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Um conto quase de fadas

Felizes para sempre?


Livro 3 – Trilogia Um Conto Quase de Fadas
Widjane Albuquerque
Copyright © Widjane Albuquerque
1ª edição 2017
Todos os direitos reservados
Revisão Evelyn Santana
Capa
Diagramação
Dados Internacionais De Catalogação Da Publicação
Albuquerque, Widjane;
Trilogia um Conto Quase de Fadas – Feliz para sempre?
1. Literatura Brasileira. 2. Romance 3. Título
Sinopse

Com minha própria mão, por pouco arranquei meu


coração do peito. Sofri a imensa dor da quase perda, tornei-me
um homem desesperado pela culpa. Eu havia matado a parte
mais pura e linda da mulher que eu amava, que ainda amo.
Por tantos dias eu lutei contra a loucura da saudade, fui
oprimido pelos meus desejos até que pude tocá-la e finalmente
viver de novo.
O amor que ela sentia por mim fez com que seu perdão
acalentasse meu coração magoado, a própria alma bondosa e
temente a Deus que ela tinha a trouxe de volta para mim. Eu
me vi feliz, pleno. O mundo parecia até mais bonito. Através de
seus olhos eu enxerguei a verdadeira essência da vida. Aquele
poderia ser o ponto final.
Mas não foi.
Em um dia qualquer o pior aconteceu, eu fui esmagado em
meio à desolação e destruição. Não restou nada, eu não era
nada. Eu vivi para me lembrar do grande amor da minha vida,
apenas isso.
Nem era vivo de fato. Apenas respirava, sem querer fazê-
lo.
Até que houve uma luz e ela me tornou um monstro
temido por todos.

“Eu prometo que minha vingança jamais será esquecida e


que meu rosto será o último que ele olhará, eu juro, por minha
honra, por minha vida e por meu sangue.”
***

Recomeço

Por que é tão difícil recomeçar? Por que nas noites frias
nosso corpo sente falta daquele abraço específico? Na noite em
claro sentimos falta daquela simples troca de mensagens, ou
em um dia de tédio sentimos falta daquela ligação dizendo “Só
liguei para ouvir sua voz”.
Minha mente, querendo ou não, lembra as viagens, o calor
de seu corpo, sua voz em meu ouvido e o som de sua risada.
Seria possível um recomeço sem você ao meu lado? Porque
diante de todas as coisas ruins que você me fez, eu quero te
escolher, mas não posso sofrer, então não te escolho. Mas
ainda assim não posso evitar te amar, querendo ser feliz ao seu
lado, desconfiando dessa felicidade. E se eu tentar, seria
possível confiar plenamente? Entregar-me sem temer ser
magoada? Sofrendo em silêncio, eu penso: Seria possível um
recomeço sem você ao meu lado? Seria realmente possível o
nosso recomeço?
Victória Fontaine.
Capítulo 1
Victória

Bem-vinda ao Brasil!
Há quantos dias ouvi essa frase? Um? Dois? Ou seria uma
semana? Quem se importa? O tempo parece congelado, eu
estou sendo levada, me deixo levar. Não me importo, não
durmo, ou se durmo, tenho pesadelos, agora não consigo
esconder como me sinto. Perdi as forças, não quero lutar.
Às vezes eu penso no porquê disso tudo, no porquê de eu
me sentir assim, mas, principalmente, no porquê de eu não
conseguir me levantar. Se fechar os olhos vejo a humilhação, se
os abrir, penso nela, se dormir eu tenho pesadelos que
acrescentam as cenas descritas pelas mulheres que me
confrontaram no casamento de Mariah. É ainda pior.
Pensei que iria superar, mas não consigo. Parece que eu
não tenho tanta fé assim.
Larguei uma muleta e coloquei a mão na minha janela, se
bem que nem era preciso abri-la para enxergar lá fora, as
paredes eram de vidro. Eu estava a muitos metros de altura,
era quase como se eu fosse intocável e estivesse separada do
mundo. Aqui estou, isolada desde o dia que cheguei. Não
assisto à TV, não acesso a internet, não vejo revistas, não saio
do quarto. Meu mundo se fechou em dor e solidão. Agora não
me importo com o sofrimento alheio. Estou tão profundamente
enterrada em autopiedade que só penso em mim.
— Não me importo. — Observei o mundo lá fora.
Acho que deveria sentir um pouco de alegria por estar
aqui, eu sempre sonhei em conhecer o Brasil, mas não acho
esse sentimento dentro de mim. Minha gravidez é o único ponto
de conexão com a realidade, ainda assim a alegria que sinto
com meu bebê ainda parece pouco. É como se eu não fosse
merecedora desse milagre.
— Victória — Ouço a voz do meu pai e sua batida suave
na porta.
Não respondi.
— Filha, sua médica chegou, hoje é dia de cuidar do
Gianne.
Fechei os olhos e uma lágrima escorreu. Devagar comecei
a caminhar, não fazia mais fisioterapia, não me importava em
ficar livre das muletas, eu só cuidava do meu bebê, o resto não
interessava.
Meu pai sorriu, mas eu passei por ele sem dizer nada, em
seguida passei por Jason, não o olhei, eu tinha vergonha de
mim, de como estava e de não conseguir sair dessa situação.
Ele não sai da minha cabeça. Meus olhos estavam embaçados,
meu corpo cansado, enjoado. Andava meio perdida quando uma
das mãos suave me tocou o ombro, senti-me encolher, mas
então fui puxada para um abraço, que não retribuí.
— Minha filha, eu sei que dói agora, e provavelmente
amanhã também vai doer, mas, por favor, reaja.
O abraço apertou, mas não havia calor. Só frio.
— Olha para mim. — Senti o toque no meu rosto e logo tia
Laura entrava em foco. — Erga a cabeça, siga em frente, está
me matando te ver assim.
— Não importa onde eu esteja. — Minha voz soou
arranhada, ela foi pouco usada ultimamente. — Ele não sai da
minha cabeça.
Os olhos de tia Laura encheram de lágrimas, e ela me
abraçou de novo.
Não retribuí. Sem calor. Estava frio demais.
— Filha, você está gelada, minha menina.
— Eu o sinto à minha volta — falei distante. — Não
consigo esconder. Meu coração sofre.
— Senta-a aqui, por favor. — Ouvi uma voz estranha e fui
guiada, cambaleei, e alguém me amparou.
Antes que pudesse reagir, estava sendo carregada até um
sofá.
— O que você está sentindo? — Não respondi, era como se
não fosse comigo que falavam. — Victória, olha para mim.
Ergui minha cabeça e vi uma médica diferente da outra,
ou era a mesma? Não importa realmente.
— O que você esta sentindo? — tornou a perguntar, eu só
a encarei durante muito tempo
A mulher me devolveu o olhar de maneira firme e decidida.
— Não sinto nada. — Fechei os olhos. — Durante um
tempo eu estava bem, agora, não.
— Você deve sentir alguma coisa — insistiu.
— Nada — respondi apática.
— Se esforce, procure algum sentimento, o que esteja mais
aflorado.
Olhei para a mulher de forma mais atenta. Ela tinha um
caderninho apoiado nas mãos, estávamos sozinhas. Não percebi
as pessoas saindo. Gostaria de poder sair sem ser notada
também.
— Vamos lá, abra seu coração comigo, se continuar assim
vai acabar prejudicando seu bebê.
Procurei algo a que me agarrar, mas não encontrei nada,
era como se um buraco negro houvesse me sugado, estava
presa em um caos confuso onde o nada parecia ser tudo.
— Quem é você? — perguntei, desviando o foco de mim.
A mulher largou o caderninho e veio sentar do meu lado,
sem minha permissão ela pegou minhas mãos.
— Meu nome é Rosana Silva, sou psiquiatra e amiga do
seu pai. Estou aqui para te ajudar, eu desejo que me permita
isso.
Inclinei minha cabeça um pouco de lado. Meu pai?
— Você gosta dele?
Ela arregalou os olhos, mas logo pigarreou, parecendo
assumir o controle de seu pequeno susto.
— Estou aqui por você, vamos lá, faça um esforço —
insistiu —, tudo que você sente é transmitido para o bebê.
Encolhi-me. Sim, eu realmente estava sendo uma péssima
mãe.
— Faça um esforço — apertou minhas mãos e eu as
retirei.
Esfreguei meu rosto.
— Cansaço. — Olhei ao redor, querendo fugir. — Dormir
não me faz bem.
— Por quê?
— Pesadelos.
— Com o quê? — perguntou interessada.
— Não vou dizer.
Ficamos em silêncio. E eu estava bem assim.
— Você é uma pessoa religiosa?
— Já respondi isso antes. Em algum lugar.
— Mas não falou para mim, então vamos lá.
— Acredito em Deus acima de todas as coisas. Ele está me
sustentando, mesmo que agora eu não esteja com o juízo no
lugar.
— Como assim?
— Não estou conseguindo superar — desabafei. — A corda
em volta do meu pescoço aperta mais e mais. — Olhei para ela
atenta. — Me sinto sufocar, você consegue entender?
— Você nunca passou por algo assim — falou suave,
escolhendo com cuidado as palavras usadas. — E sua decepção
foi grande, você não está conseguindo reagir, porque não sabe
como lidar, mas agora estou aqui para te ajudar a sair dessa e
recomeçar.
Impossível!
— Você pode me fazer esquecê-lo? Pode tirá-lo da minha
cabeça e dos meus pensamentos constantes? — Respirei fundo.
— Você pode trocar meu coração? Preciso de outro que seja tão
bom quanto o antigo que eu tinha. Não gosto dessa Victória,
gosto da antiga, mas não consigo encontrá-la em parte alguma.
— Vamos com calma, tudo bem? — Doutora Rosana
tentou sorrir. — Vamos subir um degrau de cada vez, vamos
com paciência. Apenas confie em mim, eu vou estar aqui para
você.
Concordei porque era o que deveria fazer. Talvez eu
precisasse mesmo de ajuda, e de tanto que pedi a Deus em
meus piores momentos de angústia silenciosa, Ele me atendeu,
enviando alguém.
— Doutora.
— Me chame apenas de Rosana. — Sorriu e eu concordei,
não retribuindo seu gesto
— Eu gostaria de dormir, pode me ajudar com isso? — Ela
me olhou um momento, mas logo negou.
— Por enquanto faremos assim, quando estiver próximo
das nove da noite, você vai diminuindo o ritmo, leia alguma
coisa, prepare-se para dormir e, se mesmo assim não conseguir,
me ligue que venho correndo.
— Tudo bem.
Conversamos mais um pouco, eu queria mesmo era voltar
para o meu quarto.
Quando aquela visita inesperada acabou, logo outra
chegou, e esta era segunda médica. A nova obstetra. Pedi que
fôssemos para o meu quarto e lá fizemos nossa consulta clínica.
Eu estava abaixo do peso e com treze semanas, mais ou menos,
logo ela pegou uma caixinha e me pediu para deitar em minha
cama.
— Esse é o aparelho sonar — falou sorrindo de leve, depois
ela colocou um gel e ficou mexendo com o aparelho em minha
barriga.
Quando o som do coração do meu filho se fez ouvir, senti
que um pouco do gelo que me envolvia rachava. Minhas
emoções eram como um elástico de pressão. Em momentos
como esse eu me sentia melhor, mas depois toda melhora
começava a retroceder, encolhendo-se até não sobrar nada.
— Estamos no início de Março, pelos meus cálculos o bebê
vai nascer em meados de agosto, vamos cuidar para que você
chegue com tranquilidade até as quarenta semanas, seu bebê
vai nascer saudável, tenho certeza. — Acenei, esperava que
assim fosse, jamais me perdoaria por prejudicar meu filho,
mesmo sem querer. — Você precisa tomar vitaminas para se
fortalecer, pois está pálida, abaixo do peso, temo complicações.
O que me deixa tranquila é que sua pressão está ótima, então
vamos lá, mocinha, vamos engordar e ajudar esse bebê a ficar
forte.
Assenti quase ansiosa.
— Vou passar exames de acompanhamento, quero ver
como anda sua anemia, devido ao seu acidente, você perdeu
muito sangue, preciso ver como está.
Desviei o olhar e meu pai a chamou.
Fiquei olhando a parede cor-de-rosa do meu quarto, até
que Jason entrou em meu campo de visão, sua expressão
parecia cansada. Em seus olhos existia muita angústia.
— Brother. — Estiquei um braço, aproveitei e deitei de
lado, para poder alcançá-lo, lentamente comecei a fazer carinho
em seu rosto. — Eu adoro você. — Ele fechou os olhos
— Victória, me sinto péssimo — proferiu baixinho. — Não
suporto te ver assim. Acaba comigo, sabe? Quero você de volta,
como antes.
— Eu também quero. — Olhei em seu rosto. — Mas está
complicado. Não vejo saída agora, me sinto afogando.
— Você é a única pessoa que eu tenho, digo, você e o bebê.
— Apreensão marcava cada palavra dita. — Todo dia te vejo
mais e mais distante, antes você pareceu melhorar um pouco.
Depois daquele episódio no casamento você ficou pior. Nem
música escuta mais.
Em silêncio, continuei acariciando seu rosto, não havia o
que dizer. Eu nem saberia por onde começar.
— Eu te amo, Victória, como se você fosse meu próprio
sangue, sinto em meu coração essa conexão. — Uma lágrima
rolou em seu rosto e eu a colhi com meu polegar. — O que você
me ofereceu é o que cheguei mais perto de ter na minha vida.
Por favor, não me tire isso.
Neste instante eu chorei. A dor de Jason deu passagem à
minha e, quando vi, já era tarde.
— Você é meu irmão e nunca vai deixar de ser. — Tentei
sorrir, não funcionou e ele percebeu. — Tudo passa, e isso que
me oprime também irá passar. Um dia, quem sabe?
Ficamos em silêncio durante bastante tempo, nossos
olhares fixos, era quase como se conversássemos, nos
compreendíamos mutuamente. Desenvolvemos esse laço
fraternal e, para mim, ele era inquebrável.

***

— Como você teve coragem de fazer isso? — A angústia me


consumia, a dor, a desilusão, me sentia quebrar, perder algo
fundamental.
— Fazer o que, amore mio? — Rocco debochou. — Pensei
que gostaria da surpresa.
Deus.
Eu queria correr, a cena se repetia. Eu estava presa, presa
em meio à dor sufocante, ao meu pior pesadelo, aquilo que
paralisa.
— Veja como elas são lindas, tesoro mio. — Puxou uma
ruiva, beijando-a profundamente. — Bela mia. — Agora foi uma
loira, ele também a beijou com ardor.
Engoli meu choro, meu coração doía tanto.
— Onde está você, delizia mia? — perguntou olhando ao
redor, e uma morena linda apareceu. Ela estava apenas de
lingerie, e Rocco a abraçou.
Eu gritei, me curvando, estava difícil me manter erguida,
sufocava-me aos poucos.
Eu observava a cena diante de mim e ninguém se
importava comigo, minha dor parecia nada ante tamanha
atrocidade. O que fiz para merecer?
— Me chupe! — ordenou para a morena, e ela se ajoelhou.
— Não faça isso! Por favor, não faça — implorei, mas ele
apenas sorriu, deixando a morena tomá-lo na boca. Puro prazer
fazendo-os revirar os, olhos gemendo alto.
Solucei e tentei sair dali, mas não dava. Eu estava presa,
cansada de tentar fugir e não conseguir. Agora as outras duas
estavam tirando as roupas e Rocco as beijava, acariciava
enquanto me encarava.
— Isso parece o que para você? — perguntou sorrindo
friamente.
Eu chorava e chorava, a cena estava ficando cada vez pior.
Os quatro foram para a cama. A bílis subiu, e mesmo contra
minha vontade observei Rocco se posicionar atrás de uma
delas. Seu olhar buscou o meu.
— Veja como deve ser. — Sorriu diabolicamente.
Senti uma dor terrível em meu ventre com aquela cena tão
massacrante. Sangue começou a escorrer entre as minhas
pernas, me senti tonta e ofegante. Queria desaparecer, mas não
dava. Cambaleante, dei um passo para trás, levando a mão até
a barriga. Meu desespero aumentando consideravelmente, a
tontura piorando, o sangue agora escorria também por minha
boca, toquei meu nariz, ele também sangrava.
O que está acontecendo?
Balançando comecei a me afastar, minhas mãos agarradas
ao tecido do meu vestido branco, agora todo manchado de uma
profunda cor escarlate. Minha cabeça rodava, tudo estava fora
de lugar, sentia minhas pisadas pegajosas.
Tossi, cuspindo no chão. Tanto sangue. Tanto sangue.
Continuei andando para trás em automático, só continuei.
— Pequena.
Olhei para cima assustada e vi Rocco diante de mim. Ele
parecia angustiado.
Por quê? Se instantes atrás ele estava com ódio no olhar,
magoando-me de propósito?
Sentia-me confusa. Sufocada e, o pior de tudo, apavorada.
Olhei ao redor e as mulheres sumiram, Rocco caminhava
cauteloso em minha direção.
— Não chegue perto — proferi fitando-o, meu corpo
balançando sobre meus pés.
Os olhos que eu amei se encheram de lágrimas, ele me
olhava com muito medo, eu me olhei também. Não havia mais
vestido branco, o sangue manchava-o por completo e ainda
continuava, escorrendo pelo meu rosto, pelos meus pés. Eu
estava deixando um rastro tenebroso.
— Pequena. — Sua voz soava desesperada.
Continuei me afastando, até que uma forte ventania me fez
olhar para trás, ali era o meu limite, o grande abismo negro.
— Amore mio — Rocco me chamou e eu o vi chorado em
completo estado de abandono. — Perdoname! Per favore,
perdoname.
Não respondi.
— Volta para mim? — Estendeu um braço, mas já era
tarde, eu não tinha nada, perdi tudo o que era mais precioso.
Abri meus braços, o peito pesado, querendo, ansiando a
liberdade de novo. Desejei cair, eu iria cair!
— Eu te amo, pequena — falou e eu chorei mais. — Eu
prometo que tudo vai ficar bem. — Esticou-se para mim de
braços estendidos — Confia em mim? Volta.
— Eu, amo. — O cansaço me invadiu e por isso fechei
meus olhos. Desisti de tentar. De querer e, por último, de
sonhar.
Lentamente fui permitindo meu corpo inclinar para trás.
Ouvi o grito aterrorizado de Rocco. Naqueles últimos instantes,
um sentimento de fatalidade me acometeu.
— É o fim — falei baixinho e abri meus olhos.
Vislumbrei Rocco e sua expressão agonizante. Ele tentou
me pegar, o tempo congelou.
O vento açoitava meu cabelo, meu vestido tremeluzia, uma
lágrima escorreu lentamente. Ainda que impossível, pude ouvir
uma única e valiosa batida de coração. Houve uma pausa.
Outra batida.
Então eu caía e caía. Olhando para cima, vendo sua
expressão de pavor, desespero, perda, choque e
arrependimento.
Tudo ficou escuro e silencioso, tranquilo. Não havia dor,
não havia mais nada, então eu vi uma luz e quase pude tocá-la.
Era meu desejo. Eterna paz.
— VOLTA PARA MIM
Um impacto forte me fez sacudir e a luz sumir. Vi-me
caindo de novo, desta vez não havia claridade, apenas uma
densa e profunda negritude.

— Não! Nãooo! — Minha garganta queimou quando os


gritos rasgaram-me. Eu me debatia, minha consciência presa
ao pesadelo, ao terror da queda incessante que parecia
congelar. O pânico vem forte, em espasmos incontroláveis, a
escuridão parece agonizante.
— Filha! — me chamavam, mas eu ainda estava no escuro.
— Filha!
— Sangue! Há sangue por toda parte — gritei novamente,
lutando contra quem tentava me abraçar. — Meu bebê.
— VICTÓRIA!
Fui sacudida, uma luz acendeu e eu vi um carro
acelerando em minha direção.
Gritei mais alto, chorando, nunca senti tanto medo.
— Por Deus, acalme-se! Estou aqui com você, olhe para
mim, minha filha, abra os olhos. — Obedeci e meu pai estava ali
comigo, seu semblante carregado, pálido e trêmulo. Suas
lágrimas deslizavam por seu rosto.
A vergonha queimou como ácido.
— Tudo bem, meu amor — murmurou baixinho. — Não há
sangue em lugar algum, está tudo bem, foi só um pesadelo.
Eu olhava em seus olhos, mas não acreditava, não queria
baixar a cabeça e vislumbrar os lençóis sujos.
— Eu o perdi — confessei de olhos arregalados, a voz
sofrida, o medo me comendo viva. — Não fui boa o suficiente,
não cuidei dele como deveria. Eu o perdi. Há sangue, sim, pai —
cochichei como se fosse um segredo. — Veja! Tudo está coberto
de sangue. — Comecei a balançar para frente e para trás,
perdida em meio ao caos da minha mente conturbada. — Olhe
as minhas mãos, elas estão ensanguentadas. — Fechei os olhos
de novo quando ergui minhas mãos. Não queria ver. — Olhe
aqui, pai, é verdade!
Soltei-me, deitando de lado, meus olhos fechados e
apertados.
— Morto. Meu filho está morto e eu vou cair, como todo
dia. Só a escuridão resta, no final, só tenho a ela.
— Filha, do que está falando? — meu pai perguntou
baixinho.
Não respondi, cobri os ouvidos enquanto meu pai insistia
em saber.
— Victória, me conte, por favor!
— Meu filho.
Por um instante não escutei nada, então me ergui às
presas, olhando para todos os lados, meus olhos buscando algo
que eu não via.
— Meu amor, está tudo bem. Tudo bem! O Gianne está
seguro — meu pai assegurou. — Olhe, não há sangue. Foi
apenas um pesadelo. Confia em mim?
Olhando dentro dos olhos do meu pai tentei enxergar a
verdade.
— Confie em mim.
Comecei a baixar a cabeça, meu coração parecia a ponto
de saltar do peito, em instantes o medo fez minha respiração
falhar, comecei a sufocar, não conseguia respirar, o pânico me
engolindo. Meu corpo tremeu, minhas pernas sacudiam, eu não
respirava direito.
— Me dê ela aqui!
Minha cabeça rodava, uma dormência me invadiu, senti-
me tombando para o lado.
— Respire comigo. — Senti braços fortes ao meu redor. —
Respire comigo, vamos!
Tentei atender ao comando, parecia difícil, mas eu
conseguiria.
— Me sinta. Respire comigo, bem devagar. Vamos lá.
Tentei uma vez, tossi. Meu peito parecia apertado, era
necessário continuar.
— Siga meu ritmo. Inspire e respire. Isso. Vamos lá, ouça
seu brother.
Aos poucos eu consegui. O alívio trouxe fraqueza.
— Eu perdi meu bebezinho, brother. — Chorei agarrada a
ele.
— Não! Gianne está seguro, olhe! — ordenou firme. — Eu
nunca mentiria para você.
Ele nunca mentiria. Era verdade. Abri meus olhos, não
havia sangue, não havia nada ali, ou melhor, havia, sim. Minha
loucura. Naquela madrugada a doutora Rosana veio e tentou
conversar, mas eu não queria. Minha voz estava silenciada, ela
apenas se fazia ouvir dentro da minha cabeça, como uma
consciência que dizia: Levante-se! Deixe de sentir pena de si
mesma, a vida é assim, sofrer ou não, amar ou odiar, tudo faz
parte. Levante-se, AGORA!
— Victória, você quer falar sobre seu sonho? — perguntou
e eu torci a boca.
— Seu método para me fazer dormir não funcionou —
proferi fitando-a. — Nada funcionou. Eu falei que dormir não
me fazia bem. Não deveria nem querer fazê-lo.
— Victória, não te faz bem tomar remédios, tudo que você
ingere vai para o bebê e o uso de medicamentos para dormir
pode ser nocivo para o desenvolvimento do feto.
— Então eu não quero. — Respirei fundo. — Prefiro ficar
sem dormir.
— Vou receitar um remédio suave, mas será apenas por
um pequeno período de tempo.
— Tem certeza? — questionei e ela concordou.
— Mas irá ser regulado por outra pessoa.
Estreitei meus olhos, pois sabia aonde ela queria chegar.
— Um fato sobre mim. — Encarei o rosto sério e
compenetrado. — Eu não atento contra a vontade de Deus,
portanto, não faça suposições, você não me conhece.
A doutora Rosana concordou, até parecia levemente
constrangida.
— Victória, sinto muito, mas você está depressiva,
pacientes nesse quadro são instáveis.
Inclinei-me um pouco para frente e ela compreendeu.
— Existem coisas que você jamais compreenderá, doutora.
Deitei-me e fiz silêncio. Jason ficou no quarto, depois
trocou com meu pai, em seguida era tia Laura quem me fazia
companhia, ou melhor, me vigiava, e assim se seguiram alguns
dias.
O remédio não fazia efeito como deveria, digo, eu
conseguia tirar pequenos cochilos, nada de mais. Dormir
mesmo nem pensar, e sensação era uma memória, há tempos
eu não tinha a boa sensação de descanso e energia que uma
boa noite tranquila pode trazer. Assim, desta maneira, segui,
até que, uma noite, que destinava ser igual a todas as outras,
cansei da rotina de silêncio e insônia.
Levantei-me pegando meu iPod, selecionei uma pasta de
rock, não eram músicas pesadas, e sim melancólicas, daquelas
que arrepiam. Abri a porta da minha varanda e a primeira
coisa que fiz foi respirar o ar do Rio de Janeiro, que era muito
diferente da madrugada Londrina. Aqui era quente e, sim, era
melhor, o meu Brasil, a terra da minha mãe. Pulsava energia
de todas as maneiras. Enquanto as músicas iam passando eu ia
assistindo ao dia abrir caminho através da noite. Vi o nascer do
sol, aproveitando a vista de tirar o fôlego, o céu parecia perto
demais, e eu, na minha torre de concreto e vidro, sentia-me
protegida.
Minhas noites passaram a ser assim, assistia ao nascer do
sol e aquele momento me deixava em estranha paz. Sentia-me
segura quando o sol rasgava o céu e cobria de luz as trevas da
noite, com ele no alto do céu eu conseguia dormir um pouco.
Minha loucura parecia refugiar-se enquanto era dia. Em mais
um amanhecer magnífico algo me chamou a atenção, e à noite
eu iria lá para ver.

***

Todos dormiam, quando saí de casa sem fazer barulho, a


única coisa que levei comigo foram minhas músicas. Por um
momento foi difícil conseguir me localizar, ainda não havia
saído e hoje seria minha estreia. Peguei o elevador no hall de
entrada, não antes de brigar com ele, tinha que executar
alguns comandos e Victória mais alta tecnologia é igual a
problemas.
No fim das contas consegui. Ainda andei pela garagem, e
em alguns andares, mexi nos botões e foi realmente ridículo
ficar perdida dentro de um elevador.
— Graças a Deus! — exclamei assim cheguei ao mezanino.
Olhei ao redor e vi as grandes portas de vidro que indicavam a
saída, apressada, fui para lá, mal dei alguns passos e um
homem de terno me abordou.
— Senhorita?
Pulei de susto. Até um frio na barriga senti.
— Você me assustou! — Esfreguei o rosto sem graça, em
seguida, sacudi os ombros. Aqui era seguro, então, eu não
precisava temer. — Boa noite, uhmm… — Engoli nervosa. — Da
minha varanda, eu vi algo parecido a um labirinto e gostaria de
saber como faço para chegar lá.
— Ah, sim, ele fica a trezentos metros daqui. Você segue o
caminho iluminado da saída e lá na frente tem uma placa
indicativa, mas é fácil, quando chegar lá basta pegar a
esquerda e seguir em linha reta. — Sorriu gesticulando. —
Você encontrará o início do jardim secreto.
Assenti e comecei a andar. Tinha certeza que minhas
muletas iriam ser um empecilho, que iria demorar, mas uma
hora chegaria.
— Senhorita, por favor, são duas horas da manhã, não
dará para ver muita coisa.
— Obrigada. Irei mesmo assim.
Comecei minha caminhada lenta, o caminho era fácil.
— Espere, vou levá-la de carrinho, aqui no Riserva Golf
temos de tudo — fez propaganda. — Os moradores sempre
terão suas necessidades atendidas.
Agradeci e o esperei sair e trazer um carrinho parecido ao
de golfe. Ele me ajudou a subir tomando bastante cuidado, logo
começamos a nos locomover, bem devagar.
— Não se preocupe, senhorita, aqui é seguro, apesar do
horário, pode confiar! — Sorriu, usando a mão para abranger
todo o lugar que parecia um grande paraíso. — Temos
seguranças circulando por aí, tenho certeza que ficará
satisfeita, apesar de eu achar que não verá muita coisa, o
labirinto não tem iluminação, é para ser misterioso. —
tagarelou alegremente. — Senhorita?
— Me chame de Victória — Olhei ao redor, eu sabia que
aqui era grande, a vista que eu tinha do meu quarto era
incrível, mas agora eu olhava e nem acreditava que foi feito
pelo homem. Ainda assim, sabia que tudo era obra de Deus,
pois a inteligência e a arte são talentos dados pelo pai
santíssimo para aqueles que sabem aproveitá-las.
— Não podemos chamar os moradores pelo primeiro nome.
— Sorriu. — Normas internas.
— Eu poderia ser uma empregada também. — Arqueei
uma sobrancelha e ele riu.
— Empregados não têm pais que são donos de coberturas
multimilionárias.
— Você me pegou — concordei. — Todos os apartamentos
estão ocupados?
— A última cobertura foi vendida há poucos dias, ela
estava emperrada. — Deu de ombros. — Era a maior e mais
cara.
Aquela informação me fez ficar em alerta.
— Você, por acaso, saberia me dizer quem comprou?
Senti meu estômago apertando. Aos poucos eu estava
voltando a me sentir mais normal, então alguma surpresa
desagradável começava a empurrar minha imensa fila de
dominós.
— Foi um magnata de alguma coisa. — Sorriu — Inglês ou
americano? — questionou para si mesmo, depois riu. — Não
sei, pois eu estou registrado nessa torre, mas se quiser saber
quem é eu descubro, meu amigo trabalha lá, veja ali. —
Apontou e eu olhei, notei que ele apontava para a torre vizinha
à que eu morava. — É aquela ali.
Torre vizinha à minha, mais magnata estrangeiro, compra
feita no mesmo período em que vim para cá, igual a Rocco
Masari. Balancei a cabeça não querendo acreditar. E lá vamos
nós. De novo!
Seguimos em silêncio até o início do labirinto. Aquela
informação sobre a compra da cobertura ainda estava
assentando em meu cérebro. Quais são as chances? Realmente
é muita coincidência, e além do mais, Rocco anda muito calado,
muito quieto! E ele é tudo, menos isso.
— Eu temo o silêncio. — Olhei para a torre e o meu
inusitado acompanhante fez um som de dúvida, ele deve me
achar louca. Mas, afinal, eu estava mesmo.
— Chegamos e, ah, eu me chamo Mirosvaldo. — Fez
careta. — Não ligue, minha mãe estava muito cansada do parto
e meu pai não entendeu meu nome direito, é ridículo, mas tudo
bem, eu já até sou acostumado, mas pode me chamar de Miro
que não tem problema e…
— Tudo bem, vou te chamar de Miro — interrompi sua fala
para ele poder respirar, aquele, sim, era um bom tagarela.
— Eu vou te esperar aqui. — Sorriu largamente
— Obrigada, mas vou ficar até o amanhecer, se você puder
vir a essa hora eu agradeço.
— Combinado.
Com sua ajuda, desci do carrinho e entrei no labirinto,
senti um arrepio de ansiedade e logo coloquei os meus fones de
ouvido, selecionei uma playlist de Evanescence, apertei o play
e a primeira música foi uma perfeita referência à minha atual
situação. Enquanto caminhava, meus dedos tocavam as pétalas
das rosas que enfeitavam as paredes do labirinto, por um
instante me senti em paz. O cheiro era delicioso, ali, sim, era
algo misterioso e lindo.
A música bonita me fez sentir um tanto leve, mas ao
mesmo tempo um peso ainda permanecia em minhas costas.
— Não é irônico que o título dessa música seja
despedaçado? — Sorri quando inevitavelmente me vi cantando.

"Eu queria que você soubesse que eu adoro o jeito que você
sorri
Eu quero te abraçar bem forte e levar sua dor pra bem
longe
Eu guardo sua foto e sei que ela me faz bem
Eu quero te abraçar bem forte e roubar sua dor…”

Eu achei a melodia, o toque de violão e guitarra tão


perfeitos com o meu momento que coloquei no replay e fiquei
ouvindo, de vez em quando cantarolava algumas partes, não
tinha pressa, o lugar era incrível, mas ao encontrar o meio do
labirinto me vi diante de uma jardim dos sonhos. Parecia uma
clareira, acima de mim a lua redonda iluminava. Miro estava
errado, não era escuro, eu enxergava, sim. Satisfeita, deitei na
grama e permiti que as notas da música e a melodia, junto ao
mágico lugar, fossem os compositores da madrugada.
Fechei os olhos, minha voz flutuando. Em paz.
***

Mirosvaldo

Enquanto dirigia de volta eu pensava na tristeza que


marcava o rosto daquela moça tão jovem. Essa era a primeira
vez que ela saía depois que chegou. Como eu sei disso? É
simples, os empregados sabem de mais coisas do que as
pessoas podem imaginar, e essa garota é famosa, ela está em
todas as revistas de fofoca, e na TV também. Não que eu fosse
ser um intrometido, meu emprego era muito importante para
perdê-lo e ela era mais uma moradora, ou seja, minha patroa
mesmo que indiretamente.
— Ricos e suas esquisitices, eu, hein! Perambular de
madrugada é coisa de gente doida — resmunguei, querendo
manter a linha, mesmo sendo impossível esquecer como o olhar
daquela menina era distante e meio desolado. Não havia brilho,
e ainda tinha o fato de ela estar de muletas. — Será que é
aleijada? — perguntei, mas em seguida não dei muita
importância, não era como se eu pudesse fazer alguma coisa.
Sabia por alto de um acidente, mas era coisa estrangeira, e eu
não tinha tempo para ficar lendo revista de fofoca. Só quatro
vezes por semana. Muito pouco para saber de tudo sobre os
moradores.
Feliz por desfrutar de uma rara noite fresca, refiz meu
caminho de volta e, assim que parei em frente ao prédio, um
homem muito grande e mal-encarado estava parado. Desci todo
desconfiado e fui em direção à entrada, mas antes que pudesse
adentrar o prédio ele me abordou.
— Para onde você levou a moça? — perguntou com forte
sotaque. A voz grave e meio assustadora.
Eu me encolhi sem querer, ele parecia com raiva, e
prestando atenção em sua cara barbuda e em seus olhos
inflamados, senti até medo. Pelo amor de Deus, eu era um
recepcionista, e não um lutador de MMA. O cara era enorme.
Com certeza deve ter tomado bomba!
— Eu não farei fofoca sobre os moradores do meu prédio —
respondi seguro de mim, não iria colocar aquela moça delicada
no rastro desse doido mal-encarado. — E não adianta me
subornar, pois nunca…
Antes que pudesse terminar uma das falas que aprendi no
treinamento para entrar aqui, o gigante de olhos azuis me
pegou pelo colarinho e me puxou, ficamos cara a cara e, só para
salientar, meus pés não tocavam o chão.
— Eu acho melhor me dizer onde está minha esposa! —
rosnou e eu vi seus olhos incendiando, quase me mijei todo. —
Não estou com paciência nem disposição, portanto, não tente
brincar comigo.
— Se… se o senhor que é o marido não sabe, imagine eu!
— gaguejei, sentindo meu estômago dando cambalhotas, eu
sabia que provavelmente estaria fazendo muito em breve uma
visita ao banheiro.
— Eu vou contar até três para você começar a falar… —
falou numa voz ameaçadora.
Esse homem me assusta mais que os chefes do morro do
Rio, isso é fato!
— E não minta para mim.
— Minha Nossa Senhora do Desterro — murmurei como
minha mãe gostava de falar. — Eu posso ser demitido.
— Pense bem se for mentir — avisou com muita raiva,
notava-se pela cara de demônio dele.
Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, livrai-me dessa
criatura. Ave, minha santinha, eu prometo ir à missa todo
domingo, pelo amor de Deus, me socorra aqui. Rezei.
O homem fez um som de bicho raivoso, me deu ansiedade
e meu estômago descontrolou, pois a vontade de correr até o
banheiro estava se tornando fundamental.
— Um… — Estreitou os olhos e eu tentei argumentar. —
Três!
— Fique calmo, e o senhor pulou o número dois! —
Morrendo de medo, não sei com ainda tive coragem de irritá-lo,
corrigindo-o.
— Não me peça para ter calma, agora me diga! Onde está
a mulher?
— Ela é sua esposa mesmo? — perguntei temendo aquele
lenhador mal-encarado.
— Sim, ela é! — quase berrou e meu instinto de
sobrevivência gritou mais alto.
— Ela foi para o jardim secreto — revelei e me senti
péssimo.
— Espero que não esteja mentindo. — Ele me encarou sem
piscar
E eu neguei apressado. O homem me soltou e começou a
correr em direção ao labirinto.
— Deus me defenda desse doente psicopata, infeliz
assustador, bandido mal-encarado e espreitador.
Mal terminei de falar e corri para atender minhas
necessidades.

***
Victória

Senti o exato momento em que minha paz foi perturbada.


Confesso que não foi barulho, mas, sim, a sensação de
formigamento em minha pele, além do fato, é claro, de me sentir
observada. Sentia nos ossos quem estava ali. Só que não iria
fugir, o lugar era meu, eu cheguei primeiro. Isso mesmo, chega
de fugir!, minha voz interior exclamou e eu me obriguei a
relaxar.
Comecei a cantar, ignorando-o completamente. Ele
também não fazia barulho algum, mas eu esperava que a letra
da música pudesse fazê-lo enxergar. As horas pareceram
estender-se e não houve uma única palavra proferida, então eu
duvidei que realmente houvesse alguém ali comigo. Com
certeza eu estava doida! Aos poucos fui relaxando mais e mais,
o frio da madrugada me abraçando, aliviando um pouco minha
angústia marcada. Não sabia se era a paz do lugar ou alguma
pequena melhora em meu íntimo, só não sei em qual momento
meus olhos se tornaram pesados demais para mantê-los
abertos, eu piscava, tentando focar no céu estrelado, aquela
noite estava particularmente brilhante. Agora uma música que
passava, incrivelmente, também era como se fosse para mim.
Falava sobre pequenos erros, e por mais que seja difícil,
precisamos ser nós mesmos. Uma grande verdade
Então, olhando para o céu e cantando, eu pensei que já
era hora de tentar. Eu tinha que seguir em frente e, se
chorasse tudo bem, se sofresse, tudo bem, mas mesmo assim eu
teria que tentar. Meu olhar ainda era fixo quando a música
acabou. Tirei os fones e agora o silêncio parecia perfeito.
— Dê-me um céu cheio de estrelas. — Sorri sentindo os
olhos pesados. — Uma noite apenas.
Fechei os olhos, saboreando o sono de tantos dias.
Senti lábios nos meus. A exaustão me fazendo sonhar,
pela primeira vez não havia pesadelos, sonho se misturava com
realidade, ali eu estava dentro de braços acolhedores que
protegiam. Entre o sono a vigília eu encontrei calor, me sentia
aquecida como nunca mais estive, e por isso me aconcheguei
ainda mais naquele cobertor cheiroso e voltei a cair na
inconsciência. Desta vez a música ideal era o som calmante de
um coração batendo em perfeita sintonia ao meu.

***

Acordei me sentindo muito relaxada, fazia tempo que eu


não dormia tão bem. Sentei, coçando os olhos, logo em seguida
me espreguicei. A fome que sentia me deixando feliz, há tempos
o apetite havia me abandonado também.
— Está com fome, meu amor. — Acariciei minha barriga,
por incrível que pareça, hoje eu me sentia feliz e quente por
dentro. — Vamos para casa, todos devem estar loucos de
preocupação.
Olhei para cima e vi que estava bem claro, tinha certeza
que meu pai ainda não chegara aqui, porque devia pensar que
eu estava dormindo, afinal, esses dias eu dormi durante o dia.
Depois de virar rotina, acho que tenho algum tempo para
chegar e evitar uma confusão. Só saberei mesmo quando
chegar em casa. Pensamento otimista, mas primeiro.
Respirei o ar puro do dia, fechei meus olhos e abri meus
braços.
— A partir de hoje vou lutar por um recomeço. A partir de
hoje tentarei seguir em frente, irei me recuperar, ser feliz por
meu filho, vou viver e não mais apenas sobreviver!
Sorri para o céu. Queria dar um bom-dia, eu me sentia
recarregada, finalmente, depois de tanto tempo. Respirei fundo
uma vez. Duas. Era tão bom sentir meus pulmões expandindo,
mesmo que ainda houvesse uma sombra pairando sobre mim.
Com cuidado, me levantei, depois de erguida e com as
muletas em seus devidos lugares, eu comecei a ir em direção à
saída.
— Eu não vou parar de lutar para ter você de volta. —
Quase enfartei tamanho foi meu susto, até perdi o compasso,
mas logo me equilibrei.
Nem acreditei, eu realmente estava certa. Era ele! Meu
Deus! Algo dentro de mim sorriu, parecendo esperançoso.
— Nunca pararei de tentar trazê-la de volta para meus
braços. — Não virei para olhá-lo. — Esse é o seu lugar, e é para
onde irá voltar! — Sua voz viajou pelo meu corpo, causando
arrepios e palpitações, ao mesmo tempo em que me causava
raiva.
Ele tinha esse dom, mexeu com minha apatia uma vez,
agora novamente. Assim como libertava, prendia. Enlouquecia-
me e, por último, adoecia.
— Quer um conselho? — perguntei, virando o rosto, ele
estava do outro lado do labirinto, parcialmente escondido.
Grande, forte, imponente. Tremi inteira e me detestei por
isso.
— Sí, per favore. — Apesar de gentil, sua voz ainda era
grossa e potente.
Fechei os olhos por um instante. Agora era mostrar para
ele a nova realidade.
— Desista de mim.
Capítulo 2
Rocco

Ouvi a suave voz da minha garota enquanto sentia o peso


dessas palavras sobre meu corpo. Na verdade ela reverberava,
ecoava em minha mente, quebrando ainda mais meu coração já
tão machucado. Sabem a verdade mais pura e simples sobre os
homens? Não? Então preste bem atenção. Nós, homens,
gostamos de nos pavonear sobre as coisas do coração, somos
céticos, debochados, cínicos e, assim, batemos no peito
mostrando que não caímos nessas coisas do amor. Acho que os
adolescentes são os piores, os mais cara de pau. Todavia, os
maduros, como eu, são os mestres. Não podemos demonstrar
fraqueza. Precisa-se de uma guerreira para encarar a parada,
e, cara, é coisa dura mesmo. O problema é que quando nos
apaixonados, fodeu. Viramos bicho, digo, mudamos, e é quase
como se pagássemos por nossa língua. De fato, homem quando
se apaixona fica pior que mulher, lógico, que não existe essa
história de amor instantâneo, existe tesão instantâneo, mas aí,
quando as coisas se desenrolam, puta que pariu, viramos uma
coisa emocional fora de série. Agora mesmo estou quase
mandando a paciência à merda e roubando Victória para mim!
Homem possessivo e apaixonado com culpa no cartório é
simplesmente foda! As mulheres meio que são programadas a
se apaixonarem, nós, homens, não.
É preciso algo muito maior, é tipo você confiar na mulher
ao ponto de baixar a guarda completamente, aí é uma coisa
estranha o que acontece. Parece que suas entranhas são
trocadas e, quando vemos, pronto. É um fato, homem é mais
difícil de se apaixonar, mas quando o faz, fica assim como eu,
completamente doido. O Rocco do início, estaria aqui avaliando
tudo friamente e pensando em uma saída esperta para resolver
a situação. Já o Rocco apaixonado está mesmo é tremendo nas
bases, porque simplesmente não aceita outra coisa que não
seja Victória voltando para seus braços.
Eu fiz uma merda sem tamanho, de fato, existem coisas
que jamais poderei consertar e outras que talvez não tenham
conserto mesmo. Agora revivo o mesmo desespero de quando
soube que Victória veio embora para o Brasil, a sensação era
de ter uma faca cravada em minhas entranhas, que era
também retorcida a cada minuto que passava. Tudo dentro de
mim rugia e rugia, eu estava em guerra, havia perdido minha
paz desde que tomei a maldita decisão de agir como um filho da
puta egoísta. Isso me fez correr feito um louco precipitado, saí
da Inglaterra só com a roupa do corpo, a carteira e o
passaporte. Entrei em meu avião e rezei todo o caminho, pois a
última olhada que eu tive de Victória, ali, caída no chão
daquele banheiro, me destroçou de forma quase permanente.
Naquele momento, eu vi o quão frágil, delicada e sensível
ela estava.
Minha pequena boneca estava despedaçada e a culpa era
minha. Não adiantava, por mais que eu lutasse contra a
verdade, eu era o culpado por ela estar daquele jeito, então eu
também seria o responsável por resgatá-la, por trazê-la de volta
e tentar, com todo meu amor e cuidado, recuperá-la. Não vou
desistir! Estreitei os olhos, enquanto encarava-a. Esse
momento de silêncio, no qual eu discutia comigo mesmo, servia
para ela entender que não havia uma maldita chance de
desistência por minha parte. Eu errei, errei e várias vezes
tornei a errar, mas não era do tipo desistente, mas do tipo que
mesmo sentindo o peso das circunstâncias querendo curvar
meu corpo, eu me ergo e luto pelos meus objetivos, sendo
usando força e brutalidade, ou, nesse caso, delicadeza e amor.
Apesar do quão difícil estava sendo conter o louco que
havia em mim, eu tive que me segurar. Depois que cheguei ao
Brasil, eu procurei Victória dia e noite, e quando a encontrei,
agi. Comprei uma cobertura no mesmo condomínio que ela
morava. Mobiliei com o básico e então me isolei do mundo, vivia
por notícias, mas não tinha nenhuma. Eu não consegui falar
com ninguém, os celulares estavam fora de área, desligados ou
o que quer que estivesse acontecendo. Mesmo sem notícias eu
sabia que algo estava errado, eu sentia dentro do meu coração
o quanto Victória precisava de mim, assim como eu também
precisava dela. Minha vida agora se resumia e vigiar as paredes
de vidro da cobertura vizinha. Durante dias eu só fiz isso, e
quando chegava a noite podia descarregar minhas frustrações
no saco de pancadas ou em alguns equipamentos de treino.
Não conseguia dormir há dias, não conseguia respirar
fundo porque a angústia profundamente enraizada em meu
peito e coração não permitia. Eu estava vivendo pela metade, e
essa noite eu consegui vislumbrar o homem completo que eu
era só com ela. Eu preciso de você, amore mio! Essa era a única
frase que meu cérebro conseguia produzir quando minha
necessidade estava demais. Eu realmente precisava dela para
sobreviver, pois ela se tornou essencial para me manter firme.
Victória era minha parte forte, era o amor dela que me
sustentava, era ela e por ela que eu acordava todos os dias
disposto a nunca desistir, porque, sim, irei até o dia do meu
último fôlego para tê-la de volta.
Eu deixei tudo para trás e fui seu espreitador, ficava com
meus olhos pregados nas paredes de vidro do seu apartamento,
e nas últimas noites eu a vi em sua varanda para observar o
dia amanhecer. Tornei-me fascinado com a figura solitária,
Victória parecia intocável, alguém impossível e distante, quase
etérea. Durante um segundo eu fiquei assustando com esta
constatação, mas então eu me sacudi.
Victória era minha, e se era para ser intocável, então
seríamos juntos. Não me importava em ficar isolado do mundo.
Eu já até tinha um plano, só precisava que ela ficasse mais
forte, então tudo seria colocado em prática. Todas as merdas
que fiz me fizeram aprender, e eu só buscava as oportunidades
certas para poder trabalhar.
Não acreditei quando notei que ela saía do apartamento,
confesso que, às vezes, o fato de as paredes desse residencial
serem de vidro me ajudava. Lógico que, quando ela estiver
comigo, em nossa cobertura aqui, o que não vai faltar serão
pesadas cortinas para nos isolar do mundo, mantendo nossa
privacidade longe dos olhos curiosos. Quando a vi, larguei meu
telescópio e corri atrás de uma camisa e sapatos. Finalmente,
finalmente depois de tantos dias eu iria vê-la de perto. E
quando vi, notei o quanto ela precisava de mim, mas, admito,
não mais do que eu precisava dela.
Como eu sinto saudade, amore mio.
Precisava trazê-la de volta ao que era antes, não
suportava vê-la assim, tão frágil e pequena, com aquelas
muletas. Tê-la em meus braços, velar seu sono pacífico foi um
bálsamo para meu estado de espírito, eu a protegi da noite e
ela agarrou-se a mim, permitindo que eu fosse seu protetor.
Vou curar todo mal que te causei, amor.
Mas, para isso, eu precisava de uma parte do antigo Rocco
de volta. Respirei fundo, sentindo-me estranhamente
recarregado. É hora de os dados rolarem, baby. Decidi que não
poderia demonstrar o quanto eu estava destruído por tudo que
estava acontecendo.
— Desistir? Eu? — Sorri de lado e ela virou-se
completamente para me olhar. — Acho pouco provável, amore
mio. — Desencostei da parede de folhas e caminhei tranquilo
até estar frente a frente com ela.
Porra! Que saudade do caralho!
— Eu adoro um desafio, nunca desisto daquilo que quero.
— Inclinei-me um pouco, sorrindo torto. — Principalmente
quando esse desafio é o mais importante da minha maldita
vida.
Victória abriu e fechou a boca, não disse nada, então eu
me aproximei ainda mais.
— Não se aproxime. — Deu um passo atrás, de forma
desajeitada. — Não entre no meu espaço pessoal, não fique tão
próximo. Por favor. — Sua respiração acelerou, ela engoliu em
seco.
Ri baixinho, mantendo o equilíbrio. Ela está nervosa! Isso
é muito bom. Senti meu peito expandindo, agora eu tinha que
pressionar com calma.
— Eu não quero entrar apenas no seu espaço pessoal,
pequena. — Caminhei mais para perto, Victória recuava
levemente. Éramos quase sincronizados. Sempre perfeitos
juntos.
— Você não entende. — Sacudiu a cabeça. — Estou te
pedindo para me deixar em paz.
Por um momento parei de andar em sua direção, permiti
que ela me golpeasse com suas palavras. Só que eu estava
endurecido, nada do que ela me dissesse me faria desistir, a
paciência tornou-se meu sobrenome.
— Rocco, estou danificada. — Ela baixou a cabeça e
pareceu que o que eu tinha avançado naquele momento não
fez diferença alguma. Victória recuava não apenas física, mas
emocionalmente, e eu tinha que forçá-la a voltar. Sair daquela
zona escura.
— Eu não me importo, eu te quero de qualquer jeito! —
decretei firme, sentindo meu coração apertando de novo.
Minhas mãos coçando ansiosas por tocá-la.
Sentia meu sangue esfriando e esquentando, um turbilhão
de necessidade me engolindo. Meu corpo todo tremia em
expectativa, ninguém entendia a sensação, apenas eu. Essa
necessidade por ter Victória era tão fundamental quanto
respirar.
Esperei calado. Então ela ergueu a cabeça e me olhou. O
que eu vi me fez ter ainda mais certeza de que ela precisava de
mim para nunca desistir, e sim lutar por nos dois, ou melhor,
nós três.
— Eu gostaria de poder me atirar em seus braços e deixar
tudo para lá, eu gostaria de dizer que vai ficar tudo bem, eu
gostaria de sentir que tudo estava em seu devido lugar, mas
não… — soluçou encolhendo-se. Parecia que ela queria sumir
entre as folhas que formavam a parede daquele labirinto.
Victória estava tão fragilizada que eu não sabia se
conseguiria deixá-la ir, eu tinha esse momento e não sabia
quando teria outro. Se só eu pudesse fazê-la compreender que
eu nunca iria desistir, talvez, as coisas começassem a entrar
nos eixos.
— Me ouça, confie em mim só desta vez. — Fiz um gesto de
paz com as mãos, indo em sua direção, ignorando seus
protestos. — Amor, estou aqui para cuidar de você e do nosso
filho. — Estendi as mãos e, como ela não disse nada, puxei seu
corpo trêmulo para meus braços. — Confia em mim para cuidar
de suas necessidades, não me afaste mais, vamos devagar, no
seu ritmo, prometo que vai dar tudo certo.
Victória não respondeu. Ela apenas tremeu mais, ali,
presa em meus braços, meu calor a cercando, meu corpo muito
maior a protegendo.
— Estou aqui e não vou a lugar algum. — Acariciei seus
cabelos macios, beijando o topo de sua cabeça, e quase gritei de
felicidade quando ela largou as muletas e me abraçou de volta.
Segurando as lágrimas, eu a apertei ainda mais. — Ouça meu
coração, eu aprendi com todos os meus erros, eu sofro por eles
porque foram os causadores de sua dor, eu te sinto, minha
pequena, eu te vivo em meu íntimo todo santo dia.
— Estou tão cansada, Rocco. — Meu nome saiu abafado,
pois seu rosto estava enterrado em meu peito. — Eu fiz tudo
que podia para me manter firme e não desistir dos meus
sonhos, você sabe. Foram tantos anos, e depois você chegou.
Não deu certo, não era para ser — chorou baixinho. — Eu vi
mais do que posso aguentar, senti mais do que poderia
suportar. Não merecia nada daquilo que você fez.
Fizemos silêncio, beijei o topo de sua cabeça, acomodando-
a melhor em meu abraço.
— Eu fujo porque é seguro para mim, entende? Eu
descobri que é possível viver sozinha. — Cada palavra era mais
triste que a anterior. — Hoje eu não consigo cogitar a hipótese
de voltar para você. Sinto pânico disso, morro de medo, sinto
falta de ar só de imaginar isso acontecendo. — Seu corpo
tremeu e ela encolheu-se ainda mais. — Fico feliz em raros
momentos, quando penso em você, não sinto amor, mas o sinto
por causa do bebê que você me deu, é tudo tão confuso e
estranho.
Fechei meus olhos, enterrando meu rosto em seu pescoço,
aspirei seu perfume suave, matando um pouco mais da
saudade que eu sentia de seu cheiro, corpo e calor. Mesmo que
ela esteja estranhamente fria.
— Eu não quero te magoar, não quero te fazer sofrer como
eu estou sofrendo. Eu tenho pesadelos horríveis, não consigo
dormir, não consigo reagir como gostaria. Mas então você me
toma em seus braços e expulsa meus fantasmas e eu não
entendo por que parece certo, mesmo sendo tão errado.
Um som de angústia retumbou em meu peito. Não
consegui evitar, era como se eu vivesse em um estado pré-
primitivo. A qualquer momento eu me tornaria um selvagem,
não conseguia imaginar Victória sofrendo tanto, mesmo
sabendo que eu a coloquei nessa situação, me desesperava por
não estar ali para cuidar dela.
— Sinto tanto frio. — Notei sua voz assustada — Mas
agora sinto um pouco de calor, entretanto sei que logo estarei
enterrada novamente nesse caos sem fim.
Enchi meus pulmões de ar para poder respirar como eu
não conseguia quando estava longe dela. Mais uma vez aspirei
seu cheiro e, com cuidado, afastei seus cabelos, onde pude
depositar um suave beijo em seu pescoço.
— Sinta meu calor — falei bem baixinho, esfregando meu
nariz em seu pescoço, e com muito prazer notava sua pele
arrepiar. — Sinta como meu corpo abrange o seu, como você se
encaixa em meus braços, tome minha força, ouça meu amor te
implorando. — Beijei sua bochecha. — Você sabe que não irei
desistir, não é? — perguntei olhando dentro de seus olhos tão
lindos e lacrimosos. Ela fez que sim.
Victória encostou o rosto em meu peito. Esfreguei meus
lábios em seu cabelo.
— Em instantes o medo é tão poderoso que me vejo
confusa, a realidade se torna indistinta, os sentimentos se
confundem… — Senti-a apertando minha camisa — Me vejo de
volta àquele bar, revivendo tudo. Eu não quero voltar lá, mas
minha consciência parece estar presa e incapaz de se libertar.
Esperei em silêncio, não ousei proferir uma palavra. Ela
estava desabafando, precisava ouvir tudo para poder saber
como agir de maneira correta. Victória está pior do que pensei,
pois não foi só seu coração que foi quebrado por minhas
atitudes. Dio santo! Sua mente parece destroçada também.
— A loucura parece ser minha companheira, sabe? — Seu
rosto se ergueu e ela me olhou, seus olhos estavam vazios,
assombrados. — Os pesadelos são meus únicos sonhos. Odeio
dormir.
Oh, Dio mio… O medo me golpeou quando me vi
conhecedor dessa realidade, e mais uma vez agradeci ao
destino por ser o homem duro que sou. Pois o que venho
passando já teria feito muito infeliz desistir.
— Eu não busquei sentir, eu me deixei levar, parei de me
importar e, quando me dei conta… — Deu de ombros. — … eu
percebi que buscar sentimentos é tão ruim quanto meus
pesadelos, por um pequeno momento eu estou feliz, animada,
então depois é pior, porque o medo volta redobrado e me
destrói, estou presa em um ciclo infinito. — Victória colocou as
mãos no meu rosto. — Eu não quero ficar assim, Rocco, eu
quero ser como eu era, mas não consigo evitar ter medo, esse
medo me faz ter certeza do que digo. — Ela me fitou
novamente, ficamos nos encarando durante alguns segundos,
foi doloroso de ver seus belos olhos enchendo-se de lágrimas
novamente, pior foi vê-las rolarem.
— Minha pequena. — Limpei suas lágrimas com todo
amor.
O fervor de sua emoção passou, ela me deixou carente
quando soltou meu rosto, mas ainda havia resquícios de
necessidade, seu rosto amparado por meu peito era um alento
também.
— Não lute por algo perdido. — Enquanto ela olhava para
o jardim secreto, eu acariciava suas costas e cabelos, beijando
de vez em quando. — Não me sinto preparada para receber
outro golpe. Ainda não me recuperei deste e nem sei se algum
dia vou. — Balançou a cabeça. — Deus sabe de tudo, Ele é
minha força e acho que por isso poupou meu filho, juro que
sem meu bebê, com certeza, eu estaria morta. Já está difícil,
mas sem meu Gianne? Oh, seria impossível.
— Shhh — murmurei, acariciando seus cabelos. — Tudo
vai ficar bem, eu nunca vou te deixar, vou esperar o tempo que
for, irei lutar por nossa pequena família. Vocês são minha vida,
nada mais importa. Você é forte, sei que vai conseguir se
recuperar.
De fato, eu tinha que acreditar nisso mesmo que tudo em
mim gritasse de medo, não dependia apenas da minha vontade.
O tormento de Victória era algo que a estava sobrecarregando,
e eu precisava que ela depositasse essa carga em mim para que
eu pudesse aliviá-la.
— Não vai passar — negou. — Não estou conseguindo sair
desse mar de autopiedade, eu só quero ficar sozinha, não quero
ter que encarar as pessoas. — Aspirou meu cheiro. — Você
mudou seu perfume? — Sua voz saiu tão baixa que quase não
ouvi. — Seu cheiro é… — Respirou fundo outra vez, senti seu
corpo ficar um pouco mole, lânguido. — Gosto mais desse.
Notei que ela parecia falar consigo própria.
— Victória. — Engoli seco, eu estava reagindo também,
enchendo-me de esperança. — Me deixa te ajudar? Eu sei que
posso, somos mais fortes quando estamos juntos! Veja o milagre
que nossa união criou. Ele cresce em seu ventre, meu amor. —
Beijei seus cabelos. — Veja como somos perfeitos juntos. Olhe
como não conseguimos nos manter longe. — Respirei fundo. —
Per favore, amore mio, deixe-me te carregar em meus braços, te
abraçar durante a noite e expulsar seus pesadelos. Deixe-me
apenas cuidar de você. Me diga sim?
Ela tremeu e eu a agarrei mais.
— Só estou aqui por você. — Tentei sorrir. — Per favore,
me aceita de volta, me permita te ajudar.
— Ninguém pode me ajudar. Só eu mesma. —
Recuperando-se daquele pequeno momento de entrega, ela
pareceu despertar, pois a senti enrijecer. — Por favor… —
Empurrou-me de leve, e eu entendi que ela queria que eu a
soltasse.
Victória apoiou-se sozinha, gemendo de dor, sua perna
bambeou e ela começou a cair para o lado. Não permiti que isso
acontecesse.
— Dio mio… — grunhi preocupado, segurando seu corpo
de novo, na verdade não queria soltar de jeito nenhum.
— Minhas muletas, por favor — falou baixinho, e eu
obedeci. Ajudando como podia.
— Você ainda está com a perna muito machucada?
— Parei a minha reabilitação — respondeu sem me
encarar. — Não me importa a perna, só meu bebê, dele eu
cuido.
Ficamos em silêncio, Victória encarava o chão e eu a
encarava, não dava para ver nada de sua barriga, a roupa que
ela vestia era larga, nem mesmo quando eu a abraçava eu
pude senti-la. Mas eu queria ver de que tamanho estava, talvez
tocar por um momento, sentir o lugar onde meu filho crescia.
Eu não fiz isso durante a noite, quando tive a oportunidade, eu
apenas a tomei em meus braços, acolhendo seu corpo pequeno,
roubei um beijo sutil. E, depois, só a abracei.
Agora, eu queria tocar sua barriga, eu queria sentir.
— Eu acho que fechamos nosso ciclo, Rocco. Eu não
encontro nada que tenha ficado por ser dito, as palavras
esgotaram-se… — Congelei chocado, Victória ia dizer algo,
então parou, respirou e ergueu o queixo. — Quero que você
tente recomeçar sua vida sem mim.
Nervoso, neguei, em forma de autodefesa, cruzei meus
braços.
— Nem ouse começar a dizer uma merda dessas! — fui
enfático em minhas palavras
— Eu quero que você tente construir uma nova vida. —
Seu olhar, aos poucos, foi ficando opaco. — Eu quero que você
seja feliz. — Triste, vi o exato momento em que o pouco de calor
que ainda restava em seus olhos morreu.
— Feliz só se for com você! — rosnei, sentindo meus
músculos tensionando ainda mais. — Como falei, vou continuar
insistindo até você perceber que o melhor é você desistir… —
dei ênfase nessa palavra — e voltar para mim.
— Você ainda não entendeu, não é?! — murmurou e
balançou a cabeça suavemente. — Mas vou te explicar para
que fique a par de tudo.
Ficamos em silêncio, então Victória começou a falar
baixinho:
— Eu não sinto a mesma alegria de antes. Hoje eu acordei
e me senti bem, disposta a tentar, mas, então, essa vontade
passou. Já te disse que estou muito cansada. A vida nunca foi
fácil para mim, eu lutei durante muito tempo. Agora minhas
forças esgotaram-se. — Esfregou o rosto. — Quando durmo, há
sangue, dor, vozes, mas, principalmente, há você e várias
mulheres. Tudo parece tão real que é inevitável sair do buraco.
Estou repetindo, entenda de uma vez. Eu queria poder
esquecer e recomeçar, mas também não quero recomeçar, eu
só quero meu bebê em meus braços. — Ela me encarou, por um
instante quis recuar com o que vi. — Não quero mais você.
Entende isso.
— Victória, eu te a…
— Por favor, não diga isso — interrompeu-me. — Não diz
isso, porque agora não faz sentido.
— Eu quero gritar para os quatro cantos. — Abri os
braços, ela me encarou de cenho franzido.
— Você parece maior. — Uma leve cor rosada tomou suas
bochechas, foi apenas um leve toque de rosa, destacado pelo
fato de ela estar tão pálida.
— Eu estou. — Desviei meu rosto, confuso e aliviado pela
mudança brusca. — Isso te incomoda? Você repudia o fato de
eu estar com uma constituição física monstruosa, além de tudo
com essa cara? — Fiz um gesto com a mão em direção ao meu
próprio rosto. — Não só isso, você aceita o homem bruto que
sou?
— Eu te aceitava como era, o que eu queria que você
mudasse era para o nosso bem, além disso… — Victória falou e
o tom de rosa em sua bochecha intensificou mais um pouco. —
Você é muito bonito e sabe disso. — Pigarreou desconfortável.
— Você pode ficar do jeito que quiser, e ainda assim vai ficar…
— Ela olhou o chão como se procurasse algo. — Vai ficar bem,
digo, você entende. É isso.
Sorri satisfeito. Grazie a Dio. Ficamos em silêncio mais
uma vez, estávamos pisando em ovos, na verdade tinha que ser
assim. Eu iria com calma.
— Quero estar presente em sua vida e saber das coisas do
nosso filho — soltei de surpresa.
Victória remexeu-se, logo fez uma careta, disfarçando algo.
Sabia que era sua perna.
— Eu estou com quatorze semanas e um pouquinho. — As
notícias me fascinaram, queria saber tudo. — O Gianne está
bem e forte. — Victória acariciou a barriga e eu fui para fazer o
mesmo, mas ela meneou a cabeça.
Não prossegui. Senti-me morrer um pouco por isso.
— A esperança pode ser pior que a fatalidade. Não tenho
esse sentimento e prefiro assim.
— Você não faz ideia do que me fez sobreviver durante o
pior momento. A esperança e a fé que você me ensinou a ter me
fizeram sobreviver à grande turbulência, o que eu vi me
assombrará para o resto da minha vida.
— O que eu vejo ainda me assombra — retrucou olhando
em meus olhos. — Tenho que ir.
Eu queria negar, queria roubá-la para mim, mostrar que
tínhamos de ficar juntos, que eu poderia cuidar de todas as
suas necessidades, fossem quais fossem. Reprimi meus desejos
e permiti que ela partisse. Segui-a. Ver a forma como
caminhava me causava dor e pesar, entretanto, vê-la de pé era
mais do que esperei quando o acidente aconteceu. Só o fato de
Victória ter sobrevivido, para mim, era a maior de todas as
bênçãos. Não me importava com sequelas, eu a queria do jeito
que viesse.
Um passo atrás, caminhei até a saída do labirinto, o que
demorou um pouco, Victória dava cada passo devagar, por
causa da sua condição. Ela me ignorava, mas eu estava ali, por
perto, como uma sombra, pronto para segurá-la, se ela caísse, o
que não aconteceu, graças a Deus.
Observei-a pausar sua caminhada quando estava prestes
a cruzar o limite entre o labirinto e a grande área de campo
aberto do residencial.
— Se eu te peço para desistir de mim, é porque não quero
te ver decepcionado. Deus está trabalhando para que eu me
levante com minhas próprias pernas, e, no fundo, o grande
sentimento que um dia eu senti por você me faz perceber que
nunca poderia desejar seu mal. Por isso te digo, recomece, eu
não tenho condições de lidar com um homem como você.
Dito isso ela voltou a caminhar no mesmo ritmo penoso. E
eu aqui, louco para carregá-la.
— Eu te esperarei o tempo que for — falei bem alto, sabia
que ela escutava. — Nunca irei desistir, pelo contrário, vou
lutar todos os dias.
Victória parou, mas não virou para me olhar. Ela apenas
negou, depois foi embora.
— Quem vive sem seu próprio coração, meu amor? —
questionei baixo, olhando-a afastar-se, segui atrás. Prestando
atenção em seu caminhar, nas vezes que ela parava e
acariciava a barriga, eu me aproximava mais, sempre vigilante,
sempre pronto.
A cada passo que eu dava, mais determinação era
despejada em meu sangue. O Rocco que amava sabia que
estava apenas no início de uma longa jornada, e o antigo Rocco,
aquele cínico, sabia que não havia possibilidade de desistir
dessa mulher.
— O amor é uma força poderosa, o amor de Victória me
mudou, agora o meu irá fazer o mesmo por ela. — Parando em
frente a seu prédio, observei-a entrar e sumir de vista.
Este é apenas o início, baby, e espero que esteja convicta
de que não me quer, pois não irei facilitar, irei jogar pesado!
Sorri em meio ao desespero.
— Para te ter de volta tudo será valido, amore mio. —
Esfreguei o rosto e fui para casa.
Era hora de marcar presença.

