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LOGOS

Identidade política e discurso técnico:


o mito de Prometeu entre
Protágoras e Platão
Paulo Pinheiro*

RESUMO
O homem, ao se apropriar da técnica doada
por Prometeu, cria a pólis e a arte política.
Se a política pode ser entendida como uma
D izemos com freqüência que o
destino comum dos mitos é o
de se alterar. Nenhum deles
em especial, como nos esclarece Gernet e
Boulanger (1970), conseguiu se preservar
matéria que não pode constituir o objeto
de uma simples aprendizagem técnica,
de uma arte portanto. A seu modo, e
contrariamente ao que pensa Sócrates,
Protágoras considera a excelência política
téc­nica de domínio da arte da guerra e da até os nossos dias mantendo sua forma como o resultado de um ensinamento
adminis­tra­ção da cidade, na versão do mito,
de Protá­goras, para ascender ao nível político
primeira. O mesmo ocorre com o mito de regular, capaz de nos voltar para a via de
é preciso o discurso. O artigo mostra que o Prometeu descrito por Protágoras, e do uma “virtude” construída tal como um
que está em jogo, na sofística de Protágoras, qual o Diálogo platônico, homônimo do discurso (um logos) ou como uma obra
é a capacidade de relação com o outro, com sofista grego, fornece-nos uma versão.1 de arte. É com a intenção marcada de
esses outros falantes ao extremo, capazes Tal como nos é descrito neste diálogo, o revelar a Sócrates a pertinência da sua
de produzir discursos e versões. “Mito de Protá­goras” nada mais é do que opinião, que o sofista toma a decisão de
Palavras-chave: técnica; sofística; Protágoras. a versão “platônico-protagórica” do roubo trazer ao diálogo a sua versão do mito
do fogo e das técnicas que acompanham de Prometeu.
SUMMARY
o uso do fogo cometido pelo titã Prome- Quanto ao uso desse mito no pensa-
The man, taking possession of the technique
granted by Prometeu, creates the polis and the teu. Os gregos costumavam se referir a mento do próprio Protágoras, convém
political art. If politics can be understood as a este roubo quando falavam sobre a cons- lembrar que estudos recentes o situam
technique of the domineering art of the war tituição da raça dos homens. O anthrôpos como uma parte dos Discursos aterra-
and of the city administration, in the mithcal era então apresentado como o fruto de dores, obra máxima da maturidade de
version of Protágoras, in order to ascend in uma ação litigiosa, de um roubo, que se Protágoras também designada pelo título
the political level it is necessary the discour- confundia com o ato mesmo de aquisição A Verdade (Alêtheia ou Kataballontes).
se. This article demonstrates that, what is in das técnicas (technai). O diálogo platô- Essa fase seria marcada por um interesse
game, in the sophistic of Protágoras, is the
nico, que ora questionamos, coloca-nos construtivo, o que certamente a distin-
capacity of the relation to the other, to these
other speakers to the extreme able to produce diante da versão prota­goreana do mito guiria da fase crítica anterior, ou seja, a
discourses and versions. de Prometeu, mas tal como a descreveu o das Antilogias. Quanto ao fato de o mito
Keywords: technique; sophistic; Protágoras. próprio Platão. Essa “narrativa” presta-se, pertencer realmente à obra de Protágo-
portanto, à dupla tarefa de nos remeter ras, parece não pairar grandes dúvidas.
RESUMEN tanto a Protágoras quanto à maneira Em sua Vidas dos sofistas, Filóstrato nos
El hombre, al apropriarse de la técnica legada propriamente platônica de se servir da revela que o próprio Platão considerava
por Prometeo, crea la pólis y el arte política.
narração de um mito. Em outras palavras: Protágoras um homem muito eloqüente
Si es posible entenderse la política como una
técnica de dominio del arte de la guerra y de la
a versão que ora investigamos deve servir e que o seu mito constituía um exemplo
administración de la ciudad, en la versión del de uma só vez ao drama dialético com- seguro de sua grandiloqüência. Mas Filós­
mito, de Protágoras, para ascender al nivel posto por Platão e ao modo de proceder trato acrescentava ainda, nessa mesma
político es necesario el discurso. El artículo do próprio sofista de Abdera. Tudo nos passagem, que o filósofo ate­niense se
muestra que lo que está puesto en juego, en leva a crer que Protágoras atuava dessa servia desse mito para revelar a falta de
la sofística de Protágoras, es la capacidad de mesma forma em suas epideixis, em suas senso de proporção que caracterizava o
relación con el otro, con eses otros hablantes performances, ou seja, servindo-se de estilo, por vezes excessivamente prolixo,
al extremo, capaces de producir discursos y
descrições míticas, tal como Platão o de- de Protá­goras. Tudo indica, enfim, que a
versiones.
Palabras-llave: técnica; sofística; Protágoras.
monstra em seu Diálogo. No Protágoras, narração de um mito constituía um re-
o mito de Prometeu entra em questão curso habitual amplamente empregado
quando se trata de sustentar o debate por Protágoras, e certamente também
com Sócrates, interlocutor por excelência, pelos demais sofistas. O mito é, aliás,
que considera a virtude (aretê) como uma algo que se presta sobremaneira a um
uso. No diálogo em questão, ele é utili-
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zado no sentido de fornecer a Sócrates a coisas se passam do mesmo modo, sem a virtude política não pode ser ensinada
“evidência” de que a “virtude política” (ou que possamos encontrar qualquer indício e que ela não pode constituir, de forma
seja, a excelência pública e privada) nada que nos permita pensar que a virtude alguma, o objeto de um ensinamento
mais é do que o efeito, ou o resultado, de possa ser ensinada. Mesmo os melhores regular. É desta forma que o mito é in-
uma produção técnica relativa ao uso do cidadãos se mostram, com freqüência, troduzido no diálogo platônico. Quanto
discurso (logos). Enquanto o mito de Pro- incapazes de transmitir aos próprios filhos à segunda objeção, Protá­goras deverá
meteu trata originalmente da aquisição a virtude que faz deles mesmos homens se servir de um discurso explicativo: (...)
