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Língua Portuguesa 4 (Publicidade e Propaganda)

Profa. Bruna Bandeira


 As questões de coesão e coerência não são exploradas satisfatoriamente nem nas
aulas de LP
 Joga-se para o campo da coesão e coerência a razão de toda dificuldade que não se
consegue definir ou explicar
 Objetivos de Antunes (2005): tentar responder...
 Como é um texto (não) coeso?
 Como é um texto (não) coerente?
 Que recursos concorrem para que um texto seja coeso/coerente?
 O que falta em um texto sem coesão/coerência?

 Trazer para o debate questões que ultrapassam as determinações pontuais de


certo/errado em frases soltas (sem contexto) comuns em programas da grande mídia
 Questões do tipo certo/errado não requerem:
 Uma compreensão global de como as pessoas interagem através de gêneros
 Um conhecimento relevante de como fazemos para organizar um texto em função de:
 Defender um ponto de vista/princípio teórico
 Orientar uma argumentação
 Fazer uma ressalva
 Apresentar uma justificativa
 Dar uma explicação
 Emitir um parecer
 Vender um produto ou uma ideia

 Habilidades que são de fato relevantes


 Perceber semelhanças e diferenças
 Ordenar
 Estabelecer hierarquias
 Decidir o que é nuclear e periférico
 Discernir sobre o melhor jeito de abordar o outro
 Saber atuar verbalmente é uma condição de sucesso para o exercício de nossas
atividades sociais
 Foco nas questões textuais
 “Questões, enfim, capazes de nos ajudar a, na luta com as palavras, conseguir a coesão e
coerência que tornam significativas as coisas que fazemos, quando dizemos” (ANTUNES,
2005, p. 20)
 A privação de uma competência textual e comunicativa é uma forma de excluir
pessoas
 É importante percebermos que usar a linguagem é uma atividade social, um ato
histórico, político, cultural, que envolve complexas habilidades (cognitivas, textuais,
interativas) e fatores situacionais
 É importante, portanto, estendermos o debate das questões linguísticas a todxs
 Dificuldades dos alunos em:
 Escrever textos relevantes, adequados e coerentes
 Expressar-se oralmente num registro mais formal

 Faltam livros de orientações específicas para professores, alunos e público em geral


 Insuficiências do ensino de LP:
 Primazia da oralidade quase sempre informal em sala de aula
 Oportunidades de escrita reduzidas às aulas de redação e aos apontamentos
 Escrita com finalidade apenas escolar, sem perspectivas sociais → artificialidade das condições de
produção
 Falta de planejamento e revisão
 Atividades de leitura insignificativas
 Impossibilidade de muitos professores serem leitores, “escreventes” e pesquisadores
 Uma atividade de interação, de intercâmbio verbal
 Não tem sentido o vazio de uma escrita sem destinatário nem uma intenção particular

 Uma atividade cooperativa


 Dois ou mais sujeitos agem juntos para a interpretação de um sentido e uma intenção
 Como selecionar informações, escolher a ordem do que será dito, ajustar o grau de
formalidade etc. se não sabemos quem é nosso interlocutor e como avaliá-lo?
 Uma atividade contextualizada
 Os valores convencionalmente atribuídos aos momentos e espaços da escrita determinam
certas escolhas linguísticas
 Não há uma escrita uniforme, desvinculada de um propósito
 Uma atividade necessariamente textual
 Somente nos comunicamos através de textos (orais ou escritos)
 A escola ainda usa o texto como pretexto para o ensino de gramática
 Os objetivos e programas do ensino de LP excluem os estudos das regras de como as
interações orais e escritas se produzem e são interpretadas, para que servem
 Não se chega às propriedades da textualidade, à língua enquanto totalidade, ao discurso
nem à compreensão do que se faz através dele na reprodução/criação das representações
culturais
 Uma atividade tematicamente orientada
 Dissertando, narrando, descrevendo, relatando, enfim: há sempre um ponto em vista
 Perder esse ponto é romper com a unidade temática e comprometer a relevância
comunicativa da interação
 Uma atividade intencionalmente definida
 Escreve-se para cumprir determinado objetivo
 Dizer é fazer → Teoria dos Atos de Fala (SEARLE, 1981)
 As intenções servem de parâmetro para muitas decisões no percurso da interação

 Uma atividade que envolve especificidades linguísticas E pragmáticas


 Se escrever é uma atividade interativa, situada e funcionalmente definida, é natural que
cada texto seja marcado pelas condições particulares de cada situação
 São os elementos pragmáticos (da situação espacial e cultural) que determinam as escolhas
linguísticas, e não o contrário
 Uma atividade que se manifesta em gêneros particulares de textos
 Os gêneros não têm o mesmo esquema de sequenciação, conjunto de partes ou forma de
distribuição dessas partes
 Há esquemas típicos para cada gênero, uns mais flexíveis, outros mais rígidos
 Fora da linguagem com função poética, precisamos nos sujeitar a esquemas convencionais
 Por isso é conveniente defender a entrada de gêneros diferentes (que de fato aparecem
socialmente) na escola
 Uma atividade que retoma outros textos
 De forma mais ou menos explícita, estamos sempre voltando a outras fontes próximas ou
remotas
 Nunca somos inteiramente originais
 Fizemo-nos e fazemo-nos, individualmente, na rede coletiva de todos os discursos com que
entramos em contato; no convívio social dos conhecimentos compartilhados
 Uma atividade interdependente da leitura
 Ler e escrever se complementam → Há sempre um alguém do outro lado
 A fragmentação aula de “português”, “literatura” e “redação” resulta em percepção distorcida do
funcionamento da língua
 É preciso que encontremos condições para desenvolver o gosto pela leitura e escrita → Nem tudo
depende só da capacidade individual
 A escrita também guarda dependências em relação à fala → Atividades de interação
verbal
 A escola ignora as “idas e vinda da atividade de escrever”
 Cortes, acréscimos, substituições, deslocamentos fazem parte do processo de escrita
 Três grandes momentos da atividade de escrever (ANTUNES, 2003)
 Planejamento (remoto e próximo)
 Escrita propriamente dita
 Revisão