***

Victória

Entrei no elevador e apertei todos os andares até a


cobertura, eu queria esses minutos a mais para pensar. Olhei
para o mundo lá fora quando comecei a subir, nesses instantes
eu pensava em pequenos detalhes da minha vida que até então
eu estava deixando de lado.
O perdão, por exemplo, pode fazer mais bem para quem
perdoa do que para quem é perdoado. Não me referia ao fato de
apenas proferir “eu te perdoo”, e sim ao fato de sentir a
liberdade que isso dá, desprender-se da mágoa, libertar-se das
cadeias e saber que, na vida, às vezes temos uma única
oportunidade para dizer sim. Nós, seres humanos, por mais que
tentemos, estamos sujeitos às falhas da carne. Porém, para
aquele que crê, a força do espírito é inabalável.
Deus provê essa força, e a fé é como um recipiente, é
necessário que seja grande para suportar o que Deus pode lhe
dar. Penso na fé como algo inexplicável, mas tenho certeza que
essa é a única conexão com o Santíssimo e não pode ser
medida, apenas expressada em gestos e ações. Eu me afundei
demais, não ouvia as palavras de Deus para mim, agora, sentia
como se uma venda fosse retirada dos meus olhos, só dependia
de mim esse recomeço, pois Deus me deu a oportunidade da
vida, e agora eu precisava mostrar que não foi em vão. Mesmo
sendo difícil, porque, juro, não parece que vou sair desse
buraco no qual me encontro. Mas sei também que não há
vitória sem esforço, não há perdão sem abnegação.
Fechei meus olhos por um momento, pensei em Rocco.
Ele era o limiar entre meu presente e passado, entre
minha felicidade e minha dor. Ele era minha confusão e decisão
também. Eu precisava me reencontrar com minhas raízes.
Abri meus olhos e fitei através da parede de vidro do
elevador.
— Perdão pelas minhas falhas, perdão por não buscá-lo
como deveria, meu Deus. — Observei a grandiosidade do
mundo lá fora.
Entregar-me à depressão foi um ato de negação à minha fé
a ao amor de Cristo por mim. Eu sabia que será difícil, mas a
força de um gigante habitava em minha alma, eu só tinha que
fazer uso dela, para assim ser forte e ser a mãe que meu filho
precisava. Não podia desapontar meu bebê nem a mim mesma,
e muito menos tudo que já disse e fiz, se da minha própria boca
eu falei para esperar em Deus com paciência, então eu devia
dar o exemplo e acreditar. Eu sempre fui forte em minhas
convicções, e estava na hora de provar que a fé move
montanhas, basta que eu dê o primeiro passo.
O elevador abriu e eu pisei no hall de entrada do
apartamento do meu pai. Assim que entrei na sala, todos me
olharam com cara de assombro.
— Bom dia a todos — saudei e não houver respostas.
Tia Laura levantou do sofá sorrindo. Acho que algo em
mim mudou, mesmo sendo pouco, e pela primeira vez em muito
tempo eu pude retribuir o sorriso.
Foi muito bom. Talvez ainda faltasse muito chão pela
frente, talvez aquela antiga Victória estivesse perdida para
sempre, mas nada me impedia de continuar procurando-a.
— Minha filha, tudo bem? — tia Laura perguntou e eu
acenei.
Eu entendi a pergunta que ela não fez. Sim, tia, eu estou
recomeçando, pelo menos tentando.
— Oh! — Sorriu levando as duas mãos à boca.
Ela me conhecia tão bem.
Meu pai e Jason deram um sorriso tão lindo que seus
rostos enrugaram, poderia jurar que o sol parecia brilhar
dentro naquele apartamento.
— Eu pensei que estivesse dormindo! — meu pai falou. —
Eu não te incomodei porque nesses dias eu ia te ver e você
sempre acordava de seu sono.
— Eu saí cedo, todos ainda dormiam, mas isso não vem ao
caso. — Pisquei um olho.
Meu pai acenou concordando, seu rosto estava iluminado,
ele até pareceu perder um pouco daquele ar cansado.
— Ainda bem que estão todos juntos. — Todos prestavam
atenção em mim. — Agradeço pela paciência, amor e cuidado
que tiveram comigo. Não foi fácil e ainda não será. — Respirei
fundo. — Eu quero tentar recomeçar! Eu quero poder sorrir,
trabalhar, desfrutar dessa segunda chance que me foi
concedida.
Fechei meus olhos, pensei em minha mãe e no quanto ela
me fez falta. Ela entregou-se à depressão, eu não iria fazer o
mesmo. Jamais abandonaria as pessoas que amava porque
minha dor era demais para suportar, não poderia ser egoísta e
deixá-los. Eu tinha que lutar, por meu filho, por eles, e por
mim.
— Eu não sei como será a partir de agora, mas sei que não
será como antes. — Engoli em seco e olhei para meu pai. —
Aceito a ajuda da doutora. Rosana. — Fitei Jason. — Aceito
voltar a fazer minha reabilitação. — Encarei minha tia. —
Aceito voltar a trabalhar.
Todos gritaram de felicidade e, quando dei por mim, eu era
apertada em um incrível e caloroso abraço em grupo.
No fundo, não parecia haver calor suficiente.

***

Naquele dia, meu pai pareceu não querer perder tempo,


eu achava que ele tinha medo de tudo que eu disse ser apenas
da boca para fora. Não estava sendo fácil, pois de uma hora
para outra a tristeza inexplicável voltou, então eu soube que
minha alegria natural estava extinta, mais tarde, eu notei que
teria que buscar essa sensação. Alegrar-me com a alegria dos
outros, vivendo assim, usurpando sentimentos alheios, porque
em mim algo permanecia perdido.
O clima de melancolia aliviou, era como se as nuvens
escuras se dissipassem. Descobri-me querendo tentar por
todos. Agradar meus entes queridos, no fim, eu só tinha a eles.
A tarde passou e foi agradável e tranquila, ninguém
forçava a barra, eles estavam no meu ritmo, agradecia por isso.
Devagar eu chegaria aonde deseja.
Era noite quando minha avó chegou acompanhada de
Carlos. Ele era alguém a quem eu devia bastante e me ajudou
em todo momento. Ele era muito especial para mim, um homem
incrível e de uma bondade espantosa. Pude sentir sua alegria,
pois assim que me viu sentada na sala ele demonstrou isso.
Sem sombra de dúvida, Carlos merecia saber de tudo, afinal,
ele também estava em plena expectativa com meu desempenho,
até então, decepcionante.
— Pensei que não te veria assim novamente! — exclamou
vindo em minha direção e surpreendendo-me com um abraço
apertado.
Gostei também. Logo minha avó estava tomando seu
lugar.
— Minha menina, eu estou tão feliz, tão feliz por te ver
melhor — exclamou beijando meu rosto, acariciando meus
cabelos.
— Eu estou tentando, vovó. — Ela sorriu, me abraçando
apertado. — Eu quero estar presente em todos os momentos,
eu quero ser sua amiga.
— Eu aceito.
Aquele dia estava sendo muito melhor que os anteriores.
Quando a noite começou a se estender, uma ansiedade
começou a tomar conta de mim. Eu não iria sair daqui essa
noite, não queria me encontrar com Rocco, ele me abalava
muito, era algo diferente daquele abalo apaixonado que eu tive
no início do nosso relacionamento, agora parecia haver mais
desespero louco que desejo saudável. Balancei a cabeça, indo
até a varanda da sala para poder aliviar um pouco da
ansiedade. Respirei fundo e soltei o ar lentamente. Observei a
noite, as estrelas no céu. Naquela paz recentemente
descoberta, eu me vi querendo algo que poderia me machucar.
Como um bom sádico, eu vislumbro meu carrasco, eu deveria
fugir, e não ansiar por ele.
— Não é fácil se recuperar de um coração partido. — Ouvi
a voz de Carlos ao meu lado.
— Concordo e não acredito naquela história de um amor
curando outro. — Revirei os olhos. — maior bobagem.
Fizemos silêncio, então o Carlos suspirou e eu o olhei.
— Quem partiu seu coração, Carlos? — perguntei
baixinho, nesse momento eu vi meu antigo eu.
Eu me preocupei pelo homem diante de mim. Carlos me
olhou e sorriu triste. Pasma, vi quando ele levou o polegar até o
olho, parecia que limpava uma lágrima.
— Eu nunca imaginei que pudesse amar tanto. — Sua voz
era muito baixa e eu me aproximei mais. — Eu estava disposto
a enfrentar o mundo por ela. Eu me sentia como se não
pudesse viver sem tê-la por perto, era algo além da necessidade
física, era algo de alma, eu necessitava dela para simplesmente
viver.
Neste instante ele virou para a sala e seu olhar pousou em
nossa avó. Aos poucos o semblante do meu primo se tornou
pesado, ali havia tanta decepção que chegou a doer em mim.
— Ela não era como eu pensei. Nunca me enganei tanto
com uma pessoa. E também nunca me magoei tanto.
O silêncio estendeu-se sobre nós, e desta vez eu me
esqueci completamente de mim e pensei apenas naquele
homem que parecia lutar muito para não deixar as pessoas
notarem que sob a camada de sorriso e bondade havia um
homem marcado pela decepção de um amor fracassado. Então
vi como eu estava sendo egoísta, eu estava concentrada apenas
em meu sofrimento e acabei por esquecer o sofrimento dos
outros. E não só isso, eu também não me preocupei com o que
eu estava causando. Não mais.
— Não quer me contar o que houve? — perguntei tocando
seu braço.
— Não o há muito que dizer. — Tentou sorrir. —
Estávamos bem, eu ia pedi-la em casamento e iríamos ser
felizes. Apesar do medo que Gabrielly sentia da nossa avó, eu
estava disposto a lutar por ela. Não sou um jovem imaturo e
indeciso. Sou consciente dos meus desejos, das minhas
vontades. Por mais tranquilo que eu seja, não sou um pau
mandado de ninguém. Eu poderia fazê-la muito feliz. — Cruzou
os braços e torceu a boca. — Eu realmente iria colocar o mundo
a seus pés, iria ajudá-la a realizar cada um dos seus sonhos,
mas, no fim, ela era apenas mais uma interesseira no meio de
tantas, e eu, o brinquedo que depois de gasto, foi descartado.
Era notável a raiva, o desgosto e a revolta em sua voz.
Carlos era igual à antiga Victória, ele escondia sua dor atrás de
um sorriso, porém, só bastava chegar bem perto para notar que
ele sofria em silêncio. Suspirando, eu acabei com a distância
entre nós e o abracei, logo ele me apertou, beijando o topo da
minha cabeça e encostando seu queixo ali.
— Se juntar meu coração e o seu, será que conseguimos
um inteiro? — perguntou e eu ri.
— O resto do meu coração tem dono — respondi e Carlos
riu, me apertando mais um pouco, eu retribuí.
Ficamos ali durante bastante tempo, e eu confesso que
gostei. Não senti o mesmo que sentia com Rocco, pois ali era
algo diferente, eu não sentia atração por Carlos, mas eu
gostava de estar onde estava agora.
— Victória, será a sina da nossa família sofrer por amor?
— questionou suavemente, pegando meu queixo e
incentivando-me a olhá-lo.
Estávamos tão próximos.
— Formamos uma dupla e tanto — respondi e ele se
aproximou ao ponto de estarmos quase nariz com nariz. — Mas
será que para você ainda não tem solução, querido primo?
Carlos ficou tenso, acariciei suas costas, fazendo-o relaxar.
Não nos afastamos nem um pouco.
— Quem dera. — Beijou meu nariz e voltamos a nos
abraçar. — Apesar de tudo, eu ainda a amo, mas não acho que
tenha solução. Ela deixou claro para mim o que pensava. No
fim vovó tinha razão, Gabrielly não me queria, ela só queria o
que eu poderia dar, e quando conseguiu, descartou o idiota
aqui. Dona Antonieta me disse que mais cedo ou mais tarde a
garota que me cegou mostraria as garras. Ela tinha razão.
Mais uma vez o silêncio se fez presente, entretanto, uma
chama misteriosa acendeu em meu peito. Apesar de estar feliz
por ter minha avó, eu sabia que ela podia ser cruel, então eu
realmente achava que ela poderia ter feito com Carlos o que fez
com meu pai. Olhei para minha avó e vi seu sorriso de
felicidade, sua expressão era de pura realização, e eu sabia o
que ela estava vendo.
Eu e Carlos, juntos.
Capítulo 3
Rocco

— Sai dos braços dele, amore mio! — rosnei cravando


meus olhos naquela cena aterrorizante.
Mal acreditei quando vi que na cobertura do Victor
parecia haver uma pequena reunião familiar. Mesmo longe
como eu estava, era muito claro, para mim, como Victória
parecia diferente. Havia algo no ar, mesmo em sua negativa a
mim e sua recuperação, eu percebi que minha garota havia de
alguma forma despertado. Pelo meu telescópio eu consegui
capturar um ou outro sorriso, ela estava linda. E longe de mim!
Meu corpo tremia, ansiando, surtando. Eu estava querendo ir
até lá, mas sabia que não poderia. Obriguei-me a ter calma,
mesmo minha paciência estando no limite, eu sabia que se
chegasse lá, talvez não fosse recebido, e para ter Victória eu
precisava pegá-la de guarda baixa. Ou seja, sozinha.
— Foda-se! — Atirei meu copo de uísque contra a parede.
Eu queria odiar aquele filho da puta, mas não podia. Ele
me ajudou de várias maneiras. Todavia, estava sentindo
minhas emoções ameaçando explodir, sentia-me enjaulado,
como uma fera acuada, com as garras e presas à mostra.
Respirei fundo e me obriguei a olhar novamente.
— Como um bom sádico que vive apertando as feridas. —
Esfreguei minha barba. — Não a toque assim. Não fique tão
próximo. Ela é minha! — urrei furioso. — Minha e só minha!
Eu estava tremendo cada vez mais, Victória permanecia no
mesmo lugar, e o pior, ela parecia gostar. Quase não acreditei
quando vi Carlos segurando seu queixo e erguendo seu rosto,
aquilo foi quase como um soco no meio da minha cara, eu
estava ofegando de nervosismo, sentindo milhões de
sentimentos conflitantes e avassaladores.
— Não ouse fazer isso! — gritei enfiando os dedos no meu
cabelo. Não era possível, parecia que eles iriam se beijar.
Arregalei meus olhos, sentindo meu corpo arrepiando de
pavor misturado ao ódio homicida.
— Não… Não… Não… — Engasguei em completo estado de
paralisia estarrecedora. Agora, sim, eu tomei uma pequena
dose do que Victória sentiu quando cometi a maior loucura da
minha vida, e olha que o beijo deles nem veio, mas foda-se,
parecia que não iria demorar a surgir.
— Caralho! Puta que pariu! — Eu me sentia puto com
aquela situação. — Não!
Sentia-me irado, tremendo de fúria mal contida
acrescentada ao medo, assim me via, um homem voltando ao
estado primal. Nesse instante era quase como se o psicopata
que havia em mim estivesse querendo se fazer presente.
Entretanto, isso não iria acontecer. Eu aprendi que as coisas
relacionadas a Victória tinham que ser feitas com gentileza,
mesmo que eu quisesse explodir uma guerra mundial, perto
dela, eu tinha que ser um gentleman, cuidadoso, delicado.
Não me enganava com isso, pois continuava o mesmo
bruto de sempre, mas para os outros, com Victória eu seria
manso como um cachorrinho, o dela, mas precisamente.
— Não permita que ele se aproxime, baby. — Apertei o
tripé que segurava o telescópio na altura ideal. — Não o beije.
Não o beije, porra!
Eu estava tão feliz por te tido aquele momento mais cedo
com minha mulher, eu estava tão certo de que mais cedo ou
tarde iria conseguir entrar novamente em sua vida. Não me
referia ao fato de estar com ela pelo nosso filho, mas ao fato de
estar com ela porque nós pertencemos um ao outro, e nada
nem ninguém vai mudar isso. “Não esteja tão certo, olhe bem
adiante”, uma voz falou em minha cabeça, deve ser minha
loucura com certeza.
— Caralho!
Outro irá tomar seu lugar.
Será possível que até a voz da minha consciência quer me
foder? Porra, quem vai ficar do meu lado? Dane-se, eu me viro
sozinho, mas só por cima do meu cadáver é que vou perder
minha mulher! Não estou podre para deixar uma desgraça
dessa acontecer, eu vou ter minha mulher de volta. Nem que
para isso eu tenha que agir como um desentendido doido e
possesso.
Fiquei ali até onde pude suportar, eu estava
desestabilizado, minha personalidade estava entrando em
conflito com minhas necessidades, já me via fora de controle, e
por mais que eu tentasse, não tinha jeito. Não tinha como eu
virar um príncipe, não iria ficar bonzinho e muito menos um
banana simplório que acata decisões. Homens como eu fazem
as oportunidades surgirem, criamos momentos, idealizamos
soluções. Agora eu precisava fazer minha garota se afastar
daquele doutor. Sem pensar direito, na verdade, eu já estava
sem pensar desde que vi os dois abraçados. Então foda-se de
novo, eu resolvi descer e ir até o prédio de Victória. Eu não era
nenhum adolescente para me esconder e iria jogar pesado, não
existia possibilidade de eu permitir outro homem tomando o
meu lugar.
— Não mesmo. Victória é minha mulher! — Trinquei os
dentes. — Ela espera meu filho!
Cheguei ao prédio de Victória e entrei, caminhei até a
recepção, onde de cara avistei o mesmo rapaz que abordei
ontem. Ele estava de cabeça baixa, parecia ler alguma coisa,
então me aproximei, colocando uma das mãos na bancada de
mármore, logo pigarreei para chamar atenção.
Ele ergueu a cabeça e sua primeira frase quase me deixou
confuso.
— Volte de ré, satanás! — exclamou e eu arqueei uma
sobrancelha, cruzando os braços, o rapaz ficou branco feito
folha de papel assim que notou o que falou. — Senhor… —
murmurou desfalecendo na cadeira — perdoe-me, por favor.
Revirei os olhos.
— Qual o seu nome? — perguntei, e mesmo tentando soar
calmo, meu estado de espírito não era dos melhores, por isso
minha voz saiu meio rosnada e agressiva.
Respirei, tentando relaxar, o rapaz diante de mim estava
ficando meio roxo. Tentei sorrir, mas acho que fiz apenas uma
exibição dos dentes.
— Misericórdia. — Ouvi seu murmúrio assustado e sua
cor mudou para azul.
— Seu nome? — tornei a perguntar e vi como o sujeito
soltava a respiração de forma trêmula e espaçada.
— Mirosvaldo.
— Prazer, Mirros-vald — tentei pronunciar seu nome e eu
sei que saiu estranho, todavia não me preocupava com isso. —
Rocco Masari. — Estendi uma das mãos e o esperei criar
coragem e pegar.
Coitado, estava gelado.
— Começamos com o pé esquerdo, não acha? — perguntei
e notei que ele ainda me olhava assustado.
Obriguei-me a relaxar e parecer menos assustador, mas,
infelizmente, minha cara de ódio não dava para mudar, eu
precisava da ajuda daquele homem e a teria de um jeito ou de
outro.
— Sim, senhor — falou baixo. E eu concordei.
— Ótimo, preciso de um favor, tudo bem? — perguntei,
trocando o peso do corpo para o outro pé, estava impaciente e
muito, muito nervoso.
Na verdade meu corpo tremia levemente, era como se eu
estivesse carregando uma grande energia que precisava ser
liberada ou estivesse prestes a ter minha cabeça cortada, a
sensação de fim de mundo estava me carcomendo inteiro. Quer
me ver explodindo o mundo? Muito fácil, é só Victória aceitar
outro homem em sua vida.
— O que o senhor deseja? — perguntou desconfiado e eu
dei um sorriso de boca fechada.
— Eu preciso que você interfone para apartamento da
minha esposa e chame por ela. Você vai dar um recado para
mim.
— Senhor, eu não quero me meter em confusão de casal!
No final das contas vai sobrar para o pobre recepcionista, por
favor me deixe de fora. — Travou, encolhendo quando grunhi
baixinho. — Tudo bem, eu faço.
— Mas, senhor, o que eu vou dizer para ela?
Pensei durante um momento então sorri de verdade agora.
— Olhe para o labirinto às duas da manhã.
Saí de lá e corri para meu apartamento. Eu estava louco
para extravasar todo o estresse acumulado naquele dia, era
isso ou pirar de vez. Não sei como as mulheres conseguem
comer doces quando estão na merda, eu mesmo quero brigar
até meu corpo implorar descanso ou eu não suportar mais a
pancadaria. O que de fato ainda não aconteceu na minha vida,
já bati e levei muita porrada, mas cair até agora nunca
aconteceu. No fim, só Victória conseguia me pôr de joelhos, ela,
sim, tem o poder de me derrubar. Assim que atravessei a porta
da minha cobertura arranquei minhas roupas, ficando apenas
de boxer, logo fui para o quarto, onde mantinha o saco de
pancadas e meus equipamentos de luta e treino, não coloquei
nenhuma proteção nas mãos nem liguei a luz. A lua iluminava
o suficiente. Eu não queria claridade, minhas emoções estavam
muitíssimo turbulentas. A escuridão combinava mais comigo
agora.
Fui até o home theater que coloquei ali e o liguei,
escolhendo de propósito a música que Victória cantava ontem
no labirinto, eu ouvi sua voz maravilhosa viajar pelo meu
corpo, me causando arrepios de prazer, e, depois, quando a
embalei em meus braços, não resisti, tomei seus lábios com
carinho. Foi apenas uma prova, um pequeno gosto, e então tirei
seus fones, eu queria que ela ouvisse meu coração que batia
por ela. Queria que ela compreendesse nossa música
silenciosa. Enquanto Victória dormia eu ouvia a mesma música
que ela cantou, então agora eu a coloquei em replay e deixei
rolar com o volume no máximo.
Respirei fundo e rosnei assim que o primeiro murro
acertou o saco com um som abafado, no mesmo instante um
violão dedilhava uma melodia dolorosa.
— Paciência! — grunhi esmurrando forte, o impacto da
força empregada reverberava em meus braços e corpo. —
Controle.
Meu corpo pulava, intercalando socos, minha dor sendo
um pouco descarregada, a música rolava alto, em minha
cabeça o desespero misturando-se ao arrependimento.
— Nunca irei desistir.
Outro murro. O suor escorria pelo meu peito e costas,
minhas mãos doíam, mas nada se comparava à dor em meu
coração.
Antes eu achava minha vida monótona, e agora ela era
essa constante montanha-russa, todavia, eu não trocaria o que
vivi e ainda irei viver com Victória por nada nesse mundo.
Antes eu vivia na mesmice, fodendo de todo jeito, sendo o
foderoso Masari, duro e cruel. Preferia o que era hoje, um
homem com muitos sentimentos, que sabia valorizar as coisas
simples da vida, mas, principalmente, um homem que tinha a
chance de ser feliz amando verdadeiramente. O foderoso Masari
ainda estava aqui, mas, verdade seja dita, ninguém que passou
pelo que eu passei, vive o da inteiro em modo fodão ligado.
Só sendo muito idiota para pensar nisso!
— Lute pela sua mulher! — grunhi bruto, dando uma
sequência de murros bem colocados e precisos. — Nunca
desistirei dela! — Esmurrei ainda mais forte e meus nódulos
romperam.
Sangue começou a escorrer por entre meus dedos. A cada
golpe que eu desferia contra o saco, dor disparava pelas minhas
mãos, meus dedos queimavam muito, todavia, nada se
comparava à dor da saudade e das lembranças.
Eu queria Victória em meus braços, eu queria poder tocá-
la quando quisesse, beijá-la, adorá-la como ela merecia. Mas
não, eu não podia fazer isso agora, porque eu fui malditamente
idiota e fodi com minha vida. Se eu parasse para pensar onde
eu poderia estar agora, eu ficaria ainda mais insano, pirado
mesmo. Eu penso que neste instante, eu estaria com Victória
contente, estaríamos fazendo planos, pensando com quem
nosso filho iria se parecer. Mas não, eu tinha que me sabotar.
— Danazzione!
Respirei fundo, mas não me controlei como eu queria.
— Porra! — Ataquei o saco com fúria crescente, meus
dedos sangravam, meus braços doíam, o suor escorria, mas não
dava para parar.
A dor física era como um calmante. Eu precisava dela,
necessitava, na verdade. Sem Victória, eu era apenas um
brutamontes ignorante. Com ela, eu era calmo e não só isso,
com ela ao meu lado eu era bom, precisava dela para me
manter assim. Só ela me fazia forte, completo. Real. Não poderia
jamais voltar a viver como antes, eu quero e terei minha mulher
de volta. Não é capricho, é necessidade mesmo.
Fiquei batendo no saco até a exaustão ser demais para
dominar, meu corpo implorava descanso, cada músculo doía,
mas era assim que eu preferia. Caminhei até a parede de vidro
e coloquei uma das mãos sangrentas lá, olhei diretamente para
a cobertura vizinha, não dava para ver direito, apenas
conseguia enxergar formas indistintas.
— Amore mio — murmurei ofegante, minha respiração
saindo entrecortada e com dificuldade. — Regressa-me, per
favore. — Fiz uma careta angustiada. — Te necessito.
Fiquei olhando para lá durante muito tempo, até que
decidi tomar um banho gelado para aliviar as dores em meus
músculos. Entrei debaixo da água congelante e a primeira coisa
que fiz foi encostar as duas mãos na parede, fechando meus
olhos, baixei a cabeça, permitindo a água escorrer pelas minhas
costas. Aliando o mínimo de dor. Tempos atrás Victória entraria
aqui, a primeira coisa que sentiria seriam suas pequenas mãos
deslizando pelas minhas costas. Senti calafrios de pura
nostalgia, respirei fundo, eu sabia que tão logo ela entrasse no
box e me tocasse um sorriso idiota tomaria meus lábios, meu
peito iria comprimir e minhas mãos coçariam por tocá-la. Todo
meu corpo tensionou com a recordação de seu toque, senti-me
ficar duro, a excitação das boas lembranças enrolando em
minha barriga, deixando-me ainda mais desesperado. Nesse
momento, meu corpo todo implorava por seu toque, meu
coração clamava por seu amor, minha mente, por paz, mas,
principalmente, eu, Rocco Masari, me desesperava por tê-la
completamente.
— Amore mio, regressa-me — murmurei esfregando o
rosto. — Não estou funcionando direito sem você.
E realmente não estava, cada minuto parecia ser mais
difícil que o anterior, cada dia era pior e, por mais incrível que
possa parecer, meu desejo em reconquistá-la só aumentava
mais e mais.
Não era desafio de ego masculino nem essas porras
idiotas, era amor puro e simples, vontade de estar perto, de
apenas ter a liberdade para tocar, beijar e amar. O homem que
fui criado para ser era do tipo implacável, e mesmo tendo
tomado decisões erradas, eu aprendi com elas, para nunca
repeti-las. Tirando desses erros ensinamentos para a vida toda.
Eu aprendi na dor que a fraqueza pode ser seu pior carrasco,
mas, felizmente, eu descobri no amor que a franqueza pode ser
sua maior força. Victória ficou vulnerável quando entregou-se a
mim, e eu achei que era forte por me resguardar, no fim, ela se
mostrou poderosa, pois sobreviveu a uma prova de fogo, e eu,
que me achava tão forte, quebrei em milhares de pedaços.
Infelizmente arrastei Victória para a lama do meu passado, eu
corrompi sua bondade com meu egoísmo, destruí seu coração
por vingança, agora vou limpá-la com o futuro, aliviá-la de sua
dor e reconstruir seu coração com meu amor.
— Eu tenho amor por nós dois, bella mia — murmurei
baixinho. — Ele será suficiente até você perceber que hoje eu
sou o homem que você merece.
Com isso em mente, saí do box sem me secar, me larguei
em minha cama, não me importei em molhar tudo. Cegamente
estiquei meu braço e catei as revistas que traziam minha
garota na capa. Que ironia, não? Antes Victória guardava uma
foto minha, agora eu guardava as dela. Comprei as revistas em
que a vi na capa.
O título da primeira foi: Depois de grave acidente que
quase tira sua vida, Victória Fontaine, a ilustre herdeira da
moda, desembarca no aeroporto internacional do Rio de Janeiro.
Nessa revista, a foto de capa, foi da época que Victória
explodiu na mídia. Graças a Deus o Brasil estava sendo gentil,
ainda não vi nada que magoasse Victória ser publicado, aqui
estava sendo muito diferente do que foi na Inglaterra, lá, a
mídia sensacionalista massacrou mia bella, e eu fiquei na
dúvida se fazia uma declaração ou não. Optei por esperar pelo
melhor momento.
Sorri malvado. Então, no momento certo todos teriam uma
surpresa. Só precisava que tudo fosse para o bem de Victória e
não para piorar seu estado, tornando-a ainda mais um objeto
de especulação alheia. Suspirei olhando suas fotos de capas,
nesse momento eu estava imaginando quando teria minha
mulher e meu filho aqui comigo.
— Em breve, amore mio. Muito em breve
Capítulo 4
Victória

Sentada em minha cama, observava o relógio.


— 01h57 da madrugada, Victória.
Permiti que a ansiedade se espalhasse pelo meu sangue,
quase podia experimentar o sentimento em meu paladar, e o
gosto me parecia meio amargo. Ele me espera.
Mordi o lábio, e lá está a esperança tentando fazer seu
caminho através dos meus sentidos fragilizados. Mas não iria
ceder, ele irá me fazer sofrer. Foram vários “vou mudar” e
várias decepções. Eu vivendo em prol dele, e de mim também,
mas pouco me recordo, no fim, foi a decepção que sobrou.
Quando com raiva ele me chamou de vadia e eu o perdoei
porque o amava. Quando com ciúmes ele espancou alguém até
a inconsciência, e eu propus que melhorasse para o nosso bem
e para manter nosso relacionamento saudável, sem desgastes
desnecessários. Quando desafiado ele desistiu de mim, aí eu
entendi, mas ele voltou e eu pedi para que ficasse comigo,
então ele tornou a desistir. Por fim, quando ele desconfiou, ele
me quebrou.
— Não vou tentar, muito menos me entregar! — exclamei
tentando soar convincente. Mas lá no fundo essa decisão não
me parecia firme, então eu só podia lutar para que fosse e
torcer para que desse certo.
Minha vida basicamente deu uma pausa, e agora o play foi
acionado. Sentia-me como um aparelho de videocassete, antigo
e ultrapassado. Precisava acompanhar o novo ritmo imposto,
não era como se eu tivesse a vida inteira para remoer, bastava,
agora era hora de lutar com o que eu tinha e crescer com o que
restou do que eu era.
Mas por que estou sentindo esse anseio louco se digo a
mim mesma que não, não e não?
— Por que ainda quero estar com ele? — questionei-me
desesperada por uma resposta o o mais rápido possível. — Por
que parece fácil querê-lo e difícil aceitá-lo? Será bom para
mim? Ou ruim, no fim das contas? Será que me sentir assim é
normal?
Esfreguei o rosto como se aquilo me trouxesse a resposta
que eu precisava mesmo sabendo que muito provavelmente
não adiantaria nada.
— Por Deus, por que eu ainda luto para entender o que
deveria ser tão fácil? — perguntei-me beirando o desespero. —
Em momentos é tão claro, em outros não é! Como pode, eu
mesma estou tentando arrumar argumentos para me
convencer de algo sobre o qual eu quero desesperadamente
estar segura e certa?
Eu não encontro amor por ele de forma clara, antes era
uma chama ardente em meu peito. Hoje o que encontro é uma
gama de fortes emoções que se misturaram ao caos do que
restou de mim, entretanto, eu não nego que, se existe amor,
pertence a ele. Confuso, não?
Talvez sim, se você parar para entender o que tento dizer,
verá como estou me sentindo realmente. Nem eu encontro as
respostas para minhas perguntas, então como posso tentar
explicar para você o que sinto realmente? Não está fácil, não
existe nada certo, digo, existe sim, o fato de que sou mãe, essa
é a única verdade imutável da minha vida atualmente. Em
relação a Rocco, irei usar uma frase especial: Só sei que nada
sei. Para mim, voltar a confiar está mais difícil do que poderia
imaginar. Adeus à minha inocência, adeus à minha fé nas
pessoas, adeus à antiga Victória crédula e boba. Não é uma
questão de apenas se jogar e perdoar. Se fosse só isso quase
poderia sorrir, eu achei o perdão dentro de mim, e, sim, o
ofertei a Rocco livremente. Estou liberta da culpa que senti por
odiá-lo uma vez, estou livre do peso que carregava, mas não
fechei meus olhos para o resto, na verdade eu temo essa parte.
Temo o que posso encontrar. Temo o que não encontrarei. O
sim pode ser fácil demais, e o não pode doer, mas ele parece o
mais seguro, e quando se precisa de um porto seguro, os
sentimentos dos outros deixam de ser prioridade. Todavia, e
entre o certo e o errado? Entre o que faz bem? E o que te
amedronta? O que você escolheria? Sua paz de espírito, talvez?
Ou melhor, você procuraria agarrar-se a algo que te fizesse
voltar ao momento em que existia segurança? Daria para
fechar os olhos e fingir que absolutamente nada aconteceu só
para viver com uma sensação de falsa segurança?
São muitas interrogações em tão poucos pensamentos, eu
me sinto assim. São poucas as verdades concretas em minha
vida.
Mas uma coisa é certa, apenas Deus é conhecedor dos
nossos desejos mais profundos e secretos, todos os dias
lançamos ao céu preces de necessidades ou de agradecimento,
de coração ou da boca para fora, isso é irrelevante, porque
Deus sabe a verdade, essa verdade é imutável, pois não a
controlamos. Então eu peço, utilizo minha boca para formar as
palavras, e digo:
— Senhor, me faz esquecê-lo! — De olhos fechados e rosto
banhado em lágrimas, eu imploro para esquecê-lo. Só porque
eu acho que isso me fará bem, é como um parasita tentando
agarrar-se a algo.
Mas então eu sinto meu coração acender uma pequena
chama. E ela não apaga, ela queima… queima e cresce muito
lentamente, mas firme. Nesse momento eu tenho minha
resposta, e ela me apavora. A solução é fugir. Atitude covarde,
mas, enfim, eu me descobri sendo uma. Se fechar meus olhos e
analisar esse recente despertar que tive, irei perceber que devo
isso a ele, seria justo? Meu carrasco ser meu libertador? Não
sei, na vida nem tudo é justo. Uma coisa eu garanto: Deus
nunca lhe dará uma carga maior que sua força para carregá-la.
Respirando fundo me levantei e fui para a varanda.
Primeiramente ergui minha cabeça e olhei para a lua.
Admirei sua beleza solitária, a melancolia de seu brilho
prateado. Vi que nós éramos parecidas, ambas desempenhando
seus papéis, o meu eu redescobri, e sim, iria fazê-lo, mas uma
parte de mim estaria sempre distante, talvez para sempre
intocável. Lentamente olhei para baixo e vi o labirinto escuro.
Continuei olhando, e logo uma luz acendeu. Piscou uma vez.
Duas.
Era ele, me dizendo que estava lá. Esperando por você,
Victória.
Coloquei uma das mãos na balaustrada e me inclinei um
pouco para frente. Esperei. E não demorou, mais um sinal.
Continuei olhando para baixo até que meu celular apitou.
Peguei o aparelho do meu bolso e vi que era mensagem. Meu
estômago encolheu, minhas mãos tremeram, mas eu abri.
O tempo parecia voltar ao passado. Eu preferia lá.

De: Rocco
Para: Victória
Assunto: Meu desejo.
Data: 27/03/2015 às 02:03 a.m
À noite eu serei seu protetor, descansa em meus braços.
Ferozmente velarei seu sono, te esquentarei com meu calor,
usando meu corpo como seu cobertor. Expulsarei os fantasmas
que te afligem, e durante o dia, ver-te-ei partir, levando meu
coração contigo.
Te espero em nosso lugar secreto.
Atenciosamente, Rocco Masari, seu homem.
Eu li a mensagem sentindo meus olhos doloridos do choro
passado e do recente, meu coração acelerado, minhas mãos
suando. Meu estado emocional estava além das minhas
possibilidades de controle.
A cada frase de “eu prometo que vou mudar” ou “essa foi a
última vez, amore mio”, eu sempre acreditava que sim, então
eu demonstrava o tamanho do meu amor e como juntos éramos
perfeitos. Bom, eu me enganei, não houve nada que eu tivesse
feito. Na verdade eu fiz tudo que pude e, sinceramente? O
resultado não poderia ter sido pior!
Por Deus, eu só queria que tudo fosse simples, amar, ser
amada. viver e ser feliz, ter meu companheiro, enfrentar o
mundo com ele do meu lado. Seríamos invencíveis.
Balancei a cabeça. Simplesmente poder sorrir sem
motivos.
Entretanto, hoje, eu temia cair novamente. Deveria ser
fácil superar, às vezes, para quem olha nossa situação de fora,
as soluções são fáceis, mas para quem está vivenciando esse
dilema diariamente é infinitamente complicado. Cada resposta
é difícil de ser proferida, cada sim pode querer ser um não ou
vice-versa.
No fim, é tão exaustivo avaliar os prós e contras que é
melhor deixar quieto e esperar para ver o que acontece.
Respirei fundo e escrevi uma resposta.

De: Victória
Para: Rocco
Assunto: Sem assunto
Data: 27/03/2015 às 02:07 a.m
Não espere pelo que não existe. Eu não estou pronta.
Não posso. Sinto muito.

Apertei enviar e esperei.


Olhei para baixo e não houve mais luz. Os minutos
estenderam-se. Eu estava bem com isso. Sentei-me na minha
varanda, peguei meu iPod conectando na minha última playlist.
Essas eram as músicas do meu momento.
Apertei o play, fechei os olhos e deixei que as músicas
assumissem minhas emoções.
Senti meu celular vibrar. Tinha certeza que era ele, e, sim,
eu tinha razão. Era outra mensagem.
De: Rocco
Para: Victória
Assunto: AMORE MIO - certas coisas nunca mudam
Data: 27/03/2015 às 02:21 a.m
Vou te esperar o resto da minha vida.
EU TE AMO.
P.S. Ficarei aqui até amanhecer, todos os dias, até você
entender que agora é diferente.
Gestos valeram mais que palavras. Você verá o que quero
dizer.
Apenas seu, Rocco.

Um longo suspiro deixou meu peito.


— Não será fácil, Grandalhão — murmurei olhando o céu
noturno. — A Victória que você diz amar não existe mais.
Então pergunto, será que você amará essa casca aqui?
Uma lágrima solitária rolou.
Capítulo 5
Victória

Deitada em minha cama, sentia-me apenas cansada.


Dormi pouco e o que consegui foi povoado por pesadelos
terríveis. Acordei gritando mais uma vez. Totalmente
desesperada.
"Não aguento mais, eu disse que ia melhorar e nem saí do
lugar!"
Estava atormentada e minha família também. Entretanto,
não me isolei, os pesadelos vêm e vão. No fim, estou
envergonhada por arrastá-los comigo a esse estranho limbo,
mas sou consciente de que também não é culpa minha.
Preciso dele! Era verdade, como Rocco falou, certas coisas
nunca mudam.
— Mas vou resistir e continuar minha vida — murmurei
mexendo meu pé, um gesto nervoso adquirido recentemente.
Roí as unhas, batuquei os dedos, eu parecia em estado de
abstinência.
Tremi levemente, para muitos o esquecimento do sono
pode ser perfeito, para mim, o sono é terrível e não posso fazer
nada. Decidi que não vou tomar remédio nenhum para dormir,
não queria correr riscos com a saúde do meu filho. Mesmo que
minhas sessões com a Dra. Rosana estejam melhorando eu não
falava sobre meus pesadelos, eles eram meus para conviver.
— Meu Deus, me liberta desse carrasco invisível, me faz
superar.
Senti minha antiga conexão restabelecendo, agora
precisava muito mais de fé.
Toda minha alma clamava por Deus, minha fé moldando-
se novamente, fortalecendo-se, crescendo, redobrando o
tamanho porque Ele estava ali para mim, como sempre, para
me mostrar que nunca estive sozinha. Meu amor por Ele
aumentou. Tornando-se mais que antes inabalável. Podia
sentir que não estava sozinha. E eu não estava, na verdade
nunca estive. Ergui as mãos em agradecimento.
— Obrigada, Pai, só posso agradecer a Tua misericórdia.
Seguirei em pé, não questionarei Tua vontade, senhor. Tu
sabes, meu Deus, dos meus desejos mais profundos, faça sim a
Tua vontade em minha vida, ela é Tua, sempre foi. Eu te amo
por Tua bondade e misericórdia. Obrigada por nunca me
abandonar e me perdoe por quase me entregar.
Senti braços à minha volta e um choro baixo que se
confundia com o meu, eu sabia que tia Laura estava
precisando disso também.
— Contemplo Tua grandeza, Senhor meu Deus —
murmurei de olhos fechados. — Precisamos de Ti, de Tua
sabedoria.
— Sim — tia Laura murmurou baixinho, me
acompanhando em minha fé e em meu pedido. Mais um pedido
de ajuda.
— Sei que nunca estarei só.
Naquele momento algo tremeu levemente em meu ventre.
Sorri de verdade. Então eu soube, que na verdade eu
nunca estive sozinha. E que, por fim, não haveria recaídas.

***
Observava calada minha avó e meu pai dialogarem sobre o
que eu podia ou não fazer.
— Já está na hora de ela sair de casa e assumir sua
herança! — minha avó exclamou e meu pai bufou exasperado.
— Minha filha precisa de paz, e não de tudo isso que você
quer para ela, mãe, quando Victória estiver pronta ela irá dizer!
Balancei a cabeça levemente. Eles não sabiam, mas tia
Laura sim, eu estava de volta. Uma parte de mim talvez nunca
voltasse, essa parte realmente não era minha, ela pertencia a
Rocco, e ele carregaria consigo para sempre.
O que Rocco reclamou e que pertencia a ele é aquela
garota apaixonada e cheia de planos, que sonhava em viver ao
lado do homem que amava. Todavia, agora eu era apaixonada
pelo meu filho e tinha planos, agora, como mãe.
— Eu vou com a senhora, vovó. — Sorri. — Está na hora
de retomar meu trabalho, meus projetos, minha marca.
Meu pai me olhou sem acreditar, apesar de ter me sentido
mais forte depois de confrontar Rocco, eu ficava indo e voltando
na minha força, todavia, depois de ontem eu estava aqui para
lutar.
Chega de me encolher e chorar.
Adiante!
— Não acredito! Isso é maravilhoso. — Minha avó me
olhou com os olhos brilhando, já tia Laura apenas soltou um:
— Eu disse que ela era mais forte que todos nós juntos.
Jason riu alto e veio me abraçar.
— Não acredito que você está de volta — sussurrou em
meu ouvido e eu ri baixinho. — Agora é mesmo para valer? Eu
estou sentindo que é. — Riu também e eu o apertei.
Sentia-me muito melhor depois daquela conversa com
Deus.
— Estou de volta, brother, e agora é para ficar.
Jason me rodou e eu ri alto.
A vida parecia mais bonita.
— Minha nossa, finalmente! — Meu pai sorriu feliz e me
puxou para um abraço — Eu te vi diferente naquele dia, mas
não pensei que você iria conseguir levantar a cabeça. Agora…
— Seu sorriso aumentou. — … eu vejo um brilho inovador, juro
que vejo.
Eu apertei meus braços em sua volta
— Estou de volta, pai.
Para minha família parecia mentira, mas era realidade, eu
estava sinceramente conseguindo sorrir e sentir que meu
sorriso era de alegria.
Ficamos ali, todos conversando, ainda havia uma parte
reservada, mas eu queria seguir em frente, passei muito tempo
afundada, agora estava na hora de olhar um pouco mais
adiante.
— O almoço está servido — tia Laura chamou e todos
fomos para a mesa.
Meu pai sentou na cabeceira, minha avó do seu lado
direto, eu, do esquerdo, Jason do meu lado e tia Laura e
Ricardo ficaram de frente uma para o outro.
Começamos a comer tranquilamente, graças a Deus, a
pior fase do enjoo passou, agora era mais esporádico. Eu estava
com três meses e meio, por isso, de acordo a minha obstetra,
estava saindo da fase de enjoos e tonturas, apenas precisava
ganhar peso, mas eu já estava trabalhando nisso. No fim das
contas eu só precisava ter cuidado com cheiros fortes
E por falar em cheiro forte, Rocco mudou o perfume, o de
antes se tornou insuportável, mas, minha nossa, esse novo era
simplesmente…
Engoli em seco, senti um calafrio estranho. Há muito
tempo não sentia nada, agora estava sendo bombardeada.
Esse novo perfume dele era magnífico, mil vezes melhor
que o antigo. Como ele consegue?
— Victória? — minha avó me chamou e eu a olhei confusa.
— O que foi?
— Eu te chamei três vezes, onde estava com a cabeça?
Senti minhas bochechas esquentando.
— Eu estava aqui — enrolei e, para evitar as perguntas,
coloquei uma garfada de comida na boca.
— Uhum — resmungou, mas então voltou a seu assunto.
— Vamos passar na Luxury's. Já deixei tudo organizado. —
Sorriu misteriosa. — Hoje você vai conhecer o seu legado.
Teremos uma pequena festa de boas-vindas, você vai adorar, a
equipe é maravilhosa.
— Claro, vovó — concordei e ela sorriu.
Confesso que senti ansiedade enrolando em meu peito.
Conhecer a Luxury's.
Meu legado. Será mesmo verdade? Ainda não acredito em
todas as coisas que aconteceram em minha vida nesses
últimos meses.
Suspirei e resolvi deixar as águas rolarem, por isso prestei
atenção naquele momento. O almoço estava sendo maravilhoso,
todos brincavam, meu pai contava piadas, tio Ricardo também,
e eu consegui rir um pouco. Algumas vezes Jason tocava meu
cabelo, fazia um carinho em meu rosto ou batia em meu ombro
com o dele, só para me provocar.
— Eu não acho adequado um empregado se sentar à
mesa! — minha avó falou fazendo com que todos se calassem.
— O quê? — perguntei confusa e vi Jason encolhendo-se
levemente.
— Eu não acho sua amizade com esse segurança certa. —
Deu de ombros. — Você deveria ter uma relação profissional
com ele. — Eu a olhei incrédula.
Imediatamente voltei meu olhar para Jason, vi que ele
travava o maxilar e apertava as mãos em punhos. Os nódulos
de seus dedos estavam brancos de tanta força que ele usava.
— Ele deveria comer à cozinha como todos os empregados
— minha avó continuava imperturbável em sua declaração
preconceituosa e desnecessária.
Jason tremeu um pouco, então suavemente peguei sua
mão e apertei, depois, quando ele relaxou, eu cruzei nossos
dedos, trazendo sua mão até minha boca, onde depositei um
beijo suave.
Depois disso, olhei para minha avó.
Não disse nada, mas ela entendeu, pois baixou a cabeça.
— Por favor, me desculpe, Jason! — murmurou baixinho.
Todos fizeram silêncio.
— Para que fique claro a todos vocês! — exclamei e dei
uma olhada em cada pessoa sentada na mesa. — Jason
Strauss é mais que um segurança, ele é meu amigo, meu
irmão, e exijo que ele seja tratado como tal, caso contrário eu
não respondo por mim. — Olhei para minha avó e mantive meu
olhar firme. — Eu sou a família dele e ele faz parte da minha, a
senhora não é obrigada a aceitar, mas se o magoar novamente,
irei me afastar!
Minha avó ofegou e eu continuei:
— Jason é meu irmão, e se for comer na cozinha eu vou
também, portanto, quando formos à sua casa, vovó, eu sugiro
que a senhora pense bem antes de fazer qualquer coisa, não
estou com paciência para ensinar nada a ninguém.
Terminei de falar e voltei a comer.
Esse momento com minha avó me fez pensar seriamente se
ela não teve algo com o rompimento de Carlos e Gabrielly.
“Ah, Dona Antonieta, pode se preparar, vou escavar essa
história até o fim!”, pensei estreitando meus olhos para o prato.
“Não sou mais a idiota manipulável, pode abrir o olho, pois o
meu estará atento e observando!”
O decorrer do almoço foi feito em um clima estranho, eu
até desisti de sair, estava chateada e não fiz questão de
esconder, talvez por isso minha avó tenha chamado Jason em
um canto e conversou com ele, de longe eu a vi falando e Jason
ouvindo tudo com um leve sorrisinho nos lábios.
Depois ele veio falar comigo e disse que estava tudo
resolvido, me convenceu a retomar os planos feitos, por isso
devo confessar que neste instante eu estou suando de
nervosismo, conhecer o ateliê da mais famosa estilista do
mundo está me deixando bamba.
Mesmo eu sendo neta dessa estilista, não muda em nada
meu pânico. Não sei como irão me receber, entretanto, se for
remotamente parecido ao que aconteceu na Inglaterra após
"aquela" situação, eu realmente não saberei como agir.
Eu estava muito nervosa, talvez por isso mesmo que
pensamentos confusos povoassem meu subconsciente.
"E se e eu fizer besteira? E se não gostarem de mim? Ai,
meu Deus, e se começaram a falar coisas? E se me
humilharem? E agora?"
— Tudo bem, bonequinha? — Jason perguntou e eu fiz
uma careta.
— Jason, eu estou tipo quase me mijando de nervoso —
desabafei. — Brother, essa é a primeira vez que eu estou
saindo da toca, e logo para conhecer o ateliê da minha avó, que
também é a mais famosa no ramo, ah, por favor, não esqueça
que agora todos esperam que eu a supere.
— Você já superou! — Riu bagunçando meu cabelo
— Faz tempo que eu não faço nada, nem sei se ainda
tenho talento — reclamei e ele riu alto.
— O que acontece com as mulheres para dizerem tanta
besteira?
— Machista! — bufei dando-lhe um tapa no ombro e ele
riu mais.
— Não sou, mas confesse, você quer elogios, então vamos
lá. — Revirou os olhos. — Victória, você é a melhor, é foda, você
é demais, você, é a Darth Vader dos estilistas.
— Jason, ele era vilão! — reclamei e ele riu da minha cara
ultrajada.
— Desconte a parte do vilão, apenas anote aí, ele foi o
melhor da história. — Suspirou. — Os vilões são pré Darth
Vader e pós Darth Vader. Ouça, ele tinha um propósito e foi até
o fim nele, não era apenas ódio gratuito, era algo mais. Ele
tinha uma chama que ardia em seu interior, você tem essa
chama.
— Pronto, agora vou chorar!
— Culpe o Gianne!
Concordei e rimos, depois conversamos sobre minha
reabilitação e nem notei quando o carro parou em frente a um
prédio com fachada imponente.
LUXURY'S
Esse nome estava em letras douradas e floreadas, com
arabescos delicados. Tudo de muito bom gosto, as cores da
fachada eram bege e branca, tudo muito bem disposto, e, já na
vitrine, havia um vestido de noiva que quase me fez chorar de
emoção.
Olhei tudo pela janela do carro, estava medrosa, mas iria
encarar.
É agora ou nunca!
Capítulo 6
Victória

Desci do carro com ajuda de Jason, eu ainda estava ruim


da perna, mas isso vai mudar. Bom, continuando, eu desci do
carro e fiquei esperando minha avó vir até nós, não estávamos
juntas, pois eu queria a liberdade de ir embora quando
quisesse.
— Está pronta, querida? — perguntou ajeitando minha
blusa e meus cabelos.
— Eu acho que sim. — Sorri e ela retribuiu.
— Jason, cuidado com os degraus, certo? — falou
suavemente e Jason sorriu cordial.
— Claro, não se preocupe — respondeu e eu fiquei
satisfeita por eles estarem se tratando bem.
Subimos os degraus e assim que ultrapassei a porta eu
quase caí para trás.
Aqui era… Era…
— Oh, meu Deus! — ofeguei olhando ao redor.
A Luxury's era simplesmente magnífica, exalava riqueza e
bom gosto, muito diferente do ateliê da madame, lá era tudo
cafona e brega, com cores berrantes que não combinavam.
Aqui era como a caverna de Ali Babá dos estilistas. Meus
olhos percorriam o ambiente, as cortinas bem colocadas, os
candelabros de cristal, a boa iluminação, os manequins nas
vitrines…
— Incrível — murmurei e pude sentir a emoção tomando
de conta. A estilista que há em mim estava louca para explorar
e finalmente criar.
O ateliê da minha avó era o sonho de consumo de
qualquer estilista ou aspirante. Não consigo pôr em palavras a
grandiosidade desse lugar.
— Venha, meu amor, todos estão ansiosos para conhecê-la
— minha avó me chamou e mais adiante eu avistei várias
pessoas vestidas impecavelmente.
— Eu quero que todos vocês recebam minha neta, Victória
Fontaine — minha avó falou alto para que todos ouvissem.
Houve palmas, depois gritinhos eufóricos, entretanto, o
que mais fez festa foi um homem. Ele era alto, forte e lindo de
morrer. Ele foi o mais eufórico em suas boas-vindas.
— Até que enfim. Ui, filhinha, pensei que não viria nunca!
— exclamou e veio até onde eu estava. — Garota, eu quase
arranquei os cabelos de ansiedade, se você não aparecesse logo
eu iria fazer um protesto! — Riu batendo palmas. — Linda. —
Beijou minhas bochechas e eu aqui, tentando acompanhar.
Quanta energia.
— Prazer, Victória. — Sorri de leve.
— O prazer é meu, amor! Meu nome é Nikolas, mas, por
favor, me chame de Nikkita.
Abri e fechei a boca confusa, minha avó apenas riu e
Jason bufou baixo.
— Eu sou o estilista dos vestidos de noiva que você está
vendo. — Sorriu pegando minhas mãos, onde deu um beijo
suave. — Faremos uma dupla imbatível. — Piscou um olho
para mim, então olhou para Jason, e o vi mordendo o lábio
rapidamente.
— E você, meu bem, tem nome? Telefone? Acompanhante
para um jantar a dois? — perguntou suavemente olhando para
Jason.
Eu balancei a cabeça sem acreditar em tamanha ousadia.
Nikolas é louco, só pode!
— Ele só arranha o português, Nikolas — tentei salvar
Jason —, não entende o que você diz.
— Meu amor, a gente mistura as línguas, eu falo portuglês
sem problema! — Suspirou de forma exagerada, me fazendo
segurar o riso.
Já meu brother estava todo esticado, e sua expressão era
meio feroz.
— Ain Jesus, o Rio está tão, mas tão quente. — Nikolas
abanou-se sorrindo. — Uma fornalha, e eu estou pegando fogo,
acho que talvez um gostosão vestido de bombeiro seja de muita
ajuda.
Não aguentei, tive que rir. Na verdade quase todos riram.
— Nikolas — falei, mas ele fez cara feia. — Digo, Nikkita,
ele é meu irmão, Jason.
Apresentei e mais uma vez Nikolas se surpreendeu.
— Satisfação, porque o prazer pode vir depois, mais
precisamente às seis, quando eu sair. — Estendeu a mão, mas
Jason apenas grunhiu e não aceitou. — Ainda é grosso. — Deu
umas batidinhas no rosto. — Estou apaixonado. Família
abençoada! — exclamou-se virando para minha avó, que
balançava a cabeça e sorria. — Me adota, rainha?
Todos riram ainda mais da cara de cachorro abandonado
que ele fez.
Minha nossa, o homem era muito bonito, ele tinha uma
barba por fazer, um queixo forte e com furinho, usava o cabelo
estiloso e se vestia com maestria. Não tinha quem dissesse que
ele era gay, na verdade eu acho que ele faz muita mulher
suspirar por aí.
Não sei o que ele faria se visse a tríade junta!, pensei
soltando uma risadinha.
A forma descontraída com que Nikolas me recebeu me
aliviou muito, o medo de ser rejeitada passou completamente,
todos me receberam com gentileza, e não senti nenhuma
vibração negativa.
Confesso que estava gostando de estar aqui, havia uma
aura de criatividade e sonhos que me deixava um pouco mais
próxima da antiga Victória.
Ver todas essas pessoas sorridentes me fez bem.
Vários minutos depois e mesmo tendo sido apresentada a
várias pessoas, ainda tinha bastante gente para conhecer.
Nikolas se encarregou de fazer as apresentações, todos foram
muito educados comigo.
Nada de sorrisinhos dissimulados, nada de perguntas
difíceis, tudo parecia fácil e renovador.
— Vou te apresentar às minhas garotas. — Nikolas me
chamou oferecendo o braço, aceitei e fomos caminhando com
cuidado por entre as pessoas. A verdade é que eu ficava sem
jeito quando não estava com as muletas, e por isso me apoiava
basicamente em quem estava me servindo de suporte.
Quando notei que estávamos indo em direção a uma dupla
de lindas mulheres eu fiquei tensa, meu último encontro com
garotas não foi dos melhores.
Nós nos aproximamos e eu me senti ficando ainda mais
nervosa.
— Essa é Lucy — falou apontando para uma morena
lindíssima, ela tinha um corpo violão e me deu um sorriso
gentil. — Ela é a gerente de marketing, entrou aqui algum
tempo depois da minha contratação definitiva — terminou de
falar e puxou Lucy, dando-lhe em seguida um beijo na
bochecha e um selinho.
— Prazer, Victória, estou muito feliz que esteja conosco,
será uma honra trabalhar com você. — Apertamos as mãos,
mas logo eu era puxada suavemente e ela me abraçou, dando-
me dois beijinhos no rosto. — Seja muito bem-vinda. — Sorriu,
afastando-se.
— Agora você vai conhecer Fernanda, ela é a garota dos
cálculos. — Sorriu. — Também conhecida como gerente de
contabilidade, ela é o cérebro tirano desse lugar.
Um cérebro lindo, porque, nossa, não tem gente feia aqui.
Fernanda também era morena, como Lucy, e carregava um
sorriso sincero e belos olhos castanhos acolhedores.
A tensão estava esvaindo-se do meu corpo, deixando-me
mais aliviada.
— Pare com isso, Nikkita — Fernanda reclamou, mas logo
sorriu dando um selinho em Nikolas. — Prazer, estou muito
feliz que você esteja aqui, somos uma grande família, espero
que se sinta acolhida. — Mais uma vez fui abraçada — vamos
cuidar de você. — Sorriu delicadamente e me deu dois beijinhos
nas bochechas.
Eu tinha que me acostumar com isso.
— Agora venha, você irá conhecer nossa estagiaria mais
fofa e tímida — Nikolas proferiu fazendo as outras rirem.
— Estagiaria? — questionei curiosa.
— Sim, aqui nós abrimos vagas de estágio para muitas
áreas: moda, designer, contabilidade, relações públicas,
secretariado bilíngue, administração, arquivista, enfim, a
maioria dos funcionários vem de estágio, eu mesmo sou um
deles. Confesso que é a treva entrar aqui, porque, nossa, pense
em uma seleção que te deixa de cabelos brancos.
— Isso é incrível! — exclamei sem acreditar.
— Sim, e o melhor é que se não forem contratados pela
Luxury's, os estagiários ganham cartas de recomendação da
sua avó, ou seja, garantia de trabalho. Basta uma palavra de
Antonieta Andrade e você irá ao topo, ou ao fundo do poço. Sua
avó é o maior ícone da alta costura da atualidade, e, pelo que
vi, eu já sei quem irá ocupar esse cargo quando ela se
aposentar.
Paramos um momento e Nikolas me olhou sério.
— Estou aqui desejando que você realmente se erga,
vamos lá, você já tem o mundo a seus pés, apenas siga em
frente. — Sorriu. — E eu e você seremos uma dupla. — Bateu
palmas, todo extravagante. — Vamos botar para quebrar e
revolucionar o mundo da moda.
Respirei fundo e concordei.
— Você tem razão — falei e ele gritou, batendo palma,
completamente espalhafatoso. — Vamos revolucionar.
— É assim que se fala! — Abraçou-me. — Deixa eu
continuar, só falta te apresentar minha outra garota. —
Afastando-se, me apresentou: — Victória, essa é Márcia, minha
pupila linda, ela tem queda por vestidos de noiva, é uma
romântica incurável.
Notei que Márcia corou e baixou a cabeça, então Nikolas
pegou seu queixo, fazendo-a erguer a cabeça, ele sorriu gentil e
deu-lhe um bendito selinho.
O que há com esses quatro? É normal darem selinhos
aqui? Franzi a testa, mas logo deixei para lá, pois Márcia estava
começando a falar.
— Eu gosto… digo, é um prazer, sabe, eu acho que as
noivas vivem um sonho, então eu gosto de saber que… bom…
— Engoliu nervosamente. — Eu gosto de saber que fiz parte de
alguma forma.
Márcia era tímida, mas como as outras me cumprimentou
com carinho, ela era linda também, seus longos cabelos
castanhos e rosto de menina lhe davam um ar de inocência.
— Como já falei, Lucy, Fernanda e Márcia são minhas
garotas — Nikolas falou fazendo-as rirem. — Agora você
também. Meus quatro pintinhos. — Sorriu apontando para nós
quatro, depois ele levou as mãos à boca, mostrando que estava
emocionado.
Nós três fizemos caretas, todavia eu me senti muito grata
por estar recebendo tanto carinho, mas principalmente por
ninguém estar mexendo nas "coisas" que me machucam. Aqui
eu estava sendo tratada como igual, não como uma coitada, e
isso foi demais.
— Bom, vamos comer enquanto estou apenas com
vontade, porque se a fome for grande demais eu irei comer
muito e tudo vai se alojar aqui! — Nikolas terminou de falar e
deu um tapinha na própria bunda. — Não tenho a sorte de
manter o corpinho gostoso apenas comendo tudo que quero, se
bem que… — Nesse momento Nikolas olhou para o outro lado
do salão e suspirou. — Eu comeria aquele grande pedaço de filé
e ainda lamberia os dedos.
Olhei para onde ele estava olhando e vi que ele falava de
Jason.
— Nikkita… — Pigarreei. — Não vá por aí, ele gosta de
mulher.
— Por isso eu digo, oh, mundo cruel! — Colocou a mão na
testa, jogando a cabeça para trás.
Ele é louco, mas é demais também.
— Que desperdício, meu Deus — Lucy falou e nós rimos.
— Você deveria gostar de mulher!
— Amore, da fruta que você gosta eu como, ou melhor, eu
engulo até o caroço, Deus me defenda de comer galinha, eu
prefiro o frango! — exclamou ofendido.
Explodimos em gargalhadas quando eu compreendi o que
a palavra queria dizer, fazia tempos que eu não ria assim, de
fato chamamos a atenção das pessoas.
Eu soube, naquele momento, que queria aquela equipe
comigo.
Ainda com piadas e brincadeiras, fomos até o outro lado do
salão e lá havia uma mesa com petiscos variados.
Nós nos servimos e logo fomos para um sofá elegante, lá
engatamos uma ótima conversa, onde eu pude conhecê-los
melhor.
Confesso que estava simplesmente adorando.
— Eu sou de Porto velho, Rondônia, e lá eu estudava
ensino integrado ao técnico — Fernanda começou. — Bom, o
fato era que eu queria algo mais, e quando fiz minha prova do
ENEM e vi a nota soube que poderia tentar a URJ. Vim com a
cara e a coragem, mas tive o apoio da família também. — Sorriu
saudosa. — Entrar no Ateliê foi uma das minhas maiores
vitórias no Rio.
Concordei sorrindo.
— Ah, sim, adoro dançar, isso me deixa calma,
principalmente depois de fechar a folha de pagamento — bufou
colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Ela é doida, isso sim! — Lucy brincou. — Ela fica
bailando pelos corredores, jura que está em um musical da
Broadway, mas não só isso, fica murmurando fórmulas
aritméticas e falando sozinha. E olha que ela nem é tão velha
para ser tão doida. Essa peste só tem 24 anos.
— Não sou doida, é só que eu amo os números e o que
faço, apesar de ter tido muitas dificuldade, eu consegui. Vivo
feliz e não tenho receio de fazer o que quero.
— Incrível. — Sorri. — Parabéns, você conseguiu ser bem-
sucedida, isso é um exemplo para sua família.
Fernanda sorriu e agora Lucy tomou a vez.
— Bom, por onde começar… — Riu e Nikolas bufou.
— Você pode começar dizendo que tem temperamento
forte, que tivemos um arranca-rabo e por isso nós nos damos
tão bem, que você me ama e reza para que eu vire homem e…
— Cala a boca, Nikolas. — Lucy bateu-lhe no ombro. — Eu
sou tudo isso aí, mas também sou divertida e não quero que
você vire homem, oras! — exclamou e rimos.
— Você é daqui? — perguntei, porque notei uma mudança
na forma como as palavras soavam levemente diferentes. Era
quase como se fosse um sotaque.
— Não, eu sou de Minas Gerais, vim para o Rio estudar,
cheguei aqui com 19 anos, e hoje, aos 27, me sinto
completamente realizada, eu amo meu trabalho. — Ela também
sorriu saudosa. Dava para ver em sua expressão.
— Vocês são incríveis — murmurei já olhando para
Márcia.
— Ai, meu Deus, estou nervosa! — reclamou colocando as
mãos no rosto para tentar aliviar o rubor. — Então, eu sou de
Formoso, Goiás — falou baixinho. — Eu vim da roça e… bom,
eu sempre adorei moda, e brincava com isso, foi uma luta,
sabe? Meus pais batalharam muito para eu poder vir, era meu
sonho entrar aqui, e agora, se der tudo certo, eu poderei
realizar muitos outros sonhos também.
— Quais são seus sonhos, Márcia? — perguntei curiosa
— Eu gostaria de viajar e conhecer o mundo. — Sorriu
lindamente. — Eu tenho o mundo em minhas leituras, gostaria
de ter como experiência também.
— Você lê muito?
— Eu era chamada de Cdf, porque vivia lendo e estudando
muito, mas, enfim, eu amo ler e recentemente descobri os livros
nacionais, rolava um certo preconceito, mas garanto, estou
surpresa e viciada.
— Não caia nessa, Victória! — Nikolas bufou. — Já peguei
ela soluçando no banheiro por causa de um livro.
— É mesmo? — perguntei rindo, fazendo Márcia Corar. —
Qual livro?
— Por todos os dias da minha vida — Márcia murmurou e,
pelo tom de voz, na hora eu fiquei curiosa.
— Como faço para ler esse livro?
— Depois te conto.
— Eu tenho muito tempo livre e adoro ler, será ótimo.
Rimos, mas logo um silêncio confortável se instalou, eu
sabia que era minha vez, e não foi surpresa quando todos
olharam para mim. Eu me senti corar também.
Eu notei que a curiosidade deles acerca do meu trabalho
no ateliê Blanchet era grande.
— Bom, eu trabalhava muito — contei, falei sobre como
produzia os vestidos, como eu tinha contato com as clientes,
como era a entrega e a assinaturas dos modelos e croquis.
Quando dei por mim, eu fui falando e falando.
— Se eu pego aquela filha do capeta eu raspava os cabelos
dela — Lucy bufou e eu ri mesmo não entendo o que ela quis
dizer com essas palavras estranhas.
— Eu acho que teria fechado com a beleza daquela
ordinária! — Fernanda socou a mão, estreitando os olhos como
se fizesse uma ameaça.
Agora eu ria, mas bem sei que naquela época eu vivia um
inferno terrível.
— Eu acho que eu não — Márcia falou baixo, quase não
dava para ouvir. — Eu não teria coragem de enfrentar.
— Blanchet não era fácil — murmurei esfregando o
queixo. — Ela era tirana e meio louca, mas, enfim, eu
conseguia desenrolar.
Em um determinado momento, eu tive que circular, afinal,
eu era a "atração", todos queriam me conhecer, conversar
comigo e tal. O bom era que não havia nada de constrangedor,
eu estava mais e mais confiante de mim e de todo o resto.
Conheci muita gente e tirei muitas fotos, Jason estava
rodeado por várias mulheres, elas caíram matando no meu
brother e ele estava sem saber o que fazer.
Mas, pela cara dele, ele gostava e muito.
— Mundo injusto — Nikolas reclamou. — Eu que deveria
estar pendurado no pescoço do seu irmão gostoso.
— Nikkita. — Comecei a rir e não parei, a cara de desgosto
do meu mais novo colega era trágica. — Não deposite fichas ali,
já te disse!
— Eu sei, mas uma garota pode sonhar! — Revirou os
olhos e suspirou, encarando Jason ostensivamente. — Eu me
apaixonei à primeira vista. Oh, homem. Oh, vida.
— Nikkita, você também se apaixonou pelo Carlos quase
que instantaneamente — Lucy piscou um olho e eu prestei
atenção.
— Carlos vem muito aqui? — perguntei como quem não
quer nada.
— Ele vinha quando namorava a Gabrielly — Fernanda
falou suspirando. — Quando terminaram ele nunca mais
voltou, na verdade parece que ele saiu do país.
Inclinei-me um pouco para frente, minha atenção
totalmente focada nessa história.
— Mas então eles terminaram e só isso? — questionei. —
Sem mistério nem nada?
Os quatros olharam-se, no entanto Márcia estava um
tanto agitada.
— Gabrielly é minha amiga, fazemos universidade juntas,
dividíamos um quarto no alojamento. Fizemos a seleção juntas
para entrar aqui, mas eu fiquei em segundo lugar. — Suspirou.
— Quando ela saiu eu assumi a vaga.
Nota mental: Conversar a sós com Márcia para descobrir a
verdade, porque com certeza aí tem coisa!
— Meu amor, alguns jornalistas querem tirar fotos
exclusivas. — Minha avó tocou meu ombro para chamar minha
atenção.
— Vovó, eu não quero e eu já tirei fotos demais. —
Encolhi-me. — Eles irão fazer perguntas e…
— Querida, confie, está tudo organizado, fotos exclusivas,
hum… — Minha avó sorriu e me ajudou a levantar. — Confie
em mim, não vou fazer nada que te magoe, eu prometo. — Logo
ela me ajudou a chegar ao outro lado da sala, lá havia uma
cadeira estilo Luiz XV de estofado vermelho, atrás, pesadas
cortinas conferiam àquele lugar específico uma pegada
sofisticada.
Sentei na cadeira e logo os flashes começaram a espocar
ao redor.
No começo eu estava tensa, mas depois fui me soltando e,
quando dei por mim, eu estava muito confortável.
— Victória, aqui é da Revista Cosmos. — Uma mulher
muito bonita ergueu uma das mãos e eu acenei positivamente.
— Gostaríamos de saber se agora finalmente a herdeira da
moda irá nos agraciar com suas obras.
— Sim, com certeza — respondi e um rapaz ergueu uma
das mãos.
Olhei para minha avó e ela deu de ombros. Essa visita não
era apenas para eu conhecer o Ateliê, ela marcou uma coletiva
de imprensa simplória! Bom, realmente já estava na hora de
parar de me esconder! Então é isso, volta por cima, recomeço e
tudo que eu tenho direito!
— Repita a pergunta, por favor! — pedi ao rapaz, pois em
meu devaneio não prestei atenção ao que ele disse.
— Victória, você irá continuar com sua marca? Ou irá
assumir a Luxury's?
Quando abri a boca para responder, minha avó adiantou-
se.
— A Luxury's e o Emporium La Fontaine… — Fez
suspense e então quase me matou do coração. — … irão fazer
uma fusão.
Houve murmúrios de assombro e choque, as pessoas ali
estavam tão espantadas quanto eu.
E isso é desde quando?
— Então estamos prestigiando em primeira mão o
nascimento de uma sociedade? — o mesmo rapaz perguntou.
— Sim! — minha avó falou e veio ficar do meu lado. — Hoje
nasce a grife Luxor — disse olhando para todos. — Eu e minha
neta iremos marcar um novo tempo, daremos início a uma nova
era da moda contemporânea.
Eu sorri, sentindo minha barriga dando cambalhotas, olhei
para minha avó e ela me olhou sorrindo também. Aquele
acontecimento mudaria o mundo da moda.
Mais uma vez os flashes enlouqueceram.
Todos estavam eufóricos.
Não sei quanto tempo fiquei ali, posando para fotos, mas
sei que eu estava cansada. A questão é que, cerca de uma hora
depois que cheguei, várias pessoas extremamente elegantes
apareceram, e mais uma vez eu soube que aquela mera visita
era muito mais.
Fui apresentada a um sem-fim de gente chique, e todas
elas eram educadas o suficiente para não serem invasivas a
respeito da minha vida, que foi, sim, escavada pela mídia da
Inglaterra.
Pelo menos eu não estava sendo atacada por ninguém, e
muito menos sendo motivo de pena. Lógico que essas pessoas
podem pensar o que quiserem, mas não externavam isso.
— Você vai amar o Brasil — uma mulher muito bonita
falou pegando minhas mãos. — Eu era louca nos vestidos da
Blanchet, mas quando soube de tudo, melhor, quando eu vi
que você era neta de Antonieta, eu surtei. — Sorriu e eu
retribuí. — Farei meus vestidos apenas com você.
— Obrigada — respondi e ela começou a falar de sua vida,
me disse que era uma esposa de Deputado, que vivia em
Brasília, mas que estava ali apenas para aquele coquetel de
boas-vindas a mim.
Eu apenas sorria enquanto ela discorria sobre sua vida
inteira, desde seus três filhos pequenos até suas cirurgias
plásticas.
— Sra. Assunção, me permita roubar nossa estrela por
alguns minutos — Nikolas nos abordou e com gentileza me
levou para longe.
— Obrigada, Nikkita — agradeci e ele riu alto.
— Eu consegui compreender seu olhar de desespero,
aquela mulher fala mais que um narrador de futebol, é incrível
como ela pergunta e ela mesma responde — bufou e eu ri.
Logo nós dois estávamos rindo juntos.
— Parecemos duas hienas engasgadas — provocou e eu
gargalhei alto. — Não ria, mas é melhor do que parecer um
pato estrangulado! — Coloquei a mão na barriga, que já doía de
tanto rir, e o pior era que eu perdi o freio, porque a cara que
ele fazia era hilária.
De repente Nikolas ofegou, levando uma das mãos ao
peito.
— Minha nossa senhora das bichas desesperadas, me
jogue um balde de gelo porque é hoje! — Nikolas exclamou
arregalando os olhos para algo atrás de mim, logo ele se
abanava com desespero. — Que pessoa mais… — Ele fez uma
cara engraçada, era quase como se estivesse tendo uma visão.
— Acho que tive um orgasmo — gemeu baixinho
Eu balancei a cabeça sem acreditar no que estava
ouvindo, mas então Nikolas começou a abrir e fechar a boca
como se estivesse sufocando. Os olhos arregalados.
— Ele está vindo para cá, minha nossa senhora, pelo amor,
permita que ele seja gay como eu, faça isso e eu prometo
tudo… tudo que a senhora quiser! — implorou baixinho. — Não
acredito que ele está vindo. — Nikolas parecia muito agitado,
até corado ele estava. — Zeus, é você?
— O quê? — perguntei confusa
— O deus do Olimpo, amore, você não sabe? Aquele que é
o gostosão da parada. OH! Não acredito! — Vi quando ele soltou
um suspiro trêmulo. — Tão sexy, tão perversamente delicioso!
Ai, meu Deus.
— Nikolas, calma. — Toquei seu braço e ouvi um
murmúrio suave atrás de mim.
Travei na hora. Meu corpo todo arrepiou.
Olhei para meu mais novo amigo, tentando buscar ajuda,
mas Nikolas estava muito ocupado olhando e babando para a
pessoa atrás de mim, já eu estava com medo de me virar e
olhar também.
— Victória. — Sua voz viajou preguiçosamente pelo meu
corpo, engoli um suspiro, mas lá estavam os arrepios atiçando
meu corpo.
Meu Deus, ajuda aqui!
— Você o conhece, Victória? — Nikolas perguntou e eu me
virei lentamente, a poucos passos estava Rocco, completamente
magnífico, em um terno preto sob medida, ele estava diferente,
pois a barba estava enorme e os cabelos estavam curtos. Além
do mais, ele parecia maior do que a última vez que o vi, e o
terno ajudava, pois moldava seus músculos de forma que ele
parecia gritar poder.
Oh, meu Deus, socorro!
— Você não me é estranho — Nikolas falou, mas logo
tornou a perguntar. — Victória, você o conhece?
Suspirei trêmula
— Nikolas, esse é Rocco, o…
Ele não me deixou terminar.
— Futuro marido de Victória.
Capítulo 7
Victória

