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sta obra atinge, merecidamente, a décima edição. Com .

efeito,
História da educação brasileira: a organização escolar, de
Maria Luisa Santos Ribeiro, vem prestando valioso auxílio aos
professores da disciplina História da Educação.
Nesta nova fase, agora editado por Autores Associados/Cortez
Editora, o livro aparece revisto e ampliado procurando responder
ainda mais satisfatoriamente às expectativas e necessidades dos
professores e estudiosos da história da nossa educação.
Abordando o conjunto da história da organização escolar brasileira
em seus principais aspectos, este livro constitui a primeira tentativa
sistemática de abordar globalmente a história da educação brasileira
mantendo presente o vínculo entre o especificamente educacional e o
desenvolvimento da base material da sociedade brasileira. E, dado o
seu pioneirismo, importa reconhecer que o empreendimento foi bem
sucedido.
Por se tratar de um texto escrito em linguagem clara, sem cair em
simplificações; didático, sem ser superficial; acessível mas não
facilitador, e de leitura leve, porém não aligeirada, esta obra é útil aos
professores de História da Educação tanto dos cursos de pedagogia
como dos cursos de formação de professores para as quatro primeiras
séries do ensino de primeiro grau. Interessa, ademais, a todos os que
se preocupam em compreender a educação brasileira do ponto de
vista de sua história.

ISBN 8.5-249-0084-9

@C.ORTEZ
~EDITORR
EDITORA@
AUTORES
9 ASSOCIADOS
Coleção
EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA

Maria Luisa Santos Ribeiro é pedagoga, com mestrado e doutorado em Fi-


losofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP). Atualmente é professora no Programa de Mestrado em Edu-
cação na mesma Univesidade. Obras publicadas: Introdução à história da YV/;tuCO 4/JL,·yU;u,
educação brasileira (Ed. Moraes); Educação em debate: uma proposta de
pós-graduação, em co-autoria (Ed. Cortez); Formação política do profes- nr
vwaz:co ..í't. t~ 'd
UDn
(Jez:aldo de Oliveira
sor de Jr! e 2rf graus. (Ed. Cortez).

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ribeiro, Maria Luísa Santos. .


RJ7h História da educação brasileira : a organização escolar /
Maria Luísa Santos Ribeiro - 12. ed. - São Paulo : Cortez :
Autores Associados, 1992. (Coleção educação contemporânea)
Bibliografia.
ISBN 85-249-0084-9

1. Educação - Brasil - História 2. Sociologia educacional


A ORGANIZACÃO ESCOLAR
- Brasil I~ Título.

CDD-370.981
12~ edição
87-0229 -370.1930981

Índices para catálogo sistemático:


1. Brasil Educação: História 370.981
2. Brasil Educação e sociedade 370.1930981
3. Brasil Sistema educacional: História 370.981
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA - A organização escolar
Maria Luisa Santos Ribeiro

Consellw editorial: Antonio Joaquim Severino, Casemiro dos Reis Filho,


Dermeval Saviani, Gilberta S. de Martino Jannuzzi, Milton de Miranda,
Moacir Gadotti e Walter E. Garcia.

Capa: Carlos Clémen Sumário


Foto de capa: Abril Press
Composição: Linotipadora Relâmpago
Produção editorial: José Aparecido Cardoso
Produção gráfica: Ciça Corrêa
Revisão: Suely Bastos
Supervisão editorial: Antonio de Paulo Silva

Apresentação ..... : ......... , .............. ,, ..-, . . . . . . .. . . . 7


Prefácio . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ·. ,.
~ ~. . . . 9
Prefácio à edição de 1979 ' ........ , ... ; ................ ; . 11
Introdução . . .... .... ..... . . .... .... .............. ...
··~ ~ " 13
1!! edição - 1987
0
1. Período: 1549 a 1808 ___, Consolidação do modelo agrário-
exportador dependente ...... ; . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . 19
1 . A fase jesuítica da escolarização colonial . . . . . . . . . . . . . 19
2. A fase pombalina da escolarização colonial ........ ; . . 30

2.0 Período: 1808 a 1850 - Crise do modelo agrário-exportador


dependente e início da estnituração do modelo agrário-comer-
cial exportador dependenté. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Nenhuma parte desta obra poder ser reproduzida ou duplicada sem autori- 1. A fase joanina ......... t·.· .,..-.................... •.• 37
zação expressa da autora e dos editores.
2. A fase politicamente autônoma .................... º'" 42
© 1987 by Autora
3.0 Período: 1850 a 1870 - Consolidação do modelo agrário-
Direitos para esta edição comercial exportador (fependente ....'.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
CORTEZ EDITORA/ AUTORES ASSOCIADOS 4.0 Período: 1870 a 1894 - Crise do modelo agrário-comercial
Rua Bartira, 387 -Tel.: (011) 864-0111 exportador dependente e tentativa de incentivo à industrialização _60
05009 - São Paulo - SP
1 . A fase imperial ............................ , . . . . . . /60/
Impresso no Brasil- março de 1992
2. A fase republicana
5.0 Período: 1894 a 1920 - Ainda ó mode.lo agrário-comercial
exportador dependente ............................... .
Á. 0
Período: 1920 a 1937 - Nova crise do modelo agrário-comer-
; cial exportador dependente e início da estruturação do modelo
nacional-desenvolvimentista, cóm base na industrialização . . . .. 86
Apresentação
1 . A fase anterior à "Revolução de 30" . . . . . . . . . . . . . . . . 86
2. A fase posterior à "Revolução de 30" . . . . . . . . . . . . . . . 91
7. 0 Período: 1937 a 1955 - O modelo nacional-desenvolvimentista
com base na industrialização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
8.0 Período: 1955 a 1968 - Crise do modelo nacional-desenvolvi-
mentista de industrialização e implantação do modelo '~ssocia-
do" de desenvolvimento econômico ...................... 133
1 . O significado da ctise: o período anterior ao golpe de
1964 ........................................... 133 . Est~ obra é resultado de uma série de outros trabalhós pre-
liminares feitos sob a orientação do prof. Casemiro dos Reis
2. O significado do g')lpe militar de 1964 ................ 156 -Filho, bem como do curso de mestrado em Filosofia da Educa-
Conclusão ......................................... : . . . . 172 ção e da dissertação defendida sob a ocientação do prof. Der-
meval Saviani.
.. Bibliografia 177
'-. :Algumas alterações ainda· foram feitas nestes trabalhos pre-
liminares em decorrência de sugestões dadas pelo colega D. Sa-
viani, ao ler a Introdução e os primeiros capítulos, e pela colega
Mirian J .. Warde após trabalhar com tal material durante um
semestre em um dos cursos de História da Educação da Univer-
sidade Federal de São Carlos. ·i ·

'A efos meu agradecimento'.


A primeira edição deste livro data do ano de 1978. A presente
edição contém uma discussão ampliada do último período con-
siderado, que tem como delimitação inicial o ano de 1955.
Só o desenvolvimento, no tempo, dos acontecimentos tor-
nou possível uma delimitação final mais adequada. Desenvolvi-
mento este acompanhado, é certo, por estudos com vistas a sua
compreensão paulatina.
Assim sendo, foi possível, hoje, defender a idéia de que o
período com início em 195)- se estende até 1968 e tem que ser

7
considerado através de uma suhP,ivisão interna, estabelecida e
trabalhada enquanto recurso neéessário à compreensão sobre
qual dos "pós síveis históricos" postos no início dos anos 60 so-
fre uma ruptura com o golpe de 1964 e qual "possível" tem nele
a condição de se generalizar e consolidar.
Foram também feitas algumas mod~ficações é alguns acrés-
cimos pequenos no capítulo que trat~ do o.º Período. Prefácio·
Maria Luisa Santos Ribeiro
São Paulo, setembro de 1986

Há muito tempo efetuei um levantamento sobre a historio-


grafia da educação brasileira (para um seminário nacional sobre
História da Educação Brasileira promovido pelo INEP) em to-
dos os catálogos de editoras e listagens de dissertações e teses
defendidas nos programas de pós-graduação existentes no país.
Desse levantamento foi possível derivar dados importantes, por
exemplo: a história da educação brasileira é uma das ·.áreas de
conhecimento que gera menos pesquisas acadêmicas; do que tem
sido produzido na área, a quase totalidade dos trabalhos (publi-
cados ou não) são referentes ao período pós-30 para oferecer,
apenas, aqueles antecedentes que importam para o estudo do
período mais recente (em particular, pós-64); com raras exce-
ções, são trabalhos que apresentam um capítulo ou uma pequena
parte referente à história de um aspecto bastante particular da
educação (exemplificando: uma modalidade; um ramo ou um
grau de ensino; uma categoria profissional, como o supervisor
de ensino ou o diretor de escola; uma determinada lei e assim
por diante). Também, com ràras exceções, os trabalhos omhem
as conexões entre o objeto particular e a configuração educacio-
nal mais ampla, entre esse objeto e a dinâmica social inclusiva.
Outros dados poderiam ser mencionados, mas estes já elu-
cidam o que se pretende chamar atenção: um trabalho como o
de Maria Luisa Santos Ribeiro é de grande valia no quadro da

8 9
produção historiográfica. Não há professor de História da Edu- <
cação que não careça de uma bibliografia de apóio que o auxilie
a conduzir os alunos à compreensão da educação no processo
histórico, dos primórdios aos tempos atuais e nas suas múltiplas
manifestações. Mais do que isso, esse trabalho oferece uma clara
referência metodológica através da qual é possível compreender
como se dão as determinações sócio-políticas que vão configu- Prefácio
rando a educação em diferentes momentos históricos. à edição de 1979
É sabido que a maioria dos alunos chega aos bancos univer-
sitários carecendo de informações sobre diferentes períodos da
nossa História; sem elas, não há referência metodológica que
resolva a questão da compreensão da História. Quanto a isso, a
cada capítulo, o livro da Maria Luísa é "metodicamente informa-
tivo';. É claro que o professor ou o pesquisador que tiver como
objetivo o maior aprofundamento de determinado período e/ou
determinado aspecto da educação deverá, necessariamente, so-
í
mar outras leituras para as quais a bibliografia oferece exce-
Estas considerações nos pareceram necessanas após as dis-
lentes pistas.
cussões, coordenadas por mim na UFSCar e pela colega Mirian
Para finalizar, esse trabalho é um bom exemplo de como as J. Warde na PUC-SP, efetuadas com alunos de mestrado em Edu-
intenções pedagógicas de um autor podem e devem ser concilia- cação.
das com as intenções de clareza e rigor. A primeira consideração a fazer é a de que este estudo tem
Mirian Jorge Warde na organização escolar seu ponto de maior atenção, sem contu-
Setembro de 1986 do esgotá-lo. Isto porque a nossa atividade no magistério exigia
uma abordagem que abrangesse um período muito extenso: da
Colônia ( 1549) ao início dos anos 60 ( 1963).
Desta forma, o que se tentou captar foram os fundamentos
da organização escolar brasileira. Fundamentos estes indispensá-
veis para estudos mais detalhados sobre este mesmo assunto,
que, acredito, estão ou estarão sendo feitos por um significativo
grupo de pessoas saídas dos cursos de pós-graduação em Educa-
. ção. Por outro lado, como a História da Educação Brasileira não
se esgota aí, mesmo com tal detalhamento, tais estudos deverão
ser integrados a uma série de outros que certamente já foram
ou estão sendo realizados, centrando a atenção em outros as-
pectos.
Muitos acham até que pelo fato de a escola atender basica-
mente aos interesses da minoria da população o seu estudo perde
em significado.

10 11
Quanto istC:i, gostaria de· ressaltar que, a meu ver, inte-
grando-se ao. demais, o estudo tem razão d~ ser, porque apesar
de este tipo de escola, bem como a importância social dada a
ela, serem frutos de uma visão burguesa da realidade, pelos pró·
prios mecanismos de dominação (persuasão) acabam por se tor·
nar uma aspiração da maioria. E como tal mecanismo não dis-
pensa, pelo contrário, até exige ·a dissimulação desta mesma prá-
tica, a evidência de tal dissimulação pela demonstração histórica ·
Introdução
da impossibilidade de concretização do discurso liberal na edu-
cação se faz necessária.
Uma segunda consideração é a de que quando fiz uso da
categoria da dependência, a minha preocupação era a de buscar
os motivos pelos quais a dominação capitalista provoca, em pa{-·.
ses periféricos como o Brasil, uma exploração bem maior entre
dominantes (em número bastante reduzido) e dominados. Ex-
ploração esta que contriÍ:mi, em ·ttltima instância, para a suavi·
zação desta mesma contradição (dominante X dominados) nos Ao elaborar este trabalho, alguns princ1p10s teóricos se re-
países capitalistas C\:!ntrais. velaram fundamentais para a própria estruturação que ele aca-
Em terceiro lugar, este traço de dependêné::ia, limitando as bou tendo. Aqui eles serão tratados em suas linhas gerais, para
possibilidades, tanto infra quanto superestruturais da sociedade tornar mais precisa a compreensão do significado de vários ca-
brasileira, acaba por reforçar ainda mais a função dissimuladora pítulos. O Capítulo III de Introdução à história da educação
da tdeologia liberal, dada a impossibilidade de concretização des- brasileira (Ribeiro, 1978), bem como a bibliografia final aqui
tes ídeais mesmo no que diz respeito à parcela conseguida nos inserida, contribuirão para resolver dificuldades que indiquem
países centrais do sistema capitalista. Daí a necessidade de enten- a necessidade de '01,ltras .consultas.
der e constatar concretamente como e~te processo está se desen-
volvendo no Brasil. · · 1. Considerações necessárias ·
Maria Luisa Santos Ribeiro
São Paulo, janeiro de 1979 a) Visão de totalidade - Aceita-se que para se chegar a uma
compreensão do fenômeno social - organização escolar brasi-.
leira - há que se ter uma visão do contexto social - sociedade
brasileira - do qual é parte e com o qual estabelece uma rela-
ção permanente.
Mas não se trata de buscar uma compreensão profunda da
sociedade brasileira para depois dirigir a atenção para a orga-
nização escolar brasileira.
O necessário é que se tenha sempre presente esta relação e
se estabeleça um movimento permanente entre os dois· pólos -
organização escolar e sociedade brasileira - , fazendo com que

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seja garantido que o centro de preocupações se mantenha na Tal'âeterminaÇão, no eritantó; não é absoluta, uma vez que
organização escolar. e que esta indique o que é indispensável a superestrutura tem refletida em si a contradição social funda-
saber sobre a sociedade e quando é indispeI).sáveL mental existente na infra-estrutura - conservação X transfor-
mação - de modo que, mesmo tendo como função contribuir
Assim sendo, parte-se de uma visão, mesmo que superficial,
para o desenvolvimento de uma infra-estrutura dominante, com-
da sociedade brasileira, útil ao início do estudo de sua organi-
. porta duas outras possibilidades. De· um lado, comporta uma
zação escolar. No decorrer desse estudo, ficará evidente o que
certa resistência das antigas idéias e instituições, de forma que a
está sendo possível empreender ·com aquele conhecimento super-
substituição é inevitável, mas não imediata, de outro, comporta
ficial, bem como o que não está. Este, o que não está sendo pos-
uma certa crítica às próprias características da infra-estrutura
sível compreender, indicará ao investigador o que deve ser estu-
dominante.··
dado do contexto social, a fim de que a compreensão se torne
possível e possibilite novas indagações. · Desta forma, a infra-estrutura age sobre a superestrutura,
determinando mudanças correspondentes, e esta age sobre aque-
Tem-se, assim, um aprofundamento constante na investiga-
la ao retardar ou acelerar o processo de mudança original.
ção da sociedade brasileira, exigido pelo aprofundamento conco-
mitante da investigação sobre a organização escolar brasileira. c) A mudança e as suas causas - Aceita-se ser causa das mu-
danças· pelas quais passam os fenômenos esta relação com ele-
b) Noções sobre estrutura social - Aceita-se que para se che~
mentos contrários, já apontada anteriormente. Mas a contradi>·
gar a uma compreensão do fenômeno social -· organização es-
çdo, causa primeira da mudança, não é esta exterior mas a 'int~::.,, ·
colar brasileira - há que se ter em mente ser ele um dos ele-
rior, isto é, aquela que cada elemento comporta dentro de si. ·...
mentos de superestrutura que, em unidade com seu contrário -
infra-estrutura -, formam a estrutura social. No caso da organização escolar, a contradição existente: é
re~ultado de ela ter. que. atender a uma determinada clientela
Esta infra-estrutura, entendida como o modo do ser humano
(quantidade) e atendê-la bem (qualidade).
produzir sua existência, está em constante mudança com vistas
a uma eficiência cada vez maior. Estas mudanças é que pressio~ O, presente trabalho é decorrência de uma séne de indaga-
narão, de forma deter:fllinante, as respectivas mudanças nos ele- ções, motivadas por esta contradição entre quantidade e quali-
mentos que compõem: a. superestrutura, que está sendo enten- dade,. como por' exémplo:
dida como a unidadé éQ.tre dois elementos contrários que são
as idéias e as instituições. :__ A quem a organização escolar. brasileira deve atender?
Diante disso, a organização escolar, enquanto uma institui- - A todos em idade escola,r.
ção social crfada pela e para a sociedade como um dos. instru- - Tem atendido a todos ·em idade escolar?
mentos de transmissão de cultura enquanto bem de consumo,
como lembra Alvaro Vieira Pinto (1969: 124) * é um elemento -.Não.
de superestrutura, como já foi dito, e, portanto, determinado
Como tem que atender a este tódo?
pela infra-estrutura.
Tem que atender bem.
Impõe-se, desta forma, a visão de totalidade, já que o deter-
minado não se compreende sem a referência ao determinante. Tem atendido bem, mesmo não atendendo •a este todo?
-Não.
*Dada a i.mportância dos conceitos aí tratados é de grande valia a leitura.
deste capítulo, intitulado '"Teoria da cultura". Como atender. a todas estas pessoas e atendê-las bem?

14 15
A investigação histórica se impõe diante da necessidade de de submissão, mesmo que em sua forma camuflada, pelas pri-
solucionar-se o problema retratado nesta última indagação. É vações, pela sobrecarga decorrente, vão sendo pouco a pouco per-
ela que dará as raízes do não-atendimento satisfatório da escola cebidas no seu verdadeiro sentido. Processa-se, vagarosamente,
brasileira tanto em quantidade como em qualidade. uma tomada de consciência do fenômeno da dominação e a con-
quista paulatina de sua superação. É .neste sentido que se diz
d) A relação entre contrários - Aceita-se que esta se dê não que a dependência (como qualquer elemento) gera o seu con-
de forma direta, mas pela mediação de outros elementos, ou trário - a independência - (ou, em outras palavras,· a emanci-
mesmo c:ie um dos aspectos contrários interiores a cada elemen- pação, a autonomia) e com ele estabelece uma unidade. dialética
to. em relação· ao outro. que, superada por mediação, como já foi assinalado, gera outra
Neste trabalho será feito um estudo considerando-se dois contradição superior em quantidade e qualidade.
elementos mediadores na solução da contradição - quantidade b) Este traço de dependência limita as possibilidad~s t~nto
X qualidade - presente na organização escolar brasileira, que infra quanto superestruturais da sociedade brasileira. 1~
são os recursos financeiros e a teoria educacional.
~ Desta forma irá comprometer, isto· é, tornar insuficientes os
Como o fenômeno social que nos interessa (organização es- 1

elementos mediadores da contradição apontada na organização


colar brasileira), os elementos mediadores não podem ser
tra- r escolar.
tados de forma isolada. A insuficiência ou não destes só pode 1


ser entendida quando se fizer referência ao contexto do qual Os recursos financeiros necessários à satisfação das necessi-
resultam.·. dades escolares, a exemplo do que ocorre nas demais ãreas na
sociedade brasileira, não estarão à disposição. Isto porque a
É assim que, no estudo da organização escolar brasileira, capitalização se faz em benefício apenas de alguns, tanto interna
atentando-se para sua contradição interna e para seus elementos i como externamente.
mediadores, partiu-se da constatação do fato de ter a sociedade
brasileira, desde sua origem, uma vinculação com o sistema eco- Por outro lado, a teoria educacional, o outro elemento me-
nôrrlico, político e social capitalista mundial. Apresenta-se como diador, fica comprometida pelo fenômeno de , transplante cul-
uma sociedade periférica (dependente) e não central (hegemô- tural que nada mais é que o reflexo, a nível da superestrutura,
nica), não tendo, até nossos dias, superado a dominação externa, da dependência caracterizada na infra-estrutura (processo de ca-
isto é, a submissão dos interesses da população brasileira (inter~ pitalização). Este fenômeno é um mecanismo de importação de
nos) em favor dos da população de determinados outros países idéias, negativas pelo fato de resultar num atraso constante de
·(externos). · quem consome em relação a quem cria, levando, de acordo com
a intensidade deste transplante, a um comprometimento da pró-
Para que tais interesses externos sejam atendidos, constitui-
pria ação criadora.
se uma divisão interna da população brasileira, onde se contra-
põem os interesses da maioria da população aos de uma minoria 2. Justificação da periodização
privilegiada, intermediária no processo de atendimento dos inte-
resses externos. A divisão dos períodos foi feita seguindo o critério de desta-
Quanto a este traço de dependência que permeia toda a so- car os instantes de relativa estabilidade dos diferentes modelos
ciedade brasileira, tem-se que assinalar duas coisas: - político, econômico, social - dos instantes de crise mais
intensa e que causaram as substituições dos modelos referidos.·
a) Este traço não deve ser entendido de forma absoluta. As Estes, sob o ponto de vista educacional, são bastante significati-
medidas tomadas com o objetivo de manter a maioria em estado vos dada a efervescência das idéias que apontam as deficiências

16 17
existentes, bem como propagam novas formas de organização
escolar. Significativos também, pelas experiências concretas que
possibilitam.
1.º Período: 1549 a 1808 (Consolidação do modelo agtário- 1C: Período
exportador dependente).
2.º Período: 1808 a 1850 (Crise do modelo anterior e início 1549 a 1808
da estruturação do modelo seguinte).
3!' Período: 1850 a 1870 (Consolidação do modelo agrário-
comercial exportador dependente). ·
4.º Período: 1870 a 1894 (Crise do modelo anterior e tenta- Consolidação do modelo
tiva de incentivos à industrialização). .
agrário-exportador dependente

S.º Período: 1894 a 1920 (Ainda o modelo agrário-comercial


exportador dependente).
6. Período: 1920 a 1937 (Crise do modelo anterior e início
0

da estruturação do seguinte). 1. A fase jesuítica da escolarização colonial

7.º Período: 1937 a 1955 (O modelo nacional-desenvolvimen- Diante das dificuldades encontradas com o regime ºde capi-
tista e a industrialização). tanias hereditárias 1, é criado o Governo Geral. Este é o primeiro
8.º Período: 1955 a 1968 (Crise do modelo nacional-desen- representante do poder público na colônia, que tinha como obri-
vohrimentista de industrialização e implantação do modelo "asso- gação não substituir, e sim apoiar as capitanias, a fim de qu~ o
ciado" de desenvolvimento econômico). processo de colonização conseguisse um desep.volvimento normal..
Entre as diretrizes básicas constantes no Regimento, isto é,
na nova política ditada então por D. João III (17-12-1548), é en-
contrada uma; referente à conversão dos indígenas à fé católica
pela catequese e pela instrução.
· Em cumprimento a isto, chegam, com Tomé de Souza, qua-
tro padres e dois irmãos jesuítas, chefiados por Manoel da Nó-
brega (1549). .
Luiz A. de Matto_s destaca a import~ncia deste item dos "Re-
gimentos", dizendo que
1. Como se sabe, o rei de Portugal, no ano de 1532, decidiu adotar o regi-
me de capitanias hereditárias no Brasil. De 1534 a 1536 são criadas catorze
capitanias com o objetivo de tornar possível o povoamento, a defesa, bem ·como.
a propagação da fé católica. O sistema de doação a partic~lares parecia o mais
adequado .diante da incapacidade de Erário Régio atender as vultosas despesas
da ·colonização.

18 19
"dele dependeria ( ... ) o êxito da arrojada empresa colonizadora; pois brasileiro e sua colonização são atitudes inseridas em tal con-
que, somente , pela aculturação sistemática e intensiva do elemento indí-
texto.
gena aos valores espirituais e morais. da civilização ocidental e cristã é
que a colonização portuguesa poderia lançar raízes definitivas ( ... ) " Diante da questão formulada anteriormente, deve ser desta-
(Mattos, 1958: 31).
cado, como síntese das considerações feitas, que o objetivo dos
Percebe-se, por estes poucos fatos, que a organização esco- colonizadores era o lucro, e a função da população colonial era
lar rto Brasil-Colônia está, como não poderia deixar de ser, es- propiciar tais lucros às camadas· dominantes metropolitanas.
treit~mente vinculada à política colonizadora dos portugueses.
No entanto, para ·que a empresa funcionasse, €stes lucros
Antes disso, em decorrência do estágio priµlitivo em que se não poderiam se concentrar exclusivamente nos grupos externos
encontravam as populações indígenas, a educação não chegara citados. Uma parte, pequena, é certo, deveria permanecer na Co-
a se. escolarizar. A participação direta da criança nas diferentes lônia ·com a carp.ada que dirigia internamente a atividade pro-
atividades tribais era quase que suficiente pra a formação neces- dutiva.
sária quando atingisse a idade adulta.
O mecanismo era o seguinte:
Diante desta vinculação constatada, uma questão precisa ser "( ... ) detendo a exclusividade da compra dos produtos coloniais, os mer-
resolvida: qual o motivo que levou à Colonização? Ou em outras cadores da mãe-pátria podiam deprimir na colônia seus preços até ao nível
abaixo do qual seria impossível a continuação do processo produtivo, isto
palavras: qual a função da colônia e, conseqüentemente, da po-
é, tendéncialmente ao nível dos custos da produção; a revenda na metró-
pulação colonial? Precisa ser resolvida, porque indicará não só pole, onde dispunham da exclusividade da oferta, garantia-lhes sobrelucros
a clientela como o objetivo da educação organizada a partir daí. por dois lados - na compra e na venda" (Novais, 1975: 21).

Fernando A. Novais diz que a política colonial O rápido esgotamento das matas costeiras de pau-brasil, a
"se apresenta como um tipo particular de relações políticas, com dois impossibilidade da população indígena produzir algo que inte-
elementos: um centro de decisão (metrópole) e outro (colônia) subordinado, ressasse ao mercado europeu, a possibilidade da existência de
relações através das quais se estabelece o quadro institucional para que ouro, bem como o perigo de usurpação do território por outra
'·a vida econômica da metrópole seja dinamizada pelas a.tividades coloniais" potêneia, fizeram com que o governo português abandonasse a
(Novais, 1975: 7, grifo nosso). ··~
orientasão de colonizar através da ocupação
Este tipo de dinamização era necessário para impulsionar a "com agentes comerciais funcionários ·e militares para a defesa, organi-
passagem do capitalismo mercantil ao capitalismo industrial. zação em simples feitorias destinadas a mercadejar com os nativos e servir
de articulação entre rotas marítimas e os territórios cobiçados" (Prado_ Jr.,
No caso brasileiro, a metrópole a ter sua vida dinamizada 1969: 15-6). \;
era Portugal ql;le, por problemas a um tempo internos e exter-
nos, antecipou-se em relação ao primeiro passo, mas não'chegou Obrigatório se tornou empreender a colonização em termos
a dar o segundo. de povoamento e cultivo da terra. Os interesses das camadas
dominantes portuguesas, e em especial do componente capita-
Os comerciantes portugueses (burguesia mercantil), enquan- lista-mercantil, é que iriam determinar, como determinaram, o
to participantes do poder político representado pela centraliza- produto, a quantidade e a forma de ser produzido, bem como os
ção monárquica, conseguida já no século XII, desempenham pa- elementos dispostos e em condições de produzir.
pel pioneiro na empresa de expansão naval. É assim que, na·
primeira metade do século XV,- procuraram lugares.; como a cos- Quanto a este último aspecto, constata-se a vinda de elemen-
ta ocidental da Aftíca~ cmde não tivessem conéo.rrerites, e em tos de pequena nobreza para organizar a empresa colonial.'
meados do mesmo século planejaram atingir- o Oriente contor- A natureza desta tarefa (produção de mercadorias), os ris-
nando o continente africano. A tomada de posse do território cos a que estavam sujeitos e a necessidade de capital inicial ex-

20 21
cluíram, a um tempo, os elementos da burguesia mercantil, os filhos dos colonos, uma vez que, naquele instante, eram os jesuí-
da alta nobreza e os servos. tas os únicos educadores de profissão que contavam com signi-
E se os que se dispuseram vieram para organizar, necessá- ficativo apoio real na colônia.
rio se fez a escravização de quem trabalhasse a terra: os índios É assim que planejara "Recolhimentos, nos quais se educas"
e os negros. Estes vieram satisfazer aos interesses da burguesia sem os mamelucos, os órfãos e os filhos dos principais ( caci-
mercantil portuguesa, porque possibilitavam a produção a baixo ques) da terra ( ... ) " além "dos filhos dos colonos brancos dos
custo e porque o escravo, enquanto mercadoria, era fonte de povoados ( .. )" em regime de externato (Mattos, 1958_: 84-5).
lucro, já que era ela (burguesia) que transportava. O plano de estudos propriamente dito foi elaborado de for-
É assim que a grande produção açucareira foi a única base ma diversificada, com o objetivo de atender à diversidade de
da economia colonial até meados do século XVII. interesses e de capacidades. Começando pelo aprendizado do
português, incluía o ensino da doutrina cristã, a escola de ler e
Num contexto social com tais características, a instrução, a escrever. Daí em diante, continua, em caráter opcional, o ensino
educação escolarizada só podia ser conveniente e interessar a de canto orfeônico e de música instrumental, e uma bifurcação
esta camada dirigente (pequena nobreza e seus descendentes) tendo em um dos lados o aprendizado profissional e agríCola e,
que, segundo o modelo de colonização adotado, deveria servir de de outro, aula de gramática e viagem de estudos à Europa.
articulação entre os interesses metropolitanos e as atividades co-
loniais. Não tinha, inicialmente, de modo .explícito, a intenção de
fazer com que o ensino prqfissional atendesse à populaç,ão indí-
Mas se for retomado o item dos "Regimentos", ver-se-á que gena e o outro à população "branca" exclusivamente.
a clientela citada explicitamente foi a indígena, através da cate-
quese e instrução. · "Dentre os de maiores habilidades", afirma Luiz A.. de
Mattos (1958: 86), "contava também Nóbrega recrutar as voca-
Como compreender isto? Caberia aos jesuítas apenas a edu- ções sacerdotais indígenas ( ... ) ".
cação da população indígena? A quem caberia a educação dos
Mas como cedo perceberam a não-adequação do índio para
outros setores da população? Outras ordens religiosas ou leigos a formação sacerdotal católica, esta percepção não deve. ter dei-
deveriam disto se incumbir?
xado de exercer influência na proposição de um ensino profissio-
Os subsídios recebidos e a obrigação daí decorrente também nal e agrícola, ensino este que parecia a Nóbrega imprescindível
sugerem as idéias colocadas em forma de questão, já que os para formar pessoal capacitado em outras funções essenciais à
jesuítas deveriam fundar colégios que recebiam subsídios do Es- vida da colônia.
tado português relativos a missões. Dessa forma, ficavam juri- ·1
O fato de este plano ter encontrado sérias resistências a par-
dicamente obrigados a formar gratuitamente sacerdotes .para a ti:r de 1556, ano em que começam a vigorar as "Constituições da ·
catequese. Companhia de ~esus", exigindo qe Nóbrega muito empenho até
Mas esta determinação, que é mais específica porque trata sua morte, em 1570, indica que ele devia entrar, de alguma forma,
já da forma de financiamento da obra, parece restringir os obje- em choque com a orientação da próprià ordem religiosa.
tivos ao âmbito da catequese: "formar gratuitamente sacerdotes Isto é constatado pela fato de o plano que vigora durante
para a catequese". · o período de 1570 a 1759 excluir as. etapas iniciais de estudo, o
Por outro lado, ao analisar-se o primeiro plano educacional, aprendizado do canto, da música instrumental, profissional e
elaborado pelo padre Manoel de Nóbrega, percebe-se a intenção agrícola.
de c·atequisar e instruir os indígenas, como determinavam os Graficamente isto seria representado da maneira como re-
"Regimentos"; percebe-se, também, a necessidade de incluir os presentamos no verso:

22 23
Plano de Estudo Nota-se que a orientação contida no Ratio, que era a orgc.t-
nização e plano de estudos da Companhia de Jesus publicado em
1599, concentra sua programação nos elementos da cultura euro-
péia. I;:videncia desta forma urri desinteresse ou a constatação da
impossibilidade de "instruir" também o índio. ·
de Nóbrega do Ratio
Era necessário concentrar pessoal e recursos em "pontos es-
tratégicos", já que aqueles eram reduzidos. E tais "pontos" eram
os filhos dos colonos em detrimento do índio, os futu"ros sacer-
dotes em detrimento do leigo, justificam os religiosos.
Verifica-se, desta maneira, que os colégios jesuíticos foram _
o instrumento de formação da elite colonial.
aprendizado do português O ·plano legal ( catequisar e instruir os índios) e o plano real
se distanciam. Os instruídos· serão descendentes dos colonizadoc
res. Os indígenas serão apenas catequisados.
doutrina cristã A catequese, do ponto de vista religioso, interessava à Com-
1 panhia como fonte de novos adeptos do catolicismo, bastap.te
abalado com o movimento de Reforma. Do ponto de vista econô-
1

mico, interessava tanto a ela como ao colonizador, à medida que


escola. de ler e escrever
tornava o índio mais dócil e, portanto, mais fácil de ser apro-
veitado como mão-de-obra.
.-~------------· ,----------------~ A educação profissional (trabalho manual), sempre muito
! canto orfeônico i l ml'!sica instrumental 1
' 1 elementar diante das técnicas rudimentares de trabalho, era con-
~---------------· ~----------------~
seguida através do convívio, no ambiente de trabalho, quer de
índios, negros ou mestiços que formavam a maioria de popula-
ção colonial.
curso de Humanidades A educação feminina restringia-se a boas maneiras e prendas
aprendizado profis- gramática
sional e agrícola
domésticas.
latina
A elite era_ preparada para o trabalho intelectual segundo
curso de Filosofia um modelo religioso (católico), mesmo que muitos de seus mem-
bros não chegassem a ser sacerdotes. Isto porque,· diante do
apoio real oferecido,. a Companhia de Jesus se tornou a ordem
curso ·de Teologia dominante no campo educacional. Isto, por sua vez, fez com que
os· seus colégios fossem procurados por muitos que não tinham
realmente vocação religiosa mas que reconheciam que esta era
.------------------- ,. ______ .;... --------· a única via de preparo intelectual. Haja ~ista que, em determi-
: viagem à Europa : ! viagem à Europa i
·--------------------'
1 ' '
~-----------------J
' nadas épocas, a procura era tão maior que a capacidade, limita-
24 25
da, é certo, dos colégios que chegou a causar problemas, corno será marcada por uma intensa "rigidez" na maneira de pensar
a "Questão dos Moços Pardos", resolvida em 1689 ~. No séculâ e; conseqüentemente, de interpretar a realidade.
XVII, os graus_ acadêmicos obtidos nessas escolas eram_, junt~­
Planejaram, e foram bastante eficientes em sua execução, con-
mente com a propriedade de terra e escravos, critérios importan-
tes de classificação social. verter, por assim dizer, seus alunos ao catolicismo, afastando-os
das influências consideradas nocivas. Ê por isso que dedicavam
Este componente religioso da elite colonial brasileira deve especial atenção ao preparo dos professores - que somente se
ser destacado juntamente com seu desejo de lucro fácil; ou me- tornam aptos após os trinta anos - , selecionavam cuidadosa-
lhor, rápido e abundante. E esta vinculação tem suas origens .na
mente os livros e exerciam rigoroso controle sobre as questões
própria história da constituição da nação portuguesa, onde o
a serem suscitadas pelos professores, especialmente em filosofia
guerreiro estava, conquistando o seu próprio território, e depois
outros, contra infiéis árabes, africanos e indígenas. e teologia. Um trecho de uma das regras do Ratio diz o seguinte:
"Se alguns forem amigos de novidades ou de espírito demasiado
Darcy Ribeiro denomina Portugal e suas possessões de "Im- livre devem ser afastados sem hesitação do serviço docente" (in
pério Mercantil Salvacionista" e assim se refere aos processos Paim, 1967: 28).
civilizatórios desse tipo: -,
"Os impérios Mercantis Salvacionistas surgem na passagem do século XV O seu objetivo acima de tudo religioso, o seu conteúdo lite-
e XVI em duas áreas marginais - tanto geográfica como culturalmente rário, a metodologia dos cursos inferiores (humanidades), que
- da Europa: a Ibéria e a Rússia. Ambos tiraram, das energias mobili- culminava com o movimento denominado "imitação, ou seja, a
zadas para a reconquista de seus territórios ocupados por árabes e por
tártaro-mongóis, a força necessária para as façanhas da sua própria expansão prática destinada a adquirir o estilo literário de autores clássi-
salvacionista" (Ribeiro, 1975q: 133). cos ( ... )" (Larroyo, 1970: 390), e a dos cursos superiores (filoso-
· Ê interessante notar que ~s movime~tos de Reforma e Con- fia e teolbgia), subordinada ao "escolasticismo", faziam com que
tra-Reforma ocorridos no início do século XVI criam o mesmo não só os religiosos de profissão como os intelectuais de forma
"
problema no seio do cristianismo. Ê assim que Portugal, entre geral se afastassem não apenas de outras orientações religiosas
outras nações, se considera defensor do catolicismo e estimula como também do espírito científico nascente e qúe atinge, du-
a atuação educacional, tanto no território metropolitano como rante o século XVII, uma etapa bastante significativa. Isto por-
no colonial, de uma ordem religiosa que se constitui para servir que a busca de um novo método de conhecimento, método este
de instrumento de defesa do catolicismo e, conseqüentemente, de que caracteriza a ciência moderna, tem origem no reconhecimen-
ataque a toda heresia. Nesta tarefa seus membros se dedicam to das insuficiências do método escolástico medieval, adotado
por inteiro, como guerreiros de Cristo. Inácio de Loyola; o fun_~c pelos jesuítas.
dador, como antigo militar espanhol, chega a imprimir direta- - Este isolacionismo, fruto não apenas desta. orientação edu-
mente· um regime de trabalho modelado na sua anterior forma cacional como também do simples fato de ser'colônia, e, enquan-
de vida. .
to tal, subordinada a um monopólio que é também intelectual,
O importante a ressaltar é que a formação intelectual ofe- no caso do Brasil teve conseqüências bastante graves para a vida
recida pelos jesuítas, e, portanto, a formação da elite colonial, intelectual, porque a própria metrópole portuguesa encontrava-
se afastada das influências modernas.
2. Esta "questão" surge da proibição, por parte dos jesuítas, da matrícula
e freqüência de mestiços "por serem muitos e provocarem arruaças". Como A formação da elite colonial em tais moldes adequa-se qua-.
er~?1 escolas públicas, pelos subsídios que recebiam foram obrigados a read-
m1t1-los. se que completamente à política colonial, uma vez que:

26 27
a) a orientação universalista jesuítica 3 baseada na literatura
A adoção da orientação de administração dos bens materiais
antiga e na língua latina 4 ; contida nas "Constituições" é mais uma indicação de como esta
b) a necessidade de complementação dos estudos na metró- união entre o governo português e os jesuítas foi conduzida em
pole (Universidade de Coimbra) 5 e benefício maior destes últimos. Isto levou posteriormente a um
choque, culminando com a expulsão da Companhia de Jesus ·de
e) o privilegiamento do trabalho intelectual em detrimento Portugal e do Brasil, em 1759.
do manual afastavam os alunos dos assuntos e problemas rela-
tivos à realidade imediata, distinguia-os da maioria da popula- Nó plano de Nóbrega, havia a proposição de criação de con-
ção que era escrava e iletrada e alimentava a idéia de que o frarias para sust~nto da clientela dos Recolhimentos, que teriam
mundo civi].izado estava "lá fora" e servia de modelo. Os "letra- nos missionários os diretores espirituais e docentes e nos leigos
dos" acabavam por rejeitar não apenas esta maioria, e exercer os administradores dos bens materiais. N.o das "Constituições",
sobre ela uma eficiente dominação, como também a própria rea- não só se proibia a criação destes Recolhimentos e o atendimen-
lidade· colonial, contribuindo para a manutenção deste traço de to de sua clientela, como já foi discutido, como também ficava
dominação externa e não para sua superação. determinado que os bens materiais deveriam permanecer vin-
Foi dito que a adequação era quase completa porque este culados à Companhia de Jesus. E estes bens eram basicamente
mesmo princípio universalista visava formar o cristão ( católi- conseguidos com a aplicação dos recursos resultantes do "Pa-
co) seni vinculações especificamente declaradas com nenhum go- drão de Redízima", colocado em execução a partir de 1564. Isto
verno civil. Isto, acrescido do fato de que os melhores alunos equivale a dizer que, a partir daí, 10% de toda arrecádação dos
eram os escolhidos para cursarem Teologia e tornarem-se futu- dízimos reais (imposto~), em todas as capitanias da colônia e
ros membros da• Companhia de Jesus, fazia com que a maior seus povoados, ficavam para sempre vinculados à manutenção e
beneficiada fosse, em realidade, a própria ordem religiosa. sustento dos colégios jesuíticos.
3'.. Os jesuítas seguiim a orientação contida no Ratio qualquer que fosse Além disso, seria interessante destacar que as missões jesuí-
a região onde atuassem: A regra 34 do Provincial determinava: "como, porém, ticas ·foram a base da economia florestal amazomca durante a
na variedade de lugares;. tempos e pessoas pode ser necessária alguma diversidade
primeira metade do século XVII, advindo daí grande lucro.
na ordem' e no tempo consagrado aos estudos, nas repetições, disputas e outros
exercícios ·e ainda nas férias, se julgar conveniente, na sua Província, alguma A importância social destes religiosos chegou a tal ponto,
modificação .para maior progresso nas letras, informe o Geral para que se
tomem as deter~inações acomodadas a todas as necessidades, de modo, porém, que se transformaram na única força capaz de influir no domí-
que se proximem o mais possível da organização geral dos nossos estudos" nio do senhor do engenho. Isto foi conseguido não só através
(Franca, 1960: 132, grifo nosso). dos colégios, como do confessionário, do teatro e, particularmen-
4. O que realmente foi organizado no Brasil foi o curso de humànidades,
isto é, os estudos menores, que se compunham de quatro séries de gramática
te, pelo terceiro filho, que deveria seguir a vida religiosa (o
(assegurar expressão clara e exata), uma de humanidades (assegurar expres- primeiro seriã o herdeiro, o segundo, o l~trado).
são rica e elegante) e uma de retórica (assegurar expressão poderosa e con-
vincente). O número de estabelecimentos que a ordem possuía quando
A escola ge ler e escrever existia excepcionalmente nos colégios como ocasião de sua expulsão (1759) varia segundo os autores. Para Tito· Lívio
de que alguns alunos fossem introduzidos nessas técnicas . indispensáveis ao Ferreira eram "vinte Colégios, doze Seminários, um Colégio e
acompanhamento do curso de humanidades. O característico da época era que
elas fossem adquiridas dentro das próprias famílias dos senhores de engenho, um Recolhimento Feminino ( ... )" (Ferreira, 1966: 218). Para
geralmente com os tios letrados. · Fernando de Azevedo eram "36 residências, 36 missões e 17 ·co-
· 5. No que diz respeito aos cursos posteriores ao de humanidades, no Brasil légios e seminários, sem contar os seminários ménores e as esco-
foram organizados alguns visando a formação dos padres catequistas.
las de ler e escrever ( ... )" (Azevedo, 1944: 312).
28
29
2. A fase pombalina da escolarização colonial ou menos acelerado. É importante, também, quando se está ana-
lisando as tentativas de transformação da situação portuguesa
Como já foi lembrado no item anterior, a política colonial . em meados do século XVIII, consubstanciadas nas ''Reformas
objetivava a conquista de um capital necessário à passagem da Pombalinas", que incluem o âmbito escolar métropolitano e
etapa mercantil para a industrial do regime capitalista. Foi dito colonial. ·
também que, por razões internas e externas, Portugal, mesmo
tendo se antecipado em relação à primeira etapa, não chegou à O marquês de Pombal (Sebastião José de Carvél.lho e Melo),
segunda. enquanto ministro d.e um monarca ilustrado (D. José 1), orien-
ta-se no sentido de recuperar a economia através de uma con-
A nação que li,9era este processo no transcorrer dos séculos centração do poder real e de modernizar a cultura portuguesa.
XVI ao XIX é a Inglaterra. Esta passa a ser beneficiada pelos
próprios lucros coloniais portugueses, especificamente a partir Quanto ao aspecto econômico, a decadência já pode ser cla-
do início do século XVII. Com o Tratado de Methuen (1703), o ramente constatada após o período de dominação espanhola de
processo de industrialização em Portugal é sufocado. Seu mer- Portugal (1580-1640) r..
cado interno foi inundado pelas manufaturas inglesas, enquanto "Portugal sairia arruinado da dominação espanhola, a sua marinha ·
destruída, o seu império colonial esfacelado. ( ... ) Estava definitivamente
a Inglaterra se comprometia a comprar: os vinhos fabricados em perdido para Portu'gal o comércio asiático ( ... ) . Efetivamente, só lhe
Portugal. Canaliza-se, assim, para a Inglaterra, o capital portu- sobraria o antigo império ultramarino, o Brasil e algumas posses na África.
guês, diante da desvantagem dos préços dos produtos agrícolas Estas aliás só valerão como fornecedoras de escravos para o Brasil"
em relação ao~ manufaturados. (Prado. Jr., 1969: 49 ).

