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Análise Psicológica (2004), 3 (XXII): 449-462

Psicologia da Saúde, saúde pública e saúde


internacional (*)

MARGARIDA GASPAR DE MATOS (**)

INTRODUÇÃO disciplinar da problemática da saúde. Assim po-


dem considerar-se:
O estudo do comportamento humano em con-
- Uma dimensão demográfica – a descida da
textos da Saúde é actualmente uma das áreas
mortalidade infantil e o aumento de espe-
promissoras da investigação e intervenção psico-
rança de vida acarretam um aumento do
lógicas, indo ao encontro das necessidades das
impacte da doença crónica;
pessoas em matéria da saúde e da doença, res-
- Uma dimensão política – pelo menos nos
pondendo a problemas colocados pelos próprios
países considerados desenvolvidos há agora
técnicos e influenciando a própria organização
a verbalização de um compromisso político
dos serviços de saúde.
de preocupação com a saúde e bem estar do
O presente trabalho pretende ser um contribu-
cidadão, que acarreta um colapso dos servi-
to para o desenvolvimento do conhecimento da ços nacionais de saúde devido à pressão so-
Psicologia no âmbito da Saúde Pública em ques- cial e demográfica sobre o sistema;
tões relacionadas com a saúde a nível da inves- - Uma dimensão técnico-científica – o au-
tigação, da intervenção, da formação e da inova- mento do conhecimento e da investigação
ção do sistema. nesta área sublinha a importância da pre-
A visão holística da saúde adoptada sobretudo venção, da protecção e da promoção na área
a partir da Conferência de Alma-Ata (WHO, 1978) da saúde, que acarreta uma mudança de um
veio alertar os profissionais de saúde e os políti- modelo exclusivamente “médico e curati-
cos para a importância de uma abordagem pluri- vo” para um modelo mais holístico, pre-
ventivo, participativo e pluridisciplinar;
- Uma dimensão social e cultural – pelo me-
nos nos países considerados desenvolvidos
há agora uma melhoria nas condições de
vida que leva o cidadão a uma atitude mais
(*) Agradecimentos: O estudo HBSC 2002 foi
exigente, crítica e preocupada face à sua
financiado pela FCT/MCES/POCT1 37486 / PSI /
2001 / FSE /FEDER. A autora agradece à equipa Aven- saúde.
tura Social & Saúde.
(**) Faculdade de Motricidade Humana, Universi-
O relatório Reduzindo riscos e promovendo
dade Técnica de Lisboa e Centro da Malária e Outras uma vida saudável (OMS, 2002) sublinha a im-
Doenças Tropicais, Universidade Nova de Lisboa. portância da promoção dos comportamento liga-

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dos à saúde e a importância da identificação e apoio interpessoal, o lazer, e suas possíveis asso-
prevenção de factores de risco. Neste relatório a ciações com a promoção e protecção da saúde.
OMS aponta dez factores evitáveis que contri- No seu conjunto, os resultados destes estudos
buem para o risco na Saúde Global e que são res- aumentaram a compreensão da interacção de facto-
ponsáveis por um terço de mortes no mundo: (1) res biológicos, psicológicos, comportamentais,
o sexo não protegido, (2) o consumo de tabaco, sociais e ambientais, associados ao desenvolvi-
(3) o abuso do álcool, (4) a hipertensão, (5) a uti- mento de várias condições de doença e saúde. Con-
lização de água não potável e falta de saneamen- sequentemente novas áreas do conhecimento co-
to básico e de higiene, (6) a sub-alimentação, (7) mo a Economia da Saúde, a Sociologia, a Antro-
a obesidade, (8) o fumo de combustíveis sólidos pologia, as Ciências Políticas e o Direito assumi-
no interior das habitações, (9) a hipercolestero- ram uma relevância crescente para uma visão in-
lemia e (9) a deficiência de ferro. A estes facto- terdisciplinar da Saúde. Centrando-nos no campo
res de risco poder-se-iam ainda acrescentar (1) os da Psicologia o aprofundamento do conhecimento
acidentes, (2) a violência (social e doméstica), e o impacto das áreas da Psicologia da Saúde e
(3) os abusos de carácter sexual (sobre pares e Saúde Comportamental na Saúde Global, levam
sobre menores), (4) o suicídio e outras agressões a um valor acrescentado em relação a ambas es-
auto-inflingidas, (5) a alienação e o stresse esco- tas áreas. Assim:
lar, profissional e social.
Os problemas de saúde associados incluem Os contributos da Psicologia da Saúde trazem
(1) as doenças cardiovasculares, (2) as doenças para a Saúde Pública:
cerebrovasculares, (3) o cancro do pulmão e ou- 1) A inclusão na “agenda“ da Saúde Pública
tras doenças crónicas do pulmão, (4) a infecção das temáticas emergentes relacionáveis com
pelo VIH/SIDA e (5) os problemas de saúde men- comportamentos modificáveis, p.e., a ges-
tal. tão do stresse, a promoção de competências
Estes problemas têm variações geográficas, pessoais, a promoção da resiliência, a acti-
por exemplo uma das causas de morte nos países vação de redes sociais de apoio;
chamados em desenvolvimento (PED) (a sub-nu- 2) Uma visão desenvolvimental uma vez que,
trição), é no seu oposto uma das causas de morte ao longo do desenvolvimento humano,
nos países chamados desenvolvidos (a obesidade vão variando as características e necessi-
e doenças relacionadas). Nos países em desen- dades das populações em termos de saúde/
volvimento a transição demográfica acompanha- /bem estar;
se ainda de uma “transição de risco” com co- 3) Um conhecimento do comportamento hu-
existência das doenças infecciosas “tradicionais” mano nos seus aspectos cognitivos, emo-
com as doenças crónicas não transmissíveis mas cionais e comportamentais abertos (actos e
de risco comportamental, ligadas à poluição, ao palavras) como determinante de escolhas a
consumo de álcool, tabaco e drogas, à alimenta- nível da saúde, introduzindo conceitos co-
ção industrial e ao sedentarismo. mo competência, participação, resiliência;
Desde o final dos anos 70 o alargamento do 4) Uma perpectiva ecológica e sistémica em
campo da Psicologia da Saúde, da Saúde Com- que a importância para a Saúde da inter-
portamental e da Medicina do Comportamento acção com grupos como a família, a esco-
ajudou ao desenvolvimento e ao robustecimento la, o trabalho e o apoio social, por exem-
do contributo da Psicologia para a prevenção da plo são evidenciadas;
doença e para a promoção e a protecção da saú- 5) O estudo dos aspectos culturais e o seu im-
de, com especial foco em alguns dos comporta- pacto na saúde das populações;
mentos já citados como os consumos (álcool, ta- 6) A recolha de informação e avaliação de
baco e drogas), o sedentarismo e a alimentação acções através da implementação de estra-
assocados como se referiu a doenças cardíacas e tégias baseadas em metodologias qualita-
ao cancro. Posteriormente surgiu o interesse por tivas, e nas teorias da comunicação inter-
comportamentos interpessoais relacionados com pessoal e dinâmica de grupo;
a violência, a sexualidade, as relações e o stress 7) A elaboração de parcerias promotoras de
laboral e escolar, o estabelecimento de redes de saúde baseadas na comunicação de massas.

