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VIDA E
ENSINAMENTOS DE

SRI MA
ANANDAMAYI

“A Ave Alça Vôo”

Bithika Mukerji
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“Sou realmente uma com todos.


Além do mais, nada existe aparte
do único Ser Supremo, não é?”

Sri Ma Anandamayi

“Este Deus existe certamente em todos os âmbitos


desde há muito, muito tempo;
nasceu, certamente (está agora) na semente.
Ele nasceu, nascerá,
em todos que nascem está presente,
com rostos para todos os lados.”

Svetasvataropanishad II.16
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AGRADECIMENTOS

A presente biografia foi escrita em comemoração ao centenário de nascimento


de Sri Ma Anandamayi (1995-1996), mas, por diferentes motivos, não pôde ser
publicado em 1996. Mas o fato de que possa ser publicado agora é fruto do ânimo
incessante recebido de meus amigos Dra. Bettina Baumer, Dr. Premalá Srivastava e
minha irmã Renudi, a qual me facilitou o poder trabalhar durante quase dois anos sem
que ninguém me perturbasse.

Desejo aproveitar esta oportunidade para agradecer a Sri K. Datta e


Brahmacharini Gunita Marwa, que me proporcionaram fotos adequadas. Meu sincero
agradecimento a Dhirendra K. Sahú por seu árduo labor de datilografar todos meus
manuscritos. Recebi muitas sugestões construtivas de Nicholas Bradbury. E, por último,
mas não por isso menos importante, a coincidência de ter ido ver meu irmão Prabash
Kumar e sua mulher Mira em Nova Delhi me facilitou a oportunidade de reunir-me com
meus editores, aos quais estou também muito agradecida por haverem sido tão amáveis
e haverem me ajudado tanto, o que fez com que trabalhar com eles seja um prazer.
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PROLOGO

Costuma-se dizer, não sem certa razão, que a Índia é uma terra de santos e
homens de Deus. Ainda que se possa elaborar uma longa lista de mestres espirituais que
alcançaram renome mundial nas ultimas décadas deste século, não seria correto incluir a
Sri Ma Anandamayi entre eles. É certo que alcançou uma posição de grande autoridade
como defensora das tradições da Índia. Todavia, isso foi, sobretudo, o resultado de sua
forma de estar no mundo. Não professava nenhuma filosofia nem formulava mensagens
para a humanidade, com exceção de sua única vani (frase) – Hari katchai kathá ar sab
vrithá (“Só vale a pena falar de Deus. Todo o resto é vaidade e dor”) – e de suas muitas
variações. Não fazia promessas e, a menos que lhe pedissem especificamente, não tinha
nada para dizer, apesar de sua aura de eminência espiritual atrair as pessoas onde quer
que ela se encontrasse. Seu incomparável e encantador sorriso, assim como seu gentil
interesse pelo bem estar dos que a iam visitar, cativava a todos, o que acontecia
infalivelmente em cidades grandes, povoados, pousadas, pátios dos templos ou casas de
devotos. Havia ocasiões em que as pessoas, ao cruzarem com ela na estrada ou nos
caminhos de montanha, paravam e se viravam para voltar a vê-la e então voltavam para
trás até alcançá-la de novo, como se tivessem encontrado uma antiga amiga que não
viam há muito tempo. Sri Ma acolhia a todos estes desconhecidos casuais com essa
inimitável familiaridade sua, que desmoronava imediatamente qualquer barreira de
língua, credo ou posição social.

Ao partir de Dacca em 1932, Sri Ma se dirigiu a Dhera Dun, cidade do norte da


Índia, a mais de 1.000km de distância. Em muito pouco tempo se converteu no centro
das atenções das reuniões de uma grande quantidade de pessoas que não falava sua
língua. Numa ocasião perguntei a Mahalakshmiji [o sufixo ji é acrescentado aos nomes
para indicar respeito], um dos membros mais destacados do grupo: -“Diga-me uma
coisa: a que se deve que tanto você como sua família, seus amigos e todo seu grupo
sejam tão incondicionais de Sri Ma? No fim das contas, o que você viu primeiro foi
simplesmente uma jovem casada, acompanhada por quem você confunde com seu
criado (Bhaiji), sentada com simplicidade no pátio de um templo, ao modo dos
peregrinos pobres. Ela não falava sua língua, motivo pelo qual você não pôde se
comunicar diretamente com ela. Não lhe fez nenhuma demonstração de milagres nem
de poderes divinos. Assim, qual é o segredo pelo qual a comunidade da grande cidade
da Caxemira, bastante numerosa e sofisticada, tenha se entregado aos pés de Sri Ma?”

Mahalakshimiji não escondeu sua impaciência diante de semelhante pergunta


absurda – “Não seja ignorante” – me disse – “Que milagre deveria ter feito? Ela mesma
era o milagre mais grandioso! O fato de contemplá-la, de estar sentada perto dela, era a
plenitude total.” Se Mahalakshimiji estivesse familiarizada com as Escrituras, haveria
citado o seguinte:
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“Se desfaz o nó do coração, se dissipam todas as dúvidas,


desaparece toda escravidão, ao contemplar a Aquele
que está aqui e além.”

Mundakopanishad II. 2.

Esta experiência se repetiu muitas vezes. Fosse no Gujarat, no sul da Índia ou no


Punjab, as pessoas não encontravam dificuldade alguma em estabelecer um contato
imediato. Ademais, esses novos devotos desconhecem suas origens, seus anos como
dona de casa, seu sadhana e o que lhes teria falado se pudesse falar suas respectivas
línguas. Também para eles a presença de Sri Ma representava a plenitude.

Em Dacca, primeiro local onde alcançou renome, a qualificavam como Manush


Kali, ou seja, Kali em forma humana, porque ali as pessoas de Bengala sentem especial
devoção pela Deusa Kali. Numa viagem ao sul da Índia, se via rodeada pela multidão
onde quer que fizesse uma parada no caminho. Um dos membros da comitiva decidiu
perguntar a umas poucas daquelas pessoas a razão de sua devoção por uma mulher que,
além de oferecer-lhes seu inimitável sorriso e cantar kirtans, não fazia nada por eles. A
resposta foi simples: para eles Sri Ma era a forma visível da Deusa Minarshi, que estava
dentro do templo e lhes bastava o darshan (visão) de Sri Ma (“Sri Ma é a mesmíssima
Devi Minarshi” – disse o encarregado do templo, 17 de Novembro de 1952). No Punjab,
em Hashiapur, seus devotos Sikh lhe deram o mesmo posto de honor que o dado ao
santo Granth Sahab (“Não fazemos distinções entre Sri Ma e Aquele ao qual chamamos
o Akala Purusha” – Bhai Lakshman, de Jullundhar).

Em lugar de estender-nos em narrativas deste tipo, talvez não fosse demais


recordar, neste ponto, os antecedentes nos quais se baseia a mentalidade religiosa da
Índia, a qual se presta facilmente a ditos fenômenos: muitos são os nomes de Deus. De
fato, “infinito” seria uma qualificação mais adequada. O termo genérico para Deus que
mais se costuma utilizar na literatura religiosa é Satchitananda. Ainda que não vamos
nos aprofundar na exegese deste vocábulo, basta dizer que ele constitui a forma
personalizada da afirmação dos Upanishads sobre a Realidade Suprema, ou Brahman.
As pessoas da Índia abraçam o conceito de que Deus não só é onipresente e eterno, mas
que também é receptivo às orações que o invocam. Essa capacidade das dimensões de
transcendência e imanência, de se misturarem, se realça uma e outra vez em todas as
formas de literatura religiosa. Aquele que, em essência, carece de forma, assume um
sem fim delas, com o propósito de que o devoto possa encontrar refugio a Seus pés. Ele
não se separa nunca de sua criação, mas sim está sempre presente com ela. Os anelos
espirituais da humanidade em busca de Deus se fundem e dão forma a distintas
imagens, que o artista pode concretizar em toda uma variedade de materiais: argila,
madeira, metal, pedra, papel ou tecido. Portanto, as muitas imagens não são muitos
deuses, mas sim distintas formas da mesma realidade última, Satchitananda, o que
explica a proliferação de imagens, inclusive em nossos tempos. Não obstante, os
templos antigos mantém vigentes suas próprias tradições, aderindo-se fielmente a
importantes textos pertinentes.
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Esta forma de relacionar-se com Deus é característica do hinduísmo. Sri Ma


Anandamayi às vezes o comparava a diferentes papéis que um homem se vê obrigado a
representar no mundo. Um mesmo homem é pai, filho, amigo, marido, chefe,
subalterno, etc., segundo com quem esteja tratando. Esta dimensão de vinculo pessoal
com Deus como pai, mãe, amigo, filho, amado ou mestre explica o significado da frase
‘ishta-dévata’. Ishta quer dizer ‘o mais desejável’ e dévata indica a imagem determinada
de Deus que inspira o devoto a realizar o maior esforço possível por alcançar a
emancipação espiritual. Dita ‘imagem de Deus’ (ishta devata) mais venerada pelo
coração do indivíduo constitui sua chave pessoal em seu intento por desvelar o mistério
do panorama cósmico divino. Todos aqueles que adoram o mesmo ishta-devata formam
uma irmandade, um pampradaya, de forma que existem vaishnavas-sampradaya, shiva-
sampradaya, shaktas, ganapatias, etc., os quais são sistemas específicos de adoração
que, no entanto, não se contradizem entre si. Um poeta deu expressão a este sentimento:

“Segundo minha fé, não há diferença alguma entre Shiva, o Senhor do Universo
e Narayana, o espírito inerente da criação. No entanto, minha devoção se dirige para
Aquele que coloca a lua crescente na cabeça, ou seja, Shiva”

Vairagya Sataka

Portanto, o hindu se alegre em ter uma grande variedade de formas de


relacionamento com Deus, as quais considera enriquecedoras. Nem sequer os inimigos
declarados de Deus ficam excluídos da lista de grandes devotos porque, simplesmente
graças ao poder de concentração perfeita, podem alcançar a meta antes dos amigos do
Senhor. São abundantes as ramificações deste tema na literatura religiosa.

Em conseqüência, é inevitável que um livro sobre Sri Ma Anandamayi abarque


todo o panorama da visão hinduísta da realidade e que, ademais, o transcenda, já que
não há parâmetro de convicção religiosa que possa delimitar a liberdade de Sri Ma de
ser ela mesma. Convêm ter presente as palavras que tantas vezes repetia: “Eu sou o que
vocês pensam que sou”, uma frase com a qual parecia haver se assentado no coração de
todos aqueles que eram conscientes dela, sem distinção de credo, nacionalidade, sexo ou
idade.

O presente livro, portanto, constitui um convite a um satsanga. Satsanga é uma


reunião de pessoas de idéias similares que se juntam de vez em quando para escutar a
lilá-kathá da pessoa que levam no coração. Um lilá-katha é um conto descritivo, um
relato das deliciosas historias da pessoa que constitui o centro das atenções do satsanga.
Dado que todos os caminhos são viáveis, o organizador da reunião não busca
conversões, mas a narração pode resultar tão interessante que pode até atrair a atenção
dos passantes. O propósito do satsanga é reforçar a devoção ao partilhar com outros a
benção da convicção de que Deus sempre está perto e, às vezes, permitir que se abra um
coração outrora indiferente.

Neste contexto me vem à memória um satsanga em particular. Teve lugar em


Varanasi, há muitos anos. Havia se congregado uma gigantesca multidão para escutar a
encantadora lilá-katha de Krishna menino. O palestrante era o grande erudito e asceta
Swami Akhandanandaji, de Vrindavan.
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Cada dia, durante duas ou três horas, a multidão aguardava em silêncio sepulcral
até que, ao final de cada sessão, era (e ainda é) costume que o publico exclame
jayadhvanis, ou seja, “glória a Sri Krishna” e outras exclamações semelhantes. Depois
de gritar com entusiasmo, a multidão exclamou em uníssono, numa só voz sonora e
retumbante: “Hare Hare Mahadeva, namah Parvati pasaye” (Shiva, Shiva, Shiva,
saudações ao consorte de Parvati), o qual pareceu muito pouco oportuno, até que se
lembrou que, ao tratar-se de Varanasi, a maioria dos presentes devia ser shivaístas.
Depois de haver escutado o Krishna-katha com grande devoção, reiteraram sua lealdade
a Shiva mediante essa antiga frase de saudação, característica de Varanasi e que
constitui uma forma corrente de aclamação pública.

Este modelo de conduta contém toda a força de uma antiga tradição. Só aqueles
que consideram que as muitas imagens são idênticas a esta Realidade Única, que é o
único que existe, podem apreciar a profundidade da consciência religiosa que permite à
pessoa ser leal a seu próprio ishta ao mesmo tempo em que rende homenagem a outro.
Isto é um dialogo autêntico: o escutar “ao outro” está profundamente arraigado nos
valores e atitudes da Índia. Tanto é assim que não parece estranho, na Índia, que um
asceta vedantista dê um discurso sobre Krishna-katha.

Assim, pois, o presente livro não é uma biografia, já que não é necessário nem
possível escrever uma sobre Sri Ma Anandamayi, posto que ela não “desenvolveu” nem
se “transformou” em algo que ela já não fosse desde seu nascimento. É verdade que seu
corpo era pequeno e que envelheceu com o passar do tempo, mas, no que se refere ao
espírito, nada do que aconteceu a afetou em absoluto, mas sim que ela sempre foi livre e
auto-suficiente. Dispomo-nos, portanto, a recordar as distintas facetas de seu
comportamento, tal como as contemplaram as pessoas dos povoados nos quais ela se
criou, assim como outros devotos e admiradores que a conheceram anos mais tarde. Às
vezes Sri Ma se referia a si mesma como uma ura parkhi, ou seja, uma ave que alçou
vôo, uma ave que é livre para pousar em qualquer ramo, ao acaso, para, em seguida,
voltar a voar. O título do presente livro representa a forma em que Sri Ma se descreve a
si mesma.

Tentaremos manter algo semelhante a uma ordem cronológica, ainda que, no


caso desta lilá-katha não será mais que algo supérfluo. Depois de tudo o que se disse e
escreveu, não resta dúvida de que evitarei entrar em avaliações da enigmática
personalidade de Sri Ma Anandamayi, tanto quanto evitei fazê-lo no dia do nosso
primeiro encontro, há quase sessenta anos.

Que prevaleça o kheyal de Sri Ma! Jay Ma!

Mahashivaratri, 1997
31 George Town
Allahabad – 211002
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“Alardeei aos homens que te havia conhecido. Eles vêem tua imagem em todas
minhas obras. Então se aproximam e me perguntam: “Quem é?” Não sei lhes
responder. Digo-lhes: “É verdade que não o sei” e eles me reprovam e se vão, com
desdém, enquanto tu permaneces sentado, sorrindo.

Dos meus contos sobre ti faço canções sem fim. O segredo me sai do coração
aos borbotões. Eles se aproximam e perguntam: “Diga-nos tudo que isto significa”,
mas eu não sei o que lhes responder e apenas digo: “Quem pode saber o que quer
dizer tudo isto!” e eles sorriem e se vão, com mais desdém ainda, enquanto tu
permaneces sentado e sorrindo.”

Rabindranath Tagore

Gitanjali 102
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Capitulo 1

LUGARES NOS QUAIS TRANSCORREU A


INFÂNCIA DE SRI MA ANANDAMAYI

“Muito de vez em quando a humanidade produz uma flor pouco comum, de


delicada beleza e fragrância. Não se pode dizer de Sri Ma que distribua ensinamentos,
nem que tenha uma mensagem para dar, mas ela não vive mais do que com um
propósito: demonstrar a existência de um Poder que, mediante sua influência
transformadora, não cessa nunca de criar beleza a partir da feiúra e amor a partir dos
conflitos. Esse poder é o que é Sri Ma Anandamayi. Que ela aporte paz e harmonia a
este mundo de conflitos.”

B. Sanjiva Rao

Pergunta: “Ma, por que nascemos? Nascemos para satisfazer os desejos de vidas
anteriores?”

Sri Ma: “Sim.”

Pergunta: “Que desejos te fizeram nascer agora?”

Sri Ma, sorrindo: “Teu desejo de vir a mim!”


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Os Lugares Nos Quais Transcorreu a

Infância de Sri Ma Anandamayi

Os povoados de Bengala no final do século

Desde a perspectiva dos últimos anos do século XX, parece como se os


povoados da Bengala ainda não dividida do século passado estivessem desfrutando da
calma que precede a tormenta que estava a ponto de desatar-se sobre eles. Com efeito,
se avizinhava uma grande agitação política e a tormenta, ao desencadear-se, teve efeitos
devastadores. Exterminaram-se formas de vida tradicionais e uma nova era de mudanças
no poder militar afundou as massas no desconcerto, terror e insegurança. Tudo isto e
muito mais formou parte das experiências dos parentes de Sri Ma, assim como das
famílias de seus primeiros devotos. No entanto, quando ela nasceu, no campo havia paz
e harmonia.

A formosa paisagem rural estava coberta de dourados campos de cultivo, de


verdes prados profusamente adornados de uma grande variedade de flores estacionais de
vivas cores. As bananeiras, mangueiras e demais frutas proporcionavam frutíferas
colheitas em diferentes épocas do ano. Os meandros das vias fluviais refletiam o intenso
azul do céu. As pessoas estavam acostumadas a viver em espaços ilimitados, numa
natureza munificente e a ter bom trato com seus vizinhos.

Sri Ma Anandamayi nasceu e se criou nessa parte da Bengala rural que hoje em
dia é Bangladesh. Seus primeiros anos transcorreram em Kheora (distrito de Tripura),
onde nasceu, em Sultanpur, o povoado de seu avô materno e em Vidiakut, o povoado de
seu pai. Sultanpur e Vidiakut eram povoados grandes e prósperos. Ainda que Sri Ma
fosse criada em Kheora, costumava ir a estes outros povoados com muita freqüência.
Assim estavam relacionadas às duas famílias:
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Sultanpur (distrito de Agartala) Vidiakut (distrito de Tripura)

Sri Ramakanta Bhattacharia Sri Trilochana Bhattacharia


Srimati Harasundari Devi Srimati Tripurasundari Devi de Kheora

Srimati Mokshadá Sundari Devi (filha) Sri Bipin Bihari Battacharia (filho)
(também conhecida como Bibhumukhi Devi)

Srimati Nirmala Sundari Devi

Sultanpur: A Casa de Sri Ramakanta Battacharia

Todas as famílias brâmanes daquela época eram admiradas por sua vida virtuosa
e santa. Sri Ramakanta Battacharia e seus irmãos e filhos eram respeitados
especialmente por sua erudição e espiritualidade. Os mais velhos desta família tinham o
título de sabhá-pandits (sacerdotes da corte) do rei de Agartala. Sua casa era local de
reunião de todos os vizinhos, fosse qual fosse sua casta ou religião. A ante-sala exterior
estava quase sempre cheia de visitantes que se aproximavam por diferentes razões,
alguns em busca de conselhos, outros com alguma pergunta sobre ritos religiosos,
outros com problemas maiores ou menores que requeriam solução e, finalmente,
simples amizade.

Aquele casarão estava rodeado de sebes e jardins cultivados, além dos quais
havia dois tanques e grande quantidade de árvores frutíferas. Tudo o que produziam os
campos, jardins e hortas era oferecido primeiro a Deus. A adoração diária das
divindades da família era a tarefa central do dia. Ao longo do ano se realizavam muitas
celebrações com grande cuidado e circunspeção, a mais importante das quais era a festa
anual de Durga Puja, em Ashvin (Setembro/Outubro) que, para os bengalis, constitui a
renovação da arraigada crença na lenda de que, durante três dias, a Deusa regressa a seu
outrora lar terreno. Toda Bengala se prepara para este acontecimento com música,
incenso e doces e cada lar oferece para a festividade o que bondosamente pode.

Em Sultanpur se iniciavam as preparações muito antes da data assinalada.


Armazenavam-se os grãos, as mulheres cozinhavam deliciosos doces de coco e açúcar,
enquanto que o ar carregado de incenso e doces cantos de invocação (agamani)
anunciavam que faltava pouco para o Durga Puja.

Durante os três dias de puja, a casa de Sri Ramakanta Battacharia se convertia no


templo no qual se reunia todo o bairro. A todo mundo era oferecido prasad [comida
consagrada], do qual havia grandes quantidades. Não se necessitava nenhum convite.
Todo mundo era bem vindo e podia participar por igual.
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As crianças da família eram presenteadas com roupas novas. Os que tinham


idade suficiente se encarregavam de fiar guirlandas com as flores que se colhiam nos
jardins. Confeccionava-se pasta com sândalo branco e vermelho. Arrancava-se a erva
verde esmeralda que era amontoada cuidadosamente. Havia mil e uma coisas pra fazer e
todo o mundo estava ocupado servindo a Deusa. Tudo isto é o que Sri Ma via quando
menina, quando ia ao povoado de Sultanpur nestas datas. Na Índia, toda festividade tem
um fundo religioso, mas em certos locais e momentos adquirem uma solenidade
especial, que as destaca dentre as demais. Sri Ma dizia que Durga Puja na casa de seu
avô sempre tinha uma aura que superava o mundano, como se as invocações das
orações recebessem uma resposta autêntica.

Mas o Durga Puja não era a única celebração religiosa de importância. Também
havia o Mahashivaratri, o Sri Krishna Janmastami, Kali Puja, Sarasvati Puja, Sri Rama
Navami, etc. Podemos afirmar com bastante segurança que este tipo de vida não era
exclusivo de Bengala. Em outras partes desta antiga terra devia haver povoados que se
assemelhavam às comunidades dos tempos dos Upanishads, nos quais a vida das
pessoas transcorria obedecendo ao seguinte preceito:

“Tudo isto – tudo o que se move sobre a terra – deve estar coberto
pelo Senhor. Protege a teu Ser mediante este desapego. Que não te
mova a cobiça já que, de quem é a riqueza?”

Isavasyopanishad

O desfrutar das coisas boas da vida somente como prasad (regalo celestial)
criava este ambiente de auto-suficiência e contentamento que é característico da paz
interior. Esses estilos de vida constituem certamente um vínculo com a era dos rishis
(videntes), transformando-a assim numa tradição viva inclusive em nossos dias.

Uma família unida deve sua harmonia interior à judiciosa gestão da ama de casa.
A avó de Sri Ma, Srimati Harasundari Devi, era a governanta ideal. Exercia uma
influência benéfica sobre todos os de casa. Resolvia todas as situações conflituosas e
não consentia que se contassem mentiras. De fato, quando alguém cometia um erro,
esperava que outra pessoa o ajudasse sem esperar, em troca, um agrado. Havia naquele
lar, portanto, uma sensação geral de amizade e colaboração mútua. Srimati Moksada
Sundari Devi, a mãe de Sri Ma, nascida e criada neste ambiente, constituía um exemplo
vivo dos ideais que se cultivavam nessa família. Nascida em Maio de 1877, perdeu sua
mãe no início da adolescência. Alguns dizem que Srimati Harasundari havia predito seu
fim próximo, pelo que sua filha lhe disse: “Soube que você vai partir.” A mãe a
tranquilizou, dizendo-lhe: “Minha nora mais velha ocupará meu lugar.”

A partir de então, Srimati Mokshada ocupou, entre seus cunhados e cunhadas, a


posição privilegiada de ser a protegida, que sua mãe lhe havia legado. Com o passar do
tempo, a casaram com Sri Bipin Bihari Bhattacharia, de Vidiakut. O ambiente tranqüilo
e acomodado da casa de seu irmão não era comparável ao de sua nova casa e não
porque as circunstâncias fossem muito diferentes – de fato, não eram – mas sim porque
Sri Bipin Bihari acabou sendo um chefe de família ao qual seria mais adequado
converter-se num jogral errante.
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Vidiakut

Ainda que possa parecer uma idéia descabeçada, se torna impossível não pensar
que o traslado de Sultanpur a Vidiakut fosse comparável a uma aproximação ao
ascetismo, a um separar-se das ermidas para adentrar-se ainda mais no bosque em busca
de uma vida de renúncia e austeridade, dado que, no fundo, Sri Bipin Bihari era um
asceta. Sua estrutura mental de intensa inclinação pela espiritualidade lhe fazia difícil
centrar-se em sua obrigação de manter sua família. Ao não estar capacitado para tomar
conta dos seus bens, em pouco tempo sua herança considerável começou a mostrar
sintomas de negligência. O tempo, ele gastava com os labores típicos de um brâmane
devoto daquela época. Nas manhãs, se dedicava a fazer puja no templo familiar. Era
uma família de preceptores espirituais (gurus) e, às vezes, os membros das famílias que
estavam sob sua tutela religiosa, vinham para receber iniciação. Se seus irmãos mais
velhos pedissem, ele fazia toda a cerimônia por eles.

Além de sua preparação religiosa, também havia recebido educação laica.


Depois de haver se casado, uma vez, um de seus sobrinhos ricos o convenceu a
administrar a contabilidade de suas propriedades. Dito sobrinho queria um homem
honrado, em quem pudesse confiar. No entanto, esse trabalho durou pouco tempo. Sri
Bipin Bihari era independente demais para trabalhar para outra pessoa, ainda que fosse
um familiar mais jovem e respeitável.

Srimati Tripurasundari, a mãe de Sri Bipin Bihari, havia herdado algumas


propriedades no povoado de Kheora, do mesmo distrito. Uns poucos anos depois de
casar-se, este se mudou para dito povoado, com sua mulher, para encarregar-se dessa
pequena herança. Depois de algum tempo, o casal teve uma filha. A mãe de Sri Bipin
também vivia em Kheora. Ainda que não se saiba se ele considerava que havia
assegurado o sustento para sua mulher e sua mãe mudando-se para Kheora, o certo é
que ele se foi de casa sem dizer para onde, para tornar-se asceta.

Srimati Mokshada Devi, como uma autêntica personificação dos valores da


linhagem de Sri Ramakanta Bhattacharia não só aceitou sem reclamar a forma de vida
escolhida por seu marido como a compreendeu completamente. Era uma dessas poucas
pessoas que constituem um exemplo das melhores virtudes humanas. Ainda que as
circunstâncias pusessem intensamente à prova sua natureza nada exigente, jamais
perdeu seu espírito sossegado nem a dignidade da sua conduta. Entre aquelas duas
mulheres abandonadas à própria sina, existia um vínculo de amor e respeito.
Desgraçadamente para ambas, a menina faleceu em pouco tempo, o que as afundou na
tristeza e solidão. Srimati Tripura Sundari desenvolveu o costume de ir caminhando até
o famoso templo de Kali, nas proximidades do povoado de Kasba, para pedir o regresso
do filho. Alguns membros da família se encarregaram de localizar a Sri Bipin Bihari em
seu local de retiro e o convenceram a regressar a Kheora. Assim que, depois de três
anos, voltou ao lar para, uma vez mais, encarregar-se da manutenção de sua família. Sua
mãe continuou indo a pé até Kasba, desta vez para pedir um neto, mas curiosamente, no
momento de fazer o pedido à Deusa, lhe saiu “filha” em vez de “filho”. De toda forma,
pensou ela, a descendência faria com que seu inquieto filho fincasse raízes no lar.
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Srimati Mokshada Devi e Sri Bipin Bihari tiveram uma segunda filha em 30 de
Abril de 1896, a qual, mais adiante, seria conhecida como Sri Ma Anandamayi.

Brahmacharini Chandan, uma filha da terceira geração da casa de Sri Ramakanta


Bhattacharia, de Sultanpur, teve o privilégio de escutar as respostas que deu Sri Ma a
algumas perguntas sobre sua presença na terra e se lhe ocorreu contemplá-la como se
fosse Triveni Sangam, a confluência sagrada dos rios Ganges, Yamuna e Sarasvati.
Veio-lhe a mente esta comparação sobretudo porque se diz que o terceiro rio, Sarasvati,
simboliza brahmavidia, o Conhecimento Supremo. Além disso, os devotos dizem que o
rio Sarasvati é uma presença sobrenatural, misteriosa, em dito sangam, já que na
atualidade ele não é visível aos olhos dos peregrinos.

A Sri Ma Anandamayi, deram o nome Nirmala Sundari, que pode ser traduzido
por “a bela imaculada”. Não há dúvida de que dito nome se mostrou totalmente
apropriado. Ela era um bebê muito encantador. Todos os que vinham vê-la se
enamoravam por ela imediatamente e tinham que fazer esforço para irem embora. Sua
mãe se acostumou ao fato de que até os desconhecidos paravam para olhar a menina ou
para brincar com ela um pouco. Um acontecimento se fixou na memória de sua mãe
para sempre. Ocorreu numa ocasião que estavam de visita em Vidiakut. Um dia
Mokshada Devi viu que uma pessoa de aspecto extraordinário e que irradiava
luminosidade se aproximou da menina, que tinha uns dez meses, ficou de cócoras diante
dela, como se para render-lhe homenagem, a olhou e lhe disse: “Você tem uma filha
muito especial. Não fará dela uma dona de casa comum. Ela é a Mãe e pertence ao
mundo.”

Mokshada Devi pensou que o homem era um excêntrico, mas suas palavras
ficaram gravadas em sua memória.

Kheora – O Cenário para a Lilá da Infância

Kheora era um pequeno povoado, cujo lado ocidental constava somente de duas
casas de brâmanes e que estava rodeado dos três lados por vizinhos muçulmanos. No
lado leste havia outras famílias hindus. Ambos os setores estavam separados por
grandes campos e bosques. Havia um atalho que passava pelo meio da zona das famílias
muçulmanas. Quando Nirmala começou a andar sozinha, começou a ser vista com
freqüência saltando e bailando por dito caminho e parando também em todas as portas
que lhe abriam. Segundo o costume indiano, colocam nas crianças alcunha de
parentesco com as pessoas mais velhas e ela também se dirigia a estes vizinhos
muçulmanos com qualificativos como nana (avô), chacha (tio), dada (irmão), buá (tia),
etc. Todo o povoado, por mais longe que estivesse das demais casas, se converteu para a
menina num único e grande lar.
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Nirmala era uma menina muito amigável. Sempre estava disposta a ajudar no
que pudesse a qualquer um que necessitasse. Recolhia e transportava coisas tanto para
sua família quanto para todos os vizinhos. Sempre estava de bom humor e jamais
molestava ninguém. De fato, sua mãe não se lembra que tivesse chiliques nem que
chorasse de desespero. No entanto, se recordam de duas ocasiões que foram a exceção
desta regra. Aconteceu que, depois de Nirmala nascer, seus pais tiveram três filhos
homens. Desgraçadamente, o mais velho, Kaliprasanna, morreu aos sete anos e os
outros dois também aos poucos anos. Mokshada Devi, a permanente personificação da
fortaleza e da coragem, em alguns momentos sucumbia à tristeza e chorava em silêncio.
Se Nirmala a encontrasse nesse momento, começava a berrar de tal forma que sua mãe
se via obrigada a dedicar-se a consolá-la, com o que se esquecia de suas próprias
lágrimas.

O outro incidente de pranto teve lugar quando Nirmala ainda era bebê. Havia
uma menina chamada Ekabbar, de uma das casas dos vizinhos muçulmanos, que
gostava muito de Nirmala e vinha brincar com ela todo dia. Uma vez Ekabbar começou
uma brincadeira nova com a menina, que consistia em fazer-lhe sinais de longe, para
que ela se aproximasse. Quando a menina-bebê lhe sorria e começava a engatinhar até
ela decididamente, Ekabbar se afastava um pouco mais e a chamava outra vez. Depois
de quatro ou cinco vezes de tentá-la desta maneira, Nirmala sentou-se no chão e
começou a chorar com força. Então Ekabbar a pegou rapidamente e tentou fazê-la calar-
se, mas o pranto e os gritos não fizeram mais do que aumentar, até o ponto que Ekabbar,
assustada, devolveu a menina à sua avó e jamais voltou a fazer este jogo. Quando ambas
já eram maiores, às vezes Ekabbar lhe recordava este incidente: “Você era uma menina
tão pequena! Como chorava! Para mim foi uma experiência extraordinária. Ainda fico
com os cabelos em pé quando me lembro!”

Outras pessoas recordavam estranhas experiências com a menina. Em Kheora


vivia muita gente da idade de sua avó e, para a menina, todos eram dadus (avôs) e dadis
(avós). Um destes dadis (Krishna Sundar Battacharia) tinha o costume de jogar o bebê
para o alto e o pegar nos braços. Isto encantava a menina, que ria muito quando faziam
esta brincadeira. Uma vez, quando a tinham jogado para cima, ela colocou um pé em
seu ombro e esticou outro, como se quisesse apoiá-lo no braço que estava levantado. De
repente, ele gritou “Peguem, peguem!” e quase caiu de joelhos no chão. Não se sabe
muito bem se ele queria que pegassem a menina ou se queria que sustentassem a ele
mesmo! Pôs a menina no chão e exclamou, com grande assombro: “Que menina mais
estranha!” Os que estavam olhando acharam que, de repente, o peso da menina havia se
tornado insuportável. A família notou que, depois disso, ao brincar com a menina, ele
jamais tentou jogá-la para o alto novamente.

Ao ir crescendo, sua família e vizinhos se deram conta que Nirmala era uma
criatura alegre, sempre à disposição de todos, que ajudava a qualquer um do povoado,
qualquer que fosse sua casta, religião ou posição social.

Para ela, tudo era uma fonte de deleite. Uma noite, uma tormenta repentina
levou pelos ares uma porção do teto da casa e todos se refugiaram debaixo do teto que
havia sobrado. Nirmala deu algumas palmas e exclamou, entre risadas: “Ma, Ma,
podemos ver as estrelas daqui! O lado de fora e o de dentro se juntaram! Que
divertido!"
17

Nirmala não era muito afetada pelo calor do verão nem pelo frio do inverno,
nem pelas monções. Quando chovia a cântaros, começava a bailar, ou brincava numa
colina de areia sob o sol abrasador, sem se importar com o calor. Não era presa de
doenças infantis e, com atitude sempre disposta, ganhou muitos apelidos no povoado,
tais como Hash (sorrisos), Kushir Ma (A Contente), etc.

Um traço desconcertante de Nirmala era o de obedecer ao pé da letra às ordens


dos demais, traço do qual sua família se deu conta depois de muitos incidentes
enervantes. Uma das histórias favoritas é a do “ponto”. Quando seu pai a estava
ensinando ler, lhe disse que devia fazer uma pausa quando visse um ponto, antes de
começar a frase seguinte. Passado algum tempo, era engraçado para seu pai, mas
também o deixava consternado, ver como Nirmala seguia suas instruções. Quando se
tratava de uma frase longa, retorcia seu corpo até conseguir chegar ao ponto final sem
tomar fôlego.

De fato, este traço de seguir ao pé da letra as palavras ou desejos das pessoas ao


seu redor, constituiu uma característica constante de sua conduta. Era um véu sobre seu
autentico kheyal que, inclusive aquelas pessoas que se supunha que estavam mais perto
dela, jamais conseguiram penetrar.

Faz-se imprescindível explicar o significado do termo “kheyal”, dado que o


vamos utilizar com freqüência nesta narrativa. Sri Ma o utilizava da mesma forma que
outras pessoas diziam “quero” ou “é meu desejo” ou “eu desejo”. Ela não tinha desejos,
nem anelos, nem queria nada, a não ser às vezes, quando sentia inclinação por certo tipo
de ação, quiçá ditado pelas necessidades das pessoas que a rodeavam: um pensamento
espontâneo, formado a partir das circunstâncias, mais do que um impulso para agir
surgido de dentro. Tanto sua família quanto seus primeiros devotos demoraram bastante
tempo para compreender o que ela queria dizer com esta palavra, que jamais alguém
chegou a compreender.

Quando Sri Ma Anandamayi era uma menina, sua total ausência de ego, que a
levava a concordar imediatamente com todas as coisas que os mais velhos lhe sugeriam,
foi compreendida em termos de docilidade e inclusive de rusticidade mental. Foi às
vezes considerada um pouco atrasada, porque não existia criança normal que sempre
estivesse uniformemente contente e fosse tão boa. Mas, ainda que alguns duvidassem de
sua inteligência, nunca sofreu de falta de amor ou complacência. Alem disso, também se
deve levar em conta sua inquebrantável veracidade. Com o tempo, os mais velhos
começaram a acreditar implicitamente na versão que a menina desse de alguma situação
controvertida, já que observaram que ela jamais poderia ser convencida de fazer algo
remotamente indecoroso ou prejudicial. Quem sabe Nirmala desfrutasse de toda esta
confusão que produzia.

Perto do povoado havia uma escola infantil, a qual Nirmala freqüentou durante
uma temporada, mas não todos os dias, porque às vezes tinha que ajudar a mãe com as
crianças e outras vezes porque sua mãe não podia encontrar ninguém adequado para
acompanhá-la. Ainda assim, o professor viu que ela sempre podia acompanhar
facilmente sua turma. Tanto é assim que, depois de uma visita de um inspetor de ensino,
ela e duas outras meninas passaram para a Escola Primária, cuja diretora era uma jovem
mulher.
18

Uma vez, numa das visitas do inspetor, a diretora ficou nervosa quando suas
meninas não souberam responder a uma das perguntas e, do lado de fora da janela da
classe, colocou uma lousa na qual havia escrito a resposta. Era a vez de Nirmala e,
mesmo que ela pudesse ver perfeitamente a lousa, não se aproveitou desta estratégia.
Este tipo de estratagema não combinava com sua natureza. Anos mais tarde dita
professora foi ver Sri Ma em Varanasi e ali nos relatou esta história e outras mais da
breve etapa escolar de Nirmala. Jamais aprendeu a ler e escrever com fluidez, ainda que
às vezes sua escrita parecesse bastante formada e madura.

Nirmala sempre demonstrou um interesse genuíno por todo tipo de rituais


religiosos, inclusive de outras religiões. Uma vez, em Sultanpur, ela e sua prima
conheceram duas monjas cristãs que vendiam alguns folhetos e Nirmala foi correndo até
sua mãe para pedir-lhe as poucas moedas que aquele livrinho custava. Aquela tarde se
viu irresistivelmente atraída até o acampamento daquelas monjas, nos arredores do
povoado. Ficou de pé, fora da tenda, escutando suas orações e depois voltou correndo
para casa, para que não notassem sua falta.

Em Kheora, Nirmala tinha muitos locais para brincar. Perto de sua casa havia
um grande monte de areia, com o qual gostava de fazer figuras. Um dia, construiu uma
grande bola e, quando sua mãe perguntou-lhe o que era aquilo, lhe respondeu: “É
Narayan, Lakshimi, Shiva, Parvati, Radha, Krishna e muitos outros deuses também.
Você não me disse que tudo está em um e que este um é tudo?” Ainda que Mokshadá
Devi ficasse um pouco desconcertada pela resposta, lhe disse docemente: “Muito bem,
mas venha para casa agora para não ter uma insolação.” Nirmala desmanchou
imediatamente a bola que havia construído com tanto cuidado e seguiu sua mãe sem
olhar para trás.

O bosque lhe proporcionava flores de muitas cores, que ela recolhia e com elas
formava intrincadas formas. A mãe não deixou de notar que a absorção da menina tinha
um matiz de distanciamento – de repente deixava tudo e ia embora, com uma expressão
ensimesmada no rosto. Isto também acontecia quando estava com seus amigos.
Brincava tanto com eles quanto sozinha, sem parecer se importar com sua companhia.

O que resultava realmente extraordinário na pequena Nirmala era que, de


repente, passava de ser uma menina brincalhona e agitada para converter-se num ser
extraordinariamente etéreo. No meio de qualquer atividade mundana, de repente parecia
como se não estivesse com seus companheiros de jogos ou com os mais velhos. Sua
expressão, sempre serena e bonita, transbordava luminosidade interior. A melhor
descrição que ocorria para os outros era compará-la com um relâmpago no céu. O que
faziam com a menina quando a viam como um ser etéreo, uma chispa da Divindade?
Apressavam-se em fazê-la regressar, por assim dizer, ao seu estrato social, tentavam
dirigir sua atenção até alguma brincadeira e fazê-la rir e falar como costumava fazê-lo.

Quando, ao fim de alguns anos, perguntavam a Sri Ma sobre estas recordações


de sua família e seus vizinhos, ela respondia: “Você utiliza a palavra ’extraordinário’
mas, para mim, não há diferença alguma. É como piscar.”
19

CAPITULO 2

DA INFANCIA À MATURIDADE

“Assim que, tão logo completou doze anos, os humildes pais escolheram um
marido igualmente humilde para sua filha, a qual partiu para o distrito de Dacca para
viver com a família de seu marido, cobrindo-se seu rosto angelical com um véu, tal
como faziam, sem exceção, as meninas dos povoados daqueles tempos, até anos depois
de casadas. Notava-se algo não usual naquela menina, inclusive durante a infância.
Costumava estar distraída, vendo ou sonhando com Deus sabe o quê, mas com algo que
não tinha a ver com brincadeiras nem com trabalhos manuais. Depois de casar-se, este
traço se transformou em freqüentes acessos de aparente insensibilidade aos arredores,
ainda que em outros momentos se comportasse de forma completamente natural e fazia
tudo o que lhe pediam, para grande satisfação de quem pedia.”

Raisahab Sri Akshay K. Datta Gupta

“Não pratiquei renuncia, no sentido que vocês dão a esta palavra, já que este
corpo viveu com pai, mãe, marido e outros parentes. Este corpo serviu ao marido,
então pode ser chamado de esposa. Preparou pratos para todos, então pode ser
chamado de cozinheira. Esfregou muito e fez todo tipo de trabalho de baixa categoria,
então pode ser chamado de servente. Mas se vocês olharem de outro ponto de vista, se
darão conta que este corpo só tem servido a Deus simplesmente porque... eu sempre
considerei que todos são diferentes manifestações do Todo Poderoso”

Sri Ma Anandamayi, 1956


20

DA INFANCIA À MATURIDADE

Os companheiros de infância

Muitos foram os companheiros de brincadeiras de Sri Ma Anandamayi. Em


primeiro lugar, seus irmãos menores. Brincava com eles, cuidava deles e os atendia
quando estavam doentes. Todos a seguiam onde quer que ela fosse. O apego que tinham
por sua irmã mais velha era comovente. Uma vez convidaram Nirmala para uma
festividade que se celebrava em Sultanpur. Seu irmão Kaliprasanna lhe disse: “Irmã,
não vá ou não voltarei a vê-la nunca mais.” Com efeito, ele caiu gravemente doente e
faleceu pouco depois. Nirmala permaneceu com ele até que expirou e o mesmo
aconteceu com os outros irmãos, os quais morreram também quando pequenos.

Ainda que ninguém duvidasse de que havia estado muito ligada a seus irmãos,
ninguém a viu chorar ou lamentar-se por suas perdas. As pessoas ficavam perplexas
diante de sua falta de sensibilidade, a qual reforçava a crença de que era de mentalidade
curta. Esta conjunção de entrega total e desapego distante se manteve nela até o fim, o
que surpreendia aos novos visitantes. De fato, foi um paradoxo essencial à sua
personalidade que ninguém jamais conseguiu explicar.

Depois dos irmãos, nasceram duas irmãs: Surabala, que morreu aos dezesseis
anos, pouco depois de casar-se e Hemlatá, que viveu até pouco mais de quarenta.
Finalmente, houve outro irmão, apelidado Makhan (Sri Jadunath Battacharia), que foi o
único a sobreviver tanto a Sri Ma quanto a seus pais. Sri Ma disse uma vez disse que
ficou sozinha depois da morte prematura de seus irmãos e que então teve o kheyal de ter
um ou dois companheiros. Surabala era um bebe encantador, 14 anos mais jovem que
ela. Hemlatá nasceu pouco depois. Ambas a meninas praticamente nunca se separaram
de Nirmala.

Outras de suas companheiras preferidas era sua própria avó, chamada Thakurma.
Sendo Kheora seu povoado natal, Thakurma tinha nele grande quantidade de parentes.
Nirmala acompanhava Thakurma freqüentemente, quando ia visitar a casa de seus
amigos e familiares, assim como quando partia até os bosques para recolher ervas e
frutas comestíveis. Kheora não era um povoado fértil e sua terra não produzia grande
coisa, pelo menos nos terrenos que lhes pertenciam, mas Thakurma sempre conseguia
algo para levar para casa.
21

Uma vez, enquanto Sri Ma estava falando de sua Thakurma a este respeito, seu
primeiro biógrafo, Gurupriya Didi, disse, de forma espontânea: “Maravilhoso! Sua
compaixão e graça para com seus pais deviam ser ilimitadas! Nem sequer tinham o
bastante para comer!” Sri Ma sorriu e negou toda responsabilidade: “Em absoluto,
sempre tivemos de tudo. O que acontece é que você não leva em conta a ingenuidade de
minha Thakurma que, cozinhasse o que quer que fosse, mesmo que não passasse de um
punhado de folhas verdes comestíveis e um pouco de arroz, era como comida divina.
Raramente tenho voltado a provar comida tão rica quanto a que Thakurma nos
preparava!”

Ainda que os vizinhos sempre dissessem a Thakurma que colhesse o que


quisesse de seus campos, ela nunca se aproveitou disso, nem tampouco permitia que as
crianças se metessem nas terras dos demais. Nirmala levava tão a sério a proibição de
não tocar em nada que pertencesse a outra pessoa que, quando se encontrava no
caminho com um ramo carregado de frutas penduradas diante dela, se afastava
ligeiramente para evitá-la.

Thakurma Tripura Sundari Devi havia sido entregue em matrimonio a uma


prestigiada família de preceptores espirituais e eruditos, motivo pelo qual poderia haver
se aproveitado do direito de aceitar os presentes que as famílias dos discípulos lhe
entregavam com grande respeito. No entanto, isso não era do seu caráter, em absoluto.
Para ela, o natural eram a abstinência e a auto-suficiência. Deveria haver se vestido de
laranja (cor usada pelos monges hindus) porque, no fundo, era uma renunciante. Desde
a manhã até a noite, toda sua intenção era dirigida à sua viagem interior. Um dia,
Nirmala lhe perguntou: “Thakurma, que ‘palavra’ é essa que você fica repetindo o dia
inteiro, em voz baixa?” Takhurma ficou surpresa com a pergunta da menina. “Fique
quieta – disse-lhe – as crianças não tem que pronunciar estas ‘palavras’. Quando você
for maior, saberá o que são.” Aceitando a reprovação docilmente, Nirmala inclinou
ligeiramente a cabeça. Quem sabe se, nessa idade precoce, não havia começado já, com
sua Thakurma, seu trabalho de “dar diksha” (o que se converteu num fenômeno
surpreendente nos últimos anos de sua vida).

Uma das primas de Thakurma havia recebido iniciação formal do guru da


família. Sendo bastante inculta, esqueceu as instruções para o sandhia-puja, um ritual
que deve ser repetido pela manhã e pela tarde, acompanhado de movimentos dos dedos
e exercícios respiratórios (pranayama). Esta avó disse uma vez para Nirmala: “Olhe, é
que me dá apuros pedir a tua mãe todo o tempo que me ensine estes kriyas (gestos).
Poderia você me ensinar?” Assim, as aprendeu de sua pequena neta, sem que sequer
ficasse surpresa de que a menina conhecesse ditos rituais. Quando se cumprem outras
expectativas estranhas, os beneficiados se sentiam agradecidos, mas não eram tão
surpreendidos a ponto de considerá-la uma criança prodígio.

Nirmala tinha uma forma de fazer coisas maravilhosas da maneira mais comum
possível. A mesma avó à qual havia ensinado o ritual do puja havia comprado um par de
pulseiras de tartaruga, mas, desgraçadamente, nem ela nem ninguém conseguia fazê-la
passar dos seus tão proeminentes nós dos dedos, para colocá-las nos braços. Essas
pulseiras são frágeis e bastante caras. Ela decidiu levá-las à Nirmala e ficou encantada
quando viu que deslizavam facilmente, diante do que exclamou com surpresa: “Como é
possível que umas mãos tão pequenas possam apertar meus nós dos dedos tão duros?”
22

Outra “avó”, que era uma amiga de sua Thakurma e a conhecia como
Chikkandidi, lhe deu a primeira felicitação por ser a melhor cozinheira que jamais
existiu, ainda que ela fosse uma menina muito pequena. Nirmala às vezes fazia a
comida e sempre recebia elogios do tipo: “Didi, tudo que você cozinha é maravilhoso!”

Nirmala não era obrigada a cozinhar em casa e assim ninguém soube realmente
como e quando havia adquirido esta arte de adultos. No entanto, observava sua mãe e
Thakurma na cozinha, onde as ajudava de varia formas. Acompanhava sua Thakurma
quando saía para recolher ramos e folhas secas para o fogo de cada dia. Deu-se conta de
que sua mãe acumulava cuidadosamente montinhos de lenha para o caso de que
aparecessem convidados inesperadamente. Quando estes vinham, acendia um fogo
apropriado, no qual se podia cozinhar uma boa comida. Sua mãe era uma dona de casa
meticulosa e nunca permitiu que ninguém percebesse o quanto escassos eram seus
meios. Estava totalmente descartado que ela pedisse algo a algum de seus vizinhos, que
eram parentes também. Proibia estritamente seus filhos de pedirem algo ou que
comessem ou aceitassem caramelos de ninguém, a menos que ela os permitisse fazê-lo,
de forma específica. Mokshada Devi tinha um senso de humor muito bom, muito livre
de malícia, o que lhe permitia representar todos os papéis que a providência requeria
dela com silenciosa dignidade e completa segurança em si mesma. Anos mais tarde nos
costumava recitar um poema sobre o segredo de uma vida sem problemas:

“Vê e vem, não fique


observe e escute, não comente
Coma e aceite, não peça.
Assim não te surgirão problemas.”

Mokshada Devi tinha um talento natural para a poesia. As canções que compôs
expressam a comoção e o anelo, alcançando a plenitude das aspirações religiosas do
coração devoto. Quando criança, Nirmala passava todo o tempo com ela, ajudando-a ou
simplesmente conversando. Podemos dizer que, depois de seus irmãos menores e de sua
Thakurma, os companheiros mais íntimos de Nirmala foram seus próprios pais.
Sentava-se com eles para conversar e às vezes fazia perguntas como esta:

- “Ma, as pessoas falam do céu. Pode-se ir ao céu?”

- “Claro que sim. Todo aquele que tiver um desejo muito forte de ir ao céu,
poderá ir”.

- “Sabes como ir? Diga-me!”

- “Para os que desejam intensamente, o caminho é ensinado.”

- “O que o céu tem de especial?”

- “As pessoas dizem “céu” quando querem dizer “Deus”. Deus sabe tudo e faz
tudo por nós. Está em todas as partes, mas nada o afeta. Nós não sabemos disto
porque somos só da terra. Ir ao céu quer dizer saber de todas as coisas.”
23

Parece que Sri Ma extraiu muitos ensinamentos destes diálogos com os mais
velhos. Naqueles tempos, as pessoas tinham uma tendência natural a levar uma vida de
devoção. Nos povoados havia uma tradição que consistia em que alguns cantores
errantes (vairaguis) iam de porta em porta ao amanhecer, cantando usda-kirtan (cânticos
da manhã), cuja essência dizia: “Há um novo amanhecer, levante-se, é hora de ocupar-
se em adorar a Deus. Não desperdice o tempo dormindo.”

O pai de Nirmala se unia a eles muitas vezes e inclusive os acompanhava até os


povoados mais próximos, já que cantar kirtan era sua principal fonte de inspiração, mas,
cedo ou tarde, regressava para casa. Pode ser que ele fosse um chefe de família
medíocre, mas sua riqueza consistia num vasto repertório de musica devocional. Com
efeito, seu conhecimento musical se completava com uma voz profunda e melodiosa.
Dizem que ele tinha uma voz tão sedutora que, ainda que estivesse só cantarolando uma
melodia, as pessoas paravam para escutá-lo. Sabia tocar todos os instrumentos que eram
utilizados naquela época. Entre seus amigos havia muitos ustads (mestres musicais)
muçulmanos. Quando Ustad Ali Akbar Khan disse a Sri Ma que seus antecessores
tinham vivido perto de Vidiakut, ela citou a Ustad Gulmahmud e Ustad Aftabuddin e
ele confirmou que Ustad Aftabuddin era o irmão de Ustad Alaudin.

Às vezes, pela tarde, se organizavam reuniões musicais. Se o primeiro turno


ficasse com Sri Bipin Bihari, os demais cantores se queixavam: “Quem vai ficar nos
escutando depois que você houver cantado!?” Freqüentemente o comparavam a
Ramprasad, o santo cantor de Bengala, do qual se acredita firmemente que era capaz de
invocar a presença divina, de tão inspirado que era seu cantar. Bipin Bihari também
tinha a capacidade de fundir-se completamente com o canto de hari-kirtan. O kirtan
consiste numa melodia repetitiva que se compõe do nome de Deus e de palavras que
descrevem Suas qualidades auspiciosas. Em geral, costuma haver uma voz principal,
que é seguida por um grupo de vozes, ainda que um cantor com autentico dom possa
fazê-lo sozinho.

Uma vez houve uma tormenta e, como sempre, o teto da casa se viu afetado.
Passada a tormenta, Mokshada Devi consertou a cabana em que seu marido estava
absorto, cantando kirtan. Nem se havia dado conta de que o teto havia desaparecido e de
que tanto ele quanto seu instrumento estavam molhados. Finalmente reagiu ao sacudir
que lhe estava dando sua mulher e lhe disse debilmente: “Sim, está tudo molhado.
Melhor que eu vá para outro lugar.” Sua mulher teve um acesso de riso, que tentou
ocultar cobrindo o rosto com o sári.

Um dia Nirmala perguntou a seu pai:

- “Você sempre canta canções de Hari. Quem é Hari?”

- “Hari é um dos nomes de Deus. Ele tem muitos nomes.”

- “Para que serve cantar Seus nomes?”

- “Se você canta Seus nomes, Ele virá vê-la, tal como quando eu te chamo e você
vem e faz o que te pedimos para fazer. Ele também faz muitas coisas por nós,
porque está em todas as partes e nos ouve quando O chamamos.”
24

- “Então Ele é muito grande!”

- “Sim, muito grande!”

- “Tão grande quanto este campo aqui?”

- “Muito maior. Ele não pode ser medido. Quando Ele aparecer, você verá o
quão grande Ele é. E Ele aparecerá se você O chamar para que venha te ver.”

Pelo que parece, Bipin Bihari dava expressão a seus sentimentos com respeito a
seu Ishta-devata como se estivesse contando a um amigo. Então Nirmala unia sua doce
e jovem voz à rica e melodiosa voz de seu pai. Nessas ocasiões, que aconteciam com
bastante freqüência porque pai e filha cantavam juntos sempre que podiam, o hari-kirtan
seguramente devia alcançar novas alturas!

Quando ia visitar Sultanpur, Nirmala tinha algumas primas com as quais brincar.
Uma delas, Sushila, se mudou, anos mais tarde, para o ashram e estabeleceu ali sua
residência. Costumava contar que inclusive os animais se sentiam atraídos por Nirmala.
As vacas que voltavam do pasto paravam perto dela e a tocavam suavemente. Sushila
também dizia que às vezes encontravam Nirmala como se ela estivesse falando com as
arvores e plantas, o que costumava assustar as outras crianças porque elas quase podiam
imaginar que se tratava de uma conversa e que as plantas se inclinavam um pouco para
frente.

Mas antes que pudessem imaginar estas coisas, Nirmala saía correndo para unir-
se a elas e todas esqueciam sua estranha conduta para com as arvores.

Todos estes traços, que eram percebidos por seus parentes e companheiros,
foram conservados por Sri Ma durante toda a vida. Muitas vezes se via que ela não fazia
distinção entre objetos animados e inanimados. Didi Gurupriya havia se dado conta de
que, quando Sri Ma estava a ponto de partir de uma casa para sempre, às vezes passava
por ela tocando suas paredes, como se estivesse se despedindo de antigos amigos. Muita
gente foi testemunha de que ela se comunicava facilmente com plantas e animais, o que,
com o tempo, deixou de surpreender. Mais adiante, de forma similar, sua atração
magnética era dada como certa e havia deixado de assombrar inclusive aos
desconhecidos. Durante sua infância, viram a Sri Ma muitas vezes em situações deste
tipo.

Uma vez seu pai a levou ao povoado de sua irmã, tia de Sri Ma, para que ela
assistisse à celebração anual de Durga Puja. Pai e filha partiram até a beira do rio para
cruzá-lo a bordo de um barco a vapor. Ao meio dia Bipin Bihari parou num mercado
para comprar algo de comer para ambos. Nirmala havia parado um pouco longe da
tenda. Uma mulher se aproximou dela, provavelmente uma prostituta, e lhe perguntou
como se chamava e para onde estava indo. Nirmala lhe disse seu nome e disse que ia
visitar sua tia para assistir o Durga Puja. Então a mulher lhe perguntou se ela não
gostaria de acompanhá-la até sua casa para comer alguma coisa, ao que Nirmala
respondeu que não. Depois de mais algumas perguntas e respostas, chegou a hora de ir
embora, já que seu pai havia terminado as compras e a estava chamando. Chegaram ao
cais, mas a mulher os foi seguindo a certa distancia. Ao subir no vapor, a mulher ficou
de pé, parada, contemplando a menina até que a perdesse de vista.
25

Tantar, o povoado da tia, estava a uma distancia considerável, motivo pelo qual
tiveram que passar a noite na casa de alguns amigos, os quais nunca haviam visto
Nirmala. As mulheres estavam loucas de alegria e consideraram que, numa data tão
auspiciosa, Nirmala era a Deusa em pessoa que vinha vê-las. Deram-lhe roupas novas e
diferentes presentes, a trataram como alguém de grande importância e, na manhã
seguinte, não queriam que ela partisse.
26

A Menina Noiva da Casa de Sri Revati Mohan

Logo após fazer 13 anos, acabaram-se os dias despreocupados da infância de


Nirmala, já que fizeram um acordo para casá-la com Ramani Mohan Chakravarti, de
Atpara, cujo pai já era velho e não tinha boa saúde. Em seu nome, seu genro mais velho,
Sitanath Keshari, foi até Kheora para ver Nirmala e acertar os detalhes. Assim, era ele
quem encabeçava o grupo do noivo quando todos chegaram para a cerimônia, em 07 de
Fevereiro de 1909. Foram recebidos em Kasba e os levaram até o povoado da noiva,
formando uma procissão festiva. No sistema hindu, o matrimonio acertado é uma
questão na qual se envolvem as famílias de ambos os lados. Na verdade, não só se
envolvem as famílias como também os vizinhos. Vieram os tios de Nirmala de
Sultanpur e Vidiakut. Seu Sonamama (o tio mais jovem de Sultanpur), que gostava
muito dela, lhe deu, na cerimônia, alguns presentes muito caros.

Todo o povoado de Kheora participou dos festejos. No momento da cerimônia,


Lakshimi Charan Bhattacharia, um dos mais velhos do grupo, disse ao noivo: “Meu
filho, você não sabe que tesouro vai levar para casa hoje!”

Enquanto o grupo da noiva regressava à Atpara, depois da boda, teve lugar um


destes incidentes que constituiria uma das características recorrentes da vida de Sri Ma.
Ao chegar à estação ferroviária de Kasba, todos acompanharam a noiva até um
compartimento do trem onde ela se sentou tranqüilamente, rodeada por uma montanha
de bagagens. De repente, descobriram que eles teriam que mudar de compartimento e,
além do mais, rapidamente, pois o trem estava a ponto de partir. Sitanath Keshari pediu
a Nirmala que se descesse e começou a retirar as bagagens, momento em que se deparou
com aquela menininha tão magra, vestida para bodas, que se dispôs a ajudá-lo, graças
ao que conseguiram retirar e recolocar todas as malas num novo compartimento num
brevíssimo espaço de tempo. Para Nirmala era sua primeira viagem de trem. Ainda que
nunca tivesse visto um antes, percebeu a situação instantaneamente e começou a se
mover na velocidade do raio, ou ao menos foi o que pareceu a Sitanath Keshari, o qual,
ao longo dos anos, relatava este acontecimento como a primeira ocasião na qual ficou
impressionado pelo pouco comum que era esta sua jovem cunhada. Durante toda sua
vida foi devoto dela, à qual considerava uma manifestação da divina Shakti. Sua neta
Maroni foi criada na casa de Sri Ma e Sri Ramani Mohan a adotou como sua própria
filha.

Dashu, o irmão de Marini não necessita de apresentações para a família de


devotos e admiradores de Sri Ma. No entanto, pode ser que as pessoas não saibam que é
o neto de Sitanath Keshari.
27

O costume estabelece que, uma vez concluídas todas as cerimônias nupciais, a


menina noiva deve permanecer na casa de seus pais. Assim, depois de todo o povoado
de Atpara haver se reunido para acolher e celebrar a chegada da noiva a seu novo lar,
Nirmala regressou a Kheora, onde viveu com seus pais mais oito anos e meio. Como
Ramani Mohan havia sido informado de que sua prometida estudava na Escola Primaria
da localidade, decidiu lhe escrever uma carta, o que foi todo um acontecimento no
povoado. Mokshada Devi pôs a carta num lugar bem visível, para que Nirmala pudesse
encontrá-la facilmente e então pega-la para ler a sós, sem nenhuma timidez. No entanto,
Nirmala não deu importância nenhuma e, como ninguém lhe havia dito para pegar a
carta, não a pegou. Ao final, Mokshada Devi pediu ajuda para as amigas de Nirmala, as
quais pegaram a carta de bom grado e não só a abriram e leram, como uniram seus
esforços para redigir uma resposta. Nirmala copiou a resposta respeitosa e cortês e a
enviou a Ramani Mohan.

Quando se casou, Ramani Mohan trabalhava no Departamento de Polícia de seu


povoado, mas, pouco depois, perdeu seu emprego. Muitos anos depois, falando das
diferentes profissões dos homens, Sri Ma disse que havia algumas que incrementavam
facilmente o peso do carma, que era difícil vigiar o comportamento dos demais seres
humanos sem dar expressão às qualidades mais grosseiras da natureza humana e que os
médicos e advogados também ganhavam seu soldo à custa do sofrimento dos demais.
Com isto não queria minimizar o importante aspecto que tem ditas profissões de ajudar
os que necessitam, mas sim queria dizer que estes homens correm muito mais risco do
que, digamos, aqueles que se dedicam a lecionar.

É possível que, portanto, depois de casar-se com Nirmala, Ramani Mohan não
pudesse haver continuado seu trabalho. Passou certo tempo desempregado. Partiu de seu
povoado e se dirigiu em busca de trabalho a Dacca, onde se alojou na casa de sua irmã e
seu cunhado Rajendra Keshari, fazendo coisas aqui e ali até encontrar trabalho fixo no
departamento de assentamentos residenciais do Nawab de Dacca, em Ashtagram (1913),
quase quatro anos depois de haver se casado.

Surendra Mohan, o irmão que o precedia, também se casou por esta mesma data
e sua noiva Prafulá e Nirmala eram quase da mesma idade. Á ambas as jovens, estava se
aproximando o momento de se mudarem a seus novos lares. Revati Mohan, o irmão
mais velho de Ramani Mohan, era agora o chefe de família, pois seu pai havia falecido
depois das bodas de seus irmãos e a mãe já havia deixado este mundo há muito tempo.

Revati Mohan tinha outros dois irmãos: Kamini Kumar e Jamini Kumar. Kamini
Kumar havia partido do povoado e ninguém sabia onde ele se encontrava. Havia
rumores de que ele havia se convertido ao cristianismo. Naquela época Jamini Kumar
era ainda menino. Além das duas irmãs já mencionadas, tinha mais três. A razão pela
qual mencionamos todos estes nomes é que, anos mais tarde, em Dacca, Sri Ma acudiu
a toda esta grande família, que estava espalhada pelo país, e inclusive convidou a irmã
mais nova, a quem os demais estavam sem ver a 19 anos. O irmão que se havia
convertido ao cristianismo e que havia se tornado clérigo, o Reverendo K.K.
Chakravati, também veio, com sua mulher que não era bengali, para reunir-se com seus
irmãos e conhecer à suas famílias. Seu irmão e Sri Ma se alojaram muitas vezes em sua
residência, em Calcutá.
28

Tudo isto aconteceu quando Sri Ma já se havia revelado como centro das
atenções, não só desta grande família, mas também de outra, da multidão de devotos,
em constante crescimento. Durante uma temporada, ela e Prafulá se hospedaram na casa
de Revati Mohan e sua mulher Pramoda Devi, em Sripur, cidade a que havia sido
destinado como chefe de estação da linha ferroviária Dacca-Jaganathganj.

Pramoda Devi estava satisfeita por suas jovens cunhadas. Prafulá se converteu
em Mezdi (segunda irmã) para Nirmala, porque era esposa do segundo irmão, mas um
pouco mais jovem do que ela. Por sua vez, Nirmala era Sezdi (terceira irmã) para
Prafulá e foi assim que Pramoda Devi resolveu o problema da idade e do protocolo.
Mokshada Devi, a mãe de Nirmala, havia estado um pouco preocupada se sua filha iria
ser capaz de enfrentar esta nova situação que havia sido obrigada a aceitar de uma hora
para outra, ao chegar a Sripur, em 1910, procedente de Kheora, acompanhada por seu
pai. Mas foi desnecessário preocupar-se, já que Nirmala demonstrou ser muito mais do
que adequada. Da mesma forma que havia sido uma menina obediente e alegre, também
era agora uma jovem bem educada, trabalhadora e risonha. Ainda que a jornada de
trabalho fosse extensa e árdua, demonstrou também neste caso possuir todas as
qualidades que constituem os ingredientes de uma família unida e feliz. Encarregou-se
da comida, porque todos a preferiam na cozinha do que a Prafulá e inclusive a Pramoda
Devi. Não havia mal-entendidos sobre a forma de repartir o trabalho ou as
responsabilidades. De qualquer maneira, as crianças da casa, Kalipada em primeiro
lugar e mais adiante Labania e Ashu, estavam tão unidas a Nirmala que ela teve,
automaticamente, a obrigação de criá-los.

Existem muitas histórias sobre a convivência com Revati Mohan e sua esposa.
Nos lares conservadores, a tradição pede que as jovens, quando se encontram na
presença dos mais velhos da casa, passem a extremidade do sári por cima da cabeça,
cobrindo o rosto como se fosse com um véu. Antes de ir para Atpara, ou depois a
Sripur, sua mãe lhe havia ensinado que era isso que ela deveria fazer. Geralmente, as
jovens não cumprem esta regra ao pé da letra e levantam o véu sempre que se sentem
incomodadas, mas os mais velhos desta casa não contavam que Sri Ma fosse obedecer
às regras de conduta com tanto esmero. Ao cobrir o rosto, seu campo de vista se via
reduzido a uns poucos centímetros de chão ao redor dos seus pés e assim seus
movimentos ficavam gravemente limitados. Além disso, tinham que explicar-lhe com
detalhes sobre ao que se referiam ordens como “pegue isto” ou “leve-o para lá”, já que
ela não podia ver os gestos indicativos. Tal como já havia acontecido durante sua
infância, os mais velhos ficavam um pouco exasperados com sua escrupulosa
obediência, mas a irritação se converteu em tolerância quando perceberam que a atitude
obediente da jovem esposa era espontânea e sincera e que não se tratava de uma atitude
de resistência passiva à autoridade.

Aqueles que puderam ver Sri Ma fazendo serviços do lar sempre comentavam o
quão precisos e rápidos eram seus movimentos. Era como se pudesse fazer muitas
coisas em pouco tempo. Depois de cozinhar ou servir a comida, deixava tudo em ordem
e não vacilava em realizar as tarefas do servente Antu quando este se encontrava
ausente por alguma razão. Nenhuma tarefa lhe parecia pesada. De fato, segundo os
parâmetros da nossa época com respeito ao trabalho no lar, a exploravam. Ainda que
não se devesse colocar culpa em sua cunhada, já que Sri Ma jamais perdeu sua
expressão de tranquilidade nem havia rumores de que se queixava dela.
29

Com o passar do tempo, Revati Mohan e Pramoda Devi acabaram amando-a


como a uma filha. Dá-nos uma idéia o interesse e a compaixão de Sri Ma, por todos
aqueles que se aproximavam dela, alguns incidentes estranhos como o seguinte: em
certa ocasião, Pramoda Devi teve uma enfermidade cutânea e, às vezes, pedia a Nirmala
que lhe untasse as feridas com seus dedos suaves e delicados. Prafulá se deu conta de
que ela não lavava as mãos logo após acabar, mas sim só algum tempo depois, como
costumava fazer antes de começar alguma tarefa do lar. Questionada sobre isto, Nirmala
respondeu: “É que desta forma ela não se sente mal por pedir-me que lhe unte as
feridas. De outro modo ela não voltaria a pedir que o fizesse.”

Uma das irmãs de Ramani Mohan, Matori, foi viver em sua casa durante uma
temporada e, tendo quase a mesma idade de Nirmala, estabeleceu com ela uma amizade
que durou até sua morte, quase quarenta anos depois, em Benares. Matori Pishira (Tia
Matori) era uma mulher pequena e entusiasmada, de olhos brilhantes e que às vezes lhe
propunha alguma travessura, como degustar todas as conservas e chatnis [forte
condimento agridoce, à base de frutas, especiarias e ervas] da despensa, enquanto sua
cunhada tirava um cochilo à tarde. Mas até este tipo de brincadeiras inocentes acabavam
sendo estranhas ao temperamento de Sri Ma e, apesar de que, ao ser ela a mais alta das
duas, foi quem alcançou o pote, jamais se aproveitou da situação para comer ditos
condimentos.

Ainda que todos nós tenhamos ouvidos histórias sobre o intenso período de
trabalho caseiro que Sri Ma enfrentou depois de casar-se, uma vez tivemos a
oportunidade de escutar um relato na voz da pessoa mais diretamente implicada. Em
1948 Sri Ma estava em Calcutá, para a celebração do Durga Puja e o Ashram de Ekdalia
Road estava cheio até o teto. Sri Ma tinha mil e uma coisas para fazer, motivo pelo qual
só conseguimos vê-la de relance, ao longe. Algumas de nós estávam alojadas na sala
grande, num local reservado para uma senhora muito mais velha, à qual as pessoas do
Ashram davam um tratamento VIP sem que nós soubéssemos.

Uma noite, já bastante tarde, depois que já haviam partido todos os visitantes e o
Ashram havia se acalmado, Sri Ma saiu silenciosamente de seu quarto e, seguida por
uma ou duas pessoas, se aproximou da cama da senhora mais velha e a despertou com
delicadeza. Sri Ma sentou-se perto dela, pegou-lhe as mãos e conversou com ela
alegremente, num dialeto de povoado que mal podíamos entender. Disseram-nos que
aquela senhora era Pramoda Devi, a cunhada de Sri Ma, em cuja casa ela havia vivido
durante quatro anos, depois de partir de Kheora. As circunstâncias haviam mudado
muito mais do que Pramoda Devi jamais poderia ter imaginado. Até aquele momento
não havia tido a oportunidade de aproximar-se de Sri Ma, porque ela estava sempre
rodeada de uma enorme quantidade de devotos. Ainda que, no princípio, ficasse
surpresa, Pramoda Devi recuperou a confiança rapidamente e começou a alegrar-se.

Apesar de que, no começo de sua estada, havia achado que lhe seria impossível
trocar umas poucas palavras com sua cunhada mais nova, nesse momento pareceu
reconhecer na augusta personalidade daqueles dias à sua querida menina, que a havia
servido tão fielmente no passado. Alegrou-se especialmente ao ver que Sri Ma
recordava bem aqueles tempos, de alguns incidentes divertidos e de muitos amigos
perdidos. Era muito divertido escutar Sri Ma falando naquele dialeto interiorano e as
risadas hilariantes dos que estavam acordados despertaram rapidamente os que estavam
dormindo, pelo que a sala se encheu de mulheres. Sri Ma olhou sua cunhada e lhe disse:
30

“Veja, todas essas mulheres acreditam que são boas donas de casa. Diga-lhes se
você está ou não satisfeita de como cuidava eu da tua casa.” Pareceu que Pramoda Devi
considerava seriamente a pergunta, depois do que, deu a seguinte resposta: “Vocês não
podem imaginar o quão doce e boa ela era. Não somente fazia todo meu trabalho, mas
tenho que reconhecer que ela jamais me deu motivo de queixa em todos os anos que
viveu comigo. Não é nada comum que alguém tenha semelhante espírito de serviço
(seva-bhava).”

Para mim (a autora) o que parecia ainda mais maravilhoso do que este
testemunho espontâneo foi a expressão de satisfação de Sri Ma. Estava realmente
encantada de que a reconheciam e apreciavam seus serviços.

Mas regressemos à narrativa. Ramani Mohan fazia uma visita, de vez em


quando, e trazia uns poucos e simples presentes para seus sobrinhos, sobrinhas e esposa.
Num desses momentos que se sentiu inspirada para recordar, Sri Ma nos relatou esta
encantadora história, que se encaixa perfeitamente com seu agudo senso de humor:
“Bholanath (este era o nome que Sri Ma deu a Ramani Mohan, anos mais tarde)
costumava trazer um ou dois livros fáceis e, uma vez, me pediu que eu lesse em voz
alta. Depois de haver lido um par de passagens em meu típico estilo entrecortado, ele
me disse: “Assim não dá!”, virando-se para o lado enquanto murmurava para si mesmo:
“não há dúvidas de que não terminou o primário.”

As relações de Sri Ma com todo mundo eram como uma canção com letra
carinhosa. Os vizinhos se encantavam em poder acolhê-la quando ela tinha um
momento de descanso e, durante estas visitas, Sri Ma aprendeu uma grande quantidade
de trabalhos de artesanato, tais como trabalhar com fibra de coco, fiar, etc. Um dos
subchefes da estação era um oficial muçulmano, cuja irmã se tornou amiga de Sri Ma.
Esta recorda que ambas conversavam amistosamente sobre convicções religiosas, sem
chegar a temas conflitantes e, desde logo, não parecia que tinham credos diferentes.

Nestes anos Sri Ma ia às vezes a Kheora e, acompanhada de suas irmãs e irmãos,


se dedicava a visitar todas as casas do povoado. Numa das casas muçulmanas, um dos
anciões da família lhe pediu que o deixasse ver sua nova pulseira de ouro, para o qual a
retirou imediatamente e a deu. Ele ficou com a pulseira todo o tempo e, quando chegou
a hora de ir embora, Sri Ma se levantou sem fazer menção ao bracelete. Então ele a
devolveu e lhe disse: “Realmente é estranho que você seja uma moça tão esquecida. E
se eu não a tivesse devolvido?” Sri Ma sorriu sem dar a sensação de haver notado nada
impróprio. Aquele cavalheiro jamais soube que era típico dela essa atitude de desapego
para com suas supostas “posses”. Nos anos seguintes se dedicou a distribuir os caros
presentes que lhe davam os que tinham meios, com a mesma generosidade com que
dava flores, frutas e doces.
31

Como já mencionamos anteriormente, em 1913 Bholanath conseguiu trabalho


fixo em Ashragram, com o que já estava em condições de levar consigo a Sri Ma, pela
primeira vez, para que cuidasse da casa. Enquanto isso, muitas mudanças haviam
acontecido em ambos os lares. Os pais de Sri Ma haviam vendido seu terreno em
Kheora e haviam regressado a Vidiakut, seu próprio povoado, com Makhani, seu último
filho. As outras duas irmãs já se haviam casado. Revati Mohan estava doente e
Bholanath o levou a Dacca para ser tratado por um médico. Recuperou-se durante um
tempo e, depois de descansar em Atpara, regressou a seu posto em Narundi, mas teve
uma recaída e faleceu em 1913. Sua família regressou a Atpara. Sri Ma os acompanhou
e, após uns seis meses, partiu para a casa de seus pais, em Vidiakut, onde viveu quase
um ano. Depois da boda, era a primeira vez que Bholanath ia a Vidiakut e foi ele
pessoalmente quem levou Sri Ma para a nova casa que havia alugado em Ashtagram.

Os Opostos Se Juntam: O Trabalho do Lar em Mahabhava

No mês de Maio (princípios de Junho) de 1914, Sri Ma e Bholanath se mudaram


de Vidiakut para Ashtagram e se alojaram num dos quartos da grande casa de
Jaishankar Sem, cuja esposa, uma anciã que constituía uma figura de mãe para todas as
jovens do bairro, converteu-se automaticamente em Mashima (tia) para Sri Ma. Nesta
mesma casa também ocupavam uns quartos, junto com suas esposas, Madhu Babu, um
companheiro de trabalho de Bholanath e Ksetramohan, um amigo. Todas essas pessoas
foram testemunhas presenciais dos primeiros bhavas sátvicos que começaram a se
manifestar no corpo de Sri Ma. Como naquela época a esposa de Ksetramohan não vivia
em Ashtagram, ele lhe escreveu: “Ramani Babu trouxe sua mulher, a qual tem uma aura
de luminosidade ao seu redor que é extraordinária. É como a chama que resplandece
dentro de uma lâmpada.”

Para começar, Sri Ma fascinava a todos os vizinhos com seu sorriso radiante e
seu porte alegre. A mulher de Jaishankar Sem a chamava Khushir (a contente), que era
um dos apelidos de quando ela era criança e assim era como todo mundo a conhecia no
povoado de Ashtagram. Em pouco tempo, todas as vizinhas começaram a admirar o
quão limpos e ordenados ela mantinha os quartos, sua grande habilidade na cozinha e
seu exemplar espírito de serviço a Bholanath. Sri Ma cumpria escrupulosamente todas
as regras de conduta que existiam nos povoados. Sua simplicidade e franqueza ingênuas
inspiravam carinho e impediam qualquer tipo de fofoca ou conversação inútil.

Kushir Ma sempre separava uma porção da ração do arroz que cozinhava a cada
dia. Quando o arroz que ia acumulando desta forma atingia uns dez sirs
(aproximadamente nove quilos) pedia o equivalente em dinheiro a Bholanath, o qual ela
reservava para fins religiosos, como comprar frutas e doces para os templos ou para
esmolas. Em sua parte do jardim plantou um arbusto tulsi [planta sagrada dos indianos,
consagrada a Vishnú] do qual cuidava com grande esmero.
32

A tendência de Sri Ma de se identificar com os elementos foi se intensificando e,


da mesma forma que havia acontecido anteriormente, as testemunhas oculares
confundiam ditos estados com “ataques de sonho” ou simplesmente cismas. Em
Ashtagram havia um grande lago que, durante a estação das chuvas, parecia quase um
oceano, porque não se podia ver a outra margem. Um dia Bholanath e alguns dos seus
amigos com as respectivas esposas saíram para passear de barco. Sri Ma comentava,
com respeito a esse acontecimento: “Era a primeira vez que eu vi o mar e era como se
toda aquela imensa superfície de água fosse meu próprio ser. Veio-me um kheyal de
integrar-me com ela. Às vezes as pessoas presentes podiam ver estes repentinos
impulsos de movimentos até o ilimitado, como quem vê um clarão de luz. Mas, para
que as pessoas não me vissem naquele estado, naquele momento, me cobri com o xale e
me deitei no barco. Ao dar-se conta disso Madhu Babu disse: “A senhora tem sono.”
Uma das pessoas presentes lhe perguntou: “Por que lhe aconteciam coisas
sobrenaturais?”Sri Ma respondeu, sorrindo: “Para este corpo não há diferença entre o
que você chama natural e o que se poderia considerar sobrenatural.”

Sri Ma também comentou que, apesar de sua tendência a esconder-se, muita


gente se dava conta de que ela caía absorta diante das imagens dos templos ou em
outros lugares de culto, ainda que nenhuma destas chispas procedentes de uma fonte
latente e incomensurável de shakti, por assim dizer, preocupavam a seus amigos dado
que, em geral, a conduta de Sri Ma continuava sendo tão normal e amistosa como
sempre.

Os habitantes de Ashtagram tinham que enfrentar ciclones repentinos, durante


um dos quais Bholanath e sua esposa tiveram que mudar-se para um local mais seguro.
Depois de alguns dias voltaram a seu lar e Bholanath começou a reparar os problemas
da casa. O ciclone havia lançado pelos ares as esteiras que usavam de tapume, mas
umas poucas jaziam esparramadas pelos arredores. Ao recolhê-las, Sri Ma se deu conta
de que na terra debaixo delas não havia uma temida erva daninha que era o pesadelo
eterno das pessoas de Ashtagram, já que crescia com grande rapidez, desafiando
qualquer tipo de controle, invadindo os caminhos e os pátios. Sri Ma recolheu então
todas as esteiras e as estendeu pelo pátio. Foi providencial. Este acontecimento
conduziu a outros. Era costume em Ashtagram cantar kirtans nas casas, de vez em
quando, nos quais se reuniam todos os vizinhos e aos quais, às vezes, compareciam
grupos organizados, que eram convidados a participar dos cânticos.

Bholanath também decidiu organizar um kirtan em seu pátio e Sri Ma sentou-se


com a esposa de Madhu Babu, que estava sempre doente. Recordando o acontecido, Sri
Ma comentou: “Eu estava sentada em sua cama e olhava pelos buracos do tapume o
grupo que cantava kirtan. De repente, vi que toda a casa se iluminava com uma luz
brilhante e que este grupo estava no centro do kirtan, misturado com o resplendor e o
júbilo. Nesse momento meu corpo deslizou pela cama e caiu no chão, rodou um pouco e
então caiu inerte, mas eu não estava inconsciente. Ouvi a enferma pedindo ajuda aos
gritos. Foram buscar Bholanath e lhe disseram que Khushi Ma havia tido um ataque.
Jogaram-me água no rosto e me puseram sentada. Bholanath me ajudou a caminhar até
meu quarto. Quando me perguntou o que me acontecia, lhe expliquei, resumidamente, o
verdadeiro estado da minha consciência. Esta foi a primeira vez que vi como uma
pessoa pode ser afetada pelo som da música devocional.”
33

Este fenômeno se repetiu com maior intensidade quando Gagan Rai, famoso
cantor e sadhu, conhecido e respeitado por todo mundo, foi cantar kirtans para eles.
Bholanath o havia convidado, junto com seus companheiros, para comer em sua casa,
após o kirtan. Depois de cozinhar, Sri Ma saiu para sentar-se com as demais mulheres
que haviam se reunido para escutar o canto. O kirtan começou com o crepúsculo e, em
seguida, escureceu. Ao terminar o canto, as mulheres se foram, uma a uma e, como não
havia luz no local, nenhuma delas se deu conta de que o corpo de Sri Ma jazia inerte no
solo, em samadhi. Só ficara uma anciã, cujo neto havia dormido. Quando Bholanath viu
que ela não estava em casa, começou a procurá-la. A anciã chamou então a Bholanath e
aos demais e lhes disse que Khushi Ma estava caída no chão, perto dela. Mas desta vez
não havia modo de desperta-la e Bholanath, com a ajuda de mais alguns, a transportou
até seu quarto e a deitou. Enquanto isso, alguns cachorros entraram na sala e estragaram
toda a comida. Ainda que Bholanath estivesse transtornado, primeiro teve que buscar
uma solução para que seus convidados fossem convenientemente alimentados. Quando
todo mundo havia terminado de comer e estavam se despedindo, já estava quase
amanhecendo. Sri Ma continuava caída na mesma posição, sem dar nenhum sinal de
reanimação. Tinha o corpo rodeado por um resplendor tal que ninguém poderia
confundir este estado com um ataque de histeria, um desmaio e nem com a morte. Ao
redor dela havia uma atmosfera sublime que impregnava até o local onde se havia
cantado o kirtan. Todos os que haviam ajudado a transportar seu corpo inerte sentiram
uma benção inefável e pareciam transportados a outro mundo. Bholanath, no entanto,
estava desesperado, sem saber o que fazer para que Sri Ma regressasse ao seu estado
normal. Apesar de tudo, o estado normal de Sri Ma era o melhor e o mais enternecedor
que alguém poderia ver. Os seres humanos não podem suportar muito tempo a
majestade ou a glória da Presença Divina. Quiçá seja conveniente assinalar aqui que,
por mais exaltados que fossem seus estados de samadhi, os que acompanhavam Sri Ma
sempre respiravam aliviados quando o traço do seu inimitável sorriso voltava a dissipar
esta situação fora do comum e confirmava o regresso à normalidade. Ocorreu a alguém
a idéia de voltar a cantar outro kirtan. Mandaram buscar Ganga Rai no povoado vizinho
e este ficou angustiado ao ver que Sri Ma havia entrado num samadhi aparentemente
induzido por seu canto. Lamentou não haver sido notificado a respeito na noite anterior.
Voltou a cantar com todo o coração as canções com as quais havia começado na noite
anterior. Para ele, aquela situação indicava que havia se tornado realidade seus esforços
de evocar a presença dos príncipes do sankirtan, Sri Gaur e Sri Nitai. Soube reconhecer
em Sri Ma os lakshanas [sintomas, indicações] dos mahabhavas [transformações
induzidas por um elevado estado de consciência do jogo divino da shakti, possível
somente em corpos imaculados e de pureza prístina] que se descrevem na literatura
vaisnava. Inclinou-se diante dela quando, depois de quase quinze horas, saiu de seu
samadhi. Então, quando acabou o kirtan, voltou a ser a hora do crepúsculo.

Todo o povoado sentiu a influência do ambiente espiritual, mas, como sempre,


Sri Ma dizimou qualquer intento de elevá-la acima do normal. Uma vez mais era a
simpática jovem que não reclamava nenhum tratamento especial por seu estado de
samadhi. Em outras ocasiões, quando sentia os primeiros indícios do mahabhava,
regressava rapidamente ao seu quarto e se fechava nele. Não obstante, correu o rumor
de que Khushir Ma tinha ataques, o que chegou aos ouvidos dos seus pais, em Vidiakut,
os quais escreveram uma carta cheia de angústia. Já desde o princípio Bholanath
demonstrou ser digno da posição tão crucial que estava predestinado a ocupar. Em sua
carta de resposta lhes explicou que sua filha estava perfeitamente bem e que não havia
porque preocupar-se por ela.
34

Desde os primeiros dias de sua convivência, sua fé na integridade e numa


espécie de divindade etérea de Sri Ma permaneceu inalterável e imóvel, apesar das
muitas vicissitudes que algumas vezes ameaçaram arruiná-lo.

Havia outra pessoa em Ashtagram que teve o privilégio de poder atravessar o


véu do anonimato com o qual Sri Ma se envolvia. Tratava-se de Harakumar, o irmão de
Srimati Sem que, naqueles dias, vivia na casa de sua irmã. Era um homem culto e com
um bom emprego, mas, algumas vezes, sentia-se transportado pelo fervor religioso e,
durante estes períodos, lhe era impossível trabalhar com normalidade. A mãe de
Harakumar havia falecido no quarto que haviam dado a Bholanath e Sri Ma quando
chegaram a Ashtagram. Não se sabe se por esta razão ou se por outra que
desconhecemos, ele se prostrou diante de Sri Ma e se dirigiu a ela como “Mãe”. Sempre
buscava alguma ocasião para poder ser-lhe útil em algo e ficava louco de alegria quando
percebia algum sinal de que ela ficava agradecida. Em Ashtagram prevaleciam os
costumes interioranos e o normal era que Sri Ma não falasse com homens que não
fossem membros da família ou amigos muito íntimos de Bholanath. Mas este acolheu
com carinho a Harakumar e lhe deu o privilégio de formar parte de sua família.
Harakumar costumava comentar-lhe: “Agora só eu te chamo Mãe, mas chegará o dia em
que o mundo inteiro a conhecerá e a chamará assim.” Devemos recordar que, neste
contexto, a profecia de Harakumar foi a segunda deste tipo, já que a primeira havia sido
dita quando Sri Ma ainda era criança.

Sri Ma se indispôs ligeiramente em Ashtagram durante algum tempo e, enquanto


isso, Bholanath se encarregou de fazer a comida e de cuidar de sua esposa o melhor que
podia. Sri Ma se recuperou muito rápido e retomou sua alegre forma de vida.

Quando não tinha nada para fazer, Sri Ma passava muitas horas em seu quarto,
sem fazer nada. Às vezes se sentava em silêncio e se observava repetindo “Haribol”,
termo que se utiliza nos kirtans como estribilho ou ao final. Para Sri Ma essa palavra
vinha como uma ressonância, uma dhvani. Em pouco tempo passou dos lábios e língua
para fundir-se com o alento ao inspirar e espirar, para dentro e para fora, em círculos
cada vez maiores, até atingir um horizonte incomensurável.

Uma noite, ao acabar as tarefas do dia e quando Bholanath já se havia deitado,


Sri Ma lhe disse: “Vou ficar sentada um pouco, enquanto você dorme.” Bholanath
concordou e Sri Ma ficou sentada, repetindo a palavra sagrada. Notou que as
extremidades do seu corpo se colocavam por si só numa postura yóguica que, muito
mais adiante, descobriu que se chamava siddhasana. Interiormente, havia uma sensação
de felicidade. Cada dia tinha novas experiências. Seu corpo experimentava outras
transformações: às vezes se tornava pesado e inerte, outras muito rápido, como se não
tivesse contato com o solo. Uma vez, enquanto tinha a sensação de possuir uma força
extraordinária, sua mão recaiu acidentalmente sobre Bholanath, que estava dormindo ao
seu lado. Este despertou sobressaltado e, na escuridão, acreditou que era a mão de um
homem. Agarrou-a com força e gritou: “Ladrão, ladrão!” Ao dar-se conta do seu erro,
sentiu-se desconcertado, mas Sri Ma o convenceu de que voltasse a dormir.
35

No outro dia Sri Ma observou que seu corpo se colocava em padmasana.


Colocou-se com a espádua reta, sentiu um tremor perto da base da coluna vertebral, a
qual, ao som de um zunido ligeiramente rítmico, ficou bloqueada em posição vertical,
zona por zona. Surgiu-lhe o kheyal de que aquilo se parecia ao que havia visto uma vez
em Narundi, quando estavam recolocando sobre as vias, peça por peça, um trem que
havia descarrilado, produzindo um ruído rítmico. Isto o descreveu mediante outra
imagem, a de ir colocando jarras cada vez menores, uma sobre a outra, todas apoiadas
sobre uma jarra grande, até que a última ficasse erguida como o capitel de um templo.
Teve a visão de que, em cada centro, havia um racimo de nervos com aspecto de flor de
lótus aberta. Comentou que, nesse momento, tinha uma sensação de sublime liberdade e
relaxamento. De fato, o corpo constituía uma ajuda, mais do que um obstáculo para
meditar e para o nama japa. Dentro de si sentia um poder tremendo. Mas, de repente, ao
pensar que era muito tarde e que devia ir dormir imediatamente, foi como se todo o
fenômeno se desconectasse. Sri Ma recostou-se e dormiu.

De vez em quando Sri Ma descrevia muitas experiências deste tipo, as quais,


dada a amplitude e variedade, necessitariam de uma compilação exaustiva. Ademais, ela
também disse que não havia revelado nem a centésima parte da totalidade de suas
aventuras espirituais. No entanto, suas descrições dão claramente a entender que era
consciente do que se estava produzindo e que não estava impotente, a mercê das ondas
desta lila espiritual da shakti.

Bholanath (Ramani Mohan) e Sri Ma

Bholanath sabia que Sri Ma era uma jovem amigável, escrupulosamente sincera
e inquestionavelmente obediente aos mais velhos. Sua mãe lhe havia dito que devia
respeitar e obedecer a Bholanath como havia obedecido ela e a seu pai, o qual foi a
chave de sua atitude para com Bholanath. Enquanto ele viveu, Sri Ma jamais fez nada
sem sua permissão ou consentimento prévio. Por sua parte, ele aprendeu a respeitar os
kheyalas de Sri Ma e raramente se opunha a eles ou, ao menos, não era por muito
tempo.

Quando Sri Ma mudou para Ashtagram para tomar conta da casa, um dia ele
perguntou, por curiosidade, se em algum momento ela havia sentido o menor desejo de
ter notícias dele. Esta questão apareceu porque, ainda que todas suas cartas houvessem
sido respondidas escrupulosamente, ele havia suposto acertadamente que seus pais as
haviam ditado, se as tivesse escrito desde Kheora, ou Pramoda Devi, se se encontrava
em Narundi ou Sripur. Sri Ma lhe respondeu que não, que jamais havia tido o kheyal de
pensar nele. Mas Bholanath insistiu: “Se eu partir, se ficar doente ou inclusive se morro,
você não pensaria em mim em absoluto?” ao que Sri Ma respondeu: “Por que você se
preocupa? Por acaso isto mudaria alguma coisa?” Bholanath não se sentiu ofendido nem
triste por esta atitude tão equânime e, com certo assombro, lhe disse: “Você é inocente
como uma criança. Tudo ficará bem quando você crescer.” Ao recordar este fato, Sri
Ma acrescentou, com um sorriso: “Pelo que parece, ainda não devo ter crescido.”
36

Num outro momento, de maior seriedade, ao recordar o começo de sua vida com
Bholanath, Sri Ma comentou: “Depois de tudo, este corpo lhe havia sido entregue para
que fizesse com ele o que quisesse. Mas ele viu que este corpo rechaçava inclusive
qualquer intenção de pensamento mundano. A menor mudança de sua atitude em
relação a este corpo costumava provocar sintomas mortais, que o assustavam e
imediatamente ele começava a fazer nama-japa, para recobrar o seu estado normal. Sua
conduta sempre foi exemplar e estava completamente dedicado ao meu bem-estar.”

O fato de haver estado tão perto de uma presença de pureza luminosa, de forma
continuada, deve ter metamorfoseado completamente todo o ser de Bholanath, ainda
que esta afirmação possa não ser de todo correta, porque ninguém mais poderia haver
ocupado este posto de guardião, de baluarte de Sri Ma durante seus anos de dona de
casa e de sua lila de sadhana. É evidente que ele foi a pessoa escolhida para um trabalho
de tamanha responsabilidade, a qual desempenhou com facilidade, graça e eficácia até o
momento de sua morte, em 1938.

Quanto a esta questão do porque Sri Ma rechaçou o legítimo âmbito de desfrute


do matrimônio, uma vez ela deu esta crucial resposta: “Para este corpo não existe a
questão do desfrute ou do rechaço. Tudo o que acontece a ele é necessário para vocês.
Quem sabe este aspecto não seja tão necessário (para os seres humanos).”

Podemos ler nestas palavras uma nova interpretação sobre em que consiste um
ser humano? Todas suas outras vanis derivam estreitamente deste supremo estado
desapaixonado na vida, como por exemplo: “A única e verdadeira obrigação do homem
é ocupar-se de recordar a Deus.”

Depois de um período de quase quatro anos em Ashtagram, Bholanath foi


transferido para Bajtpur, mas, antes de assumir seu novo posto, ambos decidiram passar
brevemente por Vidiakut. Madhu Baba e sua esposa queriam muito bem a Bholanath e a
Sri Ma e os convidaram para que fossem com eles numa viagem de barco. No meio do
rio foram abordados por outro barco maior, que lhes pediu lenha. A Bholanath e a
Madhu Baba, haviam prevenido que havia salteadores nesta parte do rio, motivo pelo
qual eles pediram aos remadores que acelerassem a marcha, para conseguirem se afastar
do barco que os seguia. Estavam com o barco carregado de coisas, pois ambas as
famílias estavam de mudança e, como era usual naqueles dias, as mulheres levavam
uma grande quantidade de avelórios. Estava caindo a tarde e começou a relampejar.
Logo escureceu, mas o barco grande os perseguia com rapidez. Sri Ma sugeriu a
Bholanath que ele pedisse aos remadores que entrassem por um canal estreito, que mal
podia ser visto na escuridão. Assim o fizeram e, remando com precaução, chegaram a
um povoado de pescadores. Era evidente que o barco grande os havia perdido de vista.
Os pescadores lhes disseram que haviam escapado por pouco, pois estava claro que os
que os perseguiam eram salteadores. Passaram a noite naquele povoado e, na manhã
seguinte, chegaram a Vidiakut.
37

Vidiakut

Fizeram uma festa para Madhu Baba e sua família e depois Bholanath e Sri Ma
despediram-se carinhosamente deles, desejando-lhes boa viagem até seu povoado. Sri
Ma começou a divertir-se com suas primas e companheiras e também se dedicou a
visitar seus tios, tias, avôs e avós que abundavam por todo povoado, assim como os
vizinhos, que esperavam sua chegada com emoção. Os mais velhos se maravilhavam
com sua forma de brincar com as crianças: “Parece mentira que já seja uma mulher. É
como uma menina.” Em Vidiakut, Sri Ma não fez suas práticas de nama-japa nem de
meditação e assim, naquela época, Bholanath era o único que sabia de suas kryias
yóguicas.

Todo o povoado de Vidiakut se vestiu de festa com a chegada de sua querida


Nirmala, a qual se encontrou inesperadamente com Harish, o carteiro de Vidiakut, que
havia estado em Sultanpur quando Sri Ma não era mais do que uma menina, a qual ele
havia querido muito. Agora, a saudou com afeto. Sri Ma recordava que, quando o olhou,
foi como se o homem tivesse uma tocha acesa diante do rosto. Estava cheio de luz. Mais
adiante, este homem se tornou asceta e dedicou sua vida ao sadhana.