das técnicas derivadas do uso do fogo, excelentes. Péri­cles educou seus filhos em “Quando você me pergunta por que
a versão protagórica deste mesmo mito todas as matérias que necessitavam de os homens virtuosos podem ensinar a
tenderia a aproximar a questão da técnica um mestre, mas quanto ao tipo de ciência seus filhos tudo aquilo cujo aprendizado
ao problema político, ou melhor, à cons- depende da atuação de um mestre e, ao
tituição política do dêmos (povo) grego. contrário, se encontram incapacitados de
Este mesmo que, segundo Protágoras, O homem de Epimeteu (frágil ensinar justamente a virtude na qual eles
é fruto de um aprendizado técnico que mesmos são excelentes, quanto a isto Só-
caracteriza o próprio uso do logos. em relação às outras espécies) crates, não o farei ouvir um mito mas um
Assim, no diálogo platônico, este mito e o homem constituído após a discurso expli­cativo”(Platão, Prot., 324d2-
traduz o esforço dispensado por Protágo- intervenção de Prometeu (filho 10). Neste artigo só trabalharemos com
ras na intenção de demonstrar a Sócrates da técnica que abre ao homem a ci- o mito, e não com o discurso expli­cativo
(o verbo empregado é epideiknumi, Prot., de Protágoras que completa a resposta
320c2) que a virtude política deve consti- vilização) encontram-se presentes que ele fornece a Sócrates.
tuir o objeto de um ensinamento regular. neste mesmo anthrôpos. Com a sua versão do mito de Prome-
O sofista espera que o seu “saber” possa teu, Protágoras pretende revelar a Sócra-
ser compreendido como uma politikê tes o teor da sua reflexão sobre a technê, e
technê (técnica política) fundamental na a maneira pela qual ele pretende ensinar
formação do cidadão virtuoso, do sujeito que lhe era própria - a virtude política - ele a politikê technê aos que o procuram.
capaz de “excelência política”. Como sabe- nem os educou com suas próprias forças Sabemos que a técnica que Protágoras
mos, Sócrates desconfia absolutamente nem os confiou a um outro. A história é ensina diz respeito sobretudo ao uso do
da pretensão de Protágoras de ensinar certamente abundante em casos seme- discurso. Para um sofista falar e discursar
virtude política aos seus contemporâ- lhantes ao de Péricles, onde um homem equivale a “fazer obra política”. Ensinar a
neos. Ele desconfia de a capacidade do de valor não conseguiu tornar virtuoso falar e a produzir discurso diz imediata-
sofista desenvolver uma técnica capaz nem os seus próximos nem mesmo seus mente respeito à formação política desses
de formar homens virtuosos tanto no próprios filhos. cidadãos livres, tal como o jovem Hipó-
domínio público, quanto na vida privada. Em linhas gerais, é desta forma que crates que vem bater à porta de Sócrates,
Segundo Sócrates, a formação do agathos Sócrates justifica sua recusa em acreditar em plena madrugada, no afã de revelar o
politês (o bom cidadão) não constitui de na virtude política como algo passível seu interesse em aprender com o sofista
modo algum o objeto de uma técnica. Os de ser ensinado. Ele espera, no entanto, de Abdera, Protágoras, recém-chegado
argumentos suscitados são bem simples. que Protágoras possa lhe fornecer uma a Atenas. De fato, uma discussão sobre
Primeiramente, Sócrates considera que demonstração capaz de convencê-lo do a technê antiga é plena de dificuldades
nas assembléias, quando se trata dos contrário: “se, com efeito, você é capaz de e seria certamente ingênuo considerar
interesses gerais da cidade, qualquer um nos demonstrar de um modo ainda mais que Sócrates não se ocupa, ele também,
pode se levantar e pedir a palavra. Ao evidente que o mérito político (aretê) é de uma certa technê. Mas por enquanto
passo que, quando se trata de problemas algo que se ensina, não se prive de modo é bom nos mantermos fiéis à questão
particulares a uma técnica específica, algum, ao contrário, forneça-nos uma tal da técnica em Protágoras. No diálogo
seus contemporâneos só consideram a demonstração (epi­deixon)”.2 Protágoras platônico, ele é apresentado como o
opinião do especialista. Quando o proble- decide responder a Sócrates de dois mestre de uma technê capaz de tornar
ma é a construção de navios só ouvirão o modos complementares: primeiro, se os que a praticam “hábeis a falar” (poien
construtor de navios e não o ferreiro ou servindo da narração de um mito (que legein), ou seja, competentes na arte do
o médico. De fato, uma vez reunidos em ora analisamos); depois, com um discurso discurso político, discurso fundado sob
assembléias, como nos permite pensar explicativo.3 À primeira objeção colocada o problema das virtudes (da justiça, da
Sócrates, os homens perseguirão como por Sócrates, Protágoras responderá coragem, da piedade etc.).
louco todo aquele que, sem ser armador, com a sua re-descrição do mito de Pro- Este “aprendizado” que diz respeito
pedir a palavra para falar da construção meteu, que constitui para ele a opção à virtude não pode, segundo o sofista,
de navios. Uma tal perseguição não terá mais agradável (chariesteron). Trata-se ignorar uma técnica e, para ser ainda
lugar quando for a hora de falar dos as- daquelas questões que dizem respeito mais preciso, uma técnica absolutamente
suntos gerais da cidade. Nessas questões, às habilidades específicas, que podem diversa ao tipo de conhecimento (epis-
que dizem respeito à virtude e ao bem portanto ser ensinadas e sobre as quais, têmê) cuja necessidade Platão procura
comum da cidade, todos os homens (ou na Assembléia, só se ouve a opinião dos implantar na mente dos seus contem-
todos os que desfrutam do direito de especialistas, ao contrários da matéria porâneos. Contrariamente à epistêmê
cidadania) têm igualmente direito à pa- política. Quando se trata de questões que platônica, a técnica de Protágoras será
lavra. Além disso, como segunda objeção, dizem respeito à virtude, qualquer um estabelecida numa relação implícita com
Sócrates observa que na vida privada as deve ser ouvido; prova, para Sócrates, que as “disposições naturais”, compreendendo
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por “disposições naturais” esse fundo im- medida de todas as coisas. Assim, em Pro- autor a outro. De fato, a leitura de um mito
preciso sobre o qual se deve operar essa tágoras, não existe criatura humana sem se compõe desta espécie de compilação
modalidade de reversão de valores (de técnica, nem objeto primeiro que seja de versões. Hesíodo, em sua Teogonia,
potencialidades) que o sofista se crê na dado independentemente de qualquer nos abre certamente a via. Sabemos, no
condição de efetuar. Não se trata de um técnica. É preciso guardar em mente essa entanto, que as versões divergem entre
saber demonstrativo no sentido lógico e espécie de “convivialidade” esta­belecida si e que terminam assim por nos remeter,
matemático do termo, mas de um méto- no pensamento de Protágoras entre o que para empregar uma imagem, a um labi-
do que diz respeito à reversão de valores é dado à relatividade (os panta chrêmata) rinto tão complexo que mesmo Dédalo
extraídos do comportamento manifesto e às técnicas, para que possamos, poste- - o arquiteto do labirinto de Mimos onde
dos homens. Diz-se que um homem é, riormente, nos referir a essa modalidade Teseu enfrentou o Minotauro - teria di-
naturalmente mais ou menos dotado a de arte política que Protágoras pretende ficuldade de encontrar a saída. Por isso
agir de uma tal forma ou de outra. Ora, a ensinar àqueles que o procuram. mesmo, o melhor a fazer é tentar reduzir
technê é justamente aquilo que permite Mas antes de nos determos nas ques- a nossa questão ao problema descrito por
produzir uma modificação na apreciação tões examinadas por Protágoras em sua Platão, enquanto o conhecimento dessas
das coisas em relação às quais o homem, versão do mito de Prometeu, deveríamos diversas versões funciona como subsí-
segundo nos informa a sentença máxima procurar saber um pouco mais sobre o dio permitindo explicitar, ainda mais, o
de Protá­goras, “se toma como medida”. próprio mito. As versões são numerosas. que já está em questão na reconstrução
A técnica ensinada pelo sofista acaba De Hesíodo a Heródoto e a Platão, pas- platônica.