Desta maneira, enquanto uma metrópole entrava em deca- Diante desta realidade, era necessário tirar o maior provei-
dência (Portugal) outra estava em ascensão (Inglaterra). to possível da colônia. Era necessária uma mais intensa fiscali-
zação das atividades· aqui desenvolVidas. Para tanto, o apa:i;ato
Leôncio Basbaum, ao abordar a "situação econômica e po- màterial e humano deveria ser· aumentado e, . ainda mais, deve-
lítica dos países colonizadores", conclui que: " ( ... ) a partir do
ria ser discriminado o nascido na colônia do nascido na metró-
século XVI e, principalmente, do século. XVII ( ... ) , a Inglaterra
pole, quand~o da distribuição dos cargos: as posições superiores
era já uma nação burguesa e industrial" (Basbaum, 1957: 41).
deveriam ser ocupadas apenas pelos metropolitanos.
Quanto a Portugal, afirma:
Esta ampliação do aparelho administrativo e o conseqüente
"Como nação, continuava Portugal um país pobre, sem capitais, quase
despovoado, com uma lavoura decadente pela falta de braços que a tra- aumento de funções de categoria inferior passou a exigir um
balhassem, pelas relações de caráter feudal ainda existentes, dirigido por pessoal com um preparo elementar. As técnicas de leitura escrita
um Rei absoluto, uma nobreza arruinada, quase sem terras e se~ fontes se fazem necessárias, surgindo, com isto; a instrução primária
de renda, onde se salientava uma burguesia mercantil rica mas politicamente
débil, preocupada apenas em importar e vender para o estrangeiro espe- dada na escola, que antes cabia à família ...
ciarias e escravos e viver no luxo e na ostentação.
Era o país uma nação em que o feudalismo se desagregava por si' 6. Seria interessante relembrar que em 1580 morre o cardeal D. Henrique,
mesmo, sem que se consolidasse um capitalismo sobre os seus escombros" décimo sétimo rei da dinastia de Avis, sem deixar herdeiros. Trava-se então
(Basbaum, 1957: 48-9). uma luta entre pretendentes ao trono, luta esta vencida por Felipe II da J;:spanha,
1 em Portugal. É em função disto que. o período de 1580 a l640 é denominado
· O conhecimento destas distintas situações tem importância de período da dominação espanhola em Portugal. Uma das conseqüências desta
quando se está interessado na compreensão do processo de sub- união das coroas foi a de terem os inimigos da Espanha (ingleses e holandeses)
missão/emancipação, à medida que os objetivos coloniais tam- passado a sê-lo de Portugal também. Rompia-se com isso. uma tendência de
bém serão diferentes e acabarão por tornar tal processo . mais preservação do país em relação às Guerras Religiosas e de negociações quando
da invasão .do território brasileiro por outras potências; ·
30
31
A mineração, com os primeiros achados no final do século ção, produza uma literatura expressando isto e apresentando um
XVII, neste contexto, parecia ser um acontecimento providen- progr_ama de modernização. Esta manifestação tem início ainda
cial: era á solução esperada. no re~na,d~ de D. João V, com o aparecimento da Academia Real
Na verdade, foi apenas esperança, já que o ouro brâsileiro de_ H!stona (1720),. e se prolonga até o de D. Maria I, com a
será, na sua parte mais significativa, canalizado para a Ingla- cnaçao da_ Academia Real de Ciências ( 1779), como assinala
terra, em decorrência do Tratado de Methuen e, desta forma, im- Laerte Ramos de Carvalho.
pulsionará, sim, o processo de industrialização, só que o inglês. . A fonte das idéias aí defendidas está no movimento ilumi-
Por outro lado, este ciclo econômico da mineração provocou nista que toma corpo no final do século XVII e c-a~acteriza 0
mudanças no Brasil que começam a abalar· a manutenção do XVIII.
t ·
A Inglaterra é o centro
.
principal de 1680 a 1720, Vlll
· d O,
pacto· colonial nos moldes tradicionais. Entre elas, devem ser po~ enormente, a compartilhar sua posição com a França e de-
destacadas as que levam ao: pois .c01~ a Alemanha. Daí os intelectuais portugueses com tal
mflutencia serem rotulados de "estrangeirados" pelos seus opo-
- estabelecimento de vínculos entre as áreas baiana, flumi- nen es. ·
nense, pernambucana e paulista;
O que Pombal tenta, enquanto ministro de Estado, é tornar
- aumento do preÇo da mão-de-0bra escrava, provocando este programa concreto 1.
novo surto no tráfico; "As reformas, entre as quais as da instrução pública traduzem dentro
do pl~~o de re~uperação nacional, a política que as co~dições ec~nômicas
- aumento das possibilidades de alforria e de impulso à e sociais do pais pareciam reclamar" (Carvalho, 1952: 15).
rebeldia; -
É .ª:sim que não chega a representar uma ruptura total corri
- aparecimento de uma camada média e de um mercado ~ tr~diçao. Isto pode ser constatado pelas obras dos filósofos
interno; mspir~dores, ~orno Luís Antônio Verney e Antônio Genovesi,
"· - deslocamento da população colonial e da capital para o onde e pe:cebida uma mudança mais de conteúdo que de méto-
sul (Rio de Janeiro, 1763); do. Este amda se mantém bastante preso à exposição escolástica.
P~de ser constatado, também, pelo fato de a Real Mesa Censória
....,... descontentamento das camadas dominante e média colo-
cnada em 1768, ter proibido, durante seu período de exercício'
niais pelas discriminações.
obras de ~ocke, Hobbes, Rousseau, Spinosa, Voltaire, etc. por~
A decadência intelectual e institucional, tanto na metrópole qu7 ~odenam levar o país na direção do deísmo, ateísmo e ma-
como na colônia, decorre e simultaneamente reforça este estado tenahsmo.
econômico. Entretanto, a Companhia de Jesus é atingida diretamente e
Portugal chega em meados do século XVIII com sua Uni- chega a ser expuls~, em 1759. O motivo apontado era o fato de
versidade - a de Coimbra - tão medieval como sempre fora. ~la. ser um. e_mpecilho na conservação da unidade cristã e da
A filosofia moderna (Descartes), a ciência físico-matemática, os sociedade CIVil - razão de Estado invocada na época porque:
novos métodos de estudo da língua latina eram desconhecidos a) era detentora de um poder econômico aue deveria ser
em Portugal. O ensino jesuítico, solidamente instalado, continua- devolvido ao governo; · ~
va formando elementos da corte dentro dos moldes do RaÚo
, 7_. C~mo_ se sabe, o _absolutismo ilustrado era uma forma de governo mo-
Studiorum. narqu1co 1deal_1zada e praticada como conseqüência do movimento iluminista. Os
Isto tudo faz com que pelo menos boa parte da intelectuali- monarcas
. .'f senam absolutos
. enquanto
. . propiciassem a difusa~o d as conqui stas
c1ent1 1cas e garantissem os d1re1tos reconhecidos pelas investigações desta na:
dade portuguesa tome consciência da necessidade de recupera- tu reza.

3.2
33
b) educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não dos Quanto ao grego (indispensável a teólogos, advogados, artis-
interesses do país. tas e médicos), as dificuldades deveriam ser gradualmente ven-
Do ponto de vista educacional, a orientação adotada foi a cidas: primeiro a leitura (reconhecer as letras, sílabas, palavras),
de formar o perfeito nobre, agora negociante; simplificar e abre- depois os preceitos gramaticais e, por último, a construção.
viar os estudos fazendo com que um maior número se interes- A retórica não deveria ter seu uso restrito ao público e à
sasse pelos cursos superiores; propiciar o aprimoramento da lín- cátedra. Deveria tornar-se útil ao contato cotidiano.
gua portuguesa; diversificar o conteúdo, incluindo o de natureza
científica; torná-los os mais práticos possíveis 8 • As diretrizes para as aulas de filosofia ficaram p.ara mais
tarde e, na verdade! pouca coisa aconteceu. Diante da ruptura
Surge, com isso, um ensino público propriamente dito. Não parcial com a tradição, este campo causou muito receio ou mui-
mais aquele financiado pelo Estado, mas que formava o indiví- ta incerteza em relação ao novo.
duo para a Igreja, e sim o financiado pelo e para o Estado.
As dificuldades que existiram, também na metrópole, quan-
O Alvará de 28-6-1759 eriava o cargo de diretor geral dos to à falta de gente preparada e de dinheiro, se fizeram sentir no
estudos, determinava a prestação de exames para todos os pro- Brasil de forma mais aguda.·
fessores, que passaram a gozar do direito de nobres, proibia o
ensino público ou particular sem licençà do diretor geral dos A primeira dificuldade teve como conseqüência a continui-
estudos e designava comissários para o levantamento sobre o dade do exercício profissional de boa parte de professores com
estado das escolas e professores. formação jesuítica. A segunda só foi minorada no reinado seguin-
te, de D. Maria I, quando se aplicaram os recursos vindos da
Em cumprimento a ele, ainda neste mesmo ano foi aberto, cobrança do "subsídio literário" decretado no governo anterior.
no Brasil, um inquérito com o fim de verificar quais os profes-
sores que lecionavam sem licença e quais usavam os livros proi- As transformações ocorridas no nível secundário não afetam,
bi<los. Foram realizados concursos para provimento das cátedras como não poderia deixar de ser, o fundamerital. Ele permaneceu
de latim e retórica na Bahia, o que parece ter havido também no desvinculado dos assuntos e problemas da realidade imediata.
Rio. Foram enviados . dois professores régios portugueses para O modelo continuou sendo o exterior "civilizado" a ser imitado.
Pernambuco. Para maior garantia, aqueles que tinham interesse e condições
de cursar o ensino superior deveriam continuar enfrentando os
Daí por diante, o ensino secundário, que ao tempo dos jesuí- riscos das viagens e freqüentár a Universidade de Coimbra re-
tas era organizado em forma de curso - Humanidádes - , passa formada e/ou outros centros europeus.
a sê-lo em aulas avulsas (aulas régias) de latim, grego, filosofia,
retórica. Pedagogicamente esta nova organização é uin retro- Assim, fica evidenciado que as "Reformas Pombalinas" visa-
vam transformar Portugal numa ·metrópole capitalista, a exem-
cesso. Representou um avanço ao exigir novos métodos e novos
plo do que a Inglaterra já era há mais de um século. Visavam,
livros. '
também, provocar algumas mudanças no Brasil, com o objetivo
Para o ensino do latim, a orientação era a de ser entendido de adaptá-lo, enquanto colônia, à nova ordem pretendida em
apenas como um instrumento de domínio da cultura latina e Portugal.
admitir o auxílio da língua portuguesa.
A formaÇão "modernizada" da elite colonial (masculina) era
8. As obras básicas de onde estas diretrizes foram tiradas são: Verdadeiro uma das exigências para que ela se tornasse mais eficiente em
método de estudar, de Luís A. Verney; Educação da mocidade, de Antônio N. sua função de articuladora das atividades internas e dos inte-
Ribeiro, e Gramática latina, da ordem dos Oratorianos. resses da camada dominante portuguesa.

34 35
São exemplos de "ilustrados" que, ao retornarem, tiveram
grande atuação: Francisco José Lacerda e Almeida (geólogo),
Alexandre Rodrigues Ferreira (médico e naturalista), José Boni-
fácio de Andrada e Silva (mineralogista), Silva Alvarenga. (poe- 2'? Período
ta), José Joaquim de Azeredo Coutinho (fundador do Seminário
de Olinda) 9 1808 a 1850
É certo que esta "nova" formação obtida por uns poucos
levou alguns a participarem de movimentos que chegavam a
propor a emancipação política. Mas a base do. descontentamento
não era fruto do contato com estas teorias iluministas e sim CriSe do modelo agrário-exportador dependente
das mudanças que estavam ocorrendo na estrutura social brasi- e início da estruturação do modelo
leira, citadas anteriormente, quando da discussão do ciclo eco- agrário-comercial exportador dependente
nômico da mineração. Estas. teorias, com o passar do tempo,
vão se caracterizar como inadequadas na interpretação e soiu-
ção dos problemas internos, por serem_ resultado de circunstân-
cias especiais de determinados países europeus, e, enquanto tal,
bastante artificiais também para os problemas portugueses.
1. A· fase joanina
No governo seguinte de D. Maria 1, ocorre o movimento
conhecido sob o nome de "Viradeira", isto é, o combate siste- A estrutura social do Brasil-Colônia já foi caracterizada co-
mático ao pombalismo, a tentativa de retornar à tradição, vista, mo sendo organizada à base de relações predominantemente de
mais uma vez, como a maneira adequada de se resolverem os submissão. Submissão externa em relação à metrópole, submis-
pro,blemas, problemas estes que, em· realidade, se vão agravando. são interna da mal.oria negra ou mestiça (escrava ou semi-escra-
va) pela rp.inoria "branca" (colonizadores). Submissão interna
refletindo-se não só nas relações de trabalho como também rias
relações familiares, como lembra Gilberto Freire: da esposa em
relação ao marido, do filho em relação ao pai, etc.
A opressão era tão intensa, bloqueando as manifestações de
descontentamento, que aparentemente parecia ser aceita como
necessária ou, pelo menos, como inevitável.

9. O Seminário de Olinda foi fundado em 1800. Pretendia seguir o modelo Mas uma análise mais profunda do· período demonstra, co-
do Colégio de Nobres, criado em Lisboa em 1761. Mesmo não chegando a con- mo afirma Nelson W. Sodré, que tal "placidez' é -aparente".
cretizar esta intenção, transformou-se no melhor colégio de instrução secundária "Há contradições internas, ainda, e algumas chegam a motivar lutas
·do Brasil durante um certo período. Empregava métodos mais suaves, dava difíceis, que desmentem concretamente a placidez antes referida. A mais.
maior atenção às matemáticas e às ciências físicas e naturais. Foi responsável antiga, que não cessou jamais e que eclodiu em episódios violentos, nas
pela form~ção de uma geração de párocos mais voltados para o ambiente urbano zonas em que o indígena foi objeto de escravização, foi a que separou
. e para os métodos exploratórios de investigação da natureza, párocos estes colonos de índios, refletindo-se nos atritos que separaram colonos de mis-
que tiveram acentuada influência na revolução pernambucana de 1817. Com o sionários. Outra contradição antiga foi a que se levantou entre escravos
mesmo espírito é organizada a Instituição do Recolhimento de Nossa Senhora, e senhores de escravos: a história corrente tem omitido de· forma siste-
para moças. mática os traços dessa contradição ( ... ). Nos três primeiros (séculos)

36 37
( ... ) , sucederam-se os inotins da escravaria, as resistências, as fugas,
E certo que as razões de tais grupos variam em parte, ape-
os atentados, as violências, particularmente caracterizados nos episódios
dos quilombos ( ... ) . sar de desencadear um mesmo acontecimento. Para os primefros
( ... ) Outras contradições surgiram e se prolongaram, contribuindo ( serihores de terras e escravos), a metrópole, em conseqüência
para desmentir a placidez aparente que foi mencionada. A contradição de seu debilitamento no quadro internacional, não tem condições
entre os consumidores, de um lado, e os monopolizadores, de outro lado, de garantir nem preço, nem mercado para a produção colonial.
ficou assinalada inclusive pelos sucessivos motins do sal e caracterizada
A camada média, sob influên~ia _da ideologia burguesa, defendia
na rebelião maranhense de Beckman. ( .. :) Tal contradição prolongou-se
em outra: a que separou senhores· de terras e escravos· de comerciantes o liberalismo econômico e político. Os grupos internacionais
e que teve episódio tão significativo na luta entre Recife e Olinda ( ... ), (burguesiá) necessitavam do aumento dos antigos. mercados,
conhecida ·como Guerra dos Mascates. O antilusismo, que permaneceu como bem como da con,quista de novos.
traço psicológico de nossa gente por tanto tempo, encontra, assim, as suas
razões secretas. Como as encontra na contradição que aparece na zona Quando Portugal é invadido ( 1807) pelas tropas francesas e
mineradora, entre os descobridores paulistas e os adventícios que chegam a família real e a corte se vêem obrigadas a virem para o Brasil,
da Metrópole, atraídos pelo ouro, e a··que se convencionou chamar Guerra sob a guarda inglesa, a conjugação de tais int~resses (grupos co-
dos Emboabas. Naquela zona encontra, aliás, motivos também concretos
e contradição eritre contribuintes coloniais e o fisco metropolitano, de que loniais e ingleses) obriga o príncipe .regente a decretar a "aber-
a Inconfidência Mineira é uma claríssima expressão, quer nos anseios de tura dos portos" (1808) mesmo sendo em caráter temporário,
libertação dos espoliados quer na repressão br_utal da justiça metropolitana" mas que em realidade nunca chega a ser revogada.
(Sodré, 1973: 162-3).
Caio Prado Júnior assitn se expressa sobre tal aconteci-
Na contradição fundamental entre submissão e emancipa- mento:
ção, o elemento-inicialmente predominante (submissão) vai sen- "Será pelo favor de circunstâncias internacionais que este sistema de
do vagarosamente atingido pelo outro. Acompanhando-se este restrição cairá por terra; a começar pelo monopólio do. comércio .e~t~rno
processo de manifestação de descontentamento, verifica-se que o que é abolido em virtude de circunstâncias quase fort~1tas. Ma~, l.~nciada
elemento novo (emancipação) vai se desenvolvendo a partir de por aí a desagregação do regime colonial, o _resto nao tardara. E tod~
a estrutura que nos vinha de três séculos de formação colonial que sera
rea~ões aos reflexos internos de tal contradição; escravos negros
abalada: depois do monopólio do comércio externo e dos demais privilégios
ou indígenas versus senhores de escravos, por exemplo, e daí se econômicos, virão os privilégios políticos e sociai~, os quadros . adminis-
desenvolve em direção ao traço externo de tal contradição. trativos e jurídicos do país. Mais profundamente, ainda, será abalada a
própria estrutura tradicional de classes e mesmo o regime servil. Finalmente,
Durante o período que ora nos preocupa (primeira metade é o conjunto todo que efetivamente fundamenta e condiciona o resto que
do século XIX), este traço foi primeiramente identificado com entra em crise: a estrutura ecÓnômica básica de um país colonial que produz
o monopólio comercial, disto decorrendo a defesa da "abertura para exportar e que se organizara, não para atender às necessidades próprias,
dos portos"; depois com a submissão política à metrópole, e mas para servir a interesses estranhos ( ... ) .
então a defesa .da autonomia política. ( ... ) Desencadeiam-se então as forças renovadoras latentes que, daí
por diante, afirmar-se-~o cada vez mais no sentido de transformarem .a
Neste processo de desenvolvimento do elemento novo da antiga colônia numa comunidade nacional e autônoma. Será um processo
contradição (emancipação), devemos lembrar que este é resul- demorado ~ em nossos dias ainda não se completou - , evoluindo com
intermitências e através de uma sucessão d~ drrancos bruscos, paradas e
tado da conjugação de interesses internos e externos à sociedade mesmo recuos" (Prado Jr., 1969: 124).
brasileira, decorrendo daí as próprias limitações.
Esta necessidade de instalação imediata do governo portu-
É assim que a "abertura dos portos,; tanto interessava "aos guês em território colonial obrigou a uma reorganização admi-
senhores de escravos e de terras" da colônia, à boa parte da nistrativa com a nomeação dos titulares dos ministérios e o esta-
camada média que aqui surge com a mineração, como também à belecimento, no Rio de Janeiro, então capital, de quase todos .os
burguesia dominante ou em processo de dominação nas socie- órgãos de administração pública e justiça, o que também ocor-
dades industriais, especialmente a Inglaterra. reu em algumas das capitanias. Provocou, por outro lado, o de-
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senvolvimento da vida urbana de Vila Rica, Salvador, Recife e técnico. No Rio, o laboratório de qmm1ca ( 1812) e o curso de
principalmente do Rio que, contando na época com cerca de agricultura (1814). Tais cursos deveriam formar técnicos em
45.000 habitantes, recebe mais de _15.000 pessoas. economia, agricultura e indústria.

A partir desta nova realidade (o Brasil como sede da Coroa Estes cursos representam a inauguração do nível superior
portuguesa) se fez necessária uma série de medidas atinentes ao de ensino no Brasil.
campo intelectual geral, como: a criação da Imprensa Régia Seria bom ressaltar, em primeiro lugar, que a expressão
(13-5-1808), Biblioteca Pública (1810- franqueada ao público em "curso,,· não dá idéia precisa, uma vez que, em verdadé, muitos
1814), Jardim Botânico do Rio (1810), Museu Nacional (1818). correspondiam a aulas, como as de economia, anatomia, etc. Em
Em 1808 circula o primeiro jornal (A Gazeta do Rio), em 1812, segundo lugar que, pelas condições imediatistas a que teve de se
a primeira revista (As Variações ou Ensaios de Literatura), em subordinar, quase que exclusivamente se condicionou o prosse-
1813, a primeira revista carioca - O Patriota. guimento de tais estudos conforme duas tendências que, de de-
A possibilidade de um maior contato com povos e idéias di- terminado ponto de vista, foram prejudiciais ao seu pleno de-
ferentes, acontecida com a "abertura dos portos", intensifica-se senvolvimento. Tais tendências são: organização isolada (não-
a partir de 1815, principalmente com a França. Em 1816 é con- universitária) e preocupação basicamente profissionalizante.
. tratada uma missão de artistas francese~ composta de escultor, Entretanto, sob um outro ponto de vista, tais criações se
pintor, arquiteto, gravador, maquinista, empreiteiro de obra de revestiram de um aspecto bastante positivo: o de terem surgido
ferraria, oficial de serralheiro, surradores de peles, curtidores e de necessidades reais do Brasil, coisa que pela primeira vez ocor-
carpinteiros de carros. ria, embora essas necessidades ainda tenham sido em função de
Quanto ao campo educacional propriamente dito, são cria- ser o Brasil sede do reino. Isto representa uma ruptura com o
dos cursos, por ser preciso o preparo de pessoal mais diversi- ensino jesuítico colonial e leva a entender a opinião de Fernando
ficado. de Azevedo: a vinda de D. João ocasionou para Salvador e Rio
o mesmo que o Seminário de Olinda para a su~ região. Quanto
É em razão da defesa militar que são criadas, em 1808, a à tal ruptura, tem que se ter sempre em vista que não foi total,
Academia Real de Marinha e, em 1810, a Academia Real Militar já que não houve reformulações nos níveis escolares anteriores
(que em 1858, passou a chamar-se Escola Central; em 1874; Esco- e que o tratamento dado ao estudo da economia, biologia, etc.
la ·Politécnica, e hoje é a Escola Nacional de Engenharia), a seguia padrões mais literários (retóricos) que científicos.
fim de que atendesse à formação de oficiais e engenheiros civis
e militares. Em 1808 é criado o curso de cirurgia (Bahia), que Com isso, tem-se a origem da estrutura do ensino imperial
se instalou no Hospital Militar, e os cursos de cirurgia e anato- composta dos três níveis. Com relação à· seqüência do primário
mia, no Rio. No ano seguinte, nesta mesma cidade organiza-se ao superior, pode-se afirmar o seguinte:
o de medicina. Todos esses visam atender à formação de médi- Quanto ao primário continua sendo urú nível de instrumen-
cos e cirurgiões para o Exército e a Marinha. talização técnica (escola de ler e escrever), pois apenas tem-se
notícia da criação de "mais de 60 cadeiras de primeiras letras".
Em razão da revogação do Alvará de 1785, que fechara todas
Tem sua importância aumentada à medida que cresce o número
as fábricas, em 1812 é criada a escola de serralheiros, oficiais de
de pessoas que vêem nele, não só um preparo para o secundário
lima e espingardeiros (MG); são criados na Bahia os cursos de
como também para pequenos cargos burocráticos.
economia (1808); agricultura (1812), com estudos de botânica
e jardim botânico anexos; o de química (1817), abrangendo quí- Quanto ao ensino secundário permanece a organização de
mica industrial, geologia e mineralogia; em 1818, o de desenho aulas régias, tendo sido criadas "pelo menos umas 20 cadeiras de

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gramática latina". Essas cadeiras e as de matemática superior as cortes portuguesas, cujos membros tinham sido escolhidos
em Pernambuco (1809), a de desenho e história em Vila Rica sob influência dos ideais liberais da citada revolução, insistfam
(1817) e a de retórica e filosof.ia em Paracatu (MG-1821) inte- numa política colonialista em relação ao Brasil, que não mais
gram-se a um conteúdo de ensino em vigor desde· a époc_a jesuí- tinha condição de ser colocada em execução. Impunham a perda
tica. Foram criadas também .duas cadeiras de inglês e uma de da categoria de vice-reino e o "fechamento dos portos".
francês no Rio.
Em decorrência da situação· resultante do descontentamen"
Fernando de Azevedo comentando os acontecimentos diz: to interno, advindo da volta da família real e da insistência das
"a obra de D. João, antes de tudo ditada pelas necessidades imediatas novas cortes portuguesas em restabelecer o "monopolio comer-
do que· sugerida por qualquer modelo, lembra sob certos aspectos a obra
cial", dois grupos ·vão adquirindo significação no processo polí-
da Revolução Francesa" (Azevedo, 1944: 327).
tico que acaba por levar à autonomia. Nelson W. Sodré, ao tra-
Essa afirmação chama a atenção para o fato de a própria tar deste assunto, denomina-os de direita e esquerda.
reação, empreendida pelo governo de D. Maria I (1777-1792), à
"- a direita pretende que a classe dominante metropolitana reconheça
orientação pombalina não chegar a anular todas as idéias pre- à classe dominante colonial o direito ao comércio livre, por um sistema
sentes nas reformas anteriores. A própria rainha protege a Aca- tributário que a ambas satisfaça, mantida a subordinação da Colônia à
demia Real de Ciências, organizada pelo duque de Lafões (1779) Metrópole;
quando de volta do exílio. Além disso, Silvestre Pinheiro Ferrei- - a esquerda pretende levar a autonomia à ruptura completa com a
ra, depois de ter sido aconselhado a deixar Portugal, por ser Metrópole, admitindo, no campo interno, reformas que at~nuem a contra-
dição com a Inglaterra· no .que se refere ao trabalho,
adepto de Locke, Condillac e rebelar-se contra as doutrinas ofi- À proporção que os acontecimentos se desencadeiam, a direita, que
ciais, chega ao Brasil em 1808 com a família real e ascende à era a maioria da classe dominante, passa a segundo plano e muitas de
posição de uma das principais figuras do governo imperial, suas forças mudam de posição, aceitando a ruptura com a Metrópole;
ocupando as pastas do Exterior e da Guerra. a esquerda passa ·a primeiro plano e na medida em que passa, abandona
o seu teor reformista. Quando as Cortes lisboetas pretendem impor a sua
vontade à Colônia, encontram aqui uma irredutível resistência. O movi-
2. 'Á fase politicamente autônoma mento pela autonomia une a classe dominante colonial, que encontra, além
disso, o apoio das outras classes ou camadas sociais. Ela empreende e
Enquanto isto se passava no Brasil, em Portugal o descon- realiza a Independência, mas no sentido de configurar o país à sua imagem
tentamento da população com relação ao governo aumentava, e semelhança:
- Transforma a sua aliança com a classe dominante portuguesa numa
diante do abandono do território em mãos dos ingleses, que se aliança com a burguesia européia;
responsabilizaram pela expulsão dos franceses, pelos excessos - recebe des~a, em conseqüência:
cometidos por aqueles em tal desempenho, pela demora no re- a liberdade de comércio, como conquista econômica;
gresso da família real e da corte, uma vez que a desocupação do o aparato liberal, como forma exterior;
território português ocorrera em 1809. - resiste à pressão no sentido de liquidar o tráfico negreiro e o
trabalho escravo, mantendo-os enquanto. possível;
Este descontentamento leva, em 1820, à Revolução Constitu- - resiste a qualquer alteração interna, rríantendo o seu domínio abso-
luto - batendo-se por um mínimo de alterações formais, inclusive pela
cionalista iniciada na cidade do Porto que, como o nome indica, continuação do regime monárquico e do titular desse regime - , daí re-
visava uma liberalização do regime, um fortalecimento das cor- presentar o Império a classe que empreende a Independência" (Sodré,
tes, em detrimento do absolutismo real. 1973: 187).

Tais acontecimentos não só obrigam a volta do grupo che- Grosso modo, faziam parte da "direita" os elementos da
fiado por D. João VI, em 1821, como também contribui para o camada dominante, bem como elementos da camada média que
aceleramento do processo de emancipação política. Isto porque se colocavam a serviço dos interesses daqueles. A "esquerda" era

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formada basicamente por "intelectuais" da camada média, sob vale a uma limitação quanto ao grau (só um) e quanto aos
influência de ideais revolucionários franceses, e de alguns repre- objetivos de tal grau (primeiras letras).
sentantes da camada inferior. "Se a denominação de escola primária representaria política e peda-
gogicamente a permanência da idéia de um ensino público suficientemente
Conseguida a autonomia política em 1822, se fazia necessá- difundido e realmente formativo, a classificação de escolas de primeiras
ria uma Constituição. Da fase de projeto até sua outorga, em letras simbolizava, antecipadamente, a tibieza congênita que irá marcar
a maior parte dos· esforços de educaÇão popular durante o Império, e até
1824, comprova-se a afirmação de Nelson W. Sodré, anteriormen-
mesmo na República" (Silva, 1969: 193).
te citada, de que o grupo dominante colonial recebe da burgue-
sia européia "o aparato liberal, como forma exterior". O projeto Muitos outros fatos poderiam ser citados pa.ra reforçar a
era inspirado na Constituição francesa de 1791 e, em vista disto, opinião anteriormente emitida, como, por exemplo: o de proje-
era muito mais radical em suas proposições. tos (40) e o de leis aprovadas que tratam da educação (2), a
adoção do método lancasteriano (influência inglesa 1 ), pela lei
Quanto à educação, estava presente a idéia de um "sistema
de 15 de outubro de 1827, etc.
nacional de educação" em seu duplo aspecto: graduação das es~
colas e distribuição racional por todo o. território nacional. É O que se conclui após tais constatações é que a conquista
assim que em seu art. 250 declara: "Haverá no Império escolas da autonomia política, ou seja, o surgimento da nação brasileira,
primárias em cada termo, ginásios em cada comarca, e univer- impunha exigências à organização educacional. Mas, como foi
sidades nos mais apropriados locais" (in Silva, 1969: 192). visto, as condições em que tal autonomia foi conseguida, resis-
Já no texto constitucional outorgado, esta idéia de "sistema tindo às alterações internas, constituem sérios obstáculos a um
nacional de educação" é abandonada, posto que, com relação à eficiente atendimento escolar.
educação, o art. 179 se refere nos seguintes termos: "A inviola- Tal eficiência deveria traduzir-se num planejamento que, no
bilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros,
mais curto prazo possível, reorganizasse os objetivos, os méto-
que tem por base a liberdade, a segurança individual··~· a pro-
priedade, é garantida pela Constituição do Império", entre ou- dos e o conteúdo, a fim de que passasse a atender aos interesses
tras maneiras, pela "instrução primária gratuita a todos os cida- e necessidades dos futuros cidadãos da recente nação - o Brasil
dãos" (n.º 32) e pela criação de "Colégios e Universidades, onde - e implantasse uma rede escolar capaz de receber todos em
serão ensinados os elementos das ciências; belas artes e artes" idade escolar, distribuídos nos seus diferentes graus.
(n.º 33) (Almeida & Barreto, 1967: 192).
J. Francisco Larroyo (1970: 620), assim explica o "método lancasteriano":
Analisando-se a lei de 15 de outubro de 1827, única lei geral "Os alunos de toda uma escola se dividem em grupos que ficam sob a direção
relativa ao ensino elementar até 1946, mais uma vez se tem a imediata dos alunos mais adiantados, os quais instruem a seus colegas na leitura,
escrita, cálculo e catecismo, do mt;smo ~odo como foram ensinados pelo mestre·
comprovação dos limites com que a organização educacional era
horas antes. Estes alunos auxiliares se denominam monitores (donde o nome
encarada. também de sistema monitorial). ( ... ) Além dos óonitores há na classe outro
funcionário importante: o inspetor, que se encarrega de vigiar os monitores,
Esta lei era o que resultara do projeto de Januário da Cunha de entregar a estes e deles recolher os utensílios de ensino, e de apontar ao
Barbosa ( 1826), onde estavam presentes as idéias da educação professor os que devem ser premiados ou corrigidos. '
como dever do Estado, da distribuição racional por todo o terri- ( ... ) 'Um severo sistema de castigo e prêmios mantém a disciplina entre os
alunos. O mestre se assemelha a um chefe de fábrica que tudo vigia e que
tório nacional das escolas dos diferentes graus e da necessária intervém nos casos difíceis. Não dá lições senão a monitores e aos jovens que
graduação do processo educativo. Do projeto vigorou simples- desejem converter-se em professores'".
mente a idéia de distribuição racional por todo o território na- Era este um método planejado para solucionar o problema de educação
cional, mas apenas das escolas de primeiras letras, o que equi- popular, com uma quantidade insuficiente de professores.

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Mas, como a sociedade brasileira manteve. sua base escra- Uma indicação disto está no fato de que após a abdicação
vocrata, a clientela já se reduzia aos filhos dos "homens livres". de D. Pedro I (7-4-1831) é decretado o Ato Adicional à Consti-
A opção monárquica, por seu turno, com seu,s padrões aristocrá- tuição ( 1834), resultado do domínio de uma orientação descen-
ticos, quando muito exigia a ampliação ou "popularização" do tralizadora (maior autonomia às províncias), e que diz em. seu
nível elementar. .art. 10:
"Compete às mesmas Assembléias .(Legislativas Provinciais) legislar: ( ... )
No plano econômico, as dificuldades, abrandadas logo após Sobre instrução pública e estabelecimentos próprios a promovê-la, não
a "abertura dos portos", cedo voltam a agravar-se, diante do compreendendo as faculdades de medicina, os cursos jurídicos, academias
desequilíbrio da balança comercial pela estimulação das neces- atualmente existentes, e outros quaisquer estabelecimentos de instrução que
sidades e consumo muito além das capacidades produtivas do para o futuro forem criados por lei geral" (Almeida & Barreto, 1967).
país; diante da concorrência agravada com o fim do bloqueio O curioso é que, pelo art. 83 da Constituição de 1824, ficava
continental; diante da necessidade de substituição da reduzida vedado às Assembléias Provinciais a proposição e deliberação
administração colonial por um complexo aparelho administrati- sobre assuntos de interesse geral da nação. Isto parece indicar
vo, inclusive com muita gente parasitária. que a instrução, em seus níveis elementar e secundário, não era
Desta forma, a regra será o déficit econômico e, sem recur- considerada como "assunto de interesse geral da nação". Essa
sos, o poder central não tinha condições de se impor. orientação continua vigorando mesmo após a Lei Interpretativa
do Ato Adicional (1840).
Como resolver tal problema?
Tais níveis de instrução sofrem, desta maneira; as conse-
A opção feita foi a de adotar medidas que afetassem toda qüências da instabilidade política, da insuficiência de recursos,
a população e não apenas o setor que se beneficiava com os lu- bem como do regionalismo que imperava nas províncias, hoje
cros da empresa econômica nacional. Medidas estas que, em rea-
estados.
lidade, possibilitaram uma melhora da situação apenas de ime-
diato e aparentemente. Não é, portanto, de se estranhar, levando-se em considera-
"'
Foram taxadas. as importações, foram feitas emissões, fo- ção tal contexto, que a organização escolar brasileira apresente,
ram conseguidos empréstimos estrangeiros, difíceis de serem na primeira metade do século XIX, graves deficiêIJ,cias quantita-
pagos com o agravamento dos juros, tornando a economia bra- tivas e qualificativas.
sileira dependente de tais capitais. Mesmo as "escolas de primeiras letras" são em número re-
Já que a atividade manufatureira não tinha condições de duzido, como limitado é o seu objetivo, seu conteúdo e sua me-
desenvolver-se· devido à concorrência inglesa, até que um outro todologia. Elas enfrentam problemas dos quais se tem notícia
produto agrícola viesse a ser encontrado, a crise econômica insta- através dos relatórios dos ministros da época: era difícil encon-
la-se e leva a perturbações sociais que marcam a história do trar pessoal ·preparado para o magistéri9; havia completa falta
Brasil durante a primeira metade do século XIX. Faltavam re- de amparo profissional, fazendo da carreira algo desinteressante
cursos para que fosse possível dar vigência nacional ao aparelho e não motivando um aprimoramento constante, a população era
de Estado. mínima.
Conseqüentemente, os recursos exigidos para uma reorgani- Em 1835 (Niterói), 1836 (Bahia), 1845 (Ceará) e 1846 '(São
zação da estrutura escolar não estarão disponíveis, além do que, Paulo) são criadas as primeiras escolas normais visando uma
diante de tão grave situação, a educação escolarizada não será melhora no preparo do pessoal docente. São escolas de no má-
vista como setor prioritário. ximo dois anos e em nível secundário.