Os dias de licença para a mudança de Bholanath estavam acabando. Decidiram


que enquanto ele se dirigia a Bajitpur para procurar uma casa apropriada, Sri Ma partiria
para Atpara, para passar um tempo com sua família. Foi difícil despedir-se. Todo o
povoado se entristeceu. As garotas das casas muçulmanas foram caminhando com a
família para ver partir o barco a vapor. Sri Ma também parecia triste e seu sorriso se
encheu de lágrimas ao tentar responder a pergunta que todos faziam: “Quando você
volta?”

Bholanath partiu sozinho para Bajitpur, enquanto Sri Ma foi para Atpara na
companhia de seu pai. Ao desembarcar no cais, Bipin Bihari encomendou um palki
[palanquim com quatro carregadores] para Sri Ma, enquanto ele a acompanhava a pé e
um culi transportava a bagagem.

Mas os carregadores do palanquim passaram a frente de Bipin Bihari e do culi e


não ligaram para os pedidos de Sri Ma para que fossem mais devagar. Em pouco tempo
chegaram a uma bifurcação e não sabiam para que lado ir. Finalmente, obedeceram a Sri
Ma e entraram por um dos caminhos, mas, depois de pouco tempo, colocaram o
palanquim no chão e se sentaram ao lado do caminho, achando que haviam tomado o
caminho errado. Sri Ma então lhes pediu que perguntassem para qualquer um que
passasse por ali. Depois de algum tempo ouviu uma voz educada que perguntava:
“Aonde você quer ir?” Como era o povoado de seu marido, ela não podia se mostrar
nem podia falar com ele, pois tinha que se comportar como uma noiva. Tirou sua mão
direita por entre as cortinas e escreveu o nome de Revat Mohan na terra do caminho.
Então o cavalheiro a escoltou até a casa. Bipin Bihari chegou muito mais tarde.
38

Atpara

Sri Ma era conhecida em Atpara, já que havia vivido ali durante seis meses, na
casa de Pramoda Devi e sua família, após o falecimento de Revati Mohan. Ali perto
havia um assentamento de pessoas pobres, de casta baixa, cujas meninas haviam
desenvolvido muito carinho para com Sri Ma. Começaram a ajudá-la com as tarefas do
lar, quando se deram conta da quantidade de trabalho que tinha ao encarregar-se de
cozinhar e limpar para uma família tão grande. Por sua parte, Sri Ma lhes dava qualquer
coisa que sobrava na despensa ou sua própria porção de fruta ou doces. Elas às vezes
lhe cortavam o cabelo ou lhe lavavam a roupa. Sri Ma às vezes lhes fazia penteados de
diferentes estilos.

Um interessante incidente teve lugar quando Sri Ma habitava em Atpara, numa


ocasião anterior. Um dia, ao voltar do tanque com uma pilha de placas metálicas que
são tocadas como sinos, uma delas escapou de sua mão e se rompeu ao cair no chão. As
meninas, ao presenciarem o acidente, foram correndo até Bholanath, que naqueles dias
estava visitando Atpara, e lhe convenceram a assumir a culpa, já que Pramoda Devi não
se atreveria a ralhar com seu cunhado, mas com Sri Ma sim. Bholanath se deixou levar
pela preocupação das meninas com Sri Ma, apesar dele não ser propenso a nenhum tipo
de artimanha e se confessou responsável pela placa quebrada, livrando Sri Ma de uma
bronca. Teve sorte de ninguém perguntar nada a Sri Ma porque, se não, haveriam
descoberto a verdade e os conspiradores haveriam se sentido muito consternados! Ainda
que fosse um pequeno incidente, constitui uma mostra do amor e preocupação das
pessoas pobres por sua “amiga.” No que se refere a Bholanath, jamais lhe pareceu mau
o que fazia Sri Ma, nem naquele dia nem no resto da sua vida.

Agora que Sri Ma havia voltado a se reunir com estas amigas, também se
encarregou das atividades da casa, porque não pensava em permitir que Pramoda Devi,
sua cunhada mais velha, fizesse nada enquanto ela estivesse disponível. Poucas semanas
depois, houve um roubo na casa, o que desgostou Pramoda Devi, a qual, além disso,
estava aflita pela morte de seu marido. Bholanath veio de Bajitpur para levar a todos
para sua casa. Depois de uns poucos, Pramoda Devi, junto com seus filhos Kalipada,
Labania e Ashu regressaram a Atpara, já que ela se sentia um pouco mais relaxada e
capaz de superar a ausência do chefe de família.
39

CAPITULO 3

A Manifestação da Shakti em Forma de Sadhana

“Compreender o que é realmente a Mãe é algo que supera nossa


inteligência. Mesmo que ela sempre nos diga: “Não sou mais do que uma filha vossa,
traquina” subjacente a todos seus movimentos e sua sempre encantadora lila entre nós,
se distingue a manifestação, em forma física, da Suprema e Divina Shakti.”

Bhaiji

“Quando alguém tem uma experiência de qualquer tipo que for,


considera que dessa maneira lhe foi revelada a verdade mais elevada. Quando
alguém sente grande respeito e veneração por outra pessoa, evidentemente vai
acreditar piamente nas palavras de dita pessoa, mas, até que encontremos uma
autoridade semelhante, costumamos permanecer presos em nosso próprio sistema de
crenças. Disse-lhes várias vezes que, inclusive dentro de um grupo de, digamos,
devotos de Krishna, existem diferenças. Nem todo mundo adora o mesmo Krishna. O
propósito de todo empenho espiritual é perceber que o Krishna que você adora é o
mesmo que as outras pessoas adoram, ou seja, descobrir a unidade de todos os
caminhos até a compreensão do Senhor (o Ishta). Ver a Ti em todos e dar-se conta de
que estão todos em Ti, esse é o objetivo supremo do conhecimento espiritual.”

Sri Ma Anandamayi
40

A Manifestação da Shakti em Forma de Sadhana


No que se refere aos exercícios espirituais da vida religiosa devemos dizer que,
no caso de Sri Ma Anandamayi, seu completo domínio deste tipo de conhecimento era
algo absolutamente espontâneo. Ninguém a havia preparado nem instruído. Jamais se
havia separado da sua família para levar a vida solitária de uma renunciante em busca
de benção religiosa. Não havia estudado livros nem escutado conferências. Tudo o que
quis ou fez lhe surgiu desde o interior, tal como ressoa um sino quando é tocado. Às
vezes Sri Ma utilizava esta imagem para explicar sua forma de dirigir-se às pessoas que
iam vê-la em busca de conselhos espirituais. A alguns lhes dava uma resposta simples e
com outros se estendia mais. Torna-se impossível ter um resumo simplificado de suas
respostas, dada a variedade e amplitude temática. Sri Ma disse: “Este corpo é como um
instrumento com o qual escutarás qualquer melodia que com ele toques.”

No entanto, durante um período de sua vida, seguiu sim os passos do peregrino


(sadhaka) comprometido com sua busca da verdade. Assim ela explicou como tudo
começou: “Um dia, em Bajitpur, eu havia ido, como sempre, a um tanque próximo para
banhar-me, como fazia todos os dias. Enquanto estava jogando água na cabeça, me veio
este kheyal: ‘O que aconteceria se eu me dedicasse a fazer o lila da sadhana?’ e assim
foi como começou.”

Bajitpur adquiriu certa relevância pra aqueles que tentam ver além das condições
mundanas que lhes tem sido dadas, com a finalidade de encontrar o âmbito da Graça
que as escrituras de todas as religiões do mundo falam. Durante este curto período de
aproximadamente seis anos, Sri Ma viveu a realidade da promessa de plenitude que
anima a todos os peregrinos que se atrevem a lançar-se pelo estreito caminho da busca
da verdade. Ao lançar a vista para trás, compreendemos agora que, durante dito período,
Sri Ma permitiu, discreta e silenciosamente, que seu corpo se convertesse no local de
recreio desta shakti que engendra, mantém e reabsorve em si mesma tudo aquilo que
existe neste mundo e mais além. Não houve nem fanfarra nem público emudecido (a
parte de Bholanath) nem nenhuma indicação de que estava revelando um fenômeno
muito especial que, mais adiante, deixaria atônitos a grandes eruditos e renomados
ascetas do nosso país e que os manteria subjugados durante horas, escutando o discurso
de Sri Ma sobre as mais íntimas experiências de um sadhaka em busca do
Conhecimento Supremo, alcançando o qual se alcança tudo.

O início desta peregrinação foi bastante simples. Sri Ma sempre dizia: “O Nome
basta (como meio para o sadhana)”, e, como veremos, em Bajitpur ela nos demonstrou
esta verdade.

Sri Ma teve o kheyal de fazer sadhana. Começou fazendo o que havia visto sua
mãe e sua avó fazendo na hora dos ritos vespertinos. Varria e limpava a casa, já por si
imaculada; acendia incensos e caminhava ao redor da casa com o queimador na mão,
impregnando o ar crepuscular com a pura essência do sândalo. Quando Bholanath
voltava do trabalho e depois que houvesse descansado um pouco, lhe servia a ceia e
inclusive lhe preparava o huka, típico do local, para que o fumasse após a janta! Pedia-
lhe então permissão para fazer nama-japa durante um tempo, o que ele costumava
permitir, já que tinha adotado o costume de concordar com esses kheyalas que ela
raramente expressava.
41

Uma vez obtida a permissão, Sri Ma se sentava num canto da casa e repetia, em
voz baixa, o nome “Hari, Hari” – prática que devia, simplesmente, ao fato de que,
quando menina, havia aprendido com seu pai a cantar este nome. Depois pouco tempo
Bholanath via que ela adotava uma postura yóguica, sentava-se com a coluna ereta e os
olhos fechados, com uma expressão de interiorização. Era como se, a cada dia, se
aprofundasse mais na concentração. Depois de muitas horas nesta postura de meditação,
saía gradualmente deste estado, levantava-se devagar, às vezes comia um pouco do seu
jantar e, em seguida, ia para a cama. Esta pequena refeição à meia noite ou inclusive
mais tarde, foi sua única refeição do dia durante muitos meses. Durante o resto do dia
permanecia numa espécie de arrebatamento, como em outro mundo, e ia fazendo as
tarefas da casa como um autômato.

Depois de alguns dias seguindo esta rotina, Bholanath lhe perguntou, com certa
angústia: “Por que você repete o nome de Hari? Nós não somos vaisnavas, somos
shaktas.”

- “Devo então repetir ‘Shiva, Shiva’?”

- “Exato.”

Sri Ma adotou então, para sua repetição, o nome “Shiva.” Este pequeno
incidente prefigura todo o espectro do sadhana que praticou e, mais adiante, a visão
panorâmica que tinha ao falar da Realidade Única. Sri Ma comentava que quando
pronunciava “Hari”, meditava apenas no som, sem visualizar nenhuma forma, e o
mesmo acontecia com “Shiva.” A ressonância de ditos sons sagrados conduziu à
revelação da unidade de todos estes sons-formas, assim como da sua importância como
indicadores da Realidade Única que subjaz em todos os nomes e formas.

Sri Ma seguiu praticando seu sadhana alguns meses mais. Foi como se seu corpo
se convertesse num instrumento para interpretar esta profunda música. Os sons das
letras lhe moviam e lhe faziam tremer as extremidades e o corpo todo, numa espécie de
vibrantes formas dançantes, em resposta a uma embriagante coreografia da Shakti
interior. Enquanto estava sentada meditando, o corpo adotava uma variedade de
posturas yóguicas e as mãos e dedos se colocavam em posições apropriadas. Bholanath
a observava, pasmo e intimidado. Ainda que ele reconhecesse algumas das posturas e
soubesse o que eram, sua capacidade de compreensão era muito ultrapassada. Algumas
vezes observava, fascinado pelo maravilhoso espetáculo, enquanto que outras vezes, ao
voltar esgotado do trabalho, caía no sono enquanto Sri Ma permanecia sentada no seu
canto, absorta em paragens de outro mundo. Ele sabia que Sri Ma nunca havia estudado
asanas de yoga e, além disso, se dava conta de que todos esses movimentos se
realizavam de forma automática, como se alguém colocasse seu corpo em ditas
posturas. Sri Ma comentaria, mais adiante, que ela não fazia mais do que observar o
processo que estava se desenvolvendo.
42

No entanto, esta lila não passou despercebida. Havia curiosos que bisbilhotavam
pelas fendas da cerca de tapume durante o dia porque, se bem que ela fizesse seu
sadhana durante a noite, passava as manhãs em elevados estados de consciência, que lhe
davam um aspecto desapegado e inacessível. A menina que antes era querida por toda
vizinhança, agora começava a ser evitada por suas amigas, porque ela as assustava e
pensavam que estava possuída pelos espíritos. Os que tinham um nível cultural mais
elevado pensavam que ela padecia de algum tipo de histeria. Sri Ma, por sua parte,
agradecia esta repentina tranquilidade. Era o melhor que lhe podia acontecer naquela
etapa, porque o sadhaka necessita estar em solidão. Somente dois amigos aguentaram
até o final, por assim dizê-lo. Uma foi a servente, a qual, ao dar-se conta de que sua
jovem senhora era incapaz de realizar as tarefas do lar com a eficiência que a
caracterizava, trabalhou na casa consideravelmente mais do que lhe correspondia. Ao
ver que Sri Ma estava tomada por um estado de samadhi, terminava silenciosamente o
que faltava fazer. O outro amigo foi um cachorro chamado Toma, que Bholanath havia
trazido e que Sri Ma havia criado com seu característico carinho pelos animais. Quando
ela estava sozinha em casa, ele se fazia de guardião e se sentava ou deitava perto dela.
Jamais tocava a comida que ela preparava e que não havia podido guardar nem cobrir
adequadamente. Às vezes, enquanto fazia a comida, Sri Ma entrava num arrebatamento
beatífico e rodava pelo chão, num profundo samadhi, mas Toma se fazia de guardião até
que Bholanath voltasse do trabalho.

Ainda que Bholanath estivesse convencido de que, fosse o que fosse que estava
acontecendo com Sri Ma, era algo de grande relevância espiritual e não uma paródia,
não podia evitar sentir, algumas vezes, certo receio, dado que acreditava na tradição que
estabelece que não se pode alcançar nada na esfera transcendental sem a ajuda de um
guru. Talvez em resposta à sua perplexidade, Sri Ma teve o kheyal de receber iniciação
espiritual, o que se cumpriu em 3 de Agosto de 1922.

Exteriormente não aconteceu nada. Essa noite, Sri Ma, como sempre, preparou e
serviu a ceia a Bholanath, a seu sobrinho Ashu e a Nishikanta, um sobrinho de Sri Ma
que estava hospedado em sua casa. Aquela tarde, as vizinhas tinham vindo convidá-la
para ir com elas ver como se haviam decorados os templos, porque era noite de Rakhi
Purmina, mas ela declinou o convite. Anos mais tarde, quando ela relatou todos esses
detalhes, se pôde calcular a data a partir de suas lembranças. Em 1922, Rakhi Purmina
caiu em 3 de Agosto. Depois que seus familiares já se haviam recolhido aos seus
aposentos, ela sentou-se em seu canto, para fazer a adoração de todos os dias. Depois de
algum tempo, viu que seu dedo desenhava no chão um gráfico místico (yantra). Ela
mesma se converteu em seu Guru. Surgiu-lhe de dentro um bija-mantra (sílaba sagrada)
e viu a si mesma escrevê-lo dentro do diagrama místico que havia sido desenhado diante
dela. Então, converteu-se em Shishia (discípula) e recebeu, por assim dizer, o mantra de
si mesma, como Guru. Ainda que fosse evidente em si mesma a unidade entre Guru,
Shishia e mantra, ficou como em suspenso e ela iniciou seu japa-sadhana com esse
mantra, no lugar dos Nomes que estava repetindo até então.

Sri Ma descreveu a importância da iniciação com estas palavras: “Suponhamos


que você queira chamar a atenção de uma pessoa que está longe. Você usará qualquer
palavra para chamá-la, tal como “Ei!”ou “Oi!”Ele lhe dirá: “Quer falar comigo? Pois
me chamo Fulano de Tal” e assim você descobre exatamente como deve chamá-lo. O
mesmo acontece com diksha (iniciação). Em todos os casos, só Deus é o Guru.”
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Durante os cinco meses seguintes, adotou uma forma mais concreta. Depois da
lila de diksha, às vezes lhe saíam dos lábios composições em sânscrito, semelhantes aos
cânticos que costumam ser precedidos pela sílaba Om. Não havia dúvida da
espontaneidade deste fenômeno porque ela não havia estudado nada de sânscrito e
menos ainda a forma antiga, que se utilizava nos Vedas. Durante este período, as
funções normais do seu corpo ficavam suspensas durante horas e inclusive dias. Não
sentia fome nem necessidade de descansar. Seus dias não se dividiam em manhã, tarde e
noite, mas sim só existia um período prolongado de felicidade indescritível. Sri Ma
comentava que tinha na boca uma substância de sabor semelhante ao mel, que lhe surgia
de dentro e, às vezes, se produzia tão profusamente que o engolia, mas que não deixava
um mau sabor na boca, como costuma acontecer com as coisas doces. Às vezes tinha a
sensação de que o corpo se havia tornado tão leve quanto uma pluma e que se havia
levantado do chão, ou que se havia tornado pesado e imóvel como uma pedra. Nessa
época Sri Ma era incapaz de fazer bem as tarefas domésticas e, às vezes, Bholanath
tinha que cozinhar para a família e também cuidar de Sri Ma da melhor forma que
podia.

Nishikanta Bhattacharia, primo de Sri Ma, tinha vindo visitá-los e ficou


desconcertado ao ver seu nível de dedicação aos exercícios religiosos e ao que julgou
como excessiva permissividade por parte de Bholanath, o qual, por sua vez, estava
contente de poder discutir o tema com seu cunhado, que era uma pessoa culta e
consideravelmente mais velha que ele. Tinham por costume jogar uma partida de xadrez
depois do almoço, após a qual Bholanath regressava ao seu trabalho. Um dia
(provavelmente no quarto dia depois da lila de diksha) em lugar de jogar a partida,
entraram no quarto de Sri Ma, onde ela estava sentada, embelezada em sua própria aura
de luz interior. Era evidente que seu primo havia decidido reprovar sua atitude e disse a
Bholanath, com uma voz algo áspera: “Por que você não pergunta o que ela está
fazendo?”

Geralmente Sri Ma o tratava com o respeito devido a um irmão mais velho, mas,
neste dia, sustentou seu olhar e se dirigiu a ele num tom cortante, nada comum nela: “O
que você quer saber agora?” Nishikanta ficou desconcertado e, espontaneamente, uniu
as mãos em sinal de inusitada humildade. Então, num tom mais suave, Sri Ma lhe disse:
“Não tenha medo. O que você quer?”

- “Por que você faz todos estes kryas (exercícios)? Você foi iniciada na vida
espiritual?”

- “Sim.”

- “Bholanath também foi iniciado?”

- “Não, mas receberá esta iniciação dentro de cinco meses (Sri Ma indicou a data
exata com a estrela que presidia dito dia).”

- “Não entendo o que você quer dizer com esta estrela.”

- “Veja e pergunte a Janaki Sem. Ele está pescando no tanque.”

- “Por que você fala de forma tão pouco natural?”


44

- “Isso é o que parece a você. Eu sou a mesma, como sempre.”

Bholanath e Nishikanta estavam muito incomodados. Trouxeram Janaki Sem do


tanque, mas ninguém teve tempo de perguntar como Sri Ma podia saber onde ele se
encontrava, sobretudo porque, a essa hora, o normal era que ele estivesse no escritório.
Janaki Sen jamais havia visto Sri Ma sem o véu que lhe cobria decorosamente a face e
também estava estupefato por sua aura poderosa e divina. Depois de algumas perguntas
e respostas rápidas de Sri Ma, Janaki Sem lhe perguntou: “Quem é você?” ao que, tal
como quando seu primo lhe havia perguntado anteriormente, ela respondeu: “Purna
Brahma Narayana (o Ser Supremo).” Janaki Sen exclamou: “Você é o demônio, o
demônio, o demônio!” o que pareceu divertir a Sri Ma, que lhe disse: “O que você quer
é me colocar à prova, não é?”

-“Pois sim, se você tem poderes espirituais demonstre-os.”

Sri Ma disse a Bholanath que se sentasse, após o que tocou ligeiramente sua
cabeça. Ele pareceu haver caído imediatamente num profundo estado de meditação.
Ficou completamente quieto, com uma expressão de calma e serenidade. Seus amigos
ficaram perplexos. O mais provável é que eles esperavam que ela fizesse algum milagre,
mas não tinham o calibre necessário para compreender que receber o presente do
samadhi com um simples toque da mão só é possível na dimensão da Graça Divina. O
samadhi é um estado desejado pelos sadhakas de todas as idades, os quais dedicam
vidas inteiras a fazer rigorosos exercícios espirituais com a esperança de que culminem
em samadhi. Aqui, em troca, Bholanath havia recebido de presente a benção de tal
conquista. Os outros não compreenderam que Sri Ma havia feito o que haviam pedido.

Tudo isto foi conjecturado pelos eruditos, anos mais tarde mas, naquele
momento, reinava a confusão. Tanto Nishikanta quanto Janaki Sen estavam assustados.
Ashu, o sobrinho de Bholanath, ao chegar do colégio, desconcertado ao ver sua tia com
um aspecto diferente e a seu tio sentado e imóvel, como se estivesse ausente deste
mundo, se pôs a chorar. Os dois homens pediram a Sri Ma que devolvesse Bholanath à
normalidade. Ela, mais em resposta à angústia de Ashu que ao pedido deles, voltou a
tocar levemente a cabeça de Bholanath, o qual saiu gradualmente do samadhi. Ao
perguntarem-lhe qual havia sido sua experiência, respondeu com certa dificuldade que
jamais havia sentido tal benção, que havia se sentido indescritivelmente feliz e em paz.
Mas, como ainda não era o momento da revelação, deixou que este intervalo ficasse
submerso na lembrança de seus protagonistas, ainda que o certo seja que nunca mais
voltaram a duvidar de Sri Ma. Vizinhos e amigos pensavam que ela tinha um dom
extraordinário e que havia se entregado à vida religiosa. A principal razão de que não
causasse alteração alguma na vizinhança foi sua conduta normal, tranquila e sem
pretensões, uma de cujas características não pouco importantes era seu sorriso
irresistivelmente encantador, com o qual dissipava imediatamente qualquer sombra de
dúvida. Não se produziu, portanto, nenhuma mudança radical em torno de Sri Ma
depois desta demonstração de um pouco de sua riqueza que, no que dizia respeito a ela,
sempre permaneceu bem escondida. Continuou com seu sadhana e, quando chegou o
momento, iniciou a Bholanath na data que havia especificado.
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A Iniciação de Bholanath

Ainda que Sri Ma não voltasse a mencionar o assunto, Bholanath não havia se
esquecido da data de sua prometida iniciação. Com a vaga intenção de evitar alguma
coisa desconhecida, foi correndo para o escritório naquela manhã, sem nem sequer
tomar o desjejum. Sendo que se supõe que o discípulo deva jejuar até que tenha
completado o ritual, Bholanath cumpriu sem querer com esta condição. Na hora
apropriada, Sri Ma lhe mandou uma mensagem, dizendo-lhe que viesse para casa, mas
ele respondeu que estava ocupado e que não podia sair do escritório. Então Sri Ma lhe
mandou outra mensagem, dizendo-lhe que, se ele não fosse para casa imediatamente,
ela se apresentaria em pessoa no escritório. Não se atrevendo a correr semelhante risco,
Bholanath foi para casa resmungando. Sri Ma lhe deu roupas limpas e lhe disse que se
banhasse antes de vesti-las. Havia-lhe preparado um asana. Bholanath sentou-se
tranquilamente e esperou os acontecimentos. Sri Ma andava de um lado para o outro da
casa. Ele se deu conta de que ela estava num de seus estados de bhava e que os
formosos mantras lhe saíam dos lábios, com sons e cadências delicadas e imponentes.
Algum tempo depois, ela sentou-se perto dele. Deu-se conta de que ela estava repetindo
um só mantra, em voz baixa. Sri Ma inclinou-se para frente e aproximou os lábios a
seus ouvidos e Bholanath pôde escutar o mantra com clareza, concluindo, corretamente,
que era o que lhe correspondia.

Quando saiu deste estado elevado, Sri Ma lhe deu instruções detalhadas sobre
como utilizar o mantra que ele havia escutado. Ele não duvidou de seus ensinamentos
porque, pelo que sabia dos rituais, se deu conta de que ela havia explicado perfeitamente
todos os detalhes da iniciação.

Este evento constitui um novo movimento na relação entre ambos, nas fases na
qual foram exemplares e formosos: como guardião e pupila, como amigos, como guru e
shishia e como simples companheiros que, por um lado se entendiam perfeitamente e
que, por outro, tinham uma indiscutível confiança mútua. Era uma relação única, da
qual não conhecemos nenhum paralelismo. Anos mais tarde se considerou
automaticamente que ele era a pessoa indicada para adotar o papel de oficiante no ritual
de adoração de Sri Ma Anandamayi, quando seus devotos começaram a celebrar o
momento da vinda de sua adorada Ma e ninguém pareceu mais apropriado para um
serviço tão especial.

Sri Ma, por sua parte, não mudou sua atitudes para com ele. Continuou pedindo
permissão em tudo referente a viagens, lhe servia, se ele assim o pedisse, como quando
estava cansado e solicitava que lhe fizesse uma massagem nos pés. O tratava como a um
amigo íntimo, com humor e compreensão, ajudando-o a recuperar o bom humor quando
estava aborrecido com alguma coisa. Ela por sua parte, jamais disse nem fez nada para
rebaixar sua posição como chefe da família em constante expansão, que começou a
formar-se em torno a ela quando se converteu no foco da atenção e aclamação do
público.
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Ainda que o momento da revelação se aproximasse com rapidez, em Bajitpur


tudo era calma e serenidade. Depois de sua “auto-iniciação”, Sri Ma seguiu um processo
intensivo de sadhana incessante, com inteira dedicação, durante uns cinco meses e meio,
período que culminou com uma experiência de sentir-se realizada e que os Upanishads
descrevem como “Aquilo que, uma vez alcançado, se alcança tudo” (Taittirya II, 1).

Sri Ma dizia que existe uma variedade ilimitada de tipos de sadhana pelos quais
o homem se esforça para alcançar o Ser, cada um com inumeráveis aspectos e que todos
eles se converteram, para ela, numa experiência viva quando se tornou sadhaka (Sri Ma
sempre utilizava o gênero masculino ao referir-se a si mesma, razão pela qual temos
escrito sadhaka no lugar de sadhika).

Durante este período realizou inumeráveis formas de adoração, não somente as


hinduístas, mas sim também outras formas não hindus de relacionar-se com o Ser
Supremo. Quando os eruditos expressaram seu assombro e surpresa diante da
profundidade e amplitude do seu conhecimento da vida religiosa, Sri Ma disse que não
havia revelado nem uma centésima parte da totalidade do que havia acontecido durante
aquele período de seis anos em Bajitpur. O Infinito tem uma quantidade infinita de
formas de manifestar-se e cada chispa é, em si mesma, uma totalidade. Ao homem
corresponde ser um caminhante, um peregrino, sentir essa sêde de conhecimento. Uma
busca sincera aporta, sem dúvida alguma, a plenitude.

O final do período de sadhana de Sri Ma coincidiu com a diksha de Bholanath,


assim como o início de seu próprio período de maunam (silêncio) de quase três anos.
Entrou em silêncio como se beatitude interior encontrasse expressão no silêncio físico.
O mais provável é que dito período de silêncio durou de Dezembro de 1922 a Dezembro
de 1925. Aconteceu que Jamini Kumar, o irmão caçula de Bholanath, veio visitá-los em
Bajitpur, mais ou menos nesta data e se deprimiu muito ao ver que a cunhada mantinha
um silêncio absoluto. A seguia desconsoladamente a todas as partes, rogando-lhe que
falasse. Sri Ma era sempre a personificação da amabilidade com os parentes jovens. Um
dia se sentou no chão, na postura chamada siddhasana. Unindo a polpa dos dedos
polegar e indicador, desenhou um círculo imaginário no chão ao redor do seu corpo, em
forma de kundali (anel), girando-se 180 graus para cada lado. Foi um movimento muito
rápido e elegante. Depois de algum tempo, seus lábios pronunciaram certos mantras,
após o que falou em voz baixa e, gradualmente, foi subindo o tom até chegar à
normalidade. Desta forma respondeu ao desejo de seu jovem cunhado de poder
conversar com ela. Ele ficou muito contente. Então Sri Ma apagou o círculo imaginário
da mesma forma e voltou a entrar em maunam. Durante todo este período de silêncio e,
quando a ocasião pedia, falou com Bholanath uma ou duas vezes de dentro do circulo.

Anos mais tarde muitos eruditos de destaque se interessaram por esta lila de
sadhana. Surgiram especulações e teorias mas, tal como explicou claramente o Pandit
Gopinath Kaviraji, não é algo que se possa classificar sob nenhuma rubrica mencionada
nos sastras.

Sri Ma falou ocasionalmente desta lila, em seu inimitável estilo, simples mas
profundo: “Os kryias yóguicos eram simplesmente como os jogos da infância – para
mim não havia diferença nem necessidade tanto para um quanto para outro.”
47

Em outra ocasião, como resposta à pergunta de que se é inevitável a prática do


sadhana ao se adotar um corpo, para assim neutralizar suas limitações, Sri Ma disse:

- “Cada qual julga a este corpo segundo o vê. Outros dizem que, se temos feito
sadhana em vidas anteriores, então a culminação se produz na última vida. Mas quando
falamos de “sadhana” neste caso, de onde este corpo aprendeu a forma de fazê-lo? Ele
não aprendeu nada de nenhuma pessoa de fora! Não disse várias vezes que o sadhana
não é mais do que uma diversão? Não digo às vezes se “vamos a tal ou tal lugar” ainda
que eu não o conheça? A verdade é que não foi mais que um kheyal e nada mais.”

Referindo-se à autenticidade, Sri Ma disse:

- “O sadhana deve cumprir com o prescrito nas Escrituras e se não o encontras


num local o encontrarás em outro. Além disso, quanto se pode escrever? No quadro de
horários de uma estação de trens se podem ver os nomes das grandes cidades. Quando
se viaja de trem se vê muitas coisas que não são mencionadas nos guias. Nas escrituras
constam todas as indicações. Se descobres que no sadhana deste corpo há algumas
exceções, então saberás que constituem algo diferente do caminho ortodoxo. Ao menos
descobrirás que são mencionadas como procedimentos não ortodoxos! Portanto, no
final, encontrarás que se faz menção delas, não é verdade?

“Neste caso não se tratava de avançar de forma gradual. Algumas etapas


posteriores se produziram ao princípio ou de forma ordinária – não havia diferenças
entre superior e inferior, ou mais tarde e mais cedo, ou mais fácil e avançado.

“Tudo surgiu de dentro. Às vezes eu ouvia claramente: “Repita este mantra.” Era
também eu quem perguntava: “De quem é este mantra?” Imediatamente vinha a
resposta: “De Ganesha, de Vishnú ou alguma outra forma.” Voltava a surgir em mim
outra pergunta: “Que aspecto tem?” Então era como se me saísse uma forma do corpo e
se desvanecesse de novo em meu interior. Não acredites que eu me encontrava com as
formas que adorais em vossas cerimônias. Formas que vós qualificais de estranhas se
manifestavam também de forma similar e eu as adorava. Essa é a razão pela qual vocês
me acham tão versada nos detalhes dos rituais das incontáveis formas de relacionar-se
com Deus.

“Então surgia do meu interior: “O que você necessita adorar? Você é


tudo!”Nesse momento brotava em mim a compreensão (conhecimento parcial fundindo-
se num conhecimento integral) de que eu era a unidade que se manifesta como
variedade.

“Portanto, este corpo responde ao estado de compreensão do interlocutor. Que


limites podem ser colocados às opiniões deste corpo? Mas se alguém segue uma linha
tradicional de busca, pode alcançar a meta e, mais além fica o não alcançado. Mas é
n’Esse onde não surgem as distinções entre o alcançável e o não alcançado. O que você
ouve depende de como toca o instrumento. Para este corpo, a diferença de opiniões não
é algo que se possa levar em conta.”
48

Pandit Gopinath Kaviraj resume a lila de sadhana de Sri Ma com estas palavras:

“Neste jogo, Sri Ma começou a partir da ignorância e praticou diferentes


austeridades, observou silêncio, regulou a dieta, fez japa e exercícios yóguicos e
realizou puja e outros ritos similares. O amanhecer do conhecimento também fez parte
de dito jogo. A sensação de agonia e secura da alma, seguidas da benção da união,
ocupavam um lugar nesta peça teatral auto-representada. Não se deve considerar tudo
isso como uma ilustração do eu dividido e de suas atividades, mas sim como resultado
de uma vontade eternamente alerta e autoconsciente que desempenha o duplo papel de,
por um lado, a sadhika que atravessa as luzes e as sombras de uma vida disciplinada e,
por outro, de observador imutável, que contempla e dirige sua própria representação no
cenário.”

Ao ler estas palavras de Pandit Gopinath, Sri Ma comentou:

“Uma atuação? Devemos representar como real o que não existe? Há uma hora
determinada, para o prazer dos curiosos? Então se necessita um ensaio para produzir na
imaginação uma seqüência bem ordenada.

“Onde existe o Um, como se pode distinguir entre o ator e o observador? Tudo o
que um fogo pode queimar também o pode fazer uma chispa. O incêndio e o rescaldo
são iguais. Ainda que vocês falem da totalidade e suas partes, continua sendo o mesmo,
a Unidade. Se não há nada mais do que o Uno, então o que é a atuação e o que é real?”

Faltava já pouco para que aqueles dias tranquilos, nos povoados atrasados de
Bengala, se convertessem numa recordação das pessoas mais próximas a Nirmala, já
que se aproximava o momento em que Sri Ma apareceria diante do público como um ser
de grande eminência espiritual. As pessoas que constituiriam o núcleo do seu séquito já
estavam quase prontas para acolhê-la como a materialização de um anelo profundo,
ainda que não expresso, por essa outra vida que, ao não encontrar satisfação nas alegrias
fragmentadas deste mundo, pretende alcançar exclusivamente essa plenitude da Benção
que a Tradição celebra em termos de auto realização ou União com Deus.

Só para entendermos, estabelecemos um período de transição numa vida que não


soube de conclusões, nem de inícios, nem de etapas. Aparentemente, depois de uma
vida de sadhana, Sri Ma começou a falar da busca da união com Deus a um público que
estava já preparado e capacitado para receber dito ensinamento. Neste contexto,
oferecemos, na sequência, um extrato de uma carta que Sri Ma escreveu pessoalmente
como resposta às perguntas de uma pessoa que não tardou em reconhecer sua
extraordinária transcendência:

“Vou descrever um pouco a primeira etapa do meu sadhana (que é o que você
queria saber). O som do kirtan me atraía, me enchia de prazer… Como se me
transportasse em ondas de prazer. Um poder (shakti) exterior fazia com que este corpo
se enchesse de exultação. Eu era plenamente consciente de mim mesma nestes
momentos… Quando esta plenitude de gozo começava a evaporar-se, eu desejava que
se renovasse essa bem aventurança suprema. Tinha ganas de dividi-la com todo mundo
e pensava: “Que todos os seres experimentem esta benção inexprimível…” (carta a Sri
Pran Gopal Mukhopadhiya).
49

Por tudo isso, tanto o ‘distribuir’ uma compaixão ilimitada pela humanidade
quanto à busca da Graça (kripa) surgiram simultaneamente em Dacca, de uma forma
espetacular e estabeleceram uma forma de vida para o séquito de Sri Ma.
50

CAPITULO 4

A Ma de Dacca

“Todos nós, as crianças, estávamos estudando no piso de cima e alguém de


baixo nos chamou: “Desçam que a Ma de Shahbag chegou!”Ficamos paralisados. A Ma
de Shahbag? A Manushh-Kali (Kali em forma humana) em nossa casa? Descemos
devagar, tremendo de medo. Quando entramos na sala, encontramos uma preciosa
senhora, de sorriso radiante. Aproximamo-nos dela de bom grado e fizemos pranam
(inclinar-se diante de alguém, como saudação e sinal de respeito) um por um. Ela disse
para mim: “És um bom menino.”

Essas palavras tem sido como uma brisa em minha vida que sinto a tentação de
desviar-me, o que tem acontecido muitas vezes, estas palavras me tem resgatado. Jay
Ma!”

Shakti Kumar Ghosh

(segundo filho de Sri Manmohan Ghosh, de Dacca)

Pergunta: - “Ma, tua lila de Dacca foi fascinante, mas de uma duração muito curta.
Gostaria que nos contasse mais coisas destes dias.”

Ma: - “Dacca? (literalmente, uma capa que cobre). Dacca permanecerá Daccá
(coberta) para sempre.”
51

A Ma de Dacca

Os Devotos Vão Se Congregando

Em Abril de 1924 Bholanath perdeu seu posto de assistente porque, por razões
econômicas, seus chefes estavam liquidando seus negócios em Bajitpur. Com a
esperança de encontrar um emprego melhor, numa cidade maior, em 10 de Abril de
1924, chegou a Dacca em companhia de sua mulher mas, apesar de todos os seus
esforços, não conseguiu encontrar trabalho de imediato, pelo que decidiu convidar Sri
Ma para a casa que ele possuía em seu povoado e ficar sozinho na cidade. Sri Ma, que
naquela época ainda guardava silêncio, lhe disse que esperasse mais três dias, no último
dos quais Bholanath encontrou trabalho. Em 17 de Abril foi nomeado gerente dos
extensos Jardins de Shahbag, que pertenciam a Nawabzadi Piari Bano, a filha do Nawab
de Dacca. O contratou Yoguesh Chandra Ghosh, comissário das propriedades da
Nawabzadi em Dacca, porque seu genro lhe havia falado de Bholanath e de Sri Ma, pois
os havia conhecido em Bajitpur.

Ditos jardins ocupavam uma grande extensão, grande parte da qual estava
abandonada e coberta de erva daninha, matas e trepadeiras selvagens. Só uma porção
estava bem cuidada, com flores da temporada. Também havia muitas árvores frutíferas e
pradarias verdes. As dependências do gerente eram vizinhas de uma piscina e um salão
de baile, construídos para o recreio dos donos. Toda a propriedade estava cercada por
um alto muro, pois as mulheres da família do Nawab às vezes vinham de visita ao
jardim e para banharem-se na piscina. O trabalho de Bholanath consistia em
supervisionar o trabalho da propriedade em geral. Uma vez que se haviam instalado,
Ashu, o sobrinho de Bholanath, foi viver com eles.

Sri Ma não só se mantinha em silêncio como tinha estados de bhava que


aconteciam em qualquer hora do dia ou da noite e, como Bholanath se via obrigado a
estar fora da casa durante muitas horas, começou a preocupar-se por seu bem-estar
físico, motivo pelo qual convidou Matori, sua irmã viúva, para que ela viesse se instalar
ali, com eles, trazendo seu filho Amulia. Sri Ma e Matori Pishimá (Tia Matori) já eram
amigas desde os tempos de Narundi e assim finalmente Sri Ma tinha uma companheira
que lhe adiantava consideravelmente seu trabalho e Ashu tinha um amigo com o qual
brincar e ir à escola todos os dias.

Janaki Sem e Bhuded Basu também vieram viver em Dacca e foi por eles e por
outros visitantes casuais que as pessoas começaram a ouvir falar de Sri Ma. Na cidade,
se comentava que havia uma jovem dona de casa que irradiava uma evidente aura de
poder espiritual. Mesmo que Shahbag fosse uma propriedade privada, à qual nem todos
tinham fácil acesso, as pessoas do lugar começaram a chegar em pequenos grupos de
duas ou três pessoas, que eram apresentadas a Bholanath pelos que já os conheciam.
52

Em certa ocasião, Bholanath em pessoa convidou um cavalheiro que estava se


protegendo de um aguaceiro repentino, debaixo de uma árvore, perto das portas de
Shahbag. Tratava-se do catedrático Nani Gopal Banerji, o qual se fez devoto e trouxe
alguns amigos seus. Quiçá seja conveniente introduzir, neste ponto, os nomes destes
primeiros devotos, já que será necessário mencioná-los em repetidas ocasiões, de agora
em diante.

Dentre a constelação de pioneiros, o que, sem dúvida alguma merece ser


mencionado em primeiro lugar, é Jiotish Chandra Rai, subdiretor do Ministério de
Agricultura. A história de sua entrega aos pés de Sri Ma, sua inquebrantável lealdade,
seu ascetismo e sua renúncia final serão sempre uma fonte de inspiração para todos os
peregrinos da senda que leva à união com Deus. Ao longo de sua vida teve que fazer
frente a muitos problemas para os quais não foi fácil encontrar solução. Pelo fato de
ocupar uma elevada posição social, sua conduta era de domínio público e de interesse
geral. Durante bastante tempo, tanto ele quanto outros de sua posição foram criticados
por fazerem-se seguidores de uma ‘santa’ jovem e formosa. Sua própria família, ou seja,
seu irmão mais velho e sua esposa, não simpatizaram com sua dedicação à busca
espiritual. Jiotish Chandra Rai tinha por costume carregar um diário no qual ia tomando
notas sobre sua busca de um Guru apropriado por todo o país. Não havia encontrado em
nenhum lugar o que buscava nem tampouco tinha claro, mentalmente, o que estava
buscando! Neste estado de ânsia interior, foi conhecer Sri Ma em Shahbag. Escreveu em
seu diário que a primeira visão desta figura, coberta por um véu, constituiu uma
experiência de plenitude. Soube que havia chegado o fim de sua busca, mas também
anotou em seu diário que, pelo fato de que o Guru havia adotado o aspecto de uma
jovem dona de casa, resguardada do mundo, não voltaria a se aproximar dela até que
decidisse retirar o véu, pelo que não regressou a Shahbag durante quase um ano.
Durante este tempo se produziram muitas mudanças ao redor de Sri Ma. Ela tornou-se
mais acessível e falava mais livremente com os visitantes. Em seu primeiro encontro
com Sri Ma, Jiotish Chandra Rai lhe perguntou:

- “Tenho alguma possibilidade de êxito em minha busca espiritual?”

Sri Ma lhe respondeu: - “No momento, você não tem a ânsia suficiente de
consegui-lo.”

Entre os anos 1924 e 1932, Jiotish Chandra Rai destacou-se notavelmente dentre
os primeiros devotos. Tanto se Sri Ma expressasse seu kheyal verbalmente quanto se
não o fizesse, se notava que ele a compreendia melhor do que ninguém. Assumiu muitas
responsabilidades. Junto com seu amigo Niranjan Rai iniciou o trabalho de criar o
primeiro ashram em Dacca para Sri Ma. Com o tempo, passou a ser conhecido como
Bhaiji (respeitável irmão) no grupo dos primeiros devotos de Dehra Dun, Simla e outros
locais. Em nosso relato da lila de Sri Ma, esse será o nome com o qual iremos nos
referir a ele.
53

Shashanka Mohan Mukerji: quando conheceu Sri Ma, tinha 66 anos e era um
médico de grande prestígio em Dacca. Seu porte de séria auto-suficiência o distinguia
com facilidade como uma pessoa de certa importância. Era o chefe de uma família
muito grande, cujos filhos, junto com suas respectivas famílias, se converteram, com o
tempo, em devotos de Sri Ma. Seu filho mais velho, Birendra Chandra Mukerji, era
catedrático de inglês no Agra College, de Agra e se converteu num dos interlocutores do
satsanga diário que se fazia em Shahbag sempre que se encontrava em Dacca. Quando
ele se encontrava presente, Sri Ma costumava ter o kheyal de estender e alongar a fala.
Birendra Chandra foi um dos que tiveram a honra de ser iniciados por Bholanath. O fato
de que Shashanka Mohan adotasse uma vida de ascetismo em sua idade avançada, sua
subsequente dedicação exclusiva à tapasia (austeridades), assim como sua total
obediência ao kheyal de Sri Ma, constituem ideais dignos de imitação por parte dos
buscadores mais jovens. Foi a primeira pessoa pela qual Sri Ma teve o kheyal de que
adotasse o hábito ocre de sanniasi (renunciante), momento em que ele se converteu no
Swami Akhandananda Giri. Neste ponto podemos incluir uma história que nos dá uma
idéia do ambiente profundo e ao mesmo tempo alegre e relaxado que se respirava ao
lado de Sri Ma naquela época. Nandú, filho mais novo de Sri Shashanka Mohan, se
sentia cada vez mais chateado pelo fato de que seu pai estava cada dia mais afastado de
sua família e às vezes se queixava a Sri Ma de que ela o estava separando do lar e
reduzindo-o a uma vida de mendigo. Quando Shashanka Mohan se tornou sanniasi,
Nandú tirou uma fotografia de seu pai com as mínimas posses do asceta – uma tanga,
um cajado e um kamandalu (recipiente para água) a seu lado – na qual fez imprimir
estas palavras: “Ma, já não fizeste o bastante com isso?” e a enviou a Sri Ma. Continua
pendurada na parede do ashram de Vindiachal.

Gurupryia Devi: era a segunda das filhas e terceira em ordem cronológica de


todos os filhos de Shashanka Mohan. De nome original Adorini Devi, foi uma menina
estudiosa, que não gostava das diversões comuns com as quais os demais se
entretinham. Ainda que dissesse a seus pais que não lhe buscassem marido, eles
interpretaram mal sua falta de interesse pelo matrimônio – como sendo timidez – e a
cerimônia adequada aconteceu no momento assinalado. Quando atingiu a idade
suficiente para ser mandada para a casa do marido, deixou muito claro que não tinha
nenhuma intenção de fazê-lo. Escreveu uma carta para seu marido desculpando-se por
sua falta de inclinação pela vida de família e rogando-lhe que voltasse a se casar com
uma garota mais apropriada (de fato, seu marido Upendra Nath Banerji, de Calcutá,
casou-se com Amala Devi, quem, junto com seus filhos, tornou-se devota de Sri Ma
anos mais tarde). O nome de Gurupryia Devi foi dado por Sri Ma, mas no ashram
costumava ser chamada de Didi (irmã). Atualmente, seus diários são uma fonte
inestimável de documentação sobre os primeiros dias em Dacca, assim como sobre as
incessantes viagens de Sri Ma por toda a Índia. Para Didi, o objetivo único e firme da
vida era render serviço a Sri Ma. Não lhe interessava tapasia, mas obedecia
escrupulosamente a Sri Ma quando tinha que fazê-lo. Dado que, ao princípio, teve que
superar alguns inconvenientes no referente à sua forma de vida, tinha muita vontade de
se estabelecer num ashram para garotas jovens, porque dizia que havia muitas que não
queriam se casar, mas que tampouco queriam dedicar-se a uma profissão para ganhar
dinheiro. Naquela época não havia nenhum lugar apropriado nem ashrams nos quais as
garotas como ela pudessem dar plenitude à suas inclinações pelo sadhana e pela vida
sem foco no mundano. Estas idéias se materializaram no Mahila Ashram, que ela
inaugurou em 1938. Quase todos os ashrams em nome de Sri Ma devem sua existência
aos muitos anos de esforços e da constante supervisão de Didi.
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Niranjan Rai e sua esposa Vinodini Devi: casal devoto e muito querido por toda
comunidade de devotos de Dacca. Aconteceu que Vinodini Devi morreu depois de
sofrer uma curta enfermidade. Sri Ma ia vê-la todos os dias e a doente esperava com
ansiedade sua visita diária. Se o céu estava nublado, sua angústia pela ameaça de chuva
não tinha limites mas, sem falhar nem um só dia, Sri Ma foi sentar-se um tempo ao seu
lado. A morte repentina de Vinodini Devi teve uma sequela muito trágica. Niranjan Rai,
sem dar ouvidos aos conselhos dos seus amigos, desenvolveu o costume de sentar-se
durante horas nas proximidades dos ghats crematórios, no lugar onde havia estado a pira
funerária de sua mulher. Bhaiji comentou isso com Sri Ma, a qual acompanhou, certo
dia, pessoalmente Niranjan ao ghat e falou bastante tempo sobre o indesejável que era
esta vigília. Mas, apesar de todos os esforços, ele foi incapaz de deixar este costume e
faleceu pouco depois. No último ano de sua vida, todos seus esforços no mundo se
concentraram na construção do ashram para Sri Ma e Bholanath, em Ramna. Para
muitos será interessante saber que o bracelete de ouro que Sri Ma usava em seu braço
esquerdo era um presente de Vinodini Devi.

Nishikanta Mitra: foi outro dos maiores do grupo dos primeiros devotos de
Dacca. Era o Zamindar [espécie de coletor de impostos] de Samsiddhi e, já ancião,
viveu durante muitos anos uma vida de asceta no ashram de Varanasi.

Nani Gopal Banerji: era o catedrático de Dacca, que estava se protegendo do


aguaceiro repentino debaixo de uma árvore, perto das portas de Shahbag, o qual
Bholanath convidou para entrar, quando teve então a sorte de se encontrar com Sri Ma.
Esse primeiro encontro foi decisivo e ele ficou tão profundamente impressionado que
convenceu seu amigo Pran Gopal Mukhopadhiaya (diretor adjunto do serviço postal) a
também ir a Shahbag. Pran Gopal era um homem de grande habilidade e inteligência,
com uma profunda compreensão da vida espiritual. Graças a ele muitas outras pessoas
foram à Shahbag naquela época, entre as quais encontramos Atal Bihari Bhattacharya
(catedrático do Rajshari College), Gurija Shankar Battacharya (originário de Ashtagram
e catedrático de Calcutá) e Pramatha Nath Basu, seu sucessor no cargo de diretor
adjunto do serviço postal. Todos esses homens, com suas respectivas famílias,
mantiveram-se muito unidos a Sri Ma e Bholanath nos anos seguintes. Atal Bihari tinha
um grande senso de humor, assim como uma maneira muito particular de provocar
situações pouco comuns na presença de Sri Ma, para que ela as apreciasse e desfrutasse.
Sua correspondência com Sri Ma sempre foi uma fonte de criatividade e bom humor por
ambas as partes, ainda que o tema sempre contivesse uma profunda carga espiritual.

Pran Gopal Mukhopadhiaya desempenhou um papel decisivo na difusão, entre


seus conhecidos, da aparição de Sri Ma. A reconheceu imediatamente como uma Mestra
de homens e com frequência lhe perguntava: “Quando você vai se fazer conhecer?” ao
que Sri Ma respondia com um sorriso. É possível que tenha sido ele que produziu o
kheyal de declarar publicamente, em 6 de Agosto de 1926, em Siddheasvari, o cerne de
seu ensinamento (ver mais adiante).

Baul Chandra Basak: amigo de infância de Bholanath e, posteriormente, devoto


tanto de Sri Ma quanto dele, os apoiou constantemente. Era perseverante em seu
trabalho e estava sempre disponível em Shahbag, Siddheshvari e, mais adiante, em
Ramna.
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Amulia Kumar Dattagupta: catedrático em direito de Dacca, seus diários podem


ser comparados, sem medo de errar, com o Kathamrita do mestre Mahashaya. Era um
homem de temperamento muito sóbrio e com um interesse sincero pelos temas
teológicos e filosóficos que se falavam na presença de Sri Ma. Tinha uma memória
impressionante, que lhe permitia repetir, quase que palavra por palavra, os longos
debates e diálogos que aconteciam. Atualmente, sua filha Sati está publicando seus
diários como continuação dos primeiros dois volumes de Sri Ma Anandamayi Prasanga.
Depois da divisão de Bengala, em 1947, viu-se obrigado a sair do Paquistão Oriental
quase sem aviso prévio. Deixou sua família em Calcutá e se dirigiu a Varanasi, para se
consultar com Sri Ma sobre o futuro que o esperava. Ela lhe disse que poderia ficar
vivendo em Calcutá, perto do seu irmão, e ir vê-la de vez em quando em Varanasi,
sabendo que o clima extremo de Uttar Pradesh não seria do agrado das pessoas das
províncias orientais. Com uma ligeira exasperação em sua voz, Amulia Kumar lhe
disse:

- “Você já me reduziu a miséria e agora queres que eu gaste o pouco que tenho
em bilhetes de trem?”

- “Eu te reduzi à miséria?”

- “Quem foi então? Tive que abandonar todas minhas propriedades. Já não tenho
nada, só um pouco de dinheiro solto.”

- “Ótimo! Você virou um sanniasi!”

Decidiu estabelecer-se em Varanasi, pensando que assim teria mais


oportunidades de ir ao darshan de Sri Ma. É possível que as frequentes viagens de Sri
Ma a Varanasi, durante e depois de 1948, tivessem como principal finalidade a
reabilitação, o que poderia haver sido a razão primordial daqueles esplendidos satsangas
que se realizavam na sala recém construída. Para Amulia Kumar, os debates filosóficos
que se estabeleciam na presença de Sri Ma constituíam um autêntico alimento, assim
como uma recompensa mais do que suficiente para todas suas privações. Esta impressão
foi confirmada por sua filha Sati: “Em 1972, quando Sri Ma partiu de Varanasi, depois
da morte de meu pai, ela me olhou e disse: ‘Este é o fim da época destes satsangas.”

Man Mohan Ghoshi: era engenheiro e diretor da Universidade de Dacca, assim


como amigo íntimo de Amulia Kumar. Depois da divisão da Bengala também decidiu
estabelecer-se em Varanasi, onde encontrou trabalho. Durante muitos anos dedicou-se
plenamente à construção do novo ashram, onde o belíssimo Annapurna Mandir se
conserva, como lembrança de sua grande perícia. As pessoas de Dacca sentiam especial
apreço pela imagem de Annapurna [forma da Deusa como ‘aquela que proporciona o
alimento’]. Enquanto estiveram de pé, a sala e o terraço foram testemunhas de
inumeráveis atos e celebrações. A relação de Sri Ma com esta família foi profunda e
abarcava todos os aspectos. Quando o filho de Man Mohan morreu repentinamente, Sri
Ma, que estava em Ananda Kashi, foi a Varanasi e se dirigiu à casa do ancião, para dar-
lhe a notícia pessoalmente, já que ninguém mais queria fazê-lo. Apesar da importância
de todos os compromissos que ela tinha em outros lugares, ficou nessa cidade dez dias,
durante cada um dos quais foi visitar Man Mohan Ghosh. Inumeráveis são as formas em
que Sri Ma se ocupava das necessidades de seus devotos.
56

Outros nomes dignos de menção são Dinesh Chandra Rai, Ashwini Kumar,
Mathur Babu, Naguen Babu, Anadi Babu, Jatu Bhai e muitos mais, alguns deles tão
relevantes quantos os já descritos. Além disso, incluímos certas informações sobre
algumas famílias de outras partes da Índia que também tiveram a vida ajustada. A
grande quantidade de viagens que Sri Ma realizava não só atraía a novos devotos como
permitia que os antigos se solidarizassem em seu darshan.

A Vida em Shahbag e Siddheshvari

A cidade de Dacca era uma grande metrópole e os que iam visitar Sri Ma em
Shahbag eram pessoas de alto status, que desfrutavam das comodidades que a riqueza
proporciona. Naquela época os indianos só podiam ascender até o cargo de delegado ou
adjunto, nos escritórios do governo, enquanto que os postos superiores eram ocupados
por funcionários britânicos. O ambiente cultural que reinava era uma mescla de
ortodoxia hindu, bons modos britânicos e a influência ocidental dos tempos modernos.

Nos anos vinte deste século os costumes sociais eram extremamente


conservadores. Bholanath recebia os homens e se sentava com eles na sala externa,
enquanto Sri Ma ficava em silêncio perto da porta da sala interna. Se os homens faziam
alguma pergunta e se Bholanath lhe pedia que respondesse, Sri Ma falava.
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No entanto, as mulheres tinham livre acesso a ela. Sri Ma as recebia


pessoalmente, colocava esteiras no chão para que sentassem e lhes dava folhas de betel
para mascar, como se costumava fazer naqueles dias. Uma das primeiras visitantes foi
Hiranbala Ghosh, da casa de Rai Bahandur Yoguesh Chandra Ghosh, a qual se
acostumou a fazer uma visita diária à jovem dona de casa de Shahbag. Ainda que não
tivesse aspirações religiosas, tinha uma grande atração por Sri Ma. Mais adiante relatou
suas primeiras impressões aos novos assistentes: “Era tão bonita e tinha um jeito tão
encantador! Eu ficava totalmente enfeitiçada simplesmente com seu sorriso. Dava-me
pena o fato dela não falar!”

Ao chegar um dia em Dacca, Sri Ma perguntou a Bholanath se ele tinha ouvido


alguém mencionar uma “árvore de Siddheshvari.” Ele respondeu que não, mas que
perguntaria, ao que ela respondeu que não tinha importância.

Os Jardins de Shahbag estavam juntos ao imenso hipódromo e campo de pólo de


Ramna. Sri Ma costumava atravessar este mar verde para ir ao templo de Kali, logo do
outro lado, em cujo alpendre ela e seus acompanhantes ficavam sentados durante muitas
horas. Um deles era Baul Chandra Basak, um companheiro de escola de Bholanath.
Quando o resto do grupo regressava a Shahbag, Baul Chandra costumava ir sozinho, por
um caminho retirado, diante do que, um dia, Bholanath lhe perguntou, cheio de
curiosidade: “Aonde você vai tão tarde?” Baul Chandra lhe disse: “Há um templo de
Kali em Siddheshvari. É um lugar muito bonito e eu gostaria de levá-los lá algum dia.”
Sri Ma fez um sinal para que Bholanath não dissesse nada da visão que ela havia tido da
árvore de Siddheshvari, diante do que ele se calou. Poucos dias depois foram com Baul
Chandra a Siddheshvari, lugar ao qual só se podia chegar através de um caminho
acidentado e não por uma estrada em boas condições. Dito caminho produzia uma
sensação de angústia devido à grande quantidade de trepadeiras e ervas daninhas que
havia. As árvores enormes davam ao local um aspecto de bosque. No meio de toda esta
floresta, chegaram a um templo de Kali muito antigo, na frente do qual viram uma
árvore pipal gigantesca, que Sri Ma reconheceu como a de sua visão e que acariciou
suavemente. Baul Chandra lhes contou superficialmente a história daquele local. Era um
Siddhapitha, ou seja, um lugar no qual os ascetas realizavam sadhana e alcançavam
siddhi [êxito] ou a união com o Ser. Era um local de grande santidade e que, segundo a
tradição local, tinha também certa relação com Adi Shankaracharia. Há centenas de
anos havia ali três grandes árvores, que davam ao local outro nome – ‘Tintiri’ – mas
agora só restava essa árvore caída. Baul Chandra lhes contou uma história segundo a
qual, quando dita árvore caiu, surgiu dela uma luz que, em seguida e segundo os que a
viram, foi introduzir-se na imagem do templo, o qual havia sido construído por um
asceta chamado Saravarvan.

Enquanto escutavam todas estas lendas, caminharam um pouco pelo recinto.


Como havia caído a noite, regressaram a Shahbag com uns faroletes que Baul Chandra
se havia preocupado em pegar antes de iniciar a marcha.
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Siddheshvari desempenhou um importante papel na vida dos devotos de Dacca.


Retrospectivamente, pode ser considerado como o lugar onde quase todos os primeiros
seguidores de Sri Ma se converteram em ascetas de primeira ordem. Para eles, constitui
uma espécie de lugar de retiro no bosque, semelhante aos da antiguidade. Foi o lugar
onde Bholanath passou o período mais difícil de sua vida, assim como onde viu
cumprir-se seu desejado sonho de organizar uma magnífica cerimônia de puja. Naquele
momento, no entanto, tudo era normal. De todas as maneiras, Sri Ma jamais optou por
afetar as susceptibilidades das pessoas que a rodeavam, mas, ao contrario, até do
assombroso fazia algo que todos pudessem aceitar facilmente, algo, no fim, não tão
extraordinário.

Bipin Bihari e Mokshada Devi chegaram a Shahbag no final de Agosto de 1924,


em resposta ao convite de Bholanath. No começo do mês havia falecido a segunda irmã
de Sri Ma, Surabara, com a pouca idade de 16 anos. Sri Ma e Bholanath haviam ido vê-
la, assim como a seus pais, procedentes de Vidiakut. Ocorreu a Bholanath que seria uma
boa mudança para os pais, que viveriam com sua filha mais velha, assim como para Sri
Ma, já que isso lhe daria uma ocupação. A ele também havia dado pena a morte da
jovem e supôs que Sri Ma estava muito afetada, já que gostava muito da sua irmã.
Naquele tempo, Bholanath ainda tinha muito que aprender a respeito de Sri Ma,
principalmente o fato de que, quando cuidava e se interessava por alguém, não se via
condicionada pelo resultado de seu serviço. Jamais foi vista entristecida pela morte de
pessoas que lhe eram muito próximas.

Em algum momento, no princípio de Setembro de 1924, Sri Ma e Bholanath


foram um dia visitar Siddheshvari. Depois de algum tempo, Sri Ma expressou o kheyal
de ficar uns poucos dias no templo, em lugar de voltar para Shahbag. Bholanath a
princípio se opôs, já que não gostava da idéia de deixar Sri Ma sozinha num local tão
solitário e desolado, mas foi convencido a deixá-la sozinha só por um tempo, enquanto
voltava para Shahbag para pedir a Bipin Bihari que fosse a Siddheshvari para passar o
dia todo com ela. Ao terminar sua jornada de trabalho, Bholanath voltou a Siddheshvari,
o que permitiu a Bipin Bihari passar a noite na cidade.

Foi assim que, desta forma tão natural, o marido e o pai de Sri Ma acabaram
vivendo alguns dias no átrio do templo, ao modo dos ascetas errantes. Sem Bholanath
saber, sua vida havia tomado um novo rumo. Sri Ma tomou como aposento um pequeno
cômodo, na parte de trás do templo. Durante o dia ela não era vista, mas, nas primeiras
horas da noite, saía e se sentava um tempo com Bholanath e seu amigo Baul Chandra,
que vinha toda tarde com algumas frutas e doces. Bholanath se alojava na sala principal
do templo, enquanto Baul Chandra se instalou na entrada principal. Como tinha o
pressentimento de que iria acontecer algo milagroso, para não perder o acontecimento,
manteve-se acordado a noite toda. Foi assim que passaram uma semana em
Siddheshvari.

É assim que Sri Ma relata o seguinte incidente: “No oitavo dia, ao amanhecer,
pedi à Bholanath, que estava acordado, que me acompanhasse. Saí do templo e quase
tivemos que passar por cima de Baul Chandra, mas ele não acordou. Esgotado por sua
vigília noturna, tinha caído de sono ao romper o dia.”
59

“Ainda que não estivéssemos familiarizados com o local, me dirigi sem vacilar
para o lado norte do templo. Andamos um pouco por entre as moitas e chegamos a uma
clareira. Tive a sensação de haver chegado ao meu destino e caminhei três vezes ao
redor de toda aquela parte do terreno, da maneira que fazemos pradakrishna
(circunvolução sagrada). Então desenhei um círculo com o dedo (kundal) e me sentei
onde estava, olhando para o sul. Então se pronunciaram o que vocês chamam mantras e,
ao mesmo tempo, havia colocado a mão direita no chão, me apoiando nela. Ainda que a
terra tivesse um aspecto sólido, minha mão se enfiou dentro da terra sem resistência
nenhuma. A sensação era a de que ia deslizando, camada após camada daquela terra de
aspecto sólido, como quando se abrem as cortinas e o braço se afundou na terra até a
altura do ombro. Bholanath se assustou e me tirou de lá, dizendo: “Vamos embora
daqui!” Ao mesmo tempo, do buraco que se havia formado no chão, brotou uma água
morna e avermelhada, tão vermelha que minha pulseira se tingiu de vermelho e ficou
vários dias com essa cor.”

“Pedi então a Bholanath que colocasse o braço no buraco. No começo ele não
queria, mas eu lhe disse que não tivesse medo e que era necessário que ele o fizesse.
Então ele também colocou o braço e, ao tirá-lo, voltou a brotar essa água morna e
vermelha do buraco. Ficamos ali, de pé, vendo a água brotar pela terra. Cobrimos então
a superfície do buraco e fomos embora.”

Quando Bholanath puxou o braço de Sri Ma, viu que ela tinha algo na mão.
Como ele não gostou do aspecto dessa coisa, tirou da mão dela e o jogou num tanque
próximo. Neste ponto convém salientar que ninguém conseguiu provocar o kheyal de
Sri Ma para que ela explicasse esses misteriosos acontecimentos.

Baul Chandra ficou muito triste quando se deu conta de que, apesar de tudo,
havia perdido este estranho incidente, mas se comprometeu a limpar o mato de todo
espaço ao redor deste ponto e, mais adiante, plantou alguns arbustos de flor e uma
árvore tulsi para marcar o local. Pran Gopal, ao inteirar-se deste incidente, enviou
dinheiro para mantê-lo e com ele se construiu sobre o buraco uma plataforma (vedi) de
uns 145 cm e se delimitou uma superfície de uns cinco metros quadrados ao seu redor,
mediante uma cerca de bambu fino.

Sri Ma ia com bastante frequencia a Siddheshvari e se sentava na vedi rodeada


por seus acompanhantes. Às vezes passavam assim noites inteiras. Havia uma atmosfera
de inimaginável paz e tranquilidade. Ao amanhecer, regressavam a Shahbag e Dacca.
Pran Gopal dizia que uns poucos meses antes havia sido incapaz de suportar tantas
noites acordado e estar ante semelhante presença. Seu filho escreveu: “Sempre que meu
pai falava de Sri Ma havia em sua voz uma mistura de emoção e respeito que não
diminuiu com o passar dos anos. Sabia que ela era uma mestra que tinha vindo ensinar o
caminho. Com frequência eu lhe perguntava: ‘Quando você vai se deixar conhecer?’ ao
que Sri Ma simplesmente sorria.”

Sri Ma manteve seu silêncio durante um período de aproximadamente um ano e


nove meses, em Shahbag, depois do que começou a falar, no princípio com uma voz
muito baixa. Gradualmente a voz foi recuperando a força e as palavras começaram a
sair com seu tom de voz normal. Didi descreveu suas primeiras impressões em seu
diário:
60

“Eu não senti timidez nenhuma diante de Ma. Aproximei-me dela com confiança
e fiquei de pé perto dela como se a conhecesse desde sempre. Está além da minha
capacidade descrever a personalidade com a qual eu me encontrei. Bastou eu olhar uma
vez para aquela forma radiante para que minha cabeça, por si só, se inclinasse em sinal
de adoração.”

Sri Ma a recebeu com um sorriso e, como seu silêncio já havia terminado


(Dezembro de 1925) lhe disse em voz baixa: “Onde você esteve todo este tempo?”
Assim se iniciou toda uma vida de dedicação e devoção por parte de Didi e de
incessante kripa pela parte de Sri Ma. Outras novas visitantes começaram a aparecer por
Shabag e a misturar-se com os velhos amigos. Bhudeb Babu, de Bajitpur, expressou em
certa ocasião, sua saudade daqueles tempos em que Sri Ma cozinhava deliciosos
aperitivos e comentou, com certo pesar: “Seus estados tão elevados representavam uma
perda para nós.” Sri Ma sorriu e um dia, com a ajuda da inexperiente Didi, preparou
toda uma ceia para satisfazer tanto aos conhecidos de antes quanto aos novos devotos.
Como Bholanath era um anfitrião generoso, este tipo de encontro se converteu na norma
em Shahbag. Tal era a personalidade de Sri Ma que os opostos conviviam em total
harmonia e os devotos aceitavam dela tanto a boa comida quanto os conselhos a respeito
do sadhana.

Entre os que se aproximavam com regularidade estava Shashanka Mohan


Mukerji, pai de Didi, cirurgião jubilado de Dacca, que naquela época era o diretor da
faculdade de medicina. Didi acompanhava seu pai a Shahbag todo dia. À tarde, esperava
seu retorno da faculdade com ansiedade e, quando ele se atrasava, ela agonizava com a
incerteza até que via aparecer sua carruagem. Começou gradualmente a ajudar Sri Ma
com as tarefas de casa, que iam aumentando cada vez mais. Ajudava a cozinhar, a servir
a comida ou a cuidar dela quando entrava num estado de bhava. Didi recorda que não
gostava, realmente, de cozinhar, mas que, na companhia de Sri Ma, aprendeu a
considerar essa arte como algo mais que um mero meio de manter juntos o corpo e a
alma.

Foi assim que muitas famílias em Dacca foram tomando muito carinho a Sri Ma.
Todos que iam vê-la pela primeira vez queriam partilhar essa mesma alegria com seus
amigos e parentes. Sri Ma e Bholanath se converteram no centro de um circulo de
devotos cada vez maior e, em pouco tempo, todo mundo chamava Bholanath de Baba
(pai). Despertou-se o interesse numa ampla camada dos distintos extratos sociais e as
pessoas , quando tinham tempo, passavam uma vez ou outra por Shahbag, como que
atraídas por um imã, levando-lhe peixes, verduras e frutas. Sri Ma tinha por costume
consumir diariamente todas as oferendas, incluindo os últimos pedaços de gengibre ou
de pimenta verde, já que não se guardava nada, em absoluto, para outra vez. Sempre
criava uma refeição completa com os ingredientes que dispunha, diante dos olhos cheios
de admiração das mulheres que a rodeavam quase que o tempo todo. Uma característica
nada irrelevante destas refeições improvisadas era que, invariavelmente, sempre havia a
quantidade necessária para todos os convidados. Não sobrava nada e todos os
convidados saíam satisfeitos. Este tipo de coincidência ou de recorrência de incidentes
no momento apropriado foi uma característica regular na vida de Sri Ma e qualquer um
que estivesse em sua volta era testemunha de um ou mais destes casos.
61

Todos os hindus conhecem a prática do nama-japa, assim como dos cantos


chamados bhajans e kirtan. O ambiente que rodeava Sri Ma favorecia o aparecimento
das formas pessoais de adoração. Transmitia-se um novo espírito, cheio de alegria, que
fundia a amplos grupos num ato conjunto de adoração. Com frequencia, grandes
multidões, sem distinção de casta ou posição social, se sentavam ao ar livre para
compartilhar da comida depois de alguma festividade especial. Este rompimento das
normas e formalidades de antigamente produzia em todos uma nova sensação de
liberdade, sobretudo nas mulheres, que se encontravam em seu elemento quando em
torno de Sri Ma.

O Kirtan de 26 de Janeiro de 1926

Depois do eclipse solar de 26 de Janeiro de 1926, Sri Ma começou a ser mais


conhecida. Os devotos haviam expressado seu desejo de organizar um kirtan em grande
escala, o que pareceu bom para Bholanath, que começou a preparar tudo com
entusiasmo, ajudado por Baul, Atal Bihari e outras pessoas. Para dita ocasião lhes
permitiram usar o salão de baile e uma grande quantidade de pessoas foi convidada.
Todos os que assistissem o kirtan receberiam prasad (comida consagrada) à noite.

O kirtan começou às dez da manhã. Sri Ma, junto com as mulheres que a
acompanhavam, sentou-se num cômodo onde todos a podiam ver e escutar seu kirtan.
Naquele tempo Didi era uma das pessoas novas e escreveu em seu diário uma descrição
daquele dia: “No começo Sri Ma estava sentada como qualquer um de nós mas, depois
de um instante, mudou completamente. Começou a mexer seu corpo ritmadamente, a
parte do sári que levava sobre a cabeça caiu para trás, tinha os olhos fechados e todo seu
corpo se mexia ao ritmo do kirtan. Sem deixar de se mexer, se levantou, ou, melhor
dizendo, foi como se a tivessem levantado até que ela estivesse na ponta dos pés.
Parecia que Sri Ma havia deixado seu corpo, o qual havia se convertido num
instrumento nas mãos de um poder invisível. Para todos nós era óbvio que seus atos não
eram movidos por nenhuma intenção. Sri Ma parecia haver perdido a consciência do seu
entorno e foi girando pela sala como se transportada pelo vento. Às vezes parecia como
se seu corpo fosse cair no chão mas, antes de completar o movimento, recuperava a
posição vertical, tal como uma folha levada pelo vento, que cai rodando pelo solo, mas
que um novo sopro volta a elevar e lançar adiante. Era como se seu corpo não tivesse
peso ou não tivesse substância. Dessa forma Sri Ma atravessou o alpendre e entrou na
sala, com um olhar fixo para o alto, sem piscar e com o rosto iluminado por uma luz
resplandecente. Antes que a multidão tivesse tempo de se dar conta de que ela estava
entre eles, caiu no chão, ainda que não parecesse ter sofrido nenhum dano. Tal como
uma folha seca apanhada por um redemoinho, seu corpo começou a rodar pelo chão a
uma velocidade tremenda. Algumas mulheres tentaram segura-la, sem sucesso. Era
impossível frear, mesmo que só um pouco, aquele movimento tão veloz. Depois de uns
poucos segundos, seu corpo parou por si mesmo e Sri Ma se sentou. O repouso
Absoluto de sua forma era tão maravilhoso quanto o movimento havia sido
tempestuoso. Tinha a face radiante e estava rodeada por um resplendor.”
62

Em seu diário, Didi anotou que o dia todo transcorreu num ambiente sublime,
que inspirou os homens que cantavam o kirtan a entregarem-se ao máximo. Ao cair da
tarde, Sri Ma voltou a experimentar formosos bhavas, estados dos quais as pessoas só
tinham referências através de livros sobre Sri Gauranga Mahaprabhú e Sri Ramakrishna
Paramahansa. Esta foi também a primeira ocasião em que uma multidão de pessoas teve
a sorte de escutar os mantras que brotaram de seus lábios em alguma formosa língua de
sons semelhantes ao sânscrito. Todos escutavam em silêncio, com as mãos juntas,
inclinando a cabeça, embevecidos.

Pandit Gopinath Kaviraj escutou esses mantras um ano depois, em Varanasi e


escreveu: “A pronúncia era tão perfeita que inclusive um som conjunto formado por
várias consoantes juntas, sem vogais intermediárias, era claramente audível.”

Mais adiante, quando chegou a hora de cear, Sri Ma era já outra pessoa, embora
continuasse sendo a mesma. Acompanhada por Didi, serviu a comida a todas as filhas
de convidados com eficácia e rapidez, de tal forma que era difícil imaginar que era a
mesma pessoa que, algumas horas antes estava inerte, num estado extático.

Ao longo dos dois anos seguintes os devotos de Dacca puderam contemplar em


muitas ocasiões os estados de bhava que se manifestavam no corpo de Sri Ma. Nem
sempre era preciso que se produzisse o estímulo externo do kirtan ainda que, por regra
geral, tinham lugar durante ditos cantos. As testemunhas presenciais dizem que era
impossível descrever com palavras os bhavas de Sri Ma. Produziam-se mudanças
indescritíveis na forma e substância do seu corpo, na cor de sua pele, nas expressões
faciais. Seus movimentos, gestos e expressões faciais mudavam com tal velocidade que
constituíam um desafio para qualquer observador. Seus movimentos eram rápidos como
o clarão dos relâmpagos. Era praticamente impossível seguir a evolução de seus
movimentos por entre a multidão. Bastava uma breve visão da incomparável beleza de
semelhante mostra de êxtase para que o observador ficasse embevecido.

Às vezes era como se seu corpo sintonizasse os movimentos que se produziam


ao seu redor. As ondulações da água que constituem o rastro de um barco a atraíam de
tal forma que era como seu corpo fluísse com a água. A ação de subir as escadas dava
ao seu corpo uma qualidade de leveza que a fazia parecer flutuar. Se era surpreendida
por uma tormenta repentina, seu corpo parecia um pedaço de pano ao vento. As
tormentas a deixavam eufórica. Às vezes suas sonoras gargalhadas (attahasa) se
misturavam com os sons dos elementos para orquestrar uma selvagem sinfonia da
natureza.

Depois de um bhava, Sri Ma às vezes caía desaprumada e ficava assim durante


horas. As pessoas conjecturavam se se tratava de um estado yóguico de samadhi. Mas
não só durante um bhava, mas em meio de uma conversa ou trabalho, ficava com o
olhar fixo e o corpo ficava rígido como uma estátua; ou se fechavam os olhos e o corpo
desmoronava. Tal como quando o sol desaparece no poente, todas suas funções vitais
desapareciam gradualmente, como se houvessem se retirado para o interior. A
respiração rareava até parar completamente. Às vezes suas extremidades ficavam tão
rígidas quanto pedaços de madeira e em outras, em troca, pareciam feitas de pano.
Depois de dez, doze ou vinte e quatro horas neste estado, as pessoas tentavam desperta-
la ainda que, em geral, sem êxito. Uma testemunha presencial comentou:
63

- “Eu pessoalmente esfreguei suas mãos e seus pés e às vezes os golpeava com
força, mas não se produzia reação alguma. Muitos médicos trataram de encontrar-lhe o
pulso ou sinais de respiração, mas, ao parecer, ambas as funções permaneciam
suspensas durante horas.”

Sri Ma despertava por si mesma. A respiração se reiniciava primeiro levemente e


depois com mais força. Produzia-se um ligeiro movimento nos músculos das
extremidades mas, após um tempo, voltava a ficar completamente imóvel. Nesse estado
respondia às pessoas que a chamavam ou falavam com ela. Segundo o diário de Didi, a
diferença entre o estado normal de Sri Ma e o de seu samadhi não era mais do que uma
questão de graus. Inclusive quando estava envolvida nas tarefas domésticas, dava a
impressão de estar num estado beatífico. Se ninguém falasse com ela ou lhe perguntasse
alguma coisa durante longo tempo, tinha tendência a falar com pouca clareza, como se
precisasse fazer esforço para usar as cordas vocais. Didi disse: “Me enchia de assombro
o fato de Sri Ma estar, de forma tão natural, num estado permanente de embriaguez
divina, um estado com o qual tem sonhado os sadhanas de todos os tempos. Não, não
era embriaguez divina. Não se pode chamar assim este estado. Não tenho palavras para
descrever um estado que era tão sublime e, ao mesmo tempo, tão normal.”

Um Ambiente Milagroso

Nesta época era algo normal na vida de Sri Ma a manifestação de muitos


poderes yóguicos. Não deixou de ser o que era, mas se acentuou e proliferou o que se
conhece como “o milagroso.” As pessoas vinham a Shahbag desde lugares próximos e
distantes para pedir-lhe que as curasse de suas enfermidades. Estas curas se produziam
mediante um olhar, um toque, dando-lhes uma flor ou de formas muito variadas. Sri Ma
não se propunha a curar ninguém. O que mais costumava dizer era: “Peça a Deus e Ele
fará o que for melhor para o paciente. Só o que é preciso fazer é cuidar do paciente e
conseguir que seja atendido pelo melhor médico possível. O resto se deve deixar, com
confiança, nas mãos de Deus.”

Algumas vezes as pessoas insistiam para que ela fosse visitar o paciente,
acreditando que assim ele se recuperaria. Em tais casos, Sri Ma tinha sua própria
maneira de profetizar o futuro. Olhava ao seu redor e perguntava aos seus
acompanhantes: “O que vocês dizem? Este senhor está me pedindo para ir porque
acredita que assim o paciente irá se recuperar. Vocês acreditam nisso?” Na maioria das
vezes seus acompanhantes respondiam com um enfático “Sim” Sri Ma os fazia repetir
três vezes e então finalmente dizia: “Quem sabe? Já que vocês dizem que sim, então
quem sabe assim seja.” Tanto as pessoas de Shahbag quanto os posteriores
acompanhantes de Sri Ma sabiam, por experiência, que, ainda que todo mundo soubesse
que se produzia este ritual, havia vezes em que os presentes não conseguiam dizer que
sim de forma enfática mas, de forma inexplicável, vacilavam, gaguejavam ou
respondiam sem força. Então Sri Ma lhes dizia: “Por que vacila? Talvez isto queira
dizer que o paciente não vai se recuperar.” E, efetivamente, sempre acontecia assim.
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Um dia veio a Shahbag a mulher de um devoto chamado Atul Datta para pedir a
Sri Ma que fosse visitar seu filho, o qual estava de cama, afetado por uma grave
enfermidade. Sri Ma, aparentemente, não lhe deu muita atenção, pelo menos esta foi a
impressão que a senhora teve e a senhora, então, suplicou a Bholanath que falasse com
Sri Ma em seu nome. Pela atitude e pelas palavras de Sri Ma, seus acompanhantes se
deram conta de que o menino não iria sobreviver à sua doença. Mas Bholanath, que
tinha um grande coração, foi até a casa desta família na companhia de Sri Ma, a qual,
em resposta aos pedidos que lhe haviam feito, disse: “Ainda que eu lhes dissesse o que
fazer, vocês não seriam capazes de fazê-lo.” Isto era algo impensável para os pais, os
quais prometeram, insistentemente, que fariam tudo o que ela lhes dissesse para fazer.
Receberam ordens para não permitir que o menino se levantasse da cama durante uma
quantidade determinada de dias, provavelmente 18. Logo depois desta visita o garoto
lentamente começou a sentir-se melhor, mas, de repente, piorou e morreu. Sri Ma disse
para a mãe desconsolada: “Viu, na segunda feira você deixou que ele se levantasse.”
Mas a mãe não quis acreditar e perdeu a fé em Sri Ma. Depois de bastante tempo ficou
sabendo, através de outros familiares, que o menino havia se levantado para ir à varanda
justo na segunda feira que Sri Ma havia especificado, para ver passar um cortejo
nupcial. Cheia de arrependimento, a aflita senhora regressou a Shahbag, onde Sri Ma
consolou seu duplo pesar.

Havia ocasiões nas quais Sri Ma decidia ir visitar as pessoas por sua própria
conta. Um dia, enquanto passeava perto das portas de Shahbag, um taxi se aproximou e
ela fez sinal ao taxista. Aproximou-se do veículo, subiu e quando o motorista perguntou
aonde ela queria ir, Sri Ma respondeu: “Até sua casa.” O taxista, um muçulmano, se
dirigiu até sua casa sem dizer uma palavra. Ao chegar ali viram que havia um ancião
agonizando numa cama, rodeado por seus familiares, que estavam chorando. Sri Ma
pediu a Bhaiji (que a havia acompanhado) que conseguisse uns caramelos, que foram
distribuídos entre os familiares e vizinhos. Então Sri Ma partiu. Mais adiante Bhaiji se
interessou pelo resultado da visita. O ancião se recuperou do que parecia ser sua
enfermidade final.

Havia vezes em que Sri Ma assumia as enfermidades dos demais. Um dia, Didi
veio a Shahbag e descobriu que Sri Ma havia se resfriado repentinamente e tinha tosse.
Indagando sobre isso, descobriu que Pratul (o filho mais novo de Pramatha Nath), que
tinha que fazer um exame, havia sentido os sintomas de um forte resfriado e havia
rezado a Sri Ma que o impedisse. Em pouco tempo, Sri Ma se recuperou.

Com este tipo de incidente, Bholanath e os demais aprenderam a não pedir para
Sri Ma que curasse os doentes. Deram-se conta de que, para ela, a vida e a morte eram a
mesma coisa. Ela sempre lhes dizia: “Não me peçam que cure ninguém. Cada qual tem
que viver o que lhe está predestinado e, se o seu caminho é obstruído deliberadamente,
os resultados podem ser qualquer coisa menos benéficos.”
65

Produziam-se outros resultados adversos, quando faziam com que Sri Ma


utilizasse seus poderes yóguicos. Numa ocasião, Bholanath e Sri Ma haviam sido
convidados para a casa do fideicomissario. Naquela ocasião, Nawabzadi Piari Bano, o
proprietária das terras, se encontrava em Calcutá e, por razões pessoais, havia muitos
anos que não aparecia em Dacca. Sri Ma e Bholanath se dirigiram à casa do
fideicomissário Joguesh Chandra Ghosh e notaram que estavam bastante nervosos,
porque naquele dia iria sair a sentença sobre o litígio da Nawabzadi no Tribunal
Superior de Justiça de Calcutá. A família queria que Sri Ma lhes dissesse o que estava
acontecendo em Calcutá, mas, ao não se atrever-se a dizer diretamente a ela, pediram a
Bholanath que intercedesse por eles. Como Sri Ma sempre fazia o possível por
obedecer-lhe, ante a insistência de seu marido, descreveu o desenvolvimento dos
acontecimentos e lhes disse que iriam ganhar a causa. Mas antes de responder a sua
pergunta, e sem que ninguém se desse conta, Sri Ma havia colocado um carvão aceso no
dorso da própria mão. Muito tempo depois expressou com as seguintes palavras a razão
pela qual havia feito esta ferida deliberadamente: “Bom, é possível que se realize certa
ação que tinha um certo efeito concreto em outra esfera. Também se diz que, se se usam
os poderes yóguicos deliberadamente, então o sadhaka tem que fazer penitência. Por
isso, às vezes este corpo adotava a atitude do sadhaka. Tanto esta quanto outras
explicações são também possíveis.”

Depois de um ou dois casos deste tipo, Bholanath parou de interceder pelos


demais e deixou que Sri Ma seguisse seu kheyal.

Nawabzadi Piari Bano se fez tão devota de Sri Ma que lhe pediu que viesse a
uma reunião familiar na qual iriam resolver polêmicas de muitos anos atrás. A
Nawabzadi estava convencida de que, graças à presença de Sri Ma, se resolveriam todos
os problemas de forma amistosa. Mais adiante Piari Bano convidou Bholanath e Sri Ma
para as bodas de seu filho e de sua filha. Ela, por sua vez, às vezes assistia aos kirtans
em Shahbag. Toda sua família estava tão unida a Sri Ma quanto qualquer outra família
de Dacca.

Desde os tempos da lila de sadhana em Bajitpur, Sri Ma jamais comia uma


refeição inteira. Quando chegou a Dacca, em Abril de 1924, ingeria três porções de
comida, incluindo água duas vezes ao dia. Quando Didi a conheceu, comia menos
ainda. Nas segundas e quintas tomava três porções e, nos outros cinco dias, somente
nove grãos de arroz. Essas regras não eram estritas. As rompia de vez em quando, sem
sofrer nenhum efeito adverso. Mais ou menos por esta época, notou-se que ela era
incapaz de levar comida à boca com as mãos. Sua mão se paralisava no meio do
caminho e ela abaixava a cabeça para comer o alimento de sua própria mão. Ninguém
melhor do que Bholanath sabia que todas as fases da vida de Sri Ma se produziam de
forma natural e espontânea. Era tão difícil discutir com ela quanto com qualquer
curioso. Ainda assim, em seu caso, era como uma anomalia saborear a comida, de tal
forma que ele assumiu o trabalho de alimentá-la como a uma criança. Didi estava
encantada em ter a oportunidade de oferecer este serviço a Sri Ma quando se reunia com
eles em Shahbag.
66

Anos mais tarde, quando os estudiosos lhe perguntaram sobre todas estas fases,
ela lhes respondia com estas palavras: “Houve um tempo em que este corpo viveu com
três grãos de arroz diariamente, durante uns 4 ou 5 meses. Ninguém pode viver tanto
tempo com uma dieta tão reduzida. Parece um milagre. Mas isso é o que aconteceu com
este corpo. Isso aconteceu porque foi possível acontecer. O corpo só aproveita a
quintessência da comida e o resto é eliminado. Como resultado do sadhana o corpo
alcança uma constituição tal que, ainda que não ingira os alimentos físicos, pode
absorver do entorno tudo o que necessita para manter-se vivo. Há três formas de manter
o corpo vivo sem alimentos: uma, a que se acabou de explicar, ou seja, o corpo absorve
do entorno o alimento que necessita. Em segundo lugar, pode viver só do ar, já que
acabo de dizer que tudo existe em todas as coisas e as propriedades de todas as coisas
estão no ar, em certa medida. Ao tomar o ar, portanto, estamos tomando a essência de
todas as outras coisas. Repito que pode acontecer que o corpo não ingira absolutamente
nada, mas se mantenha sem ser afetado, como num estado de samadhi. Desta forma se
pode ver que, como consequência do sadhana, é bastante possível viver sem isso que
chamamos ‘comida.”

Algumas vezes Sri Ma se absteve de beber, uma vez durante dez dias e outra,
vinte e três. No vigésimo quarto dia pediu um gole de água da seguinte maneira:
“Queria ver o que aconteceria se não bebesse água, mas o fato é que a necessidade de
beber está desaparecendo. E isto não é conveniente. Por uma questão de costumes, se
deve manter um comportamento semelhante ao normal.”

Em outras estranhas ocasiões Sri Ma também era capaz de consumir grandes


quantidades de comida. Didi comenta que, uma vez, aceitando o pedido de um homem
para que comesse mais, começou a engolir o alimento que lhe davam a uma velocidade
o dobro da normal e comentou para Didi: “Você não é rápida o suficiente. Peça a
alguém que te ajude.” Mas nem sequer duas pessoas podiam acompanhar o ritmo em
que comia. O homem que lhe havia feito este pedido estava aterrorizado e lhe pediu
então que parasse. Sri Ma disse, com certa lástima na voz: “Primeiro você me pede que
coma mais, quando estou apenas começando você me diz para parar. O que é que eu
tenho que fazer, então?”
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Sri Ma e um Devoto Muçulmano

Bhaiji tinha um amigo devoto que era muçulmano, chamado Maulvi Ziauddin
Hussain. Uma tarde, Bhaiji, Niranjan Rai e Maulvi foram a Shahbag e viram que um
kirtan estava sendo realizado na sala, pelo que eles ficaram olhando os músicos do lado
de fora. Depois de um tempo, Sri Ma saiu da sala, seguida por umas poucas pessoas.
Alguém levava uma lanterna. Sri Ma parecia estar num estado elevado de bhava e se
dirigiu diretamente para onde estavam de pé os três amigos, na escuridão. Então tocou
ligeiramente, com a mão direita, o cavalheiro muçulmano e seguiu caminhando sem se
deter. Os três amigos a seguiram. Sri Ma se dirigiu ao pequeno mausoléu de dois
faquires árabes, que se encontrava numa esquina dos jardins. Muitos anos antes, Shah
Sahab, um faquir árabe e seu discípulo haviam chegado a Dacca e o Nawab de então
lhes havia pedido que se instalassem em suas terras. Quando o faquir morreu, fez com
que construíssem um mausoléu que continha as tumbas do faquir e de seu discípulo. O
nome de Jardins de Shahbag foi em homenagem a dito faquir.

Aquela noite, diante do olhar atônito de todos os presentes, Sri Ma começou a


realizar o Namaz (oração muçulmana) ao lado da tumba. Depois de uns poucos
segundos o Maulvi, recuperando-se da surpresa, se adiantou e pôs-se a fazer a oração
com ela. Mais adiante disse a Bhaiji que a execução do Namaz feito por Sri Ma havia
sido perfeito em todos os aspectos. Uma vez completado o Namaz, Sri Ma regressou à
sala do kirtan e o Maulvi também entrou com ela. Coincidiu que o homem que tinha que
fazer a oferenda de uma lamparina e alguns batasas (um tipo de doce) no mausoléu, não
tinha vindo. Sri Ma encarregou o Maulvi deste serviço. Deram-lhe para este propósito
uma bandeja com estes doces. Depois de oferecê-los ao lado da tumba, sentiu um forte
desejo de dar alguns para Sri Ma. Quando voltou para a sala, Sri Ma pegou um doce
espontaneamente. A partir daquele dia, o Maulvi se sentiu tão unido a ela e com tanta
devoção quanto qualquer outro devoto hindu.

Um dia, ao chegar a Shahbag, Bhaiji e Niranjan Rai viram que Sri Ma acabara
de desenhar uns diagramas no chão, com um pedaço de carvão. Bholanath comentou,
com um sorriso:

- “Vossa Mãe leva um tempo desenhando os sat-chakra.”

Sri Ma disse:
68

- “Esta tarde, me sentei num asana e medi com os dedos a distância entre o
centro da cabeça e o espaço entre os olhos e depois o pescoço e o coração e depois, até a
base da coluna. Tenho um kheyal de que existem uns centros nestes locais específicos
do corpo humano. Desde o mais baixo até o mais alto, abrigam desde o grosseiro até o
mais refinado. Não desenhei ditos diagramas deliberadamente, mas posso dizer que eles
se desenharam por si mesmos. Neles se localizam as aptidões e as propensões do ser
humano, determinadas pelas experiências de seus órgãos dos sentidos. A corrente de
vitalidade flui através deles, lenta ou rapidamente, determinando assim as emoções e as
ações do indivíduo. Do mesmo modo que o mundo tem diversos extratos, tais como
terra, água, ar, o vazio, etc, o corpo humano também tem diferentes níveis. A força vital
jaz, como se estivesse sonolenta, na base da coluna dorsal. Mediante a perseverança e a
fé, o pensamento e as ações vão se purificando. As vibrações engendradas pelas ações
de pureza interna e externa sacodem o poder adormecido e o colocam em movimento.
Quando dito poder se desloca para cima, atravessando um nível após o outro, o sadhaka
se sente liberado de muitas ataduras.” Sri Ma descreveu em seguida os diferentes
chakras, sua importância interna e algumas das experiências que podem surgir para o
sadhaka que avança por este caminho. Bhaiji havia lido sobre essas coisas em vários
livros, mas agora se dava conta de que Sri Ma estava descrevendo a progressão yóguica
da sadhana baseando-se em sua própria experiência direta.

Aqueles foram tempos felizes para as pessoas de Dacca. Durante um tempo,


Shahbag foi o centro de uma ampla família de devotos.

Bhaiji, Sri Ma e Bholanath


69

CAPITULO 5

O Início de um Incessante Viajar

“Rara é a vez que um rishi deste país se dedica a viajar, pregando seus
ensinamentos e inspirando e ajudando as pessoas mediante seu exemplo e sua
experiência interna. Geralmente, costumam ser seres sedentários que, através do poder
de seu grande tapas e logro supremo, fazem-se automaticamente de gigantescos imãs
espirituais que atraem até sua morada a buscadores de muitos níveis e origens. Não
obstante, a história tem nomes ilustres como Buda, Sri Shankaracharia, Sri Gauranga e
outros que viajaram ao longo e ao largo desta terra e que, mediante seus ensinamentos e
cantos devocionais, mostraram o caminho até a paz e a felicidade supremas. A este tipo
de seres pertence Sri Anandamayi Mata, a famosa Santa de Bengala, cujo nome é
conhecido em qualquer lar do norte da Índia.”

S. S. Cohen (Sri Ramanasharam, Tiruvannamalai)

“…são vocês que me vêem viajando de um local para outro. Na realidade, eu


não me movo, em absoluto. Quando você está sentado em sua casa, fica parado num
só canto? Não, você se move livremente para lá e para cá, sem sair da própria casa.
Assim, de forma semelhante, eu vou me movendo em minha casa. Não vou à parte
alguma, estou sempre descansando em minha própria casa.”

Sri Ma Anandamay
70

O Inicio de um Incessante Viajar

A Primeira Viagem Para Fora de Bengala

Pran Gopal Mukhopadhiaya tinha planejado ir viver em Deoghar, para assim, ao


jubilar-se, estar perto do ashram de seu Guru Sri Balananda Brahmachari Maharaj.
Diante de seus repetidos convites, Sri Ma iniciou a viagem para Deoghar, em algum
momento do mês de Maio de 1926. Acompanhados de Shashanka Mohan, Didi, Atal
Bihari e sua mulher e outras poucas pessoas mais, Sri Ma e Bholanath partiram para
Deoghar via Calcutá. Esta era a primeira visita que Sri Ma fazia até a capital do estado
de Bengala antes da divisão. Estavam convidados a hospedar-se na casa de Pramatha
Nath, o qual, depois de viver em Dacca, havia sido transferido a Calcutá. Foi um
encontro muito alegre. Muita gente nova veio para ter o darshan de Sri Ma. Em Deoghar
também se recriou o ambiente de Shahbag, porque Sri Ma teve muitos bhavas durante o
kirtan que se organizou no ashram. Dito acontecimento era muito pouco comum.
Bramachari Maharaj era um santo de grande renome e o fato de que ele a reconhecesse
como uma pessoa do mais alto nível de realização espiritual poderia comparar-se ao
joalheiro que certifica a pureza de uma pedra semipreciosa. Ambos conversaram um
pouco sobre o Ser Supremo. Ainda que ele afirmasse a existência da dualidade
mencionando os termos Brahman e Maya, Sri Ma se manteve em sua posição de que o
Uno é o Único Todo. No fim de um tempo aceitou sua afirmação com um sorriso.

