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FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS NA CRENÇA DOS ESPÍRITOS

ESPÍRITO E VIDA

Maria Cristina Mariante Guarnieri


crisguarnieri@uol.com.br

A importância psicológica das crenças nos espíritos e da definição de espírito e vida


serão os temas tratados nesses dois capítulos que aqui são resenhados com o intuito de
servir como base de leitura dos capítulos IX e X, do vol. VIII/2, - A Natureza da Psique -
das Obras Completas de Carl Gustav Jung (1984).

Jung inicia o texto afirmando que a crenças nos espíritos sempre esteve presente
no mundo. E que muito recentemente, no Ocidente, tal crença (assim como a metafísica)
vem sendo combatida pelo racionalismo e iluminismo científico. Observa, porém, que
mesmo com esse advento, a crenças nos espíritos ainda se encontra muita viva1 (ele está no
meio do surgimento dos fenômenos das mesas girantes e do surgimento do espiritismo) e,
em alguns casos, até com interesse científico2. Para ele esse ponto é importante, pois
evidencia a existência e importância dos fenômenos psíquicos frente ao materialismo da
época. E mais, Jung observa que a crença nos espíritos nos primitivos permite que eles
percebam, com a mesma intensidade e valor, tanto a realidade espiritual, quanto a sensível
e material, observando cuidadosamente suas leis. (Cf. JUNG, 1984, §572) Para Jung, o
maior desastre que pode ocorrer ao ser humano é o afastamento da espiritualidade.

Poderia se argumentar, segundo Jung, que esta é uma experiência primitiva, que no
mundo de pessoas esclarecidas isso não mais acontece, que esses fenômenos são sintomas
patológicos, mas ele está convencido que “o europeu que tenha realizado os mesmos
exercícios e as mesmas práticas utilizadas por um curandeiro para tornar visíveis os
espíritos, teria também a mesma experiência. Só que ele interpretaria de maneira
diferente...” (Ibid., §573).

1
Jung afirma que o surgimento do espiritismo, por exemplo, coincide com o desabrochar do
materialismo científico, tanto que ele entendia o surgimento deste com o sentido de compensação. (Cf.
JUNG, 1997, §750) Essa relação é bastante conhecida e pode ser encontrada em diversos comentadores
na história do espiritismo ( Cf. GUARNIERI, 2001).
2
O próprio Jung possui especial interesse pelo tema, tanto que sua tese trata justamente “sobre a
psicologia e a patologia dos chamados fenômenos ocultos”. Paralelamente, ele desenvolveu seu trabalho
com o teste de associação de palavras que acabou servindo como base para demonstrar a autonomia dos
complexos. (cf. Von FRANZ, 1995, p.53-5)

1
Retomando a concepção de inconsciente e consciente, observaremos que o campo
da consciência à qual temos acesso é o que nos proporciona o contato com o mundo real.
É através do ego que adquirimos consciência das coisas tanto do mundo interno como do
mundo externo, ampliando assim nosso campo da consciência, o que refletirá a nossa
existência. Somos o que conhecemos, percebemos, reconhecemos e pensamos. Em certos
momentos algo se infiltra na consciência como ideia, uma imagem, uma crença, uma
formação autônoma; um conteúdo que recebe a denominação de Jung de complexo
autônomo. O complexo autônomo é dotado de energia.

Os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de


afetividade, possuindo energia própria. A origem mais frequente dos complexos são os
conflitos, mas também os choques e traumas emocionais.

É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e,


além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta
imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um
grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: esta sujeita ao controle das
disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do
consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. Com algum
esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua
existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original.
(Ibid.,§201)
Os complexos possuem tipos característicos e são facilmente reconhecíveis, o que
levou Jung a pensar em uma base igualmente típica que denominou de Arquétipo, que são
alicerces da vida psíquica comuns a todos os humanos.

