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DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

Teoria do Pagamento

1. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DO PAGAMENTO


Em regra, a extinção das obrigações dá-se pelo seu cumprimento, que o
Código Civil denomina pagamento. Embora seja empregado, na linguagem corrente,
para designar apenas a entrega de prestação em dinheiro, a doutrina reserva ao
conceito de pagamento sentido técnico preciso, definindo-o como a execução
voluntária da prestação devida ao credor, no tempo, no lugar e na forma previstos no
título constitutivo da obrigação.
Apesar de ser o fim normal da obrigação, o pagamento é apenas um dos modos
de extinção da mesma, que também pode ocorrer pela execução forçada, pela
impossibilidade da prestação ou pelos demais modos de extinção regulados no Código,
como a novação, a compensação, a confusão e a remissão. Alguns denominaram isto de
meios anormais de extinção (Pagamento Indireto).
Não se pode olvidar que na concepção da obrigação como um processo,
constituindo-se em “um conjunto de atividades necessárias à satisfação do interesse do
credor” (Clóvis do Couto e Silva), existirão, além do débito, deveres chamados anexos,
secundários, implícitos ou acessórios, dirigidos também ao credor, pois a obrigação é
tida como uma ordem de cooperação voltada à sua finalidade, formadora de uma
totalidade que não se resume no binômio débito-crédito. Assim considerando, o
pagamento nem sempre será hábil a extinguir a obrigação, devendo ser entendido
apenas como o cumprimento do dever principal, que pode ou não extinguir a relação.
Conforme sustenta Clóvis Couto e Silva, “importa contrastar que, mesmo adimplindo o
dever principal, ainda assim pode a relação jurídica perdurar como fundamento da
aquisição (dever de garantia), ou em razão de outro dever secundário independente”.

Quanto à natureza jurídica do pagamento, a doutrina diverge:

Pablo Stolze adota o entendimento de Caio Mário da Silva Pereira, o qual


assevera que o pagamento “às vezes tem todos os característicos de um negócio
jurídico, quando o direito de crédito objetive uma prestação que tenha caráter negocial
(exemplo: a emissão de uma declaração de vontade), mas outras vezes não passa de
mero fato jurídico stricto sensu, quando o conteúdo da obrigação não tem tal sentido,
ou objetive simples abstenções ou prestações de serviços”.
CRISTIANO CHAVES DE FARIAS e Nelson Rosenvald, fortes na Teoria da
Execução Real da Prestação de Karl Larenz, sustentam que o adimplemento não é
negócio jurídico, mas um ato real de extinção do débito a liberar o devedor e converter
em realidade a prestação devida. Vaticinam que "o pagamento não se insere no plano
de validade do negócio jurídico", constituindo um ato-fato que se contextualiza no
plano da eficácia, sendo equivocado falar-se, por conta disto, em "pagamento nulo" ou
"validade do pagamento.

OBS: Enunciado 425 da V Jornada do CJF: "O pagamento repercute no plano da


eficácia, e não no plano da validade, como preveem os arts. 308, 309 e 310 do Código
Civil".

Segundo Carlos Roberto Gonçalves, o pagamento tem natureza de um ato


jurídico em sentido amplo, da categoria dos atos lícitos, podendo ser ato jurídico estrito
senso, ou negócio jurídico, bilateral ou unilateral, conforme a natureza específica da
obrigação.
Para ele, para que o pagamento produza o efeito de extinguir a obrigação,
devem estar presentes seus requisitos essenciais de validade, que são: a) a existência
de um vínculo obrigacional; b) a intenção de solvê-lo; c) o cumprimento da obrigação;
d) a pessoa que efetua o pagamento; e) a pessoa que recebe.

Para Pablo Stolze, compõe-se o pagamento de três elementos fundamentais:

2. CONDIÇÕES/ELEMENTOS SUBJETIVOS DO PAGAMENTO

Conforme Flávio Tartuce, deve-se ter cuidado para não denominar os


elementos subjetivos do pagamento como credor e devedor, vez que outras pessoas,
que não o devedor, podem pagar; ao mesmo tempo em que outras pessoas, que não o
credor, podem receber.
2.1. De quem deve pagar (Solvens – Sujeito Ativo) - Arts. 304 a 307

De fato, podem efetuar o pagamento o devedor, o terceiro interessado e


também os terceiros não interessados, senão vejamos a redação do artigo 304 do CC:
“Art. 304. Qualquer interessado na extinção da dívida pode pagá-la, usando,
se o credor se opuser, dos meios conducentes à exoneração do devedor.
Parágrafo único. Igual direito cabe ao terceiro não interessado, se o fizer em
nome e à conta do devedor, salvo oposição deste”.

O terceiro interessado corresponde à pessoa que tem interesse jurídico


patrimonial na extinção da dívida, como o fiador, o avalista e o adquirente de imóvel
hipotecado. Havendo o pagamento por essa pessoa, há sub-rogação automática (sub-
rogação legal – Art. 346, III, CC) nos direitos do credor, com a transferência de todas as
ações, exceções e garantias que detinha o credor primitivo. (Art. 349, CC)
OBS: Interesse patrimonial não significa interesse afetivo. Dessa forma, um
pai que paga a dívida do filho por intuito afetivo não pode ser considerado terceiro
interessado no campo do direito obrigacional. O pai que paga a dívida deve ser
considerado, na verdade, um terceiro não interessado na dívida.
Caso o credor se recuse injustamente a receber o pagamento ou dar quitação
regular, pode usar dos meios conducentes à exoneração do devedor, como por
exemplo, a ação de consignação em pagamento (art. 334, CC e art. 539, CPC).
No REsp. 85.551-PB, o STJ entendeu ser possível ao terceiro "requerer a
consignação" admitindo-se, no caso concreto, que um descendente-sucessor se utilize
da medida judicial de forma legítima.

Exceção: Recorda CARLOS ROBERTO GONÇALVES a impossibilidade de


aplicação do dispositivo legal acima para as obrigações intuito personae, haja vista
serem pautadas em condições ou qualidades pessoais do devedor, autorizando ao
credor não aceitar o pagamento por ninguém mais, na forma do art. 247 do CC.