Juro por Deus que eu não acreditava no que Rocco


acabara de falar. E ele ainda piscou o olho? Atrevido!
Diferente das outras vezes que nós vimos, onde ele parecia
muito abalado e nervoso, agora eu o via poderoso, seguro de si,
marcante. Tremi inteira com a constatação de um fato.
Esse Rocco é o mesmo que eu o conheci, e ele parece mais
decidido que nunca. Como eu vou mantê-lo afastado de mim?
Pense bem! Você o quer afastado?
Mordi o lábio completamente nervosa, eu realmente não
sabia como lidar com aquele homem. Na verdade eu acho que
nunca soube. Rocco é muito intenso, muito bruto, muito tudo.
Muito gostoso também. O pensamento infiltrou-se em meu
cérebro causando um formigamento em meu íntimo. Senti
meus seios pesando.
Hormônios da gravidez! É isso. Ai, meu Deus, tem que ser
isso!
Sabe qual é a verdade? Eu não tenho cacife para me
relacionar com um homem tão arrebatadoramente
contraditório. Olhem para ele, Rocco está aqui, na minha
frente, vestido todo de preto, sorrindo lascivamente e parecendo
tão tranquilo quanto uma estátua viva.
Quanta injustiça!
— Até breve, amore mio — dito isso ele simplesmente girou
nos calcanhares e saiu, me deixando com o queixo no chão e
sem saber o que fazer.
— Meu Deus — Nikolas entoou ao meu lado —, perfeito,
lindo, maravilhoso, selvagem! Delííícia.
— Nikolas! — exclamei. — Pare de olhar! — reclamei
enciumada.
— Desculpa, mas é impossível não secar seu homem! —
Abanou-se. — Por que eu tive que nascer com o cabo USB? Eu
deveria ser a entrada! Mundo cruel.
Comecei a rir, mas eu estava mesmo era rindo de nervoso.
Não sabia o que esperar desse Rocco que surgiu diante de
mim. Ele estava tão…
Ai, meu Deus
— Vamos circular, eu preciso aliviar a tensão nas minhas
partes baixas. — Aceitei seu braço e fomos andar, a todo
momento eu corria meus olhos pelos convidados, a ansiedade
enrolando meu corpo.
— Seja mais discreta — Nikolas cochichou. — Não o
procure com tanto desespero.
— Não estou procurando — rebati fazendo cara feia.
— Certo, e eu me transformo em uma gazela dourada à
meia-noite! — bufou. — Está tão na cara que vocês se atraem
quase magneticamente, que eu realmente senti a energia
crepitando quando estavam perto um do outro.
— Nikolas — comecei, mas ele interrompeu.
— Eu acompanhei tudo pela TV e pelas revistas, além de
ter a minha rainha chorando pelos cantos. — Suspirou. — Eu
só não o reconheci porque, bom, pessoalmente Rocco é uma
coisa…
— Tudo bem, já entendi!
— Certo, mas olha, a vida é curta demais, se não quer,
tudo bem, mas não se culpe por querer. A intensidade daquele
homem é grande, e ele estava se contendo para não te agarrar.
— Como você sabe? — perguntei arregalando os olhos.
— Infelizmente eu sou homem. — Piscou um olho. — E ele
te comia com os olhos, não só isso, eu pude notar o fogo
queimando naqueles olhos maravilhosos. — Mordendo o lábio,
Nikolas sussurrou em meu ouvido. — Se segura, pois eu acho
que a tendência é só piorar, não olhe, mas ele está vindo, e eu
te digo, está escrito na cara dele que ele vai te ter de volta
custe o que custar, e outra, você o ama…
— Não amo! — rebati e nem me dei ao trabalho de olhar
para ver se Rocco estava perto, eu apenas fugi e me misturei no
meio das pessoas. Logo eu estava no meio de uma conversa na
qual eu nem conseguia prestar atenção, eu só queria que
acabasse logo para eu poder ir para casa.
“Se esconder, né, sua covarde!?” Respirei fundo. “Fuja
enquanto pode, a brincadeira de gato e rato é ótima.” Revirei os
olhos querendo rir, eu estava mais leve, e essa tensão excitante
me levava de volta aos bons tempos.

***

A cada minuto que passava eu ficava mais e mais ansiosa,


eu tinha a sensação de estar sendo observada e minha covardia
me impedia de procurá-lo. Meu corpo se sentia estranho, havia
um peso em minha barriga, constantes arrepios irrompiam em
minha pele, e o pior foi o calor que eu estava sentindo, era algo
interno, queimando minhas terminações nervosas, me fazendo
pulsar.
— Com licença — pedi e saí de fininho, eu estava muito
bem adaptada às muletas e, sem problemas, conseguia
ziguezaguear por aí, caminhei entre as pessoas sem bater em
ninguém, até que finalmente encontrei o banheiro feminino.
Refugiei-me lá dentro.
— Meu Deus, o que está acontecendo comigo? —
murmurei indo até a pia, juntei minhas muletas de lado, liguei
a torneira e joguei água no rosto, logo levei minha mão
molhada até minha nuca, precisava esfriar urgente.
Minha respiração estava levemente acelerada.
— Calma, só fique calma — gemi baixinho, sentindo meu
sexo pulsando, não era muito sutil, era doloroso. Quase desejei
o torpor de volta.
Respirando fundo, encarei a mulher diante do espelho e vi
o quanto ela mudou.
— Olhe para o seu reflexo, Victória, e responda como você
deixou as coisas chegarem a esse ponto — murmurei. —
Perdendo a cabeça por erros que não são seus?
Toquei meu rosto.
— Não seja mais uma fraca no meio de tantas! —
murmurei me encarando. — Quanto mais tentar se erguer,
mais forte ficará, e tudo irá se ajeitar, apenas erga a cabeça e
aceite o que não pode mudar. Siga em frente, nada de ficar
para baixo, essa não é você, mostre o que acontece quando se
acredita que Deus está na frente, sempre!
Continuei me encarando até que desci uma das mãos até
minha barriga, fiz carinho suavemente, aquilo me acalmou, e
eu continuei me olhando.
— Por você, meu amor — murmurei —, por você eu vivo. —
Fechei os olhos, continuando minhas carícias. — Você merece o
melhor de mim. Apenas o melhor, e a mamãe vai estar aqui
firme e forte, vamos ser uma equipe, eu prometo.
Senti outra leve ondulação, ri largamente, já não era sem
tempo, eu estava perto dos quatro meses.
— Todo mundo erra, não é? — perguntei a ninguém. —
Mas o que nos difere é a forma como tiramos conhecimento
desses erros, aprendendo e moldando o presente, para no
futuro não repeti-los.
Permiti meus ombros caírem um pouco, por que a teoria
era tão fácil?
Ouvi a porta abrir e fechar, não olhei porque pensei que
fosse uma mulher, mas houve o clique da porta sendo
trancada.
Logo Rocco surgiu atrás de mim, grande, poderoso… um
macho alfa reivindicando território.
Ficamos nos olhando através do espelho, neste instante eu
vi toda a necessidade que ele sentia, era a mesma que a minha.
Mordi o lábio e ele rosnou, livrando-se do paletó. Eu tirei
minha jaqueta.
Estava muito quente.
— Vire-se! — ordenou e eu fechei os olhos, mas obedeci
usando a pia como apoio.
— Não faz isso, Rocco. — Eu me sentia tremer. — Fica
quieto, me deixa.
— Não vou te deixar. — Deu um passo para mais perto. —
Nem hoje… — Parou na minha frente. — … nem amanhã e nem
nunca.
Abri a boca para falar, mas ele adiantou-se
— Você é minha, amore mio — rosnou ferozmente —,
pertence apenas a mim, eu sou seu homem.
Ofeguei sentindo meu ventre contraindo, meu sexo
pulsou. Apertei as coxas involuntariamente. Sobre esse
contexto eu estava sem nenhum pingo de controle.
— Marque minhas palavras, elas são um fato! — grunhiu
baixinho, dando um sorriso perverso e quente.
Não tive tempo de responder, ele me puxou pela nuca e,
quando dei por mim, seus lábios esmagavam os meus.
Abri a boca para protestar e ele aproveitou, enfiando a
língua em minha umidade, aprofundando o beijo, colando
nossos corpos, uma de suas mãos emaranhou-se em meus
cabelos.
Gemi quando ele puxou meu cabelo com força, inclinando
minha cabeça para trás, dominando-me.
— Retribua! — rosnou mordendo meu lábio inferior. — Me
beije de volta.
— Não!
Ele sorriu aumentando o agarre em meu cabelo, pairando
sobre mim, alto, invencível, um verdadeiro príncipe sombrio.
— Você vai me beijar de volta! — Cheirou meu pescoço. —
Você vai me deixar chupar sua língua como eu quero. —
Mordeu minha orelha, o pior era que ele falava baixinho e sua
voz rouca estava me matando. — Você vai retribuir.
— Não vou! — desafiei e ele jogou a cabeça para trás e riu.
— Ótimo, então não retribua! — Lambeu meus lábios
selados. — Não me beije de volta. — Mordeu meu lábio inferior,
puxando-o. — Não me permita te mostrar o que…
Então eu mandei tudo para o espaço.
Agarrei-me a ele e beijei-o com fervor, eu sentia muitas
emoções naquele momento, mas uma coisa era certa, eu estava
sedenta. Puxei seu cabelo com força e ele gostou, chupei sua
língua e ele esfregou-se em mim, gostando ainda mais.
Tremi inteira, o homem estava primitivo, e eu nem aí.
Estava grávida, meus hormônios estavam loucos, eu tinha o
direito de mudar de decisão e ele estava muito próximo de mim.
— Isso não muda nada — ofeguei entre beijos.
— Muda tudo! — voltou a me beijar, não era um beijo
gentil, era um beijo quase desesperado, mas também de
saudade.
Ele tomava e eu também, eu doava e ele também.
Eu estava tão desnorteada que me assustei quando ele me
ergueu, mas logo me vi sentada na bancada e Rocco entre
minhas pernas.
— Que saudade do seu beijo — rosnou esfregando o nariz
em meu rosto. — Saudade do seu cheiro, do seu sabor. Porra,
amor, que saudade do caralho!
— Boca suja! — exclamei mordendo seu lábio com força,
fazendo-o pressionar sua ereção contra minha necessidade. —
Saudade de você também — revelei entre a respiração
ofegante.
Rocco riu e afastou-se por um instante. Logo suas mãos
estavam em meu rosto e ele me encarava com fervor.
— Eu te amo, Victória.
Abri a boca para responder, mas ele me beijou novamente,
enfiei minhas mãos em seu cabelo, puxando-o para mim, senti
seu sabor, seu cheiro magnífico… seu calor.
Gemi duramente quando ele esfregou-se em mim, não
acreditava que estava dando um amasso no meu ex-noivo
traidor, e ainda por cima no banheiro do ateliê da minha avó.
Estou louca, desequilibrada emocionalmente, preciso fugir
daqui!
— Oh, Deus! — gritei de prazer quando ele enfiou a mãos
por baixo da minha blusa e tocou meu mamilo, puxando-o,
trazendo-me à realidade — Rocco. — Contorci-me e ele parecia
incontrolável.
— Sensível é? — perguntou lambendo meu pescoço
— Muito — choraminguei ansiosa e ele libertou meu seio
só para arrebentar os primeiros botões da minha blusa, todavia
minha barriga, permanecia escondida e agora notei que ele não
havia tocado nela.
Logo meu sutiã de fecho frontal era aberto e meus seios
estavam livres para ele olhar.
Senti meu rosto esquentando, afinal, meu corpo estava
mudando.
— Seus mamilos estão mais escuros. — Admirou meus
seios. — E essas belezas estão maiores. — Testou o peso em
ambas as mãos, logo ele abaixou-se e lambeu devagar
enquanto me olhava. — Estão mais saborosos também.
Joguei a cabeça para trás quando ele começou a lamber e
chupar sem parar, cada mordida eu sentia lá embaixo, cada
chupada eu vibrava inteira, e ele notou.
— Olhe que delícia, olhe como seu homem te adora —
grunhiu, agarrando meus seios para juntá-los. — Vou lamber
os dois de uma vez.
E o fez.
— Minha nossa! — Engasguei, travando minhas pernas em
suas costas, meus pés em sua bunda, e assim eu o puxei —
Rocco, não aguento. Assim não.
— Assim, sim!
Ofeguei, choraminguei e implorei, mas ele estava
ocupadíssimo lambendo, mordendo e chupando meus seios, eu
estava tão perto do êxtase que nem me surpreendi quando meu
corpo foi se preparando.
— Vem para mim, baby, alivia essa tensão — ronronou e
voltou sua atenção aos meus mamilos duros e sensíveis. —
Imagina quando eu estiver com minha boca em sua boc…
Eu mesma completei a frase em minha cabeça, e ela foi o
suficiente para me enviar à borda, eu imaginei a cena e fui à
loucura, explodi em um orgasmo, gemi afogada, e Rocco me
abraçou, mas ficou esfregando-se em mim.
— Calma, meu amor — ele sussurrava enquanto eu
tremia toda, choramingando enquanto os espasmos
arrebentavam pelo meu corpo. Nunca imaginei que isso poderia
acontecer apenas com ele dando atenção aos meus seios. —
Isso, amore mio, fica agarradinha em mim, fica assim. — Ele
continuava me bajulando enquanto eu ia acalmando. — Tudo
bem, baby, tudo vai ficar bem.
— Rocco — pronunciei seu nome com voz arranhada, eu
estava com a garganta seca.
Tentei falar, mas estava atordoada demais, eu não
confiava nele, mas meu corpo só se sentia assim com ele.
E agora?
— Volta para mim — pediu encostando nossas testas.
— Não confio em você — respondi e ele fez careta, quando
abriu a boca para responder, bateram na porta.
— Maledizione — rosnou e, voltando a me encarar, o clima
completamente desfeito, rapidamente fechei meu sutiã, já a
blusa não havia o que fazer. — Isso não acaba aqui, não vou
deixar você me afastar novamente.
Abri a boca para falar, porém ele me interrompeu.
— E antes que pense que é porque você está grávida, eu
digo: Você é minha mulher, e eu iria lutar por você de todo
jeito.
Cuidadosamente, ele me retirou da bancada e me colocou
em pé. Eu me apoiei nele para não cair.
— Não adianta, amore mio, eu só vou sossegar quando
você estiver de volta em meus braços.
Houve mais uma batida na porta e Rocco me beijou
apressadamente.
— Eu sinto falta de estar com você aconchegada em meus
braços. Sinto falta de fazer amor a qualquer hora, eu sinto falta
de te olhar dormindo, eu simplesmente sinto falta de tudo que
vivemos juntos. — Eu estava muda, apenas observando, Rocco
estava tão poderoso. — Eu sinto falta de tudo, amore mio, de
absolutamente tudo — murmurou passando a mão em seus
cabelos curtos.
— Rocco, não…
Ele me roubou outro beijo rápido.
— Escuta, você não pode… — tentei mais uma vez
argumentar
Outro beijo.
— Me deixa falar, caramba!
Mais um beijo.
Fiquei calada e ele sorriu.
— Eu vou embora, mas vou continuar indo todos os dias
para o nosso lugar, vou te esperar, e quando quiser dormir em
meus braços, estarei aguardando você. — Piscou um olho. —
Não precisa se sentir pressionada a nada, eu vou saber quando
você estiver pronta, e sei que agora você não está.
Dito isto, ele pegou minhas muletas, me entregando,
respirei fundo.
— Rocco, eu acho que…
Ele me beijou de novo. Tive que rir.
— Se você falar besteira, eu vou te beijar — decretou de
braços cruzados.
— Besteira. — Arqueei uma sobrancelha e ele riu, me
dando um selinho demorado e um beijo carinhoso na testa.
— Eu te amo, lembre-se disso.
Eu não proferi uma palavra, fiquei muda observando-o
pegar o paletó descartado e caminhar até porta. Em seguida ele
a abriu.
— Agora o banheiro está livre — falou para quem estava
querendo entrar.
Nunca senti meu rosto tão quente.
Virei-me para a pia novamente, mantive minha cabeça
baixa. Minhas mãos tremiam, eu tremia.
"Meu Deus, eu não resisto a ele, mas sei aonde isso vai
dar.” Encolhi-me, não poderia arriscar, na verdade, eu já me
arrisquei demais. Entretanto, isso que aconteceu aqui é culpa
dos hormônios da gravidez! E com certeza eu não o amo. Não
amo.
Saí do banheiro de cabeça baixa.
— Que visita simples que nada — bufei. — Se eu
soubesse, teria ficado em casa, agora estou tendo que lidar com
um turbilhão de emoções devastadoras.
Rocco voltou com tudo, e parece que nada do que eu
disser vai fazer com que ele me deixe. Mas então eu me
pergunto, será que eu quero mesmo?
Capítulo 8
Victória

O caminho de volta para casa foi feito em silêncio, eu e


Jason estávamos em mundos diferentes. Eu pensava no que
aconteceu com Rocco, por um pequeno momento eu me
questionei se deveria tentar, mas logo a sensação de erro e de
pânico voltaram com força total. Não tem como ficar com ele
sem acreditar em suas palavras, Rocco sabe ser bem
convincente quando quer, sinceramente?
Eu acho que ele se sente culpado pelo que aconteceu,
acredito que ele não estaria assim se continuasse achando que
eu o traí. Não, claro que não. Com toda certeza do mundo ele
estaria nos braços de mulheres e vivendo sua vida. Não o culpo
por nada do que aconteceu, apesar de ser impulsivo, Rocco
nunca teria feito o que fez se soubesse das consequências.
Agora penso em como é engraçado que as atitudes de
Rocco me fizeram conhecê-lo, lógico que eu nunca teria
coragem de trair ninguém, mas entendia seu receio em se
entregar, eu vivia isso hoje, entendo-o com experiência própria.
Ele passou mais de dez anos da vida remoendo uma traição, eu
acho que não demorei muito.
Eu entendi as coisas e tal, mas a verdade é que eu tinha
meu livre arbítrio e o direito de querer ou não, então eu acho
que se estou pensando em me preservar, ninguém tem o direito
de dizer o contrário.
Pelo amor de Deus, não há felicidade sem confiança, e
agora mesmo eu não confio em nada do que Rocco diz. Ele pode
até falar que agora é diferente, mas ele já disse isso outras
vezes. Posso até querer acreditar, mas estaria mentindo se
dissesse que acredito, não vou mentir para agradar ninguém.
Essa é a nova Victória, não vou assumir a carga para evitar
sofrimento alheio, o que for meu eu carrego, e o que não for eu
me isento.
Chegamos em casa e eu estava exausta. Mas antes tive
um papo com tia Laura onde pedi para ela entrar em contato
com minha equipe na Inglaterra para começar a colocar as
coisas em andamento. Depois passei alguns minutos com meu
pai, ficamos curtinho um momento pai, filha e neto, e, bom, o
Gianne mexeu um pouco, mesmo que suavemente.
Meu pai estava meio babão, mas não o culpo, eu também
estava.
— Filha, vai dormir, você está bocejando sem parar. —
Meu pai riu quando lágrimas saltaram dos meus olhos depois
de um longo bocejo que me fez tremer
— Vou sim, sua benção?
— Deus lhe abençoe — respondeu beijando minha testa.
Fui para meu quarto, tomei um banho rápido e caí na
cama, apaguei tão logo encostei no travesseiro.

— Rocco, eu te amo, por que faz isso? — perguntei


chorando e ele riu debochado.
— Você não é boa o suficiente!
Sua boca torceu cinicamente.
— Aqui eu tenho de tudo, veja. — Apontou para uma
morena, a mesma morena de sempre. — Ela é perfeita e me
satisfaz… agora veja ali.
Olhei para trás e vi a ruiva, a mesma.
Suspirei cansada.
Mas por que ainda doía tanto? Por que mesmo sabendo o
que iria acontecer eu ainda sofria da mesma forma? E o
principal: por que a cada instante a aceitação se tornava mais
firme?
Eu realmente nunca poderia ser boa o bastante para ele.
Então assim foi, baixei minha cabeça, permitindo que meus
soluços baixinhos abalassem meu corpo. Não adiantava, tudo
iria se repetir, sempre se repetia, era apenas uma questão de
espera.
— Me sinto cansada, Rocco — murmurei e ele riu, então o
encarei, meu olhar percorreu seu rosto, gravando seus traços,
sabendo que eu iria vê-lo em mais um momento tenebroso e
humilhante. — Você prometeu que sempre estaria por perto —
sussurrei.
Respirei fundo e a sensação de perda me assolou.
— Eu desisto de tudo… de você e de mim. — Olhei em
seus olhos lindos, os olhos que eu ainda amava e amaria para
o resto dos meus dias, — Seja feliz, amore mio, que Deus te
guie em suas decisões.
Virei as costas e saí daquele lugar promíscuo. Rocco
estava com duas mulheres nuas em sua cama, isso me
machucava muito, entretanto a cada dia eu sentia uma gota a
menos de dor.
Eu estava no caminho para esquecê-lo. E eu iria, porque o
tempo cura tudo, as maiores tragédias se tornam esquecidas,
amores se tornam passado, sofrimento se torna aprendizado…
enfim, é um ciclo, isso é ser humano, viver e passar por tudo, se
fortalecer ou cair.
É reergue-se na dor e lutar na fraqueza. É viver e respirar,
dormir e acordar. Algo inevitável, mas necessário para o ciclo
permanecer.
Apoiei uma das mãos na parede escura e úmida e
continuei andando.
Caminhei por um longo corredor escuro. Os sons de sexo
se faziam altos. Algumas pessoas gritavam, implorando, outras
berravam de prazer, outras choravam de dor. Era apavorante.
Mas então eu vejo uma luz e sei que é fim do corredor, me
apresso até ele. Salto para fora daquele lugar e respiro o ar
fresco da noite sem lua, tudo é nebuloso, atípico.
Dou alguns passos para frente e me deparo com um
penhasco imenso. Mais um lugar para cair, mais um lugar para
afundar.
Ergo meu pé, sei que a saída é por ali, sempre é.
— Victória! — Ouvi sua voz e neguei com a cabeça.
— Apenas vá, siga o seu caminho — murmurei cansada
— Amore mio, vamos lá, eu te imploro. Volta para mim, me
deixa te amar.
Olhei para ele.
— Como você diz me amar se no momento anterior você me
machucou? — questionei. — Estou acordada, Rocco.
— Perdoname, amore mio. Per favore — murmurou
angustiado, estendendo os braços. — Solo amo a ti, minha vida
é tua, volta para mim. me ouça, acorda e vem ficar comigo,
nosso filho precisa de você!
— Estou acordada, Rocco, e você já tem o meu perdão, mas
diferente das outras vezes, meu coração não existe para ser
seu, apenas me deixe em paz e volte para elas.
As mulheres apareceram e o agarraram, Rocco não tentou
se livrar delas.
Fiz uma saudação de piloto e me virei novamente.
Rocco gritou, mas não dei ouvidos. Dei um passo e depois
outro, desta vez Rocco berrou ferozmente, ele implorou e eu
atendi, me virei para olhá-lo.
— Fica comigo, volta para mim! — Ele estendeu ambos os
braços novamente, tentava vir, mas a força das duas era
grande, ele não se livrava delas. — Regressa-me, per favore,
regressa-me — ele implorava fervorosamente, mas eu não tinha
vontade.
Eu apenas olhava para ele e ouvia seu desespero.
Então, de repente, uma voz horrenda se fez ouvir.
— Você será minha. — Essa voz desconhecida e que me
causava arrepios de pavor nojo. — Ele não te quer, veja — a voz
falou e eu olhei, o que vi me saber que não teria volta, nunca
teve.
Rocco estava tendo relações com duas mulheres. Era
horrível, então tudo dentro de mim gritou de dor.
Eu gritei também.
Rocco berrou de agonia, mas não parava o que fazia… ele
estava ali com e elas, e eu?
Como pude pensar que eu estava ficando acostumada a
isso?
Deus, me sinto dilacerada.
Ali, tão perto de mim, e enquanto minhas lágrimas
escorriam, eu via as mulheres gemendo em seu prazer, ele
estava dando para elas o que já deu para mim.
Me sinto suja.
Mas o pior inda vinha, eles estavam ficando mais e mais
loucos, então as mulheres gritaram o ápice, Rocco rosnou
furiosamente enquanto eu gritava em agonia…

— Victória. Filha.
Acordei sendo sacudida pelo meu pai.
Quando constatei que tudo aquilo foi mais um dos meus
pesadelos, me permiti respirar aliviada. Apesar de meu corpo
tremer levemente, eu pude soltar o ar, bastava dormir e eu
tinha esses sonhos horríveis, eram sobre as mesmas coisas, e
por mais que eu estivesse “acostumada”, o sofrimento estendia-
se.
Uma parte de mim acreditava que eu sonhava com isso
porque meu subconsciente ainda não havia superado, já a
outra parte acreditava que isso era como um aviso de
autopreservação.
— Você está bem? — meu pai perguntou e eu fiz que sim.
— Filha, talvez seja melhor procurar um especialista,
sinceramente eu não suporto mais ouvir seus gritos de
desespero, eles me apavoram.
— São apenas pesadelos, pai, nada mais — tentei
tranquilizá-lo. — Fique sossegado, a cada dia eles irão
melhorar, pode acreditar.
— Me conta com o que você sonha, talvez, se você se abrir.
— Deixa, pai, melhor não.
Não sabia até quando meu pai iria aceitar minha negativa,
mas pelo menos hoje ele não insistiu.
Demorou um pouco, mas ele saiu do quarto. Quando me vi
sozinha pensei no quanto eu precisava de uma noite de sono
completa, todavia, não tinha jeito, a melhor coisa a fazer era
esperar e rezar para que esses pesadelos sumissem.
— Só não demore, não sei até quando vou suportar.
A partir daí eu parei de responder as mensagens de Rocco,
e quando ele ligou eu não atendi.
Eu precisava superar esses pesadelos horríveis, no mais,
quando isso acontecesse, eu estaria superando o resto. Não
suportava mais ver essas imagens, eu queria mesmo era ter o
controle remoto e desligar, não queria depender de ninguém
para ter paz, eu queria buscá-la e encontrá-la sozinha.
Minha rotina estava modificada, nada de ficar trancada,
eu tinha compromissos e o principal era minha reabilitação,
confesso que estava sofrendo, nunca detestei tanto esses
exercícios, doía até a bola do meu olho.
Credo.
— Mais uma sessão de trinta e terminamos — minha
fisioterapeuta falou e eu fiz careta.
— Vamos fazer quinze, é sério, está doendo até o meu
juízo! — murmurei e ela riu.
— Seus músculos da coxa estão atrofiados, você não tem
sustentação nem movimento, vamos lá, deixa de moleza, eu te
quero livre das muletas em uma semana!
Arregalei meus olhos, incrédula.
— Calma aí, general, minhas gêmeas não te fizeram nada!
Jason riu e a fisioterapeuta também, todavia, longe de me
atender, ela fez a sessão de trinta, e eu me senti explorada e
morta.
— Vamos descer e caminhar pelo jardim — Jason me
chamou e eu mexi os dedos das mãos e dos pés.
— As únicas partes do meu corpo com energia —
murmurei largada no sofá. — Dr. Clara é uma carrasca, que
mulher malvada!
— Pare com isso, sua preguiçosa, levante daí e vamos
caminhar. — Jason bateu o pé. — P Balofo precisa correr, já viu
o tamanho dele?
— Sim, meu fofucho está enorme e parece um urso de
pelúcia! — Sorri, mas logo fiz careta. — Me ajuda aqui, brother,
estou toda travada.
Rindo do meu drama exagerado, Jason me levantou e eu
me arrisquei a apoiar a perna ruim no chão.
Doeu, mas foi bem menos que antes. E ver os resultados
em apenas três sessões me fez sentir mais confiança.
Descemos para a área comum do residencial, eu andava
com minhas muletas queridas e Jason segurava a coleira do
Balofo, caminhamos até a área de lazer, lá havia um campo de
golfe e muitas outras coisas, até uns garotos jogando vôlei em
uma caixa de área gigante tinha.
— Estou te vendo impaciente, brother. — Sorri. — você
quer jogar que eu sei!
— Eu não tenho dupla, e eles estão completos. — Deu de
ombros. — Não iriam me aceitar no jogo, além do mais, olhe
para eles.
— Se quiser, eu formo uma dupla com você. — Ouvi a voz
de Rocco atrás de nós e nem me assustei, pelo contrário, um
sorriso besta se desenhou em meus lábios.
"Hormônios da gravidez, e, sim, eles pegaram o controle
remoto do meu corpo e não querem devolver! É só isso!"
— Desde quando você joga? — perguntei e ele deu de
ombros.
— Eu pratico esportes, amore mio, luta, rúgbi, vôlei. —
Sorriu lindamente. — É moleza. — Piscou um olho e veio para
perto de mim.
Quando estava bem próximo, o Balofo rosnou como se
fosse atacar.
— Ei, pulguento, não precisa ficar nervoso, é o papai! —
Rocco me fez rir alto com essa declaração, certo que ele me
convenceu, mas ao Balofo, não.
— Cara, é melhor ficar para trás, ele é possessivo com
Victória! — Jason falou sorrindo. — E pelo que me lembro, você
não foi muito amigável com o bichinho, agora pague.
Rocco fechou a cara e cruzou os braços. Ele e o Balofo se
encaravam, ambos rosnavam um para o outro, mas então, de
repente, Rocco riu e apontou o dedo.
— Você não perde por esperar!
Ri alto de novo, fazendo-o me encarar. Os olhos de Rocco
brilhavam de felicidade.
Sinceramente, eu preferi tê-lo por perto, me parecia
melhor assim.
— Eles vão jogar? — um dos garotos perguntou e eu fiz
que sim, então todos os jovens riram. — Vamos dar uma surra
nos titios.
Rocco grunhiu e eu traduzi para o Jason, que logo
grunhiu também.
Ri satisfeita, eu queria que eles voltassem a se dar bem. E
iria trabalhar nisso.
— Vou ser a torcedora. — Sorri. — Vou sentar na
arquibancada e dar uma de líder de torcida.
— Afasta o pulguento, Jason, estou pegando minha
mulher. — Revirei os olhos, mas aceitei que ele me erguesse
nos braços. — Gosto de você aqui, pequena. — Sorriu,
esfregando nossos narizes. — E você está pesada — brincou e
eu belisquei seu ombro.
— Pode parar, ainda sou uma grávida abaixo do peso! —
Sorri, mas ele fez uma cara de tristeza, então o olhar dele ficou
distante e Rocco parou de andar, logo seu rosto se contorceu
em uma careta de dor.
— Para com isso, grandalhão. — Acariciei seu queixo e ele
me olhou.
— Foi minha culpa, amor — murmurou angustiado.
— Não foi, não, para com isso! — ralhei com carinho e ele
fechou os olhos. — Tudo deve acontecer quando tem de
acontecer. Você é um bom homem, mesmo sendo um doido, às
vezes.
Agora a careta foi transformada em um sorriso lindo.
— Você nunca me culpou por nada, amore mio. Você
nunca me culpou pelo acidente e pelas coisas que vieram a
seguir.
— Rocco, você se culpa demais, eu não vou adicionar mais
porcaria em cima! Você sabe que eu não sou assim. Claro que
houve momentos em que eu achei que até o aquecimento
global era sua culpa, mas isso foi fugaz, passou mais rápido
que coceira de coelho.
Ele riu satisfeito, recomeçando a andar.
Rocco me levou até o quinto nível de escadas e eu fiquei
sentada na pequena arquibancada da caixa de areia, claro que
eu segurei a coleira do Balofo com firmeza, eu tinha medo de
ele correr e morder Rocco.
— Então, tios, é para hoje! — os rapazes gritaram e eu ri
da careta que Rocco fez.
— Não ligue — murmurei. — Você não parece um tio! —
Pisquei um olho e ele suspirou, até tentou se aproximar
novamente, mas o meu segurança canino rosnou ferozmente.
Rocco saiu de perto bufando de raiva, já eu parabenizei o
Balofo
Tem que cuidar da mamãe mesmo, pensei gargalhado,
como há muito tempo não fazia
— Vamos botar para quebrar! — Rocco falou tirando a
camisa e o boné, Jason fez o mesmo, logo os adolescentes que
jogavam arregalaram os olhos e eu… bem, senti meus
hormônios enlouquecendo de novo.
Rocco, seu pedaço de mau caminho!
Suspirei, pegando seu boné e colocando em minha cabeça,
ele viu e pareceu gostar.
Dei de ombros e eles prestaram atenção nos outros
jogadores, quando notaram a cara de espanto dos rapazes,
Rocco sorriu cinicamente e Jason acompanhou, logo eles
esticaram os braços e tocaram os punhos.
Meu coração saltou de alegria. Eu fiquei ali, admirada no
show que eles estavam fazendo, no fim, ficaram os sem camisa,
contra os vestidos.
Ou seja, a dupla de Rocco e Jason, derrubando as duplas
que entravam do outro lado. Pouco tempo depois do jogo,
começou a juntar mulheres, a arquibancada, que estava vazia,
foi ficando cheia, e quando dei por mim, viramos a torcida dos
descamisados.
— Nossa, que homens lindos! — uma loira do meu lado
falou, na mesma hora minhas orelhas aumentaram de
tamanho, era quase coisa de elfo, elas pularam atentas.
— Eu sei que o barbudo é o dono da Cobertura da torre 1!
Algumas ofegaram e outras apenas arregalaram os olhos,
incrédulas.
— Ele mora sozinho, portanto deve ser solteiro! Já me
informei, entretanto é um segredo a identidade, ninguém sabe
de onde ele vem exatamente, parece que é americano ou inglês.
Estreitei meus olhos atenta. Sabia que elas estavam
falando de Rocco.
— Não importa, já estou me organizando para esbarrar
com ele, quem sabe levar uma torta ou pedir uma xícara de
açúcar! Politicagem de boa vizinhança. — Riu toda alegrinha. —
Estou tentando ver se o porteiro do prédio dele consegue a
senha de segurança do elevador, todos os prédios têm, caso
haja algum problema nos apartamentos.
Senti minha respiração acelerar, mas continuei caladinha.
— E aquele outro? O careca?
— Aquele ali é o irmão daquela menina reclusa, a neta da
Antonieta Andrade, sei que ela está aqui, mas a coitadinha não
sai de casa, digo, ela foi àquele evento da Luxury's, dois dias
atrás, e, merda, eu nem fui convidada.
— Deixa de besteira — uma morena cutucou —, presta
atenção, será que o careca é solteiro? Não me importo de curtir
uma sauna com ele.
— Vamos abordá-los quando o jogo terminar! Duvido que o
barbudo recuse esse pacote aqui
A mulher riu, balançando os peitos.
— Eu vou pelo careca, olhe aquelas tatuagens, e olhe
aquelas cicatrizes! — ofegou abanado-se. — Ele é quente, muito
quente. Parece um guerreiro, sabe? Aqueles bárbaros dos
tempos antigos, ele deve ser potente.
Fiz cara feia para a ousadia delas, mas esperaria para ver.
Sobre o fato de Jason mostrar as cicatrizes, bom, isso foi
um incentivo dele para mim. Era como um jogo, ele mostrava as
dele e eu as minhas. Certo, minha coxa estava dividida ao meio
por uma linha grossa e feia, eu evitava olhar, mas com Jason
andando para lá e para cá sem camisa e não dando a mínima
para suas cicatrizes, eu me achei mimada e chata, por isso
passei a encarar a minha como uma marca de força.
Minha cicatriz de guerra, ela mostra que eu sou uma
sobrevivente.
O jogo terminou com os meus garotos ganhando de lavada,
eles arrebentaram. Os garotos que zombaram estavam
eufóricos para tê-los aqui com mais frequência. Tanto é que
estavam aglomerados em volta dos dois.
Ah, mas não pensem que estamos falando de moleques,
estamos falando de adolescentes hiperdesenvolvidos, tem uns
mais altos que Rocco.
Nossa!
Rocco e Jason saíram da caixa de areia e vieram em
direção à arquibancada, as mulheres do meu lado começaram a
se empinar e ajeitar os decotes, estavam alvoroçadas.
Algumas até apalpavam o cabelo para em seguida beliscar
as bochechas.
Mas o que elas pretendem? Simular uma agressão? Fiquei
quietinha na minha, só esperando para ver o que eles fariam.
Rocco brilhava ao sol, ele estava suado demais e parecia
um bombom de caramelo. Balancei a cabeça, me obrigando a
prestar atenção. A primeira a se levantar foi a loira, ela desceu
os degraus da arquibancada saltitante como um bola de
pingue-pongue e parou na frente dele.
— Ola, bonitão, vamos dar uma volta? — falou toda segura
de si e, quando ergueu uma das mãos para deslizar em seu
peitoral, Rocco a segurou pelo pulso.
— Não me toque. — Fez uma careta malvada, sua voz
muito grossa. — Nem chegue perto.
— Mas…
Ele nem prestou atenção, apenas a empurrou sem muita
gentileza e passou por ela, vindo até onde eu estava.
— Amore mio — ronronou todo suave, senti meu rosto
aquecendo.
Rocco estava chegando perto de mim, o Balofo rosnou e eu
ri.
— Ele está apenas defendendo o território dele, não é
culpa minha se você não o conquistou quando teve a
oportunidade. — Meu cachorro rosnou de novo.
Rocco sorriu, cruzando os braços.
— Ele vai ver só uma coisa.
Rimos juntos, mas logo nosso foco era Jason, ele estava
sendo abordado pela outra mulher.
Daqui nós a víamos correndo o dedo pelo peito dele, e
Jason apenas de braços cruzados, ouvindo o que ela falava, de
vez em quando ele sorria.
— Sacana! — Rocco exclamou apoiando-se nos cotovelos.
— Você modificou o Jason, sposa mia, ele parece mais humano
desde que você o acolheu, e posso dizer que ele daria a vida por
você. — Então Rocco me olhou. — Assim como eu.
— Jason é especial para mim, ele é como o irmão que eu
nunca tive. — Auspirei e o olhei, Rocco me avaliava com olhos
carinhosos. — Você também é especial, afinal, é o pai do meu
filho.
— Volta para mimm amore mio — pediu sem se importar
com as pessoas ali próximas, até ouvi algumas mulheres
suspirarem.
— Rocco, não é o momento. — Mordi o labio inferior. —
Não confio em você, sinto muito. — Ele suspirou e concordou.
— Só me deixa ficar por perto, tudo bem? — pediu
baixinho. — Atenda as minhas ligações, responda as minhas
mensagens, amor, estou sem dormir há dois dias. — Rocco
esfregou o rosto e eu vi o quanto ele estava cansado. — Você
pode fazer isso por mim?
Fitei seu rosto tão expressivo e, por fim, concordei. Eu o
quero por perto, então, é só unir o útil ao agradável! Senti um
frio na barriga. E para mostrar que irei fazer o que ele me pediu,
darei o primeiro passo.
— Quer jantar lá em casa hoje?
Capítulo 9
Rocco

Eu estava todo suado, quebrado e morrendo de sono.


Depois daquele momento no ateliê da velha, ou melhor, da avó
de Victória, ela parou de atender minhas ligações ou responder
minhas mensagens. Eu esperava que depois daquele momento
as coisas fossem andar, mas não, Victória me afastou de novo.
Parecia que perto de mim ela se soltava, quando se afastava ela
parava para pensar e se retraía.
Droga!
Confesso que fiquei aflito, mas também estava energizado,
saber que Victória ainda respondia a mim de maneira tão
intensa me deixou muito feliz e satisfeito, agora tudo era
questão de paciência, eu sentia estar perto. Muito perto, na
verdade.
Não iria forçar a barra, mas também não iria ser passivo,
na verdade todo mundo sabia que de passivo eu não tinha nem
os pensamentos. A questão é que com Victória eu precisava
agir com sutileza.
Quando eu relembrei o momento em que eu a banhei no
hospital e vi o quanto estava magra, eu me culpei. Devo ter
deixado transparecer minha dor e logo ela me tirou a culpa.
De fato, isso era algo que infelizmente nunca iria mudar,
eu sempre me culparia por isso. Todavia eu teria que esperar,
mas agora conviverei com ela e de vez em quando iremos ter
momentos a sós.
Isso, por enquanto, basta para matar minha saudade,
acredito que aos poucos vou estar sob sua pele, como ela está
sob a minha.
— Então você aceita jantar lá em casa hoje? — perguntou
e eu sorri, não pude evitar me aproximar, mesmo sob os
rosnados do Balofo, eu peguei o queixo e Victória e ela
suspirou, fechando os olhos.
— Ele vai te morder, afaste-se, não quero você machucado.
— Vai deixar que te beije? — ronronei a um fôlego de
distância, ignorando seu aviso. — Vai provar meu suor?
— Sim — murmurou quase sem voz. — Me beija logo.
Sorri apaixonado e tomei seus lábios em um beijo suave.
Não queria pressa, eu só queria trazer o sabor dela para mim,
como também queria que ela levasse o meu.
Senti a maciez de sua língua e ronronei baixinho de
satisfação, permiti que ela ditasse o ritmo do beijo, quando ela
enfiou a mão em meus cabelos para melhorar o ângulo de
nossas cabeças, controlei meu impulso de rosnar de alegria, a
própria Victória aprofundou o beijo, e eu?
Bom, eu era o bastardo mais infernalmente alegre em todo
o Brasil.
Ficamos ali muito tempo, nos beijando, degustando nossos
sabores, misturando nossos sentidos. Minhas mãos tocando seu
rosto com devoção, acariciando seus cabelos com carinho.
Ronronando alegre enquanto suas mãos faziam o mesmo em
mim.
— Eu te amo tanto, Victória. Mas tanto que até dói —
expus meu coração, agora só queria que ela dissesse que me
amava também. Eu estava louco para ouvir de novo..
Mas Victória não falou nada, ela apenas me deu um
selinho suave e me abraçou, deitando a cabeça em meu peito,
não se importando com meu suor.
— Estou todo molhado e fedendo! — reclamei e ela riu.
— Gosto desse cheiro, é o seu cheiro, sem aquele perfume
horroroso.
Fiz uma careta e resolvi cutucar um pouco.
— Você amava aquele perfume — falei enfiando minha
cabeça em seu ombro, onde descansei de olhos fechados.
Estava exausto. Dormir foi impossível nesses dois dias, vivi
nervoso, tentando explodir meu saco de pancadas para aliviar a
tensão a cada ligação recusada ou mensagem que nunca era
respondida.
— Eu enjoei daquele perfume na última viagem que
fizemos juntos.
Eu me afastei para olhá-la e Victória fez careta.
— Eu nunca quis te magoar quando falei aquilo, me
desculpe, eu fui insensível, mas eu estava meio afogada com o
tanto de emoções que me engoliam.
— Tudo bem, eu troquei aquele perfume no mesmo dia
que você me disse odiar. — Sorri acariciando seu rosto. — E me
parece que você gosta mais do atual.
— Tem razão, o atual é mil vezes melhor, nossa! — Ela
fechou os olhos e vi que seu rosto foi tingido de vermelho, e
quando me fitou o verde de seus olhos parecia resplandecer.
Ficamos em silêncio, mas eu estava muito bem, Victória
parecia estar relaxando a guarda, e isso me deixava muito
satisfeito. Eu não poderia querer mais nada.
— Rocco, eu quero tanto voltar a confiar em você! — falou
e afastou-se para poder me olhar. — Eu queria muito confiar
em você, porque sei que só você faz com que eu me sinta…
— Amor, eu posso… — tentei interrompê-la, mas ela
colocou um dedo em meus lábios, calando-me
— Não confio em você, mas não consigo ficar longe! —
gemeu agoniada. — Eu queria desligar meus receios, todos
eles, queria poder me entregar sem medo.
Minha garota esfregou os olhos.
— Por que é tão difícil? — perguntou. — Por que eu não
posso simplesmente deixar de ter medo? Por que, Rocco, eu
tinha que ser tão covarde?
Eu sabia as respostas, eu levei muitos anos para me
entregar e, mesmo assim, foi sob pressão. Eu precisei ser
quebrado para poder ficar completo.
— Victória, não é fácil voltar a confiar quando sofremos
grandes decepções. — Pigarreei para clarear minhas ideias. —
A gente fica com medo de confiar e acabar sofrendo de novo, é
triste, para mim, dizer isso, mas a realidade é que eu fiz tudo
para que você sofresse, eu pensei e fiz de propósito. Colho os
frutos das minhas ações, sei que um dia você vai voltar para
mim porque nos pertencemos, mas também sei que é seu
instinto que te faz temer, você quer apenas se preservar, amor,
e evitar mais sofrimento.
— Rocco, eu não quero ser desconfiada de você, mas não
posso evitar! Sabe aqueles sentimentos que você não pode
controlar?
Fiz que sim.
— Tipo, é como ter medo do escuro, você fala que não quer
sentir e luta contra isso, mas não consegue evitar. — Ela me
olhou nos olhos. — Você foi meu único homem, eu só amei você,
não tive reservas, eu me entreguei completamente.
— Eu sei, meu amor, pode acreditar que eu sei.
— Então me deixa te contar algumas coisas. — Respirou
fundo e sorriu sem graça. — Eu não resisto a você, então eu
quero te beijar, te abraçar, mas sabe, eu não quero que isso
dure muito tempo. — Olhou de lado. — Eu não quero que dure
muito, porque isso me faz pensar que voltamos, então é aí que
começa o problema.
— Que problema, amore mio? — perguntei ansioso para
saber, de fato, se eu soubesse o cerne da questão eu
trabalharia nele e conseguiria trazê-la de volta mais rápido,
definitivamente.
— Se eu fechar os olhos e me imaginar sendo sua mulher,
eu simplesmente entro em pânico — respondeu sorrindo sem
graça. — Não consigo pensar nessa ideia. Sinto muito.
Ficamos em silêncio.
Aquela informação foi devidamente registrada em meu
cérebro, eu tinha o problema, agora era achar a solução para
ele.
— Uma pergunta, amore mio.
— Sim.
— Se você fosse obrigada a conviver comigo por um longo
tempo, acha que poderia superar essa repulsa? — perguntei
curioso e ela fez uma careta linda.
— Eu não sinto repulsa! — exclamou ofendida, me dando
um tapinha no ombro. — E lembre aí, essas são palavras suas,
não minhas!
— Certo. — Ri suavemente. — Mas me responda.
— Sinceramente, eu acho que seria obrigada a encarar
essa questão, porque agora estamos juntos aqui, mas quando
eu for para casa irei pensar que devo manter a calma e culpar
meus hormônios por te querer. Então se eu fosse obrigada a ter
que conviver com você, eu seria obrigada a superar, talvez, eu
acho. Mas isso é só suposição, né? — perguntou e eu ri
misterioso.
Tenho que mandar preparar a casa na minha ilha, e o
eclipse também. Afinal, uma mulher grávida precisa de
cuidados especiais!
— Agradeça aos seus hormônios por mim. — Pisquei um
olho, sorrindo largamente. — Amor, você sente muito desejo?
Eu li em um livro de grávidas que o tesão aumenta, é verdade?
Victória ofegou e corou ao ponto de um profundo tom
vermelho cobrir seu rosto.
Dio mio, como eu amava isso!
— Isso é segredo! — Aproximou-se. — Eu nunca tive
segredos com você, e não vou começar exatamente agora. —
Suspirou trêmula. — Rocco, é estranho demais, às vezes, no
banho, eu sinto um calor lá embaixo, aí tudo esquenta e
formiga, meus seios ficam doloridos que mal posso tocá-los. E
minha parte feminina dói e pulsa, parece piscar, sabe?
Rosnei baixo, eu já estava a meio mastro só por estar perto
dela sentindo seu cheiro, imagina agora que estava ouvindo
uma barbaridade dessas?
Caralho, estou com minha cueca recheada e essa porra
dói.
— Você se toca para aliviar? — grunhi em tom confidente.
— Não — choramingou —, nunca fiz isso sozinha, sempre
tinha você comandando meus movimentos, fosse por telefone
ou pessoalmente.
— Puta que pariu! — berrei sem querer, fazendo algumas
mulheres saltarem e a própria Victória também.
— Fala baixo, não quero que o povo na Inglaterra escute.
— Desculpa, mas é demais para um homem como eu ouvir
isso. — Minhas mãos coçando para dar a ela o que nós
precisávamos. — Amor, me deixa te ter? — pedi fazendo minha
melhor cara sofrida. — Me deixa te saborear, beber seu
orgasmo, me agasalhar em seu calor.
Victória ofegou e juntou as pernas, o tom de vermelho em
sua pele quase brilhava agora.
— Não voltamos a esse nível, Rocco, estou apenas te
permitindo chegar perto, mas não vá com muita sede ao pote.
— Foda-se! — Eu estava louco de vontade de tê-la. —
Lembra o que fizemos há dois dias? Baby, você está tão sensível
que com alguns toques em seus seios não aguentou, agora
imagina minha língua?
— Rocco Masari, pode dar uma pausa aí — ela me
interrompeu ofegante. — Meu corpo não está me ajudando e
minha imaginação também não, juro que não preciso da sua
voz tentadora adicionando mais gasolina à fogueira, se eu tiver
uma combustão espontânea, aí, sim, será culpa sua!
Não pude evitar a gargalhada que explodiu em meu peito.
Quando dei por mim, Victória também ria comigo.
— Quando voltarmos iremos incendiar nosso quarto —
decretei me levantando e oferecendo uma das mãos.
Victória aceitou e eu a desci da arquibancada em meus
braços.
A todo o momento o Balofo rosnava para mim, mas não me
mordeu. De fato, ele sabia que, mesmo estando longe, o papai
aqui ainda era o grande macho alfa desse território. Eu só
rosnei duas vezes, mostrando que não era um frouxo medroso.
— Você vai mesmo jantar lá em casa? — Victória
perguntou assim que a coloquei no chão. — Você ainda não
respondeu.
— Eu não perderia por nada. — Sorri dando-lhe um
selinho. — A que horas?
— Sete e meia. — Sorriu de um jeito lindo. — Vou
preparar cupcakes para você.
Victória desviou o olhar, de repente me pareceu tímida.
— Vou fazer seus preferidos. — Eu a abracei.
— Vou esperar ansioso, amor. — Beijei o topo da sua
cabeça. — Prometo não me atrasar.
— Te esperarei. — Sorriu olhando para mim.
Estávamos nos braços um do outro, uma das melhores
sensações do mundo.
— Eu quero te fazer outra pergunta. — Sorri beijando seu
nariz.
— Pode fazer.
Respirei fundo, um tanto desconfiado. A forma como ela
me enxergava era a única coisa que importava para mim.
— É sobre minha aparência. — Fitei seu rosto confuso. —
Eu aumentei dez quilos de músculos e minha barba está
enorme. — Fiz careta. — Estou mais bruto, digo, nunca com
você, mas… enfim. Eu temo que esteja exagerado demais.
Victória me olhava como se eu fosse doido, mas talvez eu
fosse mesmo, ultimamente, o que mais eu tinha era falta de
juízo. Precisava da minha mulher vinte e quatro horas por dia,
mas admito que esses momentos com ela estavam sendo
maravilhosos, mas não eram suficientes para mim.
— Rocco, vou te responder e depois você vai me dar um
beijo e vai para casa dormir, para estar forte para lidar com
minha avó e tirar essas olheiras aí — falou bem séria e passou
o dedo com carinho em meus olhos.
Concordei e ela espalmou as mãos em meu rosto, puxando
meus lábios para ela, mas não me beijou.
— Eu olho para você agora e na minha cabeça só vem o
Super-Homem. Tão lindo e maravilhoso, meu Deus.
Joguei a cabeça para trás, gargalhando alto.
— Bom saber. — Esfreguei nossos narizes, mas na
realidade eu queria me esfregar todo nela, igual um gato.
— Se você virar um desses homens submissos e esquisitos
eu nem olho para você — brincou e eu ri ainda mais.
Sem chance de isso acontecer!
— Agora vai descansar um pouco, eu tenho um jantar
para preparar!
Beijei Victória demoradamente, a verdade era que eu não
queria parar nunca mais, entretanto eu tinha que avançar com
calma.
Caminhamos até a portaria do prédio dela e lá eu a beijei
mais uma vez.
— Vou indo. — Acariciei seus cabelos. — À noite nos
veremos, tudo bem?
— Sim.
Afastei-me dela sentindo-me muito calmo.
Todavia não estava muito longe quando gritei seu nome e
ela me olhou.
— Eu te amo — gritei abrindo os braços e ela riu. —
Estamos recomeçando!
Esperei para ver o que ela falava, e quase me matou
quando ela concordou com minhas palavras, me lançando um
beijo. Mais uma vez, o Balofo rosnou em minha direção.
Nem liguei. Eu estava mesmo era ali, parado e olhando
para a entrada do prédio dela quando senti um tapa na minha
nuca.
— Até que fim — Jason bufou e eu rosnei para ele. — Nem
vem, não sou seu empregado, estou mais para seu cunhado!
Encarei meu ex-segurança e fiquei muito feliz com o que
vi.
— Tem razão — concordei e estendi a mão. — É bom ter
sua amizade de volta.
Jason sorriu e apertou minha mão.
— Eu também, cara, mas faça minha bonequinha sofrer de
novo e eu te dou uma surra. — Jason me olhou. — Mesmo você
estando meio mutante.
Rimos e eu concordei com suas palavras.
— Eu só encontrei uma forma de extravasar a raiva, e foi
treinando. — Esfreguei o rosto. — Tive medo de Victória me
achar um monstro.
— Seu besta, minha bonequinha te acha maravilhoso —
zombou
Ri da forma como Jason falou, dizer que eu era
maravilhoso parecia rasgar sua voz.
De repente Jason ficou sério.
— Notei que ela está cedendo, e eu sou seu amigo, mas
antes de tudo sou o irmão que ela me permitiu ser, por isso
quero voltar a nossa amizade, eu sei que isso irá deixá-la
alegre. — Jason esfregou o rosto. — Mas, Rocco, você precisa
descobrir do que se tratam os pesadelos que ela tem.
— O quê? — perguntei preocupado.
— Ela acorda todas as noites gritando em desespero! —
exclamou feroz. — Logo quando chegamos aqui eu dormia no
chão do quarto dela, temia que ela tivesse algum problema.
Rocco, Victória foi diagnostica com depressão, e nós quase
enlouquecemos, eu apelei pelo amor que ela tem naquele
coração, mas parecia que Victória vivia sem forças, mas daí, um
certo dia, ela nos surpreendeu, chegou de manhã toda
sorridente, parecia mais viva.
Naquele exato momento eu soube que esse dia foi a noite
em que eu a segurei em meus braços.
— Eu a segui até o jardim secreto — murmurei
relembrando. — Eu a encontrei deitada no chão, cantarolando
uma música triste, então, quando notei que ela dormia, não
resisti, eu a tomei em meus braços. — Agora eu olhei para os
olhos de Jason. — Naquele momento eu me permiti viver
novamente, eu a segurei a noite toda, e ela agarrou-se a mim.
Eu senti a necessidade dela, eu doei de mim o que pude, eu a
acolhi dentro do meu calor e do meu amor. Agora eu só quero
mais uma chance, não vou desapontá-la.
Jason sorriu e colocou a mão no meu ombro.
— É disso que ela precisa, ela precisa que você não
desista. — Jason respirou fundo. — Victória não se acha boa o
suficiente para você.
Aquilo me golpeou com força e precisão, meu coração doeu
muito ao constatar que pior que a agressão física que ela
sofreu, foi a agressão psicológica permanece.
— O quê? Você só pode estar brincando! — bufei chateado.
— Não creio que ela acreditou naquelas revistas de merda!
— Eu descobri o quanto a afetava quando em uma noite
ela chorou no sonho e falou algo sobre não ser boa o suficiente
para você. Ela parecia convencida disso, e, só para que saiba,
apesar de ter uma família podre de rica, Victória não é mimada,
ela é pé no chão, é simples e por isso para ela é como se ainda
houvesse muitas diferenças entre vocês.
— Mas que porra!
— Cara, dê um jeito de devolver a confiança a ela, eu sei
que Victória está bem, ela é forte e, porra, eu a admiro porque
ela se ergueu com os próprios pés. E nunca, nunca te culpou
por nada, na verdade, no hospital, ela brigou com todos por
termos te tratado mal, a própria avó levou alguns puxões de
orelha. — Sorriu. — Mas acho que a autoestima dela sofreu
sérios abalos, e ela está toda emocional por causa da gravidez,
não sei. Mas faça alguma coisa! E outra, não se assuste quando
olhar para a cicatriz na coxa, eu tive um trabalho infernal para
fazer com que ela parasse de ligar. — Jason bufou. — Tive que
exibir minhas cicatrizes tranquilamente como se elas fossem
lindas.
Sorri.
— Não ligo para cicatriz nenhuma, Victória poderia ser
uma morta-viva e ainda morreria de amores por ela.
— Você é estranho! — Jason bufou e eu ri
— A propósito, eu já tenho tudo pronto para colocar no
lugar as putas que falaram mal da minha garota, na verdade
eu estava só esperando o momento certo e acho que ele
chegou! — grunhi respirando fundo.
— Essa é a hora de ser um homem implacável! — Jason
ergueu o punho e eu bati com o meu. — Agora preciso ir, a
sauna me espera.
Saí de lá e fui para meu apartamento.
Assim que entrei tomei um longo banho, a todo momento
um sorriso besta se desenhava em meus lábios.
Eu era como um leão feroz que ficou manso. Digo, eu
encontrei minha domadora e estava tranquilo, até porque
Victória estava me deixando entrar.
— É isso, amore mio — murmurei permitindo que a água
escorresse pelo meu corpo. — O seu foderoso Masari está de
volta.
Saí do banho com uma toalha enrolada na cintura, peguei
meu telefone e liguei para o Dinka.
— Quem é vivo sempre liga! — bufou do outro lado. —
Está fazendo o que, seu stalker?
— Vai se ferrar, Dinka! — Ri e ele berrou palavrões, o
bastardo odeia que o chamem assim.
— Fala logo o que você quer! — rosnou e eu ri. — Para de
rir, sua hiena velha!
— O que é, homem? Falta de sexo? — debochei e ele
berrou algo sobre a pirralha infernizando sua vida.
— A infeliz está me ignorando, acredita? — explodiu com
raiva. — Como é que pode? A safada volta antes da hora, chega
com aquela cara de anjo do pecado e ainda por cima sai do
ambiente toda vez que entro!
— Você está perdendo sua garota porque é um velho
rabugento e sem futuro! — grunhi. — Mas deixando seus
problemas e focando nos meus, preciso que você anuncie a
transferência da corporação Masari para o Brasil. Coloque a
equipe de relações públicas nisso, quero entrevistas com as
mais conceituadas revistas do mundo. Ah, mande Betty vir
para o Brasil, preciso dela para cuidar da minha agenda aqui e
iniciar o processo de treinamento da minha secretária.
— Mais alguma coisa, senhor? — debochou e eu o mandei
se ferrar.
— Como estão meus negócios?
— William é uma máquina, o homem não descansa, parece
um necromante! Ele cuida dos negócios dele e dos seus. — Riu.
— Essa semana ele berrou no conselho e todos devem ter se
cagado. Mas agora ele é respeitado.
— Então está tudo bem! — afirmei e logo desligamos.
Olhei para o relógio e vi que era cinco e meia, dava tempo
de tirar um pequeno cochilo para recarregar, o sol do Brasil
castiga e depois de torrar naquele jogo eu estava morto, até
meus olhos ardiam.
Larguei-me na cama do jeito que estava. O peso que
carreguei esses dois dias foi expulso de mim. Victória me deixou
tonto com sua aceitação sutil, ela ainda não percebeu, mas me
quer tanto quanto eu a quero.
— Culpa dos hormônios da gravidez. — Ri baixinho, nesse
momento, meu celular apitou e eu nem me importei em ver o
que era. Estava deitado e não iria levantar.
Estava mais preocupado com o fato de ainda não ter
acariciado a barriga de Victória, mas confesso que estava mais
ansioso para tê-la confortável comigo por perto.
Não queria criar um momento estranho, eu queria tudo.
Hoje eu iria tocar e beijar a barriga da minha mulher, e se eu
tiver sorte meu filho vai mexer para mim.
— É isso aí, mio bambino, papa está chegando. — Bocejei e
virei de bruços, agarrando meu travesseiro, bem que eu queria
que fosse o corpo de Victória, mas, enfim, hoje à noite eu ficaria
com ela por algum tempo.
Pelo menos dormindo a hora vai passar mais rápido! Esse
foi meu último pensamento consciente.

