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Ética e Proi etos Profissionais:

os Diferentes Caminhos do
S eruiço S ocial no Brasil.

Autora
Priscila l"ernanda Clonczrlves Cardoso

lrbre.retfuttão

Ilaria Carmelita \hzbek


( rl. tr.rlo: l)r.iscilrr l,'ernandzr
Goncalves Cardoso, 2013.
t tlrr cclicào brrrsileira: papel Social o()
,201.3.

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da autoÍa.

Títu/o
Éti.o . projetos profissionais: os difêrentes caminhos do se^-iço
sociai no Brasir
Pztrte I
Editor
Edson de Canalho
(.on.çelho Editonal de SerriLo Socia/ Iitrndamentos ontológicos para a compreensão da
Yolanda Guerra
sociabilidade humana e das proÍissões ........... ................2'1,
Coorde nad or f: di toria / Jusszira trÍaria Nlendes
-\ntoruo Deusivam de Oliveira N[aurílio ÀIatos
l{osar-re \Iartins
Capa e Pr/eto GzíJico
Oapítulo 1"
)n'ptr
I{elli Costa I t',tt,io rfu lexÍo
Lvr.ia Iiclix l)o trabalho à ciaçáo dos valores - entendendo a relação do
adaGeisa Rodrigues
Ir«rmem com a nat:túeza e os outfos homens ............... 23
l.l 'frabalho, teleologia e relações sociais .......... 21
À grafia deste lir-ro segue o Nor-o Àcordo ()rtográfico
da l_ínglr,l l)ortrrqrrcs:r. 1.2 Criação dos \ralores: relações objetivas e subjetivas ............ .......... 31

I)ados Internacionais de catalogação na pubhcacão (CI


(Câmara Brasileira do Lirro, Sp, Brasil)
Ir)
Capítulo 2
Cardoso' Priscila Fernanda Goncalres Éd." . projcrr>s Moral e ética - entre as exigências genérico-sociais e a busca de
pr.tissi.rr.ris: ,s rlifcrcntes caminhos do
serriço social no Braslt / Priscila Fernanda (]oncalrcs (-rrr..l,,s,,. (.runpirr:rs,
Sl): l)apel Social,2013. rrossa genericidade humafla......... .....----------..-- 39
1.1 NÍoral, indi'níduo e sociedade .......... ...........'... 't0
Inclui Bibliografia -1.2 Iltica - Nosso lugar no mundo em busca da rcaltzacão humana ................ 51
ISBN 978-85-65540_ 1 0_0

Capítulo 3
1. Etica 2,Edcaprofissional 3. Seniço social I. .I.ítukr.
l)rojetos e éticas profissionais - Compreendendo a proieção e o
Indice para catálogo sisremático:
rnodo de ser das profissões ............. 69
1. E,tica e seniço sociai 361.301 i.1 Projetos Profissionais: constÍuÇão coletiva das respostas das
2. Seniço social e éttca 361.301 profissões em consonância com pÍoietos societários .............. ..........72
13-10320
\.2Í)trcaprofissionai: teleologia dos pro,etos profissionais e o
(.1)t)
posicionamento flo cotidiano profissional
361.301
................... 83

Papel Social
s.rrr'. editorapap elsocial. com. br
editorial@edi rorapapeisocial. com. br
Rua Ântonio llertoni Garcia, 634 -
-ld. \bn Zubcn
CEP: 130.14-650 - Campinas - Sp 11-9 8300 90r.i6 lr) 1)/1,';3r',',1
I I
PARTE II
Éticas e Proietos ProÍissionais na traietória
do serviço social no Brasil: alguns caminhos,
diferentes caminhares
95

Capitulo 4 -\os meus pais, Osr.aldo (in memoriam)


e (-ida, por me ensinarem valorcs
o signiÍicado social e o caráter contraditório do serviço
emancipatórios e lil.res bem dialeticâmcnte;
Social na sociedade de classes ..........1.... .............. 97 pela forte m^rc de justiça e coralacm;
pelo aprendtzado com os eÍros e acertos,
Capítulo 5 e pela transgressão. Ilm especial a minha
mãe, mulher cle coragcm, poÍ tudo que
brasileiro 1.07 me ensinou e ensina. Por nosso âmoÍ.
no Brasil: o Sobretudo, pela rrida!
110
,\ vó -\na (in memoriam), minha
ancestralidade, por seÍ meu colo quando
122
nasci; por me ensinar os laços com a
135
tradiçào sem ser mera repr(>dução; e pelcr
144
aprendtzado de "causos" que conto em
L51,
minlras aulas até hoje. Saudade que "otÍra"
com amor. Pelo afeto!
Capítulo 6
A perspectiva emancip atória e o serviço social brasileiro À -"r, marido l{enato, por trilhat comigo
.... ........ 169
ó.1 -r\bcrrura democtáttca e outra perspectir-^ n^ ren()r,açà, o desafio da r.ida à dois; por me possibiütar
d<r
a r.ivência da união na diferença, do que só
Servico Social: o projeto de ruptura..............
,... 175 pode estar junto porque está separado. Pelo
6.2 Ne.lil;cralismo e â consolidaçào da ruptura n,
se^.iç, S.ciai amor e pela alteridade!
brasilciro: o projeto ético-político
........ 195
-\os estudantes, que me possibilitam
cotidianamente viver a paixão da docência.
Capítulo 7 Por me questionarem, fazerem tefletir,
estudarem e buscarem coerência. Pelo
Final dcsta caminhadarinício de novos caminhos: tanto que pude aprender sobre ética e
algumas reflexões serr..ico social. Por podermos viver relações
.....229
horizontais e libettárias. Pela paixão e
sentido na r..ida!
Referâncias ..241,

Cattílogo da Editora .....257


I lpígr:tli'

Irm alguns casarios perdidos nos -\ndes, os


memoriosos se lembram de quando o céu esta\.a
montado sobre o mundo. Tínhamos o cóu tào
em cima da gente que as pessoas caminhar.am
agachadas, e não dar..a pata empinar sem dar uma
cocada. No primeiro rc\-oar dc asas se chocar.am
contra o teto. .\ águia e o condor arremetiam com
todo seu ímpeto, mas o céu nem ligava. O tempo
do esmagamento do mundo terminou quando um
relampagozinho bailarino abriu caminho no pouco
ar que havia. O colibri picou a bunda clo céu com
seu bic«r de agulha e a bicadas obrigou-o a subir
e a subir e a subit até as alturas onde está aÉlora.
-\ águia e o condor, âves poderosas, simbolizam
a força e o vôo. IIas foi o mais pequenino dos
pássaros quem libertou terÍa- do peso clo céu.
^
Çolibn - Edrurdo Ga/eano)

Diego nào conhecia o mar. O pai, Santiago


I{ovadloff, levou-o pâra que descobrisse o maÍ.
Yiajaram para o Sul. Illc, o mar, estava do outto
lado das dunas altas, espetando.
Quando o menino e o pai enfim alcancaram
aquelas alturas de ateia, depois de muito caminhar,
o mar estava na frente de seus olhos. Fl foi tanta
a imcnsidão do mat, e taflto seu fulgor, Que o
menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo,
gagucjando, pediu ao p^r: ,\Ie ajuda a olhar!
(Afnçào - Eúnrdo Calearu)
da arte -

.\ssorria o Yento dentto de mim.


E,stou despiclo. Dono do nada, dono de ninguém,
nem mesmo dono de minhas certezas,
sou minha caÍa cofltra o veflto, â contÍa-\.eflto,
e sou o vento em minha cara.
(A rentania - Edrurdo Caleano)

$
Alrrt'scnl llçit( )

lrstc livro, dc autoria dc Priscila Fernanda Gonçalves Cardoso, Íevela-se


inn:r contribuicào fecundz flo processo de desvendamento dos fundamentos
()nl()l(igic()s do Sen.iço Social, especialmente sob a peÍspectiva de sua
rrlr.,r'rlrgem da sociabiüdade humana e dos projetos profissiclnais na trzLietôfla
lust«irica da profissão no Brasil.
Inspirado n m^tÍtz clo materialismo dialético e histórico, tem como
l)()nt() de partida uma aproximacào ao conhecimento do homem com() seÍ
s, rcial, como ser de relações, que pelo trabalho transform^ a natürez^, ao

r)rcslrro tempo em que se transforma, objetivando-se no mundo através de


,'rrlracidades humanâs) como a teleologra e a criatividade. E, por isso, como nos
It.rnl>ra a autoÍa) quc podemos afirmar o ttabalho como fundante do ser social
(.. l)()rtanto, das relações sociais, âmbito prir.ilegiado do exercício profissional
tlo assistente social.
O referido livro tem sua origem na Tese de DoutoÍamento da autora,
rrl)r'csentada ao Programa de E,studos Pos-Graduados em Ser-u'icr> Social cla
l'LlC de São Paulo, sob minha orientação. Passados sete anos, o texto pôde
rirrrrlrar em densidade e amplitude, tendo sido revisto e atualizado, estruturando-
sc cm dois movimentos:

Uma primeira paÍte em que autora nos situa na busca dos


^
fundamentos ontologicos para compreender a sociabilidade
humana e as profissões e,
Llm segundo movimento em que apÍesenta a climensão da
ética que vem peÍmeando os diferentes caminhos e proietos
profissionais do Serviço Social em seu peÍcuÍso histórico.

Em sua primeira paÍte, esta obÍa aprofunda â perspecti'v'a ontológica


l)ara compreensão da sociabilidade humana. Organtzada em três capítulos,
problematiza inicialmente o trabalho humano em sua intencionaLidade
transformadora, p^r^ depois situá-lo nas relações sociais constitutivas da
scrciedade de classes que o desumz;nrzam. Nesse movimento, é er.idenciacla
t capacidade humana de atribuir valor às coisas enquanto constÍução social,
rrprofundando arelaçào entÍe ética e moral em uma "incomensurár'elr.iagem que
i. a busca pela compreensão destas categorias na sua universalidade e ao mesmo
tcmpo em sua objetivação na sociedade de classes, bem como na coerência de
suas conexões", como afrtma autora. Nessa direçào, problemattza a moral e
^
aPr()funda a arrá7lse de seu objeto: a éttca como reflexão ctíttca sobre a mgral e, ( l:t (l( )s l)l ojt'los l)l'( )llssl( )tl:tls
l)' r',',rl,tlt,l,rrl,',lr' ,r, )nrl),urlr,u ;r lclr',,1, )i,,tlr lr ll:rl('l( )l
(
sobretudo, como capacidade de reahzação humana. Encerra esta primeira parte ,1,, \. 1 \ lr rr 5,,t i:rl.
do livro a análtse da perspectiva ética e ontológica dos projetos profissionais. l.rrr sínl('s(', ('strulros tli:rrrtt'tlt'rrntrr lrrrlrlir-ac-ào rlc'ut-ttlt jovctn intclccrtral
Na segunda parte, organtzada em três capítulos e as reflexões finais, .1,, St'r'r'it-,r Socill lrr-asilciro, Lu)t tc\t() g()st()s() cle lcr, instigante, clue enfrenta
somos colocados face ao Serviço Social em seu movimento historico, teórico e ,lt't:rÍi,rs, 1r«rl['nricâs c nos cortduz a ler-antaÍ no\.as questões, ao mesmo tempo
interventivo. Com um discurso ciaro e acessír,el, a autoraÍetoma o ittnerâno da ('nr(lu('n()s coloca cliante de marcas históricas persistentes na profissào.
profissão no Brasil, das marcas conser\radoras de sua gênese ao atL:alambiente l.citr-rra imprescindível p^r^ todos os que buscam supeÍar as
neoliberal no qual se inscreve na contemporaneidade.
1,r'r lrlt'xiclacles do pÍesente.
O fio condutor de suas análises são os diferentes projetos profissionais
que o Serviço Social brasileiro vai construindo nesse peÍcurso de quase oito
décadas. Seu referencial paÍa orlentaÍ esse caminho é a "matnz marxista que
entende o Serviço Social como prodato e produtor da histriria. ou seja, a profissão
constituíde. à pafilr e sob influência de determinacões dos processos históricos Maria Carmelita Ya7bek
vividos pela sociedade e pelos sujeitos individuais e coletivos". Nessa direção Professora do Pós-Graduação da PUC/SP
retoma as maÍcas conservadoÍâs e antimodefnas que mafcar^m a gênese da
profissão e a construção do projeto T[adicional do Seru,iço Social, apoiado
no ideário da lgreia Catoltca e em sua estratégia de enfrentamento da questão
social como questão moral pela ação social cato[ca. Explicita as diferentes
dimensões constitutivas desse projeto, assim como daqueles que o seguem, sob
o ponto de vista, conforme afrrma a àutoÍa, "da dimensào ética, da políti ca, da
tecrrico-metodologçic^ e a 1uríüca, em suas objetir.ações na ética profissionai, na
organrza.ção política,na produção do conhecimentofproposras metodológicas,
e no ap j urídic o-político, re sp e c tivamen te ".
^rato
Na abordagem e explicitacào do
desenvoir.imento dos projetos
profissionais e especialmente do processo de busca de ruptura com o Serviço
Social tradicional, a autora er.idencta a interiocução clo Servico Social com a
realidade, mostÍando o pÍocesso de reflo\ração profission al na direção da
construção de uma étrca compÍomerida com a perspectiva de emancipacão
humana' Nesse contexto confrontam-se em um processo cle continuidades e
ruptuÍas, o que atualmente denominamos de projeto ético-políuco profissional
do Serviço Social, e a herançâ conservadora de suas origens atualtzada na
perspectiva pó s -moderna.
Ftnahza este instigante tral)^lho a análise dos desafios atuais constitutivos
do processo de consolidação da perspectiva emancipatoÁa como horizonte
do atual projeto hegemônico do Seniço Sociai brasileiro. Contexto em que a
taücaltzação da emancipação política como estratégia mediada pela defesa de
políticas sociais e dos direitos por elas assegurados é fundamental.
Âlém de oportuna e necessária, a pubiicação deste livro se constirui em
um material que permite várras leiruras: desde aquela que permite compreender
a dimensào étrca das profissões em seus vínculos com projetos societários, à
Notas lntrodutónas da
Autora - Situando o Liaro e

S aa Intencionalidade

I)recisamos de ventos que aÍremessem Dos maios e das màes da praça.


n()ssas flaus nos maÍes de todo mundo. Ventosque lerctn as gai!otas para ()
I )t' r'entos calamitosos, arrebatadores, quc deserto
ventcm coÍpos e almas. e que tÍagam as areias do scrtào para os
São os \.entos ,-1uc prccisemos. palácios de gor,erno.
tl tl
Precisamos de ventos venda'n'als Preci,samos de r.entos que sequem nossas
Não de brisas comportadas que mal lágnmas
desalinhavam nossos penteados. Que ler..em às alturas as pipas de nossos
\Ias de furio,sos Yefltos que errâstâlrr meninos
e-§truturas Que mostrem eos homens que rudo que
l)emolem igrejas, destroem templos. encobre pode ser arrancado
Yentos que ârrastâm peflsamentos, Que tudo que está pode partr no turbilhàc>
dissolvem ideias, solapam medos. E que se \ientar muito forte, mas tnúto
l)recisamos de ventos que tcnham o cheiro forte mesmo
de rosas de um certo abril português. Serernos capazes de voar.

(ller antor pe/o.r ternporat.r * H ei to r -,1/t'e.ç Pa rei nt)

Com o desejo de r.entos fortes e brisas doces, inicio minha lornada


junto a r.ocê, leitor deste li\-ro, com quem pÍetendo construir un;ra pÍz.zerosa
caminhadâ Íro Íesgate de nossa humanidade, das profissões e da traietoria do
Serviço Social no Brasil, ansiando que seiamos càpazes de voar!
Este é um li\,Ío sobre algumas das mais humanas de nossas capacidades.
E é também um lir,'ro sobre o Serviço Social brasileiro.
Um livro e s crito p or uma mulh er, trabalh adora, frlha,e sp o s a, amiga, miütante,
pesquisadoÍa e professora, mas especialmente por alguém que cotidianamente t'it'e

*
a artc clc ensinar-aprender, que acredita que toda relação humana é possibilitaclgra (í)n(('ll():i ('(()il('('l)(, ()('s. illt lrttst:t tlt'l'('l()l'l l;ll'() st'tltitl,) (ltl('t'slt's l['llt. Nlr
do ensino-aprenüzagem e que quem ensina sempÍe aprende. (.\l)(.rl(.n('l:r (.r'n slrllr tlt' :rrrlir. llg, ) \'('tt) tlt(' l)t'('octt;'rlttrtl«): il rcl)r(tdtrçtt«r clc'
Esta obra é fruto de minha iornada pessoal e profissional na busca de ,list'rn's()s ('clruvirt's, (plc ('n'r rrtn prilnciro olhar PaÍeccm críticos, mas que
respostas sobre nosso lugar no mundo e sobre a profissão, bem como de meu
n:t( ) l)1lssÍutr clc rcltctiçà«r csvaziacla de sentido. Diante dessa preocupâcão, o
deseio de transformação. Fruto de minha militância desde a graduação no Ir.ir,,r' ('r'rc()ntrará dir.ersas notâs de rodapé ou informações destacadas com
movimento estudantil de Serviço Social e na categoria profissional no CRESS/ ,l:rtl.,s cla realidade, definiçôes e conceituações e, atnda, referências para
SP e na ÂBEPSS, da minha descobertâ como pesquisadora desde a graduaçào rro tirnclamento dos temas.
;r
1
até os dias de hoje, bem como de minhas reflexões nas minhas dissertação r\o longo do livro optei por construir um caminho de exposição o
de
mestrado e tese de doutorado, sob a orientação da Prof Dr" Mari a Carmeltta rrrlis cliclático possível, no qual fosse viável ao leitor compÍeender o que são e
Yazbek, a quem sou muito gre;ta, pela preciosa e generosa inteflocução. srsnilrcam o trabalho,à cap^cidade teleológica, as relações sociais e os valores
Sobretudo, é fruto de minha trajetôrta como docente desde 2000. (r« rrl«rs esses no capítulo 1); a moral e a étrca (ambos no capítulo 2); os proietos
Como professora de ética profissional e dos fundamentos histórico pr rfissionais e a ética profissional enquanto expressões da realidade concreta
teórico-metodologicos do Serviço Social, fui cada ve z tnarssentindo a necessidade (rrrrrl>os no capítulo 3); par^ então podermos entender política e historicamente,
de produzít um matertal que pudesse apresentar didaticamente, com clareza e
;ri rrrr parte II desta obra, o Serviço Social brasileiro na relaçào com todos esses
leveza, assuntos tão densos quanto os que aqui estão. Esta é a pretensão deste
t,lt'rrrentos. Assim, sua primeita patte pode servir de estudo aos diferentes
lit'ro: chegar a estudantes de graduacão e pós-gracluação, a piofissionais que rÍlssionais das âreas de humanas.
1rr'«
sentem necessidade de continuar estudando, âos que se pÍepmarn pâra um Na parte II trabalhei o Serviço Social brasileiro
no movimento histórico
concurso ou processo seletivo, aos professores dos fundamentos do trabalho ,lt sociedade que o condiciona, apresentando o entendimento sobre a profissão e
profissionai, levando os fundamentos ontológicos da sociabilidade humana e st'tr caráter contÍaditório (no capítulo 4), p^r , efltão, poder entender âs respostas
apresentando os diferentes caminhos que conduziram a profissào à construção
1rr'«rfissionais formuladas pela categoria ^ p^rtrr da análise de duas grandes
de um projeto profissional vinculado a uma perspectiva emancip aÍofla. Àssim,
lrcrspectivâs fla profissão: a conservadora (no capítulo 5) e ^ emànctpatoría
este é um livro para você, que deseja aprender e ensinar, ensinar e aprender! (rro capítulo ó), e suas formulações flos projetos e éticas profissionais desde a
I)iante de tal objetivo, preocupei-me em rcahzàt uma boa síntese dos
sônese da profissão até a attahdade.
assuntos tratados, buscando conduzit o ieitor âo encontro com cliferentes Paru do concreto p^ra poder entender suas determinaçôes e ao concreto
autoÍes e produções no lastro da tradicão marxista. Estão reunidos, aqui, t'ctoÍnar, do mais complexo ao mais simples, como nos ensina Marx. Àpoiada nessa
clássicos desta tradição e referências do Sen.iço Social brasileiro por mim rcferência, tentei não apenas apresentar os temas propostos, mas desenvoh,'ê-los
singularizados. Desta forma, o leitor poderá entrar em contato (ou reencontrar)
rro diálogo com o concreto, compreendendo suâs estruturas e dinâmicas.
pensadores fundamentais, podendo, a parttr desta caminhada, aprofundar O leitor encontÍará., portanto, um livro cheio de movimento, cheio de
posteriormente seus esfudos na tematíca que o inquietaq retomando por si Ventos vendavais e brisas outonais, podendo ora desacomodar-se e \roar, ora
mesmo os autoÍes que o mobilizar mais. rrquietar-se e refletir. E,spero que esses mot imentos possam contribürr para a.
Àssim, em todos os seis capítulos desta obra, o leitr>r encontratâ busca de relações éticas na construção de uma vida pienâ e um mundo sem
concepções tratadas no lastro da tradição marxista, a tentativa cle uma reflexão ()pfessão e dominação; e, eÍrquânto não construímos eSSe mundo, que nos
üalettca, âspectos históricos, importantes autores de rcferência, algumas inspiremos a tÍansgredir e resistir! À question f p^f^ não reproduzir!
polêmicas e exemplos retirados de nosso cotidiano. Encont rará. aind,a, ao Com ceÍtez^, este é um livro para quem deseja aprender e ensinar,
final de cada capítulo, uma brel.e síntese e certas indicações cle obras culturais cnsinar e aprender! Àqueles que desejam fazer do processo do conhecimento
relacionadas aos diferentes temâs centrais tÍatâdos no capítulo, aos
quais LtÍrr prazeroso e frutífero caminho na construção de reflexões e ações éticas.
chamamos, carinhosa e revolucionariamente, d,e prrixis artística, sendo fruto cle
Fruto de minha inquietação e reflexão, este livro é também produção
nosso entendimento da arte como espâço privilegiado de suspensão de nossa
coletiva na relaçào com os vários sujeitos que me habitam, sinto-me uma
cotidianidade, colocando-nos em contato com nossa propiahumanidade. mulher grâvrda de muito outros, como no conto de Eduardo Galeano, de sua
Para efetiv^r a proposta didática deste livro,, busquei expJicitar diferentes
obra "O livro dos abtaços", intitulado 'A paixào de üzer/2": "Esse homem,

,I
)tl lllLlll)cr, cstá grár'ido de muita gente. Gente que sai por seus por()s. i\ssi,r
( \,, \l;rttt'lo llt:tz' l)()l :l('('il:ll'o tottvilt'l):ll'll ('s('l'('\'('l'1t t't't'lltlt tlt'sllt olrt'lt'
m()stram, em figuras de barro, os índios do Novo N{éxico: o narrador, o que l\ »r' n)ovitttt'ttl() csttt(litt]til, t1r.rc tl'lttit«r lllc ctrsill'.trltlll c
rr,,ssrrs tlivt.r'g['rrt'ilrs n()
conta a memória, coletir..a, está todo brotado de pessoinhas". Muitas pessoas l)( )r' n(,ssrrs tlivcrgcrrcias c c()nvcrÍlôucizts
cm nossâ maturiclade profissional, mas
contribuíram pare- que esta obra (um grande sonho) se tornasse realidade, na perdurou.
;r('in):r clc tr-rclo pcla sinccra amtzade que
presencâ ou na ausência, há muito tempo ou neste exato momento, pessoas ;\«rs clue gcntilmente responderam ao pedido de dicas culturais, em
que, na verdade, contribuíram fla constituição de quem eu sou. t.s1rçcial Àmauri Iori, Edileuza Àlmeida, Daniel Lage, Alison Cleiton, Carola
Deixo brotar as pessoinhas que me habitam, agradecendo-as: ( .:rrlxrjal e Renato I)ente Luz pelas novidades que foram incorporadas nos
À editora Papel social, na fr,gurade Edson de carr.alho, Deusiyam e seu f tox't.ç cla práxis afiísttca.
conselho editorial, por acreditarem em meu trabalho e apostarem comigcr fla Ào Gustavo Guapo, pela ajuda fundamental no tempo deste trabalho e
possibilidade e r,,iabilidade deste li,",ro. pclo cluerido amigo que é.
Ào CNPq e à PUC/SP, por minha formaçào e pela possibiliclade de me Às(aos) colegas do curso de Serviço Social da UNIFESP Baixada Santista,
tornar uma pesquisadora e produzir conhecimentos que foram a base deste livro. 1rt'lo aprenüzado cotidiano, pela Íroca por
e constÍuiÍmos iuntas(os) esse cuÍso
Àos amigos E,dnilson e Júlia da Lrvrana Cortez, incenrir.adores rrlrs dores e delícias que isso significa. Por lutarmos poÍ uma uni,".ersidade
desta historia há anos, por me apresentarem à Papel Social e por serem tàcr priblica de qualidade e sem opressões.
generosos e parceiros me auxiliando na busca devânas de minhas referências Às queridas Sônia Nozabiel[. eTereztnha Rodrigues, amigas da "república
bibliográficas. Os agradecimentos se estendem à bela equipe da livraria: Eli, tlocente" com quem muito troquei e pude compartilhar em um momento tão
Patrícia, Celino e Samuel. irrrportante de mudanças em nossas r,,idas, pela amtzade, cannho e respeito que
Àos estudantes com quem pude tÍocaÍhistórias e memórias, em especial, scguimos alimentando.
os da unioeste (2000), unisa (2001/2001), ustr (2001/2006), unicsul (2009) À CNIG e Casa do Zezínho, nas figuras de Dagmar (minha Bá) e Corina
e UNIFESP (desde 201,0) poÍ me ensinarem a ensinar "Étrca e Fundamentos (rninha mãe pequena), por possibilitarem o religar com a minha ancestralidade e
do Serviço Social". lneu povo. Por cuidarem de mim e me mostraÍem quântas e diferentes famílias
Às bancas de minha dissertação de mestrado e tese cle cloutorado, lrodemos ter. Pela alegrta eleveza que a vida pode ter.
Íespecti\ramente:José Paulo Netto eManaLuciaMartinelli; Nfaria LucraBarroco, À Vrrr".r a Labrgalini por nossa história e âmor. Irmã que a genética
Rosangela Batistone,Tereztnha Rios e Dirce I{oga, pela imensa contribuição na não cleu, mas a vida corrigiu. Com o desejo que possamos seguir cultivando
minha formacão como pesquisad ora e pelas preciosas obserr.acões sobre minha nossa irmandade.
produção, todas ler.adas em considerução na escrita deste livro. Â Juliana Braga, pelo carinho e colo sempÍe presentes. Pela doçura que só
 Lúcia Barroco, por me ensinar ética e fazume apaixo nar poteste tema. yocê tem e com quem tanto tento aprender. Es muito especial, minha amiga-rtrnã;
À Cu.rn"litaYaz!>ek, pelo respeito e postuÍa ética em um mundo repleto À Tia Rose e meus primos Symone e Ltiz Fernando, pelo ÍeencontÍo
de vaidades, mesquinharias e sectarismos, por me ensinar a importância das que ensinou o perdão e o por sermos uma famílta.
^mo\
contradições e mediações não só em seus lir.ros, mas na formacomo se relaciona  minha famíha de sangue, a que ganhei com o casamento e a de
com o mundo e com as pessoas. Por incentivar minha criativiclade e bancar yida - màe, sogÍa, Sogro, cunhados, sobrinhos, tias, primos, amigos, irmãos
comigo minhas produções. Obriga da, ainda, por acertÃÍ tàc> generosamenre de santo (em especid \f'esley e André, pelas rezas). Pela torcida, paciência e
fazer a apresentação deste livro. poÍ suportarem minhas ausências. Em especial à Isabellinha e Gabriel, novas
Às amigas, amigo e marido: Damares vicente, Juliana Braga, E,dileuza gerações que muito me ensinam.
Âlmeida, Nlarcelo Braz,Rosangela Batistone, Luciana Melo e Renato Dente Luz Às minhas pequenas Lua, N{aria e Rosa. Penso que cuido delas, mas elas
pela generr>sidade e carinho como leitores "crítrco-afetivos" dos manuscritos é que cuidam de mim. Àmo-as!
deste üvro. Pelas pÍovocaÇões, ideias, proteções, troca, enfim, por acreditarem Às amigas Edileuz a e Lucíana, pÍesentes da vida. Por nossas longas
em mim e nestâ obra e, actma de tudo, poÍ o fazerem criticamente. Como de conversâs nas curvas da estrada de Santos, pelo afeto e carinho que geneÍosamente
praxe, obviamente, isento-os da responsabilidade com os conteúdos desta obra, me oferecem. Pela pafcer:rr- intelectual e a cumplicidade da amizade.
mas queÍo que saibam que de várias e diferentes formas estão nele. Ào meu marido, Renato Dente Luz,pela cumplicidade, companheirismo
(' l( )lrrl tlt'tlit'rrcri( ) ll( )
l)l'( )ccss( ) dc cscrita cleste livro. Por comp arttlharmos até issr:
It Pt',clttclt, clc nossos lit'ros ao mesmo tempo. Pela
paciência e compreensào,
pcl, ac.lhimento e amor. por tudo q.r" np...rdemos um com o outÍo.
você
sempre me surpreende!
À meu povo e meus ancestrâis. Parte
E, por fim, à oyá, \rento doce e guerreiro que me ensina
e cond t)2, e
Yemanjá, águas claras que me dào direção com afetividade. Fundamerutos
Âxé!
Ontológicos Para a
Compreensão da
Prisci la Ferna nda Go nça/aes Cardoso Sociabilidade Hamana
primavera de 2013
e das Profissões
Capítuto 1

Do Trabalho à Criação dos Valores:


Entendendo a Relação do Homem com
a Nature<d e os Outros Homens

Para ser grande, sê inteiro: nada


Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és


no mínimo que fazes.

-\ssrm em cada lago a lua toda


brilha, poÍque alta vir.e.
(Para ser grande, sii inteiro - Ncardo Reis)

Iniciando nossa caminhacla na busca do conhecimento dos conceitos


cf ou categorias básicas que norteiatn a compÍeensão dos fundamentos do
Serviço Social na atualidade, trabalharemos a construção ontoiógica desses
^qlut
elementos. Construção essa que busca explicitar a tnteteza dos pÍocessos na
relação entre trabalho, ser social, capactdade teleológica e valores. Escolhemos
esse caminho com o desejo de que, dialeticamente, possamos explicitar que "em
cadalago, alua toda brilha", eítteÍrdendo esses processos como relações e não
somatórias entÍe partes.
Para tanto, convidamos o leitor a nos âcompanhar em um desafiadoq
tnas pràzeÍoso caminho: eflcontrarmos o homeml enquânto ser social, o que

1. Utilizamos o termo "homem" em relerência ao ser humano. (lomo tentaÍemos fazer a distincão entÍe ser humano e
set socia-l, optamos por utilizat o teÍmo "homem", mas estamos obriamente fãando de homens e mulhetes. l)iante da
dificuldade da língua poÍtugucsâ. que tem comu lorma genética a expressào homem <luando há pekr mtrnrrs um sujeito
dr-, gônero masculino entre as mulheres, {izemos esta opção, <1ue apatecerá de modo mais específico neste capíruIo, pois
posteÍioÍmente pâssaÍemos auttlizar o conceito de ser social.
lx)s lcva à compreensão da categoria trabalho e sua capaciclacle tcleol<igicl r l,tt,.z.r, ,l ()lllol,,t,,t I ltt ilrt;ttl:t tlr) s( t s(,t l:tl , lt lttl :t ll:lllsl)()sl(il()
p^ra, então, podermos compreender a constÍução dos valores que dào base a srrrrplrsl:r. rtrrrtt'r'rrrlistrr vrrlt]:rt'. rlrrs lcis ttrttltr:tis l)rlt'rt rr sot'ictl:rclt' 1...1.
objeuvação da moral, que será, por sua vez, a base cla reflexão da ética. \s lirrnrrrs tk'olriclivtcllrcle d«r scr social sc dcscttvolvetlr,.i n-rcdida
(llr(, sLrrgc c sc cxplicita a práxis sociai, a partir clo ser natuÍal, pafâ
Iniciemos esta nossa caminhada.2
clcpois sc tornerem cada vez mais declaradamente sociais. Esse
dcsenvolvimento, porém, é um pÍocesso dialético, que começa
com um salto, com a posição teleológica do trabalho, algo que não
'1,,'1,Trabalho, teleologia e pode ter analogias fla natxeza [...] Com o ato da posição teleologrca
dações sociais do trabalho, tem lugar o ser sociâI. O processo histórico de sua
explicitação, todavia, imphca na importantíssrma transformação
do ser-em-si do ser social num seÍ-para-si e. por conseguinte,
Cérebros, nerr'os, músculos...
NIeu corpo explode em coisas que nào sou eu
nxlr.:iJ;i,nT:I;3,T*i:'"';;H::H,H":;i::ff :
especificamente sociais (Lukács, 1992: 93).
C)s seres humanos fazem coisas marar.ilhosa-*
que o transformam em coisas terríveis.
tl Considerâmos, portanto, trabalho a humana de transformação
^çào
Sou eu que me olho coisa da naturez^ qtre se dá partrr do "impulso, regul^çã'o e controle" do homem
JáL fui ela, mas me esqueÇo.
^
. sobÍe a na6Jrez4 colocando em movimento suâs próprias forças flatuÍais, como
E a vida que olho no coÍpo da coisa.
mas, morto... não me reconheco.
suas mãos, SeuS braços, Suâ cabeça etc., e) ao mesmo tempo, imprimindo-lhe
(lralta/bo llorto * llauro Io.ri) Ênalidade arravés do uso de sua capacidade teleológica, na antecipação ideal
do produto final de sua ação (Marx, 2001 21,1-1,9).
Diferentemente do restante dos animais que reahzam suâ atividade por
O homem, entendido aqui como ser social,r e assim clenominado instinto ou herança genétic^, o homem objctiva-se no mundo a partir de sua
iustamente pela compÍeensão de que ele, embora seja urn ser que pertence à ffansformadora, que é gurada pell- c^p^cidade de projetar frnaLdades à
^çào frgoru em sua mente pÍeviamente
flatlreza) não pode ser considerado apenas um seÍ natural. sua ação. Ântes da concretszação de sua
^ção,
E, sim pârte da naturezà, mas diferencia-se clcsta c()m() um ser que a a construção ideal do que matertabzzLrâ p^rír de seu trabalho (Lessa, L999).
^
transforma 2Ct mesmo tempo em que se transfo tma) objetivando-se no mundo Toda ação hum^n serâ sempÍe guiada poÍ uma intencionalidade, presente na
paÍttr de seu trabalho e de sua capacidade tereológica.+ projeção dos homens (o que não significa que esta intencionalidade seÍá sempre
^
consciente). O homem é, portanto, um seÍ de proietos'
[...] Não se pode considerar o ser social indepenclenternentc do ser Vale frisaÍ, no entaflto, que o trabalho em Si só ocorre flo ato da
d^ na:.)Íeza, como uma antítese que o exciui 'lbclavia, com igual
[...] ffansformeLçào, ou seia, com a ação humâna. À prévia ideação - a
^ntecipação
ideal do produto da ação-, éparte do processo de trabalho, compreendido este
2 Nesta patte da caminharla, screm()s acompanhados ccntra.lmcnte pela prochrcào
cle NIurr & l.-rrr:cls (19g9), Nlarr (1991a, como uma dasP rríxishumaflas e que envolve, portanto, a rrlração ação-reflexão-
2001), l-ukács (1992), l.essa (1999,2002), Nctt, & tsraz
Q0O6),\tâzgucz (2000) c Ilcllcr (2r){)Í). g.^,n, .,,-pn,rhias n.
caminhrl da comptecnsàrl de n.ss:r relac-ào c.m a flaturez2l e os homens, no scu7.r,ss,,
existindo enquanto trabalho se não se coflcrettzaÍ, se não se obietivar.
1)r1)cus\() rlc transtirrmacàa. ^çã,o,não i§
3. r\ compteensào de set soci:rl e toda a reflerão cle sua ontolog,ia sír é possír,cl gr.aces
rl,r rr.rintrci,rso c prohrnclr estuclo
"A rea\zação do trabalho só se dá quando essâ prefiguÍação ideal se objetiua, tsto Ir.
I
I
rezrlizad, por NIa^ cm sua .bra o capitol crítica da economia política, na
- qual, a partir clr c,rnpreensào da esrÍutuÍa é, quando matérrl- flatrffz.l,pela ação materia/do sujeito, e transformadd' Q\etto I

^
I
e Élncionzrmento da socieclade de classcs e do trabalho nesta, Nlarx po<Jerá I
aprcendcr nprrcit.latlcs c//ou p()tencialiclatlcs
caracteristicas d. gêncto humano em qual<1uer socicdade c mrcb cle pr.ducàr,
,\ssil,, es r.cllcrõcs que s.. scguel-,, nestc &8ra2,2006: 32, gnfo dos autores). I
I

capírulo Partem Llcste poflt() de análisc já :rmadurecido dentro ,la tra,licà,, matristr.
Toda objetir,,ação do ser sociâl, entre elas o trabalho, é carregada de i

4 Referimo-nos àqui :r unla dzrs capacidades humanas, no senticlo de sua


I

genericidade c nà. clc capacicladcs in<lir.icluais c,i


intencionalidades e finalidades, o que pÍessupõe re^l7z^çào de escolhas,
I

.u is.ladas 'liata-sc de capaciclade ,. senticl. cle atribut, e7'.u p.tenciJi<laclcs quc c.mpõcrn ^
I

c:rtactcrísticzrs tipicamc.te
escolhas essâs pautadas pelo que se consideÍâ melhor par^ o pÍesente, com
i
humanas rclercntcs zr. scr s,cial. "[..,] À essência humana, portanto, nà,
é o <1ue'estcr-e pÍescntc, na huma,iclatJc (pata
não falar mcsmo cle c:rda ifldir'ídLr.), mas a tealizacà,, g.a,lrol e contínua I

base nas r,,ivências e reflexões sobre o pâssado e flo que se pretende construir
<1as possibili<1ades imanentes à humanicla6e, a, I

gônero humano" (l lcllcr, 2000: '1, srir(r da aut.)Íâ). 'lais capacidacies sà., p<>is, I

p.tencialidaclcs dest.3 ser, clue dcpendem clc I


I
circunstâncias histriricas e s.ci:ris par^ p.dcrem ser deseni,h'iclor,.r-,tr"'"lnr,
sociabilidadc, a unirersalidaclc, a consciôncia e a liberdaclc.
segu,<Jr> a relerida trut,ra, p.clemrs citar: a futuramente, portanto, escolhas que terão base em valoÍes e iuízos de valores. I
I
i
I

I
i
I

I
1

1:l
I
l'. atlLri, jli c«rtllecam()s a entender a conexào entre trabalho e valor. Contuclo, t'to///o l;t'tt'r. l'ltl'lt llllll(). lt'r':t ('tll t',,tlsitlt't'ltt-lt,r:rt;tril,) (ltl('
sigamos aprofundando um pouco mais o conhecimento sobre a categoria itrlg:r t',,ttt,, tttt'llt( )t' lllt(lrrt'l;r stlrtlrrr'li« ) (' c( )tlfc\t(,, cscolhcucltl
trabalho para então entendeÍ suas relações com a criacão cle r.alores. c t'lt'gctrrlo rtltcrnittivrts clc'rtçrio a partir clos valores que
Busquemos emN{arx o exemplo clássico que nos ilumina ontologicamente atril>ui a algo, ncste cas(), a«r alimento, ou seja, os valores que
na compÍeensão dessa categoria: atribuiu cliante da forma de obtê-lo e utiliza-lo. Paru teahzar
sua produção, portanto, o homem tealtza um processo de
Uma aranha executâ operacões semelhantes às do tecelào, e a antecipaÇão ou prévia ideação, rdealização daquilo que no real
abelha supeÍa mais de um arqúteto ao construir sua colmeia. \Ias
será produzido, o que, por si só, não g r flte que o resultado
o que distingue o pior arquirero da melhor abelha é que ele figura
na mente sua constÍucão antes de transformá-la em realidade. No dessa ação se dê conforme projetado, o que não tua,potém,a
fim do pÍoccsso do trabalho aparece um resultaclo que iá existia importância de tal capactdade.
antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma 2.Trabalho.5 O homem transformando natufezà pafa supflr
apen?rs o material sobre o qual opera; ele impflme ao material o ^
sua necessidade de se alimentar. O trabalho será sempÍe
projeto que tinha conscientemente em rnira, o qual constitui a lei
dcterminante do seu modo de operar e ao quar tcm cle subordinar a transformação de uma tr:ratérta-
sua vontade (Nlarx, 2001:211). prima ou objeto em produto a PartTr
da ação humana e o uso de sua
E nessa relação com a
Ítatureza, ao transformá_la para supflÍ suas capacidade teleológica, mesmo que o
necessidades imediatas ou mediatas,a pmttr do trabalho e de sua capacidade interlocutor desta açào não a perceba
teleológica, que o homem cria suas relações com outros homens, ou seja, conscientemente. Âssim, o trabalho
o trabalho não é somente uma mediação entÍe o homem e a naturezà, mas se concretrz2- enqtranto prévia ideação
também entÍe o homem e o homem. e objetivação do homem 9ue, ao
F, a parttr do trabalho que o homem se objetiva, sattsfazendo suas
transformar a realtdade, transforma a
necessiclades, criancio produtos, mas, ao mesmo temp(), criando e recriando simesmoeasociedade.
as crrnclicões cle sua própria existência e tornando possír.el a realtzaçào de sua
essência humana, ao mesmo tempo trazendo acúmulos pÀt^ a humanidade. Â Àlém do uso de sua caPacidade
supressào clc uma necessidade específica resulta em ganhos de conhecimento, teleológi.ca, p^r^ que o trabalho se realtze,
habilidades c possibilidades a toda humanidade. hav era empre uma .ma.t:ti l:p"ti -1 gy. .g.bi s tg
s
.

Exemplifiquemos o processo do trabalho na transform ação d,a sobre o qual a açáo, depois de proietada,
nalü)rez^ e clo proprio homem, com uma situacão simples e primitiva: o incidirá. Em nosso exemplo, à carfle caçada e

homem tem â necessidade de se alimentàr, paÍa tanto cria instrumentos o proprio instrumento criado, isto é, alança.
e meios com a finalidade de obter seu alimenro, aqui já utrlizand,o sua Para que a transformaçà.o seia possír'el,
capacidade teleoiogica, por exemplo, quando afr.a compedras a ponta de uma são utilizados meios e instrumentos para ação
madetra, transformando-a em uma 7ança. com essa rança
,vatà caça e tÍaz um sobre o objeto, neste caso, o homem criou
animal para ser coztdo - imaginemos que já exista o fogo, também uma açào seu instrumento, a lança, e aqui também 1a
humana transformadora sobre naü)i:eza e um ganhci não só do homem que houve uma ação transformadota, sendo que
^
o procluziu, mas de toda humanidade. o produto desta açã,o totnou-se instrumento
Nessa pequena situaçào, podemos notar aigumas das categorias do trabaiho. F, para tanto teve de utilizar
apresentadas até aclui: )

,i 5. Éi-pottunte destacar que estamos falando da categoria trabalho ontologicamentc, portanto, da análise histirrica e social
l.capacidade teleológica. N{omenro em que o homem projeta rcilizadapor NIarx a partir da sociedatle burgr.resa para, cntào, c(,nstruir essa categoria compteendida enquaÍ1t() objetir-ação
do ser social como paÍte de sua essência humana, como já erplicitado anteriormente na defir'rição de Ilcller (2000): não o
sua ação antes cie rcaltzá-la, para então poder saber 0 q//e fazer que este\-e pÍesente, mas as possibilidadcs imanentes à humanidacle.
I
I

I
i
I

l-/
lllci()s: sua habilidadc n() mancjo da pedra, uma técnica para cri^r u la,cu. t 111 1,,.1111,, .r ltttt.l (ltt( ,1.1, t lt.tt, ,, lt,tlr;tllt"' loltlt ''lt
uma forma pata tealtzar a caça - que r,em do conhecimento que este firi lrttttt:tttt,t,t,.t,,. l()lll'l :.(' lotllt ,lt r.l, sttllt,rttiT.tç.t"' oI'l sc)it. ()
adquirindo -, à maneíra de assar carne) etc. Nota-se aqui outra capacidacle Ir-:rlrltllr,, ,r (.1rrt. ,rs rrrtlrçi,.11()s l)f('cisltlrr strit'illtr sc tlào l)r()lll()\'c
^ ,r 1lt.r,lrr,,r., .lt' srrrrs rtc'r't'ssicl:ttIcs irrclivitltrltis, ltetn talnpouco a
humana: a criatividade.
t.lr.r,rrçà< I rlrrs t.rcccssiclaclcs do gênero humanO, ao contrário,
No entanto,lta ainda a açà,o em si, a caça. Â atividad e realtzacfa, ou seja, l'c(lLlz cstrrs ncccssidades a uma única: a de sobrevivência. Neste
a acão que possibrhtará que todo o processo se dê: o ato de caçar. Tal atividade scnrid«r, o rrabtlho passa a ter o significado de uma atividade cuio
é sempre permeada por conhecimento, habilidades, r.isão cle homem, mundo, rcsultado é apenas a satisfação das necessidades mais imediatas e
primitir.as de sobrevivência bem parecidas às dos animais como:
sendo a açào transformadora em si.
alimentação (na maioria das vezes, pobre em termos nutritivos),
E, por fim, temos um produto desta açào: o objeto, a partrÍ clesta vestuário, habitação (muitas vezes pÍecárta ou sem conforto) e
ação humana, foi transformado em quê? Nesse caso, em alime nto p^ra divertimento (Tônus, 201'2: 05).
comunidade em questão: "o produto é um valor de uso, um mate rtal da^
nàtureza adaptado às necessidades humanas atrar,és da mudança c1e foÍÍna" compreender, portanto, a contradiçào presente na existência
E, necessário
(NIarx, 2001: 21-l),('suprindo não só as necessidades deste homem, mas «le rl9 trabaiho na sociedade de classes, que, ao se transformar em mercadoria,
sua comunidade.- rra forma de emprego, desumafllza o ser social, mas, ao mesmo tempo, não
E a partu do trabalho, portanto, que o homem pode se reconheceÍ como cleixa de ser lrna cap^cidade humana potencializadora do desenvolvimento
ser social, rlo uso de suas capacidades humanas, que o diferenciam da natüreza, deste seu ser social. "1...f paru Marx, o trabalho é tanto fundamento ontológico
como a teleologia e a criattvidade, objetivando-se e reconhecendo-se no produto cla sociabilidade humana como, em certas condições determinadas, a causa do
de sua açào. -aE porisso quepodemos afrrmar o trabalho como fundante do ser cstranhameÍIto" (Iasi, 2010: 61).
social e, portanto, das relações sociais. E, enquanto trabalho que se encontra altenado, como nos apresefltâ
E por que iniciamos este item com a linda poesia cle NIauro Iasi, que fala o próprio Mauro Iasi na poesia que inicia este item, mortifica a r,'ida do
do trabalho como não reconhecimento na coisa:
eue nos enfraquece e mata? trabalhador, em um pÍocesso de estranhamento de seu seÍ social,s que, todavia,
Ocorre que, em cada organização social, diante cle cacla moclelo de dialeticamente permaflece sendo fundado pelo trabaiho.
produção, esse mesmo trabalho, com as características que descrel,emos
até agora, ganhará diferentes formas e significados. No modo de produçào 3.Por {rm, a terceira categoÁa explicitad^ pof nosso exemplo
capitalista verificaremos que a vivência do trabalho, enquanto capacidade da caça sào as relações sociais, a r,'ivência do ser social, ou
humana, r'ai sendo a[enada, distanciando o homem de sua realtzação plena, nào seiâ, as relações entfe os homens desta comunidade que serão
deixando, no entanto, de existir enquanto capacidade humana. condicionadas pela forma como o trabalho se divi.lirâ nela as
Quando o trabalho se transform a púontariamente em meio para relações entfe os homens no processo de produçio. Pensemos:
sobrevir'ência, atra\rés da venda da força de trabalho, de forma alienada o todos deverão sair pra c çar:? Todos teÍão as mesmâs ideias?
-
que ocorre na sociedade de classes -, vivemos um processo cle distanciamento Todos têm as mesmâs habilidades? Todos cfra;Íào os mesmos
do homem dessa capacidade humana (o trabalho), portanto, um processo de instrumentos e meios p^ta a caça? Todos âSsariam a catne da
desumanizacão. Âssim, mesma forma? ir
il
I

Sabemos, pois, que nenhum indivíduo poderia supriÍ solitariamente I

I
I

i
I
I

À este trabalho que causa estÍanhameÍrto, NIars denominará "trabalho alienado": "[...] o ttabalho é es'teior ao i

trabalhaflor, ou seia, não pettence à sua essôncia, que portanto ele não se alirml, mas sc nega cm seu trabalho, que I

nào se sente bem, mas infeliz, que não desenr-oh-e energia mental e física lir-te, mas mortifica asuaplS'sis e arruína I

a suâ meote. [...] O seu trabalhg não é portanto voluntário, mas compulsório, truba/hoforcada.Por conseguinte, não
I

é a satisfaçào de uma necessidade, mas someflte tm meio para satisfazer necessidades fota dele" (NÍatx, 1989: 153, i

grifo do autot). I

i
*:.'
t,das lls stl2lS ttcce ssidadcs humanas, tampolrco o que um human«r ( ,unlrlrlrr.llr. í )r't,;11tlzcttt, rs rts itlci:rs ('('tllt'itis
anseia na relaçào com o outro, o que nos leva à constatação de que tocla
sociedade sempre se organizará, para produzir e reproduzir a vida material
e intelectualmente, ou seja, p^Ía concretrzaÍ a existência humana no
atendimento de suas necessidades materiais e intelectuais, como beber,
comeÍ, morar) pensar, sentir, etc. Âo fazê-lo, simultaneamente se realtza (,«»npreenclemos o homem como um ser social, qte faz pafie
uma reprodução social. cla rrzrtureza, mas diferencia-se desta partir do trabalho.
^
Em toda sociedade e, em especial, nas formações mais primitivas, C<rmpõem o trabalho, a capacidade teleológica - um tipo de
capacidade tipicamente humana de figurar na mente previamente
<r indir'íduo, ou ncts dizeres de Marx, o indiuídao produtor, terá sempre uma
o produto de sua ação - e a objetivação na transformação que o
relacão de dependência com os outros indir,íduo s protlutores (N[arx, 1991.a),') ser social reabza no objeto de sua ação, que supõe a utüzação ou
constituindo os r'ínculos e relações entre si. É, pois, na vir,ência social que construção de meios e instrumentos, e a transformação que
ocorre a producão e reprodução da r.ida humana. À produç ão é, portanto, opeÍa, ao mesmo tempo, em si. Para tanto, o ser social estabelece
vínculos e reciprocidades com outÍos homens que conformam
sempre uma atividade social.
as relações sociais produzindo materialidades e subjetividades,
Podemos afrtmar, portanto, que todas as relações entÍe os homens serão sendo neste complexo de relações que, entÍe outrâs manifêstações
mediadas pelo modo de produção de determinada sociedacle, muito embora, humanas, os valores serão gerados.
nem todas as relações humanas se deem apenas aperrt7r do trabalho.1,,

-\ existência social, todavia, é muito


mais que o traball-ro. o propno 1.2 Cúação dos valores: relações obietivas e subietivas
trabalho é uma categoÍia social, ou seja, apenas pode exisur colrro
partícipe de um complexo composto, no mínirno, por cle, peia fala
e pela sociabilidade (o conjunto das relações sociais). .\ relacàe clos

-\ conquista da überdade é algo gue faz


.:,?::;:iill,::','iJ::;'".'-'ffi *::'::ff ili,ll*:,:i:::iii tanta poeira, que poÍ medo da bagunça,
'Jil# :: i: :Jll:i* J:y jI iüT:: *l preferimos normalmente, optar pela arrumação
; : 1::. :,ffi :: ffi (Carlos Dnrumond de -lndrade)
homens entre si (I-essa, 2002:27).

