para uma análise mais detalhada e contemporânea desse ponto, sob essa perspectiva, ver o trabalho de Jeanne Peijnenburg: Formal Proof or Linguistic Process? Beth and Hintikka on Kant‟s Use of „Analytic‟, Kant-Studien, 85, pp. 160-178, 1994, especialmente, pp. 160-171.

8 Id. Sobre a nitidez dos princípios da teologia natural e da moral, pp. 60-1.

9 Ibid., p. 63.

10 Ibid., loc.cit.

conceito de reta como 'a menor distância entre dois pontos', devemos traçar no espaço mentalmente ou nãouma linha que ligue esses dois pontos quaisquer. Ou seja, quando definimos

o conceito de reta damos, ao mesmo tempo, o seu conceito e aquilo que ele representa (simboliza).

Quando definimos a reta, nós a construímos; inequivocamente, o conceito está relacionado com o objeto. Uma reta é sempre uma reta, não importando onde seja traçada, por quem seja pensada nem do que seja constituída. Ela é uma representação simbólica universal cujo signo representa o objeto (o simbolizado) in concreto, i.e. mediante signos inequívocos determinados no espaço-tempo sinteticamente e a priori, i.e. sob as condições da sensibilidade (como veremos) 1 .

Por isso, conforme Kant, pelo fato de os signos da matemática serem

meios sensíveis de conhecimento, com a mesma confiança com que alguém se certifica do que vê com seus próprios olhos se pode saber também que não se omitiu nenhum conceito, que cada comparação particular se efetuou conforme a regras sensíveis, etc. A atenção se vê muito facilitada porque não tem que considerar as coisas em sua representação geral senão aos signos em seu conhecimento particular. 2

Por outro lado, o procedimento da filosofia é ''completamente distinto'', pois os

signos do discurso filosófico não são nunca mais que palavras, que exibem em sua composição os conceitos parciais de que consta a idéia inteira a que a palavra aponta, nem são aptos para consignar em suas combinações as relações entre os pensamentos filosóficos 3 . [Nesse sentido,] as palavras, como signos de conhecimento filosófico, servem unicamente para evocar a memória dos conceitos universais que designam. 4

É por esse motivo que no tipo de conhecimento peculiar à filosofia, toda vez que refletimos sobre

algo temos de ''ter presente <vor Augen haben> seu significado de modo imediato, todo o tempo'' 5 , e somos levados a ''representar o universal in abstrato'', sem que possamos nos aproveitar do ''importante alívio que advém de manejar signos particulares <einzelne Zeichen> em lugar dos conceitos gerais das coisas mesmas''. 6

Ao contrário da matemática, em que um conceito só é dado ao ser definido, a filosofia tem de lidar com conceitos já dados no discurso ordinário, pois enquanto ''na matemática não tenho nenhum conceito de meu objeto até que a definição o dê, na [filosofia] tenho um conceito que já me foi dado, ainda que confusamente, e devo buscar o conceito nítido, minucioso e determinado

1 Ver, na KrV, a Doutrina Transcendental do Método, em especial, B 741-750, e, nos Prolegomena, o § 7 (A 49-50). Cf. Strawson, ''nosso conhecimento das verdades da geometria, ainda que dependente da intuição, é independente da intuição empírica. Não depende de modo algum da observação dos objetos físicos reais com os que conhecemos através dos sentidos. Depende completamente do exercício da faculdade da intuição pura espacial. Podemos, se quisermos, exercitar esta faculdade com a ajuda de umas linhas físicas desenhadas em um papel físico. Mas podemos fazê-lo igualmente bem com a imaginação. Por tal exercício conhecemos não só as características necessárias das figuras espaciais (p.ex., os triângulos e círculos) que construímos na intuição pura; conhecemos também as características necessárias do espaço no qual as construímos, p.ex., que é infinito e tridimensional. Desta forma podemos descrever com propriedade o mesmo espaço infinito (euclidiano) como uma intuição pura, quer dizer, como produto do exercício da faculdade da intuição pura. A tese do idealismo transcendental, no que se refere ao espaço, é a complexa tese de que a faculdade de intuição espacial, ou conhecimento espacial, que pode ser exercitada puramente, quer dizer, em total independência de qualquer afecção de nossa constituição cognoscitiva pelas coisas como são em si, é a mesma faculdade que, em um papel distinto, é, por assim dizer, excitada pelo efeito que sobre nós causam as coisas como são em si e que é então responsável por nosso conhecimento, na intuição pura, de itens ordenados e caracterizados espacialmente. E por esta razão, as matemáticas puras do espaço são as matemáticas do espaço físico, e as proposições da geometria pura se confirmam nos objetos físicos da intuição empírica''. Strawson, op. cit., p. 60.