***

Victória

— Tia, essa e a última fornada, vou só esperar eles


esfriarem e vou rechear! — Sorri esperando tia Laura depositar
a forma em cima do balcão
Rocco vai adorar. Sorri largamente quando vi que os
cupcakes ficaram altos e perfeitos
— O chocolate está no ponto e a geleia de morango
também. — Suspirei contente. — Vou retirar um pouco do
miolo para colocar a geleia de e depois eu cubro com o cone de
chocolate.
Tia Laura sorriu feliz.
— Você o está aceitando de volta, não é? — perguntou e
eu acenei. — Você ainda o ama, filha?
Aquela pergunta me fez refletir, e eu não me vi sentindo
aquele arrebatamento que eu sentia antes, agora era como se
eu estivesse de olhos bem abertos, eu conseguia enxergar
Rocco completamente, com defeitos e qualidades.
— Não sei, tia. — Dei de ombros. — Mas eu o quero por
perto! E eu estou muito feliz que ele vem jantar, quero que a
senhora o trate bem, Rocco está sozinho aqui, quero que ele
tenha apoio, certo?
Tia Laura largou o que estava fazendo e veio me abraçar.
— Eu amo aquele brutamontes, de coração. — Suspirou.
— Mas eu sou feroz com você e tive que mostrar para ele como
a banda toca.
— Eu sei. — Encostei a cabeça em seu ombro. — Mas ele é
importante demais para mim, tia, durante muito tempo ele foi
meu príncipe encantado, depois ele passou a ser meu sonho
real e, por fim, ele é o pai do meu filho.
— Tudo bem. — Acariciou meu cabelo. — Opa! —
exclamou levando uma das mãos até a barriga.
— Mexeu? — perguntei em expectativa. — Me deixa sentir,
tia.
Eu coloquei as mãos em sua barriga redonda de cinco
meses e esperei, logo eu bajulava meu priminho com carinho.
— Vamos lá. amor, mexe para mim — ronronei e nada. —
Deixa de ser tímido, mexe para mim, vai.
Então senti uma pancadinha que me fez soltar um gritinho
de alegria, logo o bebê da tia Laura começou a chutar muito,
me fazendo ficar ainda mais feliz por ter me recuperado o
suficiente para estar aqui e ver essa maravilha acontecer.
Aquela alegria me deixou ainda mais ansiosa para ter
Rocco aqui, e por isso eu deixei os cupcakes perfeitos e
saborosos, logo fui para meu quarto tomar banho.
Arrumei-me com cuidado, escolhi um vestido rodado que
escondesse minha cicatriz e que deixasse minha barriga à
vontade, se bem que ela não estava grande, pelo contrário, era
pequenina, e eu já estava com quatro meses.
Preciso engordar! Franzi o cenho. Agora, prestando
atenção, bateu um medo de que o período em que fiquei mal
tenha afetado meu bebê mais do que pensei ser possível.
— Você está bem, não é, bebê da mamãe? — perguntei
acariciando minha barriga, e logo, para minha alegria, o senti
mexendo, era suave, mas estava lá.
Respirei aliviada, saindo do quarto em seguida.
Cheguei à sala e a mesa já estava arrumada e linda, meu
pai conversava com a Dra. Rosana e eles pareciam entrosados.
Sorri quando ele me olhou, até pisquei um olho.
Vai em frente, pai. Sorri ainda mais, eu achava que eles
formavam um casal perfeito e, de repente, pensei que ter um
irmão não parecia tão impossível. Talvez uma conversa aqui,
um empurrãozinho ali, e eles se resolvessem.
— Você está linda, bonequinha! — Jason chegou perto de
mim, todo lindo vestido socialmente.
— Obrigada, gentil senhor. — Sorri e pedi para ele me
segurar na cintura, enquanto eu ajeitava a gola da sua camisa.
— Eu acho que em poucos dias você se livra dessas
muletas — falou expondo o pescoço para eu ajeitar sua camisa.
— Não aguento mais te ver com essas coisas.
— Não fale mal das minhas gêmeas! — bufei e ele riu
Pronto, estava tudo arrumado e só faltavam Rocco e minha
avó chegarem.
Às sete horas minha avó ligou dizendo que houve um
imprevisto e que não poderia vir. Eu confesso que fiquei
aliviada, pois não queria Rocco sofrendo com a antipatia de
ninguém.
— Só falta Rocco chegar e poderemos jantar — anunciei
sorrindo. Quando o relógio marcou sete e trinta eu comecei a
tremer levemente, estava ansiosa, desejando vê-lo aqui. Queria
tocá-lo, estar perto.
Queria estar no mesmo ambiente que ele, por isso mantive
meu ouvido atento ao interfone.
Dez minutos depois ele tocou e eu quase tive uma agonia
de alívio.
— É Rocco, já liberei a entrada dele na recepção, agora
preciso que alguém libere o elevador! — falei apressada. — Ele
vai subir. Não o deixem esperando.
Meu pai foi atender o interfone sorrindo e mandando-me
ter calma e respirar antes de falar, ri sem graça, mas quando
ele voltou eu senti meu estômago dando um nó.
— Meu carro está alarmando, vou descer para desativar —
bufou chateado. — Tenho que levá-lo à concessionária, já estou
ficando irritado com isso! — Logo ele me olhou, fazendo careta
Respirei fundo, não queria chorar.
— Ele vem, tenha calma! — Abaixou-se à minha frente e
eu concordei balançando a cabeça levemente. — Agora tenho
que descer, volto logo.
— Tudo bem — murmurei, mas murchei um pouco, pois
Rocco nunca se atrasava.
— Ele vem, pode apostar! — Jason falou sentando do meu
lado.
Eu sorri de cabeça baixa e concordei. Às oito da noite
meus olhos se encheram de lágrimas.
— Ele não vem — murmurei baixinho e ninguém falou
nada.
Às oito e meia, eu desisti de esperar e pedi licença. Fui
para meu quarto.
Não sei se não demonstrei o suficiente o quanto esse
jantar era importante, não sei se deixei óbvio como eu o queria
junto de mim e da minha família.
Chorei um pouco, mesmo não querendo. Olhei o meu
celular e não havia chamada nem mensagem. Respirei fundo e
resolvi mandar uma para ele.

De: Victória
Para: Rocco
Assunto: Jantar
Data: 04/04/2015 às 08:50 p.m
Tudo bem? Por que não veio?
Estava ansiosa para te ver.
Até mais.

Fiquei sentada na beirada da minha cama até as nove e


quinze. Eu não sei o que esperava, talvez uma resposta ou uma
ligação? Não sei.
— Vou ligar! — decidi e liguei para ele. — Desligado —
murmurei olhando para a tela do meu celular. Tentei mais
duas vezes, as operadoras do Brasil eram horríveis, então
tentar era o X da questão. Tentei até que me convenci de que
estava desligado mesmo e, por fim, desisti.
E mais uma vez eu me decepcionei. Deitei de lado e fechei
os olhos. Sentia-me estranhamente conformada.
— Tudo bem, Rocco, tudo bem.

***

Rocco

Acordei ofegante e com o abdome todo melecado, o suor


banhava meu corpo e eu ainda tremia por causa do orgasmo
que tive. Sonhei que fazia amor com Victória, ela me chupava
de um jeito insano e depois me mordeu levando meu prazer a
outro patamar.
— Nossa, amore mio… — Respirei fundo. — Você vai me
matar, se em sonho é assim, imagina pessoalmente?
Sorri me sentando na cama, meu pau ainda estava duro e
cheio de tesão.
Peguei a toalha largada na cama e me limpei, logo me
levantei, me espreguiçando. Estava bem descansado, relaxado e
poderia, sim, enfrentar a bruxa velha.
Fui até meu celular e o infeliz estava desligado, coloquei
para carregar, em seguida peguei meu relógio e olhei a hora.
Os ponteiros marcavam uma e vinte da manhã.
— Não pode ser! — Angústia deslizava por meu corpo em
grandes ondas. Liguei o celular e instantes depois apitou
mensagem e chamadas.
Não acredito que logo agora eu pisei na bola! Decepção era
algo que poderia ter sabor, ao ler a mensagem simples, quase
não pude controlar a raiva.
— Puta que pariu!
Logo agora? Que merda!
Capítulo 10
Victória

— Filha, você tem visitas — tia Laura falou e eu olhei para


cima, estava debruçada em minha mesa de criação. Depois da
noite frustrada de ontem, eu nem dormi por causa do surto
criativo que tive.
Naquele momento de decepção, eu fechei os olhos e vi luz
e sombras.
Eis que tive uma grande ideia para o lançamento da
Luxor. Utilizaria minha dor para a escuridão e minha
renovação para a luz. A ideia era basicamente construir um
jogo de mistério e luxo envolto de sensualidade e romantismo
característico em minhas criações.
— Quem é, tia? — perguntei voltando aos contornos do
meu terceiro vestido. Confesso que nem tive sono, apesar de
estar cansada, eu não tive pesadelos, então no fim das contas
foi até melhor.
— Sua equipe! — exclamou me fazendo sorrir.
— Mande-os entrar, por favor!
Não tive tempo nem de levantar, quando dei por mim,
Nikolas e Márcia entraram com tudo.
— Oi, rainha neta! — saudou ele me dando um abraço e
dois beijos, entretanto quase morri de susto quando ele me deu
um selinho.
— O quê? — Espantei-me, fazendo-o dar de ombros.
— Normal, Victória, ele sempre dá selinhos nas garotas
dele. — Márcia riu e veio me dar um abraço.
— Antes que você se espante, eu e Márcia viemos porque
precisamos pensar na coleção de lançamento da Luxor, a
rainha falou que talvez você precise de tempo para se adaptar
ao ateliê, então por isso eis-me, aqui em toda a minha glória
gostosa e bem-vestida! — terminou de falar abrindo os braços e
dando aquele sorriso capaz de conquistar muita mulher, claro,
se ele gostasse. Que desperdício.
— Bom, sobre isso… — Respirei fundo, um tanto tímida. —
Eu pensei em uma coleção nova, na verdade eu já tenho alguns
croquis prontos.
— Ahhh, cadê? Cadê? — Nikolas bateu palmas. — Onde
estão? Garota, não esconda o ouro!
Ri de sua euforia e estiquei a mão, pegando os desenhos
em minha mesa.
— São esses aqui, ainda faltam alguns detalhes de
aplicações, mas é isso.
Nikolas olhou os desenhos e a todo momento ele mordia os
lábios, eu já estava nervosa quando mais uma vez ele gritou.
Pulei assustada.
— Ain, que tudo!
— Que bom que você gostou. — Sorri aliviada
— Se eu gostei? — perguntou ultrajado. — Minha filha, eu
amei e te odeio porque não poderei usar nenhuma dessas
maravilhas. Ódio! — bufou virando a cara, mas logo sorria — Já
pensou em um nome?
Ele é bipolar, só pode! Pensar nisso me fez imaginar onde
estaria meu lindo bipolar, que não veio jantar ontem e nem deu
sinal de vida até agora.
— Querida, estou vendo seu olhar sonhador — Nikolas
chamou minha atenção. — Isso por acaso é culpa de um certo
gostosão musculoso e portador daquela bunda maravilhosa?
Ri um pouco de sua forma de falar e de sua ousadia.
— Nikolas, se você preza seus dentes e suas vísceras, não
fale assim perto de Rocco — Bufando, ele concordou. — E
respondendo à sua pergunta anterior, sim, eu pensei em um
nome, Luz&Sombras. — Apontei para o vestido desenhado. —
Basicamente seria assim, o vestido teria um efeito mágico nas
luzes, me refiro ao brilho das aplicações e tal. — Agora apontei
para as marcações onde mostrava o contraste nas cores. — Já
na sombra o vestido mudaria de cor, digo, ele iria resplandecer,
como se houvesse uma luz especial, seria o mesmo que
acontece com as luzes neon, entretanto isso seria um efeito no
tecido e na própria cor, pensei muito essa madrugada e acho
que iremos precisar de um engenheiro químico para nós ajudar
nessa parte.
Márcia e Nikolas olhavam para mim como se eu fosse
doida.
— Gente, é simples. — Respirei nervosa. — Na claridade o
vestido é apenas um vestido, já no escuro ele é algo mais.
Refiro-me à intensidade da cor, ele irá acender, não como uma
luz, mas como uma sombra romântica e misteriosa, pensem
assim… — Torci minhas mãos nervosamente e comecei a falar:
— As modelos estarão desfilando com os vestidos, tudo será
como um desfile normal e tal, mas aí, conforme a luz for sendo
diminuída, o efeito especial da cor irá surgir. Imaginem como as
pessoas irão ficar chocadas?
Nikolas ainda me olhava como se eu fosse louca, e eu
comecei a pensar que talvez eu estivesse meio louca mesmo.
— Deixa para lá, eu acho que a ideia foi meio maluca.
— Brilhante! — Nikolas murmurou. — É simplesmente
brilhante. — Então ele sorriu. — Isso nunca foi feito, e com
certeza irá deixar a crítica louca, as pessoas estão acostumadas
a roupas básicas que acendem sob o efeito da luz ultravioleta,
mas desse jeito que você está falando, nós iremos ter as
socialites barbarizando em bailes com vestidos únicos que não
irão deixá-las serem confundidas. E, ah, o que essas dondocas
mais gostam é de exclusividade.
— Sobre isso, eu pensei em fazer apenas um vestido de
cada modelo. — Sorri largamente. — Sem cópias, apenas um
vestido de cada croqui, e a patente da fórmula para a cor
especial. Também temos que pensar na intensidade do degrade
da cor.
— Sim, teremos que ver como colocar o brilho da luz e a
surpresa da sombra, vamos alinhar e harmonizar a cor, tive
uma ideia e pensei em acrescentar algo especial.
Nikolas abriu um sorriso enorme, logo em seguida juntou
as mãos em prece.
— Faça uma roupa para mim dessa coleção, eu também
quero algo exclusivo da Luz&Sombras.
— Um terno slin ajustado de três peças serve? — Pisquei
um olho e ele riu me dando mais um abraço.
— Quando eu crescer quero ser igual a você, Victória! —
Márcia exclamou e rimos.
— Você será, você tem embasamento teórico e professores,
eu nunca tive ajuda, aprendi tudo sozinha. — Estiquei o braço
e ela veio. — Somos a equipe de estilistas da Luxor, temos que
barbarizar no nosso primeiro desfile.
— Eu sou apenas a estagiaria. — Márcia baixou o rosto. —
E eu nem sei até quando.
— Se minha avó não te contratar para a Luxury´s você
vem para a Luxor ou para a Emporium. — Sorri. — Se brincar
ainda roubo a Lucy e a Fernanda também.
— E eu? — Nikolas fez bico.
— Você deixaria sua rainha por mim? — Arqueei uma
sobrancelha e ele cruzou os braços
— Se você me disser que seu irmão lindo vai estar
presente de vez em quando eu vou para onde você for, ou
melhor, para onde ele for. Quer saber, eu vim aqui porque além
de querer te ver eu precisava dar mais uma olhada naquele
homem maravilhoso, gostoso, pedaço de mau caminho, na
verdade acho que ele é meu mau caminho.
Naquela hora Jason bateu na porta do meu quarto e
entrou.
— Bonequinha, vim perguntar se você quer comer alguma
coisa — falou em inglês, já que seu português era impossível e
não passava de embolados estranhos.
— Eu quero tudo, seu marombado delícia! — Nikolas
resmungou e eu ri alto.
— Ainda são oito da manhã, brother, está tudo bem. —
Sorri. — Qualquer coisa eu me viro, agora mesmo vamos
apenas trabalhar um pouco.
— Você precisa de mim? — Jason me olhava e eu notei
que ele queria mesmo era sair dali.
— Eu preciso, seu homem lindo da porra, eu quero seu
corpo nu e cru, mas se estiver torrado de sol, como agora, eu
também aceito. — Nikolas estalou a língua e eu livrei Jason
daquele assédio mal-interpretado.
Ainda bem que meu brother não entende nada! Ri da
situação.
— Pode ir, brother, estamos bem.
Jason acenou e fugiu.
— Quem está bem? — Nikolas se jogou na minha cama. —
Eu não estou bem, eu estou péssimo, morrendo de amor não
correspondido. Mundo cruel. E agora? Como serei Julieta se
meu Romeu não me quer?
— Meu Deus, Nikkita, você está a cada dia mais
trabalhado no drama! — Márcia riu e eu acompanhei.
— Vamos trabalhar — chamei voltando para minha mesa
—, a general Clara, também conhecida como fisioterapeuta,
chega em uma hora.
Eu fiz mais um desenho e estávamos no caminho certo, eu
sabia que o fato de estar me sentindo bem estava me ajudando,
pois na minha cabeça eu imaginava um vestido atrás do outro.
Nikolas estava louco do meu lado, ele parecia uma
daqueles papagaios de pirata, olhava por cima do meu ombro e
ia ofegando, gritando e me bajulando enquanto os traços iam se
formando no papel.
— Incrível — murmurou pegando o último desenho. —
Nunca vi ninguém criar tão rápido! — Balançou a cabeça
admirado. — Nem em meus melhores dias.
— Para mim é fácil. — Sorri. — Eu fiz isso minha vida toda,
cresci com uma artista.
Naquele momento a Dra. Clara chegou e Nikolas chamou
Márcia para ir embora, eu pedi para ela ficar. Precisava saber
mais sobre Gabrielly e esse momento seria perfeito.
— Então eu fico — respondeu e Nikolas partiu cheio de
ideias para o marketing de lançamento da Luxor.
— Márcia, eu vou fazer a minha sessão obrigatória de
tortura e, quando acabar, precisaremos conversar, é
importante.
— Tudo bem — respondeu e seguimos para a sala de
reabilitação que meu pai montou para mim.
Mais uma vez eu quase morri de dor, minha perna estava
dando câimbras que me faziam gritar. Era horrível, as fisgadas
deixavam minha panturrilha dura e, minha nossa senhora das
mocinhas sedentárias, doía demais. Esticar a perna era
horrível, eu chorava sem querer, porque mesmo querendo me
entortar para fugir da dor, não havia escapatória.
— É normal, isso é a tensão nos músculos e tendões,
calma que vai passar — minha carrasca falou e eu só acenei,
me debulhando em lágrimas, até vontade de fazer xixi eu tive.
Eu estava tendo as rainhas da câimbra, e se quer saber o
horror que estou passando, tenha uma também.
— Só mais uma pouco.
— Eu morro! — reclamei respirando fundo, e a Dra. Clara
riu como sempre, ela só fazia rir das minhas queixas.
Claro, a dor era minha, então por que sofrer comigo?
Vamos rir, e rir muito. Droga!
— Hoje irei levar as muletas — falou tranquilamente e eu
congelei.
Como assim? E eu vou andar como? Manca? Ou pior,
caindo?
Senti que entrava em pânico. Essas muletas estão comigo
desde que consegui ficar em pé! Não posso sair por aí sem elas!
São como um alicerce para mim. Não posso largá-las agora.
— Você vai pisar no chão, sua perna aguenta, pode
mancar um pouco, mas isso vai te ajudar a equilibrar e
distribuir o peso novamente, não sobrecarregando a perna
saudável.
— Não quero largar as muletas agora, é muito cedo.
— É necessário! — ela me interrompeu. — Você precisa se
livrar delas para poder começar a andar normal, no começo vai
doer, e quando isso acontecer, você vai passar um óleo com
extratos essenciais.
— Mas…
— Nada de “mas”. — Sorriu e olhou para mim. — Você vai
ficar bem.
Dito isto ela foi até sua bolsa e pegou o óleo, passou em
minha perna e na hora senti a ardência suave, até me
surpreendi quando a dor amainou bastante.
— Se for sair leve o óleo, apenas por garantia. Esse será
seu remédio para dor.
— Mas eu estou grávida e não…
— Relaxe, tudo está certo. — Sorriu de novo e foi juntar
seus pertences, inclusive as minhas muletas.
Ela ri demais, deve ser porque Jason está aqui.
Ultimamente as mulheres estão todas sorrisos para o lado dele.
Era notável a mudança nele, apesar de ainda ter aquela cara
de durão, meu brother estava mais relaxado e acessível.
Pouco tempo depois eu me despedi da doutora e fui logo
tomar banho, ficar em pé sem auxílio era estranho. Digo, eu
não confiava em mim ainda. Mas a Clara tinha razão, eu
precisa passar por esse pequeno momento doloroso para ficar
100% .
Tomei O banho e, quando terminei, fui enrolada na toalha
até meu quarto. Lá me vesti e pensei se ligava ou não para
Rocco. A questão é que, pensando com clareza, me veio à mente
como ele parecia cansado ontem. Ele tinha olheiras e os olhos
estavam vermelhos. Os sinais de fadiga eram muito visíveis.
— Acho que ele passou da hora! — concluí, mas logo mordi
o lábio quando uma dúvida se infiltrou.
Então, por que ele não entrou em contato comigo até agora?
Olhei o relógio.
— Onze e meia da manhã. — Não evitei a pontada de
desgosto.
— Minha filha, vamos almoçar? — tia Laura me chamou
atenção e eu concordei, eu estava morta de fome mesmo e com
sono também.
O almoço foi muito bom, tia Laura gostou muito da Márcia,
já Jason a encarava com aquele olhar especulativo, parecia um
gavião.
— Não olhe para ela assim! — falei baixinho e ele deu de
ombros
— Ela é nova em sua vida, portanto, eu confio
desconfiando.
Balancei a cabeça enquanto mastigava.
— Eu te amo, seu bobo superprotetor! — Acariciei sua
careca e ele riu.
— Os irmãos fazem isso, não é? — perguntou duvidoso. —
Eu só quero ser um bom irmão.
— E você é meu filho! — tia Laura entrou na conversa e
Márcia nos olhou. — Os irmãos são protetores, preocupados,
ranzinzas e ciumentos. Muitos deles até sabotam a vida
amorosa das irmãs.
Eu ri concordando e Jason inflou o peito.
— Então eu sou um irmão!
Meu brother parecia muito feliz e eu também estava.
Entretanto, ele não parava de encarar Márcia, e lá no fundo
acho que essas olhadas eram a causa de seu rubor
permanente. Apesar da cara de pau do meu brother, o resto do
almoço foi tranquilo e, quando terminamos, Márcia se ofereceu
para lavar a louça, mas Jason a interrompeu dizendo que ele
faria isso.
— Venha comigo, vamos conversar — chamei minha mais
nova amiga e fomos para o meu quarto. Mal me continha de
ansiedade.
Eu precisava falar com ela rápido.
— Márcia, eu não vou enrolar — falei assim que entramos
—, antes de tudo, eu quero que você seja sincera comigo, pois é
muito importante para mim, certo?
Eu a encarava, atenta, e graças a Deus tive uma resposta
positiva.
— Eu farei o que estiver ao meu alcance.
— Tudo bem, senta aqui. — Bati na minha cama e ela veio
se sentar. — Márcia, eu preciso saber se você ainda tem
contato com Gabrielly.
Durante alguns segundos eu pensei que ela iria negar. E
por um momento eu senti sua batalha interna.
— Por favor, seja sincera, é importante — insisti e ela
suspirou.
— Eu tenho medo, Victória, não quero mexer com alguém
como sua avó. Eu não posso me arriscar e…
— Márcia, estamos eu e você aqui! — tranquilizei logo de
cara. — Eu nunca faria nada para te prejudicar, sei que é pedir
muito, mas confie em mim, por favor!
Ela respirou fundo, afirmando
— Sim? — perguntei esperançosa.
— Sim, eu mantenho contato com ela, lógico que é sigilo.
Na verdade, Gabrielly mora comigo. É escondido, pois eu temo
se sua avó descobrir.
— Não vai, mas, por favor, me conte tudo — pedi sorrindo,
eu queria passar confiança.
— Gabrielly também não é do Rio, ela estava aqui no
alojamento da universidade, mas quando conseguiu o estágio
ela foi para um pequeno ap, entretanto, depois de todos os
problemas, as portas para ela se fecharam. Ela não conseguiu
mais a vaga no alojamento do campus, não conseguiu emprego,
na verdade ela não conseguiu mais nada.
Fechei meus olhos decepcionada. Eu sabia que essa maré
de azar da Gabrielly tinha nome e sobrenome.
— Continue, por favor.
— Apesar de ter notas excelentes, ela nunca mais
conseguiu nenhum estágio, os ateliês não a queriam, quando
ela conseguiu um emprego no shopping, foi demitida
inesperadamente. Bom, um dia eu a encontrei chorando no
banheiro da universidade e perguntei o que foi. Ela desabafou,
e eu a ajudei. Ela mora comigo e trabalha em um posto de
gasolina há um mês.
Eu olhava para Márcia e nem acreditava no tamanho da
maldade da minha avó.
— Sobre o relacionamento dela e do meu primo, você sabe
o que aconteceu?
— Victória… — Márcia se contorceu, nervosa, mas eu
insisti e ela concordou em continuar. — Resumindo tudo, sua
avó ameaçou acabar com o futuro de Gabrielly, mas não só
isso, ela ameaçou acabar com a família inteira.
— Mas o quê?! — Acho que gritei, porque Márcia pulou
assustada. — Desculpe-me. Eu me exaltei.
— O pai dela perdeu o emprego, o irmão, a bolsa de
estudos que tinha, e só quando a mãe dela correu o risco de
perder o tratamento em um hospital de câncer particular foi
que Gabrielly cedeu e terminou com Carlos.
Eu olhava para Márcia e só fazia balançar a cabeça. A
cada momento, a cada coisa que eu descobria sobre minha avó,
mais e mais compreensão eu tinha sobre os motivos da minha
mãe para me esconder.
Como é que uma pessoa que se diz amar faz uma coisa
dessas? Que tipo de amor egoísta é esse? As pessoas têm que
ofertar o amor gratuitamente e pedir a Deus que seja
benevolente, lhes devolvendo na mesma moeda.
Não tem como abrir a boca e implorar por Deus se você
atenta contra Sua vontade! É triste de ver como minha avó
usou seu poder e influência para maltratar uma pessoa que
não fez nada contra ela.
Qual era a culpa de Gabrielly?
Nenhuma! Ela apenas amou e foi maltratada por isso. Na
vida, amar deveria ser fácil, pois não tem nada pior do que você
querer se entregar, dizer eu te amo e sentir-se bloqueada.
Agora eu iria fazer pelo meu primo Carlos e por Gabrielly o
que não foi feito antes. Eu iria ajudá-los. Porque eu sabia que
amor ainda havia, e se para Antonieta Andrade armar para os
outros é aceitável, então certamente ela também vai aceitar
que armem para ela.
— Márcia, vou te pedir algo muito importante! Na verdade
é importantíssimo!
— O que você quiser! — falou solícita, me deixando feliz e
esperançosa.
— Eu preciso que você traga Gabrielly até aqui, às seis da
noite!
Márcia sorriu e concordou.
— Hoje ela está de folga! — exclamou e eu bati palmas de
felicidade.
— Pois você irá fazer assim, inventa qualquer desculpa,
chama ela para jantar, mas coloca uma muda de roupa
escondida na sua bolsa, traga ela aqui e eu vou trazer o Carlos.
Farei com que ele conheça a verdade.
— Obrigada, Victória, Gabrielly precisa de alguém bondoso
em sua vida, eu faço o que posso, mas, realmente, se você
conseguir fazer com que ela e Carlos conversem e se acertem,
eu serei eternamente grata. Não suporto vê-la chorando todas
as noites, ela pensa que não escuto, mas, sim. E isso me parte o
coração.
— Farei isso por ambos, não quero mais ver o olhar
desolado do meu primo.
Concordamos e eu ergui o punho como Rocco gosta de
fazer. Márcia bateu o dela e iniciamos nosso plano.
— Vou ligar para o Carlos e pedir para ele vir às seis e
meia.
— E se a Dona Antonieta vier? Como vai ser?
— Vou trazer o Carlos para meu quarto e trancar a porta,
ficaremos os três aqui e farei eles se confrontarem.
— Então eu já vou. Preciso pensar em uma desculpa para
fazer Gabrielly sair de casa.
Concordei e ela se foi, sendo escoltada por Jason.
Pensei durante alguns momentos no que dizer a Carlos, o
pior era que, se ele estivesse de plantão, as coisas iriam
complicar, entretanto, eu não tinha nada a perder e iria, de um
jeito ou de outro, colocá-los cara a cara.
Peguei meu celular e a primeira coisa que fiz foi ver se
tinha chamadas ou mensagens de Rocco.
Não havia.
Então, não parei para avaliar a sensação de aperto no
peito que isso me dava, eu resolvi agir.
Liguei para Carlos e quase não me contive de alívio
quando ele atendeu.
— Victória, tudo bem? — já foi logo perguntando.
— Desative o modo médico, meu primo querido, estou te
ligando porque preciso que venha aqui em casa hoje às seis e
meia.
— Não posso sair hoje, vou ficar até amanhã às sete, mas
então está tudo bem mesmo? — perguntou e eu notei que ele
estava desconfiado, e por isso pedi perdão a Deus pelo que eu
iria fazer agora.
— Carlos, eu não me sinto bem, digo, eu estou bem
fisicamente, mas estou sentindo que a tristeza está me
cercando novamente e, sabe… — Fiz uma pausa. — Eu não
quero conversar com ninguém, eu quero conversar com você.
— Claro, eu estarei aí pontualmente na hora marcada, por
favor, fique tranquila, vou adiantar o plantão aqui e sair mais
cedo. Quer que eu fale com a nossa avó? Ela pode ir na frente
e…
— Carlos, eu não quero preocupar nossa avó. — Mordi o
lábio, pensando que ela era a última pessoa que poderia vir
aqui hoje. — Eu até agradeço se você não avisar a ela, apesar
de amá-la, a Dona Antonieta me sufocá-la às vezes.
— Tudo bem, eu não direi nada — concordou e eu soltei a
respiração que nem sabia que havia prendido. — Até mais
tarde, não vou me atrasar.
— Obrigada, Carlos, você não faz ideia de como é
importante para mim.
Escutei sua risada baixa e logo desligamos.
Deitei na minha cama pensando na vida. Não sei em que
ponto meus pensamentos se tornaram indistintos e eu não
lembrava o momento exato em que adormeci.

***

— Victória? — Senti alguém tocando meu rosto com


carinho. — Victória, amor, acorda.
— Rocco. — Sorri suspirando e me virei, esperando um
beijo, mas eu só ouvi uma risada baixa.
Abri os olhos e dei de cara com Jason me olhando com as
sobrancelhas arqueadas.
— Nem vem, não vou beijar minha irmã! — Fez careta. —
Eca.
— Seu bobo. — Ri me sentando, logo cocei os olhos e me
estiquei.
— E outra, não me compare a ele, o cara parece o Incrível
Hulk.
Fiz uma cara feia e ele revidou, então estirei a língua e ele
bagunçou meus cabelos.
— Seu chato — reclamei, ele deu de ombros.
— Aquela garota que estava aqui mais cedo chegou,
trazendo uma amiga. — Agora ele riu e era um sorriso
tipicamente masculino. — Gosto de ser seu irmão.
— Interesseiro de uma figa! Fique longe das minhas
amigas. — Apontei um dedo, me fingindo de séria, e ele riu
— Não prometo nada! — Sorriu erguendo as duas mãos. —
Mando que elas venham para seu quarto? Ou você vai para a
sala?
— Manda elas virem!
— Okay, estou saindo.
Acenei e me levantei, indo direto para o banheiro, eu
precisava jogar uma água fria no rosto para despertar de vez,
aproveitei e escovei os dentes também.
Escutei vozes em meu quarto e pedi a Deus discernimento
para conseguir desenrolar esse novelo.
— Márcia, vamos embora, por que me trouxe aqui? —
Ouvi uma voz aflita perguntando. — Eu vi uma foto de Victor
Andrade, quero ir embora… ou melhor, eu vou embora.
Saí do banheiro toda atrapalhada, só não caí com a cara
no chão porque me segurei no trinco da porta.
— Por favor, não vá ainda! — pedi me levantando. —
Precisamos conversar.
A moça que me olhou era linda, alta e de cabelos escuros,
ela tinha um rosto angelical, mas o que mais se destacava em
seu rosto e olhos era o cansaço, a tristeza e a desesperança.
— Eu sei de tudo — falei indo em sua direção. — Márcia
me contou tudo e eu acho…
— Por que você fez isso, Márcia? — perguntou chorosa. —
Eu confiei em você… eu confiei, e agora ela vai descobrir que eu
vim aqui e terminar de destruir minha vida.
Eu me encolhi com o sofrimento dessa jovem mulher, eu
me enxergava nela e sabia como ela se sentia nesse momento.
Era horrível.
— Gabrielly, eu pedi para Márcia te trazer aqui porque
quero te ajudar. — Caminhei até parar em sua frente. — Mas,
primeiro de tudo, quero deixar claro que não sou nada parecida
com minha avó, nós só temos o mesmo talento, mas nunca faria
o que ela fez com você. Agora, se quiser chorar, pode chorar,
mas, por favor, não fique com medo, eu não vou te fazer
nenhum mal.
Naquele instante a moça diante de mim cobriu o rosto com
as mãos e chorou, ela chorou tanto que partiu meu coração.
— Eu não tenho mais esperança! Minha vida é uma
constante queda livre, não tenho brecha para escapar. Eu lutei
tanto para conseguir ter as coisas e do nada eu perdi tudo,
minha família perdeu tudo. E isso aconteceu só porque eu amei
o homem errado.
Neguei e pedi que ela se sentasse.
— Tudo isso vai mudar, e eu vou te ajudar, estou disposta
a enfrentar minha avó, e é certo, Gabrielly, eu não tenho medo.
— Por favor, eu só peço que esteja sendo sincera, não
aguento mais outra decepção.
Conversamos mais um pouco e ela me contou que minha
avó não foi sutil em sua ameaça. Ela apenas exigiu que
Gabrielly deixasse Carlos ou arcasse com as consequências,
essas que vieram a seguir com peso e seriedade.
— Tudo bem, você ainda o ama?
Essa era a pergunta mais importante de todas.
— Com todas as minhas forças, e é por isso que eu sofro a
cada dia. Minha vida está vazia, e às vezes eu só queria poder
ver aquele sorriso lindo para sentir que tudo vai ficar bem. —
Soluçou baixinho e naquele momento Carlos parou na porta,
ele estava de frente para mim, e, enquanto Gabrielly estava de
cabeça baixa, eu levei meu dedo até os lábios, pedindo que ele
ficasse em silêncio.
Não era obra do destino que Gaby estivesse de costas para
a porta.
— Gabrielly, eu vou te perguntar novamente. — Respirei
fundo e mandei ver. — Você ainda ama Carlos?
Vi meu primo empalidecer e dar um passo atrás, ele
estava prestes a se virar quando a voz triste e suave de sua
amada o faz estacar.
— Eu amo como nunca vou amar outro homem! —
suspirou limpando as lágrimas. — Eu amo cada pequena parte
dele, seus olhos, seu sorriso, sua bondade. Mas também amo
sua tenacidade e a força com que ele cuida de seus pacientes,
Carlos é perfeito, Victória, ele é um príncipe romântico que me
fez a mulher mais incrivelmente feliz do mundo.
Os ombros de Gabrielly caíram e ela chorou de novo.
— Há dias em que eu me pego esperando horas no sol ou
debaixo de chuva em frente ao estacionamento do hospital só
para vê-lo por breves instantes. Eu vivia por esses momentos
desde que ele chegou, pois quando ele passou alguns meses
fora eu morri, foi umas das piores fases da minha vida.
Olhei de relance para Carlos e ele sorria, ao mesmo tempo
em que limpava uma lágrima com o polegar.
— Não sei o que farei quando ele achar outra mulher —
soluçou encolhendo-se, ao mesmo tempo em que meu primo
negava freneticamente. — Nesse momento não haverá mais
sentido o próprio dia, as razões e os porquês se perderam, no
fim, Dona Antonieta terá cumprido com sua promessa, eu não
serei nada.
— Querida, ainda há uma chance para vocês. — Sorri
tocando seu rosto deprimido
— Não há — murmurou derrotada —, eu fiz o que sua avó
me mandou fazer, eu falei o que ela disse para falar. Eu fiz
muito bem-feito, eu ri mesmo quando sentia meu coração
sendo arrancado do meu peito — suspirou balançando a
cabeça. — Carlos me odeia.
Abri a boca para falar, mas ele tomou minha frente.
— Como posso odiar alguém a quem amo mais que a mim
mesmo?
Não pude evitar o enorme sorriso que tomou meu rosto, eu
estava vendo diante de mim o renascer de um amor. E era tão
lindo e perfeito que parecia brilhar mais que o sol.
— Responda, meu amor… — Carlos insistiu.
Gabrielly ergueu a cabeça e me olhou, lágrimas
escorrendo pelo seu rosto em um fluxo constante, e sua
expressão congelada em felicidade assustada e desacreditada.
Eu afirmei em silêncio. Ela não estava acreditando, mas,
então, quem a culpa?
— Não é possível! — murmurou e eu a via tão pequena.
Era como se sua personalidade houvesse sumido, restando no
lugar uma criatura frágil, que precisava de carinho e cuidado.
Márcia levantou da cama e começou a sair, eu fiz o
mesmo.
— Vocês têm muito que conversar. — Beijei o topo da
cabeça de Gabrielly. — Conte tudo a ele, Carlos te ama e vai te
apoiar em tudo. Estamos juntos.
Fui até meu primo e o abracei.
— Cuide dela, a qualquer momento ela parece que vai
quebrar.
— Obrigado! — Ele me apertou
— Nossa avó fez isso, e agora temos que planejar como
resolver essa situação. Mas primeiro converse com ela, mime-a
muito, ela precisa. — Soltei-me dele e fui até a porta. — O
quarto ao lado está pronto para vocês. Durmam lá, nada de
correr por aí de mãos dadas. Temos que pensar nas coisas com
calma, o que importa agora é que vocês se acertem.
Carlos concordou e eu saí, mas, antes de fechar a porta,
ainda pude ver a forma como Carlos pegava o corpo trêmulo de
Gabrielly em seus braços.
— Calma, meu amor, eu estou aqui e não vou a lugar
algum.
É assim que se fala, primo querido.
Capítulo 11
Victória

Carlos e Gabrielly conversaram bastante, em seguida


foram para um quarto de hóspedes e ficaram por lá. Tia Laura
que levou o jantar deles, pois ambos estavam ocupados demais
com aquele momento para pensar em socializar.
Eu estava me sentindo bem por ter feito isso. Apesar de
agora estar sendo uma noite inédita, pois meu pai não veio
para casa jantar e Jason saiu antes mesmo de Carlos chegar.
Tia Laura me falou que ele iria consertar alguma coisa na casa
de alguém. Eu dei de ombros e acabei por me dar conta de que
Jason estava ficando divertido e, por fim, começou a curtir a
vida.
E isso inclui sumir para consertar coisas por aí. Não sei por
que, mas eu acho que ainda irei ter notícias de muitas coisas
quebrando nesse condomínio.
Apesar de estar se encaminhando para se tornar um
pegador safado, eu achava incrível que meu brother estivesse
nessa fase da vida e sinceramente ele tinha mais era que curtir
mesmo, ser feliz e viver despreocupado. Todavia, por causa
desse sumiço dele, eu não jantei porque estava esperando-o,
agora eram nove da noite e eu aqui, sentada na varanda do
apartamento, sorrindo feito boba e querendo pizza de calabresa
com sorvete.
Sobre meus planos para ajudar Carlos e Gabrielly, vou só
dizer que irá causar um reboliço em Dona Antonieta Andrade.
Ela vai soltar fumaça de raiva, mas será necessário, ela precisa
aprender que não é a dona do mundo.
De fato, até o Carlos e Gabrielly concordaram comigo.
Então foi assim, depois de terem passado uma hora
conversando a sós, eu fui chamada para ir ao quarto. Apesar de
estar mais calma, Gabrielly morria de medo da nossa avó e não
queria arriscar elevar sua ira. Era algo enraizado em seu
íntimo, ela não podia pensar na hipótese de desafiar minha avó.
Então por isso eu trouxe a solução, iríamos armar um
casamento secreto para Gabrielly. Ela e Carlos iriam se manter
afastados e só iriam se encontrar em lugares pré-determinados
que onde fosse difícil serem vistos, como, por exemplo, sala de
cinema, quarto de hotel e o que mais conseguíssemos inventar.
Não queríamos arriscar a serenidade de Gabrielly, então,
eu acabei por me tornar um álibi.
Meu sorriso besta aumentou quando me lembrei da
conversa que tivemos ainda há pouco.
— Será perfeito, porque casais saem, não é? — Gabrielly
sorriu. — E sua avó nunca vai saber.
— Então eu e Carlos iremos fingir que estamos nos
conhecendo melhor, Márcia será a ponte entre você e ele,
faremos tudo às escondidas. Enquanto isso, Gabrielly, você vai
escolhendo todas as coisas do seu casamento, o vestido pode
deixar comigo, eu vou tirar suas medidas e pegar um dos
modelos da Luxury´s. Vou pegar um exclusivo de Nikolas
Assumpção e você vai ficar linda.
Carlos estava sorrindo feito um bobo. E era fofo de ver
como ele não conseguia ficar sem tocar em sua garota.
— Tudo vai dar certo, nossa avó está merecendo uma
lição, ela tem que parar de se meter na vida das pessoas —
Carlos falou sério, me olhando, e eu concordei.
— Será um choque, para ela, saber que você vai se casar
só no dia do casamento, e principalmente de que estará se
casando com a mulher que você ama, Gabrielly.
Apesar de estar sorridente, era palpável sua apreensão.
— As notas de compras e de tudo mais eu vou pagar —
falei para ambos. — Assim iremos evitar que nossa avó
desconfie, e, Carlos por favor, não fique com essa cara
sorridente, disfarce, ouviu?
Ele fez careta, mas concordou.
— Obrigada por isso — Gaby murmurou e eu ri
— Imagina, eu vou ser a fada madrinha de outra noiva,
acho que consigo dar andamento aos casamentos dos outros,
menos ao meu.
Carlos apenas riu.
— Até parece, nesses dias Rocco te sequestra e te obriga a
se casar, não sei como ele aguenta.
Fiz careta, mas inesperadamente senti um frio na barriga.
Gostava desse Rocco que estava conhecendo, ele me parece
mais controlado e calmo, eu preferia assim. Não tinha
disposição para lidar com um homem doido. Minha barriga
roncou de novo e eu me levantei. Morria com vontade de comer
pizza de calabresa com sorvete e iria investigar a geladeira e
ver se encontrava o que necessitava.
— Balofo da mamãe. — Sorri quando meu "filhote" enorme
esfregou-se em minha perna. — Vamos comer, amorzinho?
Pizza com sorvete?
Ele latiu abanando o rabo.
— Acho que isso é um sim?
Mais um latido, só que agora ele sentou, fazendo uns
barulhos, e eu podia jurar que ele estava concordando comigo.
— Vamos então — eu o chamei e fomos juntos.
Caminhei para a cozinha com o Balofo na minha cola,
todavia não tive tempo nem de pegar um prato, meu telefone
tocou.
Peguei em meu bolso e olhei o número. Não reconheci, mas
atendi mesmo assim.
— Alô?
— Amore mio. — Ouvi a voz baixa e rouca do outro lado,
meu corpo ficou meio estranho, leve e ao mesmo tempo pesado.
— Oi, Rocco. — Sorri, ouvir a voz dele era muito bom.
— Amor, eu… — Fez uma pausa, mas logo continuou: —
Bom, eu quero que você faça um favor para mim, pode ser?
— Se eu puder, farei, do que você precisa? — respondi
ouvindo sua risadinha.
Arrepiei toda. Cheguei até a apertar o telefone em meu
ouvido.
Confesso, apertei as pernas também, porque existem os
hormônios da gravidez e eles me deixam louca.
— Pegue o Balofo e desça até a recepção, estou te
esperando.
— Mas agora? — perguntei olhando ao redor.
— Agora mesmo, amore mio — respondeu rindo. — Venha
logo, Mirros-vald parece que vai desmaiar, não sei por que, mas
basta me ver para ele começar a mudar de cor. Agora ele está
meio branco, estou começando a me preocupar com a
possibilidade de estar causando um efeito negativo.
— O trate com cortesia, você é enorme e quando faz cara
feia assusta até quem já morreu. — Eu me diverti. — Menos a
mim, você não me assusta, grandalhão.
Rocco deu uma risada e eu me vi sorrindo encantada.
— Desça logo, não me aguento de saudade. E se ainda
tiver cupcakes, traga um para mim, passei o dia com vontade.
— Certo.
— Vem logo, por favor.
— Estou descendo — falei e desligamos.
Eu andei o mais rápido que minha perna e a falta das
muletas me permitiam, fui para meu quarto e peguei meu óleo
de arnica, não sabia por que estava fazendo isso, mas também
não iria parar para pensar.
Voltei à cozinha e fui para a área de serviço, lá peguei a
coleira do Balofo, quando ele ouviu o barulho, veio todo ansioso
para o meu lado, o prendi, em seguida peguei o depósito com os
cupcakes que não foram devorados pelo meu pai e por Jason.
Saí da cozinha direto para o hall do elevador e esperei
ansiosa, torcendo os dedos, alisando meu vestido e dando
voltas na coleira do cachorro.
— Vai sair?
Pulei de susto quando tia Laura falou às minhas costas.
— Vou encontrar com Rocco, não sei a que horas eu vou
voltar — respondi sentindo seu olhar sobre mim, corei na hora.
— Você vai namorar, não é?
— Tia, por favor, estamos apenas seguindo um caminho
amigável, sem segundas intenções — resmunguei e ela riu. —
Vai cuidar do tio Ricardo, e, ah, dê cobertura para o Carlos e
para a Gabrielly.
— Minha querida, eu estou sorrindo internamente da cara
daquela bruxa velha da sua avó. — Deu de ombros, mas logo
começou a alisar a barriga. — Vou filmar a cara de idiota dela
quando vir que Carlos está se casando com Gabrielly.
— Não seja má.
— Ela merece, e eu apoio o esquema. Vou ajudar no que
puder, aquela menina precisa de cuidado, o emocional dela
está uma merda e tudo por causa da velha egoísta.
— Tudo bem, a vovó merece uma pequena lição mesmo.
O elevador chegou e eu soprei-lhe um beijo. A descida
para a recepção me deixou ansiosa para saber o que eu iria
encontrar e descobrir, já o Balofo estava feliz porque ia sair.
Admito, eu também estava porque finalmente iria ver Rocco.
Parecia que estávamos vivendo algo novo, e mesmo cheia de
ressalvas, não negaria o que estava sentindo.
Assim que as portas abriram eu dei de cara com ele.
Cabelos quase raspados, barba enorme, corpo escultural e
grande. Eu sentia minha pele formigando à mera visão dele,
mas não era como no início da nossa história, onde eu me
sentia puxada para ele por fios invisíveis. Entretanto, não
existia mulher no mundo que não sentisse vibrações internas
estando perto dele.
A questão era que Rocco sempre seria um homem lindo,
ele só não tinha aquele efeito devastador sobre mim. Mas ainda
tinha poder, e não era só por ser lindo de morrer, era porque
ele tinha um quê a mais.
— Minha pequena — murmurou acabando com a distância
entre nós dois.
Tive que erguer a cabeça para olhá-lo nos olhos.
— Oi. — Ele sorriu, pegando meu rosto entre as mãos.
Suspirei. E o Balofo rosnou feroz, mas Rocco não ligou.
Meu filhote fazia jus à frase "cão que ladra não morde".
— Saudade de você. — Esfregou nossos narizes. —
Perdoname, amore mio, mas eu dormi demais.
— Por que não ligou? Eu pensei que você tivesse desistido
de…
Não consegui falar nada, pois ele me beijou, e, nossa, foi
delicioso.
— Eu falei que toda vez que você falar besteira eu iria te
beijar. — Encostou nossas testas.
— Besteira — brinquei e ganhei outro beijo rápido.
— Vem, vamos para nosso apartamento, meu pedido de
desculpas está esperando por você lá.
Rocco esticou um braço e eu o peguei, começamos a
caminhar para a saída.
— Você está sem as muletas — afirmou todo alegre —,
parabéns, amor, eu estou muito feliz por isso.
— Obrigada, a Dra. Clara me mata, mas ela sabe o que é
melhor, o problema de agora são as câimbras terríveis que
tenho, os músculos ainda estão destravando. — Calei-me de
repente e olhei para a recepção.
O rapaz que ficava lá me olhava como se eu fosse louca,
ele até beijou a corrente que carregava enquanto balançava a
cabeça, negando.
Rocco olhou para ele e sorriu, mas não era um sorriso
amistoso, era um sorriso de: “Olhe para minha mulher e perca
os dentes.”
— Tudo bem? — perguntei e ele encolheu-se um pouco.
— Eu acho que sim — respondeu e Rocco começou a rir.
Foi estranho, mas o pior foi ver o pobre homem ficando
ainda mais branco do que já estava.
— Até mais. — Pisquei um olho e saímos, eu e meus
garotos, para a noite.
A caminhada até a torre de Rocco demorou, porque eu
estava andando devagar, mancava a cada passo que dava, isso
me deixava constrangida e querendo voltar, assim Rocco
começou a me incentivar e adular, me deixando curiosa para o
que eu encontraria, ele não respondia qual era a surpresa que
me esperava no apartamento.
— Não adianta, amor, você terá que ver com seus próprios
olhos. — Sorriu e eu balancei a cabeça.
— O ministério da saúde adverte: deixar uma mulher
grávida curiosa pode fazer mal à sua consciência — reclamei e
Rocco gargalhou.
— Chantagista! — Beijou meu cabelo.
Chegamos à sua torre e lá estava a mesma loira do outro
dia. Assim que nos viu, ela sorriu e veio requebrando as
cadeiras até parar na nossa frente.
— Eu estava esperando por você. — Sorriu para Rocco de
modo sensual. — Preciso de um momento a sós, é possível?
— Eu não te conheço, nunca te vi na vida. Agora, se me
der licença, e eu e minha esposa queremos subir — Rocco foi
curto e grosso, eu até me encolhi com o gelo em sua voz.
Mas longe de se intimidar, a mulher nem ligou.
— Eu te abordei no jogo de vôlei ontem. — Sorriu
descarada. — E pensei que essa garota fosse sua filha.
Eu pude ouvir o rosnado retumbando no peito de Rocco, e
por isso encostei a cabeça em seu braço. Eu sabia que ele tinha
um problema com a nossa diferença de idade.
— Tanto faz se você me abordou ontem — revidou —, não
foi significante para meu cérebro registrar, e outra coisa, o meu
filho está aqui, mas na barriga da minha esposa. Agora saia da
frente, por favor — ele cuspiu as últimas palavras e eu senti o
frio passando.
Eu já estive do lado oposto à raiva dele e podia garantir,
não era algo bom. Tremi, sentindo os pelos da nunca
arrepiando. Longe de se intimidar, a loira cruzou os braços e eu
sabia que ela não iria sair.
— Tudo bem, não saia, a recepção precisa de uma
decoração nova. — Rocco me puxou com cuidado.
Caminhamos para o elevador, mas ela veio até onde
estávamos.
— Você não me conhece! Não sabe de quem eu sou filha.
— Moça, não faz isso. — Balancei a cabeça. — Não ameace
alguém que você não conhece — tentei adverti-la, mas só
consegui que ela ficasse vermelha de raiva. — Pegue a dica e
saia com a cabeça erguida, não se humilhe mais, aqui você não
vai encontrar nada.
A mulher parecia prestes a explodir. E mesmo assim, antes
de sair, ela ainda alfinetou:
— Fique com essa esquelética manca!
Senti-me esbofeteada, mas não permiti que aquilo me
afetasse, todavia, Rocco era outra história.
— Peça desculpa à minha mulher agora! — rosnou e a
outra sorriu.
— Pamela Castelo não pede desculpas a ninguém! —
exclamou altiva e segura de si.
Naquele instante algo aconteceu. Rocco, de repente, riu. E
riu muito.
— Dos hotéis Castelo? — ele perguntou e a loira estufou o
peito sorrindo debochada.
— Sim!
— Ótimo, pergunte para o seu pai quem é o Sr. Masari. —
Dito isto, ele chamou o elevador. — Amanhã espero seu pedido
formal de desculpas.
Entramos no elevador e eu estava curiosa para perguntar,
mas não tive tempo. Rocco me empurrou até que eu estava
presa entre a parede de vidro e seu corpo.
— Não ligue para essas vadias oferecidas. — Deslizou os
dedos por meu rosto. — Você é linda, é perfeita para mim,
minha mulher, amada e adorada. Você é minha outra metade,
a parte perfeita. A mãe do mio bambino. Eu te amo, amore mio.
Suspirei toda mole. Estava adorando ouvi-lo falando essas
coisas o tempo todo, ele perdeu o freio e dizer que me amava
parecia fácil.
— Rocco, o que há entre você e as loiras? — Mordi o lábio
e ele fez uma careta
— Não se incomode, não é a mim que elas querem, é ao
meu dinheiro, agora não vamos deixar que aquela louca
estrague a nossa noite, per favore, eu me empenhei muito para
conseguir fazer tudo.
Sorri e balancei a cabeça.
— Tudo bem, você que manda — assenti e ele baixou a
cabeça, capturando meu lábio inferior, mordendo de leve.
— Tão deliciosa. — A voz grave me fazendo arrepiar. — Tão
incrivelmente perfeita para mim.
— Bobo.
— Apaixonado. — Sorriu e me abraçou. — Quando acordei
e vi a hora, quase enlouqueci, pensei que você iria me rejeitar
de novo. Dio santo, eu fiquei tão preocupado, amore mio. Muito
mesmo.
— Você estava cansado, eu notei isso. — Esfreguei meu
nariz em sua camisa, respirando seu cheiro limpo. — Eu só não
sei por que você demorou tanto para aparecer.
— Você vai ver em breve, amore mio.
As portas se abriram e entramos em un hall maior que o
meu, na sala, notei que na cobertura de Rocco cabia a do meu
pai dentro. Que já era enorme.
— É muito maior que a cobertura do meu pai. — Olhei ao
redor, impressionada.
— Iremos morar aqui. — Rocco abrangeu o lugar. — O
Gianne vai precisar de espaço para correr, mas se você quiser,
comprarei uma casa, por enquanto, vamos nos virando com
esse apartamento, quero que você o mobílie de acordo a sua
vontade.
Espaço para correr, aqui poderiam fazer uma meia
maratona. Rocco e sua mania de grandeza.
— Então, onde está minha surpresa? — mudei de assunto
e ele sorriu.
— Eu disse que você me pagava, Balofo! — Estranhei. —
Agora estamos quites.
— Do que você está falando Rocco? — perguntei e ele riu
alto.
— Bom… — Ele piscou um olho e assoviou. — Bolinha,
vem aqui, meu amor.
Ouvi um latido e logo uma montanha de pelos caramelo
surgiu, meus olhos arregalaram e o Balofo tentou correr, mas
eu o puxei.
— Deixa eu te apresentar, Victória — Rocco falou, se
ajoelhando para afagar a cabeça da cadela Chow-chow. —
Adianto que ela será a única garota que teremos, nossos filhos
serão todos homens.
Nem liguei para o fato de Rocco estar falando como se nos
já estivéssemos juntos. Eu estava mesmo era com meus olhos
pregados na criatura fofa que ele afagava com carinho.
Olhei para meu cachorro e ele estava meio congelado,
acho que o coitado sofreu de amor à primeira vista.
— Meu Deus, Rocco, ela está com lacinhos nas orelhas! —
Senti amor instantâneo por ela.
— Ela é linda, não é, amore mio? — perguntou sorrindo e
eu concordei, ela era mesmo.
De maneira inusitada, o Balofo começou a se arrastar
para ficar perto da linda cadela à sua frente. Rocco não
permitiu, fazendo-o parar.
— Fique longe! — Apontou um dedo. — Você não gosta de
mim, não me quer perto de Victória, então você não chega perto
da minha garotinha.
Revirei os olhos, mas morri de rir quando o meu cachorro
foi para o lado de Rocco e começou a esfregar-se nele.
Coitadinho, até choramingava em busca de carinho.
— Rocco, ele está pedindo desculpa, aceita, por favor. —
Senti tanto carinho por Rocco vendo aquela cena, que meus
olhos se encheram de lágrimas.
— Você vai me respeitar? E aceitar que eu sou o alfa dessa
matilha? — perguntou sério, olhando o Balofo.
E para meu espanto, meu cachorro latiu em concordância,
esfregando-se ainda mais nele.
— Tudo bem. — Sorriu. — Eu a busquei para ser sua
companheira mesmo. Mas cuidado, nada de safadeza na minha
casa. Agora podem ir.
Os dois cachorros correram pelo apartamento.
— Incrível. — Eu nem sabia o que dizer, mas confesso que
meu coração encheu de sentimento por ele.
— Por isso sumi, eu queria fazer uma surpresa —
murmurou ficando de frente para mim. — achar uma Chow-
chow fêmea e adulta foi muito difícil, mas então… esse ainda é
seu primeiro presente.
— E tem mais? — perguntei de olhos arregalados.
Rocco acenou e me levou até o sofá.
— Espera aqui, amor, volto já.
Dito isto, ele se apressou para algum lugar e eu fiquei ali,
sorrindo feito uma boba apaixonada.
— Esse é seu segundo presente! — Ele me surpreendeu
sentando-se do meu lado e me entregando uma caixa pequena.
Abri e vi uma chave dentro com um cartão de códigos.
— Aqui está a chave deste apartamento e… — Ele apontou
para o cartão. — … as senhas das minhas contas bancárias,
seus cartões de credito estão vindo, mas você tem autonomia
para livre acesso.
Eu olhei para ele sem entender. O que Rocco queria com
isso?
— Eu não quero as senhas das suas contas, Rocco. —
Estendi o cartão.
— Amore mio, o que é meu é seu. — Tocou minha mão, no
rosto um olhar simples de entrega. — E aí tem a senha do
elevador desta cobertura, então você fica livre para ir e vir
quando quiser.
— Mas, Rocco, eu não quero as senhas das suas contas,
não tem lógica, eu não acho necessário.
— Amor, você vai ser minha esposa — afirmou categórico.
— E ter acesso às minhas contas é normal.
— Você fala com tanta convicção que assusta, sabia? —
Balancei a cabeça e ele sorriu, me dando um beijo carinhoso.
— É porque eu tenho certeza, leve o tempo que levar, você
é minha, pertence a mim, como eu pertenço a você. Somos um
só, amore mio, só precisamos oficializar isso.
— Rocco Masari, não seja um fofo, assim dá vontade de te
levar para casa — brinquei e ele riu.
— Então me adote, estou precisando de cuidado e amor —
falou todo manhoso e, desta vez, foi eu que tomei iniciativa.
Nosso beijo foi carinhoso, lento, molhado e muito gostoso.
Daqueles que fazem suspirar e gemer, que arrepiam e fazem
ficar quente.
— Seu terceiro presente — murmurou de olhos fechados,
me beijando mais uma vez.
— Uhmm… — murmurei mordendo seu lábio inferior —
beijo primeiro — suspirei —, presente depois.
E mais uma vez nos agarramos ali mesmo. As mãos dele
vieram para meu cabelo, e como sempre ele me dominou. Eu
estava nas nuvens.
— O presente — falou interrompendo o beijo.
Observei- pegando uma caixa grande e quadrada,
colocando-a em meu colo.
Abri e não acreditei no que vi.
— Um vestido, Rocco! — Sorri feito boba. Cuidadosamente,
peguei a peça delicada e admirei. Ficaria lindo em uma
gestante. — Obrigada, amor — murmurei e só depois notei
como o chamei, olhei para ele e Rocco veio se ajoelhar na minha
frente. Seu rosto estava iluminado de alegria, lindo demais. —
Desculpa, eu não quis dizer…
— Por favor, não diga nada. — Calou-me com um dedo. —
Eu estava há muito tempo desejando ardentemente que você
dissesse isso. Eu precisava desse alento, sabe, amore mio? O
que estamos vivendo hoje me faz ver o quanto eu fui obtuso.
Imploro, ou melhor, necessito que você diga que me ama.
Agora, sei como você se sentia. Nunca mais vou guardar o que
sinto.
— Rocco, vamos com calma, certo? — Eu me mexi inquieta
e ele concordou.
— Vamos, sim, amore mio, no seu tempo. — Sorriu,
acariciando, meu rosto. — Eu estou aqui por você e para você,
e te esperarei o tempo que for, porque eu te amo e porque você
é a mulher da minha vida.
Mordi o lábio e ele esfregou o polegar em minha boca, de
forma lenta, sensual. Tremi inteira.
— Vamos devagar certo?
Concordei e ele levantou, estendendo uma das mãos para
mim.
— Vem que ainda faltam dois presentes. — Aceitei sua
mão e fomos para a sala de jantar.
Ofeguei quando vi uma linda mesa posta para dois. Havia
até velas, e o clima era muito romântico.
— Esse era para ser o jantar que eu faltei na sua casa —
murmurou e eu vi que ele estava envergonhado.
— O que aconteceu com o nosso jantar? — perguntei e ele
pigarreou.
— O presente era o jantar que eu mesmo iria preparar. —
Sorriu, mas também fez uma careta, e, confesso, lindo nem
começa a descrevê-lo. — Eu queimei tudo. Foi uma verdadeira
tragédia. Como um homem que coordena empresas
multimilionárias não consegue preparar um jantar decente?
Comecei a rir de sua expressão contrariada.
— Atrevida, não deboche do seu homem! — reclamou de
braços cruzados e eu tentei me controlar, mas não foi possível.
— Bom — grunhiu fingido estar chateado —, eu comprei pizza
para o jantar.
Meu riso morreu, porque minha boca se encheu d’água,
sério que eu até me emocionei sabendo disso.
— Rocco, me diz que a pizza é de calabresa!? — pedi
esperançosa, já sentindo o sabor em minha boca.
Era como se fosse um sonho, a necessidade de comer pizza
de calabresa com sorvete se tornando muito importante.
— Sí, amore mio, eu escolhi calabresa também.
Nem quis saber os porquês, eu me joguei nos braços dele e
o beijei.
— Obrigada, obrigada. — Dei-lhe vários beijos.
— Okay, eu te compro pizza todo dia! — Riu de forma linda
e descontraída.
— Agora me diz se você tem sorvete aqui!?
Rocco franziu o cenho e afirmou.
— Eu comprei para a sobremesa — murmurou e eu nem
acreditei.
Esse homem é telepata!
Capítulo 12
Rocco

