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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO

ANDRÉ FELIPE TORQUATO LEÃO

A TERCEIRIZAÇÃO NO CONTEXTO DO ULTRALIBERALISMO GLOBAL E DA


DUALIZAÇÃO DO ASSALARIADO:
o desmonte das conquistas e das garantias sociais

Dissertação de Mestrado

Recife,
2017
ANDRÉ FELIPE TORQUATO LEÃO

A TERCEIRIZAÇÃO NO CONTEXTO DO ULTRALIBERALISMO GLOBAL E DA


DUALIZAÇÃO DO ASSALARIADO:
o desmonte das conquistas e das garantias sociais

Dissertação apresentada no Programa de Pós-


graduação em Direito da Universidade Federal de
Pernambuco para obtenção do grau de Mestre em
Direito.

Área de Concentração: Teoria e Dogmática do


Direito.
Linha de pesquisa: Relações Contratuais Privadas
Supranacionais.

Orientador: Professor Doutor Everaldo Gaspar


Lopes de Andrade.

Recife,
2017
Catalogação na fonte
Bibliotecário Josias Machado CRB/4-1601

L437t Leão, André Felipe Torquato


A terceirização no contexto do ultraliberalismo global e da dualização do
assalariado: o desmonte das conquistas e das garantias sociais. – Recife: O
Autor, 2017.
258 f.

Orientador: Everaldo Gaspar Lopes de Andrade.


Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CCJ.
Programa de Pós-Graduação em Direito, 2017.
Inclui bibliografia.

1. Terceirização. 2. Globalização. 3. Liberalismo. 4. Neoliberalismo. 5.


Teoria crítica. 6. Direito do trabalho. I. Andrade, Everaldo Gaspar Lopes de.
(Orientador). II. Título.

344.8101CDD (22. ed.) UFPE (BSCCJ2017-16)

LEI - 10848 de 15/03/2004


10848 de 15/03/2004
André Felipe Torquato Leão

“A Terceirização no Contexto do Ultraliberalismo Global e da Dualização


do Assalariado: o Desmonte das Conquistas e das Garantias Sociais”

Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em


Direito da Faculdade de Direito do Recife / Centro de Ciências
Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco, como
requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Direito.
Área de concentração: Teoria e Dogmática do Direito.
Orientador: Prof. Dr. Everaldo Gaspar Lopes de Andrade.

A banca examinadora composta pelos professores abaixo, sob a presidência


do primeiro, submeteu o candidato à defesa, em nível de Mestrado, e o julgou nos
seguintes termos:

MENÇÃO GERAL:________________________________________________

Professor Dr. Aurélio Agostinho da Bôaviagem (Presidente)


Julgamento:____________________ Assinatura:______________________

Professora Drª. Juliana Teixeira Esteves (1ª Examinadora externa/UFPE)


Julgamento:____________________ Assinatura:______________________

Professora Drª. Rogéria Gladys Sales Guerra (2ª Examinadora externa/UNICAP)


Julgamento:____________________ Assinatura:______________________

Recife, 23 de fevereiro de 2017

Coordenadora Profª. Drª. Juliana Teixeira Esteves.


AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha família pelo apoio e pelos sacrifícios feitos em prol de minha
formação.

À minha mãe, que esteve sempre ao meu lado, me educando, me ajudando em


tudo o que eu precisava, e zelando constantemente pelo meu bem- estar em todos os
sentidos.

Ao meu pai, que sempre me serviu como importante referencial, passando-me


valiosos ensinamentos e auxiliando- me na construção da minha visão de mundo.

À minha avó Edna, por todo o amor e dedicação dispensada em favor de minha
educação, me ensinando, pacientemente, a ler e a escrever, bem como incentivando o
meu gosto pela leitura.

Ao meu falecido avô João, exemplo de homem brilhante, e que sempre esteve
disposto a ajudar, de maneira generosa, em todos os momentos.

À minha falecida avó Lourdes, que deixou a todos os seus filhos, netos e
bisnetos um valioso legado de amor e carinho.

Ao meu avô Fernando, que nunca poupou esforços para me levar à escola
durante toda a minha infância.

Ao meu padrasto, pelos sábios conselhos e pelo suporte constante.

A todos os meus professores pelas lições de aula e de vida, em especial ao


meu orientador Everaldo Gaspar Lopes de Andrade, pela confiança em mim
depositada para a realização desse trabalho, pela dedicação constante e por
compartilhar a sua visão revolucionária e transformadora acerca do direito do trabalho.

Aos meus amigos, pelos divertidos momentos em sua companhia.

A Taiany, pelo seu apoio, seu carinho, e pela enorme cumplicidade


demonstrada durante os momentos de preocupação.

E aos que possa ter esquecido, mas que sempre estarão em meu coração.
RESUMO

O estudo tem como objeto a terceirização nas relações de trabalho, avaliando-a


como fenômeno do contexto contemporâneo, com a consolidação do ultraliberalismo
e a dilapidação do sistema protetivo do Welfare State. Inicialmente, analisa-se as
transformações do capitalismo a partir da segunda metade do século XX, de modo a
contextualizar a terceirização. Na sequência, são apresentadas as visões da doutrina
juslaboralista tradicional, ficando constatado que tais autores se restringem à análise
dogmática de enunciados normativos sobre o tema, negligenciando e legitimando o
contexto de destruição social do qual o fenômeno é consequência. Em seguida, é
abordada a evolução histórica da terceirização no direito positivo brasileiro e em
ordenamentos estrangeiros, onde se verifica tendência global de elastecimento da
legalização do instituto. Posteriormente, o fenômeno é analisado na teoria jurídico-
trabalhista crítica e na teoria social crítica. São trazidas perspectivas complexas e
multidisciplinares, para demonstrar que o fenômeno se insere no contexto da
dualização do assalariado, como ferramenta de implosão das relações individuais de
trabalho e desmantelamento sindical. Por fim, o estudo traz proposições para
enfrentamento da problemática representada pela terceirização. A principal proposta
baseia-se na reafirmação da luta coletiva como ferramenta de empoderamento da
classe trabalhadora. Para atenuar em curto prazo os efeitos devastadores do
fenômeno, propõe-se uma hermenêutica estruturante, de modo a possibilitar uma
nova compreensão jurídica do instituto, em consonância com o princípio protetor e
com a vedação ao retrocesso social.

Palavras-chave: Terceirização. Direito do Trabalho. Globalização. Ultraliberalismo.


Dualização do assalariado. Teoria Jurídico-trabalhista Crítica. Teoria Social Crítica.
Hermenêutica Estruturante.
ABSTRACT

The study aims at outsourcing labor relations, evaluating it as a phenomenon in the


contemporary context, with the consolidation of ultraliberalism and the dilapidation of
the protective system from Welfare State. Initially, it analyzes the transformations of
capitalism from the second half of the twentieth century, in order to contextualize
outsourcing. In sequence, the visions of the traditional jus-labor doctrine are presented,
being that these authors are restricted to the dogmatic analysis of normative
statements, neglecting and legitimizing the context of social destruction from which the
phenomenon is consequence. Next, the historical evolution of outsourcing in Brazilian
law and foreign jurisdictions is addressed, showing a global tendency to increase the
legalization of the institute. Subsequently, the phenomenon is analyzed in critical labor-
law theory and critical social theory. Complex and multidisciplinary perspectives are
brought to demonstrate the phenomenon is embedded in the context of employee
dualization as a tool for implosion of individual labor relations and union dismantling.
Finally, the study brings propositions to face the problematic represented by
outsourcing. The main proposal is based on reaffirmation of tcollective struggle as a
tool for empowerment of working class. To mitigate in the short term the devastating
effects of the phenomenon, a structural hermeneutics is proposed, in order to allow a
new juridical understanding of the institute, in line with the protective principle and with
the prohibition of social retrogression.

Keywords: Outsourcing. Labor Law. Globalization. Ultraliberalism. Employee


Dualization. Critical Labor-Legal Theory. Critical Social Theory. Structural
Hermeneutics.
LISTA DE SIGLAS

ADC Ação Declaratória de Constitucionalidade


ANATEL Agência Nacional de Telecomunicações
CLT Consolidação das Leis do Trabalho
EUA Estados Unidos da América
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
OIT Organização Internacional do Trabalho
STF Supremo Tribunal Federal
TST Tribunal Superior do Trabalho
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 11
CAPÍTULO 1. CONTEXTUALIZÃO HISTÓRICA ..........................................................17
1.1 As transformações no mundo capitalista: globalização e neoliberalismo. .......17
1.2 O declínio do Welfare State e o fim das garantias sociais. ................................20
1.3 A terceirização nesse cenário. ..............................................................................24
CAPÍTULO 2. A TERCEIRIZAÇÃO NA DOUTRINA JUSTRABALHISTA CLÁSSICA .30
2.1 Contextualização do tema. ....................................................................................30
2.2 Denominações ........................................................................................................31
2.3 Conceitos ................................................................................................................33
2.4 A terceirização e a estrutura tradicional do contrato de trabalho. .....................36
2.5 Terceirização lícita e terceirização ilícita. .............................................................38
2.6 Atividades-meio e atividades-fim. .........................................................................40
2.7 Terceirização e marchandage................................................................................41
2.8 A apreciação crítica do fenômeno pela doutrina clássica ..................................43
CAPÍTULO 3. A TERCEIRIZAÇÃO NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO .................48
3.1 Contextualização do tema. ....................................................................................48
3.2 A subempreitada na Consolidação das Leis do Trabalho...................................49
3.3 O decreto-lei 200/67................................................................................................50
3.4 A lei nº 6.019/74. ......................................................................................................51
3.5 A lei nº 7.102/83. ......................................................................................................53
3.6 A lei nº 9.472/97. ......................................................................................................53
3.7 As súmulas do TST. ................................................................................................55
3.8 A terceirização na Administração Pública ............................................................57
3.9 O projeto de lei nº 4.330/2004. ...............................................................................61
CAPÍTULO 4. A TERCEIRIZAÇÃO NO DIREITO POSITIVO COMPARADO ...............64
4.1 Contextualização do tema. ....................................................................................64
4.2 América Latina ........................................................................................................64
4.2.1 Uruguai ..................................................................................................................64
4.2.2 Argentina ...............................................................................................................65
4.2.3 Chile ......................................................................................................................66
4.2.4 Peru .......................................................................................................................66
4.3 Europa .....................................................................................................................68
4.3.1 Portugal .................................................................................................................68
4.3.2 Espanha ................................................................................................................68
4.3.3 França ...................................................................................................................69
4.3.4 Alemanha ..............................................................................................................69
4.3.5 Itália .......................................................................................................................70
4.3.6 A União Europeia e a flexissegurança. ..................................................................71
CAPÍTULO 5. A TERCEIRIZAÇÃO NA TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA75
5.1 Contextualização do tema. ....................................................................................75
5.2 O fim da Guerra Fria e a reestruturação do capitalismo. ....................................77
5.3 A terceirização como ferramenta de desagrupamento da classe trabalhadora.
.......................................................................................................................................78
5.4 A coisificação do trabalhador subcontratado. .....................................................81
5.5 A terceirização em meio às alternativas neoliberais para a crise do trabalho
subordinado..................................................................................................................84
5.6 A terceirização como estratégia de poder no âmbito do capitalismo pós-
fordista. .........................................................................................................................87
5.7 A terceirização e a versão gerencialista de gestão e de administração. ...........90
CAPÍTULO 6. A TERCEIRIZAÇÃO NA TEORIA SOCIAL CRÍTICA .............................95
6.1 Contextualização do tema. ....................................................................................95
6.2 A apropriação da crítica estética e o desarmamento da crítica social. .............95
6.3 Os novos padrões de produção e acumulação globais. .....................................99
6.4 A dualização dos assalariados. ........................................................................... 101
6.5 A precarização do trabalho como método de gestão. ....................................... 103
CAPÍTULO 7. PROPOSIÇÕES DO PRESENTE ESTUDO PARA O ENFRENTAMENTO
DA PROBLEMÁTICA .................................................................................................. 108
7.1 Contextualização do tema. .................................................................................. 108
7.2 O reconhecimento da terceirização como fraude em si. .................................. 109
7.3 A reafirmação da luta coletiva como ferramenta de empoderamento da classe
trabalhadora................................................................................................................ 111
7.4 Para uma hermenêutica estruturante na compreensão do fenômeno e seu
impacto no acesso à justiça e na efetividade do processo. ................................... 117
CONCLUSÕES ............................................................................................................ 127
REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 133
ANEXO 1: LEGISLAÇÃO PERTINENTE À TERCEIRIZAÇÃO .................................. 143
ANEXO 2: PROJETO DE LEI 4.330/2004 ................................................................... 251
11

INTRODUÇÃO

O estudo apresenta uma versão analítica diferente sobre o fenômeno


Terceirização, na medida em que problematiza e refuta a versão dada pela teoria
jurídico-trabalhista clássica.

Ao inverter o discurso jurídico tradicional, que se concentra numa base


hermenêutica e em fundamentos teóricos relacionados à dogmática jurídica, o autor
desta dissertação, ao estabelecer um diálogo do Direito do Trabalho com as demais
ciências sociais, chega a conclusão segundo a qual a Terceirização não foi algo
construído pela ciência jurídica, mas por meio da teoria organizacional conservadora.
Depois, que não apenas provoca fraude, mas que ela é, em si, uma fraude.

Esta base teorética contextualiza ainda este fenômeno como decorrente da


passagem do Sistema Fordista/Taylorista para o Sistema de Acumulação flexível. Por
isso, tem um impacto decisivo na desarticulação da solidariedade orgânica dos
trabalhadores, em termos de relações individuais de trabalho e, ainda, desestrutura a
sua capacidade organizativa, em termos de relações coletivas ou sindicais.

Torna-se algo que, do ponto de vista da teoria jurídico-trabalhista crítica, se situa


no contexto da legitimação/universalização do Modo de Produção Capitalista que
subordina a força do trabalho ao capital. Em termos de ultraliberalismo global, para
afetar a Sociedade do Trabalho como um todo, em níveis locais, regionais e
supranacionais.

Faz-se um recorrido histórico, para assinalar que o trabalho leva em


consideração os elementos e preceitos clássicos do contrato individual de trabalho e a
crise sofrida por esse modelo, diante das amplas transformações vividas pelo sistema
capitalista a partir da segunda metade do século XX.

Por isso, analisa-se a forma pela qual os autores da doutrina jurídico-trabalhista


clássica avaliam o fenômeno. Demonstra-se que as respostas apresentadas por esses
doutrinadores não questionam as premissas ideológicas que culminaram na ascensão
12

do ultraliberalismo econômico. Ao contrário, se limitam a reproduzir e relegitimar a


sistemática de destruição de conquistas e garantias sociais.

A dissertação considera o tratamento jurídico conferido à terceirização no Brasil,


em outros países da América Latina e em países europeus. Verifica-se que a evolução
histórica do fenômeno no direito positivo de todos os países analisados é tendente a
uma progressiva expansão rumo à legitimação e ao reconhecimento de sua “licitude”,
reflexo da consolidação da ideologia neoliberal no campo político, especialmente, a
partir das três últimas décadas do século XX.

Para ir além da perspectiva dogmática da doutrina tradicional e proporcionar uma


visão reflexiva e profunda sobre o fenômeno, leva-se em conta as pesquisas
apresentadas no âmbito da teoria jurídico-trabalhista crítica. Assim problematiza o
paradigma do trabalho subordinado como objeto do Direito do Trabalho e demonstra
que a terceirização é mais uma estratégia de poder, no contexto da subordinação da
força de trabalho.

Trata-se de uma pesquisa que, como já anunciado, dialoga com outros ramos
dos saberes sociais, aponta para uma bibliografia inter e multidisciplinar, sem a qual é
impossível ver a terceirização enquanto consequência do estágio atual alcançado pelo
Modo de Produção Capitalista que, a partir da década de sessenta, foi capaz, mesmo
sem nenhuma legitimidade, de capturar e basear-se na crítica estética/artística para
esconder a crítica social e manter o seu poder hegemônico.

A dualização do assalariado, ou a flexissegurança, ou terceirização – expressões


análogas - surge como um fenômeno legitimador da exploração do trabalho
contraditoriamente livre/subordinado, em tempos de sociedade pós-industrial.

O trabalho se encontra dividido em sete capítulos.

No Capitulo 1, estabelece-se uma contextualização histórica da temática, com


foco especial nas transformações vivenciadas no cenário econômico global a partir das
décadas de 60 e 70 do século XX, ou seja: o declínio do modelo de produção fordista,
os avanços tecnológicos sem precedentes, a globalização, a ascensão do capital
financeiro, o fim do pleno emprego, a consolidação político-ideológica do neoliberalismo
e o desmonte do Estado de Bem-estar Social.
13

No Capítulo 2, aborda-se a maneira como a doutrina jurídico-trabalhista


tradicional lida com o fenômeno da terceirização. São destrinchados os principais
tópicos e conceitos criados e problematizados por esses autores a respeito do instituto.
Ao final, ficará demonstrado que a análise desses estudiosos clássicos se restringe,
quase sempre, à interpretação de enunciados normativos, à categorização de hipóteses
lícitas e ilícitas de subcontratações de trabalhadores, à contextualização do fenômeno
no cenário da flexibilização trabalhista e ao entendimento da terceirização como causa
– e não como consequência – da sistemática de dilapidação de direitos e garantias
sociais.

O Capítulo 3 aponta para uma narrativa voltada para a evolução histórica do


tratamento jurídico dado ao instituto no direito positivo brasileiro. Observa-se o atraso
do legislador brasileiro em regulamentar a matéria, bem como a tendência constante de
progressiva ampliação da tolerância jurídica para o uso da técnica.

Nesse ponto, é dado especial destaque ao tratamento jurídico conferido ao tema


no âmbito das relações que envolvem a Administração Pública, sobre as quais se
verifica uma longa sequência de enunciados normativos e de mudanças de
posicionamentos jurisprudenciais a respeito da responsabilidade dos entes públicos por
verbas trabalhistas quando atuam como tomadores nas terceirizações.

É também ressaltado o projeto de lei nº 4.330/2004, que pretende disciplinar o


tema de maneira ainda mais permissiva, com a liberação para a utilização do
expediente até mesmo em atividades-fim da empresa contratante. Nesse contexto,
registra-se com clareza a recepção do discurso neoliberal na exposição de motivos do
projeto.

No Capítulo 4 será avaliado o tratamento do instituto em sistemas jurídicos


estrangeiros. Em quase todos os ordenamentos analisados, percebe-se nítidas
semelhanças com o sistema brasileiro, especialmente no que tange à tendência de
abrandamento na regulamentação e na interpretação jurisprudencial dada ao instituto.

Ainda nesse capítulo, é examinado o conceito de flexissegurança, alternativa


idealizada no contexto da União Europeia para o enfrentamento das problemáticas
advindas da crise do contrato individual de trabalho.
14

O Capítulo 5 apresenta as visões da teoria jurídico-trabalhista crítica. Os estudos


analisados nessa parte do trabalho apontam para uma compreensão bem mais
profunda e multifacetada que as teorizações dos doutrinadores clássicos. Conforme
será verificado, os autores da teoria jurídico-trabalhista crítica levam em consideração
uma série de aspectos históricos, econômicos, sociais, políticos, ideológicos e culturais
envolvidos no fenômeno da terceirização trabalhista. Dessa forma, superam a
abordagem da doutrina tradicional e trazem novas linhas de pensamento e novas
propostas para lidar com o tema.

Por meio do universo bibliográfico pesquisado serão destacados os estudos da


linha de pesquisa de Direito do Trabalho e Teoria Social Crítica do Programa de Pós-
graduação em Direito da Universidade Federal de Pernambuco, e de outros
pesquisadores que vêm desenvolvendo uma versão analítica semelhante.

A partir dessas pesquisas, tem-se uma quebra do paradigma do trabalho


subordinado e do sindicalismo reformista como objetos do Direito do Trabalho. Assim,
verifica-se que as relações de trabalho subordinadas encerram relações de poder, as
quais são relegitimadas pela doutrina jurídico-trabalhista clássica. Também, nesse
ponto, serão demonstradas as contradições nas avaliações e nas proposições dos
autores clássicos, para lidar com as crises do contrato individual de trabalho na
sociedade pós-industrial.

No Capítulo 6, o fenômeno da terceirização é abordado no contexto da teoria


social crítica. Os autores analisados nessa parte do trabalho, de maneira semelhante
ao que se verifica na teoria jurídico-trabalhista crítica, oferecem avaliações complexas e
abrangentes não apenas sobre a terceirização em si, mas sobre todo o contexto que a
envolve. Composto por abordagens baseadas especialmente na sociologia, nas
ciências econômicas e na teoria organizacional crítica, deixa transparecer o diálogo que
o estudo passa a estabelecer com vários outros campos dos chamados saberes
sociais.

Nesse ponto, analisa-se a reestruturação do capitalismo na sociedade pós-


industrial e a reafirmação de sua tendência clássica de absorver e metabolizar o
ambiente em seu favor. O sistema capitalista apropria-se da crítica estética - cujo
15

marco simbólico é representado pelas inúmeras manifestações políticas, sociais e


culturais do ano de 1968 – e desarticula a crítica social. Obtém-se, assim, novo fôlego e
são reconfigurados os seus mecanismos de exploração.

É nesse contexto que se insere a dualização do assalariado. No âmbito laboral,


multiplicam-se as formas de contratação, trabalhadores empregados por diferentes
empresas convivem num mesmo ambiente de trabalho, sendo regidos por diferentes
estatutos, o que os mantém desunidos e competitivos entre si, e desmantela as
relações sindicais. O trabalho demonstra que a terceirização se enquadra nesse
contexto, e serve como ferramenta de implosão das relações individuais de trabalho.

No Capítulo 7, o autor do presente estudo, baseado em toda a complexa análise


consubstanciada nos capítulos anteriores, oferece propostas para o enfrentamento da
problemática que envolve a terceirização e o contexto no qual ela está imersa.
Inicialmente, é trazida uma proposição de cunho político, baseada sobretudo na
reafirmação da luta coletiva, especialmente a de natureza revolucionária e contra-
hegemônica, para fazer frente ao empoderamento da classe trabalhadora. Depois, é
proposta uma nova hermenêutica estruturante, no sentido de armar academicamente
os operadores do direito, na interpretação e aplicação das normas trabalhistas e, em
especial, para rejeitar qualquer possibilidade de terceirização nas relações de trabalho,
já que, para o autor deste estudo, ela não só provoca fraudes, mas, é, em si, uma
fraude.

O estudo, ao demonstrar as contradições e limitações da doutrina jurídico-


trabalhista clássica para lidar com o fenômeno da terceirização, aponta para uma
versão analítica que envolve as relações individuais/sindicais, no contexto de um marco
argumentativo que aponta para uma hermenêutica estruturante capaz de, na
experiência concreta, desvendar os mecanismo ideológicos legitimadores da
exploração ainda agressiva do trabalhado humano, por meio da terceirização. Do
mesmo modo armar academicamente este ramo do conhecimento jurídico, no que diz
respeito às relações coletivas ou sindicais, na medida em que aponta para confluência
das lutas simultaneamente reformista/revolucionária.
16

Trata-se de uma proposta aberta e submetida à crítica, como convém a um


trabalho acadêmico que tem como pressuposto a ética dialógica; que representa o
sentimento e o vínculo do autor à teoria jurídico-trabalhista crítica, na esperança de
que, por meio da luta coletiva, fonte prioritária do Direito do Trabalho, seja possível
rejeitar-se, nos planos teóricos e práticos, a posição hegemônica que se instaurou, em
torno de mais uma barbárie contemporânea que se chama TERCEIRIZAÇÃO.

Espera haver cumprido o seu dever e honrado o compromisso acadêmico que


norteia este Programa de Pós-graduação e, especialmente, o l Grupo de Pesquisa
Direito do Trabalho e Teoria Social Crítica.
17

CAPÍTULO 1. CONTEXTUALIZÃO HISTÓRICA

1.1 As transformações no mundo capitalista: globalização e neoliberalismo.

Durante a segunda metade do século XX, sobretudo a partir do final da década


de 1960, a economia política da sociedade capitalista passou por inúmeras
transformações, as quais se refletem na nova configuração geopolítica, em novas
práticas de Estado, bem como em mudanças nos hábitos de consumo.

As inovações tecnológicas oriundas desse momento histórico, especialmente a


comunicação via satélite e a queda dos custos de transporte redundaram, conforme
ressalta o professor Everaldo Gaspar Lopes de Andrade, numa verdadeira “compressão
do tempo-espaço”.1

Ao analisar esse cenário, David Harvey destaca a substituição do fordismo pelo


modelo de acumulação flexível.2 O autor aponta a rigidez do modelo fordista como a
principal razão de seu fracasso e se refere à crise do petróleo de 1973 como marco
paradigmático dessa passagem. 3

A produção de bens imateriais, como serviços, símbolos, informações e valores,


gradativamente substitui a produção em larga escala de bens materiais, característica
essencial do capitalismo fordista da sociedade industrial.

Nesse contexto, conforme expõe Domenico de Masi,4 a exploração do trabalho


manual no interior das indústrias, desvalorizado diante das novas tecnologias, é
paulatinamente sobreposta pelo trabalho intelectual, criativo e imaterial. Além disso, as
novas relações de trabalho, com os avanços na tecnologia da informação, passam a se
desenvolver em dimensão transnacional.

1
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. As relações individuais e coletivas de trabalho no contexto da
dualização do assalariado, da teoria organizacional crítica e das teorias dos movimentos sociais: para
uma reconfiguração hermenêutica sobre o fenômeno terceirização. Duc In Altum: Caderno de
Direito, Recife, v. 6, n. 10, jul-dez., 2014a, p.70.
2
HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992, p. 115-184.
3
Idem.
4
DE MASI, Domenico. O Futuro do Trabalho: Fadiga e Ócio na Sociedade Pós-industrial. 5ª ed. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2000, p. 221.
18

A substituição da força de trabalho pela reprodução automatizada gera


superprodução em escala global, de modo a reduzir o valor das mercadorias finais e,
consequentemente, a taxa média de lucros. Significa dizer que a mais-valia total
produzida não trouxe a rentabilidade esperada. 5

Daí ocorre uma fuga dos investimentos do setor produtivo para o setor
especulativo, de modo que o mercado financeiro se torna o principal palco de circulação
do capital. Trata-se da forma mais abstrata de acumulação de riqueza, totalmente
desvinculada da produção material.

Segundo Chesnais,6 através do capital portador de juros, busca-se o lucro sem


que seja necessário sair da esfera financeira, sob a forma de juros de empréstimos, de
dividendos ou de quaisquer pagamentos recebidos apenas em razão da posse de
ações.

Nesse cenário, os avanços na tecnologia da informação desempenham um papel


fundamental na agilização das transações de ativos no sistema financeiro e contribuem
para o fortalecimento desse setor.

O deslocamento de recursos para aplicações especulativas, de acordo com


Aglietta,7 desfavorece o crescimento econômico. Na medida em que as empresas se
sentem desencorajadas a investir em inovação e produtividade, não há geração de
emprego.

Ao concentrar as rendas que não foram reinvestidas em produção e nem


consumidas, as instituições financeiras, em especial as não bancárias, 8 se tornam
poderosas credoras internacionais e passam a impor aos estados a desregulamentação
cada vez maior dos mercados.

De acordo com Dominique Plihon:

5
MANDEL, Ernest. A crise do capital: os fatos e sua interpretação marxista. São Paulo: Ensaios, 1990,
p. 214.
6
CHESNAIS, François. O capital portador de juros: acumulação, internacionalização, efeitos econômicos
e políticos. In: _________ (Org.). A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração,
conseqüências. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 35.
7
AGLIETTA, Michel. Macroeconomia financeira: mercado financeiro, crescimento e ciclos. São Paulo:
Loyola, 2004, p. 29.
8
Sobretudo investidores institucionais, fundos de pensão, fundos de aplicação coletivos e sociedades
seguradoras.
19

“Com o peso crescente da dívida, os tesouros públicos nacionais não


podiam mais contar exclusivamente com os investidores nacionais. Era
necessário apelar aos investidores internacionais, em particular aos
investidores institucionais, para que adquirissem títulos públicos
nacionais. É desse modo que, no início, as autoridades públicas
liberalizaram e modernizaram os sistemas financeiros para satisfazer
suas próprias necessidades de financiamento”.9

Aos poucos, o neoliberalismo passou a ser implantado nos países capitalistas


centrais como política de Estado. É o que se verificou na Inglaterra na década de 80.
Sob o governo de Margareth Thatcher, o parque produtivo inglês passou por profundas
modificações, com redução das empresas estatais, retração do setor industrial e
expansão do setor de serviços privados.10

Nos EUA, as políticas neoliberais foram capitaneadas por Ronald Reagan, em


cujo governo o macartismo da guerra fria foi reintroduzido. Com base no discurso de
combate aos “inimigos” da liberdade, Reagan retomou a corrida armamentista,
investindo pesadamente no setor bélico sob o pretexto de gerar empregos e manter a
liderança militar norte-americana.11

Com o declínio da União Soviética e a queda do muro de Berlim em 1989, o


neoliberalismo encontrou terreno ainda mais fértil para legitimar-se. Sem o contraponto
representado pelo modelo soviético, o capitalismo podia avançar sem a necessidade de
manutenção do estado de bem-estar social.12

No Brasil, conforme aponta a professora Juliana Esteves,13 a Constituição


Federal de 1988, contrariando a guinada liberal ocorrida nos países capitalistas

9
PLIHON, Dominique. Desequilíbrios mundiais e instabilidade financeira: a responsabilidade das políticas
liberais. Um ponto de vista keynesiano. In: CHESNAIS, 2005, p. 108.
10
ANTUNES, Ricardo Luís Coltro. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do
Trabalho. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 63.
11
MELLO FILHO, Marcelo Soares Bandeira de. A economia política do governo Reagan: estado
neoliberal, tributação e gasto público federal nos Estados Unidos da América entre 1981 e 1988. 2010.
156 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 2010, p. 91. Disponível em: <http://www.ie.ufrj.br/images/pos-graducao/ppge/marcelo-
soares_a_economia_politica.pdf>. Acesso em: 26 jan. 2016.
12
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. Direito do Trabalho e Pós-modernidade: Fundamentos para
uma Teoria Geral. São Paulo: Ltr, 2005, p. 72.
13
ESTEVES, Juliana Teixeira. O Direito da Seguridade Socal e da Previdência Social: A Renda
Universal Garantida, a Taxação dos Fluxos Financeiros Internacionais e a Nova Proteção Social. Recife:
UFPE, 2015, p. 79-81.
20

centrais, ainda buscou consagrar um sistema de proteção social nos moldes do Welfare
state, especialmente no capítulo destinado à seguridade social, em que se previa uma
vasta rede para financiamento dos benefícios.

Entretanto, como também destaca a autora, o cenário internacional, já


amplamente dominado pelo capitalismo financeiro, acabou impondo também ao Brasil a
adoção de políticas liberalizantes, como a privatização de empresas estatais, a
elevação das taxas de juros para estimular a entrada de capital estrangeiro e o
redirecionamento de receitas da seguridade social para custear o pagamento de juros e
amortizações da dívida pública.14

É inegável que as últimas décadas do século XX e as primeiras do século XXI


vêm sendo marcadas por profundas alterações no sistema de produção capitalista,
sobretudo em função da globalização, da supremacia do capital financeiro e da brutal
redução do papel do Estado na economia.

1.2 O declínio do Welfare State e o fim das garantias sociais.

Diante da mundialização financeira,15 as políticas keynesianas se mostraram


insuficientes para conter as injustiças sociais. Em sua expansão global, o capitalismo já
não admite a convivência com as medidas do Estado Social do pós-guerra. Para que as
margens de lucro se mantenham crescentes, as políticas de flexibilização e
desregulamentação se tornam imperativas.

É interessante registrar que a necessidade capitalista de constante expansão no


globo terrestre já fora prevista por Marx e Engels.16 Conforme os autores alertaram, a
burguesia precisa de um mercado em constante expansão, dando forma cosmopolita à

14
Idem.
15
Sobre a expressão “mundialização financeira”, cunhada pelo economista francês, ver CHESNAIS,
François (Org.). A mundialização financeira: gênese, custos e riscos. São Paulo: Xamã, 1998.
16
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Editorial Avante, 1997.
Disponível em:
<http://www.pcp.pt/sites/default/files/documentos/1997_manifesto_partido_comunista_editorial_avante.pdf
>. Acesso em: 11 fev. 2016, p. 33.
21

produção e ao consumo em todos os países e ratificando a tendência que já se


manifestava desde o início de sua hegemonia:

“A burguesia, na sua dominação de classe de um escasso século, criou


forças de produção mais massivas e mais colossais do que todas as
gerações passadas juntas. Subjugação das forças da Natureza,
maquinaria, aplicação da química à indústria e à lavoura, navegação a
vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos, arroteamento de
continentes inteiros, navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas
saltar do chão — que século anterior teve ao menos um pressentimento
de que estas forças de produção estavam adormecidas no seio do
trabalho social?”17

O cenário atual reflete a mesma lógica de expansão sem limites. Segundo


Evilasio Salvador:

“O quadro revela as limitações das políticas keynesianas diante da


internacionalização do capital, com sinais de esgotamento do padrão de
financiamento das políticas sociais e a reação do capital à queda das
taxas de lucro, na sua sanha pela acumulação e, portanto, por
superlucros. Os capitalistas se armam para revogar as conquistas
sociais do pacto social-democrata investindo contra os trabalhadores,
em busca de restabelecer um novo padrão de acumulação para saída
da crise”.18

As garantias sociais obtidas ao longo do século XX passam a ser consideradas


verdadeiros entraves à rentabilidade exigida pelo mercado financeiro. Os custos
salariais, a redução da jornada de trabalho, bem como o pagamento de tributos para
financiamento da seguridade social são apontados como obstáculos para a resolução
das crises capitalistas.

Para Juliana Esteves:

“A financeirização da economia e do capital produtivo força a redução


dos direitos dos trabalhadores – ponta mais fraca da relação. Custos
com mão-de-obra são reduzidos em prol da rentabilidade acionarial
mínima exigida pelo mercado. O novo sistema de capitalismo impõe
baixos salários, redução de impostos e encargos sociais, alicerces do
financiamento da proteção social”.19

17
Ibidem, p. 34.
18
SALVADOR, Evilásio. Fundo Público e Seguridade Socal no Brasil. São Paulo: Cortez, 2010, p. 92.
19
ESTEVES, 2015, p. 80.
22

Segundo a autora, os trabalhadores aos poucos deixam de fazer parte da


empresa como empregados, passando a compô-la como se fossem pequenos
acionistas.20

Essa mudança de perspectiva significa, em outras palavras, o compartilhamento


dos riscos da atividade empresarial com a classe trabalhadora. As garantias de pleno
emprego e de manutenção do poder de compra salarial são revogadas e os
trabalhadores ficam a mercê das instabilidades do sistema financeiro.

Na seguridade social, os regimes de repartição, onde vigora a solidariedade


intergeracional, dão lugar aos regimes de capitalização, onde cada um acumula seu
próprio patrimônio para custeio de seus próprios períodos de inatividade. É o que André
Orléan chama de “individualismo patrimonial”.21

Ideólogos capitalistas, como Peter Drucker,22 aplaudem o que seria uma espécie
de capitalismo dos trabalhadores, na medida em que cada um deles é dono de suas
próprias reservas acumuladas ao longo da vida, e tais reservas, sob a lógica financeira,
funcionam como instrumentos de reprodução do capital. Os trabalhadores seriam
também, portanto, proprietários dos meios de produção.

Nessa esteira, o individualismo clássico do capitalismo liberal volta a ganhar


força. As teorias de gestão e de administração pertencentes à versão organizacional
tradicional, conforme aponta Everaldo Gaspar de Andrade,23 desempenham um
importante papel nesse processo. Através dessas novas técnicas de gestão, incentiva-
se a competição entre os empregados no interior das empresas, pondo em relevo a
velha regra do “cada um por si”. Com isso, destrói-se o espírito de união entre os
trabalhadores. A exploração da força de trabalho, antes verificada apenas na dimensão
física, passa a se consolidar também na dimensão psíquica. Para o autor:

“Uma visão crítica da história organizacional ajuda, por fim, a


compreender como as novas formas de gestão, ao introduzir o discurso

20
Ibidem, p. 77.
21
ORLÉAN, André. Le pouvoir de la finance. Paris: Odile Jacob, 1999, p. 244.
22
DRUCKER, Peter. O melhor de Peter Drucker: a sociedade, p. 46.
23
ANDRADE, 2014a, p. 63.
23

da liberdade contra a opressão do trabalho, passaram a capturar ainda


mais a subjetividade do trabalho – a comprar também o saber e a
criatividade -, a cobrar ainda mais trabalho e compromissos com a
organização. O que está acontecendo não é apenas o controle e a
apropriação do trabalho braçal, físico, mas, repita-se, do saber, da
criatividade e da própria vida do empregado. Os trabalhadores, sentindo-
se “livres”, “donos” do seu saber e de sua criatividade, passam a
trabalhar ainda mais, já que não se tem como mensurar o tempo
dedicado à criação – como se não bastassem os controles ainda mais
sofisticados que ampliam o Poder Disciplinar e a Subordinação da Força
do Trabalho ao Capital”.24

Ao mesmo tempo, consoante aponta Mota,25 os grandes meios de comunicação


promovem uma verdadeira glorificação do empreendedorismo e do individualismo
patrimonial. No Brasil, os principais telejornais e os periódicos de grande circulação,
quando tratam da seguridade social, insistem em acusar de deficitária a previdência
social pública, omitindo, porém, que grande parte dos recursos da seguridade são
indevidamente deslocados para possibilitar o superávit primário e satisfazer os credores
da dívida pública galopante.

Além disso, ao tratar de temas econômicos, a mídia corporativa utiliza linguagem


técnica e convoca “especialistas” para emitirem seus pareceres, de modo a insinuar que
tais assuntos são demasiado complexos para que sejam compreendidos pela
população comum sem a intermediação desses “experts”.26

Por fim, taxam pejorativamente como ideológicas – e, portanto, inoportunas – as


sugestões contrárias à cartilha neoliberal, como se a glorificação do individualismo e do
empreendedorismo que tanto promovem fosse desprovida de carga ideológica.

Obtêm-se assim o apoio da opinião pública para consolidar a ideia do estado


mínimo e, consequentemente, a desregulamentação da economia e o abandono das
políticas públicas de proteção social.

24
Ibidem, p. 74-75.
25
MOTA, Ana Elizabete. Crônica de uma morte anunciada: as reformas da Previdência Social Brasileira
nos anos 1990 e 2000. In: BRAGA, Léa; CABRAL, Maria do Socorro Reis (orgs.). O Serviço Social na
Previdência: trajetória, projetos profissionais e saberes. São Paulo: Cortez, 2007, p. 146-147.
26
Idem.
24

Todo esse processo de dilapidação das garantias sociais serviu para aprofundar
as desigualdades sociais em todo o planeta, agravando a miséria e as demais mazelas
características do sistema capitalista.

Consoante ressalta José Soares Filho,27 vive-se em um momento marcado pela


extrema concorrência comercial, pelo desemprego estrutural, pelo agravamento das
desigualdades sociais e, em especial, pela precarização das condições e do mercado
de trabalho.

No que concerne especificamente às relações de trabalho, Ricardo Antunes


identifica algumas das inúmeras consequências trazidas por essas transformações no
processo de produção, em especial o considerável aumento das formas de
subproletarização ou precarização do trabalho, refletidas na disseminação do trabalho
parcial, temporário, subcontratado e terceirizado.28 O autor ainda destaca que essa
precarização se verifica em escala global, não se limitando apenas aos países
periféricos.29

Aprofundando-se nessa análise, Everaldo Gaspar de Andrade aponta uma


irreversível ruptura de paradigmas na sociedade do trabalho, de modo que a tecnologia
do conhecimento gera um significativo abandono dos postos tradicionais de trabalho e o
concomitante surgimento de novas modalidades de emprego e renda, bem como de
uma grande massa de excluídos.30

Na próxima seção, será detalhado o instituto da terceirização como ferramenta


de precarização do direito do trabalho, de modo a contextualizá-lo nesse cenário de
declínio do modelo fordista e ascensão da globalização, do capitalismo financeiro e do
ultraliberalismo.

1.3 A terceirização nesse cenário.

27
SOARES FILHO, José. Sociedade Pós-industrial - e os Impactos da Globalização na Sociedade, no
Trabalho, na Economia e no Estado. Curitiba: Juruá, 2007, p. 59.
28
ANTUNES, 2009, pp. 188-189.
29
Idem.
30
ANDRADE, 2005, p. 27-168.
25

Especificamente no âmbito da ciência da administração, o fenômeno já vem


sendo analisado há bastante tempo, quase sempre se levando em consideração
primordialmente os aspectos organizacionais e empresariais envolvidos.

Para Lívio Giosa,31 por exemplo, terceirização é um processo de gestão


empresarial, caracterizado pelo repasse de algumas atividades da empresa para
terceiros, formando uma relação de parceria. Dessa forma, a empresa que efetuou o
repasse teria a vantagem de poder concentrar-se inteiramente em suas tarefas
principais.

Ciro Pereira da Silva define o fenômeno como sendo a transferência de


determinadas atividades para fornecedores especializados em sua execução, os quais
tenham em tais tarefas as suas respectivas atividades-fim.32 O autor também destaca a
vantagem técnica que tal transferência propicia para a empresa contratante, que poderá
centralizar seus esforços gerenciais na atividade-fim.33

Carlos Alberto Ramos Soares de Queiroz entende a terceirização como uma


técnica administrativa consistente na transferência a terceiros de atividades acessórias
da empresa contratante, permitindo a esta a concentração de energia no objeto
principal de seus negócios.34

Conforme se observa, os estudiosos da ciência da administração costumam


destacar a natureza técnica e gerencial do processo de terceirização. Analisam a
questão sob a perspectiva das empresas, levando em consideração a lógica econômica
de “fazer com que as coisas sejam realizadas da melhor forma possível, com o menor
custo e com a maior eficiência e eficácia”.35

A terceirização é colocada como uma alternativa de gestão administrativa e


empresarial, para redução de custos e otimização do processo produtivo.

31
GIOSA, Lívio. Terceirização: uma abordagem estratégica. 5ª edição. São Paulo: Pioneira, 1997, p. 14.
32
SILVA, Ciro Pereira da. A terceirização responsável: modernidade e modismo. São Paulo: LTr, 1997,
p. 30.
33
Idem.
34
QUEIROZ, Carlos Alberto Ramos Soares de. Manual de terceirização. 8ª edição. São Paulo: STS,
1996, p.35.
35
CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à teoria geral da administração. 5ª edição. Rio de Janeiro:
Campus, 1999, p. 18.
26

No âmbito da doutrina jurídica, somente após décadas de disseminação da


prática, os autores clássicos começam a se debruçar sobre o tema, tendo como maior
preocupação as consequências negativas que o instituto traz para o sistema de
proteção ao trabalho subordinado e assalariado.

Como aponta Sérgio Pinto Martins,36 a noção de terceirização já fora trazida para
o Brasil desde a década de 50, especialmente em razão da indústria automobilística,
cuja cadeia produtiva envolve uma série de processos de montagem.

Porém, a doutrina justrabalhista brasileira, conforme será visto, passa a se


ocupar com afinco do tema apenas a partir da década de 70, com o advento da lei do
trabalho temporário.

De maneira geral, a terceirização trabalhista representa a inclusão de um terceiro


sujeito na contratação da mão-de-obra. O trabalhador fornece os seus serviços a outra
empresa, distinta daquela com a qual ele manterá vínculo jurídico trabalhista.

Por meio de um simples raciocínio matemático, já é possível perceber que essa


relação tripartite é economicamente desfavorável para o empregado. De um lado, a
empresa tomadora opta por contratar a prestadora como forma de se livrar dos custos
que teria com a contratação direta de seus próprios trabalhadores; a prestadora, por
sua vez, para obter lucros, precisa receber da tomadora um valor superior ao que será
pago aos trabalhadores.

Dessa forma, a diferença entre o valor final das mercadorias produzidas e o valor
atribuído ao trabalho dos empregados precisará abranger os lucros das duas empresas
envolvidas na relação tripartite, ao contrário do que ocorre na relação empregatícia
tradicional, com base na qual Marx desenvolveu o conceito da mais-valia,37 onde
apenas uma parte se apropria da força de trabalho do proletariado.

Há ainda a problemática envolvendo a relação que se dará entre os empregados


e o tomador de serviços no ambiente de trabalho. No direito brasileiro, a existência das

36
MARTINS, Sérgio Pinto. A terceirização e o direito do trabalho. 13ª ed. São Paulo: Malheiros, 2014,
p. 16.
37
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro Primeiro: O Processo de Produção do
Capital. Vol. I. 11ª ed. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. São Paulo: Bertrand Brasil, 1987, p. 201-356.
27

condições previstas no artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho 38 configura a


formação do vínculo empregatício. Conforme previsto na Súmula n° 331 do Tribunal
Superior do Trabalho,39 a presença da subordinação direta e da pessoalidade na
relação entre tomador e empregado tornará ilícita a terceirização, reconhecendo-se o
vínculo de emprego entre essas duas partes.

Na prática, para evitar a configuração da subordinação direta, e


consequentemente do vínculo empregatício, as empresas tomadoras dispensam aos
empregados terceirizados um tratamento diferente daquele direcionado aos outros
empregados.40 Isso gera um ambiente de trabalho hostil para os terceirizados, com
violação à isonomia e dificuldade a aproximação entre os dois grupos de empregados,
o que prejudica o espírito de coletividade entre os trabalhadores.

Ocorre o que Boltanski e Chiapello chamam de dualização dos assalariados,41 na


medida em que se diversificam as condições contratuais de vários empregados dentro
de uma mesma empresa, de modo que cada um se vincula a mais de um empregador e
é regido por diferentes regras no que tange à remuneração e à jornada de trabalho.

Segundo Márcio Túlio Viana,42 a terceirização representa uma verdadeira rota de


fuga para a empresa, fazendo-a escapar das normas de proteção social através dessa
confusão de responsabilidades trabalhistas e da consequente camuflagem da
exploração de mão de obra. Por essa razão, para além de avaliar se a terceirização
pode ou não conter fraudes, é necessário reconhecer que ela é em si mesma uma
fraude.

38
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943):
Art. 3º Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a
empregador, sob a dependência deste e mediante salário.
39
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do
Trabalho. Brasília, 31 maio 2011:
“(...)
III - Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102,
de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividade-
meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta”. (Grifo nosso).
40
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz apud CHAVES, Cláudia Haddad Souza. Terceirização como Meio de
Flexibilização das Relações Trabalhistas: Uma Análise dos Pontos Positivos e Negativos. Revista JurES,
Vitória, v. 3, n. 4, 2011, p. 3.
41
BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009,
p. 254.
42
VIANA, Márcio Túlio. A Terceirização Revisitada: algumas críticas e sugestões para um novo
tratamento da matéria. Revista TRT 8ª. Região, Belém, v. 46, n. 90, jan/jun 2013, p. 132.
28

Para Jorge Luiz Souto Maior:

“(...) o que se extrai desse contexto é a conseqüente lógica da


precarização das garantias dos trabalhadores, pois há a transferência da
responsabilidade de uma empresa economicamente sólida ou de um
ente público para uma empresa que não possui, necessariamente,
nenhum lastro econômico e cuja atividade não vai além de organizar a
atividade de alguns trabalhadores e lhes repassar o valor que lhe seja
pago pelo ente contratante dos serviços, o qual, ademais, não faz
mesmo questão de saber se o valor pago vai, ou não, fragilizar o ganho
dos trabalhadores, pois que vislumbra destes apenas o serviço prestado,
sendo certo que considera, por óbvio, a utilidade de obter esse serviço
pelo menor preço possível”.43

Trata-se de uma poderosa ferramenta encontrada pelo capitalismo


contemporâneo de burlar os postulados tradicionais do Direito do Trabalho, os quais,
por sua vez, ainda se encontram adstritos à normatização da relação de trabalho
subordinado tradicional, formada exclusivamente por duas partes: empregador e
empregado, onde o primeiro admite, assalaria e dirige a prestação pessoal do serviço
do segundo.

Nesse ponto, conforme aponta Isabele Moraes D’ângelo, a insistência da


doutrina jurídico-trabalhista clássica em restringir o seu objeto de estudo ao trabalho
subordinado se mostra em total descompasso com as evidências empíricas. Na
sociedade pós-industrial, o Pleno Emprego já deixou de ser uma realidade. Multiplicam-
se as formas de subemprego e sub-proletarização.44 Daí a dificuldade da doutrina
clássica em encontrar respostas para o fenômeno da terceirização.

Ao tratar do assunto, a doutrina quase sempre se limita à análise dogmática dos


enunciados normativos a respeito do tema, ao enquadramento da terceirização no
contexto da flexibilização das relações de trabalho e a enxergar o fenômeno como
causa e não como consequência do amplo processo de desmonte do sistema de
proteção social do Welfare State.45

43
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. Carta Aberta aos “terceirizados” e à comunidade jurídica. Belém: Revista
do TRT-6ª. Região, v. 44, n. 86, jan/jun 2011, pp. 135-148.
44
D'ANGELO, Isabele Bandeira de Moraes. A subordinação no direito do trabalho: Para ampliar os
cânones da proteção, a partir da Economia Social e Solidária. São Paulo: Ltr, 2014, pp. 39-41.
45
ANDRADE, 2014a, p. 62.
29

No contexto das relações sindicais, a terceirização se mostra uma ferramenta


ainda mais devastadora. Em virtude da condição especial em que se encontram, os
trabalhadores terceirizados acabam tendo grandes problemas para se enquadrarem em
determinada categoria profissional e assim serem reconhecidos pelo sindicato
respectivo. As organizações sindicais, por sua vez, também têm se mostrado incapazes
de adaptar as suas estruturas para abarcar esse tipo de trabalhador,46 o que os fragiliza
ainda mais diante do poder econômico das empresas.

O sindicalismo em seus moldes clássicos - verticalizado e concentrado nas


reivindicações dos trabalhadores formais - se encontra também em descompasso com
a Sociedade Pós-industrial e com as novas formas contratuais de trabalho.47 Fato que
agrava a problemática da representatividade dos terceirizados.

Sobre o enfraquecimento sindical, Boltanski e Chiapello constatam que os


trabalhadores subcontratados, ante o seu isolamento diante das categorias sindicais,
ficam totalmente desprovidos de recursos políticos para pressionar ou resistir a
pressões dos empregadores.48

46
ANTUNES, 2009, p. 107.
47
ANDRADE, 2005, p. 95.
48
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 270.
30

CAPÍTULO 2. A TERCEIRIZAÇÃO NA DOUTRINA JUSTRABALHISTA CLÁSSICA

2.1 Contextualização do tema.

O Direito do Trabalho, conforme destaca Isabele Moraes D’Angelo,49 optou por


contemplar o trabalho subordinado como objeto de suas construções teóricas e,
portanto, como único destinatário do sistema de proteção social trazido por esse campo
do direito.

Segundo a autora, a disciplina justrabalhista gira em torno “do nascimento, da


vida e da morte do contrato individual do trabalho”.50 Dizendo de outro modo, o Direito
do Trabalho tem como objeto a relação de trabalho formada por duas partes, onde uma
delas admite, assalaria e dirige a prestação pessoal do serviço executado pela outra.

Constantemente preocupada com as teorizações a respeito dessa estrutura


contratual bilateral, a doutrina justrabalhista tradicional demorou a encarar as novas
formas de organização do trabalho, características do mundo globalizado e neoliberal,
notadamente a terceirização. O interesse dos estudiosos do direito pelo fenômeno é
bastante recente se comparado ao interesse demonstrado em outras áreas de
conhecimento, como nas ciências da administração, nas ciências econômicas e na
sociologia.

Conforme se verá nesse capítulo, os autores da doutrina clássica empreendem


grandes esforços na tentativa de categorizar a terceirização, na tentativa de aplicar
também ao tema os institutos clássicos do Direito do Trabalho, com a distinção entre
hipóteses lícitas e ilícitas, a estipulação de consequências jurídicas para cada hipótese,
e o enquadramento do fenômeno no contexto de flexibilização das relações laborais.

49
D’ANGELO, 2014, p. 23.
50
Idem.
31

2.2 Denominações

A doutrina jurídico-trabalhista utiliza uma grande variedade de nomes para fazer


referência à contratação de atividades laborais por pessoa ou empresa interposta. Além
de "terceirização" e "subcontratação" - expressões mais comuns no cenário atual -, fala-
se ainda em "parceria", "exteriorização do empregado", "focalização", "filialização" e
"desverticalização".51

O nome "terceirização" se tornou comum na linguagem empresarial, conforme


registra Polonio,52 em meados da década de 1980. Momento no qual o neoliberalismo
já se consolidava no cenário econômico global, causando a multiplicação dos modelos
alternativos de trabalho subordinado, em substituição à rigidez do
fordismo/keynesianismo.

Segundo Carlos Henrique Bezerra Leite:

“A palavra ‘terceirização’, vem sendo utilizada em larga escala,


principalmente no meio empresarial, constitui neologismo oriundo do
vocábulo ‘terceiro’, empregado no sentido de intermediário, interveniente
ou medianeiro.”53

Anteriormente, utilizava-se com maior frequência o termo "subcontratação", o


qual se encontrava mais associado às relações jurídicas eminentemente privadas. A
referida expressão, conforme relata Castel,54 remonta ao século XVIII, no âmbito das
corporações de ofício, onde os comerciantes forneciam matéria-prima aos
trabalhadores rurais e estes lhes retornavam os produtos prontos para a venda.

Amauri Mascaro Nascimento define “subcontrato” como sendo um contrato que


nasce de outro, que deriva de um contrato principal, de modo a transferir a terceiro
obrigações que seriam pertinentes aos sujeitos presentes na esfera do contrato

51
MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 25ª edição. São Paulo: Atlas S.A., 2009, p. 176.
52
POLONIO, Wilson Alves. Terceirização: Aspectos Legais, Trabalhistas e Tributários. São Paulo: Atlas,
2000, p. 16.
53
LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Terceirização na Perspectiva do Direito do Trabalho
Brasileiro. Revista da Academia Brasileira de Direito do Trabalho, Terceirização de Serviços e Suas
Repercussões no Direito do Trabalho Contemporâneo, n. 20, 2015, p. 15.
54
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 163.
32

original.55

No Brasil, a palavra "subcontratação" ainda é largamente utilizada no âmbito


cível, especialmente para se referir a determinados institutos como a empreitada e a
subempreitada. Já no campo justrabalhista, a expressão "terceirização" vem sendo
utilizada pela doutrina com frequência muito maior.

Curiosamente, essa expressão é quase uma exclusividade brasileira, já que na


grande maioria dos países europeus e americanos ainda se prefere usar
"subcontratação", guardadas as devidas adaptações linguísticas.

A título de exemplo, em Portugal se utiliza "subcontratação", além de outras


denominações como "locação de mão de obra" e "empreitada de mão de obra".56 Em
países latino-americanos de língua espanhola, o termo usado é "subcontratación".57 O
mesmo ocorre na Espanha.58 Na França, fala-se em “sous-traitance”.59 E na Itália,
“subcontrattazione”.60

Para Maurício Godinho Delgado,61 seria mais apropriada a utilização do termo


"terciarização", já que, como aponta o autor, trata-se de fenômeno característico do
setor terciário da economia, composto essencialmente pelo comércio e pela prestação
de serviços.

Por sua vez, Gabriela Neves Delgado sustenta que terceirização e terciarização
são conceitos que não se confundem, já que a primeira diz respeito a expediente
utilizado no âmbito da gestão empresarial e a segunda apenas faz referência a um
segmento da economia.62 Não havendo razão técnica para tratá-las como sinônimos.

55
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 21ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Saraiva, 2006, p. 594.
56
FERNANDES, António Monteiro. Direito do Trabalho. 10ª ed. Coimbra: Almedina, 1998, p.149.
57
TOKMAN, Víctor; MARTÍNEZ, Daniel (Ed.). Flexibilización en el margen: la reforma del contrato de
trabajo. Lima: Oficina Internacional del Trabajo, 1999, p. 68.
58
LÓPEZ, Manuel-carlos Palomeque; LAROSA, Manuel Álvarez de. Derecho del Trabajo. 5. ed. Madrid:
Editorial Centro de Estudios Ramon Areces, 1997, pp. 711.
59
JAVILLIER, Jean-claude. Manual de Direito do Trabalho. São Paulo: Ltr, 1988. Tradução de: Rita
Asdine Bozaciyan, p. 65.
60
MISICORO, Giorgio Brafa. Il lavoro interinale. Roma: EPC Libri, 1997, p. 25.
61
DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 15ª ed. São Paulo: LTr, 2016, p. 487.
62
DELGADO, Gabriela Neves. Terceirização: Paradoxo do Direito do Trabalho Contemporâneo. 2 ed.,
São Paulo, LTr, 2003, p. 136.
33

Conforme oberva Carelli,63 o termo "terceirização" denota tudo e nada ao mesmo


tempo. Tomado ao pé da letra, o nome indica que as atividades que inicialmente seriam
realizadas por um sujeito serão entregues a um terceiro, o que inevitavelmente leva ao
esvaziamento da função daquele sujeito. Nesse aspecto, a conceituação parece perder
o sentido.

Por outro lado, na medida em que trata de transferência de responsabilidades


para um terceiro estranho ao contrato de trabalho original, a expressão acaba servindo
de maneira bastante precisa, já que deixa transparecer o caráter contraditório do
instituto.

2.3 Conceitos

Os autores que compõem a doutrina juslaboralista tradicional costumam atribuir


conceitos relativamente semelhantes para o fenômeno da terceirização. Algumas das
definições atribuídas pelos doutrinadores põem em relevo aspectos econômicos, outras
ressaltam as questões jurídico-positivas, e há ainda aquelas que enfocam os fatores
sociológicos envolvidos. Porém, de maneira geral, as conceituações quase sempre
destacam a inexistência de vínculo jurídico direto entre o trabalhador e o tomador de
seus serviços.

Na concepção de Maurício Godinho Delgado,64 a terceirização se caracteriza


pela formação de uma relação trilateral na contratação da força de trabalho para a
produção capitalista, de modo que o obreiro terá seu vínculo jurídico-trabalhista com
uma determinada empresa e prestará seus serviços a outra. Esta, não assumindo a
posição clássica de empregadora, livra-se dos encargos trabalhistas que seriam
inerentes a tal condição. Observa-se uma dissociação entre a relação econômica de
trabalho e a relação justrabalhista que lhe seria correspondente.

Dessa forma, o trabalhador presta serviços ao tomador, sem que haja um vínculo

63
CARELLI, Rodrigo de Lacerda. Terceirização e intermediação de mão-de-obra: Ruptura do sistema
trabalhista, precarização do trabalho e exclusão social. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 74.
64
DELGADO, 2016, p. 487.
34

jurídico direto entre os dois. A relação justrabalhista se dará entre o trabalhador e a


empresa prestadora de serviços, que, por sua vez, se relaciona economicamente com o
tomador.

Godinho Delgado divide ainda a sua conceituação em duas acepções: a


terceirização empresarial e a terceirização trabalhista propriamente dita. 65 A primeira,
segundo o autor, é reflexo dos contínuos processos de descentralização produtiva nas
empresas. Ocorre quando uma empresa subcontrata outra empresa para que esta -
através de seu próprio pessoal e por sua conta e risco - realize parte das atividades da
primeira.

Por sua vez, a terceirização trabalhista propriamente dita é a que se dá entre o


trabalhador e duas empresas (a que com ele mantém vínculo jurídico-trabalhista e a
tomadora dos serviços). Essa é a espécie mais comumente tratada nos manuais de
Direito do Trabalho. E é também o objeto central do presente estudo.

Valentin Carrion,66 apresentando conceito que se aproxima mais da terceirização


empresarial mencionada por Godinho, afirma que o fenômeno se apresenta quando,
mediante contrato, uma empresa entrega a outra a responsabilidade pela execução de
certas atividades não compreendidas nos fins sociais da primeira. Ou seja, a
terceirização somente seria possível no que se refere às atividades-meio da empresa
tomadora.

Martins igualmente destaca esse aspecto,67 definindo terceirização como a


contratação de terceiro para realizar tarefa que não constitua o objetivo principal da
empresa contratante, tais como as atividades de limpeza, vigilância e conservação de
bens.

Na concepção de Amauri Mascaro Nascimento,68 terceirização pressupõe a


existência de um contrato-originário, e a transferência para terceiros – através do que
ele chama de contrato-derivado - de uma obrigação e de um direito antes exercitáveis

65
Idem.
66
CARRION, Valentin. Comentários à consolidação das leis do trabalho. 34ª ed. São Paulo: Saraiva,
2009, p. 307.
67
MARTINS, 2009, p. 176.
68
NASCIMENTO, 2006, p. 595.
35

no âmbito do primeiro contrato.

Para Süssekind,69 trata-se da contratação de pessoas físicas ou jurídicas


especializadas em certos setores da empresa contratante, constituindo o que o autor
denomina de horizontalização da produção de bens ou serviços, fenômeno
característico do mundo globalizado.

Carelli apresenta definição mais crítica do fenômeno, 70 indentificando-o como o


processo de repasse de atividades para empresa especializada, porém destacando que
tais atividades poderiam ser executadas pela empresa que efetuou o repasse. O autor
salienta o aspecto incoerente do instituto.

Bezerra Leite também ressalta o aspecto econômico, 71 definindo o fenômeno


como um procedimento empresarial, feito com o intuito de redução de custos e
consequente ampliação da competitividade da empresa no mercado, e consistente na
contratação de outra empresa para que esta, através de seu pessoal, preste serviços
que antes seriam prestados pelos empregados da contratante.

Barbosa Garcia,72 de maneira mais sucinta, entende a terceirização como uma


transferência de atividades periféricas do tomador dos serviços para que sejam
exercidas por empresas especializadas. Assim como Godinho,73 Garcia também põe
em relevo a formação do vínculo jurídico-trabalhista com empresa distinta daquela para
a qual o serviço será prestado.74

Por sua vez, Polonio traz um conceito mais próximo do ramo empresarial e das
ciências da administração.75 Para o autor, terceirização é um processo de gestão pelo
qual uma empresa transfere para terceiros serviços que originalmente seriam realizados
no interior da empresa.

As conceituações trazidas no âmbito do direito comparado são relativamente

69
SÜSSEKIND, Arnaldo. Curso de Direito do Trabalho. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 201.
70
CARELLI, 2003, pp. 75-76.
71
LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Curso de Direito do Trabalho. 6ª ed. São Paulo: Saraiva, 2015, p.
303.
72
GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Curso de Direito do Trabalho. 6ª ed. rev. atual. e ampl. Rio de
Janeiro: Forense, 2012, p. 345.
73
DELGADO, 2016, p. 487.
74
GARCIA, 2012, p. 345.
75
POLONIO, 2000, p. 97.
36

semelhantes às brasileiras. Na França, por exemplo, Gérard Couturier também afirma


tratar-se de um procedimento de gestão, pelo qual são confiadas a outras empresas
tarefas que estão dentro da atividade da empresa principal ou que são acessórias. 76

Os espanhóis Manuel Carlos Palomeque López e Manuel Álvarez de La Rosa


definem o instituto como sendo uma relação contratual onde uma empresa é contratada
para a realização de uma obra ou serviço determinado mediante o pagamento de um
preço certo por parte da empresa tomadora. 77

Na Alemanha, Wolfgang Däubler se refere ao fenômeno como relação de


trabalho cedido e o conceitua como o envio provisório de um empregado de uma
determinada empresa para desempenhar certas funções em outra. 78

Observa-se que a doutrina jurídico-trabalhista clássica como um todo apresenta


definições semelhantes para o fenômeno, sempre se atendo à apreciação do vínculo
jurídico de trabalho subordinado entre o trabalhador e a empresa cedente e ressaltando
o vínculo meramente econômico com a empresa tomadora.

2.4 A terceirização e a estrutura tradicional do contrato de trabalho.

Por ter adotado o trabalho subordinado como o objeto central de suas


teorizações, a doutrina justrabalhista tradicional tem seus estudos essencialmente
adstritos à normatização da relação de trabalho formada exclusivamente por duas
partes: empregador e empregado, onde o primeiro admite, assalaria e dirige a
prestação pessoal do serviço do segundo.

É nesse sentido que, para Carelli,79 o Direito do Trabalho se alicerça em dois


grandes pilares: o princípio protetor e a determinação legal da identidade do empregado
e do empregador.

76
COUTURIER, Gerard. Droit Du Travail: Les Relations Individuelles de Travail. 3ª ed. Paris: PUF, 1996,
p. 119.
77
LÓPEZ; LAROSA, 1997, pp. 712.
78
DÄUBLER, Wolfgang. Derecho Del Trabajo. Madrid: Centro de Publicaciones Ministerio De Trabajo y
Seguridad Social, 1994. Tradução de: Maria Paz Acero Serna e Pío Acero López, p. 877.
79
CARELLI, 2003, p. 82.
37

Tais fatores, aduz Pinho Pedreira,80 estão relacionados com o reconhecimento


da assimetria entre os sujeitos dessa relação, cabendo ao direito a tarefa de atenuar a
desigualdade econômica entre empregador e empregado, de modo a proteger este
último.

Segundo Süssekind,81 o contrato de trabalho é baseado na intervenção do


Estado nas relações de trabalho, impondo normas cogentes e obstáculos à autonomia
da vontade das partes contratantes.

Uma das principais preocupações da doutrina clássica é, portanto, identificar os


sujeitos da relação de trabalho subordinado, para que sejam então atribuídos à relação
os efeitos jurídicos decorrentes do princípio protetor.

Maurício Godinho Delgado enumera cinco elementos fático-jurídicos


fundamentais para a caracterização do contrato de trabalho: a) a prestação de um
serviço por pessoa física em favor de um tomador; b) a pessoalidade na execução
desse serviço; c) a não eventualidade da atividade realizada; d) a subordinação do
prestador do serviço ao tomador; e) a onerosidade na prestação do trabalho. 82

Conforme descreve Amauri Nascimento,83 a relação de trabalho subordinado


clássica é composta por dois sujeitos: a pessoa física que presta os serviços não-
eventuais e o destinatário da atividade prestada e dos resultados dela decorrentes, ao
qual são conferidos os poderes de organização, fiscalização e disciplina.

Com fundamento nesses preceitos, a terceirização se apresenta como um


modelo alternativo de relação laboral. Na medida em que se inclui um terceiro numa
relação classicamente tratada como bilateral, propicia-se uma fuga dos postulados
tradicionais do Direito do Trabalho.