 A competência para escrever textos relevantes é uma conquista inteiramente possível


 O dom de escrever é, na verdade, resultado de muita determinação e prática
 Cada sujeito desenvolve as habilidades de escrita de forma e ritmo pessoais, mas todos são
capazes de escrever textos relevantes e adequados aos muitos propósitos interativos
 O texto (falado, ouvido, lido ou escrito) é o que constitui (ou deveria constituir) o
objeto de estudo das aulas de línguas
 Todas as noções, atividades e procedimentos propostos na escola devem convergir
para o texto, assim como acontece em toda atividade de interação social
 Fundamento: “Ninguém interage verbalmente a não ser por meio de textos”
(ANTUNES, 2005, p. 40)
 Ampliar a competência verbal de alguém é ampliar suas possibilidades de criar e
receber textos
 Em muitas escolas, “não há tempo para a leitura” → ela não faz parte do programa
 O contato com bons textos é a melhor forma de apreender padrões prestigiados da língua
 A escola tem autonomia para fazer seus programas, então por que não incluir a leitura?
 O que, em cada texto, deve ser objeto de estudo da língua? Como fazer isso?
 Impossível responder plenamente a essas perguntas
 “Há uma ciência, há um saber que se vai fazendo, que se vai tecendo na atividade de cada
um, e as descobertas vêm com a própria determinação de querer saber” (ANTUNES, 2005,
p. 42)
 Proposta da autora: apresentar alguns pontos sobre como deixar um texto mais
coeso e coerente
 Pressuposto: um conjunto de palavras deve ter algumas características para que
possa funcionar e ser reconhecido como um texto
 Coesão
 Coerência
 Informatividade
 intertextualidade
 Coesão: propriedade pela qual se cria e se sinaliza toda espécie de ligação que dá
ao texto unidade de sentido ou unidade temática
 Tudo que é dito em um ponto se liga ao que foi dito noutro, anterior e
subsequentemente
 Cada segmento de texto ― da palavra ao parágrafo ― está preso a pelo menos um
outro
 Ao falar ou escrever, vamos fazendo fios com os quais o texto vai sendo tecido em
uma unidade possível de ser interpretada
 O texto com sequência, em que se reconhece qualquer tipo de continuidade, é que
constitui a normalidade dos textos com que interagimos
 Em nossa experiência de falantes, não escolhemos primeiro uma palavra ou um
conjunto de palavras para produzir um enunciado (como a escola solicita)
 Ao contrário: temos algo a dizer, ou melhor, a fazer dizendo, e então escolhemos as
palavras adequadas
 Criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam os vários segmentos do texto
ligados
 Promover a continuidade do texto, a sequência interligada de suas partes, para que
não se perca o fio da unidade que garante a sua interpretabilidade
 Por causa das sucessivas ligações que se vão estabelecendo, a interpretação de
cada segmento é afetada pela interpretação das outras anteriores e posteriores
 Concomitante aos encadeamentos identificáveis na superfície do texto, vão
acontecendo outros no nível semântico
 Se há ligações na superfície do texto é porque elas existem no âmbito do sentido e das
intenções pretendidas
 O conhecimento do valor semântico das palavras de um texto não é suficiente para
apreender seu sentido global
 É preciso saber estabelecer relações entre as diferentes unidades, indo e voltando
Relações textuais Procedimentos Recursos
1. REITERAÇÃO 1.1 Repetição 1.1.1 Paráfrase
1.1.2 Paralelismo
1.1.3 Repetição propriamente dita • Unidades do léxico
de • Unidades da gramática
1.2 Substituição 1.2.1 Substituição gramatical Retomada por:
• Pronomes
• Advérbios
1.2.2 Substituição lexical Retomada por:
• Sinônimos
• Hiperônimos
• Caracteres situacionais
1.3 Elipse Retomada por elipse
2. ASSOCIAÇÃO 2.1 Seleção lexical Seleção de palavras • Por antônimos
semanticamente próximas • Por diferentes modos de
relações de parte/todo
3. CONEXÃO 3.1 Estabelecimento de Uso de diferentes conectores • Preposições
relações sintático-semânticas • Conjunções
entre termos, orações, • Advérbios
períodos, parágrafos e blocos • E respectivas locuções
supraparagráficos
 Relações textuais: rede de elos de natureza semântica que podem estabelecer três
tipos de nexo
 Reiteração → ocorre pelas retomadas de segmentos prévios do texto ou pelas antecipações
de segmentos seguintes
 Associação → ocorre pelo uso de diversas palavras do mesmo campo semântico ou de
campos afins por conta da unidade temática (contiguidade semântica)
 Conexão → ocorre pela ligação sintático-semântica entre termos, orações, períodos,
parágrafos ou blocos supraparagráficos por meio dos conectores (conjunções, preposições,
advérbios e respectivas locuções, além de expressões de valor circunstancial) que indicam
a direção argumentativa do texto
 Textos mais longos normalmente comportam as três relações ou, pelo menos, uma
 Textos mínimos (como avisos, por exemplo) podem prescindir de algumas dessas
relações porque o contexto autoriza a supressão de termos e expressões
 Procedimentos:
 Repetição
 Substituição
 Seleção lexical
 Conexão sintático-semântica