2 p. 78.

3 Ibid., p. 63.

4 Ibid., p. 78.

5 Ibid., loc.cit.

6 Ibid., p. 64.

Sobre a nitidez

,

correspondente'' 1 , verificando, cada vez que este conceito for diferentemente aplicado, se ele ''não foi alterado, ainda que seu símbolo <Zeichen> siga sendo igual''. 2

A filosofia tem de lidar com palavras, cujo significado é conferido pelo uso destas no discurso usual. Na matemática, porém, conforme Kant,

o significado <Bedeutung> dos signos <Zeichen> é seguro, pois alguém pode facilmente se dar conta de qual é o que se quis conferir a eles. Na filosofia em geral e em particular na metafísica [que é uma filosofia acerca dos primeiros fundamentos de nosso conhecimento 3 ] as palavras obtêm seu significado mediante o uso idiomático <Redebraucht>, exceto quando se o determina com mais precisão por delimitação lógica. 4

Pois, para Kant, pelo fato de que costumamos usar

as mesmas palavras para expressar conceitos muito parecidos, que sem dúvida contêm oculta uma diferença considerável, cada vez que se emprega um conceito neste campo, ainda que sua denominação pareça exatamente apropriada conforme ao uso idiomático, temos que atender com grande cuidado para ver se [efetivamente <wirklich>] é um mesmo conceito o que se associa [em cada caso] ao mesmo signo. 5

Conforme a Lógica, ''[t]odos os conhecimentos, quer dizer, todas as representações relacionadas a um objeto são ou intuições ou conceitos. A intuição é uma representação singular (repraesentatio singularis), o conceito uma representação universal (repraesentatio per notas communes), ou refletida (repraesentatio discursiva)'' [sic]. 6 De acordo com Kant, na KrV, fora da intuição, nós só podemos conhecer por conceitos, por isso, o conhecimento humanamente consideradode todo o entendimento enquanto faculdade não sensível do conhecimentoé um conhecimento por conceitos, e portanto discursivo e não intuitivo. Para Kant, os conceitos são funções; e uma função é ''a unidade da ação de ordenar diversas representações sob uma representação comum''. É por meio dos conceitos que o entendimento formula juízos; e como o conceito é uma representação que nunca se refere imediatamente a um objeto, ''mas a alguma outra representação qualquer deste'', o juízo é o ''conhecimento mediato de um objeto, por conseguinte a representação de uma representação do mesmo''. 7

De acordo com Kant, a lógica geral não leva em consideração em sua atividade o conteúdo do conhecimento, mas apenas que representações sejam dadas e transformadas em conceitos 8 . E esse processo de sintetizar representações em conceitos, segundo Kant, é analítico. O que isto quer dizer?

1 Ibid., p. 70.

2 Ibid., p. 76.

3 Ibid., p. 68.

4 Ibid., p. 71.

5 Ibid., loc.cit. Antes da doutrina do idealismo transcendental especialmente no que se refere ao esquematismo dos conceitos puros do entendimento, como veremos, não era possível definir filosoficamente um conceito tal como o de substância com tanta precisão quanto um conceito geométrico, tal como o de reta, sem dificuldades. Pois seria sempre necessário fazer apelo ou a uma generalização ou a uma consideração empírica que antecede a definição desse conceito, e que advém do seu uso na linguagem, i.e. partir ou de um exemplo muito geral ou de um particular, para só então realizar a função de listar e reunir as notas características desse conceito, a fim de que ele pudesse ser um instrumento de classificação de objetos empíricos. Cf. Kant, ''há conceitos tais que podemos muito bem produzir a priori, alguns deles, sobretudo os que contêm unicamente o pensamento de um objeto em geral, sem que nos encontremos numa relação imediata com o objeto, por exemplo, o conceito de quantidade, de causa, etc.; mas, [mesmo estes, para conseguirem significado <Bedeutung> e sentido <Sinn>, necessitam <aber selbst diese bedürfen doch, um ihnen Bedeutung und Sinn zu verschaffen>] de um certo uso <Gebrauch> in concreto, i.e. de uma aplicação a alguma intuição <Anschauung>, através da qual nos seja dado um objeto <Gegenstand>''. Prolegomena, § 8, A 50-51.