Pan produzu e reproduzír a vida, os homens estabelecem relações


F, a attvrdade humanâ e as relações que o homem estabeiece que criâÍão os
de mutualidade, r,ínculos, reciprocidade. E,ssas relacões sào, portanto, o que
r.alores. Esses são, poÍtânto, estâbelecidos apartlt das relações sociais, que estão
chamamos de relacões sociais, sendo permeadas poÍ outr()s complexos sociais
vinculadas à maneira como determinada sociedade se organiza pare- produztr
necessários à vida em coletividade. Falamos, então, não apenas c1a producào de
e reproduzir suar.ida, flo complexo de dimensões e elementos que â compõe:
objetos materiais, mas da produção da relação social entÍe pessoas, que produz
materialidades e subjetividades. [...] o homem produz ao homem, se produz a si mesmo e produz
Aqui podemos voltar a destacar como a criaçào dos valores está vinculada aos demais homens; tal qual o obieto, manifestação direta da
ao modo de produção e às relações sociais, mediada por várias ourras relações. individualidade, é ao mesmo tempo sua própria existência para ele.
NIas, assim mesmo, tanto a matérta do trabalho como o homem
enquanto sujeito, são o ponto de partida do movimento [...]' O
carâter social é, poÍtanto, o carâter geral de todo o mol'imento;
9 Para Nlarx, na socicclade burSpcsa, essa relaçào cle depcndência será menor, pt>is a relac:io cr.,m
a comuniclacle clar-se,zi cada assim como a sociedade produz ela mesma ao homem enquanto
r-ez mais "c.m. simplcs mei, de rcahzar seus 6ns prir-ados" (N,larx, 1991a: 04).
homem, é produzida por ele (\[arx, 1'98]: 61,8, tradução nossa).
10 \âe Iembtar a irr-rp.ttância da compreensào de outros elernentos e rlimensões do hurnano prcsentcs n6 csta6leciment.
das relacõcs eÍItrc ()s lr.ttlctrs c1ttc, cmbora sejam condicionados pelo modo cle proclucào, necessitam
Lle ()utrâs cxplicacr)es
Parâ serem comprccndidos t'tr suur tot'alidade - o que é o caso dos sentimcntos, da fala, cla rcalicladc psíc1uica, cntrc ,utros. Âssim como podemos afrrmar que os homens são sujeito e obieto de sua
llsemplos sobre a cliscrtssà, tlts rcaliclades psíqr-ricas compreendidas enquant() pÍ()cessos cle subjctir-acà6 a
partrr dzr
conctetude da realclaclc sociltl, ott sc'i;t, cot.no singuladzacào dcssa, encontram-se em (irncah-cs l;ilho
(199g) c cm J.uz (2013).
ptopfiz- história, ou seia, produto e pfodutores dela, podemos afrtmar também
tlLrc s2i() elcs que criam os valores apaÍt1r das relacões sociais, ao mcsmo
tclrll)() .tl)')1l,t1tor,,r ,lt's,)n('r. lt(l,r,l,', ()nr() \'lrlol'. t'llotlt't't:ttll()s,:lirl.llr, tlizt'r': tlt'st't's1lt'i1,,.
em que sofrem influência destas nas escolhas que reahzam na vida. Com<> 1r11r/;l(lt..t.rrlr'('()1lr'()s. l,rtrllçllt'r'(l()()O)l('lll()suclltssiÍit'lrçiotlosvltl,)rcsitltrrrtir
vimos até aqui, a partk do trabalho o homem se constÍói e reconstroi, o que "t', rrrtt'ritlr »s rrri,lriqit'os positir'«rs" ("'cotrtcúcl«rs axioltigicos negatir'()s","
,lt'
inclui sua subietividade e indir,,idualidade, bem como os r,,alores na relacào ,,r.nrl,r rur)l)()s ('(,nr1'rrt't'ttrlirl«rs c«rt-t-to t'alorcs. ()u em Vázquez
(2000), o "valor
individualida oie tivida de. "r'llor nroral ncgatir'o". Nos dois autores, há avaloraçào do proprio
lr, rsitir r ) )u
de / c (

O homem atribui valor às coisas/objetos já existenres, de acorclo com r :rl.,r'. rrio clt'ixanclo, no entanto, de compreendê-los enquanto l'alores.
a necessidade, utilidade ebeleza presentes nestes objetos, e aind,a, de acordo I rrn anlbos os casos, o de r.alor positivo ou o ne€]ativo, não falamos de uma
com o trabalho empregado neste. F;mYâzquez (2000) podemos compreencler r(..11r'1r. rlc' r.una acào direta, mas de princípios ou conceitos que direcionam a açàc>.
a explicitaçào dos valores enquânto construÇão social na valoração que os I . c« rn-rr) scr, a() nos defrontafmos com uma noÍma ou fegfa de compcxtâmento,
sujeitos fatà,o de elementos da flaturezz-, de objetos e de proclutos de seu
l)(.r'glrlrtássernos a nós mesmos: mas qual o l,alor que está por trás de minha
trabalho, bem como dos valores que dizem respeito à conàuta humana, ou seguir ou contrapoÍ-me a esta regra?
;rcà«r :r.o
seja, os valores morais.
Iiazemos muito pouco esse exeÍcício, o que nos leva, em geral, a realtzar a
Dentro da mesmaltnha e inspirada em Yâzquez,Barroco apresenta-nos :rçà<r favorár.el ou desfavorár.el à norma de forma acríttca, apenas reproduzindct
um claro exemplo que demonstra o movimento entre objeto, produçâo humana ('( )lnportamentos sociais. Ter consciência dos valores que direcionam nossa
e criacão de valores morais. Vejamos:
rrcào e a quais interesses eles estão relacionados socialmente nos proporciona
rrnra vida mais inteira, ou pelo menos, mais consciente.
llma faca existe em função de suas propriedades materiais e de sua
utüdade paÍa o homem; ela é útrl porque coÍta os arimentos, por
\talores, poÍtanto, não são atitudes, mas são gerados poÍ essas e as orientam.
exemplo. XIas uma faca também pode matar e isto pode s.r rzlorado l)artem do real, passando pela subjetir,.idade humana, e se concretlzÃlnrr atrar,és da
positiva ou negativamente, dependendo das circunstâncias; pode rrçàcr o que lhes confere um caráter obietivo: surgem do concreto e
humarta)
tracluzem-Se no real, ao mesmo tempo em que têm um carátet subjetivo.l2
ffir'Jil TIl j:r J',lH,T: õii; Ti:".,T;'j;:;:il:: Podemos afrrmar que a crtaçào dos r.alores enquanto conceitos e
Yalente; isso pode gerar uma norma moral: a valentia passa a ser um
lrrincípios, espaço da abstraçào a p^rtrÍ do real, está vinculada a relaçào que o
l:'::,::'^.r:;i;,:::ü.?;Ji::T:1§:-;::ffiX::I:ffi lromem estabelece com o modo de proclução e se dâ apartu da acào humana na
a necessidade e possibrlidades sócio-históricas ":::T
dos homens, em sua rclacào com outÍos homens e não isoladameflte, ÍetoÍnando a essa ação como
práxis (Barroco, 2001: 29). sua base. Essa criação tem uma relação direta com o momento histórico e a
t
c()nstruÇão social, na medida em que a valortzaçào de determinado objeto ou
t
Contudo, do que estamos falando ao nos referirmos aos r.alores? para d princípio dependerá dos interesses sociais postos em tensão.
Í
uma melhor compreensão sobre eles, é importante percebê-los como princípios J!
Por isso, podemos afr.rmar que os t'alores não existem em si, na
ou conceitos, que partem da açào humana ao mesmo tempo em que a orientam, í
causalidade da objetir.idade exteÍna ao homem, e tampouco, exclusivameflte
passando pela anâltse subjetiva do homem.
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a paftrÍ da r.ontade e do pensamento humano, mas que "oS l,alores são,
N{uitas vezes, ao nos peÍguntarmos quais são os l'alores que clirecionam ontologicamente, uma relaçào entre a subjetividade (forçada a fazer escolhas no
nossa ação, obtemos a resposta elencando normas ou regÍas de comportamento, seu confronto ininterrupto e cotidiano com o novo socialmente produzido) e
e não valores. Exemplifiquemos: case.t virgem, nào trat, nào matir. as determinações da siruação concÍetâ em que se encofltra" (Lessa, 2007a 102).
Esses não
são valores, dizem respeito diretamente a normas de convir,ência e, Em outras palar.ras, os \.alores são uma criaçào coletir,,a que diz respeito
port anto, a
ações que são orientadas por valores. às relações sociais e, poftanto, ao modo de produçào (objetividade) e que,
Quais seriam, entào, alguns exemplos de',,alores? Honestidacle, felicidade,
iustiça, equidade, purezà,prazer,respeito, valentia, individualidade, coletividade,
desonestidade, entÍe outÍos. 11. ;\xi<rl<rgia: ,.r, = t,r-l,,r, /ogot = tccti../c.;1sil,, (tlo grego); I)iz tcspcito à estlutut?l dc r-:rlrres de um gtul-ro, comur-riclatle
ou sociecladc.
E,quivocamo-nos, atnda, quando consideramos valor somente o que em 72.\tâz<1uez abordatá a relacào entrc o carátcr objctir"o c o sul'ljctirrr clo lalrr, afitmandr, <1uc ele "é propricdade dos objetos
nosso iuízo de valor é considerado positivo. Entre os valores que citamos em si, mas propriedade adcluirida gtacas li sua telacào com r> homcm c(ún() scÍ social. \las, p()Í sua le z, os objetos podem
acíma, tcr ralot s()lTrcnrc quando dotados realmente de ccttas propricdades ol;je tir-as" §ázquez, 2000: 141).

I
i
dialcticanlcntc, eles passam pcla individualidade e subjctir.idacle c1r scr s,cirrl. t(l;rr ()r',. ;rlr'll\ lt:.. I ' N(,sr.r'l)('t'('lttrir ), ( ( )llslltlllll( )s lt ittlt't'tlltliZttt';t,, tlt't:tl,,t't's.
ltr ),,.,;|,
São apreendidos, reconstÍuídos ou reproduzidos por cada indir,ícluo a parrir .tr ) nt(.5n1( ) l('nll)( ) ('nl (lu(' sirrtirrl;rriz:ull( )s n()ss:r t'r1lCt'ii'lrcilt c' t'xtcrtrltlizltl'tl()s lt
de sua consciência, nos seus diferentes nír,,eis, e estabelecidos a parttr cle sua ptlr nrci<l clc trossas açiles.
.llrr t't'rrslr, , tlt'ssCs Vlrlr )l'('s ('1il r)( )ss1ls t'c'lrtr-irt's ctlticliltnas,
relação com a sociedade e vir,ência de man eka gelzJ, ou seja, cada indivíduo (Jrnrrrlt) n:lsc('lll()s, l)()Ílânt(), ()s valorcs já estào estabeleciclos ao nosso
singulariza e vivência destes valores.
^ ^preensão rt.rl,,r'. \ssirrr, rrào clepcnclcm apelras cle nossa ar.aliação para sua existência,
Imaginemos, pois, alguns diferentes modos de producão, isto é, distintas ,,(. ( )s :rcllrn-tos l;ons ou ruins. Dependem, sobretudo, cle flossa açào para sua
formas históricas de divisão do trabalho: como primeiro exempio, umâ nlrr)ut('llc.io ou mudanca, e aqui está, justamente, a importância clas cliferentes
sociedade primitiva na qual a dir.isão do trabalho se dê a partir das relações
l,tii.r'i.ç s«rciais. Se nào percebermos isso, não teremos a importante nocão de
de gênero ef ou geração, como encontramos em r,árias comuniclades africanas
lristoriciclacle. Se assim nào fosse, ao obseÍvaÍmos a historia, teríamos uma
e indígenas. Suponhamos, que nessa sociedade, embora haia uma divisão do
lrrrt'triclade e igualdade de valores. Àssim como a história é mutátel, pois tem o
trabalho, apÍopfl^cão da riqueza socialmente produzida
se dê igualitariamente
^ lr,rrncln como sujeito de sua construÇão, os valores também o são.1+
por toda a comunidacle. Que'u,alores possivelmente serão hegemonicamente Para pensaÍ as possibilidades de transformação dos valores, no caso da
gerados? Cooperação, solidariedade, honestidade, etc.
s,,c'icclade capitalista, é imperativo apreendermos as mediacões e contradições
Olhemos agora, a nossa sociedade - a sociedade burguesa flà qual a
- l)r'('scntes na sua propria estÍutufação, o que nos apoflta à possibiliclade de
divisão do trabalho se dá por classes sociais: nela encoritramos os que detêm
t'onstruÇões diversas de diferefltes valores para além dos hegemônicos.
os meios de produção (burguesia) e os que vendem â
força de trabalho Heller (2000) aponta-nos â criaçào cle comunidades no interic>r cle
(proletariado). Nessa sociedade todos participam da produção social da tqueza
,'rrrla sociedade. Segundo a a dacào entre o inclir,íduo e a" sociedade é
mas, diferentemente do tipo anterior, a sua aproprtaçào é completamente ^:utora,
rnc'cliacla poÍ sua relação e busca da vida em comunidade. Neste contexto, os
desigual. Qr. valores possivelmente serão hegemonicamente gerados?
irrclivíduos rea\zam escolhas pelas comunidades em que pÍetendem produzir
Comp etitividade, individualismo, de s ones tidade, etc.
sc'trs r.alores. O inüvíduo pode encontrar oportunidades de escolhas "[...] nas
Neste sentido, podemos compreender o quaflto a divisão do trabalho e
,rl>jetitações, no mundo intelectual e nas rlormas de épocas passadas, e pode
as relações sociais são condicionantes importantes no processo de criação dos
r.scolher os valores aí contidos, con\.ertê-los em valores proprios, hipostasiá-
Yalores, sendo necessário igualmente compÍeendermos o quanto a singulari zação
l«rs no futuro etc." (Fleller, 2000: 83). E aí, encontfâ-se o gÍandioso r.alor da
desses valores pafirÍ da interio rtzaçà,o e aceitação ou não deles pelos indivíduos
^ :rrte, da educação, da ciência e da política, entre outras esferas produtoras de
será importante parz-as relações sociais. É neste processo, o da divisão do trabalho,
lrossibilidades de conhecimento e reflerão que rios permitem entÍz't: em contato
que se dá a teprodução das relações sociais, em um pÍocesso que também é c()m nossa humanidade.
informado pelas contradições e tensões presentes no modo de produção. burguesa tÍouxe com ela o gÍau máximcr
O desenvolvimento cla sociedacle
E necessário lembrar, portarrto, que as proprias relações sociais não são
de de s en'u,olvimento da indir.idualidade conhe cido até então. C ontÍaditoriamen te,
lineares. Elas comportam em si processos contraditórios que nos permitem,
ó no próprio espaço de r.aloriz ação da vida fora da comunidade (indir,'idualismo)
mesmo tendo sido criados diante de tais valores hegemônicos socialmente,
que se apÍeseflta a possibilidade concreta de luta e busca da l.ida em comunidade,
crtàr, de modo contra-hegemônico, outÍos valores em busca de uma distinta
por sua ausência e pelos meios existentes Para essa lutâ.
sociabilidade. E neste sentido, algumasprcíxishumanas são de suma importância.
E, no interior dessas comunidades - em maior ou menor extensão, desde
Na sociedade de classes, como uma das possíveis prríxis, temos, por círculcrs de amtzade, até grupos mais organizados -, reside a possibilidade de
exempio, a vivência da organtzação política como grande possibilita d,ora da
cttação de identidade e consciência de classe, favorecen do a cnação de valores
contra-hegemônicos. Temos desde nosso nascimento, o contato com uma série
por dizer a otigcm deste r-.alrr, ou seja: r'alrres relig,iosos, políttcos, fatriliarcs. Isso nrio diz sobtc cl.r:rl raLrr estam()s 11os
de valores que nos vão sendo transmitidos pelos diferentes sujeitos sociais e referindo, apenas localizir-()s em n()ssa trrrjetriria, n^s sr-l?ls comtrnidndcs de origcnr.
instituições e que pe{passâm nossos pÍocessos de socializ ação tntcial, sobretudo na 14. :\firmar que os valorcs sào mutár-cis, histritico-s t: passilm pela subjctir-idadc c indir-idualidade nào qucr dizet quc
detendamos a ideia clc que cstes sào absolutamente rclatirrrs: r> fàto ó cluc cada urn de nris pocle tcr maneiras cllfercntcs
famiTta, nossos pÍocessos de educação formal, como na escola, e não formal, por
de aptcensào destes, cle acordo cr.,m a tealidacle cm guc rivrtn,,s, c(,m 11(,s-\() lugar la csttutuÍâ social de clâsscs, nosstr
meio da mídia, religião, internet, etc., e aqueles pÍocessos constituídos a parú de process() eclucacional, com as diferentcs rclacr'rcs,/conhecitnenttis e r-ir'ôrtcies Lluu t(mr)s, n,)ttílrlt(), semprc e1n ufila
relacão r>bj ctir-idade,/ sub j etiridade.

).1
crlllçli() c Vi\'['llcia clc "r'alorcs 1>«rsitir,os",l'r]{r qual ccntrrrhncltc sc cltc()rtr-11 1r \ r,tt, tt,l rll l,r', l'llil,
liberdade. Nelas, efetivamente podemos r.iver l,alores que nos aproximcrn clc I ).r, r', uttt l,r ll, r lt ltl .ll( ,1 ' l')r) ,,
,

flossa essência humana. Como nos disse Heller, "pode-se sempÍe encontrar St t,,rrrr,l.r lt rr:r :1,, s,,l i-lO(ll r

uma possibilidade pàra comunidades desse tipo: e todo verdadeiro indivíduo as I Ir. rrrlrlr',v 1lí)t)li)
( ) t rtt!.tttrt .1,.' K:tsllltr I IrtLtscr I l9l+)
(2000: 84, grifo da autora).
merece" ( )llros :rztris ( l()96)
Âssim, como nos inspira Drumond na poesia inicial desta seção, é .\ onrlrt (20()8)
necessário "fazer poeua", clesacomodando o arÍümado na busca da liberdade, ( ) trrntrrstnrr da hberdacle (197a)
( irtrtrrca (1991)
da emancipação humana. Mas, o que isso terá aver com nosso próximo tema?
\s n'relhores coisas dci mundo (2010)
Será que podemos afr,rmar que os valores dão base à morale à ética? Se sim, em () paguidor de promessas (i962)
que medida? ( ) saroto selvagem (1969)
Ântes, um novo momento de síntese em nossa caminhada, em que
retomamos os elementos centrâis apreendidos até aqui:
Literatura:

Clerminal @,mile Zola)


O livro dos abracos @,duardo Galeano)
Àme e dê vexame (R-oberto Frere)
São criados pela açào humana, na relação entre o homem e a
Historias do cotidiano (Nlarv Dcl Priore)
íràtuÍeza e o homem e o homem (a partir do trabalho), sendo
I'Iistonas íntimas (Nlarv Del Priore)
transmrtidos geracionalmente através da educação formal e não
formal, dando base às atitudes em sociedade. São, poÍtanto,
uma criacão social e passam pela subjetividade e individualidade
dos homens ao aceitálos ou negá-los. Há nessa relacà<r Música:
objetividade/subjetivrdade, coletividade/individualidade Da
criacào, afirmação, (des)construcão dos r,zlores, a reiação e acào C)perário em constÍução §'inícius de \Ioraes)
direta do ser social com o objeto, com a realidade coflcÍeta, em Construção (Chico Buarque)
um movimento dialético no qual a real_idade concreta é fonte da O samba do operário (Cartola)
internaltzação de valores, ao mesmo tempo em que é objeto da O malandro (Chico Buarque)
externahzação destes, a paÍt1Í da singularizaçào que os sujeitos Fábrica (I-egiào Urbana)
reabzam desses mesmos valores e dos espacos de contradiçào Fábrica II Q-egiào Urbana)
presentes em cada sociedade.

Práxis artística - pata quem está ensinan d,o / aprendendo


sobre os temas trabalhados neste capítulo:

FilmograÍia:
:""'"'
i Tempos modernos (1936)

15' "Sào de r-alor positir-o as relações, os produtos, as acôes, as ideias sociais <1ue f<rrnecem aos homens
maiores possibili<Jacles
de objetir-açà., que integram sua sociabilrdade, que configrram mais unir-ersalmente sua consciência
e quc âumcÍltam sua
liberdade social" (I Icller, 2000: 78).

):'
Capítato 2

Moral e Etica: entre as Exigencias


Genérico-S ociais e a Busca de Nossa
Genericidade Humana

- .\rranque-me, senhora, as Íoupas e as dúvrdas.


[)ispa-me, dispa-me.
(O /it,xt do.r obraçosf I ruite/2 - [:drutrdo Galeoru)

Prosseguindo nossa caminhada, realizaremos aqui uma construÇào-


síntese demonstrando o entrelaçar de dois conceitos/categorias fundamentais
p^Í^ compÍeensão dos projetos e éticas profissionais: a moral e a éttca.l
^
Bus camo s o movimento propo sto poÍ Galeano : despirmo-Ílos, aÍÍâncand«t
nossas Íoupas e dúr,idas e explicitanclo-as neste momento P^ta, entào, poder
construir algumas afirmações nesta caminhada, gerando sempre no\ras dúvidas
que nos instiguem a flos movimentar na busca de novos conhecimentos. Falar
sobre moral e ética exige tal movimento de desacomodação e despimento dos
pÍeconceitos e estereótipos.
E, necess árto, antes, tealtzatmos uma importante advertência, já como
um despir-se: este capítulo Íraduz, com esforco, a singularizaçào da autor fia
busca das conexões entre complexas categorias divergentemente tratadas na
\teranxa da Filosofia, Ciências Sociais e Servico Social. Esforço em torná-las,
em sua complexidade, acessír,,eis aos diferentes leitoÍes que nos acompanham.
Àcima de tudo, esforço na busca de coerênciana articulação interna entre tais
categorias, Íras fontes pesquisadas em suas dit ergências conceituais - mesmo

1. Alóm clas cr>mpanhias qur ji cst.rvlm c()n,,\c, ). aÍjrcqam-sc'.1() Ír()ss() c:rmirrho ()utÍas lcfeÍôflcias. Sào algur-rs âut()res e obr'.]s
cenrtais da tradicào marxistur, pornr'>s sinpplarizados: Luliács (1997), Netto & Braz (2006), \'ázcluez (2000), Ileller (1991,
2000), Rarrocr) (2000,2001,2008,2009),.lacquard (1998) e lcttulian (2010).
tlt'tltl't' tlt'ttltt ll)('slt)() citlnl)() tc<iric«) - e lra p()siçà() assumida pela autgra. \ l\ o ( ,( t,l\ o rlil llr( ll .,llttl,,t. ttltlllr ) ( tltl,,,t.l \.lt',.tl,tttt,l,,
Iitn
nossos estudos, encontramos diferentes e antagônicas formas clc (.)rt.tttl,|,t \í)(,.,1,t :lt.lsl,)( t;l( lil
compÍeender a moral e a ética. Mesmo dentro da traüção marxista, (lrr( l( lrt tltttltcttr). tt):ls tl:l() ('()ll)l)l'll ltlt'ufilr
estas nãcr
são tratadas de uma únic a maneira. FIá consensos e dissensos I lli .lt \ l\ ( l ( lr'l'll:tlll( lll( sctrcl() ('sCrltvlt clcsslt gctltc
em toÍno de suas cltrc ctrltivrr hiltocrisirr
definições. Vários textos utthzam muito satisfatoriamente tais categorias,
mas
não as definem de um modo claro, obrigando seu leitor a rnferk o
(l ;i hsol), t - \' ocI I?.osa)
significado
proposto paÍa moral e etica. Colocamo-nos, pois, este desafio em especial:
defini-las diferenciando-as e demonstrando suas relações.
(.I-rcgamos entào a.o que chamamos de moral: "[...] um coniunto
E'ste estudo nos demonstrou a amplitucle e densidade cleste debate.
 rit'n«)rlrlas e regras destinadas â regular as relações dos inclir.ícluos numa
incomensurável viagem que é a busca pela compreensão dessas categorias
na ,',,nrurridade social dada 1...)" U ârquez, 2000: 37).
sua universalidacle e, ao mesmo tempo, em sua objetivaçã o fla
sociedade de () ser social, com base em seus valores, na rel^cào com a realidade
classes, bem como na coerência de suas conexões.2 Àssim,
acreditamos que ,,lrictiva, passa a buscar compÍeender o que é bom ou ruim, corÍeto ou incorretcr
a reconstrução de tais câtegorias de modo algum se encerÍa aqui. por
hora, (,n(luânto compoÍtamento humano, para si e paÍa a coletir.idade. Surge então
colocamos-nos apenas o desafio de torná-las compreensíveis enquanto
:r rlcCesSidade da existência de regÍas gerais. À partir desse lirízo de valor e
elementos imbricados e relacionados, mas cliferentes entre si, convidando
o tl,rs r.alores estabelecidos socialmente,l,ão sendo geÍadas âÇões, atitudes, que se
leitor a nos acompanhar em mais este trecho de nossa caminhada.
l()rnam hábitos e costumes. é justamente a origem do teÍmo mofal, que
E,SSa
E' poÍ que podemos afirmar que moral e et:Lcl são clistintas, mas \'('1x do latim mls ou mlres = costume ou costumes. Tais ações toÍnam-se regÍas
imbricadas ? Caminhemo s.
tlc conr.irrência a serem seguidas pelos indirríduos em suas ações coticlianas, ou
scfa, o que podemos/devemos fazer ou não no dia a dia.3
Perceba que não estamos falando de leis. Às normas moÍais nãcr
2.lMoral, indivíduo e sociedade trccessariâmente se tÍaduzem em leis, mas têm a força social, em alguns casos,
ral qual ou maior, ou seja, sào normas e princípios que "são aceitos sobretuclo
lrela forca do costume e da tradição" §Iazquez,2000:12).
O mundo me condena, e ninguém tem pena Diferentemente do que cliscutimos sobre os \ÍâloÍes como princípios e
falando sempre mal do meu nome não atitudes,+ embora totalmente ligados a eles, a moral, diz respeito à ação dos
Dexando de saber se eu vou moÍÍeÍ de sede
indir,íduos, ação essâ que tem por base seus \râlores e juízos de valor, ou seia,
ou se vou moÍfeÍ de fome
ÀIas a filosoÍia hoie me auxiüa embora diga respeito a normas coletivas, depencle necessariamente da aceitaçào
a viver indiferente assim c adesão que passâ pela individualidade p^r^ sua objetir.ação. Dizendo respeito,
Nesra prontidão sem fim portanto, à interiorizaçào que os sujeitos reabzam de tais normas, da forma
vou fingindo que sou rico
como as singulaÍtzam.
pra ninguém zombar de mrm
Não me incomodo que você me diga Ela está relacionada ao modo de se compottat do ser, nessa relação
que a sociedade é mrnha inimrga
pois cantando neste mundo
3. \'ale tessaltar quc, no gerd, css. |r(,ccs\o, rcllcit.r cntÍc Ial()Í c atitude r-riio é cViderrciaclt, c,/ou pcrcel;itlr muifas Yczes
no coticliano (cf trab:rlhado no capírulr alrtcti()r),,, tlur f.rz c,)trl rlu( il\ 11r)ttn.ts c l:ctjtxs rluc c',mfi]cm o ctidi.qo morzrl
de uma sociecladc sejam apteendidas corno r-'alotes e nào como tlirccionament() p?uã â açào cm socicdadc. l:m nosso r-el,
tal fato ó dercras pcrigosr-r n() pÍoccsso social, pois camufla as vctcladciras bases rrls cluais se 2rsseÍ1ta o ditccionamentrr
2 J'ukács, importante pensador húngarr, passou grancle parte <le
sua r-icla buscandc> a compteensào da ética, nào tendo, no
entanto, conseguido escÍe\-eÍ uma obra específica s.l;rc ela, p()is clrcontr(). moral de detctminad:r socicdade e os intcrcsse s p()r tÍl.ls de tal dirccior-ratncnto. l .tn I Iellet pr>dcmos lcr: "Nào aptendemos
no caminho outÍos esrudos que necessit.u o cluc é c, bem, mas somente que lulano é bc.,m porgue ajuda aos outtos. Nào aprendemos o quc é c()rilgem c sitlr cluc
dcsenr-oh-et para poder compreender a ética. No entaÍ1to, dcirou inúmeras
e raliosas reflexôes s.bre ela. Com. nos afirma
'lerrulian, grande ciclano é corzrjoso por<1uc bateu fr.rrte em alguém, fazcndo-o coÍrcr ctc. lrrn conscguência, nào reccbcmos simplcsmentc os
esrudi,so da <;bra de Lukács: "r\té . fir-n de sua uma r-ida muito longa e muito Íecunda do ponto
'icla -
de r-ista intelectual - l.ukács acalentou a i<leia de escre\-eÍ uma l:-tica. conceit<rs morais, màs umâ inÍetpreta4io e$ei/ita dcles, zr intcrprctacào cspeci'al que lhcs é t.lacia no seio do sistcml n(,tnllti\, )

I::le nào conseguiu atingir este seu objetir<r maior,


no qual desembocaria sua ati'idade filosdrfica: a Értica, r>bra de sífltese de uma dcterminada classe, estrzrto, comunidade" (l leller, 1991: 142, ttaducào nossa, grilo da nutora).
e cor()amento J. ,-o pro<1uçao que já incluía uma
Estétita e uma ontologa do ser social, nào eristc" (têrnrlian, 2010: 21,grif<r
<1o autor).
4. l.embtandc.r que discutimos a telacào cfltlc prillcipios e atinrclcs - princípios que nascem das atirucles c que ao mesfiIo
tcmpo as fundamefltâm.
;\ moral "1...1 é sobretudo uma atiuidadepnítiut cyrt'
crttr('irtittrclc/n«rrut:r/atitude.
1,r.r, t.l)( l
(lu( l).u;l .t l)t( )l)t l,lr)t1,,:lrll,,lr(:t{ r tlo ll:ll,:tlll,, t'tl:t t'ttl;t tlt'ss:t ( ()lltttttttl:ttlt'
se expressa em ações e decisões concernentes a essas acôes" (Heller, 1991:132, .,{.t:t( ) n(.( (.ssii t'l:ls n( )t'nl:ls (' t't'1, 1115 (' ('sl1ls sil1'111t'rt,, rl:tt1ttil,, tltrt' ti ri Vlrlt,l'lttl« r c( )lll( )

tradução nossa, grifo da autora). lront l)1u'lt :t(lrrt'ltr r',,rrrrrrritllrtlt'. (.ottt«, t':ttllt tttll tlct't't'li st' c«)nll)()ftar Para qlle
Âo mesmo tempo, este sujeito, ao reaTtzar suas escolhas, é também :,r.i:r Pr»ssír't,l (lrrc uns srri:rrrr I)1lr'1r cltç1r1 c ()LItl'()s ()rgenizem a c()munidade para
influenciado por todos os pÍocessos sociais r.ivenciados por ele: suas escolhas ,r r',,lrrr rlos crcurl«)r('s c () prcpâro da cotnida? Ou arnda, o que seÍá peÍmitido
não são frutos apenas de sua "yoz interior" (r/ásquez, 2000), mas sim das ,r t':rtlrr uln ()u nli«r na ausência clc uns e na pÍesença de outÍos durante a caça?
relações sociais que estabelece partlr da forma como as singulariza. .\«r rcsponcler tais questões, entre tantas outÍas que poderíamos fazer
^
Trata-se de uma dimensão totalmente práaca do cotidiano n^ rcIação rf ('st(' llcsm() cxemplo, percebemos o caÍáter coletivo da moral na necessária
entre as diferentes esferas desse mesmo cotidiano e do compoÍtamento humano r riucrio das regras e normas. () cumprimento ou não dessas regras é <1ue dizem
nele, narclação eÍItre individualtdade/coletividade e singularidade/genericidade, r'('sl)cit() ao indir'íduo.6
o que pressupõe a reabzação de escolhas (que são condicionadasf rnfluenciadas ,\ssim, a moral é o conjunto de fegfas que o indivíduo deve seguir
pelas condições objetivas e subjetivas), pois sempre resulta em consequências
l)irra a r.ida em sociedade, portanto Íegrâs sociais e nào individuais, ou seia,
ao indivíduo e a coletividade. 'i{ moral e a rcIação entre o comportamento singu/ar t.lrr nà<r é o conjunto de noÍmas de cada indir'íduo, sefldo incorreto afrrmat,
e a decisão singalar, por um lado, e as exigências genérico-sociais, por outro." (-( )lno comumente \remos dito por aí, que "cada um tem sua moral ou segue sua
(Heller, 1,991.: 1,32, tradução nossa, grifo da autora). nttxal", ou ainda, que tal sujeito está sendo "imoÍal" ou "âmoral", pctis ninguém
Falamos, pois, de normas coletivas que, mesmo ao passârem pela avaltaçào lclrr ou não moral e, sim, segue ou não certa regra moral.7
de cada indir,íduo, üzem respeito ao direcionamento do comportameflto em
Quando falamos clesse con,unto de regras e normâs de determinada
sociedade, as exigências genérico-sociais. I)izem da ação individual na relação s«rciedade, remetemo-nos ao conjunto hegemônico ou dominante nessa
com a coleti'u,idade. Podemos assumiÍ, poÍtânto, que a moral é uma produção s«rciedade,s não exciuindo, portanto, a existência de outÍas morais concomitante
social e tem como objetivo a rcgulação da vida em sociedade. E, ao fazê-Io, 1r csta e, muitas vezes, com regras e flormas antagônicas à moral dominante.
g r^nte a hegemonia de determinados interesses, contribuindo na manutencão l)«rÍtanto, cabe ressaltarmos que os indir.íduos escolherão seguir ou nàc>
do slalas quo de cada sociedade. rlcterminados codigos morais, podendo seÍ o da moral clominante socialmente
 moral só existe a p^ÍttÍ das relações sociais - assim como os valores , ru aquele codigo moral hegemônico no gruPo ao qual pertence.e

- e passa a existir apeÍlas no momento em que o homem jâ faz parte de uma À açào de seguir ou nào a ÍegÍz- é que dá concretude à sua existência ou
coletividade, regulando a vida dos homens entre si e com a comunidade: "o trào enquanto norma social. Àssim, embora a morai seja o coniunto de normas
esquema-base da moral é a subordinação das necessidades, desejos, aspirações c regras sociais, efetir.amente ela só se objetiva atrar.és da ação dos indivíduos a
singulares às exigências sociais" (Fleller, 1991: 1,33, tradução nossa). p^Íír de suas escolhas e atitudes, com base nas condições objetivas e subjetivas
 moral surge como umâ necessidade social de "asseguraÍ a concordância diante dos r'ários aspectos e esferas de sua vida.
de cada um com os interesses coletivos" (Vásqaez,200ü 40). Pressupõe assim a À moral não é, pois, uma esfera específica da vida, mas sim a mediacào
disputa e tensionamentos entÍe os diferentes interesses pÍesentes em cada sociedade.
Ou seia, nenhuma moral é neutra, ela carega em si uma dada direção que se quer
imprimir à sociedade, sendo necessária como forma de regular as relações. i]
Voltemos ao nosso exemplo do primeiro capítulo sobre a comunidade i

primitiva para compreender a necessidade da existên cia da moral:5 podemos

5. Vale tessaltar que ÍIas sociedades primititas nào podemos falirr ainda da moral como conhecida nos dias aruais. Nestas (as
comunidades primitir-as), as diferenças singulares tinham maior condicào de serem incr>rporaclas. Ltilizamos aqui apenas
para dar a ideia da necessidade de criacão dc regras de conrir-ência e, mais adiante explicitaremos o senticlo cla mqtal na
sociedade de classes. "[...] nas sociedades primitivas pode faiar-se s()meflte de uma premoral. Às relacôes sociais eram tào
simples, o número de casos possír-eis tão restringidos, que pôde desenr-oh'er-se um sistema de exigências no qual estara
prer-istcr cada caso concÍeto particular" (l Iellcr, 1991: 131, traducào nossa).

.+t
clltrc () i[dir'íduo c a socicdrtclc llas clifc'rcntcs csfcrrrs tlt's('u r.«rtitli;rrr,. ,lr. .,r.rt:, tlt.:,r.;r):. (' \{)llllt(lt'1, ,t:, ( \11,,1 11( l:l\ \()( l;115, ll)tltl:15 \('/('5. :tlt' tlt' lllilll('ll'll
perpassando, assim, distintos aspectos de sua 'u,ida (Barroc(), 2009). ..1)1c1r (,,1)()llliul(.:1. l(t'llt'rtviltlt('tllt'orl llil(). lr:i trtltlt t'St'«rlltlt.
que estâ Íflaçào [entre o compoÍtamento e decisões singulares e as exigênci1s I)t.r;rrt'tn:ris r.slill)l()s llrllrntl«r st'ttà«, clt'ltttllt rcl)l<lcltrçlit) qtte, ctttl>t>rlr sc
sociais] c tacteflza cada esfera da realtdade, a moral pode estar presente em cacla
,lr. 1r,)r-1r'r)rr t.st',,llr:r livrc.t'c«rrrscicntc (1'rorcluc sc interiotrzolJ no suieito) nào
rclaçà,o l)rmdna" (Helter, 1991,: 1.32, tradução nossa, grifo da aitora). E, isso contribui paÍa sua
( ()rs('rlu(,
I)asslu'l)()r'Llnr l)r()ccss() clc reflexà<t crítica?
Falamos, pois, de normas e regÍas que suÍgem d,a açào humana, em ( ( )nlinui(l;rtlc t'rrrlturllt() lt()rlna, mantendct determinada hegemonia moral.
decorrência de hábitos e costumes vil,enciados pelos sujeitos, bem como dos ( ) striciro nà<> s<i sr.rl>rnete seus desejos e paixões às exigências sociais -
diferentes interesses postos em cada ordem social e que, portanto, só podem
lr.irrcí1ri<r busc cla r.t-toral -, mas passa a compreender a exigência social corÍr() §ltd
exisú na epela ação hum^na,tàrrto no que diz respeito à sua existência enquanto ,'risi'ncia singular.
noÍma - sua criaçào -, quanto à sua continuidade ou seja, sua perm anência (,<rme a adesão/tntertc>rtzação nào se dá poÍ um pÍocesso crítico e
- -,
o que também pressupõe a açào humana e peÍpâssa as diferentes esferas cla vida.
r.t,flcxir.<> - o que é proprio daforma de ser do cotidiaflo -, nem sempÍe teremos
Desta forma, dizemos que os sujeitos têm ações morais diante e àparír
srrjcit6s realmente conscientes por inteiro das implicações dessa adesão, ou seia,
das regras e normas de determinada sociedade. E o que seria uma ação moral?
r.t,slt6nsabilizanclo-se completamente por suas escolhas (Barroco, 2009). Temos
Podemos afrrmar que uma açào é moral quando esta foi redtzada 1l)cnas uma submissão da singulariclade às exigências genérico-sociais e não
conscientemente pelo sujeito, como uma escolha livre, diante dos costumes
:r cgnexão entfe a singularidade e a geneÍicidade humana (o que, por sua vez,
e tradições de uma determinada sociedade, o que implica ter ciência de seu ()c()Íre no caso da ettca como veremos mais aüante).
comportamento diante da rclaçào singularidade-exigências sociais. É a ação que Esta reflexão nos coloca algumas questôes importantes sobre a motal:
se coloca a favor ou contra Íegr^ social, diante da escolha do sujeito. É a
^ rlue conclições estão postas, no cotidia no,pàra a ultrapassagem desta consciência
objetivação da moral. na rcaltzação de escolhas pautadas em umâ consciêncr^ críttca e
lrrimeira
Por ação livre e consciente entendemos a ação que se tealtza poÍ uma rcflexiva que nos cond:uzàà interiorizaçào cla regra poÍ nossa identificação com
escolha sem coerção - sem violência fisica ou emocional
- e por sujeitos em cla se tornando exigência singular cliante da exigência coletiva?
condições emocionais e mentais satisfatórias para isso. E,scolha consciente das
Às afirmações que realtzamos até o momeírto sobre a moral baseiam-se
consequências da açào, indicando ao da açào sua Íesponsabüzação sobre
^tor cm sua apÍeensão em um processo cle abstração do real em movimento que
eia. E, a consciência no sentido da interna)tzaçãode uma realidade concreta: ..dito
possibiljta sua compreensão no plano ideal ou, como nas palar'Ías de l\{arx:
de outra maneia, uma realidade externa que se tnterionza,, (Iasi, 201,1: l,l). i'as determinações abstratas coflduzem à reprodução do concÍeto por meio
O sujeito conhece a existên cta da tegrz., tem consciência sobre sua clo pensamento" (1991,a: 16-17). Faz-se necessário, poÍtanto, pu:a Iesponder
responsabilidade perâflte esta, sabe das consequências ao segui-la (ou não) e
tais questões, voltaÍmo-nos paÍa o chão que orienta esta reflexão: a real-idacle
toma sua decisão levando em conta tais elementos. Intertonza à regra como
concÍeta. Daí decorrem clois elementos que se conjugam fortemente: o cotidiâno
parte de sua vivência em sociedade.
e a sociedade de classes.
Âssim, afirmarmos que â acão moral pressupõe a escolha liyre Na concepção de Fleller, sistematiz adapor Guerra (2012: t[l[), e de Lukács,
^o
e consciente do indil'íduo em relação à normaf regra, não estamos tratando sistematizada por Netto (1991a: 67), o cotiüano é um espaÇo que tem como
necessariamente de uma consciência cÁttcae reflexiva, mas sim da tnterioizaçào
características centrais: a heterogeneidade (diversidade de situações de naturezâs
da regrz', tornando exigência genérico-social umâ exigência p^r^
^ suâ distintas, que demandaaosujeito sua atençào quase integral), a espontâneidadel2
singularidade:l0 é a interioÀzação da norma.Il O que corresponde à submissão
(que potencialtzanos sujeitos â apÍoprração da realidade naturaltzando as re€lras
e modos cle compoÍtamento tradicionais); a imediaticidade (que conduz os
10 Para Iasi, há a existência de distintos nír-eis de c.nsciência, dentre os quais "a primeira forma
de consciência,,, <que nào sujeitos a cfar respostas pÍroÍrtÃtr^mente às demandas imedratas da reprodução
é nem reílexiÍa e nem crítica e quc tem como alguma cle suas.r.act..ísti.os' "1- r-ir-ência
pteestabelecidas como realidade dada;
[...] 5- cssas relacr-ies nào permanecem
a cle relaçr)es que já estar-am
e\teÍflas, mas se intetioriru-.o-,, noÍmas,
social, pelo caráter espontaneísta e mecânico do cotidiano, em uma ÍelaÇão
valores e padrt)es de comportamento, fcrtmando com () SL'P]-llUr(;O, um compoÍrentc
que o indir-í<luo r-ê crm, clele,
como autocobranca e nào como esigência e\terna;
1...1 7- assim, o indir'íduo submete-se às relacôes cladas e interioriza os
r-alotes como seus, zelando por sua aplicaçào, desenr-ohlmcnto e repro<Jucào" (Iasi,
2011: l1,grifo <1o autor).
m:rs irrtcgra a zrprescntacào clue realiz"r sobrc
1l Lembremos no\-amente que estamos fa.lando da norma hegemônica ou cle normas que coc\istcm
;, ;,;; .r""r"",,, r-r0,,
"r,O
frcscnrc Ír;r .rnrilisc Jc Ncttii (1994a) sepirr:tdatnctrtc,
cum a moíal dominante. a imecliaticidade.

i+i
tlit't't:t ('lltl'('l)('llsrtl't'rrgil', s('I)t rrrcrlilrçt)cs);
c 1r supcrÍicirrlrtl;ttlt.r.xtr.rrsir,:r ( r )f llr ) l1(.lo tlt, 1l:1111('lt( oIrlt ttl t' tlt':st' .t/,t/tt.ç ,f //tt.t'
lt( 1 1l;1
(gcrando a neccssidadc de respostas <1ue deem conta da extensào e cla amplittrrl,
,\ rrr,,r.lrl tl, )ntin:llll(. (.tn n( )ss:t s,,t'it'tllrrlt' 1rl('lt(l(' ttos ittt('l'('ss('s cllt clltsst'
das clemandas e não de seu aprofundamento e intensidade, levando em
conta ( ) lrrrr.t1.(.s:r (.,ttr6 lirçrrrrr rlt't'stllrt'lt't-t'r'lrrrrit('s. (r()nlr'olltr, rcltr:itl-rir toda c clualclucr
somatório dos fenômenos e não suas relações).
l()r.r):l cr'íticrr rlt.r'c'lacrio cl«r itrrlir'ítlr-to c()ltt a sociccladc. E, de certa maneita,
Desta manerca, falar do cotidiano é falar do espâço proprio clo ou
,,t.1qtrinr«)s (,\'1tttl()S l'Cl)l'ocltuziuclo CSS2IS rcgras e nofmas Sem questioná-las
reconhecimento do humano apenz;s em sua singularidade po,..r.ialmente
1. rros tlrtt'sti«rllartn«rs qtlant() às n<lssas ações.
de modo egoísta) distante do reconhecimento de sua universalidade, .,[...]
vale (,«rr-rfirrntc vim()s, a moral é estabelecida coletivamente, tendo como
üzet: a dimensão genérica (a referência à pertinência ao humano-genérico)
íi.^liclaclc regular a r.icla em sociedade diante dos diferentes interesses em disputa.
aparece subsumid^, nà r'ida cotiüana, à dimensão da singularidade-
1,994a:68).
§ettq Lrrr uma s«rcieclacle como a nossa ela não conseguirá atencler as necessidades e
intcresses clas cluas classes ao mesmo tempo, ou seja, à classe trabalhadora e à
O cotidiano é, portanto, espâco da rrão
lrtrrguesia (r,isto que tais interesses estão em disputa), bem como, para além das
criticidade, das respostas imediatas, da não
r.lasses, nào atenderá às necessiclades e interesses dos diferentes grupos sociais,
reflexão, da alienação, do não aprofunclamento,
gi.neros, etnias, etc. O que faz, inclusive, existir mais de uma mofal em nossa
da volatilidade. Desta maneira, ..[...] na
s,rcieclade, embora apenas uma seia a dominante,r+ e eSSâ é a rrrorul burguesa'
cotidianidade, não é possívei concentrar lodas
Há. a tendência cla criaçào de uma moral em acordo com os interesses
as energias em cada decisão" (F{eiler,2000:25,
.las classes clominafltes sem, entfetânto, deixarmos cle reconheceÍ o pÍocesso
grifo da autora). Paru que nossas escolhas se
r:,nffaditório da socieclade e cla formaçào de consciência das classes nesta. Não
deem de maneira realmente consciente e cnttca,
1r«rclemos anulara possibiliclade da transiçào de níveis de consciência, de uma tomada
é necessário levar em consi deraçào o trinômio
tle consciência crítica e plena, que seja orientadora cle processos de transformação,
escolha-aceitação-responsabíhzação pelas
1-r9is senão não
veremos horizonte quanto à correlação de forças que possibfitariam
consequências q para taflto, que tais escolhas
1r constÍuÇão de outÍa moral pautada em outlos ralores e
interesses.
sejam feitas com noss a tnteireza, o que é muito
Âssim, por se tratÀr de uma sociedade de correlação de forças erltre o
difícii nessa esfera do cotidiano e, com mais
capital e o trabalho, que utltzatodos os meios p^rarnanútenção da exploraçào da
complicantes ainda,, em um cotidiano de uma
f,riça de trabalho, coloca-se flo lugar da moral burguesa coisas que não deveriam
sociedade de classes.
peÍtenceÍ às regras coletirras, resultando em uma apÍeensão (real) dos suieitos
Falar disso e falar de uma cotidianidade
sobre a moral como algo apenas ruim,r5 pois ela acaba sendo assim vivenciada.
em uma sociedade extÍemamente alienante que
nos distancia da reahzaçào de nossa essência
humana e potencialtza escolhas acríticas.
Assim, o indivíduo "em todas as paÍtes aspira
os miasmas da moral estabeiecida e a sua
influência é tão forte que, em muitos casos, o
indivíduo age de forma espontân ea, habitual,
quâse ins tintiva" §I ázquez, 2000: 7 1).
Trata-se de uma sociedade que tem
diferentes interesses em disputa, tendo como
projeto societário hegemônico o projeto 14

burguês. Â moral nessa sociedade l5


^p...iê"tnià
normâs e regÍas em consonância com os
interesses burgueses hegemônicos e servirá
() que deveria, entào, fazer parte da morall t's11t, ,,1,1 11,,;111,:' :l ltlt'trttll( ;ll s(' ( ( )lll :ls l( )l llllls
Àpenas as regÍas e normâs que, embora destinadas ao inclir,ícl1« r, rrlit'ttrttlrrs tlt' t', )llll)()l'llllll('ltlo" (l lt'llt'r'. l()() [:
digam respeito ao coletivo, ou seja, normas que falem do comportament()
55, tt':rtltrt.:io ttossrt). I i. rt< I ttri« I st' itlt'tttificrtr,
individual na relação com a coletividade, para que essa não seja afetada, t' ('sl)11ç( )s críticos clc tratrsgrcssào é
lrtrscrt
negativamente. Âções do indir.,íduo que tenham de fato implicações morais.
I trnrlrttttc'tttitl.
Âssim, deveríamos ter noÍmas que orientassem o comportâmento do Iimlrora () c()tiüano seja o espaço da
indivíduo no que atinge o coletivo, por exemplo, ,,não matar,,, e não nas
ruio criticiclacle, das respostas imedi atas, da não
coisas que dizem respeito à singularidade, aos
rcÍ1exãc>, da alienaçào, é nele também que se
desejos e sonhos de cada um e que e1n nacla do descofltentamento
cr>loca a possibilidade " 1 t í i./ /i ü il 0.1 iriTl l f Í I sfi. 1:() ii :iil.( ).
r 1

interferem no coletivo, poÍ exemplo, ..não se rcyi;iltt,-;tt.r tt irlLi,.t JL rtrplrrrut


c da transgressão ao instituído socialmente' .tttt)/,.rttlj.,ttt.t ;'7,,1,7,: ; ilt.t/lltti!".;.
relacionar afetiva e sexualmente com pessoas
Ii na i.uüàuà. ê àó; t"jêità. que êrtaà " \..::.,i/.;tirj 1 .1,, f1.,',;,': 1 .i)"tí/i.\'i)'(.i-
do mesmo sexo" ou "casaÍ virgem,,. Normas .t1iü | 0 t'ti.i:<tlf' tíu.\' llt)r/l/11.t, { tl
re spostas âos problemas colocados nessâ .çttbt,cr.ç,,jt ,lc tt/tt,.t ttrul,:ty. I ',.r'i.ç'
que fossem criadas com I L t i,t i t t ) n t u t.r Íi ri u t t.r ii r:,' : t. i.r / i t t'
^ p^Íttcrpação
efetiva dos sujeitos, possibilitando a conexão
realidade. E, como vimos no capítulo anterior,
i tr i i t.t t t t i » / i,:tt. tl | ! ( .tritt tí q / r t /d.i
é nessa mesma realidade, por dentro de suas
I

ilt( tJ0t itiii,st» rt.t tíit:{:r.r,t.l


entre os desejos e necessidades singulares contradições, que se coloca a possibilidade da fi:,'.o,rt., rlt rt/iuttri,,io" "l itvr.t-
Í,:stLirt ,ttthittli,;tt I tt (Í/t( .rt, /rrtit,.t
e as exigências genérico-sociais. Àções que construção de l'alores contra-hegemônicos' ttrt,'.,ffttt'ti,ii0,lr, .!,,t.,rr,,'f ) /lr/iu
conseguissem incorporar as singularidades .t') l;)tl'!,.r.\;: I t' ,;t11 ll' .tii'ltt! , ,1
Desta fotma, concordamos com Barroco: ,ti, ,,tt, /,tr:.tr ,ul,r,,!t,/,t ,i,t ,r,.i,t,
na rcIação com a coletividade. ,)
í
"^ moral sempÍe comporta transgressões ljiti.;,tr ,l,t /,,it. .'tr,t ... (t' ", fl"',
(: .\trtrlir.r,
Obviamente estas questões não {
e negações que só podem ocorreÍ diante da
.r.r/. apr"rcl ,'1r,rttl,,t
198(t: i I )).
compõem à toa a motal burguesa em nossa 8'
§
? possibilidade de escolha instituída através da
sociedade. De fato, embora elas digam
consciêncía crittca e da ctaçào de cócligos

respeito à singularidade dos indivíduos, têm


morais alternativos" (2000 27).
impacto direto na maflutenção do statas quo Como r.imos também, embora
e, exatamente por isso, continuam a fazer tenhamos uma moral dominante, esta
parte de nossas Íegras morais, transformanclo
..'jt) /r.\'ttt tt !t t'/i!tt t nr.r raiis f.tt coexiste com outÍos códigos morais que r'ão
essâ moral em uma moral reacionâna e Itr/awr.,.ç i.h iir,:jtt rlL rt,/rirtit. la sendo constÍuídos pelos diferentes grupos
moralista. Busca-se, portanto, a reafrrmacão irtlltftO ,i7't ;ttçl'tti t;Oi.r,t.r l/tL /ti0
sociais. E aí novamente reside a importância
,iir, ii.u,;,i.)":s. t',,:l.ilÍ,i,t r\..t(í"
.iê iuiôi"à àoÀ.'..rrâd;;à ê o iffip.,tià.rio cn;,,t lo t'i :: rt t d a - n,: t.r:;y r lL u do
.; t tl;
das diferente s práxis humanas (artística,
da constituição de pensamento crítico, livre e tr l.j.\'1 t'dil!frÜ rr.t,tt//,th).t" lLt.4:ri.t.
l/t)l'r/(i;,t/!( lt,ttr,/j:,,4) r,.t,r,,'jlr, política, etc.).
criativo. tt ;'/,t, /trtj' ,.,rtt,'f/t: .i ,, ^,,,,,)1,1.,-
E, é essa relação entfe objetividade/subietividade, entÍe coietividade/
É claro que diante dessas duas ,ll ,/t t,tthl ililt, r,.i .tl).tttt! t, o //.\ü
t(,' tt ( r li !,'{r t ! t r! rt p,rt, r, Í1.. individualidade, que nos mostÍa a possibiiidade de mudança de noÍmas e Íegfâs
características da moral na sociedade capitalista
sociais, mesmo quando nàohâuma mudeinç gerul do ponto de vista do modo
- representar tntetesses de classes e segmentos de produção."'
e seÍ conservadoruf moraltsta ) hâ
sociais moral, assim como os l'aloÍes, é histórica, social e mutável. Se
À
o espaço do descontentamento, da quebra pensarmos nos elementos trabalhados até aqui, temos algumas possibilidades
da norma, do não reconhecimento e não de mudança desta:
pertencimento à moral instituída. euanto
mais isso se der como um consciente
^to
criticamente, mais sua repercussão ló. .,Nias a estÍutura da cotidiana, embora constitua indubitavelmente um teÍÍeno propício à alienacào, não é
r-tcla
de nen/nrtt

será ntodo ttercssaiamenle aliertada.Sublinhemos, mais uma \-ez, que as ltrtmas de pensament() e comPoftamento pfoduzidos
de movimento e possibilidades de esplicitação "
importante socialmente, pois, ..[...] nem todos nessa estÍutuÍa p.<Jem perfeitameflte dcixat ao indiríduo umâ margem
(I Iellet, 2000: 38, grilo da âutoÍa).
. No m«rdrt de producàor eue causará c()ÍrscclLl(.nr(,nl(,nr(, ( ,rrlttt,t,,lt' l'l;rl;t,). (11;l111l,,unr l)rl:.t()tt('lt() s:ll (llt,'rtt't't'tl;l ('.;l() \'('l'11 lttz tlo sol.
mudanças nas relações sociais e possivelmente nos r,.alores e tonll)l'('('n(lt' rrrrril:tr t'r,istrs tlt' su:r vttl:t t' tlrt t'olt'tivitltttlt'.'n (.«llll«r, t'tltlit), rcsgltlitr
na motal (embora seja necessário pensar nos demais elementos n()ss:l lrtrrrr:rrrttllrtlt't',)lt)() s('t's,,t'iltl lr Íittt tlt'lr«rs itr-rxiliar llcsta busca?
que enyolvem tais relações). l,'lllrrrtl« I s« rlrrc ln« rml tcr)tlulr( )s cnriquecer um pouco mais nossa
. Nos valores, atra\rés do movimento e análise críttca de alguns ,';rrrrirrhirtlt. \'inr«rs sobrc cla alguns clcmcntos centrais. Vamos relembrá-los:
gÍupos sociais ou do que Gramsci chamará na sua literatura
de "intelectuâl orgânico", podendo se refletir no processo
educacional e cultural e ttazendo mudanças mais lentas e
processuais que também poderão vir a incidir sobre o modo
de produção e sobre a moral. À moral é o coniunto de rlormas e ÍegÍas de determinada
i sociedade. Diz respeito ao comportamento dos indivíduos na
:1.. . No comportamento, atrar,,és das transgressões, ao se contÍapoÍ
relação com o convívio social. Tem como obietivo a regulaçâo
it\
à norma instituída, fazendo com que os valores e as noÍmas da vida em comunidade e expressa os tensionamentos e disputas
iil
tenham que ser rer-istos e podendo, também, \,ir a resultar entÍe os diferentes interesses presentes em cada momento
em um processo de maior criticidade e possível impacto nas histórico. Toda sociedade terá uma moral dominante diante
da hcgcmonia conquis tada rta disputa entÍe tais interesses. É,
relações sociais e no modo de producào.
portânto, uma constÍução social e hrstórica e passa pela aceitaçào
i:)
. Na construcão de códigos morais alternativos que explicitem ou não do indrúduo que a traduzrca flas suas ações. À adesão ou
socialmente as contradicões da moral burguesa. nào à moral pressupõe escolhas que se dão de maneira livre e
consciente, embora nem sempÍe reflexila e criticamente. À tais
escolhas e à ação em relação a elas chamamos de açáo motal,
Compreendemos que tais mudanças nào são lineares, nem sequenciais e que se dá no cotidiano nas diferentes esferas da vida. Em nossa
muito menos individualtzadas,mas dizem respeito a um mesmo pÍocesso, har.endo sociedade a moral dominante é a moral burguesa, e o cotidiano
a conjunção de mudanças entre essas diferentes possibilidades em relacão: flessa sociedade nos altia da vivência moral mais inteira,
aproximando-nos de ações acríticas e reprodutoras de uma
moral dominante de cunho conservador e moralista. Porém,
E, se alguém nos peÍguntar o que é preciso fazer ltit et illtilt',t'- mesmo nesse cotidiano, podemos encontÍar necessários espaços
responderemos: é preciso orgarizar e assumir comunidades cujcr
de tÍaflsgressão e coÍlstrução de cóügos morais alternativos.
objetivo seia o encaminhameflto ou a aceleracão do processo social
que possibilita o nascimento dessa sociedade (Heller, 2000: 85, grifc;
da autora).

