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OS PAPÉIS SOCIAIS E A MORALIDADE 1

César Romero Fagundes de Souza * e-mail: caesarsouza@gmail.com

Resumo: Nesta exposição, através da análise do comportamento de indivíduos colocados em diferentes situações, procurarei apresentar o fundamento moral da nossa conduta no modus operandi dos diversos papéis em que nos encontramos inseridos e que devemos desempenhar em nossa vida social. Para este fim, explorarei a seguinte tese: 'o convívio social, que exige a existência de regras morais que o regulem, investe o indivíduo, em determinados papéis que este tem de desempenhar em conformidade com regras definidas por estes papéis. E ao assim proceder, exercitando-se em tais papéis de acordo com tais regras, dá um sentido à sua vida. Pois, assim como as regras permitem ao indivíduo, que optou por determinados papéis sociais, agir de acordo com as regras intrínsecas a estes papéis, o assumir determinados papéis sociais permite ao indivíduo agir em conformidade a eles. Ou seja, ao aderir a uma forma de vida determinada o indivíduo pode conduzir sua ação conforme os princípios que regem esta 'forma de vida'. A idéia que quero explicitar aqui é que não são as regras, tomadas isoladamente, que permitem os indivíduos conduzirem suas vidas uns em relação aos outros, porém, estas regras associadas aos diferentes modos de vida na sociedade, aos diferentes papéis sociais, é que permitem com que os indivíduos dêem unidade às suas vidas.

Os indivíduos, tanto nas suas relações privadas como nas suas relações públicas investidos em cargos ou funções, encontram-se em constante interação. Isso significa que, não importando o contexto em que esteja inserido, seja na família ou com os amigos, seja com o eleitorado ou com o público, seja inclusive com relação ao bem privado ou público, o indivíduo se relaciona com outro

indivíduo (ou com o que lhe pertence), e, portanto, ao agir, deve sempre levar em conta este 'outro'. Ao analisarmos as condutas dos indivíduos dentro dos diversos contextos da atividade humana na sociedade, podemos considerá-las segundo uma das duas clássicas posições filosóficas

da

moralidade: a primeira enfatiza, na ação, os princípios eleitos para executá-la, ou seja, se estão

de

acordo com uma regra geral que leve em consideração os indivíduos envolvidos por ela; e a

segunda enfatiza, na ação, as suas conseqüências ''submetendo os princípios aos fins'', conforme

Kant 2 , pois esta posição está interessada na quantidade de indivíduos que podem ser beneficiados pelas conseqüências de uma ação. A primeira posição deriva, principalmente, do princípio formal

da doutrina moral de Kant o 'imperativo categórico', que diz: ''age de tal maneira que possas

querer que tua máxima se torne uma lei universal (qualquer que seja a finalidade desejada por ti)'' 3 .

A segunda posição deriva da doutrina Utilitarista de Bentham e de Mill, também chamada,

atualmente, de conseqüencialista, e tem por princípio fundamental a 'maximização do bem' 4 .

1 Trabalho escrito em 1994. * Doutorando em Filosofia, PUCRS.

2 Kant,I., Textos Seletos: ''Sobre a Discordância entre a Moral e a Política a Propósito da Paz Perpétua'', Vozes, RJ, 1985.

3 Ibid., p.144.

4 Conforme Jeremy Bentham, em Princípios da Moral e da Legislação, ''Por princípio de utilidade entende- se aquele princípio que aprova ou desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo, ou, o que é a mesma coisa em outros termos, segundo a tendência a promover ou a comprometer a referida felicidade.'' Cap.I, p.4. Ed. Os Pensadores, SP, Abril. Para J.S.Mill, em O Utilitarismo, ''aqueles que aceitam como fundamento da moral utilitária o

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Mas, independentemente destas posições, existem regras ou tipos de 'proibições', ''características de

moralidades familiares'', conforme Hampshire 5 , que estão na base de todas as relações em qualquer

sociedade. Para Hampshire, uma noção de moralidade ''

barreiras contra o assassinato, contra algumas variedades de relações sexuais e familiares, contra algumas formas de processo e punição, alguns roubos de propriedade e contra algumas distribuições de recompensas e benefícios'' 6 . Tomemos uma situação descrita pelo filme ''The saint of Fort Washington'' 7 , na qual um rapaz, que se encontra recentemente numa situação absoluta de indigência, é conduzido por policiais a um abrigo noturno. Quando este rapaz chega pela primeira vez ao abrigo, desconhecendo totalmente as regras que possam existir ali, infringe uma dessas regras, ao distribuir cigarros sem cobrar. Dois indivíduos, que ali representariam o ('papel' do) 'poder', digamos assim, avisam-no de que cometeu uma infração e que por isso será punido, pois seu ato pode gerar desordem. Ao ser submetido por estes indivíduos à punição, é protegido por um freqüentador mais antigo do abrigo, numa atitude solidária, pois este vê que o rapaz é ''novo'' ali e que desconhece as regras. Com exceção dos próprios policiais, todos ali, de um modo geral, se encontram excluídos das possibilidades de inserção em papéis sociais, por não participarem de nenhum processo produtivo reconhecido pela sociedade. Por esta razão poderíamos pensar que estes indivíduos estariam também totalmente isentos de observar regras em suas condutas, nesse lugar, além das que são impostas pela própria institução que os amparou o Estado. Porém, ao contrário, vemos no filme que, mesmo ali onde aparentemente inexistem as condições fundamentais para a expressão das relações individuais, elementos como a amizade, solidariedade, algumas formas de relação reguladas por regras estão presentes e são aceitas, obedecidas, praticadas e divulgadas por todos, a fim de minimizarem a dor e preservarem a vida. Nesta exposição, através da análise do comportamento de indivíduos colocados em diferentes situações, procurarei apresentar o fundamento moral da nossa conduta no modus operandi dos diversos papéis em que nos encontramos inseridos e que devemos desempenhar em nossa vida social. Para este fim, explorarei a seguinte tese: 'o convívio social, que exige a existência de regras morais que o regulem, investe o indivíduo, em determinados papéis que este tem de desempenhar em conformidade com regras definidas por estes papéis. E ao assim proceder, exercitando-se em tais papéis de acordo com tais regras, dá um sentido à sua vida. Pois, assim como as regras permitem ao indivíduo, que optou por determinados papéis sociais, agir de acordo com as regras intrínsecas a estes papéis, o assumir determinados papéis sociais permite ao indivíduo agir em conformidade a eles. Ou seja, ao aderir a uma forma de vida determinada o indivíduo pode conduzir sua ação conforme os princípios que regem esta 'forma de vida'. A idéia que quero explicitar aqui é que não são as regras, tomadas isoladamente, que permitem os indivíduos conduzirem suas vidas uns em relação aos outros, porém, estas regras associadas aos diferentes modos de vida na sociedade, aos diferentes papéis sociais, é que permitem com que os

