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Razão e linguagem, modelo de base da gramática transcendental

na doutrina kantiana do uso das categorias 1

Manfred RIEDEL

Tradução de César Romero Fagundes de Souza*, 1997


e-mail: caesarsouza@gmail.com

Se, para a 'Crítica da razão pura', cabe ou não à linguagem uma função fundamental, esta questão
parece ser claramente decidível. A crítica de Kant trata da razão pura, que se constrói no poder a
priori da sensibilidade e do entendimento. Em comparação com ela, as relações formais do espaço,
do tempo e das categorias examinadas por Kant, consideram a linguagem quase como um poder a
posteriori —uma coisa do acaso, que nem sequer pela introdução do poder da imaginação, mediador
entre a sensibilidade e o entendimento, é considerada. Para a concepção mais atual nisso consiste
justamente o defeito do pensamento de uma constituição transcendental da experiência. Enquanto
Kant lida apenas no nível da linguagem-objeto, ele fala sobre intuição, imaginação e entendimento,
sem interrogar outra vez aí a possibilidade dessa linguagem, meta-linguagem, como se costuma
dizer. O que a filosofia transcendental perde é o fato da linguagem, que não pode ser igualmente
''puro'' como a razão e justamente por isso a Crítica é pobre. Regresso à linguagem! é por
conseguinte o lema geral que a crítica da razão contrapõe.
A frase não é nova. Ela articula um embaraço da filosofia desde seu começo, que com a dupla
interpretação da palavra grega 'logos' está associada. Nós gostaríamos de nomeá-la o problema
esotérico da relação razão e linguagem. Com isso não pensou que somente um círculo de
conhecidos fosse acessível, que este problema artificial produz, enquanto ele se isola para fora daí,
para a capacidade da linguagem ordinária e para a linguagem dos homens. Como razão e linguagem
se relacionam uma com a outra, é antes, desde a nomeação socrática do logon didonai, um
problema filosófico, provavelmente o problema central da filosofia. Em todo o caso, ele não
desempenha um papel assim, tal como se coloca na atividade filosófica, em nenhuma de nossas
atividades familiares. Todas as atividades dos homens, inclusive o conhecimento, / são ensinadas
para falarem uns com os outros e para se entenderem. É certamente indiscutível que os resultados
científicos têm de ser mostrados por meio da linguagem. Mas nenhum cientista concluirá, do fato da
exposição lingüística, que a linguagem pertença por isso ao problema central da sua disciplina, —
que ela não seja somente um fato empírico, mas um princípio, para falar com Kant: a condição de
possibilidade do conhecimento.