2.2. Etica: nosso lugar no mundo em bus ca da rcalizaçáo


Âssim como Noel Rosa, em sua composicão "Filosofra", necessitamos humana
seguir questionando as hipocrisias, criando transgressões, filosofanclo. Como
ele também nos mostra, a arte pode seÍ uma grande altada nesse pÍocesso.
Processo que necessita de coragem e ousadia, tão fundamentai em tempos de
Yive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada
retomada do conservadorismo e reafrtmacào da moral burguesa como o que i\
ao pé do borralho, olhando paÍ^ o fogo. Benze quebranto. Bota i1
t*
l'ivemos na contemporaneidade. feiuço... Ogo-. Odxá. NIacumba, terreiro. Ogã, pai de santo'..
E quais as possibilidades desse olhar crítico e da não aceitacão acntrca da Yive dentro de mim alavaddra do Rio Yermelho. Seu cheiro gostoso
moral dominante? Quais as possibilidades de, ao Íompermos com o moralismo,
encontraÍmos outro horizonte sem seÍmos considerados loucos ou ficarmos
cegos? E,ssas interrogações nos remetem à reflexão central presente no Mito da 18. "t...]- Supõe que este homem retorÍrâsse à car-erna e se scntassc em sru antigo lugar; não teria ele os olhos cegados pelas
tÍe\-as, ao r-it subitamente do pleno sol? - Segi,rtamente, disse elc. - [: se, PâÍa julgar essas sombras, tivesse de entrar de
novo em competicão com os prisior-reiros que não abandonatam as correntes, no momcntr) em que ainda estivesse com
a vista confusa e afltes que sc tir-essem rracr)stumJd(), nào pror-ocaria risos? Nào didam eles que suâ ascen-sào the causara
a ruína da r-ista e que, portanto, não valeria a peÍlâ tentat subir até lá? H se alguém tentasse libertálos e conduzi-los até o
l-i. Hit eÍ utruL = aqui c trgora (clri latim). alto, nào achas que se eles pudessem pegáJo e matáJo, não o fariam?" (?latão, 2013).

5l
,.1'riqtt:t t s:tlrrto. ltotlillrrt rlr'1rrtrto.'l'r.trrrt tlc rotrl'rrr. pr.tlr';r..lt ,rrrrl. Su.r
c«rroit t'crclc cle Sli«r-cactalt(). \'ivc clcntro clc r-rútr a ntulhcr c()zinll(,rr.:r.
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f.
( Itlt(;.. (.( ()llr,( l(.trlt.s tlt;lnl(',1:r ttt,rt:tl t'sl:tltt'lt'r ttllt, tltlt't'i,,rtlttl:ts 1lt'l:r lrttst':t tl:t
r t';rliz:tt,'lt, ) I lt lt I lrltltl.
Pimcnta e cebola. Qútute bem feito. Panela de barro. Taipa <1e lenha.
cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. pedra 1,,1t;tr;rrrt() il lrr,,r'lrl rlrz rcsllt'ito a vitl:t c«rtitliana c práticzt, ^ etlc^ cliz
r.t.s1rt.it,r 1l r.nn1r ulrstrlçl\«r clcssc c«rticliant) p^r^ uma reflexào críttca sobre
I TIfl:,'.ru; ff ? j::nl: ; * r:_:ff j:i: "t:.ffi &
I
ê
ir pr()rÍrl. Iss«r sc traduzirir cm aç«)es ncsse mesmo cotidiano - a reflexào e a
sem pÍeconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharacla. \'ive
:rtr\<r i.tigr - qlle sc c()ncretrzarãc> a parttr das ações morais dos suieitos, nâs
dentro de mim a mulher roceira. -Enrerto de terre, meio casmurra. ê
t.sc«rlhas quc estes realtzamcliante do conjunto de noÍmas e regÍas sociaisle que
tabalhade*a. xladrugadeira. lnalfabeta. De pé no chão. Bem
parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus r.inte netos. \'ive l)írssâm a comp()rtar Llm caÍâter
crítico reflexivo, traduzindo-se em ações éticas
dentro de mrm a mulher da vida. \Iinha irmàzinha. . . tào despr ezad.a, ,1^ clevação das singularidades à genericidade e não apenas da submissão dos
tào murmurada... Fingindo ser alegre seu triste fado. fbdas zrs r.idas tlcsejos individuais às exigências genérico-sociais.20
dentro de mim: Na mrnha vida - a'rda mera das obscuras!
À ética se debruçarâ em desvelar os atos humaflos e sua rrJlaçào
(fodtt.r a.ç l./ida.ç Coru (.oralim) - c()m as Írormas estabelecidas em determinada sociedade e em determinado
plomento histórico, buscando compÍeender criticamente tais atos e sua
;E neste rclação com âs normas.
Ponto do percurso que nos encontramos finalmente com â
E paru quê? Para que seja possível ^verrfr,caçào da concoÍdância de tais
discussào dà ettca. Conceito que nas últimas décadas vem ganhando espaço
,ormas com a realidade social, a compÍeensão de quais valores e interesses estão
em nossa sociedade, nos diferentes apelos sociais por ética na vicla pública,
1t.r trás clessas normas e se elas realmente atendem aos iflteresses coletivos na
etlca na política, e que muitas \rezes se confunde com a moral,nos teÍmos que
l>usca da rcaltzação de cada sociedade em cada momento histórico.
acabamos de l,er.
Vale ressaltar que não estamos falando de encofitraÍ o que é certo ou
Contudo, do que falamos quando e\rocamos um sujeito ou uma atitude
crfado, bom ou ruim. Não cabe à éttca a cnaçào de normas ou Íegfas, o que
ética?
a diferencia, entre outros aspectos, da moral. Assim, nào üz Íespeito à éttca o
N{uitos são os conceitos e formas de compreender a éttca. Sua clefiniçào
cstabelecimento de codigos morais, mas a p^rtrr da reflexão ética os códigos
clássica ou, como diria Fleller (2000), sua compreen sào slricto senstl) a que
morais podem seÍ Íepensados e revistos, como um retoÍno neste movimento
comumente vemos apresentada por diferentes âutoÍes no campo da filosofia
ação-reflexão-ação. À éti.^ cabe, poÍtanto, apresentar valores e princípios que
e das ciências sociais é: "a teoria ou ciência do comportamento mora/ dos bomens em
cleem diretrizes à açào moral, podendo expressar*se na construção de normas
sociedade" Slâzquez, 2000: 23, g-"ifo do autor) e "a filos ofra cla moral ou a
flo plano moral.
e ÍegÍâs
disciplina denominada ettca nasce quando se passa a rndagar o que são, de onde
Tomemos um exemplo na atuabdade: a moral católica (dominante)
vêm e o que r.alem os costumes" (Chauí,2006: 311). :
$ defende o não uso de métodos contraceptivos, inclusive os preseÍl'ativos,
Vejamos que há uma relação diretâ entre moral e éttca, embora se &
§.

tÍatem de elementos distintos. O senso comum muitas vezes utiliza-as como t;

.'j
sinônimos, por isso é comum escutârmos alguém drzer que determinada pessoâ
1 19. C.mo r.isto n. item anteriot, tais escolhas estão ditetamente relacionadas às cr,,ndicões objetir-as e subjctilas consttuídas
não tem éttca, quando essa pessoa contrariou determinada regÍamoral, ou seja, s.cialmcnte, em umâ relacào indir-idualclade/coletir-idade, objetitidade/subjetir-idadc, prcssupondo ccrto nír-el de

não cumpriu uma regre- estabelecida socialmente. ,*


F
á
consciência quc nào necessatiamcnte ó crítica e tcÍlexir-a'
Ir
i*-
it1 I

20. ,.A primeita clifcrença é <1ada pela prática e pela reflerão teirdca. Iiri r-ist<, clue a lnoral faz pattc
de uma necessidacle I

Podemos dizer que elas têm em comum o fato de estarem relacionadas { surgc com ()s gÍe$()s n()
I
I

prática clc conr-ír-i6 social jes{e as sc,,cietlades primititrs, enquant(' qr.re a rel1ellào sobrc ela sri
t
I

à ação humana, pois dependem dela, não sendo, poÍtanto, naturais interi.r do conheciment. {ilosó6co. 1...] a prática moral é uma ÍesPosta às necesstdades sociais que podem esistir, sem I

slazquez, que se reflita tc6ticamente sobre e1a [...] r\ segunda cliferença <Jiz respeito às dimensões
do set social ()s indir-íduos têm
i
I

2000). São criações históricas, sociais e mutáveis. No enranto, ética e moral são uma dimensà,r singular que é r'oltada ao ut 1...) Essa dimensão é própria da vida cotidiana
(Net«r, 1987; Ileller, 1977),
I
I
i
e ÍloÍmas [...] nessa dimensão da
distintas entre si. onclc o indir-ídro ,..pu.rá" à sobrerir-ência, assimila háiritos, teproduz costumes, r'alores I
I
r.i6a social, o indir-í6uo nào tem consciência de si mesm, cumo um ser unir-ersal, um ser human<-,
genérico [...] Quandcr i
 moral é o objeto de estudo da ética. F, a partír da moral e das ações o indivíduo realiza atiri{atles <1ue lhc petmitem eÍrtrar em cofltato com o humano genérico, elc
se teconhece como tal,
I

aclquire consciência de sua unir-ersaliàade, respelta conscicntemente o


()utÍo, age indilidualmente em função de seu
morais que se apÍesenta o espaço e a possibilidade p^r^ a realizaçào da açào sing'rlar acr
i
I

compromiss. com projetos coletivos. Por tais características pode-se afrrmar clue a eleracão da mora.lidade i

e da vivência do sujeito ético. Â ação etica se realrza a partir de escolhas h.,-u.ro genérico permite que o indir-íduo se comporte como suieito ético, ou seia, como suieito consciente dc
suas
I

I
autora)'
escolhas e tesponsabilidacles em face da sociedade" (Barroco, 1999: 1'25-126, griFo da
i
I
I
1,..*
151
I
tctrtL) l)()r l;ltse a idcia clc qtrc as rclaçr)es scxtrais clcr-cnr se rlur, lrl)cr)lIs. l)lu':r
a procriacào entre homens e mulheres casados em uma relacão heterosscxrnl ,',,: :ll:,i,,1 .,:'1,:;;:"',:',':1,,1',,,,,1'l',:,,,:,1.,.,i,'',,,,,,'-;l','l ,,'i;lli,ll'
.111,11.11rt1, ;r: p.ssrl,rlt,l;rtlt - ,lt ,,s trrtlir'í..lttos st t't'rtlizrtt'cll) c()ll)()
monogâmica. À realidade, no cntanto, mostÍa-nos que o uso de presen..lrivos. )l:
rrr,lrr í,lrr,,s lrvlt s c r'onst'it ttlt s (l0l 55. tritir tl:t rtttlorrt).
diante das doencas sexuaimente transmissíveis, faz-se fundamental em todas as
relacões - entre pessoas do mesmo sexo e de sexo distintos, casadas ou solteiras, 'li,ntt,lrr«rs ir rrlc'ltr dcstc imp<>rtante aspecto ao pensâr a éttca. Sua
em uma mesma relação ou com diferentes parceiros, nas diferentes idades. Essa
t.ruf)r'('('rrsii«r cnrluâlrt() rcflexào crítica (ou teoria) sobre a moralidade nào a
mesma realidade nos aponta cadavez mais o crescimento de contaminação pelo
crlrlicl cnt sLril t«rttrlidadc.Para nós é necessário entendê-lâ em um sentido mais
vírus HIV entre idosos e mulheres casadas.
,rrrrlrl« ), p,rraalcm d<t slriclo seil.çtt,no quai atdeta da reflexão ética àp^rece como um
Âssim, em uma reflexão ética diante da moralidade católica, podemos
r lr rs t'lcrnent()s que compõe e viabtltza a énca eÍlquânto capacídade humana.
afrrmar que a defesa do não uso de preservativos é uma atitude inconsequente
.':l
llm grego, ética \.em de etltos, que significa modo de ser. Modo de ser
que potencraltza vulnerabilidades e não tem o menor fundamento na realidade e açáo
:if
(.n(luanto prríxis humana que en\rolve, portanto, feflexão, valofes
concÍeta e objetiva, tratando-se de conservadorismo fundamentado em valores
ill n() mundo.
abstratos e a-históricos. Essa reflexão, além disso, baseia-se também em um
N{odo de ser do eu em relaçã o 0atr0, na construção do nós. Modo de
conjunto de valores e tem por trás uma determinada compÍeensão de homem e ^o
r.('r'clue tem como referência, portanto, a defesa de constração do nós a partir da
sociedade que entende que o homem é sujeito e objeto de sua propría história e
t',,,r/i4rtçào ltumana; à lre^Itzação de cada um e de todos os homens ao mesmo
que se pàut^ na defesa de valores emancipatórios.
r(.nrpo, em sua plenitude e inteirez a. Realtzação diante de um eil e um 0atr0, que
Desta forma, ao assumirmos a éttca enquanto teoria que pensa a
s:i«r datados, historictzados e compÍeendidos em sua totalidade nas ünâmicas
moralidade, assumimos também que não existe uma únic a ética e que, poÍtanto,
, 1,s processos sociais.
üzer que alguém ou aigo foi "antiético" dependera de que ética estamos
Nesse sentido, "^ éttca e à referência valoratrva- que estabelece
falando.2l
À
ética tem sido tratada em nossa sociedade como algo acima do "bem lrrrrâmetros das relações dos indir,íduos com â sociedade" (Patva, 1996:108),
rrrrduzindo-se em suas posturas e ações cotidianas, tendo como rcferência a
e do mal", atitude de "pessoas íntegras", "de carâtef'e "boa índole". O seu
lrrrsca da realtzação humana.
conceito em nada tem a \rer com isso. Ào ffata-la dessa forma, ela se aproxima
Tal rcabzz.çã,o tere- diferentes significados e \,âlores, consequentemente,
do conceito de moral. É necessário termos certo cuidado com isso e com o
tliferentes princípios éticos que noÍtearão distintas ações éticas no mundo, em
clamor da sociedade pela éttca, pelo indivíduo ético. De que ética estamos
t'ada contexto histórico, diante de cada explicação de homem, mundo e sociedade
falando? De que referência partimos enrão?
- as ÍefeÍências teóricas e filosóficas - e dos variados interesses sociais.
Na linha que estamos adotando, ao falar da ética en<luanto reflexão
E por isso que podemos nos refeÍir a diferentes éticas na história da
cnttca remetemo-nos à importância do que Fleller (2000) chama de "suspensão
lrumanidade, que existiram/existem em c d^ momento éttca burguesa,
da cotidianidade".22 Nas palavras de Barroco:
çtica cris tà,, éttca transcendental, ética revolucionária, éíca utilitarista, éttca
rrristotélica, éttca ÍratLrralista, éttca socialista, entÍe outras.z3 Ou seja, distintas
-\ reflexão ética supõe a suspensão da cotidiarudade; não tem poÍ
objetivo responder às suas necessidades imediatas, mas sistematizar firrmas de compreender e direcionar a busca da reahz^ção humana e que se
It
-\i ttaduzítam em diferentes princípios éticos nessa busca, como orientações gerais lj.«
I

I que direcionam as escolhas morais cotidianas. I

I
I
21. I--rnbora entcndamos que nào existe uma única ética definclemos a possibiliclade dc parâmetros quc podcm nos:ruriliar
Paru cada urna dessas éticas há urna compreensão do que se busca I
I
a PcnsaÍ a telacào do homem com o hrimem no seu cotidiano, no sentido cla rctom:rda de nossa humanicladc
- () quc I

iustiÍica a luta Pel()s direitos humanos. Nào har"endo, portant(), rclativismo <luanto à deíesa dc ptincípios gcrai-s clue cnquanto Íe llzaçào humana, decorrente das distintas matrrzes teórico- l
I
i
orientcm a humanidadc lest:r refcrôncia.
filosóficas que embasam suas análises e, poÍ conseguinte, diferentes posturas
I
I
I

22. Pan lIellcr, "as formas dc elevacào acima da r-ida cotitliana <1uc produzem objetitutõet clutadourzrs sà<> it aúe c zt tidrtiti' I
I
I
(2000: 26, grifo da aut()râ). I)ara Lukács, segunclo Nctto, a suspensão da cotidianidadc é possír'el atrar-és tlr "trabalhri I
i
criadot, a arte e a ciôncia" (Nctto, 1994a: 69). Nluitos autores classificam tr ética como ciôncia. r\prcenclcrnos as ciôncias I

I
sociais como teorizrs socieis c. f,)r't.rnt,). nà(, nÍ)s referimos a ética como ciência, lttas c()mo teoria ou rcÍlcsào teririca. I
I

Àssim, a partir da compreensào 2lPrescfltadâ em Ileller e cm Lukács, podemos aÊtmar guc a ótica tam|ém ó uma das lJ. S6bre os elementqs que compôem tais éticas, seus princípios e ptoposições tet Barroco (2008), (,hauí (2002,200ó), I']arra I
i
possibilidades dc suspensão cla cotid'ianidade. (1996) e Nor-aes (2002). I
I
I
I
I
I
I
I

i5:
I
Ctlclls 1t( ) nrrrtttl« r, ltct't-t c( )ltt( I tlfictttac« rcs, ',('1, llll()l llt:ttlo 1rt'l:r ttllclltt' (llll(;l :"'lrlt'
princípios e valclres éticos. Tais reflexões, comc> () ( ()llll)()l l:llll('lllo. lt';ttlttZitl:t ('lll ll(;()('s tlll
dito anteriormente, terão impactos no código lrrrst';t rlt' tl( )ss:l 11t'trt't'it'itlltlt' lttttl)ltttlt t' tltr
moral de cada sociedade. r.r.t,,rnlrt.cirrrr.rrttl tlc n()ssir univcrsaliclaclc
Vejamos alguns exemplos: Para o rt'no I hr.tnllttro). 'Irabalharemos,
(t'« gô'ttt'rt
neotomismo a reahzaçào humana está l)()rtÍrltt(), a óticzr ontologicameflte
clentro da
vinculada à busca cla perfectibilidade humana, tnrcliçào marxista.
o que direciona todas as ações dos homens Ret«>memos a tdeta, há Pouco
na busca de sua aproximação de Deus, fonte rrPresentada, sobre a éttca enquanto modo de
da essência humana. Na Grécia anlLga a rdera scr na relação do eu com o 0ilÍr0 no ânseio da
de realtzação humafla eÍa a de felicidade, que tc^l7zaçào humana e que flessa orientação é a i),:túitvo.r (t(!t/l ií0 nttr',:ilrt ,.k:
se centrayà na prâttca do bem levando-se em ('mancipação humana. 25 lrl'r r''i.t,,.lt' t t!tfi/t/ti.tri,..t!,t"r,1, t
,1,' l';titi,ttt,t. \ i,, ,r ilt,ri,i;i,
consideraçào a coletividade, a particípaçào na Compreendemos a éttca enquanto uma liltrul. iri] if/1rt! tutli tttt/ t'; t-
polis - permitida apenas aos homens lil.res. clas capacidades humanas2t' qr. pressupõe i, t'it i n rl tt'L n rlt il /í' il\t lJ,*t o il I rrt,
tJ

,l r,l ,,'ir,';t,tt, ii!.,t.t iii,tt,i.l,l,'


Paru o cristianismo a realtzaçào humana r cflexão teôtca tendo como referência
^ ,,/1,,'i,t" ttr. rç r1!,.',r ;ils,'t,lt,i,' .1,'t,

está condicionada a uma vida de práticas do '1 1,tiÍii' rLi lt',t,litilt tir,tt::;i.;- reiação do ett com o liltrr no sentido da ,li.:. i',,.t1r, )1,, ..1 1"1.;1t,,tt.;.rltiIi,!rtt/,
Ir. cttrttrcil,ar:lio liuln;.ultt r- tttJti /) t)tl,;t'il. tJrr tt)i,t,/. ii ft,t}t,t
bem para a redenção do indir,íduo após sua rtr1l/1,t.'il/r."iltliri,t tttli,t rt lo.;.çif;l- l)âssagem do humano singular
ao humano .Ll 1it't',' itrti,'rt ,lt trtl/i4 {'i;!:'
li;i,.t,iL tLr ) t/riti':,;,t lr/1fi:{t/i,/. tin
que l!til;bi.;lit,j íi yr...). ".Ç ij f,it.;.çtt' st:r
morte com ênfase na defesa da r.irtude da ,,!t,,'. 1i r',r,, j,t,1,. .:1r ) t t;, ),r,;:,i,r
senérico. Uma reflexão desmistifique,
liitt',t .sr iu,la.t,s,,:!/ttlc.r' qit/: {íi/!-
Ir,.;,
obediência diante dos dogmas divinos. Para o ;fi'.\ í /).t.,/!lÍ.:!'ti .ttt
J.,,lt, ;t,tÍy'i.t,t/it),' :t que teflte compreender o que há no homem t'j!'r,ir .ttlt,',i'r, 1,i.';t!s,:tl .!0i,'tit
! i 1i r I r t t I r', tr t t i i i i'L i'.ç r t ii, lii, i,t,
tt,t lit t",.'. ltittti, ;.'iit'1,, ' ,:ii;tt.l, r,lr'
que o possibilitz- agrr eticamente fla íelação do
.t tt
ethos burguês a rcabzação humana tem cunho tt !.0t:.i.,:it;jíLi{! L t l)it,rulttdt. l)t ttiio lruttittot úrt(it ttttl:1t'tí íí íi()
t.t/t1!,t. ltl\t.i 11yi.,ft7; r .ttilltr.t;li.,i:tti'
indir,,idual, con ceb en do o trab alh o direciona do "tí// tztlJ1i.r.i,N('ti: til,ttt!rt,sljr,tirt ail corÍr o 0atr0 com libetd"+"{g,.R9fl9xã9.91-tç.
,.i,,'. " ... ,tt1i;..,/rt .,.!t< l'ti.r;,i./,, Iti-t,.," t/ttttt i:t1t?tPltail/tÍf/(til.10 n
à supressão das necessidades individuais de I ...'l'r,,,,;,t,1,,',i,1,;,li,t,t!,.;1t,tkt possibilite que moral torne-se açã'o étrca o r t Í tzr. fio d e t ti i;{'(..t i:t t' d t i n.f i t; i I i; "
t

^ ^ção
consumo e posse. Para l\{arx a rcaltzaçãct ,i,.',i, l,r;.,;..,.;,,, lt;,1.::,'.i;.,, tj. t t,t., t, t..
ril.t/r:'" t.'itt .tttri rit!rt ,;itli;ii,tlrt, tt.itt
que se obietiva no cotidiano. Tal apreensão {{,rti/ri, )l}Ü$: 8Ü)"

humana é a possibilidade de objetivação das f r','lt' tl t' I i i.\ t .t r, lt i ! rj t I t ;i) t il 0.\' .i ít 1 t.i
.í' üferencia, pàÍa nós, o campo da moral e o da
Li ç,r f f u t Ii.t. " {L r't' il t ri,:, t. } {} ) !) :
potencialidades e capacidades humanas fla étsca, mostrando-nos sua conexão.
;
.t t {

lil- I (i/i:). l:',;r,t,\{,ttx,:'"1'o,Lt


realtzaçào de sua essência humana,2+ o que fi!itr /ii iilí,:t.)0,:a ti.tÍiÍtti /tüti./ !^r.í-

se denomina de emancip ação humana li/tl ;irt rli ti:ttit,irt l.trlti:,titj0,,,l,:i.l Nos termo s da Onlologia do Ser Sodal, o sujeito estaria diante de
t\'..',1,,,. t Jr,í/,./ti// li ,t,; i,lii1,t.,;,t i14.
,;.','t,;" r.\1.tt.,. .'.,,i. ;t1.i,r1 1.r., uma alternativa fundamental: peÍmanecer restrito ao nível da
(Barroco, 2008; Paivà & §^i;;; iOlOj
:ll l .. l\'i. I ,tt.t,;ti..r)/r.; ,/ t.t:',,
1 particularidade @artikularitât), condenando-se a seÍ apenas um
E a qual ética nos referiremos aqui? l.ltitr /i/) ,,t/;t/ttiri {i rlt;iit lit't"rt" âgente da reprodução social, ou tlâÍIsgÍedir este nível rumo à
Qr. referência de realtzaçào humana nos afirmaçàode sua interioridade autônoma, opondo ao slatus qao soctal
orienta e, poÍ conseguinte, quais valores e a lei de sua peÍsoÍralidade(Tertulian, 2010:27, grifo do âutoÍ).

referências teóricas orientam nossâ reflexão? ir'


i--

Quais princípios éticos nos direcionam?


Àmpliando o sentido ilricto senl//, âpresentaremos a ettc^ aqui enquanto 25.Nestamesmalilha,semprequelalamosaquidatelaçàodo ercotllo0/rtr0,estarrrostratandodosetsociale,P()Ítanto,um
historicizados e condicionados pela realidade concrcta e obietiva Um ezz e nm 1iltrl
<l1de
possibilidade humana da reflexão crítica sobre a moral, orientada por valores e// e .,Ín 0jir0 qüe sao data6os,
intliridualidade mas representacào, também,
câÍÍe€lâm cnroct.rísti.o, <Je classc, etnia e gênero, não senclo, port?rÍrto, Pura,
emancipatórios que nos conduzem a acões que levam em consideração em cerro grau, de uma colctir-idade, formaclos pela cor-rjuncào entre
sua subjeti'idade e a objeti.idade da .ida s.cial'

o outro na direção de nossâ elevação ao humano-genérico. um modo de 26. Ao tratarmos a ética enquaÍrto capaciclacle humana, referimo-nos a ela
como possibilidade do ser social sc reconhecer
cluer dizer que estamos defendendo a rcalizaçio
enquanto um sujeito étià, ,ra realizaçào cle atirudes éticas, o que nãr>
zr necessidade da luta c cfetir-acão dos
ou existência 6e uma única ética, ou cie uma ética unir-ers'al, embttra defendamos
de recrtnhecimento dc-r
direit.s human.s, em qualquer tipo cle sociedatle, eflquant() consequência dessa possibilidade
de parâmett<.rs que podem nos auxiliar a pensâÍ a
ser humano genérico. It.f.ri-,r-,-r,rr, p()Ítanto, a i<ieia cla possibilidade
de nossa humamdade'
24. Sobre a essência humrna c as capacidades e potencialiclades do ser social r-er o capítukr 1.
relacão d. homem com o hgmem noseu coticliano, no senddo da rett.rmada
N I itetlr atlte rior, zt<I aborcLlrlll( )s lt t'n« rrul, talrrrrros tlrr rt'lrr. ;1, , , ,l rit.t ir rr lrrt lt./
«
t" ,, ,lu(' r,l1,,ntÍt(:l l«'t :tt,r,t's tlt' t'('('()ttltt't'tttl('ttl(, tlt' sttlt gt'ttt't'it'itllttlt',
subjetir-idade e individualidade/coletividade. Neste scnriclo, r'nrl)()ra 1r rrr,r.:rl ur(,,,nr,,,1t:rrrlt'tlt'srr:r sitrtlrrltrritl:rtlci ( ) (lu('('slrttl)()s flrlrrlrtl«) 1l() 11(ls rcfcrirtn<ls
seja o conjunto de normas e regras da sociedade, esta passa pela aceitaclio «rrr r .rçio t' :r,, sujcit«r óticr»l
não de cada indir'íduo, diante dos processos e condições objetiyas yivenciaclus Nrrs prrllvrls tk"li'rttrlian vit'nos a cottexão entre dois elementos
por ele, para- ú:aduzu-se em suas ações morais. rrrrlrzrrtL )s l)1u'11 tlcÍirrir a açlio i'tica. ,\pr<>funclemos, pois, as noções de aiteridade
Podemos afrrmar que a ação moral traz em si a potenciaiidade cla açiio r',t'r' lrulnilno sitrgtrlrtr/gencrico.
éttca. Quando o sujeito não age apenas por uma reproclucào acríttca cl«rs ,\ rrltcriclaclc, uma das bases da ética se a pensamos enquànto capacidade
costumes e tradições, mas pode realtzar uma escolha livre e consciente cilicamerilc, l r r n:rÍ11r, c mtritas \rezes confundida com empatia. Façamos aqui sua diferenciação.

aPÍesentam-se as pctssibilidades de que esta escolha possa vir a ser pautada na ,\ empatia2'. fala do colocar-se no lugar do outro, ver o mundo através
busca da integ5racão entre sua singularidade e genericiclade humana. ,1,,:r <,llrosdo outro, ou seia, c:rtatuma aproximação com o outro, buscando
Tal condicão se dá pela necessária relação do sujeito com a moral, que r ,nrf )l'ccl1dê-lo a p^rttÍ da experiência de se colocar em seu lugar paÍa tenÍaf
o coloca diante das necessidades genérico-sociais e da realtzacào cotidiana rg,r't,r'rrder seus sentimentos, pensamentos, mesmo não sendo ele ou não tendo
de escolhas morais. Se estas podem ser refletidas criticameÍrte e tornam-se r rr itl«) asmesmas coisas que ele. Pressupõe imaginar o outro e tentaÍ entender
conscientes no sujeito com inteiÍeza) passamos da conclicão de submissão da r r tf rrc ele sente a pàÍír dos seus olhos, sentimentos e vivência. "Significa
singularidade às exigências genérico-sociais para elevação cia singularidade à
^ l)(.ll(.rraÍ no mufldo perceptual do outro e sentiÍ-se totalmente à r,ontade
unir,.ersalidade (Barroco, 2008). r lt'rrtr'() deie." (R-ogers, 1977 : 7 3).
Ào falarmos de alteridade, estamos falando do do reconhecimento
Entendemos que a moral é uma forma, historicamcnte constrúda,
0ull'() em mim e de mim no outro, como parte de uma mesma existência,
de objetivacão da capacidade ética do ser humano-genérico, mas nela
r lr I nteslrlo gênero humano, sem nos colocarmos no lugar do outro, mas nos
não esgota suas potencialidades. -\ partir de Lukács, consideramos
que, quando o indir,íduo, através da moral, eler.a_se ao humano_ r,lr.ntificando com esse. Compreendermos nossas similitudes e diferenças.
genérico e coloca-se como ÍepÍesentaÍlte do gênero humano pora l'r'llta-se de apreender no outÍo o que nos une enqLlanto ser humano e ser
.rz, entào ele está agindo como su;eito ético, como particularidade, ',,rcial, e, portânto, características que rros são comuns e, também, as flossâs
individualidade Li're (Barroco, 2001: 64,grifo da autora).
.rrrgularidades, podendo respeitá-las, pois "é justamente pzrque nào é idêntico
;r rrrinf que o outÍo p^tttcipl- de minha existência" Çacquard, 1998: 2, grifo do
Quanto maior o nível de consciência presente Íresta escolha, quânto ;rrrror). Se fôssemos completameÍrte idênticos, não seríamos dois e sim um.
mais possír'el a saída da consciência primeira parl- uÍÍr nír,el de consciência
Àlteridade é, poÍtanto, a compreensão do outÍo em sua diferença
crttrca, malor a possibilidade de ultrapassagem do plano moral p^r^ o plano cla
r. semelhança comigo, respeitando conscientemente tais d.iferenças e
açào éttca, como "[...] consequência da tomada de consciência clo <1ue somos
r'ompreeÍldendo nossas semelhançur. É na alteridade que posso me Íeconhecer
e daquilo que nos faz ser o que somos" (|acquard, 199g: 3). N,{aior também, a
n<r mundo e conheceÍ com tnteireza minha singularidade diante de minha
possibilidade da reahzaçào de uma acão moral com vistas ao honzonte ético, da
l,,cneÍicidade humana. Na compreensão de que"eu sltl 0s uíncu/os qile ala tecendo
ação éttca se traduzit na moralidade construída em uma sociedade e, talvez, d,e
t'0/// 0s olllros" ()acquard, 1998: 2, grrfo do autor).
uma moral que pâsse a seÍ orientada pela percepção éttca, apartu de um sujeito
Empatia e alteridade não se excluem, tâmpouco umâ está certa e outra i.,
ético que se objetiva em suas ações morais. i**
t.rrada, porém, distinguem-se enquanto forma de apreensão e posicionamento l
i
rro mundo.
À açào ética ultrapassa, âo mesmo tempo, a noÍma do direito e a
I
i

irredutibüdade das aspiracões individuais à norma, pois ela implica Na empatia nào se coloca em questão a compreensão de nossas I
I
I

por definicão,levar em conta o outÍo e a sociedade 1...] a ruora/iclacle similitudes, mas sim a percepção de nossas diferenças e a tefltativa de entendê- I

las a partir do olhar do outro, para, então, sentindo o que supostamente o outro
I
lorna-.çe ação ética no ruoruento em qlt€ l(tsL.e //md mnt,erg,hio entre o et ea i
I
rtlteidade, entre a sirynlaidade indiúdtral e a toÍaliclade sotial i
fertulian, I

2010:26, grifo nosso). I

I
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17. Uma das atitudes tlefendi<las pr,r Rugcrs (1971) paraos processos tcrapêuticos na referôncia humanista.
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1, il(.( (.r.,r.;lt'l() ( ()lillrrt.t'rr,lCr' (llr(' il:t() ('\lsl(' t:tl t1t'ttt't'itttllt,lt' s('lll

scll[c, soliclari;zar-sc c()ltl. clc. l)or cxcntpl(): s()u l>rlrrrc,r t' lrrrst', ) (.nt(,Írtlr.r'r ) (lu(. (.
(
a vir'ência do racismo ao me colocar no lugar de um negr() c1r-rc jri vivctr clivt'r'sls r(,(.()rrlrt.t.inl(.nl(, tl:r sirrl,.rrllrrttllrtlt't'r'ict' t't't'slt. ) gt'lttttlt'tlt'slrlir) c c()lls('uttil'ttt«'s
<> ett a'trtvés
\rezes essa situação. Empattzo-me com ele diante de sua dor, buscando ScÍ'rtir rr rt.:rliz:rr.rr t.«rrrt'x:r«) (lr.l('ll()s l)(,ssilrilrtrr irttcirczlt, 1'roclctrclo pcrccbcr
que ele sente. tlr» ttrí.ç,(., l)ilrit tllllto, taz-sc trcccsslirio o rcctltthccimento
cle nossa singularidade,
mundo. Nas palavras de Heller:
Já a alteridade p^rte do reconhecimento de nosso lugar humano, p, ris c â partir dcla cluc n()s vem()s no
propiciando-nos compÍeender as diferenças como pâÍte dessa humanidade. i\<r
identificaÍ nossas similitudes podemos experienciar tais diferencas, respeitancl«r- () inclir,ícluo é sempre, simultaneamente, ser singular e ser generico
conscientes, no indivíduo
[...] -\, necessiclades humanas torriam-se
as independentemente de sentir o que o outro sente, acolhendo-as. Ào mesm()
sob a forma do Eu. o 'Eu', tem fome, sente dores (físicas ou
tempo, diante do reconhecimento de nossas simi]itudes, a experiência da psíquicas); flo
.Eu' Írâscem os afetos e as paixões. À ünâmica básica
alteridade nos impele a um posicionamento contra toda e qualquer forma de à, ,irrgrrlaridade individual humana é a satisfação dessas necessidades

violação de nossa humanidade. do'Eu' (2000: 20,gtrfo da autora)'


Âo nos percebermos enquânto parte de uma mesma humanidade,
percebo a diferença - no exemplo actma, étnica - como um traço específico singularidade se expfessa na cotidianidade a p^r.ttf do ea' Eu 1.ue
Â
sente fome, frio, dores, emoções, deseios, necessidades, entÍe outras coisas;
é
que manifesta proPflz humanidade. No mútuo reconhecimento com aquele
^ o ea qlJe se apaixonâ, que interpreta o mundo e age nesse rnundo; é o eu que
i:
que é distinto de mim, neste câso o negro, enquanto integrantes do mesmo
O
gênero humano, aproximo-me de nossa humanidade e cofltÍaponho-me a cotidianamente peÍcebe o nós atrat'és de si, de suas necessidades e emoções'
qualquer tipo de preconceito e racismo, pois representam a r-iolacão de sua/ tt euntco e singular.
minha humanidade e, ao mesmo tempo, desconsideÍam as singularidades O singulaÍ não e o fato de sentir, trabalhat, viver, mes Sim, a maneíta
como Se expÍessâm ou se tealtzam essas coisas no cotidiano. O íato é que
aS
e identidades. E, ao r,'iver a altertdade, compreendo arnda que tal diferença
tem, na sociedade em que vivemos (capitalista), a reafrrmacào da negação de pefcebemos no piano de nossa singularidade e como muitas vezes a fotrna
como estas ,. .*pr..sam em cada um de nós são diferentes da forma como
se
nossa similitude enquanto humanidade diante dos interesses sociais postos
na manutençào de tai negação. Eu e este homem somos também indi'u,íduos expressam no outro: o ea não a percebe exatâmeflte como ruós.
seguimos tendo ações apenas
peÍtencentes a uma classe, etnia, gênero,, ao mesmo tempo em que pertencemos Quando essa não apreensão do nós ocorfe,
à mesma humanidade. campo moral, àndendo airigar a açào do outro e queÍer enquadrá-la
^partlrdo regras morais ou das nossas motivações singulares, não conseguindo
O conceito de alteridade, portanto, remete-nos diretamente à diant. das
compÍeensão da relação entÍe singularidade e universalidade no ser social. dar o salto concÍettzaçào de flossa capacidade étrca, não tendo, poÍtânto'
pÀf
^ Fleller"'positivos",
Ora, se assumimos que aalteridade é apossibilidacle denos reconhecermos ações pautadas nos l-alores emancipatórios, ou nos dizeres de
no outro a paÍtrt de nossas identidades enquanto seÍes humanos, mas também q,r. ,à. aproximem da reabzaçào de nossa essência humana.
Para exemplificarmos tai questão, pensemos no amoÍ (com o fecofte
de
de nossas singularidades na forma de viver tal humanidade por condicões - músicas e filmes que apfesentam
objetivas ou subjetivas ) respeitando nossas diferencas, estamos falando flossa sociedade ocidental). Por que seÍá que as
identidade
,ustamente da relacão singular/genérico. os pfazeres e dores do amor fazemtanto SuceSSo? llilâ, clanmente, uma
das pessoas com o tema, pois o vivem, porém cada qual escolhe
o tlpo de música
O reconhecimento de nossa genericidade sem a eliminacão da vivência
ou filme que o p^Í^ pensaf Sobfe o amoÍ, para viver a dor do amor oÜ pafà
de nossa singularidade é o que nos coloca em possibilidade de reahzar atirudes
^tÍzrL
éticas, nos manifestando enquanto sujeitos éticos que somos, pois: compaÍtilhar o selr pÍazer. Âmamos de diferentes formas, diferentes pessoas,
por diferentes motivos, expÍessafldo de modo diferente o prazef e a dor'
[...] a elevação ao humano-genérico não significa jamais uma abolicão No entanto, muitas vezes isso não é compreendido, havendo a negaçáo
da singularidade. Como se sabe, as paixões e sentimentos orientados
e üscrimi fl çã,o das singulares formas de amat, como resultado de ações
pàrz' o Eu (para o Eu singular) não desaparecem, mas 'apenas' se
dirigcm paÍa o exteÍior, con\-ertem-se em motor da reaüzacão do
reprodutoras da moral dominante. O que nos demonstra, ào menos neste
humano-genérico (I-Ieller, 2000 24, grifo da autora). e"emplo, flàovivência do amor como elemento de nossa humanidade que se
i
^
expÍessa de diferentes formas em cada singularidade.
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It I i
Se compÍeendermos o am()f c()n1() l-llrrtc tlt' n()ss;r lrtrrnlrrritl;rtlt, (, (.)rr:il111l} r l:tlllnt():..
l)r)t ('\('lillrl().
llltlllll\ \'('z('S 1l,,tlt'ttt.,S :tlrstt'ltit' l)()ss()
reconhecermos o amoÍ em nós e no outÍo como parte dcssa hunraniclatlt'. rrrlr r r il11111;1tr(), il()s5ll l()lilt:t. ('. it l):lrllI tliss,,,:l() ('l'l \('l'g1ll'('sst'c(ltitli:tttt) tllll l)()Llc()
teremos ações r,'iolentas (física ou emocionalmente) chante da homossexr-rtliclaclt, .r ,ltslir 11t'i:r, r'(.1)('ns:u'nl(,s lrlgtrttt;ts r',rislrs tlt'lt't', il() rct()rn2trm()s a n()ssa rotina,
ou de relações entre diferentes gerações ou etnias, por exemplo. À frrmra dc rrrrr,l;1'rrsl)(.('tos rlt'strr rtl l)uscit rlc ttl'ttlr vich t-r-rclhor, mais confortável. Âssim, é
aÍÍt^r de cada um não fere o que há de humano no outro, pelo contrário, em um2l rrct t.ssli;ir ) l( )r))lu'r))« rs o irnil>r-rs da vida ptlr vezes, mesmo submersos em nosso
relação consensualmente reabzada, complementa o que há de humano no outro. ,,,lrtliryt«r ttr«r suttrmrlo clc re;lrocluçires e não reflexões, e Sentâfmos na ianela
Da mesma maneita. temos fome, sede, necessidades físicas e emocionais l', )r'irlquns instanfcs nír tentativa de olhar esse
cotid.iano àdistância. É claro que
que são supridas de diferentes maneiras, de nossas histórias de vida, de , ,l:1p( ,s f:rlarrdo errr um nível e climensão bem mais profundos, mas esse 1â serta
^partrr
flossa localtzaçà,o na estÍutura social e na divisão social e técnica do trabalho, , rr r r t'xcrcício muit«t interessante.

das possibilidades que tivemos de amp)tar nossas opções e, portanto, ampliar l)ara isso, em nosso entender, apoiados em Fleller (2000) e Lukács (1978)
nossas escolhas. Â forma como cada um le.u,a sua vida, Ínata sua fome, sua sede, r(.r) )( )s alguns instrumentos essenciais nesse caminho: a educação, a cultura,^àrte,
etc., pode não ser genérica - por vários determinantes, como acabamos cle dizer .r 1r,
rlírica, o trabalho criador e a ciência (aqui podemos nos Íemeter à filos ofr'a, à
-, mas a existência destes fatoÍes em nossas r.idas o e. , ,r.i< rlogia, à reflexão teórica éíca, etc.) enquanto prrixis possibilitadoras da açào
Âssim, cotidianameflte estamos em contato com nossa singularidade. , rit'rr/c1o sujeito ético.
Âpreendemos o mundo e rlossas relacões a partu do eu, mas está presente nas Vivências que flos possibiliteLrn suspensão da cotidianidade e, portanto,
^
pessoas, ao mesmo tempo, a possibilidade de nosso reconhecimento enquanto r rirun as condições para rrossa elevação ao humano-genérico. São momeÍrtos
nris, o reconhecimento de nossa humanidade que se dá À parttÍ da relação com ,lr. rlistanciamento do cotidiano, não tendo condições, poÍtaflto, de seÍem
o liltrl, podendo, então, torrlaÍem-se conscientes em nris os elementos de nossa r ,rrtífluos
- poÍ isso momentos -, eue criam formas de retorno ao cotidiano.
singularidade e nossa genericidade. \t'ssc pÍocesso, possibilita-se que o sujeito compreenda esse cotidiano como
No início deste item, tomamos empresta da a forma poétrca de Cora ( \l)âÇo de humantzaçào.
Coraltna, que ânuncia sua genericidade humana ao descrer.er "toclas as vidas". Todos esses elementos são compreefldidos como instrumentos
 poetis encerrl- o conto sobre quantas
mulheres a habitam afirmando: »ssibilitadores do reconhecimento do ser social paru alem da sua dimensão
"Todas
^
as r.idas dentro de
;,,
.r1gular, mas como ser humano-genérico, visto que, muitas vezes, a moral e
mim: Na minhavtda - a vida mera das obscuras!",
idenuficando-se com tantas distintas mulheres e suas histórias como parte de ,, cgtidiano nos aprisionam em nossa dimensão singular, não possibilitando
sua humanidade, não deixando, porém, de afrtmar sua r.ida. r
luc nos reconheçamos Ílo outÍo em nossa humanidade, tornando-nos
Conseguirmos nos Íeconhecer em nossa genericidade sem, no entanto, rrrrlividualistas, o que é atnda amplificado ao se falar da moral burguesa.
perdermos nossa singularidade é o desafio colocado à nossa vida coti üana,
para podermos ter ações, na rrJraçào com o 0utr0, que ultrapassem a moralidade, Está contida aqui, nitidamente, uma dialética de tensões: o ÍetoÍno à
cotidianidade após uÍna suspensão (seja criativa, seja frúdora) supõe
traduzindo-se em ações éticas. Neste sentido, nào ha outÍa possibilid ade para a
a alternativa de um indiúduo mais refi.nado, educado (ustamente
concÍetizaçào da éttca a não ser narelação com o outro; "o homem, enquanto ser porque se alçou à consciência humano-genérica); a vida cotidiana
humano-genérico, não pode conhecer e reconhecer adequadamente o mundo a permanece ineli-rninável e inultrapassável, mas o sujeito que a ela
não ser no espelho dos demais" (Fleller, 2000: B4). regressa está modificado. -\ dralética cotidianidade/suspensão é a l*
dtalettca da processuaLidade da constituição e do desenvolvimento
À capacidade éttca, portanto, e capacidade de nos elerrarmos ao i
I

^
humano-genérico tendo atitudes aprtrr de tal eler.ação a açáo ética. E isso
do ser social §etto,1994a:70, grifo do autor)' I
I

- I
I
I

supõe uma abstraçào da cotidianidade em um processo consciente, criticamente i

Obviamente, assim como vimos na discussão de valores e moral, a I

no seÍ social. Quando isso ocorÍe, temos a objetivacàof realtzação do sujeito


1

r.ir.ência na sociedade de classes nos distancia e aliena da objetivação de nossas I


I

ético. Temos o seÍ social podendo objetivar sua capacidade éttca, concretrzando I

,.rrpacidades humanas. Âssim, também o é em relação à éttca enquânto uma I


i

os valores emancipatórios de liberdade, justica, solidariedade, respeito, I

tlas capacidades humanas. À objetivação do sujeito ético e de ações éticas é um


I

responsabilidade, companheirismo, altruísmo, entre outros, vi'u,enciados em i

grande desafio nesse tipo de sociabilidade. I

i
suas acões morais cotidianas. I

I
I
I

I
i,,
I
'lirtl:tVilt, tltttlltcttt
c()ll)o vit'ttr)s
r)1r rcllr.x;i, s,lrr.r'\';rl()r.('s (.nr()l.irl. rr;r,, \,tlr)t(.r, (.11:11( llr:rlotto., (lll( 1ro:,:,ll,llllt ttt ,t \ l\'('ll( l:l ,lt' ll()ssll lttttttltttttl:t,lt'.
podemos caminhar nesta cliscussào balizaclos p()r Lllrla rcti'r['nci:r tlir,rtr}rrit-rr (1il(' it (.ll(:l (. l)()ssttCl t', l)ltt:l llttll(). lr t t'iltt,'lt,I tlt' t'slt';tltigilts t' tttt'tliltC-,',t'S St' tltZ
t.
abstrata da realtzaçào éttca, compreendendo que ou l,ivemos a rcaliz:rçri, rrr.r t.ssliçi:r tlitrrrll. 1los tt.rrsi« )1;lnl('ltlos t'tl:t tlislttrllt tlc itttcrcsscs clltrc as classcs.
p1.rr:r
e total da etica na vida social ou não podemos ter nenhum asp('oo cla ótic:r .\ olrit'tivrrçrr«r tlt i'ticr rros l('r'r)r(,s rttltti rtl;«rrclados "supc)e a política
efetivado em nossas relações nessa sociabilidade. ( ()pr() (.sl)1r(, rlt'ltrlrr ('ntrc projctos clistintt>s" (l}arroco,200L: 65), umaYez que,
Nas palar.ras de Barroco, ( ( )r'r'ro virn«rs lrrtcri«)rlttclrtc, clifcrentes concepÇões e teleologias estão postas

crrr tlislrtttacllt tt()ssa s«tciedacle.