— Você deveria provar — Victória ofereceu e meu


estômago embrulhou de novo.
Eu estava agoniado vendo-a se deliciando com a pizza de
calabresa e o sorvete de creme. Ela fez uma mistura horrenda,
pegou o sorvete, jogou em cima da pizza, espalhou como se
fosse manteiga e pronto, começou a comer, gemendo como se
aquela mistura terrível estivesse gostosa.
— Vem, Rocco, morde aqui! — Estendeu um pedaço e eu
tremi quando vi o sorvete pingando.
— Amore mio, me ofereça outra coisa, mas essa coisa
nojenta não vai rolar! — Cruzei os braços.
Victória me encarou durante alguns segundos, até deixou
o pescoço pender para o lado. Então ela sorriu, e eu tive
arrepios.
Esse é o tipo de sorriso que os homens deveriam temer!
— Vou te fazer uma proposta! — ela falou me dando o
sorriso que eu classifiquei como perigoso demais.
Inclinei-me para frente e ainda tive que a observar dando
outra mordida enorme na sua comida nojenta.
— Sabe, Rocco, depois de começar a comer essa delícia
aqui, eu cheguei à conclusão de que estou tendo meu primeiro
desejo de grávida — falou tranquila e eu me senti orgulhoso
por ter sido o realizador de sua vontade.
Satisfazer Victória e meu filho era uma honra.
— E a proposta?— perguntei ansioso, diria sim e nem me
importaria com o que fosse.
— Eu durmo aqui…
— Foda-se, me diga o que tenho que fazer e eu farei! —
Inclinei-me para frente.
Muito tranquila, Victória pegou outro pedaço de pizza e
passou o sorvete por cima, fez aquela melecada tenebrosa e
esticou em minha direção.
— Coma!
Meu estômago despencou, eu não tinha nem um pingo de
vontade sequer de provar. Suspirei. Dio mio, a barganha era
tão boa que teria que encarar.
Respirei fundo sentindo um arrepio de repulsa. O sorvete
estava pingando.
— Vamos, Rocco, coma! — incentivou, chegando ainda
mais perto, e eu indo para trás, não era culpa minha se minha
boca queria correr para longe.
Ficamos nos encarando e eu notava o desafio em seu
olhar.
Inclinei-me para frente e, quando o cheiro viajou até o
meu nariz, eu arrepiei inteiro, mas me aproximei.
Engoli em seco e fiz uma cara bem feia. Sabe o que
Victória fez?
Sabe o que Victória fez?
Ela riu da minha maldita cara e ainda deu uma
supermordida.
— Delicioso, você nem sabe o que está perdendo.
Ah, porra, como diabos eu vou engolir essa coisa?
Abri a boca e senti um arrepio de nojo quando mais uma
vez o sorvete escorreu e pingou. Fiz careta triste, mas Victória
não me pediu para parar, ela apenas arqueou uma
sobrancelha, e eu fechei os olhos.
Puta que pariu. Abri a boca de novo e mordi.
A bílis subiu e eu engoli à força, mas continuei
mastigando. O gosto era horrível, a calabresa era salgada e
picante, juntando a massa, o queijo mussarela e o sorvete de
creme… eu estava quase vomitando.
— Engole, grandalhão. — Victória riu e eu engoli.
— Pior é na guerra! — grunhi bebendo minha taça de
vinho de uma vez. — E nem vem, eu comi, você vai dormir aqui
comigo.
— É justo. — Piscou um olho. — Pensei que você não
conseguiria, sabe, sua cor era meio doentia. Um tom de papa de
ervilha com sei lá mais o quê.
— Você está sendo malvada de propósito! — reclamei e ela
deu de ombros, sua atenção na pizza. Victória não estava nem
aí, ela só continuou comendo e comendo.
Para que fique registrado, eu, Rocco Masari, nunca mais
irei comer pizza de calabresa em minha vida.
— Juro, isso aqui é simplesmente delicioso — suspirou
recostando-se na cadeira onde começou a alisar a barriga. —
Vou repetir qualquer dia, e você vai comer comigo, onde fica
essa coisa de faremos tudo juntos?
— Amore mio, não sabia que você era tão perversa. —
Cruzei os braços, mas eu já sorria. — Você está me
chantageando e eu estou indefeso porque irei fazer o que quer,
mesmo que isso seja me envenenar com essa mistura podre,
sinceramente, a comida que eu queimei deve estar mais
saborosa que essa pizza.
— Desejo de grávida, grandalhão. — Sorriu. — Da próxima
vez, quem sabe não seja seu sabonete?
— Não irei permitir uma coisa dessas.
— E deixar seu filho nascer com cara de sabonete? —
brincou e eu ri.
Como eu amava estar assim com ela, Dio mio, como eu a
amava, era algo muito maior que eu, que minha vida, que tudo
que possuía. Realmente era como William falou, nada do que
tenho, nada do que sou era mais importante do que ter minha
mulher aqui perto de mim.
Eu estava me sentindo tão só sem ela, sem seu carinho e
seu amor. Era isso que me mantinha aquecido, e depois eu não
tinha mais nada, apenas o desprezo, o medo e a raiva. Até que
tentava esconder minha solidão, mas era impossível, eu
demonstrava minha dor em minha agressividade e, nas vezes
que pude estar perto dela, eu estava tão tranquilo e bem, que
sentia a paz me dominando.
Como agora, estávamos sentados em minha cozinha, um
de frente para o outro. Eu estava em paz, na mais infinita e
tranquila paz. Ainda teria que trazê-la definitivamente para
mim, entretanto, sei que estávamos indo para frente.
— Irei satisfazer s todos os seus desejos, amore mio — falei
e ela sorriu. — Acordar de madrugada, encontrar coisas
impossíveis, o que for. Eu vou satisfazer todos os seus desejos,
sejam eles quais forem.
— Você está mudando — constatou sorrindo. — Eu ainda
te vejo como o foderoso Masari, prova disso é que certamente
amanhã estarei recebendo um pedido de desculpas daquela
mulher, você ainda é temido, influente, poderoso e tudo mais,
só que comigo você parece suave, digo, você não parece temer
se entregar.
— Agora só falta você acreditar nisso e ter confiança para
ficarmos juntos — falei muito determinado. — Eu vou esperar,
por enquanto vamos seguindo devagar, eu vou reconquistar
sua confiança e quando voltarmos será para sempre.
Estávamos em um clima relaxado e muito bom. De repente
Victória se sentou ereta. Então ela fez careta e começou a
engolir sem parar.
— Onde fica o banheiro? — perguntou com a voz estranha,
eu me pus de pé assim que vi um tom esverdeado cobrir sua
pele.
— Amore mio?
— Ai, meu Deus, eu vou vomitar.
Eu só tive tempo de mostrar o lavabo antes de Victória
correr para lá.
Eu fui atrás, a apreensão tomando de conta, porque eu li
muitos livros de grávidas e sabia que da noite para o dia um
monte de porcaria pode acontecer, tive pesadelos terríveis e, no
fim, eu nem deveria ter lido essas porras.
Eu gostei de algumas partes, mas de outras? Só de pensar
eu ficava com os cabelos em pé.
— Vai embora — expulsou enquanto eu me curvava ao
seu lado.
— Não vou a lugar algum. — Tirei seu cabelo do caminho,
e lá se foi a comida deliciosa dela. — Tudo bem, amor, estou
aqui. — Continuei ao seu lado enquanto ela vomitava e, no fim,
eu a segurei enquanto ela escovava os dentes e lavava o rosto,
Victória estava fraca que tremia, com cuidado, eu a peguei em
meus braços
— Vai ficar tudo bem, prometo. — Beijei sua testa. — Eu
deveria ter estado com você o tempo todo, eu deveria ter te
segurado, eu deveria ter te amparado — lamentei decepcionado
comigo mesmo. E mais uma vez a culpa voltou com tudo, eu
acho que nunca iria expurgá-la de mim.
Caminhei com ela em meus braços até o quarto, com
cuidado, a depositei na minha cama.
— Minha perna — choramingou, esticando os braços e
pressionando a coxa. — Eu corri e nem me importei com ela. —
Encolheu-se. — Por favor, pegue o tubo de óleo que eu deixei
na cozinha. Por favor, Rocco.
Eu fui e voltei rápido, não queria deixá-la um minuto
sozinha.
— Me dê aqui. — Estendeu a mão, pedindo o frasco.
— Eu vou fazer. — Sentei ao seu lado e segurei a barra do
seu vestido, quando fui subir, ela me parou.
— Pode deixar que eu faço… — murmurou nervosa —
minha cicatriz.
Eu senti a incerteza em sua voz, o medo talvez. Mas de
todas as coisas no mundo, olhar para essa cicatriz me serviria
de lembrete para o que eu poderia ter perdido e não perdi.
Então, em formas simples, eu poderia dizer que amava aquela
cicatriz, mas odiava a forma como ela foi parar ali, e a culpa
dessa droga era minha. Meu carma eterno.
— Rocco, por favor, me dê o frasco! — pediu já com
lágrimas nos olhos.
Então ela tentou dobrar a perna e não sei o que
aconteceu, mas Victória gritou, e eu quase pirei.
— Câimbra dói demais. Meu Deus!
Eu sabia o que tinha que fazer, então fiz. Mesmo sob
protestos, estiquei sua perna ao máximo e massageei o nó
muscular.
Victória não dizia nada, mas ela estava branca e suada e
mordia o lábio com tanta força que se cortou. Inclinei-me
passando a língua em seus lábios, capturando algumas gotas
de sangue.
— Calma, amore mio — Voltei a massagear sua coxa por
baixo do vestido. — Eu sei o que estou fazendo e vou cuidar de
você. — Procurei seus olhos. — Me permita isso, tudo bem?
Ela acenou e eu ergui a barra do vestido, expondo sua
coxa.
Travei o maxilar, mas foi inevitável o grunhido de desgosto
que ressoou em meu peito. Victória tentou se cobrir, mas eu
segurei seus pulsos, baixei o corpo até poder depositar uma
fileira de beijos na enorme cicatriz sinuosa.
— Perfeita para mim, impecável. Uma obra de arte. —
Continuei beijando sua marca de sobrevivência. — Mia moglie,
amoré mio.
Olhei para cima e ela estava com os olhos brilhantes, sorri
e ganhei um sorriso delicado de volta.
— Agora, vou massagear sua perna e depois vamos
dormir. — Victória suspirou e eu comecei meu trabalho com o
óleo.
Não sei quanto tempo fiquei ali, mas fazia com um prazer
dos infernos. Eu estava tendo a oportunidade de cuidar da
minha mulher e do meu filho. O que me lembrou…
— Amore mio, eu nunca toquei sua barriga. — Engoli em
seco e ela sorriu, concordando, logo estendeu uma das mãos e
eu ofereci a minha.
— Então toque agora. — Eu me ajeitei melhor, colocando
minhas mãos na pequenina barriga, onde meu filho se formava.
Não sabia nem por onde começar a descrever o que estava
sentindo agora.
Caralho!
Caiu alguma coisa no meu olho, porque estava essa porra
ardendo muito.
— Conversa com ele, talvez, se você tiver sorte, ele mexe
um pouco.
Aquilo fez meu coração crescer, e eu nem liguei por
derramar uma lágrima que Victória capturou com gentileza.
— Tudo bem. — Respirei fundo, deitando a cabeça na
barriga dela.
Abri a boca para falar, mas não sabia o que dizer.
— Eu não sei o que falar — murmurei fechando os olhos.
— Eu não sei por onde começar. Foram tantas coisas, tantos
erros, que tenho vergonha.
Então eu não disse nada, apenas fiquei ali, com a cabeça
encostada na barriga dela enquanto Victória acariciava meus
cabelos com carinho.
— Estamos aqui com você, Rocco, e não se preocupe, eu
luto contra meus receios todos os dias porque estar com você
me faz bem. O problema é apenas o medo, mas ele vai passar.
Confia em mim?
— Sim, amore mio — sussurrei dando um beijo em sua
barriga, uma lágrima após a outra deslizando por minha face.
— Confio com minha vida e minha felicidade.
Ficamos muito tempo daquele jeito, meu filho não mexeu e
não dissemos mais nada. Talvez palavras não fossem tão
necessárias. No fim, ainda existia feridas a serem reparadas, e
eu ainda precisava acreditar que esse momento era real.
— Preciso de um banho, vou em casa e volto.
— Veste uma roupa minha. — Eu não queria sair do meu
lugar favorito nesse momento. — Fica comigo. Não me deixe
sozinho essa noite.
Ergui minha cabeça, olhando-a.
— Eu sou um homem que só fica inteiro com você comigo,
me permita ficar completo, por favor.
— Rocco, eu não vou a lugar algum. — Puxei-a para um
abraço apertado.
— Não me perdoo por tudo que aconteceu, tudo que vi e
vivi, o que poderia ter perdido. — Sem querer, eu a apertei
ainda mais, e notando minha angústia Victória retribuiu. — Eu
não acredito que você está aqui, que meu filho está aqui.
Depois daquele acidente, do seu estado… — Minha voz falhou.
— Amore mio, eu ainda não acredito no tamanho da minha
sorte.
— Eu e seu filho estamos aqui, Rocco, esqueça o que
passou, eu estou esquecendo, e mais dia menos dia estarei cem
por cento. Eu quero voltar a ficar inteira, não ficarei aqui pela
metade, você merece isso por ter assumido seus erros, e eu,
porque quero ser feliz completamente, mas principalmente
porque nosso filho merece o melhor de nós. E, sim, quando isso
acontecer, estaremos completos, até lá, vamos vivendo.
Ficamos nos encarando e Victória correu uma das mãos
pelo meu rosto, eu me inclinei em busca de carinho.
— Você me faz bem, e confesso que também preciso dormir
uma noite inteira, quem sabe você não se torna o meu
apanhador de sonhos. — Victória inclinou-se até tocar meus
lábios com os dela. — Eu gosto de estar nos braços do meu
mutante. — Fiz uma careta e ela riu. — Você é lindo, Rocco,
lindo de verdade.
— Então você gosta desse visual? — brinquei,
mordiscando seu pescoço.
— Gosto muito, agora me diz onde posso tomar banho —
mudou de assunto, me fazendo sorrir e ter que soltá-la.
— Fica ali naquela porta. — Eu indiquei o banheiro do
quarto e ela foi até lá.
Como na primeira vez em que dormimos juntos, eu escolhi
uma camisa surrada e uma cueca. Balancei a cabeça,
pensando em tudo que vivemos e sobrevivemos.
— Somos fortes, amore mio. — Acreditei em minhas
palavras. — Somos perfeitos juntos.
Entrei no banheiro, deixando a roupa na bancada, e até
tentei sair, mas não pude. Minha visão foi atraída para o box.
Apesar de estar com bastante vapor do chuveiro, pude
enxergá-la, como o fiz no primeiro amanhecer juntos.
— Você tem a mim, amor.
— Rocco, não faz isso.
— Você me domina. — Sorri, encostando minha testa no
vidro, ignorando seus protestos. — Estou completamente em
suas pequenas mãos, amore mio, eu só te peço para cuidar do
meu coração, você pediu isso uma vez e eu não o fiz, você
sofreu, eu sofri também. Só não cometa os mesmos erros que
eu, pois eles quase custaram sua vida.
Ficamos em silêncio. Até que ouvi a porta do box abrindo.
Peguei a toalha, esticando-a aberta. Victória virou as
costas e eu a enrolei, abraçando-a.
— Eu te amo, pequena — falei em seu ouvido. — Eu te
amo muito.
Não parei para pensar na beleza que estava seu corpo. A
barriga crescida, os seios maiores.
Dio santo, ela estava perfeita. Além do que eu pude
imaginar que ela ficaria.
— Não se preocupe, não vou cometer os mesmo erros.
Sorri beijando seu ombro.
— Incline o pescoço amor. — Ela o fez e eu respirei seu
cheiro delicioso, mantinha aqui as coisas que ela gostava,
comprei tudo que imaginei que fosse preciso. Lembrava-me de
cada pequeno detalhe.
Victória me obedeceu e inclinou o pescoço.
— Estou com sede, amore mio — murmurei passando a
língua do seu ombro ao seu pescoço, de forma lenta e sexual. —
Desejo você.
Capítulo 13
Rocco

Passei minha língua lentamente em sua pele, sorvendo o


pouco da água que restava em seu pescoço.
Meu corpo estava quente e cheio de tesão, ver Victória
nua e grávida fazia um inferno com minha libido, foi quase
como uma injeção de pura necessidade.
— Rocco — gemeu meu nome e eu respirei forte, estava
difícil controlar meus impulsos desesperados, todavia eu
precisava e iria segurar minha libido.
— O que foi, uhn? — Esfreguei minha barba por sua
orelha, recebendo um gemidinho gostoso. — Você gosta de ter
minha língua em seu corpo? — perguntei, colando ainda mais
em suas costas, esfregando-me nela, do jeito que gostava, sem
um pingo de vergonha na cara.
— Gosto sim, muito.
Dio Santo!
— Rocco, por favor. — Notei que ela apertou as coxas e
curvou-se um pouco para frente. — Não vamos colocar o sexo
como um ponto decisório. Por favor, me ajude a resistir a você.
Mordi seu ombro para logo lamber, desta vez, sons de
apreciação não conseguiram esconder o meu desespero. A pele
dela era cheirosa e muito apetitosa para mim.
— Por Deus. — Arqueou-se e eu me esfreguei mais um
pouco, como estava em vantagem, coloquei minhas mãos em
seus seios cobertos pela toalha.
Victória apertou-se contra meu corpo, seus braços
tentando me abraçar por trás, sua cabeça pendendo para o
lado.
— O quanto você me quer, amore mio? — perguntei
baixinho, abraçando-a apertado.
— Eu quero muito, mas… Ainda te vejo com…
— Tudo bem, não vamos por aí — interrompi sua fala,
porque eu sabia aonde ela iria chegar, até notei que seu corpo
tensionava um pouco.
— Eu quero você, Rocco — murmurou virando-se em meus
braços. — Eu quero ser sua de novo, eu sinto sua falta, eu tive
medo quando não foi ao jantar, eu tive medo quando não ligou.
Mas então, lá no fundo, eu esperava por isso de alguma forma,
eu esperava o seu pior.
Fiz uma careta por causa de suas palavras. Pensando de
forma óbvia, não seria mentira admitir que Victória me aceitou
de volta em sua vida muito rápido. Eu pensava que teria que
rastejar muito e, sim, até pensei que iria encontrar um pouco
de resistência. Ela tinha medo, natural, mas lutava contra os
receios que sentia, para expulsá-los.
Caralho, que sorte eu tinha! Essa mulher era a suavidade
para minha dureza, a tranquilidade para a minha brutalidade,
a luz para meu lado escuro. Victória parecia ter sido feita de
uma parte minha, porque, foda-se, ela me completava!
— Você não confia em mim e eu já sei! — Beijei sua testa.
— Eu preciso te provar que mudei de verdade.
Victória sorriu, negando minhas palavras.
— O problema não é só você, é comigo também. Eu estou
defeituosa para as questões do coração. — Encolheu-se. — Mas
também sei que só você pode me consertar e eu quero isso.
— Pode parar, não gosto quando assume os problemas
como se fossem seus, e você é perfeita para mim tal e como é! —
Sorriu, esfregando o nariz em meu peito. — Você não tem culpa
de nada, amore mio, disso pode ter certeza.
— Rocco, apesar de todos os problemas que tivemos e
ainda teremos, eu sei que você é minha metade, eu só não
quero misturar o sexo com as minhas decisões. Eu quero voltar
a olhar para você e sentir o que eu sentia antes. Era um tipo de
arrebatamento, eu sempre, sempre sentia meu coração
acelerando e eu poderia te entregar minha vida. — Suspirando
ela continuou: — Hoje eu não iria tão cega em sua direção, por
favor, entenda que quero muito encontrar o meu amor por
você, sei que ele está dentro de mim e quero poder te retribuir.
Desejo não ter nenhuma amarra ou receio. Não quero ser
desconfiada como você foi, necessito voltar para você inteira, eu
juro que estou desejando mais que você, porque sinto você
dentro de mim, às vezes, de forma primitiva, ou carinhosa. Eu
te sinto, cada toque, quando relembro, me faz suspirar, e antes
esses mesmos toques me fizeram chorar porque eu me sentia
suja de alguma forma.
— Não vamos falar sobre isso, depois conversamos, não
quero você pensando naquele dia.
— Não é bem assim. Não tem como evitar. — Ela me fitou
nos olhos. — Quero te reconhecer, eu estou louca para que isso
aconteça. Meu corpo sente sua falta de maneira desconhecida.
Eu ainda te desejo.
— Olhe como estou. — Apertei minha ereção contra sua
barriga. — Você faz ideia de como seria fácil apenas te levantar
até a bancada e depois dar a nós dois o que desejamos por
horas e horas?
— Sim, eu posso ver o quanto seria fácil. Mas não faremos
isso.
— Você resistiria? — perguntei me esfregando nela na
maior safadeza. — Eu sei que você está toda molhadinha.
— Quem resistiria? — Fez careta, mordendo o lábio, eu
tive que sorrir. Pensei que esses momentos de entrega, onde eu
deixava claro o que queria e ela também, eram importantes
demais. E não só isso, a espera aumentaria o tesão, e eu sabia
que no dia que nós finalmente fizéssemos amor seria ainda
mais intenso do que foi em nossa primeira vez.
Apertei meus braços ao seu redor, beijei o topo de sua
cabeça. Estávamos em um aperto delicado, mas não era só isso,
eu sabia que apesar dos pesares pertencíamos um ao outro.
— Eu sei, amore mio, eu sei que você ainda tem receios,
mas sei também que você vai me deixar entrar e ficar, não é?
Victória ergueu a cabeça, confirmando o que meu coração
me dizia.
— Sim, você vai ficar, e, por falar nisso, tenho pré-natal em
duas semanas, quer ir? Eu quero você comigo em todos os
momentos, quem sabe eu e você comecemos a arrumar o
quarto do nosso filho, vamos um passo de cada vez, começar
tudo de novo, tudo bem?
Aceitei tudo, felicidade balançando meu corpo. Não eram
migalhas o que ela me dava, era uma nova chance. Meu
coração explodiu de amor.
— Faz cócegas! — Comecei distribuindo beijos para todo
lado. — Pare, Rocco.
Eu ri e esfreguei por pura maldade minha barba em seu
pescoço. Victória ria e tentava se soltar, mas eu apertava e
continuava torturando-a.
— Pare, vai me fazer passar vergonha.
Eu parei e ri de sua carinha feliz.
— Rocco, você é tão bonito. — Acariciou meu rosto,
olhando-me como se gravasse minhas feições.
— Mesmo barbudo assim? — perguntei baixando a cabeça
para beijá-la.
— Sim, mesmo barbudo você é lindo, mas por que deixou
ficar desse tamanho?
Dei de ombros.
— Não estava me importando com minha aparência,
estava preocupado com outras coisas.
Victória me olhou durante algum tempo, depois ela
esfregou minha barba.
— Eu me lembro do poder de sua barba, Sr. Masari. —
Mordeu o lábio e eu logo fui para mordê-lo também.
— Quer repetir? Posso te mostrar alguns truques novos.
— Não agora, sossegue.
— Não durará para sempre, amor, assim, até quando
poderá resistir?
— Até quando for preciso, existe muito em jogo, por
enquanto vá colocando na conta que eu… — Vi-a engolindo em
seco. — … pago para ver?
Victória parecia meio duvidosa, o que me fez gargalhar,
coitadinha, não sabia onde que está se metendo. Meu desejo
por ela era tanto que me sentia oprimido, queria tudo que perdi
de volta, agora sem nenhuma algema que contivesse o que
sentia, a queria por inteiro, assim como.
— Sr. Masari, que cara de safado é essa? — Victória me
trouxe à realidade. — E que sorrisinho mais…
— Pervertido? Sem vergonha? — Fiz cara de desentendido.
— Libertino?
Victória me olhava e negava com a cabeça, mas tinha um
sorriso suave e tranquilo.
É assim mesmo, amore mio, estamos no caminho certo.
— Terra chamando Rocco.
— Estou aqui. amor, bem aqui.
Victória sorriu, passando os dedos por meu queixo.
— Vamos mudar de assunto? — Piscou um olho. — Quer
que eu faça sua barba?
Pensativo, arqueei uma sobrancelha. Acabei concordando.
— Antes de começar, eu quero saber o quanto você ainda
tem raiva de mim — disse antes de soltá-la.
— Não tenho raiva nenhuma, estou mais perto da paixão
que da raiva. — Soltei o fôlego que nem sabia estar prendendo.
— Isso é bom, porque não sei se eu ficaria confortável
tendo uma mulher com hormônios loucos perto da minha
jugular, pior se ela segurar uma navalha.
Victória fez careta e me estapeou no braço.
— Me respeita, seu louco, se eu fosse me vingar seria te
castrando, para deixar de apontar para todo lado.
Rosnei por causa de tamanha afronta.
— Eu não aponto para todo lado — revidei revoltado. — Eu
aponto para cima, para você ou para a esquerda, não tenho um
laser entre as pernas para apontar indiscriminadamente.
Victória abriu a boca e eu a interrompi.
— Seu bobo. — Riu da minha cara e me mandou sentar na
tampa do vaso. — Fique aí e me mostre onde estão as coisas
que você usa para se barbear.
Fiz como ela mandou e apontei para a porta do lado
esquerdo do balcão.
— Fica no fundo do armário, você vai encontrar um estojo
preto, minhas coisas estão lá dentro.
Victória ajeitou a toalha, depois pegou meu kit de barbear.
Observei-a abrindo o estojo e tirar a navalha, logo ela
colocou a lâmina e parecia bem à vontade com o manuseio do
objeto.
— Agora fique quietinho que vou fazer sua barba — falou
tranquila e eu notei a forma carinhosa com que me tratava
Não podia expressar em palavras o quanto fiquei
emocionado e feliz, devia estar com meus olhos brilhando de
prazer. Era impossível esconder meu sorriso imenso.
— Cheirosa sua espuma de barbear — falou vindo em
minha direção. — Erga um pouco o rosto, por favor.
Fiz como ela mandou e logo meu rosto era coberto pelo
produto, com cuidado, Victória dobrou uma toalha, colocando-a
em meu ombro.
— Vamos começar, não tenha medo, eu barbeava meu pai.
— Piscou um olho. — Claro que foi vários anos atrás, mas…
Fechei os olhos, permitindo que ela cuidasse de mim.
— Relaxe, estou vendo que você está tenso — murmurou
quando senti o primeiro toque da lâmina.
— Imaginação sua, eu estou um poço de tranquilidade! —
Engoli em seco.
— Relaxe, homem! — insistiu.
Obriguei meus ombros a relaxarem, quase sem querer,
subi minhas mãos para sua cintura, em seguida subi um pouco
mais, como não vi resistência, eu puxei a ponta da toalha e a
soltei, Victória parecia imperturbável, agora, sim, eu estava
muito relaxado.
Minhas mãos, como se por vontade própria, desceram até o
ventre arredondado e pequenino, fiquei ali fazendo carinho no
lugar de formação do meu filho. Meu herdeiro.
O primogênito Masari. Meu sucessor.
Quase bati no peito como um homem primitivo. Minha
descendência estaria em breve solta no mundo.
Foda!
— Estamos indo bem, fique assim quietinho e deixarei
perfeito — Victória falou muito segura do que estava fazendo,
fiquei tranquilo, o deslizar da lâmina estava sendo suave e
rítmico. Ela não me cortaria.
— Cante para mim — pedi e ela riu, eu olhava para o teto,
mas agora que a lâmina estava sendo limpa eu podia olhá-la. —
Sinto falta da sua voz.
— Tudo bem, agora erga o pescoço novamente.
Eu o fiz e esperei, minhas mãos apoiadas em sua cintura.
De olhos fechados e curtindo aquele momento de marido e
mulher, eu ouvi sua linda voz me acariciando por baixo da pele,
fazendo meus pelos arrepiarem e meu pau inchar ainda mais
de tesão e prazer.

“O meu desafio é andar sozinho,


Esperar no tempo os nossos destinos,
Não olhar para trás, esperar na paz o que traz a ausência do
seu olhar…”

Estava me sentindo tão bem, que temia não estar sendo


real, todavia, a voz suave de Victória me fazia crer que era, sim,
verdade. Soube mais uma vez que existem pessoas capazes de
perdoar, pessoas maiores que a maldade, com o coração tão
bom ao ponto de lutar contra o que seria fácil, optando pelo
difícil para poder ser feliz e fazer aqueles próximos a elas
felizes.
Essa é minha Victória, a mulher que mais amo e a única
que irei amar.
Victória continuava cantando e deslizando a lâmina sobre
minha pele. Eu estava me sentindo como se não houvesse
barreiras a superar, era como se não houvesse pedras no
caminho, pois ela voltou a ficar confortável, estando ao meu
lado. Admitiu que desejava voltar a me amar como antes.
Eu sei que você ainda me ama, apenas precisa encontrar
esse amor dentro do seu coração.
— Estou quase terminando. — Ouvi sua voz e só fiz um
som de concordância.
Ficamos ali mais alguns minutinhos, desfrutando da paz
que aquele momento trazia.
— Prontinho, agora me deixa limpar seu rosto. — Quando
terminou, ganhei um beijo nos lábios. — Você está um gatinho.
Abri meus olhos e a encarei, eu vi o sorriso em seu olhar.
A felicidade simples que me cativou, a suavidade que me
prendeu.
— Quase dois metros e cem quilos de músculo —
murmurei puxando sua cintura, assim pude esfregar meu rosto
entre seus seios. — Eu não deveria estar sendo taxado de algo
no diminutivo, você poderia colocar uma palavra melhor.
Victória riu e eu coloquei minhas mãos em sua cintura,
afastando-a um pouco, logo meus lábios estavam em sua
barriga.
— Eu disse que um dia veria meu filho crescendo aqui —
murmurei esfregando meu rosto e distribuindo beijos em seu
ventre. — Eu sabia que seria assim, eu sonhei com esse
momento e hoje eu o vivo. Amore mio, me perdoa por quase
colocar tudo a perder, eu não sei o que seria de mim se vocês
não estivessem sobrevivido, confesso, eu fui quebrado para
poder ficar inteiro. — Ergui minha cabeça para olhá-la, Victória
sorria enquanto acariciava minha cabeça. — Me aceita de
volta?
— Eu já te aceitei, seu bobo — respondeu. — Eu já o fiz
quando te abracei em busca de paz. Você é minha segurança,
Rocco. E eu sei que não importa o quanto eu lute contra, o
quanto eu não queira! No fim eu sei que sou sua. E não irei
nadar contra a correnteza.
— Me beija — pedi e ela o fez.
Entregamo-nos ao momento lascivo de compartilhamento,
eu simplesmente aceitava o que me era ofertado, e para o
tamanho da merda que fiz, o que estou recebendo agora era
muito, muito mesmo.
— Adoro seu cheiro — Victória falou deslizando o nariz
pelo meu rosto. — Eu gosto do seu sabor.
Nós nos beijamos arduamente, nossos gemidos baixos
confundindo-se com nossas respirações, sua língua macia
deslizava sobre a minha, que lambia com carinho sua umidade,
adorando e provando, sorvendo seu gosto para dentro de mim,
ansioso e sedento pelos seus gemidos, necessitando de suas
carícias.
Oh, Dio santo, minhas mãos estavam livres para percorrer
seu corpo, eu não fui exatamente para onde queria, mas estava
podendo percorrer suas curvas e o fiz, deslizei a ponta dos
meus dedos pelas suas costas e ela arqueou, me fazendo
engolir seu ofego de prazer.
Era sempre uma viagem de descobertas estar com ela,
cada beijo era melhor que o anterior, sempre havia algo a
descobrir, uma matiz de sabor, um ofego profundo, o calor de
sua respiração ao acelerar. Era um perfeito encaixe.
— Amore mio… — Interrompi nosso delicioso beijo,
encostei nossas testas. — Me conte um segredo.
Seu suspiro foi sentido como uma lufada de ar quente que
banhou meu rosto, eu sorri. Dei-lhe um selinho.
— Eu te amo — sussurrei meu segredo que não era mais
secreto. — Eu te amei ao primeiro olhar, eu te amei na primeira
vez que me tocou, na primeira vez que te tive em meus braços.
— Fechei meus olhos, sorrindo, eu estava extasiado com o
momento. — Ou melhor, eu sempre te amei.
Victória soluçou baixinho e eu limpei uma lágrima que
escorreu. Eu quase pude ver seu sorriso, sentia seus dedos
tocando em minha pele, me tocando com amor.
Eu podia sentir seu amor por mim. Ela só estava com medo
por tudo que aconteceu.
— Conte-me, amore mio, um simples segredo — insisti
baixinho, esfregando meu nariz no seu, deslizando por sua pele
do rosto.
— Rocco… — Sua voz me fez congelar, eu fechei meus
olhos e senti um arrepio começar a invadir meu corpo, eu
estava sentindo que iria ouvir algo que me deixaria muito feliz
— Fala para mim, pequena — murmurei sorrindo —, fala
para mim.
— Eu poderia estar me apaixonando por você de novo.
Capítulo 14
Victória

— Fala de novo, amor — Rocco pediu, me encarando, seus


olhos azuis brilhavam tanto que eu estava achando muito
suspeito.
Das várias coisas da minha vida pelas quais eu chorei em
minha época fora de órbita, uma era o brilho em seus olhos,
uma das coisas que mais me machucavam de saudade. Aqui e
agora, não era só o fato de perdoar, aceitar e seguir em frente,
fechando os olhos e jurando que esqueci.
Eu não esqueci nada, eu tinha pesadelos com isso, ainda
sofria por tudo, mas eu não remoer não faria nenhuma
diferença.
Esse aqui é o nosso recomeço!
Amar é perdoar, viver é errar, acertar ou buscar aprender.
Não tem por que fazer as pessoas sofrerem para que você se
sinta bem, eu não era assim. Apesar da minha inexperiência,
eu não era trouxa a ponto de não saber discernir as coisas.
Então, falando em objetividade, eu serei sincera, eu não acho
que estou pronta para voltar para Rocco e sorrir feliz como se
nada houvesse acontecido, porém, não irei fazer doce e
dificultar as coisas apenas pelo simples prazer de vê-lo
correndo atrás. Pois ele correria, e muito. Não tenho prazer
nisso, tampouco preciso massagear meu ego feminino. Nunca
precisei provar nada a ninguém.
— Amore mio, você parece pensativa. — Sua voz me
trouxe à realidade. — Você se arrepende de ter dito que está se
apaixonando por mim de novo?
Pude ouvir a ansiedade em sua voz, a aflição estava
embutida em seu sorriso.
Eu o conhecia tão bem.
— Não. — Sorri dando um beijinho em seus lábios. — Eu
não me arrependo de nada do que disse, porque é verdade.
Agora você me conhece e eu não uso de artifícios, no geral, sou
simples até em minha personalidade, só não perco tempo com o
que não me faz bem.
Ele mais uma vez sorriu e eu queria que pudessem ver.
— Eu sei, amor, e aprendi a lição da forma mais dura e
difícil. — Beijou meu cabelo, me abraçando apertado. — Eu, em
todos os anos da minha vida, em todos os meus erros e
idiotices, achar que você me traía foi a epítome da ignorância.
Concordei na hora. Aquela era a maior de todas as
verdades.
— Eu nunca pararei de pedir perdão, eu nunca irei parar
de te provar que essa chance que está me dando valeu a pena.
— Sorri arqueando uma sobrancelha.
— Você será meu submisso? — provoquei e ele jogou a
cabeça para trás, gargalhando.
— Baby, eu não tenho material para ser submisso, mas se
você quiser eu posso tentar não te agarrar durante uns dois
minutos, ou me fazer de difícil, se você fizer como no mochilão,
me pagando o melhor sexo oral da minha vida.
Bati em seu ombro e acabamos por rir juntos.
— Ações, querido. — Mordi meu lábio, piscando um olho.
— Não precisa ficar pedindo perdão, apenas demonstre para
mim que realmente vale a pena, eu estou tentando.
Ele me encarou e deu um sorrisinho de lado.
— Amore mio, se você fosse diferente não teria conseguido
me segurar pelas bolas — ronronou. — Pense em um homem
apaixonado! — Eu ri. — Não ria de mim, apenas pense!
Neguei e ele fez careta.
— Bobo.
— Já pensou?
— Sim.
— Ótimo, eu sou mais apaixonado do que esse aí! Estou
fodido na sua mão, baby, e depois de tudo que passou acho que
você conseguiu o que muitas mulheres apenas vivem
querendo.
— Que seria? — Bati o dedo no lábio, pensativa. — Um
bilionário gato, cobiçado e sexy, talvez?
— Não, sua atrevida — murmurou baixando a cabeça para
encostar nossas testas. — Você conseguiu transformar um
solteiro convicto em um louco para se casar, você conseguiu
fazer de um pervertido pegador o seu pervertido exclusivo.
Conseguiu transformar um homem desacreditado em um bobo
apaixonado, mas, acima de tudo, você conseguiu fazer de um
homem que estava feliz em ser solitário um que anseia sua
companhia, que se desespera por saber que tem poucas horas
ao seu lado. No fim de tudo, Victória, você me tomou para si e
não tem volta, eu estou irrevogavelmente e para sempre em
suas mãos, não quero que isso mude de forma alguma. Estou
feliz e por isso te agradeço por essa chance. Eu estava
preparado para implorar, ainda estou, na realidade.
— Você pode me bajular, demonstrar que me ama de todas
as formas que quiser, não me importo se você publicar no
jornal que eu sou sua dona — brinquei, mas ele ficou sério. —
Ei, a última parte foi brincadeira.
— Eu ainda tenho muita ponta solta para cortar, meu
amor, só não fiz isso ainda porque estava focado em você, em
sua saúde e recuperação, depois, em como ficaríamos. Mas
agora seu homem vai cuidar de tudo.
Pela primeira vez, quando ele disse isso, eu não falei que
confiava nele. Só que Rocco é Rocco, e se ele diz que vai fazer,
então ele vai lá e faz.
— Cuidado com o que vai fazer. — Anuiu, em seguida me
beijou.
Suspirei em seus lábios, um delicioso arrepio serpenteou
por meu corpo nu em contato com o dele, Rocco estava de calça
jeans desabotoada e o zíper aberto. Vou nem dizer que olhei
para sua cueca preta. Sorri e ele me agarrou mais forte, me
beijando de um jeito ainda mais apaixonado. Retribuí ofegando
de felicidade quando ele enfiou as mãos em meus cabelos para
ajeitar o ângulo do beijo. Meus hormônios soltaram fogos de
alegria.
— Puta que pariu, deixa de ser gostosa, mulher! — Rocco
puxou minha cabeça para trás, me dominando.
— Esse é meu chame — respondi e senti-me ficando ainda
mais quente.
— E ainda é atrevida — reclamou fingindo cara feia.
— Culpe o meu professor, Sr. Masari, conhece?
Meu atrevimento me rendeu mais um beijo de arrepiar. Eu
estava mesmo era sentindo meu corpo todo aceso. O cheiro dele
parecia afrodisíaco para mim.
— Victória, a vida é tão simples quando estamos juntos.
— Parece que sim.
Concordei, mas deixei margem para acreditarmos que
poderia melhorar. Claro que na vida você pode sempre buscar
melhorar, seja em qualquer âmbito, não digo buscar perfeição,
apenas me refiro ao fato de não se acomodar pensando que
tudo é bom do jeito que está.
— Rocco eu acho que estamos há muito tempo aqui no
banheiro, parece meio estranho. — Minha barriga roncou, me
matando de vergonha.
— Acho que meus amores estão com fome — brincou e eu
concordei. — Vamos para a cozinha, vou preparar algo.
Fiz uma careta porque foi impossível de disfarçar. Rocco
era um verdadeiro desastre na cozinha, tipo, dava até medo de
ele incendiar sem querer as coisas por lá
— Eu vi o que você tem aqui, todas as coisas que eu uso
no cuidado com minha pele. — Eu o olhei curiosa, havia me
esquecido de falar, mas quando estava procurando seu kit de
barbear, eu vi todos os itens de que gostava, até o óleo que
minha obstetra recomendou.
— Eu tenho aqui tudo para você, adianto que, se quiser,
nem precisa ir embora, posso concretar a porta.
— E morreríamos de fome — completei rindo. — Vai tomar
seu banho que eu vou cuidar da minha pele, ela anda meio
ressecada.
Concordou e me soltou, então assim, na maior calma do
mundo, ele tirou a roupa e entrou no box. Fiquei olhando para
o vidro embaçado feito uma boba.
Estávamos vivendo o que havíamos perdido e ainda não
havíamos recuperado.
— O que eu faço com você, Rocco? — murmurei indo pegar
meus cremes no armário da bancada.
— Me ame de volta e tudo estará perfeito.
Peguei meu creme e passei pelo corpo, deixando a barriga
por último, sempre dedicava mais tempo a ela. Cantarolava
uma música qualquer quando ouvi o murmúrio de apreciação
atrás de mim. Olhei o espelho.
— De tempos em tempos estamos nessa posição. — Rocco
colou seu corpo no meu, e para meu alívio ou não, notei que ele
tinha uma toalha na cintura.
— Verdade. — Estava boba com a visão dele às minhas
costas, a água ainda escorria em seu rosto e ombro. Oh, Deus,
ele é tão maior que eu!
— Qual é a próxima etapa?
Era muito instigante ficar assim com ele. Estar nua em
sua presença fazia com que me lembrasse de muitas coisas.
— Abra os olhos, amor. — Senti um beijo em meu ombro,
piscando, confusa, não percebi que fechamos os olhos. — Agora
me diga, qual é a próxima etapa?
— Minha barriga. — Esperei o que ele faria.
Primeiro senti suas mãos em meus cabelos, Rocco fez um
nó no topo da minha cabeça, em seguida ele voltou a colar em
minhas costas.
— Eu irei cumprir essa parte — prometeu em tom
aveludado. — Mostre o que você usa?!
— O óleo — respondi, me apoiando nele —, era para usar
no banho, mas eu não sabia que tinha. — Engoli em seco. —
Posso usar assim também.
— Agora desfrute. — Pegou o óleo, despejando nas mãos,
depois pousou-as em minha barriga redondinha.
As mãos dele eram enormes, mas como eu havia dito no
nosso primeiro jantar, tanto tempo atrás, elas eram bonitas.
Estranho como poderiam causar tanto estrago.
— Sua barriga é tão linda, amor. — Senti sua emoção
enquanto passeava os dedos por meu ventre. — Poderia ficar
aqui por horas e horas, estou tão feliz por poder cuidar de
vocês.
— Uhum — suspirei, fazendo-o rir.
— Gosto de vislumbrar como será nossa vida de casados.
— Beijou meu ombro. — Gosto de me sentir casado, gosto deste
momento.
Concordei, permitindo que Rocco acariciasse minha
barriga por um bom tempo, mas outro ronco de fome nos fez rir
e adiantar as coisas. Envergonhada, vesti a cueca e a camisa
imensa que ele pegou.
Rocco colocou uma boxer preta e ficou com ela, apenas.

***

— Amor, eu posso pedir comida para nós.


— Não mesmo, eu vou cozinhar, você tem tudo aqui para
fazer uma macarronada rápida.
— Tudo bem, mas eu vou ajudar — decretou e eu
concordei.
— Pegue uma faca e corte a cebola em rodelas fininhas.
Juntos começamos nossa tarefa. Coloquei a água no fogo e
fui para o lado de Rocco.
— Meu Deus, você está chorando por causa da cebola? —
exclamei rindo, ele olhou para mim de cara feia. Coitadinho,
estava cortando tão devagar que provavelmente encheria uma
piscina de lágrimas até terminar.
— Eu lá tenho cara de quem chora por isso? — perguntou
arqueando uma sobrancelha. — Não me culpe pelos efeitos que
minha boa intenção está causando.
— Rocco, me deixa cortar — pedi, estendendo a mão. —
Você corta os tomates e o pimentão.
— Eu vou terminar. — Segurei o riso porque ele estava
franzindo a testa e passando o braço nos olhos. — Que caralho!
Por que usar isso? Não tem um substituto, não?
— O sabor que ela dá não tem comparação. — Sorri e
comecei a cortar os tomates. Tia Laura me ensinou a cortar
como um chef, eu achava muito legal fazer isso.
— Estou com medo de você se cortar — Rocco falou do meu
lado. — Vá devagar, amor, eu mal vejo a faca subindo e
descendo.
Eu ri de sua genuína preocupação, ele até se esqueceu de
cortar a cebola das lágrimas.
— Olhe como é rápido. — Fui para seu antigo lugar e,
antes que ele falasse, cortei a cebola em segundos.
Na cozinha eu sabia o que fazer, então era tranquilo estar
lidando com várias coisas ao mesmo tempo.
— Vou sentar na bancada e te admirar, ganho mais. — Ri
de suas palavras e continuei minha tarefa, de vez em quando
eu provava um pouco para assim atenuar minha fome.
Quando a carne estava cozida, acrescentei os ingredientes
para finalizar o molho à bolonhesa.
— Prova. — Peguei um pouco do molho e levei até Rocco.
— Cuidado que está quente. — Ele soprou um pouco antes de
colocar a colher na boca. — O sal está bom? E o sabor? Você
acha que precisa de mais tempero?
— Está perfeito, amor, agora estou faminto.
Contente, terminei os detalhes finais e coloquei no forno
por alguns instantes.
— Arrume a mesa enquanto eu lavo essa louça aqui.
Estava terminando minha tarefa quando Rocco me
abraçou por trás.
— Vou dizer de novo. — Mordiscou minha orelha, fazendo-
me arrepiar inteira. — Eu estou adorando esse momento,
espero que ele se torne algo permanente em breve.
Fiquei calada, porque eu não sabia quando esse dia
chegaria, mas também gostava desse momento. O jantar foi
perfeito, Rocco tomou vinho enquanto eu fiquei no suco. A cada
garfada ele elogiava minha macarronada, dizia que como o
típico italiano, ele detinha direito de opinar. Ri de sua bobagem,
mas estava feliz. Quem não ficaria? A melhor coisa do mundo é
fazer uma comida e receber elogios por ela.
— Rocco, já que está aqui e seus negócios em Londres, o
que faz para passar o tempo? — perguntei olhando para ele,
que apenas deu de ombros, displicente.
— Eu treino no quarto que eu equipei, me masturbo
pensando em você. Eu leio alguns relatórios da minha empresa,
me masturbo pensando em você. — Ele me olhava com um
sorrisinho perverso e malvado. — Eu penso em muitas formas
de te ter nua, então eu fico doido de tesão e te espiono. Aí, eu
faço algumas ligações para saber como andam as coisas em
Londres, então mais uma vez eu fico excitado pensando em
você. Basicamente é isso, amore mio, eu passo o dia te fodendo
em pensamento.
Não respondi a ele, pois não tinha o que dizer, de maneira
constante, Rocco tinha o dom de me deixar sem palavras. E às
vezes era até melhor ficar quieta, não queria colocar lenha na
fogueira, principalmente quando não estava longe o suficiente e
correndo o risco de me queimar. Agora eu estava até com medo
de perguntar para ele se tinha chocolate, queria misturar aos
morangos que vi na geladeira, mas dada a mente suja de Rocco,
ele iria querer que eu fosse o morango. Fiquei na minha, mas
notava os sorrisinhos dele, às vezes ele até arqueava uma
sobrancelha ou as mexia para cima e para baixo, todo safado.
Era a cara dele, Rocco quando queria matar uma mulher na
mão, mas admito que não estava me sentindo mal, eu estava
bem por ele demonstrar que me desejava, isso me alegrava,
pois, infelizmente, eu não tinha controle dos meus pesadelos e
neles via tudo que não deveria, voltando a sentir a mesma
insegurança que passava o dia lutando para ter.
— Vamos para a sala, amore mio, amanhã arrumamos a
cozinha — Rocco me chamou e eu aceitei. Suas palavras me
fazendo despertar de devaneios que não me faziam nenhum
bem.
Fomos para a sala, sentamos no sofá grande de frente para
a TV. Logo nossos cachorros chegaram, na verdade eles
correram e simplesmente se largaram no tapete à nossa frente.
— Folgados. — Rocco sorriu e foi que lembrei que não dei
comida ao meu mascote.
— Eu esqueci de dar a ração do Balofo.
— Eu já fiz isso, quando saí para ir te buscar já deixei as
vasilhas dele de água e ração abastecidas.
Ele pensa em tudo! Contente, me aconcheguei a seu lado.
— Vamos assistir a algo? — perguntou pegando o controle.
— Sim.
Rocco ligou a TV e escolheu uma série.
— Zombie? — Fiz uma careta e ele riu
— Eu tenho 40% dos direitos dessa série — explicou —, às
vezes eu assisto, mas faz um tempinho que deixei de lado.
— Façamos assim, você assiste sua série e eu vou ler um
livro que estou com vontade. — Levantei e fui mancando pegar
meu celular, que ficou na cozinha, quando voltei, soltei um
gritinho porque a cena exibida na TV era grotesca e horrível, e
vista por uma tela gigante parecia ainda mais real e
assustadora.
— Se quiser eu tiro…
— Não precisa, estarei ocupada lendo, não vou olhar para
essa tela.
Não sei quanto tempo passou, mas eu estava devorando os
capítulos, em algum momento eu deitei no colo de Rocco, e
enquanto eu lia, ele fazia carinho em meu cabelo.
Estava incrível, nada melhor que boa leitura e boa
companhia.
— Cuidado para não ter ideias com esses livros, você está
concentrada demais — falou e me beijou, ri de sua bobagem,
depois, decidimos encerrar a noite. Lado a lado, escovamos os
dentes, ele implicando comigo, me empurrando de vez em
quando.
— Chato.
— Eu te amo. — Sorriu, acho que ele estava adorando
todas as coisas que fazíamos juntos.
Fomos para a cama, me deitei, e ele também, ficamos em
silêncio por uns dois segundos, então Rocco murmurou alguma
coisa em italiano e me puxou, colado em minhas costas, nossas
pernas enlaçadas, uma das mãos dele em minha barriga de um
jeito protetor.
— Gosto assim. — Fungou em meu cabelo. — Adoro, na
verdade, uma conchinha com minha garota. Boa noite, amore
mio. Eu te amo, não se esqueça disso.
Talvez aquela fosse a única forma de poder dormir em paz
por uma noite inteira.
— Boa noite. — Respirei fundo.
Então eu me aconcheguei ainda mais a ele, e, no fim,
estávamos tão misturados que não sabíamos quem era quem.

***

Perseguidora

“One, two, three.


One, two, three, drink…”

Rodei em minha sala enquanto a ansiedade me tomava.


Raiva. Ódio. Desejo.
Tudo isso se misturava em meu íntimo, me deixando mais
e mais louca, desesperada para começar a colocar tudo em
prática.
— Estou aguentando firme. Não vou desistir e não vou
olhar para baixo — gritei de braços abertos a parte da letra que
era uns dos meus mantras.
Nessa empreitada eu era uma oponente silenciosa,
observadora. Eu era indestrutível, pois estava perto, tinha
acesso e, agora, só precisava de uma oportunidade. E não
pensava em desistir.
Por que eu pensaria? Acabei sorrindo. Estava usando todas
as armas para ter meu homem, e não importava o que fosse
preciso, eu iria fazer e, por fim, conseguir, só tinha que colocar
uma vadia para correr.
Rodopiei feliz, cantando alto como sempre fazia.
— Eu cheguei, porra! — berrei e não me importei com os
vizinhos, eu queria que todos se fodessem.
Permiti que a música ficasse em repetição e fui ver o que
me aguardava, deixando claro que um bom lutador tem que
conhecer seus inimigos. A minha era forte, muito forte.
Victória Fontaine usava de sorrisos falsos, carinha de anjo,
palavras doces e conquistava a todos. Essa infeliz fazia com que
todos ficassem em suas mãos, com que todos e absolutamente
todos deitassem no chão para ela passar.
Imbecis!
Tremi de nojo e raiva.
Rocco não me conhecia, mas quando conhecer eu sei que
ele vai me amar, e eu estarei lá para dar meu ombro para ele
chorar quando a vadiazinha costureira e o problema que ela
carrega forem dessa para melhor. Deixando claro que eu
nunca, jamais irei criar o filho daquela idiota, eu mataria o
moleque antes. Senti um arrepio de puro ódio me invadir, só de
pensar que agora eles poderiam estar juntos eu tinha impulsos
homicidas. Não podia pensar nisso porque corria o risco de
perder meu trunfo, meu maldito ás na manga.
O anonimato.
— Vamos ver o que tem aqui. — Peguei a última revista
sobre a aparição da Fênix.
Ah, sim, esse era o novo apelido daquela idiota!
Os tabloides a chamavam de Fênix. Se antes a
massacravam, agora a endeusavam, se antes eles colocaram-na
como coitada, agora a estavam colocando como inspiração.
Malditos.
E o pior era saber que Rocco ainda não havia feito
nenhuma declaração, e eu sabia, sentia em meus ossos que ele
ainda iria dar a cartada final. Meu homem era assim, ele
chegava chegando, e quando o fizesse, pronto! Aquela puta
seria endeusada então, por isso eu teria que agir antes.
Sentindo minhas entranhas remoerem, eu olhei para a capa da
maldita revista.

A volta por cima de Victória Fontaine


Após acidente que quase tirou sua vida, a herdeira da alta
costura vai a coquetel oferecido pela Embaixadora da moda
contemporânea, Antonieta Andrade, juntas, neta e avó nos
falam sobre seus planos para expansões e sobre a criação de
uma nova marca.
Luxor…

Balancei a cabeça sem acreditar na sorte dessa imbecil.


Como podia? Mas que infernos. Abri para poder ler e lá
estavam quatro malditas páginas direcionadas àquela vadia.

Linda, delicada, educada e recuperada


Victória nos conta como anda sua vida e deixa claro, não
vai parar! Pelo contrário, ela está voltando com tudo.
Já se tem notícias de grandes propostas para sua marca, e
agora, com a criação da Luxor, certamente estaremos vendo um
dos maiores marcos da alta costura da atualidade.
A fusão do Emporium La Fontaine e da Luxury's mal foi
anunciada e já gerou uma explosão de interesse, propostas do
mundo todo acerca de filiais estão sendo analisadas.
De longe, apenas sabemos como será maravilhoso,
ninguém sabe o que Victória e Antonieta estão preparando para
o lançamento, todavia sabemos que será algo soberbo e que as
mulheres da alta sociedade irão se matar para adquirir um
exclusivo Luxor.

— Não vai dar tempo, bando de filhos da puta! — grunhi,


jogando a revista longe e pegando outra. Essa me matou ainda
mais de raiva.

Rocco Masari ressurge depois de passar dias desaparecido.


Após se mudar para o Brasil, Rocco Masari aparece muito
diferente.
Aparentemente mais forte, o magnata italiano, que adotou
o estilo de barba lenhador, afirma:
“Em breve darei esclarecimentos acerca do que aconteceu.
Por ora, só precisam saber que… até breve.”
Desconversou e sorriu, Rocco deixou muitas interrogações
no ar! Entretanto a maior de todas é…? Victória o perdoou?
Saberemos em breve.

— Sim, saberão do enterro dessa infeliz! — Não joguei essa


revista longe porque a capa era linda demais.
Nela Rocco estava de causar um orgasmo, todo lindo e
gostoso, de terno e barba grande, eu só poderia supor o que ele
poderia fazer com aquela barba.
— Oh, nossa! — suspirei mordendo o lábio.
Não via a hora de tê-lo bombeando entre minhas coxas,
não me importaria com nada, eu só queria que ele me desse
tudo, e eu daria tudo o que ele necessitasse ou quisesse.
A minha loucura por esse homem era maior do que meu
desejo de controlá-la. E mesmo assim eu não queria, só de
pensar na minha tão sonhada noite com Rocco eu tremia toda,
ele era tudo e mais do que sempre quis, ele ia além das minhas
expectativas.
Rocco tinha fama de implacável nos negócios e magnífico
na cama. Todas as suas antigas fodas, por mais que o odeiem
por terem sido rejeitadas, ainda suspiram ao ouvirem ou
pronunciarem seu nome, ele é, sim, o Todo Foderoso Masari, e
será meu.
Por isso…
Peguei meu telefone e liguei para ele.
Esperei conectar e assim que o fez, meu estômago deu
uma cambalhota.
— Masari falando. — Sua voz grossa e rouca de sono fez
meu sexo pulsar.
Eu não queria nem saber que horas eram e nem o que ele
me causava, eu só queria matar a saudade e pronto, neste caso
ouvir sua voz me ajudaria um pouco.
— Você me parece delicioso, Roquinho.
1… 2…
— Sua puta! — grunhiu baixo e eu estranhei o porquê de
não ter gritado, ele geralmente berrava a plenos pulmões.
Esquisito demais.
— Onde está o grito, amore mio? — provoquei, sentindo
um frio na barriga de apreensão.
Algo estava errado.
— Por que eu gritaria? — Riu baixinho. — Eu não posso
acordar minha mulher, e você não merece o esforço, portanto, vá
se foder, você e sua loucura.
Fechei os olhos durante alguns segundos.
Pude sentir meu rosto esquentando devido ao sangue que
bombeava ainda mais frenético em meu sistema. Minha cabeça
começou a latejar.
— Você está mentindo! — grunhi sentindo ainda mais
raiva daquela vadia. — Ela não pode ter te perdoado, não pode.
Rocco riu ainda mais.
— Você é uma idiota mesmo! — Pude ouvir muita
agressividade em sua voz, mas depois ouvi outra voz ao fundo.
— O que foi, grandalhão? Tudo bem? Algum problema?
— Não é nada, amor, volte a dormir, seu homem está aqui.
— Tudo bem, estou morrendo de sono mesmo.
— Então dorme, minha pequena, pode dormir em paz.
Ouvi o barulho estalado de um beijo e um suspiro rendido.
— Eu te amo, amore mio. Eu te amo muito.
Eu não pude acreditar nos meus ouvidos. Choque. Era o
que eu sentia agora.
— Tenha uma péssima noite, sua va-di-a! — debochou. —
Eu estou ocupado embalando minha futura esposa. — Riu
suavemente e eu sabia que não era por minha causa. — Espero
que esteja ardendo no buraco do inferno que você deve habitar.
Respirei fundo umas duas vezes, em busca de controle,
mas era assim, com Rocco eu perdia o bom senso e o medo.
— Tudo bem, estou ardendo nesse buraco chamado Brasil,
aliás, o Rio de Janeiro é um forno e de paraíso só tem o nome,
então aproveite, grandalhão — imitei Victória. — Em breve sua
puta aleijada estará morta e enterrada.
Desliguei o telefone e logo tirei o chip, quebrando-o. Sabia
que alguém estava atrás de mim, pois a sensação de estar sedo
observada ficava cada dia mais e mais constante.
Terminando o serviço, eu juntei minhas coisas e saí da
casa da minha colega, eu nunca ligava da minha própria casa,
eu sempre estava tendo cuidado em manter meu endereço
oculto, eu sabia que poderia ter meu telefone rastreado e eu
não queria isso de jeito nenhum.
Lógico que eu não era idiota a ponto de fazer algo na
frente de alguém, por isso escolhi justamente essa casa, pois
minha colega e sua família estavam viajando.
Caminho livre. Saí da casa e tranquei, deixando a chave
no lugar combinado.
Estava caminhando tranquila quando esbarrei em um
homem.
— Opa, moça, cuidado.
Senti arrepios com essa voz, era cadenciada, baixa, com
um sotaque escocês.
— Tudo bem. — Sorri jogando chame. O homem era um
gato ruivo.
Porra!
— Me deixe te levar, como pedido de desculpas. — Sorriu e
eu retribuí.
— Qual o seu nome? — perguntei e ele riu, estendo a mão.
— Red — murmurou me arrepiando toda.
— Eu acho que combina com você, mas não me parece ser
seu nome.
— É assim que sou chamado, boneca. — Piscou um olho.
— E o seu nome?
Divaguei sobre dizer meu nome ou não, então resolvi falar.
— Cami.
— Muito prazer, Cami. — Pegou minha mão e beijou, mas
não só isso, ele pronunciou meu nome de tal forma…
— Você é Escocês? — perguntei para tentar desviar minha
atenção de tanta beleza.
— Sim, um legítimo puro sangue. — Piscou um olho. —
Mas não toco gaita de fole, apenas uso o padrão xadrez do meu
clã e, por favor, não me imagine de kilt.
Rimos de sua piada, mas acabei por ficar ainda mais
curiosa, eu sabia que os escoceses tinham uma coisa sobre clãs
e tal.
— Você é de qual clã? Ainda existe essa coisa?
— Sim, pequena, eu sou de um clã, e sou o melhor da
minha linhagem — proferiu me encarando, até senti um tom de
ameaça, mas acho que se devia ao fato de Rocco sempre deixar
essa sensação em mim.
— Qual é o seu tipo de clã?
Agora Red sorriu e era um sorrido de lado, conspiratório.
Conhecedor.
— Qual o seu clã, Red?! — perguntei encarando-o.
— Eu sou do clã dos caçadores. — Aproximou-se, quase
colando nossos corpos.
Eu senti seu calor e vi como a camisa negra marcava seus
braços e corpo musculoso.
— E eu nunca perdi uma presa.
Então ele pegou minha nuca.
— Nunca perdi uma caça… — Sorriu e tudo ficou escuro.

***

A primeira coisa que senti quando volto à consciência foi a


falta de circulação apropriada em minhas mãos.
Ambas estavam dormentes.
Eu tentei me mexer, mas estava com os braços estranhos,
respirei fundo, fazendo uma careta quando senti o gosto
amargo em minha boca.
— Onde estou? — murmurei abrindo os olhos.
Respirei mais uma vez, e não sabia de onde vinha a
letargia, entretanto ela me consumiu, eu sentia como se
houvesse percorrido uma longa distância.
Tentei mexer meus braços, mas estavam presos, abri meu
olho direito, mas o pouco que vi me deixou aterrorizada.
Escuridão e floresta, isso incrementou meu medo,
elevando-o para terror puro e simples.
Respirei fundo e gritei, lembrando-me dos últimos
acontecimentos.
Sacudi meus braços com força, gritei mais alto.
O fogo de uma pequena fogueira crepitava a poucos
metros de mim.
— Olá, Bela Adormecida. — Ouvi a voz profunda e ergui
minha cabeça, em meu campo de visão surgiu o mesmo homem
que eu vi antes de tudo ficar escuro.
— Onde estou? — perguntei em pânico.
— Em algum lugar — Deu de ombros, indiferente.
— E que lugar seria esse?
Calma, respire fundo, você precisa manter o controle…
vamos lá! Controle, garota.
— Em breve não fará diferença, portanto não vou me dar
ao trabalho de responder!
— Seu nome é Red, não é? — tentei soar amigável, talvez
eu conseguisse fazer com que ele me soltasse.
— Há muito tempo levo esse nome. — Sua voz permanecia
inabalável, ele parecia não ter emoções.
— Red, podemos chegar a um acordo? — Respirei fundo,
tentando não chorar. — por favor, me diga o que eu tenho que
fazer para você me soltar, e eu farei.
Agora ele cruzou os braços e me olhou.
Seus olhos ambarinos desceram pelo meu corpo sentado,
seu olhar parecia queimar minhas roupas, havia uma chama
primitiva acessa no mais profundo de seus olhos.
Tive ainda mais medo.
Ele tinha os olhos de um predador cruel.
— Oh, nada do que você me oferece é bom o suficiente. —
Deu de ombros.
Maldita indiferença.
E a primeira lágrima escorreu.
— Eu faço qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, não
importa — solucei. — Mas me solta, eu quero ir para casa.
— Uma pena. — Estalou a língua, me dando as costas.
Observei quando ele se agachou e começou a mexer na
fogueira.
— Você até que foi inteligente durante um tempo, estava
interessante te caçar. — Ouvi pela primeira vez um sentimento
que não era indiferença.
Excitação!
Isso era o mais presente em suas palavras.
— Infelizmente, você cometeu um erro estúpido que me fez
ficar decepcionado.
E lá estava a indiferença novamente.
Desesperadamente e aproveitando que estava ele estava
de costas para mim, eu comecei a lutar com o nó da corda.
Estava machucando horrores meus pulsos, mas eu não
ligava, agora eu poderia arrancar minhas mãos, se isso me
ajudasse a fugir.
Ficamos em silêncio.
Minhas lágrimas escorriam, mas eu não fazia nenhum
barulho, eu engolia minha dor para reunir forças e continuar
lutando. Dor irradiava pelos meus braços, ardia e queimava
meus pulsos e mãos. Já sentia o molhado do sangue
encharcando a corda.
Não sabia como Red conseguia se manter naquela posição
agachada, ela parecia desconfortável e, além de tudo, ele
parecia alheio. Ele não se movia, salvo a mão que ficava
mexendo para lá e para cá o graveto que usava para mexer na
fogueira.
A dor estava me deixando desnorteada, eu não sabia o que
tinha feito para estar passando por isso!
Não sei em que ponto eu perdi o controle.
— Me deixe ir! — gritei ofegando, parando completamente
meus movimentos, minhas mãos doíam tanto que parecia como
se eu houvesse estendido-as sobre o fogo.
Só ouvi risos como resposta.
O terror já me enlouquecia e eu não poderia fazer nada, a
sensação de peso e frio no estômago deu margem a um suor frio
que ao mesmo tempo parecia calor.
Meu corpo estava em pleno desfuncionamento devido a
meu estado de puro medo.
Meu Deus, ele nem mudou de posição, meus lamentos de
dor não o comoveram? Como pode ser tão lindo e tão cruel?
Chorei de soluçar
— Para de encarar o fogo, por favor, me solta!
Há horas eu tentava afrouxar a corda, agora, depois da
minha pausa dolorosa, eu senti que cedia um pouco.
Preciso continuar!
— Nem tente — Red falou, me assustando. — Pensa que
não notei? — Riu sem humor. — Gostei de saber que tentou,
mas não perca seu tempo e não me envie em outra caçada,
certamente você não vai gostar dos resultados.
— Eu não fiz nada! — murmurei e ele ainda permanecia
lá, de costas, agachado.
Que ódio!
— Você afrouxou a corda e acha que vai escapar! — Eu o
vi parar de mexer no fogo e rir, até a cabeça ele balançou. —
Novidade do século, você perdeu seu tempo e me divertiu
muito.
Oh, Deus!
Parei de tentar, desabando sem forças. Meus ombros
cedendo, meu corpo tremendo de dor.
— Por favor, Red, me solta, me deixa ir! — implorei
chorando, o medo me comendo viva. E pela primeira vez eu me
senti humilde.
Minha voz soava angustiada e fraca.
— Sinto muito, mas não farei isso! — murmurou
displicentemente. — Você é malvada e os maus sempre se
fodem.
Loucura.
— E QUANTO A VOCÊ? — gritei fora de mim. O choro
misturava-se aos meus gritos e soluços desesperados.
— Eu nunca disse que era bom! Na verdade, eu nunca fui
bom — revelou —, mas você mexeu com alguém ainda pior que
eu, então… — Deu de ombros e eu senti que meu fim estava
muito próximo.
Foi um sentido tão forte de fatalidade que por um
momento eu não consegui respirar, eu só não queria sofrer
muito.
— Você vai me matar? — perguntei entre uma fungada e
outra.
— Eu não mato mulheres, todavia isso não é problema
para os gêmeos.
Soltei um grito estrangulado.
— Não fique triste, não se preocupe, querida, eles já estão
chegando sinto a presença de ambos e logo, logo a brincadeira
ficará muito boa.
Meus olhos arregalam de medo, comecei a olhar para todos
os lados, minha respiração ainda mais ofegante, senti tontura,
o suor escorria pelas minhas têmporas.
Então, sem querer, eu vi uma sombra caminhando
letamente em minha direção, ela vinha da floresta escura e aos
poucos se aproximava.
Gritei lutando freneticamente contra a corda, já não me
importava com a dor, já não me importava com mais nada, o
desespero sobrepujou o pensamento lógico.
Olhei para o homem que caminhava em minha direção.
Gritei e gritei.
Mas para meu completo estado de horror piorar
significativamente, a sombra se dividiu em duas e eu me vi
diante de demônios com rostos de anjos.
— Deus, tem de piedade! — murmurei baixinho.
— Ora, ora, você me pareceu tão malvada, e agora que
está com gente da sua laia está pedindo ajuda a Deus?! — O de
cavanhaque e frios olhos azuis se agachou na minha frente,
agarrando meu queixo com força. — Adoro quando imploram,
quando sentem na pele o gosto do próprio veneno.
— Dom, não a assuste assim. — O outro, muito parecido
com o primeiro, usou uma voz muito doce. — Não se assuste,
querida, ele às vezes é cruel além da medida, não é nada de
mais ter alguns ossos quebrados, você gosta? Eu gosto da
melodia, pode ser perfeita, o som de pressão, o rompimento e
enfim o grito perdido na noite… uma sinfonia.
— Drake, ela gosta de fazer diferente, você sabe!
— Red, por favor, me ajuda! — Olhei para ele e agora o vi
virar-se para mim, então ele engatinhou em minha direção.
Ele parecia selvagem, um animal prestes a atacar.
— Tome — murmurou me oferecendo um comprimido
preso entre seus lábios.
— Não — neguei em pânico, eu reconhecia aquele
comprimido. — Não quero.
Minhas lágrimas escorriam, ele rosnou e aqueles dois
demônios riram do meu pavor.
— Tome! — Quase encostou os lábios nos meus. Virei o
rosto.
Chorando, travei o queixo, e logo uma mão dura agarrou
minha mandíbula, forçando os polegares em minhas bochechas.
Grunhi de dor.
Outra mão apertou meu nariz e aí meu pânico começou a
crescer, meus pulmões começaram a protestar e eu abri a boca
em busca de ar. Minha barriga até deu um tombo. O
comprimido foi enfiado em minha boca, eles me mantinham
presa, água veio em seguida e meu nariz permanecia tampado.
Engasguei e mais água foi despejada em minha garganta.
Sufoquei, tossi e eles riram.
— Miseráveis! — cuspi o resto de água na cara dos três.
— E você negou meu beijo de amor. — Red sorriu
passando a mão no rosto. — Partiu meu coração.
— Por favor, me deixem ir — implorei quando as formas
diante de mim começaram a ficar horríveis.
Os homens, outrora bonitos, se tornaram monstros.
O desespero aumentou, as árvores pareciam se mexer,
tentando me alcançar.
Encolhi-me gritando.
— Ah, o amor… — Ouvi uma voz demoníaca, gritei e gritei.
Logo minhas mãos estavam livres.
— Corra, doce donzela, o lobo irá te caçar. — Levantei
tonta e dei um passo,
Caí.
— Ohh, vamos comê-la. — Olhei para cima e vi uma
lâmina brilhando, o rosto de demônio sorria e eu via sangue
gotejando de seus longos dentes.
— Venha, querida, permita ao Dom te devorar… prometo
te comer logo — rosnou agarrando minha camisa e rasgando-a.
Gritei, me debatendo
Logo eu estava livre e corri.
Corri sem rumo.
Ouvindo suas risadas saídas das profundezas do inferno.
— Rocco nos deu um presente… isso soa divertido.
Eu não acreditei. A dor foi profunda demais.