Questão – CESPE/2013/ Adutidor/TCU – "Considere que terceiro interessado


queira pagar dívida do devedor e que o credor tenha manifestado sua recusa em receber
o pagamento. Nessa situação, o terceiro poderá valer-se dos meios conducentes à
exoneração do devedor, pois a legislação de regência confere a qualquer interessado na
extinção da dívida a faculdade de pagá-la".
Gabarito: C
No que se refere ao terceiro não interessado, não se tem o mesmo interesse
jurídico na solução da dívida (não está vinculado à relação obrigacional), mas mero
interesse moral ou econômico. Aqui duas situações se apresentam:
Paga a dívida em nome e à conta do devedor (art. 304, Parágrafo único, CC) -
não terá direito a nada, pois é como se fizesse uma doação, um ato de liberalidade. Ex.:
Pai que paga dívida de filho maior.
A parte final do dispositivo permite oposição do devedor ao pagamento, além
disso, por ser a doação um contrato, o devedor não está obrigado a receber tal crédito.
OBS: Processualmente, o terceiro não interessado, que paga a dívida em nome
e à conta do devedor, deverá demonstrar a sua legitimidade para fazê-lo, tendo em
vista que ajuíza a postulação invocando o direito alheio de efetivar o pagamento e obter
a quitação.

Paga a dívida em nome próprio (art. 305, CC) - O terceiro não interessado tem
direito de reembolso do que pagar, mas não se sub-roga nos direitos do credor.
“Art. 305 - 0 terceiro não interessado, que paga a dívida em seu próprio nome,
tem direito a reembolsar-se do que pagar; mas não se sub-roga nos direitos do credor.
Parágrafo único. Se pagar antes de vencida a dívida, só terá direito ao
reembolso no vencimento.”

Ex.: Na Fiança Criminal quem presta a fiança, em seu próprio nome, para obter
a liberdade provisória do acusado, que terá o direito de ser ressarcido do valor no caso
da quebra e perda da fiança. (art.329, CPP).

Questão – VUNESP/2014/Cartório/TJ-SP - “o terceiro não interessado, que


paga a dívida em seu próprio nome, tem direito a reembolsar-se do que pagar, mas não
se sub-roga nos direitos do credor."
Gabarito: C

Questão – FCC/2014/TRF 3ª - Ricardo, terceiro não interessado, pagou dívida


de seu amigo Cleiton, em seu próprio nome, antes do vencimento. Nesta hipótese,
Ricardo.
a) não poderá reembolsar-se do que pagar uma vez que não possuía interesse
no pagamento da dívida sendo considerada pela legislação mero ato de liberalidade.
b) poderá reembolsar-se do que pagar logo após o pagamento e
independentemente do vencimento.
c) poderá reembolsar-se do que pagar apenas no vencimento e também se sub-
roga nos direitos do credor.
d) poderá reembolsar-se do que pagar apenas no vencimento, porém não se
sub-roga nos direitos do credor.
e) apenas subroga-se nos direitos do credor logo após o pagamento.
Gabarito: D

Em qualquer hipótese, deve-se atentar para o disposto no artigo 306 do CC, in


verbis:

“Art. 306. O pagamento feito por terceiro, com desconhecimento ou oposição


do devedor, não obriga a reembolsar aquele que pagou, se o devedor tinha
meios para ilidir a ação”.
A lei, como se percebe, ataca as consequências do pagamento realizado por
terceiro – interessado ou não interessado - sem o conhecimento ou mesmo com a
oposição do devedor, em hipóteses em que tinha meios para inibir a cobrança, como se
daria no caso de dispor de defesas pessoais ou gerais contra o credor, tais como o
instrumento de quitação, a prescrição da pretensão creditória ou nulidade do título.
OBS:
“Monitória – Embargos rejeitados – Compromisso de compra e venda firmado
entre as partes onde o embargante (vendedor) assumiu dívidas existentes
sobre o bem até a data da alienação. Descoberta pelos embargados
(compradores) de dívida junto à empresa responsável pelo abastecimento de
água e saneamento da localidade, referente a obras para implantação da rede,
executadas no ano de 1979. Pagamento precipitado pelos embargados, sem
comunicar o embargante, efetivo devedor, para que pudesse se opor à
cobrança de dívida prescrita, ficando dessa forma privados do reembolso.
Inteligência do art. 306 do atual Código Civil. Embargante que reunia meios
de se opor à cobrança, em virtude da evidente prescrição da dívida. Sentença
reformada. Recurso provido para julgar procedentes os embargos e decretar a
improcedência da ação monitoria, invertidos os ônus da sucumbência” (TJSP,
Apelação com revisão 443.430.4/8, Acórdão 4129838, Campinas, 8.ª Câmara
de Direito Privado, Rel. Des. Salles Rossi, j. 14.10.2009, DJESP 28.10.2009).
O Código anterior dispunha que, se houvesse um justo motivo para a oposição,
o devedor não estaria obrigado ao reembolso, senão até a importância que lhe
aproveitasse. Assim, se o devedor tivesse um débito de R$ 100,00, e por sua vez tivesse
um crédito de R$ 50,00 em face do credor, o solvens só teria direito de reembolsar-se
da diferença, que é, na realidade, a importância que se reveste em benefício do
devedor. Embora o Código atual desobrigue o reembolso sem fazer tal ressalva,
mantém-se substancialmente a solução do sistema anterior, em homenagem ao
princípio da vedação do enriquecimento sem causa.
Para Pablo Stolze nasce para o terceiro uma obrigação natural atípica.

OBS: Procedendo o terceiro uma comunicação ao devedor de que efetuará o


pagamento e este quedar-se inerte, deverá ressarcir o pagamento efetuado, mesmo
que tivesse meios para ilidir a execução, por clara agressão a boa-fé.

Conforme o Art. 307, cc, o pagamento que importe transferência de domínio,


só poderá ser feito pelo titular do direito real, ou seu representante legal, cuja
propriedade se pretenda transferir, a fim de se evitar a chamada alienação a non
domino, ou seja, aquela efetuada por quem não seja proprietário da coisa.
OBS: Não havendo esta situação jurídica estabelecida, não se estará diante de
caso de invalidade, mas sim de ineficácia.
Ex.: Tutor que não pode dar em pagamento imóvel do tutelado sem autorização
judicial (CC, art. 1.7 48, IV).