Uma ética con{igurada como r(lexão titiu e sistematiiação teótitrr
oientoda por ?re§.ç//pl.Í0.t sótio-lislriico.r e diigicta d t,tt/ore.ç enartiptrlóio.r t;
N«r ntofncnt() em que conseguimos nos fecoflhecef enquanto sefes
cott.çtiente de setts /imites e obfetilo.r no sodedade btrgtresa, rua.r pode lrrrrrrirno-gcnéricr>s realtzamcts nossâ capacidade ética e temos mais
cottlribrit.
para a anQliação de rtrua muciênda social t'nlit'tt (2001t: 84, grifo cJa autora). l,,,ssibilidadcs de r-ivenciar atitudes éticas que ler.em
em conta o 0//tr0.
L ) m()mento
( em que Íealmente exercemos a liberdade e alteridade no
Àinda segundo Barroco, importante compreender a éttcaem sua "flncão
é rt.r', rrrhecimento do en flo 0atr0 e do 0r/tr0 eÍn mim, tendo escolhas que nãc)
mediadora na /trta socia/ conlra a ideo/o§a burgaesa, pois fazenclo parte clas escolhas íir.rrn-r o que há cle humano ern mim ou no liltrl e podendo respeitar nossas
humanas, as acões áticas intetferem, de a/gtm moclo, nos processos sociaii'(Barroco, 2008: ,. rr rgLrlaridades.
21,1,grifo da attora). O exercício da capacidade ética coloca-nos, enquânto sociedade, no lugar
 contÍaposição à moral dominante, ,lt. fiumanidade. Uma sociedacle que aceita e peÍmite que seus indivíduos, sejam
ao ethos burguês flà contemporaneidade é lr( )prens, mulheres ou crianças, morÍam cle frio, de fome, em guerÍas infuncladas,
condição primordial paru a busca da vir,ência n;rs ruas; que admite a vivência do pÍeconceito, a hostiiizaçào e até mesmo a
éttca nos termos aqui apontados. Neste 1r,rte por chferencas étnicas, de orientação sexual ou religiosa; que coisifica
sentido, a construcão cotidiana de ações Ir,rllens e mulheres, t(ansformando-r)s em mercadoria; que é condescendente
pautadas na críttca radtcal ao conservadorismo t'rrsr â escravização de criancas e adultos, é uma sociedade que banaltzaavtda
e ao moralismo, na construção de relações Irrrrlana, natutaltza algo que não é natural, desumaniza-se a cada dia, porque
reconhecedoras do oulro e da alteridade, de rt':rlmente perdeu a dimensão da genericidade humana.
valores contra-hegemônicos que se traduzam À objeth.ação de Írossa capacidacle etica apÍesenta,acada um e a todos, a
em ações de fato éticas, é necessária enquanto 1r,
»ssibilidade concreta de uma vida mais digna e cheia de sentidos, pÍopiciando-
estratégia coletiva de um nor,o etltos socialmente r)( )s nossâ rea)tzaçào humana, a realtzação de nossas potencialidades enquanto seÍ
construído. ..,,cial, âo mesmo tempo em que r.ivemos a rcaltzaçào dos valores genéricos em
É ,...r, árra a construção coletiva de n( )ssa proprra. r'ida (HelleÍ, 2000). Possibilita-flos, poÍtanto, uma vida mais plena
códigos morais alternativos, r.ivências éticas, 1.,,rra cada um e para toda humanidade, na busca efetiva da emancipação humana.
r.alores contra-hegemônicos e tÍansgressões
-\ luta pelo surgtmento dcl homem completo, pleno, é uma antrga
na direcão da organização de comunidades .'1 tiiLi:rt,;)rs ri:, iuiltt lr;i,,i;,i,,,,,,
ti btit'/it',l,t utijrl,ttlt Lt;irr, i/ji-
que objetivem a construÇão de uma no\ra i t; lt :' t li: ilt t I 0.t t j i t, í / t.t 1(:i M r Íil

#ítr,;x:*'[;â:ffi üd:Til::#tirrítil
1 t r, i I /

sociabilidade. rtli! ii/dj,,.tpr:rili;)il,t;ír'.t t,ljl,,,.


l\'ri,,t.;.,irtllrtl'/i.,, tlt1 .!:i.r,gt,,.l.t.i..
Neste sentido, vale destzLcar a estreita ! :i,,r;rtrt/rs.ç' qilN it iifif,|t/]tr/r rea)szacào só possa dar-se no socialismo Q,ukács, 2001 oprdtsarroco,
relação entre etica e política. À efetiva l,st;t ltr!.r .riltt.\' rtii(J Nt/t.'rt.{ .tLitt!ü 2008: 214-5).
i t t I t,' tz I t Ír,t t t rl t I ; Í I í, t r; ., t;, ;,r, lt! t, ti., -

realrzaçào da primeira só se dá na vir.ência da l: t't L tt rlI iitt.t ia lrr t t t t i,:Lt i! L "

segunda. tata-se de uma unidade-diversa. Concluímos assim, mais um trecho de nossa caminhada. Ào falarmos de
E na vida em sociedade, .f.*urào .rloilr, rr-l[alho, \,alores, moral e ética, nestes dois capínrlos tratamos de elementos que
livres e refletidas na busca de realtzacão de rlizcm respeito ao ser social e sua forma de estar e ser no mundo. Em particular,
rrrpa dessas formas de estar no mundo cliz respeito à nossa inserçào nas profissões;
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rllr tliVisll« r tlo lrlrlxrllto. ,\ssiltt. ('ssir5 s:l( ) ('rlr('rl( )rr;ls ('(.nrr';us
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l.llllt
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tatnbóul cltrcst«)cs csl)ccílicas clits c()nr() \'cr('1r()s


1rr«rfissocs, 1l s(.1lr.lir-.
Ântes, pofém, reforcemos ()s element<-rs centÍzris aprrecnclirl« rs rrr.stc. r.r( )ss( )
)( )( )( ),
úitimo peÍcurso sobre a estreita relação enrÍe moral e ética:

Li:::'1:l:
À ética foi por nós apresentada neste itcm comol ráx.is humana
que envoh.e a reflexão teorica sobre a moral, orientanclo um I Iist«irie do atnor no Rrasil Qlarv Del Priore)
modo de ser na relacão do et com o ottro na busca da reabzacào I Iistrirras c conversa de mulher (Ilarv Del Piore)
humana (qr. terá diferentes sentidos em cada momento l)onzr lilor e seus doi-s tnaridos (Jorge Àmado)
histórico e diante das distintas referências teóricas e filosóficas). llocas do tempo (Eduardo Galeano)
NÍodo de ser que pressupôe reflexão críttca, eleição de r,zrores J,as palabras andantcs (Eduardo Galeano)
e acões no mundo. Em nosso modo de veÍ, ações pautadas em ditosos (João Ubaldo Ribeiro)
.\ casa dos budas
','alores emancipatórios que possibilitem a aproximacào do ser O nlto da caverna (Platào), em "\ república
social com sua essência humana na busca de sua emancipação.
Quincas Borba (\Iachado de .\ssis)
Falamos, portanto, de ações nas quais o ser singular ptssa se
-\ morte de hzn Ihcht (Leon'Iblstoi)
reconhecer em sua humanidade elevando-se ao ser humano_
-\ questão humana (Iirancois Emmanuel)
genérico. Isto imphca a r.ivência da alteridade que se objetrva
através de diferentes práx'is, encontrando na aÍte, na política e
na ciência espacos proÍícuos para a suspensão da cotidianidade,
essenclals paÍa a ação etica e sua objetivação nas acões morais Música:
cotidianas.
Cidadào Cidailà (forge Xlautiner e Czrctano \ eio-'o)
Nlanetras (Zeca P ag«tdinl-ro)

Imorais (Zeha Duncan)


Unimultiplicidade (.\na Carohna)
Práxis artística -
para quem está ensinan do / aprendendo
Carne e osso (Zeha Duncan)
O mundo (I{arnak)
sobre os temas trabalhados neste capítulo: Solo le piclo a Dios Qlercedes Sosa)

Filmografia:
:"""
i Camille Claudel (1988)
: Chocolate (2000)
: A excênrrica famíLta de _\ntônia (1995)
: O clube dos cinco (1985)
i O cisne negro (2010)
:. Beleza amertcana (1ggg)
O discreto charme da burguesia (1972)
O aborto dos outros (2008)
A cor púrpura (1985)
Thelma e Loúse (1991)
Festa de famita (1998)
Diários de morocicleta (2004)
Crrytítu/03

Projetos e Eticas Profssionais:


Corupreendendo aProleção e o Modo
de S er das Profissões

Se as coisas sào inatingíveis... ora!


Não é motivo Para não querê-las.
Que triste os caminhos, se nào fôra
a mágica PÍesenca das estrelas!
(Do.r úopias - l'Itirio Qtintanu)

(,hegamos a um novo Ponto desta


, rrr rlrada: compreenderas discussõesrealizadas
., r r

,,, , , tk ris capítulos anteriores, relacionando-


| :rs cspecificidades das profissões, ou seja,
, ,,nrl)r'ccílder o que a discussão sobre trabalho,
,,
l,; t'iclade teleoiógi ca,
r r relações sociais, l'alores,
rrr, ,t:ll c ética tem a veÍ com as profissões.l
Itefleúemos sobre as Profissões Íua
,,r rt tLlrle capitalista e as Íespostas políticas e éticas
,lu( ('st'.rs orgatizam coleti-,zmente às demandas
,,r rrriS, par entào, entender o que são e como .

.lrlt.lt1u1âmoSprojetoseéticasprofissionaise,
1,,,',lt'l'i<)flTLente, entender como, concretamente,
lr , projetos e éticas se constituem no Serviço l

r,rnro. taz-se essencial entender primeiramente: o :

,1,r. sà«r as profissões? Às profissões são práxis '


s( )('l1lls. ('( )l)) l)1ll'tit'trltrr-ttllrtl('s ('r'slx'cilit'itlrrrk's. r'(.sl)( )nsrl\,(.ls )r (l:lr(.nl l-(.s,,st:ls
l)( ;rs l'r'lr'( nl( rt nr) (llt(',,( lllllr'.ro lllr,,,lt'ltltlltllr,, tlttt't: t't'ltllz:ttl,,: tlt:tlt't'iltl
flcccssicladcs st.rcizús, ou scja, sulgeln diantc das chfcrcrltcs ncc(,ssirllclt.s
r.ir.rtr.r-r.sst,s r ru nllt.lt.r lrr:rl. I )tz t'('slrt'i1,, lr,, (lu(' tlt'lt't'ntitt:trl:t 1t|oÍiss:ir ) S(' ('llC()lltfll Ilil
lr11,,;ql'
coietivos com â finalidade de darem respostas a estes. E uma clas práxis rcali;zatlas
t lrt'{ t:tliz:tt'lto tlo lr':rlxrlllo t'olt'li1'ol :l l)l'('l):ll'11(:t() ttt'ct'ssliria a ativiclaclc a ser
peio homem e, portantq também um processo de objetivação do se, social.
i:i r,,rlrzrrtl:r. () (lu('irrclrri ,, rrír't'l rlt'firt'tnrtcl\«r, «rs c«rtthccimcntos e as habilidacles
Pata Btaz & Teixeira podemos falar em prrixis profissionais, c()m()
r ,(.r.(.nr (l('s('n\'(,llirl,)s l)()r'crtla pr«rfisslj«); c () rtívcl c1e especialtzacào daforça
"aquelas voltadas para o controle e exploração da nature z^ e
^ e na açào [aquelasl ,l, lrrlr:rllr,, plrrr rctliz,uçiro clc stta atir-iclade: "as profissões são uma forma de
voltadas para influir no comportamento dos homens,, (2009:187). ,'r 1',;u r i zrrcrrr ) (' c( )rltrolc clo fral;alht>" (R-odrigue sr 201,2: 9).
Âssim, temos distintas modalidades de profissão: as que na 'lt'rctrcc.fohnson+ (segundo a análise cle Rodrigues,201,2) "[.'.] nt
^firamdiretamente l)rrt'u
produção, na telação homem -flaturez^ (modificando diretamente n^a)rez^); rr\ t(h(l(.s octrpaci«rnais sào, 1ro essencial, uma consequência geral da dir.isão dc>
as que aítam na reproducão social, na relaçào homem-homem; e as^
que at1,am rr .rlrrrllt«,", scndo cllte
tanto na produção quanto na reproducão social.2
Retomemos alguns aspectos trabalhados no capítulo 1., a Êm de
[...] a posiçào de uma ocupaçào na divi-são do trabalho é funçào da
compreender a peculiaridade da práxh profissional no que cliz respeito ao lugar sua contribuicào para as funções globais do capital, p^ra produczio
^
social das profissões. de lucro, p^r^ reeLtzacào do capital e par?r a reprodução das
^
relacões sociais que as-§egurâm a manufencão do moclo dc producào
Toda sociedade precisa do trabalbo pan produzir e reprodu zrr a vrda,
capitalista, devendo a explicacào do domínio de umas ocupacõcs
tanto a matertal quanto a intelectual. Tal trabalho será sempre coletir,, o e terâ
sobre as outÍas seÍ pfocurada nos lacos clue as uncm ri classe
uma divisào entre os membros de determinada coietividade, pois nenhum ser dominante (X.odligues, 201 2: B0).
humano é capaz de criar absoiutamente todos os produtos dos quais necessita
paÍa sua produção e reprodução. Âssim, as variadas formações sociais têm
distintos modos de produção, ou seja, diferentes formas de divisão do trabalho .\ maneira como cada profissão estará inserida nessa divisào, ter^ a ver,
para produzir e reproduzk avida, o que, como também vimos, terá impactos l)()r'tlrlrt(), com as demandas históricas e políticas que ihe são postas diante dos
diretos nas ideologias, culturas, valores e morais. rrr( r'(.sses do capital, tendo também, em nosso entender, a veÍ com â maneira
,,ln( , cada profissão se oÍgaÍlizará paru responder a tais demandas diante dos
Na sociedade capitalista,3 a dir.isão do trabalho é social e técnica. É
,lr,.lirrrr>s níveis de consciência que seus agentes terão sobre a funcionalidade
social no que se refere ao lugar que cada um está no pÍocesso de produção
lur' l profissào tem para o modo de produção dominante.
e
r
reproduçào: a divisão das classes sociais, a burguesia e o proletartado. Â classe
burguesa é a detentora dos meios de produção, do capital e compÍa dora Àssim,
da
fotça de trabalho, por meio da qual extrai a mais-r,alia que propicia a geração do
[...] aos indir.íduos não resta alternativa ,senão responder ativamente
lucro. Â classe trabalhadora é a detento n da força d. trrb"úo, que é r,endida nào apenas na escolha de qual das necessidades é a mais urgente pâra
à burguesia para sua sobrevivência. Sua força de trabalho em moyimento é ser atenüda, mâs também qual das nor'as possibilidades é a mais
responsável pela produção que será r'endida e transformada em lucro. Âmbas fal-orár..el para atender à necessidade selecionada Q-essa, 2001a 101-2).

as classes participam do processo de construção da riqu eza social, sendo


que
a burguesia comandatalpÍocesso e oferece os meios de produção e a força Como dissemos anteriormente, postulamos aqui a rdeta de que toda
't"iri de
I
trabalho constroif produz a rrqueza social. Tal produção e apropriação se dão l,r',,Íissão existe pàri- ^tender/responder aos interesses e necessidades sociais.
I
de forma completamente desigual, sendo a burguesia a deten tora damaior \ssirn, toda proÊssão terá uma raqão de sere constÍuirá sua projeção de deaerser
I
pafie
I
i
I da ttqueza s o cialmente con s truída, apropriando- s e de manei ru p rív ada ().lue nos leva a questionari a que e a quem determinadaprofr,ssào serve? À
I de s ta.
I
I
(
lulris interesses e necessidades atende? Qual seu significado social?
I
I
Responder a essas questões tem a \rer com a maneira como cada profissão,
I ;;' .,,';;: ::,. ,";; ;;r,-., debates no que se re fere .r, c,nceir. <Je profissôes, . debate acerca das profissões
<1ue são
I ' trabalho c as que nào o sào, o que inclui aincla o dcbate cÍrtrc trabzrlho proclrrtir-o/
I in-rprodutir-o c trabalho abstrato/
concreto. À cstc respeito rer NIars (2001), Rodrigues (2012), Izrmamoro
i
I
1ZOô1 .
t,essa i2OO7b).
I 3 Nào nos detetem,s aclui n'.r discussào sobre a estruturacào da sr>ciedade
,\
I
cle classes. este respeitc> rer t\Iarx (2001), em I I rn tlos principais pcr-rsld,,rcs.l:r ruturóncr,r clcnominacla por l{odrigucs (2012) como "abotdagcm crítica" clcrltro tIa
sua obra O .apiÍLt/ - oiliu dd eroronia po/ítica.
I
I ,,, i,Lrd:r clas profissr)es.
I

I
I
J\l
',1
I
il
('rr(lll colt'riro
1lr'«ríissi,,rrlrl, It':i st' ()r'11:ur'/.)t'l):lr';r r.(.sl)()n(l(.1 ,r rrrs r.(.(Jursit,.ot.:i .1ttr'lr.tt('t:l r'('tlll)t('tllll;t ltllt'llt'lott:tlitl;ttlt'. ttttttt
,,1;t lt( lt(,. 1,,'.,,(lu( t (lt.,, t
s()ciais, cliarlrc clzts trcccssicladcs clcnmncluclas c. as
t,lr.tr,t,rllr
llrssilrilrtlrrtl«.s rllrrlrrs. ltrr.rlrrl,r,l,' nlts rl( ()('\ (los lntltt ttlrt,r:.. :tltttl,t r.1ttt'tt:t,, lrlri:r lllt'rllr cottscii'ltcilr tliss«r.
Defenclemos' portanto, a icleia cle clue tocla pr,Íiss^, uprcsc,t^rzi
projeto sobre o seu deuer ser, sua autoimagem ou imagem idea/,5
trr.rr I.rl r;rlrrrt itllrtlt', 1rorl;rnl(». ('(,1,»t':r n()s ll(» lrtg:tt' tlt' r't'rrlizar llroicct)cs clc llossas
diante cic sctr r r,(.\. l,ltzt'nt,,s iss,) () l('tt)l)o lotlr,. ttttrit:ls \'('z('s sclll llclTl mesmo perceber.
significado social e razão de existir socialmente. E tal deaer
ser será informacl< r
Vr. j:rrn, )s ( ) (lurlrrt, isso cstli l)rcscl)tc cln n()ssas vidas: no nosso cotidiano,
por um determinado ethos que orientará os profissionais.. Falamos, porrant(),
, nr 1'(.r'rl, 1rÍltcs tk' rc'rrli;zrlnlr()s algumas atir.iclades temos a necessidade de
dos projetos e éticas profissionais.
;,l.rrrt.iri las 1'xu'u rluc cstlrs tcnham êxito.
()u seja, o seÍ humano sempÍe proieta
Tais proietos e éticas apontarão orientações a serem alcançadas,
mesm() ,r.r rrt lr<) lrntcs clc cxccutá-la.
quandcr, assim como nos diz l\fário
euintana, a projeção em questão pareÇa 'lirl projcçzio e confirrmada/clirecionada por umâ intencionalidade que
inalcançár'el. Parafraseanclo-lhe, podemos üzer: que triste
e solitário! - - r rt.lrrcionará c()m as condições objetir..as postas à sua realtzacà,o, o que será
caminho se não fota a
mágrca pÍesenÇa de nossas projeções/teleologias
lr r ;rtlr ) (.Itt c()nta, ou PfopiciaÍá, o processo de planejamento, ou seia, a crtaçào
profissionais, possibilitando-nos o posicionamento crítico e coletivo
diante dos ,lr. t.Stmtógias, metodologias, inteÍ\renÇões, etc., r'isando à exequibiliclade da
interesses do capital! Sigamos um taflto mais nossa caminh
ada paru encontrar trr rrrlitlacle proposta.
tão fundamental pÍesença.
I)ensemos em um exemplo muito simples: o vestir-se para sair. Reflitamos
, ,lrt' cSSe exemplo a p^rtlÍ de nosso cotidiano. Quando \ramos sair de casa
lr \run()s em consideração diferentes aspectos objetivos e subjetivos PaÍ^
3.L Proietos proÍissionais: construção coletiva das respostas , ,, ,,lhcr o que vestiremos, e cada um de nós ler.a diferentes aspectos desses
das proÍissões em consonância com os proietos societários , n r ('onsideraçào: as Íoupas üsponír,eis,, o clima, o tempo que frcaremos foÍa
rlc t'lsâ, quem encontÍaremos, que atir.idade realtzaremos, o que deseiamos
lrr(,Yr)caf em quem encontíâfemos, o que desejamos apârentar onde nos
Projetar é relacionar-se com o futuro, é comecar a fazê_ro. ,r1r|t'sentafemos, o confofto, etc.
E só
há um momento de fazer o futuÍo -no pÍesente. o ftrturo
é o que C)s elementos subjetivos aqui pÍesentes, ou seia, o que desejamos
ere chegar E que iâ estápresente
l)r( )\'()car ou aparentaÍ, poÍ exemplo, estão diretamente
relacionados aos valores
ffi'#?];X::i:H'::Tlt" ,lu(' tcmos, como: prazeÍ,beleza, bondade, exuberância, etc.
@reAn/ta A. Not)
Obviamente, não sentamos em nossas escrivaninhas e montamos uma
1,1:rrrilha com todos esses dados, mâs estes e outros
elementos sào levados em
E o que seria, então, um proieto profissional? r,rrsideração ao escolhermos o que iremos vestir. Planejamos nosso vestir-
(,. tnuitas vezes em menos de um minuto, sem sequer percebeÍmos todo o
Retomemos alguns aspectos trabalhados no início de nossa
camjnhada
no que se refere a uma capacídade tipicamente humana que compõe l)r.()cesso empregado nessa simples tarefa.
o trabalho: Ào sairmos, no efltanto, muitas \rezes a intencionalidade que geÍou a
a teleologia.
r\j Como Yimos no capítulo 1, teleologia é a capacidade humana , ..t'«rlha cla roupa e afetada por alterações objetir.as (ou subjetivas) durante
\i
-'1
de antecipar ,, tlia. Suponhamos que intencionár.amos estâr confortár,eis diante do clima
I no plano ideal, ou seja, das ideias, aquilo que se riahzará,tendo
I
I
por base o qr. ,. saímos de camiseta e sborts, sendo surpreendidos por uma frente fria que
I
I
se pÍetende alcançar: sua finalidade.
i rr'( )uxe muita chuva e frio.
I
O homem é o único ser capzLz de reahzar tal antecipação, uma prévia
I
i
I
Diante de tal fato, e, com,ictos de Írossa finalidade, construímos
I
I ,rltcrnatir.as à ação inicial: r,oltando para. casa,, compÍando uma blusa, pegando
I
I

I
5 r\ primeira \-ez que as espressôes "aut.imagem" c "imzrgem ideal"
firram utilizadas pan falar<ie projet.s pr.fissi.nais no unla Íoupa empÍestada, etc. Outras \rezes, as ações de ret'ersão das situações
I Serr-ico Social foi em Netto (1999).
I
I

6' Pata nós' quanto mais a profissão tirer relacào corn


rll«r são possíveiS e, aí, neste CaSo:, passamos frio, pois nem SempÍe aS
zr repro<Jucão social, maior será sua responsabrlidade
I
I
consciência crítica acercr das resprrstl5 clue r,fcrece'rá cliante da
às demandas,lr. lh. sào postas, pois falamos dc pro6ssões tirralidades previamente elaboradas se reahzarào na realidade da maneirâ como
patticipam diretamente da c.nstrucà./rcprc,<1ucà, cle .al.re que
tr rrâ1rl pré-concebidas. Não há uma relacão direta entre a preYra ideação e a
I
s, icterrlojas, m.ral, entre outros elementos.
I
!
i
l
I

")ii
l
c()l)cl'('tizlrçtio tlrrs íirtlrlitllttlt's. Illi. rr,) ('nlrlnt(), rr l)(,ssrlrrlrrl;r,lt .lr.. r1u;ult() nr;rr()r ,lr"tl.lntil,,,liltr)tr),,;tnt(il1r., lttt,llt((ll,illl(lll(,l)ll)ll:.:'l()llltlttlt'tll(. (()lll ()s lllll11"()5.
clneza de objctiv«rs c Íiualidaclc, rcpcnsâ1 as cstratcuirrs rrrl.»tltlls rlirrntt,tlrrs i (,nl ;l l:rrtrtlt:r. r'lr. ( )u :.('llt. tlt:trl('(l:r r(';rlt.llr.lt' ll;t (lttltl tt,,s ittst't'ittt,)s. ('ll(ll.llll)t()
^
impossibilidades concÍeras apresentadas. ( ( )ll't (lt'lt't'tttinltrllt t',,tttlit:i,, s,,t'i:tl t' Ílttlrttccif il, ltc(lsso rltt ttà<l
l,.rr lc tlt. rlrr:r r l;rsst'.
À escolha da roupa X ou Y estará lrgada, portanto, às concliçôcs ,t l)t()( ('ss(»s irrli)t'l)l:tlir',rs t'li)l'lllttlir'«rs. lr ctrltul'il. il iIl'tc. clltfc ()tltf()S, c()nstruímos
objetivas, finalidades, \,alores e forma de ação eleitos diante de tal finalidadc c rt.s r.lnlrl ilt,qqul irlt,t/ itrtctrciotritltl()s Pafa nossas r,'iclas.
lrrr rit.t r ck r t1r-tc
realidade. Estamos trazendo aqui um exemplo bem simples com o objetivo clc 'l'll irrrluc.nr c'stri a escolha de meios
1'xrtrtaclu ctn valorcs quc ürecionarão
demonstrar os elementos pÍesentes flesse pÍocesso. Defendemos, no efltant(), :rlt'rrncÍu' n(,ssas Íinaliclaclcs. l)iante clisso realtzarernos escolhasT e acões
l,,u';r
que toda ação humanâ estara relactonada a esses fatores sendo mediada por n.rs tliÍi'r'r'nrcs clinrensõcs cla vida cle maneira arÍtculada e buscando coerência.8
vátas outÍas questões. 'lL'ntcn-ros pcllsar um pouco sobre esta relação: condições objetivas-
Os projetos dizem respeito às respostas elaboradas no nível da consciência rrrlt,nci<rnalicladc-escolhas-aç<)es, de alguns exemplos hipoteticos. Quals
não ^partiÍ
- necessariamente consciência cúttca e reflexil,a - üante da realidade ,t,rilrrr rninhas escolhas e caminhos a percorreÍ se eu tivesse como finaliclade
concreta que nos é apresentada. Àssim, as condições objetivas condicionam a realtzaçà.o material paatada nos valores de consumo, diante da
l),u':r ir vida
as escolhas dos valores e meios, bem como as finalidades apontadas, tendo rlururticlade de bens pril,ados, acesso a seÍvicos e satisfação individual tendo
uma relação direta com os elementos presentes em nossa consciência. Âqui ( í)lno referêncta o slalus qao? Que meios elegeria diante dessa finalidacle e
novamente, como vimos nos capítulos 1 e 2, relacionam-se objetividade e r,rlrl'cs no que diz respeito à minha profissão, relações amorosas, amigos, etc.?
subjetividade, o concÍeto e o abstrato, o real e oideal. Â esterespeito, narcIaçã,o E se desejo, diante de minha inquietação com as injustiças sociais,
efltÍe o sujeito e a sociedade, Netto afrrma: r ,nrribuir p^t:aprocessos de transformaçào social c p^zes de eliminaÍ e Íe\rerter
r;rrs injustiças? Que meios elegeria no que cliz respeito à minha relacão com a
 teoria social crítica (e, com esta designacão, referimo-nos à
tradição marxista) já demonstÍou que a sociedade não é uma 1,r',rhssão, com a famílta e com as organizações sociais?
entidade de natureza intencional ou teleologrca, isto é: a sociedade Poderíamos elencar aqui r.ários exemplos e, obviamente, nenhum deles
,l:rria conta da complexidade das relações sociais e da condição humana, pois
:tr::i::ÃT::TL:i^^1T'..'i;,li"i'ir:.*ii:*'::ffiH: , lrrs cm.oh,em distintos elementos diante de nossas incoerências e contradições.
que os membros da sociedade, homens e muiheres, sempre atuam I rilizamos tais exemplos apenas para elucidar a que nos referimos quando
isto é: as acões humanas são sempre orientadas para
teleologicrtmenle,
lrrllrnos de projetos individuais: as escolhas e caminhos que percoÍreÍemos
objetrvos, metas e Íins (1999: 93, grifo do autor).
tlirrrrte de nossa realidade objetiva na busca de nossa realtzaçào, satisfação e

Nossa ação tera sempre uma intencionalidade, donde estarão presentes It'licidade; a projeção ideal do que intencionamos paÍa nossa vida, o que
('n\'()h,erá escolhas nas üferentes dimensões desta.
metas e fins. Diante disso, podemos afr,rmar que coletiva e individualmente
Essas escolhas nos colocam algumas das seguintes questões: No que
coflstruímos e rlos relacionamos com diferentes projetos em nossas vidas,
rnrbalharei? O que estudarei? Irei me câsar? Terei filhos? Irei me r.incular à alguma
pois, a todo momento, diante da realtdade, rca)tzâmos escolhas, projetamos
rt'ligião, espoÍte, gÍupo social? heivraiar? Irei me isolar? E, assim por diante.
finalidades e constÍuímos meios paru reahzá,-las. Segundo Netto:
Tem a veÍ com a busca da concreazaçào de nossa aaloimagem, do que
A açào humana, sela indir.,idual, seja coletira, tendo em sua base pr'ojetamos para nós como plano de vida, como quando somos crianças e nos
necessidades e interesses, implica sempÍe um j:rojeto que, em poucas l)crgufltâm: "o que você quer seÍ quando crescer?". Os projetos individuais
palavras, é uma antecipação ideal da ./iaalidade que se pretende ,lizem respeito, poÍtaÍtto, a nossos sonhos, desejos, interesses, constituindo
alcancar, com â invocacào dos t,tiloret que a legitim^m e a escolha dos
n()ssos projetos pessoais, que se dão na eapaLÍttÍ da materialidade da realidade
meios paralogrâ-la (1,999:93, grifo do autor).

Entendamos esse processo no que se refere à construção de projetos


\ rcspeito da rcalizaçà,, ils gsç,,[his. \-cr . dxpitul() ântcrior, quanclo tr?lt?rm()s da rclacào escolha-ct,nt.licôcs objetir-as e
individuais e coletivos. c,ndicôes subjetitas.
 construção de nossa vida demanda-nos posicionamentos quaflto ao que ti N :io podcmos deirar de apontar aclui as contri.rdiçires c incoctôrrcias quc f?tzcm peÍtc dc tod, is nc'rs e nquallto sctes humartos
r clo ptciprio process() social no gual somos f<rrmados e r-ir-cmos.

+
c()ncrctll ct)r (lLlc VtVClt)()S, c()lt)() \'in)()s r)() cil;rítrrl«r I.
r",lirltt( )r, r\lli,l( lll;llt,l,, lt ltlt'llt rl,' .;rt,' . lt',. ,ltzt'ttt
Talvez não tenhamos consciência crítica cle toclo e ssc
l)r( )ccss, c, c« »r) iss,, I(',1)('llo lro li1l,, rlt' s,,t it'tl:ttlt' r.1tl(' s(' (lt'lt'tltlt'
muitas de nossas escolhas acabam sendo reaTtzadas diante de r.aiores acríric,s.
r' ; rcl;r tltt:tl st' ltrt:t 11, rlittt':ttttt'ttl(' l)ilt':t t'rislit' t',
situações-limite, conjunturas, Íegras morais, etc. Â reflexão, o questional-pelrt()
r rcsl t' st'n t irl. r. rtlt'tttos rt Íil tttitt' tprc lrli ill)c1)âs
sobre o que realmentebuscamos para nos na vida em coletividade, faz-sc 1t«
r lr rrs gnutrlcs rssilriliclaclt's zl() Pcnsarmos
fundamentalpara a constÍução de projetos individuais coerentes internamentc 1-r«

,r s,cit'claclc clc' clrtsscs, ott scja, o mrtdrl cle


- no que se refere às diferentes esferas da vida - e mesmo tempo articulaclgs
com projetos coletivos, pois nossos projetos ^o 1,r',rtltrcàr) cln clttc vir.em()s: c()nsert-acào ou
indir.iduais estarão semprc r r':r r rs fi rrtnacào/cmancipaçào. r"
relacionados àqueles projetos.
I rm linhas gerais, podemos afirmar que
Âo falarmos de projetos coletivos, referimo-nos aos mesmos elementos
r('r))( )sdois grandes tipos de projetos societários:
discutidos sobre os projetos individuais: condições objetivas, intencionalidade,
, rSC()rsen adores e os emancipatórios (Braz,
escolhas de valores e meios para attngr tal intencionalidade. No entanto,
aqui l(X)l). Cada um desses grandes projetos
não nos referimos à projeção individual, e sim à projeção de um determinado
t,'r'ri clir.ergências internas e será defendido e
grupo, uma determinada coletividade.
,rpr'«rpriado pelos dir.ersos gÍupos sociais que
Falamos, portanto, de projeçôes sobre um tleaer ser coletiao. Uma imagem
rrri«r propor diferentes formas, estrategias e i:il/tttdotc.; r f.tvtlt'ç'.ç.çi1 rí,'
ideal construída coletir.amente a p^fi1r dos interesses e necessidades de
r:iticas na busca de sua concretizaÇão. 1,iii,:iri {r;tt frt,lttitrttlri),1' i,i!,',t
determinado grupo social, diante das respostas que esse deve dar à realidade. l,,t..t:i,i,. ,,,.:, :i, ,,' {,ri; ,1 ,!/ii ;;!'
Àmbos coexistem em disputa em nossa
Projetos construídos por sujeitos coletivos que "remetem-se ao gênero humano l,ti r'.r.;i ltirit/i,'ii ) ,' .., .t.0rt'(' (!.\
',,,ciedade, mas apenas um será hegemônic<t ; ;,,., ti. ; rt7i.'1 11f, : . ,,'. .i.;; ,1.'
uma Yez que, como projeções sócio-históricas particulares, vinculam-se
,'rrr cada tempo histórico. ()u seia, um deles
aos htrsjr/rt r r'ohtit'a.s1,,;r;ti ;iriLi,.ttti!tt
interesses universais presentes no movimento da sociedade" :.! :.t,.. ./ç', /:',:i it./;t:t':'ii.;,: I l:;t!
@ral,2001:3g5). ,lircciona nossa sociedade, embora o outÍo ,tlt.t. ()tt ;t'i,.i, ct:rii"J! r!1i!:Ítidii tlü1
Àssim, todo projeto coletivo será sempÍe um projeto ético e político, o ,f,,;,';,;t,;.t,.i:t ,.' t1,1 1,, .,,1, ii.,, t,
t .lntioue a existir buscando hgggmoniâ:........ ,ifii't;t,.t ;;1;f'vv' 11,ti.'1J ;lit'ttl'.t1,1,t,i,'
que en\roh'e, como r,-imos antes, a escolha de valores (ético) e a constÍucão de
meios para
Àssim como nos colocamos a ,i.,,,ytt,,: r1,.,,,1,t,,,,. t t.',t,..,,,t; t..,t
sua finalidade (político).e ili.í,tr/,.t;ti t din','iiit .ic; itl tÍt .tit
^tlngir "o que queÍo para minha vtda?", a<t
r;rrcstào i1*l,tl,.', rr t',rti' ii tltr r'rtti.tÍilitii ltt;
Os projetos coletivos têm um nível maror de abrangência do que nossos :it ,:;it :;l'; , ! t) {, ;.'it
lrrlarmos dos projetos societários estamos ) ;,'r,1, ' : . lt
projetos pessoais, pois envoh,em um conjunto de pessoas e o posicionamento ,ii.;;,;,i,t,.,,1;.t,.,t.:t;1.,;a/,i,,.t,t,,,.
n()s perguntando "o que se queÍ para esta t;/ l; ' t;i .\t';.); t.:, r i,' :t' '
' i ,'tt l I
dessas diante de uma projeção para esse grupo em relação à orrt.,
projeçào: à s, rciedade?". E isso em.olt'e pensar "qra
.',,1. 1ir,...,., i,,,;.
'1,,1y,t,ii
t,,,;,,,,.7,.',,, i.;,, 1,.;,,,i,
;1"
sociedade. Seus suieitos coletivos podem ser mor,,imentos sociais, de 1!s;.t...'iltt',,;
profissões, ri1-ro de relação de produçào, consumo e
oÍg ntzações sociais, gÍupos étnicos, geracionais, partidos políticos, entre ouúos.
rrl)ropriação da rrquezà social se deseja?", c)Ll
O mais abrangente entre os projetos coleti.,,os é o que denominamos de
"que valores defendemos?".
projeto societário. Abrangente, pois tem dimensão "macÍosc óptca",envolvendo
Parece-nos que essas peÍguntas - entÍe o que cada um de nós queÍ paÍa
pÍopostas paru o conjunto da sociedade
setto, 1,999). Segundo o autor, os ;r ;rrópria r,,ida e o que queremos p^ra a sociedade - acabam se relacionando.
projetos societários são aqueles "qr. apresentam uma imagem de sociedade a ser
construída, que reclamam determinados valores paÍa justificá-la e que privilegiam
Os projetos individuais e coletivos estão semprc imbricados a um
certos meios (materiais e culturais) para concretTzâ-Ia" 1,999:93). proieto de sociedade, seia ele de manutenção ou transformação da
G{etto,
Ora, se estamos falando que os projetos societários têm esse nível de ordem social vigente. 'Ianto as escolhas indn iduais dos homens
abrangência proietando a autoimagem que se pretende construir ou manter, impactam na vida de uma coletividade, quânto os Íumos sociais
e coletivos impactam na vida dos indMduos sociais (Cardoso &
Àlmeida, 2012:17';.
t"";i;:;" u,.^, política e prrjecões, Barr.c, ret()mâ a reFerência cra prásis: "r)rojetar as acôes, orienrando-as
' '"0t" "",."
pata a objetir-açào de r-alores e finalidades, é parte da práris. r\firmar
que essa prcjeçào é ética e política significa c.nsi6erar
que a teleologia implica r-alorcs e que sua objetir-aczio supire a p<,Iíiica como
espaço de luta entre projetos diferentes,,
@arroco, 2001: 65). lrt. ScrÁ iusttrmcntc essc antagonism() cntrc cssâs duas possibilidacles o tenta central clos capítukrs 5 g (, -soll a frrrma de duas
pcrspectt-as profissir»rais no Sctr-ico Social: a conscrvadotzt c :r cm:incipatr'rril.
,\ tllt'stttlt coislt ( )('( )t't'(' ('( )t)t ( )s l)r'( )l('l( )s l)r'oíissiottltis: "( ) (lrrt. tlcl(,t'nIn;l(l;t ( ):. r'.1() (()ll:'lllllt(lt'S 1''rl't:tl0lt'S tllltt'
lrtr)l('lr)" lrt(}lt',',tr)ll,tl',. lrrll l,llll(),
prt>Êssà<r pr<tje ta c()ttt() sLllr (tlt/oi//ht\ü// socill/"; "( ) (pr(, tlr,Íi'ntlt' (.( )n)( ) su:r ('ll'l (()llS()llllll('i:l ('()llt l.ll)) llt'()it'lrI
1,,,lllt,I)\ (.()l)(()(.\ l(.()tl(() lll('1,,tl,,l,)!',1(lll\
finalidade nesta sociedade?" fhmbcm tcrl-l()s acltri pcrguntas (lu(, s(. r'r.llci,)Íl:un ,, rr tr.t;i l.i.. l(.lt(lp 1rp; l;rst. ( ) tr:rlr:rllr( ) l)r'(,íissi,,rtrtl tl,rs strit'it«rs clcssit itçiio.
com â defesa de um ou outro projeto societário. Lrl,,1,.t,1rrr. lt.r,.ititrrrrrrr :r ( )l)clj(, rlt' ttt tt't ,lirunirt .çrttitt/. ttttttittlto'ç l't^r^ l c()ncfetizaçào
Âssim, entendemos que os projetos pÍofissionais scmprc ilzio se rcluci«rrrlr. ,lr.:rs1 rrlrcrio. lt,rrtl«) ('()nl( ».firr,t/irl,ttlt'urtt't.fitntt,t rla .çociulti/idade. Enquanto proieto,
com os projetos societários, em maior ou menor grà:.,mais ou mcn()s diretarrtcntr'. ,l1t.t'i,11 u llc-;io c«rtitlitttra tlcsscs 1-rr«rfissionais que, poÍ Sua YeZ' Construirão e
Conforme visto anteriormente, ao entendermos que as profissires sli« r r( ( ( )nslfLrirà() fitl 1.)r«ricfo cm st.J prrix'i-r proÍissional.
reconhecidas e legitimadas a partir das respostas que dão às demandas que lhr. 'lt'1rcm«rs glhar um pouco mais de perto os proietos profissionais,
são postas pelo movimento da sociedade e, no caso da sociedade capitalista, r,.,rlizurr{<) Lurra análise clos elementos que o constituem. Como iá nos referirnos
pela relacão capital/trabalho. devemos obsen,ar que essas respostas "estiio .r1t(.s. «rs p«rjetr>s coletivos têm uma dimensão ética e uma política que os
vinculadas a projetos de sociedade: Que no limite, reforcam um dentre os clois .,rrti)ftrram, no entanto, eSSaS dimensões não sào as únicas. À partir da citação
movimentos mais genéricos: o de manutencão ou o de rupturâ com a ordem ,lr. Nctt6, a,crÍna, na qual ele define os projetos sociais, e das elaboracões de
social vigente" (Guerra, 1998: 290). l\r,,r't, (2001),Braz & Teixeira (2009) e Cardoso (1999), podemos afrrmar que os
Será muito comum que os projetos profissionais hegemônicos em cacla dimensões: ética, política,
l,r,,ic'tgs profissionais são constituídos por quatfo
profissão esteiam em concordància com o projeto societário hegemônico em rr.ririco-metodológica e jurídica, que se traduzem/manifestam no interior
nossa sociedade. E possível, no entanto, "qr., em conju.r*rua precisas, o t lt.SSCS projetos sob a forma da ética profissional, da otgafiização
política,
projeto societário hegemônico seja contestado poÍ projetos profissionais quc ,lrr pfodução do conhecimento/propostas metodológicas e do apafato
conquistem hegemonia em suas respectivas categorias" §etto, 1,999:97). irrrídico-político de cada profissão, ÍespectiYamente'
E o entendimento do papel dos sujeitos coletivos que possibilita que Vejamos como compreendemos cada uma dessas dimensões. Àntes,
haia proietos profissionais contra-hegemônicos ao projeto social vigente. Esses ,() crtanto, faz-se necessário explicitarmos que não se trata de dividir ou
proietos só ganham força na sociedade quando extrapolam os limites das ,rrlr6ir-idir a noção de projetos profissionais. E,stamos falando de dimensões que
categorias profissionais, estando rrinculados aos valores, finalidades e projetos r.r1põeffi esse projeto em sua unidade. E uma uflidade formada pela relação
societários maiores, como os dos mor,'imentos sociais e dos trabalhadores. t plrc essas dimensões na composição entre a especificidade de cada um deles
Voltemos então à pergunta que iniciou esta parte de nossa caminhada: tlue são d.istintos entre si tendo suas particularidades - e a totaLidade de sua
"o que é um projeto profissional?" E um dos tipos de projeto coletivo, porém ,rrriclade. São elementos que, relacionados, complementam-se, formando o que
de menor abrangência do que os projetos societários, pois versará sobre , lt'rrominamos proieto profissional.
determinada projeção para uma profissão, tratando de uma esfera parttcular, À isso chamamos de unidade-divefsa,ll algo que é composto poÍ
embora esteja como vimos, em consonància com uma determinada projeção r.lt'lrentos distintos entre si, mas que não existem isoladamente e que, em
de sociedade. rrrl composição, formam um no\ro e único elemento.E a formação de uma
Os projetos profissionais üzem respeito à imagem ideal que determinada rrralidacle a" p^rttÍ da unidacle entre distintos elementos que, separadamente'
c^tegofla profissional construirá como resposta ao momento histórico ri'nr seu significado, embora dependam entÍe si para sua existência'
vivenciado, o que envolve os sujeitos individuais e coletivos dessa categoria. Sob este r.,ies, falaremos dos elementos que compõem cada uma das
.lirnensões que compõem o projeto profissional,apartrr de suas especificiclades,
Os projetos profissionais apÍesentam a autoimagem de uma ir() mesmo tempo explicitando a unidade entre eles, na tentativa de demonstrar
profissão, eiegem valores que a legrtimam socialmente, delimitam
e pri.orizam os seus objetivos e funções, formulam os reqúsitos o moyilrrento existente eÍrtre tais elementos, compreendendo que os proietos
dessas partes, mas sim sua existência relacional.
(teóricos, insútucionais e práticos) para o seu exeÍcício, prescrer.em 1,r-.fissionais não são a somatóriâ
noÍmas paÍa o comportamento dos profissionais e estabelecem
as balizas da sua relação com os usuários de seus ser','icos, com
as outras profissõcs e com as organizacões e insuruiçoes sociais,
privadas e públicas §etto, 1999:95).

':g
l)t'ttsltt'()s l)l'oit'l«rs 1lt'oíissiott:tis,
l)()r'lrlnl(). r'('(lu('r'('()r))l)r'(.(.rrtlt.r t:rtl:r rrrl:r tlt.ssrrs ll:l l('l:l(,:l() ( I)ttt tlt'l('l lllllt:trlr' 1r1olt'l():\()( lt'llll'lo'
tlimcnsões c slrÍrs nrediaç«)cs. l,ss:r tlill(.1sil() ('()nll)()t'ltt ()s tttt'i,,s 1ll:rrrt'ilrtl,)S (' 1l{ir)('S t'clrlizlttllrs 1lt'l.t
À dimensão ética dos projctos pr,fissionais rnanifl.stir-s(' crnr, c.rit-rr r-ott jrrrrto tllr t'ltt.goritr t r( )s s('t.ls 1r<,sir-i« )nillt)r'nlos rliitlrrc clas demandas s<lciais,
profissional, a qual veremos no item a seguir com maior prr>fundiclarlt,.r' t1r listlcl«, c rla socicrlrrclc civil - () LlLlc inclui os usuárit)s e contÍatantes de cada
Por hora, cabe üzet que não se confunde, portanto, com o projcto. r\ cticir rncio clc sua org nrz^çào, clas lutas que empÍeeflde e de suas
1rr-<rÍissri«) - l)or
profissional, nesta compreensão, é am dos elementos que compõem o projct«r tirrmas coletivas cle «rrganizaçào em aliança com outfos setoÍes da sociedade.l5
profissional e não a projeto profissional. r\ climensão política refere-se, poÍtânto, às respostas concretas dadas por
Todo projeto profissional, como yá vimos, elege l.alores <1ue legitimarn cleterminacla profissão diante das políticas sociais, econômicas, culturais e da
suas escolhas em consonância com o projeto social que defendem. Valores
que se realidade social, poÍ meio das estratégias eflcontÍadas para ^ l:rrateflabzaçáo de
ttaduzem em princípios que buscam direcionar a ação cotidiana dos profissionais, sua posição ética diante de cada coniuntufa social e política.
tânto individual como coletivamente, no que diz respeito à relação do profissional Àqui estão as entidades ou associâções profissionais enquaflto
com a coletividade norteada por uma dete rmtnada teleologia. Tais princípios instâncias político-o rgzLníz^Í1-vas16 que terão papel fundamental na constituiÇão
obietivam-se em um código de ética, ganhando concretude em se,rs artigàs e cla identidade, arttculação política e constÍução das respostas profissionais à
possibilitando a orientação de diretrizes para o exercício profissional. Note-se sociedade que se traduzam em ações concretas cotidianas dessas entidades e
que a dimensão ética de um projeto profissional não se restÍinge ao código de cle seus profissionais.lT
ética profissional, mas é a etlcaprofissional como um todo planejamento e reallzzLçào dessas ações estão taÍIto relacionados
setto, lggg). O
Âssim, todo projeto profissional é informado poÍ umâ determinada aos valores e princípios eleitos quânto às referências teórico-metodologicas
ética profissional. Â teleologia deste e dada pelos valores e princípios que elege,
que oÍientam determinada compÍeensão de homem, mundo e sociedade,
vinculando-se, assim, a .oma éttca, ou seja, a um modo de ser que aponta um apresefltândo a vinculação a um método de análise da realidade que propicia a
dever ser. Todo projeto profissional, portanto, propõe a objetivação de uma elaboração de propostas interventir,'as com maior embasamento.
determinada éttca profissional. Os elementos éticos "envolvem, ademais, as Àqui já estamos falando, poÍtanto, da dimensão teórico-metodológica
opções teóricas, ideologicas e políticas dos profissionais
[...]" §e6o, 1999:98). cloprojeto proÊssion al,materíahzadapormeio da produção do conhecimento
Isso nos conduz à segunda dimensão dos projetos profissionais: à e de propostas metodológicas. Entendendo a teoria como "a reprodução ideal
dimensão política, a que se refere à sua organização política. Flttcae política do mor.,imento Íeal do objeto [...] reproduzido e interpretado no plano ideal
relacionam-se, pois é na política que se assent a a ação, a práttca dos valores (do pensamento)" §etto, 201,1,:21), podemos afrtmar que a teoria rnform a'
expressos pela etica.'3 No entânto, uma não compõe a oütra. Formam sim, uma mesmo tempo, está presente e expressa
ação política dos sujeitos sociais e)
unidade ao pensarmos os projetos profissionais. Âssim, a polític a nào é um fim ^o
as escolhas éticas reahzadas por esse projeto. Àncora-se em produções do
em si, mas uma atividade, um meio parl- a concretização de valores e teieologias.
conhecim ento laexistente nas diferentes áreas de conhecimento e mateÍializà-se
 dimensão política diz respeito, portanto,às estrarégias formuladas pelo na propria produção rcaltzadapela câtegoria diante de suas referências teórico-
sujeito coletivo - a categoria profissionall+ p^rà a ob)etrvação desses valores e
-
princípios, a fim de atingir sua intencionaiidade errquanto projeção profissional

15...É importante rcssaltar quc a constÍução de uma projeçào coletira não é resultaclo tle um somatírrio de ptoietos
seus projetos
indir-iduais. Um projetg prc,fissic,nal r-rào pocle ser construído POr um grupo cle indivíduos, que, a partir de
indir-i6uais, pe1rsuria- a proÍissão, mas cier-e ser gestado pekrs sujeitos ciue a cornpôcm. Nos
fiiruns de discussão e
12' As cluatro dimensões aqui apontadas nos sào muito caÍâs e nào há hierarquizacào de aruação, dc difetentes
entre elas. Ocorte, porém, que decicjimos deliberação, espacos que garâfltam participação democtáttca de indivíduos de dir-ersas áteas
nos ftrczrr, na Presente obra, mais na dimensào ética, a fim de aprofun<Jarmos as discussôes
inserçôes geopolíticas-e Àotir", i<1eo-teriricos, esses sujeitos - prolissionais, estudantcs, professores,
sobre as éticas rir-iclas no seio pesquisadores -
do Serviço Social brasilcito, debate iniciado em nossa tcse cle Ci,utoramento pela pUC,zSp tepresentatir-as, eleitas
<1ue quisemos ampliar aqui. apr<x.atiam as propostas, lutas, atividarles a serem implementadas sob a cootdenaçào de entidades
13 obi'iamente' sabemos clue a ética também tem caráter prático, com. r-imos no capído poÍ seus patcs" (Ramos, 2005: 205)'
anteri.r, quando a enten<lemos
enquantolru'\zihumana, em atirudes de clevacão ao humano-genérico. Porém, aqui lalamos
cle sua articulação com. 16.,As instâncias político-organizativas entoh-em os espaÇos coletivos de dcbate e dtlibetacio das categotias ptofissionais,
exercício politico especialmente como mediacào para sua objetivaczio. sua hegemonia ou
espâÇos estes rcsponsár-eis por consagrâr os tracos gerais de determinado ptojeto, fortalecendo
l4' "[ ]cluc inclui não apenas os pr.fissionais'de campr',u'<Ja prática', mas
que <le'e ser pensaclo c()mo o conjunto dos conttibuin<lo paÍâ a construçào de novas hegernonias" @taz & Icircita, 2009: 191).
membros que dão efeti'idade à profissào. É atrar-és da srla, orgattiiatâa (enr-oli.endo rrs e seu
proâssionais, as instiruicões que os Ti. Para aprofundamento da discussão das ass<>ciações profissir>nais ou entidades de categorias profissionais
formam, os pesquisadores, os docentes e os estuclantes daárea,se.,r.r.gu.rism,,s no contÍo1e clo
corporatir-os, acaclêmicos e sindicais etc.) fundamental papel diante 6o podet do Estaclo e na relação com a sociedade cird, ou ainda, do seu papel
que um c.rp, profissional elabora o seu projeto"
§ctto,1999: 95, grifo clo autor). trabalhg/proàr.à.r,.-", as rcflexires sobre profissionalismo em Rodrigues (2012) e Fteidson (1998).

sl
nrc t( )clol<igica s, cxprcs sa llck > 1tcrs1'rc'c tivas [' tico-pol ít icrr s.' " l)( I r,lrt'r ll\ :t lclr',,1,,1',1, ;1.