(...) O arquétipo é, na realidade uma tendência instintiva, tão marcada como o impulso das
aves para fazer seu ninho ou das formigas para se organizarem em colônias.
É preciso esclarecer aqui, a relação entre instinto e arquétipo. Chamamos instinto aos
impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos. Mas, ao mesmo tempo, estes instintos
podem também manifestar-se como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença
apenas através de imagens simbólicas. São as estas manifestações que chamo arquétipos. A
sua origem não é conhecida; e eles se repetem em qualquer época e em qualquer lugar do
mundo, mesmo onde não é possível explicar a sua transmissão por descendência direta ou
por “fecundações cruzadas” resultantes da migração. (JUNG, s/d, p.69)
Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de
apreensão que se reptem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer
reconheçamos ou não seu caráter mitológico, (JUNG, 1984,§280, grifo do autor)
A base dos complexos são os arquétipos que se expressam na consciência através
de símbolos ou mitos universais. Os símbolos de transformação são claramente
observados nas diversas religiões do mundo e, para Jung, eles são expressões espontâneas
das atividades inconscientes da psique. O inconsciente pertence estruturalmente à psique
do indivíduo, mas como o próprio nome diz é inconsciente e, muitas vezes, não o
reconheço como próprio. Um produto do inconsciente pode ser compreendido como algo

2
que fala em mim, ou mesmo como algo superior- que esta além da consciência- que fala
para mim.

No inconsciente pessoal encontraremos complexos que foram reprimidos e que


deveriam estar associados ao eu. Neste caso, o indivíduo sente uma sensação de perda e o
processo psicoterapêutico tem a função de tornar consciente tais complexos, associando-os
novamente ao eu. Já no inconsciente coletivo, quando um de seus complexos se associa ao
eu, tornando-se consciente, o indivíduo sente como algo estranho, misterioso, e fascinante,
porém alheio a sua vida. Muitas das doenças mentais têm origem nesta “alienação”
produzida quando um conteúdo inconsciente, que assim deveria permanecer, se torna
consciente e passa a participar da vida psíquica do sujeito.

A ativação de um conteúdo do inconsciente pode surgir através de um


desmoronamento das expectativas de vida ou da perda do significado e do sentido da vida.
Dessa forma, o indivíduo enfrenta um perigo real de o inconsciente tomar o lugar da
realidade. Porém, se for possível, por meio de símbolos, mediar este contato com o
inconsciente, o indivíduo terá efeitos benéficos e de crescimento.

Para Jung, a religiosidade pode ser considerada um instinto e a emoção pode causar
uma considerável perda de consciência, fazendo com que tenhamos uma atitude de
cortesia, respeito, revelando uma atitude religiosa em relação aos possíveis perigos
psíquicos. Neste sentido, Jung afirma:

(...) a experiência nos mostra que as religiões não são elaborações conscientes mas
provêm da vida natural da psique inconsciente, dando-lhe adequada expressão. Isto explica
a sua disseminação universal e sua imensa influência sobre a humanidade através da
História. Esta influência seria incompreensível, se os símbolos religiosos não fossem ao
menos verdades psicológicas naturais. (Ibid., § 805)
Entre as diversas concepções religiosas, a crença em espíritos está presente em toda
a história da humanidade, assim como uma vida após a morte. Essa crença encontra-se
tanto em povos primitivos como em povos altamente civilizados. Para o primitivo, o
fenômeno dos espíritos é uma evidência imediata do mundo espiritual. Jung analisa esse
fato e observa que a aparição de espíritos é uma experiência cuja interpretação é
dependente da realidade que estamos inseridos, isto é, diferente do homem primitivo, o
civilizado se ocupa muito pouco coma hipótese da existência de espíritos e não raro a
entende como algo patológico.

As principais fontes primitivas de crença nos espíritos são os sonhos e as doenças


psicógenas. Nos sonhos, é comum o primitivo acreditar que é a alma do morto que está
tentando se manifestar. Nas doenças, a crença passa, muitas vezes, pela certeza que a

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pessoa falecida está exercendo influência nociva no sobrevivente, em geral a mesma já
experimentada antes do falecimento. Os mesmo conflitos que marcaram as relações em
vida, tendem a ser uma ameaça depois da morte de um dos envolvidos, o que leva a grande
preocupação com o culto aos mortos, algo largamente difundido até os nossos dias. Para
Jung, o culto aos mortos é uma forma de proteção contra a má vontade dos mortos. Há
ainda as doenças mentais que, por muito tempo – e, talvez, em alguns casos até hoje –
foram compreendidas como influência dos espíritos maus. E, na realidade, não há como
afirmar que essa influência, de fato, não exista.