Porém se a coisa for fungível, não se poderá mais reclamar do credor que, de
boa-fé, a recebeu e a consumiu, ainda que o devedor não tivesse o direito de aliená-la.
Nesse caso, o verdadeiro proprietário da coisa deverá exigir, não do credor de boa-fé,
mas do próprio devedor, as perdas e danos devidas por força da alienação indevida,
(art. 186 c/c o art. 927, caput, do CC), inclusive requerendo dano moral (Súmula nº. 37
do STJ).
Exemplo: A entrega a B cem sacas de café pertencentes a C, como forma de
pagamento. Três são as possibilidades nesse caso:
Se o café já foi consumido por B, de boa-fé, a ação de C é contra A.
Se o café não foi consumido por B, a ação de C é contra B.
Se o café foi consumido por B, de má-fé, a ação é contra B.
Havendo má-fé e perdas e danos, quanto às últimas respondem todos os
culpados solidariamente.
Questão – TRF4ª/2007 - De acordo com o Código Civil brasileiro, só terá eficácia
o pagamento que importar transmissão da propriedade quando feito por quem possa
alienar o objeto em que ele consistiu. Se se der em pagamento coisa fungível,
a) poderá reclamar do credor que, mesmo de boa-fé, a tenha recebido e
consumido, tendo ou não o solvente o direito de aliená-la.
b) poderá reclamar do credor que, mesmo de boa-fé, a tenha recebido e
consumido, ainda que o solvente não tivesse o direito de aliená-la.
c) poderá reclamar do credor que, mesmo de boa-fé, a tenha recebido e
consumido, exceto se o solvente não tivesse o direito de aliená-la.
d) não se poderá mais reclamar do credor que, de boa-fé, a recebeu e
consumiu, exceto se o solvente não tivesse o direito de aliená-la.
e) não se poderá mais reclamar do credor que, de boa-fé, a recebeu e
consumiu, ainda que o solvente não tivesse o direito de aliená-la.
Gabarito: E

2.2. Daqueles a quem se deve pagar (accipiens) – Arts. 308 a 312


Trata-se do Sujeito passivo do pagamento.
O pagamento deve ser feito ao credor ou a quem de direito o represente, sob
pena de não extinguir a obrigação. Pode também ser efetuada aos sucessores a título
universal ou particular.
OBS: Conforme Carlos Roberto Gonçalves, o ordenamento jurídico admite a
figura dos representantes legal, judicial e convencional. Nas hipóteses dos
representantes legal e judicial, somente estes poderão receber. No caso do
representante convencional, poderá receber e dar quitação tanto este quanto o
outorgante (credor).
OBS: No caso de oficial de justiça portando mandado executivo, com
legitimidade para receber o pagamento, a jurisprudência entende que: "admite-se que
o oficial de justiça, portador do mandado, tenha qualidade para receber o pagamento
em nome do credor. O oficial é o órgão destinado ao exercício de funções executivas,
que devem compreender a de receber o pagamento exigido, se assim ordenado pelo
juiz" (RF 115/105).

Entretanto, considera-se válido o pagamento feito a terceiro quando (art.308


e 309, CC):
(i) for ratificado pelo credor;
(ii) se reverter em proveito do credor;
(iii) feito de boa-fé ao credor putativo.

OBS: Em qualquer hipótese, deve ser feito a pessoa capaz de fornecer a devida
quitação, sob pena de não valer. A quitação sempre poderá ser dada por instrumento
particular.

No dizer de CAIO MÁRIO, “chama-se credor putativo a pessoa que, estando na


posse do título obrigacional, passa aos olhos de todos como sendo a verdadeira titular
do crédito (credor aparente).
No que se refere ao pagamento feito ao credor putativo (imaginário/aparente)
(art.309, CC), segundo a doutrina, a lei condiciona a eficácia da solutio aos requisitos:
a) Ter o accipiens a aparência de verdadeiro credor (Teoria da Aparência e
Princípio da Confiança) Exemplos: herdeiro aparente, procurador cujo
mandato foi revogado sem conhecimento de terceiros, o herdeiro que vem
a ser afastado por indignidade, etc e;
b) Estar o solvens de boa-fé subjetiva.
c) Escusabilidade de seu erro. (Embora a lei não seja explícita)
OBS: STJ/REsp. 12.592-SP admitiu o pagamento realizado à credor putativo
com base em dois requisitos, quais sejam: a) a boa-fé e b) a escusabilidade do erro.

OBS: RECURSO ESPECIAL. CIVIL. CREDOR PUTATIVO. TEORIA DA APARÊNCIA.


NECESSIDADE DE DILIGÊNCIA DO DEVEDOR. RESPONSABILIDADE CONTRATUAL.
JUROS. FLUÊNCIA A PARTIR DA CITAÇÃO. 1. Pela aplicação da teoria da aparência, é
válido o pagamento realizado de boa-fé a credor putativo. 2. Para que o erro no
pagamento seja escusável, é necessária a existência de elementos suficientes para
induzir e convencer o devedor diligente de que o recebente é o verdadeiro credor.
(STJ, REsp n° 1044673, Min. Rei. João Otávio de Noronha, DJE 15/06/2009).
Exemplo: Imagine se o caso em que um locatário efetua o seu pagamento na
imobiliária X, há certo tempo. Mas o locador rompe o contrato de representação com
essa imobiliária e contrata a imobiliária Y. O locatário não é avisado e continua fazendo
os pagamentos na imobiliária anterior, sendo notificado da troca seis meses após.
Logicamente, os pagamentos desses seis meses devem ser reputados válidos, não se
aplicando a regra pela qual quem paga mal, paga duas vezes. Dessa forma, cabe ao
locador acionar a imobiliária X e não o locatário.