Na terceirização, a figura do empregador é dividida em duas. De um lado, a


empresa responsável pela intermediação da mão-de-obra assume a condição de
empregador do ponto de vista jurídico, contraindo, em tese, as obrigações trabalhistas,
80
SILVA, Luiz de Pinho Pedreira. Principiologia do Direito do Direito do Trabalho. São Paulo: LTr,
1997, p. 29.
81
SÜSSEKIND, Arnaldo. Instituições de Direito do Trabalho, vol.1. 3ª ed. São Paulo: LTr, 2000, pp.
148-149.
82
DELGADO, 2016, p. 299.
83
NASCIMENTO, 2006, p. 533.
38

em especial a responsabilidade pelo pagamento dos salários e dos demais encargos.


Por sua vez, o tomador dos serviços é o beneficiário da atividade prestada pelo
trabalhador.

António Monteiro Fernandes,84 ao tratar do fenômeno em Portugal, afirma haver


uma verdadeira cisão no estatuto do empregador.

Diante desse quadro, os preceitos trazidos pela doutrina clássica -


tradicionalmente concentrada na relação bilateral entre empregado e empregador - são
de difícil aplicação às relações oriundas da terceirização. Prejudicada a determinação
legal da identidade do empregador, cria-se terreno fértil para a burla a esses
postulados tradicionais e à sistemática jurídica de proteção ao trabalhador subordinado.

2.5 Terceirização lícita e terceirização ilícita.

Uma vez reconhecido o fenômeno da terceirização no âmbito das relações de


trabalho, os autores clássicos — tendo como base a tentativa de adaptação aos
preceitos aplicáveis à relação de emprego bilateral — procuram estabelecer critérios
para distinguir as hipóteses lícitas das ilícitas. Atribuem, para os casos de terceirização
considerada ilícita, a nulidade do contrato de prestação de serviços e
consequentemente o reconhecimento do vínculo de emprego entre o obreiro e o
tomador dos serviços.

Maurício Godinho Delgado,85 ao adotar a fórmula empregatícia clássica, conclui


ser a terceirização em regra ilícita, admitindo, porém, quatro situações excetivas: a) o
trabalho temporário (lei n. 6.019/74); b) as atividades de vigilância (lei n. 7.102/83); c)
as atividades de conservação e limpeza; e d) os serviços especializados ligados à
atividade-meio do tomador.

O autor ressalta ainda que, mesmo no contexto das hipóteses excetivas, é


necessária a inexistência de pessoalidade e de subordinação direta entre o empregado

84
FERNANDES, 1998, p. 150.
85
DELGADO, 2016, pp. 502-505.
39

e o tomador dos serviços. Tal proibição serve, segundo ele, para evitar a utilização do
modelo terceirizante de modo fraudulento, como forma de burlar a proteção jurídica
conferida ao trabalhador.86

Por sua vez, Amauri Mascaro Nascimento adota o raciocínio contrário.87 Para
ele, a regra é a autorização geral, devendo o expediente ser considerado ilícito apenas
quando ficar comprovado o ânimo fraudulento.

Segundo o autor, a tendência é de um elastecimento ainda maior da


admissibilidade jurídica da terceirização, já que, nas palavras dele, “a diversificação de
situações e de processos produtivos é inevitável como também o é a divisão do
trabalho”.88 Seriam inúteis, portanto, as tentativas de impedir as novas formas
descentralizadas de produção de bens e de prestação de serviços.89

Para Rodrigo de Lacerda Carelli,90 a legalidade ou ilegalidade na terceirização


estará adstrita à existência ou não de burla à legislação trabalhista. Segundo o autor,
haverá burla quando se estiver diante de mera interposição de empresa para retirada
do vínculo empregatício direto.

Os autores clássicos estrangeiros igualmente se apegam ao binômio


licitude/ilicitude ao analisar a terceirização. Wolfgang Däubler destaca a necessidade de
avaliação das condições da empresa cedente de mão-de-obra, de modo a garantir que
ela de fato possui capacidade para arcar com os encargos trabalhistas, sob pena de
configuração de simulação e consequente vínculo empregatício direto com a
tomadora.91 Pela legislação alemã, tal avaliação deve ser feita pelo Ministério do
Trabalho, cabendo ao órgão permitir ou não que a empresa efetue a terceirização.92

Para o francês Jacques Le Goff,93 a ocorrência ou não de fraude – e, portanto,


de ilicitude - numa terceirização deve ser aferida em cada caso concreto através do que

86
Ibidem, p. 504.
87
NASCIMENTO, 2006, p. 600.
88
Ibidem, p. 601.
89
Idem.
90
CARELLI, 2003, pp. 92-93.
91
DÄUBLER, 1994, pp. 878-879.
92
Idem.
93
LE GOFF, Jacques. Droit du travail et societé: Les relations individuelles de travail. Paris: Presses
Universitaires de Rennes, 2001, p. 157.
40

ele chama de feixe de indícios (“faisceau d’indices”), isto é, com base na verificação de
um conjunto de elementos na relação trabalhista analisada. Presentes tais elementos –
ou, pelo menos, uma boa parte deles – deve-se concluir pela existência do objetivo
fraudulento.

Dentre tais elementos, o autor cita: a falta de especialidade da empresa


contratada; a gestão do trabalho pela tomadora; a realização de um mesmo serviço por
empresas distintas, porém com manutenção dos mesmos trabalhadores; a prevalência
do elemento humano como objeto do contrato entre as empresas; a prestação dos
serviços para uma única tomadora; e ainda a emissão de ordens ou até de meras
orientações procedimentais, por parte da empresa tomadora, direcionadas aos
empregados subcontratados.94

Fica clara a constante preocupação dos autores tradicionais em atribuir critérios


para a identificação ou não de fraudes nas relações terceirizantes, quase sempre
relacionados à atividade terceirizada, à existência ou não de subordinação entre obreiro
e tomadora e às condições econômicas e técnicas da empresa intermediária.

2.6 Atividades-meio e atividades-fim.

Por ser um dos principais critérios adotados pela doutrina clássica para perquirir
a licitude ou ilicitude de um processo de terceirização, a distinção entre atividades-meio
e atividades-fim de uma empresa acaba por assumir grande relevância nesse contexto.
Devido à dificuldade em se determinar com precisão os limites entre o que é meio e o
que é fim, essa diferenciação se torna inevitavelmente trabalhosa e problemática,
gerando inúmeras discussões doutrinárias e incertezas jurídicas.

Afirma Maurício Godinho Delgado que são atividades-meio as funções que não
se incluem no núcleo da dinâmica empresarial do tomador dos serviços, não compõem
a essência dessa dinâmica, sendo atividades periféricas no âmbito da empresa.95

94
Idem.
95
DELGADO, 2016, p. 503.
41

O autor cita como exemplos as atividades de transporte, conservação de bens,


limpeza, operação de elevadores, atividades de apoio logístico ao empreendimento,
fornecimento de alimentação aos empregados do estabelecimento, dentre outras.96

Para Amauri Mascaro Nascimento,97 atividades-meio são aquelas cujo objetivo é


o apoio. São tarefas instrumentais para o processo econômico do tomador. Apesar de
se preocupar com essa definição, o autor considera o critério insuficiente. Destaca a
existência frequente de atividades que coincidem com o fim da empresa, mas que – por
demandarem uma especialização ainda maior – justificariam, segundo ele, a
terceirização.98

Seguindo a mesma linha de entendimento, Sérgio Pinto Martins igualmente


rechaça a diferenciação entre atividade-meio e atividade-fim como critério idôneo para
identificação da ilicitude.99 Para ele, a proibição da terceirização no âmbito da atividade-
fim pode comprometer a própria atividade econômica desenvolvida e
consequentemente o princípio da livre iniciativa. Como exemplo, cita as indústrias
automobilísticas, onde partes consideráveis da montagem inevitavelmente envolverão
peças fornecidas por outras empresas.100

Arnaldo Süssekind também destaca a dificuldade na distinção entre atividades


meio e fim. Ainda assim, menciona alguns critérios para essa diferenciação, sobretudo
a especialização da empresa tomadora, a sua vocação principal, devendo a
terceirização servir de fato como expediente de otimização e redução de custos. 101

2.7 Terceirização e marchandage

O termo “marchandage” teve origem na França da primeira metade do século


XIX, no auge do período revolucionário, e diz respeito à situação na qual o trabalhador

96
Idem.
97
NASCIMENTO, 2006, p. 599.
98
Idem.
99
MARTINS, 2014, p. 123.
100
Idem.
101
SÜSSEKIND, 2002, pp. 203-204.
42

é contratado por intermédio do que se chamava de mercador de mão de obra. Nessa


intermediação, cabe ao mercador (“marchandeur”) exclusivamente a função de “locar”
os trabalhadores para prestar serviços em empreendimentos de terceiros.

Segundo afirma Rodrigo Coimbra Santos,102 a marchandage seria uma espécie


de subempreitada cujo único objeto é a cessão da força de trabalho. Isto é, enquanto
na empreitada ou subempreitada comum o intermediário fica responsável por vários
elementos do empreendimento – em especial o material que será utilizado –, na
marchandage o mercador de mão de obra apenas fornece trabalhadores, e lucra
através dessa intermediação.103

Para Francisco de Ferrari:

“(...) el marchandage fue pura y exclusivamente una especulación sobre


el trabajo del hombre, llevada a cabo por uma persona, llamada
marchandeur, que compraba mano de obra y la vendia luego a un
empresário obteniendo un lucro.”104

Conforme se observa, a prática da marchandage sempre foi considerada pela


doutrina justrabalhista tradicional como sendo um expediente fraudulento, cujo
resultado era a redução do trabalhador à condição de mercadoria, já que sua força de
trabalho era diretamente vendida por um comerciante, de maneira semelhante ao que
ocorria no contexto do trabalho escravo.

Ao rechaçar a marchandage e, no entanto, admitir a terceirização na prestação


de serviços, os autores clássicos referem-se à primeira como mera intermediação de
mão de obra. Consideram que no caso da terceirização juridicamente admitida, há
elementos que a diferem da pura e simples venda da força de trabalho alheia.

Para Carelli,105 a mera intermediação de mão de obra tem como objeto contratual
a simples negociação do fator humano. Por outro lado, a terceirização pressupõe,
segundo o autor, um conhecimento técnico específico ou algum apoio operacional a ser

102
SANTOS, Rodrigo Coimbra. Relações terceirizadas de trabalho. 3ª ed. Curitiba: Juruá, 2008, pp. 79-
80.
103
Idem.
104
FERRARI, Francisco de. Derecho del Trabajo. V. II. 2ª ed. atual. Buenos Aires: Depalma, 1997, PP.
163-164.
105
CARELLI, 2003, p. 139.
43

fornecido pela empresa prestadora dos serviços, fato que legitimaria a sua atuação
como intermediária.106

Essa mesma distinção é feita por Amauri Mascaro Nascimento.107 De acordo


com o autor, a terceirização tem um movimento interno no sentido externo, enquanto a
intermediação de mão de obra seria a simples comercialização da atividade de
aproximar o trabalhador da fonte de trabalho, prática vedada pelos princípios
internacionais de proteção ao trabalho.108

Carlos Henrique Bezerra Leite,109 por sua vez, sustenta que a terceirização, em
seus moldes contemporâneos, é irremediavelmente semelhante ao que se costumava
chamar de marchandage, já que, segundo o autor, o expediente é fonte de uma série
de fraudes à legislação trabalhista consolidada.

Na Argentina, Jorge Rodríguez Mancini também distingue terceirização de mera


intermediação de mão-de-obra ou marchandage.110 Para o autor, esta última é efetuada
pelo que ele chama de “agências de colocação”:

“(...) no se debe confundir estas empresas con las agencias de


colocación, cuya única función consiste en poner en contacto la oferta y
la demanda de trabajo o, a lo sumo, celebrar el contrato de trabajo por
cuenta de um empleador, com lo cual concluye su actuación.”111

Em suma, a doutrina clássica ora reconhece a nítida semelhança entre a


terceirização contemporânea e o marchandage, ora identifica este último como um
expediente fraudulento, distinto de uma terceirização juridicamente admissível.

2.8 A apreciação crítica do fenômeno pela doutrina clássica

Ao se deparar com o fenômeno da terceirização, a principal preocupação da


106
Idem.
107
NASCIMENTO, 2006, p. 597.
108
Idem.
109
LEITE, 2015, p.303.
110
MANCINI, Jorge Rodríguez. Curso de derecho del trabajo y de la seguridad social. 5ª ed. atual. e
ampl. Buenos Aires: Astrea, 2004, p. 150.
111
Idem.
44

doutrina jurídico-trabalhista tradicional é quase sempre a interpretação dos enunciados


normativos correspondentes e a estipulação de critérios para distinguir modalidades
lícitas e ilícitas de relação triangular, conforme verificado acima.

Além dessa análise dogmática, boa parte dos autores busca avaliar de maneira
crítica o instituto, na tentativa de identificar aspectos históricos, econômicos e sociais
envolvidos no fenômeno.

Conforme será demonstrado, a doutrina clássica, ao realizar essa análise crítica


da terceirização, conclui tratar-se de um fenômeno inserido no contexto de flexibilização
das relações de trabalho, sendo causa de fraudes aos preceitos jurídico-trabalhistas.

De acordo com Maurício Godinho Delgado,112 a terceirização traz consigo três


principais problemas para o sistema jurídico-trabalhista: a ausência de isonomia
remuneratória entre os empregados terceirizados e os exercentes de uma mesma
função contratados diretamente pelo tomador; a confusão na responsabilidade pelas
verbas trabalhistas; e a pulverização da representatividade sindical.

Segundo ele, é necessário combinar três vias do que ele chama de controle
civilizatório da terceirização: a não discriminação remuneratória; a responsabilização –
solidária ou subsidiária, conforme o caso – do tomador dos serviços; e a categorização
profissional dos terceirizados, de modo a possibilitar o enquadramento sindical. 113

José Janguiê Bezerra Diniz também enxerga a terceirização como causa de


diversos prejuízos para a classe trabalhadora, dentre os quais a redução do padrão
salarial, a piora nas condições de saúde e segurança no trabalho e o prejuízo para a
organização sindical.114 Com base nisso, afirma que o fenômeno se encontra inserido
no contexto de flexibilização das relações trabalhistas.115

Da mesma maneira, Alice Monteiro de Barros igualmente destaca essa tendência


de flexibilização do Direito do Trabalho ao tratar do fenômeno, pondo em relevo alguns
aspectos contemporâneos como as inovações tecnológicas e as alterações na

112
DELGADO, 2016, pp. 525-536.
113
Idem.
114
DINIZ, José Janguiê Bezerra. A terceirização e o direito do trabalho. Trabalho & Doutrina, São Paulo,
n. 21, jun. 1999, p. 15.
115
Idem.
45

organização da produção e na gestão da mão-de-obra.116

A autora aponta a problemática que o instituto pode trazer para efeito de


equiparação salarial entre trabalhadores terceirizados e empregados contratados
diretamente.117 Com base nos critérios clássicos, o empregado terceirizado, ainda que
exerça uma mesma função que o empregado direto da tomadora, não faria jus à
equiparação, já que, do ponto de vista estritamente contratual, os dois possuem
empregadores distintos.118

Carlos Henrique Bezerra Leite destaca as desvantagens que o fenômeno


representa no âmbito sindical, dentre as quais o desfalecimento das categorias, o
enfraquecimento do poder de negociação dos trabalhadores, a redução das vantagens
decorrentes de acordos e convenções coletivas e diminuição das fontes de receitas
sindicais.119

Amauri Mascaro Nascimento,120 por sua vez, apresenta uma visão mais otimista
a respeito da disseminação do fenômeno. Para ele, a propagação de novas formas de
organização do trabalho e da produção são simplesmente inevitáveis, razão pela qual a
tentativa de se aplicar um sistema legal taxativo ou limitativo para a terceirização é
inadequada. Sugere a adoção de preceitos genéricos, cabendo ao juiz a avaliação do
caso concreto.

Rubens Ferreira de Castro demonstra uma maior preocupação com a segurança


jurídica no processo terceirizante. De acordo com o autor, para que seja possível
apontar com precisão a existência ou não de fraude no uso do expediente, é essencial
que se estabeleça claramente quais atividades e serviços são passíveis de
terceirização e quais não são.121

A preocupação com as fraudes é também demonstrada por Mozart Victor

116
BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 9ª ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 312.
117
Idem.
118
Idem.
119
LEITE, 2015, p.302.
120
NASCIMENTO, 2006, p. 601.
121
CASTRO, Rubens Ferreira de. A terceirização no direito do trabalho. São Paulo: Malheiros, 2000,
p. 91.
46

Russomano.122 Referindo-se especificamente ao trabalho temporário regulado pela lei


nº 6.019/91, o autor faz o seguinte comentário:

"A verdade é que o trabalho temporário tem sido alvo de sérias e


justificadas críticas. Por um lado, porque o trabalho humano, dentro do
sistema que mencionamos, readquire, em certa medida, o caráter
reacionário de simples mercadoria. Por outro lado, porque, não raro, em
que pesem os esforços do legislador, muitas vezes, na prática, o
contrato de trabalho temporário encobre um contrato individual de
trabalho".123

No direito comparado, a doutrina juslaboralista clássica demonstra preocupações


semelhantes às esboçadas pelos autores brasileiros. Na Argentina, por exemplo, Jorge
Rodríguez Mancini afirma que a subcontratação é fonte de riscos para o trabalhador e,
assim como os autores supracitados, se refere também à problemática da isonomia
salarial. Segundo ele:

"La situación es compleja, pues el trabajador está sometido a dos


empresarios, que se reparten entre ellos el conjunto de derechos y
obligaciones que configuran la relación laboral. Esta modalidad es
también fuente de riesgos para el dependiente, por la posible insolvencia
del intermediario; a esto se debe sumar una serie de prácticas
desfavorables, tales como el pago de salarios inferiores a los de los
trabajadores permanentes, encumplimiento de las obligaciones de la
seguridad social, etcétera."124

Em Portugal, Antônio Monteiro Fernandes faz referência à problemática da


titularidade do poder disciplinar no âmbito da relação terceirizante, bem como à
confusão de responsabilidades quanto ao pagamento de salários e de obrigações
previdenciárias.125

Guilherme Machado Dray é mais um a reforçar a tendência de incluir o fenômeno


no contexto de flexibilização do Direito do Trabalho. Para ele:

“(...) face à precariedade da posição do trabalhador temporário, que não


se integra, nem nos quadros da entidade onde presta a sua actividade,
nem daquela que o contratou, o regime jurídico do trabalho temporário,

122
RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de Direito do Trabalho. 4ª ed. Curitiba: Juruá, 1991, pp. 80-81.
123
Idem.
124
MANCINI, 2004, p. 150.
125
FERNANDES, 1998, p. 150.
47

aprovado entre nós pelo Decreto-Lei nº. 358/89, de 17-10 (LTT), é


movido por uma preocupação fundamental de garantir a clarificação do
exercício da actividade e a protecção social dos trabalhadores
temporários. O trabalho temporário insere-se num fenômeno geral
de flexibilização da relação de trabalho. Trata-se, tal como noutros
casos, de uma modalidade contratual atípica, no sentido do contrato de
trabalho por tempo indeterminado”.126 (Grifo nosso).

Na Espanha, onde a terceirização se verifica especialmente através de empresas


de trabalho temporário, Manuel-Carlos Palomeque López e Manuel Álvarez de la
Rosa,127 também acompanhando a linha da doutrina juslaboralista clássica, afirmam
tratar-se de mais uma ferramenta de flexibilização das relações laborais.

O autor francês Jean-Claude Javillier refere-se ao que ele chama de pluralidade


de empregadores,128 fenômeno que estaria mais associado ao que se conhece no
direito brasileiro como grupo econômico.129

Para o doutrinador europeu, como artifício para se evitar expedientes


fraudulentos, deve-se adotar o princípio da “unidade social e econômica de trabalho”,
pelo qual se atribuiria responsabilidade solidária a todas as empresas envolvidas. 130

Em suma, fica claramente demonstrado que a doutrina jurídico-trabalhista


clássica, de maneira praticamente unânime, analisa o fenômeno da terceirização
inserindo-o no contexto de flexibilização das relações de emprego, aprecia as poucas
normas jurídicas existentes sobre o tema, aponta o instituto como causa – e não como
consequência – de uma ampla problemática social, distingue hipóteses fraudulentas e
não fraudulentas no uso do expediente e tenta oferecer respostas com base nos
preceitos clássicos aplicáveis à estrutura tradicional do trabalho subordinado.

126
DRAY, Guilherme Machado. Estudos de Direito do Trabalho, Vol. IV, Coimbra: Almedina, 2003,
pp.101 a 105.
127
LÓPEZ; LAROSA, 1997, pp. 715-719.
128
JAVILLIER, 1988, pp. 65-66.
129
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943):
Art. 2º Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade
econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
(...)
§ 2º Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria,
estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou
de qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente
responsáveis a empresa principal e cada uma das subordinadas.
130
JAVILLIER, 1988, pp. 65-66.
48

CAPÍTULO 3. A TERCEIRIZAÇÃO NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO

3.1 Contextualização do tema.

Como já mencionado nos capítulos anteriores, as ciências da administração


estiveram sempre à frente das ciências jurídicas no que se refere à compreensão e à
investigação das novas modalidades de relações de trabalho características do mundo
globalizado, em especial a terceirização.

Em grande parte, esse atraso no avanço das discussões jurídicas sobre o tema
se deve à própria inércia do legislador, já que a doutrina jurídica tradicional quase
sempre se restringe à análise dos enunciados normativos que tratam do assunto,
limitando-se – no que diz respeito à terceirização – a procurar enquadrá-la nos moldes
jurídicos tradicionais do trabalho subordinado bilateral ou até mesmo a simplesmente
negligenciar o fenômeno.

Conforme será analisado neste capítulo, o legislador brasileiro demorou bastante


a se debruçar sobre o fenômeno da terceirização, e quando o fez, foi de maneira
pontual e segmentalizada. Sobre esse fato, Maurício Godinho Delgado aponta um
“divórcio da ordem jurídica perante os novos fatos sociais”.131 Para o autor:

“O fenômeno terceirizante tem se desenvolvido e alargado sem merecer,


ao longo dos anos, cuidadoso esforço de normatização pelo legislador
pátrio. Isso significa que o fenômeno tem evoluído, em boa medida, à
margem da normatividade heterônoma estatal, como um processo algo
informal, situado fora dos traços gerais fixados pelo Direito do Trabalho
do país. Trata-se de exemplo marcante de divórcio da ordem jurídica
perante os novos fatos sociais, sem que desponte obra legiferante
consistente para sanar tal defasagem jurídica.” 132

A seguir, serão analisadas as principais legislações e enunciados sumulados na


experiência brasileira sobre o fenômeno da terceirização. Conforme se verá, há uma
constante tendência à ampliação da autorização legislativa para o uso da técnica.

131
DELGADO, 2016, p. 490.
132
Idem.
49

3.2 A subempreitada na Consolidação das Leis do Trabalho.

O contrato de empreitada, atualmente disciplinado pelos arts. 610 a 626 do


Código Civil brasileiro, é figura típica do direito privado. Nesse tipo de contrato, segundo
afirma Caio Mário da Silva Pereira, “uma das partes, (empreiteiro) se obriga, sem
subordinação ou dependência, a realizar certo trabalho para outra (dono da obra), com
material próprio ou por este fornecido, mediante remuneração global ou proporcional ao
trabalho executado”.133

Por sua vez, configura-se a subempreitada quando o empreiteiro delega a


terceiro a obrigação de realizar a obra, no todo ou em parte. Trata-se, portanto, de uma
espécie de subcontratação ou terceirização. Restrita, porém, ao campo de interesse da
seara juscivilista, tendo em vista especialmente a inexistência de subordinação —
elemento indispensável para a incidência do Direito do Trabalho, nos moldes eleitos
pela doutrina clássica — entre quaisquer das três partes envolvidas.

No que se refere ao tema, a preocupação do legislador trabalhista brasileiro


limitou-se à terceirização constituída entre o empreiteiro, o subempreiteiro e os
empregados contratados por este último. A Consolidação das Leis do Trabalho, em seu
art. 455, estabelece responsabilidade subsidiária do empreiteiro principal pelas
obrigações trabalhistas não adimplidas pelo subempreiteiro.134

Essa é, já na década de 40, a primeira norma justrabalhista positivada no direito


brasileiro sobre o instituto da terceirização. No momento histórico em questão, o
fenômeno da terceirização ainda se encontrava longe da difusão alcançada nas últimas
décadas do século XX. Assim, é compreensível que a CLT tenha apenas um artigo

133
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. V. III. 17ª ed. São Paulo: Forense, 2013,
p. 315.
134
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943):
Art. 455 - Nos contratos de subempreitada responderá o subempreiteiro pelas obrigações derivadas do
contrato de trabalho que celebrar, cabendo, todavia, aos empregados, o direito de reclamação contra o
empreiteiro principal pelo inadimplemento daquelas obrigações por parte do primeiro.
50

dedicado ao tema, e trate-o de maneira tão incipiente e pontual, apenas no que se


refere especificamente às relações de subempreitada.

Curiosamente, a CLT negligenciou o tratamento da aplicabilidade ou não da


norma em questão às relações trilaterais entre dono da obra, empreiteiro e empregados
deste último. Essa questão se tornou alvo de preocupação dos juristas em momento
bem posterior, tendo sido firmada orientação jurisprudencial pelo Tribunal Superior do
Trabalho sobre o tema apenas em 2011. 135 Fato que corrobora a constatação do atraso
dos cientistas do direito em se debruçar sobre assunto já vastamente estudado pelas
ciências da administração.

Hoje, segundo Godinho Delgado,136 a situação-tipo trazida pelo referido art. 455
da CLT já se encontra abarcada pela Súmula 331 do TST, especificamente em seu
inciso IV.137 Como se verá adiante, dado o vazio legislativo sobre o tema, essa súmula,
na prática, acabou ocupando a posição de principal fonte de disciplinamento da
terceirização no ordenamento jurídico brasileiro.

3.3 O decreto-lei 200/67.

O decreto-lei 200/1967 marca o início da tendência de progressiva


admissibilidade jurídica da terceirização no Brasil. O diploma trata essencialmente de
organização administrativa na esfera pública federal e, em seu art. 10, § 7º, dispõe o
seguinte:

135
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais.
Orientação Jurisprudencial nº 191. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho. Brasília, 31 maio 2011:
“Diante da inexistência de previsão legal específica, o contrato de empreitada de construção civil entre o
dono da obra e o empreiteiro não enseja responsabilidade solidária ou subsidiária nas obrigações
trabalhistas contraídas pelo empreiteiro, salvo sendo o dono da obra uma empresa construtora ou
incorporadora”.
136
DELGADO, 2016, p. 488.
137
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho.
Brasília, 31 maio 2011:
“(...)
IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade
subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação
processual e conste também do título executivo judicial”.
51

“Para melhor desincumbir-se das tarefas de planejamento, coordenação,


supervisão e contrôle e com o objetivo de impedir o crescimento
desmesurado da máquina administrativa, a Administração procurará
desobrigar-se da realização material de tarefas executivas, recorrendo,
sempre que possível, à execução indireta, mediante contrato, desde que
exista, na área, iniciativa privada suficientemente desenvolvida e
capacitada a desempenhar os encargos de execução.”

Como se percebe, o dispositivo já reflete a ideia neoliberal de supervalorização


da privatização das atividades e serviços públicos, como suposto meio para otimizar a
administração. Política marcante no mundo globalizado das últimas décadas do século
XX.

Com base na mesma ideia, o diploma traz também em seu art. 6º, III,138 a
descentralização, elencando-a como nada menos que um princípio fundamental das
atividades da Administração Federal.

Por outro lado, conforme observa Carelli,139 o referido decreto-lei ainda não fazia
menção à terceirização para fornecimento de pessoal, tendo em vista especialmente a
exigência constitucional de concurso público para ingresso na Administração. O texto
legal referia-se apenas à descentralização de tarefas para a iniciativa privada.

3.4 A lei nº 6.019/74.

O primeiro diploma legal a tratar especificamente de terceirização de mão-de-


obra, e dessa vez no âmbito privado, é a lei nº 6.019/74, a qual institui e regulamenta o
trabalho temporário.

Pelo art. 2º do referido diploma, fica estabelecido o conceito legal de trabalho


temporário, entendido como “aquele prestado por pessoa física a uma empresa, para
atender à necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente

138
BRASIL. Lei nº 6.019/1974:
Art. 6º. As atividades da Administração Federal obedecerão aos seguintes princípios fundamentais:
(...)
III – Descentralização.
139
CARELLI, 2003, p. 117.
52

ou a acréscimo extraordinário de serviços.”

A lei faculta a contratação de trabalhadores nas condições citadas acima através


de empresa interposta, especializada exclusivamente na colocação temporária de
trabalhadores à disposição de outras empresas.

Por sua vez, o art. 10 prevê um prazo máximo de três meses, prorrogável
mediante autorização do Ministério do Trabalho, para vigência da cessão de cada
trabalhador à empresa tomadora. O desrespeito ao prazo em questão, consoante aduz
Sérgio Pinto Martins,140 enseja o vínculo de emprego direto entre empregado e
tomadora.

É interessante destacar a distinção que a doutrina aponta entre o contrato de


trabalho temporário da lei nº 6.019/74 e o contrato de trabalho por prazo determinado
previsto no art. 443 da CLT.141 De acordo com Maurício Godinho Delgado,142 a
diferença subsume-se essencialmente a presença da empresa interposta, já que as
hipóteses legalmente previstas para os dois casos são bastante semelhantes sob a
ótica socioeconômica.

Através desse diploma, o legislador de 1974 buscou disciplinar e estabelecer


requisitos e critérios para aferição de legalidade das hipóteses de terceirização que
naquela década já vinham se disseminando na prática empresarial, especialmente
diante da dinamicidade crescente que a economia capitalista globalizada já
proporcionava.

Para Sebastião Machado Filho,143 o diploma em questão abriu espaço para que
se iniciasse uma ampla utilização da mão-de-obra terceirizada, de maneira
indiscriminada e precarizante. O autor corrobora a tendência da doutrina clássica de
enxergar a terceirização como causa e não como consequência do contexto de
dilapidação das garantias sociais.

140
MARTINS, 2009, p. 149.
141
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943).
Art. 443 - O contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou
por escrito e por prazo determinado ou indeterminado. (Grifo nosso).
142
DELGADO, 2016, p. 513.
143
MACHADO FILHO, Sebastião. “Marchandage” – A degradação do direito do trabalho e o retrocesso ao
trabalho escravo no Brasil pelas chamadas “empresas prestadoras de serviços”. In: Revista de
Informação Legislativa, Brasília, ano 20, n.º 79, p. 321, jul./set. 1983.
53

3.5 A lei nº 7.102/83.

Em 1983, é promulgada a lei nº 7.102, com o escopo de regulamentar as


atividades de empresas responsáveis pela segurança de estabelecimentos financeiros.
Por essa lei, os trabalhos de vigilância nas instituições bancárias e no transporte de
valores podem ser efetuados mediante a interposição de empresa especializada na
prestação desses serviços, sem a formação de vínculo empregatício entre os vigilantes
e as instituições financeiras.

Posteriormente, foi ampliado o alcance da permissão legal dessa espécie de


terceirização. Com o advento da lei nº 8.863/94, que alterou a nº 7.102, passou-se a
admitir a atuação dessas empresas interpostas em qualquer tipo de atividade de
vigilância patrimonial, e não apenas no âmbito bancário.

É interessante registrar mais uma vez a preocupação da doutrina clássica com o


estabelecimento de critérios técnicos para avaliar o binômio licitude/ilicitude nas
relações terceirizantes. No que se refere à lei em questão, a distinção entre os
conceitos de “vigia” e “vigilante” acabou se tornando um dos principais temas de
discussão doutrinária.144

3.6 A lei nº 9.472/97.

Em 1997, com o objetivo de organizar a exploração dos serviços de


telecomunicação, foi editada a lei nº 9.472. Dentre outros aspectos, o diploma visa
disciplinar os poderes regulatórios e fiscalizatórios da administração pública sobre a
concessão desses serviços, em especial através da Agência Nacional de
Telecomunicações (ANATEL).

A criação da lei nº 9.472/97 fez parte do amplo processo de privatização dos

144
DELGADO, 2016, p. 502.
54

serviços públicos e de redução do papel social do estado. O diploma é reflexo da


violenta guinada neoliberal vivenciada pelo Brasil na década de 90.

No campo justrabalhista, a lei inaugurou mais uma polêmica sobre o instituto da


terceirização. O art. 94, em seu inciso II, permite às concessionárias de
telecomunicações a subcontratação de trabalhadores até mesmo na execução de
atividades inerentes ao serviço:

“Art. 94. No cumprimento de seus deveres, a concessionária poderá,


observadas as condições e limites estabelecidos pela Agência:
(...)
II - contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes,
acessórias ou complementares ao serviço, bem como a implementação
de projetos associados”. (Grifo nosso).

Dessa forma, o dispositivo em questão traz uma modalidade de terceirização em


atividade-fim, independentemente dos termos da lei do trabalho temporário, que até
então era o único diploma a permitir expressamente a subcontratação em atividades
inerentes ao serviço da tomadora.

A partir daí, iniciou-se uma nova celeuma jurisprudencial a respeito do fenômeno.


De um lado, algumas decisões da Justiça do Trabalho têm acatado o permissivo do art.
94 como exceção à regra geral de vedação à terceirização em atividade-fim.145 O
Tribunal Superior do Trabalho, por sua vez, vêm consolidando entendimento contrário,
de modo a considerar ainda ilícita a terceirização em atividade-fim nos serviços de
telecomunicação, em interpretação sistemática da lei em questão, feita com base na
Constituição e nos princípios básicos do Direito do Trabalho.146

145
Nesse sentido, ver os seguintes julgados:
1) TRT-24 - RO: 299200500324003 MS 00299-2005-003-24-00-3 (RO), Relator: MAURÍCIO
EURICO VITRAL AMARO, Data de Julgamento: 21/03/2006, Data de Publicação: DO/MS Nº 6715 de
26/04/2006;
2) TRT-18 559201000618000 GO 00559-2010-006-18-00-0, Relator: ALDON DO VALE ALVES
TAGLIALEGNA, Data de Publicação: DJ Eletrônico Ano IV, Nº 223 de 15.12.2010, pág.9;
3) TRT-14 - RORS: 48720080051400 RO 00487.2008.005.14.00, Relator: JUÍZA ELANA CARDOSO
LOPES LEIVA DE FARIA, Data de Julgamento: 08/10/2008, PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação:
DETRT14 n.190, de 13/10/2008.
146
Nesse sentido, ver os seguintes julgados:
1) TST - AIRR: 11789220135030139, Relator: Paulo Américo Maia de Vasconcelos Filho, Data de
Julgamento: 03/09/2014, 6ª Turma, Data de Publicação: DEJT 05/09/2014;
55

Segundo Maurício Godinho Delgado,147 o advento da lei nº 9.472/97, de caráter


eminentemente administrativista, não teria o condão de provocar regressão
precarizante no subsistema jurídico-trabalhista.

O diploma deve ser interpretado em conformidade com a Constituição e com os


preceitos do Direito do Trabalho, evitando, segundo o citado autor, “a ideia primitiva de
verdadeiros corsários normativos a desrespeitar a integralidade e a unidade coerentes
de toda a ordem jurídica”.148

3.7 As súmulas do TST.

Diante da disseminação da terceirização em todos os segmentos, e não apenas


naqueles previstos pelas normas jurídicas já existentes, coube à jurisprudência
trabalhista a criação de parâmetros jurídicos para avaliar a licitude ou ilicitude do
fenômeno em cada caso.

Aprovada em 1986, a Súmula 256 do TST foi a primeira editada para tratar
especificamente da terceirização. Conforme leciona Amauri Mascaro Nascimento,149 o
TST, na redação dessa súmula, adotou o princípio da enumeração taxativa, de modo a
admitir apenas duas formas de subcontratação (o trabalho temporário da lei nº 6.019/74
e os serviços de vigilância da lei nº 7.102/83), e considerar proibidas as demais
hipóteses.

Posteriormente, em 1993, diante da constante multiplicação de novas


modalidades de subcontratação no mundo dos fatos, bem como da persistente inércia
legislativa, o TST elaborou a Súmula 331, cancelando a 256, e trazendo um
disciplinamento mais abrangente para o fenômeno.

2) TST - ED-AIRR: 17729820105030111 1772-98.2010.5.03.0111, Relatora: Delaíde Miranda


Arantes, Data de Julgamento: 28/08/2013, 7ª Turma, Data de Publicação: DEJT 06/09/2013;
3) TST - AIRR: 14575420115030105 1457-54.2011.5.03.0105, Relator: Delaíde Miranda Arantes,
Data de Julgamento: 08/05/2013, 7ª Turma, Data de Publicação: DEJT 10/05/2013.
147
DELGADO, 2016, p. 481.
148
Idem.
149
NASCIMENTO, 2006, p. 598.
56

Segundo Mascaro,150 a Súmula 331, ao contrário de sua antecessora, não adota


critério taxativo, mas sim genérico-finalístico, levando em conta primordialmente o fim
da contratação.

Em sua redação original, o enunciado contava com quatro incisos, nos quais, em
suma, além de se admitir as hipóteses que já eram previstas em lei e na súmula
anterior, foram incluídas como legais as terceirizações em atividades de conservação e
limpeza e em serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, desde que
inexistentes a pessoalidade e a subordinação direta.151

Ao analisar a súmula, a doutrina clássica demonstra preocupação em discernir,


com base no enunciado, as hipóteses fraudulentas das lícitas. Para Süssekind,152 é
necessário que a natureza dos bens ou serviços terceirizados justifique a execução por
empresa especializada, sob pena de desconfiguração do requisito da atividade-meio.
Além disso, para o autor, a subordinação direta entre trabalhador e tomador só pode
ocorrer nas hipóteses de trabalho temporário.153

Ainda sobre a questão da subordinação direta, Godinho segue o mesmo


raciocínio,154 afirmando que a mesma só é admissível no trabalho temporário, onde,
segundo ele, haveria uma dupla subordinação do trabalhador, o qual responderia tanto
à empresa prestadora de serviços quanto à tomadora. 155

Para Jorge Luiz Souto Maior,156 o TST, através do enunciado 331, simplesmente
transformou em letra morta o art. 2º da CLT, que conceitua empregador como aquele

150
Idem.
151
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho.
Brasília, 31 maio 2011:
“(...)
III - Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102,
de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividade-
meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta”.
152
SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito Constitucional do Trabalho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, pp.
103-104.
153
Idem.
154
DELGADO, 2016, p. 504.
155
Idem.
156
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. A terceirização sob uma perspectiva humanista. Justiça do
Trabalho, Porto Alegre, v. 21, n. 249, set. 2004, p. 29.
57

que assume os riscos da atividade econômica. 157

Em 2011, a Súmula 331 foi alterada, sendo modificada a redação do inciso IV e


incluídos os incisos V e VI. Com a mudança, ficou estabelecido um novo tratamento
para as relações de terceirização envolvendo a Administração Pública como
tomadora,158 o que será analisado na próxima seção, e foi estendida a responsabilidade
subsidiária do tomador, passando a abranger todas as verbas referentes ao período
laboral.159

3.8 A terceirização na Administração Pública

Ao contrário do posicionamento adotado com relação à terceirização no âmbito


privado, a Súmula 331 do TST, em seu item II,160 impede expressamente a formação de
vínculo empregatício entre a Administração Pública e o trabalhador que lhe preste
serviços em razão de contratação por empresa interposta, ainda que a intermediação
tenha sido feita de maneira irregular.

Essa vedação se justificou com base no art. 37, II, da Constituição Federal, 161

157
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943).
Art. 2º Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade
econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
158
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho.
Brasília, 31 maio 2011:
“(...)
V - Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas
mesmas condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações
da Lei n.º 8.666, de 21.06.1993, especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações
contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre
de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada”.
159
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331:
“(...)
VI - A responsabilidade subsidiária do tomador de serviços abrange todas as verbas decorrentes da
condenação referentes ao período da prestação laboral”.
160
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho.
Brasília, 31 maio 2011:
“(...)
II - A contratação irregular de trabalhador, mediante empresa interposta, não gera vínculo de emprego
com os órgãos da Administração Pública direta, indireta ou fundacional (art. 37, II, da CF/1988)”.
161
BRASIL. Constituição Federal de 1988.
58

que preceitua a exigência de aprovação prévia em concurso como requisito para a


investidura em cargo ou emprego público.

Apesar de não admitir a possibilidade de formação de vínculo empregatício entre


trabalhador terceirizado e Administração Pública, o TST, com fundamento no princípio
da isonomia, passou a reconhecer em favor dos terceirizados o direito às mesmas
verbas trabalhistas devidas aos empregados contratados diretamente pela entidade
pública,162 respeitado o valor da hora do salário mínimo e os valores referentes aos
depósitos de FGTS.163

Além disso, na redação original da Súmula 331, em seu inciso IV,164 o TST já
admitia expressamente a responsabilização subsidiária da Administração Pública, na
condição de tomadora de serviços, pelas verbas trabalhistas não adimplidas pelo
empregador.

O art. 71, § 1o, da lei de licitações e contratos públicos (lei 8.666/1993),165 porém,

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
(...)
II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de
provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na
forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre
nomeação e exoneração.
162
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais.
Orientação Jurisprudencial nº 383. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho. Brasília, 31 maio 2011:
“A contratação irregular de trabalhador, mediante empresa interposta, não gera vínculo de emprego com
ente da Administração Pública, não afastando, contudo, pelo princípio da isonomia, o direito dos
empregados terceirizados às mesmas verbas trabalhistas legais e normativas asseguradas àqueles
contratados pelo tomador dos serviços, desde que presente a igualdade de funções. (...)”.
163
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 363. Diário de Justiça. Brasília, 21 novembro
2003:
“A contratação de servidor público, após a CF/1988, sem prévia aprovação em concurso público,
encontra óbice no respectivo art. 37, II e § 2º, somente lhe conferindo direito ao pagamento da
contraprestação pactuada, em relação ao número de horas trabalhadas, respeitado o valor da hora do
salário mínimo, e dos valores referentes aos depósitos do FGTS.”
164
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331 (redação original). Diário de Justiça.
Brasília, 28 dezembro 1993:
“(...)
IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica na responsabilidade
subsidiária do tomador dos serviços, quanto àquelas obrigações, inclusive quanto aos órgãos da
administração direta, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades
de economia mista, desde que hajam participado da relação processual e constem também do título
executivo judicial (artigo 71 da Lei nº 8.666/93)”.
165
BRASIL. Lei nº 8.666/1993.
59

proíbe a transferência para o ente público dos encargos trabalhistas não honrados pelo
contratado. Com base na redação desse parágrafo, a Fazenda Pública jamais poderia
ser responsabilizada por tais verbas.

Na prática, portanto, através da Súmula 331, o TST afastava a aplicação do


referido dispositivo da lei nº 8.666/93. Não especificava, no entanto, se o afastamento
era por inconstitucionalidade ou em função de alguma interpretação sistêmica da norma
em questão.

Diante disso, em março de 2007, o governo do Distrito Federal ajuizou perante o


STF a Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 16, visando obter o pronunciamento
daquela corte acerca da constitucionalidade ou não do mencionado dispositivo da lei de
licitações e contratos públicos. O objetivo principal da referida ação era forçar a
declaração de ilegalidade do entendimento consolidado no antigo item IV da Súmula
331 do TST.

Tamanho era o interesse dos poderes públicos na utilização do expediente


terceirizante sem responsabilidades trabalhistas, que a União, boa parte dos estados
federados, e ainda vários municípios, ingressaram na ação na qualidade de amicus
curiae.

Ao final, a ADC nº 16 foi julgada procedente e o art. 71, § 1o, da lei nº 8.666/93
foi declarado constitucional pelo STF, nos seguintes termos:

“RESPONSABILIDADE CONTRATUAL. Subsidiária. Contrato com a


administração pública. Inadimplência negocial do outro contraente.
Transferência consequente e automática dos seus encargos
trabalhistas, fiscais e comerciais, resultantes da execução do
contrato, à administração. Impossibilidade jurídica. Consequência
proibida pelo art. 71, § 1o, da Lei federal nº 8.666/93.
Constitucionalidade reconhecida dessa norma. Ação direta de
constitucionalidade julgada, nesse sentido, procedente. Voto
vencido. É constitucional a norma inscrita no art. 71, § 1o, da Lei federal
nº 8.666, de 26 de junho de 1993, com a redação dada pela Lei nº

Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais
resultantes da execução do contrato.
§ 1º A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais não
transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do
contrato ou restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de
Imóveis.
60

9.032, de 1995.”166

Diante de toda a polêmica, o TST decidiu alterar o disposto do item IV da Súmula


331, retirando o trecho referente aos órgãos do poder público e mantendo a seguinte
redação:

“IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do


empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos
serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da
relação processual e conste também do título executivo judicial.” 167

Além disso, incluiu no enunciado o item V, passando a reconhecer a


responsabilidade subsidiária do Estado quando comprovada a conduta culposa da
entidade pública:

“V - Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta


respondem subsidiariamente, nas mesmas condições do item IV, caso
evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações da
Lei n.º 8.666, de 21.06.1993, especialmente na fiscalização do
cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de
serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre de
mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela
empresa regularmente contratada.”168

Como se observa, a corte trabalhista teve a preocupação de destacar que a


responsabilidade da Administração não decorre do mero inadimplemento da contratada.
Procurava demonstrar que não ter negligenciado o disposto no art. 71, § 1o, da lei nº
8.666/93.

Conforme explica Maurício Godinho Delgado,169 a culpa mencionada nesse novo


item V deve ser presumida, tendo em vista o dever legal de fiscalização pelo tomador
de serviços, cabendo à Administração Pública o ônus de comprovar o cumprimento das
obrigações decorrentes da lei 8.666/1993.

166
STF - ADC: 16/DF, Relator: ministro Cezar Peluso, Data de Julgamento: 24/11/2010, Plenário, Data de
Publicação: DJe 09/09/2011.
167
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula nº 331. Diário Eletrônico da Justiça do Trabalho.
Brasília, 31 maio 2011.
168
Idem.
169
DELGADO, 2016, p. 512.
61

Na prática, foi mantido o mesmo tratamento que já era dado antes do julgamento
da ADC nº 16 pelo STF. Até porque o TST em momento algum considerou
inconstitucional o art. 71, § 1o, da lei de licitações, apenas aplicava-o em conformidade
com os preceitos jurídico-trabalhistas.

No STF, a questão vem sendo atualmente rediscutida no julgamento do recurso


extraordinário 958.252, onde parte dos ministros da corte já se manifestaram favoráveis
à responsabilização objetiva solidária da Administração Pública por verbas trabalhistas
não adimplidas pela empresa contratada.

O referido recurso ainda se encontra pendente de decisão final. Atualmente


empatado diante dos votos já proferidos, o julgamento definitivo aguarda ainda a
sabatina do jurista recentemente indicado para compor a corte.170

3.9 O projeto de lei nº 4.330/2004.

Atualmente em tramitação no Congresso Nacional, aguardando apreciação pelo


Senado Federal, o projeto de lei nº 4.330/2004 pretende, segundo consta em sua
ementa, disciplinar os contratos de terceirização e as relações de trabalho deles
decorrentes.

Comparado ao regime jurídico atualmente adotado pela Justiça do Trabalho, o


referido projeto pretende trazer, como principal novidade, a completa legalização do
expediente terceirizante em todas as atividades da empresa tomadora, inclusive nas
atividades-fim.171

170
Julgamento no STF empata, e ministros resolvem esperar novo colega para decidir. Globo, Brasília,
15 fev. 2017. Disponível em <http://g1.globo.com/politica/noticia/julgamento-no-stf-empata-e-ministros-
resolvem-esperar-novo-colega-para-decidir.ghtml>. Acesso em: 15 fev. 2017.
171
BRASIL. Projeto de lei nº 4.330/2004.
Art. 4º Contratante é a pessoa física ou jurídica que celebra contrato de prestação de serviços
determinados e específicos com empresa prestadora de serviços a terceiros.
(...)
§ 2º O contrato de prestação de serviços pode versar sobre o desenvolvimento de atividades inerentes,
acessórias ou complementares à atividade econômica da contratante.
62

Do ponto de vista ideológico, é interessante registrar que, na exposição de


motivos do projeto, admite-se que a legislação brasileira “foi verdadeiramente
atropelada pela realidade” e faz-se uma notória exaltação da terceirização como técnica
empresarial indispensável no mundo contemporâneo:

“(...) a terceirização é uma das técnicas de administração do trabalho


que têm maior crescimento, tendo em vista a necessidade que a
empresa moderna tem de concentrar-se em seu negócio principal e na
melhoria da qualidade do produto ou da prestação de serviço”.

Ante a leitura do trecho acima, é inegável que o legislador brasileiro incorporou


fortemente a ideologia neoliberal, glorificando a atividade empresarial e impondo a
necessidade de facilitá-la e valorizá-la.

A justificativa do projeto revela ainda uma séria contradição em termos lógicos.


Se, conforme exposto na exposição de motivos, a terceirização for vantajosa por
possibilitar que a empresa se concentre em seu negócio principal, não há sentido em
lançar mão do expediente para as atividades-fim da empresa, que é justamente o que o
projeto de lei pretende tornar lícito.

Além disso, é imprecisa a afirmação de que a terceirização contribuiria para a


melhoria da qualidade do produto ou do serviço prestado pela empresa contratante, já
que esta, ao terceirizar sua atividade-fim, acabaria por se distanciar de seu negócio
principal, gerando uma desespecialização.

Para Jorge Luiz Souto Maior:

“(...) se concretamente a efetivação de uma terceirização de todas as


atividades, gerando o efeito óbvio da desvinculação da empresa de seu
produto, pode, de fato, melhorar a qualidade do produto e da prestação
do serviço, então a empresa contratante não possui uma relevância
específica. Não possui nada a oferecer em termos produtivos ou de
execução de serviços, não sendo nada além que uma instituição cujo
objeto é administrar os diversos tipos de exploração do trabalho.”172

172
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. PL 4.330/04: maldade explícita e ilusão. 2015. Disponível em:
<http://blogdaboitempo.com.br/2015/04/06/pl-4-33094-maldade-explicita-e-ilusao/>. Acesso em: 15 nov.
2016.
63

Quanto ao tratamento dispensado à terceirização no âmbito da Administração


Pública, o projeto nº 4.330, em seu art. 12,173 apenas faz remissão ao já citado art. 71
da lei nº 8.666/1993, que impede a responsabilização do Estado pelas verbas
trabalhistas não adimplidas pelo contratado.

Outro dispositivo que merece atenção no projeto é o art. 5º, 174 que permite que o
trabalhador terceirizado seja contratado sucessiva e consecutivamente pela mesma
tomadora através de diversas empresas prestadoras.

Esse artigo chancela de vez um dos maiores fatores de precarização do trabalho


oriundos da terceirização: a confusão de responsabilidades. A alta rotatividade de
empregadores gera instabilidade e insegurança jurídica para o trabalhador, dificultando
o reconhecimento e a posterior cobrança de seus créditos perante a Justiça do
Trabalho.

Em suma, o referido projeto pretende retirar por completo os ainda presentes


obstáculos ao expediente terceirizante. É mais uma contribuição para o processo de
completa dilapidação do sistema jurídico de proteção social.

Nas palavras de Souto Maior:

“Toda essa engenharia legislativa voltada à ampliação da terceirização


se põe, inegavelmente, a serviço da reprodução do grande capital que,
inclusive, visualizando os benefícios que esse mecanismo lhe
proporciona não raro chega, ele próprio, a constituir empresas de
prestação de serviços para execução de tarefas nas suas empresas
principais, fazendo-o, por certo, de forma disfarçada”.175

173
BRASIL. Projeto de lei nº 4.330/2004.
Art. 12. Nos contratos de prestação de serviços a terceiros em que a contratante for a Administração
Pública, a responsabilidade pelos encargos trabalhistas é regulada pelo art. 71 da Lei nº 8.666, de 21 de
junho de 1993.
174
Art. 5º São permitidas sucessivas contratações do trabalhador por diferentes empresas prestadoras de
serviços a terceiros, que prestem serviços à mesma contratante de forma consecutiva.
175
SOUTO MAIOR, 2015.
64

CAPÍTULO 4. A TERCEIRIZAÇÃO NO DIREITO POSITIVO COMPARADO

4.1 Contextualização do tema.

Neste capítulo, será analisado o tratamento jurídico dado à terceirização


trabalhista em sistemas estrangeiros. O objetivo dessa análise é identificar a forte
semelhança entre o itinerário percorrido pelo fenômeno no direito positivo brasileiro e
no histórico legislativo dos países que serão estudados.

Para possibilitar essa identificação com o ordenamento brasileiro e, ao mesmo


tempo, para demonstrar com maior exatidão a sequência dos marcos regulatórios,
optou-se pela análise de sistemas baseados na tradição romano-germânica, onde será
observada a sucessão dos diplomas legislativos de cada país. Desse modo, serão
apresentadas experiências latino-americanas e europeias.

Através da apreciação do histórico do tema no ordenamento jurídico desses


países, ficará demonstrado que, assim como ocorre no Brasil, há uma constante
tendência à progressiva legalização da utilização do instituto, seja através da edição de
diplomas regulamentando especificamente o tema, seja mediante a adoção pelos
tribunais de novos entendimentos jurisprudenciais, sempre no sentido de flexibilizar a
interpretação das normas jurídico-trabalhistas.

4.2 América Latina

4.2.1 Uruguai

No direito uruguaio, a terceirização é disciplinada em três diplomas: a lei nº


18.098/2007, que trata do instituto no âmbito da Administração Pública, e as leis nº
18.099/2007 e nº 18.251/2008, que regulam a subcontratação no setor empresarial
privado.
65

A lei nº 18.098/2007 traz os requisitos a serem exigidos das empresas


contratadas pelos entes estatais, tais como a apresentação periódica de documentação
comprobatória do pagamento dos salários e demais encargos trabalhistas em favor dos
trabalhadores terceirizados.

No setor privado, com base nas leis nº 18.099/2007 e nº 18.251/2008, é


estabelecido um rol de atividades onde a terceirização é possível, classificando o
instituto em subespécies (subcontratação, intermediação e fornecimento de mão-de-
obra).

A responsabilidade pelas verbas trabalhistas é, em regra, solidária entre


prestadora e tomadora, podendo esta última ser beneficiada com a responsabilidade
subsidiária, caso comprove ter exigido o cumprimento das obrigações trabalhistas por
parte da intermediária.

Na opinião de Gauthier,176 o direito uruguaio admite largamente a terceirização,


tendo em vista a amplitude do rol legal. Porém, na opinião do autor, as condições e
consequências trazidas na legislação possibilitam que a terceirização seja feita de
forma decente e responsável.177

4.2.2 Argentina

Na legislação argentina, a terceirização é disciplinada pela lei nº 30 de 2003. O


diploma também demonstra a preocupação com os expedientes fraudulentos. Assim,
traz um mecanismo de certificação das empresas prestadoras de serviços, com base
em critérios de comportamento, visando evitar a disseminação de empresas de
fachada.

Além disso, o direito argentino reconhece responsabilidade solidária entre


prestadora e tomadora no que se refere aos créditos trabalhistas e previdenciários dos

176
GAUTHIER, Gustavo. Amplificación de la responsabilidad del empresario que utiliza subcontratistas,
intermediarios o suministradores de mano de obra: el caso uruguayo a partir de la sanción de la Ley n.
18.099. In: Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15a Região. Campinas, n. 31, 2007, p. 199.
177
Idem.
66

empregados terceirizados.

4.2.3 Chile

No Chile, a lei nº 20.123/2006 regula a subcontratação trabalhista e as empresas


de intermediação de serviços transitórios. O diploma define empresa terceirizante como
sendo aquela que fornece trabalhadores sob sua responsabilidade para efetuar
serviços na planta da empresa tomadora.

Como ocorre nos países já citados, a legislação chilena também enumera as


atividades que podem ser terceirizadas. Seguindo a tendência dos vizinhos, a descrição
dessas atividades é bastante genérica, admitindo-se a utilização do expediente em
quase todos os setores.

À semelhança do que ocorre no Uruguai, a responsabilidade trabalhista das duas


empresas envolvidas é, em regra, solidária. No entanto, pode ser reconhecida a
subsidiariedade da responsabilidade da tomadora se esta demonstrar ter atuado junto à
prestadora de modo a zelar pelo cumprimento das obrigações trabalhistas e
previdenciárias.

Conforme ressalta Roberto Urmeneta,178 antes mesmo do advento da lei nº


20.123/2006 e das definições jurídicas dos contornos do fenômeno da terceirização, já
se reconhecia no código de trabalho chileno a responsabilidade subsidiária de empresa
tomadora de serviços em relação às obrigações trabalhistas de empresa intermediária.

4.2.4 Peru

No Peru, a terceirização é disciplinada em três diplomas: a lei nº 27.626/2002,

178
URMENETA, Roberto. La flexibilización de las relaciones de trabajo en Chile: contrataciones
temporales, subcontrataciones y despidos. In: TOKMAN, Víctor; MARTÍNEZ, Daniel (Ed.). Flexibilización
en el margen: la reforma del contrato de trabajo. Lima: Oficina Internacional del Trabajo, 1999. Cap. 3, p.
76.
67

que trata da terceirização no regime de cooperativas de trabalho; a lei nº 29.245/2008,


referente à terceirização no interior das empresas; e o decreto legislativo nº 1.038/2008,
que regulamenta acordo comercial com os Estados Unidos, pelo qual se estabelece a
terceirização como ferramenta para a geração de empregos.

A lei peruana sobre cooperativas permite a contratação de até 25% dos


trabalhadores em atividade na empresa tomadora por meio do regime em questão.
Além disso, é proibida a utilização de trabalhadores cooperados de maneira
permanente, devendo tais contratos possuírem natureza eventual e meramente
complementar.

Apesar de o diploma em questão ter sido promulgado apenas em 2002, é


interessante ressaltar, conforme observa Jorge Bernedo Alvarado,179 que a
disseminação das cooperativas de trabalho no Peru já remonta do início da década de
1990, já que as empresas as procuravam para reduzir seus custos com mão de obra.

Pela lei nº 29.245/2008, a terceirização trabalhista é admitida entre empresas


desde que a intermediária assuma os riscos, disponha dos recursos materiais e
financeiros para manutenção dos trabalhadores, e seja responsável pelos resultados
das atividades, ficando os terceirizados subordinados exclusivamente a ela.

Por sua vez, o decreto nº 1.038/2008, referente a acordo comercial entre Peru e
Estados Unidos é completamente permeado pela ideologia neoliberal. Em seu texto, o
uso do instituto da terceirização é estimulado, sendo tratado como um eficiente e
indispensável mecanismo para a otimização da produção e para a criação de postos de
trabalho.

Como ocorre nos vizinhos latino-americanos, a legislação peruana demonstra


preocupação com as fraudes no âmbito das terceirizações. Nos diplomas peruanos que
tratam do tema, é prevista, com base na primazia da realidade, a responsabilização
solidária da tomadora em caso de fraude, isto é, quando não obedecidos os requisitos
legais.

179
ALVARADO, Jorge Bernedo. Reforma laboral, empleo y salarios en el Perú. In: TOKMAN, Víctor;
MARTÍNEZ, Daniel (Ed.). Flexibilización en el margen: la reforma del contrato de trabajo. Lima: Oficina
Internacional del Trabajo, 1999. Cap. 5, p. 187.
68

4.3 Europa

4.3.1 Portugal

No direito português, a terceirização trabalhista é permitida apenas nas


modalidades de trabalho temporário, semelhantemente às hipóteses previstas na lei
brasileira sobre o tema (nº 6.019/74). Dessa forma, a intermediação é operada por meio
de empresas específicas, denominadas empresas de trabalho temporário (ETT).

Segundo afirma Dray,180 o trabalho temporário no sistema português somente se


admite de maneira excepcional, nas hipóteses previstas em lei, e respeitadas as
exigências formais e temporais, tendo em vista o princípio da estabilidade do emprego.

Atualmente, a terceirização por meio do instituto do trabalho temporário já


encontra guarida no código do trabalho português. Além disso, o regime jurídico das
empresas de trabalho temporário é disciplinado pelo Decreto-Lei nº 260/2009, que
enumera os requisitos para a constituição e funcionamento das empresas dessa
natureza.

4.3.2 Espanha

A terceirização já se encontra disciplinada no Estatuto dos Trabalhadores da


Espanha. O diploma é consideravelmente permissivo com relação à utilização do
expediente, exigindo apenas que a empresa prestadora comprove a quitação de suas
obrigações para com a seguridade social como requisito para atuar como prestadora de
mão de obra.

Apesar da liberação praticamente irrestrita do instituto, a legislação espanhola


estabelece a responsabilidade solidária de todas as empresas integrantes da cadeia
180
DRAY, 2003, p. 98.
69

produtiva, de modo a resolver a problemática da confusão de responsabilidades e


facilitar a cobrança judicial das obrigações trabalhistas não adimplidas.

4.3.3 França

Como consequência de sua tradição revolucionária – que trouxe consequências


não apenas para o campo das liberdades individuais, mas também no âmbito das lutas
sociais -, a França foi o primeiro país a proibir expressamente a terceirização, dando
origem à famosa expressão marchandage,181 desde a primeira metade do século XIX.

O código do trabalho francês, em seu art. L 125-1, traz expressa proibição ao


expediente, nos seguintes termos:

"Toda operação com fim lucrativo de fornecimento de mão-de-obra que


tiver por efeito causar um prejuízo ao trabalhador afetado ou frustrar a
aplicação das disposições da lei, do regulamento ou da convenção ou
acordo coletivo de trabalho é proibida”.

Apesar dessa proibição, o diploma francês, conforme se verifica no trecho acima,


reproduz a velha tendência doutrinária de rechaçar a terceirização apenas quando
demonstrado o prejuízo ao trabalhador ou a fraude à lei. Deixa, portanto, de considerar
que a terceirização é uma fraude por si só.

Por outro lado, à semelhança do que ocorre no direito português, o código de


trabalho francês, no art. 125-3, permite a terceirização nas modalidades de trabalho
temporário. Revela um acompanhamento da tendência contemporânea de progressiva
liberação do instituto.

4.3.4 Alemanha

A legislação alemã é ainda bastante omissa com relação à terceirização, não

181
Ver seção 2.7.
70

trazendo qualquer disposição específica sobre o tema. É até mesmo mais omissa que a
legislação brasileira, já que esta trata pontualmente do tema em diplomas esparsos.

Ainda assim, também de forma semelhante ao que se verifica nos demais


países, o fenômeno é bastante difundido na prática empresarial alemã, especialmente
através dos institutos civis da empreitada e da subempreitada. Além disso, a omissão
da lei também contribui para que o instituto seja largamente disciplinado através de
negociações coletivas.182

4.3.5 Itália

Ao longo dos anos, o sistema italiano demonstrou ser um dos mais refratários à
terceirização, sendo o instituto expressamente vedado pela lei nº 264/49, seja de forma
permanente ou temporária.

Por sua vez, a lei nº 1.369/60, em seu art. 3º, traz disposição a respeito da
empreitada, estabelecendo a responsabilidade solidária do tomador, nos seguintes
termos:

“os empresários arrendatários de obras ou serviços, inclusive os


trabalhos de porte, limpeza ou conservação normal das instalações, que
tenham que ser executados no interior de sua propriedade sob
organização e gestão do arrendador, serão solidários a este no
pagamento dos trabalhadores que deste dependam, de um salário
mínimo não inferior ao que percebem os trabalhadores que daqueles
dependam, bem como lhes assegurarão condições de trabalho não
inferiores às que desfrutem esses seus trabalhadores.”

Porém, como destaca Hugo Cavalcanti Melo Filho,183 as medidas de austeridade


impostas no seio da União Europeia após a crise de 2008, serviram para justificar uma
série de medidas precarizantes do trabalho.

Afirma o autor, se referindo especificamente à Itália:


182
MARTINS, 2014, pp. 16 e 17.
183
MELO FILHO, Hugo Cavalcanti. Unificação europeia e precarização do trabalho: o caso italiano. In:
MELO FILHO, Hugo Cavalcanti; PETRUCCI, Fabio (Org.). Direito Material e Processual do
Trabalho: uma interlocução entre Brasil e Itália. São Paulo: Ltr, 2016, pp. 63-68.
71

“Direitos trabalhistas foram reduzidos nos últimos anos, como, por


exemplo, a eliminação das restrições para a despedida, a ampliação das
possibilidades de trabalho a prazo e a autorização de terceirização de
mão de obra, além da instituição de diversas modalidades de trabalho
precário. Tudo isso a despeito de ser um dos Estados fundadores do
ideal de unificação européia e estar integrado, desde o princípio, ao
processo”.184

4.3.6 A União Europeia e a flexissegurança.

Conforme aponta Maria Clara Bernardes Pereira,185 as taxas de migrações


internacionais de trabalhadores para o interior das fronteiras europeias vêm crescendo
exponencialmente nas primeiras décadas do século XXI.

Com a extinção dos postos de trabalho tradicionais, essas novas massas de


trabalhadores permanecem à margem dos sistemas jurídicos clássicos de proteção
social, cabendo-lhes recorrer ao trabalho informal e às novas formas de trabalho
subordinado precarizado, ou simplesmente integrar as crescentes taxas do desemprego
estrutural.

Diante desse contexto socioeconômico contemporâneo e das novas


configurações das relações de trabalho, os países integrantes da União Europeia,
especialmente motivados pelas crises cíclicas na zona do euro, já percebem a crise do
modelo jurídico-trabalhista baseado no trabalho subordinado e no sindicalismo de
cunho reformista.

Diante desse cenário, a comissão das comunidades européias lançou no final de


2006 um livro verde, cujo propósito, nos termos utilizados pela comissão, é a
“modernização do direito do trabalho face às evoluções dos mercados do trabalho

184
Ibidem, p. 68.
185
PEREIRA, Maria Clara Bernardes. A livre circulação dos trabalhadores no âmbito da comunidade
europeia e do Mercosul: Para além da doutrina jurídico-trabalhista tradicional centrada no trabalho
subordinado e no sindicalismo reformista. 2012. Dissertação (Mestrado) - Curso de Direito, Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2012, pp. 80-81.
72

europeu, que devem demonstrar maior flexibilidade e garantir a otimização da


segurança”. 186

Trata-se do que os europeus convencionaram chamar de “flexissegurança”: a


tentativa de conciliar a crescente flexibilização do mercado de trabalho globalizado com
a manutenção da segurança jurídica dos trabalhadores perante a ameaça constante do
desemprego estrutural.