6 Kant, Lógica, A 139/ Ak 91.

7 B 93.

8 B 102.

Segundo Longuenesse 1 , para Kant, ''todo juízo é síntese, quer dizer, ligação de representações''; e o que esta ligação tem de específico, no que se refere à síntese sensível, é ''que ela é ligação de conceitos'', i.e. ''ela tem por meio 'a unidade analítica da consciência' '' 2 . De acordo com Kant, a síntese de representações só é possível mediante ''a consciência dessa síntese'', pois, é só porque ''posso, numa consciência, ligar um múltiplo de representações dadas, [que] é possível que eu mesmo me represente, nessas representações, a identidade da consciência, isto é, a unidade analítica da apercepção só é possível pressupondo alguma unidade sintética qualquer'' 3 . E a ''unidade analítica da consciência'' eleva a unidade sintética de uma representação comum a coisas diferentes ao estatuto de um conceito comum (conceptus communis) 4 . Isto equivale a dizer que a relação de ''ser comum a vários'', que é a propriedade fundamental do conceito, é para Kant, a ''unidade analítica da consciência''.

Na Estética Transcendental encontramos o material dos conceitos puros do entendimento, que serão trabalhados na Lógica Transcendental: um diverso da sensibilidade a priori. Sem este diverso, dado como matéria, a Lógica Transcendental seria destituída de conteúdo, e, portanto, vazia. Disso se segue o seguinte: a lógica geral se ocupa dos conceitos, desconsiderando os objetos; a Lógica Transcendental, ao contrário, se ocupa dos objetos, quanto à sua fonte. 5

Na introdução à Lógica Transcendental, na Crítica da razão pura, lemos que o ''nosso conhecimento surge de duas fontes principais da mente, cuja primeira é receber as representações (a receptividade das impressões)'' a sensibilidade''e a segunda a faculdade de conhecer um objeto por estas representações (espontaneidade dos conceitos)'' o entendimento; ''pela primeira um objeto nos é dado; pela segunda [ele] é pensado em relação com essa representação'' 6 . O que Kant diz aqui é que o diverso de elementos da intuição pura a priori, que estão contidos no espaço e no tempo, dizem respeito à nossa sensibilidade, que pode receber representações de objetos. O entendimento, uma vez afetado por estas representações de objetos, deve poder produzir conceitos, a fim de que possamos pensar estes objetos dados, mas, para tanto, é necessário que este diverso dado de representações seja ''primeiro e de certo modo perpassado, acolhido e ligado para

1 Longuenesse, B., Kant et le Pouvoir de Juger Sensibilité et Discursivité dans l'analytique Transcendentale de la Critique de la Raison Pure, Paris, P.U.F., 1993.