Questão - TRF5ª/2008 – adaptada - A respeito do pagamento, considere:


O pagamento feito de boa-fé ao credor putativo é válido ainda provado depois
que não era credor.
Gabarito: C

Questão - FINEP/ANALISTA/2009/CESPE – adaptada - Acerca do direito das


obrigações e dos contratos, assinale a opção correta.
É nulo o pagamento feito ao credor putativo, ainda que tenha sido feito de boa-
fé, salvo se provar que se reverte, em favor do legítimo credor.
Gabarito: E

Ainda, no que se refere ao pagamento feito a menor, o art. 310 do Código fala
que pagamento cientemente feito ao credor incapaz de quitar não é válido (no sentido
de ser ineficaz), a não ser que o devedor comprove que este reverteu em favor do
incapaz. (Aplicação da teoria da aparência)
OBS: Antunes Varela esclarece que o art. 310 fala “pagamento cientemente
feito ao credor incapaz de quitar”, donde se conclui que “se o solvens desconhecia, sem
culpa, a incapacidade do credor, o cumprimento será válido, ainda que o accipiens
tenha dissipado ou malbaratado a prestação”.
OBS: Isso não obsta que aquele que pagou ingresse com ação de repetição de
indébito (actio in rem verso) contra aquele que recebeu, aplicação direta das regras
relacionadas com o pagamento indevido e com a vedação do enriquecimento sem
causa.
OBS:
Sendo absolutamente incapaz - o pagamento é nulo (CC, 166).
Sendo relativamente incapaz – é anulável (CC, 171, I), e pode ser ratificado
pelo seu representante legal à luz do princípio da conservação do negócio jurídico (CC,
172).
Tartuce assevera que essa incapacidade, deve ser considerada em sentido
genérico, significando também a falta de autorização. Destaque-se o julgado do
Tribunal de Justiça de São Paulo (Apelação 001794367.2009.8.26.0114, originário da
Comarca de Campinas, 12.ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São
Paulo, Rel. Des. Márcia Cardoso, j. 04.05.2016). No caso, a devedora efetuou o
pagamento da dívida objeto da demanda diretamente na conta bancária de uma
pessoa física, quando a credora era pessoa jurídica, que nunca deu quitação formal dos
valores pagos. Nos termos do julgamento, “tais pagamentos foram realizados, inclusive,
contrariando as instruções constantes das próprias notas fiscais que eram
acompanhadas dos respectivos boletos bancários. Nesse contexto, não há como
considerar válido o pagamento, eis que realizado em dissonância com a boa-fé objetiva
e os usos e costumes comerciais”.

Estabelece o artigo 311 que “Considera-se autorizado a receber o pagamento


o portador da quitação, salvo se as circunstâncias contrariarem a presunção daí
resultante”.
Portador da quitação é tanto aquele que carrega o documento assinado pelo
credor consubstanciado em recibo quanto aquele que traz consigo o título
representativo da dívida, quando este for necessário para a execução do debito (como
nos títulos de credito).
A lei fixa, portanto, a presunção juris tantum de que o portador da quitação
seja autorizado a receber o pagamento, salvo se as circunstâncias afastarem a
presunção relativa deste mandato tácito (como por exemplo, constar na quitação
assinatura aparentemente falsificada).
OBS: Atente-se que sendo o título nominativo (não ao portador) não haverá a
presunção de legitimidade estampada no presente artigo.

Estabelece o artigo 312 que “Se o devedor pagar ao credor, apesar de


intimado da penhora sobre o crédito, ou da impugnação a ele oposta por terceiros, o
pagamento não valerá contra estes, que poderão constranger o devedor a pagar de
novo, ficando-lhe ressalvado o regresso contra o credor.”
OBS: O pagamento feito após a comunicação, apesar de válido, é ineficaz.

3. CONDIÇÕES OBJETIVAS DO PAGAMENTO

3.1. Do objeto do pagamento e sua prova - Arts. 313 a 318.

O objeto do pagamento é a prestação.


A gente já viu que:
- O credor não é obrigado a receber outra coisa, diversa da que lhe é devida,
ainda que mais valiosa (dação em pagamento). (Art. 313, CC).
- Ainda que a obrigação tenha por objeto prestação divisível, o pagamento não
pode ser efetuado por partes, se assim não se ajustou, nem o devedor é obrigado a
receber dessa forma (princípio da identidade física da prestação). (Art. 314, CC).
OBS: Moratória legal – Art. 916, CPC – 30% (acrescido de custas e honorários
advocatícios) + 6 prestações mensais (acrescida de correção monetária + juros
de 1% a.m.).
EMENTA: EXECUÇÃO. PARCELAMENTO DO DÉBITO. APLICAÇÃO DO ART. 745-A
DO ANTIGO CPC. POSSIBILIDADE. O procedimento tratado no artigo 745-A do
antigo CPC (atualmente previsto no art. 916) pode ser aplicado ao processo do
trabalho quando se verificar, em cada caso concreto, que tal medida possibilita
maior efetividade da tutela jurisdicional. TRT-3 – AGRAVO DE PETIÇÃO: 00987-
2013-036-03-00-9-AP MG, Relator: LUIZ ANTONIO DE PAULA IENNACO, Data de
Julgamento: 02/08/2016, 11ª TURMA, Data de Publicação: 11/08/2016. "