influindo - predispondo ou indispondo sando por Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e De fato, na história recontada por
- na apreensão particular e relativa que o próprio Protágoras, para citar apenas Protágoras, ao contrário do que ocorre
o homem chega a formar de “todas as os autores antigos de maior renome, em Hesíodo, nada é dito sobre a Mulher
coisas”. A technê ensinada por Protágoras esta narrativa mítica não parou de susci- (Pandora), sorte de presente-armadilha
opera sobre essas “percepções relativas”, tar inúmeras versões. A história do Titã, dado por Zeus aos homens; obra, aliás,
estas mesmas que constituem, aos olhos defensor da raça dos mortais oposta aos confeccionada com a ajuda de todos
de Sócrates, o domínio do “mais ou me- a-logoi, muda consideravelmente de um os deuses que trabalhavam ao lado do
nos”, do “impreciso por natureza”, sobre
o qual não se aplica nem “exata medida”
(absoluta e não relativa) nem cálculo pre-
ciso. Tal técnica procurada por Protá­goras
se aplica, certamente, a um outro objeto e
se situa num plano diverso ao da ciência
procurada por Platão que, como sabemos,
procura um “ponto de partida” menos
relativo e menos instável.
Podemos dizer que essa técnica se
aplica a um “objeto”, mas apenas na medi-
da em que notamos que a “arte” ensinada
por Protágoras influencia e co-determina
a apreensão relativa que temos das coi-
sas. O que dizemos portanto é que essa
apreensão relativa não se dá separada
do uso das técnicas. O homem é para
Protágoras uma criatura constituída a
partir de uma técnica que se mistura com
sua própria natureza. Assim, o homem
de Epimeteu (correlato de um homem
em estado bruto, frágil em relação às
outras espécies) e o homem constituído
após a intervenção de Prometeu (filho da
técnica, das artes e da malícia que abre
ao homem a civilização) encontram-se
presentes neste mesmo anthrôpos. O
homem é simultaneamente constituído
tanto pelo esquecimento de Epimeteu
- que faz do homem uma das mais frágeis
criaturas - quanto pela malícia de Prome-
teu, sua pré-vidência - que faz da raça dos
anthrôpoi a mais astuciosa entre todas.
Essas duas vertentes consti­tutivas do
anthrôpos determinam a compreensão
que Protágoras tem do homem enquanto
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novo soberano do Olimpo. Por sua vez notar que Protágoras, em sua descrição, e o mais jovem dos filhos de Cronos, Zeus.
em Hesíodo nada é dito, ao menos no não se refere a qualquer castigo imposto No mito descrito no Protágoras lemos
âmbito da Teogonia, a respeito de aidôs por Zeus a Prometeu. Tudo se passa como unicamente que Prometeu reagiu contra
e dikê, os dois dons, ou as duas virtudes, se os dois deuses estivessem dispostos a a insuficiência de seu irmão Epimeteu
fornecidas por Zeus aos homens com o fazer uso unicamente dos recursos pro- - considerado um deus pouco esperto
objetivo de tornar possível a sociabili- vindos da astúcia. A violência cometida (ou panu ti sophos) - em dotar a raça dos
dade necessária à constituição da polis. por Zeus contra Prometeu – que o fixa humanos das capacidades necessárias à
Será preciso esperar os Trabalhos e Dias numa pedra onde o visita o abutre que sua subsistência. Epimeteu forneceu to-
para que possamos ler, em Hesíodo, que come o fígado que se reconstrói durante das as potências aos alogoi (tas dynameis
na condição dos mortais se abre uma via a noite – parece não entrar em questão eis ta aloga), esquecendo desta facção
prodigiosa capaz de elevar os homens aci- na versão protagoreana do mito. Trata-se de mortais designada pelo nome de an-
ma dos animais, aquela na qual o homem de uma “batalha” plena de finesses, de thrôpos. Mas o que são os homens neste
se põe a trabalhar e a praticar a “justiça”. delicadezas ambíguas, na qual os deuses período do qual nos fala o mito de Pro-
Com efeito, se nos ativermos unicamente oponentes arriscam cair sob o efeito de tágoras? Certamente não grande coisa; o
ao mito descrito por Protágoras, não sa- um presente “equívoco”, pleno de um resultado de uma experiência dos deuses,
beremos grande coisa sobre os motivos duplo sentido que permanece oculto à uma raça de mortais onde encontramos
que determinaram o conflito - espécie primeira vista. Eis um exemplo do que tanto os homens quantos os alogoi (sem
de batalha de artifícios - estabelecido podemos aprender de um modo deta- discursos), raça constituída no interior
entre o deus do Olimpo e o Titã, filho dos lhado em outras versões desse mesmo da terra com a mistura da terra e do fogo
altos pensamentos da sábia deusa Têmis mito descrito por Protágoras no diálogo e de todas as substâncias que podem
- segundo Ésquilo4 - ou da bela Oceânida, platônico. Desta forma, podemos reunir se combinar com o fogo e a terra (Prot.,
de belos tornozelos, Clímene - segundo a ao mito recontado por Protágoras esse 320d2). No mito reconstruído por Pro-
descrição do próprio Hesíodo.5 detalhe de extrema importância e que tágoras, Prometeu é apresentado como
Se quisermos nos informar sobre não foi suficientemente explicitado na o deus protetor da raça dos homens,
os motivos primeiros desta batalha de versão platônica, a saber: que se trata ou seja, de uma raça que surge desde o
artimanhas, melhor seria procurar suas de um duelo de malícias travado entre início na oposição/complementaridade
causas em Ésquilo, no seu Prometeu os deuses mais astuciosos do panteão face aos alogoi. O que é o homem afinal?