2 Ibid., pp. 91-3.

3 B 133. Conforme Longuenesse, para Kant, todo juízo é síntese, i.e. ligação de representações. A especificidade desta ligação, no que diz respeito à síntese sensível, consiste em ser ligação de conceitos, ou seja, é realizada mediante a unidade analítica da consciência. Para Longuenesse, é a presença deste dois elementos síntese e análisena definição que Kant dá à forma lógica do juízo que é geradora de inúmeras incompreensões por parte de seus intérpretes, pois estes costumam não desvincular a noção de análise da noção de juízo analítico, e este ao fato de que a lógica geral, por tratar da forma lógica do juízo, só trata de juízos analíticos. Conforme Longuenesse, pelo fato de a tábua das categorias apresentar uma função apenas arquitetônica na exposição de Kant, e só tomando em consideração as ''simples formas do pensamento independentemente de todo o conteúdo, não pode nos ensinar nada do exercício do pensamento em sua referência ao objeto''. Para Longuenesse, ''a unidade analítica da consciência'' é diferente da ''ligação de conceitos em juízos analíticos''. A ''operação analítica'' , que opera sobre representações sensíveis e permite a formação dos conceitos, ''acompanha a unidade analítica da consciência'' (unidade da apercepção), e difere da análise dos conceitos (do sujeito e do predicado) formadores de juízos analíticos. Portanto, a ''unidade analítica'', de que fala Kant, e que provê a ''forma lógica do juízo'' é a primeira e não a segunda, pois, conforme Longuenesse, ''não é pela ligação analítica dos conceitos no juízo, mas a unidade analítica da consciência que 'se liga a todos os conceitos comuns como tais' ''. Disso se segue que, do fato de o juízo ter por matéria conceitos, ele ''tem por prioridade necessariamente representações dadas''. Para Longuenesse, só é possível compreender a tábua das categorias, de Kant, se entendermos antes o que ele entende por ''forma lógica do juízo'', pois, conforme Longuenesse, é por meio destas formas que ''se constitui o exercício do pensamento discursivo em geral''. Ibid., pp. 91-93; ver também pp. 221-223.

4 Conforme Allison, é importante observar, aqui, a razão pela qual Kant considera a tese referente à conexão entre ''apercepção e síntese como equivalente à tese de que a ''unidade analítica da apercepção é possível somente sob o suposto de uma certa unidade sintética''. De acordo com Allison, Kant começa a elaborar aqui a ''conexão entre

apercepção e entendimento, uma conexão [

5 Uma outra maneira de formular a mesma posição encontramos no segundo parágrafo de B 104, onde lemos: ''Diversas representações são postas analiticamente sob um conceito (tarefa concernente à lógica geral). A lógica transcendental, todavia, ensina a reportar não as representações, mas a síntese pura das mesmas a conceitos''.

6 B 74.

]

crucial para a totalidade do argumento da Dedução''. Allison, pp. 233-4.

que se faça disso um conhecimento'' 1 . Este ato, Kant denomina síntese 2 . Porém, para que se torne conhecimento propriamente dito, mesmo produzindo um primeiro conhecimento, essa síntese de um diverso dado requer que o entendimento a reporte a conceitos. 3

Para Kant, dada a sua distinção entre as duas fontes de conhecimento: a sensibilidade e o entendimento, é necessário que se distinga também os objetos com que se está lidando ao se formular conceitos, se objetos dados pela sensibilidade ou pelo entendimento puro, destituído de todo elemento empírico, pois, conforme Kant, existe uma confusão, que se estabeleceu freqüentemente na filosofia, entre os dois objetos e as duas faculdades, e que ele chama de anfibologia transcendental.

A intuição sensível fornece os dados empíricos (o múltiplo dado na intuição sensível), ao passo que o entendimento fornece os conceitos a priori e puros (as categorias), por meio dos quais os dados empíricos serão pensados. E é operando sobre esses dados com o auxílio dos conceitos do entendimento, que, por meio da razão, formamos os juízos, quer a posteriori (empíricos) quer a priori.

No Apêndice à Dedução Transcendental, Kant vai se dedicar a fazer a crítica àqueles que na filosofia não fizeram a distinção necessária entre: primeiro, fenômeno e noumeno; e, segundo, entre operação do entendimento e operação da sensibilidade. Fundamentalmente esta sua crítica vai incidir sobre dois filósofos que o antecederam, a saber: Leibniz e Locke. Leibniz é acusado por Kant de cometer o erro grave de converter o fenômeno em noumeno objeto do entendimentoe lidar com ele apenas por meio de conceitos construídos pelo entendimento, intelectualizando conceitos empíricos. Locke, por sua vez, ao contrário, converte o noumeno em fenômeno, valendo- se apenas de princípios empíricos para construir conceitos de objetos da experiência, sensualizando desse modo os conceitos.

