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SEGUIMENTO DO RECÉM-NASCIDO DE RISCO

(FOLLOW-UP)
Mônica de Lima Lemos / Sérgio Henrique Veiga / Rosângela Cândido Marinho/ Rita de
Cássia Dias / Fernanda dos Reis Macri

Capítulo do livro Assistência ao Recém-Nascido de Risco, editado por Paulol R.


Margotto, 2a Edição, 2004

O seguimento do recém-nascido (RN) de risco é uma especialidade estabelecida na


maioria dos serviços de saúde dos países desenvolvidos. No Brasil, os primeiros
ambulatórios de Follow-up surgiram na década de 80. Neste primeiro momento os cuidados
eram voltados principalmente para os aspectos clínicos dos bebês acompanhados.
Com o desenvolvimento dos programas, foram ampliados os objetivos do
seguimento, dos quais podemos citar: detecção e intervenção das alterações do
desenvolvimento neuro-psico-motor da criança, suporte à família e realização de pesquisas
com grupos específicos de RN.
Com a ampliação dos objetivos do programa tornou-se necessária a formação de
equipes interdisciplinares para melhor atendimento da clientela.
No Hospital Regional da Asa Sul (HRAS), o ambulatório interdisciplinar de
Follow-up do RN de Risco surgiu em 1999, com o objetivo inicial de triar as crianças com
seqüelas neurológicas e acompanhá-las. Atualmente acompanhamos todos os RN pré-termo
abaixo de 1000g, os com alterações neurológicas, dentre outros. Os nossos registros contam
com 287 crianças acompanhadas, 24 altas e 13 encaminhadas a outros Serviços.

ORGANIZAÇÃO DO ATENDIMENTO

O programa seleciona os RN de maior risco e estabelece critérios para o


seguimento:
São priorizados os seguintes grupos:
• Peso ao nascer inferior a 1000g;
• Asfixia perinatal;
• RN com alterações neurológicas (convulsões, alterações tônicas);
• Infecções congênitas;
• Malformações no tubo neural;
• Síndromes genéticas.
• RN com alterações na substância branca cerebral detectadas na ecografia
cerebral.
Os marcadores da lesão da substância branca incluem:
 ecoluscência periventricular
 ecodensidade periventricular (hiperecogenicidade periventricular)
 ventriculomegalia
As incidências de paralisia cerebral (PC) e retardo mental (RM) estão associados
com a extensão do acometimento da substância branca. Vejam:
Fronto- parietal-occipital – PC: 91% - RM: 49%
Occipital – PC: 67 – RM:23%
Parieto-occipital – PC: 91% - RM: 35%
Parietal – PC: 60% - RM: 23%
Fronto-parietal – PC: 60% - RM: 8%
Frontal – PC: 6% - RM: 12%
PC: paralisia cerebral / RM: retardo mental

O programa de Follow-up do HRAS busca acompanhar todas os egressos da UTI


neonatal dos grupos acima citados, e alguns encaminhamentos de outras Regionais de
Saúde da rede pública hospitalar.

FLUXO DE PACIENTES

Os RN mais graves são avaliados ainda durante o período de internação, onde são
agendadas as consultas posteriores.
O maior grupo é encaminhado ao ambulatório pela equipe de neonatologia após a
alta hospitalar; um terceiro grupo é encaminhado após passar pelo exame de ecografia
transfontanelar. Temos também os pacientes egressos de outras UTI neonatais da Rede
Hospitalar do DF e Entorno.
O ambulatório funciona uma vez por semana, tendo cinco consultas de primeira vez
e agenda de retorno aberta.
O agendamento das consultas subseqüentes é realizado de acordo com cada caso e
de sua necessidade.
A cada consulta é realizado o exame clínico, exame neurológico, avaliação visual,
avaliação auditiva, avaliação neuro-motora e funcional, e avaliação social.
Os pacientes são acompanhados até 7 (sete) anos de idade cronológica, quando
então recebem alta ou são encaminhados a outros Serviços se fôr necessário.

EQUIPE INTERDISCIPLINAR

A equipe do ambulatório interdisciplinar de Follow-up do RN de risco do HRAS é


composta pelo neonatologista, neurologista, terapeuta ocupacional, fonoaudióloga e
assistente social.

ROTINAS DE AVALIAÇÃO

Inicialmente é feita uma ficha de identificação do paciente com os dados pessoais e


as informações colhidas no resumo de alta do mesmo.
As crianças são então avaliados pela equipe interdisciplinar em um mesmo espaço
(físico e de tempo) onde cada um colhe as informações necessárias para uma semi-
discussão de caso posterior. É conversado com a mãe sobre as dificuldades apresentadas ou
não pelo bebê, sobre a medicação em uso, e sobre os acompanhamentos necessários para
um bom desenvolvimento do bebê, tais como fisioterapia, terapia ocupacional,
fonoaudiologia, estimulação precoce, etc.
Após a avaliação, são determinados a periodicidade dos retornos, os
encaminhamentos necessários a outras especialidades, as providências sociais cabíveis e
acompanhamentos extras (da terapia ocupacional e serviço social) que serão realizados no
próprio Hospital.