46 47
Quanto à instrução secundária, assiste-se à proliferação das mariam a elite dirigente de uma sociedade aristocrática como. a
aulas avulsas e particulares para meninos, sem a devida fiscali- brasileira.
zação e unidade de pensamento. Deviam chegar a uma centena
Mesmo assim, as queixas são freqüentes e dizem respeito ao
e consistiam no ensino do latim, da retórica, da filosofia, da geo-
mau preparo dos alunos, ao critério "liberal" de aprovação, à
metria, do francês e do comércio. Estas aulas vão diminuindo
falta de assiduidade dos professores pela necessidade de com~
com o tempo, por não incluírem todas as matérias necessárias
pletarem o orçamento com outras· atividades, etc.
aos exames preparatórios, pela necessidade de deslocamento dos
alunos às diversas residências dos professores, pelos numerosos Continuam sendo cursos isolados e estritamente· profissio-
encargos que sobrecarregavam estes últimos, como limpeza, con- nalizantes, com base na literatura européia consumida por pro-
servação, etc. Nessas condições continuam a ser procuradas so- fessores e alunos.
mente por aqueles que, ou não tinham condições de ingresso no
curso superior e queriam ter algum elemento de cultura literária,
ou precisavam esperar uma oportunidade (financeira, por exem-
plo) para o ingresso em· colégio ou faculdade.
Mesmo em se tratando de uma sodedade aristocrática, o
atendimento, em número, era muito limitado em tais circuns-
tâncias. Estas, como é evidente, comprometem também a qua-
lidade.
Na tentativa de imprimir algmna organicidade, são criados
liceús provinciais, que, na prática'; não passaram de reunião de
aulas avulsas nuin mesmo prédio. É assim que, em 1825, foi cria-
do o Ateneu do Rio Grande do Norte; em 1836, os Liceus da
Bahia e da Paraíba; e, em 1837, o Colégio Pedro II, na Corte ..
Este estava destinado a servir de padrão de ensino: adotaria e
manteria bons métodos, resistiria a inovações que não tivessem
demonstrado bons resultados e combateria os espertos e charla-
tães. Se este objetivo foi ou não alcançado, verificar-se-á quando
do estudo da organização escolar brasileira durante a segunda
metade do século XIX.
Quanto à instnwão superior, a 9-1-1825 é criado um curso
jurídico provisório na Corte. Vários projetos (1826, 1827, 1828 e
1830) são apresentados para o ensino médico. Inaugura-se a Aca-
demia de Belas Artes, que em 1831 passa por sua primeira refor-
ma. O observatório astronômico, criado em 1827, é a instituição
científica surgida no período.
Ficando a cargo do governo central pelo Ato Adicional, de-
monstra ser este o nível que mais interessa às autoridades, isto
é, aos representantes políticos da época. Eram os cursos que for-

48 49
Os recursos arrecadados através dos empréstimos, das emis-
sões e da taxação das importações mostravam-se insuficientes
"para a criação de um poder central apto a exercer-se em todo o território,
3~ Período como instrumento de uma classe que, embora dividida no secundário, deve
apresentar-se unida no essencial, para assegurar a manutenção do regime
que a serve" (Sodré, 1973: 195). ·
1850 a 1870
A solução, mesmo que temporária, para esta crise vem com
o sucesso da lavoura cafeeira que, a partir de 1840, começa a
propiciar lucros.
Apesar de ser uma matéria-prima de origem agrícola,. como
Consolidação do modelo
agrário-comercial exportador dependente a cana-de-açúcar, as diferentes relações estabelecidas na socie-
dade brasileira não representarão uma pura e simples repetição
'í da situação característica das épocas áureas do ciclo da cana.
Nelson W. Sodré, discutindo este período, afirma:
"Nem a lavoura do café, que se tornava agora a atividade econom1ca
preponderante, era semelhante à. do açúcar, que conservara a preponderância
e
Com a decadência da mineração um certo desenvolvimen- · durante toda a fase colonial, nem a sociedade que seria por ela gerada
era semelhante à socied_ade açucareira. A nova lavoura repr~sentàva, se~
to da agricultura tradicional, ainda no século XVIII deixa de dúvida, uma criação original brasileira gerada de condições internas e
existir aquela proximidade entre centro econômico e centro polí- particularmente de recursos internos. Só por isso, já anunciaria o novo. ·
tico, conseguida com a transferência da capital para o Rio de b que a distingue, enfretanto, com mais importância, é a capacidade para,
Janeiro, em 1763. A posterior decadência de tais atividades em aproveitando o que existia de velho no Brasil, gerar o novo. Trabalhando
um gênero novo, em uma zona nova, dá os seus primeiros passos na
função da concorrência internacional, como já foi apontado, apro- obediência às condições imperantes .e valendo-se dos meios de produção
funda ainda mais os problemas para o centro político, agora disponíveis. Será, assim, fundada na grande propriedade . e no· trabalho
nacional. escravo. Permanecerá vinculada ao mercado externo, dando continuidade
a uma estrutura colonial de produção.
As rebeliões regionais se sucedem após a autonomia polí- Mas, à medida em que· se libera e se desenvolve, ganha a esfera da
tica até o final da primeira metade do século XIX, em função circulação e a integra na de produção. Em seguida, transforma progressi-
desta situação interna bem como de certo incentivo da burgue- vamente as condições do trabalho, desembaraçando-se pouco a pouco do
elemento escravo. Por outro lado, a lavoura cafeeira oferecia margem de
sia européia, inter~ssada numa política divisionista. compatibilidade com lavouras de subsistência. Na medida em que alicer_ça
Tais rebeliões não chegam, no entanto, a provocar o rompi- o surto demográfico e leva a urbanização ao interior, chefa a impulsionar
a diversificação das culturas, embora para efeito interno. Outro de seus
mento ou o fracionamento territorial porque, em realidade, tanto aspectos merece referências: o café altera a destinação da exportação brasi-
o poder central como o provincial (regional) eram fracos. leira. Na metade do século, os Estados Unidos alcançam já uma posição
dominante como mercadq._ consumidor, recebendo mais da metade da expor-
Além do mais, estas lutas representavam choques entre gru- tação cafeeira" (Sodré, 1973: 226) .
pos, com fundamento mais econômico que político. As provín- .r Estava ocorrendo, desta forma, a passagem de uma socieda-
cias apresentavam interiormente desavenças entre os que domi- de exportadora com base rural-agrícola ·para urbano-agrícola-co-
navam e os que eram dominados em cada região, e um dos gru- mercial. Evolução esta exigida não só pelas necessidades inter-
pos acaba por apoiar o poder central, quando este lá se fazia nas, o que já foi assinalado, como também pór exigências ou
presente para reprimir a rebelião. interesses do capitalismo internacional. Este requer o desenvol-

50 51
vimento do mercado capitalista competitivo nos raíses periféri- vos, semi-escravos, trabalhadores livres) compõem a maioria do-
cos como condição de sua própria expansão. minada na sociedade brasileira.
Tais circunstâncias internas e externas, ao mesmo tempo Com relação à educação, a década de 1850 é apontada como
que propiciam, impõem limites a tal evolução.· Por parte do capi- uma época de férteis realizações, no entanto, restritas em sua
talismo internacional, já que este tem todo o cuidado em não maioria ao município da Corte, por força da lei em vigor.
contribuir diretamente para o aparecimento de um concorrente.
As realizações a que se refere são: criação da Inspetoria Ge-
Internamente, porque a. persistência de setores arcaicos funcio-
ral da Instrução Primária e Secundária do Município da· Corte,
narão como condição de 'maior exploração e conseqüente con-
destinada a fiscalizar e orientar o ensino público e particular
centração de capital que impulsionará o setor novo. Meio, sem
( 1854); estabelecimento das normas para o exercício da liberda-
dúvida, insuficiente, daí a persistência da necessidade de se lan-
de de ensino e de um sistema de preparação do professor pri-
çar mão de medidas que solucionam aparente e temporariamen-
mário ( 1854); reformulação dos estatutos do Colégio de Prepara-
te o problema econômico, como empréstimos e agora também
tórios, tomando-se por base programas e livros adotados nas
em forma de investimentos, transferindo para os investidores es-
escolas oficiais ( 1854); reformulação dos estatutos da Academia
trange~ros a responsabilidade de criação e funcionamento de ser-
de Belas Artes (1855); reorganização do Conserva tório de Música
viços públicos, como o transporte. e reformulação dos estatutos da Aula de Comércio da Corte.
As cidades passam a ser os pólos dinâmicos do crescimento O crescimento econômico e a conciliação dos partidos ( 1853)
capitalista interno. Elas promovem: ·1 são razões apontadas para esta "década de férteis realizações".
- uma reorganização do sistema de trabalho urbano, fazen- Além disso, é apontada como sendo o resultado da atuação de
do surgir novas· categorias econômicas de relativa importância; homens considerados notáveis a exemplo de Couto Ferraz, Ita-
boray, Euzébio de Queiroz etc.
- uma atração sobre significativo contingente populacio-
nal: de rendas altas e médias, de origem nativa {rebentos de Esta última razão nos alerta para dois aspectos. O primeiro
famílias tradicionais empobrecidas) ou estrangeira (que em sua deles é o de que a responsabilidade e, portanto, o interesse eco-
maioria iria operar as várias posições do complexo comercial- nômico~político-social dos grupos dominantes duránte o período
financeiro); de renda baixa, de origem estrangeira (comércio, agora analisado restringiam-se ao ensino superior (em âmbito
ocupações artesanais, serviços, inclusive públicos) e nacional, es- nacional) e, quanto aos outros níveis, restringiam-se à sede do
cravos forros e os vários tipos de libertos (serviços domésticos, governo (Rio de Janeiro). O segundo aspecto é o de que numa
trabalho artesanal, serviço por aluguel, inclusive prostituição, co- organização econômico-político-social como a do Brasil-Império,
mércio ambulante) (Fernandes, 1975: 229-30). as medidas especialmente relacionadas à escola acabavam por
depender marcadamente da boa vontade das pessoas. Pessoas
Nesse processo, por volta de 1850, o Império tem condições
estas que atuam dentro e nos limites da estrutura educacional
de consolidar-se. A monarquia, sob o domínio dos senhores cujas
existente. As modificações propostas são superficiais por serem
atividades produtivas ligam-se à exportação, admite a participa-
pessoas pertencentes à camada privilegiada, sem razões funda-
ção dos senhores desligados dela à medida que suas contradi-
mentais para interessar-se pela transformação da estrutura social
ções são de ordem secundária. Mesmo assim tais contradições
geral e educacional, especificamente. São superficiais, também,
são expressas, quando há oportunidade, uma delas levando à pró-
pelo tipo de formação superior recebida, que oferece uma inter-
pria Proclamação da Republica.
pretação da realidade, fruto desta perspectiva de privilégios a se-
A camada média em crescimento (comerciantes, funcioná- rem conservados ou quando muito uma interpretação da reali-
rios do Estado, profíssões liberais, militares, religiosos, intelec- dade segundo modelos importados, os mais avançados, mas re-
tuais, pequenos proprietários agrícolas) e a trabalhadora (escra- sultado de situações distintas e, por isso, inoperantes.

52 53
assim, que os formados no Brasil tinham conhecimento e
É A instrução primária continuou constituída de aulas de lei,
discutiam as últimas novidades que podiam ser consumidas atra- tura, escrita e cálculo. Pressupõe-se que cerca de um décimo. da
vés da literatura predominantemente européia. Este tipo de ati- população a ser atendida o era realmente. Não se tem certeza, já
vidade escolar envolve um gosto acentuado pelá palavra e limita que não existiam estatísticas educacionais.
as possibilidades de concretização das idéias. Luiz Agassiz, após A organização das escolas normais, iniciadas na terceira dé-
uma visita ao Brasil, declara: "Nenhum país tem mais oradores cada do século XIX, trouxe pequena melhora. Pequena, devido à
nem melhores programas; a prática, entretanto, é o que falta situação de instabilidade de tais cursos, por estarem em nível
completamente" (in Azevedo, 1944: 342). secundário e só em 1880, em São Paulo, passarem a três anos;
Continuam sendo cursos superiores isolados e com preocupa- por apresentarem .Problemas quanto à programação (detalhavam
ções profissionalizantes estreitas, como já foi demonstrado, ante- desnecessariamente alguns aspectos e tratavam superficialmente
riormente, pela constatada desvinculação entre teoria e prática. de outros); por serem noturnos e, portanto, terem poucas aulas
práticas; pela não-garantia de profissionalização; e pelo mau pre-
Os cursos jurídicos de Olinda e São Paulo eram os que paro dos professores. A escola aberta em São Paulo, em 1846,
maior clientela atendiam. Existiam, ainda, cursos · médicos na fecha em 1867, reabre em 1876, vindo a fechar novamente em
Bahia e no Rio, a Escola Politécnica (Rio), os cursos militares 1877. Em 1880 reabre. Neste mesmo ano é criada a primeira
no Rio Grande do Sul, no Rio e em Fortaleza, o curso de Minas escola oficial no Rio de Janeiro.
em Ouro Preto, o curso de Marinha (Rio), o ensino artístico
(Rfo) e o ensino religioso em seis seminários. A instrução secundária se caracterizou por ser predominan-
temente para alunos do sexo masculino, pela falta de organici-
Faltavam instituições que se dedicassem à pesquisa cientí- dade (reunião espacial de antigas aulas régias), pelo predomínio·
fica e aos estudos filosóficos metódicos. Estes foram desenvolvi- literário, pela aplicação de métodos tradicionais e pela atuação
dos, na época, em grande parte pelos formados nos cursos jurí- da iniciativa privada .
. dicas sob influência quase sempre francesa, numa linha eclética.
'· Se, como foi dito, o governo centra• omitiu-se na tarefa de
Continuam sendo freqüentes as queixas quanto ao mau pre- reorganização dos nív:eis anteriores ao superi<;>r, já que a. deixou
paro dos alunos, ao critério "liberal" de aprovação e à falta de sob a responsabilidade das províncias, acabou por ser o respon-
·assiduidade dos professores, principalmente dos cursos jurídico e sável, mesmo que de forma indireta, pelas características negati-
médico, pela necessidade de completarem o orçamento com ou- vas assinaladas acima. Isto· porque manteve os cursos prepara-
tras atividades. · tórios e os exames parcelados para o ingresso no curso superior;
em conseqüência,
O mau preparo dos alunos remete às deficiências dos níveis " ( ... ) os pais ( ... ) não pedem aos diretores de colégio que ensinem a
anteriores, o que demonstra que a medida referente ao controle seus filhos, mas simplesmente que os habilitem no menor prazo possível,
do governo central sobre o ensino superior, apenas como forma e com o menor incômodo deles, pais, -e de seus filhos, para os exames
de garantir uma conveniente formação da elite dominante e par- de preparatõrios das aulas superiores. Sob essa, condição os estudos aca-
nham-se e perdem-se"l.
ticipante do poder, não foi uma medida das mais eficazes. Fal-
tou. uma política educacional integrada entre centro e províncias. O objetivo era o lucro e daí serem organizadas aulas e .colé-
gios preparatórios mais baratos que os que pudessem dar uma
Não se instituiu um plano nacional de fiscalização das esco-
instrução mais sólida.
las primárias e secundárias, Çom vistas a um aprimoramento de
objetivos, conteúdos e métodos e, conseqüentemente, uma me- 1. Relatório do dr. Justiniano José da Rocha (1850), citado por Primitivo
lhora de aproveitamento por parte dos alunos. Moacyr (1936: I, 309).

54 55
Numa "memória histórica" de 1880 da Faculdade de Direito
)ismo industrial que surge e se desenvolve a escolarização, mes-
de São Paulo, depois de, em outras palavras, caracterizar a situa-
mo que elementar, de um contingente maior da população.
ção assinalada acima, afirma: .
"Da sua parte, os professores, que lecionam nos 'colégios ou em suas casas, No Brasil não se efetivou a distribuição racional de escolas
parecem ver-se obrigados ante a má vontade dos di~cípulos, ~ ·não ~hes pelo território nacional porque a grande seleção continuava sen-
darem outras explicações mais que as concernentes as matenas contidas
precisamente. nos pontos assim expostos, e que lhes servem de assunto
do feita em termos de não-escolarizados e escolarizados.
para as lições. Assim é que, com efeito, muitas vezes acontece que, nos A exclusão não se fazi~ paulatinamente, de um nível de ensi-
exames, turmas quase inteiras escrevem as suas provas de uma maneira
tão semelhante que elas parecem antes cópias umas das outras que con- no para outro, e sim, marcadamente, no início da escolarização,
cepções· e manifestações distintas de diferentes in!eligências" 2 • pois a grande maioria não tinha condições e, em boa ºparte, nem
interesse, diante do regime de vida a que estava submetida, em
Aí está a comprovação de o governo central ter exercido, de ingressar e permanecer na escola.
forma indireta e negativa, uma ação centralizadora nos outros
graus de ensino. A reduzida camada média, que vai ampliando-se nas últimas
décadas do Império, é que pressiona pela abertura de escola.
Com isto a~ulou uma outra medida, que foi a criação (1837)
e a inauguração (1838) do Colégio Pedro li, destinado a servir Como o preparo intelectual representava oportunidade de
de padrão de ensino. ascensão social, os poucos alunos que conseguiam matricular-se
nos colégios, nos liceus, não tinham outro objetivo senão o de
Na realidade, os papéis se invertem e ele é que acaba por ingressar no curso superior, qualquer que fosse sua origem social
reduzir-se a um curso preparatório na Reforma José Bento da - média ou alta.
Cunha Figueiredo (1876-78), onde houve a concentração dos es-
tudos exigidos pelos exames ao superior nas cinco primeiras sé- O que ocorreu no Colégio Pedro II (1859) vem demonstrar
ries e passou a aceitar a matrícula por disciplina. essa orientação da clientela: neste ano deveria funcionar, pela
primeira vez, a S.ª série especial, que conferiria um certificado a
'Pelo quadro analisado e pelas deficiências constatadas, vê-se quem não quisesse continuar os estudos e sim completar sua
que, mesmo neste período onde -a regra foi o superávit econômi- formação de grau médio. Ninguém matriculou;se aí, todos se di-
co, a educação não contou com verbas suficientes que possibi- rigiram ao primeiro dos três anos seguintes, que davam condi-
litassem, ao final do século XIX, um atendimento pelo menos ções de ingresso na faculdade.
elementar da população em idade escolar.
O ensino secundário brasileiro não conseguia conciliar o pre-
Isto demonstra que para a monarquia brasileira, ao contrá- paro para o curso superior com uma formação humana a nível
rio das monarquias européias a que ela: procurava moldar-se, nem médio, mesmo atendendo a tão reduzido número. As condições
a instrução primária tornou-se necessária a toda a população. concretas do meio determinavam uma única função - preparo
Tendo-se em mente o contexto anteriormente analisado, é para o superior.
relativamente fácil compreender a razão do ocorrido; no Brasil É necessário assinalar-se que, além dessa pressão no meio,
acontecia a passagem de uma sociedade exportadora-rural-agrí-
as' limitações decorrian(,'também, da atitude dos interessados na
cola para uma. exportadora-urbano-comercial; na França, por
solução dos problemas escolares em buscar soluções teóricas em
outro lado, a passagem era para uma sociedade industrial avan-
çada. E é determinada pela estrutura social resultante do capitá- modelos estrangeiros. O Colégio Pedro II continua sendo um
exemplo significativo, já que foi proposto como padrão, como
2. Memória histórica apresentada pelo dr. José Rubino de Oliveira, citado algo a ser imitado. Um acompanhamento das reformas pelas
por Maria de Lourdes M .. Haydar (1972: 61-2). quais esta instituição passou evidencia o reflexo das modifica-
56 57
ções ocorridas nos liceus franceses, que buscavam uma concilia- Os colégios particulares que conseguem a conciliação, quer
seja através de uma formação humana de tipo clássico, como
ção entre. formação literária e científica.
o Caraça, reaberto em 1856 pelos lazaristas franceses, ou de uma
Há inicialmente uma predominância "dos estudos literários formação moderna, como o Ginásio Baiano (1858-1871), sob a
acentuada na Reforma Antônio Carlos (1841). No regulamento orientação de Abílio César Borges, são exceções e d~ existência
de 1854 percebe-se um " ( ... ) tímido reflexo ( ... ) das realschu- bastante interrompida.
len alemãs e que vinham agitando a opinião francesa a partir da Como seria de esperar, o ensino técnico, agrícola e industrial
década de 30 ( ... ) ", nas pal~vras de M. de Lourdes M. Haydar, fica a nível de ensaios. Assim aconteceu com o Liceu de- Artes e
11 dando um bom desenvolvimento aos estudos científicos. É a mes- Ofícios no Rio, com dois cursos de comércio (Rio e Pernambu-
1!
ma autora que diz: co), com três de agricultura (Rio, Pará e Maranhão) e os insti-
"( ... ) Evidenciando contudo a fiel e cega obediência aos compêndios tutos de agricultura do Rio, Bahia e Pernambuco, Sergipe e Rio
I' adotados, ignorava o ~rograma de geologia as particularidades do solo Grande.
brasileiro enquanto incluía o estudo cuidadoso do terreno parisiense ( ... ) "
(Haydar, 1972: 114 e 117). Criou-se na Corte o ensino para cegos ( 1854) e surdos-mudos
,[
(1856). Estes incluíam a instrução elementar e a iniciação técni-
Em 1862 é feita uma reforma acentuando os estudos literá-
1
ca e só continuaram pela boa vontade de diretores e professores.
rios. Com a de 1870, voltam os conhecimentos científicos a ter
importância. Nas reformas de 1878 e 1881 e no decreto de 1888 J.
estas diferentes tendências se repetem.
Neste acompanhamento fica revelado, como diz Geraldo B.
Silva, "o caráter transplantado e antecipatório" do dilema e da
tentativa de conciliação entre formação humana com base na
literatura clássica e formação humana com base na ciência. Este
era o problema enfrentado pela estrutura escolar francesa. A
brasileira, em realidade, enfrentava um dilema anterior - conci-
liar a formação humana e o preparo para o ensino superior.
"Não estamos nem estaremos, por muito tempo, preparados para a
opção ou para uma transação viável entre o ensino clássico e o ensino
moderno, ou ·para uma tentativa razoável e ponderada de superar esse
dilema pelo estabelecimento de uma educação de novo tipo. Sein dúvida
que se encontram ecos, entre nós, do problema daquela opção, ou ·do
debate que ela ocasiona, especialmente na França, entre anciens e modernes.
·Mas, ecos de seus aspectos meramente doutrinários, daqueles que o faziam
um problema para discussõ_es eruditas, cheias de citações de autores euro-
peus e de inovação dos exemplos das nações 'mais civilizadas' e não um
problema a ser resolvido em função de· nossas condições objetivas e pelo t
estabelecimento de uma organização pedagógica realmente operante" (Silva,
1969: 199).

Este traço de transplante cultural já foi assinalado quando


da consideração do preparo da elite imperial e lá também foram
apontados os prejuízos dele decorrentes.

58 59
o Banco Rural e Hipotecário ( ... ). Em 1854 abre-se ao tráfego a primeira
linha de estradas de ferro do país ( ... ) . A segunda, que irá liga~ à
Corte a capital da província de São Paulo, começa a construir-se em
1855" (Holanda, 1973: 42).
4'? Período
Comparando-se as percentagens referentes a 1839-44 .e
1870 a 1894 1870-75, nota-se o crescimento de ·1,0% para 3,5% da importação
do carvão, que de 17.º lugar passa a 8.º, e de 0,2% para 2,9% da
importação de máquinas, que passa de 25.º para 11.º.lugar. Isto
indica certo desenvolvimento de atividades industriais.
Crise do modelo "A consolidação desse desenvolvimento econômico manifesta-se de ime-
agrário-comercial exportador dependente diato com o contato mais intenso com a Europa, fonte .fornecedora não
só dos novos maquinários. e instrumentos, que importávamos, mas também
e tentativa de incentivo à industrialização das novas idéias que passaràm a circular no acanhado meio intelectual
dos meados do século XIX brasileiro" (Reis Filho, 1974b: 1).

Este acanhado meio intelectual, esta elite intelectual brasi,

/.A fase imperial I


leira era composta de elementos oriundos das camadas dominan-
te e média. Esta se desenvolve aceleradamente enÍ conseqüência
de tal processo de modernização da sociedade e, entúsiasmada
O fim do tráfico de escravos (1850) e a solução cafeeira por ele, procura contribuir para que se torne cada vez mais rápi·
fazem com que haja internamente uma disponibilidade de ca- do. E o consumo das "novas idéias" parece um meiQ eficaz. O
pitais. manifesto liberal de 1868 é considerado o início de um amplo
movimento que vai agitar o final do Império e o início da Re-
'O primeiro acontecimento apontado é significativo no sen- pública.
tido da solução das divergências entre a burguesia, inglesa em "( ... ) Inspirando-se em autores (populares) do século XIX europeu,
especial, e a camada dos senhores de terra e escravos no que diz as crenças básicas do liberalismo e do cientificismo tornam-se os pilares
respeito ao regime de trabalho mais adequado à nova estrutu- do esforço para elevar o Bp1sil ao nível do século. Isto é, pelas novas
ração social capitalista em sua fase concorrencial. Isto contribui idéias a inteligência brasileira pretende realizar a atualização histórica consi-
derada ingenuametne como a forma de nossa realização nacional. A própria
para a citada disponibilidade de capitais tanto de origem exter- maneira de perceber e analisar nossa realidade sócio-cultural é reflexo
na (ingleses) em forma de empréstimos e de investimentos, como das últimas teorias importadas.
de origem interna: aqueles que eram aplicados na compra de ( ... ) É uma fase rica de propostas de reformas de quase todas as
escravos. instituições existentes. Mas de reformas :que não partem da realidad.e, mas
do modelo Importado" (Reis Filho, 1974b: 1-2).
Em conseqüência, a sociedade brasileira passa por uma épo-
ca acelerada de mudanças. Tais propostas são feitas porque " ( ... ) a conquista do le-
"Mesmo depois de inaugurado o regime republicano, nunca talvez fomos gislativo através do qual se poderia fixar em leis impositivas o
envolvidos, em tão breve período, por uma febre tão intensa de reformas modelo estrangeiro" era vista como a forma de ação.
como a que se registrou precisamente nos meados do século passado e "Fugiam à realidade concreta, e passavam a criá-la através da ação
especialmente nos anos de 51 a 55. Assim é que em 1851 tinha início educativa da lei. Data de ef)tão, este distanciamento gritante entre o Brasil
o movimento regular de constituição das sociedades anônimas~ na mesma legal e o Brasil real, que ria República, senão até os nossos dias, sempre
data funda-se o segundo Banco do Brasil ( ... ); em 1852, inaugura-se implicou em dois mundos diferentes e às vezes incom"unicáveis, o Brasil
a primeira linha telegráfica na cidade do Rio de Janeiro. Em 1853 funda-se oficial e a realidade observável" (Reis Filho, 1974b: 2).

60 61
Usando-se a linguagem liberal, tratava-se de "liberar o tra- liberais, a universidade alemã sintetiza a fórmula da realização de. suas
teses pedagógicas. .
balho, a consciência, o votai'. Na linguagem positivista, segundo Voltada para a formação de uma elite intelectual de alto nível, na
Luiz Pereira Barreto, tratava-se de · Universidade Alemã há plena liberdade d~ ensinar, 'e aprender ( ... ) .
"elevar o país ao nível do séc~lo, descobrindo o sentido ecumemco de O Estado cria e mantém as universidades mas não lhes dita. doutrina, não .
nossa história, compreender que somos a expressão particular de uma só intervém na administração, inteiramente autônoma" (Roque S. M. de Barros,
lei genérica que rege a humanidade inteira, explicar que o que nos diferencia in Reis Filho, 1974b·: 8-9).
da civilização ocidental é uma questão de fase, não de natureza" (Roque
S. M. de Barros, in Reis Filho, 1974b: 5). A 19 de abril de 1879 é decretada a reforma Leôncio de Car-
valho. Alguns de seus princípios ficam dependentes da aprova- .
Liberais e cientificistas (positivistas) estabelecem pontos ção do Legislativo, aprovação esta que não chega a ocorrer. Mes-
comuns em seus programas de ação: abolição dos privilégios mo assim é difundida e algumas (poucas) .conseqüências práticas
aristocráticos, separação da Igreja do Estado, instituição do ca- acontecem.
samento e registro civil, secularização dos cemitérios, abolição
da escravidão, libertação da mulher para, através da instrução, Leôncio de Carvalho entendia que muito havia a ser feito
desempenhar·· seu papel de esposa e mãe e a crença na educação para imprimir um impulso. à educação. Entre as medidas neces-
enquanto chave dos problemas fundamentais do país. sárias estavam:
Deve ser lembrado, mais uma vez, que tal modernização da a) Liberdade de ensino, isto é, a possibilidade de todos os
sociedade brasileira era uma exigêricia de fato, fruto do estágio ·que se sentissem capacitados exporem suas idéias segundo o mé-
atingido no processo de mudança da base da sociedade exporta- todo que lhes parecesse mais adequado.
dora brasileira, que de rural-agrícola passa para urbano-comer- Entendia que o segredo da prosperidade dos Estados Uni-
cial. É interessante ressaltar, mais uma vez, que tanto os grupos dos e dos países europeus estava na adoção do princípio de liber-
internos (parte da camada dominante e média) como externos dade de ensino.
(burguesia que evolui de mercantil para concorrencial) estão inte-
ressados nela. É uma necessária adaptação entre regiões hegemô- Em casos de abuso deveria h'aver uma repressão criminal.
nicas e periféricas que integram o sistema capitalista na fase A inspeção verificaria as condições de moralidade e higiene.
industrial ou coricorrencial. b) O exercício do magistério era incompatível com o de car-
A organização escolar, em tal contexto, é atingida não só gos públicos e administrativos.
pelas críticas às deficiências constatadas como também pela pro- Para que isso fosse possível, necessário se fazia o Estado ter
posição e até decretação de reforma. condições de pagar bem e oferecer outras garantias P\Ofissionais.
Como reconhecidamente tais condições rião existiam, a proibição
Um exemplo de proposição de modelo atual a ser imitado
não seria baixada de imediato.
está na difusão das idéias a respeito do ensino alemão, visto por
inteiectuais como Tobias Barreto, Vieira da Silva e Teixeira de e) Liberdade de freqüência, ou seja, dar liberdade para os
Macedo como causa da vitória nas lutas de unificação do país alunos dos cursos secundário ê superior estudarem como e com
conseguida em 1870. Despertava especial atenção a organização quem entendessem. À escola caberia, especificamente, ser severa
do ensino superior e é assim que: nos exames. Isto implicava, também, a organização do curso por
"Forma-se ( ... ) um grupo de defensores do modelo universitário alemão matéria e não mais por anos, possibilitando ao aluno escolher
que o propõe como forma de superar as reservas tradicionais que os liberais as matérias e o tempo para cumprir toda· a série estipulada.
ofereciam à criação da Universidade Brasileira. Embora jamais tenha sido
concretizado no Brasil, o modelo germânico representou durante muito As poucas conseqüências práticas dizem respeito à decreta-
tempo aspiração do intelectual que se considerava atualizado. Para muitos ção da liberdade de credo religioso dos alunos e à abertura ou

62 63
organização de colégios, onde outras tendências pedagógicas, co- Assim, a atenção é chamada para o fato de a criança ser um
mo a positivista,· tentavam 'ser aplicadas. ser ativo, da necessidade de se respeitar a ordem natural do seu
crescimento, de desenvolver os sentidos, capacitando-a a descb-
Data deste final de século o aparecimento do ensino femi- brir as coisas por si mesma e, em conseqüência, o preparo do
ni.no em nível secundário, como resultado da iniciativa particular. professor parece indispensável.
Dado o grau de subordinação da mulher no período, a maio-
ria dessa faixa da população era analfabeta. Uma pequena parte
era tradicionalmente preparada na família pelos pais e precep-
/A fase republicana

A influência positivista torna-se mais marcante, no que se


tores, limitando-se, entretanto, às primeiras letras e ao aprendi-
refere à educação nacional, alguns anos depois, em decorrência
zado das prendas domésticas e de boas maneiras. Uma quanti-
das transformações políticas. Estas são conseqüências de todo
dade menor ainda é que, no período tratado, recebe uma instru-
este processo de inquietação.
ção secundária não muito profunda. Mas pelo fato de estes cur-
sos estarem desobrigados da preparação para o superior, eles Como já foi dito, o governo imperial· atendia aos interesses
acàbam tendo maior organicidade, grande importância é dada da camada senhorial constituídà de duas facções significativas:
às línguas modernas, às ciências (especialmente consideradas em a ligada à lavoura tradiciona1 (cana, tabaco, algodão) e a ligada
suas aplicações práticas) e incluem cadeiras pedagógicas. à nova lavoura (café). Esta última dominava o aparelho de Esta-
do, admitindo, no entanto, a participação da outra facção.
Em termos de iniciativas particulares, protestantes norte-
americanos (Escola Americana, 1870, Colégio Piracicabano) e po- ~~à\e:iiêS:&íIBent:O~faaêfêrá'a~:rixaa.í:ÇamãUâ:;m.~éliâ,"e;;a.'f'.participaÇão\·
sitivistas (Escola Neutralidade, 1884) criam escolas primárias t<l~;~~~µ'sJ;~l~m~fü9S,~n~~y:rcr~;:;p:qJ5Ifü~;.~ttí:i~~s•oaª~~ªJ1Vii(:lãa.es.:.íntel~e:1
modelo. 1t:'.if!i~:~~~m1H:~i:fit:~~~i~ê1'~tçJ,to.);f~limêsmo~t~J!gíQ's.ª~"~çr:i~ro:<ÇqiJ.(:liçõ~s.·:aê1
,~~nt~;s:~ªº·;,'.Q.~_i:§~J.!§,Jn!~r~~.~.e§1m~!g,ªnrplQs_çbfuQ..·o;;;a~.1pi:i,rtiC~paçã!'.íl
A iniciativa norte-americana a este nível é bastante signifi-
, cativa e vai ampliar-se durante a Primeira República. Contribuiu
diretamente na organização escolar e nos processos didáticos e
;ii~~1~~:J:~:~:6;~J~t~~it~~;~f-~~~~%~i~~2~~~~~~~l~~~~~ir~J~t:::,
~refigiõsâ':~~;nu1na:t;r 1:'~;;?4ü~'cl~füqúg.t:t:~ra~:21a:r'.à.m~:r1t~::<:iµ~,o.·r~gime 1
menos em termos doutrinários propriamente ditos. ~ijªQ;,j:~\H~tiçlií:í,;,:ª§~~ª~i?!tªÇ.Q~~kA~c:l.lm,:\§~fg);';:'ÁIDPcQ)'.~!g!ltei ..gfl;J?OP!Jêçã()i
"( ... ) Na realidade transplantavam para o Brasil a experiência que
os Estados Unidos haviam desenvolvido, a partir das inovações que recebe- tn:§}fünªJ,·'92',~~~1.110,;~1~.
ram da Europa. O pragmatismo americano ainda não havia encontrado Apesar de seu crescimento e descontentamento, a camada
sua expressão filosófica e já a escola americana atendia às exigências média não chegava a ser socialmente tão forte que, sozinha, pu-
das condições sócio-culturais de sua clientela: Deste modo, a partir das desse levar avante um movimento que resultasse na modificação
sugestivas' experiências de Pestalozzi, uma notável renovação dos métodos
de ensino iitinge no século XIX a educação americ.ana. É o resultado dos
do regime político. Por outro lado, a aliança com o outro grupo
progressos neste campo que as congregações religiosas protestantes introduzi- descontente (camada baixa de trabalhadoreg,) não tinha condi-
ram juntamente com seus ministros quando expandiram sua áção missionária ções objetivas. Isto pelo fato de os elementos do setor médio, pela
no Brasil. No momento • em que interesses comerciais americanos locali- sua formação preponderantemente resultante do transplante cul-
zaram-se nos principais centros comerciais e urbanos brasileiros, comuni- tural, estarem distanciados das bases, das características, dos
dades estadunidenses: no Rio, São Paulo, Porto Alegre, o aparecimento de problemas concretos da realidade brasileira (entre eles a margi-
escolas para os filhos de norte-americanos era desejado num meio tão carente
nalização ou exclusão da maioria da população brasileira do pro-
de instituições de ensino. Por outr6 lado, na maioria eram escolas sectárias
religiosas que visavam proselitismo religioso. cesso de crescimento). Além disso, o fato de a própria exclusão
Entretanto, a influência deste modelo atinge a escola pública, es,Pe- sistemática do citado setor social fazer com que este não tivesse
cialmente em São Paulo, no início da ReplÍblica" (Reis Filho, 1974b: 9-10). tido, até então, condições de se tornar uma força política.

64 65
Desta forma, a mudança na ordem política ficava depen- te que participa do processo (senhores do café ou burg_uesia
dendo de uma cisão na camada dominante que fizesse com que agro-exportadora). Esta via na descentralização um instrumento
uma das facções passasse a se interessar; por tal modificação, de concentração de rendas, já que não teria que dividi-las com a
já que a burguesia internacional não faria pressão em contrário. outra facção decadente (senhores da lavoura tradicional).
Nas circunstâncias do período, o apoio tanto da facção domi- É por essa razão que se instala na organização escolar da
nante interna como externa era indispensável à concretização dos Primeira República uma dualidade, fruto da descentralização.
pfanos e, como ocorrera durante o processo de autonomia polí- Pela Constituição de 1891:
tica, acabava por limitar a amplitude das modificações. Seria "a) à União competia privativamente legislar sobre o ensino superior na
um componente a mais no processo de modernização. Capital da República, càbendo-lhe, mas não privativamente, criar insti-
tuições de ensino secundário nos Estados e promover a instrução no Dis-
Neste instante, o elemento novo na contradição fundamental ·trito Federal:
da sociedade brasileira - submissão X emancipação - se desen- b) aos ·Estados se permitia organizar os sistemas escolares, completos;
volve em termos de reconhecer que a forma de governo republi- ( ... )" (Azevedo, 1944: 359).
cano seria uma garantia, a exemplo do que aconteceu no início Quanto à política tarifária e cambial, no entanto, havia diver-
do século, quando a "abertura dos portos" (1808) e a "autono- gência, como a citação de Nelson W. Sodré Já assinalou. Ao gru-
mia política" (1822) desempenharam este papel.
po de "senhores" era mais interessante continuar a taxar as im-
1
r_Ast::f<;>J;tçª~'';;~~::'Çofüit~~.m:\i:leiJ~lIXmªnifü,~ª,::.qç.,~i;;·!>,gJ:t.·ª~Jid~:rªnMi . portações, pois o ônus era distribuído por toda a população. Aos
@e>.ele!J:!~l1ÍQ.§,j:Q~k~ª1J;ié!ç!ª,,f!11!icLl~i>f;~"SjJ~:Q!.ªl1it~.Rt~·;J;DfüJª,l\),,~ÇRI}l:. o\ elementos de camada média e baixa, que viviam de salários e,
"-ªp<?J!l•:sig!lJfügé!ti.\TQ.:.d;:!.1.çªl!iªi:lª'.çlw;n;üi.ª11t~;09.Q,J,;ªf~,e;com.:~a·ana'i portanto, não participavam dos lucros das atividades produtivas,
-:r:~.QJ~.c9X!1Üi.êªR;if!.ª•·1mfü2!'.!ª::~çla.•1PQPJJlªçªQ;,, ~isP:n>Çlami;tçlª·.:a . !lep~~ esta política econômica pesava muito e a solução do problema
bliC::a .•*kl8&QJ', . parecia estar na taxação das exportações e no incentivo das ati-
Nelson W. Sodré, ·ànalisando a situação, assim se expressa: vidades industriais.
"· "De qualquer forma tornara-se evidente, ao aproximar-se o fim do século
XIX, que o aparelho de Estado se tornara obsoleto; não correspondia mais ·Percebe-se com isto que, se havia pontos em comum que
à realidade econôinica e política, transformara-se num trambolho. A Repú- possibilitaram a composição, existiam também sérias divergên-
blica, quando altera aquele aparelho de Estado, traduz o problema: cai o
Poder moderador, cai a vitaliciedade do senado, cai a eleição à base de cias, o que fazia com que tal composição fosse bastante circuns-
renda, cai a nobreza titulada, cai a escolha de governadores provinciais, tancial e instável, sendo caracterizado o período até 1894 como
cai a centralização. O novo regime permite a participação no poder, embora o de "crise da República".
transitoriamente, da classe média, e há, com a mudança de regime, clara-
mente, uma luta em torno da política tarifária e cambial. As reformas citadi;ts Se do ponto de vista econômico a divergência era frontal, a
na realidade traduzem o que se processa· em profundidade. Não surgiram "pequena burguesia urbana", de que os militares no poder (Deo-
da imaginação dos republicanos da primeira hora: visavam, muitas vezes
apenas na intenção, atender a determinados fatores, que eram relativamente doro e depois Floriano) faziam parte, não era suficientemente
novos, que vinham em ascendência. Não surgiram do acaso, em suma" forte enquanto apoio a uma nova orientação, uma vez que tal
(Sodré, 1973: 292). orientação comprometia os interesses dos donos da terra que
Politicamente, adota-se o modelo norte-americano que, ~e­ detinham os meios de produção.
gundo Rui Barbosa, era o que mais se adaptava ao "vastíssimo
Desta maneira, a continuidade da camada média na lideran-
arquipélago de ilhas humanas que era o Brasil".
ça do processo político brasileiro só podia ocorrer pela força
Em realidade, a descentralização atendia aos interesses tanto das .armas, pois· faltava-lhe esta base de classe por não dominar
dos setores liberais da camada média, como da facção dominan- os meios de produção.