***

A cada passo percorrido meu corpo gritava de cansaço. Eu


sabia que estava longe deles.
— Deus, me permita estar longe — rezei sentindo minhas
lágrimas escorrendo.
Há um dia fugia, correndo dia e noite. Escondendo-me
floresta adentro. Encolhendo-me o máximo que podia para
passar despercebida.
“Eu sei que eles me drogaram, usaram em mim o mesmo
que usei uma vez na vadia costureira, mas como? Será que…”,
eu me questionei, balançando a cabeça. “Rocco, meu grande
amor, não pode ter feito isso comigo! Por Deus, como ele pôde
fazer isso comigo?”
Ao longe ouvi o som de um uivo de soluço de puro pavor. O
medo já estava com suas garras tão profundamente cravadas
em meu peito que estava difícil respirar.
Voltei a correr. Mas logo parei.
A fome estava me castigando, as várias quedas que levei
me impediam de ir mais rápido.
— Onde eu me meti? — chorei baixinho.
Ele mandou me matar?
Mordi minha mão para evitar gritar de tristeza e mágoa.
Mas não adiantava.
Os demônios me encontraram e justo nesse momento um
relâmpago riscou o céu. Exatamente como na noite anterior,
desabou uma tempestade.
Eu corri e os sentia próximos a mim, quase sentia o fôlego
deles em minha nuca.
— Pode correr o quanto quiser, nunca irá fugir de mim —
Red rosnou e eu olhei para cima, ele estava correndo em uma
trilha. Os gêmeos logo atrás.
Eu virei à esquerda e corri, logo ouvi o barulho de uma
queda d'água e corri para ela.
Irrompi na base da cascata, dando uma freada brusca.
Pedras caíram lá embaixo.
— Oh.
Virei-me para voltar quando eles surgiram.
Um carregava uma faca e logo começou a fazer pequenos
gestos de corte no ar. O outro estava com uma corda e sorria
para mim.
Com crueldade.
Red.
Engoli em seco, ele me olhava com expectativa, o rosto
contorcido em uma horrenda careta de excitação.
— Não cheguem perto! — murmurei estendendo um braço.
— Você não vai pular, é uma queda de mais de quinze
metros, está chovendo desde ontem, as águas estão violentas.
— Não impo… — Engoli. — … importa!
Os três rosnaram.
— Não acabe a brincadeira assim, ainda nem quebrei suas
mãos. — Dom fez um bico triste e eu tremi ainda mais.
A chuva nos encharcava.
— Você não vai quebrar — gaguejei — mi-minhas mãos.
— Os pés, então? — Drake parecia esperançoso.
— NÃO! — berrei.
— Então uma das pernas ou um simples braço? — ambos
falaram juntos.
Red sorria com cara de doente.
— NÃO, NÃO E NÃO — gritei colocando as minhas mãos
nos ouvidos e balançando a cabeça freneticamente. — Me
deixem em paz! Me deixem em paz.
— Sinto muito, serviço contratado com pagamento
adiantado, que tipo de mercenário eu seria se não cumprisse
com o acordo? — Drake ou Dom, ah, sei lá, um deles falou. —
Não posso manchar uma reputação duramente conquistada.
— Loucos. Vocês são loucos! — grunhi, dando dois passos
para trás.
Olhei para baixo e as águas estavam escuras e
turbulentas.
Uma negritude cruel e grossa transformara as águas em
um buraco negro de pura força.
— Não seja uma estraga prazeres, perseguidora, me deixe
te desmontar, prometo montar de volta — um dos gêmeos falou,
juntando as mãos como se seu pedido não fosse, além de tudo,
desumano.
— Eu tenho nome!
— Sabemos, mas você gosta de ser anônima, não é? — Red
grunhiu e eles vieram em minha direção.
Não havia chance.
Não havia escapatória.
Eu saltei.
A sensação de queda era terrível.
Logo a dor golpeou meu corpo.
E tudo virou uma confusão terrível.
Eu girava e girava. Lutei o tempo todo, não sabia quando
tempo eu iria conseguir.
Água entrava em meus pulmões. Minhas costas bateram
em algo, dor me rasgou.
Abri a boca e mais água entrou. Tentei nadar, mas era
muita água, violenta e profunda.
E eu iria morrer.
Meu corpo paralisou, eu afundei mais. Meus pulmões
iriam explodir, a dor em meu estômago se tornou insuportável,
a pressão em meus ouvidos, em meu corpo… os espasmos em
busca de ar, o desespero pela falta de oxigênio. O afogamento.
Meus pensamentos confusos estavam silenciando, o último
que consegui capturar foi: Eu te odeio, Rocco!

***

Red

— Ela se jogou, filha da puta! — Dom grunhiu frustrado


— O que raios ela estava pensando? — berrou Drake
Dei de ombros, a indiferença era uma grande
característica minha, a frieza era necessária para poder me
conectar com as habilidades duramente conquistadas por mim.
— Não podemos cometer erro — murmurei indo para a
borda e olhando para baixo.
— Ei, já sei. Que tal uma caçada ao corpo nefasto daquela
vadia? — Dom se animou.
— Acho justo — concordei e saudei a ambos. — Um bom
caçador segue sua presa aonde ela for. — Sorri de lado.
Esse pequeno rio, para um pessoa despreparada, era uma
armadilha mortal, mas para homens como nós, que tinham
coisas como essas em seu treinamento, era quase como nadar
na piscina da vizinha.
Viciante, a adrenalina pode corromper um homem!
— Ah, não, eu vou primeiro. — Drake me empurrou e
sorriu para o irmão. — Você segue ao longo do rio e eu vou
nadar, até breve, moças. — Com isso ele saltou para as águas
enfurecidas.
Dom balançou a cabeça.
— Esse bastardo sempre quer a melhor parte — bufou. —
Vou descer o lado esquerdo inteiro, essa seria a melhor saída,
se ela conseguir escapar — falou indo na direção contrária.
Eu sorri.
— Você pode correr, mas não pode se esconder.
Saltei nas águas, o predador em mim ainda sedento pela
boa e extraordinária caçada.
No fim, não encontramos nada, com certeza o corpo dela
deve ter se perdido ou se enroscado em algum galho e ido para
o fundo do rio.
Uma pena.
Ela era um bom pedaço de carne.
Capítulo 15
Rocco

Há quanto tempo eu sentia falta de estar com Victória


aconchegada em meus braços? Há quanto tempo eu estava sem
conseguir ter paz?
Mas, principalmente, há quanto tempo meu coração
precisava de reparo?
As respostas para essas perguntas diferiam umas das
outras, não era só ter o poder de fazer acontecer ou influência
para chegar lá. Na verdade, tudo girava em torno de ela me
querer e se permitir entregar-se a mim. Tudo que eu queria
estava em meus braços.
Minha mulher e meu filho.
— Amore mio — sussurrei apertando meus braços ao seu
redor, inevitavelmente, Victória se grudou ainda mais a mim,
estávamos entrelaçados, meu corpo protegendo-a de forma tão
completa que eu até parecia estar deitado em cima dela. — Io ti
amo.
Não conseguia começar a descrever como era bom poder
exteriorizar esse sentimento, era simplesmente foda poder dizer
eu te amo sem sentir o rabo preso, era do caralho poder gritar
eu sou seu, sem se considerar um maricas frouxo.
O fato era que, se eu parasse para pensar no começo da
história, veria que eu era um estúpido egoísta. Tudo que fiz foi
em beneficio próprio. Todas as malditas vezes que Victória foi
machucada eu era basicamente o causador, então tomar
atitudes de zelo para com ela era natural.
A grande diferença do antes e de agora é que primeiro eu
pensava no bem-estar de Victória e, depois, no meu, descobri
mais um faceta do amor. Ele te fazia ficar abnegado. Do tipo
que mesmo se fodendo todo, sempre irá preservar a felicidade
do ser amado. Irônico, não?
Poderia ser, mas no fim das contas ser o Rocco do início
era fácil, todavia, ser esse de agora era difícil para cacete. Sem
hipocrisia, eu agradecia a Deus por toda a vulnerabilidade que
o amor trouxe para minha vida. Ganhei muito, as coisas mais
preciosas da minha vida, e experiência em ser companheiro de
alguém, muito mais difícil do que acabar com uma greve de mil
funcionários.
Sorrindo feito um bobo por estar com Victória em minha
cama, em meus braços, me sentia exultante.
Viver esse momento me fazia pensar que há pessoas que
passam por sua vida e não fazem a menor diferença, porém
existem aquelas que sacodem todas as estruturas, deixado
suas bases sem eixo e sua vida parece dar um restart a partir
daí. Sabe por que isso acontece?
Porque são essas pessoas aquelas responsáveis por
mudanças verdadeiramente significativas, são elas que te
fazem parar para pensar e enxergar que não existe apenas o eu
posso, eu tenho ou eu consigo. No fim, a lição que aprendi foi
que felizes são aqueles que podem viver sem pensar nos finais,
mas revivem seus começos por meio do amor, felizes aqueles
que podem abrir os olhos de manhã e ver como o dia anterior
valeu a pena.
Eu achava que tinha tudo. Mas não tinha nada.
Agora tudo que eu possuía estava protegido em meus
braços, minha amada mulher e meu precioso filho. Meus bens
mais valiosos.
— Posso jurar que em um pequeno espaço de tempo me
tornei o fraco de toda essa história, culpa sua, amore mio! —
bufei esfregando meu nariz em seu cabelo enquanto ela
ressonava em seu sono tranquilo. — Mas então é assim, minha
pequena, eu te agradeço por me tirar daquela mesmice
infernal, eu te agradeço por me mostrar que o dinheiro não
compra felicidade, acima de tudo, eu te agradeço por me dar a
oportunidade de me redimir e entender que o perdão é a maior
prova de força que um ser humano pode ter.
— Mmmmmm…
Ri baixinho e me ajeitei para encostar meu queixo no topo
de sua cabeça.
Ali, eu ainda pensava em todos os problemas que estavam
se desenrolando, todavia, o maior de todos era o perdão
definitivo que eu ainda não recebi.
Eu via que Victória estava tentando, mas também via que
ela estava em uma tênue linha de desistência. Aí residiam
todos os meus temores, os próximos dias são uma incógnita
para mim, e se eu abrir a boca e disser que não me preocupava,
estarei sendo o mais precipitado filho da puta que existe.
Fechei os olhos desfrutando da paz que eu sabia que não
iria durar. Tudo que vivi já me deixou em alerta para essa
tranquilidade toda, eu sabia que depois da calmaria vinha a
tempestade. Todavia, eu entraria nessa briga de olhos bem
abertos. Mas não agora. Nesse exato momento, queria poder
dormir e aproveitar essa noite com Victória, entretanto eu não
conseguia, queria velar o sono dela e esperar pelos pesadelos
que a assolavam quando ela estava vulnerável às lembranças
das quais não podia escapar. Aquele dia era tão nítido para
mim como o dia de hoje foi, ali eu marquei o início da minha
jornada redentora, ali eu fui ferido e cicatrizado.
Como havia dito, foi naquele dia que eu me vi livre das
cadeias que me aprisionavam, hoje eu era um homem inteiro,
sem ressalvas, limpo e pronto para amar. Passei a mão pela
barriga pequenina de Victória, senti uma leve ondulação que
me congelou na hora.
— Mio bambino? — Quase nem respirei, minha mão
repousada e eu esperava por mais daquela suave sensação. —
Estou aqui, amor, pode falar com o papai.
Esperei e, quase que timidamente, outra pequena
ondulação se fez notar. Fechei meus olhos, meu corpo
tremendo. Ah, Dio mio, eu poderia ter perdido tudo isso.
— Mio bambino, eu sou seu papai e eu te amo. — Meu
filho mexeu com mais firmeza.
Ri com lágrimas escorrendo.
Era pura felicidade, e eu estava, sim, emocionado por estar
tendo esse momento, mas, acima de tudo, agradecia a Deus por
permitir esse grande presente. Não me importei em chorar, de
vez em quando limpava meus olhos no ombro de Victória.
Esperei ansioso que a timidez do meu bebê acabasse de vez,
mas não tive muito sucesso, talvez ele estivesse querendo
descansar também, e eu estava mais que feliz por esse pequeno
momento fugaz.
Não sei quanto tempo fiquei ali, sorrindo feliz e esperando
meu filho resolver mexer de novo, acabei por entrar em um
estado de expectativa. Deve ter se passado muito tempo, mas
ali estava eu, com a mão espalmada no ventre de Victória. No
momento de paz, eu senti meus olhos pesando, me aconcheguei
melhor em Victória, o sono vinha tranquilo, pelo menos naquele
momento, entretanto, eu não teria essa paz. Meu telefone
tocou, quase rosnei de raiva, era assim muito fácil ficar puto
com os outros.
Estiquei o braço, pegando o aparelho no criado-mudo. Nem
olhei o visor, já atendi grunhindo baixo, mesmo estando com
vontade de apenas dormir e pronto.
— Masari falando.
Esperei alguns segundos até ouvir a voz de uma criatura
que me causava ódio instantâneo.
— Você me parece delicioso, Roquinho.
Respirei fundo e não tive muito que fazer, como havia dito,
apenas Victória tinha o controle sobre mim.
— Sua puta! — grunhi baixo, estava receoso de acordar
Victória.
Houve um breve silêncio.
— Onde está o grito, amore mio?
Eu senti a provocação vindo até onde eu estava, mas dois
podiam jogar esse jogo. Sorri cínico, provocando-a, minha
perseguidora era explosiva, assim como eu, mesmo querendo
controlar o volume da voz, eu estava ficando alterado, bastou
ouvir a voz da mulher em meus braços que minha crescente
raiva freou.
— O que foi, grandalhão? Tudo bem? Algum problema?
Sorri aliviado, estava ouvindo meu bálsamo.
— Não é nada, amor, volte a dormir, seu homem está aqui!
— Esfreguei meu nariz em seus cabelos. Incentivei que
descansasse, ela concordou, pois estava cansada. Esquecido do
telefone, tomei seus lábios num beijo carinhoso.
— Eu te amo, amore mio. Eu te amo demais. — Não me
cansava de dizer, amava poder colocar para fora meus
sentimentos. Só quando Victória fechou os olhos eu lembrei
que estava com uma ligação em andamento.
— Tenha uma péssima noite, va-di-a — debochei
pausadamente. — Eu estou ocupado embalando minha futura
esposa. — Ri, porque foi inevitável, não era como se essa puta
fosse conseguir escapar de Red. — Espero que esteja ardendo
no buraco do inferno que você deve habitar.
Estava satisfeito.
Essa puta iria enlouquecer e cometer um erro, e então
meu caçador iria encontrá-la.
— Tudo bem, estou ardendo nesse buraco chamado Brasil,
aliás, o Rio de Janeiro é um forno e de paraíso só tem o nome,
porque aqui está mais para etapa antes de entrar no inferno.
Aproveite, grandalhão — a maldita falou da mesma forma que
minha Victória, e isso me fez ferver de ódio, eu tremi e tive que
inflar as narinas para conseguir ar suficiente. — Em breve sua
puta aleijada estará morta e enterrada.
Antes que eu pudesse revidar a puta desligou e, porra, eu
me vi fora de controle.
Era tanta raiva queimando seu caminho para a superfície
que nem parado eu conseguia ficar, ainda tentei algumas
respirações, mas isso não acalmou. Meu corpo tremia de raiva e
a cada instante eu estava mais e mais revoltado com a demora
em encontrar essa vadia desconhecida.
— Volto já, meu amor. — Beijei os cabelos de Victória e fui
para o quarto de treino.
Mais uma vez não me importei em proteger minhas mãos,
comecei a socar o saco de pancadas de um jeito violento, a fúria
ia sendo filtrada através dos meus punhos, como eu havia dito,
era fácil me ver explodir, apenas Victória conseguia me frear.
Os minutos iam estendendo-se, meu corpo ia cansando,
mas a raiva ia ficando equilibrada com meu desejo de riscar da
face da Terra todos os meus desafetos, não estava paciente
para articulações, estava em modo fodedor de crânios.
E por isso dei uma pausa para ligar para Red.
Chamou… Chamou… chamou.
E ele não atendeu.
— Caçador filho da puta, por que não atende? — rosnei já
discando o número de Dark.
Alguns toques depois ele atendeu.
— Apenas um aviso, eu quero aquela filha da puta que me
persegue encontrada em no máximo dois dias!
— Ela já foi encontrada, Nervosinho, Red está com o
pacote, relaxe, em breve ela será eliminada, os gêmeos estão a
caminho dos Moors.
— Não me importa o método, a vadia ameaçou minha
mulher de novo, apenas limpe o caminho e não quero mais
problemas.
— E a conta aumenta. — Dark riu e eu ri ainda mais em
escárnio.
— Manda a conta, querido professor, dinheiro nunca foi
problema.
— Assim que se fala, Ice. Assim que se fala.
Desligamos e, mesmo sabendo que Red estava a caminho,
eu não conseguia me controlar, por isso voltei a bater no saco
de pancadas. Perdi a noção do tempo em meio à preocupação do
que poderia estar acontecendo.
— Calma, não perca tempo aqui, volte para sua mulher. —
Encostei minha testa no saco e respirei fundo, meu corpo
parecia querer descanso, mas eu estava com energia para
produzir luz em uma pequena cidade.
Foda-se, havia certas coisas que me deixavam louco, Jean
Pierre a cem metros de Victória e a perseguidora me
ameaçando.
Isso eram meus calos, e pisar neles libertava o pior em
mim.
Respirando fundo mais uma fodida vez, eu arranquei
minha calça e fui tomar um banho.
Liguei a ducha, deixando a água escorrer pelas minhas
costas, de vez em quando erguia minha cabeça, deixando a
água banhar meu rosto, às vezes, tentando me enganar
achando que tudo se resolveria com facilidade, o problema era
que vilões não ganhavam esse título por sorrirem e beijar
bebês, então, sim, esses fodidos tinham que ser respeitados, e
não subestimados.
O silêncio de repente pareceu opressor, era como se
houvesse uma preparação até que o primeiro grito soou no meu
quarto, onde deixei Victória dormindo.
O grito era de gelar o sangue, pude sentir a dor, tristeza,
agonia… o segundo grito soou ainda mais aterrorizante que o
primeiro, nesse, eu pude sentir meus pelos arrepiando, a
tristeza estava tão enraizada nessa única nota que senti meu
próprio coração sangrar. Não me importei em desligar a ducha
nem em me secar, corri para o quarto do jeito que estava.
Encontrei Victória paralisada na cama, soluçando alto, sua dor
tão clara que me partiu ao meio.
— Amore mio — ofeguei indo em sua direção, mesmo
molhado e nu, não me importei, mas bastou tocá-la para o pior
acontecer.
Ela começou a chorar e a chorar, de forma desesperada.
— Rocco… eu te amo…. eu te amo — soluçava. — Não
fique com elas… não fique! Não as toque, por favor… Não faça
isso!
— Amor, estou aqui, não fiquei com ninguém, acorda.
Victória não respondia, ela parecia presa ao seu limbo
aterrorizante. Suas lágrimas escorriam, me causando quase
dor física.
— Minha pequena, acorde. — Segurei sua cabeça e
encostei nossas testas. — Acorde, estou aqui, bem do seu lado,
não vou fazer nada para te machucar.
— Dói tanto — soluçou e eu limpei suas lágrimas. — Não
me traia, não fique com elas. Eu te amo.
— Não vou ficar com ninguém, pequena — murmurei,
angustiado pelas suas palavras confusas, eu podia apenas
imaginar o que ela sonhava.
Nesse momento eu me lembrei do sonho que tive com
Victória e outro homem.
Caralho!
Aquilo me deixou tremendo nas bases.
— Rocco — soluçou, então houve silêncio. — Desisto.
— Não, pequena — implorei, tentando acordá-la —, você
não pode desistir, não pode.
Então Victória começou a gritar e a cada grito ela tentava
me empurrar, até o ponto de ela se debater freneticamente.
— Não. Não. Não. Por favor!
— VICTÓRIA, ACORDA! — berrei, puxando-a para meus
braços, e finalmente ela se sacudiu em seu despertar.
Notei o exato momento em que ela capturou resquícios do
pesadelo e me fitou com olhos distantes, aquilo doeu para
caralho, mas eu sabia o dano que havia causado, agora era
arcar com eles, e eu nunca fui homem de fugir de briga.
— Olha para mim! — exclamei segurando seu rosto com
ambas as mãos. — Olha para mim, Victória!
Mesmo chamando-a, ela tentava desviar o olhar e se
soltar.
— Preciso ir para casa, eu pensei que daria certo, mas nã.
— murmurou ofegante. — Estou querendo algo que não é meu,
mas não dá, me solta, preciso ir. Quero ir…
As palavras dela saíam atropeladas, mas eu vesti minha
armadura de indiferença.
— Olha para mim! — exclamei, mas ela não olhou.
Então eu respirei fundo e tive que ser duro.
— OLHA PARA MIM AGORA! — gritei e ela pulou, mas me
olhou
Ficamos em silêncio.
Meu coração martelava em meu peito, meu corpo tenso
pela adrenalina e pelo estresse, Jason havia me contado sobre
esses pesadelos, mas eu não pensava que fossem tão terríveis.
— Preciso ir embora. — Sua voz foi apenas audível.
— Você não vai, vamos ficar juntos e eu vou te abraçar, sei
que fodi com tudo, mas não vou permitir que você se afaste! —
exclamei e ela me fitou assustada. — Entenda, eu não posso te
deixar ir, eu te amo e vou fazer o que for preciso.
Encaramos-nos, até que Victória explodiu em lágrimas.
— Eu vivi tudo de novo, a espera no restaurante do hotel,
ver você com elas. Sua cara de deboche, suas palavras e
atitudes… — Um soluço rasgado e eu não pude fazer nada a
não ser puxá-la para meus braços. — Eu revivi tudo, meus
gritos internos, minha profunda desilusão. Por favor, Rocco, me
deixa ir.
— Não posso, e você não vai! — grunhi apertando-a. — Eu
sei que fodi com sua cabeça e seu emocional, mas serei maldito
se não consertar tudo. Me odeie, se quiser, mas não vou
permitir que me deixe agora. Vamos passar por tudo juntos.
Victória afastou-se um pouco e me encarou. Ela me fitou
nos olhos e eu segurei firme seu olhar.
— Rocco, você vai se magoar, eu não tenho o mesmo
sentimento que tinha, e agora quero apenas minha casa,
minha cama e meu irmão.
Inflei minhas narinas quando respirei fundo.
— Você está em sua casa, está em sua cama e, se quer
seu irmão, vou trazê-lo até aqui, mas sair você não vai, não
assim, precisamos conversar, não vou voltar várias casas
depois de chegar tão longe, estou lutando por nós, e se você se
tornar uma adversária, as coisas ficarão feias, entretanto,
amore mio, não aceito menos que ter você de volta, eu sei que
posso te fazer feliz e eu vou.
Victória suspirou trêmula e eu a empurrei devagar até ela
se deitar.
— Não resista a mim, pequena — murmurei quando senti
seu corpo tenso. — Esse pesadelo é passado, eu nunca irei ficar
com outra, nem agora nem nunca, sob hipótese alguma, jamais.
— Rocco…
— “Rocco” nada, fica quietinha em meus braços, estou
cansado de tanto problema, baby, me ajude a não ter um
infarto nas próximas horas.
Ficamos em silêncio, mas eu sentia a tensão e os tremores
no corpo dela.
— Vai passar, amor, eu sei que vai. — Apertei-a ainda
mais. — Amanhã vai doer menos, e esse pesadelo é só porque
hoje é a primeira vez que dormimos juntos depois de tudo.
— Não é a primeira vez. — Ouvi sua voz suave, em
seguida, sua respiração, que pareceu acalmar ainda mais. —
Você me tomou em seus braços no jardim secreto.
Fiquei em silêncio, procurando as palavras certas.
— Eu senti sua necessidade, eu te vigiei todos os dias, eu
te tomei porque foi inevitável. — Respirei fundo. — Minha dor
não esconde meus sentimentos, ela me deixa mais agressivo e
persistente, será que não entende o quanto precisa de mim e
eu preciso de você?
Victória fez silêncio e eu continuei.
— Victória, o homem no qual você me tornou não é aquele
que está tranquilo por já ter uma mulher, mas, sim, aquele que
luta dia após dias para reconquistá-la sabendo que ela é seu
fundamento. Por favor, ouça minhas palavras, relaxe em meus
braços e durma em paz, nada de mau vai acontecer, meu amor.
Aos poucos ela relaxou, não sei quanto tempo exatamente
durou, mas enfim ela adormeceu.
Então me levantei, só agora me dando conta de estar nu, e
fui procurar meu celular.
Assim que encontrei, liguei para Jason. Eu já sabia de cor
os números importantes para mim.
— Rocco, o que você fez? Onde está Victória? — Jason foi
logo falando assim que atendeu.
— Oi, como vai? Tubo bom? — ironizei e ele grunhiu.
— Você me liga às duas da manhã e quer que eu fique
tranquilo? Vamos, o que aconteceu?
Passei as mãos no cabelo, meu típico gesto nervoso.
— Pesadelo. Terrível. Caralho! — rosnei de dentes
trincados e ele blasfemou.
— Quero falar com ela! — proferiu alto, pela voz eu notei
que ele estava ansioso.
— Victória acabou de dormir, e só saí do lado dela para te
ligar, portanto, venha logo, quero dormir com minha mulher e
aproveitar, porque pressinto que a merda está a caminho.
Jason fez silêncio e depois grunhiu uma ordem a alguém,
ouvi uma risadinha e depois um gemido.
— Estou indo! Dê-me quinze minutos e já chego.
“Aain, Jason, você não pode sair agora e nós? Logo no meu
dia?” Ouvi uma voz ao fundo e balancei a cabeça.
— Virei um empata foda! — bufei e Jason riu, meio
grunhindo.
— Pois é!
— Venha logo, quando Victória acordar quero que ela te
veja aqui.
— Estou indo, já falei, vou só terminar aqui, estou devendo
um orgasmo e vou pagar.
Tive que rir com essa. Jason estava muito escroto, até
parecia o Dinka.
— O que foi, meu amigo? Virou um puto máster?
Ele riu
— Estou dando trabalho ao meu pau, e outra, só não corro
agora mesmo porque sei que minha maninha está protegida com
você e talvez esse pequeno confronto ajude de alguma forma.
— Estou confiando nisso, tive até que ser duro com ela,
mas só assim para ficar tudo certo. — Suspirei, cansado e louco
para voltar para a cama.
— Cuidado, empurre e recue na hora certa, por mais que
esteja aparentemente bem, Victória ainda tem muito caminho a
percorrer.
— Jason, venha aqui, volte a fazer aquelas coisas com sua
língua.
— Não sou obrigado a ouvir isso, decore a senha do
elevador, vou deixar a porta aberta.
Falei a senha e ele rosnou para a mulher, a mandando
ficar quieta ou seria castigada.
— Venha, não esqueça — falei me despedindo, mas ainda
ouvi um grunhido do outro lado da linha.
— Agora se segura, safada, você vai ter sua rodada com o
puto máster.
Larguei meu celular e corri na sala, deixando a porta
destrancada, depois voltei para minha cama, não me vesti,
apenas tive o cuidado de trancar minha porta quando entrei.
Enfiei-me entre os lençóis e puxei Victória para mim.
— Eu vou te fazer me amar todos os dias, eu vou fazer
você se apaixonar por mim todos os dias, porque eu faço tudo
por você — falei em seu ouvido e, sorrindo, vi quando sua pele
arrepiou mesmo ela estando adormecida.
Capítulo 16
Victória

Suspiros profundos podem significar muitas coisas. Alívio,


tristeza ou simplesmente admiração emocionada. Acordei há
uns dez minutos e até agora apenas o observava dormir. Há um
braço protetor ao me redor, e nossas pernas entrelaçadas. O
suave exalar do repouso tranquilo, a inconsciência do presente
e apenas a proeza diária à qual o corpo se entrega todas as
noites.
Eu deveria estar me sentindo apenas em paz. Não deveria
haver uma cacofonia de necessidades, não deveria haver em
meio a tudo isso o simples fato de deixar.
Eu poderia ficar, Rocco é lindo demais, e dormindo ele
parece tão jovem, tão tranquilo que quem o visse assim, não
imaginaria sua capacidade, aqui jaz uma força latente tão
avassaladora que é capaz de colocar de joelhos até o mais
temível adversário.
— Foderoso Masari.
Quando empurrei meus limites para estar aqui com ele e
tentar um recomeço, eu realmente queria isso. Entretanto, eu
ainda estou em um ponto onde ao menor deslize tudo ruiria, eu
construí um muro sem concreto, na verdade eu empilhei os
tijolos e agora eles estão balançando, caindo um por um.
Infelizmente, ou não.
Descobri, no espaço de poucos minutos, estar
emocionalmente atrofiada, não era como se eu pudesse achar o
botão e desligar as minhas memórias. De forma consciente eu
poderia empurrá-las até onde minhas forças permitissem, mas,
então, o grande poder se escondia em um lugar ao qual eu não
tinha acesso, em minha epifania iluminada eu me descobri não
sentindo mais amor por Rocco. Na verdade, eu acho que estava
tentando me agarrar a pedaços de uma ilusão desnecessária.
Comecei a me desenrolar dele, cada vez que eu tentava
sair de seu agarre ele dava uma jeito de me apertar.
— Vamos lá, me deixe ir. — Tirei seu braço de cima de
mim.
— Mmmm… não.
Fechei meus olhos, mesmo dormindo ele ainda me prendia.
Depois de várias tentativas eu consegui, levantei da cama e fui
direto para o banheiro, lá fiz minha higiene matinal, tomei um
banho rápido e vesti minha roupa de ontem. Comecei a
caminhar e tive um pequeno impulso de correr, mas me
contive, não dei dois passos no corredor quando a porta do
quarto foi batida com força e logo fui abraçada por trás.
— Não vá. — Seu sussurro abafado me deixou tensa.
Porque eu queria ir. Agora mesmo Rocco não tinha a mim,
e pela primeira vez na minha vida eu não tive vontade de
apaziguar nada.
— Relaxe em meus braços, pequena. Não fique tensa
porque estou te abraçando, eu ainda irei fazer muito isso.
— Estou com fome. — A mentira teve um sabor amargo. —
Eu estou indo preparar algo.
— É só isso? — perguntou e eu acenei.
Então Rocco riu baixinho e beijou meu ombro.
— Vou só tomar banho e já te acompanho. — Esfregou o
rosto em meu pescoço e eu estava ali, olhando para frente.
Quando ele me soltou a tensão deixou meu corpo.
Fechei os olhos, e lá iríamos nós.

***

Estava na cozinha preparando o café da manhã, pelo


menos poderia usar isso como distração, antes de começar a
pensar em besteiras.
— Bonequinha!
Ouvir essa voz me fez congelar no lugar e logo lágrimas
queimaram meus olhos, fazendo-me engolir um caroço. Baixei a
cabeça, buscando controle.
A verdade era que eu estava cansada de chorar, casada de
tanta recaída. Talvez fosse porque eu nunca passei por algo
parecido, enfim, acho que não estou sabendo lidar com a
situação.
— Olha para mim. — Senti dedos suaves em meu rosto,
lentamente eu o ergui.
— Você não deve nada a ninguém, outras pessoas nem
olhariam mais na cara de Rocco, fique tranquila, eu sei bem o
que é tentar arrancar a dor e não conseguir.
— Não quero magoá-lo. Eu só estou confusa e, Jason, nós
avançamos, mas eu descobri que não estou pronta ainda. —
Senti seu polegar em minha bochecha. — Brother, uma parte
de mim ainda não se entrega, a minha razão aceita e perdoa,
mas minha emoção, não.
Jason tinha olhos conhecedores, ele parecia saber na pele
do que fala.
— Olha, bonequinha, me deixa te contar algo simples. —
Suspirou. — De tudo nessa vida que podemos considerar só
nosso, o livre arbítrio está em primeiro lugar.
Concordei.
Era a mais pura verdade.
— Então ouça, você não pode se forçar a ficar com Rocco
porque ele quer, porque eu quero, porque o mundo quer. Você
tem que querer e pronto. Aceite que nem sempre nossas
decisões estarão de acordo com as vontades alheias.
— Jason, eu não gosto de desagradar, você me conhece
um pouco e sabe que se eu puder, faço das tripas coração para
não magoar as pessoas que são importantes para mim.
Enquanto eu falava, Jason ia negando com a cabeça.
— Para com isso, bonequinha, ninguém pode puxar sua
carga, mas então você mesma pode aliviá-la. Seja sincera e
Rocco entenderá.
— Brother, isso parece piada de mau gosto, Rocco mudou
toda sua rotina para tentar consertar as coisas, não posso
deixá-lo em standby.
— Victória Fontaine, Rocco sabe o que fez. E ele se
arrepende. Ponto! — falou muito sério. — Você sabe seus
limites. Ponto! Acha mesmo que forçando a barra vai conseguir
ser feliz e fazê-lo feliz?
— Mas, Jason, estávamos bem, eu já havia dormido com
ele e não tive problemas como hoje.
Jason suspirou.
— Tem dias que eu fecho os olhos e apago, durmo como
morto. Então tem dias que minhas memórias vêm à tona,
fodendo meu juízo e me fazendo pensar será mesmo que fiz
tudo isso? Às vezes parece impossível, e garanto, bonequinha,
não foram coisas bonitas.
— Eu não o amo, Jason — disse muito baixo, falar me
causava dor e alívio, uma duplicidade de emoções descontentes
por terem que andar juntas.
— Você o ama, a prova disso é que está preocupada com
os sentimentos dele, Rocco é forte, ele aguenta, todavia não
volte para ele incompleta, tome seu tempo, se achar que deve,
mas advirto, Rocco não faz o tipo que aceita metades.
As palavras de Jason faziam sentido, se só eu estivesse
com meu amor sendo escondido pelos receios, então talvez eu
pudesse conseguir limpar o caminho para deixá-lo fluir.
— Que intimidade com minha mulher é essa? — Rocco
entrou na cozinha apenas de bermuda, o cabelo molhado e o
seu cheiro, que deveria me deixar quente e ansiosa só me pôs
tensa.
— Bom dia, amore mio — Entrou na frente de Jason para
me dar um selinho rápido. — Tudo bem? — perguntou
segurando meu rosto para avaliar.
Desviei o olhar.
— Uhm, sim.
Jason bufou e saiu jogando as mãos para cima. Eu sabia
que Rocco não acreditara em mim, mas pelo menos ele não
tentou entrar no assunto e não comentou sobre o ocorrido na
madrugada, justo naquele instante os cachorros chegaram com
tudo na cozinha, aquilo foi distração suficiente. Rocco riu e
brincou com os bichos, já eu, estava com a sensação de peso no
estomago.
É realmente havia coisas para qual a mente humana não
estava preparada para lidar!
Não sei como dizer o tempo que levei para sentir pela
primeira vez o cinismo tomando conta da minha expressão,
tinha 24 anos de idade e nesses anos todos, alguns eu passei
encolhida e com medo, depois eu abri minhas asas e elas foram
cortadas. De algum jeito, o medo passou a ser encarado de
outra forma, para muitas coisas eu estava muito forte.
Inclinei meu rosto de lado. Eu descobri que sou uma
mulher multifacetada.
A amiga, empregada, filha. Namorada e agora a cínica cara
de pau.
Não provoquei nada, eu só estava tomando meu café,
junto com meu irmão e Rocco, quando o interfone tocou.
Alguém estava subindo.
Olhei para Jason e ele deu de ombros, eu o acompanhei no
gesto.
Em seguida Rocco veio até onde eu estava e me beijou o
topo da cabeça, indo destravar o elevador, pouco tempo depois
a mesma loira que nos abordou ontem apareceu, acompanhada
de um homem mais velho.
— Senhor Castelo que prazer recebê-lo em minha casa —
Rocco falou muito calmo.
Manso demais para meu gosto. Eu o conheço muito bem
para saber que nesse momento a música estava sento
comandada pelo Magnata frio Rocco Masari.
E aí tinha, um pedido de desculpas formal.
— Por favor, me chame de Antônio — o homem falou
cordial, mas notei que ele estava engolindo em seco várias
vezes.
— A que devo a honra, Antônio? — Rocco continuava com
voz mansa, a loira o olhava com cobiça, e eu?
Estava apenas como expectadora indiferente.
— Minha filha me contou o pequeno mal-entendido de
ontem e eu vim aqui em nome da minha família pedir desculpas
e convidá-los para um jantar de boas vindas.
— Eu passo — falei alto suficiente para que minha voz
soasse uniforme, mas decidida. — Não vou estar no mesmo
lugar que você, Pamela, eu não vou com a sua cara.
Nesse momento eu poderia ouvir os grilos cantando. Todos
me olhavam como se eu fosse um alien.
Jason estava com um sorrisinho e o polegar para cima,
Rocco estava com a boca aberta, Pamela eu nem olhava, e
Antônio coitadinho, estava afrouxando a gravata.
— Amore mio? — Rocco meio que murmurou e eu, toda
sonsa, olhei minhas unhas.
Não iria deixar ninguém me pisar de novo. Por ser uma
iludida eu me danei na maior parte da história.
— Eu não vou, mas você pode ir. — Olhei para Rocco, ele
que fosse.
— Sra. Masari. — Arqueei uma sobrancelha e Antônio
desviou o foco de mim.
Aqui ele não conseguiria nada.
— Pamela, peça desculpas — comandou. — Desfaça o mal-
entendido que você causou!
A tal estava o tempo todo no celular, apenas no momento
que eu falei que não iria ela me olhou com uma cara de bicho.
— Pai, sinceramente, não sei o porquê disso tudo!? O
senhor está me humilhando por causa dessa garota! —
exclamou chateada. — Entretanto eu farei algo melhor do que
pedir desculpas.
Instantes depois ela sorriu.
— Achei! — E virou o celular para mim.
Irônico, não?
Ela havia colocado o vídeo do bar, nem sabia disso, não
fazia ideia que tinha um vídeo daquele dia circulando pela
internet.
Eu fiquei ali, dura feito um pedaço de pau. Com os olhos
pregados.
— Veja, essa parte é a melhor — cacarejou maldosa,
trazendo o celular mais próximo de onde eu estava.
E, sim, era mesmo. Assistir a tudo me dava uma nova
perspectiva.
— Realmente, Rocco, você não é nenhum idiota! Mas agora
está se passando por um! Vamos lá, cartas na mesa, sem essa
de desviar a conversa. Afinal, você é inteligente e eu também
sou!
No vídeo eu estava com voz embargada e lágrimas
teimosas. Mas mesmo assim eu vi que minha postura não era
envergada e submissa, não! Eu testava erguida e orgulhosa.
Quase podia sorrir, confesso que me via como coitada, mas
não era bem assim.
Eu até me inclinei para frente, essa era uma boa forma de
encarar os fatos. Eu assistia a tudo com olhos atentos. Rocco
grunhiu do meu lado e eu estiquei uma das mãos, calando-o.
Jason rosnou e eu pedi silêncio.
Pamela sorria desdenhosa enquanto Antônio perdia a cor
do rosto e acabava por tirar a gravata de vez.
Pela primeira vez, eu estava encarando aquele maldito dia
como ele deveria ser encarado.
— Tudo bem, se você quer assim! — Rocco falou e abriu os
braços, puxando as duas mulheres para junto dele. — Isso
parece o que para você?
Estreitei meus olhos quando a pobre e boba Victória
ofegou baixinho ante aquele desenrolar. Então, claro como o
dia, o mesmo pensamento que tive voltou naquele instante.
Eu já havia visto o show deles por tempo suficiente.
Estava batizada e o couro ficou duro quase que
instantaneamente.
De fato eu realmente achei que estivesse! A Victória do
vídeo deu de ombros, tentando passar indiferença. Até parecia
que estava distante, coitada, não estaria mais enganada.
Notei como aquele Rocco estava com cara de ódio, ele
olhava para Victória como se quisesse matá-la. Era tão claro
que estava furioso e se controlando.
Era muito estranho ver como as coisas foram. Eu revivia
em sonhos e era participante, agora eu me via como terceira
pessoa. Havia uma linha divisória. E talvez essa linha fosse
aquela que iria me ajudar a ajustar as coisas.
— Preste atenção, olhe o que ele faz agora. — Pamela riu
feliz.
— Bella mia… — Rocco sorriu cinicamente mexendo no
cabelo da ruiva. — Tesoro mio… — Agora foi a vez da loira.
— Já chega! — Jason berrou e eu o fitei, ele estava com
um olhar estranho e encarava Pamela como se fosse arrancar a
cabeça dela e chutar como uma bola.
Arrepiei de medo.
Eu era uma linda e grávida covarde. Certas coisas nunca
mudam.
Fato!
— Foi para isso que veio aqui com sua filha, Antônio? —
Rocco perguntou alto, fazendo o outro tirar um lenço para
secar a testa suada.
— Não, claro que não, nunca faria isso! — enrolou-se todo.
— Eu queria pedir desculpas, eu nunca pensei que isso poderia
acontecer.
— PARA, PAI!
Todo mundo ficou calado.
— Me recuso a me humilhar para essa bastarda!
— Olha só, eu acho que alguém quer concorrer ao Oscar
— desdenhei me levantando, esqueci a dor matinal que eu
sentia em minha perna diariamente.
— Como ousa?
— Eu ouso e falo o que quiser! — revidei encarando-a.
Nunca me senti tão bem.
— Eu estou aqui à força, nunca iria pedir desculpas ou
perdão para uma idiota, eu realmente acho é pouco que tenha
quase morrido!
Rocco fez um barulho aterrador, e Jason fez uma cara que
eu nem sabia descrever. Mas essa luta era minha. E eu iria
lutá-la.
— Fiquem parados aí mesmo!
Cruzei os braços.
— Vamos lá, o que mais você tem a dizer? Desabafe. —
Chamei-a com as duas mãos.
Estava saindo de minha iniciação e me tornando uma
amazona. Lógico que teria momentos de queda, afinal minha
natureza era pacífica, mas deixarei claro que não era e nem
serei mais saco de pancadas de ninguém.
— Adiante, querida. — Inclinei a cabeça para frente e a
encarei.
Então Pamela soltou todo o seu veneno.
— Como poderia achar que Rocco Masari ficaria com você?
— Já ouvi essa mesma frase em algum outro lugar. — Dei
de ombros. — Não me afeta mais!
— Você é uma filha da puta, sua bastarda, eu te odeio!
Senti meu corpo endurecendo.
— Respeite a minha mãe, se quiser falar porcaria fale
comigo, sua ignorante!
Ela estava vermelha, Rocco engasgado e Jason soltando
leves tossidas com risadas baixinhas.
— Você é uma bastarda!
— Sou sim, metade da população mundial é bastarda, não
estou me referindo aos que nascem fora do casamento, estou
me referindo aos casais que simplesmente juntam as escovas
de dentes e vivem muito bem, obrigada, papel não quer dizer
absolutamente nada. — Lustrei minhas unhas e soprei em
seguida.
— Se você voltar para ele provavelmente vai sempre
desconfiar, Rocco nunca será fiel.
— Awn. — Coloquei a mão no peito. — Obrigada por se
importar, nunca vi coração tão benevolente e generoso, mas
dispenso o conselho, querida, estou ótima sem ele.
— Sua puta! — berrou.
— Somos as melhores. — Sorri e pisquei um olho. — Eles…
— Apontei para Rocco. — … caem de amores por nós.
Psicologia reversa, já, já ela desistiria ao notar que não me
atingia. Descobri que é melhor ser indiferente e jogar o jogo.
Não serei uma coitada.
— Não iria estranhar se essa criatura na sua barriga fosse
filho de outro, esse pequeno bastardo deveria ter morrido.
Uma névoa densa e escura sombreou meus pensamentos,
vi tudo vermelho e só senti minha mão explodindo na cara da
mulher diante de mim. Pela primeira vez na minha vida, eu
queria machucar muito outra pessoa. E fiz isso, comecei a
bater, sem me importar onde acertava.
Eu estava tendo um momento de Rocco e sua
agressividade.
— Fecha o punho. — Ouvi alguém falar e fiz, a pancada foi
mais forte, e eu realmente não tive pena.
— Nunca mais ouse sujar a dignidade do meu filho!
Tampouco deseje seu mal, nem ouse sequer pensar nele, sua
infeliz!
Eu não ouvi mais nada, estava fora de mim. Nunca me
senti e nem fiz algo assim, mas também nunca senti tanta raiva
de uma pessoa em toda minha vida. Meu cabelo foi puxado,
então meus braços eram arranhados. Contudo eu não estava
nem ligando, mas raiva e cegueira misturaram-se a esse
grande momento de explosão. Eu apenas batia e batia. Não
estava nem me importando onde atingia.
Então eu senti mãos em cima de mim e não quis saber,
esmurrei quem me puxou.
— Calma, amore mio. — Rocco acariciou meu rosto e eu
finalmente acordei para a realidade.
Estava ofegante, as mãos fechadas em punhos, meus
braços doendo, meus cotovelos estavam latejando. Minha perna
estava tremendo e começando a dar câimbra, mas eu estava
com tanta raiva que me mantive erguida.
Não iria demonstrar fraqueza. Não na frente dessa mulher
perversa.
Ninguém nunca mais pisa em mim!
— Agora saia da minha casa! — cuspi furiosa, erguendo
uma das mãos tremente. — Fora da minha casa!
— Sua louca. — Pamela engasgou enquanto seu pai a
levantava, Jason e Rocco me flanqueando. Ambos como dois
seguranças ao meu lado.
— Louca eu seria se arrancasse seus olhos, sugiro que
saia nos próximos três segundos — rosnei respirando
sofregamente —, ou compre um cão guia! Um… — contei.
Eu a encarava com cada vez mais raiva, não sabia brigar,
mas fiz estrago. A garota estava com sangue saindo do nariz e
da boca, arranhões em seu rosto. E agora notei, alguns tufos de
cabelos em minhas mãos.
— Três — Rocco grunhiu — saiam da minha casa. Esqueça
o financiamento, senhor Castelo, procure outro.
Pamela arregalou os olhos. Acho que notou a grande
merda que fez. Ainda tentou abrir a boca, mas Rocco fez algo
típico dos europeus. Soltou um berro em italiano que a fez se
encolher.
— Fora. Agora! — Dessa vez Rocco foi o típico
brutamontes. Ele pegou a garota pelo braço e a rebocou até o
elevador, empurrando-a para dentro dele e esmurrando o
painel de controle.
— Rocco, deveríamos conversar. — Antônio Castelo
parecia ser um bom homem, entretanto, Rocco era do tipo que
cortava relações com a família inteira.
— Não temos nada para conversar. — Apontou para o
elevador. — Saia.
Eu observava tudo e compreendia que agora seria o
grande momento.
— Amore mio — falou baixo quando as portas do elevador
se fecharam.
— Brother, leve os cachorros para passear — falei concisa.
— Por favor.
— Saindo agora — Jason falou apressado e assoviou, os
cachorros correram e logo os três saíam.
— Victória!
Não sei por que Rocco exclamou meu nome, mas eu sabia
que ele compreendia.
Respirei fundo e estalei o pescoço.
— Finalmente, Rocco, chegou a hora de lavarmos toda a
nossa montanha de roupa suja! — Ele me olhou ansioso, mas
acenou, era chegada a hora. — Durante todo esse tempo uma
pergunta rondou minha cabeça e eu nunca tive coragem de
fazê-la!
Cruzei os braços em uma pose relaxada, todavia eu estava
pronta para a briga.
— Pergunte o que quiser e eu vou te responder com
sinceridade — grasnou passando as mãos no cabelo.
Ele estava nervoso e acuado, acho que minha explosão o
surpreendeu. Mas então foi inevitável.
— Por que quando me viu com o Gio em seu apartamento,
você, em vez de chegar quebrando tudo, como sempre fez, foi
inventar de arrumar duas mulheres e fazer aquela palhaçada?
Qual era a sua intenção?
Vi quando ele fez careta e me deu as costas. Talvez
encarar os fatos dessa forma fosse complicado para ele, para
mim também era. Mas hoje eu não vou embelezar ou dar
voltas, vou perguntar e pronto.
— Eu senti uma frieza tomando conta dos meus membros,
eu sempre fui impulsivo quando se tratava de você, mas então
eu queria te causar o maior dano possível, queria que você
sentisse a mesma dor que senti, mas principalmente queria
mostrar que eu não estava ligando se você ficava comigo ou
não!
Pude ouvir a dor em sua voz e o arrependimento era tão
claro como o dia.
— Minha nossa, quantas vezes eu disse que te amava? —
perguntei com raiva e muito sentida. — Quantas vezes eu disse
que você era o único para mim? Pelo amor de Deus, eu iria
aceitar o filho da Briana com todo meu amor se ele fosse
realmente seu! Eu te propus trabalharmos juntos o seu ciúme
mesmo odiando seus ataques de brutalidade! — Respirei fundo.
— Eu disse que sempre estaria do seu lado não importando o
que acontecesse, agora me diga, com minha vida perfeita do
jeito que estava, por que eu iria querer mudar algo? Rocco,
passamos uma semana incrível antes de tudo acontecer, acha
mesmo que eu sou tão volúvel ao ponto de em uma semana te
amar com loucura e na seguinte querer te trocar por outro e,
pior, levar o meu suposto amante para o seu apartamento?
Fiz uma careta e ele continuou de costas. Parecia com
vergonha de me olhar.
— Eu sei de tudo isso! — esbravejou. — Não pense que eu
estava feliz, eu não estava! Maldição, Victória, eu tinha nojo
delas perto de mim, e eu só as toquei quando vi que você
estava entrando no bar, nem pensei direito e, quando o fiz, eu
estava possesso com o que estava acontecendo. Até porque,
passei a tarde remoendo minha raiva e depois eu estava
morrendo de ciúme de Carlos.
— Você às vezes é burro demais! Como pôde ser tão idiota?
— Joguei as mãos, exclamando com raiva. — Será que não
confiava no seu taco? Homem de Deus! Você estava em mim,
dentro, fora, nos meus pensamentos e em meu coração, não
havia espaço para outro homem em minha vida. Eu fui para
você virgem, eu me entreguei às suas perversões, eu fiz tudo
que você quis e adorei cada pequeno segundo!
Rocco estava muito tenso, eu também estava, essa
conversa seria um divisor de águas.
Para o bem ou para o mal. Vai depender dele. E só dele.
— Eu me perguntei as mesmas coisas! Nunca me senti tão
idiota e eu me garanto sim!— murmurou agitado — Mas você é
tão diferente, desapegada, não se importava com meu status e
nem com nada do que eu oferecia, no fim eu me enxergava
como um bastardo problemático e briguento que poderia a
qualquer momento te perder por ser ignorante demais! —
Resfolegou, então fez uma pausa para poder continuar. — Eu
nunca tive que me preocupar com nada antes de te conhecer. E
do nada eu me via querendo esfolar um garoto só porque ele
ousou querer te tirar de mim.
— Vamos lá, colocando os fatos na mesa, e se eu não te
quisesse mais? — questionei me sentindo à beira de estourar
novamente. — E se eu resolvesse que você é problemático
demais, desconfiado demais, duro demais, reservado demais
para mim?! E se eu não te quisesse mais, Rocco, onde estaria o
problema?
Ele se virou para me olhar tão rápido que fiquei tonta,
Rocco estava com os olhos em chamas, brilhando no que
parecia ser loucura e apreensão.
— Estaria em todos os malditos lugares, caralho! — gritou
fora de si. — Como você poderia me moldar para ser seu e
simplesmente me deixar? Não sou um moleque que se apaixona
por uma mulher para logo em seguida se apaixonar por outra,
sou do tipo de homem que só ama uma vez! E o que eu sinto
por você me derrubou. Eu não poderia ser de outra! Maldição,
eu não serei de outra.
— Se você acreditasse que eu havia te traído você estaria
vivendo muito bem sem mim — acusei —, então não venha com
essa, não acredito! Você está tentando me fazer acreditar que
não vive sem mim, mas sei que isso aí é só porque eu nunca te
traí.
— Não tem nada haverá ver, muito provavelmente eu iria
te procurar depois, mesmo se você houvesse me deixado por
outro. Eu iria tentar de novo! Eu te amo, porra!
— Mentiroso! — disparei e ele rosnou. — Você nem
conseguia falar eu te amo antes de tudo acontecer! Eu arranhei
um disco de tanto que falei e provei com gestos o que eu sentia.
Mas você era travado e ficava naquela chatice de eu também.
Acha o quê? Eu ansiava ouvir, eu esperava ouvir, e quando foi
que eu tive isso? — questionei alterada. — Quando já era
muito tarde!
— Não sou mentiroso! — grunhiu. — E eu te disse várias
vezes, você que não entendia.
— É, SIM! — gritei e ele bufou raivoso. — Você falava em
italiano para que eu não entendesse, então fica claro que você
não se importava com isso realmente. A primeira vez que você
disse eu te amo foi por mensagem texto. — Joguei as mãos para
cima. — Quem faz isso? Meu Deus, estávamos juntos há
tempos, fazíamos planos, e você diz o que eu sempre quis ouvir
por mensagem de texto e isso porque você estava com medo por
causa das revistas com suas fotos e de Briana, já a segunda…
— Segurei um soluço doloroso. — … foi depois do acidente.
Pausei porque estava respirando muito rápido. Minhas
mãos tremiam muito e eu parecia a ponto de explodir de novo.
— Outra coisa, você amou Susan, que eu sei! — Apontei o
dedo fazendo-o estreitar os olhos
— Primeiro, eu demonstrei que te amava, eu ficava à sua
volta como uma abelha no mel, eu não poderia ficar longe, pois
o desespero e a saudade me deixavam insano. Eu sonhava com
você mesmo acordado, eu ouvia sua voz no silêncio, eu sentia
seu cheiro quando deitava à noite. — Estreitou os olhos,
revidando minhas palavras. — Então, se isso para você não é
amor, eu não sei o que é. E segundo, eu não amei Suzan como
amo você! O que eu senti por ela não toca nem a superfície do
que eu sinto por você. — Abriu os braços. — Eu fui
malditamente golpeado quando estava no meu carro parado em
frente a um sinal! Eu nem tive chance de fugir.
— O quê? Isso me parece obsessão, e não amor. —
Coloquei as mãos na cintura. — Pensa que não notei que
enquanto eu estava divagando sobre os excessos da sociedade
você achava que eu estava jogando?! Você é transparente para
mim, e eu via como o cinismo estava lá, mesmo sendo singelo.
— Não me culpe, acha que eu poderia imaginar que você
era autêntica? — Vi quando inflou o peito. — Eu cedi muito
facilmente, pois você me deixou sem defesas.
— Sinceramente, eu deveria ter compreendido que a
desconfiança está enraizada em você! — bufei balançado a
cabeça.
— Eu vivi disso durante muitos anos, não era como se eu
pudesse apenas estalar os dedos e boom, sou a porra de um
príncipe perfeito!
— Quem disse que eu queria um príncipe perfeito? —
questionei. — Você é tão imperfeito que chega a ser delirante,
pelo menos para mim você era perfeito tal como era. Pensa,
Rocco! Não sou idiota! Já reparou que todas as vezes que
brigamos, nos separamos ou o que quer que fosse, não teve
ninguém culpado, a não ser nós mesmos?
Negou minhas palavras.
— Sim, e não negue. Na boate começou com minha burrice
em aceitar uma "pastilha". — Fiz aspas com as mãos erguidas.
— Eu pensei que pelo fato de a garota não estar me bajulando
para conseguir um lugar na nossa mesa ela poderia ser legal,
em seguida você age como um troglodita e me trata como suas
putas! Mas o ponto não é esse, bastou uma adversidade para
você se voltar contra mim, bastou a necessidade de uma prova
de confiança para você reprovar com louvor!
— Eu te vi beijando aquele bastardo! E ainda tive que ver
a vadia chefe tripudiando sobre isso! — tentou se defender. —
Eu fiquei cego de raiva.
Balancei a cabeça. Era muita coisa para conversar, muita
coisa, mas iríamos resolver tudo hoje!
— E quando você não fica cego de raiva? — ironizei. — Na
primeira vez que você brigou na minha frente eu joguei meu
celular na cabeça do seu oponente, na segunda vez eu nem sei,
então houve a surra que você deu em um convidado na festa
da duquesa, depois Royce quase leva porrada, em seguida
Kadeon, o guitarrista da banda, ah, sim, meu pai… — Pensando
assim eu até fiquei chocada. — Quando você arrebentou com
aqueles homens no pub eu entendi que foi necessário, eu corri
para você, preocupada. Eu sei diferenciar violência gratuita de
legítima defesa.
— Eu sou assim, amore mio — murmurou esfregando o
rosto. — Eu não consigo ficar passivo, eu não sou passivo.
— Eu sei, e eu te aceitei, não foi? — entoei baixinho. —
Mas não vou mentir, você não tem noção do medo que senti de
você na boate! Sua raiva dirigida para mim e um pesadelo
encarnado, Deus me livre de estar do lado errado de sua raiva
novamente, você não tem controle sobre seu temperamento,
não sabe aceitar as decisões dos outros e se elas forem
contrárias às suas, aí ferrou de vez — acusei. — Mas admito
meu erro, entretanto, eu pensei que aquela vez serviria para
nos ensinar a confiar no nosso amor. Depois de tudo pareceu
que nossas juras de amor não passaram de palavras ao vento,
coisas banais como um bom-dia, ou até logo!
— Não diga isso! — Apontou o dedo para mim. — Não ouse
desmerecer nosso amor.
— Você está divagando na conversa! — apontei e ele
grunhiu, vindo para cima de mim.
Bobagem, eu não o temia. Agora não mais.
— Continuando… — Fiz pouco caso de sua força latente, a
ameaça nos seus movimentos, Rocco parecia um grande felino
pronto para dar o bote. — Pouco tempo depois as reportagens e
fotos com você e Briana surgem. Eu fiquei louca, te liguei, te
pedi para negar ou dizer que era mentira que eu iria acreditar,
mas pelo contrário, você apenas pediu perdão e eu entendi que
era tudo verdade.
— Amore mio… — ele tentou, mas eu neguei.
— Vamos colocar toda essa merda para fora, estou
entalada, e que Deus me ajude, Rocco, preciso abrir espaço,
porque algo me diz que ainda tem muita coisa vindo por aí.
Respiramos fundo ao mesmo tempo. Algo já havia aliviado.
— Certo, eu fiquei louca, mas não consegui nem chegar ao
estacionamento do ateliê antes de voltar e conversar com você!
— revelei. — Eu não podia só te julgar, eu tinha que saber das
coisas direito. Te perder não era uma opção para mim.
Esse era um momento importante, mas era complicado,
tocar em velhas feridas era como abrir um corte cicatrizado, só
para vê-lo sangrar sem poder fazer nada para evitar.
Por isso eu estava colocando tudo para fora, não iria mais
ficar presa a essas dúvidas e questões. Eu não gostava de
remoer o passado, o que estava feito, feito estava. O passado
não era mutável, todavia o futuro, esse, sim, precisava ser
preparado para que no mínimo acrescentasse algo de bom, em
nossa experiência de vida.
— Eu estava estressado, nunca me vi em uma situação tão
enrolada como essa. Deu pane, okay?! O foderoso Masari ficou
pela primeira vez sem saber o que fazer. — Fez uma gesto de
desleixo com os braços. — Eu sou humano também, por que
não posso errar? Caralho, eu me sinto pressionado até a
medula.
— Você me rejeitou, eu senti minha pele encolhendo
tamanha era minha vergonha, eu notei que estava te
pressionando e eu nunca seria um estorvo para você e seus
problemas.
— Eu sempre te quis e isso foi claro desde o início! —
acusou. — Eu nunca escondi, eu fiz tudo que tinha que fazer,
desde entrar escondido em seu quarto no casamento da minha
irmã até sabotar a lua de mel dos outros para roubar uns dias
para nós dois. Infelizmente, eu vivi sob curtas rédeas, meu pai
sempre disse que um filho bastardo não era aceitável, e mesmo
havendo um divórcio, nenhum chefe da família Masari iria
deixar um bastardo no mundo. Eu fui criado assim, programado
para ser assim. Minha família é uma das mais tradicionais, meu
avô era um tradicional siciliano, e se brincar era ainda pior que
meu pai, ele nem aceitava estrangeira na família, minha mãe
foi a primeira!
Ofeguei chocada, de tudo que ele me disse eu só consegui
pensar nele invadindo meu quarto de hotel no dia que o
conheci, pelo amor de Deus, nós tivemos um contato ínfimo e
ele…
— Como você ousou invadir meu quarto de hotel? —
esbravejei apontando o dedo. — Isso é coisa de psicopata, de
gente louca!
— Culpa sua que me fez ficar assim! — grunhiu. — Eu
nunca fui doido desse jeito por mulher nenhuma, mas você me
deixou fora da minha zona de conforto, me colocou para
trabalhar para te ter. E eu não tive nem como escapar, aliás, eu
não queria escapar.
— Eu não posso ser culpada por você e suas obsessões! —
Fiz careta. — olha para isso? Não nos fazemos bem, não
mesmo!
Esfreguei minhas têmporas, uma dor de cabeça querendo
aparecer ali.
— Não fale merda, Victória! Não nos fazemos bem? De
onde saiu essa bosta?
— Estamos aqui tendo uma discussão e nem estamos
juntos de fato! — Encolhi os ombros.
— Normal, os casais fazem isso o tempo todo! E continue
acreditando que não estamos juntos. — Deu de ombros. —
Estamos com os pés no altar, basta você me aceitar de volta,
até lá eu continuo sendo seu homem e seu noivo.
— Não nesse nível, meu caro! Estamos aqui discutindo
coisas desde o início do nosso relacionamento, nem acredito
que depois do pedido de casamento e aquela noite perfeita as
coisas iriam descer uma ladeira sem fim.
— Amore mio, eu aprendi com meus erros — murmurou
baixinho e se aproximou. — Me entende só dessa vez.
— Quantas vezes você disse para mim “Victória, essa foi a
última vez…"? Ou “amore mio, eu nunca mais vou fazer isso…”
“Nunca vamos nos separar”… — imitei sua voz. — Pouco tempo
depois a gente estava cada um para o lado.
— Victória, deixa eu te falar uma coisa. — Rocco respirou
fundo. — Antes mesmo de você revelar que estava grávida eu já
estava em pânico pelo que eu tinha feito, mas então quando eu
descobri que você estava grávida eu não poderia correr atrás
de você rápido o suficiente. Entretanto… — Ele fechou os olhos
e seu rosto perdeu um pouco da cor. — Quando eu te vi caída
no chão, banhada em seu próprio sangue… — Engolindo em
seco, Rocco tremeu um pouco. — Nunca senti tanto medo em
meus 32 anos! Fui engolido por arrependimento e mais uma
gama de emoções tão terrível e turbulenta que quase
enlouqueci, contudo nada vai me fazer esquecer o momento em
que seu coração parou de bater.
— Rocco, eu sinto muito por você ter visto, eu não queria
que você tivesse que passar por isso. — Uma lágrima escorreu
e eu a limpei com as costas da mão. — Se eu pudesse, de
alguma forma, evitar tudo que aconteceu, eu o faria. Mas eu
não tenho esse poder. Juro para você que muita coisa não seria
como é agora.
Ficamos calados e desta vez eu dei as costas. Minhas
emoções estavam queimando, fervendo a fogo lento, mas muito
perto de transbordar.
— Você morreu diante dos meus olhos — engasgou e eu o
senti muito próximo de mim, eu quase poderia sentir seu fôlego
em minha nuca. — Você fodidamente morreu diante de mim. —
Sua voz parecia assombrada, para não dizer medrosa. — Eu me
vi tão… — Virei-me e ele me olhou, então fechou os olhos e fez
uma careta horrível, em seguida, mais uma vez me deu as
costas, virando a cabeça um pouco de lado, mas não sabia se
ele podia me ver. — Eu nunca me senti tão traído pela vida
como naquele momento, tudo que já havia odiado, desejado ou
conquistado não valia nada. Eu senti tudo em mim se
quebrando e um desespero tão grande me tomou que, se você
não voltasse para mim, eu iria te seguir de uma forma ou de
outra. Nada se compara a essa dor, Victória, e foi aí que eu vi
que meu amor por você não cabe em mim, eu precisei ser
quebrado para poder ficar completo. Para poder te amar como
você deve ser amada, contudo, isso aconteceu da pior maneira.
— Sinto muito — foi só o que pude dizer.
— Eu ainda sou assombrado com a visão do seu coração
silenciado e seu peito parado, eu tenho pesadelos com seu
enterro, eu te vejo em um caixão e eu morro por isso. Dio mio,
eu desejei tanto que você vivesse para me odiar, eu só queria
que você vivesse. Eu iria correr atrás de você, me arrastar a
seus pés, fazer o que fosse preciso para te ter de volta. E
estaria feliz, porque você estava viva, e se me odiava era
porque estava… viva!
Mordi o lábio porque estávamos nos encaminhando para o
desfecho.
Ambos sofremos, mas estávamos aqui e talvez tivéssemos
que recomeçar, mas até lá…
— Eu dormi com você no hospital quase todas as noites,
eu entrava escondido e dormia com você. Carlos me ajudou
muito. — Sua voz soou nostálgica. — Eu me sentava do seu
lado e conversava, apenas conversava. Eu te dizia como te
amava, como eu queria que você se recuperasse, mas, acima de
tudo, eu te pedia perdão.
Ele procurou meus olhos, e o que eu vi em suas
profundezas azuis quase me deixou sem fôlego.
— Amor, se eu pudesse dar tudo que tenho para evitar
que você passasse por tudo que vem passando, eu o faria de
bom grado.
— Rocco, eu só queria poder ter o mesmo coração
confiante, eu queria voltar ao mesmo estado intacto, acreditar
na bondade das pessoas mesmo que por vezes me fizesse mal,
era algo que eu gostava, todavia, agora, e por causa do meu
príncipe imperfeito eu já não acredito nem em mim.
— Me deixa entrar de vez em sua vida — pediu baixinho.
— Eu sei que posso fazer isso, confia em mim?!
— Grandalhão, eu não estava bem há semanas, e ainda
não estou — murmurei. — Não gosto dessa confusão que me
assola, não gosto de ser complicada, não gosto de ser maçante.
Simplesmente não gosto dessa Victória que está aqui, diante de
você.
— Eu amo essa Victória, mesmo que tenha que recolher
seus pedaços, eu não me importo se… — Aproximou-se de mim
— Mas eu me importo — interrompi sua fala. — Ninguém
merece viver com uma pessoa instável, e eu estou assim. Eu
desconfio de você, não acredito quando diz que me ama, vivo
esperando que a qualquer momento você vá aprontar.
Ele fez uma careta, mas pareceu aceitar.
— Ver o vídeo daquele dia foi bom. — Dei de ombros. — Eu
vou assistir umas vezes mais, até me cansar e absorver. A
verdade é que eu, enquanto estava consciente, procurava não
pensar em tudo, mas aí, inconscientemente, eu estava indefesa,
preciso me curar. Isso é como uma doença, um veneno que
elimina meu bom julgamento. Além de, é claro, ver que não fui
tão golpeada como imaginei, eu estava de cabeça erguida e
enfrentei você como uma mulher digna faria.
— Ver aquele vídeo vai fazer com que você me odeie —
Rocco mordeu as palavras. — Não faz isso, por favor.
— Eu não te odeio depois de tudo que vivi, não vai ser
assistindo a um vídeo que vou te odiar. — Suspirei cansada. —
Eu estou como uma casa quebrada, preciso rever as estruturas
e ver se elas estão firmes mesmo.
— Eu vou te esperar, vou ficar por perto.
— Eu preciso de espaço, Rocco, você não me deixa dar
cinco passos de distância e eu preciso desse tempo para mim.
— Se você quer pensar, tudo bem, mas vou ficar por perto!
— exclamou, me olhando como se eu estivesse possuída. — Não
há chance de eu me afastar.
Puxei uma longa respiração e soltei o ar bem devagar.
— Vamos lá, amore mio, deixa essa conversa para lá, eu já
entendi o que você quer, não vou cometer erros, eu já aprendi
minha lição. Agora, per favore, me deixa cuidar de seus
machucados, seu braço está arranhado!
— Rocco Masari, foco no que interessa! — Passei a mão no
braço sem dar muita importância.
Mesmo sentindo arder, de todas as formas não era só isso.
Eu estava mantendo meu joelho travado, o músculo da minha
coxa estava começando a doer, e isso era prenúncio de uma
câimbra maligna.
— Não gosto de você agressiva! — exclamou deixando claro
a reprovação em seu tom. — Eu te conheci gentil e doce.
— Depois de tudo que passei você achou mesmo que eu
não iria mudar de forma alguma? — perguntei. —
Sinceramente, Rocco, você acha que eu continuaria sendo a
mesma tola de sempre?
— Não foi isso que eu quis dizer! — desviou o assunto
mais uma vez. — Eu só não quero que você perca sua essência,
só isso, a Victória que eu conheci era perfeita.
— E mesmo assim você não acreditou nela, talvez agora
você acredite, e outra coisa, não tem como perder algo que faz
parte de você, eu só amadureci, aprendi com meus erros e
melhorei com os acertos, sinto muito, mas não há possibilidade
de passar pelo que eu passei e não mudar de alguma forma.
Ficamos em um silêncio estranho, eu sei que minhas
palavras o magoaram, mas Rocco e essa estranha que eu me
tornei precisavam de um choque de realidade. A menina doce
estava aqui em algum lugar, entretanto, ela só voltaria a sorrir
quando estivesse segura.
Por fim, eu estava mesmo era tentando de alguma forma
buscar a solução para tantos desentendimentos.
Mas então, talvez, não precisasse procurar muito.
— Já ouviu falar no livro a arte da guerra? — perguntei.
— Não! — respondeu desconfiado.
— Então ouça: O conhecimento é a chave da Vitória.
Decifrar as próprias fraquezas, assim como a dos outros, é a
única forma de vencer todas as batalhas.
Ficamos em silêncio e ele estreitou os olhos. Então passou
as mãos pelos cabelos, nervoso.
— Eu disse todas as batalhas, Rocco Masari, e a chave é o
conhecimento, a sabedoria. Preste atenção.
Ele me olhava como se eu fosse uma mamãe hidra, com
duas cabeças e outra pronta para surgir a qualquer momento.
Revirei os olhos.
— Você precisa de disciplina! — deixei escapar e ele me
olhou tão intenso que até senti meu rosto esquentando. — Eu
te, enxergo Rocco, Você tem muita disciplina e foco no seu
trabalho, não é a toa que é tão poderoso e temido, além de
respeitado. Sei que consegue solucionar os problemas das suas
empresas com muita facilidade porque você é muito bom no
que faz, prova disso foi a forma como resolveu rápido a greve na
China.
— Amore mio, para mim isso é muito fácil, eu fui criado
para ser perfeito no ramo corporativo — murmurou um fato, e
eu notei que ele não estava se vangloriando nem nada. — Eu
não sei como agir quando o assunto é você, já disse desde o
início, você me deixou fora da minha zona de conforto.
— Eu te entendo, sim, mas, por favor, me enxerga! — sem
querer, acabei implorando. — Olha o que eu estou precisando,
olha o que você também precisa. Acha que estamos nos fazendo
algum bem?
Rocco me olhou e olhou, até que por fim acenou
afirmando.
— Não será a minha vontade — deixou claro e eu
concordei. — Me afastar? Um inferno.
Negou e eu esperei.
— Antonella está perto de ter os gêmeos — murmurou e
eu fiquei feliz por minha amiga. — Vou para a Inglaterra.
Senti um frio na barriga. Ele acabou de decidir, meu Deus!
— Vou ver como estão as coisas e volto — Rocco falava
com o maxilar apertado, ele estava meio que rosnando as
palavras. — Meu planos não eram esses, entretanto, a única
forma de te dar esse espaço é saindo do país, porque não existe
uma maneira no inferno de eu estar aqui e não ficar na sua
cola.
Concordei.
— Vou sair daqui amanhã — falou decidido, até tremi.
Ficamos em silêncio, até que ele rosnou algo em italiano e
praticamente voou em cima de mim e me beijou com dureza.
Chocamos nossas bocas com apelo selvagem e
desesperado, línguas que brigavam, paixão latente em algum
lugar muito próximo.
— Você sente isso, não é? — murmurou segurando meu
rosto e encostando nossas testas. — Pense bem, reflita, mas
não demore. porque eu não irei demorar amore mio. Não irei de
jeito nenhum.
— Tudo bem. — Pigarreei. — Eu só preciso de um tempo
comigo mesma e sem cobrança, pressão nem nada do gênero.
— Okay, já entendi. Só coloca na cabeça que eu te amo,
amo pra caralho, você fodeu com meu juízo, me deixando
viciado. Se prepare para ter-me rastejando em breve.
Engasguei ofegante e ele riu.
— Discussão esclarecedora, sou um bom aluno —
murmurou me dando um sorriso carismático.
Acho que agora vai!

