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“.... e aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente.

Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas


pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta
gente onde quer que a gente vá. E tão bonito quando a gente sente que
nunca está sozinho por mais que pense estar ....” (Gonzaguinha)

A Força do Professor
Um guerreiro sem espada
sem faca, foice ou facão
armado só de amor
segurando um giz na mão
o livro é seu escudo
que lhe protege de tudo
que possa lhe causar dor
por isso eu tenho dito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Ah... se um dia governantes


prestassem mais atenção
nos verdadeiros heróis
que constroem a nação
ah... se fizessem justiça
sem corpo mole ou preguiça
lhe dando o real valor
eu daria um grande grito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Porém não sinta vergonha


não se sinta derrotado
se o nosso pais vai mal
você não é o culpado
Nas potências mundiais
são sempre heróis nacionais
e por aqui sem valor
mesmo triste e muito aflito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Um arquiteto de sonhos
Engenheiro do futuro
Um motorista da vida
dirigindo no escuro
Um plantador de esperança
plantando em cada criança
um adulto sonhador
e esse cordel foi escrito
por que ainda acredito
na força do professor.

Bráulio Bessa

O mestre, o professor e o instrutor


As palavras mestre, professor e instrutor geralmente são associadas a
pessoas que transmitem conhecimentos e educam, mas trazem consigo
diferentes significados. Cesar Augusto Dionísio, professor, economista
e colunista da revista Profissão Mestre, busca compreender as
diferenças entre essas três figuras, além de incentivar os professores a
serem verdadeiros mestres para seus alunos. Parabéns aos docentes
que se esforçam para se tornar grandes mestres.

O Mestre pede aos alunos para ouvirem o barulho da chuva que cai lá
fora.

O Professor reclama da chuva que cai lá fora.


O Instrutor não vai trabalhar porque está chovendo.

O Mestre olha para uma conclusão lógica e diz: “Aqui começa o


conhecimento”, e isto o incomoda.

O Professor olha para uma conclusão lógica e diz: “Aqui termina o


conhecimento”, e isto o pacifica.
O Instrutor só consegue trabalhar com conclusões lógicas, e isto paga
o seu salário.

O Mestre crê que a poesia pode ser ressuscitada no momento em que


for asfixiada.

O Professor crê que a poesia pode realmente ter morrido.


O Instrutor só quer saber onde será o enterro, depois de ter rezado
para a poesia ter logo se suicidado.

O Mestre ouve, pensa e fala.


O Professor ouve, fala e pensa.
O Instrutor fala, fala e só fala.

O Mestre cuida da educação e seus interesses.

O Professor cuida do aluno e seus interesses.


O Instrutor cuida dele próprio e seus interesses.

O Mestre se orienta a partir dos que precisam dele e não entenderam o


assunto.

O Professor se orienta a partir dos que não precisam dele e entenderam


o assunto.
O Instrutor se desorienta na frente dos que não precisam dele, sem
saber se entenderam ou não o assunto.

O Mestre demonstra ao aprendiz o valor do erro.

O Professor revela ao aprendiz o valor do acerto.


O Instrutor só se preocupa em acertar.

O Mestre avalia seus alunos para que eles possam se conhecer melhor.

O Professor avalia seus alunos para que possa conhecê-los melhor.


O Instrutor avalia seus alunos para ter uma forma de puni-los.

O Mestre sonha que a educação seja possível e acredita.

O Professor acredita que a educação seja um sonho.


O Instrutor sonha apenas com o fim da aula.

Quem pendura a moldura vazia de um quadro em uma parede e se põe


diante dela em profunda reverência como se uma obra de arte
estivesse lá para ser vista? Loucura, não é?
Pois é isso que fazemos quando identificamos a nós mesmos, e as
outras pessoas, como um corpo, como um título acadêmico ou um
cargo profissional. Quanto sofrimento por causa desta ilusão!

O corpo e outras aparências são apenas um tipo de moldura da nossa


essência. Uma moldura tem algum valor na medida em que destaca a
obra, mas, em si, não representa nada.

Nunca houve um tempo, como agora, em que os dotes físicos, a fama, o


status e o poder aquisitivo fossem tão valorizados! A libertação
dessa ditadura da aparência passa por des-cobrir a obra-prima única
que somos, a manisfetação individualizada da Consciência Divina.

Lembra do Pequeno Príncipe? "O essencial é invisível aos olhos."

No processo de comunicação, quer na área organizacional, educacional


ou familiar, a postura de TER RAZÃO é um dos fatores de maior
destrutividade dos relacionamentos. Constitui-se numa das maiores
catástrofes na existência humana.
Quando percebemos que duas pessoas estão lenta e determinadamente
destruindo a sua relação; que todo afeto, carinho e reconhecimento
começaram a se quebrar, podemos dar por certo que o TER RAZÃO está
minando a comunicação entre essas pessoas.
Vale aqui lembrar que a matemática é quem melhor nos explica o
significado da palavra RAZÃO = DIVISÃO.

Razão é fração, percepção... que é o mesmo que PONTO DE VISTA, que


é a vista de um ponto. Razão então é o que é verdadeiro para uma certa
pessoa, como também podem existir outros pontos de vista diferentes,
mas igualmente verdadeiros para outras pessoas.

Conclusão: razão não é "a verdade", mas, sim, a sua verdade (que,
aliás, pode ser mudada).
Uma reflexão para o NOVO ANO que vem chegando:

Certo dia um professor aplicava uma prova na faculdade. Faltavam


poucos minutos para terminar o horário estabelecido para finalizá-la
quando um rapaz levantou o braço e perguntou:
– Professor! Pode me dar uma folha em branco, por favor?
O Professor então levou a folha até ele e perguntou-lhe porque queria
mais uma folha em branco. E o aluno respondeu:
– Enquanto respondia as questões, rabisquei tudo, fiz uma confusão
danada em algumas respostas, mas quero “passá-la a limpo” antes de
entregá-la.
Moral da história: Todos os dias quando acordamos, recebemos da vida
uma nova folha em branco. Talvez tenhamos preenchido algumas com
rabiscos, confusões, tentativas frustradas, ou até deixado algumas
delas em branco, quem sabe? Pode até ser que tenhamos decidido
amassar algumas folhas e jogá-las na lixeira, optando pela ociosidade,
gastando nosso tempo inutilmente.
Não importa a idade, condição financeira, religião, condição física…
Este é o momento de tomar essa nova página em branco em nossas
mãos e passar a vida a limpo. Não se preocupe em tirar nota dez ou ser
o primeiro da turma; preocupe-se apenas em fazer o melhor que puder.
Na redação final não poupe as palavras: dignidade, amizade, amor,
fraternidade, ética, honestidade, sabedoria, esperança e fé.
Esta folha em branco é um “presente” que é lhe dado todos os dias, por
isso, não a amasse nem rabisque de forma inconsequente, mas use-a
com coragem e sabedoria.