66 67
O governo de Floriano Peixoto (1891-1894), que passa para A escola primária ficava organizada em duas categorias, isto
a História corno o "Marechal de Ferro", retrata esta situação. é, de l.º grau para crianças de 7 a 13 anos e ·de 2.º grau para
crianças de 13 a 15 anos. A secundária tinha a duração de sete
Neste rápido e agitado período em que o componente médio
anos. No nível superior afetou o ensino politécnico, o de direito,
lidera o processo político, acontece urna tentativa de mudança o de medicina e o militar. Quanto à escola de Minas, nem che-
tanto .na orientação econômica corno na escolar. gou a ser colocada em execução.
No primeiro caso, tenta-se intensificar a aplicação de um Urna das intenções era tornar os diversos níveis de ensino
plano já no final do Irnpédo com o objetivo de cobrir os déficits "formadores" e não apenas preparadores dos alunos; com vistas
existentes e ativar os negócios, orientando o capital movimen- ao ensino superior. Para que este aspecto fosse conseguido no
tado inclusive para a criação de empresas financeiras, comerciais ensino secundário, por exemplo, foi criado o exame de madureza,
e industriais. destinado a verificar se o aluno tinha a cultura intelectual neces-
A falta de controle dos responsáveis pela aplicação e o desin- sária ao término do curso. A partir do 3.º ano, seria introduzido
teresse de significativos setores internos (senhores agrícolas) e tempo para a revisão da matéria e, no 7.º, isto ocuparia a maior
externos (burguesia) em relação ao incentivo das atividades vol- parte do horário.
tadas para o mercado nacional leva a iniciativa ao fracasso, já A outra intenção era fundamentar esta formação na ciência,
em 1891. rompendo com a tradição humanista clássica, responsável pelo
"Sob a ação deste jorro emissor, não tardará que da. citada ativação academismo·· dominante no ensino brasileiro. A predominância
dos negócios" se passe rapidamente para a especulação pura. Começam a literária deveria ser substituída pela científica e, para tanto, fo-
surgir em grande número novas empresas de toda ordem e finalidade. rárn introduzidas as ciências, respeitando-se a ordenação positi~
Eram bancos, firmas comerciais, companhias industriais, de estrada de ferro, vista (matemática, astronomia, física, química, biologia, socio-
toda sorte de negócios possíveis e impossíveis" (Prado Jr., 1969: 218).
logia e moral).
,E. a primeira tentativa, mesmo que em grande parte frus- Pode-se notar que estava sendo atacado o dilema mais real
trada, de fazer do governo um instrumento de diVersificação (formação humana X preparação para o superior) e o menos
~~~~'?J~~~1l~!:i~~~~z4l--"-"f~~~r.v:':iM~:iiz~'1'~ X f.Cff*~~~~~·;...,ui;.;:,;n;;t;e.s::."'"Ji
das atividades econômicas. Atitude retornada após 1930. rea1 ,~~'J.'l'ª~"ª~~~~ª\\iól""Jf:S~~tw.:a~~u~e~ª':tàl:!~ª~ t!.'.&L~g;§l;.a.oit''.!'~!1~
!iilF!'.~-~1ª;~["itq:ijflfi~Wf~i~t~) enfrentado pelo ensino secundário
til Quanto à organização escolar, percebe-se a influência posi- imperial.
tivista. Era a forma de tentar implantar e difundir tais idéias
Por vários motivos, o resultado desta decisão foi alvo de crí-
através da educação escolarizada, já que, politicamente, tal cor-
tica. Pelo fato de não ter respeitado o modelo pedagógico de
rente de pensamento sofre um declínio de influência a p~rtir de
Cornte (representante máximo da corrente filosófica positivista)
1890 .. no que diz respeito à idade de introdução dos estudos científicos,
Decretada neste ano e colocada em prática no ano seguinte, os próprios positivistas fizeram restrições à Reforma 1 •
a Reforma Benjamin Constant tinha como princípios orientado- mtÃt1lird~~~B<!~ja~~~i1Jlf~it'!~~~~~§'.tm~jª~fJfnirtênas
res a liberdade e laicidade do ensino, corno também a gratuidade ~l&n1,J,füê:ª1Sl!ª§.fi~ª-ªi~!ª9.~~!~~f~~~ã~ktq,1~r~Q1!~l51t~~J'l~i~J,g~~sttw.g~ Este
da escola primária. Estava, quanto a isto, seguindo a orientação
1. Comte não recomendava o ensino das ciências senão após os catorze
do texto constitucional. anos. Até então a criança deveria receber uma educação de caráter estético
Atingfa, por força da descentralização reinante, a instrução baseada na poesia, na música, no ·desenho e nas línguas. Benjamin Constant
incluía já na escola de 1.0 grau a aritmética, a geometria prática e, na de 2.º,
pública primária e secundária no Distrito Federal e a instrução que iniciava aos treze anos, além destas, a trigonometria e as ciências físicas
superior, artística e técnica em todo o território nacional. e naturais.

68 69
fato constitui outro motivo de crítica e acaba por comprometer
a defesa do princípio de que a base da formação humana deve-
ria ser científica, dando força àqueles que defendiam a predo-
minância literária. Pelos relatórios do período, percebe-se que 5~ Período
estes problemas de precocidade e acúmulo foram sentidos e en-
carados como de difícil solução. Já em 1893 há uma modificação 1894 a 1920
visando uma distribuição mais proporcional das matérias do Gi-
násio Nacional com ampliação da parte literária, anteriormente
sacrificada.
E esta vai ser uma característica do primeiro período repu- Ainda o modelo agrário-comercial
blicano: ora uma reforma pende para uma predominância, ora exportador dependente
para outra, sem, contudo, progredir no sentido de conseguir-se
um ensino secundário mais adequado às novas tendências sociais
no Brasil.
Caracteriza-se, desta forma, a continuidade do movimento de
atualização histórica, de modernização da vida brasileira, anali-
sado e criticado quando da discussão das últimas décadas do Para que se apreenda a característica básica da organização
Império. escolar neste período republicaria, necessária se faz a compreen-
são da característica, também básica; da sociedade brasileira. E
Os resultados conseguidos, completamente distintos dos isto requer o esclarecimento dos significados do combate ao flo-
"idealizados", comprovam, mais uma vez, a ineficácia e os pre- rianismo, que são:
juízos de tal atitude intelectual.
a) afastar do poder o componente militar que nele repre-
sentava a camada média;
b) utilizar o novo regime (republicano) para conseguir an-
tigos fins (atendimento dos interesses da "camada senhorial").
Percebe-se, neste instante, que a aliança entre camada média
e uma facção da camada dominante, útil por ocasião da neces-
sária alteração do regime político, agora já não o era mais. O
possível e mais conveniente era a reunificação das facções domi-
nantes como condição de cónseguir-se o que foi afirmado no
item b. E a queda de Floriano Peixoto representa a vitória desse
grupo e a solução da crise política.
As possibilidades de saída da crise econômica pareciam ser
a aliança com a burguesia internacional e a reorganização interna.
Ao se analisarem as medidas tomadas em decorrência da
aceitação destas possibilidades, evidenciar-se-á o fato de que pa-

70 71
ra tanto era indispensável deslocar do poder o componente mé- Assim, a sociedade brasileira continua a modernizar-se, mas
dio que~ como os outros setores da população, com exceção do a um custo muito alto, pesadamente pago pela maioria da pÓpu~
dominante, seriam bastante prejudicados. lação, excluída de tais benefícios por viver no campo. E, curiosa-
mente, sendo aquela que produz a riqueza, uma vez que é a mão-
Éassim que, no ano de 1898, são empreendidas certas refor- de-obra da lavoura cafeeira.
mas que eram, inclusive, uma das condições impostas pelos
As condições de trabalho e o isolamento em que vivia esta
credores.
população rural impossibilitavam manifestações de descontenta-
"O grande beneficiário das reformas de 1898 foi, sem dúvida, a finança mento. Este fato e á representação eleitoral manobrada pelo
internacional. Representada neste caso pelo London & River Plate Bank,
intermediário do acordo com os credores, ganhará novas posições no Brasil
coronelismo, pelos "currais eleitorais'', garantiram o sucesso do
e junto a seu governo. Os seus representantes assumirão o direito de velarem regime sem maiores problemas até o final da Primeira Guerra
diretamente pelo cumprimento do acordo feito, e fiscalizarão oficialmente Mundial, quando as manifestações urbanas de descontentamento
a execução das medidas destinadas a restaurar as finanças do país. Entre- vão se intensificando.
laçam-se assim, intimamente, seus interesses e suas atividades com a vida
econômica brasileira. E esta não lhes poderá mais, tão cedo, fugir. Conso-
A caracterização do reforçamento do traço de dependência
lidara-se uma situação de dependência que se vinha formando havia muito, na base da estrutura social durante os anos de 1894 a 1918, que
mas que somente agora encontrará seu eq1Jilíbrio" (Prado Jr., 1969: 221). acabou de ser feita, é necessária porque se refletirá na organi-
zação escolar, reafirm.i.ndo o traço de dependência cultural.
A reorganização interna foi conseguida com a adoção da "po-
11 A série de reformas µelas quais passa a organização escolar
lítica dos governadores :
revela uma oscilação entre a influência humanista clássica e a
'Tratava-se de entregar cada Estado federado, como fazenda particular,
à oligarquia regional que o dominasse, de forma a que esta, satisfeita realista ou científica. O wdigo Epitácio Pessoa (1901) acentua
em suas solicitações, ficasse com a tarefa de solucionar os problemas desses a parte literária ao incluir a lógica e retirar a biologia, a socio-
Estados, inclusive pela dominação, com a força, de quaisquer manifestações logia e a moral; a reforma Rivadávia (1911) retoma a orienta-
de resistência. ( ... ) . Para isso, aquelas oligarquias ou organizavam forças ção positivista tentando infundir um critério prático ao estudo
'irregulares próprias, à base de um banditismo semifeudal, ou valiam-se
das disciplinas, ampliando a aplicação do princípio de liberdade
de organizações policiais assemelhadas em tudo e por tudo a verdadeiros
exércitos regionais" (Sodré, 1973: 304). espiritual ao pregar a liberdade de ensino ( desoficialização) e
de freqüência, abolindo o diploma em favor de um certificado
A política econômica de "valorização" dos produtos agríco- de assistêncía e aproveitamento, e transferindo os exames de
las, mais diretamente o café, feita com a utilização do capital admissão ao ensino superior para as faculdades, com o objetivo
estrangeiro, concentrava os lucros nas mãos da burguesia estran- de que o secundário se tornasse formador do cidadão e não do
geira e da ''camada senhorial", também chamada "burguesia candidato ao nível seguinte. Os resultados, no entanto, foram
11
agrário-exportadora brasileira. desastrosos. Daí as reformas de 1915 (Carlos Maximiliano) e de
1925 (Luís Alves/Rocha Vaz).
Desta maneira, não só foi restabelecído
"o equilíbrio das contas externas do paíl'; tão grandemente atingidas na A citação abaixo é um bom exemplo de mais algumas das
crise dos anos anteriores, mas restabelecê-lb em nível muito mais alto, limitações impostas pelo mecanismo de transplante cúltural:
tornando possível um largo aparelhamento material e uma sensível ascensão "Pela altura da segunda dééada do século, a única doutrina filosófica que
. do padrão de vida nacional. Instalar-se-ão grandes e modernos portos,.. a havia conseguido reunir um grupo de adeptos no Brasil, o positivismo,
rede ferroviária crescerá rapidamente, inauguram-se as primeiras usinas de já era apenas uma lembrança do passado. É verdade que na Europa essa
produção de energia elétrica (de tão grande importância num país pobre doutrina já havia sido enterrada quarenta anos· atrás. Mas em seu lugar
de carvão mineral), remodelam-se com grandes obras as principais cidades surgiram novas correntes disputando em torno do valor da ciência e' da
(em particular o Rio de Janeiro, que muda inteiramente de aspecto)" possibilidade de· apreender o mundo num todo" (Básbaum, 1962: 290,
(Prado Jr;, 1969: 221). grifo nosso) .

72 73
A dependência cultural traduz-se nisto: falta de capacidade
TABELA II
criativa e atraso constante e cada vez mais profundo em relação
Proporção de alfabetizados e de analfabetos na população brasileira
ao centro criador que serve de modelo. Representa, ainda, como de quinze anos e mais
já foi assinalado, um idealismo estreito e inoperante ao formar
um pessoal sem a instrumentação teórica adequada à transfor- Especificação 1900 1920
mação da realidade em benefício de interesses da população co-
mo um todo e não de interesses de uma pequena parte dela e Total 9. 752.111 17 .557 .282
de grupos estrangeiros, em detrimento da maioria.
Sem declaração 22.791 -
Enquant9 uma reforma, com base em determinado modelo,
era vista como solução para os problemas apresentados pelo .ou- Sabem ler e escrever 3.380.451 6.155.567
tro modelo, os problemas reais agravavam-se e, no dia-a-dia esco-
lar, profissionais e alunos "solucionavam como podiam", isto é, Não sabem ler e escrever 6.348.869 11. 401. 715
improvisadamente e, portanto, também de forma ineficiente. Daí
sai:r desacreditada tanto a teoria importada, e por isso desligada % de analfabetos 65 65
da prática, como a prática sem a teoria, ou melhor, uma prática
Fonte: Florestan Fernandes, Educação e sociedade no Brasil, Quadro I, p. 47. /
com base numa "teoria" fruto do senso comum, onde não se
tem consciência clara das razões desta nossa forma de agir. Com a sociedade brasileira se desenvolvendo em base urba-
no-comercial desde a segunda metade do século XIX, o analfabe-
É assim que o problema do analfabetismo não pode ser so-
tismo passa a se constituir um problema, porque as técnicas de
lucionado, ficando muito longe disto, já que aumentou em núme-
leitura e escrita vão se tornando instrumentos necessários à inte-
ros absolutos e, em 1920, 65% da população de quinze anos e
gração em tal contexto social.
mais era analfabeta. (Ver Tabelas I e II.)
Desta forma, o déficit acumulado e as· novas tendências da
TABELA 1 sociedade brasileira passavam a exigir mudanças radicais visan- ·
índices de analfabetismo da população brasileira para pessoas do à solução do problema apontado.
de todas as idades
Campanhas proclamando a necessidade da difusão da escola
Especificação 1890 1900 1920
primária foram organizadas. Eram lideradas por políticos que,
enquanto tais, reconheciam a necessidade da difusão especial-
Total 14.333.915 17.388.434 mente da escola primária como base da nacionalidade, o que fez
30.635.605
com que alguns defendessem não só o combate ao analfabetismo,
Sabem ler e escrever 2.120.559 4.448.681 7.493.357 como também a introdução da formação patriótica, através do
ensino cívico.
Não sabem ler e escrever 12.213.356 12.939.753 23.142.248
Pelos resultados, pode-se perceber que tais campanhas não
% de analfabetos 85 75 representaram medidas radicais: o aumento de analfabetos em
75
números absolutos e a manutenção do percentual indicam insu-
Fonte: Instituto Nacional de ·Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano U, ficiência de verbas e/ ou insuficiência teórica no enfrentamento
1936, p. 43.
do problema.
Mais da metade da população de quinze anos e mais em Esta última afirmação, ao tocar na possível insuficiência de
1920 havia sido totalmente excluída da escola. verbas, chama a atenção para um outro fato: a falta de registros
74 75
sistemáticos das despesas do governo com rélação ao ensino. Leôncio Basbaum afirma: "Sé, em 1889, os alunos matri-
Pode-se, como se fez, apenas inferir que tenham sido bastante culados correspondiam a cerca de 12 % da população em idàde
insuficientes diante do precário atendimento escolar dado à po- escolar, em 1930 já havia subido a cerca de 30%" (Basbaum,
pulação brasileira. 1962: 283).
Mas até a elaboração de· um quadro que retrate numerica~
mente a situaÇão, é impossível, devido à precariedade dos levan- No dizer de Geraldo B. Silva:
tamentos estatísticos em relação ao período anterior a 1930, "Durante a República, o desenvolvimento do ensino pnmano se ~xprime
pelos seguintes números de alunos por mil habitantes: 18 elll 1889, 41 em
impossibilitando qualquer comprovação. 1920, 54 em 1932" (Silva, 1969: 319).
"O Brasil ( ... ) só em 1916 iniciou a publicação do seu Anuário
Estatístico, cujo primeiro foi dedicado ao período ·de 1907 a 1912. A feliz Florestan Fernandes, anos depois; quando da participação
iniciativa, porém, não teve continuidade e a estatística brasileira, consi·
dcrada na sua expressão sintética, estava, assim, com um atraso de quase da "c~mpanha em defesa da escola pública", assinala o fato de
um .Q\larto de século" (Instituto Nacional de Estatística, Anuário do Brasil, o crescimento das oportunidades escolares ter sido um mérito
prefácio, ano n, 1936). . do governo republicano. As organizações particulares, principal-
Além de limitação quanto à época (1907-1912), pois só em mente de caráter religioso, não se dedicaram no Brasil à educa-
relação ao "estado da população" foram encontrados dados ante- ção eminentemente popular (Fernandes, 1966).
riores e posteriores, ao consultar o Anuário Estatístico - ano I
- foi constatado que as informações mais completas diziam res- Diante destes índices, pode ser caracterizada a ampliação
peito ao ensino superior e profissional, restringindo-se no secun- deste nível de ensino, cujo atendimento mais que duplicou.
dário ao ensino público e, no primário, ao Distrito Federal. No início da República, a melhora não foi apenas quantita-
Partindo-se do princípio de que levantamentos deste tipo, tiva, uma vez que data daí a introdução do ensino graduado,
retratando numericamente a situação escolar, são indispensáveis com o aparecimento dos primeiros "grupos escolares" ou "esco-
à satisfação das necessidades com vistas à evolução desta mes- las-modelo". Mas, ainda em 1907, o tipo comum de escola pri-
ma situação em âmbito nacional, a ausência deles indica um mária' é a de um só professor e uma só classe, agrupando alunos
certo desinteresse, uma não-prioridade em relação à organização de vários níveis de adian,tamento.
escolar com objetivo de atender à população em sua totalidade.
. Quando são buscadas outras fontes (autores que tratam do É interessante notar que forças sociais exercem pressão com
referido período), constata-se, como não poderia deixar de ser, vistas a esta abertura da escola mas, ao mesmo tempo, impõem
uma referência numérica· muito pequena e muitas vezes diferen- seus limites. É o que mostra a passagem que a seguir se trans-
te, já que não são fruto de trabalho especializado. creve.
"Já então as transformações econômicas e sociais do país e a tomada
Diante disso, o quadro possível de ser esboçado é o seguinte: de consciência de nosso ·atraso em matéria de educação atuam no sentido
da contínua expansão do ensino primário.. Parétn, aquela tomada de cons-
Ensino primário ciência, em muitos administradores, processa-se na direção de abaixar o
nível de aspiração com referência à duração e qualidade da escolaridade
O único levantamento estatístico o,rganizado, relativo a este - seria melhor dar 4 ou 3 anos de escola a muitos, alfabetizando-os, do
período, diz respeito ao então Distrito Federal, durante os anos que um ensino mais longo e de melhor nível a poucos; e a expansão dificulta
de 1907 a 1912. Portanto, as indicações relativas à situação em os problemas de aperfeiçoamento da organização, e acentua a repetência
âmbito nacional correspondem a cálculos muito gerais, fazendo e evasão escolar, que se mede por números como os seguintes: de 1.100.129
alunos que ingressaram na 1.ª série em 1945, somente 90.657 conseguem
com que haja discrepância entre os resultados publicados pelos ser aprovados na 3.ª série em 1947, e aprovados na 4.ª série, em 1948,
diferentes autores. 54.297" (Kessel, in Silva, 1969: 319).

76 77
Nota-se que as verbas eram irisuficientes para um atendi- ., N
...... 00
\O
N
r-
V)
......
V)
r-
\.) O\
...... ......
mento a um tempo quantitativa e qualitativamente melhor. Como ~
foi visto, o modelo político-econômico (agrícola-comercial expor- ....t:
tador), sendo contrário à redistribuição do lucro, comprometia ~
º·
:<: r-
o o o o o
...;i O\
o
...... o
...... o
...... o......
......
tais verbas destinadas ao atendimento popular. E para o educa-
dor se colocava o dilema: atender. menos e melhor, ou mais e
pior.
.s....
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Í,,)

~
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Mesmo assim, isto é, optando pela primeira alternativa, foi
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possível atender a menos de um terço da população em idade '"'"d


i::
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escolar. Isto equivale a dizer que mais de dois terços continua- oG) ~ O\
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pessoal docente e diminuição quanto às escolas e à matrícula. fü


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78
79
E esta marcada insuficiência da iniciativ.a oficial faz com para outras cidades· onde tem certeza de obter a aprovação
que a este nível (secundário) continue oco~rendo um outro ponto fácil." 1 ·
de estrangulamento na organização escolar brasileira, de tal ma- Denúncias dessa natureza já aparecem no período imperial.
neira que a elitização se mantém como uma característica mar-
Outra conseqüência da intensa seleção feita desde o início
cante.
devido à falta de escolas primárias, ao problema da evasão, be!Jl
Afrânio Peixoto declara, em 1923: como ao fato de as escolas sec;unqárias serem predominantemen-
"Sobre a formação das elites ( ... ) no Brasl se está processando a seleção te pagas é que o número de alunos com condições de. cursar se
dos incapazes feita pelo ensino. secundário; na escola primária, o filho restringia aos elementos originários de setores sociais altos e,
do rico, irmanado com o do pobre, são bons e maus alunos, mas, como
os pobres são infinitamente mais numerosos, se tem. numerosos alunos maus, paulatinamente, também dos médios, cujo objetivo era o curso
tem também muitos bem-dotados: digamos, se em 10 ricos há um aluno superior. Daí o caráter propedêutico. do ensino secundário se
inteligente, em 90 pobres haverá 9 alunos iguais a esse rico ( ... ). Vai manter.
começar o ensino secundário. Mas o pobre não pode freqüentá-lo; o liceu,
"O fato mais digno de significação do ponto de vista cultural nesse
o ginásio, o colégo custam caro. Os 90 pobres vão para as fábricas, para
período é o que sy,,..chamou de bacharelismo, no pior sentido, significando
a lavoura, para a mão-de-obra. Os 10 ricos, esses farão exames, depois
a mania generalizada' entre os respectivos pais, de formar o filho, dar-lhe
serão bacharéis, médicos, engenheiros, jornalistas, burocratas, políticos,
de qualquer modo um título de doutor. ( ... ).
constituirão a elite nacional ( ... ) . Mas como nesses 10, apenas 1 é
inteligente, essa 'elite' tem apenas O, 1 de · capacidade" (in Moacyr, 1944, ( ... ) pois ser doutor era, senão um meio de enriquecer, certamente
uma forma de ascender socialmente. Ao doutor abriam-se todas as portas, e,
V: 12-3).
~·. principalmente, os melhores cargos no funcionalismo" (Basbaum, 1962: 288).
Apesar do "simplismo" do raciocínio, é um valioso depoi- 1/ 11
mento sobre a intensa seleção e conseqüente marginalização es- 1 E, na página seguinte, o mesmo autor declara: Éramos um.
colar que é, a um tempo, resultado e reforço de uma margina- país de doutores e analfabetos". Este direcionamento estreito
lização social (econômica) da maioria da população brasileira. de interesses que marcava a clientela do ensino secundário é
responsável pela orientação centralizadora, apesar de a Consti-
Quanto à baixa capacidade da elite brasileira, é necessário tuição de 1891 consagrar a descentralização, fruto do princípio
destàcar não só o que foi indicado anteriormente no que se re- federativo, que significava a pouca intervenção do governo fe-
fere ao critério de seleção em base não-pedagógica, como tam- deral nos estados.
bém a falta de rigor no ensino oferecido aos que conseguiam
ingressar. Tanto que, por volta de 1904, é declarada a decadên- Só que agora (República) tal orientação não se faz apenas
cia do ensino secundário, já de má qualidade no Império. de forma indireta, pelo controle dos exames de ingresso nas fa-
"De fato, o ensino desceu até onde podia descer: não se fazia mais culdades, a exemplo do que aconteceu no Império, como também
questão de aprender ou de ensinar, porque só duas preocupações existiam, de forma direta, pelos mecanismos de fiscalização e equiparação
a dos pais. querendo que os filhos completassem o curso secundário n? em poder do governo federal.
menor espaço de tempo possível e a dos ginásios na ambição mercantil,
,estabelecendo-se as duas fórmulas: bacharel quanto antes; dinheiro quanto
Continuava, também, um e~sino de tipo literário, desde que
mais" (in Moacyr, 1942, IV: 71). as tentativas em contrário, fruto das reformas sob influência
positivista, por exemplo, acabaram por torná-lo enciclopédico.
Esta é uma declaração feita em 1910 por ocasião da prepa- Aprendiam-se os conhecimentos científicos como eram assimila-
ração da reforma Rivadiária Correa (1911). dos os de natureza literária. Não se fazia ciência, não se aplicava
Outras expressões indicam a falta de rigor nos exames pre- o método científico. Tomava-se conhecimento dos resultados da
paratórios ao superior. atividade científica.
"Se, por ventura, na cidade onde estuda em um dado ano, 1. Citado em Moacyr (1941, III: 93). Esta expressão. grifada pelo autor
os examinadores se mostram algum tanto exigentes, ele emigra é o registro de uma declaração feita em 1903 ou 1904.

80 81
1
1
Este não era o úniCo tipo de enS'ino médio: era o predomi- Como os dados a respeito do ensino secundário são bas-
nante. Havia o ensino profissional, que atendia a uma crescente, tante incompletos,· não se pode estabelecer uma comparação.
mas, mesmo assim, diminuta clientela. Seria interessante assinalar que, na opinião do prof. Jorge
Seguindo a Tabela IV, percebe-se que tanto o setor público Nagle, a manutenção dos padrões tradicionalistas no ensino se-
como o particular apresentaram um crescimento, sendo mais cundário e a permanência da idéia de que o ensino profissional
acentuado na área federal. Somente o ensino náutico não apre- (elementar e médio) destiljlava-se às camadas menos favorecidas,
sentou índices de crescimento, exceto com relação à conclusão acaba por agravar o problema referente às distintas formações:
de curso. um conjunto de escolas propiciava a formação da~ "elites" e,
outro, a do "povo".
TABELA IV
Ensino profissional no Brasil (1907-1912) O crescimento do ensino profissional, se, de um lado, pode
Escolas Pessoal Docente representar o encaminhamento da contradição entre não-esco-
N. 0 Absoluto N. 0 índice N. 0 Absoluto N. 0 índice larizados e escolarizados, de outro, pode representar o surgimen-
1907 1912 1907 1912 1907 1912 1907 1912 to e/ou aprofundamento de outra contradição entre formação de
Federal 8 31 100 387 188 430 100 229 "elite" e de "povo", como foi assinalado anteriormente.
Estadual 38 52 100 137 390 592 100. 152
Municipal 10 14 100 140 168 254 100 151
Particular 100 202 100 202 906 1583 100 176 Ensino superior
Sacerdotal 32 50 100 275 200 290 100 145
Pedagógico 44 58 100 132 510 815 100 160 Pela Tabela V, verifica-se que durante os anos de 1907 a
Art. Liberal 17 29 100 170 161 246 100 153 1912 as escolas particulares é que apresentaram um maior
Art. lndust. 42 89 100 212 553 976 100 176
Agronômico 825
aumento.
4 33 100 27 194 100 718
Náutico 3 2 100 66 46 12 100 26 A esfera estadual parece ter buscado um maior, e não ne-
Comercial 14 38 100 271 155 326 100 210
cessariamente melhor, aproveitamento de suas escolas, uma' vez
Total 156 299 100 191 1652 2859 100 173
que, mesmo diminuindo o número de suas escolas e professores,
Matrícula Conclusão de Curso
N. 0 Absoluto N. 0 índice N. 0 Absoluto N. 0 índice
apresentou um aumento de matrícula e conclusão de curso.
1907 1912 1907 1912 1907 1912 1907 1912 Quanto ao tipo de curso, o médico-cirúrgico-farmacêutico e
Federal 1153 4866 100 422 21 81 100 386 o politécnico suplantaram em crescimento o jurídico.
Estadual 5091 8663 100 170 501 1119 100 223
Municipal 1718 2397 100 139 174 169 100 97 Outro dado a destacar é o de que a matrícula no ensino
Particular 11499 13546 100 118 472 1497 100 317 superior representava 0,05% da_ população total do país, que, elJl
Sacerdotal 1277 1455 100 114 130 151 100 116 1900, era de mais de 17 milhões de habitantes (ver Tabela I).
Pedagógico 5020 9249 100 184 654 1237 100 189 Isto é, em 2.000 habitantes, um estava cursando o superior.
Art. Liberal 2228 2558 100 115 92 177 100 192
Art. lndust. 9779 11423 100 117 225 724 100 322 O fenômeno do bacharelismo, assinalado quando da dis-
Agronômico 153 1117 100 730 5 110 100 2200 cussão do ensino secundário, já indica o tipo de formação con-
Náutico 34 25 100 73 2 11 100 550,
Comercial 970 3643 100 375 60 466 100 776 seguido através do ensino superior.
Total 19461 29472 100 151 1168 2866 100 246 A este nível (superior) constata-se, também, uma dicotomia
Fonte: Diretoria Geral de Estatística, Annuário Estatístico do Bra.zil, ano I, entre atividades literárias, proporcionadas pelas escolas, e ativi-
vol. III, p. 1.014 a 1.037. dades científicas. Como lembra Fernando de Azevedo (1944: 369):
,[
82 83
1
1
"( ... ) As atividades científicas no Brasil ( ... ) continuaram dispersas A única exceção foi a Faculdade de Medicina da Bahia, de
em instituições especiais de várias ·naturezas - . museus, estações expe- 1891 ·a 1905, por influência de Nina Rodrigues: esta servia à
rimentais e laboratórios -, que não serviam ao ensino e nem se enqua- pesquisa e ao ensino.
dravam no sistema propriamente escolar da Nação".
A reforma Carlos Maximiliano (1915) traz a seguinte reso-
TABELA V lução: "O Governo Federal, quando achar oportuno, reunirá em
O ensino superior no Brasil (1907-1912) Universidade a Escola Politécnica e de Medicina do Rio de Ja-
neiro, incorporando a elas uma das Faculdades Livres de Direito".
Escolas fessoal Docente
Tal oportunidade acontece a 7 de setembro de 1920. Criou-
N. 0 Absoluto N. 0 índice N. 0 Absoluto N. 0 índice se nesta oportunidade a Universidade do Rio de Janeiro fruto
da reunião "nominal" das faculdades citadas. '
1907 1912 1907 1912 1907 1912 1907 1912
Seria necessário assinalar, ainda, que continuou a ser dada
Federal 6 6 100 100 256 366 100 143 pouca atenção à formação do magistério. Foram criadas algumas
Estad•:al 6 5 100 83 . 112 94 100 . 84 escolas normais, das quais três em São Paulo, como resultado
Particular 13 39 100 300 320 580 100 181 das reformas Caetano de Campos, Bernardino de Campos e Ce-
sário Mota (1890-1893); não foram organizados cursos para a
Filos. Liter. - 1 - - - 4 - - formação do magistério secundário e os critérios de seleção dos
Jurídico 10 15 100 150 219 263 100 120 professores de nível superior não eram eficientes.
Méd. Cir. Farm. 9 21 100 233 259 490 100 189
Politécnico 6 13 100 216 210 283 100 135 É Carlos Maximiliano que declara na "Exposição de Moti-
vos" da reforma de 1915:
Total 25 50 100 200 688 1040 100 151 '.'Para que cinco Academias de Direito na capital de um país de analfabetos,
na qual se não contam quatro ginásios excelentes? Em cidade nenhuma
" Matrícula Conclusão de Curso do mundo se nos depara semelhante abundância de cursos superiores. Nos
centros pouco populosos, se acaso uma faculdade existe, não é possível a
N. 0 Absoluto N. 0 índice N. 0 Absoluto N.º índice seleção do pessoal docente: todos os médicos ou todos os advogados do
lugar se tornam professores"(in Moacyr, 1942, IV: 93).
1907 1912 1907 1912 1907 1912 1907 1912

Federal .3557 3818 100 107 628 713 100 113


Estadual 490 658 100 134 126 204 100' 162
Particular 1748 4403 100 252 343 640 100 186

Filos. Liter. - 55 - - - - - -
Jurídico 2481 2728 100 119 462 511 100 110
Méd. Cir. Farm. 2889 4820 100 167 516 868 100 168
Politécnico 425 1276 100 300 119 178 100 149

Total 5795 8879 100 153 1097 1557 100 142

Fonte: Diretoria Geral de Estatística, Annuário Estatístico do Brazi/, ano 1,


vol. lll, p. 918-29.

84
85
Esta industrialização "florescia espontaneamente no 'vazio'
deixado pela produção primário-exportadora interna e pela pro-
dução industrial das sociedades capitalistas 'centrais' " (Perei-
6~ Período ra, 1970: 127).
Socialmente ela representa a consolidação de dois compo-
1920 a 1937 nentes: a burguesia industrial e .o operariado. O componente re-
presentado pela burguesia industrial apresenta pontos de con-
tato com os outros setores da classe dominante, não ·SÓ pelo fato
de muitos dos industriais serem ou terem sido fazendeiros, como
Nova crise do modelo agrário-comercial também pQr se colocarem numa relação de dominação no que
exportador dependente e início de estruturação diz respeito à mão-de-obra. Ao mesmo tempo apresenta traços
do modelo nacional-desenvolvimentista, de distinção que levam a choques de interesses econômicos que
com base na industrialização acabam por atingir, às vezes, a área política. A própria "Revo-
lução de 30" representa um dos instantes agudos de um desses
choques: os vários setores se polarizam contra um dos setores
dominantes representado pelos cafeicultores, com o objetivo de
1,, conseguir uma mudança na orientação.
"Façamos a revolução antes que o povo a f aça.
O significado do outro componente social - o operariado
Esta é a famosa frase de Antônio Carlos, governador de - está no fato de representar a existência, a partir daí, do povo
Minas e presidente do PRM (Partido Repub~icano ~i~eiro), pro- enquanto expre~são política. As manifestações urbanas organi-
nunciada às vésperas da "Revolução de 30 . Ela e mte~es~a~te zadas retratavam de forma mais objetiva a insatisfação dos seto-
porque chama a atenção não só para a ocorrência ~e s~gn~fica­ res de classe dominada. ·
tivos acontecimentos na década anterior, como tambem md1ca a
orientação e conseqüente limitação do próprio movimento de Nos anos de 1917 e 1918 os movimento~ grevistas recrudes-
cem e acontece a primeira greve geral em São Paulo, que dura
outubro de 1930.
trinta dias e chega a levar o governo a abandonar a cidade.
1.· A fase anterior à "Revolução de 30"
/
Mas apesar de tais acontecimentos, os políticos da década
I de 20 insistiram na tentativa de ignorar esta emersão popular.
Nelson W. Sodré denomina "declínio das oligarquias" ao pe- O trecho a seguir transcrito ilustra a afirmlilção anteriormente
ríodo republicano de 1918 a 1930. Tal declí~i~ evidenteme~te feita:
ocorre devido à existência de novas forças soc1a1s, em decorren- "Washington Luís, como todos os seus antecessores no governo da · Repú-
cia das modificações na estrutura econômica. blica, jamais compreendera que o proletariado passara a existir, era agora
uma classe definida, com interesses e reivindicações próprias e que nos
A modificação básica é representada pelo impulso sofrido cákulos eleitorais era preciso levá-lo em conta. ( ... ).
pelo parque manufatureiro que, apesar ~e débi!, ~assa a ter pa- Para ele, como pará seus companheiros de Partido, como repetira por
pel indispensável no conjunto da economia br~sileira: ~e em 190'Z várias vezes, a questão social era um caso de polícia" (Basbaum, 1962: 330).
existiam no Brasil 3.258 estabelecimentos mdustna1s, 150.000
operários e um capital de 666.000 contos de réis, em 1920 estes Por outro lado, em 1922 é criado o Partido Comunista Bra-
números haviam aumentado para 13.336, 276.000 e 1.816.000, res- sileiro (PCB), que tem duração legal de apenas quatro meses em
pectivamente (Sodré, 1973: 310). decorrência do estado de sítio decretado logo em seguida.

86 87
Nesta caracterização social dos anos 20, é interessante tam- os conseqüentes altos índices de analfabetismo. O problema ~as­
bém assinalar o crescimento do setor médio da população, com- sava a ser tratado, agora, por educadores "de profissão". Carac-
posto, como lembra L. Basbaum, teriza-se o que o prof. J. Nagle denomina de entusiasmo pela edu-
"da pequena burguesia das cidades, .por uma grande massa de ·funcionários
públicos, empregados do comércio, as chamadas classes liberais e intelectuais cação, isto é,
e, por fim,' os militares cuja origem social era agora a própria .classe média" "a crença de que, pela multiplicação das instituições escolares, pela dis~e­
(Basbauni, 1962: 428). minação da educação escolar, .será pos~ível incorporar grandes camdas.
da população na senda do progresso nacional e colocar o BrasÍl no caminho
Boa parte deste setor em crescimento sente-se prejudicada das grandes nações do mundo ( ... )"; .
pela política vigente e também tem suas ~eivindicações e condi-
ções de expressá-las e exigi-las. Elas estão sintetizadas num mo- e de otimismo pedagógico, isto é,
vimento chamado "tenentismo" que, ao interpretar a situação, "A crença de que determinadas formulações doutrinárias sobre a escola-
conclui que o regime político era bom, ruim eram os homens que rização indicam o caminho para a verdadeira formação do homem brasileiro"
estavam no poder. Estes é que eram corruptos. · (Nagle, 1974: 99-100).

Diante disso, reivindicavam representação e justiça, pois o O modelo de escolarização que estava sendo assimilado era
mal estava todo ele na form'a como eram escolhidos os manda- o da Escola Nova.
tários, forma esta que tornava impossível à oposição chegar ao "O entusiasmo pela educação e o otimismo pedagógico, que tão bem
poder. caracterizam a década dos anos 20, comeÇaram por ser, no decênio anterior,
uma atitude que se desenvolveu nas correntes de idéias e moyim.entos polí-
Mais urna vez, como já aconteceu por ocasião da Proclama- tico-sociais e que consistia em atribuir importância cada vez maior ao tema ·
ção da República, os militares é que lideram tal movimento coil- da instrução, nos diversos níveis e tipos. É essa inclusão sistemática dos
testatório e provocam uma série de revoltas, como a do Forte de assuntos educacionais nos programas de diferentes organizações que dará
origem àquilo que na década dos 20 está sendo. denominado de entusiasmo
Copacabana, em 1922, a liderada por Isidoro Dias Lopes, em pela educação e otimismo pedagógico" (Nagle, 1974: 101).
1924, e a Coluna Prestes - 1924 a 1927.
Nelson W. Sodré lembra muito bem que o fato de estes re- Analisando esta atitude que se desenvolve nos anos 10, Na-
presentantes militares terem se transformado em ídolos nac~o­ gle afirma:
"( ... ) enquanto o tema da· escolarização era proposto e analisado de
nais era bastante sintomático. Deveria haver, e certamente havia,
acordo com um amplo programa desta ou daquela corrente ou movimento,
tanto nos setores dominantes como nos dominados, uma insatis- ela servia a propósitos extra-escolares ou extrapedagógicos; era uma peça
fação geral e um desejo de mudança, mesmo que na maior parte entre outras, peça importante, sem dúvida, mas importante justamente pelas
das vezes não tivessem claro como deveria ser este "no.vo Bra- suas ligações com problemas de outra ordem, geralmente problemas de
sil" ou qu~ tentassem resolver de forma por demais simplista a natureza política. ( ... ) Apenas na década final da Primeira República a
situação vai ser alterada, com o aparecimento do 'técnico' em escolarização,
questão, acreditando que bastaria a substifüição dos governan-
a nova categoria profissional ( ... ). Justamente nesse momento, os temas
tes através de uma votação secreta. da escolarização vão se restringindo a formulações meramente educacionais
ou pedagógicas, com o que vão perdendo ligações com os problemas de
Era de se esperar que neste ambiente de agitação, de con- outra natureza" (Nagle, 1~74: 101-2).
testação de idéias e práticas estabelecidas, também aqudas. que
caracterizavam a organização escolar do período fossem com- Fazendo uma comparação entre as fases do movimento es-
batidas. colanovista universal e nacional, J. Nagle considera o seguinte:
"( ... ) quatro etapas já se haviam sucedido, no desenvolvimento histórico
Já não eram apenas ou predominantemente os políticos que geral do escolanovismo, enquanto no Brasil não havia sido atingida nem
denunciavam a insuficiência do atendimento escolar elementar e a primeira" (Nagle, 1974: 240).

88 89
1
A sene de reformas pedagógicas empreendida nos anos 20, Uma limitação teórica a ser assinalada está no fato de repre-
era mais ou menos a repetição da primeira etapa ocorrida. em sentar mais uma forma de transplante cu1tural e de pedagogis-
âmbito universal na última década do sécµlo passado 1 • mo, isto é, de interpretação do fenômeno educacional sem ter
claro as verdadeiras relações que ele estabelece com o contexto
Tais reformas representavam a tentativa de implantação da do qual é parte. Assim ·sendo, acabam por acreditar ser a e9u-
"escola primária integral", definida da seguinte maneira no art. cação um fator determinant~ na mudança social. E tal crença
65 da Lei n.º 1.846, que reformulou o ensino primário baiano evidencia que, em realidade, o fenômeno educacional está sendo
em 1925: concebido como isolado do contexto, uma vez que â ação que
"Será sobretudo educativa buscando exercitar nos meninos os hábitos de este exerce sobre aquele não é bem definida.
observação e raciocínio, despertando-lhes o interesse pelos ideais e con-
quistas da humanidade, ministrando-lhes noções rudimentares de literatura Os textos abaixo citados indicam tal orientação:
e história pátria, fazendo-os manejar a língua portuguesa como instrumento "( ... ) continuamente se discutem, se identificam e se analisam os 'grandes
do pensamento e .da expressão: guiando-lhes as atividades naturais dos problemas nacionais', para os quais se propõem conjuntos muitas vezes
olhos e das mãos mediante formas adequadas de trabalhos práticos e contraditórios de soluções. Entre eles se privilegia o da escolarização, em
manuais, cuidando, finalmente, do seu dellenvolvimento físico com exercícios muitos espírit0s transformados no único e grave problema da nacionalidade"
e jogos organizados e o conhecimento das regras elementares de higiene, (Nagle, 1974: 101).
procurando sempre não esquecer a terra e_ o meio a que a escola deseja "( ... ) o sistema oligárquico se fundamenta na ignorância popular, de·
servir, utilizando-se o professor de todos os recursos para adaptar o ensino maneira que só a instrução pode superar este estado e, por conseqüência,
às particularidades da região e do ambiente( ... )" (Nagle, 1974: 212). destruir aquele tipo de formação social..
As dificuldades econômico-financeiras, afirma-se, são frutos da falta
Quanto aos níveis médio e superior são defendidas idéias de patriotismo, de um lado, e da falta de cultura 'prática' ou de formação
que não chegam a alterar, nem em parte, as instituições do pri- técnica, de outro.
( ... ) os empecilhos à formação de uma sociedade aberta se encon-
meiro período republicano. tram basicamente na grande massa analfabeta da população brasileira -
Para o ensino de grau médio, o objetivo propagado era o em primeiro lugar - e no pequeno grau de disseminação da instrução
secundária e superior, que impede o alargamento na composição das 'elites'
desenvolvimento do espírito científico, a organização envolvendo e o necessário processo de sua circulação" (Nagle, 1974: 109-10).
múltiplos tipos de cursos e integrado com o primário e superior.
Pàra este, defendiam a organização ·universitária, visando o Mesmo partindo desta visão superficial da realidade social,
atendimento das necessidades profissionais e de pesquisa, e a superficialidade constatada também no tenentismo, é importan-
criação da faculdade .de filosofia e letras. te destacar a atuação de tais educadores defendendo a idéia de
que não só era preciso difundir a educação e a cultura, como
Tendo-se em mente o conjunto da organização escolar bra- também era necessário reestruturá-las: e isto como um dever do
sileira, as realizações citadas apresentam grandes limitações; não regime republicano, que se dizia democrático e não aristocráti-
só por serem regionais como também por se restringirem ao co; tentando implantar reformas, mesmo que parciais, mas sem-
ensino primário e dependerem da permanência dos educadores pre denunciando os graves problemas existentes na organização
no cargo público, que oferecia condições legais. Substituídos es- escolar brasileira de seu tempo.
tes reformadores, na maioria das vezes seguiram-se reform~s do
tipo tradicional. 2. A fase posterior à "Revolução de 30"

1. Na série citada constam as reformas de Lourenço Filho (Ceàrá, 1923),


Luiz Pereira se refere ao período da "Revolução de 30" como
Anísio Teixeira (Bahia, 1925), Francisco Campos e Mário Casassanta (Minas,
1927), Fernando de Azevedo (Distrito Federal, 1928), Carneiro Leão (Pernam- sendo o do "grande despertar" da sociedade br-asileira (Pereira,
buco, 1928). 1970: 126).

90 91
Fazendo-se uma irivestigaçao côm o fim de saber para que a Desta forma tem origem, mesmo que de uma maneira um
/
sociedade brasileira teve sua· atenção despertada, dir-se-ia que pouco confusa de início, a ideologia política - o nacional-desen-
foi, de forma significativa, para as causas. do seu subdesenvolvi-
volvimentismo - e o modelo econômico compatível - a substi-
mento, do seu atraso em relação às sociedades tidas como de-
senvolvidas. tuição de importações.

Duas cau.sas básicas deste atraso passaram a ser atacadas de Inicialmente isto se dá de forma confusa, porque os descon-
forma intensa, às vezes mais; às vezes menos. tentes que se unem para tomar o poder têm claramente em co-
mum a intenç.ão de derrubar o Partido Republicano, liderado
Em primeiro lugar, ter-se-ia a destacar o reconhecimento de pela facção pau.lista ligada à plantação e exportação de café e,
que uma economia onde o setor central era· a agricultura de ex-
em especial, ao Instituto do Café.
portação não oferecia condições de desenvolvimento. Desenvol--
vimento está aqui por nós sendo empregado com o sentido de Estes detalhes são importantes para que se entenda a com-
" ( ... ) um processo de transformação econômico, político, social posição de forças, porquy no próprio PRP ocorre uma divisão
através do qual o crescimento do padrão de vida da população pouco antes de 1930, e os cafeicultores, descontentes com a polí-
tende a tornar-se automático e autônomo" (Pereira, 1968: 15), tica de valorização do café, levada a efeito pelo Instituto do Café,
e não com o sentido de altas taxas ·de crescimento econômico dele se desligam e passam a formar· o Partido Del.Ilocrático
. que reflitam no crescimento do padrão de vida de apenas uma (PD). O mesmo motivo aproxima o Partido Republicano Mineiro
parcela, às vezes muito pequena, da população.
(PRM) do PD, afastando-o do PRP.
Em segundo lugar, o paulaÜ:ho reconhecimento de que a
dependência da economia brasileira em relação à economia ex- Tais cafeicultores descontentes reconhecem que a política de
terna tinha que ser rompida. valorização está, em realidade, enriquecendo os financistas in-
gleses e empobrecendo os cafeicultores.
~s duas causas, em realidade .se interpenetram e quase se
confundem no período, à medida que tal dependência é caracte- Os financistas norte-americanos, desejosos de ocuparem o
rizada como sendo resultado de a economia estar baseada na lugar até então ocupado pelos ingleses, também têm interesses
agricultura de exportação, exigindo a importação de manufatu- na mudança: Só não interferem mais diretamente devido à crise
. rados. em que se encontram em 1929 .

Neste contexto a estimulação do setor industrial brasileiro Outro grupo- descontente é representado pelos setores do-
aparece comp solução dos dois problemas. minantes do Rio Grande do Sul (pecuaristas), cujos partidos
rivais, o Partido Republicano Rio-Grandense e o Partido Liberta-
-~~-ca~•r~lGJJ&•~~~~~j~mp~f<\tt}l dor, se unem numa frente única.
Sê'.€-~<d'@"m:iLJW<IZf.li{;e~r:t©'Si.iliíg~acam:selliàl'ieK;m·@n13a;~:ã'0$ell'fõst~Cil~ta!i':(!;e.s:tig'"''.aiils<r~)1
--~~ · ·' ~~~=~'i"" ,.,.~~~*'""''ilia""""~~...lZiiY<»i-&:~::::..~:;~;;o;:;.N;.::.-,, ,J::(_,~""' ~~""-"39.,s.