Segundo a professora Isabele D’Angelo:

“Outro ponto que tem recebido bastante enfoque e crítica é a busca


simultânea por segurança e flexibilização no emprego. Desta forma,
caberia à norma jurídica trabalhista fazer crescer a economia e, ao
mesmo tempo, gerar empregos: é a complexa e problemática
‘flexissegurança’”.187

Nas palavras usadas no livro verde:

“A boa gestão da inovação e da mudança implica que os mercados do


trabalho tomem em consideração três aspectos principais: flexibilidade,
segurança no emprego e segmentação”.188

Conforme explica José Affonso Dallegrave Neto,189 a flexissegurança, na prática,


se traduz em uma combinação de políticas que, de um lado, buscam flexibilizar ainda
mais as relações de trabalho – permitindo novas formas contratuais e facilitando a
rescisão sem ônus para o empregador – e, em contrapartida, tentam compensar o
trabalhador atingido pelo desemprego, seja através da ampliação do seguro-
desemprego, seja mediante artifícios que viabilizem o retorno do indivíduo ao mercado
de trabalho.

186
Comissão das Comunidades Europeias. Livro Verde sobre a modernização do direito do
trabalho. Disponível em: <http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=URISERV:c10312>. Acesso
em: 03 jan. 2017.
187
D’ANGELO, 2014, p. 56.
188
Comissão das Comunidades Europeias, op. cit.
189
DALLEGRAVE NETO, José Afonso. Flexisegurança nas relações de Trabalho: O novo debate
europeu. Disponível em: <http://trabalhoeconcurso.blogspot.com.br/2010/11/flexiseguranca-nas-relacoes-
de-trabalho.html>. Acesso em: 03 jan. 2017.
73

Dentre as principais estratégias adotadas no contexto da flexissegurança,


destaca-se, conforme aponta Isabele D’Angelo,190 o estímulo à triangulação contratual
com a aplicação de fórmulas de corresponsabilidades. Nesse aspecto, as empresas de
terceirização de mão de obra assumem papel fundamental.

Um dos principais críticos ao discurso da flexissegurança, Antonio Martín


Valverde afirma que o livro verde simplesmente negligencia o histórico das relações
laborais da Europa nas últimas décadas.191 Além disso, ignora o potencial das relações
coletivas ou sindicais como ferramenta para a manutenção da segurança social do
trabalhador e sequer questiona ou investiga as causas do desemprego estrutural e das
crises do contrato individual de trabalho.

Segundo Dallegrave Neto:

“De uma análise fria e sem romantismo, chega-se a inferência de que se


trata de mais uma medida em sintonia com a ideologia neoliberal, vez
que os objetivos são claros: facilitar a vida da iniciativa privada em
detrimento das condições de trabalho que se tornarão mais precárias em
face da política de flexibilidade em seus diversos aspectos: contratação
temporária; dispensa sem ônus; modalidades de salário vinculadas ao
resultado; fixação de horários flexíveis visando atender exclusivamente a
demanda da produção”.192

Por trás do discurso político da flexissegurança, há o reconhecimento da


flexibilização do trabalho como algo irreversível ou inevitável. O ultraliberalismo global é
tomado como pressuposto da política econômica dos países europeus, e a
flexissegurança aparece como mais um artifício de legitimação desse sistema.

Ironicamente, a alternativa sugerida pela União Europeia para contornar a crise


do trabalho sequer questiona os fundamentos ideológicos do sistema econômico que
retroalimenta essa crise.

190
D’ANGELO, 2014, p. 57.
191
VALVERDE, Antonio Martín. Flexiguridad: um nuevo derecho del trabajo?: A propósito del Libro Verde
modernizar el derecho laboral para afrontar los retos del siglo XXI. Revista de Pensamiento
Jurídico, Valência, n. 4, 2008, p. 96.
192
DALLEGRAVE NETO, op. cit.
74

Não é por acaso que as consequências da aplicação dos preceitos contidos no


livro verde, até o momento, em nada acrescentaram para o enfrentamento da crise do
trabalho. Pelo contrário, apenas contribuíram para acentuar os fatores de precarização.

Segundo Hugo Melo Filho:

“Não é difícil constatar, hoje, que os propósitos indicados no Livro Verde


produziram, ao menos, três consequências importantes nos mercados
da União Europeia: 1) segmentação do mercado de trabalho; 2) redução
substancial da proteção do emprego para determinados tipos de
trabalhadores; 3) banalização da gestão dos recursos humanos”.193

193
MELO FILHO, 2016, pp. 71-72.
75

CAPÍTULO 5. A TERCEIRIZAÇÃO NA TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA

5.1 Contextualização do tema.

A doutrina justrabalhista tradicional avalia a terceirização à luz dos preceitos da


relação de emprego clássica: bilateral e baseada na lógica do trabalho subordinado.

Contextualiza o instituto no cenário de flexibilização do Direito do Trabalho,


enxerga-o como causa de fraudes às garantias sociais consolidadas no regime do
Estado do Bem-Estar Social, e se prende a categorizar hipóteses de licitude e ilicitude
no uso do expediente.

Ratificando essa tendência, Maurício Godinho Delgado,194 por exemplo, propõe


um controle civilizatório da terceirização, justamente por reconhecê-la como causa de
expedientes fraudulentos e não como consequência da transição do fordismo para o
sistema de acumulação flexível.

Da mesma forma, Alice Monteiro de Barros195 e Carlos Henrique Bezerra Leite 196
argumentam que o fenômeno é causa de problemas relacionados, por exemplo, à
isonomia salarial e ao enquadramento sindical.

Acompanham também essa tendência, como visto no capítulo 2, os autores


Amauri Mascaro Nascimento,197 Mozart Victor Russomano,198 Rubens Ferreira de
Castro,199 José Janguiê Bezerra Diniz,200 Arnaldo Süssekind 201e Rodrigo de Lacerda
Carelli.202

Também os autores clássicos estrangeiros – como Roberto Urmeneta,203 Jorge

194
DELGADO, 2016, pp. 525-536.
195
BARROS, 2013, p. 312.
196
LEITE, 2015, p.302.
197
NASCIMENTO, 2006, p. 601.
198
RUSSOMANO, 1991, pp. 80-81.
199
CASTRO, 2000, p. 91.
200
DINIZ, 1999, p. 15.
201
SÜSSEKIND, 2004, pp. 103-104.
202
CARELLI, 2003, pp. 92-93.
203
URMENETA, 1999, p. 76.
76

Bernedo Alvarado,204 Antônio Monteiro Fernandes,205 Palomeque López206 e Jean-


Claude Javillier207 - compartilham da mesma linha teórica.

Os pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade


Federal de Pernambuco, na linha de pesquisa relativa ao Direito do Trabalho coligado à
teoria social crítica, têm oferecido uma verdadeira ruptura na forma de encarar as
transformações vividas pelo mundo do trabalho.

Nesse contexto, Isabele de Moraes D’Angelo traz uma mudança de panorama, 208
ao romper o paradigma do trabalho subordinado como foco das teorizações do Direito
do Trabalho e propor a ampliação do objeto desse ramo.

Seguindo o mesmo itinerário, Zélia Costa Santos Bezerra aborda a


reconfiguração da subordinação jurídico-trabalhista na sociedade globalizada e
informatizada.209

As pesquisas do referido Programa de Pós-graduação têm contribuído para


ampliar os horizontes do Direito do Trabalho, principalmente por reconhecer a crise do
contrato de trabalho tradicional e do sindicalismo reformista e buscar soluções para
enfrentar as patologias sociais que se multiplicam na sociedade pós-industrial.

No presente capítulo, serão analisados estudos dessa linha de pesquisa e de


demais autores que, contrariando a tendência da doutrina justrabalhista clássica,
enxergam o fenômeno da terceirização de maneira complexa e multidisciplinar, levando
em consideração questões históricas, sociológicas e econômicas existentes por trás da
disseminação generalizada desse instituto, e desvendando os fatores político-
ideológicos envolvidos.

Tais autores oferecem visões mais acuradas sobre a terceirização do trabalho.


Refutam a doutrina tradicional, rejeitando suas propostas e elaborando novas

204
ALVARADO, 1999, p. 187.
205
FERNANDES, 1998, p. 150.
206
LÓPEZ; LAROSA, 1997, pp. 715-719.
207
JAVILLIER, 1988, pp. 65-66.
208
D’ANGELO, 2014.
209
BEZERRA, Zélia Costa Santos. A subordinação no direito do trabalho: as implicações da
tecnologia da informação e da comunicação na reconfiguração deste instituto. Dissertação (Mestrado) -
Curso de Direito, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016, pp. 97-107.
77

sugestões para lidar com a problemática.

5.2 O fim da Guerra Fria e a reestruturação do capitalismo.

Em uma complexa análise sobre a trajetória do capitalismo na segunda metade


do século XX, Wilson Ramos Filho descreve um movimento de relegitimação do modo
de produção capitalista ocorrido nesse período, no qual a crise do modelo fordista e o
fim do pleno emprego, ao invés de fortalecerem o paradigma socialista capitaneado
pela União Soviética, serviram de pretexto para a afirmação ideológica do
neoliberalismo.210

Nesse contexto, o sistema capitalista consegue apropriar-se das principais


críticas que lhe eram direcionadas, especialmente da crítica estética, reconfigurando-as
em seu favor, e reestruturando-se ideológica e politicamente. Ocorre o que Luc
Boltanski e Ève Chiapello apontam ser a transição para um novo espírito do
capitalismo.211

Para ilustrar esse processo de desarmamento da crítica ao sistema, Wilson


Ramos Filho faz referência ao ano de 1968 e às inúmeras manifestações políticas nele
ocorridas.212 Curiosamente, apesar das críticas constantes e generalizadas ao sistema
capitalista e a todas as mazelas dele decorrentes, vivenciou-se uma forte reação
conservadora e uma renovação do discurso capitalista. No mesmo ano, políticos
ultraconservadores e neoliberais conquistaram vitórias eleitorais na Europa e nos EUA,
como Charles De Gaulle e Richard Nixon.213

Nas décadas seguintes, o socialismo real experimentou um forte declínio. As


supressões de liberdades nas experiências soviética e chinesa desencantavam a
juventude que se mobilizara em 1968, facilitando a reafirmação ideológica das

210
RAMOS FILHO, Wilson. Direito capitalista do trabalho: História, mitos e perspectivas no Brasil. São
Paulo: LTr, 2012, pp. 269-359.
211
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 424.
212
RAMOS FILHO, 2012, p. 308.
213
Idem.
78

democracias ocidentais e a apropriação da crítica estética em prol do sistema


capitalista.

Com o enfraquecimento dos paradigmas socialistas, as potências ocidentais


adquiriam liberdade para se desfazer das garantias sociais instituídas no Welfare State
e permitir novamente o reforço da superexploração da força de trabalho em favor da
acumulação capitalista.

Paralelamente, conforme destaca Ricardo Antunes,214 a força dos capitais


transnacionais em escala global impõe o desmonte da legislação social protetora do
trabalho em todo o planeta, espalhando a tendência iniciada nos EUA e na Europa com
os governos Reagan e Thatcher, e fazendo com que se disseminem inúmeras formas
de precarização e destruição dos direitos sociais conquistados desde a Revolução
Industrial.

5.3 A terceirização como ferramenta de desagrupamento da classe trabalhadora.

Para contextualizar o fenômeno da terceirização, o professor Márcio Túlio Viana


faz inicialmente uma remissão histórica ao período pré-industrial, destacando as formas
de contratação de mão de obra para o trabalho no interior das primeiras fábricas. 215

Naquela fase, os primeiros empresários costumavam recorrer a sujeitos


conhecidos como “gatos”, indivíduos cuja função consistia em arregimentar pessoas -
quase sempre em situação de miséria e vulnerabilidade – para transferi-las aos
industriais.

Em algum tempo, para conferir mais disciplina e homogeneidade aos


trabalhadores a eles submetidos, os empresários começaram a arregimentá-los
diretamente, dispensando a atuação dos “gatos”.

214
ANTUNES, Ricardo. A nova morfologia do trabalho e suas principais tendências: informalidade,
infoproletariado, (i)materialidade e valor. In: ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho.
Vol. II. São Paulo: Boitempo, 2013.
215
VIANA, Márcio Túlio. As várias faces da terceirização. Revista da Faculdade de Direito da
UFMG, Belo Horizonte, n. 54, jan./jun. 2009, pp. 142-143.
79

É nesse momento que começam a surgir os embriões dos sindicatos, das greves
e das lutas coletivas que culminariam na origem do Direito do Trabalho. A
homogeneidade dos trabalhadores na empresa facilitava o diálogo e,
consequentemente, a união entre eles.

Conforme explica Márcio Túlio Viana:

“(...) o modelo de produção trazia embutido um paradoxo que parecia


invencível: de um lado, via-se obrigado a reunir e uniformizar os
trabalhadores, para que eles produzissem de forma vigiada, metódica e
previsível; de outro, não tinha como evitar a união que a reunião
provocava”.216

De maneira irônica, porém, tendo em vista a ampla disseminação do fenômeno


da terceirização na contemporaneidade, é inevitável afirmar que a figura do “gato”
ressurgiu na sociedade pós-industrial.

Ainda segundo o autor, a terceirização no cenário contemporâneo pode ser


externa ou interna.217

A primeira é a que se verifica nos chamados grupos econômicos, onde as


empresas se subdividem em várias partes, dando origem a múltiplas parceiras. Dessa
forma, os trabalhadores também se desagrupam. E, ao contrário do que ocorria na fase
pré-industrial, a administração da cadeia produtiva não é prejudicada pela
descentralização, já que os avanços na tecnologia da informação permitem o controle à
distância.

A terceirização interna, por sua vez, é a forma mais comum. Ocorre quando os
trabalhadores são subdivididos dentro da própria empresa. Os contratados diretamente
e os terceirizados convivem sob o mesmo teto, integrando, porém, categorias distintas
dentro da estrutura organizacional da empresa.

Boltanski e Chiapelo utilizam a expressão “dualização dos assalariados” para se


referirem a esse fenômeno. 218 Segundo esses autores, trabalhadores de uma mesma
empresa passam a ser geridos por diferentes estatutos, ficando submetidos a mais de
216
Ibidem, p. 143.
217
Ibidem, p. 145.
218
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 254.
80

um patrão e a distintos regimes jurídicos no que se refere, por exemplo, a horários e


remunerações.219

Como afirma Márcio Túlio Viana,220 a terceirização externa serve para “produzir
sem reunir”, e a terceirização interna serve para “reunir sem unir”. Ou seja, a primeira
permite a separação física dos trabalhadores sem prejuízo do controle da produção; e a
segunda viabiliza uma separação psicológica, apesar da proximidade física.

Apesar de ser geralmente encarada como uma mera técnica de gestão


empresarial, a terceirização, no fundo, serve para camuflar, manter e legitimar uma
complexa relação de poder. Assim:

“(...) mais do que uma técnica de gerência, a terceirização se revela


uma estratégia de poder. Ela divide já não apenas o trabalho, mas a
classe que trabalha, semeando o medo no chão da fábrica e colhendo
um novo espécime de trabalhador – mais dócil e solitário, e ao mesmo
tempo sempre móvel, modelo ideal para um ritmo de trabalho trepidante,
mutante e absorvente, tal como as músicas, as modas e tudo o mais que
nos cerca”.221

São inócuas as constantes tentativas da doutrina justrabalhista tradicional de


categorizar a terceirização em modelos lícitos e modelos ilícitos. Conforme argumenta o
citado professor, mais proveitoso que procurar fraudes presentes na utilização do
expediente é reconhecer que o expediente já é, por si só, uma fraude. 222

A título de proposições jurídico-interpretativas para lidar com o fenômeno, o autor


sugere a aplicação da responsabilidade solidária do tomador dos serviços para com os
créditos trabalhistas do terceirizado.223

Para tanto, o autor lança mão da interpretação que deu origem à Súmula 331,224
com base nos critérios de subordinação e pessoalidade. Isso porque a pessoalidade é
critério bastante relativo, estando frequentemente presente nas relações de
subcontratação. A subordinação, por sua vez, é praticamente inerente a um contexto no

219
Idem.
220
VIANA, 2009, p. 145.
221
Ibidem, p.148.
222
VIANA, 2013, p. 132.
223
Ibidem, p. 150.
224
Ibidem, p. 152.
81

qual um sujeito faz uso da força de trabalho do outro.

É quase impossível imaginar um trabalhador terceirizado que - prestando seus


serviços nas dependências do estabelecimento do tomador, por exemplo – não se
encontre minimamente subordinado às diretrizes genéricas da empresa ou mesmo às
próprias determinações diretas emanadas dos representantes do empregador, tal como
um gerente responsável por coordenar e observar a forma como os serviços são
prestados, até mesmo para adequar a prestação aos interesses e ao modus operandi
da empresa.

O professor Márcio Túlio sugere ainda a aplicação do princípio da isonomia no


que se refere ao pagamento de salários e demais encargos em favor do terceirizado, de
modo a equipará-lo aos empregados contratados diretamente que exerçam a mesma
função.225

Conforme será visto no capítulo 7, onde serão delineadas propostas de cunho


hermenêutico para lidar com a terceirização, esse raciocínio é uma utilização extensiva
do princípio da primazia da realidade. A CLT, quando delineia os critérios para a
equiparação salarial, inclui o requisito “mesmo empregador”.226 Com base na primazia
da realidade, porém, tal expressão deve ser interpretada como “mesma empresa”, já
que, na prática, terceirizado e contratado direto estão prestando seus serviços em favor
de um mesmo ente.

5.4 A coisificação do trabalhador subcontratado.

O professor Jorge Luís Souto Maior é certamente um dos autores mais


duramente críticos ao fenômeno da terceirização, pois o analisa de maneira aguçada e
leva em consideração especialmente os contextos políticos e sociais que envolvem o
instituto.

225
Idem.
226
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943):
Art. 461 - Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na
mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade.
82

Em sua carta aberta aos “terceirizados” e à comunidade jurídica, afirma tratar-se


a terceirização de “um fenômeno criado pelo direito”,227 o que fundamentaria a
responsabilidade do direito pelas mazelas a ele inerentes.228

Nesse ponto, porém, é preciso ressaltar que a afirmação do autor se mostra em


desconsonância com o que vem sendo analisado no presente trabalho, já que a
terceirização surge no âmbito das ciências da administração, como uma técnica de
gestão empresarial.

Essa mesma discordância é também manifestada por Everaldo Gaspar Lopes de


Andrade.229 Segundo ele, a terceirização não foi um fenômeno criado, mas sim um
fenômeno legitimado pelo direito.230

Isso, porém, não elide a responsabilidade do direito pelas patologias decorrentes


do fenômeno, o que é também endossado por Everaldo Gaspar.231

Seguindo em sua análise sobre o instituto, Jorge Luís Souto Maior argumenta
que a terceirização, para além de significar uma precarização das condições jurídicas
do trabalhador, é um verdadeiro mecanismo de objetificação do ser humano. Isso
porque o fenômeno transforma o indivíduo em mercadoria, invisibilizando-o e impondo
obstáculos ao reconhecimento de seus direitos. 232 Segundo ele:

“Do ponto de vista dos trabalhadores terceirizados as consequências


dessa situação vão muito além da mera precarização das garantias do
trabalho, significando mesmo uma forma de precarização da sua própria
condição humana, vez que são desalojados do contexto da unidade em
que prestam serviços. Os ‘terceirizados’, assim, tornam-se em objetos
de contratos e do ponto de vista da realidade, transformam-se em seres
invisíveis. E isso não é mera figura retórica, pois a maior forma de
alguém ver reduzida a sua condição de cidadão é lhe retirar a
possibilidade concreta de lutar pelo seu direito e é isso, exatamente, o

227
SOUTO MAIOR, 2011, p. 135.
228
Idem.
229
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. As relações individuais e coletivas de trabalho no contexto da
dualização do assalariado, da teoria organizacional crítica e das teorias dos movimentos sociais: para
uma reconfiguração hermenêutica sobre o fenômeno terceirização. Duc In Altum: Caderno de
Direito, Recife, v. 6, n. 10, jul-dez., 2014, p.78.
230
Idem.
231
Idem.
232
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. Carta Aberta aos “terceirizados” e à comunidade jurídica. Belém: Revista
do TRT-6ª. Região, v. 44, n. 86, jan/jun 2011, p. 135.
83

que faz a terceirização.”233

Em outro artigo,234 o autor reafirma o componente de desumanização presente


na disseminação dos expedientes terceirizantes. Segundo ele, a terceirização contribui
para transformar o trabalhador em número, em nada mais que um objeto facilmente
descartável.235

O processo terceirizante provoca um distanciamento entre o trabalhador e o


tomador dos serviços, de modo que aquele se torna indiferente aos olhos deste último.
O tomador não mais precisa se preocupar com as condições daquele indivíduo. Sua
preocupação subsume-se à relação comercial firmada com a empresa prestadora de
serviços.

As eventuais preocupações que o empresário teria com relação à saúde ou à


segurança do trabalhador podem ser negligenciadas, já que aquele muitas vezes
sequer possui informações sobre os funcionários da prestadora de serviços que se
encontram a seu dispor.

Sobre a proposta legislativa de permitir a terceirização em atividades-fim (Projeto


de lei nº 4.330/2004), o autor aponta a contradição entre tal proposta e o tão glorificado
espírito de empreendedorismo:

“(...) quando se defende a terceirização da atividade-fim o que se está


fazendo é contrariar a própria essência do preconizado
empreendedorismo, baseado na ideia de que se deve atuar em ramos
nos quais se detenha o conhecimento e se possa agir com maior
competência. Ora, se uma empresa terceiriza a sua finalidade ela deixa
de ser uma empreendedora, não sendo mais que mera compradora dos
serviços de outra empresa, perdendo a dita especialidade e transferindo
para a prestadora dos serviços os próprios atributos meritórios.”236

À semelhança de Isabele D’ângelo,237 Souto Maior contribui para demonstrar a

233
Idem.
234
SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. Terceirização e a sociedade dos ilustres desconhecidos. 2015.
Disponível em: <http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Principios-Fundamentais/Terceirizacao-e-a-sociedade-
dos-ilustres-desconhecidos-/40/33646>. Acesso em: 25 nov. 2016.
235
Idem.
236
Idem.
237
D’ANGELO, 2014, pp. 47-59.
84

incoerência nos artifícios retóricos usados em favor do expediente terceirizante.


Argumentos quase sempre fundamentados nos velhos valores do liberalismo clássico,
como o enaltecimento do individualismo, da meritocracia e da livre iniciativa.

Por fim, como meio para enfrentamento de toda essa problemática, o autor
destaca a necessidade de mobilização dos trabalhadores.238 Reafirma, portanto, a
importância da luta coletiva como fonte genuína do Direito do Trabalho.

5.5 A terceirização em meio às alternativas neoliberais para a crise do trabalho


subordinado.

Analisando a subordinação no Direito do Trabalho, a professora Isabele Bandeira


de Moraes D’Angelo afirma que a doutrina trabalhista clássica, para enfrentar a crise do
contrato individual de trabalho, apega-se a alternativas que apenas relegitimam o
sistema ultraliberal e o enaltecimento do trabalho subordinado.239 Para ela:

“Como parte da doutrina se nega a enfrentar a ideologia centrada na


glorificação do trabalho subordinado e como se nega a reconhecer as
evidências empíricas e analíticas que comprovam a existência do
desemprego estrutural e seu impacto nas formas de sociabilidade – em
que o trabalho humano subordinado deixa de ser o ethos fundamental
da convivência das pessoas em sociedade – procura agarrar-se a outras
alternativas.”240

Zélia Costa Santos Bezerra, por sua vez, acompanha as críticas direcionadas ao
paradigma do trabalho subordinado como objeto do Direito do Trabalho e aponta a
reconfiguração da subordinação na sociedade pós-industrial, com a captura do gênero
humano em sua integralidade.241

Reginaldo Melhado descreve como a doutrina jurídico-trabalhista clássica

238
SOUTO MAIOR, 2011, p. 145.
239
D’ANGELO, 2014, pp. 47-59.
240
Ibidem, p. 47.
241
BEZERRA, Zélia Costa Santos. A subordinação no direito do trabalho: as implicações da
tecnologia da informação e da comunicação na reconfiguração deste instituto. Dissertação (Mestrado) -
Curso de Direito, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016.
85

contribui para legitimar a subordinação nas relações de trabalho.242 Na medida em que


o jurista elege um objeto de estudo, ele automaticamente recepciona e reforça as
premissas ideológicas existentes por trás daquele objeto. 243

Para Isabele D’angelo,244 a doutrina clássica ratifica essa tendência nas


alternativas trazidas para lidar com a crise do contrato individual de trabalho: a
parassubordinação, a empregabilidade, o empreendedorismo e a flexissegurança.

A parassubordinação seria uma espécie de intermediária entre o trabalho


subordinado e o trabalho autônomo. No trabalho parassubordinado, estão presentes os
elementos caracterizadores da relação de emprego clássica, inclusive a subordinação.
Porém, o trabalhador parassubordinado goza de um maior grau de autonomia se
comparado aos demais empregados, especialmente do ponto de vista técnico.

A relação de parassubordinação é comumente firmada com empregados que


possuem um alto grau de conhecimento ou especialização técnica, o que justificaria a
maior autonomia.

Segundo a definição de Amauri Mascaro Nascimento:

“O trabalho parassubordinado é uma categoria intermediária entre o


autônomo e o subordinado, abrangendo tipos de trabalho que não se
enquadram exatamente em uma das duas modalidades tradicionais,
entre as quais se situam, como a representação comercial, o trabalho
dos profissionais liberais e outras atividades atípicas, nas quais o
trabalho é prestado com pessoalidade, continuidade e coordenação.
Seria a hipótese, se cabível, do trabalho autônomo com características
assemelháveis ao trabalho subordinado.”245

A empregabilidade, por sua vez, diz respeito à capacitação contínua do


trabalhador, de modo a mantê-lo permanentemente apto a desempenhar diferentes
funções no mercado de trabalho, tornando-se constantemente empregável.

Como afirma Isabele D’Angelo,246 a empregabilidade surge como alternativa

242
MELHADO, Reginaldo. Poder e sujeição: os fundamentos da relação de poder entre capital e
trabalho e o conceito de subordinação. São Paulo: LTr, 2003, pp. 20-21.
243
Idem.
244
D’ANGELO, 2014, pp. 47-59.
245
NASCIMENTO, 2006, p. 413.
246
D’ANGELO, 2014, pp. 52-53.
86

neoliberal para lidar com a problemática do desemprego estrutural. Nesse contexto,


cabe ao trabalhador desempregado a responsabilidade de manter-se constantemente
capacitado para retornar ao mercado de trabalho o mais rapidamente possível,
adaptando-se à dinamicidade e à volatilidade da economia na sociedade pós-
industrial.247

A terceira das propostas neoliberais mencionadas pela autora é o


empreendedorismo. 248 Essa alternativa está relacionada ao estímulo, ideologicamente
impulsionado pela grande mídia, para que os trabalhadores precarizados criem seus
próprios negócios, e assumam os riscos da atividade.

A ideia central envolvida no empreendedorismo é a retomada dos valores do


liberalismo clássico: o individualismo, a glorificação do mérito pessoal, a suposta
liberdade para prosperar e enriquecer.

Com o surgimento de pequenos empreendimentos, o que ocorre é uma espécie


de terceirização por vias transversas. O trabalhador, antes empregado subordinado a
uma determinada empresa, cria seu próprio empreendimento, sua própria pessoa
jurídica. A empresa, que antes o empregava, agora passa a contratar os serviços dessa
nova pessoa jurídica.

Na prática, o trabalhador permanece atrelado à empresa anterior, prestando a


ela o seu labor, mas dessa vez assumindo os riscos da atividade - já que constituiu sua
própria pessoa jurídica – e sem contar com os direitos e garantias sociais adstritos à
relação de trabalho subordinada clássica. Trata-se do fenômeno conhecido como
pejotização. Segundo Isabele D’Angelo, “com essas alternativas terceirizantes, o
empresário livra-se de encargos sociais e os remete para o ‘empreendedor’”. 249

A quarta das alternativas analisadas é a flexissegurança. Conforme visto no


capítulo anterior, essa proposta tem como base a descentralização produtiva e a
divisão de responsabilidades entre os sujeitos da cadeia de produção.

247
Idem.
248
Ibidem, pp. 53-55.
249
Ibidem, p. 55.
87

Segundo Hugo Melo Filho,250 as medidas concernentes à flexissegurança,


aplicadas no seio da União Europeia, apenas contribuíram para relegitimar a lógica de
mercantilização do trabalhador e agravar as patologias sociais decorrentes do
ultraliberalismo.

A relação clássica bilateral é paulatinamente substituída por relações triangulares


onde contratantes e subcontratantes dividem as obrigações e encargos decorrentes da
exploração da força de trabalho. Assim,

“Nas relações triangulares de trabalho, o fundamento da administração


da responsabilidade para aquele que não é possuidor do título de
empregado repousa no princípio da justiça distributiva (comutativa), isto
é, todos aqueles que se beneficiam do trabalho prestado por conta
alheia devem suportar o(s) ônus decorrente(s) do contrato de
trabalho.”251

A autora demonstra que a terceirização se insere no contexto dessas alternativas


liberalizantes, cuja principal função é transferir à classe trabalhadora os riscos da
atividade econômica e a responsabilidade pelas crises constantes do capital,
legitimando o sistema neoliberal e naturalizando o avanço crescente das patologias
sociais.252

Nesse cenário, a terceirização se apresenta como um dos principais veículos


dessa sistemática, na medida em que descentraliza, separa e confunde as
responsabilidades.

5.6 A terceirização como estratégia de poder no âmbito do capitalismo pós-


fordista.

250
MELO FILHO, 2016, p. 75.
251
D’ANGELO, 2014, p. 58.
252
Ibidem, pp. 58-59.
88

Ao tratar sobre o adoecimento no contexto do trabalho subordinado, Fernanda


Barreto Lira demonstra que as relações de trabalho subordinado nada mais são que
relações de poder.253

Isso se verifica na própria estrutura do contrato de trabalho, onde o empregador


é legalmente detentor do poder diretivo e disciplinar sobre a atividade do empregado,
podendo inclusive atribuir-lhe punições. Mas, muito além disso, esse poder também se
manifesta através de todo o contexto cultural e ideológico que circunda as relações
econômicas e sociais.

Segundo a autora:

“(...) pode-se concluir que as relações de trabalho subordinado


verticalizado são relações de um poder que se expressa com a
veemência da imposição das atividades mecânicas repetitivas e
desprovidas de reflexão, mas também de forma sutil e difusa,
disciplinando todos os âmbitos da vida do trabalhador. Os efeitos desse
poder não se limitam à coerção, mas se espalham pela formação do
indivíduo, perpassando sua educação e refletindo-se como projeção dos
seus ideais”.254

Segundo Michel Foucault:

“Nos séculos XVII e XVIII, ocorre um fenômeno importante: [...] a


invenção de uma nova forma de poder com procedimentos específicos,
instrumentos totalmente novos e aparelhos bastante diferentes, o que é
absolutamente incompatível com as relações de soberania.
Este mecanismo de poder apóia-se mais nos corpos e seus atos do que
na terra e seus produtos. É um mecanismo que permite extrair dos
corpos tempo e trabalho, mais do que bens e riqueza. É um tipo de
poder que se exerce continuamente através da vigilância [...]; que supõe
mais de um sistema minucioso de coerções materiais do que a
existência física de um soberano. Finalmente, ele se apóia no princípio,
que representa uma nova economia do poder, segundo o qual se deve
propiciar simultaneamente o crescimento das forças dominadas e o
aumento e a eficácia de quem as domina”.255

253
LIRA, Fernanda Barreto. Meio ambiente do trabalho e enfermidades profissionais: os rituais do
sofrimento e a morte lenta no contexto do trabalho livre/subordinado. Tese (Doutorado) - Curso de Direito,
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2015, pp. 150-167.
254
Ibidem, p. 154.
255
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 4ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984. Tradução de: Roberto
Machado, pp. 87-88.
89

No modelo de produção fordista, a expressão do poder se dava essencialmente


através do controle da execução mecânica de movimentos repetitivos. Ao trabalhador,
não cabia raciocinar a respeito de suas funções ou de seus deveres laborais, mas
apenas cumpri-los de maneira cíclica.

No capitalismo globalizado e pós-industrial, o poder se manifesta de maneira


muito mais sutil e, ao mesmo tempo, muito mais eficaz. Demanda-se do trabalhador
não apenas a perfeição mecânica, mas, aliada a ela, também a capacidade intelectual e
criativa, a autonomia, e o engajamento psicológico no cumprimento do trabalho.

Afirma Fernanda Lira:

“Não é que a demanda pelo trabalho mecânico desapareça;


distintamente, o que se nota é a evolução das tecnologias conduzindo à
sofisticação de todas as formas de trabalho, inclusive daquele. Assim,
espera-se do operário a capacidade de produzir energia mecânica
acompanhada da energia psíquica, a qual vai viabilizar a transferência
de responsabilidade pelo êxito produtivo ao trabalhador”. 256

Nesse cenário, a descentralização produtiva em âmbito global é fundamental


para viabilizar essa nova forma de controle. A dificuldade de identificação de um único
patrão, o espalhamento dos trabalhadores em núcleos produtivos cada vez menores e
mais numerosos, e a volatilidade contratual contribuem para manter o trabalhador
constantemente em alerta e competitivo perante seus colegas.

Daí por que a terceirização se torna uma peça-chave nesse contexto. A confusão
de responsabilidades e o esparramento da cadeia produtiva é fundamental para
viabilizar essa nova dimensão do poder expresso nas relações de trabalho e produção.
Um poder não mais adstrito ao controle braçal, mas sim cada vez mais estendido à
dimensão psicológica e intelectual. Para ela:

“A subordinação deixa de ser verticalizada, pois as teorias


organizacionais sucessoras da organização científica do trabalho,
tayloriana, contrapõem-se a ela, apesar de perseguirem o objetivo
comum do lucro. As relações não mais seguem o modelo
empregado/patrão. Os trabalhadores são incentivados a se ver como
“colaboradores”. A empresa apresenta-se como fonte de segurança e
manutenção do status social, por isso as pessoas são instadas a se

256
LIRA, 2015, p. 155.
90

integrar ao seu desenvolvimento e se engajar na luta pela sua


lucratividade”.257

5.7 A terceirização e a versão gerencialista de gestão e de administração.

O professor Everaldo Gaspar Lopes de Andrade critica fortemente a abordagem


feita pela doutrina justrabalhista clássica a respeito da terceirização. 258 Para o autor,
essa abordagem quase sempre recorre aos mesmos três fundamentos: a interpretação
de enunciados normativos, o enquadramento no contexto de flexibilização das relações
de trabalho e a visualização do fenômeno como causa e não como consequência de
um complexo contexto de dilapidação do sistema protetivo estatal.259

Para propor uma nova abordagem para o estudo da terceirização, Everaldo


Gaspar faz referência às transformações do capitalismo e à desconstrução do mundo
do trabalho.260 Assim, recorre ao conceito, criado por Boltanski e Chiapello, de
“dualização dos assalariados”.261

Para ele, constituem-se nos estabelecimentos empresariais verdadeiros


mosaicos de pessoas, coexistindo sob a vigência de diferentes estatutos e submetidos
a diferentes empregadores.262 Tal heterogeneidade contribui para a formação de um
ambiente de trabalho hostil, com a presença de diversas categorias e subcategorias de
trabalhadores, mantendo-os desunidos e competitivos.

Ademais, o trabalhador subcategorizado perde qualquer perspectiva de avanço


profissional, tendo em vista a instabilidade que é inerente às constantes alterações de
função, de local de trabalho, de horário, conforme impõem os padrões organizacionais
da administração flexível.

Para contextualizar o fenômeno, Everaldo Gaspar aponta a passagem do


sistema fordista/taylorista para o sistema de acumulação flexível como principal marco

257
Ibidem, p. 156.
258
ANDRADE, 2014a, p. 62.
259
Idem.
260
Ibidem, p. 65.
261
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 254.
262
ANDRADE, 2014a, p.66.
91

histórico das recentes transformações no capitalismo e no mundo do trabalho,263 ou


seja:

“Surgem setores de produção inteiramente novos, maneiras de


fornecimento de serviços financeiros, outros mercados e taxas altamente
intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional.
Neste contexto, exigem-se mudanças aceleradas nos padrões de
desenvolvimento desigual que alcançam as mais variadas regiões do
planeta. Tudo isso, em meio à “compressão do tempo-espaço”, em que
os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se
estreitam, enquanto a comunicação via satélite, aliada a queda dos
custos de transporte, possibilitam cada vez mais a difusão imediata, num
espaço mais amplo e variegado.”264

Conforme aponta David Harvey,265 o sistema fordista/taylorista se mostrou


insuficiente para lidar com as contradições e com as crises cíclicas do capitalismo. A
rigidez desse modelo, com a primazia dos investimentos de capital fixo - vinculados à
produção em massa e baseados na presunção de crescimento estável -, começava a
bater de frente com a constante imposição de modelos de planejamento flexíveis,
fundamentados na extrema volatilidade dos padrões de consumo e na intensificação do
inovacionismo tecnológico e da globalização.266

O avanço do desemprego estrutural e o enfraquecimento do poder sindical


permitem, no âmbito empresarial, a imposição de contratos de trabalho cada vez mais
flexíveis, adequando também a mão de obra, ante a sua condição de mercadoria, à
lógica da acumulação flexível.

Para Márcio Túlio Viana:

“(...) o just in time, quando aplicado à força de trabalho, conserva a


mesma lógica de eliminar estoques, valendo-se - a cada instante - da
quantidade exata de mercadoria de que precisa. Como essa mercadoria,
no caso, é o próprio trabalhador, as consequências são dramáticas.”267

Com base nesse contexto de avanço do modelo de acumulação flexível,

263
Ibidem, p. 70.
264
Idem.
265
HARVEY, 1992, p. 136.
266
Ibidem, p. 141.
267
VIANA, 2009, p. 146.
92

Everaldo Gaspar aponta a ascensão da versão gerencialista de gestão e de


administração, a qual contribui para intensificar a captura da subjetividade do trabalho,
propiciando, para além da exploração clássica do trabalho físico, o controle do saber e
da criatividade dos indivíduos.268

As técnicas sofisticadas de gestão levam em consideração primordialmente os


aspectos psicológicos do trabalhador, fazendo-o se sentir como parte da empresa, uma
figura importante naquele cenário. Isso envolve, por exemplo, a utilização de termos
como “colaborador” ou “parceiro” para se referir aos trabalhadores subordinados.

Esse contexto os mantém mentalmente condicionados a produzirem em


benefício da empresa, submetendo-se docilmente a jornadas e cargas de trabalho
ainda mais exaustivas. Assim,

“Os trabalhadores, sentindo-se “livres”, “donos” do seu saber e de sua


criatividade, passam a trabalhar ainda mais, já que não se tem como
mensurar o tempo dedicado à criação – como se não bastassem os
controles ainda mais sofisticados que ampliam o Poder Disciplinar e a
Subordinação da Força do Trabalho ao Capital.”269

Como principal proposta para encarar todas essas patologias que vêm sendo
perpetuadas através da terceirização, o autor aponta a importância da manutenção e da
intensificação da lutas coletivas dos trabalhadores.270

Isso porque todos os avanços sociais ocorridos no âmbito das relações


individuais e coletivas de trabalho só foram possíveis em razão dessas lutas. A atuação
direta, efetiva e permanente dos trabalhadores é essencial não apenas para a obtenção
de novas conquistas, mas também para a manutenção das garantias sociais já
conquistadas. Afinal,

“(...) se todas as conquistas e avanços que se deram, no âmbito das


relações individuais e coletivas de trabalho, só se efetivaram por meio
das lutas coletivas, qualquer tentativa de modificação desta realidade,
sem a presença dessas mesmas lutas coletivas, resultará infrutífera e
não refletirá os sentimentos da classe trabalhadora – hoje, ainda mais

268
ANDRADE, 2014a, p. 74.
269
Ibidem, p. 75.
270
Ibidem, p. 80.
93

explorada e escravizada.”271

O autor aproveita para registrar também as crises do sindicalismo


contemporâneo, oriundas da histórica tendência de privilegiar a luta reformista em
detrimento da luta política e emancipatória.272

Conforme argumentam Carlos Montaño e Maria Lúcia Duriguetto,273 a luta pela


conquista de direitos sociais, mesmo quando meramente reformista, só terá força e
sentido se vier acompanhada da luta pela superação da ordem social vigente, sob pena
de legitimar o sistema de exploração da força de trabalho pelo capital e, portanto,
manter a classe trabalhadora enfraquecida e subordinada.

Mesmo uma luta supostamente pontual, como é o caso da luta contra os


expedientes precarizantes advindos da terceirização, precisa estar conjuminada com a
luta político-revolucionária. É a única forma de manter as conquistas efetivamente
consolidadas.

Do ponto de vista hermenêutico, o professor Everaldo Gaspar busca trazer uma


interpretação conectada aos princípios básicos do Direito do Trabalho - especialmente
o princípio protetor, o princípio da desigualdade das partes e o princípio da vedação ao
retrocesso – de modo a proporcionar soluções de curto prazo para a problemática da
terceirização,274 tendo em vista a urgência dessa demanda e o longo tempo ainda
necessário para a reorganização das lutas coletivas e para a consolidação de avanços
no sentido político-revolucionário. Segundo ele:

“(...) partindo da ideia segundo a qual o Direito do Trabalho surge da luta


de classe; que, mesmo não sendo possível pensar-se, em curto prazo,
no advento de uma sociedade que não esteja mais centrada na
subordinação da força do trabalho ao capital, é possível vislumbrar a
adoção de uma hermenêutica estruturante que reúna e conecte,
sobretudo, o Princípio Protetor e o Princípio da Prevalência das
Relações Sindicais sobre as Relações Individuais (...)”. 275

271
Ibidem, pp. 80-81.
272
Ibidem, p. 80.
273
MONTAÑO Carlos; DURIGUETTO, Maria Lúcia. Estado, Classe e Movimento Social. São Paulo:
Cortez Editora, 2011, p. 351.
274
ANDRADE, 2014a, pp. 89-96.
275
Ibidem, p. 97.
94

Nesse contexto, o citado professor sugere a aplicação do princípio da isonomia


para garantir equiparação entre terceirizados e empregados da tomadora, e o
reconhecimento da responsabilidade solidária de todos os entes envolvidos na
exploração da força de trabalho do subcontratado.276

Sobre a solidariedade, Everaldo Gaspar leva em conta as disposições da CLT a


respeito do grupo econômico,277 as quais são perfeitamente aplicáveis no caso da
terceirização externa.278

276
ANDRADE, 2014a, p. 89.
277
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943).
Art. 2º Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade
econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
(...)
§ 2º Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria,
estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou
de qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente
responsáveis a empresa principal e cada uma das subordinadas.
278
ANDRADE, 2014a, p. 89.
95

CAPÍTULO 6. A TERCEIRIZAÇÃO NA TEORIA SOCIAL CRÍTICA

6.1 Contextualização do tema.

À semelhança dos autores analisados no capítulo anterior, os estudiosos da


teoria social crítica também apresentam uma visão profunda e complexa acerca da
terceirização e do contexto histórico, social e econômico no qual ela se encontra
inserida.

As ideias que serão examinadas neste capítulo têm como principal diferencial o
fato de serem baseadas em estudos provenientes de outras áreas de conhecimento,
em especial a sociologia e as ciências econômicas.

Permite-se uma avaliação mais abrangente do fenômeno, capaz de suplantar a


análise baseada exclusivamente na ciência do direito ou nas opiniões de
juslaboralistas.

6.2 A apropriação da crítica estética e o desarmamento da crítica social.

O sistema capitalista, desde sua consolidação nos primórdios da Revolução


Industrial, foi sempre alvo de inúmeras críticas, baseadas nas mais variadas razões.
Tradicionalmente, as críticas mais comuns são de cunho social, motivadas pela revolta
perante a miséria e as desigualdades sociais.

Para além da crítica social, é também marcante ao longo da história do


capitalismo a presença da crítica estética, cujo fundamento é essencialmente a
indignação diante das diversas formas de alienação e de opressão que o sistema
reproduz e mantém para sua própria reafirmação: a mercantilização e a coisificação da
arte, da intelectualidade e da subjetividade do indivíduo; a glorificação da disciplina e da
hierarquia no trabalho; o estabelecimento de um modelo familiar padrão e de uma moral
sexual; a distribuição e a imposição de papéis sociais baseados em cor, raça e gênero;
96

o estímulo ao consumo desenfreado e irracional de produtos supérfluos e de


obsolescência programada; a manipulação ideológica das massas através dos grandes
meios de comunicação; dentre outras estruturas de poder e controle.

Sob essa perspectiva, o ano de 1968 - com sua efeverscência política, cultural e
artística - revelou-se paradigmático. Isso porque as manifestações daquele período, em
sua heterogeneidade e riqueza ideológica, conseguiram articular a crítica social e a
crítica estética, fazendo com que se convergissem as diversas indignações contra o
sistema.

Conforme destaca Fernanda Lira:

“A despeito de os movimentos culturais daquele momento terem sido,


em parte, refutados pelo marxismo, especialmente o marxismo ortodoxo,
na interpretação que aqui se faz, (...), as manifestações de então tiveram
o mérito de conseguir envolver a crítica social e a crítica estética. Isso
porque foram capazes de mobilizar, simultaneamente, operários,
estudantes, intelectuais e artistas”.279

É em meio a esse cenário de descontentamento generalizado que o capitalismo


renova o seu arcabouço ideológico. Para fazer eco às insatisfações e aos desejos
esboçados através da crítica estética, desenvolve-se um novo discurso de libertação e
autorrealização do indivíduo. Está-se diante do que Boltanski e Chiapello distinguem
ser o segundo espírito do capitalismo.280

Conforme explicam os autores franceses,281 o primeiro espírito do capitalismo,


desenvolvido no seio das revoluções burguesas, já tinha como pressuposto essencial o
ideal de libertação. Com base naquele discurso, o modelo de sociedade a ser oferecido
pela ascensão burguesa era colocado em oposição à sociedade aristocrática e feudal
dos regimes absolutistas. Era idealizado como um modelo livre das opressões
características do sistema que o precedeu, capaz de possibilitar a realização pessoal e
a conquista de riqueza e prosperidade para qualquer indivíduo.

279
LIRA, 2015, p. 136.
280
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 424.
281
Ibidem, p. 423.
97

No segundo espírito, esse mesmo discurso sedutor é reaproveitado, dessa vez


com nova roupagem. Diante das críticas que marcaram a década de 60, a retórica é
reformulada. Fala-se numa ampliação da clássica perspectiva de libertação para
atender aos anseios e desejos dos que denunciavam a opressão de natureza estética.

Na medida em que grupos tradicionalmente oprimidos e excluídos – seja em


razão de gênero, raça ou orientação sexual – se erguem para questionar as injustiças
do sistema, esse novo espírito do capitalismo traz a promessa de libertação mediante a
inserção na lógica de trabalho e consumo. Com base nesse discurso, cada indivíduo,
por mais oprimido que seja, poderá libertar-se por si só, de maneira autônoma, através
de alternativas de trabalho mais flexíveis, do empreendedorismo, e do alcance a
padrões de consumo mais sofisticados.

Para Boltanski e Chiapello,282 esse novo discurso passa a se difundir das mais
diversas formas, infiltra-se nos debates políticos,283 compõe o roteiro de telejornais, é
reproduzido em falas de especialistas e de pesquisadores. Em suma, torna-se presente
de maneira difusa e generalizada.

Segundo Richard Sennet:

“(...) líderes empresariais e os jornalistas enfatizam o mercado global e o


uso de novas tecnologias como as características distintivas do
capitalismo de nossa época. Isso é verdade, sim, mas não vê outra
dimensão de mudanças: novas maneiras de organizar o tempo,
sobretudo o tempo de trabalho”.284

Além disso, todo o rico conteúdo artístico de natureza crítica desenvolvido


naquele cenário de efeverscência política é mercantilizado e transformado em produtos
a serem consumidos.

Também nesse contexto, o sistema fordista/keynesianista, ante a sua rigidez, é


apontado como o culpado pelas opressões estruturais e pelas crises cíclicas do

282
Idem.
283
Ver a seção 3.9, referente ao projeto de lei n° 4.330/2004, em cuja exposição de motivos é exaltada a
atividade empresarial e ressaltada a suposta necessidade de otimização e adequação ao mundo
contemporâneo globalizado.
284
SENNET, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo.
São Paulo: Record, 1999, p. 21.
98

sistema. O trabalho livre e a autonomia do indivíduo são mais uma vez glorificados
como as vias para a libertação e para a realização pessoal.

Como explicam Boltanski e Chiapello:

“(...) o capitalismo coopta, pela instauração de novas modalidades de


controle, a autonomia consentida; mas essas novas formas de opressão
revelam-se progressivamente e tornam-se alvo de crítica, de tal modo
que o capitalismo é levado a transformar seus modos de funcionamento
para oferecer uma libertação redefinida sob os golpes do trabalho crítico.
Mas a ‘libertação’ assim obtida encerra, por sua vez, novos dispositivos
opressivos que, no contexto do capitalismo, possibilitam um novo
controle do processo de acumulação. As alças da cooptação, portanto,
criam uma sucessão de períodos de libertação pelo capitalismo e de
libertação do capitalismo”.285

De maneira sutil e devastadora, o capitalismo se apropria da crítica de conteúdo


estético e desmancha as articulações outrora firmadas entre as vítimas da miséria e as
vítimas das opressões estruturais. Diante disso, a crítica social é invisibilizada e o
sistema mantém sua reprodução com base na exploração da força de trabalho.

Dessa forma, o capitalismo mais uma vez reafirma o seu movimento recorrente,
conforme destacado pelo professor Everaldo Gaspar,286 no sentido de absorver e
metabolizar o ambiente em seu favor.

Essa tendência já havia sido descrita por Marx e Engels no Manifesto do Partido
Comunista quando estes previram que “a burguesia não pode existir sem revolucionar
permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção,
portanto as relações sociais todas”.287

Como alerta Fernanda Lira, diante da impressionante aptidão do sistema


capitalista para cooptar e mercantilizar os anseios humanos:

“O renascimento da crítica, em tal contexto, deve atentar para a vocação


do capitalismo para mercantilizar o desejo, especialmente o de
libertação, para enquadrá-lo e cooptá-lo. Assim, a reformulação daquela
deveria levar em conta a interdependência entre as diferentes

285
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 424.
286
ANDRADE, 2014a, p. 79.
287
MARX; ENGELS, 1997, p. 32.
99

dimensões da exigência de libertação, para, desse modo, armar-se e


esquivar-se melhor das armadilhas da cooptação”.288

6.3 Os novos padrões de produção e acumulação globais.

O padrão de acumulação fordista/taylorista vivenciou profunda crise durante o


fim da década de 60 e início da década de 70 do século XX. Essa conjuntura serviu
também de combustível para o amplo processo de reestruturação produtiva no sistema
capitalista. Como destaca Antunes,289 consolidam-se os modelos baseados na
acumulação flexível, assim como as novas formas de gestão organizacional.

Explica David Harvey que os teóricos desse novo modelo flexível apontaram a
rigidez dos sistemas de produção em massa como causa das crises cíclicas que
começavam a se intensificar naquele período, em especial a crise do petróleo de
1973.290 Demandava-se, um modelo capaz de assegurar rápida adequação à
volatilidade do consumo.

Evilasio Salvador destaca a internacionalização da economia, capitaneada pelo


sistema financeiro, que contribui para expandir a competitividade em escala global e
consequentemente ampliar a sanha capitalista por acumulação, exigindo-se a
flexibilização de todos os setores.291
292
Esse cenário, segundo Juliana Esteves, impõe a desregulamentação das
antigas práticas keynesianas do Welfare State, não havendo mais espaço para as
políticas públicas de proteção social.

O sistema de acumulação flexível tem fundamento no padrão produtivo


característico da experiência japonesa do pós-guerra, associado à intensificação das
inovações tecnológicas e à introdução de novas técnicas administrativas, baseadas na
descentralização produtiva e na flexibilização da gestão do trabalho.

288
LIRA, 2015, p. 138.
289
ANTUNES, 2009, p. 62.
290
HARVEY, 1992, p. 115-184.
291
SALVADOR, 2010, p. 91.
292
ESTEVES, 2015, pp. 79-80.
100

Nas palavras de Ricardo Antunes e Maria da Graça Druck:

“Desenvolve-se em uma estrutura produtiva mais flexível, através da


desconcentração produtiva, das redes de subcontratação (empresas
terceirizadas), do trabalho em equipe, do salário flexível, das “células de
produção”, dos “times de trabalho”, dos grupos “semiautônomos”, além
de exercitar, ao menos no plano discursivo, o “envolvimento
participativo” dos trabalhadores. O “trabalho polivalente”,
“multifuncional”, “qualificado”, combinado com uma estrutura mais
horizontalizada e integrada entre diversas empresas, inclusive nas
empresas terceirizadas, tem como finalidade a redução do tempo de
trabalho. Mais recentemente, as práticas das “metas”, das
“competências”, realizadas pelos “colaboradores”, tornou-se a regra no
ideário empresarial.”293

Constitui-se a partir daí o que Juan Jose Castillo denominou de “liofilização


organizativa”, o processo mediante o qual o trabalho vivo é paulatinamente substituído
pelo maquinário técnico-científico. Ocorre, assim, um processo de enxugamento da
empresa.294

Para Zygmunt Bauman:

“Atualmente, racionalizar significa cortar e não criar empregos, e o


progresso tecnológico e administrativo é avaliado pelo emagrecimento
da força de trabalho, fechamento de divisões e redução de funcionários.
Modernizar a maneira como a empresa é dirigida consiste em tornar o
trabalho flexível – desfazer da mão-de-obra e abandonar linhas e locais
de produção de uma hora para outra, sempre que uma relva mais verde
se divise em outra parte, sem que possibilidades comerciais mais
lucrativas ou mão-de-obra mais submissa e menos dispendiosa acenem
ao longe”.295

Segundo Antunes,296 os contratos de trabalho regulares, típicos do Welfare State


e da era do pleno emprego, vão sendo substituídos pelas modalidades atípicas de
trabalho, como o empreendedorismo, o cooperativismo e o trabalho voluntário. Todas

293
ANTUNES, Ricardo; DRUCK, Maria da Graça. A terceirização como regra? Revista do Tribunal
Superior do Trabalho, Brasília, v. 79, n. 4, out./dez. 2013, p. 216.
294
ANTUNES, Ricardo. A desconstrução do trabalho e a perda dos direitos sociais. Evocati Revista n.
19, Jul 2007. Disponível em: < http://www.evocati.com.br/evocati/artigos.wsp?tmp_codartigo=134 >.
Acesso em: 30/11/2016.
295
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 50.
296
ANTUNES, 2013.
101

essas modalidades, assim como a terceirização, servem para viabilizar a flexibilização


salarial, temporal, funcional e organizacional.

Desse modo, livram-se dos riscos e das responsabilidades atinentes aos


contratos de trabalho e mantêm-se permanentemente adaptadas às constantes
variações mercadológicas de demanda.

Nesse contexto, a terceirização da mão de obra se torna uma das principais


estratégias empresariais para adequar o trabalho à lógica da flexibilidade.
Descentralizando a contratação e a gestão dos trabalhadores, as empresas podem
ampliar ou reduzir rapidamente e facilmente as suas despesas com pessoal.

6.4 A dualização dos assalariados.

Como parte da retórica utilizada para viabilizar a apropriação da crítica estética


pelo sistema capitalista, pôs-se a culpa na rigidez e na planificação do padrão
fordista/keynesianista, o que serviu de subterfúgio ideológico para a consolidação do
modelo de acumulação flexível.

Em nome da ampliação da autonomia do trabalhador, justificava-se a


multiplicação de suas funções e o aumento de seus riscos e responsabilidades, bem
como as novas modalidades contratuais que concretizavam essa nova estrutura de
gestão.

O trabalhador subordinado, antes protegido pelas garantias oriundas do vínculo


empregatício, passa a assumir novas posições, em tese para conquistar uma suposta
autonomia. Na realidade, porém, os novos vínculos firmados servem apenas para
maquiar a subordinação e livrar o grande capitalista de responsabilidades.

Para André Gorz, os trabalhadores são convidados a fazer parte da empresa não
mais como empregados, mas sim como empreendedores.297 A flexibilidade e o know-

297
GORZ, André. Crítica à Divisão Social do Trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
102

how desses profissionais se transformam em matéria-prima para a constante


necessidade de inovação.

Segundo Boltanski e Chiapello:

“A autonomia foi obtida em troca das garantias, de tal modo que se trata
frequentemente de uma autonomia imposta, não escolhida, dificilmente
sinônimo de liberdade: ‘os assalariados recém transformados em
empreendedores’ continuam a depender do empregador principal, e a
subordinação é apenas dissimulada formalmente pela passagem do
‘direito do trabalho’ para o ‘direito comercial”.298

No segundo espírito do capitalismo, adota-se na gestão do trabalho uma


construção teórica baseada na meritocracia e nas promessas de ascensão profissional.

Segundo Wilson Ramos Filho,299 são três elementos centrais que constituem
esse discurso: a gestão racional por objetivos; a expectativa de melhora nas condições
de trabalho por consequência do mérito pessoal; e a possibilidade de ampliação da
remuneração em razão do aumento da produtividade.

Essa tendência à flexibilização, à diversificação das relações laborais e à


distribuição de responsabilidades chega a um grau ainda mais complexo,
consubstanciando o terceiro espírito do capitalismo. 300

Nessa fase, conforme explica o citado autor, 301 surgem novas estratégias de
gestão, baseadas essencialmente na terceirização de atividades, na pejotização do
trabalhador, e na externalização do consumidor. 302

É nesse contexto que ocorre a diversificação de formas e estruturas contratuais,


e o convívio de trabalhadores submetidos a diferentes regras num mesmo ambiente
laboral: a dualização dos assalariados.303

Explica Everaldo Gaspar Lopes de Andrade:

298
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 430.
299
RAMOS FILHO, 2012, p. 277.
300
Ibidem, p. 284.
301
Idem.
302
Processo de inclusão do consumidor na cadeia produtiva. O consumidor recebe o produto ou serviço
ainda incompleto, ficando, portanto, responsável por fases finais da produção.
303
BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 254.
103

“Este outsourcing de mão de obra propicia a coexistência de um


verdadeiro mosaico de pessoas, num mesmo estabelecimento, que
estariam submetidas a tantos estatutos quantas são as empresas
representadas no local de trabalho e isso ocorre a despeito da
identidade de condições de trabalho, a despeito da semelhança das
qualificações profissionais e das tarefas executadas, bem como a
despeito da unicidade do poder de direção real”.304

Para Wilson Ramos Filho,305 trata-se de um fenômeno inimaginável no contexto


do fordismo: trabalhadores prestando seus serviços lado a lado num mesmo ambiente e
numa mesma função, executando tarefas complexas. 306

Fernanda Lira destaca a inexistência de um poder patronal bem definido. 307 No


lugar de diretores em posição hierárquica superior, há coordenadores. Conforme
observa a autora:

Diferentemente do que ocorria no segundo espírito do capitalismo,


quando os chefes eram indicados pelo chefe ou diretor hierarquicamente
superior, segundo critérios mais ou menos objetivos e meritocratas, esse
coordenador não possui poder hierárquico sobre seus pares. Seu papel
é meramente o de dividir as tarefas, manter os ritmos de produção e
assegurar o controle de qualidade, gerindo os diferentes indicadores do
grupo como um todo.308

Sob a perspectiva desses autores, o fenômeno da dualização dos assalariados já


consistiria na manifestação de um terceiro espírito capitalista, baseado não apenas na
gestão por objetivos, mas num complexo gerenciamento por projetos, capaz de
racionalizar a produção de maneira ainda mais eficiente, mantendo-se sempre
competitiva e adequada aos mercados de consumo.

6.5 A precarização do trabalho como método de gestão.

304
ANDRADE, 2014a, p. 66.
305
RAMOS FILHO, 2012, p. 284.
306
Idem.
307
LIRA, 2015, p. 143.
308
Idem.
104

Reconhecendo o Direito do Trabalho como um fenômeno histórico, baseado nas


relações de poder entre as classes sociais, Wilson Ramos Filho destaca a instabilidade
deste ramo da ciência jurídica, sempre variável a mercê dos contextos econômicos,
sociais e políticos.309

Nas palavras do autor:

“A tutela da relação de trabalho, efetivamente, sofre metamorfoses ao


longo da história, tendo em vista alterações externas à normatividade
estatal, ocorridas na própria relação entre as classes sociais. Por tal
razão, esta tutela será mais protetiva dos direitos dos trabalhadores
naqueles países e durante os períodos históricos em que a classe
trabalhadora acumular mais poder, em relação ao poder das classes
empresariais.”310

Com todo o contexto vivenciado nas últimas décadas do século XX e o avanço


do desemprego estrutural, tem-se um cenário de desempoderamento dos
trabalhadores. É o terreno ideal para que o Direito do Trabalho seja remodelado em
favor das classes patronais, daí o fenômeno da precarização.

No interior das empresas, sob os pretextos de “flexibilizar”, “modernizar” ou


“otimizar” o trabalho e a produção, consolidam-se novas técnicas de gestão, de modo a
possibilitar a captura da subjetividade do trabalhador. Conforme explica Jailda Eulídia
da Silva Pinto:

“Não bastavam contar com os corpos em jornadas extenuantes e/ou


ritmos intensivos. (...) Passava-se a invadir a subjetividade, pela
introjeção de valores e princípios, por formas de controle do
‘engajamento’ cada vez mais precisas e cerradas, de forma a não mais
haver separação do tempo dentro e fora do trabalho. Esse sequestro da
subjetividade foi a solução encontrada para reprimir ainda mais, a partir
da Revolução de 1968, na França, quando os obreiros expressaram não
mais aceitar o fordismo, e sim desejarem a liberdade.”311

309
RAMOS FILHO, 2012, pp. 308-309.
310
Idem.
311
PINTO, Jailda Eulídia da Silva. O direito ambiental do trabalho no contexto das relações
individuais, sindicais e internacionais: para além da dogmática jurídica, da doutrina, da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) e do direito comunitário. Dissertação (Mestrado) - Curso de Direito,
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016, p. 55.
105

Segundo a professora Maria da Graça Druck,312 o capitalismo contemporâneo


tem na precarização do trabalho o centro de suas transformações produtivas. A
terceirização, nesse contexto, se apresenta como a principal ferramenta de gestão do
trabalho, adequando-o à flexibilidade característica da acumulação financeira.

A sistemática do capitalismo financeiro comanda todos os setores da economia,


impondo urgência na produtividade. Para manter lucros altos em prazos cada vez
menores, as empresas do setor industrial transferem aos trabalhadores a pressão pela
redução do tempo e pelos riscos do negócio.

Segundo Antunes e Druck:

“Estamos, portanto, frente a uma nova fase de desconstrução do


trabalho sem precedentes em toda a era moderna, ampliando os
diversos modos de ser da informalidade e da precarização do trabalho,
que revelam um processo de metamorfose da velha e histórica
precariedade. A informalidade não é sinônimo de precariedade, mas a
sua vigência expressa formas de trabalho desprovido de direitos e, por
isso, encontra clara sintonia com a precarização. Apontar suas
conexões, suas inter-relações e suas vinculações torna-se, entretanto,
imprescindível. Se no século XX presenciamos a vigência da era da
degradação do trabalho, nas últimas décadas do século XX e início do
XXI estamos defronte a novas modalidades e modos de ser da
precarização, da qual a terceirização tem sido um de seus elementos
mais decisivos.”313

Ainda segundo os referidos autores, referindo-se especificamente à experiência


brasileira:

“(...) o crescimento e a difusão da terceirização a reafirma como uma


modalidade de gestão, organização e controle do trabalho num ambiente
comandado pela lógica da acumulação financeira, que, no âmbito do
processo de trabalho, das condições de trabalho e do mercado de
trabalho, exige total flexibilidade em todos os níveis, instituindo um novo
tipo de precarização que passa a dirigir a relação capital-trabalho em
todas as suas dimensões.”314

312
DRUCK, Maria da Graça. Trabalho, precarização e resistências. Caderno CRH (UFBA), v. 24,
Salvador: Edufba, 2011.
313
ANTUNES; DRUCK, 2013, pp. 218-219.
314
Ibidem, p. 219.
106

Por sua vez, as diversas técnicas de terceirização caem como luvas para
viabilizar essa flexibilização no âmbito da gestão do trabalho. Mais do que qualquer
outro expediente, a terceirização garante a urgência produtiva exigida pela
financeirização da economia.

A lógica capitalista de mercantilização da força de trabalho, atenuada durante o


Estado de bem-estar social, é reafirmada, e de maneira ainda mais avassaladora que
durante a fase da revolução industrial, quando ainda não se contavam com tecnologias
e estratégias organizacionais tão sofisticadas de gestão da psique dos trabalhadores.

Para satisfazer o modelo de acumulação flexível, os trabalhadores –


especialmente através da terceirização – são submetidos a condições cada vez mais
precárias, inclusive no que diz respeito à saúde e à segurança do trabalho.

Nesse aspecto, conforme observa Druck,315 a condição de discriminação e


inferioridade dos terceirizados acentua os riscos na realização de suas atividades.
Esses trabalhadores são submetidos a uma constante rotatividade, tanto entre
empresas quanto entre setores de uma mesma empresa, o que dificulta sobremaneira o
acompanhamento e o diagnóstico preciso de suas condições de saúde e segurança.
Intensifica-se o adoecimento no ambiente laboral, e amplia-se o número de acidentes e
mortes no trabalho.

Para Christophe Dejours,316 vive-se num contexto em que os métodos


organizacionais geram a exacerbação do individualismo, a deslealdade e a
desconstrução do convívio entre colegas de trabalho. Tudo isso, segundo o autor,
compõe um contexto de banalização da injustiça social.317

Em suma, na teoria social crítica, tem-se uma análise multifacetada do tema.


Com base nos estudos e nos argumentos desses autores, bem como dos autores da
teoria jurídico-trabalhista crítica, fica demonstrado que a terceirização é acima de tudo
uma consequência de um amplo contexto social, econômico, político, cultural e

315
DRUCK, 2011.
316
DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. 7ª Ed. Rio de Janeiro: FGV, 2007.
Tradução de: Luiz Alberto Monjardim, p. 50.
317
Idem.
107

ideológico. É mais uma poderosa engrenagem dentro da contínua sistemática


capitalista de autodestruição e auto reconstrução.

No próximo capítulo, serão trazidas propostas para lidar com a terceirização


numa perspectiva estrutural e de longo prazo, bem como estratégias temporárias para
ajudar a frear os problemas reproduzidos pelo fenômeno.
108

CAPÍTULO 7. PROPOSIÇÕES DO PRESENTE ESTUDO PARA O


ENFRENTAMENTO DA PROBLEMÁTICA

7.1 Contextualização do tema.

A doutrina jurídico-trabalhista clássica insiste em enxergar a terceirização como


uma causa e não como uma consequência. Os autores analisam o fenômeno
destacado da realidade no qual ele se insere, e negligenciam as razões que estão por
trás da disseminação do instituto.

As propostas desses doutrinadores para lidar com o fenômeno tendem a ser


superficiais e a não questionar a consolidação e o avanço do ultraliberalismo e das
patologias sociais que o acompanham.