A crença nos espíritos leva a uma percepção de um mundo invisível, que segundo
Jung, leva a uma percepção de uma realidade espiritual que possibilita o ser humano a não
permanecer preso somente no mundo sensível e material. Para Jung, os espíritos são
expressões dos complexos autônomos do inconsciente, isto é, as mensagens dos mortos
seriam mensagens do inconsciente e neste sentido muito podem contribuir para a psique
do indivíduo que a busca.

A crença em almas é correlata a crença em espíritos; uma premissa para a crença


nos espíritos, principalmente quando se trata de um espírito de um morto, pois precisamos
lembrar que o espírito do morto é apenas uma das almas que o indivíduo tinha em vida.
Alma e espírito terão essa interdependência quando se trata de pensar no indivíduo. Porém,
sabemos que os primitivos não se referem apenas aos espíritos dos mortos, mas há também
outras origens.

Jung (1984, § 580) falará sobre esse tema retomando a questão dos sonhos e
comparando ambos, espíritos e sonhos. As imagens oníricas, ao contrário do que
normalmente entendemos, não é uma produção própria – no sentido de consciência – mas
sim, um produto do inconsciente; uma imagem que vem até nós, assim como as visões e
aparições, tanto no estado de vigília como em ideias delirantes. Tanto em uma coisa como
outra, estamos falando de irrupções inconscientes e esses fenômenos tornam evidentes os
complexos autônomos da psique.

“Sob o ponto de vista psicológico, os espíritos são, portanto, complexos inconscientes


autônomos que aparecem em forma de projeção, porque, em geral, não apresentam nenhuma
associação direta com o eu.” (Ibid.,§ 585, grifo do autor)

Mas quando algo afeta a alma, sentimos como algo que nos pertence, diferente dos
espíritos, que são experimentamos como algo estranho a nós. Nesse sentido, os primitivos
reconheciam como patológica tanto a perda da alma, como a possessão pelos espíritos.

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Essa constatação levará Jung a concluir que em sentido psicológico, ambos, almas e
espíritos, são complexos psíquicos. Para ele, as almas correspondem aos complexos
autônomos do inconsciente pessoal e os espíritos aos complexos autônomos do
inconsciente coletivo.

A preocupação de Jung sempre foi esboçar uma interpretação psicológica sobre as


questões dos espíritos. Ele evita tratar dos possíveis efeitos materiais desses espíritos ou se
eles existem ou não. Faz isso por entender que não há, até aquele momento,
demonstrações satisfatórias da existência de espíritos e, sendo assim, ele prefere manter sua
atitude de busca quanto essas experiências. Não as ignora, dado que algumas dessas
percepções são realmente dignas de nota, mas é ciente que esses acontecimentos são
apenas passíveis de interpretação e, por isso, prefere ficar em seu campo, tratando a
questão psicologicamente. (Cf. Ibid.,§600)

Na relação entre espírito e vida, Jung aponta a dificuldade de definir esses


conceitos, apontando a diversidade de significados que eles podem alcançar. Diante dessa
constatação, Jung opta por falar do corpo vivo, em vez de vida, e de fatores psíquicos, em
vez de espírito. Um recorte necessário, baseado na abordagem empírica, que ele entende
que ajudará a encontrar uma base real para o espírito e isso sem sacrifício para a vida.

O corpo vivo é uma realidade mais concreta, um sistema fechado em si, que
poderíamos definir, simplesmente, como um arranjo adequado da matéria que torna
possível a existência de um ser vivo. Nessa definição de corpo, Jung inclui um princípio
vital que ele associará com o fator psíquico.