***

Sair do apartamento de Rocco foi complicado, ele estava


irradiando estresse, tensão, fúria primitiva. Mesmo sorrindo e
dizendo que estava tudo bem, era tão óbvia a raiva dele que eu
me perguntava o que seria das pessoas à sua volta enquanto
ele estivesse longe.
Nosso beijo de até logo voltou a enrolar os dedos dos meus
pés. Eu fiquei molinha nos braços dele, sobre isso eu não tinha
controle, Rocco comandava meu corpo, só não mais meu
coração, entretanto eu sabia que às vezes os seres humanos se
enganavam, e talvez eu estivesse fazendo isso agora. Ele era
uma força da natureza, eu não cansava de repetir isso. E
graças a Deus eu encontrei coragem, até ousava dizer que o
fato de ele estar tão cuidadoso comigo ajudou a chegar ao
momento crucial de hoje.
Nós desabafamos, colocamos tudo que estava entalado
para fora, e foi bom. Como se um peso enorme saísse das
minhas costas, não ficou nada por dizer, tudo foi esclarecido,
tudo foi colocado em pratos limpos e, talvez, ou melhor, com
certeza poderei encontrar a velha Victória onde quer que ela
esteja.

***

Rocco

Enquanto jogava algumas roupas aleatoriamente em uma


bolsa, eu evitava pensar que iria ficar alguns dias longe de
Victória. Entendi que ela precisava desse pequeno espaço, mas
foda-se, isso estava me enlouquecendo, ficar longe era quase
como se eu estivesse assinando um atestado de desistência.
— Nunca! — Parei um momento.
Eu teria que ir a Londres de todo jeito. Precisava ver como
Antonella estava, saber como andava a minha diretoria, queria
deixar claro que não abandonei meus negócios, além de tudo,
precisava eliminar um item da minha lista de tarefas. Irei dar a
entrevista onde deixarei claro que Victória é o amor da minha
vida e que eu sou o único idiota com emocional atrofiado da
história, um homem de verdade assume sua culpa não
importando as consequências disto.
— Você sentirá minha falta, amore mio.
Meu plano era sumir por uma semana, esperava com todo
coração que ela sentisse muita falta de ter-me por perto, pois
eu sabia que iria enlouquecer esses dias e os idiotas dos meus
amigos que se preparassem, não me via sendo agradável com
ninguém.
O dia arrastou-se, foi uma merda. Ou melhor, foi a grande
merda.
O único momento incrível foi quando falei com Antonella e
ela me disse que os bebês nasceram. Pequenos ousados, não
me esperaram! Por um instante encarei o meu celular, o
repentino pensamento de que em breve eu estaria com meu
filho nos braços.
Meu corpo todo tremeu de ansiedade, um pânico terrível
começando a rastejar sobre mim.
— Uma semana. — Esfreguei meu peito, tentando enfiar
na minha cabeça que esses dias passariam como um piscar de
olhos.
Sacudi a cabeça, apertando minha bolsa de uma alça só,
sabia que não adiantava tentar me enganar, uma semana
demoraria mais de um ano para passar. Foi totalmente travado
que fiz os procedimentos de embarque. Quando entreguei meu
passaporte fiquei em um estranho cabo de guerra daqueles
que, o rapaz da alfândega tentava pegar e eu puxando de volta.
— Solte, senhor. — Relutante, entreguei.
Subi no meu jatinho como se uma tonelada estivesse em
minhas costas, e apesar de estar me sentindo louco, eu estava
aliviado. A conversa foi muito franca e boa. Victória colocou
para fora tudo que precisava e eu também.
— Então é isso, amore mio, estou indo, mas logo estarei de
volta, e então você será minha outra vez.
Capítulo 17
Rocco

Desembarquei em Londres e a primeira coisa que me


saudou foi a umidade e o frio. Estava acostumado a isso, mas
particularmente hoje existia um frio esquisito entranhado em
meus ossos, um tipo de desconforto que faz tremer de dentro
para fora, tal qual existem carícias que parecem tocar por baixo
da pele, isso é algo sensitivo e psicológico.
Mesmo de sobretudo até os joelhos, sentia tanto frio que
era como se estivesse pelado no Alasca, balancei os ombros
tentando aliviar um pouco a agonia que essa viagem estava me
causando. Foram muitos dias em suspenso, muitos dias
pisando em ovos e mais dias ainda morrendo de preocupação
por causa dos dois itens anteriores. O que alivia um pouco é
que agora sei, quando eu voltar, as coisas irão se resolver.
Meu motorista me esperava na área privada do aeroporto,
reservada para aviões particulares, em outros tempos, seria
Jason a me receber, agora, ele está fazendo algo muito mais
importante.
— Para o Hospital St Mary's — pedi desconfortável com a
sensação de opressão. Murdoch me olhou franzindo o cenho.
— O senhor esta se sentindo bem?
— Estou bem. — Esfreguei o rosto. — Para o hospital.
Preciso ver minha irmã.
Durante o trajeto eu pensei que em breve eu estaria do
lado oposto. Não iria à maternidade para fazer visita, eu iria ser
o visitado porque certo como o inferno eu vou ficar com Victória
até ela poder ir para casa. Mal posso esperar, desejo muito
saber com quem meu filho vai se parecer, será que ele terá
meus olhos azuis? Ou ele terá aquela cor completamente
perfeita de verde que sua mãe tem?
Estranhei quando algo deslizou por meu rosto, assustado
o toquei, notando meus dedos molhados.
— Amore mio, eu sei como machuca.
Quem poderia supor que eu estaria almejando ver o rosto
do meu filho pela primeira vez, quando há poucos meses eu era
do tipo que preferia o filho dos outros, longe da minha casa.
Com Victória eu tinha tudo, de sentimentos nobres a outros tão
brutais que assustam.
— Dio mio. — Esfreguei o rosto. — Eu deveria ter sido
algum bárbaro em vidas passadas.
Como refrear meus impulsos insanos se a maioria deles é o
que me instiga a continuar? Que me dá força para resistir
quando a desolação é maior que tudo? Impossível.

***

Cheguei ao hospital e fui direto para a ala da


maternidade, não iria passar pela ala de traumatologia nem
fodendo. Não me importei de tomar o caminho mais longo, fui
por ele. E já avistei Connor, o idiota aceitando os parabéns e
batidas nas costas de seus familiares.
— Rocco! — exclamou todo besta. — Você veio ver os
bebês?
— Que bebês?— Revirei os olhos. — Seu idiota. — Dei-lhe
um abraço e ele retribuiu, quando nos afastamos, Connor
estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Seja homem! Deixe para minha irmã chorar! — ralhei,
mas eu sabia que talvez eu me debulhasse quando chegasse a
minha vez, porém aqui eu não ficaria todo emocional.
Nem a pau. Não mesmo.
— Droga! — Encarei Antonella pálida, porém muito linda
em sua cama.
Ela mantinha um sorriso radiante em sua expressão
cansada, seus olhos azuis brilhavam de forma exuberante,
senti tanto orgulho que meus olhos arderam.
— Irmãozão. — Esticou os braços e eu fui para ela. — Você
veio!
Abracei-a apertado, enterrando meu rosto em seu pescoço.
— Não acredito que minha garotinha já é mãe — falei
emocionado. — Papa estaria orgulhoso de você, Sorella, assim
como eu estou.
Afastei-me um pouco para poder acariciar seus cabelos.
Antonella parecia confusa, e eu sabia que era por eu não ter
demonstrado muito carinho nos últimos anos.
Grazie, amore mio, por me fazer acordar enquanto ainda
havia tempo.
— Fratello. — Antonella suspirou e eu encostei nossas
testas. — Eu te amo, Rocco, obrigada por cuidar de mim
quando nosso papa nos deixou. Você sempre esteve ali quando
eu chorei, caí e quando eu estava doente eu sabia que era você
que contrabandeava chocolates para mim.
Sorri de olhos fechado.
— Sorella, assumir a responsabilidade de te criar me fez
um homem melhor, por você eu tive que frear meu
comportamento hedonista, eu tinha que ser um exemplo —
murmurei baixinho e ela fungou, acariciando meu rosto. —
Eu… — Engoli em seco. — Eu te amo, Antonella, você é uma
parte de mim.
— Você é o melhor irmão do mundo. — Sorriu e eu limpei
suas lágrimas, nossos olhares tão próximos, era como olhar
para mim. — Mesmo me matando de raiva e apreensão na
grande maioria do tempo, eu não mudaria nada em você.
Fiz uma careta. Mas era verdade, antes eu era
insuportável. Ainda sou, mas um tanto maleável, talvez.
— Eu tinha que manter um pulso firme, oras. — Sorri e ela
fungou. — Acha que eu deixaria minha garotinha livre no
mundo com tanto filho da puta solto por aí?
Antonella tentou controlar o riso, acabamos por nós
abraçar novamente.
— Parabéns, minha pequena, você será uma mãe incrível.
— Solta minha esposa, senhor Masari! — Connor tentou
soar chateado, na verdade ele até tentou um grunhido, mas
então eu sorri e pisquei um olho para Antonella, ela apenas
deu de ombros e eu me virei.
Ergui-me em toda minha estatura que era uns bons dez
centímetros maior que ele.
— É sério, idiota? — grunhi mostrando como se fazia
direito, então cruzei os braços em meu peito.
Connor engoliu em seco.
— Você engordou, foi? — mudou de assunto e Antonella
riu, mas logo gemeu de dor.
— Não se preocupem, são só os pontos da cesárea, por
favor, continuem.
Concordei e voltei minha atenção para o homem meio
tremente.
Revirei os olhos e me aproximei.
— Eu não engordei, ganhei quase dez quilos de massa
muscular, agora, se você vai rosnar para um homem, rosne
direito e deixe de tremer, você parece querer fugir e de frouxo
na minha vida já basta Mirros-vald.
— Você parece um lutador de MMA, não tem como
encarar! E eu ainda me lembro do que é ter seu punho
acariciando meu rosto! — reclamou e eu ri.
— Connor, o banana — cantarolei mas logo fiquei sério. —
Você é o homem da casa.
— Na verdade o homem da casa é o T-Rex. — Antonella riu
e Connor apontou o dedo.
— Bullying a essa hora do dia é sacanagem!
— Quem é T-Rex? — perguntei curioso e minha irmã me
olhou, os olhos brilhando.
— T-Rex é nosso papagaio, ele grita para o baby Dino,
nosso Pitbull macho.
— Pensei que você estivesse na cobertura que te dei. —
Prefiro uma casa, duas crianças precisarão de espaço para
ficarem cansadas. Mas voltando ao assunto, pois é, Connor
passou o posto e T-Rex veste as calças.
O marido da minha irmã ralhou com ela, mas eu o via
rindo também, em seguida ele começou a fazer carinho em
Antonella e eu senti inveja. Queria poder fazer isso com
Victória, queria ser meloso com ela, queria poder ser igual ao
idiota do Connor.
Ouvimos uma batida na porta e minha mãe entrou. Assim
que me viu ela só faltou morrer.
— MIO BAMBINO LINDO! — Revirei os olhos, mas logo eu
estava prensado contra o peito da minha mãe, sentia saudade
de ser cuidado. — Mio bambino.
— Só falta dizer que sou pequeno, para, mama! —
exclamei apertando-a em meus braços. — Estou constrangido.
— Olhe para você! — Ela se afastou e começou a inspeção,
agora que estou liberal ela voltou a me tratar como o fazia
antes de eu me fechar por causa da vadia-chefe. — Você está
mais forte, corado.
— Tente o sol do Rio de Janeiro, mama. — Ela continuava
me apertando e olhando todos os cantos que podia. — Tudo
bem, seu filho está ótimo, pode parar.
— Você está com uma sombra em seu olhar, pode me falar,
mio bambino — murmurou baixinho, querendo me desvendar.
— Para de me chamar de bebê ou eu juro que vou revelar
sua idade ao mundo! — Arqueei uma sobrancelha e ela me deu
um tapa no ombro.
— Seu insolente! — bufou em ultraje, o que nos rendeu
outra rodada de risos.
— Parem, eu realmente não preciso de gases agora! —
Antonella reclamou.
— Minha esposa está não me toque, frágil e manhosa.
— Frágil? Eu? — Antonella pareceu revoltada. — Não foi
eu que desmaiei na sala de parto! — Agora foi a vez de Connor
ficar vermelho. — Você, querido marido, caiu como uma fruta
madura.
Esperamos para ver o que Connor diria, mas ele apenas
sorriu e foi para beijar Antonella.
— Sou fraco diante da sua força, amor.
Minha irmã amoleceu e eu a vi como uma mulher pela
primeira vez.
Orgulho inflou meu peito.
— Fizemos um bom trabalho, papa, fizemos um bom
trabalho — suspirei e minha mãe pegou minha mão.
— Eu não poderia ter tido melhor filho!
Ficamos em silêncio e mais uma vez a porta abriu.
E uma enfermeira entrou avisando que Antonella
precisava ir amamentar os bebês. Com cuidado ela foi colocada
em uma cadeira de rodas, e qual não foi minha surpresa
quando ela me chamou para ir junto.
Eu quase não acreditei.
Fomos por um longo corredor, até o lugar onde ficava as
incubadoras.
— Você precisa se lavar e colocar as roupas especiais.
Roupas especiais?!
Travei na hora.
Minha memória viajando para não muito tempo atrás.
— Rocco, os bebês estão bem, apenas estão aí porque são
prematuros, mas estão ótimos. — Pisquei, focando em
Antonella. — Eu faço isso também, é só precaução.
Acenei e lá fomos nós.
Enrolei as mangas da minha camisa para lavar minhas
mãos e antebraços.
Estava apreensivo, acabei de chegar de viagem, não sei se
seria uma boa ideia chegar perto dos bebês. Talvez eu devesse
ir para casa tomar um banho e voltar, ou eu deveria ir ao meu
hotel, que fica mais próximo, será que…
— Rocco, venha, pare de se esfregar, você vai arrancar sua
pele! — minha Sorella me chamou, e eu estava todo esquisito.
— Eu não acho que deva ir, cheguei de viagem e vim direto
para cá, eu penso que talvez…
Organize as ideias, homem!
— Vem, meu irmão.
E eu não resisti, vestindo a roupa adequada, entrei em
uma sala com várias incubadoras.
Com cuidado serpenteamos pelo ambiente, silenciosos
para não assustar aquelas micropessoas.
— Olha eles aqui. — Paramos de frente para duas
incubadoras, em uma havia um bebê vestido de rosa, na outra,
um vestido de azul.
— Por favor, me deixe te apresentar Victória e Rocco
Masari Kingston — Antonella falou suave e eu me virei
bruscamente para encará-la.
— Você disse o que eu acabei de ouvir?
— Sim, e gostaria de pedir para que você e Victória fossem
os padrinhos.
Ótimo, Antonella, você me acerta bem em cheio no coração
e eu não sei nem o que dizer.
— Então você aceita? — perguntou ansiosa e eu só pude
balançar a cabeça concordando.
— Então sente na cadeira, você vai segurar Victória.
— O quê? — murmurei dando alguns passos para trás
enquanto matinha as duas mãos para cima. — Não posso. Olhe
o tamanho das minhas mãos! Eu não sei segurar um bebê, de
jeito nenhuma farei um absurdo desses.
— Senta logo, em breve será você com seu filho.
Sentei-me todo ereto, de olhos meio arregalados,
observando a enfermeira mexendo nas incubadoras.
— Victória. — chamei seu nome olhando para a garotinha
que era trazida para mim.
Dio mio, Antonella quer me matar.
— Junte os braços, senhor.
— Certo. — Engoli em seco.
Aos poucos senti o peso quase inexistente ser depositado
em meus braços, logo a enfermeira ajeitou a posição para a
segurança e conforto da bebê.
Encarei aquele rostinho miúdo e na hora uma porrada de
amor veio para cima de mim.
— Rocco.
Ergui minha cabeça e Antonella sorriu.
— Respire, Fratello. — fiz como mandou, até me recostei
melhor na cadeira, trazendo o pequeno pacote mais perto de
mim. — Relaxe também, Victória não morde. Ainda!
Sorri e fique ali, encarando aquela criaturinha tão
delicada e frágil. Alternei meu tempo entre murmurar palavras
de carinho e cheirar a cabeça dela. Às vezes eu apenas
esfregava a ponta do nariz suavemente, meus olhos fechados,
relaxado. Era um cheiro tão bom.
Ela abriu os olhos e eu senti amor à primeira vista.
— Acabei de me apaixonar por você de novo, amore mio.
Eu queria ter aquela sensação, mas queria segurar meu
próprio filho. E sabia que muito em breve eu o faria.

***

Olhar para a pequena Victória era o mesmo que ter uma


forte dose de calmante injetado direto na corrente sanguínea.
Seu rosto miúdo e o pequenino corpo era muito para meu
coração. Eu vejo Antonella aqui e sinto tanto amor que chega a
ser doloroso. Grazie a Dio, meu emocional foi descongelado da
era glacial em que vivia. Em contra partida, não apenas
emoções brandas foram desenterradas, as emoções turbulentas
também.
Eu vivi sob uma fina camada de civilidade, entretanto isso
era algo muito fácil de ser revertido. Eu era, ou melhor, eu sou
um homem violento. Eu tenho a fúria queimando sob a
superfície, era como um animal tenebroso preso por finas
correntes.
O estranho era que eu não tinha um trauma que me
deixasse assim, digo, eu curei meus problemas de
relacionamento, Victória me fez um novo homem, mas essa
parte obscura ainda existe. E eu não posso fazer nada. Era
como se de alguma forma essa perversão que há em mim
reconhecesse Victória como sua companheira, com ela eu era
manso, ouvia e tinha medo do que ela poderia fazer.
Com o resto do mundo eu era duro, frio, implacável.
Portanto cheguei à conclusão, ela é a minha parte que faltava,
o complemento da minha alma problemática, era meu farol em
uma noite de tempestade. Victória Fontaine era minha dona.
Sem mais.
Sorri quando a pequenina diante de mim começou a fazer
movimentos entre espreguiçar e mexer. Ela era uma coisinha
descoordenada e linda. Eu estava babando nela, só poderia
supor como seria quando tivesse meu filho.
— Ah, Dio mio. — Estremeci quando uma onda de pura
excitação e ansiedade tomou conta do meu corpo. — Sangue do
meu sangue, carne da minha carne. — Soltei o fôlego. — Meu
filho, como anseio por ti.
Fechei meus olhos um momento, idealizando um rosto
pequeno, suave, com cabelos negros.
— E lindos olhos verdes. — Sorri. — Os olhos da minha
amada Victória.
Não era só o momento, era tudo que me rodeava, esses
bebês, a esperança do recomeço em cada incubadora, tudo isso
colaborava para que eu estivesse me sentindo um homem
quase cem por cento.
Faltava apenas uma gota para eu ter minha família sob
meus cuidados, debaixo do meu teto, em minha cama, dentro
do círculo protetor dos meus braços.
Victória fez uns barulhos e eu voltei minha atenção para
ela. Eu estava há muito tempo em pé, com ela em meus braços,
balançando de lá para cá.
— Não sairei daqui, meu pequeno anjo — disse convicto.
— Seu tio vai ficar te fazendo companhia, você não vai ficar
sozinha. — Il mio angelo — murmurei em italiano,
aproximando-a para esfregar meu nariz em sua cabeça
cheirosa. Estava muito feliz por ter essa pequenina aqui, mas
não podia ficar com ela em meus braços durante o tempo que
eu queria, sabia que era uma questão de protocolo, mas mesmo
assim permanecia o máximo que podia.
Ainda tive que engolir minha insatisfação quando Victória
foi colocada de volta na sua incubadora, eu já havia conversado
com o médico e ele me disse que os gêmeos eram perfeitos, mas
por segurança ficariam ali, para ganhar um pouco de peso e
maturar.
— Posso continuar aqui com ela? — perguntei e o pediatra
neonatal responsável sorriu concordando
— Apenas respeite o descanso da noite, certo?
Acenei e ele saiu.
Fiquei por ali, com uma das mãos dentro da incubadora,
tocando-a com a ponta dos meus dedos.
— Ah, um mundo muito belo para você, conhecer minha
pequena. — Eu me peguei sorrindo. — Existem muitas coisas
que te farão sorrir, haverá também sonhos para você idealizar,
e saiba que eu sempre estarei aqui para te ajudar. Todas as
vezes que tiver problema pode chamar seu tio, eu irei te
defender dos monstros, juro para você, meu amor, que vou
sempre estar presente para quando precisar. Bastará me
chamar.
As horas passavam que eu nem percebia, esticava até o
limite do que era permitido, então, às vezes eu saía para comer,
mas sempre voltava.
— Sr. Masari, em vinte minutos ela irá mamar. — Ouvi
uma enfermeira falando, assenti, mas não a olhei. — Você irá
poder segurá-la. — Sua voz soou perto demais, e logo senti
quando tocou meu ombro.
Endureci na hora. Meu corpo foi de super tranquilo a
tenso em fração de segundos. Não foi algo bom. Trabalhava
muito duro para manter o controle e ficar calmo.
— Você é um tio muito dedicado — falou baixo e correu os
dedos pelo meu braço.
Bastou eu sentir que ela fez contato com minha pele, para
sentir asco. Por isso respirei fundo e voltei a mexer na bebê.
— Te dou três segundos para tirar sua mão de cima de
mim! — falei baixo, sem tirar os olhos de Victória, entretanto
minha voz era ameaçadora o suficiente.
Inflei as narinas.
— Um…
Mais uma vez parei meus movimentos, esperei-a afastar-
se.
— Mas…
— Três. — Puxei o braço. — Eu falei para tirar as mãos de
cima de mim! — Olhei de lado, moderando a voz para soar
ameaçadora mesmo estando baixa.
Assim que seus olhos me avaliaram, ela se afastou. Devo
estar com cara de psicopata, depois do episódio no bar
desenvolvi aversão ao toque de outra mulher. Não consigo nem
suportar, vivia perto de estalar.
— Depois do episódio… — Calou-se. — Digo, depois que
houve aquele escândalo eu pensei que você gostasse de ficar
com mulheres bonitas, e eu estou livre para você.
Não disse nada, chocado com tanto descaramento.
— Garanto que uma noite comigo seria inesquecível.
— Dispenso, sou comprometido.
— Olha para mim! — exclamou ofendida. — Eu sou
perfeita.
— Ache um homem para você, não estou aceitando vadias
na minha vida.
— Seu grosso, arrogante! — exclamou. — Ninguém iria
saber.
— Eu iria, e isso basta — cortei. — Outra coisa, a ética
mandou um oi, certamente Josef não irá gostar de saber que
tem uma funcionaria assediando familiares. Agora saia, antes
que eu faça uma reclamação formal.
A mulher saiu pisando duro, revoltada. Nem prestei
atenção, Victória estava segurando meu dedo com sua
minúscula mão.
— Apaixonando o tio, pequenina?
Fiquei absorto, até que a enfermeira oferecida voltou,
ficando ao meu lado.
— Sabe… — quebrou o silêncio — Você não deveria
recusar ou tratar mal uma mulher que tem algum tipo de
influência sobre sua vida.
Congelei.
As palavras dessa vadia entrando como pregos em meu
cérebro. Pude sentir cada um sendo batido. Ao fim, quando
compreendi o conteúdo de sua fala, entendi a ameaça. A
primeira onda de fúria me golpeou tão rápido que precisei
lembrar que minha sobrinha segurava meu dedo, depois
quando me soltei de seu fofo agarre, senti o primeiro tremor de
ódio.
— Não vai dizer nada? — questionou impaciente. — Eu
sou a chefe da enfermaria neonatal.
Adeus, programa de controle de temperamento, adeus ao
fato de estar em uma maternidade. Droga!
— Se você tivesse um pênis entre as pernas… — cuspi as
palavras, meu estado de ânimo fechado para uma pequena
tempestade. — Eu juro por Deus que se você fosse homem
estaria engolindo a porra dos dentes nesse exato momento.
Cruzei os braços, meus músculos tensos de raiva dessa
cretina.
— Meu Deus — murmurou chocada, mas eu não estava
me importando, ela ameaçou meu sobrinhos. Puta!
— Não sei o que se passa na sua cabeça, mas desde já
advirto. — Aproximei, contudo, não muito perto. — Eu não sou
alguém que você queira enfrentar, não sou alguém que você
queira prestando atenção em você, mas, acima de tudo, eu não
sou alguém para se ter como inimigo. — Respirei fundo,
tentando segurar o pior da minha raiva. — Você não
compreende que eu estou aqui, controlando o volume da minha
voz por causa dos bebês, contudo, vou deixar uma coisa clara,
antes de te ver saindo da minha frente. Preste atenção em como
se faz uma ameaça, serei direto, pois não sou do tipo que
manda mensagem subliminar, quando eu ameaço é para
entender mesmo.
— Estou saindo.
— Não mova um músculo, você provocou, agora vai ouvir
— grunhi me inclinando para frente, não sei como ainda não
veio ninguém aqui, de qualquer forma isso não faz diferença. —
Se você tentar algo contra meus sobrinhos, ou qualquer um
desses bebês, não importa o que seja, eu vou fazer mil vezes
pior, por isso, a partir de agora, qualquer coisa… ouviu bem? —
perguntei e ela acenou. — Qualquer coisa que aconteça com
eles, por sua mão ou não, você irá pagar.
Dei-lhe as costas e voltei para minha garotinha.
— Ninguém ameaça minhas crianças! — falei com
autoridade. — Se tem amor à vida.
Houve silêncio.
— Me perdoe, eu me excedi — murmurou apressada.
Não respondi.
— Perdoe-me?! — pediu aflita.
— Suma da minha frente!
Voltei minha atenção para Victória, ela estava abrindo os
olhos, e como era linda.
Talvez essa semana não demorasse muito a passar!

***

O dia que cheguei nem saí da maternidade, durante a


madrugada eu fiquei indo e voltando da enfermaria neonatal,
não preguei o olho em nenhuma hora, a realidade dos fatos é
que aqui era impossível dormir, principalmente alguém que
teve treinamento para ficar em alerta. Precisava conhecer meu
ambiente, não tem como dormir com gente entrando e saindo.
Quando fiquei aqui com Victória na vez em que Gordon a
espancou, eu trancava o quarto para dormir, e quando houve o
acidente, eu nem dormia.
O medo não deixava. Minha sorte agora é que os
pequeninos adoram ficar de plantão de madrugada, o que era
ótimo para meus propósitos, para minha tristeza, acabei
frustrado.
— Os bebês estão dormindo! — foi o que a nova
enfermeira-chefe me disse.
Por via as dúvidas, eu falei com Josef sobre o que havia
acontecido. Ele me conhece e sabe que se é para fechar o tempo
em Londres, estava aqui o homem que faria acontecer.
Notícia do dia.
A assediadora está na ala de curativos e soube, que
dependendo do caso, tem até que tirar bichos.
Senti um calafrio.

***

Hoje, não poderia passar o dia todo na maternidade, tinha


que ir à empresa mostrar que não estou morto e que estou de
olhos bem abertos.
Era por volta das onze da manhã quando fui para a casa
da minha mama, eu poderia, sim, ir para meu apartamento,
mas a última vez que fui até lá foi terrível e eu não sei se
consigo colocar os pés lá.
Não sei como está, talvez William ou Dimitri tenha retirado
a decoração da minha surpresa, entretanto, eu deixei tudo
como estava.
Cheguei em casa e Maria, nossa governanta, arregalou os
olhos quando me viu, depois ela sorriu, pisquei um olho indo
direto para meu quarto, queria um banho longo e relaxante. De
olhos fechados, recostei minha cabeça na parede do box, a água
escorria pelas minhas costas, meus músculos tensos, ansiosos,
mas, o principal, invadido por lembranças. O dia em que eu
encontrei Victória caída, indefesa no chão desse mesmo
banheiro, eu me vi preso em minha preocupação e ao medo,
precisava tirar aquela dor dela, ou eu poderia me partir
também.
A sua confiança em mim foi tão grande, ela se entregava,
aceitando minhas demandas.
— Dio santo. — Eu me sentia triste. — Eu a quero daquele
jeito, quero aquela confiança de volta.
Depois de tanto amor e cuidado, tudo pareceu entrar em
um espiral de autodestruição, e ainda, por fim, havia as
palavras da cigana.
— Eu perdi Victória, o coração dela parou, ela me odiou, e
agora? O que falta? —questionei-me e não procurei pensar
muito, eu não queria analisar essa profecia, agora eu estava
preparado.
Não vou cair de novo.
Ah, amore mio, o que foi que aconteceu com a gente?
Cheguei à empresa e todos olhavam para mim como se eu
fosse uma assombração. Talvez o fato de eu estar todo de preto
causasse uma impressão que assustava as pessoas. Só que eu
não acho que seja minhas roupas que estão deixando-os em
alerta, e sim a boca apertada em uma linha fina, demonstrando
meu descontentamento, nem sequer retirei meus óculos
escuros, creio que meus olhos assustariam ainda mais. Hoje eu
estava cáustico, endurecido. Uma aura sombria me rodeando,
sabia que era ameaçador, que tinha poder e que meus
funcionários me temiam.
Cheguei ao meu andar e me deparei com minha secretária
ao telefone, parecia entretida com a conversa.
— Mãe, tudo certo? Camille está bem? — Podia ouvir a
ansiedade em sua voz.
Esperei.
— Ah, certo! — Suspirou aliviada. — Desculpe, então
agora estou tranquila, vocês saíram juntas e por isso não
estavam me atendendo. Graças a Deus, estava preocupada com
a falta de notícias.
Estreitei meus olhos.
— Mãe, apenas me avise quando ela acordar, estou com
saudade da minha filha — Betty sorriu. — Beijos, eu amo a
senhora.
Esperei-a desligar e erguer a cabeça.
— Jesus Cristo! — Pulou na cadeira, colocando a mão no
peito. — Senhor Masari, desculpe… — Engoliu em seco.
— Boa tarde, Betty, já almoçou? William está aí?
— O senhor Savage já foi almoçar.
— Eu perguntei se você já foi, se sim, ótimo, se não, pode
ir! — Olhei meu relógio. — William deve estar chegando.
— Eu sim, eu já almocei.
— Qual o problema, Betty? Por que você está olhado para
mim com cara de quem viu a morte chegando?
Vi-a encolher-se, torcer as mãos, desviando o olhar, tirei
meus óculos e chamei.
— Olha para mim. — Eu a avaliei e vi que alguma coisa
estava acontecendo. — Na minha sala, agora!
Entrei e fui direto para minha cadeira, antes de sentar
tirei meu paletó.
— O que está acontecendo, Betty?
Esperei-a impaciente desdobrar todo o seu estresse em um
grande rolo de fofoca.
— Betty, sou eu, seu chefe que você conhece muito bem!
Você sabe como gosto de agir, sabe como eu sou, portanto deve
imaginar que quanto mais você enrolar, mais puto eu vou ficar.
— Senhor, eu não sei por onde começar! — Ela parecia
meio afogada. — Eu ouvi sem querer que hoje terá uma
reunião extraordinária para escolher um presidente interino, o
conselho está furioso pelo fato de o senhor Savage assumir
quando deveria ser algum membro da diretoria. — Assenti,
esperando-a continuar. — O senhor William, se brincar, tem
mais punho de ferro que o senhor. — Vi-la corar. — Ele não
tolera malcriação e da última vez ele berrou um: “Calem a
porra da boca! Incompetentes do caralho.”
Betty remexeu na cadeira toda inquieta.
— Certo, ele fez isso, e o que mais?
— Desde então as pessoas tremem quando ele entra pelas
portas, todos morrem de medo dele. Eu até ouso dizer que
muita gente nem consegue encará-lo. — Ela passou a mão no
pescoço.
Sorri sem acreditar que William amedrontou meus
funcionários ao ponto de estarem uma pilha de nervos.
— Então o conselho quer remover William sem me
comunicar? E ainda designar outro presidente para ocupar o
lugar?
Betty respirou fundo e concordou, ainda não me encarava.
Aí tem!
— Sim, senhor. — Mais uma vez desviou o olhar.
— Betty, não esconda nada, por favor, não teste justo hoje
minha paciência. — Tentei soar calmo. — Todos estão a favor?
Você sabe disso e o que ainda não está me contando?
— Pelo que eu ouvi apenas Judith e Ana estão brigando
contra essa decisão, e sobre a outra coisa. — Respirou fundo. —
Eles pretendem fechar as creches.
— É mesmo?
Betty acenou concordando.
— Vamos ver o que acontece agora. — Meu sorriso
aumentou
— Ainda bem que o senhor voltou — suspirou aliviada. —
Eles estavam prestes a dar um golpe.
Tolos, tolos.

***

Estava quieto, olhando para o Big Ben quando Dimitri


entrou na minha sala sem bater.
— Até que enfim você trouxe sua bunda até aqui! — Ele
me abraçou. — Então, irmão, como vai sua missão? Conseguiu
reconquistar Victória ou ela dissecou seu pau com um
maçarico?
Ri socando seu ombro.
— Ela me deixou em estado permanente de bolas roxas e
pau duro.
— Priapismo? — Fez careta. — Deve doer o inferno para
baixar, cara, é terrível. Uma seringa com uma fodida agulha
enorme e um pau duro, coitado, nunca mais será o mesmo.
— Experiência própria? — Arqueei uma sobrancelha
— Não, vira essa boca para lá, meu Dinkslicius é saudável,
dura o tempo certo e depois descansa para trabalhar em outra
hora.
Ri dando-lhe outro abraço
— Saudade das suas loucuras. cara!
— Louco, eu? — Fez uma cara ultrajada. — Você precisa
ver como está William.
— O que houve?
— Não sei exatamente, mas parece que um sócio do pai
dele, um figurão, apareceu das terras altas da Escócia para
reafirmar antigas alianças.
Franzi a testa
— E isso é ruim? — perguntei e o Dinka deu de ombros.
— O que sei é que depois de fazerem ótimos negócios, o
velho veio com uma proposta tosca que deixou o perturbado
doido.
— Quem? — questionei confuso
— William, o perturbado — respondeu —, combina mais
com ele agora.
— Caralho, irmão, você não tem um filtro entre o cérebro e
a boca, não?
— Eu não, não tenho filtro nem no pau, quanto mais no
cérebro! Aqui é puro mineral. — Sorriu presunçoso. — Faz bem
para a pele, serve como hidratante interno e externo e ainda
alimenta!
— Eu sou tão bom assim! — falamos juntos gargalhando
alto.
Confesso que senti uma saudade infernal desse infeliz. Tão
logo o acesso de risos cessou, a porta abriu.
— Ah, chegou o perturbado! — Dinka provocou.
— Vá se ferrar! — William grunhiu largando-se no sofá. —
Não estou aguentando viver com Carvershan tentando me fazer
casar com a neta dele! Eu, por acaso, tenho cara de
mercadoria? Pareço que estou à venda?
Ficamos em silêncio, mas logo o Dinka caçoou.
— Eu acho que se colocarmos você no site de leilões e-
Bay… — Segurei o riso quando Dimitri coçou o queixo. — …
ganharíamos uma grana! A gente pode dizer que o produto é
pouco usado, resistente a queda, à prova d'água e ainda dá
corda!
William rosnou levantando.
— Vai se foder, Dimitri!
— Ain, amor, só se você for comigo. — O Dinka juntou as
mãos, fazendo um gesto cínico.
— Eu desisto de você, Dimitri, francamente, você tem
algum distúrbio mental.
— O perturbado não sou eu! — rebateu e eu me divertindo
com esses dois.
Era um bate e volta interessante. Que conseguiu me
deixar um pouco aliviado.
O problema maior era que eu estava andando em uma
linha muito tênue. O rumor de que eu apareci correu o prédio
inteiro, mas como pretendia, fiquei o dia todo na minha sala e
Betty deu o recado que eu mandei.
"Sr. Masari veio apenas pegar alguns papéis, ele voltou
para o Brasil, saindo assim, pelo seu elevador privativo."
Os que estavam tentando derrubar William iriam proteger
um ao outro passando a confiança necessária para continuar o
plano. Só sendo muito estúpido mesmo para acreditar nisso.
Hoje, em vez de conseguirem a presidência, iriam conseguir
suas demissões.
Quando chegou a hora, fiquei na sala ao lado e esperei o
tempo que foi necessário, ouvindo a reunião sem interromper.
William era duro, implacável e muito pulso firme. Ele fazia jus
ao seu apelido de Conde de ferro. Permaneceu inabalável
quando falaram que iriam removê-lo do cargo de presidente
interino.
— Fraco — foi sua única resposta.
Então os ânimos se alteraram e eles vieram com um
pedido de saída imediata. O Dinka respondeu:
— Solicitação negada.
Ri baixinho, a dupla era muito boa, mas ficaria melhor
quando eu me juntasse.
— Se você ler o regimento desta corporação saberá, Sr.
Romanov, que este conselho tem autonomia para iniciar um
processo de votação e escolher um presidente provisório até o
presidente oficial voltar às suas funções — Robert Silas falou
todo confiante. — O Parágrafo 45 do regimento fala que…
— “Na ausência do presidente e não ficando um substituto
que seja compatível à função, o conselho está autorizado a
entrar com um processo de eleição para escolher um de seus
membros para assumir o cargo, tendo a autorização do
presidente oficial, esta eleição será procedente. Assim, fica a
cargo do presidente interino responder pelas operações da
empresa, em todas as suas unidades de negócios, assegurando
a correta estruturação das suas atividades, mantendo a
rentabilidade de acordo com os interesses dos acionistas, a
geração e controle de caixa como também os ganhos de
participação de mercado…” — Dimitri falou tranquilo. — Sim,
eu sei o que diz, pois fui eu que elaborei e redigi cada palavra.
— De qualquer forma, nós queremos… — Robert tentou
seguir adiante, era quase como se Dimitri não houvesse dito
nada.
— É improcedente! — Dimitri em modo advogado era
implacável, longe do idiota zombador. — O presidente não sabe
dessa votação, isso por si só já torna essa eleição enganosa.
— Nós não queremos um tirano nos presidindo! — grunhiu
Timoty Pamp. — Nós consideramos que o Senhor Masari está
mais preocupado com aquela menina do que com a empresa,
por isso temos direito de cuidar dos nossos interesses.
Empurrei a porta e entrei.
Todos se calaram. E a grande maioria estava perdendo a
cor do rosto. Muitas gravatas começaram a ser afrouxadas,
outros tilintavam seus copos de água, as gargantas
trabalhando em pigarros e tosses engasgadas.
Caminhei até a cadeira do presidente e William ergueu-se
com um sorrisinho maldoso, logo ele sentou à minha esquerda,
Dimitri estava à direita. Juntos, olhamos para os outros.
— E por isso também estão demitidos, para todos os fins,
esse conselho acaba de ser destituído!
O silêncio de choque não durou dois segundos, logo
começou a gritaria. Eram muitos berros de improcedente, de
isso não é possível…
Aqui é meu ambiente, eu mando.
— Dimitri, nos agracie com o parágrafo 8, inciso dois do
código de conduta. — Fiz uma pirâmide com minhas mãos,
pousando minha boca em cima, assim avaliei a cara de choque
de todos eles.
— Com todo prazer. — Sorriu debochado, logo pigarreou,
para clarear a garganta. — Parágrafo 8, inciso 2, código de
conduta: “Fica claro para todos os membros da empresa a
obrigatoriedade do decoro e a harmonia em suas áreas comuns
de trabalho como também no privado, chefe e secretária,
assistente pessoal e outrem com mesmo cargo funcional. Todos
devem prezar pelo bom convívio e principalmente pela
honestidade. Saindo desses parâmetros, cada indivíduo ou um
conjunto, se ficar comprovada a existência de perseguição,
assédio, violência, desonestidade ou qualquer tentativa de
motim que possa desestabilizar o bom convívio, fica a cargo do
presidente a decisão de quais punições serão aplicadas.
Ressaltando que se o presidente for detentor de mais de 80%
das ações da empresa, não precisará do conselho para afirmar
suas decisões, como também pode vetar todas e quaisquer
propostas aprovadas por ele, podendo destituí-lo, se assim
considerar correto.”
Todos estavam de olhos arregalados e daqui poderia ouvir
os corações batendo em suas orelhas.
— E, vejam, eu tenho mais de 80% . — Sorri. — Não é
legal? Eu me sinto ótimo, e para você, Timoty, aquela menina
será minha esposa, sua futura ex-patroa. — Por favor, retirem-
se. — Apontei para a porta. — Ana e Judith, quero falar com
vocês depois.
Foi um pandemônio, eu escutei a palavra processo uma
dez vezes, mas então Dimitri entrou pelo meio.
— Não tem problema, senhores, eu adorarei vê-los se
borrando quando eu os fizer terem que pagar indenizações
milionárias. — Então piscou um olho. — Secretárias… muitas
secretárias.
— Não sou um assediador! — alguém berrou.
Dimitri apenas deu de ombros.
— Nunca se sabe!
Quando todos saíram, ficamos eu e os rapazes.
Fomos para minha sala e lá nos largamos de qualquer
jeito no grande sofá. Mas eu queria mesmo era tomar um porre.
Mais um dia que aguentei ficar longe de Victória. Levantei e
peguei uma garrafa de uísque quinze anos. Abri, tomando um
generoso gole.
— Alguém quer? — Ofereci a garrafa e o Dinka pegou. —
Não vai perguntar onde eu estava com a boca?
Dinka negou.
— No máximo em uma boceta — respondeu tomando um
longo gole. — Mas como sei que Victória colocou seu pau em
quarentena e você, por consequência, também está, então não
tem problema.
— Escroto — rosnei, ele riu.
— Pelo menos não tenho cara de bosta boiando no mar —
revidou. — Foderoso Masari, você está feio.
William riu e eu também. Logo a garrafa passou para o
Conde.
— E aí, perturbado, você vai aceitar deflorar a neta virgem
do Escocês? — Dimitri perguntou como quem não quer nada,
logo ele se livrava da camisa. — Hoje eu durmo aqui, estou
morto. Exploração da porra.
— Primeiro, vai pra puta que pariu, Dimitri — William
respondeu. — Segundo, a cama é minha!
Ri satisfeito.
Se eu só conseguir me ocupar bem, esses dias passarão
rápido.
— Então vamos cair de porre? — Dimitri perguntou
animado.
— Com toda a certeza do mundo — u e William
respondemos juntos.
Capítulo 18
Rocco

Sentia calor, o suor escorria pelo meu corpo, sem muita


calma, arranquei minha gravata já frouxa, em seguida tirei a
camisa, os sapatos e a calça, tudo rodou.
— Foda-se. — Zonzo, voltei a me largar no sofá do
apartamento acoplado ao meu escritório. Meus olhos pesavam
para abrir. Parecia que havia areia em minha boca. — Calor —
resmunguei mais uma vez, porém não fiz nada para ajudar
minha situação, não sei se era a quantidade de álcool que
estava me esquentando, o tempo ou o fato de não ter ligado o
ar-condicionado.
Com muita dificuldade, pois a vontade que tinha era de
permanecer uma estátua no lugar para evitar girar como um
carrossel, abri um olho, vendo William largado no chão, com o
rosto colado a uma garrafa de uísque vazia. Tentei me erguer,
mas não dava, então só observei, entorpecido, o que ele falava
para a garrafa.
— Querem que eu te substitua — rosnou baixinho e
negou, sacudindo os longos cabelos loiros pelos ombros. — Não
nesta vida. Meu amor é só de uma mulher. É só seu, anjo. Só
seu.
Estreitei meus olhos abrindo a boca para falar, mas minha
língua estava embolada, imprestável demais para alguma coisa.
Procurei Dimitri e o encontrei numa situação tão lamentável
quanto a minha e a do conde.
Ele também estava agarrado a uma garrafa, mas a dele
era de vodca, uma Grey Goose que eu mantinha aqui para ele,
pois só sendo um bebedor profissional para tomar essa coisa
pura. Só de pensar em beber meu estômago embrulhou, pois
em algum momento eu bebi vodca também. E muito.
— Pirralha safada? — Dimitri grunhiu e circulou a língua
no gargalo da garrafa.
Afoguei uma risada, que situação ridícula.
— Perturbado — chamei e William me olhou.
Apontei o dedo para ele, rindo.
— Está com cara de cachorro que ficou fora de casa,
molhado e com fome.
— Toma aqui, idiota. — Estirou o dedo do meio. — Sabe
nem tratar uma mulher, Deus me defenda de ser tão imbecil
como Rocco Idiota Masari.
— Soltou a língua? — grasnei. — Seu doido, vive
remoendo o passado, vai procurar o que fazer e casa logo com a
neta do escocês, para você mulher é tudo igual mesmo. Pega
essa e pronto — revidei e ele riu.
— Desde quando? — perguntou de sobrancelha arqueada.
— Mulher tudo igual? Então Victória é igual à Susan? Ou à
Briana?
Já estava em cima dele, pronto para fazê-lo engolir os
dentes.
— Não fala da minha mulher. — Tentei socá-lo, mas estava
descoordenado e acabei por cair com a cara no chão, William
levantou rindo, mas escorregou e caiu de bunda.
Gargalhei alto.
Dio mio, como nós estamos ridículos! Será que poderia ser
pior? Não, certamente não. Pior do que estamos não podemos
ficar. Atingimos altos níveis de vergonha, quem vê de longe
pensa que somos um bando louco bebendo e discutindo. E o
pior, só de cueca.
— Olha para ele — William cochichou para mim, nossa
pequena desavença esquecida.
Ou melhor, não estava esquecida, porém agora, neste
instante, eu não tinha condições de bater nem em mim mesmo,
que dirá em outra pessoa.
— O quê? — cochichei sem nem sabe por quê.
William apontou e eu engasguei com minha risada.
Dimitri estava todo safadeza para o lado da vodca, puta
que pariu. Ele vai acabar estuprando a garrafa, coitada.
— Já ouvi dizer que depois que um pau entra em um
gargalho só cortando para ele sair, Dinka.
E lá se vai a Goose voando pela sala.
— Eu não estava tentando fazer nada… — defendeu-se. —
Eu estava apenas lambendo a bebida do gargalo.
— Não foi o que pareceu. — William riu e logo pigarreou e
imitou a voz do Dinka. — Ah, pirralha, quando eu te pegar,
você vai chorar.
Dimitri rosnou.
— Ah, Dinka, seu micropau deve causar cócegas, eu não
gosto de cócegas — eu imitei uma voz de mulher.
Recebemos dois dedos médios. Porém, desde quando
bêbado tem medo de algo? A gente é tão valente quanto
aqueles caras que brincam com crocodilos ou enchem a boca de
escorpião.
— Eu coloco ou não, pirralha? — William continuou a
irritá-lo e eu também.
— Ahh, Dinka, eu tenho medo do seu palito, quero dizer,
pauzinho.
— Filhos da puta! — berrou alto. — Eu não tenho nada a
ver com a pirralha, mas que raios! — grunhiu passando a mão
no cabelo. — Eu gosto das mulheres, todas elas, entenderam?
— Sim — respondi indiferente, mas William pareceu
revoltado.
— Como é que pode vocês dois serem tão ferrados e
idiotas? — gritou o mais alto que pode.
Olhei para William como se ele tivesse criado um terceiro
olho.
— Quem é você e o que fez com meu amigo? — questionei
hesitante. — O William não tem explosões de raiva, ele é mais
fechado que cofre de banco.
— Vá se ferrar. — William fechou a cara. Tão logo o
momento passou, Dimitri ficou aéreo, com cara pensativa, e
depois ele riu sozinho.
Doente!
— O quê? — o conde perguntou agressivo
Dio mio, o que está acontecendo com William?
— Quem é o menor de todos aqui! — cantarolei tentando
amenizar o clima. — Dimitri, óbvio.
— Que merda é essa? — Olhou dentro da cueca. — Eu não
sou pequeno!
— Eu também não e nem preciso olhar!— Pisquei um olho
e ele ficou ainda mais indignado.
— Qual o tamanho? — questionou de braços cruzados.
— Como se eu fosse dizer! — debochei. — Morra curioso.
— Parem de ser idiotas, parecem duas crianças
disputando quem cospe mais longe! — William chamou
atenção. — Eu sou o caçula dessa turma e você, Dimitri, o mais
velho, por que, em nome de Deus, vocês têm que ser tão
infantis?
Encolhi os ombros.
— Por que eu posso?
— Primeiro vai se ferrar, Rocco, segundo, deixa de ser
frouxo, Dimitri!
— Desculpa, mãe, não sabia que era frouxo! — Dinka
revirou os olhos e os fechou, logo recostou a cabeça na parede.
O chão estava sendo nosso lugar. Pelo menos daqui não
passaríamos.
Estava bom para mim.
— Eu não quero ficar amarrado a uma mulher, veja Rocco,
está imprestável, não quero passar por isso! Não quero uma
mulher me comandando — Dimitri reclamou. — Não quero de
jeito nenhum.
— Não sabe o que está perdendo — revidei. — Você não
faz ideia da intensidade do prazer. Veja bem, orgasmo com
mulheres comuns são como fogos de artifícios, orgasmos com a
mulher que amamos são iguais a explosão atômica.
— Você foi vítima de um feitiço, não é possível.
William estreitou os olhos e engatinhou até parar ao lado
de Dimitri.
— Desencoste da parede! — ordenou e o Dinka o mandou
ir se foder. — Desencoste, porra!
— Seu tirano miserável — reclamou, mas desencostou. —
O que é?
O som do tapa que William deu na nuca de Dimitri doeu
até em mim.
— Respeita a Victória!
O ato irritou Dimitri e ambos se embolaram numa briga
horrenda, não conseguiam bater, só tombavam e nada mais.
— É oficial, somos ridículos! — constatei quando meus
amigos se afastaram.
Ambos estavam respirando fundo.
— Govno! — Dinka grunhiu esfregando os olhos. — Tudo
roda, me sinto em uma montanha-russa.
Concordei e ele fechou a cara, irritado.
— E ainda o perturbado sou eu! — William bufou
Então instalou-se um silêncio que poderia ser pesado
tanto quanto um rock, esse era o tipo de silêncio que faz as
pessoas repensarem seus erros, problemas, dores, paixões
perdidas. O terrível silêncio nostálgico e doloroso.
— Dimitri, é tão obvio que você é louco pela pirralha que
chega a ser irritante essa sua recusa — William proferiu
pensativo. — Eu não entendo, como rejeitar tamanha oferta!?
— Ele demonstrava incredulidade ao falar. — Enquanto eu
imploro, sofro e desmorono apenas por uma oportunidade que
nunca terei.
Ficamos em silêncio.
Eu baixei a cabeça.
— Como recusa a chance de ser amado? — A voz de Will
soava distorcida pela amargura. — Como pode recusar
pertencer a alguém? Ter para quem voltar? Poder respirar
fundo e saber que ela está ali para você apenas ter a benção de
olhá-la?
O Dinka não sabia o que dizer. Eu também não. Quando
William resolvia libertar um pouco de sua dor, ela também nos
consumia, porque, para o bem ou para o mal, somos uma
família. Não irmãos de sangue, mas por escolha.
— É muito complicado — a voz de Dimitri se fez ouvir. —
Eu espero por… — Ele coçou a garganta. — Eu espero por ela.
Franzi a testa confuso, pelo visto existiam muitas
verdades ocultas por meu amigo.
— Eu… — respirando fundo, o Dinka desviou o rosto.
Pela primeira vez eu senti meu amigo inseguro. Seu corpo
estava curvado para frente, nessa mesma posição largada, ele
começou a falar, mas nunca olhando para nós.
— Eu estava, como posso dizer? — suspirou. — No meu
leito de morte? — Riu sem humor. — Eu sabia que não tinha
tempo, sabia que meu pai, aquele filho de uma cadela, se
recusou a fazer o teste de compatibilidade e por isso eu iria
morrer.
Eu e William trocamos um olhar.
Dimitri nunca nos falou sobre isso, digo, nós sabíamos de
seu calvário, sofremos para caralho de preocupação, mas dessa
parte, não.
— “Por que tirar uma parte de mim para esse bastardo?
Eu já o coloquei no mundo e ele deveria me agradecer por
isso…” Essas foram as palavras dele. Vocês sabem que não
havia ninguém compatível e sem um transplante rápido eu não
poderia sobreviver. — Sua voz tremeu um pouco.
Ouvimos como puxava o ar, vi quando ergueu a mão para
esfregar o rosto, mas o pior, quando notei que algo molhou sua
mão, e continuou a molhar.
— Irmão… — Eu me aproximei
— O bastardo do meu pai se recusou a fazer o teste
mesmo sabendo que eu não tinha chance. Ele ia me deixar
morrer. — A voz do Dinka soava raivosa, porém decepcionada e
triste; — Eu estava no fim, nenhum de vocês poderia me
ajudar. Como um pai pode deixar o filho para morrer?
— Cara, não precisar continuar, todos temos nossa cota de
dor — William interveio. — Como Victória disse, Deus não dá
um cruz maior do que nossa força para carregá-la.
— Sim, porém minha cruz não era algo que eu pudesse
carregar sem ajuda. — Dessa vez sua voz embargou. — Eu
lutei tanto para ser alguém, eu sofri tanto para conseguir
sobreviver em um país estrangeiro, sem ter nada para começar!
Por Deus, eu sangrei para conseguir tirar minha mãe e irmã da
Rússia e oferecer a elas um futuro digno. Eu não queria minha
mãe trabalhando em sua velhice, eu a queria descansando.
Não me importei de passar fome, frio. Eu me vi desesperado
grande parte dos meus primeiros anos na Inglaterra,
entretanto eu sempre encontrava uma saída, mas ali. —
Pausou tragando o ar. — Eu não poderia fazer nada, eu não
tinha escolha, ela foi tirada de mim.
— E você conseguiu vencer, cara! Você conseguiu realizar
todos os seus objetivos — resmunguei me largando do seu lado.
— Você é foda, Dimitri Romanov, venceu sem precisar do seu
pai e hoje ele chora para te ter do lado dele.
— Ele chora com medo de mim, isso sim! — grasnou, mas
logo suspirou. — Vocês sabem o quanto estive perto, não foi? —
perguntou e acenamos. — Vocês sabem que eu não tinha mais
esperanças, não tinha a quem recorrer, já havia perdido toda a
fé, eu estava entregue, sim, o imigrante podre, morto de fome
que nunca desistiu, que venceu na base do esforço e do suor e
das noites sem dormir estudando. O homem que jurou ser
alguém digno de orgulho estava entregando os pontos porque
não tinha mais o que fazer. — As palavras soaram esganiçadas
e revoltadas. — Eu sabia que não tinha muito mais tempo, eu
sabia que estava perdido, mas então…
O suspiro de Dimitri me deixou chocado, pois era saudoso,
amoroso e apaixonado, eu já deixei escapar muitos suspiros
assim, e agora que sabemos, o William também já deixou um ou
outro escapar também.
— Eu vagava entre a inconsciência e realidade. Não
conseguia diferenciar o tempo, parecia que em um instante eu
conseguia pensar e em outros, não. Então, em um desses
momentos de racionalidade, senti um toque diferente.
Dimitri pausou e nós esperamos, esse era um momento de
desabafo, portanto, não deveríamos empurrar o limite dele.
— Eu senti um leve arrastar de dedos pela minha
bochecha, então a carícia tocou meus lábio, em seguida subiu
para meus olhos e sobrancelhas. Não consigo explicar, mas
aquele toque me fez sentir algo mais que a dormência causada
pelos medicamentos, eu queria poder abrir meus olhos e ver
quem me tocava de tal forma.
Por que esse bastardo nunca contou nada!?
— Por fim eu senti que era beijado, mas infelizmente não
pude corresponder, meu maldito corpo não era mais meu, ele
pertencia à morfina e à incapacidade de fazer algo que outrora
fora tão simples, como corresponder a um mero beijo.
Agora Dimitri ergueu seu rosto e choque foi o que senti, ao
ver duas linhas de lágrimas em sua face. Aquilo me fez
endurecer, pois meu amigo nunca chorava, nunca ficava triste,
nunca desanimava. Ele sempre foi duro, mas brincalhão,
fazendo sempre suas piadas.
Por isso ver Dimitri assim era muito, muito preocupante.
— Por que ela não falou comigo? — questionou pesaroso.
— Assim eu poderia lembrar sua voz, isso seria alento para
meus dias de saudade. Sim, eu sinto saudade de um toque que
senti apenas uma vez, eu sinto saudade da delicadeza daqueles
lábios nos meus, mas acima de tudo eu sinto saudade da força
que ela me deu. Não havia dúvidas! Depois daquele momento
eu consegui um doador anônimo e fui salvo. Assim que me
recuperei eu a procurei, mas só soube que no dia do meu
transplante uma moça me visitou, ficou comigo alguns minutos
e depois foi embora. Ninguém sabe quem era, ninguém pôde me
dizer nada, nem as câmeras.
— Dimitri… — Respirei fundo. — Eu não sei o que dizer!
Mas, se quiser, posso pedir para Red, ele é um exímio caçador,
ele encontra tudo.
Rindo sem humor, Dimitri permitiu que seus ombros
caíssem.
— Eu já tentei, contatei todos os meus malditos contatos
no submundo, eu coloquei uma fortuna em jogo, mas ela sumiu
do mapa, como se nunca houvesse existido.
— Se você a encontrasse… o que faria? — William
perguntou diretamente.
O olhar do meu amigo parecia distante, muito devagar, ele
levou os dedos aos lábios, um leve sorriso se desenhava. Então
ele nos olhou, e a determinação estava gravada no azul dos
seus olhos. Eles queimavam de desejo e anseio.
— Não haveria nada que eu não fizesse para consegui-la.
Últimas consequências — rosnou baixo —, ela seria minha.
William assentiu, mas não desistiu.
— E se você nunca a encontrar? — perguntou baixinho,
arqueando uma sobrancelha.
E não demorou.
— Eu seria como você. — William o olhou firme. — E
viveria esperando!
CA.RA.LHO!
Foi só o que consegui pensar. Minha cabeça estava mais
lúcida, essa conversa pareceu queimar um pouco do álcool em
meu sistema porque, puta que pariu, que conversa.
— Não perca a sua chance, Rocco — William falou
baixinho. — Não permita que sua vida seja engolida por outra,
não espere estar como nós dois, fadados ao fracasso, esperando
por mulheres que nunca virão.
— Não espere por um beijo que nunca terá. — Dimitri
gemeu cobrindo os olhos
— Nem seja grato por viver apenas de lembranças —
William completou.
Cocei minha nuca. Eu me sentia um verdadeiro merda. Eu
estava envergonhado de como banalizei meu relacionamento
que era quase perfeito, envergonhado por ter tripudiado
apenas pelo fato de ter. Merda! Eu era um bastardo sortudo,
pois eu tinha a oportunidade de pelo menos tentar, e eles
simplesmente não a tinham.
— Rocco, nós te amamos — William falou e Dimitri
concordou. — Por isso você precisará ser feliz por nós três.
Respirei fundo e concordei.
— Então adiante, seremos os três — falei me inclinando
para pegar meu celular descartado no criado-mudo.
— Vai fazer o quê? — Dimitri perguntou
— Vou ligar para minha garota e pedir perdão —
resmunguei —, vou dizer que eu a amo e não quero ficar
sozinho. Vou implorar para ela me deixar voltar, estou com
saudade, meu corpo dói, estou agoniado.
— Não mesmo. — Dimitri veio para cima de mim. — Seja
homem! Se você disse que daria uma semana, então dê uma
semana, porra!
— Maledetto, eu quero ouvir a voz dela! — Empurrei o
Dinka. — William, seu infeliz, dá para ajudar? — chamei e ele
acenou.
Com cuidado ele se aproximou e, quando vacilei tomou
meu celular, arremessando no chão com força. O aparelho se
espatifou. Ergui minha cabeça sem acreditar, congelado de
choque e raiva.
— Escorregou! — Deu de ombros, a fachada indiferente
cobrindo suas emoções.
— Seu bastardo, aquele celular tinha o número novo da
minha garota! — rosnei para William, ele deu de ombros
novamente.
Era o caralho de um perturbado mesmo!

