Você está na página 1de 16

A GUERRA DAS MALVINAS

UM PONTO DE VISTA ANFÍBIO*

Tradução, autorizada pelo Coman-

dante de Infantaria Marina Luis En-


de
"La
senat de Tuya, do artigo Guerra de

Ias Malvinas (Un punto de vista anji-

bio)", publicado na Revista General de

Marina, da Armada espanhola, em de-

zembro de 1983.

INTRODUÇÃO

Ler artigos sobre o conflito das

Malvinas é submergir na maioria das

vezes, na análise da eficiência dos

Harrier, nas vantagens e desvantagens

do emprego do alumínio na constru-

ção de navios de na necessi-


guerra,
mm
dade de porta-aviões, na eficácia dos
-4^ ;
mísseis e tantos outros aspectos inte-

ressantes. O conflito do Atlântico Sul


^
. xl 9
V v. esteve, em todos os seus desdobra-

mentos, impregnado de um acentua-


% do matiz anfíbio não tem sido
que
devidamente ressaltado. A crise iniciou

com o assalto anfíbio argentino à ca-

pitai do arquipélago, e seu momento


Umberto Barbosa Lima Martins
decisivo foi o desembarque britânico
Capitão-de-Mar-e-Guerra (FN) em San Carlos. Estes dois eventos bá-

sicos estão acompanhados por uma sé-

rie de outras ações menores de cará-

ter anfíbio que nos permite analisar de

várias formas este tipo de operação.

Quando iniciou a crise do Atlântico

Sul, o estado das forças anfíbias ingle-

sas era idêntico ao tem caracteri-


que
zado este tipo de Força Naval. Discuti-

da sua eficácia e, em conseqüência, ata-

cada em sua existência. Assim, em

1966, o ministro da Defesa britânico

declarou as Forças Armadas de


que
seu país nunca realizariam, no futuro,

uma operação de desembarque com

*
Artigo premiado com o Reconhecimento Literário, Prêmio Álvaro de Bazau, da
Marinha espanhola.
48 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

oposição, completando esta assertiva até EDCG e carros de combate sobre

com a de a Força Anfíbia inglesa rodas ou esteiras. Foram amplamente


que
atuaria isoladamente. Na pri- empregados os NDCC, navios-doca,
jamais
meira metade dé 1981, a Senhora That-
transatlânticos como porta-helicópteros,
clier e o secretário de Defesa reduzi- navios mercantes e de como
guerra
ram, drasticamente, os meios de super- força de desembarque. O
transporte de
fície da Royal Navy e obviamente os de fogo naval foi amplamente
apoio
meios anfíbios figuraram entre os con- empregado terrestres
com observadores
denados. A reação existente a esses se comprovar a resis-
e sobretudo pôde
planos, praticamente, salvou os Royal força-tarefa anfíbia sub-
tência de uma
Marines de dissolução e permitiu con- metida, fundeadouro, a maciços
em seu
servar algo da capacidade anfíbia da ataques aéreos.
Força Naval inglesa. Assim, mesmo
Todas as Forças Anfíbias envolvidas
longe dos tempos em que os coman-
no conflito cumpriram com êxito suas
dos estavam sempre embarcados em
missões.
NAeHa, a Força Anfíbia britânica con-

tava com um Corpo de Royal Mari- RECUPERAÇÃO ARGENTINA DAS

nes de excelente com um MALVINAS E GEÓRGIA DO SUL


qualidade,
número imprescindível de navios de

desembarque e, sobretudo, de navios de A recuperação argentina das Malvi-

ataque, helicópteros, aviação naval e nas, denominada Operação Rosário,

marinha mercante em condições de está obscurecida ações inglesas


po- pelas
tencializar a constituição de uma Força posteriores, pelo resultado do conflito

Anfíbia de vulto, apesar de todas as e pela reduzida britânica de


guarnição

previsões políticas contrárias. Os ar- 80 homens, tiveram de enfrentar.


que

gentinos dispunham de uma modesta Esquematicamente, seu desenvolvi-


Força Anfíbia e de um brilhante Cor- mento fase
foi o seguinte: de planeja-
po de Fuzileiros, cuja capacidade, ades- mento não
condicionada a que se pro-
tramento e moral ficaram demonstra- duzissem tanto da
baixas guarnição
dos ao longo de toda a campanha. britânica na
como população civil.

A respeito da Zona de Operação, se Condicionamentos de ordem


política
bem as distâncias das bases favo- foram decisivos na determinação do
que
reciam aos argentinos, o afastamento dia D: 1? de abril. Em sua concepção,

entre as ilhas, a falta de cobertas e a operação era conjunta, com o assalto


abrigos do terreno, ausência de cami- anfíbio nas proximidades de Porto
nhos dificultando o movimento, as di- Stanley visando sua ocupação e um
mensões do arquipélago, o torna- desembarque administrativo de unida-
que
vam facilmente acessível a todo tipo de de do Exército argentino.

ação oriunda do mar, impediram o de- A Força-Tarefa Anfíbia (FTA 40)


senvolvimento de uma defesa ágil e estava constituída pelos destróieres
móvel que teria sido, por certo, a úni- tipo 42 Santísima Trinidad (capitânia)
ca solução argentina com e do Hércules; as Fragatas
possibilidade Drummond
de êxito. e Granville; Submarino Santa Fe,

Naquela ocasião foram desembarca- NDCC Cabo San Antonio, Quebra-


dos vários frações, subunidades -Gelo Almirante Irizar
grupos, e o TrT Isla de

e unidades, segundo o tipo de opera- los Estados. A Força de Desembarque


cão, todos apoiados Forças Navais. era o 2? Batalhão de Infantaria do
por
Foram utilizados helicópteros de trans- Corpo de Fuzileiros Navais, com 700

porte, embarcações de desembarque homens. A Força de Apoio era cons-


de todo tipo, desde botes de borracha tituída Porta-Aviões 25 de Mayo,
pelo
DAS MALVINAS 49
\ GUERRA

destróieres, um navio-tanque e executado com o lançamento do NDCC


quatro
Cabo San Antonio dos CLAnf com in-
um rebocador.
fantaria e dos Cam Anf com artilharia
Na fase do ensaio, iniciada a 19 de
105 mm e apoio logístico.
março, a travessia de loca-
praticou-se
A operação foi concluída com um
Iidade com fuzileiros navais embarca-
breve combate em Port Stanley e ren-
dos em veículos anfíbios; foi realizado
dição da inglesa. O mau tem-
o adestramento básico anfíbio, guarnição
princi-
po impediu o desenvolvimento parale-
o movimento navio para ter-
palmente
lo da operação aérea sobre o aeropor-
ra, assim como dos elementos de apoio
to, foi ocupado pela Força de De-
necessários ao movimento, o inte- que
para
sembarque. Não foi necessário o em-
rior, de um batalhão de infantaria.
de apoio de fogo naval, embora
prego
A fase do embarque caracterizou-se
tenha sido O propósito de
planejado.
saturação da capacidade real do
pela não causar baixas inglesas foi conse-
NDCC em: carros de combate anfíbios,
guido. A operação obteve total êxito,
caminhões anfíbios e em número de
o não era previsto devido à defi-
que
homens.
ciência estrutural da Força-Tarefa An-