- As dívidas em dinheiro deverão ser pagas no vencimento, em moeda corrente


e pelo valor nominal, salvo o disposto nos artigos subsequentes (o princípio do
nominalismo) (Art. 315, CC). Ao lado das dívidas de dinheiro, a doutrina, influenciada
pela instabilidade de nossa economia, elaborou o conceito das chamadas dívidas de
valor (valor econômico (aquisitivo) expresso pela moeda. Por exemplo, a obrigação de
indenizar, decorrente da prática de um ato ilícito, devendo corresponder ao do bem
lesado.)
- São nulas as convenções de pagamento em ouro ou em moeda estrangeira,
bem como para compensar a diferença entre o valor desta e o da moeda nacional,
excetuados os casos previstos na legislação especial. (Art. 318, CC)
OBS: No caso de contratos internacionais em que a dívida foi contraída no
exterior mas será executada no Brasil, pode-se adotar moeda de outro país ou ouro,
mas, no momento de sua execução, a obrigação deverá ser efetiva e obrigatoriamente
paga no padrão monetário Real. “O STJ pacificou o entendimento de que ‘as dívidas
fixadas em moeda estrangeira deverão, no ato de quitação, ser convertidas para a
moeda nacional, com base na cotação da data da contratação, e, a partir daí,
atualizadas com base em índice oficial de correção monetária’ (REsp. 1.323.219/RJ, Rel.
Min. Nancy Andrighi, DJe 26.09.2013)” (STJ, AgRg no REsp. 1.342.000/PR, Rel. Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, 3.ª Turma, j. 04.02.2014, DJe 17.02.2014).
OBS: Conforme o STJ, ilustrativamente, no REsp 1.479.039: O pagamento em
cartão de crédito, uma vez autorizada a transação, libera o consumidor de qualquer
obrigação perante o fornecedor, pois este dará ao consumidor total quitação. Assim,
o pagamento por cartão de crédito é modalidade de pagamento à vista, pro soluto,
implicando, automaticamente, extinção da obrigação do consumidor perante o
fornecedor. A diferenciação entre o pagamento em dinheiro, cheque ou cartão de
crédito caracteriza prática abusiva no mercado de consumo, nociva ao equilíbrio
contratual. Exegese do art. 39, V e X, do CDC: Art. 39. É vedado ao fornecedor de
produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: (...) V - exigir do consumidor
vantagem manifestamente excessiva; (...) X – elevar sem justa causa o preço de produtos
ou serviços’” (Relator Ministro Humberto Martins, j. 06.10.2015. DJ. 16.10.2015).
OBS: Note-se que conforme o art. 316 do Código de 2002, nada impede,
outrossim, a adoção de cláusulas de escala móvel, para que se realize a atualização
monetária da soma devida, segundo critérios escolhidos pelas próprias partes. Ou seja,
admite-se que a obrigação cujo objeto compreenda prestações sucessivas possa
aumentar progressivamente. Porém, continua sendo proibida a cobrança de juros
abusivos (superiores ao dobro da taxa legal), bem como o anatocismo (juros sobre
juros).

Questão – Faurgs/Juiz de Direito Substituto - RS/2016) Considere as afirmações


abaixo, sobre o adimplemento da obrigação.
I. O terceiro não interessado que paga a dívida em seu próprio nome sub-roga-
se nos direitos do credor, desde que notifique previamente o devedor e este não
apresente oposição.
II. A eficácia típica reconhecida da aplicação da teoria do adimplemento
substancial é a extinção da obrigação nas hipóteses de pagamento parcial feito de boa-
fé.
III. O direito brasileiro, nas dívidas em dinheiro, adota o princípio do
nominalismo, admitindo, contudo, que as partes convencionem cláusula de escala
móvel.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e II.
e) Apenas II e III.
Gabarito: E

Segundo o artigo 317 do CC, “Quando por motivos imprevisíveis, sobrevier


desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e o do momento de sua
execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que assegure, quanto
possível, o valor real da prestação”.
Observe que não há direito em resolver o negócio, mas sim de se solicitar a
devolução da justiça contratual as partes.
OBS: Segundo o Enunciado 17 do CJF, “a interpretação da expressão ‘motivos
imprevisíveis’ constante do art. 317 do novo Código Civil, deve abarcar tanto causas de
desproporção não previsíveis como também causas previsíveis, mas de resultados
imprevisíveis”
Adotou-se, com referido dispositivo, a teoria da imprevisão/revisão contratual
por fato superveniente diante de uma imprevisibilidade somada a uma onerosidade
excessiva.

Na visão clássica, são os requisitos para a revisão contratual, por esse caminho:
a) O contrato deve ser bilateral (sinalagmático) e oneroso (presente
a remuneração);
b) O contrato deve ser comutativo, aquele em que as partes já
sabem quais são as prestações, não sendo possível rever contrato aleatório,
pois o risco é da essência do negócio. Entretanto, é possível rever a parte
comutativa de um contrato aleatório (v.g., prêmio de um seguro);
c) O contrato deve ser de execução diferida ou continuada (trato
sucessivo), não sendo possível, em regra, rever o contrato instantâneo de
execução imediata;
d) Presença de um motivo imprevisível;
e) Presença de uma desproporção negocial, onerosidade excessiva
ou quebra do ponto de equilíbrio do sinalagma obrigacional.
OBS: Enunciado n. 176 do CJF/STJ, da mesma III Jornada de Direito Civil: “Em atenção
ao princípio da conservação dos negócios jurídicos, art. 478 do Código Civil de 2002
deverá conduzir, sempre que possível, à revisão judicial dos contratos e não à resolução
contratual”. (Doutrinária Majoritária)
Flávio Tartuce, entende que apenas se aplica o comando do art. 317, pois o art. 478
trata da extinção, e não da revisão contratual.
OBS: Relativamente à revisão do contrato de consumo, ela está tratada no art. 6.º, V,
da Lei 8.078/1990, que cuida da revisão contratual por fato superveniente por simples
onerosidade excessiva, sem a necessidade de prova de fato imprevisível, bastando um
motivo novo, um fato superveniente que gerou o desequilíbrio negocial (quebra da
base objetiva do negócio – teoria de Karl Larenz).

Exoneração. Alimentos. Ex-esposa.1. Os alimentos devidos entre ex-cônjuges serão


fixados com termo certo, a depender das circunstâncias fáticas próprias da hipótese sob
discussão, assegurando-se, ao alimentado, tempo hábil para sua inserção, recolocação
ou progressão no mercado de trabalho, que lhe possibilite manter pelas próprias forças,
status social similiar ao período do relacionamento 2. Serão, no entanto, perenes, nas
excepcionais circunstâncias de incapacidade laboral permanente ou, ainda, quando se
constatar, a impossibilidade prática de inserção no mercado de trabalho. 3. Em qualquer
uma das hipóteses, sujeitam-se os alimentos à cláusula rebus sic stantibus, podendo
os valores serem alterados quando houver variação no binômio
necessidade/possibilidade. 4. Se os alimentos devidos a ex-cônjuge não forem fixados
por termo certo, o pedido de desoneração total, ou parcial, poderá dispensar a
existência de variação no binômio necessidade/possibilidade, quando demonstrado o
pagamento de pensão por lapso temporal suficiente para que o alimentado revertesse
a condição desfavorável que detinha, no momento da fixação desses alimentos. REsp
1.205.408, rei. Min. Nancy Andrighi, 21.6.11. 3a T. (Info 478,2011)

Quanto à Prova do Pagamento: (Arts. 319 a 326 do CC).