~~~t1'.mlf~at~e!.i!Qi'~mé'.J.líl~f-ª4f~~mi1i~~i~i1~i!l4ti§l As camadas médias, lideradas _pelos tenentes, os "intelec-


tuais desiludidos", como diz Leôncio Basbaum, e as massas po-

§ pulares completam o quadro que compõe a "Aliança Liberal",


nome dado ao movimento político nacional que marca o período.
É fácil perceber que, além de derrubar o PRP, pouca coisa
em comum grupos tão diversificados podiam ter em relação às
novas bases de estruturação do país. Os próprios itens do pro-
92 93
1 I
grama da Aliança Liberal foram esquecidos~. Tanto é que, após combate ao domínio das oligarquias durante a Primeira Repúbli-
a deposição de Washington Luís e a entrega do governo a Getú- ca e a tomada do poder político por parte de uma liderança ºmais
lio Vargas, a confusão é que caracteriza os meses seguintes, onde justa. Com a aproximação de Prestes e do PCB a partir de 1928,
o problema fundamental passa a ser o manter-se no poder. A so- levando à publicação de um Manifesto em 1930, o prestismo
brevivência nacional, a organização política dos estados, a .insa- passa a ser alvo de combate.
tisfação das massas, o pavor dos comunistas e prestistas e a ~
A pequena burguesia e as camadas médias, nesses primeiros
necessidade de satisfazer os amigos são citados por Leôncio Bas-
anos, acreditavam exercer a liderança, já que seus chefes (te-
baum como problemas decorrentes do fundamental.
nentes) eram ministros interventores.
Talvez seja interessante lembrar que prestistas e prestismo
Leôncio Basbaum descreve a situação da seguinte forma:
são designações originadas do nome de Luís Carlos Prestes, chefe ·"Por volta de 31 o governo já está cambaleando e perdeu a confiança
do estado-maior da Coluna Prestes, movimento político-militar do povo. Os principais e angustiantes problemas, entre os quais o do desem-
já citado. Tal grupo tinha como ideal, entre outras coisas, o prego, permanecem onde estavam: continuam problemas, à espera de
solução. Como obter o apoio das massas? Fazendo concessões aos tenentes.
·E que querem os tenentes? Querem o fascismo, o governo forte, a luta
2. Quando de sua posse, Getúlio Vargas faz um resumo do programa de
de morte contra o comunismo e as veleidades revolucionárias das massas"
reconstrução nacional em dezessete itens: (Bausbaum, 1962: 20).
"(1 ) - Concessão da -anistia; ( 2) - saneamento moral e físico, extirpando
ou inutilizando os agentes da corrupção; (3) - difusão intensiva do ensino ~~Mas esta possível liderança não é tranqüila. Veja-se o ano
público, principalmente técnico-profissional; ( 4) - instituição de um Conselho de 1932, com a chamada "Revolução Constitucionalista", onde o
Consultivo, composto de personalidades eminentes e sinceramente integradas na
corrente das idéias novas; (5) - nomeação de Comissões de Sindicância para
motivo mais sério estava na intenção da elite paulista de voltar
apurarem a responsabilidade dos governos depostos e de seus agentes, relati- ao poder. A razão que deu nome à "Revolução" de 32 - demora
vamente ao emprego dos dinheiros públicos; ( 6) - remodelação . do Exército e na promulgação da Constituição - foi mais uma maneira de
da Armada, de acordo com as necessidades de defesa nacional; (7) - reforma dar uma significação nacional ao movimento.
do sis.tema eleitoral, tendo em vista principalmente a garantia do voto; ( 8) -
reorganização do aparelho judiciário no sentido de tornar realidade a independência -É correto que havia uma certa pressão_ por parte do Clube
moral e material da magistratura, que terá competência para conhecer o processo 3 de Outubro, organização tenentista, para que não fosse con-
eleitoral em todas as suas fases; (9) - feita a reforma eleitoral, consultar a vocada a Constituinte.
Nação sobre a escolha de seus representantes; (10) - consolidação das normas "Mas, já em maio, havia sido constituída uma comissão incumbida
administrativas com o intuito de simplificar a confusa e complicada legislação de redigir o projeto da Constituição, e as eleições marcadas para 3 de maio
vigorante; ( 11) - manter uma administração de rigorosa economia, cortando do ano seguinte. Ora, naquele momento, só um profeta poderia afirmar
todas as despesas improdutivas e suntuárias; (12) - reorganização do Ministério que a Constituição não viria e as eleições não se realizariam" (Basbaum,
da Agricuitura; ( 13) - intensificar a produção pela policultura e adotar uma 1962: 54 ).
política internacional de aproximação econômica, facilitando o escoamento das
nossas sobras exportáveis; (14) - rever o sistema tributário de modo a amparar Resumindo, dir-se-ia que não havia nestes primeiros tempos
a produção nacional, abandonando o protecionismo dispensado às indústrias arti- um plano de governo, por dois motivos básicos: a multiplicidade
ficiais, que não utilizam matéria-prima do País, e mais contribuem para encarecer de grupos e interesses e o esquecimento do programa da Aliança
a vida e fomentar o contrabando; ( 15) - instituir o Ministério do Trabalho,
destinado a superintender a questão social, o amparo e a defesa do operariado
Liberal. Desta forma o plano vai-se delineando, mais propria-
urbano e ruralí (16) - promover, sem violência, a extinção progressiva do lati- mente, ditado pelas circunstâncias.
fúndio, protegendo a organização da pequena propriedade, mediante a transferência
Essa falta de medidas imediatas, essa hesitação inicial, essa
direta de lotes de terras de cultura ao trabalhador agrícola, preferentemente ao
nacional, estimulando-o a construir, com as próprias mãos, em terra própria, o decretação ao sabor das circunstâncias, como se acabou de assi-
edifício da sua prosperidade; (17) - organizar o plano geral ferroviário e rodo- nalar, teve como conseqüência a queda do entusiasmo dos setores
viário para todo o País" (Silva, 1972: 54-5). populares, principalmente urbanos, o descontentamento do pró-

94 95
prio setor -paulista (PD), que acabou por aliar-se aos antigos
adversários (PRP), a ponto de se rebelarem (1932) ·contra o go-. fundamental), era o "curso de formação do homem, que através
verno federal, como também foi responsável pelo descontenta- de hábitos, atitudes e comportamento se habilite a viver integral-
mento daqueles educadores participantes do movimento de re- mente e a ser capaz de decisões convenientes e seguras em qual-
formas -da década de 20. quer situação" (Miranda, 1966: 70); a segunda, de dois anos, visa-
va a adaptação às futuras especializações pr()fissionais. Esta
~ Estes, diante da demora na tomada de medidas educado- reforma também tornou obrigatória certas cadeiras nesta segun-
/ uais, lançam o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. da etapa (sociologia, história da filosofia, higiene, economia po-
Isto que acaba de ser afirmado não quer: dizer que nenhu- lítica, estatística).
ma medida educacional havia sido tomada. Quer demonstrar a O decreto n.º 20.158, de 30 de junho de 1931, altera o ensino
necessidade e conveniência de que as medidas fossem tomadas comercial, que passa a ter o curso propedêutico (três anos), se-
em decorrência de um· programa educacional mais amplo e, por- guido de cursos técnicos (de um a três anos) em cinco modali-
tanto, que tivessem uma unidade de propósitos e uma seqüência dades e o curso superior (três anos). de administração e finanças.
bem-determinada de legalização.
Por outro lado, a preocupação dos educadores com uma
Foi dito que não equivalia à denúncia de ausência de reso-
política naciop.al de educação pode ser constatada através de
luções educacionais porque já em 1930 é criado o Ministério da
Educação e Saúde, que ficou sob a responsabilidade de Francisco todo o texto do Manifesto, escrito por Fernando de Azevedo e
Campos - elemento ligado ao movimento de reformas educacio- assinado por numerosos educadores, como também pelo esboço
nais de antes de 1930, como foi visto. de. um prog~ama educacional extraído dele, o qual será trans- *-
cnto a segmr. /
Pelos decretos n.º" 19.851 e 19.852, de 11 de abril de 1931,
é empreendida a reforma do ensino superior, que leva o nome Esboço de· um programa educacional extraído do Manifesto Jt
~Q titular do ministério. Esta reforma se reveste de importância de 32:
por ter adotado como regra de organização o sistema universitá- ''.I. Estabelecimento de um sistema completo, com uma estrutura orgânica,
rio.· Isto através da criação da reitoria, com a função de coorde- conforme as necessidades brasileiras, às novas diretrizes econômicas e sociais
da civilização atual e os seguintes princípios gerais:
nar administrativamente as faculdades. Exigia, ainda, a incorpo- a) A educação é considerada em todos os seus graus como uma função
ração de pelo menos três institutos de ensino superior - Direito, social e um serviço essencialmente político que o. Estado é chamado a
Medicina e Engenharia - ou, em lugar de algum desses, a Fa- realizar com a cooperação de todas as instituições sociais;
b) Cabe aos estados federados organizar, custear e ministrar o ensino
culdade de Ciê_ncias e Letras, à qual competia em todos os graus, de acordo com os princípios e as normas gerais esta-
"dar, ao conjunto das Faculdades integrad·as na Universidade, o caráter belecidos na Constituição e em _leis ordinárias pela União, a quem compete
especificamente unversitário, pela cultura desinteressada, além de todo a educação na capital do país, uma ação supletiva onde quer que haja
profissi9nalismo, e por sua função sintetizadora. Criou a Faculdade de deficiência - de meios e a ação fiscalii:adora, coordenadora e estimuladora
Educação, Ciências e Letras, que, entretanto, não se orga~izou, mas já pelo Ministério da Educação;
estava proposta oficialmente .a n<?va instituição para a formação do magis- c) O sistema escolar deve ser estabelecido nas bases de uma educação
tério, problema este que o país enfrentava há tempos" (Miranda, 1966: 71). integral; em comum para os alunos de um e outro sexo e de acordo
com suas aptidões naturais; única para todos, e leiga, sendo a educação
primária (7 a 12 anos) gratuita e obrigatória; o ensino deve tender pro-
Uma semana depois (18-4-1931), pelo Decreto n.º 19.890, gressivamente à obrigatoriedade até 18 anos e à gratuidade em todos os
organiza o ensino secundário com o objetivo de transformá-lo graus.
em um curso eminentemente educativo. Para tanto, divide-se em II . Organização da escola secundária (12 a 18 anos) em tipo flexível
de nítida finalidade social, como escola para o povo, nãó. preposta a preservar
duas etapas: a primeira, com a duração de cinco anos (curso
e a transmitir as culturas clássicas, mas destinada, pela sua estrutura

96
97
democrática, a ser acessível e proporcionar as mesmas oportunidades para b) para a criação de um meio escolar natural e social e o desenvol-
todos, tendo, sobre a base de uma cultura geral comum ·(3 anos), as vimento do espírito de solidariedade e cooperação social (como as caixas
seções de especialização para as atividades de. preferência intelectual (huma- escolares, cooperativas escolares etc.) ;
nidades e ciências) ou de preferência manual e m,ecânica (cursos de caráter c) para a articulação da escola com o meio social (círculos de pais
técnico). e professores,' conselhos escolares) e intercâmbio interestadual e internacional
de alunos e professores;
III. Desenvolvimento da esç.ola técnica · profissfonal, de nível secundário
d) e para a intensificação e extensão da obra de educação e cultura
e superior, como base da economia nacional, com a necessária variedade
(bibliotecas escolares fixas e clrcuiantes, museus escolares, rádio e cinema
de tipos e escolas:
educativo).
a) de agricultura, de minas e de pesca (extração de matérias-primas); IX. Reorganização da administração escolar e dos serviços técnicos de
b) ,industriais e profissionais (elaboração de matérias-primas); ensino, em todos os· departamentos, de tal· maneira que todos esses serviços
c) de transportes e comércio (distribuição dy produtos elaborados); possam ser:
e segundo métodos e diretrizes que possam formar técnicos e operários a) executados com rapidez e eficiência, tendo em vista o máximo de
capazes em todos os graus da hierarquia industrial. resultado com o mínimo de despesa;
IV. Organização de medidas e instituições de psicotécnica e orientação b) estudados, analisados e medidos cientificamente, e, portanto, rigo-
profissional para o estudo prático do problema de orientação e seleção rosamente controlados no seu resultado;
profissional e· adaptação científica do trabalho às aptidões naturais. c) e constantemente estimulados e revistos, renovados e aperfeiçoados
V. Criação de Universidades, de tal maneira organizadas e aparelhadas, por um corpo técnico de analistas e investigadores pedagógicos e sociais,
que possam exercer a tríplice função que lhes é essencial, elaborarar e criar por meio de pesquisas, inquéritos, estatísticas e experências.
a ciência, transmiti-la e vulgarizá-la, e sirvam, portanto, na variedade de X. Reconstrução do sistema educacional em bases que possam contribuir
seus institutos: para a interpenetração das classes sociais e formação de uma sociedade
a) à pesquisa científica e à cultura livre e desinteressada; humana mais justa e que tenha por objeto a organização da escola unificada,
b) à formação do professorado para as escolas primárias, secundárias, desde o Jardim da Infância à Universidade, 'em vista da seleção dos mec
profissionais e superiores (unidade na preparação do pessoal do ensino) ; lhores', e, portanto, o máximo desenvolvimento dos normais (escola comum),
como o tratamento· especial de anormais, subnormais (classes diferenciais
c) à formação de profissionais em todas as profissões de base cien-
e escolas especiais)" (Azevedo, s.d.: 88-90).
tífica;
d) à vulgarização ou popularização científica literária e artística, por Esta indefinição do governo gera também uma situação, até
'",, todos os meios de extensão universitária.
certó ponto positiva, que ficou conhecida ·como o período do
VI. Criação de fundos escolares ou especiais (autonomia econômica)
destinados à manutenção e desenvolvimento da educação em todos os "conflito de idéias" e que vai especialmente de 1931 a 1937.
graus e constituídos, além de outras rendas e recursos especiais, de uma
porcentagem das rendas arrecadadas pela União, pelos Estados · e pelos
municípios. ~:m~:::r:;i~~ft~:ii;ji~~:ii!:ii~~i~i:i:r~::~~\
VII. Fiscalitação de todas as instituições particulares de ensino que ~~Y,f~!liªm1iQ]t[~i.~Jtªl~<:llJÇJ§ª§~~f.í'.i~iQ!i~J%l:11~1':~n~ª1ê.'.§P'E<[~l>~t~~$i>.:CJiia~
cooperarão com o Estado, na obra de educação e cultura, já com função ~i~~~&íJ.§J~J~Q'n$ti~Kv.:im~e:m;!J.1ji,t~lí.~~lii!f~!rcK4is12.!f;:iXb;ifi:frf~~.§:~~It~1!}!
supletiva, em qualquer dos graus de ensino, de acordo com ~s normas
iê~Jltil~ãâ'c;?;~€·~~ª-l:~l!t.êQ'..~$,~Jij[~~~.f~}itfj}l]m~:ª'i~~11~~~,ª~~;~W:'b~itcl-Hi
básicas estabelecidas em leis ordinárias, já como campos de ensaios e
experimentação pedagógica.
VIII. Desenvolvimento das instituições de educação e de assistência :::=~~:::i~:i::ii~~~ii::~~:r~:i~i1~t~~!Jç!:~
físca e psíquica à criança na idade pré-escolar (creches, escolas maternais f§'inq1PA7iG.~~i;~~f~ii~Wii!!§~llJ'!!9:g_êi~Kªªiifi'mí~ia'!i~!'1!!ti'.tª11;ª~~,g,14Qª'~ªº1
e jardins de infância) e de todas as instituições complementares peri-escola-
res e pós-escolares: m~~ª11'$i:U•~J?.K~1WF1ª=~ª'mrtr~,1!~ªi~R11~11J!!fillfü~fíÇ?-:!ªª()ê:Pel<;rn
a) para a defesa da saúde dos escolares, como os serviços médioo e ~.i~~í1it~il!2Ml~~ig'~,g~EêrrZirãm'Ulª1i1:t&l;[<:.t~1~ãt~º!~lltr~iri.Jiª9:;ª:ig:fií:J
dentário escolares (com função preventiva, educativa ou formadora de ·hábi- ~~~'i1if&~§~lfiii~~qrg~f!~líâ~~!~~4!fÇK~'ª2~1,~~
tos ·sanitários, e clínicas escolares, colônias de férias e escola para débeis),
e para a prática de educação física (praças de jogos para crianças, praças Tais educadores, de ambos os grupos, entretanto, eram unâ-
de esportes, piscin~s e estádios) ; nimes em combater o princípio de monopólio do ensino pelo

98 99
Estado, colocando-se, assim, dizia:m eles, contra as ideologias biante desta pressão de significativos setores sociais do con-
tanto de esquerda (comunismo) como de direita (fascismo). texto da época, pode-se concluir que os motivos da identificação
Ao mesmo tempo que representa "u.m período renovador e eram outros que não a defesa pura e simples de princípios edu-
fecundo", pelos debates abertos, representa paulatinamente um cacionais, uma vez que, tendo-se a compreensão dos princípios
período de sectarização, já que o grupo (tradicional), ao consta- "educação como responsabilidade pública" e "monopólio da edu-
tar a progressiva perda de influência em prol do renovádor, lan- cação", se verá que eles n~o _podem ser identificados.
ça mão de formas taxativas e comprometedoras, no contexto, em A escola pública, gratuita e leiga era vista pelos educadores
r~ão aos oponentes. como a situação ideal, justamente com vistas ao atendimento
{.. , É assim q:1e a idéia ~~fendid~ p~los _educador:s escolano- das aspirações. individuais e sociais, o que equivale ao contrário
v1stas, quanto a responsab1hdade publica em educaçao, e que os de qualquer imposição orientadora, quer seja de ordem religiosa,
levava a ver "com bons olhos" o fato de os poderes públicos quer seja de ordem política. Ao indivíduo caberia fazer a opção.
assumirem mais efetivamente a responsàbilidade educacional 3 , Se os educadores defendiam algum "monopólio", este era
foi identificada com o princípio de monopólio do ensino pelo o do indivíduo, bem a gosto da concepção liberal de mundo, e
Estado, fazendo com que os educadores escolanovistas fossem nunca de qualquer outro organismo, seja ele o Estado, a Igreja,
aproximados dos comunistas. ou a família. ·
"Não só se alargava, por essa fornia, como se tornava cada vez mais
sensível à zona de 'pensamento perigoso', que existe em qualquer sociedade Então, se o motivo real do combate não era a posição polí-
e que, variando conforme as épocas e os lugares, tende sempre a ampliar-se, tica dos adversários (o comunismo), os verdadeiros motivos fo-
nos períodos críticos, de mudanças e de transformações sociais. A zona
de pensamento perigoso, estendendo-se, ameaçava abranger agora, dentro ram camuflados.
de suas fronteiras, as aspirações da 'escola nova' e, de modo geral, as novas "Uma visão mais cuidadosa sugere que a luta não é estabelecida entre
idéias de educação" (Azevedo, 1944: 400). anticomunistas e comunistas e nem mesmo entre representantes de interesses
privados e representantes de interesses públicos. Na realidade, a luta esta-
A expressão utilizada por Fernando de Azevedo, "zona de belecia-se entre diferentes formas, 'conservadora' versus 'moderna', de defesa
pensamento perigoso", indica bem a situação daqueles cujos de interesses sempre particulares.
ideais eram identificados com a orientação comunista. Já foi de- Isto porque no capitalismo, existindo a propriedade privada dos meios
clarado anteriormente que um dos problemas, decorrentes do de produção, o público, em última análise, é privado, uma vez que os inte-
fundamental, que se colocava ao governo de Vargas na fase ago- resses primordiais na sociedade são os do grupo de proprietários (minoria)
e não os da coletividade. em geral.
ra analisada era o de combater o comunismo e o prestismo. Essa A diferença apontada, nas formas de defesa de interesses da mesma
medida era esperada não só pelos setores dominantes como pelo natureza, existe em decorrência da existência de modelos capitalistas parcial-
próprio setor dominado "médio" sob a liderança do tenenti~o/4 • mente distintos. No caso em discussão, a forma 'conservadora' vincula-se a
uma estrutura social baseada num modelo agrário-exportador, enquanto a
3. O ensino público, de 1932 a 1936, cresceu na proporção de 100 para 134, 'moderna' vincula-se à uma estrutura social com base num modelo urbano-
enquanto o particular, de 100 para 119. Em 1932, 71 % das escolas do país eram industrial" (Ribeiro, 1978: 55), ambos dependentes.
mantidas pelos poderes públicos; em 1936 esta porcentagem sobe para 73,3.
Em 1932, 26% das escolas particulares não obedeciam os padrões oficiais de A acusação infundada de comunismo, por parte dos educa-
çnsino; em 1936, baixou para 24% (Brasil, INEP, 1939: 20-2). dores católicos, em relação aos princípios defendidos pelos edu-
4. "Abguar Bastos reproduz um édito de um desses 'tenentes', o Coronel cad0res escolanovistas revela que, a partir dos anos 20; as for-
Landry Salles, comandante das forças revolucionárias do norte e governador qiilitar ças mais resistentes à mudança na sociedade brasileira (mesmo
do Pará, sob o título: Contra a Propaganda Comunista: mudanças de natureza capitalista) fazem uso, e a um tempo ali-
'O Governo Militar mandará passar pelas armas na praça pública a todo
aquele que, estrangeiro ou não, propalar ou der curso a boatos sobre assuntos mentam o temor ao comunismo que as classes dominantes, em
de propaganda comunista, tentando assim enxovalhar os grandes e nobres princípios geral, promovem em significativos setores· "médios" da popula-
da Revolução Brasileir-a"' (Basbaum, 1962: 33-4). ção, que se ampliam no período, como já foi afirmado.

100 101
Os educadores cátólicos, com ·'atitudes deste tipo, represen- nômÍca, quando exigia a suspensão definitiva do pagamento das
tam, nesse momento, os interesses dominantes que produzem as dívidas do Brasil, a nacionalização das empresas imperialistas,
injustiças sociais e as consagram, quand9 chegam a idéntificar a proteção dos pequenos e médios proprietários de terra e à en-
qualquer propósito de alteração social com algo muito mal de- trega de terras dos grandes proprietários aos trabalhadores do
finido - o comunismo - que, aterrorizando certa base social, a campo, a ampliação das liberdades cívicas e a instauração de um
imobiliza ou. a leva a agir contrariamente às mudanças. governo popular, conseguiu· uma intensa adesão popular.
Reforçam, voluntariamente ou não, em certa medida, a ten- Em dois meses 50.000 pessoas se filiaram à ANL só no Rio
dência política de natureza fascista que se propaga em alguns de Janeiro. Foram criados aproximadamente 1.600 núcleos por
centros brasileiros (sobretudo nos estados do Sul) desde os anos todo o país; r~alizaram-se comícios e outras formas de manifes-
20. Em 1928 surge o Partido Fascista Brasileiro e em 1932 é cria- tação de massa em todas as maiores capitais dos estados.
d~r Plínio Salgado a Ação Integralista Brasileira. Diante disso o governo, com o apoio das oligarquias e dos
/ __.. ~eu lema, "Deus, Pátria e Família", sintetiza a natureza con- fascistas-integralistas, aprova em abril de 1935 a Lei de Segu-
servadora dos princípios defendidos por esta tendência política. rança Nacional, que representava um estado de sítio permanente
Princípios estes relativos a um Estado autoritário, nacionalista no país. São, então, fechados pelas forças policiais os núcleos
e anticomunista, dirigido por "elite~ esclarecidas" que tinham da ANL, perseguidos e presos seus membros e simpatizantes.
1 por função principal "conciliar" os conflitos de classes através Em reação a isto, membros da ANL mais à esquerda e que
\ de um controle autoritário das práticas das classes sociais. haviam escapado à repressão, neste primeiro momento, decla-
Atraía particularmente as parcelas mais reacionárias, os se- ram em novembro deste mesmo ano (1935) uma insurreição,
tores médios da população, setores estes insatisfeitos, em certa sob a direção de Luís Carlos Prestes, conhecida na história ofi-
\ medida, com o domínio oligárquico, mas temerosos com a ex- cial como "Intentona Comunista". ·

~
i pans. ão .do movimento comunista no plano internacional. e com A insurreição fracassa e intensifica-se a persegmçao às for-
· · seus reflexos na sociedade brasileira 5 • ças populares de oposição ao governo Vargas, que vacilava dian-
:
'· Ênecessário destacar que contra esta tendência conserva- te da necessidade de tomar medidàs radicais no enfrentamento
( ""'qora é criada a Aliança Nacional Libertadora, a exemplÓ das da crise econômica.
7
Frentes Populares antifascistas e anti-imperialistas que surgiam Diante do enfraquecimento conseqüente das forças políticas
/ na Europa. mais avançadas de oposição, aguçam-se as disputas no interior
das frações das classes dominantes. ·
Esta Aliança era composta de ex-tenentes reformistas e po-
liticamente mais à esquerda, comunistas, socialistas, líderes sin- Com isso aumentam os riscos de não-concretização das pre-
dicais e mesmo de liberais fora do esquema governamental. tensões "modernizadoras'' de determinados setores das classes
dominantes ligadas ao desenvolvimento urbano-industrial.
.Em sua forma de organização rompia com os esquemas vi-
Getúlio, representando mais uma v'ez estes interesses, dá o
ciados de organização dos partidos estaduais dominados pelas
golpe de Estado a 10 de outubro de 1937 (Alencar et alii, 1980).
oligarquias e se constitui no primeiro movimento nacional de
massas. É dentro desse quadro de correlação de forças do. período
que se inserem as denúncias infundadas dos educadores católi-
Com um programa que expressava os objetivos nacionális- cos de que as idéias liberais-burguesas dos educadores escolano-
tas, reformistas e democráticos de enfrentamento da crise eco- vistas representavam uma defesa de princípios comunizantes na
5. Para maiores detalhes, cf. Francisco Alencar et alii (1980), História da reorganização da educação brasileira, em especial da ·educação
sociedade brasileira, capítulo "O povo nas ruas". escolarizada.
102 103
A comprovação do fato de as chamadas "idéias novas" esta- e de' seleção por meio de medidas objetivas (art. 150, letra e).
rem se propagando vem da constatação de estarem elas presen- Procura intensificar o processo de democratização ao reconhe-
tes: 1.º) na exposição de motivos da reforma Francisco Campos; cer na educação "um direito de todos" (art. 149), ao instituir a
2.º) nas reformas estaduais qtie continuam sendo empreendidas liberdade de ensino em todos os graus e ramos (art. 150, § úni-
dentro das mesmas limitações das realizadas anteriormente (Aní- co, alínea e), ao instituir a liberdade de cátedra, a gratuidade e
sio Teixeira-DF, Moreira de Souza-CE, Aníbal Bruno-PE, Fernan- obrigatoriedade que deviam estender-se progressivamente de en-
do de Azevedo-PR, Lourenço Filho-SP, Fernando de Azevedb e sino primário integral ao ensino ulterior a fim de o tornar mais
1
.Almeida Jr.-SP); 3.º) na criação das universidades, como a de acessível (art. 150, § único, a e b), e criando fundos. especiais de
São Paulo (1934), com a participação de Fernando de Azevedo, educação, parte dos quais (art. 157) se aplicaria éC alunos neces-
incluindo urna Faculdade de Filosofia, CiêD:cias e Letras, e a do sitados mediante assistência sob diversas formas e bolsa de
Distrito Federal (1935), com urna composição de escolas distin- estudo.
tas das tradicionais, uma vez que se constituía de faculdades de De agora em diante, passar-se-á à análise dos elementos me-
Ciências Naturais, Ciências Sociais, Letras e Educação 6 ; 4.0 ) nos diadores na solução da contradição apontada na organização es-
textos constitucionais. colar - quantidade X qualidade ...,..... no que se refere ao período
/::?"' A Constituição de 1934, apesar de trazer pontos contraditó- em estudo 7 •
,./rios ao atender reivindicações, principalmente de reformadores Recursos financeiros
/ e católicos, dá bastante ênfase à educação, dedicando um capí- Constata-se nos planos federal e municipal um aumento per-
tulo ao assunto (cap. II). A reivindicação católica quanto ao centual em relação às despesas com a educação 8 •
ensino religioso é atendida, assim corno outras ligadas aos repre-
A educação ocupava 6 sexto lugar na classificação das áreas
sentantes das "idéias novas", como as que fazem o Brasil ingres-
segundo as despesas efetuadas pela União. Mas seria interessante
sar numa política nacional de educação desde que atribui à destacar que as três primeiras áreas (Fazenda, Militar e Viação
União a competência privativa de traçar as diretrizes da educa- e Obras Públicas) consumiam 89,8% do orçamento em 1932 e
çã'o nacional ( cap. I, art. S.º, XIV) e de fixar o plano nacional de 86,4% em 1936.
educação (art. 151). Aos estados, segundo este artigo, competia
Quanto aos estados, ocupava a segunda posição. A primeira
organizar e manter os seus sistemas e..ducacionais, respeitadas as - Obras Públicas e Viação - despendeu 20,8°1~, para 15,0 da
diretrizes definidas pela União. Estabelece que ao governo federal Instrução Pública, e 20,0%, para 13,4, em 1936.
caberia "fixar um plano nacional de educação, compreensivo do
Isto· foi suficiente para proporcionar certa ampliação na or-
ensino de todos os graus e ramos, comuns e especializados, e ganização escolar, mas insuficiente para sua transformação.
coordenar e fiscalizar a sua execução em todo o território do
país" (art. ISO); cria o Conselho Nacional e Estadual de Educa- Foi suficiente para:
ção (art. 152) e determina a aplicação de nunca menos de 10%, J. Uma ampliação das unidades esc9lares, isto é, dos "pon-
da parte dos municípios, e nunca menos de 20%, da parte dos tos de ensino, de qualquer natureza, organização, modalidade ou
estados, da renda resultante dos impostos "na manutenção e de- destino de educação que ministrem" (Brasil, INEP, 1939: 12).
senvolvimento dos sistemas educacionais" ( art. 156); tende à 7. Tal análise foi feita com maiores detalhes no cap. IV da Introdução à
organização racional, sobre base de inquérito e dados estatísticos história da educ~ção brasileira (Ribeiro, 1978), de onde, evidentemente, foram
retirados os dados.
6. Seria interessante lembrar que esta tentativa pioneira teve a curta duração 8. Federal: 1932 - 2,1% (61.078:000$), 1936- 2,5% (82.658:000$). Estadual:
de um ano, interrompida em decorrência de atitudes repressivas do governo após •1932 - 15,0% (179.903:205$), 1936 - 13,4% (243.999:607$). Municipal: 1932 ·
a Intentona Comunista de 1935. 8,1% (44.853:039$), 1936 - 8,3% (74.388:259$).

104 105
O crescimento real foi mais que duplicado em relação ao 3. Uma ampliação no n.º de professores (ver Tabela III).
crescimento do decênio anterior (ver Tabela I).
TABELA III
TABELAI
Crescimento do professorado
Crescimento real da rede escolar

N. 08 índices Anos N. 0 de professores N.os. índices


1923 1932
1923 1932
1932 76.025 100
População total 32.734.642 39.152.523 100 120
1936 96. 161 127
Unidades escolares 22.922 29.948 100 130
Fonte: Brasil, INEP, O ensino no Brasil no qüinqüênio 1932-36, 1939, p. 37.
N. 08 índices
1932 1936
1932 1936
4. Tal crescimento propiciou certo grau de aperfeiçoamento
População total 39.152.523 42.395.151 ' 100 108 no âmbito administrativo, uma vez que:
"A variação de matrícula superior à do número de unidades escolares
Unidades escolares 29.948 39.104 evidencia que o aparelhamento de ensino não se desenvolveu apenas em
100 131
extensão, ou formalmente, mas em capacidade real ( ... ) . Maior proporção
de matrícula para cada unidade significa, de um lado, maior procura de
Fonte: Brasil, INEP, O ensino no Brasil no qüinqüênio 1932-36, 1939, p. 13. lugares por parte da população: de outro, melhora de organização, pois
maior número de alunos em cada posto de emiino traz a possibilidade de
adoção de medidas de coordenação e controle, como as de graduação dos
2. Uma ampliação da matrícula (ver Tabela II).
alunos e de mais efetiva direção técnica" (Brasil, INEP, 1939: 24).

TABELA II 5. Representa, também, melhores resultados no trabalho es-


Crescimento da população total do país e da matrícula geral colar, dada a constatação do aumento de produção do ensino
primário e secundário (ver Tabela IV).
1932 1936
No que se refere à transformação da organização escolar:
População total 39.152.523 42.395 .151 1 . Não foi suficiente para uma melhora dos trabalhos esco-
lares num nível realmente significativo, pois, em números abso-
N. 0 s índices 100 108
lutos, mais alunos continuaram sendo reprovados (ver Tabela V).
Matrícula geral 2.274.213 3.064.446 2. Não foi suficiente para que o aperfeiçoamento adminis-
trativo atingisse índices mais significativos:
N. os índices 100 135
Ainda em. 1937, 81 % das unidades escolares funcionavam
Fonte: Brasil, INEP, O ensino no Brasil no qüinqüênio 1932-36, 1939, p. 24. como escolas isoladas (Lourenço Filho, 1971: 447-8).

106 107
TABELA IV
3". Não foi suficiente para que o alto grau de seletividade
Variação de aprovação deixasse de ser uma das características da organização escolar

À nos Matrícula
. brasileira, pois uma maior quantidade de alunos deixou de con-
cluir o curso médio e superior em relação à conclusão do ele-
Aprovações Taxa Graus
mentar (ver Tabela VI e VII).
1932 2.071.437 831. 223 40%
1936 Elementar TABELA VI
2.750.014 1.153. 212 42%
Conclusão de curso segundo os graus de ensino
1932 56.208 40.000 72% 1932 1936
1936 107.649 Médio
85 .103 79%
Ensino elementar 127.784 195.475
N.os índices ioo 153
1932 21. 526 19.876 92% Ensino médio 16.459 26.561
1936 Superior N.os índices 100 161
26.732 22.439 84% Ensino superior 4.202 6.617
N.os índices 100 157
Fonte: Brasil,- INEP, O ensino no Brasil no qüinqüênio 1932-36, 1939' p. 33-4.
Total 148.445 228.653
N.os índices 100 154

Fonte: Brasil, INEP, O ensino no Brasil no qüinqüênio 1932-36, 1939, p. 35.


TABELA V
Reprovações em números absolutos
TABELA VII

Graus Anos Quantidade de pessoas que deixam de completar os outros graus


Reprovações
. em relação ao elementar

1932 1. 240. 214 Diferença na conclusão de curso


Elementar
grau
1936 1.596. 802
1932 1936 Acréscimo
+ 356.588
Elementar para médio 111. 325 168.914 57.589
1932 16.208
Seçundário Elementar para superipr 123.582 188.858 65.276
1936 22.546
_,;,;;
Fonte: Cálculo feito com base nos dados da Tabela VI.

+ 6.338
4. Não foi suficiente para destruir a bifurcação dos cami-
nhos escolares após o primário: a via para o "povo" (escolas
Fonte: Cálculo feito a partir da Tabela IV.
profissionais) e a via para a "elite,. (escolas secundárias).
108
109
As duas "vias" permanecem e ambas ampliam sua capaci- pedagógicos e sociais e planejada para uma civilização urbano-
dade de atendimento quantitativo. i
industrial" (Azevedo, 1944: 397). Como se existisse apenas um
tipo de sociedade "urbano-industrial".
Os dados educacionais que comprovam isto dizem respeito
à matrícula geral de algúns dos ramos do ensino médio. Na realidade, o processo de transformação das sociedades
européias em bases capitalistas foi um (após choques violentos
" ( ... ) o ensino técmco-profissional ( ... ) cresceu de 100
da burguesia nascente com os senhores feudais), o processo nor-
para 158, enquanto o secundário, de 100 para 192" (Brasil, IBGE,
te-americano foi outro (onde a intenção de romper a situação
1937 e 1939-40).
"Se. estavam matriculados no ensino secundário, em 1932, 56.208 alu-
periférica do país no sistema capitalista - dependência - esta-
nos, no ensino técnico-profissfonal tinha-se 56.752. Já em 1936, para 107.649 va patente) e o processo do Brasil foi uma terceira possibilidade
no ensino secundário tinha-se 87.712 no técnico-profissional, fato que não (onde não se enfrenta abertamente esta situação periférica).
parece comprovar 'uma nova tendência da mocidade para os estudos de
iniciação e preparação ao trabalho"' (Ribeiro, 1978: 78 e 81). Estas distintas situações infra-estruturais das sociedades ci-
tadas resultam em diferentes situações superestruturais e, por-

/
~-
O comprorr{~timento do elemento mediador agora analisado
tanto, educacionais, tanto ao nível das idéias como ao nível das
instituições existentes, situações estas que têm que ser levadas
/ vem em decorrência de ele - teoria -educacional - continuar em consideração quàndo da ocasião de transformá-las.
sendo produto de um processo de transplante cultural e de uma O desconhecimento dessas causas fundamentais e peculiares
concepção ingênua da realidade. da situação 9 , bem como o puro consumo de idéias, comprome-
As "idéias novas" em educação, que aparecem como a teoria tem basicamente a concretização dos objetivos dos educadores
educacional adequada às novas circunstâncias de rompimento "novos".
com uma sociedade basicamente agrária, são o resultado da ade- Fernando de Azevedo declara:
são de tais educadores ao movimento europeu e norte-americano, "No Rio,Anísio Teixeira (1932-35), chegando ainda recentemente da Amé-
chamado de "escola nova". rica do Norte, e, em São Paulo, o autor desta obra (Fernando de Azevedo,
1933-45) procuravam, em grandes planos de reformas, orgânicas e robustas,
Este visava "o restabelecimento daquele sentido do humano, injetar na realidade tudo o que naquele momento já pudesse suportar de
ameaçado pelas exigências econômicas como pelas exigências sua doutrina e de seus princípios. Foi pela ação vigorosa de Anísio Teixeira
políticas" (Hubert, 1967: 123), advindas da industrialização e da que se acentuaram, na política escolar do Distrito Federal, as influências
nacionalização que pressionava a educação para o trabalho e das idéias e técnicas pedagógicas norte-americanas, já anunciadas na reforma
de 1928" (Azevedo, 1944: 401, grifo nosse).
para a nação durante o século XIX. Por isso parecia ser a orien-
tação educacional adequada aos países industrializados ou em o outro fator assinalado como causa do comprometimento .
vias de industrialização. Adequada, portanto, às sociedades capi- do elemento mediador - teoria educacional - foi o de ela ser
talistas avançadas. fruto de uma concepção ingênua (superficial) da realidade. E
Os educadores brasileiros que estão sendo focalizados não isto diz respeito ao movimento da "Escola Nova" como um todo
tinham claro - o que não quer dizer que os outros tivessem - e não apenas aos "discípulos" brasileiros.
que os princípios educacionais refletiam uma situação muitas Ao proporem um novo tipo de homem para a sociedade ca-
~ vezes própria de onde tinham origem, o que exigia cuidad-0 pitalista e defenderem princípios ditos democráticos e, portanto,
quanto às generalizações. o direito de todos se desenvolverem segundo o modelo proposto
/ É assim que no já citado Manifesto dos Pioneiros da Edu- 9. Às páginas 90 e 91 já foi abordada a questão da superficialidade na
cação Nova está declarado, de forma genérica, que ele continha interpretação da _realidade que marca o pensamento pedagógico brasileiro da
as "diretrizes de uma: política escolar, inspirada em novos ideais época.