exige que existam algumas fortes

princípio da maior felicidade sustentam que as ações são justas na medida em que tendem a produzir a felicidade, e injustas enquanto tendem a produzir o contrário da felicidade''. (Cap.II). ''A doutrina utilitarista estabelece que que a felicidade é desejável e que é a única coisa desejável como fim; todas as outras coisas somente são desejáveis como meios para esse fim''. MILL, J.S., Utilitarianism. New York: Prometheus Books, 1987. (Tradução Portuguesa: Coimbra Atlântida), Cap.IV.

5 Hampshire, S., Morality and Conflict, Havard University Press, USA, 1983.

6 Ibid., p.87-8.

7 Escrito por Lyle Kessler e dirigido por Tim Hunter, Warner Bros, 1993, título em português: ''Alguém para dividir os sonhos''.

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indivíduos dêem unidade às suas vidas. (Convém salientar que utilizarei freqüentemente aqui a noção de 'papel social' associada à expressão 'modo de vida' ('way of life'), sem precisá-la, de acordo com a utilização de Hampshire 8 , como circunscrevendo o conjunto de disposições e hábitos observados na conduta de um indivíduo o conjunto dos diferentes papéis que ele representa em suas relações nas instituições sociais).

''é uma habilidade por meio da qual alguém age em

relação a outros. É (

os papéis podem

estar mais próximos aos papéis de um jogo moral do que das partes no teatro realístico'' 11 . Sobre este enfoque acerca da noção de 'papel', consideremos duas posições.

Na Poética 12 , Aristóteles em sua análise da estrutura da tragédia, apresenta-a como um tipo de ''poesia imitativa'', que tem por finalidade imitar ''caracteres, afetos e ações''. Basicamente, a tragédia se utiliza de atores (imitadores) para imitarem ''homens que praticam alguma ação''. Conforme Aristóteles, a tragédia é ''imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções'' 13 . ''E como a tragédia

é a imitação de uma ação e se executa mediante personagens que agem e que diversamente se

apresentam, conforme o próprio carácter e pensamento (porque é segundo estas diferenças de

caráter e pensamento que nós qualificamos as ações), daí vem por conseqüência o serem duas as causas naturais que determinam as ações: pensamento e caráter; e, nas ações [assim determinadas], tem origem a boa ou má fortuna dos homens. Ora o mito é imitação de ações; e, por ''mito'', entendo

a composição dos atos; por ''carácter'', o que nos faz dizer das personagens que elas têm tal ou tal

qualidade; e por ''pensamento'', tudo quanto digam as personagens para demonstrar o que quer que seja ou para manifestar sua decisão'' 14 . Hobbes, no Leviatã 15 , se utiliza da noção de representação que no sentido estrito do termo, significa ''estar por''para formular seu conceito de pessoa e autores . Para ele, ''Uma pessoa é aquele cujas palavras ou ações são consideradas quer como suas próprias quer como representando as palavras ou ações de outro homem, ou de qualquer outra coisa a que sejam atribuídas, seja com verdade ou por ficção. Quando elas são consideradas como suas próprias ele se chama uma pessoa natural. Quando são consideradas como representando as palavras e ações de

1. Conforme Dorothy Emmet 9 , um 'papel'

)

uma metáfora do teatro, onde um papel é uma parte assumida por um ator

),

num jogo onde outros assumem outras partes'' 10 . ''No drama da ação social (

A reasonable man

may envisage a way of life, which excludes various kinds of conduct as impossible, without excluding a

great variety of morally tolerable ways of life within this minimum framework.''. Op.cit., p.92.

9 Emmet, D., Rules, Roles and Relations, Beacon Press, Boston, 1975.

a metaphor from the

theatre, where a role is a part assumed by one actor in a play where others assume other parts''. Op.cit.,

pp.13-15.