acorrentado, do que em Platão, em seu grego. Que se trata, enfim, de um duelo Um mortal que não se quer a-logos, mas
Protágoras. Nesta tragédia, aprendemos de artifícios no qual o armamento habitual cujo modo de existência é tão temporal
que o filho de Têmis se posicionou ao não era outro além do presente-armadilha, quanto os dos seus companheiros “sem
lado de Zeus após ter seus métodos de o dolos; e que na mitologia dos gregos a discurso”. Quando levamos em conta o
luta recusados pelos Titãs, que queriam raça dos anthrôpoi advém desta batalha, mito, tal como nos é descrito por Pro-
empregar, na luta contra Zeus, unica- provavelmente a mais “astuciosa”, que tágoras, observamos que o fato de ser
mente a violência e a força, desdenhando teve lugar entre os deuses. Nessa “bata- anthrôpos não diferencia tanto esta cria-
a modalidade de luta preconizada por lha”, a maior proeza de Prometeu - nós a tura das outras espécies que compõem a
Prometeu. O deus teria sugerido aos Titãs veremos em detalhe pois é basicamente raça dos mortais; salvo o fato de que são
que lutavam ao lado de Cronos uma nova do que trata o mito descrito por Protá- ainda mais frágeis para a sobrevida neste
modalidade de combate, mas os Titãs goras - é a de fazer da raça mais fraca a universo selvagem e devastador onde
não deram ouvido às suas palavras. Eis mais forte. Raça cuja força e potência se vivem os mortais. Vale a pena notar que,
por que Prometeu foi buscar abrigo ao deve sobretudo ao artifício, à técnica, que no mito, os irmãos Prometeu e Epimeteu
lado de Zeus; ao lado daquele que podia termina impondo um meio particular não são inteiramente responsáveis pela
acolher sem delongas sua estratégia de de se atingir um objetivo: não mais as criação da raça dos mortais. Eles são res-
luta e que era capaz de compreender garras e os dentes afiados, mas a espada ponsáveis unicamente por uma parcela e
que a batalha seria vencida sem que e a ponta aguda dos dardos que torna o devem, como sabemos, capacitar tal raça
fosse preciso recorrer à força ou à vio- braço humano, de frágil e desprovido, distribuindo as diversas poten­cialidades
lência, como lhe havia predito o deus no mais forte e aguçado entre todos os que caracterizam as diferentes espécies.
mestre dos artifícios. Seria em função da membros. Mas o que Prometeu constitui Trata-se aqui de dotar as espécies dos di-
artimanha - da astúcia, da armadilha e da não é nunca uma coisa só; seus “presen- versos atributos “naturais”, atributos que
ambigüidade - que se ganharia a batalha tes” são sempre duplos e ambíguos. Algo parecem, ao menos no que diz respeito à
contra Cronos. Mas Prometeu, tomando parece ressoar no mito que nos permite experiência grega antiga, tão minguados
lugar nas fileiras de Zeus, não cessou em pensar que a potência humana, após a quando se referem ao homem. A tarefa
momento algum de aplicar sua astúcia intervenção de Prometeu, constitui-se a dos dois deuses irmãos é a princípio a
a todos, não poupando nem mesmo o partir de sua própria fragilidade e mesmo mesma. Mas em vez de executar o seu
próprio Zeus. que Prometeu, ao criar a mais potente trabalho como os deuses haviam pres-
Zeus, por sua vez, também é consi- das raças, constitui também a mais frágil, crito, Prometeu aceita a proposta do
derado um deus astucioso. Ele sabe, tal aquela que nada seria sem seus artifícios irmão que deseja se ocupar inteiramente
como Prometeu, se servir dos artifícios. e técnicas particulares. de uma tal distribuição: “Uma vez feita a
Assim o combate entre os dois tende a De qualquer forma, o mito recons­ distribuição, a você, Prometeu, cabe veri-
ser longo, uma batalha entre deuses que tituído por Protágoras não nos permite ficar o meu trabalho”.6 A Epimeteu a fun-
se situam num mesmo lado e fazendo uso estabelecer os motivos desta guerra de ção de distribuir entre os mortais as mais
de recursos bem semelhantes. É preciso nervos constituída entre o Titã Prometeu diversas potencialidades e a Prometeu a
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tarefa de julgar o trabalho de Epimeteu. gregos. A raça dos homens, raça de mor- no caso, do mais fraco no mais forte.
Mas é dito também, nessa mesma versão tais, se torna absolutamente dependente É apenas a partir do momento em que
do mito, que Epimeteu, não sendo um da técnica (technê); ainda que em sua recebem o fruto do roubo de Prometeu
deus muito vivaz, simplesmente não “natureza” se pronuncie continuamente que os homens se tornam capazes de
percebeu que havia distribuído todo a fragilidade expressa no esquecimento honrar os deuses e construir altares, de
o tesouro das qualidades em proveito de Epimeteu. cultivar a arte de articular sons e pala-
dos alogoi (eis ta aloga),7 esquecendo A técnica nos remete à idéia de uma vras, de construir casas, de se vestir, de
absolutamente dos anthrôpoi. Assim, aquisição que se dá por intermédio de cultivar a terra, de se defender dos ani-
Epi­meteu tornou fortes e insaciáveis um ato litigioso, um roubo. Se um tal mais selvagens e mesmo de se abrigar
os leões, mas pouco numerosos para formando pequenos agrupamentos. Se
que não destruíssem todas as outras compreendemos bem o que está sendo
espécies. Tornou frágil os coelhos que, dito é pertinente pensar que, já a partir da
no entanto, são capazes de gerar uma Para Protágoras se ascende imagem protagoreana do roubo do fogo,
prole numerosa e assim assegurar a con- à dimensão do político funda- os homens se tornam capazes de religião,
tinuidade de sua espécie. Epimeteu agiu mentalmente a partir do logos, linguagem, economia e sociedade; ainda
dessa forma, distribuindo as mais diversas que tudo permaneça num grau ainda in-
poten­cialidades, mas quase não prestou
do discurso, ou melhor, da técni- cipiente, antes mesmo de uma sociedade
atenção aos homens, que se tornaram ca do discurso que deve produ- complexa. Mas o que a versão platônica
então os mais frágeis entre todos. zir esse “homem-virtuoso”, esse do mito nos permite notar - e é possível
Tudo nos leva a crer que Prometeu cidadão que se diz justo. que nesse ponto ela se torne mais platô-
contava com a deficiência do seu irmão. nica do que propriamente pro­tagórica
É preciso lembrar também que o conflito - é que esse homem-prometeico ainda
entre Prometeu e Zeus ganhava mais e não é capaz de desenvolver as virtudes
mais expressão. Parece que o momento gesto litigioso não chega a nos conduzir necessárias à vida em comunidade; que
propício havia chegado para Prometeu, à própria origem do homem, nos leva, essa criatura provinda de um ato litigioso
que se queria o criador de uma raça ao menos, à constituição desse “homem não é capaz de ser justa, ao contrário,
nova, a meio caminho entre os animais civilizado” que interessa sobremaneira à desde que colocados juntos os homens
e os deuses. Os deuses são imortais e sofística. Ora, o que Protágoras nos diz é cometem as maiores injustiças uns contra
capazes de logos (de discurso). Os ani- que um homem civilizado, um homem os outros. O homem-prometeico, segun-