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8) O diálogo com o poder político na defesa no centro da Primeira Revolução da Saúde (a cha-
da relevância dos factores atrás apontados. mada teoria do “germe” – a cada agente infec-
cioso corresponde um “germe”, que urge “con-
Por seu lado, a Saúde Pública também contri- trolar/neutralizar”). A celeridade e eficácia técni-
bui para a Psicologia da Saúde com: ca do atendimento médico baseado no “diagnós-
1) Uma maior perspectiva das “populações”; tico-prescrição de medicamentos ou cirurgia” le-
2) Um maior conhecimento de factores de or- vou, paradoxalmente, a uma falta de tempo e
dem económica e seu impacte na saúde; consequente esquecimento da fenomenologia
3) Um maior conhecimento do funcionamen- humana e sua singularidade, da “consciência de
to dos recursos comunitários, nomeada- si” e do “papel de doente” que pode, só por si, pro-
mente da organização dos serviços de saú- longar a doença.
de e sua complexidade; No século XIX, nos tempos que se seguiram à
4) Uma maior incidência em intervenções pre- Revolução Industrial, os países “a sul” mantinham
ventivas universais, i.e., dirigidas a “popu- cenários de guerra, fome e epidemias, mas os paí-
lações”, com especial foco na modificação ses “a norte”, tendo-os ultrapassado, apresenta-
dos determinantes dos comportamentos le- vam em vez, cenários generalizados de poluição
sivos da saúde; e comportamentos individuais lesivos da saúde.
5) A adaptação e a aplicação do conhecimen- Nos países “a norte” as medidas de saúde públi-
to psicológico na intervenção em “popula- ca ultrapassavam já a visão sustentada pela “teo-
ções” e condições diferentes das inicial- ria do germe” da Primeira Revolução em Saúde,
mente estudadas (ex.: catástrofes naturais, no- para incluir uma abordagem preventiva, para in-
vos migrantes, conflitos armados) ou do apa- cluir recursos pessoais e ambientais na protecção
recimento de novas ameaças à saúde (ex.: e promoção da saúde embora com novos desa-
VIH); fios, devidos à crescente alteração dos padrões
6) A aplicação do conhecimento psicológico, de mortalidade e morbilidade cada vez mais da
ao trabalho em sistemas cada vez mais com- responsabilidade dos comportamentos das pes-
plexos e extra-laboratoriais. soas, dos grupos e das comunidades. Deslocou-
-se desde então o foco da atenção da saúde pú-
O objecto de estudo da Psicologia no âmbito blica da doença para a saúde. Esta mudança aler-
das disciplinas de Saúde Pública é o estudo (1) tou para a necessidade de uma evolução a nível
dos determinantes dos comportamento dos indi- da identificação de problemas e soluções. Estas
víduos e das populações, (2) das alterações do alterações implicaram uma nova concepção de
comportamento, (3) do seu desenvolvimento nos saúde pública com consequências importantes
indivíduos ao longo do ciclo da vida, (4) nas vá- para os sistemas de saúde tradicionais, e tiveram
rias dimensões da sua dinâmica própria (compor- implicações fundamentais para a definição, para
tamentos abertos, verbais e não verbais e com- o trabalho e para a formação dos técnicos de saú-
portamentos cobertos – cognições, emoções, afe- de (Lancet, 1991).
ctos), e (5) em função dos vários cenários com
que vão interagindo (família, pares, escola, tra-
balho, comunidade). O desenvolvimento psico- A SEGUNDA REVOLUÇÃO NA SAÚDE
social terá de ser cada vez mais um processo de
optimização de capacidades de decisão e de rea- A mudança do paradigma biomédico num pa-
lização, promotor de um estilo de vida saudável, radigma de saúde pública justificou-se pela obser-
e de um estado percepcionado pelos indivíduos vação de que (1) as doenças infecciosas têm cus-
como de qualidade de vida, de competência pes- tos altos e curas difíceis, (2) as doenças são con-
soal e de participação activa na comunidade. traídas em contactos com o meio físico e social e
(3) as doenças apenas se disseminam nestes con-
tactos se as condições são favoráveis aos agentes
A PRIMEIRA REVOLUÇÃO NA SAÚDE infecciosos, condições estas que podem ser de
âmbito individual ou ambiental.
O desenvolvimento do modelo biomédico está Numa primeira fase (a chamada “fase sanitá-