Veja como esta singela fábula de Esopo consegue traduzir uma sublime
verdade:
Um homem tinha um cavalo e um jumento. Um dia que ambos iam à
cidade, o jumento, sentindo-se cansado, disse ao cavalo:
- Toma uma parte de minha carga se te interessa minha vida.
O cavalo, fazendo-se de surdo, não disse nada e o jumento caiu
vítima de fadiga e morreu ali mesmo. Então o dono passou toda a carga
para cima do cavalo, inclusive a pele do jumento, e o cavalo,
suspirando, disse:
-Que má sorte tenho! Por não ter querido carregar um fardo leve,
agora tenho que carregar tudo, até a pele do jumento!
Cada vez que estendes tua mão para ajudar ao próximo, sem que
notes estás, na realidade, ajudando a ti mesmo.
VAMOS REFLETIR SOBRE ESTA HISTÓRIA INSPIRADORA:
Em tempos bem antigos, um rei colocou uma pedra enorme no meio de
uma estrada.
Então, ele se escondeu e ficou observando para ver se alguém tiraria a
imensa rocha do caminho.
Alguns mercadores e homens muito ricos do reino passaram por ali e
simplesmente deram a volta pela pedra. Alguns até esbravejaram
contra o rei dizendo que ele não mantinha as estradas limpas, mas,
nenhum deles tentou sequer mover a pedra dali.
De repente, passa um camponês com uma boa carga de vegetais.
Ao se aproximar da imensa rocha, ele pôs de lado a sua carga e tentou
remover a rocha dali.
Após muita força e suor, ele finalmente conseguiu mover a pedra para
o lado da estrada.
Ele, então, voltou a pegar a sua carga de vegetais, mas notou que havia
uma bolsa amassada no local onde estava a pedra.
A bolsa continha muitas moedas de ouro e uma nota escrita pelo rei
que dizia que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do
caminho.
O camponês aprendeu o que muitos de nós nunca entendemos:
"Todo obstáculo contém uma oportunidade para melhorarmos nossa
condição".

Uma vez, uma filha se queixou ao seu pai que a sua vida era miserável
e que ela não sabia como iria conseguir seguir em frente. Ela estava
cansada de lutar e se esforçar o tempo todo. Parecia que, logo após
resolver um problema, outro logo aparecia. Seu pai, um cozinheiro, a
levou até a cozinha.
Ele encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo
alto. Depois que as três panelas começaram a ferver, ele colocou
batatas em uma panela, ovos na segunda e café moído na terceira.
Então, ele deixou a água ferver. A filha, irritada, esperou
impacientemente, imaginando o que ele estava fazendo.
Depois de vinte minutos, ele apagou o fogo...
Ele tirou as batatas da panela e colocou-as em uma tigela. Ele retirou
os ovos e colocou-os em uma tigela. Ele pegou um filtro para coar o
café e colocou-o em um copo.
Ele se virou para ela e perguntou. -“Filha, o que você vê?”
-“Batatas, ovos e café,” ela respondeu apressadamente.
-“Olhe mais de perto,” disse ele, “e toque nas batatas.”
Ela obedeceu e notou que elas estavam macias. Em seguida, ele pediu
para ela pegar o ovo e quebrá-lo. Depois de retirar a casca, ela
observou o ovo cozido. Finalmente, ele lhe pediu que tomasse um gole
do café. Seu aroma rico trouxe um sorriso ao seu rosto.
-“Pai, o que significa isso?” perguntou a menina.

Ele então explicou que as batatas, os ovos e os grãos de café cada um


tinha enfrentado a mesma adversidade, a água fervendo. No entanto,
cada um reagiu de maneira diferente.
A batata entrou forte, firme e inflexível, mas na água fervente, tornou-
se macia e mole. O ovo era frágil, sua casca fina protegendo o líquido
interior, até que na água fervente o interior do ovo tornou-se duro. No
entanto, os grãos de café eram diferentes. Depois que eles foram
expostos à água fervente, ele mudou a água e criou algo novo.
“Qual deles é você?”
Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde?
Você é uma batata, um ovo ou café?

Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e


decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Pela
reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e
estava se afogando. O mestre tentou tirá-lo novamente e outra vez o
animal tentou picá-lo.

Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse:


- Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes
que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo?
O mestre respondeu:
- A natureza do escorpião é picar, e isto não vai mudar a minha, que é
ajudar.

Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação.


Porque sua consciência é o que você é; e sua reputação é o que os
outros pensam de você.

ENSINAR É INSPIRAR HISTÓRIAS


Aluísio Cavalcante Jr.

Ensinar é inspirar histórias.


... Quem ensina,
Traz em si as tintas
Da esperança.
Quem aprende
Utiliza estas tintas
Para pintar a vida
E escrever a alegria;
Com as suas mais perfeitas palavras,
E com as suas mais belas cores.

O PROFESSOR INSTRUTOR &


O PROFESSOR EDUCADOR
Miguel Almir L. de Araújo

O professor instrutor cumpre obrigações. O professor educador


celebra paixões. O professor instrutor superestima o quantitativo,
instrumentaliza para o ter que tende à coisificação e a mercadejação do
humano. O professor educador realça a busca do qualitativo, da
globalidade do ser, da dignidade e da beleza humana; conduz à vocação,
à voz do coração.
O professor instrutor assume a função de mero transmissor e
reprodutor dos saberes instituídos submetendo os indivíduos aos
ditames estabelecidos, ao adestramento e à domesticação. O professor
educador passa pelo já instituído e busca instituir novos saberes e
sentires procurando rasgar os papéis e as máscaras que empacotam e
escondem, instigando a autenticidade, o espírito criador e transgressivo.
O professor instrutor repete todo dia os mesmos cacoetes e
recursos metodológicos na cadência decadente das rotinas emboloradas
e desencantantes. O professor educador reinventa permanentemente
seus procedimentos, renovando-se e reencantando-se com o
aprendizado vigoroso de cada experiência vivida. O professor instrutor
considera-se detentor do saber, pretensamente pronto e acabado. O
professor educador concebe-se aprendiz inacabado nos fluxos do
cotidiano.
O professor instrutor circunscreve-se na geometria do tempo
linear do chronos. O professor educador descortina-se pelas curvas do
tempo dinâmico do kairós. O professor instrutor dá aulas previsíveis,
insípidas e frias. O professor educador tece aulas imprevisíveis, abertas
ao fluxo das aventuras, ruminando o saber com sabor, convertendo-as
em vivências vívidas e encantantes; em constantes ritos de iniciação e
de renovação dos pensares e sentires. O professor instrutor percorre os
caminhos já feitos do ordinário, mais fáceis e cômodos. O professor
educador ousa as veredas ainda não trilhadas, mais desafiantes e
difíceis, inaugurando caminhos novos, extraordinários.
O professor instrutor tende a reduzir as salas de aula em "selas de
aula" aprisionantes e cinzentas, em que reinam a tristeza e o desprazer,
e a vida, os sonhos são mortificados. O professor educador converte as
salas de aula em espaços abertos e multicoloridos, em que vicejam a
alegria e o prazer, e a vida, os sonhos são vicejados – em espaços de
celebração da vida.
O professor instrutor obedece aos receituários das liturgias
mecânicas e cristalizadas, com suas normas e ordens asfixiantes. O
professor educador ultrapassa as receitas desodorizadas e move-se
pelas buscas dinâmicas das transformações constantes e emancipadoras
entre ordem e caos.
O professor instrutor transmite saberes. O professor educador
rumina saberes e busca sorver sabedorias. O professor instrutor erige
suas práticas pedagógicas com lógicas monológicas, metálicas e
excludentes. O professor educador fundamenta-se em lógicas dialógicas,
flexíveis e includentes.
O professor instrutor dita conteúdos para que os alunos copiem e
assimilem de modo reflexo. O professor educador problematiza
conteúdos para que os alunos reflitam e compreendam criticamente. O
professor instrutor encampa modelos uniformes lastreados em certezas
fixas. O professor educador articula múltiplas referências fundadas em
possibilidades abertas, em incertezas.
O professor instrutor privilegia o logos, a cognição, a mente. O
professor educador entrelaça logos e eros, cognição e intuição, mente e
corpo. O professor instrutor reduz-se aos muros/muralhas da escola, da
sala de aula. O professor educador transpõe esses limites trespassando
os horizontes expansivos do cotidiano movente da vida.
O professor instrutor professa voto de fidelidade às alianças
cultuadoras das burocracias que tendem à domesticação e à subjugação.
O professor educador concebe a necessidade mínima de burocracia,
sendo esta, mero instrumento que deve estar a serviço dos direitos e
liberdades fundamentais do ser humano.