É isso que se verifica, por exemplo, no argumento central do livro verde da União
Europeia,318 que, seguindo o itinerário da doutrina clássica, só traz proposições
tendentes a relegitimar esse sistema.

Sobre as reformas oriundas dessas proposições, afirma Hugo Cavalcanti Melo


Filho:

“(...) legalizaram as agências de trabalho temporário e terceirizado,


instituíram os contratos de meio período, admitiram a inclusão de um
termo final nos contratos de trabalho subordinado, mesmo que
referentes à atividade ordinária do empregador. (...) Enfim, flexibilizaram
e mercantilizaram o trabalho. Tudo com respaldo em orientações,
recomendações e normativas da União Europeia (...).
“Nenhuma das reformas enfrentou o problema central que envolve as
crises políticas, econômicas e sociais contemporâneas e seus impactos
nas relações de trabalho: o ultraliberalismo global que espalha injustiça
e miséria por todo o planeta”.319

A terceirização se enquadra contexto da dualização do assalariado. É um


mecanismo que veio para implodir as relações individuais do trabalho. Apenas uma

318
Ver seção 4.3.6.
319
MELO FILHO, 2016, p. 75.
109

análise que leve em consideração esse fato será capaz de encontrar propostas para
enfrentar essa problemática.

Nesse capítulo, com base nos estudos da teoria jurídico-trabalhista crítica e da


teoria social crítica, serão trazidas proposições de cunho político, com o
empoderamento da classe trabalhadora através da luta coletiva, e de cunho jurídico-
hermenêutico, visando atenuar a gravidade dos efeitos precarizantes em curto prazo.

7.2 O reconhecimento da terceirização como fraude em si.

Uma das principais particularidades da doutrina tradicional ao examinar o


fenômeno da terceirização é a insistência em categorizar hipóteses lícitas e ilícitas do
instituto. Para os autores clássicos, uma terceirização pode ou não conter fraudes,
devendo-se estipular critérios para avaliar, em cada caso concreto, a validade ou não
do ato de subcontratação.

Desconsideram que a terceirização é fraudulenta desde o discurso político no


qual se fundamenta, baseado sempre nas falácias neoliberais de “otimização” ou
“modernização” do processo produtivo como pretexto para a redução do trabalhador à
condição de mercadoria.

Márcio Túlio Viana foi o jurista que primeiro chegou a essa conclusão.320 Para
ele, a terceirização nada mais é que uma estratégia para tornar ainda mais violenta a
exploração sobre a classe trabalhadora, na medida em que fomenta a desunião entre
os operários e permite a confusão de responsabilidades para livrar a empresa das
obrigações trabalhistas.321

Everaldo Gaspar Lopes de Andrade afirma tratar-se de uma estratégia de largo


espectro, refletida nas dimensões econômica e política.322 Para além das justificativas

320
VIANA, 2013, p. 132.
321
Idem.
322
ANDRADE, 2014a, pp. 69-70.
110

técnicas, a terceirização é um artifício potente e, ao mesmo tempo, sutil de semear o


caos no Direito do Trabalho.323

Essa é também o entendimento defendido por Jorge Luiz Souto Maior ao


desvendar as falácias contidas na exposição de motivos do projeto de lei 4.330, 324
conforme visto na seção 3.9.

Até mesmo com base nos critérios hermenêuticos que deram origem às
disposições da Súmula 331 do TST, chega-se à conclusão de que a terceirização é
inevitavelmente fraudulenta.

Ao exigir, em seu item III, a inexistência de subordinação entre tomador e


trabalhador terceirizado, a Súmula requer o impossível. Não há como conceber, na
prática, um ambiente de trabalho onde aquele que presta os serviços não esteja
minimamente subordinado ao tomador, ainda que a meras diretrizes de natureza
técnica.

Submetido aos ditames subordinativos impostos no interior do estabelecimento


empresarial do tomador, o trabalhador terceirizado, diante de sua vulnerabilidade ainda
maior e da sempre constante ameaça do desemprego, estará forçosamente
condicionado a obedecê-lo. O tomador, por sua vez, na condição de proprietário dos
meios de produção, não se furtará a emanar determinações sobre a forma como os
serviços que lhe gerarão lucros serão executados.

Não há como deixar de reconhecer que a terceirização é fraudulenta desde o seu


discurso, de modo que a burla aos postulados jurídico-trabalhistas é inerente ao
instituto. Conforme será visto adiante, somente através da luta coletiva é possível
desfazer essa hegemonia. Além disso, esse reconhecimento da terceirização como
fraude em si é também pressuposto para a viabilização de uma reconfiguração
hermenêutica sobre o fenômeno.

323
Idem.
324
SOUTO MAIOR, 2015.
111

7.3 A reafirmação da luta coletiva como ferramenta de empoderamento da classe


trabalhadora.

É notório que os autores da doutrina jurídico-trabalhista clássica tendem a


sobrepor as relações individuais de trabalho em detrimento das relações coletivas.
Como visto no capítulo 2, essa tendência é especialmente visível quando se estuda o
fenômeno da terceirização.

Por outro lado, conforme analisado pelos estudiosos da teoria jurídico-trabalhista


crítica e da teoria social crítica, uma das principais funções da terceirização, na
sistemática neoliberal, é contribuir para a divisão da classe trabalhadora e
consequentemente para o desmantelamento das entidades sindicais.

A separação dos indivíduos em subcategorias no ambiente empresarial,


estabelecida de acordo com as diferentes formas contratuais, dificulta o auto-
reconhecimento dos trabalhadores como classe explorada.

Na medida em que operários em diferentes situações contratuais convivem


juntos, os terceirizados se sentem inferiorizados e subvalorizados em virtude das piores
condições em que se encontram com relação aos demais. Por seu turno, os
empregados diretamente contratados pelo tomador se sentem permanentemente
ameaçados pela presença dos subcontratados. A consequência óbvia desse cenário é o
acirramento da competitividade entre os trabalhadores e a inviabilização de sua
identificação coletiva.

Segundo Márcio Túlio Viana:

“(...) a terceirização divide em cada empresa os trabalhadores, opondo


efetivos a terceirizados, estes se sentindo – não sem alguma razão -
inferiores àqueles, e ameaçando veladamente o seu lugar. Desse modo,
já é possível até reunir sem unir.”325

A problemática é ainda maior quando se leva em conta a questão do


enquadramento sindical. Tendo em vista a extrema flexibilidade que é inerente às

325
VIANA, 2009, p. 145.
112

diversas formas de subcontratação, os trabalhadores terceirizados não possuem


qualquer estabilidade com relação ao local de trabalho, ao tomador de seus serviços ou
mesmo à função que exercem.

Para Gustavo Magalhães Domingues e Maria Cecília Máximo Teodoro:

“(...) a multiplicidade de tomadores de serviço, componentes de distintas


categorias econômicas, bem como a sucessão de contratos de trabalho
firmados pelos trabalhadores terceirizados, inviabiliza a agregação dos
obreiros ainda que apresentem nítidos interesses econômicos e
condições de trabalho comuns.”326

Com base no entendimento tradicional, a categoria profissional é correspondente


à atividade econômica exercida pelo seu empregador. No caso dos terceirizados,
conforme pontua Vólia Bomfim Cassar,327 sua categoria profissional estará associada à
categoria econômica da empresa prestadora de serviços a qual estiver vinculado.

Pelos critérios clássicos de enquadramento sindical, os terceirizados são


severamente prejudicados na definição de sua categoria, isso quando é possível defini-
la. Tal fato, além de mantê-los ainda mais vulneráveis, enfraquece também as entidades
sindicais, já que estas acabam por não mais representar a maioria da população
economicamente ativa.

Em suma, conforme aduz Márcio Túlio Viana,328 a terceirização representa um


duro golpe nas fontes do Direito do Trabalho, já que, ao contribuir com a pulverização
sindical, dificulta a criação de normas benéficas aos trabalhadores através da
negociação coletiva e ao mesmo tempo facilita a imposição de normas precarizantes
por parte do patronato.

A terceirização, a um só tempo, é consequência do desempoderamento da


classe trabalhadora e instrumento de retroalimentação desse desempoderamento
sistemático.

326
DOMINGUES, Gustavo Magalhães de Paula Gonçalves; TEODORO, Maria Cecília Máximo.
Alternativas para o sindicalismo: o enquadramento sindical pela atividade do trabalhador ou do tomador
dos serviços. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Brasília, vol. 76, n. 2, abr/jun, 2010, p.80.
327
CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. 2ª Ed. Niterói: Impetus, 2008, p. 524.
328
VIANA, 2009, p. 145.
113

Diante desse cenário, fica evidente que o enfrentamento da problemática


representada pelo fenômeno passa necessariamente pela reafirmação do seu espírito
coletivo e, consequentemente, pelo refortalecimento dos sindicatos.

Todo o sistema jurídico de proteção social e, em especial, tudo o que diz respeito
ao Direito do Trabalho só foi conquistado graças à mobilização coletiva dos grupos
economicamente explorados. A organização em sindicatos, as greves e as lutas
coletivas como um todo consubstanciam o embrião do Direito do Trabalho.

Segundo Márcio Túlio,329 para impedir o retrocesso social, é preciso que as


forças que originaram as conquistas sociais continuem ativas, de modo a manter o
ambiente de pressão social através das organizações sindicais e a constante ameaça
de uma sanção paralela, representada especialmente pela greve.

Sobre a greve especificamente, Fernanda Barreto Lira a classifica como nada


menos que a fonte primordial do Direito do Trabalho.330 Sem ela, o Estado Moderno
jamais reconheceria os sindicatos, tampouco produziria todo um sistema jurídico de
proteção ao trabalhador.331

A única forma de romper o círculo vicioso de destruição social impulsionado pela


difusão da terceirização e por todas as demais estratégias neoliberais é através da
recuperação da consciência de classe e do sentimento de coletividade.

Segundo Everaldo Gaspar Lopes de Andrade:

“(...) se todas as conquistas e avanços que se deram, no âmbito das


relações individuais e coletivas de trabalho, só se efetivaram por meio
das lutas coletivas, qualquer tentativa de modificação desta realidade,
sem a presença dessas mesmas lutas coletivas, resultará infrutífera e
não refletirá os sentimentos da classe trabalhadora – hoje, ainda mais
explorada e escravizada”.332

Acima de tudo, é necessário que sejam reconhecidas e enfrentadas todas as


crises do sindicalismo contemporâneo. Dentre elas, conforme pontua Oton de

329
Ibidem, p. 144.
330
LIRA, Fernanda Barreto. A greve e os novos movimentos sociais: para além da dogmática jurídica
e da doutrina da OIT. São Paulo: LTr, 2009, pp. 151-153.
331
Ibidem, p. 153.
332
ANDRADE, 2014a, pp. 80-81.
114

Albuquerque Vasconcelos Filho,333 há a crise de desfiliação - decorrente especialmente


do desemprego estrutural, da supremacia do setor serviços sobre o industrial e da
multiplicação de novas formas de trabalho -, a crise decorrente do descompasso do
sindicalismo clássico com a sociedade pós-industrial, a crise decorrente do modelo
sindical verticalizado e, sobretudo, a crise decorrente da prevalência do sindicalismo
meramente reformista em detrimento do revolucionário.

A estrutura tradicional dos sindicatos é adstrita exclusivamente às relações


jurídicas oriundas do contrato individual do trabalho, estando os critérios de filiação e de
representação ainda baseados nesse formato contratual clássico. Por essa razão, o
crescimento do desemprego estrutural e a fragmentariedade dos novos postos de
trabalho, especialmente com a ascensão do setor de serviços na economia, provocam
um considerável esvaziamento nos quadros sindicais.

Para Everaldo Gaspar de Andrade:

“O setor serviços tem um peso significativo no setor formal,


apresentando um quadro variável que abarca mais de cinqüenta por
cento da população ativa e constitui um claro fator de desarticulação do
movimento sindical, contrapondo-se à horizontalidade organizacional
das relações laborais exercitadas nas empresas da era industrial. Antes,
era mais fácil aglutinar operários. Mas, com a supremacia do setor
serviços, as categorias profissionais passam a ter um universo
fragmentado, inclusive pela multiplicidade de gêneros empresariais
característicos do próprio setor”.334

Além da supressão de inúmeros postos de trabalho, do surgimento de outros e


da multiplicação de novas formas de relações laborais, a sociedade pós-industrial é
também marcada pelo ingresso das mulheres e de pessoas mais jovens no mercado de
trabalho. O sindicalismo tradicional ainda se encontra despreparado para dialogar com
esses novos grupos e com a consequente introdução de novas culturas e de novos
modos de pensar e de agir no ambiente de trabalho.

Segundo afirma Ricardo Antunes:


333
VASCONCELOS FILHO, Oton de Albuquerque. Liberdades sindicais versus atos anti-
sindicais: dogmática jurídica e a doutrina da OIT no contexto das lutas emancipatórias contemporâneas.
Dissertação (Mestrado) - Curso de Direito, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2006, pp. 55-
61.
334
ANDRADE, 2005, p. 93.
115

“O sindicalismo de base taylorista e fordista era de base vertical, as


empresas eram verticais. A classe trabalhadora era predominantemente
masculina, com contratos relativamente estáveis. Hoje, não. As
empresas se horizontalizaram, há um enorme processo de feminização
de classe trabalhadora. As dimensões de gênero e geracional (etária)
são ainda mais acentuadas do que no passado. Algumas empresas
“modernas”, por exemplo, só contratam trabalhadores com 20, 22 anos.
Por quê? Essas empresas dizem: eles não têm experiência fordista, não
têm experiência taylorista. É o “proletário ideal” para ser intensamente
explorado pelas fábricas nessa onda na qual os direitos estão sendo
dilapidados. O desafio é pensar o sindicalismo horizontal, que contemple
essa nova polissemia do trabalho”.335

A adoção de um modelo sindical horizontal e capaz de lidar com as novas


demandas da sociedade pós-industrial passa necessariamente pela articulação com os
novos movimentos sociais. Como explicam Edward Webster e Rod Lambert,336 os
sindicatos precisam se ampliar, tornarem-se sensíveis a uma nova gama de identidades
não-classistas, de modo a estabelecer alianças com outros movimentos sociais, em
torno de questões como gênero e meio-ambiente.

Além disso, a adaptação do sindicalismo à sociedade pós-industrial envolve


ainda a expansão extra-estatal de sua esfera de atuação. Desde a revolução industrial,
o capitalismo vem consolidando a sua hegemonia em todo o globo terrestre, fato que se
mostra ainda mais nítido no contexto contemporâneo do ultraliberalismo e da
globalização. Por essa razão, o sindicalismo e a luta coletiva dos trabalhadores não
pode continuar adstrita a fronteiras estatais, deve globalizar-se e ampliar seus espaços
de atuação.

Como afirma Everaldo Gaspar de Andrade:

“(...) só uma luta coletiva a ser travada nos espaços locais, regionais e
globais têm condições de propor soluções que impeçam o avanço deste
fenômeno e apontem para outra alternativa de relações de trabalho
capaz de superar as patologias contemporâneas decorrentes deste
sistema desagregador e ainda mais injusto”.337

335
ANTUNES, Ricardo apud VASCONCELOS FILHO, 2006, p. 30.
336
WEBSTER, Edward; LAMBERT, Rod. Emancipação social e o novo internacionalismo operário: uma
perspectiva do sul. In: Trabalhar o mundo: o caminho do novo internacionalismo operário. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, pp. 81-169.
337
ANDRADE, 2014a, pp. 81-82.
116

Por fim, é necessário reconhecer que o Direito do Trabalho em seus moldes


clássicos e a doutrina juslaboralista tradicional , no âmbito das relações coletivas,
sempre privilegiaram o sindicalismo reformista e negligenciaram por completo o
sindicalismo de cunho político-revolucionário.

Essa preferência pelo reformismo foi o fator que mais contribuiu para o
enfraquecimento do sindicalismo e para a materialização das crises aqui citadas.
Quando desassociada da luta revolucionária, a própria luta reivindicativa perde força.
Sem mobilização política, as organizações sindicais têm seu poder de barganha
consideravelmente reduzido, enfraquecendo a eficácia da sanção paralela a qual se
refere Márcio Túlio Viana.338

Conforme destaca Oton Vasconcelos Filho,339 as greves e as insurgências de


caráter político-revolucionário nos séculos XIX e XXI, ainda que não tenham logrado
êxito em seu intento de destruir a ordem social baseada na exploração do trabalho
humano, foram indispensáveis para a criação de melhores condições nas relações de
trabalho e para a consolidação do estado de bem-estar social.

Acompanhando a visão de Carlos Montaño e Maria Lúcia Duriguetto, 340 não há


como negar que as lutas do sindicalismo e dos movimentos sociais, sem prejuízo da
articulação com as estratégias reformistas, só adquirem sentido emancipatório quando
estiverem em consonância com um projeto de superação da ordem social vigente.

Segundo Everaldo Gaspar de Andrade:

“A luta sindical se daria, portanto, dentro destas duas perspectivas: a)


aquela a ser travada no interior das organizações produtivas e que teria
uma conotação meramente reivindicativa – esta, realçada pela doutrina
jurídico-trabalhista -; b) a luta político-revolucionária dirigida à
emancipação social e que deveria ser instituída desde os espaços locais
e regionais até o espaço global – esta, negligenciada por aquela mesma
doutrina”.341

338
VIANA, 2009, p. 144.
339
VASCONCELOS FILHO, 2006, p. 148.
340
MONTAÑO; DURIGUETTO, 2011, p. 351.
341
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. O Direito do Trabalho na Filosofia e na Teoria Social
Crítica: Os sentidos do trabalho subordinado na cultura e no poder das organizações. São Paulo: Ltr,
2014c, p. 144.
117

A proposta trazida nesta seção acompanha a concepção analítica proposta pelo


citado professor que - para justificar a prevalência das relações sindicais sobre as
relações individuais e, também, para justificar a confluência das lutas simultaneamente
reformistas e revolucionárias na reafirmação do Direito do Trabalho - parte de uma nova
pauta hermenêutica e de outros fundamentos teórico-filosóficos.342

Deixa transparecer, por outro lado, a sua opção pelo método dialético, na medida
em que constrói, no livro Princípios de Direito do Trabalho: Fundamentos teórico-
filosóficos,343 um gráfico em que descreve como ponto de partida as relações e os
conflitos coletivos e individuais, a partir das quais se chega à teoria do conhecimento
jurídico-trabalhista, por intermédio da qual se chega ao Direito do Trabalho e, por meio
dele, à dogmática jurídico-trabalhista. Ele o descreve, da seguinte maneira:

7.4 Para uma hermenêutica estruturante na compreensão do fenômeno e seu


impacto no acesso à justiça e na efetividade do processo.

O real enfrentamento de todo e qualquer método de precarização das relações


de trabalho envolve necessariamente a união da classe trabalhadora, a luta coletiva, e
a reafirmação do sindicalismo de cunho revolucionário e contra-hegemônico.

342
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. Princípios de Direito do Trabalho: fundamentos teórico-
filosóficos. São Paulo: LTr, 2008.
343
Ibidem, p. 73.
118

Isso não impede, porém, no que diz respeito especificamente à terceirização, a


adoção de estratégias hermenêuticas para enfrentar as consequências devastadoras
das injustiças que o fenômeno ajuda a manter.

Do ponto de vista do acesso à jurisdição, a utilização de uma hermenêutica que


tome como base a prevalência da vedação ao retrocesso social, de modo a
instrumentalizar o Direito do Trabalho como freio para as tentativas de ampliação da
exploração da classe trabalhadora.

Segundo Daniela Muradas Reis,344 a vedação ao retrocesso se constitui a partir


da conjugação de três princípios jurídico-trabalhistas: o princípio protetor, o princípio da
norma jurídica mais favorável e o princípio da progressividade dos direitos sociais.
Através desse tripé, é possível encontrar respostas jurídicas para aliviar, ainda que
pontualmente, os efeitos do avanço dessa sistemática de dilapidação de garantias
sociais.

Para Everaldo Gaspar de Andrade,345 é necessária a adoção de uma


hermenêutica estruturante para barrar o retrocesso social na aplicação das leis
trabalhistas. Para tanto, é preciso articular os pressupostos do Direito do Trabalho,
levando em consideração o princípio protetor – com todos os desdobramentos
presentes no subsistema jurídico trabalhista: irrenunciabilidade, inderrogabilidade,
indisponibilidade e ordem pública – conjugado com o princípio da desigualdade das
partes no processo do trabalho. Combinam-se os princípios basilares, respectivamente,
do direito material e do direito processual do trabalho.346

Afirma o autor:

“É exatamente por não haver uma coerência hermenêutica ou a adoção


de uma hermenêutica estruturante que está acontecendo verdadeiro
retrocesso na aplicação das leis do trabalho, em seu duplo aspecto –
individual e coletivo. Se, por um lado, entendo não ser possível
vislumbrar uma ruptura política e institucional, enquanto permanecer o
modelo de sociedade centrado na subordinação da força de trabalho ao

344
REIS, Daniela Muradas. O princípio da vedação ao retrocesso no direito do trabalho. São Paulo:
LTr, 2010, p. 21.
345
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. A hermenêutica jurídica contemporânea no contexto do direito
do trabalho. In: DINIZ, João Janguiê Bezerra; RIBEIRO, Marcelo (Org.). Constituição, Processo e
Cidadania. Brasília: Gomes e Oliveira, 2014b, pp. 67-68.
346
Idem.
119

capital, é possível vislumbrar, como propõe Lenio Streck, um plus


normativo no Estado Democrático do Direito ligado à realização dos
direitos fundamentais, em que a lei (Constituição) possa revelar-se como
alternativa privilegiada de instrumentalizar a ação do próprio Estado, em
busca de um novo ideal de vida e uma mudança no status quo da
sociedade – aqui, da Sociedade do Trabalho.”347

Essa posição é também endossada por Sérgio Torres Teixeira,348 que, ao referir-
se à proibição à dispensa discriminatória do trabalhador, traz à tona a aplicação dos
princípios relativos à dignidade humana. Para ele:

“De acordo com tais dispositivos, assim, o empregador não pode


estabelecer medidas discriminatórias, em virtude de deficiência, sexo,
idade, cor ou estado civil, quanto às contratações a serem realizadas e
no tocante às contraprestações a serem percebidas pelos empregados
admitidos. E, ainda, no tocante a distinções nas funções a serem
desempenhadas, igualmente se veda a prática discriminatória em face
de sexo, idade, cor ou estado civil do empregado”. 349

Da mesma forma, Rogéria Gladys Sales Guerra reconhece que o direito


individual do trabalho tem como principal fundamento o princípio protetor.350 Propõe a
extensão do alcance desse fundamento e dos preceitos de proteção social dele
decorrentes, de modo a adequar o Direito do Trabalho à sociedade pós-industrial.351

A proposta hermenêutica aqui referendada visa reduzir as injustiças perpetuadas


pelo fenômeno, especialmente as que decorrem da confusão de responsabilidades e da
inviabilização do acesso à efetiva prestação jurisdicional em favor do trabalhador
terceirizado.

De início, com base no fato de ser a terceirização uma fraude em si mesma, e no


reconhecimento desse fato na esfera jurídico-hermenêutica, é cabível a aplicação do

347
Ibidem, p. 68.
348
TEIXEIRA, Sérgio Torres. Dignidade Humana e a invalidação da dispensa discriminatória. In:
GUERRA, Rogéria Gladys Sales; ROCHA, Sabrina Araújo Feitoza Fernandes; TEIXEIRA, Sérgio Torres
(Org.). A multidisciplinaridade dos direitos fundamentais: uma análise reflexiva. Recife: Nossa
Livraria, 2014, p. 105.
349
Idem.
350
GUERRA, Rogéria Gladys Sales. O princípio protetor no contexto da flexibilização do mercado
de trabalho: uma visão prospectiva. Recife: FASA, 2013, p. 127.
351
Idem.
120

art. 9º da CLT,352 o que invalidaria a utilização do expediente e forçaria o


reconhecimento do tomador de serviços como empregador do trabalhador terceirizado
e, consequentemente, como responsável solidário por todas as obrigações trabalhistas
e previdenciárias.

Além disso, a consolidação das leis do trabalho, em seu art. 2º, § 2º, traz o
conceito de grupo econômico, nos seguintes termos:

“Art. 2º - Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva,


que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e
dirige a prestação pessoal de serviço.
(...)
§ 2º - Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma
delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle
ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de
qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de
emprego, solidariamente responsáveis a empresa principal e cada uma
das subordinadas.”

Pelo texto do diploma consolidado, todas as empresas componentes do grupo


são alçadas à condição de empregadoras, possuindo responsabilidade solidária pelas
obrigações trabalhistas.

Consoante argumenta Maurício Godinho Delgado,353 trata-se de relação na qual


dois ou mais entes empresariais se beneficiam da prestação de serviços derivada de
um mesmo contrato de trabalho:

“O grupo econômico aventado pelo Direito do Trabalho define-se como a


figura resultante da vinculação justrabalhista que se forma entre dois ou
mais entes favorecidos direta ou indiretamente pelo mesmo contrato de
trabalho, em decorrência de existir entre esses entes laços de direção
ou coordenação em face de atividades industriais, comerciais,
financeiras, agroindustriais ou de qualquer outra natureza econômica”. 354

352
BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei nº 5.452/1943).
Art. 9º - Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a
aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.
353
DELGADO, 2016, p. 438.
354
Idem.
121

A semelhança entre a descrição desse instituto com o que ocorre na


terceirização é bastante nítida. Na realidade, o grupo econômico nada mais é que uma
descentralização da cadeia produtiva, com a distribuição de funções e
responsabilidades entre várias empresas parceiras.

O único óbice ao reconhecimento das terceirizações como formas de grupo


econômico é o fato de a redação da CLT exigir a presença de uma empresa principal,
chefiando o grupo. Nas terceirizações em geral, não há como identificar com exatidão a
presença de uma empresa líder dentre tomador e prestador de serviços.

Por outro lado, conforme argumenta Everaldo Gaspar de Andrade,355 é


perfeitamente possível a adoção de um conceito amplo de grupo econômico, de modo a
considerar que o tráfico de influência entre as empresas pode ser recíproco e
horizontal.

Essa visão é compartilhada por Márcio Túlio Viana,356 que equipara o grupo
econômico à terceirização externa e ressalta que os conglomerados empresariais se
organizam de forma cada vez mais difusa. Diante da crescente dificuldade de
identificação de um ente principal no grupo econômico, a interpretação do art. 2º, § 2º,
CLT de maneira restritiva acaba por inutilizar o dispositivo.

Através de um conceito ainda mais amplo de grupo econômico, que leve em


conta a simples existência de laços na execução da atividade empresarial, é possível
aplicar seus preceitos até mesmo para a terceirização interna. Nesse modelo, ainda que
não haja propriamente a formação de um conglomerado empresarial, há uma
conjugação entre as duas empresas para o desempenho de uma atividade.

Com a aplicação do conceito de grupo econômico e a atribuição


responsabilidade solidária para todas as empresas em uma cadeia produtiva, tem-se
mais uma alternativa jurídico-hermenêutica para lidar com a terceirização, ainda que de
maneira temporária.

Além do exposto, a adoção de uma nova hermenêutica que tenha como base a
vedação ao retrocesso social necessariamente levará em conta a aplicação do princípio

355
ANDRADE, 2014a, p. 89.
356
VIANA, 2009, p. 145.
122

da isonomia nas relações de trabalho. O qual, conforme reconhecido até mesmo pela
doutrina tradicional, é severamente ignorado na terceirização.

O instituto da equiparação salarial tem fundamento nesse princípio e se


encontra expresso no art. 461 da Consolidação das Leis do Trabalho, nos seguintes
termos:

“Art. 461 - Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor,


prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá
igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade.”

Em razão do requisito “mesmo empregador”, a terceirização serve como burla à


exigência de equiparação salarial, já que um trabalhador terceirizado e um contratado
diretamente pelo tomador, ainda que realizem a mesma função, terão sempre
empregadores distintos do ponto de vista formal.

Para lidar com essa problemática, é possível atribuir sentido amplo à expressão
“mesmo empregador”, de modo a considerar como tal o destinatário do serviço
desempenhado pelo trabalhador. Tal interpretação se encontra em consonância com o
princípio constitucional da isonomia e com o princípio da primazia da realidade no
Direito do Trabalho.

No que se refere à terceirização na Administração Pública, a reconfiguração


hermenêutica proposta nesse estudo atrairia o reconhecimento da responsabilidade dos
entes públicos diante do fenômeno.

Descrita no art. 37, § 6º, da Constituição Federal,357 a responsabilidade civil


objetiva do Estado tem fundamento na teoria do risco administrativo, segundo a qual
não deve o particular estar sujeito a arcar com danos advindos de uma atividade
estatal, já que tal atividade é desenvolvida em prol de toda a coletividade. É a

357
BRASIL. Constituição Federal de 1988.
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
(...)
§ 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos
responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito
de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa.
123

coletividade, representada pela Administração Pública, quem deve suportar os riscos


oriundos da atividade estatal.

Essa ideia deriva também do princípio da isonomia, pois a assunção do risco


administrativo pelo Estado serve, em última análise, para propiciar uma distribuição
equânime dos eventuais ônus estatais, já que os bônus, em tese, também serão
distribuídos de maneira igualitária.

Como explica Celso Antônio Bandeira de Mello:

“(...) na hipótese de danos ligados a situação criada pelo Poder Público


– mesmo que não seja o Estado o próprio autor do ato danoso -,
entendemos que o fundamento da responsabilidade estatal é garantir
uma equânime repartição dos ônus provenientes de atos ou efeitos
lesivos, evitando que alguns suportem prejuízos ocorridos por ocasião
ou por causa de atividade desempenhadas no interesse de todos. De
conseguinte, seu fundamento é o princípio da igualdade, noção básica
do Estado de Direito”.358

Por outro lado, quando o Estado atua como tomador dos serviços prestados por
um trabalhador terceirizado, aplica-se o art. 71, § 1º, da lei de licitações e contratos
públicos,359 que simplesmente impede a responsabilização estatal em caso de
inadimplência da empresa contratada como intermediária.

Esse dispositivo parece negligenciar a teoria do risco administrativo e a norma


constitucional do art. 37, § 6º. Não há como afastar o nexo de causalidade entre a
atividade estatal terceirizada e o dano sofrido pelo trabalhador terceirizado diante da
inadimplência do empregador intermediário. Assim, com base na Constituição Federal,
é possível a atribuição de responsabilidade ao ente estatal tomador dos serviços,
independentemente de dolo ou culpa.

358
MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 12ª Ed. São Paulo: Malheiros,
2002, p. 849.
359
BRASIL. Lei nº 8.666/1993:
Art. 71. O contratado é responsável pelos encargos trabalhistas, previdenciários, fiscais e comerciais
resultantes da execução do contrato.
§ 1º A inadimplência do contratado, com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais não
transfere à Administração Pública a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto do
contrato ou restringir a regularização e o uso das obras e edificações, inclusive perante o Registro de
Imóveis.
124

Diante da referida norma da lei de contratações públicas, o TST, ao invés de


considerá-la inconstitucional, apenas alterou a Súmula 331, de modo a exigir a
comprovação de conduta culposa por parte da Administração.360 Sem levar em
consideração que a Constituição Federal adota a teoria do risco administrativo.

Uma interpretação feita com base no princípio da proteção deve


necessariamente concluir pela inconstitucionalidade do art. 71, § 1º, da lei 8.666/1993.
Não há como se conceber que justamente no Direito do Trabalho, onde a tutela ao
hipossuficiente é mais necessária, a regra constitucional sobre responsabilidade
objetiva do Estado seja afastada.

Observa-se que é possível, através de uma hermenêutica estruturante, encontrar


respostas nos preceitos jurídico-trabalhistas capazes de limitar, mesmo que de maneira
eventual e temporária, as mazelas sociais retroalimentadas através do fenômeno da
terceirização.

A hermenêutica estruturante concebida pelo professor Everaldo Gaspar Lopes


de Andrade361 parte da versão analítica descrita por Diego López Medina 362 e que pode
ser descrita por meio do seguinte desenho:

360
BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho:
“(...)
V - Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas
mesmas condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações
da Lei n.º 8.666, de 21.06.1993, especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações
contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre
de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada”.
361
ANDRADE, 2014b, pp. 53-76.
362
MEDINA, Diego López. Hermenêutica e Linguagem na teoria do direito. In: MACEDO JÚNIOR,
Ronaldo Porto; BARBIERI, Catarina Helena (Orgs.). Direito e Interpretação: Racionalidades e
Instituições. São Paulo: Saraiva, 2011, pp. 155-192.
125

Para o juslaboralista alagoano, a Filosofia da Interpretação é construída, para o


acesso à justiça e a efetividade da jurisdição, na esfera trabalhista, a partir da
confluência dos Princípios do Direito do Trabalho com os Princípios do Direito
Processual do Trabalho.363 Não é por acaso que os princípios de ambos os campos
acima referenciados aparecem, para aquele jurista, como fundamentos de validade
daqueles dois campos do Direito e são formulados no contexto de uma concepção
filosófica muito sofisticada. Daí o próprio título de uma das obras por ele escrita, a
acima referenciada: Princípios do Direito do Trabalho: Fundamentos teórico-filosóficos.
Do mesmo modo, quando trata da Norma Processual Trabalhista e faz referência ao
Princípio da Desigualdade das Partes.364

Uma vez identificada a Filosofia da Interpretação adequada à experiência


jurídico-trabalhista, parte-se para a Jurística da Interpretação, ou melhor, à escolha ou
opção de uma escola hermenêutica que passe pelo filtro da premisssa primeira ou da
Filosofia da Interpretação. Aqui, o autor deste estudo optou pelo Princípio da Vedação
ao Retrocesso do Direito do Trabalho.

Uma filosofia da Interpretação que acolhe o Princípio da Vedação ao Retrocesso


no Direito do Trabalho rejeita qualquer experiência trabalhista e qualquer alteração de
norma constitucional ou infraconstitucional, bem como qualquer decisão que possa

363
ANDRADE, op. cit.
364
ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes de. A norma processual. In: ANDRADE, Everaldo Gaspar Lopes
de. Direito Processual do Trabalho: Estudos. Recife: Nossa Livraria, 1992, pp. 145-162.
126

acolher, como regra, a terceirização das relações de trabalho porque, no fundo, o


instituto vem ao desencontro do Princípio da Proteção Social centrado nos
pressupostos da irrenunciabilidade, inderrogabilidade, indisponibilidade e ordem pública
que norteiam o subsistema jurídico-trabalhista do mundo moderno.

O professor Everaldo Gaspar Lopes de Andrade redesenha a concepção


proposta por Diego Lopes Medina, para descrever a sua hermenêutica estruturante na
Experiência Jurídico-trabalhista da seguinte maneira:365

Princípios do Direito do
Trabalho e do Direito
Processual do Trabalho.

Escolha da escola
hermenêutica: Princípio da
Vedação ao Retrocesso.

Rejeição ao instituto da
terceirização nas relações de
trabalho.

365
ANDRADE, 2014b, pp. 53-76.
127

CONCLUSÕES

O tema Terceirização das Relações de Trabalho há de ser enquadrado no


contexto da Modernidade ou do Direito Dogmaticamente Organizado, como produto da
Modernidade.

Significa dizer que as relações de trabalho subordinadas se legitimam e se


universalizam a partir de um modo específico de produção – Modo de Produção
Capitalista – que, por seu turno, subordina a força do trabalho ao capital.

Desde o advento dos primeiros escritos que sedimentaram a Economia Política


Clássica, ou seja, desde Adam Smith, os teóricos da economia política procuraram
demonstrar que o Modo de Produção Capitalista foi capaz de instaurar uma Divisão
Social do Trabalho inteiramente revolucionária.

A partir do momento em que burguesia destrona o Absolutismo Monárquico – em


que os poderes se encontravam nas mãos do clero e da nobreza – e ascende ao poder,
no momento em que se cria o estado moderno, o trabalho contraditoriamente
livre/subordinado passa a ser considerado o lócus da sociabilidade e o a priori das
teorizações no campo da sociologia clássica.

Esta narrativa absolutamente nova e desconcertante vem sendo construída e


disseminada pelos pesquisadores que passam e passaram por este Programa de Pós-
graduação e, especialmente, pela linha de pesquisa Direito do Trabalho e Teoria Social
Crítica.

Disseminada e construída para justificar, primeiro, o binômio


legitimação/universalização do trabalho contraditoriamente livre/subordinado como
objeto deste campo do conhecimento jurídico e, em seguida, para problematizar, refutar
e propor gnosiologicamente outro objeto e outros fundamentos para o Direito do
Trabalho.

Do que se pode deduzir dessa vasta produção acadêmica – dissertações e


teses, muitas transformadas em livros – é que a racionalização do trabalho, sobretudo a
128

partir do advento da chamada Administração Científica, segue padrões organizacionais


desconcertantes, em termos de alta produtividade.

Alta produtividade que não seria jamais alcançada, sem os padrões tecnológicos
já anunciados por Marx e Engels no Manifesto de 1848, e sem o elevado nível
acadêmico dos padrões organizacionais desenvolvidos para estar a serviço deste
mesmo modo de produção.

Também seria inadmissível, sem a notável evolução da ciência da administração


e da teoria organizacional postas também a serviço deste modo de produção. Desde o
advento da chamada Administração Científica ao aparecimento do Ohnismo/Toytismo,
à fase atual da captura ou empoderamento da subjetividade.

Daí terem razão Marx e Engels quando afirmaram, também no manifesto, que a
classe burguesa não pode viver sem revolucionar permanentemente os instrumentos de
produção e, com eles, toda vida social.

O estudo deixa transparecer, de início, que sem um diálogo do Direito do


Trabalho com outros campos do saber social – a Filosofia, a Sociologia, a Teoria
Organizacional Crítica, a Geografia Humana, dentre outras -, não é possível entender a
Terceirização, posto que a mesma surge por meio dos mecanismos organizacionais
forjados pela teoria organizacional conservadora, para manter a evolução e a
hegemonia do Modo de Produção Capitalista.

Quando a teoria jurídico-trabalhista clássica se preocupa em descrever e analisar


aquele fenômeno centrada apenas nos sistemas e subsistemas jurídicos, envolve-se
numa concepção dogmática, periférica e não é capaz de entender o fenômeno em sua
totalidade.

Para o autor desta dissertação, a Terceirização é um fenômeno surgido por meio


de estudos advindos dos grandes laboratórios organizacionais e postos à disposição da
divisão social do trabalho para ser implantado em todo o planeta.

É aplicado e difundido nas Escolas de Administração, nos cursos de MBA que se


encarregam de ensinar como deve ser conduzida a Gestão de Negócios, de Produtos e
129

de Pessoas; e qual a melhor maneira de alcançar sempre e sempre o grau máximo de


produtividade.

Por outro lado, deve-se ter em mente quais as maneiras mais eficientes de
quebrar ou de implodir os vínculos daquilo que Émile Durkheim chamava de
Solidariedade Orgânica dos trabalhadores, que se daria, sobretudo, por meio de uma
acelerada rotatividade da mão-de-obra.

O ponto culminante desta experiência desagregadora se instaura por meio da


Terceirização, por meio daquilo que a teoria social crítica e a teoria jurídico-trabalhista
crítica passaram a chamar de Dualização do Assalariado.

Embora se possa vislumbrar uma vitória do ultraliberalismo global, que se


estabelece exatamente por meio do “avanço” nas relações de trabalho, não se pode
deixar de compreender que é também neste espaço/tempo que se pode vislumbrar a
retomada da resistência contra as barbáries, as mortes lentas no trabalho, os rituais do
sofrimento, as injustiças e o retrocesso das conquistas sócio-laborais advindas da
terceirização.

Do ponto de vista dos Movimentos Sociais e das Teorias dos Movimentos


Sociais, o estudo deixa transparecer a sua opção pelo ajuntamento das lutas que
envolvem os excluídos de todo o gênero e da classe trabalhadora em particular em
torno daquilo que o professor Everaldo Gaspar considera a Grande Narrativa ou o
pressuposto das lutas libertárias ou ainda contra-hegemônicas: o Modo de Produção
Capitalista, que continua a subordinar a Força do Trabalho ao Capital.

Esta versão teorética se afasta das versões institucionalistas/propositivas e pós-


modernas posto que não deposita sua crença na resolução de problemas tão
complexos à hegemonia dos poderes instituídos. Tampouco entende que tudo passa a
ser líquido, interditado e que, como diz a versão pós-moderna, não há mais
necessidade de grandes narrativas.

Se os estudos elaborados nesse Programa de Pós-graduação caminham para a


compreensão segundo a qual a prevalência e a evangelização do trabalho
livre/subordinado é um fenômeno datado e não trans-histórico, posto que ele aparece
com o advento da Sociedade Moderna, com a ascensão da burguesia ao poder; que
130

embora se possa identificar as diversas transfigurações empreendidas na política, na


economia e no trabalho, a narrativa primeira continua a comandar a sociabilidade que
se legitima e se universaliza a partir da Era Moderna – O Modo de Produção Capitalista
que subordina a força do trabalho ao capital.

Para comprovar que a Terceirização é um fenômeno que retrata esta etapa


histórica de um modo de produção e de uma divisão social de trabalho que surge na
Modernidade, o estudo passa a problematizar a doutrina juslaboralista tradicional.

Neste sentido, traça, de forma detalhada, uma narrativa específica, em termos do


pensamento brasileiro e estrangeiro sobre este fenômeno. Em seguida, demonstra a
maneira como a teoria jurídico-trabalhista crítica enxerga a terceirização. Desta síntese,
se pode identificar que, para a teoria tradicional, a terceirização é causa e não
consequência da desconstrução do modelo Fordista/Taylorista para o Modelo de
Acumulação Flexível.

A teoria tradicional, ao seguir este rumo, tem apenas uma visão parcial e uma
compreensão estruturada/estruturante do fenômeno. Ao concentrar-se numa crítica
marcadamente dogmática e sem dialogar com as demais ciências sociais, não pode
compreender que a terceirização gera a dualização do assalariado e, como defende o
professor Márcio Túlio Viana, torna-se, em si, uma fraude.

Em termos de relações coletivas ou sindicais, deixa-se aqui transparecer que o


sindicalismo contemporâneo deve adotar aquilo que o sociólogo Ricardo Antes
considera como horizontalização do movimento operário, para ele alcance e envolva os
excluídos de todo o gênero em torno de pautas que unam simultaneamente
movimentos de caracteres reformistas e pautas emancipatórias ou contra-hegemônicas.

Este tem se tornado um dos argumentos mais vigorosos do pensamento jurídico-


trabalhista forjado nesse programa e que o estudo que ora se conclui tomou como
elemento argumentativo relevante.

Fora desta perspectiva não há saída. Mesmo o decantado sindicalismo de


resultados, predominante nos Estados Unidos, não mais atende a seu perfil histórico.
Na medida em que procurou neutralizar a luta coletiva e ser eficiente nas questões
131

pontuais de um determinado universo trabalhista – a empresa -, agora nem isso pode


satisfazer.

É que, no Chão da Fábrica ou na Estrada Virtual, não há mais uma empresa,


mas dezenas de pequenas empresas, ou, como pretende patologicamente a teoria
organizacional conservadora, cada ser humano que trabalha passa a ser o EU/SA.

Logo, o capitalismo contemporâneo se vê enlaçado nas suas próprias


contradições e favorece a retomada das lutas libertárias e contra-hegemônicas. Para
um direito que surge e se desenvolve a partir da luta operária, a crença da teoria
jurídico-trabalhista crítica é a de que um novo cenário libertador está se forjando dentro
dessas mesmas contradições.

Esta dissertação redefine a narrativa da teoria jurídico-trabalhista clássica acerca


do fenômeno Terceirização, sobretudo, para inverter a perspectiva analítica: de causa
para consequência da passagem do modelo Fordista/Taylorista para o modelo de
acumulação flexível. A maior consequência desta narrativa é chegar-se aquilo que o
professor Márcio Túlio Viana já anunciara: a terceirização não apenas provoca fraudes,
ela é, em si, uma fraude.

Mas o combate à terceirização não é patrimônio de uma articulação de


interlocutores sociais com os chamados poderes instituídos, no contexto da chamada
versão proativa. Tampouco, da versão pós-moderna centrada na efemeridade. Aqui,
escolhe-se a versão socialista, segundo a qual, para ter-se a perspectiva de retomada
dos movimentos libertários é preciso, sim, eleger uma narrativa em torno da qual os
movimentos libertários e, dentre eles, os movimentos coletivos dos trabalhadores
estejam presentes.

Nesse sentido, tem-se ampliadas as pautas reivindicativas tipicamente sindicais


e uma retomada dos movimentos simultaneamente reformistas e revolucionários. É
neste contexto que se devem instituir, em níveis locais, regionais e supranacionais, os
movimentos emancipatórios e contra-hegemônicos contra as barbáries contemporâneas
desencadeadas pelo ultraliberalismo global, inclusive aquele que implodiu os sentidos
da solidariedade orgânica dos trabalhadores, em virtude da dualização do assalariado,
fruto da terceirização.
132

O autor deste estudo aponta ainda para uma reconfiguração acerca do acesso à
justiça e da efetividade do processo. Neste sentido, e adotando a tese formulada pelo
professor Everaldo Gaspar Lopes de Andrade, parte de um a priori: reconhecer uma
FILOSOFIA DA INTERPRETAÇÃO típica das relações – individuais e coletivas de
trabalho. Ela se constrói, tendo como pressuposto a união dos princípios – enquanto
fundamento de validade – do Direito do Trabalho e do Direito Processual do Trabalho.

A partir deste pressuposto, o interprete e o aplicador do Direito do Trabalho


estará apto para escolher uma escola hermenêutica que, para ser aplicada, deve partir
do respeito aos princípios daqueles dois ramos específicos do direito – já que o primeiro
rege relações ontologicamente desiguais e é fruto da luta operária; o segundo tem,
necessariamente, que reconhecer a assimetria entre os sujeitos da relação processual.

Nessa segunda fase do desenho, a dissertação escolheu, como JURÍSTICA DA


INTERPRETAÇÃO, a Teoria da Vedação do Retrocesso no Direito do Trabalho para,
nas PRÁTICAS INTERPRETATIVAS DOS JURISTAS E CIDADÃOS, aplicá-la ao
fenômeno Terceirização e, diante disto, negar a sua possibilidade de reconhecimento
por ser ele, em si, uma fraude.

Espera o autor deste projeto de pesquisa, agora transformado em dissertação,


haver cumprido o seu dever acadêmico. Espera, por fim, seguindo as trilhas desse
Programa de Pós-graduação, haver apresentado um trabalho a altura das versões
analíticas nele produzidas, por meio de seus pesquisadores.

Espera, por fim, haver seguido os caminhos traçados pela teoria jurídico-
trabalhista crítica, na esperança de que um mundo melhor haverá de surgir, por meio
de uma nova Sociedade do Trabalho, libertada dos rituais do sofrimento impostos
àqueles que têm o trabalho dever, o trabalho sacrifício como protoforma da vida.

Teoria dos Movimentos Sociais, Teoria Social Crítica, Teoria Jurídico-trabalhista


Crítica, Hermenêutica Estruturante, eis as bases gnosiológicas que fundamentaram a
narrativa deste estudo, para problematizar, refutar a doutrina jurídico-trabalhista
clássica e propor uma nova versão analítica sobre o fenômeno TERCEIRIZAÇÃO.
133

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143

ANEXO 1: LEGISLAÇÃO PERTINENTE À TERCEIRIZAÇÃO

DECRETO-LEI Nº 200, DE 25 DE FEVEREIRO DE 1967.

Dispõe sôbre a organização da Administração


Federal, estabelece diretrizes para a Reforma
Administrativa e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA , usando das atribuições que lhe confere o art. 9°, § 2º, do Ato
Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966, decreta:

TÍTULO I
DA ADMINISTRAÇÃO FEDERAL

Art. 1º O Poder Executivo é exercido pelo Presidente da República auxiliado pelos Ministros de
Estado.

Art. 2º O Presidente da República e os Ministros de Estado exercem as atribuições de sua


competência constitucional, legal e regulamentar com o auxílio dos órgãos que compõem a
Administração Federal.

Art. 3º Respeitadas as limitações estabelecidas na Constituição e observadas as disposições legais,


o Poder Executivo regulará a estruturação e o funcionamento dos órgãos da Administração Federal.

Art. 3º Respeitada a competência constitucional do Poder Legislativo estabelecida no artigo 46,


inciso II e IV, da Constituição, o Poder Executivo regulará a estruturação, as atribuições e funcionamento
do órgãos da Administração Federal. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 4° A Administração Federal compreende:

I - A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da


Presidência da República e dos Ministérios.

II - A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de


personalidade jurídica própria:

a) Autarquias;

b) Emprêsas Públicas;

c) Sociedades de Economia Mista.

d) fundações públicas. (Incluído pela Lei nº 7.596, de 1987)

§ 1° As entidades compreendidas na Administração Indireta consideram-se vinculadas ao Ministério


em cuja área de competência estiver enquadrada sua principal atividade.
144

Parágrafo único. As entidades compreendidas na Administração Indireta vinculam-se ao Ministério


em cuja área de competência estiver enquadrada sua principal atividade. (Renumerado pela Lei nº
7.596, de 1987)

§ 2º Equiparam-se às Emprêsas Públicas, para os efeitos desta lei, as Fundações instituídas em


virtude de lei federal e de cujos recursos participe a União, quaisquer que sejam suas
finalidades. (Revogado pelo Decreto-Lei 900, de 1969)
§ 2 º As fundações instituídas em virtude de lei federal ou de cujos recursos participe a União
integram também a Administração Federal indireta, para os efeitos de: (Redação dada pelo Decreto-Lei
nº 2.299, de 1986) (Revogado pela Lei nº 7.596, de 1987)
a) subordinação aos mecanismos e normas de fiscalização, controle e gestão financeira; (Incluído
pelo Decreto-Lei nº 2.299, de 1986) (Revogado pela Lei nº 7.596, de 1987)
b) inclusão de seus cargos, empregos, funções e respectivos titulares no Plano de Classificação de
Cargos instituído pela Lei n º 5.645, de 10 de dezembro de 1970. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 2.299, de
1986) (Revogado pela Lei nº 7.596, de 1987)
§ 3 º Excetuam-se do disposto na alínea b do parágrafo anterior as fundações universitárias e as
destinadas à pesquisa, ao ensino e às atividades culturais.(Incluído pelo Decreto-Lei nº 2.299, de
1986) (Revogado pela Lei nº 7.596, de 1987)

Art. 5º Para os fins desta lei, considera-se:

I - Autarquia - o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita
próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor
funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada.

II - Emprêsa Pública - a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, com patrimônio
próprio e capital exclusivo da União ou de suas entidades da Administração Indireta, criada por lei para
desempenhar atividades de natureza empresarial que o Govêrno seja levado a exercer, por motivos de
conveniência ou contingência administrativa, podendo tal entidade revestir-se de qualquer das formas
admitidas em direito.

II - Emprêsa Pública - a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, com patrimônio
próprio e capital exclusivo da União, criado por lei para a exploração de atividade econômica que o
Govêrno seja levado a exercer por fôrça de contingência ou de conveniência administrativa podendo
revestir-se de qualquer das formas admitidas em direito. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969)

III - Sociedade de Economia Mista - a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado,
criada por lei para o exercício de atividade de natureza mercantil, sob a forma de sociedade anônima,
cujas ações com direito a voto pertençam, em sua maioria, à União ou à entidade da Administração
Indireta.

III - Sociedade de Economia Mista - a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado,
criada por lei para a exploração de atividade econômica, sob a forma de sociedade anônima, cujas ações
com direito a voto pertençam em sua maioria à União ou a entidade da Administração Indireta. (Redação
dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

IV - Fundação Pública - a entidade dotada de personalidade jurídica de direito privado, sem fins
lucrativos, criada em virtude de autorização legislativa, para o desenvolvimento de atividades que não
exijam execução por órgãos ou entidades de direito público, com autonomia administrativa, patrimônio
próprio gerido pelos respectivos órgãos de direção, e funcionamento custeado por recursos da União e
de outras fontes. (Incluído pela Lei nº 7.596, de 1987)
145

§ 1º No caso do inciso III, quando a atividade fôr submetida a regime de monopólio estatal, a maioria
acionária caberá apenas à União, em caráter permanente.

§ 2º O Poder Executivo enquadrará as entidades da Administração Indireta existentes nas


categorias constantes dêste artigo.

§ 3º As entidades de que trata o inciso IV deste artigo adquirem personalidade jurídica com a
inscrição da escritura pública de sua constituição no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, não se lhes
aplicando as demais disposições do Código Civil concernentes às fundações. (Incluído pela Lei nº 7.596,
de 1987)

TÍTULO II
DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

Art. 6º As atividades da Administração Federal obedecerão aos seguintes princípios fundamentais:

I - Planejamento.

II - Coordenação.

III - Descentralização.

IV - Delegação de Competência.

V - Contrôle.

CAPÍTULO I
DO PLANEJAMENTO

Art. 7º A ação governamental obedecerá a planejamento que vise a promover o desenvolvimento


econômico-social do País e a segurança nacional, norteando-se segundo planos e programas
elaborados, na forma do Título III, e compreenderá a elaboração e atualização dos seguintes
instrumentos básicos:

a) plano geral de govêrno;

b) programas gerais, setoriais e regionais, de duração plurianual;

c) orçamento-programa anual;

d) programação financeira de desembôlso.

CAPÍTULO II
DA COORDENAÇÃO

Art . 8º As atividades da Administração Federal e, especialmente, a execução dos planos e


programas de govêrno, serão objeto de permanente coordenação.

§ 1º A coordenação será exercida em todos os níveis da administração, mediante a atuação das


chefias individuais, a realização sistemática de reuniões com a participação das chefias subordinadas e a
instituição e funcionamento de comissões de coordenação em cada nível administrativo.
146

§ 2º No nível superior da Administração Federal, a coordenação será assegurada através de


reuniões do Ministério, reuniões de Ministros de Estado responsáveis por áreas afins, atribuição de
incumbência coordenadora a um dos Ministros de Estado (art. 36), funcionamento das Secretarias Gerais
(art. 23, § 1º) e coordenação central dos sistemas de atividades auxiliares (art. 31).

§ 3º Quando submetidos ao Presidente da República, os assuntos deverão ter sido prèviamente


coordenados com todos os setores nêles interessados, inclusive no que respeita aos aspectos
administrativos pertinentes, através de consultas e entendimentos, de modo a sempre compreenderem
soluções integradas e que se harmonizem com a política geral e setorial do Govêrno. Idêntico
procedimento será adotado nos demais níveis da Administração Federal, antes da submissão dos
assuntos à decisão da autoridade competente.

Art. 9º Os órgãos que operam na mesma área geográfica serão submetidos à coordenação com o
objetivo de assegurar a programação e execução integrada dos serviços federais.

Parágrafo único. Quando ficar demonstrada a inviabilidade de celebração de convênio (alínea b do §


1º do art. 10) com os órgãos estaduais e municipais que exerçam atividades idênticas, os órgãos federais
buscarão com êles coordenar-se, para evitar dispersão de esforços e de investimentos na mesma área
geográfica.

CAPÍTULO III
DA DESCENTRALIZAÇÃO

Art. 10. A execução das atividades da Administração Federal deverá ser amplamente
descentralizada.

§ 1º A descentralização será posta em prática em três planos principais:

a) dentro dos quadros da Administração Federal, distinguindo-se claramente o nível de direção do


de execução;

b) da Administração Federal para a das unidades federadas, quando estejam devidamente


aparelhadas e mediante convênio;

c) da Administração Federal para a órbita privada, mediante contratos ou concessões.

§ 2° Em cada órgão da Administração Federal, os serviços que compõem a estrutura central de


direção devem permanecer liberados das rotinas de execução e das tarefas de mera formalização de
atos administrativos, para que possam concentrar-se nas atividades de planejamento, supervisão,
coordenação e contrôle.

§ 3º A Administração casuística, assim entendida a decisão de casos individuais, compete, em


princípio, ao nível de execução, especialmente aos serviços de natureza local, que estão em contato com
os fatos e com o público.

§ 4º Compete à estrutura central de direção o estabelecimento das normas, critérios, programas e


princípios, que os serviços responsáveis pela execução são obrigados a respeitar na solução dos casos
individuais e no desempenho de suas atribuições.

§ 5º Ressalvados os casos de manifesta impraticabilidade ou inconveniência, a execução de


programas federais de caráter nitidamente local deverá ser delegada, no todo ou em parte, mediante
convênio, aos órgãos estaduais ou municipais incumbidos de serviços correspondentes.
147

§ 6º Os órgãos federais responsáveis pelos programas conservarão a autoridade normativa e


exercerão contrôle e fiscalização indispensáveis sôbre a execução local, condicionando-se a liberação
dos recursos ao fiel cumprimento dos programas e convênios.

§ 7º Para melhor desincumbir-se das tarefas de planejamento, coordenação, supervisão e contrôle e


com o objetivo de impedir o crescimento desmesurado da máquina administrativa, a Administração
procurará desobrigar-se da realização material de tarefas executivas, recorrendo, sempre que possível, à
execução indireta, mediante contrato, desde que exista, na área, iniciativa privada suficientemente
desenvolvida e capacitada a desempenhar os encargos de execução.

§ 8º A aplicação desse critério está condicionada, em qualquer caso, aos ditames do interesse
público e às conveniências da segurança nacional.

CAPÍTULO IV
DA DELEGAÇÃO DE COMPETÊNCIA
(Vide Decreto nº 83.937, de 1979)

Art. 11. A delegação de competência será utilizada como instrumento de descentralização


administrativa, com o objetivo de assegurar maior rapidez e objetividade às decisões, situando-as na
proximidade dos fatos, pessoas ou problemas a atender.

Art . 12 . É facultado ao Presidente da República, aos Ministros de Estado e, em geral, às


autoridades da Administração Federal delegar competência para a prática de atos administrativos,
conforme se dispuser em regulamento.

Parágrafo único. O ato de delegação indicará com precisão a autoridade delegante, a autoridade
delegada e as atribuições objeto de delegação.

CAPÍTULO V
DO CONTRÔLE

Art. 13 O contrôle das atividades da Administração Federal deverá exercer-se em todos os níveis e
em todos os órgãos, compreendendo, particularmente:

a) o contrôle, pela chefia competente, da execução dos programas e da observância das normas
que governam a atividade específica do órgão controlado;

b) o contrôle, pelos órgãos próprios de cada sistema, da observância das normas gerais que
regulam o exercício das atividades auxiliares;

c) o contrôle da aplicação dos dinheiros públicos e da guarda dos bens da União pelos órgãos
próprios do sistema de contabilidade e auditoria.

Art. 14. O trabalho administrativo será racionalizado mediante simplificação de processos e


supressão de contrôles que se evidenciarem como puramente formais ou cujo custo seja evidentemente
superior ao risco.

TÍTULO III
DO PLANEJAMENTO, DO ORÇAMENTO-PROGRAMA E DA PROGRAMAÇÃO FINANCEIRA

Art. 15. A ação administrativa do Poder Executivo obedecerá a programas gerais, setoriais e
regionais de duração plurianual, elaborados através dos órgãos de planejamento, sob a orientação e a
coordenação superiores do Presidente da República.
148

§ 1º Cabe a cada Ministro de Estado orientar e dirigir a elaboração do programa setorial e regional
correspondente ao seu Ministério e ao Ministro do Planejamento e Coordenação Geral auxiliar
diretamente o Presidente da República na coordenação, revisão e consolidação do programas setoriais e
regionais e na elaboração da programação geral do Govêrno.

§ 1º Cabe a cada Ministro de Estado orientar e dirigir a elaboração do programa setorial e regional
correspondente a seu Ministério e ao Ministro de Estado, Chefe da Secretaria de Planejamento, auxiliar
diretamente o Presidente da República na coordenação, revisão e consolidação dos programas setoriais
e regionais e na elaboração da programação geral do Governo. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de
1974)

§ 2º Com relação à Administração Militar, observar-se-á o disposto no art. 50.

§ 2º Com relação à Administração Militar, observar-se-á a finalidade precípua que deve regê-la,
tendo em vista a destinação constitucional das Fôrças Armadas, sob a responsabilidade dos respectivos
Ministros, que são os seus Comandantes Superiores. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

§ 3º A aprovação dos planos e programas gerais, setoriais e regionais é da competência do


Presidente da República.

Art. 16. Em cada ano, será elaborado um orçamento-programa, que pormenorizará a etapa do
programa plurianual a ser realizada no exercício seguinte e que servirá de roteiro à execução coordenada
do programa anual.

Parágrafo único. Na elaboração do orçamento-programa serão considerados, além dos recursos


consignados no Orçamento da União, os recursos extra-orçamentários vinculados à execução do
programa do Govêrno.

Art. 17. Para ajustar o ritmo de execução do orçamento-programa ao fluxo provável de recursos, o
Ministério do Planejamento e Coordenação Geral e o Ministério da Fazenda elaborarão, em conjunto, a
programação financeira de desembôlso, de modo a assegurar a liberação automática e oportuna dos
recursos necessários à execução dos programas anuais de trabalho.

Art. 18. Tôda atividade deverá ajustar-se à programação governamental e ao orçamento-programa e


os compromissos financeiros só poderão ser assumidos em consonância com a programação financeira
de desembôlso.

TÍTULO IV
DA SUPERVISÃO MINISTERIAL
(Vide Lei nº 6.036, de 1974)

Art . 19. Todo e qualquer órgão da Administração Federal, direta ou indireta, está sujeito à
supervisão do Ministro de Estado competente, excetuados unicamente os órgãos mencionados no art.
32, que estão submetidos à supervisão direta do Presidente da República.

Art. 20. O Ministro de Estado é responsável, perante o Presidente da República, pela supervisão dos
órgãos da Administração Federal enquadrados em sua área de competência.

Parágrafo único. A supervisão ministerial exercer-se-á através da orientação, coordenação e


contrôle das atividades dos órgãos subordinados ou vinculados ao Ministério, nos têrmos desta lei.

Art. 21. O Ministro de Estado exercerá a supervisão de que trata êste título com apoio nos Órgãos
Centrais.
149

Art. 21. O Ministro de Estado exercerá a supervisão de que trata êste título com apoio nos Órgãos
Centrais. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Parágrafo único. No caso dos Ministros Militares a supervisão ministerial terá, também, como
objetivo, colocar a administração, dentro dos princípios gerais estabelecidos nesta lei, em coerência com
a destinação constitucional precípua das Fôrças Armadas, que constitui a atividade afim dos respectivos
Ministérios. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 22. Haverá na estrutura de cada Ministério Civil os seguintes Órgãos Centrais: (Vide Lei nº
6.228, de 1975)

I - Órgãos Centrais de planejamento, coordenação e controle financeiro.

II - Órgãos Centrais de direção superior.

Art. 23. Os órgãos a que se refere o item I do art. 22, têm a incumbência de assessorar diretamente
o Ministro de Estado e, por fôrça de suas atribuições, em nome e sob a direção do Ministro, realizar
estudos para formulação de diretrizes e desempenhar funções de planejamento, orçamento, orientação,
coordenação, inspeção e contrôle financeiro, desdobrando-se em: (Vide Decreto nº 64.135, de
25.12.1969) (Vide Lei nº 6.228, de 1975)

I - Uma Secretaria Geral.

II - Uma Inspetoria Geral de Finanças.

§ 1º A Secretaria Geral atua como órgão setorial de planejamento e orçamento, na forma do Título
III, e será dirigida por um Secretário-Geral, o qual poderá exercer funções delegadas pelo Ministro de
Estado.

§ 2º A Inspetoria Geral de Finanças, que será dirigida por um Inspetor-Geral, integra, como órgão
setorial, os sistemas de administração financeiro, contabilidade e auditoria, superintendendo o exercício
dessas funções no âmbito do Ministério e cooperação com a Secretaria Geral no acompanhamento da
execução do programa e do orçamento.

§ 3º Nos Ministérios do Planejamento e Coordenação Geral e da Fazenda, os órgãos Centrais de


que trata êste artigo terão, a par das funções previstas neste título, as atribuições que decorrem da
competência daqueles Ministérios nos assuntos que dizem respeito a orçamento e a administração
financeira, contabilidade e auditoria.

§ 3º Além das funções previstas neste título, a Secretaria-Geral do Ministério do Planejamento e


Coordenação Geral exercerá as atribuições de Órgão Central dos sistemas de planejamento e
orçamento, e a Inspetoria-Geral de Finanças do Ministério da Fazenda, as de Órgãos Central do sistema
de administração financeira, contabilidade e auditoria. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 24. Os Órgãos Centrais de direção superior (art. 22, item II) executam funções de administração
das atividades específicas e auxiliares do Ministério e serão, preferentemente, organizados em base
departamental, observados os princípios estabelecidos nesta lei. (Vide Lei nº 6.228, de 1975)

Art . 25. A supervisão ministerial tem por principal objetivo, na área de competência do Ministro de
Estado:

I - Assegurar a observância da legislação federal.


150

II - Promover a execução dos programas do Govêrno.

III - Fazer observar os princípios fundamentais enunciados no Título II.

IV - Coordenar as atividades dos órgãos supervisionados e harmonizar sua atuação com a dos
demais Ministérios.

V - Avaliar o comportamento administrativo dos órgãos supervisionados e diligenciar no sentido de


que estejam confiados a dirigentes capacitados.

VI - Proteger a administração dos órgãos supervisionados contra interferências e pressões


ilegítimas.

VII - Fortalecer o sistema do mérito.

VIII - Fiscalizar a aplicação e utilização de dinheiros, valôres e bens públicos.

IX - Acompanhar os custos globais dos programas setoriais do Govêrno, a fim de alcançar uma
prestação econômica de serviços.

X - Fornecer ao órgão próprio do Ministério da Fazenda os elementos necessários à prestação de


contas do exercício financeiro.

XI - Transmitir ao Tribunal de Contas, sem prejuízo da fiscalização deste, informes relativos à


administração financeira e patrimonial dos órgãos do Ministério.

Art. 26. No que se refere à Administração Indireta, a supervisão ministerial visará a assegurar,
essencialmente:

I - A realização dos objetivos fixados nos atos de constituição da entidade.

II - A harmonia com a política e a programação do Govêrno no setor de atuação da entidade.

III - A eficiência administrativa.

IV - A autonomia administrativa, operacional e financeira da entidade.

Parágrafo único. A supervisão exercer-se-á mediante adoção das seguintes medidas, além de
outras estabelecidas em regulamento:

a) indicação ou nomeação pelo Ministro ou, se fôr o caso, eleição dos dirigentes da entidade,
conforme sua natureza jurídica;

b) designação, pelo Ministro dos representantes do Govêrno Federal nas Assembléias Gerais e
órgãos de administração ou contrôle da entidade;

c) recebimento sistemático de relatórios, boletins, balancetes, balanços e informações que permitam


ao Ministro acompanhar as atividades da entidade e a execução do orçamento-programa e da
programação financeira aprovados pelo Govêrno;

d) aprovação anual da proposta de orçamento-programa e da programação financeira da entidade,


no caso de autarquia;
151

e) aprovação de contas, relatórios e balanços, diretamente ou através dos representantes


ministeriais nas Assembléias e órgãos de administração ou contrôle;

f) fixação, em níveis compatíveis com os critérios de operação econômica, das despesas de pessoal
e de administração;

g) fixação de critérios para gastos de publicidade, divulgação e relações públicas;

h) realização de auditoria e avaliação periódica de rendimento e produtividade;

i) intervenção, por motivo de interêsse público.