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ria”), a Saúde Pública procurou determinantes prioridades para a saúde (1) uma política de saú-
das infecções e delineou intervenções preventi- de pública, (2) o desenvolvimento de competên-
vas a nível das “populações”, para evitar a pro- cias sociais e pessoais, (3) uma acção comunitá-
pagação do “germe”, através de manipulações do ria, (4) um ambiente protegido e protector, (5)
meio ambiente e do contacto interpessoal. uma reorganização dos serviços de saúde de mo-
Com o sucesso destas medidas, e das medidas do a torná-los mais eficazes na resposta a estes
de rastreio e vacinação, emergiu um novo padrão novos desafios.
de morbilidade e mortalidade, mais ligado a facto- A questão actual em termos de saúde é de que
res comportamentais, e outros desafios em saú- modo pode haver cidadãos que não fumam, não
de, mais ligados à longevidade, à sobrepopula- consomem drogas, não abusam de bebidas al-
ção, à destruição ecológica, à degradação do meio coólicas, não trabalham demasiado ou pelo
ambiente, ao desiquilíbrio económico e seu im- menos não trabalham sob pressão exagerada, têm
pacte na saúde. A Saúde Pública, agora em liga- bons hábitos alimentares, são activos fisicamen-
ção com outros técnicos (oriundos de outras áreas te, gerem o seu stress familiar e laboral/escolar,
do conhecimento), foi chamada para estes novos dormem bem, verificam a sua saúde e para além
desafios e novos riscos, na sua maioria relacio- disto optam por este estilo de vida saudável, não
nados com situações evitáveis. apenas porque acreditam que assim terão mais
Na década de 70, o Relatório Richmond (Rich- saúde mas, e em especial, porque se sentem assim
mond, 1979) e a Conferência de Alma-Ata (WHO, mais felizes consigo próprios, com os outros e
1978) iniciaram então a chamada Segunda Revo- com o ambiente. Enfim, como chegar a uma so-
lução da Saúde. O objecto de estudo e interven- ciedade em que “o prazer na vida” se baseie no
ção da saúde passou a ser, não apenas ausência bem-estar e na qualidade de vida em vez de se
de doenças, mas também um estado positivo de basear na procura de comportamentos, substân-
bem estar. A grande maioria dos agentes infec- cias ou situações lesivas da saúde.
ciosos já estava controlada pela ciência médica, De acordo com as conclusões do WDCPHP
a maioria das epidemias já estava controlada a (Working Group Concepts and Priorities in Health
nível das populações pela acção da nova saúde Promotion, 1987, cit. in Ribeiro, 1998) a promo-
pública, através de processos de vacinação, mas ção da saúde: (1) abrange as populações no seu
também através de processos de controlo da água, dia-a-dia e não só pessoas em risco, (2) visa to-
de higiene e do contacto interpessoal. As altera- rnar a pessoa apta a assumir o controlo e a res-
ções preventivas no ambiente físico e social possi- ponsabilidade sobre a sua saúde, (3) visa os de-
bilitaram a redução dos efeitos dos agentes (“ger- terminantes dos comportamentos e situações de
mes”). risco e de protecção, (4) combina métodos multi-
O comportamento dos indivíduos passou a ser disciplinares aos vários níveis de intervenção,
o principal objecto de estudo, considerado a par- (5) visa a participação pública no desenvolvi-
tir de então uma das principais causas de morbi- mento de competências individuais e colectivas.
lidade e mortalidade humana, mas, como referiu Curiosamente estas conclusões não apresen-
então Lalonde (1974), é mais fácil convencer al- tam uma evolução radical quando comparadas
guém que sofre a consultar o médico, do que al- com a argumentação de Sigerist (1946, cit. in
gúem que não sofre a mudar de hábitos nocivos, Ribeiro 1998), que, em meados do século passa-
a pensar num futuro longínquo, até porque os do defendia que a saúde se promove proporcio-
hábitos se tornaram muitas vezes automáticos, nando às pessoas um padrão de vida “decente”,
inseridos num quotidiano e de dificil alteração. com boas condições de trabalho e recreio, possí-
Antes da idade adulta é dificil apresentar como veis de alcançar através de sinergias entre polí-
pretexto esse “futuro saudável”, p.e., quando se ticos, grupos económicos, técnicos de educação
fala com crianças para as quais essa lógica tem- e de saúde.
poral é demasiado abstracta, ou mesmo com ado- Apesar de se caminhar desde então para esta
lescentes, para os quais a importância do futuro filosofia, o modo com esta situação tarda a ins-
(longínquo) não é relevante, face à premência e à talar-se na sociedade actual deve-se pelo menos
angústia do presente “aqui e agora”. parcialmente à persistência de uma perspectiva
A Carta de Ottawa (OMS, 1986) define como tradicional para a saúde, mantendo-se em alguns

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sectores uma hegemonia do “poder exclusivo nos causado pela exposição aos factores de risco.
médico”, para além do poder dos grandes grupos Esta perspectiva torna-se fundamental quando se
económicos ligados, p.e., à indústria farmacêu- fala de saúde comportamental uma vez que, sen-
tica. Outra perspectiva inovadora nos processos, do quase impossível evitar o confronto das pes-
mas tradicional nos procedimentos, é a perspe- soas com os riscos, se torna de importância fun-
ctiva tecnológica, que tem a seu favor grandes damental esta perspectiva da promoção das com-
grupos económicos ligados, p.e., à modernização petências pessoais e sociais para um restabele-
e sofisticação do equipamento hospitalar. Estas cimento rápido de novos equilíbrios, cada vez mais
perspectivas podem tornar-se limitadoras de uma complexos.
visão ecológica da saúde se se constituirem co- Lalonde (1974), no seu relatório sobre a saúde
mo prioridades únicas em termos orçamentais dos canadianos, fala da poluição ambiente, da vi-
implicando um corte de verbas a outros níveis da citadina com stresse familiar e laboral e com
(Carta de Ottawa, OMS, 1986). anonimato social, com hábitos de sedentarismo,
A Segunda Revolução da Saúde, durante os anos com anedonia, com abuso de álcool, tabaco e
70, fundamentou o trabalho interdisciplinar nas drogas e mudança nos padrões alimentares (“pra-
áreas da saúde e áreas limitrofes, nomeadamente zeres dos sentidos para além das necessidades do
a nível da Psicologia da Saúde. Do ponto de vis- corpo”).
ta da Saúde Pública, o recurso à Psicologia da Alerta ainda para a necessidade de uma re-
Saúde implicou este reconhecimento do poten- visão da distribuição de prioridades e fundos a
cial de morbilidade e mortalidade dos comporta- nível da reorganização dos serviços de saúde.
mentos (Lorion, 1991). Do ponto de vista da Psi- Preconiza uma deslocação da intervenção e dos
cologia tradicional, durante tantos anos limitada custos dos “cuidados de saúde” para o que cha-
à Saúde Mental, implicou um reconhecimento da mou o “campo da saúde” que engloba os primei-
interacção entre factores bio-psico-sociais e am- ros mas é mais lato incluindo toda a comunidade
bientais, um reconhecimento da necessidade de além hospital. Defende que os técnicos de saúde
intervenções preventivas e promocionais e um não podem continuar a perder tempo e custos a
reconhecimento da relevância do trabalho com tratar doenças causadas por condições adversas,
pessoas saudáveis e do trabalho com “popula- que resultam justamente da evolução económica,
ções” ao nível da comunidade. e que têm acarretado custos a nível do ambiente
Após a Segunda Revolução da Saúde, a emer- e do risco comportamental.
gência ecológica apontou o foco principal para a Todas estas asserções foram defendidas no Re-
relação entre os organismos e o meio fisico e so- latório Richmond (1979) e ratificadas pela OMS
cio-cultural, utilizando princípios da teoria dos na Conferência de Alma-Ata (WHO, 1978).
sistemas. Assim, a saúde passou a ser equaciona- Em meados do século XX, a nova “epidemio-
da como uma dinâmica complexa aos vários ní- logia comportamental” reconhece que a maior
veis: fisico, psicológico, social, ambiental (Sto- taxa de doença e mortalidade prematura tem a
kols, 1992). ver com hábitos tabágicos, consumo de álcool e
Pensa-se hoje que a Saúde não tem a ver ape- drogas, e riscos de acidentes, nomeadamente mo-
nas com a restauração de processos homeostá- torizados (Richmond, 1979) e aponta que 50%
ticos (de manutenção de processos de equilí- das mortes prematuras têm a ver com doenças do
brio), como pretendiam os filósofos/médicos/ aparelho circulatório e 20% com cancro, que asso-
/mestres gregos, mas também com a dinâmica de cia potencialmente a estes comportamentos. Este
equilíbrios e desequilíbrios sucessivos (heteros- facto leva Richmond (1979) a acusar a popula-
tasia) onde se pretende que o equilíbrio seja sem- ção de “forçar” a morte ao manter factores evitá-
pre restaurado, mas sempre a um nível mais com- veis tais como hábitos descuidados, poluição do
plexo (Nichols & Gobble, 1990). A importância ambiente e más condições sociais com pobreza,
da intervenção em Saúde passa assim a ter mais fome e ignorância.
a ver com a capacitação das populações para, no Richmond (1979) aponta as 10 principais cau-
confronto com os riscos, conseguir um rápido res- sas de morte prematura nos EUA, (1) 50% devi-
tabelecimento de um novo equilíbrio, saudável e das a comportamentos e estilos de vida lesivos
cada vez mais complexo, com um mínimo de da- da saúde; (2) 20% a factores ambientais, (3) 20%