O professor instrutor busca as competências técnica e teórica, a


inteligência cognitiva. O professor educador busca as competências
técnica e teórica, mas, principalmente, as competências éticas e
estéticas, as inteligências cognitiva, intuitiva e emocional. O professor
instrutor tende à intolerância e até ao abuso de poder, fala muito e quase
não escuta. O professor educador prima pelos princípios da tolerância,
da ética da solidariedade e da escuta sensível.
O professor instrutor prima pelos vãos do ter. O professor
educador prima pelos desvãos do ser. O professor instrutor busca a
reluzência das performances externas dos indivíduos. O professor
educador passa pela exterioridade como caminho que conduz às
dimensões mais profundas da interioridade do ser, ao
autoconhecimento.
O professor instrutor acomoda-se nas linhas retas e regulares das
planícies. O professor educador aventura-se pelas curvas e
acidentalidades das montanhas. O professor instrutor habitua-se à
rotina das tartarugas e das galinhas que rastejam e ciscam a superfície
da terra.
O professor educador, como a águia, nutre-se das energias da
terra e alça seus vôos bailantes pelos ermos do incomensurável. O
professor instrutor privilegia o desenvolvimento das dimensões mais
instintivas que traduzem os aspectos mais materialistas do ser humano,
as quais, isoladas, fomentam o espírito de competição e de arrogância
que desembocam em brutalização e barbárie.
O professor educador assume as múltiplas dimensões do humano,
passando pelo instinto e atingindo o coração e o espírito de fineza
fomentando a solidariedade e a amorosidade. O professor instrutor
confina o humano apenas à esfera do material/físico, do imediato e do
visível (pedagogia do São Tomé). O professor educador educa para a
imanência e para a transcendência, para o invisível, para os valores
humanos – a espiritualidade.
A PEDRA
Autor desconhecido

O distraído nela tropeçou...


O bruto a usou como projétil.
O empreendedor, usando-a, construiu.
O camponês, cansado da lida, dela fez assento.
Para meninos, foi brinquedo.
Drummond a poetizou.
Já, Davi, matou Golias,
E Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura...
Em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no
homem!
Não existe "pedra" no seu caminho que você não possa aproveitá-la
para o seu próprio crescimento.

VIDA DE EDUCADOR
Madalena Freire

Educador
Educa a dor da falta
a dor cognitiva
Educando a busca de conhecimento.
Educador
Educa a dor do limite
a dor afetiva
Educando o desejo.
Educador
Educa a dor da frusração
a dor da perda
Educando o humano, na sua capacidade de amar.
Educador
Educa a dor do diferenciar-se
a dor da individuação
Educando a autonomia.
Educador
Educa a dor da imprevisão
a dor do incontrolável
Educando o entusiasmo da criação.

LER DEVIA SER PROIBIDO


Guiomar de Grammon

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.


Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens
para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo
insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o
homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me
deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O
primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais
existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o
mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante.
Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e
bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um
adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a
crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura
desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente.
Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram.
Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se
dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com
cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não
experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para
que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas
executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e
nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie
atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler
pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o
ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia.
Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios
azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que
um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há
horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens.
Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o
absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus
filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela
descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse
ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização,
mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores,
não contem histórias, pode estimular um curiosidade indesejável em
seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes
demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser
livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria
impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos
soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas
demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os
instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas
lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos,
bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos
pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para
que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões,
menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a
máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há
cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente
ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns,
jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em
filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não
para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da
submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias,
tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna
coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os
indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias.
Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a
leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

MENSAGEM À FAMÍLIA
Eugênia Puebla

Na educação de nossos filhos


Todo exagero é negativo.
Responda-lhe, não o instrua.
Proteja-o, não o cubra.
Ajude-o, não o substitua.
Abrigue-o, não o esconda.
Ame-o, não o idolatre.
Acompanhe-o, não o leve.
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize.
Inclua-o, não o isole.
Alimente suas esperanças, não as descarte.
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê exemplo.
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor.
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo.
Não fabrique um castelo para ele, vivam todos com naturalidade.
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja.
Não lhe dedique a vida, vivam todos.
Lembre-se de que seu filho não o escuta, ele o olha.
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre
outra...
Ensina-lhe a viver sem portas.

SEMEADOR DE SONHOS
Aluísio Cavalcante Jr

Conta-se que há muitos anos atrás,


Um professor encontrando um grande sábio
... Que visitava a sua cidade, perguntou-lhe:
- “ Mestre, como posso tornar-me um professor inesquecível,
Que inspire e transforme a vida
De cada aluno que passe em meu caminho? ”
O Mestre olhou-o nos olhos.
Tocou-o levemente os ombros e disse:
O segredo para se tornar um professor inesquecível,
É ver a escola como um jardim.
Os alunos são a terra deste jardim,
E aqueles que os ensinam, seus jardineiros.
Cabe então ao professor semear nesta terra,
A vida em seu modo mais intenso,
E depois cuidar para que esta vida cresça,
Alimentando-a com a esperança
Que em cada coração de professor é infinita.
É esta a missão maior de um quem ensina.
Semear, semear, semear...
Fazer feliz...
Ser feliz...
Todo aquele que é capaz de ensinar e entender esta lição,
Tem o dom de se tornar inesquecível,
Na vida dos alunos que passarem por seu caminho.”

O PROFESHOW E O PROFECHATO
Por Fabiano Brum

Atualmente o tema educação e o processo de ensino-


aprendizagem têm sido amplamente discutidos em diversos meios de
comunicação. Metodologias, materiais didáticos, integração da família
na escola, capacitação de professores, são assuntos frequentemente
abordados.

Quando vemos alguma informação ligada à educação, vez ou outra


nos recordou de alguns professores que tivemos em nossa vida escolar.
Do infantil até o ensino médio, na graduação ou na pós-graduação,
vários foram os profissionais que estiveram lecionando na sala de aula
onde estávamos matriculados.

Alguns deles nos lembramos pelo companheirismo, outros pela


rigidez na condução do conteúdo, uns pela excelente didática e outros
pela total ausência dela. O curioso é que normalmente nos lembramos
daqueles que foram excelentes professores e, também, dos que foram
péssimos. Raramente nos lembramos dos professores medianos.