A quitação é o ATO JURÍDICO que prova o pagamento. O recibo é o documento


da quitação.
Quem paga tem o direito de obter a prova de que está pagando, caso lhe seja
negada, poderá reter a coisa, facultando-lhe depositá-la em juízo, via ação
consignatória de pagamento, para prevenir responsabilidade – elidir a mora (art. 319,
CC).
OBS: Diante da recusa injustificada do credor de dar-lhe quitação, não poderá
abandonar o bem devido à sua própria sorte. Fará jus, outrossim, às despesas
efetuadas durante o tempo em que guardou e conservou a coisa.
Enunciado 18 do CJF: “a ‘quitação regular’, referida no art. 319 do novo Código
Civil, engloba a quitação dada por meios eletrônicos ou por quaisquer formas de
‘comunicação à distância’, assim entendida aquela que permite ajustar negócios
jurídicos e praticar atos jurídicos sem a presença corpórea simultânea das partes ou de
seus representantes”.

Essa prova é que irá demonstrar que está desvinculado da relação jurídica
obrigacional; é o direito ao instrumento da quitação. O artigo 320 elenca os requisitos
da quitação, a qual sempre poderá ser dada por instrumento particular:
a) o valor e a espécie da dívida quitada;
b) o nome do devedor ou de quem por este pagou (representante, sucessor ou
terceiro);
c) o tempo do pagamento (dia, mês, e, se quiserem, hora);
d) o lugar do pagamento;
e) a assinatura do credor ou de representante seu.

Caso o devedor, por inexperiência ou ignorância, não exija a quitação de forma


regular, preterindo os requisitos legais acima mencionados. Nesse caso, o parágrafo
único do art. 320 do CC/2002 prevê a possibilidade de se admitir provado o pagamento,
se“de seus termos ou das circunstâncias resultar haver sido paga a dívida”.

No mesmo diapasão, o art. 416 do CPC/2015 dispõe: "a nota escrita pelo credor
em qualquer parte do documento representativo de obrigação, ainda que não
assinada, faz prova em benefício do devedor".
Exemplo: Boleto bancário autenticado pela instituição financeira ou depósito
bancário (TED ou DOC) realizado pela internet.

Questão - PROC/MUN/SP/2008/FCC - José vendeu um imóvel para Pedro, no valor de


R$ 120.000,00, cujo pagamento se fará em doze prestações mensais, sendo a escritura
pública registrada no Serviço de Registro de Imóveis. Neste caso, a:
a) resilição bilateral e a quitação necessariamente terão de dar-se por escritura
pública.
b) resilição bilateral terá de dar-se por escritura pública, mas a quitação pode ser
dada por instrumento particular.
c) resilição bilateral e a quitação poderão dar-se por instrumento particular.
d) resilição bilateral é vedada se o contrato estiver sujeito à cláusula de
irretratabilidade.
e) quitação da última parcela firmará presunção absoluta do pagamento das
anteriores.

Gabarito: B

Art. 321. “Nos débitos, cuja quitação consista na devolução do título, perdido
este, poderá o devedor exigir, retendo o pagamento, declaração do credor que inutilize
o título desaparecido.”
Ex: Caio é devedor de Tício, por força de uma cambial (nota promissória),
emitida em benefício deste último. No dia do vencimento, o credor alega haver perdido
o título de crédito. Em tal hipótese, impõe-se ao devedor, no ato do pagamento, exigir
uma declaração, datada e assinada (preferencialmente com firma reconhecida), pelo
próprio credor, no sentido de que reconhecia a inutilidade do título extraviado, e que
estava quitando a dívida contraída.

Há hipóteses, entretanto, nas quais há a PRESUNÇÃO RELATIVA do Pagamento:

 Nas prestações de trato sucessivo, o pagamento da última prestação


presume o pagamento das demais:
Artigo 322. Quando o pagamento for em quotas periódicas, a quitação da
última estabelece, até prova em contrário, a presunção de estarem solvidas
as anteriores.
OBS: Assim, qualquer relação de trato sucessivo ou em pagamento
parcelado, desde que exarado o recibo após cada cota, deverá fazer menção
ao status da cota anterior sob pena de presunção de que a mesma se encontra
solvida. Trata-se de típico exercício da autonomia privada, com o objetivo de
evitar a incidência do art. 322 do CC. Segundo o STJ/ REsp 70.170-SP, é
possível inserir esta ressalva no próprio recibo de quitação.
EXCEÇÃO 1: Cota. Condomínio. Presunção. Quitação.1. "As cotas
condominiais são imprescindíveis à manutenção do condomínio, que
sobrevive da contribuição de todos em benefício da propriedade comum que
usufruem e representam os gastos efetuados mês a mês, de sorte que gozam
de autonomia umas das outras, não prevalecendo a presunção contida no
art. 322 do CC/2002 (correspondente ao art. 943 do CC/1916), de que a mais
antiga parcela estaria paga se as subsequentes o estiverem". EREsp 712.106,
rei. Min. JOAO Noronha9.12.2009. (Info 419, 2010)
EXCEÇÃO 2: Não há esse tipo de presunção quando for feito o pagamento
por boletos bancários, já que nesse caso o credor recebe pelo banco e este
não controla se houve ou não o cumprimento das obrigações anteriores.

 Quitação do capital, sem reserva de juros:


Artigo 323. Sendo a quitação do capital sem reserva dos juros, estes
presumem-se pagos.
OBS: Isto porque o acessório segue a sorte do principal (gravitação jurídica).