O que Kant reclama no Apêndice é uma distinção entre dois tipos de reflexão que devem ser levadas em conta ao serem elaborados conceitos, ou seja, devemos comparar os conceitos (reflexão lógica), a fim de saber antes a que tipo de objeto estes conceitos se referem, se a objetos dados à sensibilidade, portanto, objetos sensíveis, ou a objetos meramente inteligíveis, portanto, do entendimento. E esta distinção é possível por meio da reflexão transcendental, pois, para Kant, a reflexão lógica, ao não levar em conta a fonte do objeto em questão no conceito, não pode informar nada acerca do conteúdo do conceito, não evitando assim que, devido ao mau uso dos dados da sensibilidade e das operações do entendimento, se confundam propriedades dos objetos com propriedades dos conceitos, ou melhor, propriedades dos objetos dados à sensibilidade com as dos objetos do entendimento puro.

Conforme Longuenesse 4 , a forma de ligações discursivas advém de uma operação fundamental: a comparação de representações comparação de representações sensíveis em vista da formação de conceitos que, por sua vez, são a ''forma que requer a faculdade de julgar''; ou seja, a comparação de conceitos em vista da formação de juízos. Kant, no texto pré-crítico Acerca da falsa sutileza das quatro figuras do silogismo 5 , define assim o ato de julgar: ''Julgar é comparar

1 B 102.

2 Para Kant, B 103, síntese é ''a ação de acrescentar diversas representações umas às outras e de conceber a sua multiplicidade num conhecimento''. Se esse múltiplo da intuição sensível não for dado empiricamente, ''mas a priori (como o múltiplo no espaço e no tempo)'', a síntese é pura, caso contrário, ela é empírica.

3 B 103. Cf. Paton, o pensamento ''nos dá a síntese sem a qual não há unidade em objeto algum''. Esta síntese, conforme Paton, é ignorada na Estética Transcendental. Paton, I, p. 98.

4 Longuenesse, pp. 131-137.

5 Kant, I., Textos Pré-críticos, trad. de José de Andrade e Alberto Reis, Porto, Editora, 1983, p.101. (Esta observação é feita por Kemp Smith, pp. 181-182).

qualquer coisa, tomada como característica, com outra coisa''; donde, a ''própria coisa é o sujeito; a característica é o predicado''. 1

Longuenesse reputa à noção de comparação, tão freqüentemente ignorada pelos intérpretes de Kant, elevada importância no corpo de sua doutrina crítica. E, longe de possuir, no uso que dela faz Kant, um caráter empirista o que vai contra a sua intenção de privilegiar ''a determinação do empírico pelo a priori''apresenta-se como uma operação lógica na formação de conceitos.

De acordo com Longuenesse, Kant, na Anfibologia 2 , sugere que se distinga entre comparação de objetos dados pela intuição sensível e comparação de conceitos. Esta comparação é chamada lógica, e é a que ele chama de reflexão lógica e que se distingue da outra, que ele chama de reflexão transcendental, que consiste em determinar a fonte a que pertence o objeto que é dado ao entendimento. Em outros termos, a reflexão transcendental consiste em realizar ''a distinção entre comparação de conceitos (comparação ou reflexão ''simplesmente lógica'') e comparação de objetos, como fenômenos'' 3 . (Uma outra versão da distinção entre os dois usos do entendimento: o lógico e o real, tal como vimos acima).

A Lógica orienta acerca do modo como, no entendimento, produzimos conceitos. Ou seja, como, de representações dadas, formamos conceitos e como estes se aplicam depois aos seus objetos. Se considerarmos novamente a frase citada acima do texto pré-crítico: ''Julgar é comparar qualquer coisa, tomada como característica com outra coisa'' e a compararmos com a definição de conceito empírico que encontramos na Lógica, a saber, é aquele que ''se origina dos sentidos pela comparação dos objetos da experiência e recebe mediante o entendimento unicamente a forma da universalidade'' 4 , podemos, de certo modo dizer que conceituar é julgar.

Os conceitos, de acordo com a Lógica, são notas características 5 , e estas são o fundamento do nosso conhecimento, pois, da parte do entendimento, o conhecimento humano é ''discursivo; quer dizer, ele tem lugar mediante representações que fazem daquilo que é comum a várias coisas o fundamento do conhecimento, por conseguinte, mediante notas características enquanto tais'' 6 . Ora, se ''os nossos conceitos são notas características'' e ''pensar é representar por meio de notas características'', então, o nosso pensamento representa por meio de conceitos 7 . E um conceito é gerado quanto à sua forma por meio dos três atos do uso lógico do entendimento: a comparação, a reflexão e a abstração. 8

1 ''Etwas als ein Merkmal mit einem Dinge vergleichen heißt urteilen. Das Ding selber ist das Subjekt, das Merkmal das Prädikat''. Kant, I., Die falsche Spitzfindigkeit der vier syllogistischen Figuren erwiesen, in: Immanuel Kant's sämtliche Werke in sechs Bänden, op.cit., p. 95.