AVALIAÇÃO DA NEONATOLOGIA

O objetivo do neonatologista na equipe é o exame clínico do paciente, visualização


do cartão de vacinas, curva de desenvolvimento, avaliação de peso, estatura, perímetro
cefálico.
È realizada a orientação nutricional, onde há o estímulo ao aleitamento materno
exclusivo até o 6o. mês, introdução de frutas, sucos, sopas, e manutenção do aleitamento até
o 2o. ano de vida. Os alimentos são sempre oferecidos com colher e os líquidos com copo.
Há um esforço da equipe para se evitar o uso de mamadeiras e quando a mãe já está
usando, é feito um trabalho de orientação e convencimento com a Fonoaudiologia e
Pediatria, mostrando os riscos e prejuízos para o desenvolvimento da musculatura orofacial
e sistema sensório-motor oral.

AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA

Tem sua importância em considerar o exame neurológico normal para determinada


idade. É realizado para identificar anormalidades e classificar de acordo com os tipos
clínicos, síndromes e intensidade.
O exame se constitui por observação, teste de reflexos arcaicos, miotáticos, pares
cranianos e medida de perímetro cefálico (consulte o capítulo Exame Físico Neonatal /
Exame Neurológico).
È feito também o acompanhamento do paciente após os métodos de estimulação
utilizados (terapia ocupacional, fonoaudiologia, fisioterapia, etc), para se observar a
evolução do mesmo.
O estabelecimento do diagnóstico e plano de ação se dão através do planejamento
do acompanhamento, introdução de outros reflexos de acordo com a idade, observação do
desaparecimento dos reflexos arcáicos e tratamento medicamentoso quando necessário.

AVALIAÇÃO DA TERAPIA OCUPACIONAL

Cabe ao Terapeuta Ocupacional avaliar junto aos médicos neonatologista e


neurologista o desenvolvimento neuro-psico-motor do bebê, e caso haja disfunção em
qualquer uma das áreas, acompanhá-lo em sessões semanais objetivando a estimulação
global.
Até as quarenta semanas de idade pós-concepcão os bebês são avaliados pelo
Prechtl´s Method on Qualitative Assessment of General Movements, que consiste na
avaliação qualitativa dos movimentos globais do bebê. Á partir das quarenta semanas de
idade pós concepcão, é utilizado o Alberta Infant Motor Scale (AIMS), que é uma escala de
desenvolvimento de 0 a 18 meses.

AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA

Pesquisa-se o desenvolvimento da audição, cognição e a necessidade de estimulação


da sucção não-nutritiva e nutritiva. É oferecido orientação e auxílio ás mães, e quando
necessário, encaminhamento para tratamentos específicos.

AVALIAÇÃO SOCIAL

Trata-se de anamnese do grupo familiar com vistas a avaliar os aspectos sociais,


relacionais e estruturais que poderão dificultar a adesão ao tratamento do RN. Após o
diagnóstico, faz-se os encaminhamentos necessários para acessar os serviços (passe livre,
benefício do portador de deficiência, apoio social, etc) e medidas protéticas cabíveis junto
ás autoridades competentes (Vara da Infância, Conselhos Tutelares). Há casos em que a
família continua o tratamento no sentido de fortalecer as figuras parentais, tanto na
interação com o RN, como na promoção de uma rede comunitária de apoio familiar.

ALTA
A alta é dada aos sete anos de idade, quando são realizadas avaliações de nível de
desenvolvimento.Com os resultados em mãos é decidido a alta do paciente ou o
encaminhamento a outro serviço, caso se mostre necessário.

BIBLIOGRAFIA:

1. Lopes SMB, Lopes JMA. Follow-up do Recém-nascido de Alto Risco. Rio de


Janeiro, Medsi, 1999.
2. Pipper MC, Darrah J. Motor Assessment of Developing Infant. Philadelphia: W.B.
Saunders Company; 1994.
3. Ministério da Saúde. Atenção Humanizada ao Recém Nascido de Baixo Peso.
Método Mãe Canguru, Ministério Sa saúde; 2002.
4. Azevedo MF, Vieira RM, Vilanova LCP. Desenvolvimento auditivo de crianças
normais e de alto risco. São Paulo, Plexus, 1995.
5. Andrade CLR. Fonoaudiologia em Berçario Normal e de Risco. São Paulo, Lovise,
1996.
6. Basseto MCA, Brock R, Wajnzetejn. Neonatologia – Um convite á fonoaudiologia.
São Paulo, Lovise, 1998.
7. Zorzi JL. A aquisição da linguagem infantil. Rio de Janeiro, Pancast, 1993.
8. Alisson, J. elliot – A linguagem da criança .Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1982
9. Neurologia Infantil,3ª Edição. Diament A, Cypel S, Livraria Atheneu,1996
10. Problemas Neurológicos do Recém Nascido, Costa Vaz F.A., Ed.Savier, 1985
11. Neurologia Pediátrica,2ª Edición. Fejerman N, Álvarez EF, Editorial Médica
Panamericana S.A. 1997.
12. Pediatric Neurology, 2ª Edition. Swaiman K F, Ed. Mosby,1994.
13. Neuropediatria, Rosenberg S, Ed Savier, 1992.
14. Neurociência Básica, 2ªEdição. Guyton AC, Ed.Guanabara Koogan,
1991.
15. O’Shea M. Follow-up do prematuro extremo: Como e quando fazer.
In: Margotto PR.Boletim Informativo Pediátrico (BIP)-Brasília, N0 66, pg 196,
2003