11 Cf. Emmet: ''In the drama of social action (

to the parts in realistic theatre''. Op.cit., p.140.

the roles may be closer to the roles in a morality play than

8 Cf. Hampshire: ''The phrase 'way of life' is vague, and is chosen for its vagueness. (

)

)

10 Cf. Emmet: ''A role is a capacity in which someone acts in relation to others. It is (

),

12 Aristóteles, Poética, Trad. de Eudoro de Sousa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1986.

13 Ibid., Livro VI, § 27, 1449b, 24, p.110

14 Ibid., Livro VI, § 30, 1449b, 35 / 1450 a, 7, p. 110-11.

15 Hobbes, Leviatã, ed. Os Pensadores, Abril, SP, 1979.

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um outro, chama-se-lhe uma pessoa fictícia ou artificial. A palavra ''pessoa'' é de origem latina. Em lugar dela os gregos tinham prósopon, que significa rosto, tal como em latim persona significa o disfarce ou a aparência exterior de um homem, imitada no palco. E por vezes mais particularmente aquela parte dela que disfarça o rosto, como máscara ou viseira. E do palco a palavra foi transferida para qualquer representante da palavra ou da ação, tanto nos tribunais como nos teatros. De modo que uma pessoa é o mesmo que um ator, tanto no palco como na conversação corrente. E personificar é representar, seja si mesmo ou a outro; e daquele que representa outro diz-se que é

. A posição de Aristóteles quanto à representação (do papel) teatral , na encenação da tragédia por parte dos atores, é bastante compatível com a posição de Hobbes quanto à 'representação (do papel) social', além de nos auxiliar na compreensão desta. Segundo a finalidade da tragédia, que é a de imitar homens superiores ''melhores do que eles ordinariamente são'', a ênfase desta imitação é dada, portanto, nas ações destes homens que os atores imitam, pois, os atores imitam personagens para realizar ações como se fossem eles. E nisto se distinguia um bom ator, para Aristóteles, aquele que era capaz de agir como a pessoa (personagem) que imitava. Portanto, segundo esta concepção, o ator imitava o personagem para executar ações como se fosse ele. Porque, desse modo, poderia revelar da melhor maneira possível o caráter da pessoa que imitava, pois, por intermédio dos atos de uma pessoa, é possível reconhecer seu caráter. Com base nestas posições, podemos formular uma noção de 'papel' como consistindo num conjunto determinado de ações que caracterizam o 'modo de ser' de uma pessoa (um personagem). Portanto, o indivíduo que exerce, ou desempenha, um papel deve agir de tal forma que suas ações caracterizem o seu modo de ser como o daquele a quem pertencem estas ações a pessoa, o personagem, a fim de que possa ser reconhecido como tal, como se fosse aquele que representa. E Hobbes é bastante explícito sobre este ponto, quando afirma que ''uma pessoa é o mesmo que um ator, tanto no palco como na conversação corrente''. Isto quer dizer que uma pessoa, nas suas relações com outras, sempre representa um papel, seja o dela própria seja o de outra pessoa, porque ''personificar é representar''.

portador de sua pessoa, ou que age em seu nome

''

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2. Tomemos um grupo de pessoas compartilhando um determinado contexto físico, uma sala em que esteja sendo proferida uma conferência sobre filosofia moral, por exemplo. Consideremos, agora, cada uma dessas pessoas que se encontram na sala, desejando e imaginando fazer coisas totalmente diferentes daquela que estão fazendo, que é estarem sentadas atentas ao palestrante como, por exemplo, levantarem-se, andarem pela sala e conversarem umas com as outras, e que nesse momento ele olhe para estas pessoas e diga a seguinte frase: ''Senhores, a partir de agora, nada, aqui, é proibido !''. Ao dizer que 'nada é proibido' diz, positivamente, por outro lado, que 'tudo é permitido', pois, se não há nenhum impedimento externo à ação, todo aquele que encontrar condições externas favoráveis para agir pode levar a cabo suas intenções. Num tal contexto, um sem-número de regras pressupostas, que deveriam ser observadas a fim de que o palestrante pudesse apresentar seu tema, tais como: o silêncio, a permanência de cada um dos assistentes em seus respectivos lugares, etc., deixariam de valer, e se as pessoas presentes levassem a sério o seu enunciado, e resolvessem dar vazão às suas intenções ou desejos até então inviáveis, certamente, a palestra estaria encerrada ali. Por quê? Porque as condições objetivas para a execução ordenada da ação do palestrante não estariam mais garantidas, e, caso ele quisesse prosseguir sua exposição, teria, agora, de disputar a atenção

16 Ibid.,cap. XVI, p. 96

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por meio da força. Ou seja, os assistentes estariam desobrigados a fazer silêncio e permanecer em seus lugares. (A situação hipotética que Hobbes formula no Leviatã, ao apresentar as condições em que se faz necessária uma intervenção externa para o retorno à ordem, quando os indivíduos abandonam todas as regras de conduta e passam a ter uns para com os outros uma relação de total desrespeito (o estado de natureza), parece mais adequada para ilustrar o ponto que quero destacar aqui acerca da importância de uma orientação ordenada dos agentes em convívios. Porém, este exemplo que apresentei pretende dar conta de uma distinção mais ''fina'' entre um estado de convívio ausente de regras e outro que as pressuponha. E, na verdade, quer no exemplo que apresentei quer no exemplo de Hobbes, não há propriamente ausência de regra. Ao contrário, em ambos, esta aparece bem claramente: ''tudo é permitido !''). Voltemos à sala da conferência, e pensemos por um momento na situação hipotética gerada pelo enunciado do palestrante, caso os assistentes assentissem ao seu conteúdo. Imaginemos que,

mesmo que as pessoas viessem a fazer o que intentavam andar pela sala, conversar

, e que esses

fossem desejos coincidentes e compartilhados, antes do primeiro deliberar agir, o que haveria como mais característico e relevante na situação seria o total constrangimento destas pessoas, quando de repente se encontrassem sem qualquer referencial para orientar suas ações. Por quê? Porque, se pressupusermos que todos, sem exceção, tinham um motivo (ou objetivo) para estarem ali, qual seja, o de assistirem à conferência, ao defrontarem-se com a si-tuação descrita, viram o quão conflitante este era com seus desejos presentes.