A fase da travessia foi realizada com fíbia, em torno de um


que girava
os incidentes próprios produzidos pela NDCC carregado com praticamente
inclemência austral acrescidos do ex- a totalidade da Força de Desembarque.

cesso de material e falta de conforto Um impacto de míssil, similar ao que


do nos dois únicos navios de sofreu a Corveta Guerrico nas
pessoal proxi-
transporte. midades das Geórgias do Sul, em um

O assalto foi noturno, com a realiza- NDCC abarrotado de homens, mate-

de uma série de operações rial, combustível e munição, poderia


ção prévias
de comandos anfíbios facilitaram acarretar o fracasso de toda a opera-
que
o desembarque basicamente cão.
principal,

Cjp PORTW* GLACIER

^ LEITH"

GBYTVIKENOvf /

GEORGIA DEL SUR ,


50 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

O desembarque de 80 comandos an- dois helicópteros. A Corveta Guerrico

fíbios, em botes de borracha, com a transportou uma companhia reforçada

missão de capturar os quartéis dos do Corpo de Fuzileiros Navais, foi


que
Royal Marines, e de mergulhadores de transferida o navio antes do
para polar
combate oriundos do Submarino Santa desembarque. No dia 3 de abril, a pe-
Fe, assegurar a de desem- força de desembarque foi heli-
para praia quena
barque, respondia ao desejo argentino transportada terra, duran-
para porém,
de minimizar a ameaça que pairava so- te o movimento, um dos helicópteros

bre seu único NDCC. O desembarque foi derrubado e o restante do movi-

noturno do grosso da tropa, em veí- mento realizado aparelho sobrevi-


pelo
culos anfíbios, completava as medidas vente. O apoio de fogo da corveta de-

de segurança. cidiu, rapidamente, o resultado do com-

O êxito principal da Força-Tarefa bate entre a guarnição inglesa e a foi-

Anfíbia argentina foi estratégico e esta ça argentina. No decorrer da opera-

afirmação baseia-se nas seguintes con- ção, a corveta foi atingida por um mis-

siderações: em 19 de março inicia a cri- sil que causou diversos danos. Essa

se motivada desembarque de tra- pequena ação serviu como prelúdio


pelo
balhadores argentinos nas Geórgias do para demonstrar a importância funda-

Sul. A 21, os britânicos enviam à ilha o mental dos helicópteros e do apoio de

Navio Endurance com um destacamen- fogo naval ao longo de toda a opera-

to de Royal Marines. A desta da- ção.


partir
ta as relações entre os dois se de- Ainda nesse combate, um navio foi
países
terioraram e a 26 e atingido um míssil lançado de ter-
progressivamente por
30 de março são destacados submari- ra, fato veio a se repetir
que quando
nos ingleses o Atlântico Sul. um míssil Exocet, também de terra,
para

Houve, um lapso de tem- atingiu um destróier britânico. Esses


portanto,

po em os ingleses refor- fatos reforçam a importância


que poderiam que

çar substancialmente, via aérea, as adquirem os reconhecimentos anterio-


por
ilhas, sobretudo tendo em conta a res sobre a localização exata das
que prin-
reduzida capacidade anfíbia argentina cipais armas de defesa em terra.

tornaria altamente vantajosa a coloca-

ção de um ou dois batalhões de Royal AÇÕES BRITÂNICAS

Marines nas Malvinas. Não o fizeram,


e isto ser devido a uma acentua- O movimento até o objetivo
pode
da falha de seu Serviço de Informações
ou o temor de este reforço em O transporte da Força-Tarefa Anfír
que

plena crise provocasse uma reação ar- bia britânica para o Atlântico Sul po-
gentina, tornando a situação ainda mais de ser classificado numa operação clás-
difícil. A aparente facilidade na destrui- sica, como a do movimento o
para
ção da de Port Stanley e a dis- objetivo, com as seguintes característi-
pista

ponibilidade de uma força an- cas especiais:


pequena
fíbia com pára-quedistas às A distância
próxima grande da zona do ob-
ilhas, contando com apoio naval do En- — 7.000 —,
jetivo milhas com ape-
durance, acarretaram a bri- nas uma base intermediária,
passividade localizada
tânica durante um relativo lapso de na Ilha de Ascensão. Essa distância
tempo. criou acentuada condicionante logísti-
A ocupação da Geórgia do Sul foi ca, mas não houve táticos,
problemas
chefiada comandante do Agrupa- já a ameaça à Força Naval inglesa
pelo que
mento Antártico a bordo do Navio Po- não se materializou ao longo da tra-
lar Bahia Paraíso, transportava vessia, tendo se efetivado somente na
que
A GUERRA DAS MALVINAS 51

zona de combate, foi em torno das Pára-Quedistas. A distribuição dessas


que
ilhas em disputa. forças navios foi realizada em
pelos
três fases distintas: a até à
Do de vista de adestramento primeira,
ponto
Ilha de Ascensão; a segunda, até à zo-
da Força-Tarefa Anfíbia, o tempo dis-
na do objetivo, e a terceira, na pró-
ponível reconstituir unidades,
permitiu
zona do objetivo.
efetuar transbordo, utilizar meios aé- pria

reos para transporte de tropa até à base


1) Até à Ilha de Ascensão
intermediária de Ascensão, coletar in-

formação e elaborar planos de acordo


A Companhia A do Comando 40 foi
com a evolução da situação.
transportada a bordo do Hermes, na

Como facilmente imaginar, Força-Tarefa que saiu da Inglaterra em


pode-se
essas circunstânicas não existem em 18 de abril. Posteriormente, embarcou

áreas marítimas menores, como é o no Transatlântico Canberra, se


quando
caso do Mediterrâneo, onde uma For- decidiu o Hermes não atuaria co-
que

ça-Tarefa Anfíbia tem sair do mo NAeHa; ele seria transformado


que por-
to organizada, adestrada e em con- transportar e lançar os Harrier.
já para
dições de executar o plano elaborado. O da brigada chegou a As-
grosso