1
Tradução do capítulo ‘Vernunft und Sprache, Grundmodell der transzendentalen Grammatik in Kants Lehre vom
Kategoriengebrauch’, pp. 44-61, do livro Urteilskraft und Vernunft, Kants ursprüngliche Fragenstellung,
Suhrkamp Verlag Frankfurt am Main, 1989.
*
Doutorando em Filosofia, PUCRS.
Como sempre então, quer-se com isto da mais correta atitude: que o autor da 'Crítica da razão pura'
não esclareceu esse problema, sim, passou por alto calado, esta é uma das principais objeções, que
já tinham sido feitas a ele pelos seus primeiros leitores. A crítica da razão de Kant, conforme o
argumento de Herder, que se assemelha também ao de Hamann e Jacob, que não procede de
maneira suficientemente crítica, transcende a linguagem que nós falamos e com isso a condição
fundamental <Grundbedingung> da possibilidade da experiência, que o verdadeiro filósofo crítico
tem de investigar.
O que Herder 20 anos depois do aparecimento da obra de Kant sob o título programático de uma
''Metacrítica'' traz a público, não é senão o próprio argumento do caráter transcendental da
linguagem, que para nós hoje, depois de 200 anos ocupados com interpretações da Crítica da razão
pura, em geral ocorre. A opinião dividida tanto da filosofia analítica como da filosofia
hermenêutica é que as condições de possibilidade da experiência não são encontradas na
combinação regulada e compreendida racionalmente por intuição e categoria, mas em um jogo
lingüístico articulado de ambas, que enquanto tal permanece apenas racionalmente relativo, i.e.
regulável e compreendível. A razão é mais propriamente ainda limitada; ela tem de aparecer, ou
seja, na linguagem, que está transcendentalmente diante de toda a aparência e pensamento. Se a
filosofia transcendental investiga as condições de possibilidade da experiência, / ela só pode tomar a
forma da filosofia da linguagem. A crítica e a hermenêutica da linguagem entram nesse momento na
posse da crítica da razão kantiana.
A reivindicação levantada aqui é tão extensa como ambígua. Em Herder já se apresenta com a frase:
regresso à linguagem! a esperança de uma ''filosofia efetivamente primeira e última'', —da
dominação da metafísica da razão pura através de uma ''linguagem pura do entendimento
reconhecido'', da qual toma a condição interpretativa hermenêutica. E Herder combina com isto o
mesmo juízo sobre Kant, que se expressa, extremamente confessado ou discreto, na atual mudança
para a crítica da linguagem: que a KrV não seja mais filosoficamente abandonada no tempo, através
da descoberta do caráter transcendental da linguagem. Um trabalho semelhante pode ser de
interesse mais histórico do que prático. Para citar mais uma vez Herder, é um ''monumento do
tempo'', que descreve com um método de filosofar tornado prematuro o ''modelo de versificação
artística'', —uma rede de termos artificiais sem apoio da linguagem corrente
<umganssprachlichen>.
A objeção, [de] que Kant terminologiza inutilmente a linguagem filosófica, atinge certamente mais
o problema esotérico, [acerca de] como a filosofia se comunica com o exterior, i.e. ela tem de
mostrar seu objeto <Sache> lingüisticamente <sprachlich>. Para isso, Kant tinha observado na
Crítica que o filósofo não pretende ser legislador na linguagem, que, em vez de ''forjar novas
palavras'', ele prefere verificar se ele não encontra seus termos, com a respectiva expressão
lingüística adequada, já dados de antemão na tradição. O problema esotérico da exposição
lingüística da filosofia é adequadamente resolvido pelo significado dos termos reservados já
introduzidos ou, no caso de ele no decurso do tempo se tornar oscilante, se consolida-o novamente.
O mais difícil reside na segunda objeção de Herder, segundo a qual Kant com a orientação do
método transcendental pensou sobre a pureza da intuição, do entendimento / e por último da razão
ao largo da linguagem. Esta objeção parece atingir um fato, que cada leitor da Crítica tem de
reparar que Kant não destacou expressamente a participação da linguagem na formação <Formung>
da experiência possível, quando ele investigou as relações formais da sensibilidade e do
entendimento. E que essa investigação em regra desemboca numa fixação terminológica do uso das
palavras, isso tampouco pode ser uma dúvida. Nós fazemos por isso a objeção, não para deixar
simplesmente à parte, porém para submetê-la a uma prova cuidadosa. Isso deve ocorrer em dois
escritos. Eu inicio com algumas explicações prévias sobre a relação entre razão e linguagem e sua
exposição por Kant (I), para então me ocupar dos tipos de função da linguagem no resultado da
doutrina das categorias, que remete de uma crítica da razão em direção a uma crítica da linguagem
(II).