 Os procedimentos (assim como os recursos) ocorrem na superfície do texto, mas


essa superfície não é tudo
 Um texto é muito mais do que está explícito em suas formas linguísticas
 A produção e recepção de um texto são atividades interativas de natureza sociocognitiva

 Textos mais extensos apresentam esses procedimentos, mas nem sempre todos ao
mesmo tempo
 Em determinados tipos ou gêneros, um ou outro procedimento pode não aparecer
sem prejuízo para a coerência
 Operações concretas pelas quais os procedimentos se efetivam
 Operações de:
 Repetir
 Substituir
 Usar palavras semanticamente próximas
 Usar uma conjunção ou outro conectivo

 A cada procedimento, corresponde um ou mais de um recurso


 Mantendo termos na superfície ou substituindo-os por outros, reiteramos algum
elemento do tema, dos subtemas, da predicação do texto, o que promove sua coesão
 Voltar a dizer o que já foi dito antes, mas com outras palavras
 Espécie de tradução do enunciado ou explicação de uma forma melhor
 Operação de reformulação comum em textos explicativos e didáticos
 Às vezes essa reformulação pode conter pequenos acréscimos ou ajustes
 Introduzida por expressões como: em outras palavras, isto é, ou seja, quer dizer, em
resumo, em suma, em síntese
 Propicia a clarificação de um conceito, uma informação ou uma ideia
 Ex.: “[A paráfrase] Constitui um recurso coesivo, isto é, promove a ligação entre dois
segmentos textuais, uma vez que alguma coisa é dita outra vez, em outro ponto do
texto, embora com palavras diferentes” (ANTUNES, 2005, p. 63)
 Coordenação de segmentos que apresentam valores sintáticos idênticos e,
consequentemente, mesma estrutura gramatical
 Simetria de construção
 Não se trata de uma regra gramatical rígida, mas de...
 Uma diretriz estilística → dá harmonia ao enunciado
 Um recurso de coesão → deixa o enunciado numa simetria sintática que é articuladora

 É comum:
 No processo correlativo de adição → não só... mas também, não apenas... mas ainda, tanto...
quanto
 Para indicar uma série de complementos ou adjuntos de um mesmo termo/séries enumerativas →
“O banco oferece cartão de crédito, seguro de vida e plano de capitalização”; “Os rebocos da
parede e do teto estavam desgastados”
 Quando se usam expressões explicativas como isto é, ou seja, quer dizer, vale dizer
 A não adoção desse recurso gera um efeito desagradável (ver p. 67)
 “Técnico de futebol [Muricy] está aposentado após conquistar títulos e problemas de saúde”
(Folha de S.Paulo, 14/04/18)
 O paralelismo também deve ocorrer no âmbito semântico do enunciado
 “Gosto de chocolate e pipoca” → OK
 “Gosto de frutas e de livros” → estranho

 A quebra de paralelismo semântico pode constituir um recurso literário ou publicitário


de grande aceitação
 “Marcela amou-me durante quinze dias e dez contos de réis” (Machado de Assis)
 “Mais fácil ganhar pontos. Mais rápido viajar grátis” (Anúncio de empresa aérea)
 Fazer reaparecer uma unidade (palavra, sequência de palavras ou até frase) que já
ocorreu previamente
 É um recurso reiterativo, requisito da continuidade exigida pela coerência
 Ao contrário do que sustentam alguns professores e manuais de redação, é um
recurso textual significativo
 Pode ser usada sem afetar a qualidade do texto

 Não é um recurso apenas presente (e permitido) na conversação informal


 Pesquisas mostram que, em textos escritos formais (como editoriais de jornal) a repetição é
um recurso generalizado, incontestável e funcional
 É um recurso com muitas funções, todas elas, de alguma forma, coesivas
 1) Marcar a ênfase em determinado segmento
 “Ninguém deve comprar imóvel sem antes fazer pesquisa. Ninguém”
 “Terrível contra os insetos. Contra os insetos”
 “Um grande carro não precisa necessariamente ser um carro grande” → palavra repetida
com outro significado
 2) Marcar o contraste entre dois segmentos
 “O problema não está no estudante; o problema está no sistema”
 “Há publicitários e publicitários”

 3) Servir como gancho para uma correção explícita ou sugerida


 “A culpa é dos alunos. Dos alunos?”