Ao regressar a Calcutá, se hospedaram na casa de Surendra Mohan Mukerji, o


qual nunca havia visto a Sri Ma antes, mas havia concordado em acolhê-los. Isto
representou o começo de uma longa relação e do costume de reunir-se que se repetiria
muitas vezes no futuro. Teve lugar outro tipo de acontecimento que se poderia qualificar
de quase normal com Sri Ma, já que se produzia com grande regularidade. O dia que
tinha que partir, foi visitar a Pramatha Nath, mas como ele não acabava de despedir-se
dela, Sri Ma perdeu o trem. Muita gente havia ido despedir-se dela e lhe haviam levado
doces e frutas para a viagem. De repente, caiu um aguaceiro que deixou ensopados
todos os que a esperavam fora de casa. Começaram a cantar um kirtan e o mero fato de
poderem ver a Sri Ma os enchia de satisfação. Os desconhecidos se tornaram amigos.
Quando parou a chuva, Sri Ma conseguiu organizar os alimentos que lhe haviam trazido
de tal forma que foi o suficiente para que todos comessem. Respirava-se um
maravilhoso ambiente de regozijo. Ninguém se lembrou que tinha a roupa molhada
porque tinham pela frente outro dia na companhia de Sri Ma, antes que ela regressasse a
Dacca. A presença de Sri Ma fazia com que essas refeições improvisadas, em condições
adversas, se convertessem em algo maravilhoso e ela parecia desfrutar, criando ordem a
partir do caos. A maioria dos devotos conserva muitas recordações de tais ocasiões.
71

Uma vez mais Shahbag se converteu no centro de atividades para as pessoas de


Dacca. Aconteceu que em 6 de Agosto de 1926, acompanhada de uma grande multidão,
Sri Ma foi a Siddheshvari. Como era habitual, sentou-se na pequena plataforma, seu
assento habitual, e os demais permaneceram de pé ao seu redor. Um dos presentes
escreveu: “A Mãe se sentou na plataforma naquele dia de Ambuvachi e a mudança que
se produziu em sua pessoa foi simplesmente impressionante. Era como se todo seu
corpo estivesse em chamas – mas era um fogo que emitia os raios mais doces e
maravilhosamente refrescantes que alguém podia imaginar. - Resplandecia de forma
gloriosa, mas sem ofuscar nossa visão. Inclusive agora recordo vividamente sua
transfiguração… Digamos que ainda não havia ‘demonstrado’ quem era e muito pouca
gente havia ouvido falar dela.” O catedrático Guirija Shankar Battacharia também
anotou que Sri Ma falou individualmente com algumas poucas pessoas e que, para ele,
ela disse: “Só conheço o Uno.” Depois dessa declaração, ouviram-na pronunciar slokas
(estrofes) em sânscrito. Nas palavras do catedrático: “É impossível segui-la em sua
recitação de versículos dada a velocidade a qual lhe saía este rio de palavras, mas
entendemos com clareza que ela estava falando da unidade das coisas e eu acredito
recordar que pronunciou o termo abrahmastambapariantam. Desta forma, inclusive ao
princípio de conhecê-la, a Mãe falou da unidade na diversidade – a verdade, que tantas
vezes depois me demonstraram suas palavras e sua conduta.”

Também existe um registro no diário de Didi Gurupriya a respeito deste


incidente: “Sri Ma olhou seus seguidores e falou com voz firme. Já não tinha a face
coberta. Só deixava a ponta do sári por cima da cabeça. Tinha um porte majestoso e
estava resplandecente, apesar de sua roupa comum. Todos nós estávamos de pé e
estupefatos.” Pode-se considerar que esta ocasião foi a primeira vez que Sri Ma se
dirigiu aos demais como Mestra de Conhecimento espiritual. Depois de dar conselhos
explícitos, concluiu com estas palavras: “Todos os que vieram aqui deverão estar
preparados para se esforçarem por avançar espiritualmente. Agora, não fizeram mais do
que começar, apenas preparar o terreno.”

O séquito de Sri Ma não compreendeu de imediato o ênfase que ela fez sobre a
renúncia interna e externa e continuaram celebrando todas as festas com grande
entusiasmo, sobretudo porque sua presença espalhava magnificência a tais ocasiões. Era
um ambiente de alegre júbilo, mais do que de silenciosa austeridade.
72

Siddheshvari

Sri Ma jamais revelou o mistério de Siddhesvari-asana, ou seja, do orifício


tampado com barro e da plataforma que o cobria. Que estava, de certa forma,
relacionado com Bholanath e que, além disso, era um local muito sagrado no qual
gerações de ascetas haviam realizado o Ser, era algo que todo mundo compreendia. Se
Bholanath, numa vida anterior, havia praticado austeridades e invocado a presença da
Divina Shakti em forma humana, era uma pergunta que ocorria a todos, dado que aquele
era o lugar onde se havia visto e ouvido a revelação de Sri Ma. O kheyal de Sri Ma
quase sempre se produzia como fruto dos desejos das pessoas ao seu redor. É possível
que sua manifestação como Mestra fosse o resultado das orações de Pran Gopal, da
mesma forma que a festa de Vasanti-Puja se realizou em Siddeshvari (em Abril de
1926) na raiz do desejo que Bholanath uma vez expressou de fazê-la. Outro importante
acontecimento que se produziu neste mesmo lugar sagrado foi o surgimento do nome de
Sri Ma.

Um dia, enquanto Bhaiji estava trabalhando em seu escritório, seu assistente


Bhupen lhe trouxe uma mensagem de Shahbag de que Sri Ma queria vê-lo. Ainda que
Bhupen houvesse dito a Sri Ma “hoje o Diretor deve voltar de licença e Bhaiji deverá
colocá-lo a par dos acontecimentos.” Ela quis que a mensagem lhe fosse transmitida de
qualquer maneira. Bhaiji deixou seus arquivos e papéis tal como estavam e foi para
Shahbag. Sri Ma lhe disse: “Vamos para Siddhesvari.” Ao chegar naquele local, sentou-
se em seu lugar habitual, a plataforma. Tinha um aspecto radiante. Movido por um
impulso interno, Bhaiji disse a Bholanath: “De agora em diante a chamaremos Sri Ma
Anandamayi (a Mãe Plena de Felicidade)” ao que Bholanath concordou com um
sorriso.

Na volta, Sri Ma lhe disse: “Até agora você estava muito contente. Algo te
preocupa?” Bhaiji lhe respondeu que, sem dúvida alguma, o diretor o consederaria um
irresponsável por sair do escritório sem comunicar uma palavra a ninguém. A verdade,
porém, é que não aconteceu absolutamente nada. O diretor se atrasou por razões
inevitáveis, o que tentou explicar a Bhaiji quando o viu.

Depois de algum tempo Bhaiji perguntou a Sri Ma porque ela o havia feito ir a
Shahbag de forma tão inesperada. Sorrindo, Sri Ma lhe disse: “Para comprovar teus
progressos durante estes meses. Além do mais, de que outra forma eu haveria recebido
meu nome?”
73

A população bengali de Dacca desejava fazer a adoração da Deusa Kali, a


divindade principal de Bengala. Da mesma forma que muitas outras pessoas em Dacca,
a família de Bholanath seguia a tradição de fazer o Kali-Puja. Em Outubro de 1926 dita
celebração anual se realizou em Shahbag com grande entusiasmo, pelas pessoas da
região e se produziram muitos fatos milagrosos que fizeram transbordar o coração dos
devotos. Esta puja particular teve mais de uma sequela interessante. Em primeiro lugar,
a imagem de Kali não foi submergida no rio, como costuma acontecer ao fim destas
festividades anuais. As imagens de argila não são feitas para serem instaladas nos
templos, mas sim para que se desintegrem rapidamente nas águas de um rio ou lago. No
entanto, a esposa de Niranjan Rai desejava que aquela imagem fosse conservada,
especialmente porque ela era muito bonita e com um aspecto muito real. Sri Ma lhe
disse: “Já que te dá pena desfazer-se dela, que ela fique com você até que Ela mesma o
deseje.”

Em segundo lugar, conservou-se também o fogo que se acendeu para o sacrifício


do puja, em lugar de completar-se o rito de extingui-lo depois da última oferenda. Ainda
que ninguém fosse capaz de prever o sentido futuro destes fatos, os aceitaram e os
integraram na rotina diária de Shahbag.

Outra das consequências inovadoras deste puja foi que se deixou de realizar o
sacrifício de animais. Bholanath se havia dado conta de que Sri Ma tinha o kheyal de
que não se fizessem ditos sacrifícios, pelo que se realizou uma forma alternativa da
cerimônia. Só aqueles que estejam familiarizados com a tradição bengali de kali-puja
poderão dar-se conta plenamente da natureza radical desta reforma.

O resultado surpreendente deste acontecimento se produziu quase como um mal-


entendido. De madrugada, uns poucos amigos estavam sentados com Sri Ma e
Bholanath comentando o Kali-Puja que se acabara de celebrar. Alguém comentou que a
imagem parecia tão viva que lhe daria medo sentar-se sozinho na sala do puja. Os
demais comentaram que a imagem era extraordinária. De repente, Sri Ma pediu a Didi
que pegasse um pouco do fogo do receptáculo de bronze que estava na sala do puja.
Didi pôs alguns carvões ardendo num recipiente apropriado e os levou para Sri Ma, a
qual o segurou com a mão e, agitando-o como se brincasse com ele, comentou: “Deste
fogo se acenderá o fogo de um grande mahayajna!” (esta profecia se realizou em 1947,
em Varanasi).

Fez uma pausa e perguntou: “Quem pode se encarregar de manter esse fogo na
sala de Kali?” Ninguém disse nada naquele instante porque a pergunta estava carregada
de dificuldade. A adoração diária de Kali só é realizada por ascetas, já que ela destrói
todas as ataduras. Há inclusive chefes de família que temem ter um desenho de Kali em
seu lar. O manter o fogo vivo implicaria vigiá-lo constantemente. Em poucas palavras,
nenhuma pessoa que leve uma vida normal, de chefe de família, seria apropriada para
dito propósito. Assim que, expressando a opinião geral a esse respeito, Birendra
Chandra, o irmão mais velho de Didi respondeu: “Não Ma, não posso. Tenho mulher e
filhos a meu encargo.” Os demais se mantiveram em silêncio. No entanto, Sri Ma
perguntou outra vez, em tom convincente: “Quem de vocês pode fazê-lo?” Shahshanka
Mohan, que estava cochilando, ao ouvir a pergunta, pensou que se referia ao tema
anterior, ou seja, sobre se ter medo de ficar sozinho na sala com uma imagem de Kali de
aspecto real e respondeu enfaticamente: “Eu sim sou capaz. Por que haveria de ter
medo?”
74

Imediatamente Sri Ma respondeu: “Muito bem. Pergunte a seus filhos.”


Birendra, o mais velho e Nandu, o caçula, estavam presentes. Birendra disse: “Se meu
pai é capaz de fazê-lo, para mim seria um grande mérito.” Em troca, Nandu, com grande
receio, se manteve calado. Então Sri Ma encarregou Shashanka Mohan de manter aceso
o fogo que estava destinado a ter uma importância transcendente. Sem mais palavras, o
homem se levantou e foi começar a vigília da qual seria esclarecido por outros mais
tarde. Sri Ma disse a Didi e seus irmãos que fossem para casa.

Os Primeiros Ascetas

Sri Ma se dirigiu pessoalmente até a sala do puja, levando uma manta para que
Shashanka Mohan pudesse descansar um pouco. Foi assim que, de uma forma quase
lúdica, Sri Ma o guiou até o caminho do ascetismo. Ele demonstrou ser amplamente
digno da confiança depositada nele. Durante este período estava se produzindo outra
transformação, sem que os demais a percebessem. Dentre os que assistiram as reuniões
de Shahbag, Sri Joguesh Rai era um dos mais silenciosos e desconhecidos. Era um
solteiro que vivia com sua mãe e que ia a Shahbag atraído pela música dos kirtans, mais
do que pelas atividades religiosas. Um dia, durante um kirtan, aconteceu que Sri Ma o
tocou enquanto estava num estado elevado de bhava e isto foi algo que o mudou
radicalmente. A partir deste momento começou a vir para ver Sri Ma, ainda que sempre
se mantivesse discretamente à margem da multidão. No entanto, Sri Ma o havia
escolhido, por assim dizê-lo, para ser um dos seus poucos seguidores ascetas. Sri Ma
pediu a Bholanath que dissesse a Joguesh Rai que tirasse um ano de licença de seu
trabalho e que deveria sair de Dacca e ir em peregrinação a lugares distantes, onde
ninguém o conhecesse. Deveria passar um ano sem deixar-se conhecer por ninguém,
mas antes de partir deveria informar sua mãe. Seus amigos e parentes ficaram atônitos
diante de sua súbita partida de Dacca. Como havia recebido a ordem de não levar
nenhum dinheiro, se viu obrigado a mendigar. Mais adiante comentou que, até que lhe
crescesse a barba e todo seu cabelo ficasse emaranhado e sua roupa ficasse gasta,
passou muita fome porque, até então, ninguém lhe dava esmolas e, além disso, ele não
sabia pedi-la. Foi parar em Haridwar, onde os ascetas ganham esmolas facilmente,
porque é uma cidade dedicada à vida não mundana. Um dia se surpreendeu ao ver a Sri
Ma e muitas outras pessoas caminhando pela estrada. Ninguém o reconheceu, devido à
sua aparência diferente e, como não podia deixar-se reconhecer, não lhes disse nada.
Ficou de pé, olhando-os enquanto passavam diante dele e seguiam pelo caminho, o
qual, um pouco à frente, fazia uma curva fechada. Ao passar por esse ponto Sri Ma
virou a cabeça para olhá-lo e ele, de pé na borda do caminho, soube, por sua expressão,
que ela o havia reconhecido.
75

Depois de um ano Joguesh Rai voltou a Dacca e Sri Ma lhe disse que voltasse ao
trabalho porque “por enquanto era suficiente.” Posteriormente se instalaria em
Siddhesvari e seria um dos moradores do ashram recém construído. Depois de
Shashanka Mohan, Joguesh Rai foi o primeiro homem a renunciar ao mundo para seguir
a Sri Ma. Esta e Bholanath iam, às vezes, visitar os amigos e devotos dos povoados
vizinhos e cidades próximas, que os convidavam, pelo que os devotos de Dacca
começaram a se acostumar com suas frequentes ausências de Shahbag. Durante a
primeira semana do mês de Abril de 1927, Sri Ma, Bholanath e um grupo de seguidores
partiram de Dacca para ver o Khumba Mela [grande festival religioso] de Haridwar. No
grupo de Sri Ma estavam Shashanka Mohan e Didi, Sri Rajendra Keshari e sua mulher,
Matari Pishima, Didimá, Dadmashai, assim como Jamini Kumar, o irmão mais novo de
Bholanath. Esta era sua primeira grande viagem.

Depois de passar por Calcutá e Varanasi, dirigiram-se a Haridwar, de onde,


depois de fazer o ritual do banho no rio sagrado, dirigiram-se a outros locais de
peregrinação daquela zona: Lakshman Jhula, Rishikeshi e Bhimgoda. Em sua viagem de
regresso também visitaram Mathura, Vridavan e Agra.

Na véspera de sua partida de Haridwar, Sri Ma pediu a Shashanka Mohan e a


Didi que ficassem ali durante três meses para fazer sadhana e lhes disse: “Todo mundo
necessita fazer seu próprio trabalho (sadhana) em solidão.” Didi não soube apreciar esta
oportunidade única porque desejava estar perto de Sri Ma e servi-la. A Didi não
interessava o sadhana. Sashanka Mohan era um ancião, praticamente chefe de um clã,
que estava mais acostumado a tomar as rédeas das situações e dar ordens do que a ser
subordinado de alguém. No entanto, não apresentou nenhuma objeção e aceitou atuar
segundo o kheyal de Sri Ma. Shashanka Mohan continuava vivendo em Shahbag desde
que havia se encarregado do fogo sagrado, logo depois do Kali-Puja. Uma vez por dia ia
até a faculdade de medicina em sua própria carruagem e, no trajeto de volta, fazia uma
parada para esperar um tempo em sua casa. Havia renunciado às comodidades do lar e
às suas relações sociais. Retrospectivamente é fácil ver que, dentre os primeiros
devotos, foi o pioneiro, que abriu a senda da vida de ascetismo. Curiosamente, a Didi e
a seu pai lhes pediram que regressassem a Dacca só seis semanas depois. Sri Ma era
muito amável com todos aqueles que lhe rendiam obediência implícita, tal como
demonstra a experiência do número reduzido de pessoas que constituíam dito séquito de
elite.

Em Shahbag continuava aumentando a quantidade de visitantes. Como Sri Ma e


Bholanath não faziam visitas de cortesia, se desenvolveu uma estratégia para desfrutar
de sua companhia, que se manteve enquanto ela estava viva. As pessoas organizavam
cerimônias religiosas, um kirtan ou um puja, ao qual os podiam convidar. Onde quer
que Sri Ma fosse, sempre aparecia uma multidão, estivessem convidados ou não,
fenômeno diante do qual cada um reagia de uma forma diferente. Para alguns era um
privilégio e uma honra que “o pó dos pés dos devotos” (bhakyapadarenu) purificasse
seu lar. Outros, em troca, ficavam incomodados diante da ousadia de uma multidão de
pessoas não convidadas que lhes pisoteavam os jardins e se acomodavam onde quer que
Sri Ma fosse. A seguiam até mulheres de famílias conservadoras, sem pudor algum.
Homens que jamais haviam imaginado se dedicar a seguir a “uma santa”, estavam agora
com inveja de que suas mulheres tivessem acesso às proximidades de Sri Ma, enquanto
eles se viam obrigados a, muitas vezes, vê-la apenas de longe.
76

Para os devotos de Dacca era impossível conceber um futuro sem Sri Ma


residindo em Shahbag, como deidade principal da cidade. Ainda deveriam aprender que,
ainda que Sri Ma não se instalasse em lugar algum, sempre se sentiria como em sua casa
onde quer que estivesse.

Uma tarde de Julho de 1927 Sri Ma decidiu, por conta própria, visitar várias
casas da cidade. Por seu comportamento, Didi, seu pai, Bhaiji e outras pessoas
deduziram que se tratava de visitas de despedida e que ela iria partir outra vez de Dacca,
o que acabou se confirmando. No dia seguinte, Sri Ma e Bholanath haviam partido antes
que nenhum dos devotos houvesse chegado a Shahbag. Sri Ma viajou por Narayanganj,
Rajshadi, Calcutá, Deoghar e Vindiachal. Era esta sua primeira visita ao alto desta
colina que, posteriormente, se converteria numa de suas paradas principais. Após
regressar a Dacca, depois de pouco tempo partiu outra vez de viagem, desta vez a
Vidiakut e Kheora, os povoados de sua infância. Chegou a este último lugar em 3 de
Agosto de 1927, acompanhada por um grande número de devotos que desejavam ver
seu lugar de nascimento. A casinha na qual havia nascido Sri Ma estava agora em mãos
de uma família muçulmana. Os devotos pediram a Didimá que lhes indicasse o local
exato onde Sri Ma havia nascido, mas os moradores haviam mudado tanto a casa que
ela ficou muito confusa. Sri Ma estava andando, conversando com as pessoas, rodeou
uma casinha e ficou quieta perto de um lugar onde haviam acumulado um monte de
estêrco. Pegou um pouco de terra do local e, de forma inesperada, começou a chorar
como uma criança. Neste momento Didimá reconheceu muitos detalhes do local e
declarou, com segurança, que era o lugar exato onde Sri Ma havia nascido, quase trinta
anos atrás. A Bholanath não agradou nada ver Sri Ma chorando e ele quis partir
imediatamente. Sri Ma secou então as lágrimas e chamou o dono da casa, ao qual disse:
“Será benéfico para todos vocês que usem este local para rezar e meditar.” Os donos
aceitaram a sugestão de bom grado. Shashanka Mohan queria oferecer algum dinheiro
para que se pudesse manter o local em forma apropriada e que, quem sabe, se
construísse uma plataforma naquele local, mas o pai de família muçulmano se negou a
aceitar, dizendo que ele mesmo faria tudo o que fosse necessário. Foi uma visita curta e
não foram muitos os que puderam ir vê-la, mas em anos posteriores Sri Ma regressaria
para passar mais tempo.

O grupo se dirigiu então a Vidiakut, onde desfrutaram durante uns poucos dias
da hospitalidade dos parentes de Sri Ma. No dia da despedida, Sri Ma agarrou o braço
de um de seus primos mais velhos e se pôs a chorar abertamente, da forma que a
tradição indica que uma jovem deve fazer quando parte do povoado de seus pais para ir
viver na casa do marido. O primo pôs a mão em sua cabeça e lhe disse palavras de
ânimo. A Didi e aos demais devotos de Dacca foi divertido ver Sri Ma no papel da
jovem interiorana, recém casada, que se despede dos seus familiares.

Sri Ma não se fixou em Dacca, mas sim se dedicou a fazer viagens curtas a
Calcutá e outras cidades e povoados vizinhos. Com bastante frequência levava consigo
a muitos de seus parentes, como tias, primos, sobrinhos, parentes da família de
Bholanath e pessoas mais velhos que desejavam viajar a lugares interessantes e
participar de muitas peregrinações.
77

Enquanto isso a cabana de adobe que se havia construído em Siddheshvari


estava se deteriorando, motivo pelo qual Shashanka Mohan sugeriu que se construísse
uma edificação mais consistente, ao que Sri Ma disse: “Sinto que não será possível se
preservar a santidade do “oco” no futuro. Bom, as coisas são como são. Se você deseja
construir um edifício de cimento, cubra o oco com ladrilhos e construa sobre ele uma
plataforma elevada, para que ninguém venha a pisar nele sem querer.” Todos os devotos
expressaram seu desejo de colaborar com os gastos da construção, pelo que se pode
considerar esta edificação de um só cômodo como o primeiro ashram, que se edificou
em Siddheshvari, no começo do ano de 1928.

O Adeus a Shahbag

Os devotos de Dacca souberam que Sri Ma estava se preparando de novo para


continuar viajando. Sua amiga Hiranbala Ghosh lhe disse: ‘ “Você deve regressar logo
porque senão, vamos fechar as portas de Shahbag e não te deixaremos entrar!”, ao que
Sri Ma, com um sorriso, respondeu apenas: “Ah sim.” No dia de sua partida de
Shahbag, Didi a viu caminhar pelos jardins num estado de ânimo muito particular seu.
De vez em quando tocava as paredes, como se as acariciasse. Mas tinha no rosto uma
expressão indecifrável e distante. Didi não se atreveu e perguntar-lhe a razão de sua
estranha conduta.

Enquanto Sri Ma e Bholanath estavam de viagem pelo Rajastão, as propriedades


da Nawabzadi passaram às mãos do governo municipal, em consequência do que
Joguesh Chandra Ghosh, Bhudeb Babu e Bholanath perderam seu trabalho e tiveram
que deixar Shahbag. Os devotos se reuniram e alugaram uma casa na cidade, na qual
instalaram os pais de Sri Ma, Amulia, sua mãe e Kamalakanta, um jovem garoto. Num
dos cômodos da casa também instalaram a imagem de argila de Kali. As palavras que
Hirandala Ghosh havia dito brincando demonstraram ser proféticas. Quando Sri Ma
regressou a Dacca disse aos familiares de Joguesh Ghosh que estavam com o ânimo
para baixo, que não se preocupassem por haver perdido o trabalho porque o que havia
acontecido era pelo seu bem no futuro. Muito mais tarde se dariam conta de como foi
acertado este comentário.

Bhaiji, que havia passado um tempo doente, havia partido de Dacca para mudar
de ares e descansar (Sri Ma havia ido visitá-lo em Vindiachal),e acabara de regressar a
Dacca, para retomar seu posto de funcionário. Os médicos lhe haviam recomendado que
deixasse de trabalhar e levasse uma vida de retiro e repouso absoluto, já que não lhe
restavam muitos meses de vida. Mas Sri Ma lhe disse: “Não vai te acontecer nada nos
próximos anos, assim, volte a Dacca e retome seu trabalho. Depois veremos o que
fazer.”
78

Tanto ele como todos os demais estavam convencidos de que lhe havia sido
concedida uma prorrogação na sua vida, devido à Graça de Sri Ma. O Sr. Finlow,
Conselheiro de Agricultura do Governo de Bengala, que sentia um grande respeito e
apreço por seu ajudante, lhe perguntou: “Como você se curou desta enfermidade fatal?”
ao que Bhaiji lhe respondeu: “Me curei pela Graça de Sri Ma. Ela não me deu nem
amuletos nem encantamentos. Seguí o tratamento dos médicos. Eles me disseram que
essa doença (tuberculose) era incurável e eu também sei que sem a Graça de Sri Ma ela
é incurável mesmo.” O Sr. Finlow respondeu tranquilamente: “Não pense que eu não
acredito nisto. No meu país também se fala de casos semelhantes de Graça Divina.”

Os devotos haviam se esmerado nos preparativos para o aniversário de Sri Ma, o


qual foi celebrado em Siddhesvari. Bholanath realizou a Thithi-puja, a qual era o
segundo puja, já que o primeiro se havia realizado em 1927, em Shahbag.

Resolveram deixar a casa alugada, já que não estava muito bem localizada e
outra casa foi alugada para Sri Ma e Bholanath, local chamada Uttama Kutir. Todos os
devotos estavam colaborando para adquirir um terreno no qual se pudesse construir um
ahsram para que Sri Ma e Bholanath tivessem um lugar de residência adequado e
seguro.

Enquanto isso, Sri Ma viajava quase sem cessar. Passava uns poucos dias em
Dacca e voltava a partir para cidades distantes. Em 1928 foi para Varanasi, visita
durante a qual conheceu a Mahamahopadhiaya Sri Gopinath Kaviraj, o então diretor do
Queen’s College, que hoje em dia é a Sampurnanand Sanskrit University. Pela casa
onde se alojaram Sri Ma e Bholanath não parava de passar, de manhã à noite, um fluir
constante de homens e mulheres e ninguém se preocupava em averiguar se o caseiro
concordava com toda esta avalanche. Esse assédio a Sri Ma era tão constante que ela
não tinha tempo de se lavar, comer, mudar de roupa nem descansar. Os dias e as noites
iam se sucedendo, mas as pessoas continuavam vindo, atraídas pelo magnetismo de uma
personalidade que parecia haver finalmente emergido do ambiente restritivo de uma
casa conservadora. Bholanath tentava, em vão, convencer a Sri Ma de que não
entregasse seu tempo, seu descanso e sua energia com tanta prodigalidade. Mas era
demasiado tarde. Numa ocasião, Sri Ma lhe havia dito, em Shahbag, que pensasse duas
vezes antes de abrir as portas ao mundo e agora lhe recordou sua advertência de então
com estas palavras: “Se você não me fez caso então, como você quer conter agora as
águas que já transbordaram?” Bholanath entendeu que já não podia reter dita maré.
Mas, como a ele não desgostava aquele ambiente de regozijo festivo, seu receio não
durou muito. Quiçá fosse necessário que expressasse dito receio porque agora sabemos
que, em nenhum momento tentou fazer nenhum tipo de publicidade para Sri Ma.

Pandit Gopinath Kaviraj ficou muito impressionado pela habilidade com a qual
Sri Ma abordava as perguntas difíceis, pela profundidade de suas respostas a tudo que
lhe perguntavam, assim como pela sua agudeza e sentido de humor.
79

As sessões de satsanga não só eram instrutivas, mas também deliciosamente


divertidas. Este era o princípio das “conversações” de Sri Ma. Essa pauta, onde o
público lhe fazia perguntas e ela respondia se converteu numa das características
permanentes de sua estada em qualquer cidade. Nunca dava longos discursos nem
tampouco falava, a menos que lhe perguntassem algo. Seu silêncio supremo em meio a
toda uma multidão resultava tão extraordinário como as horas de incansáveis respostas a
infinitas perguntas, fosse qual fosse seu tipo, respondidas com um juízo inequívoco
sobre a capacidade de compreensão do interlocutor. Apesar do seu aspecto de dona de
casa, vestida com seus sáris de borda longa, já não tinha uma atitude retraída. Se havia
dado a conhecer ao mundo, ao qual pertencia.

Sri Ma e Bholanath regressaram a “Uttama Kutir”, em Dacca, mas só por umas


poucas semanas. “Uttama Kutir” não demorou em converter-se num Shahbag em
miniatura, ainda que não por muito tempo. Um dia Sri Ma, acompanhada por Bholanath
saiu de casa e se dirigiu a Siddhesvari, onde se instalou no único cômodo do pequeno
ashram. Bholanath se alojou no templo e, obviamente sob a guia de Sri Ma, iniciou seu
sadhana. Sua propensão latente à vida não mundana encontrou expressão plena em
Siddhesvari, lugar que, devido à lila de Sri Ma, havia se convertido num local especial,
com o qual Bholanath tinha uma reconhecida relação mística.

Sri Ma manifestou seu Kheyal de não regressar a Uttama Kutir, diante de cuja
repentina decisão os devotos ficaram desconcertados, já que se tratava de uma mudança
mais radical do que abandonar Shahbag. Todas aquelas pessoas que rodeavam Sri Ma e
Bholanath eram confrontadas com mudanças radicais, decisões rápidas, abandono de
casas confortáveis e de relações amistosas. Sri Ma viveu todas estas coisas à sua
maneira, quem sabe para prepará-los para uma futura instabilidade em suas vidas.

Desmontaram-se tudo o que se havia preparado em Uttama Kutir e os pais de Sri


Ma, que estavam de visita, voltaram para seu povoado. Ashu e Amulia estavam de
serviço em outras cidades. Um jovem recém chegado, Kamalakanta, mudou-se para
Siddhesvari para ajudar Sri Ma e Bholanath nas tarefas simples do dia a dia do lar e,
como para as pessoas de Dacca havia sido pedido que não fizessem visitas com mais de
dez minutos, Siddeshvari se manteve um lugar silencioso e solitário.
80

O Sadhana de Bholanath

Uma tarde Sri Ma disse a todos que Bholanath partiria no dia seguinte, sem
revelar para onde. Bholanath ficara uns poucos dias fazendo silêncio e também não
disse nada. No dia seguinte, Sri Ma, Bhaiji, Didi e uns poucos mais foram se despedir
dele e de Joguesh Rai, seu acompanhante, no trem correio de Calcutá, depois do que Sri
Ma regressou a Siddhesvari. Até então Sri Ma não havia nunca ficado sem Bholanath.
Um ou dois devotos ficaram em Siddhesvari, para que ela não ficasse sozinha. De seu
modo inimitável, Sri Ma ia introduzindo a todos no caminho do sadhana. O ambiente de
Siddhesvari induzia a interiorização. Desta forma, não só Bholanath, mas muitos dos
incondicionais dos primeiros dias foram introduzidos com cuidado no caminho das
práticas yóguicas e de renúncia à vida mundana.

Depois de algum tempo, receberam uma carta de Bholanath, onde ele pedia a Sri
Ma que se reunisse com ele em Tarapith, um município do distrito de Birbhum. Ela
pegou uma ou duas mantas e umas poucas roupas de uso diário. Fazia muito tempo que
dormia no chão, pelo que não tinha roupas de cama. O que fazia para descansar era
enrolar-se num lençol e deitar-se diretamente no chão ou, às vezes, sobre uma manta.
Uma grande multidão foi despedir-se na estação. Ainda que não fosse a primeira vez
que Sri Ma saísse de Dacca, jamais havia sido desta forma e para um destino que
inspirava estranhos medos no coração das pessoas, já que Tarapith era um lugar remoto,
só conhecido por seus enormes campos de cremação, que havia feito famoso Sri
Bamakshepa, o renomado santo tântrico de Bengala.

Uma vez sentada em seu compartimento, Sri Ma tirou dois dos seus braceletes
de ouro e, dando-os a Bhaiji, lhe disse: “Faça com eles cinco anéis e dê para Jotu,
Amulia, Sitanath, Maklan e Subodh.” Esses rapazes haviam estado quase o tempo todo
com Sri Ma e eram entusiastas do canto de kirtan.

Bholanath e Joguesh foram a Tarapith buscar Sri Ma e Surendra Mohan


Mukherji, de Calcutá. Nesse pouco tempo havia se produzido uma mudança em
Bholanath. Enquanto estava fazendo seu sadhana em Siddhesvari, teve uma visão de
uma imagem de Kali sem cabeça e, ao contar a Sri Ma, ela lhe disse que fosse para
Tarapith, ainda que ele soubesse que ela não conhecia este lugar. Ao chegar ali,
Bholanath encontrou um antigo templo da Deusa Tara (um aspecto de Kali) numa zona
solitária. Bholanath não compreendia porque Sri Ma o havia enviado para Tarapith, já
que a deidade não se parecia com a imagem da sua visão. Não obstante, instalou-se no
alpendre do templo e iniciou sua austera prática de japa continuado. Depois de uns
poucos dias os monges do templo já o conheciam bem e estavam impressionados por
sua absorção e concentração, pelo que começaram a tratá-lo com o respeito que merece
um asceta.
81

Uma noite, enquanto estava sentado, meditando, os monges chegaram para


preparar a cerimônia das orações vespertinas que marcam o final do dia. Como já
estavam acostumados com Bholanath, não lhe pediram que saísse, de modo que ele
ficou atônito ao ver que, ao tirarem todos os ornamentos externos e roupas da imagem,
lhe tiraram também a cabeça, deixando só uma base. Pela manhã, antes das portas do
templo serem abertas, voltaram a colocar a cabeça, a vestiram com intrincados
ornamentos e vestimentas e lhe puseram uma coroa. Só os oficiantes e suas famílias
sabiam que a imagem de Tara era uma figura sem cabeça. A adoração das deidades se
chama Atmavat, que quer dizer “o que faria para Ti”, sobre entendendo-se que Deus não
necessita de nada. São oferecidos alimentos para as imagens, um leito para elas
descansarem, refrescos, etc. São despertados pela manhã, com um mantra apropriado.
Como é natural, a imagem não é movida e, geralmente, diante do oficiante costuma
haver uma representação simbólica (yantra) da deidade. A imagem é a forma que os
peregrinos vêem de fora. Ainda que esta seja a prática corrente, cada templo tem sua
própria tradição, que os oficiantes vão transmitindo de geração em geração.

Bholanath alcançou um elevado estado espiritual em Tarapith. Joguesh Rai foi


testemunha ocular da tremenda transformação que se produziu nele. Perto do templo
havia uma cabana em ruínas, na qual Sri Ma decidiu instalar-se. Uma noite Bholanath
teve estranhas kriyas. Era como se o seu corpo se retorcesse desde o interior, mas Sri
Ma estava perto dali. Quando Joguesh Rai se assustava com o estranho fenômeno,
olhava o rosto de Sri Ma, pleno de calma e benignidade e recuperava a calma, porque
era como se ela estivesse guiando Bholanath durante a metamorfose que ele estava
experimentando. Agora sim Bholanath tinha o aspecto de um autêntico renunciante.

Uns poucos dias depois se estabeleceu um contato com os devotos de Calcutá e


Dacca. Como chegaram em grupos, aquele local solitário adotou imediatamente um
aspecto de feira. Com seu longo cabelo e barba, Bholanath tinha um aspecto distinto.
Dava toda a impressão de ser um sadhu. Ainda que houvesse sido um fumante
inveterado, já havia deixado de fumar. Comia muito pouco e também descansava
durante períodos muito curtos. Passava o tempo na varanda do templo.

Enquanto isso, as esposas dos oficiantes tinham desenvolvido tanto carinho a Sri
Ma, que essas simples mulheres de povoado passavam o tempo com ela, do mesmo
modo que as devotas da cidade. Quando Didi chegou a Tarapith se deu conta do
desnecessário que havia sido preocupar-se pela viagem de Sri Ma a um local tão
desolado, já que ela estava sendo cuidada com tanto amor e devoção quanto em
qualquer outra parte. Mas o momento da despedida de Tarapith se aproximava e uma
das mulheres lhe disse: “Não se esqueça de nós! Somos pessoas pobres e só podemos te
dar comida de pobre!” Outra lhe disse: “Foi só ouvir o ruído da carruagem e eu fiquei
prá baixo, porque era a carruagem que vinha te buscar, como quando Akrura foi a
Vindavan para levar a Sri Krishna!”

Sri Ma sorriu e lhes disse: “Por que dizem estas coisas? Sou uma de vocês. A
bondade que vocês têm no coração é a que fez com que cuidassem de mim tão bem e
com tanto carinho.” A mulher respondeu: “Somos as pessoas de Tarapith, que é um
Siddhasthana. Reconhecemos as pessoas pelo que são. Por aqui vemos a muito sadhus e
ascetas. Alguns são autênticos e outros não. Você é a encarnação da Deusa. Por que
você tenta se esconder de nós?”
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Sri Ma teve oportunidade de regressar a Tarapith muitas vezes, visitas que


ajudaram a transformar o local. Tarapith foi adquirindo gradualmente um aspecto mais
próspero. Reformaram-se as casas, surgiram novos edifícios e tendas, mudando para
sempre o aspecto inóspito do recinto do templo.

Sri Ma e Bholanath começaram a viajar outra vez. Depois de passar por vários
locais, se dirigiram a Vidiakut para visitar os pais de Sri Ma. Bhaiji, Niranjan Rai,
Shashanka Mohan e outros investiram seu tempo tentando estabelecer um ashram para
Sri Ma e Bholanath e, por fim, tiveram a satisfação de possuir um “edifício” desse tipo,
no meio dos verdes campos de Ramna. Ainda que, neste momento, o “edifício” não
fosse mais do que uma cabana, era um lugar de sua propriedade, onde podiam se
dedicar ao serviço de Sri Ma. Mas então se deram conta de que Sri Ma e Bholanath
poderiam nunca mais regressar a Dacca, já que ele não trabalhava mais de funcionário,
motivo pelo qual os mais velhos do grupo se dirigiram a Vidiakut e convenceram
Bholanath a regressar a Siddhesvari para o puja pelo aniversário de Sri Ma e a
cerimônia de inauguração do ashram de Ramna. Esta era a terceira vez (Maio de 1929)
que os devotos de Dacca organizavam um puja especial, realizado por Bholanath, para
celebrar o aniversário de Sri Ma. Na manhã seguinte, ambos chegaram a Ramna, vindos
de Siddhesvari, num ambiente festivo, de grande júbilo. Didi se deu conta de que, uma
vez que a multidão havia partido, Sri Ma foi tocando as paredes do ashram, o que lhe
recordou claramente este mesmo gesto antes de sua despedida definitiva de Shahbag.
Ainda que não tivesse se inquietado sobre o que isso poderia significar, Didi não se
atreveu a perguntar para Sri Ma.

Ao amanhecer, a feliz multidão começou a dispersar-se, depois de toda uma


noite de kirtan e celebrações e, em pouco tempo, o ashram ficou vazio. Sri Ma estava
desperta e, a uma das pessoas que vieram despedir-se dela, disse: “Por que se vão? Por
que não ficam mais um pouco, cantando mais kirtan? Vejo que vocês estão cansados.
Onde está meu pai? Peçam-lhe que cante mais um kirtan.” Ainda que o ancião houvesse
se retirado para descansar, ao receber a mensagem, voltou e entoou um kirtan, com sua
inimitável voz. O som dessa música voltou a atrair a todos aqueles que estavam
suficientemente pertos para ouvi-lo e, em pouco tempo, formou-se, em volta de
Dadamashai um grupo considerável, ao qual Sri Ma anunciou seu kheyal de partir de
Dacca naquele mesmo dia: “Não coloquem obstáculos em meu caminho. Por favor,
falem para Bholanath que não me diga não. Tenho que ir. Por favor, deixem que eu me
desloque segundo meu kheyal. Se vocês não podem fazê-lo, então deixarei meu corpo
aqui e partirei.”

Qualquer protesto foi silenciado antes mesmo de ser pronunciado. Uma pessoa
perguntou: “Aonde você irá? Quem irá com você?” Sri Ma respondeu: “No primeiro
trem que sair. Pessoalmente, não necessito de ninguém, mas, se vocês se sentem
melhor, pode ser que eu peça a meu pai para me acompanhar.” Dadamashai foi até o
quarto pegar umas poucas coisas para a viagem. Sri Ma não levou nada para si.
Bholanath estava na cidade, visitando Bhaiji, Niranjan Rai e uma ou duas pessoas. Ao
regressar, encontrou o ashram envolvido numa crise. Reconheceu que o kheyal de Sri
Ma não tolerava negações e que anteriormente jamais o havia expressado de forma tão
drástica. Como ele seria o último a questionar a verdade do que ela havia dito, com
grande desânimo lhe falou: “Muito bem, mas as pessoas falarão mal de você se eu não
estiver contigo quando você estiver viajando por aí.”
83

- “Não farei nada – disse Sri Ma – que provoque a crítica dos demais. Meu pai
vem comigo. Falarão mal de mim então?” Ao olhar inquisitivamente para os que
estavam com ela, muitos se apressaram a dizer: “Não, Ma, ninguém vai dizer nem
pensar nada disso.”

Ainda que, efetivamente, Sri Ma partiu de Dacca em Maio de 1929, visto em


retrospectiva, parece que foi muito claro que lhe foi muito difícil safar-se da massa de
pessoas que só obedeciam a seu kheyal ao pé da letra, mas não seu conteúdo. Sempre
havia uma ou duas pessoas que iam ao seu encontro quando descobriam seu destino e
ela lhes dizia que voltassem para casa ou então ela mesma partia. Depois de algum
tempo se foi para a distante Haridwar, mas ali também se uniu a eles Kunja Mohan
(irmão mais novo de Shashanka Mohan, que mais para frente se converteria no Swami
Turiyananda Giri) e também Ashu. Livrando-se de seu pai e de Kunja Mohan, escapou
silenciosamente para Ayodhia. Foi depois para Varanasi. Seu kheyal de encontrar um
lugar onde não conhecesse ninguém se pôde realizar finalmente quando chegou à casa
do Dr Guirin Mitra, em Akna, no Bihar. O Dr Mitra, que já a conhecia de Calcutá, se
assegurou de que ninguém interrompesse seu retiro.

Enquanto isso, Bholanath se dedicou a visitar muitos Pithasthanas de Bengala,


mas caiu doente e foi repousar na casa de seu sobrinho, o Dr Guirija Shankar Keshari,
em Chandpur, já que para suas irmãs e sobrinhos era sempre uma alegria vê-lo.

O kheyal de Sri Ma de separar-se da família e dos devotos durante um curto


tempo, conseguiu várias coisas. Primeiro, desestabilizou o grupo de Dacca, que parecia
uma família cujos membros haviam começado a acreditar que eram algo como que
exclusivos. Em segundo lugar, se viu que eram certas suas palavras sobre a construção
de um ashram em Dacca: “Todo o mundo é um ashram. Por que vocês querem ter um de
vocês?” No entanto, mais adiante, em resposta a suas repetidas súplicas, Sri Ma
assinalou a zona que poderia ser apropriada para um ashram. Quando começaram as
escavações, descobriram uma série de antigas tumbas de ascetas, que ainda continham
seus ossos e que não foram tocadas, tendo sido construído o quarto de Sri Ma encima
delas. Mas, ao terminá-lo, os devotos se sentiram incapazes de aceitar que ela havia
passado apenas 24 horas nesse pequeno ashram, tão precioso, que lhe haviam dedicado
e cujo futuro parecia, obviamente, bastante sombrio.
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85

CAPITULO 6

Últimos Anos em Dacca 1929 – 1932

“Ainda que Sri Ma tenha nascido em Bengala, podemos lhe atribuir algum
vínculo com algum lugar? Dizem-nos que teve uma visão de um templo de Shiva no
Himalaia… Em 1932 chegou ao local de sua visão e residiu muitos anos nesta parte do
país… As pessoas destas regiões também se apaixonaram por sua presença magnética e
assim se forjaram mais vínculos de amor…”

Dr. Pannalal

“Apliquem vossa capacidade de raciocínio, vosso intelecto, na busca da


imortalidade e tudo o mais acontecerá por si mesmo. É como regar as raízes de uma
árvore. A árvore cresce por sua própria capacidade, desenvolve ramos e folhas, dá
flores e frutos na estação apropriada.

A obrigação suprema do homem consiste em lançar-se na busca de seu


autêntico ser. Tanto ao se escolher o caminho da devoção, na qual o “eu” se funde
com o “Tu”, como o da auto indagação, em busca do autêntico “Eu”, o único que se
acaba encontrando é o Ele, tanto no “Tu” quanto no “Eu”.

Sri Ma Anandamayi
86

Últimos Anos em Dacca

O fato de que Sri Ma saiu viajando sem destino, em companhia de pessoas


conhecidas por casualidade, resulta especialmente significativo se considerado o efeito
que ele produziu em Bholanath, que se viu obrigado a enfrentar o fato de que, apesar de
tudo, não entendia Sri Ma. Não é que duvidasse que ela voltaria a estar com ele depois
de algum tempo, mas não pôde evitar sentir que ela escapava do controle que ele
acreditava ter sobre ela. Além disso, esta perda de confiança coincidiu com o fato dele
se ver exposto às opiniões mundanas dos amigos e familiares. Como suas irmãs o
queriam muito e velavam por ele, é provável que o tivessem incitado a endurecer sua
atitude para com sua esposa e que não a permitisse levar esta vida de mendicância. Até
o momento, Bholanath jamais havia se ocupado em colocar o menor obstáculo no
caminho de Sri Ma, porque tudo o que ela havia dito ou feito lhe havia parecido
completamente aceitável. Bholanath e sua família sabiam que ela tinha poderes
yóguicos porque haviam sido testemunhas de muitos incidentes milagrosos e não
duvidavam de que não havia nada que ela não pudesse fazer, se acontecesse deste ser
seu kheyal. Haviam inclusive falado em se conseguir riqueza e status no mundo porque,
na Índia, há muitos mahatmas e sadhus que vivem com grande luxo. Inclusive na
antiguidade, os rishis viviam com suas esposas e discípulos em retiros nos quais não
faltavam as comodidades do lar. Além disso, os rishis eram, sem dúvida, o modelo de
vida espiritual, abrindo assim um precedente. Que Bholanath teve que escutar todos
estes argumentos é algo que se soube muito mais tarde mas, naquele momento, ele se
dirigiu a Calcutá para reunir-se a Sri Ma, ao mesmo tempo em que ela chegava à cidade,
ao receber a mensagem de que seu marido estava gravemente enfermo. Pode-se ver que
Bholanath estava muito incomodado e pareceu repreender Sri Ma por sua conduta
irresponsável. Sri Ma não respondeu nada, nem deu nenhuma explicação, nem
tampouco tratou de aplacar-lhe a ira. Ficou tranquila e indiferente, ainda que algo
lânguida e seu resplendor natural ficou completamente em suspenso. Bholanath
regressou com Sri Ma a Chandpur, a casa de seu sobrinho, o Dr. Guirija Shankar
Keshari. Bhaiji, Shashanka Mohan e Nishikanta Mitra foram a Chandpur, para pedir a
ambos que fossem para Dacca.

Bholanath concordou em regressar a Dacca, mas não ao ashram, motivo pelo


qual ele e Sri Ma foram a Siddhesvari. Para os devotos, disseram que eles mantivessem
a regra de fazer visitas de 10 minutos. Foi nestes dias que Bholanath repetiu a Sri Ma
que sua mente era um puro fervedouro. Depois que ele morreu, em 1938, Sri Ma teve
oportunidade de falar longamente sobre ele. Dentre as muitas coisas que contou a Didi,
lhe disse: “Depois de todos aqueles anos, Bholanath queria que eu lhe fizesse a comida
e me encarregara das tarefas do lar, em Siddhesvari. Para mim era indiferente. Tentei
obedecê-lo mas, como sabem, foi impossível. Primeiro, Bholanath caiu gravemente
enfermo e depois eu também fiquei muito doente, pelo que Bholanath ficou muito
satisfeito de que todo mundo pudesse vir nos ver, como se fazia antes. Todos vocês
viram que ele era satvico por natureza. Esse aspecto severo de sua mente durou pouco,
não foi mais do uma fase passageira. Quando parti, caiu presa de pensamentos
descontrolados, sugeridos pela sua família. Tampouco podemos lhes culpar, porque
todo mundo é assim. Quem sabe Bholanath tivesse que passar pelo forno da influência
humana antes de poder se dedicar plenamente à sua Tapasia.”
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“Em Shahbag, uma ou duas vezes, ficaram atônitos com os sintomas parecidos
com a morte que se produziram neste corpo. Sempre que ele vinha com um pensamento
mundano, como questões de dinheiro ou algo assim, este corpo respondia caindo ao
solo. O corpo se tornava completamente inerte. Então ele se assustava tanto que fazia
qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para me devolver ao estado normal. Fazia
nama-japa, rezava ou sentava para meditar. Uma vez - você se lembra? – chamou todos
vocês para que viessem fazer nama-japa perto de mim! Essas inclinações nem sequer se
mostravam em sua mente consciente. Ele mesmo ficava pasmo diante de tais
acontecimentos. Tinha um coração tão puro e era uma pessoa tão reta que tinha o
mesmo tratamento comigo como o que tinha com Maroni [neta de Sitanath Keshari,
cujos pais a haviam colocado sob os cuidados de Sri Ma para preservá-la de qualquer
mal, já que haviam perdido a seus dois filhos anteriores e temiam perder também
Maroni. Bholanath tinha muito carinho pela menina e a adotou como filha] quando
estávamos perto dele. Você já viu o quanto escrupuloso ele era em sua conduta. Jamais
o ouvi fazer um comentário desagradável, nem em tom de brincadeira, nem zombar de
pessoas ou coisas. O fato é que, aqueles poucos dias em Siddhesvari lhe serviram para
libertar-se de qualquer impureza que ainda pudesse ter. Depois desse intervalo, avançou
de forma ininterrupta.”

Ashram de Dacca
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Como já foi mencionado anteriormente, Bholanath não animou os devotos de


Dacca para que fossem visitá-los ou para que ficassem em Siddheshvari. Sri Ma não
estava com bom aspecto, o que era novidade porque, até então, ainda que houvesse
estado enferma, jamais o haviam notado. Didi e os demais estavam muito preocupados
por seu aspecto pálido, mas não lhes permitiram fazer nada, nem ficar com eles em
Shahbag.

Afortunadamente, o conflito mental de Bholanath durou pouco mas, enquanto


durou, Sri Ma pareceu estar muito doente e seu brilho e seu resplendor se
desvaneceram. Além disso, manteve silêncio, ainda que dissesse uma ou mais palavras a
Bholanath e às vezes aos demais também, com uma voz quase inaudível. No entanto,
ninguém sabia a razão desta mudança em sua conduta.

Poucos dias depois, Bholanath ficou gravemente doente e Sri Ma se manteve só,
ao lado do seu leito, até que as pessoas descobriram o que acontecia. Os devotos se
encarregaram de que recebesse tratamento médico e se revezaram para cuidar dele. Sri
Ma não deixou de cuidar dele em nenhum momento. Para facilitar o tratamento, o
levaram à casa de Aswini Kumar. Com a permissão de Bholanath, às vezes Sri Ma ia ao
ashram e ficava sozinha em seu quarto.

Durante o mês de Agosto, Sri Ma começou a ter uma febre que, em poucos dias,
se converteu numa febre alta, mas era impossível tratá-la porque, repentinamente, a
febre subia a 41 graus e, instantes depois, baixava a 37,5. Um pouco mais tarde, o
termômetro voltava a marcar 40 ou 41 graus, mas o aspecto de Sri Ma não mudava em
absoluto. Com sua enfermidade, Sri Ma parecia ter recuperado sua jovialidade. Sorria,
falava e se comportava como uma pessoa sã, inclusive quando tinha febre alta, pelo que
Didi e os demais deixaram de usar o termômetro, já que não servia para nada. Poucos
dias de febre depois, o corpo de Sri Ma ficou completamente flácido. Ela era incapaz de
usar as extremidades e tinham que levantá-la para trocá-la de lugar. Mas mesmo assim,
a menor parte de seu corpo que ficasse sem apoio caía como se estivesse descolada.
Bholanath autorizou Didi a ficar em Siddhesvari para cuidar dela. Chana, a filha de
Aswini Babu e outras pessoas da vizinhança foram ajudar Didi. Parecia um ataque de
paralisia, com a diferença de que Sri Ma falava e ria com toda normalidade. Sri Ma lhes
dizia: “Por que vocês levantam este corpo com tanto cuidado? Ele virou algo parecido
com um saco de farinha, vocês podem movê-lo a empurrões.” Em pleno desespero, Didi
pediu a Sri Ma: “Nestas condições nos é impossível cuidar do teu corpo. Por favor,
melhore já.”

Depois desta súplica, uma noite Sri Ma levantou uma mão sem a ajuda de
ninguém. Era o primeiro movimento voluntário do seu corpo nos últimos 4 ou 5 dias.
No dia seguinte caminhou um pouco sozinha e, lentamente, começou a poder usar suas
extremidades outra vez. Mas a febre não desapareceu e começaram a aparecer sintomas
de hidropisia. No entanto, sua jovialidade não diminuiu em absoluto. Bholanath pensou
que, se ela continuasse desfrutando assim a sua enfermidade, jamais teria o kheyal de
recuperar-se, pelo que, mostrando-lhe certa impaciência, lhe disse: “A enfermidade não
é algo do que possamos nos alegrar. Trate de sarar já.”
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Depois da bronca de Bholanath, Sri Ma ficou com a expressão de uma pessoa


gravemente doente. Permanecia calada, sem falar com ninguém. À noite, muitos
devotos de Dacca ficavam em Siddhesvari e as pessoas do lugar também cuidavam dela
de forma ininterrupta. As donas de casa saíam de seus lares e passavam horas e horas
em torno de Sri Ma. Quando os devotos lhe pediam que melhorasse, ela lhes dizia: “Eu
não peço a nenhum de vocês que vão embora quando vem me visitar. Então, por que iria
pedir às doenças para que partam? Irão embora quando for a hora.”

E, efetivamente, demoraram longo tempo para desaparecer, mas a febre


continuou por muitos dias depois do desaparecimento dos demais sintomas.

Um jovem garoto chamado Atull chegou de seu povoado em busca de Joguesh


Rai, já que, uma vez passado seu exame escolar, havia decidido seguir os passos de
Joguesh. Ao aparecer em Siddhesvari se converteu num membro a mais dessa família de
Sri Ma em perpetuo crescimento e o encarregaram de cozinhar bhoga e de cuidar da
imagem de Kali.

Vale a pena mencionar que haviam transportado a imagem de kali, assim como o
fogo sagrado, em cada uma das mudanças. Em algum momento, depois do Kali Puja de
1926, construiu-se uma cova perto do tanque de Shahbag, seguindo-se as instruções de
Sri Ma. Uma vez consagrado este pedaço de terra, instalou-se o fogo sagrado neste
local. Kulada Banerji, naquele momento um recém chegado, foi posto a cargo de dito
yajna-kunda já que era a pessoa de temperamento adequado para este tipo de puja.
Durante muitos anos, ele foi o responsável por cuidar de Kali e do yajna-agni (fogo
sagrado) de Dacca.

Em Siddhesvari se instalou o fogo sagrado debaixo da árvore pipal, porque Sri


Ma não permitiu que fosse levado para a casa de ninguém. Quando era necessário, ela
dava as instruções de como conservá-lo e mantê-lo vivo.

Naqueles dias os devotos estavam desejosos de estabelecer definitivamente a


imagem de Kali e o agni no templo de Ramna. Sri Ma sugeriu que se podia instalar a
Deusa Kali onde haviam descoberto um Shiva-linga quebrado e também se construiu
uma cova para o fogo sagrado seguindo suas instruções.

Enquanto isso, os devotos queriam aumentar o ashram de Ramna. Naguen Babu


se encarregou do programa de edificação. Várias tumbas foram destampadas no
processo de escavar a terra para colocar as fundações, algumas das quais estavam em
bom estado de conservação. Foram desenterrados esqueletos, cinzas de fogo sagrado e
lâmpadas de barro. As pessoas recordaram então o que Sri Ma havia dito a respeito
desse lugar, tal como a de que no passado haviam vivido ali muitos ascetas, que haviam
feito sadhana.

Seguindo o kheyal de Sri Ma, as tumbas foram deixadas intactas. Três dos
principais túmulos ficaram debaixo da grande sala do ashram e outro se converteu em
fundação para o templo de Shiva. Sobre outros se construiu o quarto de Sri Ma.
90

Em Mahalaya 1331 BS (segundo o calendário bengali) ou seja, em algum


momento de Outubro de 1929, Sri Ma e Bholanath chegaram a Ramna. Ambos estavam
doentes e tiveram que ficar de cama por vários dias. Sri Ma demorou muito em
recuperar sua conduta normal. Numa ocasião ficou 15 dias de cama, levantando-se
apenas por alguns poucos minutos, passando todo o resto de tempo sentada na cama.
Um dia Bhaiji chegou cedo e a convenceu a dar um passeio pelo campo de pólo de
Ramna, o que desencadeou outra reação: Sri Ma começou a caminhar três ou quatro
horas por dia.

Uma manhã, não se levantou em absoluto. Passados dois dias, continuava inerte
na cama. Bholanath reuniu os devotos para passar toda a noite cantando kirtans. Na
tarde do dia seguinte Sri Ma se recuperou lentamente e foi reassumindo suas atividades
do dia a dia. Em resposta as perguntas que lhe faziam, ela dizia: “Este estado inerte é,
para mim, o mesmo que um estado ativo. Não sinto nenhuma diferença, em absoluto. O
que vou, então, lhes explicar?”

Durante esta época, e com sua discrição característica, Sri Ma introduziu outra
mudança importante na vida de Bholanath, que gostava de ter conforto físico. Enquanto
Sri Ma só tinha uma manta para dormir, Bholanath desfrutava de uma cama macia e
cômoda. Uma noite, Sri Ma o despertou de sua confortável cama e expressou seu kheyal
de reclinar-se nela. Ao ver-se desprovido de sua cama, Bholanath se viu obrigado a
enrolar algumas prendas de roupa para improvisar uma almofada e a servir-se da manta
de Sri Ma para voltar a dormir. Poucos dias depois Sri Ma amontoou toda a roupa e o
colchão de Bholanath e fez com que os levassem. Ela procurou outra manta para dormir.

Foram dias tristes para todos. Em 15 de Junho de 1929, aproximadamente um


mês depois de Sri Ma partir de Dacca, Niranjan Rai, do qual havia surgido a iniciativa
de construir o novo ashram de Ramna, faleceu. Todos sentiram a tragédia de sua morte
e sentiram a sua falta.

Gradualmente, a vida recuperou sua cadência de reuniões alegres. A sessão


anual do Congresso Indiano de Filosofia aconteceu em Dezembro de 1929, em Dacca.
O afamado vedantista Dr. Mahendranath Sirkar já tinha ouvido falar de Sri Ma e muitos
de seus colegas desejavam ser apresentadosa ela. Uma noite, vários delegados se
reuniram no ashram de Ramna e o Dr. Mahendranath foi o tradutor. Um catedrático do
Wilson College foi encarregado de dirigir o debate, o qual durou três horas. Em suas
notas, o Dr Mahendranath escreveu: “Todos os tipos de questões foram expostas,
principalmente filosóficas e Mataji (Sri Ma) as foi respondendo de forma imediata e
espontânea, sem vacilar em nenhum momento, sem parar nem um instante para pensar,
sem mostrar o menor sintoma de nervosismo. Suas respostas iam diretamente ao fundo
da questão, livres de qualquer técnica metafísica.” Acrescentou que todos os presentes
ficaram impressionados pela “profundidade de sua sabedoria, a fluidez com que se
expressava e a luminosidade de seu sorriso.”

Um dos delegados lhe perguntou: “Se todo caráter humano mudasse e todo
mundo deixasse de ser egoísta, seria o mundo então perfeito?” Imediatamente Sri Ma
respondeu: “Mas já não é?” Para todos os presentes resultou evidente que ela falava
desde sua própria experiência, na qual tudo é a perfeita expressão do Ser perfeito.
91

No começo de 1930 Sri Ma pediu para que Bholanath voltasse a Siddhesvari,


para fazer seu sadhana. Um ou dois brahmacharis, como Atul ou Kamalakanta o
acompanharam, para se encarregar do que ele necessitasse, se é que necessitaria de
alguma coisa. Fora isso, esteve completamente só. Tal como em Tarapith, em
Siddhesvari ele também podia ser visto durante longas horas sentado em postura
yóguica, em profunda meditação. Algumas pessoas de Dacca se sentiram inclinadas a
pedir-lhe iniciação espiritual. Aquele que, em outra época, havia sido seu chefe, Bhudeb
Basu, assim como Birendra Chandra, o irmão de Didi, se tornaram discípulos dele e
muitos mais os seguiram.

A celebração do aniversário de Sri Ma, no ano de 1930, foi realizado no ashram


de Ramna. Bholanath veio de Siddhesvari para realizar o puja. Um dia, pouco depois
das celebrações, Sri Ma comentou: “Ouço prantos em todas as casas.” Esta profecia se
tornou realidade depois de poucos dias. As lutas entre hindus e muçulmanos, em Junho
de 1930, renovaram o reino do terror. Implantou-se o toque de recolher. As pessoas
passaram um tempo sem que se atrevessem a sair de casa. Só Bhaiji ia ao ashram todos
os dias, como sempre. Um dia seu vizinho lhe disse: “Te vejo passar todos os dias e não
posso descansar até que te vejo voltar. Isto se converteu numa espécie de vigília.”

Em Agosto deste mesmo ano Sri Ma e Bholanath, acompanhados por Shashanka


Mohan, Didi, Jaguesh, Ashu e outros mais, começaram em giro pelo sul da Índia. Era a
primeira vez que Sri Ma viajava ao sul, o que se repetiria em 1952. Lá onde foram, ela
se sentia como em sua própria casa. A barreira do idioma não evitou que as pessoas
destes lugares se acercassem em volta dela nos templos.

Regressaram a Vidiachal em Outubro. Shashanka Mohan havia comprado um


pequeno edifício em cima do monte Ashtabhuja, o qual se poderia denominar o terceiro
ashram dedicado ao serviço de Sri Ma. Com sua simples presença, aquele entorno
solitário se encheu de vida. Os devotos chegaram da vizinha Varanasi e, durante uns
poucos dias tudo foi alegria e festa. Sri Ma continuou viajando. Dirigiu-se a Jarashedpur
e, depois, a Calcutá, onde a família de Jyotish Guha, incluindo seu irmão Kshitish Guha,
sua filha Buni e seu sogro Pran Kumar, encabeçava a assistência dos devotos desta
cidade. Sua residência converteu-se em algo assim como o quartel general de onde se
podiam obter notícias de Sri Ma. Todos cantavam muito bem, motivo pelo qual se
formavam, com muita frequência, grupos de kirtan e as pessoas tendiam a reunir-se
nesta casa, como se ela fosse um ashram. Depois de uns seis meses, Sri Ma regressou a
Dacca.

No começo de 1931, Bholanath teve notícias do seu irmão, que havia se


convertido ao cristianismo e que, naquele época, já era o reverendo K.K. Chakravati.
Bholanath o recebeu, junto com sua mulher, os quais se sentiram atraídos a tomar parte
de sua família de devotos em constante expansão. Bholanath estava muito contente por
haver reencontrado o irmão que havia perdido por muito tempo. Nas tardes, Sri Ma
passeava pelos enormes prados verdes do campo de pólo que rodeava o ashram, sempre
cercada por uma multidão. Um dia um cavalheiro lhe perguntou: “Você estava inerte,
em samadhi. Era evidente que estava em comunhão com Deus. Mas depois se vê
obrigada a descer ao nosso nível, para falar conosco e para que possamos nos
beneficiar.” Sri Ma lhe sorriu e disse: “Você está separado de Deus? Eu não sinto que
desço nem que subo. Para mim, é tudo o mesmo. Só mudam as reações do corpo.”
92

Os devotos de Dacca estavam desejosos de aumentar o ashram recém


construído. Sabendo que Sri Ma poderia ser consultada sobre as cerimônias religiosas,
se propôs instalar as imagens de Shiva, Anapurna e Vishnu num templo construído para
tal efeito. A imagem de argila de Kali, que já haviam instalado numa pequena sala do
ashram, havia experimentado vários traslados, sempre realizados com sumo cuidado: de
Shahbag para uma casa alugada, dalí para “Uttama Kutir” e daí para Siddhesvari, onde
veio para Ramna. Essa Devi (Deusa) era parte intrínseca da vida dos devotos de Dacca.

Na celebração de seu aniversário, em 1931, Sri Ma inaugurou um novo estilo de


kirtan ao comentar: “ Por que devem ser os homens os únicos a cantar e tocar o kirtan?
Vamos passar nós mesmas toda uma noite cantando kirtans!” Sua sugestão foi realizada
com tanto entusiasmo e teve tal êxito que, no dia seguinte, quando outras mulheres
souberam do acontecimento, lhe pediram que lhes permitisse preparar outra noite inteira
de kirtan. À noite, se reuniram no ashram mais cento e cinquenta mulheres e garotas. Sri
Ma pediu aos homens que fossem para suas casas, exceto a uns poucos dos devotos
mais antigos, aos quais encarregou de manter vigilância contra intrusos ou malvados, já
que o canto iria se realizar ao ar livre. Sri Ma sempre se preocupava muito em cuidar da
segurança e proteção de todas as jovens que se agrupavam em torno dela.

As mulheres se enfeitaram com guirlandas e pasta de sândalo. A brisa


transportava a fragrância do incenso. Muitas daquelas jovens eram boas musicistas.
Bhramara, a neta mais velha de Joguesh Ghosh, levava a voz solo. Todas elas
contribuíram para preencher a noite com seu melodioso e inspirado canto. Foi assim que
se formou em Dacca a primeiro grupo de kirtan só de mulheres. Foram as pioneiras de
outros grupos que se formaram em outras cidades.

Depois das comemorações do aniversário, Sri Ma partiu de Dacca em direção a


Darjeeling. No caminho passaria por Bajitpur. No último minuto, muitas das mulheres
que haviam ido despedir-se dela subiram na carruagem e se uniram ao grupo de Sri Ma,
entre risos e brincadeiras sobre como suas famílias as considerariam loucas, mas a
nenhuma delas apetecia se preocupar pelo futuro e, com espírito aventureiro,
acompanharam o grupo de Sri Ma até Bajitpur.

Durante alguns dias, passou por esta cidade uma onda de regozijo. Sri Ma lhes
foi mostrando os antigos locais. Sua casinha continuava ali, mas o teto estava caído e as
paredes se desfazendo. Graças aos habitantes do lugar, que haviam se unido a elas, Didi
e outras escutaram relatos da vida de Sri Ma durante a lila de sua sadhana. A menina
que havia trabalhado para Sri Ma se aproximou timidamente e ficou de pé, perto dela.
Estava muito contente em voltar a ver sua ama. Didi recolheu um pouco de terra do
terreno do quarto em que Sri Ma se sentava para meditar e a levou consigo. Mais para
frente, esta terra foi colocada debaixo de uma plataforma na qual Sri Ma se sentava, no
ashram de Ramna.

O grupo regressou a Dacca e Sri Ma, com um grupo mais formal de pessoas,
partiu para Darjeeling, de onde foi para Calcutá e depois a Puri. Nesta última cidade é
celebrado o festival anual chamado Ratha Yatra, ou retirada do carro de Jaganath
(Senhor do Universo). Muitos amigos e devotos haviam se deslocado com Sri Ma para
desfrutar da festa mas, poucos dias antes do dia auspicioso, Sri Ma disse: “Vejo uma
calamidade iminente, façam o que puderem para evitá-la!”
93

Bholanath conjecturou que se produziria algum tipo de acidente durante o


período em que esta tremenda multidão movimenta o carro e disse que queria partir de
Puri imediatamente, mas seus companheiros o convenceram a ficar. Nirmal Chandra
Chaterji e sua família haviam vindo de Varanasi para estar com Sri Ma e, no dia em que
partiram, Santosh, o filho mais velho e sua irmã Tambala insistiram em ficar ali, com o
grupo de Sri Ma. Sua mãe (irmã de Didi) disse a Sri Ma: “Os deixo a seu encargo.” Sua
preocupação não era infundada, já que Santosh sofria de ataques epiléticos e nunca
podia ser deixado sozinho. O mesmo era consciente de sua doença e sabia perfeitamente
que sempre tinha que ficar com alguém. Passou uma semana e, de repente, um dia
deram conta de que Santosh não estava com eles. Depois de uma busca frenética,
acharam seu corpo num poço, atrás da casa. O impacto que produziu aquele incidente
praticamente paralisou a todo mundo. Só Sri Ma permaneceu sentada tranquilamente em
seu quarto. Bholanath e Shashanka Mohan (o avô de Santosh), com a ajuda de outros,
levaram o cadáver para casa, mas a atitude calma de Sri Ma os tranquilizou. Muitas
pessoas que haviam chegado para ver Sri Ma estiveram a ponto de partir, pensando que
seria inadequado perturbá-la nesse momento doloroso. Mas quando lhes disseram que
Sri Ma estava perfeitamente normal, decidiram atrever-se a entrar para vê-la.

Em alguns casos se considera que a morte por acidente não é auspiciosa, não
sendo então permitido realizar as cerimônias e o cadáver deve ser enterrado. À tragédia
da morte havia que se acrescentar este grande problema. As pessoas daquela cidade, que
tinham certo poder, se reuniram para ajudá-los e, com a permissão dos pandits, se
incinerou o corpo ao declarar-se que, no entorno sagrado do templo de Jaganath não se
podia considerar acidental nenhum falecimento, evitando assim suas consequências
negativas com respeito à cremação.

Assim que todos partiram, Sri Ma passou quase que a noite toda conversando
com Didi e sua irmã e, ao anoitecer, foi até o fogo para reconstituir os fatos. Era um
mistério o porquê Santosh havia se aproximado daquele lugar. Sri Ma, ao partir de Puri,
seguiu para Vindiachal. Todos se sentiram abatidos ao inteirar-se de que os pandits de
Varanasi haviam questionado aos de Puri e se negavam a fazer os últimos ritos
mortuários, que acontecem depois de 13 dias, para o bem estar espiritual da alma do
morto.

Sri Ma se ocupou pessoalmente do caso. Enviou repetidamente telegramas a Puri


e Varanasi até que, finalmente, se resolveu o mal entendido. Ela chegou à casa de
Nirmal Chandra, em Varanasi, no dia dos ritos funerários (Shraddh). O pai de Santosh a
recebeu com serenidade, dizendo-lhe: “Ma, te dei dois dos meus filhos. Agora vejo que
a um deles você deu refúgio.” Em uma de suas poucas demonstrações de dor, Sri Ma
começou a chorar de modo comovente. A mulher de Nirmal Chandra, que estava todo
este tempo chorando em silêncio, tomou Sri Ma em seus braços e começou a
tranquilizá-la como a uma menina desconsolada.

Sri Ma ficou com eles quinze dias, mas não parecia um lar fazendo luto. Os pais
se ocupavam em cuidar de Sri Ma e da feliz multidão que a rodeava. Um dia, o pai do
falecido menino lhe perguntou: “Ma, por que você chorou naquele primeiro dia?” ao
que ela respondeu: “Porque você não chorava. Chorei para aliviar a carga do seu
coração.”
94

De Varanasi, Sri Ma voltou a Vindiachal. Um dia, da varanda do seu quarto, Sri


Ma viu que alguns homens iam subindo a colina. Levavam provisões e era evidente que
estavam fazendo uma excursão de um dia a diferentes locais de interesse nas colinas
Ashtabhuja. Quando chegaram ao topo, esconderam a cesta debaixo de um arbusto e
partiram. Sri Ma pediu a Didi que pegasse a cesta. Quando voltaram, os homens ficaram
perplexos ao ver que seus mantimentos não estavam ali. Poucos minutos depois Sri Ma
mandou alguém para que os convidasse a vir ao ashram. Sentiram-se contentes que Sri
Ma houvesse levado sua comida (que lhes foi devolvida como prasad) e se
congratularam de ter um darshan de forma tão inesperada. Um deles, o Dr Upendranath
Banerji, de Mirizapur, converteu-se em seu devoto para toda a vida.

Sri Ma não parava de deslocar-se. Depois do Kali Puja, em Novembro de 1931,


viajou ao Cox’s Bazar, onde se alojou na beira do mar, no bangalô de Dinabandhu e sua
mulher, um casal de anciãos que eram devotos de Sri Ma já há muito tempo. A pedido
de sua esposa, Sri Ma foi de viagem com ela por lugares de peregrinação e o ancião, que
nunca havia viajado, ficou encantado ao ver todos aqueles lugares sagrados na
companhia de Sri Ma.

Em Abril de 1932 Sri Ma foi para Calcutá e se alojou na casa do irmão cristão de
Bholanath, ao qual todos chamavam Kakababu (tio). Uma vez mais desapareceu a
distinção entre o dia e a noite e um fluir inesgotável de pessoas desejosas de ver e estar
com Sri Ma não lhe permitiu nem um momento de descanso. Como anfitrião, Kakababu
decidiu organizar um pouco aquilo e estabeleceu um horário para o darshan. Ao meio
dia pediu a todos que se fossem, para que Sri Ma pudesse descansar um pouco. Quando,
resmungando, as pessoas partiram, pediram a Sri Ma que fosse descansar num dos
quartos interiores, onde era mais fresco, e os homens foram descansar em outro quarto.
Em pouco tempo, Sri Ma levantou-se com cara de travessa. Seguida por Didi e Kakimá
(tia), chegou ao quarto onde Bholanath e Kakababu estavam desfrutando de uma sesta e
pediu a seu cunhado que a acompanhasse para dar uma volta. Kakababu disse que não
queria sair para caminhar naquele sol tórrido e lhe falou: “Eu disse para todo mundo que
você tinha que descansar e agora você quer sair para passear! O que vão pensar de
mim?” Mas Sri Ma não lhe deu ouvidos e lhe disse: “Mas você não sabe que não estou
bem da cabeça? E, além disso, já interrompi sua sesta.” Sri Ma perambulou pelas ruas,
parando às vezes para comprar alguma coisinha. Desta forma chegou à casa de
Pashupati Babu. Sua mulher estava doente e já há algum tempo não podia sair para ver
Sri Ma. Mas agora se sentia transbordar de alegria, já que havia pedido de todo coração
que Sri Ma não partisse da cidade sem que ela a recebesse em seu darshan.

À tarde, Sri Ma voltou para a casa de Kakababu e às nove da noite este pediu
novamente que todos os visitantes partissem. Se havia proposto conseguir que Sri Ma
pudesse descansar por toda noite, mas Sri Ma continuava com traquinagens e manteve
na casa as poucas pessoas que não haviam partido, fazendo-os rir com o que lhes
contava. Com todo este riso não ocorria a ninguém que era hora de dormir. Quando
Kakababu começou a queixar-se, ela começou a pega-lo pelo cabelo, como costuma
fazer uma cunhada mais velha e privilegiada, e dessa maneira deliciosa transcorreu toda
a noite, sem que ninguém pregasse o olho. No dia seguinte, os devotos ficaram sabendo
que Sri Ma havia “descansado” durante o dia e pela noite. Assim, Kakababu abandonou
sua idéia de organizar a forma com que Sri Ma ficava com o povo.
95

Didi recorda uma passagem interessante que ocorreu em sua casa. Kakimá era
uma mulher do Punjab, que estava muito orgulhosa de sua figura atlética e sua força
física e que dizia que poderia derrubar qualquer garota de Bengala. Em demonstrações
amistosas de força, havia vencido Didi e outras mais. Um dia, Sri Ma, por brincadeira,
agarrou seu braço com apenas três dedos e, para grande regozijo de todas as demais,
Kakimá foi incapaz de escapar de um agarrão tão exíguo.

De Calcutá, Sri Ma partiu para Rajshari, hospedando-se na casa de Atal Bihari.


Uma noite, Sri Ma e seu grupo foram convidados para um kirtan na casa de um vizinho,
mas Atal Bihari ficou em sua casa. Ao voltar, Sri Ma se deu conta que Atal estava
dormindo, mas havia se levantado ao ouvir que seus convidados voltavam. Sri Ma lhe
disse: “Você é muito amável. Seus convidados ainda não jantaram, mas você já está
comodamente dormindo.” Atal Bihari lhe disse: “Uma mãe está satisfeita quando seu
filho está bem alimentado e descansou bastante. Para você, minha ceia deveria bastar.”
Sri Ma lhe respondeu: “É mesmo? Recorde-se do que você acaba de dizer.” Quando lhe
trouxeram algo leve para comer, Sri Ma empurrou o prato para frente de Atal, dizendo-
lhe: “Que Atal coma isto por mim.” Sem vacilar, Atal não deixou nem uma migalha no
prato. Então Sri Ma disse: “Não necessito me deitar, pois o descanso de Atal será meu
descanso,” ao que Atal respondeu: “Muito bem, fique sentada então” e com isso foi para
sua cama.

Na manhã seguinte Sri Ma disse: “A estadia de Atal em casa será minha estadia.
Vamos para outro lugar.” Sri Ma, acompanhada por Didi, a esposa de Atal e outras
pessoas, foi caminhando até um templo próximo, que ficava na margem do rio. Ali
disse: “Cozinharemos o almoço aqui.” Bholanath e Shashanka Mohan foram ao
mercado para comprar tudo o que era necessário. Didi e a esposa de Atal prepararam
comida simples, ao ar livre, que consistia em arroz, dhal, cozido de verduras e arroz
com leite (khir). Quando a comida estava pronta, Didi colocou um pouco de khir num
recipiente e o ofereceu a Sri Ma. Depois de tomar o primeiro bocado, Sri Ma pediu a
Didi que o provasse. Didi obedeceu, mas teve que cuspir imediatamente, pois ainda
estava muito quente. O sorriso de Sri Ma amenizou um pouco o remorso de Didi. Então
a esposa de Atal Bihari disse: “Eu também aprendi uma lição. Quase sempre ofereço o
bhoga muito quente, sem preocupar-me em verificar se os alimentos estão prontos para
comer ou não.”

Depois disso Sri Ma voltou para a casa de seu anfitrião. Como, por sua natureza,
era incapaz de partir tendo derrotado a Atal Bihari, voltou para aliviá-lo da ansiedade e
remorso pela brincadeira que estavam fazendo.

Depois de viajar umas poucas semanas Sri Ma e Bholanath voltaram a Dacca,


em Maio de 1932. O ashram de Ramna estava se preparando para celebrar o aniversário
de Sri Ma. Bhaiji estava se encarregando de restaurar as deidades do templo, tendo Sri
Ma doado a maioria de suas jóias de ouro para bancar este serviço. Os devotos e
parentes a presenteavam com muitas jóias, mas ela não ficava muito tempo com elas.
Durante muitos anos usou somente uma fina corrente de ouro, presente de Bholanath e,
por respeito aos costumes, levava um par de pulseiras de concha nos antebraços e a
pulseira de ferro banhada a ouro de todas as mulheres casadas.
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Tal como em épocas anteriores, os devotos de Dacca vieram em massa. Durante


todo o dia e durante quase toda a noite, um enxame de homens, mulheres e crianças
desfilavam pelo pequeno edifício vermelho, em meio à extensão verde dos campos de
pólo. No entanto, esta ocasião revelou outra faceta da personalidade de Sri Ma. Foi ela
quem, com juízo certeiro, descreveu a melhor forma de acomodar os visitantes, bem
como a maneira de mantê-los ocupados de forma útil. Sugeriu diferentes atos religiosos.
Todos tinham algo para fazer e ela estava pessoalmente em todas as partes,
aconselhando, ajudando, resolvendo os problemas que surgiam. O mais notável foi a
instalação das deidades no templo. Seguindo as instruções de Sri Ma, Bholanath
realizou todos os rituais necessários. Em Siddhesvari se instalou um Shiva Lingan sobre
a plataforma que cobria o buraco, para que, dessa forma, jamais pudesse ser profanado.

Agora nos damos conta do alcance da visão de Sri Ma, em relação aos conselhos
que deu sobre o templo. O pequeno altar, que continha a imagem de Kali em argila, não
foi tocado, com as paredes do novo templo sendo construídos ao seu redor. O chão da
nova sala subia até a metade do altar, que então adquiriu o aspecto de uma cela interior,
a qual descia por umas escadas e cujo teto se converteu numa espécie de plataforma
para a sala onde as deidades foram instaladas.

Sri Ma indicou que a porta deste templo interior permanecesse fechada com
chave e, uma vez por ano, deveria ser aberta para que todos pudessem ter o darshan da
deidade, independentemente da sua casta ou religião. Já em 1931/32 Sri Ma havia
reunido todas as castas e religiões, muito antes que este tipo de movimento surgisse em
outras zonas da Índia. À tarde, depois de haver puja e Abhishek, se fechava a porta até o
ano seguinte. Estas instruções foram mantidas por muitos anos. Em 1938, os
encarregados de cuidar da imagem se entristeceram ao ver que a imagem de argila havia
começado a se desfazer. 1938 foi também o ano do falecimento de Bholanath, que era o
oficiante maior para o rito de adoração das deidades. Seria uma coincidência que a
imagem se houvesse mantido intacta enquanto ele esteve vivo? Seja como for, Sri Ma,
que não se encontrava em Dacca naquele momento, indicou que a pequena cela deveria
ser fechada com ladrilhos para sempre. Mais adiante, quando se criou o Paquistão
Oriental, todos os templos de Ramna foram arrasados, incluindo o antigo templo de
Kali, onde Sri Ma se sentava com seus acompanhantes. No entanto, esta cela de Kali
permaneceu intacta, já que havia sido enterrada muito antes disso. Sri Ma havia feito
que transportassem as deidades do piso de cima para Varanasi. Anos mais tarde, os
devotos se deram conta de que Sri Ma havia preparado tudo para o futuro, desde aquele
momento em que todos se dedicaram alegremente a instalar as deidades no ashram de
Ramna.

Quando já estavam no fim as prolongadas celebrações, Sri Ma foi um dia


convidada para ir à casa de uma devota cuja filha iria se casar, o que pode ter sido o
fator que desencadeou o seu kheyal com respeito à pequena Maroni. Convenceu
Bholanath para que consentisse em organizar o casamento de Maroni com Chinu, o
filho mais velho de Kuladá Charan. Bholanath gostava muito de Maroni e se viu, de
certo modo, surpreendido pela idéia de sua boda precoce, mas Sri Ma lhe disse: “Não
fique triste. Tudo isto é pelo bem de todas as pessoas envolvidas. No momento
apropriado, se Deus quiser, Maroni se casará com Chinu.” As mulheres de Dacca
ficaram entusiasmadas em assistir a cerimônia e fizeram tudo o mais colorido e alegre
que puderam.
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Olhando para trás, fica claro que Sri Ma estava fazendo os últimos preparativos
para que Bholanath pudesse se desfazer de suas ligações com Dacca, bem como de sua
única responsabilidade: Maroni. Um dia foi para Siddhesvari e acariciou os edifícios,
bem como a árvore caída. Naquela mesma tarde se sentou um tempo na varanda do
templo do ashram de Ramna. Ao seu redor havia um pequeno grupo de pessoas. Lá
pelas onze e meia da noite, ela se levantou, dizendo, com voz baixa: “Vou partir já.”
Birendra Chandra sentiu-se desagradavelmente surpreso por estas palavras e, talvez com
idéia de desviar seu kheyal, lhe disse: “Sim, Ma. Agora vá deitar. Já é tarde.” Sri Ma
não disse nada. As pessoas presentes se despediram e foram para suas casas.

Quando todos haviam partido, Sri Ma pediu para Didi buscar Bholanath.
Esgotado, ele estava dormindo, mas Didi o despertou e lhe deu a mensagem de Sri Ma.
Bholanath e ela conversaram um pouco e então Didi viu que ele colocava os sapatos e a
roupa de viagem. Sri Ma estava na pequena plataforma que havia dentro do grupo de
cinco árvores, chamada Panchavati. Falava com Kuladá Charan, Atul, Kamalakanta e
Jogueshadada, um por um, obviamente dando-lhes instruções detalhadas com respeito
aos seus sadhanas e as distintas questões do ashram. Então chamou Didi para que se
aproximasse e lhe disse: “Olhe, a fortaleza é o principal requisito de uma sadhaka. De
você se necessita fortaleza.” Ao ver a angústia de Didi, ela lhe falou assim: “Não se
assuste. Já saí de Dacca várias vezes, mas como todos são tão afetados que eu me vá,
tenho que regressar uma e outra vez. Deixe-me seguir meu kheyal porque se são
colocados obstáculos no meu caminho, não o posso seguir.” Sri Ma esteve falando com
Didi nesse sentido durante bastante tempo e lhe pediu que constituísse um exemplo para
os demais. Para Didi foi um golpe tremendo inteirar-se de que, evidentemente, Sri Ma
não contava com ela como acompanhante. Então Sri Ma falou com um ou dois
visitantes que estavam hospedados no ashram. Fez chamar a Bhaiji. Quando ele chegou,
Sri Ma lhe disse: “Você tem que vir conosco esta noite.” Houve uma pausa. Como
Bhaiji não respondeu, lhe perguntou: “O que te acontece? Não podes vir?”

Para todos era evidente que ela estava pedindo para Bhaiji que tomasse a decisão
mais crucial de sua vida. Ele, serenamente, respondeu: “Vou para casa primeiro, pegar
dinheiro para a viagem.” Deve ter pensado que assim poderia ter se explicado para sua
esposa e filhos, mas Sri Ma lhe disse: “Não, não vá para casa. Reúna o dinheiro que te
possam dar estes senhores que estão aqui.” Bhaiji não disse nada a respeito e foi para o
templo sozinho e em silêncio.

Em seguida, Sri Ma mandou chamar seus pais. Bipin Bihari, desgostoso diante
de uma decisão tão repentina, não se apresentou, mas sua mãe foi vê-la. Sri Ma, como
costumava fazer quando se despedia dela, se prostrou a seus pés e em seguida saiu
silenciosamente do ashram, a pé. Não havia permitido que ninguém fosse buscar uma
carruagem ou um carro. Foi caminhando para a estação, acompanhada por um pequeno
grupo de pessoas entristecidas. Por alguma razão, aquelas poucas pessoas tinham a
sensação de que, naquela despedida se respirava um ar de conclusão. Para as perguntas
de “para onde vai?” ou “quando você volta?”, Sri Ma manteve o silêncio.

Assim foi como, na quinta-feira, dia 2 de Junho de 1932, em companhia de


Bholanath e Bhaiji, Sri Ma partiu de Dacca rumo a um destino desconhecido.
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CAPITULO 7

A Ave Alça o Vôo

“A primeira celebração de aniversário da Mãe a qual assisti, teve lugar em


Ambala, em 1951, só uns poucos anos depois de havê-la conhecido. Durante a Tithi-
Puja estive sentado bem perto dela. Estava deitada completamente reta, como é comum
nestas ocasiões, e parecia estar totalmente fora deste mundo. Pensei que estava em
nirvikalpa samadhi e a olhei com tristeza, pensando: “A Mãe nos deixou!” Enquanto
este pensamento dava voltas na minha cabeça, a Mãe despertou e abriu os olhos. Seu
primeiro olhar caiu sobre mim. Foi um longo e profundo olhar, cheio de significado e
que, para mim, queria dizer: “Não! Não fui para longe de ti. Sempre, sempre estou
presente em ti, muito, muito perto de ti!”

Atmandaji

“Este corpo é como uma ave que alça o vôo ((ura pakhi). Senta-se em
qualquer ramo durante um tempo, segundo seu kheyal e depois volta a voar outra
vez…

“Se vocês dizem ‘ashram’ (que eu deveria ficar no ashram), então todo o
mundo é um ashram para este corpo. Não pode ser de outra forma!”

Sri Ma Anandamayi
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A Ave Alça o Vôo

Raipur, Dehra Dun

Naquela estação, os viajantes descobriram que havia um trem a ponto de sair. Ao


perguntarem aonde desejava ir, Sri Ma respondeu que até a última estação que o trem
fosse. Foi assim que, no dia seguinte, Sri Ma, Bholanath e Bhaiji chegaram a
Jagannathganj. Seguindo este mesmo método de escolha, chegaram a Katihar, no Bihar,
de onde foram a Lucknow e finalmente a Dehra Dun, que é o final deste trajeto da
ferrovia. Dehra Dun fica aos pés da cordilheira Shivalik, logo abaixo da cidade de
Mussorie (pouco mais de 2.000 metros de altitude). A partir de Dehra Dun o único
modo, praticamente, de viajar, era seguindo a pé pelas trilhas. Naquela época Mussorie
era o ponto mais distante que se conseguia chegar de carruagem. Comparado com o das
planícies, naquele caloroso mês de Junho, o tempo era suave e a vista das montanhas
vizinhas era fascinante e extraordinária. As pessoas e o idioma que falavam despertou o
interesse de Bhaiji. Parecia que haviam chegado a um país estrangeiro. Quando
comentou que tudo naquele lugar lhe parecia estranho, Sri Ma disse que, para ela, tudo
parecia familiar.

Da estação chegaram a um dharmasala. Bholanath e Bhaiji saíram em busca de


um local apropriado. Ao descobrir que havia um pequeno templo de Shiva num
povoado remoto chamado Raipur, foram vê-lo no dia seguinte. Logo ao chegar,
Bholanath ficou encantado com o templo. Ao voltar, consultaram Sri Ma e ela lhes
disse: “Decidam vocês dois. Para mim, qualquer lugar é bom.”

Foi assim que, na manhã da Quarta-feira, 8 de Junho de 1932, Sri Ma, Bholanath
e Bhaiji se instalaram em Raipur. Naquele tempo, Raipur era um povoadozinho remoto,
a certa distância do qual o terreno se tornava muito abrupto. No topo daquele morro se
encontrava o templo de Shiva, rodeado por um pátio aberto e empedrado. De um dos
lados, havia uma mangueira rodeada por uma plataforma elevada. Quase tudo estava em
ruínas. Do pátio, no pico da colina, tinha-se uma fantástica vista das altas montanhas e
dos vales, com reluzentes riachos, largos e pouco profundos, que corriam sobre leitos
rochosos.
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Enquanto Bholanath e Bhaiji começavam a se acostumar com uma rotina diária


de vida ascética, os devotos que ficaram em Dacca sofriam com a dor de terem se
separado de Sri Ma. Às vezes se reuniam para compartilhar lembranças e experiências
relacionadas com Sri Ma. Ficaram atônitos ao ver que ela havia instruído a todos sobre
sua forma de vida. Não havia esquecido ninguém. Sem fazer grande alarde, se havia
preocupado em falar com todos aqueles que esperavam que ela os guiasse. Essa era sua
forma de fazer as coisas, tanto naquele tempo quanto depois. Quando as pessoas não se
beneficiavam de seus ensinamentos, era devido às debilidades inerentes da natureza
humana e não porque ela não estivesse comunicativa. O que ela esperava da cada um
era que se dedicasse à busca da verdade, até o ponto máximo que pudessem mas,
tristemente, as pessoas preferiam passar o tempo que pudessem em sua radiante
presença, em vez de sentar-se em solidão para praticar sadhana. Só houve uns poucos
pioneiros que iluminaram o caminho, entre os quais, a parte de Bholanath e Bhaiji, se
encontra Shashanka Mohan.

Shashanka Mohan e Didi estavam levando uma vida solitária, de ascetas, em


Siddhesvari. Ele passava horas sentado em meditação. Pela tarde e pela noite tinha o
corpo coberto de mosquitos, mas era evidente que isso não o perturbava. Já não usava
sua roupa feita sob medida e seus sapatos. Agora havia aprendido a controlar a
respiração e levar uma vida de intensa sadhana. Em sua idade avançada havia
conseguido superar níveis de rigor que fariam inveja a qualquer jovem. Os
brahmacharis de Ramna também dedicavam todo seu tempo aos ritos de yajna e puja,
envolvidos em sua vida espiritual.

Em Raipur, os três levavam uma vida simples. Não havia eletricidade nem água
corrente. Na selva que os rodeava, abundavam as serpentes e os escorpiões espreitavam
pelas fendas das paredes. Um dia, Bhaiji desceu ao povoado para comprar algumas
verduras e farinha de trigo. Sabia cozinhar as verduras e, com grande esforço, havia
aprendido a fazer alguns chapatis. Apesar de que Sri Ma às vezes o guiava em seus
esforços, a maior parte do tempo tinha que se virar sozinho. Em sua idade avançada, foi
exigido dele uma mudança completa em seus hábitos. Durante toda a vida havia tido
criados e não sabia absolutamente nada de questões logísticas como comprar comida,
cozinhar e servir. Obviamente Sri Ma sabia produzir metamorfoses maravilhosas em
muitos de seus seguidores!

Com o passar do tempo, as pessoas de Dehra Dun souberam, através das pessoas
que passavam por Raipur, que ali havia uma Mataji bengali, de grande eminência
espiritual, que estava vivendo no dharmsala do templo de Shiva. Algumas almas
aventureiras atravessaram os sete quilômetros de densa selva e cruzaram riachos pouco
profundos ou cursos de rios secos para chegar a Raipur e ter o darshan de Sri Ma. Ao
chegar ali, encontravam uma jovem assombrosa, não tanto por seu aspecto físico, mas
por expressão de radiante felicidade e serenidade. Bholanath recebia os visitantes e os
acolhia carinhosamente, apresentando Bhaiji como seu ‘filho espiritual’ (dharmaputra).
Em pouco tempo este último ganhava o coração dos recém chegados, porque era ele que
podia se comunicar com eles em inglês. Seu empenho era sempre conseguir que as
pessoas pudessem alcançar uma ampla compreensão de Sri Ma. Estimulava os visitantes
para que fizessem perguntas e os ajudava a expressar esse desejo por coisas espirituais
que tantos tinham em seu interior. Interpretava-lhes as palavras de Sri Ma. Conseguia,
em grande parte, estender uma ponte de compreensão entre o que era Sri Ma e as
conclusões que o povo desenvolvia sobre ela.
102

Os devotos de Dehra Dun lhe colocaram o sobrenome de Bhaiji (respeitável


irmão) e a Bholanath chamaram Pitaji (pai). Bholanath e Sri Ma aprenderam híndi e em
pouco tempo os visitantes puderam conversar diretamente com eles.

Em Agosto Bhaiji foi requisitado por seu escritório para certo serviço urgente.
Um pouco antes de partir de Dacca, de forma tão repentina, havia solicitado uma licença
de quatro meses mas, agora que lhe pediam que regressasse, escreveu aos de Dacca
solicitando que Kamalakanta se reunisse a eles em Dehra Dun, porque não queira deixar
Sri Ma e Bholanath sem ninguém que os atendesse e, quando Kamalakanta chegou,
Bhaiji regressou a Dacca e imediatamente se reuniu com os devotos, que estavam
ansiosos para ouvir notícias de Sri Ma. Durante longas horas esteve lhes descrevendo a
vida que levavam em Raipur.

No final de Novembro, início de Dezembro de 1932, Sri Ma, Bholanath e


Kamalakanta se mudaram para Tarapith, para que Bholanath pudesse cumprir com seu
compromisso de ir a esse local sagrado durante três anos consecutivos, pelo menos uma
vez por ano. Dali foram para Nalhati, onde Nandu, irmão mais novo de Didi lhes foi
receber e, com apoio de Bholanath, foi autorizado por Sri Ma a avisar todo mundo que
se encontrava nesta parte do país. Num par de dias Nalhati se abarrotou de devotos de
Dacca e Calcutá. Bholanath tinha um aspecto de sanniasi e se alegrou muito em voltar a
ver todos aqueles rostos tão familiares. Depois deste breve parêntese de umas duas
semanas, os visitantes, entristecidos pela inevitável separação, regressaram a seus
respectivos lares e Shashanka Moha e Didi voltaram à sua vida solitária em Siddesvari.

No começo de Janeiro de 1933, Sri Ma, Bholanath e Kamalakanta regressaram a


Dehra Dun, mas Bhaiji ficou em Dacca porque, discretamente, estava se dedicando a
liquidar seus negócios. Em consequência de algo que Sri Ma lhe disse no momento que
teve que voltar ao trabalho, ele chegou à conclusão de que não lhe restavam muitos anos
mais de vida e, tranquilamente, começou a preparar tudo para garantir o futuro
econômico de sua família. Sua filha estava casada e se haviam feito todas as cerimônias.
Sua filha já tinha idade suficiente para saber o que seu pai estava fazendo e sua mulher
não gostou da idéia, mas não se opôs.

Em Março de 1933 Bhaiji voltou a pegar uma licença e partiu para Dehra Dun.
Seus amigos de Dacca acreditaram que essa excedência era já uma preparação para o
retiro e que, provavelmente, ele não voltaria para casa. Mais tarde se soube que Sri Ma
havia pedido à sua esposa que se mudasse com ele, para que os dois pudessem viver
uma vida de evanaprasthis (casais que se separam do mundo para viver em retiros). Sua
mulher, Manikuntala Devi, no entanto, não aceitou o convite, com o que perdeu a
oportunidade de estar com seu marido nos últimos anos de sua vida, os quais ele
dedicou ao serviço de Sri Ma. Rememorando aqueles tempos nos damos conta agora da
importância do papel de intermediário que Bhaiji desempenhou com as pessoas de uma
cultura tão diferente. Ainda que os novos visitantes se sentissem atraídos pela
personalidade de Sri Ma, sentiam-se demasiado intimidados para falarem ou estarem
relaxados com ela e Bhaiji lhes ajudava a consegui-lo. Dado que a maioria das novas
multidões era da Caxemira ou de grupos que não falavam bengali, foi muito importante
o trabalho de interprete que fez Bhaiji e, neste contexto, dizem que ele mesmo
comentou:
103

- “Em meu entusiasmo por fazer com que as pessoas se dêem conta de sua boa
sorte, lhes dou minha interpretação da personalidade de Sri Ma e tento colocá-la no
patamar mais elevado. Mas, por mais alto que eu olhe, ela sempre está acima e mais
além da minha compreensão.”

Enquanto isso, Sri Ma aprendeu a falar híndi e conversava com os homens,


mulheres e crianças que se agrupavam ao seu redor. Mas ela continuou se deslocando.
Junto com Bholanath e Kamalakanta foi caminhando até Mussorie e dali a Uttarkashi.