Art. 27. Assegurada a supervisão ministerial, o Poder Executivo outorgará aos órgãos da
Administração Federal a autoridade executiva necessária ao eficiente desempenho de sua
responsabilidade legal ou regulamentar.

Parágrafo único. Assegurar-se-á às emprêsas públicas e às sociedades de economia mista


condições de funcionamento idênticas às do setor privado cabendo a essas entidades, sob a supervisão
ministerial, ajustar-se ao plano geral do Govêrno.

Art. 28. A entidade da Administração Indireta deverá estar habilitada a:

I - Prestar contas da sua gestão, pela forma e nos prazos estipulados em cada caso.

II - Prestar a qualquer momento, por intermédio do Ministro de Estado, as informações solicitadas


pelo Congresso Nacional.

III - Evidenciar os resultados positivos ou negativos de seus trabalhos, indicando suas causas e
justificando as medidas postas em prática ou cuja adoção se impuser, no interêsse do Serviço Público.

Art. 29. Em cada Ministério Civil, além dos órgãos Centrais de que trata o art. 22, o Ministro de
Estado disporá da assistência direta e imediata de:

I - Gabinete.

II - Consultor Jurídico, exceto no Ministério da Fazenda.

III - Divisão de Segurança e Informações.

§ 1º O Gabinete assiste o Ministro de Estado em sua representação política e social, e incumbe-se


das relações públicas, encarregando-se do preparo e despacho do expediente pessoal do Ministro.

§ 2º O Consultor Jurídico incumbe-se do assessoramento jurídico do Ministro de Estado.

§ 3º A Divisão de Segurança e Informações colabora com a Secretaria Geral do Conselho de


Segurança Nacional e com o Serviço Nacional de Informações.

§ 4º No Ministério da Fazenda, o serviço de consulta jurídica continua afeto à Procuradoria-Geral da


Fazenda Nacional e aos seus órgãos integrantes, cabendo a função de Consultor Jurídico do Ministro de
Estado ao Procurador-Geral, nomeado em comissão, pelo critério de confiança e livre escolha, entre
bacharéis em Direito.
152

TITULO V
DOS SISTEMAS DE ATIVIDADES AUXILIARES

Art. 30. Serão organizadas sob a forma de sistema as atividades de pessoal, orçamento, estatística,
administração financeira, contabilidade e auditoria, e serviços gerais, além de outras atividades auxiliares
comuns a todos os órgãos da Administração que, a critério do Poder Executivo, necessitem de
coordenação central. (Vide Decreto nº 64.777, de 1969)

§ 1º Os serviços incumbidos do exercício das atividades de que trata êste artigo consideram-se
integrados no sistema respectivo e ficam, conseqüentemente, sujeitos à orientação normativa, à
supervisão técnica e à fiscalização específica do órgão central do sistema, sem prejuízo da subordinação
ao órgão em cuja estrutura administrativa estiverem integrados.

§ 2º O chefe do órgão central do sistema é responsável pelo fiel cumprimento das leis e
regulamentos pertinentes e pelo funcionamento eficiente e coordenado do sistema.

§ 3º É dever dos responsáveis pelos diversos órgãos competentes dos sistemas atuar de modo a
imprimir o máximo rendimento e a reduzir os custos operacionais da Administração.

§ 4° Junto ao órgão central de cada sistema poderá funcionar uma Comissão de Coordenação,
cujas atribuições e composição serão definidas em decreto.

Art. 31. Os órgãos centrais dos sistemas indicados no art. 30 situam-se:


I - Na Presidência da República, o de Pessoal Civil.
II - No Ministério do Planejamento e Coordenação Geral o de Orçamento e o de Estatística.
III - No Ministério da Fazenda, o de Administração Financeira, Contabilidade e Auditoria, e o de
Serviços Gerais, que compreende a administração de material, a administração patrimonial e a de
edifícios e instalações. (Vide Decreto nº 60.636, de 1967)
Parágrafo único. O órgão central do Sistema de Orçamento e do Sistema de Administração
Financeira, Contabilidade e Auditoria, serão, respectivamente, a Secretaria Geral, do Ministério do
Planejamento e Coordenação Geral e a Inspetoria Geral de Finanças, do Ministério da Fazenda (Art. 23,
§ 3º). (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

Art. 31. Aestruturação dos sistemas de que trata o artigo 30 e a subordinação dos respectivos
Órgãos Centrais serão estabelecidas em decreto. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

TITULO VI
DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Art. 32. A Presidência da República é constituída essencialmente pelo Gabinete Civil e pelo
Gabinete Militar. Também dela fazem parte, como órgãos de assessoramento imediato do Presidente da
República:
I - Conselho de Segurança Nacional.
II - Serviço Nacional de Informações.
III - Estado-Maior das Fôrças Armadas.
IV - Departamento Administrativo do Pessoal Civil.
V - Consultoria Geral da República.
VI - Alto Comando das Fôrças Armadas.
Art. 32 - A Presidência da República é constituída essencialmente pelo Gabinete Civil e pelo
Gabinete Militar. Também dela fazem parte, como órgão de assessoramento imediato do Presidente da
República: (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)
I - Conselho de Segurança Nacional. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)
II - Conselho de Desenvolvimento Econômico. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)
III - Secretaria de Planejamento.
153

IV - Serviço Nacional de Informações. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)


V - Estado-Maior das Forças Armadas. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)
VI - Departamento Administrativo do Pessoal Civil. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)
VII - Consultoria-Geral da República. (Incluído pela Lei nº 6.036, de 1974)
VIII - Alto Comando das Forças Armadas. (Incluído pela Lei nº 6.036, de 1974)
Parágrafo único. O Chefe do Gabinete Civil, o Chefe do Gabinete Militar, o Chefe da Secretaria de
Planejamento, o Chefe do Serviço Nacional de Informações e o Chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas são Ministros de Estado titulares dos respectivos órgãos. (Incluído pela Lei nº 6.036, de 1974)
Art. 32. A Presidência da República é constituída essencialmente pelo Gabinete Militar. Também dela
fazem parte, como órgãos de assessoramento imediato do Presidente da República: (Redação dada pela
Lei nº 6.118, de 1974)
I - Conselho de Segurança Nacional (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
II - Conselho de Desenvolvimento Econômico (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
III - Conselho de Desenvolvimento Social (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
IV - Secretaria de Planejamento (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
V - Serviço Nacional de Informações (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
VI - Estado-Maior das Forças Armadas (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
VII - Departamento Administrativo do Pessoal Civil (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
VIII - Consultoria Geral da República (Redação dada pela Lei nº 6.118, de 1974)
IX - Alto Comando das Forças Armadas (Incluído pela Lei nº 6.118, de 1974)
Parágrafo Único. O Chefe do Gabinete Civil, o Chefe do Gabinete Militar, o Chefe da Secretaria de
Planejamento, o Chefe do Serviço Nacional de Informações e o Chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas são Ministros de Estado titulares dos respectivos órgãos (Redação dada pela Lei nº 6.118, de
1974)
Art. 32 - A Presidência da República é constituída essencialmente pelo Gabinete Civil e pelo
Gabinete Militar. Também dela fazem parte, como órgãos de assessoramento imediato do Presidente da
República: (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
I - Conselho de Segurança Nacional; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
II - Conselho de Desenvolvimento Econômico; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
III - Conselho de Desenvolvimento Social; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
IV - Secretaria de Planejamento; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
V - Serviço Nacional de Informações; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
VI - Estado-Maior das Formas Armadas; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
VII - Secretaria de Comunicação Social; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
VIII - Departamento Administrativo do Serviço Público; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
IX - Consultoria-Geral da República; (Redação dada pela Lei nº 6.650, de 1979)
X - Alto-Comando das Forças Armadas. (Incluído pela Lei nº 6.650, de 1979)
Parágrafo único - Os Chefes do Gabinete Civil, do Gabinete Militar, da Secretaria de Planejamento,
da Secretaria de Comunicação Social, do Serviço Nacional de Informações e do Estado-Maior das Forças
Armadas são Ministros de Estado titulares dos respectivos órgãos. (Redação dada pela Lei nº 6.650, de
1979)

Art. 32. A Presidência da República é constituída essencialmente pelo Gabinete Civil e pelo
Gabinete Militar. Também dela fazem parte, como órgãos de assessoramento imediato ao Presidente da
República: (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984) Vide: Lei nº 7.739, de 20.3.1989, Decreto nº
99.180, de 1990, Lei nº 8.490, de 1992, Lei nº 9.649, de 1998, Lei nº 10.683, de 28.5.2003

I - o Conselho de Segurança Nacional; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

II - o Conselho de Desenvolvimento Econômico; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

III - o Conselho de Desenvolvimento Social; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

IV - a Secretaria de Planejamento; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)


154

V - o Serviço Nacional de Informações; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

VI - o Estado-Maior das Forças Armadas; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

VII - o Departamento Administrativo do Serviço Público; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

VIII - a Consultoria-Geral da República; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

IX - o Alto Comando das Forças Armadas; (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

X - o Conselho Nacional de Informática e Automação. (Redação dada pela Lei nº 7.232, de 1984)

Parágrafo único. O Chefe do Gabinete Civil, o Chefe do Gabinete Militar, o Chefe da Secretaria de
Planejamento, o Chefe do Serviço Nacional de Informações e o Chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas são Ministros de Estado titulares dos respectivos órgãos. (Redação dada pela Lei nº 7.232, de
1984)

Art. 33. Ao Gabinete Civil incumbe:

I - Assistir, direta e imediatamente, o Presidente da República no desempenho de suas atribuições e,


em especial, nos assuntos referentes à administração civil.

II - Promover a divulgação de atos e atividades governamentais.

III - Acompanhar a tramitação de projetos de lei no Congresso Nacional e coordenar a colaboração


dos Ministérios e demais órgãos da administração, no que respeita aos projetos de lei submetidos à
sanção presidencial. (Vide Lei nº 8.028, de 1990) (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

Art. 34. Ao Gabinete Militar incumbe:

I - Assistir, direta e imediatamente, o Presidente da República no desempenho de suas atribuições e,


em especial, nos assuntos referentes à Segurança Nacional e à Administração Militar.

II - Zelar pela segurança do Presidente da República e dos Palácios Presidenciais.

Parágrafo único. O Chefe do Gabinete Militar exerce as funções de Secretário-Geral do Conselho de


Segurança Nacional.

TITULO VII
DOS MINISTÉRIOS E RESPECTIVAS ÁREAS DE COMPETÊNCIA

Art . 35. Os Ministérios, de que são titulares Ministros de Estado (Art. 20), são os seguintes:
SETOR POLÍTICO(Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969) (Vide Lei nº 8.028, de
12.04.1990)
Ministério da Justiça.
Ministério das Relações Exteriores.
SETOR DE PLANEJAMENTO GOVERNAMENTAL (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)
Ministério do Planejamento e Coordenação Geral.
SETOR ECONÔMICO (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)
Ministério da Fazenda.
Ministério dos Transportes.
Ministério da Agricultura.
Ministério da Indústria e do Comércio.
155

Ministério das Minas e Energia.


Ministério do Interior.
SETOR SOCIAL (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)
Ministério da Educação e Cultura.
Ministério do Trabalho e Previdência Social.
Ministério da Saúde.
Ministério das Comunicações.
SETOR MILITAR (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)
Ministério da Marinha.
Ministério do Exército.
Ministério da Aeronáutica.

Art. 35 - Os Ministérios são os seguintes: (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974) Vide: Lei nº
7.739, de 20.3.1989, Lei nº 7.927, de 1989, Lei nº 8.422, de 1992, Lei nº 8.490, de 1992, Lei nº 9.649,
de 1998, Lei nº 10.683, de 28.5.2003

Ministério da Justiça (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério das Relações Exteriores (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Fazenda (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério dos Transportes (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Agricultura (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Indústria e do Comércio (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério das Minas e Energia (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério do Interior (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1º.5.1974)

Ministério da Educação e Cultura (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério do Trabalho (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Previdência e Assistência Social (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Saúde (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério das Comunicações (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Marinha (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério do Exército (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Ministério da Aeronáutica (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974)

Parágrafo único. Os titulares dos Ministérios são Ministros de Estado (Art. 20). (Incluído pela Lei nº
6.036, de 1974)
156

Art. 36. Para auxiliá-lo, temporàriamente, na coordenação de assuntos afins ou interdependentes, o


Presidente da República poderá incumbir de missão coordenadora um dos Ministros de Estado ou,
conforme o caso, o Ministro do Planejamento e Coordenação Geral.
Art. 36. Para auxiliá-lo na coordenação de assuntos afins ou interdependentes, que interessem a
mais de um Ministério, o Presidente da República poderá incumbir de missão coordenadora um dos
Ministros de Estado, cabendo essa missão na ausência de designação específica, ao Ministro do
Planejamento e Coordenação Geral. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
§ 1º O Ministro Coordenador, sem prejuízo das atribuições da Pasta que ocupar, atuará em
harmonia com as instruções emanadas do Presidente da República, buscando os elementos necessários
ao cumprimento de sua missão mediante cooperação dos Ministros de Estado em cuja área de
competência estejam compreendidos os assuntos objeto de coordenação.
§ 2º o Ministro Coordenador formulará soluções para a decisão final do Presidente da República.
§ 3º Poderão ser coordenados, entre outros, os assuntos econômicos militares, de ciência e
tecnologia, de assistência médica e de abastecimento.
§ 3º O disposto neste artigo não se aplica aos assuntos militares, cuja coordenação far-se-á
diretamente pelo Presidente da República. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 36. Para auxiliá-lo na coordenação de assuntos afins ou interdependentes, que interessem a
mais de um Ministério, o Presidente da República poderá incumbir de missão coordenadora um dos
Ministros de Estado, cabendo essa missão, na ausência de designação específica ao Ministro de Estado
Chefe da Secretaria de Planejamento. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974) (Vide Lei nº 10.683,
de 28.5.2003)

§ 1º O Ministro Coordenador, sem prejuízo das atribuições da Pasta ou órgão de que for titular
atuará em harmonia com as instruções emanadas do Presidente da República, buscando os elementos
necessários ao cumprimento de sua missão mediante cooperação dos Ministros de Estado em cuja área
de competência estejam compreendidos os assuntos objeto de coordenação. (Redação dada pela Lei nº
6.036, de 1974) (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

§ 2º O Ministro Coordenador formulará soluções para a decisão final do Presidente da


República. (Redação dada pela Lei nº 6.036, de 1974) (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

Art. 37. Além dos 4 (quatro) previstos nos arts. 147 155, 157 e 169 o Presidente da República
poderá prover até 3 (três) cargos de Ministro Extraordinário, para o desempenho de encargos
temporários de natureza relevante.
Parágrafo único. Ao Ministro Extraordinário poderá ser confiada a missão coordenadora a que se
refere o artigo anterior. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

Art. 37. O Presidente da República poderá prover até 4 (quatro) cargos de Ministro Extraordinário
para o desempenho de encargos temporários de natureza relevante. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969) (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

Art . 38. O Ministro Extraordinário e o Ministro Coordenador disporão de assistência técnica e


administrativa essencial para o desempenho das missões de que forem incumbidos pelo Presidente da
República na forma por que se dispuser em decreto. (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

Art. 39 Os assuntos que constituem a área de competência de cada Ministério são, a seguir,
especificados: (Vide Lei nº 7.739, de 20.3.1989), (Vide Lei nº 10.683, de 28.5.2003)

SETOR POLÍTICO (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA

I - Ordem jurídica, nacionalidade, cidadania, direitos políticos, garantias constitucionais.


157

II - Segurança interna. Polícia Federal.

III - Administração penitenciária.

IV - Ministério Público.

V - Documentação, publicação e arquivo dos atos oficiais.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

I - Política Internacional.

II - Relações diplomáticas; serviços consulares.

III - Participação nas negociações comerciais, econômicas, financeiras, técnicas e culturais com
países e entidades estrangeiras.

IV - Programas de cooperação internacional.

SETOR DE PLANEJAMENTO GOVERNAMENTAL (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)

MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO GERAL

I - Plano geral do Govêrno, sua coordenação. Integração dos planos regionais.

II - Estudos e pesquisas sócio-econômicos, inclusive setoriais e regionais.

III - Programação orçamentária; proposta orçamentária anual.

IV - Coordenação da assistência técnica internacional.

V - Sistemas estatístico e cartográfico nacionais.

VI - Organização administrativa.

SETOR ECONÔMICO (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)

MINISTÉRIO DA FAZENDA

I - Assuntos monetários, creditícios, financeiros e fiscais; poupança popular.

II - Administração tributária.

III - Arrecadação.

IV - Administração financeira.

V - Contabilidade e auditoria.

VI - Serviços Gerais.
158

VI - Administração patrimonial. (Redação dada pela Lei nº 6.228, de 1975)

MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES

I - Coordenação dos transportes.

II - Transportes ferroviários e rodoviários.

III - Transportes aquaviários. Marinha mercante; portos e vias navegáveis.

IV - Participação na coordenação dos transportes aeroviários, na forma estabelecida no art. 162.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

I - Agricultura; pecuária; caça; pesca.

II - Recursos naturais renováveis: flora, fauna e solo.

III - Organização da vida rural; reforma agrária.

IV - Estímulos financeiros e creditícios.

V - Meteorologia; climatologia.

VI - Pesquisa e experimentação.

VII - Vigilância e defesa sanitária animal e vegetal.

VIII - Padronização e inspeção de produtos vegetais e animais ou do consumo nas atividades


agropecuárias.

MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA E DO COMÉRCIO

I - Desenvolvimento industrial e comercial.

II - Comércio exterior.

III - Seguros privados e capitalização.

IV - Propriedade industrial; registro do comércio; legislação metrológica.

V - Turismo.

VI - Pesquisa e experimentação tecnológica.

MINISTÉRIO DAS MINAS E ENERGIA

I - Geologia, recursos minerais e energéticos.

II - Regime hidrológico e fontes de energia hidráulica.


159

III - Mineração.

IV - Indústria do petróleo.

V - Indústria de energia elétrica, inclusive de natureza nuclear.

MINISTÉRIO DO INTERIOR

I - Desenvolvimento regional.

II - Radicação de populações, ocupação do território. Migrações internas.

III - Territórios federais.

IV - Saneamento básico.

V - Beneficiamento de áreas e obras de proteção contra sêcas e inundações. Irrigação.

VI - Assistência às populações atingidas pelas calamidades públicas.

VII - Assistência ao índio.

VIII - Assistência aos Municípios.

IX - Programa nacional de habitação.

SETOR SOCIAL (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

I - Educação; ensino (exceto o militar); magistério.

II - Cultura - letras e artes.

III - Patrimônio histórico, arqueológico, científico, cultural e artístico.

IV - Desportos.

MINISTÉRIO DO TRABALHO E PREVIDÊNCIA SOCIAL (Vide Lei nº 6.036, de 1974)

I - Trabalho; organização profissional e sindical; fiscalização.

II - Mercado de trabalho; política de emprêgo.

III - Política salarial.

IV - Previdência e assistência social.

V - Política de imigração.

VI - Colaboração com o Ministério Público junto à Justiça do Trabalho.


160

MINISTÉRIO DA SAÚDE

I - Política nacional de saúde.

II - Atividades médicas e para-médicas.

III - Ação preventiva em geral; vigilância sanitária de fronteiras e de portos marítimos, fluviais e
aéreos.

IV - Contrôle de drogas, medicamentos e alimentos.

V - Pesquisas médico-sanitárias.

MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES

I - Telecomunicações.

II - Serviços postais.

SETOR MILITAR (Suprimido pelo Decreto-Lei 900, de 1969)

MINISTÉRIO DA MARINHA

(Art. 54)

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO

(Art. 59)

MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA

(Art. 63)

TITULO VIII
DA SEGURANÇA NACIONAL

CAPÍTULO I
DO CONSELHO DE SEGURANÇA NACIONAL

Art. 40. O Conselho de Segurança Nacional destina-se a assessorar o Presidente da República na


formulação e na conduta da política de segurança nacional.

Art. 40. O Conselho de Segurança Nacional é o órgão de mais alto nível no assessoramento direto
do Presidente da República, na formulação e na execução da Política de Segurança Nacional. (Redação
dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

§ 1º A formulação da Política de Segurança Nacional far-se-á, bàsicamente, mediante o


estabelecimento do Conceito Estratégico Nacional.

§ 2º No que se refere à conduta da Política de Segurança Nacional, o Conselho apreciará problemas


que lhe forem propostos, no quadro da conjuntura nacional ou internacional.
161

§ 2º No que se refere a execução da Política de Segurança Nacional, o Conselho apreciará os


problemas que lhe forem propostos no quadro da conjuntura nacional ou internacional. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 41. Caberá, ainda, ao Conselho o cumprimento de outras tarefas específicas previstas na
Constituição.

Art. 42. O Conselho de Segurança Nacional é convocado e presidido pelo Presidente da República,
dêle participando, no caráter de membros natos, o Vice-Presidente da República, todos os Ministros de
Estado, inclusive os Extraordinários, os Chefes dos Gabinetes Civil e Militar da Presidência da República,
o Chefe do Serviço Nacional de Informações, o Chefe do Estado-Maior das Fôrças Armadas e os Chefes
dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Aeronáutica.

§ 1º O Presidente da República poderá designar membros eventuais, conforme a matéria a ser


apreciada.

§ 2° O Presidente da República pode ouvir o Conselho de Segurança Nacional, mediante consulta a


cada um dos seus membros em expediente remetido por intermédio da Secretaria-Geral.

Art. 43. O Conselho dispõe de uma Secretaria-Geral, como órgão de estudo, planejamento e
coordenação no campo da segurança nacional e conta com a colaboração da Comissão Especial da
Faixa de Fronteiras e das Divisões de Segurança e Informações dos Ministérios Civis, como órgãos
complementares.
Parágrafo único. Cabe ao Secretário-Geral secretariar as reuniões do Conselho de Segurança
Nacional.
Art. 43. O Conselho dispõe de uma Secretaria-Geral, como órgão de estudo, planejamento e
coordenação no campo da segurança nacional e conta com a colaboração da Comissão Especial da
Faixa de Fronteiras das Divisões de Segurança e Informações dos Ministérios Civis e de outros órgãos
complementares, cuja criação se torne imprescindível ao cumprimento de sua finalidade
constitucional. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 43. O Conselho dispõe de uma Secretaria-Geral, como órgão de estudo, planejamento e
coordenação no campo da segurança nacional e poderá contar com a colaboração de órgãos
complementares, necessários ao cumprimento de sua finalidade constitucional. (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 1.093, de 1970)

CAPÍTULO II
DO SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES

Art. 44. O Serviço Nacional de Informações tem por finalidade superintender e coordenar, em todo o
território nacional, as atividades de informação e contra-informação, em particular as que interessem à
segurança nacional.

TITULO IX
DAS FÔRÇAS ARMADAS

CAPÍTULO I
DISPOSIÇÕES PRELIMINARES

Art. 45. As Fôrças Armadas, constituídas pela Marinha de Guerra, Exército e Aeronáutica Militar, são
instituições nacionais, permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob
a autoridade suprema do Presidente da República e dentro dos limites da lei. Destinam-se a defender a
Pátria e a garantir os Podêres constituídos, a lei e a ordem.
162

Parágrafo único. Elementos das Fôrças Armadas, nos casos de calamidade pública, poderão ser
chamados a colaborar na assistência às populações atingidas e no restabelecimento da normalidade.

Art. 45. As Fôrças Armadas, constituídas pela Marinha de Guerra, pelo Exército e pela Aeronáutica
Militar, são instituições nacionais, permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na
disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República e dentro dos limites da lei. As Fôrças
Armadas, essenciais à execução da Política de Segurança Nacional, destinam-se à defesa da Pátria e à
garantia dos Podêres constituídos, da Lei e da Ordem. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Parágrafo único. As Fôrças Armadas, nos casos de calamidade pública, colaborarão com os
Ministérios Civis, sempre que solicitadas, na assistência às populações atingidas e no restabelecimento
da normalidade. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 46. O Poder Executivo fixará a organização pormenorizada das Fôrças Armadas singulares -
Fôrças Navais, Fôrças Terrestres e Fôrça Aérea Brasileira - e das Fôrças Combinadas ou Conjuntas, bem
como dos demais órgãos integrantes dos Ministérios Militares, suas denominações, localizações e
atribuições.

Parágrafo único. Caberá, também, ao Poder Executivo, nos limites fixados em lei, dispor sôbre as
Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares, como fôrças auxiliares, reserva do Exército.

CAPÍTULO II
DOS ÓRGÃOS DE ASSESSORAMENTO DIRETO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

SEÇÃO I
Do Alto Comando das Fôrças Armadas

Art. 47. O Alto Comando das Fôrças Armadas é um órgão de assessoramento do Presidente da
República, nas decisões relativas à política militar e à coordenação de assuntos pertinentes às Fôrças
Armadas.

Art. 48. Integram o Alto Comando das Fôrças Armadas os Ministros Militares, o Chefe do Estado-
Maior das Fôrças Armadas e os Chefes dos Estados-Maiores de cada uma das Fôrças singulares.

Art. 49. O Alto Comando das Fôrças Armadas reúne-se quando convocado pelo Presidente da
República e é secretariado pelo Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República.

SEÇÃO II
Do Estado-Maior das Fôrças Armadas

Art. 50. O Estado-Maior das Fôrças Armadas, órgão de assessoramento do Presidente da


República, tem por atribuições:
I - Proceder aos estudos para a fixação da Política, da Estratégia e da Doutrina Militares, bem como
elaborar e coordenar os planos e programas decorrentes.
II - Estabelecer os planos e coordenar o emprêgo de Fôrças Combinadas ou Conjuntas e de Fôrças
singulares destacadas para participar de operações militares no exterior.
III - Coordenar as informações no campo militar.
IV - Propor os critérios de prioridade para aplicação dos recursos destinados à defesa militar.
V - Coordenar os planos de pesquisas, de fortalecimento e de mobilização das Fôrças Armadas, e
os programas de aplicação de recursos decorrentes.
VI - Coordenar as representações das Fôrças Armadas no País e no exterior.
VII - Proceder aos estudos e preparar as decisões sôbre assuntos que lhe forem submetidos pelo
Presidente da República.
Parágrafo único. O Estado-Maior das Fôrças Armadas passará a ser órgão de assessoramento do
163

Ministro Coordenador, eventualmente incumbido, na forma do disposto no art. 36 e no parágrafo único do


art. 37, de coordenar os assuntos militares. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

Art. 50. O Estado-Maior das Fôrças Armadas, órgãos de assessoramento do Presidente da


República tem por atribuições: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

I - Proceder aos estudos para a fixação da Política, da Estratégia e da Doutrina Militares, bem como
elaborar e coordenar os planos e programas decorrentes; (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969)

II - Estabelecer os planos para emprêgo das Fôrças Combinadas ou Conjuntas e de fôrças


singulares destacadas para participar de operações militares no exterior, levando em consideração os
estudos e as sugestões dos Ministros Militares competentes; (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969)

III - Coordenar as informações estratégicas no Campo Militar; (Redação dada pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969)

IV - Coordenar, no que transcenda os objetivos específicos e as disponibilidades previstas no


Orçamento dos Ministérios Militares, os planos de pesquisas, de desenvolvimento e de mobilização das
Fôrças Armadas e os programas de aplicação de recursos decorrentes. (Redação dada pelo Decreto-Lei
nº 900, de 1969)

V - Coordenar as representações das Fôrças Armadas no País e no exterior; (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 900, de 1969)

VI - Proceder aos estudos e preparar as decisões sôbre assuntos que lhe forem submetidos pelo
Presidente da República. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 51. A Chefia do Estado-Maior das Fôrças Armadas é exercida por um Oficial-General do mais
alto pôsto, nomeado pelo Presidente da República, obedecido a rodízio entre as Fôrças Armadas.
Parágrafo único. O Chefe do Estado-Maior das Fôrças Armadas tem precedência funcional regulada
em lei.

Art. 51. A Chefia do Estado-Maior das Fôrças Amadas é exercida por um oficial-general do mais alto
pôsto nomeado pelo Presidente da República, obedecido, em princípio, o critério de rodízio entre as
Fôrças Armadas. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 52. As funções de Estado-Maior e Serviços no Estado-Maior das Fôrças Armadas são exercidas
por oficiais das três Fôrças singulares.

Art. 53. O Conselho de Chefes de Estado-Maior, constituído do Chefe do Estado-Maior das Fôrças
Armadas e dos Chefes do Estado-Maior das Fôrças singulares, reúne-se periòdicamente, sob a
presidência do primeiro, para apreciação de assuntos específicos do Estado-Maior das Fôrças Armadas e
os de interêsse comum a mais de uma das Fôrças singulares.

CAPÍTULO III
DOS MINISTÉRIOS MILITARES

SEÇÃO I
Do Ministério da Marinha
164

Art. 54. O Ministério da Marinha administra os negócios da Marinha de Guerra e tem como atribuição
principal a preparação desta para o cumprimento de sua destinação constitucional.

§ 1º Cabe ao Ministério da Marinha;

I - Propor a organização e providenciar o aparelhamento e adestramento das Fôrças Navais e


Aeronavais e do Corpo de Fuzileiros Navais, inclusive para integrarem Fôrças Combinadas ou Conjuntas.

II - Orientar e realizar pesquisas e desenvolvimento de interêsse da Marinha, obedecido o previsto


no item V do art. 50 da presente Lei.

III - Estudar e propor diretrizes para a política marítima nacional.

§ 2º Ao Ministério da Marinha competem ainda as seguintes atribuições subsidiárias;

I - Orientar e controlar a Marinha Mercante Nacional e demais atividades correlatas no que interessa
à segurança nacional e prover a segurança da navegação, seja ela marítima, fluvial ou lacustre.

II - Exercer a polícia naval.

Art. 55. O Ministro da Marinha exerce a direção geral do Ministério da Marinha e é o Comandante
Superior da Marinha de Guerra.

Art. 55. O Ministro da Marinha exerce a direção geral do Ministério da Marinha e é o Comandante
Superior da Marinha de Guerra. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 56. A Marinha de Guerra compreende suas organizações próprias, o pessoal em serviço ativo e
sua reserva, inclusive as formações auxiliares, conforme fixado em lei.

Art. 56. A Marinha de Guerra compreende suas organizações próprias, pessoal em serviço ativo e
sua reserva, inclusive as formações auxiliares conforme fixado em lei. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969)

Art. 57. O Ministério da Marinha é constituído de:

I - Órgãos de Direção Geral.

- Almirantado (Alto Comando da Marinha de Guerra).

- Estado Maior da Armada.

II - Órgãos de Direção Setorial, organizados em base departamental (art. 24).

III - Órgãos de Assessoramento.

- Gabinete do Ministro.

- Consultoria Jurídica.

- Conselho de Almirantes.
165

- Outros Conselhos e Comissões.

IV - Órgãos de Apoio.

- Diretorias e outros órgãos.

V - Fôrças Navais e Aeronavais (elementos próprios - navios e helicópteros - e elementos


destacados da Fôrça Aérea Brasileira).

- Corpo de Fuzileiros Navais.

- Distritos Navais.

- Comando do Contrôle Naval do Tráfego Marítimo. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 58. O Chefe do Estado-Maior da Armada e também o Comandante Geral das Fôrças
mencionadas no inciso V do artigo anterior.
Art. 58. O Chefe do Estado Maior da Armada exercerá, cumulativamente, o cargo de Comandante-
Geral das fôrças mencionadas no inciso V do artigo anterior. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969) (Revogado pela Lei nº 6.059, de 1974)

SEÇÃO II
Do Ministério do Exército

Art. 59. O Ministério do Exército administra os negócios do Exército e tem, como atribuição principal
a preparação do Exército para o cumprimento da sua destinação constitucional.

§ 1º Cabe ao Ministério do Exército:

I - Propor a organização e providenciar o aparelhamento e o adestramento das Fôrças Terrestres,


inclusive para integrarem Fôrças Combinadas ou Conjuntas.

II - Orientar e realizar pesquisas e desenvolvimento de interesse do Exército, obedecido o previsto


no item V do art. 50 da presente lei.

§ 2º Ao Ministério do Exército compete ainda propor as medidas para a efetivação do disposto no


Parágrafo único do art. 46 da presente lei.

Art. 60. O Ministro do Exército exerce a direção geral das atividades do Ministério e é o Comandante
Superior do Exército.

Art. 61. O Exército é constituído do Exército ativo e sua Reserva.

§ 1° O Exército ativo é a parte do Exército organizada e aparelhada para o cumprimento de sua


destinação constitucional e em pleno exercício de suas atividades.

§ 2° Constitui a Reserva do Exército todo o pessoal sujeito à incorporação no Exército ativo,


mediante mobilização ou convocação, e as fôrças e organizações auxiliares, conforme fixado em lei.

Art. 62. O Ministério do Exército compreende:

I - Órgãos de Direção Geral


166

- Alto Comando do Exército.

- Estado-Maior do Exército.

- Conselho Superior de Economia e Finanças.

II - Órgãos de Direção Setorial, organizados em base departamental (art. 24)

III - Órgãos de Assessoramento

- Gabinete do Ministro.

- Consultoria Jurídica.

- Secretaria Geral.

- Outros Conselhos e Comissões.

IV - Órgãos de Apoio

- Diretorias e outros órgãos.

V - Fôrças Terrestres

- Órgãos Territoriais.

SEÇÃO III
Do Ministério da Aeronáutica

Art. 63. O Ministério da Aeronáutica administra os negócios da Aeronáutica e tem como atribuição
principal a preparação da Fôrça Aérea Brasileira para o cumprimento da sua destinação constitucional.
Parágrafo único. Cabe ao Ministério da Aeronáutica:
I - Propor a organização e providenciar o aparelhamento e o adestramento da Fôrça Aérea
Brasileira, inclusive de elementos para integrar as Fôrças Combinadas ou Conjuntas.
II - Orientar e realizar pesquisas e desenvolvimento de interêsse da Aeronáutica, obedecido o
previsto no item V do art. 50 da presente lei.
III - Estudar e propor diretrizes para a política aérea nacional.
IV - Supervisionar e controlar as atividades aeronáuticas civis, tanto comerciais como privadas e
desportivas, obedecendo, quanto às primeiras, a orientação estabelecida pelo Conselho Nacional de
Transportes, nos têrmos do art. 162 desta lei.
V - Estabelecer equipar e operar a infra-estrutura aeronáutica, inclusive os serviços de apoio
necessários à navegação aérea.
VI - Operar o Correio Aéreo Nacional.
Art. 63. O Ministério da Aeronáutica administra os negócios da Aeronáutica e tem como atribuições
principais a preparação da Aeronáutica Militar para o cumprimento de sua destinação constitucional e a
supervisão das atividades da Aeronáutica Civil. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
Parágrafo único. Cabe ao Ministério da Aeronáutica: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969)
I - Propor a organização e providenciar o aparelhamento e o adestramento da Fôrça Aérea
Brasileira, inclusive de elementos para integrar as Fôrças Combinadas ou Conjuntas. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
Il - orientar, coordenar e controlar as atividades da Aviação Civil, tanto comerciais como privadas e
desportivas, observando, quanto às primeiras, a orientação estabelecida pelo Conselho Nacional dos
167

Transportes, nos termos do artigo 162 desta lei. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
III - Estabelecer, equipar e operar, diretamente ou mediante autorização ou concessão, a infra-
estrutura aeronáutica, inclusive os serviços de apoio necessários à navegação aérea. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
IV - Orientar, incentivar e realizar pesquisas e desenvolvimento de interêsse da Aeronáutica,
obedecido quanto às de interêsse militar, o previsto no item IV do artigo 50 da presente lei. (Redação
dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
V - operar o Correio Aéreo Nacional. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
VI - Estudar e propor diretrizes para a Política Aeroespacial Nacional. (Redação dada pelo Decreto-
Lei nº 900, de 1969)

Art. 63. O Ministério da Aeronáutica administra os negócios da Aeronáutica e tem como atribuições
principais a preparação da Aeronáutica para o cumprimento de sua destinação constitucional e a
orientação, a coordenação e o contrôle das atividades da Aviação Civil. (Redação dada pelo Decreto-Lei
nº 991, de 1969)

Parágrafo único. Cabe ao Ministério da Aeronáutica: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de
1969)

I - Estudar e propor diretrizes para a Política Aeroespacial Nacional. (Redação dada pelo Decreto-Lei
nº 991, de 1969)

II - Propor a organização e providenciar o aparelhamento e o adestramento da Fôrça Aérea


Brasileira, inclusive de elementos para integrar as Fôrças Combinadas ou Conjuntas. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

III - Orientar, coordenar e controlar as atividades da Aviação Civil, tanto comerciais como privadas e
desportivas. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

IV - Estabelecer, equipar e operar, diretamente ou mediante autorização ou concessão, a infra-


estrutura aeronáutica, inclusive os serviços de apoio necessárias à navegação aérea. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

V - Orientar, incentivar e realizar pesquisas e desenvolvimento de interêsse da Aeronáutica,


obedecido, quanto às de interêsse militar, ao prescrito no item IV do art. 50 da presente lei. (Redação
dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

VI - Operar o Correio Aéreo Nacional. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

Art. 64. O Ministro da Aeronáutica exerce a direção geral das atividades do Ministério e é o
Comandante Superior da Fôrça Aérea Brasileira.
Art. 64. O Ministro da Aeronáutica exerce a direção geral das atividades do Ministério e é o
Comandante Superior da Aeronáutica Militar. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 64. O Ministro da Aeronáutica exerce a direção geral das atividades do Ministério e é o
Comandante-em-Chefe da Fôrça Aérea Brasileira. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

Art. 65. A Aeronáutica Militar é constituída por suas organizações próprias, pelo pessoal em serviço
ativo e por sua reserva, inclusive as organizações auxiliares conforme previsto em lei.
Art. 65. A Aeronáutica Militar é constituída pela Fôrça Aérea Brasileira, por suas organizações
próprias e por sua reserva, inclusive as organizações auxiliares, conforme previsto em lei. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
§ 1º A Fôrça Aérea Brasileira é a parte da Aeronáutica Militar organizada e aparelhada para o
cumprimento de sua destinação constitucional e em pleno exercício de suas atividades. (Incluído pelo
168

Decreto-Lei nº 900, de 1969)


§ 2º Constitui a reserva da Aeronáutica Militar todo o pessoal sujeito à incorporação na Fôrça Aérea
Brasileira mediante mobilização ou convocação, e as organizações auxiliares, conforme fixado em
lei. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 65. A Fôrça Aérea Brasileira é a parte da Aeronáutica organizada e aparelhada para o
cumprimento de sua destinação constitucional. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

Parágrafo único. Constituí a reserva da Aeronáutica todo o pessoal sujeito à incorporação na Fôrça
Aérea Brasileira, mediante mobilização ou convocação, e as organizações auxiliares, conforme fixado em
lei. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

Art. 66. O Ministério da Aeronáutica compreende:


I - Órgãos de Direção Geral
- Alto Comando da Aeronáutica.
- Estado-Maior da Aeronáutica.
II - Órgãos de Direção Setorial, organizados em base departamental (art. 24).
III - Órgãos de Assessoramento
- Gabinete do Ministro.
- Consultoria Jurídica.
- Secretaria Geral.
- Outros Conselhos e Comissões.
IV - Órgãos de Apoio
- Diretorias e outros órgãos.
V - Fôrça Aérea Brasileira (inclusive elementos para operações aeronavais e aeroterrestres)
- Zonas Aéreas.
Art. 66. O Ministério da Aeronáutica compreende: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
I - Órgãos de Direção Geral: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Alto Comando da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Estado-Maior da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Inspetoria Geral da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
II - Órgãos de Direção Setorial, organizados em base departamental (artigo 24) (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 900, de 1969)
III - Órgãos de Assessoramento: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Gabinete do Ministro (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Consultoria Jurídica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Conselhos e Comissões (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
IV - Órgãos de Apoio: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Comandos, Diretorias, Institutos, Serviços e outros órgãos (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900,
de 1969)
V - Comandos Aéreos (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)
- Comandos Territoriais (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 66. O Ministério da Aeronáutica compreende: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

I - Órgãos de Direção Geral: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Alto Comando da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Estado-Maior da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Inspetoria Geral da Aeronáutica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)


169

II - Órgãos de Direção Setorial, organizados em base departamental (art. 24): (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Departamento de Aviação Civil (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)v

- Departamento de Pesquisas e Desenvolvimento (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

III - Órgãos de Assessoramento: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Gabinete do Ministro (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Consultoria Jurídica (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Conselhos e Comissões (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

IV - Órgãos de Apoio: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Comandos, Diretorias, Institutos, Serviços e outros órgãos (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991,
de 1969)

V - Fôrça Aérea Brasileira: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

- Comandos Aéreos (inclusive elementos para integrar Fôrças Combinadas ou Conjuntas) -


Comandos Territoriais. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 991, de 1969)

CAPÍTULO IV
DISPOSIÇÃO GERAL

Art. 67. O Almirantado (Alto Comando da Marinha de Guerra), o Alto Comando do Exército e o Alto
Comando da Aeronáutica, a que se referem os arts 57, 62 e 66 são órgãos integrantes da Direção Geral
do Ministério da Marinha, do Exército e da Aeronáutica cabendo-lhes assessorar os respectivos Ministros,
principalmente:

a) nos assuntos relativos à política militar peculiar à Fôrça singular;

b) nas matérias de relevância - em particular, de organização, administração e logística -


dependentes de decisão ministerial;

c) na seleção do quadro de Oficiais Generais.

TITULO X
DAS NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA E DE CONTABILIDADE

Art. 68. O Presidente da República prestará anualmente ao Congresso Nacional as contas relativas
ao exercício anterior, sôbre as quais dará parecer prévio o Tribunal de Contas.

Art. 69. Os órgãos da Administração Direta observarão um plano de contas único e as normas gerais
de contabilidade e da auditoria que forem aprovados pelo Govêrno.

Art . 70. Publicados a lei orçamentária ou os decretos de abertura de créditos adicionais, as


unidades orçamentárias, os órgãos administrativos, os de contabilização e os de fiscalização financeira
ficam, desde logo, habilitados a tomar as providências cabíveis para o desempenho das suas tarefas.
170

Art. 71. A discriminação das dotações orçamentárias globais de despesas será feita:

I - No Poder Legislativo e órgãos auxiliares, pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado
Federal e pelo Presidente do Tribunal de Contas.

II - No Poder Judiciário, pelos Presidentes dos Tribunais e demais órgãos competentes.

III - No Poder Executivo, pelos Ministros de Estado ou dirigentes de órgãos da Presidência da


República.

Art. 72. Com base na lei orçamentária, créditos adicionais e seus atos complementares, o órgão
central da programação financeira fixará as cotas e prazos de utilização de recursos pelos órgãos da
Presidência da República, pelos Ministérios e pelas autoridades dos Podêres Legislativo e Judiciário para
atender à movimentação dos créditos orçamentários ou adicionais.

§ 1º Os Ministros de Estado e os dirigentes de Órgãos da Presidência da República aprovarão a


programação financeira setorial e autorizarão às unidades administrativas a movimentar os respectivos
créditos, dando ciência ao Tribunal de Contas.

§ 2º O Ministro de Estado, por proposta do Inspetor Geral de Finanças, decidirá quanto aos limites
de descentralização da administração dos créditos, tendo em conta as atividades peculiares de cada
órgão.

Art. 73. Nenhuma despesa poderá ser realizada sem a existência de crédito que a comporte ou
quando imputada a dotação imprópria, vedada expressamente qualquer atribuição de fornecimento ou
prestação de serviços cujo custo exceda aos limites prèviamente fixados em lei.

Parágrafo único. Mediante representação do órgão contábil serão impugnados quaisquer atos
referentes a despesas que incidam na proibição do presente artigo.

Art. 74. Na realização da receita e da despesa pública será utilizada a via bancária, de acôrdo com
as normas estabelecidas em regulamento.

§ 1º Nos casos em que se torne indispensável a arrecadação de receita diretamente pelas unidades
administrativas, o recolhimento à conta bancária far-se-á no prazo regulamentar.

§ 2º O pagamento de despesa, obedecidas as normas que regem a execução orçamentária (lei nº


4.320, de 17 de março de 1964), far-se-á mediante ordem bancária ou cheque nominativo, contabilizado
pelo órgão competente e obrigatòriamente assinado pelo ordenador da despesa e pelo encarregado do
setor financeiro.

§ 3º Em casos excepcionais, quando houver despesa não atendível pela via bancária, as
autoridades ordenadoras poderão autorizar suprimentos de fundos, de preferência a agentes afiançados,
fazendo-se os lançamentos contábeis necessários e fixando-se prazo para comprovação dos gastos.

Art. 75. Os órgãos da Administração Federal atenderão às solicitações que, a qualquer tempo,
venham a ser feitas pelo Tribunal de Contas ou suas Delegações, prestando os informes relativos à
administração dos créditos e facilitando a realização das inspeções de contrôle externo dos órgãos
encarregados de administração financeira, contabilidade e auditoria.

Art. 75. Os órgãos da Administração Federal prestarão ao Tribunal de Contas, ou suas delegações,
os informes relativos à administração dos créditos orçamentários e facilitarão a realização das inspeções
171

de contrôle externo dos órgãos de administração financeira, contabilidade e auditorias. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Parágrafo único. As informações previstas neste artigo são as imprescindíveis ao exercício da


auditoria financeira e orçamentária, realizada com base nos documentos enumerados nos itens I e II do
artigo 36 do Decreto-lei número 199, de 25 de fevereiro de 1967, vedada a requisição sistemática de
documentos ou comprovantes arquivados nos órgãos da administração federal, cujo exame se possa
realizar através das inspeções de contrôle externo. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 76. Caberá ao Inspetor Geral de Finanças ou autoridade delegada autorizar a inscrição de
despesas na conta "Restos a Pagar" (Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964), obedecendo-se na
liquidação respectiva as mesmas formalidades fixadas para a administração dos créditos orçamentários.

Parágrafo Único. As despesas inscritas na conta de "Restos a Pagar" serão liquidadas quando do
recebimento do material, da execução da obra ou da prestação do serviço, ainda que ocorram depois do
encerramento do exercício financeiro.

Art. 77. Todo ato de gestão financeira deve ser realizado por fôrça do documento que comprove a
operação e registrado na contabilidade, mediante classificação em conta adequada.

Art. 78. O acompanhamento da execução orçamentária será feito pelos órgãos de contabilização.

§ 1° Em cada unidade responsável pela administração de créditos proceder-se-á sempre à


contabilização dêstes.

§ 2° A contabilidade sintética ministerial caberá à Inspetoria Geral de Finanças.

§ 3 ° A contabilidade geral caberá à Inspetoria Geral de Finanças do Ministério da Fazenda.

§ 4º Atendidas as conveniências do serviço, um único órgão de contabilidade analítica poderá


encarregar-se da contabilização para várias unidades operacionais do mesmo ou de vários Ministérios.

§ 5° Os documentos relativos à escrituração dos atos da receita e despesa ficarão arquivados no


órgão de contabilidade analítica e à disposição das autoridades responsáveis pelo acompanhamento
administrativo e fiscalização financeira e, bem assim, dos agentes incumbidos do contrôle externo, de
competência do Tribunal de Contas.

Art. 79. A contabilidade deverá apurar os custos dos serviços de forma a evidenciar os resultados da
gestão.

Art. 80. Os órgãos de contabilidade inscreverão como responsável todo o ordenador da despesa, o
qual só poderá ser exonerado de sua responsabilidade após julgadas regulares suas contas pelo Tribunal
de Contas.

§ 1° Ordenador de despesas é tôda e qualquer autoridade de cujos atos resultarem emissão de


empenho, autorização de pagamento, suprimento ou dispêndio de recursos da União ou pela qual esta
responda.

§ 2º O ordenador de despesa, salvo conivência, não é responsável por prejuízos causados à


Fazenda Nacional decorrentes de atos praticados por agente subordinado que exorbitar das ordens
recebidas.
172

§ 3º As despesas feitas por meio de suprimentos, desde que não impugnadas pelo ordenador, serão
escrituradas e incluídas na sua tomada de contas, na forma prescrita; quando impugnadas, deverá o
ordenador determinar imediatas providências administrativas para a apuração das responsabilidades e
imposição das penalidades cabíveis, sem prejuízo do julgamento da regularidade das contas pelo
Tribunal de Contas.

Art. 81. Todo ordenador de despesa ficará sujeito a tomada de contas realizada pelo órgão de
contabilidade e verificada pelo órgão de auditoria interna, antes de ser encaminhada ao Tribunal de
Contas (artigo 82 ).

Parágrafo único. O funcionário que receber suprimento de fundos, na forma do disposto no art. 74, §
3º, é obrigado a prestar contas de sua aplicação procedendo-se, automàticamente, a tomada de contas
se não o fizer no prazo assinalado.

Art. 82. As tomadas de contas serão objeto de pronunciamento expresso do Ministro de Estado, dos
dirigentes de órgãos da Presidência da República ou de autoridade a quem estes delegarem
competência, antes de seu encaminhamento ao Tribunal de Contas para os fins constitucionais e
legais. (Vide Decreto nº 99.626, de 1990)

§ 1º A tomada de contas dos ordenadores, agentes recebedores, tesoureiros ou pagadores será


feita no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias do encerramento do exercício financeiro pelos órgãos
encarregados da contabilidade analítica e, antes de ser submetida a pronunciamento do Ministro de
Estado, dos dirigentes de órgãos da Presidência da República ou da autoridade a quem êstes delegarem
competência, terá sua regularidade certificada pelo órgão de auditoria.

§ 2º Sem prejuízo do encaminhamento ao Tribunal de Contas, a autoridade a que se refere o


parágrafo anterior no caso de irregularidade, determinará as providências que, a seu critério, se tornarem
indispensáveis para resguardar o interêsse público e a probidade na aplicação dos dinheiros públicos,
dos quais dará ciência oportunamente ao Tribunal de Contas.

§ 3° Sempre que possível, desde que não retardem nem dificultem as tomadas de contas, estas
poderão abranger conjuntamente a dos ordenadores e tesoureiros ou pagadores.

Art. 83. Cabe aos detentores de suprimentos de fundos fornecer indicação precisa dos saldos em
seu poder em 31 de dezembro, para efeito de contabilização e reinscrição da respectiva responsabilidade
pela sua aplicação em data posterior, observados os prazos assinalados pelo ordenador da despesa.

Parágrafo único. A importância aplicada até 31 de dezembro será comprovada até 15 de janeiro
seguinte.

Art. 84. Quando se verificar que determinada conta não foi prestada, ou que ocorreu desfalque,
desvio de bens ou outra irregularidade de que resulte prejuízo para a Fazenda Pública, as autoridades
administrativas, sob pena de co-responsabilidade e sem embargo dos procedimentos disciplinares,
deverão tomar imediatas providência para assegurar o respectivo ressarcimento e instaurar a tomada de
contas, fazendo-se as comunicações a respeito ao Tribunal de Contas.

Art. 85. A Inspetoria Geral de Finanças, em cada Ministério, manterá atualizada relação de
responsáveis por dinheiros, valôres e bens públicos, cujo rol deverá ser transmitido anualmente ao
Tribunal de Contas, comunicando-se trimestralmente as alterações.

Art. 86. A movimentação dos créditos destinados à realização de despesas reservadas ou


confidenciais será feita sigilosamente e nesse caráter serão tomadas as contas dos responsáveis.
173

Art. 87. Os bens móveis, materiais e equipamentos em uso ficarão sob a responsabilidade dos
chefes de serviço, procedendo-se periòdicamente a verificações pelos competentes órgãos de contrôle.

Art. 88. Os estoques serão obrigatòriamente contabilizados, fazendo-se a tomada anual das contas
dos responsáveis.

Art. 89. Todo aquêle que, a qualquer título, tenha a seu cargo serviço de contabilidade da União é
pessoalmente responsável pela exatidão das contas e oportuna apresentação dos balancetes, balanços
e demonstrações contábeis dos atos relativos à administração financeira e patrimonial do setor sob sua
jurisdição.

Art. 90. Responderão pelos prejuízos que causarem à Fazenda Pública o ordenador de despesas e
o responsável pela guarda de dinheiros, valôres e bens.

Art. 91. O orçamento incluirá verba global para constituição de um Fundo de Reserva Orçamentária,
destinando-se os recursos a despesas correntes quando se evidenciar deficiências nas respectivas
dotações e se fizer indispensável atender a encargo legal ou a necessidade imperiosa do serviço.
Art. 91. Sob a denominação de Reserva de Contingência, o orçamento anual poderá conter dotação
global não especificamente, destinada a determinado programa ou unidade orçamentária, cujos recursos
serão utilizados para abertura de créditos suplementares, quando se evidenciarem insuficientes, durante
o exercício, as dotações orçamentárias constantes do orçamento anual. (Redação dada pelo Decreto-
Lei nº 900, de 1969)

Art. 91.Sob a denominação de Reserva de Contingência, o orçamento anual poderá conter dotação
global não especificamente destinada a determinado órgão, unidade orçamentária, programa ou
categoria econômica, cujos recursos serão utilizados para abertura de créditos adicionais. (Redação
dada pelo Decreto-Lei nº 1.763, de 1980)

Art. 92. Com o objetivo de obter maior economia operacional e racionalizar a execução da
programação financeira de desembôlso, o Ministério da Fazenda promoverá a unificação de recursos
movimentados pelo Tesouro Nacional através de sua Caixa junto ao agente financeiro da União. (Vide
Decreto nº 4.529, de 2002)

Parágrafo único. Os saques contra a Caixa do Tesouro só poderão ser efetuados dentro dos limites
autorizados pelo Ministro da Fazenda ou autoridade delegada.

Art. 93. Quem quer que utilize dinheiros públicos terá de justificar seu bom e regular emprêgo na
conformidade das leis, regulamentos e normas emanadas das autoridades administrativas competentes.

TITULO XI
DAS DISPOSIÇÕES REFERENTES AO PESSOAL CIVIL

CAPÍTULO I
DAS NORMAS GERAIS

Art. 94. O Poder Executivo promoverá a revisão da legislação e das normas regulamentares
relativas ao pessoal do Serviço Público Civil, com o objetivo de ajustá-las aos seguintes princípios:

I - Valorização e dignificação da função pública e ao servidor público.

II - Aumento da produtividade.
174

III - Profissionalização e aperfeiçoamento do servidor público; fortalecimento do Sistema do Mérito


para ingresso na função pública, acesso a função superior e escolha do ocupante de funções de direção
e assessoramento.

IV - Conduta funcional pautada por normas éticas cuja infração incompatibilize o servidor para a
função.

V - Constituição de quadros dirigentes, mediante formação e aperfeiçoamento de administradores


capacitados a garantir a qualidade, produtividade e continuidade da ação governamental, em
consonância com critérios éticos especialmente estabelecidos.

VI - Retribuição baseada na classificação das funções a desempenhar, levando-se em conta o nível


educacional exigido pelos deveres e responsabilidade do cargo, a experiência que o exercício dêste
requer, a satisfação de outros requisitos que se reputarem essenciais ao seu desempenho e às
condições do mercado de trabalho.

VII - Organização dos quadros funcionais, levando-se em conta os interêsses de recrutamento


nacional para certas funções e a necessidade de relacionar ao mercado de trabalho local ou regional o
recrutamento, a seleção e a remuneração das demais funções.

VIII - Concessão de maior autonomia aos dirigentes e chefes na administração de pessoal, visando
a fortalecer a autoridade do comando, em seus diferentes graus, e a dar-lhes efetiva responsabilidade
pela supervisão e rendimento dos serviços sob sua jurisdição.

IX - Fixação da quantidade de servidores, de acôrdo com as reais necessidades de funcionamento


de cada órgão, efetivamente comprovadas e avaliadas na oportunidade da elaboração do orçamento-
programa, e estreita observância dos quantitativos que forem considerados adequados pelo Poder
Executivo no que se refere aos dispêndios de pessoal. Aprovação das lotações segundo critérios
objetivos que relacionam a quantidade de servidores às atribuições e ao volume de trabalho do órgão.

X - Eliminação ou reabsorção do pessoal ocioso, mediante aproveitamento dos servidores


excedentes, ou reaproveitamento aos desajustados em funções compatíveis com as suas comprovadas
qualificações e aptidões vocacionais, impedindo-se novas admissões, enquanto houver servidores
disponíveis para a função.

XI - Instituição, pelo Poder Executivo, de reconhecimento do mérito aos servidores que contribuam
com sugestões, planos e projetos não elaborados em decorrência do exercício de suas funções e dos
quais possam resultar aumento de produtividade e redução dos custos operacionais da administração.

XII - Estabelecimento de mecanismos adequados à apresentação por parte dos servidores, nos
vários níveis organizacionais, de suas reclamações e reivindicações, bem como à rápida apreciação,
pelos órgãos administrativos competentes, dos assuntos nelas contidos.

XIII - Estímulo ao associativismo dos servidores para fins sociais e culturais.

Parágrafo único. O Poder Executivo encaminhará ao Congresso Nacional mensagens que


consubstanciem a revisão de que trata êste artigo.

Art. 95. O Poder Executivo promoverá as medidas necessárias à verificação da produtividade do


pessoal a ser empregado em quaisquer atividades da Administração Direta ou de autarquia, visando a
colocá-lo em níveis de competição com a atividade privada ou a evitar custos injustificáveis de operação,
podendo, por via de decreto executivo ou medidas administrativas, adotar as soluções adequadas,
175

inclusive a eliminação de exigências de pessoal superiores às indicadas pelos critérios de produtividade e


rentabilidade. Vide Decreto nº 67.326, de 05.10.1970

Art . 96. Nos têrmos da legislação trabalhista, poderão ser contratados especialistas para atender às
exigências de trabalho técnico em institutos, órgãos de pesquisa e outras entidades especializadas da
Administração Direta ou autarquia, segundo critérios que, para êsse fim, serão estabelecidos em
regulamento.

Art . 97. Os Ministros de Estado, mediante prévia e específica autorização do Presidente da


República, poderão contratar os serviços de consultores técnicos e especialistas por determinado
período, nos têrmos da legislação trabalhista. (Expressão substituída pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

CAPÍTULO II
DAS MEDIDAS DE APLICAÇÃO IMEDIATA

Art. 98. Cada unidade administrativa terá, no mais breve prazo, revista sua lotação, a fim de que
passe a corresponder a suas estritas necessidades de pessoal e seja ajustada às dotações previstas no
orçamento (art. 94 inciso IX).

Art. 99. O Poder Executivo adotará providências para a permanente verificação da existência de
pessoal ocioso na Administração Federal, diligenciando para sua eliminação ou redistribuição imediata.

§ 1º Sem prejuízo da iniciativa do órgão de pessoal da repartição, todo responsável por setor de
trabalho em que houver pessoal ocioso deverá apresentá-lo aos centros de redistribuição e
aproveitamento de pessoal que deverão ser criados, em caráter temporário, sendo obrigatório o
aproveitamento dos concursados.

§ 2º A redistribuição de pessoal ocorrerá sempre no interêsse do Serviço Público, tanto na


Administração Direta como em autarquia, assim como de uma para outra, respeitado o regime jurídico
pessoal do servidor.

§ 3º O pessoal ocioso deverá ser aproveitado em outro setor, continuando o servidor a receber pela
verba da repartição ou entidade de onde tiver sido deslocado, até que se tomem as providências
necessárias à regularização da movimentação.

§ 4° Com relação ao pessoal ocioso que não puder ser utilizado na forma dêste artigo, será
observado o seguinte procedimento:

a) extinção dos cargos considerados desnecessários, ficando os seus ocupantes exonerados ou em


disponibilidade, conforme gozem ou não de estabilidade, quando se tratar de pessoal regido pela
legislação dos funcionários públicos;

b) dispensa, com a conseqüente indenização legal, dos empregados sujeitos ao regime da


legislação trabalhista.

§ 5º Não se preencherá vaga nem se abrirá concurso na Administração Direta ou em autarquia, sem
que se verifique, prèviamente, no competente centro de redistribuição de pessoal, a inexistência de
servidor a aproveitar, possuidor da necessária qualificação.

§ 6º Não se exonerará, por fôrça do disposto neste artigo, funcionário nomeado em virtude de
concurso.
176

Art. 100. Instaurar-se-á processo administrativo para a demissão ou dispensa de servidor efetivo ou
estável, comprovadamente ineficiente no desempenho dos encargos que lhe competem ou desidioso no
cumprimento de seus deveres.

Art. 101. Ressalvados os cargos em comissão definidos em ato do Poder Executivo como de livre
escolha do Presidente da República, o provimento em cargos em comissão e funções gratificadas
obedecerá a critérios que considerem, entre outros requisitos, os seguintes:
I - Pertencer o funcionário aos quadros de servidores efetivos, ocupando cargo de nível adequado e
cujas atribuições guardem relação com as da comissão ou função gratificada.
II - Comprovação de que o funcionário possui experiência adequada e curso de especialização
apropriado ao desempenho dos encargos da comissão, considerando-se satisfeito o requisito se o
funcionário se submeter a processo de aperfeiçoamento, nas condições e ocasião em que fôr estipulado.
III - Obrigar-se o funcionário, quando se caracterizar o interêsse da Administração, ao regime de
tempo integral e dedicação exclusiva.
§ 1º Em conseqüência do disposto no inciso III dêste artigo, os funcionários que atenderem às
condições estipuladas ficam sujeitos ao regime de 40 (quarenta) horas semanais de trabalho e
perceberão gratificação pelo regime de tempo integral e dedicação exclusiva.
§ 2° É inerente ao exercício dos cargos em comissão e funções gratificadas diligenciar seu ocupante
no sentido de que se aumente a produtividade, se reduzam os custos e se dinamizem os serviços.

Art. 101. O provimento em cargos em comissão e funções gratificadas obedecerá a critérios a serem
fixados por ato do Poder Executivo que: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

a) definirá os cargos em comissão de livre escolha do Presidente da República; (Incluído pelo


Decreto-Lei nº 900, de 1969)

b) estabelecerá os processos de recrutamento com base no Sistema do Mérito; e (Incluído pelo


Decreto-Lei nº 900, de 1969)

c) fixará as demais condições necessárias ao seu exercício. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de
1969)

Art. 102. É proibida a nomeação em caráter interino por incompatível com a exigência de prévia
habilitação em concurso para provimento dos cargos públicos, revogadas tôdas as disposições em
contrário.

Art. 103. Todo servidor que estiver percebendo vencimento, salário ou provento superior ao fixado
para o cargo nos planos de classificação e remuneração, terá a diferença caracterizada como vantagem
pessoal, nominalmente identificável, a qual em nenhuma hipótese será aumentada, sendo absorvida
progressivamente pelos aumentos que vierem a ser realizados no vencimento, salário ou provento fixado
para o cargo nos mencionados planos.

Art. 104. No que concerne ao regime de participação na arrecadação, inclusive cobrança da Dívida
Ativa da União, fica estabelecido o seguinte:

I - Ressalvados os direitos dos denunciantes, a adjudicação de cota-parte de multas será feita


exclusivamente aos Agentes Fiscais de Rendas Internas, Agentes Fiscais do Impôsto de Renda, Agentes
Fiscais do Impôsto Aduaneiro, Fiscais Auxiliares de Impostos Internos e Guardas Aduaneiros e sòmente
quando tenham os mesmos exercido ação direta, imediata e pessoal na obtenção de elementos
destinados à instauração de autos de infração ou início de processos para cobrança dos débitos
respectivos.
177

II - O regime de remuneração, previsto na Lei n° 1.711, de 28 de outubro de 1952, continuará a ser


aplicado exclusivamente aos Agentes Fiscais de Rendas Internas, Agentes Fiscais do Impôsto de Renda,
Agentes Fiscais do Impôsto Aduaneiro, Fiscais Auxiliares de Impostos Internos e Guardas Aduaneiros.

III - A partir da data da presente lei, fica extinto o regime de remuneração instituído a favor dos
Exatores Federais, Auxiliares de Exatorias e Fiéis do Tesouro.

IV - Fica, igualmente, extinta, a partir da data desta lei, a participação dos Procuradores da Fazenda
Nacional na cobrança da Dívida Ativa da União, através da taxa paga pelos executados, cujo produto
reverterá, integralmente, aos cofres públicos. (Revogado pela Lei nº 5.421, de 1968)

V - A participação, através do Fundo de Estímulo, e bem assim as percentagens a que se referem


o art. 64 da Lei n° 3.244, de 14 de agôsto de 1957, o Art. 109 da Lei nº 3.470, de 28 de novembro de
1958, os artigos 8º, § 2º e 9º da Lei nº 3.756, de 20 de abril de 1960, e o § 6º do art. 32 do Decreto-lei nº
147, de 3 de fevereiro de 1967, ficam também extintas.

Parágrafo único. Comprovada a adjudicação da cota-parte de multas com desobediência ao que


dispõe o inciso I dêste artigo, serão passíveis de demissão, tanto o responsável pela prática dêsse ato,
quanto os servidores que se beneficiarem com as vantagens dêle decorrentes.

Art . 105. Aos servidores que, na data da presente lei estiverem no gôzo das vantagens previstas
nos incisos III, IV e V do artigo anterior fica assegurado o direito de percebê-las, como diferença mensal,
desde que esta não ultrapasse a média mensal que, àquele título, receberam durante o ano de 1966, e
até que, por fôrça dos reajustamentos de vencimentos do funcionalismo, o nível de vencimentos dos
cargos que ocuparem alcance importâncias correspondente à soma do vencimento básico e da diferença
de vencimento. (Vide Lei nº 5.421, de 1968)

Art. 106. Fica extinta a Comissão de Classificação de Cargos transferindo-se ao DASP, seu acervo,
documentação, recursos orçamentários e atribuições.

Art. 107. A fim de permitir a revisão da legislação e das normas regulamentares relativas ao pessoal
do Serviço Público Civil, nos têrmos do disposto no art. 94, da presente lei, suspendem-se nesta data as
readaptações de funcionários que ficam incluídas na competência do DASP.

Art. 108. O funcionário, em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, prestará serviços em
dois turnos de trabalho, quando sujeito a expediente diário.

Parágrafo único. Incorrerá em falta grave, punível com demissão, o funcionário que perceber a
vantagem de que trata êste artigo e não prestar serviços correspondentes e bem assim o chefe que
atestar a prestação irregular dos serviços.

Art. 109. Fica revogada a legislação que permite a agregação de funcionários em cargos em
comissão e em funções gratificadas, mantidos os direitos daqueles que, na data desta lei, hajam
completado as condições estipuladas em lei para a agregação, e não manifestem, expressamente, o
desejo de retornarem aos cargos de origem.