Isso porque ficam guardadas em nossa memória as experiências


que se diferenciam das nossas expectativas, ou seja, aquelas que foram
positivamente além daquilo que imaginávamos e, da mesma forma,
temos facilidade de registrar aquelas que ficaram aquém.

Por que alguns professores conseguem envolver seus alunos na


compreensão dos conteúdos, na discussão e participação em sala de aula
e outros não? O que caracteriza esse professor considerado bem-
sucedido? De qual natureza são os recursos internos de que dispõem os
educadores e que desenham sua competência?

Educar pessoas não é uma tarefa fácil, e a profissão de educador é


uma das mais desafiadoras e exigentes. O relacionamento com o aluno,
lidar com a sensibilidade e a curiosidade da criança, a inquietude e o
dinamismo da juventude, a transformação de saberes e a internalização
de valores educativos, são atividades que exigem profissionalismo,
preparação e amor pela educação.

De uma forma geral percebemos que virou moda “desacreditar”


da profissão de professor, vemos até mesmo professores falando mau
de seu próprio ofício. Porém temos visto professores que dão um
verdadeiro show de desempenho em sala de aula. Para estes dou o nome
de PROFESHOW!

O Profeshow é aquele que ama sua profissão, é pesquisador,


movido por desafios e pela necessidade de aperfeiçoamento contínuo.
Propicia aos seus alunos oportunidades de construção e reconstrução do
conhecimento, fundamentado no aprender a aprender, no aprender a
pensar, no aprender a ser, no aprender a conviver, como formas para
ampliação da compreensão do mundo.

O Profeshow inova em sua metodologia,entende que não existem


trinta alunos em sua sala, mas sim trinta pessoas, e que cada indivíduo
necessita de estímulos diferentes para que ocorra o aprendizado. O
Profeshow é motivado e motivador, inspirado e inspirador em suas
atitudes. Excelente comunicador, ele sabe que é preciso conquistar a
atenção, o respeito e a admiração.

O Profeshow fez a escolha pela área de educação, ele é “professor


na plenitude da palavra”, dedicando-se a fazer o melhor pelos seus
alunos, pela sua escola, colegas de trabalho, pela sociedade e pela sua
profissão. Por outro lado, temos o PROFECHATO. O perfil do Profechato
é exatamente o contrário do Profeshow. Está sempre de mau humor,
critica sua profissão, completamente sem entusiasmo, encara o dia a dia
do seu trabalho como um árduo fardo a ser carregado. Suas aulas são
monótonas, sem conteúdo e sem vida. Aliás, vida é tudo o que falta para
o Profechato.

Dizem que a nossa vida é feita de escolhas. Qual é a sua escolha?


Ser um Profeshow ou um Profechato?

O ATO DE EDUCAR
Texto de Patrícia Fontes, adaptado por Regina Gregório

O ato de educar não é mecanicamente profissional


O ato de educar é de mais árdua paixão, de amor incondicional.
O ato de educar exige engajamento, comprometimento, abnegação.
É uma luta física e mental diária onde buscamos muito mais do que um
simples salário no fim do mês...
Buscamos atingir todos os objetivos...
Desenvolver todas as habilidades...
Orientar todos os conhecimentos...
Facilitar todas as aprendizagens...
O prêmio? É a realização pessoal vinda através de um sorriso de
criança frente a uma nova descoberta. Somos, sim! Sonhadoras de um
mundo justo repleto de cidadãos críticos, questionadores,
participantes, ativos numa Sociedade igualitária, digna, honesta...
Acreditamos no ato de educar em busca do nosso sonho.
Ousamos no desafio de inovar dentro da sala de aula.
A ESCOLA DOS MEUS SONHOS

Frei Betto

Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar,


costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de
eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de
automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta,
marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam
no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na
cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de
trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais.
Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em
suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro
de saúde, segurança, informação e alimentação.

Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas


com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte,
enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o
texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção
dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos
apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos
suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas
corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a
Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na
violência de policiais contra cidadãos, para mostrar os
antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores -
escravos, Exército - Canudos, etc.

Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os


professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a
multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a
partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz
aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das
ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino
religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do
candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor,
do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos
retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da
Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer
periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se,
além da competência, comungam os princípios fundamentais da
proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia,
visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania.
Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.

Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos
vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente.
A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química,
analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as
incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura
nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a
proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-
platéia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. Em suma, não se fecham
os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração
entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é
disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil
são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição
são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são
convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às
suas práticas.

Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da


múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima,
professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira
de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos
traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões,
consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência
entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série
em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade,
aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir;
formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que
ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do
meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o
enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.

Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não


precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a
escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito
universal, e o acesso a ela, dever obrigatório.
VER VENDO
Otto Lara Rezende

De tanto ver, a gente balaniza o olhar – ver... não vendo.


Experimente ver, pela primeira vez, o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é: o que nos cerca, o que nos é familiar, já não
desperta curiosidade.
O campo visual da nossa retina é como o vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe pergunta o que você vê pelo caminho, você não sabe.
De tanto vê, você banaliza o olhar.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do
prédio do seu escritório.
Lá estava sempre, pontualíssimo, o porteiro.
Dava-lhe bom dia, às vezes, lhe passava um recado ou uma
correspondência.
Um dia o porteiro faleceu.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima
idéia.
Em 32 anos nunca consegui vê-lo.
Para ser notado o porteiro teve que morrer.
Se, um dia, em seu lugar tivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser,
também, que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e baixa a vontade. Mas a sempre o que ver;
gente; coisa; bichos.
E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê aquilo que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpo
para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez,
o que, de tão visto, ninguém vê. O pai que raramente vê o próprio filho.
O marido que nunca viu a própria mulher.
Os nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos.
...e por ai que se instala no coração o monstro da indiferença.
GAIOLAS OU ASAS?
Rubem Alves

Picasso dizia: “Eu não procuro. Eu encontro”. Assim são os


pensamentos. Eles aparecem de repente sem ter sido procurados. Pois,
de repente, sem que o procurasse, esse pensamento me atacou: “Há
escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”.

As gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do


vôo. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Seu dono pode levá-los
para onde quiser. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos
pássaros é o vôo.
Asas não amam as gaiolas. O que elas amam é o vôo. Existem para dar
aos pássaros coragem para voar. O vôo não pode ser ensinado. Só pode
ser encorajado.
Esse pensamento nasceu de um sofrimento: sofri conversando com
professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam
são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas,
ameaças...
Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos,
dentes arreganhados, garras à mostra – e as domadoras com seus
chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres... Sentir
alegria ao sair da casa para ir para a escola? Ter prazer em ensinar?
Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem.
A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecham junto
com os tigres.
Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar
passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava
escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia
comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro – e era uma vez um
passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca,
pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se
lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as
garras, enfiava o bico entre os vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo
o espaço, ficava ensangüentado... Sempre me lembro com tristeza da
minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou
violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes
de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão
gaiolas? Me falarão sobre a necessidade das escolas dizendo que os
adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorar de vida.
De acordo. É preciso que os adolescentes, é preciso que todos tenham
uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos para uma vida
melhor.
O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõem é que os alunos ganham uma boa
educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E para se
testar a qualidade da educação criam-se mecanismos, provas,
avaliações, exames, testes.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais
se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é
“dígrafo”? E os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram
na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens
plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual a utilidade da
palavra “mesóclise”? Pobres professoras, também engaioladas pelos
programas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam,
sabendo que é inútil. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as
escolas: “Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido
o que eu deveria aprender – e aprender à sua maneira...”
Qual é o sujeito da educação? O sujeito da educação é o corpo. É o
corpo que quer aprender para poder viver. Esse é o único objetivo da
educação: viver e viver com prazer. A inteligência é um instrumento do
corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a
inteligência, era “ferramenta” e “brinquedo” do corpo. Nisso se resume
o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas”, aprender
“brinquedos”. “Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem
resolver os problemas vitais do dia-a-dia. “Brinquedos” são todas
aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão
prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo uma
sonata de Beethoven. Ela não serve para nada. Não é ferramenta. Não
serve para nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas
palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo educação.
Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas
me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem
voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e
brinquedos está aprendendo liberdade. Quem aprende liberdade não fica
violento. Fica alegre, vendo as asas crescerem... Assim todo professor,
ao ensinar, teria de perguntar: “Isso que vou ensinar é ferramenta? É
brinquedo?” Se não for é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o
aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não
me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que
amam o vôo dos seus alunos. Há esperança.

A BATALHA DOS MÉTODOS


Marlene Carvalho

Numa rua de subúrbio, uma criança estava sentada à porta de casa,


olhando um livro ilustrado. Bem perto, havia uma escola e ali passavam
muitas jovens que estavam se preparando para ser professoras.
Uma delas parou para ver a criança e disse:

— Que gracinha de menina!


— Me conta a história, disse a garota.
— Não, primeiro você tem de aprender a ler. Quer que eu te ensine?
Olhando o título, a jovem apontou: a, o, e, u, i, o. Não, assim, não. Melhor
assim: a, e, i, o, u.
A criança olhou desconsolada e pediu novamente para ouvir a história.
A futura professora não desistiu.
— Veja, é fácil: a com i faz ai! Como você fala quando sente uma dor. E e
com u faz eu! E apontava para o próprio peito, dizendo: eu, ai! eu, ai!
A criança, um pouco assustada, desviou o olhar e abriu o livro. A
normalista aborreceu-se e foi para a aula de Métodos e Técnicas de
Alfabetização contar para a professora que tinha encontrado uma pobre
criança que era um caso típico de falta de prontidão para a leitura.
Logo depois passou outra jovem que se enterneceu com a cena da
menina com o livro nas mãos.
— O que é que você está lendo?
— Não sei ler. Me conta a história?
— Vou ensinar a você. Como é seu nome?
— Betinha.
— Não, isso é seu apelido. Como é seu nome?
A menina pensou um pouco e olhou desolada para o livro:
— Me conta a história.
— Só se você me disser seu nome.
— Elisabete Maria de Oliveira.
— Ah, bom. Então vamos ver.
Puxando um caderninho da bolsa, a moça escreveu Elisabete e pediu à
criança:
— Aqui está o seu nome: ELISABETE. Vamos ler apontando com o
dedinho.
Apontando as nove letras, a menina leu: E-li-sa-be-te- ma-ri-a- de- o-li-
vei-ra.
A jovem ficou embatucada e anotou a resposta para ir perguntar à
professora de Psicogênese da Língua Escrita como interpretá-la.
— Tchau, querida! Outro dia eu te ensino, OK?
Não demorou muito, passou outra jovem de boa vontade e a criança lhe
pediu:
— Me conta a história!
— Que gracinha! Eu conto se você me responder umas perguntas.
A criança olhou ressabiada.
— Você já sabe as letras do alfabeto?, disse a moça.
— Não.
— Você conhece as famílias silábicas?
— Quê?
— Deixa pra lá. Diga-me uma palavra que começa com pa. Por exemplo,
pato, papai, palácio.
— Rei, princesa.
— Quê?
— Palácio, rei, princesa.
A futura professora suspirou. Saiu dali muito triste, achando que a
menina era muito bonitinha, mas não tinha discriminação auditiva.
Daí a meia hora, passou um professor de Gramática, cansado e meio
calvo, andando devagar. A menina resolveu tentar a sorte.
— Me conta a história!
— Não é assim. Fale de novo: conta-me a história.
— Hum?
— Conta-me a história, eu disse, respondeu o gramático.
— Mas eu não sei ler.
— Não, não é você que deve contá-la. Aliás, minha pobre criança, você
não sabe nem falar.
A menina fechou o livro com força e fez uma careta de nojo para o
gramático. Ele respondeu:
— Atrevida! Analfabeta! Iletrada! Anômala! Anojosa! Anacoluto! e
retirou-se, muito satisfeito de possuir um vasto vocabulário para
qualificar a pirralha.
Passou um tempinho, veio pela calçada uma professora de
Sociolingüística, com seu gravador a tiracolo, e a menina resolveu tentar
a sorte:
— Tia, me conta a história!
— Fala de novo, meu bem, disse a professora, e ligou o gravador. A
menina era um exemplo magnífico de falante das classes populares do
subúrbio do Rio, de modo que a pesquisadora não podia perder a
oportunidade de entrevistá-la.
— Que que é isso?, perguntou a criança.
— Um gravador. Vou gravar o que você falar. Vamos conversar. Quantos
anos você tem?
— Me conta a história.
— Depois eu conto. Converse um pouquinho comigo.
— Quero a história.
— Você me conta uma história. Eu gravo, depois passo tudo para o papel,
pego a sua história e aí...
Mas a professora não pôde concluir: a menina já estava longe, pulando
num pé só, fora do alcance da pesquisadora.
Logo na esquina, a menina encontrou o vendedor de cocadas que fazia
ponto perto da escola normal. Pouco movimento, tarde parada. O
vendedor olhou pra menina com o livro e perguntou:
— Já leu esse livro?
— Não, lê pra mim?, disse a menina, sem muita esperança de ser
atendida.
— Hum, deixa eu ver.
O rapaz abriu o livro. Foi lendo devagar, como era possível, pois tinha
aprendido a ler mal e mal, há muito tempo:
— Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho. Um dia, a
mãe dela cha-cha-mou-a e disse...
A menina deu um suspiro de prazer e sentou no muro da escola para
ouvir a história. Lá dentro, alguém dava uma aula sobre Métodos de
Alfabetização.