Enquanto viveram ali, conheceram Hari Ram Joshi, um homem influente


daquela região, que manteve durante toda a vida sua devoção por Sri Ma. Era um
homem de fortes convicções e que tinha um ardente zelo em converter todos seus
amigos e familiares em seguidores de Sri Ma, porque sabia que havia descoberto um
tesouro que ultrapassava a imaginação de qualquer homem e desejava ver todo mundo
transformado pela presença divina de Sri Ma. Se percebesse a menor resistência no
visitante, ralhava com ele sem piedade pelo fato dele não se dar conta de sua boa sorte!
Não obstante, casos assim eram muito escassos. Em muito pouco tempo, as regiões de
Almora, Nainital, Masurai, Sollon e Simla se encheram de devotos.

A segunda expedição de Sri Ma a Uttarkashi, com Bhaiji, foi organizada por


Jamna Datt Sanwal. Hari Ram rogou insistentemente a Bhaiji que lhe avisasse quando
retornassem a Dehra Dun. A natureza fortuita da presença de Sri Ma em diferentes
locais fica clara se olharmos atentamente para os incidentes que ajustaram suas viagens.
Se Hari Ram não houvesse insistido em que fosse avisado, quem sabe Sri Ma haveria
passado por Dehra Dun como o fazia por tantos outros locais, mas este fato em
particular conduziu a outras situações e Sri Ma acabou ficando em Dehra Dun durante
um longo tempo.

Bholanath era tão fascinado pela beleza panorâmica das cordilheiras do


Himalaia que se comprometeu a ir caminhando a diferentes lugares em peregrinação.
Kamalakanta o acompanhou em todos estes momentos. Bholanath estava cada vez mais
entregue a seu sadhana. Havia mudado sua alimentação, deixado de fumar e levava uma
vida disciplinada e exemplar. Deixou Sri Ma em companhia de Bhaiji e passou vários
meses em Uttarkashi, levando vida de asceta. Nesta época, recebeu muitos comunicados
de sua casa, onde criticavam sua forma de vida e a de Sri Ma, mas ele já não era o
mesmo homem. Respondeu-lhes em termos claros e inequívocos que Sri Ma tinha sua
plena aprovação para tudo que quisesse fazer e ninguém tinha porque preocupar-se com
sua conduta, a qual era exemplar o tempo todo. Ademais, confiava plenamente que
Bhaiji cuidaria dela o melhor que pudesse.

Tudo isto nos permite dar conta de que estava emergindo gradualmente uma
nova imagem da pequena família de Dacca, na qual Bholanath havia se convertido num
renunciante que praticava seu sadhana sob a tutela de Sri Ma e Bhaiji também levava
uma vida de asceta e estava completamente entregue a seu serviço.
104

Uns poucos devotos de Dacca e Calcutá conseguiram aproximar-se de Dehra


Dun e passaram uns poucos dias com Sri Ma. Uma destas pessoas era Vijay Ratnji Vias,
um jovem estudante de medicina de Calcutá que, durante as férias de verão chegou a
Missouri e se dedicou a buscar uma “Mataji bengali”. Foi caminhando e perguntando de
pousada em pousada, porque lhe haviam dito que Sri Ma e seu acompanhante (Bhaiji)
estavam descendo de Uttarkashi. Os encontrou numa dessas ditas pousadas na borda do
caminho. Naquele momento Bhaiji não se encontrava muito bem e, ao ver que Sri Ma se
encarregava de cozinhar e limpar por si mesma, considerou que era sua obrigação
oferecer-lhes sua ajuda. Sri Ma sorriu e lhe disse que fosse pegar leite pela manhã. Viás,
que se ofereceu para fazê-lo, lhe disse com toda inocência: “Não sou madrugador. Por
favor, me acorde quando for hora de partirmos.” Viás recorda, agora maravilhado, que
Sri Ma lhe foi despertar para que fizesse sua pequena tarefa, assim como a delicadeza e
graça com que ela servia as refeições simples que preparava.

Iam caminhando pelas trilhas nas montanhas com grande felicidade, parando
onde lhes apetecia. Sri Ma jamais ficou sem saber o que fazer nem se sentia angustiada
pela falta de recursos. Os refúgios de peregrinos eram extremamente austeros mas,
estando com ela, Vias nunca sentiu negligência na vida desordenada que levavam. Foi
um parêntese delicioso durante o qual chegou a conhecer a Bhaiji e a cultivar por ele o
mais alto respeito. Como nota curiosa cabe assinalar que foi um dos seis privilegiados a
ser iniciado por ele.

Sri Ma teve o kheyal de que Bhaiji deveria levar uma vida de mendigo, cujo
único sustento fosse Deus. Enviou-lhe para pedir esmolas (biksha) uma ou duas vezes,
mas ele não se saiu muito bem, em primeiro lugar por seu aspecto de cavalheiro, o que,
com efeito, ele era e segundo, não conseguia subir o tom de voz para pedir. Quando as
pessoas o viam na porta de casa, o cumprimentavam e conversavam com ele, mas não
lhe davam esmolas! Mesmo tentando cumprir com o kheyal de Sri Ma, suas tentativas
de mendigar fracassaram. Se não conseguia nada, jejuava, e Sri Ma também. Desta
maneira, chegaram caminhando até Dehra Dun e se alojaram perto do templo de
Tapkeshwar Mahadeva. Bhaiji cumpriu sua promessa de avisar a Hari Ram e lhe enviou
uma nota dizendo que Sri Ma havia chegado a sua cidade. Imediatamente Hari Ram e
Hansa Datta chegaram ao templo e pediram a Sri Ma que ficasse em Dehra Dun algum
tempo e num lugar mais central e melhor.
105

Ananda Chowk

Hari Ram levou Sri Ma e Bhaiji a um dos locais, esperando que fosse do seu
agrado, mas não agradou a Bhaiji. Sri Ma lhe disse: “Olhe, não pense em suas
preferências. Ficaremos no próximo lugar que ele nos levar.” Assim, ao chegar ao
templo de Manohar, em Ananda Chowk, Sri Ma e Bhaiji aceitaram se instalar ali. Sri
Ma se acomodou no alpendre aberto do templo e Hari Ram obteve permissão do
encarregado para que Sri Ma utilizasse o pequeno quarto adjacente. Na manhã seguinte,
quando as esposas de Kashi Naraian Tankha e Dwarka Nath Raina chegaram ao templo
para fazer seu puja diário, encontraram Sri Ma sentada sozinha na varanda.

Este foi o começo nada sensacional da época mais espetacular da vida destas
mulheres, de suas famílias, amigos e conhecidos. Esta zona da cidade estava habitada
principalmente por cachemires e, em muito pouco tempo, todas essas famílias
começaram a se reunir aos pés de Sri Ma. Ananda Chowk se converteu em outra
Shahbag. Às vezes havia kirtan ou se fazia algum yajna no templo, mas em geral, os
visitantes ficavam sentados em silêncio, enfeitiçados pela presença magnética de Sri
Ma. Nos lares se criou um desajuste, porque as mulheres não estavam ali para fazer as
tarefas do lar. Por sua parte, os maridos e filhos iam correndo para o templo logo que
saíam do trabalho ou da escola. Muitas famílias bengalis da zona de Karanpur também
se aproximaram de Sri Ma e se converteram em devotos por toda a vida.

As mulheres levavam comida para Sri Ma e Bhaiji, mas ficaram surpresas ao ver
que ela só comia em dias alternados e em pequenas porções. A combinação de sua
frugalidade com a atração que gerava nas pessoas foi a razão de uma história divertida
que Sri Ma contaria depois a outros grupos de pessoas. Em algumas zonas da cidade
correu o rumor de a Mataji bengali hipnotizava os visitantes e que, de noite, se
produziam muitos milagres perto dela. Em algumas regiões ocidentais da Índia muita
gente acredita que Bengala é uma terra de magia negra, muito provavelmente devido à
preponderância do tantra como método de adoração. Entre as pessoas que iam a Ananda
Chowk havia uma senhora chamada de Barik Mai (a magra) por suas amigas. Haviam-
lhe colocado este apelido, na verdade, porque ela era bem corpulenta. Barik Mai era
uma mulher solidária, membro do Congresso Nacional da Índia e que lutava pela
independência. Diziam que ela havia sido encarcerada uma vez pelo governo (o
britânico, nos tempos da pré independência), mas o magistrado se apressou em libertá-
la, porque ela tornava a vida das suas colegas de cela impossível, com suas
intermináveis canções, entoadas com sua voz estentórea. Dita senhora havia assegurado
a suas amigas que chegaria ao fundo da atração que Sri Ma exercia.
106

Instalou-se no templo de Manohar. Não havia formalidades no tipo de vida que


Sri Ma seguia. As pessoas iam e vinham a seu bel prazer. Não havia portas que se
fechassem, já que Sri Ma vivia no alpendre aberto. Às vezes, um ou dois dos devotos se
sentavam perto dela para meditar, durante a noite. Barik Mai se converteu numa
residente regular, que se mantinha desperta enquanto Sri Ma ficava deitada sobre sua
manta. Barik Mai decidiu que também comeria em dias alternados, como Sri Ma, apesar
de que tentaram convencê-la de que não o fizesse. Assim transcorreram algumas noites
e o único fato raro que Barik Mai descobriu foi que Sri Ma não dormia como os demais.
Estava sempre completamente alerta quando lhe falavam, fosse qual fosse a hora da
noite. Inclusive às vezes ela mesma dizia algo para seus acompanhantes, se eles
acordavam. Em seguida, oferecemos o relato direto de Sri Ma sobre o que aconteceu:

“Como é natural, o estado de saúde de Barik Mai se viu muito afetado pela
vigília e pela falta de comida e, uma noite, caiu desmaiada. Dei-me conta que Jiotish
(Bhaiji) estava petrificado de medo porque pensava que se essa senhora estivesse
realmente doente, sua família e amigos pensariam que nós lhe havíamos feito algo.
Salpicou-lhe o rosto com água e lhe abanou até que ela voltasse a si. Não tardou muito
em se recuperar completamente. Então Jiotish lhe pediu que tomasse um par de pílulas
ayurvédicas que havia recebido de Dwarka Nath Raina para se fortalecer. De manhã, lhe
expliquei que a falta de alimentação adequada e de sono lhe haviam produzido este
desmaio e que, se quisesse ficar conosco, deveria dormir e comer normalmente. No
entanto, em poucos dias, para surpresa de todos, deixou de vir me ver. Eu sabia o que
havia acontecido. Suas amigas lhe haviam convencido que, depois de tudo, lhe
havíamos dado “duas pílulas mágicas”! Ela não disse nada a ninguém sobre suas
suspeitas.

“Muito tempo depois ela veio me ver e eu lhe disse: “Mãe, como você se saiu
com as pílulas mágicas?” Ela ficou como uma pedra e então foi quando contou toda
aquela sua busca secreta de milagres. Estava muito arrependida mas, com paciência,
conseguimos que recuperasse o bom humor.”

Enquanto Sri Ma ia perambulando a pé pelo Himalaia, o ashram de Ramna


parecia um local abandonado. Às vezes chegava uma carta de alguém que havia ido a
Dehra Dun ou a Missouri e todos os devotos a liam com grande interesse. Uma dessas
cartas foi enviada por Nirmal Chandra Chaterji, de Varanasi:

“Sri Ma se veste com dhoti (a versão masculina do sári), leva a cabeça


descoberta e o cabelo lhe chega aos ombros. Os devotos desta região a convenceram a
colocar sandálias, porque era impossível caminhar descalça por estes caminhos
montanhosos. Com o chale sobre os ombros, parece um jovem brahmachari. Tem
muitos devotos que estão dispostos a fazer tudo que ela disser.”

Também dizia que Sri Ma havia perguntado por todos e que havia perguntado a
que se devia que Baba (Shashanka Mohan) jamais lhe havia pedido permissão para ir a
Dehra Dun para ver como ela ia naquela zona nova. Shashanka Mohan, por sua parte,
esperava pacientemente receber instruções dela, sem considerar que tinha liberdade de
expressar seu próprio desejo. Supondo que a ele e Didi havia chegado o momento de
viajar, obteve a permissão de Sri Ma e se dirigiram a Dehra Dun em Dezembro de 1933,
passando um mês com ela.
107

Didi pôde ver em pessoa as mudanças de indumentária e aspecto, conheceu os


novos devotos e se deu conta da grande intimidade que tinham na relação com Sri Ma.
Começou também a aprender híndi para poder conversar com esta grande família de
devotos de Sri Ma. Conheceu a Mahalakshimiji, Sevaji, Maharatanji, assim como a Hari
Ram Joshi. Este, por sua vez, acolheu os visitantes de Dacca transbordando de
entusiasmo. Estava convencido de que, se os líderes nacionais quisessem contemplar a
possibilidade de deixar-se guiar por Sri Ma, o futuro do país estaria assegurado. A este
respeito, pediu a Kamla Nehru que fosse conhecer Sri Ma, pensando que assim se
produziria um encontro com Mahatma Gandhi. Jawaharlal Nehru estava na prisão de
Dehra Dun, naqueles tempos, e também estavam na cidade sua mãe Swarup Rani e sua
mulher Kamlá, provavelmente para estar perto da prisão. Sua filha Indira estava num
colégio de Masuri.

No princípio, apesar das persuasivas palavras de Hari Ram, Kamla Nehru não
quis ir conhecer a Sri Ma, já que sabia que as chamadas personalidades religiosas não
eram do gosto do seu marido. Por essa razão, quando ela e Indira foram, na carruagem
familiar, para acompanhar a Swarup Rani até o templo, ela não desceu. Hari Ram a foi
visitar e lhe chamou a atenção (segundo ele) por essa pequena descortesia para com Sri
Ma. Por mais importante que fosse o visitante, Hari Ram nunca transigia na questão de
que Sri Ma era merecedora do mais elevado respeito. Este severo purista não consentia
que ninguém tivesse a menor dúvida com respeito a Sri Ma.

Kamla Nehru reconheceu seu erro e regressou especialmente para conhecer Sri
Ma. Logo que chegou, ficou enfeitiçada. Esse primeiro encontro teve uma grande
transcendência em sua vida. Preocupada por sua posição social, costumava ir ao templo
tarde da noite e, às vezes, não partia até que amanhecesse. Diferentemente de Hari Ram,
Sri Ma entendia perfeitamente seu apuro e costumava dizer para ela não vir até ali, se
considerasse que não era apropriado para ela. Numa ocasião, Kamlaji quis escrever a
Gandhiji, pedindo-lhe permissão para retirar-se da vida pública, a fim de poder estar
com Sri Ma, mas esta a dissuadiu de sua idéia, dizendo-lhe que não era o momento
apropriado. O fato de que Kamlaji passava o tempo pensando em Sri Ma e que havia
conseguido um elevado nível de concentração na meditação, era evidente para todos ao
redor de Sri Ma, naqueles dias. Começou a escrever regularmente para Bhaiji, quando
Sri Ma partiu de Ananda Chowk. Numa ocasião lhe escreveu: “Bhaiji nunca me escreve
uma quantidade suficiente de cartas para me dar notícias de Ma. Mas, às vezes, a ‘vejo.’
Esta noite a ‘vi’ vestida com um sári de borda larga e vermelha…”

Bhaiji lhe respondeu de Kankhal dizendo-lhe que, efetivamente, o dia que ela
mencionava, alguns devotos bengalis de Calcutá haviam convencido Sri Ma a colocar
um sári com borda vermelha, como costumava fazer em Dacca e Calcutá. As pessoas de
Dehra Dun nunca a haviam visto vestida assim. Uns três anos depois Kamla Nehru
faleceu, na Suíça. Durante sua enfermidade, Sri Ma foi visitá-la mais de uma vez, no
Bhowali Sanatorium. Até o último momento manteve uma estreita correspondência com
Sri Ma. Ainda que, a partir desse encontro, o sonho de grandes eventos políticos de
Hari Ram não se houvesse materializado, quem sabe se o que aconteceu não era da
maior importância para a vida das pessoas envolvidas e para a totalidade do país.
108

O Templo de Kali de Uttarkashi

Em algum momento do verão de 1935, Bholanath escreveu a Sri Ma contando-


lhe que havia empreendido a construção de um pequeno templo para Kali, em
Uttarkashi. Nessa região Bholanath havia ganho um considerável prestígio como asceta
entregue à sua busca e os habitantes do lugar se alegravam de que fosse ele mesmo
quem realizaria as cerimônias de instalação. Hari Ram se interessou pelo projeto e, em
pouco tempo, se mobilizaram as forças necessárias para realizar uma celebração de
proporções gigantescas nesse antiquíssimo lugar de retiro para renunciantes.

Decidiu-se realizar a cerimônia de instalação em Agosto de 1935. Pode-se


considerar que esta ocasião foi um marco na vida dos devotos de Sri Ma. Os membros
do novo grupo de seguidores, que incluía pessoas de Nainital, Almora, Dehra Dun,
Missouri, etc, se ofecereram para proporcionar alojamento aos devotos convidados,
procedentes de Dacca, Calcutá, Jamshedpur e outras localidades de Bengala e Bihar.
Receberam a todos na estação de trem e os conduziram aos lugares que se havia
preparado para eles. Em seu diário, Didi escreveu: “É todo um zôo que Sri Ma reuniu
em sua volta: não entendemos os idiomas que falamos, ninguém está seguro de quem o
outro é, mas todo mundo está feliz e pronto para a aventura.”

Assim, pois, aquele mês de Agosto, uma grande multidão de homens, mulheres e
muitas crianças, iniciaram sua expedição a Uttarkashi, distante uns 95 km de Missouri.
Sri Ma encabeçava este grupo heterogêneo de bengalis, cachemires, punjabis e paharis,
assim como pessoas de Uttar Pradesh. Muitos dos da região do leste jamais haviam
visto as montanhas e não estavam, em absoluto, acostumados a subi-las. No tortuoso
caminho de subida, ressoavam as exclamações de admiração e surpresa, em diferentes
idiomas. Assim como os arquejos e gemidos. Haviam alugado dandis (carregadores),
mulas e rikshás para aqueles que não podiam caminhar. Muitos tiveram feridas nos pés,
outros tinham dificuldades respiratórias e uns poucos sentiam náuseas, mas nada
importava realmente, porque Sri Ma se movia constantemente entre eles. Às vezes
caminhava com os atrasados. Quando faziam uma parada para acampar, ela informava
detalhadamente todos os preparativos e visitava diferentes pessoas, com o que todos iam
dormir felizes em saber que Sri Ma estava com eles e que não tinham que preocupar-se
com nada. Andando lentamente, essa cansada, mas contente multidão chegou a
Uttarkashi, depois de uns cinco ou seis dias.

Bholanath recebeu seus velhos amigos com grande alegria. Havia convidado o
sacerdote oficiante de sua família, o qual havia enviado seu filho. As pessoas do lugar,
que nunca tinham visto Bholanath anteriormente, lhe apresentaram seus respeitos. Ele
sempre estava disposto a acolher pessoas novas. Naqueles dias, não pensava em outra
coisa além do trabalho do templo. Com grande respeito e circunspecção, instalou as
deidades no templo entre exclamações de grande júbilo. Essa zona solitária da
montanha reverberava com os sons da música, conchas e jayadhvanis.
109

Depois desta cerimônia, acompanhado por seu oficiante e Atuldada, Bholanath


partiu para Gangotri em peregrinação, local do nascimento visível do Ganges. Enquanto
isso, Sri Ma se encarregou de conduzir sua grande família de volta a Dehra Dun. A
essas alturas, essa variada multidão havia se convertido num grupo homogêneo e entre
alguns dos componentes se estabeleceu uma amizade para toda a vida. Um dia, se viram
obrigados a cruzar um riacho de montanha. Acontece que, nessas montanhas, os leitos
secos se convertem em rápidas torrentes depois de um ou dois dias de chuva e podem
ser traiçoeiros, porque as pedras do fundo são muito escorregadias. As dar-se conta da
angústia das mulheres, Sri Ma se plantou no meio do rio e deu a mão para as que
estavam nervosas até que todas conseguissem cruzar para a outra margem do rio. Não
parou de ir de um lado para o outro até que todos tivessem atravessado o rio. Um dos
viajantes ficou tão impressionado por este fenômeno que, numa descrição do
acontecido, enviada a um amigo, escreveu: “Oxalá Ma nos ajude a cruzar a bhagavanadi
(rio da vida) da mesma maneira.” O amigo citado, Swami Asitananda, foi conhecer Sri
Ma tempos depois, dizendo que queria ver a bhavanadikarnadhara (timoneira do barco
do rio da vida).

Acompanhada por uns poucos amigos e parentes, Mahalakshmiji se apressou a


chegar a Dehra Dun, para que tudo estivesse preparado quando todas essas pessoas, tão
cansadas, chegassem. Os viajantes ficaram impressionados com a hospitalidade das
pessoas de Dehra Dun. Ia se desmanchando as barreiras linguísticas e culturais e essa
amálgama improvisada de gente foi tomando o aspecto ordenado de uma congregação
organizada, o que é algo que sempre acontecia, onde quer que Sri Ma fosse. A fusão
harmônica de culturas díspares era algo que se produzia inevitavelmente à sua volta, o
que demonstrava, prática e repetidamente, seus ensinamentos de que o Uno se manifesta
como muitos.

Dacca de Novo

Não paravam de convidar Sri Ma para que fosse à Dacca. Durante o inverno de
1935, Sri Ma, Bholanath, Bhaiji e umas poucas pessoas mais foram passar uns dias em
Tarapith e, dali, foram para Dacca, em Dezembro de 1935. Ela havia saído daquela
cidade há três anos e meio atrás. Os devotos, loucos de alegria, lhe deram uma boa
vinda apoteótica. Depois de tanto tempo, Sri Ma voltava a sentar-se nos campos verdes
de Ramna, conversando com os que iam vê-la. Ainda que a transição de dona de casa
para guia espiritual e mestra já se havia completado, ela não havia deixado de ser a
mesma Ma de Dacca.

Enquanto Sri Ma estava falando com as pessoas que a rodeavam, o secretário


geral da Universidade de Dacca, Khan Bahadur Nasruddin Ahmed, saiu para dar seu
passeio diário. Naguendranath Datta, o diretor do East Bengal Times, aproximou-se
dele, convidando-o para reunir-se com eles e ser apresentado a Sri Ma. Enquanto se
aproximava do grupo, Bhupati Babu disse a ela: “Ma, ele é muçulmano.” Sri Ma lhe
sorriu e respondeu: “Eu também sou muçulmana.”
110

Depois das apresentações, Khan Bahadur, quem sabe porque pensou que não
seria cortês dirigir-se a ela diretamente, perguntou a um dos devotos: “Sri Ma alcançou
a paz, por que vive constantemente viajando?” Mas foi Sri Ma pessoalmente quem lhe
respondeu: “Ainda que eu permaneça num local, poderiam prosseguir fazendo esta
pergunta, não?” Então, lhe deu esse seu sorriso de inimitável graça e encanto e lhe disse
com doçura: “Baba, você não sabe que eu sou uma menina muito inquieta? Não posso
ficar parada num lugar. Essa é a sua resposta. Desde outro ponto de vista, posso lhe
dizer que é você quem me vê viajando de um lugar para outro mas, em realidade, eu não
me movo em absoluto. Quando você está em casa, não fica sentado num canto, não é?
Não, na certa fica andando livremente de um cômodo a outro, por toda casa, mas nem
por isso deixa a casa. Pois, de forma semelhante, eu também vou andando por minha
própria casa. Eu sempre estou em casa!”

- “Você encontrou a paz, mas nós estamos à mercê de inúmeras distrações. Por
que não é generosa e distribui algo de sua paz entre nós?”

- “No momento em que você gritar de desespero: ‘Senhor! Como se encontra a


paz?’ já estará no caminho para encontrá-la.”

Sri Ma disse isto de forma espontânea e divertida, fazendo um gesto tão


eloquente com as mãos, que todo mundo começou a rir. Depois, Sri Ma disse,
seriamente: “Se você vive entre coisas que não tem paz, como você quer poder senti-la?
As pessoas são afetadas pelas coisas ao seu redor. Quando você se senta perto do fogo,
sente o calor. Se você escolhe viver entre as distrações, como a paz vai poder entrar em
você? Isto não quer dizer que todo mundo tenha que se retirar do mundo e viver como
um ermitão no bosque para encontrar a paz, mas o que se pode fazer é viver com algo
cuja natureza seja a paz. Aonde você for, você deve viver em companhia daquilo que te
dê paz. O que estou te dizendo é que sempre leva a Deus em tua mente. Só Deus é a
paz. Se o chama Khudá (palavra persa para Deus) ou Kali, é irrelevante, porque só há
Um. O verdadeiramente importante é ser perseverante. Uma perseverança implacável é
o que produz a mudança de perspectiva que te estabelecerá na paz.”

“A paz se pode alcançar tanto no mundo quanto fora dele. Você diz que eu
encontrei a paz e que deveria reparti-la com os demais. Eu te digo que sou uma menina
e que vocês são meus pais. Acolham-me como tal e façam-me um refúgio em seus
corações. Chamando-me ‘mãe’ vocês me mantém distante. As mães têm que ser
veneradas e respeitadas, mas o que uma menina necessita é que a queiram e a cuidem, é
ter o carinho do coração de todos. Assim que isso é a única coisa que lhes peço: que me
façam um refúgio em seus corações.”

Estas palavras que Sri Ma disse com um sorriso e sem dar muita importância,
comoveram a todos. Criou-se uma atmosfera solene. Já não houve perguntas, mas
prevaleceu a paz e o silêncio. Pouco tempo depois, Sri Ma se levantou e finalizou
aquela sessão.

Sri Ma regressou de novo para aquelas regiões do norte da Índia.


111

Pioneira no Caminho da Renúncia

A “opção” de Sri Ma de exaltar o ideal de renúncia como forma de vida mais


significativa, foi aplicada em seus seguidores mais velhos. Enquanto ia caminhando
pelas montanhas, teve o kheyal de que Shashanka Mohan devia ser formalmente
iniciado numa das ordens monásticas. Suas andanças haviam levado Sri Ma, no final de
Março de 1934, a um templo na borda do caminho, em Salogra, perto de Solon, perto do
qual havia uma cova tão pequena que não se pode entrar nela de pé e nem caberia
alguém deitado nela. Sri Ma viveu certo tempo em dita cova. Seus acompanhantes
foram Bhaiji e Hanja Datta Tiwari. Madan L. Joshi, irmão de Hari Ram, era médico em
Solon e foi apresentar seus respeitos a Sri Ma. A encontrou sentada em dita cova, com
aspecto de estar à vontade e tão radiante como sempre. Ainda que fizesse um frio
tremendo, depois de uma nevasca que havia caído nas montanhas, Sri Ma não parecia
incomodada em absoluto. Solon é a capital do estado de Baghat. Sua alteza, o Rajá
Durga Singh, de Baghat, tinha fama de ser um príncipe com muitas e destacadas
qualidades, além de sentir inclinações pelo religioso. Era devoto de um sábio chamado
Shogui Baba, que estava vivendo em Solon naquela época. Ainda que o Rajá Sahab já
tivesse ouvido falar de Sri Ma, ao princípio, não lhe apeteceu ter o darshan de uma
“santa.”

Ainda que Sri Ma estivesse convidada pelo Dr. Yoshi a se mudar para Solon, seu
repentino kheyal de ver Shashanka Mohan a levou a Haridwar. Enviou uma mensagem
para Dacca, para Shashanka Mohan e outro para o Swami Shanharananda, um novo
devoto, em Varanasi. Sri Ma pareceu alegrar-se muito quando viu Didi chegar a
Haridwar, acompanhada de seu pai, em resposta à carta que lhe havia enviado. Disse a
Shashanka Mohan: “Nos haviam preparado algo em Solon, mas, de repente, tive este
kheyal de que você deveria tomar sanniasa. Estes locais sagrados são uma ajuda no
sadhana e atraem devotos e santos. Já sugeri ao Swami Shankarananda que busque um
Guru adequado para você. Chaitra Samkranti (13/14 de Abril) é uma data auspiciosa.
Falta pouco tempo, assim, você tem que fazer todos os preparativos com diligência.”

Estas palavras deixaram Shashanka Mohan desconcertado. Ele não estava


preparado para uma transformação tão radical. Ademais, a esta altura da vida não podia
conceber o ter que inclinar a cabeça diante de um Gurú, para ele, anônimo. Com certa
infelicidade, respondeu: “Não posso pensar em nenhum outro Gurú. Não creio que seja
capaz de me comprometer com nenhuma outra pessoa. Sempre desejei e acreditei que
você seria meu guia. Por que me pedes que procure outro Gurú?” Sri Ma lhe respondeu
com doçura: “Mas eu não posso te dar sanniasa” ao que ele respondeu: “Não tenho
nenhuma necessidade de nada que você não possa fazer por mim.”

Então Sri Ma disse tranquilamente: “Então, neste caso, não há necessidade de


fazer nenhuma preparação.” Ficou séria e não disse mais nada. O aspecto jovial com o
qual havia iniciado a conversa se esfumaçou completamente.
112

Caiu a tarde. Shashanka Mohan se retirou e o viram sair e ficar sentado durante
horas, nas margens das águas rápidas do Ganges. Na outra margem do rio se elevavam,
imponentes, os montes cobertos de bosques. Com que pensamentos ele teve que lidar
nesta noite? Era um homem orgulhoso, mais acostumado a mandar do que a obedecer.
A perspectiva de desfazer-se de todo o sustento e apoio de uma prolongada vida familiar
e de se ver obrigado a embarcar num périplo até o desconhecido deve tê-lo emocionado
até o mais fundo do seu ser. Era o chefe de uma grande família, quase um clã. Quem
sabe esteve debatendo se seria correto separar-se deles para sempre. Já não teria
nenhuma obrigação com respeito a ninguém. Também deve ter pensado no futuro de sua
filha. Já não poderia cuidar dela, deixando-a sozinha. No entanto, tudo isso são
conjecturas, já que ele não repartiu com ninguém os seus pensamentos. Todos os
devotos dos primeiros tempos eram pessoas muito cultas e educadas. O que de fato
aconteceu foi que, mais tarde, naquela mesma noite, ele foi ver Sri Ma e lhe disse:
“Creio que antes manifestei o que primeiro me passou pela cabeça. Mas agora já estou
pronto para satisfazer seu kheyal e fazer o que me disser.”

Sri Ma se iluminou. Imediatamente começou a explicar muitos planos para esse


importante acontecimento e lhe disse: “Você não tem que pensar que deve ir com outro
Gurú. Não há mais do que Uma só Realidade.”

Sri Ma era muito conhecida no ashram de Bholaguiri Maharaj. Seu sucessor, Sri
Mangal Guiri Maharaj, aceitou iniciar Shashanka Mohan na ordem dos Guiris, que é
uma das mais prestigiadas ordens dos sanniasis da Índia. O discípulo deve realizar um
yajna para renunciar a todas as suas ataduras com o mundo. Ao fogo sagrado são
oferecidos todos os conceitos sobre si mesmo como indivíduo, membro de uma família,
sociedade, nação e inclusive sua própria casta e credo. O que se busca é libertar o “eu”
de todas as limitações, com o fim de que possa identificar-se com o Uno e, desta forma,
com todo mundo. Ao não ser de ninguém e de nenhum lugar, o sanniasi é de todos e de
todas as partes.

Sri Ma e um punhado de seus acompanhantes prestigiaram esta cerimônia, o


mais elevado feito de um brâmane nascido e criado na tradição hindu. Depois de haver
tido uma vida plena e frutífera no mundo, Shashanka Mohan estava plenamente
capacitado para renunciar a tudo isto para obter um benefício maior. Seu nome foi
mudado para o de Swami Akahndananda Guiri. Uma vez vestido com a túnica ocre, foi
apresentar seus respeitos a Sri Ma, a qual lhe disse: “Até agora você tem rendido um
serviço constante e ininterrupto (akhanda) à sua família e profissão (medicina). A partir
de agora dedique-se a alcançar o Ser com esta mesma constância.”

Sri Ma sempre mostrou um respeito sublime pelos sadhús e mahatmas, ou seja,


pelos diferentes tipos de ascetas. No entanto, não estimulava as pessoas para que
abandonassem suas obrigações em nome da religião. Quem sabe convenha relembrar
uma história ilustrativa de seus ensinamentos a este respeito. Aconteceu uns cinco anos
mais tarde, em Dehra Dun. Enquanto Sri Ma estava passeando perto das portas do
recém construído ashram de Kishanpur, viu um sadhu parado de pé, perto dali. Falou
com ele em bengali e ele lhe respondeu neste mesmo idioma, ainda que não tivesse
aspecto de ser bengali. Ela o convidou para jantar no ashram. Depois da ceia, ele
sentou-se perto de Sri Ma e ela lhe perguntou:
113

- “Você é um sanniasi?”

- “Não.”

- “Então por que você se veste de sanniasi?”

- “Desde o ponto de vista prático, sei que o sou, porque renunciei ao mundo.”

- “Com a finalidade de praticar tapiasa para alcançar o Ser?”

- “Não pensei nisto. No momento, não quero ter nada com o mundo.”

- “Isto quer dizer que você abandonou seu lar por razões pessoais e não deseja
voltar?”

- -“Sim.”

- “Neste caso, você está enganando a todos completamente e não está fazendo
bem nenhum a você mesmo.”

- “Nada me sujeita a ninguém. A ninguém importa o que eu faço com minha


vida.”

- “Isso não é correto. Seu aspecto de asceta significa algo para as pessoas.
Segundo nossa tradição, devemos dar sustento a qualquer homem que esteja dedicado a
um sadhana intenso, já que não tem nenhum outro meio de subsistência, pois se
despojou de seu desejo de obter o próprio sustento e só depende da vontade Divina.
Então as pessoas decidem dar-lhe sustento, da mesma maneira que fazem com todas
aquelas pessoas que estão dedicadas, de forma desinteressada, a alguma ação que
beneficie a toda sociedade. Este aparato não deve ser utilizado para resolver problemas
pessoais nem para escapar das situações difíceis. Se você não se dedica ao sadhana a
ponto de excluir todos os demais assuntos, não tem nenhum direito de aceitar comida ou
alojamento das pessoas normais que, ao vê-lo com esta roupa, te darão
automaticamente, sem duvidar da sua boa fé.”

O jovem, que tinha um aspecto educado e culto, se manteve calado. Sri Ma lhe
disse que ele poderia ficar no ashram todo o tempo que quisesse, mas que lhe seria mais
conveniente voltar para casa e resolver a situação da qual estava fugindo. Na manhã
seguinte, o jovem havia desaparecido, provavelmente seguindo o conselho de Sri Ma.

Em outra ocasião, um jovem, pertencente a uma das famílias mais importantes


do mundo da indústria de todo o país, foi perguntar a Sri Ma sobre sua forma de vida no
futuro. Naquela ocasião, foi vestido de brahmachari e já estava a muitos anos vivendo
no ashram de seu guru. Seu problema era o seguinte: queria ser um sadhú, mas seu guru,
depois de 12 anos, lhe havia pedido que regressasse à sua casa e assumisse as
responsabilidades de um chefe de família. O que deveria fazer? Sri Ma lhe disse: “Mas
eu não vejo problema nenhum. Pedem-te que obedeça ao seu Gurú em todos os
momentos, se é que você o considera seu Gurú. Se ele te pede que se case e que trabalhe
no mundo, é isso que você deve fazer. Por que você vacila?”
114

Depois de certo tempo, o jovem partiu e era evidente que não estava de todo
satisfeito com as palavras de Sri Ma. Esta, em tom de reflexão, dirigiu-se ao pequeno
grupo de pessoas que havia presenciado a cena: “Como vêem, o caminho espiritual é
difícil e está cheio de obstáculos sutis. Por esta razão se requer um guia em todos os
momentos. Às vezes o sadhaka começa a desfrutar de muitos benefícios, que podem ir
se acrescentando, especialmente de adquiriu alguns pequenos poderes yóguicos.
Também as ânsias de fama e reconhecimento como sadhú podem obscurecer o juízo do
discípulo e impedi-lo que veja claramente qual é sua obrigação.”

Segundo Sri Ma, a fortaleza pessoal e a obediência são indispensáveis na vida do


sadhaka. Quando chegou o momento de Shashanka Mohan, ele não desapontou seu
Gurú. De Bengala Ocidental até Haridwar, o périplo estava cheio de múltiplas
mudanças. Que prasanna (benigna) Sri Ma deve ter parecido quando ele se apresentou
diante dela vestido com as roupas ocre brilhantes de renunciante! (segundo o espírito de
nosso país, esse é o estado mais elevado que um homem pode alcançar nesta vida).

O Circulo se Dilata

Sri Ma continuou viajando e conhecendo multidões de pessoas. Visitou


Bholanath, perto de Joguendranagar, Almora, Etawah, Ayodhia, Faizabad e outros
lugares. Em Outubro de 1935, tanto ao ir como ao voltar de Almora, passou por
Bhowali para ver a Kamla Nehru, que se encontrava ali recebendo tratamento. Em
Etawah, Sri Ma conheceu o Dr. Pitambar Panth, um amigo de Hari Ram. Perto de Dehra
Dun há uma propriedade chamada Dunga. O Zamindar de Dunga, Chaudhuri Sher
Singh e sua família estabeleceram uma íntima relação nesta época. Dunga era uma
espécie de retiro florestal onde muita gente teve a oportunidade de estar tranquilamente
com Sri Ma e desfrutar de suas palavras. Sri Ma também foi a Solon. O Rajá Durga
Singh havia superado sua reticência a ir visitar a uma santa. Depois de seu primeiro
darshan, se tornou completamente devoto dela. Sri Ma dizia que ele não só era um
príncipe do mundo, mas também um príncipe entre os yoguis. No círculo dos devotos
era conhecido como Yoguibhai.

Durante todos estes anos, todos estes nomes que acabamos de mencionar
chegaram a ser muito conhecidos. Eram homens com estilo de vida, status social,
temperamentos e educação muito díspares. Mas todos estes pensamentos surgem ao
lançar o olhar para trás porque, na presença de Sri Ma todas as diferenças eram
dissolvidas sob o sentimento generalizado de pertencer à mesma família.
115

Sri Ma, Bholanath e seus acompanhantes chegaram a Tarapith em Janeiro de


1936. Sri Ma estava há certo tempo com o kheyal de que Didi e Maroni deveriam
receber o cordão sagrado dos brâmanes. Nas famílias brâmanes as meninas não recebem
a iniciação como os homens e não existia nenhum precedente a respeito. Em Varanasi
foram consultados os ditames das escrituras a esse respeito e os pandits disseram que,
ainda que não existisse esta tradição, não havia nenhuma sentença que o impedisse. Ao
consultar o pandit Sri Gopinath Kaviraj, este declarou que o kheyal de Sri Ma era, em si
mesmo, um sastra (escritura sagrada) e que sua legitimidade não necessitava de
nenhuma corroboração. Portanto, em Tarapith se realizou outro ritual pioneiro. Em 14
de Janeiro, Didi e Maroni receberam a iniciação do Gayatri Mantra, que é dado aos
varões brâmanes, filhos de pais hindus. Foi lhes dado também o cordão sagrado que se
leva atravessado sobre o peito, por cima do ombro esquerdo. Maroni foi iniciada por
Bholanath, já que tradicionalmente, o pai é o diksha-gurú do mantra sagrado. Dado que
o pai de Didi já era um sanniasa, foi concedido o privilégio a Sri Dinesh Chandra
Bhattacharia, um ancião muito respeitado e grande devoto de Sri Ma.

Sri Ma também sugeriu que o longo compromisso de Maroni com Chinu se


devia solenizar mediante a cerimônia do casamento. A perspectiva deste evento
entristeceu Bholanath, que amava a Maroni como se fosse sua filha. Ainda que, segundo
o rito do matrimônio hindu, as filhas não saiam de casa imediatamente, não deixa de
constituir uma interrupção das relações. A julgar pelos acontecimentos posteriores, dá a
sensação de que Sri Ma estava despojando Bholanath de suas responsabilidades,
deixando-o livre. Bholanath se preocupou um pouco ao não saber como se poderia
cumprir com todos os requisitos de uma boda tradicional num local tão recôndito e
desolado. Deve ter tido fé em Sri Ma. Era como se ela sempre desfrutasse tornando
possível tudo aquilo que parecia improvável. Por pura casualidade chegaram a Tarapith
as mulheres apropriadas, vindas de Calcutá, as quais se ocuparam, encantadas, de todos
os preparativos. Desta forma, a boda se pôde realizar com todos os detalhes do
elaborado ritual que tanto gostavam as mulheres de Bengala. Bholanath abençoou o
jovem casal. A partir de então Maroni passou a estar sob a proteção de seus sogros até
que fosse suficientemente grande para reunir-se com seu marido na cidade onde ele
trabalhava.

Em Fevereiro de 1936 Sri Ma deixou Tarapith em sua silenciosa contemplação


da morte e partiu com seus devotos num comboio de 15 a 20 carretas de boi em direção
à estação de trem mais próxima, em Rampurhat. O melodioso canto Bhramara fez desta
lenta viagem noturna, à luz da lua, um evento memorável. Os devotos de Dehra Dun
haviam convidado todas as pessoas a quem pudesse interessar o deslocar-se para esta
cidade, para poder celebrar o quadragésimo aniversário de Sri Ma no novo ashram de
Kishenpur. Como resultado deste convite, Kishenpur se converteu, momentaneamente,
num centro de festividades. Parecia com Ramna em muitos aspectos porque, logo após
o Tithi Puja (aniversário) que realizou Manmotho Nath Chaterji, um ancião de certo
prestígio, Sri Ma partiu de Solon.

Yoguibhai se encarregou de organizar tudo. O estado de Bhagat era pequeno,


mas estava situado num lugar muito bonito. Foi impressionante a régia acolhida que foi
concedida a todo o séquito de Sri Ma. Ainda que, quem sabe naqueles lares esses
preparativos tão refinados fossem algo rotineiro, o genuíno espírito de entrega dos
serventes e a conduta decorosa de todos os assistentes eram uma fiel testemunha da
lealdade e respeito que todos eles sentiam por seu príncipe.
116

De fato, os membros da corte de Yoguibhai mantiveram durante anos uma


íntima relação com Sri Ma. Como era costume naqueles tempos, a rani Sahibá
observava o pardá (reclusão das mulheres). Era a irmã do Maharajá de Tehri Garhwal,
um estado montanhoso de considerável importância. Com o tempo, a família de seu
irmão também seguiu a Sri Ma. As pessoas de nossas montanhas sentem grande
devoção por muitas imagens da deusa Durga. Anos mais tarde, Sri Ma teve ocasião de
visitar os estados independentes de Suket e Mandi. Em todas as partes era recebida
como a Encarnação da Deusa. Quando Sri Ma viajou por Madhia Pradesh e pelo sul da
Índia, ficaram fascinados por ela muitos príncipes mais, com suas respectivas famílias.
Sentia-se tão à vontade em seus palácios como nos alpendres abertos dos templos. No
entanto, a Yoguibhai sempre concediam um lugar especial no ashram. Tal como Hari
Ram, se tornou muito amigo de Bhaiji e assumiu muitas de suas responsabilidades
quando este faleceu.

Depois de passar duas semanas em Solon, Sri Ma teve o kheyal de visitar


Shimla.

Nama-Yajna em Simla

Em Simla (2.000 a 2.500 metros acima do nível do mar) havia um Kalibari


(templo de Kali) muito auspicioso. Dispunha de uma grande quantidade de alojamentos
nos quais os visitantes podiam se alojar uns poucos dias. Simla era a estância de verão
dos altos funcionários do governo da Índia e, nesta época, a cidade estava em plena alta
temporada de verão. A população bengali estava constituída principalmente por altos
cargos que, todo ano, passavam alguns meses em Simla, junto com seus
correspondentes.

No dia em que Sri Ma chegou ao Kalibari, faleceu Dayal Baba, um ancião sadhu
muito querido pelo povo de Simla. De fato, pouco antes de Dayal Baba morrer, ele
havia perguntado se Sri Ma Anandamayi já havia chegado. Ao chegar, Sri Ma foi à casa
do ancião e ficou de pé um tempo, ao lado do seu corpo. Parecia estar placidamente
dormido. Depois, ela se retirou ao seu aposento.

Muitos grupos de pessoas passaram para dar se último adeus a Dayal Baba, que
era muito apreciado em Simla. Ao saber que Sri Ma estava lá, passavam a ter também
seu darshan. Com estas novas pessoas Sri Ma se comportava como se fossem seus
conhecidos. Depois de poucos dias o pequeno alojamento de Sri Ma começou a ficar
abarrotado de visitantes. Muitos se aproximavam do Kalibari ao sair do trabalho, o que
deu origem a muita diversão e muitas brincadeiras porque alguns maridos descobriram
que suas esposas já estavam com Sri Ma, em vez de os estarem esperando em casa.
Expressando a opinião de suas amigas, uma senhora disse: “Ma, passamos o dia
esperando, impacientes, chegar à hora do escritório e do colégio. Tão logo nossos
maridos e filhos saem, corremos para cá!”
117

Os funcionários do alto escalão bengali que estavam em Simla eram


principalmente membros ou seguidores de Hari Sadha. Dita sociedade devia tributo ao
Vaishnava Sampradava de Sri Gauranga Mahaprabhú, de Bengala. Sri Gauranga foi o
que popularizou o canto do kirtan por um grupo de pessoas que se reuniam para este
propósito. Num dos livros considerados sagrados se descreve com muitos detalhes a
celebração do nama sarakirtana. Ergue-se um altar (manch) alto e quadrado num espaço
aberto ou numa sala, se adorna com flores, folhas e ilustrações de Vishnú, Krishna e
outras imagens do panteão vaishnava. São convidados especialmente todos aqueles que
cantem bem e toquem bem os tambores (khola). Nesta reunião de homens devotos se
invocam os nomes do Senhor na véspera do dia em que se cantará um kirtan (adhivala)
de sol a sol, o qual se conhece como um nama-yajna, que consiste em cantar o Nome de
Deus. Ao cair da tarde, o grupo de kirtan sai nas ruas (nagar-brahmana) e, depois de um
curto passeio, volta ao altar e, em meio aos cânticos, o canto do nome chega ao seu
final. O nome é um mantra que representa Deus e que é tratado como tal em todos os
momentos.

Havia se cantado kirtan de maneira informal em volta de Sri Ma e, até o final,


ninguém havia presenciado nunca um nama-yajna. Os altos funcionários de Simla
haviam estabelecido a tradição de fazer uma celebração estival no Kalibari, já que
constava de uma grande sala. Este ano convidaram Sri Ma e Bholanath para assistir a
dito ato em 23 de Junho.
118

Reuniu-se uma grande multidão no Kalibari, na véspera do nama-yajna. Tanto a


sala como o átrio que o rodeava estavam enfeitados com guirlandas. Se havia erigido o
altar central e adornado com imagens, flores, folhas e luzes. O ambiente estava
impregnado de uma fragrância de sândalo. Apareceram os participantes: Han C. Banerji,
Duragadas Banerji, Chawk Banerji, Monoyilal Chaterji, Deben Chaterji, Sudhir Sarkar
e muitos mais, todos incondicionais adeptos deste tipo de sadhana. Rodeada por todas as
mulheres Sri Ma se sentou no alpendre, enquanto Bholanath participava do ato com
entusiasmo.

Primeiro se santificou o altar. Por assim dizer, se deu graças aos instrumentos
por ajudarem a invocar os Nomes do Senhor, colocando-lhes grinaldas. Os participantes
também receberam grinaldas e se lhes colocou uma marca de pasta de sândalo na testa,
como sinal de boas vindas. A tarde começou com o som dos instrumentos musicais
sincronizados com os ritmos da percussão. A música cria o ambiente propício. Ao
concluir, uma voz solene, seguida pelas de todo um grupo de pessoas, invoca a presença
de Ganranga e Nitiananda Mahaprabhu e lhes pede com humildade que participem no
Kirtan da madrugada seguinte, depois que os homens se levantam com seus
instrumentos (pendurados nos ombros por alças largas) e vão caminhando lentamente ao
redor do altar. Canta-se durante um tempo a melodia principal do dia seguinte, com a
qual se conclui o adhivasa, ou seção de invocação.

No começo da manhã seguinte, todo mundo se reúne outra vez para começar o
kirtan de sol a sol. Desta vez, devido à presença de Sri Ma, estavam presentes inclusive
aqueles que não costumam aparecer até o meio dia. O mesmo mantra seria cantado
desde o amanhecer até o ocaso. Os cantores vão se alternando e todos são
acompanhados pelos percursionistas. O cantor principal tem liberdade para mudar a
melodia (marcando assim especialmente a mudança das horas), mas o canto não se
interrompe em nenhum momento. A arte de mudar as melodias também é algo muito
refinado, que só os experientes se atrevem a fazer. Do mesmo modo que na tarde
anterior, Sri Ma sentou-se no alpendre.

Logo que o kirtan começou, criou-se um ambiente sublime. Didi e Swami


Akhandananda estavam com Sri Ma desta vez. Tanto eles como Bholanath se deram
conta de que, depois de quase cinco anos, Sri Ma parecia reagir ao ritmo da música já
que, desde que saíram de Dacca, não haviam voltado a vê-la num mahabhava. Tinha o
rosto enrubescido e seu olhar parecia separar-se do mundo dos assuntos cotidianos para
submergir-se completamente num êxtase interior resplandecente. Didi se deu conta de
que Sri Ma estava tentando controlar as ondas do mahabhava porque conversava com
certo fastio com seus acompanhantes. Uma hora, levantou-se e foi dar um passeio. Em
outro momento, foi a seu quarto e deitou um pouco. Ao se dar conta do que estava
acontecendo com Sri Ma, Bholanath foi vê-la e lhe pediu que, se pudesse, controlasse
seu mahabhava. Aquele era um ato público e para Bholanath não agradava a idéia de
que todos aqueles estranhos vissem Sri Ma num estado de exaltação e que não
entenderiam nada daquele fenômeno. Ademais, o bhava-samadhi de Sri Ma podia durar
muitas horas ou inclusive dias. Sempre havia se sentido angustiado por um medo
inominável de perdê-la completamente num desses samadhis. Ele também sabia que Sri
Ma obedeceria suas palavras, a menos que a barreira em sentido contrário fosse à força
do seu kheyal. Mas, nesta ocasião, o kheyal de Sri Ma se focava também em controlar a
manifestação do mahabhava, talvez porque ela já imaginava a reação de Bholanath.
119

Assim transcorreu o dia. Didi disse que, naquela ocasião, os comentários


correntes de Sri Ma surgiam como o relâmpago e que uma intensa refulgência divina lhe
brotava na face como um raio e desaparecia. Seus olhos ficaram fixos como se olhando
para dentro e, também de repente, sua expressão se convertia num olhar de
reconhecimento.

Aproximava-se o entardecer. O kirtan estava alcançando seu clímax antes da


finalização, na hora do ocaso. Sri Ma se encontrava em seu quarto, de onde podia ouvir
levemente a música. Os presentes viram que seu corpo rodava velozmente e se
incorporava só até ficar de pé, tudo num movimento fluído. Didi se colocou atrás dela,
ainda que soubesse, por experiência, que nesse estado não necessitava nenhuma ajuda
nem apoio. O corpo de Sri Ma se tornou leve. Ao encostar em alguém, a sensação era o
da leveza de uma pluma. Com estes movimentos, Sri Ma entrou na sala do kirtan. Os
homens de Simla eram especialistas na literatura vaishnava. Ainda que nenhum deles
tivesse visto antes a manifestação de um mahabhava, imediatamente o reconheceram
como tal. Sua crença era que dita manifestação só se podia produzir na forma divina de
Sri Gauranga e que nenhum outro corpo humano poderia suportá-la.

É difícil descrever um mahabhava. Sri Ma caía no chão e rodava por ele. Só o


que se via era uma estrela de cor branca já que, em menos de um segundo, voltava a
estar de pé. Movia-se como “uma folha movida pelo vento” ou “um pedaço de pano no
ar.” Passava entre a multidão com tal velocidade que quase ninguém conseguia vê-la
completamente. Alguns viam um semblante radiante, outros uma mão levantada
fazendo um gesto cheio de graça, outros uma formosa posição do corpo durante uma
fração de segundo. Bholanath não tinha por que temer que as pessoas de Simla não a
compreendessem. Estavam todos cativados e embevecidos.

Tal como nos tempos de Dacca, depois dos primeiros instantes de movimentos
extasiados, Sri Ma ficou sentada no chão da sala, na mais profunda quietude. Enquanto
isso, o kirtan já havia se concluído. O silêncio reinante só foi quebrado pela voz
encantadora de Sri Ma, pronunciando alguns mantras numa língua que, tal como em
outras ocasiões, soava a sânscrito. Algum tempo depois, ficou sentada e quieta, com os
olhos cerrados. Era uma imagem divina. Todos os presentes, como de comum acordo,
se inclinaram profundamente e de pleno coração. Alguns foram correndo para suas
casas para trazer alguns familiares que não estavam na sala.

Bholanath havia estado o dia todo com as pessoas do kirtan, sem descansar.
Todos os participantes haviam desfrutado muito do seu apoio e sua atitude plena de
ânimo. Por tudo isso, este nama-yajna foi um marco na vida das pessoas de Simla. Um
dos presentes resumiu o sentimento geral com estas palavras: “Faz muitos anos que
fazemos esta celebração, mas hoje nossos pedidos da Presença Divina obtiveram
resposta. Estamos realmente abençoados!”
120

Na manhã seguinte, choveu com força, apesar de que algumas mulheres se


aproximaram do Kalibari, porque queriam cantar kirtan com Sri Ma. Ao princípio, a
novidade de dito experimento lhes impediu de formar um grupo conduzido por uma só
voz. Então Sri Ma em pessoa entrou na sala e começou a caminhar ao redor do altar, o
qual ainda não havia sido desmontado. Entre as mulheres havia muitas que cantavam
bem. O instrumento de percussão (khola) não representava nenhum problema porque
muitos meninos sabiam tocar bem. Meninos como Tulu e Khokon nunca conseguiam
tocar quando seus pais estavam presentes e aproveitaram com grande felicidade a
oportunidade de acompanhar suas mães e irmãs.

Desta forma, Sri Ma instituiu um grupo feminino de kirtan em Simla, tal como
havia feito em Dacca, ainda que este último estivesse mais bem organizado. Quando os
homens regressaram ao templo, pela tarde, lhes informaram, orgulhosas, o que haviam
conseguido. Uns poucos olharam com ceticismo o futuro de dito programa porque
acreditaram que as mulheres não teriam a força física suficiente para levar os
instrumentos e aguentar tantas horas cantando. Mas se enganaram completamente. O
nama-yajna se converteu num elemento integrante de todas as celebrações. Sri Ma
introduziu uma nova característica: depois das orações de invocação (adhiasa) cantadas
pelos homens, as mulheres se encarregavam do canto do kirtan durante toda a noite, até
que os homens regressassem, ao amanhecer, para receber delas o Nome. Nesta ocasião
Sri Ma disse para os homens: “Não separem as mulheres deste aspecto de suas vidas.
Deixem que elas unam esforços com vocês. Do contrário, vocês podem encontrar
obstáculos desnecessários.”

Sri Ma regressou a Solon. Os funcionários de alto escalão a acompanharam para


poder ficar um dia a mais com ela. A grande cortesia e a hospitalidade generosa de
Yoguibhai cativou o coração de todos os visitantes. Prometeram fazer um nama-yajna
em Solon, num futuro próximo.

Sri Ma voltou às suas origens. Durante todo este tempo Bhaiji havia
permanecido em Dehra Dun. Sri Ma foi a esta cidade e retornou a Simla, desta vez para
assistir um nama-yajna que se fazia em seu nome. Haviam decorado o altar com suas
fotografias, junto com as imagens das Deidades.

Sri Ma tinha o kheyal de continuar se deslocando. Em Solon perguntou a


Bholanath: “Aonde vamos agora?” Como ele não sugeriu nada, perguntou a Bhaiji:
“Onde você gostaria de ficar, enquanto isso?” Com essa pergunta deixava claro que ele
não iria acompanhá-la. Como ele também não disse nada, Sri Ma lhe pediu que ficasse
em Solon naquele momento. Yoguibhai se encantou com a permanência de Bhaiji.

Sri Ma pediu para o Swami Akhandananda ficar no novo ashram de Kishenpur.


Então ela se dirigiu à Vindiachal e disse para Didi: “Fique aqui, encarregada deste
ashram. Você escolheu este tipo de vida, assim, deve se acostumar a ficar sozinha. Além
disso, você deve aprender a ser independente e também a viajar só, sem
acompanhantes.” Desde que havia saído de seu lar, Didi nunca havia ficado sozinha e
nem sem o sustento de seu pai e aquilo era toda uma nova experiência para ela. No
entanto, Sri Ma, de certo modo, atenuou o impacto destas mudanças tão drásticas,
mandando-lhe um servente de confiança, vindo de Dacca, para ficar no ashram de
Vindiachal com ela.
121

Na última semana de Julho de 1936, Sri Ma e Bholanath partiram para Calcutá.


Bholanath estava com problemas no estômago há algum tempo e Sri Ma lhe pediu que
ficasse na casa da irmã para que os médicos de Calcutá o examinassem e lhe passassem
um tratamento adequado. Pediu-lhe permissão para seguir suas viagens acompanhada
unicamente por Virajmohini Devi. Virajmohini era uma viúva que estava a certo tempo
viajando com Sri Ma. Desde que suas filhas haviam casado, se considerava livre para
levar uma vida de renúncia. Havia ido ver Sri Ma para que ela lhe guiasse em seu
sadhana. Era uma mulher sensata e de conduta muito digna. Deve tê-la ajudado muito
seu gosto pelo não usual, porque a partir de então Sri Ma começou toda uma série de
viagens completamente improvisadas. Bholanath escreveu a todos os interessados que
Sri Ma tinha o kheyal de viajar por conta própria e que ninguém deveria tentar descobrir
seu paradeiro, já que voltaria para eles no momento que ela decidisse.

Durante uns quatro meses Sri Ma se deslocou, segundo seu kheyal, a Puri,
Bubaneswar, Gomoh, Adra e muitos outros lugares próximos. Depois foi mais longe, a
Agra, Mathura, Vrindavan, Sultanpur, Ayodhia, Baranki e Bareili. Também subiu até
Nainital. Em sua peregrinação, Sri Ma chegou até Lahore, Amritsar e Garthmukteshvar.
Voltou a Bengala no final do ano. De Tarapith, avisou a todos que a esperavam que já
podiam se reunir com ela.
122

CAPITULO 8

De Peregrinação ao Kailash

“Sri Ma não planeja ir em peregrinação, mas sim ela vem aqui para abençoar-
nos e para santificar ainda mais os lugares sagrados. Ela vai aos templos para visitar a si
mesma.”

Discurso da Sra. Taliarkhan na ocasião de uma recepção


no recinto do templo de Minakshi Devi em 15 de Novembro de 1952)
123

De Peregrinação ao Kailash
No começo de Junho de 1937 Sri Ma e seu grupo chegaram a Almora para
iniciar a expedição ao sagrado monte Kailash. Por regra geral, essa viagem não haveria
entrado nos planos dessas pessoas se não fosse a visita feita por Sri Ma a Almora e
Nainital no começo daquele ano. Em Almora iam estudar muitos jovens dos povoados e
municípios dos Himalaias, alguns dos quais haviam se afeiçoado muito a Sri Ma e
Bholanath. Uma dessas estudantes, uma jovem casada chamada Parvati, sentia por eles
uma especial devoção e lhes sugeriu a idéia de lhes servir de guia numa viagem ao
Kailash, já que seu lar não ficava muito longe desta montanha sagrada. A esta proposta
se somaram outros estudantes de Gorbang, um povoado de certa importância no
caminho de Kailash. Já há muito tempo que Bholanath queria fazer esta peregrinação, a
mais arriscada de todas e se entusiasmou tanto com a idéia que estava disposto a partir
tão logo escutou os planos. No entanto, decidiu esperar até Junho para poder preparar
tudo e para que as estradas estivessem melhores.

Naqueles dias ainda se podia subir ao Kailash (7.300 metros de altura) indo da
Índia até o Tibet. Independente, regido pelo Dalai Lama, não exigia passaportes nem
vistos. Fica a uns 380 km de Almora. Era uma viagem muito dura porque envolvia uma
dificuldade extrema para as pessoas das planícies que não estavam acostumadas a
caminhar em terrenos tão desconhecidos e tão elevados. Para todos os hindus, o Kailash
é a morada visível de Shiva e a peregrinação consiste em rodear a montanha (um
parikrama de uns 95 km, aproximadamente) para acabar banhando-se nas águas do lago
Gaurikunda (6.133m). De fato, o monte Kailash se eleva por cima do famoso lago
Manasarowar (4.500m). Este belíssimo local tem sido fonte de inspiração para os poetas
e de admiração para os viajantes desde os antigos tempos das Epopéias. Também é um
lugar sagrado para os budistas pelo que, desde séculos atrás, nele convivem ascetas de
ambos os credos.

Os detalhes desta destacada viagem, especialmente memorável para os devotos


por produzir-se a morte de Bhaiji, justo no seu final,conservam-se no diário de Didi, o
qual foi escrito apesar das duras condições da peregrinação. Como sempre, as anotações
de Didi são prosaicas e terrenas. Ao ler sua ágil narrativa, é inevitável ter a sensação de
que Sri Ma era considerada a figura central de uma família muito unida. Ainda que seja
evidente o interesse e compreensão que tem Didi sobre a atração que sentem os demais
por Sri Ma, não há nela nenhuma intenção de guiá-las até uma melhor compreensão
nem de buscar um incremento de dita família. A Didi bastava estar ali para servir a Sri
Ma e contemplar sua lila, por assim dizer.

Neste ponto da nossa narrativa introduzimos uma mudança de formato, já que


traduzimos o diário de Didi com a finalidade de conseguir uma visão mais realista da
peregrinação e de suas repercussões. A tradução se aproxima do original, mas não é
literal. Li este diário de Didi e transcrevi algumas de suas páginas. Ela fazia seu diário
em cadernos escolares e esse, em particular, se havia molhado e depois foi seco. Pude
imaginá-la abaixada, a luz de um candeeiro fumegante, esgotada, mas lutando contra o
sono para poder anotar umas poucas linhas. Ainda que às vezes estas se convertam nuns
rabiscos ilegíveis, seus relatos resumidos tem uma vividez e uma credibilidade que não
se pode achar em escritos mais formais, motivo pelo qual decidi manter seu formato
neste capítulo.
124

Extratos do Diário de Didi

Quinta Feira, 10 de Junho de 1937 – Chegamos a Almora. Estão se finalizando


os preparativos para nossa viagem ao Kailash. Os bengalis que vinham se despedir não
gostavam nem um pouco dos nossos planos e colocam dúvidas sobre sua viabilidade.
Em troca, as pessoas desta região estão muito entusiasmadas e nos animam muito.
Parvati e outras garotas estavam nos esperando ansiosamente e nos vão acompanhar.

Sexta e sábado, 11 e 12 de Junho – Me dá enjôo só de olhar o montão de coisas


que necessitamos e que vão aumentando nossa bagagem: roupa impermeável, ganchos
para neve, roupas de inverno, lanternas, todo tipo de prevenção para enjôo e falta de ar,
frutas secas e outros tipos de alimentos para dias nos quais não se puder cozinhar e
dezenas de coisas mais. A lista parece não acabar nunca. Faz muitos anos que tenho me
acostumado a viajar com o mínimo imprescindível e não consigo ver como vamos
carregar toda esta montanha de equipamentos. Além disso, temos que repartir todas
estas coisas em pacotes de peso limitado porque cada carregador não pode levar mais de
25 quilos e assim temos que pesar cuidadosamente cada caixa e cada mochila. Exaltada
por este problema, pedi a Ma que viesse e se sentasse comigo no quarto onde estávamos
preparando a bagagem. Sugeriu-me umas tantas idéias para distribuir as coisas e
acabamos tudo num abrir e fechar de olhos, ou ao menos foi o que me pareceu. Quando
pesamos a carga, não tivemos que redistribuir nenhuma. Depois de tudo, não era tão
impossível esse trabalho que tanto me agoniava.

Domingo, 13 de Junho – Hoje iniciamos a peregrinação ao Kailash. Ficaram


tristes os devotos que vieram para se despedir de Sri Ma. Além de Ma, Bholanath e as
garotas das montanhas, somos um grupo de seis: Swamiji (o pai de Didi), Dasubabu, de
Varanasi, Tuni (o filho de Prankumar Babu, de Calcutá) eu, Bhaiji e Keshv Singh, o
assistente de Swamiji. Há, no total, uns doze carregadores para levar as bagagens.
Também nos aconselharam que contratássemos uns poucos dandis [carregadores de
liteiras].

Como nenhum de nós está acostumado a subir montanhas, acharam que seria
bom se contratássemos alguns carregadores para transportarem aqueles que não
pudessem caminhar. Há 25 carregadores para os cinco dandis, já que cada equipe de
quatro leva um ou mais de reserva. Aos carregadores, é pago uma rúpia diária.

Saímos às oito da manhã e as onze estávamos em Barchina, há apenas uns 12


km. A paisagem é muito bonita. Depois de descansar um tempo seguimos para nossa
primeira meta, que está a uns 9 km de Barchina. Cozinhei a ceia ao ar livre e passamos a
noite no alpendre aberto do Dak Bungalow [alojamento do Estado em estradas e
caminhos públicos, onde se hospedam os funcionários em viagem e algumas vezes
também outros tipos de viajantes].
125

Segunda Feira, 14 de Junho – Partimos bem cedo, às cinco da manhã, porque


ontem o sol estava muito forte e nós preferimos evitar o calor da tarde. Ao meio dia
fizemos uma parada em Sheraghar, a uns 17 km de Dhawalchina. O rio Sarayu corre ao
longo do caminho. A paisagem é pitoresca. Há muita sombra porque existem árvores
altas. Cozinhamos e comemos debaixo das árvores e descansamos à tarde. Os
carregadores também fazem sua comida e depois descansam. Temos encontrado pelo
caminho umas poucas tendas, onde compramos legumes, arroz, ghee (manteiga
clarificada) e sal, porque nos dizem que, quando chegarmos mais acima, não iremos
encontrar nenhuma destas coisas. Trouxemos frutas secas, pimenta escura em pó,
tamarindo, conservas e outras coisas que diferentes pessoas conhecedoras da região nos
haviam aconselhado.

Bholanath parece estar cheio de energia porque vai à frente do grupo quase que
o tempo todo. Ma e Swamiji também tem caminhado algumas milhas. Só Bhaiji e eu
temos usado os dandis. Nossa preocupação por Swamiji, pela idade que tem, parece ser
infundada. Partimos de novo às três da tarde e, ao por do sol, acampamos num lugar
chamado Gonoi, a uns 10km de Sheraghat. Conseguimos as permissões para nos
alojarmos nos Dak Bungalow do caminho e assim passamos uma noite muito boa neste
local.

Terça Feira, 15 de Junho – Saímos às 06 da manhã, em direção a um local


chamado Berinag, a uma distância de uns 21 km. O caminho era tão inclinado que,
apesar de havermos saído bem cedo, não chegamos a Berinag antes da hora do por do
sol. É um povoado bem grande, com muitas tendas, escola e um dispensário. O Dak
Bungalow está situado acima do povoado, motivo pelo qual decidimos que não vale à
pena subir até La e nos alojamos no alpendre do edifício da escola.

Quarta, 16 de Junho – Esta noite acampamos em Thala, a uns 18 km de Berinag.


Os homens que levam os dandis têm que descansar a cada 3 km, mais ou menos. Numa
dessas paradas Bhaiji declarou, com muita graça, que Swamiji era o Rajá da expedição e
que ele mesmo era o príncipe. Uns poucos quilômetros mais adiante se quebrou o dandi
de Swamiji e o de Bhaiji também teve um pequeno acidente. Tive um acesso de riso e
lhe disse: “Foi bem merecido por vocês terem se considerado os líderes do grupo.”
Logicamente disse isso em tom de brincadeira mas, meio seriamente, Bhaiji respondeu:
“Você tem razão. Anote isso em seu diário.”

Numa destas paradas, na beira do caminho, Ma saudou em voz alta uma senhora
mais velha que caminhava em sentido contrário, com alguns meninos. A anciã, sem
diminuir a marcha, lhe devolveu a saudação. Então parou, olhando Ma um tempo e,
lentamente, voltou sobre seus passos até onde ela estava sentada. Ficou de cócoras perto
de Ma e conversaram algum tempo. Então chegou a hora de voltarmos a caminhar.
Quando já havíamos caminhado bastante, olhei para trás e vi que a mulher estava de pé,
no caminho, com seu olhar fixo em Ma.

Chegamos a Thala as 10. O caminho era comparativamente mais fácil. Em


Sheraghat vimos o rio Srayu. Em Thala vimos que o Ramganga rugia sobre as pedras do
seu leito. Jamais havíamos tido, anteriormente, semelhante vista das cordilheiras. Não
encontro palavras para descrever a sensação de exaltação ao qual este encontro
majestoso nos induz, de forma natural.
126

Quinta, 17 de Junho – Hoje percorremos uma distância de 16 km, até um lugar


chamado Didihat. Ao sol, faz bastante calor mas, desde dois dias atrás, a água está
bastante fria.

No caminho a Didihat conhecemos o rajá de Askot. Ele nos disse que estava nos
esperando, já que estava sabendo que Sri Ma estava viajando por este caminho. Ele ia
para Almora mas nos deu algumas cartas para funcionários de governo de Askot e nos
pediu que nos colocássemos em contato com eles ao chegar ali.

No por do sol chegamos a Askot (11 km) e nos alojamos no dharmasala. Nos
demos conta de que era melhor dormir mais perto possível do caminho em vez de fazer
o esforço adicional de subir até os Dak Bungalow. Esta manhã um aguaceiro súbito nos
deixou empapados. Agora nos alegra poder colocar as roupas para secar. Todos nos
sentimos muito bem. O ar é tonificante.

Os funcionários do governo de Askot nos perguntaram amavelmente se


necessitávamos de alguma coisa. As damas do palácio vieram visitar Ma e nos
convidaram para comer no dia seguinte. Observei que as famílias reais dos estados dos
Himalaias são muito religiosas e que respeitam todas as regras de ortodoxia. Vi isso em
Tehri-Garhwal, em Solon e agora em Askot também observei essa mesma nobre
conduta de uma família real devota. A Rani de Askot expressou seu desejo de que Ma
fosse visitar seu lar e o benzesse com sua presença.

Acontece que o irmão da Rani e o filho do outro funcionário do estado estão


estudando em Almora e haviam escrito para suas famílias dizendo-lhes que cuidassem
de Ma e de seu grupo, o que explica a quantidade de gente que estava esperando nossa
chegada a Alkot. Ocorreu-me que é evidente que Ma é de todos e que, da nossa parte, é
uma estreiteza mental muito grande achar que ela deveria permanecer em Dacca ou em
Calcutá e não viajar a lugares distantes. Agora me dei conta de que, para ela, todos os
lugares são o mesmo. Até para as pessoas totalmente desconhecidas é fácil se comunicar
com ela. Dasudada me contou que uma vez, enquanto Ma estava caminhando, um
menino pequeno havia colhido flores silvestres da montanha e as pôs a seus pés.
Enquanto Ma permaneceu de pé, sorrindo-lhe, ele, com as mãos juntas, lhe recitou uma
oração. Geralmente, todos nós descemos do dandi quando ela desce, mas nesta ocasião,
uma curva no caminho não me deixava vê-los, e assim perdi esta cena. Desde já, é
maravilhoso ver como as pessoas das montanhas a aceitam com toda naturalidade como
a Devi encarnada e a saúdam com o mesmo respeito com que se inclinam diante de uma
divindade no templo. Vai saber quem está mais unido a Ma, se nós, que estamos com
ela a maior parte do tempo ou se todos estes desconhecidos do caminho, que se fazem
amigos dela com tanta facilidade!

Sexta, 18 de Junho – Depois de comer no palácio real, partimos a uma da tarde e


chegamos a Baluakot (16 km) pouco depois do entardecer. A cinco milhas de Askot
vimos o rio Kali Ganga. Depois do Ramganga fomos acompanhados pelas alegres águas
do Gauriganga. Nesta zona, a confluência do Gauri com o Kaliganga é chamada de “a
entrada do Kailash.”
127

A marcha de hoje foi incômoda pois tivemos que caminhar com todo o calor.
Também choveu de forma intermitente. É insuportável o sol caindo como chumbo sobre
o caminho pelado. Ao chegar a Baluakot nos demos conta de que, na escuridão,
havíamos passado o caminho até o povoado e decidimos ficar onde estávamos, acampar
ao ar livre e passar a noite ali. Parvati, muito precavida, trouxe uma tenda para tais
emergências, para que Ma possa estar cômoda. No entanto, Ma decidiu passar a noite
conosco ao ar livre e sugeriu, em troca, que guardássemos todo o equipamento na tenda,
como prevenção a uma possível chuva repentina. Agora nos conta de que a coisa pior
seria molhar o equipamento.

O chefe do povoado estava nos esperando. Veio nos receber com um pouco de
leite fresco, que lhe agradecemos muito, mas não aceitamos seu convite de nos
alojarmos numa das casas que nos haviam preparado perto do caminho. Não valia a
pena levantar o acampamento outra vez e subir até o povoado.

Sábado, 19 de Junho – Passamos uma noite algo incômoda, choveu quase o


tempo todo e o vento se tornou frio e tempestuoso. Alguns de nós nos encolhemos nos
dandis mas não foi muito melhor do que estar debaixo das árvores. Com as primeiras
luzes, partimos, deixando que os carregadores seguissem mais tarde, com o
equipamento. Chegamos ao pequeno Dak Bungalow de Dharchula ao meio dia. Num
dos povoados do caminho, paramos para beber um pouco de leite fresco. Tivemos que
cruzar dois rios de montanha. Nem sequer pensamos em tentar atravessar a pé aquelas
águas geladas que descem rápidas pelos leitos de pedra escorregadias. Assim que, com a
exceção de Bholanath, nos puseram nos ombros dos carregadores, numa espécie de
cesta, e nos passaram para a outra margem. Parece ser assim que as pessoas desta região
ajudam os peregrinos a cruzar os riachos. São de um passo maravilhosamente firme e
nem sequer vacilam com um peso tão difícil de manejar. Só o Dandi de Ma que foi
levado com cuidado, por sete ou oito homens. Sobre alguns riachos estreitos há algumas
roldanas e dá bastante medo ver o povo daqui lançar-se à outra margem pendurados por
uma corda que passa pela roldana.

Em Dharchula, agradecemos muito pelo sol que havia. Pudemos secar a roupa e
desmontar e arejar o equipamento. Este povoado parece bastante grande. O Kaliganga
pode ser ouvido ao longe. Já faz muitos quilômetros que a música de suas rápidas águas
nos faz companhia. O pequeno refúgio está rodeado de solitários picos montanhosos. O
rio, que não é visto, ressoa como o rugido constante das ondas do oceano. Não sei que
benefício traz ao peregrino (se é que traz algum) mas esta viagem vale a pena nem que
seja só pela intensa beleza da natureza. Ocorre-me que este espaço silencioso e vasto é o
entorno perfeito para a divinamente misteriosa personalidade de Ma.

Depois do almoço tive algum tempo para escrever meu diário. Hoje nos
sentimos todos mais relaxados porque não é necessário que partamos imediatamente. Os
culis estão cansados. Um homem daqui, de certa importância, chamado Rai Sahab, veio
nos visitar, porque recebeu cartas do Rajá de Askot e também de Sri Krishna Panth, de
Nainital, informando-lhe de nossa viagem e desejava poder ser de utilidade à Sri Ma.
Aconselhou-nos a despedir nossos carregadores de Almora (que as pessoas daqui
consideram como sendo das planícies) porque, nos disse, a partir daqui o terreno que
devemos atravessar é tão difícil que só os culis do lugar são capazes de fazê-lo.
128

À medida que vamos subindo será necessário ir contratando substitutos para os


carregadores. Pode-se dar um pagamento para os culis, para que nos esperem retornar,
que seria um pouco mais da metade do que cobram pelo transporte, mas as pessoas das
montanhas são tão pobres que não parece justo que as mantenhamos aqui sem fazer
nada, até nossa volta, sendo que poderiam estar ganhando o pagamento inteiro se os
deixássemos ir. Assim, esta noite, lhes pagaremos e eles se irão. Estão tão cansados que
já se alegram só de pensar no alívio. Amanhã, uma nova equipe de culis se encarregará
do equipamento.

Domingo, 20 de Junho – Hoje todo mundo acordou um pouco mais tarde.


Enquanto preparava sua cama, de noite, Bhaiji comentou: “O que penso é que o melhor
é manter um equilíbrio entre o prazer (bhoga) e a abstinência (tiaga)!” e imediatamente
Ma disse: “Não estou de acordo. A menos que você pretenda deixar de buscar os
prazeres, eles te irão perseguindo até o final dos teus dias. A renúncia é a única coisa
que ajuda a conquistar os desejos.”

Ma e os demais foram dar um passeio enquanto eu, com a ajuda de Parvati e as


garotas, preparava o almoço. Swamiji ficou sentado, meditando, um bom tempo. Todos
nós desfrutamos do almoço, já que não havia essa ansiedade de ter que partir de novo.
Os culis de Dharshula têm um aspecto robusto e vão inclusive transportar um peso
ligeiramente maior, 30 quilos. Contratamos seis dandis, cada um com seis homens e não
cinco, como antes. Também vamos levar duas tendas. O equipamento será levado por
nove carregadores. Eles mesmos escolheram um deles como responsável, ao qual
chamam “companheiro.” Todas estas preparações duraram até a meia noite. As pessoas
do lugar comentaram que, desde que o Rajá de Maisur (Mysore) fez a peregrinação, há
cinco anos atrás, não houve nenhum grupo tão grande quanto o nosso que tenha se
atrevido a fazer esta peregrinação.

Segunda, 21 de Junho – O caminho era tão empinado que preferimos caminhar


em vez de ir sentados nos dandis, porque eles se inclinam num ângulo muito incômodo.
Mesmo que os que nos levam tenham passo firme, muito firme, eu não podia evitar ficar
nervosa ao pensar que poderiam escorregar com essa carga sobre os ombros, que os
fazia balançar de tão pesada e incômoda. Durante um tempo Ma e eu nos distanciamos
um pouco dos demais e, enquanto esperávamos que nos alcançassem, Ma se sentou
numa pedra e começou a cantar uns poucos versos de uma velha canção bengali que
começa assim: “regressemos, regressemos ao nosso lar!” Queria ela dizer com isso que,
para ela, Kailash é seu lar?

Nos lábios de Ma aquelas palavras evocavam uma felicidade indescritível. Mas


inclusive sem sua presença, que multiplica o efeito por mil, a majestosa grandiosidade
destas montanhas é esmagadora. Este panorama, de altíssimas cordilheiras, exerce uma
atração tão estranha que estou segura de que todo o peregrino tem a sensação de que
está regressando à sua casa. O mundo que deixamos para trás parece irreal, como uma
sombra. Aqui a pessoa descobre o significado da paz e da tranquilidade.

No caminho para cá conhecemos uma mulher muito devota, chamada Ruma


Devi, para a qual os nativos têm um grande respeito. É discípula de Sri Sarda Devi. É
uma sanniasi e se veste com túnicas de cor açafrão. Ruma Devi tem um ashram em
Khela, o destino de nossa etapa de hoje, que está a 15 km de Darchula. Narayan Swami,
de Maisur, às vezes também se aloja neste ashram.
129

Muitas das garotas que estudam em Almora fazem o trajeto de ida e volta ao
colégio com os acompanhantes de Ruma Devi ou de Narayan Swami. Duas destas
estudantes de Khela que estavam em casa, vieram correndo ver a Ma, quando chegamos
ao pequeno dharmsala para passar a noite. Ruma Devi adiou uns dias sua viagem,
regressou caminhando conosco e esteve muito tempo sentada, conversando com Ma.

Terça, 22 de Junho – Choveu um pouco pela manhã. Ruma Devi e umas poucas
estudantes estiveram um bom tempo despedindo-se de Ma e continuaram sua viagem
interrompida até Almora. Antes de partir, nos aconselhou a não sairmos caso chovesse,
porque há o perigo de desprendimentos de terreno.

Partimos um pouco mais tarde do que o normal, lá pelas 7 da manhã. O caminho


era empinado, mas não estava ruim, ou quem sabe éramos nós que já nos havíamos
acostumados a isso. Depois de nos acompanhar durante todos estes dias, o Kaliganga se
afastou um pouco. Todo mundo se deu conta da mudança repentina da onipresente
música da corrente de água para o silêncio. Ma sai constantemente do dandi, para que os
carregadores descansem. Nós também temos caminhado com ela por esta trilha de
montanha que vai subindo paulatinamente.

Paramos por um tempo em Pangu, povoado do marido de Parvati. Parvati


gostaria muito que sua família e marido conhecessem Sri Ma e Bholanath e lhes havia
preparado para a visita. Convidaram-nos para almoçar em sua casa. Ma nos ensinou
como respeitar as regras da ortodoxia no que se refere à comida, sem ofender a
ninguém. Em tais ocasiões (que surgem com frequência) aceitamos os cereais, verduras
e outros elementos da comida e nós mesmos os cozinhamos e então todos nós comemos
com os anfitriões, a quem servimos a comida junto com todos os demais. Desta forma
não só se mantém a união de comer todos juntos, em grupo, se não que todo mundo
desfruta mais, já que a presença de Ma inevitavelmente faz de todos uma grande
família.

Em, Pangu, com a ajuda de Parvati, preparamos uma grande refeição, da qual
todos desfrutamos com grande prazer. Parvati estava contente e se despediu de seus
familiares para poder completar conosco a peregrinação ao Kailash.

Saímos de Pangu as 15:00h e chegamos a Sirkha, a uns 18 km de Khela.


Estamos alojados no alpendre aberto da escola do povoado.

Quarta, 23 de Junho – Choveu quase toda a noite. A chuva que caía


obliquamente molhou toda a varanda e nos empapamos, apesar de nossos guarda-
chuvas, capas, coberturas e Deus sabe o que. Mas acabamos tão esgotados pela
caminhada por este caminho que acredito que dormimos bem, apesar da chuva,
enrolados em nossas roupas protetoras. Hoje temos que acampar num lugar chamado
Diati (18 km). Faz dois dias que somos recompensados com a vista de montanhas
nevadas. É muito bonito quando o sol faz que a neve brilhe como a prata.

Como choveu, o caminho ficou escorregadio. Refugiamo-nos num pequeno


quarto, perto da tenda do povoado. O chão está tudo menos limpo, mas não temos
vontade de reclamar de nada. Espalhamos nossa lona no chão e nos acomodamos o
melhor que pudemos.
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Quinta, 24 de Junho – Acampamos em Malpa, depois de apenas 10 km. Essa


curta etapa ficará para sempre em minha memória. O caminho era tão inclinado e tão
precário que ninguém podia usar os dandis. Na verdade, até subir a pé era difícil sem a
ajuda dos culis. Ou bem tínhamos que fazer uma ascensão vertical por pedras
escorregadias ou então descer com uma inclinação igual. Para piorar a situação,
tínhamos que repartir o caminho com rebanhos de ovelhas que iam subindo ou
descendo. As ovelhas são manejadas com tal destreza por este caminho tão traiçoeiro
que haveria provocado nossa admiração, se nós tivéssemos em condições de apreciar
sua habilidade. Nem ao menos conseguimos admirar (ou pelo menos eu não pude) a
beleza das águas resplandecentes caindo em cascatas pelos flancos da montanha.

Geralmente escolhemos o lugar para pernoitar antes do entardecer e, quando


terminamos todo o trabalho de tirar os utensílios, cozinhar, comer, etc, já está de noite.
Se fazemos uma parada ao meio dia, então a ceia só se prepara para Desudada, Tunu e
Kashau Singh. Estamos todos sentindo os efeitos do esgotamento da subida, exceto
Bholanath. Ele é o único que diz: “Até que não está sendo tão difícil assim.” Bhaiji
parece enrugado e cansado. Não tenho tempo de cuidar de Swamiji nem de Ma, mas ela
tem o mesmo aspecto de sempre. A serenidade de seu rosto e o entusiasmo de
Bholanath são o que nos mantém e nos afasta o pensamento de abandonar a expedição.

Sexta, 25 de Junho – Um local chamado Bodhi, a uns 13 km do último


acampamento. O caminho é um pouco melhor e nós pudemos usar os dandis em alguns
trechos. Às vezes nossos dandis balançam tanto que batemos na parede da montanha.
Ainda que alguns deles estejam rasgados, nada de mau aconteceu com ninguém.
Chegamos a Garbiang na hora do por do sol.

Garbiang: O Acampamento Base

Logo que chegamos a Garbiang as pessoas do povoado vieram nos ver,


rodeando-nos. Isto é algo que acontece com bastante frequência nesta expedição.
Suponho que sentem uma curiosidade natural pelos viajantes de outras terras, mas estes
encontros tem uma característica peculiar. Onde quer que paremos, se há alguém por
perto, invariavelmente se aproxima de Ma e a rodeiam como as multidões de Calcutá,
Delhi ou Dehra Dun. Possivelmente se dão conta, pelo modo como nos comportamos
com ela, que Ma é a pessoa mais importante do grupo, mas isto não explica porque
sentem esta avidez de estar com ela todo o tempo que ela está disponível. Por sua parte,
Ma tem o aspecto de estar completamente relaxada e feliz, no meio de todos estes
grupos de estranhos. Agora já adentramos tanto os Himalaias que não há nenhuma
língua comum para nos comunicarmos. Aprendemos a identificar as pessoas de
diferentes regiões, como Bhutão, Nepal, Garhwal, etc. Às vezes os culis se fazem de
interpretes, já que tem noção de híndi. Às vezes Ma segura alegremente a mão das
mulheres e crianças e seu sorriso lhes conquista o coração. Estou certa de que ela se
comunica com eles de alguma maneira porque eles nunca querem que ela se vá. Às
vezes alguns caminham ao lado do seu dandi. Quem sabe eles não estavam recebendo
mais de Ma do que nós, que estamos com ela o tempo todo!
131

Tivemos um problema no caminho para Gargian: um dos culis foi picado por
uma serpente negra. Alguns de seus companheiros e Bholanath prepararam alguns
remédios curativos. Ma indicou algumas ervas que crescem nas montanhas e lhe fez
mastigar as folhas, o que parece haver-lhe diminuído a dor consideravelmente. Seus
amigos o transportaram num dandi e parece que ele irá sobreviver a esta terrível
experiência.

Garbiang é a sede do município e tem agências de correio, onde Bhaiji foi


recolher um monte de cartas. Todos os amigos e devotos se interessam em saber se a
viagem vai bem. Um tal Sri Nandaram, que é o pai de Randra Devi, de Almora, veio
nos ver. A casa dos pais de Parvati está perto daqui e ela vai vê-los e voltará para fazer o
resto da viagem conosco. Vamos ficar aqui um par de dias, o que é uma boa notícia.

Sábado, 26 de Junho – Estamos desfrutando da pausa que estamos tendo.


Bholanath é o único que não parece estar nada cansado. De fato, assombra a todos nós
com seu entusiasmo e energia. Ainda que nos tivessem avisado que esta viagem era tão
árdua que nem sequer um pai poderia parar para cuidar do seu filho, Bholanath não se
cansa nunca de cuidar de toda equipe. Vai e vem uma e outra vez para ver os atrasados e
animar os que desanimaram. Os carregadores sentem grande admiração por ele porque
dizem que nunca tinham visto alguém das planícies que caminhasse com tanta
desenvoltura e habilidade quanto Bholanath.

Em 12 dias fizemos 215 km. Garbiang está a uma altitude de 3.300 metros.

Domingo, 27 de Junho – Estamos no edifício da escola porque o Dak Bungalow


já está ocupado por vários grupos de peregrinos, alguns dos quais veio ver Ma. Entre
eles se encontra Swami Gnanananda, um veterano nesta expedição, acompanhado por
Kumar (príncipe) de Dinajpur. Deram-nos a entender que o que se costuma fazer é que
para este último tramo do yatra (peregrinação) se unem dois ou três grupos, por causa
dos perigos que existem, dentre eles o de haver um ataque de salteadores.

O Kumar e seu grupo partem hoje e vieram pedir a Ma suas bênçãos, antes de
iniciarem a viagem. Ma lhes sorriu e lhes disse: “Ele é o único, que dirige tudo.
Aconteça o que acontecer, recordem que tudo é por sua vontade. Recordem
constantemente seus mantras para que tudo possa correr bem.” O kumar fez pranam
[inclinar-se diante de alguém em sinal de respeito] e disse que faria o que ela lhe havia
dito.

Outra vez a reverberação do som do rio volta a nos acompanhar, o que combina
perfeitamente com a beleza deste entorno. As montanhas não são, em absoluto,
monótonas ou cinzas, mas sim estão cheias de cores. É como se cultivassem todas estas
flores de infinita variedade e tons para decorar as encostas das montanhas. Isto não
parece uma paisagem formada ao acaso mas sim um jardim verdadeiramente precioso e
aromático.É como se estivéssemos nos preparando para uma batalha. Vamos acertar as
contas com nossa segunda equipe de carregadores e contratar outra nova, com um guia.
Vamos necessitar de pôneis, no lugar de dandis e os equipamentos vão ser transportados
em mulas. O próximo grande acampamento será Takalkot, no Tibet. Vamos cruzar o
Tibet pelo porto de Lipu Lekh, a 5100 metros, mas daí se desce para Taklakot, do outro
lado da montanha.
132

Calcula-se que a viagem de ida e volta daqui ao Kailash dure entre 20 e 22 dias.
As tarifas são, para cada pônei 20 rúpias, mais outros 20 annas diárias para cada jovem.
Tudo ficará sob responsabilidade de um guia, por 25 rúpias. Também vamos pagar o
cavalo. Temos que levar comida suficiente para a viagem de ida e volta, já que não pode
ser conseguida depois de Taklakot. Os carregadores vão fazer o mesmo. Temos que
levar tendas para nós e eles também vão levar para eles, porque não há lugar onde
pernoitar após Garbiang. Decidimos levar um dandi para Ma. Temos que levar uma
tenda para o pessoal e também temos que pagar pelas mulas que transportam o
equipamento e os mantimentos.

Segunda, 28 de Junho – Nos alegramos com o aparecimento do sol, porque nos


últimos dias houve névoa. Mas o sol logo se foi e está chovendo o dia todo. Pelo menos
nos livramos das moscas, que estavam nos incomodando há vários dias.

Muitos habitantes de Garbiang vieram nos ver, trazendo várias oferendas para
Sri Ma. A comunicação não é nada fácil, apesar dos esforços de Bhaiji. Eu diria que se
comunicam com Ma os que querem, porque parecem satisfeitos.

Terça, 29 de Junho – Saímos cedo de Garbiang e caminhamos até o povoado de


Parvati. Sua mãe veio nos visitar. Passamos um tempo no povoado. Parvati está feliz de
que Ma e Bholanath tenham podido ir à casa dos seus pais.

Quarta, 30 de Junho – A noite esteve chovendo. Estamos nos acostumando com


o incômodo de ter a vestimenta e a roupa de cama úmidos. Não pudemos reiniciar a
viagem até depois do meio dia. Nosso guia, Sendel Singh, organizou o comboio de 21
pôneis e mulas. Percebemos que ele estava armado e muitos dos carregadores também.
Agora temos que nos vestir para montar o pônei, ou seja, calças de agasalho, gorros,
agasalhos, luvas, etc. Tanto a novidade do aparato quanto a estranheza da experiência de
montar a cavalo nos fez vividamente conscientes da realidade de nossa peregrinação.

Depois de uns 13 km o guia nos mandou fazer uma parada num lugar que nos
disse que se chamava Kalapani. Foi uma das etapas mais diferentes. Não havia caminho.
Os pôneis iam em fila, seguindo o guia, tropeçando sobre o leito de pedras e
pedregulhos. As montanhas vão ficando para trás e dão lugar a vastas extensões de
terreno. Sendel Singh nos disse que amanhã será uma etapa dura, de modo que
deveremos sair bem cedo.

Quinta, 1 de Julho – Não pudemos sair antes das onze da manhã porque não
parou de chover a noite toda.

Etapa solitária. Agora não há praticamente caminho nenhum para seguir. Pelo
que nos contaram, às vezes até os pastores se desorientam e em tais ocasiões deixam
que seja o rebanho que os guie, porque as ovelhas sempre sabem regressar ao povoado.
Esteve chovendo e acabamos ensopados e congelados. Às 13:30h, Sendel Singh nos
indicou que iríamos acampar e vimos algumas cabanas de pedra, feitas para abrigar os
rebanhos de ovelhas. Foi um alívio poder entrar numa delas.
133

Parvati recolheu lenha e conseguiu acender o fogo em duas das cabanas. Numa
delas vi Bhaiji, Bholanath e Swamiji tentando secar a roupa com o fogo. Eu me sentei
de cócoras diante de outra fogueira e, depois de algum tempo, me dei conta de que
estava sentada num terreno que era praticamente todo de esterco seco e batido, mas não
me importei pois estou feliz de estar no coberto. Este lugar se chama Dobra.

Sexta, 2 de Julho – Continua chovendo torrencialmente. Os carregadores


recolheram os pôneis do pasto mas o guia decidiu que não devemos nos aventurar
porque o caminho estará muito perigoso e escorregadio.

Swamiji e Bhaiji não se encontram muito bem. O ar é tão rarefeito que todos nós
temos diferentes graus de dificuldade em respirar. Amanhã teremos que cruzar Lipu,
uma subida até os 5.100 metros e depois uma descida até os 4.800 metros de Taklakot.
Contam-nos histórias tremendas sobre esta parte da viagem, mas já é tarde demais para
pensar nos perigos da viagem. Além disso, Ma está conosco e não nos pode acontecer
nada. Apesar dos muitos inconvenientes, estamos todos enfeitiçados pelo Himalaia e
nos sentimos com um ânimo e uma alegria interior que não corresponde à nossa
condição física.

Seguindo as instruções de Ma, fiz uns pacotinhos para cada um de nós, com
remédios para os problemas de altitude. A partir de agora cada qual tem que levar o seu.
Mesmo que, como todos os demais, Ma não tivesse nenhuma experiência em subir
semelhante altitude, com sua impressionante capacidade de previsão, me fez trazer os
elementos preciosos que agora nos são tão necessários, como cânfora, limão seco, etc.
Não deixa de surpreender como é capaz de prever nossas necessidades e nos abastecer
do necessário. Ela está, como sempre, muito a vontade neste local tão novo para nós.
Sempre tem palavras de ânimo que nos protegem do desespero e nos renovam a
coragem. Com o frio que faz, mal consigo escrever.

Sábado, 3 de Julho – Saímos sob a garoa e estamos subindo sem cessar. A trilha
que estamos subindo, não podemos nem olhar, pelo medo que provocaria. O guia
decidiu que deveríamos nos arriscar a sair, provavelmente porque não ganha nada
perdendo alguns dias de viagem, já que foi contratado para a viagem de ida e volta. Ou
pode ser porque este tempo pode ficar assim vários dias. O certo é que conseguimos
passar por este caminho tão íngreme e escorregadio, a maior parte do tempo com a
ajuda dos moços dos pôneis. Pouco a pouco estamos alcançando a neve. Não tenho
palavras para descrever a esplendorosa vista de campos e mais campos cobertos de neve
resplandecente, interrompida unicamente por protuberâncias rochosas policromas. Estas
montanhas estão realmente carregadas de cores.

A vista da passagem de Lipu Lekh era de tirar o fôlego. Parecia que estávamos
passando por uma ponte estreita sobre um mar de neve. Aos pôneis, custava caminhar e
não paravam de tropeçar por esta trilha tão estreita. Alegrávamos-nos de ter o pacote de
remédios previsto por Ma, que nos permitiu viajar com certa comodidade. Na descida,
desmontamos dos pôneis pois a inclinação era forte demais. Pegamos alguma neve mas
ninguém sofreu nenhum dano. Sem perder seu entusiasmo, Bholanath vai vigiando todo
o comboio, indo para frente e para trás para ver se estávamos todos bem. Ao chegar ao
plano, nos felicitou, dando-nos palmadinhas nas costas.
134

Ao cair a tarde chegamos a Taklakot. O guia havia se adiantado e, quando


chegamos cambaleando, as tendas já estavam montadas e preparadas. Algumas pessoas
se aproximaram de nós e ficaram de pé, olhando como preparávamos o acampamento.
Não pareciam dar-nos a mesma acolhida que em lugares anteriores mas, mais tarde,
nossos homens nos informaram de que eles eram ladrões e salteadores, uma ameaça e
um perigo constante para os peregrinos. O governo não faz nada para eliminá-los e são
uma comunidade muito poderosa. Essa é a razão pela qual nosso guia e alguns de
nossos homens levam armas de fogo, preferindo estar preparados para tais emergências.

No caminho para Taklakot vimos muitas covas. Já mais perto do povoado vimos
templos e terraços de pedra decorados com tiras de pano colorido, ondulando
alegremente ao vento. Também vimos algumas terras cultivadas. Até nesta remota
região Ma recebe visitas. Duas discípulas dos lamas vieram vê-la e estiveram com ela
um tempo. Nem ao menos me ocorre o que é que podem saber de Ma e o que lhes
aconteceu neste encontro, mas é evidente que com Ma tudo é possível, em qualquer
parte. Com estas mulheres ascetas, foi tão amável quanto com qualquer outro conhecido
seu da cidade.