mais são mortais e incapazes de discurso. capaz de excelência política só chega a do Platão, como bem o define Barbara
Os homens serão tal como os animais, se dizer assim quando sobre ele atua uma Cassin (1995), pode ser compreendido a
mortais, e tal como os deuses, capazes de técnica. Quando é, enfim, constrangido, partir do seguinte trocadilho: “homem,
discurso. A diferença se coloca a princípio influenciado ou atraído por uma técnica cordeiro diante do lobo, mas lobo do pró-
entre os anthrôpoi e os alogoi, como se já que lhe garante uma modalidade de prio homem”. Em outras palavras, homem
houvesse, nessa passagem, a intenção de prática produtiva (poiética). Através vítima entre as bestas ferozes, algoz do
distinguir os homens, como criaturas que de Protágoras sabemos que, embora o próprio homem. Enfim, Sócrates tenta se
são capazes de desenvolver uma técnica, homem epi­meteico exista sem qualquer convencer de que a técnica não é o bas-
e os outros mortais (as demais espécies dimensão política, não existe de fato ne- tante para que os homens possam estar
mortais) que se diferenciam por outras nhum homem-político que nada deva à politicamente reunidos. Essa é a grande
razões e não em função da técnica e do esfera técnica do seu discurso. Assim, não questão que separa definitivamente o
logos. Dizemos apenas que no processo é tanto o homem-político que se encon- pensamento socrático da reflexão sobre
de diferenciação que ocorre entre os tra limitado pela técnica; é a técnica que a técnica desenvolvida pelo sofista ab-
mortais, os homens se separam das outras constitui para o anthrôpos a dimensão do deritano.
espécies em função dessa suscetibilidade, politikos. Mas não devemos confundir a A técnica não é para o homem nada
ou aptidão, para a técnica que, como técnica, obviamente no sentido grego de além do que o butim de um roubo, me-
nos revela o mito, só se manifesta após technê, com o próprio homem. Afinal, um lhor ainda, do roubo de uma propriedade
a ação litigiosa (o roubo) cometida por homem pode ser mais ou menos apto ao ou de uma capacidade que pertencia
Prometeu. Antes de um tal roubo, incapa- exercício de uma determinada técnica e anteriormente aos deuses. Um artifício
zes portanto de se servirem das técnicas não poderíamos, mesmo, deixar de per- no entanto que permite lidar com a “fra-
necessárias à sua própria subsistência, a ceber que alguns flautistas que jamais gilidade” - mas não eliminá-la - legada aos
raça dos homens, como faz questão de aprenderam a técnica tocam melhor do homens em função do esquecimento de
nos informar Protágoras, estava destina- que muitos estudiosos que se esmeram Epimeteu. Assim, de Hefesto e Atenas,
da ao desaparecimento gradativo ou ao durante anos. Enfim, um mínimo de realis- Prometeu roubou o fogo e as técnicas
extermínio puro e simples, ditado pela mo nos permite notar que são justamente ligadas ao uso do fogo (Prot., 321d), estas
sua inferioridade face às outras espécies, os melhores, os que mais se esforçam mesmas artes que são insuficientes, na
por assim dizer, “não esquecidas” por em aprimorar a técnica que, via de regra, versão platônico-protagórica do mito de
Epimeteu. Graças ao roubo de Prometeu, inventam e estabelecem novos procedi- Prometeu, para assegurar ao homem a
a frágil raça humana transformou-se na mentos técnicos. Como vimos, a technê é possibilidade de ascender ao nível do po-
mais forte entre todas. Eis aí a reversão um determinado procedimento que está lítico. Para Platão os homens, mesmo após
do mais fraco no mais forte que atesta o em jogo quando se trata de ensinar algo a o roubo cometido por Prometeu, continu-
teor da discussão sobre a technê entre os alguém. A technê promove uma reversão, am incapazes de exercer a arte política,
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implicada tanto na arte da guerra (neces- a perspectiva protagoreana, de tal forma ambíguo que os deuses, liderados pelo
sária à defesa da comunidade) quanto na que fica praticamente impossível não próprio Zeus, puderam fabricar: Pandora,
administração da cidade. E Platão nos diz colocar sob suspeita a versão platônica a mulher. Pandora, na versão de Ésquilo,
isto, através de um optativo, tempo verbal do mito de Protágoras. Exatamente como aidôs e dikê na versão protagórico-platô-
grego utilizado, entre outros usos, na se tivéssemos a obrigação de levar em nica. Normalmente se traduz aidôs e dikê
transmissão de uma situação hipotética, conta a versão de A. Aristides, por justiça e pudor, o que não é de todo
potencial ou apenas desejada: “Quando no séc. II d.C, que tenta restituir ao mito incorreto, mas que termina ocultando o
os homens se reuniam” (Prot., 322b7), ou de Protágoras a sua dimensão sofística ou uso, provavelmente mais próprio à sofís­
seja, no sentido hipotético expresso em retórica,9 veiculando o mito ao problema tica, desses dois termos que admitem
“se os homens estivessem reunidos” ou da técnica, tomada como atividade que um emprego certamente mais amplo e
“na hipótese dos homens se reunirem”. permite constituir o político como “arte- menos determinado do que a noção de
O fato é que essa frase se completa com fato”, como produto de uma dimensão dikaiosynê, substituto possível para dikê
um imperfeito ativo: quando - hipotetica- técnica, ou como um efeito da própria no vocabulário socrático-platônico. Pois
mente falando - se reuniam, “cometiam” condição dos homens que se tornam se compreendemos por dikaiosynê “a
injustiças uns contra os outros. Assim, capazes de raciocinar diante do fogo, Justiça”, o mesmo não é possível com dikê,
por conta da falta de uma “arte política” ou seja, de se servirem das técnicas. E que nos permite pensar, de preferência, à
- versando sobre as virtudes necessárias à isso sem que seja necessário apelar para regra, o uso ou o procedimento; mais
cidadania - os homens cometiam injusti- uma atribuição moral extratécnica como próximo portanto de uma norma pública
ças entre eles todas as vezes que se agru- o querem Sócrates e Platão. de conduta ou de uma conduta reque-
pavam no afã de assegurar a proteção Afinal, como deixar de admitir que rida em público. De igual forma, aidôs
contra seus inimigos. É preciso guardar para Protágoras, como de um modo geral significa, primeiramente, o respeito pela
em mente o fato de que se trata aqui de para os sofista dessa primeira geração, opinião pública, espécie de auto-estima
uma narração mítica; em outras palavras, se ascende à dimensão do político - à social provocada pela consideração face
de uma situação possível ou meramente dimensão da virtude política - sobretudo à opinião do outro, nada que nos leve à
suposta. Não se trata portanto de uma e fundamentalmente a partir do logos, noção de “o pudor”; noção que, diga-se
tentativa de reconstituição histórica, mas do discurso, melhor ainda: da técnica do de passagem, um grego pré-socrático
unicamente da ocasião de se contar “uma discurso que, tal como uma arte, deve mal chega a captar quando formulada por
estória”, um mito. produzir esse “homem-virtuoso” , esse Sócrates. Tanto em dikê quanto em aidôs,