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a factores relacionados com a biologia humana e com um só progenitor ou pelo contrário muito nu-
(4) 10% a cuidados de saúde inadequados. Para merosas), (3) às grandes migrações populacio-
Richmond, que retoma aqui a visão de Lalonde nais, (4) aos conflitos armados, (5) à inequidade
(1974) estes dados têm que ter repercussões fun- económica e no acesso à saúde e à educação, (6)
damentais na distribuição do orçamentos para a à alteração do padrão de vida das populações nas
saúde. sociedades do mundo global (com grandes su-
Lalonde (1974) falava já então da necessidade perficies anónimas em vez da loja de bairro), (7)
de novas políticas nacionais de saúde, com ver- ao acesso ao crédito, (8) à ausência de padrões
bas distribuidas em quatro áreas: (1) estilo de vi- de interacção familiar (p.e., sem refeições “em
da, (2) meio ambiente, (3) biologia humana e (4) família”) e ainda (9) ao aumento da consciência
organização de cuidados de saúde; distribuição ambiental e da própria saúde.
esta que coincide com as principais causas de Como comenta Ribeiro (1998) novos desafios
morte apresentadas por Richmond (1979). multifacetados se colocam para a saúde/bem es-
Ramos (1988), argumenta, que os novos desa- tar, incluindo entre outros: (1) aspectos de pres-
fios da saúde no século XX estão no envelheci- são social relacionados com o estilo de vida (so-
mento da população, nas novas dinâmicas fami- mos pressionados a “ter”, a “parecer”, a escon-
liares, nas novas migrações, numa maior e mais der sentimentos; o pós-modernisnmo é sem dú-
cara intervenção a nível da “doença”, numa po- vida um tempo de excesso, de abundância e de
lítica de aproximação dos serviços à comunidade desperdício, em simultâneo com a privação nou-
(com uma aceitação cada vez maior de políticas tras zonas do planeta), (2) as condições de vida
de desinstitucionalização), um maior poder do (pobreza, ignorância, desigualdade de acesso aos
consumidor (mais exigente, crítico e participati- serviços de educação, saúde e justiça, habitação,
vo) e uma maior preocupação dos políticos pela trabalho, stresse laboral, familiar e ambiental, mi-
opinião pública, que ganha mais força após a re- gração, isolamento, exclusão social, qualidade do
volução da informação. ar, oferta a nível de lazer, agentes infecciosos),
A Carta de Ottawa (OMS, 1986) tece conside- (3) os estilos de vida relacionados com a saúde
rações no sentido da protecção do ambiente e da (alimentação ou bebida em excesso, consumo de
sua repercussão na saúde das populações. No en- drogas, alimentação pouco cuidada, excessiva ou
tanto, a percepção da deterioração do ambiente fome, sedentarismo, lazer, stresse no dia-a-dia, vio-
não é partilhada por outros cientistas (Lomborg, lência doméstica, social, sobre menores ou na-
2001, cit. in Buesco, 2003) que após consulta de cional/internacional), (4) as redes sociais de apoio
várias fontes oficiais conclui e defende, suscitan- socio-cultural (família, vizinhos, amigos, grupos
do alguma polémica, que o planeta não está em na escola ou emprego, capital social, igreja, clu-
perigo e que os problemas mais urgentes são a bes, serviços de saúde, estado de saúde, vacina-
fome (pela sua distribuição desigual pelo plane- ção, competências pessoais e sociais). Voltamos
ta) e a pobreza. Neste contexto os decisores da aqui, mas a um outro nível de complexidade e de
política mundial têm que reflectir sobre as prio- competência, ao conceito de saúde holística dos
ridades globais de intervenção. filósofos/médicos/mestres gregos, conceito este
A promoção da saúde envolve um vasto con- em que a saúde das pessoas, ainda que de modo
junto de factores que incluem adaptações ambi- algo incipiente, se procurava sempre no equilí-
entais e comportamentais conseguidas através de brio das várias “vidas” do homem e no equilíbrio
estratégias educacionais, motivacionais, organi- deste com a natureza.
zacionais, económicas, reguladoras e tecnológi- Apesar de se caminhar no sentido de um mo-
cas, mantendo como foco a acção sobre as pes- delo ecológico da saúde, ainda existe um longo
soas, os grupos e a população (Egger et al., 1999). caminho a percorrer até ao reconhecimento que:
As intervenções no âmbito promoção da saúde (1) a promoção e protecção da saúde e a preven-
têm vindo a sofrer alterações desde os anos 80, ção e tratamento da doença são partes diversas
associadas a mudanças sociais mais vastas, no- da mesma realidade, (2) a educação e o bem
meadamente no que diz respeito: (1) à redefini- estar económico são os principais factores de ris-
ção do papel da mulher (no trabalho e no casal), co para a saúde, (3) o meio ambiente, rural ou
(2) à mudança do conceito de família (famílias urbano, tem fortes ressonâncias na saúde, (4) os