3. Consideremos agora uma situação hipotética das relações afetivas com relação à traição. Como sabemos, o casamento é uma instituição juridicamemente reconhecida. E como em qualquer outra instituição, esta possui regras que regem a conduta dos indivíduos que se unem segundo os preceitos matrimoniais, regras estas que os indivíduos, ao casarem, prometem observar e obedecer. Dentre estas regras há a que proíbe, ao menos no sistema jurídico brasileiro, a qualquer um dos cônjuges ter relações sexuais extra-conjugais 17 . A fidelidade, porém, não se restringe à instituição do casamento, pois a encontramos como fator condicionante em outras modalidades de relação entre os indivíduos, por exemplo, as relações pré-matrimoniais, tais como o namoro e o noivado, e na própria amizade. A única diferença que encontramos entre o namoro e o casamento, quanto à fidelidade, reside na ausência de um contrato firmado, reconhecido por lei, entre as partes. Porém, do mesmo modo, há um pacto na maioria das vezes implícitoentre os envolvidos, que está acima da própria lei, e isto tanto no casamento como em qualquer outra relação que tenha por fundamento do vínculo a confiança recíproca de ambos em manterem-se fiéis um ao outro, seja em relação à vida afetivo-sexual, seja em relação a um projeto no caso da amizade, seja em relação a uma sociedade, etc. Tomemos, dentro deste contexto, três pessoas A, B e X. Duas pessoas, A e B, têm uma relação afetivo-sexual (casamento ou namoro) que está fundada num acordo entre ambos segundo o qual não devem trair. Trair, aqui, é não poder ter, nem A nem B, com nenhuma outra pessoa relações íntimas de afetividade e sexualidade. A pessoa X, ao contrário, não tem com nenhuma pessoa vínculo estável algum, e por esta razão não tem acordado com nenhuma outra uma obrigação de fidelidade afetivo-sexual. Isto significa que X pode relacionar-se afetiva e sexualmente com quem e quando lhe convier, como de fato o faz: X tem uma vida afetivo-sexual instável, ou seja, relaciona-se com N pessoas, e para com elas não tem nenhuma obrigação de ser

17 O Código Civil Brasileiro diz: '' São deveres de ambos os cônjuges: I - Fidelidade recíproca ''[Parte Especial, Liv. 1: 'Do Direito de Família', Título II: 'Dos Efeitos Jurídicos do Casamento', cap. I, nas Disposições Gerais, Art. 231.]:

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fiel, i.é., não está impedida de relacionar-se com Z no domingo, por ter relacionado-se com Y no sábado.

A fidelidade conjugal, ou pré-conjugal, pode ser vista aqui de vários modos. Suponhamos que estejam dadas as condições 'subjetivas' e 'objetivas' o desejo ou necessidade, e a possibilidade concretade B trair A com X. Conforme o modo como B concebe sua relação com A, B não trai A com X: ou porque reconhece que é seu dever manter-se fiel a A; ou porque, caso seja descoberto em sua traição, não quer ser mal visto por outrem nem ser julgado como infiel ou traidor, pois isso comprometeria a unidade de sentido de sua vida, do seu modo de vida; ou porque a regra que estabeleceu como fundamento de seu vínculo com A é exatamente ''não trair'' e, caso quisesse manter paralelamente vínculos semelhantes com mais de uma pessoa não teria estabelecido com A um vínculo específico fundado numa regra que o impede de ter outros sob a mesma modalidade de relação, senão A; ou porque não gostaria de ser traído por A com N (posição kantiana); ou, após um cálculo de conseqüências: B trai A com X se esta sua ação proporcionar um bem a si e a X, e não causar dano a A, i.é., se não for descoberto; ou B não trai A com X se, ao contrário, esta sua ação causar um dano a si e a A, caso seja descoberto, mesmo que a X proporcione um bem (posição conseqüencialista ou utilitarista) 18 . (Podemos, ainda, conceber uma relação específica entre indivíduos, tal como o casamento, por exemplo, na qual o modo com que ambos desempenham seus papéis dá o sentido dessa relação e a distingue de outras de outro tipo, como um jogo. E um jogo, no sentido em que o termo é empregado por Wittgenstein 19 , deve ser ''jogado de acordo com uma regra determinada'' 20 . Ora, a regra, nesse contexto, tem a finalidade de expressar a forma do jogo, ela dá o modo como ele deve ser jogado. E nesse caso, o comportamento dos jogadores deve evidenciar traços que permitam identificar as regras do jogo pelo modo como é jogado. Disso se segue que, sem saber as regras, não é possível jogar; e que o jogo só atinge sua finalidade, ou toma sua forma, se for jogado de acordo com suas regras).

4. Se nos for permitido considerar a estrutura de todas as modalidades possíveis de relações sociais como análoga às das aqui analisadas, poderemos então inferir que, em qualquer modalidade de relação, em que o indivíduo esteja inserido na sociedade, ele desempenha um papel, e, por esta razão, ele se encontra moralmente resguardado de um sem-número de opções que se imporiam a ele, caso não se encontrasse subsumido, naquele momento, num papel mas isto somente se ele aceitar jogar conforme as regras, i.é, representar o papel tal como deve ser representado, a fim de manter a unidade de seu personagem, que muitas vezes pode coincidir com a unidade do sentido de

18 Cf. Emmet: ''Here we are concerned with the character of role morality. As a directive for behaviour in certain kinds of relationship, it is structured by rules; if not by explicit and sanctioned rules, at least by implicit understandings, and maxims, or rules of thumb, as to how such a person would behave in this kind of relationship''. Op.cit., p.158.