RECOMEÇAR

Não importa aonde você parou... em que momento da vida você


cansou... o que importa é que sempre é possível e necessário
“Recomeçar”.
Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo... é renovar as
esperanças na vida e o mais importante... acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
Foi aprendizado...
Chorou muito?
Foi limpeza da alma...
Ficou com raiva das pessoas?
Foi Para perdoá-las um dia...
Sentiu-se só por diversas vezes?
É por que fechaste a porta para os anjos...
Acreditou que tudo estava perdido?
Era o início de tua melhora...
Pois é... Agora é hora de reiniciar... de pensar na luz... de encontrar
prazer nas coisas simples de novo.
Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo arrojado... diferente...?
Um novo curso...?
Ou aquele velho desejo de aprender a pintar... desenhar... dominar o
computador... ou qualquer outra coisa...
Olha quanto desafio... quanta coisa nova nesse mundão de Deus te
esperando.
Tá se sentindo sozinho?
Besteira... tem tanta gente que você afastou nesse seu período de
isolamento... tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para
chegar pertinho de você.
Quando nos trancamos na tristeza... nem nós mesmos nos
suportamos... ficamos horríveis... o mal humor vai comendo nosso
fígado... até a boca fica amarga.
Recomeçar... hoje é um bom dia para começar novos desafios.
Onde você quer chegar ?
Ir alto... ?
Então sonhe alto... queira o melhor do melhor... queira coisas boas para
a vida... pensando assim trazemos pra nós aquilo que desejamos... se
pensamos pequeno... coisas pequenas teremos... já se desejarmos
fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor... o melhor
vai se instalar na nossa vida.
E é hoje o dia da faxina mental...
Vamos lá... joga fora tudo que te prende ao passado... ao mundinho de
coisas tristes... fotos... peças de roupa... papel de bala... ingressos de
cinema, bilhetes e viagens... e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados... jogue tudo fora... mas
principalmente... esvazie seu coração... fique pronto para a vida... para
um novo amos...
Lembre-se somos apaixonáveis... somos sempre capazes de amar
muitas e muitas vezes... afinal de contas...
Nós somos o “Amor”...
Porque somos do tamanho daquilo que vemos, e não do tamanho da
nossa altura.

ESCREVER É COMPROMETER-SE
Sérgio Simka

A palavra texto significa "tecido". Com efeito, o texto é um tecido


composto de palavras que se reúnem em frases, períodos e parágrafos.
Mas antes de assumir essa forma, o texto começa na mente de quem
vai escrevê-lo.

Aí é que reside o grande problema do ensino de "redação": Ensinam-se


técnicas, macetes, dicas, truques, fórmulas pré-fabricadas de textos,
esquemas, roteiros etc., mas não se ensina a pensar.

Tem sido comum, nas aulas de redação, a prática de sugerir aos alunos
que escrevam sobre um assunto em relação ao qual, na maioria das
vezes, não têm sequer afinidade ou aproximação com suas
experiências de vida. A essa prática não se agrega um componente
fundamental que é o de levar os alunos a se debruçarem sobre a
questão proposta, a discutirem a matéria, a questioná-la, a enxergá-la
de diversas facetas.

Em outras palavras, os alunos não são levados a pensar sobre o


assunto; não se propõe uma discussão na qual possam expor o que
pensam relativamente à questão. As aulas de redação têm sido
momentos enfadonhos dos quais os alunos participam mais para se
verem livres da tarefa do que para terem a oportunidade de
exteriorizar suas opiniões; mais para receberem notas do que para
assumirem um compromisso intelectual.

No entanto, "o escrever" é comprometer-se intelectualmente; é


assumir antes um compromisso com você mesmo diante do que pensa
sobre o assunto, sobre aquilo em que acredita, sobre aquilo que forma
seu conjunto de valores e concepções do mundo. Escrever é conhecer-
se; como dizia Clarice Lispector, "é lembrar-se do que nunca existiu";
e, segundo Roland Barthes, "é espantar-se".
Espantamo-nos à medida que conhecemos um pouco mais sobre nós
mesmos, sobre o que nos impulsiona, sobre o que nos mantém ligados
à existência etc.

Mas nada disso parece merecer a atenção de nossos alunos e


professores, que se encontram num ensino de redação cujo foco
consiste em distanciar cada vez mais os alunos de constituírem os
sujeitos de seu próprio dizer, de seu próprio texto, que se assenta em
experiências de vida, pessoal e intransferível.

Daí o medo da ‘folha em branco’, dos bloqueios que costumam vir


associados ao ato de escrever. Porque o escrever, na maior parte das
vezes, esteve ligado a um ato que gerou mais frustração do que prazer,
que causou mais traumas que benefícios, que serviu mais para aferir a
correção gramatical do que para aferir a capacidade de organização
textual-discursiva, que sempre esteve associado mais a um dom de
poucos do que a uma habilidade que todos podem adquirir.

O escrever sempre gerou medo. Temos medo de escrever porque não


sabemos pensar. Porque à proporção que o ensino nos levava a não
pensar, nos levava também a ter medo de escrever. E escrever, dentro
dessa concepção, pressupunha conhecer as regras gramaticais, que o
ensino também não nos ensinava. Somos um misto de sem-língua,
sem-texto, sem-escrita, sem-pensamento com outra porção bem
grande de com-medo, com-frustração, com-bloqueios. O resultado,
como se vê, não é nada animador.

Devemos mudar o foco de nossas aulas de redação alterando as


estratégias, transformando o ‘medo de escrever’ em ‘prazer de
escrever’. Quando há prazer, tudo fica mais fácil; é mais gostoso, não
percebemos o passar das horas, nos sentimos superbem, ficamos de
bem com a vida. É hora de ficarmos de bem com o ato de escrever,
conferindo-lhe prazer e não o medo.

O NÓ DO AFETO
Eloi Zanetti

Era um reunião numa escola. A diretora incentivava os pais a


apoiarem as crianças, falando da necessidade da presença deles junto
aos filhos. Mesmo sabendo que a maioria dos pais e mães trabalhava
fora, ela tinha convicção da necessidade de acharem tempo para seus
filhos.
Foi então que um pai, com seu jeito simples, explicou que saía tão
cedo de casa, que seu filho ainda dormia e que, quando voltava, o
pequeno, cansado, já adormecera. Explicou que não podia deixar de
trabalhar tanto assim, pois estava cada vez mais difícil sustentar a
família. E contou como isso o deixava angustiado, por praticamente só
conviver com o filho nos fins de semana.
O pai, então, falou como tentava redimir-se, indo beijar a criança
todas as noites, quando chegava em casa. Contou que a cada beijo, ele
dava um pequeno nó no lençol, para que seu filho soubesse que ele
estivera ali. Quando acordava, o menino sabia que seu pai o amava e lá
estivera. E era o nó o meio de se ligarem um ao outro.
Aquela história emocionou a diretora da escola que, surpresa,
verificou ser aquele menino um dos melhores e mais ajustados alunos
da classe. E a fez refletir sobre as infinitas maneiras que pais e filhos
têm de se comunicarem, de se fazerem presentes nas vidas uns dos
outros. O pai encontrou sua forma simples, mas eficiente, de se fazer
presente e, o mais importante, de que seu filho acreditasse na sua
presença.
Para que a comunicação se instale, é preciso que os filhos 'ouçam'
o coração dos pais ou responsáveis, pois os sentimentos falam mais alto
do que as palavras. É por essa razão que um beijo, um abraço, um
carinho, revestidos de puro afeto, curam até dor de cabeça, arranhão,
ciúme do irmão, medo do escuro, etc.
Uma criança pode não entender certas palavras, mas sabe
registrar e gravar um gesto de amor, mesmo que este seja um simples
nó.
E você? Tem dado um nó no lençol do seu filho?