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indivíduos, a comunidade e os governos têm res- «Uma velha história conta que Moreno falan-
ponsabilidades na saúde das populações. do um dia com Freud, lhe disse: tu vês os do-
A OMS (WHO, 2001) defende: (1) programas entes no consultório, eu vejo as pessoas no seu
preventivos e promocionais, que promovam as dia-a-dia; tu analisas os sonhos dos teus doen-
capacidades das pessoas, actuando de preferên- tes, eu ajudo as pessoas a tornar os seus sonhos
cia antes que os sintomas se instalem, (2) uma realidade.» (autor desconhecido)
acção que inclua estratégias para diminuição do
estigma, da discriminação, da exclusão social e
da desigualdade de oportunidades, (3) preconiza A TERCEIRA REVOLUÇÃO EM SAÚDE
a partilha de “boas práticas”, após avaliação, de
modo a criar programas baseados nas experiên- Alguns referem-se agora a uma Terceira Re-
cias avaliadas. Ainda neste relatório (“Nova com- volução da Saúde que tem a ver com a racionali-
preensão, nova esperança”), sugerem-se (1) in- zação dos custos, com uma avaliação dos desper-
tervenções com jovens, com especial atenção dícios e uma avaliação dos resultados de modo a
para a questão das necessidades e tarefas ligadas se providenciar a acção mínima eficaz, interven-
ao desenvovimento e sua repercussão na saúde, ções sustentáveis e criação de recursos (“Low
(2) intervenções que envolvam os contextos so- cost, high impact”).
ciais, (3) intervenções que ajam precocemente e Embora a racionalização dos custos seja ine-
(4) intervenções que promovam a participação e vitável, espera-se que se traduza em medidas de
a competência das populações-alvo. Na sequên- capacitação e co-responsabilização do cidadão
cia deste relatório são estabelecidas metas dife- de modo a que lhe seja proporcionado o melhor
renciando três grupos de países em função da sua serviço com vista à promoção e protecção da sua
situação económica, prevendo mais tempo para saúde, no entanto alguns vêem nesta medida ape-
os países com maiores dificuldades. nas um meio de restrição de custos, responsabi-
Uma “nova compreensão”, um “novo enten- lizando e culpabilizando o cidadão pela sua do-
dimento” de que a saúde mental, física e social ença. A participação do cidadão preconizada na
são condições vitais e profundamente interde- Carta de Ottawa (OMS, 1986) implica necessa-
pendentes e de que, à medida que cresça a nossa riamente uma resposta organizada do sistema e a
compreensão sobre esta interdependência, mais vontade política de aumento da participação do
óbvio se tornará que a saúde mental é crucial pa- cidadão na protecção e promoção da sua saúde.
ra o bem estar de todos os indivíduos, sociedades Implica a mediação desta participação como uma
e países (WHO, 2001). real acessibilidade, implica não uma redução de
Refere-se ainda este documento a interven- custos mas uma transferência de recursos. Capa-
ções preferencialmente na comunidade (“envol- citar o cidadão implica meios e oportunidades,
vimento o menos restritivo possível e tratamento implica transferência de recursos (conhecimen-
o menos restritivo e menos intrusivo possível”), tos, técnicas, poder e dinheiro) para a comunida-
embora chame a atenção para o facto de que a de. Restringindo a análise à questão económica,
desinstitucionalização e a intervenção na comu- mesmo já sem falar de questões éticas e humanas
nidade necessitam de condições para ser imple- ligadas à igualdade de oportunidades, a saúde
mentadas. Preconiza dez recomendações: (1) tem vantagens económicas directas (menos gas-
disponibilização de tratamento no âmbito dos tos com a doença) e indirectas (menos absentis-
cuidados de saúde primários, (2) disponibiliza- mo e maior produtividade).
ção de medicação adequada, (3) prestação de cui- Durenberger e Foote (1993), como já anterior-
dados na comunidade, (4) educação da opinião mente Richmond (1979) e Lalonde (1974) defen-
pública, (5) envolvimento da comunidade, da fa- dem de uma redistribuição dos custos, distin-
mília, dos consumidores, (6) estabelecimento de guindo uma medicina de “cuidados urgentes” e
políticas nacionais, programas, legislação, (7) de “cuidados de saúde a longo prazo” (necessi-
desenvolvimento de recursos humanos, (8) esta- tando sobretudo de cuidados de hotelaria e auto-
belecimento de laços inter-sectoriais, (9) monito- nomia e apoio social) como é o caso das doenças
rização da saúde mental da comunidade, (10) crónicas, deficiências e processos de envelheci-
apoio à investigação. mento e longevidade. A grande maioria de recur-

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sos em matéria de saúde, tanto a nível económi- áreas de: (1) actividade física, (2) nutrição, (3)
co como científico continua a reverter para os consumo do tabaco, álcool e drogas, (4) planea-
cuidados médicos, apesar de ser agora ampla- mento familiar, (5) saúde mental, (6) violência,
mente reconhecido que o que determina a vida e (7) abuso físico e sexual, (8) programas comuni-
a saúde das pessoas são factores fora do âmbito tários, (9) lesões, (10) segurança ocupacional,
da medicina e mais bem resolvidos com medidas (11) saúde ambiental, (12) segurança alimentar e
de saúde pública, de promoção e protecção da drogas/medicamentos, (13) saúde oral, (14) saú-
saúde, prevenção da doença, ambientes despoluí- de materno-infantil, (15) doenças da circulação,
dos, segurança no trabalho, segurança fisica em (16) cancro, (17) diabetes e outras doenças cró-
ambientes familiares, sociais e ambientais, hábi- nicas, (18) VIH/SIDA, (19) DSTs, (20) vacina-
tos alimentares e redução dos consumos. ção e (21) doenças infecciosas.
Em Portugal (DGS, 2002) o Relatório de Pri-
mavera do Observatório Português dos Sistemas
de Saúde (OPSS) declara a educação e a promo- A SAÚDE NOS PAÍSES EM
ção da saúde como um investimento em saúde (e DESENVOLVIMENTO (PED)
não um custo) e o quadro comunitário de apoio,
no período de 2000 a 2006 (Saúde XXI), inclui O relatório da Conferência de Alma-Ata (WHO,
um vasto número de inciciativas de promoção da 1978) debruça-se sobre os países em desenvolvi-
saúde, desde as mais clássicas de prevenção de mento (PED) e reflecte sobre a necessidade de
doenças transmíssíveis (tuberculose, SIDA, p.e.) uma visão abrangente dos técnicos admitidos nas
e da protecção materno-infantil (vacinações, pla- equipas de intervenção em saúde, considerando
neamento familiar e protecção contra a violên- imprescindível a participação dos indivíduos
cia), até outras mais recentes como a segurança que nessas culturas realizam intervenções na
alimentar, a prevenção de doenças do coração e área da saúde, (1) tanto como forma de capacita-
dos cancros, a prevenção do sedentarismo, a pro- ção da população, de obtenção da sua confiança
moção de uma sexualidade saudável, a preven- e optimização da sua participação, (2) como en-
ção do tabagismo, do alcoolismo, da toxicode-
quanto forma de compreensão e contextualização
pendência e a promoção da saúde na escola e no
de problemáticas e sintomas e ainda (3) enquanto
local de trabalho. As metas quantificadas para
como forma de visar a saúde/bem estar integral
estas medidas foram também divulgadas no do-
das pessoas, que passará sem dúvida pela proxi-
cumento “Saúde: um compromisso (1998-2000)”
midade daquelas em que culturalmente se confia,
(DGS, 1999).
e finalmente (4) pela recuperação de um ambi-
A nível da Europa, como defende Campos
ente de apoio social. Nas recomendações deste
(1995), a instabilidade económica e social tem
relatório defende-se (WHO, 1978) que os servi-
vindo a agravar as desigaldades em termos de
saúde. Algumas causas de doença crónica e mor- ços de saúde, nomeadamente os que estão liga-
te (doenças cardio-vasculares, insuficiência renal dos a intervenções transculturais, não podem obs-
crónica e perturbações mentais) não têm regre- tinar-se num desenvolvimento impessoal e pre-
dido. Para além disso, defende, os programas de tender depois ir ao encontro da intimidade das
saúde pública destinados à modificação de com- populações em questões como a vida, a morte, o
portamentos tendem por sua vez a ser mais bem amor, a felicidade, a doença.
assimilados pelos mais instruídos e favorecidos, Esta estrada onde moro entre duas voltas do caminho
e este facto ainda mais agrava o fosso e as desi- interessa mais do que uma avenida urbana.
gualdades em saúde. Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Esta perspectiva sublinha a importância da de- Todo o mundo é igual.
finição de metas, avaliação de resultados e rede- Todo o mundo é toda a gente.
finição de novas metas em função da avaliação, Aqui não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
como exempo deste processo McGinnis (1991) Cada criatura é única.
apresenta as metas para a Saúde 2000, na se- (Manuel Bandeira, A estrada, 1921, in Rondó
quência da avaliação e reformulação das metas das mulheres do sabonete Araxá, Colares
para a Saúde 1990. Estas metas situam-se nas ed., 1995)