Vejamos o de constituição certsão nos seguintes navios, escoltados


processo
e transporte da brigada desembar- pela Fragata Antelope:
que
cou em San Carlos, composta uni- — no Transatlântico Canberra,
por par-
dades táticas básicas tipo batalhão: te dos Comandos 40 e 42, assim como
Comandos 40, 42 e 45 do Royal Ma- o Terceiro Batalhão de Pára-Quedis-

rines; Segundo e Terceiro Batalhões de tas;

1 - possíveis zona» da detona trações


anfíbias britânicas.
Estação aeronaval Calderón
San Carlos ISLÃS MALVINAS
Darvin/Goose Creen
Puerto Argentino
San Salvador
Atacados NDCC Sir Calahad • Sir
Tristan.
52 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

nos NDCC Sir Galahad, Sir Lan- largou a 30 de abril, conduzindo o Co-

celot, Sir Percival e no Ro-Ro Elk, mando 45.

da Marinha Mercante, foram transpor- A 8 de maio, largou o segundo Gru-


tados unidades de apoio, a Companhia constituído NDD Fear-
po-Tarefa, pelo
de Comando da Brigada e os serviços less, com o Batalhão de Comando de
do Comando 45. Brigada Anfíbia, o NDD Intrepid, o
o NDCC Sir Geraint e os Navios Transatlântico Canberra, com os Co-

Mercantes Resource e Stromnes, com mandos 40, 42 e o Terceiro Batalhão

apoio logístico, e a Companhia Z do de Pára-Quedistas, os Ro-Ro Norland

Comando 45; e Europic Ferry, com o Segundo Ba-

o talhão de Pára-Quedistas, e o Atlantic


Destróier Antrim e o Petroleiro

Tidespring, Conveyor, com material especialmente


com a Companhia M do
aéreo.
Comando 42, que posteriormente se di-

rigiria à Geórgia do Sul. Na direção das Geórgias do Sul


par-
tiram o Destróier Antrim, o Petroleiro
A 5 de maio chegaram a Ascensão

os navios Tidespring, a Fragata Plymouth e o


anfíbios básicos: o Fearlers,
Navio Polar Endurance, com a Com-
com o Batalhão de Comando da Bri-

Intrepid, panhia M do Comando 42.


gada, o o Navio Mercante

Conveyor, transportava os Harrier, Esses Grapos-Tarefa foram estrutu-


que
helicópteros e material. Dois dias de- rados em função da missão e das ca-

chegaram os Navios Mercantes racterísticas dos navios, constituindo o


pois
Ro-Ro Norland q Europic Ferry, trans- penúltimo passo para a chegada à Zo-

Segundo Batalhão na do Objetivo Anfíbio da Força de


portando o de Pára-
-Quedistas. Desembarque,
O NDCC Sir Tristam in- já que permaneceram
corporou-se à Força vindo do Canadá. nos transportes certos aspectos adminis-
trativos seriam modificados naque-
: A Força-Tarefa Anfíbia ficou com- que
la zona.
pleta com a chegada, por via aérea,

das Companhias X e Y do Comando


45, 3) Na Zona do Objetivo Anfíbio
que embarcaram no Navio Mer-

cante Stromnes.
Foram realizados os reajustes neces-
Observando a distribuição das uni- sários se obter a
para adequada distri-
dades básicas pode-se apreciar o buição tática
que das unidades.
movimento da Força-Tarefa Anfíbia
Assim, o Comando 40 foi transferido
até Ascensão foi administrativo, sendo
do Canberra ao Fearless, e o Terceiro
que naquela base organizou-se o
para Batalhão de Pára-Quedistas também,
combate.
do Canberra o Intrepid, ficando
para

2) Zona Objetivo a Força de Desembarque distribuída da


Até à do Anfíbio
seguinte forma:

Após a saída do Grupo-Tarefa


NDD Fearless — Comando 40
Avançado com a missão de impor a
NDD Intrepid — 3° BtIPqd
Zona de Exclusão Total e de conseguir

a: necessária superioridade aérea antes Transatlântico Canberra — Coman-


do desembarque, o comando da Força- do 42
-Tarefa Anfíbia lançou o Gru-
primeiro Mercante Stromnes — Comando 42
po-Tarefa, constituído dos NDCC Sir
Ro-Ro Norlan — 2? BtIPqd
Galahad, Sir Lancelot, Sir Percival, Sir

Geraint, Ro-Ro Elk, Mercantes Strom- Esta distribuição, unidades táti-


por
nes e Resource, escoltados Fraga- cas tipo batalhão, minimizava os riscos
pelas
tas Antelope, Argonaut e Ardent, da Força de Desembarque, cujas uni-
que
A GUERRA DAS MALVINAS 5.3