Agora o caminho que estamos fazendo já parece um sonho. A beleza das


mudanças de cores da montanha nua, entre essas extensões cobertas de neve é algo
sublime. Agora compreendo porque os peregrinos tentam fazer esta viagem, ano após
ano. Com as bênçãos de Ma e Bholanath chegamos sãos e salvos.

Domingo, 4 de Julho – Saímos as 11:00 e ao entardecer chegamos a um local


chamado Ringung (16 km), que é um povoado de gente correta e amistosa. Como
sempre, se colocaram ao redor do dandi de Ma para olhá-la com respeito. Alguns se
inclinaram para lhe tocar os pés. Ma sorria e teve os dedos tocados suavemente com a
mão durante um tempo. Não havia modo de nos entendermos com eles.

Vimos muitos templos. Havia paredes de pedras, nas quais estavam gravadas
letras e palavras. Havia uma letra em particular que parecia repetir-se em todas elas. Um
dos rapazes dos pôneis disse que era a letra Om. Todos os telhados das casas estão
decorados com tiras de panos coloridos. A etapa de hoje não foi muito mal. Como
precaução contra os ataques dos salteadores, o guia nos fez ficar muito juntos.

Não há árvores nem arbustos. Sou incapaz de compreender como Sendel Singh
planeja cada trecho porque isto me parece terra ignota. Um pequeno grupo de
peregrinos avançando lentamente por um vasto e silencioso vale nevado, rodeado de
montanhas gigantescas por todas as partes. Não há nenhum ponto de referência à vista.
A viagem adota então uma qualidade de infinito. Então, de repente, o guia manda parar
e acampar. Durante uma noite, este é o nosso lar. Depois, volta a ser hora de seguir
avançando pelo mesmo cenário silencioso de magnífica vastidão. Este panorama
transmite uma acolhedora sensação de quietude e não é de estranhar que, desde tempos
imemoriais, os ascetas gostem tanto de vir ao Himalaia para concentrarem-se em seus
sadhanas para alcançar o Ser.

Segunda, 6 de Julho – Swamiji padece um pouco de falta de ar e Ma o convence


a usar o dandi, enquanto ela utiliza o pônei. Depois de uma etapa muito curta,
acampamos as 14:00h. Sendel Singh decidiu parar aqui porque há boa comida e água
para os pôneis e mulas. Nós também agradecemos por ter mais tempo para descansar.
135

Terça, 6 de Julho – Em compensação, hoje saímos mais cedo. Como já não há


leite, levamos chá quente em garrafas térmicas. Ma voltou a usar o cavalo para que
Swamiji possa usar seu dandi.

Enquanto avançamos por este “caminho” solitário, encontramos com homens a


cavalo de aspecto muito estranho. Contaram-nos que se trata de salteadores, que são
uma ameaça para os peregrinos. Esta manhã dois deles cavalgaram um tempo perto de
nós. Estavam armados. Surpreendeu-me ver que tinham a mão direita sem luvas, apesar
do frio que fazia. Mais tarde Sendel Singh nos explicou que eles tiram a luva quando se
aproximam de desconhecidos para poder disparar com rapidez, se for necessário. Um
tempo depois apareceram outros dois em cima de uma colina, onde nos observaram
enquanto nos aproximávamos. Os dois primeiros levantaram as mãos e moveram os
dedos de uma forma peculiar, evidentemente fazendo entre eles algum tipo de sinal.
Então os outros dois desceram e se uniram a seus amigos. Reuniram-se num lugar por
onde tínhamos que passar, seguindo os passos de nossos carregadores. Sendel Singh os
observou um tempo, mas depois se separou do comboio e se adiantou num galope
médio, até alcançar os salteadores, com os quais esteve falando um tempo, enquanto nós
passávamos lentamente diante deles, um por um. Logo que nos distanciamos um pouco,
nos alcançou outra vez a médio galope.

Provavelmente os salteadores conhecem todos os guias. Um pouco depois,


vimos uns poucos homens sentados, num pequeno acampamento de duas tendas. Sendel
Singh voltou a adiantar-se, desmontou e se sentou para falar com eles, enquanto nós
passávamos. Depois, com um sorriso de orelha a orelha, nos alcançou de novo no
caminho. Foi desconcertante encontrar-se de repente com estes homens armados, de
aspecto hostil. Era evidente que Sendel Singh nos havia livrado de um bom susto por
parte destes homens.

Mas tudo isto caiu no esquecimento quando, de repente, apareceu diante de nós
o Manasarowar. Esta imensa extensão de água era do mesmo azul do céu. Esses dois
azuis que se fundiam no horizonte nos deram a sensação de que havíamos posto o pé em
outro mundo, onde o céu e a terra eram o mesmo. Uma experiência inesquecível.

Ma, Bholanath, Bhaiji e eu havíamos nos separado um pouco do resto do grupo.


Sendel Singh e os culis haviam se adiantado para acampar num local melhor, na beira
do lago. De repente Ma desmontou do seu pônei e disse que esperaria o dandi de
Swamiji e nos pediu que seguíssemos cavalgando até o acampamento. Mesmo
resmungando, não tivemos outra opção que não a de deixar Ma sozinha, naquele local
solitário. Nem sequer Bholanath se opôs ao seu kheyal. Tunu e Dasudada tampouco
haviam chegado ainda, tornando o comboio fragmentado em diversos grupos.

Fiquei um tempo só, no acampamento, enquanto Bhaiji e Bholanath foram


passear no lago e aproveito para escrever meu diário. Ainda nos faltam três dias para
chegar a nossa meta, mas já nos sentimos recompensados por ter o darshan do cume
nevado da montanha sagrada, que podemos ver daqui. De onde estou sentada,
escrevendo, vejo cisnes de muitas cores, que deslizam graciosamente sobre as ondas do
lago. As augustas montanhas que nos rodeiam estão coroadas pela abóboda prateada da
montanha sagrada, a verdadeira deidade que preside este precioso panorama. Por isso
não é de estranhar que, quando o resto da equipe nos alcançou, estavam todos dando
alegres gritos de “Jay Kailashpati! Jay Kalashpati!” (glória ao Senhor do Kailash).
136

Acredito que ainda não anotei nada sobre um estranho fenômeno. Desde
Taklakot se uniu a nós, por assim dizer, um cachorro negro, mas o curioso é que vai
trotando invariavelmente atrás do dandi de Ma. Não se fixa em mais ninguém. Quando
acampamos, ele fica perto de Ma. Quando estamos prontos para retornar a marcha, ele
continua sentado perto de Ma, enquanto os demais partem cavalgando. Só se move
quando ela está pronta para partir. Um dia eu vi Ma tirar a luva e acariciar sua cabeça.
Este cachorro não é como os cachorros peludos das montanhas, mas sim tem um pêlo
ralo e brilhante, embora pareça dar-se muito bem neste clima tão frio.

Com a ajuda de alguns, comecei a preparar a comida, enquanto Ma, Bholanath e


Bhaiji seguiam a margem do lago. Faz dois dias que não temos lenha. Os rapazes dos
pôneis me trazem uma espécie de moita, com espinhos e esterco seco. Faz tanto vento
que não se pode usar os forninhos de azeite, embora o guia diga que este vento é suave
em comparação com o vendaval que costuma soprar aqui. Mas não o pegamos.

Ma passou boa parte do dia perto da margem do lago. Bholanath esteve com ela
um tempo, conversando. Bhaiji também passou um tempo com ela. Parvati queria a
iniciação. Na presença de Ma, recebeu de Bholanath o tão desejado mantra e estava
radiante. Esta moça nos impressionou a todos com sua bondade e devoção por Ma e
Bholanath. Todos (menos Ma) nos banhamos no lago.

Quarta, 7 de Julho – Saímos às onze da manhã. De passagem, visitamos uma


cova dedicada a Buda. Estas covas estão muito bem conservadas. Acampamos em
Jugumpha, onde foi impossível acender uma fogueira. Assim, a única coisa que
pudemos comer foi um pouco de sattú (farinha de sementes de legumes tostada). Muito
mais tarde me dei conta de que havia dado a Ma farinha crua de trigo, no lugar de santú,
porque eu estava com as mãos tão geladas que me foi impossível distingui-las. Ao se
dar conta disso, Ma não me disse nada e manteve sua calma característica e seu olhar
sereno. Se ela houvesse protestado, eu haveria me dado conta na hora, mas ela não é
assim e simplesmente aceita o que lhe dão. Quando expressei meu arrependimento, ela
fez brincadeiras com o acontecido.

O frio é insuportável. Até os culis tem frio. Ainda que tenham o hábito de beber
álcool para manter o calor, nem sequer isso parece estar adiantando. Com todos estes
incômodos, nem sequer pudemos admirar, de vez em quando, a beleza das flores nem a
visão reconfortante da montanha sagrada. Acampamos num lugar chamado Bund.

Sexta, 9 de Julho – Hoje começamos o parikrama (circunvolução). Neva


bastante, freqüentemente, o que é uma experiência nova para nós. De vez em quando
nos encontramos com pastores e outras pessoas. Também há mendigos, os quais
mostram o polegar aos peregrinos, gesto que indica uma espécie de súplica. O costume
é dar-lhes comida e assim o fazemos no acampamento de Sershung.

Sábado, 10 de Julho – O acampamento de hoje é como um acampamento base


para a última etapa de nossa peregrinação, que é a expedição a Gaurikunda. Assim se
rodeia a montanha sagrada pelos três lados, acabando em Gaurikunda e isso é o final da
peregrinação. Temos que subir outra vez aos 7.500 metros para depois descer a
Gaurikunda, que está a 6.000 m. O caminho, evidentemente, é difícil e nem cogitamos
em usar o dandi. Falou-se em deixar Swamiji neste campo mas Bholanath se recusou
terminantemente. Preparamos-nos como para uma batalha.
137

Domingo, 11 de julho – Pudemos sair bem cedo, já que todo mundo queria
jejuar e não tivemos que perder tempo preparando o desjejum. Depois de subir de forma
regular por uns 5 km, por fim tivemos a recompensa de avistar nossa meta. Gaurikunda
não é mais do que um lago de gelo. Não há templos nem altares. Os peregrinos se
banham no lago e com isso se conclui o ritual do Parikrama ao redor da montanha
sagrada.

Desmontamos perto do lago. Perto das margens há um pouco de água. O


peregrino tem que quebrar o gelo para fazer um buraco onde possa entrar na água.
Bholanath e Dasudada se banharam. Os demais se contentaram em jogar um pouco de
água sobre o corpo. Ma havia pedido que eu trouxesse molhos de varetas de incenso, os
quais agora resultam muito úteis porque os usamos para fazer arati. Os que se banharam
agradeceram o mínimo calor que estas chamas desprenderam durante um tempo.

Segundo nos contaram, tradicionalmente se convida para comer todos os


acompanhantes, quando se alcança o objetivo principal, mas ao não ser isto possível,
Ma sugeriu que repartíssemos frutas secas e kola entre os carregadores, o que lhes
agradou muito.

Com a graça de Ma e o indefectível ânimo alentador de Bholanath conseguimos


completar uma peregrinação das mais difíceis. Sinto-me incapaz de descrever a
magnitude do espetáculo dos Himalaias. Só o que posso dizer é que não é de se
estranhar que venham a este local pessoas de todo nosso país, já que é uma experiência
que nos inunda de satisfação.

--------------------------------- Fim do diário de Didi---------------------------------

Últimos Dias de Bhaiji

De certo modo, a viagem de retorno foi ainda mais difícil do que a subida. Todos
os viajantes estavam cansados e loucos para pisar em terreno plano. Bhaiji em particular
estava muito calado e parecia não se encontrar muito bem. Dois dias depois da inclinada
descida, chegaram a um terreno mais acessível e já se podia voltar a usar o dandi. Por
fim, se pôde secar completamente a roupa, graças ao potente sol.
138

Em Taklakot foram recebidos por um devoto que os estava esperando e que lhes
deu um fardo de cartas. Como sempre, o acampamento se viu rodeado pelos habitantes
do lugar. Sri Ma tirou um par de cimbalos que alguém lhe havia dado e fez um gesto
para que as mulheres e as crianças cantassem ao ritmo do seu melodioso som. Os
rapazes dos pôneis, amavelmente, fizeram o papel de tradutores. As mulheres,
encantadas, se deram as mãos e se colocaram em círculo. Foi assim que então surgiram
danças e canções neste entorno não usual, mas Didi se havia percebido que para Sri Ma
nenhum lugar era estranho e ninguém era um desconhecido para ela. Obedecendo a
sugestão de Sri Ma, Didi repartiu entre as pessoas o que havia sobrado de frutas secas:
amêndoas, passas, etc.

Segundo a sugestão de Parvati, subiram a um lado da montanha para ver as


covas dos monges budistas e lhes deixaram encontrar o lama principal. Bhaiji, falando
em nome de todos, lhe disse: “Dai-nos força (para seguir o caminho até Deus)” e Parvati
o traduziu. O lama parecia alegre com eles e houve um intercâmbio de presentes. Bhaiji
se interessou pelos rolos de manuscritos que estavam empilhados nas estantes e
convenceu a um lama ancião que lhe vendesse um destes velhos pergaminhos.

De Taklakot o caminho subia até a garganta da montanha, o que apresentou certa


dificuldade. Depois de cruzar a passagem de Lipu, o terreno se tornou mais fácil e
chegaram a Garbiang na terça feira, 20 de Julho. Os rapazes estavam contentes porque
haviam cumprido seu contrato e já podiam ir para casa. Muita gente foi saudar Sri Ma.
Receberam outro pacote de cartas da agência dos correios. Também se despediram de
Parvati e das outras estudantes, que partiram para seus respectivos destinos. Sendel
Singh e os rapazes dos pôneis também receberam seu pagamento e se despediram.
Depois desta união forjada numa peregrinação de semelhante dificuldade, a separação
produziu uma inevitável e profunda aflição.

Acompanhados por uma nova equipe de carregadores, os peregrinos iniciaram o


regresso a Khela, o último acampamento importante antes da etapa final até Almora.
Enquanto isso, se encontraram com Ruma Devi que, depois de haver esperado o
regresso de todos com grande ansiedade, disse a Sri Ma: “Ma, eu havia decidido passar
a vida servindo aos demais, mas isso é algo que não tem fim. Agora que sou velha, isso
já não me atrai. Desejo continuar com meu sadhana pessoal em solidão, a partir de
agora e gostaria de estar perto de Ma durante os anos de vida que me restam.”

Ma lhe concedeu este desejo e Ruma Devi se foi com eles para as planícies e
viveu em Dehra Dun, no ashram de Sri Ma, durante muitos anos. Era de constituição
fina e tinha um sorriso encantador e uma forma de ser muito agradável. Todo mundo lhe
tomou grande apreço e ela ganhou por si mesma um lugar entre os devotos.

A descida teve que ser realizada muito lentamente porque Bhaiji estava doente,
tinha uma febre que não baixava nem com remédios e tinha que consultar os médicos
dos dispensários que havia no caminho. Sri Ma não saía do seu lado, aconselhando Didi
e os demais como ajudá-lo a estar mais cômodo. Ela não falava e em pouco tempo todos
se deram conta que estava em maunam (silêncio). Sentiram-se muito aliviados ao
chegar a Almora, em 10 de Agosto.
139

Os devotos os estavam esperando com muitas esperanças. Manik e Juthika já


estavam ali, enquanto que Maharatanji chegou pouco depois. Hari Ram, assim como
seus amigos e parentes, se encarregaram completamente do tratamento de Bhaiji. A
alegria de haver completado uma árdua viagem e o prazer de reencontrar-se com os
amigos se viram ofuscados pela preocupação com a doença de Bhaiji. Aqueles que
haviam transbordado de alegria ao voltar a ter Sri Ma entre eles, se entristeceram ao vê-
la observando silêncio e a Bholanath e os demais tão preocupados pela saúde de Bhaiji.

Chamaram os melhores médicos da cidade. Didi agora tinha dezenas de pessoas


às quais podia recorrer se necessitasse de ajuda. Puseram-se em contato com a mulher
de Bhaiji, mas ela não respondeu nem foi a Almora. Quem chegou, no primeiro trem
que pôde pegar, foi Khagen, o criado pessoal de Bhaiji, o qual ficou muito contente ao
vê-lo chegar. O estado de saúde de Bhaiji variava. Os médicos se empenhavam numa
luta contra a morte iminente, fazendo todo o possível para deter sua crescente perda de
energia. Um dia, enquanto os desalentados ajudantes e visitantes estavam sentados em
torno da cama de Bhaiji, se sobressaltaram diante de uma inesperada explosão de
gargalhadas de Sri Ma. É impossível descrever sua attahasa, um reverberante repique de
som que despreza todas as expressões de apuro dos humanos. Uma risada divina diante
da tragédia humana?

Bholanath, Swamiji e Didi sabiam que a compassiva compreensão, cuidado e


interesse de Sri Ma por sua gente não conhecia limite, mas, de repente, despertaram, por
assim dizer, para o fato quase esquecido de que ela aceitava a vida e a morte, a saúde e a
doença, com absoluta equanimidade. Quem sabe suas preces para que Bhaiji se
recuperasse não iriam ser respondidas. Os novos componentes da multidão de devotos
ficaram pasmos ante o fenômeno porque, ainda que não duvidassem de que ela se
interessasse por Bhaiji, tiveram uma visão repentina de até que ponto ela estava
totalmente liberada do fundo emocional da situação. Pareceram compreender um pouco
a forma que ela tinha de estar entre eles como uma a mais e, ao mesmo tempo, não se
ver afetada por todos os problemas endêmicos da condição humana.

Bhaiji sabia que estava morrendo e tentou dissuadir os médicos de que lhe
ministrassem injeções salinas e de glicose como último recurso. No entanto, os médicos
não podiam nem queriam acatar seu pedido. Na véspera de sua morte, Bhaiji olhou para
Didi e, talvez como gesto de despedida e também talvez como agradecimento por todo o
cuidado que lhe havia dedicado, lhe disse, em voz clara: “Khukuni (apelido de Didi)…
Finish!”

No dia seguinte, Hari Ram e muitos outros rogaram encarecidamente a Sri Ma


que dirigisse seu kheyal para a recuperação de Bhaiji, mas ela fez um gesto indicando
que não se produziria dito kheyal. Depois dessa negativa, perderam toda a esperança.
Sri Ma permaneceu sentada em silêncio ao lado da cama do paciente e, de vez em
quando, lhe passava um pano fresco no rosto. Nesse dia, Bhaiji parecia ter se animado e
ter plenas faculdades. Não deixou de repetir: “Ma, Ma, Ma…” Depois de certo silencio,
de repente comentou: “Que formoso!” Em seguida, com grande convicção na voz, disse:
“Não há mais do que Um. Não há mais do que a unidade.”

Uns poucos instantes antes de morrer, esteve mais ou menos um minuto a sós
com Sri Ma. Quando Didi e os demais entraram no quarto, ele lhes disse, com voz clara
e num tom muito tranquilo e sereno: “Ma me pediu que agora durma. Vou dormir.”
140

Essas foram suas últimas palavras para as pessoas que o haviam cuidado com
muita devoção. Faleceu pouco depois, as 15:30 do dia 17 de Agosto de 1937. A
serenidade de sua forma de morrer nos deixou estupefatos durante alguns minutos.
Antes que alguém pudesse reagir, foram tirados de seu silêncio e assombro pela voz
suave de Sri Ma falando em voz baixa. Depois de muitos dias rompeu seu silêncio para
dizer-lhes estas palavras:

“Agora vou contar alguns acontecimentos que se sucederam no Himalaia, perto


da montanha sagrada de Kailash. Quando cheguei à margem do lago, Bholanath veio até
mim e me levou de lado, explicando que estava muito preocupado por Jyotish (Bhaiji).
Disse-me que, depois de banhar-se no lago, Jyotish havia tirado a roupa, se aproximado
dele e, colocando a seus pés todos seus pertences, se ajoelhou e expressou seu desejo de
despedir-se de todos nós e perder-se pelas montanhas, ao estilo de um avadhuta (asceta
que não pertence a nenhuma das ordens estabelecidas). Em sua forma de falar se notava
uma grande premência, como se não pudesse esperar mais. Somente a consciência de
sua posição era o que o havia feito buscar a permissão de Bholanath antes de partir e
adentrar sozinho os desconhecidos vales do Himalaia.

“Como é natural, Bholanath se assustou diante de semelhante fenômeno e não


sabia o que fazer, pelo que optou por reprová-lo, dizendo-lhe: ‘O que está dizendo,
homem? Levante-se e se vista imediatamente. Tua Ma não está aqui. Como lhe ocorre
dizer uma coisa dessas? O que é que os outros pensariam se voltássemos sem você?’

Bholanath se sentiu aliviado ao ver que, sem apresentar nenhuma objeção,


Jyotish o obedeceu, vestiu-se com seus agasalhos e esperou perto da tenda a chegada do
resto do grupo. Quando cheguei, Bholanath me contou, logo que pôde, o que havia
acontecido. Todo mundo estava ocupado, fazendo suas coisas e eu fui passear sozinha,
um tempo, perto do lago. Ao encontar-se comigo, sozinho, Jyotish disse, para mim
também, num tom de voz que demonstrava determinação, tudo o que havia dito a
Bholanath e, ademais, acrescentou: “Ma, sei que não me sobram muitos dias de vida
neste mundo. Sinto um forte desejo de passar os poucos dias que me restam numa
dessas covas, no coração do Himalaia. Quero partir em qualquer direção e viver só até
que me chegue à hora de deixar este mundo. Ma, posso me despedir de ti agora? Deixe
que me vá para sempre. Por favor, convença a Baba (Bholanath) para que me dê sua
permissão.”

“Não havia dúvida de que ele não esperava que eu não aceitasse sua decisão de
partir por conta própria. Naquele momento, vi que ele estava manifestando o puro
espírito de renúncia que tanto anseiam ter todos os peregrinos do caminho da vida
espiritual. Mas, apesar de tudo isto, o que lhe disse foi: “No entanto, no momento, você
deve ficar conosco.” Jyotish não disse mais nenhuma palavra e me seguiu muito sério e
calado. Depois de um tempo, fez um esforço para dizer-me: “Quero te pedir uma
pequena coisa. Por favor, permita-me tomar voto de silêncio a partir de agora mesmo”
ao que respondi: “Não, isso não é conveniente enquanto estejamos viajando.” Ele não
voltou a dizer mais nada.”
141

Ao escutar este relato do intento de Bhaiji de se retirar do mundo, todos os


presentes tiveram a sensação de haver vislumbrado a magnitude de sua entrega aos pés
de Sri Ma, já que, nem no momento mais crucial de sua vida havia deixado de submeter
sua vontade à seu kheyal e, além disso, sem retrucar. Experimentou o vairagia
(desapego) em seu interior e era inevitável que obtivera aquilo que com tanta força
havia desejado. Sri Ma voltou a tomar a palavra: “Depois de um tempo, ouvi que dos
meus lábios saíam o que vocês chamam de mantras. Jyotish, que ia caminhando atrás de
mim, se colocou à minha frente e se atirou aos meus pés, exclamando exultante: “Ma,
recebi o mantra que queria! Meu desejo se cumpriu!”, depois do que , fez certos kryias
nas águas do lago e, a partir de então, viveu, por assim dizer, com seu mantra.”

Um tempo depois, Sri Ma continuou com sua narração: “Como Jyotish queria
fazer mouna e, dado que havia recebido o Sannias Mantra nas montanhas, lhe coloquei
o nome de asceta de ‘Maunananga Parvam’. Seu corpo tem que receber o tratamento
que corresponde a um sanniasi (renunciado) e ser enterrado segundo os ritos
correspondentes. Jyotish me pediu que não revelasse a ninguém o que acabo de contar,
mas eu lhe disse que não poderia prometer e que, se fosse necessário, contaria às
pessoas a quem isto dissesse respeito. Creio que chegou o momento de revelar tudo isto,
para que possam fazer o que é preciso com seus restos mortais.”

Os presentes estavam profundamente emocionados e se sentiam profundamente


orgulhosos daquele a quem consideravam o seu ideal, o devoto exemplar que, até seu
último alento, havia demonstrado que o homem pode receber o conhecimento de Deus
nesta vida.

Hari Ram foi buscar um lugar apropriado para o samadhi (tumba de um santo) e
decidiu instalá-lo num chamado Patal Devi. Acontece que, na ocasião de uma visita a tal
lugar, Bhaiji havia expressado seu desejo de ficar ali e agora seu corpo seria sepultado
no local de sua escolha. A Hari Ram, que estava profundamente desconsolado, Sri Ma
disse: “Todos o queriam muito bem. Os fatos transcorreram de tal modo que agora seu
corpo permanece em vossa parte do mundo.” Ao ser um renunciado, Sri Ma mandou
Swami Akhandanandaji realizar a cerimônia simples do enterro de um asceta.

A Khagen, submergido na consternação, Sri Ma falou mais de uma vez,


longamente, sobre os últimos dias de Bhaiji. Uma vez concluídas as cerimônias simples,
o pequeno grupo de pessoas partiu para seus respectivos lares. Sri Ma, Bholanath, Didi,
Swamiji e Hari Ram partiram para o ashram de Dehra Dun. De todas as cidades onde
Sri Ma era conhecida chegaram cartas expressando sua profunda dor pela perda daquele
homem. Havia desaparecido um baluarte e todos tinham a sensação de que ninguém
poderia ocupar o seu lugar de transmissor do kheyal de Sri Ma. Sua exemplar
identificação com o kheyal de Sri Ma era algo único. Ela havia dito muitas vezes que
Jyotish fazia coisas e tratava as pessoas segundo o kheyal que ela tinha, sem
necessidade dele ser expresso em palavras. Para muitos, constituía um inestimável guia
e agora se sentiam privados desta constante fonte de alento.
142

Bhaiji era o típico homem culto numa posição de responsabilidade no mundo,


muito consciente das exigências da vida moderna e, não obstante, firmemente arraigado
na tradição de sua própria cultura e origem. Não lhe havia sido fácil encontrar resposta à
suas perguntas. Tal como um pioneiro, teve que ir abrindo caminho incessantemente.
Inclusive seus mais fiéis seguidores tiveram que ser guiados para poder compreender
essa extraordinária personalidade que lhes havia roubado o coração

Bhaiji desempenhou um papel de considerável valor ao levar a cabo a tarefa de


ajudar as pessoas que se aglomeravam para ver Sri Ma a compreender o extraordinário
que havia nela. Essa entrega exemplar, que Bhaiji demonstrou ter, não é algo que se
produza por si só, mas sim que também é questão de esforços contínuos. Para aqueles
que sentem o chamado da renúncia, sua vida sempre constituirá uma fonte de
inspiração.

O caso de meus pais, que eram bons amigos de Bhaiji, é um bom exemplo.
Quando pequenos, os víamos passar muito tempo juntos, conversando e tínhamos a
impressão de que ele lhes havia dado a iniciação. Mais adiante meu pai me explicou que
ele lhes havia ajudado a compreender melhor a Sri Ma ao responder a muitas das
perguntas que eles lhe faziam a respeito dela.

Talvez este seja um bom momento para incluir as próprias palavras de Bhaiji em
relação com sua mulher e sua atitude para com suas responsabilidades familiares. Logo
após deixar seu lar, teve ocasião de viver mais ou menos um mês sozinho em Solon.
Como tinha o costume de anotar seus pensamentos num diário, oferecemos em seguida,
um extrato do que escreveu na citada cidade:

“Quando conheci Mataji, em 1924/1925, tanto minha mulher quanto eu nos


sentimos igualmente plenos de devoção por ela. No entanto, à medida que eu ia me
entregando mais e mais aos pés de Ma, minha mulher foi se afastando e evitando ditos
encontros. Ela era incapaz de compreender esse anelo que eu sentia por algo que nem
mesmo eu sabia claramente o que era! Ela me reprovava, dizendo: “Não creio, em
absoluto, que seja necessário comportar-se assim para levar uma vida de devoção. Você
não se preocupa por sua saúde, não dedica seu tempo nem para seu filho nem para sua
filha. Você acredita que isso é ser um pai de família?”

“Minha mulher vem de uma família muito culta e de reconhecido prestígio e


sempre teve muito amor próprio e se comportado de forma muito digna. Ao longo de
todos estes anos, até hoje, não diminuiu em nada minhas lembranças de sua conduta reta
e sua franqueza. Nunca desejei causar-lhe nenhum dano. Tentei explicar-lhe que
qualquer alteração do ordenado ritmo de vida que levávamos teria inevitavelmente o
aspecto de uma conduta irresponsável. No entanto, de que outra forma podemos lutar
por algo que nos transporta além dos valores estabelecidos? Ainda que meu amigo
Niranjan tenha tentado muitas vezes falar com ela e explicar-lhe meu ponto de vista, ela
não se mostra receptiva com respeito a este tema.”
143

“Um dia me disse, exasperada: ‘Tudo te é tão indiferente que, no que nos diz
respeito, dá no mesmo se você fica ou nos deixa e desaparece para sempre.’ Com um
sorriso tentei dar importância ao assunto e lhe disse: “Então não lhe importa que eu
parta de casa para ser um sanniasi?” Sentada, me respondeu: “Claro que não!” Meus
dois filhos também estavam presentes. Ainda que nenhum de nós falasse a sério, para
mim esta conversa foi importante e eu a anotei em meu diário.”

“Quando fiquei doente, minha mulher se ocupou de mim com um cuidado e uma
atenção além de toda concepção. Não há dúvida de que seus cuidados e sua inesgotável
dedicação contribuíram grandemente para minha recuperação daquela terrível
enfermidade. Foi mais ou menos naquela época que perdeu seu irmão, do qual gostava
profundamente e seu pesar a separou mais ainda de Ma. Caiu presa do abatimento e,
neste estado, foi aumentando seu antagonismo à minha atitude devota para com Ma e
encontrou um aliado em meu irmão mais velho, que tampouco estava de acordo com
minha forma de vida.”

“Diante de tanta oposição e falta de compreensão, me sentia totalmente


impotente. Se nem eu mesmo sabia o que estava me acontecendo, como iria poder
explicar aos demais? Acabava de descobrir um mundo novo e as pessoas que havia nele
eram para mim meus companheiros de viagem, mas eu era incapaz de inspirar em
minha própria família o menor entusiasmo por esta incursão no desconhecido. Nesta
época, minha esposa foi incitada erroneamente a falar muito mal de mim. Era uma
benção disfarçada. Desta forma, ela me ajudou muitíssimo em meu sadhana. Deu-me a
oportunidade de separar-me cada vez mais das obrigações sociais e ocupações
mundanas sem sentido.”

“Jamais tive como objetivo renunciar ao mundo, porque isto era algo irreal e
tampouco fui educado para ser leviano com minhas obrigações. Para mim era óbvio
que, ao mesmo tempo em que eu estava sendo coerente comigo mesmo, todos os demais
continuavam sendo autênticos também. No entanto, quando alguém se estabelece na
busca desta realidade que constitui a base de tudo e através da qual e pela qual tudo se
converte em algo real, se requer, até certo ponto, que a pessoa dê meia volta. Para que a
pessoa possa realmente “se recuperar” desta enfermidade, a dieta da solidão é o meio
para administrar a medicina da meditação.”

“Minha família me acusa de havê-la abandonado. Como posso tê-la


abandonado? Só levei meu corpo a uma região remota mas, em todos os demais
aspectos, continuo estando onde estava ou, pelo menos, isso é o que me parece.”

“Quando penso em minha mulher me dou conta de que, ainda que externamente
ela tenha cortado toda conexão com Ma, interiormente, precisamente por seus
pensamentos antagônicos, está envolvida num sadhana de profunda concentração. É
uma mulher com uma grande força de vontade, muito religiosa e com grande pureza de
coração. É muito possível que, com sua capacidade superior de concentração, alcance os
pés de Ma muito antes que eu com meus esforços pouco sistemáticos. Pois que assim
seja e que o kheyal de Ma se cumpra em todos os aspectos de nossa vida.”
144

Todos aqueles que chegaram depois da época de Bhaiji esperavam, ansiosos, que
Sri Ma lhes falasse dele. Dentre eles, Anil Chandra Ganguli tinha uma capacidade de
invocar o kheyal de Sri Ma para que falasse dele. A este respeito, deixou escrito o
seguinte:

“Estes dias em Vindiachal, Sri Ma nos fala muito freqüentemente de Bhaiji. Era
como se todos os temas convergissem para algum aspecto de sua vida. Foi
extraordinário o quão desapegada foi sua vida. Às vezes Sri Ma diz: ‘Experimentar a
aniquilação da esperança á despojar-se realmente de tudo.’

“Bhaiji desejava despojar-se de tudo. Chegou ao final da sua vida com a saúde
ruim, mal ambiente familiar e desprezado pela família e amigos, mas jamais buscou o
‘ressarcimento’, jamais tentou utilizar a Sri Ma em benefício próprio. Sua entrega aos
pés de Sri Ma tinha como única finalidade conhecer a Sri Ma. Portanto, o que para
outros seria uma fonte de desespero, ele encarava como uma ajuda daquela que, para
ele, constituía a plenitude da bem-aventurança.”
145

CAPITULO 9

Ramani Mohan Chakravarti: Bholanath

“Dacca, Janeiro de 1938: Bholanath estava radiante. Com sua figura esbelta e
envolto em sedas de cor ocre, inspirava admiração. Acompanhava os componentes do
grupo de kirtan, o que lhe enchia ainda mais de entusiasmo e o fato dele participar de
coração, lhes infundia um brio renovado. Seu séquito de crianças não se afastava do seu
lado, cantando e bailando com ele.”

“Sem dúvida, naquele momento ele constituiu uma fonte de grande deleite para
os devotos de Dacca. Ainda que Sri Ma não estivesse presente, estavam contentes de tê-
lo um tempo com eles. Era o muito amado e respeitado Baba Bholanath, querido por
todos, amigo e guia infalível. Foi bonito ter essa lembrança de sua última visita quando,
em Abril de 1938, chegou a notícia de sua morte.”

D. D. Vol 5 pg 248

“Durante todos os anos que passei com Bholanath, não fui consciente dos
muitos desejos mundanos que acossam a humanidade. Ele me havia protegido, com
grande eficácia, de conhecer as debilidades de caráter, fonte de tanta infelicidade no
mundo. É agora que me falam tanto deste aspecto da natureza humana. Não é que eu
queira dizer com isso que Bholanath fosse um rishi. Todos sabem que ele tinha
tendência a ter ataques de ira. Se o dissesse, as pessoas pensariam que estou
louvando a meu marido.”

Sri Ma Anandamayi
146

Ramani Mohan Chakravati: Bholanath

Primeira Viagem de Sri Ma ao Gujarat

De Dehra Dun, Sri Ma enviou Didi e Swami Akhandananda a Vindiachal e dali


a Calcutá e Dacca. Depois da morte de Bhaiji uma sensação de desorientação se
espalhou entre os devotos. Sri Ma pediu a Didi que fosse falar com todos eles e lhes
descrevesse os últimos dias de Bhaiji. Com tristeza no coração, Didi se separou de Sri
Ma. Quando lhe perguntaram se tinha alguma mensagem para dar aos devotos, Sri Ma
disse: “Diga-lhes que tentem viver lembrando-se de Deus, de forma constante e
uniforme, com toda sua atenção colocada na única meta.”

Depois de voltar de Almora, fazia quase um mês que Sri Ma só tomava água.
Seu corpo estava muito quieto, como se estivesse em samadhi. Os novos devotos de
Dehra Dun aprenderam rapidamente a não identificar sua condição física com alguma
enfermidade, já que se preveniram de que Sri Ma era a de sempre e conversava com as
visitas sem dar mostras de fadiga nem de nenhuma consequência prejudicial por sua
abstinência total de alimentos. Com a ajuda das pessoas do lugar, Ruma Devi atendia
suas necessidades simples. Em 13 de Outubro de 1937, em resposta ao convite de
Manmotho Nath Chaterji e outras pessoas, Sri Ma assistiu à celebração do Durga Puja
que a comunidade bengali daquela cidade organizava. Depois do puja, disse a seus
acompanhantes: “Agora que saímos de Kishenpur (o ashram), em vez de voltar, vamos
a Haridwar.”

Como é normal na presença de Mataji, as coisas improváveis se tornam


possíveis com relativa facilidade. Seu séquito, bastante numeroso em todos os
momentos, aceitou com entusiasmo o plano e todos se deslocaram com ela
imediatamente para Haridwar. Improvisaram-se mudas de roupas e se coletou dinheiro
de donativos voluntários. Todos estes preparativos improvisados criavam um ambiente
festivo, bastante característico do entorno de Sri Ma porque, acima de tudo,
predominava o ambiente de satsanga. Talvez ao colocar em cheque as normas e
convenções estabelecidos, ela abria para muita gente uma dimensão de liberdade. Em
tais ocasiões, as coisas surgiam de tal maneira que se podia levar à prática e sem
contratempos o kheyal de Sri Ma e todo mundo estava contente. Por exemplo, sempre
havia meios de transporte suficientes e suficiente dinheiro, roupas e alimentos para o
repentino êxodo de semelhante quantidade de pessoas. Ao princípio, Didi e os demais
pensavam que eram coincidências, mas a regularidade com que se defrontavam com
semelhantes fenômenos, os convenceu de que era melhor aceitar o kheyal de Sri Ma,
por mais improvável ou pouco prático que parecesse. Quando lhe sugeriam um método
mais racional para realizar uma ação, ela o aceitava imediatamente, mas então nada
funcionava e os que haviam aconselhado se viam obrigados a voltar para a primeira
opção. Com o passar dos anos, este fato havia ficado tão claro que nenhum daqueles que
a conheciam bem tentava conscientemente modificar ou desviar seu kheyal.
147

Em Haridwar, Sri Ma foi visitar o ashram de Mangala Guiri Maharaj, assim


como ver o Swami Ashimananda, ao qual recordou que, numa ocasião, ele havia se
oferecido para mostrar-lhe os lugares sagrados, nas margens do rio Narmada, no
Gujarat. Ele lhe expressou sua disposição para cumprir com sua promessa a qualquer
momento que ela quisesse, mas o Swami não levava em conta com quem estava falando
porque, imediatamente, Sri Ma respondeu: “Pois vamos hoje, no primeiro trem que
sair!”

Ainda que num primeiro momento sua sugestão causasse uma considerável
desordem, todo mundo se organizou e, quando o trem finalmente arrancou, se deram
conta de que, depois de tudo, aquilo não era nada impossível. O grupo que chegou a
Chandad, nas margens do rio Narmada, em 18 de Outubro de 1937, não era muito
grande porque a maioria das pessoas havia regressado para suas casas quando Sri Ma
partiu de Haridwar. Didi e Swami Akhandananda voltaram com ela para acompanhá-la
nesta viagem.

Swami Ashimananda era bastante conhecido nesta parte do país e levou Sri Ma e
seus acompanhantes a muitos lugares de interesse, ainda que nesta primeira visita
estiveram muito pouco tempo em cada um deles. No entanto, anos mais tarde o Gujarat
se converteu num dos principais estados onde Sri Ma tinha maior quantidade de
seguidores. Passou por Ahmedabad, Baroda e regressou a Vias e Karnali. Onde quer
que ela permanecesse uns poucos dias, as multidões se reuniam. O Gujarat tinha uma
cultura própria, muito característica. Mas, ainda que as pessoas falassem uma língua
diferente e tivessem um enfoque mais prático da vida, Sri Ma provocava a mesma
reação de familiaridade e amizade, como se fosse alguém que conhecessem há muito
tempo, assim como uma devoção em nenhum sentido inferior à das pessoas de Dacca,
Dehra Dun ou Almora. Homens e mulheres se espremiam ao seu redor e cantavam
kirtan, lhe faziam perguntas ou simplesmente se sentavam calados em torno dela.

Este período de vida tranquilo, nas margens do rio Narmada, se converteu em


algo especialmente gravado na memória de todos por constituir os últimos dias que
Bipin Bihari passou com sua filha. Sri Ma e Bholanath foram para Tarapith, no outro
extremo do norte da Índia, enquanto que o resto do grupo partiu para Calcutá e outros
destinos. Bipin Bihari caiu enfermo e Bholanath e Sri Ma foram vê-lo. Enquanto Sri Ma
estava de pé ao seu lado, ele não deixava de repetir: “Ma, Ma, Ma…” Em Bengala, o
pai costumava chamar a filha de “Ma” (mãe) mas, nesta ocasião, todos os presentes
tiveram a sensação de que ele estava chamando a Deidade de seu coração. Talvez
estivesse experimentando a realidade dos cantos que tantas vezes entoava. Depois de
um tempo, Sri Ma lhe pediu permissão para partir, o que ele lhe concedeu com um
tranquilo gesto de despedida. Faleceu em 16 de Dezembro de 1937, aos 71 anos. Assim
concluiu uma vida de intensa dedicação a essa única Unidade sempre tão presente nos
lábios de Sri Ma.
148

A Enfermidade de Sri Ma

Tal como se disse anteriormente, Sri Ma viajou incógnita durante uns poucos
meses, acompanhada unicamente por Virajmohini (de Agosto a Dezembro de 1936). Ao
passar por Etawah, tinha uns poucos sintomas de problemas de estomago. O Dr.
Pitambar Panth, cirurgião chefe do serviço médico da cidade, trouxe alguns remédios, a
pedido de Virajmohini. Sri Ma lhe recebeu amavelmente, mas lhe disse que não tinha o
kheyal de tomar remédios e acrescentou, com um sorriso que, se alguma vez tivesse que
realizar um tratamento médico, ela se colocaria em suas mãos.

No início de 1938, Sri Ma se encontrava em Dehra Dun e prosseguiu viajando


sem cessar, por distintas partes destas regiões montanhosas, apesar de estar com febre
há dois meses. Muitos devotos lhe pediram que dirigisse seu kheyal para sua
recuperação, mas ela sorriu e lhes disse: “Por que vocês tem esta atitude ‘anti-doença’?
Para mim isto não representa nenhum problema. Tudo é benção.” No entanto, esta febre
era causa de grande angústia entre os devotos. Os novos seguidores de Dehra Dun, ao
não conhecer bem a Sri Ma, começaram a criticar Bholanath pelo fato dele não a fazer
seguir um tratamento médico. No fim, cedeu à opinião generalizada e assim Sri Ma
deveria ser tratada pelo prestigiado Dr. Shome. Mas quando foi informada Sri Ma lhes
recordou as palavras que havia dito ao Dr. Panth, de Etawah. Então, alguém lhe
informou que o Dr. Panth se havia aposentado e havia ido viver próximo a Haridwar.
Sri Ma teve então o kheyal de ir a Haridwar e falar com o Dr. Panth, o qual se alegrou
muito em vê-la outra vez, embora ficasse muito preocupado por seu estado físico e
aceitou receitar-lhe remédios com muitas reservas, dizendo-lhe: “Eu só posso receitar
para pessoas comuns. Minha medicina não vai funcionar a menos que você tenha o
kheyal de acabar com esta doença.”

Sri Ma caiu prostrada na cama desde o dia em que começou a tomar os remédios
e, ante o alarme de seus acompanhantes, lhes disse com um sorriso: “Esta doença quer
estar comigo um tempo. A ninguém eu peço para partir, não é? Eu não estou doente
mas, se tomo os remédios, o natural é que se esteja ‘doente’, não?”

Para satisfazer o Dr. Panth, na última semana de Fevereiro, Sri Ma se alojou em


Pitkuthi, na casa do médico, nas margens do Ganges. Era muito espaçosa e, lentamente,
se foi enchendo de devotos que vinham visitá-la. Gradualmente Sri Ma começou a
caminhar um pouco e, como sempre, tanto sua doença como sua recuperação seguiam
pautas próprias, que em nada correspondiam com a ingestão de remédios! Às vezes
tinha um aspecto normal, recebia as pessoas e conversava com elas como sempre. Em
troca, em outras ocasiões, parecia cansada e doente. O doutor estava desconcertado e
perplexo. Um dia Sri Ma pediu a Didi que lhe trouxesse um prato da comida que havia
preparado para todo mundo. Esse dia o prato principal era taker dal, ou seja, dal
(lentilhas) cozido com mangas verdes e, portanto, de sabor bastante ágrio. Não era, de
jeito nenhum, um prato apropriado para um doente. Sri Ma perguntou a Bholanath se
podia comer esta combinação tão pesada de dal com arroz.Como ele se deu conta de que
ela tinha esse kheyal, lhe deu seu aval. Então ela lhe pediu que lhe desse de comer e,
depois de alguns bocados, lhe disse: “Vou dizer a Pitaji (o médico) que foi Bholanath
quem me pediu para comer este dal e que foi você mesmo que me deu para comer!”
149

Ambos riram e Bholanath lhe disse: “ Sou sempre eu que devo levar a culpa!”
Mas, depois desta refeição tão pouco apropriada, Sri Ma pareceu recuperar-se um
pouco. Ao se dar conta de que os remédios não surtiam efeito, o Dr. Panth lhe pediu que
ela mesma se curasse. Um dia viram que ela fazia certas kriyas e seus acompanhantes
concluíram que, talvez, por fim havia tido o kheyal de se despedir da doença. Pareceu
melhorar ligeiramente.

Este era o ano do Purna Kumbha Mela, em Haridwar. As ruas fervilhavam de


sadhus e mahatmas e todo dia havia procissões ao Ganges. Era frequente ver Bholanath
dirigindo um grupo de kirtan pelas ruas de Haridwar e sua imponente figura chamava
tão facilmente a atenção que muitos desconhecidos se uniam a eles, aumentando assim a
multidão que o rodeava. Costumava levar nos ombros um menino chamado Bindu, que
dirigia o kirtan, já que tinha um especial apreço pelo melodioso que era sua voz. O
grupo de kirtan de Delhi chegou à residência do Dr. Panth pra cantar seu nama-japa
especial. Esse foi seu modo especial de oração para que Sri Ma se curasse.

No dia de Holi (meio de Março de 1938) se podia escutar de qualquer lugar de


Pitkuthi (a residência do Dr. Panth) as melodias do nama-sankirtan, até tal ponto que a
pessoas que passavam pela rua se sentiam atraídas a participar. Uma testemunha
presencial (Dhirendra N. Datta, de Nova Delhi) escreveu: “O kirtan reuniu uma grande
multidão. O sadhu se desprendia de seu danda e kalamandu, o funcionário se esquecia
de sua comissão, o mendigo do seu prato de comida e o homem comum do que devia
fazer. Todos se sentiam atraídos pelo canto, como por um imã. Sri Ma entrou na sala e
sua graciosa presença incrementou a potência das ondas de êxtase que iam e vinham a
um ritmo glorioso. Bholanath estava sempre no meio do grupo de kirtan para aumentar
seu brio e, às vezes, para levantar-lhes o ânimo.”

Os elementos amam o kirtan. Sempre cai um aguaceiro quando as multidões


cantam kirtans e esta ocasião não foi uma exceção. Tiveram que fechar as portas
principais devido à tormenta, mas pouco depois se viu Sri Ma correr até elas para
abri-las de novo, dizendo: “Pitaji, você está ensopado, entre, entre.” A pessoa para a
qual Sri Ma havia corrido para abrir-lhe a porta era Maulana Talatuff Husain, um
devoto muçulmano de Dehra Dun, que tinha vindo vê-la ao descobrir que estava doente.

O kirtan acabou de forma triunfal, porque viram que Sri Ma havia recuperado
seu resplendor costumeiro. Uma vez, disse a esse grupo: “São vocês, com seus
pensamentos cheios de devoção, que mantém este corpo são. O nama-japa que vocês
fazem é o remédio que ele necessita e o kirtan é como uma injeção para que ele se
recupere rapidamente.”
150

Falecimento de Bholanath

Em 13 de Abril, no último dia do Khumba-Mela, acompanhado por uma grande


multidão de devotos, Bholanath se dirigiu ao Brahma-Kunda para realizar a cerimônia
do banho. Ao chegar ali, os demais ascetas que se haviam reunido com o mesmo
propósito o aclamaram, de forma espontânea. Ainda que não soubessem quem era,
devem ter percebido nele uma grande personalidade, que inspirava respeito. Ao contar o
acontecido a Sri Ma, ao voltar do rio, ela lhe disse: “É que você vive na ignorância de
você mesmo, mas os demais se dão conta do que você é!” Sem que ninguém soubesse,
ao banhar-se no rio, Bholanath havia realizado certos rituais para adotar formalmente
uma vida de renunciante. Quando estiveram no Himalaia, já havia recebido o sannias
mantra de Sri Ma, nas margens do lago Manasarovar, porque lhe havia expressado seu
desejo de ser iniciado formalmente no sannias e ela havia concordado. A partir de então
se havia colocado em contato com um ashram de prestígio, no qual poderia receber a
iniciação. No entanto, não era a época do ano apropriada e lhe pediram que adiasse uns
poucos meses os preparativos.

Com a celebração do Holi, em Haridwar, a multidão de devotos queria festejar e


queriam tirar fotos de Sri Ma e Bholanath. Ao estar de tão bom humor, pediram a Sri
Ma que abençoasse Bholanath, seu principal devoto e a ele pediram que se sentasse aos
pés de Sri Ma. Bholanath e Sri Ma participaram do espírito festivo desta alegre multidão
e ele sorriu e sentou-se aos pés dela, a qual estava sentada um pouco mais alto. Sri Ma
lhe colocou a mão na cabeça, como quem dá umas palmadinhas na cabeça de um
menino e lhe disse: “Que sua renúncia seja auspiciosa!”

Ainda que ninguém tivesse ouvido estas palavras, porque foram ditas em voz
baixa, parece óbvio que lhe estava indicando, sem chamar a atenção, como ela sempre
fazia, os acontecimentos futuros que logo iriam surpreender toda a família de devotos.

Quando termina o Khumba-Mela, os peregrinos têm pressa em partir, o que


causa dificuldades nos meios de transporte. Os devotos pensaram que seria melhor que
Sri Ma partisse imediatamente na carruagem, até Dehra Dun. Normalmente, quando
concluía algum ato, Sri Ma costumava ser a primeira a partir porque, do contrário,
sempre havia quem permanecesse no local enquanto ela estivesse ali, importunando, às
vezes, as pessoas responsáveis pelo alojamento. Ao redor de Sri Ma todos os
preparativos eram temporários e os encarregados sempre esperavam que tudo saísse
bem. Pode-se dizer que jamais houve problemas econômicos, mas estava estritamente
proibido pedir dinheiro a alguém que viesse ver Sri Ma. Seria mais correto dizer que as
pessoas ao seu redor nunca sabiam, de um dia para o outro, de onde sairia o dinheiro,
quanto se necessitaria para cobrir os gastos e se sobraria algum para a etapa seguinte da
viagem de Ma! Inclusive hoje em dia ninguém é capaz de dizer claramente como se
cobriam os enormes gastos e como sempre se cumpria satisfatoriamente o kheyal de Sri
Ma.
151

Bholanath ficou para acompanhar a todos os que tinham vindo ficar ao seu lado
e viajou com eles, de ônibus, até Dehra Dun. Em 24 de Abril regressou a Haridwar para
assistir a cerimônia de sannias de Kunja Mohan, o tio de Didi. Mesmo se sentindo
indisposto, Bholanath não deu muita importância. Sri Ma disse pra Didi: “Bholanath vai
ficar muito doente.” Assustada diante de tal declaração, Didi tentou convencê-lo a não
viajar, mas Sri Ma lhe disse: “Pode tentar, mas ele vai insistir em que tem que ir. Além
disso, a doença é inevitável.”

Ao voltar de Haridwar, Bholanath tinha muita febre e dor de estômago. A febre


não baixava. Os médicos diagnosticaram varicela. Sri Ma disse tranquilamente a Didi:
“Para mim não parece varicela. É que as enfermidades me são reveladas, tal como as
pessoas. Já ouvi descrições da personificação que acabo de ver como algo muito mais
grave do que a varicela.”

Em pouco tempo, ninguém tinha dúvida de que a doença de Bholanath era a tão
temida viruela. Deram-lhe o melhor tratamento que se dispunha na cidade e recebeu
todo o carinho e cuidado dos devotos, mas a natureza terrível daquela doença o fez
sofrer o indizível. Sri Ma ia vê-lo em seu quarto com frequência e, para seu cuidado e
comodidade, sugeriu essas coisas que só a ela podiam ocorrer.

O estado de Bholanath piorou rapidamente. Todo mundo estava desesperado


diante da calamidade eminente. Nesse momento crucial, Sri Ma, de forma inesperada,
pediu a Didi e a seu pai que partissem imediatamente de Dehra Dun, levando com eles a
Didimá (a mãe de Sri Ma). Já havia enviado também ao ashram de Raipur a Abhaya
(jovem que acabara de entrar para o séquito de Sri Ma) e a uma ou duas pessoas mais.
Sri Ma lhes havia dito tranquilamente que, para evitar qualquer intento de desviar seu
kheyal “tem que ser ou todos vocês ou eu. Se vocês não forem, vou eu.” Como Didi
sabia que, no que se referia à doença de Bholanath eles eram incapazes de fazer
qualquer coisa sem a guia de Sri Ma, começou a, tristemente, fazer suas malas. Swami
Akhandananda lhe expressou sua perplexidade: “Ma, como você pode nos pedir para
partir quando se necessita de todas as pessoas que seja possível para cuidar de
Bholanath?”

Sri Ma lhe disse suavemente: “Você é um sanniasi e não tem nenhuma obrigação
de servir fisicamente a Bholanath. A única forma em que você pode ajudá-lo é
entregando-se totalmente à tua vida contemplativa.” A Didimá disse: “Não te angustia
contemplar o sofrimento de Bholanath? Neste momento ele não necessita da sua
presença física. Você pode ajudá-lo com suas orações e desejos de que se cure. Faça
isso por ele agora!” A Didi, para a qual nada fazia sentido, exceto Sri Ma, esta só lhe
pôde recomendar paciência e fortaleza. Em seu diário Didi escreveu que era como se Sri
Ma estivesse se despojando de qualquer obstáculo, por assim dizer, para poder se
dedicar totalmente ao paciente que, tal como um menino desesperado, não parava de
chamar “Ma, Ma!”

Ao notar a falta de Didi e dos demais, Bholanath perguntou por eles e Sri Ma lhe
disse: “Os enviei à Varanasi. Não está certo o que fiz?” ao que ele respondeu
imediatamente: “Sim, sim, era isso o que você tinha que fazer.”
152

Durante os últimos dias de vida de Bholanath, Sri Ma esteve constantemente em


seu quarto, realizando todos os desejos que ele expressava. Certa ocasião, ele queria que
ela lhe desse seu prasad. Quando lhe trouxeram uma papinha fina, ela comeu uma
colherada e deu o resto para ele, lentamente. Em outra ocasião desejou tomá-la de suas
mãos. Parecia que Bholanath já havia perdido toda a vergonha de demonstrar sua total
entrega aos pés de Sri Ma.

Sentada ao lado da sua cama, durante o último dia de sua vida, ela lhe
perguntou: “Você tem muita dor?” Ele disse que sim mas não sabia dizer onde era o
local da dor. Todo seu corpo estava afetado por esta terrível doença e ele estava
sofrendo muito. Estava deitado de costas, de frente para Sri Ma. Ela se levantou e
alguns viram que passava a mão três vezes por cima de todo o corpo de Bholanath, da
cabeça aos pés e que fazia alguns kryias com as mãos, depois do que voltou a sentar-se.
Parecia que Bholanath se relaxava. De fato, ao responder a uma pergunta, disse que já
não sentia dor e que se encontrava bastante a vontade. Desde o começo da doença, esta
era a primeira vez que se sentia em paz. Todos os presentes lhe ouviram murmurar
claramente “Ananda, ananda” (felicidade absoluta).

Depois de um tempo disse: “Me vou” ao que ela respondeu: “Por que pensas
isto? Não há idas nem vindas mas sim uma única totalidade de existência na qual não há
lugar para separação.” Bholanath pareceu estar de acordo e lhe disse: “Sim, isso é o que
você sempre diz.”

No momento de falecer, na noite de 7 de Maio de 1938, Sri Ma tinha a mão em


seu rosto. Morreu com tal calma e paz que os brahmacharis que o atendiam e um kaviraj
(doutor da medicina indiana), que tinha vindo de Varanasi e estava presente, não se
deram conta de que um grande ser havia falecido, porque estavam sentados, meditando,
experimentando um estado muito elevado. Tudo estava em silêncio até que Sri Ma falou
suavemente para o kaviraj: “Pitaji, pode você comprovar se tudo já terminou, desde seu
ponto de vista científico?” Foi como se todos despertassem para a verdade do mistério
do final da vida. Aquele homem que se havia entregado tão alegre e completamente a
toda comunidade de devotos, havia partido para sempre.

O grupo de ajudantes perplexos olhou para Sri Ma como se lhe pedisse


conselhos e ela lhes disse que Bholanath era um sanniasi e que referendava o nome que
havia escolhido: Tibbatananda Turtha. Os devotos de Dehra Dun levaram a seu querido
Pitaji para Haridwar, para realizar o consagrado ritual de enterrar a um sanniasi.

O falecimento de Bholanath produziu muitas mudanças na vida dos devotos. Em


primeiro lugar, porque era uma perda pessoal irreparável para todos eles e, em segundo,
porque em maior ou menor grau, todos tiveram que reorientar sua compreensão de Sri
Ma.

Como em outros casos de perda de um ente querido, no começo, as pessoas não


sabiam muito bem o que fazer, por medo de importunar a Sri Ma mas, em pouco tempo,
se deram conta do absurdo que era pensar que a iriam encontrar chorando a morte do
seu marido.
153

Em outra ocasião ela havia comentado: “De que temos que ter pena? Eu não
perdi ninguém. Vocês ficam tristes quando passam de um quarto para outro?” As
mulheres de Dehra Dun se sentiram um pouco envergonhadas por atribuir a Sri Ma suas
próprias reações emocionais. Uma delas expressou em palavras a opinião compartilhada
por todas: “Por culpa de nossas limitações, te vemos mudar com o tempo. Vemos-te
crescer ou mudar de status, como passar de casada a viúva. Mas Tu és sempre a mesma
e sempre o que és por si mesma. Por favor, siga atuando segundo seu kheyal, como tens
feito até agora.”

Não se produziu, portanto, nenhuma mudança drástica na forma de vida de Sri


Ma. Didi, que estava esperando ansiosamente notícias dela em Varanasi, se tranquilizou
ao ser informada de que estava tudo bem. Sri Ma ficou, tranquilamente, uma temporada
em Dehra Dun. Ruma Devi se ocupava de suas poucas necessidades e Abhaya, um
jovem recém chegado, foi sua companhia mais constante naqueles dias. Didi viajou para
Calcutá e Dacca. Quando chegou a celebração do aniversário de Sri Ma, os devotos de
Dacca se alegraram de ter entre eles a Didi, cuja presença aliviou consideravelmente o
impacto que lhes produziu a morte de Bholanath.

Sri Bholanath: 1881 – 1938

Um dos muitos mistérios da forma de vida em que viveu no mundo foi o papel
que Bholanath desempenhou em sua vida. Foi seu primeiro discípulo e foi seu esposo,
combinando ambas as posições com facilidade e sem tensão alguma.

Como já foi mencionado anteriormente, foi Bholanath quem tornou possível, aos
visitantes, a aproximação a Sri Ma. No entanto, ele não andava buscando publicidade,
mas sim o contrário, já que ele mesmo se assegurava meticulosamente de que só
tivessem acesso a ela aqueles que tinham perguntas genuínas sobre sua busca espiritual.
Ainda que seja verdade que em pouco tempo esses pequenos grupos começaram a se
transformar em multidões, não deixavam de estar compostos por pessoas do mesmo
tipo, amigos de parentes ou amigos de amigos, etc. Todos aqueles que sentiam devoção
por Sri Ma começaram a reunir-se em torno deles, formando-se assim a família de seus
fiéis seguidores.

O que foi Bholanath para eles? Fica difícil concentrar-se nele porque ele não foi
suficientemente valorizado, tal como acontece com os encarregados dos templos quando
vamos vê-los e nos esquecemos completamente de que a Deidade está disponível para
nós somente graças a seus conscienciosos e permanentes esforços e devoção. Ademais,
quando algum de nós deseja saber como se comportar diante de Deidade, nos dirigimos
a eles para que nos expliquem como oferecer as flores, os doces, etc. Se pode supor que,
no começo dos anos vinte, foi algo assim que aconteceu em Dacca.
154

Ainda que a personalidade enigmática e etérea de Sri Ma fosse atrativa, também


tinha uma aura de inacessibilidade. Todos se dirigiam a ele quando tinham dúvidas
sobre como abordá-la. Quando Sri Ma passava muitas horas em profundo samadhi, era
Bholanath quem decidia se deviam tentar fazê-la voltar ao mundo ou se só deviam
permanecer sentados em silêncio, em torno de seu corpo inerte. Às vezes pedia para as
mulheres que esfregassem as mãos e os pés de Sri Ma, ou que simplesmente se
sentassem perto dela e fizessem nama-japa. Se fosse muito tarde da noite, levavam
silenciosamente o corpo de Sri Ma ao seu leito, a deixavam aos cuidados de Bholanath e
iam para casa. Às vezes Didi e outras pessoas ficavam com ela a noite toda. Foi assim
também que aumentou, dia a dia, a quantidade de pessoas que residiam em Shahbag.

Os poucos anos transcorridos em Shahbag (1924-1928) foram bons e


gratificantes para Bholanath. Seu trabalho o satisfazia, seus chefes tratavam a ambos
com respeito e estavam sempre dispostos a fazer-lhes concessões para que estivessem
cômodos e ele pôde custear os estudos de seus dois sobrinhos, Ashu e Amulia.
Convidava seus parentes e os pais de Sri Ma para estar com eles todo o tempo que
quisessem. Era homem muito familiar, que se sentiu imensamente satisfeito quando Sri
Ma se pôs em contato com todos seus irmãos e irmãs. Depois de muitos anos, todos eles
puderam se reunir em Shahbag. O clímax dessa reunião do clã familiar teve lugar
quando se realizou o Vasanti Puja (Abril de 1926) em Siddhesvari, com considerável
pompa e solenidade, ato para o qual o oficiante de sua família se deslocou de
Vikhampur, enquanto que suas irmãs se encarregaram de cozinhar grandes quantidades
de comida durante aqueles três dias. Foi uma ocasião memorável para muitos deles, por
muitas razões, a parte do magnífico que foi a celebração.

Numa ocasião Bholanath expressou a Sri Ma seu desejo de ter uma casa própria,
na qual pudesse realizar o Vasanti Puja. Este seu sonho se pôde materializar, ao menos
parcialmente, em Siddhesvari. Por sua natureza, Bholanath se sentia atraído pelos ritos e
pujas oferecidos às deidades, especialmente aos distintos aspectos de Devi (a Deusa).
Ele era muito versado em nestes tipos de pujas e suas orações de invocação podiam
chegar a criar um ambiente no qual os devotos conseguiam sentir a presença da
Deidade. Deleitava a todos com sua personalidade forte e extrovertida durante as
grandes celebrações, festividades e no canto em grupo do kirtan. Ainda que sua voz não
fosse muito melodiosa, o compensava com seu sentido de ritmo e pelo entusiasmo que
tinha. Parecia que nunca se cansava de dançar e de infundir ânimo aos demais
participantes.

Não era difícil dar-se conta de que o kirtan e o puja eram seus pontos fortes, que
sempre lhe davam inspiração. Mas outro de seus interesses principais era ir visitar
lugares de peregrinação. É provável que tivesse visitado todos os principais pithasthanas
dedicados a Devi. As pessoas lhe admiravam e sua jovial personalidade foi o elemento
que amalgamou a todas aquelas pessoas numa só família de devotos. Todos se sentiam
acolhidos por ele, sem estabelecer diferenças entre a elite da cidade e as pessoas
humildes dos povoados. Com o tempo, estabeleceu uma profunda relação com Bhaiji e,
tal como já foi mencionado anteriormente, quando se encontravam ambos num novo
entorno,o apresentava como seu filho espiritual (dharma-putra).
155

Os dias de alegres reuniões em Shahbag se acabaram de forma repentina mas,


afortunadamente para todos, a pequena sala de Siddhesvari pôde se converter no lugar
principal de reunião dos devotos, especialmente em ocasião das celebrações do
aniversário de Sri Ma, em 1928. A Bholanath, pediram que fizesse puja em nome de
todos eles, tal como no ano anterior. As pessoas estavam ao redor de Sri Ma, a qual
estava deitada, em profundo samadhi. Se as pessoas de Dacca acreditavam que, com seu
experiente procedimento de adoração, Bholanath era capaz de invocar a presença de
Deus numa imagem de argila, quanto mais edificante e inspirador seria adorar a pessoa
que para todos aqueles corações, constituía a imagem viva de Deus!

Talvez não seja necessário acrescentar nada mais no que se refere à posição que
Bholanath ocupava entre os devotos de Dacca. Ele era a tela através da qual Sri Ma
permitia que todos os que lhe iam ver experimentassem o esplendor de sua radiante
presença. Tal como seu homônimo, o divino Bholanath (Shiva), que subiu aos
Himalaias para receber o primeiro impacto da descida à terra do Rio Celestial (o
Ganges), ele recebeu o primeiro impacto da aura sobrenatural de Sri Ma.

Imediatamente depois das celebrações de aniversário de 1928, Sri Ma e


Bholanath empreenderam de novo suas viagens. Quando suprimiram seu posto de
trabalho, ele não se encontrava em Dacca, mas soube deixar-se levar por entre estas
ondas de mudanças radicais sem que se manifestassem nele efeitos adversos visíveis.
Ainda que Nawabzadi lhe houvesse convidado para ficar em Shahbag, ele se deu conta
de que Sri Ma não tinha este kheyal e por isso partiram. Durante esta época, Sri Ma
viajou a tantos lugares e com tal rapidez que para Bholanath não houve tempo nem para
parar para pensar em sua situação. Muitos anos mais tarde, Sri Ma contou a Didi que o
fato de que tiveram que abandonar Shahbag foi uma das causas de tantas viagens a
lugares distantes e interessantes.

Bholanath havia ficado sem saber o que fazer e sem um lugar que pudesse
considerar próprio, apesar do que, graças à presença de Sri Ma e sobretudo de seu
kheyal, de guiá-lo em seus assuntos, não pareceu custar-lhe muito este período de
transição. Mesmo assim se produziu uma mudança na vida dos devotos, já que passaram
de ser visitantes de Shahbag a ter o privilégio de tomar decisões por Sri Ma e
Bholanath. Assim foi como se estabeleceu um forte vínculo entre todos eles, movidos
por este único desejo de servir a Sri Ma e Bholanath.

Como já se mencionou anteriormente, em resposta ao pedido dos devotos de


Dacca, Bholanath regressou à cidade com Sri Ma mas permaneceu certo tempo
separado, em Siddhesvari. Esses foram os dias mais difíceis de sua vida. Sri Ma esteve
exclusivamente com ele, cuidando-lhe quando esteve doente, guiando-lhe em seu
sadhana e dando-lhe seu apoio para superar aquele estado de confusão, suportando seu
desassossego em silêncio, até que Bholanath conseguiu despojar-se dele e emergir,
sendo de novo dono de si mesmo. Ela também permaneceu a seu lado enquanto
atravessava aquele crucial período de seu sadhana, durante o qual qualquer passo
equivocado poderia ter resultados catastróficos. Pode-se dizer que ele nunca teve
ocasião de arrepender-se.
156

Todos puderam ver que a vida de Bholanath se caracterizou por uma


extraordinária abnegação e um rigoroso ascetismo. Sri Ma era a única que percebia seus
problemas quando estes surgiam, já que ele, por sua parte, jamais os confessou a mais
ninguém. Sri Ma manteve essa privacidade enquanto ele esteve vivo e só comentou
algumas poucas coisas a Didi quando ele morreu, a fim de esclarecer uns poucos fatos
desconcertantes, tal como descrevemos anteriormente.
157

Mahamahodhiaya Pandit Gopinath Kaviraj escreveu uma carta para Didi


expressando-lhe sua opinião sobre Bholanath e seu desejo de que a lesse para Sri Ma.
Oferecemos em seguida uma tradução desta carta que, ainda que não literal, se mantém
fiel ao original:

“Não há dúvida de que o corpo mortal de Sri Ma não tem nada a ver com
nenhum outro corpo humano. Tanto as pessoas normais quanto os deuses são presas de
seus traços de personalidade ou de suas qualidades (ginas). Todo corpo está concebido
em função do carma e, em geral, todos os seres humanos nascem para passar a vida
consumindo seu prarabdha karma. Ou seja, depois de nascer experimentam as
consequências de suas ações anteriores. Dado que estão sujeitas ao “eu” e se identificam
com seu arbítrio, não cessam de realizar novas ações e, portanto, vão acumulando novas
sequências cármicas.”

“Os deuses ou seres humanos que alcançam a perfeição (mahapurusha), que


nascem da compaixão pelo sofrimento da humanidade, são seres no estado de Beatitude
que permanecem na Terra para guiar os seres humanos até o ananda, ou benção
suprema. As pessoas que se movem por este caminho sentem a compaixão como algo
real e podemos dizer que a grandes almas são puras e resplandecem com luz própria ao
serem de natureza sattivica. Geralmente, os seres humanos estão constituídos pelos três
gunas (qualidades): sattva (luz, pureza), rajas (ação, energia) e tamas (obscuridade,
peso). Os Grandes Seres são sattivicos, resplandecentes, de natureza absolutamente
plena de bondade.”

“Em minha opinião, o corpo de Sri Ma transcende todas estas qualidades, razão
pela qual ela está completamente acima de tudo e supera toda compreensão. No entanto,
sob outro ponto de vista, ela compreende a todos os humanos e reage ante cada qual
segundo sua tendência. O que significa tudo isto? Da mesma forma que um cristal
reflete a cor de qualquer coisa que se aproxima sem que, por isso, se veja afetado em
sua pureza prístina, Ma não está limitada por nenhuma predileção. Todos os que se
aproximam dela se dão conta de que ela lhes entende plenamente os sentimentos e
pensamentos e que lhes aporta uma resposta. As pessoas a vêem de distintas formas –
como filha, amiga, ishtadevata ou Deus. Dado que não está limitada por nenhuma
atitude em particular, com ela tudo é possível. Creio que estes são os termos nos quais
se pode estabelecer a diferença entre aquele que é puro e bom e o que transcende toda
qualidade (mais além do bem e do mal).”

“Surge então a questão de por que Bholanath, que viveu com Ma tal intimidade,
não se viu purificado de um punhado de suas inclinações mundanas. Pode-se responder
que, como Sri Ma estava totalmente além do âmbito de toda qualidade moral, não as
permitiu nem as recusou. Tudo o que Bholanath sentia em cada momento era a
manifestação de seus anteriores karma-sanskars (preferências).’

“Mas não basta dizer isto, já que não há dúvida de que Bholanath alcançou um
nível de perfeição em sua vida realmente exemplar!”
158

“Creio que é possível encontrar a resposta a esta pergunta. A diferença entre um


‘estado’ de pura bondade e um ‘estado’ que transcende todas as qualidades é que
naquele a escória foi superada e se consegue viver uma vida plena de bondade, mas não
se erradicou totalmente a escória e, enquanto se retira a potente influência do
mahapurusha (Grande Ser), se pode voltar a ver aquilo que se havia deixado em
suspenso. O Bem ganhou uma partida do mal e isso é tudo. Mas sob a influência da
‘transcendência das qualidades’, todas as preferências são livres para expressarem-se
plenamente e essa exposição é o que as leva a sua total aniquilação. Portanto, esta
pureza sim é permanente e não temporária. O último passo é aquele mediante o qual a
qualidade de sattva (o bem) também se desativa e, então, essa criatura alcança a
liberação. Graças à influência dos Grandes Seres o homem pode alcançar uma vida de
pura bondade, mas a liberação permanece dentro do âmbito de influência daquele que
está além de toda qualidade. Creio que assim é como se pode explicar o mistério do
estado final de ananda de Bholanath. Ele começou sendo um yogui de notável
capacidade e alcançou um estado que constitui o umbral da liberação. Sé estando perto
de Sri Ma se pode produzir semelhante metamorfose.”

“Assim é como eu entendo a posição de Bholanath. Se Sri Ma comentar algo a


respeito lhe peço que me faça saber!”

Sri Ma não fez nenhum comentário, mas a Didi deu a impressão de que estava
de acordo com sua interpretação.
159

CAPITULO 10

A Ordem Em Mutação

“Ainda me falta muito para comentar o tanto que me fez cismar o fato de que,
apesar dos milhões de homens e mulheres de todos os estratos sociais que caíam a seus
pés, jamais pude detectar em Mataji o menor rastro de orgulho nem de humildade. É
provável que exista uma conexão entre este fato e o comentário que eu fiz quando a vi
pela primeira vez, sobre a sensação que ela produzia de haver transcendido o bem e o
mal. Devo confessar que, agora, continuo sendo incapaz de compreender plenamente…
Segundo a doutrina cristã, Cristo é o Filho de Deus mais perfeito – é o Filho – porque
seu amor por Deus e pelos homens foi o mais perfeito. Nem o mar nem a montanha
podem dar fé do Amor Divino, mas o homem, quando é o que deve ser, é uma prova do
Amor de Deus. Isso é o que acontece com Mataji. Conseqüentemente, é uma das figuras
mais importantes da religião, tanto por sua revelação como por seu testemunho.”

Melita Mashmann
160

A Ordem em Mutação

Numa ocasião Sri Ma descreveu sua estadia na Terra como um acontecimento


com cinco aspectos, um panchasamyoga (unidade composta de cinco aspectos). Além
de si mesma, os outros quatro que mencionou foram sua avó (de Kheora), seus pais e
Bholanath. Sua avó já havia morrido antes dela se casar, assim a única âncora com a
qual os devotos podiam contar para que Sri Ma mantivesse seu kheyal de continuar na
Terra era Didimá, sua mãe. Didimá permaneceu entre nós outros trinta anos, período
durante o qual Sri Ma alcançou tal popularidade que quase se converteu numa atração
turística da Índia. Continuou viajando muito, assistindo a atos de diferentes índoles e
falando sem cessar, sem cansar-se, do tema da busca humana de Deus.

Ainda que tanto Didi como Swami Akhandananda haviam ficado com Sri Ma, o
certo é que não foi isso o que aconteceu, mas sim Sri Ma encarregou Didi de cumprir
seu kheyal e a manteve viajando sem cessar, separada dela. Em certa ocasião Sri Ma lhe
disse: “Sei que você só se preocupa com minha comodidade e do que me convém, mas
eu te mando por aí para que você faça um trabalho mais importante. Não se esqueça que
me satisfaz mais ver que alguém se esforça com sinceridade pelo sadhana do que
qualquer serviço que me façam.”

Em Julho de 1939, acompanhada por Ruma Devi e Abhaya, Sri Ma se dirigiu a


Simla, para assistir à celebração anual do nama yajna. Ao não estarem com ela seus
assistentes habituais, ela parecia mais acessível e as pessoas se relacionavam com ela
mais livremente, o que aconteceu em todos os locais que visitou, como Morabad,
Bareilly, Lucknow, Faizabad e Burdwan. No começo de Agosto de 1939 Sri Ma se
mudou para Calcutá, dirigindo-se até a casa de Jyotish Guha. Em lugar de permitir que
Abhaya avisasse os devotos sobre sua chegada, parou diante da porta da casa e cantou
uns poucos versos de um kirtan ao estilo dos que se cantam na rua, diante do que os
devotos daquele lar saíram correndo, transbordando de alegria e entusiasmo.
Acompanhada por este grupo Sri Ma foi a outras casas para anunciar-lhes, exatamente
da mesma maneira, que havia chegado à cidade.

A notícia de sua chegada correu como fogo entre os interessados e, depois de um


tempo, o Burla Mandir, que era o templo onde Sri Ma se alojava, albergava já uma
multidão de homens, mulheres e crianças felizes.
161

Muita gente se aproximou, pedindo-lhe guia espiritual, diante do que ela lhes
disse: “Sou sua filha e vocês nem sequer deram a sua filha bons estudos. Então, que
guia ela lhes poderá dar agora? Não obstante, fica sempre a possibilidade de escutar os
tons que vocês mesmo produzem neste “sininho.” Vocês podem escutar aquelas
palavras que tanto desejam ouvir de mim. Lhes falarei do samyama-vatra, que já repeti
em tantos locais. Uma vez por semana vocês deveriam se propor, de todo coração, a
viver unicamente no âmbito da verdade. Neste dia é conveniente comer frugalmente,
estar muito atento ao que se diz e ao que se faz, para evitar a menor palavra ou conduta
incorreta e controlar as emoções. Devem considerar que seus filhos são manifestações
infantis (Bala-Gopala, o menino Krishna) da Divindade e que seu marido ou mulher não
é só objeto do seu amor, mas também de sua veneração. Deve prestar serviço a todos os
membros da família (incluindo os criados) com espírito de humildade. Inclusive se
surgirem situações de ira ou outras provocações, se deve reagir com calma e evitar sair
apressadamente de seu estado de tranquilidade mental. Apesar das poucas ou muitas
falhas que se produzam ao princípio, deve-se ser perseverante, até que se alcance a meta
do samyama (autocontrole) perfeito, em pensamentos, palavras e ações. Se um membro
da família pratica este voto, então a família inteira sentirá o efeito calmante desse dia
em particular.” Sri Ma fez uma pausa, durante uns instantes, para depois acrescentar,
entre risos: “É possível que algum menino travesso se aproveite de vocês, mas isto
passará. Quando vocês se sentirem seguros, podem aumentar a quantidade de dias. O
objetivo consiste em que isto se converta numa forma de vida e não que se mantenha
como uma ocasião especial. Durante esse dia que escolherem, convém dedicar algum
tempo para ler as escrituras, meditar ou fazer nama-japa. Em resumo, isto os ajudará a
dirigirem-se para dentro, a estar em harmonia com o ritmo de vosso alento vital que vos
conecta com o prana cósmico. Desta forma vocês terão esperanças de alcançar vosso
próprio Ser porque, quem sabe!, em qualquer momento auspicioso, podem ser
apanhados no ritmo universal da Harmonia Perfeita.”

Sri Ma só ficou ali uns poucos dias já que em 19 de Agosto foi para Dacca,
também durante pouco tempo. Dali partiu para Kheora, o povoado onde havia nascido,
quase 43 anos atrás. Externamente, muitas coisas haviam mudado. Sri Ma estava já
definitivamente sozinha. Já não restava ninguém que soubesse, de forma espontânea,
como conduzir seus assuntos. Isso por um lado, mas por outro, ela continuava sendo tão
livre quanto sempre havia sido e sua conduta não havia mudado em nada. Isso foi o que
expressou sua amiga de infância Nirmala Devi, ao exclamar com grande surpresa:
“Vejam! Você não mudou nada!”

De todos os rincões vieram aldeões ao pequeno povoado para dar as boas vindas
à famosa “Ma de Dacca.” Sri Ma foi visitar as casas daqueles que a conheciam desde
criança: Mukunda Chowdhury, Vaikhunta Das, Mohin Das. Ao apresentar a esposa
deste último a seus acompanhantes, Sri Ma comentou: “Esta senhora me ensinava a
bordar…” De Dacca, havia chegado com ela um grande contingente de devotos que se
deslocavam por entre os campos de arroz, numa larga fileira de barcos e que, muitas
vezes buscavam proteger-se do sol da tarde sob as amplas copas das árvores.
Avançando desta forma tão ociosa, chegaram a Vidiakut em 10 de Setembro, lugar onde
transcorreu a maior parte da infância de Sri Ma antes e, particularmente, depois de
casar-se. Sri Ma saldou a todos os aldeões nos termos apropriados do dialeto local e eles
a chamavam de ‘tu.’ Mas depois de um tempo, se sentiram coibidos, por medo de
ofender a multidão de devotos que a acompanhava!
162

Depois de um par de dias produziu-se uma mudança nas pessoas de Vidiakut.


Estavam num dilema porque não se sentiam capazes de manter esse tom de
familiaridade, ainda que Sri Ma não houvesse feito nada para dissuadi-los.
Gradualmente, as pessoas começaram a lhe pedir conselhos em questões espirituais.
Inclusive as pessoas mais velhas lhe pediam que dissesse algo. Sri Ma reagiu
rapidamente a essa mudança de ambiente e lhes falou de samyama-vrata, passou horas
atendendo seus problemas e lhes guiou até novas pautas de conduta no dia a dia.

Em meados de Setembro Sri Ma regressou a Calcutá, vinda de Dacca, para, em


seguida, abandonar completamente esta parte do país e dirigir-se a Solon, de onde subiu
ao estado de Suket, via Baijnath. O Rajá de Suket lhe havia pedido insistentemente que
fosse ao seu estado. Era um desses soberanos que leva no coração a preocupação pelo
bem estar de seu povo e estava convencido de que a presença de Sri Ma santificaria seu
estado e seria imensamente benéfica para seus habitantes.

Os acompanhantes de Sri Ma nunca antes haviam presenciado preparativos tão


exuberantes e recepções tão cerimoniosas como as que contemplaram tão logo cruzaram
a fronteira do estado de Suket, a uns 240 km de Pathankot. O Rajá e sua família se
encantaram tanto por Sri Ma quanto por seu séquito. Haviam decorado seu quarto com
um cuidado, carinho e esplendor dignos do templo da deidade principal do palácio.
Depois de uns poucos dias repletos das sempre prazerosas atividades que
caracterizavam a presença de Sri Ma em qualquer lugar, chegou a hora partir. De
Calcutá, a grande metrópole, até Vidiakut, o povoado da Bengala Oriental e dali a
Suket, um estado independente, próximo à fronteira ocidental da Índia, a “ave que
alçou vôo” tinha toda uma variedade de lugares onde pousar.

No dia da despedida, o Rajá colocou diante de Sri Ma jóias caras, roupas de seda
e muitas oferendas mais, dignas de sua qualidade de rei. Com delicadeza, Sri Ma lhe
disse: “Estas coisas que você me ofereceu como regalo agora são minhas. Então, posso
dá-las livremente para as pessoas que eu queira, não? As entregarei para pessoas que as
mereçam e que cuidarão delas em meu nome…” Dessa forma, começou a distribuir os
presentes entre o séquito, composto principalmente pelos familiares do Rajá e
importantes membros da corte, mas não fez distinções entre esse grupo de importantes
personagens e o grupo de criados que estava de pé, num canto. Aquela coleção de caros
adornos, moeda de ouro e prata, brocados, sedas, etc, esfumaçou-se em poucos
instantes. Com seu extraordinário nível de devoção, o Rajá de Suket aceitou
humildemente, como em todas as demais ocasiões, o kheyal que Sri Ma lhe havia
expressado a respeito de seus regalos provincianos. Ficou apenas um par de argolas de
prata, porque Didi considerou que devia guardar para Sri Ma pelo menos uma pequena
recordação.

Sri Ma se dirigiu para Baijnath, para assistir a cerimônia de inauguração de um


novo templo, construído pelo Swami Tarananda. Sri Ma já havia estado em Bajnath, em
suas viagens com Bhaiji, e muitas mulheres deste povoado que a haviam visto então
conheceram agora a seus outros acompanhantes. Sri Ma passou um dia em Amritsar e
visitou o Templo Dourado.
163

No caminho para Almora, também se deteve em Bareilly, lugar onde foi


conhecida entre um setor da sociedade no qual a mulher era a que tinha o papel
principal. Naquela época Maharatonjí residia em Bareilly e suas amigas, Sra. Dikshit,
Sra. Ambá Prasad, Sra. Beharilal. Sra. Dwarka Prasad, etc, eram todas mulheres cultas,
envolvidas em projetos sociais de diferentes ordens, que tinham sua própria forma
especial de celebrar a presença de Sri Ma entre elas. Por outro lado, as aldeãs de
Almora, mulheres sem instrução, também haviam formado seu próprio grupo e se
chamavam a si mesmas as “sahelis” (amigas) de Sri Ma. Com o tempo, seu peculiar
canto do Arati se popularizou entre os devotos de toda a Índia e elas eram conhecidas
como as ashta-shakhis (as oito amigas). Para Sri Ma era fácil comunicar-se com todos
os estratos da sociedade indiana porque todos a aceitavam como se fosse uma delas.

Em 4 de Novembro de 1939 Sri Ma desceu até Vindiachal. Havia começado a


Guerra Mundial e, ainda que a Índia não participasse diretamente, o impacto se fez
sentir de muitas maneiras. As roupas e alimentos foram racionados e foi decretado o
escurecimento das grandes cidades. A luta pela independência foi tomando mais força.
De fato, os líderes indianos declararam que uma Índia independente se uniria aos
Aliados e que o governo britânico não tinha, moralmente, o direito de deslocar tropas
indianas em distintos fronts sem o consentimento de um governo indiano. Mas,
certamente, o gabinete de guerra omitiu ditas declarações e se comentou que Winston
Churchill havia dito que não seria ele “quem ordenaria o desmembramento do império.”

Sri Ma permaneceu em Vindiachal quase um mês, período durante o qual é


muito provável que Swami Paramananda tivesse chegado ao ashram.

Swami Paramananda

Enquanto Bhaiji jazia enfermo em Almora, Sri Ma disse que havia “visto” o
rosto de um jovem sadhu e sabia que o conheceria num futuro próximo. Mais adiante,
quando ela se encontrava em Dehra Dun, um dia Bholanath se encontrou com um jovem
sadhu, o qual já havia conhecido em Uttarkashi, ao sair do ashram de Sri Ramakrishna.
Começaram a conversar e, ao entrar no ashram de Sri Anandamayi, ela o reconheceu
como a pessoa de sua visão. Ele se chamava Paramananda e Sri Ma lhe disse: “Quando
quiser, pode voltar a vir me ver.” Mais adiante, ela comentou aos demais: “Um se foi
(Bhaiji) e outro chegou!”

Mas Paramananda ainda não estava pronto para assentar-se em nenhum lugar e
partiu para Uttarkashi,onde se encontrou outra vez com Sri Ma. No fim de 1939 se
apresentou em Vindiachal, buscando-a e ali ficou, chegando a converter-se,
gradualmente, num membro essencial do ashram. Inclusive hoje em dia se recorda ainda
sua fenomenal capacidade de organização e existe grande quantidade de relatos sobre
tudo o que se conseguiu fazer, nas condições mais adversas. Sri Ma chegou a confiar de
tal forma em suas decisões que, para as pessoas, se converteu em algo comum sua tão
repetida resposta: “Pergunte ao Paramananda.”
164

Quando tinha 12 anos Paramananda saiu de casa e andou errante por toda
cordilheira do Himalaia. Numa ocasião, se perdeu completamente e pode chegar a um
povoado graças à sorte que teve de encontrar-se com um rebanho de ovelhas.
Permaneceu muitos anos em Uttarkashi estudando as escrituras com os ascetas cultos
que conheceu ali e em particular com Sri Debiguiriji Maharaj. Hoje em dia todos os
devotos recordam sua gentileza, sua inquebrantável devoção à Sri Ma, sua disposição
em ajudar aos que necessitavam, sua generosidade, assim como sua indubitável
capacidade de conseguir algo a partir de nada!

Em Dezembro Sri Ma começou a viajar de novo e, nesta ocasião, ficou em


Calcutá durante as festas de Natal. Fisicamente, mostrava sintomas de mal estado de
saúde, o que preocupava os devotos. Pediram-lhe que se deixasse tratar por médicos de
renome. Ela aceitou, comentando com um sorriso: “Vou ter o darshan de muitos pitajis
médicos e de Kaviraj Pitaji!”

No entanto, nem os doutores orientais nem os ocidentais demonstraram ser de


grande ajuda com os tratamentos que indicavam para Sri Ma. O Kaviraj que tentou
estudar-lhe o pulso desistiu, depois de um tempo, dizendo que jamais havia encontrado
ninguém que tivesse um pulso que se acelerasse durante um minuto e que, no minuto
seguinte, diminuía até parar. Deixando-o ainda mais perplexo, Sri Ma lhe estirou de
novo o braço e lhe disse: “Agora você verá que o pulso está bem normal.” O Dr.
Devendra também ficou desconcertado diante da imprevisível aparição e
desaparecimento de uns poucos sintomas clínicos. Depois de uns poucos dias desta
ansiosa atividade Sri Ma falou pessoalmente para os médicos: “O que acontece é que
este corpo não é regido pelas regras normais da boa ou má saúde. Às vezes acontece que
sua atividade se faz lenta devido a uma falta de kheyal e, nestes momentos, a ingestão
de alimentos atua como um impedimento. Por isto vocês encontram sintomas de
‘problemas hepáticos’ ou ‘gástricos.’ Mas a razão pela qual ditos ‘sintomas’
desaparecem de repente é porque o corpo, quando chega o momento, volta ao seu ritmo
normal. Este corpo não padece de enfermidades que se possam “diagnosticar” nem
“curar” mediante métodos comuns.”

Como os médicos já se haviam dado conta disto, reconheceram, com humildade,


o correto que era a explicação de Sri Ma, a qual, em tom jocoso, acrescentou: “Pois
agora vocês criaram outro problema! As pessoas viram que vários médicos foram
consultados e todos vão pensar que Ma sofre de uma enfermidade terrível, que seus
assistentes estão tentando ocultar!”

Depois desta estadia mais ou menos prolongada em Calcutá, Sri Ma se dirigiu a


Puri e Bhubaneswar, em companhia de Paramananda, Rumi Devi, Joguesh Rai,
Keshavbhai (um jovem parsi de Tatanagar) e Abhaya. Em meados de Março de 1940
ela se deslocou a Delhi, passando por Vindiachal e passou os meses seguintes
percorrendo esta parte do país: Dehra Dun, Haridwar, Vrindavan, Mathura, Solon, etc.
Hospedava-se com frequência em Dunga, na casa de campo de Chawduky Sher Singh.
Foi também até Julundhar, diante do insistente convite de Sardar Sadhu Singh, um
devoto do Punjab. Passou também um tempo em Dehra Dun, para assistir as
festividades do Durga Puja. Ainda que ditas celebrações sejam principalmente bengalis,
devido à presença de Sri Ma participaram também pessoas de vários outros locais.
165

No fim de 1940 Sri Ma viajou até o Gujarat, onde tampouco deixou de deslocar-
se. Chandod, Rajpila, Omkareshwar, além de Ujjain, Baroda e Ahmedabad, lugares
onde já era bem conhecida. Em todas as partes as pessoas a acolhiam com carinho.
Regressou a Dehra Dun em algum instante de Março de 1941 e, durante o verão, se
alojou em algum dos três ashrams: Kishenpur, Rajpur e Dunga. Muitos dos que iam vê-
la aproveitavam as férias de verão para passar alguns dias com Sri Ma e ela, para
satisfazer a toda a multidão, não viajou para longe neste período.

Naqueles anos, muitos estudantes iam passar um tempo com Sri Ma, junto com
seus pais, o que já era possível porque se dispunha de muito mais alojamentos. Para
muitos, estava começando uma nova forma de vida. Sri Ma se encarregava
pessoalmente de supervisionar muitas coisas para que os estudantes estivessem melhor
acomodados. Desde o princípio se estabeleceu uma regra estrita de separação entre
meninos e meninas, já que ela, pessoalmente, se assegurou de que não pudessem surgir
rumores adversos de que eles se misturavam livremente nos ashrams. Certa vez, disse
para os jovens: “Para mim dá no mesmo se me criticam, mas vocês gostariam de ouvir,
por toda parte, comentários de que os ashrams de Sri Ma são locais onde os jovens se
misturam livremente, sem seguir as regra de boa conduta que estão estabelecidas nos
locais prudentes?” Assim, todos os recém chegados aprenderam a ser circunspectos e
consciente da possibilidade de serem criticados. Algumas vezes, Sri Ma se viu obrigada
a adotar o papel de supervisora de uma grande família, sem perder de vista nenhum de
seus componentes.

Ainda que estivesse atendendo as multidões ou a dignitários especiais, as jovens


que estavam sob a tutela do ashram sempre tinham a sensação de ser o foco da atenção
de Sri Ma, quando os demais não velavam por elas. Por exemplo, certa vez Sri Ma foi a
Bahramour, em resposta a um convite de seus devotos, os quais haviam preparado a
celebração do Durga Puja em dita cidade. Sri Ma e seus acompanhantes, entre os quais
se encontravam Buni e Renu, duas jovens, viajaram num barco a vapor até Bahrampur
e, ao aproximar-se do cais, milhares de pessoas cantando kirtans foram caminhando
com os pés na água para dar as boas vindas à Sri Ma, sobre a plataforma que haviam
levantado com esta finalidade. Ficaram rodeados por um mar de homens. Renu e Buni,
que ficaram para trás, perderam Sri Ma de vista e não sabiam aonde ir. De repente, a
encontraram adiante, porque ela havia aberto caminho por entre a multidão fervorosa,
para chegar onde estavam e as levou, uma em cada mão, e não as soltou até que
chegassem a um espaço onde pudessem entrar no carro para chegar à cidade.

Às vezes Sri Ma explicava seu rigor dizendo que, dado que os pais lhe
confiavam suas filhas, seu kheyal sempre se focava nelas. Sua inquebrantável
insistência em manter uma conduta pura foi a razão exclusiva de que os jovens de seu
entorno se mantivessem arraigadas em sua própria tradição de bom comportamento. Os
tempos modernos são mais permissivos e também está na moda viver num ashram mas,
de sua parte, Sri Ma se atava às regras dos bons modos e inspirava facilmente nos
jovens o desejo de seguir o caminho da castidade e do desapego. Sua singularidade se
baseava em criar um ambiente de união, no qual meninos e meninas pudessem trabalhar
em equipe em todas as áreas sem, por isso, sobrepassar as barreiras de uma sociedade
estritamente ortodoxa.
166

Durante a década dos quarenta, a Grande Guerra também se aproximou da


Inglaterra. Um dia um dos visitantes perguntou a Sri Ma: “Quem ganhará a guerra? Terá
más consequências para a Índia?” Sri Ma soltou uma de suas vivas gargalhadas e, com
uma expressão no rosto que não era totalmente deste mundo, disse: “Por acaso há uma
guerra? Como pode haver guerra se não há “inimigo”? Existe mais do que Um para que
dois possam competir? A guerra da qual falam é como dar uma palmada com as mãos,
assim, como se pode falar de uma derrota ou uma vitória? Não existe nada mais do que
Ele. O que você está vendo não é mais o que Sua Vontade representada desta forma.
Pitaji, do que você se preocupa? Tente aceitar que qualquer coisa que acontece é uma
manifestação da Divindade.”

Estas palavras de Sri Ma eram dirigidas a uma pessoa que era capaz de
compreender as profundas idéias que continham. Não é que tivesse trivializando sobre a
gravidade da situação bélica. Segundo Birendra Chandra, um eminente devoto, muitos
dos inexplicáveis sofrimentos de Sri Ma eram reflexos das agonias que se padeciam em
outras partes do mundo.

Em 1941, seu aniversário se celebrou em Raipur e, tal como nas ocasiões


anteriores, foi Manmotho Nath Chaterji o encarregado de realizar a Tithi-Puja, já que
Bholanath, durante seu último ano de vida, lhe encarregou pessoalmente desse trabalho.

Poucos dias antes do Thiti-Puja, Sri Ma se encontrava em Kishenpur e, tarde da


noite, seu corpo experimentou uma mudança. Neste momento só Abhaya estava
presente, o qual, ao ver que Sri Ma adotava posturas yóguicas, foi correndo buscar a
Prajnananda Brahmachari, que naqueles dias se alojava no ashram. Didi também se
aproximou. Todo o corpo de Sri Ma parecia estar ativado por um ritmo espontâneo, ao
compasso do qual seus membros iam se colocando em bonitas posturas. As mãos
faziam muitos mudras maravilhosos de serem contemplados. Como acompanhamento a
estes asanas yóguicos, ia pronunciando diferentes mantras em tom de voz claro e suave.
Tinha a face resplandecente e na sala se criou uma atmosfera exaltada, enquanto aquelas
três pessoas observavam tudo aquilo em respeitoso silêncio.

Depois de um tempo Sri Ma ficou quieta e disse em voz baixa: “Pedi a Abhaya
que fosse para a cama. Não só não me obedeceu como ainda foi acordar Pitaji.”
Prajnananda negou que aquilo fosse um incômodo para ele e sim que, pelo contrário, se
considerava afortunado de haver sido privilegiado de ter semelhante oportunidade e
disse: “Tive a boa sorte de presenciar uma vez um fenômeno similar na residência de
Kunja Mohan Babu, em Varanasi. Naquela ocasião o corpo de Sri Ma jazia em samadhi.
As kryias desta vez me parecem especialmente notáveis, porque o aspecto de Sri Ma era
bem normal. É indispensável para nossa fé ter a oportunidade de poder observar com
nossos próprios olhos o que é mencionado nas Escrituras!”