SE A ESCOLA FOSSE UMA ORQUESTRA

Se a escola fosse uma orquestra, seria possível ouvir-se a sinfonia da


compreensão humana?
Como haver sinfonia se cada músico está com seu instrumento em um
tom? Onde está o autor da sinfonia? Ou será que a orquestra é que não
quer tocá-la?
A orquestra está desafinada.
E o maestro? Deve ser responsabilizado pelo insucesso?
E os ouvintes, por que não gritam?
Estão mudos?
Não; não sabem gritar.
Gritam , às vezes, buscando em outro músico o fracasso advindo do
tom desafinado que emitem.
E você? Também é músico nesta orquestra?
A escola nunca será orquestra, se cada músico não se afinar. Os
músicos devem interpretar a partitura da compreensão humana, para
atender a cada ouvinte na sua individualidade.
Não basta simplesmente tocar.
A harmonia entre os músicos e os ouvintes é a compreensão, o
respeito, a doação, o "assumir", é a responsabilidade, o envolvimento
com o trabalho.
Reaja diante da música. Se um tom soa-lhe desafinado, pare!
O ponto de espera é calmo e longo; com sua ajuda virá outra música.
Com certeza será o início de uma verdadeira orquestra onde todos
possam entoar a música da Paz, da Harmonia, da Colaboração, do
Respeito Mútuo.
PROFESSORES APAIXONADOS
Gabriel Perissé

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem


tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão
preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam
as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no
magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de
dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores
apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco
de romantismo barato. Apaixonar-se sai caro!
Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio
comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do
conhecimento, saem cantando o pneu da alegria. Se estão apaixonados,
e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de
sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver
sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando
acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam
para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do
desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão.
Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é
continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se
dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz
no quadro. Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações
antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não
está com nada, ensinar é uma forma de oração. Não essa oração
chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera
oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o
tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem
analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados
tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de
uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele
mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.

RÓTULOS E PROFESSORES
Maria Augusta Sanches Rossini

Contam que numa escola da Inglaterra aconteceu o seguinte fato:


No início de um ano letivo um computador, programado de modo
incorreto, inverteu os resultados acadêmicos de duas classes de alunos.
Aos “melhores”, ele lançou os resultados insatisfatórios da turma dos
“piores” e vice-versa.
As aulas tiveram seu início. Cinco meses e meio depois, a direção
descobriu o erro. Sem comentar o fato com os professores, resolveu
aplicar novos testes.
Pasmem com os resultados! Os “melhores” haviam piorado e os
“piores” haviam melhorado.
Acontece que os professores trataram as duas turmas de acordo
com os “rótulos”: aos “piores”, que na realidade eram os bons, deram
um tratamento como se fossem limitados, com dificuldade de
aprendizagem.
Aos “melhores”, que na realidade não eram os bons, deram um
tratamento como se fossem brilhantes. Os professores comentaram que
no início sentiram que seus métodos não estavam funcionando. Então,
como a informação do computador dizia que eles eram bons alunos,
decidiram rever seus métodos de ensino acreditando que os problemas
estavam nos “métodos”.

Ler é inteirar-se de outras proposições,


é confrontar-se com outros destinos,
é transformar-se a partir da experiência
vivenciada pelo outro e referendada
pelo fruidor. Existe, pois, ação educativa
maior do que esta de formar leitores?

Bartolomeu Campos de Queirós


Doce de Teresa

Teresa, não. As outras, não sei, mas ela, com certeza, não. Nunca
reclama. Parece um doce que não desanda. Sentada na varanda de sua
casinha modesta, mas limpinha, casinha branca de janelas azuis, tão de
brinquedo que parece uma pintura. Florezinhas plantadas em latas de
óleo vazias, um gato malhado que dorme no primeiro degrau. Borboletas
voando que estalam as asas, feito quem diz: “Ai, que bom viver! Ai, que
delícia!”. Ali não é um lugar, é uma lembrança de infância. Será por isso
que os filhos nunca aparecem? Nem para as festas? As comadres falam
“que absurdo!”, e outras exclamações cheias de vogais. Teresa, não.
Nunca reclama. Ao invés, faz mais doces, mais e mais.

E tão difícil que é, veja só: num fogão de lenha! Tem que catar graveto,
que ela não tem dinheiro para encomendar lenha já cortada, como a
vizinha Salete, aposentada do Correio. Que quê tem? Graveto dá no chão,
graveto dá de graça. É só pegar. Teresa pega as coisas do ar. Com seus
olhinhos de jabuticaba, só faz sonhar. Por isso que a vida não dói.
Fazendo beiradas de paninhos de copa, vai cabeceando, cabeceando até
cochilar. Entra no sonho, toma um sorvete com o primeiro namorado,
brinca de roda com as amigas de longas tranças, banho de rio, rouba
goiaba e faz doce de tacho...
Acorda com o cheiro do doce de verdade. Quase passou da hora de tirar
do fogo! Teresa gostava muito de filme de bangue-bangue. Perdia tempo
escrevendo cartas compridas para uma sua prima do interior mais
interior que o dela. E tendo já uma queda para o doce, ia matando menos
índios, dando menos tiros, amansando os gritos, aumentando os
romances e suspiros, terminando por fazer do tal filme, um melado.

Mas agradava. A prima sempre respondia agradecida, dizendo que não


perderia de jeito nenhum o tal filme, quando passasse em sua cidade.
Que nunca ia ser: no interior do interior ninguém nem sabia o que era
filme, que dirá cinema. Isso quando era menina-moça. Depois o marido
largou dela e teve de pelejar para criar os sete filhos. Só. Com doce. O
que ficava de menino com o nariz espetado na janela, que nem pardal
querendo roubar pão da mesa de gente, nem te conto. Um mundo!

Esqueceu dos filmes. E o doce? Levado em potes, para as casas com mais
abastança. Nem por isso parava de brotar, do seu coração, mais doce,
mais e mais. Quem não tem vocação para amarga, venha a onda que for
— não arrasta. Nem salga. Nesse meio tempo, teve de botar as cartas,
letras, filmes e histórias de lado. Para depois. Mas depois sempre vem.
Os sete filhos, criados, foram cada um para um lado. Nenhum puxou seu
jeito doce, todos traziam o selo do pai: sério, preocupado com essa coisa
de fazer dinheiro. Os filhos, iguais, foram buscar o ouro no pote do final
do arco-íris. Teresa queria era o pote. E o arco-íris.

O ouro, se tivesse, botava de enfeite num bolo. Um dia, procurando


cortes de fazenda para fazer um vestido novo de Natal, deu com as cartas
da prima. Que saudade de escrever! A prima, já morta, escrever para
quem? Os filhos trabalhavam tanto, os netos e bisnetos nunca iriam
responder... — Pra mim, ué. Por acaso, eu sou ninguém? A mão, treinada
de doce, buscava um gosto de começar. Com canela ou sem? Pitada de
baunilha, sim ou não? E foi soltando a imaginação, brotando o caldo, em
calda.

Uma vida toda para contar, bem temperada. Doce que nem ela. Feito
compotas guardadas em porões secretos, coisas simplezinhas que,
envelhecidas, tornam-se finas iguarias para adoçar a mesa de reis.
Escreveu, escreveu, escreveu. Depois amarrou o monte de cadernos de
espiral com uma tira de chita florida. E deixou para lá. Até que um dia...
(sempre tem um dia em que as coisas mudam, sei lá por quê). Um dia,
os filhos disseram que vinham para o Natal. Com a família completa. Vai
ver assistiram a um desses filmes xaroposos na televisão, em que morre
a mãe velhinha, sofrendo da horrível dor da solidão e do abandono.