19 Wittgenstein, L., Investigações filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987.

20 ''Mas pensemos no entanto em que casos é q dizemos que um jogo é jogado de acordo com uma regra determinada. A regra pode ajudar a ensinar o jogo. É transmitida à pessoa que aprende e que se exercita na sua aplicação. - Ou é uma ferramenta do próprio jogo. - Ou: uma regra nem é empregue para ensinar nem para jogar; nem consta de um canon das regras. Aprende-se o jogo vendo como é q outros o jogam. Mas diz- se que é jogado de acordo com tais e tais regras, porque um observador pode inferir estas regras a partir da meneira como o jogo é jogado - como uma lei da natureza que reja os movimentos do jogo. - Mas neste caso, como é q o observador distingue entre um erro dos jogadores e uma jogada correcta? Para isso há sinais no comportamento dos jogadores. Pensa no comportamento cartacterístico de uma pessoa que corrige um lapso de língua. Seria posível reconhecer que era isso o que ela estava a fazer, mesmo sem compreender a sua língua.'' Ibid., § 54, p.218.

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sua própria vida. O caso dos participantes da palestra que, liberados da sua condição de espectadores, não sabiam como agir; o caso da pessoa casada que, mediante uma oportunidade real para realizar a ação que a levaria a trair seu cônjuge, poderia simplesmente negar-se a agir nesse sentido por encontrar-se ''protegida'' da necessidade de decidir, pois seu papel, ou posição, de

'casada' decidiria por ela; o caso da pessoa sem vínculo afetivo-sexual estável, cujo papel permitiria, e inclusive pressuporia, que ela se relacionasse paralelamente com várias pessoas segundo este tipo de vínculo - se em dado momento de sua conduta passasse a ter uma relacão estável com uma só pessoa, com certeza estaria inevitavelmente assumindo outro papel, uma vez que, por meio de sua atual conduta seria reconhecida na representação de um papel das relações pré-matrimonias, por exemplo. Esta inserção em papéis, que, por um lado, impõe ao indivíduo obrigações que ele contrai ao assumi-los, e, por outro, o libera de outras que teria fora deles, o desonera de fazer certas escolhas que seriam conflitantes com os deveres intrínsecos ao papel em que se encontra inserido, pois este, por assim dizer, ''escolhe'' por ele. A existência de regras que obrigam a ações ou posturas ou condutasem convívios com outrem tem mais do que a função importante de tornar estes convívios possíveis; tem a função também de dar um sentido a este convívio. Pois estas regras devem ser vistas como intrínsecas aos papéis sociais que os indivíduos podem representar, e, ao obrigarem o indivíduo a fazer opções, desobrigam-no de fazer tudo o que desejaria fazer; pois, ao darem o modo como ele deve agir, dizem o que ele pode fazer, e, ao fazerem assim, dizem o que ele não deve, e, por conseguinte, não pode fazer. Ou seja, estes papéis ditam as regras de conduta dos indivíduos que os desempenham; estabelecem as condições para a ação. Isto quer dizer que, se um indivíduo desempenha um papel social X (ou um conjunto de papéis sociais X) se ele tem uma forma determinada de vida X, ele deve agir em conformidade com as ações prescritas pelas regras inerentes a este papel. Caso contrário, dir-se-á que ele está agindo errado, segundo o modo prescrito pelo papel que assumiu. No entanto, ao proibirem a ação, estas regras de conduta não proíbem o desejo ou a intenção de agir ou de fazer tal ou tal coisa, como qualquer um sabe (desde que não se esteja levando em conta uma proibição de desejar como a imposta pelo catolicismo, que diz que o indivíduo pode ser culpável sem ter agido, bastando ter desejado ou pensado no ato). Conforme Emmet, ''O conceito de papel é

) (

físicos, e que são estruturadas parcialmente por regras de comportamento aceitável na sociedade em

O que as pessoas pensam que devem fazer depende amplamente de como elas vêem

questão. (

seus papéis, e dos conflitos entre seus papéis, o que é mais importante. Esta pode ser uma noção de ligação entre eu mesmo como um indivíduo, com meu próprio nome e minha responsabilidade pessoal, e 'minha posição social e seus deveres' no mundo institucional da sociedade na qual eu

tenho que viver'' 21 .

necessário ao se descrever os repetíveis padrões de relações sociais que não são meros fatos

)

5. Até agora, venho argumentando no sentido de destacar a importância que a noção de papel social desempenha na determinação do estatuto moral da conduta dos indivíduos. Mas, mesmo que esta noção seja importante, e que os diferentes papéis sociais sejam constituídos de regras as quais os indivíduos devem seguir a fim de bem desempenhá-los, não podemos esquecer o fato de que a gama de relações sociais, na qual se encontram os indivíduos em seus respectivos papéis, está circunscrita por limites bem determinados pelas proibições e regulações que estão na base da constituição da sociedade, e que existem antes mesmo das relações complexas que exigem a ''multiplicação'' do indivíduo no desempenho de diferentes funções. De acordo com Hampshire, estas proibições e regulações são responsáveis pelo estabelecimento de uma moralidade mínima, e têm sua origem