Sri Ma disse: “Estas kriyas também são normais. Da mesma forma que falo, rio
e caminho, estas posturas, que a vocês parecem tão extraordinárias, são também
normais… Estas kriyas acontecem por si mesmas. Eu sigo sendo quem sou.”
167

Na década de quarenta surgiram praticamente todos os sanniasis e brahmacharis


que hoje em dia ocupam cargos importantes no ashram: Swami Swarupananda,
Prakashananda, Bhaskarananda, Nirvananda, Shivananda. Nirmalananda estava
estudando em Vidiakut. Panu Brahmachari, Chinmayananda e Swarup Bhai chegaram a
Vidiapith para serem os tutores dos meninos. As meninas mais velhas de todas, que
passaram a fazer parte do séquito de Sri Ma também apareceram nestes anos: Savitri
Mitra em 1942, Buni (Juthika Guha) que já estava viajando com Sri Ma, enquanto que
Udajji, Renu Mukherji e Biloji (Swarnalta Jaspal) se incorporaram um pouco mais
tarde. Muitas mais chegariam depois. O sonho de Didi de fundar um local em que
pudessem conviver as jovens, inclusive as de família de classe alta, num ambiente de
confiança e comodidade, estava se cumprindo não só perto de Sri Ma mas também na
forma de instituição, já que em 1941 tanto Vidiapith quanto Kaniapith se estabeleceram
em Kishenpur e Haridwar, respectivamente.

Vidiapith e Kaniapith

Depois da morte de Bhaiji em Almora, em 1937, seus admiradores estavam


ansiosos por colocar em prática os elevados ideais que este havia imaginado. Em seus
últimos anos de vida, havia falado longo tempo com Hari Ram sobre criar uma escola
especial para meninos, seguindo as pautas do antigo sistema Gurukul, mas incluindo
disciplinas modernas. Quando Hari Ram mencionou este tema na presença de Sri Ma,
esta lhe disse:

- “Se você tem o desejo de empreender uma obra de tal calibre, não há dúvida de
que é livre para realizá-lo. Eu não tenho nada para dizer a este respeito. Como você
sabe, não tenho o kheyal para empreendimentos deste tipo. Jyotish, como você já sabe,
tinha a idéia de estabelecer uma escola exemplar, na qual se pudesse combinar o
ensinamento dos fundamentos da tradição junto com a instrução de todas as disciplinas
modernas. O que eu digo é que vale a pena qualquer obra que se inicie como uma
questão de responsabilidade e serviço. Saliento isso porque agora todos vocês tem muita
gana de fazer esta obra benevolente e meritória. Todas as empresas boas e
desinteressadas, de qualquer lugar do mundo, são um serviço ao Único. Todos vocês
estão envolvidos no trabalho para vocês mesmos, pelo que é de se desejar que se
envolvam também em alguma obra altruísta que os tirem dos estreitos limites do
egocentrismo. No entanto, devemos ter sempre em conta que a única coisa pela qual se
deve manter um esforço permanente é por alcançar a Verdade. O homem não pode
permanecer inativo e não lhe é possível passar a 24 horas o dia em meditação e fazendo
japa. Portanto, tem que iniciar obras que constituam uma ajuda e uma motivação até dita
meta. O servir a humanidade, os estudos e o envolver-se em boas ações são atividades
necessárias para purificar a mente de quem se dedica ao sadhana. Só valem a pena
aqueles empreendimentos que ajudem a alcançar a Deus. Desta mesma forma, temos
que rechaçar tudo aquilo que constitua uma distração. Se necessita discernimento.
Qualquer ação que se empreenda deve ter como finalidade incrementar e expandir a
capacidade de pensar em Deus.”
168

Interpretando estas palavras como uma aprovação do plano por parte de Sri Ma,
Hari Ram, com a ajuda de uns poucos amigos íntimos de Bhaiji, estabeleceu os
fundamentos de uma instituição para meninos que reunissem os requisitos necessários e
que se acabou chamando Vidiapith, contando durante muitos anos com Yoguibhai (Rajá
Sahab, de Solon) como um dos principais colaboradores. Por sua parte, o Kaniapith se
manteve como obra benéfica seguindo a mesma linha de Vidiapith.

Jamna Lal Bajaj

Seth Jamnalal Bajaj, a mão direita de Mahatma Gandhi, chegou a Dehra Dun em
Agosto de 1941, para fazer uma visita ao cárcere de Jawaharlal Nehru, assim como para
ver Indira Nehru, em Missoure. Quando cumpriu com suas obrigações, foi conhecer Sri
Ma. Em seu primeiro encontro, foi como se Bajaj houvesse chegado ao fim de uma
viagem. Estava já há vários anos sob o julgo de suas atividades políticas e, ao vê-lo tão
inquieto, Mahatma Gandhi lhe pediu que fosse conhecer Sri Ma Anandamayi, a “Gurú”
de Kamla Nehru. Como Bajaj se sentisse incapaz de separar-se de Sri Ma, enviou um
telegrama para Wardha solicitando a permissão de Gandhi para ficar em Dehra Dun.
Sua total dedicação a Sri Ma, assim como sua adoção das pessoas que a acompanhavam,
tocou o coração dos membros do ashram. Estabeleceu-se uma profunda conexão entre
eles e, em resposta a seu desejo de ser aceito como parte do grupo, lhe puseram o nome
de Bhaiji (respeitado irmão).

Um dia, enquanto estava conversando com Sri Ma, começou esta frase: “Quando
estive na prisão…” Sri Ma o interrompeu: “Você ainda está na prisão! Ou você acredita
que alcançou a liberdade?” Ao que acrescentou, em tom mais sério: “Há que se esforçar
para alcançar a autêntica liberdade. Todos os dias temos que reservar um pouco de
tempo, só um pouco de tempo, para recordar a Deus. Se consideramos que as atividades
que fazemos são Sua obra e que Ele as está realizando à Sua maneira, então poderemos
evitar os nós da escravidão. Se não, a ação não pode conduzir á liberdade.”

Muitas coisas de Jamna Lal Bajaj recordavam a Bhaiji. Sua absoluta entrega ao
kheyal de Sri Ma era exemplar. Estava disposto a abandonar sua vida dedicada a servir a
seu país e seu povo e queria mandar um telegrama a Ghandi para avisá-lo mas Sri Ma o
convenceu a não o fazer. “Você deve regressar a Wardha e ocupar-se das suas
responsabilidades. Ninguém sabe quanto tempo lhe será permitido viver neste mundo.
Pode ser que sejam seis meses, pode ser que sejam seis anos. O futuro sempre é incerto
e o melhor é não planejar nada com demasiada antecedência.”

Evidentemente, Bajaj entendeu que o que Sri Ma queria dizer era que não lhe
restavam muitos anos de vida. Ao voltar a Wardha, foi para Gopuri, onde viveu só,
numa pequena cabana de adobe, praticando seu sadhana no seu tempo livre. Ardia de
desejo que Sri Ma fosse a Wardha para conhecer Gandhi. Ainda que a houvesse
convidado insistentemente e dito convite houvesse sido respaldado pessoalmente por
Gandhi, Sri Ma não tinha o kheyal de ir e continuava viajando por toda a Índia.
169

No começo de 1942 Sri Ma aceitou viajar a Pundri, um povoado vizinho a


cidade de Mainpuri. Darshi, a filha de Chowdhuri Sher Singh e Nauratam Singh, seu
genro, prepararam a recepção com todos os detalhes. O propósito da visita era consagrar
um templo que se acabara de construir no povoado. Foram pegar Sri Ma e seu grupo em
Etawah, a estação de trens mais próxima. Saíram em dois carros para andar uma
distância de 60 km mas, depois de mais ou menos uma hora, o carro de Sri Ma parou e,
depois de estudar o que passava, o condutor ficou estupefato ao descobrir que o tanque
de gasolina estava vazio. O outro carro, onde viajava Paramananda, havia seguido seu
caminho e o haviam perdido de vista. Além disso, aquela estrada de povoado não era
muito frequentada, pelo que não havia esperanças de se obter ajuda imediata. Sri Ma
desceu do carro e comentou alegremente a Didi e Abhaya, seus dois acompanhantes:
“Não se preocupem. O que aconteceu é para o bem. Vamos caminhar. É certo que
vamos chegar a um povoado onde poderemos pedir comida e hospedagem, se
necessário.”

O motorista abandonou o carro e saiu com Sri Ma, na esperança de que alguém
lhe emprestasse uma bicicleta para poder adiantar-se até Pundri e informar aos demais o
que havia acontecido. Depois de um quilometro e meio, mais ou menos, chegaram ao
povoado de Kimini, onde um amável brâmane lhes deu abrigo. Mas não havia bicicleta!
Ficaram então descansando debaixo de uma árvore, na beira da estrada. Em pouco
tempo apareceu Navratan Singh em outro carro, que vinha recolhê-los, cheio de
vergonha pelo fato de Sri Ma haver tido que suportar tais incômodos. No entanto, ela
diminuiu a importância do acontecido e, ao chegar ao povoado, tudo voltou a ser alegria
e regozijo.

Ao cair da tarde Sri Ma estava sentada, rodeada por um grupo de pessoas, uma
das quais lhe perguntou: “Mataji, você é uma hindu ortodoxa ou uma ariasamaji
[movimento reformista de 1875, que preconizava um retorno ao Veda original e que não
aceitava o culto de imagens]?”

- “O que você acredita que eu seja?”

- “Se você aceita a instalação de deidades num templo, então eu não deveria te
considerar uma hindu ortodoxa?”

- “O que você disser, Pitaji, e também o que qualquer outra pessoa disser, isto é
o que sou.”

- “Mataji, há tantos credos que é esmagador quando alguém começa a predicar


sua própria fé e menosprezar as demais.”

- “Criticar o sistema de oração de outra pessoa está fora de lugar e não nos traz
nenhum benefício. Imagine que um homem vá peregrinando. Se passar a viagem
discutindo sobre o valor do que está fazendo, o resultado inevitável será que demorará
muito em alcançar sua própria meta. O melhor é ir avançando com perseverança numa
direção.”
170

Depois de passar duas semanas em Pundri, Sri Ma partiu. No momento da


despedida, os aldeões, contemplando-a com o grande amor e respeito que haviam
sentido durante sua curta estadia entre eles, rodearam seu carro com as mãos juntas e
lágrimas nos olhos. Sri Ma se despediu deles e chegou a Lucknow no começo de
Fevereiro de 1942, coincidindo com a presença do Dr. Pannalal, o qual, junto com Sital
Prasad, Hari Ram Joshi, Ashu Babu e outros, esperavam que ela ficasse ali uma boa
temporada. Em 19 de Fevereiro Sri Ma expressou seu kheyal de partir naquele mesmo
dia. Ao solicitar informações a respeito, descobriram que o último trem que saía de
Lucknow era o expresso para Jhansi. Já na estação, e dado que Sri Ma não se
pronunciava sobre onde dirigir-se, Hari Ram comprou bilhetes para Kampur e, enquanto
estavam esperando a partida do trem, tiveram a surpresa de encontrar a Kamalnayan,
filho de Jamnalal Bajaj, do qual receberam a impactante notícia da morte de seu pai
naquela mesma tarde, em Wardha. Para Kamalnayan foi algo providencial que Sri Ma
viajasse a Jhansi no mesmo trem (era o que ele pensava) e lhe pediu que a
acompanhasse até Wardha para poder cumprir com a última vontade de seu pai. No
entanto, Sri Ma o convenceu delicadamente que desistisse de insistir em que ela fizesse
essa visita naquele momento. Várias pessoas, entre elas Didi e Abhaya, haviam
estabelecido um forte laço de união com Bajaj, e Hari Ram era seu amigo. Todos
sentiram muito ao saberem do falecimento e ficaram bastante sentidos pela atitude
distante de Sri Ma, a qual, mais tarde, disse a esse respeito: “Por que vocês se
entristecem tanto com o acontecido? Para mim ele não se foi, em absoluto, e assim não
sinto razão para ter dó.” Mas Hari Ram e Didi eram incapazes de compartilhar essa
equanimidade e continuaram lamentando que Sri Ma não houvesse ido a Wardha
enquanto Bajaj estava vivo. Fazia exatamente seis meses que ela o havia conhecido, em
Dehra Dun.

Sri Ma se dirigiu a Jhansi e, depois de uma semana, deu seu consentimento para
continuar até Wardha, onde foi recebida por Kamalnavan, o qual a levou a Gopuri, para
satisfazer seu desejo. Nesse local, foi recebida por Janaki Bem, a viúva, a qual, com os
olhos cheios de lágrimas, não parava de repetir, desconsolada, a quantidade de vezes
que seu marido havia desejado que Sri Ma fosse visitá-los e lhe disse: “Se houvesse
vindo aqui uma semana antes, meu marido não teria podido recebê-la!” Desta forma tão
inimitável, Sri Ma aliviou a dor da família pela morte do pai, dizendo-lhes: “Venho
visitá-los agora. Agora é o momento apropriado para minha visita. Qualquer coisa que
aconteça é o melhor. Se puderem manter esta idéia em suas vidas então não terão
ocasião de se afligir.”

Sri Ma passou muitas horas falando de Bajaj com Janak Bem, Kamalnayan e
seus amigos. “A morte não é mais do que outro estado de existência. Não se angustiem
pensando que ele os deixou para sempre. Se não deixarem de se lamentar ele não poderá
subir a um nível mais elevado. É o dever de toda a família ajudá-lo em sua viagem
fazendo o que ele haveria dito que fizessem se estivesse vivo.” Janak Bem lhe disse:
“Ma, eu compreendo o que diz, mas é difícil separar esta dor no coração” ao que Sri Ma
respondeu: “É natural estar aflito. Não pense que eu não entendo o difícil que é conter a
aflição.”
171

Ainda que a morte seja algo inevitável, a presença de Sri Ma em Gopuri ajudou
a superar grande parte do trauma causado por essa perda tão repentina. Como Bajaj
havia se entregado tão completamente a Sri Ma, ela assumiu a responsabilidade de
ajudar a seus seres queridos a sair desse pesar que os tinha paralisado. Deste ponto de
vista, inclusive ele talvez tivesse preferido que Sri Ma não fosse a Wardha até esse
momento, em lugar de vir quando ele estava vivo. Janaki Bem contou a Sri Ma que seu
marido passou os últimos dias de sua vida feliz e que havia mudado consideravelmente
desde que a havia conhecido. Passava muito tempo sozinho e cumpria com suas
obrigações com espírito desapegado. Contudo, parecia estar em paz consigo mesmo.

Sri Ma Conhece Mahatma Gandhi

Naqueles dias Mahatma Gandhi estava em Calcutá, onde havia ido reunir-se
com Chiang-Kai-Shek e voltou para Wardha em 18 de Fevereiro de 1942. Haviam
convocado uma reunião para o dia 19 em Sevagram, com a finalidade de delegar a
grande quantidade de responsabilidades das quais Bajaj se havia encarregado sozinho
até então. Gandhiji enviou um mensageiro até Sri Ma para convidá-la especialmente
para assistir a dita reunião, mas como não tinha o kheyal de ir a Sevagram, Janaki Bem
e outras pessoas foram até lá sem ela. Enquanto isso Sri Ma pediu a Didi e Hari Ram
que preparassem tudo para sair de Wardha evitando, se fosse possível, fazer muito
alvoroço.

De volta de Sevagram, Janaki Bem e Kamalnayan ficaram pasmos ao saber que


Sri Ma iria partir tão rápido e disseram que haviam assegurado a Gandhiji que Sri Ma
ficaria uns poucos dias porque, se não ele haveria regressado com eles, apesar de estar
muito cansado, depois de uma viagem tão longa. Sri Ma sorriu e disse que estava
sempre com Pitaji (Gandhi) e que era indiferente não ter um encontro em particular.
Mas, afortunadamente para Kamalnayan, que estava a ponto de ir buscar a Gandhiji,
porque sabia que era isso que ele queria que fizesse, chegou a informação de que,
devido aos movimentos de tropas, todos os serviços de trem daquela noite, para civis,
estavam suspensos e Sri Ma não poderia sair até a manhã seguinte.

De tarde, Sri Ma foi visitada pelo Acharia Vinoba Bhane (considerado o


sucessor espiritual de Gandhi) e pelo Dr. Rajendra Prasad (eleito quatro vezes
presidente do Partido do Congresso e depois presidente da Índia independente, de 1950
até sua morte) e alguns outros, os quais deram a entender que Mahatma Gandhi viria
conhecê-la depois da reunião de oração daquela noite.
172

Pouco depois, Sri Ma saiu de casa para ir a Sevagram. Essa mudança de seu
kheyal fez Karmalnayan transbordar de alegria. Quando chegaram a Sevagram,
Gandhiji estava sentado em seu quarto, rodeado por muita gente. Quando Sri Ma subiu
os degraus da cabana, ele estendeu os braços em sinal de boas vindas, como se faz com
uma menina pequena. Sri Ma reagiu adequadamente, indo até onde ele estava, sentando-
se ao seu lado. Ele foi o primeiro a falar: “Sabe quem foi o primeiro a enviar Jamnalal
para o seu lado? Fui eu. Ele me disse, com toda franqueza, que havia encontrado, com
você, toda a paz interior que eu havia sido incapaz de lhe dar durante os trinta anos de
nossa relação.” Gandhi prosseguiu falando: “Foi Kamla Nehru que me falou de você.”
Dirigindo-se a todos os demais falou: “Kamla considerava Mataji como seu Gurú.”

Então Sri Ma disse: “Pitaji, eu não sou Gurú de ninguém. Como posso sê-lo se
sou só uma menina!” Gandhiji aceitou seu comentário com grande alegria e lhe disse:
“Sim, sim, és minha filha pequena. Equivoquei-me chamando-a Mataji.” Gandhiji
parecia estar muito contente com Sri Ma e lhe disse: “Disseram-me que você pretende
partir amanhã de manhã, mas isto não pode ser. Você deve ficar uns poucos dias mais.”
Seu evidente tom de confiança revelava que Gandhiji não temia que sua “filha” lhe
desobedecesse. No entanto, Sri Ma lhe respondeu: “Pitaji, você deve saber que esta
menina está um pouco louca e que nem sempre pode fazer caso das palavras dos mais
velhos. E, ademais, porque não? A filha herdou a natureza de seu pai neste aspecto.”

Todos os presentes deram uma boa gargalhada, mas Gandhi tentou de novo,
dizendo-lhe: “Se você não faz caso de meu desejo, todos vão rir de mim e vão dizer:
‘como vai ser capaz de influenciar a Chian-Kai-Shek?’ Que ridículo eu iria fazer!” Sri
Ma riu e disse: “Como se Pitaji se importasse com o que as pessoas dizem! Além disso,
que há de mal em que as pessoas se divirtam um pouco à custa de Pitaji?”

Todos, incluindo Mahatmaji, compreenderam claramente que Sri Ma não tinha o


kheyal de mudar seu programa, diante do que ele então lhe perguntou se tudo estava
preparado para que levassem a ela e seus companheiros até a estação na manhã
seguinte. Sri Ma e Janaki Bem passaram a noite na cabana de Gandhiji. Já de noite, de
repente, Sri Ma se dirigiu a cinco ou seis pessoas que atendiam a Gandhiji, cumprindo
distintas funções e lhes perguntou: “O que vocês fariam se eu levasse Mahatmaji para
longe de vocês?” Todos responderam sem titubear: “Nós iríamos com ele!” Sri Ma
sorriu mas não pareceu prestar atenção a esta resposta e então se dirigiu em voz baixa
diretamente a ele: “Te recolherei no momento adequado. Que te parece, Pitaji?” Foi
evidente que ele sim compreendeu a mensagem implícita em sua frase, porque
respondeu afirmativamente no mesmo tom de voz, tranquilo e sério. Didi e Hari Ram,
que estavam presentes, trocaram um olhar de angústia. Seria possível que Gandhiji não
tivesse muito tempo para estar com eles?

Na manhã seguinte Sri Ma partiu de Wardha. No momento de partir, ela lhe


disse: “Sei que Pitaji não vai se sentir incomodado que esta menina lhe desobedeça.”

- “Como se lhe importasse não comprazer-me!”

- “Pitaji, se me vem o kheyal, você me terá na porta de sua cabana sem aviso
prévio e sem ser convidada.”
173

- “Sim, os ladrões e salteadores entram em silêncio e às escondidas, sem que os


donos da casa percebam.”

- “Que bom! Pitaji me chamou de ladra! Pois eu vou roubar tudo que você tem,
você quer?”

Gandhiji, com um sorriso, concordou com a cabeça e murmurou: “Semelhante


roubo é uma sorte excepcional.”

Na estação de Wardha Sri Ma voltou ao tema da noite anterior e disse a Janaki


Bem: “Diga a Mahatmaji que esteja preparado porque, depois de tudo, está se
aproximando o momento de regressar para casa.”

Hari Ram recordou que Bajaj havia desejado intensamente que Gandhiji
conhecesse bem a Sri Ma. Todas as esperanças de toda a nação de alcançar a liberdade
estavam nas mãos de Gandhi e o desejável era que ele tivesse as bênçãos de Sri Ma para
tamanha tarefa. Hari Ram também sabia que Bhaiji tinha esperanças de que este
encontro se produzisse mas nem sequer os melhores devotos haviam conseguido vencer
a impenetrabilidade do kheyal de Sri Ma. Da mesma forma que, anos atrás, em Bajitpur,
Janaki Sen e Nishikanta Battacharia não haviam sido capazes de se dar conta da
importância dos poderes milagrosos de Sri Ma, neste momento Hari Ram e os demais
tampouco foram capazes de avaliar o imenso impulso de Sri Ma em todos os criadores
da Nação Índia que estabeleceram um forte vínculo com ela antes, durante e depois do
ano de declaração da independência.

Sri Ma voltou a se encontrar com Gandhi em Nova Delhi em 1946, uns 14 meses
antes de sua morte, em cuja ocasião ele voltou e pedir, com todo ênfase que dispunha,
que ela ficasse com ele e não saísse viajando. Sri Ma, com semelhante ênfase e um
sorriso, lhe respondeu: “Pitaji, acredite-me, estou sempre com você.”
174

CAPITULO 11

Sri Ma e a Comunidade de Sadhus

“Aquele que tenha visto a Mãe, ainda que só uma vez, não pode duvidar que
ananda, ou felicidade suprema, seja uma realidade. Em Sua presença se sente realmente
algo como uma felicidade pura e única, uma felicidade superior e mais nobre que os
prazeres transitórios do plano sensorial. O esclarecedor de suas palavras é uma prova
irrefutável de sua posse de um jnana (conhecimento) ou de uma anubhava (experiência)
que não são fruto de uma preparação intelectual e que estão por cima do funcionamento
não sistemático das faculdades.”

Dr. Nalini Kanta Brahma

Pergunta do Swami Dayananda, do Bharat Dharma Mahamandala:

- “Mãe, quem você é realmente? As opiniões sobre ti variam e não parece que
concordem…”

Sri Ma:

- “Você quer saber quem eu sou? Pois bem, sou aquilo que consideres que eu
sou, nem mais nem menos.”

Pergunta:

- “Então, qual é a natureza do teu samadhi? É isso então samadhi? É


nirvikalpa ou savikalpa? Sua mente se mantém?

- “Pois é você que tem que responder esta pergunta. Só o que eu posso dizer é
que, em meio a todas estas aparentes mudanças de estado, no corpo e na mente, eu
sinto que sou consciente de que sempre sou o mesmo. O que sinto é que em mim não
se produzem mudanças de estado. Chame a isso o que quiser. Isso é o samadhi.”
175

Sri Ma e a Comunidade de Sadhus

De Wardha, Sri Ma, Didi, Abhaya, Hari Ram Joshi e Paramananda foram a
Saugar, onde viviam retirados alguns membros mais velhos da família real do Nepal,
que conheciam Hari Ram. Ele se pôs em contato com a anciã Rani, a qual ficou
encantada em poder ajudar a Sri Ma. Ainda que quisesse que Sri Ma se hospedasse em
seu palácio, respeitou seu kheyal de retirar-se a um local mais remoto, pelo que Rani
lhes conduziu a um pequeno dharmsala, nas margens do rio Vias. Era uma pequena
cabana cujo tamanho parecia ainda menor diante do imponente porte de uma árvore
baniana que se elevava ao seu lado. Uma vez que só Sri Ma, Didi e Abhyay se
instalaram naquele lugar, Hari Ram e Paramananda partiram para Raipur e Rani
também partiu, reiterando seu oferecimento de qualquer tipo de ajuda que pudessem
necessitar.

Sri Ma passou duas semanas tranquilas neste reino, estadia que se converteu em
algo memorável pela frequência com que se produzia o fenômeno de brotar
espontaneamente mantras dos lábios de Sri Ma. Quase todo dia pronunciava estas
sílabas numa língua divina (deva-bhashá) indescritivelmente bela em sua sequência
rítmica e sua delicada melodia. Abhaya tentou escrever alguns versos, mas sua versão
daqueles sons não era muito adequada.

Didi, sempre tão prática, tentava atrair a atenção de Sri Ma para a


correspondência. Geralmente se liam as cartas que as pessoas lhe escreviam, se fosse
possível no mesmo dia que chegavam e se anotava ao pé da letra a resposta que ela
dava. A pessoa que lhe lia as cartas estava encarregada de levar esta correspondência ao
correio. Às vezes Sri Ma estava tão estava tão ocupada que só podia ler algumas poucas
cartas urgentes e a correspondência ia se acumulando numa bolsa. Não era estranho que
uma carta demorasse seis meses ou mais para ser respondida. O saco de cartas era
sempre um dos elementos inseparáveis da bagagem de Sri Ma. Anos mais tarde as
sessões de leitura de cartas se organizaram bastante bem. Sri Ma pedia para que cinco
ou seis pessoas se sentassem em volta dela e lhe fossem lendo as cartas, uma por uma.
Às vezes se agrupavam segundo o idioma no qual estavam escritas. Todos tinham que
ter preparado os pontos principais da carta (se ela fosse longa) e dizê-los a Sri Ma
quando chegava sua vez. Sri Ma lhes ditava a resposta. Sempre prestava toda sua
atenção a cada uma das cartas. Às vezes havia remetentes que, neste tempo todo de
espera, haviam escrito meia dúzia de cartas, mas todas elas eram lidas
escrupulosamente. As cartas que iam parar naquela sacola costumavam ser as que não
necessitavam uma resposta imediata. Nestes dias Didi, com a ajuda de Abhaya, tentava
liquidar todas as cartas que fosse possível.

Sri Ma esteve viajando um pouco por aquela zona e regressou ao pequeno


dharmsala, onde se uniu a Kantibai Vias (Swami Bhagavatanandaji). O relato de sua
busca de Sri Ma e a maneira milagrosa com que conseguiu chegar até o bosque onde ela
se encontrava foi extremamente interessante.
176

No final de Março Sri Ma partiu do Gujarat e voltou para as Províncias Unidas


(atual Uttar Pradesh) passando por Lucknow, Varanasi, Vindiachal, Delhi e em seguida
Dehra Dun, onde passou todo o verão. Em Agosto houve muita agitação em todo o país,
devido à detenção dos líderes da nação que haviam aderido ao Movimento de
desobediência Civil promovido por Gandhi. A frente oriental da guerra estava muito
próxima da Índia. Respondendo a um devoto de Calcutá, Sri Ma disse: “Não há nada de
grave para que o coração desfaleça. Não se consegue nada estando nervoso pelo que
possa acontecer ou tendo medo das coisas que acontecem. Tudo que sucede é o que tem
que suceder. Temos que suportar o presente com fortaleza e afrontar o futuro com
valentia.”

Em fins de Outubro de 1942 Sri Ma saiu do distrito de Dehra Dun e continuou


com suas típicas viagens improvisadas. Havia muita instabilidade no país. O governo
britânico da Índia tentava sufocar sem contemplações o “Movimento de Desobediência
Civil” e os movimentos de tropas tinham preferência, motivo pelo qual, para os civis,
qualquer viagem estava repleta de incertezas. Persuasivamente, aplacando receios e
acompanhada por Paramananda, Sri Ma saiu de viagem, primeiro a Solon, via Ambala e
dali a outros lugares. Depois de um par de meses perambulando sem rumo (ao menos
essa era a sensação que dava) chegou a Vindiachal no começo de 1943, com o que o
pequeno ashram das montanhas Astabhuja se encheu imediatamente de convidados de
lugares próximos e de pessoas de Mirzapur, que vinham passar o dia.

Foi nessa época que Sri Ma conheceu e fez amizade com Sri Prabhudatta
Brahmachariji, de Jhunsi, perto de Allahabad, um mahatma de considerável reputação
em dito local do país, conhecido sobretudo por seu labor de ajuda espiritual em todos os
povoados, assim como por difundir uma maior consciência do pensamento e dos ideais
hindus. Chegou ao ashram de Sri Ma, em Vindiachal, para passar um par de dias, em
Março, em companhia de Protimá Devi, de Allahabad. Todos se divertiram com sua
vivacidade e seu desfrutar infantil de todas as coisas. Se fez muito devoto de Sri Ma,
ainda que ocultasse sua lealdade com uma conduta desembaraçada que era muito
característica da sua pessoa.

Depois desta visita, Sri Ma voltou a sair de viagem e desta vez se dirigiu a
Calcutá, assim como a Dacca e Deoghar. Ainda que as estadias nestes lugares fossem
visitas relâmpago, Sri Ma deleitou o coração de todos seus devotos desta parte do país,
os quais estavam angustiados devido à incerteza sobre as intenções dos japoneses em
relação à fronteira indiana. Mas na companhia de Sri Ma todas estas preocupações
ficavam em segundo plano porque, enquanto durava sua visita, os devotos da cidade em
questão podiam concentrar-se no intemporal e esquecer-se das exigências imediatas do
momento.

Saindo de Bengala, Sri Ma foi a Lucknow e dali ao antigo e sagrado lugar


chamado Naimisharania, perto de Sitapur. Ao chegar à Naimishirania, Sri Ma sentou-se
perto do tanque sagrado, esperando que seus acompanhantes aproveitassem a
oportunidade para ir visitar todos os templos dos arredores. Mas o magnetismo de sua
personalidade era mais potente que a atração silenciosa de seus preceitos. Depois de um
tempo Sri Ma se levantou e foi caminhando até o antigo templo de Shiva, pegou uma
guirlanda da cesta de um vendedor de flores e o depositou com grande cuidado sobre o
lingan. Logicamente, depois disso todo mundo quis fazer o mesmo!
177

Os devotos de Delhi estavam dispostos a fazer um nama-yajna em sua honra e,


diante deste convite, Sri Ma foi para esta cidade. Tudo foi preparado para que se
alojasse na casa do Dr. J.K. Sem, um ancião muito entregue ao serviço de Sri Ma. Em
anos anteriores sua casa se convertera num dos principais lugares de reunião de devotos,
tal como na casa de Jyotish Guha, em Calcutá.

Na última semana de Abril de 1943, passando por Bareilly e Haldwani, Sri Ma


chegou a Almora, onde Yoguibhai havia financiado a construção de um bonito samadhi-
mandir sobre a tumba de Bhaiji, em Patal Devi, bem como a de uma pequena casa ali
perto. Era um local oculto, recolhido ao pé de uma cordilheira de altas montanhas.
Alugou-se outra casa para o caso de que Sri Ma ficasse algum tempo e houvesse uma
multidão de visitantes.

Naquela época Almora se orgulhava de alojar a famosa escola de dança Centro


Cultural de Uday Shankar, que ficava bem perto de Patal Devi. Estabeleceu-se um
profundo vínculo de amizade entre os habitantes do ashram e os membros da escola e
Uday Shankar, sua mulher Amla Devi, seus irmãos Rajendra Shankar, a bailarina
francesa Simkie, Prabhat Babu, Sati Devi e muitos outros se converteram em assíduos
visitantes do ashram.

Em 13 de Maio, aniversário de Sri Ma, Uday Shankar organizou, no Centro


Cultural, uma apresentação de sua famosa versão do Ramayana com sombras chinesas,
considerando-se todos honrados em ter Sri Ma entre o público. O recinto em si era
muito bonito. Sri Ma ia visitá-los de vez em quando e conversava com Uday Shankar e
os distintos membros de sua companhia sobre a dança como forma de sadhana. Um dia
lhes disse: “Este corpo é, certamente, muito ignorante disto que vocês chamam dança.
Mas saiba, Pitaji, quando este corpo estava envolvido no jogo do sadhana, realizou
todas as posturas e movimentos que eu vi aqui e muitas outras mais. Uma vez, em
Bajitpur, disse a Bholanath: “Sente-se aqui, diante de mim. Vou te fazer o arati,” mas
como eu não tinha nenhum dos utensílios para o arati, houve apenas movimentos do
corpo e gestos com os braços e mãos. Se parecia bastante ao que vocês chamam uma
dança. Bholanath estava boquiaberto porque sabia que a mim nunca ninguém havia
ensinado nada igual. Obviamente existe uma diferença entre o aprendido e a expressão
espontânea. Depois de tudo, a origem de tudo o que existe não é mais do que a Unidade.
Só existe um ritmo, que está em tudo. Conhecendo-se esta Unidade, se conhece tudo. A
Unidade, a qual é Felicidade Suprema, se expressa desta forma exuberante chamada
dança.”

Abhaya perguntou de imediato: “E o que acontece com as formas que


representam a mágoa?” Sri Ma respondeu: “Também captam a atenção. Se executadas
com perfeição, ditas danças fazem brotar um tipo de compreensão compassiva que é
uma qualidade de felicidade.”

De Almora e em companhia de Hari Ram, Sher Singh, Hansa Datt, Govinda


Pandey e muitos mais, Sri Ma foi à Sahasradhar para ver um Bhagavat Brahmacharini,
onde conheceu outros sadhus famosos, como Haribabaji Maharaj, Udiya Baba,
Chakrapanijii e Sharananandaji.
178

Voltou a Almora e em 25 de Junho foi ver Jashoda Ma em Mir Tola. Arun Baba
a acompanhou de Lucknow até o ashram do Gurú. Jashoda Ma não se surpreendeu nem
um pouco ao ver Sri Ma e lhe disse: “Acabo de terminar de ler os livros de Didi
Gurupriya sobre Ma e desde ontem eu tinha um tremendo desejo de ver a Sri Ma. Sabia
que, como não posso ir vê-la, ela viria dar-me seu darshan.” O ashram era maravilhoso e
os residentes, tais como Sri Krishna Prem, Sri Hari Das e outros se converteram, com o
passar do tempo, em amigos bem conhecidos dos ashrams de Sri Ma.

Durante o mês de Julho Sri Ma partiu em viagem mas voltou mais ou menos
depois de duas semanas. Definitivamente, esse era o ano de Almora. Ela esteve ali para
a festa anual de Durga Puja em Outubro, que se celebrava todos os anos no Centro
Cultural. Mas aquele ano, devido ao repentino falecimento de seu Gurú, Uday Shankar
não pôde participar no programa das celebrações e, a seu pedido, o puja foi celebrado
em seu nome, no ashram de Sri Ma. Aquela adoração da filha do Himalaia, no meio da
cordilheira, disparou a imaginação e comoveu o coração de todos os devotos.

A estadia prolongada de Sri Ma num lugar tinha suas inevitáveis consequências.


Construíam-se edifícios para proporcionar melhor alojamento aos visitantes.
Parashuramji começou a aumentar o pequeno ashram e se construiu um grande terraço,
onde Sri Ma caminhava e às vezes se sentava e respondia as perguntas de todos os
visitantes que a rodeavam.

“A que se deve que, tão logo alguém sente para meditar, a mente se encha de
toda uma variedade de pensamentos?”

“Você não sabe por que não consegue meditar? Os desejos te impedem. Como
quando você entra no mar e as ondas te devolvem constantemente à margem. Mas se
você persevera e alcança um nível mais profundo, então as ondas deixam de te
molestar.” Sri Ma se calou alguns instantes e depois acrescentou:

“Você tem que se dar conta de que não há nada mais do que a Unidade. O desejo
é o bilhete de retorno que assegura à pessoa o ir e vir ao mundo da dualidade. Se você
percebe Shiva, não vê a pedra (lingan). E, se vê a pedra, não percebe Shiva. Mas
também, da mesma maneira que Ele é conhecido com o nome de Shiva, Ele e nada mais
do que Ele é o que indica o termo “pedra”. Não há nada que não esteja entrelaçado, já
que toda expressão e manifestação é exclusivamente Sua.”

Sadhu-sammelan em Jhunsi

No princípio de 1944 Sri Ma foi convidada por Prabhudattajhi para ir a seu


ashram de Jhunsi, do outro lado do Ganges, em Allahabad, porque ele estava
organizando uma grande reunião de todos os sadhus de grande reputação do norte da
Índia. Foi receber Sri Ma na estação de trem com um grupo de kirtan e a escoltou até
sua casa com tambores e pratos. Prabhudattaji lhe disse que podia acolher até mil
devotos seus! De fato, estavam fazendo os preparativos em grande escala, organizando
o alojamento para centenas de visitantes. Prabhudattaji em pessoa se ocupava de que
todo mundo estivesse acomodado e supervisionava todos os preparativos.
179

No meio do pátio, que anteriormente havia sido também um jardim exterior,


havia uma grande sala para satsanga onde, toda manhã, se reuniam os dignitários que
haviam chegado de visita. Alguns deles davam discursos sobre temas religiosos para a
multidão que se reunia para escutá-los. Os sadhus, com suas resplandecentes
vestimentas de cor laranja, sentavam-se de frente para o público, onde as mulheres se
sentavam de um lado e os homens de outro. Como Sri Ma não fazia parte do grupo de
palestrantes, sentava-se na frente do grupo das mulheres, vestida de um branco
imaculado.

No ano anterior já havia conhecido muitos sadhús em Sahasradhara e também


tinha ouvido falar deles em suas muitas viagens a Vrindavan e a outros lugares. Mas até
então o Sadhú Samaj não a havia reconhecido formalmente. Já que ela não só era uma
mulher mas, além disso, não pertencia a nenhuma das ordens ascéticas, não tinha
estudos nem tinha guru, não pertencia assim a nenhum sampradaya (irmandade)
conhecida. Fala muito a favor de Prabhudattaji o fato de que ele reconhecia a aura de
presença divina de Sri Ma e que havia feito o possível para que o sadhú-samaj se
dirigisse a ela e lhe rendesse homenagem como o espírito dos Upanishads, a fonte
mesma de todos os sampradayas.

Nas tardes, a sala de satsanga de Jhunsi tinha um aspecto mais informal. Sri Ma
conversava com os visitantes seguindo seu próprio estilo de diálogo. Às vezes vinham
alguns dos mahatmas e se uniam ao grupo. O principal objetivo de Prabhudattaji era
organizar, alguns meses depois, um festival de nama-samkirtana, com patrocínio
conjunto, mas eram tempos difíceis já que o governo desconfiava muito de qualquer
tipo de atividade organizada e desaconselhava a realização de reuniões de qualquer tipo.
Mas como os sadhús consideravam que tinham a obrigação de participar na vida das
pessoas, podiam fazê-lo unicamente mediante celebrações religiosas. Portanto, decidiu-
se que o festival de nama-samkirtana seria uma celebração ao nível religioso mais
simples possível, dirigida à maior quantidade possível de pessoas.

Houve muitas deliberações sobre os detalhes de dito acontecimento. Durante


uma das sessões da tarde, depois de um acordo sobre o alcance e a forma do festival,
pediram a Sri Ma que escolhesse o local. Ela, que havia escutado em silêncio todas as
considerações, explodiu numa de suas gargalhadas espontâneas.

Já tentamos explicar este atthasa em uma ou duas ocasiões. Era como se todo o
corpo de Sri Ma irradiasse esse som completamente fascinante, como um fenômeno
sobrenatural. O poeta Rabindranath Tagore se serviu do termo atthasa para descrever o
impressionante rugido dos trovões procedentes das rápidas, escuras e baixas nuvens de
monção em Bengala.

No mandap (sala) se produziu um silêncio total, até que se desvaneceu o elo


desse som. O que fazia Sri Ma, rindo-se, enquanto uma grande quantidade de
eminências discutia tão seriamente os detalhes da organização de um evento em
condições tão difíceis? Swami Sharananandaji, um sadhú muito venerável, que era cego,
não havia podido “ver” a Sri Ma mas, neste momento, disse em tom muito sério:
“Tenho estudado muito o que se diz nas Escrituras sobre ulasa (prazer efervescente), a
forma manifesta de Felicidade Divina Imanifesta. Temos a fortuna e a honra de haver
escutado hoje as notas supremamente emocionantes desse som divino.”
180

Haribabaji disse: “É correto que Mataji ria de nossa pergunta. Como ela é de
todas as partes, e, portanto, de ‘parte alguma’, como iria ela escolher um lugar em
particular para um evento em particular, sendo que ela aceita tudo o que acontece como
a única forma disto acontecer?”

Sri Ma estava séria e em silêncio e, como sempre acontecia, não ofereceu


voluntariamente nenhuma explicação para o seu riso. Quando os mahatmas se dirigiram
a ela para saber sua decisão final, ela lhes disse, com delicadeza: “Aquele que se
manifestou em vossos corações na forma deste desejo de fazer uma celebração juntos
também se revelará como a escolha de um lugar que todos possam aceitar. É o Bem
mesmo o que materializa uma boa resolução. No que a mim se refere, como filha vossa,
pertenço a todos e assim considerem que qualquer sugestão que vocês tenham é
sugestão minha.” A assembléia pareceu satisfeita com este pronunciamento e
rapidamente se escolheu Jhunsi como o lugar adequado para dita celebração.

O sadhu-sammelan ou reunião de ascetas em Jhunsi é um marco na vida de Sri


Ma e na sua forma de estar no mundo. Cada país tem sua própria tradição, que se
mantêm graças aos que são considerados seus personagens modelo. Para a comunidade
hindu, o asceta vestido de laranja representa um ideal, uma pessoa que mostra que sua
tradição é uma força viva, capaz de apoiar a todos eternamente.

A filosofia advaita (não dualista) de Adi Shankaracharia se refere ao ideal da


renúncia como forma de conhecimento, enquanto que todas as demais escolas de
pensamento da Índia o consideram um elevado ideal mas não uma parte integrante da
sua filosofia. Em troca, Shankaracharia o situa no núcleo mesmo de seus escritos sobre
a identidade do Atman (Eu) e Brahman (Ser Supremo). O âmbito do mundo, junto com
seu sujeito conhecedor, a consciência do eu, fica, por assim dizer, superposto sobre dita
unidade e é necessário retira-lo para que Brahman possa resplandecer em toda sua
plenitude de Felicidade Suprema. A chamada de Sri Ma à equanimidade parece ser uma
continuação desta exegese clássica do pensamento dos Upanishads, achando-se a
diferença em sua própria personalidade, em sua própria maneira de viver no mundo,
caracterizada por um envolver-se com compaixão no lugar de retirar-se, o que, em certa
forma, aportou maior credibilidade ao mantra de sanniasa que atravessa, como um
cordão, a guirlanda multifloral que constitui a tradição hinduísta.

O sadhu-samaj não vacilou em reconhecer nela a personificação do brahmavidia,


a quintessência da sabedoria dos Upanishads e não se deixaram enganar pela atitude
humilde que manteve diante deles. Além disso, acabaram somando-se à sua afirmação
de toda gama de atitudes devocionais para com Deus. Sri Ma, por sua parte, sempre
estava disposta a responder a seus convites e a tratá-los com o máximo respeito quando
iam visitá-la.

Enquanto isso Didi levava um tempo esforçando-se para conseguir uma porção
de terra em Varanasi, perto da margem do rio, com a finalidade de construir um
pequeno ashram para a comodidade de Sri Ma, já que ela ficava ali com muita
frequência naqueles anos e se hospedava em dharmsalas, casas flutuantes, alpendres de
templos ou na pequena cabana de adobe do jardim de Nirmal Chandra Chaterji, em
Ramapura.
181

O esforço de Didi deu frutos e se pôde comprar, para esta finalidade, um lote em
Bhadaini. No mês de Abril de 1944 se celebrou o primeiro vasanti puja em dito local.
Mais adiante o ashram de Varanasi se converteria na sede central da Associação Sri Ma
Anandamayi Sangha, que se formaria em 1950. Na atualidade, ainda que o escritório
principal se encontre em Kankhal, continua sendo este um dos ashrams principais.

Sri Ma regressou a Almora durante o mês de Maio, em cujo ashram se haviam


reunido para comemorar seu aniversário todos os mahatmas que haviam tido contato
com ela. Desde o primeiro momento Haribabaji Maharaj viu nela a materialização do
seu próprio desejo de alcançar a felicidade espiritual. Era um homem que jamais
desperdiçava nem um só segundo em conversas ou atividades fúteis e seu perfeito
enfoque parecia ser o colocar em prática o vani de Sri Ma: “A única coisa que vale a
pena é falar de Deus. Tudo o mais é futilidade e dor.”

Swami Akhandananda faleceu em Varanasi, em Agosto. Esteve muitos meses


vivendo numa casa que haviam alugado para alojar as meninas de Kaniapith. Savitri
Mitra e outras jovens se ocuparam de Swamiji, o qual fazia às vezes de guardião. Ao
saber que ele estava indisposto, Sri Ma enviou Didi a Varanasi. Esta perguntou várias
vezes a seu pai: “Você quer que eu envie um telegrama a Ma?” mas ele respondia
invariavelmente “Não precisa.” As pessoas que cuidavam dele viam claramente que ele
se sentia constantemente na presença de Sri Ma, seguro nesse refúgio que havia buscado
e encontrado. Seus últimos instantes estiveram cheios de calma e paz. Foi uma grande
perda para toda a família de devotos.

Em suas muitas viagens a Allahabad, Sri Ma havia conhecido Kanhaiyalal, um


vaishnava devoto e personagem de certa posição na cidade, que possuía uma grande sala
com o retrato de Krishna em todas as paredes. Todos os retratos eram cópias de uma
pintura enorme que ficava no meio da parede do fundo, de frente para o público, e que
representava Krishna jovem, apoiado numa árvore, com a flauta na mão e uma bonita
vaca branca ao seu lado. Conta-se que Kanhaiyalal havia tido uma visão desta cena e
havia encarregado um pintor de fazer este quadro e também de fazer as cópias. Por essa
razão essa sala era conhecida como Krishna-Kunja.

Por convite de Kanhaiyalal, a celebração anual do Durga Puja do mês de


Outubro de 1944 foi feita na sala dedicada a Krishna. Com Sri Ma eram sempre
possíveis estas misturas de opostos. Outra característica especial do Durga Puja daquele
ano foi que Sri Ma foi pela primeira vez ao Satia Gopal Ashram. Sri Gopal Thakur
Mahashaya era discípulo de Sri Satya Deva Thakur, do famoso Sadhana Saman
Ashram. Este sampradaya tem uma forma particular de fazer este puja. Sri Ma também
havia sido convidada a dito mandap (local para o puja) e, ao chegar, Sri Gopal Thakur,
num estado exaltado, a recebeu com flores, cantos e mantras, como a forma vivente de
Devi que ele havia invocado na imagem de argila.

Este primeiro encontro constitui o princípio de uma longa duração entre Sri Ma e
Sri Gopal Thakur e sua família. Em comemoração a sua visita, ele lhe pediu que
passasse, todo ano, três dias próximos a data do puja em Allahabad, o que ela cumpriu
durante muitos anos. Depois da morte de Sri Gopal Thakur, sua filha Kalianididi se
encarregou de manter viva esta tradição. Toda a família de devotos de Sri Gopal Thakur
estava muito unida a Sri Ma.
182

Haribabaji Maharaj

Sri Ma recebia muitas mensagens de Haribabaji Maharaj, o sanniasi tão


venerado de Vrindavan. Ele e Uaiyababaji eram um par de sadhus muito famosos nessa
parte da Índia e seu prestigiado ashram de Vrindavan era lugar de encontro de muitos
chefes de ordens ascéticas.

Naquela época Haribabaji se encontrava em Bhirauti, perto de Aligarh, e havia


convidado Sri Ma para ir até lá escoltada pelo mensageiro. O mensageiro lhe disse que
toda aquela região tinha ouvido falar dela e que a estavam esperando com o grande
entusiasmo que Haribabaji havia espalhado entre as pessoas, dizendo-lhes que, se
orassem com sinceridade, Sri Ma lhes daria seu darshan! Por isso, todos haviam
iniciado um programa ininterrupto de kirtan até que ela fosse visitar o povoado.

Em resposta a este convite, depois do Durga Puja em Allahabad, Sri Ma se


dirigiu a Bareilly, de caminho a Bhirauti, com uma grande multidão de devotos. Em
Bareilly fizeram baldeação num trem local e chegaram a uma pequena estação chamada
Dhanari, a 11 km de Bhirauti, distância que se costumava percorrer em carro de boi ou
simplesmente a pé.

O entorno de Sri Ma sempre se tornava milagroso e, nesta época, ocorreu algo


bem bonito. Kamal Malaviya, um cavalheiro da casa de Madan Mohan Malaviya, de
Allahabad, desejava acompanhar Sri Ma em sua viagem a Bareilly e, em uma das
muitas paradas, ele e outras pessoas se amontoaram, como era usual, diante do
compartimento de Sri Ma, para ter seu darshan. Ao regressar ao seu próprio assento, no
último instante, quando o trem já havia arrancado, viu que estava cheio de viajantes,
muitos dos quais tinham que estar de pé na porta. Ele teve que ficar de pé nos degraus,
enquanto tentava voltar a entrar, mas o trem já havia desenvolvido velocidade. Depois
de um tempo se produziu uma rude escaramuça entre um grupo de rufiões que estava
armando alvoroço e Malaviyaji acabou soltando a mão de onde estava agarrado, caindo
do trem em movimento sobre uma rampa cheia de pedras. Caído e aturdido, vislumbrou
a figura de uma mulher vestida de branco, que parecia pedir-lhe com insistência que se
levantasse e caminhasse! Levantou-se como pôde e foi seguindo esta imagem borrada,
caminhando pela linha do trem, até que chegou a ver as luzes cintilantes de uma
estação, momento no qual a mulher desapareceu. Os empregados da estação não podiam
acreditar no seu relato, de que havia caído do trem correio do Punjab em movimento e
que, não só havia sobrevivido para contar, mas também que havia percorrido toda
aquela distância a pé. No entanto, ao observar seu bilhete, fizeram o trem seguinte parar,
ainda que não fosse sua parada original, e lhe conseguiram um assento. Ao chegar a
Bareilly, tiveram que levá-lo de maca ao Railway Hospital porque, naquele momento,
se encontrava em estado de choque. Alguns dos devotos de Sri Ma o reconheceram e o
acompanharam ao hospital, para ajudá-lo no que pudessem. Quando pôde se unir ao
resto do grupo, lhe acomodaram no compartimento de Sri Ma, no trem regional. Além
de uma pequena contusão, não tinha nenhum ferimento. Mais adiante, contou essa
história a Didi e a outras pessoas.
183

Em Dhanari tudo era júbilo e felicidade. Era como se toda a população da região
houvesse se concentrado ali para dar as boas vindas apropriadas a Sri Ma. Havia carros
de boi enfeitados, rodeados de grupos de kirtan. Os homens do séquito de Sri Ma
decidiram ir caminhando e as mulheres subiram nos carros. Sri Ma foi convencida a
subir num elefante, dizendo-lhe que, caso contrário, as pessoas que esperavam
ansiosamente sua chegada não poderiam vê-la. Toda esta régia procissão, decorada com
outros distintivos próprios das personalidades, foi avançando até Bhirauti. No meio do
caminho foi recebida por Haribabaji em pessoa, com seu próprio grupo de kirtan o qual,
para não ter que deixar de olhar para Sri Ma, percorreu todo o caminho atrás dela!

Desta forma chegaram a Bhirauti e foram conduzidos aos lugares de descanso,


porque Bandh, a meta final, estava a outros 15 km de distância. Também levaram Sri
Ma e seus acompanhantes a dito local, numa fileira de carros de boi, mas os aldeões, de
tal entusiasmo que sentiam, soltaram os bois para poder puxar eles mesmos os carros.

Na primeira ocasião, que Sri Ma teve de sentar-se em seu quarto com seus
acompanhantes, começou a brincar com Didi, pelo fato dela ir sentada num carro
puxado por homens no lugar de bois, não conseguindo parar de rir, enquanto
exclamava: “Mas Didi, onde você estava com a cabeça? Ir sentada ali, como uma
princesa, enquanto as pessoas iam arrastando o carro!” Didi protestou em vão, dizendo
que jamais poderia imaginar que os aldeões, em seu entusiasmo, iriam puxar os carros
eles mesmos: “Eu não via mais do que um mar de cabeças. Como iria saber que eles
haviam soltado os animais?”

Toda aquela extensão de terra, que compreendia quase oitocentos povoados, em


outros tempos costumava se inundar com o transbordamento anual do Ganges, causando
uma miséria incalculável, tanto em perdas de vidas humanas quanto em bens materiais.
Ao ver que o governo não estava disposto a ajudá-los, aqueles dois santos, que eram
muito bons amigos, começaram a erigir uma barragem para conter a água e toda região
foi mobilizada. Os próprios sadhus transportavam, junto com os aldeões, cestas de terra
na cabeça, para construir a barragem. Todos os homens e mulheres sãs e até as crianças
participavam. Com o tempo, se conseguiu levantar uma longa barreira de 15 km, até
uma altura capaz de impedir que as cheias do rio destruíssem os povoados. Como
consequência, aqueles dois santos foram considerados os salvadores da região. A vida
daquelas pessoas girava em torno de um evento central que era, por assim dizer, um
satsanga ininterrupto.

Havia uma grande sala para reuniões diárias, na qual um simples grupo musical
de povoado cantava kirtan sob a tutela de Premraj. Toda tarde se representava, nesta
sala, obras curtas sobre cenas da vida de Sri Krishna ou de Gauranga Mahaprabhú, o
ishta-devata de Haribabaji Maharaj. Descobriu-se que Premraj era muito culto e que
havia estudado profundamente a literatura vaishnava mais relevante. Além disso, tinha
uma voz melodiosa e cativante, sendo ele que cantava as introduções.
184

Sri Haribaba tinha organizado os horários do satsanga de tal forma que para os
aldeões, só sobrava tempo para trabalhar os campos ou atender os assuntos do lar. Tinha
até uma lista detalhada dos que faltavam regularmente! Os homens importantes do
povoado informaram tudo isto a Sri Ma, conscientes de que ela gostaria deste arranjo.
Era evidente aos olhos de todos que eles estavam encantados com Haribaba e fariam
qualquer coisa para agradá-lo, desde que não fosse deixar o povoado. Sem dúvidas,
constituía a vida e a alma de Bhirauti e Bandh. Em anos posteriores, Haribabaji
desempenhou um papel crucial no desenvolvimento do sistema de organização dos
ashrams que levavam o nome de Sri Ma, os quais ele visitava com frequência. Preparou
tudo para manter o mesmo nível que ele havia estabelecido em Bhirauti no que se
referia a recepções, disposição das salas de satsanga, conversas sobre as Escrituras, etc.
Como parecia gostar de adornos de papel, sempre que ia ao ashram de Sri Ma, esperava
que os jovens residentes o decorassem com grinaldas, bandeiras coloridas e todo tipo de
ornamentos de papel, o que dava ao lugar um ar muito festivo. Ia receber os sadhus na
estação, com grupos de kirtan e, se Haribabaji estivesse alojado no ashram, a rotina
diária seguia o horário que ele havia estabelecido.

Na volta de Bhirauti e Bandh, Sri Ma passou por Vindiachal. Muitas


comemorações aconteceram no cume daquela colina solitária. Era sempre surpreendente
que se pudesse alojar e atender a tal contingente de pessoas num local tão remoto, mas
tudo era possível com Sri Ma.

As jovens de Kaniapith haviam viajado para Vindiachal para mudar de ares. Sri
Ma costumava passear com elas. Num dado momento, passou uns poucos dias em
Varanasi para assistir a cerimônia de Yajna que Karpatriji Maharaj fazia, mas
Vindiachal não deixou de ser o centro de muitas atividades durante as férias de Natal.

No começo de 1945 Sri Ma começou um maunam, mas Didi compreendeu seu


kheyal de ir a Vrindavan e então partiram de Vindiachal. Em Vrindavan voltou a se
encontrar com Haribabaj Maharaj e Udiya Baba. O maunam de Sri Ma não era como o
de outras ocasiões e, uma ou duas vezes, falava uns poucos minutos.

Partiu logo de Vrindavan, em direção ao Gujarat e ficou um tempo em


Amehdabad. As pessoas do lugar se encantavam quando ela falava algumas palavras em
gujarati. Alguém lhe perguntou: “Ma, por que você começou um maunam?” ao que ela
respondeu: “Eu fazia maunam? Maunam quer dizer entregar a mente completamente a
Deus. Mas aqui não há mente alguma e assim, quando estou falando, também é
maunam!”

Depois de duas semanas perceberam que este maunam tinha certas pausas, a
medida que o tempo passava. Falava nas quinta-feiras e no dia seguinte também, mas só
até a tarde e esta rotina foi mantida durante muitos meses.

De Ahmedabad Sri Ma viajou a muitos outros lugares, acompanhada por


Kantibhai Munsha e seu irmão. O maunam de Sri Ma não representava problema algum.
Todo mundo se reunia para passar longas horas sentado em silêncio, contemplando Sri
Ma e, como ela mantinha sua beleza serena de sempre, os demais não se sentiam
preocupados.
185

Às vezes os devotos se maravilhavam da capacidade de Didi de compreender o


kheyal de Sri Ma nestas circunstâncias não usuais, já que, enquanto estava em maunam,
não fazia nenhum gesto para que fosse entendida. Didi dizia que isso não era mérito
algum seu, mas sim que Sri Ma, com um simples olhar, era capaz de transmitir o que
queria dizer para a pessoa interessada. Não obstante, Didi realizava muitas tarefas
complicadas, que eram a expressão do kheyal de Sri Ma.

Viajaram até Bombay, cidade na qual passaram somente duas horas e da qual
partiram para Delhi. No dia seguinte Sri Ma partiu para Agra, onde passou algumas
horas, antes de voltar para Delhi. No dia seguinte foram para Allahabad, onde passaram
só um dia. Viajaram para Varanasi e dali para Vindiachal. Havia passado pouco mais de
um mês desde que havia saído dali, em 12 de Janeiro de 1945. Alguns visitantes novos,
do Gujarat, perguntaram a Didi porque Sri Ma fazia esta quantidade esmagadora de
viagens. Didi respondeu que, muitas vezes, havia se dado conta de que havia muitas
boas razões para essas viagens relâmpago, para lugares escolhidos a esmo mas que,
naturalmente, ela era incapaz de explicar plenamente o kheyal de Sri Ma por esse
incessante perambular, que para ela dava a sensação de ser uma forma de vida.

Desde o sadhu-sammelan de Jhunsi Sri Ma havia estado quase constantemente


em companhia de mahatmas que, ou iam vê-la ou lhe convidavam para honrar com sua
presença muitos atos que organizavam. Pareciam haver transcendido seu disfarce de
mulher, da mesma forma que, anos antes, os cavalheiros de Dacca, depois de certo
tempo, haviam superado sua reticência de ir a Shahbag porque Sri Ma era, naquela
época, uma bela jovem. Era algo que Bhaiji chamava “um disfarce eficaz.”

Haribabaji Maharaj, com seu formidável séquito de aldeões, acompanhou Sri Ma


num giro por Bengala, no começo de 1946, porque desejava visitar todos os lugares
sagrados em memória de Gauranga Mahaprabhu. Este giro teve um alcance assombroso
porque pôs completamente à prova a habilidade e os recursos dos organizadores. Em
primeiro lugar, os aldeões de fala híndi estavam apavorados com a idéia de ir para
Bengala, lugar que imaginavam como a obscura morada da magia negra dos devotos de
Kali! Em segundo lugar, para muitos a barreira lingüística era insuportável. E, em
terceiro lugar,a comida tradicional era tremendamente diferente.

Sri Ma apareceu em Bahrampur com esta variada multidão e, de imediato, um


ambiente de júbilo se apoderou da cidade. A cidadezinha bengali demonstrou aceitar o
desafio de acolher, de forma competente e satisfatória, a todos esses devotos de
Haribabaji e a mistura de culturas se produziu de forma harmoniosa. Os visitantes
contemplaram os elaborados yatras da vida de Gauranga Mahaprabhu. Sri Premraj se
deleitava aprendendo as melodias de estilos tão ricos das muitas formas de kirtan de
Bengala e acrescentou ao seu repertórios as cenas de ditos yatras. Por sua parte, os
bengalis foram espectadores do raslila de Vrindavan e escutaram as consistentes e
ressoantes recitações do Hanuman-Chalisa.
186

Haribabaji continuou até Calcutá e Dacca, com a finalidade de visitar o Ramna


Ashram. Casualmente, esta foi a última visita de Sri Ma a esta cidade, na qual seus
devotos viviam num estado de profunda incerteza. No entanto, enquanto estiveram com
ela, se esqueceram de seus problemas e se aglutinaram como sempre ao seu redor. O dia
se fundia com a noite e Sri Ma permanecia sentada, falando com eles, sem descanso.
Sem dúvida alguma, todos receberam conselhos e instruções sobre seu futuro porque,
logo depois desta visita, a maioria começou a sair de Dacca.

No verão de 1946, Haribabaji voltou a se reunir com Sri Ma em Solon, onde


voltou a se produzir esta mistura de culturas que era tão comum na presença de Sri Ma.
Rajá Durga Singh era o governador de Bhagat, um estado independente, e sua devoção
por Sri Ma teve uma grande influência, tanto sobre as pessoas da casa real quanto sobre
seu povo. Todos os devotos, de todos os tipos de procedência, que se reuniram em
Solon para passar as férias de verão do ano de 1946, recordarão para sempre o espírito
de dedicação e serviço que demonstraram ter Deviramji (o secretário do Raja Sahab),
Ruparama (assistente pessoal do rei) e muitos outros.

A aparição dos mahatmas desempenhou um papel muito importante na vida dos


devotos. A qualidade de improvisação que havia caracterizado as viagens de Sri Ma se
converteu na exceção em lugar de norma e seus programas alcançaram uma maior
estabilidade. Haribabaji ficou em Solon mais dois meses. Ele sempre começava o
satsanga lendo algo das Escrituras e, nessa época, começou a ler os diários de Didi
Gurupriya sobre os primeiros tempos de Sri Ma em Dacca. Sri Chakrapaniji e Swami
Sharanandaji também se encontravam em Solon. Sri Ma falou longamente sobre seu
sadhana em Bajitpur, assim como sobre outros temas, em resposta às detalhadas
perguntas que estes lhe faziam sobre ela mesma. Este tipo de satsanga era o que
prevalecia quando algum mahatma chegava de visita e os organizadores se
acostumaram a preparar-se para estas gigantescas reuniões.

Sri Ma e Haribabaji Maharaj


187

CAPITULO 12

A Presença Harmoniosa

“Chega Sri Ma, senta-se em seu local habitual e conquista o coração de todo
mundo com seu sorriso doce e gentil. Durante um tempo reina um silêncio sepulcral.
Estamos todos enfeitiçados. Não nos ocorre nenhuma pergunta. É como se já nos
houvessem solucionados todos os problemas, como se houvéssemos chegado além do
nível de perguntas e respostas.”

Swami Bhagavatananda Guiri (20 de Junho de 1955)

“Vejam, abster-se e alegrar-se, ambas as coisas são necessárias. Por exemplo,


quando uma criança começa a aprender, tudo que lhe dão são incentivos. Quando já
aprendeu um pouco, então lhe indicam os erros. Mas, uma vez que já começa a ler
bastante bem, lhe fazem passar para a lição seguinte, para que a leia, ainda que
tenha cometido um ou dois erros na lição anterior.

“Assim, não fiquem sentados, pensando ‘ainda não estou preparado.’ Os erros
irão desaparecendo por si mesmos. O abster-se elimina a origem dos desejos. Não
percam tempo!”

Sri Ma Anandamayi
188

A Presença Harmoniosa

Os anos quarentas foram uma década crucial. A guerra arrasava a Europa e na


Índia, o movimento “Quit Índia”, de 1942, havia fracassado, tendo como terrífica
consequência uma repressão inexorável. Na sequência, o país se galvanizou quando
começou a correr a notícia de que o Exército Nacional da Índia estava operando quase
na fronteira da nação. O Japão foi vencido mediante as bombas atômicas. O Exército
Nacional Indiano, o INA, não conseguiu marchar sobre a Índia para libertá-la do julgo
britânico, mas contribuiu sim para sua libertação, de forma indireta. Em 1946 foram
presos os oficiais do INA, para serem julgados na Índia por rebeldia e o Conselho de
Guerra que iria se formar deveria constituir um exemplo para o resto do exército. Mas
resultou ser um juízo errôneo, que aos britânicos custou muito caro, porque toda a nação
se levantou em uníssono em defesa daqueles oficiais. Como o grosso do exército
indiano havia participado em várias fronts de guerra sob o comando aliado e constituía
agora uma força considerável, já que não apoiava a decisão dos governantes e, na menor
oportunidade, seus componentes passaram a engrossar as fileiras do INA. Os
julgamentos, no forte vermelho de Delhi, foram concluídos rapidamente e os oficiais
foram postos em liberdade, o que os converteu em heróis nacionais.

A história dirá se o fator decisivo que fez com que os britânicos deixassem a
Índia em Agosto de 1947 foi o Satiagraha, de Gandhiji, ou os Conselhos de Guerra
contra o INA, a pressão do presidente Roosevelt ou, quem sabe, uma combinação destes
três elementos. Desgraçadamente para a Índia, não partiram dignamente. As condições
para a Independência foram tais que a Índia se veria obrigada a pagar por isso até o final
dos tempos, ou ao menos assim o parecia para aqueles que estavam capacitados para
julgar tais assuntos. A liberdade não era uma questão de grande júbilo porque o país
havia sofrido horríveis carnificinas no Punjab, Bihar, Bengala e especialmente em
Noakhali. O massacre de hindus preparou o terreno para a criação do Paquistão.

Sri Ma estava em Varanasi. Em 14 de Agosto de 1947 sentou-se em silêncio, no


terraço do ashram. Os residentes decidiram sentar-se ao seu lado para meditar, a meia
noite, para rezar por essa nova nação que estava emergindo e que teria que enfrentar a
grande quantidade de problemas que continuavam produzindo-se.

Durante muitos anos, tanto antes como depois da declaração da independência,


Varanasi foi o lugar onde se realizaram diferentes atividades. Em 14 de Janeiro de 1947
se iniciou uma yajna no ashram recém inaugurado.
189

O Savitri-Mahayajna: 1947 – 1950

Toda uma série de circunstâncias fortuitas que se produziram em torno de Sri


Ma levaram a que se falasse seriamente em fazer um yajna em Varanasi. Um devoto se
ofereceu para trazer a lenha, outro o ghee. Acabara de terminar a guerra e as condições
para conseguir comida e outros materiais de primeira necessidade não eram
precisamente as melhores. No entanto, com valentia, Didi se envolveu num
empreendimento que, naquele momento, parecia ultrapassar os poucos recursos que
tinham. Mas ela confiava no kheyal de Sri Ma de fazer um Mahayajna, tal como havia
comentado tempos atrás, em Shahbag, quase vinte anos antes.

Erigiu-se um edifício temporário, no meio do pátio do ashram e se escolheu a


Nepal Chandra Chakravarti (o futuro Narayana Swami) como oficiante principal. Seria
ajudado por Kamalakanta Brahmachari e Sadananda Brahmachari, um dos estudantes de
Vidiapit. Apesar de tão humilde início, acabou sendo um dos eventos mais
espetaculares que jamais se organizaram no ashram, porque o alcance do yajna era
muito amplo. O Sankalpa do Yajna, ou seja, seu propósito, era “pelo bem da
humanidade” (vishna-kaliana). Os ashramitas se acostumaram a escutar, durante três
horas, toda manhã, o belo e rítmico som do Gayatri Mantra, repetido em uníssono por
várias vozes. Cumpriram-se escrupulosamente todos os requisitos de um yajna védico.
Dito yajna se manteve durante três anos, acabando em 14 de Janeiro de 1950.

Durante estes anos Sri Ma foi com frequência a Varanasi, em parte pelo yajna e
em parte, sem dúvida, para ajudar as muitas famílias que haviam sido expulsas do
Paquistão Oriental e que chegaram à Índia na condição de refugiados. Apesar das
difíceis condições, que às vezes beiravam o perigoso, Sri Ma não desistiu de continuar
com seu programa de viagens incessantes, deslocando-se repetidamente a Bengala,
Calcutá, Bahrampur, Dacca e outras cidades próximas. Enquanto estava em algum
destes lugares, seus habitantes se esqueciam de todas suas preocupações e viviam em
paz e felicidade. Onde quer que se encontrasse, sua presença, cheia de graça e
compaixão, exercia um efeito benéfico. Conheceu a todos os políticos indianos que
chegaram ao poder depois da independência e sua compreensão de todos os tipos de
problemas que estimulavam a nação constituía, sem dúvida, um alívio para todos.

Amulia Kumar Datta Gupta levava um diário aonde ia anotando as conversas


que se produziam ao redor de Sri Ma e as palavras que escreveu durante este período
são ecos dos gritos de desespero que ressoavam por toda parte.
190

“Mudanças drásticas estavam acontecendo na Índia. A política dos britânicos era


dividir para governar. A semente do ódio pelos hindus, que havia sido implantada nos
muçulmanos , recebia tais cuidados sob a liderança de Jinnah (político da Liga
Muçulmana, foi o primeiro presidente do Paquistão) que havia se transformado numa
árvore gigantesca, que ameaçava obscurecer o horizonte para sempre. O homem havia
se rebaixado a um nível muito inferior ao do animal. As terríveis carnificinas de
Calcutá, Bihar e Noakhali nos fizeram chegar a triste conclusão de que, neste
holocausto de divisões, acabaria perecendo qualquer traço distintivo da tradição de
Bharatvarsha (Índia). Mahatma Gandhi e os demais líderes aceitaram a partição para
salvar o país de mais banhos de sangue…Isto não aconteceu…em vez de acabarem, as
matanças cruéis aumentaram de intensidade. Ao dar-se conta de que o Punjab se havia
convertido num mero teatro das bárbaras atrocidades, milhares de pessoas
empreenderam a fuga e atravessaram a fronteira…No Paquistão Oriental, os que se
aferraram a sua própria forma de vida, se sentiam obrigados a deixar suas casas,
abandonando seus lares…”

Prabhudatta Brahmachariji, quase sufocado pela dó, disse a Sri Ma: “Oxalá eu
pudesse ajudar a minha gente, mas o que eu posso fazer?... Sou um asceta e um
mendicante… Mas pelo menos eu posso ir com eles e misturar minhas lágrimas com as
deles…”

Desde a perspectiva dos anos noventa, podemos ver com clareza que a irrupção
de Sri Ma na vida pública de todo o país, naquele momento, foi de especial
transcendência. Tal como uma gazela que conhece muito bem o terreno onde pisa,
andou viajando sem se dar importância, de um lado para outro do país, sem assumir o
papel de Gurú e nem ao menos o de mestra do conhecimento espiritual. Era mais a pura
imagem do ser mais interno de si mesmo (antaryamin) que, ainda que não seja
perfeitamente conhecido, se reconhece imediatamente como tal. Para milhares de
pessoas constituiu a única fonte de valor e esperança em tempos em que o futuro parecia
perder-se na incerteza.

Chegaram muito mais devotos de Dacca, que haviam abandonado seu lar,
afundados na mais completa miséria. Manmohan Ghosh, o amigo de Amulia Kumar e
Diretor Administrativo da Universidade de Dacca, também apareceu em Varanasi. Os
dois amigos se assentaram em dita cidade, com a esperança de poder ver Sri Ma
freqüentemente. As imagens do templo do Ramna Ashram foram levadas para Varanasi,
enquanto que a estátua de Baba Bholanath foi levada para Calcutá.

Com a chegada de Amulia Kumar começou uma nova era de satsanga.


Começou-se a reunir na sala do ashram, um agradável grupo de homens e Sri Ma
passava horas sentada com eles, conversando ou respondendo a suas perguntas. Sri Ma
sabia que, para muitos, aquilo era uma forma de vida muito gratificante, sobretudo para
Amulia Kumar, o qual, depois do satsanga, ia para casa e transcrevia, com todos os
detalhes, toda a conversação em formato de perguntas e respostas. Esta atividade se
converteu no motivo principal de sua vida, até sua morte, em 1972. Ainda que não de
fato, mas em espírito, tanto ele quanto Manmohan Ghosh se converteram em
renunciantes, com uma dedicação maior que a de muitos dos que usam túnica laranja.
191

O núcleo do satsanga não costumava variar: Amulia Kumar, Deva Shankar,


Vaidia Nath Shastri, Swami Shankarananda e Sanial Mahashaya. Mas, às vezes, o Dr.
Panalal, Gopal Thakur, de Allahabad, e outros, se somavam ao grupo de interlocutores.
O auditório, cuja participação costumava se reduzir a escutar, sempre ocupava toda a
sala. Temos aqui alguns extratos de alguns dos cadernos de Amulia Kumar:

“Já há alguns dias, Deva Shankar Babu se preocupa com este tema e voltou a
perguntar: “O japa e a meditação dependem de um objeto, assim que, ao se manter esta
dualidade, como podemos nos estabelecer na Unidade?”

Sri Ma: “O que você pergunta é ‘o mantra é, apesar de tudo, um som, e a


meditação não é mais do que imaginar uma forma. Então, como pode o homem superar
essa síndrome de nome/forma ao qual está submetido?’

Deva Shankar: “É isto!”

Sri Ma: “Você não usa sabão quando se lava? Primeiro o sabão, depois a água.
Se não tivéssemos a água, ninguém usaria o sabão! Que bonita é a criação de Deus!
Quando se avança pelo caminho espiritual que conduz a Deus e se dedica o nama-japa e
a meditação, automaticamente brota o Ganges do conhecimento, cujas águas levam a
ignorância e revelam a verdade do Ser. Quando alguém se dedica a seu objetivo de
alcançar a Deus, pode se desprender da dualidade. Essa é a forma. Existe outra forma de
discernimento – “isto não, isto não” – mas o discernimento se produz ao nível da mente
e a mente é sinônimo de dualidade. Portanto, enquanto alguém for um peregrino
dedicado ao sadhana, seja qual for o caminho que seguir, deve, inevitavelmente,
trabalhar com a mente e, no momento adequado, o peregrino alcança o estado de não-
mente e é aí que alcança o Ser”

Pergunta: “O que acontece com os peregrinos que avançam pela senda do


desfrutar da dualidade, da lila do Criador e da criação?”

Sri Ma: “A dualidade inerente à lila não é um obstáculo para se alcançar a


Unidade. Onde ela for um obstáculo, é porque se está na etapa de busca da plenitude. É
sadhaka (obstáculo) só para o sadhaka, mas não para o que alcançou a meta.”

Num outro dia, um jovem fez esta pergunta:

“É necessário infringir sofrimento ao corpo para encontrar a Deus?” Sri Ma


disse: “Sob nenhuma condição é necessário infringir sofrimento ao corpo.”

“Pode-se encontrar a Deus sem sofrer?”

“Alcançar a Deus é outra questão. Ninguém tem o direito de fazer o corpo


sofrer, sob nenhuma circunstância. Por quê? Pela seguinte razão: De quem é o corpo? É
d’Aquele que o criou, d’Aquele que te deu esta forma para que você possa realizar uma
missão. O corpo é a morada de Deus. Mantenha-o limpo, puro, incorrupto. Deus reside
neste corpo, é Sua morada. Tente viver na presença d’Ele, deseje Sua presença. Você
não tem nenhum direito de infringir sofrimento ao corpo.”
192

“Se o corpo está corrompido, é possível que se tenha o desejo de acabar com ele
totalmente?”

“Não e inclusive ter esse pensamento é um pecado grave. Um arrependimento


sincero é um agente de purificação de potência infinita. Por acaso os santos não dizem
que é impossível que o homem cometa um pecado tal que não possa ser purificado pela
Graça de Deus? Não pense nos pecados. Ninguém deve considerar-se um pecador. Na
verdade, vocês são ‘filhos da imortalidade’, ainda que atualmente não o saibam. A
misericórdia de Deus abarca tudo. Se a pessoa se foca em viver permanentemente na luz
da presença de Deus, enche seu coração com pensamentos sobre Deus, então não há
perigo de errar. Ele mesmo se encarregará de purificar a Seu devoto. Fé é a única coisa
que se pede.”

Outro extrato do mesmo caderno:

“Gopal Thakur veio de Allahabad na celebração do Guita-Jayanti, o qual realiza


com grande devoção e dedicação. Sempre dá gosto escutá-lo conversar com Sri Ma:

Gopal Thakur: -“Gastamos muito tempo falando de nós mesmos. Agora é a sua vez.”

Sri Ma: -“Baba! Isto é uma folha em branco. Não há nada aqui.”

Gopal Thakur: -“Claro e nós somos muito cultos, mas todo mundo vem é para ver você.
Por quê?”

Sri Ma: -“As pessoas vem para escutar o Guita-Jayanti.”

Gopal Thakur: -“Pois sim! De fato, eu preparei tudo para fazer o Guita-Jayanti aqui
porque sei que assim vou ter muito público!”

Sri Ma: - “Sabe, pode ser que haja uma razão para que as pessoas venham me ver. Não é
verdade que os que bebem gostam de se juntar com outros que bebem também? Pois
aqueles que não têm nada vêm comigo, já que sou do mesmo grupo!”

Gopal Thakur: - “Não é nada comum encontrar uma pessoa com tal capacidade de
compreensão. A maioria das pessoas vem aqui com a esperança de receber algo de você,
mas tem que partir com as mãos vazias.”

Sri Ma: “Mas o fato de que venham não é totalmente infrutífero, não é mesmo?”

Gopal Thakur: - “Sem dúvida, mas quando alguém vai ver uma pessoa comum e obtém
algo, sente-se satisfeito. Mas se ele vai ver um rei e volta com uma moeda na mão,
parece brincadeira! (todos riem).”

Sri Ma, dirigindo-se aos discípulos de Gopal Thakur: - “Recordem as palavras que Baba
acaba de dizer. Não se conformem com uma moeda. Tirem dele toda esta riqueza que
ele tem guardada.”

Um deles disse: - “Somos incapazes de fazê-lo. Por que não nos dá tuas bênçãos à
força?”
193

Sri Ma: - “Está vendo Baba, estão te pedindo que você dê tudo que tem!”

Gopal Thakur: - “Que interessante! Como pode isto tudo recair em mim? Além disso, se
pode dar algo pela força? Que a pessoa entre na água para banhar-se é uma coisa, mas
outra coisa muito diferente é que o atirem na água!”

Sri Ma: - “Mas não é tão diferente assim, porque acaba se molhando por igual, não é?
(todos riem). Eu já disse que hoje não teríamos uma conversa séria.”

Os refugiados do Paquistão Oriental começaram a acreditar que a “tradição


característica de Bharatvarsha” quem sabe não desaparecesse na fogueira dos tempos
em mutação. Não há dúvida de que alguma geração futura será capaz de avaliar o
autêntico valor da constante influência de Sri Ma em nosso país naquela época.

Conclusão do Savitri-Mahayana

Os melhores anos do novo ashram de Varanasi começaram em 14 de Janeiro de


1950, com a conclusão do Akhanda Mahayajna. Por volta de cinco mil devotos de toda
a Índia se congregaram em Varanasi, misturando-se as pessoas comuns com as famílias
reais dos Estados Independentes da Índia. Mas sobretudo, entre esta enorme afluência,
se destacavam muitos eminentes sadhus e mahatmas, alguns dos quais haviam se
deslocado de seus remotos locais de retiro no Himalaia. Todos aqueles que receberam o
convite de Sri Ma para assistir a conclusão do yajna védico a assistiram. Panu
Brahmachari e Mrinmaya Brahmachari (Chinmayananda) se encarregaram de organizar
a comida e o alojamento para todos os convidados, uma tarefa enorme que, segundo sua
própria experiência, só se pôde realizar graças à kripá (graça) de Sri Ma.

Este ato esplêndido aglutinou, como nunca antes havia acontecido, a família de
devotos de todo o país e, devido ao sentimento geral de que se necessitava uma entidade
ou comitê central, acabou se constituindo, em 1950, o Sri Anandamayi Sangha. Mais
adiante, em 1952, nasceu uma publicação trimestral chamada Ananda Varta, com a
finalidade de que todos os interessados pudessem estar em dia com as notícias sobre as
viagens de Sri Ma e as demais informações.

A década dos cinquenta foi um período em que Sri Ma aceitou os diferentes


convites que recebia de todo país, para assistir a diferentes atos. Qualquer um que a
convidasse sabia que teria que se encarregar de, no mínimo, cem ou mais homens,
mulheres e crianças. Foi crescendo o âmbito das celebrações, assim como foi se fazendo
mais variado o tipo de anfitriões, desde eminentes mahatmas e príncipes regentes até
pessoas comuns que contribuíam em conjunto com os recursos que dispunham,
passando por ricos homens de negócios. Mas Sri Ma também visitava a casa de
qualquer devoto que a convidasse em particular, em cujo caso se apresentava
acompanhada unicamente por uma ou duas pessoas.
194

A celebração no Punjab, em Maio de 1951, do aniversário de Sri Ma, iniciou um


novo estilo nas comemorações. Haribabaji e Sri Krishnananda Avadhuti fizeram todos
os preparativos para recebê-la em grande estilo e envolveram a todos os habitantes
daquela zona. Sardar Sadhu Singh, de Jhulundar, assim como seus quatro filhos
homens, a quem Sri Ma havia posto os nomes de Rama, Lakshmana, Bharata e
Satrughna e que eram já componentes bem conhecidos da família de devotos, foram
recebê-la na estação de trem de Jhulundar, de onde foram para o Savitri Ashram,
formando uma procissão. Em dito ashram, Sri Ma recebeu o mesmo tratamento
honorífico que o santo Granth Sahab (livro sagrado dos Sikhs).

Sri Haribabaji a estava esperando com uma banda de música, além de seu
próprio grupo de kirtan, em cuja companhia a levaram até o ashram de Satchidananda, o
Gurú de Haribabaji. Depois do Arati e do puja de boas vindas, a acompanharam até uma
casa recém construída. O alojamento e a comida haviam sido organizados à perfeição,
para a heterogênea multidão que constituía o séquito de Sri Ma, sendo ditas celebrações
preparadas por sadhus. Geralmente, são pessoas comuns que se ocupam em alojar os
sadhus mas, nesta ocasião, a situação havia se invertido. Os devotos procedentes de
outras cidades ficaram boquiabertos diante da qualidade da organização, em todos os
níveis. Sri Krishnananda Avadhuti não só era um renunciante supremamente
desapegado, mas também era um notável homem de ação, quando surgiam ocasiões que
necessitavam de uma organização em grande escala.

A celebração do aniversário de Sri Ma foi realizada em Hoshiarpur, Jhulundar e


Dorahá, terminando em Ambala, em 24 de Maio de 1951. No templo chamado Sanatana
Dharma Sabhá se haviam reunido mais de dez mil pessoas para escutar a voz de Sri Ma
e ter seu darshan. Os adornos florais, a música e as pregações dos mahatmas cativaram
o coração de todos os presentes. O ato foi um êxito completo.

Uma das características desta celebração foi à distribuição de alimentos e


presentes para muitas instituições de ajuda aos pobres como, por exemplo, um hospital
de leprosos. Quando Sri Ma entrou no recinto, os residentes lhe deram umas calorosas
boas vindas. Um menino se destacou do grupo e recitou alguns cânticos em sânscrito,
com uma pronúncia perfeita, depois do que Sri Ma se aproximou dele e o abraçou
ligeiramente, tocando-lhe a cabeça com a mão [Sri Avadhutaji deixou escrito que as
pessoas de Ambala presenciaram um milagre, porque o menino leproso de Ambala se
curou completamente, fato que também foi publicado pelos jornais].

Depois das celebrações do seu aniversário, Sri Ma viajou até Amritsar e dali
para Mandi. O Rajá Sahab e seus oficiais a estavam esperando em Gurdaspur. Diante do
efusivo convite da Rani da Caxemira, o Rajá Sahab acompanhou Sri Ma até seu palácio
onde, em seguida, ele mesmo, em pessoa, a conduziu até a capital do seu próprio reino,
para ter o darshan de Sri Ma. Chegaram ao palácio às dez da noite e Sri Ma passou ali
duas semanas, recebendo um tratamento de realeza. A pedido da Rani de Mandi, chegou
o grupo de kirtan de Delhi para realizar seu programa especial de nama-yajna.
195

O estado de Suket faz fronteira com o de Mandi, pelo que Sri Ma também foi
fazer uma visita de um dia ao Rajá de Suket. No regresso a Mandi, voltou a Bajinath,
para estar com a Rani da Caxemira em sua descida de Mandi até Amritsar. Sri Ma e seu
considerável séquito chegaram a Kishenpur em 22 de junho e depois de uns poucos dias
partiram para Varanasi, em cujo ashram se fez um Bhagavat Saptah, a partir de 30 de
Junho. Depois deste evento e em companhia de umas poucas pessoas, Sri Ma, cedendo
ao insistente convite de Krishna Sheopuri, se dirigiu a Chapra (Bihar) onde os
preparativos de um simples lar resultaram adequados. Para Sri Ma era o mesmo estar
em Mandi, Ambala ou Chapra. Regressou a Varanasi em 17 de Julho, em cujo ashram
se celebrou o Gurú Purmina no dia seguinte.

Em 19 de Agosto Sri Ma partiu para Deoghar. Sri Pran Gopal estava doente há
algum tempo e ela lhe fez uma curta visita, depois do que, neste mesmo dia, partiu para
Calcutá e regressou à Varanasi no dia seguinte. No começo de Setembro Sri Ma fez sua
visita anual de três dias a Allahabad. Em Varanasi, Sri Kumar Bhattacharia celebrou um
Bhagavat Jayanti, depois do que Sri Ma foi descansar em Vindiachal. Mas depois de
três dias viajou até Nova Delhi para ver o Dr. J.K. Sem, que estava gravemente doente.
Depois deste dia na capital foi passar três dias em Etawah e regressou a Varanasi em
Outubro de 1951 para a celebração anual do Durga Puja, que os filhos do falecido Sri
Pran Kumar, de Calcutá, organizaram.

Samiam Saptáh (semana de austeridades)


Diante das constantes recomendações de Sri Ma para que cada um estabelecesse
para si mesmo uma rotina diária que incluísse um tempo para a oração, se ouviam
muitos comentários de pessoas que diziam que lhes era muito difícil romper os hábitos
de toda uma vida e que tinham um horário muito apertado durante o qual, se a pessoa
tentasse tirar uns poucos minutos, se dava conta de que a mente não ficava em paz de
jeito nenhum.

Para tais problemas Sri Ma costumava ter palavras de ânimo: “Tudo bem, pois
se vocês têm todo o tempo tomado por vossas ocupações diárias e vossos pensamentos,
ao menos poderão reservar certos dias para dedicá-los completamente à busca
suprema.” Então explicava, de forma mais detalhada, o samian-vrat (voto de
autocontrole) de um dia, que todos podiam fazer, a partir do qual o recém criado
Organismo Central de Organizadores chamado Sri Sri Anandamayi Sangha teve a idéia
de preparar um samiam-saptah para todo mundo. Depois que o primeiro presidente de
dito organismo, Rajmata Ananda Priya, deixar o cargo, Durga Singh, o Rajá de Solon,
mais conhecido como Yoguibhai, foi eleito por unanimidade. O mesmo apresentou a
proposta de organizar um programa de Samian de uma semana de duração, ao qual
todos os devotos seriam convidados. Depois de consultar os organizadores
correspondentes, se escolheram as datas e o local adequados, realizando-se a primeira
semana de samian-sapitah em 6 de Agosto de 1952, no ashram de Varanasi.

Esta primeira experiência teve tal êxito que inclusive hoje em dia é o programa
com mais participantes do ashram, durante o qual todos os devotos sentem uma vez
mais a viva presença de Sri Ma e ao qual assistem diligentemente os mahatmas,
demonstrando assim que também eles acreditam na graça onipresente de Sri Ma durante
este programa no qual, por pouco tempo, todo mundo se converte no asceta ideal.
196

Extrato do Diário de um dos Participantes

“O Samian-vrat se iniciou depois de toda uma noite de vigília, dedicada


exclusivamente ao canto de kirtan e a meditar, porque coincidiu com o Jhulan Purmina
e havia eclipse lunar. A semana terminou com puja e kirtan durante toda noite de
Janmasthami (comemoração do nascimento de Krishna).

“Toda manhã, às três e meia, soava a campainha que nos tirava de nosso curto
descanso. Em várias ocasiões a Mãe assistiu em pessoa ao Usha Kirtan das quatro da
manhã. Depois de fazer nossas abluções diárias, cada um se dedicava a seu puja, japa e
meditação, assim como em qualquer outro momento do dia que pudéssemos ter.

“Todo dia meditávamos com a Mãe de meia hora a 45 minutos, várias vezes: de
oito a nove da manhã, de três a quatro da tarde, de quinze para as nove até as nove e
quinze e de quinze para meia noite até meia noite e quinze. Depois da leitura matinal do
Gita, a Mãe costumava responder às nossas perguntas ou nos contava coisas do seu
passado (quando era perguntada a respeito) ou, se não, era Sri Krishnanandaji Avadhuti
quem falava. À tarde, se lia o Bhagavat e, depois, Sri Krishnanandaji dava uma palestra
cheia de inspiração e ensinamentos, explicando o significado do samian-vrat para o
sadhana, falando da atitude do sadhaka e de outros temas deste tipo, que constituem
uma ajuda muito prática para o aspirante.

“Sri Gopinath Kaviraj havia preparado algumas instruções simples, mas muito
úteis sobre asana, japa e meditação, que eram lidas em voz alta e comentadas para
todos. Ele também veio em pessoa em duas ou três ocasiões. Muitos residentes,
procedentes de Benares, assistiram o satsanga com grande entusiasmo e seguiram em
seus lares as pautas de alimentação e regras de comportamento.

“A Mãe estava sempre presente durante as longas horas de satsanga, das 07:45
as 11:30 da manhã e das 14:45 as 17:30. Também assistia ao kirtan noturno, que durava
pelo menos uma hora. Depois, as 21:30, as pessoas formavam uma pequena roda, mais
informal, em torno da Mãe, com todos sentados, durante meia hora, mais ou menos, no
terraço aberto que dava para o Ganges e ali se falava do que havia acontecido durante o
dia e se sugeriam coisas para o dia seguinte.

“Se podiam escolher três tipos de dieta. A classe A fazia jejum no primeiro e
sétimo dia, com água do Ganges; o segundo e sexto tomavam só um prato de arroz e
frutas cozidos em leite, sem açúcar e no terceiro, quarto e quinto dias comiam arroz com
verduras. Os da classe B, ao meio dia, comiam arroz, roti (tortas de trigo), verduras
cozidas e coalhada e à noite só tomavam leite. Os da classe C tinham a mesma dieta mas
acrescida de dhal (lentilhas).
197

“Não havia tempo para ter fome nos intervalos e, em geral, todo mundo se sentia
mais forte e em melhor forma do que o normal. A Mãe dava pessoalmente as
informações de como se tinha que preparar a comida e quem tinha que cozinhar e todos
os dias ia olhar como a serviam. Como sempre, apesar de que agora fosse mais evidente,
a Mãe estava em todas as partes, supervisionando tudo e dando conselhos e ajuda a todo
aquele que necessitasse.Não exagero ao dizer que, durante essa semana, recebemos algo
duradouro, um novo impulso na busca da Verdade, um propósito mais certeiro. Temos
saboreado o maravilhoso que pode ser a vida quando a dedicamos ao satsanga, quando
cada minuto é dedicado à busca de Deus.”

Curiosamente, a maioria dos participantes escolheu a dieta classe A. Um dia,


depois da sessão de meditação, Sri Ma rompeu o silêncio, cantarolando, em voz baixa,
uma melodia enfeitiçante. Depois de uns poucos minutos, todos podiam entender as
seguintes palavras:

“he hitah, he hitah, he brahmatattvam


he hitah, he hitah, he brahmabhutam
he hitah, he hitah, he brahmasvarupam”

Sri Ma fez um sinal a Bibhu Brahmachari para que aprendesse a melodia e a


cantasse.

Mais tarde Sri Ma comentou que havia “visto” um menino sentado ao seu lado,
com roupa de tons marrons, cantando esta letra com a melodia que ela havia repetido de
forma audível ao acabar a hora de meditação. Mas a melodia era difícil e ninguém foi
capaz de repeti-la depois dela, exceto Bibhu Brahmachari. Sri Ma a incorporou à rotina
de todas as semanas seguintes e Bibhu Brahmachari a cantava sozinho, com sua
profunda e melodiosa voz. Posteriormente Sri Ma indicou quais outras pessoas podiam
cantá-la, mas só durante o samiam saptha e na presença de Bibhu: Brahmacharini
Pushpa, Kanti e Chabi Banerji.

Produziu-se outra “novidade” durante este samiam saptah. Durante uma das
sessões de satsanga, chegou ao ashram Sri Shankar Bharati, o famoso asceta de Lalita
Ghat, de Varanasi, o qual ficou de pé, em silêncio, ao lado da escadaria, durante alguns
minutos e se foi. Só Sri Ma percebeu sua curta visita. Os eruditos de Varanasi sentiam
por ele um grande respeito, dado seu vasto conhecimento dos Sastras (Escrituras), sua
vida de ascetismo e sua simplicidade. Com o passar dos anos se estabeleceu um
profundo vínculo entre ele e Sri Ma. Numa ocasião, seus discípulos chamaram o Dr.
Gopal Dasgupta, um eminente médico da cidade, para que lhe tratasse um problema de
estomago. Este ficou pasmo ao inteirar-se de que ele se alimentava de uma cocção dos
restos de verduras de um mercadinho que era montado diariamente perto da Lalita Ghat.
Quando o doutor comentou este fato a Sri Ma, esta mandou que todos os dias se levasse
ao asceta uma comida sã, o que ele aceitou até o final de seus dias.

Ele tinha por costume que ninguém se incomodasse por sua causa e que só se
encarregassem do que ele considerasse ‘a vontade’ do seu ishta-devata, a Deusa Lalita,
do templo onde vivia. Acabou identificando Sri Ma com Lalita Devi e seguindo ao pé
da letra suas instruções durante o curto período de vida que lhe restava. Era tão erudito
que os estudiosos o consideravam uma encarnação de Adi Shankaracharia.
198
199

CAPITULO 13

A Confluência de Muitas Correntes

“Uma tarde, de repente, me pediram que desse uma palestra para toda platéia e
me disseram que a Mãe me daria parte de seu tempo durante o programa para que eu
falasse. Apresentaram-me ao público como uma discípula de Pitaji Yogananda e eu falei
para todos do amor ilimitado que o mestre tinha para com a Mãe Divina e da grande
obra que ele estava fazendo no Ocidente, transmitindo a mensagem do yoga. Em
seguida, me referi à obrigação dos discípulos – a obrigação de transformar em sua a
missão do Guru, com uma dedicação e um desapego cada vez maiores. Ao ter visto a
adoração que se professa aos santos devotos na Índia, recordei aos presentes que não
basta louvá-los e tentar obter seu darshan, mas sim que nós, os devotos e discípulos,
devemos fazer um bom uso de nossa vida e nos esforçarmos para seguir seus passos…
A melhor forma de realmente dar graças aos grandes seres, como meu bendito Gurudev,
Anandamayi e outros santos, pelo que nos dão é nos convertermos em seres como eles.
Como conclusão, lhes disse que a única missão de tais seres é despertar em nós o desejo
de descobrir o Amado em nosso interior.”

Data Mata (Fevereiro de 1959)


Presidenta da Yogada Satsanga Society of Índia
E da Self-Realization Fellowship of America

“Até quando vocês querem ficar numa pousada, na beira da estrada? Vocês
não tem pressa em chegar em casa? Que deleite infinito!... O Eu está em nosso
próprio ser, o errante, o exílio, a chegada ao lar e o lar… O único que existe é o si
mesmo…”

Sri Ma Anandamayi
200

A Confluência de Muitas Correntes

Segunda Viagem de Sri Ma ao Sul da Índia

Dado que Sri Haribabaji tinha muito desejo de ir ver os templos do sul da Índia,
os especialistas elaboraram um itinerário e os devotos de Sri Ma se encarregaram de
organizar todos os preparativos. Apesar de que Sri Ma, quando viajava sozinha segundo
seu próprio kheyal, nunca dependia de ninguém para nada, se preocupava muito que os
mahatmas que viajavam com ela recebessem toda a atenção necessária. Além de
Haribabaji e seus muitos devotos, o grupo incluía também a Sri Avadhuti, Swami
Paramananda, Bramacharis Kusum, Bibhu e Kamalakanta, Didi Gurupriya e Buni.

Sri Thakurbhai e Kontibhai Munshaws, de Ahmedabad, haviam se encarregado


de organizar o começo e o fim do percurso. Ao chegar a Waltair, se encontraram com
um comitê de boas vindas que os estava esperando e que os acompanhou até um
dharmsala. Enquanto estavam se acomodando, Sri Ma partiu sigilosamente com
Shashadhar Bhattacharia (um devoto de Calcutá) e, depois de perambular pela cidade,
chegou a um lugar chamado Shanti Ashram, cujos residentes se alegraram enormemente
desta visita inesperada de Sri Ma e lhe comentaram que, a princípio, se havia preparado
tudo para que ela se alojasse naquele ashram, mas, desgraçadamente para eles, haviam
mudado os planos no último minuto.