 4) Expressar uma espécie de quantificação


 “Para se criar uma nova despesa com dinheiro público, bastava contrair uma dívida, e outra,
e outra, e outra, e assim sucessivamente”
 A grande função da repetição (embutida em qualquer uso) é a de marcar a
continuidade e progressão temática
 Repetir uma palavra às vezes é um recurso inevitável dada a artificialidade de se
atribuir a certas palavras um sinônimo ou equivalente qualquer
 Palavras de difícil substituição: democracia, pecuária, cooperativismo
 Textos de divulgação científica lidam com nomenclatura especializada e, por isso, são
restritos nas possibilidades de substituição lexical
 O número de ocorrências de palavras repetidas varia de acordo com o gênero textual,
as intenções do autor, o tema tratado e outros fatores ligados à situação
 A generalização pura e simples do comando “não repetir palavras” não tem sentido e pior:
perde a função de orientar a escrita de textos adequados
 A constatação de que “a repetição é um indício de pobreza vocabular” é muito simplista
 Na verdade, essas afirmações pretendem atingir a repetição não funcionais
 Orientações desse tipo são dadas de forma tão indiscriminada e tão geral que acabam surtindo
apenas o efeito negativo da proibição
 Esquece-se, por exemplo, que na estilística e na retórica a repetição ganhou um lugar de
destaque
 Gêneros em que a repetição é comum: poemas, anúncios, chistes, trocadilhos, provérbios
 Além dos gêneros, os pontos do texto onde a repetição ocorre merecem ser analisados
 A distribuição de palavras repetidas ao longo do texto pode funcionar como estratégia de sua
organização
 Há pontos preferenciais: por exemplo, palavras do primeiro parágrafo tendem a se repetir no
último, sinalizando fechamento
 As palavras que explicitam o tema tendem a perpassar o texto inteiro justamente para marcar a
continuidade temática
 Como qualquer recurso, a repetição merece o cuidado da utilização equilibrada → o texto
não pode avançar circularmente, sem sair do lugar
 Algumas repetições podem ser evitadas (ver p. 82)
 Ainda assim, é sempre importante analisar o contexto em que elas ocorrem
 O que vale é o efeito que se quer produzir
 Repetição parcial: retomar um segmento anterior pelo uso de uma palavra derivada,
sobretudo pela nominalização
 “O governo decidiu pela intervenção militar no Rio. Há quem diga que tal decisão foi uma
estratégia para não mais votar a PEC da reforma da previdência e, assim, evitar desgaste”
 Nos textos que circulam socialmente, raramente se repete simplesmente por repetir,
sem um propósito discursivo qualquer ou por uma questão de inabilidade apenas
 Em qualquer texto, repetem-se palavras
 Nos casos didáticos de textos com repetições não funcionais que os tornam menos
interessantes, seria adequado explorar a substituição de palavras
 Os pronomes funcionam como elementos de substituição, assegurando a cadeia
referencial do texto
 Há dois tipos de substituição pronominal:
 Anáfora → “O doutor está de férias. Ele só retornará aos atendimentos no próximo mês”
 Catáfora → “Só desejamos isto: férias!”

 A substituição pronominal é um recurso bastante frequente em nossas interações


verbais (faladas e escritas)
 Decidir por substituir ou não uma palavra por pronome requer competência de avaliar
seus efeitos
 Somente na cadeia do texto podemos decidir o que é mais adequado: substituir a
palavra por um pronome, por um sinônimo ou simplesmente repeti-la
 Pronomes pessoais, demonstrativos, possessivos, relativos e indefinidos podem
cumprir a função de retomar ou antecipar referências anteriores ou subsequentes
 “Conheci-o numa mesa de bar. Depois fiquei sabendo que se chamava Raul” (pessoal)
 “Este é o livro de que falei” (demonstrativo)
 “Aquele seria um dia todo seu. Maria poderia fazer o que quisesse sem se preocupar com
os filhos” (possessivo)
 “O pai que estava preocupado era o que mais tinha atrapalhado a dinâmica” (relativo)
 “Nenhum responsável tomou a atitude esperada para o momento” (indefinido)

 Tais referências podem ser apenas uma palavra ou uma predicação inteira
 “As crianças não fazem distinção entre as pessoas, elas não têm preconceitos com os
colegas. Os adultos é que parecem ‘ensinar’ isso a elas”
 É preciso ficar atento para avaliar a clareza do que é referido evitando ambiguidades
e imprecisões
 Para isso, é importante conhecer as regras da gramática e da textualidade
 Ex. de falta de clareza: “A mãe de Pedro entrou com seu carro na garagem”

 Alguns advérbios também têm a função de fazer referência a um termo anterior ou


subsequente
 Anáfora → “Eu já tinha ido ao sítio Pau Brasil. Foi lá que conheci essa planta”
 Catáfora → “Foi lá no sítio Pau Brasil que eu conheci essa planta”

 Os pronomes e advérbios substituidores não têm autonomia referencial, ou seja, não


se aplicam sempre ao mesmo conjunto de referentes
 Uso de uma palavra no lugar de outra que lhe seja textualmente equivalente
 A substituição não serve apenas para evitar a repetição de palavras nem é um
simples expediente de troca de elementos no percurso do texto
 Ela supõe um ato de interpretação com o objetivo de avaliar a adequação do termo
substituidor quanto às intencionalidades do autor
 Em relação à repetição, ela oferece a vantagem de acrescentar informações ou dados
acerca da referência já introduzida
 Substituição de uma palavra por...
 Seu sinônimo: menino → garoto; costa → litoral
 Seu hiperônimo (nome genérico, indicador de classe): gato, cachorro, papagaio → animal
 Uma expressão descritiva (caracterização situacional): Elis → a netinha mais velha
 Não existe sinonímia perfeita, absoluta
 Apenas na oportunidade concreta do texto, pode-se decidir pela adequação de uma
substituição sinonímica
 A substituição por sinônimo:
 Mantém a continuidade do tema do texto ou do tópico do parágrafo → efeito coesivo
 Tem repercussões no caráter informativo e persuasivo do texto
 Requer muito cuidado e, por isso, não é tão frequente → palavras tidas nos dicionários como
sinônimas nem sempre podem ser usadas como totalmente equivalentes
 Ex.: “Pesquisas indicam que homens não gostam de manter relações sérias com mulheres
inteligentes” ≠ “Buscas indicam...”?