Nào nos referimos à vinculacào a um cleterminado atrtor olr ir c( )nstluÇrr( ) l. s,,l)t(.tss() (lu(. llrl:rrt'il1()s n() l)l'()\illt,» ilt'tlt. l)ltt'lit't'ttt«rs, itssittt. l)ill'11 ()
\ii de um pensamento único. Um projeto profissional der.e ser sempr(' plrn':rl. .r;rrolrrrrtllrnl('nl(, tlc rrttt tLrs t'lt'tttt'ttl()s (l(l('('()l)'ll)()('l)l()S 1rr«rict«,S pr<lfiSSitlnaiS,
levando em consideracão os diferentes pensadores e referências que p«rclt'rrr st, r ,n li rrrrrt' ;li ltttttttt'i:ttl, r :rtttt't'ir )l'lll('lll(': a ('ticlr 1-rr«rfissi<lnal.
it!
artrcular diante de uma mesma perspecti.,,a política e ética. São as rcferênc:ils l)ori'rn. ll'ttr.s rlc scgtrir, taçatn«rs ltm bret e resgate deste no\ro trecho
".1
i:)
tti: analíticas de determinado campo teórico, de maneira mais ar'rrplz' que clarir r l)('r.(.(,r-r-itlo lror rr<is, rro clual c()nstruíInos
a compÍeensão sobre os proietos
base de sustentaçào ao projeto profissional em sua coerência com as clcnrlis 1,
r,, Í i ssi« rnuis. \'cf amos « >s clcmentos CentÍais aqui trabalhados:
dimensões expÍessas na produção própria daquela categoria, oferecend() íl( )
conjunto profissional caminhos na construcão üarra de estratégias técnico
operati\ras de intervenção profissional que se traduzem em proposr,ls
t metodoiógicas p^r^ o trabalho profissional.
il\
São proietos coletivos que dizem respeito às categorias
Todo projeto proÊssional tem como horizonte a construção da adesào profissionais. Àpresentàm a imagem ideal de determtnada
i.'l

\l
do conjunto da categoria a ele e sua producão teóric a será um dos elementos profissão - seu dever ser. Como os demais projetos humanos
importantes na construcào de tal adesão. Obviamente, não é possível creditar são respostas à realidade concreta e objetiva, elaboradas pela
consciência dos suieitos, neste caso, um sujeito coletivo. Sào
a um projeto a expectativa de homogeneidade. Trata-se cle hegemonia e não ck'
i:.

formados pela urudade-diversa efltre quatro dimensões: ética,


maioria ou unanimidade. Diferentes projetos convil.em em disputa no seio das política, teórico-metodológica e jurídica, percebidas a partu da
profissões, mas apenas um detém hegemonia. ética profissional, da organrzação poLítica, da produção do
Ào conquistar tal hegemonia, que se traduz no direcionamento políticr> conhecimento/propostas metodologica e do aparato iurídico-
político de cada profissão. Enquanto proieção que dá Íespostas
e intelectual da categoria, encontÍamos a qüàrta dimensão dos projetos
às demandas sociais, apresenta, portanto, uma determinada
profissionais: a dimensão iurídica. intencionalidade e a eleição de valores e meios para atingir tal
Esta se manifesta no apatato jurídico-político conceÍnente às intencionalidade. Tal eleição fundamenta-se em referências
profissões: suas legislacões, que envoh,em seus pareceÍes, codigo de ética, lei teóricas e se materiahza dando direção intelectual e política à
de regulamentaÇão da profissão, diretrizes curriculares e políticas, como a de categoria, por meio de um apz.ràto iurídico-po)ítico próprio de
cada profissão. Todas as profissões iuridicamente constitúdas
estágio e frscaltzação do exercício profissional entre outÍas.'' É por isso que
têm distintos projetos em disputa em seu interior e tais projetos
Netto afirma que os projetos profissionais existem não em qualquer profissão, estão articulados a diferentes proietos societários. Embora
"mas àquelas que, reguladas juridicamente, supõem uma formz'ção teoflca ef ou distintos projetos convivam e se relacionem, apenas um
técnico-interventiva, em geral de nível acadêmico superior" §etto,1,999:95). conquista hegemonia, dando condução à profissão em cada
período histórico-social, ganhando materialidade t açào
Tal legislação está pautada e tradtz os elementos políticos, éticos e teóricos
individual e coletiva dos profissionais.
que, junto ao aP^r^tojurídico-político, formam a unidade-dir.ersa a que chamamos
de projeto profissional, estabelecendo diretrizes p^rà a intervenção profissional e
ganhando concÍetude a pafi1Í da ação individual e coletiva dos profissionais.
Como nos instiga Terezrnha Rios na epígrafe escolhrda para o início .\.2Ética pfofissional: teleologia dos pfoietos pfoÍissionais eo 1...

posicionamento no cotidiano profissional


l\
I

deste item, pudemos \rer que a construção de projetos, embora estes versem I

sobre o devir, acontece no aqui e no Todo projeto profissional está


I
t

^gor^.
I

ancorado em seu tempo e tem seu início no presente, diante de urna clara I
I
I

Esteéonossoofício, I
I
I

esteeonossoúcio. I
I

" ;'J^':.1,::'::,*:.;:iT',H::ffiTl ;:'::i::lll;:,fiii'"'i.::;],H:iI';.:Í:*i :::.t":H::"lii:]:"Jl:::il: Cego enlouquecido, I


i
I

rcflcrir-os do faz,er profissional e especulativos e prospectiros em relaçào a ele" (Rraz &'1cireira,2009: 191). visão por trevas tomada I
I

19. Nào hii um documento ou lcgislacão prirpria clue regulamente um pro jeto profissional. I rle nào é definido por lei, cmbora insiste em apontâÍ estrelas I

I
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se espressc cm r-árias delas. mesmo em noites nubladas. I
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.\inrllr t1trr. sr.jrr P, rr. rrrr,.lrr r( \ ('l;llll ll r Il l('l l )l' rl lr'''l,tl:ll',l lt'lll;llltlr » ;l ll(' llo lll oÍ tssi"tl'tl'
l'tr l;r
r t.,rlrz,r.l;rs 1r..1, r sttlt'tlr ». tli:tttlt' tllt rt'lrlitlrtclt' rlrit'tivlt t'
irrsislr I r.rn :rl)()rrl:i. lrrs
I ,, , ,ll trts «

mesmo scm vê-iâs ':ts tlt' tltllit (-,lt'tir itltttlt


)ll( l('lil!
com a certeza que mesmo nâs tÍevas ' '
escondem-se estÍelas.
(Sobre o oJ do de conslnireslre/as € 0s \t,stt. st.nlitlr prr»ttssionrtl i' utrt t'nodo dc ser constitúdo
». <> tllto.ç
iscl: da.r t,errrrgas
llatro Iasi) nrr rt.lrtc-io conrplcxrr cntrc ?ls ncccssidades socioeconômicas e
ír1.o ctrl(trrrris c irs 1-lossibilidacles dc escolha inseridas nas ações
['tic«r-n'rorrris. () quc rrponta Para sua diversidade, mutabilidade e
N{uitas vezes, a etlca profissional é tratacla como sinônimo cle pr<>jg«r
contraclitoricdaclc (l3arroco, 2001: 68, grifo da autora)'
profissional. Em nosso entender, conforme trabalhado no item anterior, a eticl
profissional um dos elementos que compõem o proieto profission al, e aomesm(
é
) N() capítulo anterior, encontÍamo-nos Com a motal e à éttca e
tempo o expressa. Os dois se encoÍrtram, ainda, expressos no código de ética,
,rl)r.(,sclttamos a etrc^ enquanto possibilidade humana da reflexão cfítrce- sobre
umâ \'ez que o ç[c]igcl, ao expressâr um projeto profissional, expressa também
sua ,r rrr«rral orientando um modo de ser informado pela reflexão crít7ca sobÍe
ética profissional, além de ser seu instrumento de sistem nrrnçio etica.
. t-« rr.lportamento dos homens, traduzido em ações na busca da rcaltzaçào
Para nós, a confusão que leva muitas \.ezes um a ser tomado pelo outr()
lrrrrryrna (d" ser social), entendendo que tal realtzaçào tem diferentes
tem a YeÍ com o fat<-r <la ettca profissionai ser um dos vetoÍes de orientação d<r
r,lt'rcnciais em cada momento histórico, o que nos âpÍeseÍlta o fato da
projeto profissional no que se refere à sua teleologia e eleição cle valores quc
, ristC'ncia de distintas éticas.
se traduzem em seus princípios. Esses princípios, no entânto, não expressam a Pensar a
éttca profissional pressupõe
totalidade de um projeto profissional, mas nos apresentam os pressupostos dc
( nl('rlder aspectos de sua particularidade
determinado compromisso profissional, o norte de seu cleaerser.Âssim, ,,embora
n( ) que se refere à éttca enquanto práxis
as diretrizes norteâdoras do projeto profissional nào se limitem a ele
codigg [o lrrrrnirna na relaçào com a práxis profissional.
de ética], os valores éticos por ele identificados comp oÍt^mo sentido
da direçã<r I )t'sta manelta, tÍata-se de uma das formas
social da profissão, bem como suas pÍopostas atuais,, (Sih.a, 2009:109).
l,:rrticulares da éttca.
À ética profissionai conforma, como vimos no item anterior, uma uni«lade
Referida às Profissões, a etTca é a
com o posicionamento político, a produção do conhecimentofprctpostas
rt'llc'xão sobre a moralidade profissional,
metodológicas, ou seja, as referências teóricas, e o apirÍ^to jurídico-pà[,i.o
r1rr. possibilita , ,úipéiiiaó ãã ôôii.liâniááde
na constituição de um proleto profissional. Contudo, ela rem caÍacterísticas
,r( ) Pensar a telação do e// com o co/etiuo,
proprias enquanto comPonente do trabalho profission al, naconstituicão de um
, r.lrrlrelecendo parâmetÍos para a relação dc>
determin ado e ilt os pro fi s sional.

1,r,rÉrssional com a sociedade.20


Etltos, que quer dizer modo de irfl, neste caso, um modo de ser profissional À ética profissional ttaz em si valores e
que üz respeito conjunto de profissionais, a categoria, passando pela
1,r'irrcípios que directonarào o ^g1r
^o profissional
apreensão de valores e princípios que são objetivados pelos sujeitos inclividual
e ( cxpressa-se tr vivência cotidiana dos Í.;..ç Í r t tt : tt.r t » f ,t n ri a t rro rr'.llíd "lcl c
tt rt:ttttiit,
coletivamente nâ realidade, expressando uma determinada postu ru éttca. 1lr:ofis:,i(}na1 r)0t//t)
1,r', rÊssionais, bem como na codificação desses ,it .i/ilini?/itilai ;tiaii.t ir trtt:rt
Todo profissional é demandado em seu cotidiano a posicionar-se /',iitfit;,)n: /t iil,ttJ,.'ir.t ri/t li.'rtíflt
r:rl«rres e princípios que se materialtzam em ,t;.uu /rrj.;'r,0,'1.,i4,.ttht: ;:irt :'l'
ética e politicamente diante da realidade, descle as ações mais simples às mais
,rrtigos no seu instrumento legal que é o t;cst,:irtdtt.ç.
complexas: do atendimento direto à uma pessoa, passando pelas rãhções com
, ,',cligo de ética.
profissionais também de outras áreas, com a instituicào, atZ com o Estadq o
que implica sempre um posicionar-se diante das relações de classe.
\ lt rites profissões tratam a ótica profissional cle maneira restrita compteendida como deontologia ptofissional, que
signiÊca
Esse posicionar-se, que no cotidiano se dá muitas vezes de forma mais
..cic.cia do cler.et" 9u "esrudo d6 cler-er". Ilm nosso entendimento, tal refetência teduz a noçào cle ética profissional à
individualtzada, c^rreg em si aspectos de uma determin ada ettca profissional, r , r, ,ra1 pro fisstonal, climinuinclo a apeflas à existência
de um código (de ética) prescritirr; c orientador da açào pro fissional
,,,,., ,,rro direção ;11oraltzadorae não rcflexir-a cdticamente. Desta maneira, a ética
profissional é e<luipatada ao código de
nas escolhas que o sujeito rcaltzadiante da realidade com base nos
princípios que ctice, nào senclo apreendidas suas demais esferas, com() \-erem,s a scguir'

8i
r tr.,tltrl;ttlr'(':.('u nt()\'lnl('nlr,. l'tt:,l,tll)()('. l)()l.llllll(). tllllil:lllltttlt'lil,»s,rÍit'lt. tlt'
Pctdcmos falar da ética pr<-rtissiorurl cn-r dr-urs dirncrrs, r(.s: (.{ ,r))i ) (.sl):lc( )
rrr,l,r1,,;s1,';1q ), (lu(' st'l,trntl.r ( .lr:rut (^]()()(r: J()). tl()s ('(,tttlttz tt tt'i's l)('l'gtltltlls lllisiclrs:
de reflexão teórica sobre os fundamentos da rnorrrlidadc c c()nr()
Íesposta consciente de uma categoÍia profissional às implicacr)cs
,
' (t'/"; "t'r,tttr I t'í"; "l)( )l' tlttt' t1i".
lr r('
ético-políticas de sua intervencão, indicando um de,u,er ser íro âmbito ,\ c'tic'rr strl'rirc, ussinr, rrnra lltsc fil«rs«ihca, clc indagaçào do mundo em um
de determinada projeção social (Paiva et al.,1996: 167). , rr.:, r't.llr.\ivo. ,\incll scÍ{uncl() (lhauí, podemos üzer que a filosofia, enquanto:

Âssim como a ética e os pro,etos profissionais, também temos distinrls ir-rnclar-ncntzrçtio tcórica e crítica [...] ocupa-se com os princípios, as

c2tus,ts e condrções do conhecimento que pretenda ser raciorral e


éticas profissionais que, como visto Íro item anteÍioÍ, estaÍão vinculadas ír()s yerdadeiro; com a origem, a forma e o conteúdo dos valores éticos,
projetos societários que, na sociedade de classes, em última instância, âpontanr políticos, religiosos, artísticos e culturais (Chauí, 2006:23).
pàra duas grandes peÍspectivas societárias: a manutenÇão da realidaclt.
.:r:
social (perspectir-a conser\radora) ou a sua tÍansforme.çào (perspectivrr l)esta forma,podemos afrrmar que a ética profissional é constituída por
l)
i:l emancipatorra). Tais perspectivas evidenciam-se na sua relação com a éticr rrnrrr csfeÍa que denominaÍemos esfera filosófico-valoratival2 o coniunto de
il)

profissional diante dos valores e princípios que compõem esta ética, berrr r,rl,r'cS e princípios que fundamentam determinada coÍrcepção ética, com base
como, das teorias que the dão base. t rlr ulrlâ dada reflexão filosófica e teórica.
Essa esfera diz respeito à reflexão sobre o compoÍtameflto profissional
:.ll
it)
-\ ética proÍissional se objetira como ação moral, através da prática
n;r sLla relação com a sociedade, verificando se esse comportamento condiz
profissional, como nornaliittção de dercres e lo/lres, atrar.és do códig<r
i:\
de Ética Profissional, como teoiiacão éÍica, através das filosofias r ,n) o movimeflto da realidade em sua totalidade, buscando compreender
e teorias que fundamentâm sua inten enção e reflexão e como ,1rrt.r'alores têm estado por trás desse compoÍtamento e elegendq^partff da
ação ético-política. \'ale destacaÍ que essas não são formas puras ,|,'ílnicào de uma direção social, coefente com a visão de homem e mundo
e/ou absolutâs e que sua realtzacã,o depende de uma série de ,rtlrrrada nessâ análise, vaiores a seÍem orientadores da açào profissional.
determinacões, não se constituindo na meÍa ÍepÍoducào da intençào
dos seus sujeitos (Barroco: 2009,175,grifo da âurora).
\:ro os valores e princípios que fundamentam o posicionamento político da
r:rrcgoriâ, enquânto sujeito coletivo, bem como o posicionamento cotidiano
t lr »s profissionais em seus espâços de trabalho. E a base de direcionamento
Na citação Barroccr dialeticamente nos ilumina quanto às três
^crma, rr.lcológico dos projetos profissionais, relacionando-se às dimeflsões teórico-
esfeÍas que compõem a éuca profissional.2r São elas: a esfera filosófico-valoratir.a,
a esfera moÍal-prutica e a. esfere- jurídico-normativa. Ela arnda nos mostra que rrrr:todológioca e política desse projeto.
a éttca profissional nào depende unicamente da r,,ontade dos indivíduos, ela é E tais valores se objetivam poÍ meio da açào dos sujeitos, o que nos leva
condicionada pela realidade objetir.a na qual se realtza e tem rclacão intrínseca ,l csfera moral-prâtica.23 Esta diz respeito âo compoÍtamento do profissional
com a política. Busquemos aprofundar um pouco mais a compreensão da ética r.n1 si, à forma como a pÍofissào socialmente na sua ação cotidiana
^parece
profissional a partu dessas três esferas. rrrclividual ou coletiva, as escolhas profissionais diante da realtdade concreta e
,,1>jetiva no espaço da cotidianidade, o comportamento do profissional diante
Assim como na discussão sobre projeto profissional em que vimos
quatro dimensões org ntzadas enquanto uma unidade-diveÍsa, essas tÍês esfeÍas ,lc'ssas escolhas em relação às normas e Íegras morais.
ri Essa esfera remete-se, poÍtanto, à moralidade proâssional: as âções
\i,j constituem a éttca profissional. Compreendê-las em seu mol,imento auxilia-nos
l

i no entendimento de que éttcaprofrssional se está falando. ,los profissionais no cotidiano profissional, no seu âtendimento ao usuário,
I
I
I ^cercz-
Se a ética é uma reflexão teorice- sobre amoral,buscando, portanto, pensaÍ
suâ pârticipação em fóruns e debates, na elaboraçào das políticas públicas,
I
i
reflexivamente as noÍmâs e ÍegÍas em sociedade, esta tem poÍ base uma teoria, (.nrÍe outras atividades. À esfera monl-prutica está circunscrita no espaço do
r'«rtidiano, no qual se expressam as questões morais, os coflflitos, as dúr,idas,
I
I

i valores, concepção de homem, mundo, um método de olhar e compreender


I

I
I
I
I

i
.\ essa esfera, Barroco dará o nome de dinensão f /ostlfca (2001: 69) ou esfera teóica (1'999: 129)
i
I
;; ;;;r:"r.r,,;;;,oi..rt-".o, ch étic:r pr.fissional tem como interkrcucà, as pr.clucôes clc Barrrc. (1999,2001),
i
I
pÍcclrÍsoÍa da pr.duc:i. i'rtelccrual sobrc a ética n, se^-ic. Socia.l .. Ilrasil. Barroco denominará essa dimensão ,Jc nora/-prátita (1999: 129:) c <le nodo de ser(2001: 69).
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()s sclllill]cl)t()s, ('1.c.. (ltl('. ctttl)()r1l '.,, tt\,,ltllll(lll(, ,1t 'tl.l l)l.lll(.1. o:' r'lll(ll()l' l)l()ll:':'l()ll'll:' :"1().
I)c'r'l)1lss(' r.u)) 1rl:rrr, ] rn(lr\ rrlrr,rl. (.\l)r.(.ss:r í )
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pertencimento desse suieito a uma detcrminada catcgoriu .|.r.lnr. ttt,,lrtllz.trlil:' ( lll( l,sl()ll.l(l()s ( ll(illll( lll(' l)l)ls (()llll)( l( lt (.'lt's.
1'rr,lissi« rrrll, pr )r.t:r n r( ). (.s()nl(nl( :r tlcs. r',,rllztu-tst,,llt:ts..ltttlt't':ts tlttc'rt'ttlt's ltllcrrt:ttiVlts.
também um sujeito coletivo.
;rl)( )irln(l( ) s( no tlrrt' r'sl:rlrt lt't't ,, .r,.lig,t, .l. l1ltic,r, clc ottclc sc colrlca
(
Podemos afrrmar que tais ações profissionais "produzemum rcstrltlrl,, :r l('l)s:i() l)()siti\,:r. P()l'(ll-lc clc crcscitncrlt(). clltrc tt attlonotnia e o det,'er.

concÍeto que afeta a vida dos usuários e interfere potencialmente na socicclaclr. ltstlt lcnsào rct-nctc e() quc cu. cnquxnto essistente social, posso e
e que nessas ações se inscrevem r-alores e frnalida«les de caráter ético" LlLrcr() ftzcr - logo, referc-se ao meu desejo e à minha adesão aos

(Barroco, 2012:32). c«».r.rpr«rrnissos profissionais -, e pol outÍo lado, àquilo qlue deuo.faryr
corrx) algo pararnetrado coletivamente pelo proieto ético-político da
No plano coleti'u'o, a esfera moral-pratica diz respeito às escolhas r. categnria. Desse modo cabe ao assistente social fproÍissional] aliar sua
posicionamentos dos sujeitos coletivos dessa profissão em face da realiclaclc vontade, iluminada pela ética profissional - como intencionahdade
social, suieitos como as entidades de repÍesent ação da categoria, de organi zacà<> de associacão, de coletividade, de compromisso - com o seu saber
da formação profissional ou gÍupos de profissionais. teorico-prático crítico e, ainda, com as necessidades e possibilidades
das circunstâncias, do que resultará o produto de sua ação (Paiva &
Nos dois planos, o individual e o coletivo, referimo-nos à acàctf atrtud,c
Sales, 1996: 1,79, grifo das autoras).26
profissional, à execução ou não das normas ou Íegras na relaçào com o usuário,
com as entidades sociais, o Estado, outÍos profissionais e a socieclade em geral.
De modo concreto, o código de ética expÍessa tànto à etlca profissional
E a acào profissional enquanto constÍutora da historia e darealidade social,
1 quai estamos vinculados em um determinado momento histórico, quanto
simultaneamente sob influência desta, o que m^rcl^ a identidade da profissão
() projeto de proÊssão e de sociedade incorporados e defendidos por essa
perante a sociedade.
lrrofissão, sendo a sistemattzaçào de valores e pfiÍIcípios - ou
seia, suas
Tais escolhas e posicionamentos representam a objetivação de referências filosóficas e teóricas - e da postura profissional, orientando um deuer
determinados valoÍes e princípios, expÍessando também a dimensào política de
.ierprofissional na construção de seu modo de ser.
um dado projeto profissional. Âssim, novamente percebemos a ética proÊssional
Àqui encontfâmos outfo elemento que muitas vezes se coloca de maneira
como uma das dimensôes dos proietos profissionais, ao mesmo tempo em que
confusa flo efltendimento da étrca como projeto profissional. Os códigos de
os expressa enquanto unidade-diversa.
ctrca apfeseÍrtam, em geral, os pfincípios éticos que congregâm üfeÍrlzes de
Por fi-, como forma de orientação dessa açào moral e dando Tais princípios compõem, como
^s
l'imos, os projetos
úÍn deaer ser profrssional.
concretude ao conjunto de valores e princípios que representam ceÍta etica
profissional, temos a esfera furídico-normativa,2+ "expressa no Codigo cle
profissionais. Como esses não estão escritos em nenhum iugâr - emboÍa se
cxpressem em diferentes documentos, textos e legislações -, os princípios
Fttca Profissional, exigido, por determinacào estat utária de todas as profissões
presentes nos códigos torÍlam mais concÍeta a explicação de determinado
liberais" (Barroco, 1,999: 129).
projeto. Tais princípios são, portanto, os princípios norteadores desse proieto
E,ssa terceira e última esfera é aquela na qual se concÍe Í1za a reflexão
ética e, como apaLrecem aí matertalizados, são a referência concÍeta para se falar da
realtzada a p^rt1r da moralidade profissional, por meio de um codigo
que orienta teieologia desse proj eto profissional.
e aponta uma direcào ética e um projeto p^r^ a profissào. Tai codigo é o que
Conforme visto anteriormente em Silva (2009), as diretrizes de um
prescreve orientações paÍa a açã,o profissional sobre sua acão cotidiana, definindo
projeto profissional nào se Limitam aos princípios pÍesentes em um código,
valores e apontando uma direção social par^ a, categoria em forma de lei que
muito embora esse aponte um deaer serprofissional'27
norrrlz.taàrá o exercício profissional. À esfera jurídico-normariva tem relacão dirltu
com a esfera motal-pruttca na orientação dessa ação e com a esfera filosófico-
valorativa, enquânto expressão da reflexão filosófica que se traduz no cócligo25.
?6. Embora as autorâs remetâm-se aqui ao Scrric,, Social, entenclemos que sua reflerão setr-e às demais profissões com
código de ética regulamentado. Âssim, onde se lê "assistente social", leia-se "profissional".
27. 'I'ais cliretrizes cLrs projetos profissionais e\pressam-se nos códigos de ética, mas também, como r-imos n. i1.- xnteri()r,
em outrâs legislacc)es e clocumentações das profissõcs. Nestas enc()ntramos também a espressão de determinada ética
profrssi,rnal, cc.,mo uma das tlimensões do projcto ptofissional ali erprcssc.r, com() a lei de regulamentação ptolissional, as
ài..trir.. cgrriculates, os pareceles c16s conselhos profissionais, te\t()s acadêmicos, document()s, etc. Nã() cfltendcm.)s,
no cntanto, que esres componham a esfeta jurídico-notmatir-a da ética profissional, pois não são instrumentos prírprios
da ética ptofissional ta1 qual o código de ótica.
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Ilsslt csic'ra irrríclic()-lt()rlttrtlir':r tt«)s r('n)()t)l,t rt tlts, rr,,s.l,, r't.:rliz:rtl;r \ tltr:l l)t(líl:,1,1()lt;tl tt,t,,:'('t(':-llltl1,,1', l)()ll:llll().:l tllll ('(,t111,,,. l'.lt'tl ttllt,t
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Nctt<t srtbre ()s "pact()s imperati\'os" clue, scgund«r <-r lrut( )l', sri, "t )s c( )nrl)( )n(.nr(.:, ,1.r,. r.r1)t(.s:.()t.s rlt'llr. l('n(l() lilrlr(}l'l;11r1('s l);lllt'is tt,)l'll):llit',r. lrrrttitiV() t'tlit't'tir'«r, llt'tll
compulsórios, obrigatorios para toclos os que exeÍcem a proÍissli«r" (Nt'lro. r r )ilt( ). (' ('( )trr trrlris irrrll()t'l:lilt'i:r. li )t'lr)lllir',,, tt, ) s('l)titl,, tlt', 1l() SCr cxl"lrcsszio de umzt

1999: 98). O codigo de ética é um dos componentes obrigatorios a rrtlrr rr.llt.r:rr» rilit'rr t;trt'irrt'lrri ls tlrurs ()utl'1ls cstcrts - a Íilos<iÍic«l-valt>ratita e amoral-
profissional, sendo tâmbém expressão de um determinado projeto profissiorr;rl 1rr:rlicl . prr »picirrr'1l( )s l)roÍissi,,nuis itncrs()s 1to cc-rticlianct do trabalho profissional
e que objetiva, âo mesmo tempo, uma determinada ética que o compõe. ll()\()s par'ârrrt'trr)s cllrc rlcct.r-t basc às suas escolhas diante de ações morais
^p^rÍ7r
Veiamos, nas palavras de Simões, aspectos importantes do papel do c<icliu,, ,l:r r'«.f lcxlio cdrica clcssc cotidiano, como sabemos tào saturado da imediaticidade e
de ética eflquanto afrrmacão de uma determina da éacano seio de uma categ«rril: r rr9,i,1yçi,,, c« rnclr.rzinclo-os à açc)es éticas. O codigo de ética serve, deste modq como

rrsrr'r.nrcnt() que pode pclssibilitaÍ a suspensão da cotidianidade ao profissional:


-\ ética profissional, ao contrário da moral, não decorre,
necessariamente de uma convicção pessoal, determinada por uma Sendo assim, é preciso considerar a ética proÍissional como uma prática
opção valorativa. De fato, não se pode exigrr do profissional que se mediada por ralores que pode se ob jetrlar cotr, dilerso.ç niueis de consr,iêntia
e comprometiruenlo; que pode não nltrapassar a dinâmica da cortdianidade e
: :ff ::"':, ::,ff ?,",T]i.:ffi ãii il: J,:?"ffi:r"
compromisso moral, isto é, o der.er moral de ser ético. O que
#:il:: da singlandade, ffras que conta com tm cat@o de possiltilidades para se
se atnplior e atingu difàrentes graus de nnexão com motiuações qrre permitam o
pode exigrr é clue rmplemente o estatuto ético, sendo assim coeÍente iltrapasugem des.ça dinâmica (Barroco, 201,2:12, grifo da autora).

;:I';.'..ffi :;:i::t:;Iffi ill;::"i:,'J,i"j.i::::;,:n^:: Por esse ângulo a étrca profissional nos possibilita buscar uma atuação
códigos de ética profissional que, observe-se, em sua objetividade,
prescinclem das convicções morais, sendo por isso de narureza rlrrc Supef^ as questões do campo moral, conseguindo pautaf-nos em uma
impositiva e escrita (Simões, 2009: 422). ,,r'it.ntação verdadeirâmeflte éttca, auxiliando-nos a nos colocâr em um lugar de
t,rtt tealização de juízos de valor, de uma attaçào pautada na alteridade e não
o codrgo de ética é, portanto, um documento "imperativo" ao exercíci<r n( ) l)reconceito ou na crtz.çào de estereótipos, conduzindo-nos à possibilidade
profissional. Um documento regulamentado por lei fecleral que congreÉla um r lrr suspeflsão da cotidianidade, inspirando-nos a romper com o imediatismo,

conjunto de valores e princípios traduzidos em seus artigos em deveres, direitos ,,, r'iticidade e espontaneísmo próprios do cotidiano.
e sanções. Como vimos acima, apÍesenta normas morais que orientam a postuÍa À etica profissional é, portanto, um grande norte p^Ía a atuaçào
profissional em seu cotidiano, rri- relação com os usuários, outros profissionais, 1,r',rÊssionaI.Ela tem o ofício, como nos dizeres de Mauro Iasi no início deste
oÍgàntzações privadas, Estado e entidades da categoria, estabelecendo diretrizes rr('r)r, de nos aPontaÍ estÍelas, mesmo quando tudo nos pârece treYâs.
paÍa suas relações éticas @arroco, 2009). Finalizamos mais uma etapz- de nossa caminhada. Vejamos o que
E inegál'eI, portanto, o caráter legal clo codigo de éttca, acarretando .r1,r'endemos especificamente neste item:
sanções e apÍesentando um tom imperativo. No entanto, cabe apontaÍ que,
mesmo diante desse caráte4 a vinculação dos proÊssionais a determinada ética e
a ceÍto proieto profissionalnào se dá, aprrori,pela existência do codigo. Outros
elementos são essenciais na constÍução ética profissional e, como \.imos, o
código de ética Íepresenta âpenas uma de suas esferas:
À éuca profissional é uma das dimensões que formam o projeto
Nenhuma profissão pode garantir a legrtimação de sua éuca a partu profissional, compondo os elementos que indicam suâ teleologra.
de seu código, o que seria afrmar uma concepcão ética legalista e Em sua parucularidade, enquanto umâ das formas éticas, drz
formal. 'I'rata-se de uma questão de consciência ética e política cuja respeito à reflexão sobre a moralidade profissional que resulta na
ampliação ÍequeÍ estratégras da categoria profissional, no sentido de eleição de valores e princípios que direcionam o agir profissional,
mobilizacão, de incentir.o participacão, à capacitaçào, expressando-se, poÍtanto, no cotiüano profissional.
à c]e ampliacào
do debate e de acesso à informação @arroco, 2OO9:176). Sob este viés, podemos falar da ética composta dialeticamente
poÍ tÍês esferas: Íilosófico-valoratla, moral-práuca e jurídico-
normatir.a, que conformam uma unidade-diversa.

91
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l)t.int(,ll'() l)()t'l():
utna dcterminada conccpczio dc l-ron'rcrn,/r.nundo/ socic.[rrclc -- r,
c.lic^s 1rr-.rlissrt)lliris. l):rrl iss,r. ttrrrsitrr))()s ltlll('s. l1()s
cill)íttrlos I c 2, p<lr clivcrsas
sua objetir,acão na relacão com outÍo r usuário, o lr.stacl«r. rrs
- elas: trabalho, capacidade
instituições, outros profissionais e as entidades da categoria. I)arrr clrtcl{(,ri,,. .,.,,t,-1is rlcrrtlo rl1 tr1{içit« r tnarxistâ. I\)Íam
tanto, há a codificaçào de tais r,alores e princípios em um ccidig<r tcleokigica, r,akrr, lr)()ral c ótica. Àssim, compreendemos os fundamentos ::1.

Cabe lembrarmos que


de ética que estabelece os parâmetÍos paÍa a atuaçào proÍissional,
,,ntcrlírgic()s da sociabiliclacle humana e das pfofissões' t):'
\:]
sendo um instÍumento educativo rmportante na criacào de urn seÍ\'indo de fundamento
rais reflexões nào sào próprias de uma única pÍofissão,
cleterminado eiltos profissional e que está vinculado a uma dada na âtea das
peÍspecti\'a social. PaÍa compreensão dos pÍocessos profissionais, em especial,
^
ciências humanas.
agor , írà
Para pÍosseguirmos em Írossa caminhada, interessa-nos
segunda parie d..t"" livro, seguirmos em direção
à particularidade de uma
clas profissões, iustamente a nossâ: o seÍviço Social.
Nesta seguÍlda pafte
Práxis aftistica -
para quem está ensinan do / aprendendo nos é central: "quais
buscaremos possí\reis respostas à seguinte questào que
sobre os temas trabalhados neste capítulo: e defendidos
têm sido os pÍo,etos e as éticas profissionais constfuídos
'i:.
historicamente no Serviço Social brasileiro?"
)ttl
it\ FilmograÍia:

Um estranho no ninho (1975)


Peões (2004)
Patch .\dams: o âmoÍ é contagioso (1998)
O adr.ogado do diabo (1991)
À sociedade dos poetas morros (1989)
Xingu (2012)
Garota interrompida (1,999)
Preciosa: uma históri2 ds s,sperança (2009)
Blade Runner: o caçador de androides (1982)
Polissia (2011)
Elefante branco (2012)
Filadélfia (1993)
À maça (1998)
Nlessias do mal (2002)

Literatura:
:'"'""" i\
O alienista (NIachado de Àssis)
i.r
I
O voo do flamingo (Nha Couto) I

I
l

Música: I
i
I

Sou bov (I\rd Yid) 1


I

Construcão/Deus lhe pague (Chico Buarque) t


I
Cidadão (Zé Geraldo) I
I

Recenseamento (Assis \âente) I


i
I
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I i tt ,,

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Parte

Eticas e Projetos
il
P rofi ssi o nais n a Tral etóri a

do S eruiço S ocial no Brasil:


Algans Caminhoq
Dtferentes Caminhares
Capítu/o 1

O Stgntfcado Social e o Caráter


Contraditóru0 do Seruiço Social na
Sociedade de Classes

Um refúgio? Uma barriga?


Um abrigo paÍâ se esconder quando a chuva te afoga,
ou o frio te quebra, ou o veflto te revira?
Temos um csplêndido passado pela frente?
Para os íravegantes com descio de vento,
a memória é um Ponto de Partida'
(-Lr po/at,ru.r anduttlesf Jarrclo .çobre rt nentríio (ll) - Edrrardo Cct/eonrt)

Àté este momento, abordamos temas que dizem respeito às relações


lrrrmanas e às profissões, apresentando categorias e conceitos que se
,-,rrnunicâm com o movimento da realidacle, sem específr'car o iugar ocupado
pclo Sen,iço Social nesta.
Tais conceitos e categorias foram pensados em um mor.imento de
(-()mpÍeensão da realidade a paÍttr de sua abstração para poderem ser teórica
,, reflexivamente apÍesentados, r'oltando ao real. Nosso poflto de partida é a
(-()mpreensão deles na realidade, ao que Íetorflamos neste momento pata falat
cspecificamente do Sen'iço Social.
Chegamos, então, ao Serviço Social, sob o qual nos debruçaremos em sua
rrajetôrta histónca a fim de compreendermos os projetos e éticas profissionais
cm disputa em seu interiot, rr relação com os diferentes proietos societários.
Nosso intuito é buscar compÍeender a profissão na atualidade. Neste caso,
c()mo lindamente rios inspira Galeano, a memória setá nosso ponto de partida.
Para tanto, apÍesentamos neste capítulo nossa compÍeensão sobre a
profissão e seu papel social, bem como uma apreensào que nos é muito cara:
seu caráter contraditório. Partimos do entendimento do Serviço Social como
1rr',Íiss., i,s.r'irl:r rr:r rlir isri, srlr.ir » tr-,r.rrit.:r
.r ltl)l'('r.('lI l:lt ;tr ) ( l:l I)l'(}I l:.r';l' ' t , lr' "t t,t
do trabaih<>, tenckr, () zrssisrcrrrc s« rcial, ()

lugar de classe trabalhadora nessa clir.isào, ( ) ;lsslsl(.nl( s()( t;tl ;tllt:l il()s l)t()((ss()s rtllrci,rttltcl()s i rt'1'lt, lcltrc;i<l
necessitando de formação de nír,el superior ,.llr tttlt'l'lt;ttttlr) ( lll sll(l.l(()Ls socl:tis tltrc lttctet'u as c<-'ndicõcs
'ir.lrr.
c( )ncr(.1;rs (.nt (lU( \ lVL ,r PoPr.rlrtcà«r etn gcr:1l c. sobrctudo,
cls
para desenvolver habilidades e conhecimentos
s('t()r('s rrr:ris cnrpol>rcciclos cla socicdadc obietivando melhorar
específicos que o capacitem teóri ca, técnica,
- csrrrs c«rgclicõcs, sob rnultiplos aspectos. .\ intervençào profissional
ética e politicameflte - a intervir junto às lct.rr crn cgnsideracào relacões de classe, gênero, etnia, aspirações
expressões da questão social.l profissão rcligiosrrs c culturais, além de compoÍlentes de ordem afetivzr e
"engenclrada p"; à.."riiaadà ;;.i;i c1-r6ci6nzrl. O trabalho do -\ssistente Social pode produzir resultados
"-u
tipicamente capitalista: inrervir nos conflitos concretos nas condições materiais, sociais e culturais da vida dos
usuári<-rs: em seu ,.rcesso a políticas sociais, pI()gÍamas. serYicos,
oriundos dos antagonismos de interesses fecuÍsos e bens; em seus comportamefitos e valores; em seu modo
de classes (ou se6çmenros das classes) sociais de r,,tver e de pensar, suas formas de luta e organismosl c em suas
fundamentais da ordem burguesa constituída,, práticas de resistôncia.
(Guerra, 1997 46). O Serviço Social como profissào inten'ém no âmbito das políticas
sócio-assistenciais, na esfera púbLica ou prir.ada, desenl'oivendcr
O Sen,iço Social é, portanto, profissão
tanto atividades que envolr.em abordagem dlrcta com a popuiaçào
que tem como objeto de sua atu çào a (entreyistas, atendimento de plantão social, visita domrciliar,
questão social, entendida como a expressão orientaçôes. encaminhamentos, reuniões, trabalho com indir'íduos,
das desigualdades resultantes das relações famílias, gÍupos, comunidades, acões de educação e organizaçào
estabelecidas na sociedade e provenientes da popular etc'), como trabaihos de pesqúsa, admrnistraçào'
pla.reiamento, supeÍ\ isão, consultoria e gestào de programas sociais
relação capital/ trabalho, ou seja, provenientes
§azbek, 2007: 11-18).
dos anta65onismos entÍe os interesses
dos que detêm os meios de produção e a
Como clemarcado por Yazbek, ao aa)ar sobre as expressões da questão
dominação política e dos que detêm a força
s,,cial, o Servico Social interfere nos pfocessos de ÍepfoduÇão social, que pafâ
de trabalho. I)este modo, acreditamos que. a
lrrl,.'afi)oro3 resultará (como produto do trabalho profissionâl) interferindo:
interl,enção profissional do assistente social
se dá cotidianamenre sobre as expÍessões da na reproduçào material da forca de trabalho e no pÍocesso de
questão social: a fome, a miséria, a violência, a repro<1ucão sociopolítica e ídeo-política dos indivíduos sociais'
falta de saúde, de moradi a, etc.2 paru tanto. tem C) assistente social é, neste sentido, um intelectual que contribui,
como meio/instÍumento principal as políticas iunto com inúmeros outros protagonistas, nâ criação de consetsos
Íta sociedade. Falar em consenso dtz respeito não âpenas à
sociais, situando-se em diferentes espaços de
a<lesão ao instituído: é consenso e1n torno de interesses de classes
atuaçào, rcaltzando diversos tipos de atividade. fun{amentais, seiam dominantes ou subalternas, conttibuindo no
Yazbekrca)tza com clareza e de formadidática reforço <la hegemorua vigcnte ou criação de uma contra-hegemonia
no cenário da vi{a social (Iamamoto, 1998: 69, grifos da autgrrr).

1 Â partir deste momento deixaremos de utilizar aspâs ao tÍnt^t à questào social Tal entendimento nos aponta quai o mLtiaT de existir dessa profissào. Sua
pot eÍrtendeÍ quc esramos 6eira,clo
cxplicitado o significado adotado tratanclo a questâo social cle mancira
crítica e compreendend., ..r-,, em Netto (2001),
que sua supressào só se dará com a supressào da sociedade de classes. Nào
permanece a<1ui, nenhum riós conservador ao
tratar tal questão, tamPouco um uso genérico ou clue '.rbra rnâÍgens para
ente.r.limentos 6ir-ersos.
2 vale destacar a impottância da compteensào desses clemcntos comr> erpressr)es
da questão social e nào com. questões
sociais' Áo entendcr a existê,cia de uma única <1uestão s.cial, clue é à
prírpri, conflito entre o capital e o trabalho,
percebemos quc esta nào é só a pobteza ou a desrgualclaclc, mas t,,.1,, ,,
p.,.,."rso <1e producào e distribuição. l)estarte,
pobre za, fome, r-iolência, sà, expressões clesse process, mzris ampl.,
g.r" .ur[,rr-e., .on;.rrt,, de pr.blemas ec.nômicos,
sc-,ciais e políticos ir-rsolúi-cis separaclamente ou na orclem
<1,> capital.

)u t)t:l
tit\t)o rh 'çrt't'stii rcl:rci«rttlttlrt à rt'1rr'«rtltrçli, cllr firr'çlr
rlc tr.:rlrlrllr() (. ll()..1)r.(x.(,ss() (l(, lJ. ttr.,(':.:.:ltl(). l)r)l l;lillr), l(.iltrr,',.l.tl(,';t (lll('('lll slllls:l(,()('S t()litlilttl;ls ()
reproduçà. sociop'lítica e íde<>-pdítica d.s i,clir,íclu.s
,t.,:.ti. l(.ltl(. s(,r i:rl ltlt,ltlt. :t() 1l(.s11() t('nllro ;los ittl('t'('SS('S tl, ls tl,ris llol«ts
s.cizris,,. tlt'sslt
Estamos diante de uma questão central para pensar ()tl ()Lltl'«)
essa pr«rÍissri,, r,.l:lt':1,). l);u':t, r.nllir». 1lotlt't'slrlrt't'('()llto lirt'lltlt't't't'tlll) 1-lt)l{).
questão a ser pensada por cada profissào como vimos
no .rpítrlo antcri.r: ..rr yt.i1rrr,,s llgtrrrs l)()u('(,s crcnrpl,»s, rlilttttc tlc tttutas situaçires complexas
que e a quem servimos?";"a quais interesses e necessidades
atendemos?,,; ,.c1r*rl (lu(.()(-()r'r'('nr n() c.titliurr«r pr,rfissi«rtltl: a«r possibilitar o acesso de um usuário
nosso significado social?,,.
,r( ) s(.r-\'ico tlc sirúclc, atcnclc-sc a() intcresse clo trabalhador por sua quaiidade
Como veremos nas próximas páginas) a respostâ a
colocam muito clatamente desde o surgimento do
essas questões já s. ,lt.r'icl1 (c às \.czcs sirnplesmente à vicla ou sobrevida) e, ao mesmo tempo,
Serviço Sociai, que terá sua ,rr('1(lc-sc ao interessc da permanência «la mão de obra viva em condições cle
legitimação e instituctonaltzação iniciadas pelo Estado
e pela burguesia, sencl<r rr:rlxrllro; ao organizarumprograma de cuidados com o uso abusil'o de drogas
contÍatado por estes p^fa atender à classe trabarhadora.
Como trabalhadoÍes que somos, vendemos nossa força
, rilcool em uma empresa, ateflde-se ao interesse do trabalhador na promocão
de trabalho aos tlr.Srrâ saúcie e, ao mesmo tempo, ao interesse do capttal de maior produçào
nossos empregadores paÍa atuaÍmos junto à classe
trabalhad,ora no atendimentr> r. p.rc11()S acidentes clo trabalho; ao se inserir uma família em programas de
às expressões da questão social
- condição não exclusiva do Serviço Social -, r,(,l.ilç1i() ou transferência de renda, atendem-se às necessidades do trabalhador
em geral, por meio de poiíticas sociais
,lr. s<rlrrevir,ência matertal e, ao mesmo tempo, às necessidades do mercado em
Tal fato nos coloca em uma contradição inerente a essa
profissão:+ ,r r l)rcntaf seus consumidores
I
fazemos pafte da classe trabalhadota e somos contratad.os
pela burguesia, via Ter clareza desse pÍocesso contraditorio e fundamentalpara não cairmos
nossos diferentes empregadores
- o que inclui o Estado; l, paruatendermos (.n) postuÍas fataüstas ou messiânicas que enfraquecem o profissional e o
à classe trabarhadora diante dos interesses da burguesia.
Com rsso, atendemos t,loCâÍrr em um lugar polanzado pela impotência ou onipotência, gerando a
sempre, tendo consciência disso ou não, querendo ou não,
a4.t inreresses rrrrp6ssibilidade da construção refletida e crítica de estratégias de fortalecimento
e necessidades antagonicos destas duas c/ass,,.ç ao meimr
tempo, e, juslamente por etta ,lrr classe trabalhadoÍa e de atuação profissional.
caraclenstica, Íemos a possibilidade de
forla/ecer uma ou outra c/asse na me diacão c,m sea Como vimos no capítulo 2, o cotidiano, por ser o espaço da acriticidade,
oposto. Nas palar.ras de famamoto:
1,,,clc nos conduzír à posturas imediatistas e desprovidas de reflerào. Neste
.t'rrticlo, as posturas acima enunciadas acabam tornando-se frequentes no
como as classes fundamentais e seus personagens só existem
, , rtidiano profissional muitas \rezes sem a percepção de que estão ocorrendo.
em
relação recíproca, pela mútua mediaçáo entre elas,
a atuação do
Âssistente Social é necessariamente polarizad,a pelos
interers., d. lir.s<rh,emos, então, explicitar tais postuÍas a frm de contribuir na constÍucão
tais classes, tendendo a seÍ cooptada pelas que têm uma
posicão tlt'gutra leitura da realidade e de um posicionamento que realmente consiga
dominante. [...]
Ir.r'ar em consideracão o caráter contraditório da profissão ao quai estamos
Reproduz também, pela mesma atividade, interesses
que convivem em tensào. Resporde lartto a cleruantlas tlo
contÍapostos
rr,,s referindo. Vejamos, pois, o que estamos chamando de posturas fatalistas
capita/ )oro ,to
trabalho, e sd pode
forta/eL'er il/)/ otr outro po/o pela metliaçào )o ,r, oposto.
,' rnessiânicas.
Participa tanto dos mecanismos de dominação e
exploração á-o, Â postura fatahsta(a qual também podemos cltamar determinista ou
ao mesmo tempo e pela mesma atividade,
[participa] da resposta prccanicista) baseia-se nâ noção de que a profissão está fadada a reproduzt as
às necessidades de sobrevivência da classe trabalhador
+j ae da rt.lações sociais sem possibilidades de a categoria ser suieito de sua intervenção
reprodução dos antagonismos desses interesses sociais,
reforçando o poder da vontade política dos agentes
I

1rr-«rfissional, subdimensionando
i

i
as contradições que constituem o motor básico da historia
I
I
(Iamamoto, 1992:99, grifo nosso). superestimando-se o poder da realidade que está dada e não pode
1rr-<>fissionais,
j
I
,(.r transfotmada,traduztndo uma visão que "[...] sustenta seÍ o Serviço Social
rrrn instrumento exclusivo a serviço de um suposto poder monolítico, estando
I

I
I - em realizar a mesma
rr profissão fadada, necessariamente, a constituir um reforço exclusivo deste"
re flexà., ten<lo em r-ista
i ::Íl ::,'.T,:j::':.T"il:t <1ue se encontÍam nesse mesmo lugar na dir-isã.
(lamamoto, 1998:98). Incofre-se aqui, no risco de acomodações e, diante
I
5
I
I
Mesmo c,mpreendenclo o Estado como espaco de ,Jisputa e c.ntra<iicào, sabemos
hegemonia está conquista<Ja pelos interesses àc,,
que na sociedacie de classes sua ,.lir sensação de impotência, um agy profr.ssional que não conseguia construir
capital.

I
I
:rções críticas e pÍopositi'u,as, pois, "tal visão determinista e a-histórica da
I

l
)t
rc'ltlitllrrlt'c'ontlrrz lr;rt..,rDotl:rr,.li o.;r r.olintzrrr.;io tlo lr.:rlrlrllr,,,:r,,l)ut.()(.t.:lllsln()
(.;t ( )t,t.,t,t lll lolt,t ll,tl,, l,,,llltltlr"t,tl't, 1t""'tl'tlttl'rtlt"l):ll'l l:"1(()(:'
nrediocricladc pr,Íissi<,.ul" (l^,u,r,t«
r, I <)1)g: 22). ll,tltsl,rtltt:tt.ttll
tlo:.:.ltl(.tl()\,.t,1rt,1,., lttrrtl,. r'ltor.:llrtlltl,ttlts:rt:(
Já, a postura l'oluntarista (que tambótn poclemos clenorninar nrr.ssiâ1icrr). (.nt illl( tr);lltr';rs Itr)llssl()tl:tls, (ltl:lll(l() :ll)l'()l)l-llt(l,ts 1lcl,t Clll(U()t'ilt
âpÍesenta a noção de que a profissão, inclependentemente pr',,lissiorr:rl t. trrrtlrrzitlrrs (nr l)r()p()slrts l)()l' t'llr cotrstrltír-l:ts
cia realiclaclc, tcr.ii ()()6: ll()).
condições de realizar o que desejar, ( lillllrtlltoto. l
l,ontade política dos seus age.tcs;
"uma visão hetotcado Servico Social^p^Ítirda
que reforça unilateralmente a subjetir.iclaclc
dos suieitos, a sua voritade política sem confrontá-la com as l)ropostas css,ls c1uc, tracluzidas em projeções em diferentes momentos
possibihclacles c
limites da teahdade social" (Iamamoro, 1998: 22). Nessa visão, ,11 fiistriria, c«rnquistarào hegemonia na disputa entÍe os distintos projetos
subestima-se () no Sen'iço Social brasileiro?
papel da sociedade e da propri a reahdade, superestimando a vonrade lrrofissionais. E, c()mo essa disputa tem se dado
política e ()trais os projetos profissionais construídos pela categoria em sua história? Que
individual dos agentes profissionais que seriam os agentes
de transformação,
demonstrando "desconhecer a realidade do mercado profissional t'tica os compõem?
de trabalho,
no quai nos inserimos com o trabalhadores assalariador, d.p.rdentes Responder a estas questões será nosso próximo traieto nesta caminhada.
do vínculo
empregatício com organismos institucionais de carâter predominantemente Ncsta segunda paÍte do livro, buscaremos apÍesentâr os distintos proietos e
patronal" (Iamamoto, 1998: 9B). t'ricas profissionais em disputa no Serr.ico Social brasileiro desde sua gênese.
Em contrâposição a essas l)ura tanto, apÍesefltaÍemos as duas grandes perspectir.as societárias as quais o
encontÍa-se a nocão do
entendimento da profissão a patrr 'isões,
da historicidade, da contradicão e Sçrr.iço Social brasileiro se vincula - a conseÍl'adora e a emancrPatorra -, que se
das mediações. Âssim, não se tata de negar o caráter contraditório 1-ucluzem em diferentes elaborações próprias dessa profissão no que se refere às
da
profissão subestimando ou supeÍestimando o papel profissionar, srras climensões teorrca,política, ética e jurídica,6 ou seja, elas se manifestam por
pelo rncio de diferentes proietos profissionais que expÍessam distintas éticas.
contrário, trata-se de compreender a profissão inserid a na reahdade
,o.irl, Na sua perspectiva conseÍ\radora, falaremos do projeto tradicional e
compreendendo também que a questão não está no fato
de atendermos
sempÍe os dois polos dessa relaçào, mas, sim, de que form a srra continuidade e reelaboraçào flo que se coÍt\rencionou chamat cle proieto
o faremos, pois rnoclernizaclor organtzado no bojo do movimento de renovacão no Brasil. Por
a possibilidade de fortalecer um ou outÍo polo
só se dá exatamente pelo fato
de atendeÍmos aos dois e podermos estabelecer a mediação Íirn, apresentafemos o projeto fenomenologico como uma Íeattaltzaçào do
efltre .1.r, o q.r.
está diretamente relacionado às condições históricas, ,., rnseÍvadorismo, também fruto do processo de renor.aÇão.Já, como perspectiva
políticas e à correlação
de forças institucionais presentes e a seÍem construídas. Assim, t'nrancipatória nessa profissão, falaremos sobre o proieto de ruptura (também
devemos
nos perguntar: "de que maneira e em que perspectiva atenderemos vir.enciaclo no movimento de renovação) e sua consolidaçào no chamado
a esses rroieto ético-po[ídco.-
interesses?"; "foÍtalecendo qual polo dessa r.lrção?,, 1

o fortalecimento de um ou outÍo polo diz respeito à dimensão política


desse cotidiano profissional que, poÍ sua vez, tem a
ver com a construção e
vinculação dos profissionais aos distintos projetos profissionais
em disputa
nos diferentes momentos históricos na profissão, bem como
a reflexão éttca
possibilitada por esses projetos.
il"i E', portanto, nesse sentido que se faz necess ária aconstrução
I
i
de projetos
profissionais que ultrapassem os valores, teleologias e ideologias
I
I
dos sujeitos de
.i i
maneíra indiYidual, para um projeto amplamente discutido
I
e incorporado no
interior da profissão por seus sujeitos, de modo coletivo. Dito
I
i de outra forma,
I conforme visto no capítulo anterioÍ, a construção de respostas
I oÍgan tzadas
I
I
pelas profissões às demandas que lhes são posras socialmente.
I
i
I Como nos aponta Iamamoto:
I
I

I
I

I
i
I
I

)-t r
I
I{Nr,
'\1lt't'st'tllitl'('l)l( )s. ('llllio. r'ss:ts tlrr;rs 1)('r'sl)(.('livrrs sr )(.t(.1:lr.ilrs :r .lr':.:.t'r' :'lll('ll()'\ :,(,1,,r lll"loll.l, () (lll( lli):' l)('r nrtl(' \ lsllttltl,trtl ll l)osstlrtlttlrttlt'
l)llt.llt. (l(.
suas elaboraç<)cs fl< I Scrt'iço Social lrrasilt'iro, ti rcrrrrlr )-n( )s, s,lrr-t.t
rrtl« r. r r( )s s(.( rs ,lt' ittlt't t't'ttt lt,, tl,,s :ltr,1',,'. '' 1't"lt'"'l"tt:tis n('ssrl t'..',rlttllrtlt'. ittÍltrcttcilttttl«r ()s
proietos e éticas profissionais. Emb.ra cntcnclam()s a ótica, p()r ur.n lucl«,,
1rl)(.rr1s ;rt'or t I t't'itttt't I I ( )s llisl,',1'it',, t,,t tit tl t I t t t':t is'
enquanto paÍte desses projetos, daremos destaque a ela, priis,
para 1<is, 1 i,ricu l,.rrrlr:rsrrtl()s 1lçsl1l li,r-rrrlr tlc c«rtttlrrcctrclcr a 1-lrtlfissà«>, seguirem<)s nos
é um elemento de fundamental importância no clirecionament() Galeano
da catcg«rria pr-r'rrint«rs citpítttlos, lrttsclttrclo reHctir, SC, enquanto pfofissão, Como
profissionai, por ser um dos componentes que informa a tele<;6gia <i<>s 1()s llf()\'()c()u. tcltt()s "ttttl cspiêncliclo passado pela frente"' Sigamos com os
projetos profissionais na eleiçào de valores que os orientarão . F. a
partir da étjca llllvcgantcs, c()lTI clcscio de ventc>, tenclo Como ponto de partida nOSSa memória'
também que se constitui a composição de princípios direcionndo..s
clo trabalho N[as antes, nova parada paÍa \refmos o que aprendemos neste trecho do
profissional manifestos nâ dimensão jurídica desses projetos, por
meio de seus ctrlinh«r:
códigos de ética, que expÍessâm um determinado ,lirrr rrr.
qr. direcionaram
o modo de ser da profissão e dos profissionais. Interessa-nos, portanto, cliscutir
tal direcionamento ético expJrcitado nos projetos profissionais,
podendo olhar
mais atentâmente a especificidade dessa dimensão que os compõem.
Paru tanto, recorreremos a três momentos fundamentais na historia o serviço social é uma profissão inscrida na divisào social e
dessa profissão. São eles: o início do Serviço Social brasileiro técnica do trabalho tendo como foco da sua atuacão a questà<l
(no período de
industrializaçào e urbanização ,social. E, parte da classe trabalhadora. sendo contratada pela
- décadas cte 1930 a 1950), o movimento de burguesia para atender a classe trabalhadora. '\tende, assim, aos
renovação (no período da ditadura militar décadas de 1,960
- ao frna1de 1970) e interesse s tanto do capital quânto do trabalho, podendo reforcar
a constituição de um Serviço Social crítico (no período da
abertura democrática um ou outro polo dessa reiação. atra\'és da mediacào com seu
- decadas de 1980 e 1990).8 Nosso objetivo é retomar aspectos impoÍrantes outro po1o.
da teilidade brasileíra e da profissào nessa realidade, p^rnà compreensão Necessita de formacào de nír.el superior para desenvolver
dos
proietos profissionais e a especificidade da eticap.ofissio.rd ..qràrto competência teórica, ótica e técruca para intervir )unto às
produro
histórico diante dessa realidade, bem como as possibilidades poriu, expressões cla questão social, o que faz yta as poLíticas sociais
em cada um na busca cla garantia de dt'eitos por meio do atendimento direto
desses momentos.
à populaçào, do planeiamento e elaboraçào de programâs e
Desta forma, não nos deteremos aqui na ordem cronológica dos prài.to., da gestão de servicos , da realtzação de pe squisas, da
fatos e
nem realiz^Íemos seu detalhamento descritivo. Nosso foco não docência, e otÍe outÍâs atividades. Lida, portanto, cotidianameflte
é a retomada
histórica de cada década,mas sim a apresen taçào,sob nosso viés, com os resultados do conflito de classes decorrente do modo
de momentos fome' a miséria, a Violência, a falta de
cle produçào capitalista: a
relevantes paÍa peflsarmos a questão social, o tÍatamento dado
a ela pelo Estado saúà., de habitação, de educaÇào, etc., na busca de melhorla de
e as respostas profissionais em cada um desses momentos. Entendemos, vida e fortalecimento poiítico da populaçào atendida'
portanto, que o processo histórico-social nà,o e apenas pano de fundo
sob o
qual a profissão se desenvolve, mas sim base objeti..a qr., na sua
rcraçào com a
vontade política e escolhas teórico-metodológicas e éticas dos sujeitos
sociais,
possibilita, justamente, o desenvolr.imento da profissão.
Vincuiamo-nos, portânto, a uma matrlz marxista que entende
Práxis artística -
Pata quem está ensinan do / aptendendo
o Servico
Social como produto e produtor da hisÍdria, ou seja, a profissão constitu sobre os temas trabalhados neste capítulo:
ída a
partlr e sob influência de determinações dos processos históricos
vir.idos pela
sociedade e os suieitos individuais e coletivos, bem como a influênc Filmografia:
ia da acào
Estamira (200'l)
Cronicamente inviár.'el (2000)
no'u cliscussào mnis detalhada tle cada um clesscs momentos, r-er
Cirn-alho & Iamamoto (1996), Nlatinelli (1993),
' Netto'Íno
(199'lb, 1996,200i), Silra(1995), t*az (2007a) I.-o-,,t., (1998). Sào e\aramente esscs
Germinal (1993)
" autores os <1ue também
nos acompanharào ncste trecho de nossa caminhada. Cidade de Deus (2002)

1t 't
I 'rtr lt;1,;q1 ;t,, s,,l i-ll ) I |
1

(.)trrrrrlr) \,itlL' otr t1 pr)1. (luil(,í (lOO5)


llha clas florcs (19t39)
Babilônia 2000 (2001)
Santa Nlarta: duas semanas flo rnorr() (19g7)
Capíruto 5
 cidade esrá rranqurla (2000)
Biutiful (2011)
.\mores perros (2000)
A Perspectiua
Conseraadora e o Seruiço
Literatura:
S ocial Brasileiro
Capitães de areia (]orge .\mado)
\ridas secas (Graciliano Ramos)
Tocaia grande florge Àmado)

Música: O amor \rem por princípio, a ordem pot base,


o pÍogÍesso é que deve vt'Por Írm
Pedro pedreüo (Chico Buarque) (Posi li t'i.vtto - \ oe/ Rosu)
Nlustang cor de saflgue (Xlarcos \hlle)
Chico Preto (João Noguera e César pinheiro)
Funeral de um lavrador (Chico Buarque)
Canto do trabalhador (Clara Nunes) o coÍr.ser\radorismo no Servico Social e sua apÍopÍiação
Para entender
,\ novidade (Paralamas do sucesso) nrr formulação de seus pÍoietos profissionais, é necessário situarmos o
Ultrmo drama §ev Nlatogrosso) r otlSer\râdorismo na sociedade, pois não se tÍata de uma perspectiva societáÍia
Classe média(\{ax Gonzaga)
Nlaria, Nlaria (Eüs Regina)
,'rclusiva do Serviço Social. Trata-se de um pensâmento social.
Cêlâ faz ideia (Emicida) O pensamento conservadoÍ é uma postura política e ética que surge no
,.t1cuio XVIII em contÍaposição às revoluções que maÍcam este século: a francesa
ç inclustrial, que apÍesentaÍam o rompimento com a traüção, ganhando força
rr
rr« r século XIX. Esse upo de pensâmento teÍá como grande ÍepÍesentaÍlte
o inglês

l,,jmund Burke, autor de ür,ersos livros e textos que defendiam tal pensamento,
,.1rrc iniciou seus escritos principais com uma obra crítica à revolução francesa.