dades de apoio ao combate e de ser- Operações anfíbias prévias


viços estavam distribuídas entre esses
navios, NDCC e navios mercantes. As operações anfíbias prévias reali-
O conjunto de navios reunia os re- zadas podem ser enquadradas em três
quisitos básicos para realizar um assai- fases:
to anfíbio, já que: A — Operações para a ocupação da
o NDD Fearless tinha condições Geórgia do Sul, relativamente próxima
de ser o navio de comando e controle; das Malvinas.
havia disponibilidade de um con-
B — Operações prévias de reconhe-
junto de embarcações de assalto im- cimento realizadas nas ilhas do Arqui-
prescindíveis ao desembarque de mate- pélago das Malvinas.
rial pesado, função que foi executada
C — Operações com o propósito de
pelas EDCG, que fizeram a travessia debilitar a capacidade defensiva das
transportadas nos diques dos NDD. Es-
tes meios foram complementados com tropas argentinas.
a utilização de pontões;
existiam meios necessários para A — Ocupação da Geórgia do Sul
o desembarque de material pesado:
NDCC e mercantes; Essa ação teve uma finalidade moral,
todos os navios dispunham de ao demonstrar a determinação britâni-
ca em recuperar todas as ilhas em
plataforma para helicópteros, possibi-
litando transbordos ou transporte de disputa, e outra finalidade estratégica,
ao utilizá-la como possível ponto de
pessoal e material para terra.
apoio ao ataque principal.
A utilização de navios clássicos, não
sofisticados, de pouca velocidade, com- A força encarregada dessa conquista
era constituída por um destróier, uma
plementados por navios mercantes, de-
monstra que, cm determinados casos, fragata, um navio polar e um petrolei-
não é imprescindível contar com na- ro. Esse grupo transportava e apoiava
vios de desembarque de alta tecnoló- as forças especiais, compostas por uma
companhia de Royal Marines, elemen-
gia para que uma operação anfíbia te-
nha êxito. Dois modestos NDD, lentos, tos do esquadrão especial de embarca-
NDCC, um transatlântico e dois mer- ção da mesma unidade e do Regimen-
cantes, devidamente apoiados, podem to Especial do Ar.
levar a cabo, com êxito, o desembar- A primeira fase da operação consis-
que de uma grande unidade tipo bri- tiu em infiltrar equipes de reconheci-
gada, sempre que sc disponha de he- mento por meio de helicópteros e pe-
licópteros de transporte que são os que quenas embarcações. Iniciou-se a 21
ativam e multiplicam as possibilidades de abril, mas, por causa do mal tem-
de uma força anfíbia. po, foram recolhidas a Fortuna Gia-
Os dois NDD existentes têm duas cier c lançadas novamente 24 horas de-
capacidades de transporte: a normal, pois.
de 300/400 homens, e outra, de 700 No dia 25, o tempo melhorou e fo-
homens, para pequenos períodos (no ram infiltradas mais equipes de reco-
máximo de sete dias). Esse acréscimo nhecimento. Um helicóptero localizou,
foi transferido do Canberra, fato que a cinco milhas de Grytviken, o Sub-
condicionou o dia D, já que não se po- marino argentino Santa Fe, que foi ata-
dia postergar indefinidamente a tropa cado com mísseis e carga de profun-
embarcada devido à progressiva dete- didade e obrigado a encalhar em Gryt-
riorização da capacidade de combate viken. Tal fato supôs a perda da sur-
da tropa. presa para os britânicos, que os obri-
54 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

gou a precipitar a ação. Assim, com o O vulto das forças atacantes e de-
fogo naval dirigido um observador fensoras
por parece que era similar, mas o
avançado em terra, a ForDbq isolamento
pequena a que uma insu-
guarnição
desembarcou em Grytviken heli- lar fica
por submetida se o
quando produz
cóptero. Ao meio-dia, os argentinos se controle do mar inimigo, a
pelo possi-
renderam. O destróier e a fragata fo- bilidade este dispõe de eleger o
que
ram destacados a Ilha de Leith,
para local e o momento do desembarque, a
que foi ocupada no dia 26 de abril. impossibilidade de defender todas as
A ação não apresentou maiores di- e áreas do
praias possíveis assalto an-
ficuldades ao confrontar-se com uma fíbio e a ação decisiva do fogo naval

guarnição isolada, porém foram desen- elevadas vantagens à


proporcionam
volvidas todas as fases de uma Força de Desembarque, nesse
próprias que, ca-
operação anfíbia: so, se traduziram na rápida ocupação
prévia eliminação do objetivo.
da ameaça na-
vai;

—- reconhecimento —
prévio do obje- B Operações de reconhecimento
tivo; nas Ilhas Malvinas.
apoio de fogo naval;

movimento navio-terra por super- A escolha do dia D esteve condido-


fície e helitransportado. nada intervalo
pelo de tempo necessá-
HMS YARMOUTH

"D"
DIA
EL
HMS BRILLIANT
_|_
HMS^W^JAUT _j < FANNING HEAD

S»R GERAINT , RFR 8TRCMNESS ^


SW6ALAHAD —,-HMS PLYMOUTH
I "S,
SWPERCIVAL CAMBERRA CHANCni
! PORT SAN CARLOS
SfR TRI3TRAM — | —
Y. NORLAND _'_<\r°INT V-• ^
SIR LANCE LOT M
FEARLESS ' \ \ ^ /->

VHMSHMS INTREPID — C (, >

S ^

ESTRECHO DE f ^
/\\

SAN CARLOS ^

CARLOS
_l_ ^~VSAN

HMS ANTRIM

2 4 6 V. ^

Escalo oproximodo

HMS ARDENT
A GUERRA DAS MALVINAS 55

rio as unidades especiais efe- da costa alheios à área onde re-


para que pontos
tuassem os reconhecimentos imprescin- almente se o assalto
produziria princi-
díveis e enviassem as informações ao embora seja sempre difícil deter-
pai,
Comando da Força-Tarefa Anfíbia. Os minar o local exato de uma demonstra-

britânicos estimaram em 14 dias esse ção anfíbia, já que elas não se con-

período. Conjugadas as necessidades de cretizam. Outro conceito clássico de

informação com a conveniência de che- uma operação anfíbia foi também uti-

logo que possível a uma decisão, lizado como no caso da diversão an-
gar-se
o dia D, inicialmente, foi 16 de maio, fíbia que foi executada sobre Darwin

modificado para 19, efetuando-se, fi- simultaneamente com o desembarque

nalmente, no dia 21 de maio. em San Carlos.

Esta necessidade de tempo para re- A destruição seletiva teve lugar na

conhecimento era justificada pela afir- Estação Aeronaval de Calderón, loca-


mação inglesa de não havia ne- lizada na Ilha de Borbón, onde foram
que
nhum o arquipélago, o destruídos 11 aviões, entre eles seis
plano para que
é verossímil, por não ser freqüente que Pucara de ataque de solo, diminuindo
um país, de posse de uma ilha, estude consideravelmente as do
possibilidades
sua recuperação, é normalmen- apoio aéreo imediato da ar-
já que guarnição
te considerada intangível. Essa ação se deu na noite de
possessão gentina.
Tendo falhado essa os britâ- 14 15 de maio, ou seja, uma se-
previsão, para
nicos foram obrigados a montar uma mana antes do dia D e foi executada
custosa operação obter informa- seguindo os
para métodos clássicos da in-

ções necessárias sobre suas cursão anfíbia, contando


próprias com o apoio
ilhas. Isso se conseguiu mediante o de- de fogo naval dirigido de terra.
sembarque de patrulhas de reconheci-
A eficácia dessa incursão anfíbia ma-
mento por helicópteros e pequenas em-
nifesta-se ainda mais, se tem
quando
barcações provenientes de navios e sub-
em conta os Harrier, no dia 23 de
que
marinos. Durante três semanas estive-
maio, atacaram a desta Estação
pista
ram recolhendo informações sem ser
sem conseguir inutilizá-la, o foi
que
detectadas, ou menos neutraliza-
pelo uma demonstração, em escala menor,
das. A escassa presença de forças ar-
do sucedido na da capital, opera-
pista
em San Carlos foi a respon-
gentinas tiva durante todo o conflito.
sável pelo êxito do reconhecimento bri-
Vimos, portanto, a ação anfíbia
tânico, teve oportunidade de sele- que
que
principal esteve protegida por outras,
cionar uma zona de desembarque onde

as tropas foram sem prévias ou simultâneas, que favoreciam


desembarcadas

oposição. seu desenvolvimento e contribuíram

para seu êxito.