Tal mito nos remete, com efeito, a cidadão que se “diz justo”, que se acha em o que está em questão não é de forma
uma situação hipotética, mesmo porque condição de se “dizer justo” e de confron- alguma um sentimento de obrigação
essa injustiça, que os homens cometem tar sua idéia de justiça com a dos demais moral, cuja transgressão provocaria um
quando estão reunidos - ao menos como homens. O que termina por designar uma encargo de consciência, mas unicamente
Platão nos quer fazer acreditar - era come- certa fragilidade do discurso que parece o sentimento de respeito e expectativa
tida após o roubo de Prometeu. O que é, livre para inventar ao seu próprio prazer diante do outro. Dikê e aidôs podem ser
decerto, intrigante. Afinal, o roubo de Pro- - e tanto o pior quanto o melhor -, mas pensados a partir da própria noção de te-
meteu já havia dotado a raça dos anthô- que designa também o extremo vigor chnê, isto é, como noções que derivam do
poi da capacidade de adorar os deuses, do discurso que parece elaborar esse “in- contato entre os homens que se viabilizou
de praticar a agricultura, de confeccionar teresse-curioso” entre as partes capazes em função do próprio uso das técnicas.
vestimentas e mesmo de possuir um de constituir uma homonoia (um acordo Mas o que sabemos é que, na recom-
sistema estruturado de linguagem. Ora, de pensamento). posição platônica, o homem provindo de
esses homens não eram como os outros Retornemos mais uma vez ao mito Prometeu não era ainda capaz de produzir
mortais, designados pelo título geral descrito pelo Protágoras platônico. Após a polis, visto que a polis, a cidade, não
de alogoi. Eles eram capazes de formar a intervenção litigiosa de Prometeu em pode existir antes que o homem possa
uma sociedade; pois um homem, via de favor dos homens, o próprio Zeus teria ascender à dimensão do político. Zeus
regra, não fala sem se referir a alguém, também intervindo, tornando a raça então se encarrega de enviar Hermes com
ou sequer constrói abrigos onde habite ainda mais forte. Zeus teria fornecido aos o objetivo de distribuir universalmente
solitariamente. Desde a intervenção de homens as duas virtudes necessárias à entre os homens os dons morais (aidôs
Prometeu, imagem para nós do acesso vida em comunidade: dikê, o sentimento e dikê) necessários para que o homem
humano à dimensão técnica, os homens de justiça, e aidôs, o sentimento de pu- possa ascender à dimensão do político.
passam a se reunir sob a égide de uma dor. O deus chefe do Olimpo teria assim E, nesse caso, os dons constituem algo
nova perspectiva aberta pela técnica: a tomado a vez sobre Prometeu, tornando- de totalmente distinto da capacidade
política. O que causa um certo espanto se, ele mesmo, o benfeitor da raça dos técnica, fruto da intervenção de Prometeu
é o fato, sublinhado por Platão,8 de que anthrôpoi. De qualquer forma, sabemos a favor dos homens. Mas como vimos
tais homens não eram ainda capazes de que a versão prota­górico-platônica não é anteriormente, aidôs e dikê são “senti-
“virtude política” e, por isso mesmo, não a única. Em Ésquilo, por exemplo, no seu mentos” que designam muito mais uma
conseguiam “permanecer juntos”, ao me- Prometeu acorrentado, Zeus pune tanto modalidade de relação com o externo,
nos sem praticar injustiças, um em relação Prometeu quanto os homens. O primeiro ou com o outro, do que propriamente
ao outro. O que é dito, em bom idioma é fixado numa rocha tendo o fígado, que um sentimento de interioridade, de obri-
platônico, é que não advém da técnica se recompõe continuamente, devorado gação moral do sujeito consigo mesmo
qualquer capacitação política do ente por um abutre que o visita todas os dias. e independente de uma opinião alheia.
humano. Isso parece ferir sobremaneira Os homens, recebem o presente mais É possível pensar que para um sofista a
LOGOS

dimensão do político, do homem capaz entre partes distintas dispostas a falar bem e do mal. Enquanto Sócrates supõe
de virtude política, seja conquistada uni- de uma situação em comum. E mesmo que a virtude política não constitui o ob-
camente a partir desse logos (produzido que tal relatividade, quando supomos o jeto de uma técnica justamente porque
por um “aprendizado técnico”) que é homem político e o cidadão, não coloque delas todos falam indiscriminadamente,
dado não em função de algo em si (como o homem diante de objetos em si, mas Protágoras, ao seu modo, por intermédio
a Justiça, por exemplo), mas na atuação diante dessa técnica que, por assim dizer, do mito de Prometeu, nos impregna com
e na influência com o que é “estrangei- permite “metaforizar”, criando imagens a idéia de que é justamente porque todos
ro” ao homem, ou seja, na relação com que viabilizam o acordo entre as partes falam da virtude que ela deve ser pensa-
aquilo que é externo ao homem como, ou o desejo de adesão. da enquanto técnica, ou seja, enquanto
por exemplo, a opinião do outro, do O mito de Protágoras nos informa, atividade artística/técnica que parece se
allotrion (o estrangeiro) para empregar o assim, sobre o caráter de “artefato” que refletir sobremaneira nessa raça de mor-
termo que será utilizado por Górgias em permeia a própria constituição da raça tais dotados de aptidões para o discurso
seu Elogio de Helena. De fato, o que está (logos). Que tal “técnica”, que em primeira
em jogo em Protágoras é certamente a instância diz respeito ao discurso, possa
capacidade de ensinar a falar, a discursar conduzir a essa modalidade de “con-
e a produzir discursos que permitam ao Não nos referimos mais à senso político” no qual o homem se diz
homem ascender à dimensão do políti- técnica enquanto forma que “virtuoso” e que, mesmo assim, esse tal
co, pois o que entra em debate não é a permitiu a subsistência dos anthrô­pos continue sendo, como nos diz
relação com uma substância ou com um homens, mas como violência Protágoras, “a medida de todas as coisas”,
objeto, mas sim a relação com outros eis aí, bem diante dos nossos olhos, o tipo
homens, com esses “outros” que tomam feita ao próprio homem, que de paradoxo ao qual o mito de Protágo-
as coisas a partir de si mesmos, que re- se vê apenas como um sujeito ras parece nos remeter. Paradoxo que,
lativizam, portanto, e que terminam por limitado pela instrumentalidade sem dúvida, nos fornece o limiar de uma
constituir esse regime curioso, falante ao democracia, de uma polis e de uma idéia
extremo grau, produtor por excelência de de cidadania, que, desde os antigos so-
discursos e de versões: a democracia ou fistas, não cessa de fazer consenso entre
essa modalidade de democracia-aristo- dos anthrôpoi; que tal raça advém da alguns homens. Não cessa enfim de ser
crática com a qual alguns gregos do séc. técnica que nada mais é do que uma arte construída e de colocar a todo instante
IV a.C. sonhavam. Regimento político que que labora e realiza continuamente. Uma bem à vista a condição na qual trabalha
cogita sempre de um “a mais” e de um “a tal técnica não constitui, no entanto, nem esse homem da technê pré-socrática ou
menos”, que não justifica jamais a certeza um objeto nem uma resposta definitiva pré-platônica.