Nesta obra o âutor afrrrna: "as coisas em alguma fotma precisam


sempÍe existir na comunidade,
l)crmanecer. Um certo qadtttl/m de poder pÍecisa
,'rrr algumas mãos, e sob alguma apelaçào" (Burke, 201.3:1'[, grifo do autor)' Nela
( ) lrutor realTzauma brutal críttca à democractà e umâ apologia à manutençào da

rrrclefi), da familta, dalgreia e da propriedade pri-n'ada.


Esse pensamento opõe-se completamente à instauração da Í zào moderna,
tl«r individualismo, da construção do Estado, do coletivismo e da ultrapassagem
tl<r sistema feudal par o industrial. Tal contfaposiçào conseÍvadora coloca-se
('( )mo defesa do instituído, em especial no que se refere à propriedade prir,'ada e às
t'r rrporaçôes ditas naturais: afamtlta e algreja. O pensameflto consefl'ador propõe
2l rct()llliltllt cl«r lrltsslttlo c«rttto «rt'ict)l:rtlorlr tlr,1rrr.st.nlr.,, t;tr;rl ;rt.r.tlt.st,rr r;rl,,t. r » S()r l:tl. t ( )tll( ) \'( l'('tl)( )S il S('1'tlll'.
t,rrrrlrr'1il 1,,t,ttt,l(. ttlllrt('tl( l:l tl() 5t't.t lt
perante o passad(), p()is esse scria it tixttc rlc t«rrkr «r conlrc.c'irnr.rrt,r. (.onlrt,r.irr,r(.Írl() ()ilst't't:rtl()t'sttt';lt ('( )lll( lt'()lltt'lt1l0sit-i« r:ts t't't'rlltrçilt's
lJ.rrrl,, )tlt ()
l)('ns:lnl('ill(}t
que pÍovém apenas da experiência, da tradic:io, cla r.ivi'nciu c ckr st.rrlir1rr.rrl,. Ir,urr r':.r (' ln(lrrstrirrl. l)()st('r'i()l'nl('tttt't'lt'1'rltssitt':i il s('r tlcfcnclicl«r;rcla l>urguesia
como nos mostra a música de Noel Rosa, que retoma elemcntos clo posirivisrrr<r ,lu( ( rctlir,)u :r ('ss:ls ,'r.'11v111çr'rt's «r "Íittt tllr histtlriÍI", {)u seja, ar> chegar ao poder,
(teoria conservadoru) ao falar deuma decepção amorosa: o scntilnent() \'cln altcs rlr r\,rr tlt'tlt'li'rrtlt'r'l p,rssilrilitllrk'clrts tralrsgressõcs c ÍevoluÇões, acreditando na
de tudo, com oÍdem como base, para poder',,ivenciar o pÍogÍess().
,,,1r,\(.r'\':l(-:j,, rl,rs n),rrlos ck'r'itla c clc c«)lrlpoÍtamento. O que P^Íecía antagônico
No conservadorismo valoriza-se a autoridade, a hterarquia, a ordem, a nrrrtlr.r'rritl;rrlc t'c()nscr:\'ll(loristno - passa a compoÍ um pfograma, aderente à
repressão e a disciplina, negando "[...] a razào, a democracta, a liberdade com , ,r rct lltl(' t-lpiralisttr, rro qtral an-rl>iguamente "[...] racionalismo e conser,"'adorismo
igualdade, a indústria,, a tecnologia, o divórcio, a emaflcrpação da mulhcr, enfim,
.r,, rlrr:rs r.r'rurlciras clc vivcr c cle ver a sociedade, portanto dois pensamentos,
todas as conquistas da época moderna" (Barroco, 200g: 172).
urtt 1,,1'11111)s il Ltnt Írnico estilo de pensamento, que exprime um modelo de r.ida: cr
D es ta f orma, nes s a p ersp ectiva s o cietári a, a moraltem p ap el fundamental, ,l,r ',, ,t'it'tlaclc capitalista" (lamamoto,1.992 23, gnfo da autora).
pois é necessário seguir as tradições, hábitos e costumes, sem questioná-los. Âqui a mesma autoÍa, o conser\radorismo não é
[)t'sta f<rrma, segundo
a moral ganha um papel moraltzante e moralista: deve servir a impedir toda e
qualquer forma de transgressão ou transformaçào,garantindo a manutençào [...] apenas a continuidade e persistôncia no tempo de um coniunto
dos modos de comportamento e o funcionamento harmônico da sociedade, tle ideias constitutir.as da heranca intclcctual curopeia do século

admitindo-se apenas processos de reforma e pequenas mudanças. \1X. mas de ideias que, reinterpretadas, traflsmutâm-se em uma
ritica de explicacão e em proietos de ação favorár..eis à manutencào
Burke (2012) comentaÍá a possibilidade das reformas, que devem ser
da ordem capitalista. Isso aproxima os pensamentos coflservador e
lentas e ocorrer aos poucos, tendo como referência inicial sua oposição à racional, apesar de suas diferenças, como portadores de um mesmo
reYolução francesa. Embora afrrme que pÍese r:,ar e reformar são coisas distintas, projeto de classe paÍA sociedade (Iarnamoto,1992:23).
^
irá direcionar sua reflexão paru conclusão da impor tància da conservação que
^
aceita, no máximo, pequenas e imperceptíveis alterações. I:sse mesmo projeto de classe - o capitalismo - teÍá. adesão de proieções
Diante da defesa de conservação são defendidos tambémvalores eprincípios ;,r,,lissionais no seio do Serviço Social brasileiro, tendo uma Íelaçào estreita
atemporais, que devem peÍmanecer socialmente independentes das mudanças r ,ll) ( ) l)cnsamento conservadof, o neotomismo e o positivismo, como Yefemos
sociais, na defesada famita. da propriedade privada e da tradição.paruissq as r r, , l)l'{ )ximOS itenS.
corporações já citadas - família e Igreja têm papel fundamental, sendo a famita (.ompreendemos que t^l posicionamento políuco m^Ícarz- diferentes
-
responsável pela manutenção da propriedade através da traüção e da herança. ,l.rl,,rrrcões no seio do SeniÇo Social, indicando o seu deuer ser e seu ethls
O pensameÍIto conservador defende ainda aídeta de uma ordem imutável ,r(()r'lr(l()c, no conser\.adoÍismo político e ético, mas com distincões ao que se
e considetará' "a natüreze- humana não modificár.el pela ação práttca,porquanto r r lt rt' as suas elaboraçôes teóricas que Íesultaram em diferentes pÍoposições de

mergulha\'Iâ suas ruízes em uma realidade sobre-hum ane', a vontade divina, não rrr('r'\'('rlcão pÍofissional. E,ntendendo os pÍojetos profissionais a, Partlr de suas
podendo, por conseguinte, nem o conhecimento, nem â ação política serem ,lrrrrt'rrsires ética, política, teórico-metodologica e jurídica, podemos dizeÍ que
totalmente liberativos" (Bobbio et a1.,2010: 244). r r r , )rrscrr.adorismo marcar Dm único componente político e ético, bem como

E sse pensamerrto encontrâ-se claramente expÍesso na elaboração da filosofia rnr;r rirúca direção social, mas terá diferencas quanto às suas dimensões teórico-
tomista, bem como)flà teoria positivista que, em suas coÍrcepções de homem e rrrlrotlológica e jurídica. Diante disso, trabalharcmos aqui a existência de três
mundo, deixam explícita a compreensão da ordem social como proveniente das ,lr ,rrrrt«rsprojetosprofissionaisdebaseconservadoÍanatraletotLadoSerr,-içoSocial
leis naturais, enquanto busca harmônica e imutár,e].1 E,ssas duas referências terã,o l,r.r..ilt,i«r: o proietotradicional que, posterioÍmente, seÍá revisto toÍÍlando-se o
lrrojcto modernizadot desse conservadorismo e o proieto fenomenológico,
1 '\qui já se etidcÍrcia a aproptiação do pensamcnto conserradot na
,lu( r'('l)resenta a re ta hzação dessa peÍspectiva consewadora.2
defcsa do capitalismo. Barroco explicita os fundamentos
desta relacào (do conserrzdorismo com o positir-ismo): "(lomte concebe a socieclade como
um todo estár-cl funclaclr>
em leis inr-ariár'eis, irní,gas às da naruteza, e o capitalism() como um estág;io em que se er-idencia
o progresso através
da industria.lizacão, mas taml>óm c()mo uma sociedade que precisa set refoÃada para que se realize
dá accrt.lc., com suâ
n^tLtÍeza: uma ordem estár'e l. se m conllitos. l)aí sua ralorizacàr> do aperfeiçoamento social r-inculado
à ordem, hierarquia
,,,,r1,írLrlo antedor crplic,rm,,s l,,r guu,)s cr)nsidetem()s PÍ()jct()s c, t-urs itens quc scquem rre-ste capítulo, erplicarcmos
e estabilidade" (I3arroco, 2008: 1 76, grifo da autorn). ,, l,,rrticularidatles.

1ít{)
Vt'iltlttos, rt st'gtrit'. rs loillritl:rt,r »t's tl,, ( ( )il:.( r\:rtl,rrs1r, 1( ) St.r.\. lt, ,, \,..,1ttt. ,, 11t,,, r.,,.,,, .l, lttrlrr.,ltt.tll.'.tr:r,, t rttl)lllllz:l(,':l() ll() ll|lrstl tl
Social brasileiro tlas sLlas ittclicrtc«i's tlt'rl'rtr'.f('/'(' st'rt rtt,t,l,,,lt,.ç,'t'; s(,u\ plr»jr.r,s
ilt:lt( :l(1,, 1rt.l:r ln;ililt1('lt(, it() tllr 1,,ttrttrlr' ( ( )ll( ('llll':l(,'ll( I tlt' lt't't':t: 1lt'llt t'tttt't'gi'ttt'ilt
profissionais e a ética que os cotnpõcnt.
,llr lrtrr't,rrt'si:r irrtlrrstrirrl 1r'nl un)ll ttt,,tlt'r'nizlrt':i«, tl,rs l)t'()Ltcss(>s clt'1-lr«rcluçli«r),
pt.l;r t'r)nslilrricrl«» c()111P()sta ltela venda lir.re da
tlt'rrlrrl t'l:rsst'trllxtllrlrl()t'll
l()t'('l tlt'trllxrllr,, c pela importacão de mào de
(ate I)()uC() tclttl)() CSCrava)
5.1 Industrializ açáo e gênese do Serviço Social no Brasil: o .lrr':r t'sl)r'ciuli;lrrla tl«rs tral>rtlhackrrcs eur()Peus, em especial da ltalta, d.iante
proieto tradicional ,lrr t.x1'rt'r'ii.ncia i:i actrmulada em seus pÍocessos de industrtaltzação iniciados
rr,, sc'r'rrl« ) luttcri()f.
rrlzcr trabalhadores com experiência junto às máquinas, a nascente
,\«r
l,r rrrlrrcsiu ir-rdustrial brasileira importa, também, a organizz.ção desses
Só a retidào nào basta
Sem intenção de equidade. rrrrlrrrllracl()res clue, já har.endo vir.enciado o processo de industrializaçào e
À concorrência não explica rrrlxrni;zaçzi«r r-ta Europa, haviam expeÍimentado seus impactos nocir-os e
O que conta é a unicidade. r onSl nrícl«t Llma identidade de classe que se expÍessou nâs oÍganizações sindicais
(Perpendiurlandade - Nikon José ,)Iac/tado) lol'lr,lltcute articuladas com influência anarquistas e comunistas.
.\o mesmo tempo e, pro\rocâdos também pela relação com os
rr;rlr:rlhaclores europeus, os trabalhadores brasileiros encontÍam-se com uma
O contexto de surgimento do Serviço Social no Brasil se dá no processo
rr,rl c«rildicào: a de classe. Àr,ir.ência dos processos de exploraçào desmedida
de industrrahzação e urbanrzação vivenciado a partu da década de 1910, com
,1, , t'apital coloca esse tÍabalhador diante de sua identidade de classe. Como nos
seu aprofundamento part:it da decada de 1930 - momento conhecido como
^ .r1 rrt'scntam carvalho & Iamamoto:
"industrialtzaçào pesada", seguido entre 1,933 a 1,915 poÍ uma fase denominada
"in du s trialtzação res tringida" (Santo s, 20 1 2) . Este tem diante de si como propiettirio, não um senhor em particular,
Diante de mais uma das crises do capital em nível mundial que foi a crise do mas uma classe de capitalistas, à clual vende sua força de trabalho.
comércio internacional em 1929, ocoÍÍe no Brasil - nào someflte, mâs nesse caso [...] Sua existência e reprodução so se toínam possíveis eflquanto
especificamente - ulna reestrutuÍaçào eum aprofundamento do capitalismq junto elemento de uma classe social, através da "r'erdadeira guerra civil"
r s ua s
com o crescimento da burguesia industrial, acentuando assim a questão social, ?§': i#:-:?f ;,::',iâ
:;:.,::X o'." L Lu
"l) ;, ff :l ;:T
em um processo de "generaltzação do trabalho lir,,re nurna sociedade em que a
escrar,'idão marcaprofundamente seu passado" (Carvalho & Iamamotq 1996:127). l)iante de tais elementos, e com tais características, evidencia-se no
À
forma como o Brasil se Íeorgârizara diante de tal crise mundial tem
lirrrsil a questào social atra\'és da explicitaçào de suas diferentes formas de
a \reÍ diretamente com as car^cterísticas proprias de sua condição periférica de
rrr:rrrifcstar-se: a explofação do trabalho, a fome, a miséria, a l'iolência, a
capitalismo rctardatário. Sua reotg nlzaçào sera marcada também, poÍ outÍa forte
r l{)C|lC1t, entfe OUtÍaS.
catactensttca dos processos políticos e econômicos no Brasil: as modernizações sem
Neste contexto, os trabalhadores oÍgaflizados passam a manifestaÍ
ruptLrras com sua formação primeira (colonial) baseada na escravidão e no grande
, rr rlcscontentamento e discordância com os pÍocessos trabalhistas, através
latifilndio, através de pactos orquestrados pelo Estado na busca de consensos entre
,l..r1r'cr.es e manifestaÇões públicas que foÍam sendo enfrentadas pelo Estado
as classes, sem alcançar que o "velho senhoril" perdesse seu poder.3
, , )n r( ) caso de polícia. Explicita-se, com isso, a existência da questão social: o
,,rrrllito entfe os inteÍesses e necessidades do Capital e do Tiabalho.
3. Sobre o Íaflço do petíodo colonial na maÍcâ d() processo de industrializacão e urbanizaçào brasileira (e que nos rcmete à
discussão da moral dominante rcaliz.ada no n()ss() capíruLr 2), llolanda nos apíeseflta: "Um dos efeitos àa imptor-isação
,\ partir da década de 1930,+ podemos afrrmar que o E,stado r,ê-se
l,rr.ssi<rnado a resoh,eÍ concÍetameflte â questão social (na verdade, amentzat
<1uase frrtcada de uma espécic de burguesia urbana no Brasil cstá em que ceÍtas atirudes peculiares, até então,
ao patriarcado
rural logo se tornaÍâm c()muns a todas as classes como fl()Ímâ e ideal de conduta. F-stereotipada por longos anos de r-ida
rural, a mentalidade de casa-grande inr-adiu assim as ciclades c conquistou todas as profiisôes, sem cxclusão clas mais rr.rs t.xpressões), que começam trazeÍ consequências às elites dominantes
humildes. Éi bem típico o caso [...] cftr simples oficial rle carpintaria que se r-estia à murr.i.o rle um fidalgo, c<>m tricórnio e ^
sâpatos de fir'ela, e se Íecusa\'à ir usar das próprias màr>s para cerreg?rÍ as lerramentas de seu ofício, preferindo entregáJas
a um preto" (Ilolanda, 1995: 87). Vcr também l;ernandes (2005).
, l,l'.'r,,,,r,;trr tJ,) r1('\urn,, dç (it'njli,, \lrg,t..
do;laís.,\ssiul, a qucstit«r s«rcilrl rlc'ixa tlt.sr.l-r,isllr t'r)nl() "(';ts() tlt. t ottllll( ):\ ('r1rlt. tl;ttlo:. ll(",1,(' lll( )tll('tllr )
lr,,lrt.irr",()u
como diferencas natuÍais ef clivinas cxistcntcs ('r)tr'('os "1lrt,1ç«1rtl«)s ()s 1ri()
r>u \S :l(r.()(,S rl,, 1,,()\'(.ilt() :ll)t('s('lll:ll:llll S('. ltSSitlt. ('()lll() tll)lil lirt'ltt:t Clt'
abençoados", assumindo lugar nas cliscussões político-instittrci,rriris c()n)() l(,sl)()stit tllr 1lr',i1f i:r lrrrr'1,1rt'si;r lrs t't'iytntltt'rtçot's tllt clltsst'trallalhltcl()rzt t1â tcntativa
resultado, também, da pressão exercida pela propria classe trabalhacl()rir, s('nl rl:r rrlçprplç16 tl«)s c()nílitos t'tlt'str:r c()nsolitltçrit) cn(lLtílttt() buÍguesia industrial.
todavia, perder seu trato moral-religioso. llrrr-gtrt'siu (lu(. tan'rl)ónr cnrprcg()Ll csti )rÇ()s parx xtendimento diÍeto às demandas
Nesse mesmo momento a Igreja Catohca, que vinha perclend«r scu ,lrr cllssc tralxtlhacl()râ, c()m a criaçà() de instituições pri-r'adas assistenciais.
poder político, sente a necessidade de posicionar-se diante da questào secial, lioi ncste c()ntexto que se abmamos postos de trabalhopar os assistentes
entendendo esta como um exagero do capitalismo e propondo sua humanizaçào. .,,,ciiris; paÍa sua existência como profissão. O Sern'iço Social no Brasil ap2.recerá'
Vincula-se ao Estado na busca de soluções para tais excessos, apoiando a criacào (.( )p-r() uma das estratégias da burguesia nesse processo, de maneira prirrada ou
de uma legislaçào que regulasse as relações entre o capital e o trabalho e, a<r por meio do Estado, compondo as equipes de trabalho ao lado das recém-criadas
mesmo tempo, criando estratégias de intervenção junto à classe trabalhadon e instituições sociais, bem como da re'r,isão de instituições
já existentes.e
ir,,líticas
em um processo de recristiantzaçào.6 Ao mesmo tempo, aIgrela, que iá -,'inha Íe llzafldo ações com 2 classe
Tal vinculaçào entre Estado e Igreja ajuda-nos a compÍeender a forma rr-^balhadoÍa com o intuito de retomaÍ seu poder político e sua legitimidade
como se dará a relação do Serviço Social com esses atoÍes e, ainda, suas s,rcial e)ao mesmo tempo arttcr)l^va-se com o E,stado, impulsionou â ação de
influências no processo de surgimento do Serviço Social enquanto profissão. (por meio das muiheres)r0 nos seus
l),rrre das frações da burguesia industrial
O governo de Vargas passa a interr.ir diretamente na questão social através rr-abalhos ao opeÍariado através do Centro de Estudo e Àcão Social
iunto
da legislação social e trabalhista sindical, pautada em um modelo corporatir,.ista, ((.IlÀS), criado em 1932.11
apâÍentemente agradando à burguesia industrial e ao prole tanado,porém sua política Como consequência da açáo e dos estudos do CEÀS, em 193(r e crra.d^
ébem clara e o setor das classes dominantes tem supremacia junto ao Estado. ,r Escola de serviço Social de São Paulol2 - a pfimeira do Brasil - como uma
FIá uma massa de trabalhadores urbanos articulados que, como já dito, li rrma de "espec rahzaçào da açáo social dalgreia" para formação técnica de um
também pressionavam o governo. À forma que este encontÍa para dar respostas profissional que passâva a seÍ demandado socialmente. Formação que se deu
é concedendo alguns benefícios à classe trabalhad or^ entre eles as instituições
- ,rr mesma perspectivz d,o tr^balho que jâ era re llz^do pela Igreja Catoltca por
de assistência e previdência, e as políticas públicas nreio do CEÀS (Carvalho & Iamamoto, 1996)'
-, em uma atitude apenas
populista e de apaziguamento. Â legislação trabalhista e sinclical é instrumento Nesse contexto fotam criadas as condições objetivas paÍ2 ^
para a constituição e regulament^çào do mercado de trabalho.t Este é um irrstitucio naltzaçào do Serviço Social enquanto profissão assalarrada e as
dos fatores, se não o mais importante,para a consolidação da hegemorua da de sua formaçào pÍofissional, inserindo-se, assim, na divisão social e
l>ases
nascente burguesia industrial brasileira.
técnica do trabalho.
Enganam-se, portanto, aqueles que veem nesse período uma resolução
política p^r^ a questão social via o Estado como grande benfeitor. Sua
inter\renção teve como intenção a crtação de consensos8 que ameflizassem os ,). Sào alguns esemplos: a 1BA (Legião Brasileira dc .\ssistêrrcia Social), Instrrutos e (,aisas dc I)ensão e Àpt>sentadotia, SIrSI
Industrial),
(Setrico Social da lnciústria), SIiIC (Setviço Social do Oomércio), SITNAI (Serviço Nacional de Aprendizagcm
l'undacào Leão XIII, entÍe outÍas.
5 ldeia ttabalhada porCerqueira Filho (1982). lrssa ide ia nào sigrificâ, n() cfltant(), <.;ue as manifestacões 6a classe ttabalhadota lr). É neccssário pontuarmos que se tratar-a de mulhercs proÍenicntes maioritatizrmentc da classe burguesa, har-endrr
lgreja nesses esPacos era t()talmeÍIte
tenham deixado de ser tratadas pela repressào (no seu sentido mais amplo). A <1uestào é <1ue, a partir desse petío<1o,
outras também representacão d. n.1trn. segmentos minoritariamente, todavia, o projeto <Ja
formas de enftcÍltamento à questão social se c<;locanr crn jog,r. r-inculado ao projeto burguês.
6. Para aprofundamento da relacào listado c Igreia neste pcríodo, r'er (larva.lho & Iamamoto (1996). ll. ,,Seu início oficial será a partir do 'Curs9 Intensito de Formacào Social para Nloças'promor-ido pelas Oônegas de
Social de Bruxelas"
7 'i\pirs1930, o gol'erno Vargas aprofundará o tÍâtamento da'cluestã<> social'como uma problemática nora, Sant, Agostinho, para o qual lbi conr-icla<la NÍlle. Adêle l,oneux da escola Catrilica de Sen-iço
isto ó, que
(Catr-alhá & Iamamoto, tôSO, tlZ, grilo clos âutores). O CF-I\S tinha como objeti'. geral:
"promovet a f<rtmacàrr
rccebe um tratament() no\-o ÍIa ótica dos grupo-s dominantes
[...] Dc fato, apris esta <]ata a internacào clos poderes públicos doutrinária c nt->
nas questões trabalhistas ctescerá continuamente risando a desrnr>bilizacào/despolitizacão tle seus mcmbr6s pelo estuclo da doutrina social da Igteja e fundamcntar sua açào ncssa frrrmação
da classe operária e culminando (latrzlho & Iamamoto, 199ó: 173), com o
com a (-.ns.lidacào das l,eis 'ftabalhistas (CLI)" ((_et<lucira Itilh., 1982: 7.5). conhecimento aptsfun<lado clos problemas sociais" (Oerqueita, 1944 apud
..tornar mais eficiente a atuaçào das trabalhadotas sociais" e "adotar uma orientacão definida em relação aos
r,,bjetir-o 6e
S Vale destacar que () go\-ern() de Vargas câpturou difercntes apoios e buscou o cstabelecimento de conselsgs 6iante atir-idades e obras cle catáter social"
6e problemas a res66.er, fav;recclclo a coorclenação dc esforços dispetsos nas diferentes
tais apoios- "r\s forças políticas <1ue apoiar-:rm (lcúlio \targas tadaram ao longo clo períod<r, mas incluem ()s
renentes, (LL.AS apad Can-alho & Iamamoto, 1996: 1'13)'
desde aprimeira hora; a Igreja Católica, quc tem rctom2ld()s alguns prir-ilégi,,r.ru Cor.rtiruicão de 193,1;
os democÍâras e Unitersidade Cat<ilica de Sào i)aulo (PUC/
republicanos paulistas [...];e a burguesia industrial, <1ue pctcebeu a imp,rrtânãia <1o protecionismo csraral para 12. Em1941a Esc'la cle Setriço Social de Sào Paulo, passa a integrat a PontiÍicia
o crescimento
de suas atir-icladcs" (Safltos, 201,2:14). SP), fundada em1946.

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( ) strrgirrl('Ílt() (l1l;rt'oliss;ir) ('slltt'li t'ittt'rrl:ttl,,,
I)()t't:l1lo, 11 1lllrt 1(.('(.ssrrl:rrl1 tr,1,, l.'1,,g11,tt;trl;t ;tt l,,:, :,r'l|lt( r, (lilllllll,llll(':. (l;l :\()( t«tllttlr' (()lll() l)llllt' ,lt' tttll,t
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concreta de prtlÍissionais clllc assulltanr Írs p«rlíticrrs gcsturlls pr.l«r l,.st:rtl,, rlirurtt. r'.lt;tl('1,,t:t rl, .l,rsst'. N:r:,t t't ttt, ttlltr.llt ttlt',,1,,1,11',1111('lll(':r tlt'lt'slt tl,r llt'.rit't«r soci:tl
dos interesses da burgucsia estan<1<;, ar> mesrn() tcnrl)o, r'incrrlltll a irlt.,rl,rli;r r t|,1.111(.. ('()trslrrrirrrl,,, lrsslnr, urrr llr()jt'tr,1tt'r,Íisst,rtt:tl t'«,t'tst'rt'tttl()r cstrcitltlnclltc
cristã, sendo algreja Cato[ca a responsár,,el pela basc clc firrn'urçrio r rrrr rrl:rtlo:r,»s inl('r'('ss('s s,,t'irtis rl:t lrttt'gttt'silt t'tllr lgrt'ja (-at<ilica.
1'rr'«ríissi,rrrrl
deste profissional, agora requisitado pelo mercado, em urn nr«rr.ir.r.rcnt«r rlt. ,\ t,sst, projclo tlt'rr«rr''rrirrirttt«)s proieto tradicional do Serviço Social
especializaçào/profissionalizaçào da açào social da Igreja já cxistcntc.rr l x':rsi lcir<1.
Em síntese: o Serviço Social se institucio naliza c()m() profissu< r
l'.ssl prirncira claboraçào dc dercr .rer profissional no Serviço Social
contratada pelo Estado, p^r^ implantação de políticas assistencialistas (, ( nr n(,ss«r 1lrís scrli cauclatafta do pensamento conservador, sendo carreg da
^
populistas, tenclo sua legitimação como ,l. r.lt,nlcnros cla pcrspccri\ra poÍ nós apontada no início deste capítulo: a
estratégia da nascente burgucsil
industrial p^ra o apaztguamento dos conflitos provenientes cla questào social rlt.tr.S:r rla rradiçào, da famíha, da hierarquia e da ordem. À influência desse
até entào manifesta principalmente pela açào da Igreja Catohca. Podem«rs l,( nsiuncltto estará totalmente fundamentada na vinculaçào da profissão à
üzer, portanto, que sua institucionahzacào é uma consequêncta dalegitimacà<r ll r .'l:r (.at<ilica.
teahzada pelas classes dominantes e impulsionada pela Igreja e que slrlr I)ara compreensão desse proieto, retomemos as quatÍo dimensões por nos
formação profissional passa a ser responsabilidade desta, o que lhe confeÍe um rr,rl,;rllradas no capítulo 3, como base de qualqueÍprojeto profissional: a dimensão
carater conservador e humanista. afxíüca, em suas objetivações na ética
, rl( :r. rr p<rlítica, a teórico-metodológica e
O Seniço Social brasiieiro nasce no âmbito da contradicào caprtal/ |
,r , ,íission al,tt na oÍg flrzação política, na pÍoduçào do conhecimento/propostas
trabalho, ou melhor, da necessidade de criar mecanismos de apazrguamento c rr rc t,cl« rlrigicas e no aparato iurídico-político, respectivâmente'
atenuação das expressões dessa relação. Nasce como uma profissão clue seÍve a (,onforme afrrmamos anteriormente, a formação dos profissionais a
essa forma social, com o objetivo de reafirmá-la e reproduzi-la nas suas relações l,.rrrir cle 1936 estarâ sob responsabilidade da Igreja, o que dara a maÍca das
econômicas e sociais. Nasce na e pela sociedade capitalista, constituindo sua lr,r..t.S rcriricas e éticas desse projeto profissional conservadoÍ. Suas bases ética,
identidade apartrr da sua relação com essa e nessa estÍurlrÍa social.l+ 1,,,lnica, teórico-metodologica e a expressào dessas em sua dimensão iurídica,
Nas palar.ras de Iamamoto, r ,r:u'ri(), poÍtaflto, totalmente vinculadas à doutrina social dalgreja Catôltca, ao
lr.nsrlrrleflto conservador - especialmente embasado pela filosofia neotomista
, ( rr() etbosburguês.
Inú1:':;,",:X,il;:i::il:l:#fl :'fl :"."J11".xi:31; lembrar que, embora a lgreja nesse momento critique os
Il importante
de classe, de um projeto pa.r^ a sociedade que preside suas origens e
seu desenvol'irnento, o do bloco no poder; surge também como um
, do capitalismo se apÍesentando cotfiÍarra a este, ao mesmo tempo nào
..t r.ss()s

tipo de açào social que é essencialmente política, mâs que âpaÍece r;,r,i;r âs experiências socialistas que se colocâm como alternativa ao modelo
trar,'estidade atividades dispersas, burocráticas, descontínuas, de r 11,,1.111.'. À Igreja Se apfesenta, então, Como o que chamamos "terceifà Yla",
carâter filantrópico, marcadas pelo fornecimento de 'benefícios
sociais' (Iamamoto, 1992: 93, grifo da autora).
I,r{)l)()lrdo certa humantzação do modelo capitalista, mas não rompendo
r lr tivrtfiIente com ele.

Podemos afrrma4 portanto, que a profissão se legitima historicamente O pensamento católico da época via a "questão social" como uln
pelo papel que the é dado e assumido e poÍ nascer para responder às demandas conjunto de males sociais generaltzados em tempos de sociedade
provenientes do aprofundamento das consequências da relação caprtalf trabalho, moderna (industrializada), sendo que o paupeismo é m destio propidodo
pelo indiuidualismo moral, políÍico e religioso, t'otno decorrência do pronsso de

indastnaliiação desenfreado quefaiczm qile os operáios reczrrutm à equiuocada

lata de classes mateirtli;ada, sobretado, por meio das greues (Silva, 201.3:76,
,a ",r r"..lrr,, S,,.iol ,. instirucionaliza e lcgitima como profissào, ertrapc>lancl() su2ls malcâs clc odgcm no interior cla 1greja, grifo do autoÍ).
quando o I:stado centraliza apolítica assistencial, eietir-ada âtra\-és da prcstacào de serr-icos srciais implementacl.s pelas
grandes institlicões; con-r isso, às f()ntes dc legitimacão do fazer profissional passam â emenar c1r própri. l:staci. c d.
conjunto dr>min:rnte" (Iamamoto, 1992: 95).
14. A respeito dessa identidade <1uc lhe f<ri atribuída, c, cm nosso cntendimcnto, tambórn aceita e incgrpgrada, r-er
,,,1,r1. e especificidade dessa dimensào ética nos projetos profissionais de perspectir-a c<;nserrz<1ora, terern()s o último
Nlartinelli (1993). rr, rr (lcstc capítulo destacando mais a fundo a análise de sua obietiraçào,

I t:1
(.«rltt lxrst' ttt'sslt
l)('t'sl)('('livlr l:to lr »r'l('tn('nl(' tn:lr'. lrtl:t 1,t.1:r ll,,t.t.lrr ( ;rtoltr ,r. lr \ l( |', 1lr rt tlÍll('lll{," r' rlt l t 1',1',; I I ):, :.í,1,1 t' ,,:' l)l I )( (':':.í ):. ( )ll',;llll/';lll\'(,1, ,l;t , ,ll('1',( )l | |

este será () t()111 c I rclcologia rlo proit'to il( '.',( l)('r'l( )(1,, tIrC tlrr:.lt;|lil (':'r'(' l)l( ]l('l(l l)l'( )íls5l( ]tr;rl t,rl tltt:t1 ,, tlt'ltllltll( ):. ;l( llll;1.
1lr'«rlissit,rr:rl lr':rtlit'i,,rrrrl/t',)ns(.r'\';r(1,r
do Serviço Social brasileirc>: a bnrcttfrtr n'rltr /trrlt,rrrii',rt',irt rlo trrfi/,r/i.rtlr) (,, tto ///(,t///u \':rzlrcl. ;ll)r'('s('ttllr lt't'r lrr» t't'lit';tr.1,, tlt' l,,lll('l() (lt'tlir ttlt,,;t,,',t,,,1:r l',sr',,1:t tlt'
tempo, por sua cofiseradcãz. ',( r \ l(,,, S,,t'i:tl crtr l() i7. tlttt' rtsstttt tlt'Íirlt' ;r »:
1rt'oltssttr
Paru tanto, enconttaÍa bases paÍa sua fundalxcÍttâÇrio tc«it'icl llir t(.( )t'lrt
'l'r'rrl,lrllr,, r,,trrplts,) ( l)loltttttlr),
positivista que, embora apâÍefltemente seja incompatível c()nt u rl«rtrlrirr;r l)()ts /,ttt,tttir r'//trtt r'/tti't','ttit'rt ttt,r/ rttt
(I Stt'r'ir.'(}
.\/ttl.\'r'rl//.\'rt.\'r' llrto.tt)///r'/l/r' t\'///rtlirtl .t//rl,r'///rt/lifr'.t/,tçitr'.t ttfttll'11/r'.t.
humanista-cristã e o neotomismo, àca,ba sendo incorporacla cm urr-t
l)r()('('ss() Sot'i:rl sul)()( trnt lltrqo t'ortlttt'intcrtl() (lo Irotttt'ttt t'.1:t s,rt-it'tl:ttlt'r'
que Iamamoto (i992) denomina de "^rÍ^njo teórico-doutrinário".r(' Icn) n)clo.los t's1rct'iltis tlc lrc-rlr). () (lr.rr.'ttào lrotlt'st't'itrtprovlsrttlo ttt'ttr
Àssim, suas dimensões teórico-metodologica e ética sào firnlurlls srrprirlr pcl:r sirrrplcs lrorl vottlrrrlr' (\'rrzlrc'li. I9tlo: .](.), triÍir rtosso).
poÍ essa concepção teórico-doutrinária que tem como bases fundamentais r r

neotomismo, os aspectos que the eram convenientes rio positi'r,ismo (que tt'r.ri aincla a dcfiniçào clc Nlcllc. r\cli'lc clc l,oncux s«rbre () quc cla ctrtcnrlirt
1,.
rnaroÍ influência na profissão no período posterior) e o pensâmento conseÍ\.âck,r'.
1,,
,1 §1'1'f ico Social: "Conjunto de csf(xç()s fcitos p^r^ (tdr\iur c> maror tttitt'tt't'r r
Estes são os pÍessupostos que marcarào a açào dos profissionais, em especill.
1,,,,,sír't'l rle inclir,íduos à r,icla social ou para adaltlur as c()ndições dc viclrt s«rt'irrl
a partlr das décadas de 1940: valores absúatos e imutáveis pro',,enientes rlt. ('r'ssidades do indir.íduo" (Yazbek, 1980: '10, grifo nosso). Outra cx1'rt't'ss:t,,
r , n(
Deus com base no neotomismo, a compreensão do homem e suas relacões rk, ,1,,,r.t. projeto tradicional encontra-se nos currículos da primeira .liscol:r tlt'
maneíra harmônica a partrr do pensamento positivista e a vinculação ideol<igir.rr '
Social, de 1,936 a 1915,11 bem como no primeiro currículo mínitlt( ) l):rt';r
,r r r it r r
ao pensamento conservador. ,,,( ursos de Serviço Social no Brasil, de 1953,18 todos com influência clo ttt,tlt'|,,
Decorrente desses pÍessupostos e da compreensão da lgreja sobrc rr I r,rnr'o-Ilelga, base da formacão do CEÂS como vimos anteÍiormentc, s('lt(l()
questão sclcial, a aÍ:iacão profissional é marcada pela busca de resolucão clt, ,l,r(, (.stc úitimo já passou a ter influências do Serviço Social norte-amcricitt)o.r"
problemas individuais, como se as consequências da relação caprtal/trabalh, (,ompreender os coflteúdos da formação profissional coloca-ll()s ('r'n
pudessem ser resoh'idas com a adequação dos indir,íduos à realidade social. ,,,nt:rr() com as dimensões teórico-metodologica e jurídica desse projcto, pois
o que na I'erdade significou apenas um "enquadramento dos trabalhadort's r ,r;ur)os falando das bases reflexivas de sustentaçào da atuaçào profissi«rttrtl
nas relações sociais vigentes, reforçando a mútua colaboracão entre capital t, ,lr,rnlr. um imperativo curricular regulamentado legalmente a seÍ seguicl<) l)( )l'
c1e
trabalho" (Iamamoto,1,992:20). Àssim, a compreensão da questão social ness(, r, rtlrrs as escolas de Serviço Social do país.
projeto profissional se dava peia individualtzaçào e morahzacão dela em unl Na linha desse pÍoieto tradicional, nota-se a compreensão da profissri« r
movimento de naturaltzação das desigualdades, deflagrando a postura políticr rrrt'rrlada a aspectos da natureza e moÍ is, bem como a necessidade de aprenclc'r
'
conservadora desse projeto por meio da sua contribuição com a manutencà<r , ,,, t'lcmentos das ciências biologicas p^r^ a intervenção social em coerência c«rttt
da ordem social vigente. .r rt'ír'rência positivista sob a qual a explicação dos problemas sociais eÍa coloca(lír
Sua teleologia e referenciais teóricos estão nitidamente expressos nll rr,s {i1e5 desajustes e problemas emocionais ef ou biológicos. Vemos, ncssil
concepção de profissão e na perspectiva societária de seu deuer ser, manifestos ,lrrt.t-ào, o ensino de discipliflas como psiquiatria, psicoiogla, àn tomia, higienc,
em sua organrzação política, t1z- produção do conhecimento e das propostas
metodológicas e nos seus apaÍatos jurídico-políticos. \rejamos alguns trechos clt,
r l'.rr.r conhecimento de todos os curriculos (na íntegra) que serão citados na parte II dcste lir-ro, assim como utna artrilist'
,,r,ris aprofundada clesses mesmos currículos, r-er Cardoso (2006).

16. Giolo rcaliza irlgumas análises sobte cssa aparcnte incoerentc relacào clue nos ajuda a c()mpÍccfldcr tal "arra,j. teriric, i ., .se currículo, por eremplo, vemos a influência da douttina cristà, quando se regulamenta como uma das condicôcs Prtrrt

ck.rutrinátio": "É certo que o catolicismo jamais <1uis conr-ersa com o positir-ism() enquanto sistcmzr de cxplicacàt> t.ttrl 11 , r rrrrrtrícula inicial no curso de Sen-içcr Social o "Àtestado <1e idoneidade motal".
mundo e das coisas. A perspectir-a de que a humanidade ulttapassaria fàtalmentc a fase tcr>lógca e a fase mctafísice purir r "l I l)assa da influência do pensamento consetr-âdor euÍopeu, franco-belga, nos seus ptimrirdios, pata'.r sociolouirt
i'irer a plenitude dc> estado positixr indignava a Igreja. ,'\pesar dissr>, no camp() cltr cc.nomi:r, <Ja política, cla seciolirgr;r ,,,rrscryadora norte-ameticana, a pattir dos anos 40" (Iamamoto, 1,992:26). Nessa perspectir-a, maÍca-se para o Scrviç,,
os catrilicos mantinham muitas afinidades c()m os positivistas. No entendcr de Irr-alde -\n-rato Vicira, a Isrcia íei br.rscar :, ,, iirl a gtande inÍluência de i\{atr' fuchmond - assistente social norte-ameticana <1ue dcsenroh-eu uma metodololSrt
no positir-ismo os iflstÍumcntos teóricos necessári,,s lara intctl,rctar a estrutula c as relacr-res s6ciais. ,lt,rr:rbalho com indir-íduos a pattir da perspectiva funcionalista.'l'al metodologia pautara-se na ideia de qucstionitr
1...1 Necessita.rl,,
lreber na ft-,nte do positir-ismo, a Igrcja opcrou um gtan<Je esfrrrco para'cristiirnizá-lo', o clue significar-e inc()rporar ()s ,, iorlrr-íduo, para conhecê-lo e auxiliá-lo a integrar-se, pârâ tanto, utilizar-a os ptocedimentos: estudo, diagncistico i'
element()s cluc ftrrrrrccess em o aggiormmetto d,algrela (permitindo-lhc dialogar corn o rnunt}r m6clcrn6, sebretucl., c.m rr rr,rtrrlrento. Para ela, um "tratamento prolongado e intensivo que deroh'e a personalidade, Ícaiustando conscietrtc t'
ciência)e ncgarlesolutâmente tudoquepudessecompÍometerosdogn'rascletédesuacbutrina"((iiolo, 1997: 266-26j, rrrrlividualmente o homem a seu meio social". Sobre a influência do Serr-iço Social norte-americano e de NIarç Richm,,ltl
grifo do autor). , r, , Scn-ico Social brasileiro, r-er NÍartinelli (1 993).

[Íí,ri
lrigicrrt'11'c ttltll. lrtrt'r'icrrltrrllr.,lrsrt'lt'ír'irr.rrrr»r'rrl.r'r'1r1,1111r. lrsit',rl,1,i;s.(.nrr.(,()urr.:rs. r ,1,1" ;l', l)lllll('lt;l:. ( lllt(l:t.lr'r'.1,'"11',,1lll/;l(, :l() (lll t;llt'1',1 )l l:l ll;l lllslí)t't:t tl" SCtt lr,"
'Itatava-sc clc ttttta firrlrtacà«) (lLr(' l>rrsclrva ',,r l,tl rlo llr;rstl. ,\tnl,;rs s('t'lr() t'('slrotts:it't'is llt'l:r t'l:tlr,,t'ltt,';t,, tllts l)l'llll('ll;li.
rl:rr lrlrst.s t'it.ntíÍit'lrs t. rt.r »r.rr.:rs
para o profissional, a frm de capacitir-lo a c()nrpr('cnck'r u rt'ulirlltlc sot'ill t'orrr lr r,,r:,1;rr,r)('s l)('r'tincttt('s :t(, St't't lr,'.» Sot'i:tl: Pt'ltr \li \S, «r (.r'rtlit,o tlt' l,tit rr tlt'

.i
um olharvoltado à dita normalidade dessa sociedaclc c as prcrcrrsas tlisfirnc«i.s. l') I '. ('\l)l'('ss;lÍltl,, n.) s('u 1rl)llrato ftrr'ítli('() l)olítico tlil't'ci«rtl:ltl,,t'tl:t t':tlt'r,ol'irl
perturbaçôes e patologias as quais os indir.ídu()s esta\rarn sujcit<)s ,rrrrrr tltir'lr tlt't'rrrrlr,) ('()ns('l'\'ittl«rr', t', 1rt'll ;\llltSS. «r t'ttt'rícttl«r tttíttittt«r tlt' l()5 i.
l)1rr1l, rrssiln,,r
profissional intervir na clrrà, no ajustamento e na adequaçà() clesscs inclir,ícltr«rs , \,f )r(.ssiu)(l( ) unrlr fi rrntlrçli« r vincttl:tclit ao tlct'rr .ç(r tllttliciottltl c( )lt) ll:tst' tt:t
às normas sociais e aos padrões de normalidade instituíclos, corriginclo toclos , l( )r t rinir sociltl rlt lercia ( .ltrilica.
r

e quaisquer desnír,,eis e disfunções, tendo por base os princípios cristàos cla 'lirl pcrsl'rcctiva conservacl<>ra tanrbi'm;rode scr perccbicla tt«)s
l)r()('('ss()s
morahzação da s ociedade. ,lc rrrt,ll'liz:lrçir<t política cla catcg«>ria e dcbates c<tletivos. Às enticlaclt's rtt'itltrt
;
E possível notat claramente nessâ formacào tais bases teóricg- r,,lr.r'irlls c «r (.lir\S organizam, em 191J, o I Cc>ngresso Rrasileir<> clc St't't'it,',,
doutrinárias ao lermos um trecho do Relatório do CE,ÀS, de 1912, que trata cl<r '.,,r'irrl ((.tlSS). Na intr«rduçào das conclusões de seus Ànais lê-se:
tipo de formacào que se pretendia rea)tzar:
Num país ondc há muit<-l que fazer, e refazet, construk, instaurirr cr

restauÍar, o Serviço Social é um estandalte a Íro horizonte clc


[.'.] darJhes uma sóLida formaçào éuca e nelas desenvolver as ^gltalÍ-se
qualidades naturais que ÍcqucÍ a carreira social, tais como o amoÍ nossa fururidade histórica, como um convite irresistír,el à dedicaçà<r
ao próxrmo, o ideal de fazer o bem, a capacidade de dedicação, cr aos mais sobranceiros ideais de soüdariedade huma.ru. É ,r* toqlrc
ilr desinreresse pessoal, o critério e o senso práuco na acão de bronze - em ujas úbrações se enrulrc a caidade cistíi a apelidar -
[...] (cE-\s,
i:i 1942 aprdYazbek, 1980: 38). os homens de boa vontade e os goveÍnos empenhados no bem dtl
povo, paÍ^ grande obra de redenção do brasileuo, do erguiment<"r
^
de seu nír.,el de vida, da harmonia eatre o cdpital e o traballto, da séria
F arnda, na fala de Helena JunqueiÍa ào comentar o Program pare a compreensão dos direitos e dos de'"'eres de todos (CBSS, 1947 apud
E,scola de Servico Social: "O Serl,iço Social supõe uma filosofia de vicla Can alho & Iamamoto,1.996:333, grifo nosso).
[...].
Filosofia de r.ida supõe necessariamente uma concepcão religiosa. Donde
impossível o Serviço Social neutÍo. Segue-se, portanto a necessiclade da
Nesse mesmo coflgresso é claramente evidenciada a incorpontçrit r

formação doutrinária" (azl:ek, 1980: 39). tlrr rrretodologia norte-amerrc^Í1a23 do Serviço Sociai de Casos,2+ C)rLrptt"
Com o intuito de cuidar e propiciar a essa formaçào é crrada, r.(.«rmunidade,2('sob o viés funcionalista que, nos âÍlos seguintes, sen'it'li
em 1946, a Àssociação Brasileira de Escolas ^v^nços
de Sen'iço Social (ÀBESS)],), fruto t r rrrrpletâmente ao tdearto desenvolvimentista no Brasil.
dos anseios das escolas existentes nesse momento e clo indicativo tiraclo no
À partir daí, marca-se um período de preocupação em consolidar l
1' Congresso Panamericano de Serviço Social2l de criacão de entidacles que ,&
w
q
possibilitassem, segundo entrerrista de Balbina Otoni Vieira, "a ttocade ideias e i,

experiências entre os assistentes sociais e assegurasse o progresso do ensino em


'I Ill nretoclolog,ia bascia-se nos csruclos de NÍarv Richmond c seus sucessorcs n(,rte-tmeÍicanrts. l, incorpotada ttts.,'
Serviço Social em cada país" (Baptista, 1983: 55). r1()mento cm uma telação cstreita c()m () peflsâmcnto câtarico (na<1uele já tefcrido arranjo teódcc-r-clouttinário). I)rrr:r
irl)r()tufldar tal compreensão, r-et ,'\guiar (2011).
como consequêncra da cnaçào da ÀBESS e cnada também, nesse
'l "() Serr-ico Social de Casos é o pÍocess() clue descnvolve a personalidade atrar'és de um ajustamcnto c()nscicr)l(',
.\i mesmo Àssociação Brasileira de Âssistentes Sociais (ÂBÂS),22 scndo rrrclir'íduo p6t indir'íduo, eÍltÍe os homens e seu ambietrte" (llichn-rond,1.912 apad Vieira, 19BB:'14). Oabe a() tral)irllr,)
^f7o, ^
c,rm indivídugs "[...] fornecet sen'iços básicos práticos e de aconselhamento, de tal moclo quc seja dcsenrrrhitlit 'r
crrpacidtrde psicokigica do clicnte e seja levado a utilizar-se dos serr-iços existcntcs para atender a seus prol;lctnas"
(l Iarnilton, 1958 aptd Andradc,2008: 280).
,,r "Lm método do SS <1ue ajuda os indii-iduos a aumentaÍem o seu lunciouamento social, através de obictivrrs
crperiências de grupo e a enfrentarem, de modo mais eficaz ()s seus problemas pcssoais, de grup<t ou de cr>municltclt.
í [...] uma prática que r-isa minorar o sofrimento e melhorar o funcionamento pess()al e social de seus membr,,s,
irtÍa\-és de especílica e controladâ inten'enção de gtupo, c<>m a ajucla de um profissional" (honopka, 7919 a1>ttl
,\ndtade,2008: 283).
.l(, "l ] um esforco consciente e deliberado para ajudat as comunidades a reconhecerem suâs neces-.iclacles e a assumircnr

j rcsponsabilidade na soluçào de seus problemas pelo fortalectmento de sua capacidade em patticipar integralmente na ticla
drr nacão" SII (,onfetência Internacional de Sen'iço Social, 1962 apd Ãndrade,2008: 284).
l
c()t'll gl'1lt)tlt' t'ttr',rlr irttt'rrl«r tllrs llroÍisstonlris tl;r rill,rt':r nlr l(.nt:llr\';r
1lr«rfisslio, I I ,l)t.tlt(.1 (ntl)nt:.1,r. r(rt(r.rltr,t.;t.1lt.11tt,t , lrlrtr)(r.rll,',1(l.r ,1,,.
de construir o sldl//.ç profissioual cl«r Scrviç«r S«rciul, c«»rtt.r'irrrl, llrt.urr) (.:lr.rilt.r- 1rroIt...,torr.il:,. I).u.url( ll,l(l,r 'l){)r lrrlr:l ( lt(,t lrl,t r:rl l,tttt'tt.,.,t' ('
tttl;t lt'ltr,l,,1',1'1'r()lll\lsl( ll;l (()ll((,:lo ,.l.srl. (llll lr()lll{) (l( \l\l,l
tócnico e científico que se acentuará a partir clos nnos t95o c (lu(,s(.r'r'llizlr-ri (l:lt;ln)(lll( lrrrtr'i,,rt:tltsl,t ,.lt tt'sttll,t(.l,)s l)sl(()ss()(l:lls ({)llsl(lt t,t,l,,r.
pelo caminho de atender a funcionalidade posta pelo listado e 1-rclu lrtu'grrc,sirr rrt.rlrrlivos orr irr.lt'st'jlivt'is. sol rt't o sttltslrltlo tlt' tllll:t (()ll(( l)(:t()
ao Serviço Social. (:rlrt.r'lrr orr vclrr,.lrr) irlcrlistrt r'/,,tt trtc'cltrticisl:t tlrt tlirt:itrtit'rt sot i,tl,
Em 1957 é aprovada outra legislação específica clo Sen.iço Social: s('r))l)r(. l)r'('ssul)osl:r rr «rrclcrtrtt-ào cltl'lit:tlistrr tllr virl:t t',rttto ttltt tl:trl,,
rr
lrrcttrrrl itrt'lilttirtiir.'c'l'(Ncllo. l()()-llr: I 11. qriÍir tlo rttttot').
Lei de Regulamentação da Profissão.28 Nesta ha apenas a definicào cle qucm
são os profissionais aptos a exercerem â profissão e quais suas atribuiçr-res,
(-om«r dissernos, tal projct() c()nser\'âcl()r tcrá scLl irtíci«) tlils tltit':ttlrts,l.'
de forma muito genérica. É visível a pÍeocupação com a profission ahzacà<>
ürna Yez que, até então, aínda não se tinha a exigênc ja da formacão em l()30, ja no suÍÉlimento da profissào, send() csse () únicr> proict«r rl,, St't't 1r,,,
Serviço Social p^ra o exercício da profissão de assistente social. Das quatro S«rcial brasileiro até a década de 1960. E,ssc período marca ltil I)t'(,íiss:r,) urrr;r
atribuições que normatrzam o exercício profissional, duas se referem a() Irornogeneidacle de tracos políticos, teírricos, éticos e técnicos.l" I'.t',t irtn urtlr r,
espaço da formação profissional, uma trz:ta da inserção nas instituições e a icit<r de pensaÍ e seÍ c1o Serviço Social. Parafraseando Nilson-)osc Nlrtt'lrt,l, rr;r
outra da condição mais gerai de sua inten ençào, na quai se lê em seu artigo 30 r'1-rígrafe deste item: o que conta\ra era unicidade'
^
a "apltcaçào dos métodos e técnicas específicas clo Sen iço Social na solução Percorremos mais um tÍecho de nossa caminhada, atlc'tttt'rrtt(l() n.r
de problemas sociais" (Brasil, 1957), demonstrando o carâter tecnicista já trl;ietoÍrz- do Serr.iço Sociai brasileiro, conhecendo o início dessl pt',íis:i;t. r' .t

presente nesse projeto. sLra primeira projeção profissional: o proieto tradicional conservztd()r.
O projeto profissional que se consoli dava até esse momento teve a aclesão E quais seÍão as disputas e difereflcas expressas no interiol't|,, St'tt'1,,,,
de grande paÍte da categoria, pois tinha entre aacademía (fornação profissional) Sr>ciai apartrr desse período dominado poÍ esse tipo de conservA(l«rrisltr,r/ ll ,,

e os profissionais em exercício nas instituições governamentais e prir.adas uma rltle \reremos no próximo item.
mesma base e relaçào estreita, sendo que as referências teórico-metodológicas Vejamos antes, em síntese, os elementos centrais do projct«r c«rttltt't'itl,,
desse proieto eÍam as bases da intervenção cotidiana dos prclfissionais neste
ncste trecho de nossa caminhada:
período. Não parecia haver diferenças significatir.as de concepção de profissão
e dos rumos do trabalho profissional.
À efetivaçào do projeto profissional tradicional conserr-ador se dal,a pela
Prrmeira projeção de deuer ser na profissão situado como projcto
'

ênfase ao faryr profissional, ou seja, uma ênfase no aspecto operatiuo do trabalho


hegemôruco (ou úruco) entre as décadas de 1930 a1960, sendo .

profissional, superestimando os aspectos teriricos e po/íticos clesse trabalho, o que ,nÃbé* a pnmeira elaboração clo conservadorismo no Sen'iÇo '

tem total coerência com a referência por ele assumida. Tal aspecto pode ser Social do país. Sua teleologSa aponta para a' construção de uma
t.

obsen'ado na definição que Netto rcahza do projeto tradicional do Serviço sociedade capitalista mais pretensamente humaruzade. :

Social brasileiro: atendendo aos interesses do proieto das classes dominantes. :

poÍtânto, contribuindo para a manutenção da ordem social :

vigente.Sua dimensão ética pauta-se em ralores humanista- l

cristàos corn base no neotomismo. tcndo como referência ^ :

27. \'alc clestacar que tâl Pre()cupacào ftri lcvada a cabo pclas primeiras âssistcrltcs sociais brasilcirâs, quc tircr.un guc busca da perfectibilidade humana. Tem como base teórica o :

emprccnder grandes esf,,tc,,s líui ô rcc,)nhecimcntr> da profissào. Nlcsmo resprxrclcndo i\ funcionalicla.l" p,r.t, p"1,,
"arranio" entÍc sua referência doutrinária e o positirislno. que
t.