C — Operações de debilitamento da

capacidade defensiva da guarnição ar- O desembarque em San Carlos

gentina
O desembarque foi realizado com
Esse debilitamento me-
produziu-se céu visibilidade
encoberto, pouca e es-
diante a criação da incerteza sobre o
trito silêncio rádio. Simultaneamente,
local e momento de desembarque e
foram executadas ações de diversão,
também mediante a destruição seletiva
por forças especiais, em vários pontos
de elementos de importância
grande do lado oriental da ilha. O navio de
para a defesa.
comando e controle — Fearless —

A incerteza foi de- fundeou às 03:00 h e às 10:00 h ha-


produzida pelas
monstrações anfíbias em determinados via 3.000 homens em terra.
56 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

A surpresa tática condicionou todo to incomum hoje em dia; isso pode tei

o desembarque, cuja básica acontecido inexistência de meios


premissa pela
era estar assegurado ao amanhecer. A mais adequados, pelo reconhecimento

única força de oposição, em terra, foi da fraca defesa das forças argentinas

uma companhia em Fan- na zona de desembarque e, possível-


posicionada
ning Head. Foi atacada forças es- mente, pelas longas distâncias a per-
por
apoiadas fogo naval. A es- correr no trajeto dos navios às praias,
peciais por
cassa de forças de defesa res- devido à natureza recortada da costa.
presença

pondia ao conceito estático adotado Os helicópteros de transporte foram

pelos argentinos, o qual, como ficou empregados intensamente, mas parece


demonstrado, tornou-se ineficiente. foram utilizados
que principalmente pe~

Inicialmente, desembarcou a Força Ias unidades especiais e para o trans-

Avançada, combateu Fanning de artilharia, abastecimento e mu-


que em porte

Head. Às 03:40 h iniciou o desembar- nição. Por exemplo, os mísseis Rapier

e as tropas de assalto estavam a bordo do NDCC foram helitranspor-


que já
em terra, organizadas, às 07:30 h. Ao tados. Em verdade, houve um empre-

final do dia D de maio) haviam balanceado de embarcações e heli-


(21 go
desembarcados 3.000 homens e 1.000 cópteros.

toneladas de material. No dia D + 1

já se encontrava em terra a bateria de


O conceito de operações da
mísseis Rapier e desembarcaram os
FORDBQ
obuses 105 mm com o restante das tro-

de assalto. Ao final desse dia, a


pas Na fase, num assalto simu!-
primeira
cabeça-de-praia ocupava 10 millhas
tâneo, o Comando 40 e o 2- BtlPqd

quadradas, com 4.000 homens, abaste-


ocuparam, respectivamente, San Carlos
cimento e munição para quatro dias,
e Monte Sussex. Desembarcaram em
mas pouco equipamento pesado. As
duas na zona de San Carlos.
praias
A do dia D + 2, o ritmo do do 2? BtlPqd bloqueavam a
partir posições
desembarque diminuiu, os navios estrada do e esperado contra-
pois possível
tinham fun- -ataque da zona de Dar-
que abandonar a área de proveniente
deio durante o dia. Ao final do dia win. O Comando 40, ao ocupar a

D + 3 havia na cabeça-de-praia 5.000 Montanha Verde (vide mapa da p. 54),

homens, 5.000 toneladas de munição e bloqueou a cabeça-de-praia pelo leste.

abastecimento (vale comparar as quan- Numa segunda fase, o Comando 45

tidades relativas homem X abasteci- e o 3? BtlPqd ocuparam, respectiva-

mento), assim como os veículos de mente, o complexo da Baía de Ajax e

reconhecimento Scorpion e Scimitar. as instalações do Porto de San Carlos.


Finalmente, no dia 26 de maio A Baía de Ajax converteu-se na área

(D + 5), toda a brigada estava em de apoio logístico da cabeça-de-praia,

terra. e o 3? BtlPqd, ao instalar-se no flan-

Várias foram utilizadas ne- co norte, completou o dispositivo de-


praias e

Ias operaram as oito EDCG do Fear- fensivo.

less e Intrepid, que suportaram o O Comando 42 do Royal Marines


peso
do movimento superfície, compie- embarcado como reserva
por permaneceu
tado contínuo apoio de helicóp- da Força de Desembarque a bordo do
pelo
teros de transporte. Canberra.

Os batalhões de assalto inicial- A Força de Desembarque possuía


que
mente ocuparam a cabeça-de-praia apoio de fogo em terra, de ba-
quatro
foram transportados superfície, fa- terias de 105 mm e uma bateria de Ra-
por
A GUERRA DAS MALVINAS 57

cujo desembarque foi A cabeça-de-praia, com 10 quilôme-


pier, precedido
uma ação de comandos sobre Fan- tros de 15 de frente,
por profundidade por
ning Head, simultaneado ataques foi utilizada como base de partida para
por
de diversão sobre Goose Green, Porto a ocupação da ilha, como base logís-

Stanley e outras áreas. tica e como base aérea avançada, já

ao norte se montou uma curta pis-


Ocupadas as na CP, as uni- que
posições
ta com chapas metálicas, operativa pa-
dades desenvolveram incessante traba-
ra 8/9 aparelhos Harrier, apoio
lho de fortificação da área, só inter- para
aéreo aproximado. Esta pista foi mon-
rompido pelos ataques aéreos argenti-
tada em 25 minutos.
nos. No dia D + 5, 26 de maio, ante

a possibilidade da imposição por parte


da de um cessar-fogo, a Força A sobrevivência da FTA
ONU

de Desembarque iniciou seu desloca-

mento, apesar de não estar ainda em A sobrevivência da FTA na zona

condições, iniciando-se os combates nc do objetivo anfíbio está condicionada

interior da ilha. desaparecimento de um dos fato-


pelo
Com isso, não houve a ocupação res básicos de segurança de toda força
da
naval: navegação limitada à área do
CP, de onde outra força de
partiria
oceano correspondente à do objetivo
maior envergadura com a missão de
anfíbio, à costa hostil e den-
ocupar a ilha. Tal missão foi realizada próximo
tro da deve com ca-
mesma unidade de desembarque, qual permanecer,
pela
ráter mais ou menos estático, num pe-
reforçada pela outra brigada, que, pos-
ríodo de tempo determinado, enfren-
teriormente, chegou ao arquipélago.
tando ameaças submarinas, minas, na-
Houve, a continuidade das
portanto, vios de superfície, aéreas e possíveis
unidades estavam suficientemente
que ações de terra. O Comando da FTA
capacitadas a realizar diversos tipos de
deve conjugar sua sobrevivência com
operações. o da missão, selecionando
cumprimento
as britânicas — e
Todas unidades uma área adequada ao desembarque