Observando que na psique ocorre a mesma reação automática do corpo a estímulos


de fora, Jung começara a sustentar a afirmação do princípio vital a partir de uma chamada
natureza da psique:

É deste modo que podemos formar uma ideia da natureza da psique. Ela é
constituída de imagens reflexas de processos cerebrais simples. E das reproduções destas
imagens em uma sucessão quase infinita. Estas imagens reflexas têm o caráter de consciência.
A natureza da consciência é um enigma cuja solução eu desconheço. Do ponto de vista
puramente formal, contudo, podemos dizer que um fato psíquico assume a qualidade de
consciência quando entra em relação com o eu. Se não há esta relação, o fator permanece
inconsciente. (Ibid., §610)
A consciência, então, pode ser entendida como um estado de associação com o eu.
Um eu que possui uma variedade e uma complexidade, constituído de um aglomerado de
imagens provindo tanto de dentro, como de fora, assim como de processos anteriores. A
diversidade do eu forma uma unidade, devido ao forte fator de coesão da consciência, pois

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essa atua como uma espécie de força gravitacional, atraindo as várias partes na direção do
que ele chama de centro virtual: um complexo de eu.

Sabemos que nem por isso o eu é o centro global do ser humano. Há os


esquecimentos, a consciência ignora grande parte do que ocorre ao indivíduo; o que o eu
compreende é uma menor parte daquilo que uma consciência deveria compreender. A
consciência do eu não abrange todas as atividades dos fenômenos psíquicos e, a partir
dessa constatação, Jung chegará a ideia de que essa consciência do eu deve estar encerrada
em uma consciência completa. Essa suposta consciência superior é uma hipótese, que não
pode ser provada, pois isso estaria além da capacidade de nossa razão.

Corpo e psique são interdependentes. A psique é constituída essencialmente de


imagens; a matéria corporal que está pronta para vida precisa dessa psique para se tornar
capaz de viver, assim como a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam
viver. Nessa relação, vários são os fenômenos que se manifestam e escapam de nossa
compreensão e que não por acaso recebem o nome de inconsciência. Na busca de
compreensão sobre a força de espírito que determina o curso de nossa vida, Jung aponta
que este também está ligado a processos que escapam ao controle da consciência do eu.

A alma e o corpo são presumivelmente um par de opostos e, como tais, são a


expressão de uma só entidade cuja natureza não se pode conhecer nem a partir das
manifestações materiais exteriores nem através das percepções interiores e diretas. Como
sabemos, segundo uma antiga crença, o homem surge do concurso de uma alma com um
corpo. Mais correto seria falar de um ser vivo desconhecido sobre cuja natureza intima o
máximo que podemos dizer é que ela expressa vagamente a quintessência da vida.
Externamente, este ser é um corpo material mas, considerado do interior, parece
constituído de uma série de imagens das atividades vitais que têm lugar no organismo. Os
dois constituem uma só realidade, e acomete-nos a dúvida se, no final de contas, toda esta
separação entre alma e corpo nada mais seja do que mero expediente da razão para que
percebamos os dois lados da mesma realidade, uma separação –conceitualmente necessária-
de um só e mesmo fato em dois aspectos aos quais atribuímos indevidamente até mesmo
uma existência autônoma.(Ibid., § 619)

Não conseguimos apreender sobre o significado da vida, nem através do conhecimento de


nossa fisiologia e nem através do que conhecemos sobre a psique.

Deste ponto de vista, alguém poderia facilmente abandonar qualquer esperança de


dizer algo de preciso a respeito da natureza desta coisa vaga e fluida chamada espírito. Só
uma coisa me parece clara: da mesma forma como o “principio vital” é a quintessência da
vida do corpo, assim também o “espírito” é a quintessência da natureza da alma ; na
realidade, o conceito de “espírito” é empregado promiscuamente com o conceito de
“alma”. Como tal, o “espírito” situa-se na mesma esfera transliminar da “entidade vital”,
isto é, no mesmo estado de indistinguibilidade. E a duvida de que a alma e o corpo, em
ultima analise, sejam uma só e mesma coisa, aplica-se também a aparente oposição entre
espírito e “entidade vital”. Também estes dois constituem uma só e mesma coisa. (Ibid.,§
621)

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A matéria orgânica possui um princípio vital, a natureza da alma possui um espírito.
Se pesquisarmos a etimologia da palavra encontraremos diversos resultados de significado
do uso do termo espírito, tais como personificações de afetos, as visualizações de todo o
modo de pensar e de sentir, ou psicologicamente de uma atitude.