Parágrafo único. Todo agregado é obrigado a prestar serviços, sob pena de suspensão dos seus
vencimentos.

Art. 110. Proceder-se-á à revisão dos cargos em comissão e das funções gratificadas da
Administração Direta e das autarquias, para supressão daqueles que não corresponderem às estritas
necessidades dos serviços, em razão de sua estrutura e funcionamento.
178

Art. 111. A colaboração de natureza eventual à Administração Pública Federal sob a forma de
prestação de serviços, retribuída mediante recibo, não caracteriza, em hipótese alguma, vínculo
empregatício com o Serviço Público Civil, e sòmente poderá ser atendida por dotação não classificada na
rubrica "PESSOAL", e nos limites estabelecidos nos respectivos programas de trabalho. (Vide Decreto
nº 66.715, de 1970)

Art. 112. O funcionário que houver atingido a idade máxima (setenta anos) prevista para
aposentadoria compulsória não poderá exercer cargo em comissão ou função gratificada, nos quadros
dos Ministérios, do DASP e das autarquias.

Art. 113. Revogam-se na data da publicação da presente lei, os Arts. 62 e 63 da Lei n° 1.711, de 28
de outubro de 1952, e demais disposições legais e regulamentares que regulam as readmissões no
serviço público federal.

Art. 114. O funcionário público ou autárquico que, por fôrça de dispositivo legal, puder manifestar
opção para integrar quadro de pessoal de qualquer outra entidade e por esta aceita, terá seu tempo de
serviço anterior, devidamente comprovado, averbado na instituição de previdência, transferindo-se para o
INPS as contribuições pagas ao IPASE.

CAPÍTULO III
DO DEPARTAMENTO ADMINISTRATIVO DO PESSOAL CIVIL

Art. 115. O Departamento Administrativo do Pessoal Civil (DASP) é o órgão central do sistema de
pessoal, responsável pelo estudo, formulação de diretrizes, orientação, coordenação, supervisão e
contrôle dos assuntos concernentes à administração do Pessoal Civil da União. (Vide Lei nº 6.228, de
1975)

Parágrafo único. Haverá em cada Ministério um órgão de pessoal integrante do sistema de pessoal.

Art. 116. Ao Departamento Administrativo do Pessoal Civil (DASP) incumbe: (Vide Lei nº 6.228, de
1975)

I - Cuidar dos assuntos referentes ao pessoal civil da União, adotando medidas visando ao seu
aprimoramento e maior eficiência.

II - Submeter ao Presidente da República os projetos de regulamentos indispensáveis à execução


das leis que dispõem sôbre a função pública e os servidores civis da União.

III - Zelar pela observância dessas leis e regulamentos, orientando, coordenando e fiscalizando sua
execução, e expedir normas gerais obrigatórias para todos os órgãos.

IV - Estudar e propor sistema de classificação e de retribuição para o serviço civil administrando sua
aplicação.

V - Recrutar e selecionar candidatos para os órgãos da Administração Direta e autarquias, podendo


delegar, sob sua orientação, fiscalização e contrôle a realização das provas o mais próximo possível das
áreas de recrutamento.

VI - Manter estatísticas atualizadas sôbre os servidores civis, inclusive os da Administração Indireta.

VII - Zelar pela criteriosa aplicação dos princípios de administração de pessoal com vistas ao
tratamento justo dos servidores civis, onde quer que se encontrem.
179

VIII - Promover medidas visando ao bem-estar social dos servidores civis da União e ao
aprimoramento das relações humanas no trabalho.

IX - Manter articulação com as entidades nacionais e estrangeiras que se dedicam a estudos de


administração de pessoal.

X - Orientar, coordenar e superintender as medidas de aplicação imediata (Capítulo II, dêste Título).

Art. 117. O Departamento Administrativo do Pessoal Civil prestará às Comissões Técnicas do Poder
Legislativo tôda cooperação que fôr solicitada.

Parágrafo único. O Departamento deverá colaborar com o Ministério Público Federal nas causas
que envolvam a aplicação da legislação do pessoal.

Art. 118. Junto ao Departamento haverá o Conselho Federal de Administração de Pessoal, que
funcionará como órgão de consulta e colaboração no concernente à política de pessoal do Govêrno e
opinará na esfera administrativa, quando solicitado pelo Presidente da República ou pelo Diretor-Geral do
DASP nos assuntos relativos à administração de pessoal civil, inclusive quando couber recurso de
decisão dos Ministérios, na forma estabelecida em regulamento.

Art. 119. O Conselho Federal de Administração de Pessoal será presidido pelo Diretor-Geral do
Departamento Administrativo do Pessoal Civil e constituído de quatro membros, com mandato de três
anos, nomeados pelo Presidente da República, sendo: dois funcionários, um da Administração Direta e
outro da Indireta, ambos com mais de vinte anos de Serviço Público da União, com experiência em
administração e relevante fôlha de serviços; um especialista em direito administrativo; e um elemento de
reconhecida experiência no setor de atividade privada.

§ 1° O Conselho reunir-se-á ordinàriamente duas vêzes por mês e, extraordinàriamente, por


convocação de seu presidente.

§ 2° O Conselho contará com o apoio do Departamento, ao qual ficarão afetos os estudos


indispensáveis ao seu funcionamento e, bem assim, o desenvolvimento e a realização dos trabalhos
compreendidos em sua área de competência.

§ 3º Ao Presidente e aos Membros do Conselho é vedada qualquer atividade político-partidária, sob


pena de exoneração ou perda de mandato.

Art. 120. O Departamento prestará tôda cooperação solicitada pelo Ministro responsável pela
Reforma Administrativa.

Art. 121. As medidas relacionadas com o recrutamento, seleção, aperfeiçoamento e administração


do assessoramento superior da Administração Civil, de aperfeiçoamento de pessoal para o desempenho
dos cargos em comissão e funções gratificadas a que se referem o art. 101 e seu inciso II (Título XI,
Capítulo II) e de outras funções de supervisão ou especializadas, constituirão encargo de um Centro de
Aperfeiçoamento, órgão autônomo vinculado ao Departamento Administrativo do Pessoal Civil. (Vide Lei
nº 6.228, de 1975)

Parágrafo único. O Centro de Aperfeiçoamento promoverá direta ou indiretamente mediante


convênio, acôrdo ou contrato, a execução das medidas de sua atribuição.

CAPÍTULO IV
DO ASSESSORAMENTO SUPERIOR DA ADMINISTRAÇÃO CIVIL
180

Art. 122 O assessoramento superior da Administração Civil, integrado por funções de direção e
assessoramento especializado dos órgãos Centrais dos Ministérios (art. 22) e do Departamento
Administrativo do Pessoal Civil (art. 115) será atendido por titulares de cargos em comissão e por pessoal
técnico especializado.

Art. 122. O Assessoramento Superior da Administração Civil compreenderá determinadas funções


de assessoramento aos Ministros de Estado, definidas por decreto e fixadas em número limitado para
cada Ministério civil, observadas as respectivas peculiariedades de organização e
funcionamento. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969) (Vide Decreto-lei nº 2.280, de
1985) (Vide Lei nº 7.419, de 1985) (Vide Decreto-lei nº 2.310, de 1986) (Vide Decreto nº 2.365,
de 1987) (Vide Decreto-lei nº 2.367, de 1987) (Vide Lei nº 7.995, de 1990)

§ 1º As funções a que se refere êste artigo, caracterizadas pelo alto nível de especificidade,
complexidade e responsabilidade, serão objeto de rigorosa individualização e a designação para o seu
exercício sómente poderá recair em pessoas de comprovada idoneidade, cujas qualificações, capacidade
e experiência específicas sejam examinadas, aferidas e certificadas por órgão próprio, na forma definida
em regulamento. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

§ 2º O exercício das atividades de que trata êste artigo revestirá a forma de locação de serviços
regulada mediante contrato individual, em que se exigirá tempo integral e dedicação exclusiva, não se lhe
aplicando o disposto no artigo 35 do Decreto-lei número 81, de 21 de dezembro de 1966, na redação
dada pelo artigo 1º do Decreto-Iei número 177, de 16 de fevereiro de 1967. (Incluído pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969)

§ 3º A prestação dos serviços a que alude êste artigo será retribuída segundo critério fixado em
regulamento, tendo em vista a avaliação de cada função em face das respectivas especificações, e as
condições vigentes no mercado de trabalho. (Incluído pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art . 123. Os cargos em comissão serão preenchidos por pessoas da Administração Direta ou
Indireta ou do setor privado e as nomeações sòmente poderão recair naquelas de comprovada
idoneidade e cujo currículo certifique a experiência requerida para o desempenho da função.
Parágrafo único. Enquanto durar a comissão, o nomeado afastar-se-á de qualquer cargo ou função que
desempenhe no Serviço Público ou no setor privado.

Art. 123. O servidor público designado para as funções de que trata o artigo anterior ficará afastado
do respectivo cargo ou emprêgo enquanto perdurar a prestação de serviços, deixando de receber o
vencimento ou salário correspondente ao cargo ou emprego público. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969) (Vide Lei nº 7.419, de 1985) (Vide Decreto-lei nº 2.310, de 1986) (Vide Decreto-lei
nº 2.367, de 1987)

Parágrafo único. Poderá a designação para o exercício das funções referidas no artigo anterior
recair em ocupante de função de confiança ou cargo em comissão diretamente subordinados ao Ministro
de Estado, caso em que deixará de receber, durante o período de prestação das funções de
assessoramento superior, o vencimento ou gratificação do cargo em comissão ou função de
confiança. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 124. O pessoal técnico especializado destinado a funções de assessoramento superior da


Administração Civil será recrutado no setor público e no setor privado, selecionado segundo critérios
específicos, submetido a contínuo treinamento e aperfeiçoamento que assegurem o conhecimento e
utilização das técnicas e instrumentos modernos de administração, e ficará sujeito ao regime da
Legislação Trabalhista.
§ 1° A seleção de pessoal técnico especializado estará a cargo do Centro de Aperfeiçoamento (art.
121), em articulação com os Ministérios interessados.
§ 2º As admissões poderão ser realizadas para o desempenho das funções previstas em
181

regulamento, o qual levará em conta a natureza da atividade e as peculiaridades dos serviços a atender e
estabelecerá normas de conduta baseada em ética profissional.
§ 3º O regime salarial será estabelecido na regulamentação, em consonância com as funções a
serem desempenhadas.
§ 4º O funcionário público admitido em função técnica especializada, no regime da legislação
trabalhista, ficará afastado do cargo que ocupar, em caráter efetivo, enquanto perdurar aquela situação
temporária, só contando o tempo de serviço correspondente para fins de promoção e aposentadoria.
Art. 124. O disposto no presente capítulo poderá ser estendido, por decreto a funções da mesma
natureza, vinculadas aos órgãos integrantes da Presidência da República. (Redação dada pelo Decreto-
Lei nº 900, de 1969)

Art. 124. O disposto no presente Capítulo poderá ser estendido, por decreto, a funções da mesma
natureza vinculadas aos Ministérios Militares e órgãos integrantes da Presidência da
República. (Redação dada pela Lei nº 6.720, de 1979) (Vide Lei nº 7.419, de 1985) (Vide Decreto-lei
nº 2.310, de 1986) (Vide Decreto nº 2.365, de 1987)

TITULO XII
DAS NORMAS RELATIVAS A LICITAÇÕES PARA COMPRAS, OBRAS, SERVIÇOS E ALIENAÇÕES
(Vide Decreto nº 73.140, de 1973)
(Vide Decreto nº 86.025, de 1981)
(Vide Decreto nº 87.770, de 1982)
(Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)

Art. 125. As licitações para compras, obras e serviços passam a reger-se, na Administração Direta
e nas autarquias, pelas normas consubstanciadas neste Título e disposições complementares aprovadas
em decreto. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 126. As compras, obras e serviços efetuar-se-ão com estrita observância do princípio da
licitação.
§ 1° A licitação só será dispensada nos casos previstos nesta lei. (Revogado pelo Decreto-Lei nº
2.300, de 1986)
§ 2º É dispensável a licitação:
a) nos casos de guerra, grave perturbação da ordem ou calamidade pública;
b) quando sua realização comprometer a segurança nacional a juízo do Presidente da República;
c) quando não acudirem interessados à licitação anterior, mantidas neste caso, as condições
preestabelecidas;
d) na aquisição de materiais, equipamentos ou gêneros que só podem ser fornecidos por produtor,
emprêsa ou representante comercial exclusivos bem como na contratação de serviços com profissionais
ou firmas de notória especialização;
e) na aquisição de obras de arte e objetos históricos;
f) quando a operação envolver concessionário de serviço público ou, exclusivamente, pessoas de
direito público interno ou entidades sujeitas ao seu contrôle majoritário;
g) na aquisição ou arrendamento de imóveis destinados ao Serviço Público;
h) nos casos de emergência, caracterizada a urgência de atendimento de situação que possa
ocasionar prejuízos ou comprometer a segurança de pessoas, obras, bens ou equipamentos;
i) nas compras ou execução de obras e serviços de pequeno vulto, entendidos como tal os que
envolverem importância inferior a cinco vêzes, no caso de compras, e serviços, e a cinqüenta vêzes, no
caso de obras, o valor do maior salário-mínimo mensal. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
§ 3° A utilização da faculdade contida na alínea h do parágrafo anterior deverá ser imediatamente
objeto de justificação perante a autoridade superior, que julgará do acêrto da medida e, se fôr o caso,
promoverá a responsabilidade do funcionário.
Art . 127. São modalidades de licitação: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
I - A concorrência.
II - A tomada de preços.
III - O convite.
§ 1º Concorrência é a modalidade de licitação a que deve recorrer a Administração nos casos de
182

compras, obras ou serviços de vulto, em que se admite a participação de qualquer licitante através de
convocação da maior amplitude.
§ 2° Nas concorrências, haverá, obrigatòriamente uma fase inicial de habilitação preliminar
destinada a comprovar a plena qualificação dos interessados para realização do fornecimento ou
execução da obra ou serviço programados. (Vide Decreto nº 87.770, de 1982)
§ 3° Tomada de preços é a modalidade de licitação entre interessados prèviamente registrados,
observada a necessária habilitação.
§ 4° Convite é a modalidade de licitação entre interessados no ramo pertinente ao objeto da
licitação, em número mínimo de três, escolhidos pela unidade administrativa, registrados ou não, e
convocados por escrito com antecedência mínima de 3 (três) dias úteis.
§ 5º Quando se tratar de compras ou serviços, cabe realizar concorrência se o seu vulto fôr igual ou
superior a dez mil vêzes o valor do maior salário-mínimo mensal; tomada de preços, se inferior àquele
valor e igual ou superior a cem vêzes o valor do maior salário-mínimo mensal; e convite, se inferior a cem
vêzes o valor do maior salário-mínimo, observado o disposto na alínea i do § 2º do art. 126. (Revogado
pela Lei nº 6.946, de 1981)
§ 6º Quando se tratar de obras, caberá realizar concorrência se o seu vulto fôr igual ou superior a
quinze mil vêzes o valor do maior salário-mínimo mensal; tomada de preços, se inferior àquele valor e
igual ou superior a quinhentas vêzes o valor do maior salário-mínimo mensal; convite, se inferior a
quinhentas vêzes o valor do salário-mínimo mensal, observado o disposto na alínea i do § 2º do art.
126. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
§ 7º Nos casos em que couber tomada de preços, a autoridade administrativa poderá preferir a
concorrência, sempre que julgar conveniente.
Art. 128. Para a realização de tomadas de preços, as unidades administrativas manterão registros
cadastrais de habilitação de firmas periòdicamente atualizados e consoantes com as qualificações
específicas estabelecidas em função da natureza e vulto dos fornecimentos, obras ou
serviços. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
§ 1° Serão fornecidos certificados de registro aos interessados inscritos. (Revogado pela Lei nº
6.946, de 1981)
§ 2º As unidades administrativas que incidentalmente não disponham de registro cadastral poderão
socorrer-se do de outra. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
Art. 129. A publicidade das licitações será assegurada: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de
1986)
I - No caso de concorrência, mediante publicação, em órgão oficial e na imprensa diária, com
antecedência mínima de trinta dias, de notícia resumida de sua abertura, com indicação do local em que
os interessados poderão obter o edital e tôdas as informações necessárias.
II - No caso de tomada de preços, mediante afixação de edital, com antecedência mínima de quinze
dias, em local acessível aos interessados e comunicação às entidades de classe, que os representem.
Parágrafo único. A Administração poderá utilizar outros meios de informação ao seu alcance para
maior divulgação das licitações, com o objetivo de ampliar a área de competição.
Art. 130. No edital indicar-se-á, com antecedência prevista, pelo menos: (Revogado pelo Decreto-Lei
nº 2.300, de 1986)
I - Dia, hora e local.
II - Quem receberá as propostas.
III - Condições de apresentação de propostas e da participação na licitação.
IV - Critério de julgamento das propostas.
V - Descrição sucinta e precisa da licitação.
VI - Local em que serão prestadas informações e fornecidas plantas, instruções, especificações e
outros elementos necessários ao perfeito conhecimento do objeto da licitação.
VII - Prazo máximo para cumprimento do objeto da licitação.
VIII - Natureza da garantia, quando exigida.
Parágrafo único - O prazo de que trata o item VII será contado em dias úteis.(Incluído pela Lei nº
6.457, de 1977)
Art. 131. Na habilitação às licitações, exigir-se-á dos interessados, exclusivamente, documentação
relativa: (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
I - À personalidade jurídica. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
II - À capacidade técnica. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)
183

III - À idoneidade financeira. (Revogado pela Lei nº 6.946, de 1981)


Art. 132. As licitações para obras ou serviços admitirão os seguintes regimes de
execução: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
I - Empreitada por preço global.
II - Empreitada por preço unitário.
III - Administração contratada.
Art. 133. Na fixação de critérios para julgamento das licitações levar-se-ão em conta, no interêsse do
serviço público, as condições de qualidade, rendimento, preços, condições de pagamento, prazos e
outras pertinentes estabelecidas no edital. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Parágrafo único. Será obrigatória a justificação escrita da autoridade competente, sempre que não
fôr escolhida a proposta de menor preço.
Art . 134. As obrigações, decorrentes de licitação ultimada, constarão de: (Revogado pelo Decreto-
Lei nº 2.300, de 1986)
I - Contrato bilateral, obrigatório nos casos de concorrência e facultativo nos demais casos, a critério
da autoridade administrativa. (Vide Decreto nº 87.770, de 1982)
II - Outros documentos hábeis, tais como cartas-contratos, empenho de despesas, autorizações de
compra e ordens de execução de serviço.
§ 1º Será fornecida aos interessados, sempre que possível, a minuta do futuro contrato.
§ 2° Será facultado a qualquer participante da licitação o conhecimento dos têrmos do contrato
celebrado.
Art . 135. Será facultativa, a critério da autoridade competente, a exigência de prestação de garantia
por parte dos licitantes segundo as seguintes modalidades: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de
1986)
I - Caução em dinheiro, em títulos da dívida pública ou fideijussória.
II - Fiança bancária.
III - Seguro-garantia.
Art. 136. Os fornecedores ou executantes de obras ou serviços estarão sujeitos às seguintes
penalidades: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
I - Multa, prevista nas condições de licitação.
II - Suspensão do direito de licitar, pelo prazo que a autoridade competente fixar, segundo a
gradação que fôr estipulada em função da natureza da falta.
III - Declaração de inidoneidade para licitar na Administração Federal.
Parágrafo único. A declaração de inidoneidade será publicada no órgão oficial.
Art. 137. Os recursos admissíveis em qualquer fase da licitação ou da execução serão definidos em
regulamento. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 138. É facultado à autoridade imediatamente superior àquela que proceder à licitação anulá-la
por sua própria iniciativa. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 139. A licitação só será iniciada após definição suficiente do seu objeto e, se referente a obras,
quando houver anteprojeto e especificações bastantes para perfeito entendimento da obra a
realizar.(Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Parágrafo único. O disposto na parte final dêste artigo não se aplicará quando a licitação versar
sôbre taxa única de redução ou acréscimo dos preços unitários objeto de Tabela de Preços oficial.
Art. 140. A atuação do licitante no cumprimento de obrigações assumidas será anotada no
respectivo registro cadastral. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 141. A habilitação preliminar, a inscrição em registro cadastral e o julgamento das concorrências
e tomadas de preços deverão ser confiados a comissão de, pelo menos, três membros. (Revogado pelo
Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 142. As licitações de âmbito internacional ajustar-se-ão às diretrizes estabelecidas pelos órgãos
responsáveis pela política monetária e pela política de comércio exterior. (Revogado pelo Decreto-Lei nº
2.300, de 1986)
Art. 143. As disposições dêste Título aplicam-se, no que couber, às alienações, admitindo-se o leilão,
neste caso, entre as modalidades de licitação. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
Art. 144. A elaboração de projetos poderá ser objeto de concurso, com estipulações de prêmios aos
concorrentes classificados, obedecidas as condições que se fixarem em regulamento. (Revogado pelo
Decreto-Lei nº 2.300, de 1986)
184

TITULO XIII
DA REFORMA ADMINISTRATIVA

Art. 145. A Administração Federal será objeto de uma reforma de profundidade para ajustá-la às
disposições da presente lei e, especialmente, às diretrizes e princípios fundamentais enunciados no
Título II, tendo-se como revogadas, por fôrça desta lei, e à medida que sejam expedidos os atos a que se
refere o art. 146, parágrafo único, alínea b , as disposições legais que forem com ela colidentes ou
incompatíveis.

Parágrafo único. A aplicação da presente lei deverá objetivar, prioritàriamente, a execução ordenada
dos serviços da Administração Federal, segundo os princípios nela enunciados e com apoio na
instrumentação básica adotada, não devendo haver solução de continuidade.

Art. 146. A Reforma Administrativa, iniciada com esta lei, será realizada por etapas, à medida que se
forem ultimando as providências necessárias à sua execução.

Parágrafo único. Para os fins dêste artigo, o Poder Executivo:

Parágrafo único. Para os fins dêste artigo, o Poder Executivo: (Redação dada pelo Decreto-Lei nº
900, de 1969)

a) promoverá o levantamento das leis, decretos e atos regulamentares que disponham sôbre a
estruturação, funcionamento e competência dos órgãos da Administração Federal, com o propósito de
ajustá-los às disposições desta Lei;

b) obedecidas as diretrizes, princípios fundamentais e demais disposições da presente lei e


respeitado o disposto na Constituição Federal quando à competência do Poder Legislativo, expedirá
progressivamente os atos de reorganização, reestruturação, lotação, definição de competência, revisão
de funcionamento e outros necessários à efetiva implantação da reforma;

b) obedecidas as diretrizes, princípios fundamentais e demais disposições da presente lei expedirá


progressivamente os atos de reorganização, reestruturação lotação, definição de competência, revisão
de funcionamento e outros necessários a efetiva implantação da reforma. (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 900, de 1969)

c) proporá ao Congresso Nacional as medidas complementares de natureza legislativa que se


fizerem necessárias. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

Art . 147. A orientação, coordenação e supervisão das providências de que trata êste Título ficarão a
cargo do Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, podendo, entretanto, ser atribuídas a um
Ministro Extraordinário para a Reforma Administrativa, caso em que a êste caberão os assuntos de
organização administrativa.

Art. 148. Para atender às despesas decorrentes de execução da Reforma Administrativa, fica
autorizada a abertura pelo Ministério da Fazenda do crédito especial de NCr$20.000.000,00 (vinte
milhões de cruzeiros novos), com vigência nos exercícios de 1967 a 1968. (Vide Decreto nº 61.383,
de 1967)

§ 1º Os recursos do crédito aberto neste artigo incorporar-se-ão ao "Fundo de Reforma


Administrativa", que poderá receber doações e contribuições destinadas ao aprimoramento da
Administração Federal.
185

§ 2° O Fundo de Reforma Administrativa, cuja utilização será disciplinada em regulamento, será


administrado por um órgão temporário de implantação da Reforma Administrativa, que funcionará junto
ao Ministro responsável pela Reforma Administrativa.

Art. 149. Na implantação da reforma programada, inicialmente, a organização dos novos Ministérios
e bem assim, prioritàriamente, a instalação dos Órgãos Centrais, a começar pelos de planejamento,
coordenação e de contrôle financeiro (art. 22, item I) e pelos órgãos centrais dos sistemas (art. 31).

Art. 150. Até que os quadros de funcionários sejam ajustados à Reforma Administrativa, o pessoal
que os integra, sem prejuízo de sua situação funcional para os efeitos legais, continuará a servir nos
órgãos em que estiver lotado, podendo passar a ter exercício, mediante requisição, nos órgãos
resultantes de desdobramento ou criados em virtude da presente lei.

Art. 151. O Ministro responsável pela Reforma Administrativa terá, também, as seguintes missões:
I - Orientar e coordenar os estudos de que trata o Título XI, Capítulo I (Normas Gerais). (Revogado
pela Lei nº 5.843, de 1972)
II - Orientar e coordenar a revisão das lotações das unidades administrativas.
III - Orientar e coordenar as providências concernentes ao pessoal ocioso.
IV - Superintender os estudos que devem ser realizados para constituição, em bases definitivas, do
Assessoramento Superior da Administração Civil.
Parágrafo único. O Ministro responsável pela Reforma Administrativa contará com a estreita
cooperação do Departamento Administrativo do Pessoal Civil (DASP). (Revogado pela Lei nº 5.843,
de 1972)

Art. 152. A finalidade e as atribuições dos órgãos da Administração Direta regularão o


estabelecimento das respectivas estruturas e lotações de pessoal.

Art. 153. Para implantação da Reforma Administrativa poderão ser ajustados estudos e trabalhos
técnicos a serem realizados por pessoas físicas ou jurídicas, nos têrmos das normas que se
estabelecerem em decreto. (Vide Decreto nº 61.383, de 1967)

Art . 154. Os decretos e regulamentos expedidos para execução da presente lei disporão sôbre a
subordinação e vinculação de órgãos e entidades aos diversos Ministérios, em harmonia com a área de
competência dêstes, disciplinando a transferência de repartições e órgãos.

TITULO XIV
DAS MEDIDAS ESPECIAIS DE COORDENAÇÃO

CAPÍTULO I
DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Art . 155. O Poder Executivo poderá atribuir a um Ministro Extraordinário para Ciência e Tecnologia
a missão de coordenar iniciativas e providências que contribuam ao estímulo e intensificação das
atividades nesse setor, visando ao progresso do País e sua maior participação nos resultados alcançados
no plano internacional.
§ 1° A missão atribuída ao Ministro Extraordinário terá a duração que fôr determinada pelo
Presidente da República, vinculando-se ao referido Ministro, nesse período, o Conselho Nacional de
Pesquisas, a Comissão Nacional de Energia Nuclear e os órgãos de atividades espaciais.(Revogado pelo
Decreto-Lei nº 900, de 1969)
§ 2° A função do Ministro Extraordinário será principalmente de coordenação e estímulo. (Revogado
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 155. As iniciativas e providências que contribuem para o estímulo e intensificação das atividades
de ciência e tecnologia, serão objeto de coordenação com o propósito de acelerar o desenvolvimento
186

nacional através da crescente participação do País no progresso científico e tecnológico. (Redação dada
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

CAPÍTULO II
DA POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE

Art . 156. A formulação e Coordenação da política nacional de saúde, em âmbito nacional e regional,
caberá ao Ministério da Saúde.

§ 1º Com o objetivo de melhor aproveitar recursos e meios disponíveis e de obter maior


produtividade, visando a proporcionar efetiva assistência médico-social à comunidade, promoverá o
Ministério da Saúde a coordenação, no âmbito regional das atividades de assistência médico-social, de
modo a entrosar as desempenhadas por órgãos federais, estaduais, municipais, do Distrito Federal, dos
Territórios e das entidades do setor privado.

§ 2º Na prestação da assistência médica dar-se-á preferência à celebração de convênios com


entidades públicas e privadas, existentes na comunidade.

§ 3º A assistência médica da Previdência Social, prestada sob a jurisdição do Ministério do Trabalho


e Previdência Social, obedecerá, no âmbito nacional e regional, à política nacional de saúde. (Revogado
pela Lei nº 6.118, de 1974)

CAPÍTULO III
DO ABASTECIMENTO NACIONAL

Art. 157. O Govêrno poderá atribuir a responsabilidade pela política nacional de abastecimento e
sua execução ao Ministro de Estado da Agricultura, ao qual ficará vinculada a Superintendência Nacional
do Abastecimento (SUNAB) ou a um Ministro Extraordinário, caso em que a SUNAB a êste estará
vinculada.
Parágrafo único. Em qualquer das hipóteses, o Ministro contará com o assessoramento de uma
Comissão para coordenação da política nacional de abastecimento e articulação com os interessados,
por êle presidida, integrada por representantes de Ministérios e pelo Superintendente da SUNAB, que
será o Secretário-Executivo da Comissão.

Art. 157. As medidas relacionadas com a formulação e execução da política nacional do


abastecimento serão objeto de coordenação na forma estabelecida em decreto. (Redação dada pelo
Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 158. Se não considerar oportunas as medidas consubstanciadas no artigo anterior, o Govêrno
poderá atribuir a formulação e coordenação da política nacional do abastecimento a uma Comissão
Nacional de Abastecimento, órgão interministerial, cuja composição, atribuições e funcionamento serão
fixados por decreto e que contará com o apoio da Superintendência Nacional do Abastecimento.

Art. 159. Fica extinto o Conselho Deliberativo da Superintendência Nacional do Abastecimento, de


que trata a Lei Delegada n° 5, de 26 de setembro de 1962.

Art. 160. A Superintendência Nacional do Abastecimento ultimará, no mais breve prazo, a assinatura
de convênios com os Estados, Prefeitura do Distrito Federal e Territórios com o objetivo de transferir-lhes
os encargos de fiscalização atribuídos àquela Superintendência.

CAPÍTULO IV
DA INTEGRAÇÃO DOS TRANSPORTES
187

Art. 161. Ficam extintos os Conselhos Setoriais de Transportes que atualmente funcionam junto às
autarquias do Ministério da Viação e Obras Públicas, sendo as respectivas funções absorvidas pelo
Conselho Nacional de Transportes, cujas atribuições, organização e funcionamento serão regulados em
decreto. (Expressão substituída pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 162. Tendo em vista a integração em geral dos transportes, a coordenação entre os Ministérios
da Aeronáutica e dos Transportes será assegurada pelo Conselho Nacional de Transportes que se
pronunciará obrigatòriamente quanto aos assuntos econômico-financeiros da aviação comercial e, em
particular, sôbre:

a) concessão de linhas, tanto nacionais como no exterior;

b) tarifas;

c) subvenções;

d) salários (de acôrdo com a política salarial do Govêrno).

Art. 163. O Conselho será presidido pelo Ministro de Estado dos Transportes e dêle participará,
como representante do Ministério da Aeronáutica, o chefe do órgão encarregado dos assuntos da
aeronáutica civil.

Art. 164. O Poder Executivo, se julgar conveniente, poderá formular a integração no Ministério dos
Transportes, das atividades concernentes à aviação comercial, compreendendo linhas aéreas regulares,
subvenções e tarifas, permanecendo sob a competência da Aeronáutica Militar as demais atribuições
constantes do item IV e as do item V do Parágrafo único do art. 63 e as relativas ao contrôle de pessoal e
das aeronaves.

§ 1° A integração poderá operar-se gradualmente, celebrando-se, quando necessário, convênios


entre os dois Ministérios.

§ 2° Promover-se-á, em conseqüência, o ajuste das atribuições cometidas ao Conselho Nacional de


Transportes nesse particular.

CAPÍTULO V
DAS COMUNICAÇÕES

Art. 165. O Conselho Nacional de Telecomunicações, cujas atribuições, organização e


funcionamento serão objeto de regulamentação pelo Poder Executivo, passará a integrar, como órgão
normativo, de consulta, orientação e elaboração da política nacional de telecomunicações, a estrutura do
Ministério das Comunicações, logo que êste se instale, e terá a seguinte composição:

I - Presidente, o Secretário-Geral do Ministério das Comunicações;

II - Representante do Estado-Maior das Fôrças Armadas.

II - Representante do maior partido de oposição no CONGRESSO NACIONAL; (Redação dada pela


Lei nº 5.396, de 1968)

III - Representante do Ministério da Educação e Cultura.

IV - Representante do Ministério da Justiça.


188

V - Representante do Ministério do Interior.

V - Representante do maior partido que apóia o Govêrno no CONGRESSO NACIONAL; (Redação


dada pela Lei nº 5.396, de 1968)

VI - Representante do Ministério da Indústria e Comércio.

VII - Representante dos Correios e Telégrafos.

VIII - Representante do Departamento Nacional de Telecomunicações.

IX - Representante da Emprêsa Brasileira de Telecomunicações.

X - Representante das Emprêsas Concessionárias de Serviços de Telecomunicações.

XI - Representante do Ministério da Marinha; (Incluído pela Lei nº 5.396, de 1968)

XII - Representante do Ministério do Exército; (Incluído pela Lei nº 5.396, de 1968)

XIII - Representante do Ministério da Aeronáutica. (Incluído pela Lei nº 5.396, de 1968)

Parágrafo único. O Departamento Nacional de Telecomunicações passa a integrar, como Órgão


Central (art. 22, inciso II), o Ministério das Comunicações.

Art. 166. A exploração dos troncos interurbanos, a cargo da Emprêsa Brasileira de


Telecomunicações, poderá, conforme as conveniências econômicas e técnicas do serviço, ser feita
diretamente ou mediante contrato, delegação ou convênio.

Parágrafo único. A Empresa Brasileira de Telecomunicações poderá ser acionista de qualquer das
emprêsas com que tiver tráfego-mútuo.

Art. 167. Fica o Poder Executivo autorizado a transformar o Departamento dos Correios e Telégrafos
em entidade de Administração Indireta, vinculada ao Ministério das Comunicações. (Vide Decreto-Lei nº
509, de 20.3.1969)

CAPÍTULO VI
DA INTEGRAÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS

Art. 168. O Poder Executivo promoverá estudos visando à criação do Ministério das Fôrças Armadas
para oportuno encaminhamento do projeto de lei ao Congresso Nacional. (Revogado pelo Decreto-Lei nº
900, de 1968)
Art. 169. Como medida preparatória e preliminar à criação do Ministério, a garantia da mais perfeita
integração das Fôrças Armadas e a coordenação de suas atividades poderão ser asseguradas na forma
dos arts. 36, 37 e parágrafo único e 50 da presente Lei. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

TITULO XV
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

CAPÍTULO I
DAS DISPOSIÇÕES INICIAIS
189

Art. 170. O Presidente da República, por motivo relevante de interêsse público, poderá avocar e
decidir qualquer assunto na esfera da Administração Federal.

Art. 171. A Administração dos Territórios Federais, vinculados ao Ministério do Interior, exercer-se-á
através de programas plurianuais, concordantes em objetivos e etapas com os planos gerais do Govêrno
Federal.

Art. 172. O Poder Executivo assegurará autonomia administrativa e financeira, no grau conveniente,
aos serviços, institutos e estabelecimento incumbidos da supervisão ou execução de atividades de
pesquisa ou ensino, de caráter industrial, e de outras que, por sua natureza especial, exijam tratamento
diverso do aplicável aos demais órgãos de Administração Direta, observada, em qualquer caso, a
supervisão ministerial.
Parágrafo único. Os órgãos a que se refere êste artigo terão a denominação genérica de Órgãos
Autônomos.

Art. 172. O Poder Executivo assegurará autonomia administrativa e financeira, no grau conveniente
aos serviços, institutos e estabelecimentos incumbidos da execução de atividades de pesquisa ou ensino
ou de caráter industrial, comercial ou agrícola, que por suas peculiaridades de organização e
funcionamento, exijam tratamento diverso do aplicável aos demais órgãos da administração direta,
observada sempre a supervisão ministerial. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

§ 1º Os órgãos a que se refere êste artigo terão a denominação genérica de Órgãos


Autônomos. (Renumerado do Parágrafo Único pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

§ 2º Nos casos de concessão de autonomia financeira, fica o Poder Executivo autorizado a instituir
fundos especiais de natureza contábil, a cujo crédito se levarão todos os recursos vinculados às
atividades do órgão autônomo, orçamentários e extra-orçamentários, inclusive a receita própria. (Incluído
pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969)

Art. 173. Os atos de provimento de cargos públicos ou que determinarem sua vacância assim como
os referentes a pensões, aposentadorias e reformas, serão assinados pelo Presidente da República ou,
mediante delegação dêste, pelos Ministros de Estado, conforme se dispuser em regulamento.

Art. 174. Os atos expedidos pelo Presidente da República ou Ministros de Estado, quando se
referirem a assuntos da mesma natureza, poderão ser objeto de um só instrumento, e o órgão
administrativo competente expedirá os atos complementares ou apostilas.

Art . 175. Para cada órgão da Administração Federal, haverá prazo fixado em regulamento para as
autoridades administrativas exigirem das partes o que se fizer necessário à instrução de seus pedidos.

§ 1º As partes serão obrigatòriamente notificadas das exigências, por via postal, sob registro, ou por
outra forma de comunicação direta.

§ 2º Satisfeitas as exigências, a autoridade administrativa decidirá o assunto no prazo fixado pelo


regulamento, sob pena de responsabilização funcional.

Art. 176. Ressalvados os assuntos de caráter sigiloso, os órgãos do Serviço Público estão obrigados
a responder às consultas feitas por qualquer cidadão, desde que relacionadas com seus legítimos
interêsses e pertinentes a assuntos específicos da repartição.

Parágrafo único. Os chefes de serviço e os servidores serão solidàriamente responsáveis pela


efetivação de respostas em tempo oportuno.
190

Art . 177. Os conselhos, comissões e outros órgãos colegiados que contarem com a representação
de grupos ou classes econômicas diretamente interessados nos assuntos de sua competência, terão
funções exclusivamente de consulta, coordenação e assessoramento, sempre que àquela representação
corresponda um número de votos superior a um têrço do total.

Parágrafo único. Excetuam-se do disposto neste artigo os órgãos incumbidos do julgamento de


litígios fiscais e os legalmente competentes para exercer atribuições normativas e decisórias relacionadas
com os impostos de importação e exportação, e medidas cambiais correlatas.

Art. 178. As autarquias, emprêsas ou sociedades em que a União detenha a maioria ou a totalidade
do capital votante e que acusem a ocorrência de prejuízo continuado, poderão ser liquidadas ou
incorporadas a outras entidades por ato do Poder Executivo, respeitados os direitos assegurados aos
eventuais acionistas minoritários, se houver, nas leis e atos constitutivos de cada entidade.

Art. 178. As autarquias, as empresas públicas e as sociedades de economia mista, integrantes da


Administração Federal Indireta, bem assim as fundações criadas pela União ou mantidas com recursos
federais, sob supervisão ministerial, e as demais sociedades sob o controle direto ou indireto da União,
que acusem a ocorrência de prejuízos, estejam inativas, desenvolvam atividades já atendidas
satisfatoriamente pela iniciativa privada ou não previstas no objeto social, poderão ser dissolvidas ou
incorporadas a outras entidades, a critério e por ato do Poder Executivo, resguardados os direitos
assegurados, aos eventuais acionistas minoritários, nas leis e atos constitutivos de cada
entidade.(Redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.299, de 1986)

Art . 179. Observado o disposto no art. 13 da Lei n° 4.320, de 17 de março de 1964, o Ministério do
Planejamento e Coordenação Geral atualizará, sempre que se fizer necessário, o esquema de
discriminação ou especificação dos elementos da despesa orçamentária.

Art . 180. As atribuições previstas nos arts. 111 a 113, da Lei número 4.320, de 17 de março de
1964, passam para a competência do Ministério do Planejamento e Coordenação Geral.

Art . 181. Para os fins do Título XIII desta Lei, poderá o Poder Executivo:

I - Alterar a denominação de cargos em comissão.

II - Reclassificar cargos em comissão, respeitada a tabela de símbolos em vigor.

III - Transformar funções gratificadas em cargos em comissão, na forma da lei.

IV - Declarar extintos os cargos em comissão que não tiverem sido mantidos, alterados ou
reclassificados até 31 de dezembro de 1968.

Art . 182. Nos casos dos incisos II e III do art. 5º e no do inciso I do mesmo artigo, quando se tratar
de serviços industriais, o regime de pessoal será o da Consolidação das Leis do Trabalho; nos demais
casos, o regime jurídico do pessoal será fixado pelo Poder Executivo.

Art . 183. As entidades e organizações em geral, dotadas de personalidade jurídica de direito


privado, que recebem contribuições para fiscais e prestam serviços de interêsse público ou social, estão
sujeitas à fiscalização do Estado nos têrmos e condições estabelecidas na legislação pertinente a cada
uma.

Art. 184. Não haverá, tanto em virtude da presente lei como em sua decorrência, aumento de
pessoal nos quadros de funcionários civis e nos das Fôrças Armadas.
191

Art. 185. Incluem-se na responsabilidade do Ministério da Indústria e do Comércio a supervisão dos


assuntos concernentes à indústria siderúrgica, à indústria petroquímica, à indústria automobilística, à
indústria naval e à indústria aeronáutica.

Art. 186. A Taxa de Marinha Mercante, destinada a proporcionar à, frota mercante brasileira
melhores condições de operação e expansão, será administrada pelo Órgão do Ministério dos
Transportes, responsável pela navegação marítima e interior.

Art. 187. A Coordenação do Desenvolvimento de Brasília (CODEBRÁS) passa a vincular-se ao


Ministro responsável pela Reforma Administrativa.

Art. 188. Tôda pessoa natural ou jurídica - em particular, o detentor de qualquer cargo público - é
responsável pela Segurança Nacional, nos limites definidos em lei. Em virtude de sua natureza ou da
pessoa do detentor, não há cargo, civil ou militar, específico de segurança nacional, com exceção dos
previstos em órgãos próprios do Conselho de Segurança Nacional.

§ 1º Na Administração Federal, os cargos públicos civis, de provimento em comissão ou em caráter


efetivo, as funções de pessoal temporário, de obras e os demais empregos sujeitos à legislação
trabalhista, podem ser exercidos por qualquer pessoa que satisfaça os requisitos legais.

§ 2º Cargo militar é aquêle que, de conformidade com as disposições legais ou quadros de efetivos
das Fôrças Armadas, só pode ser exercida por militar em serviço ativo.

CAPÍTULO II
DOS BANCOS OFICIAIS DE CRÉDITO

Art. 189. Sem prejuízo de sua subordinação técnica à autoridade monetária nacional, os
estabelecimentos oficiais de crédito manterão a seguinte vinculação:

I - Ministério da Fazenda

- Banco Central da República (Vide Decreto-Lei nº 278, de 28.2.1967)

- Banco do Brasil

- Caixas Econômicas Federais

II - Ministério da Agricultura

- Banco Nacional do Crédito Cooperativo (Vide Decreto nº 99.192, de 1990)

III - Ministério do Interior

- Banco de Crédito da Amazônia

- Banco do Nordeste do Brasil

- Banco Nacional da Habitação (Vide Del 2.291, de 21.11.1986)

IV - Ministério do Planejamento e Coordenação Geral

- Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico.


192

CAPÍTULO III
DA PESQUISA ECONÔMICO-SOCIAL APLICADA E DO FINANCIAMENTO DE PROJETOS

Art. 190. Fica o Poder Executivo autorizado a instituir, sob a forma de fundação, o Instituto de
Pesquisa Econômico-Social Aplicada (IPEA), com a finalidade de elaborar estudos, pesquisas e análises
requeridos pela programação econômico-social de interêsse imediato do Ministério do Planejamento e
Coordenação Geral e, quando se impuser, os dos demais Ministérios, e que se regerá por estatutos
aprovados por decreto do Presidente da República. (Vide Decreto nº 64.016, de 22.1.1969)
§ 1° O Instituto, vinculado ao Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, gozará de
autonomia administrativa e financeira e adquirirá personalidade jurídica a partir da inscrição, no Registro
Civil de Pessoas Jurídicas, do seu ato constitutivo, com o qual serão apresentados os estatutos e o
decreto que os aprovar.
§ 2° A União será representada nos atos de instituição da entidade pelo Ministro de Estado do
Planejamento e Coordenação Geral.
§ 3° O Instituto manterá intercâmbio com entidades de ensino, estudo e pesquisa nacionais e
estrangeiras, interessadas em assuntos econômicos e sociais.
§ 4º O patrimônio do Instituto será constituído:
a) pelas dotações orçamentárias e subvenções da União;
b) pelas doações e contribuições de pessoas de direito público e de direito privado;
c) pelas rendas eventuais, inclusive as resultantes da prestação de serviços;
d) pelo acervo do Escritório de Pesquisa Econômica Aplicada, do Gabinete do Ministro
Extraordinário para o Planejamento e Coordenação Econômica.

Art. 190. É o Poder Executivo autorizado a instituir, sob a forma de fundação, o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), com a finalidade de auxiliar o Ministro de Estado da Economia, Fazenda e
Planejamento na elaboração e no acompanhamento da política econômica e promover atividade de
pesquisa econômica aplicada nas áreas fiscal, financeira, externa e de desenvolvimento
setorial. (Redação dada pela Lei nº 8.029, de 1990)

Parágrafo único. O instituto vincular-se-á ao Ministério da Economia, Fazenda e


Planejamento. (Redação dada pela Lei nº 8.029, de 1990)

Art. 191. Fica o Ministério do Planejamento e Coordenação Geral autorizado, se o Govêrno julgar
conveniente, a incorporar as funções de financiamento de estudo e elaboração de projetos e de
programas do desenvolvimento econômico, presentemente afetos ao Fundo de Financiamento de
Estudos e Projetos (FINEP), criado pelo Decreto nº 55.820, de 8 de março de 1965, constituindo para
êsse fim uma emprêsa pública, cujos estatutos serão aprovados por decreto, e que exercerá tôdas as
atividades correlatadas de financiamento de projetos e programas e de prestação de assistência técnica
essenciais ao planejamento econômico e social, podendo receber doações e contribuições e contrair
empréstimos de fontes internas e externas. (Vide Decreto nº 61.056, de 1967)

CAPÍTULO IV
DOS SERVIÇOS GERAIS

Art. 192. O Sistema de Serviços Gerais, abrangendo a administração patrimonial, a de edifícios e


instalações e a de material, compreende: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)
I - Órgão Central Normativo: Secretaria Geral, do Ministério da Fazenda.
II - Órgãos Setoriais: Departamento de Administração dos Ministério Civis e órgãos equivalentes dos
Ministérios Militares.
III - Órgão Operacional: Departamento de Serviços Gerais, criado pela presente Lei, e subordinado
ao Ministério da Fazenda.
Art. 193. Os Serviços Gerais regem-se pelas leis e regulamentos, e pelas normas que, para sua
complementação, forem expedidas pelo órgão central do sistema. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900,
de 1968)
§ 1º A atividade normativa será centralizada na Secretaria Geral, do Ministério da Fazenda, com
193

apoio no Departamento de Serviços Gerais do mesmo Ministério.


§ 2° A administração e gestão das atividades de serviços gerais serão descentralizadas pelos
Ministérios, onde serão disciplinadas segundo as peculiaridades de cada um, observadas as normas que
vigorarem.
Art . 194. Constituem atribuições principais do Departamento de Serviços Gerais, no que respeita
aos órgãos da Administração Direta do Serviço Público Federal: (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900,
de 1968)
I - Quanto à Administração Patrimonial:
a) organização do cadastro dos bens imóveis da União, contendo elementos que permitam sua
identificação e contabilização pela Inspetoria Geral de Finanças do Ministério da Fazenda e órgãos
equivalentes dos Ministérios;
b) elaboração de normas para aquisição, alienação, arrendamento e cessão de imóveis;
c) elaboração de normas para arrecadação das rendas provenientes do patrimônio imobiliário da
União;
d) elaboração de normas de fiscalização e inspeção de bens imóveis e verificação de seu emprêgo
e utilização.
II - Quanto à Administração de Edifícios e Instalações:
a) preparo de um programa geral, e seu desdobramento em etapas, para conveniente instalação de
serviços federais, de natureza administrativa, no território nacional;
b) estudo de normas para implementação, pelos Ministérios, do programa que fôr aprovado pelo
Govêrno;
c) estudo de normas para administração dos edifícios e instalações;
d) elaboração de padrões de conservação e manutenção de bens e equipamentos;
e) fiscalização das medidas aprovadas.
III - Quanto à Administração de Material:
a) estudos de classificação, especificação e do catálogo de material de uso comum, em colaboração
com os setores técnicos interessados, do serviço público e do setor privado, para aprovação do
Govêrno;
b) realização das compras que o Govêrno julgue conveniente centralizar;
c) elaboração de normas de recuperação e redistribuição de material;
d) elaboração de normas de alienação de material considerado desnecessário.
Art. 195. A alienação de bens da União dependerá de autorização em decreto e será sempre
precedida de parecer do Departamento de Serviços Gerais do Ministério da Fazenda, quanto à sua
oportunidade e conveniência.
Parágrafo único. A alienação ocorrerá quando não houver interêsse econômico e social em manter
o imóvel no domínio da União, nem inconveniente quanto à defesa nacional no desaparecimento do
vínculo da propriedade.
Art. 195. A alienação de bens imóveis da União dependerá de autorização em decreto e será sempre
precedida de parecer do órgão próprio responsável pelo patrimônio da União, quanto à sua oportunidade
e conveniência. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 900, de 1969) (Vide Decreto nº 99.741, de
1990) (Revogado pela Lei nº 9.636, de 1998)
Art. 196. Com a instalação do Departamento de Serviços Gerais, ficarão extintos o Serviço do
Patrimônio da União e o Departamento Federal de Compras, do Ministério da Fazenda, e a Divisão de
Edifícios Públicos, do DASP, cujos acervos, pessoal e recursos são transferidos para o nôvo
Departamento. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)
Art. 197. O Departamento de Serviços Gerais atuará diretamente ou através de convênios e ajustes
que celebrar, ou de agentes autorizados. (Revogado pelo Decreto-Lei nº 900, de 1968)

CAPÍTULO V
DO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

Art. 198. Levando em conta as peculiaridades do Ministério das Relações Exteriores, o Poder
Executivo adotará a estrutura orgânica e funcional estabelecida pela presente Lei, e, no que couber, o
disposto no seu Título XI.
194

CAPÍTULO VI
DOS NOVOS MINISTÉRIOS E DOS CARGOS

Art. 199. Ficam criados:

I - O Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, com absorção dos órgãos subordinados ao


Ministro Extraordinário para o Planejamento e Coordenação Econômica. (Revogado pela Lei nº 6.036, de
1974)

II - O Ministério do Interior, com absorção dos órgãos subordinados ao Ministro Extraordinário para
Coordenação dos Organismos Regionais.

III - O Ministério das Comunicações, que absorverá o Conselho Nacional de Telecomunicações, o


Departamento Nacional de Telecomunicações e o Departamento dos Correios e Telégrafos. (Vide
Decreto-Lei nº 509, de 20.3.1969)

Art. 200. O Ministério da Justiça e Negócios Interiores passa a denominar-se Ministério da Justiça.

Art. 201. O Ministério da Viação e Obras Públicas passa a denominar-se Ministério dos Transportes.

Art. 202. O Ministério da Guerra passa a denominar-se Ministério do Exército.

Art. 203. O Poder Executivo expedirá os atos necessários à efetivação do disposto no Artigo 199,
observadas as normas da presente Lei.

Art. 204. Fica alterada a denominação dos cargos de Ministro de Estado da Justiça e Negócios
Interiores, Ministro de Estado da Viação e Obras Públicas e Ministro de Estado da Guerra, para,
respectivamente, Ministro de Estado da Justiça, Ministro de Estado dos Transportes e Ministro de Estado
do Exército.

Art. 205. Ficam criados os seguintes cargos:

I - Ministros de Estado do Interior, das Comunicações e do Planejamento e Coordenação Geral.

II - Em comissão:

a) Em cada Ministério Civil, Secretário-Geral, e Inspetor-Geral de Finanças.

b) Consultor Jurídico, em cada um dos Ministérios seguintes: Interior, Comunicações, Minas e


Energia, e Planejamento e Coordenação Geral.

c) Diretor do Centro de Aperfeiçoamento, no Departamento Administrativo do Pessoal Civil (DASP).

d) Diretor-Geral do Departamento dos Serviços Gerais, no Ministério da Fazenda.

Parágrafo único. À medida que se forem vagando, os cargos de Consultor Jurídico atualmente
providos em caráter efetivo passarão a sê-lo em comissão.

Art. 206. Ficam fixados da seguinte forma os vencimentos dos cargos criados no Art. 205:

I - Ministro de Estado: igual aos dos Ministros de Estado existentes.


195

II - Secretário-Geral e Inspetor-Geral de Finanças: Símbolo 1-C.

III - Consultor Jurídico: igual ao dos Consultores Jurídicos dos Ministérios existentes.

IV - Diretor do Centro de Aperfeiçoamento: Símbolo 2-C.

V - Diretor -Geral do Departamento de Serviços Gerais: Símbolo 1-C.

Parágrafo único. O cargo de Diretor-Geral do Departamento Administrativo do Serviço Público


(DASP), Símbolo 1-C, passa a denominar-se Diretor-Geral do Departamento Administrativo do Pessoal
Civil (DASP), Símbolo 1-C.

Art. 207. Os Ministros de Estado Extraordinários instituídos no Artigo 37 desta Lei terão o mesmo
vencimento, vantagens e prerrogativas dos demais Ministros de Estado.

Art . 208. Os Ministros de Estado, os Chefes dos Gabinetes Civil e Militar da Presidência da
República e o Chefe do Serviço Nacional de Informações perceberão uma representação mensal
correspondente a 50% (cinqüenta por cento) dos vencimentos.

Parágrafo único. Os Secretários-Gerais perceberão idêntica representação mensal correspondente a


30% (trinta por cento) dos seus vencimentos.

TITULO XVI
DAS DISPOSIÇÕES TRANSITÓRIAS

Art. 209. Enquanto não forem expedidos os respectivos regulamentos e estruturados seus serviços,
o Ministério do Interior, o Ministério do Planejamento e Coordenação Geral e o Ministério das
Comunicações ficarão sujeitos ao regime de trabalho pertinente aos Ministérios Extraordinários que
antecederam os dois primeiros daqueles Ministérios no que concerne ao pessoal, à execução de serviços
e à movimentação de recursos financeiros.

Parágrafo único. O Poder Executivo expedirá decreto para consolidar as disposições


regulamentares que em caráter transitório, deverão prevalecer.

Art. 210. O atual Departamento Federal de Segurança Pública passa a denominar-se Departamento
de Polícia Federal, considerando-se automàticamente substituída por esta denominação a menção à
anterior constante de quaisquer leis ou regulamentos.

Art. 211. O Poder Executivo introduzirá, nas normas que disciplinam a estruturação e funcionamento
das entidades da Administração Indireta, as alterações que se fizerem necessárias à efetivação do
disposto na presente Lei, considerando-se revogadas tôdas as disposições legais colidentes com as
diretrizes nela expressamente consignadas.

Art. 212. O atual Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) é transformado em


Departamento Administrativo do Pessoal Civil (DASP), com as atribuições que, em matéria de
administração de pessoal, são atribuídas pela presente Lei ao nôvo órgão. (Vide Lei nº 6.228, de
15.7.1975)

Art. 213. Fica o Poder Executivo autorizado, dentro dos limites dos respectivos créditos, a expedir
decretos relativos às transferências que se fizerem necessárias de dotações do orçamento ou de créditos
adicionais requeridos pela execução da presente Lei.
196

TITULO XVII
DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 214. Esta Lei entrará em vigor em 15 de março de 1967, observado o disposto nos parágrafos
do presente artigo e ressalvadas as disposições cuja vigência, na data da publicação, seja por ela
expressamente determinada.

§ 1º Até a instalação dos órgãos centrais incumbidos da administração financeira, contabilidade e


auditoria, em cada Ministério (art. 22), serão enviados ao Tribunal de Contas, para o exercício da
auditoria financeira:

a) pela Comissão de Programação Financeira do Ministério da Fazenda, os atos relativos à


programação financeira de desembôlso;

b) pela Contadoria Geral da República e pelas Contadorias Seccionais, os balancetes de receita e


despesa;

c) pelas repartições competentes, o rol de responsáveis pela guarda de bens, dinheiros e valôres
públicos e as respectivas tomadas de conta, nos termos da legislação anterior à presente lei.

§ 2º Nos Ministérios Militares, cabe aos órgãos que forem discriminados em decreto as atribuições
indicadas neste artigo.

Art . 215 Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, em 25 de fevereiro de 1967; 146º da Independência e 79º da República.

H. CASTELLO BRANCO
Carlos Medeiros Silva
Zilmar Araripe Macedo
Ademar de Queiroz
Manoel Pio Corrêa Júnior
Octavio Gouveia de Bulhões
Juarez do Nascimento Tavora
Severo Gomes Fagundes
Raimundo Moniz de Aragão
Luiz Gonzaga do Nascimento Silva
Eduardo Gomes
Raimundo de Brito
Mauro Thibau
Paulo Egydio Martins
Roberto de Oliveira Campos
João Gonçalves de Souza
197

LEI No 6.019, DE 3 DE JANEIRO DE 1974.

Dispõe sobre o Trabalho Temporário nas Empresas


Urbanas, e dá outras Providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA:Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte Lei:

Art. 1º - É instituído o regime de trabalho temporário, nas condições estabelecidas na presente Lei.

Art. 2º - Trabalho temporário é aquele prestado por pessoa física a uma empresa, para atender à
necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente ou à acréscimo
extraordinário de serviços.

Art. 3º - É reconhecida a atividade da empresa de trabalho temporário que passa a integrar o plano
básico do enquadramento sindical a que se refere o art. 577, da Consolidação da Leis do Trabalho.

Art. 4º - Compreende-se como empresa de trabalho temporário a pessoa física ou jurídica urbana,
cuja atividade consiste em colocar à disposição de outras empresas, temporariamente, trabalhadores,
devidamente qualificados, por elas remunerados e assistidos.

Art. 5º - O funcionamento da empresa de trabalho temporário dependerá de registro no


Departamento Nacional de Mão-de-Obra do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

Art. 6º - O pedido de registro para funcionar deverá ser instruído com os seguintes documentos:

a) prova de constituição da firma e de nacionalidade brasileira de seus sócios, com o competente


registro na Junta Comercial da localidade em que tenha sede;

b) prova de possuir capital social de no mínimo quinhentas vezes o valor do maior salário mínimo
vigente no País;

c) prova de entrega da relação de trabalhadores a que se refere o art. 360, da Consolidação as Leis
do Trabalho, bem como apresentação do Certificado de Regularidade de Situação, fornecido pelo
Instituto Nacional de Previdência Social;

d) prova de recolhimento da Contribuição Sindical;

e) prova da propriedade do imóvel-sede ou recibo referente ao último mês, relativo ao contrato de


locação;

f) prova de inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes do Ministério da Fazenda.

Parágrafo único. No caso de mudança de sede ou de abertura de filiais, agências ou escritórios é


dispensada a apresentação dos documentos de que trata este artigo, exigindo-se, no entanto, o
encaminhamento prévio ao Departamento Nacional de Mão-de-Obra de comunicação por escrito, com
justificativa e endereço da nova sede ou das unidades operacionais da empresa.

Art. 7º - A empresa de trabalho temporário que estiver funcionando na data da vigência desta Lei terá
o prazo de noventa dias para o atendimento das exigências contidas no artigo anterior.
198

Parágrafo único. A empresa infratora do presente artigo poderá ter o seu funcionamento suspenso,
por ato do Diretor Geral do Departamento Nacional de Mão-de-Obra, cabendo recurso ao Ministro de
Estado, no prazo de dez dias, a contar da publicação do ato no Diário Oficial da União.

Art. 8º - A empresa de trabalho temporário é obrigada a fornecer ao Departamento Nacional de Mão-


de-Obra, quando solicitada, os elementos de informação julgados necessários ao estudo do mercado de
trabalho.

Art. 9º - O contrato entre a empresa de trabalho temporário e a empresa tomadora de serviço ou


cliente deverá ser obrigatoriamente escrito e dele deverá constar expressamente o motivo justificador da
demanda de trabalho temporário, assim como as modalidades de remuneração da prestação de serviço.

Art. 10 - O contrato entre a empresa de trabalho temporário e a empresa tomadora ou cliente, com
relação a um mesmo empregado, não poderá exceder de três meses, salvo autorização conferida pelo
órgão local do Ministério do Trabalho e Previdência Social, segundo instruções a serem baixadas pelo
Departamento Nacional de Mão-de-Obra.

Art. 11 - O contrato de trabalho celebrado entre empresa de trabalho temporário e cada um dos
assalariados colocados à disposição de uma empresa tomadora ou cliente será, obrigatoriamente, escrito
e dele deverão constar, expressamente, os direitos conferidos aos trabalhadores por esta Lei.

Parágrafo único. Será nula de pleno direito qualquer cláusula de reserva, proibindo a contratação do
trabalhador pela empresa tomadora ou cliente ao fim do prazo em que tenha sido colocado à sua
disposição pela empresa de trabalho temporário.

Art. 12 - Ficam assegurados ao trabalhador temporário os seguintes direitos:

a) remuneração equivalente à percebida pelos empregados de mesma categoria da empresa


tomadora ou cliente calculados à base horária, garantida, em qualquer hipótese, a percepção do salário
mínimo regional;

b) jornada de oito horas, remuneradas as horas extraordinárias não excedentes de duas, com
acréscimo de 20% (vinte por cento);

c) férias proporcionais, nos termos do artigo 25 da Lei nº 5.107, de 13 de setembro de 1966;

d) repouso semanal remunerado;

e) adicional por trabalho noturno;

f) indenização por dispensa sem justa causa ou término normal do contrato, correspondente a 1/12
(um doze avos) do pagamento recebido;

g) seguro contra acidente do trabalho;

h) proteção previdenciária nos termos do disposto na Lei Orgânica da Previdência Social, com as
alterações introduzidas pela Lei nº 5.890, de 8 de junho de 1973 (art. 5º, item III, letra "c" do Decreto nº
72.771, de 6 de setembro de 1973).

§ 1º - Registrar-se-á na Carteira de Trabalho e Previdência Social do trabalhador sua condição de


temporário.
199

§ 2º - A empresa tomadora ou cliente é obrigada a comunicar à empresa de trabalho temporário a


ocorrência de todo acidente cuja vítima seja um assalariado posto à sua disposição, considerando-se
local de trabalho, para efeito da legislação específica, tanto aquele onde se efetua a prestação do
trabalho, quanto a sede da empresa de trabalho temporário.

Art. 13 - Constituem justa causa para rescisão do contrato do trabalhador temporário os atos e
circunstâncias mencionados nos artigos 482 e 483, da Consolidação das Leis do Trabalho, ocorrentes
entre o trabalhador e a empresa de trabalho temporário ou entre aquele e a empresa cliente onde estiver
prestando serviço.

Art. 14 - As empresas de trabalho temporário são obrigadas a fornecer às empresas tomadoras ou


clientes, a seu pedido, comprovante da regularidade de sua situação com o Instituto Nacional de
Previdência Social.

Art. 15 - A Fiscalização do Trabalho poderá exigir da empresa tomadora ou cliente a apresentação do


contrato firmado com a empresa de trabalho temporário, e, desta última o contrato firmado com o
trabalhador, bem como a comprovação do respectivo recolhimento das contribuições previdenciárias.

Art. 16 - No caso de falência da empresa de trabalho temporário, a empresa tomadora ou cliente é


solidariamente responsável pelo recolhimento das contribuições previdenciárias, no tocante ao tempo em
que o trabalhador esteve sob suas ordens, assim como em referência ao mesmo período, pela
remuneração e indenização previstas nesta Lei.

Art. 17 - É defeso às empresas de prestação de serviço temporário a contratação de estrangeiros


com visto provisório de permanência no País.

Art. 18 - É vedado à empresa do trabalho temporário cobrar do trabalhador qualquer importância,


mesmo a título de mediação, podendo apenas efetuar os descontos previstos em Lei.

Parágrafo único. A infração deste artigo importa no cancelamento do registro para funcionamento da
empresa de trabalho temporário, sem prejuízo das sanções administrativas e penais cabíveis.

Art. 19 - Competirá à Justiça do Trabalho dirimir os litígios entre as empresas de serviço temporário e
seus trabalhadores.

Art. 20 - Esta Lei entrará em vigor sessenta dias após sua publicação, revogadas as disposições em
contrário.

Brasília, 3 de janeiro de 1974; 153º da Independência e 86º da República.

EMÍLIO G. MÉDICI
Alfredo Buzaid
Júlio Barata
200

LEI Nº 7.102, DE 20 DE JUNHO DE 1983.

Dispõe sobre segurança para estabelecimentos


financeiros, estabelece normas para constituição e
funcionamento das empresas particulares que
exploram serviços de vigilância e de transporte de
valores, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte lei:

Art. 1º - É vedado o funcionamento de qualquer estabelecimento financeiro onde haja guarda de


valores ou movimentação de numerário, que não possua sistema de segurança aprovado pelo Banco
Central do Brasil, na forma desta Lei. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 1º É vedado o funcionamento de qualquer estabelecimento financeiro onde haja guarda de


valores ou movimentação de numerário, que não possua sistema de segurança com parecer favorável à
sua aprovação, elaborado pelo Ministério da Justiça, na forma desta lei. (Redação dada pela Lei nº
9.017, de 1995) (Vide art. 16 da Lei nº 9.017, de 1995)

Parágrafo único - Os estabelecimentos financeiros referidos neste artigo compreendem bancos


oficiais ou privados, caixas econômicas, sociedades de crédito, associações de poupanças, suas
agências, subagências e seções.

§ 1o Os estabelecimentos financeiros referidos neste artigo compreendem bancos oficiais ou


privados, caixas econômicas, sociedades de crédito, associações de poupança, suas agências, postos
de atendimento, subagências e seções, assim como as cooperativas singulares de crédito e suas
respectivas dependências. (Renumerado do parágrafo único com nova redação pela Lei nº 11.718, de
2008)

§ 2o O Poder Executivo estabelecerá, considerando a reduzida circulação financeira, requisitos


próprios de segurança para as cooperativas singulares de crédito e suas dependências que contemplem,
entre outros, os seguintes procedimentos: (Incluído pela Lei nº 11.718, de 2008)

I – dispensa de sistema de segurança para o estabelecimento de cooperativa singular de crédito


que se situe dentro de qualquer edificação que possua estrutura de segurança instalada em
conformidade com o art. 2o desta Lei; (Incluído pela Lei nº 11.718, de 2008)

II – necessidade de elaboração e aprovação de apenas um único plano de segurança por


cooperativa singular de crédito, desde que detalhadas todas as suas dependências; (Incluído pela Lei nº
11.718, de 2008)

III – dispensa de contratação de vigilantes, caso isso inviabilize economicamente a existência do


estabelecimento. (Incluído pela Lei nº 11.718, de 2008)

§ 3o Os processos administrativos em curso no âmbito do Departamento de Polícia Federal


observarão os requisitos próprios de segurança para as cooperativas singulares de crédito e suas
dependências. (Incluído pela Lei nº 11.718, de 2008)

Art. 2º - O sistema de segurança referido no artigo anterior inclui pessoas adequadamente


preparadas, assim chamadas vigilantes; alarme capaz de permitir, com segurança, comunicação entre o
201

estabelecimento financeiro e outro da mesma instituição, empresa de vigilância ou órgão policial mais
próximo; e, pelo menos, mais um dos seguintes dispositivos:

I - equipamentos elétricos, eletrônicos e de filmagens que possibilitem a identificação dos


assaltantes;

II - artefatos que retardem a ação dos criminosos, permitindo sua perseguição, identificação ou
captura; e

III - cabina blindada com permanência ininterrupta de vigilante durante o expediente para o público
e enquanto houver movimentação de numerário no interior do estabelecimento.