Sri Ma continuou passeando até chegar a uma vila de pescadores, onde começou
a cantar um kirtan para chamar-lhes a atenção e fazê-los sair de suas cabanas. Depois de
um tempo estava rodeada de uma multidão cantando kirtan e os convidou para virem ao
dharmsala à tarde. Assim o fizeram, acompanhados de suas esposas e filhos.
Entregaram-lhe frutas e doces como prasad e Sri Ma acabou tão contente com os
pescadores quanto eles com ela.

Em seguida, Sri Ma e seu grupo se dirigiram a Bezwada e dali a Guntur. A


devoção que mostravam os grupos que a acolhiam era enternecedora, apesar da língua
ser um obstáculo para as conversas.

Sri Ma e Haribabaji chegaram a Madras em 27 de Outubro de 1952. A Sra.


Taliarkhan havia se oferecido para ser a encarregada desta etapa da viagem e havia
pensado em todos os detalhes. Sri Ma foi recebida na estação de trens com uma banda
de música e com a presença da elite da cidade. O catedrático T.M.P. Mahadevan, um
renomado erudito, havia publicado um artigo no Sunday Times sobre Sri Ma e sua visita
à cidade e Madras estava então preparada para receber seu darshan.
201

Logo que Sri Ma se instalou nos alojamentos que lhe haviam preparado, dez
brâmanes recitaram hinos védicos e lhe deram as boas vindas tradicionais do
purnakumbha. No dia seguinte começaram as visitas aos templos, um após o outro.
Naturalmente o primeiro que foram ver foi o templo de Kalaleshwar, no centro da
cidade, seguido pelo de Venkateshwar. Os indianos do norte ficaram assombrados
diante da magnificência dos santuários, uma representação permanente da devoção dos
reis do sul.

À tarde, Sri Ma foi visitar ao Sir C.P. Ramaswami Aiyer, em resposta ao seu
encarecido convite. Demonstrou ter grande devoção e sua família havia preparado uma
recepção especial. Por sua parte, o grupo de acompanhantes de Sri Ma ficou encantado
de haver conhecido um homem tão excepcional.

Sri Ma tinha uma agenda muito apertada. Fez uma visita ao Sri Ramakrishna
Mission, onde o Swami Shuddhasattvanandaji ficou encantado em recebê-la. Ambos
conversaram um tempo e ele lhe deu um pouco de frutas para comer, com suas próprias
mãos. A Sra. Taliarkhan levou todo o grupo até Adiar, para visitar a Sociedade
Teosófica. Como não havia informado ninguém da sua chegada, Sri Ma teve
oportunidade de passear um tempo naquelas imediações plenas de tranquilidade e
silêncio.

No dia seguinte, 29 de Outubro, foram para Kanchipuram, a uns 100 km dali,


onde Sri Ma e seus assistentes tiveram o darshan dos templos de Shiva e Vishnu. Onde
quer que ela fosse, os oficiantes ficavam encantados em recebê-la e em lhe mostrar as
imagens com especial dedicação. O recinto do templo era imponente. Não havia
eletricidade no Sancto Sanctorum dos templos e as imagens estavam iluminadas
somente por lâmpadas de azeite ou aratis de cânfora.

Falaram-lhes de uma velha mangueira que está diante do templo e que é


considerada o depositário dos quatro vedas, porque produz mangas de quatro tipos
diferentes. Todo dia um dos frutos é colhido para ser oferecido a Shiva, dentro do
templo.Depois de Shivakanchi e de outros templos menores, tiveram o darshan de
Kamarshi Devi, cuja bela imagem arrebatou o coração dos visitantes.

O templo de Vishnu era igualmente fabuloso e impactante. Mostraram para Sri


Ma o abanador que Sri Yamunacharia usava para ventilar a imagem durante algum
tempo, todos os dias, e que se conserva no templo com grande cuidado. A imagem era
enorme, maior que o tamanho natural e estava coberta por tal quantidade de adornos
preciosos que dava a sensação de emanar uma aura de luz. Esta é a imagem da qual
podem ter darshan todos os peregrinos, mas existe outra imagem de Sri Varadarajan em
cima do Sancto Sanctorum, cujo acesso é feito por uma escada de vinte e cinco degraus,
cada um dos quais simbolizando uma das sílabas sagradas do Gayatri Mantra.

A Sra. Taliarkhan havia conseguido a ajuda de Sri Vishwanathan, o encarregado


do templo, que havia ido ver Sri Ma em pessoa e que havia tido a amabilidade de
interessar-se pelo que seria necessário para atendê-la adequadamente. Em consequência,
os comitês de gerência dos templos já sabiam de antemão à hora aproximada que se
produziria a visita de Sri Ma. Foi assim que os oficiantes a receberam com todas as
honras. A levavam para ver a residência e lugar de nascimento de Sri Ramanujacharia, o
grande mestre vaishnava do sul da Índia.
202

Sri SS Cohen escreveu um artigo sobre a visita de Sri Ma a Madras e


Tiruvannamalai, do qual oferecemos alguns extratos:

“A Sra. F. Taliarkhan, do Ramanashram, conheceu a Sri Mataji no ano passado,


em Delhi e prometeu a si mesma que, o dia em que o sul da Índia fosse abençoado com
sua visita, seria ela quem teria a oportunidade de servi-la e organizar-lhe a viagem, a
estadia, etc… Centenas de habitantes da cidade se apertaram para ter o darshan de Sri
Ma… Seu aspecto, o magnetismo de sua personalidade e a doçura de suas palavras
cativaram o coração de todos e atraíram uma grande quantidade de público. A noite de
29 de Outubro foi a primeira vez que Sri Mataji respondeu as perguntas do público. A
conversação foi iniciada por uma jovem mulher que queria saber que remédio havia
para uns desmaios que ela sofria quase desde a infância e que costumavam acontecer
quando ela escutava bhajans, assistia pujas ou concentrava sua atenção na figura de Sri
Krishna que tinha em sua casa. Mataji a interrogou e lhe deu uma resposta de dez
minutos sobre a importância de sua pergunta, exortando-a finalmente a exercer o
autocontrole: “Sendo que você perde a consciência durante estes desmaios e que, depois
de todos estes anos não te deram nenhum benefício espiritual nem te permitiram
avançar em teu sadhana, você deve considerá-los como algo desfavorável e, portanto,
deve se esforçar por manter-se alerta quando sentir que começa o impulso de desmaiar.
Faça japa e reforce sua mente repetindo o nome de Deus.” Em seguida, colocando sua
mão sobre o ombro da jovem, Mataji sorriu e lhe disse com grande ternura: “Você tem
tido o darshan de Sri Krishna e agora eu tenho que ter seu darshan” e juntou as mãos em
sinal de saudação. A jovem começou a chorar pela enorme felicidade que sentia, em
cujo momento uma voz perguntou:

- “Qual é o caminho mais fácil para alcançar a Deus?”

- “Lágrimas abundantes! (todo mundo riu com Sri Ma).”

- “E se as lágrimas não brotam?”

- “Então você deve procurar a companhia dos que derramam lágrimas, ou seja,
satsanga. É a forma mais fácil de chegar a Deus, mediante o amor e a devoção.”

Em 30 de Outubro, Sri Ma e os mahatmas foram visitar o Gaudiva Math e


Haribabaji se alegrou especialmente ao poder ver o templo de sua ishra-devata.

Sri Rama Rao, um juiz do Tribunal Superior de Justiça de Madras e discípulo de


Ramana Maharshi, havia convidado Sri Ma à sua casa, para honrar com sua presença a
reunião mensal de Ramana-bhajans. Ela sentou-se num sofá colocado sob uma marquise
de flores, que haviam erigido nos extensos jardins da casa e uma grande quantidade de
brâmanes recitaram versos dos Vedas e o Upadesa Saram, uma composição de Sri
Ramana. Foi um acontecimento muito bonito.

No dia seguinte Sri Ma e seu grupo visitaram Mahabalipuram e o renomado


Pakshitirtham. Segundo a lenda, há dois rishis que continuam fazendo austeridades na
forma de dois grandes pássaros que chegam voando todo dia dos Himalaias, para comer
os alimentos que lhes são oferecidos.
203

Sri Haribabaji e Avadhutaji partiram em 1 de Novembro para continuar com seu


extenso giro por outros lugares famosos, mas Sri Ma teve o kheyal de ficar
tranquilamente em Abbotsbury, que é o nome da casa onde se alojava. As pessoas
daquele lugar se sentiam um pouco tristes ao pensar que não teriam oportunidade de
sentar para falar com ela e talvez isto foi o que lhe produziu o kheyal de ficar. No
satsanga daquela tarde fizeram algumas perguntas:

- “Quanto temos que nos esforçar para alcançar a Deus? Não seria muito melhor
depositar nossa confiança n’Ele?” Sri Ma:

- “A menos que Ele faça possível que você deposite sua confiança n’Ele, você
não poderá fazê-lo. O que é o esforço? Uma ação fruto da vontade. Qualquer que seja a
ação que Ele te faça fazer, pode ser transformada em esforço pessoal.”

- “Ma, diga-nos por que nos sentimos atraídos pelos objetos perecíveis. Por que
não nos sentimos atraídos pela fonte permanente de paz?”

- “Isso é Sua lila. Ele está jogando consigo mesmo. Mas inclusive aí, não se diz
no Durga-Saptashati: “Sob o disfarce da vã ilusão, não há nada mais do que Tu”? É ele
quem se manifesta na forma de tais distrações. No entanto, não há que esquecer que, ao
se apegar às coisas mundanas, se vai em direção à perda de si mesmo enquanto que, ao
se sentir atraído por Deus, isso leva à libertação! Felicidade Suprema! Se você fica com
o mundo significa que está comprando um “bilhete de volta”! Um inesgotável ir e vir!”

Sri Ma fez uma pausa e então disse:

“Veja, tudo é infinito. É não-finito aquilo que não tem fim (em ambas as
direções). Por esta razão os animo a todos para que sejam perseverantes com a repetição
do nome de Deus. Façam-no em silêncio, escondendo-o dentro de vocês. Não é de se
desejar uma demonstração em público (do sadhana). Este corpo humano é um presente
maravilhoso. Não o usem mal. Da mesma forma que vocês respiram com normalidade,
tentem também praticar o nama-japa com um ritmo constante. Além disso, o corpo está
mudando constantemente. Primeiro era pequeno e agora é adulto. Este
desenvolvimento, este crescimento deve ser dirigido para o que é bom, auspicioso e
benéfico. Se não, não será mais que um suicídio e nada mais (a incapacidade de
alcançar o Ser nesta vida).

“Esta menina não sabe dar palestras ou discursos. Em minha condição de filha e
amiga (dos jovens) suas, meu pedido infantil é que fiquem sempre com Seu nome.”

Depois destas palavras, a audiência ficou paralisada, em silêncio e


contemplação.

Os poucos dias seguintes foram dedicados a visitar locais próximos. Sri Ma e os


mahatmas se dirigiram a Pondicherry e tiveram uma entrevista com a Mãe do ashram.
204

O lugar seguinte, de grande importância, que visitaram, foi o templo de fama


mundial de Chidambaram, cidade que se encontra a 120 km de Pondicherry. No sul da
Índia se louvavam cinco shivalingas, como os representantes dos cinco elementos do
processo cósmico: em Kanchipuram se adora a Shiva, em forma de terra (kshitimurti),
com água em Jambukeshwara (apmurti), como energia em Arunachala (tejamurti),
como vento em Kalahasti (marutmurti) e como espaço (intelecto) em Chidambaram
(viomamurti). Dado que neste último Shiva é associado ao intelecto sem forma
(iluminação), o templo se chama Chidambaram (Chit – intelecto, ambara – céu). Conta
a lenda que Shiva desapareceu no Intelecto Sem Forma depois de sua dança de
aniquilação ou de sua Dança da Criação de todas as formas. Este templo alberga a
imagem de Shiva como Nataraja.

Ao lado do templo de Nataraja se encontra a igualmente enorme imagem de


Govindaraja, um Vishnu Murti (imagem de Vishnu). Para os indianos do norte foi
interessante observar que os shivaistas visitavam primeiro o templo de Shiva, sem
contemplar a imagem de Vishnu e que só ao sair ofereciam seus respeitos a
Govindaraja, enquanto que os vaishnavas faziam justamente o contrario. Não obstante,
ambas as imagens estão no mesmo templo e recebem a adoração de todos. O recinto do
templo é impressionante. Todos os templos são delicadamente elaborados e construídos
em proporções grandiosas. Cada coluna, salão ou corredor está repleto de lendas
históricas. Constituem uma experiência surpreendente para todos os peregrinos.

Em 4 de Novembro, Sri Ma e seu grupo chegaram a Tiruvannamalai.

S. S. Chen escreveu: “Estava previsto que Mataji chegaria a Tiruvannamalai


nesse mesmo dia 4, ao meio dia e meio. Taliarkhan combinou com os conselheiros do
grande templo de Arunachaleswar que os encarregados lhe dariam as boas vindas com
todas as honras. Mas aconteceu que, às onze da manhã, ou seja, uma hora e meia antes
da hora prevista, seu carro estacionou sigilosamente no Ramanashram, deixando assim
os conselheiros, encarregados, elefantes e oficiantes esperando-a, tentando se refrescar
na sombra das árvores da beira da estrada de Chidambaram, desconhecendo a
antecipação de sua chegada.”

“Poucos minutos depois, passeou pelo ashram para ver os lugares santificados
pela sagrada presença de Sri Ramana Maharshi. Diante do samadhi deste, Sri Ma se
deteve e, juntando as palmas das mãos, perguntou como se havia enterrado o corpo
sagrado e se havia um lingan no local. Não podia ver que o lingan estava coberto de
flores…

“No dia seguinte, às nove da manhã de 5 de Novembro, se reuniram no ashram


todos os devotos e muitos membros do Comitê de Direção, que haviam se deslocado de
Madras. Realizou-se a cerimônia de instalação da primeira pedra da sala de meditação e,
ao finalizar, Sri Anandamayi Ma se aproximou e espalhou flores sobre a citada pedra,
para alegria de todos os presentes.”

Naquela mesma noite (6 de Novembro) deleitou os discípulos do Maharshi


dirigindo, durante uns dez minutos, o canto do bhajan que repetia o nome de Bhagavan
– “Oh Bhagavan, he Bhagavan, há Bhagavan”, etc – mudando amavelmente as
modulações da melodia e da letra a cada repetição.
.
205

Ao final de sua visita, um dos membros do Comitê de Direção se aproximou de


Sri Ma e, com as palmas das mãos unidas, lhe pediu que voltasse algum dia para visitar
o Ramanashram. Sri Ma sorriu e disse: “Eu não vou à parte alguma. Estou sempre aqui.
Não há idas nem vindas – tudo é o Atman.”

S. S. Cohen faz referência a um milagre de Sri Ma: “Ainda que fosse muito
cedo, uma boa quantidade de admiradores se aproximou para se despedir dela. Tinham
o coração pleno mas triste por ter que se separar d’Ela. Dirigi minha atenção para um
rosto em particular, que me interessava e que costuma permanecer imperturbável e vi
nele uma emoção solene que, faz um mês, não haveria sonhado que ele poderia sentir
por nenhum santo nem pro nenhuma instituição. Meu coração se encheu de alegria. Era
um dos milagres que Mataji havia realizado no curto espaço de uma semana: havia
aliviado todo o pesar que meu amigo tinha contido desde há muito tempo.”

Em Ambala o toque curativo de Sri Ma havia produzido um milagre no plano


físico. Em Madras, a metamorfose de um coração também constitui um milagre para
aquele que o contemplou. Por toda região se produziram mais casos desses, de união
entre pessoas, compartilhando uma devoção desinteressada. Maravilhada, Didi
Gurupriya escreveu em seu diário: “É impressionante o vínculo tão estreito que
sentimos com as pessoas do Ramanashram. Um sadhu disse: “Ainda que Bhagavan não
esteja mais aqui, é como se víssemos em Mataji seus mesmos hábitos e sua forma de ser
conosco.” Nós também nos sentimos em casa, como se todos conhecêssemos bem este
lugar e reconhecêssemos a toda esta gente como companheiros de viagem.”

Uma das novas devotas era Srimati Kala Pakkam, a esposa de Sri Padmanavan,
que cantava com Sri Ma sempre que podia. A todo mundo agradava especialmente um
canto – he jagathata – que Sri Ma em pessoa cantava com ela e ao qual acrescentava
suas próprias modulações, às quais Bibhu aprendeu, convertendo-se assim num canto
muito familiar e conhecido quando regressaram ao norte.

Sri Ma foi ver o templo no qual Sri Ramana passou muitos anos praticando
tapasia. A Sra. Taliarkhan lhes explicou que a junta diretora do templo lhes havia dado
permissão para colocar uma foto do Maharshi, de tamanho real, no lugar onde fez seu
sadhana. A Sra. Taliarkhan, graças à sua absoluta devoção e atitude magnânima, havia
obtido autorização para entrar em todos os templos hinduístas, apesar de ser parsi, razão
pela qual acompanhava Sri Ma a todas as partes. Outro novo acólito foi Tepaswami, do
Ramanashram, que identificava de tal modo Sri Ma com o Maharshi que a seguiu sem
reservas e com a mesma lealdade que a seu próprio guru.

Em 7 de Novembro Sri Ma chegou a Kumbhakonam, de onde partiu para


Srirangam, visitando na passagem o samadhi do famoso santo poeta chamado Sri
Tiagaraja, cujos devotos crêem que teve o darshan de Rama após invocar sua presença
mediante sua música devocional. Também fizeram uma parada em Tanjor, para visitar o
templo cujo Nandi, de quase 4 metros de altura, impressionou muitíssimo a Didi. Não
há, em toda a Índia, uma estátua assim tão grande.
206

O templo de Srirangam é o orgulho do sul da Índia. Em sua peregrinação por


esta zona, Mahaprabhu Gauranga viveu quatro meses perto do templo. A profusão de
obras arquitetônicas, a amplitude dos recintos, as colunas com incrustações de ouro e
outros muitos adornos cativaram os viajantes. Os oficiantes, com extrema
circunspecção, permitiram que Sri Ma e os mahatmas entrassem no Sancto Sanctorum.

Ao entardecer se realizou o satsanga no amplo pátio ao ar livre que há no


templo, no qual uma multidão estimada em dez mil pessoas esperava, num silêncio
comovente, que Sri Ma aparecesse e ocupasse o assento que haviam preparado no
estrado construído para esta ocasião. Não houve empurra-empurra, nem barulho
enlouquecido para se aproximar de Sri Ma, nem gritos que criassem mais desordem do
que ordem. Didi e os demais, acostumados com as visitas de Sri Ma a Calcutá, Dacca,
Varanasi, etc, desejaram que as pessoas daquelas cidades pudessem estar ali com eles
para aprender a comportar-se disciplinadamente na presença de Sri Ma. A esta multidão
não faltava devoção, mas sim todos esperavam ansiosamente para escutar a voz de Sri
Ma, a qual superou a barreira lingüística cantando-lhes um kirtan tanto em Srirangam
como em todos os satsangas que se organizaram em outros templos.

Sri Ma e os mahatmas continuaram até Rameswaran, Danushkoti e


Kaniakumari. Seguindo o kheyal de Sri Ma, Didi organizou tudo para que em 13 de
Novembro se pudesse fazer um Lakh Bilvapatra-Puja (puja onde se oferecem cem mil
pétalas de bilva, após escrever o nome de Shiva em cada uma delas) no templo de Shiva
de Rameswaran. Todos os oficiantes foram convidados para comer. No dia seguinte, o
diretor do templo se apresentou, junto com outros encarregados e comentou que ele via
Didi como o Nandi (touro de Shiva) de Sri Ma. Ela sorriu e disse: “Que coincidência!
Pois saiba você que Didi sempre foi uma admiradora de Nandi, porque ele está sempre
sentado, esperando eternamente seu ishta-devata!”

Em Madurai, Didi ficou uma vez mais boquiaberta diante do espetáculo de cerca
de 10 mil pessoas disciplinadamente sentadas, esperando a chegada de Sri Ma. Esta
voltou a cantar para as pessoas e, em resposta a muitos pedidos, disse: “Isto é tudo que
tenho para lhes dizer: Só vale a pena falar sobre Deus. Tudo mais é dor e vaidade.”

Ouviu-se uma voz entre a multidão que disse: “Faz muito tempo que não cai
uma gota de água por aqui. A seca é iminente e as pessoas não deixam de rezar. O que
vai ser de nós?”

Sri Ma: “Em todas as coisas é preciso confiar n’Aquele que criou o mundo e o
mantém. A você, que é chefe de família, é preciso que seus filhos lhe digam o que é
melhor para eles? Aquele que é o pai do mundo sabe como preparar tudo. Tente deixar
tudo a Seus cuidados. Permita que se cumpra exclusivamente a Sua vontade.”

O público presente pareceu gostar da resposta. A este respeito convém


acrescentar que, logo após a visita de Sri Ma, se registrou uma intensa chuva no sul da
Índia e que a imprensa comentou que as pessoas devotas estavam convencidas de que
havia sido devido ao kheyal de Sri Ma.
207

A Sra. Taliarkhan falou um pouco de Sri Ma: “Com efeito, no caso de Sri Ma
não surge a questão de ir em peregrinação. Sua infinita misericórdia é o que a move
para vir ao sul da Índia para abençoar estas regiões e suas pessoas. Todos nós
deveríamos tentar realizar, durante quinze minutos, a prática do nama-japa e do
maunam, que Sri Ma nos sugere que façamos pelo menos uma vez por dia, em memória
de sua estadia entre nós.”

Neste ambiente tão agradável, Sri Ma e os mahatmas iniciaram sua viagem de


volta, passando por Suchindram e Trivandrum. Foi convidada a honrar com sua
presença o palácio do Maharaja de Travancor, já que as Ranis eram obrigadas a
respeitar a tradição ortodoxa de não aparecer em público nem misturar-se com a
multidão. Envolto em sedas, como se fosse ao templo para ter o darshan de Minakshi
Devi, o secretário particular do Maharajá apresentou seus respeitos a Sri Ma e disse para
Didi que muita gente em Madurai acreditava que Sri Ma era a própria Deusa. Estavam
já muito longe aqueles tempos em que a consideravam Manush-Kali em Dacca. Agora,
a temível imagem de Kali e a muito formosa de Minakshi Devi se fundiam na fascinante
pessoa de Sri Ma Anandamayi.

Sri Ma conheceu Baba Ramdaji (Swami Ramdas) no templo, embora passassem


um maior tempo juntos depois, num satsanga. Também conheceu Rama Devi, outra
santa muito conhecida desta parte do país.

Em 23 de Novembro Sri Ma e os mahatmas chegaram a Kaladi, onde lhes


contaram a lenda do rio que corre perto do Math. Neste lugar, a atmosfera de paz e
quietude era palpável. Sri Ma permaneceu um tempo diante da estátua de Jagadgurú
Bhagavan Sri Adi Shankaracharia (santo do sul da Índia e maior expoente do Advaita
Vedanta). Seria possível que ele houvesse chegado, naqueles longínquos tempos (século
VIII) na distante Siddheshvari? Depois de um dia em Kaladi, todo o grupo se dirigiu a
Coimbatore, e uma distância de 240 km.

Devaraj Babu, um amigo de Kantibhai Munshaw, havia supervisionado todos os


preparativos para que o grupo estivesse bem acomodado. Sailesh Bose, o irmão mais
velho de Subhas Chandra Bose, que residia em Coimbatore, passou todo o dia em
companhia de Sri Ma. Em seu diário, Didi anotou que a pergunta “Quando voltarás?”
surgia freqüentemente, como um estribilho, onde quer que Sri Ma passasse algum
tempo. Continuaram avançando até Mysore, passando pelo famoso ashram de Sai Baba,
em Shirdi, em 26 de Novembro.

Sri Ma e seu séquito chegaram a Mysore, onde a Sra. Taliarkhan havia se


encarregado de que alojassem Sri Ma na tenda real do Maharaja, o qual, acompanhado
por toda sua família, foi receber seu darshan, iniciando-se assim uma notória
confluência das tradições do norte e do sul, dado que anos mais tarde, Sri Padmanavan,
o Deus Patrono de Mysore chegou ao norte na forma de uma estatueta de prata com a
qual Elia Rajá presenteou Sri Ma, que a recebeu pessoalmente, com grande cerimônia,
havendo instruído a Bharat Bhai (Swami Bhaskarananda) que aprendesse todos os
rituais de adoração prescritos pelos brâmanes do sul da Índia.
208

Também foi kheyal de Sri Ma que se instalasse na sala principal do ashram de


Kankhal uma estátua de Bhagavan Sri Adi Shankaracharia, que é uma peça única de
grande beleza. Sobre uma plataforma elevada, o assento central está ocupado pelo
grande renunciado, na postura em que se costuma representá-lo. Umas lâmpadas de
bronze do sul da Índia enfeitam as outras quatro plataformas inferiores, duas de cada
lado da central, em cujas faces frontais estão representadas as quatro regiões nas quais o
jagadgurú estabeleceu os quatro maths: Badrinath, ao norte, Sringueri, ao sul, Puri, ao
leste e Dwarka, ao oeste. Estes frisos foram feitos por Nitai Pal e seus discípulos,
conhecidos escultores. A fusão das tradições e culturas, assim como a manutenção do
ideal de renúncia: esta é a meta sobre a qual se enfocam todas as palavras, viagens e
atividades de Sri Ma, ou ao menos esta sensação é dada quando contemplamos o marco
resplandecente de seu kheyal ao longo da vida.

Sri Ma passou mais dois meses pelos lugares de peregrinação no sul. Tiveram o
darshan de Vithaldev, em Pandarpur. Passaram um par de dias em Poona, onde Sri
Somnath Nanda teve seu primeiro darshan de Sri Ma. Posteriormente, como
consequencia do interesse e dos esforços deste, Sri Ma foi a Poona muitas vezes,
estabelecendo-se assim as bases para o futuro darshan. Em Bombay, Sri Ma foi a
convidada de Sri Krishnananda Swami, do Sandias Ashram de Villeparle. Sri 1008
Swami Maheshwarananda, o diretor da instituição, era um santo e erudito muito
conhecido naquela parte do país e que, muitos anos mais tarde, faria frequentes visitas
aos ashrams de Sri Ma.

Sri Ma e Haribaba passaram mais de duas semanas em Bombay. Outro vínculo


que não só se manteve ao longo do tempo mas que foi se aprofundando cada vez mais
foi o que se estabeleceu com Swami Swatantrananda, o qual, um dia, constatou:
“Depois destes 12 ou 13 dias em que pude conhecer Sri Ma, cheguei a conclusão de que
ela á uma conhecedora de Brahman.”

De Bombay, todo o grupo partiu para Ahmedabad e dali para Dwarka, parando
em Junagad, a pedido de Sri Deogan, um antigo devoto. Depois de ir ver Bhalka,
Prabdas Tirtha e Somnath, chegaram a Dwarka no último dia do ano. De certo modo,
nesta cidade se concluiu o giro pelo sul do país.
209

Purna Kumbha Mela em Prayag

1954 foi o ano do Purna Kumbha Mela em Prayag (Allahabad). Sri Ma chamava
o Kumbha Mela de “a bandeira do dharma hindu”. Tal como a bandeira avisa de longe
aos viajantes da presença da meta, o Kumbha Mela representa um espaço de renovação
de todos os ideais que o devoto considera sagrados. Nesta celebração se congregam
todas as ordens ascéticas da Índia, enquanto que as procissões dos sadhus são
contempladas por milhares de pessoas que se reúnem com o propósito comum de
banhar-se nas águas sagradas numa hora auspiciosa.

A zona de acampamento do Prayag é muito extensa por causa dos dois rios, o
Ganges e o Yamuna. Durante um mês se cria uma cidade nas suas margens, com
abastecimento de água e eletricidade próprio, agência dos correios, torres de vigia de
polícia e até mesmo bancos. Filas e filas de tendas de acampamento e de lojas atendem
as necessidades dos peregrinos, enquanto os vistosos estandartes ao vento proclamam a
identidade dos diferentes assentamentos. É uma celebração cheia de beleza e alegria,
que constitui a maior aglomeração humana – mela – de todo o planeta.

O Kumbha Mela de 1954 se viu obscurecido por um acidente de trágicas


proporções, onde centenas de pessoas morreram pisoteadas. Tratava-se do primeiro
Kumbha Mela depois da independência e o novo governo não tinha ainda a experiência
que desenvolveria mais adiante para controlar tais gigantescas multidões. Ainda que o
mela tenha ido crescendo de tamanho e suas preparações tenham se tornado cada vez
mais complexas, nunca se voltou a produzir semelhante desastre.

No dia assinalado para se realizar o ritual do banho sagrado, Sri Ma permaneceu


em sua casinha, enquanto as pessoas que estavam acampadas se dirigiam em turnos até
o rio sagrado. Sri Ma os observava partir e lhes dava conselhos práticos, diante de
possíveis percalços. Disse para todos que deviam dizer em voz alta algumas palavras
como “Jai Shiva, Jai Gangá”, etc, de tal forma que, se alguém se separasse do grupo,
pudesse ser localizado com facilidade. Os devotos escolheram cantar em voz alta: “Jai
Ma, Sri Ma, Jai Jai Ma.”

Logo que todos partiram, Sri Ma deitou-se tranquilamente em sua tenda e, de


repente, se pôs a gritar com voz angustiada: “Ai, ai, estão esmagando, afogando, se
estão asfixiando!” Didi, que estava sentada ali perto, sentiu que estava sendo invadida
por uma terrível sensação de calamidade com respeito a seu próprio grupo de
peregrinos, só podia pensar em suas próprias pessoas e disse: “Não, não aconteceu nada
a ninguém do nosso grupo.” Sri Ma lhe perguntou: “Você está segura?” Ao se lembrar
que Sri Ma sempre repetia as coisas três vezes, para assegurá-las, repetiu enfaticamente
sua convicção mais duas vezes, depois do que Sri Ma não voltou a deitar-se. Algum
tempo depois, deu alguns gemidos de insuportável dor e voltou a dizer: “Didi, vejo
aparições – estão cheias de terror… - as vejo claramente.” Didi se alarmou porque sabia
por experiência que, quando Sri Ma “via” aparições (murtis) eram presságios de mortes
e desastres. Completamente perplexa, Didi tentou separar o kheyal de Sri Ma do lugar
do mela e dar-lhe um enfoque mais amplo.
210

Depois de algumas horas, em companhia de Yoguibai, do Dr. Pannalal e Didi,


Sri Ma foi ao Sangam (confluência) de carro e a levaram de barco até a confluência dos
dois rios, mas ela estava, na verdade, distante e era evidente que não tinha o kheyal de
banhar-se. Tocou a águas e salpicou um pouco sobre si mesma e sobre seus
companheiros. Ao voltarem à zona do acampamento, se encontraram com grupos de
pessoas que regressavam do Sangam e Sri Ma lhes perguntou: “Vocês têm notícias?”
Cada qual relatou suas próprias aventuras – alguns se haviam perdido entre a multidão,
a outros não havia acontecido absolutamente nada, etc. A notícia da catástrofe só
chegou à zona do acampamento ao anoitecer. Centenas de peregrinos haviam morrido
pisoteados nas margens do bandh (dique do rio). Toda a cidade caiu na tristeza e os
devotos compreenderam então as palavras que Sri Ma havia pronunciado exatamente na
hora em que se produziu o acidente (bem cedo, pela manhã). Alguém lhe perguntou:
“Você só via aos que estavam se asfixiando?”

Sri Ma respondeu: “Também via aos que estavam se salvando. Via montes de
seres humanos esmagados e afogando-se, completamente asfixiados. Via muitos que
fechavam os olhos e os voltavam a abrir e a outros que os fechavam para sempre. Era
como se a este corpo também o esmagassem e o asfixiassem. Via a todos os que
estavam morrendo de asfixia e aos que os pisoteavam e, enquanto isso, eu estava deitada
em minha cama, em minha tenda.”O Dr. Pannalal lhe perguntou: “Por que você sentiu
tudo isto? Você pegou algo do sofrimento de toda esta gente?”

Sri Ma respondeu: “Eu não senti asfixia no sentido mundano da palavra. Ainda
que pareça que eu rio como vocês e que falo vossa língua, eu sigo sendo o que sou. O
que é que se manifesta como asfixia? O que é que se manifesta como desespero? Outra
coisa diferente é carregar a agonia de outra pessoa. Em todas as partes é possível
realizar qualquer tipo de ação. Ali onde a autêntica verdade é que tudo é Isso, ali onde
tanto a desgraça quanto o sofrimento, o riso ou as brincadeiras são essa Unidade que
também se manifesta como asfixia, neste estado não existe o conceito de se encarregar
da tribulação de terceiros, já que a única coisa que existe é uma perfeita identidade e
uniformidade (sama). Participar da desgraça de outro implica uma relação mútua em
que um fala ao outro. Isso também tem seu lugar. Quando alguém se adjudica o
sofrimento implica partilhá-lo e isso só é possível quando alguém ainda pode falar em
termos de dar e receber.”

Depois da estadia em Allahabad, continuaram as incessantes viagens de Sri Ma.


A celebração de seu aniversário teve lugar em Almora, onde Sri Ma permaneceu de 14
de Abril até 27 de Junho, uma estadia bem longa, no que diz respeito a Sri Ma. Seus
movimentos agora se viam ligeiramente restringidos porque os mahatmas, e em especial
Haribaba, gostavam de ficar num lugar determinado durante os meses de verão e, como
ela não tinha preferências, geralmente tentava satisfazer a essas pessoas tão especiais
que vinham participar dos atos e celebrações do ashram.

Quando partiu de Almora, visitou muitas cidades. Dirigiu-se a Ranchi, onde se


havia estabelecido um novo ashram, cujo edifício era uma doação do Dr. P. R. Gosh.
Cedendo ao convite de Haribaba, Sri Ma se deslocou até Hoshiapur. Ainda que o
Mahatma Triveni Puri, mais conhecido como Khaná Baba, já houvesse falecido, seus
discípulos e devotos se encarregaram de todos os preparativos para acolher Sri Ma e
celebrar seu aniversário em 1954.
211

Devido ao grande entusiasmo de S.N. Sopori, o samiam-vrat de Novembro deste


ano teve lugar em Bombay, em cuja ocasião muitas famílias que passaram a formar
parte da comunidade de devotos foram conhecer Sri Ma: Sri B. K. Shah e sua família, o
Dr. Surabhai Seth, D. K. Kania e Jaya Bem, assim como muitos outros.

Gurupriya Didi estava com artrite há dois anos e não estava muito bem de saúde,
motivo pelo qual teve que ficar de cama no fim do ano, em Varanasi. Haribaba, que
tinha Didi em grande estima, de deslocou até Varanasi e iniciou vários rituais com o
propósito expresso de ajudar na sua recuperação. Para alegria de todos, Didi melhorou
parcialmente.

1955 foi o ano de Vrindavan e o novo ashram se foi criando gradualmente.


Construiu-se um novo templo, que albergava as preciosas imagens de Gauranga e
Nityananda Mahaprabhu, do escultor Nitai Pal, de Calcutá. Sri Ma disse: “Graças à
grande devoção e ao kirtan de Haribaba, Mahaprabhu em pessoa se manifestou nesta
Forma.”

Passaram o verão de 1955 em Solon, onde Yoguibhai havia construído um


ashram muito espaçoso, num terreno completamente plano, debaixo do palácio, de onde
havia uma vista maravilhosa das montanhas e dos vales. Houve uma boa assistência aos
satsangas e esse templo foi um parêntese relaxado no apertado programa de Sri Ma. Em
Solon, quando Sri Ma saía para dar um passeio, havia um cachorro chamado Moti, que
sempre ia caminhar com ela, apesar de todas as tentativas de afastá-lo. Sri Ma disse:
“Dêem-lhe alguns doces”, depois do que todos os dias lhe davam sua ração de prasad e
Moti se converteu num satsangui regular, até tal ponto que, no dia em que Sri Ma partia
de Solon todos repararam sua ausência. Alguém informou que ele havia tido um
pequeno acidente na estrada e que estava deitado, tranquilo, num canto do largo
vestíbulo. Sri Ma se aproximou dele com um doce na mão. Ele não o pegou mas, em
troca, lambeu seus dedos. Yoguibhai informou mais adiante que, pouco depois da
partida de Sri Ma, Moti morreu.

Durante o mês de Fevereiro de 1956, Sri Ma foi para Vindhiachal, saindo de


Varanasi, para dedicar algum tempo ao Dr. M. Boss, um dos principais psiquiatras da
Europa. Alguns estrangeiros também foram para lá, para poder estar com ela longe das
cidades abarrotadas de gente, o que se converteu num costume. Alguns dos ashrams
demonstraram ser muito agradáveis para as pessoas que não estavam acostumadas à
vida cansativa e imprevisível que prevalecia ao lado de Sri Ma. Estes locais eram
Rasguir e Vindhiachal, bem como Bhimpura, no Gujarat, perto do sagrado rio Narmadá.
Graças aos estrangeiros, que desfrutavam da proximidade de Sri Ma nesses períodos de
“retiro”, ela também podia, às vezes, tomar uns poucos dias, ou inclusive semanas, de
descanso, algo tão necessário.

Em 1956 Sri Ma completou sessenta anos, celebrando-se a festa em Varanasi,


lugar onde, apesar do calor, compareceram todos os devotos. As Ashtasakhis (oito
amigas) de Sri Ma, procedentes dos povoados de Almora, chegaram com oferendas de
arroz inchado feito em casa e outros humildes alimentos preparados com grande amor e
carinho. Sri Ma comeu um pouco de cada prato, com todo o aspecto de que estava
desfrutando e agradecia a comida que é oferecida.
212

Os príncipes e suas famílias chegaram com valiosos presentes. As grandes


empresas da Índia se ocuparam de providenciar comida e alojamento para a grande
multidão de devotos. Eruditos e sábios deram eminentes discursos durante as sessões de
satsanga enquanto que, à noite, artistas famosos como Ravi Shankar, Ali Akbar,
Omkarnath Thakur e Siddeshvari Bhai deram recitais de música. Durante o dia se
realizaram muitos rituais religiosos, tais como Chandi Path, Rudrabhishek, Ramayana-
Paravana, Vishnú-Yajna, etc. De manhã à noite o grande pandal ressoava com os cantos
dos mantras védicos, os discursos sobre as Escrituras, os kirtans e a música instrumental
e vocal. O último ato, que manteve subjugada toda a congregação, a qual estava o dia
todo esperando por isso, foi o matri-satsanga, a meia hora de conversação com Sri Ma.

Tripurari Chakravati, catedrático e renomado especialista no Mahabharata disse:


“Falei tantas vezes do rajasuya yajna que Yudhishtira fez na era de Dwapara (era que
precede o Kali Yuga). Aqui temos outro rajasuya yajna que Yudhishtira fez na era de
Kali e Sri Ma é quem preside, tal como Krishna presidiu aquele.” Estas celebrações
foram todas exitosas, graças às pessoas encarregadas da organização.

Esta comemoração abriu uma nova dimensão para as atividades futuras do


ashram. Os mahatmas passaram a ocupar uma posição prioritária e, gradualmente, os
deslocamentos de Sri Ma começaram a estar determinados por sua presença nos
ashrams. Haribaba a tratava como a encarnação visível de Mahaprabhu Gauranga Devi,
sua ishta, e passava cada vez mais tempo nos ashrams de Sri Ma ou a convidava ao seu.
Os componentes de seu próprio séquito também sentiram grande devoção por ela e iam
vê-la por conta própria para consultá-la sobre o bem-estar de Haribaba, que era um
asceta tão estrito e inflexível com suas próprias práticas que nem sequer sua avançada
idade suavizava suas regras alimentares nem aceitava as comodidades da vida diária
além do estritamente necessário. Dedicava todas as horas que estava desperto a um tipo
ou outro de sadhana.

Numa ocasião ele se deslocou sozinho de Bandha até o ashram de Sri Ma em


Kishenpur, Dehra Dun e lhe disse: “Minha gente não leva a sério a vida devocional.
Não deixo de lhes dizer para que nos esforcemos todos juntos e que juntos cruzemos o
rio da vida, mas eles não compartilham realmente deste único propósito. Só fazem
alguma coisa com tédio e para me agradar. Para o sanniasi é melhor estar sozinho.”
Obedecendo a seu expresso desejo, Sri Ma não informou para as pessoas de Bandh o
paradeiro de Haribaba.

Deram-lhe um quarto no ashram e Sri Ma elaborava pessoalmente um cardápio


para o almoço. Sentava-se na cozinha e preparava o thali (bandeja) com os diferentes
pratos servidos em katoris (pequenos recipientes metálicos). Depois de dois ou três dias,
Swami Paramananda, que costumava levar a comida para Haribaba, passou casualmente
pela cozinha quando Sri Ma estava preparando-lhe a bandeja com esmero e disse: “Ma,
dá no mesmo, porque Haribaba vai misturar tudo antes de comer!”

Sri Ma respondeu: “Como? Até o chatni e os payas (sobremesa)?” Paramananda


lhe confirmou que o mahatma misturava todos os diferentes sabores e então Sri Ma
disse: “Tudo bem, que Baba faça o que quiser, mas a comida, temos que mandar como
deve ser.”
213

Os devotos de Haribaba ficaram imaginando onde ele estaria; se informaram


sobre onde estava Sri Ma e, acompanhados de várias personalidades de seus respectivos
povoados, chegaram a Kishenpur para pedir-lhe que voltasse a Bandh. Ao chegar,
contaram para Sri Ma seus problemas: “Ma, Baba não compreende nossas dificuldades.
O que ele espera de nós é que assistamos todos os satsangas e aos programas de
atividade religiosa. Mas nós passamos o dia trabalhando nos campos, nos ocupando do
gado e também temos de nos encarregar de nossas famílias. Às vezes estamos
demasiado cansados ou distraídos para escutar leituras das Escrituras ou para nos sentar
para meditar sem acabar dormindo. Baba está decepcionado conosco. Por favor, peça-
lhe que nos perdoe e regresse a Bandh. Você é a única que o pode convencer.”

Com efeito, Haribaba regressou a Vrindavan e a Bandh depois de passar uns


poucos meses em Dehra Dun. Havia mais devotos de outros mahatmas que confiavam a
Sri Ma questões sobre seus gurus. Ao muito respeitado Khanna Baba (Triveni Puri
Maharaj), de idade avançada, aconselharam que comesse algumas frutas. Um devoto
seu comentou a Didi: “Não precisamos fazer nada além de dizer que foi Sri Ma que
enviou estas frutas para que ele coma sem reclamar, como um menino obediente.”

Avadhutaji Maharaj passou os últimos dias de sua vida no ashram de Sri Ma em


Vrindaban. Escolheu um quarto cujas janelas lhe permitiam ver a casinha de Sri Ma,
olhando a qual, sentado numa postura yóguica, exalou seu último suspiro.

No começo, Udia Baba, de Vrindaban, não gostava que se relacionassem com


uma mulher santa e, mais adiante, o admitiu: “Na verdade, no começo, não a reconheci.
Ela tem me impressionado muito com sua equanimidade diante de qualquer
circunstância. Sua conduta totalmente desapaixonada é muito agradável.”

Numa ocasião, o povoado de Bandh esperava a chegada de Udia Baba, Haribaba


e Sri Ma para uma celebração mas, no dia do início da viagem, em Vrindaban, Udia
Baba passou mal e decidiram cancelar a partida. Mas Haribaba já havia partido para
supervisionar os preparativos da recepção. Sri Ma estava sentada em seu ashram,
tocando, em sequências rítmicas, um par de címbalos que havia ganhado e disse: “Os
sadhús não devem faltar com sua palavra. Vou ver Udia Baba e lhe vou dizer: - Baba,
por que se preocupa tanto com seu corpo? No fim das contas, o corpo vai partir, mais
cedo ou mais tarde. Em troca, a palavra sempre fica.” Em pouco tempo, chegou um
recado de Udia Baba dizendo que ele se encontrava bem para acompanhar Sri Ma, tal
como se havia planejado. Para alguns, deu a sensação de que foi como se a ressonância
dos címbalos houvesse chegado aos ouvidos de Udia Baba e lhe tivessem feito mudar
de idéia.

Outros mahatmas se esforçavam por assistir a todos os atos do ashrams de Sri


Ma ou no lugar onde ela se encontrava, como resposta aos convites das pessoas que
desejavam ter seu darshan. Foi assim que o satsangas se converteram numa atividade
regular do ashram. Um público muito numeroso assistia aos longos programas para
escutar os mahatmas e ver Sri Ma. As pessoas comuns, que no começo desconfiavam
das ordens de ascetas por tirar tanto tempo de Sri Ma, acabou considerando que sua
presença era uma benção, porque assim ao menos podiam contemplá-la durante longas
horas, apesar de que se tornara difícil aproximar-se dela para conversar livremente.
214

Outro aspecto do espetacular tipo de ações que se estabeleceu como norma era
que só os muito poderosos poderiam bancar sua organização. As grandes empresas de
negócios da Índia pertencem a pessoas muito devotas, como Birla, Singhania, Dalmia,
Modi, Jaipuria e outros. Neste caso também, as pessoas comuns superavam seus
preconceitos contra um âmbito social que superava sua própria competência e todos se
sentiam simplesmente agradecidos por poder ter acesso a Sri Ma, já que os ricos eram
os únicos que podiam cobrir os custos de atender a centenas de devotos durante um
período prolongado. Quando Sri Ma viajava por todo o país, eram poucos os que
podiam estar ou viajar com ela. Além disso, os povoados que visitava tampouco
estavam preparados para atender a sua massa de seguidores durante muito tempo e as
pessoas comuns não se podiam permitir o luxo de percorrer longas distâncias para ter o
darshan de Sri Ma. Portanto, graças ao generoso coração de príncipes e magnatas, e aos
mahatmas, centenas de milhares de pessoas comuns de todo o país puderam ter acesso a
Sri Ma.
215

Capitulo 14

Através de um Espectro Iridescente

“Produz-se um movimento entre um grupo de pessoas e Ela sai da sala. A


observamos enquanto sai e, ao chegar ao degrau, faz uma pausa momentânea, olhando o
infinito, sem olhar para ninguém, cheia de quietude. Percebemos a perfeita beleza com
que fica de pé e agora A temos bastante perto para ver Seu rosto com nitidez. Um rosto
que sussurra, que irradia uma espécie de plenitude, de riqueza. É como se estivéssemos
olhando um Rembrant, com todas suas linhas e até o mais mínimo detalhe do modelo,
mas que contém atrás de si um poder tremendo, de tal forma que os volumes e sua
intensidade, sua delicadeza e sua ligeireza constituem a autêntica forma do caráter, um
poder que é tão obscuro e misterioso quanto radiante.”

Richard Lannoy

Madras

Pergunta: “Em qual idade e com qual tipo de sadhana você alcançou a iluminação?”

Sri Ma, rindo, respondeu: “Na verdade, não fiz nenhuma sadhana deliberadamente!
Não me chegou nenhum tipo de iluminação espiritual como a quem lhe chega uma
nova conquista. Seja o que for, o tem sido sempre. Essa é a resposta que posso dar à
sua pergunta. Você é livre para tirar suas próprias conclusões.”

S.S. Cohen, 1953


216

Através de um Espectro Iridescente

Sri Ma seguia igualmente ocupada e seus itinerários continuavam sendo


igualmente desconcertantes. Os atos e cerimônias iam se multiplicando. Muitos
brâmanes eruditos, que haviam começado a considerar que seu ofício era supérfluo nos
tempos modernos, começaram a recobrar sua confiança e desenvolveram um novo
interesse por sua vocação. Sri Ma mostrava grande apreço pela erudição daqueles que
conheciam os Sastras (Escrituras) em profundidade. Os brâmanes pobres, mas
instruídos e merecedores, foram adquirindo certa importância em todas as cidades as
quais ela costumava ir com frequência.

Por todas as partes se podia sentir o ressurgir dos ritos védicos e as celebrações
purânicas. As pessoas podiam ter uma experiência própria do yajna em diferentes
maneiras e, em muitos aspectos, foram estes uns tempos de renovação da fé na tradição
dos Upanishads. Por todos os lados se faziam pujas para poder convidar a Sri Ma,
incrementando-se assim infinitamente o deleite da ocasião.

Sri Ma e os Estrangeiros

Não obstante, resultava muito fácil para Sri Ma fazer a transição a um espaço
silencioso e contemplativo, para aqueles que não se sentiam cômodos em meio a todos
os sons e luzes dos espetáculos exuberantes. A maioria dos grupos que assistiam a estes
retiros ocasionais se compunha de europeus que costumavam passar o Natal com Sri Ma
em Vindiachal, Rasgur, Bhimpura ou qualquer outro lugar remoto deste estilo. Já em
1937 Sri Ma havia entrado em contato com o Ocidente, na pessoa de Mrs. Jennings, a
qual havia ido assistir a um simpósio sobre religiões no mundo, organizado pela
Ramakrishna Mission e, desde então, ocidentais chegavam com regularidade, em busca
de guia espiritual.
217

Todos os estrangeiros se lembrarão de Atmanandaji (Blanca Schlamm) a qual foi


de tão grande ajuda com a correspondência que chegava do Ocidente e que se
encarregou da edição do Ananda Varta até seu falecimento. Austríaca de nascimento,
havia ficado “confinada” na Índia durante os anos da guerra. Assim, se viu obrigada a
permanecer ali, o que a deixou encantada porque desde sua infância gostava muito da
Índia e de tudo que tivesse a ver com a Índia. Tinha um forte vínculo com Sri Ma e
sabia “se comunicar” com ela sem necessidade de meios físicos externos. Quando Sri
Ma se sentava para meditar, a pedido dos visitantes estrangeiros, escolhia Atmanandaji
para que a acompanhasse e, às vezes, inclusive também a Biloji, sabendo que estas duas
mulheres não seriam vencidas pelo sono tão logo lhes pedisse para que se sentassem em
silêncio, como costumava acontecer com suas outras companheiras (não se menciona
isso como crítica, já que, em geral, elas estavam muito ocupadas durante o dia e até bem
tarde da noite. A autêntica meditação implica muita prática).

Outros europeus que chegaram a converter-se em membros da família de


devotos foram: Swami Vijayananda (Dr. A. Weintrob, de Alsacia-Lorena), Jayananda
(Jack Unger, dos Estados Unidos), Premananda (Colin Turnbull, da Inglaterra),
Satiananda (Henri Petit, da França) e muitos outros. Arnaud Desjardins e sua mulher
Denise iam ver Sri Ma com regularidade e sua filha Muriel era uma menina
encantadora, que queria ser de pele escura, como suas amiguinhas indianas. Sri Ma lhe
disse, em inglês: “Você é muito linda” para consolá-la pela falta de cor em sua pele.
Muriel gostava muito de Didima e com frequência a viam fazendo ramalhetes de flores
do campo (em Vindiachal) para levá-los aos pés de Didimá, a qual, em troca, sempre
colocava a mão sobre sua cabeça, abençoando-a. Depois de alguns anos, já mulher e
acompanhada de seu marido, Muriel voltou a viajar para a Índia.

Na França, América, Espanha, Alemanha, Itália e Inglaterra há muitas famílias


tão chegadas a Sri Ma quanto muitas famílias indianas que jamais foram ao exterior. Os
leitores de Ananda Varta conhecem bem a Melita Maschmann, Richard Lannoy, Jean
Herbert e outros. O livro sobre Sri Ma, de Alexander Lipsky (publicado por Motilai
Banarsidass, Varanasi) é de muito agradável leitura. Entre todos estes companheiros
destaca-se Vijayananda como a pessoa sobre a qual Sri Ma disse pessoalmente: “Tem
um ar de rishi (sábio dos Upanishads) no rosto.” Sua tapiasa (austeridades) nos
Himalaias é um exemplo de obediência à palavra de Sri Ma, em lugar de optar por este
outro caminho mais agradável, que consiste em segui-la em suas viagens para ter seu
darshan todos os dias. Durante quase 13 anos, no povoado de Dhawalchina, no
Himalaia, dedicou-se a pôr em prática a chamada de Sri Ma para um esforço incessante,
firme e de inalterável enfoque na meta, não descendo às planícies até que Sri Ma o
dissesse, pessoalmente, para fazê-lo.

Nos anos mais recentes houve muitos mais visitantes, demasiadamente


numerosos para serem mencionados neste livro. Sri Ma lhes respondia com a mesma
espontaneidade que demonstrava com qualquer pessoa que pudesse se comunicar
diretamente com ela. Em Ranchi, foi convidada a visitar um projeto de indústria pesada
que se estava construindo em colaboração com um país estrangeiro e um engenheiro da
Tchecoslováquia lhe disse: “Eu não acredito na reencarnação. Isto tem importância?”
Sri Ma: “Você crê nesta vida, não? Só existe, genuinamente, uma vida e essa é a que se
dedica à busca de Deus. Só existe uma morte, a qual é a aniquilação da própria morte.
Depois disso já não há mais nascimentos nem mais mortes.”
218

Um grupo de ocidentais estava falando com ela e um deles lhe perguntou: “O


que é que me convém? Devo levar uma vida ativa no mundo ou recolher-me a uma vida
de contemplação?”

Sri Ma: “A vida correta para você é aquela que você seja capaz de se entregar de
corpo e alma.”

Uma jovem mulher, que havia vindo à Índia para estudar o budismo, lhe
perguntou: “Há algo que você possa me dizer?”

Sri Ma: “ Viva o ensinamento que você professa.”

Outra pergunta: “O que posso fazer para não dizer nada inoportuno, no momento
inoportuno?”

Sri Ma: “Espere antes de falar. Se você fizer uma pequena pausa, pode pensar
melhor no assunto e talvez não o diga nunca.”

Outra jovem, que era uma famosa atriz que estava viajando incógnita, lhe
perguntou: “Sei que há certas pessoas que me influenciam negativamente, mas continuo
caindo nisto. Há alguma forma de eu me salvar desta situação?”

Sri Ma: “Reduza ao mínimo o tempo que você passa com elas.”

- “Como vou fazer isto? Com o trabalho que tenho, me vejo obrigada a passar
longas horas com essas pessoas.”

Sri Ma: “Como você vai então se salvar de sua influência? Você não sente o
calor quando se aproxima do fogo? Não te congelam os dedos quando pega o gelo?”

Ao despedir-se, o porta-voz do grupo lhe disse: “Nos sentimos muito honrados


de haver tido o darshan de Mataji.”

Sri Ma: “Honrados? Quando alguém é apresentado a um desconhecido, pode ser


que ele se sinta honrado, mas quando você se encontra com seu próprio ser não há mais
do que beatitude e felicidade.”

Sri Gopinath Kaviraj pediu a um jovem americano chamado Mr. Phillips, que
fosse ver Sri Ma e que perguntasse pessoalmente a ela suas dúvidas pessoais, em vez de
perguntar a ele. Depois de escutá-lo Sri Ma lhe disse: “Desejas saber o que determina
realmente seus pensamentos e comportamento. Aquele que te criou é o único diretor de
teus pensamentos e ações. No entanto, isso é uma questão de experiência interior, não é
algo que se possa estabelecer verbalmente. Só se pode alcançar a verdade quando se é
capaz de confiar completamente em seu Gurú.”

O jovem respondeu: “Não tenho Gurú. Quem vai se encarregar de meus


assuntos?”

Sri Ma: “Você é casado?”


219

Mr. Phillips: “Sim, e tenho dois filhos.”

Sri Ma: “Pois então faça isto, se puder: se faça gerente, tal como um gerente que
se ocupa de cuidar da propriedade de outro sem sentir que é dono de nada. Quando tiver
tempo, se dedique a ler bons livros ou a ter bons pensamentos. Sua prática tem que ser
boa e exemplar. Pratique a meditação. Assim você poderá fazer um caminho para você
mesmo.”

Didi Gurupriya escreveu em seu diário que, numa ocasião, quando um casal de
anciãos americanos estava a ponto de partir, Sri Ma lhes disse: “Vossa menina!”Ao
ouvir esta exclamação, voltaram da porta e começaram a abraçar e a acariciar e a
senhora lhe dava beijos como a uma criança.

Sri Ma mantinha o mesmo tipo de relação, tanto com seus discípulos indianos
quanto com os ocidentais, de modo que não havia problema para se comunicar os
pensamentos mais íntimos. Ainda que, inclusive aos indianos com estudo lhes custa, às
vezes, compreender a perspectiva que tem os ocidentais sobre a vida, jamais deixaram
Sri Ma perplexa nem desconcertada com suas perguntas. Numa ocasião, um seguidor
inglês do Acharia Rajnish lhe disse: “As drogas podem induzir estados de bhava e nós
podemos escolher viver neste estado de euforia todo o tempo que desejarmos.”

Sri Ma: “Sim, mas estes meios artificiais não estão livres de repercussões e, além
disso, são muito fugazes e tem que ser induzidos uma e outra vez. A autêntica felicidade
suprema transforma o ser do sadhaka e, através de sua bondade e equilíbrio moral, se vê
que está no caminho da felicidade permanente.”

Quando falava com um ocidental, Sri Ma se comportava como um deles, de tal


forma que ninguém nunca se queixou de falta de comunicação. Melita escreveu:

“Há pouco tempo, em Puna, enquanto eu estava falando com um professor de


universidade do sul da Índia, que tinha sérios problemas com seus bloqueios mentais,
Ma me chamou a atenção com seu olhar, com cujo carinhoso encanto irônico me fazia
entender o divertido que parecia esta situação. Desgraçadamente, isso me fez rir por
uma razão que aquele jovem não poderia dar-se conta e ele deve ter pensado que seu
sofrimento intelectual me parecia divertido, o que era certo, ainda que, verdade seja
dita, me dava pena e eu disse: “Você não pode imaginar o quão tranquila fiquei desde
que deixei de buscar o segredo da santidade com um bisturi.”

Para os devotos ocidentais, Sri Ma não era uma Gurú do Oriente, cheia de
sabedoria, mas também encontravam nela uma Amiga, que compreendia seus
pensamentos mais íntimos e lhes respondia como tal, de forma que os “nós do coração”
se desfaziam já desde o primeiro encontro.

Lynn Dalton (Jyotipriya) escreveu suas primeiras impressões sobre Sri Ma.
Antes, havia tido contato com seus devotos em seu próprio país e havia trocado
correspondência com Atmananda. Por fim, chegou o dia em que pôde viajar de avião
para a Índia para ir ver Sri Ma. Junto com sua euforia por ter o primeiro darshan de Sri
Ma, era também presa de incômodos pensamentos: “e se Sri Ma não fosse tudo que
diziam que era? E se não sentisse nada ao vê-la?”
220

“Por fim vou conhecê-la. Estamos na estação de trens de Haridwar. São cinco e
meia da manhã. Ainda que exausta, não sinto cansaço. Vi então, diante de mim, o brilho
das janelas do trem. Shraddhá (uma amiga americana), ao haver localizado a Mãe numa
delas, se pôs a correr ao lado do trem e todos a seguimos. Esperamos um momento e ela
então desceu do trem.”

“Todos meus medos se desvaneceram imediatamente e para sempre. Disse


então, mentalmente, para mim mesma: “Sim, aí está a Mãe” num tom de total
familiaridade. Nunca nada antes me havia parecido tão real quanto sua presença.
Produziu-se um reconhecimento instantâneo.”

Depois de ter uma entrevista com Sri Ma, no ashram, Lynn escreveu: “De volta
ao bangalô, estávamos envoltas em sorrisos. Não há palavras para expressar minha
sensação de alívio e satisfação. Quando Shraddha estava a ponto de entrar em seu
quarto, a parei e lhe disse: “Agora já posso…” e ela acabou a frase por mim: “Agora já
podes morrer!”

Sri Ma recebia cartas de muitos países distintos. Atmananda podia ler e


responder cartas em francês, alemão e inglês e, para outros idiomas, buscava ajuda de
pessoas competentes. Na sequência, reproduzimos uma carta que ela tornou pública:

“Mãe, somos amigos?


Mãe, você me quer?
Podes chegar até mim, aqui?
Diga que está aqui. Por que não me apareces?
Sou impuro demais?
Não sou sincero?”

Resposta de Sri Ma para esta carta:

“Deus é o Pai, a Mãe, o Amado, o Amigo e o Companheiro Supremo.


Certamente, é um amigo. De fato, é o amigo. Tudo o que se vê é a manifestação do
Senhor. Ele é o autêntico amigo. Qualquer sofrimento e dor se deve ao sentido do “eu” e
da possessão. O mundo é a criação de Deus. Em Deus está tudo e todos. Onde não está
Deus? É assim que Ma está sempre perto, apesar de que o corpo não chegue a todas as
partes. No Paratama (Ser Supremo) não há lugar para a impureza ou para a falta de
sinceridade.”
221

Sri Ma e os Eruditos

Dizem que o final do século XIX e o início do século XX foram testemunhas do


renascimento da filosofia clássica indiana. As universidades produziram uma nova
geração de eruditos que, mesmo estabelecidos em sua própria tradição, aprenderam
muito com o Ocidente e se viram influenciados por ele. Pioneiros como o Dr. S.
Radhakrishna alcançaram renome como porta-vozes do Neo-Vedanta contemporâneo.

Em 1929 Sri Ma entrou em contato com um grupo de catedráticos de filosofia,


tais como Mahendra Nath Sarkar, Nalini Kanta Brahma, Guirija Shankar Bhattacharia e
outros, com os quais manteve relação durante anos. Nalini Kanta Brahma redigiu um
escrito para demonstrar que a filosofia de Sri Ma não era um universalismo mas sim
uma síntese perfeita de dois dos princípios da filosofia Advaita que parecem ser
contraditórios: Sarvam Khalvidam Brahma (Tudo é Brahman) e Neti, Neti (Isto Não,
Isto Não, ou seja, nada disto é Brahman).

Entre outros estudiosos que acabaram sendo bastante próximos se destaca o Dr.
T.M.P. Mahadevan, que a conheceu em Madras, em 1952, quando lhe pediram que
fosse o intérprete. Ainda que ele não soubesse uma palavra de híndi, a linguagem de Sri
Ma era tão filosófica que seu trabalho de interpretação foi totalmente exitoso. S.S.
Cohen escreveu: “Em 1 de Novembro o Dr. T.M.P. Mahadevan, catedrático do
departamento de filosofia da Universidade de Madras, se encarregou da difícil tarefa de
fazer a tradução simultânea das respostas de Mataji. No dia seguinte escreveu o resumo
das conversas:

“Quando surgem perguntas também há respostas. Quem pergunta a quem? Em


todas as partes não há mais que um só Atman: você é isto. Onde há dualidade, há
infelicidade. Você não é dual, é eterno. Ninguém deseja mritiu, ajnana, dukha (morte,
ignorância, sofrimento). É certo que o mal produz no homem uma fascinação que o atrai
e o faz cair, o que se deve aos vasanas, que quer dizer o não-reconhecimento (na) da
existência de Deus (vasa). Para combatê-lo, devemos nos sentir atraídos por Deus, o
autêntico Ser de nós mesmos.”

Pergunta: “Como saber se existe a reencarnação?”

Sri Ma: “Sim, a ignorância é um fato. Então, para que questionarmos se existe a
reencarnação? Não sabemos o que vai acontecer no instante seguinte. No entanto, existe
o conhecimento. Aqueles que atravessaram o véu da ignorância nos dizem que somos o
Atman eterno.”
222

Em 1955 o Dr. Mahadevan solicitou a Sri Ma que desse uma mensagem para o
“Simpósio de Todos os Credos” que iria ser realizado em Madras. Depois de repetidos
esforços, Didi conseguiu obter a seguinte vani (palavras) em resposta à sua solicitação:

“Oh Ser Imortal!


Encaminhe tua peregrinação pelo caminho da imortalidade
Oh Ser Imortal!, Oh Caminhante Imortal
Permaneça sempre estabelecido
Em Teu próprio Ser!”

É impossível fazer uma lista completa de nomes porque Sri Ma conheceu muito
mais eruditos em suas viagens por todo o país. Rama Chowdhuri se converteu num dos
mais íntimos. Sri Ma foi pessoalmente visitar o pandit Vidia Vinod Vidhiabhusan, um
grande vaishnava dos nossos dias.

Numa ocasião, havia ido ver um de seus devotos que estava no hospital de
Calcutá e, ao sair, lhe disseram que Radhakrishnan (importante filósofo e político
indiano, presidente da Índia de 1962 a 1967) estava no quarto ao lado. Sri Ma, seguindo
seu kheyal, entrou no quarto, tocou ligeiramente o erudito, que estava sob efeito de
sedativos e saiu rapidamente do quarto, antes que as enfermeiras se dessem conta do
que havia acontecido. Quando Radhakrishnan soube quem o havia ido visitar, ficou
pasmo. Assim que se recuperou e ficou em condições de recebê-la, com o cerimonial
correspondente, Sri Ma voltou a visitá-lo no Rashtrapati Bhavan (palácio presidencial
de Nova Delhi) em resposta a seu convite. Algo similar aconteceu quando Sri Ma foi
visitar o pandit Gopinath Kaviraj no Jaslok Hospital de Bombay. Parou diante da cama
de um inválido árabe que estava na sala principal, fora do quarto. Este homem estava
viajando sozinho pela Índia e não tinha nenhum parente ou familiar que o pudesse
acompanhar. Ficaram falando de Alá e Sri Ma tocou-lhe suavemente na cabeça. Ainda
que surpreso, o inválido pareceu contente da visita e prometeu que sempre se lembraria
de Alá.

De todos os eruditos desta nação, o mais lembrado e de maior renome pela


amplitude e profundidade de seu conhecimento é Pandit Gopineth Kaviraj. Ainda que
resulte desnecessário enumerar seus muitos títulos, tanto orientais quanto ocidentais e as
muitas condecorações que lhe concederam tanto o governo, que o admirava
profundamente, quanto diferentes universidades, citamos aqui a homenagem que lhe
deu o também renomado Sri Anirvan, outro grande estudioso e yogui experiente:

“Gopinath era a personificação do corpo sonoro da alma imortal da Índia, a


imagem vivente da sabedoria desta antiga terra. O resplendor de seu gênio não se
limitava aos confins da Índia mas também iluminava a mente universal. Ele não sabia
de diferenças entre a terra natal e o estrangeiro. Lá, onde a consciência do homem
alcança um alto nível de compreensão, ele dirigia seu reconhecimento, que era amplo e
ao mesmo tempo profundo.”

Kaviraj plasmou com estas palavras sua primeira impressão de Sri Ma:
“Pareceu-me digna de especial consideração o fato de que ela havia sido recomendada
por meu colega Mahamahopadhiaya Pandit Padmanath Vidia Vinoda, um homem com
fama de ser muito exigente e crítico com as pessoas, de cujos ataques ninguém
escapava.”
223

Kaviraj conheceu Sri Ma no começo de Setembro de 1928: “Com umas poucas


frases curtas e Sua doce e inimitável forma de ser, respondia a todas as perguntas e
resolvia as dúvidas do povo. Sendo que os que faziam as perguntas eram de diferentes
níveis culturais e representavam distintos pontos de vista intelectuais e espirituais, era
inevitável que as perguntas abarcassem temas muito diferentes e tivessem diferentes
graus de interesse e valor. Era maravilhoso ver como abordava todas estas questões com
idêntica facilidade e espontaneidade, sem necessitar nem um só momento de reflexão
quando tinha que se ocupar dos problemas mais complicados que lhe apresentavam.
Suas respostas eram, sistematicamente, muito pertinentes, dirigindo-se diretamente ao
coração daquele que fazia a pergunta, envoltas numa linguagem surpreendente por seu
laconismo e expressividade. Qualquer palavra que saísse dos seus lábios merecia grande
respeito mas, além disso, não diminuía seu humor quando a ocasião o exigia.”

Sri Ma Viaja Incognitamente

Às vezes Sri Ma viajava incógnita. Ainda que ninguém fosse capaz de


compreender seu kheyal, com o tempo todos chegaram a aceita-lo sem questionar. Em
13 de Agosto de 1936 Sri Ma passou bastante tempo num ajnatavasa (lugar de
residência desconhecido) em companhia de Kamal (o sobrinho de Atal Bihari
Bhattacharia) e Virajmohini (muita gente a conhece como a avó de Bramacharini
Vishuda), a qual gostava muito do não-usual e deve ter desfrutado do itinerário
improvisado de Sri Ma, sem nenhum meio material visível e sem nem ter sequer os
acessórios mínimos, como uma muda de roupa ou uma vasilha para beber água. Depois
de uns poucos dias, Sri Ma pediu a Kamal que voltasse para casa e ficou só com
Virajmohini.

Depois de uns quatro meses Sri Ma e Virajmohini chegaram a Tarapith. Esta


informou por carta que os devotos que desejassem ver Sri Ma teriam que ir a Tarapith.
Depois de uns dois dias chegou um grande grupo de devotos de todas as partes, que lhe
perguntaram com grande interesse pelas viagens de Sri Ma nos últimos meses, como
elas haviam se arranjado, quem lhes havia dado dinheiro, onde se haviam hospedado, se
haviam encontrado dificuldades, etc. De todas as partes choviam estas e outras
perguntas. Virajmohini fez tudo que pôde para satisfazer a todos. Mesmo que não
tivesse muito dinheiro quando partiram de viagem, jamais lhes havia faltado porque, no
momento oportuno, lhes chegava sempre a quantidade exata que necessitavam. Nunca
havia tido problemas para preparar a comida, que às vezes não consistia em mais do que
verdura fervida mas que, em geral, se compunha de um pouco de leite e fruta.
224

Somente em alguns poucos povoados haviam reconhecido Sri Ma mas, como


partiam imediatamente dos locais, era impossível que as multidões a envolvessem.
Graças ao relato de Virajmohini, Didi e outras pessoas puderam confeccionar o seguinte
itinerário: o primeiro destino foi Puri. Ao não estar de acordo com a decisão de Sri Ma
de adotar mendicância absoluta, Triguna Chakravarti (de cuja casa haviam partido) deu,
às escondidas, para Virajmohini, um dhoti e uma manta para Sri Ma. Na estação de trem
uma devota lhe entregou um sári muito bonito, com o qual Virajmohini fez um pacote
com seus escassos pertences pessoais. Em Puri, se alojaram no Goenka Dharmsala
(pousada para peregrinos) onde, ao estarem todos os quartos ocupados, se instalaram no
alpendre aberto. No momento de sair para visitar os templos, Virajmohini deixou seus
poucos pertences a cargo de uma família que se hospedava num quarto próximo. Ao
voltar, quando foi pega-los, a mulher perguntou se ela queria vender o sári porque havia
pensado, ao ver que tanto ela quanto Sri Ma vestiam dhotis, que esse sári não lhes seria
de grande utilidade. No entanto, Virajmohini lhe disse que era um presente e que não
estava a venda. Neste momento, Sri Ma entrou na conversa e convenceu a senhora que
se deixasse presentear com o sári, porque ela havia se convertido em sua filha e lhe
disse que uma filha tem todo o direito do mundo de presentear sua mãe com um sári. No
dia seguinte, a “mãe” de Sri Ma lhe deu um dhoti que havia comprado, graças ao qual
passou a ter uma muda de roupa.

Enquanto estava passeando pela praia, um rapaz a reconheceu como a “Mãe de


Dacca” e saiu correndo para contá-lo a Makhan Babu, do ashram de Jatia Baba. Ao
regressar ao dharmsala, Sri Ma comentou: “Vejo que Makhan Babu está me procurando
com uma planta nas mãos.” Depois de algum tempo, Makhan Babu apareceu, com uma
planta nas mãos. Havia ido procurá-la na praia e ficou muito feliz em encontrá-la por
fim no Goenka Dharmsala.

Em Puri teve certa relevância o encontro entre Sri Ma e Shiamdas Babaji. Este
era um ancião dedicado a seu sadhana e que estava há muito tempo fazendo vida de
retiro em Puri e que, há poucos meses, havia tido um desejo repentino de ter o darshan
de Sri Ma. Apesar de não estar bem de saúde, fez perguntas para descobrir onde Sri Ma
estava, disposto a viajar até Dehra Dun, se fosse necessário. Um de seus amigos, ao
observar tal estado de agitação, nada característico dele, o reprovou, dizendo-lhe:
“Como é possível que você tenha tal agitação para ter este darshan, você que está tão
firmemente estabelecido em sua própria forma de vida? Se Sri Ma é tudo isso que dizem
dela, então estou certo que será ela que virá até sua cabana para dar seu darshan.” E foi
exatamente isto que aconteceu, porque Sri Ma foi visitar aquele ancião a ponto de
morrer. Seu agudo desejo de ter esse darshan se viu cumprido graças a uma totalmente
inesperada confluência de circunstâncias que até fizeram que Didi perguntasse a Sri Ma
se ela não havia ido a Puri somente para este fim.

De Puri, Sri Ma e seus dois acompanhantes foram a Bhubaneswar. Depois de


visitar Gomoh, Ardra e outros lugares próximos, Sri Ma fez uma longa viagem até
Agra, em Uttar Pradesh.

Em Agra perguntou a Kamal quanto dinheiro tinha e, ao saber que só tinha dez
rúpias, disse que comprasse um bilhete para Calcutá e voltasse para sua casa. Por mais
que ele pedisse para ficar com ela, Sri Ma não mudou de opinião. Com Kamal enviaram
também o excesso (!) de coisas que haviam acumulado pelo caminho, porque
Virajmohini havia comprado um ou dois utensílios em Puri.
225

Da manta que haviam ganhado de Triguna Baba, Sri Ma cortou um pedaço de


aproximadamente um metro e meio de comprimento por sessenta centímetros de largura
e o guardou junto com um dhoti e um lotta (recipiente para água). Virajmohini ia
equipada da mesma forma. Deixando-as neste estado livre de estorvos, Kamal partiu
para Calcutá, onde informou a todos que Sri Ma havia se encontrado bem durante todo
o tempo que havia estado com ela.

Sri Ma e Virajmohini passaram três dias num dharmsala de Mathura, depois do


que, tal como ditam as regras para os peregrinos de passagem, deixaram o quarto e se
sentaram nas margens do rio. Virajmohini comprou algumas frutas e, depois de lavá-las
no rio, deu com suas próprias mãos alguns pedaços para Sri Ma. Os passantes, ao verem
que uma pessoa mais velha estava dando de comer assim a outra, pararam para
contemplar o espetáculo e para alguns isto pareceu muito divertido. Ao ver sua
diversão, Sri Ma riu com força e as pessoas se foram, provavelmente pensando que se
tratava de uma pessoa que estava mal da cabeça. Ao escurecer Sri Ma perguntou a
Virajmohini se lhe dava medo passar a noite ao ar livre, sob as estrelas, mas sem que ela
tivesse tempo de dizer não, um antigo devoto passou casualmente por ali e ficou pasmo
de encontrar Sri Ma com Virajmohini. Não parava de congratular-se por dito encontro
casual e as acompanhou até um local mais apropriado.

No dia seguinte Sri Ma partiu para Vrindavan e dali para Etawah mas, em
Tundla Junction, um jovem lhe disse: “Ma, a vi em Sultanpur. Por favor, venha agora
comigo até Sultanpur.” Ao saber que já tinham as passagens para Etawah, o jovem foi
até a bilheteria e as trocou por outras para Sultanpur.

Em Allahabad Junction, trocaram de trem para ir a Sultanpur e se alojaram no


compartimento das mulheres. Em Pratapgarh, uma muçulmana subiu no trem. Seguindo
um costume já antiquado das mulheres indianas, imediatamente ela quis saber tudo
sobre sua companheira de viagem. Perguntou para Sri Ma: “Quantos filhos você tem?”
Sri Ma lhe respondeu: “Mas se sou sua filha, como posso eu ter filhos?” A mulher ficou
muito impactada pela resposta e, em pouco tempo, se envolveram numa profunda
conversa sobre muitos assuntos. Virajmohini havia comprado, de um vendedor
ambulante, um passatempo para Sri Ma e esta estava a um tempo jogando com ele. De
repente, ela o deu para a mulher e lhe disse: “Guarde bem este brinquedo.” A mulher se
pôs a chorar quando chegou a hora de descer do trem. Deu seu endereço para
Virajmohini e pediu a Sri Ma várias vezes que se pusesse em contato com ela se algum
dia passasse por ali. Talvez esta muçulmana tenha sido a razão da fortuita mudança de
planos de Sri Ma!

Em Sultanpur, Sri Ma tomou um ônibus que encontrou ao acaso e chegou a


Ayodhia, onde permaneceu uma semana, até que foi reconhecida por uma multidão de
devotos, momento em que partiu para Lucknow. No trem, um advogado de Barabanki a
convidou para que fosse o seu povoado natal, ao que ela respondeu que não se
esqueceria do convite. Sri Ma chegou a Etawah, onde permaneceu quase vinte dias.
Virajmohini se pôs em contato com o Dr. Pitambar Panth e foi nesta ocasião que Sri Ma
lhe disse que, se algum dia tivesse o kheyal de tomar remédios, seria ele o primeiro
médico a receitá-los.
226

Toda tarde, ele ia visitá-la no templo onde ela estava alojada e mantinha longas
conversas com Sri Ma. Sri Ma costumava ir passear nas margens do rio e visitar uma
família cigana que havia acampado ali. Eram extremamente pobres e lhe deram uma
folha de papaia para que sentasse em cima. Conversava com eles com grande
liberalidade, como se fosse uma amiga da família de muitos anos. Quem sabe estes
ciganos não tiveram com ela uma relação mais íntima do que a elite da cidade!

Quando o número de visitantes começou a aumentar, Sri Ma partiu de Etawah


para outros povoados. Chegou a Barabanki, onde Virajmohini se pôs em contato com o
advogado que haviam conhecido naquela viagem. Este se alegrou grandemente de poder
acomodá-las adequadamente e, durante quatro dias, ele e seus amigos tiveram a
oportunidade de falar da sadhana espiritual com Sri Ma.

Em seguida, se deslocou para Bareilly. Que alegria sentiu Mahratan quando se


encontrou com Sri Ma na cidade, de forma inesperada! Mas lhe entristeceu ver que ela
estava viajando como os peregrinos mais pobres, pelo que ele foi rapidamente ao
mercado comprar-lhe roupas de lã, mantas e outros elementos que lhe pareceram
necessários. Poucos dias depois Sri Ma lhe disse: “Agora que temos tanta roupa de frio,
vamos usá-la. Vamos para Nainital.”

Em Nainital (1.500m de altura) foram recebidas na parada de ônibus por Krishna


Panth, que estava ali por pura casualidade e ficou assombrado ao ver Sri Ma descendo
do ônibus. Sri Ma se alojou uns poucos dias no templo de Naina Devi, para alegria das
pessoas da região. Depois partiu dali e, passando por Bareilly, Agra e Delhi, chegou a
Lahore. Depois de permanecer um dia no templo de Kali daquela cidade, dirigiu-se para
Amritsar e Garhmukteshwar, via Mirat, de onde um jovem chamado Manik a
acompanhou até Garhmukteshwar, onde ficou 15 dias.

Viajando desta maneira aparentemente ao sabor do destino, Sri Ma chegou a


Deoghar, onde não permitiu que Virajmohini avisasse Pran Gopal, que haveria
enlouquecido de alegria ao haver podido ter seu darshan. Em troca, Sri Ma encontrou
alojamento num dharmsala.

No quarto ao lado, uma mulher teve algum tipo de ataque repentino e o


encarregado do lugar, ao ver a preocupação do marido, lhe recomendou que fosse ver
“uma Mataji” que se alojava no quarto ao lado. O homem chamou, na porta e, quando
Virajmohini entendeu o que ele estava pedindo, lhe respondeu com certa irritação, que
Sri Ma não era um médico e que não lhe diria nada sobre esta enfermidade. Mas o
homem a afastou bruscamente e se atirou aos pés de Sri Ma, rogando-lhe que fizesse
algo por sua esposa. Sri Ma disse a Virajmohini: “Vamos ver qual é o problema.” A
mulher do quarto ao lado parecia muito doente. Tinha os lábios azulados, os pés e as
mãos muito frios e tremia de forma incontrolável. Depois de observá-la algum tempo,
Sri Ma pediu a Virajmohini que preparasse um pouco de sumo de frutas e que fizesse a
mulher bebê-lo. Sri Ma fez com que abrissem a janela e, depois de ver que a mulher
deitava tranquilamente em sua cama, voltou para o quarto. Na manhã seguinte a mulher
estava bem melhor, para surpresa de Virajmohini, que não esperava que ela se
recuperasse tão cedo.
227

De Deoghar, Sri Ma foi para Tarapith. Estava a uns quatro meses viajando sem
parar e, de repente, voltou a estar rodeada por uma grande multidão. Mas para ela, tudo
era o mesmo. Como um comandante experiente, dirigia seu exército de devotos de um
lado para o outro sem esforços. Cozinharam o almoço numa grande caçarola, que tinha
todo tipo de verduras, arroz e legumes e se serviram em folhas de bananeira, podendo
assim depois recolher e limpar tudo rapidamente. Massas de pessoas a rodeavam.
Alguns recém chegados iam saudá-la, enquanto outros, que haviam passado ali um ou
dois dias, se despediam dela.

Em outra ocasião, Sri Ma voltou a desaparecer um tempo com Ruma Devi como
única acompanhante. Esteve 15 dias em Navadip. Durante o dia, levavam o barco para o
centro do rio e de noite o devolviam à margem. A polícia se aproximou para fazer
perguntas sobre aquelas “duas estranhas mulheres” mas Ramdas, o barqueiro, lhes disse
que eram mahatmas e que sua conduta era exemplar, com o que a polícia o encarregou,
então, de cuidar delas o melhor que pudesse. Quando os devotos descobriram, por fim,
este barco destrambelhado em Navadip, Ramdas ficou pasmo diante da sua gratidão,
tanto verbal quanto material. Sri Ma escapou assim, sigilosamente, várias vezes, ainda
que não por muito tempo. Seria necessário investigar em profundidade para descobrir o
propósito de ditos retiros, assim como as razões de sua escolha dos destinos. Às vezes
optava por alojar-se na casa dos devotos, como a de Aptap Mitra, perto de Calcutá,
George Town em Allahabad, ou na de Harish Banerji, em Varanasi, ou na casa de
Jaipuria em Naini, ou muitas outras. Embora seu séquito descobrisse seu paradeiro,
mais cedo ou mais tarde, Sri Ma sempre aceitava tanto a quietude quanto o reinício da
atividade com sua equanimidade característica.
228

Sri Ma com os Líderes da Nação

Mais cedo ou mais tarde, todos os homens e mulheres com cargos no governo
conheceram Sri Ma, que sempre arranjava um tempo para se encontrar com eles, apesar
de seu apertado horário com as demais pessoas e os mahatmas. Pandit Jawaharlal
Nehru, o primeiro ministro da Índia, sua filha Indira Gandhi e toda sua família, atraídos
inicialmente pela lembrança da relação que Kamlá Nehru havia mantido com Sri Ma, se
tornaram muito devotos dela.

Vallabhjbhai Patel foi vê-la com pandit Nehru. Todos os governadores e


primeiros ministros dos estados (qualquer exceção se deveria provavelmente à
velocidade com que Sri Ma viajava pelas províncias que lhe correspondiam) iam vê-la
quando passava por seus estados ou iam visitá-la quando estava em Nova Delhi. Sri Ma
foi pessoalmente ver a umas poucas pessoas eminentes, quando lhes era impossível vir
visitá-la. Este foi o caso de Sarojini Naidu, a primeira governadora de Uttar Pradesh,
logo depois da independência de 1947. Encontrava-se em sua residência de verão, em
Nainital, quando Sri Ma foi convidada à dita cidade das montanhas, pelo Dr. Pannalal.
Sri Ma se dirigiu ao palácio do governo para reunir-se com aquela mulher algo enferma,
a qual a recebeu sob um toldo especialmente decorado, que haviam levantado nos
prados para aquela ocasião. Sri Ma a abordou como a uma amiga e a saudou
afetuosamente. Depois de algumas apresentações, Sri Ma disse, em bengali, para
Sarojini Naidu: “Só vale a pena falar de Deus, tudo mais é vaidade e dor, não acredita?
Se lembra do bengali?”

A governadora inclinou a cabeça e lhe disse, em voz baixa, que podia entendê-la
bastante bem mas que não falava com fluidez. Alguém sugeriu que talvez apetecesse a
Sri Ma passear pelos amplos jardins, com o que, seguida de seu considerável séquito,
saiu para caminhar. Quando Sarojini Naidu ficou sentada sozinha, acompanhada
unicamente pelos funcionários que a atendiam, Lila Naidu, sua filha, se aproximou e
perguntou: “Quem é ela?” Lilaji se surpreendeu muito ao ver o Dr. Pannalal servindo a
Sri Ma, já que havia sido uma figura de considerável autoridade durante o regime
britânico e era uma das grandes mentes daquela época, assim como uma pessoa com
muitas aptidões. A Sra. Naidu lhe disse:

“Ela é a quintessência do espírito da Índia. É o diapasão, a pedra de toque, o


critério supremo para distinguir entre o que é parte da nossa tradição e o que não é. É
simplesmente perfeita tal como é. Só na Índia se pode ter a experiência da perfeição
personificada.” (Este trecho procede de meu diário pessoal. Como não fui passear com
Sri Ma pelos jardins, estava sentada atrás do estrado. Sinto não poder refletir o precioso
e eloquente linguajar que Sarojini Naidu utilizava. Naquela época, seu maravilhoso
domínio do inglês sobrepassava minha capacidade de retenção – a autora).
229

Apesar de que este encontro foi o primeiro e único que tiveram (Sarojini Naidu
faleceu pouco tempo depois), fica evidente que o poderoso impacto de Sri Ma não
dependia do quão prolongada fosse sua companhia. Para muitos, bastava só um darshan.

Netaji Subhash Chandra Bose foi ver Sri Ma enquanto ela estava no templo de
Dakshineswar, próximo a Calcutá (1935). Ela estava sentada sobre uma plataforma,
debaixo de uma grande árvore. Seus acompanhantes e Subhash Chandra sentaram-se no
chão, diante e em torno a ela. Como ninguém falava, reinou, durante algum tempo, um
silêncio absoluto. Alguém então lhe apresentou a Subhash Chandra e Sri Ma disse:
“Conheci seu irmão em Ahmedabad” ao que ele respondeu: “Você já passou por
Ahmedabad?” Sri Ma: “Sim.” De novo, voltou a reinar o silêncio. Era evidente que ele
não tinha nada para perguntar e nem ela o que dizer.

Incitado por algumas pessoas presentes, Amulia Kumar rompeu a atmosfera de


silêncio, fazendo uma pergunta sobre um termo relevante: “Ma, se pode servir a Deus
servindo à Pátria?” Sri Ma disse a Subhash Chandra: “Pitaji, responda você a esta
pergunta. Se pode alcançar a Deus?”

Subhash Chandra: - “Sigo eu a senda para Deus?”

Sri Ma, sorrindo: - “Que senda você segue?”

Subhash Chandra: - “Esta pergunta não era dirigida para mim!”

Sri Ma: - “Você é a razão desta pergunta (olhando para Amulia Kumar). Não é assim?”

Amulia Kumar: - “Sim.”

Sri Ma: - “Venha, diga algo! Digamos assim, por que você trabalha para seu país? Se
nos pode dizer os benefícios deste trabalho, então todo mundo vai querer participar.
Disseram-me que você é um grande orador. Diga-nos algo.”

Subhash Chandra, sorrindo: “Não vim aqui para dar discursos. Faz-me feliz servir ao
meu país e por isso o faço.”

Sri Ma: - “Esta felicidade é permanente?”

Subhash Chandra: - “Permanente é uma palavra difícil.”

Sri Ma: - “Aquilo que dura para sempre é permanente. O ocupar-se de servir ao Ser de
si mesmo gera uma felicidade permanente. Ademais, quando o serviço é genuíno, então
está assegurada a felicidade eterna. Pitaji, você realiza um serviço deste tipo?”

Antes que Subhash Chandra pudesse responder, uma mulher se meteu na


conversa e afastou a atenção deste tema. Mas depois de se haver atendido seu problema,
ela se voltou para Subhash Chandra e lhe disse: “Pitaji, não nos vai dizer nada?”

Subhash Chandra: - “Mas eu vim aqui para escutar, não para falar!”
230

Sri Ma: - “Só para escutar? Escutará você o que eu disser? Fará você o que eu disser
para fazer?”

Subhash Chandra: - “Não o posso prometer. Só posso dizer que irei tentar.”

Sri Ma: - “Olhe Pitaji, qualquer ação que fazemos é o resultado de uma sensação de
carência. É certo que quando se preenche esta carência, nos sentimos felizes. No
entanto, todas as ações que se fazem neste mundo geram novos desejos… Por esta razão
se diz que a ação vinculada com o mundo sempre é incompleta e só nos dá uma
felicidade fragmentada. A ação vinculada com o Ser nos traz a verdadeira felicidade…
Você tem uma grande alma. Tente elevar suas capacidades ainda mais. O serviço que
presta à nação também é consequência de uma carência e a felicidade que lhe
proporciona será transitória. Todo mundo está buscando esta Felicidade continuada, que
não tem fim. Só aquelas ações que tenham como finalidade descobrir a autêntica
natureza de si mesmo trariam a autêntica Felicidade Suprema. Pode ser que você
questione: “Que sentido tem que eu alcance em estado de Felicidade quando todo
mundo está afogado num sofrimento interminável!” A isto se pode responder dizendo
que, se alguém alcança esta Felicidade, poderá espalhá-la aos demais também.”

Subhash Chandra: - “Que atividade é essa que constitui uma busca da verdadeira
natureza de si mesmo?”

Sri Ma falou extensamente sobre a autêntica natureza e também sobre as formas


de ser que separam a pessoa de sua própria natureza, mas sem responder diretamente a
pergunta. Então ele voltou a insistir: “Mas você não está me dizendo a forma de
alcançar isto.” Neste ponto, a senhora que havia falado antes voltou a interromper a
conversa, dando sua própria opinião sobre as palavras de Sri Ma. Amulia Kumar,
Bhupati Babu, Naguen Babu e outros homens sérios consideraram que a sessão ficou
incompleta e insatisfatória, porque Sri Ma não teve oportunidade de responder a
pergunta de Subhash Chandra, o qual, pouco depois, fez pranam, se despediu e partiu
para Calcutá.
231

Sri Ma e as Crianças

Sri Ma estava sempre rodeada de crianças. Em Dacca, Bareilly, Dehra Dun,


Uttarkashi e em Cox’s Bazaar, Sri Ma e Bholanath eram sempre seguidos por um
séquito de meninos e meninas. Anos mais tarde Sri Ma continuava dando-lhes atenção,
como demonstra a seguinte história:

No começo de Dezembro de 1936, Sri Ma estava viajando a Assam. Enquanto o


trem estava parado em Pandughar, Sri Ma olhou pela janela e viu um garoto que ia
caminhando pela via com alguns livros debaixo do braço. Falou com ele e pediu que ele
subisse ao compartimento. Quando o rapaz subiu, Sri Ma teve uma conversa amistosa
com ele. Era um garoto bem educado e também parecia ser inteligente. Chamava-se
Mukul Datta e era o filho de um empregado da ferrovia que, junto com outros meninos
e meninas do Railway Yard se deslocavam todo dia neste trem, até o colégio, em
Gaudati. Ao vê-lo subindo no vagão, seus amiguinhos subiram também e, em pouco
tempo, estavam todos conversando com Sri Ma, como uma amiga de toda a vida.
Depois de algum tempo, Sri Ma lhes disse: “Todos tem que pensar em Deus durante
algum tempo, todo dia. Deus tem muitas formas e muitos nomes. Vocês podem escolher
o que gostem mais. Qual nome vocês mais gostam?” Disseram muitos nomes, como
Hari, Rama, Krishna, Lakshmi, Sarasvati, Shiva, etc. Dois meninos eram muçulmanos e
disseram Alá. A todos Sri Ma disse: “Peguem um caderno novo e escrevam o Nome que
gostarem cinco, dez ou doze vezes (segundo suas idades) todos os dias. Isso é a primeira
coisa que devem fazer, pela manhã, depois de lavar as mãos, o rosto, etc. Quando
acabarem todo o caderno, entreguem-no ao rio, em nome de Deus e comecem um
caderno novo. Vocês farão isto? Agora já sou amiga de vocês. Vocês se lembrarão de
mim?” Lhe disseram que sim.

Em Dibrugarh, Sri Ma voltou a se dirigir a um grupo de crianças, em termos


semelhantes. Sugeriu a Didi que comprasse uma dúzia de cadernetas e que as
distribuísse entre as crianças, escrevendo na capa o nome de cada uma. Um menino
pediu a Didi que escrevesse o nome de Sri Ma na primeira pagina e todos os demais
também quiseram o mesmo. No dia seguinte, trouxeram os cadernos para Sri Ma para
que ela visse que eles estavam se esforçando. Esta Lila se repetiria em todas as viagens
de Sri Ma, sempre que ela tivesse tempo livre para as crianças.

Nesta etapa da viagem para Assam, Virajmihini separou-se do grupo de Sri Ma


durante um par de dias, para ir ver seu filho e seu genro em Nougaon e depois se dirigiu
a Prudughat, para esperar que Sri Ma chegasse pela estrada, para voltar, então, a se unir
ao grupo e subir ao barco a vapor que cruzava o rio. Chegaram correndo também os
meninos do Railway Yard, pensando que veriam Sri Ma. Ao saber que ela chegaria de
ônibus, foram esperá-la na parada, olhando ansiosamente os rostos de todos os que
desciam dos carros e ônibus.
232

Quando Sri Ma chegou já era bem tarde e os meninos, decepcionados, já haviam


partido. Quando soube, por intermédio de Virajmohini, que a haviam estado esperando
toda a manhã, Akhandananda e Bholanath foram ao Railway Yard para ver se os
encontravam. Desgraçadamente, Didi havia perdido a lista com os nomes e, pelas vagas
indicações que tinham, não conseguiram nada. Quando já estavam saindo para ir até o
barco a vapor, Sri Ma chamou pessoalmente a um jovem que estava de pé, a certa
distância e, ao aproximar-se, lhe perguntou se conhecia Murut Datta. Ele respondeu que
sim. Sri Ma deixou então o recado de que dissesse aos meninos que tinha vindo e que os
havia procurado, mas que não tinha mais tempo e tivera que partir sem vê-los.
233

Satchitananda

No Cox’s Bazaar havia uma escola perto da casa na qual Sri Ma se alojou
durante um tempo. Sempre que tinha algum tempo livre, antes ou depois da aula ou
durante o recreio, as crianças iam correndo ver Sri Ma passear pela beira do mar,
recolhiam conchas de caurim e as entregavam como oferenda. Um dia ela lhes disse:
“Vamos fazer um jogo com todas estas conchas de caurim. O jogo vai se chamar
Satchitananda.” Sri Ma inventou as regras: haveria duas equipes com igual número de
jogadores, que tinham que se sentar, alternados, num círculo. Cada jogador podia atirar,
uma só vez, sete conchas. Se caíssem três com a boca para cima, a pontuação seria Sat,
se caíssem 5, Chit e Ananda seria se caíssem todas com a boca para cima. Ganhava o
jogo a equipe que conseguisse fazer Sat, Chit e Ananda em ordem. Se saísse Ananda
antes de Sat ou Chit antes de Sat, não serviria. A equipe que ganhasse cantaria kirtan e a
que perdesse faria japa 108 vezes antes de poder unir-se ao kirtan (isto é o que eu me
lembro sobre o jogo, pode ser que houvesse mais regras, para resolver as polêmicas).

Geralmente Sri Ma e Bholanath eram os chefes de equipe e as crianças levavam


o jogo muito a sério, ao serem leais e jogarem as conchas com muito cuidado. Inclusive
os mais velhos jogavam como crianças. Às vezes se produziam sérias controvérsias, que
tinham que ser resolvidas pelos chefes de equipe. Quando os vizinhos ouviam o som do
kirtan, sabiam que os meninos estavam jogando Satchitananda com Sri Ma e Bholanath
na beira do mar.

Sri Ma compreendia muito bem os problemas das crianças de origem estrangeira


que acompanhavam seus pais mas não podiam compreender as coisas que aconteciam
ao seu redor. Uma menina alemã descreveu por escrito sua própria experiência, durante
uma sessão de Samiah-Saptah:

“Para mim, toda Saptah foi um tremendo aborrecimento. Eu era incapaz de


compreender porque toda aquela gente se sentava apertadamente durante toda uma hora,
numa grande sala, para contemplar uma coleção de velhos calvos sentados sobre um
tablado, envoltos em mantas velhas, com os olhos cerrados. E, como se já não bastasse
tudo isso, continuavam sentados mais duas horas, conversando em híndi e lendo trechos
de livros!”

Às vezes Sri Ma falava a grupos de meninos, tratando-os como amigos: “Agora


que somos amigos, vocês vão levar a sério o que vou lhes dizer, não vão? Vou dizer
cinco coisas que vocês deverão recordar sempre: a primeira é dizer sempre a verdade; a
segunda, obedecer a vossos pais e professores; terceira, recordar-se de Deus todos os
dias. Quando vocês se levantarem, pela manhã, peçam a Deus que os ajude a ser bons.
Antes de dormir, de noite, rezem também e peçam que Os perdoe se houverem sido
maus; quarta: estudem muito, tudo o que puderem e quinta: se houverem feito as quatro
coisas anteriores, então, se quiserem, podem ser um pouco travessos e brincar tudo que
quiserem!”