I:stado e pelo capital, nào itrta fiicil r> ptocesso de profissionalizacào do Sctr-ico Social. (]rrno n()s c()1rta Balbina Ott.ni
ern entrcr-ista a Vicira: "[. I negócio que durou sete ânos c <1ue n<is aqui no liio cl-ran-rár'amos dc'guerra c[>s sete anos'. lhe tnz a visão do Serviço Social como profissão que contribui :

"-
Ilazíamos r-isitas a deputirdos, senirdores, ministros, pr>líticos r-1ue nào acabar-am mais, crplicand6, Sc.ic, S.cial c da
nccessidadc de ter nír-cl supetior, coln() eÍa nos F.stados Unidos.
1...1
() reconhecimcnt6 d6 cnsin. clc Serr-ic. S.cial em
nír-el sr,rperior motivou também a preocupacào com o reconhecimento da profissào. ]i6i cntà. quc sc clcram ,,s primcirr,s
passos parâ a criaçzio da l\l']r\S - Àssociaçào Profissionzrl dos Assistentes Sociais não aPresefltâ\'a polittrtt.r'
-, clue clepois se transfrrrrnariam cm fg "l I é inconteste clue o Setriço Social no Brasil, até a primeira metade da década de sessenta,
sir-rdicato" (l3aptista, 1983: 58, grilo da autora).
dc relevo, mostÍava uma relatira homogeneidade Írâs suas projeções inten-entirzs, sugeria uma grande unidadc rlits srrrr\
28. lrmbora d'.ttc rL: 1949 a Portaria n" 35 tle 19/04 do Nlinistérro do'lrabalho clue reconhece O Sefl.ico Social como pr()postas pro6ssionais, sinalizava uma formal assepsia de patticipacào politico-partidária, catecia de uma clzrlr,,r:t,,,t,,
ptolissào lillcral, apcnas em 1957 é clue se regulamenta r> exercício prolissional atrar-és da l.eí r{' 3.25i de 27 cle agestcr
i tcórica sigyrificatir-a e plasma\-a-se num^ categotia p«rfissional onde patecia imperat, sem disputas de rulto, ttttt,t
deste mcstno itno. consensual direcão inten-entir-a e cír-ica" §etto, 1994b: 128).
ll() ('(lttllíl)t'l() s()( t:ll, l)()l' nl( t() (l() ,lllt:il(. (, (l,t ltl(.1,t,1(.tr) (11,, (.t.()5i1, rlo lt;rrltr trll:lllsnt(, l)tollsslr)tl.tl (;llll(l:l (lll(' :l11',tttts l)l()l('l()rr r) l( l()lll( lll
irtdir'írlLros à socicclrtrlr', ( ) (lu(' s(' ('\l)r'(,ss:rr':i rr,, .llrt.r r( )n:ur)(.nr( ) (,1, ()rrlr.:rs lr:rst.s), 1:r l,1s(':l (l,r "lt'riilinl;rt, lrr) l)t'rilit':t t'tlt'r':tlttl:tt,:l() l('(,l it;t tltl;lll(lr)
da f<rrmaczjo protissionrrl clcssc' pcríotkl. l)rlitir'rrrrcrrr(., (.\l)r.( ssrl (
sua vinculaçào ao projcto socictririo capitlrlista c rr()
:l l)t'(,lissri,, lrrtst'rt tlt'íirrir s(' ('(»ttt«r ittslitrriqri." (Nt'll«r. l()() llr: l ll;''r ',lltrr
rr,rs rliz [)r-rrprrrr()rrtl: "(. Ír'ilr, trrlrs (' r.llr)11 ílor" rlttt' it't'«rtttlrt'l'li o tttotl,,litisttt,,
l)cnslur)r.nl()
conservador, tendo em seus congressos c cnticladc da cetcg()rirr
debates e resoluções que apontam na direçào dc rrtittrcle s prolissiotttl t' lt tlitittltrra l>rasilcirt.
fundadas na lógica da coercão social, do assistencialismr. cl<r l)ara cotrrltrcctrtlcr ( ) (lLle ti rrltl-t-t c
apazigpamento e da adequação do indrvíduo à sociedadc c as
sigt-riÍicaraur csscs clois tlrovit.nctrtos iI
suas normas. Em sua dimensão jurídica, taÍlto no Codigo dc
Ética cle 1917,quanto na lei de regulamenraçào em 1957 e no rcc()nceituâçà() na i\mérica l,atina e a rcn()vacà()
primciro currículo mínimo em 1953, expÍessam-se o tecnicismo, r1() Brasil faz-se necessári() cntcndcr seus
-,
a vinculacão à doutrina sociai da Igreja Católica e o processos sócio-hist<iricos e a relação entre
consenadorismo próprios desse projeto. eles. Novâmente e de moclo inevitár'el, foram a
reaLidade e o cofltexto social que impulsionam
i:

..il tais mudanças no Serviço Social.


i:i
5.2 Autocracia burguesa e a renovação do Serviço Social Vejamos, então, as c Í^cterísticas desse
'1 i,lçh rLr '1ottir,.t ,,tl,l,r ,
brasileiro: os proietos mode rnizador e fenomenológico momento e seus impactos no Serviço Social 1>,trt"ir':t
" r/rr , tl t;.r,' ,'.,'
.')'ttltl:ltr f:rts' ;111'.'t, t;,', ' tt/,.ttt
brasileiro. ltnrh "riio i:frrltai',r,l,r f',,t \l ,t'
Referimo-nos ao período compÍeendido ,,:.lt/ ( ! 9ç0)^ 'l"rutltt .çt ,lr, / t ,,,,
' ','
ttit'rttliirtrla fill{t.; ltrtt'rr'' t i /tit.i. \

Seoto-me no chào da capital do país às cinco horas da tarde


cntÍe os anos de 1960 ate frnal dos anos 1980, {t'tt: t.r!',';jçlilr! lt.irrt,l',r). /'t
e lentamente pâsso a mào nessa forma insegura. período de grandes alterações no capitâLismo .vtd [r.]irlitt//ti)o l;ti, ll ( ,tt t
*r,\llttt,iirti, r.l/.1( r/)/itlti titt,t rrtt
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. cm nível mundial. Viviam-se ainda os gloriosos dt:lLt'tsritmtltt tit,,,/r,,i,' f:trt,iir,'t
Pequenos pontos brancos movem-se flo maÍ, galinhas em pânico. impactos do pÍocesso de expânsão do (1// 11;rf,\'.ltl lít/)! llt(t!),/iÍtt'\ /t t titt
.'trt/' :t'.
E feia. NIas é uma flor. Furou o asfalro, o tédio, o nojo e o o<lio. ,'riy,'.t, .. rt l)tili.,;'i,,
capitâlismo em nível mundial iniciado ^pós ^ .tji/tit;tt fwlili.', l'.r.t,,;,i,, t r, ',.'.
(1llor e a Ntiusea - Car/os Dnntmond de Ándrade) I i.r h't,lç' i ti tt: rr t t Írt r ii .t:tt ti
lI Guerra, o que ficou conhecido como sua ; r:

tlt .ítt,'tl,ti - 1) /tt : tit ti.tr, '


1, I )
ttt1 t )

"1grg3 gldl "


gLP?l.qiY?'.'.,. "er!!.?21e :.+ çÍi:9. . .. : !;ilt) -, (?/!i.t Íi,,tltt t;l,ti.i t.r)í/ltt'tlrl,t
,',,,r,,i ií'i,lf,,rr .\'/ut, (! :;i,r,1,,
de meados dos âflos 1970. ú {}ua-l'i,Í,u' .\,tli,tli. ",\'rr,t,
Conforme apÍesentamos no item anterioÍ) segundo Netto (19941),30 ate ^p^rttt
meados dos anos 1960 a profissão não apontava disputa de projetos profissionais.
Do ponto de vista dos Países ,.lt.t: /i!::.,ii.., t.' ltir tt/t/ ttt/1,t itt,', tt
.;,t,:ltirrtij:,ri'tirt. t)tt,\1!Íi.t,,;,,
Não havia a marca de "diferenças de vulto" no deuer rer dessa profissão. É, periféricos, havia uma busca por integrar-se :. t.'-i.tt,i.i!),t ,l, ,,tli1,til.i. !/.,,
zi ordem econômicâ mundial galgando outÍo ,f,.;t it,tft ittt,.'ulu tt,t.; fiti, rtt I'tit
portanto, a p^rtlr desse período que veremos uma alteração signiÊcativa nesse tlltllt.,a.r" ilitr:'dd(i f'tli',tt'rttt(rt,

quadro durante o chamado mor.imento de reconceituaçào na Âméri caLzlttnl e,


lugar fla divisão internacional do trabaiho' fu t o Ir|gl,;it.i:, 1t t t't ui il t t r it II il ! i I t
r' í ít t t

,i,t ptr'tt/itlit'idrtir rlt Íi'tl,,tllt,,


especificamente no Brasil, o movimento de renovacão.
No caso do Brasil, tal busc^ se darz pela via ,,i.1 111r,1!11.',itt,i;' ;)lrt',t'itttl,rt'
do desenvolvimentismo, iniciado nos anos ,.':,lt.tlt!,',1 i til(t'lt,t,iritt, tli:'. t,,i"
E,sta é uma alteracão que resultará na primeira expÍessão de diversidade rltt !rorlnilç i: t r«/t:iitti;iio rl,t
üi i 1950 com o governo de Juscelino I{ubitschek riitti.;,io juieli,trittt,t/ tio It't!t,.t
-.1
-t teônca, política, operativa e ética no Serviço Social brasileiro. À,,Iesmo com suas
I
I
j fragilidades e problemas, inaugura-se na profissão um impoÍtante caminho na
([l.'),tt com particularidades após 1961' com il',," 1\1,'1,1. it)()'i." í41
I

.t
I
I
constÍução do pluralismo e da possibilidade da dir.ergência de pensamen to na
I
mesÍno nas \-eÍtentes em qtlc
I I l. ..Nesta <itica, a renor-acão do SerIiço Social aparece, sob todos os aspect()s, como um dÜlttL1:
I
he(ladas do passado nào são medularmente postas cm cause, Íeglstra-se uma atticulação clue thes conti'rc
I as concepções
(Netto, 1994b: 131)'
.r-u nrq.,ir"*.u qr. pro.rro,rferecer mais consistência à ordenaçào dos seus comPonentes internos"
I
I
I
I

j
I
30 'Iodo o Proccsso de tencxzçào do Servico Social, bem com() a análise <las trôs tendências que scrào a<1ui ab6r<.ladas ],1. l)odemos clizer que esse go\-eÍno (em continuidade ao populismo que o antecedc) inaugr:ra,
a pattir da eleição de )h, cm
i
(neste e no prririmo capítulo), está claramente espress() na pro<lucào dc Ncttr> (1994b) e i
1955, uma política <1enoÀna<la "nacional-clesenvoh'imerrtista", tlue terá continuidatle durante os g()\'erfl()s militares Arr
I
-I'al serl.-irá c1e l;ase a este item.
em r-ez dc
comcntar tal cxpressào, Fausto sintetizâ o que loi esse go\-eÍno: "a expressão
I
productio aPtesenta-se, cm n()ss() entender, como a melhor análisc e síntese desse pr()ccss() e sua importâ1cia nacional-desenr-ohimenttsmo,
i para
a empÍesa privatla nacional e tr
a profissào.'lrata-se, Portânto, dc lcitura fundamental aos assistentes sociais no entenciirnent. d.s rum.s .racionalismo, sintetrza, pois uma política ecànômica que tratâ\-a de combinat o L)stado,
I
I cir Setr-ic.
I
S, rcial br.r.ilt iro. r:apit.a1 estrangeiro para p.,r1n.r.'., à desen <rh'imento, com ênlase
na industrializaçào" (}:austo, 2003: 42i)'
I
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() g()\'('l'll() (l('.f«xir» ( i,rrl:rrl (l,rn1,,r). t-,nt() ,1 ,l!l(l(lllll.l
\'(,,.(.t,r ),5;1 sr.|111,.. | |.rrilnrilliIrl, trrrtn,t,,,1,,.,,,1,r ,. lttl(lti,il.,.t(,trIll.ll,l
-)lt invcstittt-t«rclcscttr'«rlvitttt'ttlr)('()r)r,tirrnrlr rlt,rrrrr:r sul)()st:l s.l)(.r.:r(.rr()(l;l ,1, ,t,1,t,1,", lr|rlttttt,t' t tlt,'lt.t'' tl'tllttt't 1r'tt'l () ('lllll)r') llrtlrr'ltt'rl'
pobreza e cresciment() d() câpital. Pzrra clc cstcs cl«»is clt.nrr.rrr,s r-,rrrjuq;r\,:yrr st,. ,\ ln((,t|)()t:t(,t().1, il,,\,tr, Irtilt(l(,,(r)lIl(I(()()l(l(ll.l(,t,,. Irl,tttt;.tlIl('lll()(
.trlttilrttslt;tr':trItlt l)l()1,,t;tln:l:i:,í)(l,lls.,,,1rt, l,t'. 1,t ,,:llt;lllt( (l( lll.ll()l
questão social etaffatada como natural, buscanclo-se a harnr,rril (.ntr-(. ls t'lrrsst.s
stslt tltrtllT:l(':i() ltrlt'tt:t t'ltlt'l)ltlt tYlrzlrt'li t/ 't/'. )l)Oli: l(r)'
sociais paru o crescimento do Brasil por meio cle sua moclcrnizaçlio. l,,stinrtrl« rrr-st,
o desenYoh'imento atrat és da industrialtzação e a construcào cle llrasília:rt
Sçryiç«r Social urlcrrtm, ilssim, a clécacla clc l()(r0, s('ll1 ttllt't':tr,',,t's
( )
sigtrificati\'Íts cltt rclaçlio â() llrojct«r traclicional c()11scr\'â(l«rr - lllltt't'ir )l'll)('lll('
Difcrentemente da traietoria que determinou o ll,-e/l)trc, ()
p.r n<is aprcscntacl«r -, nlas c()1-lsoliclando-se e expanclincl«)-sc c()ttl() l)t'oÍissr't,,.
,T:::x,';,fr:":H:,T.1,.;'1":":i:::',H""i";ff cssc pf()cesS() de erxpansà(), aPrcsefltam-Se n()vas clcl-t-tlttlclas (' l'('sl)( )st:ls
,H;;:;".: N
o crescimento econômico, mas que nào redistribuiu os result2clos nas tentati\ras de organizaçà<t c sistctttlltizrtçritr
1rr<rfissionais clue se exprcssam
dessa expansão com a maioria da populacão trabalhadora (Nlota.
2009:5f, grifo da autora).
tl. trabaiho proÊssional. Será nesse contexto que se inicia a c()nstrrtÇrio tlt'
irnportantes alteÍações na profissão como fruto das mudanÇas n() Pâís.
 década de 1960 inicia-se com a eleição de Jânio Quadros, cltr(' rlr('s('s
Diante de tal processo, com a busca cle concre azação de seu conhecido
lema "cinquenta anos em cinco", o governo
clepois íenunciaÍá, ao cargo da presidência da República não sttl-rt)rtltll(l() rr

JI{ encerrou-se com altos índices l)ressão sofrida tanto pela esquerdâ como pelos
conservadores. Sctr vit't'
inflacionários e com dificuldades quanto à balança comercial
Qtáficit enrre presidente, Goulart assume então a presidência de 1,961, a 1,961, clt trttttl,, t'
rmportação e exportação). O romptmento com o Fundo N{onetário Internacional João
(trI\{I), deixou a situação aindapior, pois o referido Fundo negou-se a frnancraÍ
interrompido pelo golPe militar.
seu Sobre o tão polêmico goverflo deJoão Goulart, que pÍoYoca clifi'r't'rrtt's
plano de estabilizaçào. Evidenciar.a-se, no\ramente, a questão social: os industriais
análises entre os estudiosos,3('podemos àpont?ir como cafacterísticas ct'tttt':tis:
se opunham às medidas clo final do governo
JI{ com manifestações públicas, o
mesmo ocorria com os cafeicultores e, embora não se fale muito do movimento
Uma intensa e prolongada crise econômrco-financeira (reccssãrr
operário e da otganizaçào sindical nesse períodq o sindicalismo pâssou por e umâ tnÍlação com taxas jamais conhecidas); constantes criscs
mudancas importantes que teriam impactos mais notár,,eis no goveÍno
cieJango.3+ poLítico-institucionais; ampla mobilização política das classcs
Em sintonia com a referência desenvolvimentistâ, entre os anos cle 1950 populares (as classes médias, à pzÍt1r de meados de 1963, também
e 1,960, o serviço social expande-se como profissão.35 como yimos no item entÍam em cena); fortalecimento do mol'imento operário e dos
trabalhadores do câmpo; crise do sistema p^rtideLrro e um inédito
anterior, houve nesse período, um grande esforco em consolidar o Seryiço acirramento da luta ideológica de classes (Toledo, 1997:32).
Social como profissão, bem como garannr seu nír.el de formacão superior.
Ocorre nessa década o Um governo maÍcado pela explicitaçào da questão social: pressàt's tl.s
grandes latifundiários, da burguesia industrial nacional, do capital estrrtttst'it'',
e da classe trabalhadorà org nrzadz_ poÍ respostas do E,stado diantt' tl,,s
33 1{ crprcssà sua conlpreensà, s.Lrre a qr.restào social e a [rrrma que . I:stacl. <Jcr-e resp.ndô-l:r: ..tenhri
..f

dois objetiros: 1) a utilizacào das nossas ri<luczas para a emzrncipacà,.,


sompre c()rn1g() interesses de classe.
cc,,nômica.l,, llrasil; 2) a clig",icladc a.,,^rrr",-,,,1.
rla realizaç:io tlt'
dc condicõcs dc r-ida para os ttabalhadores brasileitrs; . irt,, .,'ig-ià.o harm.nia
entre () cirpital e . tral;alhr. l)ara , capital,
dcsejoaerpansàoquectic,dcscnr<rh'imentoeâprodutivi<Jàde;para.trabalh.,erijoajustica<ir:ccriaaclignicleclecla
Jango oscílatâ, durante os três anos de seu maÍrdato,
pcssoir humana e a r"alorizacào dos operários,, (Àg,uiar, 2011: 111). âções políticas e econômicas que atendam a esses diferentes interesscs. Nt'stt'
3-l Rcalizarn-sc nesse pcrío«lo r-árias gÍe\-es e manilestaçires por <liferentcs
categ()riirs, c()m pr()ccss(,s dc criacà. clc ..1)act.s sentido, concordamos aqui com a identificação desse goveÍno com um g()\'('l'lt( )

"populista e reformista burguês", embora, seia inegável, que se tÍatou clc' ttttt
dc Uniclade" que congÍega.am dilercntes sinclicat.s de distintas catcsorias
cm lutas unificadas c .rganrzaclzrs o quc i
pÍcpârou o caminho para a fundacà. da Ccntral (ieral d.s'liabalhaclorcs -
(r-(i I) clue clesempenh.u imi.ttantc àl
clos períodos mais progressistas da história do país (não so pela gestào tlt'
papcl .as
gÍe\-es no período de-lango (liausto,2003).

35 Descfll-oh'em-se ilriciatir-as pclos assistentes sociais clo que se colheceu


c()1rr() "1)escnr-oh,imentr> de (-.m..idacle,,
(como extensào da metodologia do Serrico Social dc ()omuniciade),
que aponta\-am pzrta cluas dirccôes antagônicas: a
'inculaçà, a. ideári. clese.r'oh-imentista (e, poÍtant(), uma continurclade cla perspecti'a tradici.nal na pr.fissà., senc1. 36. ,\ polêmica central está na <liscussão sObre qual a real vinculacão de Jango cc>m a classe ttabalhadora: "p'aril tttt s I iir I |
I I \(
t

m.dernizada) e a r-inculacà. aos m.r-imentrs sociais e cle trabalhad()res um govcrllo tlt t rtr;ilct
quc comec2r\-am a sc reurtticular nessc perírd, de um autêntico go\-erflo naciolalista, democrático e popular [...] 1)ara outtos, está\-âmos diante de
(embota aiflda nào explicitlmcntc, 11n(
')nt;l\'â-se .utro dirccionamcflto à ptr,Íissà,r). ,\ esse respcito r-er \\ anclerler (1993), populista . ,e[,r.mist, burguês, sem nenhum real compromisso com transformações mais zrmplas de
r>r<]cm ccorti'tttit "
Vieira et â1. (1987) c Aguiar (2011).
social" (Toledo, 1991 : 32).

{:14
itlrg«), ll)lls ltclrl tlttltrlt'o srlt'i«, lrolítit'«r t;rrc s('('sl:rlrt.lt.t t.rr). l ,1r 1(,ss, t.rrlt.rrtlr.r..
.f l),trrl,r lr;rt;r r'\l)r)t lil(,()(':, t' lt r llrllll('ltl() tl;t
('( ()ll()llll;l
l);lt.;l r) (;ll)ll,tl t':'lÍ,llll',t'lt(l'
tlàtt havizt nacla de rcr'olttcionário nas ac«lcs rlc.f arru.r. t'rtll)()r'1. Ír(» lipll tlt. st'rr , r1,lt, tl;r\;t \(' :t lttl:t r.lt' t lltsst's.
mandato,Jango tenha se aproximado dos intercsscs dos moYititcltt«ls
1'l«rltrrlâr.t's \lt.strr,, 1,,11,1' rlt' sit,,niíit lrr unll lr,,ssilrilirl,rtlt' ('( )tl('t'('llt tlt' t'('\'('t's:l( )

e da classe trabalhadora "por meio do reconhecimento cla lcgitirniclzrclc rk. tl;r rl|tlt.lt) (':rl)tttrlrstrr. rls inl('l'('ss('s tlo r':r1til:tl ttrtt'itlttrtl t'ittlt't'tt:tt'i,rlt:tl l,,l':tttt
suas reivindicações, do apoio às entidades ditas ilegais
[...], du nào rcpressào às , ,,1,,t llrl,)s ('nr iogo. t'lr t'xlllicillrc;rio tllt ltttlt rlt'clltsst's 1ll)()tll()tt l)tlt'tt lt 1l« rssilrilrtllrtlt'
greves políticas, da extensào dalegislação trabalhistl_ao c^ÍÍtpo e clo respeit«r ris ,lt, , ,r't1:rrti7111-ot'S rltrc lt'r'itss('lt) 1l l)l'( )c('ss( )s l)rc-r('\'« rlttci« rlllirios:
franquias democráticas" (Tole do, 1997: 13).
Em meio às diferentes ações, que incluem a quase compra de doze usinas ( ) t;trr'('strtYit Ctll jrlgrl tlàtl t'r:t llrollriltltlr-'tttc tl cltl'litltlislll() ()tl ()
socirrlisn-u ). rnirs rl ,-lisptrtlt cnlrc ulrr t-ttoclclo .lc .lcst'ttvt,lvitttt rtlr r
noÍte-americanas a pÍeço exorbitante consideradas um r.erdadeiro ferro-r.elho,37
IrssoCirrrlo c rlcltcrtclcrtlt' (tttttrclt tlrt crtt clc' lrlot.lol-r<ili«rs c tlrr
o governo nacionalista de Jango vai se vendo pressionado a romper com o illltcrirrlisrrt( ) ntl sLtlr frrrrtrrr nrltis rlrclic:tl) « rtt r-tt.tt 1tr<lccsso clc it.ltct'tsrts
capital internacional e pÍopor um plano de ação que levasse a cabo a ideia de rctirrtnlts clct-t-t<lcrtiticlts c ttecionlris, contrtirias ao itnpcrilllistrro c'
uma política nacionalista (Toledo, 1997). Compromete-se, então, com uma série ao latifúnclio. clllc podcria sc «lestlttbrar - ra,licaLizado - clll ttl-rl
cle medidâs que fr,carum conhecidas como "refoÍÍnas de base", por meio de seu pr()ccss() dc rcvoluçào social (Si1va. 2013: t36).

plano trienal que "pretendia combinar o crescimento econômico, as reformas


sociais e o combate à rnflação" (Fausto, 2003: 455). I)iantc cle tal c()ntexto econôrnico-social e sob <> medo da possibilitlltlt'
Às reformas de base incluíam uma acào extremamente delicacla em ,ll construção de processos re\rolucionários - a exemplo de Cuba, ()c()l'l'('.
teÍmos da cultura econômica e política brasileir a: a reforma agrâr:ra. Como r,,imos r.rrtào, l.L1.^flçe_ entre os latifundiários, a burguesia industrial nacional, o clpit:rl
^
no item anterior, aherança colonial e imperial brasileira arnda era fortemente t.srnrngeiro e as forças aÍmadâs brasileiras.+') Nas palavras de F-ernandcs:
presente em termos clo grande latifi-rndio nacional. Àssim, a adesão de
Jango
ao clamor do morrimento campesino e dos trabalhadoÍes rurais pela reforma
:3J,H#:i!,')^,!{^,;il?,::;:,:x'^'-"ff1;.1:."#
agrátta coloca-o em oposição direta à elite consert adora brasileira.3s
São diversos os setores progressistas organizados aaporaÍtais reformas :"'i,l:,i;: Hi^, :.i; :ãi.:. ;: Hxilu;* i' L:1:
nesse momento:3'o movimento estudantil, o operariad,o, os camponeses, dominantes e suas elites de uma tragédia histórica (Fernandes,
1997:144, grifo do autor).
setoÍes da lgreja Católica, das forças armadas e sefImentos da pequena
burguesia (em especial os intelectuais). Tal organizacão, claramenre expressa
Na análise de Netto, apresentavam-se país duas alternativzts: ( )
em manifestaÇões espalhadas por todo o país, embora não marque a r.ivência ^o ahança com o Jistrttl
de um pÍocesso pré-revolucionário, acontece diante de um clima propício irrvestimento no c prtzil nacional (privado) em uma r

l)lrra continuidade do processo de industrialj.zaçà,o pesada ou a articulaçri«


I
às revoluções na América Latina, atnda sob inspiraçào da recente Rer.olucão
Cubana em 1959. ('()rrr o capttal internacional em um outÍo àrrarrio político-econômic<), (lr.l('

O Brasil vivenciava um momento de tensionamento político e econômico: sLrstentass e re^ização do padrão de desenvolvimento em cuÍso. À prilllt'ir':r
^
rrlrernativatÍeLzi^ os Íiscos da possibilidade dos processos políticos e sociais t'ttt
Jango tentava impiementetr as reformas de base em uma direção nacionalista
senclo questionado pela burguesia nacional e veementemente conrraposto :rndamento gestaÍem um processo pré-revolucionário; a segunda, mesmo cliarrtt'
pelos latifundiários, os índices tnflacionários eram altíssimos, ocorria rigidez de rlos possíveis atritos entre interesses do capital nacional e internacional, ltàr I
rl)Íesentava riscos políticos p^r^ o c^prta.\, ne:utrahza;ndo as forças progressistlrs
(llre emeÍgiam e articulavam-se Íro momento §etto,1.994b: 1,6-25).
37. À Àmerican ltrreign Pot'er (ÂNÍl-'()Rl)).
Àssim, em 1,964, âs forças âfmadâs brasileiras, em acordo conl 1r

38. "(-on[orme [iausto (1997) muito cmbora ficasse f/rcil identificar que tiris mediclas nà, r'isar-am a iraplantacã. do
socialismo - colno o âcusarâm as lcrtcas que o interrompeÍâm paÍ?r instalar a ditaclura rnilitar em 1964 o simplcs fat. lrurguesia e a elite conservadora brasileíra e frnancíada peio capital estrangeir« r,
-
dc pretenclcrem mcxer na estrutuÍâ distributir-a de renda para etenu2rÍ as desigualclacles, impediram sua c6lcrctizacà6',
(Santos,2012: 85).
39. llmbora tal apoio nà<; se tracluzisse como apoio total ao g()\'eÍno <Je-f ango: "rVquilada par:r zr escluer<1a'nr>s mcses fir-rais, f6i, lrt. Na análise dc Fernancles, o papel dos militares Íresse ptocesso, embora tenha sido cle hegemonia na concluçri,, tl,,
inclusite,interptetadacommuitassr'rspeitaseÍeseÍ\-âsporessasentidarlcs. l)estaÍirrma, ogo,rrroGot/rtrÍtrentconsegriaop/eno l.lstado, na rerrlade "serr-iu cle "mào de gâto da burguesia, nacional e cstrangeira, e [colocou-os como] setr'os do capitrrl
hnanceitt-r" (Fetnandes, 1.997: 145, grifo do autor).
s«rl>rcttttl<t «r t)()t't('-1llnt't'it'lttt«». rlt'slittrctn.f:rrrrlr» tlo;l,,tlt'r ('tnsl;tul'llnt unl
I .lt' ;t,'''ll,l('lll( l' l,()( llll:\ ((' ll:l() 'r)l llll( l( l'f':l(l()s t'lll l)l()lllrrVt'l' t'lt'l
período ditatorial no llrasil qttc cltrnrrri ntais rlc virrtt'1ln()s,'r r'.,n1,) l):u'l('(l(' ,lt':'ttttrllttlll(lll()('(()ll()llll(()('srr(tltl"l'(Nt'ltrl.]( X)r: lO)'
St.rr tlt.st.trr,,,lyirlt'11() s('tl,1 t',)nr il rtl)l'osittlrtcà«, tl«I St't-rit;., St't'irrl
rrs
uma estratégia política do domínio burguô's inrpcrialista clLrc sc olrit'ti\'«rrr c«rrr)
especificidades nos países periféricos e, em particulâr, co1-n a instatrmr-à«r rlt, ,lr:rrrr:rtlrrs (.ii.rrciils S()cirris c âs ()Lrtrasrircas tl«r c«rrrlrt'cin]Ctlt(). l)l-(,lricirrrttl<) tllll:l
ditaduras nos países latino-americanos. ,rrrilist,r.r-ítit., rlrr s«rcicrlaclc dc classcs c a bllscâ pcla constrttc'ào clc c«rtllrt'citllt'ttt«r
Tal contexto - de explicttação da questão social atrar.és cla luta d«rs pr.,',pr.i« I :r r-r'rrlirlurlc latino-ameÍicana, clesdobranclo-sc 1l2I Prc()ctlPilcà( ) clll
trabalhadores, de assunção de possibilidades de alternativas ao capitalismo ('( r(,ào tlt' tr-rctoclol«lgias pr<iprias cle
)nsln
e cla reaçào da autocr^cra burguesa por meio dos processos clitatoriais - nrtt't'r't'tt«to 1l('ssit rcalicladc, () que colocârá
nnarcz- não somente o Brasil, mas toda a Âméric a Lattna. É n.rr. períockr ('nr cltt'r1ttc 1ts t-uctod<>logias "importaclas"
que o projeto tradicional do Serviço Social neste subcontinente comeÇa a ser ,l:r l'.trropa c llllr\ pâra () Sen''ic<l Social na
questionado, apresentando-se âs bases concÍetas para sua erosão: "a ruptura \rrri'r'ica Latina.
com o Servico Social tradicional se inscre\re na dinâmica de rompimento das ) rrtarc() inicial desse movimento é
(
,',,rrsirlcracl«r o I Seminário Regional Latino-
i:l

amaÍÍas imperialistas, de luta pela libertação nacional e de transformações da


estrutura capitalista excludente, concentradora, exploradora" (Pa\euos apud \rrrcricatro clc Sen'içtl Social realtzado em
Netto, 2005: 09). l()(r5. ('1r1 I)()Ít() Àlegre. Nesse mesmo ano é
N[ovidos pelo questionamento sobre o lugar de subdesenvolvimento Irrrrclrtclu a i\ssctciacào Latino-ÀmeÍicafla de
dos países latino-amedcanos e diante do conhecimento das expressões da Lsc,lus clc Servico Social (ÀLÀETSS), que
questão social cotidianamente atendidas pelos assistentes sociais, no marco dos tt'r'ri papcl funclamental como articuladora <los
ConsideÍa-se
acontecimentos dessa década, cria-se uma espécie de "grande uniào contra o 1rr',,lissi«rtrais' na reconceifl.Iação.
tradicionalismo" §etto, 2005) entre os profissionais latino-americanos. (lu(' ('ssc movimento teve vigoÍ durante dez
;ur()s. l)()rtanto, entre 1965-1975, tendo sidc>
)
i' il.t.t| t, ( r ir(liíl l.)1.1 i.f,L i t.r rii i r i.l
Itr('l'r()ltlPido pelas ditaduras que se sucedeÍam
| ü
Àssistentes sociais inquietos e dispostos à renovaçào indagaram-se
lrii(!t-.Çir: a i;rtrlrr ,Lt !itÍr''.l,tt,''1, r
sobre o papel da pro{issão em face de expressões concÍetemente ('rn toclzr Àmérica Lattna. Àinda em seu ltct' !,lir jti.i',l,titti:it!,, 7 lt11t11 r iri
situadas da 'questão social', sobre a adequação dos procedimentos ^ t :::.1 ti,it," t ) /t t iii,t 't',irt.;. 1 ; :
profissionais tradicionais em face de flossas realidades regionais ,rur,,('. crnlgT?, é fundado o CELÂTS (Centro ,,ri.yiii,;-.,i:,'i,,t rtttiirtf.i t:.i.,'t:.ttt
l .:rttrt«,-,\mericano de Trabalho Social), outra ,:liI/)i (!'üt' .ri t'r,iS;iirt) t' l'.tr/trt'
e nacionais, sobre a eficácia das acões profissionais, sobre a ,.1,,,,i, r;. ( rt7;,t.,.':.. f'tti i:ii:,'rt. .).,.
pertinência de seus fundamentos pÍetensamente teóricos e sobre nnl)( )l'tantíssima entidade na orgaflizacão dos .':)L r lt,t )/i.l ,í ::i; ! i J;t) ()t;.1
o relacionamento da profissão com os novos protegorustas que .rssistctrtes sociais no subcontinente.
l.,ri tt,rt liti,Lt ii,'/,:l,tlrt1' ,l.t; ftorl,.'i
.,i/t' llt)! "r.ttiitr.t/t .ro;it1, !;tt1;lt
surgiam na cena político-social §etto, 2005: 9, grifo <Jo autor).
Nrtte-se que estamos falando de ;,t t' t.:t,i!ttt,.'i,',, .t!'t+/;/,it,. .t' '
t.ü/tÍ/rll,/Í .rt'tt.t riirlqlt:irt.t, it:iir!tt'
unr nrot'imento que tefa início exatameÍrte !.,,ti /,ilijC. tli,,ri rt,irti,.ttl ,lli "1.t
Desse processo surge o chamado "movimento de reconceittaçào" na
rr( ) nr()mento em que o Brasil passa pela itli:i tt rii!r.t;i.trrrt" .'1t.çit;ti, t i:i tt
Àmérica Lattna como o proprio nome indica, um movimento que buscou trazeÍ r',t.;.':t, i i!'L/1t'i,siit, tiç í5tzt.rll tl,r,'
rrrsllrrração da ditadura militar, como estratégia i rtt:r'st,t.r tt;:ti,liliiitt rtt itiiiil.tt.
rrovâs referências à profissão, reconceituando suas bases teóricas, políticas e //,:ti ;,;/).r,!;;..,.1tn,t .i,, i,,;1',;:.
r l,r rrutoc racia burguesa ,r' í3!9..-qY: !:7..:.9P..
éticas. Foi "uma frente profissional que reunia um largo e heterogêneo leque " iitt. I :..t/,t !'t/JirlLttt/r'rrldl iiti,iil ç,

,1,r. ir inflüênci'a di iê."".éit"a'çà'o no Brasil '


liii tr',r!jt:,i,l,t iiqr I'1oi','.çl,tt l't t
r.rrri,,.s i"ltl{t; ;"
rr\ ('ss(' caracteÍísticas distintas do restante da

41. Vale lcmbrat que tal articulacào só foi possír'el diarrtc de três fenômenr)s que lnârcam a fotmacào social brasileita,
scgundo a análise de Netto (1994b) e Iiernandes (2005): 1- difetentemer-rtc dos processos r-ir-idos nos paíscs euÍ()pcus, ()
desenr-oh'irnento capitalista no Brasil nào se deu c(rm a runturt c()m as f ,Ímâs pÍecedentes à industrializacào, estas lotam
tctunciona.lizzrdas e integradas à dinâmica do capital (como é o caso clo latifúndio); 2- n:io se deu, no Brasil, a insrâurac2f()
dc um mínimo grar: dc socializacào do poder político, har-endo uma "rccorrcntc c\clusà() das firrcas pr>pulares dos
Processos de dccisào política" (Netto,1994b: 18); e 3- a rclaçâo do Iistado btasileiro (em especial desde 1930) cc>m a
sociedade civil ocorreu de uma mancira <1ue desarticula a esi,stôncia de espacos/organismos quc e\presscm ()s inteÍcsscs
das classes subalternas c os possír'eis pr()ietos sociais altctnatir-os.

i :,1
,\tttct-ic:t l,lttitt:t,rr 1t,,is tttitt,,rr :ls l)()ssilrrlrrl:rtlcs t,»nt rr.t;r:, ,lt.
l);utr( rl):l(,'lr() ;llr\,:r ('slt:lltt,,('ll'o. l't'l( )lll;l(l:l r l,t lttr lt t:,1tl,tll7,tr. ll"
ck rs lrrasilcir« rs llcs tc I
rccss« ,. ' ('llltlllll(l( ) l)l'( )('('ss( I tlt'
1'rͫ
1lt's:ttllt. ('l l) tllll
Como o Sen'iço Social brasileiro vivcrzi tal pcrí«rcl«rr (]rrc irnl'r111-11,5 11 rr1rr{c, r 7:ltçto glln? :. f y1191l.1il l.l, 1...: | 1.,,. .. : \\'
r"r i
1
corte drástico aos movimentos e organizações populares tr()uxc à pr«rfissrio? "

tlt' nr« rtlt't'tti;zltc-à« r cla ec()n()mizr bascado Í1()


Nem o Brasil e nem o seu Sen,iço Social fotam os mesmos apris l" clc ) crtrrc lrtrrgue sia inclustrial e latifuncliários,
l)1lcr(
abril de 1,961J6 O capital nacional e internacional davam sua resposta à questà<r
s('t]t Í()lnPcf c()ln elementos tÍadicionais ainda
social mais :umz- vez pela repressão. O conflito de interesses entre capital e na s()ciedade brasileira (desde o
l)rcscntes
trabalho seria resolvido pelo controle, apaztquamento e opressão, buscanclo <;
l)crí()d() pré-industrial), relacionados ao poder
restabelecimento da ordem e do progresso.
político dos proprietários Íurais e ao lugar
Foramvinte anos de opressão e controle que trouxeramdiferentes impactos
rkr grande latifúndio na economia brasileira. '

p^r^ o Brasil epar:^ o Sen iço Social. Explicitaremos aqú algumas das características l',' 7;tr;,..i t li l.t, t, l,t l,', t I \ r t' t,i i, " i t,
lsso se deu em altanca com a burguesia
; t t
1

.\lrsttrr, jtrilir.,t' {,.ti,t,i/i,t,i).',ii,',


mais gerais deste período p^r^, então, podermos compÍeender tais impactos.
irrdustrial, ou seja, sem a partilha dos bônus Íti'rtii:.irri.,: it ,lr.,i:iIl',tI; )i?i<'t1.ttt t
't
O significado do Golpe de Âbril pode ser melhor compÍeendido quando f,;.i!',:.ir,i ,;,t ii,/).','i,l'., , i t' ., ,
rlcsse processo com a classe ttal>alhadota, i i',1 ttt, I t.' ., t 1, i., !] i t i i i, li l, | \
í /,:.i !>,.t.s.r
)

analisamos, atrayés das paiavras de Netto, sua intenciona]idacle: tt-l » rlt n lrl t i : ftri t'r i j 1, f 1.; I 1';. t,"
gcrando, poÍtaÍrto, maloÍ concentíação de f, r 1 7

/i/it. .it ,it,'tzil;t ptti' "1l.Li',,1it u,'


rcnda e rLqueza e, com isso, a amplificaçào das I .^
::(/t.':,i.,t.;tt.\ tt! il1"r /!ttl.\' J .Ji .'.:.. t.
-\ finalidade da contrarrevolucão preventirz era tríprice, com
seus obletivos particulares íntjma e necessariamente vinculados:
('\pressões da questão social. À participação 011 .tr f tl" Í'üi fi1,./li.i ltr;ii/t, "
l'ttr!,t:,rt i,i
lti/r,: "t.t tliJt;: ;r.,t.r,:t
adequar os padrôes de desenvoh.imento nacionais e de grupos rlas forças armadas, neste câso, foi a pedra de t!r!.i.t;t't!!t' Iiti.qttt.tirt iti,Iit.;1 t i,r,i,
,,, .,.1r,y,,ff
. :.. i,,,,fltt;,1,"ti,),t,,
de países ao flovo quadro do inter-relacionamento econômico l()que efeti'r'ação dessa moderniz2.çào,
p2J2- Io/iiII/:i.ií'(ri!,' c.çit:.; i;rti.;t'; ./o , ti,i .'
capitalista, marcado poÍ um ritmo e uma profundidade maiores da ^
saÍantindo burguesia brasileira o controle do
à i,.tff.;tilrs^ "'1.t:.ritit, 4 ft,71 iI; i,11f,;,',r,1t
internacionahzaçào do capital; golpear e imobilizar os proragonistas ltrt;l:.tJrariit tio )tl/ttitit tit ! .'
I rstado (Fernandes, 2005). t.,,1j,, ;.,.t,),,t,,,' ,t.:,;,,ii,1 , . t,t";, .

sociopolíticos habilitados a resistir a esta reinsercão mais subalterna


Os mais de vinte anos dessâ economia .,f i,1,711t,iu,í,,., f.1,,,; ir,,1'1;;,,,.. . t.
no sistema capitalista; e, enfim, ünamtzar em todos os quadrantes lr,.' tt.t lt'i'LilL/t!'/!!('.t i.t ii l;tit'itt,'
as tendências que podiam ser catalisadas contra a revolução e o alternaram momeÍrtos de recessào com ',:.1. ,, . tti li;,ti< /,;t" ,.i,,\
j11,;11,1t,

nr()mentos de crescimento. O chamado


().t .t!li!fririí.r,'.; iks' rllt','i1t, fifitt,i, t
sociaüsmo §etto, 1994b: 1 6).
tltrt,,i,l'tr.r t,i rritrrhtii',t"' ij';
"tnilagre econômico"+r conduziu o Brasil t'r,.i" (''' lirinirt.t" ){t{}9: 1 l )1. r
t

Tais objetivos traduzeÍn-se, do ponto <le vista econômico, em um !rtist0 itii;.ç,tt,i rt .t,:r /t/i|i;'.ttrll
rr ideia do "bolo que cresceÍia para ser ilt, llt^,t-tji t;t)iil ii !)/i:.ry'i!ti .st'tlii,lt,,
rompimento com a tentativa de implantaçào do capitaiismo nacional e o rcpartido" (expressão cunhada pelo eritào ,.,,,, .f.,..r),,.t!.r; r; f it)tL,:rt t,;i t.i,,
tltir,ililt, rt,.tÜirt(ti.t,.irt !t111'11,;vi'r,t
estabelecimento de ações que coloc o Brasil na direção do capitalismo rninistro daFazenda Delfim Netcl), nào tendo, (lli{tl-llti 1i. lt:tii* t0o!r }\ii'
^ram
associâdo ou dependente (Ianni, 1997), ou seja, uma economia pautada t'tti;i,t r,.; 1,.;/1 rlnr ilt: I it'!'i:t.iiiri,
todavia, sido realizada sua ÍePartição com a .'

ii{}{}:; ).
na dependência com os países centrais, neste caso, especificamente com classe trabalhad oru. F, m^Íca dessa política cr
um EL'Â em franco processo imperialista, e com o aprofundamento do rrprofundamento da coÍicentracão de renda
capitalismo monop olis ta. c das desigualdades sociais, bem como À
i..
.r
I Instaura-se uma política de controle da inflação, abertura ao capital ptccarrza.ção das relações de trabalho.
I
I
1

i
O processo de consolidação da autocÍacia burguesa em nír'el mundial
i
I
I
i 44. I::.pot essa razào que, confc.,rme Netto (1994b), trat'.llTr()s diferenciatlamente Nlor-imento de Reconceituacào
:r partir do pos-gúeÍÍ (19rt5) e que teye peculiaridades nos países periféricos
ír,ir.cnciatlo
I na América I-atina) e NIor-imento <lc llenovaçào (ocorrido especificamente no Btasil). c()m o domínio burguês imperialis ta terLz- ine-n'ital,eimerite como consequências
() que vivenciamos no período ditatorial no Brasil: "[...] o aprofundamento da
I
i 45. Embora outros países enroh-idos nessc mor-imento tambóm tenham r-ir.enciado clitaduras militares, estas
I
l
se deram mais
I
adiante, possibilitando o enr-oh'imento dos prolissionais nos pr()cessc)s inicia{os em 1965 até meados de 1970.'Ibdar-ia,
I
mesmo diante da ditadura, r-ários assistentes sociais btasileiros estileram enr"olr-iclos com a reconceiruacào. Um
I exemplcr
I
I
notótio de tal participacào btasileira ó o de I-cila Lima Santt,rs, que assume irrportanres luncôes na concluçào do CliL;\iS,
i
I
a partir de 1 975.
i
I
I
46.Pan aprofundamento sobre todo o periodo da ditzrdura militar no Brasil r-er Fausto (2003), Ioledo (1997), Fernancles
I (2005) e Netro (1994b).
i
I
I
i
I
I