110 1 1[
de ser humano, esquecem o fato fondamental desta sociedade
que é o de estar ainda dividida em termos de condição humana
entre os que detêm e os que não detêm os meios de produção,
isto é, entre dominantes e dominados. 7'? Período
A proposição de um único ideal de homem, desta forma, tem
sua condição de concretização limitada ao grupo dominante.
1937 a 1955
O argumento teórico de q~e a solução estaria numa seleção
com base nas capacidades biológicas também na prática está
comprometido.
Fernando de Azevedo afirma: O modelo nacional-desenvolvimentista
" ( ... ) a educação nova não pode deixar de ser uma reação categórica com base na industrialização
intencional e sistemática contra a velha estrutura do . serviço educacional,
artificial e verbalista, montada para uma concepção (filosófica) vencida.
a
Desprendendo-se dos interesses de classes que ela tem servido, a educação
perde o 'sentido aristocrático', para usar a expressão de Ernesto Nélson,
deixa de constituir um privilégio determinado pela condição econômica e
social do indivíduo para assumir um 'caráter biológico'; com que ela se
organiza para a coletividade em geral, reconhecendo a todo indivíduo o Este período pode ser subdividido em três instantes distin-
direito a ser educado até onde o permitam suas aptidões naturais, inde- tos, a saber: o de Getúlio Vargas, chamado de "Estado Novo"
pendente de razões econômicas e sociais" (Azevedo, s.d.: 64).
(1937-45); o de Eurico Gaspar Dutra, em reação ao Estado Novo
Tal argumentação está comprometida na prática porque par- ( 1946-50); e o de Getúlio, retornando por via eleitoral à Presi-
te de um pressuposto falso de que na sociedade capitalista o dência (1951-54).
elemento determinante - modo de produção capitalista - de-
ter:qiina que a educação exerça o papel principal 10 • E isto não Tais distinções, no entanto, só podem ser c'ompreendidas se,
ocorreu, até então, mesmo nos países mais avançados da etapa ultrapassando-se as aparências, for reconhecido o fundamento de
capitalista. todos eles, fundamento este que, por sua vez, explica tais dife-
renças momentâneas como decorrência de um processo unitário
O aspecto positivo resultante de mais este transplante cul-
mais amplo.
tural está no fato de ter levado os educadores "a diagnosticar as
deficiências da estrutura escolar brasileira e a denunciá-las ca- O que se está denominando de processo unitário é o cresci-
tegórica e permanentemente, como forma de demonstração de ménto cada vez mais acelerado de forças econômico-sociais no~
que a reforma, cujo plano adequado acreditavam ter, era uma vas no contexto brasileiro, forças estas surgidas antes de 1.930,
necessidade imperiosa. como já foi assinalado em capítulo anterior.
Este aspecto parece ser mais importante do que o represen-
As forças citadas exercem pressão sobre a superestrutura
tado pela certa absorção de princípios pedagógicos 'novos' (Ri-
beiro, 1978: 88) ou mesmo a adoção de uma linguagem "nova" política, enquanto instrumento de organização dos outros ele-
para "antigas" práticas, mentos desta mesma superestrutura, a fim de que sejam conquis-
tadas condições efetivas de aceleração do crescimento. Por outro
10. A concepção dialética da realidade faz uma distinção entre papel deter- lado, estabelece-se uma pressão inversa. da antiga organização
minante e principal. De acordo com a estrutura social o elemento determinante
pode ou não exercer o papel principal. Para maiores detalhes confira Adolfo S. superestrutura! que tenta permanecer existindo. Seria interes-
Vázquez (1968: cap. V). sante lembrar que, mesmo sendo uma pressão determinante,

112 113
aquela exercida pela infra-estrutura (economia), a demora nas e, sobretudo, dá providências ao programa de política escolar
transformações superestruturais se evidencia não· apenas pelo em termos do ensino pré-vocacional e profissional que se des-
fato de elas nunca serem automáticas mas, especialmente, por- tina "às classes menos favorecidas e é, em matéria de educação,
que, no quadro brasileiro de subdesenvolvimento, as ·próprias o primeiro dever do Estado" ( art. 129); estabelece, no m~smo
novas forças econômicas têm de compactuar com a permanên- artigo, o regime de cooperação entre a indústria e o Estado.
cia das antigas em determinados setores como fonte de exce-
dente d.e capital para elas (Fiavas forças). Já por este texto fica explicitada a orientação político-edu-
cacional capitalista de preparação de um maior contingente de
Devido a este movimento de ação recíproca, este crescimen- mão-de-obra para as novas funções abertas pelo mercado. No
to não se dá num mesmo ritmo, não se dá-de forma linear. Ele entanto, fica também explicitado que tal orientação não visa
apresenta avanços e recuos, recuos estes que não conseguem contribuir diretamente para a superação da dicotomia entre tra-
interromper o processo e sim retardá-lo. balho intelectual e manual, uma vez que se destina "às classes
menos favorecidas".
As forças econômico-sociais apontadas são as vinculadas às
atividades urbano-industriais propriamente ditas. E, sob este Isto equivale ao simples reconhecimento de que o estágio
prisma, a opção ditatorial (1937-45) se explica como a condição que pretendem alcançar exige uma mão-de-obra qualificada de
possível, dadas as circunstâncias do - momento externo e, espe- origem social predeterminada (desfavorecida), qualificação esta
cialmente, interno, de desenvolvimento de um modelo capitalista- que, no entanto, não representará a conquista de uma posição
industrial, mesmo que ainda dependente. social basicamente distinta e sim uma melhora dentro do próprio
"( ... ) Um governo que não tem bast'; em uma classe social econômica, grupo.
que domine os meios de produção, só pode governar pela força. ( ... ) .
1937 foi um período de transição no processo histórico em que, derru- O processo de capitalização interna se dá através das me-
bada a aristocracia rural do café, não havia ainda uma classe ou grupo de didas já apontadas no capítulo anterior, entre as quais a manu-
classe suficientemente forte para substituí-la" (Basbaum, s.d.: 151).
tenção da estrutura agrária e a contenção salarial.
Em conseqüência do golpe, a 10 de novembro é outorgada
M:smo sabendo-se que, em termos de condição de vida, o
uma nova Constituição, que difere em essência das anteriores~
operariado urbano conquista uma melhora, quando comparado
constituições republicanas, pois dispensava o sistema represen-
1
ao trabalhador rural, e que, pela significação social decorrente,
tativo, enquadrava os demais poderes no Executivo e liquidava
''! com o federalismo, com os governos estaduais, com a pluralida-
tem que ser cada vez mais levado em consideração nos planos
1
políticos enquanto apoio necessário, a contenção salarial faz com
de sindical, etc. Em um de seus artigos, o de n.º 177 das Dispo- que tal processo de melhoria ocorra num ritmo lento.
sições Transitórias, que foi prorrogado por duas vezes, permitia
ao governo aposentar ou demitir funcionários considerados con- Desta forma, a capitalização interna necessária foi conse-
trários ao governo. guida através da imposição de grandes sacrifícios à maioria da
~opulação. O terror policial, a repressão violenta, as deportações
A Quanto à educação, mantém alguns princípios anteriores e impostas pela ditadura getulina à população foram os instru-
/ procura dar ênfase ao trabalho manual. Veja-se: em seu art. 128 mentos de imposição de uma "paz interna" sentida como neces-
declara ser a arte, a ciência e o ensino livres à iniciativa indivi- sária pelos grupos dominantes, como também por parte da ca-
dual e à de associação ou pessoas coletivas públicas e particula- mada média, que vai se colocando sob a influência do integra-
res; mantém a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino primá- lismo.
rio, instituindo, em caráter obrigatório, o ensino de trabalhos Este último grupo acaba por entrar em choque com o go-
manuais em todas ·as escolas primárias, normais e secundárias, verno, desencadeando um golpe a 11 de maio de 1938.
114
115
"0 assalto malogrado dos integralistas ( ... ) foi também a última ~No final do período, como resultado do encaminhamento
manifestação de resistência ao 10 de novembro ( 1937). Depois disso rei- do conflito mundial, que vai deixando de ser uma luta entre
nou novamente a paz, a paz dos cemitérios" (Basbaum, s.d. : 115). trustes internacionais e se transformando em guerra dos povos
Os sacrifícios foram grandes, também pela dependência da pela liberdade contra os regimes que a colocavam em perigo,
economia brasileira ein relação à internacional, que, aP.esar de campanhas populares em favor da anistia e dos preceitos demo-
atenuada pela contingência da recuperação destes centros, em cráticos vão ganhando força internacional.
decorrência da crise pela qual passara e pela iminência de uma Diante deste fato, o próprio Getúlio Vargas, percebendo a
nova guerra mundial, não se _rompe. Solicitações de capital es- força destes grupos de pressão, que também vão se constituindo
trangeiro são freqüentemente feitas e condições onerosas são no Brasil, acaba por decretar a anistia e concede a legalidade ao
impostas,. fazendo com que haja descapitalização, maior ou me- PCB, que cresce rapidamente, chegando, no fim do ano, a ter
nor, mas permanente, da economia nacional. mais ou menos 50.000 filiados.
O conflito entre os vários centros imperialistas que leva à Essas atitudes de Getúlio Vargas, no sentido de aproximação <::$ 1
Segunda Guerra Mundial "favorece", em parte, tal situação, uma das massas, não para colocar-se como instrumento delas, mas ·~
vez que, em função desta rivalidade; Getúlio Vargas, oscilando como meio de usá-las em favor de seus próprios objetivos, faz ~ '.
entre um e outro (inglês, norte-americano e alemão), pôde con- · com que a sua renúncia se imponha. Acrescenta-se a isso o fato O:
seguir condições "melhores" de aplicação e pagamento dos em- de ele não ser simpático e nem simpatizar com os Estados ~:
préstimos, em troca do solicitado apoio brasileiro a uma das Unidos. e:..:
facções que se foram constituindo. ~
"Nos anos de 1934 e 37 o Brasil chega. a desenvolver seus negócios Como lembra Leôncio Basbaum, não foi a derrubada da di- ~
com a Alemanha, porque não encontra ô que busca nem na Inglaterra, tadura por amor à liberdade. Nem um nem outro dos grupos ~
/ nem nos Estados Unidos. Em 1940, Getúlio se sente, por isso mesmo, com liderados por Getúlio ou por Dutra estava objetivamente a ser- e:..
forças para demonstrar abertamente suas simpatias pelos países do Eixo1 . viço dela em benefício de toda a população. ~
P·ara obter sua adesão ao bloco das Nações Unidas, teve o governo americano
de fazer forte pressão diplomática e econômica, e que consistiam em um Dutra, que teve sua candidatura lançada pelo PSD, repre-~
empréstimo de vinte milhões de dólares e venda de armamentos a longo sentava a oportunidade dos "novos-ricos da política", que ocupa- O
prazo, oferecimento de bases em Fernando de Noronha e financiamento vam postos-chaves nas administrações federal, estadual e muni- ~
para a construção de uma usina siderúrgica em Volta Redonda, que depois
cipal e eram aliados aos tradicionais grupos agrários, continua- ~
se chamou Companhia Siderúrgica Nacional.
É somente em 1945, com a derrota dos países do Eixo, que_ o Brasil rem no poder sem Getúlio; que tomara certas medidas populares.~
se amarra definitivamente com os Estados Unidos, único país capitalista
É sob este prisma que o governo Dutra representa uma
que sobrou da segunda grande guerra em condições de sobrevivência. E é
quando começa realmente a grande penetração capitalista norte-americana; reação, um recuo.
% que iria atingir o apogeu em 1955" (Basbaum, s.d.: 153-4). Em 18 de setembro de 1946, foi promulgada a 4.ª Constitui-
-11 Em 9-4-1942 é decretada a reforma de ensino Capanema, re- ção Republicana, que não diferia, em essência, da de 1934. Não
lativa ao ensino secundário, refletindo o transplante da ideolo- continha a disposição referente aos "deputados classistas", mas
/ gia nazi-fascista já agora na organização escolar brasileira 2 • afirmava os três poderes independentes, o presidencialismo, etc.
1. Em 11 de jilnho de 1940, diante dos sucessos conseguidos :por Hitler na A diferença imediatamente posterior ocorreu pelo fato de
Europa, Getúlio pronuncia um discurso onde aderia ao nazi-fascisco: "Sentiil:los terem sido eleitos, já que o PCB passara à legalidade .no ano
que os velhos sistemas e fórmulas antiquadas'', dizia ele, "entram em declínio" anterior, quinze deputados federais comunistas que, entretanto,
{Basbaum, s.d.: 118).
2. Tal acontecimento será analiS<ldO com mais detalhes quando da discussão
no ano seguinte foram cassados, após a decretação da ilegalidade
dos elementos mediadores. r do partido.

116 117
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Quanto à educação, tal Constituição, em muitos dos pontos, petróleo brasileiro de "poderosas forças estrangeiras" e- culpava
/reafirmava os princípios de "democratização", sendo, entretanto, o governo Dutra de ter sido favorável ao capital estrangeiro.
mais restrita quanto aos propósitos relativos à gratuidade em
comparação ao texto de 1934. No art. 168-II, lê-se o seguinte: "O Em verdade eram líderes oriundos e em defesa de grupos
ensino primário oficial é gratuito para todos; o ensino oficial dominantes que apenas reconheciam que a defesa de tais ideais
ulterior ao primário sê-lo-á para quantos provarem falta ou insu- era condição de perman".!cer no poder e de gozar de seus privi-
ficiência de recursos". No mesmo art. (III e IV) é colocada a légios, depois da ascensão das massas populares. Era, em última
responsabilidade das empresas quanto à educação de seus em- instância, uma atitude de mantê-las dentro do Jii:nite das estru-
pregados menores e dos filhos dos empregados, se o número des- turas vigentes sem ignorá-las, à moda dos políticos de antes de
1930.
tes for superior a cem. O ensino religioso consta do horário
escolar com matrícula facultativa e de acordo com a confissão Caio Prado Júnior afirma:
do aluno (art. 168, V). O amparo à cultura é dever do Estado, "Esta segunda presidência do Sr. Getúlio Vargas, resultante de eleições,
a lei proverá a criação de institutos de pesquisa, de preferência se caracteriza por forte influência de interesses financeiros e industriais.
junto aos estabelecimentos de ensino superior (art. 174, § úni- ~ o reflexo, na política, da ascensão de grupos econômicos tornados pode-
. co). O art. 5.º, inciso XV, alínea d; do cap. I, do Título I, dá à ros~s ~m cons~~üência do intenso processo de capitalização e concentração
cap1tahsta, venf1cado no Brasil desde a guerra ( ... )" (Prado Jr. 1969: 300,
União competência para legislar sobre 1<: diretrizes e bases da ~ta 114).
educação nacional.
~ E.sta inf.luência. parece corresp?nder ao apoio de grupos fi-
O plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte, Energia) só nanceiros e mdustna1s, em sua ma10r parte da pequena e média
saiu do papel em duas obras: a pavimentação da via São Pau- ~mpresa, baseados em capital nacional. Isto porque os ligados
lo-Rio, que levou o nome do presidente, terminada em 1951, a ~rande empresa, na sua maioria subordinada ao capital estran-
e a Companhia Hidrelétrica de São Francisco. geiro, são identificados como integrantes ou simpatizantes da
União Democrática Nacional (UDN).
A inflação, iniciada em 1942, marcou o governo Dutra, enri-
quec~ndo um pequeno grupo apenas, já que os salários reais A UDN, afirma Leôncio Basbaum (s.,d.: 198), "era no Brasil
diminuem e os preços sobem assustadoramente. o partido da grande indústria e do capital financeiro e dos seus
· "Os saldos das exportações com os quais o Brasil acumulou 600 milhões assalariados brasileiros - diretores, advogados, public-relations
de dólares no exterior ( ... ) não foram utilizados para fins produtivos .. ( ... )". '

Pelo contrário foram empregados através de uma importação desbragada


e incontrolada de mercadorias as mais inúteis ( ... ). De tal modo que, em Já no governo, Getúlio Vargas decide reiniciar a política de
fins de· 1947, já estávamos devendo outra vez, voltando a tomar dinheiro "aproximação com as massas", interrompida em 1945, e, para
emprestado( ... )" (Basbaum, s.d.: 161).
t~nto, entrega o Ministério do Trabalho a João Goulart, que se
Mais adiante, este mesmo autor declara: liga aos líderes sindicais, inaugurando a política conhecida como
"Alheio aos partidos políticos e às tramas dos negocistas que proliferam peleguismo (pelego era o líder trabalhista ligado ao governo à
à sua sombra, preocupado apenas com o pavor que lhe causava ·o PCB, base de suborno). Fixou-se, também, o salário mínimo. Pouco
deixou escoar o seu mandato num ritmo tropical, sonolento, do qual não
depois, sanciona a Lei n.º 2.004, que criou a Petrobrás.
se afastou nem mesmo em 1950 quando começaram as agitações para a
eleição de novo presidente, a qual se deveria verificar a 3 de outubro" Mas tudo isto não foi conseguido com facilidade. Os três
(Basbaum, s.d.: 194).
anos e meio do governo foram um dos mais agitados períodos
,;::t1 Getúlio, em sua campanha, já deixa claro que tentará em- da vida constitucional brasileira. ·
/preender uma luta contra o imperialismo, a quem responsabi- Feita a caracterização geral do contexto, para ter-se uma vi-
lizava por sua deposição em 1945. Afirmava que defenderia o são de conjunto e para identificar-se a orientação que fundamenta

118
119
o mesmo, passar-se-á à discussão dos elementos mediadores da ....... ....... ....... ,....._ ....... ....... ,....._ ,....._ ,....._ ,....._

contradição que se está estudando - quantidade X qualidade - .,.,


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na organização escolar do período 1937 a 1955.

Recursos financeiros
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educação e cultura sempre aumentou, sendo o aumento bastante
significativo no ano de 1955, visto que a porcentagem relativa à
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educação e cultura especificamente passa a ser superior à desti-
nada à educação e saúde nos dois anos anteriormente destacados.
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Despesas realizadas pela União (cálculo percentual)

Ministérios 1935 1945 1955 o"'


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Aeronáutica
Guerra 18,1 16,4 (29,0) 2.ª 13, 1 (28, 1) 1.ª
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Marinha 6,8 (24,9) i.a 6,3

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Agricultura 2,4 6.ª 3,0 7.ª 5,0 5.ª °'-. ""'". """
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Educação 5,7
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5,0 4.ª 5,6 5.ª 4,1 (9,8) 4.ª o
Saúde "v) "ó " ".f "oõ "o\ " "...; "r-i "r-:.
Fazenda 40,4 1." 35,3 1.ª 22,7 2.ª
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Justiça e Negócios Internos 4,6 5.ª 4,8 6.ª 4,3 6.ª rn
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Relações Exteriores 2,1 7.ª 1,1 8.ª 0,6 8.ª t--" ""'". oô
Trabalho, Indústria e 0,6 8.ª 5,8 4.ª 2,7 7.ª
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Comércio ",.; "N "
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Viação e Obras Públicas 20,0 3.ª 14,2 3.ª 22,3 3ª .,.,
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Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano VII, ""'
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1946, p. 461; ano XVII, 1956, p. 411.

E. a 4.ª (1935/45) ou 5.ª (1955) área de despesa da União <U


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em relação aos ministérios, o que, à primeira vista, indica uma º8e:: <U
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prioridade de atenção. Mas, ao constatar-se que as três primeiras "' e::
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áreas (Militares, Fazenda e Viação e Obras Públicas) consomem .,~ ii:
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85,3 (1935), 78,5 (1945) e 73,1 % (1955) das despesas, percebe-se rl.l
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que o que resta para os outros ministérios é ainda uma impor:- 11..l Ci ~
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Pela Tabela II, constata-se que, percentualmente, a taxa das "'
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despesas realizadas pelos estados não chegou a ser alcançada nos ·9 •t.s
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dois anos posteriores destacados e, conseqüentemente, na classi-


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ficação geral o lugar da educação pública caiu de 2.º para 4.º e 3.º.
121
120
A. área munici'pal, que em 1935 não tinha ainda uma apre- anos que vão de 1920-1940 e 5,5% nos dez anos de 1940-1950 :i.
sentação discriminada, apresenta uma tendência de crescimento Desta forma não se tem garantia de que o significativo índice de
relativo. diminuição ( 11,1 % ) conseguido na década de 1950-60 venha a
ser mantido ou ampliado de forma significativa.
Conclui-se, desta maneira, que o aumento de verbas, mesmo
em termos percentuais, tendo-se por base 1945-55, é o aconteci-
mento constante e mais significativo quanto à União e aos muni- TABELA IV
cípios. Mas não chega a ser em tal grau que indique condições Distribuição da população brasileira pelas diferentes zonas
financeiras absolutamente diferentes na tarefa de organização (urbana, suburbana e rural)
nacional da educação. · DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA
O que tal aumento propiciou foi o seguinte: Espccif irnçclo 1940 1950 1960

l.º) Qupnto à alfabetização, propiciou um ataque a tal pro- Total 41.326.315 % 51.944.397 % 70.992.343 %
blema, mas não de forma tão agressiva e constante para que ele Suburbana/Urbana 12.880.182 31 18.782.891 36 32.004.817 45
fosse resolvido, mesmo que a médio prazo. Rural 28.356.133 69 33.161.506 64 38.987.526 55
TABELA III Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano XIII,
Analfabetos na população de quinze anos e mais 1952, p. 28: ano XVII, 1956, p. 47: v. 32, 1971, p. 44.

ANALFABETISMO A Tabela IV demonstra, por outro lado, que a tendência à


concentração da população nas zonas urbanas e suburbanas é
Especificação 1940 1950 1960
uma realidade, agravando o problema do analfabetismo devido
N.ãt;> sabem ler 13.269.381 15.272.632 15.. 815.903 ao fato de a participação neste novo ambiente exigir, pelo me-
e escrever nos, as técnicas de leitura e escrita, como já foi discutido ante-
% analfabetos 56,0 50,5 39,4 riormente.

Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Armário Estatístico do Brasil, ano XXIV, 2.º) Este aumento de recursos financeiros propiciou o se-
1963, p. 27 e 28; Casemiro dos Reis Filho, A Revolução Brasileira e o guinte, quanto ao ensino elementar:
Ensino, 1974a: 2.
A Tabela V demonstra que a ampliação da rede escolar é
1

'1 Pela Tabela III, percebe-se que o esforço no combate ao uma constante, tanto quanto ao pessoal docente como quanto à
analfabetismo esteve presente nas duas décadas agora an~lisa­ matrícula. Mesmo assim, não chega a atender a toda a popula-
das, provocando uma queda percentual. ção em idade escolar que, em 1935, era de aproximadamente
5.287.587 (Ribeiro, 1978: 71, Tabela XVII) .e, em 1955, era de
Por outro lado, não chegou a ser de tal monta, a ponto de 6.127.996 (Anuário Estatístico do Brasil, ano XVII, p. 29). Desta
representar um . decréscimo em números absolutos, já que na forma, mesmo não se descontando os repetentes ou retardatá-
primeira década aumentou em 2.003.251 pessoas e, na segunda, rios, que certamente estavam nas quatro primeiras séries, com
em 543.271. mais de dez anos, 54,4% (1935) e 25,8% (1955) da população
em idade escolar continuava sem escola.
A falta de constância pode ser constatada pela seqüência
de porcentagens e no grau de sua diminuição: 10% em dez anos 3. Para conferir os dados referentes às datas anteriores a 1940 consulte as
(1890-1900), 0% nos vinte anos seguintes (1900-1920), 10% nos Tabelas 1 e li, às páginas 74-5 (5. 0 período).

122 123
Mas se for juntada a esta a tabela seguinte (VI), se é leva- a) Pelo menos 15% da população que se matricula não che-
do a afirmar que é uma ampliação que conserva e, conseqüen- ga a freqüentar a escola regularmente.
temente, agrava os mesmos problemas, isto é, o alto grau de b) A matrícula na 4." série. do curso primário é de apenas
seletividade e a reprovação, que vão recair sobre o anterior, uma 10,3 (1935), 14,8 (1945) e 16,5% (1955) em relação aos matri-
vez que várias repetências acabam por levar ao abandono da culados no mesmo ano da l ." série.
escola.
e) Apenas 13,0 (1935), 16,4 (1945) e 20,9% (1955) dos que
Além da seletividade inicial já apontada, relativa à quanti- iniciam o curso, concluem-no quatro anos depois.
dade de crianças em idade escolar sem escola, a seletividade
que se vai processando no decorrer da vida escolar não foi supe- TABELA VI
rada, visto que: Grau de aproveitamento escolar

GRAU DE APROVEITAMENTO ESCOLAR


TABELA V
Ensino fundamental comum Especificaçtlo 1935 1945 1955

ENSINO-FUNDAMENTAL COMUM Não~normalista 41,3o/c 38,0% 45,9%


Diferença MG-ME* 15,1% 15,4% -
Especificação 1935 1945 1955 Números índices
Matrícula 4. 0 ano 10,3% 14,8% 16,5%
Conclusão 13,0'fr 16,4% 20,9%
Pessoal docente 60.003 83.825 141.956 100 145 236
Aprovação 48,3% 54,8% -
Normalistas 35.236 51.933 76.802
Média professor/aluno 36,0%** 36,8% 35,0%***
Não-normalistas 24.767 31.892 65.154
Catedráticos 58.647* 77.144 130.790
' * Diferença entre matrícula geral e efetiva.
Auxiliar 7.061* 6.681 l l.166 *';' Pouco mais alta, em realidade, uma vez que o cálculo foi feito com um
total mais amplo de professores, incluindo fundamental e complementar.
Matrícula 1935 1945 1955 Números índices * ** Pouco mais baixa, já que o cálculo foi feito com a matrícula geral.
Fonte: Tabela V.
Geral 2.413.594 3.238.940 4.545.630 100 134 188
Efetiva 2.045.551 2.741.725 - 100 134 - Quanto à reprovação, infelizmente não se tem o dado de
1
Diferença 368.043 497.215 - - - - 1955. Com os de 1935 e 1945, percebe-se uma melhora porcentual
l.º ano 1.389.771 1.758.465 2.424.690 100 126 174 de 6,5%, o que representa, em números absolutos, um aumento
4. 0 ano 143.085 260.811 399.632 100 182 279 de 184.749 alunos reprovados.
Conclusão 180.506** 287.852** 505.864** 100 159 280
Pouco mais da metade dos alunos matriculados, em 1935, e
Aprovação 991.693 1.503. [ 18 - 100 152 - pouco menos, em 1945, repetiram de ano.
* Resultado incluindo · o ensino fundamental e complementar, comum e su- A melhor formação do professor e a organização de classes
pletivo. menos numerosas, duas das condições indispensáveis para um
* * Resultados de 1938, 1948 e 1958, respectivamente. atendimento mais adequado da população escolar, como era de
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano V, se prever, não apresentam mudança significativa. Quanto à pri-
1939/1940, p. 921 a 1080; ano VI, 1941145, p. 443; ano X, 1949, p. 489; meira (formação do professor), a ampliação da rede escolar aca-
ano XII, 1951, p. 409; ano XVI, 1955, p. 444 a 446; ano XXI, 1960,
p. 290. ba por exigir uma solicitação maior aos não-normalistas. Quanto

124 125
à segunda (classe menos numerosa), a melhora foi de pouco A necessidade de apresentação dos resultados em duas eta-
mais de um aluno por turma. pas surgiu porque o aparecimento de vários cursos e a extinção
de outros fizeram com que a ap:r;:esentação estatística se modifi-
3.º) Quanto ao ensino médio, o aumento constatado nos re-
casse em 1955, impossibilitando a comparação. Por outro lado,
cursos financeiros propiciou o seguinte: o ano de 1946 não traz a rubrica geral de ensino médio.
Apesar deste nível continuar atendendo a uma população
TABELA VII bastante ºreduzida em comparação com a do ensino elementar -
7,2 (1935) e 18,2% (1945) - , constata-se, pela Tabela VII, que,
Situação do ensino médio
com exceção do ensino doméstico e do pedagógico, no que diz
SITUAÇÃO DO ENSINO MÉDIO respeito à matrícula geral, todos os ramos do ensino médio apre-
sentaram significativo aumento nos primeiros dez anos, agora
(1) unidades escolares pessoa/ docente matrícula 1?eral analisados. O ensino industrial, além de ser o que mais apre-
sentou crescimento de matrícula, foi o que parece ter recebido
1935 1945 1935 1945 1935 1945 maior atenção quanto ao reaparelhamento, uma vez que, quanto
N. 0 absoluto
ao pessoal docente e especialmente quanto às unidades escola-
520 1.282 7.496 19.105 93.829 256.467 . res, o aumento foi bastante superior. O ensino comercial, segun-
secundário
65 1.320 440 28.397 7.314 do em crescimento no período, já demonstra uma tendência de
doméstico 462
1.368 974 6.498 15.035 65.485 maior aproveitamento da organização existente, isto porque o
industrial 143
3.811 9.122 26.569 90.768 aumento de matrícula, pessoal docente e unidades escolares apre-
comercial 512 1.014
2.203 10.740 18.430 sentam-se em ordem decrescente.
artístico 459 815 1.081
pedagógico 373 539 3.785 4.890 28.316 27.148 Como os dados estatísticos para o ensino médio e superior
não são tão minuciosos quanto os do ensino elementar, não pode
'
N. 0 índice haver a comprovação detalhada da manutenção e agravamento
dos problemas apontados anteriormente (seletividade, reprova-
secundário 100 246 100 255 100 272 ção). Mas o único dado disponível, matrícula geral e efetiva
doméstico 100 14 100 33 100 26 ( 1935 e 1955), indica a existência do problema, uma vez que
industrial 100 957 100 667 100 435 5,75% dos que se matricularam em 1935 não chegaram a fre-
comercial 100 198 100 239 100 342 qüentar. Em 1955, esta porcentagem aumenta para 9,18.
artístico 100 177 100 204 110 172
96
Um outro problema relativo à desvalorização da "via" do
pedagógico 100 144 100 129 100
ensino profissionalizante em relação à "via" do ensino secundá-
matrí- unida- matrí- matrí- rio, parece não ter caminhado tanto em termos de uma solução.
(2) unida- pessoal matrí-
deses- docente cuia cuia deses- pessoal cu la cuia
O próprio texto constitucional de 1937, em seu art. 129, já
colares geral efetiva colares docente geral efetiva
transcrito, dá providência, no programa de política escolar, ao
1935 1.806 17.243 173.981 164.399 100 100 100 100 ensino pré-vocacional e profissional e afirma que ele "se destina
1955 5.698 73.885 828.097 752.106 315 428 476 457
às classes menos favorecidas".
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano V, Para se afirmar que o crescimento equivale a uma nova ten-
1939/1940, p. 792 a 884; ano X, 1949, p. 481 a 486; ano XX, 1959, dência, precisar-se-ia ter em mãos dados a respeito da origem
p. 335 a 357.

126 127
da clientela, a fim de que fosse comprovado o fato de que, tanto
no ramo tradicional como no técniéo, alunos dós setores privi-
legiados e desprivilegiados socialmente se distribuíram regular- Um significativo avanço é constatado através da tomada de
medidas que visaram concretizar o princípio de ser traçada uma
mente e chegavam a exercer, enquanto técnicos de nível médio,
política educacional de âmbito nacional, princípio este grande-
a sua profissão.
mente defendido desde a década de 20 pelo grupo que pregava
4.º) Quanto ao ensino superior, o aumento constatado nos a modernização educacional.
recursos financeiros propiciou o seguinte: Isto ocorreu, em primeiro lugar, através da criação de uma
Pela Tabela VIII, pode-se perceber que, durante o primeiro série de órgãos, como o Instituto Nacional de Estudos Pedagógi-
período da política getulina (1930-1945), a atenção esteve mais cos ( INEP, 1938), Serviço Nacional de Radiodifusão Educativa
voltada para os níveis elementar e médio que para o superior. (1939), Instituto Nacional do Cinema Educativo (1937), Servi-
Já na década seguinte, apresenta a tendência de ampliação mar- ço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1937), Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial ( SENAI, 1942), Serviço Na-
cante deste último nível em todos os aspectos e, especialmente,
cional de Aprendizagem Comercial (SENAC, 1946), Conselho
quanto às unidades escolares e pessoal docente, demonstrando
Nacional de Pesquisa (CNP, 1951), Campanha Nacional de Aper-
certa preocupação com -o "reaparelhamento escolar". feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, 1951), Cam-
panha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CA-
TABELA VIII
DES, 1954), Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e Cen-
Situação do ensino superior. . tros Regionais de Pesquisas Educacionais (1955), além de mui-
tos outros de caráter suplementar e provisório, de iniciativa ofi-
SITUAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR cial ou particular.
N.os absolutos N. 0 s índices ·Em segundo lugar, através do início do trabalho de elabo-
' Especificação ração de um anteprojeto de lei de diretrizes e bases da educação
1935 1945 1955 1935 1945. ]955
nacional, em cumprimento ao art. 5.º, inciso XV, alínea d, cap. J,
Unidades escolares 248 325 845 100 131 341 Título 1, que dava à União competência para legislar sobre esta
matéria.
Pessoal docente 3.898 5.172 14.601 100 133 374
Matrícula geral 27.501 26.757 73.575 100 97 267 A 29 de outubro de 1948, foi encaminhado à Câmara Federal
o pi·ojeto de lei, acompanhado da exposição de motivos, subs-
Matrícula efetiva 25.996 - 69.942 100 - 269
crito por Clemente Mariani, então ministro da Educação e Saúde.
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano V, Transformar-se-ia em lei somente treze anos depois, a 20 de de-
1939/1940, p. 921 a 1.080; ano X, 1949, p. 481 a 486; ano XX, 1959, zembro de 1961. . ~
p. 355 a 357.
Até 1952, o projeto não passou do exame das comissões par- / /
O problema da evasão (seletividade) parece continuar pre- lamentares; de 1952 a 1958, transcorre uma fase de debates sobre
sente, já que 5,5% (1935) e 5,0% (1955) dos alunos matricula- a interpretação do texto constitucional e, de 1958 a 1961, trans-
dos não chegam a freqüentar regularmente. A matrícula efetiva corre uma segunda fase de debates no plenário da Câmara, ini-
do ensino superior, por outro lado, equivale a 1,3% (1935) e 1,5% ciada a partir da apresentação de um substitutivo do então
(1955) da relativa ao ensino elementar. deputado Carlos Lacerda.

128 129
/Nesta unidade de estudo, serão tratados 'os aspectos refe-l como transcorreu num período posterior, será tratada na uni-
Áentes à primeira fase de discussão, motivada pelos choques entre dade seguinte.
/ ~~ diversas correntes, em defesa dos princípios de centralização
ou descentralização educacional. Por intermédio do acompanha- Percebe-se, por tais acontecimentos, que a tendência "nacio-
mento de tal discussão, poder-se-á ter uma visão dos princípios nalista" verificada no campo econômico-político atinge paulati-
teóricos orientadores da ação educacional. namente o educacfonal. Como naquele campo, ela teve que én-
/ A orientação das atenções para o problema centralização- frentar sérios obstáculos também neste último, haja vista a de-
/descentralização parece ter tido, conscientemente ou não, a fun- mora na aprovação da lei, bem como dos problemas apontados
/ ção de fazer com que ficasse em segundo plano a preocupação no texto aprovado em 1961.
básica, que era a de aprovar uma lei que servisse de instrumento .. 'Em 1942 foi decretada a reforma Capanema, que abrangeu o e~sino
adequado à democratização da educação em seus diferentes secundário e técnico-industrial. Assinalando o caráter educativo do ensino
graus. Nos fins dos anos 50, Clemente Mariani já faz esta de- secundário de formação da personalidade acompanhada de uma cultura
núncia. geral, estabeleceu uma uniformidade do currículo e de organização. Pela
primeira vez foi tratada a articulação dos vários ramos de ensino médio,
A preocupação n_ão deveria ser, lembrava Clemente Mariani, que .se diferenciam pela especialização de cada um. O decreto-lei 4.244,
a de adequar a um modelo centralizador ou descentralizador, de 9 de abril, modificou os ciclos de estudos, no sentido secundário, que
enquanto modelo, e sim a de interpretar estes diferentes tipos eram de 5 e de 2 anos, e que passaram a ser de 4 e 3 anos, respectiva-
mente. Ao primeiro corresponde o chamado curso ginasial, e, ao segundo,
de organização. O objetivo seria o de se chegar a uma conclusão o curso colegial, com duas modalidades: o curso clássico e o curso cien-
a respeito da forma que seria a mais eficiente na tarefa de am- tífico, em que se acentuàm, respectivamente, o estudo das letras antigas
pliar as oportunidades educacionais, diante das características e o das ciências. Tais cursos conduzem· ipdistintamente a. qualquer .Escola
atuais e históricas do Brasil: centralizar o que fosse necessário Superior. Estabeleceu, também, um serviço de Orientação Educacional em
cada estabelecimento ( ... ) . .
e descentralizar o que também o fosse.
Quanto ao ~nsi~o industrial, de grau médio, estruturado, -pela · primei-
, A tendência centralizadora parecia um perigo a ser atacado ra vez, em coniunto, estabeleceu que os cursos industriais estavam clas-
diante da experiência anterior do Estado Novo, caracterizado sificados em dois ciclos. O primeiro, com 4 anos --,-- são os cursos indus-
triais básicos, nas escolas industriais, e que formam artífices especi~lizados
como uma ditadura baseada numa ideologia de direita (fascismo). -, e, o segundo, com 3 anos, nas escolas técnicas - são os cursos téc-
Dessa forma a centralização era identificada, pelas correntes· con- nicos -, para ~ formação de técnicos especializados. Previa, também, os
trárias, com uniformização ou estatização. cursos de mestna, ·de 2 anos, e estágio correspondente aos cursos indus-
triais básicos e cursos pedagógicos na indústria, de um ano, para preparo
Os educadores de "idéias novas" eram contrários a esta ten- de professores e administradores. Estabeleceu, ainda, a denominação de
dência em função de princípios pedagógicos, uma vez que acre- escolas artesanais às escolas mantidas pelos Estados.
ditavam no processo educativo como um processo onde as adap- Em 1943 e 1945, o governo reestrutura o ensino comercial também
tações às diferenças regionais e individuais exigiam a descen- ram_o de ensino, n:tédio. Estabeleceu o ensino comercial de grau ~édio em
tralização. 2 ciclos: um bas1co, de 4 anos, e outro técnico, de 3 anos, diferenciado
este em ,ci~co ramos:. comércio e propaganda, administração, contabilida-
Os educadores católicos, por seu lado, eram contra a cen- de: esta!1st1ca, secretanado. O ensino de grau superior, chamado econô-
tralização legal, porque esta iria contra a liberdade individual mico, vm ~umentada a sua seriação de. 3 para 4 anos. Desapareceu 0
Curs~. Su~enor de. A~ministração e Finanças, que foi substituído pelo Curso
ou da família, ao mesmo tempo que era vista como instrumento de C1enc1as Econom1cas e Curso de Ciências Contábeis e Atuariais" (Mi-
de introdução e propagação da ideologia do Estado, que iria randa, 1966: 77-9).
contra a da Igreja.
Trechos do próprio Capanema sobre o ensino secundário
O outro problema que dá origem a outras discussões diz indicam a influência da tendência fascista presente no período
respeito à defesa da escola pública ou da escola particular, mas, chamado de "Estado Novo" (1937-1945).
130
131
"O- ensino secundário se destina à preparação das individualidades con-
dutoras, isto é, dos homens que deverão assumir as responsabilidades maio-
res dentro da sociedade e da nação, dos hom~ns portadores das concepções
e atitudes espirituais que é preciso infundir nas massas, que é preciso tornar
hl!bituais entre o povo ( ~ .. ) .
8<? Período
O estabelecimento de ensino secundário tomará o cuidado especial na
educação moral e cívica de seus alunos, buscando neles formar, como base 1955 a 1968
do patriotismo, a compreensão da continuidade histórica do povo brasi-
leiro, de seus problemas e desígnios, de sua missão em meio aos povos
(art.22) ( ... ).
Deverão ser desenvolvidos nos adolescentes os elementos essenciais da
moralidade: o espírito de disciplina, a dedicação aos ideais e a consciên-
cia da responsabilidade. Os responsáveis pela educação moral e cívica da Crise do modelo nacional-desenvolvimentista
adolescência terão ainda em mira que é finalidade do ensino secundário de industrialização e implantação do modelo
formar as individualidades condutoras, pelo que força desenvolver nos alu- 'associadd' de desenvolvimento econômico
nos a capacidade de iniciativa e de decisão e todos os atributos fortes
da vontade (art. 32)" (in Silva, 1969: 295-7).

Fica reafirmada, aqui, a discriminação, já constatada no


texto constitucional de 1937, entre desfavorecidos e favorecidos.
A "paz s"ocial" seria conseguida pela formação eficiente da
1. o significado da crise: o período anterior ao golpe de 1964
elite, que teria a função social de conduzir as massas, o povo Para se entender esta crise, que se intensifica no período
passivo. agora analisado, é preciso recordar alguns acontecimentos do
Não só neste aspecto, do ponto de vista educacional, se cons- ano anterior (1954), como o suicídio a que Getúlio Vargas foi
tata um retrocesso. Também acontece pelo fato de, na formação levado pelo isolacionismo político em que caiu, bem como a pu-
dessa elite, ter sido privilegiado o modelo humanista clássico, blicação da carta-testamento. Tais fatos abalaram a nação, che-
gando a provocar uma revolta popular.
em detrimento do humanista de base científica, por exemplo, ao
tornar obrigatório o latim nas quatro séries do primeiro ciclo Na área política isto se traduz em sérios obstáculos às for-
(secundário) e no curso "clássico" do segundo ciclo, onde tam- ças udenistas que conseguem chegar ao poder nessas circunstân-
bém o grego figurava como única disciplina facultativa de todo cias, já que o presidente Café Filho entrega quase todos os
o currículo. ministérios aos elementos deste partido. A própria vitória do
candidato da UDN (Juarez Távora) nas eleições que se aproxi-
Estes aspectos apontados como retrocesso sintonizam-se com mavam não era garantida, dando margem à tentativa de adiá-las,
o modelo nazi-fascista de desenvolvimento, "um modelo para a o que não se conseguiu concretizar.
promoção do desenvolvimento econômico sem modificação da
ordem social existente" (in Jaguaribe, 1968). As eleições são realizadas e vence a dupla Juscelino Kubits-
chek de Oliveira/João Goulart, com o programa de fazer o Brasil
A reforma Capanema, iniciada em 1942, como já foi assina- progredir "50 anos em 5": atacando o problema das estradas,
lado, vigorou até a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da da energia, dos transportes e a construção de Brasília. Contaram·
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1961., com o apoio de vários setores sociais, entre os quais a burguesia
industrial, a burguesia agrária, com sua máquina eleitoral do
campo (PSD), o operariado sindicaliiado e as forças nacionalis-
tas, reavivadas pela carta-testamento.

132 133
Após várias tentativas de impedimento da posse, esta foi ga- como pelo fato de a indústria estar passando para a segunda
rantida através de um golpe liderado pelo general Lott, e~ n?- fase do processo de substituição de importações, que não se ca-
vembro de 1955: destitui do poder Carlos Luz, que substitmu racterizava pela instalação da indústria leve de consumo e sim
Café Filho, decreta o "estado de sítio" e faz o p~esid_ente do Se- pela ênfase na produção de equipamentos, bens de consumo du-
nado (Nereu Ramos) assumir o poder até 31 de Janeiro de 1956, ráveis e produtos químicos, o que, conseqüentemente, requeria
data da posse. capitais mais elevados.
Este curto intervalo entre a morte de Getúlio e a posse de /Com isso, no transcorrer do governo de Juscelino, há a ten-
Juscelino foi 0 bastànte para se conseguir a aprovação da Instru- /fativa de conciliar o modelo político - nacional-desenvolvimen-
ção 113 da Sumoc, um dos elementos responsáveis péla aliena- . tista - com o modelo econômico - substituição de importações
ção da economia nacional já que, . . em sua segunda fase, agora contando basicamente com a parti-
· "( ... ) através dela reconhecia-se às empresas ~s~range1ras, mter~ssadas em cipação do capital estrangeiro. Com isso o modelo político trans-
operar no Brasil, a concessão de favores cambiais para transfenr, de ~eus forma-se apenas num aparato, isto é, em aparência sem conteúdo
países de origem, maquinarias industriais depreciadas, como s~ fo~se~ e~UIP~~ corr.espondente, para ser ostentada em atos públicos.
mentos novos, embora já funcionando aqui indústrias nac10nais s1mtlares
(Plínio A. Ramos, in Basbaum, s.d.: 219). O conteúdo não correspondente se expressa nas caracterís-
ticas embrionárias de um novo modelo econômico que vai sendo
Após um ano de go~erno agitado pelo inconformismo das
adotado.
forças derrotadas, diante da intenção de exe~utar se:i ~r?gr~ma
de governo, Juscelino, contando com o apo10 de s.1gmf1catlvos O predomínio tendencial do capital estrangeiro ( caracterís-
setores da sociedade brasileira, estabelece uma real hberdade po- tka 1), capital este que passa a ser introduzido também por via
lítica (não houve presos políticos no período) que, juntamente direta para controlar agora o setor industrial, determina quatro
com as promessas de melhoria de condições de vida, res~ltante outras tendências de predomínio, quais sejam: da indústria de
da execução do programa, obtém um clima de pa~ socia~ que bens de consumo de luxo (característica 2), principalmente da
oferece condições de ação. Procurou, por outro lado, mfundir um indústria automobilística; da "monopolização precoce" da econo-
otirnismo ilimitado, uma confiança nas possibilidades do país e mia do país (característica 3), uma vez que este capital entra sob
do povo que " ( ... ) era uma negação frontal do complexo de a forma de grandes empresas, pois já existe assim internacional-
inferioridade colonial em relação particularmente aos povos de mente, o que leva à insolvência de pequenas e médias empresas;
origem anglo-saxã, que então grassava no Brasil" e rodeou-~e de intensificação do processo de concentração de terras ( carac-
" ( ... ) de uma equipe de técnicos, particularmente de econom1s- terística 4) e do aprofundamento da atuação bancária no finan-
. tas que viera surgindo no Brasil a partir da Segunda Guerr~ ciamento a curto prazo, onde as possibilidades de lucro eram
Mundial ( ... )" (Pereira, 1968: 46), o que fez com que.pela pri- maiores, resultando na formação de um capital bancário basica-
meira vez o governo federal se transformasse em um instrumen- mente especulativo (característica 5) (Campos & Souza, 1981).
to deliberado e efetivo do desenvolvimento brasileiro. Desta forma, os anos de 1956 a 1961 constituíram o período
/Além deste, um outro fator foi responsável pelo desenvoh'~­ "áureo" do desenvolvimento econômico, aumentando as possibi-
/Ínento industrial ocorrido no período: o grande afluxo de cap1- lidades de emprego, mas concentrando os lucros marcadamente
/ tais estrangeiros. Esta intensificação na entrada de capitais foi em setores minoritários internos e, mais que tudo, externos. Mui-
vista e aceita como necessária à execução do projeto de desen- ta coisa, conseqüentemente, não foi possível de ser realizada e é
volvimento diante das resistências às mudanças na estrutura in- útil considerar os erros apontados por Leôncio Basbaum:
terna. As n~cessidades imediatas de capital eram grandes não só 1. inverter a proposição "um povo rico faz uma nação rica".
pela crise econômica atravessada durante o governo anterior, Uma nação rica não faz necessariamente um povo rico. O que

134 135
foi conseguido diz respeito ao enriquecimento da nação (aqui "'Perante multidão de 200.000 pessoas, arregimentadas pelos sindicatos e
expressa pela minoria dominante) com o empobrecimento das outras organizações para o comício de 13 de março (de 1964 ), Goulart pro-
clamou a necessidade de mudanças na Constituição, que legalizava uma
camadas populares;
'estrutura econômica superada, injusta e desumana'. E anunciou a adoção
2. confundir expansão industrial com industrialização e de- de importantes medidas, através de decretos, como a encampação das re-
senvolvimento nacional (conseguiu o primeiro destes elementos); finarias particulares, o tabelamento dos aluguéis dos imóveis desocupados
e a desapropriação de terras às margens dos eixos rodoviários e dos açudes,
3. abordar a região nordestina (a maioria da população des- ou que pudessem tornar produtivas áreas inexploradas. Arraes e Brizola,
ta região ficou mais pobre ainda); este pregando a convocação de uma Constituinte, compareceram ao ato, a
fim de consolidar a formação e a unidade da Frente Popular de apoio às
4. aceitar a estrutura agrária incompqtível com a expansão reformas de base, condensadas, as principais, nos seguintes itens da men-
industrial e o desenvolvimento nacional (n?-o abriu o mercado sagem que o presidente da República remeteria ao Congresso Nacional:
interno exigido); · 1. Reforma agrária, com emenda ao artigo· da Constituição que previa
a indenização prévia e em dinheiro.
5. manter a Instrução 113 da Sumoc, permitindo a entrada
do capital estrangeiro em condições privilegiadas, com sacrifício 2 . Reforma política, com extensão ·do direito de voto aos analfabetos e
praças de pré, segundo a doutrina de que 'os alistáveis devem ser elegíveis'.
do capital nacional, o que leva a uma conseqüente desnacionali-
3 . Reforma universitária, assegurando plena liberdade de ensino e abo-
zação da burguesia industrial (Basbaum, s.d.: 224-5).
lindo a vitaliciedade de cátedra.
Esta orientação econômica, com reflexos na composição so- 4. Reforma da Constituição para delegação de poderes legislativos ao
cial e política brasileira, pois acaba por aproximar as duas forças Presidente da República.
eleitorais representadas pela UDN e pelo PSD, leva a um aguça- 5. Consultas à vontade popular, através de plebiscitos para o referen-
mento dos dilemas enfrentados pelo Brasil, tanto no âmbito in- dum das reformas de base.
terno como externo, provocando novo período de intensa crise Estas reformas, evidentemente, não visavam ao socialismo. Eram refor-
e exigindo reformulação do modelo em seu aspecto político ou mas democrático-burguesas e tendiam a viabilizar o capitalismo brasileiro,
em seu aspecto econômico. É sob este prisma que se deve enten- embora sobre outros alicerces, arrancando-o do atraso e dando-lhe maior
autonomia. A reforma agrária, que a burguesia nacional, retardatária, ra-
der'a eleição, o governo e a renúncia de Jânio, bem como o go- quítica e umbilicalmente vinculada ao latifúndio, não tinha condições de
verno e a queda de João Goulart. }i
executar, constituía, sobretudo, um instrumento para a ampliação do mer-
/ O impasse a ser enfrentado, para boa parte das forças polí- cado interno, necessária ao desenvolvimento do próprio parque indust.rial
do país" (Bandeira, 1977: 163-4).
/'fí~as em questão, era o de compatibilizar os aspectos político e
econômico do modelo: optando pela manutenção da orientação. Este programa de reformas democrático-burguesas, como
econômica e mudança na orientação política ou optando pela · bem assinala Moniz Bandeira, contava também com o apoio de
manutenção da orientação política e mudança na orientação eco- setores mais à esquerda. Setores estes que negavam o modelo
nômica. econômico que ia sendo gestado, não em nome de uma compati-
A opção feita - de forma menos intencional (Jânio) ou mais bilização com o modelo político do nacional-desenvolvimentismo
intencional (João Goufart), menos radical (Jânio e Goulart, até de base capitalista e sim em nome de uma compatibilização eco-
meados de 1963) ou mais radical ( Goulart, de meados de 1963 nômico-política de base socialista.
até o início de 1964) - foi a de compatibilizar, mantendo o mo- O movimento de princípio de 1964 foi desencadeado pelos
delo político - nacional-desenvolvimentista - e mudando a grupos que acreditavam na conveniência da compatibilização,
orientação econômica. mantendo a orientação econômica (com base no capital externo)
Para tanto, algumas reformas eram necessárias, como escre- e mudando a orientação política (abandono do nacional-desen-
ve Moniz' Bandeira: volvimentismo em benefício de um modelo "associado").