Parágrafo único - O Banco Central Brasil poderá aprovar o sistema de segurança dos
estabelecimentos financeiros localizados em dependência das sedes de órgãos da União, Distrito
Federal, Estados, Municípios e Territórios, independentemente das exigências deste artigo. (Vide
Medida Provisória nº 753, de 1994) (Revogado pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art. 3º - A vigilância ostensiva e o transporte de valores serão executados: (Vide Medida Provisória
nº 753, de 1994)
I - por empresa especializada contratada; ou (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
II - pelo próprio estabelecimento financeiro, desde que organizado e preparado para tal fim, e com
pessoal próprio. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
Parágrafo único - Nos estabelecimentos financeiros federais ou estaduais, o serviço de vigilância
ostensiva poderá ser desempenhado pelas Policias Militares, a critério do Governo do respectivo Estado,
Território ou Distrito Federal. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 3º A vigilância ostensiva e o transporte de valores serão executados: (Redação dada pela Lei
nº 9.017, de 1995)

I - por empresa especializada contratada; ou (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

II - pelo próprio estabelecimento financeiro, desde que organizado e preparado para tal fim, com
pessoal próprio, aprovado em curso de formação de vigilante autorizado pelo Ministério da Justiça e cujo
sistema de segurança tenha parecer favorável à sua aprovação emitido pelo Ministério da
Justiça. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Parágrafo único. Nos estabelecimentos financeiros estaduais, o serviço de vigilância ostensiva


poderá ser desempenhado pelas Polícias Militares, a critério do Governo da respectiva Unidade da
Federação. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art. 4º - O transporte de numerário em montante superior a 500 (quinhentas) vezes o maior valor
de referência do País, para suprimento ou recolhimento do movimento diário dos estabelecimentos
financeiros, será obrigatoriamente efetuado em veículo especial da própria instituição ou de empresa
especializada. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 4º O transporte de numerário em montante superior a vinte mil Ufir, para suprimento ou
recolhimento do movimento diário dos estabelecimentos financeiros, será obrigatoriamente efetuado em
veículo especial da própria instituição ou de empresa especializada. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de
1995)

Art. 5º - O transporte de numerário entre 200 (duzentas) e 500 (quinhentas) vezes o maior valor de
referência do País será efetuado em veículo comum, com a presença de dois vigilantes. (Vide Medida
Provisória nº 753, de 1994)
202

Art. 5º O transporte de numerário entre sete mil e vinte mil Ufirs poderá ser efetuado em veículo
comum, com a presença de dois vigilantes. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art. 6º - Compete ao Banco Central do Brasil: (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
I autorizar o funcionamento dos estabelecimentos financeiros após verificar os requisitos mínimos
de segurança indispensáveis, de acordo com o art. 2º desta Lei, ouvida a respectiva Secretaria de
Segurança Pública; (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
II - fiscalizar os estabelecimentos financeiros quanto ao cumprimento desta Lei; e (Vide Medida
Provisória nº 753, de 1994)
III - aplicar aos estabelecimentos financeiros as penalidades previstas nesta Lei. (Vide Medida
Provisória nº 753, de 1994)
Parágrafo único - Para a execução da competência prevista no inciso Il deste artigo, o Banco
Central do Brasil poderá celebrar convênio com as Secretarias de Segurança Pública dos respectivos
Estados, Territórios e Distrito Federal. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 6º Além das atribuições previstas no art. 20, compete ao Ministério da Justiça: (Redação dada
pela Lei nº 9.017, de 1995) (Vide art. 16 da Lei nº 9.017, de 1995)

I - fiscalizar os estabelecimentos financeiros quanto ao cumprimento desta lei; (Redação dada pela
Lei nº 9.017, de 1995)

II - encaminhar parecer conclusivo quanto ao prévio cumprimento desta lei, pelo estabelecimento
financeiro, à autoridade que autoriza o seu funcionamento; (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

III - aplicar aos estabelecimentos financeiros as penalidades previstas nesta lei.

Parágrafo único. Para a execução da competência prevista no inciso I, o Ministério da Justiça


poderá celebrar convênio com as Secretarias de Segurança Pública dos respectivos Estados e Distrito
Federal. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art. 7º - O estabelecimento financeiro que infringir disposição desta Lei ficará sujeito às seguintes
penalidades aplicáveis pelo Banco Central do Brasil, conforme a gravidade da infração e levando-se em
conta a reincidência e a condição econômica do infrator: (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
I - advertência; (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)
II - multa, de 1 (uma) a 100 (cem) vezes o maior valor de referência; (Vide Medida Provisória nº
753, de 1994)
lIl - interdição do estabelecimento. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 7º O estabelecimento financeiro que infringir disposição desta lei ficará sujeito às seguintes
penalidades, conforme a gravidade da infração e levando-se em conta a reincidência e a condição
econômica do infrator: (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995) (Vide art. 16 da Lei nº 9.017, de
1995)

I - advertência; (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

II - multa, de mil a vinte mil Ufirs; (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

III - interdição do estabelecimento. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art 8º - Nenhuma sociedade seguradora poderá emitir, em favor de estabelecimentos financeiros,


apólice de seguros que inclua cobertura garantindo riscos de roubo e furto qualificado de numerário e
outros valores, sem comprovação de cumprimento, pelo segurado, das exigências previstas nesta Lei.
203

Parágrafo único - As apólices com infringência do disposto neste artigo não terão cobertura de
resseguros pelo Instituto de Resseguros do Brasil.

Art. 9º - Nos seguros contra roubo e furto qualificado de estabelecimentos financeiros, serão
concedidos descontos sobre os prêmios aos segurados que possuírem, além dos requisitos mínimos de
segurança, outros meios de proteção previstos nesta Lei, na forma de seu regulamento.

Art. 10 - As empresas especializadas em prestação de serviços de vigilância e de transporte de


valores, constituídas sob a forma de empresas privadas, serão regidas por esta Lei, e ainda pelas
disposições das legislações civil, comercial e trabalhista.

Art. 10. São considerados como segurança privada as atividades desenvolvidas em prestação de
serviços com a finalidade de: (Redação dada pela Lei nº 8.863, de 1994)

I - proceder à vigilância patrimonial das instituições financeiras e de outros estabelecimentos,


públicos ou privados, bem como a segurança de pessoas físicas; (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

II - realizar o transporte de valores ou garantir o transporte de qualquer outro tipo de


carga. (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

§ 1º Os serviços de vigilância e de transporte de valores poderão ser executados por uma mesma
empresa. (Renumerado do parágrafo único pela Lei nº 8.863, de 1994)

§ 2º As empresas especializadas em prestação de serviços de segurança, vigilância e transporte


de valores, constituídas sob a forma de empresas privadas, além das hipóteses previstas nos incisos
do caput deste artigo, poderão se prestar ao exercício das atividades de segurança privada a pessoas; a
estabelecimentos comerciais, industriais, de prestação de serviços e residências; a entidades sem fins
lucrativos; e órgãos e empresas públicas. (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

§ 3º Serão regidas por esta lei, pelos regulamentos dela decorrentes e pelas disposições da
legislação civil, comercial, trabalhista, previdenciária e penal, as empresas definidas no parágrafo
anterior. (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

§ 4º As empresas que tenham objeto econômico diverso da vigilância ostensiva e do transporte de


valores, que utilizem pessoal de quadro funcional próprio, para execução dessas atividades, ficam
obrigadas ao cumprimento do disposto nesta lei e demais legislações pertinentes. (Incluído pela Lei nº
8.863, de 1994)

§ 5º (Vetado). (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

§ 6º (Vetado). (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

Art. 11 - A propriedade e a administração das empresas especializadas que vierem a se constituir


são vedadas a estrangeiros.

Art. 12 - Os diretores e demais empregados das empresas especializadas não poderão ter
antecedentes criminais registrados.

Art. 13 - O capital integralizado das empresas especializadas não pode ser inferior a 1.000 (mil)
vezes o maior valor de referência vigente no País. (Vide Medida Provisória nº 753, de 1994)

Art. 13. O capital integralizado das empresas especializadas não pode ser inferior a cem mil
Ufirs. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)
204

Art. 14 - São condições essenciais para que as empresas especializadas operem nos Estados,
Territórios e Distrito Federal:

I - autorização de funcionamento concedida conforme o art. 20 desta Lei; e

II - comunicação à Secretaria de Segurança Pública do respectivo Estado, Território ou Distrito


Federal.

Art. 15 - Vigilante, para os efeitos desta Lei, é o empregado contratado por estabelecimentos
financeiros ou por empresa especializada em prestação de serviço de vigilância ou de transporte de
valores, para impedir ou inibir ação criminosa.

Art. 15. Vigilante, para os efeitos desta lei, é o empregado contratado para a execução das
atividades definidas nos incisos I e II do caput e §§ 2º, 3º e 4º do art. 10. (Redação dada pela Lei nº
8.863, de 1994)

Art. 16 - Para o exercício da profissão, o vigilante preencherá os seguintes requisitos:

I - ser brasileiro;

II - ter idade mínima de 21 (vinte e um) anos;

III - ter instrução correspondente à quarta série do primeiro grau;

IV - ter sido aprovado em curso de formação de vigilante;

IV - ter sido aprovado, em curso de formação de vigilante, realizado em estabelecimento com


funcionamento autorizado nos termos desta lei. (Redação dada pela Lei nº 8.863, de 1994)

V - ter sido aprovado em exame de saúde física, mental e psicotécnico;

VI - não ter antecedentes criminais registrados; e

VII - estar quite com as obrigações eleitorais e militares.

Parágrafo único - O requisito previsto no inciso III deste artigo não se aplica aos vigilantes
admitidos até a publicação da presente Lei

Art. 17 - O exercício da profissão de vigilante requer prévio registro na Delegacia Regional do


Trabalho do Ministério do Trabalho, que se fará após a apresentação dos documentos comprobatórios
das situações enumeradas no artigo anterior. (Vide Medida Provisória nº 2.116-19, de 2001)
Parágrafo único - Ao vigilante será fornecida Carteira de Trabalho e Previdência Social, em que
será especificada a atividade do seu portador.

Art. 17. O exercício da profissão de vigilante requer prévio registro no Departamento de Polícia
Federal, que se fará após a apresentação dos documentos comprobatórios das situações enumeradas no
art. 16. (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.184-23, de 2001)

Art. 18 - O vigilante usará uniforme somente quando em efetivo serviço.

Art. 19 - É assegurado ao vigilante:


205

I - uniforme especial às expensas da empresa a que se vincular;

II - porte de arma, quando em serviço;

III - prisão especial por ato decorrente do serviço;

IV - seguro de vida em grupo, feito pela empresa empregadora.

Art. 20 - Cabe ao Ministério da Justiça, por intermédio de seu órgão competente ou mediante
convênio com as Secretarias de Segurança Pública dos Estados, Territórios ou Distrito Federal:

Art. 20. Cabe ao Ministério da Justiça, por intermédio do seu órgão competente ou mediante
convênio com as Secretarias de Segurança Pública dos Estados e Distrito Federal: (Redação dada pela
Lei nº 9.017, de 1995)

I - conceder autorização para o funcionamento:

a) das empresas especializadas em serviços de vigilância;

b) das empresas especializadas em transporte de valores; e

c) dos cursos de formação de vigilantes;

II - fiscalizar as empresas e os cursos mencionados dos no inciso anterior;

Ill - aplicar às empresas e aos cursos a que se refere o inciso I deste artigo as penalidades
previstas no art. 23 desta Lei;

IV - aprovar uniforme;

V - fixar o currículo dos cursos de formação de vigilantes;

VI - fixar o número de vigilantes das empresas especializadas em cada unidade da Federação;

VII - fixar a natureza e a quantidade de armas de propriedade das empresas especializadas e dos
estabelecimentos financeiros;

VIII - autorizar a aquisição e a posse de armas e munições; e

IX - fiscalizar e controlar o armamento e a munição utilizados.

X - rever anualmente a autorização de funcionamento das empresas elencadas no inciso I deste


artigo. (Incluído pela Lei nº 8.863, de 1994)

Parágrafo único - A competência prevista no inciso V deste artigo não será objeto de convênio.

Parágrafo único. As competências previstas nos incisos I e V deste artigo não serão objeto de
convênio. (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

Art. 21 - As armas destinadas ao uso dos vigilantes serão de propriedade e responsabilidade:


206

I - das empresas especializadas;

II - dos estabelecimentos financeiros quando dispuserem de serviço organizado de vigilância, ou


mesmo quando contratarem empresas especializadas.

Art. 22 - Será permitido ao vigilante, quando em serviço, portar revólver calibre 32 ou 38 e utilizar
cassetete de madeira ou de borracha.

Parágrafo único - Os vigilantes, quando empenhados em transporte de valores, poderão também


utilizar espingarda de uso permitido, de calibre 12, 16 ou 20, de fabricação nacional.

Art. 23 - As empresas especializadas e os cursos de formação de vigilantes que infringirem


disposições desta Lei ficarão sujeitos às seguintes penalidades, aplicáveis pelo Ministério da Justiça, ou,
mediante convênio, pelas Secretarias de Segurança Pública, conforme a gravidade da infração, levando-
se em conta a reincidência e a condição econômica do infrator:

I - advertência;

II - multa de até 40 (quarenta) vezes o maior valor de referência; (Vide Medida Provisória nº 753,
de 1994)

II - multa de quinhentas até cinco mil Ufirs: (Redação dada pela Lei nº 9.017, de 1995)

III - proibição temporária de funcionamento; e

IV - cancelamento do registro para funcionar.

Parágrafo único - Incorrerão nas penas previstas neste artigo as empresas e os estabelecimentos
financeiros responsáveis pelo extravio de armas e munições.

Art. 24 - As empresas já em funcionamento deverão proceder à adaptação de suas atividades aos


preceitos desta Lei no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, a contar da data em que entrar em vigor o
regulamento da presente Lei, sob pena de terem suspenso seu funcionamento até que comprovem essa
adaptação.

Art. 25 - O Poder Executivo regulamentará esta Lei no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data
de sua publicação.

Art. 26 - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 27 - Revogam-se os Decretos-leis nº 1.034, de 21 de outubro de 1969, e nº 1.103, de 6 de abril


de 1970, e as demais disposições em contrário.

Brasília, em 20 de junho de 1983; 162º da Independência e 95º da República.

JOÃO FIGUEIREDO
Ibrahim Abi-Ackel
207

LEI Nº 9.472, DE 16 DE JULHO DE 1997.

Dispõe sobre a organização dos serviços


de telecomunicações, a criação e
funcionamento de um órgão regulador e
outros aspectos institucionais, nos termos
da Emenda Constitucional nº 8, de 1995.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu


sanciono a seguinte Lei:

LIVRO I

DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

Art. 1° Compete à União, por intermédio do órgão regulador e nos termos das políticas estabelecidas
pelos Poderes Executivo e Legislativo, organizar a exploração dos serviços de telecomunicações.

Parágrafo único. A organização inclui, entre outros aspectos, o disciplinamento e a fiscalização da


execução, comercialização e uso dos serviços e da implantação e funcionamento de redes de
telecomunicações, bem como da utilização dos recursos de órbita e espectro de radiofreqüências.

Art. 2° O Poder Público tem o dever de:

I - garantir, a toda a população, o acesso às telecomunicações, a tarifas e preços razoáveis, em


condições adequadas;

II - estimular a expansão do uso de redes e serviços de telecomunicações pelos serviços de


interesse público em benefício da população brasileira;

III - adotar medidas que promovam a competição e a diversidade dos serviços, incrementem sua
oferta e propiciem padrões de qualidade compatíveis com a exigência dos usuários;

IV - fortalecer o papel regulador do Estado;

V - criar oportunidades de investimento e estimular o desenvolvimento tecnológico e industrial, em


ambiente competitivo;

VI - criar condições para que o desenvolvimento do setor seja harmônico com as metas de
desenvolvimento social do País.

Art. 3° O usuário de serviços de telecomunicações tem direito:

I - de acesso aos serviços de telecomunicações, com padrões de qualidade e regularidade


adequados à sua natureza, em qualquer ponto do território nacional;

II - à liberdade de escolha de sua prestadora de serviço;

III - de não ser discriminado quanto às condições de acesso e fruição do serviço;

IV - à informação adequada sobre as condições de prestação dos serviços, suas tarifas e preços;
208

V - à inviolabilidade e ao segredo de sua comunicação, salvo nas hipóteses e condições


constitucional e legalmente previstas;

VI - à não divulgação, caso o requeira, de seu código de acesso;

VII - à não suspensão de serviço prestado em regime público, salvo por débito diretamente
decorrente de sua utilização ou por descumprimento de condições contratuais;

VIII - ao prévio conhecimento das condições de suspensão do serviço;

IX - ao respeito de sua privacidade nos documentos de cobrança e na utilização de seus dados


pessoais pela prestadora do serviço;

X - de resposta às suas reclamações pela prestadora do serviço;

XI - de peticionar contra a prestadora do serviço perante o órgão regulador e os organismos de


defesa do consumidor;

XII - à reparação dos danos causados pela violação de seus direitos.

Art. 4° O usuário de serviços de telecomunicações tem o dever de:

I - utilizar adequadamente os serviços, equipamentos e redes de telecomunicações;

II - respeitar os bens públicos e aqueles voltados à utilização do público em geral;

III - comunicar às autoridades irregularidades ocorridas e atos ilícitos cometidos por prestadora de
serviço de telecomunicações.

Art. 5º Na disciplina das relações econômicas no setor de telecomunicações observar-se-ão, em


especial, os princípios constitucionais da soberania nacional, função social da propriedade, liberdade de
iniciativa, livre concorrência, defesa do consumidor, redução das desigualdades regionais e sociais,
repressão ao abuso do poder econômico e continuidade do serviço prestado no regime público.

Art. 6° Os serviços de telecomunicações serão organizados com base no princípio da livre, ampla e
justa competição entre todas as prestadoras, devendo o Poder Público atuar para propiciá-la, bem como
para corrigir os efeitos da competição imperfeita e reprimir as infrações da ordem econômica.

Art. 7° As normas gerais de proteção à ordem econômica são aplicáveis ao setor de


telecomunicações, quando não conflitarem com o disposto nesta Lei.

§ 1º Os atos envolvendo prestadora de serviço de telecomunicações, no regime público ou privado,


que visem a qualquer forma de concentração econômica, inclusive mediante fusão ou incorporação de
empresas, constituição de sociedade para exercer o controle de empresas ou qualquer forma de
agrupamento societário, ficam submetidos aos controles, procedimentos e condicionamentos previstos
nas normas gerais de proteção à ordem econômica.

§ 2° Os atos de que trata o parágrafo anterior serão submetidos à apreciação do Conselho


Administrativo de Defesa Econômica - CADE, por meio do órgão regulador.
209

§ 3º Praticará infração da ordem econômica a prestadora de serviço de telecomunicações que, na


celebração de contratos de fornecimento de bens e serviços, adotar práticas que possam limitar, falsear
ou, de qualquer forma, prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa.

LIVRO II

DO ÓRGÃO REGULADOR E DAS POLÍTICAS SETORIAIS

TÍTULO I

DA CRIAÇÃO DO ÓRGÃO REGULADOR

Art. 8° Fica criada a Agência Nacional de Telecomunicações, entidade integrante da Administração


Pública Federal indireta, submetida a regime autárquico especial e vinculada ao Ministério das
Comunicações, com a função de órgão regulador das telecomunicações, com sede no Distrito Federal,
podendo estabelecer unidades regionais.

§ 1º A Agência terá como órgão máximo o Conselho Diretor, devendo contar, também, com um
Conselho Consultivo, uma Procuradoria, uma Corregedoria, uma Biblioteca e uma Ouvidoria, além das
unidades especializadas incumbidas de diferentes funções.

§ 2º A natureza de autarquia especial conferida à Agência é caracterizada por independência


administrativa, ausência de subordinação hierárquica, mandato fixo e estabilidade de seus dirigentes e
autonomia financeira.

Art. 9° A Agência atuará como autoridade administrativa independente, assegurando-se-lhe, nos


termos desta Lei, as prerrogativas necessárias ao exercício adequado de sua competência.

Art. 10. Caberá ao Poder Executivo instalar a Agência, devendo o seu regulamento, aprovado por
decreto do Presidente da República, fixar-lhe a estrutura organizacional.

Parágrafo único. A edição do regulamento marcará a instalação da Agência, investindo-a


automaticamente no exercício de suas atribuições.

Art. 11. O Poder Executivo encaminhará ao Congresso Nacional, no prazo de até noventa dias, a
partir da publicação desta Lei, mensagem criando o quadro efetivo de pessoal da Agência, podendo
remanejar cargos disponíveis na estrutura do Ministério das Comunicações.

Art. 12. Ficam criados os Cargos em Comissão de Natureza Especial e do Grupo-Direção e


Assessoramento Superiores - DAS, com a finalidade de integrar a estrutura da Agência, relacionados no
Anexo I. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
Art. 13. Ficam criadas as funções de confiança denominadas Funções Comissionadas de
Telecomunicação - FCT, de ocupação privativa por servidores do quadro efetivo, servidores públicos
federais ou empregados de empresas públicas ou sociedades de economia mista, controladas pela
União, em exercício na Agência Nacional de Telecomunicações, no quantitativo e valores previstos no
Anexo II desta Lei. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
§ 1º O servidor investido na Função Comissionada de Telecomunicação exercerá atribuições de
assessoramento e coordenação técnica e perceberá remuneração correspondente ao cargo efetivo ou
emprego permanente, acrescida do valor da Função para a qual foi designado. (Revogado pela Lei nº
9.986, de 18.7.2000)
§ 2° A designação para Função de Assessoramento é inacumulável com a designação ou nomeação
para qualquer outra forma de comissionamento, cessando o seu pagamento durante as situações de
afastamento do servidor, inclusive aquelas consideradas de efetivo exercício, ressalvados os períodos a
210

que se referem os incisos I, IV, VI, VIII, alíneas a a e, e inciso X do art. 102 da Lei n° 8.112, de 11 de
dezembro de 1990.
§ 3° O Poder Executivo poderá dispor sobre alteração dos quantitativos e da distribuição das
Funções Comissionadas de Telecomunicação dentro da estrutura organizacional, observados os níveis
hierárquicos, os valores de retribuição correspondentes e o respectivo custo global estabelecidos no
Anexo II. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
Art. 14. A Agência poderá requisitar, com ônus, servidores de órgãos e entidades integrantes da
administração pública federal direta, indireta ou fundacional, quaisquer que sejam as funções a serem
exercidas. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
§ 1º Durante os primeiros vinte e quatro meses subseqüentes à instalação da Agência, as
requisições de que trata o caput deste artigo serão irrecusáveis quando feitas a órgãos e entidades do
Poder Executivo, e desde que aprovadas pelo Ministro de Estado das Comunicações e pelo Ministro de
Estado Chefe da Casa Civil. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
§ 2º Quando a requisição implicar redução de remuneração do servidor requisitado, fica a Agência
autorizada a complementá-la até o limite da remuneração percebida no órgão de origem. (Revogado pela
Lei nº 9.986, de 18.7.2000)

Art. 15. A fixação das dotações orçamentárias da Agência na Lei de Orçamento Anual e sua
programação orçamentária e financeira de execução não sofrerão limites nos seus valores para
movimentação e empenho.

Art. 16. Fica o Poder Executivo autorizado a realizar as despesas e os investimentos necessários à
instalação da Agência, podendo remanejar, transferir ou utilizar saldos orçamentários, empregando como
recursos dotações destinadas a atividades finalísticas e administrativas do Ministério das Comunicações,
inclusive do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações - FISTEL.

Parágrafo único. Serão transferidos à Agência os acervos técnico e patrimonial, bem como as
obrigações e direitos do Ministério das Comunicações, correspondentes às atividades a ela atribuídas por
esta Lei.

Art. 17. A extinção da Agência somente ocorrerá por lei específica.

TÍTULO II

DAS COMPETÊNCIAS

Art. 18. Cabe ao Poder Executivo, observadas as disposições desta Lei, por meio de decreto:

I - instituir ou eliminar a prestação de modalidade de serviço no regime público, concomitantemente


ou não com sua prestação no regime privado;

II - aprovar o plano geral de outorgas de serviço prestado no regime público;

III - aprovar o plano geral de metas para a progressiva universalização de serviço prestado no
regime público;

IV - autorizar a participação de empresa brasileira em organizações ou consórcios


intergovernamentais destinados ao provimento de meios ou à prestação de serviços de
telecomunicações.

Parágrafo único. O Poder Executivo, levando em conta os interesses do País no contexto de suas
relações com os demais países, poderá estabelecer limites à participação estrangeira no capital de
prestadora de serviços de telecomunicações.
211

Art. 19. À Agência compete adotar as medidas necessárias para o atendimento do interesse público
e para o desenvolvimento das telecomunicações brasileiras, atuando com independência, imparcialidade,
legalidade, impessoalidade e publicidade, e especialmente:

I - implementar, em sua esfera de atribuições, a política nacional de telecomunicações;

II - representar o Brasil nos organismos internacionais de telecomunicações, sob a coordenação do


Poder Executivo;

III - elaborar e propor ao Presidente da República, por intermédio do Ministro de Estado das
Comunicações, a adoção das medidas a que se referem os incisos I a IV do artigo anterior, submetendo
previamente a consulta pública as relativas aos incisos I a III;

IV - expedir normas quanto à outorga, prestação e fruição dos serviços de telecomunicações no


regime público;

V - editar atos de outorga e extinção de direito de exploração do serviço no regime público;

VI - celebrar e gerenciar contratos de concessão e fiscalizar a prestação do serviço no regime


público, aplicando sanções e realizando intervenções;

VII - controlar, acompanhar e proceder à revisão de tarifas dos serviços prestados no regime público,
podendo fixá-las nas condições previstas nesta Lei, bem como homologar reajustes;

VIII - administrar o espectro de radiofreqüências e o uso de órbitas, expedindo as respectivas


normas;

IX - editar atos de outorga e extinção do direito de uso de radiofreqüência e de órbita, fiscalizando e


aplicando sanções;

X - expedir normas sobre prestação de serviços de telecomunicações no regime privado;

XI - expedir e extinguir autorização para prestação de serviço no regime privado, fiscalizando e


aplicando sanções;

XII - expedir normas e padrões a serem cumpridos pelas prestadoras de serviços de


telecomunicações quanto aos equipamentos que utilizarem;

XIII - expedir ou reconhecer a certificação de produtos, observados os padrões e normas por ela
estabelecidos;

XIV - expedir normas e padrões que assegurem a compatibilidade, a operação integrada e a


interconexão entre as redes, abrangendo inclusive os equipamentos terminais;

XV - realizar busca e apreensão de bens no âmbito de sua competência;

XVI - deliberar na esfera administrativa quanto à interpretação da legislação de telecomunicações e


sobre os casos omissos;

XVII - compor administrativamente conflitos de interesses entre prestadoras de serviço de


telecomunicações;
212

XVIII - reprimir infrações dos direitos dos usuários;

XIX - exercer, relativamente às telecomunicações, as competências legais em matéria de controle,


prevenção e repressão das infrações da ordem econômica, ressalvadas as pertencentes ao Conselho
Administrativo de Defesa Econômica - CADE;

XX - propor ao Presidente da República, por intermédio do Ministério das Comunicações, a


declaração de utilidade pública, para fins de desapropriação ou instituição de servidão administrativa, dos
bens necessários à implantação ou manutenção de serviço no regime público;

XXI - arrecadar e aplicar suas receitas;

XXII - resolver quanto à celebração, alteração ou extinção de seus contratos, bem como quanto à
nomeação, exoneração e demissão de servidores, realizando os procedimentos necessários, na forma
em que dispuser o regulamento;

XXIII - contratar pessoal por prazo determinado, de acordo com o disposto na Lei nº 8.745, de 9 de
dezembro de 1993;

XXIV - adquirir, administrar e alienar seus bens;

XXV - decidir em último grau sobre as matérias de sua alçada, sempre admitido recurso ao Conselho
Diretor;

XXVI - formular ao Ministério das Comunicações proposta de orçamento;

XXVII - aprovar o seu regimento interno;

XXVIII - elaborar relatório anual de suas atividades, nele destacando o cumprimento da política do
setor definida nos termos do artigo anterior;

XXIX - enviar o relatório anual de suas atividades ao Ministério das Comunicações e, por intermédio
da Presidência da República, ao Congresso Nacional;

XXX - rever, periodicamente, os planos enumerados nos incisos II e III do artigo anterior,
submetendo-os, por intermédio do Ministro de Estado das Comunicações, ao Presidente da República,
para aprovação;

XXXI - promover interação com administrações de telecomunicações dos países do Mercado


Comum do Sul - MERCOSUL, com vistas à consecução de objetivos de interesse comum.

TÍTULO III

DOS ÓRGÃOS SUPERIORES

Capítulo I

Do Conselho Diretor

Art. 20. O Conselho Diretor será composto por cinco conselheiros e decidirá por maioria absoluta.

Parágrafo único. Cada conselheiro votará com independência, fundamentando seu voto.
213

Art. 21. As sessões do Conselho Diretor serão registradas em atas, que ficarão arquivadas na
Biblioteca, disponíveis para conhecimento geral.

§ 1º Quando a publicidade puder colocar em risco a segurança do País, ou violar segredo protegido
ou a intimidade de alguém, os registros correspondentes serão mantidos em sigilo.

§ 2º As sessões deliberativas do Conselho Diretor que se destinem a resolver pendências entre


agentes econômicos e entre estes e consumidores e usuários de bens e serviços de telecomunicações
serão públicas, permitida a sua gravação por meios eletrônicos e assegurado aos interessados o direito
de delas obter transcrições.

Art. 22. Compete ao Conselho Diretor:

I - submeter ao Presidente da República, por intermédio do Ministro de Estado das Comunicações,


as modificações do regulamento da Agência;

II - aprovar normas próprias de licitação e contratação;

III - propor o estabelecimento e alteração das políticas governamentais de telecomunicações;

IV - editar normas sobre matérias de competência da Agência;

V - aprovar editais de licitação, homologar adjudicações, bem como decidir pela prorrogação,
transferência, intervenção e extinção, em relação às outorgas para prestação de serviço no regime
público, obedecendo ao plano aprovado pelo Poder Executivo;

VI - aprovar o plano geral de autorizações de serviço prestado no regime privado;

VII - aprovar editais de licitação, homologar adjudicações, bem como decidir pela prorrogação,
transferência e extinção, em relação às autorizações para prestação de serviço no regime privado, na
forma do regimento interno;

VIII - aprovar o plano de destinação de faixas de radiofreqüência e de ocupação de órbitas;

IX - aprovar os planos estruturais das redes de telecomunicações, na forma em que dispuser o


regimento interno;

X - aprovar o regimento interno;

XI - resolver sobre a aquisição e a alienação de bens;

XII - autorizar a contratação de serviços de terceiros, na forma da legislação em vigor.

Parágrafo único. Fica vedada a realização por terceiros da fiscalização de competência da Agência,
ressalvadas as atividades de apoio.

Art. 23. Os conselheiros serão brasileiros, de reputação ilibada, formação universitária e elevado
conceito no campo de sua especialidade, devendo ser escolhidos pelo Presidente da República e por ele
nomeados, após aprovação pelo Senado Federal, nos termos da alínea f do inciso III do art. 52 da
Constituição Federal.

Art. 24. O mandato dos membros do Conselho Diretor será de cinco anos. vedada a recondução.
214

Art. 24. O mandato dos membros do Conselho Diretor será de cinco anos. (Redação dada pela Lei nº
9.986, de 18 de julho de 2000)

Parágrafo único. Em caso de vaga no curso do mandato, este será completado por sucessor
investido na forma prevista no artigo anterior, que o exercerá pelo prazo remanescente.

Art. 25. Os mandatos dos primeiros membros do Conselho Diretor serão de três, quatro, cinco, seis e
sete anos, a serem estabelecidos no decreto de nomeação.

Art. 26. Os membros do Conselho Diretor somente perderão o mandato em virtude de renúncia, de
condenação judicial transitada em julgado ou de processo administrativo disciplinar. (Revogado pela Lei
nº 9.986, de 18.7.2000)
§ 1° Sem prejuízo do que prevêem a lei penal e a lei da improbidade administrativa, será causa da
perda do mandato a inobservância, pelo conselheiro, dos deveres e proibições inerentes ao cargo,
inclusive no que se refere ao cumprimento das políticas estabelecidas para o setor pelos Poderes
Executivo e Legislativo. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
§ 2° Cabe ao Ministro de Estado das Comunicações instaurar o processo administrativo disciplinar,
que será conduzido por comissão especial, competindo ao Presidente da República determinar o
afastamento preventivo, quando for o caso, e proferir o julgamento. (Revogado pela Lei nº 9.986, de
18.7.2000)

Art. 27. O regulamento disciplinará a substituição dos conselheiros em seus impedimentos, bem
como durante a vacância.

Art. 28. Aos conselheiros é vedado o exercício de qualquer outra atividade profissional, empresarial,
sindical ou de direção político-partidária, salvo a de professor universitário, em horário
compatível. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)
Parágrafo único. É vedado aos conselheiros, igualmente, ter interesse significativo, direto ou indireto,
em empresa relacionada com telecomunicações, como dispuser o regulamento. (Revogado pela Lei nº
9.986, de 18.7.2000)

Art. 29. Caberá também aos conselheiros a direção dos órgãos administrativos da Agência.

Art. 30. Até um ano após deixar o cargo, é vedado ao ex-conselheiro representar qualquer pessoa ou
interesse perante a Agência.

Parágrafo único. É vedado, ainda, ao ex-conselheiro utilizar informações privilegiadas obtidas em


decorrência do cargo exercido, sob pena de incorrer em improbidade administrativa.

Art. 31. O Presidente do Conselho Diretor será nomeado pelo Presidente da República dentre os
seus integrantes e investido na função por três anos ou pelo que restar de seu mandato de conselheiro,
quando inferior a esse prazo, vedada a recondução. (Revogado pela Lei nº 9.986, de 18.7.2000)

Art. 32. Cabe ao Presidente a representação da Agência, o comando hierárquico sobre o pessoal e o
serviço, exercendo todas as competências administrativas correspondentes, bem como a presidência das
sessões do Conselho Diretor.

Parágrafo único. A representação judicial da Agência, com prerrogativas processuais de Fazenda


Pública, será exercida pela Procuradoria.

Capítulo II

Do Conselho Consultivo
215

Art. 33. O Conselho Consultivo é o órgão de participação institucionalizada da sociedade na Agência.

Art. 34. O Conselho será integrado por representantes indicados pelo Senado Federal, pela Câmara
dos Deputados, pelo Poder Executivo, pelas entidades de classe das prestadoras de serviços de
telecomunicações, por entidades representativas dos usuários e por entidades representativas da
sociedade, nos termos do regulamento.

Parágrafo único. O Presidente do Conselho Consultivo será eleito pelos seus membros e terá
mandato de um ano.

Art. 35. Cabe ao Conselho Consultivo:

I - opinar, antes de seu encaminhamento ao Ministério das Comunicações, sobre o plano geral de
outorgas, o plano geral de metas para universalização de serviços prestados no regime público e demais
políticas governamentais de telecomunicações;

II - aconselhar quanto à instituição ou eliminação da prestação de serviço no regime público;

III - apreciar os relatórios anuais do Conselho Diretor;

IV - requerer informação e fazer proposição a respeito das ações referidas no art. 22.

Art. 36. Os membros do Conselho Consultivo, que não serão remunerados, terão mandato de três
anos, vedada a recondução.

§ 1° Os mandatos dos primeiros membros do Conselho serão de um, dois e três anos, na proporção
de um terço para cada período.

§ 2° O Conselho será renovado anualmente em um terço.

Art. 37. O regulamento disporá sobre o funcionamento do Conselho Consultivo.

TÍTULO IV

DA ATIVIDADE E DO CONTROLE

Art. 38. A atividade da Agência será juridicamente condicionada pelos princípios da legalidade,
celeridade, finalidade, razoabilidade, proporcionalidade, impessoalidade, igualdade, devido processo
legal, publicidade e moralidade.

Art. 39. Ressalvados os documentos e os autos cuja divulgação possa violar a segurança do País,
segredo protegido ou a intimidade de alguém, todos os demais permanecerão abertos à consulta do
público, sem formalidades, na Biblioteca.

Parágrafo único. A Agência deverá garantir o tratamento confidencial das informações técnicas,
operacionais, econômico-financeiras e contábeis que solicitar às empresas prestadoras dos serviços de
telecomunicações, nos termos do regulamento.

Art. 40. Os atos da Agência deverão ser sempre acompanhados da exposição formal dos motivos
que os justifiquem.
216

Art. 41. Os atos normativos somente produzirão efeito após publicação no Diário Oficial da União, e
aqueles de alcance particular, após a correspondente notificação.

Art. 42. As minutas de atos normativos serão submetidas à consulta pública, formalizada por
publicação no Diário Oficial da União, devendo as críticas e sugestões merecer exame e permanecer à
disposição do público na Biblioteca.

Art. 43. Na invalidação de atos e contratos, será garantida previamente a manifestação dos
interessados.

Art. 44. Qualquer pessoa terá o direito de peticionar ou de recorrer contra ato da Agência no prazo
máximo de trinta dias, devendo a decisão da Agência ser conhecida em até noventa dias.

Art. 45. O Ouvidor será nomeado pelo Presidente da República para mandato de dois anos, admitida
uma recondução.

Parágrafo único. O Ouvidor terá acesso a todos os assuntos e contará com o apoio administrativo de
que necessitar, competindo-lhe produzir, semestralmente ou quando oportuno, apreciações críticas sobre
a atuação da Agência, encaminhando-as ao Conselho Diretor, ao Conselho Consultivo, ao Ministério das
Comunicações, a outros órgãos do Poder Executivo e ao Congresso Nacional, fazendo publicá-las para
conhecimento geral.

Art. 46. A Corregedoria acompanhará permanentemente o desempenho dos servidores da Agência,


avaliando sua eficiência e o cumprimento dos deveres funcionais e realizando os processos disciplinares.

TÍTULO V

DAS RECEITAS

Art. 47. O produto da arrecadação das taxas de fiscalização de instalação e de funcionamento a que
se refere a Lei nº 5.070, de 7 de julho de 1966, será destinado ao Fundo de Fiscalização das
Telecomunicações - FISTEL, por ela criado.

Art. 48. A concessão, permissão ou autorização para a exploração de serviços de telecomunicações


e de uso de radiofreqüência, para qualquer serviço, será sempre feita a título oneroso, ficando autorizada
a cobrança do respectivo preço nas condições estabelecidas nesta Lei e na regulamentação, constituindo
o produto da arrecadação receita do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações - FISTEL.

§ 1º Conforme dispuser a Agência, o pagamento devido pela concessionária, permissionária ou


autorizada poderá ser feito na forma de quantia certa, em uma ou várias parcelas, ou de parcelas anuais,
sendo seu valor, alternativamente:

I - determinado pela regulamentação;

II - determinado no edital de licitação;

III - fixado em função da proposta vencedora, quando constituir fator de julgamento;

IV - fixado no contrato de concessão ou no ato de permissão, nos casos de inexigibilidade de


licitação.
217

§ 2º Após a criação do fundo de universalização dos serviços de telecomunicações mencionado no


inciso II do art. 81, parte do produto da arrecadação a que se refere o caput deste artigo será a ele
destinada, nos termos da lei correspondente.

Art. 49. A Agência submeterá anualmente ao Ministério das Comunicações a sua proposta de
orçamento, bem como a do FISTEL, que serão encaminhadas ao Ministério do Planejamento e
Orçamento para inclusão no projeto de lei orçamentária anual a que se refere o § 5º do art. 165 da
Constituição Federal.

§ 1º A Agência fará acompanhar as propostas orçamentárias de um quadro demonstrativo do


planejamento plurianual das receitas e despesas, visando ao seu equilíbrio orçamentário e financeiro nos
cinco exercícios subseqüentes.

§ 2º O planejamento plurianual preverá o montante a ser transferido ao fundo de universalização a


que se refere o inciso II do art. 81 desta Lei, e os saldos a serem transferidos ao Tesouro Nacional.

§ 3º A lei orçamentária anual consignará as dotações para as despesas de custeio e capital da


Agência, bem como o valor das transferências de recursos do FISTEL ao Tesouro Nacional e ao fundo
de universalização, relativos ao exercício a que ela se referir.

§ 4º As transferências a que se refere o parágrafo anterior serão formalmente feitas pela Agência ao
final de cada mês.

Art. 50. O Fundo de Fiscalização das Telecomunicações - FISTEL, criado pela Lei n° 5.070, de 7 de
julho de 1966, passará à administração exclusiva da Agência, a partir da data de sua instalação, com os
saldos nele existentes, incluídas as receitas que sejam produto da cobrança a que se refere o art. 14
da Lei nº 9.295, de 19 de julho de 1996.

Art. 51. Os arts. 2°, 3°, 6° e seus parágrafos, o art. 8° e seu § 2°, e o art. 13, da Lei n° 5.070, de 7 de
julho de 1966, passam a ter a seguinte redação:

"Art. 2° O Fundo de Fiscalização das Telecomunicações - FISTEL é constituído das seguintes fontes:

a) dotações consignadas no Orçamento Geral da União, créditos especiais, transferências e repasses


que lhe forem conferidos;

b) o produto das operações de crédito que contratar, no País e no exterior, e rendimentos de operações
financeiras que realizar;

c) relativas ao exercício do poder concedente dos serviços de telecomunicações, no regime público,


inclusive pagamentos pela outorga, multas e indenizações;

d) relativas ao exercício da atividade ordenadora da exploração de serviços de telecomunicações, no


regime privado, inclusive pagamentos pela expedição de autorização de serviço, multas e indenizações;

e) relativas ao exercício do poder de outorga do direito de uso de radiofreqüência para qualquer fim,
inclusive multas e indenizações;

f) taxas de fiscalização;

g) recursos provenientes de convênios, acordos e contratos celebrados com entidades, organismos e


empresas, públicas ou privadas, nacionais ou estrangeiras;
218

h) doações, legados, subvenções e outros recursos que lhe forem destinados;

i) o produto dos emolumentos, preços ou multas, os valores apurados na venda ou locação de bens, bem
assim os decorrentes de publicações, dados e informações técnicas, inclusive para fins de licitação;

j) decorrentes de quantias recebidas pela aprovação de laudos de ensaio de produtos e pela prestação
de serviços técnicos por órgãos da Agência Nacional de Telecomunicações;

l) rendas eventuais."

"Art. 3° Além das transferências para o Tesouro Nacional e para o fundo de universalização das
telecomunicações, os recursos do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações - FISTEL serão
aplicados pela Agência Nacional de Telecomunicações exclusivamente:

...................................................................................

d) no atendimento de outras despesas correntes e de capital por ela realizadas no exercício de sua
competência."

"Art. 6° As taxas de fiscalização a que se refere a alínea f do art. 2° são a de instalação e a de


funcionamento.

§ 1° Taxa de Fiscalização de Instalação é a devida pelas concessionárias, permissionárias e autorizadas


de serviços de telecomunicações e de uso de radiofreqüência, no momento da emissão do certificado de
licença para o funcionamento das estações.

§ 2° Taxa de Fiscalização de Funcionamento é a devida pelas concessionárias, permissionárias e


autorizadas de serviços de telecomunicações e de uso de radiofreqüência, anualmente, pela fiscalização
do funcionamento das estações."

"Art. 8° A Taxa de Fiscalização de Funcionamento será paga, anualmente, até o dia 31 de março, e seus
valores serão os correspondentes a cinqüenta por cento dos fixados para a Taxa de Fiscalização de
Instalação.

.......................................................................................

§ 2° O não-pagamento da Taxa de Fiscalização de Funcionamento no prazo de sessenta dias após a


notificação da Agência determinará a caducidade da concessão, permissão ou autorização, sem que
caiba ao interessado o direito a qualquer indenização.

....................................................................................."

"Art. 13. São isentos do pagamento das taxas do FISTEL a Agência Nacional de Telecomunicações, as
Forças Armadas, a Polícia Federal, as Polícias Militares, a Polícia Rodoviária Federal, as Polícias Civis e
os Corpos de Bombeiros Militares."

Art. 52. Os valores das taxas de fiscalização de instalação e de funcionamento, constantes do Anexo
I da Lei n° 5.070, de 7 de julho de 1966, passam a ser os da Tabela do Anexo III desta Lei.

Parágrafo único. A nomenclatura dos serviços relacionados na Tabela vigorará até que nova
regulamentação seja editada, com base nesta Lei.
219

Art. 53. Os valores de que tratam as alíneas i e j do art. 2° da Lei n° 5.070, de 7 de julho de 1966,
com a redação dada por esta Lei, serão estabelecidos pela Agência.

TÍTULO VI

DAS CONTRATAÇÕES

Art. 54. A contratação de obras e serviços de engenharia civil está sujeita ao procedimento das
licitações previsto em lei geral para a Administração Pública.

Parágrafo único. Para os casos não previstos no caput, a Agência poderá utilizar procedimentos
próprios de contratação, nas modalidades de consulta e pregão.

Art. 55. A consulta e o pregão serão disciplinados pela Agência, observadas as disposições desta Lei
e, especialmente: (Vide Lei nº 9.986, de 2000)

I - a finalidade do procedimento licitatório é, por meio de disputa justa entre interessados, obter um
contrato econômico, satisfatório e seguro para a Agência;

II - o instrumento convocatório identificará o objeto do certame, circunscreverá o universo de


proponentes, estabelecerá critérios para aceitação e julgamento de propostas, regulará o procedimento,
indicará as sanções aplicáveis e fixará as cláusulas do contrato;

III - o objeto será determinado de forma precisa, suficiente e clara, sem especificações que, por
excessivas, irrelevantes ou desnecessárias, limitem a competição;

IV - a qualificação, exigida indistintamente dos proponentes, deverá ser compatível e proporcional ao


objeto, visando à garantia do cumprimento das futuras obrigações;

V - como condição de aceitação da proposta, o interessado declarará estar em situação regular


perante as Fazendas Públicas e a Seguridade Social, fornecendo seus códigos de inscrição, exigida a
comprovação como condição indispensável à assinatura do contrato;

VI - o julgamento observará os princípios de vinculação ao instrumento convocatório, comparação


objetiva e justo preço, sendo o empate resolvido por sorteio;

VII - as regras procedimentais assegurarão adequada divulgação do instrumento convocatório,


prazos razoáveis para o preparo de propostas, os direitos ao contraditório e ao recurso, bem como a
transparência e fiscalização;

VIII - a habilitação e o julgamento das propostas poderão ser decididos em uma única fase, podendo
a habilitação, no caso de pregão, ser verificada apenas em relação ao licitante vencedor;

IX - quando o vencedor não celebrar o contrato, serão chamados os demais participantes na ordem
de classificação;

X - somente serão aceitos certificados de registro cadastral expedidos pela Agência, que terão
validade por dois anos, devendo o cadastro estar sempre aberto à inscrição dos interessados.

Art. 56. A disputa pelo fornecimento de bens e serviços comuns poderá ser feita em licitação na
modalidade de pregão, restrita aos previamente cadastrados, que serão chamados a formular lances em
sessão pública. (Vide Lei nº 9.986, de 2000)
220

Parágrafo único. Encerrada a etapa competitiva, a Comissão examinará a melhor oferta quanto ao
objeto, forma e valor.

Art. 57. Nas seguintes hipóteses, o pregão será aberto a quaisquer interessados,
independentemente de cadastramento, verificando-se a um só tempo, após a etapa competitiva, a
qualificação subjetiva e a aceitabilidade da proposta: (Vide Lei nº 9.986, de 2000)

I - para a contratação de bens e serviços comuns de alto valor, na forma do regulamento;

II - quando o número de cadastrados na classe for inferior a cinco;

III - para o registro de preços, que terá validade por até dois anos;

IV - quando o Conselho Diretor assim o decidir.

Art. 58. A licitação na modalidade de consulta tem por objeto o fornecimento de bens e serviços não
compreendidos nos arts. 56 e 57. (Vide Lei nº 9.986, de 2000)

Parágrafo único. A decisão ponderará o custo e o benefício de cada proposta, considerando a


qualificação do proponente.

Art. 59. A Agência poderá utilizar, mediante contrato, técnicos ou empresas especializadas, inclusive
consultores independentes e auditores externos, para executar atividades de sua competência, vedada a
contratação para as atividades de fiscalização, salvo para as correspondentes atividades de apoio.

LIVRO III

DA ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE TELECOMUNICAÇÕES

TÍTULO I

DISPOSIÇÕES GERAIS

Capítulo I

Das Definições

Art. 60. Serviço de telecomunicações é o conjunto de atividades que possibilita a oferta de


telecomunicação.

§ 1° Telecomunicação é a transmissão, emissão ou recepção, por fio, radioeletricidade, meios


ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético, de símbolos, caracteres, sinais, escritos, imagens,
sons ou informações de qualquer natureza.

§ 2° Estação de telecomunicações é o conjunto de equipamentos ou aparelhos, dispositivos e


demais meios necessários à realização de telecomunicação, seus acessórios e periféricos, e, quando for
o caso, as instalações que os abrigam e complementam, inclusive terminais portáteis.

Art. 61. Serviço de valor adicionado é a atividade que acrescenta, a um serviço de telecomunicações
que lhe dá suporte e com o qual não se confunde, novas utilidades relacionadas ao acesso,
armazenamento, apresentação, movimentação ou recuperação de informações.
221

§ 1º Serviço de valor adicionado não constitui serviço de telecomunicações, classificando-se seu


provedor como usuário do serviço de telecomunicações que lhe dá suporte, com os direitos e deveres
inerentes a essa condição.

§ 2° É assegurado aos interessados o uso das redes de serviços de telecomunicações para


prestação de serviços de valor adicionado, cabendo à Agência, para assegurar esse direito, regular os
condicionamentos, assim como o relacionamento entre aqueles e as prestadoras de serviço de
telecomunicações.

Capítulo II

Da Classificação

Art. 62. Quanto à abrangência dos interesses a que atendem, os serviços de telecomunicações
classificam-se em serviços de interesse coletivo e serviços de interesse restrito.

Parágrafo único. Os serviços de interesse restrito estarão sujeitos aos condicionamentos


necessários para que sua exploração não prejudique o interesse coletivo.

Art. 63. Quanto ao regime jurídico de sua prestação, os serviços de telecomunicações classificam-se
em públicos e privados.

Parágrafo único. Serviço de telecomunicações em regime público é o prestado mediante concessão


ou permissão, com atribuição a sua prestadora de obrigações de universalização e de continuidade.

Art. 64. Comportarão prestação no regime público as modalidades de serviço de telecomunicações


de interesse coletivo, cuja existência, universalização e continuidade a própria União comprometa-se a
assegurar.

Parágrafo único. Incluem-se neste caso as diversas modalidades do serviço telefônico fixo
comutado, de qualquer âmbito, destinado ao uso do público em geral.

Art. 65. Cada modalidade de serviço será destinada à prestação:

I - exclusivamente no regime público;

II - exclusivamente no regime privado; ou

III - concomitantemente nos regimes público e privado.

§ 1° Não serão deixadas à exploração apenas em regime privado as modalidades de serviço de


interesse coletivo que, sendo essenciais, estejam sujeitas a deveres de universalização.

§ 2° A exclusividade ou concomitância a que se refere o caput poderá ocorrer em âmbito nacional,


regional, local ou em áreas determinadas.

Art. 66. Quando um serviço for, ao mesmo tempo, explorado nos regimes público e privado, serão
adotadas medidas que impeçam a inviabilidade econômica de sua prestação no regime público.

Art. 67. Não comportarão prestação no regime público os serviços de telecomunicações de interesse
restrito.
222

Art. 68. É vedada, a uma mesma pessoa jurídica, a exploração, de forma direta ou indireta, de uma
mesma modalidade de serviço nos regimes público e privado, salvo em regiões, localidades ou áreas
distintas.

Capítulo III

Das Regras Comuns

Art. 69. As modalidades de serviço serão definidas pela Agência em função de sua finalidade, âmbito
de prestação, forma, meio de transmissão, tecnologia empregada ou de outros atributos.

Parágrafo único. Forma de telecomunicação é o modo específico de transmitir informação,


decorrente de características particulares de transdução, de transmissão, de apresentação da informação
ou de combinação destas, considerando-se formas de telecomunicação, entre outras, a telefonia, a
telegrafia, a comunicação de dados e a transmissão de imagens.

Art. 70. Serão coibidos os comportamentos prejudiciais à competição livre, ampla e justa entre as
prestadoras do serviço, no regime público ou privado, em especial:

I - a prática de subsídios para redução artificial de preços;

II - o uso, objetivando vantagens na competição, de informações obtidas dos concorrentes, em


virtude de acordos de prestação de serviço;

III - a omissão de informações técnicas e comerciais relevantes à prestação de serviços por outrem.

Art. 71. Visando a propiciar competição efetiva e a impedir a concentração econômica no mercado, a
Agência poderá estabelecer restrições, limites ou condições a empresas ou grupos empresariais quanto
à obtenção e transferência de concessões, permissões e autorizações.

Art. 72. Apenas na execução de sua atividade, a prestadora poderá valer-se de informações relativas
à utilização individual do serviço pelo usuário.

§ 1° A divulgação das informações individuais dependerá da anuência expressa e específica do


usuário.

§ 2° A prestadora poderá divulgar a terceiros informações agregadas sobre o uso de seus serviços,
desde que elas não permitam a identificação, direta ou indireta, do usuário, ou a violação de sua
intimidade.

Art. 73. As prestadoras de serviços de telecomunicações de interesse coletivo terão direito à


utilização de postes, dutos, condutos e servidões pertencentes ou controlados por prestadora de serviços
de telecomunicações ou de outros serviços de interesse público, de forma não discriminatória e a preços
e condições justos e razoáveis. (Vide Lei nº 11.934, de 2009)

Parágrafo único. Caberá ao órgão regulador do cessionário dos meios a serem utilizados definir as
condições para adequado atendimento do disposto no caput.

Art. 74. A concessão, permissão ou autorização de serviço de telecomunicações não isenta a


prestadora do atendimento às normas de engenharia e às leis municipais, estaduais ou do Distrito
Federal relativas à construção civil e à instalação de cabos e equipamentos em logradouros públicos.
223

Art. 74. A concessão, permissão ou autorização de serviço de telecomunicações não isenta a


prestadora do atendimento às normas de engenharia e às leis municipais, estaduais ou distritais relativas
à construção civil. (Redação dada pela Lei nº 13.116, de 2015)

Art. 75. Independerá de concessão, permissão ou autorização a atividade de telecomunicações


restrita aos limites de uma mesma edificação ou propriedade móvel ou imóvel, conforme dispuser a
Agência.

Art. 76. As empresas prestadoras de serviços e os fabricantes de produtos de telecomunicações que


investirem em projetos de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, na área de telecomunicações, obterão
incentivos nas condições fixadas em lei.

Art. 77. O Poder Executivo encaminhará ao Congresso Nacional, no prazo de cento e vinte dias da
publicação desta Lei, mensagem de criação de um fundo para o desenvolvimento tecnológico das
telecomunicações brasileiras, com o objetivo de estimular a pesquisa e o desenvolvimento de novas
tecnologias, incentivar a capacitação dos recursos humanos, fomentar a geração de empregos e
promover o acesso de pequenas e médias empresas a recursos de capital, de modo a ampliar a
competição na indústria de telecomunicações.

Art. 78. A fabricação e o desenvolvimento no País de produtos de telecomunicações serão


estimulados mediante adoção de instrumentos de política creditícia, fiscal e aduaneira.

TÍTULO II

DOS SERVIÇOS PRESTADOS EM REGIME PÚBLICO

Capítulo I

Das Obrigações de Universalização e de Continuidade

Art. 79. A Agência regulará as obrigações de universalização e de continuidade atribuídas às


prestadoras de serviço no regime público.

§ 1° Obrigações de universalização são as que objetivam possibilitar o acesso de qualquer pessoa


ou instituição de interesse público a serviço de telecomunicações, independentemente de sua localização
e condição sócio-econômica, bem como as destinadas a permitir a utilização das telecomunicações em
serviços essenciais de interesse público.

§ 2° Obrigações de continuidade são as que objetivam possibilitar aos usuários dos serviços sua
fruição de forma ininterrupta, sem paralisações injustificadas, devendo os serviços estar à disposição dos
usuários, em condições adequadas de uso.

Art. 80. As obrigações de universalização serão objeto de metas periódicas, conforme plano
específico elaborado pela Agência e aprovado pelo Poder Executivo, que deverá referir-se, entre outros
aspectos, à disponibilidade de instalações de uso coletivo ou individual, ao atendimento de deficientes
físicos, de instituições de caráter público ou social, bem como de áreas rurais ou de urbanização precária
e de regiões remotas.

§ 1º O plano detalhará as fontes de financiamento das obrigações de universalização, que serão


neutras em relação à competição, no mercado nacional, entre prestadoras.
224

§ 2º Os recursos do fundo de universalização de que trata o inciso II do art. 81 não poderão ser
destinados à cobertura de custos com universalização dos serviços que, nos termos do contrato de
concessão, a própria prestadora deva suportar.

Art. 81. Os recursos complementares destinados a cobrir a parcela do custo exclusivamente


atribuível ao cumprimento das obrigações de universalização de prestadora de serviço de
telecomunicações, que não possa ser recuperada com a exploração eficiente do serviço, poderão ser
oriundos das seguintes fontes:

I - Orçamento Geral da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

II - fundo especificamente constituído para essa finalidade, para o qual contribuirão prestadoras de
serviço de telecomunicações nos regimes público e privado, nos termos da lei, cuja mensagem de
criação deverá ser enviada ao Congresso Nacional, pelo Poder Executivo, no prazo de cento e vinte dias
após a publicação desta Lei.

Parágrafo único. Enquanto não for constituído o fundo a que se refere o inciso II do caput, poderão
ser adotadas também as seguintes fontes:

I - subsídio entre modalidades de serviços de telecomunicações ou entre segmentos de usuários;

II - pagamento de adicional ao valor de interconexão.

Art. 82. O descumprimento das obrigações relacionadas à universalização e à continuidade ensejará


a aplicação de sanções de multa, caducidade ou decretação de intervenção, conforme o caso.

Capítulo II

Da Concessão

Seção I

Da outorga

Art. 83. A exploração do serviço no regime público dependerá de prévia outorga, pela Agência,
mediante concessão, implicando esta o direito de uso das radiofreqüências necessárias, conforme
regulamentação.

Parágrafo único. Concessão de serviço de telecomunicações é a delegação de sua prestação,


mediante contrato, por prazo determinado, no regime público, sujeitando-se a concessionária aos riscos
empresariais, remunerando-se pela cobrança de tarifas dos usuários ou por outras receitas alternativas e
respondendo diretamente pelas suas obrigações e pelos prejuízos que causar.

Art. 84. As concessões não terão caráter de exclusividade, devendo obedecer ao plano geral de
outorgas, com definição quanto à divisão do País em áreas, ao número de prestadoras para cada uma
delas, seus prazos de vigência e os prazos para admissão de novas prestadoras.

§ 1° As áreas de exploração, o número de prestadoras, os prazos de vigência das concessões e os


prazos para admissão de novas prestadoras serão definidos considerando-se o ambiente de competição,
observados o princípio do maior benefício ao usuário e o interesse social e econômico do País, de modo
a propiciar a justa remuneração da prestadora do serviço no regime público.
225

§ 2° A oportunidade e o prazo das outorgas serão determinados de modo a evitar o vencimento


concomitante das concessões de uma mesma área.

Art. 85. Cada modalidade de serviço será objeto de concessão distinta, com clara determinação dos
direitos e deveres da concessionária, dos usuários e da Agência.

Art. 86. A concessão somente poderá ser outorgada a empresa constituída segundo as leis
brasileiras, com sede e administração no País, criada para explorar exclusivamente os serviços de
telecomunicações objeto da concessão.
Parágrafo único. A participação, na licitação para outorga, de quem não atenda ao disposto neste
artigo, será condicionada ao compromisso de, antes da celebração do contrato, adaptar-se ou constituir
empresa com as características adequadas.

Art. 86. A concessão somente poderá ser outorgada a empresa constituída segundo as leis
brasileiras, com sede e administração no País, criada para explorar exclusivamente serviços de
telecomunicações. (Redação dada pela Lei nº 12485, de 2011)

Parágrafo único. Os critérios e condições para a prestação de outros serviços de telecomunicações


diretamente pela concessionária obedecerão, entre outros, aos seguintes princípios, de acordo com
regulamentação da Anatel: (Redação dada pela Lei nº 12485, de 2011)

I - garantia dos interesses dos usuários, nos mecanismos de reajuste e revisão das tarifas, mediante
o compartilhamento dos ganhos econômicos advindos da racionalização decorrente da prestação de
outros serviços de telecomunicações, ou ainda mediante a transferência integral dos ganhos econômicos
que não decorram da eficiência ou iniciativa empresarial, observados os termos dos §§ 2o e 3o do art. 108
desta Lei; (Incluído pela Lei nº 12485, de 2011)

II - atuação do poder público para propiciar a livre, ampla e justa competição, reprimidas as infrações
da ordem econômica, nos termos do art. 6o desta Lei; (Incluído pela Lei nº 12485, de 2011)

III - existência de mecanismos que assegurem o adequado controle público no que tange aos bens
reversíveis. (Incluído pela Lei nº 12485, de 2011)

Art. 87. A outorga a empresa ou grupo empresarial que, na mesma região, localidade ou área, já
preste a mesma modalidade de serviço, será condicionada à assunção do compromisso de, no prazo
máximo de dezoito meses, contado da data de assinatura do contrato, transferir a outrem o serviço
anteriormente explorado, sob pena de sua caducidade e de outras sanções previstas no processo de
outorga.

Art. 88. As concessões serão outorgadas mediante licitação.

Art. 89. A licitação será disciplinada pela Agência, observados os princípios constitucionais, as
disposições desta Lei e, especialmente:

I - a finalidade do certame é, por meio de disputa entre os interessados, escolher quem possa
executar, expandir e universalizar o serviço no regime público com eficiência, segurança e a tarifas
razoáveis;

II - a minuta de instrumento convocatório será submetida a consulta pública prévia;

III - o instrumento convocatório identificará o serviço objeto do certame e as condições de sua


prestação, expansão e universalização, definirá o universo de proponentes, estabelecerá fatores e
226

critérios para aceitação e julgamento de propostas, regulará o procedimento, determinará a quantidade


de fases e seus objetivos, indicará as sanções aplicáveis e fixará as cláusulas do contrato de concessão;

IV - as qualificações técnico-operacional ou profissional e econômico-financeira, bem como as


garantias da proposta e do contrato, exigidas indistintamente dos proponentes, deverão ser compatíveis
com o objeto e proporcionais a sua natureza e dimensão;

V - o interessado deverá comprovar situação regular perante as Fazendas Públicas e a Seguridade


Social;

VI - a participação de consórcio, que se constituirá em empresa antes da outorga da concessão, será


sempre admitida;

VII - o julgamento atenderá aos princípios de vinculação ao instrumento convocatório e comparação


objetiva;

VIII - os fatores de julgamento poderão ser, isolada ou conjugadamente, os de menor tarifa, maior
oferta pela outorga, melhor qualidade dos serviços e melhor atendimento da demanda, respeitado
sempre o princípio da objetividade;

IX - o empate será resolvido por sorteio;

X - as regras procedimentais assegurarão a adequada divulgação do instrumento convocatório,


prazos compatíveis com o preparo de propostas e os direitos ao contraditório, ao recurso e à ampla
defesa.

Art. 90. Não poderá participar da licitação ou receber outorga de concessão a empresa proibida de
licitar ou contratar com o Poder Público ou que tenha sido declarada inidônea, bem como aquela que
tenha sido punida nos dois anos anteriores com a decretação de caducidade de concessão, permissão
ou autorização de serviço de telecomunicações, ou da caducidade de direito de uso de radiofreqüência.

Art. 91. A licitação será inexigível quando, mediante processo administrativo conduzido pela Agência,
a disputa for considerada inviável ou desnecessária.

§ 1° Considera-se inviável a disputa quando apenas um interessado puder realizar o serviço, nas
condições estipuladas.

§ 2° Considera-se desnecessária a disputa nos casos em que se admita a exploração do serviço por
todos os interessados que atendam às condições requeridas.

§ 3° O procedimento para verificação da inexigibilidade compreenderá chamamento público para


apurar o número de interessados.

Art. 92. Nas hipóteses de inexigibilidade de licitação, a outorga de concessão dependerá de


procedimento administrativo sujeito aos princípios da publicidade, moralidade, impessoalidade e
contraditório, para verificar o preenchimento das condições relativas às qualificações técnico-operacional
ou profissional e econômico-financeira, à regularidade fiscal e às garantias do contrato.

Parágrafo único. As condições deverão ser compatíveis com o objeto e proporcionais a sua natureza
e dimensão.

Seção II
227

Do contrato

Art. 93. O contrato de concessão indicará:

I - objeto, área e prazo da concessão;

II - modo, forma e condições da prestação do serviço;

III - regras, critérios, indicadores, fórmulas e parâmetros definidores da implantação, expansão,


alteração e modernização do serviço, bem como de sua qualidade;

IV - deveres relativos à universalização e à continuidade do serviço;

V - o valor devido pela outorga, a forma e as condições de pagamento;

VI - as condições de prorrogação, incluindo os critérios para fixação do valor;

VII - as tarifas a serem cobradas dos usuários e os critérios para seu reajuste e revisão;

VIII - as possíveis receitas alternativas, complementares ou acessórias, bem como as provenientes


de projetos associados;

IX - os direitos, as garantias e as obrigações dos usuários, da Agência e da concessionária;

X - a forma da prestação de contas e da fiscalização;

XI - os bens reversíveis, se houver;

XII - as condições gerais para interconexão;

XIII - a obrigação de manter, durante a execução do contrato, todas as condições de habilitação


exigidas na licitação;

XIV - as sanções;

XV - o foro e o modo para solução extrajudicial das divergências contratuais.