de um “objeto” e que coloca em fluxo sobre o que é o humano. Se o humano Em seu mito, Protágoras dividirá as
um discurso que é produzido; objeto depende da técnica, isso implica, de artes segundo seus modos de distribui-
de uma técnica que permite lidar com a preferência, que uma tal raça encontra ção (entre particulares e universais) e sua
relatividade, ou seja, com esse “de fora” na technê o mecanismo necessário para capacidade de ser ou não ensinada. As-
que é simultaneamente ameaçador e que o homem produza continuamente sim, no universo desvelado pelo mito de
constitutivo do sujeito-político-virtuoso- resposta, tanto a si mesmo, quanto ao Prometeu, o sofista de Abdera se revelará
democrático que a so­fística (arte política) outro. Estamos diante de um limite como o mestre de uma técnica universal
de Protágoras ajuda a constituir, e da qual constituído e não de um limite dado. Em (visto que todos os homens devem dela
o seu mito é uma imagem. outras palavras: que a produção humana participar) suscetível de ser ensinada.
Assim, a técnica política, que em é vertiginosa ou mesmo virtual, e é de Enquanto Sócrates, ao menos nesse iní-
outras palavra significa o mesmo que uma tal produção que certos conteúdos, cio de diálogo em que é apresentado o
“produzir discursos” sobre as virtudes, a princípio apenas ditos, ganham força e mito, considera a sabedoria política como
pode ser ensinada, todos podem ter expressão entre os homens, e que uma sendo o caso de um saber universal, mas
acesso, tanto os mais hábeis quanto tal arte do falar é capaz de produzir ou não passível de ensinamento. Eis aí, bem
os menos dotados. Pois tal técnica não plasmar a própria noção de virtude que diante dos nossos olhos, a questão que
constitui de modo algum um substituto “faz consenso” entre os gregos. Que isso determina essa modalidade de diálogo
para a caótica relatividade humana (sua tudo seja extremamente sutil e que uma dialético no qual Platão reconstitui o
natureza irredutível ou epimeteica), mas tal “produção” não eleve jamais o homem que poderíamos considerar como a po-
apenas uma produção requisitada, me- para além do “relativo” depõe, unicamen- lêmica e a questão que mobiliza tanto
dida produzida, artefato sofístico para a te, a favor da preferência protagoreana um quanto outro; tanto Sócrates quanto
relação do homem consigo mesmo e com face a essa virtude constituída ou pro- Protágoras; tanto o filósofo quanto o
outros. Relação que não é de todo natural duzida, e que é “verdadeira” justamente sofista. Além disso, é preciso lembrar que
e nem ao menos regida pela certeza que porque mero produto de uma arte, de se o mito faz parte dos Discursos aterra-
pode advir de um “objeto” dado à afecção, uma elaboração, de uma technê. Uma dores - que começam justamente pela
quer se trate de uma “idéia” ou de uma arte que não é nada mais do que um enunciação do homem como medida de
impressão particular. Trata-se antes de modo de relação entre homens diferen- todas as coisas - aproximar a compreen-
uma técnica discursiva que coloca os tes, aliás sempre diferentes e relativos e são do mito ao problema do relativismo,
homens em relação consigo mesmo - pois que, no entanto, forjam, a partir de suas implícito na tese do “homem-medida”,
não elimina a relatividade - e com o outro próprias relações, uma idéia de virtude: não é só recomendável mas necessário.
- pois se constitui a partir desse encontro da justiça, da coragem, da piedade, do O que, de algum modo, implica o que
LOGOS

poderíamos designar como uma das trunfo contra a “relatividade” do homem todos) produz um “efeito”, político, cuja
formas do paradoxo da sofística, e que protago­reano, medida de todas as coisas. origem Protágoras quer encontrar no
no momento enunciaremos da seguin- Ao contrário, no pensamento de Protágo- uso mesmo da technê. Protágoras insiste
te forma: como é possível que alguém ras a technê se coaduna de uma tal forma quanto ao fato de que a virtude política
se apresente simultaneamente como com o “homem-medida”, que somos advém de uma “construção”, de uma “poé-
defensor do relativismo e construtor de obrigados a pensá-la sobretudo como tica” ou de uma technê, e quanto a isso ele
valores universais? É possível, no entanto, uma atividade através da qual se produz se diferencia de Sócrates, seu interlocutor
que a simultaneidade em que operam um efeito. Efeito que atua juntamente no Pro­tágoras platônico.