 Às vezes, a equivalência sinonímica é feita por meio de um rodeio lexical e sintático


 “O complexo dinamismo da vida cultural das sociedades humanas gera um aumento
constante do vocabulário. Esse processo de expansão se dá por várias vias”
 Estabelece uma relação entre um nome mais específico/subordinado e um outro mais
geral/superordenado
 Os hiperônimos têm uma frequência muito alta em nossos textos (mais que os
sinônimos) porque...
 Apresentam uma versatilidade maior quanto à inequívoca equivalência de referência
 Funcionam como uma espécie de “curinga”
 São palavras que podem substituir grande número de outras

 Nomes genéricos que podem substituir muitas palavras: item, dispositivo,


equipamento, recipiente, procedimento, produto, fator, elemento, entidade, coisa
 Há níveis distintos de generalidade por conta da disposição hierárquica em que se
organizam os seres da experiência
 Ex.: gato → animal (mais geral); felino (menos geral)
 Palavras hiperonímicas de aplicação rígida: nomes de espécies naturais, unidades
terminológicas de uma nomenclatura ou taxionomia
 Ex.: Anfíbio, felino, suíno
 São mais esperados em textos científicos

 Já as designações menos rígidas prestam-se a muitas aplicações, emprestando


versatilidade e fluência à língua
 As línguas, assim como são versáteis, são coercitivas. Não é adequado, por exemplo,
substituir novilho (bezerro) por filhote de suíno
 A substituição por hiperônimos também pode ter a função de:
 Caracterização: avaliação, rotulação da coisa retomada
 “Quem quer que ouse levantar a mão e o braço para destruir as instituições deve sofrer as
consequências de sua imprudência”
 Definição: de uma atividade ou um objeto previamente referidos
 “Imagine-se que a vida de alguns tecidos do corpo possa ser reconstruída a partir de células-tronco.
Essa hipótese tem alimentado o interesse pela pesquisa científica”
 Tal definição pode funcionar como resumo: recapitulação de blocos anteriores, quase sempre
fechando um tópico ou marcando a transição para um seguinte
 Enquadramento definidor: espécie de avaliação
 “Refúgios destinados à venda de refrigerantes, bombons e outras bugigangas”
 Retoma um referente textual por meio de uma expressão que o descreve conforme o
que é relevante destacar em uma dada situação enunciativa
 “A era da pós-verdade é na realidade a era do engano e da mentira, mas a novidade
associada a esse neologismo consiste na popularização das crenças falsas e na facilidade
para fazer com que os boatos prosperem”
 Muitas equivalências referenciais podem ser conseguidas pela caracterização
situacional → recurso versátil
 “O caso do assassinato de Marielle Franco ainda está sem solução. Sabe-se que a jovem
política/vereadora pelo PSOL carioca era uma crítica ferrenha à atuação da Polícia Militar no
Rio”
 Lançar mão desse recurso mobiliza antes nosso conhecimento de mundo
 O conhecimento da gramática não é suficiente para falar e ouvir, ler e escrever de
forma coesa, relevante e adequada às situações
 Substituir uma expressão por outra pode ser uma operação muito mais sociocognitiva
do que simplesmente linguística
 Além de ser coesivo, esse recurso pode também
 Expressar um ponto de vista
 “Claudinha Leitte foi escalada para o time do The Voice Kids [...] é de se esperar todo tipo de
esparrela e falsidade dessa baiana aspirante a Ivete Sangalo”
 Constituir uma forma de redefinir/recategorizar o referente
 “Numa sociedade onde ninguém quer engordar, o crescimento dos supermercados é um tanto
contraditório. A febre de emagrecimento deveria beneficiar o desenvolvimento de pequenas
quitandas e não desses monstruosos templos de consumo”
 Omissão de um termo que pode ser facilmente recuperado pelo contexto
 “Φ Saímos cedo do trabalho”
 “Comprei café e leite; Marcos, Φ torradas e queijo”

 A elipse tem sido incluída entre os recursos coesivos desde os primeiros estudos
linguísticos sobre o tema
 Mas, em muitas gramáticas, ela costuma aparecer entre as figuras de linguagem e
formas de construção de efeitos de sentido
 É vista como recurso sintático que confere maior expressividade ao texto
 Quase não há o reconhecimento da sua função coesiva
 Costumeira ausência de uma perspectiva textual para o estudo dos fatos linguísticos

 A elipse como recurso coesivo:


 É uma estratégia de omitir um termo, uma expressão ou sequência maior já introduzidos em
outro segmento do texto e recuperáveis por marcas do próprio contexto verbal
 Assinala que alguma coisa é reiterada na continuidade do texto, embora esse sinal seja
dado exatamente pela falta de um elemento esperado (inclusive sintaticamente)
 Frequentemente está associada à ocorrência de um mesmo tempo verbal ou uma mesma
função sintática
 Pode ser um indicativo de que algo continua em foco → reiteração
 Amplia as possibilidades de retomada (além da repetição e das substituições)
 Pode provocar outros efeitos, como concisão e leveza de estilo
 Cuidados com o uso da elipse!
 Escolher bem o onde usá-la, alternando seu uso com outros recursos
 Deixar claras as instruções da “presença pela ausência” para não incorrer em imprecisão e
ambiguidade
 Não perder o fio que amarra o texto (justamente por ela ser um apagamento)
 Coesão lexical: atinge as relações semânticas que se criam entre as unidades do
léxico (substantivos, adjetivos e verbos, principalmente)
 “O jornal que mais se compra é o que menos se vende”
 “A escola pública não é privada”

 Recurso mais presente em todo gênero (com exceção de textos mínimos, como
alguns anúncios e avisos)
 Ocorrência relevante x ocorrências periféricas
 Palavras do núcleo temático do texto x palavras que se ligam a subtópicos menores

 O que determina a escolha do vocabulário é o tema, assunto, tópico do texto


 A motivação para essa escolha é sociocognitiva → presa aos sentidos e propósitos
partilhados em cada situação comunicativa
 As unidades lexicais de um texto podem estar associadas devido a:
 Relações de antonímia: máximo, mínimo; perene, temporário
 Relações de co-hiponímia: inverno, primavera, verão, outono (estações); animal, vegetal,
mineral (reinos)
 Relações de partonímia (meronímia): rio, margem, nascente, foz, curso

 Qualquer dessas relações tem seus imensos desdobramentos, o que as torna


complexas e com limites pouco claros
 Pessoa física, pessoa jurídica: antonímia ou co-hiponímia?

 Tais associações explicam ser praticamente improvável encontrarmos uma palavra


totalmente desvinculada de outra num texto
 As relações semânticas entre as palavras são de muitos tipos (ver pág. 135),
praticamente incontáveis e concorrem para gerar a progressão do texto coerente
 Essa associação é possível por conta de uma rede em que fatos da realidade física e
cultural se arrumam
 PSDB, tucanato
 Seleção Brasileira de futebol, Canarinha
 IR, leão

 O conhecimento de mundo é um princípio organizador de conceitos e uma base


significativa para muitas associações relevantes em um texto
 A função das palavras não se restringe a uma questão de significado
 As palavras também sinalizam as ligações que se quer estabelecer para que o texto tenha
unidade e, assim, funcione como atividade verbal
 Uso de conectores com a função de promover a sequenciação de diferentes porções
do texto
 Todo recurso coesivo promove sequenciação, mas a conexão o faz de modo
específico
 Promove a ligação em pontos bem determinados do texto (entre orações e períodos
sobretudo)
 Obedece determinações sintáticas mais rígidas

 Conectores:
 Conjunções e locuções conjuntivas
 Preposição e locuções prepositivas
 Advérbios e locuções adverbiais
 Nas gramáticas em geral o tratamento da conexão é restrito à ligação entre termos ou
orações
 Pouco ou nenhum destaque é dado à ligação entre períodos, parágrafos ou blocos maiores
 Nenhuma ou pouca menção é feita à função coesiva desses conectores
 Não é feita nenhuma referência ao papel das conjunções:
 No estabelecimento da coerência, nos usos reais da linguagem cotidiana
 Na organização dos textos
 Na condução orientação discursivo-argumentativa do autor

 Na fala, as pausas cumprem a função de sinalizar as relações expressas pelos


conectores
 O mais importante na produção e recepção de textos é identificar o tipo de relação
estabelecida pelos conectores, e não sua classificação ou nomenclatura
 Causalidade  Delimitação/restrição
 Condicionalidade  Adição
 Temporalidade  Oposição
 Finalidade  Justificação ou explicação
 Alternância  Conclusão
 Conformidade  Comparação
 Complementação
 Causalidade: um segmento (oração, período) expressa a causa da consequência
indicada em outro
 Conectores: porque, uma vez que, visto que, já que, dado que, como, tanto que, porquanto
 Atenção! Posto que (= ainda que; embora) ≠ visto que
 Atenção! Porquanto (causalidade) ≠ portanto (conclusão)
 Ex.: “A professora exigiu tanto dos alunos que eles terminaram desistindo da disciplina”