456
Constata-se que muitos aspectos da vida do Considerando a promoção e protecção da saú-
quotidiano, das relações entre as pessoas e das de, quer a nível das pessoas quer a nível das po-
pessoas com o ambiente são relevantes para a pulações, ter-se-á em consideração a pirâmide de
sua saúde. A generalização abusiva de estraté- motivações (Maslow, 1968), especialmente quan-
gias de organização de cuidados de saúde a con- do se trabalha com populações em grande priva-
textos, culturas e religiões diferentes de onde pri- ção económica ou de segurança. Como refere Mas-
meiro se implementaram, é efectivamente prática low (1968) é dificil pensar na sua saúde e no
de graves custos com contornos de “condescen- mundo de amanhã, quando está em causa a so-
dência e etnocentrismo” entreculturas. brevivência hoje. É dificil pensar em realização
O progresso económico, a nível dos países, pessoal quando se tem fome, febre, dores ou me-
não se identifica totalmente com uma melhor si- do.
tuação em matéria de saúde. Os progressos nos
cuidados de saúde são prejudicados por alguns
factores nefastos ligados ao progresso económi- PSICOLOGIA DA SAÚDE, SAÚDE PÚBLICA E
co. Esta “transição em saúde” tem implicações SAÚDE INTERNACIONAL
sérias em termos de cuidades e serviços de saúde
que começámos por referir. Com a evolução dos sistemas da saúde, o de-
Nos países em desenvolvimento (PED), cons- senvolvimento farmacológico e das ciências do
tata-se que a falta de água potável, a falta de con- comportamento e o abandono dos modelos insti-
dições sanitárias, as deficiências de vacinação e tucionais (hospitais, prisões, asilos), os psicólo-
da saúde materno-infantil são ainda condições gos, que habitualmente lidavam com a doença
salientes, mas acumulam desde há anos com as mental, foram chamados a intervir com pessoas
questões prementes a nível da saúde nos países sem doença mental, no apoio à adaptação à do-
mais desenvolvidos: consumos, excessos, defici- ença e na adaptação às sequelas da doença (Ri-
ente alimentação, doenças sexualmente transmis- beiro, 1999). Em seguida, a sua acção foi-se es-
síveis entre as quais o VIH/SIDA, a obesidade e tendendo à promoção e protecção da saúde das
os diabetes, a violência e os acidentes, as carên- pessoas, e mais tarde à promoção e protecção da
cias a nível de saúde mental com alienação/de- saúde das populações nas suas comunidades ha-
senraizamento/isolamento/exclusão social. bituais ou nas comunidades de acolhimento (ca-
Nos países com graves indicadores de pobre- so dos migrantes). Esta nova visão implica uma
za, higiene e salubridade, deficientes cuidados de nova dinâmica tanto para a Psicologia como pa-
saúde e educação, o equilíbrio homem-agentes ra a Saúde Pública, introduzindo do ponto de
patológicos tem ainda situações de ruptura, pro- vista dos prestadores de cuidados de saúde uma
vocando epidemias. Nestas situações são cada dimensão de trabalho em equipa multidisciplinar
vez mais medidas de saúde pública as responsá- com inclusão para além de psicólogos e especia-
veis pelo restabelecimento de ambientes saudá- listas em saúde pública, de outros técnicos de
veis. áreas como o direito, a economia da saúde, a so-
Numa perspectiva mundial, o custo da globa- ciologia, as ciências políticas e a antropologia.
lização leva a que aqueles países tenham um Nos dias de hoje, paradigmas emergentes apon-
contacto precoce com o melhor e o pior dos paí- tam para conceitos como “empowerment/capa-
ses industrializados. Saliente-se em particular, citação”, “activação de recursos comunitários”,
para falar apenas de riscos para a saúde, o consu- “intervenções preventivas”, “intervenções pro-
mo abusivo de bebidas alcoólicas, alimentação mocionais”, “qualidade de vida”, “participação”,
sem qualidade e rica em gorduras, consumo de “acessibilidade”, “igualdade de oportunidades”,
drogas, forte apelo ao consumo e ao “consumis- “parcerias”, entre outros. Tal implica um novo
mo” com um potencial efeito secundário em ter- processo de trabalho, com repercussões claras a
mos de criminalidade para os mais desfavore- nível da própria formação dos técnicos de saúde,
cidos, o sedentarismo, os acidentes (nomeada- com novos conceitos chave (1) trabalho em equi-
mente sob o efeito de álcool e drogas), os com- pa interdisciplinar, (2) linguagem comum, (3) ar-
portamentos sexuais de risco (nomeadamente sob ticulação de projectos, (4) gestão de poder e re-
o consumo de álcool e drogas). cursos, (5) gestão de relações interpessoais e di-