2 ''Antes de todos os juízos objetivos, comparamos os conceitos para chegar à identidade (de muitas representações sob um conceito) com vista aos juízos universais, ou à diversidade de tais representações para a produção de juízos particulares; à concordância, da qual podem formar-se juízos afirmativos, e à oposição, da qual podem formar-se juízos negativos, etc. Por essa razão deveríamos, como parece, denominar conceitos comparativos (conceptus comparationis) os conceitos indicados.'' B 317-318.

3 Longuenesse, p. 134.

4 Kant, Lógica, A 141/Ak 92.

5 Em Ak 58/A 85, lemos o seguinte: ''(o) conhecimento humano é, da parte do entendimento, discursivo; quer dizer, ele tem lugar mediante representações que fazem daquilo que é comum a várias coisas o fundamento do conhecimento, por conseguinte, mediante notas características enquanto tais. Nós só reconhecemos <Erkennen>, pois, as coisas mediante

características [

uma representação parcial na medida em que é considerada como uma razão de conhecimento da representação

inteira. Por conseguinte, todos os nossos conceitos são notas características e pensar nada mais é do que representar mediante notas características.'' .

6 Ibid., Ak 58/A 85.

7 Conforme Kant, em B 94, ''todos os juízos são funções da unidade sob nossas representações'', pois, para que possamos conhecer um objeto, é necessário uma representação mais elevada que inclua a dele e outras mais, a fim de reunir num só conhecimento muitos conhecimentos possíveis. Para Kant, podemos ''reduzir todas as ações do entendimento a juízos, de modo que o entendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar'', porque ''é uma capacidade de pensar''. E pensar é conhecer mediante conceitos; estes, por sua vez, enquanto predicados de juízos possíveis, ''referem-se a uma representação qualquer de um objeto ainda indeterminado''.

8 Longuenesse, p. 135.

ou

Uma nota característica é aquilo que, numa coisa, constitui uma parte do conhecimento da mesma;

].

Mas para que estabelecer a identidade, a diversidade, a concordância e a oposição, por meio da comparação de conceitos antes de formar juízos objetivos? De acordo com Longuenesse, a comparação que Kant tem em vista é ''aquela por meio da qual conceitos são formados pela comparação de representações sensíveis'' 1 . Esta comparação é aquela que permite que ''objetos sensíveis sejam tornados representáveis e efetivamente representados por conceitos'' 2 , uma vez que todos os conceitos devem ter um uso empírico. Conforme Longuenesse, a ''comparação de representações sensíveis que dá lugar à formação de conceitos é orientada em direção da busca de caracteres comuns'' 3 . Nesse sentido, há um procedimento de conversão de representações ou intuições em conceitos.

A fim de produzir um conceito, conforme Longuenesse, as três operações do entendimento trabalham de forma conjunta. Mas é somente porque está vinculada às outras duas que a comparação se encaminha ao geral, i.e. ao conceito. De acordo com Longuenesse, comparar

representações em vista da formação de conceitos, é portanto comparar esquemas; e comparar esquemas, graças aos três atos conjuntos da comparação propriamente dita, da reflexão e da abstração, é acima de tudo suscitar estes esquemas na tensão mesma de suas identidades e diferenças. 4

Como vimos, o objetivo da lógica geral, de acordo com Kant, é o de saber como o entendimento pode referir-se a objetos em geral, ou seja, saber como ''representações dadas se tornam conceitos no pensamento'' 5 . Por isso, ela abstrai ''de todo conteúdo do conhecimento, isto é, de toda referência <Beziehung> do mesmo ao objeto, e só considera a forma lógica na relação dos conhecimentos entre si, isto é, a forma do pensamento em geral'' 6