Royal Marines, assim adotando um dispositivo defensivo ade-


pára-quedistas,

como as que desembarcaram posterior- quado.

mente — eram de elevada qualidade O processo adotado pelos britânicos

em correspondência com o valor dos foi:

meios navais utilizados para colocá-las descartar a ocidental das


parte
na área de operação. A partir de en- ilhas estar mais das bases
por próxima
tão, a unidade tática a ser bri- aéreas argentinas do continente e a
passou

com elevado número de forças FTA apoio aéreo or-


gada, possuir pequeno
de manobra: cinco batalhões ligeira- o dificultaria a defesa de
gânico, que

mente blindados. uma zona de desembarque;


possível

em San já na oriental das ilhas, no


O comando dessas forças, parte

Carlos e no conjunto de ilhas, foi da- diz respeito à Força de Desembar-


que

do a do Royal Marines, cuja as encontravam-se a menor


generais que, praias

decisão foi baseada em conceitos fun- distância do objetivo principal, a capi-

cionais: ações anfíbias e apoio de fogo tal, apesar da de um con-


possibilidade

naval ocntínuos durante toda a opera- tra-ataque das tropas argentinas antes

e não de unidades, da consolidação da cabeça-de-praia.


ção pela quantidade
cujo centro de numérico Todavia, a distância era um fator im-
gravidade já
então correspondia ao Exército britâ- em face da inexistência de
portante,

nico. estradas, ao que posteriormente se uniu


58 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

a insuficiência de helicópteros de trans- volvimento da .aviação faz da ameaça

Do de vista naval, suas aérea o maior para a FTA, mo-


porte. ponto perigo

abertas não tivada imobilidade a esta é


praias proporcionavam pro- pela que

teção aos navios contra mísseis de tra- submetida em da Força de Der


proveito
rasante e de ataques submari- sembarque. Esta era a prova maior que
jetória
nos. a Força Anfíbia britânica teria de en-

A Praia de San Salvador, relativa- frentar.

mente de Porto Stanley, propor- Para fazer frente a esta situação, fo-
perto
cionava alguma aos navios ram estabelecidas linhas defen-
proteção quatro
contra ataques aéreos e seu acesso po- sivas:

deria ser bloqueado com facilidade, o


— Uma linha exterior de defesa,
assegurava proteção anti-submari-
que
baseada em CAP (Combat Air Patrol)
no à FTA.
dos Sea Harrier.
San Carlos foi a eleita, uma
praia
— Uma segunda linha, denomina-
vez comprovada a ausência de minas,
"armadilha
da de mísseis" (missile
e boa aos na-
proporcionava proteção
tramp), constituída por dois navios,
vios contra mísseis de vôo rasante por
um destróier tipo 42, armado com mí-
estar rodeada de colinas; tinha o incon-
seis Sea Dart, e uma fragata tipo 22,
veniente de encontrar-se a 50 milhas
armada com mísseis Sea Wolf, ambos
do objetivo ainda que isto
principal,
situados ao norte do Estreito de San
assegurasse tempo necessário para or-
Carlos.
a cabeça-de-praia. Tinha bom
ganizar
fundeadouro, contra ataques — Uma terceira linha, denomina-
protegido
submarinos, e a costa, re- da gunline, baseada em três ou quatro
previamente
conhecida, estava ligeiramente defendi- navios dentro do estreito, todos com

da; ademais, devido à distância, era canhões e mísseis, rodeavam os na-


que

improvável reforçá-la defensivamente. vios de assalto.

— A última linha ou área defen-


Eliminadas a ameaça submarina e a
siva, localizada no próprio fundeadou-
possibilidade de a frota de superfície
ro dos navios de desembarque, basea-
argentina atuar na ZOA, comprovada
da nos canhões e mísseis Sea
a inexistência de minas, e como a pos- próprios
Cat e nos Blowpipe e Rapier da Força
sibilidade da ação argentina em terra
de Desembarque instalada em terra.
era mínima, a sobrevivência da FTA já

concentrou-se em sua capacidade de O desenvolvimento do combate en-

enfrentar os ataques aéreos, dos tre a aviação argentina e o sistema de-


quais
ficaram aparentemente afastados da fensivo da FTA foi o seguinte: às

ação mais os mísseis de vôo 10:00 horas do dia 21 de maio, dia D,


perigosa:
rasante. apareceram na ZOA os Pucara e os

A esse respeito dizer a ataques começaram à tarde. Foram


pode-se que
ameaça aérea ser considerada co- atingidos o Destróier Antrim e a Fra-
pode
mo a mais A bem da verda- Argonaut, enquanto a Ardent
perigosa. gata
de, vale recordar a Força Naval afundava. A FTA derrubou 15 aviões
que
alemã ocupou a Noruega esteve argentinos. No dia seguinte não houve
que
ameaçada força de superfície bri- ações aéreas argentinas, reativando-se
pela
tânica; em Dardanelos, a reação a D + 2, às 14:00 horas, sendo atin-
que,
de terra sobre as fez fracassar a Fragata Antelope, afundou
praias gida que

o desembarque; os violentos com- três dias depois. Em face da intensi-


que
bates em terra fizeram sumamente di- dade dos ataques aéreos, Londres de-

fíceis os assaltos anfíbios nas ilhas do terminou, ao entardecer, que os navios

Pacífico, mas, na atualidade, o desen- abandonassem o Estreito de San Carlos


A GUERRA DAS MALVINAS 59

durante o dia e retornassem à noite. Guadalcanal na Segunda Guerra Mun-

Foram derrubados 10 aviões argenti- dial — só neste caso, foi devido à


que,
nos. No dia 24 de maio D + 3 são ameaça da Força Naval nipônica.