457
nâmica de grupos, (6) promoção e protecção da nal (abuso, apatia, imaturidade, stresse, baixa au-
saúde, (7) dinâmicas comunitárias. Assiste-se toestima, descontrolo); (3) ligados à escola/em-
também, em consequência, a uma mudança do prego (fracasso, desmotivação, desinteresse, iso-
papel do profissional de saúde que passa a apa- lamento, provocação (bullying), sobre ou sub-
recer mais como um “catalizador do desenvol- expectativas); (4) problemas interpessoais (rejei-
vimento pessoal e social dos indivíduos”, assu- ção de pares, alienação, isolamento); (5) “handi-
mindo-se mais como um “membro da equipa caps” pessoais (originados por deficiência senso-
utente/profissional” do que como um “tratador” rial, fisica ou mental); (6) factores ecológicos
munido de “técnicas e saberes absolutos”. (vizinhança, desemprego, pobreza extrema); in-
A teoria da acção social (Ewart, 1991) dá um justiça racial ou outra forma de discriminação); (7)
enquadramento teórico à aplicação da Psicologia atraso de desenvolvimento (competências sociais
à Saúde Pública. A teoria da acção social define fracas, fraca atenção, défice de leitura, competên-
que há estados da acção (o que fazemos), que mui- cias laborais reduzidas ou hábitos de trabalho não
tas vezes realizamos sem mesmo nos aperceber- estabelecidos, fraco potencial cognitivo).
mos, dentro das nossas rotinas e em certos con- Em síntese, a sinergia entre a Psicologia da
textos (fumar, praticar actividade física, ingerir Saúde e a Saúde Pública na área da promoção e
bebidas e/ou comer). Ewart (1991) defende que é protecção da saúde dos indivíduos e das popula-
preciso estudar os mecanismos de mudança, que ções desenvolveu-se a partir de vários factores:
perspectivem as mudanças individuais enquadra- (1) da insuficiência do modelo biomédico, de-
das em mudanças favoráveis no sistema ambien- pois da Medicina e da Saúde Pública terem con-
tal, isto é introduzir bons hábitos nas rotinas das seguido neutralizar os principais agentes infec-
pessoas e promover a auto-protecção a partir da ciosos, virais, tóxicos e bacteriológicos, (2) da
vida de todos os dias (alteração de leis, mudança preocupação com a prevenção das doenças e a
de ambientes, modificação de populações). Este qualidade de vida, (3) da mudança da preocu-
processo, continua Ewart (1991) implica interde- pação das doenças infecciosas para as doenças
pendência social e auto-regulação. crónicas, com os progressos da Medicina e con-
Coie et al. (1993) defendem que a intervenção sequente aumento da esperança média de vida,
da Psicologia na área da Saúde deve centrar-se (4) da aceitação do papel que têm para a saúde o
nos determinantes, nos mediatizadores e nas estilo de vida e os comportamentos de protecção
consequências dos comportamentos dos indiví- e risco, (5) da evolução da investigação nas ciên-
duos, com ênfase na transacção entre a pessoa e cias do comportamento, (6) dos aumentos dos
o ambiente, tendo em consideração a idade de custos em saúde e procura de alternativas aos
desenvolvimento da população, i.e., adicionando cuidados de saúde tradicionais.
à perspectiva ecológica uma orientação desenvol- Numa tentativa de integração e síntese das
vimental. Referem ainda estes autores que os facto- ideias expressas, propõe-se uma rápida retros-
res de risco têm um efeito cumulativo, dão ori- pectiva histórica pelo conhecimento, investiga-
gem a vários problemas e são neutralizados por ção e intervenção na área da promoção de com-
factores de protecção. Defendem portanto (1) portamentos ligados à saúde, na comunidade:
uma intervenção preferencial sobre os factores
de protecção (resiliência, vantagem social, com- - A passagem de um modelo mais “clínico” a
petências pessoais), (2) uma actuação sobre fac- um modelo promocional. Actualmente o fo-
tores indicativos precoces, e (3) a conjugação de co é posto na promoção de competências pes-
intervenções universais com intervenções mais soais e sociais. Esta abordagem implica que
selectivas. o indivíduo é apoiado nos seus esforços de
Coie et al. (1993) defendem ainda uma liga- autonomia e participação, de tomada de de-
ção próxima da intervenção à investigação como cisões, de concretização e persistência;
modo de avaliação de acções. Identificam facto- - A passagem de uma intervenção mais cen-
res de risco para a saúde (1) de ordem familiar trada nos indivíduos e nas suas patologias
(baixo estatuto económico, conflito familiar, do- (consumos, sedentarismo, alimentação de-
ença mental, desorganização, comunicação difi- ficiente, sintomas físicos e psicológicos),
cil, dimensão da família); (2) de ordem emocio- para uma intervenção centrada na relação

458
do indivíduo com os cenários e actores re- multi e interdisciplinar onde disciplinas co-
levantes do seu quotidiano, e na competên- mo a medicina, psicologia, economia, an-
cia dos indivíduos para se tornar agentes tropologia, sociologia, direito, ciências po-
activos dessa interacção e capazes de iden- líticas entre outras, interajam na compreen-
tificar necessidades de mudança e de as pro- são da saúde das populações.
duzir a nível pessoal, interpessoal e comu-
nitário;
- A relativização da importância atribuída à PROMOÇÃO E EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE
prevenção (muitas vezes não é possível
afastar os indivíduos do contacto com facto- O conceito de promoção da saúde inclui a
res de risco) e o equilíbrio entre estratégias ideia de que a saúde pode desenvolver-se ao lon-
preventivas e estratégias de promoção de com- go do ciclo da vida e que esta evolução é quali-
petências pessoais e sociais que permitam tativa. Inclui ainda a ideia de que a saúde é um
aos indivíduos, em certos casos, o convívio processo (e não um estado) que tem a ver com a
com factores de risco sem que se deixem interacção do organismo com o seu ambiente fí-
prejudicar a nível individual. Tal implica a sico e social. Neste registo, o homem passa a ser
identificação de factores ligados à protec- visto como um sistema auto-organizado e auto-
ção, a nível pessoal, social e comunitário; construído, que inclui funções biológicas (estado
- A evolução do conhecimento que leva à ne- dos orgãos, p.e.), de gestão (identificação de pro-
cessidade de maior precisão, complexidade blemas, decisão, controlo), de manutenção (ali-
e profundidade na compreensão dos proces- mentação e bebida, p.e.) e excitatórias (atenção,
sos e mecanismos através dos quais actuam emoção, motivação, p.e.) (Ford, 1990), cuja com-
factores, contextos e actores implicando um preensão é inseparável do ambiente físico e so-
aumento da complexidade, precisão e pro- cial por onde transita.
fundidade nos estudos empíricos; A promoção da saúde é um processo que visa
- O modo como se passou a considerar a pre- dar às pessoas informações e conhecimentos das
venção do risco e promoção da protecção suas capacidades pessoais (genéticas, físicas e
como holística e integradora dos vários as- psíquicas) que lhes permitam rentabilizar o seu
pectos da vida dos indivíduos. Assim, num capital próprio numa perspectiva de aumentar o
paralelo com outras áreas de conhecimento seu controlo sobre os determinantes da sua saúde
e intervenção, cada vez se fala menos de e assim melhorar a sua saúde e a sua qualidade
programas de intervenção para a prevenção de vida. A qualidade de vida é, neste contexto, a
do tabagismo, do alcoolismo, do consumo percepção por parte dos indivíduos de que (1)
de drogas, da depressão, do suicídio, das per- participam na gestão das suas vidas e da sua saú-
turbações alimentares, da delinquência, do de, (2) as suas necessidades estão a ser satisfeitas
sedentarismo, etc. O que verdadeiramente e (3) não lhes estão a ser negadas oportunidades
se pretende é identificar e promover alter- de alcançar felicidade e satisfação, não obstante
nativas e permitir e facilitar a promoção de o estado físico de saúde, ou condições sociais e
competências de vida; económicas. A participação dos indivíduos é essen-
- A utilização de metodologias qualitativas cial neste processo (OMS, 1986).
(Matos & Gaspar, 2003; Matos, Gaspar, Vi- Um comportamento de saúde é qualquer acti-
tória & Clemente, 2003), tais como méto- vidade desenvolvida por um indivíduo, qualquer
dos de observação, entrevistas individuais e que seja o seu estado de saúde real ou percebido,
colectivas e grupos focais (“focus group”), com o objectivo de promoção, protecção ou ma-
para uma maior compreensão, contextuali- nutenção da saúde, quer esse comportamento
zação e aprofundamento dos resultados de seja ou não objectivamente eficiente para o fim
dados qualitativos. Este procedimento au- (OMS, 1986). Comportamentos de risco são for-
menta assim a participação das populações- mas específicas de comportamento associadas ao
-alvo na definição de problemáticas rela- aumento de susceptibilidade a uma doença espe-
cionadas com as suas vidas; cífica ou à «doença-saúde» (OMS, 1986). Os com-
- A consequente importância de uma visão portamentos de risco são usualmente definidos