Parágrafo único. O contrato será publicado resumidamente no Diário Oficial da União, como
condição de sua eficácia.

Art. 94. No cumprimento de seus deveres, a concessionária poderá, observadas as condições e


limites estabelecidos pela Agência:

I - empregar, na execução dos serviços, equipamentos e infra-estrutura que não lhe pertençam;

II - contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou


complementares ao serviço, bem como a implementação de projetos associados.

§ 1° Em qualquer caso, a concessionária continuará sempre responsável perante a Agência e os


usuários.
228

§ 2° Serão regidas pelo direito comum as relações da concessionária com os terceiros, que não
terão direitos frente à Agência, observado o disposto no art. 117 desta Lei.

Art. 95. A Agência concederá prazos adequados para adaptação da concessionária às novas
obrigações que lhe sejam impostas.

Art. 96. A concessionária deverá:

I - prestar informações de natureza técnica, operacional, econômico-financeira e contábil, ou outras


pertinentes que a Agência solicitar;

II - manter registros contábeis separados por serviço, caso explore mais de uma modalidade de
serviço de telecomunicações;

III - submeter à aprovação da Agência a minuta de contrato-padrão a ser celebrado com os usuários,
bem como os acordos operacionais que pretenda firmar com prestadoras estrangeiras;

IV - divulgar relação de assinantes, observado o disposto nos incisos VI e IX do art. 3°, bem como o
art. 213, desta Lei;

V - submeter-se à regulamentação do serviço e à sua fiscalização;

VI - apresentar relatórios periódicos sobre o atendimento das metas de universalização constantes


do contrato de concessão.

Art. 97. Dependerão de prévia aprovação da Agência a cisão, a fusão, a transformação, a


incorporação, a redução do capital da empresa ou a transferência de seu controle societário.

Parágrafo único. A aprovação será concedida se a medida não for prejudicial à competição e não
colocar em risco a execução do contrato, observado o disposto no art. 7° desta Lei.

Art. 98. O contrato de concessão poderá ser transferido após a aprovação da Agência desde que,
cumulativamente:

I - o serviço esteja em operação, há pelo menos três anos, com o cumprimento regular das
obrigações;

II - o cessionário preencha todos os requisitos da outorga, inclusive quanto às garantias, à


regularidade jurídica e fiscal e à qualificação técnica e econômico-financeira;

III - a medida não prejudique a competição e não coloque em risco a execução do contrato,
observado o disposto no art. 7° desta Lei.

Art. 99. O prazo máximo da concessão será de vinte anos, podendo ser prorrogado, uma única vez,
por igual período, desde que a concessionária tenha cumprido as condições da concessão e manifeste
expresso interesse na prorrogação, pelo menos, trinta meses antes de sua expiração.

§ 1° A prorrogação do prazo da concessão implicará pagamento, pela concessionária, pelo direito de


exploração do serviço e pelo direito de uso das radiofreqüências associadas, e poderá, a critério da
Agência, incluir novos condicionamentos, tendo em vista as condições vigentes à época.
229

§ 2° A desistência do pedido de prorrogação sem justa causa, após seu deferimento, sujeitará a
concessionária à pena de multa.

§ 3° Em caso de comprovada necessidade de reorganização do objeto ou da área da concessão


para ajustamento ao plano geral de outorgas ou à regulamentação vigente, poderá a Agência indeferir o
pedido de prorrogação.

Seção III

Dos bens

Art. 100. Poderá ser declarada a utilidade pública, para fins de desapropriação ou instituição de
servidão, de bens imóveis ou móveis, necessários à execução do serviço, cabendo à concessionária a
implementação da medida e o pagamento da indenização e das demais despesas envolvidas.

Art. 101. A alienação, oneração ou substituição de bens reversíveis dependerá de prévia aprovação
da Agência.

Art. 102. A extinção da concessão transmitirá automaticamente à União a posse dos bens
reversíveis.

Parágrafo único. A reversão dos bens, antes de expirado o prazo contratual, importará pagamento
de indenização pelas parcelas de investimentos a eles vinculados, ainda não amortizados ou
depreciados, que tenham sido realizados com o objetivo de garantir a continuidade e atualidade do
serviço concedido.

Seção IV

Das tarifas

Art. 103. Compete à Agência estabelecer a estrutura tarifária para cada modalidade de serviço.

§ 1° A fixação, o reajuste e a revisão das tarifas poderão basear-se em valor que corresponda à
média ponderada dos valores dos itens tarifários.

§ 2° São vedados os subsídios entre modalidades de serviços e segmentos de usuários, ressalvado


o disposto no parágrafo único do art. 81 desta Lei.

§ 3° As tarifas serão fixadas no contrato de concessão, consoante edital ou proposta apresentada na


licitação.

§ 4° Em caso de outorga sem licitação, as tarifas serão fixadas pela Agência e constarão do contrato
de concessão.

Art. 104. Transcorridos ao menos três anos da celebração do contrato, a Agência poderá, se existir
ampla e efetiva competição entre as prestadoras do serviço, submeter a concessionária ao regime de
liberdade tarifária.

§ 1° No regime a que se refere o caput, a concessionária poderá determinar suas próprias tarifas,
devendo comunicá-las à Agência com antecedência de sete dias de sua vigência.
230

§ 2° Ocorrendo aumento arbitrário dos lucros ou práticas prejudiciais à competição, a Agência


restabelecerá o regime tarifário anterior, sem prejuízo das sanções cabíveis.

Art. 105. Quando da implantação de novas prestações, utilidades ou comodidades relativas ao objeto
da concessão, suas tarifas serão previamente levadas à Agência, para aprovação, com os estudos
correspondentes.

Parágrafo único. Considerados os interesses dos usuários, a Agência poderá decidir por fixar as
tarifas ou por submetê-las ao regime de liberdade tarifária, sendo vedada qualquer cobrança antes da
referida aprovação.

Art. 106. A concessionária poderá cobrar tarifa inferior à fixada desde que a redução se baseie em
critério objetivo e favoreça indistintamente todos os usuários, vedado o abuso do poder econômico.

Art. 107. Os descontos de tarifa somente serão admitidos quando extensíveis a todos os usuários
que se enquadrem nas condições, precisas e isonômicas, para sua fruição.

Art. 108. Os mecanismos para reajuste e revisão das tarifas serão previstos nos contratos de
concessão, observando-se, no que couber, a legislação específica.

§ 1° A redução ou o desconto de tarifas não ensejará revisão tarifária.

§ 2° Serão compartilhados com os usuários, nos termos regulados pela Agência, os ganhos
econômicos decorrentes da modernização, expansão ou racionalização dos serviços, bem como de
novas receitas alternativas.

§ 3° Serão transferidos integralmente aos usuários os ganhos econômicos que não decorram
diretamente da eficiência empresarial, em casos como os de diminuição de tributos ou encargos legais e
de novas regras sobre os serviços.

§ 4º A oneração causada por novas regras sobre os serviços, pela álea econômica extraordinária,
bem como pelo aumento dos encargos legais ou tributos, salvo o imposto sobre a renda, implicará a
revisão do contrato.

Art. 109. A Agência estabelecerá:

I - os mecanismos para acompanhamento das tarifas praticadas pela concessionária, inclusive a


antecedência a ser observada na comunicação de suas alterações;

II - os casos de serviço gratuito, como os de emergência;

III - os mecanismos para garantir a publicidade das tarifas.

Seção V

Da intervenção

Art. 110. Poderá ser decretada intervenção na concessionária, por ato da Agência, em caso de:

I - paralisação injustificada dos serviços;

II - inadequação ou insuficiência dos serviços prestados, não resolvidas em prazo razoável;


231

III - desequilíbrio econômico-financeiro decorrente de má administração que coloque em risco a


continuidade dos serviços;

IV - prática de infrações graves;

V - inobservância de atendimento das metas de universalização;

VI - recusa injustificada de interconexão;

VII - infração da ordem econômica nos termos da legislação própria.

Art. 111. O ato de intervenção indicará seu prazo, seus objetivos e limites, que serão determinados
em função das razões que a ensejaram, e designará o interventor.

§ 1° A decretação da intervenção não afetará o curso regular dos negócios da concessionária nem
seu normal funcionamento e produzirá, de imediato, o afastamento de seus administradores.

§ 2° A intervenção será precedida de procedimento administrativo instaurado pela Agência, em que


se assegure a ampla defesa da concessionária, salvo quando decretada cautelarmente, hipótese em que
o procedimento será instaurado na data da intervenção e concluído em até cento e oitenta dias.

§ 3° A intervenção poderá ser exercida por um colegiado ou por uma empresa, cuja remuneração
será paga com recursos da concessionária.

§ 4° Dos atos do interventor caberá recurso à Agência.

§ 5° Para os atos de alienação e disposição do patrimônio da concessionária, o interventor


necessitará de prévia autorização da Agência.

§ 6° O interventor prestará contas e responderá pelos atos que praticar.

Seção VI

Da extinção

Art. 112. A concessão extinguir-se-á por advento do termo contratual, encampação, caducidade,
rescisão e anulação.

Parágrafo único. A extinção devolve à União os direitos e deveres relativos à prestação do serviço.

Art. 113. Considera-se encampação a retomada do serviço pela União durante o prazo da
concessão, em face de razão extraordinária de interesse público, mediante lei autorizativa específica e
após o pagamento de prévia indenização.

Art. 114. A caducidade da concessão será decretada pela Agência nas hipóteses:

I - de infração do disposto no art. 97 desta Lei ou de dissolução ou falência da concessionária;

II - de transferência irregular do contrato;

III - de não-cumprimento do compromisso de transferência a que se refere o art. 87 desta Lei;


232

IV - em que a intervenção seria cabível, mas sua decretação for inconveniente, inócua, injustamente
benéfica ao concessionário ou desnecessária.

§ 1° Será desnecessária a intervenção quando a demanda pelos serviços objeto da concessão puder
ser atendida por outras prestadoras de modo regular e imediato.

§ 2° A decretação da caducidade será precedida de procedimento administrativo instaurado pela


Agência, em que se assegure a ampla defesa da concessionária.

Art. 115. A concessionária terá direito à rescisão quando, por ação ou omissão do Poder Público, a
execução do contrato se tornar excessivamente onerosa.

Parágrafo único. A rescisão poderá ser realizada amigável ou judicialmente.

Art. 116. A anulação será decretada pela Agência em caso de irregularidade insanável e grave do
contrato de concessão.

Art. 117. Extinta a concessão antes do termo contratual, a Agência, sem prejuízo de outras medidas
cabíveis, poderá:

I - ocupar, provisoriamente, bens móveis e imóveis e valer-se de pessoal empregado na prestação


dos serviços, necessários a sua continuidade;

II - manter contratos firmados pela concessionária com terceiros, com fundamento nos incisos I e II
do art. 94 desta Lei, pelo prazo e nas condições inicialmente ajustadas.

Parágrafo único. Na hipótese do inciso II deste artigo, os terceiros que não cumprirem com as
obrigações assumidas responderão pelo inadimplemento.

Capítulo III

Da Permissão

Art. 118. Será outorgada permissão, pela Agência, para prestação de serviço de telecomunicações
em face de situação excepcional comprometedora do funcionamento do serviço que, em virtude de suas
peculiaridades, não possa ser atendida, de forma conveniente ou em prazo adequado, mediante
intervenção na empresa concessionária ou mediante outorga de nova concessão.

Parágrafo único. Permissão de serviço de telecomunicações é o ato administrativo pelo qual se


atribui a alguém o dever de prestar serviço de telecomunicações no regime público e em caráter
transitório, até que seja normalizada a situação excepcional que a tenha ensejado.

Art. 119. A permissão será precedida de procedimento licitatório simplificado, instaurado pela
Agência, nos termos por ela regulados, ressalvados os casos de inexigibilidade previstos no art. 91,
observado o disposto no art. 92, desta Lei.

Art. 120. A permissão será formalizada mediante assinatura de termo, que indicará:

I - o objeto e a área da permissão, bem como os prazos mínimo e máximo de vigência estimados;

II - modo, forma e condições da prestação do serviço;


233

III - as tarifas a serem cobradas dos usuários, critérios para seu reajuste e revisão e as possíveis
fontes de receitas alternativas;

IV - os direitos, as garantias e as obrigações dos usuários, do permitente e do permissionário;

V - as condições gerais de interconexão;

VI - a forma da prestação de contas e da fiscalização;

VII - os bens entregues pelo permitente à administração do permissionário;

VIII - as sanções;

IX - os bens reversíveis, se houver;

X - o foro e o modo para solução extrajudicial das divergências.

Parágrafo único. O termo de permissão será publicado resumidamente no Diário Oficial da União,
como condição de sua eficácia.

Art. 121. Outorgada permissão em decorrência de procedimento licitatório, a recusa injustificada pelo
outorgado em assinar o respectivo termo sujeitá-lo-á às sanções previstas no instrumento convocatório.

Art. 122. A permissão extinguir-se-á pelo decurso do prazo máximo de vigência estimado, observado
o disposto no art. 124 desta Lei, bem como por revogação, caducidade e anulação.

Art. 123. A revogação deverá basear-se em razões de conveniência e oportunidade relevantes e


supervenientes à permissão.

§ 1° A revogação, que poderá ser feita a qualquer momento, não dará direito a indenização.

§ 2° O ato revocatório fixará o prazo para o permissionário devolver o serviço, que não será inferior a
sessenta dias.

Art. 124. A permissão poderá ser mantida, mesmo vencido seu prazo máximo, se persistir a situação
excepcional que a motivou.

Art. 125. A Agência disporá sobre o regime da permissão, observados os princípios e objetivos desta
Lei.

TÍTULO III

DOS SERVIÇOS PRESTADOS EM REGIME PRIVADO

Capítulo I

Do Regime Geral da Exploração

Art. 126. A exploração de serviço de telecomunicações no regime privado será baseada nos
princípios constitucionais da atividade econômica.
234

Art. 127. A disciplina da exploração dos serviços no regime privado terá por objetivo viabilizar o
cumprimento das leis, em especial das relativas às telecomunicações, à ordem econômica e aos direitos
dos consumidores, destinando-se a garantir:

I - a diversidade de serviços, o incremento de sua oferta e sua qualidade;

II - a competição livre, ampla e justa;

III - o respeito aos direitos dos usuários;

IV - a convivência entre as modalidades de serviço e entre prestadoras em regime privado e público,


observada a prevalência do interesse público;

V - o equilíbrio das relações entre prestadoras e usuários dos serviços;

VI - a isonomia de tratamento às prestadoras;

VII - o uso eficiente do espectro de radiofreqüências;

VIII - o cumprimento da função social do serviço de interesse coletivo, bem como dos encargos dela
decorrentes;

IX - o desenvolvimento tecnológico e industrial do setor;

X - a permanente fiscalização.

Art. 128. Ao impor condicionamentos administrativos ao direito de exploração das diversas


modalidades de serviço no regime privado, sejam eles limites, encargos ou sujeições, a Agência
observará a exigência de mínima intervenção na vida privada, assegurando que:

I - a liberdade será a regra, constituindo exceção as proibições, restrições e interferências do Poder


Público;

II - nenhuma autorização será negada, salvo por motivo relevante;

III - os condicionamentos deverão ter vínculos, tanto de necessidade como de adequação, com
finalidades públicas específicas e relevantes;

IV - o proveito coletivo gerado pelo condicionamento deverá ser proporcional à privação que ele
impuser;

V - haverá relação de equilíbrio entre os deveres impostos às prestadoras e os direitos a elas


reconhecidos.

Art. 129. O preço dos serviços será livre, ressalvado o disposto no § 2° do art. 136 desta Lei,
reprimindo-se toda prática prejudicial à competição, bem como o abuso do poder econômico, nos termos
da legislação própria.

Art. 130. A prestadora de serviço em regime privado não terá direito adquirido à permanência das
condições vigentes quando da expedição da autorização ou do início das atividades, devendo observar
os novos condicionamentos impostos por lei e pela regulamentação.
235

Parágrafo único. As normas concederão prazos suficientes para adaptação aos novos
condicionamentos .

Art. 130-A. É facultado às prestadoras de serviço em regime privado o aluguel de suas redes para
implantação de sistema de localização de pessoas desaparecidas. (Incluído pela Lei nº 12.841, de
2013)

Parágrafo único. O sistema a que se refere o caput deste artigo está sujeito às regras de mercado,
nos termos do art. 129 desta Lei. (Incluído pela Lei nº 12.841, de 2013)

Capítulo II

Da Autorização de Serviço de Telecomunicações

Seção I

Da obtenção

Art. 131. A exploração de serviço no regime privado dependerá de prévia autorização da Agência,
que acarretará direito de uso das radiofreqüências necessárias.

§ 1° Autorização de serviço de telecomunicações é o ato administrativo vinculado que faculta a


exploração, no regime privado, de modalidade de serviço de telecomunicações, quando preenchidas as
condições objetivas e subjetivas necessárias.

§ 2° A Agência definirá os casos que independerão de autorização.

§ 3° A prestadora de serviço que independa de autorização comunicará previamente à Agência o


início de suas atividades, salvo nos casos previstos nas normas correspondentes.

§ 4° A eficácia da autorização dependerá da publicação de extrato no Diário Oficial da União.

Art. 132. São condições objetivas para obtenção de autorização de serviço:

I - disponibilidade de radiofreqüência necessária, no caso de serviços que a utilizem;

II - apresentação de projeto viável tecnicamente e compatível com as normas aplicáveis.

Art. 133. São condições subjetivas para obtenção de autorização de serviço de interesse coletivo
pela empresa:

I - estar constituída segundo as leis brasileiras, com sede e administração no País;

II - não estar proibida de licitar ou contratar com o Poder Público, não ter sido declarada inidônea ou
não ter sido punida, nos dois anos anteriores, com a decretação da caducidade de concessão, permissão
ou autorização de serviço de telecomunicações, ou da caducidade de direito de uso de radiofreqüência;

III - dispor de qualificação técnica para bem prestar o serviço, capacidade econômico-financeira,
regularidade fiscal e estar em situação regular com a Seguridade Social;

IV - não ser, na mesma região, localidade ou área, encarregada de prestar a mesma modalidade de
serviço.
236

Art. 134. A Agência disporá sobre as condições subjetivas para obtenção de autorização de serviço
de interesse restrito.

Art. 135. A Agência poderá, excepcionalmente, em face de relevantes razões de caráter coletivo,
condicionar a expedição de autorização à aceitação, pelo interessado, de compromissos de interesse da
coletividade.

Parágrafo único. Os compromissos a que se refere o caput serão objeto de regulamentação, pela
Agência, observados os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e igualdade.

Art. 136. Não haverá limite ao número de autorizações de serviço, salvo em caso de impossibilidade
técnica ou, excepcionalmente, quando o excesso de competidores puder comprometer a prestação de
uma modalidade de serviço de interesse coletivo.

§ 1° A Agência determinará as regiões, localidades ou áreas abrangidas pela limitação e disporá


sobre a possibilidade de a prestadora atuar em mais de uma delas.

§ 2° As prestadoras serão selecionadas mediante procedimento licitatório, na forma estabelecida nos


arts. 88 a 92, sujeitando-se a transferência da autorização às mesmas condições estabelecidas no art.
98, desta Lei.

§ 3° Dos vencedores da licitação será exigida contrapartida proporcional à vantagem econômica que
usufruírem, na forma de compromissos de interesse dos usuários.

Art. 137. O descumprimento de condições ou de compromissos assumidos, associados à


autorização, sujeitará a prestadora às sanções de multa, suspensão temporária ou caducidade.

Seção II

Da extinção

Art. 138. A autorização de serviço de telecomunicações não terá sua vigência sujeita a termo final,
extinguindo-se somente por cassação, caducidade, decaimento, renúncia ou anulação.

Art. 139. Quando houver perda das condições indispensáveis à expedição ou manutenção da
autorização, a Agência poderá extingui-la mediante ato de cassação.

Parágrafo único. Importará em cassação da autorização do serviço a extinção da autorização de uso


da radiofreqüência respectiva.

Art. 140. Em caso de prática de infrações graves, de transferência irregular da autorização ou de


descumprimento reiterado de compromissos assumidos, a Agência poderá extinguir a autorização
decretando-lhe a caducidade.

Art. 141. O decaimento será decretado pela Agência, por ato administrativo, se, em face de razões
de excepcional relevância pública, as normas vierem a vedar o tipo de atividade objeto da autorização ou
a suprimir a exploração no regime privado.

§ 1° A edição das normas de que trata o caput não justificará o decaimento senão quando a
preservação das autorizações já expedidas for efetivamente incompatível com o interesse público.

§ 2° Decretado o decaimento, a prestadora terá o direito de manter suas próprias atividades


regulares por prazo mínimo de cinco anos, salvo desapropriação.
237

Art. 142. Renúncia é o ato formal unilateral, irrevogável e irretratável, pelo qual a prestadora
manifesta seu desinteresse pela autorização.

Parágrafo único. A renúncia não será causa para punição do autorizado, nem o desonerará de suas
obrigações com terceiros.

Art. 143. A anulação da autorização será decretada, judicial ou administrativamente, em caso de


irregularidade insanável do ato que a expediu.

Art. 144. A extinção da autorização mediante ato administrativo dependerá de procedimento prévio,
garantidos o contraditório e a ampla defesa do interessado.

TÍTULO IV

DAS REDES DE TELECOMUNICAÇÕES

Art. 145. A implantação e o funcionamento de redes de telecomunicações destinadas a dar suporte à


prestação de serviços de interesse coletivo, no regime público ou privado, observarão o disposto neste
Título.

Parágrafo único. As redes de telecomunicações destinadas à prestação de serviço em regime


privado poderão ser dispensadas do disposto no caput, no todo ou em parte, na forma da
regulamentação expedida pela Agência.

Art. 146. As redes serão organizadas como vias integradas de livre circulação, nos termos seguintes:

I - é obrigatória a interconexão entre as redes, na forma da regulamentação;

II - deverá ser assegurada a operação integrada das redes, em âmbito nacional e internacional;

III - o direito de propriedade sobre as redes é condicionado pelo dever de cumprimento de sua
função social.

Parágrafo único. Interconexão é a ligação entre redes de telecomunicações funcionalmente


compatíveis, de modo que os usuários de serviços de uma das redes possam comunicar-se com usuários
de serviços de outra ou acessar serviços nela disponíveis.

Art. 147. É obrigatória a interconexão às redes de telecomunicações a que se refere o art. 145 desta
Lei, solicitada por prestadora de serviço no regime privado, nos termos da regulamentação.

Art. 148. É livre a interconexão entre redes de suporte à prestação de serviços de telecomunicações
no regime privado, observada a regulamentação.

Art. 149. A regulamentação estabelecerá as hipóteses e condições de interconexão a redes


internacionais.

Art. 150. A implantação, o funcionamento e a interconexão das redes obedecerão à regulamentação


editada pela Agência, assegurando a compatibilidade das redes das diferentes prestadoras, visando à
sua harmonização em âmbito nacional e internacional.
238

Art. 151. A Agência disporá sobre os planos de numeração dos serviços, assegurando sua
administração de forma não discriminatória e em estímulo à competição, garantindo o atendimento aos
compromissos internacionais.

Parágrafo único. A Agência disporá sobre as circunstâncias e as condições em que a prestadora de


serviço de telecomunicações cujo usuário transferir-se para outra prestadora será obrigada a, sem ônus,
interceptar as ligações dirigidas ao antigo código de acesso do usuário e informar o seu novo código.

Art. 152. O provimento da interconexão será realizado em termos não discriminatórios, sob
condições técnicas adequadas, garantindo preços isonômicos e justos, atendendo ao estritamente
necessário à prestação do serviço.

Art. 153. As condições para a interconexão de redes serão objeto de livre negociação entre os
interessados, mediante acordo, observado o disposto nesta Lei e nos termos da regulamentação.

§ 1° O acordo será formalizado por contrato, cuja eficácia dependerá de homologação pela Agência,
arquivando-se uma de suas vias na Biblioteca para consulta por qualquer interessado.

§ 2° Não havendo acordo entre os interessados, a Agência, por provocação de um deles, arbitrará as
condições para a interconexão.

Art. 154. As redes de telecomunicações poderão ser, secundariamente, utilizadas como suporte de
serviço a ser prestado por outrem, de interesse coletivo ou restrito.

Art. 155. Para desenvolver a competição, as empresas prestadoras de serviços de telecomunicações


de interesse coletivo deverão, nos casos e condições fixados pela Agência, disponibilizar suas redes a
outras prestadoras de serviços de telecomunicações de interesse coletivo.

Art. 156. Poderá ser vedada a conexão de equipamentos terminais sem certificação, expedida ou
aceita pela Agência, no caso das redes referidas no art. 145 desta Lei.

§ 1° Terminal de telecomunicações é o equipamento ou aparelho que possibilita o acesso do usuário


a serviço de telecomunicações, podendo incorporar estágio de transdução, estar incorporado a
equipamento destinado a exercer outras funções ou, ainda, incorporar funções secundárias.

§ 2° Certificação é o reconhecimento da compatibilidade das especificações de determinado produto


com as características técnicas do serviço a que se destina.

TÍTULO V

DO ESPECTRO E DA ÓRBITA

Capítulo I

Do Espectro de Radiofreqüências

Art. 157. O espectro de radiofreqüências é um recurso limitado, constituindo-se em bem público,


administrado pela Agência.

Art. 158. Observadas as atribuições de faixas segundo tratados e acordos internacionais, a Agência
manterá plano com a atribuição, distribuição e destinação de radiofreqüências, e detalhamento
necessário ao uso das radiofreqüências associadas aos diversos serviços e atividades de
telecomunicações, atendidas suas necessidades específicas e as de suas expansões.
239

§ 1° O plano destinará faixas de radiofreqüência para:

I - fins exclusivamente militares;

II - serviços de telecomunicações a serem prestados em regime público e em regime privado;

III - serviços de radiodifusão;

IV - serviços de emergência e de segurança pública;

V - outras atividades de telecomunicações.

§ 2° A destinação de faixas de radiofreqüência para fins exclusivamente militares será feita em


articulação com as Forças Armadas.

Art. 159. Na destinação de faixas de radiofreqüência serão considerados o emprego racional e


econômico do espectro, bem como as atribuições, distribuições e consignações existentes, objetivando
evitar interferências prejudiciais.

Parágrafo único. Considera-se interferência prejudicial qualquer emissão, irradiação ou indução que
obstrua, degrade seriamente ou interrompa repetidamente a telecomunicação.

Art. 160. A Agência regulará a utilização eficiente e adequada do espectro, podendo restringir o
emprego de determinadas radiofreqüências ou faixas, considerado o interesse público.

Parágrafo único. O uso da radiofreqüência será condicionado à sua compatibilidade com a atividade
ou o serviço a ser prestado, particularmente no tocante à potência, à faixa de transmissão e à técnica
empregada.

Art. 161. A qualquer tempo, poderá ser modificada a destinação de radiofreqüências ou faixas, bem
como ordenada a alteração de potências ou de outras características técnicas, desde que o interesse
público ou o cumprimento de convenções ou tratados internacionais assim o determine.

Parágrafo único. Será fixado prazo adequado e razoável para a efetivação da mudança.

Art. 162. A operação de estação transmissora de radiocomunicação está sujeita à licença de


funcionamento prévia e à fiscalização permanente, nos termos da regulamentação.

§ 1° Radiocomunicação é a telecomunicação que utiliza freqüências radioelétricas não confinadas a


fios, cabos ou outros meios físicos.

§ 2° É vedada a utilização de equipamentos emissores de radiofreqüência sem certificação expedida


ou aceita pela Agência.

§ 3° A emissão ou extinção da licença relativa à estação de apoio à navegação marítima ou


aeronáutica, bem como à estação de radiocomunicação marítima ou aeronáutica, dependerá de parecer
favorável dos órgãos competentes para a vistoria de embarcações e aeronaves.

Capítulo II

Da Autorização de Uso de Radiofreqüência


240

Art. 163. O uso de radiofreqüência, tendo ou não caráter de exclusividade, dependerá de prévia
outorga da Agência, mediante autorização, nos termos da regulamentação.

§ 1° Autorização de uso de radiofreqüência é o ato administrativo vinculado, associado à concessão,


permissão ou autorização para prestação de serviço de telecomunicações, que atribui a interessado, por
prazo determinado, o direito de uso de radiofreqüência, nas condições legais e regulamentares.

§ 2° Independerão de outorga:

I - o uso de radiofreqüência por meio de equipamentos de radiação restrita definidos pela Agência;

II - o uso, pelas Forças Armadas, de radiofreqüências nas faixas destinadas a fins exclusivamente
militares.

§ 3° A eficácia da autorização de uso de radiofreqüência dependerá de publicação de extrato no


Diário Oficial da União.

Art. 164. Havendo limitação técnica ao uso de radiofreqüência e ocorrendo o interesse na sua
utilização, por parte de mais de um interessado, para fins de expansão de serviço e, havendo ou não,
concomitantemente, outros interessados em prestar a mesma modalidade de serviço, observar-se-á:

I - a autorização de uso de radiofreqüência dependerá de licitação, na forma e condições


estabelecidas nos arts. 88 a 90 desta Lei e será sempre onerosa;

II - o vencedor da licitação receberá, conforme o caso, a autorização para uso da radiofreqüência,


para fins de expansão do serviço, ou a autorização para a prestação do serviço.

Art. 165. Para fins de verificação da necessidade de abertura ou não da licitação prevista no artigo
anterior, observar-se-á o disposto nos arts. 91 e 92 desta Lei.

Art. 166. A autorização de uso de radiofreqüência terá o mesmo prazo de vigência da concessão ou
permissão de prestação de serviço de telecomunicações à qual esteja vinculada.

Art. 167. No caso de serviços autorizados, o prazo de vigência será de até vinte anos, prorrogável
uma única vez por igual período.

§ 1° A prorrogação, sempre onerosa, poderá ser requerida até três anos antes do vencimento do
prazo original, devendo o requerimento ser decidido em, no máximo, doze meses.

§ 2° O indeferimento somente ocorrerá se o interessado não estiver fazendo uso racional e


adequado da radiofreqüência, se houver cometido infrações reiteradas em suas atividades ou se for
necessária a modificação de destinação do uso da radiofreqüência.

Art. 168. É intransferível a autorização de uso de radiofreqüências sem a correspondente


transferência da concessão, permissão ou autorização de prestação do serviço a elas vinculada.

Art. 169. A autorização de uso de radiofreqüências extinguir-se-á pelo advento de seu termo final ou
no caso de sua transferência irregular, bem como por caducidade, decaimento, renúncia ou anulação da
autorização para prestação do serviço de telecomunicações que dela se utiliza.

Capítulo III
241

Da Órbita e dos Satélites

Art. 170. A Agência disporá sobre os requisitos e critérios específicos para execução de serviço de
telecomunicações que utilize satélite, geoestacionário ou não, independentemente de o acesso a ele
ocorrer a partir do território nacional ou do exterior.

Art. 171. Para a execução de serviço de telecomunicações via satélite regulado por esta Lei, deverá
ser dada preferência ao emprego de satélite brasileiro, quando este propiciar condições equivalentes às
de terceiros.

§ 1° O emprego de satélite estrangeiro somente será admitido quando sua contratação for feita com
empresa constituída segundo as leis brasileiras e com sede e administração no País, na condição de
representante legal do operador estrangeiro.

§ 2° Satélite brasileiro é o que utiliza recursos de órbita e espectro radioelétrico notificados pelo País,
ou a ele distribuídos ou consignados, e cuja estação de controle e monitoração seja instalada no território
brasileiro.

Art. 172. O direito de exploração de satélite brasileiro para transporte de sinais de telecomunicações
assegura a ocupação da órbita e o uso das radiofreqüências destinadas ao controle e monitoração do
satélite e à telecomunicação via satélite, por prazo de até quinze anos, podendo esse prazo ser
prorrogado, uma única vez, nos termos da regulamentação.

§ 1º Imediatamente após um pedido para exploração de satélite que implique utilização de novos
recursos de órbita ou espectro, a Agência avaliará as informações e, considerando-as em conformidade
com a regulamentação, encaminhará à União Internacional de Telecomunicações a correspondente
notificação, sem que isso caracterize compromisso de outorga ao requerente.

§ 2° Se inexigível a licitação, conforme disposto nos arts. 91 e 92 desta Lei, o direito de exploração
será conferido mediante processo administrativo estabelecido pela Agência.

§ 3° Havendo necessidade de licitação, observar-se-á o procedimento estabelecido nos arts. 88 a 90


desta Lei, aplicando-se, no que couber, o disposto neste artigo.

§ 4º O direito será conferido a título oneroso, podendo o pagamento, conforme dispuser a Agência,
fazer-se na forma de quantia certa, em uma ou várias parcelas, bem como de parcelas anuais ou,
complementarmente, de cessão de capacidade, conforme dispuser a regulamentação.

TÍTULO VI

DAS SANÇÕES

Capítulo I

Das Sanções Administrativas

Art. 173. A infração desta Lei ou das demais normas aplicáveis, bem como a inobservância dos
deveres decorrentes dos contratos de concessão ou dos atos de permissão, autorização de serviço ou
autorização de uso de radiofreqüência, sujeitará os infratores às seguintes sanções, aplicáveis pela
Agência, sem prejuízo das de natureza civil e penal: (Vide Lei nº 11.974, de 2009)

I - advertência;
242

II - multa;

III - suspensão temporária;

IV - caducidade;

V - declaração de inidoneidade.

Art. 174. Toda acusação será circunstanciada, permanecendo em sigilo até sua completa apuração.

Art. 175. Nenhuma sanção será aplicada sem a oportunidade de prévia e ampla defesa.

Parágrafo único. Apenas medidas cautelares urgentes poderão ser tomadas antes da defesa.

Art. 176. Na aplicação de sanções, serão considerados a natureza e a gravidade da infração, os


danos dela resultantes para o serviço e para os usuários, a vantagem auferida pelo infrator, as
circunstâncias agravantes, os antecedentes do infrator e a reincidência específica.

Parágrafo único. Entende-se por reincidência específica a repetição de falta de igual natureza após o
recebimento de notificação anterior.

Art. 177. Nas infrações praticadas por pessoa jurídica, também serão punidos com a sanção de
multa seus administradores ou controladores, quando tiverem agido de má-fé.

Art. 178. A existência de sanção anterior será considerada como agravante na aplicação de outra
sanção.

Art. 179. A multa poderá ser imposta isoladamente ou em conjunto com outra sanção, não devendo
ser superior a R$ 50.000.000,00 (cinqüenta milhões de reais) para cada infração cometida.

§ 1° Na aplicação de multa serão considerados a condição econômica do infrator e o princípio da


proporcionalidade entre a gravidade da falta e a intensidade da sanção.

§ 2° A imposição, a prestadora de serviço de telecomunicações, de multa decorrente de infração da


ordem econômica, observará os limites previstos na legislação especifica.

Art. 180. A suspensão temporária será imposta, em relação à autorização de serviço ou de uso de
radiofreqüência, em caso de infração grave cujas circunstâncias não justifiquem a decretação de
caducidade.

Parágrafo único. O prazo da suspensão não será superior a trinta dias.

Art. 181. A caducidade importará na extinção de concessão, permissão, autorização de serviço ou


autorização de uso de radiofreqüência, nos casos previstos nesta Lei.

Art. 182. A declaração de inidoneidade será aplicada a quem tenha praticado atos ilícitos visando
frustrar os objetivos de licitação.

Parágrafo único. O prazo de vigência da declaração de inidoneidade não será superior a cinco anos.

Capítulo II
243

Das Sanções Penais

Art. 183. Desenvolver clandestinamente atividades de telecomunicação:

Pena - detenção de dois a quatro anos, aumentada da metade se houver dano a terceiro, e multa de
R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, direta ou indiretamente, concorrer para o crime.

Art. 184. São efeitos da condenação penal transitada em julgado:

I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;

II - a perda, em favor da Agência, ressalvado o direito do lesado ou de terceiros de boa-fé, dos bens
empregados na atividade clandestina, sem prejuízo de sua apreensão cautelar.

Parágrafo único. Considera-se clandestina a atividade desenvolvida sem a competente concessão,


permissão ou autorização de serviço, de uso de radiofreqüência e de exploração de satélite.

Art. 185. O crime definido nesta Lei é de ação penal pública, incondicionada, cabendo ao Ministério
Público promovê-la.

LIVRO IV

DA REESTRUTURAÇÃO E DA DESESTATIZAÇÃO

DAS EMPRESAS FEDERAIS DE TELECOMUNICAÇÕES

Art. 186. A reestruturação e a desestatização das empresas federais de telecomunicações têm como
objetivo conduzir ao cumprimento dos deveres constantes do art. 2º desta Lei.

Art. 187. Fica o Poder Executivo autorizado a promover a reestruturação e a desestatização das
seguintes empresas controladas, direta ou indiretamente, pela União, e supervisionadas pelo Ministério
das Comunicações:

I - Telecomunicações Brasileiras S.A. - TELEBRÁS;

II - Empresa Brasileira de Telecomunicações - EMBRATEL;

III - Telecomunicações do Maranhão S.A. - TELMA;

IV - Telecomunicações do Piauí S.A. - TELEPISA;

V - Telecomunicações do Ceará - TELECEARÁ;

VI - Telecomunicações do Rio Grande do Norte S.A. - TELERN;

VII - Telecomunicações da Paraíba S.A. - TELPA;

VIII - Telecomunicações de Pernambuco S.A. - TELPE;


244

IX - Telecomunicações de Alagoas S.A. - TELASA;

X - Telecomunicações de Sergipe S.A. - TELERGIPE;

XI - Telecomunicações da Bahia S.A. - TELEBAHIA;

XII - Telecomunicações de Mato Grosso do Sul S.A. - TELEMS;

XIII - Telecomunicações de Mato Grosso S.A. - TELEMAT;

XIV - Telecomunicações de Goiás S.A. - TELEGOIÁS;

XV - Telecomunicações de Brasília S.A. - TELEBRASÍLIA;

XVI - Telecomunicações de Rondônia S.A. - TELERON;

XVII - Telecomunicações do Acre S.A. - TELEACRE;

XVIII - Telecomunicações de Roraima S.A. - TELAIMA;

XIX - Telecomunicações do Amapá S.A. - TELEAMAPÁ;

XX - Telecomunicações do Amazonas S.A. - TELAMAZON;

XXI - Telecomunicações do Pará S.A. - TELEPARÁ;

XXII - Telecomunicações do Rio de Janeiro S.A. - TELERJ;

XXIII - Telecomunicações de Minas Gerais S.A. - TELEMIG;

XXIV - Telecomunicações do Espírito Santo S.A. - TELEST;

XXV - Telecomunicações de São Paulo S.A. - TELESP;

XXVI - Companhia Telefônica da Borda do Campo - CTBC;

XXVII - Telecomunicações do Paraná S.A. - TELEPAR;

XXVIII - Telecomunicações de Santa Catarina S.A. - TELESC;

XXIX - Companhia Telefônica Melhoramento e Resistência - CTMR.

Parágrafo único. Incluem-se na autorização a que se refere o caput as empresas subsidiárias


exploradoras do serviço móvel celular, constituídas nos termos do art. 5° da Lei n° 9.295, de 19 de julho
de 1996.

Art. 188. A reestruturação e a desestatização deverão compatibilizar as áreas de atuação das


empresas com o plano geral de outorgas, o qual deverá ser previamente editado, na forma do art. 84
desta Lei, bem como observar as restrições, limites ou condições estabelecidas com base no art. 71.
245

Art. 189. Para a reestruturação das empresas enumeradas no art. 187, fica o Poder Executivo
autorizado a adotar as seguintes medidas:

I - cisão, fusão e incorporação;

II - dissolução de sociedade ou desativação parcial de seus empreendimentos;

III - redução de capital social.

Art. 190. Na reestruturação e desestatização da Telecomunicações Brasileiras S.A. - TELEBRÁS


deverão ser previstos mecanismos que assegurem a preservação da capacidade em pesquisa e
desenvolvimento tecnológico existente na empresa.

Parágrafo único. Para o cumprimento do disposto no caput, fica o Poder Executivo autorizado a criar
entidade, que incorporará o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da TELEBRÁS, sob uma das
seguintes formas:

I - empresa estatal de economia mista ou não, inclusive por meio da cisão a que se refere o inciso I
do artigo anterior;

II - fundação governamental, pública ou privada.

Art. 191. A desestatização caracteriza-se pela alienação onerosa de direitos que asseguram à União,
direta ou indiretamente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos
administradores da sociedade, podendo ser realizada mediante o emprego das seguintes modalidades
operacionais:

I - alienação de ações;

II - cessão do direito de preferência à subscrição de ações em aumento de capital.

Parágrafo único. A desestatização não afetará as concessões, permissões e autorizações detidas


pela empresa.

Art. 192. Na desestatização das empresas a que se refere o art. 187, parte das ações poderá ser
reservada a seus empregados e ex-empregados aposentados, a preços e condições privilegiados,
inclusive com a utilização do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço - FGTS.

Art. 193. A desestatização de empresas ou grupo de empresas citadas no art. 187 implicará a
imediata abertura à competição, na respectiva área, dos serviços prestados no regime público.

Art. 194. Poderão ser objeto de alienação conjunta o controle acionário de empresas prestadoras de
serviço telefônico fixo comutado e o de empresas prestadoras do serviço móvel celular.

Parágrafo único. Fica vedado ao novo controlador promover a incorporação ou fusão de empresa
prestadora do serviço telefônico fixo comutado com empresa prestadora do serviço móvel celular.

Art. 195. O modelo de reestruturação e desestatização das empresas enumeradas no art. 187, após
submetido a consulta pública, será aprovado pelo Presidente da República, ficando a coordenação e o
acompanhamento dos atos e procedimentos decorrentes a cargo de Comissão Especial de Supervisão, a
ser instituída pelo Ministro de Estado das Comunicações.
246

§ 1° A execução de procedimentos operacionais necessários à desestatização poderá ser cometida,


mediante contrato, a instituição financeira integrante da Administração Federal, de notória experiência no
assunto.

§ 2° A remuneração da contratada será paga com parte do valor líquido apurado nas alienações.

Art. 196. Na reestruturação e na desestatização poderão ser utilizados serviços especializados de


terceiros, contratados mediante procedimento licitatório de rito próprio, nos termos seguintes:

I - o Ministério das Comunicações manterá cadastro organizado por especialidade, aberto a


empresas e instituições nacionais ou internacionais, de notória especialização na área de
telecomunicações e na avaliação e auditoria de empresas, no planejamento e execução de venda de
bens e valores mobiliários e nas questões jurídicas relacionadas;

II - para inscrição no cadastro, os interessados deverão atender aos requisitos definidos pela
Comissão Especial de Supervisão, com a aprovação do Ministro de Estado das Comunicações;

III - poderão participar das licitações apenas os cadastrados, que serão convocados mediante carta,
com a especificação dos serviços objeto do certame;

IV - os convocados, isoladamente ou em consórcio, apresentarão suas propostas em trinta dias,


contados da convocação;

V - além de outros requisitos previstos na convocação, as propostas deverão conter o detalhamento


dos serviços, a metodologia de execução, a indicação do pessoal técnico a ser empregado e o preço
pretendido;

VI - o julgamento das propostas será realizado pelo critério de técnica e preço;

VII - o contratado, sob sua exclusiva responsabilidade e com a aprovação do contratante, poderá
subcontratar parcialmente os serviços objeto do contrato;

VIII - o contratado será obrigado a aceitar, nas mesmas condições contratuais, os acréscimos ou
reduções que se fizerem necessários nos serviços, de até vinte e cinco por cento do valor inicial do
ajuste.

Art. 197. O processo especial de desestatização obedecerá aos princípios de legalidade,


impessoalidade, moralidade e publicidade, podendo adotar a forma de leilão ou concorrência ou, ainda,
de venda de ações em oferta pública, de acordo com o estabelecido pela Comissão Especial de
Supervisão.

Parágrafo único. O processo poderá comportar uma etapa de pré-qualificação, ficando restrita aos
qualificados a participação em etapas subseqüentes.

Art. 198. O processo especial de desestatização será iniciado com a publicação, no Diário Oficial da
União e em jornais de grande circulação nacional, de avisos referentes ao edital, do qual constarão,
obrigatoriamente:

I - as condições para qualificação dos pretendentes;

II - as condições para aceitação das propostas;

III - os critérios de julgamento;


247

IV - minuta do contrato de concessão;

V - informações relativas às empresas objeto do processo, tais como seu passivo de curto e longo
prazo e sua situação econômica e financeira, especificando-se lucros, prejuízos e endividamento interno
e externo, no último exercício;

VI - sumário dos estudos de avaliação;

VII - critério de fixação do valor mínimo de alienação, com base nos estudos de avaliação;

VIII - indicação, se for o caso, de que será criada, no capital social da empresa objeto da
desestatização, ação de classe especial, a ser subscrita pela União, e dos poderes especiais que lhe
serão conferidos, os quais deverão ser incorporados ao estatuto social.

§ 1° O acesso à integralidade dos estudos de avaliação e a outras informações confidenciais poderá


ser restrito aos qualificados, que assumirão compromisso de confidencialidade.

§ 2° A alienação do controle acionário, se realizada mediante venda de ações em oferta pública,


dispensará a inclusão, no edital, das informações relacionadas nos incisos I a III deste artigo.

Art. 199. Visando à universalização dos serviços de telecomunicações, os editais de desestatização


deverão conter cláusulas de compromisso de expansão do atendimento à população, consoantes com o
disposto no art. 80.

Art. 200. Para qualificação, será exigida dos pretendentes comprovação de capacidade técnica,
econômica e financeira, podendo ainda haver exigências quanto a experiência na prestação de serviços
de telecomunicações, guardada sempre a necessária compatibilidade com o porte das empresas objeto
do processo.

Parágrafo único. Será admitida a participação de consórcios, nos termos do edital.

Art. 201. Fica vedada, no decurso do processo de desestatização, a aquisição, por um mesmo
acionista ou grupo de acionistas, do controle, direto ou indireto, de empresas atuantes em áreas distintas
do plano geral de outorgas.

Art. 202. A transferência do controle acionário ou da concessão, após a desestatização, somente


poderá efetuar-se quando transcorrido o prazo de cinco anos, observado o disposto nos incisos II e III do
art. 98 desta Lei.

§ 1° Vencido o prazo referido no caput, a transferência de controle ou de concessão que resulte no


controle, direto ou indireto, por um mesmo acionista ou grupo de acionistas, de concessionárias atuantes
em áreas distintas do plano geral de outorgas, não poderá ser efetuada enquanto tal impedimento for
considerado, pela Agência, necessário ao cumprimento do plano.

§ 2° A restrição à transferência da concessão não se aplica quando efetuada entre empresas


atuantes em uma mesma área do plano geral de outorgas.

Art. 203. Os preços de aquisição serão pagos exclusivamente em moeda corrente, admitido o
parcelamento, nos termos do edital.

Art. 204. Em até trinta dias após o encerramento de cada processo de desestatização, a Comissão
Especial de Supervisão publicará relatório circunstanciado a respeito.
248

Art. 205. Entre as obrigações da instituição financeira contratada para a execução de atos e
procedimentos da desestatização, poderá ser incluído o fornecimento de assistência jurídica integral aos
membros da Comissão Especial de Supervisão e aos demais responsáveis pela condução da
desestatização, na hipótese de serem demandados pela prática de atos decorrentes do exercício de suas
funções.

Art. 206. Os administradores das empresas sujeitas à desestatização são responsáveis pelo
fornecimento, no prazo fixado pela Comissão Especial de Supervisão ou pela instituição financeira
contratada, das informações necessárias à instrução dos respectivos processos.

DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS

Art. 207. No prazo máximo de sessenta dias a contar da publicação desta Lei, as atuais prestadoras
do serviço telefônico fixo comutado destinado ao uso do público em geral, inclusive as referidas no art.
187 desta Lei, bem como do serviço dos troncos e suas conexões internacionais, deverão pleitear a
celebração de contrato de concessão, que será efetivada em até vinte e quatro meses a contar da
publicação desta Lei.

§ 1° A concessão, cujo objeto será determinado em função do plano geral de outorgas, será feita a
título gratuito, com termo final fixado para o dia 31 de dezembro de 2005, assegurado o direito à
prorrogação única por vinte anos, a título oneroso, desde que observado o disposto no Título II do Livro
III desta Lei.

§ 2° À prestadora que não atender ao disposto no caput deste artigo aplicar-se-ão as seguintes
disposições:

I - se concessionária, continuará sujeita ao contrato de concessão atualmente em vigor, o qual não


poderá ser transferido ou prorrogado;

II - se não for concessionária, o seu direito à exploração do serviço extinguir-se-á em 31 de


dezembro de 1999.

§ 3° Em relação aos demais serviços prestados pelas entidades a que se refere o caput, serão
expedidas as respectivas autorizações ou, se for o caso, concessões, observado o disposto neste artigo,
no que couber, e no art. 208 desta Lei.

Art. 208. As concessões das empresas prestadoras de serviço móvel celular abrangidas pelo art. 4º
da Lei nº 9.295, de 19 de julho de 1996, serão outorgadas na forma e condições determinadas pelo
referido artigo e seu parágrafo único.

Art. 209. Ficam autorizadas as transferências de concessão, parciais ou totais, que forem
necessárias para compatibilizar as áreas de atuação das atuais prestadoras com o plano geral de
outorgas.

Art. 210. As concessões, permissões e autorizações de serviço de telecomunicações e de uso de


radiofreqüência e as respectivas licitações regem-se exclusivamente por esta Lei, a elas não se
aplicando as Leis n° 8.666, de 21 de junho de 1993, n° 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, n° 9.074, de 7
de julho de l995, e suas alterações.

Art. 211. A outorga dos serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens fica excluída da
jurisdição da Agência, permanecendo no âmbito de competências do Poder Executivo, devendo a
Agência elaborar e manter os respectivos planos de distribuição de canais, levando em conta, inclusive,
os aspectos concernentes à evolução tecnológica.
249

Parágrafo único. Caberá à Agência a fiscalização, quanto aos aspectos técnicos, das respectivas
estações.

Art. 212. O serviço de TV a Cabo, inclusive quanto aos atos, condições e procedimentos de outorga,
continuará regido pela Lei n° 8.977, de 6 de janeiro de 1995, ficando transferidas à Agência as
competências atribuídas pela referida Lei ao Poder Executivo.

Art. 213. Será livre a qualquer interessado a divulgação, por qualquer meio, de listas de assinantes
do serviço telefônico fixo comutado destinado ao uso do público em geral.

§ 1º Observado o disposto nos incisos VI e IX do art. 3° desta Lei, as prestadoras do serviço serão
obrigadas a fornecer, em prazos e a preços razoáveis e de forma não discriminatória, a relação de seus
assinantes a quem queira divulgá-la.

§ 2º É obrigatório e gratuito o fornecimento, pela prestadora, de listas telefônicas aos assinantes dos
serviços, diretamente ou por meio de terceiros, nos termos em que dispuser a Agência.

Art. 214. Na aplicação desta Lei, serão observadas as seguintes disposições:

I - os regulamentos, normas e demais regras em vigor serão gradativamente substituídos por


regulamentação a ser editada pela Agência, em cumprimento a esta Lei;

II - enquanto não for editada a nova regulamentação, as concessões, permissões e autorizações


continuarão regidas pelos atuais regulamentos, normas e regras; (vide Decreto nº 3.896, de 23.8.2001)

III - até a edição da regulamentação decorrente desta Lei, continuarão regidos pela Lei nº 9.295, de
19 de julho de 1996, os serviços por ela disciplinados e os respectivos atos e procedimentos de outorga;

IV - as concessões, permissões e autorizações feitas anteriormente a esta Lei, não reguladas no seu
art. 207, permanecerão válidas pelos prazos nelas previstos;

V - com a aquiescência do interessado, poderá ser realizada a adaptação dos instrumentos de


concessão, permissão e autorização a que se referem os incisos III e IV deste artigo aos preceitos desta
Lei;

VI - a renovação ou prorrogação, quando prevista nos atos a que se referem os incisos III e IV deste
artigo, somente poderá ser feita quando tiver havido a adaptação prevista no inciso anterior.

Art. 215. Ficam revogados:

I - a Lei n° 4.117, de 27 de agosto de 1962, salvo quanto a matéria penal não tratada nesta Lei e
quanto aos preceitos relativos à radiodifusão;

II - a Lei n°. 6.874, de 3 de dezembro de 1980;

III - a Lei n°. 8.367, de 30 de dezembro de 1991;

IV - os arts. 1°, 2°, 3°, 7°, 9°, 10, 12 e 14, bem como o caput e os §§ 1° e 4° do art. 8°, da Lei n°
9.295, de 19 de julho de 1996;

V - o inciso I do art. 16 da Lei nº 8.029, de 12 de abril de 1990.


250

Art. 216. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 16 de julho de 1997; 176º da Independência e 109º da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO


Iris Resende
Antonio Kandir
Sergio Motta
Cláudia Maria Costin
251

ANEXO 2: PROJETO DE LEI 4.330/2004

Dispõe sobre o contrato de prestação de serviço


a terceiros e as relações de trabalho dele
decorrentes.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Esta Lei regula o contrato de prestação de serviço e as relações de trabalho dele decorrentes,
quando o prestador for sociedade empresária que contrate empregados ou subcontrate outra empresa
para a execução do serviço.

Parágrafo único. Aplica-se subsidiariamente ao contrato de que trata esta Lei o disposto no Código Civil,
em especial os arts. 421 a 480 e 593 a 609.

Art. 2º Empresa prestadora de serviços a terceiros é a sociedade empresária destinada a prestar à


contratante serviços determinados e específicos.

§ 1º A empresa prestadora de serviços contrata e remunera o trabalho realizado por seus empregados,
ou subcontrata outra empresa para realização desses serviços.

§ 2º Não se configura vínculo empregatício entre a empresa contratante e os trabalhadores ou sócios das
empresas prestadoras de serviços, qualquer que seja o seu ramo.

Art. 3º São requisitos para o funcionamento da empresa de prestação de serviços a terceiros:

I – prova de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ);

II – registro na Junta Comercial;

III – capital social compatível com o número de empregados, observando-se os seguintes parâmetros:

a) empresas com até dez empregados: capital mínimo de R$ 10.000,00 (dez mil reais);

b) empresas com mais de dez e até vinte empregados: capital mínimo de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil
reais);

c) empresas com mais de vinte e até cinqüenta empregados: capital mínimo de R$ 45.000,00 (quarenta e
cinco mil reais);

d) empresas com mais de cinqüenta e até cem empregados: capital mínimo de R$ 100.000,00 (cem mil
reais); e
252

e) empresas com mais de cem empregados: capital mínimo de R$ 250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil
reais).

§ 1º Convenção ou acordo coletivo de trabalho podem exigir a imobilização do capital social em até
cinqüenta por cento dos valores previstos no inciso III deste artigo.

§ 2º O valor do capital social de que trata o inciso III deste artigo será reajustado:

I – no mês de publicação desta lei, pela variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao
Consumidor (INPC), da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), verificada de
novembro de 2004, inclusive, ao mês imediatamente anterior ao do início de vigência desta lei;

II – anualmente, a partir do ano subseqüente ao do reajuste mencionado no inciso anterior, no mês


correspondente ao da publicação desta lei, pela variação acumulada do INPC nos doze meses
imediatamente anteriores.

Art. 4º Contratante é a pessoa física ou jurídica que celebra contrato de prestação de serviços
determinados e específicos com empresa prestadora de serviços a terceiros.

§ 1º É vedada à contratante a utilização dos trabalhadores em atividades distintas daquelas que foram
objeto do contrato com a empresa prestadora de serviços.

§ 2º O contrato de prestação de serviços pode versar sobre o desenvolvimento de atividades inerentes,


acessórias ou complementares à atividade econômica da contratante.

Art. 5º São permitidas sucessivas contratações do trabalhador por diferentes empresas prestadoras de
serviços a terceiros, que prestem serviços à mesma contratante de forma consecutiva.

Art. 6º Os serviços contratados podem ser executados no estabelecimento da empresa contratante ou em


outro local, de comum acordo entre as partes.

Art. 7º É responsabilidade da contratante garantir as condições de segurança e saúde dos trabalhadores,


enquanto estes estiverem a seu serviço e em suas dependências, ou em local por ela designado.

Art. 8º Quando o empregado for encarregado de serviço para o qual seja necessário treinamento
específico, a contratante deverá:

I – exigir da empresa prestadora de serviços a terceiros certificado de capacitação do trabalhador para a


execução do serviço; ou

II – fornecer o treinamento adequado, somente após o qual poderá ser o trabalhador colocado em
serviço.

Art. 9º A contratante pode estender ao trabalhador da empresa de prestação de serviços a terceiros


benefícios oferecidos aos seus empregados, tais como atendimento médico, ambulatorial e de refeição
destinado aos seus empregados, existentes nas dependências da contratante ou local por ela designado.
253

Art. 10. A empresa contratante é subsidiariamente responsável pelas obrigações trabalhistas referentes
ao período em que ocorrer a prestação de serviços, ficando-lhe ressalvada ação regressiva contra a
devedora.

Parágrafo único. Na ação regressiva de que trata o caput, além do ressarcimento do valor pago ao
trabalhador e das despesas processuais, acrescidos de juros e correção monetária, é devida indenização
em valor equivalente à importância paga ao trabalhador.

Art. 11. A empresa prestadora de serviços a terceiros, que subcontratar outra empresa para a execução
do serviço, é solidariamente responsável pelas obrigações trabalhistas assumidas pela empresa
subcontratada.

Art. 12. Nos contratos de prestação de serviços a terceiros em que a contratante for a Administração
Pública, a responsabilidade pelos encargos trabalhistas é regulada pelo art. 71 da Lei nº 8.666, de 21 de
junho de 1993.

Art. 13. O recolhimento das contribuições previdenciárias relativas aos trabalhadores contratados para a
prestação de serviços a terceiros observa o disposto no art. 31 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991.

Art. 14. O contrato de prestação de serviços a terceiros deve conter, além das cláusulas inerentes a
qualquer contrato:

I – a especificação do serviço a ser prestado;

II – o prazo para realização do serviço, quando for o caso;

III – a obrigatoriedade de apresentação periódica, pela empresa prestadora de serviços a terceiros, dos
comprovantes de cumprimento das obrigações trabalhistas pelas quais a contratante é subsidiariamente
responsável.

Art. 15. O recolhimento da contribuição sindical prevista nos arts. 578 e seguintes da Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT) deve ser feito ao sindicato representante da categoria profissional correspondente
à atividade exercida pelo trabalhador na empresa contratante.

§ 1º A contribuição sindical devida pelo trabalhador de empresa de prestação de serviços a terceiros,


contratado para o cumprimento do contrato de que trata esta Lei, é proporcional ao período em que foi
colocado à disposição da empresa contratante e consiste na importância correspondente a um doze avos
da remuneração de um dia de trabalho por mês de serviço ou fração superior a quatorze dias.

§ 2º Não é devida a contribuição pelo trabalhador se este já houver pago, no mesmo ano, a título de
contribuição sindical, importância correspondente à remuneração de um dia de trabalho, nos termos do
art. 582 da CLT.

Art. 16. O disposto nesta Lei não se aplica:


254

I – à prestação de serviços de natureza doméstica, assim entendida aquela fornecida à pessoa física ou
à família no âmbito residencial destas;

II – às empresas de vigilância e transporte de valores, permanecendo as respectivas relações de trabalho


reguladas por legislação especial.

Art. 17. O descumprimento do disposto nesta Lei sujeita a empresa infratora ao pagamento de multa
administrativa de R$ 500,00 (quinhentos reais) por trabalhador prejudicado, salvo se já houver previsão
legal de multa específica para a infração verificada.

§ 1º A fiscalização, a autuação e o processo de imposição de multas reger-se-ão pelo Título VII da CLT.

§ 2º As partes ficam anistiadas das penalidades não compatíveis com esta Lei, impostas com base na
legislação anterior.

Art. 18. Os contratos em vigência serão adequados aos termos desta Lei no prazo de cento e vinte dias a
partir da vigência.

Art. 19. Esta Lei entra em vigor trinta dias após a publicação.

JUSTIFICAÇÃO

O mundo assistiu, nos últimos 20 anos, a uma verdadeira revolução na organização da produção.
Como conseqüência, observamos também profundas reformulações na organização do trabalho. Novas
formas de contratação foram adotadas para atender à nova empresa.

Nesse contexto, a terceirização é uma das técnicas de administração do trabalho que têm maior
crescimento, tendo em vista a necessidade que a empresa moderna tem de concentrar-se em seu
negócio principal e na melhoria da qualidade do produto ou da prestação de serviço.

No Brasil, a legislação foi verdadeiramente atropelada pela realidade. Ao tentar, de maneira


míope, proteger os trabalhadores simplesmente ignorando a terceirização, conseguiu apenas deixar mais
vulneráveis os brasileiros que trabalham sob essa modalidade de contratação.

As relações de trabalho na prestação de serviços a terceiros reclamam urgente intervenção


legislativa, no sentido de definir as responsabilidades do tomador e do prestador de serviços e, assim,
garantir os direitos dos trabalhadores.

A presente proposição tem origem no Projeto de Lei nº 4.302, de 1998, que após mais de cinco
anos de tramitação, teve a retirada solicitada pelo Poder Executivo. Ressalta-se que durante a tramitação
do Projeto de Lei do Executivo, que também alterava a lei do trabalho temporário, travaramse longos e
frutíferos debates sobre o tema, tanto nesta Casa quanto no Senado Federal, que muito enriqueceram a
proposta original.
255

O Projeto de Lei que ora apresentamos exclui os dispositivos que tratavam do trabalho
temporário, limitando-se à prestação de serviços a terceiros, e incorpora as contribuições oferecidas por
todos os que participaram dos debates do Projeto de Lei nº 4.302, de 1998.

A nossa proposição regula o contrato de prestação de serviço e as relações de trabalho dele


decorrentes. O prestador de serviços que se submete à norma é, portanto, a sociedade empresária,
conforme a nomenclatura do novo Código Civil, que contrata empregados ou subcontrata outra empresa
para a prestação de serviços.

Deve ser destacada a definição da empresa prestadora de serviços como aquela que presta
serviços determinados e específicos para a empresa contratante. É a prestadora responsável pela
contratação, remuneração e direção do trabalho de seus empregados, podendo, ainda, subcontratar
outras empresas para realizar os serviços contratados.

Não há, obviamente, vínculo empregatício entre a tomadora de serviços e os trabalhadores


contratados pela prestadora ou seus sócios.

São estabelecidos requisitos para o funcionamento das empresas prestadoras de serviço que
visam a garantir o adimplemento das obrigações trabalhistas e previdenciárias. O capital social mínimo
estipulado em função do número de empregados é um exemplo.

É prevista, ainda, a possibilidade de ser exigida a imobilização de até 50% do capital social da
prestadora de serviços mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

A nossa proposição define também a figura do contratante que pode ser pessoa física ou jurídica.
A inclusão de pessoa física justifica-se pela necessidade de permitir a contratação de prestadoras de
serviço por profissionais liberais.

Vários dispositivos estipulam limitações contratuais que protegem o trabalhador, como a vedação
de sua utilização, pela empresa contratante, em atividades diversas das estipuladas em contrato com a
empresa prestadora de serviços.

O objeto da contratação deve ser especificado. É, no entanto, amplo, podendo versar sobre
atividades inerentes, acessórias ou complementares à atividade econômica da contratante.

Uma das situações que muito nos preocupou foi a possibilidade de um trabalhador continuar
prestando serviços a uma empresa contratante, ainda que se sucedam várias empresas prestadoras de
serviço. Optamos por abordar o tema no art. 5º, permitindo a continuidade do trabalho para a mesma
empresa contratante.

A empresa contratante é diretamente responsável pelas condições de segurança e saúde do


ambiente de trabalho.
256

Além disso, caso seja necessário treinamento específico para a realização do trabalho, a
empresa contratante pode exigir da prestadora o certificado de capacitação do trabalhador ou pode
fornecer o treinamento adequado.

Uma das maiores críticas que se faz à terceirização é a precarização das relações de trabalho
dela decorrentes, apresentando altos índices de acidentes do trabalho. Atribuir a responsabilidade à
contratante por esse aspecto ligado às condições de trabalho representa uma garantia ao trabalhador e,
certamente, contribui para a melhoria do ambiente laboral.

É prevista a responsabilidade subsidiária da contratante quanto às obrigações trabalhistas,


sendo-lhe assegurado, obviamente, o direito de ação regressiva contra a prestadora de serviços /
devedora.

O projeto inova ao assegurar mediante a ação regressiva, além do ressarcimento dos valores
pagos pela contratante, o pagamento de uma indenização equivalente ao valor pago ao trabalhador.

Há, ainda, previsão de responsabilidade solidária quanto às obrigações trabalhistas pela empresa
prestadora de serviços que subcontratar outra empresa.

No caso de contratação com a Administração Pública, o projeto remete à Lei nº 8.666, de 21 de


junho de 1993, que “regulamenta o artigo 37, inciso XXI, da Constituição Federal, institui normas para
licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências”.

Isso significa que a Administração Pública é solidariamente responsável quanto aos encargos
previdenciários, mas não quanto às dívidas trabalhistas.

O contrato de prestação de serviços deve conter a especificação do serviço a ser prestado e o


prazo para a sua realização. Deve, além disso, prever a apresentação periódica, pela empresa
prestadora de serviços, dos comprovantes de cumprimento das obrigações trabalhistas, o que
possibilitará a fiscalização por parte da empresa contratante.

Outro aspecto relevante da proposição é que o recolhimento da contribuição sindical compulsória


deve ser feito à entidade representante da categoria profissional correspondente à atividade terceirizada.
Aumenta-se, dessa forma, o poder de negociação com as entidades patronais, bem como é favorecida a
fiscalização quanto à utilização correta da prestação de serviços.

São excluídas da aplicação da lei as atividades de empregado doméstico, e ainda as atividades


de vigilância e transporte de valores, que já possuem legislação específica.

É estabelecida multa administrativa de R$ 500,00 (quinhentos reais) por trabalhador prejudicado


em caso de descumprimento da norma.

É concedida anistia aos débitos, penalidades e multas impostas com base em normas não
compatíveis com a lei.
257

A proposição concede prazo de cento e vinte dias para a adequação dos contratos vigentes aos
termos da nova lei, sendo que a vigência ocorrerá trinta dias após a publicação.

Tal prazo, acreditamos, é suficiente para que as partes interessadas tenham ciência das
alterações e adeqüem seus contratos.

Destacamos, ainda, que a proposição é fruto de discussão com vários segmentos da sociedade.
Tal discussão não está encerrada. Deve, outrossim, ser ampliada, a fim de aprimorar o texto da norma.
Colocamo-nos, desde já, à disposição daqueles que queiram contribuir para a regulação dessa matéria,
tão relevante para as relações de trabalho no Brasil.

Por considerarmos de alta relevância a regulamentação da terceirização, rogamos aos nobres


Colegas pela aprovação deste Projeto de Lei.

Deputado Sandro Mabel