A revisão do argumento da primeira objeção reduz à pergunta: que função da linguagem em geral é
concedida na filosofia crítica. Para esclarecê-la, nós temos aqui que voltar a falar sobre o por mim
acima denominado problema esotérico da filosofia. Sua discussão é até hoje sombreada pela típica
argumentação daquele pensamento que Kant caracterizou como dogmático. Eu me limito à menção
de dois tipos: 1. a nomeação de fundamento último e 2. a distinção entre forma e matéria. A relação
entre <von> razão e linguagem permite portanto em princípio a melhor solução. O que aquela
palavra ambígua quer sempre envolver —a razão, conforme a solução lingüística, é
lingüisticamente condicionada; ela se materializa em atos de fala <Sprechakten> e situações de fala
<Sprechsituationen>, que são relativas a uma comunidade lingüística espaço-temporalmente
determinada. A razão, conforme uma outra solução, que num levantamento da primeira poderia
chamar-se racionalista <rationalistisch>, excede a todos os atos e situações de fala; sua realização
é interlingual, ou seja não necessita de nenhuma comunidade lingüística espaço-temporal. Pela
primeira solução se decidiu a crítica da linguagem e a hermenêutica, enquanto a / segunda, de
acordo com os melhores aportes à especulação do 'logos' grego, predomina na moderna filosofia da
consciência de Descartes a E. Husserl. Ambas são no sentido dogmático, que elas de modo algum
poderiam considerar em seu respectivo princípio outras possibilidades teóricas senão: ou a razão
fundamenta a linguagem ou ao contrário aquela nesta, não existe uma terceira. Embora a solução
lingüística relativize o aspecto da razão e com isso favoreça mais o ceticismo, ela concorda com o
postulado fundamental racionalista. Razão e linguagem se relacionam uma e outra como forma e
matéria, fundamento e fundamentado. É a relação fundamental do dogmatismo, separar o
condicionado da condição um do outro —uma relação que só é derrubada quando se sai da
incondicionalidade das relações. Que certamente isto ocorre em Kant, que a Crítica aqui marca um
outro começo, eu gostaria de mostrar com meu artigo.
A tese segundo a qual tanto ''razão'' como ''linguagem'' são incondicionadas não considera que
ambas sejam ''sem fundamento'' <unbegründet>. Não condicionado <Unbedingtheit> não é o
mesmo que não fundamentado <Unbegründetheit>. Ela exclui o pensamento-fundamento
<Gründe-Denken> dogmático, o postulado do fundamento último no sentido do moderno
cartesianismo, sem com isso falar da renúncia fundamental <Begründsgverzicht> cética da palavra.
Que a relação seja ''incondicionada'', esta tese considera apenas: que tanto a razão como a
linguagem se fundam em uma relação que por sua vez não se deixa ''fundamentar'', porque ela
representa a condição de possibilidade do fundamento. Eu gostaria de chamá-la de correlação
transcendental entre razão e linguagem, na qual entendo aqui por ''transcendental'': indiferente
perante a distinção entre ''matéria'' e ''forma'', ''fundamento'' e ''fundamentado''. Ela é a base daquela
terceira solução do problema, que nós poderíamos designar de zetética. Eu afirmo que ela existe na
Crítica.
A afirmação pode parecer estranha para aquele que procura no trabalho de Kant um tratamento
explícito dos problemas. Quem espera por isso, pode ser ver frustrado. Daí não se necessita concluir
todavia com Herder e Hamman que a relação entre razão e linguagem seja confusa ou que sua
importância seja subestimada —que a crítica da razão passa ao largo da linguagem. Poderia ser sim
que tenha que ficar em suspenso, porque este é o pressuposto para uma / solução do problema
esotérico: com isso ele, enquanto fundamento, não é jogado de um aspecto para o outro. A solução
do problema zetético pressupõe a crítica do pensamento-fundamento, porque é somente o concurso
da linguagem e da razão que corresponde à estrutura da correlação transcendental e à sua
argumentação típica exigida.
A linguagem conta em Kant entre aqueles conceitos da razão, que dizem respeito diretamente ao
objeto da Crítica e justamente por isso nunca se torna temático. Isto a diferencia de expressões
como ''transcendental'', ''constitutivo'' e ''regulativo'', dos quais o significado é plenamente esgotado
e o uso terminológico é rigorosamente fixado. Como uma distinção adotada na escola
fenomenológica, nós devemos chamá-la de um conceito operativo da razão <operativen
Vernunftbegriff>, o qual pertence à Lógica, que não pode ser expressamente tematizado. Conceitos
se chamam, portanto, operativos, se ela opera de modo atemático. A linguagem é em contrapartida
somente um exemplo, que conduz o modo operativo de funcionar para a atividade da capacidade de
julgar.
A palavra ''exemplo'' é certamente imprecisa, se nós por debaixo disso entendermos que uma
matéria acessível à intuição apresenta ou ilustra diretamente uma outra que não pode ser claramente
a mesma. A esse respeito a linguagem não é exemplo de outra coisa. Enquanto ela opera, ela sempre
proporciona a si mesma apenas a execução de um juízo em concreto. Justamente nisso consiste seu
caráter transcendental, que Kant reconhece enquanto tal e que analisa através da forma
metodicamente interessante de exemplos, que são derivados do domínio da linguagem. Exemplos
deste tipo jamais dão imagens, mas sempre apenas pré-imagens ou esboços de seus domínios de
origem. Em vez de representá-los diretamente, elas podem somente remeter a eles. O que Kant
chama de ''exemplo derivado'' são em essência modelos, que evidenciam diretamente o modo
diferente de funcionar lingüisticamente da capacidade de julgar. Modelos —Kant evidencia
eventualmente esta expressão, sem precisá-la mais de perto— não são partes nem imagens daquele
ao qual elas se referem. Elas variam seu domínio de origem através de outros critérios, enquanto
elas perpassam as relações formais da / intuição e do entendimento com a forma da atividade da
capacidade de julgar e iniciam assim a possibilidade da determinação categorial.
A Crítica conhece dois modelos semelhantes, que apresentam indiretamente como a linguagem
opera pela atividade da capacidade de julgar no guia transcendental da constituição da experiência
possível. Um destes é o modelo da gramática, quer dizer da regra da qual uma linguagem depende,
o outro modelo, a soletração da palavra e da ordem da palavra, quer dizer do emprego da regra em
caso textual concreto. Para isso vem um terceiro modelo, sobre a idéia transcendental da
constituição do objeto da experiência externa, que conduz ao problema da relação lingüística
correlativa entre capacidade de julgar e razão. É o modelo do interpretar, no qual a leitura é
refletida ou explicada no contexto. Os modelos não são arbitrariamente ordenados. Eles estão um
com o outro numa determinada relação de ordenação, que corresponde, a estrutura da Crítica com
certeza diz, à distinção entre forma da intuição, categoria e idéia. Os primeiros dois modelos se
referem à distinção fundamental para a filosofia crítica como um todo entre o objeto do pensamento
e do conhecimento, que é encontrado no fim do resultado da Estética Transcendental na doutrina
das categorias da Lógica Transcendental; o terceiro esboça a especificidade metódica da
interpretação —a participação de um poder da razão, cujo meio não proporciona mais objetos no
verdadeiro sentido, mas a própria linguagem na sua unidade essencial com a razão. A aceitação do
poder da razão pressupõe que ela se atualize. No caso do pensamento e do entendimento ocorre o
que, naquele modo mais geral da linguagem funcionar, se chama a tradicional ''categoria''. Kant
toma isto do termo introduzido por Aristóteles, para com isso distinguir os conceitos elementares
deduzidos das funções fundamentais da capacidade de julgar. ''Seguindo Aristóteles,
denominaremos tais conceitos categorias na medida em que nossa intenção, em princípio,
identifica-se com a de Aristóteles, se bem que se afaste bastante dele na execução.''. 2 Ela é igual,
porque Kant / não entende como Aristóteles sob ''categorias'' palavras que apenas indicam objetos
(como ''água'', ''ouro'', ''raposa''), mas elas enquanto tais caracterizam, —o que, como Kant também