destruídos 18 aviões argentinos e, final- Segundo fontes britânicas, as possi-


mente, no dia 25 aconteceram fortes bilidades de os aviões regressarem in-

ataques sobre a FTA. São afundados o cólumes às suas bases, depois de efe-

Destróier Coventry e o Atlantic Con- tuarem os ataques aéreos em San Car-

veyor, este fora da ZOA, embora ru- los, eram de 50%. A aviação argenti-
mando a ela. São derrubados 13 aviões na, ao efetuar ataques no limite de sua
argentinos. Ao longo da batalha, os bri- autonomia, dispunha de escasso tempo

tânicos não nenhum Harrier. de sobre os objetivos.


perderam permanência

e a obstina- Como aspecto a seu favor há que con-


A violência dos ataques

da o mo- siderar que partiam de bases que, por


ção defesa evidenciam que
razões eram inatacáveis.
mento-chave da campanha foi a rea- políticas,

lização do assalto anfíbio a San Car- O contrário de San Carlos foi Bluff

los, materializou em terra o domí- Cove, onde, a 8 de junho, aviões A-4


que
nio naval britânico, insuficiente si Skihawk atingiram os NDCC Sir Ga-
por
mesmo resolver favoravelmente a lahad e o Sir Tristam no momento em
para
campanha. que desembarcavam tropas da Quinta

Brigada de Infantaria. A falta de co-


As pesadas perdas de ambos os la-
bertura antiaérea, no momento em que
dos foram conseqüência da intensidade
os Rapier estavam sendo helitranspor-
e importância da batallha, mas há que
tados para terra, ao que parece, com
salientar que nenhum navio anfíbio ou
absoluta ausência de navios de prote-
de apoio logístico foi afundado dentro
ção, ocasionou a morte de 56 homens,
da ZOA, fato que colocar em
permitiu
a maior simultânea de tropa ao
terra Força de De- perda
a totalidade da
longo de toda a campanha. Não é fa-
sembarque. A de dois ou três
perda
cilmente compreensível esta falta de
navios no momento oportuno, em lu-
previsão britânica, eufemisticamente
gar dos destróieres ou fragatas, teria
denominada risco calculado.
conseqüência incalculável para o pos-
terior desenvolvimento da campanha
Outros aspectos de interesse anfíbio
na ilha. Serve como exemplo o afun-

damento do Conveyor Atlantic, que A defesa antiaérea da Força de De-

a Força de Desembarque de três sembarque, o apoio de fogo naval e a


privou
ou Chinook e de um esquadrão utilização dos helicópteros de transpor-
quatro
completo de helicópteros Wessec, o que te tiveram importância ao lon-
grande
consideravelmente os movi- de todas as operações em terra e
prejudicou go
mentos britânicos em terra. nas ações anfíbias. Os ensinamentos

a obtidos pelo emprego desses meios fo-


Entretanto, a ordem de abandonar

foi um ram os seguintes:


ZOA durante as horas diurnas

êxito da aviação argentina, As características dos meios e o


parcial que,

por não complementada com uma ação adestramento da aviação argentina, a

de terra, foi insuficiente. Isso nos leva falta de ampla superioridade aérea bri-

a concluir sobre a necessidade de do- tânica, fundamentos de uma operação

tar, com a máxima velocidade de auto- anfíbia, fizeram com que os navios e a

nomia tática e logística, a Força de De- Força de Desembarque tivessem que de-

sembarque. Em San Carlos, essa For- pender amplamente de seus próprios

ça ficou abandonada, si- meios antiaéreos. No que diz respeito


parcialmente
tuação similar ao aconteceu em à tropa, os mísseis Rapier, Blowpipe e
que
60 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

os aviões Não houve enfrentamento entre a


Stinger foram a base contra

artilharia naval e a defesa de costa. A


argentinos.
ação de terra esteve a cargo
Os Rapier liveram emprego destaca- principal
de um míssil Exocet, alvejou, a
do no desembarque de San Carlos, on- que
30 km, o Destróier Glatnorgan, mas
de foi instalada uma bateria em terra.
não chegou a afundá-lo. Isto nos con-
Como nesta zona o combate se desen-
duz a meditar sobre a necessidade de
volveu entre navios e aviões, os Ra-
uma seleção correta da zona de de-
píer contribuíram a defesa dos na-
para
sembarque e de efetuar ações prévias
vios, função para o quê, segundo ma-
reduzam ao mínimo o atual perigo
nifestações dos ingleses, não que
próprios
"nunca os mísseis impõem aos navios.
estavam ha- que
preparados, já que
Apesar desta constante ameaça, o fogo
viam pensado em defender navios", em
naval foi de importância: 17
face Alto grande
da renúncia que o Comando
destróieres e fragatas, com 21 canhões
britânico havia feito a priori sobre a
de 4,5 efetuaram 7.900 ti-
execução de assaltos anfíbios. Como polegadas,
ros, 50% dos efetuados pelas
resultado dessa imprevisão, quase
produzi-
cinco baterias de 105/14 do grupo de
ram-se interferências entre os dispositi-
artilharia combateu em terra. Além
que
vos eletrônicos dos Rapier e os dispo-
de apoiar suas unidades, de
próprias
sitivos dos navios que defendiam a
obter superioridade de fogo e afetar o
FTA, sendo os Rapier de terra ti-
que desenvolveu im-
moral dos defensores,
veram a utilizar pontaria
que passar função ao contribuir
portante para
visual.
destruir, no solo, aviões de apoio apro-

Outros de embarque e ximado baseados no arquipélago. Em


problemas
movimento navio-terra foram solucio- ilhas a atuação do canhão
pequenas,
nados com o apoio das Forças Anfíbia naval é de importância,
grande porque
e de Desembarque. A bateria de Ra- atuar sobre todo o território onde
pode
necessitou de 63 viagens de heli- as ações se desenvolvem.
pier
cópteros, sem contar com as necessá-
Os helicópteros foram elementos bá-
rias seu estado-maior e munição
para sicos no transporte de artilharia e mu-
reserva, foram totalmente desem-
que nição. A infantaria utilizou, essencial-
barcados a D + 1, sendo no dia
que mente, meios clássicos: embarcações
D dispunha de dez unidades de tiro
já o desembarque e marchas a pé,
para
em terra. Apesar do deficiente adestra- casos, o movimen-
na maioria dos para
mento conjunto, destruiu, segundo fon- devido à do
to através da ilha, perda
tes britânicas, entre 9 a 13 aviões, con-
Atlantic Conveyor.
tribuindo a defesa da FTA e man-
para Todo o transporte esteve baseado
tendo constante cobertura antiaérea so-
em 20 Sea King anti-submarinos, des-
bre a ZOA.
do equipamento eletrônico,
providos
Os Blowpipe, complementados em 17 Wessex e no Chinook sobrevi-
pelos
Stinger, ambos de emprego vente do afundamento do Atlantic Con-
portátil