 Condicionalidade: um segmento expressa a condição para o conteúdo de outro, de


forma que, se um for verdadeiro, o outro também será
 Causa hipotética
 Conectores: se, caso, desde que, contanto que, a menos que, sem que, salvo se, exceto se
 Atenção: Contanto que ≠ portanto (que)
 Ex.: “Se os valores éticos não são discutidos, cria-se um ambiente propício à corrupção”
 Temporalidade: expressa o tempo a partir do qual são localizadas as ações ou os
eventos em foco
 Relações de: tempo anterior/posterior/simultâneo, tempo habitual, tempo proporcional
 Conectores: quando, enquanto, apenas, mal, antes que, depois que, logo que, assim que,
sempre que, até que, desde que, todas as vezes que, cada vez que
 Exs.: “Uns têm tão pouco enquanto outros têm muito” (tempo simultâneo)
“Desde que foi eleito governador, já esteve envolvido três vezes em escândalos”
(tempo habitual)
“O desafio é tanto maior quanto maiores forem os obstáculos” (tempo proporcional)
“Cada vez que um aluno desiste da escola, o Brasil perde um potencial cidadão crítico
e um profissional qualificado na sociedade” (tempo proporcional)
 Sequência temporal (fatos da realidade) x sequência textual (coerência interna do texto):
 “Há tempos sabemos que a prática de exercícios regulares faz bem à saúde”
 “Em primeiro lugar porque melhora a postura; em segundo lugar, porque regula o sono ao liberar
endorfina; e, finalmente, porque também diminui os riscos do desenvolvimento de algumas doenças”
 Finalidade: um dos segmentos explicita o propósito/objetivo expresso por outro
 Conectores: para que, a fim de que, com o fim de
 Ex.: “Esses cartões abrem portas para você fechar negócios”

 Alternância: evidencia elementos em alternância que se excluem mutuamente (ou


exclusivo, exclusão) ou elementos que se somam (ou inclusivo, inclusão)
 Conectivos: ou; ora, ora; seja, seja
 Exs.: “Todo escritor é útil ou nocivo” (ou exclusivo)
“Ora ele ataca, ora se defende” (exclusão)
“Contratamos homens ou mulheres com proficiência em francês” (ou inclusivo)
“Seja branco, seja negro, seja rico, seja pobre, todos vamos para o mesmo lugar no
fim da vida” (inclusão)
 Conformidade: um segmento expressa que algo foi realizado de acordo com o que
foi pontuado no outro
 Conectores: conforme, consoante, segundo, como, “que nem” (na fala)
 Ex.: “Conforme apontam várias pesquisas, saber gramática não é garantia de escrever bem”
“Ele fez que nem o manual dizia que era pra fazer”
 Complementação: um segmento funciona como termo complementar de outro
(quando uma oração é sujeito, complemento ou aposto de outra)
 Conectores: que, se, como
 Exs: “Os pais concluíram que estava na hora de dar mais autonomia aos filhos”
“Os dados comprovaram como a situação estava insustentável”
“É fundamental que os pais compareçam à reunião”
“Duas conclusões foram tiradas no encontro: que os alunos precisavam arcar com as
consequências de seus atos e que eles não estavam acostumados a isso”
 Delimitação ou restrição: uma oração delimita ou restringe o conteúdo de outra
 Conectores: pronomes relativos → que, o(s) qual(is), a(s) qual(is)
 Ex.: “Aproveite a liberdade que a maturidade te dá”

 Adição: quando mais um item é introduzido num conjunto ou quando mais um argumento
é acrescido em favor de uma conclusão
 Conectores: e, ainda, também, não só... mas também, além de, nem, além do mais (para
introduzir argumento decisivo), outrossim (uso mais formal)
 Ex.: “Não é necessário apenas investimento, mas também formação”

 Oposição: um conteúdo que se opõe a algo explicitado ou implicitado em um enunciado


anterior
 GT: expressões adversativas e concessivas, que diferem na direção argumentativa
 Conectores: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, embora, se bem que, ainda
que, apesar de, por um lado... por outro lado, conquanto
 Atenção! Contudo não é conclusivo
 Atenção! Conquanto (oposição = embora) ≠ contanto que (condição)
 Ex.: “Ele é um bom professor, mas costuma faltar muito” (prevalece o argumento contra ele)
“Embora ele falte muito, é um bom professor” (prevalece o argumento a seu favor)
 Justificação ou explicação: um segmento tem o fim de justificar, explicar ou
esclarecer o anterior
 Muito comum em textos expositivos ou explicativos, sobretudo didáticos
 Conectores: isto é, quer dizer, ou seja, pois, porque, que (pronome relativo), o qual
 Exs.: “Há muito tempo a ciência destruiu o mito da raça pura, que é um conceito absurdo,
sem nenhuma possibilidade de verificação na realidade de nenhum povo”
“As relações entre coesão e coerência são bastante estreitas e interdependentes.
Quer dizer, não há uma coesão que exista por si mesma e para si mesma”
 Conclusão: em um segmento se expressa uma conclusão obtida a partir de fatos ou
conceitos expressos no segmento anterior
 Conectores: logo, portanto, pois, por conseguinte, então, assim, haja vista (invariável)
 Ex.: “Já fiz tudo que estava ao meu alcance. Portanto, desisto!”
 O conector de conclusão, como todos os outros, pode vir subentendido: “Quer continuar a
respirar? Comece a preservar”
 Comparação: segmentos distintos põem em confronto dois ou mais elementos para
identificar semelhanças ou diferenças entre eles
 Conectores: como, mais... (do) que, menos... (do) que, tanto... quanto
 Ex.: “Um time é maior do que a soma de seus jogadores”

“Quanto mais tivermos conhecimento de quais são esses recursos lexicais e


gramaticais, quanto mais soubermos como eles atuam no decurso do texto, mais
temos condições de tomar decisões certas, ou seja, de optar pela escolha adequada
de um ou outro recurso” (ANTUNES, 2005, p. 172)
Subi a porta e fechei as escadas
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos
Desliguei a cama e deitei-me na luz