21 Cf. Emmet, op.cit., p.15.

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exatamente no seio da menor unidade formadora da sociedade que é o núcleo familiar, para ele estas ''proibições morais constituem um tipo de gramática da conduta, mostrando os elementos fora dos quais qualquer conduta inteiramente digna de respeito, como alguns concebem, pode ser construída'' 22 . Consideremos, para os nossos fins, que o conjunto de regras que dizem como os indivíduos de um determinado grupo de convívio devem agir uns em relação aos outros, constitui a moralidade desse grupo ou o seu padrão moral de conduta. Essas regras orientam as ações do indivíduo dentro do grupo, de modo a permitir com que todos possam perseguir seus interesses, desde que não impeçam a outrem de fazer o mesmo. Elas devem ser observadas a fim de que a vida em grupo seja possível, pois, conforme Emmet, se não fossem, ''nós poderíamos ter um agregado de indivíduos, mas não uma sociedade humana. Isto é assim empiricamente, e também pode ser tomado como parte da definição de sociedade. Uma sociedade é um meio mais ou menos ordenado no qual pessoas vivem juntas, e onde a 'ordem' depende da aptidão destas pessoas para nutrir expectativas, geralmente satisfeitas, sobre como os outros deveriam comportar-se, de tal modo que elas podem cooperar ou competir, tendo razoável previsão da sorte de coisas que os outros provavelmente farão'' 23 . Poderíamos perfeitamente imaginar um aglomerado de indivíduos interagindo sem papéis determinados para as suas relações uma sociedade menos complexa, certamente, na qual você pode fazer o que quiser, desde que você não faça o mal a outrem, por exemplo. Porém, jamais poderíamos conceber uma sociedade enquanto tal, ou um grupo de indivíduos interagindo, sem que determinadas proibições e regulações fundamentais fossem

observadas 24 , pois se todos pudessem fazer tudo o que quisessem, estaríamos no 'estado de

natureza' descrito por Hobbes pois o mesmo direito que eu tenho de fazer tudo o que quero a fim

Isso

de manter-me vivo e satisfazer minhas vontades, num contexto assim, o outro também terá

posto, poderia então arriscar uma ''fórmula'' da moralidade, por assim dizer. Seguindo os passos da argumentação que até aqui venho desenvolvendo, a moralidade individual seria a

consideração da conduta do indivíduo quanto ao desempenho dos seus papéis se ele segue corretamente as regras prescritas para agir como tal ou tal, e desta conduta em relação aos princípios mais gerais possibilitantes da vida em sociedade. A moralidade individual seria, então, a compatibilização da boa execução dos papéis socias segundo as normas prescritas por cada papel -, com uma boa conduta social, ou seja, seguir as regras dos papéis e seguir as regras da sociedade. Pois, se em todas as atividades o limite da ação é sempre o 'outro', um indivíduo poderia ser péssimo em tudo o que fizesse, desde que não causasse dano a outrem, por exemplo: você poderá ser um péssimo médico, desde que você não prejudique os seus pacientes; você poderá ser um péssimo pai, desde que você não prejudique seus filhos; você poderá ser um péssimo esposo, desde que você não prejudique sua esposa, você poderá ser um péssimo professor desde que você não prejudique seus alunos, etc., etc. Poderíamos multiplicar estes exemplos indefinidamente, porém, a não ser que se considere nos exemplos citados 'prejudicar' como 'matar', e nesse caso, realmente, alguém pode fazer mal tudo o que fizer, desde que não tire a vida a outrem, não parece possível desvincular do mau desempenho de um papel social o prejuízo moral ao outro, pois, em todos os casos, sem exceção, ao que parece, o fator condicionante do desempenho de qualquer papel social,

seja o de pai, esposo, professor

,

é exatamente este 'outro'.

22 Cf. Hampshire,op.cit., p.92.

23 Cf. Emmet, op.cit., p.7.

24 Conforme Mill, ''o critério de moralidade é o conjunto de regras e preceitos da conduta humana, por cuja observância é possível assegurar a todo gênero humano uma existência, tanto quanto possível, esenta de dor e tão rica quanto possível de satisfações, tanto no que respeita à qualidade como à quantidade, na maior

extensão possível

''.

Op.cit., cap.II.

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6. Há uma crescente, intensa e inesgotável discussão em torno da distinção entre a moral na vida privada e a moral na atividade pública. Põe-se, inclusive, a questão de se existe de fato uma moralidade na atividade pública - no caso, aqui, na atividade política e que possa, assim, ser distinta da moralidade privada. De acordo com o que ficou estabelecido acima, nas relações que um indivíduo mantém com outros, seus atos, de um modo geral, são considerados morais ou não certos ou erradossegundo os padrões estabelecidos pelos papéis que representa, e se as suas ações ferem algum direito de outrem envolvido no processo. Ao agir, portanto, o indivíduo deve levar em conta a si e

ao outro, porque sempre as suas ações dizem respeito primeiro à sua própria pessoa, pois representa

a si mesmo, e segundo à pessoa, os direitos a agir, do outro. Os papéis que o indivíduo representa

em suas relações com outros indivíduos na sociedade estão submetidos à unidade do sentido de sua vida. O modo como estes são desempenhados deve dar o 'modo de vida' do indivíduo 25 . E um indivíduo é considerado moralmente correto se em sua conduta ele representa seus papéis de acordo com as regras intrínsecas a estes e se, no desempenho desses papéis, ele não infringe nenhuma regra geral de conduta, i.é, aquelas que fundamentam o sentimento moral humano e que permitem que se

estabeleça a sociedade tal como é dada em seus diferentes papéis. Na vida pública, ao contrário, a diversidade de papéis que o indivíduo deve desempenhar subsume este indivíduo enquanto tal. No exercício das suas funções, a unidade de sentido de sua vida é medida e considerada de outra maneira, agora frente a descontinuidade moral entre a representação dos papéis da sua atividade privada e pública. Nestas suas relações, suas ações dizem sempre respeito às muitas pessoas que representa ou a quem serve, ou seja, não representa apenas a

si mesmo mas também a muitos. Desse modo, suas ações devem levar em conta tanto a sua imagem

como a imagem, os desejos e expectativas daqueles que representa. Para Thomas Nagel 26 , ''há um

problema sobre os efeitos morais dos papéis e funções públicas, que têm, certamente, um profundo efeito sobre o comportamento dos indivíduos que os exercem, um efeito de certo modo restritivo