2
B 105 (Tradução brasileira, 1980).
se expressa, ''constituem um conceito da coisa'' (B 765). A categoria necessita também da intuição
pura, um poder não da razão com certeza, mas da sensibilidade, que tem de se atualizar de maneira
própria. Embora Kant aqui vê no trabalho conceitos caracterizados igualmente (os de ampla
determinação como ''ponto'', ''linha'', ''plano''), eles não são convertidos na forma característica da
linguagem da obscuridade <Unanschaulichkeit>, quer dizer refletidas, entendidas e interpretadas,
mas construídas na intuição. A ''Construção'', a apresentação de conceitos na intuição, é o modo de
funcionar do Matemática, que é uma ''linguagem'' somente no sentido transferido. A Matemática é
conhecimento racional da construção dos conceitos (B 741). Isto a distingue não só das ciências
normativas como ''Ética'', ''Jurisprudência'' e ''Política'', como também da Filosofia. Enquanto
''conhecimento racional por conceitos'' eles não são apenas lingüisticamente compostos, mas são
indicados pela correlação transcendental entre razão e linguagem na execução dos juízos. Ela está
na origem daqueles três modelos e dos seus correspondentes atos de pensar, conhecer e interpretar.
A definição de ''pensar'', que Kant dá na Crítica, é totalmente orientada para o contraste [em
relação] à ''intuição''. Kant diz, no início da Lógica Transcendental com aquela locução
antropológica ambivalente, que não são nem empírica bastante nem apoiada transcendentalmente,
que a ''nossa natureza é constituída de um modo tal que a intuição não pode ser senão sensível, i.e.
contém somente o modo como somos afetados por objetos. Frente a isto, o entendimento é a
faculdade de pensar o objeto da intuição sensível.''3. Pensar, o poder do entendimento, quer dizer o
mesmo que atualizar conceitos, o que se dá sobre a função de julgar. O que esta atualização
normalmente lingüística executa e que em geral todas as atividades da capacidade da razão estão
comprometidas com a linguagem, pressupõe a investigação transcendental. É a pressuposição, que
ela enquanto filosofia tem que fazer, / aí o conhecimento racional por conceitos jamais pode obter
certeza demonstrativa, i.e. uma evidência fundamental comparável à Matemática. Em seguida, a
distinção entre conhecimento matemático e filosófico reconduz Kant por último da dedução das
categorias iniciadas até aí para a prova dos princípios, que os argumentos transcendentais dependem
da correlação entre razão e linguagem. Seu modo de provar, diz Kant, não é demonstrativo-
apodítico, mas acroamático, ''pois só podem ser efetuadas através de puras palavras (o objeto em
pensamento)'', enquanto a Matemática mostra por signos artificiais os conceitos na intuição.4 Os
princípios, nos quais a razão se manifesta mediante as categorias, quer dizer manifesta objetos da
experiência possível, não são o que se deixa ver. Nós podemos indicá-los enquanto a própria
exposição da razão —uma maneira de exposição, enquanto é determinada pelo ouvir e entender. O
que a investigação crítica tematiza não são simples atos do pensar puro ou do pensamento, mas
declarações e pensamentos proferidos. Kant indica isto ocasionalmente quando ele escreve que as
categorias ''dizem'' algo ou conforme o modo de falar dão a ''entender'' algo. 5