É verdade que é triste isso de passar borracha em gente, mas Teresa...


Teresa, não. Nunca reclama. Achou boa a ideia. E foi fazer doce.
Trabalhou que foi uma enormidade. Mas quando se tem noventa e seis
anos já não se é mais uma menina. Vá convencer Teresa disso! Arrumou
a casa, preparou tudo, os meninos chegavam daí a pouco. Guardou o
avental e foi se sentar na varanda, à hora da Ave-maria. Que pôr de sol
bonito! Parecia um caldo de goiabada, esparramado num chão de azulejo
azul. Foi cabeceando, cabeceando até cochilar.

Nem o barulho das gentes chegando acordou Teresa. Nem os beijos dos
bebês, melados das lágrimas do medo de ver um rosto tão marcado de
rugas. Nem os presentes de todo tamanho e feitio. Nem chamando pelo
nome, que fazia tempo ela não ouvia de boca outra que não a própria.
Nem balançando de leve a cadeirinha. Nem sacudindo, sacudindo. Teresa
entrou no sonho e era um sonho tão doce, doce, mais e mais. Não deu
vontade de sair. Parecia um sonho de verdade, não como os de padaria
— dos feitos em casa. Depois do enterro, a família voltou para casa com
pressa de ir embora. Não cabiam mais ali.

Distribuíram os muitos doces entre si, arrumando as coisas com a pressa


de quem quer fugir. Quase iam deixando o principal para trás. Porém um
menino se soltou do colo da mãe e, andando por aí, deu com uma ponta
de chita florida embaixo da cama. Foram abrindo os cadernos, um por
um, lendo devagar, sentando no chão para apreciar. Aquilo é que era
doce! Não sei... É por essas e outras que eu penso que a vida devia
começar pela sobremesa. O salgado vinha depois. Porque, às vezes,
quando o doce chega, não tem mais espaço...

CORAGEM

Por Maria Inês Felippe


Paixão de conhecer o mundo
Para permanecer vivo, educando a paixão, desejos de vida e morte, é
preciso educar o medo e a coragem.
Medo e coragem em ousar.
Medo e coragem em assumir a solidão de ser diferente.
Medo e coragem em assumir a educação desse drama, cujos
personagens são nossos desejos de vida e morte.
Educar a paixão (de morte e vida) é lidar com esses dois
ingredientes cotidianamente, por meio da nossa capacidade, força vital
(que todo ser humano possui: uns mais; outros menos; em outros,
anestesiada) e desejar, sonhar, imaginar e criar.
Somos sujeitos porque desejamos, sonhamos, imaginamos e
criamos na busca permanente da alegria, da esperança, do
fortalecimento da liberdade, de uma sociedade mais justa, de felicidade
a que todos temos direito.
Este é o drama de permanecer VIVO... fazendo educação!

Madalena Freire
Desejo, idéias. Onde estão nossos sonhos, utopias e fantasias? Alguns
possíveis de realizar imediatamente; outros não.
Quem não tem coragem, não concretiza, não caminha, não busca o
novo, não muda, nem evolui. Quanto medo!!!
Para isto, temos de conhecer a realidade, não se esquecendo de
que ela não está pronta, terminada, redonda. É preciso sonhar, é
preciso ter coragem para concretizar. O mundo não está redondo.. por
que enquadrar?
Tivemos um ano de muita agitação: copa, eleições; ameaças,
riscos, oportunidades, desilusões, descobertas. Estamos juntos para
reconstruir, para criar e dar prosseguimento ao que está aí. A Criação
nada mais é do que o sonho colocado em prática, a reconstrução do
passado e a abertura para o que vem pela frente.

QUEM DOBROU SEU PÁRA-QUEDAS HOJE?


Charles Plumb era piloto de um bombardeiro na guerra do Vietnã.
Depois de muitas missões de combate, seu avião foi derrubado por um
míssil.
Plumb saltou de pára-quedas, foi capturado e passou seis anos numa
prisão norte-vietnamita. Ao retornar aos Estados Unidos, passou a dar
palestras relatando sua odisséia e o que aprendera na prisão.
Certo dia, num restaurante, foi saudado por um homem:
– Olá, você é Charles Plumb, era piloto no Vietnã e foi derrubado, não é
mesmo?
– Sim, como sabe?, perguntou Plumb.
– Era eu quem dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem,
não é verdade?”
Plumb quase se afogou de surpresa e com muita gratidão respondeu:
– Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje. Muito
obrigado!

Ao ficar sozinho naquela noite, Plumb não conseguia dormir,


lembrando-se de quantas vezes havia passado por aquele homem no
porta-aviões e nunca lhe disse nem um “bom dia”. Era um piloto
arrogante e aquele sujeito, um simples marinheiro.
Pensou também nas horas que o marinheiro passou humildemente no
barco enrolando os fios de seda de vários pára-quedas, tendo em suas
mãos a vida de alguém que não conhecia.
Agora, Plumb inicia suas palestras perguntando à sua platéia: “Quem
dobrou seu pára-quedas hoje?”.
Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos
seguir adiante. Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: físico,
emocional, mental, espiritual.
Jamais deixe de agradecer.
O que a mãe é...
(Roberta Faria)
Mãe é cheiro. De creme hidratante, alho descascado, roupa
lavada que secou no sol, café recém-passado, fumaça do fogão
a lenha, terra revirada no jardim, sabonete de erva-doce do
banheiro de visitas, perfume guardado no fundo do armário para
dias de festa.
Mãe são mãos. Que cortam o bife, fazem carinho nas
costas pra dormir, desembaraçam o cabelo terrível, espremem a
farpa na sola do pé, ameaçam “vocês-vão-ver-só” com o
chinelo, estapeiam a roupa pra limpar a sujeira que ficamos
depois de brincar no chão.
Mãe é engraçada. Muda o jeito como chama a gente
dependendo se está feliz ou brava, conversa com pessoas
estranhas no mercado como se as conhecesse a vida toda, tem
uma parte molinha no braço que gostamos de balançar (mas ela
fica brava), inventa dramas só pra pôr medo na gente (por
exemplo: não pode chupar bala redonda porque morre
engasgado).
Mãe é ocupada. Acorda antes de todo mundo, carrega uma
bolsa que é mistura de cartola de mágico com buraco negro e,
enquanto o pai só trabalha e lê jornal, ela trabalha, lê jornal, faz
a comida, leva na aula, costura a calça rasgada, pinta a unha,
leva no médico, fala no telefone com as tias, vai na reunião da
escola, desentope a pia, conversa, reclama, arruma, ouve, briga,
ensina, beija e ainda conta histórias.
Mãe tem sempre razão. Até finge que concordou, mas dá
um jeito de fazer a coisa do jeito que ela quer. Bate boca com
quem fala mal dos filhos dela (porque só ela pode brigar com
eles). Sabe como tudo deveria ser feito, e, por isso, ela é quem
manda.
Mãe é uma força da natureza, que nem gravidade, vento,
placas tectônicas. É muito maior que nós. Mesmo se a gente se
esquece disso, mesmo se acha que não precisa mais, mesmo se
ela já partiu… de algum jeito, a mãe continua aqui. Na melhor
parte do que somos. Nas verdades que aprendemos. E no amor
que temos para passar adiante.