Questão - ADV/PETROBRAS/2007/CESPE - Acerca do direito das obrigações,


julgue o item a seguir.
O credor, ao emitir recibo, dando plena, geral e irrevogável quitação do valor
devido, renuncia ao direito de receber os encargos decorrentes da mora.
Assim, comprovado o pagamento, por meio do recibo de quitação referente
ao capital, sem qualquer ressalva quanto aos juros, presume-se extinto o
débito e exonera-se o devedor da obrigação.
Gabarito: C

 Entrega do título, que já estava previsto no CC/16, e consiste na


presunção inferida pela posse do devedor do título:
Artigo 324. A entrega do título ao devedor firma a presunção do pagamento.
Parágrafo único. Ficará sem efeito a quitação assim operada se o credor
provar, em 60 (sessenta) dias, a falta do pagamento.

Pelo princípio da aplicabilidade - norteador do CC/2002, o credor poderá


investir contra o devedor mediante ação declaratória ou simples justificação
avulsa, dentro do prazo decadencial de sessenta dias, cujo termo inicial
conta-se do dia imediatamente posterior ao do vencimento,
OBS: O prazo em destaque é decadencial, como já teve a oportunidade de
afirmar o STJ no REsp. 236.005-SP.
OBS: O prazo decadencial de 60 dias tem sido interpretado como incidente
nas hipóteses nas quais o credor entrega voluntariamente ao devedor o
título, mas se o credor for desapossado do título, não há como ser aplicado o
prazo em questão.
Questão - OAB/PB/2008/VUNESP - O pagamento:
a) efetuar-se-á, em regra, no domicílio do credor, salvo se as partes
convencionarem diversamente.
b) presume-se realizado quando o título é entregue ao devedor.
c) realizado por prestação diversa da que é devida a credor gera a obrigação
de recebimento, se mais valiosa.
d) é inválido, ainda que feito de boa-fé a credor putativo.
Gabarito: B

Atenção!
No que se refere à última hipótese de presunção, surge uma dúvida se
confrontada com o disposto no artigo 386 do CC, o qual prevê que “a devolução
voluntária do título da obrigação, quando por escrito particular, prova desoneração do
devedor e seus coobrigados, se o credor for capaz de alienar, e o devedor capaz de
adquirir”.
Haveria, então, na hipótese de entrega de títulos, pagamento direto ou
remissão de dívidas? Na verdade, a doutrina majoritária entende que a presunção de
pagamento só ocorre em se tratando de títulos de crédito, ocorrendo a remissão de
dívida nas hipóteses de entrega de documento que consubstancia a dívida, mas que
não seja título de crédito (escrito particular – instrumento particular de confissão de
dívida, por exemplo).

Presumem-se a cargo do devedor as despesas com o pagamento e a quitação;


se ocorrer aumento por fato do credor, suportará este a despesa acrescida. (art. 325)
OBS: Nada impede que outra coisa seja ajustada pelas partes. A norma é
dispositiva ou supletiva, agindo no silêncio do pacto.

Questão - PROC/TCM/RJ/2008/FGV) As despesas com o pagamento são:


a) do credor, que tem interesse em receber.
b) do devedor, que tem a obrigação de pagar.
c) do credor e do devedor, devendo ser repartidas por igual.
d) do devedor, exceto se o contrário tiver sido estipulado no contrato.
e) do credor, exceto se o contrário foi firmado no ajuste.
Gabarito: C

De acordo com art. 326, privilegiam-se os usos e costumes do local, medida


das mais salutares para preservar a boa-fé dos contratantes, que, em regra, se valem
dos parâmetros que habitualmente utilizam no seu dia a dia. Ex.: Em alguns lugares se
utiliza alqueire e outros tarefas como unidade de medida, sendo que o valor de cada
unidade varia de acordo com os Estados Membros.

Art. 326 - Se “o pagamento se houver de fazer por medida, ou peso, entender-


se-á, no silêncio das partes, que aceitaram os do lugar da execução”.

OBS: Lugar da execução significa o lugar onde deverá ser cumprida a


obrigação.

3.2. Do lugar do pagamento – Arts. 327 a 330

Regra geral, o lugar do pagamento é o domicílio do devedor (dívida quérable


ou quesível), salvo se o instrumento negocial, a natureza da obrigação ou a lei
impuserem regra em contrário.
Quando o local de cumprimento for o domicílio do credor, a obrigação é
denominada portável ou portable. Eventualmente, também recebe essa denominação
a obrigação cujo pagamento deva ocorrer no domicílio de terceiro.
Artigo 327. Efetuar-se-á o pagamento no domicílio do devedor, salvo se as partes
convencionarem diversamente, ou se o contrário resultar da lei, da natureza da
obrigação ou das circunstâncias.
Parágrafo único. Designados dois ou mais lugares, cabe ao credor escolher
entre eles.
OBS: O Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 51, veda o
estabelecimento de cláusulas abusivas contra o consumidor, não se podendo estipular
local para o pagamento em detrimento do hipossuficiente.
OBS: Tal disciplina genérica é visivelmente conciliada pela previsão do art. 46
do Código de Processo Civil de 2015, que estabelece a regra do domicílio do réu como
foro competente para ajuizamento de ações.

Questão – CESPE/MP/TCE-PB/2014 - Segundo dispõe o atual Código Civil, o


pagamento deverá ser efetuado no domicílio do credor, salvo se as partes
convencionarem de forma diversa".
Gabarito: E

Em caráter excepcional, se o pagamento consistir na tradição de um imóvel, ou


em prestações relativas ao imóvel, o pagamento será feito no lugar onde for situado o
bem, uma vez que será nesse lugar que se procederá ao registro do título de
transferência, na forma da Lei de Registros Públicos e do próprio Código Civil:
Artigo 328. Se o pagamento consistir na tradição de um imóvel, ou em prestações
relativas a imóvel, far-se-á no lugar onde situado o bem.

Permitiu o novo diploma legal, à luz dos princípios da razoabilidade, da


eticidade, da função social do contrato (CC, 113, 187, 422) e da
operatividade/efetividade, que o devedor, sem prejuízo para o credor, e havendo
motivo grave, possa efetuar o pagamento em lugar diverso do estipulado:
Artigo 329. Ocorrendo motivo grave para que se não efetue o pagamento no
lugar determinado, poderá o devedor fazê-lo em outro, sem prejuízo para o credor.
O motivo grave traçado neste artigo descreve casos como doença, calamidade
pública ou qualquer evento destrutivo.
OBS: A mora se efetiva não só no caso de pagamento intempestivo, mas também
no caso de pagamento em lugar diverso ou por outra forma, diversa daquela estipulada
na lei ou no contrato. Assim, deve o devedor, além de explicitar os motivos, arcar com
o ônus da mudança.