I )l li
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tlt'slt'ttit':to tllts t'ttllttt-;ts lr »t ltts. :r ( ( )ns( )lt(l;l(,:r(, r'lt. sr.r'r t(,( )5 lrrrl,llr ,,r
I)l('( ttt'l( ):r I n()\;t'. l,;l.r':. ll;tt;t :t ltltttlt,;lo rl,,s:ts:t:lt'nlcs sot'iltis tltft'litl:tttt
:,1;to l)():,1:t:,
1...1, l>ctrr C()n)() ult)1t clitt' :rss, rt.itrtllt (, ( )t-uitrrit.lrrn(.nl(. r,lrrt rrl:rtl:r :l( ) (':ll)llltl r r,11111;1lr;rlll(nl(' ( ()1il lrs ('\l)t('ss()('s tlt'sst' l)l'()('('ss() (' sà«r t't'slr()nslivcis ltclâ
internacir )nal" (Sih,,a, 2{) I 3: 8-t).
r \( ( lr(:r() (l:ts 1r,,1íttt:rs s,,r'i:ris tlt'ssr' 1rt't'í,rrlo. st'rtrl«) nrllis r.lllte vcz chatnaclos a
Âssociadas âos impâctos clesastr«rsos cla política t'conirrnicr tlt'sst,pt'r.í,tl« r
.rtctttlct'rr lirrt'i,rttrtlirlrrtlt'l)()st,lpt'l«r Lstrtclocl-rclosintcrcssesclaburguesianacional
encontram-se os não menos desastrosos condici«lnantcs dc sua rtrarrrrtcrrç:r«r
| ilrl('r'r)rr('irltt:rl: ('()nfr'()l1lr', 1rt('rruâr c()11flit()s, mas agora, com caráÍef técnico e
por esse longo período: a repressão e a violação dos direitos cir.is c políricos.
, tcrrtííit'r) (lu('rli'c,rnta rla lrr.rr«)c1'acia cstatal e dos investimentos privados.
 autocracia burguesa utilizou-se da força e da repressào c()m() estratógia para 'l i rrl« r ('ss(' c( )ntr'\to frrtrá,
p()rtanto, rebatimentos pata o Serr.ico
consolidar-se no país sob o domínio do imperialismo burguês.
\,,r irrl n() (lu(' rliz rcspcito à f<rrmacào e ao trabalho profissional. São esses
 his toria des s e período é marcadap or mortes, tortuÍas, desaparecimen tos
rr lr:rlintt'rtl<)s clLrc aprescntam as concretas possibilidades para o surÉlimento de
e todo o tipo de l'iolação dos direitos humanos em nome do resgate cia
rltlct't'tttcs rcfcrôncias no interirx da profissão, constituindo-se sob a forma de
estabilidade econômica, do enfrentamento a umz- suposta socialista e
^me2.ca unr r)lovir.r-rcnto cle renol,acào do Servico Social brasileiro.
do combate à corrupção.*B
Sào criadas n()vas clemandas que necessitam de outras respostas da
Muitos foram os homens e mulheÍes que lutarum pela derrocada desse
regime, pela emancipação política e pelo direito à expressão das lutas de classe.+1, 1,r,,Íissào, fàzendo com que esta tenha que otganuzl;tr em seu interior tais
r(:il)()stas, p()sicionando-se cliante da realidade social em questào.
O período érnarcadoporuma grande organização dos estudantes, trabalhadores,
intelectuais e artistas que, no calor dos acontecimentos de 1968,50 empunham
l)o ponto de vista do trabalho profissional, podemos afrrmar, a p^Ítít
,lrr rrrrrilisc cle Netto (199rlb), que ocorÍe a geracào de um mercado nacional
bandeiras de luta pela liberdade, democracia e contra o imperialismo.
,lt' tt':rlralh() macÍoscópico paÍa os assistentes sociais. Nesse período, ocoÍÍe
 questão social está flovamente escancarada por mais que se tentasse
,r ('( )nsolidacão e a expansào do meÍcado de trabalho do assistente social em
escondê-la sob o discurso da orclem e doprogresso: âumento da concentraçào
r( r'nr()s quantitati\ro (aumento das vagas e requisiçào dos profissionais) e
de renda, amp)tfrcação da pobreza,precarização do trabalho, exploração da mão
,1rr:rlilatir.r> (as novas exigênciâs ao trabalho desse profissional).
de obra nacional pelo capital estrangeiro, instauraçào da violência e do medo.
IIá o cÍescimento dos espaÇos de trabalho par^ os assistentes sociais
Junto à repressãq o Estado constrói outras respostas à questão social na cnr lri's frentes (de maneira mais ampla nas duas primeiras): no Estado-que
tentativa de atenuar as situações emergenciais. São criadas, no período, políticas
rt spotrdiâ à questão social coercitivameflte e cria\ra as gÍandes estatâis; nas
sociais compensatórias agregadas à manutenção de uma rede de proteção
rrrrrltitutcionais - que necessitavam de profissionais que compÍeendessem do
social contributiva. Sua implantação se daru "pela burocracia estatal crescente,
,rl)ru'lrt() burocrático, bem como interviessem diretamente na rela.çào capttalf
conjugada a gra,üs elevados de privatizaçào" (santos, 2012: 157).
tr';rlxrlh<> em um momento de manifestações dos trabalhadores, respondendo
,r "nccessidades peculiares de vigilância e controle da força de trabalho
rr, tcrritório da produção" §etto, 199'tb: 122); e na filantropia privada -
48 O poder do executiro é ampliado pelos atos insdrucionais. () piot dcsses atos (r AI-5) fr>i bairad6 em 13 6e clczembro
dc 1968 pelo presidentc (losta e Silra, fechandt; o Conqrcsso. (-r>m clc "abriu-se um no\.o ciclo de cassacào (lu('crescia com o aprofundamento da questão social, \.isto que o Estado
de mandatc.rs,
pcrda de direitos políticos e e\purgos r-ro funcionalismo, abrangendo muitos ptoÊessores unilersitári6s. Estabeleceu-se
prática a ccnsura aos meios cle comunicacào; â t()rtura pessou a fàzer paÍte integrante clos métoclos
na
l)r'('()cupava-se cadayez mais com sua política econômica de fortalecimento da
<1e gorerno,, (lbict.: 480).
49 "(-alcula-seque ceÍca de 50 mil pessoas teriam sido detidas s.mente nos ptimeiros mescs cla clitadura, ao pxss() quc
l,rrrguesia internacional e nacionai e o aprofundamento da questão social ÍÍzrzra
em
trrtno dc 10 mil cidadãos terizlm r-ilido no erílio enr'.rlgum m<;mento do longo ciclo." (Brasil, 2OO7:29). O registr. <1e ilr)l)ltctos em suas formas de expressão.
mortos/desaparecidos nesse período, segundo a Secretada dc l)ireitos llumanos cla Presidência da ltepública,
é 6e 361
oÍicialmente teconhecid<.rs pelo governo brasileiro ató o momento. 'lb<laiia, os trabalhos em andamento pela
Secretaria
Todas essas alterações resultam na necessidade direta de uma re\risão
e pela Oomissào da Verdade têm rer-elado novas infirrmacões <1ue indicam que esse númeto pode ultrapassar
a casa 6os r lr » papel profissional, pois apresentam um "novo padrão de exigências" ao
milhares (informacôes fotnecidas a nris por e-mail em 11 /01 /201,3 por Gilles (lomcs
-.o,rrà..ra,lnr-geral 6a C6missãcr
Especia.l sobte mottos e desaparecidos políticos e J.uis l;clipe Pcracchi
- - coorclenador geral cle comÀicacã<;).
St'r'r'iço Social brasileiro. E',,idencia-se a necessidade de um profissional üto
50 "1968 nào foi um ano <lualquer. I:m r-ários países, os jor-ens se rebelzrram, embalados pelo sonho de um munclo nor-.. Nos rr r, rrlcrno, com pÍoced.imentos racionais, que dê conta de estar flos novos cargos
f:stados Unidos, hour-e grandcs manifestações contrâ A (lucrtii rlo Vietnã; na [-rança, a luta inicia-l pela
ttansformacão do
sistema educatir-o assumiu tal amplirude <1ue chegou a âmcâcar () g()\'erno cle De Claulle. Buscar-a-se rero]ucionar
to6as
t' lirnções a ele atribuídos, bem como estabelecer diálogo entÍe o empregador
as árcas do cotnportameÍrto, em busca da liberação seruzrl e da afitmacão da mulher. Âs formas politicas
tradicionais (' ir classe ffabalhadofa no contexto oÍa citado. YIà, portanto, a mudança do
eram r-istas como velharias e esPera\-â-se colocar a 'imaginzrcào no poder'. lrsse clima, .1re ,-r,, Bruril ter-e
efeitos r-isír-eis
no plano da culrura em getal e da atte, especialmente da música popular, deu também impulso à mobilizaçào social,, 1,t'r'fiI profissional demandado ao Serviço Social pelo meÍcado até entào. Isso
(I:austo, 2003: 4 t-7).
tt'xretará na necessidade de certos fundamentos técnicos e teóricos paÍa açào
^

l1)
.l l(ll1lr':,1().1: l({)ll'l:
l)f()fissi()llill, lllc t'tttlir) l):tul;ttllt t'nr l)r'('ssul)()slos lrunt;uusl;t:, ( nst;t()s (l)()t'nt(.t() l)t.tllt.t. t ,1, r,rlt,l.r, lrr lr{,ll(.1. l)l((ll,llll(
da dtlutrina da lgreia (,at<ilica c s('us Íirntlrrtncnt()s r)(',t,rr)ist:rs). t'r)nr ,lt,'t t1,l11t,t', .(,t l,ll .t Ill. l't'l ll, l \I I

I)rrÍ'(.1
influência do positivismc-,.
No que diz respeito à formação profissional, a mudârlÇâ sc clri c«)nl s(,Lr \ r't.r ror':rçlio rlo St'r'r'iço Soci:tl r'. l)( )t rlllLt« r. tiuto de um processo históriccl
,

processo delarcização, ou seja, marca-se a autoflomia da formaçào e do trabalho (lu(, l)ossilrilitl o 1-rltrralislti() n() scio do Sern'ico Social, ao encontÍarmos a
profissional com aIgreja,5l bem como a entrada no âmbito universitário. Diante .lrit,r'sirlrrclc no cluc cliz respeito às maneiras de enfrentaÍ a tealtdade social, de
do crescimento do mercado de trabalho e da elevação ao status universitário, o ( ( )nrl)rcclrclcr a qucstào social e o próprio Serviço Social. Diversidade teorico-

Serviço Social cresce em quantidade de cursos e de alunos. rrrt'roclol<igica, etico-política e técnico-operativa fl^ profissào: do modo de
três proietos profissionais (ou
N{ediante os impactos da rea[dade junto à proÍissão, é necessário l)('nsÍrr, fazer e escoiher'. Decorrem desse pÍocesso
orgànlzar respostas a esse pÍocesso. Frente à entrada no âmbito unirrersitário e à \ ('rrcntes): o modernizador, o fenomenologico e a intençào de Íupturâ. Os dois
societárianaprofrssào,
possibilidade que esse fato traz de aproximacão com outrâs áreas do saber, bem lrrir-neir<rs estão ligados a uma mesma perspectiva Presente
como com teorias sociais até entào desconhecidas pelo Servico Social, suÍge na ,lc'scle o projeto tradicional: o conservadorismo; e o terceiro significará, Ênalmente,

profissão a necessidade e o interesse da busca de uma sistematização conceitual :r clrrersão de uma perspectir.a emancipatorr^ no Serviço Social brasileiro.
e de aportes teórico-metodológicos para o trabalho profissional. E,sses três projetos desenvolr.em-se concomitantemente clurante as
E nessa busca que o Sen,iço Social se aproxima das chamadas Ciências ,lócaclas de 1960 a 1980 passando por um processo de disputa de hegcm<>nia que
Sociais, da Teoria Social de N{arx e de teorias das Ciências Flumanas como um sc clará em consonância com as condições objetivas pÍesentes nareal:.dacle. Entre

todo. Vive-se o pluralismo profissional pela primeira vez nointerior da profissão, 1965 e 1975, tivemos a hegemonia do projeto modernizador (em continuidade
rompendo com o "monolitismo ideal" existente até então e organtzando :r«r projeto tradicional); em um curto período de 1975 âté 1980, pocle-se notaÍ

diferentes Íespostas à realidade social. rrspectos de uma hegemonia do projeto fenomenologico; e, partn de 19'79,
^
lrpreseÍrtâram-se as bases políticas p^Ía, o desenvoh.imento do proieto cle
Quando afrrmamos que a profissã o orgànrza diferentes formas de dar
respostas à realidade social, falamos de seus diferentes projetos profissionais. ruptuÍa e sua hegemonia por toda a década de 1980, dando sustentaçào para
Dito de outra forma, que os profissionais, ao debruçarem-se sobre a realidade, sua conrinuidacle na elaboraçào do projeto ético-político, hegemônico p^rtrÍ
^
passam a ter diferentes compÍeensões sobre esta, sobre o que deve ser o Serviço cla década de 1990.51
Social e qual deve ser a sua intervenção, bem como sobre para a constÍucão de Veiamos a seguir os elementos constitutir.os dos dois proietos vinculados
quai tipo de sociedade querem contribuir por meio do exercício do trabalho ao corrservadorismo, ler.ando em consideração suas dimensões ética, pcllítica,
profissional e da sua práxis política. Falamos, pois, das diferentes projeções teórico-metoclologica e jurídi c^, poÍ meio da compreensão de suas respectivas
profissionais: a constÍuÇão de respostas diante do deuer ser, da imagem idea/ que se expressões na ética profissional, na oÍganrzação política, r'te- produção do
pretend.e a essâ profissão. conhecimento/propostas metodológicas e no aparato jurídico-político.53
E, assim, portanto, que suÍgem âs chamadas veÍtentes do Sen iço Social,
ou proietos profissionais, no pÍocesso que ficou conhecido como "renovação
do Serviço Social no Brasil", que segundo Netto foi: 5 .2.1 Proj eto modernizador

O conjunto de características novas que, no maÍco das constrições


da autocracia burguesa, o Serviço Social articulou, à base do
rearcanjo de suas tradições e da assunção do contributo de tendência O projeto moderni zador (ou vertente moderntzadota), como o proprio
do pensamento social contempoÍâneo, procurando investir-se como nome ü2, é uma moderntzaçào do projeto tradicional, não rompendo com este
institúção de natureza pro{issional dotada de legitimaçào prâtica,
em Sua essência, mas dando-lhe uma no\ra foupagem, ou Seia, tratâ-se de uma
através de respostas e demandas sociais e da sua sistematização

,, ,rrr., U,,,, Orrr-,rs ft,,,.0,. pr,,6ssi,,tt'. scri" ttab:rlhaclos no ptt'rxitrro capíruLr'


51. O que não significa que todas as tendências subsequentes tenham tompiclo com o projeto profissional até entã6 em 53. I,-ssas quâtr() dimensrics c surs c\prcs\a)us ti,r:rm discutid2ls c()nt() elcmcntos cluc compôem o clue se chamzr de proietos
er-idência, que incorporara os rzlores e princípios cristàos. profissionais no capírulo 3, atnda nâ Partc I destc lir ro.
c()lltiltr.ti(llttlC rlt'ssr'lrr.,jt't«), ('()nslitrritrrl., st. ltssinl. n() nr(.srlr,
lrr.,jt.l(). s()nl(.nt(. 'tr.,,r't\:t ,.(., l)rlr l;illlr), í) ,ltt,utl() l( ntt((, ,l,,ttlttt't:ttlo";ti ltlrrtlttl,r:rttlt't'ir)l'lll('Ílt('
c()m caÍactcrísticas m<;dernizadas. ,\nalogautcntc 1l() (lr.r(, st' r'ir,il n()
l):ri5 rr r,, l,tl:tt ttl():i rl,, 1rt,rit'lo lt;ttllt l,rllltl:
modetnizaçào conservadora )
esse projeto expressâ a moclcrni:z;rÇri, tl,,
conservadorismo no Serviço Social, ou seja, embora tÍaganovas bases na Srrscir ( ) .\'r,n,jút .\'rt,j,t/ lt,ttr/,:ttt .tt'// t(uii/t- /L;ittlto-jtt.t/ntutctt/rr/ t'olodo porct ttna
de sua cientificidade e carâtet técnico, mantém suâ posttrra conser\.a«lora, sclr rrrttu trl//ttt/it'tt ( 0t.'t<(ttti\(t/inr Ltt/tt'pt'o/aluittrlo ttrbttno, artictt/undo - m
,ttio o tli.çutr.ço ltrrltutri.çlo, nlcodo no.filosofia aislotá/iu-
romper corrí'as bases do surgimento da profissão. Portanto, uma continuiclaclc 1rr.r/iIt,t/it,,r rlt.ç.ç,r -
do conserr.adorismo e do projeto tradicional na profissão: f tittiiPi0.t rlu laoitt do ntodeniioç'ão presette us Ciêtias Socioi.ç.
/otui.ç/tr, (to.t
l,)ssc rrrrrtnjo tcririco-doutrinário oferece ao profisstonal um suPoÍte
tccnic«r-científico, ao mesmo tempo em que preser\ra o caráter de
Particularmente em sua orientação funcionalista, urnrt I)r()frssào 'especial', voltada paÍa os elevados icleais iie 'servico
esra perspectiva é absorvida pelo Serviço social, ao []orncm' (Iamamoto, 1.992: 21, grifo da autora)'

configurando para a profissão propostas de trabalho


ajustadoras e um perfil manipulatório, r,oltado p^ra .\ssim, temos o pÍoieto modernizador como uma continuidade do
lrroictc> tradicional conser\-ador acrescido do aprofundamento
de uma
o aperfeiçoamento dos instrumentos e técnicas paÍâ
rt'lc'rência teórico-metodologica mais claramente definidâ: o positir,.ismo,
a intervenção, com âs metodologias de açào, com a
'busca de padrões de eficiência, sofisticação de modelos (luc o coloca no lugar de "um pÍoieto Íenovador tecnoctâttco fundado
de análise, diagnóstico e planejamento; enfim, uma nrr l>usca da eficiência e da efr,câcia que devem noÍtear a produção do
tecnificação da ação profrssional que é âcompanhada ,'«,rrlrecimento e â inter\.enção profissiorral" Sazbek, 2009a: 119).
de uma crescente burocratizaçào das atividades Nele coloca-se como fundamental o inr.estimento fla sistematizaçào
institucionais' Sazbek, 2009a: rt.rlrica e a criação de metodologias científicas de inter-n'enção profissional'
1.48, grifo da autora).
\ssim, do ponto de vista de sua dimensão teórico-metodologica, er''idencia-se
Não se tÍata, portanto, de um no\ro projeto profissional, mas sim, uma ,rrn grande esforço na produção do conhecimento orientado pela descricào de
a ação clo assistente social, o que respondia
no\ra elaboração do mesmo projeto existente até então, ou seja, a revisão do 1.,r'ocedimentos racionais que orientem
proieto tradicional. Trata-se de um aprofundamento do projeto tradicional, com :r firncionalidade que the era colocada pelo E,stado atrtoÍrtzLrro burguês clessa época.

a continuidade no que se refere à sua ética profissional e à sua orientação Para Dantas (1978), ,* dos expoentes da produçào sobre metodologia
teórico-
a reabzaçào da descrição de um
metodológica com o aprofundamento da influên cia da teoria positivista, como l)lrra o Serviço Social nesta ôÍtca, era fundamental
veremos melhor aüante, e à sua postura política conservad ora, reafirmadora da rrrótcrclo proprio de trabalh oparz-o assistente social, o que enl'ol'u'ia o "diagn<istico"

l)ara uma "intervenção planejada". Tal metodologia terá


manutenção da ordem social, conhecida como projeto tradicional. seus proceclimentos
Segue-se, nessa época,o mor,,imento iniciado nas décadas de 19.10 e 1950 de lssim definidos e descritos no repÍesentativo documento de Teresópolis:
consolidação da profissão, com maioÍ preocupação quanto à sua teonzação
^gorz-, 1. Investigação-di agnóstico
e à cnação de metodologias de intervençào que respondessem às novas exigências
1.1 Levantamento de necessidades
profissionais, ainda com base na funcionalidade da autocracia burguesa. l..2Levantamento de variáveis significativas de cada necessidade
Sua dimensão teórico-metodológica, ou seja, os apoÍtes para sua
1.3 \'erificação da relevância do fenômeno
intervenção e a produção de conhecimento que reahza, eflcontru valtdação no 1..t Yerificação da interdependência das variár.,cis (causacão circular
acumulativa)
positivismo,Ítz- tentativa de trazer p^ra um carâter técnico e científico 1.5 Formulação de hipóteses
^profissão
que oriente a dimensão tecnico-operativ a d,o trabalho profissional. Prosseguem, 1.6 DeterminaÇão, com base nas Lupóteses formuladas: das funcões.
todavia, elementos da filosofia neotomista, em espec tal, no que se refere aos das escalas ou nír,eis de atuação, das formas de atuaçãcl

valores e à referência moral que informam sua dimensão éttca, bem como se Intervenção
2.1 Nlontagem do plano de intervencão nas r-ariár-eis
mantém sua vinculação âo pensamento conservador. Estão presentes os valores
do bem comum, da dignidade e da perfectibilidade humanas, sendo o papel
tl
2.2 Implantação e execução do plano (controle das variár'eis)
profissional o da condução do indivíduo e da sociedade nessa busca divina. 2,3 .\r,aliação (confrmação ou inlrmacão das hipoteses) (CBCISS,
1986:68).

l.'}r
Nollr st' ('l:lt':ull('lll(. :r itlt.rrlttltrtlt. tlt.sst. ttlro tlr.
l)tr)f(.1() 11.,,írsst,,rrlrl
c()m () ma't()d() l)()sitivistll (lLl(', l)1ll:lt ('onrlrrr,r.rrtlr,r'rr l.t.:rlirl:rtlt,. rrtiliz:r st.tl«r :l
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l,l ll,]l'li,i l,,l ,:
empirismo, buscando, assim c()1Tl() nas ciô'ncilrs rrrrtlrrlris, ct.l-ciu- s(.r.1 r»lrjct«r, ln(lt\l(llt.lt:.,,1, r,,rilll|,, r lil,,illllt({)(s il() stttllrlo el() clc'stttt'()lVitllctrltr
podendo comprovar cientificamente seus estuclos expl«rrat<irios. Ncssl «itic1, rt ll( lSS. l()8(,: il"ir'
a ciência deve servir pàra descrever os fatos e, ao estudá-los, prcyelrir as
causas de desajustes, visto que a sociedade, eriquanto corpo harmônico ,\ clc clcscnr',,h'irtrcnt() equi presente terá r'inculação direta com
rr«rcà«r
teria
uma estrutura sem contradicões, que poderia ser diagnosticada, classificada rrrpa rcfcrô'ncia política clc integração e harmontzacão das relações sociais, bem
e
comparada, criando modelos que sempre se repetiriam. ('()1rr() c()m a n1;çào c]e desenvoh,imento defenclida peia autocrucia burguesa,

Nessa direção, a realtzacão do diagnóstico social ganha centralidade n9 claro contexto do processo de modernização consentadora. O
rgcftr iss<t
metodológica, como forma de investi gar a realidade do indivíduo para rrabalho com gÍupos e comuflidade,, hegemonicamente, tefz por objetivo
poder
pensar a interYenção sobre as causas dos desajustes e patologias. O uso possibilitar ao indivíduo tal integracão.
de
tal recurso está totalmente vinculado à teoria positivistu .* ,rJup...nsão Desta forma, a açào do assistente social vincula-se à adequaçào clo
das
causalidades, de maneira rucional e pelo uso de técnicas específica., ilclir.íduo à realidacle social em uma ideia de desenvolvimento, QUe, na lógica
, fim de, ao ordem e à harmonia social. Um desenvoh,'imento
estabeieceÍ as câusâs, poder reahzat os tÍatamefltos . ud.q.ruções.5+ 1-rositir.ista, está r'inculada à
Retoma-se a metodologia de casos, Grupo realtzavel por meio da integração social, consert'ando o que está posto, em
e comunidacle que
mencionamos n() item anterior. Âos poucos ela será aprofundada desvinculando- Lrm compromisso com a ordem social \rigente. Como podemos veÍ, não ha o
se lentamente clos elementos católicos e retomando a centrajtdade rompimento com o projeto tradicional, mas sim seu aprofundamento e re'n'isão.
da r.ertente
positivista, o que ocorrerá mais fortemente na década de i920. Em todas as Podemos norar claramente essa referência na definição de Vieira quaÍlto
abordagens dessa metodologia apresenta-se sempre, como fim da interr.encão aos objetir.os da profissão, registrada em um de seus li-"'ros que faia sobre a
profissional, a questão de sua contribuição nos processos de integração do rnetodologia do Serr-ico Social:t-
indivíduo paÍa o desenvol'u'imento, como podemos obsen,ar nas definicões
presentes no documento de Ãraxa e no texto de vieira:
:.*:T 3il:l;' .lX ilffi :tr;^',::':i ilH : {ilJi:;i#l
cumprindo seus papéis sociais, o colfeto e
Portanto, a<lequado
[...] ..
empÍega o Sefi,,iço Social de Caso Junto a pessoas com "ftltciortotueulo .çocia/'. [...] -\ Senico Social é solucionar
finalidzrde do
problemas e dificuldades de relacionamento pessoal e social, ou os problemas sociiris clue constituem um obstáculo à cura, :i
seja, de inter-relacionamento sociai, reconhece-se a r.alidade de sua reaclaptação à sociedade, ou íro aproveitrmento do ensino §'ieira,
utüzação [...] .- ser'icos especializados e/ou de sua adequação ao 19BB: 30-116, grifo da autora).
nír''el da execução de programas amplos, de modo a integrar-se no
pÍocesso de desenvolvimenro (CBCISS, 1986: 33).
Permanece a compreensão sobre a questão social eflquanto problemas
o Serviço social de Grupo é um processo de serviço social que, individuais, desajustes ou patologias que der-em ser supostamente corrigidas
através de experiências propositadas, visa a capacitar os indir.íduos ef ou tratadas por meio da atuaçào profissional, portanto, em uma peÍspecti\râ
a melhorarem o seu relacionamento social e a enfrentarem de modo
conserr.adora (e moraltzadora) que Íemete a profissào a Íespoflder às expressões
mais efetivo seus problemas pessoais, de grupo e de comunidade
(I{onopka, 1963 apd CBCISS, 1986:34).
da questão social com ações pontuais de enquadramento e aiustamento dos
indivíduos, propondo, assim, ao SeÍr.iço Sociai, uma inten'enção corretiva e
set objetiro pindpa/e o mesmo do sen'ico Social: upacitar o intliuírlrto preyentiva junto aos desrrios e desajustes compÍeendidos como questão social.
para um corretofundonamento socials'ieia. 1988: 1,62, grifo da autora).

Âs funções do serviço Social de DC fDesenvoh,imenro de

54 "I)eterminâr as causas clue respondem pelo problema é, er-iclentcmentc, cliícil, considerada


a narural complexidade clo
diagnóstico. Delem porém, ser buscadas de modo suficientc" (hfoLrri, s.tl. apucl (-atr-alho,
1991: 10).

I \ l,'
\ lt'lt',lr»1'1;1 ' tlt':lst' l)t'()l('lr) ,rl)í),r,r, ,r:.:.rrr,
l,,rr,t ,r ( r)rrrÍrlrrrt,;r, ,rr
1'lt'«rt't'ss, tlt' tlt'st'ttt'r'lt'itltt'ttlt.' rl,, lr;tts, () (llr(. srl,rlÍr( lr ;r ( (),rrr.tlrrrrt,.;tr» ',,,:,,',::",:,': ',),', ,' '.;1,,1,"1i,..,,1"..'ll
rt:r :,',,',, .',,',",,,1 .l,i', i,']l],;l
manutctrçà<> cla ,rclclll s,cittl ''1,,,i,1,,,.
s('r)) (J.('sri( )Íl:lal(.Ílr( )s rr, r
ditatorial da época' o grancle-firc,, 'iut'ttlt'. r)r.( )r.(,ss( )
:lll,,i,i;il ::,:.' ,1,'li:',,;,il',. .ll,,l',']'li[],1:lli.'],1]il:::]:;lI;l:[T'::
clacl, 1-rcl«rs 1rr'«rfissi«rrruis .,irr<..trl,rl,)s
,:1:
referência foi a necessidade cle criacà, 1r (,ssir (( .lJ( .lSS. l()l"i(,: { li.
clc tc.rias c r,.crcl,s crc i.tcr'c,cli<r
mais eficientes diante da requisição --^:""
do moment.. p.crem.s afirn1âr, assltTl! cluc,
"o núcleo central desta perspectir,'a é a ,\ilcla lrcssc mt3smo documento, ao falar das "funções do Seru'iço Social"
rcmaúzaçào do sefi,.iço social coln()
inter'eniente' dinamizado. . integrador do processo de desen'oh,imento,, (' ir() ()ricntar () det'erser ao profissional, destacam-se:
§etto, 1,994b: 151).
são expressões dessa dimensão teorico-metodorógica .\'crt,jto.ç de ateriliruetrto direÍ0, t'orretit'0, pret'attlit'o e proruociotttt/, de.rlirudo.r

moderniza<1or, dois importantes do projeto à ittdit,irhru.r, grurpo.r, rctnrruiclade.r, popilacões e 0rgoiliYcõe.ç.'trabalhar com
documentos, aqui já citados, produzidos indir.íduos que apreseÍltam problemas ou dificuldades de integração
período como fruto nesse
da organ ização p.rlíticá e dos debates social. atrar.és de mobilização de suâ,s potencialidades individuais e
pelos r ealtzados
assistentes sociais
,ro, ...ortros que ocorreram em 1 967 de utrlizacão <los ÍecuÍsos do meio [...] contribui pat;a. capacitar a
1970 (em Teresópolis)' Eles dem (emÀraxá) e em comunidade a integrar-se no processo de desenvoh.'imento atrar'és
arcam um registro importanre
do conhecimento e pÍopostas metodológicas da produção da ação orgarizada (CBCISS, 1986: 28' grifo do autor)'
,.-rrm décadas. Teve reler,ância e
protagonismo nesse processo uma entiduá.
qr. foi responsár,el pela organrzação Os dois documentos ttarãr>, em vários momentos, a afrrmacào da
de diversos eventos (entre eles os
dois acima citados) e pela sistematização
conhecimento na profissão nesse do cgntribuição do Serviço Social ao processo de integracão e desenvoh'imento
período: Brasileilo de coope raçào e
Intercâmbio de Serviços Sociais, o 'cenffo sgcial: "neste sentido, a categoria profissional, pelos seus segmentos
CBCISS.
os dois eventos referidos foram encontros (representativos) que construíram as formulações de Àraxá e Teresópolis,
de profissionais que, imbuídos
da busca de sistem mostfou-se muito bem sincrontzada à nol'a oÍdem" §etto, 199tlb: 167).
^tlz^çãoe
técnico e científico,
da necessidade de tentar
a um statusàr...ur;;.*;ro Àlem desses dois momentos importantes de oÍga;nrza.çào da categoria e
prodaziram tais documentos craramente
do proieto tradicional' Eles apontam: modern izad,ores claramente ÍepresentatiYos desse projeto modernizador, com claro propositcl
os valores ereitos para justi ficar
profissional; um método de lntervencão; aaçào do cle rer,,isão teórica e metodologica da profissào, resultando em produção do
e umâ direção ideologic a e poltttca,
de acordo com as referências conhecimento e elaborações metodológicas, ocorrem ainda outros processos
que temos apontado,
o positivismo e o pensamento conservador, ou se;.a, u eíir^tradicionar, político-o Íganrzati-vos que culminam em ret.isões da legislaçào existente e na
todos enquanto esforços de criacão de novas legislações e documentações. Esses mor.imentos, de produçào
manurenção da sociedadc capitalista
vale salientaÍ que os referidos teórica e de criacão de novas legislações/documentaÇão, expÍessam a busca de
documentos foram escritos em pleno
processo da ditaduramllttare, no entanto, modernizaçào da profissão, sendo mantido um viés conseÍt'ador.
não ffazem em seu conteúdo
menção, análise ou reflexão sobr nenhuma F,m 1,962 é assinado o Decreto Federal n" 994, que regulamenta a Leí
demons úando a rererência
que
nome da cientificidade, reforçando
ffi ';:H:':rL"-ui';, :::::Iffi ;::* n" 3.252, d,e 2l de agosto de 1957,58 criando os Conselhos Federal e Regionais
cle Àssistentes Sociais (CFÀS e CR-ÀS), os quais terão como pÍeÍrogatrY^ ^
a ideia da contribuição do serviço
desenvolvimento do país por meio social no clisciplina e a fiscalizaçào do exercício da profissão. E,mbora tal regulamentação
de sua competência tecnica e buroc
Conforme expÍesso no proprio documento ráúca.57 signifique um passo importante no pÍocesso de consoliclação do Seru'iço Social
de Araxá:
e clo exercício profissional, nesse momento, o CFÀS acabara incorporando a
ideologia da autocracia burguesa, funcionando em uma perspectir,'a conservadora
diante da hegemonia do projeto modernizador, cumprindo fielmente o papei
t' de teleologia c sua relacà. com os
prr-,iet.s ptofissi.nais
i^J[,:rT:'!*""t- 'er a paÍtc I deste lii-r., em especial os
57. \'ale registrar que em 1961 har_ia
i^ ocorrido ,

H",li*:ffi1ru::,l;,.;i*:r;:;.;^;;iii:[]*ffi:l:fli.;á,fi[:.;:;§'J,'ü:;':',.',::;;

t41
rl ('l(' :rtrilltrítl, 1lt'1, l',strttl,. ,\ssilr). "su:r tr':rjt.lr'rri:r
ltl,,:. t,rrst.llr,s lr.rlt.r.:rl . ;rr,rlr:,r.1()n.tl lrrrr,l:rtl:r. rt',,1,,r1,1,r.1,r , t ttt,
ttl:ttllt :t t'sst'llroit'l«r soCit'llit'io tttltlot'.
rcgi,naisl firi t-uarcada pcla rcprrcsszi, c pcl, c(xrtr()lc irk'rl«igic«r
rlr l,,sr:rrl,, No t.trl:lnlo. tlrl ltt'1,,1',,1( )ntlt ('nll':u':l ('tttiltlt(':lCll tlilttltc clc t>tttfas fefefêficias
ffuncionando] como uma entidade repressivâ, controladora e bur.cr-ririr.;r" (lll(' ('()t't l(.( it\':illl 1t t,.iurlr:rr t's1',:r(() n() itttc't'i«rt' cl() ser\'içcl Sclcial, demarcand<>
(ÀBESS/CEDEPSS, 1,994a: 10, grifo do autor).5e
:,url l)osicri«r ('ln ('llc()lllr()s, clcl;ttcs c producà<l do conhecimento. "[...] o que
T[ês anos depois, isto é, em 1965, esse conjunro de entidades
(Clrr\S/ .t'r,t,r'iíit'rr ['t1rrc, uraclnalrlcnte, ela perde ressoflância nos foros de discussão
CR,{S) é responsável pela elaboraçào e aprovacão clo II Codigo
d. Eii.n a,,, (.n)(,r's(,nr(.s c rlÍls rxesmas instâncias/agências profissionais que antes eÍâm o
Âssistentes Sociais, que expressa claramente uma orientação
.o11 base n<r :,\'t /o(//.ç clc promoçào e divulgação" §etto,1991b 19'1, grifo do autor).
neotomismo e no pensamento conservador, comoveremos mais detalhadamentc
liaçarn<>s agora uma brel.e parada para retortaÍ o que vimos neste item
no final deste capítulo.6o
s,rlrrc o projeto modernizador antes de seguirmos parz- () conhecimento clo
Âlém dessa expressão de sua dimensão juÁüca(o codigo), são
aprovados ( )rrtr() proieto que expressa ainda o ConseÍ\'adorismo na pfoÊSsão:
também nesse período dois currículos mínimos pâÍa os
cursos de Serviçcr
Social (1961 e 1,970), que apresentam a continuldàde da
perspectiva iniciada
no currículo anterior. Âssim, enquanto projeto pedagogi.o.
.*pressão de um
proieto profissional, esses dois currículos, em .ontinuidade
ao de 1953, mantêm
â mesma orientação com a centtalldade nas clisciplinas
específicas do Serviço Uma das projeções de det'er ler n pro{issão no contexto da
Sociai na chamada metodologia de Casos, Grupo e Comunidade,
expressando o renovação do Sernico Social brasileilo, situada como proieto
projeto modernizador na busca da cientificidade da profissão hegemôruco efltre as décadas de 1960 a' 1'91(.) em continuidade
e do fizertécnico,
com a supervaloÀzação do ,.saber fazer,,. 'i ao projeto traclicional. -\presenta-se como uml no\-a vertente de
Em 1976, ocorre o II CBSS, também promovido pero cFÂs, tendo elaboração do conservaclorismo na proÍissào, expÍessando a
por temática central "O assistente social no desenvolvimento social,,, modernização do tradicionalismo até então existente. Sua
teleologia aponta p^r contribuição do ordenamento e da
demonstrando atnda a direção política cla catego na atrelada ^
à paticipação no integração social, reafirmando ainda a proposta capitalista.
desenvolvimento nacional nos moldes da ditaclura m7l1tar,(,1o, Sua dimensào ética pauta-se em l.alores humanista-cristàos,
,á1u, uma direção
política conservadora comprometida com a manutenção do com base no neotomismo, tendo como referência a busca da
status quo, que será
questionada no proximo Congresso da profissão em 1,g7g,como perfectibiüdade humana e o bem comum, expressando aindzl
adiante, quando da perda da hegemonia clesse projeto
veremos mais o peflsamento conserrzdor. -fem como referência teórica
modernizador. o positivismo (ainda com resquícios da doutrina social da
E'stas são as expressôes das dimensões ética, política, Igreia), que lhe tÍ z visão do Serviço Social como proÍissào
teórico- ^
metodológica e iurídica pÍesentes durante mais de uma d,ecada que contribui para a correcào c prevencão da questão social
de hegemonia
do projeto modernizador no Servico Social brasileiro. Flegemonia no enfrentamento aos de-*aiustes e desequilíbrios com vistas
que se dá à integração e ao reenquadrameflto dos indivíduos atravós
em coerência com o projeto socialmente hegemônico ,.rr.
período no país: de propostas rnetodolóp1cas de intervencão cientificamente
a autocracia burguesa. Trata-se, portanto, de uma hegemània de p.oi.,o planejadas e elaboradas, com ênfase na metodologia de Caso,
Grupo e Comurudzrde, o que se expÍessaÍá no direcionamento da
formação profrssional comr.istas à sua tecnificação. Politicame nte,
'ut'
tt'u.) .,.,.arír,,ao, apenas dtrs crrnsclhos de Serr-içr> socinl. ,{ criação
dos conselh.s 4esde a era vargas expressa sua r.inculacão à proposta societária capitalista, tendo
" """ marcada
será pelo esctcício de luncôes legalistas c burocráticas. ()s conselhos ,,sào
frutos dirct. 6o 6esenr-olr-imcnto em seus congÍessos e entidade da categoria debates e produção
capitalista' precisamente.quandu tal mt'do dc
rrÍí)cluc;o passou a,lemzrnciar a criacão rle fcrrmas <ie interr-encão c.lo Estaclo de documefltos que apontam na direção de atitudes fundadas
sobre as rclacries sociais,,
@raz,200lb: 61.).
60 vale lembrar que nesse mesmo aÍ'ro esta\-a acontecendo
na lógica do aiustameflto, flâ urtegração e no desenr.'olvimento
o J seminário Regional Latino-Americano de Sc^-ico
social
no Brasil) que aponta\-a paÍa outra tefetência prrfissirnal e riria do bem-estar social, indicando o enquadramento e a adequacão
ltit!é,, a ser reconhecido na histírtia como o maÍco
inicial do mor-imento de reconceituaçào. Tal fatc.,,lem,r-rstra
o quânto. m.vimento de rec.nceituaçào,ào conseguiu do indiúduo à sociedade e suâs normâs. Em sua dimensào
(pekrs fatos já citados pí'r nós) descn'r,h-er se n. Brasil
nesse pcrí<rdo com as mesmas características apresentaclas
no jurídica, tanto no Codigo de Etica de 1965, quanto na lei que
restanrc Ja \mérica L.rrina.
61 E'm
cria os Conselhos da profissão (1962) e nos dois currículos
1'9 r-4 occttria o I (longresso Brasileiro
de r\ssistentes Sociais (cBÀS), o primeiro a ser organizaclo pela
Destacamos que, nesse cong(csso, mais uma r-ez não cFÂs. mírumos (196,1 e 1,970), expressâ o tecnicismo, cientificismo e
se coloca em <iuestão a autocracia burguesa e o processo
ditatorial
tir-ido no país. conser"adorismo próprios desse proieto.
5-2.2 Prtlict«r Ít'tr«ttrrctrol«igic«r (otr rlc rclt rrtlizrrçire tlg (' llt'list:rs) (' tllt lt',rt';rr ( 'ltloltt':t (r''ttt
s('l( )l'('s
conservadorismo) cspccitl os ligaclos r\ f'etrlrtgt:1.9:l LiP:.tl*ç"tg),
Vào scndo gestadas as condições i:1.

possibilitadoras da críttca da modernização tti.

E'm meados dos ânos 1970 r.ive-se mundialmente outra crise .o.rrerl,adora brasileira. Em termos de §
capitalismo. chega ao fim a"longa onda expansiva,, do capitai que
cl«r
Serviço Social, serâ aí também que se \:\
t:::
agÍegou os
modelos de produção e de Estado fordista-kevnesiano. Tal rnod.lo encontÍa gestam as possibilidades da cúttca ao proieto ..:

seu exaurimento e não consegue se manter; produção, consumo e moderniz ado{3, sendo otgantzadas outras \...

políticas referências rlo seio do Serviço Social nesse


sociais não podem mais seÍ sustentadas cla mesm a maneíra:
período, fortemente influenciadas pela
O tensionamento das estruturas sociais do mundo capitalista, entrada <1o Serviço Social nas universidades,
tanto nas suas áreas centrais como periféricas, ganhou umâ flova o que possibilitclu sua interlocução com âs
dlnâmica e gestou-se um quadro favorável paÍa a mobilização das chamadas Ciências Sociais e outras áreas do
classes subalternas em defesa de seus interesses imediatos
iN.,,o, conhecimento, em especial a Filosofia e ^
2005: 07).
Psicologia.
Um clos frutos desse Processo é o
No
Brasil, vive-se o início da derro cad,a da ditadura militar, fruto
da crise econômica de um "milagre" nào ocorrido, com üm alto índice chamado proieto de rcatualizaçáo do
de
endividamento exteÍno e interno, a crise do capital internacional e a resistência
conservadorismo §etto, 1994b), ào qual
também nos referiremos, aqui, como proieto
política mantida pelos movimentos no período. Instaurava-se, aind a, trma
fenomenológico.('+
crise dentro das próprias forças armadas, efltre a chamad,a *Itnha-duÍa,,
e Como fr'ca clarumente evidenciado na
os militaÍes que desejavam a "democ tacia conserva dora" e a retom
ada d,a denominação cunhada poÍ Netto (1994b),
hierarquia (Fausto, 2OO3).62
esse projeto rcaltza uma rc t:ua.hzação do
Embora tal processo - inicialmente chamado de distens ào jâ estiyesse
- conservadorismo presente fià profissão
em cuÍso e tenha sido planejado, p^rtir de 1974, pelo governo de
^ Geisel, desde o proieto tradicional. Retoma desse a
de forma "lenta, gradual e seguÍa", ainda nesse período as torturâs, moÍtes
r.inculaÇão com a doutrina sociai da Igreja e a
e invasões continuam ocorrendo, a exemplo do jornalista Vlactimir
Herzog, defesa de valores conseÍvadores e tradicionais,
assassinado e declarado como suicida em 1,975; meses depois,
o assassinato com ênfase na centralidade da pessoa e na açã'o
do operário Manuel Fiel Filho em situação parecid,a; e,.- 1977, ainvasão
da profissional por meio da altda psicossocial'
Pontifícia Universid ade Católica de São Paulo pelo então chefe da segurança
púbJica do Estado de são Paulo, o coronel Erasmo Dias.
Tais situações foram ampliando a comoção sociai e a indignação em às expectativas (le ()utÍas referências em cuÍs() no Serrrçcr
ó3. Segundo Nett(), () pÍoieto moclernizaclor não mais atenderá

relação à perda de liberdade civil e de direitos humanos básicos. social, de duas maneiras. Por um lado, "seu traço conser\'âdot
c sua colagem à ditacluta incompatibilizam-na c()m os ir
no próximo capítulo Por ()utro, "Seu conÍeildo ret'omtista [ )
O incômodo segmentos críticos [...]" §et«), 1994b: 151),como \-cfemos
às mais retustas ttadicircs do SetÍiço Social, tesiste ao
t

com negação da liberdade atingia não mais âpeflas os movimentos


a não aten6e às erpectatiras clo segmcnto profissional qr", oga.rodà t

organizad,os, o estatuto e a funcionalidade subalternos historicamente


mo\.imeflto <1e laicização oc()rÍente e se recusa â {omper com
I
i

mas os formadores de opinião, setores da classe média (em especiai assumidos pela profissão" (lbid': 156, grifo do autor)'
i
intelectuais I

dos três projetos Pfescntes no molimento <.le tenrrYacàr'' em nossr)


I

64. Em sua cleliniçào, Netto (1994b) âPfesefltaÍá o Íl()me


tradicic,nal, assim temos: a modernizacão do ptojeto tradicional'
I

entencler, sempÍe teferencianclcr-os em relação ao ptoieto I


i

reatualizacão e a intençào de ruptuta .u- al., com<, .-ert"ntes desse mor-imento Não nomeará' PoÍtanto' cada 'rm
sua I

t.r-,d,r.à..,,, referência seus elementos teóricos ou filosófict>s, o que nos percce rssertirt' e
62 "cm oficial de patente inferior po<-lia controlar infirrmac<)cs, rlecidir <la r-icla clos projetos 1o.,.-"rt.r-rt.rj I

ou morte de pessoas conforme sua rnsercào no efltanto, entendemos que há uma nomeação rcalizada pclos próptios profissi<;nais que fun<lam I
coelente. Nesse caso, I
no apatelho repressiro, sem que seu superior na hierarquia militar pudesse Serrico Social", uma prop()sta fenomenológica, explicitamente I
contraÍiálo. i...1 lro.u restaurar a hierarcluia, esse projeto, entendcnclo-. como "uma Í1o\-a pÍoposta ao I
toÍnaYa-se necessáric) neutralizar a linha-dura, abrandar a repressào e,
ordenadamente, promo\-er a ,r-olta dos militares aos materiais da época. Assim, elegemos aqui a utilização tanto do
I

assumida poÍ esses ptolissionais em todos us te^rtrrs e I


quartéis"' (1.-austo, 2003: 49O,grifo do autor). definidores desse mesmr-' prt'jetrr' I
termo reatualização quanto clo tetmo lenomenológico como I
i
I

i".,.
I l4)
l,.ntll«rrlr nl,lntr.'rtlrlr :l ln(.Stn:l llr.r.s1rt.r.lir;1
l)()llll(:t t. t,ltr rr I)t.(.s(.nl(. n() ll,ntl,, )t'11 (.sS(' l)t( )l('lí} lr'nr )lll('lll)lr »1,,lt r ) llil( ) s(' ('\l)l'('S.;(' ('lll ttt'ttltttltt tlos
llrojcto tracliciotrill c 111l sull nrorlcrrri:zilÇà«r, «rrr st.jll. n() l)r.,jr.l, rrr,tlt,r.,iz:rtl,,r.. t-rrrr-ít-trl,,s rnirrirrr,,s tl,r St'r'r'tt,o Sot'rrrl. lrli r'llrt'lttttctttc'tl1ll iltvcstitrrcllt() 112t stlâ
o fenomenológico distingue-se c()lnplctanrclltc n() qLlc sc rt'ti.r.r'às ssls rlitirsrir) l)()t'lrrc'i«r rl,,s 1',r',)('('ssos tirt'ttrlttivos, cxpfessând() certa ênfase à sr-ra
dimensões teórica-metodologica e jurídica, aprcsentando ulra n()\'a pr()l)rsicà, clinclslje tc«irico-metockrkigicir. SLla mai()Í expÍessão está em "textos dirigidos
quanto à ataação profission al, atnda apontancl o para uma mesma teieelggia: rr ac> públic() profissional, reses e cursos direcionados para a gra.duação, a pós-
contribuicão do seru,iço social na manutenção d,o status qtru. gracluação e a reciclagem de assistefltes sociais" §etto, 1.994b:201).
Diferentemente do proieto moderntzad,or que conquistou hegemonia n61 Compõe sua dimensão jurídica o III Codigo de Etica (1,975), como
lastro de dez anos no interior clo Serviço Social expressando-se fortemente no \reremos no pÍoximo item, expÍessando uma ética profissionai traücionalf
jurídico-político e na produção do conhecimento nesse longo períoclo, conseÍvadora, retomando elementos do projeto tradicional na sua vinculação
^p^Í^to
o projeto fenomenologico nào terá esse níl,el cle expressão e demon strará com a doutrina social dalgreja Catíltca e embasâdo no neotomismo em uma
sua hegemonia mais claramente no que se refere aos espaços acadêmicos,
na conexão com aspectos do peÍsonalismo: "[...] é um ÍegÍesso ao que há de
produção do conhecimento e na criaçào de uma metodologia orientaclo ru da tradicional e consagrzLdo n
herança conseÍvadoÍ^ d^ pÍofissão: a recuper^çã,o
práttca profissional, nomeando-a como "teoria da inten enção social" (CBCISS, de seus talores universais' e â centrahzaçã,o nas dinâmicas individuais" §etto,
1986), fazendo-o por um curto períoclo no Brasil, de meados dos anos 1970 1994b: 21,6, gnfo do autor).
até 1979, nào apÍesentando forte expressão do ponto de r.ista da organizaçào . Sua constituição no seio do Serviço Social significa â Íecuperação do
política da categoria.í'5 tradicionalismo atÍa\'és da crittca ao pÍoieto modernrza.dor e da oposição ao
Tera apenas destaque em um dos enconrros promovido pelo CBCISS projeto de intenção de ÍuptuÍa. Opôs-se à referência cÁttca que'enfattz^Y^ a
(posterior a Teresópolis) em 1978, em Sumaré. Nesse mesmo evento, também, dimensão política do trabalho profissional q ^o mesmo tempo, contrapôs-se
será elaborado um documento que busc ara realizar algumas sistematizações explicitamerrte ao tecnicismo e âo pÍagmatismo do proieto modernizador.
sobre o Sen'iço Social e seu papel na socieclade, no qual tal projeto terá Àpresentarâ um críttcr-ruücal aos padrões teóricos do positivismo e a
grande influência. como estes se tÍaduziram nas pÍopostas metodológicas P^Í^ o Serviço Social.
Além dessa única referência de espaÇo de debate e reflexão e de A crítica se apÍesenta cefltràImente em torno de dois aspectos: "a compreensão
organizacão política dos assistentes sociais, sua expressão ficará mais r.oltacla causa[sta e â assepsia ideológica do conhecimento" §etto, 1.991b:205)'
à
produçào do conhecimento, em especial no âmbito dos cursos de pos-graduação O livro de Ànésia Carvalho, de 1,991,, é uma das claras expÍessões da
recém-inaugurados no Brasil. Uma de suas maiores expressões é a chamada críttcaao positivismo. Trata especificamente da entrer,'ista, propondo desde seu
"nova proposta",6(' elaborada por Âna Âugusta de Âlmeida. posteriormente título a âpresentaçào de uma metodologia específr,ca de entrevista com base Írâ
as elaborações de Pavão (1988), carvalho (1991) e capalbo (1979;19g.t),
que fenomenologia. Para fazê-lo, a autora,p^rtff^ da cnttca âo causalismo, propondo
também versarão sobre tal proposta metodologjca'l,irão confo rmara dimensão em sua contÍaposiçào a compfeensão. Na introdução, |ê-se:
teórico-metodologica desse proj eto.
Distanciando-nos desta literatu ra ctenúftcÀ buscamos neste trabalho
elaborar reflexões sobre alguns dos inúmeÍos aspectos ou dimensôes
de uma entrevista, em serviço Social, inspuada em uÍn pensamento
6-5 "Dado significatir-. qllanto
2l est2r \-cÍtente da ren.r-acào prrfissi..ral é a sua rclatir-a
sc operam no interior do Serr-ico Social no Brasil. Instalada erplicitamente
irusôrcia .:r agend:r c6s debatcs que não causal, o fenomenológico, cujo quadro de referência náo é a
no unir-ers. 6,s assistentes s.ciais dcs6c
meados dos anrls setentâ, csta ditec:io do descnroh-imcnto ptofissional nào explicação mâs a compreensão (Can'alho, 199 1' : 1'2)'
regrsrrur, c()m() ils duas ()utras gu(j c()l1stltuem
o PÍocess() dc rcnorzçào da pro6ssào, uma polêmica accse t:m tornrr das suas
proposicires" (lbi6.: 159).
66 "Illaborado.ro
debate entre essas duas referências atÍavessaÍa toda a publicação,
âmbito unir-etsitário - foi a tese de lir-re-docência da autora, aprcsentarlzr
c.ntrári.de uma c()nstÍucà() episódica ele cristaliza uma experiôncia cle Serr-ic,
em j:rneirc de 1977 [...] a.
S.cial quc crbre clócadas 1...1 entendcm.s
O
mcsmo, <1ue cabe ti autora a f<rrmulaçào seminal desta rertentc Ír() pr()cess()
de re111r-acà,r c1.r Serr-ic. S.cial brasilciro,, reforçando a defesa do uso da entrevistâ na açã,o profrssional eÍ1quaflto elemento
§etto, 1994b: 227).
67 Vale obsen'ar que emb'rr:r c\sa ProPusta seje anunciada p()r
fundamentalpara o estabelecimento do diálogo e) apartfu dele, a compÍeensão
seus Íepresentafltes coÍn() uma pÍ()po-§ta tin.menrkigica,
estes nào recorrem diretamcnte a()s autorcs clássicos da lilosofia fenomenolrigica
(l Iussetl, t i"ia"gÍ.., ou Schutz), c.m da subjetividade do "cliente", elemeflto central da pÍoposta fenomenológica
taras ercecões, incotporando tal referôncia atra\'és de interpretacr)es e fontes
secun<]árias c singularizancl()-es com()
elaboraçâo prcipria ao Serr-ico Social na criacão de ,-u par^ o Serviço Social.
-et,,J,rl,rgria de interr-encào. Valc obserr_at também, que mesmo
em termos c.le Êen.menologia n. seio da Êlosofia e da psicologia, ,"-,,,
di[crcntes interprctacôcs c \ ürteflte s cle análise. Assim, tal metodologia pÍopõe que no lugar da busca da explicação

ll
rl«rs Ír'nr'rrt)t'nr ls (sult (':rusrllitl;rtlt'). l)us(lu(, s(. su;r ( ( )il rl)l(.(.rr:\;r( ) :r
l):ll rll (lr )

pr<iprio sr-rjcit,, «rLt scitl, ttti, tllt c«rislr t'r» si, r'rrlrs tlt'('()nr(, t'l:r t: (.()r1l)1.(,(.Írrlirlrr
t.
i;l:,']';iill i,;j ,'l;:l ;':,,,:,lr;;;;l:l;l:':':.."'ll''''l' ''lli..l'i
-'
vivenciada internamente pe1, sujeit,. Nà, ['a cxplictçu, rl<) (lr.r(.Írc()rÍr,(-(.., p-rirs
a compÍeensão de como isso está acontecendo no sujeitr>,
clc modo a possil;ilirar Scrvic«r Sociirl. rtssirn. sc propr)c a um desenvolvimento da consciência
a esse sujeito seu autoconhecimento, tendo, assim, o assistente