3
B 75 (Trad. brasileira).
4
B 763.
5
B 333.
A exposição das expressões para ''pensar'' têm em conta o que Kant nos sugere. ''Pensar'', significa
na 'antropologia em sentido pragmático', ''é falar consigo mesmo..., por conseguinte, também ouvir-
se interiormente (por meio da imaginação reprodutiva)''. 6A explicação está no contexto de uma
declaração sobre a linguagem, que acentua a participação dela mesma na transposição do ouvir no
entender: ''Toda linguagem é designação dos pensamentos, e, ao contrário, a forma mais eminente
de designar pensamentos é através da linguagem, este máximo meio de entender-se a si mesmo e
entender os demais''. 7Enquanto a linguagem aqui, inteiramente na marcha da solução racionalista
do problema esotérico, instrumentaliza e o pensamento é ordenado, as Enzyklopädie-Vorlesungen
(1781/82) fazem valer o nexo original. / Elas se fundam no modelo gramatical <Grammatik-
Modell>:''Aqui a forma da linguagem e a forma do pensamento é paralela e semelhante uma à outra,
porque nós pensamos sempre em palavras e nossos pensamentos comunicam a outros através da
linguagem, portanto há uma grma'tica do pensamento''. 8
Nós encontramos o mesmo modelo nos 'Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik'' (1783):
''Extrair do conhecimento comum os conceitos que não se fundam em nenhuma experiência
particular e que, não obstante, ocorrem em todo o conhecimento de experiência, de que, por assim
dizer, constituem a simples forma de conexão, não exigia uma maior reflexão ou mais
discernimento do que extrair em geral, de uma língua, as regras do uso [efetivo <wiklichen>] das
palavras e reunir assim os elementos de uma gramática <Grammatik> (na realidade, estes dois
empreendimentos são entre si muito aparentados), sem no entanto poder indicar a razão por que
cada língua possui justamente esta característica formal e não outra, ainda menos porque é que, nem
mais nem menos, se podem em geral encontrar tais determinações formais da mesma.'' Nós temos
todavia que levar em conta que Kant estabelece um corte distinto entre a doutrina das categorias e a
da linguagem. Isto pode também não ser totalmente diferente, já que o problema das categorias se
relaciona intimamente como o problema esotérico da Filosofia. Nascido ''entre'' razão e linguagem
ou, em disciplina de classificação, manifestado nos limites da lógica e da gramática.

6
Antropologia em sentido pragmático, I, [§ 39]
7
Ibid.
8
Vorlesungen über Philosophische Enzyklopädie (1781/82), hrsg. v.G. Lehmann, Berlin 1961, S. 55; Prolegomena, 2.
Teil, § 39, Anhang.