Artigo 330. O pagamento reiteradamente feito em outro local faz presumir


renúncia do credor relativamente ao previsto no contrato.
A relação aqui prevista é Novação objetiva tácita, uma vez que há alteração
obrigacional objetiva tácita, em respeito ao princípio da boa-fé objetiva e da eticidade,
tratando o dispositivo de dois institutos que mantêm relação direta com o mencionado
cânone:
- A supressio (verwirkung) - renúncia tácita de um direito pelo seu não exercício
com o passar dos tempos;
- A surrectio ou surreição/surgimento (erwirkung) - já que ao mesmo tempo em
que o credor perde um direito pela supressão, surge um direito para o devedor, o qual
não existia juridicamente até então, mas que decorre da efetividade social, de acordo
com os costumes.
Requisitos da supressio/surrectio:
a) omissão reiterada de um titular de direito subjetivo ou potestativo;
b) esta omissão deve despertar na outra parte a legítima expectativa de que este
direito não mais será utilizado;
c) desproporção entre o prejuízo que a parte contrária terá e o benefício do
titular do direito.

OBS: Para afastar a incidência do art. 330 do CC muitos contratantes inserem nos
pactos a denominada cláusula de permissão ou tolerância, quando afirmam,
expressamente, que qualquer conduta contrária àquilo que efetivamente está escrito
não configura renúncia tácita. Tal cláusula, porém, não vem preponderando em
situações nas quais há uma conduta reiterada em sentido contrário.
Exemplo: “Obrigação propter rem. Natureza obrigacional. Competência do lugar
do pagamento. Pagamento reiteradamente realizado no foro de Curitiba. Renúncia ao
foro previsto em convenção de condomínio. Incidência, por analogia, do art. 330 do
Código Civil. Recurso conhecido e provido” (TJPR, Agravo de Instrumento 13372580,
Curitiba, 9.ª Câmara Cível, Rel. Juiz Conv. Rafael Vieira de Vasconcellos Pedroso, j.
16.04.2015, DJPR 07.05.2015, p.216).

Questão - Juiz Substituto do TJPE/2011 - "O pagamento efetuar-se-á no local


convencionado, mas o pagamento feito reiteradamente em outro local faz presumir
renúncia do credor relativamente ao previsto no contrato".
Gabarito: C

Questão –CESPE/Juiz Federal Substituto TRF 2ª/2013 – “ A supressio configura-


se quando há a supressão, por renúncia tácita, de um direito, em virtude do seu não
exercido. A surrectio, por sua vez, ocorre nos casos em que o decurso do tempo implica
o surgimento de uma posição jurídica pela regra da boa-fé.
Gabarito: C

OBS.: O contrato pode prever dois foros de eleição – um processual e um


material, relativo ao local de cumprimento da obrigação.

3.3. Do tempo do pagamento – Arts. 331 a 333

A obrigação, sob o prisma do tempo do pagamento, pode ser instantânea ou de


execução imediata (pagamento à vista), de execução diferida (pagamento deve ocorrer
de uma vez só, no futuro) ou de execução periódica (pagamento de trato sucessivo no
tempo).
Pelo art. 331 CC, se não tiver termo estabelecido, poderá a obrigação ser
exigida de plano, ou seja, em regra, a obrigação deve ser reputada instantânea.
Aplicação do Princípio da Satisfação Imediata. Mesmo assim, o credor deverá constituir
o devedor em mora e aguardar prazo razoável para o cumprimento.
O CC regulamenta o tempo de pagamento nas obrigações puras, aquelas com
data certa para o pagamento, distinguindo-as das condicionais, as quais ficarão na
dependência do implemento da condição estipulada (suspensiva), competindo ao
credor a prova de que de tal evento teve ciência o devedor. (art. 332 do CC/2002).
OBS: Não se pode olvidar que em alguns casos, mesmo que não haja previsão
de prazo para cumprimento, a obrigação demora para ser cumprida (EXEMPLO:
construção de casa). Assim, a regra de vencimento à vista pode ser afastada (PRAZO
MORAL – prazo para cumprir a obrigação). Caso as partes não acordem quanto a este
prazo, o juiz deverá fazê-lo.
Não pode o credor reclamar pagamento no último dia do prazo, pois o devedor
dispõe desse dia por inteiro.
O estabelecimento de prazo tem a presunção de que foi feito em benefício do
devedor. Desta forma, o devedor poderá fazer o pagamento antecipado, havendo,
inclusive, regra expressa no CDC, com o abatimento dos valores referentes à
antecipação.
OBS: Pagamento antecipado – juros remuneratórios – natureza jurídica de
frutos civis – direito a abatimento no preço, pois o período de privação do capital será
menor (proibição de enriquecimento sem causa).

Em caso contrário, se o prazo estipulado for feito para favorecer o credor, não
poderá o devedor pagar antecipadamente.
Ao credor assistirá o direito de cobrar a dívida antes de vencido o prazo
estipulado no contrato ou legalmente estabelecido (numerus clausus) (art. 333, CC):
a) no caso de falência do devedor, ou de concurso de credores; (NÃO depende
de intimação/notificação do devedor)

b) se os bens hipotecados ou empenhados forem penhorados em execução por


outro credor; (NÃO depende de intimação/notificação do devedor)

c) se tornarem insuficientes as garantias do débito e o devedor se negar a


reforçá-las. (depende de intimação/notificação do devedor)
Registre-se que, nos casos citados, se houver, no débito, solidariedade passiva,
não se reputará vencido quanto aos outros devedores solventes.

Questão - Juiz Substituto do TJDFT/2011 - Pode ser cobrada a dívida antes de


vencido o prazo, se cessarem, ou se se tornarem insuficientes, as garantias do débito,
fidejussórias ou reais".
Gabarito: C