essas duas propostas termine por nos com a fragilidade do homem epimeteico
abrir uma via de acesso ao pensamento (seu estado natural) e com a relatividade
da sofística antiga. Conservar a convivia- das suas experiências particulares; efeito
lidade entre paradoxo e paradigma, não de “estabilidade momentânea” ou o que
seria esta a proposta de um pensamento Barbara Cassin (1995) designa sabiamen-
pré-metafísico? O sofista é um pensador te de arrêts sur image (deter-se numa
pré-socrá­tico, pré-platônico e, como se imagem), que é o que nos resta quando
diz com freqüência, pré-metafísico. Não o relativismo e a técnica não se anulam
seria afinal este o tipo de pensamento ou entre si. Através da technê, fruto do rou-
de reflexão que imediatamente antecede bo de Prometeu, Protágoras nos fala de
- e que possivelmente vem logo após - ao uma modalidade de técnica capaz de nos
pensamento metafísico, esse que nos remeter diretamente ao mundo político,
assegura quanto a permanência de um espécie de “efeito momentâneo” que per-
ideal modular? O que é de fato libe- mite ao anthrôpos relativizar em nome
rado em nós quando o paradoxo (a coe- de um consenso e a falar, isto é, compor
xistência de duas ordens antagônicas e discursos, enquanto os outros mortais, os
não a convivência dialética de duas teses a-logoi, se devoram em nome da sobrevi-
opostas) e o paradigma (a apresentação vência. Chega-se, assim, a um critério da
de um modelo capaz de assegurar a tudo arte que nada tem a ver com a fixação de
o mais a função de mera representação) um modelo sensível ou mesmo inteligível,
ganham expressão? Uma experiência não mas que certamente tem muito a ver com
linear do tempo, talvez, ou deveríamos a modalidade de imprecisão a partir da
falar de uma descontinuidade na expec- qual a technê antiga trabalhava, ou seja,
tativa histórica do discurso, ou seria ainda se servindo dos seus “efeitos” no afã de
a ocasião de nos referirmos à insistência construir um mecanismo de ação entre
de um discurso que acena para o próprio os homens, capaz de operar junto com
discurso e não mais para aquilo que ele a relatividade das impressões e com os
mesmo designa. Eis aí algumas questões dotes e aptidões naturais de cada um. A
que interessam sobremaneira à reflexão resposta de Protágoras a Sócrates pare-
contemporânea, que se diz num certo ce-nos então óbvia. A dimensão técnica
sentido pós-metafísica, e que certamente se confunde com a dimensão política.
não interessava menos aos sofistas, esses A arte não produz apenas seus objetos,
que pensam, como costumamos dizer, de mas também uma imagem de virtude.
um modo pré-metafísico. Os homens só estão juntos a partir do
O fato é que tentamos aqui des- uso da technai. As técnicas particulares,
cobrir o sentido de technê entre os como, por exemplo, a do construtor de
gregos anteriores a Sócrates e a Platão, navios ou a arte do timoneiro, requerem
pensadores a partir dos quais a technê a ação de especialistas que, em razão
deu lugar à disciplina rígida que permite de suas artes, permitem o surgimento
a reprodução de um modelo, espécie de de aîdos e dikê. Tudo indica que esses
ciências das causas que regula o processo dois princípios políticos são constituídos
de produção. Não nos referimos mais, conforme o paradigma das técnicas espe-
como provavelmente o fez Protá­goras, à cíficas, produzindo, também, um “efeito”
técnica enquanto forma de astúcia que momentâneo de estabilidade, espécie de
permitiu a subsistência dos homens, mas estágio de consenso entre as diferenças,
unicamente à técnica como violência ou, melhor ainda, estágio em que todos
feita ao próprio homem que deve, em falam sobre o que é comum a todos; o que
função do limite da própria técnica, se só se viabiliza em função de uma técnica
ver apenas como um sujeito limitado pela do discurso, de algo que nos “ensine a fa-
instrumentalidade técnica, que impõe, lar” na expectativa de se produzir (poiein)
aliás, modelos e procedimento em que o uma imagem (eidolon) de consenso (ho-
homem se reduz a um mero reprodutor monimia). O que devemos saber é que
técnico. A técnica seria assim um grande o discurso político “universal” (comum a
LOGOS

C.C.W. Taylor (1976) fica entre to show e to proof:


“So if you can show us more clearly that excellen-
ce can be taught, please don’t grudge us your
proof, but proceed”.
3
A systematic exposition, segundo a tradução de
C.C.W. Taylor (1976).
4
Segundo nos informa Ésquilo no seu Prometeu
Acorrentado.
5
Hesíodo, Teogonia (v.507-593). Sobre essa ques-
tão, é interessante ler o verbete sobre Prometeu,
Prométhée, estabelecido por Grimal, Dictionnaire
de la Mythologie Grecque et Romaine, Paris: PUF,
1994 [1951]: “(...) Les traditions diffèrent sur le
nom de sa mère. On nomme Asia, fille d’Océan,
ou Clyménè également une Océanide.”
6
Epimetheus asked Prometheus to let him assign
the powers himself. ‘Once I have assigned them’,
he said, ‘you can inspect them’.
7
Ou os “sem palavras” (sans‑parole), como prefere
Barbara Cassin, in: ‘Le lien rhétorique”, Éthique
ou Rhétorique: Le mythe de Prota­goras, 1995,
p.218.
8
Melhor dizendo, na sua versão do que teria dito
Protágoras quando, face a Sócrates, lançou mão
da narração do mito de Prometeu.
9
Aélius Aristides, Contra Platão, Em defesa da
sofística (394-428), tradução de C.A. Behrs para
o inglês, Londres: LOEB, n.458, 1973.

Bibliografia
CASSIN, B. L’effet sophistique. Paris: Gallimard,
1995.
DHERBEY, G.R. Les Sophistes. Paris: PUF, 1985.
DUPRÉEL, E. Le Sophistes - Protagoras, Gorgias,
Prodicus, Hippias. Paris: Neu­chatel, 1980.
GERNET, L.A. Le génie grec dans la religion. Paris:
Boulanger, 1970.
GUTHRIE, W.C.K. The Sophists. Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1971.
KOFMAN, S. Nietzsche et la scène philo­sophique.
Paris: Galilée, 1986.
LAFRANCE, Y. La théorie platonicienne de la
Doxa. Montreal-Paris: Bellarmin-Les Belles
Lettres, 1981
NIETZSCHE, F. Humain, all too human - a book for
free spirits. (Menschliches, Allzu­men­schliches).
Cambridge: 1986.
TAYLOR, A. E. Plato - The man and his work. Lon-
dres-Nova Iorque: Methuen, 1986.
TAYLOR, C. C. W. Plato: Protagoras. Oxford: 1976.

* Paulo Pinheiro é Doutor em Filoso-


Notas fia pela Université Paris I /Sor­bonne,
Professor de Estética do Mestrado
1
Este artigo, em última instância, tem por objeto as
e Doutorado do Centro de Letras
idéias de Platão, que discute as posições de Protágoras, e Artes da UniRio e Professor de
que responde a Sócrates a respeito da virtude política, Estética e Comunicação do Curso
utilizando-se do mito de Prometeu. de Pós-graduação em Jornalismo
2
Platão, Prot. 320b8-c2. A tradução inglesa de Cultural da FCS/UERJ.

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