136 137
Pela Tabela I, fica demonstradú que houve um aumento per-
O que se tem a destacar, em síntese, desta. caracterização
centual de quase 4,0% nas despesas realizadas pela União com a
contextual, bás~ca para a compreensão dos acontecimentos edu-
cacionais, é que durante este período (1955-1964) há o aprofun- educação e cultura.
damento das conseqüências apontadas em capítulo anterior, ou Fica demonstrado, também, que o Ministério da Educação e
seja, diversificação das atividades econômicas críando novos em- Cultura permanece em 4.º lugar nas prioridades governam~~tais:
pregos em quantidade e qualidade, manutenção da exploração da prioridade esta que se mantém relativa, porque, como Jª f01
mão-de-obra como forma de acumulação; modificação, em parte, mostrado anteriormente, 73,1 % (1955) e 76,1 % (1965) das des-
da situação de. um certo contingente desta mão-de-obra (opera- pesas são consumidas por três áreas (Militares, Fazenda e Viação
riado urbano), que, pelas poucas vantagens conseguidas e pela e Obras Públicas).
natureza e localização de seu trabalho (fábrica/cidade), conquis-
ta alguma condição de manifestação de seus interesses; amplia- TABELA II
ção do setor médio agora integrado no processo de desenvolvi- Despesas realizadas pelos Estados e fixadas pelos municípios
mento. O que se destaca neste período de forma específica na (cálculo percentual)
sociedade brasileira é o novo grupo, em formação desde 1951, Municípios
EstaJos
composto de dirigentes brasileiros de empresas estrangeiras, en-
Arcas
genheiros, advogados, relações públicas, cujos interesses estão 1955 1964* 1955 1964*
intimamente relacionados aos dos grupos (estrangeiros) que de- (3.ª)
Administração geral 14,0 (2.ª) 14,3 (3.ª) 13,l (P) 10,9
têm tais empresas. 6,1 (5.ª)
Exação e fiscalização 4,4 (9.ª) 8,1 (6.ª) 5,4 (P)
Após tal contextuação, e tendo-a como fundamento, passar- financeira
se-á à análise dos elementos mediadores na solução da contradi- Segurança pública e 8, 1 (7.ª) 10,l (5.ª) 3,1 (9.ª) 2,9 (8.ª)
ção - quantidade X qualidade - constatada na organização assistência social
escolar. brasileira. Educação pública 13.7 (3.ª) 14,8 (2,R) 11,4 (P) 8,8 (4.ª)
Saúde pública 7,7 ( 8.ª) 6,7 (7.ª) 4,8 (8.ª) 5,9 (6.ª)
Recursos financeiros
Fomento 4,2 (10.ª) 5,4 (9.ª) 0,7 (10.ª) 1,7 (9.ª)
TABELA 1
Serviços industriais 10,3 (5.ª) 5.7 (8.ª) 6,2 (6.ª) 1,6 (10.ª)
Despesas realizadas pela União (cálculo percentual) 4,6 (7.ª)
Dívidü pública 11,8 ( 4.ª) 1.6 (10.ª) 6,9 (5.ª)
Ministérios 1955 1965
Serviços de utilidade 10,9 ( 6.ª) 12,8 (4.ª) 38,l ( 1. a) 33,5 (V)
Guerra 13,1 28,l (1.ª) 11,1 22,2 (2.ª)
pública
Aeronáutica 7,1 5,7 ( 1. a) 20,5 ( 1. a) 10,0 ( 4.ª) 24,9 (P)
Encargos diversos 14.5
Marinha 7,9 5,4
Agricultura 5,0 (P) 3,0 (5.ª) ~ Utilizaram-se dados de 1964 pela dificuldade em localizar, nos anuários estatís-
Educação e Cultura 5,7 (4.ª) 9,6 (4.ª) ticos. os números referentes ao ano seguinte. .
Saúde 4,1 (7.ª) 2,8 (6.ª) Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano XVII,
Fazenda 22,7 (z.a) 32,1 (t,a) 1956. p. 418 e 451; vol. 26, 1965, p. 474 e 475.
Justiça e Negócios Internos 4,3 (6.ª) 2,5 (P) O Estado dedicou uma quantidade percentual maior em
Relações Exteriores 0,6 (9.ª) 0,3 (9.ª) 1, l %1, fazendo com que em 1965 a educação públ1ca ficasse em
Trabalho, Indústria e Comércio 2,7 (8.ª) 2,1 (8.ª)
2." lugar nas prioridades.
Viação e Obras Públicas 22,3 (P) 21,8 (P)
Os municípios, no entanto, baixaram em 2,6% as dotações
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, ano XVII,
1956, p. 411; vol. 28, 1967, p. 741. para a educação pública.
139
138

\
A análise numenca que será feita a seguir dará uma idéia parando-se este dado com o da Tabela III, entende-se a seguinte
do que os aumentos percentuais nos recursos financeiros, dedi- opinião, que ';llerta para a gravidade do problema:
cados à educação pela União e pelos estados, possibilitaram. " ( ... ) A sociedade brasileira, nos últimos 20 anos, trocou sua base eco-
nômica agrícola pela industrial. As exigências de melhor preparo de mão-
de-obra acentuam-se. Quando a simples alfabetização já não basta, não
a} Analfabetismo
conseguimos sequer oferecê-la a mais de 25 milhões de brasileiros! Ora,
na sociedade industrial a cultura letrada não é apenas condição de ajusta-
TABELA II mento social. mas também de sobrevivência individual. As grandes massas
Analfabetismo na população de quinze anos e mais rurais que a partir de 1960 migraram para as cidades ( ... ), aí permane-
1960 1970 ceram analfabetas, formando o colossal .contingente de marginalizados na
Especificação
periferia das metrópoles" (Reis Pilho, 197 4a: 2-3, grifo nosso).
Analfabetos 15.815.903 18.146.977
TABELA V
Porcentagem 39,4 33,6 Ensino primário comum
l
Fonte: Casemrro dos Reis Filho, A Revolução Brasil.eira e o Ensino, 1974a, p. l. '-1,':,.., "
Especifirnrtio 1955 1965 N.º lndice

Pela Tabela III, constata-se que, percentualmente, continua Pessoal Docente 141.956' 351.466 100 247
havendo uma melhora com relação ao problema do analfabe- - normalista 76.802 181. 863
tismo. - ni"to-normalista 65 .154 131.180
- catedráticos 130.790 313 .043
Verifica-se, também, que tal melhora permanece tendo um - auxiliares li. 166 38.423
significado relativo, em primeiro lugar porque, em números abso- Matrícula geral 4.545.630 9. 923. 183 100 218
lutos, os analfabetos aumentaram em 2.331.074 pessoas e, em Matrícula efetiva - 9.061.530 - -
Diferença - 861. 653 - -
segundo, porque a intensidade e regularidade no combate· a este Matrícula I.º ano 2.424 .690 4.949.815 100 204
problema não acontecem: a melhora de 11,1 % (1950-1960) não Matrícula 4. 0 ano 399.632 1.007.882 100 252
se mantém. De 1960 a 1970 é de apenas 5,8%. Conclusão 505.864* 1. 063. 804** 100 210
Aprovação - 5. 973. 811 - -
TABELA IV
Distribuição da população brasileira pelas diferentes zonas * Resultado de 1958.
(urbana/suburbana e rural) ** Resultado de 1968 (aprovação na 4.ª série).
1960 % 1970 % Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário. Estatístico do Brasil, ano XVI,
Especificação
1955, p. 444 e 446; ano XXI, 1960, p. 290: vol. 28, 1967, ,p. 546' a 574:
Total 70.992.343 94.508.554 vol. 32, ano 1971, p. 658.

Suburbana/urbana 32.004.817 (45,0) 52.904.744 (56,0)


b) Ensino elementar
Rural 38.987.526 . (55,0) 41.603.810 (44,0)

Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, vol. 32,


A Tabela V confirma a continuidade da ampliação da rede
1971; p. 44. escolar tanto quanto ao pessoal docente como à matrícula. Na
década de 55-65 ela mais do que dobrou.
Pela Tabela IV, comprova-se que a concentração da popula- Avaliando-se tais resultados com o auxílio dos dados da Ta-
ção nas zonas urbanas e suburbanas continua, atingindo, no ano bela VI vê-se que, apesar de uma melhora de 4,1 %, tal ampliação
de 1970, mais da nietade da população (56,0% ). Tendo-se em ainda exige um contingente de professores não-normalistas de
vista que a sociedade urbana é também de base industrial, com- mais de 40,0% do total. Quanto à porcentagem de evasão de alu-

Í40 141
~

TABELA VI e) Ensino médio

Especificação
Grau de aproveitamento escolar
1955 1965
1 Comparando-se a matrícula geral deste nível com a do ele-
mentar, verifica-se que o atendimento ainda é reduzido e a me-
Não-normalista 45,9% 41,8'7c lhora é muito vagarosa (7,2% - 1935, 18,2% - 1955, 21,7% - 1965).
Diferença MG/ME.* - 8,7%
Pela Tabela VII, vê-se que a matrícula efetiva quase que tri-
Matrícula na 4.ª série 16,5 '7c 20.4% plicou, o que deve representar um aumento no número de alu-
Conclusão 20.9% 21.3% nos por professor, já que quanto ao pessoal docente quase que
Aprovação - 65.9'7c duplicou. A média aluno/professor no ensino médio era muito
Média aluno/professor 35,0** 32,0** baixa, sendo de dez alunos em 1936. A evasão durante o ano leti-
* Diferença entre matrícula geral e efetiva. vo, que era de 9,18%, em 1955, baixa para 1,86%, em 1965.
** Pouco mais baixa, já que o cálculo foi feito com matrícula geral porque não
se tinha o dado de matrícula efetiva - 1955. TABELA VIII
Fonte: Tabela V. Ensino secundário - 1965
Pessoal Matrícula Matrícula
Especificação
nos durante o ano letivo, medida pela diferença entre a matrí- docente geral efetiva
cula geral e a efetiva, que desde 1935 vinha se mantendo em tor- Ginasial 74.293 1.364.123 1.369.016
no de 15%, em 1965 baixa significativamente para 8,7%, o que Colegial 16.172 189.576 181. 118
indica uma melhora na capacidade de retenção do aluno na Total 90.465 1. 553. 699 1.550.134
escola.
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, vol. 28.
Tal capacidade de retenção não chega a representar uma 1967, p. 627 a 633.
permanência de 9,0% dos matriculados a mais a ponto de con- A Tabela VIII indica que o ensino secundário, mesmo con-
cluírem o curso. Ela parece significar melhores condições de ga- tinuando acadêmico, tradicional, ainda desperta interesse, ape-
rantir um aumento de escolaridade em um ou dois anos, uma sar das transformações técnico-industriais pelas quais passa a
vez que ao nível de 4.ª série ela é de 4,0% e, de conclusão, de sociedade brasileira (73,0% da matrícula efetiva do ensino médio
2,0%. Parece que a barreira se coloca agora do 2.º para o 3.º ano,·· corresponde ao ensino secundário). Isto parece comprovar que,
uma vez que, dos que chegam ao 4.º ano, 77% são aprovados 1 • numa fase primeira, os novos grupos sociais procuram partici-
TABELA VII par da antiga ordem social, para depois pressionar, em termos
Ensino médio de uma destruição e de sua substituição por uma nova ordem.
N.os absolutos N."·' índices· d) Ensino superior
Ano Matrícula Pessoal TABELA IX
Pessoal Matrícula
M.G. M.E. Ensino superior
docente geral efetiva docente
100
Especificação N.o.~ absolutos N.os índices
1955 73.885 828.097 752.106 l JO 100
1965 144.943 2.154.430 2.114.305 196 260 281 Ano 1955 1965 1955 1965
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, vol. 28,
Unidade escolar 845 - - -
Pessoal docente 14.601 33. 126 100 220
1967, p. 604-21, ano XX, 1959, p. 355 a 357.
Matrícula geral 73.575 - - -
1. Em números absolutos os matriculados no 4. 0 ano são 1.007.882 e, os Matricula efetiva 69.942 154.981 100 221
aprovados, 778.123. Citado no Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico do Brasil, vol. 28,
do Brasil. vol. 28, 1967, p. 556. 1967, p. 693: ano XX, 1959, p. 355 a 357.

142 143
Pelos dados da Tabela IX, pode-se apenas verificar que, Analisar-se-á, agora, a segunda fase, que vai de 1958 a 1961.
quanto a este nível escolar, houve mais do que duplicação
Um substitutivo ao projeto, que até então estava sendo dis-
de capacidade, tanto no que diz respeito ao pessoal docente co-
cutido, é apresentado pelo deputado Carlos Lacerda que, por ser
mo à matrícula efetiva. ·
largamente favorável aos interesses da escola particular, faz com
No entanto, a matrícula do ensino superior em relação à do que os ânimos se acendam e que se inicie uma campanha em
elementar continua sendo reduzida (1,7%), representando uma apoio ou contra tal substitutivo. Esta campanha extrapola o pró-
melhora de apenas 0,2% em relação a 1955 (1,5% ). prio âmbito parlamentar, delà participando não só educadores e
O que se conclui após a análise numérica é que o aumento estudantes como diferentes profissionais, inclusive operanos,
percentual nos recursos. financeiros dedicados à educação pela através de palestras nas escolas, nas associações de classe, no
União e pelos estados possibilitou apenas uma significativa am- rádio e publicações na imprensa.
pliação da rede escolar. Como vem ocorrendo, não chegou a ser Apesar de alguns autores, como M. José G. Werebe, afirma-
suficiente para a superação da seletividade ainda intensa que rem, já há algum tempo, que o problema não está bem colocado,
caracteriza a escola brasileira. costuma-se dizer que a discussão nesta fase foi motivada pelos
Ao destacar esta insuficiência, seria interessante assinalar, · choques entre as diversas correntes em defesa dos princípios da
também, que os percentuais de despesas com o ensino nunca escola pública e da escola particular.
chegaram a atingir aqueles determinados pelas Constituições Colocar-se-ão os principais argumentos utilizados pelos gru-
(1934, art. 156, e 1946, art. 169). Mesmo na área federal, onde pos na defesa de seus princípios. Desta forma, ter-se-á caracteri-
os índices foram sempre· crescentes de 1935 a 1965 (ver Tabelas zado as orientações teóricas predominantes no pensamento pe-
1 do 7.º e do 8.º períodos), não atingiu o "nunca menos de 10%" dagógico do período, cujo texto legal, após sua aprovação, irá
estipulado nos artigos citados, ficando em menos de 5%, em retratar.
1935, e 9,6%, em 1965. Os estados, que não deveriam aplicar Antes, porém; é interessante ressaltar que os rec§.ponsáveis
"menos de 20% ", em 1935 aplicaram 15%, caindo nos qüinqüê- pelas escolas particulares leigas não elaboraram uma defesa es-
niós seguintes para, em 1964, chegar a 14,8%. Com relação aos pecífica, limitando-se a apoiar os responsáveis pela escola par-
municípios, que deveriam aplicar "nunca menos de 10%" pela ticular católica, uma vez que, desde que os princípios destes últi-
Constituição de 1934 e, pela de 1946, "nunca menos de 20%", mos fossem aceitos, os benefícios recairiam sobre todas as orga-
gastaram 9,5 (1945), 11,4 (1955) e 8,8% (1964). nizações particulares.
Do ponto de vista pedagógico, a Igreja Católica acusa a
Teoria ·educacional escola pública de ter condições de desenvolver somente a inteli-
gência e, enquanto tal, instrui mas não educa. Ela não tem "uma
Foi dito, no capítulo anterior, que, em cumprimento a um filosofia integral da vida". A resolução do "problema do homem,
artigo da Constituição de 1946, que determinava ser da compe- das suas origens e dos seus destipos" só poderá ;vir através da
tência da União legislar sobre as diretrizes e bases da educação "solução religiosa da existência humana". Assim, a escola con-
nacional, a 29 de abril de 1947 uma comissão inicia os trabalhos fessional seria a única que teria condições de desenvolver a inte-
para a elaboração de um anteprojeto. Foi dito, também, que a ligência e formar o caráter, ou seja, de educar. Em conseqüen~
partir daí é apresentado à Câmara Federal o projeto (29-10-48), eia deste raciocínio, acusa a escola pública de desadaptadora dos
que somente treze anos depois desta data (20-12-1961) se trans- indivíduos às exigências da vida coletiva. "É preciso antes for-
formaria em lei. Apresentou-se, naquela oportunidade, a primei- mar as almas. Onde faltar esta cultura interior que dispõe as
ra fase dos debates a que o projeto deu origem (centralizaçã'o X consciências a qualquer sacrifício no cumprimento fiel dos seus
descentralização). · deveres, toda a tentativa de harmonização entre o bem dos indi-

144 145
víduos e o bem das sociedades acha-se de antemão condenada a
um malogro irreparáveL" Relacionam o aumento do índice de Outro argumento do grupo católico, o mais. usado, tinh,a um
criminalidade com propagação da escola pública ~. aspecto jurídico. Aceitava ser a família anterior ao Estado, ca-
bendo a este o dever de não violentar a consciência do cidadão.
Os defensores da escola pública rebatiam tal argumentação, . "A criança não pertence ao Estado, aos pais, incumbe o dever e
demonstrando que ela não se omite quanto aos problemas dos assiste o direito de lhe ministrar a educação, física, intelectual,
fins da educação, entendendo que os próprios meios subordinam- moral e religiosa a que tem direito inviolável." Acusava os de-
se a tais fins. Alguns trechos do Manifesto dos Pioneiros da Edu- fensores da escola pública de serem socialistas, comunistas e,
cação Nova comprovam esta defesa: enquanto tal, pertencentes aos "partidos radicais, extremistas da
"Onde se tem de procurar a causa principal desse estado; antes, de inorga- esquerda, os inimigos de Deus, da Pátria e da Família" (Franca,
nização do que de desorganização do aparelho escolar, é na falta de quase 1931: 60-1, 72).
todos os planos e iniciativas da determinação dos fins da educação (aspectos
filosóficos e sociais) e da aplicação (aspecto técnico) .dos métodos científicos Os educadores influenciados pelas "idéias novas" rebatiãm
aos problemas de educação. ( ... ) . tal argumento, afirmando que não cabia nem ao Estado e nem
Certo, um educador pode bem ser um filósofo e deve ter a sua filosofia à família determinar desta forma o tipo de formação do indiví-
de educação; mas, trabalhando cientificamente nesse terreno, ele deve estar duo. O que os grupos sociais deviam proporcionar eram as con-
tão interessado na determinação dos fins da educação, quanto também
dos meios de realizá-los. O físico e o químico não terão necessidade de
dições para que cada um fosse responsável pela própria forma-
saber o que está a se passar além da janela do seu laboratório. Mas o ção. Daí ser a escola pública a mais adequada.
educador, como o sociólogo, tem necessidade de uma cultura múltipla e
Além deste argumento, Florestan Fernandes, abordando a
bem diversa; as alturas e as profundidades da vida humana e da vida social
não devem estender-se além do seu raio visual; ele deve ter o conhecimento democratização educacional, conclui que no Brasil as escolas re-
dos homens e da sociedade em cada uma de suas fases, para perceber, ligiosas sempre se dirigiram ou se interessaram predominai:it~­
além do aparente e do efêmero, o 'jogo poderoso das grandes leis que mente pela educação de elementos pertencentes a grupos sociais
dominam a evolução social' e a posição que tem a escola e a função que privilegiados, contribuindo, desta forma, para a conse~v~ç~o. de
representa, na diversidade e pluralidade das forças sociais que cooperam tais privilégios. A democratização educacional no Brasil m1c10u-
na obra da civilização. Se tem essa cultura geral, que lhe permite organizar
se com a República e através da escola pública, sendo esta mais
uma doutrina de vida e ampliar o seu horizonte mental, poderá ver o pro-
blema educacional em conjunto, de um ponto de vista mais largo, para uma razão para a defesa deste tipo de escola. O mesmo autor é
subordinar o problema pedagógico ou dos métodos ao problema filosófico de opinião que a intervenção do Estado no âmbito da educação
ou dos fins da educação; se tem um espírito científico, empregará os métodos apresenta um saldo positivo em todas as sociedades modernas.
comuns a todo gênero de investigação científica, podendo recorrer a técnicas
mais ou menos elaboradas e dominar a situação, realizando experiências Outro ponto de controvérsias diz respeito ao financiamento.
e medindo os resultados de toda e qualquer modificação nos processos e ·· Os defensores das escolas particulares defendem a idéia de que o
nas técnicas, que se desenvolveram sob o impulso dos trabalhos científicos Estado, ao invés de criar escolas, deveria financiar as particula-
na administração dos serviços escolares" (Azevedo, s.d.: 60). res para que estas se tornassem gratuitas e os pais tivessem di-
reito à escolha da escola. É por isso que Leonel Franca afirma:
2. Leonel Franca (1931: 9-10, 28). À p. 147, o autor citado esclarece: "As "Que faz o Estado? Abre escolas e a todas impõe o laicismo educativo,
igrejas evangélicas reunidas em congresso no Rio apelaram para outro princípio. incompatível com a consciência de inumeráveis famílias. A estas, a todos
Reconhecendo a importância e necessidade do ensino religioso e moral, opinaram os pais religiosos que em conseqüência se julgam obrigados a não enviar
contudo que não deveria ele ministrar-se nas escolas públicas mas nas igrejas os seus filhos à escola leiga, o legislador injusto impõe o ônus de pagar
e nas escolas paroquiais". E, mais adiante, à p. 150, acrescenta: "Quase. idêntica a escola particular que lhe serve e mais a escola pública que lhe não pode
à tática dos protestantes é a de outros, que, posto não ligados às seitas dissi- servirº' (Franca, 1931: 97).
dentes, são contudo de parecer que só no seio da família é que deve dar a
formação religiosa". . A isso os defensores da escola pública respondem, afirman-
do que o real problema dos pais brasileiros é arranjar escola
146
147
para seus filhos e não escolher entre as que existem. As famílias nas palavras de João Eduardo R. Villalobos, que poderia ser con-
que têm a preocupação de que seus filhos estudem em tal ou siderado como representante do "humanismo" tradicional - ver-
qual escola são uma minoria e socialmente bem colocados, po- tente leiga.
dendo pagar por tal privilégio.
Afirma ele que a lei . . ..
O sistema de concessão de bolsas de estudo para a escola "( ... ) manteve, em seus diferentes títulos, a estrutura do pro1eto pnm1tivo
particular em termos de ·pagamento de anuidade, pretendida no e dos substitutivos anteriores organizados pela Comissão de Educação, mas
texto do projeto substitutivo, é ineficaz, segundo os defensores inseriu-lhe um conteúdo que negava, em aspectos fundamentais, a filosofia
da escola pública, representando, na realidade, uma descapitali- que servia de apoio ao trabalho original, indo ainda mais longe do que
zação do Estado em favor de grupos. A permanência de boa parte fora 0 segundo substituto do mesmo órgão no sentido dos interesses da
iniciativa privada e dos desejos da Igreja Católica" (Villalobos, 1969: 135).
dos alunos na escola não é garantida somente com tal pagamen-
to, já que as famílias pobres, que são a maioria, necessitam da
ajuda financeira dos filhos. Assim, se o Estado estivesse inte- uanto à estrutura do ensino, manteve as etapas: ensino
ressado em resolver o problema, além da anuidade deveria for- ario de pelo menos quatro anos; ensino ginasial de quatro
necer uma ajuda de custo à família. Num país com deficiência. com as subdivisões de secundário, comercial, _i~d~strial,
econômica como o Brasil seria mais lógico que o montante pago . agrícola e normal; ensino colegial de três anos, subd1v1d1do ~m
em anuidades fosse aplicado em escolas públicas, cujo patrimô- secundário, comercial, industrial, agrícola e normal, e o ensmo
nio continuaria sendo do Estado.
superior.
4024 /'1 Uma análise o da Lei de Diretrizes e Bases da Edu- Fazendo uma análise crítica dos acontecimentos que acaba-
/cação Nacional (Lei n. 6 24/61), em especial no capítulo sobre
ram de ser relatados, Maria José C. Werebe (1968: 30) afirma:
/ as finalidades da educação, leva-nos a admitir um predomínio do
"Considerando-se o rumo e a orientação das lutas travadas em torno do
que é chamado de concepção "humanista" moderna. Concepção projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, bem ~orno ~s tradições
esta hegemônica entre as correntes que defendiam a escola pú- liberais de nosso país, no campo da liberdade e de ensmo, nao se pode
blica, sobre a concepção "humanista" tradicional vertente reli- dizer que, de fato, se enfrentam os partidários da escola pública e os da
giosa dominante no grupo católico que defendia a escola par- escola particular ( ... ) ."
ticular 3 •
E mais adiante acrescenta:
Agora, se passarmos da análise do texto para sua análise "Não houve, por parte do poder público, nenhuma restrição ao ensino
contextualizada, encontramos alguns fortes indicadores da inten- · privado, nem tampouco qualquer tendência monopoli~ta em educa~ão que
pudesse justificar a atitude dos mentores da escola pnvada. ~ poss1vel q~e
sidade da influência do "humanismo" tradicional - vertente eles· vejam no próprio desenvolvimento do país e na consequente expansao
religiosa. Uma intensidade, em certa medida, mais forte no re- da escola pública um perigo para a manutenção de seus privilégios no
sul,tado (texto legal) que na campanha, ou seja, no processo de campo da educação. Efetivamente, nos últimos anos, mais do que em
qualquer outro período de nossa história, as instituições ~fi~iais se exp?n-
discussão da . questão da educação ·no seio da sociedade. diram não porque . os nossos políticos pretenderam pre1ud1car o ensmo
Tais indicadores sugerem que a correlação de forças expres- partict1lar mas sim porque viram-se obrigados a propor e criar escolas
a fim de obter e manter o seu prestígio político-eleitoreiro ( ... )" (Werebe,
sa no poder legislativo era mais conservadora (para reacionária) 1968: 31) .
. que aquela que se expressava através dos diferentes movimen-
tos sociais. Podemos encontrar os indicadores referidos 'também E coloca, ainda:
"Toda essa discussão não teria razão de ser há alguns anos. E . se hoje
3 . Tal classificação é defendida por Dermeval Saviani em capítulo do livro a questão se coloca é porque os partidários do monopólio privado em educaçao
organizado por Mendes ( 1983 ) . investiram contra o ensino público ( ... )" (Werebe, 1968: 32).

148 149
"Entretanto, as atividades do CPC não se restringiam ao teatro. O
próprio CPC da UNE promoveu cursos variados (de teatro, cinema, artes
Foi dito, no início deste item (teoria educacional), que a plásticas, filosofia), realizou o filme 'Cinco Vezes Favel~' e o documentário
colocação dos principais argumentos utilizados pelos grupos na 'Isto é Brasil', promoveu exposições gráficas e fotográficas sobre reforma
defesa de seus princípios, quando da longa discussão do projeto agrária, remessa de lucros, política externa independente, voto de analfabeto
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, serviria para e Petrobrás ( ... ), realizou o 1.° Festival de Cultura Popular (quando foram
a caracterização das orientações teóricas predominantes no pen- lançados os Cadernos do Povo) e a 1.ª Noite de Música Popular Brasileira,
patrocinou a gravação dos discos 'O povo canta' e 'Cantigas de eleição'.
1 samento pedagógico deste período. Tal caracterização, entretan- Além disso, desenvolveu um programa de edições próprias, publicando lite-
to, não ficaria completa se não fossem analisados, mesmo que ratura de cordel com tiragens bastante elevadas e fundou, finalmente, uma
rapidamente, os chamados "movimentos de educação popular" e rede nacional de distribuição de arte e cultura. Com auxílio do Serviço
a "reforma da Universidade de Brasília". Nacional de Teatro chegou a construir um teatro na sede da UNE" (Paiva,
1973: 233). '
O que marca estes últimos acontecimentos é a tentativa de
mperação, ao nível da organização educaciqnal, do mecanismo Muitos CPCs foram fundados, mas não havia uma repetição
já bastante analisado de transplante cultural. do modelo da UNE. Havia, sim, até freqüentes divergências entre
eles. O que os unia, como declara Vanilda P. Paiva, era o objetivo
Os movimentos de educação popular surgem na primeira
principal
metade da década dos anos 60, em decorrência do interesse de
"( ... ) de contribuir para o processo de transformação da realidade bra-
elementos - sileira, principalmente através de uma arte didática de conteúdo político"
"( ... ) saídos da atuação concreta nos movimentos educativos, que começam ·(Paiva, 1973: 233).
a se multiplicar, ou provenientes de setores influídos pelo pensamento
so~ial cristão, mais recentes e preocupados com questões educativas" (Paiva. ~'Os Movimentos de Cultura Popular (MCP) se multiplicaram
1973: 250). mas em menor escala que os CPCs. A origem foi o MCP de Re-
O objetivo mais amplo era o de que a população adulta to- cife (1960) .
masse parte ativa na vida política do país. Para tanto, novos "A valorização das formas de expressão cultural do homem do povo
métodos de alfabetização precisavam ser criados. e o estímulo ao desenvolvimento de sua capacidade de criação funcionava
,, no MCP, como a própria condição de diálogo entre as intelectualidades e
Podem ser citados como principais movimentos deste gê- o povo: partia-se da arte para chegar à análise e à crítica da realidade
nero os Centros Populares de Cultura, os Movimentos de Cultura social. A intelectualidade participante devia libertar-se de todo espírito
assistencialista e filantrópico e, sem querer impor seus padrões culturais,
Popular e o Movimento de Educação de Base 4 •
procurar aprender com o povo através do diálogo" (Paiva, 1973: 237).
~s Centros Populares de Cultura (CPC) tiveram como pon-
to de partida o CPC, intimamente ligado à União Nacional dos Por desenvolverem atividades mais amplas e sistemáticas,
Estudantes (UNE), surgido em 1961. Floresceram entre 1962 e tendo a alfabetização e a educação de base como fundamentos,
início de 1964, despertando grande entusiasmo na juventude uni- requeriam muitos recursos e só podiam funcionar se contassem
versitária. com apoio oficial. Por isso, restringiu-se, praticamente, a Per-
nambuco (Prefeitura de Recife) e Rio Grande do Norte (Cam-
Sua base de atuação era o teatro de rua, com peças cujos panha "De pé no chão também se aprende a ler").
temas tratavam de acontecimentos imediatos em linguagem po-
pular e montadas em praças, universidades ou sindicatos. U O Movimento de Educação de Base (MEB) aparece também
em 1961, ligado à CNBB e ao governo da União, caracterizan-
4. A autora anteriormente citada, Vanilda P. Paiva, faz, às páginas 230-238 do-se, no ano seguinte, como movimento de cultura popular,
e 258 do referido livro, uma descrição mais pormenorizada dos referidos movi-
"( ... ) tomando como base a idéia de que a educação 'deveria ser consi-
mentos e por isso se torna de grande interesse a sua leitura. Diante da precisão
derada como comunicação a serviço da transformação do mundo'. Esta
reconhecida, quando da definição de cada um dos movimentos, no presente capítulo
transformação, no Brasil, era necessária e urgente, e, por isso mesmo, a
optou-se pela escolha e transcrição de trechos que sintetizam o que de básico
neles existia.
151
150
educação deveria ser também um processo de· conscientização que tornasse
possível à transformação das mentalidades e das estruturas. A partir de Ao antidiálogo", Paulo Freire opõe o dialógo 6 ,"enquanto mé-
éntão defe.ndia-se o MEB como um movimento 'engajado com 0 povo todo para conseguir o que era pretendido.
nesse tràbalho de mudança social', comprometido com esse povo e ·nunca .
com qualquer tipo de estrutura social ou qualquer instituição que pretende
Para que se procedesse à mudança do conteúdo, necessário
substituir o povo"' (Paiva, 1973: 241 ). se fez, como primeira fase de elaboração e execução prática do
método, o levantamento do universo vocabular dos grupos com
Para se ter uma idéia sobre o âmbito de atuação do MEB, quem se ia trabalhar; como segunda fase, a escolha das palavras
relatam-se os seguintes números (Paiva, 1973: 243). selecionadas no universo vocabular pesquisado; como terceira
Especificação 1961 1962 1963
fase, a criação de situações existenciais típicas do referido grupo;
Número de "sistemas" 11 como quarta fase, a elaboração de fichas-roteiro que auxiliassem
31 59
Emissoras à disposição os coordenadores e, como quinta fase, a feitura de fichas com a
do programa 10 19 não citado decomposição das famílias fonêmicas correspondentes aos vocá-
Estados bulos geradores.
i 7 11 14
Alunos concluintes 38.734 Diante do sucesso do método que "alfabetizava em 40 ho-
108.511 111. 066 ras", a 21-1-1964 foi criado o Plano Nacional de Alfabetização
Em 1963, foi realizado o 1 Encontro Nacional de Alfabe- (PNA), visando a alfabetização de 5 milhões de brasileiros até
tização e Cultura Popular. Em 1964, o Seminário da Cultura 1965.
Popular.
No entanto: o PNA foi extinto no dia 14 de abril de 1964,
Pelas colocações a respeito destes três movimentos, perce- portanto, três meses após sua criação, como resultado da mudan-
be-se que os "novo·s quadros técnicos" surgidos neste contexto ça de orientação política, decorrente dos acontecimentos de 31
distinguem-se daquele já analisado e que, sob a influência da de março do mesmo ano. Pelo mesmo motivo, foram paulatina-
Es~ola N?va, car~cteriza-se pelo chamado "otimismo pedagógi" mente paralisando os núcleos de "educação popular" descritos
co,. Contmuam, e certo, a receber influência teórica de centros anteriormente.
europeus, tendendo, a meu ver, a uma assimilação menos mecâ- O outro acontecimento anteriormente apontado como com-
nica em conseqüência da inserção mais explícita e às vezes até ponente das tentativas de superação do mecanismo de trans-
mais imediata, da educação (alfabetização) no prdcesso poÚtico plante cultural foi a reforma da Universidade de Brasília.
deste período em que as contradições estavam bastante -aguçadas.
Pela síntese feita por Darcy Ribeiro (primeiro reitor da uni-
;fl Neste trabalho de definição de novos e adequados métodos versidade), tem-se uma idéia do que representou a visão eminen-
/é/conteúdos, ~estaca-se º."sistema" P~ulo Freire, ,c~jos resulta- temente brasileira dos problemas educacionais, em especial, uni-
/ dos foram editados no hvro Educaçao como pratica da liber- versitários. Constata-se, também, uma certa unidade de propó-
dade (1975).
sito com os "movimentos de educação popular".
"Mas como realizar esta educação", . indaga Paulo Freire, "Como
p~oporcionar ao homem meios de superar suas atitudes, mágicas ou ingênuas, A Universidade de Brasília deveria ser leal
diante de sua realidade? ·
" ( ... ) aos valores e padrões internacionais da ciência e da cultura -
Como ajudá-lo a criar, se analfabeto, sua montagem de sinais gráficos? mediante o qual se procuraria corrigir a farsa dos graus e títulos universi-
Como ajudá-lo a inserir-se?
tários nacional e internacionalmente desprestigiados - e ( ... ) ao povo
A resposta nos parecia estar:
a) num método ativo, dialogal, crítico e criticizador;
5 . Antidiálogo é uma relação vertical de A sobre B, que não comunica, faz
b) na modificação do conteúdo programático da educação· comunicados. O sentimento que liga A e B é desamoroso, auto-suficiente.
c) no uso de técnicas como o da Redução e da Codifica,ção (Freire, 6. Diálogo é a única forma de comunicação por ser relação horizontal de
1975: 107).
A com B ligados por um sentimento de amor, fé e esperança mútuos,
152
153
brasileiro e à sua Nação, expressando assim o compromisso de vincular a O segundo fato interessante de ser ressaltado já está, de
Universidade à busca de soluções para os problemas nacionais à luta do
certa maneira, contido no anterior, porque diz respeito também
~ovo brasil~iro para levar seu processo histórico aos efetivos ~aminhos da
mdependência e emancipação" (Alencar, in Ribeiro, 1969: 219). ao enfrentamento da contradição alienação X desalienação, re-
fletida no ensino superior.
. A ei:sta ~ltura ~~ .discuss~o do problema enfrentado pelo
ensmo superior no m1c10 da decada de 60, seria interessante que A sua causa está na já assinalada tentativa ocorrida durante
duas coisas fossem ressaltadas: o governo Juscelino de manter a ideologia política (nacional-de-
senvolvimentismo), após ter optado pela contribuição intensa
Em primeiro .lugar, relembrar-se-ia que este projeto de re- do capital estrangeiro. Com isto, intensificou-se a instalação de
forma, ;gora anah~ado. e~, seu princípio fundamental, inspirou- empresas estrangeiras, e com elas começou a destacar-se social-
se ~os . esforços p10neiros de Anísio Teixeira empreendidos na mente um grupo composto de dirigentes brasileiros (diretores,
~mvers1d.ade do Distrito Federal (1935-37) e na tentativa, ini- engenheiros, advogados, relações públicas) de tais empresas. Esse
~iada mai~ ou menos na mesma época e também fracassada, de
pessoal tem que, paulatinamente, ser formado em nível superior.
implantaçao da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP
Ao se reformar a universidade concretamente, é preciso respon-
e do Rio de Janeiro, enquanto órgão de integração universitária.
der à questão: que tipo de profissional se quer formar? Formar
Desta maneira, era um projeto (o de Brasília) que resultava um profissional para atender a que interesses?
no ~nfrentame~t~ de p.roblemas já surgidos com a própria uni-
versidade brasile!ra, cnada cerca de trinta anos antes, e que só Diante desta situação, pode-se avaliar o grau de pressão con-
se agravaram dai por diante. trárid ocorrido, mesmo internamente, às tentativas empreendi-
i 1
"Até hoje foi impossível - diz Heron de Alencar - criar entre estu- das na Universidade de Brasília bem como aos· outros movimen-
1
dante~. e prof~ssor~s i:_m espírito a~tenticamente universitário, capaz de tos apresentados, apesar de eles terem acontecido durante o pe-
pe~~111t1~ a rac1onahzaçao e a atualização do ensino e de evitar a má
uhl~zaçao de. pessoal e material, que é um dos mais graves problemas do
ríodo em que se tentava a compatibilização entre a política e a
ensi?o sup~nor. ,n? Brasil. Do mesmo modo foi impossível desenvolver, economia,'através da mudança de orientação nesta última esfera.
a mvel umv~rs1tano, ,os centros de investigação e de criação cultural, que Já foi apontado como esta própria compatibilização enfrentou
tanto necessita o pais em sua etapa de desenvolvimento" (AI ·
Ribeiro, 1969: 215). · encar, m obstáculos de tal monta até que, em 1964, se concretizou a com-
patibilização contrária, ou seja, aquela que manteve a orientação
. No .entanto, ~o ~rocurar enfrentar esta situação problemá-

.
econômica e mudou a política, adotando um modelo de desen-
t1~a, os mtelectuais tmham claro que o que devia ser enfrentado
na~ era. o anacronismo da universidade brasileira em relação às
umvers,1~ades n.orte-americanas e européias e mesmo de algumas
.
volvimento chamado de associado.
A criação da Universidade de Brasília (Leí n.º 3.998, de
_,..