Se papéis encorajam desvínculos ilegítimos de restrições

morais é porque seu efeito moral foi distorcido'' 27 , pois há papéis ou funções públicas que permitem aos 'atores', revestidos desses papéis, realizarem atos altamente condenáveis, do ponto de vista da moral privada, e, no entanto, estes mesmos 'atores', quando investidos noutras funções podem, ao contrário, realizar ações de alto valor, do ponto de vista da moralidade privada, sem que tragam do seu antigo papel os efeitos negativos dos erros que por ventura tenham cometido na sua representação. Por conseguinte, a pergunta fundamental que emerge da consideração do agente na

mas significativamente liberador. (

)

25 Cf. Hampshire: ''When we assess ourselves or others in some limited role or capacity, as performing well or ill in that role or capacity, the assessment is not fundamental and unconditional; the assessment gives guidance only to someone who wants to have that role or to act in that capacity, or who wants to make use of someone who does. But if we assess persons as good or bad without further qualification or limitation, merely as human beings, and similarly also their decisions, policies, characters, dispositions, ways of life, as being good or bad without qualification, then our assessments have unconditional implications in respect of what should and should not be done, and of what people, and should not be like, of their character, dispositions and way of life. A human being has the power to reflect on what kind of person he wants to be, and try to act accordingly, within the limits of his circumstances. His more considered practical choices, and the conflicts that accompany them, will show what he holds to be intrinsically worth pursuing, and will therefore reveal his fundamental moral beliefs.''. Op.cit., pp.86-7. 26 Nagel, T., Ruthlessnes in Public Life, in 'Public and Private Morality', ed. by Stuart Hampshire, Cambridge, University press, 1978, chapter 4.

27 Ibid., p.76.

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atividade pública ou políticaé: ''por que determinadas ações que na vida privada seriam julgadas imorais, na vida pública, ao contrário, não o são?''. Tomemos, para análise, dois casos recentes ocorridos na vida política do nosso país, o caso do sociólogo Betinho e o caso do senador Bisol.

Há poucos meses, no Brasil, foi deflagrada uma campanha nacional contra a fome, por parte do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. A campanha, basicamente, consistia em arrecadar doações em dinheiro ou em alimentos a fim de distribuir às pessoas menos favorecidas. A campanha adquiriu força e o sociólogo teve seu esforço reconhecido pelo grau de adesão da população. Betinho passou a ser considerado um exemplo de cidadão por parte da sociedade. Recentemente, veio a público, através da imprensa, uma denúncia de que o sociólogo, lider da campanha contra a fome e do movimento pela cidadania, teria recebido do 'jogo do bicho' em 1990 uma vultuosa quantia como doação para uma organização de apoio a aidéticos, da qual era o dirigente. Como sabemos, este jogo é uma atividade ilícita, no país, tanto que, quando este fato emergiu, estava sendo realizada uma operação policial de apreensão e confisco de todo o material desta atividade, assim como a prisão dos que a promoviam em todo o país. Sobre este fato formulemos a seguinte pergunta: como um indivíduo, lider de uma campanha pública, que se pauta pela reabilitação da cidadania através de preceitos morais, poderia receber donativos de uma entidade considerada ilícita pelas autoridades? Mais recentemente, ainda, veio a público o caso do, agora, ex-candidato a vice-presidência da república, na candidatura de Lula, o senador Paulo Bisol, que, enquanto parlamentar, dentre outras coisas, aprovou emendas ao Orçamento de 1994 para liberação de verbas para a construção de uma ponte na cidade de Buritis, em Minas Gerais, que beneficiaria sua fazenda. Esta notícia, ao ser divulgada, prejudicou seriamente, além da imagem pública do senador Bisol, a candidatura de seu companheiro de chapa, Lula, assim como a imagem do partido do qual este é lider, o PT. Frente a este outro fato, formulemos a seguinte pergunta: se as denúncias correspondem aos fatos, que mal haveria na ação do senador, uma vez que a obra que seria realizada com as verbas públicas, mesmo favorecendo suas terras na cidade, e desse modo valorizando-as, viria a beneficiar um número bastante grande de outros indivíduos? Maquiavel, em 'O príncipe' 28 , ao examinar e descrever as diferentes maneiras pelas quais diversos reinados foram conquistados, mantidos e tomados, diz que o príncipe (o político), com o objetivo de obter ou preservar o poder ou a ordem, ou mesmo de beneficiar um grande número de súditos, em determinados momentos no curso de suas ações, encontra-se freqüentemente diante de conflitos morais que o levam a ter de decidir entre duas situações moralmente incompatíveis, uma das quais é mais preferível à outra, se considerada em função de seus resultados. A solução deste conflito sempre produz um dano moral inevitável, uma vez que ao optar por uma das duas vias conflitantes o resultado infringe alguma regra moral, e a ação do político é por isso condenável 29 . Esta situação conflitante imposta ao agente político apresentada por Maquiavel é descrita atualmente como o problema das ''mãos sujas'', que consiste em admitir que em determinadas situações o agente político deve ''sujar as mãos'', i.é., pelo fato de representar a muitos, o político muitas vezes se vê na condição de tomar determinadas atitudes que infringirão padrões de moralidade aceitos para a conduta individual, mas que, se computados os resultados, a quantidade

28 Machiavelli, N., O Príncipe, Ed. Tecnoprint, RJ, Cap.IV a IX.

29 Para Mill, os conflitos morais não são restritos apenas à atividade política e ''não há nenhum sistema de moral em que não surjam casos inequívocos de obrigações antagônicas; são estas as verdadeiras dificuldades, os pontos intrincados, tanto na teoria da ética como na condução conscienciosa da conduta pessoal''. Op.cit., cap.II.