(atiram do ombro do operador) e veyor.

acusados de serem excessivamente pe- Os helicópteros possibilitaram pré-


sados, tiveram decisivo contra os vias ações de fustigamento e reconhe-
papel
Pucara em Goose Green e Darwin, on- cimento dos comandos, transportados

de conseguiram eliminar o apoio aéreo toda noite de um ponto para outro do

aproximado com contavam os ar- arquipélago, sendo o Sea King o mais


que
fato de- empregado. No conjunto das ações, sua
gentinos, que, possivelmente,
terminou o resultado dos combates na utilização foi vital para o aspecto tá-

área. tico (helitransportando todo tipo de


A GUERRA DAS MALVINAS 61

armamento e material). Ainda os Sea dos, e a violência dos combates aero-


King tornaram possível a plena utiliza- navais ali desencadeados o confirmam.
ção dos navios mercantes e foram de- O empenho da FTA britânica em
cisivos na fase do assalto anfíbio. assegurar o sucesso do desembarque
Ao contrário, os argentinos, pela anfíbio foi a tal ponto que lhe acar-
falta de helicópteros adequados, fica- retou a perda das Fragatas Ardent e
ram condenados à imobilidade, que Antelope, na gunline, a 21 e 23 de
necessariamente os conduziu à derrota. maio, respectivamente; a perda da Co-
Segundo fontes britânicas, perderam 18 ventry, no missile tramp, no dia 25;
helicópteros, o que significa que valo- do Atlantic Conveyor, que se dirigia
rizaram adequadamente seu emprego. para a ZOA na mesma data, e a de
Talvez, a falta de proteção e ocultação um NDCC, a 8 de junho, ao realizar
da ilha os converteu em alvos fáceis um desembarque sem a necessária pro-
para os britânicos, o que impediu que teção.
os argentinos montassem um plano Por sua parte, os argentinos, ao se
adequado para a defesa e utilização empenharem para impedir o desem-
desses helicópteros. barque da FTA, entre 21 e 25 de
maio, perderam 56 aviões em cinco
dias, o que significou 73,5% das des-
CONCLUSÕES GERAIS truições em vôo nos 45 dias que du-
rou a campanha, o que quer dizer a
Entre os diferentes tipos de forças média de 11,2 aviões diários, compa-
navais, a anfíbia é a que mais tem pos- rada com perda média de 1,7 avião
sibilidade de ser reforçada dc forma durante o restante do período da
mais imediata em caso de um conflito.
guerra.
Um transatlântico, mediante uma rá- Analisando essas cifras, evidencia-se
pida transformação, pode converter-se que uma ação anfíbia, por ser um ata-
em um NAeHa; existe bom número de
que frontal, acarreta muitas perdas,
navios mercantes com capacidade para tanto para o que ataca como para o
transportar helicópteros, e os navios oue defende; mas, por ser decisiva, é
Ro-Ro têm estrutura muito adaptável especialmente danosa para o derrotado.
para participar de operações anfíbias. Sem o assalto a San Carlos, os bri-
A existência de um núcleo perma- tânicos não ocupariam as Malvinas.
nente tem que ser a base de toda For- Suas possibilidades anfíbias, como uma
ça Anfíbia eficiente. Esse núcleo deve capacidade naval de toda a frota equi-
possuir navios que possam exercer a 1'brada, permitiram materializar o con-
função de comando e controle, capaci- trole do mar sobre as ilhas. Sem capa-
dade em doca para transportar embar- cidade anfíbia, a frota inglesa ainda es-
cações de desembarque pesadas, possi- taria patrulhando ao redor do arquipé-
bilidade de operar um número adequa- lsgo.
do de helicópteros de transporte e so- Também outras operações, como in-
bretudo uma Força de Desembarque cursões, demonstrações e diversões,
organizada, equipada e adestrada para protegeram a ação principal durante
efetuar assaltos anfíbios. Esse elemen- toda a campanha ou quando ainda não
to permanente tem que ser o respon- se sabia ao certo da realização do de-
sável pelo desenvolvimento da dou- sembarque principal.
trina. A falta de reação terrestre argentina
A Guerra das Malvinas culminou no contra os desembarques contribuiu pa-
assalto anfíbio que teve lugar em San ra sua derrota ao não complementar
Carlos. Assim entendiam ambos os la- sua intensa ação aérea. Todavia, numa
62 REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA

pequena ilha rodeada por uma frota hoje em dia, obriga a manutenção de
hostil, é muito difícil efetuar-se movi- um caro dispositivo britânico.
mentos de unidades, sobretudo quando Num assalto anfíbio, a Argentina
o terreno e a falta de proteção não os recuperou as Malvinas; em outro as-
favorecem. salto, a Grã-Bretanha voltou a ocupa-
A existência de uma reduzida força -las. A guerra anfíbia poderá continuar
anfíbia argentina foi o suficiente para o eterno canto de seus detratores; mas,
neutralizar qualquer possível retorno às no âmbito naval, muitas crises só te-
ilhas durante o período que antecedeu rão saída positiva quando o país que
a ruptura das hostilidades; permitiu, na exerce o domínio do mar tenha capa-
ocasião, recuperar o arquipélago, e, cidade para projetá-lo em terra.

BIBLIOGRAFIA

BONSIGNORE, EZIO. Las duras lecciones dei Atlântico Sur. Military Technology.
Jun. 1982.
BRANZZI, A. En torno a la guerra de las Malvinas. Revista Marítima. Ago-set. 1982.
INFORME dei Almirante Sir John Fieldhouse. London Gazette. Supl. Oct. 1982.
MOORE, Sir J. & WOODWARD, Sir J. La experiência de tas Falklands.
MURGNIZUR, C. El conflicto dei Atlântico sur, un punto de vista argentino. Revista
Internacional de Defensa. Feb. 1983.
NICHOLLS, D. V. Victoria anfíbia. Globe and Laurel. Jul-Ago. 1982.
NOTT, John. The Falklands campaigns. Proceedings. Mayo 1983.
OPERACIÓN Rosário: desembarcos. Revista de la Infanteria de Marina Argentina.
Mayo-Jun. 1982.
SCHEINA, Robert L. La campana de Ias Malvinas. Proceedings. Mayo 1983.
SEMINÁRIO MILITAR BELGA. Algunas lecciones de la guerra de las Falklands. Vox.
Jun. 1982.
TALON, V. La guerra dei Atlântico sur. Revista Internacional de Defensa. Jun. 1982.