d~ ~menca Latma, e sim o anacronismo dela em relação aos bra- · 15-12-1961) parecia a oportunidade esperada:
sileiros, à sociedade brasileira atual e aos desafios daí decor- "Como nova capital, Brasília demandava uma universidade, como cidade
rentes. planejada e artificialmente criada, ela exibia a condição de um total des-
vinculamento com a figura tradicional da Universidade Brasileira" (Machado
. Isto equivale a dizer que os empreendedores de tal tarefa Neto, i11 Ribeiro, 1969: 247).
aceitava~ ser .uma forma de alienação ainda maior querer refor-
mar a um.vers1dade com o objetivo de equipará-la às dos países A fim de que os princípios reformistas pudessem ser con-
de~env~lvidos. Desta forma, estaria se isolando ainda mais a cretizados, foram estabelecidas etapas de implantação do esta-
umve~sida?e brasileira da sociedade brasileira, porque o atraso tuto aprovado a 17-11-1962. Estas próprias etapas deveriam indi-
da umvers1dade não podia ser visto desta forma. Ele era um dos car a necessidade ou não de reformulação de artigos já aplicados
aspectos de um atraso global em relação aos demais países. ou por aplicar.
154 155
O prazo de implantação estava em torno de dez anos e os As pnsoes e perseguições começam logo no dia seguinte ao
dois primeiros ( 1962-64) seriam dedicados à preparação do pes- golpe. Ao final do ano de 1964 havia cerca de 50.000 presos polí-
soal, das instalações, de normas para a primeira etapa de fun- ticos em todo o país, segundo afirmação de Leôncio Basbaum
cionamento. (s.d.: 142).
As condições efetivas, no entanto, já indicaram uma neces- O Ato Institucional n.º 1 (AI-1), de 10-4-64, dava direito ao
sidade de antecipação na criação de três cursos centrais. governo de cassar mandatos e suspender direitos políticos sem
Transformações político-militares, entretanto, interrompe- necessidade de justificação, julgamento ou direito de defesa.
ram o processo em seu início.
Como efeito do medo que se instala começam também as
"A fase da implantação da Universidade alcançava o seu momento
decisivo com o início da chegada dos cientistas para a demarcagem dos
delações em grande escala. Os agentes do Serviço Nacional de
i
1
1
Institutos Centrais mais complexos e custosos - Física, Química, Biologia Informação ( SNI), sob a chefia do general Golbery do Couto e
1

e Geociência - quando a UNB, assim como todo o país, foi sacudida pelo Silva, passam a infiltrar-se em toda parte. Inquéritos político-
movimento militar de 1.-0 de abril de 1964. A 9 de abril tropas do Exército militares (IPM) são instalados. O uso da tortura como instru-
sediadas em Mato Grosso, ocupando quatorze ônibus e trazendo três ambu- mento de obtenção de "confissões" generalizou-se e "aprimo-
lâncias de serviço médico - não se sabe até hoje por que, mas era esperada
uma reação armada de parte da Universidade - , em uniforme de campanha
rou-se " .
e portando equipamentos de combate, invadiam o camp//s universitário" " ( , , , ) Em Recife, onde o terror foi generalizado e elevado à categoria
(Machado Neto, in Ribeiro, 1969: 251). de arte (a arte de espancar sem deixar marcas), as pessoas tinham até
medo de conversar com conhecidos. ( ... ) Mesmo as vítimas tinham medo
Ainda por um ano, apesar da intranqüilidade causada por de contar o que haviam sofrido com medo de represália" (Basbaum,
essas invasões, prisões, demissões, etc., o grupo restante tenta s.d.: 143).
levar adiante o projeto, até que 210 professores entregam os seus A publicação Brasil: nunca mais traz os ~esulta~?s de uma
pedidos de demissão ao reitor, que representavam 90o/~ dos pro- pesquisa sobre "a repressão exercida pelo regime m1htar a par-
fessores 7 •
,, tir de documentos produzidos pelas próprias autoridades encar-
regadas dessa tão controvertida tarefa" (Vários, 1985: 22) e é
2. O significado do golpe militar de 1964
hoje leitura obrigatória para todo brasileiro, em especial, p~ra
aqueles que se dedicam profissionalmente ao campo da educaçao.
O significado do golpe militar de 1964 tem que ser buscado
não no que era afirmado em palavras, isto é, nos discursos jus- O AI-2, de 27-10-64, acaba com as eleições diretas para pre-
tificadores de tal movimento, e sim nos resultados das medidas sidente e governador, acaba com os partidos políticos de até
implantadas concretamente pelos governos que se seguiram a ele. então e impõe o "bipartidarismo", com a instituição de um par-
tido de apoio ao governo, a Aliança Renovadora Nacional (Are-
Para efeito do presente estudo, que tem em 1968 sua delimi- na), e um outro, de oposição, o Movimento Democrático Br~si­
tação superior, serão considerados o períodoimediatamente pos-
leiro (MDB). As aspas no "bipartidarismo" se fazem necessánas
, terior a quando ocupa a Presidência, sob a tiitela do Comando
dado os evidentes limites (muitíssimo estreitos no início, como
Supremo da Revolução, o então presidente da Câmara Ranieri
a própria história demonstrou) de um partido de oposição de:
Mazzili, mais especificamente o período de governo do marechal
cretado por um poder executivo ditatorial.
Castelo Branco ( 1964-67) e o período de governo do marechal
Costa e Silva (1967-69). O AI-3, de 5-2-66, estabelece normas para as eleições federais,
7. Para que se tenha uma noção da estrutura
/
\:' funcionamento
desta uni-
estaduais e municipais.
versidade, indica•se a leitura da obra citada de Darcy Ribeiro, editada pela O AI-4, de 6-12-66, estabelece as condições em que seria vo-
Paz e Terra.
tado pelo Congresso Nacional o projeto de Constituição elabo-
156 157
d) garantia da instalação da Companhia de Mineração
rado pelo Executivo. Tal projeto foi aprovado em 22-12-66, de- Hanna, considerada inidônea até pelo governo dos Estados Uni-
pois de sofrer algumas emendas. Em 24-1-67 a nova Constituição dos e concorrente de uma empresa do próprio governo brasilei-
foi promulgada.
ro, a Companhia Vale do Rio Doce;
Nela "as atribuições do poder executivo foram consideravel-
e) opção monetarista de combate à inflação:
mente ampliadas, pois a ele cabia, com exclusividade, a inicia-
tiva em projetos de lei sobre segurança e orçamento". No entan- L ~umento dos impostos;
to, ainda "foram mantidos princípios tradicionais, como a imu-
nidade parlamentar, a autonomia do judiciário e o habeas cor- 2. restrição de crédito bancário;
pus" (Alencar et alii, 1980: 321). 3. arrocho salarial (reposição abaixo do.s índices inflacio-
Esta mudança constitucional, na interpretação de Leôncio nários).
Basbaum (s.d.: 181), juntamente com a mudança na Lei de Im- Este arrocho veio, evidentemente, acompanhado da proibi-
prensa e na Lei de Segurança Nacional, seguiam a orientação ção do direito de greve, do fim da estabilidade no emprego (Lei
,li doutrinária de um dos grupos em qqe as Forças Armadas se divi- do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço), bem como ajudado
1,
j1' diam, grupo este conhecido como "sorbonistas ", do qual Castelo !)elo "terror político".
Branco era representante. Constituía também a maneira deste
grupo entregar o governo, mas não entregar o poder ao novo Assim é que:
marechal que ocuparia a Presidência da República até agosto de 1. as empresas multinacionais (os monopólios) tinham ga-
1969. Costa e Silva representava um outro grupo, conhecido co- rantia de taxas de lucros superiores às possíveis em seus países
mo "linha dura". de origem;
"A solução estava em enquadrar o novo presidente dentro de um
esquema que garantisse a continuação de sua política anti-comunista, 2. as pequenas e médias empresas, em sua maioria funda-
anti-democrática, anti-reformista, anti-desenvolvimentista, e pró-americana" das com capital de origem nacional e maiores empregadoras de
, (Basbaum, s.d.: 181). mão-de-obra, entram em falência ou antes disso são absorvidas
Tais medidas, que com seus efeitos são denominados de ter- pelas grandes empresas monopolistas multinacionais e muitos de
ror político pelo autor anteriormente citado (Basbaum, s.d.: seus proprietários vêem-se transformados em gerentes dessas
153-67), têm por objetivo o terror econômico consubstanciado grandes empresas;
na: 3. amplia-se o grupo em formação desde os anos 50 com-
a) reformulação de Lei de Remessas de Lucros aprovada em posto de dirigentes brasileiros de empresas estrangeiras, enge-
1962: eliminando o limite de remessa de 10% e deixando de es- nheiros, advogados, relações públicas cujos interesses estão inti-
pecificar o que era considerado "capital estrangeiro", possibili- mamente relacionados com os dos grupos estrangeiros que de-
tando que assim fosse considerado até o lucro reinvestido, em- têm tais empresas;
bora obtido no Brasil, com o trabalho dos brasileiros; 4. a taxa de desemprego atinge, em 1965, índices apenas
b) assinatura em Washington da Lei de Investimentos, para alcançados em 1930;
evitar novas encampações de propriedades norte-americanas; 5. o golpe militar levado a efeito com o objetivo declarado
em palavras de acabar com a corrupção, com a inflação e com
e) conclusão da compra da American Foreign Power, pdr
a subversão (esta nunca bem definida; mas, com certa freqüên-
131 milhões de dólares, que se resumiam em bens que estavam
cia, identificada com a ameaça comunista, com o perigo sovié-
caindo cm desuso por serem obsoletos;
159
tico), em verdade, isto é, analisando os atos dos governos mili- Pela Tabela X fica demonstrado que em 1970 a parcela per-
tares que se seguem, representou a· possibilidade de instalação, centual de participação do MEC has despesas dos ministérios ~
pela força, de um Estado que tinha como tarefa concreta a eli- pouco inferior (9,35) àquela que ele tinha. em 1965 (9,60, cf.
minação dôs obstáculos à expansão do capitalismo internacional, Tabela I), enquanto o aumento percentual das d:sp~sas com os
agora em sua fase monopolista. Um Estado, portanto, transfor- ministérios militares (que passa a ser uma tendencrn marcante
mado em instrumento político de generalização e consolidação com os governos militares pós-64) é significativo: de 22,2 em
de um modelo econômico encontrado numa fase embrionária de 1965 (ver Tabela I) para 36,17 em 1970 (ver Tabela X).
1955 a 1964.
Com os desdobramentos e a criação de novos ministérios,
Explicitado o significado do golpe militar de 1964, passare- mesmo tendo diminuído o percentuàl da participação do MEC,
mos a considerar seus efeitos sobre os recursos financeiros ne- como já foi afirmado, as despesas com educação e cu~1tur.a ~as­
cessários à organização escolar e sobre a orientação teórica se- sam de 4.º (em 1965, ver Tabela I) para 3.º lugar nas pn~nda­
guida e expressa nas leis que vão sendo aprovadas até 1971. des" governamentais. Lugar bastante relativo diante das mter-
pretações feitas.
Recursos financeiros
Novos tributos são criados pelo governo federal (Decreto
TABELA X
n." 4.440), como também por alguns dos governos estaduais c:a-
Despesas realizadas pela União (cálculo percentual) lário( s )-educação), sobre as empresas como meio de obtençao
dos recursos, necessários à universalização do ensino de l .º grau.
Ministérios 1970
TABELA XI
Despesas realizadas pelos Estados e fi)5.adas pelos municípios
Exército (cálculo percentual)
Aeronáutica 36,17 {t.a)
Marinha
197{)
' Agricultura 2,38
Áreas Municípios
Estados
Educação e Cultura 9,35 (3.")
Saúde 2,19 (P)
23,05 ( J.ll) 12,47
Governo e Administração Geral
Fazenda 3,94
9,22 9,90
Administração 1-'inanceira
Justiça 0,89
Defesa e Segurança 9,07 0,70
Relações Exteriores 1,36
Rc1.:ursos Naturais Agropecuários 4,35 0,78
Indústria e Comércio 0,21 (4.ª)
Viaç<-10. Transporte e Comunicação 11.61 (3.ª) 12.07
Trabalho 1,27
Indústria e ( ·omércio 1.90 0.99
Transportes 27,12 (2.ª)
Educação e Cultura 17,64 (2.ª) 12,65 (2.ª)
Comunicações 2,31
Saúde 5,11 4,08
Interior 5,66
Bem-estar Sm:iül 9,20 7,55
Minas e Energia 6,32
Serviços Urbanos 8.83 38,79 ( 1.ª)
Planejamento e. Coordenação Geral 0,83

Folltc: A 1111 úrio 1-:.1tati.ltico do Brasil, vol. 34. 1973. p. 883 e vol. 36. 1975, P· 952.
Fonte: Anuário Estatístico do Brasil, v,ol. 34, 1973, p. 857.

160 161
. Os estados continuaram dedicando uma parcela cada vez b) Ensino elementar
ma10r, que de 1964 (14,80, conforme Tabela II) para 1970 (17,64. Comparando-se as diferenças entre os números-índices de
conforme Tabela XI) foi de 2,80%. 1955 a 1965 (ver Tabela V) com os de 1965 a 1970 (ver Tabela
Os municípios, cujo percentual baixou de 1955 a 1964 (ver XII) relativos à matrícula de início de ano, constata-se o seguin-
Tabela II), agora de 1964 (5,90, conforme Tabela II) para 1970 te: a ampliação de 100 para 129 nos cinco últimos anos analisa-
(12,65, conforme Tabela XI) apresentam um significativo au- dos representa um ritmo menor à ocorrida durante os dez anos
mento de 7,35%. Sendo o de 70 (12,65) superior ao de 1955 anteriores (1955/65), que foi de 100 para 2J8.
(11,40, conforme Tabela II). A tendência de melhora na capacidade de retenção do aluno
na escola se mantém, tendo acontecido, durante esse processo de
A seguir será feita uma análise (quantitativa) dos dados dis- ampliação mais lenta, uma diminuição na porcentagem de eva-
poníveis sobre a situação do ensino, em parte determinada pelos são durante o ano, que de 8,70 em 1965 passa a 5,67 em 1970,
recursos disponíveis. representando uma diminuição (pequena, é certo) até em núme-
ros absolutos (de 861.653 para 727.321) (ver Tabela XII).
a) Analfabetismo
Nos cinco anos analisados a matrícula no 4.º ano passa a
representar 27,45%, quando era de 20,40% em 1965. Tem-se aqui
, . As consi~erações feitas sobre este aspecto da questão em
também mais uma evidência de uma pequena, mas significativa
pagmas anteriores, quando da discussão sobre o subperíodo de
melhora na capacidade de retenção do aluno na escola (uma di-
1955 a 1964, abrangem o subperíodo que agora nos ocupa (1964
ferença para mais de 7,05 em cinco anos, contra 3,90 nos dez
a 1968), uma vez que foram feitas à base de comparação dos
dados de 1960/70. anos anteriores - ver Tabela XII e VI).
TABELA XIII
TABELA Xll Ensino médio
Ensino primário comum Matrículas
Matrírnlas
Ano Pessoa/ docente início do ano final do ano
1965 1970 n.'"' índices
4.086.073 3.984.458
1970 308.552
Especificação 11.''·~ 11 .os
1965 1970 Fonte: Anuário Estatístico do Brasil, vol. 35, 1974, p. 771, 774, 776.
ahsolutos '/r ahsolutos 'Ir
Matrícula TABELA XIV
do início do ano 9.923.183 12.8 l 2.íl29 100 129 Relação matrículas no início do ano do ensino primário e médio
1955 /965 1970
Matrícula
11.08
do final do ano · 9.06L530 12.084.708 100 133 Especificaçiio 11.11.<: /l.11.-.;

ahsolutos % absolutos % absolutos %


Diferença 861.653 8.70 7'27.321 5.(i7
Matrículas
Matrícula no 1. 0 ano 4.949.815 100.00 5.790.816 100,00 100 117 no início do ano
4.545.630 100.00 9.923.183 ' 100.00 12.812.029 100,00
Matrícula no 4." ano 1.007.882 20.40 1.590.311 27.45 100 158 (ensino primário
comum)
Aprovação 5.973.811 9.147.858 100 163
Matrículas 31,89
828.097 18.21 2.154.430 21,70 4.086.073
no início do ano
Fonte: Tabelas V e VI. (ensino médio)
Fonte: Tabelas V. VII e XVIII.
Anuário Estatístico do Bra.1i/, vol. 35, 1974. p. 761, 763. 767.
163
162
Pela Tabela XVII constata-se que a ampliação do pessoal
e) Ensino médio docente foi quase seis vezes menos intensa que a ampliação de
Comparando-se a matrícula do início do ano no ensino ele- matrícula. Esta foi de 177 pontos para 90 de ampliação do ensi-
mentar com a no ensino médio (ver Tabela XIV) tem-se que esta no médio (ver Tabela XV) e de apenas 17 para o ensino elemen-
última representa em 1970 31,89% da primeira. tar (ver Tabela XII).
Isto indica uma tendência de ampliação mais acelerada do Contudo, mesmo assim, a relação da matrícula no ensino
nível de ensino agora considerado. Em cinco anos tal relação superior para com a do ensino elementar chega a ser de apenas
passa de 21,70% para 31,89%, quando nos dez anos anteriores 3,35% contra 1,56% em 1965 (ver Tabela XVIII), evidenciando
(1965/75) tinha passado de 18,21 % para 21,70%. mais uma vez a intensidade do grau de seletividade que carac-
teriza a organização escolar brasileira.
TABELA XV
Ensino médio (números - índices)
Matrículas Matrículas TA BELA XVIII
Ano Pessoal docente no início do ano no final do ano Relação matrícula no início do ano no ensino elementar e superior.

1965 100 100 100 1965 1970


1970 213 190 188
n.ax n.os
Especificação
Fonte: Tabelas VII e XIII. absolutos % absolutos %

Constata-se pela Tabela XV que a ampliação do pessoal do- Matrícula no início do ano
( en·sino elementar) 9.923.183 100,00 12.812.029 100,00
cente foi muito significativa nestes últimos cinco anos: de 113
pontos, quando havia sido de 96 nos dez anos anteriores (ver Matrícula no início do ano
154.981 1,56 430.473 3,35
Tabela VII). (ensino superior)

d) Ensino superior * Dado de matrícula efetiva por não ter sido encontrado o relativo à matrícula
geral (ou de início de ano).
TABELA XVI
Fonte: Tabelas XIV e XVI.
Ensinq. superior (números absolutos)
Ano Pessoal docente Matrícula Geral Teoria educacional
1970 42.968 430.473
No final das considerações feitas no item "teoria educacio-
Fonte: Anuário Estatístico do Brasil, vol. 32, p. 713.
nal", referente à primeira fase do presente período analisado
(1955/64), já foi indicado que o "terror político" atingiu ime-
TABELA XVII'..._, diatamente o campo educacional.
Ensino superior (números - índices)
Foi assim que, a 9 de abril de 1964, a Universidade de Bra-
Ano Pessoal docente Matrícula Gerai
sília foi invadida, professores e alunos foram presos, e demis-
1965 100 100* sões a pedido dos próprios professores passam a acontecer em
1970 130 277 solidariedade aos colegas atingidos pela repressão.
* Foi tomada a matrícula efetiva por não ter sido encontrado nos Anuários o Tais acontecimentos evidenciam que, diante do golpe mili-
número referente à matrícula geral ou de início de ano. tar de 1964, tornava-se inviável o projeto de reforma universi-
Fonte: Tabelas IX e XVI.
165
164
tário que vinha sendo esboçado e defendido teórica e pratica- Alfabetização) em 15-12-67 (Lei n.º 5.370) que, no entanto, teve
mente por expressivos segmentos da população brasileira: aque- suas atividades regularmente iniciadas apenas· em setembro de
le articulado ao projeto político de desenvolvimento da socie- 1970; em segundo lugar, a aprovação da Lei n.º 5.540/68, de
dade brasileira com a relativa autonomia indispensável a um 28-11-68, que· fixa normas de~ organização e funcionamento do
processo de autodeterminação. ensino superior e sua articulação com a escola média e dá outras
4 Foi afirmado, também, quando da análise da primeira fase providências; em terceiro lugar, a aprovação da Lei n.º 5.692/71,
/referida, que o Plano Nacional de Alfabetização foi extinto no de 11-8-71, que fixa diretrizes e bases para o ensino de 1.º e 2.º
/ dia 14 de abril de 1964, bem como paulatinamente paralisados os graus e dá outras providências.
núcleos do que passou a ser conhecido como "educação popu- A interpretação será feita à base de destaques de alguns ele-
lar", sendo que muitos membros dos grupos vinculados a estas mentos dos textos legais devidamente referidos ao contexto no
atividades foram também atingidos pela repressão. qual têm origem, uma vez que uma interpretação com base na
Mas, evidentemente, as atitudes do novo governo não pode- implantação propriamente dita de tais leis e de seus efeitos, de-
riam se resumir à inviabilização do que vinha sendo tentado até sejados ou não, só poderá ser feita quando for tomado como
então. Rapidamente o governo deveria passar também a tomar tema de reflexão o período posterior a 1968.
iniciativas de criação/aprovação de um outro ordenamento legal Mesmo assim, entendo que é necessário que desde já tenha-
das atividades educacionais em seus diferentes níveis, ordena- mos claro que para entendermos os fundamentos que articulam
mento legal este já expressando as novas determinações político- essa intervenção nos três graus de ensino, tanto a nível regular
econômicas a serem generalizadas e consolidadas. como não-regular, por parte do governo, temos que buscar dar
É assim que são incentivadas as atividades dos vários gru- conta da concepção tecnicista em educação, especialmente em
pos de especialistas brasileiros e norte-americanos, das quais re- sua expressão na chamada "teoria do capital humano" ou, em
sultam os acordos MEC/USAID (Ministério da Educação e Cul• outras palavras, no "economicismo educativo". No meu entender,
tura/United States Agency International for Development). temos que dar conta também da concepção crítico-reprodutivis-
Eram, entretanto, atividades que sofriam uma intensa cam- ta ou "reprodutivismo educativo", enquanto crítica à concepção
panha contrária, dirigida especialmente pela UNE (União Na- tecnicista. E temos, mais que isto, que dar conta da crítica ao
cional dos Estudantes),, que as denunciava enquanto mecanismo próprio "reprodutivismo", buscando entender as determinações
de subordinação da educação aos interesses norte-americanos. históricas que explicam seu aparecimento, entendendo, ao mes-
mo tempo, a natureza da significativa contribuição trazida por
Em conseqüência desta campanha contrária e ainda que as
perseguições, prisões, desaparecimentos e tortura tenham, em tal concepção, bem como seus limites explicativos, em especial
certa medida, desde o início generalizado o medo, o incentivo no que diz respeito às peculiaridades da situação nos países lati-
governamental as· atividades de tais grupos teve que se fazer à no-americanos, como o Brasil (ver Tedesco, in Madeira & Mello,
base do sigilo. Com muito esforço o então deputado Márcio Mo- 1985: 33-60).
reira Alves conseguiu publicar em 1968 o livro Beabá dos MEC/ . Luiz A. R. da Cunha ( 1975), que escreve sob a influência da
USA/D tornando público o conteúdo dos projetos em andamento.
concepção crítico-reprodutivista o livro Educação e desenvolvi-
:? Para efeito da presente análise, que tem no ano de 1968 a mento social no Brasil, contribui no sentido de desfazer as ilu-
,/ sua delimitação final, serão destacadas dentre as medidas toma- sões do liberalismo que fundamenta as concepções "humanista"
das com vistas a um outro ordenamento legal da educação, em tradicional - vertente leiga - e "humanista" moderna, assim co-
primeiro lugar a criação do Mobral (Movimento Brasileiro de mo as ilusões do "economicismo" da teoria do capital humano.
166 167
Lendo-se, em especial, o capítulo 5 do referido livro, é pos- As modificações da estrutura interna das universidades re-
sível acompanhar a demonstração que o autor faz das novas fun- feridas na lei, para produzir a expansão necessária com um mí-
ções econômicas e político-ideológicas das medidas tomadas pelo nimo de custos, que importam relacionar no momento são as
_governo. seguintes:
Se antes de 1964, por exemplo, o que motivava vanos gru- a) a departamentalização;
pos a descobrirem meios de alfabetizar a população adulta era
.,\ b) a matrícula por disciplina;
a convicção de que a alfabetização era um instrumento indis-
pensável, mesmo que nao suficiente, à participação ativa na polí- e) o curso básico;
tica do país, após 1964, com o Mobral, é feita a vinculação ime-
diata da alfabetização com a "participação" na vida econômicas. d) a institucionalização da pós-graduação.
Cunha reproduz à p. 271 do livro citado um organograma Com base em algumas evidências, já foi consideraqo que o
contido no Roteiro-Alfabetizador, documento do MEC/Mobral, texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)
onde os autores pretendem mostrar nos alfabetizadores a relação - n.º 4.024/61 - acabou por expressar de forma marcante a:
entre alfabetização funcional e desenvolvimento do país. E, ape- força de uma tendência pedagógica articulada a uma posição
sar de num momento d9 organograma haver referência a melho- política de natureza conservadora-reacionária, vale dizer, de mi-
res níveis de vida econômica e cultural (grifo meu), a ênfase noria.
em todos os demais momentos está no econômico. Isto, mesmo tendo havido um perfodo de intensa movimen-
Mais adiante demonstra quanto o discurso da grandeza - tação de vários grupos de interesse em presença na sociedade
do Brasil-potência - esbarra, em primeiro lugar, em termos brasileira, durante os treze anos que transcorreram desde a pro-
educacionais, nos altos índices de analfabetismo~ Todas as gran- posição do primeiro projeto apresentado à Câmara Federal
des nações resolveram esse problema e se o Brasil quisesse en-• (1958) até sua discussão e aprovação (1961). E mesmo após a
trar para o "clube dos grandes" teria que, pelo menos, demons- demonstração de certo grau de penetração popular de posições,
trar que da parte do governo havia uma preocupação nesse ainda que conservadoras, de natureza modernizante, às quais se
sentido. aliaram posições progressistas propriamente ditas, em defesa da
Por outro lado, o governo tinha que demonstrar tal inte• escola pública.
resse, dado que internamente outras forças políticas haviam em- /...,,, Ássim sendo, é possível supor quão estreitamente ligados
punhado a bandeira da alfabetização a ponto de despertar muitos
//~ram os interesses das minorias responsáveis pelo golpe militar
analfabetos para o seu direito à educação escolar.
de 1964 e os da burguesia internacional, que iriam determinar o
A Lei n.º 5.540/68, que reforma o ensino superior, traz algu- texto legal e, mais ainda, os efeitos práticos sobre a ordenação
mas modificações com vistas a responder a uma necessidade da educação brasileira das Leis n.º" 5.540/68 e 5.692/71.
(reconhecida pelo Grupo de Trabalho para a Reforma Universi-
tária - GTRU) de encontrar maneiras para expandir esse nível Foi afirmado que a determinação dos interesses de minorias
de ensino com o mínimo de custo para não prejudicar o atendi- /marcaram os textos das leis, uma vez que os grupos de trabalho
mento dos níveis anteriores, considerados como prioritários compostos pelo novo governo para elaborar os projetos, bem co-
(Cunha, 1975: 241-2). . mo o Congresso Nacional que os aprovou rapidamente, trabalha-
ram num contexto em que prisões políticas, delações e tortura
8. "Participação", entre aspas, uma vez que não significa participação efetiva
nos lucros e sim a possibilidade de emprego como assalariado em um novo mode- passaram a ser regra em que, em conseqüência, tornava-se im-
lo de acumulação acelerada do capital internacional. possível para alguns e desestimulante para muitos a participação

168 169
"( ... ) Assim, o princípio da não duplicação de meios para fins idên-
numa verdadeira discussão dos fundamentos da opção que es- tic~s co?1 s~us corolários, tais como a integração (vertical e horizontal), a
tava sendo feita. r~~1onahzaçao-co~ce~tração, a intercomplementaridade; o princípio da flexi-
bthdade; da contmu1dade-terminalidade; do aproveitamento de estudos, etc.,
Em relação à natureza de tal opção, os elementos destaca- bem como medidas como a departamentalização, a matrícula por disci-
dos a respeito do Mobral e da Reforma Universitária já indicam plina, o 'sistema de créditos' (no ensino superior), a profissionalização do
que se trata de um predomínio do "economicismo", decorrente 2. 0 grau, o detalhamento curricular, e tantas outras (que) indicam uma
do estabelecimento de uma relação direta entre a produção e a preo:up~ção com o aprimoramento técnico, com a eficiência e produtividade"
(Sav1am, 1980: 148).
educação, próprio à concepção tecnicista de conceber e agir no
campo da educação. É ainda Cunha, na obra citada anteriormente, que aponta..
A "análise crítica da organização escolar brasileira através para um outro fato, o de como a ampliação de quatro para oito
das Leis 5.540/68 e 5.692/71" feita por Dermeval Saviani (1980) anos de tempo de ~scolaridade obrigatória está também rela-
demonstra ,que o referido predomínio também marca a ordena- ci_~ma~o ao discurso do Brasil-potência. Isto porque, para tanto,
ção aprovada para os níveis escolares anteriores ao superior, ní- nao so o analfabetismo era um obstáculo, mas também a baixa
veis estes que passam a ser denominados de ensino de l .º e 2.º média de escolaridade, ou seja, de permanência na escola.
graus. _ Era necessário, conseqüentemente, aos governos que se im-
Ele demonstra, no etanto, que tal conclusão só pode ser for- poe1?' com. o golpe de 1964, no mínimo proclamar a intenção.
mulada quando não nos deixamos iludir (ou confundir) pelo Aqm tambem o proclamado parete mais um mascaramento das
int~nções reais, já que a intenção de tornar realidade a obriga-
aparente, isto é, pelo que está declarado no capítulo dos objeti-
vos gerais e específicos· de cada grau de ensino (objetivos pro- toriedade d~ quat.ro anos, há muito proclamada e nunca cumpri-
clamados). Indo em busca dos · da, se conf1gurana melhor, a nosso ver, como intenção. de con-
"objetivos reais", vale dizer, dos objetivos que "indicam os alvos. concretos
cretização parcial de objetivos proclamados.
da ação; aqueles aspectos dos objetivos proclamados em que efetivamente
<está empenhada a sociedade, enfim, a definição daquilo que se está buscan-
do preservar e/ou mudar. ( ... ) Nesse quadro, os objetivos reais podem
configurar-se como concretizações parciais dos objetivos proclamados mas
podem também se opor a eles, o que ocorre com bastante freqüência. Neste
caso, os objetivos proclamados tendem a mascarar os reais" ( Saviani. 1980:
147-8 ) .

.Da impressão de que a inspiração da Lei n.º 5.692/71 é de


base liberal (humanista moderna), causada pelo exame dos obje-
tivos proclamados, passa-se à conclusão de que a inspiração é
em última instância de base tecnicista, quando do exame dos
objetivos reais, orientados por uma compreensão sobre o con-
texto no bojo do qual a lei foi projetada e aprovada.
Ele demonstra, no entanto, que tal conclusão só pode ser for-
Revela-se assim a ênfase na quantidade e não na qualidade,
nos métodos (técnicas) e não nos fins (ideais), na adaptação
e não na autonomia, nas necessidades sociais e não nas aspira-
ções individuais, na formação profissional em detrimento da cul-
tura geral.

170 171
responsabilidades dos aspectos internos das .atividades de co-
mercialização das mercadorias produzidas para o mercado exter-
no. Sociedade que, a partir das primeiras décadas do século XX;
passa a desenvolver também uma base industrial, para substi-
tuir as importações de produtos simples a serem comercializa-
dos internamente.
Conclusão O fenômeno da urbanização, como foi visto, é basicamente
produto da necessidade de adaptação da sociedade brasileira
aos interesses do regime capitalista internacional, nesse momen-
to entrando em sua fase imperialista (monopolista).
Estas transformações econômicas provocam o aparecimento
de "novas" forças sociais, como a fração "moderna" da classe
dominante proprietária de terra - os "barões do café" - , tam-
bém chamada de burguesia agrária e urbana, bem como a amplia-
ção e a diversificação dos setores médios. "Novas" forças que
A análise feita sobre as características da organização esco-
se organizam e se articulam provocando mudanças a nível polí-
lar brasileira torna possível algumas conclusões a respeito das
tico, isto é, levando à alteração do regime monárquico de gover-
raízes mais profundas das causas pelas quais tem se revelado, no, para o republicano.
senão impossível, pelo menos muito difícil o encaminhamento
minimamente satisfatório dos problemas centrais apresentados Neste processo de passagem, que se dá no final do século
pela organização escolar. XIX, de um lado, o trabalhado! deixa juridicamente de ser es-
Constata-se com certa facilidade que, após o advento da Re- cravo e passa a ser assalariado; de outro, todos os membros da
pública, a cada década vai aumentando a pressão de significati- sociedade brasileira deixam de ser súditos para serem efetiva
vos setores da população brasileira no sentido do ingresso e ou potencialmente cidadãos.
permanência na escola. Esta pressão tem origem, num primeiro
Defende-se, e portanto difunde-se, um ideário de exercício
momento, mais nos setores médios, mas vai se intensificando
de cidadania onde a instrução (a alfabetização e a escolarização
com a presença de setores populares propriamente ditos.
regular) passa a ser entendida como de dever do Estado, agora
Ao procurar explicar os fatores que levam a esta busca ge- republicano.
neralizada pela escola e à sua conseqüente. ampliação - é certo
que irregular, mas sempre presente em alguma medida - das Constitui-se, assim, um outro fator de pressão no sentido da
que irregular, mas sempre presente em alguma medida - das uni- ampliação da rede escolar, fator este de natureza política - o
dades escolares, da matrícula e do número de professores, encon- ideário republicano -, mas, como a urbanização, também pro-
tramos o fenômeno da urbanização, que se acelera cada vez mais duto das alterações na base econômica da sociedade.
a partir do final do século XIX, constituindo uma base social
O ideário republicano, como se viu, tem poucàs chances de
necessária a uma sociedade que, tornada nação, ainda que de-
se realizar historicamente diante dos limites representados pelo
pendente1 no início <lo século XIX (1822), tem que assumir as
não-rompimento das relações de dependência com o capitalismo
1. "Ainda que dependente" pois, como sabemos, o Brasil sai da condição de internacional, bem como pela manutenção do latifúndio e da
colônia de Portugal para a de nação neocolonial dependente da Inglaterra, que monocultura, e pela implantação de uma industrialização que,
disputa, então, com a França a hegemonia no sistema capitalista mundial. até os anos 40, se desenvolve mais em razão de espaços deixados

172 173
pela crise por que passam os países capitalistas hegemônicos e
não propriamente em razão de forças sociais internas nela inte- o modelo escolar que virá atender às necessidades relativas à
ressadas terem se saído vitoriosas num confronto direto com as educação escolar!zada de toda a população e não apenas de pe-
forças externas. quenos grupos. E lutando para que todcis ingressem e permane-
çam na escola, é lutando, portanto, para que os obstáculos esco-
Como havia-se chegado ao século XIX como uma nação de lares e sociais mais gerais que dificultam ou impossibilitam tal
segunda classe, chega-se ao século XX também como uma Repú- ingresso e permanência deixem de existir, que será possível cons-
blica de segunda classe. truir uma organização escolar de qualidade.
É, pois, neste contexto de pressões sociais e políticas de di- A análise de dois dos elementos mediadores necessários à
terentes origens, surgidas dentro de limites bastante marcados, construção de tal organização escolar - os recursos financeiros
que acontece uma significativ<t alteração, mais de ordem quanti- e a orientação teórico-pedagógica (teoria educacional) - , apon-
tativa que qualitativa, IJ._a organização escolar brasileira. ta na direção de que a raiz de todos os obstáculos encontra-se
Mais de ordem quantitativa porque é uma ampliação, como na submissão da sociedade brasileira aos interesses do capita-
se viu, que mantém, e de forma aguçada, ou seja, agravada, os lismo internacional. Esta submissão beneficia uma parcela mui-
to reduzida da população brasileira, mas mesmo assim é uma
problemas já tradicionais, visto que até hoje é impossível aten-
der à toda população em idade escolar; são altos os índices de parcela sempre frágil diante da parcela internacional, hoje sob
a hegemonia da burguesia monopolista.
repetência e de evasão. Uma ampliação que, se de um lado, com
o aumento da população, representa em números absolutos e Não atentar para isto é, a nosso vér, tomar efeitos desta
atendimento de um maior número de pessoas, de outro, repre- causa como se fossem as próprias causas; é dar aos efeitos, que
senta, também em números absolutos, mais gente sendo repro- certamente estão a exigir uma atenção específica, uma dimensão
vada, expulsa da escola logo após a entrada. maior er po'rtanto, falseada; é, ao não atacar a causa e sim seus
efeitos, atuar no se#ntido de mantê-la, de consagrá-la, voluntária
"São resultados que evidenciam quão pouco se conseguiu - ou involuntariamente (e isto não muda o resultado).
nos limites econômico-sociais apontados em que vem acontecen-
do um processo mais de adaptação da sociedade brasileira ao A chamada insuficiência de recursos financeiros para satis-
desenvolvimento capitalista internacional do que de desenvolvi- fazer as necessidades relativas ao atendimento adequado da po-
mento propriamente dito - no sentido de alterar expressivamen- pulação em idade escolar e daquela que em idade escolar não
te as condições de vida da maioria da população, para que ela foi atendida não decorre fundamentalmente da amplitude de tais
possa sustentar seus filhos na escola, assim como no de mudar necessidades e sim de uma estrutura econômica construída para
significativamente os requisitos imprescindíveis a uma reorgani- produzir a concentração de tais recursos em mãos de minorias
zação estrutural do aparato escolar, a fim de que em seu interior internas e, acima de tudo, externas à sociedade brasileira (bur-
desenvolvam-se atividades necessárias a essa mesma população. guesia monopolísta).

Afirmei que, mesmo assim, tal ampliação foi significativa, Portanto, os recursos existem; são produzidos pelo trabalho
uma vez que não se resolvem as questões de qualidade sem se da maioria, só que não são distribuídos em benefício de todos.
resolverem as de quantidade. E mais, é forçando-se pela quan- Diante de tal realidade é preciso que se entenda que esta
tidade que se provoca, pelo agravamento dos problemas, o es- estrutura que produz tal concentração capitalista é ela mesma
forço coletivo necessário à solução dos problemas. pr9duto que historicamente foi construído em substituição a
estruturas anteriores que produziam a concentração sob outras
Em outras palavras, não é deixando grandes parcelas da
condições. Um produto histórico que, a partir de determinado
população em idade escolar fora da escola que se vai descobrir
momento, é possível e necessário que venha a ser substituído
174
175
por outro, isto é, por uma estrutura econômico-política que
produza a distribuição (socialização) segundo os interesses da
maioria.

Palavras finais

Após estes estudos sobre a história da construção social da Bibliografia


organização escolar brasileira atual, a conclusão fundamental a
que chego, em síntese, é a de que aqueles (educadores escolares
ou não) que estiverem realmente preocupados com os resulta-
dos apresentados por tal organização ampliada, vale dizer, preo-
cupados a ponto de não conseguirem mais conviver com eles
sem efetivamente se engajarem no processo árduo, longo e até )
arriscado, é certo, que leve às soluções adequadas à nossa época
e, portanto, adequadas tanto quantitativamente quanto qualita-
tivamente aos interesses populares, acabarão por:
'
a) sentirem a necessidade de uma compreensão não apenas ALMEIDA, Fernando H. M. ·<\ BARRETO, Carlos E. (orgs.) Constituições. jSão
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dos efeitos, mas das causas e da causa mais fundamental de tais
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b) interessarem-se e esforçarem-se por compreender a di- AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura
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se, · 1973, 280 p.
VÁRIOS. Brasil: nunca mais. 5.ª ed., Petrópolis, Vozes, 1985, 312 p. Esta é uma obra oportuna e necessária. Oportuna
VAZQUEZ, Adolfo S. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968. porque chega num momento em que faz todo o sentido a
(Série Rumos da Cultura Moderna, vol. 11, tradução de Luiz F. Cardoso), discussão do tema relativo à escola unitária. E
454 p.
necessária porque é de todo recomendável que a referida
VILLALOBOS, João E. R. Diretrizes e bases da educação: ensino e liberdade. discussão se apóie num conhecimento histórico e
São Paulo, Pioneira/Editora da USP, 1969 (Biblioteca Pioneira de Ciências
Sociais), 252 p. teoricamente fundamentado no tema.
WEREBE, M. José G. Grandezas e misérias do ensino 110 Brasil. 3.ª ed., São Mas a presente obra é também necessária uma vez
Paulo, Difel, 1968 (Corpo e Alma do Brasil X), 271 p. que os interesses das escolas privadas confessionais ou
não, têm procurado disseminar a idéia incoffeta e
preconceituosa que vincula a defesa da escola unitária e
uma posição política totalitária e, por conseqüência,
antidemocrática. Ora, para afastar o pré-conceito nada
melhor que estabelecer o conceito. E estabelecer o
conceito significa recuperar, através da teoria, a
objetividade do fenômeno tal como se constituiu
historicamente. E é isto o que Lucília Regina de Souza
Machado se propõe e realiza com êxito neste livro
oportunamente denominado Politecnia, Escola Unitária
e Trabalho.
Em suma, além de oportuno e necessário, este é
um belo e instigante livro. Sua leitura é indispensável a
todos quantos queiram .compreender a escola unitária ou
busquem articular a educação com os interesses da
transformação social.

Dermeval Saviani

180
GUIOMAR NAMO DE MELLO
Mario Alighiero Manacorda
Educação Escolar
Paixão, Pensamento e Prática
HISTÓRIA DA N
2~ edição

Considerando-se o que está ocorrendo na realidade

EDUCAÇAO
1

!.' escolar brasileira, uma evidência se impõe. Enquanto


'
o início da democratização do ensino, expresso pelo
simples aumento quantitativo de escolas, pôde
da Antiguidade aos nossos dias acontecer sob um regime autoritário, o
prosseguimento desse processo, daqui por diante,
insere-se necessariamente no movimento de
democratização da sociedade.
'Jladução de Gaetano I.o Monaco Será preciso que se criem mecanismos e formas de
Revisão técnica de Rosa dos Anjos Oliveira ePaolo NoseUa organização que permitam aos diferentes segmentos
da sociedade exercerem influência na política
' Mario Alighiero Manacorda (Roma, 1910), um dos maiores representantes educ~cional escolar em todas as suas etapas: do 1'?
italianos no campo da Pedagogia, lança, no Brasil, pela Cortez Editora, sua grau à universidade, do nível macro ao nível do
obra maior, História da Educação - da Antiguidade aos nossos dias, passeio funcionamento interno das instituições escolares locais.
histórico pela Educação ''através dos textos''. Seria inicialmente um passeio Essa maior participação dar-se-á indiretamente pelo
análogo "através das imagens", proposto àTV italiana. Devido às aumento da representatividade nas diversas esferas da
dificuldades de produção, recorreu-se ao caminho da Rádio, ou seja, àvoz e sociedade política, especialmente rio Parlamento,
mantidas às condições atuais. Mas há outras formas
aos textos, para um programa intitulado ''A escola nos séculos''. História da
de participação direta, para as quais se tem pouca ou
Educação reúne em livro oconteúdo desse memorável programa. Inicia com nenhuma tradição, que se faz mister aprender.
''Sociedade eEducação no Antigo Egito'', passa pela Educação em todos os
séculos vindouros, até atingir ''O nosso século em direção ao ano 2000' '.

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