As crianças sempre aceitavam o programa de cinco pontos com grande


entusiasmo. Hoje em dia, deve haver muitas pessoas de meia idade ou mesmo de idade
avançada que cresceram com estes princípios de infância feliz.
234

Sri Ma e Janta-Janardana (o povoado)


Sri Ma tinha uma grande afinidade com as pessoas simples do nosso país. Não
seria realista dizer que ela se esforçou para conseguir uma ordem social mais
harmônica. Tal como em tudo o mais, nunca insistia neste tipo de tema. Para ela, o que
importava, era cada ser humano. Ao responder perguntas ou tratar de problemas sociais,
respondia para a pessoa em sua totalidade. Não se denunciou publicamente a um ladrão
que pegaram roubando no ashram de Vindiachal porque Sri Ma não quis degradar assim
a essa pessoa, mas sim lhe permitiu manter as aparências e partir em paz.

Sri Ma pulava repetidamente as regras das castas. Em Dacca, criou o que se


denomina Jagannath-Kshetra. Em Puri, o prasad do templo de Jagannath é considerado
alimento abençoado, repartido por todos, brâmanes e não brâmanes. Além disso,
qualquer um o pode servir, pelo que, quando os peregrinos chegam a esta cidade, se
esquecem da ortodoxia. Em muitas ocasiões, Sri Ma se misturava com a multidão,
repartindo sua comida, servindo-os e comendo de suas mãos. Algumas vezes, em
cidades como Dacca, Calcutá, Varanasi e Vrindavan, as reuniões gigantescas gozavam
deste ambiente festivo de repartir tudo com todos.

Sri Ma sempre se misturou livremente com pessoas que em nosso país são
conhecidas como dalits (antigos intocáveis, pessoas de casta muito baixa). Já
mencionamos as mulheres de Atpara que eram suas amigas. Em Paruldia e outros
povoados Sri Ma se misturava com os cozinheiros e serventes, para convencê-los a
participar do kirtan. Num povoado próximo a Ranchi, Sri Ma se ocupou de que as
pessoas do campo fossem incluídas na celebração do Samiam-Saptah. Jamais se sentiu
oprimida pelas multidões, nem lhe impacientavam seus pedidos de darshan. No ashram
de Varanasi, que está rodeado de casas de pescadores, sempre se preocupava por eles.
Criava-se um grande Jagannath-Kshetra nas ruazinhas que rodeiam o ashram quando Sri
Ma se sentava nos degraus com uma caçarola de khichiri (legumes e arroz cozinhados
juntos) e o começava a repartir infatigavelmente com grupo após grupo dos filhos dos
pescadores, que se aglomeravam ao seu redor. Era por si só um milagre que houvesse
comida o bastante, naquela caçarola de khichiri, para todas aquelas hordas!

Ela mesma demonstrou, uma e outra vez, a autêntica que era sua vani de que
pertencesse a todos. Desde as tribos de Taklakot às remotas aldeias de Bengala, Bihar,
Uttar Pradesh ou do Gujarat, se fazia querer pelas pessoas do campo como uma delas.

Durante muitos anos, as multidões constituíram uma constante em suas viagens


e ela tinha sua própria forma particular de distribuir prasad a todos e a cada um deles.
Lançava batasás (pasteizinhos) ou frutas para a multidão, com um alcance que parecia
realmente espetacular, sobretudo porque não se notava nenhum esforço. Os que estavam
mais longe começavam a empurrar para frente para tentar pegar uma fruta mas, em
seguida, corriam em desordem para trás, ao dar-se conta que a chuva de oferendas caía
atrás deles. Às vezes, para tornar ainda mais divertido, fazia uma finta com a mão e, de
repente, mudava a direção do lançamento. Em todas as ocasiões, a quantidade de frutas
e doces era adequada para a multidão presente e, pelo que nós sabemos, nunca faltou.
235

Em certa ocasião, Sri Ma teve que fazer uma parada de algumas horas na estação
de trem de Hardoi ( 17 de Março de 1969) e começou a cantar um kirtan. Em poucos
minutos já se havia formado uma enorme roda de pessoas ao seu redor, constituída
pelos encarregados da estação, faxineiros, varredores, assim como pelos viajantes com
diferentes destinos que, agrupados em torno de Sri Ma, se uniram ao canto. Logo antes
de subir no trem, pediu que lhe trouxessem todas as frutas e doces dos vendedores
ambulantes, os quais também se encontravam no grupo, e os lançou para a multidão,
seguindo o método antes explicado. Alguns dos vendedores aceitaram dinheiro dos
devotos, em troca de suas mercadorias, enquanto outros as entregaram como oferenda.
Durante um par de horas a estação de Hardoi conheceu o êxtase do Nama-Yajna.

A Lila de Ser Mulher

A lila de Sri Ma como “mulher” deleitava principalmente a multidão de donas de


casa, que quase sempre a acompanhava, as quais sempre se sentiram compreendidas e
queridas por ela. Por outro lado, os homens sempre ficavam nervosos com o que eles
consideravam “trivialidades” ao serem excluídos das sessões só de mulheres. Chegavam
até a ter ciúmes!

Quando Sri Ma teve o kheyal de que Didi e Maroni obtivessem o privilégio de


receber o cordão sagrado [tradicionalmente, o cordão sagrado era imposto aos filhos
homens das três primeiras castas – varnas – numa cerimônia que simboliza o segundo
nascimento], aquilo supôs uma inovação de consideráveis repercussões já que,
subsequentemente, muitos jovens adquiriram também este direito e se comprometeram
a seguir a estrita regulamentação dos “renascidos.” Graças a isso, mulheres como
Purnananda (Kumari Shanta Pathak), Brahmacharini Chandana Bhattacharia, Kumari
Guita Banerji e Kumari Jaya Bhattacharia também receberam o cordão sagrado.

Sri Ma provocou mudanças importantes de forma discreta. Numa ocasião,


pediram a uma garota de Kaniapith que lesse um livro sagrado na presença de Sri Ma e,
enquanto lia, esta lhe colocou uma guirlanda no pescoço. Ao fazer um sinal, colocaram
diante da jovem um chowki (estante onde se coloca um livro aberto, tal como partituras
de músicos de orquestra) para que apoiasse o livro nele e uma marca de pasta de sândalo
na testa, com o que ela ficou parecida com um pathak (leitor) escolhido para esta
empresa. Timidamente, a jovem leu uma ou duas páginas do livro. Essas pequenas
iniciativas tiveram resultados impressionantes já que, hoje em dia, muitas jovens de
Kaniapith são eruditas, plenamente capacitadas para dar palestras em público sobre
temas religiosos. Em Setembro de 1995, em Varanasi, Kumari Guita Banerji foi
nomeada oradora durante uma semana, sobre o Srimad Bhagavatam e, durante sete dias,
deu fascinantes discursos sobre esta escritura sagrada – toda uma oferenda para este ano
(1995 – 96) de celebração do centenário de Sri Ma.

Em Junho de 1982 o Jagadguru Shankaracharia do Sringueri Pitham, Sri


Abhinava Tiatha e seu principal acompanhante, Chote Maharaj, foram a Kankhal visitar
Sri Ma. Todo o ashram se reuniu para dar as boas vindas devidas à semelhante
personalidade da hierarquia do nosso sadhu-samaj. Tanto as decorações florais quanto o
som do kirtan anunciavam uma eminente celebração e se observaram todos os ritos
prescritos para receber a um grande mahatma.
236

Jagadguru Sri Shankaracharia pareceu estar muito contente. Ao sentar-se com


Sri Ma na sala, ela lhe apresentou muitas das jovens que estavam de pé ao seu lado. A
primeira foi Kumari Jaya Battacharia, diretora do Kaniapith. Ao saber de suas
habilidades acadêmicas, lhe fez uma pergunta em sânscrito sobre o difícil tratado
Khandanakhandakhadia. Também em sânscrito, ela lhe respondeu muito corretamente:
“Graças às bênçãos de Sri Ma e Maharaji é certo que já li este tratado, mas não tive
tempo de meditar sobre suas complexidades” depois do que acrescentou: “Nos alegra
que tenha vindo nos ver. Por favor, volte outra vez.” Maharaj pareceu ficar satisfeito
com a resposta. Em seguida, Sri Ma lhe apresentou outras jovens, com títulos
acadêmicos, vestidas com sóbrias roupas amarelas, com aspecto de brahmacharinis da
era dos Upanishads. A Dra. Padma Mishra, presidenta do Kaniapith, foi a última a ser
apresentada. Sri Ma disse: “Pitaji, toda esta escola foi conseguida graças a ela.”

O Jagadguru estava visivelmente impressionado. Virou-se para seu


acompanhante e lhe disse em sânscrito: “Tudo é possível com Sri Ma!” Ao ver o
aspecto resplandecente de Sri Ma, um dos espectadores pensou: “Verdadeiramente, as
“garotas” de Sri Ma são todo um orgulho!” Seu assombro era compartilhado por muitos,
porque é um exemplo imponente e edificante ver estas jovens com bons estudos,
cumprindo com o sentido da repetida vani de Sri Ma de que “Deus é o único do qual
vale a pena falar. Tudo mais é vaidade e dor.”

Tal como em todos os ensinamentos, não é fácil interpretar o kheyal de Sri Ma


sobre a posição da mulher em nossa sociedade. Era evidente que Sri Ma não fazia
distinções entre homens e mulheres no que se referia a direitos e obrigações, ainda que
alguns a ouviram comentar que não era um objetivo apropriado para a vida, exigir uma
paridade no campo das possessões. Animava a todas as mulheres para que tentassem
encontrar seu lugar no mundo com um espírito independente, mas também defendia
uma forma de vida entregue ao serviço, que não fosse servilismo. Sempre que queria dar
um exemplo de comportamento ideal, Sri Ma citava sua própria mãe. Dizia: “Minha
mãe falava que…” ou “Minha mãe não nos deixava fazer tal ou tal coisa,” “minha mãe
não fazia isto.” No entanto, a vida de Didima foi uma orquestração de fortaleza,
desapego, serviço, confiança em si mesma em condições difíceis e uma total
identificação com a vontade de Deus na vida. Seu sentido de humor a fortificava contra
qualquer intento de trivializar sua posição ou dignidade. Resulta impossível
compadecer-se pela dureza das circunstâncias ou mostrar-lhe compaixão pelas
dificuldades. Havia que se reconhecer sua valia por si mesma, que consistia numa total
auto-suficiência.

Tudo isso agradava Sri Ma, que o contava a muitas donas de casa. Queria que a
mulher compreendesse que constituía o sustentáculo de uma família bem estruturada.
Uma família pode suportar o impacto de diferentes forças externas quando dispõe de um
centro potente e bastante flexível para o toma lá dá cá das relações. No entanto, não
aconselhava resistir além do que permitisse o bem-estar das coisas. Em geral, sempre
falava a favor da união harmônica do casal, ainda que em uma ou duas ocasiões
favorecesse a separação dos cônjuges. Em seu entorno surgiam muitas conversas
referentes às relações humanas.

Pergunta: - “Ma, as pessoas que vêm vê-la encontram paz na vida?

Sri Ma: - “Pergunte a elas!”


237

Uma senhora: - “Sim, vivemos em paz.”

Sri Ma: - “De verdade? Talvez neste momento, mas quando você começar a pensar que
seu marido não lhe dá atenção, começará a chorar. E o mesmo acontecerá com seu
marido. Quando pensa que sua mulher se desentendeu com ele, se enfada. O que
acontece então? Ele se zanga, não dirige a palavra para sua mulher por dez minutos e,
em alguns casos, até dez dias, dez meses ou inclusive dez anos. Sim ou não?”

Todo mundo riu com a descrição que Sri Ma fez dos problemas familiares, mas
todos reconheceram o tristemente certas que eram suas palavras. Sri Ma continuou
falando: - “Algumas mulheres admiram seus maridos e se preocupam em fazer as coisas
certas. Em troca, outras se interessam mais por si mesmas: “Porque ele não me escuta?
Se não faz o que digo, eu tampouco vou fazer o que ele quer.” A atitude típica da
comerciante, de uma pakka sethji (lojista consumada)!”

Todos riram com ela. Já num tom mais sério, Sri Ma acrescentou: - “O lar
também é um ashram. Não o chamam grihastrashram? O que quer dizer “ali onde não
há shrama (dificuldade), onde não há dor.” Ali, onde o marido se ocupa de sua mulher, a
mulher se ocupa do marido e se deve notar que existe um acordo, uma reciprocidade,
um propósito em comum. Se não prevalecer o espírito de serviço acontecerá o contrário,
predominará a discórdia. A mãe deve preocupar-se com o filho e o filho terá sua mãe
sempre presente. Se todos prestam seus serviços convencidos de que Ele é o único ao
qual se está servindo, então sim há esperança de paz. Por acaso, não se diz janta-
janardhana – Deus em forma de gente? O objetivo deve consistir em ver ao próprio
Ishta em todos. Ao comprazer a todos se compraz ao próprio Ishta. Num ambiente
familiar pouco agradável ou tranquilo resulta difícil avançar na busca espiritual. Outro
ponto: não considerem a ninguém vosso inimigo nem vosso adversário. Só existe uma
Unidade, não existem “os demais.” Todos são amigos.”

Às vezes, na presença de Sri Ma, se apresentava a questão da superioridade e


inferioridade. Numa das sessões de samiam-saptah, a pessoa encarregada de dirigir o
satsang proferiu uma frase provocativa e um dos participantes perguntou para Sri Ma:
“O diretor acaba de declarar que os irmãos não assistem corretamente aos kirtans da
manhã e da noite e que, em troca, as irmãs são mais regulares em tudo o que fazem ao
longo do dia. Isso quer dizer que as mulheres são mais devotas e que alcançarão a Deus
primeiro?” Sri Ma sorriu e respondeu: “As mulheres são mais disciplinadas. No fim, são
mães. Uma mulher sabe servir e perseverar. O que alguém recebe é proporcional ao que
dá, tanto se está aqui quanto se está em casa!”

Pergunta: - “Nós estamos menos capacitados do que elas para ajudar?”

Sri Ma evitou dar uma resposta direta e disse: “Isto me recorda uma lenda.
Quando Deus criou o mundo e preparou tudo, o Mal lhe perguntou: “Que lugar me
corresponde?” Deus lhe respondeu: “Construa tua morada naqueles que não tiverem
lugar para o Divino ou não tiverem devoção.” Todo aquele que tenha devoção por Deus
conseguirá a liberação.”

Pergunta: - “É mais fácil para as mulheres encontrar a Deus?”


238

Sri Ma: - “ Aquele que for capaz de concentrar-se mais profundamente tomará a
dianteira.”

O homem que fazia as perguntas insistiu: - “As mulheres são menos inteligentes.
Por isso são mais devotas por natureza.”

Em lugar de responder, Sri Ma lhe perguntou: - “Isto quer dizer que os que são
muito inteligentes avançam mais rápido? Não é certo que temos que entregar a Deus o
ego e a inteligência?”

- “Sim.”

- “Pois então?”

- “Agora é você quem me confundiu!” Todos riram.

Outra pessoa perguntou abertamente: - “Quem é mais importante, o homem ou a


mulher?”

Sri Ma respondeu: - “Ambos. Você não diz Hara-Parvati, Radhe-Shiam ou Sita-


Ram? Um está incompleto sem o outro. Onde você estaria sem sua shakti?”

Não há testemunho de que Sri Ma tenha alguma vez se envolvido em problemas


sociais. Aqueles que buscavam conselho e solução para seus problemas receberam
atenção personalizada e Sri Ma sempre se referia a sua situação particular. Deste tipo de
entrevista houve centenas de milhares de casos, mas suas respostas não seguiam
nenhum modelo pré estabelecido, porque ela se ocupava de cada qual de forma
individual. A única generalização possível é que costumava fazer recair sobre a mulher
a responsabilidade de sustentar o conjunto de forças construtivas da vida. De certo
modo, diferenciava uma paridade de oportunidades de uma exigência pouco realista de
igualdade. Sempre exaltou a amabilidade como qualidade capaz de salvar o abismo do
mal entendido. Acima de tudo, ela era a Amiga infalível de todos.
239

Capitulo 15

Swami Muktananda Giri

“Sri Ma parte para Varanasi e deixa a Didimá e a mim em Vrindaban. Fez


pranam a Didimá e lhe disse: - “Ma, que sigas bem,” ao que Didimá respondeu: - “E tu
também. Volte logo.” Sri Ma lhe disse: “Ma, tuas bênçãos são o que fazem com que
este corpo esteja aqui. Se você continuar bem e continuar me abençoando, então este
corpo também continuará bem!” Diante de semelhante declaração, nos sentimos
incapazes de responder com nenhum outro comentário. Sri Ma partiu, com as mãos em
sinal de saudação e dizendo: - “Namo Narayana.”

Diário de Didi, 25 de Outubro de 1966

14 de Abril de 1939. Didimá se converte em Swami Muktananda Guiri


Maharaj, no prestigioso Bhola-Guiri Ashram, de Haridwar.

Sri Ma disse: “Sempre dizes que nunca te dou nenhum conselho, como dou
aos demais, no que se refere ao bem-estar espiritual. O pedir-te isto não é falar
contigo? É uma tremenda sorte poder alcançar a liberdade de dedicar-se de corpo e
alma a alcançar o Ser.”
240

Swami Muktananda Guiri

Swami Muktanada Guiri era chamada de Didimá pelos devotos de Sri Ma. Ainda
que às vezes se referia a ela como “Guiriji”, Sri Ma geralmente a chamava
simplesmente “Ma.” Didimá nunca se preocupava, em absoluto, pela posição de Sri Ma
no mundo. Quando se referia a ela dizia: “Tua/Vossa mãe.” Quando tinha oportunidade
de lhe escrever uma carta, se dirigia a ela por seu nome: “Querida Nirmala” e assinava
com “bênçãos de sua mãe.”

Já se escreveu um pouco sobre a vida de Didimá. Ela não mudou com a


passagem dos anos. Sua calma aceitação das muitas dificuldades da vida de povoado se
converteu em serena tolerância às assustadoras mudanças de circunstâncias da vida na
cidade. Viu-se obrigada a participar da fama que rodeava as atividades de Sri Ma e que
nunca a importunou nem lhe fez nem sequer fazer ou dizer algo que demonstrasse que
era consciente disso. Ocupava seu assento, com tranquila dignidade, nas tribunas perto
de Sri Ma por todo o país. Inclusive nos últimos anos de sua vida, permaneceu sentada
durante longas horas de satsang sem dar o menor sinal de cansaço.

Mostrou precocemente ter todas as qualidades de renunciante, pelo que o fato de


haver adotado a túnica laranja não era indicativo de sua condição de aspirante ao
desapego, mas sim um reconhecimento do que já era.

O Sangha que se criou em nome de Sri Ma, tornou necessário que Didimá desse
iniciação para aquelas pessoas que viessem ao ashram pedi-la. Depois de Bholanath,
não havia ninguém que pudesse desempenhar o papel de Gurú e Didimá era a única
opção. Pertencia a uma ordem monástica muito prestigiada, era generosa de coração,
nada exigente e se desmanchava pelos que iam até ela em busca de ressarcimento de
algum problema, tanto espiritual quanto de outro tipo. Por sua casa desfilavam centenas
de pessoas que queriam passar um tempo com ela, escutar suas palavras de consolo ou
simplesmente para receber na cabeça o toque de seus delicados dedos.

Jamais se esqueceu de nenhum de seus discípulos. Sempre que podia, mantinha


contato com eles mediante cartas. Quando já eram demasiadamente numerosos para que
ela se ocupasse deles sozinha, começou a aceitar os serviços voluntários de qualquer um
que quisesse ajudá-la. Com a correspondência, como com todo o resto, era muito
escrupulosa. Minha recordação mais antiga de Didimá foi uma vez que a vi com um
livro de iniciação ao híndi, poucos anos antes de falecer, quando tinha 86 ou 87 anos.
Surpreendida, lhe perguntei: - “Didimá, o que você estuda com tanto interesse?” Ela riu,
com alguma timidez, e respondeu: - “É que hoje em dia muita gente me escreve em
híndi e, mesmo que eles (os outros discípulos que já sabiam híndi) me leiam as cartas,
nunca é o mesmo que se fossem lidas por mim mesma. Além disso, o alfabeto se parece
bastante com o bengali.” Bem aventurados são todos os discípulos ao terem uma Gurú
tão bondosa.
241

Didimá tinha essa confiança em si mesma que permite ao indivíduo rir de uma
brincadeira sobre si mesmo. Em certa ocasião, numa reunião de mulheres, Sri Ma estava
descrevendo sua infância e Didimá também estava presente. Com cara de travessa, Sri
Ma disse: - “Minha mãe tinha um jeito muito especial de colocar o azeite na panela.
Colocava o dedo sobre a boca da garrafa e a virava de cabeça para baixo, sobre a
panela. Alguma vez vocês já viram alguém colocar azeite desta forma?” Todas riram,
inclusive Didimá, a qual disse, com grande calma e compostura: - “É que eu não podia
me dar ao luxo de desperdiçar nem uma gota de azeite.” ao que acrescentou, com um
correspondente sorriso ardiloso: “Éramos assim. Imagino que terias escolhido uma
família com mais recursos, se assim houvesse querido!”

Sri Ma pareceu ficar apurada e se apressou em dizer: -“Não, não, você nos
cuidou muito bem, a mim e a todos meus irmãos. Não nos faltou nada. Foi ao ficar mais
velha que descobri, pelas outras pessoas, que meus pais não tiveram facilidades. Mas
nós não lembramos que houvesse nenhum tipo de dificuldades.”

Sri Ma sempre obedeceu as ordens de Didimá o melhor que pôde. Durante os


últimos anos, Sri Ma costumava esticar o braço para tocar a cabeça das pessoas que se
inclinavam diante dela, algo um pouco inusitado. Às vezes, ao não dar-se conta de que
ela lhes abençoaria desta forma, algumas pessoas se inclinavam a certa distância e, ao
perceber o formoso gesto de sua mão esticada, se apressavam a se colocar ao seu
alcance. Numa dessas ocasiões, ao ver minha expressão de surpresa, me sorriu e disse:
“Ma me falou que, já que há tanta gente que vem inclinar-se diante de mim, eu ao
menos poderia tocar-lhes a cabeça em reconhecimento. Assim, faço o que ela me disse,
sempre que concorda com meu kheyal.”

Assim, milhares de pessoas deveriam, estar agradecidas a Didimá por esta kripa
particular do toque mágico. Também é possível que Sri Ma estivesse cumprindo o
desejo de Didimá ao começar a “dar” iniciação a qualquer um que pedisse. Nesse
momento pareceu que havia aberto as comportas da kripá ou graça. Não recusava
ninguém. Ainda que Sri Ma estivesse ocupada todo o dia e toda noite, encontrava uns
poucos minutos para sentar-se com aqueles que desejavam ser iniciados a um novo
estilo de vida, pelo que nós, que sempre afirmávamos terminantemente que “Sri Ma
nunca dá iniciações, “ tivemos que nos calar. De fato, era como se substituísse a Didimá
ao desenvolver uma maneira de cumprir com sua tarefa com a ajuda de Bhaskarananda.

Uma vez Sri Ma disse para Didi: - “Preste atenção, Didi, vejo minha mãe
sentada por aí ou fazendo coisas comuns. Ela se envolveu num véu para que ninguém
possa saber quem ela realmente é. Assim se comporta este tipo de pessoa… (passando
despercebida).”

Meditando sobre as palavras de Sri Ma, Didi escreveu em seu diário: “Didimá já
tem 85 anos e seu único desejo é passar todo o tempo perto de Sri Ma. A esse respeito, é
como uma menina. Onde quer que Sri Ma esteja, lá aparece Didimá e se senta ao seu
lado. Se a convidamos para comer , ela diz: “Não tenho fome, comerei mais tarde.”
Ficávamos de cabelo em pé com isso e Didimá ria de nós, reconhecendo tacitamente
que o que queria era não afastar-se de Ma nem sequer alguns minutos.”
242

“Não há dúvidas que é difícil imaginar outra pessoa como Didimá. Há centenas
de pessoas que vem até ela para receber iniciação. Ocorre-me que talvez ela não seja
uma pessoa culta nem erudita como outros gurus mas, por sua própria natureza, é uma
autêntica mahatma. Faz 35 anos que a conheço bem e jamais vi nelas sinais de enfado,
avareza, ego, ciúmes ou inimizade. Não estou exagerando. É amável e generosa com
todos. Não critica ninguém. Se estamos falando dos muito defeitos de alguém,
invariavelmente ela menciona ao menos uma qualidade desta pessoa. Para nós era
divertido que, segundo Didimá, ninguém merecia uma crítica! Todos os que a
conheceram estarão de acordo comigo.”

Dayananda (que no ashram era conhecida como Vimaladi) foi, durante muitos
anos, a ajudante de Didimá. Seu problema era como evitar que Didimá fizesse tudo
sozinha e não deixasse nada para seus ajudantes fazerem. Inclusive quando muito idosa,
ela mesma lavava sua roupa. Frequentemente se pode ouvir Vimaladi reclamando:
“Agora, se você pega uma friagem e tem febre, as pessoas me darão uma bela bronca!
Não saberei o que dizer para Ma. Você quer que reclamem de mim?” Didimá a
acalmava com palavras doces e promessas de “melhor comportamento” no futuro.

No começo de 1963, Didimá decidiu que lhe havia chegado a hora de deixar o
mundo. Todo este incidente é representativo de que seu grande coração se preocupava
por todo mundo. Na primeira semana do mês de Fevereiro de 1963, Didimá se
encontrava em Haridwar. Durante uns poucos dias esteve estranhamente calada, algo
nada comum nela, sempre tão agradável e extrovertida. Um dia a viram fazer sua
oferenda diária de flores e água no templo de Shiva e, ao regressar a seu quarto, ficou
imóvel como uma estátua. Foram inúteis todos os pedidos para que rompesse o jejum.
Depois de algum tempo, foi deitar-se sob a árvore bel. Antes que seus ajudantes
começassem a se acalmar, recebeu um telegrama de Sri Ma (em Jodhpur naquele
momento) interessando-se por Didimá e pedindo-lhe que viesse para Delhi
imediatamente.

Didimá havia tido uma visão na qual ela estava na margem de um rio largo,
esperando que chegasse um barco para cruzá-lo. Chegou o barco, ela subiu nele e
perguntou para a figura confusa do barqueiro: “O que será dos que ficaram ali, de pé?
Eu não posso partir a menos que eles venham todos comigo.” O barqueiro lhe assegurou
que atravessaria a todos para a outra margem. Depois desta visão, Didimá havia
decidido que já havia vivido bastante e que era hora de partir. Como sempre, estava
muito conectada a Sri Ma, que havia “visto”, em Jodhpur, que Didimá lhe dizia “Parto
amanhã?” ao que Sri Ma respondeu firmemente “Não, agora não, ainda te restam uns
poucos anos!”

Depois deste intercâmbio interno de pensamentos, Sri Ma havia solicitado que


enviassem um telegrama a Khankal, cuja chegada coincidiu com o momento em que
Didimá se deitava sob a árvore bel. Alguém perguntou a Sri Ma: “Se você já se havia
comunicado com Didimá, que necessidade havia de lhe enviar um telegrama?” Sri Ma
sorriu e disse: “Era para todos vocês! Se não , vocês teriam custado a acreditar que Ma
estava disposta a deixar seu corpo naquele momento e que eu lhe fiz mudar de opinião.”
243

Didimá nos deixou em 7 de agosto de 1970 e desta vez não pediu permissão.
Aquele momento e aquele lugar resultaram apropriados para esse acontecimento, que
marcou o final de uma época. Jaipuria House é um dharmsala para peregrinos que existe
em Haridwar. Estavam celebrando um Bhagavat Saptah, com todos os detalhes
característicos de todos os atos que se realizam em torno de Sri Ma. Didimá costumava
sentar-se, todos os dias, ao seu lado, sobre o estrado, para escutar o programa. O orador
estava narrando a vida de Sri Krishna. Essa história tão antiga e sempre renovada em
todas as incontáveis ocasiões em que é contada, tinha cativado toda a audiência. Didimá
se levantou do seu lugar no estrado, fez pranam para Sri Krishna e regressou a seu
assento. Esteve muito calada durante todo o dia. Tarde da noite, passou um tempo no
quarto de Sri Ma, como era usual. Quando chegou a hora de ir descansar, pôs a mão na
cabeça de Sri Ma, em sinal de benção e lhe disse três vezes: “Que sigas bem.”
Geralmente Sri Ma lhe respondia, juntando as mãos e dizendo: “Tu também.” Mas
aquela noite o rito não se completou, já que Sri Ma não disse nada.

Era uma da manhã quando Didimá se sentiu um pouco indisposta e Vimaladi lhe
perguntou, angustiada, se queria que ela fosse buscar Sri Ma. Didimá lhe disse um
“não” em tom bastante convincente. Vimaladi se deu conta de que Didimá estava
desperta e algo inquieta. Estava num grande dilema quando viu que Sri Ma entrava e se
encarregava da situação. Esta tentou dar a Didimá um pouco de mel com pasta de
gengibre, mas ela não tomou quase nada. Então Sri Ma lhe fez uma massagem no peito
e a pegou praticamente nos braços, sem deixar de chamá-la “Ma, Ma, Ma!” Didimá
respondeu com uma só sílaba, cujo som foi parecido ao de “om.”
244

Esteve plenamente consciente nos últimos minutos, porque levantou


ligeiramente as mãos unidas e as moveu de um lado para o outro, ao seu redor. Foi um
gesto de despedida, de que estava partindo. Levantou então os olhos para fitar o rosto de
Sri Ma e expirou.

Didimá foi a personificação da benevolência com todo mundo, de forma


desinteressada. Mais do que ninguém, aliviava o coração de seus discípulos, escutando
seus problemas e tribulações. Com sua morte, desapareceu para sempre – ou talvez não,
quem sabe! – um verdadeiro Ganges, um confessionário de dimensões ilimitadas para a
expiação de pecados e tristezas.

Sri Ma ficou muitas horas sentada no quarto, com o corpo de Didimá em seus
braços. Mais adiante disse: “Quando vi Paramananda entrar no quarto, entendi que iria
levar a Ma e então a coloquei na cama.” O radiante sorriso de Sri Ma se viu apagado
pelas abundantes lágrimas que escorriam pelo rosto. Muito já se escreveu sobre o fato
de que nunca se viu Sri Ma condoída pela morte de ninguém. Ainda que agora
tampouco ela estivesse condoída, era uma ocasião totalmente excepcional. Não é fácil
descrever o comovente que foram os lamentos de Sri Ma pela morte de sua mãe. Não
deixou de sorrir para as pessoas que foram ao dharmsala ao ouvirem a triste notícia e
dizia para todos: “Ma nem sequer me deu a oportunidade de sentar um tempo ao seu
lado. Quantas vezes me disse: - “Você tem um tempinho agora?” Mas desgraçadamente,
nunca encontrei a ocasião de escutá-la ou de conversar com ela. Sempre havia assuntos
urgentes para resolver. Com que paciência ela esperou que eu encontrasse um tempo e
eu quase nunca o fiz!”

Assim ia falando de sua mãe enquanto Paramananda se ocupou de todos os


preparativos para o samadhi (tumba de um santo) no Kankhal ashram. Os sadhus da
ordem monástica à qual havia pertencido Didimá ficaram encarregados dos rituais finais
e, quando chegou o momento, realizou-se a cerimônia de enterro com a maior
circunspecção e honor. O samadhi-mandir de Didimá se converteu num lugar de
peregrinação para seus inúmeros discípulos espalhados por todo o país.

De certo modo, Sri Ma aparentava certo aspecto de perda sem Didimá ao seu
lado. Sobre o estrado, que parecia extraordinariamente vazio, colocou-se uma foto de
Swami Muktananda Guiriji (Didimá). Durante muitos meses Sri Ma levou sempre
consigo uma foto de Guiriji e a colocava ao seu lado ou a guardava em seu regaço. Seu
sorriso permaneceu tão imutável e resplandecente como sempre, mas era como se
tivesse o olhar voltado para dentro, para recordações que não deixou de repartir com as
multidões de todos os locais, que iam vê-la.

De todos os pares de opostos que conviviam com ela sem nenhum esforço, sem
dúvida o mais especial foi a simultaneidade de lágrimas e riso na ocasião do falecimento
de Didimá. O certo é que a musa da tragédia nada tinha para fazer com Sri Ma
Anandamayi. Pode-se dizer, em troca, que nesta ocasião a Tragédia tocou as pessoas de
seu entorno, porque este acontecimento marcou definitivamente o começo do fim da era
de júbilo.
245

Ao desaparecer a proteção dessa aura de amor puro e desinteressado, que havia


envolvido Sri Ma durante todos estes anos, tornou-se ela cada vez mais vulnerável à
natureza incessantemente exigente da fraqueza humana? Esta foi uma das suas vanis:
“Tal como uma vaca lambe a sujeira que o bezerro leva presa e as engole, Deus faz o
mesmo com suas criaturas. Tira-lhes todas suas debilidades e enfermidades e as deixa
limpas e puras. Vocês só devem prestar serviço estabelecidos com firmeza na crença de
que tudo é Seu.”

Sri Ma continuou limpando-nos de nossas impurezas. Nas Escrituras lemos que


a cor branca-neve do senhor da Morte se tornou escura ao ingerir o veneno com o qual
ameaçava destruir o mundo. Temos lido o que sofreu uma Encarnação que veio salvar a
humanidade. Será que a humanidade é incapaz de mudar para que Deus não tenha que
sofrer por nós nem que tenha que vir para corrigir o sofrimento, mas sim, simplesmente,
para desfrutar de Sua criação?

A Missão Especial de Sri Ma


O Dr. Prafula Chandra Datta descreveu por escrito sua visita de um dia (13-02-
1959) ao ashram de Sri Ma, em Agarpara. Viu que Sri Ma estava rodeada por uma
variada multidão. Havia homens e mulheres tanto de países distantes quanto de zonas
próximas a Bengala. O eminente estudioso Sr. Nalini Kanta Brahma estava explicando a
um grupo de estrangeiros a mensagem de Sri Ma de participar de um esforço comum
em busca da verdade: “Sri Ma diz que, tal como se pode manter um kirtan durante uma
série de dias ao ir-se revezando as cantoras, as pessoas interessadas em Deus podem
organizar uma série ininterrupta de japa (akhanda) durante todo o dia e toda a noite, da
qual todo mundo pode participar, independentemente de sua orientação religiosa, status
social, ocupação, sexo, idade ou país de origem. Aqueles que estão ansiosos por
alcançar a Verdade podem combinar seus esforços, independentemente das diferenças
de opinião, do divergente que sejam seus caminhos ou da variedade de Nomes com que
se recordam de Deus. Todo aquele que intua uma identidade com os outros pode
esforçar-se por alcançar essa Unidade, que é o Único que se manifesta em forma de
variedade.”

Sri Ma começou a dizer algo, mas, como estava olhando para Data Mata e
Swami Kriyananda, pronunciou espontaneamente, em inglês, as palavras “special
mission…” Parou à seco, olhando os indianos e disse, sorrindo: “O que significa special
mission? Usei estas palavras corretamente? Aos que me tem afeto eu sempre peço uma
esmola: um presente de 15 minutos por dia. Simplesmente 15 minutos por dia, na
mesma hora. Tanto faz o estado ou o local onde estiverem – em suas casas, na rua, se
estiverem doentes ou sãos, se vocês mandarem ou obedecerem – recordem d’Ele nesta
hora assinalada. Sem necessidade de levar em conta questões de pureza no vestir, etc.
Ele sempre é o sagrado. Não o afetam as impurezas porque Ele é quem purifica a todos.
Em meio ao barulho passageiro do mundo, fixe uma hora determinada para recordar
diariamente o Bendito com o fim de alcançar a Benção Suprema da iluminação. Não
importa a nacionalidade, religião ou irmandades – se abre uma nova perspectiva que
unifica a todos os peregrinos no caminho da união com Deus.”
246

O Dr. Brahma disse: “Sri Ma está nos facilitando a prática. Nesta era moderna
não temos muito tempo para nos dedicar a viver de forma austera. Mas quem não pode
encontrar 15 minutos?”

Sri Ma disse: “Não haveremos de estabelecer cimentos? Se os cimentos não são


resistentes, então todo o edifício pode ser derrubado. Estes 15 minutos são como a pedra
angular da lembrança total. Este é o significado de akhanda (sem fissuras) sadhana:
deve-se manter inalterável a rotina de 15 minutos diários.”

O Dr. Brahma fez outra pergunta: “Ma, todos os religiosos estabeleceram alguns
momentos determinados. Isto é uma nova dimensão?”

Sri Ma: “Pense nestes termos: nem todas as religiões são iguais. O hindu
observa, se for praticante, as três sandhias (momento de transição entre a noite e o dia, o
meio dia e o momento de transição entre o dia e a noite); o muçulmano faz namaz cinco
vezes ao dia; os cristãos também tem suas horas e assim sucessivamente. Mas este
tempinho de 15 minutos rompe com todas as barreiras e adversidades. Onde quer que
um sadhaka esteja praticando sadhana, a pessoa também pode acrescentar seu pequeno
esforço para criar assim uma união, um esforço individual que se vincula com a
totalidade do empenho humano.”

Como resultado da constante reiteração de Sri Ma sobre o tema do desapego e a


autodisciplina, o samian-saptha-maharat foi o ato que se tornou a prática de maior
popularidade e que, gradualmente, foi adquirindo características únicas próprias.
Ninguém haveria imaginado que uma pessoa qualquer poderia dedicar mais de três
partes de um período de 24 horas à busca da Verdade, já que Deus nunca havia
constituído algo tão real para antepor a todas as preocupações da vida diária. Mas isto
foi justamente o que aconteceu. Homens e mulheres que não estavam em absoluto
acostumados a suportar nenhum tipo de rigorosidade, desfrutavam de fazer jejum,
escutar a leitura das escrituras, cantar kirtan e meditar durante uma hora seguida.
Inclusive o pessoal da cozinha podia participar, porque seu trabalho havia se reduzido
ao mínimo. Durante essa semana não se realizava nenhuma das elaboradas celebrações
que marcavam sempre a presença de Sri Ma. O bhandava (banquete) se realizava ao
finalizar a semana do samian-saptah-mahavrat.

O fato de que Sri Ma aprovava qualquer ritual, celebração ou ato religioso fazia
com que as pessoas não soubessem realmente quais eram suas próprias preferências, se
é que ela as tinha. Ademais, dado que sua presença potencializava o esplendor de todas
as celebrações, sempre se considerava que essa última era a mais importante.

Como já mencionamos anteriormente, o primeiro a estabelecer o samian-saatah,


em 1952, foi Yoguibai, o príncipe (tanto no sentido literal como figurado dos devotos),
o discípulo especial no espírito de Bhaiji. Ele sugeriu que “dado que Sri Ma sempre nos
está explicando como fazer sadhana enquanto permanecemos envolvidos no mundo,
vamos criar um horário para por em prática essa vani na presença dela. Ela nos guiará e
assim saberemos exatamente o que ela espera de nós.”
247

A partir deste começo simples, transformou-se num empreendimento de grande


envergadura, que foi especialmente aclamado pelos mahatmas, dado que coincidia com
sua forma de vida. Tanto é assim que eles mesmos organizaram uma boa quantidade de
samian-saptahas. Realizavam-se tanto em lugares de retiro afastados das cidades quanto
em grandes orbes, como Mumbai, Calcutá e Nova Delhi.

A história da redescoberta de Naimisharania está relacionada com esse ato.


Naimisharania, de épica e lendária fama, se encontra situada perto do rio Gomari, no
distrito de Sitapur. Em Outubro de 1960 Paramananda se dirigiu a Naimisharania para
preparar um samian-saptah, assim como um Bhagavat Saptah.

No entanto, chuvas inesperadas fizeram que o nível das águas do Gomari


subissem e toda região ficou inundada. Continuou chovendo e todas as autoridades de
Lucknow e de outros lugares próximos que estavam dispostas a ajudar a Paramananda
com os preparativos da zona de acampamento se desanimaram e pediram que buscasse
outro local para o assentamento. Consideraram que Paramananda se comportava de
modo desnecessariamente obstinado e pouco realista. Este, no entanto, tinha absoluta
confiança no kheyal de Sri Ma e se manteve firme na sua decisão de estabelecer o
acampamento numa zona aonde a água chegava à altura do joelho.

Quando informaram tudo isto para Sri Ma, coincidiu que ela estava bebendo um
copo de água e disse: “Quem sabe! Talvez Deus retire milagrosamente a inundação!” E
isso foi o que aconteceu. Todas as pessoas envolvidas declararam que aquilo tudo foi
um milagre porque, além disso, se pôde fazer samian-saptah na data estabelecida com
grande êxito.

Para cada samian-saptah se escolhe um dos 18 Puranas com a finalidade de


estudá-lo e dar discursos sobre ele. Mas não houve forma de encontrar em Nimsar
(Naimisharania), o Brahma Vaivarta Purana escolhido para esta ocasião. De fato, foi
impossível localizá-lo em todo norte da Índia.

Sri Gangueshwaranandaji, o sábio cego, recorreu a Sri Ma para que ressuscitasse


Nimsart e estabelecesse um Purana Bhavan onde se pudesse conservar a coleção
completa dos 18 Puranas para gerações vindouras. A família dos Singhania
proporcionou os meios econômicos. Construiu-se um belo Purana Mandir, que se
consagrou como Templo dos 18 Puranas, em 1968. Alguns dos visitantes perguntaram
como havia sido possível que um público de 88.000 rishis escutasse um discurso na
época do Mahabharata sem os meios técnicos modernos de amplificação. Mas ao
colocar-se de pé no lugar onde, segundo a tradição, era o pódio do orador, descobriram
uma impactante característica daquele lugar. Ao falar com voz potente, o som percorria
uma longa distância, passando por cima dos espaços vazios. Quem sabe esta fosse a
peculiaridade pela qual se havia escolhido esse lugar para congregar grandes
quantidades de público.

Swami Akhandananda Sarasvati, o respeitado erudito e orador, ao ver o Templo,


disse a Sri Ma: “Temos que instalar aqui uma estátua do Purana-purusha.” Descreveu-
lhe a imagem da personificação do espírito dos Puranas, já que havia visto um pat
(ícone) dessa imagem na casa de Sri Rajesshwar Shastri, o famoso pandit de Varanasi.
248

Sri Ma perguntou se poderia encontrar um ícone deste tipo em alguma parte para
modelar a estátua a partir dele. Foi assim que, gradualmente, com o passar dos anos,
retornou à vida, em nossa era moderna, o sagrado local chamado Naimisharnia,
impregnado da aura de austeridades, yajnas e discursos de incontáveis rishis. O Templo
do Purana-Purusha foi estabelecido em 1975. Sri Ma passou com muita frequencia por
este lugar, já que era um dos locais nos quais podia descansar um pouco em sua
apertada agenda. Swami Naradanandaji se alegrou especialmente do renascimento e
incremento de popularidade de dito lugar de peregrinação, outrora de grande relevância.

Havia mais lugares religiosos de importância que se viram rejuvenescer com a


presença de Sri Ma durante as celebrações deste samiam-saptah mahavratas. Cada ano
ia aumentando a quantidade de participantes. Homens e mulheres se liberavam durante
um tempo de suas distintas ocupações e se reuniam em algum lugar de retiro
(geralmente um lugar afastado) para observar estritas regras de alimentação e um
mínimo de sono. Assim transcorriam sete dias numa quase constante lembrança de
Deus. O prato principal de cada dia era a meia hora de conversa com Sri Ma, à noite, na
presença da qual nada resultava difícil, não havia sensação de fadiga, de tédio, nem
sequer de fome ou sede.

Essa “special mission” de Sri Ma, essa pedra angular dos 15 minutos diários
dedicados a recordar a Deus, se havia transformado em todo um samiam-saptah. Em 30
anos, partindo de seu humilde início, o mahavrat se havia convertido num
empreendimento de envergadura, da qual participavam os chefes das grandes ordens
monásticas de todo o país e se mesclavam com uma ampla gama de estratos de nossa
sociedade: eruditos, professores, políticos, executivos, banqueiros, funcionários,
príncipes, artistas, músicos, doutores, engenheiros, estudantes, donas de casa, assim
como todos aqueles que não se encaixam em nenhuma categoria.

O samiam-saptah mahavrat de 1980, o penúltimo acontecido sob os auspícios de


Sri Ma, foi realizado no prestigiado Kailash Ashram, de Rishikesh. Um dos
participantes mais assíduos, Pratibha Kundu, escreveu: “Este acontecimento não tem
comparação. Não tem cabimento preocupar-se com a comida, o sono, o descanso, o
recreio ou ociosidade. Não há tempo para mexericos ou conversas fúteis. O dia todo é
dedicado ao japa, kirtan, estudos, meditação na presença de Sri Ma, escutar as
Escrituras Sagradas e os discursos dos santos de grande estatura espiritual. Não há outro
local no mundo em que o homem comum, desejoso de crescer espiritualmente, possa
encontrar uma atmosfera tão propícia e obter uma experiência tão gratificante. Sri Ma
nos chama a todos para participar desta semana e nos aporta plenitude. Sua vani para
esta semana é: ‘Qualquer atividade que se utilize para recordar a Deus é autocontrole
(samiama); toda aquela que nos separa de Deus é ociosidade (bhoga). O caminho não
vai se abrir diante de você a menos que você leve uma vida de autodisciplina.”

O longo estrado estava ocupado pela constelação de famosos mahatmas, todos


eles em suas flamejantes túnicas laranja. A um lado se sentava Sri Ma, resplandecente,
vestida de branco imaculado.
249

Este ashram foi estabelecido há cem anos pelo Swami Dhanaraji Guiriji Maharaj
na base do Himalaia, perto do sagrado rio Ganges. No primeiro dia, o atual diretor do
ashram, Swami Vidianadaji Maharaj, deu as boas vindas a todos os participantes,
vestidos de laranja e ao povo laico, composto por magnatas, simples aldeões, eruditos,
profissionais, artistas, príncipes e todos aqueles que serviam a todos os demais, fazendo-
se de cozinheiros e ajudantes. Em meio a toda esta variedade, Sri Ma permanecia
sentada com seu sári branco imaculado, centralizando a atenção de toda essa
comunidade com sua maravilhosa personalidade. Os mahatmas lhe renderam tributo trás
tributo, de distintas maneiras.

O Mahamandaleshwar Brahmananda Guiriji Maharaj, do Sanias Ashram de


Bombay, ofereceu uma exegese das palavras de Sri Ma em relação com a implícita
obediência ao Gurú: a literatura sagrada é como o amplo mar; não podemos saciar a
sede bebendo a água da margem. No entanto, estas mesmas águas, caídas em forma de
chuva, nos aportam alívio e amparo. A vani (pronunciamento) de Sri Ma constitui a
essência do que nos explicam todas as Escrituras, de inumeráveis formas.

O Mahamandaleshwar 1008 Sri Vidianandaji disse que Sri Ma havia colocado


ao alcance de todo este tipo de vida que as Escrituras prescrevem somente para os
renunciados, sem distinção de credo, sexo ou nacionalidade. Sri Ma demonstrou que
todos podem alcançar a meta suprema da vida – o que demonstra sua infinita kripa
(graça) pelo ser humano.

Swami Chidanandaji disse que a conclusão do samiam-saptah deveria constituir


o início de outro périplo de samiam na vida. Sri Ma é a imagem viva de Deus na Terra.
Sentimos-nos renascer em sua presença.

Swami Swatantranandaji disse que Sri Ma quer que façamos satsanga, tanto se
somos mais de mil pessoas quanto se somos apenas dois. O Kailash Ashram leva os
últimos cem anos dedicado ao estudo da brahmavidia [iluminação suprema que os
Upanishads contemplam]. Hoje alcançou a plenitude de sua busca, porque a
Brahmavidia em pessoa está presente entre nós.

Os mahatmas, ao lado de cujas vestimentas ocres Sri Ma sempre parecia


resplandecer em toda sua beleza e esplendor, lhe renderam a mais alta homenagem
como sua Ishta Brahmavidia. Com este pronunciamento, deixaram dito tudo o que se
pode dizer sobre Sri Ma.
250

Sri Ma e Didi
251

CAPITULO 16

O Último Vôo – Transpassando o


Horizonte

“Como me resulta impossível descrever a Mataji, deixei de tentar. É uma mulher


e não é uma mulher, porque em sua forma física nos aporta um exemplo vivo do que
teria que ser a vida – e nos damos conta só de vê-la – e, no entanto, depois de uns
poucos minutos em sua presença sabemos que o corpo não é mais que a alma e que
Mataji está, essencialmente, muito além destes estreitos confins… Tem algo distinto
para cada um de nós, segundo seja nossa natureza interna. Resulta quase incorreto falar
ou escrever sobre uma pessoa assim porque automaticamente a limitamos… A Verdade
Eterna, que se revela de forma tão perfeita em Mataji, é aquilo no que o mundo de hoje
em dia encontrará os cimentos sobre os quais construir um futuro mais feliz. Mataji tem
uma mensagem para todo aquele que vem a ela, mas, em si mesma, é uma mensagem
para toda a humanidade.”

Premananda (Colin Turnbull)

“Como vou abandonar aquele que exclama com desespero “Mãe, onde estás,
onde estás?” Aquele que me recorda em seu coração e preenche sua vida com o
Nome, não vê no universo coisa alguma que não seja a forma de Minha Imagem.

Aquele que não fala de outra coisa e tem pena de ver a infelicidade dos
demais.

Aquele que permanece tranqüilo diante de sua própria infelicidade ou


felicidade e que não presta atenção às calúnias dos demais.

Quando uma criança chora, chamando sua mãe e derrama lágrimas, como
vou mantê-la distante? Imediatamente a recolho em Meus braços.”

(Canção que Bipin Bihari, pai de Sri Ma, cantava com muita freqüência.
Quando criança, ela costumava cantar com ele, assim como quando esteve uns
poucos dias com ele pouco antes dele morrer. Às vezes, quando os devotos pediam, ela
cantava sozinha).
252

O Último Vôo – Transpassando o Horizonte

Na década dos setenta, Sri Ma era reconhecida como uma personalidade de


incomparável magnetismo e grande poder espiritual e ninguém colocava em dúvida a
tranqüila potência de seu impacto sobre todos aqueles que entravam na órbita de sua
influência. As pessoas esperavam durante horas simplesmente para poder vislumbrá-la e
se formavam longas filas de pessoas que desejavam se aproximar dela e, quem sabe,
trocar umas poucas palavras ou lhe fazer uma pequena oferenda de flores. Inclusive no
primeiro encontro ela era reconhecida imediatamente como a amiga infalível e sempre
disponível para se repartir ou aliviar a carga da vida ou aumentar as bênçãos de vivê-la.

A estrutura dos satsanga e o público iam mudando tão gradualmente que não se
notava em demasia e os que chegavam pela primeira vez consideravam normal o
ambiente de formalidade, incapazes de imaginar que, tempos atrás, Sri Ma havia estado
acessível a todos, sem exceção, que havia reuniões não estruturadas, nas quais se podia
conversar com ela durante longas horas. As pessoas se acostumaram a pedir audiência e
a esperar pacientemente que chegasse sua vez. Criou-se inclusive uma espécie de
gerência, que tomava decisões sobre os darshans públicos e as audiências privadas.

Os devotos de muitos anos se viam deslocados pelas massas de novas pessoas.


Muitos se sentiram incapazes de afrontar a situação e deixaram de ir aos ashrams.
Parecia haver acabado aqueles dias de reuniões íntimas e brilhantes sessões de
conversações, nas quais se intercalavam jocosas situações onde grupos inteiros de
pessoas choravam de rir. Sri Ma mal tinha tempo para se deslocar pelo país, seguindo
seu kheyal. O itinerário era preparado com meses de antecedência, com a finalidade de
que os organizadores e anfitriões tivessem tempo de se preparar adequadamente para
sua visita. As ações adquiriram dimensões gigantescas. Onde quer que Sri Ma se
dirigisse, uma multidão colossal a seguia, inclusive até regiões remotas como Uttarkashi
ou Suktal. Esperava-se dos patrocinadores que convidassem a todos os mahatmas, os
quais geralmente honravam com sua presença todos os atos dos quais ela participava.
Sri Ma deixou de dizer: “Assim acontecerá se este corpo tiver o kheyal de fazê-lo” ou
palavras semelhantes, que haviam feito que as pessoas esperassem receber dela alguma
recomendação antes de preparar-lhe as viagens. Em troca, agora dizia: “Se podes levar a
este corpo, faz os preparativos que acredites conveniente.” Lamentavelmente, foi
inevitável a supremacia do humano sobre o divino. A força gravitacional da Terra é
demasiadamente forte e tentaram sujeitar e enjaular a ave voadora!
253

Sri Ma parecia haver iniciado o processo de separar-se, com a mesma discrição


com a qual havia emergido inadvertidamente ao primeiro plano do olhar público. De
forma muito gradual, havia permitido que as pessoas se acostumassem à sua imponente
presença, havia viajado constantemente para que se esfumaçasse o efeito de sua
personalidade carismática e os grupos de pessoas pudessem regressar à sua vida normal.
Tanto que agora, tal como o sol resplandecente se torna bruscamente tênue pelo efeito
das nuvens passageiras, Sri Ma entrou num estado de inacessibilidade física. Mal podia
ser vista pelas multidões amontoadas, apesar de que quando podia ser vista de perto, seu
aspecto mostrava a mesma serenidade e beleza de sempre.

Anos mais tarde, meditando sobre este aspecto de sua vida, parece razoável
supor que tudo isto não era mais do que uma indicação do imensurável de sua
compaixão pelas pessoas. Se, de repente, houvesse decidido não deixar-se ver enquanto
os devotos ainda estavam acostumados à glória de sua presença, haveria sido devastador
para as centenas de milhares que, por assim dizer, tiravam força para viver da segurança
de que “Ma está conosco e não há nada para se preocupar!”

Anunciou-se que Sri Ma não se encontrava bem e, portanto, tiveram que impor
muitas regras irritantes para o darshan, mas os devotos antigos não levavam muito a
sério, já que haviam visto Sri Ma afrontar muitas dificuldades sem jamais alterar sua
forma de ser. Portanto, nada lhe podia acontecer, a menos que fosse seu kheyal. Havia
sucumbido a muitas indisposições, por uma ou outra razão e, com o passar do tempo,
havia se livrado delas. Antes, jamais haviam ficado sem resposta as orações para que ela
se recuperasse. Ditas indisposições jamais haviam sido engendradas por nenhuma causa
física e nunca havia sido necessário tratá-la com medicamentos, motivo pelo qual
ninguém levou a sério a possibilidade de que, desta vez, Sri Ma não tivesse ou não
quisesse ter o kheyal de acabar com a enfermidade ou o que parecia sê-lo. Mas ela
estava muito calada, como se mantivesse retida a alegria de sua forma de ser usual.
Ademais, todos seus devotos mais próximos estavam também muito sérios – um
ambiente nada normal.

Além da inacessibilidade devido às enormes multidões e a proliferação de


festividades que choviam de todos os lados, havia outras indicações sutis de que o fim
se aproximava, mas, naquele momento, ninguém soube interpretá-lo assim. Em
Setembro de 1980, Didi Gurupriya faleceu em Varanasi, depois de haver estado muito
tempo em Bombay para manter-se perto dos médicos, tal como havia organizado Sri
Ma. Em retrospectiva, as datas de distintos acontecimentos fazem sentido. Didi estava
sofrendo há anos. Haribabaji sempre admirou nela sua dedicação absoluta a Sri Ma e se
dedicou a realizar muitos rituais para favorecer sua recuperação, porque estava
convencido de que não podiam falhar os remédios prescritos nas Escrituras. Sentava-se
ao lado do seu leito e dizia: “Didi, levante-se! Já não estás doente!” É um fato que,
enquanto ele esteve com vida, Didi tampouco sucumbiu completamente à sua doença.

De fato, recuperou-se e, durante um tempo, pôde deslocar-se com Sri Ma. Por
sua parte, costumavam ouvir Didi dizer que estava muito agradecida aos “Pitajis” de Sri
Ma, tal como ela chamava aos eminentes mahatmas, e em especial a Haribabaji, a quem
ela considerava um seguro de que Sri Ma não teria o kheyal de deixar o mundo. Estava
convencida de que ditos mahatmas constituíam uma valiosa âncora, que mantinha fixo
seu kheyal.
254

Para grande pesar de Didi e de todos os demais, em 3 de Janeiro de 1970,


faleceu em Varanasi Haribabaji, o companheiro mais constante de Sri Ma entre toda
aquela constelação de grandes sadhus daqueles dias. Estava a algum tempo indisposto e
não deixava de pedir que lhe levassem para ter o darshan de Sri Ma. Como se
encontrava em Delhi, por razões médicas, Sri Ma o ia ver com freqüência quando
passava por dita cidade e, inclusive, foi especialmente vê-lo mais de uma vez. Quando
seu estado se deteriorou e com o consentimento de seus próprios devotos, Sri Ma o
levou ao ashram e o acompanhou em seus últimos momentos, falecendo enquanto a
olhava fixamente, sentado perto do retrato de Gauranga, seu ishta-devata, que
considerava idêntico a Sri Ma.

Sendo ou não uma coincidência, o fato é que Didi sofreu uma recaída poucos
anos depois da morte de Haribaba, ficando cada vez mais obrigada a permanecer em
Bombay, ao alcance do seu grupo de médicos, encabeçado pelo Dr. Surabhai Seth,
supervisor de todo o tratamento.

Antes de sua prolongada enfermidade, desde os tempos de Shahbag, Didi havia


sido a mais constante companheira de Sri Ma. Muitas vezes havia se encarregado
solitariamente de atender pessoalmente a Sri Ma, ao mesmo tempo em que ajudava a
estabelecer os cimentos de praticamente todos os principais ashrams, assim como
organizar reuniões tão complexas quanto a celebração do Savitri Mahayajna, em
Varanasi, de 1947 a 1950. Mesmo assim, desempenhou um papel decisivo na criação do
Kaniapith e seus Diários, escritos com tanto esforço, constituem uma fonte de
informação de incalculável valor sobre as viagens de Sri Ma entre 1926 e 1964.

Numa ocasião, Abhaya, como era característico dele, fez a Didi uma pergunta
pouco comum. Perguntou-lhe se alguma vez havia visto Sri Ma dar “uma cabeçada.”
Didi, como também era característico dela, nunca havia parado para pensar nisso e lhe
respondeu, completamente surpresa: - “Sabe de uma coisa, Abhaya? Não, nunca e, pelo
que me diz respeito, não sei de ninguém que tenha visto jamais a Sri Ma cair vencida
pelo sono. Nem sequer quando passava mais de 12 horas seguidas sentada, sem
interrupção, o que acontecia freqüentemente em Dacca, jamais a vimos cochilar e nem
vimos que estivesse fatigada. Por essa razão, passava despercebido o fato de que Ma
passava tantas horas seguidas sentada. As pessoas iam e vinham e os recém chegados se
consideravam afortunados de que ela estivesse ali sentada. Por outro lado, devo dizer-
lhe que sempre que fico sonolenta, sentada num satsanga, me desperto sobressaltada,
com os olhos de Ma cravados em mim! Isso me acontece sempre, sem exceção. Quando
estou bem atenta, escutando os discursos e desejando que Ma veja o interesse que dou
ao assunto, ela nem sequer me olha de relance, mas basta que meus olhos comecem a
fechar para que eu encontre seu olhar fixo em mim!”

Sri Ma riu com todo o grupo, mas rendeu homenagem a Didi com estas palavras:
“O que acontece é que seus pensamentos sempre se dirigem para cá (Sri Ma). Faça o
que fizer, fale com quem falar, seus pensamentos sempre se focam no mesmo. Mas
quando ela cai no sono, este fio se rompe e isso atrai meu kheyal até ela.”
255

Em Setembro de 1980 a enfermidade de Didi se agravou seriamente. Sri Ma


viajou a Bombay, vindo de Vrindavan, em 11 deste mês e chegou dia 12, porque tinha o
kheyal de levá-la para Varanasi neste mesmo dia. Pediu permissão a Bhaiá (Dr. B.K.
Shah), encarregado do tratamento de Didi, o qual realizou todos os procedimentos
necessários com rapidez e eficácia. O compartimento de Didi, ao lado de Sri Ma,
parecia um hospital móvel. Ao chegar, no dia seguinte, em Varanasi, Sri Ma se alojou
no ashram, mas não ficou até o final e sim ficou somente uns poucos minutos no quarto
de Didi. Nesse momento os assistentes do ashram viram Sri Ma passar as mãos em Didi
três vezes, desde a cabeça até os dedos dos pés, depois do que pediu permissão para
partir: “Quer que eu vá agora?” Didi lhe deu seu consentimento, mas Sri Ma repetiu a
pergunta mais duas vezes e obteve a mesma resposta.

Sri Ma foi a Vrindavan para assistir a um Bhagavat Saptah, que estava se


realizando no ashram.

Viram Didi abrir os olhos às dez da noite e olhar fixa e serenamente a foto de Sri
Ma que tinha perto da cama. Manteve os olhos sem piscar durante quase onze horas, até
que faleceu, na manhã seguinte. Sentada no satsanga de Vrindavan, Sri Ma exclamou
suavemente: “Didi partiu.”

Esperou que lhe transmitissem a notícia para regressar a Varanasi. De Vrindavan


a Bombay, de Bombay a Varanasi, de Varanasi a Vrindavan e de volta a Varanasi: Sri
Ma passou cinco noites consecutivas num trem. Era como se não pudesse ficar num só
local esperando a inevitável notícia da partida definitiva de uma amiga de tantos anos.
Ao chegar a Varanasi, Sri Ma se retirou a seu quarto em silêncio. Deu todas as
instruções necessárias a Panu Brahmachari sobre os últimos rituais que haveriam de
observar. Sugeriu que seus restos mortais recebessem o mesmo tratamento de honra e
respeito que nossa tradição oferece aos ascetas. Didi também havia recebido o sannias
mantra de Sri Ma, tal como Bhaiji e Bholanath.

Por esta razão, e seguindo o costume ancestral, vestiram o corpo de Didi com as
roupas laranja do sannias e o submergiram nas águas sagradas do Ganges, diante do
ashram que, na prática, devia sua existência, expansão e consolidação aos seus esforços
pessoais. Toda a população do ashram assistiu a dita cerimônia. Sri Ma ficou em seu
quarto e disse: “Não vou presenciar a imersão desta imagem.”

Ainda que, do ponto de vista mundano, fossem muitos os seres próximos e


queridos que haviam morrido, Sri Ma nunca antes havia mostrado com ninguém tal
consciência do último adeus. Ainda que possa parecer indecoroso imputar a Sri Ma
sentimentos humanos, poder-se-ia afirmar que o lastro de sua estadia na Terra se viu
ligeiramente alterado pela partida dessa companheira, quase irmã, com a qual havia
convivido durante mais de 50 anos. Segundo algumas palavras pronunciadas por Sri Ma
sobre Didi alguns anos antes, os que as escutaram concluíram que Didi havia sido a
primeira filha de Didimá, que morreu pouco depois de nascer. Sri Ma pareceu indicar
que esse bebê só havia vindo para anunciar a vinda de Sri Ma, razão pela qual Sri Ma a
chamava de Didi, que significa “irmã mais velha.” Se Didi preparou o caminho para o
nascimento de Sri Ma, seria aventurar-se demais o dizer que, ao morrer, chamou a
atenção do kheyal de Sri Ma para o término da Lila de sua vida no mundo?
256

Ao examinar a sucessão de acontecimentos durante o ano de 1981 – 1982, fica


muito claro que Sri Ma se focou claramente na dissolução de todas as ataduras.

O último kheyal categórico de Sri Ma, visto da perspectiva do presente, foi que
se celebrasse o atirudra yajna em Kankhal, o que está repleto de simbolismos. Tal como
as demais manifestações de shakti em Sri Ma, o início deste yajna também sugere de
forma muito discreta: algumas das jovens companheiras de Sri Ma estavam observando
uma devota realizando um yajna e lhes ocorreu, quase simultaneamente, que seria muito
bonito se pudessem organizar algo parecido sob os auspícios de Sri Ma. Ainda que
parecesse um sonho impossível, porque desde inumeráveis séculos este tipo de ritual
védico era monopólio dos homens, quando alguém se atrevia a expressar este tipo de
desejo a Sri Ma, ela dizia suavemente: - “Pois por que não tentar?” Como a idéia
pareceu agradar a Sri Ma, consultaram as autoridades e ninguém se opôs a ela. Formou-
se um pequeno comitê que englobava a Dra. Padma Mishra, Shanta, Nirmala, Parul e
Aruná. O segundo obstáculo que teriam que superar era o dinheiro. O grupo de jovens
reuniu todas suas economias, mas era evidente que aquilo era como uma gota num mar
de gastos.

Não obstante, o projeto começou a crescer como uma bola de neve, angariando
recursos e mão de obra a níveis antes nunca vistos. O dinheiro surgiu de fontes
inesperadas. Um arquiteto de grande renome aceitou desenhar o recinto para o yajna,
seguindo as indicações védicas. Apareceram, por conta própria, experientes engenheiros
e competentes supervisores, ansiosos por poder ser de utilidade. O catedrático Pandit
Vamadeva Mishra, antigo colega de Padma Mishra, se encarregou de coordenar
detalhadamente a logística de toda essa empresa. Sri Ma, seguindo o estilo de
antigamente, dirigiu os assuntos do yajna. Quando tiveram que escolher o acharia
(oficiante principal), escolheram Vamadeva Mishra, ao qual se escutou, com indulgente
compreensão, relatar todas suas propostas e oferecer umas poucas sugestões que foram
aceitas de bom grado. Como sempre, Sri Ma detectava qualquer lacuna nos
preparativos, com inequívoca precisão.

Kankhal foi escolhido como local apropriado, um município rico em lendas


religiosas, a mais famosa e amplamente aceita das quais diz que, numa ocasião, Drasha
Prajapati havia começado um yajna ali, mas, na metade do processo, foi destruído pelo
séquito de Shiva porque o rei havia insultado a Deus. Existe um antigo templo em
Kankhal conhecido como a casa de Daksha, perto do local escolhido para o atirudra
yajna, próximo ao ashram de Sri Ma. Todas as pessoas devotas de Kankhal e todos os
superiores dos monastérios declararam que ninguém, senão Sri Ma, poderia completar o
lendário yajna no mesmo local onde foi destruído pela primeira vez.

Realmente, dava a sensação de que aquele projeto havia sido tocado por uma
varinha mágica. Todas as jovens integrantes do comitê tinham a sensação de que as
coisas lhes estavam sendo facilitadas. Um poder oculto floresceu em forma de um
atirudra yajna esplendoroso, que causou grande admiração, assombro e uma sensação de
desconcerto quando as pessoas se sentiam transportadas aos tempos do Satya Yuga,
onde estes acontecimentos eram a norma.
257

Quando Sri Ma perguntou como o público deveria participar deste ritual tão
exclusivo, Pandit Vamadevaji respondeu que aqueles que escutassem os sons dos
mantras védicos e caminhassem ao redor do recinto obteriam os maiores méritos da
cerimônia. Citando um texto, acrescentou, emocionado, que os que realizam o yajna são
como as bestas de carga que transportam em seus lombos um fardo de supremo valor e
que os autênticos beneficiados de tais rituais eram as pessoas comuns.

Sri Ma mandou construir um caminho de dez metros de largura ao redor do


recinto. Durante 11 dias milhares de homens, mulheres e crianças caminharam
lentamente por dito caminho, em fileiras ordenadas e com as palmas das mãos unidas
em sinal de respeito, escutando o sonoro côro de mais de 135 vozes entoando os
mantras védicos e contemplando o fogo sagrado que surgia dos 11 kundas
(receptáculos) em chamas de tons amarelos, laranja, vermelho, açafrão, dourado, branco
e gris.

Sri Ma participou de todas as atividades. Parecia haver recobrado seu estado


normal de saúde e ânimo durante este intervalo. Não deixava de aconselhar, dirigir e
sugerir melhorias com a finalidade de que tudo saísse perfeito. Pandit Vamadeva, ainda
que fosse a primeira vez que a viu, acabou considerando-a a quintessência do espírito
dos sastras e se consultava com ela sobre todos os assuntos. Um erudito dos Vedas (Sri
Viasji Mishra) disse que, numa ocasião, ela havia inclusive corrigido os movimentos do
braço e do cotovelo, que são obrigatórios ao cantar num determinado ritmo, mas não
dizendo como fazer mas sim o fazendo ela mesma. Desta forma ele revelou o completo
domínio que Sri Ma tinha dos ditames das Escrituras, até o mínimo detalhe. Os peritos
nos Vedas, provenientes de Madras, Gujarat, Uttar Pradesh e Maharashtra conviveram
quase duas semanas num dos monastérios (Udasin Akhara), seguindo todas as regras da
vida ascética. Inclusive os pandits da região que participavam do yajna viveram fora de
suas casas durante as duas semanas que duraram as cerimônias. Toda região se
converteu num rishi-ashram (retiro no bosque) da antiguidade, fechando assim o vão
que separava a história legendaria dos tempos modernos.

Satisfazendo o kheyal de Sri Ma, o acharia permitiu que o comitê de jovens


mulheres entrasse no recinto e se sentasse entre os privilegiados, o que representava
saltar totalmente as regras. Os pandits opinaram que as Escrituras não ditavam, em
nenhum lugar, que as mulheres não podiam participar. De fato, na antiguidade, não só
sentavam com os demais como também tomavam parte nos diálogos com os eruditos
mais destacados.

Uma das características de Sri Ma era que julgava cada caso segundo suas
próprias qualidades. Quando estava a ponto de se iniciar o yajna, um jovem fotógrafo
profissional quis entrar no recinto e fazer algumas fotos, mas lhe disseram que ninguém
que não tivesse seguido o processo de consagração e iniciação poderia entrar. Mas o
homem tinha muita ânsia de entrar e queria que lhe dissessem o que era que tinha que
fazer para poder ser admitido, já que era brâmane de nascimento. Sri Ma lhe enviou o
acharia, o qual, ao ser informado do problema, disse simplesmente: “Pergunte à Mãe,”
com o que o fotógrafo regressou a Sri Ma. De forma totalmente inesperada, fez uma
concessão a ele ao dizer-lhe: - “Vá ao Ganges, tome um banho e coloque roupa nova,
limpa e sem costuras ou roupa de seda.” Também lhe disse que fizesse japa do Gayatri
Mantra uma determinada quantidade de vezes. O fotógrafo ficou muito contente e se
dirigiu rapidamente ao Ganges.
258

Um dia, durante o yajna, Sri Ma compôs uma oração em bengali, que se


propagou entre todas as pessoas que participavam da cerimônia, fosse como espectador
ou como participante. Dizia o seguinte:

“Tu, que te manifestas em forma de atirudra yajna, Te rogo, Te reveles em meu


coração na forma de iluminação.”

Não há dúvida de que esta oração poderia servir para páginas inteiras de
exegese. No entanto, seu significado mais simples nos leva desde o karma-kanda
(rituais), passando pelo upasana-kanda (devoção) até o yajna-kanda (conhecimento) do
patrimônio védico. É um formoso aforisma que revela a harmonia subjacente a todo
corpo védico. Os rituais, a devoção e o conhecimento não são formas exclusivas, mas
sim simultâneas e é assim que se deveria compreender a mensagem dos Vedas. Os
Upanishads são, além de tudo, parte essencial dos Vedas.

Depois do yajna (Abril/Maio de 81) foi como se Sri Ma se retirasse em si


mesma. As perguntas ficavam com as respostas suspensas, como se ela não as tivesse
escutado ou recebiam como tranqüila resposta frases como “qualquer coisa que
aconteça é o que tem que ser” ou “espere para ver o que acontece.” Mesmo que suas
viagens não houvessem parado, já não eram os formosos vôos de uma ave de ramo em
ramo, mas sim viagens meticulosamente programadas de antemão, com a finalidade de
poder satisfazer toda a ansiosa expectativa de vislumbrá-la.

No princípio de Janeiro (9 a 10) de 1982, Sri Ma se deslocou para Allahabad


para visitar o assentamento do ardha-kumbha mela. Passou a noite na cidade, na casinha
que Bindu lhe havia construído. Os superiores dos monastérios foram convidá-la para
participar com eles da procissão de inauguração do Mela, mas ela respondeu: - “Olhe,
Pitaji, este corpo está mancando muito e não vai haver mais do que dificuldades se ele
encurvar mais. Mas, se deseja levá-lo com você, faça-o.”

Os mahatmas responderam: “Há milhares de pessoas reunidas ao longo das


margens dos rios que conseguirão grandes méritos pelo fato de ter seu darshan. Tanto
suas orações quanto as nossas apoiarão seus movimentos. Tomaremos todas as
precauções para que você não se moleste.” Sri Ma sorriu e disse: -“Nunca me molesto.
O que você disse, Pitaji, me parece bom.”

Levaram Sri Ma em procissão no lombo de um elefante, com toda pompa e


solenidade correspondentes. Em muitos dos últimos kumbha melas deste tipo em
Haridwar e em Allahabad, Sri Ma não havia recebido o tratamento próprio de um
dignitário, mas sim o da personificação dessa Unidade adorada e venerada pelos
devotos de todas as ordens religiosas.

Sri Ma foi ao acampamento que se havia levantado em nome de nosso ashram,


mas, desgraçadamente, as fortes chuvas estropiaram e alteraram todos os preparativos.
Tudo estava ensopado e as cabanas estavam a ponto de desabar. A tudo isso houve que
se somar uns fortes ventos. Jamais havia acontecido nada igual. Os preparativos do
ashram sempre haviam sido mais do que adequados, em todos os lugares nos quais se
havia estabelecido um acampamento temporário de cabanas e tendas para uma
festividade em particular.
259

Todas estas aglomerações improvisadas em torno de Sri Ma sempre haviam sido


cheias de alegria, entusiasmo e ventura, mas desta vez não foi assim. Dava a sensação
de que se havia perdido o controle de tudo, até o ponto de se abandonar o acampamento
antes do fim do dia.

Antes de partir, Sri Ma convidou não somente a todos os mahatmas para comer
no Anandamayi Camp, mas também a todas aquelas pessoas que havia conhecido em
Allahabad, ao longo dos anos. Deu o nome de todos e de cada um deles e inclusive
organizou um meio de transporte para uma mulher incapacitada, que estava em dúvida
sobre aceitar o convite. Os trabalhadores do acampamento do ashram tentaram enfrentar
o melhor que podiam a magnitude do trabalho, já que o parâmetro de Sri Ma em todos
os assuntos era sempre a perfeição e eles o conseguiam sempre nas condições mais
difíceis. Ninguém se deu conta de que este era o gesto de despedida que Sri Ma estava
fazendo ao prayag e ao triveni-sangam (confluência sagrada do Ganges, Yamuna e do
invisível Sarasvati) que visitava com regularidade a mais de meio século.

Na casa onde se alojava, saudou toda família, a cada um de seus componentes


por seu próprio nome, recordando os anos que fazia que se conheciam. Eles gostaram de
ouvir estas palavras de Sri Ma, não sem um certo desconcerto, dado que ela nunca havia
feito tal discurso de despedida. Mas ninguém teve a idéia de que aquilo era um autêntico
adeus a um lugar que havia feito parte de sua vida durante tanto tempo.

1982 começou com a desastrosa desorganização do kumbha mela. Quem sabe


fosse um presságio, porque depois nada mais foi como antes. Sri Ma tinha um aspecto
enfermiço e débil, mas não deixou de estar disposta a assistir a todos os programas que
lhe organizavam. Estava sempre em movimento, com apenas uns poucos dias de
descanso entre apertados horários de atividades em diferentes cidades.

Sri Ma fez outra visita, quem sabe de despedida, ao templo de Nathdwara. Anos
antes havia ido ao Rajastão com Bholanath, mas lhe foi impossível visitar este templo
naquela ocasião. Nesta, ficou diante da imagem, em íntima comunicação com ela, tal
como pareceu às pessoas que a acompanhavam nesse momento. Aos presentes, isso
recordou os gestos de despedida que havia feito em Shahbag e outros lugares e templos
de onde partiu para sempre.

Em 26 de Março, Sri Ma empreendeu uma esgotadora viagem ao distante estado


de Tripura. O Maharajá de Tripura havia convidado Sri Ma para visitar o estado onde
ela havia nascido e haviam iniciado preparativos em grande escala. Mas Tripura era
agora um estado comunista e alguns expressaram certo descontentamento diante de
semelhantes gastos para dar boas vindas a uma “personalidade religiosa.”

Acabou sendo uma desafortunada mistura de mal-entendidos e pânico


desnecessário. Segundo alguns testemunhos, a mesma jovem população comunista
poderia haver fornecido voluntários para se encarregarem de Sri Ma. Ainda que o
Primeiro Ministro (do governo comunista) foi apresentar-lhe seus respeitos, foi
ganhando força o rumor que aconteceriam certas coisas desagradáveis e o Inspetor
Geral de Polícia não quis correr riscos. A multidão, que ia aumentando a cada momento,
superou todas as expectativas e pessoas de lugares distantes se amontoaram para poder
ter a visão da ilustre “filha de Tripura,” sua própria Ma.
260

Em lugar de construírem um pódio alto, de onde todos a poderiam ter visto, os


organizadores decidiram separá-la, o quanto fosse possível, do alcance das pessoas. Os
atos oficiais foram feitos a toda velocidade, antes que pudesse haver distúrbios, que era
o que os organizadores temiam. O Inspetor Geral a levou rapidamente até a estação de
trens, sob estrita vigilância policial porque, evidentemente, se sentia responsável pela
segurança de Ma enquanto ela estivesse em Tripura. Ouviram Sri Ma dizer várias vezes
janta janardana (Deus em forma de multidão) e que não a haviam dado a oportunidade
de saudar a todos. Em inumeráveis ocasiões já tinham visto que as multidões não a
incomodavam e toda aquela visita se converteu num assunto totalmente desacertado.
Não lhe permitiram atender às preces de milhares de pessoas pedindo seu darshan.

. Na viagem de regresso, Sri Ma esteve visivelmente “murcha.” Sem colocar a


culpa em ninguém, ela mesma carregou o impacto da decepção de todas aquelas
pessoas. Tinha um mau aspecto e aparentava cansaço.

Ao voltar de Tripura, foi visitar o Agapara Ashram, de onde se dirigiu a


Kankhal, outra longa viagem de 72 horas. Mas ainda não haviam terminado seus
deslocamentos porque foi também a Kanpur, para regressar de novo a Kankhal, onde
estavam finalizando os preparativos para a celebração de seu 86 aniversário.

Os devotos jamais haviam presenciado uma celebração de aniversário


semelhante. Era como se nada saísse bem. Sri Ma não se encontrava suficientemente
bem para que alguém pudesse lhe sugerir que levantasse da cama. Os preparativos para
o puja foram feitos em seu quarto. Não havia lugar para acomodar a grande multidão
porque umas fortes trombas d’água haviam levado os assentos colocados debaixo de um
toldo. As pessoas ficaram de pé ou tiveram que procurar outro lugar para se proteger da
chuva. A falta de organização era assombrosa. Mais adiante, Sri Ma disse: - “A partir do
próximo ano, que se faça o puja para uma foto, no salão principal.” Mas naquele
momento, ninguém entendeu que isso era uma profecia, mas sim pensaram todos que
ela se referia aos inconvenientes que a multidão havia tido que suportar por causa da
chuva.

Sri Ma continuou assistindo os diferentes atos que se realizaram no ashram. Em


16 de Junho recebeu o Jagadguru Sri Shankaracharia, de Sarada Pitham. Por fim Sri Ma
encontrou um interlocutor digno de ouvir reveladoras palavras: - “Pitaji, isto não é uma
doença. É um estado de tensão entre o manifesto e o chamado do Imanifesto.”

Faz-se necessário interiorizar estas palavras para extrair delas uma chispa de
iluminação, já que contém a chave do comovente sofrimento divino. Nascer é
venturoso, mas mediante este mesmo ato, a pessoa Divina decide pagar o preço da
mortalidade, ou seja, a morte. Pelo menos este acontecimento, por si só, indica a
qualidade da misericórdia e compaixão que une Deus a suas criaturas. Quem sabe seja
esta a verdade pela qual os cristãos dão tanta importância à crucificação que, para os
praticantes de outras religiões, parece tão inexplicável.
261

Sri Ma se dirigiu a Dehra Dun e ao Kishenpur Ashram, onde assistiu a rituais e


cerimônias que estavam sendo realizadas praticamente sem interrupções, uma após a
outra. Os devotos, desesperados pela mudança do kheyal de Sri Ma, não cessavam de
enviar orações para que ela se recuperasse. Vários doutores que a conheciam há muito
tempo (Dr. Udupa, da Banias Hindu University; Dr. Surabhai Seth, do Nanavati
Hospital de Bombay) se deslocaram até Dehra Dun. Sri Ma foi bondosa com eles. Não
encontraram nenhuma enfermidade que pudessem tratar. Quando Surabhai lhe
perguntou: - “Ma, estás sofrendo?” ela respondeu: - “Em absoluto.” Era como se
estivesse separada do corpo, o qual tinha dores e dificuldade em respirar.

Bhaa (B. K. Shah) foi velar Sri Ma em seu quarto, junto com outras pessoas. Um
dia lhe disse, de forma convincente: - “Ma, tenho que te ver sentada antes de voltar a
Bombay!” Disse isto para que ela ativasse seu kheyal de transmitir alguma atividade a
seus membros, que estavam tão frouxos quanto os de uma boneca de pano.

Depois de um par de dias disse para as garotas que lhe cuidavam para que lhe
inclinassem para que pudesse sentar. As meninas reuniram travesseiros e almofadas e a
inclinaram até ela ficar sentada. Ficou olhando Bhaiá muito tempo, com expressão de
serenidade e compaixão. Este compreendeu que ela não tinha o kheyal de se recuperar,
mas que havia feito esforço para tornar realidade suas palavras, pelo que ele se levantou
e ficou com as mãos unidas e os olhos cheios de lágrimas, maravilhado diante da
inesgotável efervescência do manancial de graça que satisfaz cem vezes uma simples
súplica feita com a finalidade de dar alívio e comodidade para a própria pessoa.

Geralmente Sri Ma prestava grande atenção aos pedidos dos mahatmas mas,
diante do pedido do Jagdgurú Sri Shankaracharia para que assistisse a festividade de
Durga Puja em Srigueri, ela cortesmente recusou. Diante dos repetidos pedidos dele
para que ela se recuperasse, voltou a dizer: - “Este corpo não tem nenhuma doença,
Pitaji. Está sendo chamado para o Imanifesto. Tudo o que acontece agora favorece este
acontecimento.” Esta era a segunda visita que fazia a Sri Ma em sua viagem de regresso
da peregrinação aos templos do Himalaia. No momento de se despedir dele (02 de Julho
de 1982) ela voltou a repetir seu kheyal de não poder satisfazer seus desejos, dizendo-
lhe: - “Como Atma, sempre estarei com você.”

De 5 a 24 de Julho Sri Ma ficou em Kalianvan, onde deu a sensação de retirar-se


para trás de um muro impenetrável de inacessibilidade. Restringiu-se seu darshan. Não
tinha o kheyal de escutar cartas nem mensagens. Com certa insistência, Bhaskarananda
obteve uma mensagem para os devotos que não podiam vê-la: “Esforcem-se para
converterem-se em aspirantes à plenitude da Graça do vosso Gurú.” Às nove da manhã
de 24 de Julho, obedecendo a seu kheyal de partir de Kaliankan, Patun e Udasji a
levaram de carro até o ashram de Kishenpur. Sri Ma quis ir ao mesmo ashram que havia
sido testemunha da partida de Bholanath, quase 44 anos antes.

Estava há uns três meses sem comer. As garotas que lhe davam assistência só
podiam lhe dar umas poucas gotas de água a intervalos pouco freqüentes. Por todos os
lados reinava um ambiente de desespero. Todos os corações faziam a angustiante
pergunta de “por que tinha que sofrer tanto sua querida Mãe e por que eram incapazes
de fazer algo para devolvê-la à sua conduta normal no mundo deles?” Quem sabe
respondendo a este grito de tantos corações angustiados, Sri Ma falou uma vez,
claramente, ao menos ao que parece, para as meninas que rodeavam seu leito:
262

- “Onde quer que estejam, dediquem-se completamente a um sadhana


concentrado plenamente em seu objetivo.”

Esta vani, ao ser a última que pronunciou, se expande e envolve a todos aqueles
que obtêm (e que obterão) sua coragem e sustento de Sri Ma para que continuem
avançando pelo caminho que ela marcou como a meta mais valiosa de todos os seres
humanos.

De vez em quando, ouviam-na pronunciar mantras, muito levemente. Na noite


de 25, pronunciou o sagrado panchakshara-mantra em sua forma inversa: “Shivaya
Namahá.” Na tradição shivaísta isto se interpreta como indicação da dissolução de todas
as ataduras mundanas, de que o yogui está preparado para dissolver a última atadura, a
do corpo.

Para todos nós, a Realidade de sua presença se finalizou em 27 de Agosto de


1982, às 8 da noite.

Sri Ma não se despediu nem ditou instrução alguma a seus assistentes. Foi
realmente impressionante a espontaneidade com a qual se mobilizaram as forças e se
realizaram os preparativos para transportar o corpo de Sri Ma em procissão até Kankhal.
A caravana de veículos parou a entrada da cidade sagrada de Haridwar e somente o que
transportava o corpo de Sri Ma avançou lentamente, com a finalidade de que milhares
de pessoas postadas ao longo da estrada pudessem dar-lhe seu último adeus.

As bases do Himalaia são terras sagradas. Todas as ordens monásticas têm sua
sede central em Haridwar. Por unanimidade, a totalidade dos mahatmas se apresentou
para se encarregar dos restos, mortais de Sri Ma. Não se apresentou nenhuma questão de
preferências sectárias. Ela, que nunca havia levado as vestes laranja de nenhuma ordem,
recebeu as mais altas homenagens de todas elas.

A Mahanirvani Akhara se encarregou de realizar os últimos rituais de samadhi.


Sri Mahanta Guiridhar Narayana Das Puriji Maharaj era amigo íntimo de Sri Ma há
muitos anos e, com freqüência, ela havia delegado a ele alguns dos seus atos tão
famosos de abençoar as multidões, como a distribuição de batsas (pastéis doces) depois
de um nama-yajna ou de um kirtan especial. Nestes momentos ele se ofereceu para
guiar o ashram em tudo o que se referia aos procedimentos dos rituais.

O cortejo fúnebre estava composto por todos os tipos possíveis de pessoas. A


primeira ministra da Índia, a Sra. Indira Gandhi, assistiu, misturando-se com as meninas
que rodeavam Sri Ma, os príncipes e suas famílias, assim como outros mandatários
esperaram de pé, junto com a vasta multidão de pessoas comuns que havia se deslocado
de todos os lugares da Índia. Indianos e estrangeiros se uniram para render-lhe uma
última homenagem. Os mahatmas, que por si mesmos eram renunciantes, tiveram a
sensação de que se desprendiam da atadura mais preciosa de todas. Swami
Brahmananda escreveu, angustiadamente: “Quem nos vai dizer agora, com tanta doçura:
Baba! Baba!”
263

Os devotos de Sri Ma estavam acostumados a celebrar sua presença entre eles, a


ansiada visão de sua bela e majestosa forma, a inefável benção de se encontrar com um
olhar de total aceitação. Mas estavam especialmente despreparados para dar um último
adeus a Única Pessoa que se havia introduzido no mais profundo do seu ser. Ainda
passando alguns dias, algumas semanas ou inclusive alguns meses sem vê-la, sabiam
que Sri Ma estava com eles no ar que respiravam, na terra que pisavam, no espaço que
os rodeava e no tempo que os delimitava. Mas, como iam convencer-se agora que essa
terra, esse ar, esse tempo, esses lugares e eles mesmos não voltariam a vê-la jamais?
Ninguém mais era tão privilegiado e, ao mesmo tempo, tão desafortunado quanto eles!

Havia começado um novo périplo para todos os devotos de Sri Ma. Além disso,
ela sempre lhes havia dito: - “Estou sempre com vocês.”

As palavras de Sri Ma permanecem como um manancial inesgotável de ajuda


para que todos avancem até a compreensão de sua mensagem para a humanidade:

“Falar de Deus é só o que vale a pena. Tudo mais é vaidade e dor.”


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GLOSSARIO DE TERMOS SÂNSCRITOS

Abhisheka: ritual de ablução de uma imagem de Deus.

Abhiasa: prática.

Abrahmastambapariantam: de Brahman a uma folha de erva.

Acharia: professor.

Adhivasa: prelúdio a um ato principal; ritual de invocação que se faz na véspera do


Dia de adoração

Agamani: canções de invocação (bengali).

Agni: fogo.

Ajnana: ignorância.

Ajnatavasa: retiro oculto; residir incógnito em algum lugar.

Akhanda: peça única, sem fissuras.

Ambara: céu, firmamento.

Ananda: felicidade suprema.

Anubhava: experiência.

Arati: mechas de algodão mergulhadas em manteiga clarificada (ghee) ou cânfora e


presa para iluminar as imagens de Deus como parte de um ritual.

Artha: riqueza, significado.

Asana: postura yóguica, assento.

Ashram: lugar de residência de ascetas, ermida.

Ashta-shakhis: oito amigas.

Atman: o Ser.

Atthasa: gargalhada ressoante.


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Avadhuta: asceta que não pertence e nenhuma das ordens estabelecidas.

Badhaka: estorvo, obstáculo.

Badhu: noiva.

Bandh: barreira, presa (híndi).

Bhagavat-saptah: ato religioso de uma semana de duração, no qual se recita o texto


Srimad-Bhagavatam pela manhã e se interpreta seu sentido a noite,
acompanhado por determinados rituais que marcam o começo e o
final de dito período.

Bhagavan: Deus.

Bhajan: cantos devocionais.

Bhandara: banquete.

Bhava: estado de união mística; condição do corpo na qual todos os sentidos estão
voltados para dentro e o contato com o exterior é interrompido.

Bhiksha: esmola.

Bhoga: oferenda de alimentos para a Divindade.

Bija Mantra: sílaba mística que o mestre sussurra ao discípulo no momento da


iniciação espiritual.

Brahmachari: noviço, aquele que aspira a ser um asceta no futuro; aprendiz que mora
durante anos no ashram de seu mestre, o que se considera a primeira
etapa da vida do homem.

Chacra: núcleo; centro; segundo a filosofia do yoga, no corpo há seis chacras ou


centros do sistema nervoso de importância para as práticas espirituais.

Chit: intelecto, consciência.

Dal (Dhal): legumes, lentilhas cozidas.

Dandá: cajado que os ascetas carregam.

Dandi: sela para transportar pessoas feita de lona e madeira e que é transportada
por quatro pessoas.

Darshan: audiência, vez.

Deva-bhasha: linguagem dos deuses, sânscrito.


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Devata: uma imagem determinada de Deus.

Dharma: religião.

Dharmashala: pousada beneficiente para peregrinos.

Dhoti: peça de tecido branca com a qual os homens se vestem, da cintura para baixo.

Dhvani: ressonância.

Diksha: iniciação espiritual.

Duhkha: pesar.

Ghat: margem do rio.

Grihasthashram: segunda etapa da vida, ou seja, o matrimônio, família e lar.

Guna: qualidade.

Gurú: professor, mestre.

Gurukul: internato que é regido segundo as regras prescritas nas Escrituras, no que se
refere à educação dos jovens.

Heyagatrata: “Oh Senhor!” o primeiro verso de um hino.

Jantá: povo.

Jantá-janardana: Deus manifestando-se como povo.

Japa: repetição silenciosa dos nomes de Deus ou de um mantra.

Japa-sadhana: prática rigorosa do japa.

Jayadhvani: exclamação de alegria, louvor.

Jnana: conhecimento.

Jnana-kanda: seção das Escrituras que trata do conhecimento de Brahman, ou seja,


os Upanishads.

Kamandalu: vasilha para água que os ascetas carregam.

Karma-kanda: seção das Escrituras que trata dos rituais.

Karma-samskara: predileção, tendência a um tipo determinado de ação.

Katha: relato.
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Kaviraj: forma respeitosa de tratamento, médico da medicina indiana.

Kheyal: impulso repentino.

Kirtan: forma repetitiva de melodia na qual se repetem os nomes de Deus e as


palavras que descrevem as qualidades auspiciosas da Divindade.

Kriyas: exercícios yóguicos.

Kripá: graça, aceitação bondosa.

Kunda: buraco feito na terra para fixar o receptáculo de metal no qual se acende
uma chama.

Kundali: forma circular.

Lakshanas: sintomas, indicações.

Lila: jogo divino.

Lila-katha: relatos sobre a vida e os feitos de uma encarnação de Deus.

Mahabhavas: transformação induzida por um estado muito elevado da consciência


espiritual do poder e do jogo divino; ditos estados místicos do corpo só
podem ocorrer numa encarnação divina.

Mahapurusha: ser humano perfeito.

Maharani: rainha.

Mahatma: asceta, um grande homem.

Mantra: sílabas místicas que aparecem na literatura sagrada, cada uma das quais
simboliza uma Deidade; aforismos extraídos dos Vedas, Puranas, etc.

Matri-satsanga: conversação com Sri Ma Anandamayi.

Maunam: estado yóguico de completo silêncio.

Mela: multidão que se congrega para uma celebração.

Moksha: liberação, alcançar a Verdade.

Mritiu: morte.

Mudra: posições yóguicas de mãos e dedos.

Murti: imagem.

Nama-japa: repetição silenciosa dos Nomes do Senhor.


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Palki : palanquim.

Panchasam-yoga: uma unidade composta de cinco aspectos.

Paratma: o Ser Supremo.

Parikrama: caminhar seguindo um trajeto circular em torno de algum objeto ou


lugar sagrado.

Pat: ícone.

Pithasthana: lugares sagrados dedicados à Deusa e aos peregrinos.

Pradakshina: igual parikrama.

Pranam: inclinar-se diante de uma Divindade; gesto de respeito.

Prasad: alimento que foi oferecido à Divindade e que, portanto, está consagrado.

Prasanna: condescendente, benigno.

Puja: adoração.

Punia: mérito religioso.

Purnahuti: oferenda final ao fogo sagrado.

Purnakumbha: espécie de jarro sagrado utilizado em ocasiões auspiciosas.

Raslila: dança das gopis com Krishna que se descreve nos textos sagrados e que as
crianças representam em Vrindavan e outros lugares sagrados como parte
de um espetáculo.

Rajásico: enérgico, ativo.

Rishis: videntes védicos.

Rishi-ashram: lugar de retiro no bosque.

Sadhaka: buscador comprometido com sua prática espiritual; aquele que segue um
caminho religioso; um yogue.

Sadhana: austeridades; compromisso pela busca espiritual.

Sadhika: gênero feminino do termo sadhaka.

Sadhu: asceta.
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Sadhu-samaj: congregação de renunciados; existem muitas ordens de ascetas, as quais


formam distintas irmandades; cada uma das ordens procede de um
fundador reconhecido, cujos ensinamentos são transmitidos através das
relações mestre-discípulo.

Samadhi: experiência de iluminação que se produz quando se aquieta toda atividade


física e mental; estado de iluminação não comparável aos estados de transe,
os quais podem ser induzidos de formas artificiais e não conduzem ao
desaparecimento da ignorância.

Samadhi-mandir: templo erigido sobre uma tumba.

Samkalpa: voto solene de realizar uma ação.

Sampradaya: irmandade, seita.

Samiam: abstenção.

Samiam-saptah: semana de austeridades praticada por qualquer pessoa durante a


qual se mantém um voto de desapego.

Sanniás: renúncia.

Sanniasi: renunciante.

Satchitananda: termo que define a Realidade Suprema ou Brahman: Sat (existência) +


Chit (consciência) + Ananda (felicidade pura, bem-aventurança); as
vezes se utiliza em referência à forma personalizada de Brahman.

Satsang: grupo de pessoas que se reúne com a finalidade de escutar um discurso sobre
espiritualidade ou para cantar kirtan.

Shakti: poder, potência; energia primordial, motor da criação, que às vezes se


personifica na forma da deusa Durga.

Shastra (sastra): texto das escrituras.

Shloka (sloka): aforismo védico; versículo; verso.

Sri: magnificência; forma respeitosa de dirigir-se a alguém.

Stotra: hinos sânscritos.

Swami: mestre; forma de respeito para dirigir-se a um renunciante.

Swabhava: natureza intrínseca; o Ser interior.

Tapiasa: austeridades; práticas espirituais.

Tithi-puja: ritual de adoração a Sri Ma em seu aniversário.


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Tiaga: renúncia.

Urá pakhi (bengali): uma ave que alça o vôo; um pássaro voando.

Upasana-kanda: seção intermediária dos textos sagrados que conduz dos rituais à
filosofia; formas contemplativas de adoração.

Usha-kirtan: cantos do princípio do dia.

Vanaprasthis: par cujos dois componentes renunciaram juntos ao mundo.

Vani: afirmação, dito.

Vasana: desejo.

Vedi: plataforma, altar sobre o qual se instala a Divindade.

Vishva-kaliana: o bem estar da humanidade.

Vyasasana: o assento especial e exclusivo reservado ao orador que vai falar sobre um
texto sagrado.

Yajna: cerimônia expiatória; ritual de adoração do fogo sobre o qual se vertem oblações
da forma apropriada.

Yantra: símbolo místico que representa uma deidade.

Yogui: asceta.
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