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É de conhecimento público e unânime – ou ao menos deveria ser – que meios de ação


generalizados produzem efeitos à imagem de seus agentes; armas não disparam sozinhas por precisarem
de um atirador capacitado, e atingirão seus alvos segundo a precisão operativa do usuário. O melhor
desenho é produzido pela pena nas mãos do melhor desenhista e o inverso ocorre em seu correlativo
contrário; mas atentemos que estamos tratando de instrumentos de ação prática nas mãos de agentes que
qualificam seu uso: e é aqui que começa nosso ensaio.

A internet foi concebida desde seus lampejos nas mãos do NPL como uma rede de
comunicação; atualmente funciona para isso também, embora a função original tenha sido soterrada por
toneladas de pornografia e memes. De qualquer forma, ainda há pessoas que prezam pela função original
e utilizam a internet para propagação de conhecimento.

Antes da popularização da internet, o melhor instrumento prático para se adquirir


conhecimento se chamava livro – talvez o leitor encontre alguns na casa de seus avós; são como pilhas
de papel de corte retangular adornadas por uma capa – e servia, mediante leitura, para que o usuário se
informasse. Aquele que vos escreve aprecia muito esse modo de adquirir conhecimento, embora tal
tenha se tornado, ao menos entre os millenials, algo antiquado.

Pois estudemos do que se trata o estudo segundo a geração millenial:

1. Millenial Untersuchungen
Diz-se que millenials são aquelas pessoas que nasceram após o ano 2000 a.c., e provavelmente
o leitor faz parte dessa geração; mas o que nos interessa aqui é investigar o modo como estes se utilizam
da internet para aprender algo de útil, ou seja, exclui-se toda e qualquer atividade lúdica ou duvidosa do
utilizador.

A internet é um instrumento como outro qualquer e que não faz nas mãos do agente algo diverso
daquilo que ele procura tendo-a como meio para um fim; assim, a carga valorativa dos atos está nas
mãos do utilizador. Quanto à procura do conhecimento, desconsiderando o conteúdo deste e prestando
atenção apenas a ato da procura, nada aprendemos além da aparente e irrestrita permissão da procura
mesma; mas e se prestarmos atenção ao conteúdo procurado e sua fonte? O ato de conhecer enquanto
ato é valorado de várias formas, mas não estamos atrás da valoração do ato, mas da valoração do
conteúdo procurado, embora, o ato mesmo possa ser visto por outros ângulos.

Olhando o conteúdo tratado como conhecimento, podemos avaliá-lo segundo sua qualidade
própria, em outros temos, se o conteúdo dado é satisfatório; em linguagem popular, estamos comparando
o peso informativo e a diferença que há entre, por exemplo, um blog de ocultismo criado por um menino
de 13 anos após ler sobre Nibiru, e uma enciclopédia digital como o Corpus Thomisticum. Assim
percebemos que há uma diferença bem clara entre o conteúdo do conhecimento; também surge a questão
de até que ponto esse conteúdo pode ser tóxico a ponto de uma pessoa passar a acreditar na Terra
Plana após um tempo lendo esse tipo de coisa.

De qualquer forma, o conteúdo fornecido pela internet não deve ser julgado como sempre
deficiente em comparação a livros; é de conhecimento público, por exemplo, que a História da
Filosofia de Bertrand Russell é quase um blog éfebo em forma de livro.

De qualquer forma, a internet é o principal instrumento de conhecimento nas mãos do millenial


corriqueiro, e ela de fato o fornece em larga escala, com seus vídeos, blogs escritos, audiolivros, – aquela
pilha de papel, mas agora lida para que o interessado não o precise –; e, como dito anteriormente, o
efeito da ação dá-se segundo a qualidade operativa do agente, i.e., fontes ruins produzem efeitos ruins.

Sabe-se que quanto menor, mais direto e mais simples de se ler, mais lido é um texto; isso vale
para vídeos também, e é o principal motivo das colunas de jornal serem tão pequenas – esse texto seria
descartado por qualquer jornal, por exemplo. Assim, temos conteúdo compresso de forma que o leitor o
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possa fazer rapidamente, e velocidade é um fator determinante; usemos um exemplo: se, em trocas de
mensagens de texto muito maiores do que quinze linhas há o risco de o remetente não ler, imagine-se o
que ocorre com textos com mais de cem. Extrapole-se o limite para um livro de, digamos, duzentas
páginas e temos uma boa imagem do que ocorre. O millenial corriqueiro não lê muito mais do que cabe
em uma página de blog, que por sua vez, deve caber no monitor de seu computador pessoal.