Tudo porque
Ele me deu um beijo de boa noite...
(Autor anônimo)
 Esse poema é coerente? Faz sentido?
 Não: pela linearidade de sua composição e padronização de sua sequência
 Sim: exatamente porque quebra essa linearidade e viola essa padronização com uma
função comunicativa definida, buscando um efeito único: reproduzir o estado de espírito de
uma amante
 Ele é coerente não somente porque é um poema, mas porque se pode, por uma via
qualquer, recuperar uma unidade de sentido
 A coerência não é uma propriedade linguística nem se prende apenas a
determinações gramaticais
 Ela supõe tais determinações, mas as ultrapassa

 O limite para a coerência é a funcionalidade do que é dito, os efeitos pretendidos


 A coerência tem a ver com a possibilidade de o texto funcionar como meio de
interação verbal
 A coerência é linguística, mas também (e principalmente) contextual, extralinguística,
pragmática
 Ela depende da situação, dos sujeitos envolvidos e suas intenções comunicativas

 A coesão está em função da coerência


 A coesão é decorrência da própria continuidade exigida pelo texto, a qual, por sua vez, é
exigência da unidade que lhe dá coerência
 As palavras, os períodos, os parágrafos, qualquer segmento se interliga no texto para que
ele faça sentido, torne-se interpretável
 É artificial separar coesão da coerência → parece improdutivo demarcar com precisão onde
acaba uma e começa a outra
 A continuidade e a unidade textuais são decorrência do aparato cognitivo com que
processamos as informações e as estocamos na memória
 Sobre as regras de coerência propostas por Charolles:
 Suposição: existe uma norma mínima de composição textual
 Essa norma é comum a todos os membros de uma comunidade linguística e constitui a
competência textual dos falantes
 O comum é que as pessoas digam coisas que têm sentido e, por isso, nos esforçamos por
encontrá-lo
 Podemos distinguir entre uma coerência macroestrutural (global) e uma microestrutural
(local, pontual)
 Incoerências pontuais podem, em alguns casos, atingir a coerência global de um texto
 As regras incidem sobre as condições morfossintáticas e semânticas de uso das palavras
em textos (componente linguístico) → Não se pode usar qualquer palavra em qualquer lugar
 As regras também exigem que se considerem parâmetros pragmáticos (componente
extralinguístico)
 Metarregra da repetição: Para que um texto seja (micro ou macroestruturalmente)
coerente, é preciso que ele comporte em seu desenvolvimento linear elementos de estrita
recorrência
 “Elementos de estrita recorrência” ≈ relação textual de reiteração (paráfrase, paralelismo,
repetição, substituição, elipse)
 Interseção entre coerência e coesão
 Destaque para o caráter sequenciado de um texto coerente, seu desenvolvimento homogêneo e
contínuo e a ausência de ruptura
 Metarregra da progressão: Para que um texto seja (micro ou macroestruturalmente)
coerente, é preciso que seu desenvolvimento contenha elementos semânticos
constantemente renovados
 Não se deve repetir indefinidamente (circularmente) o mesmo conteúdo
 Um texto coerente exige progressão semântica
 A produção de um texto coerente supõe equilíbrio entre continuidade temática e progressão
semântica
 Um elemento novo deve estar em relação de contiguidade com outros já introduzidos
 Metarregra da não contradição: Para que um texto seja (micro ou
macroestruturalmente) coerente, é preciso que em seu desenvolvimento não se introduza
nenhum elemento semântico que contradiga um conteúdo posto ou pressuposto
anteriormente
 Parâmetros para avaliar a natureza da contradição: percepções, crenças de nosso repertório de
representações do mundo
 Tais representações não são (totalmente subjetivas), mas culturalmente determinadas
 Se um texto é coerente, ele o é em relação a algum outro elemento → a imagem do mundo
representado sob as palavras e as intenções do texto
 Metarregra da relação: Para que um texto seja (micro ou macroestruturalmente)
coerente, é preciso que os fatos que ele expressa estejam relacionados entre si no
mundo representado
 Metarregra pragmática: os indivíduos, os fatos, as ações, as ideias, os acontecimentos ativados
em um texto guardam algum tipo de associação, de ligação
 Uma expressão vai dando acesso a outra(s) seguinte(s), de forma que tudo vai constituindo uma
cadeia, um todo interligado
 O reconhecimento das relações está em consonância com as qualidades atribuídas ao mundo
interpretado

 Um texto é coerente para um determinado sujeito numa determinada situação.


Nunca no vazio da não identidade ou do despropósito!
Após a leitura e discussão da reportagem Lula, o humano, analisem com os colegas como
o uso variado dos recursos coesivos contribuiu para dar sentido (coerência) ao texto e os
efeitos de sentido alcançados por esses meios. Para isso, selecionem um exemplo de cada
um dos recursos que constroem as relações textuais de:
 Reiteração: paráfrase; paralelismo; repetição propriamente dita de unidades do léxico e
de unidades da gramática (indicando sua função); repetição parcial (nominalização);
substituição gramatical retomada por pronomes e advérbios; substituição lexical retomada
por sinônimos, hiperônimos (e sua função), caracterizadores situacionais; elipse
 Associação: seleção lexical por antônimos, por co-hipônimos e por diferentes modos de
relações de parte/todo (indicando a natureza dessas relações)
 Conexão: relações sintático-semânticas de causalidade, condicionalidade, temporalidade,
finalidade, alternância, conformidade, complementação, delimitação/restrição, adição,
oposição, justificação ou explicação, conclusão e comparação