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de bem produzido por esta ação, sua execução encontrar-se-á justificada na atividade política. Esta posição de cunho eminentemente utilitário, ou conseqüencialista, nos leva a supor que as regras morais que valem para a conduta individual não valem para a conduta política. Em outras palavras, permite supor que não há moral na política, ou seja, que não há padrão moral para a ação do agente político. Se a moralidade da conduta dos indivíduos na sociedade pode ser considerada como derivada, em parte, da correta representação dos papéis sociais, podemos perguntar frente a isso, então, 'qual o papel do homem público?'. 'Qual a regra fundamental que dá o modo de desempenhar corretamente sua função seja esta qual for?'.

7. Como acima vimos, Hobbes diz que um indivíduo pode representar a sua própria pessoa nos papéis que desempenha, ou a de outros. Ora, a característica fundamental da moralidade na vida privada diz respeito ao fato de o indivíduo basicamente representar a si mesmo nos diferentes papéis que desempenha. Ao contrário, na atividade pública, o indivíduo se encontra subsumido em seus papéis, não representando a si apenas, mas também a inúmeros outros, e para com estes tendo a responsabilidade de agir de acordo com as atribuições do papel que representa. Para Nagel, a

''estrutura das instituições pode incluir papéis nos quais os ocupantes devem determinar o que fazer

a partir de princípios diferentes daqueles que governam os indivíduos privados'', porque instituições

''não são pessoas e não têm vidas privadas, nem papéis institucionais usualmente absorvem completamente as vidas de seus ocupantes. Instituições públicas são designadas para servir a fins mais amplos que aqueles de indivíduos particulares ou famílias. Eles tendem a perseguir interesses de massas de pessoas'' 30 . Se é assim, podemos dizer que, no caso da aceitação da doação do jogo do

bicho, o sociólogo não tinha como sair do dilema em que estava colocado, uma vez que a instituição estava necessitando de verbas para levar a campanha adiante. Ou ele aceitava o dinheiro, mesmo ilícito, doado pelo jogo do bicho, infringindo a própria lei, a fim de levar a causa adiante, ou ele não

o aceitava, e deixaria de atender a milhares de pessoas que dependiam das ações dessa entidade por ele coordenada. Se não tivesse aceitado o dinheiro, muitas pessoas seriam prejudicadas; e ele poderia ser julgado moralmente como tendo agido sem levar em conta os indivíduos atingidos pelas conseqüências de sua ação. Como aceitou a doação, foi igualmente julgado como tendo cometido um ato moralmente condenável. Não importando qual atitude tomasse, ele teria, segundo a posição

de Maquiavel, ''sujado as mãos'' ou, como Max Weber 31 , teria chegado ao limite de uma situação

quando se

extrema em que não poderia ter agido de outra maneira, ou, ainda, conforme Nagel, ''

tenta dizer o que é moralmente apropriado aos papéis e ações públicas, deve-se considerar o modo como elas alteram as exigências sobre a ação do indivíduo, pois, quando ele age, as ações são suas, mas, se a situação moral é diferente daquela em que ele age revestido da função pública que exerce,

isto se deve ao fato de as exigências serem também diferentes'' 32 . Considerando que na política a regra predominante é a despersonalização das ações em prol dos interesses dos representados, o segundo caso, no qual o senador pensou no benefício que fruiria com as conseqüências de sua ação, além de infringir a lei, cometeu uma falta grave na atividade

30 Cf. Nagel, op.cit., p.82.

31 Cf. Weber: ''

em anos - tem consciência de uma responsabilidade pelas conseqüências de sua conduta e realmente sente essa responsabilidade no coração e na alma. Age, então, segundo uma ética de responsabilidade e num determinado momento chega ao ponto em que diz: 'Eis-me aqui; não posso fazer de outro modo'.'' Weber, M., A política como Vocação, de 'Ensaios de Sociologia', (seleção de textos), p. 151, 2ª ed., Zahar, RJ, 1971.

32 Cf. Nagel, op.cit., p.77.

é profundamente comovente quando um homem maduro - não importa se velho ou jovem

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pública: tomou como móbile de sua ação um interesse pessoal 33 . A atitude do senador, ao contrário da do sociólogo, não é recoberta pelo problema das ''mão sujas'', uma vez que não foi pressionado a tomar esta decisão por uma exigência intrínseca ao seu papel público. Mas, por intermédio de seu papel público, utilizou-se de meios legítimos para obter fins ilegítimos, ou seja, incompatíveis com as atribuições desse seu papel. Pois, conforme Nagel, ''[o] exercício do poder público permite ao agente a liberação de certas restrições pela imposição de outras, que são primariamente interesses pessoais. Porque a função pública é supostamente protegida dos interesses pessoais do indivíduo que a exerce, e o que ele faz numa função pública parece ser também despersonalizado. Tal fato sustenta a idéia de que a moralidade pessoal não se aplica à função pública com força alguma, uma vez que esta se coloca entre ele e seus atos despersonalizados'' 34 .

33 Pois, conforme Nagel, ''Public figures are not supposed to use their power openly to enrich themselves and their families, or to obtain sexual favors. Such primitive indulgences are generally hidden or denied, and stress is laid on the personal probity and desinterest of public figures. This kind of personal detachment in the exercise of official functions is thought to guarantee their good moral standing, and it leaves them remarkably free in the public arena''. Ibid., p.77.

34 Ibid., loc.cit.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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