O aparecimento de um determinado espírito (ou atitude) constitui, para Jung, uma


questão de vida e morte. Ele associa o espírito a um complexo autônomo, o que aponta a
sua superioridade em relação à vontade consciente. Essa intenção superior está ligada ao
inconsciente e, dessa forma, psicologicamente falando, o espírito é necessariamente sentido
como um ser independente, e sua natureza superior não pode ser expressa em conceitos
racionais e, portanto, outra possibilidade de expressão é utilizada: o símbolo.

O símbolo não define, nem explica. Ele aponta para um sentido que está fora da
nossa compreensão. O espírito requer um símbolo para se expressar; é um complexo
psíquico fecundo de grandes possibilidades, tais como os símbolos religiosos já conhecidos
por nós. É o caráter de revelação e de autoridade absoluta que confere ao espírito a
superioridade sentida pela consciência. Chamar de superior é sempre uma questão
problemática, dado que muitas vezes o que é sentido como “superior” é contrário aos
nossos mais preciosos ideais. Jung propõe que chamemos de consciência mais ampla e, ao
aceitarmos a concepção de espírito, devemos estar cientes que ele não deve ser considerado
como algo de absoluto, mas sim relativa e que deve ser aperfeiçoado e completado pela
vida.

Só uma vida vivida dentro de um determinado espírito é digna de ser vivida. É um


fato estranho que uma vida vivida apenas pelo ego em geral é uma vida sombria, não só
para a pessoa em si, como para aquelas que a cercam. A plenitude de vida exige muito mais
do que apenas um eu; ela tem necessidade de um espírito, isto é, de um complexo
independente e superior, porque é manifestamente o único que se acha em condições de
dar uma expressão vital a todas aquelas virtualidades psíquicas que estão fora do alcance da
consciência do eu. (Ibid., §645)

Mas Jung alerta que a vida é um dos critérios do espírito e, portanto, o espírito que
priva o homem de qualquer possibilidade de vida e só procura satisfação em si próprio, é
um erro, isto é, precisamos estar atentos aos impulsos do espírito, se este abre ou não
possibilidades de desenvolvimento ou se ele é apenas destrutivo.

Para Maria–Louise von Franz (1995), Jung considerou os espíritos como complexo
apenas nos início de seu trabalho, pois depois ele passou a se indagar sobre os fenômenos
parapsicológicos que envolviam os espíritos dos mortos e nunca escondeu sua curiosidade
e a necessidade de se manter buscando novas compreensões a respeito do tema. Mas, ele

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duvida que isso possa se fazer só pela metodologia da psicologia e acaba mantendo sua
postura de psicólogo, protegendo-se, assim, de qualquer ideologia que pudesse obscurecer
sua pesquisa.

Para Jung, o espírito é o diretor dos sonhos, do inconsciente; é a fonte dinâmica


que produz padrões simbólicos interiores na psique. Sendo assim, em termos individuais,
podemos observar a manifestação do espírito nas inspirações, nas fantasias involuntárias,
na imaginação, e principalmente no sonho.

Referências

GUARNIERI, Maria Cristina Mariante. Morte do Corpo, Vida no Espírito: o processo de luto na
prática espírita da psicografia. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião, PUC-SP,
2001.

JUNG, C.G. A vida simbólica. Obras Completas. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

_____ . A natureza da psique. Obras Completas. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.

_____ . (org.) O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, s/d.

VON FRANZ, Marie-Louise. Jung, seu mito em nossa época. São Paulo: Círculo do Livro, 1995.