459
como “perigosos” com base em dados epidemio- desprestigiante e desinteressante”, ao passo que
lógicos e dados psico-sociais. Consideram-se os consumos de substâncias, as velocidades, a
comportamentos de protecção aqueles que têm não utilização de cinto de segurança, o envolvi-
um efeito minimizador de situações de risco. Es- mento em lutas, a não utilização de capacete e
tratégias de resposta para a alteração de compor- em geral a transgressão são vistos como excitan-
tamentos de risco incluem o desenvolvimento de tes e como fonte de prestígio social. É pois pre-
competências pessoais e sociais, e a criação de mais ciso reduzir as barreiras físicas, económicas e
envolvimentos facilitadores da saúde (Matos, 1998; culturais que dificultam a escolha de comporta-
Matos, 2000; Matos et al., 2000; Matos, 2002; Ma- mentos protectores da saúde. É também necessá-
tos et al., 2003; Matos, 2004) no sentido da pro- rio incluir o indivíduo como parte deste processo
moção de comportamentos de protecção. de controlo e responsabilização sobre a sua saú-
É possível argumentar que quase todos os de e a saúde da comunidade.
comportamentos ou actividades de um indivíduo Como já se referiu, o envolvimento e a parti-
têm impacto no seu estado de saúde. Como cipação e responsabilização dos indivíduos não
comportamentos prejudiciais para a saúde temos pode pretender “desculpabilizar“ os serviços de
como já vimos (Russell, 1986), p.e., tabagismo, saúde com consequentes “cortes orçamentais” pa-
uma alimentação rica em gorduras, ingestão de ra o sector, trata-se sim de uma redistribuição de fi-
grandes quantidades de álcool, consumo de subs- nanciamentos, como também já aqui se defendeu.
tâncias psicopáticas ilegais, ou fora de um con- Na Carta de Ottawa (OMS, 1986), uma acção
texto de vigilância médica. Como comporta- de promoção da saúde significa: (1) construção
mentos de protecção da saúde temos, p.e., lava- de uma política de saúde pública; (2) criação de
gem dos dentes, uso de cinto de segurança, prá- envolvimentos que sustentem a saúde; (3) forta-
tica de actividade física, procura de informação lecimento da acção da comunidade para a saúde;
relacionada com a saúde, realização de exames (4) desenvolvimento de competências pessoais;
médicos de rotina regulares, adequado número (5) re-orientação dos serviços de saúde. Os esti-
de horas de sono por noite. los de vida estão ligados aos valores, às motiva-
O estudo dos comportamentos dos indivíduos ções, às oportunidades e a questões específicas
ligados à saúde e os factores que os influenciam ligadas a aspectos culturais, sociais e económi-
é essencial para o desenvolvimento com quali- cos (OMS, 1986). Não há um mas sim vários
dade de políticas de educação para a saúde, para tipos de estilos de vida “saudáveis”, e a varieda-
a promoção da saúde e para programas e inter- de estabelece-se em função do grupo onde o in-
venções nos indivíduos e nas comunidades. A divíduo está inserido e das suas próprias caracte-
promoção da saúde representa um amplo proces- rísticas individuais.
so social e político, que inclui não só acções diri- Argyle (1997) defende que a felicidade, o hu-
gidas ao fortalecimento das competências pesso- mor e a saúde se inter-influenciam. Apresenta
ais e sociais dos indivíduos, mas também acções um conjunto de factores de ordem pessoal e so-
dirigidas à alteração das condições sociais, am- cial que influenciam a saúde, quer directamente
bientais e económicas, mas também dirigidas a quer pela influência sobre a felicidade e o hu-
minorar o seu impacto na saúde pública e indi- mor. Estes factores incluem as relações inter-
vidual. A promoção da saúde tem a ver com a to- pessoais, o ambiente laboral e a motivação com
mada de medidas no dia-a-dia, quer a nível in- o trabalho, a classe social, e a actividade física e
dividual quer a nível colectivo. Estas medidas o lazer. Aspectos como a nutrição, a actividade
para além de participadas e concretizáveis, têm física, o tabagismo, o consumo de álcool, o con-
ainda e cada vez mais, de tornar a adopção es- sumo de drogas, a exclusão/isolamento social e o
tilos de vida saudáveis numa opção fácil e pres- stress laboral ou escolar, a violência, estão na ba-
tigiante do ponto de vista do reconhecimento so- se da definição de um estilo de vida com efeitos
cial, bem como uma fonte de prazer e de felici- nocivos para a saúde. De salientar no entanto
dade pessoal (Csikszentmihalyi, 1990a, 1990b). (Tobal, 2004) que em relação à quase totalidade
Este facto é sobretudo importante na adolescên- destes comportamentos um estilo de vida saudá-
cia onde, por vezes, a adopção de estilos de vida vel não tem uma relação linear com a existência,
saudáveis é vista como “cinzenta, aborrecida, intensidade ou frequência destes comportamen-

460
tos, registando-se em relação a alguns destes uma modificáveis; (3) desenvolvimento de estratégias
relação tipo “U invertido”, onde a ocorrência de para a modificação destes comportamentos, quer
valores médios dos comportamentos é conside- através de mudanças no indivíduo (cognitivas,
rado um melhor indicador de um estilo de vida emocionais, motivacionais, comportamentais),
saudável. Os exemplos mais paradigmáticos des- quer através de mudanças no envolvimento físi-
ta corrente de pensamento são a actividade física co e social.
e os cuidados relacionados com a nutrição, mas
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