Mas, o que acontece quando se aplica o conhecimento diminuto ali contido – e é uma
consequência lógica; um texto de 30 linhas não tem o mesmo poder explicativo de um livro de 400
páginas – em debates?

2. De re philosophica opiniones abominandae.


Abramos um livro da década de 50 – como o História do Brasil, de Pedro Calmon, mas pode
ser qualquer outro – e um livro atual; perceberemos uma assustadora diferença, entre elas nossa
excruciante pobreza de vocabulário. Tratamos de algo análogo ao que ocorre na linguagem, e não é raro
que os mais velhos reclamem do vocabulário dos jovens e suas gírias simiescas. Mas ora: o que ocorre
quando esse espécime curioso resolve ler filosofia – em blogs, pois um livro de verdade não seria
entendido; quidquid recipitur ad modum recipientis – e debater na internet?

O Horror!

É notório que a esmagadora maioria dos debatedores de internet, excluindo-se os velhos


estranhos a e militância virtual paga por partidos, é o jovem politizado ou alienado após a leitura de
certos blogs e canais de filosofia; em verdade, há um tríplice fenômeno que merece estudo específico.

1. Resume aí que eu refuto!


O millenial comum mal lê; logo, se o precisa, o faz não de fonte primária, mas de esquemas
prontos por terceiros que o fizeram sabe-se lá de que fonte que não a original; ora, se não se tem a fonte
original, mas sim seu esquema, é natural que, num embate, peça-se não o conteúdo original, mas um
resumo facilmente assimilável. Assim, trata-se de não mais do que espantalhos, isso quando não simples
fantasmas da Cucolândia das Nuvens, como o diria Aristófanes.

1. Delivery de refutações.
Em um delivery, pede-se o produto e este é entregue em domicílio pronto para consumo; é o
que ocorre, digamos, com pizza. Mas e quando essa facilidade é transportada para debates de internet?
Temos, enfim, o delivey de refutações, certo sistema onde, após a encomenda, o refutador esquematiza
vários pontos – sofisticamente – tendo como fim o debacle de seu oponente frente à resposta dada. Esta
deve ser bem grande, com muitos termos técnicos e indicando fontes de difícil acesso; até que o oponente
encontre efetivamente o original, já esqueceu-se do debate. Em um sistema onde lê-se apenas resumos
e nunca a fonte primária, o delivery é a carta na manga do preguiçoso; basta copiar e colar.

1. O Ser e o Gado
Adiciona-se um estranho fenômeno: tendo em vista o tecnicismo das refutações encomendadas
ao melhor estilo Górgias de ser, não raro millenials do sexo oposto – ou do mesmo – do refutador
aproximam-se deste tendo em vista seu – simulado – intelecto superior. Nesse caso, o índice de refutação
é o análogo millenial do antigo bodybuilder.

“Ele malha para pegar mulher, gado demais”

Provérbio antigo retirado de Facebook 1.1


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3. Opera Bibliographica
Após tal exposição facilmente verificável do horror, o que nos resta? Dizem que o mais correto
é construir programas de estudo que afastem as pessoas do mal caminho e alertem que a resumos e
delivery nada são além de simulacros de conhecimento genuíno, e, embora sejamos tentados a chamar
tal de nova sofística, é sabido que os Sofistas de fato conheciam e dominavam ao menos a arte retórica
e mnemônica, sendo Hípias grande expoente da última.

Mas e se após tal, nada ocorrer?

Então deixemos que os mortos enterrem seus mortos.

Complexo Palpitorum

Pode-se ver nesses jovens, não um interesse no saber, mas um interesse no vencer. Lançam-se
impetuosos em combates escritos ou conversados, verdadeiros e risíveis conciliábulos. Não há preparo
para a luta, mas invenções de última hora. As vezes baseadas em outras ideias decoradas e defasadas. E
eis aqui o nosso ogro disforme que é a preguiça causadora da burrice esparsa. Verdadeiros diálogos
preenchidos das mais profunda e risíveis opiniões ditas com o mais profundo tom de saber intelectual.

Qual a doença por trás do millenials, meus caros?