***

Em minha sala eu trabalhava para resolver alguns


detalhes para as mudanças nos cargos de diretoria e pensava
no tanto de merda que apenas um mês de ausência causou no
ego dos meus diretores. Depois daquele episódio com Gordon
estava muito atento aos passos desses idiotas. Apenas Ana e
Judith iriam fazer parte do conselho administrativo, seremos
por enquanto em três, a partir de hoje começam as promoções.
Aqui no meu ambiente eu comando, eu dou as cartas. Não
sou um tirano, mas estou quase lá. O fato é que eu apenas
cobro o que é devido, porém cumpro com minha parte. Então é
basicamente isso, se você quer exigir de alguém, cumpra com
seu dever primeiro, isso significa manter o curso. Tem que estar
em dia com suas obrigações para poder ter o direito de falar e
expor o que precisa.
— O futuro está sempre mudando — resmunguei absorto
em um mundo de informações.
Ouvi meu novo celular tocando, atendi sem olhar quem
ligou.
— Masari falando.
— Senhor, estou ligando para informar que a Sparks
solicitou uma entrevista para amanhã, eles buscam sua versão
do rompimento com Victória. — Pausa. — Eu não fui instruído a
recusar nenhum convite após seu retorno a Londres.
Fiquei em silêncio.
Chegou a hora! Iria puxar toda a carga do que aconteceu
para mim, agora que eu e Victória conversamos, eu acho que
posso colocá-la de volta na mídia, mas por outro propósito.
— Confirme — concordei e meu assistente de imprensa
soltou um grande suspiro feliz.
— Essa é a melhor decisão. Quando obtiverem sua versão
eles deixarão de dar tanto ibope a esse acontecimento e, assim,
deixarão a Srta. Fontaine em paz
— Mas eu quero que seja para a daqui a dois dias! —
concordei com tudo que disse.
Assim quando a entrevista saísse eu já estaria no Brasil.
Com esse pensamento e um objetivo em mente, terminei meu
relatório. Iria radicalizar, mas, claro, com a experiência que
meus anos me trouxeram, a partir de agora não haverá mais
erros.
Ouvi uma batida na porta e logo William entrava com um
semblante carregado.
— O que foi?
— Neta. Escocês. Insistência! — bufou se jogando no sofá.
— Você sabe o nome dela pelo menos? — perguntei e ele
assentiu.
— Marie — murmurou. — O que é estranho, porque ela
neta de escocês, deveria ter nome escocês. Foda-se.
— Qual o verdadeiro problema, William?
— Curiosidade! Ele fala tanto dela, o velho está aguçando
minha curiosidade, mas, Rocco, sejamos francos, eu nunca
poderia dar para ela o que Carvershan quer! — Suspirou
esfregando o rosto. — Eu nunca poderia fazê-la feliz!
— Por que não? — insisti. — Você é foda, William, pense
que está pode ser sua oportunidade, agarre.
William jogou a cabeça para trás colocando o antebraço
nos olhos.
— Eu não quero agarrar, eu não quero oportunidade com
outra mulher, será possível? Eu não quero outra mulher, eu
quero Isabela. só ela!
— William.
— Não dá — ele me cortou —, simplesmente não dá!
Pensa, quando estou com uma mulher, tenho que controlar
tudo para não sentir asco, mal consigo olhar na cara delas,
Rocco, faz dez anos que não dou um fodido beijo na boca!
— O quê? — Eu me sentia horrorizado com essa revelação.
Eu sabia que ele tinha gostos bem rígidos na hora do sexo,
não vou ser sonso e dizer que nunca fizemos festinhas. Eu e
Dimitri fodíamos a torto e a direito sem nos importarmos com a
presença um do outro, mas o conde era reservado, ele escolhia
e levava a garota dele para um lugar longe de olhos. Entretanto
uma vez eu vi e, cara, foi intenso, o conde não é muito suave.
— Sem beijo? Dez anos? — Ele assentiu. — Como é
possível?
— Eu tenho minhas especialidades, porém minha boca
pertence a meu anjo. — Agora ele me olhou. — E eu sou fiel.
Senti um peso caindo no estômago.
Eu tinha um rabo preso com isso, sempre que se falava de
fidelidade eu ficava me sentindo um escroto, minha nuca até
esquentava.
Era vergonha, inegável.
— Então sem beijo. — Eu ainda não acreditava. — William,
você transou com Isabela? — perguntei direto. — Você falou
que ela era nova, mas não sabia que tinham dormido juntos.
Suspirando ele negou.
— Eu dei meu último beijo nela, tá legal? Eu me afoguei
em sua boca e depois ferrei com tudo! — grunhiu. — Fim da
história.
Concordei sem dizer nada.
Qualquer mulher que for se envolver com ele, já irá iniciar
o jogo com uma diferença de vários gols. Competir com um
fantasma não é fácil, na realidade é jogar sabendo que vai
perder.
— William, faz o que você quiser, eu sempre vou estar
aqui para você, não importa se você for ficar sozinho para o
resto da vida ou casar com uma mulher a cada ano. Eu sou
amigo e nada vai mudar isso.
Ele me deu um aceno duro, ficamos em silêncio por um
longo tempo até que me senti oprimido.
— Eu já terminei aqui. — Ergui-me. — Pode assumir, vou
almoçar a caminho da maternidade, quero ver meus bebês.
— Certo — concordou vindo sentar em minha cadeira. —
Você que manda agora, Conde Dom.
Saí da sala rindo de sua cara ultrajada.
— Até amanhã, Betty — despedi-me, mas parei a alguns
passos de distância. — O que precisar, peça a William, e se
houver algum problema, é com ele também.
Notei que ela engoliu em seco e corou.
— Sim, senhor.
Sorri e me virei para seguir meu caminho, mas me lembrei
de algo.
— Betty, sua filha deu notícia?
— Ah, sim, falei com Camille ainda agora, ela está ótima,
obrigada por perguntar. — Baixou a cabeça envergonhada.
— Tudo bem.
Saí da empresa satisfeito, William estava cuidando de tudo
muito bem. Dimitri tinha o controle da parte jurídica, minhas
relações públicas estavam a todo vapor, e agora só falta a
entrevista. Com os pensamentos tranquilos caminhei até meu
Bentley, parti rumo à maternidade.
Assim que cheguei, fui direto para o quarto de Antonella e
mal me contive quando vi que os bebês estavam lá.
— Meu irmão. — Antonella sorriu.
— Porque estão aqui? É seguro? Não vai prejudicar eles?
Quero saber! Onde está o médico? — Afobado fui direto para o
pacote rosa que era acalentado nos braços da mãe.
— Posso segurar Victória? — Esfreguei minhas mãos
ansioso.
— Sinto muito, irmão, ela começou a mamar agora, mas
Rocco está livre para você segurar.
Nesse momento eu tive um estalo. Nunca segurei meu
sobrinho, vergonha, mais uma vez, esquentou minha nuca.
— Sim, por favor, eu adoraria. — Fui para perto do idiota
do Connor, e ele me entregou o bebê, o encarei e me apaixonei
de novo.
— Rocco — sussurrei cheirando sua cabeça, ele era lindo,
e quando abriu os olhos amoleci ainda mais. Vívidos e lindos
olhos azuis iguais aos da mãe, aos meus também.
— Bambino belíssimo — falei baixinho. — Perdoname,
amore, eu fui um péssimo tio com você. Mas vou compensar, eu
te prometo.
Agora eu tinha dois amores para dividir atenção e fiquei
em revezamento entre eles. Eles se tornaram minha calmaria.
Quando a família estava toda reunida, uma enfermeira chegou
para levar Victória.
— Vamos fazer a vacina nela. — Pegou a bebê dos meus
braços. — Ela volta para ser acalentada, se precisar, Senhora
Kingston, então a levarei para a avaliação.
— Tudo bem — minha irmã falou e eu fiquei meio duro.
— Eu vou acompanhar — adiantei, seguindo a enfermeira.
Quando chegamos à sala de vacinas eu ouvi uns berros
angustiados e já comecei a suar frio, pois meu filho também iria
passar por isso. Puta merda!
— Você pode segurá-la? — a enfermeira perguntou e eu
apenas concordei.
— Qual o seu nome? — questionei enquanto ela colocava
Victória em meus braços.
— Dynara. — Sorriu para a bebê.
— Nunca te vi por aqui.
— Eu não era dessa ala, mas fui remanejada quando a
enfermeira-chefe saiu — confidenciou tranquila. — Eu faço
parte da equipe do primeiro plantão, estarei aqui até as sete da
noite, se precisar de algo, pode chamar.
— Obrigado.
— Segure a perna com delicadeza, porém firme, vou furar
aqui e essa vacina dói — explicou e eu suei ainda mais.
Quando Dynara veio com aquela agulha para cima da
minha Victória, eu quase falei merda, quando sua mão pegou
uma minúscula porção de pele, eu quis morder. Mas quando
ela introduziu a agulha e minha pequena começou a se
contorcer, eu realmente perdi um pouco da razão.
— Calma, é melhor esse pequeno desconforto do que ter
uma doença que poderá ser seu fim.
Aquilo me aliviou, mas Victória, apesar de ter protestado,
não fez escândalo e eu a amei mais por isso, até parece que ela
sabia que o tio aqui era louco e a qualquer deslize poderia
surtar.
— Acabou e nem precisa ser acalentada. É uma mocinha.
— Sorriu. — Agora vamos, o médico irá avaliá-la. — Olhou com
carinho para Victória. — Seus sobrinhos são tão saudáveis,
creio que estarão liberados da incubadora.
— Eles ficaram trinta minutos no quarto.
— Calma, o médico mandou que ficassem lá para ver como
iriam reagir. — Sorriu de novo, transmitindo calma. — Vamos?
Preciso vacinar o outro bebê.
Eu fui e voltei, iria segurar Rocco também, e nesse tempo
aproveitei para conversar com Dynara, pelo que vi ela era
realmente apaixonada por crianças e trabalhava com muita
dedicação.
Rocco também não chorou, porém ele fez muito barulhos,
como se estivesse com raiva, na hora que a agulha fez seu
trabalho.
Eu ri e Dynara também.
— O pequeno é bravo — ela falou acariciando a bochecha
rosada e fofa.
— Tem a quem puxar! — Eu me orgulhei muito.
Com cuidado, ela pegou o bebê dos meus braços.
— Vou levá-lo para avaliação e depois irão tomar banho.
— Fez um carinho na cabeça de Rocco. — Você consegue voltar
sozinho?
Acenei um sim.
— Obrigado, aprecio seu cuidado com meus sobrinhos.
— Por nada, eu faço o que Deus me instruiu a fazer.
Deixei Rocco ser levado sem me sentir preocupado, essa
enfermeira passava confiança. Ademais, se ela ou qualquer
outro ousasse fazer alguma merda, teria um destino igual ou
pior ao da antiga "chefe".
Voltei para o quarto de Antonella e assim que entrei não
acreditei em meus olhos.
— Nonna?!
— Quem mais seria, seu garoto insolente?! — exclamou
alto sorrindo para mim.
Ri sem acreditar e corri para abraçá-la
— Você vai me partir, Rocco — reclamou batendo em meu
ombro. — Solte, garoto!
— Nonna, que saudade. — Beijei sua cabeça.
— Eu sei, e só não vim antes porque tive que colocar
Dante na linha.
Gostei da cara malvada que minha avó fez.
— Preciso saber!— exclamei ansioso e muito curioso, os
castigos da Nonna são traumatizantes.
— Mio bambino, você e sua irmã são meus netos favoritos,
não tem como negar, acho que apenas Marco se enquadra na
mesma categoria que você. O resto é um bando de
imprestáveis.
Sim, Marco era diferente, tanto que abriu mão de sua
herança deixada pelo avô paterno e foi tentar a sorte. Nem
minha ajuda ele quis.
Resultado, venceu na vida por méritos próprios, hoje é um
homem muito feliz e bem-sucedido.
— Marco é especial, vovó — Antonella falou e eu
concordei.
— Então, nonna, o que a senhora fez?
— Eu refiz meu testamento, deixando tudo apenas para
você, Marco e Antonella! — bufou. — Fiz uma reunião e
anunciei, todos ficaram furiosos, mas quem se importa? Eu
ainda sou a matriarca, oras, e sendo assim eu mando em todos,
inclusive em você.
Concordei.
— Então, eu soube da grande porcaria que Dante
aprontou na China e resolvi que ele deveria ser exemplo para
os outros preguiçoso coçadores de saco.
Engasguei.
— Nonna, que linguajar é esse? — perguntei chocado.
— Estou moderna, meu garoto, e você nem sabe, mas eu
tenho redes sociais e tudo. — Sorriu. — Tenho 3 mil seguidores
no Twitter e 2 mil no Instagram. Eles me chamam de vovó 2.0.
Balancei a cabeça, chocado. Eu não tinha rede social, digo,
eu tinha WhatsApp, mas eu era um espião fantasma.
— Continuando, eu tirei Dante e todos os outros do
testamento, ele ficou com ódio, mas quem se importa, não é?
Resumindo, mandei Dante para a colheita das uvas, ele vai
trabalhar para deixar de ser safado e virar homem. — Ela corou
levemente, mas sorria. — Soube que ele pegou piolho.
— Vovó, eu te amo! — Gargalhei alto, me sentindo
vingado.
— Eu também. — Suspirou olhando para mim. — Agora
abaixe um pouco. — Fiz como ela mandou e quase tive minha
orelha arrancada. — Você, seu atrevido de uma figa, como ousa
fazer uma palhaçada daquelas com a mãe do seu filho?
Ela puxou minha orelha com tanta força que minha
cabeça baixou quase à altura do rosto dela.
— Scusa, nonna! — lamentei e ela puxou ainda mais.
— Eu não ouvi!
— Scusa, nonna! — exclamei mais alto, sentindo que a
qualquer momento eu iria ter uma orelha a menos. — Per
favore, me solta!
— Eu gosto daquela menina, Rocco Gianello Masari! —
grunhiu alto. — Eu gosto dela e estou me segurando para não
te bater, não reclame, você está no lucro.
— Sí, sí. — Fiz careta. — Eu compreendo.
— Ela deveria ter esmagado suas bolas. Caspisce!?
— NONNA!
Antonella só fazia rir e eu aqui, sendo torturado.
— Vou te avisar, se eu sonhar que você não está honrando
suas calças e sendo um idiota completo, irei te caçar com o
cinto de couro do seu avô.
Fiz uma careta e ela me soltou, minha orelha queimava.
— Você entendeu tudo que eu disse? — perguntou
colocando a mão na cintura
Apenas acenei afirmando, eu não era doido de dizer não.

***

Dois dias depois


— Fontes seguras alegam que a matriz de toda a sua
corporação irá se mudar para o Brasil, isso é verdade?
Confirmei com um aceno.
— Eu estarei onde Victória estiver, transferir a matriz da
minha empresa é um grão de areia comparado ao que eu
poderia fazer por ela — fui direto —, por Victória eu movo céus
e terras.
— Vamos falar sobre o fatídico dia. Tudo bem para você?
Concordei.
— Senhor Masari, poderia nós explicar como tudo
aconteceu? — Jonnas, o entrevistador, perguntou
Remexi-me nervoso, mas não deixava transparecer, aquela
entrevista que iria tirar a fama de coitada de Victória. Eu sabia
que precisaria fazer isso, eis que o momento chegou.
— Eu cometi um erro, agi por impulso. — Respirei fundo e
olhei para a câmera. — Pensei que seria trocado, fiquei louco,
não poderia conceber a ideia. Então agi como o perfeito idiota e
quase perdi tudo que mais é valioso para mim.
Ouvi alguns suspiros, mas me mantive impassível. Meu
rosto não demonstrava muito das minhas emoções.
— Isso é uma pena, eu particularmente fiquei muito
preocupado com o que aconteceu — Jonas falou e bebeu um
gole de sua água. — Victória em pouco tempo se tornou muito
querida, e eu fui um dos poucos que tentaram barrar aquelas
matérias sensacionalistas.
— Eu agradeço e foi por isso que aceitei ser entrevistado
por você! — Inclinei a cabeça, fazendo-o acenar em
concordância.
— Farei algumas perguntas pessoais, mas, por favor,
responda apenas se achar que deve e se sentir confortável.
— Tudo bem.
— Quando você notou que havia cometido um erro?
Respirei fundo e em seguida soltei o ar pela boca.
— Eu soube no momento em que ela me olhou nos olhos,
meu mundo caiu e eu percebi o tamanho da merda que havia
feito. Desculpe a palavra.
Ele negou, fazendo pouco caso pelo pequeno deslize em
rede nacional.
— E sobre o acidente? — inquiriu. — Você estava lá, viu
todo o processo de resgate, como foi viver aquilo?
Oh, merda! Minhas mãos começaram a tremer, era
como se fosse um tipo de ataque de pânico sempre que eu
era obrigado a lembrar com detalhes daquele dia.
— Eu não tenho palavras para descrever, até hoje eu não
vivi sensação mais agonizante ou que me deixasse tão
aterrorizado — esfreguei a nuca. — Sabe quando você sente
como se a dor fosse tão intensa que no fim parece que seu
corpo todo dói?
O apresentador assentiu.
— Eu estava em um estado de loucura e medo tão vivo e
cru, que não era nem consciente das coisas à minha volta. Só
sabia que não poderia perdê-la de jeito nenhum, caso contrário,
eu não sobreviveria.
Um coro de “ohhh” e “ahhh” se fez ouvir. Aqui é como um
programa com plateia, essa entrevista especifica não é ao vivo,
e se fosse eu iria solicitar que fosse gravado, pois eu irei voltar
para o Brasil e queria assistir com Victória.
— Depois? Como foi?
— Um martírio, eu ia escondido para seu quarto, porque a
família proibiu minha entrada, então eu ia sem que soubessem.
Lá eu conversava com ela até minha garganta doer, eu
implorava, pedia para ela voltar para mim. Eu já não suportava
mais, precisava, queria ver seus olhos de novo.
Jonnas sorriu, os olhos brilhando de admiração.
— O amor de vocês é exemplar.
Sorri de lado.
— Iremos entrar em mais um momento delicado —
concordei. — Sobre as matérias de fofoca sobre Victória não ser
boa para você, sobre ela ser… — Jonnas fez um gesto para ver
se eu havia entendido e eu acenei que sim. — Por fim, o que
você tem a dizer sobre isso?
— Victória me enlaçou de tal forma que após ter cometido
o erro, eu fiquei tão louco, por medo de perdê-la. Eu nem
dormia de tão apavorado, eu estava sendo torturado pelo medo.
— Puxei o ar. — Depois, quando ela acordou e não me quis,
não, ela não me quis, Victória me expulsou de sua vida
enquanto eu rastejava, porque eu a amava, ou, melhor eu a
amo demais. Enfim, todas as vezes que ela me expulsou ou
recusou minha presença eu apenas a amava ainda mais, de
certa forma eu gostava dessa recusa, pois ela me mostrava que
Victória estava viva e bem para me odiar. — Ri baixo. —
Estranho, não? Mas eu amava o fato de ela me odiar, fazia com
que eu sentisse que tinha chance. Para você ver, eu tenho
todas as nossas lembranças, guardo tudo. — Olhei para a
câmera. — Em uma caixa.
Muitos gritinhos femininos foram ouvidos junto com gritos
de admiração. A plateia estava eufórica.
— O que Victória é para você?
— Victória é a mulher perfeita para mim, com ela eu sou
apenas Rocco, um simples homem. Ela não espera que eu seja
perfeito, ela não espera que eu sempre acerte. Victória
Fontaine soube com toda a sua doçura transformar um
libertino em um homem caído de amor. E hoje eu me arrasto a
seus pés porque sem ela eu não poderia e nem iria viver,
sobreviver? Talvez, mas sendo uma casca vazia, pois ela
completa minha alma, ela me deixa ansiando por mais dias a
seu lado.
Achei que era o momento do gran finale, olhei para a
câmera fixamente.
Em português falei, meu sotaque carregado.
— A força desse nosso amor fez seu coração voltar a bater,
amore mio. Eu te amo, Victória Fontaine, e sempre, sempre irei
te amar. — Sorri mantendo minha voz íntima, sussurrante,
cheia de promessas. — Mais te vale ficar comigo, pequena, eu
não presto para mais ninguém. Você me moldou para ser seu,
apenas aceite isso!
Parei de falar e várias mulheres choravam, outras
fungavam, e até Jonnas estava limpando os olhos
disfarçadamente.
— Você a ama muito, não é? — perguntou para encerrar.
— Sim, eu amo mais que a mim mesmo. Victória foi feita
em um molde perfeito para um homem como eu, ela não só
conseguiu fazer com que eu me apaixonasse, mas como meus
amigos também. Dimitri Romanov e William Savage são loucos
por ela. No fim, para todas aquelas que falavam que Victória
era uma idiota, eu só lamento. Victória é a mulher certa.
No fim, tudo saiu como eu planejei, e não duvido que em
breve o mundo poderia querer Victória como conselheira
amorosa. O dia passou rápido, grazie a Dio por isso. Tudo
estava bem encaminhado, e foi com um sorriso no rosto que
dormi.
Acordei com um sorriso enorme, ainda maior do que
quando adormeci.
— Amanhã! — Espreguicei na cama mesmo. — Até que
fim.
Levantei e tomei um bom café da manhã, estava morto de
fome. Daqui corri direto para a maternidade, Antonella iria sair
hoje junto com os bebês, minha irmã se recusou a sair e deixá-
los. Resolver esse problema foi fácil.
Minha Nonna estava por aqui, ela disse que sentia falta de
mim e de Antonella e agora iria curtir. Deixando os
imprestáveis da Itália se virarem sozinhos. Como eu ri. Agora
todos devem estar meio desesperados, porque o que mais tem
na família é pau mandado, ninguém consegue tomar iniciativa,
bando de encostado. Se eu tenho punho de ferro com essa
família, a Nonna é pior que eu.
A chegada de Antonella e dos bebês foi tranquila, minha
mãe e a nossa governanta até fizeram uma recepção de boas-
vindas.
— Também é culpa minha que você tenha vindo ficar aqui
em casa, Antonella! — Sorri. — Pelo menos no começo você vai
precisar de ajuda e mama irá fazer isso.
— Eu tenho casa, sabia?
— Mas aqui é maior e melhor para você!
Bufando, minha irmã revirou os olhos.
— Tudo bem.
Dimitri e William chegaram no início da noite, foram
enfeitiçados pelos bebês também. William agarrou Victória e eu
morri de ciúmes, já Dimitri pegou Rocco e o ciúmes também
cravou as garras em mim.
Foda-se.
Sou mesmo um grande ogro, por fim fiquei tranquilo,
apenas curtindo a calma, quando meu telefone tocou. Olhei o
número, e soube que era Red com notícias.
Pedi licença a todos indo para meu escritório.
— Notícias? — perguntei assim que a linha conectou.
— Pacote eliminado. — Ouvi a voz tranquila, carente de
emoção. — Tudo foi feito como planejado, sem rastros e sem
vestígios.
Esfreguei minhas têmporas, uma dor de cabeça dando os
primeiros sinais.
— Vocês a mataram? — questionei duvidoso.
— Não encostamos um dedo nela, eu não mato mulheres,
você sabe, entretanto os gêmeos são outra história, a questão é
que nós não a matamos, não diretamente, se é que me
entende — respondeu como se não estivesse nem aí. — Ela só
não aguentou ter um lobo e dois demônios em seu encalço, por
isso, digamos, que ela preferiu abraçar as águas do rio.
Não senti remorso, não senti pena, não senti
absolutamente nada, ou melhor, senti sim, alívio. Era menos
um problema e uma ameaça a Victória. Não era a morte que eu
pleiteava, mas se ela veio, então nada posso fazer.
— Mandei para seu email um dossiê completo dela. — Red
suspirou. — Ela era uma coisa bonita.
— Tanto faz. — Abanei a mão, não me importando. —
Estou abrindo meu email agora.
— Leia com atenção, você vai achar interessante a lista de
desejos dela. — Então desligou.
Típico de Red, quando acaba o que quer dizer, ele encerra
o papo não dando a mínima para a outra pessoa. Bastardo
escocês.
Procurei em meus emails o dossiê e abri ansioso. A foto
dela estava para carregar, mas primeiro eu iria ler.
Camille Carson, filha de Carlotta Ann Carson e Henry
Carson. Solteira, 24 anos. Estudante de administração na
universidade de Oxford.
Respirei fundo sem acreditar.
Oxford? A mesma universidade que eu! Coincidência ou
não?
Havia muita coisa para ler, mas quando vi o nome lista de
desejos optei por iniciar por aí.
*Lista de desejos da futura Sra. Masari*
1 — pedir uma nova remessa de ecstasy batizado com o
alucinógeno "amor";
2 — Ir para o Brasil;
3 — Me aproximar de Victória;
4 — Eliminar a vadia costureira;
5 — Matar o bastardinho (não vou criar filho de puta
morta);
6 — Não desistir;
7 — Chegar perto de Rocco;
8 — Me apresentar;
9 — Casar com Rocco e ser feliz;
P.S — Rever desejo 5, talvez eu tenha que aceitá-lo, mas
sempre posso transformar a vida do moleque em um inferno. E
GOSTO MAIS DISSO!
Desejo revisado.
5 — Aceitar o bastardinho e criá-lo com muito amor (kkk)

— Filha da puta! — Sentia-me puto de ódio. — Como ousa!


Maldita do caralho!
Puxei grandes doses de ar, meu corpo tremendo de
vontade de tê-la matado eu mesmo, lembro que só senti algo
parecido quando Gordon machucou Victória, entretanto agora
me sinto beirando a cegueira, em um momento de fúria
homicida.
— Não posso acreditar que essa louca pretendia se
aproximar da minha mulher com intenção de assassiná-la.
Quase podia sentir a escuridão que existe dentro de mim,
estava muito próximo de poder tocá-la, a única coisa que me
segurava são era a certeza de que tudo acabou, não existe
mais perseguidora.
— Você está morta!
Olhei mais uma vez a inacreditável lista de desejos, só
faltava ver a foto para exorcizar essa criatura para sempre,
porém, antes de clicar para carregar a imagem, algo me
chamou atenção.
Havia um envelope marfim em minha escrivaninha, eu
deveria tê-lo visto, mas estava tão afoito para saber mais sobre
quem era a perseguidora que nem o havia notado, agora,
prestando atenção, enxerguei um V&C belamente entrelaçados.
— O quê? — Meu coração pulou uma batida, e com uma
das mãos tremente peguei o envelope.
Ele era rico e trabalhado, as letras em alto relevo exibiam-
se dentro de um brasão que parecia da família real. O papel
parecia haver sido feito a partir de uma delicada renda
acompanhado de uma faixa de seda em um tom de ouro suave.
A aparência do convite gritava luxo e riqueza.
Devagar, porque não soube fazer de outra forma, retirei a
faixa abrindo o convite. As letras pareciam saltar diante dos
meus olhos.
Mr. Rocco Masari…
Precisei sentar, minhas pernas fracas demais para
sustentar meu peso, acabava de ser convidado.
— Victória e Carlos — Franzi o cenho, ainda sem entender,
era isso que se lia no convite. Os nomes de ambos dispostos
lado a lado, enormes e gritantes, esfregando-se na minha cara.
Convidam para seu enlace matrimonial às 18 h do dia…
Não consegui ler a data. O convite escorregou das minhas
mãos, fiquei olhando para ele no chão, em completo estado de
inércia. No fundo da minha mente, uma contagem começou.
Um… três… cinco…
— NÃO! — O primeiro berro rasgou minha garganta
inundando meu corpo com uma onde de fúria tão grande que
eu fiquei cego.
Num impulso empurrei tudo que tinha na minha mesa,
preso à destruição do meu estado animalesco, insano, comecei
a destruir meu escritório, precisava quebrar algo ou
enlouqueceria, fora de controle, atirei um vaso decorativo
contra a janela, fazendo-a explodir em milhares de cacos de
vidro. Isso não me acalmou, piorou. Adicionando ainda mais
gasolina à minha fúria incandescente.
— Maledetto — gritei a plenos pulmões. Meus olhos
seguiam selvagens, frenéticos. Sem querer, mais uma vez,
enxerguei o convite no chão, enlouquecendo de novo.
Bestial, um grande rugido, havia acabado de entrar em
estado primitivo e foi aí que a verdadeira destruição começou.
Explodi uma cadeira contra um imenso espelho, o estrondo foi
alto, pessoas invadiram o escritório, mas eu estava engolido
pela loucura, pelo ódio, pela raiva. Continuei a destruir tudo à
minha frente, acabando com tudo usando minhas próprias
mãos.
— Maledizione! Dottore bastardo — vociferei tão alto
quando pude. Estava surdo para os gritos ao meu redor, não
entendia uma palavra, consumido demais por uma onda negra
de rancor e violência.
Eu vou matar esse bastardo!
Senti braços tentando me deter, eu lutei. Cego, sedento,
raivoso. Um animal descontrolado e sofrendo. Meu punho
conectou com algo.
Houve maldições, até que uma frase me fez congelar.
— Victória, por favor, explica isso direito, você vai ou não
se casar?
Olhei para o lado e minha visão focou em Antonella, ela
me olhava com os olhos arregalados, temerosa por tudo
enxergava em mim nesse momento.
Trêmula, tirou o telefone do ouvido, mexendo nele.
Então:
— É verdade, Antonella, eu vou me casar.
A voz de Victória foi alta e clara. O celular estava no viva-
voz. Senti meu coração despencando e logo uma tempestade se
fez. Sacudi a cabeça, berrando em plena fúria o mais alto que
pude. Quem estava na minha frente saiu, sem me importar com
o estrago, esmurrei a parede mais próxima repetidas vezes
enquanto berrava maldições, xingamentos e promessas de que
não haveria caralho de casamento algum.
Houve gritos, mas eu estava como se estivesse possuído
pelo demônio do egoísmo, da possessividade e, desta vez, eu
não seria cauteloso em minha forma de trazê-la de volta,
tampouco mediria esforços.
À merda com o controle de temperamento!
Avancei para Antonella e ela arregalou os olhos inda mais
assustada.
Estendi uma das mãos sangrenta
— Me dá esse telefone aqui!
— Espera, Rocco. — Engasgou temerosa, mas me
entregou.
— Não vai haver casamento nenhum — avisei baixo,
ameaçador. — Não vai haver nenhum maldito casamento,
entendeu?
Pausa.
Minha respiração estava descompassada, meu corpo
rígido. Ondas e mais ondas de raiva me engolindo dos pés à
cabeça.
— Você esqueceu que é minha? — perguntei e quase gemi
quando ouvi seu ofego. — Estou a caminho! Vou buscar o que é
meu, e se esqueceu não tem problema, eu irei com todo o
prazer do mundo refrescar sua memória.
Houve uma curta pausa, eu ouvia sua respiração. Rosnei
baixo, me sentindo um animal enjaulado. Eu estava estressado,
com saudade, preocupado e muito, muito furioso.
— Está me ouvindo, Victória? — Passei uma das mãos no
cabelo, meu gesto característico.
— Então venha, querido. — Ouvi a voz dela, me deixou
duro, mas o choque por ouvir suas palavras me fez soltar uma
risada engasgada e ainda furiosa.
Era tudo tão óbvio.
— Estou chegando. — Desliguei o telefone.
Por um momento encostei o aparelho contra a testa,
fechando meus olhos, tentando me controlar. Fazia um silêncio
tenso, sepulcral. Parecia que até os insetos prendiam a
respiração.
Todos me temiam agora.
— Roubaram sua garota, meu neto! — Nonna falou e eu
rosnei, dando um aceno duro. — Então agora você vai lá e vai
pegá-la de volta.
Distorci meu rosto em um sorriso perverso. Dei outro
aceno, parecia animal treinado.
— Mas antes use as regras do seu avô — murmurou
afiada, caminhando até parar em minha frente, sem vacilar
colocou uma das mãos em meu peito ofegante. — Primeiro, tem
que manter a respiração calma; segundo, controle suas
emoções; terceiro, mantenha a postura certa; e o principal,
sempre mantenha o alvo na mira.
Piscou um olho e o Dinka a abraçou por trás.
— Quer ser minha avó também?
Acabei rindo, mesmo sendo uma risada carente de emoção.
Ridículo.
— Reserve uma poltrona para mim, querido neto, vejo que
precisará de ajuda e eu preciso de férias da minha própria
família. Quero calor. Sol e caipirinha!
Concordei, estava em modo Neandertal, ainda sem
conhecimento do alfabeto nem da oratória.
— Quanto a você, Dimitri, só digo para não se arrepender,
uma vez meu neto, sempre meu neto! Agora, nipote, chegou a
hora de os dados rolarem
Menos irracional, coloquei meu plano descartado em
prática, desta vez sem desistências, iria até o fim, ainda
trêmulo de raiva, liguei para meu capitão, segundos depois a
linha conectou.
— Sr. Masari, do que precisa? — Kostas era assim, curto e
grosso. Não falava muito mas, era objetivo e leal.
— Prepare o eclipse — ladrei a ordem, sem o mínimo de
cordialidade.
— Mais alguma coisa, Senhor?
— Sim. — Olhei através da janela quebrada para o céu
nublado de Londres. — Quero ele atracado em cinco dias no Rio
de Janeiro.
Capítulo 19
Rocco

Através da parede de Vidro da minha cobertura, eu


admirava as luzes de Londres. Milhares de pessoas vivendo
suas vidas pacificamente e ou outras, suas tragédias. Já eu
vivo e vejo o quanto meus pensamentos estão turbulentos,
trabalhando para evitar uma tragédia iminente. A vontade que
tinha era de riscar Carlos da face da Terra. Entretanto me odeio
por não conseguir odiá-lo. Durante alguns minutos após
desligar o telefone e mandar meu iate ir direto para a costa do
Rio de Janeiro eu pensei em como estripar o doutor. Iria
eviscerá-lo e depois enforcá-lo com suas tripas, lógico que eu
iria rir o tempo todo, satisfeito com o resultado de sua carcaça
sangrenta. Mas então eu não conseguia odiá-lo.
Minha única certeza é que Victória é minha e nada nem
ninguém vai roubá-la de mim. Não vou permitir que tomem
meu lugar em sua vida, ponto final. Por mais que desejasse
conseguia ser o merda de um homem altruísta e abnegado. Não
consigo deixar Victória ir, não é capricho, mas como alguém
pode sobreviver sem uma parte fundamental?
Não dava, minha única solução para não enlouquecer era
trabalhar na destruição desse casamento, a solução que
encontrei para manter a sanidade. Vou confessar que já tive
pensamento de correr para o Brasil, jogar Victória sobre meu
ombro e correr. Descartei essa hipótese, eu não posso jogá-la
no meu ombro por causa de sua condição, mas eu posso, talvez,
arrastá-la, chutando todo o caminho até meu jato, e fugir com
ela.
Isolado do mundo. Tão logo pensei nisso descartei a ideia.
Esperar está se tornando uma tarefa árdua, por mim eu já
estava no meu jatinho a caminho do Brasil, entretanto, Nonna
me advertiu, era isso que Victória esperava, e agora eu tinha
que surpreender sendo cauteloso, já que aquela harpia
venenosa da avó dela estará como um cão raivoso protegendo-a
de mim.
— Maledizione! — rosnei, jogando meu corpo de Brandy
contra a parede de vidro, e foi com ódio crescente que observei
o líquido âmbar escorrer como sangue. Agora não tem como ser
paciente, a única tática possível é declarar guerra.
Sinto muito, amore mio, mas sua avó precisa saber como é
Rocco Masari quando está muito, muito zangado! Meu corpo
tremia com ansiedade, mas junto a isso uma espécie de tristeza
carregada de dor se assomava aos meus intermináveis
pensamentos preocupados. Olhei para o céu tempestuoso de
Londres, eramos tão parecidos agora. Hoje o ele iria chorar
minhas lágrimas, porque o homem, apesar de sofrendo, ferve
em fúria. Um relâmpago corta o céu. Eu tremo de ódio,
esmurrando o vidro.
Dor corta meu braço e eu tenho vontade de rir. Rir da
loucura que me tomou desde que pousei meus olhos sobre
minha morena misteriosa, desde que provei seu primeiro beijo,
quando saboreei seu gosto único, quando tomei seu corpo
inocente, e loucura maior ainda quando me tornei um viciado.
— Maldito amor.
Joguei a cabeça para trás, berrando contra esses planos.
Contra o fato de eu admirar Carlos e saber que, talvez, ele seja
melhor que eu. Talvez essa seja minha maior dor. Saber que
talvez ele é, sim, melhor que eu.
Mas e o meu amor?
Como o meu ele não pode sentir. É algo maior que eu.
Expande meus limites de sentir, vai além do que posso tocar,
imaginar ou simplesmente ansiar. Torna o inalcansável
possível, e o possível fácil, o que era difícil passa a ser mero
detalhe, e o que nunca fora desejado passa a ser ansiado com
desespero doloroso e ansioso. Meu corpo parecia pequeno para
comportar a minha intensidade nesse momento. Minha
cobertura gigante parecia minúscula para abranger minha
fúria. Abri a porta da minha varanda, não me importando com
os risco de estar exposto em uma tempestade tão violenta.
O mundo talvez fosse de um bom tamanho para tomar o
que tenho para dar.
Outro trovão estremesse o ambiente, jogo minha cabeça
para trás, negando contra tudo que li no luxuoso convite. Nesse
momento, homem e natureza são um só. Ambos compreendem
a necessidade de violência a ser descarregada. Sinto os longos
dedos da noite tocando minha pele como lágrimas que
escorrem, amontoando-se aos meus pés, conectando com algo
primitivo dentro de mim.
Os relâmpagos me dão uma força selvagem, os trovões se
assemelham às batidas bruscas do meu coração, o frio queima
meu peito nu como fogo. Abro meus braços encarando a noite
tempestuosa, o vento gelado esfria minha alma que há muito
estava aquecida, o frio me toma.
E com ele a insensibilidade. Precisava ser quem eu era
para trazê-la de volta. Eu tenho que ser o Rocco destemido,
implacável e cruel, aquele, sim, não tinha medo de nada. Um
clarão ensurdecedor estremesse as paredes, eis que me torno o
pior que eu poderia ser, por ela e para ela, gentil. Mas para
reavê-la, o que seria?
Destruição!
Naquele momento, um relâmpago particularmente
perverso e poderoso concretizou aquele fato.
Minha boca se contorceu num sinistro sorriso.

***

— Rocco, não gosto da sua expressão! — minha nonna


exclamou e eu estreitei meus olhos.
Estávamos no meu jatinho, a caminho do Brasil. Durante
esses dois dias eu fui o que por muito tempo eu havia sido e
esquecido, voltei à estaca zero, me tornei eu de novo.
Ordenei que um obstetra e uma enfermeira fossem
escolhidas por Josef para irem para o Brasil. Especifiquei o
trabalho, que consistia basicamente em ficar dentro de um iate
luxuoso por um tempo indeterminado atendendo a apenas uma
única paciente. Ofereci uma fortuna para este trabalho, e o
problema foi resolvido. Ambos estão a caminho agora mesmo e
irão ficar hospedados num hotel até o dia do embarque.
Minha mulher precisa de um especialista para cuidar dela.
E ela terá.
Em seguida, dei ordens para montar um consultório no
meu iate com os itens básicos de assistência que uma grávida
precisa. Passei esses dois dias organizando a viagem para
minha ilha.
— Estou ótimo, Nonna. — Minha voz soou baixa,
ameaçadora, não era que eu estivesse fazendo de propósito, eu
só não conseguia desligar.
Eu entrei em algum modo homem primitivo e pouco me
importava.
Eu tinha um foco e estava concentrado nele.
— Você se fechou, Rocco! — Inclinou para a frente, fiz o
mesmo. — Não quero isso.
— Inevitável. — Encarei minha Nonna. — Não preciso de
fraquezas agora, preciso ser implacável, ou as consequências,
se eu falhar serão muito ruins, tanto para mim quanto para
outras pessoas, acha que se eu falhar não irei desatar meu
ódio em tudo que eu puder?
— Você está do jeito que deve, meu garoto. — Parecia
satisfeita. — Aquilo que não te quebra, te fortalece.
Recostei em minha confortável poltrona, sorrindo cínico
— Se supõe, vovó, estou apenas indo buscar o que é meu
de volta, entretanto, eu não provoquei, apenas fui o provocado,
e se é assim… — Dei de ombros e ela completou.
— Apenas estejam preparados para tomarem sua dose,
assim é meu neto, e assim sempre será. — Sorriu cúmplice. —
Não se pode despertar um gigante de seu sono e querer que ele
não cause nenhum estrago.
— Exatamente!
Minha nonna assentiu satisfeita e recostou-se em sua
cadeira, voltando sua atenção para o notebook
— Porra, nonna, quando vai falar comigo assim? — Dimitri
perguntou e eu o olhei.
Os olhos do meu amigo brilhavam.
— Quando chegar sua vez de receber ajuda de alto nível.
— Piscou um olho e Dimitri soprou um beijo para ela.
— Já falei que te amo?
— Você é um idiota, Dimitri, e, sinceramente, não sei por
que veio — William falou tranquilo. Logo me olhou, como se
saudasse. — Eis que você voltou, foderoso Masari.
— Eu nunca fui a lugar algum.
— Suponho que agora você estará vislumbrando a época
em que fodia os crânios alheios e quebrava uns quantos ossos
por aí? — perguntou cruzando os braços.
— Você supõe muito, Conde de Ravembrock. — Nós nos
encaramos.
— É, Foderoso Masari, se supõe. — Deu de ombros
voltando a ser o mesmo bloco de gelo que ele era na grande
parte do tempo.
— O monstro e o perturbado — Dimitri murmurou. — Uma
dupla quase perfeita. Deus me livre de ficar como vocês.
Juntos, eu e William olhamos para Dimitri, e ele apenas
levantou um punho, estirando o dedo.
— Idiota! — murmurei
— Agora sério, desfaz a cara de demônio ou Victória vai
correr.
— Eu sei uns quantos truques de caça, querida boneca
Matrioska, não se preocupe, eu tenho o esquema em mãos.
Então Dimitri rosnou quando fiz referência à boneca
russa, mas então esfregou as mãos, um sorriso puramente
libertino e pervertido carregou suas feições.
— Não acredito que estou indo ao encontro do jardim do
paraíso.
— O quê? — William perguntou erguendo os olhos do seu
computador.
— Brasil, onde só tem mulher gostosa, muita bunda linda,
é um paraíso. — Suspirou virando uma revista. — Olha essa
aqui. — Apontou lambendo o lábio. — Um homem poderia
nunca achar o caminho de casa.
— Filho da puta! — William sorriu.
Senti meu corpo apertando.
Eu tenho minha própria bunda brasileira para cuidar,
aliás, estou com muitos planos para castigá-la!
***

Desembarcamos no Brasil às nove e vinte da noite. O calor


do Rio nos saldou, fechei os olhos por um instante para
revigorar e espantar o frio.
— Onde fica o melhor bar? Vamos lá, Conde, vamos pegar
umas brasileiras e cair matando, estou doido para provar uma
sul-americana, quero ver se são tão fogosas como contam as
histórias.
— Quantos anos você tem? — ralhou o conde. — Deixa de
ser afoito, tenha calma.
— Desde quando um morto de fome tem calma quando vê
um banquete? — perguntou parecendo confuso. — Não
entendo, porque, cara, eu iria cair de boca, comer com a mão e
tudo.
— Tarado!
— Idiota.
— Escroto!
— PAREM OS DOIS! — nonna berrou fazendo com que
ambos se calassem. — Iremos para casa e ninguém vai sair.
Ponto.
— Sim, nonna — responderam juntos e eu ri.
As malas foram colocadas no grande SUV que nos
aguardava. Logo, estávamos a caminho do meu apartamento.
Durante o trajeto, o Dinka estava com a cara pendurada na
janela soltando assovios para as mulheres na orla, ele até
conseguiu um número anotado na mão quando o carro parou
em um pequeno congestionamento.
— Nonna, dê um jeito nele! — William reclamou, pois o
Dinka não parava de soltar gracinhas para as cariocas.
— Eu estou no céu — murmurou soltando um longo e
generoso assovio.
William se inclinou para olhar e vi quando se remexeu
desconfortável.
— Vejo que você não é imune as brasileiras, Will — Dimitri
provocou debochado.
— Cala a boca idiota!
Rimos e eu sabia que em breve as brasileiras estariam
caindo na rede dos meus amigos pervertidos. O resto do
caminho continuou com Dimitri tentando flertar, e agora
William estava mais atento, de vez em quando ele fechava as
mãos em punhos e fazia uma expressão dolorosa, mas, ainda
assim, permanecia controlado, não falava nada. Eu sei bem o
que está passando, meu amigo, ficar excitado e não ter como
resolver machuca.
Não pude evitar ficar tenso quando chegamos ao
residencial. Meu corpo endureceu num piscar de olhos.
Estávamos dentro do Riserva Golf. Cheguei, amore mio.
Mais uma vez eu me vi perdendo o controle, a raiva
começou a surgir em ondas.
Era como se eu fosse de zero a cem em um segundo e, por
isso, estava mais para bicho que gente.
— Vou mostrar onde fica nossa casa. — Caminhei
apressado com duas malas, nem sentia o peso, só tinha
necessidade de ver e tocar Victória.
— Monstro, compartilha o peso — Dimitri pediu tentando
pegar uma mala
— Para de me chamar de monstro!
— Você se parece, fala e age como um monstro, então,
para mim, você é um monstro. — Deu de ombros. — Você está
inchado e gigante. Carrega duas malas pesadas como se fossem
sacolas de pão. — Ele me avaliou um momento e pareceu
pensar. — Você é um monstro mesmo.
— Grande puto! — cuspi e ele riu.
— Me chame de grande prostituto, porque, cara, eu vou
oferecer meus serviços, já viu as belezas aqui? Farei hora
extra.
— Eu ainda vou te sentar o murro nessa sua cara de pau
— Olhei para minha avó. — Desculpa o palavreado, Nonna, por
favor, entre na frente.
Esperei minha avó passar e entrei, o elevador era grande,
então todos estávamos juntos.
Falei o código para William e logo subíamos, mal entrei no
hall e já fui largando as malas.
— Não preciso dizer que estão em casa, agora preciso ir.
Voltei para o elevador e já ia fechá-lo quando minha avó
interrompeu.
— Controle as emoções, respire com calma e mantenha o
controle, não esqueça — concordei e ela me beijou. — Agora vai
lá e me orgulhe!
— Sempre.
À medida que o elevador descia, eu tentava controlar meu
temperamento. Não adiantava eu ir com sede ao pote, isso iria
colocar a perder todo o meu esquema, agora eu só precisava
marcar território e pronto.
Precisava mostrar que eu cheguei, que estou vivo e pronto
para briga.
Se quer casar? Ótimo! O noivo serei eu!
Respirando fundo entrei na recepção de seu prédio.
A primeira pessoa que avistei foi Mirros-vald. Ele estava de
cabeça baixa, lendo alguma coisa. Aproximei-me
silenciosamente, fiquei ali, ouvindo-o lendo.
Cruzei os braços e esperei. Sua leitura deveria ser terror
pelo estremecer, ainda que estivesse tão concentrado.
— Ele é o mal disfarçado com sorriso, cuidado, não seja
um desavisado…
Eu o vi secar a testa com uma das mãos trêmulas, parecia
com medo de algo.
— Jesus Cristo, tomara que aquele parente do Hulk não
venha mais aqui, estamos muito bem sem ele, na verdade está
tudo ótimo.
Devo ter feito algum barulho, porque ele derrubou o livro
e ergueu a cabeça tão rápido que até me surpreendi.
— Mirros-vald — cumprimentei e ele desfaleceu na
cadeira, fechando os olhos apertados.
— Valei-me, minha nossa senhora. — Ele tremia muito
pegando umas quantas correntes e beijando-as de um jeito
desesperado. — Tire daqui essa imagem, leve para longe de
mim.
— Se você abrir os olhos verá que ainda estou aqui. —
Minha voz, como disse, estava meio problemática, talvez por
meu estado de espírito estar péssimo eu não conseguisse
controla a animosidade que me engolia.
— Senhor Ma-Ma-Masari. — Essa foi, a maior gaguejada
que eu já tive a oportunidade de ouvir. — Está aqui?
— Não, Mirros-vald, eu sou um holograma, imagem
tridimensional com uma mensagem gravada para você.
— Nossa! — Ele abriu os olhos, arregalando-os. — Parece
bem real.
Revirei os olhos.
— Acorda, homem, e deixa de ser frouxo! — esbravejei e
ele gritou, escondendo-se atrás da cadeira. Fora da minha
vista.
Passei a mão no rosto. Preciso depois, quanto tudo se
resolver, tentar de alguma forma resgatar a masculinidade
desse homem, porque desse jeito não dá. Puta que pariu, não
dá.
— Mirros-vald, apareça — ordenei e escutei um
choramingo.
— Volte para o lugar de onde veio!
— Saia já daí! — rosnei. — Você é um homem ou um rato?
— Nesse momento… — Parou e a pausa o ajudou a
destravar. — Soou um rato muito feliz.
Caralho, velho! Isso não é possível! Não tem como essa
criatura ser tão mole. Que homem medroso.
— Mirros-vald, eu juro que se tiver que ir aí e te pegar eu
vou, agora eu vou contar até três e se você não sair… — Deixei
ameaça no ar. — Um…
Em um piscar de olhos Mirros-vald bateu continência.
Digo, ele não o fez precisamente, mas pulou em pé e duro igual
um pau, ele foi rápido, muito, na verdade.
— Tudo bem, vamos lá — forcei minha voz a sair baixa e
tranquila, tentei tirar a agressão impregnada em meu tom —,
poderia, por favor, interfonar para avisar a Srta. Fontaine que
estou aqui esperando por ela?
O homem diante de mim me encarava como se a qualquer
momento eu fosse me transformar em algo.
— Mirros-vald! — Estalei os dedos diante de seus olhos. —
Interfone! — Ele estava paralisado me olhando, nem piscava. —
Só quero que você interfone, apenas isso. Por favor.
— Secreto — resfolegou sem gaguejar. — Lá.
Estreitei os olhos e finalmente compreendi.
— Minha mulher está no jardim secreto?
Ele confirmou. Então uma ideia me fez sorrir malvado.
— Lá tem câmera de vigilância? — Negou. — E as luzes
são controladas a partir de onde?
— Painel. — Respirou fundo. — Na entrada.
— Certo e obrigado — Comecei a ir em direção à saída,
mas o ouvi falar alguma coisa.
— Vai para o inferno, criatura maligna.
Lentamente me virei. Mirros-vald prendeu o fôlego. A cor
sumindo de seu rosto. Nunca vi uma pessoa viva com aquele
tom de palidez.
— Eu nunca te faria nada, homem. — Balancei a cabeça.
— Não tenha medo de mim, per favore, eu não vou te bater nem
nada parecido, agora respire, você está ficando roxo. — Ele
obedeceu. — Ótimo, bom garoto.
Mais uma vez virei as costas para sair, mas me lembrei de
algo.
— Não diga a ninguém onde Victória está e nem que me
viu. — Tentei um sorriso, mas estava mesmo era cheio de
dentes. — Seja mais firme, Mirros-vald.
Sem querer eu acabei rindo, comecei a correr, mas estava
me acabando de rir, ele merece um prêmio por me divertir
mesmo sem querer.
A distância até o labirinto foi feita em instantes, logo eu
estava com adrenalina bombeando em meu sistema. Só fiz uma
pequena parada para desligar as luzes. Lá dentro tinha uma
plaquinha de manutenção que eu muito inocentemente afundei
na grama, fechando a entrada.
Sorri malicioso. E não foi com gentileza que adentrei o
labirinto. Eu já sabia o caminho, por isso corri mesmo.
Minhas mãos coçavam por tocá-la, por deixar sua bunda
rosada pelos meus tapas por causa de sua ousadia em dizer
sim a outro. Eu disse que iria mostrar que ela me pertencia, e
cá estou eu, pronto para mostrar. Meu corpo estava todo
acesso, meu pau duro e teso. Babando. Eu sentia pequenas
descargas de eletricidade disparando pelos meus braços, era
como se meus pelos fossem pequenos condutores de uma
energia muito forte. Arranquei a camisa, ajeitei o meu pau
dolorido e continuei correndo.
— Foda-se. — Estanquei, a mera visão da minha mulher
me fez ter um espasmo de prazer tão grande que eu jurei que
tive um pequeno orgasmo. — Ah, coisa linda do Rocco —
murmurei esfregando minhas mãos nas pernas da minha calça.
Tirei os sapatos para não fazer barulho. Victória estava
deitava em uma manta branca no meio do jardim, respirando
tranquila.
— Como amo música. — Ouvir sua voz me fez perder o
compasso. Vi que ela estava com os olhos fechados.
Era noite de lua cheia e a pequena clareira do jardim
estava iluminado o suficiente.
Sorri porque notei que a voz dela soou saudosa e triste.
Isso era saudade de mim, pura e simples. Não vou ser humilde
nessa parte, porque de fato eu quero acreditar que é assim que
ela se sente, porque, infernos, eu estive a ponto de
enlouquecer. Victória cantava e eu notei a melancolia em sua
voz. Meu coração apertou, mas logo eu passei por cima, eu
estava aqui e não iria a lugar algum.
— Destruiu nosso amor, nem parou para pensar em nós —
choramingou a última frase e eu não resisti, me ajoelhei diante
dela e puxei seus fones de ouvido.
— Não grite. — Minha voz soou ameaçadora. — É seu
homem que chegou.
— Rocco! — Ela arregalou os olhos e eu abri suas pernas,
me encaixando no meio.
Victória gemeu baixinho quando eu alinhei nossos sexos e
ela me sentiu.
— Ohh… — Arqueou e eu sorri.
Surpresa me envolvia. Confesso que não esperava essa
entrega, tudo, menos essa paixão não velada.
— Gosta assim, não é? — Esfreguei nela — Gosta de me
ter assim, não é?
— Por que demorou tanto? — ofegou enfiando as mãos em
meu cabelo para me puxar, notei que ela estava tentando se
erguer até meu ombro e, quando permiti, notei que ia me
morder.
Tão rápido eu a dominei. Capturando seus braços e
prendendo-os acima da sua cabeça.
— Você ia me morder? — perguntei encarando-a, havia
um brilho faminto nos olhos de Victória.
— Sim, eu ia te morder, eu quero te morder, na verdade
eu preciso te morder. — Sua voz soou desesperada, ela até
lambia os lábios enquanto olhava para minha pele exposta.
Entrei no jogo, eu estava gostando, e muito.
— Você pode me morder enquanto estiver gozando. —
Mordi sua orelha.
Ela gemeu alto. Foda!
— Vou ter que estar todo enterrado, não aceito nada
menos. — Lambi e chupei seu pescoço que ela expôs para mim.
— Vou te amar de todas as formas, mas antes…
Desci um pouco a cabeça e mordi seu mamilo duro.
— Ahhh, Rocco! — Arqueou. — Isso, faça isso.
Comecei a me esfregar nela, com muita pressa a ajudei a
se livrar da blusa e do sutiã.
— Ah, porra! — grunhi olhando para aqueles peitos
grandes coroados com mamilos escuros e duros. — Perfeitos e
meus, esses peitos são meus! — Abocanhei chupando duro e
logo mordi. Victória teve espasmos nos meus braços e eu ri.
— Preciso — gemeu e mais uma vez tentou me morder.
Neguei detendo-a, e ela choramingou, tentando de novo.
— Você não vai me morder!
— Por favor, só um pouquinho? — implorou e eu a beijei,
minha língua nem pediu passagem, já foi logo tomando,
exigindo, sorvendo e chupando.
— Sua boca é minha para beijar. Você é toda minha,
ouviu? — Victória só gemeu. — ouviu?!
— Sim!
— Isso, amore mio, é assim mesmo. — Acariciei seu corpo
e ela não protestou, parecia pegar fogo, eu ainda nem
acreditava.
Victória estava cedendo, ela me amava, caralho! Essa
entrega tão rápida é culpa as saudade, nenhum doutor de
merda tem vez aqui.
— Você vai gozar nos meus dedos, para assim eu poder
provar. — Afastando-me um pouco, só o suficiente para poder
enfiar minha mão dentro do seu short folgado. — Vou lamber
seu gozo dos meus dedos, mas, amore mio, eu poderia
realmente te chupar até que você desmaiasse, mas agora
mesmo não me sinto bonzinho, e você me deixou muito puto.
— Calma — Victória soluçou —, me deixa explicar… —
ofegou quando eu toquei seu clitóris, depois gemeu, molhando
meus dedos. — Você vai entender, eu sei que… ahhhh! —
Belisquei com força, fazendo-a querer fechar as pernas.
Victória estava se contorcendo e eu sabia que ela estava
muito perto, não a penetrei, porque isso eu só faria com meu
pau. Meu dedo era um substituto muito podre, e ela não estava
merecendo, ainda me sentia a ponto de enfartar com essa
história.
Continuei meu ataque a seus lábios, mamilos e clitóris,
sem deixar de falar todas as coisas realmente pervertidas que
eu queria fazer com ela. Claro que não permiti que em
nenhuma das vezes ela conseguisse me morder.
— Vou gozar, Rocco — gemeu, tentando abrir ainda mais
as pernas. — Isso, isso — cantarolou com um lindo sorriso nos
lábios. — Ohh… saudade de sentir… — Seu corpo tensionou,
ela prendeu a respiração e eu parei de mover meus dedos,
Victória gritou e eu ri, lambendo meus dedos.
— Deliciosa.
Ela me olhava muda, chocada, de olhos arregalados. Você
ainda não viu nada, amore mio.
Voltei a me inclinar para frente, apoiando-me em meus
cotovelos.
— Eu disse que você era minha! — Estreitei os olhos,
encarando-a. — Eu disse que iria te lembrar se você houvesse
esquecido. — Inclinei-me ainda mais, até onde sua barriga
permitia, mas, ainda assim, me ajustei para ficar cara a cara.
— Eu não fiz nada e te tive derretida em meus braços, seu
corpo me pertence, você me pertence! Como ousa aceitar se
casar com outro. — Minha voz gotejou ultraje. — Não irei
permitir de forma alguma, agora, diga o que eu quero ouvir e
prometo que te darei tudo que quiser.
Peguei uma de suas mãos levando até o meio das minhas
pernas.
— Olha como estou desde que parti!
— Rocco… — Silenciei-a com um beijo duro.
— Apenas abra a boca para dizer o que eu quero ouvir,
Victória Fontaine! — Deixei minha fúria bem vista. — E vou
logo avisando, se houver casamento com você sendo a noiva,
quem estará no altar te esperando serei eu.
Victória lambeu os lábios tremendo.
— Agora vamos lá, diga o que quero ouvir. — pressionei.
— Diga que não existe casamento nenhum.
Soltei as palavras e esperei. A boa sorte de Carlos
dependia apenas de Victória.
Capítulo 20
Rocco

— Eu voltei para a decisão, Victória, eu errei, admito! —


Meu coração pesou, não tinha poder para evitar. Tocar no meu
calcanhar de Aquiles ainda doía muito, mas eu era um homem,
e como tal, iria encarar meus medos, e decepções. — Eu te traí,
admito!
Ela se encolheu, fechando os olhos. Aquilo também era
doloroso, ainda seria amanhã e talvez sempre fosse, mas basta.
Agora ou vai ou vai. Não existe outra opção.
— Olha para mim! — comandei e ela me obedeceu. —
Nada de se esconder! Me encara, cospe na minha cara as
verdades como fez uma vez, mas não vai se esconder!
— Não vou — murmurou e eu sorri, me ajeitando melhor
entre suas pernas.
Suspiramos.
— Eu já estou zerada sobre toda aquela merda, Rocco, eu
realmente estou. — Ela sorriu e acariciou meu rosto. — Você
também pagou por seus atos, o que viu foi traumatizante,
compreendo a sua dor e isso de algum jeito me libertou. Com
sua ausência fiquei livre. Depois pude sentir que podia amar
com liberdade. Analisei tudo, de maneira imparcial, cheguei à
conclusão de que precisava me livrar da dor sozinha, assim
poderia caminhar sem ajuda. Escavei as coisas que mais doíam,
curei minha dor, concentrando-me nela. Assisti ao vídeo e
descobri, Rocco, que eu não estava encolhida, e sim orgulhosa,
isso era o pior, me imaginava uma coitada, mas não fui. — Ela
sorriu fazendo meu coração pular algumas batidas. — Senti
sua falta, grandalhão.
Fechei meus olhos e não pude evitar o arrepio de prazer.
Surpresa me deixou momentaneamente sem falar.
— Há quanto tempo não me chama assim? — Esfreguei
nossos narizes. — Há quanto tempo, amore mio?
— Mais do que foi necessário ou politicamente saudável —
resmungou cravando as unhas na minha nuca. — Sou mais
forte do que pensei, me surpreendi com tal força em mim.
Dio mio, eu cheguei aqui surtado, mas tentei me controlar
para poder conversar. Era difícil de manter a sanidade intacta,
por isso ficava entre frases tranquilas e oscilações de humor.
— Agora me beija, eu não aguento mais de tanto desejo de
passar minha língua em sua pele, em sua boca.
— Puta que pariu! — Sedento tomei seus lábios. Minhas
perguntas brevemente silenciadas por outra necessidade
maior.
Gemi afogado em seu sabor, não foi um beijo onde eu
devorasse seus lábios, como o de agora há pouco, eu apenas fui
entrando, tocando sua língua, misturando nossos sabores
quase lentamente, nossas respirações mescladas entre gemidos
de saudade e redenção.
Afastei-me um pouco, respirando fundo, sorri de lado, e
voltei a beijá-la, desta vez com ardor. Angulando nossas
cabeças, aprofundando o beijo, tomando, sorvendo seu gosto
para dentro de mim, demoradamente. Sofregamente.
— Eu te amo — murmurei entre beijos. — Eu te amo
muito. — Encostei nossas testas de olhos fechados. Ainda
assim, tendo um breve contato, seus lábios eram algo pelo qual
desejei dia e noite.
Saboreando esse momento. O primeiro de muitos que
ainda viriam.
— Fala para mim que aquele convite é mentira. — Estava
com o coração na mão, sem coragem nem de abrir os olhos. —
Tira esse medo do meu coração, pequena, me acalma, por favor.
Não tinha jeito, mesmo sendo o grande bastardo
truculento que eu sou, minha fachada de grosseria cai por
terra perto de Victória.
— Grandalhão… — Senti a ponta dos seus dedos tocando
meu braço, logo eles deslizaram pelo meu ombro até
alcançarem meu rosto. — Olha para mim — pediu e eu obedeci.
O que eu vi me fez prender a respiração.
— Rocco, eu não vou me casar — falou tão baixo que eu
jurei não ter ouvido —, eu estou apenas ajudando Carlos, só
isso, confia em mim, não vou casar com ele, é só que
complicamos demais as coisas para desfazermos agora.
Primeiro eu quis rugir de felicidade, depois eu desmoronei,
porque não tem lógica. Eu ainda sou Rocco, o cético. Não
entendo como um homem adulto e independente precisa fingir
que vai se casar? Por quê?
Estreitei meus olhos.
— Explica! — tentei soar menos ameaçador
— Carlos vai se casar com uma ex-namorada, eu estou
apenas encenando para nossa avó não atrapalhar! Ela pensa
que eu vou me casar, mas a noiva será outra. Então ela terá
uma grande surpresa. Eu sei, é idiota, mas no começo pareceu
uma ideia ótima, só depois vimos que estávamos metendo os
pés pelas mãos.
Isso me parece tão infantil! Não consigo acreditar que essa
harpia velha tenha tanto poder ao ponto de Victória ter que
armar. Eu queria acreditar, mas isso não me deixava seguro.
Porque lá no fundo eu queria praticidade. Eu não via isso como
algo simples. Eu via isso como uma forma de Victória não me
magoar com a verdade porque ela era assim, doce e delicada,
muito preocupada com o bem-estar dos outros.
Sob a luz da lua eu encarava o rosto ansioso de Victória,
ela estava prendendo a respiração. Mordendo o lábio ao ponto
de machucá-lo. Ergui meu polegar e passei em seu lábio
inferior. Ela suspirou baixinho, entregue.
Não faz isso comigo, pequena!
— Acredita em mim, grandalhão, eu não estou mentindo,
parece mais complicado do que é. — Conseguia ouvir a
ansiedade em sua voz, e por isso resolvi pagar para ver.
Já levei muito golpe, por mim mesmo ou pelas
circunstâncias, sou duro. Aguento o tranco. Assim irei me
prevenir e cuidar para não haver casamento.
— Recebi um convite — falei prestando atenção em seu
rosto. — Eu fui convidado de honra para o seu casamento.
Não consegui tirar a grosseria da minha voz, ao dizer
essas palavras, elas saíram rasgando.
— Não foi eu, juro! — exclamou de olhos arregalados. —
Rocco, eu nuca faria algo assim, por favor, acredite.
Dei-lhe um beijo suave e molhado, com direito a tudo.
— Calminha. — Beijei seu nariz. — Fica tranquila, o bebê
não pode ter a mamãe estressada, a gente resolve tudo, não se
exalte, não.
A respiração de Victória estava rápida, e ela estava com
uma expressão muito estranha.
Ela parecia roxa de raiva.
— Foi minha avó, tenho certeza! — Ela estava muito
agitada. — Que raiva, eu pedi segredo, eu disse para ela que
meu casamento com Carlos era segredo!
Não pude evitar me encolher, ouvir isso enfiava ainda
mais fundo a faca já cravada em meu peito.
— Não fale isso, mesmo sendo mentira eu fico puto —
repreendi agressivo, Victória gemeu, o que me deixou
assustado.
O que foi isso? Gemendo por eu estar agressivo?
— Eu disse a verdade, pare de ser falador e deixa minha
boca tocar em você, sua pele brilha tentadora — disse
lambendo os lábios.
— Você quer me provar? — Confirmou. — Quer ter minha
pele em sua boca?
— Sim.
Lentamente um sorriso pervertido se desenhou em meus
lábios. Eu quase poderia tirar a roupa em tempo recorde, mas
não poderia parecer tão ansioso quanto um garoto na
puberdade. Por isso, mesmo fazendo esforço para ser suave, me
ergui e, com cuidado, fiquei meio sentado nos ombros dela.
Victória arregalou os olhos enquanto eu abria o zíper da minha
calça, baixando-a em seguida para libertar meu pau.
— Você me quer? — Olhei para ela deitada, eu me
acariciava lentamente.
Elevei-me sobre ela, dominando-a de todas as maneiras,
mostrando que ela era minha e ponto. Casamento de
mentirinha? Tudo dentro de mim rugia em desacordo.
— Abre a boca, amore mio! — comandei colocando meu
pau em seus lábios. — Me leve em sua boca, prove minha pele
como queria, sou todo seu.
Victória me encarava, até pensei que ela não iria aceitar,
ou se sentir ultrajada pela minha falta de vergonha.
— Aceito, Rocco — murmurou e deu uma infernal e lenta
passada de língua em todo meu comprimento. Quase caí para
frente. Tamanho foi meu choque. Meu corpo todo tremeu. Ela
me lambeu de novo, fechei meus olhos, jogando a cabeça para
trás. Quase que uma lágrima escorreu, estava me sentindo
emocionado. Sorri de pura felicidade. — Tão gostoso.
Olhei para baixo e Victória estava de olhos fechados, me
lambendo e chupando, concentrada e com prazer.
— Minha pequena quente! — grasnei tirando sua boca do
meu pau. — Vamos ficar confortáveis, meu amor? — perguntei
carinhoso e ela assentiu, fazendo biquinho. Saí de cima dela e
fiquei em pé, chamando-a com um dedo. — Vem, meu amor,
continua cuidando de mim, eu preciso tanto. — Sorri e ela veio
engatinhando, toda sexual e deliciosa.
Victória se ajoelhou na minha frente e baixou minhas
calças até os joelhos.
— Todo seu! — Abri um pouco as pernas, para ela ter um
bom acesso.
Estava maravilhado, mas uma questão persistia, precisava
esclarecer as coisas. Por isso, agarrei seus cabelos, impedindo-a
de me chupar, foi preciso muita força de vontade para pará-la.
— Victória — chamei e ela me olhou, quase mandei
minhas perguntas para o inferno. O olhar dela estava
semicerrado, a respiração forte, os lábios molhados pelos
carinhos compartilhados.
— Caralho! — Curvei-me, dando-lhe um beijo duro e
rápido. — Minha grávida gostosa e linda.
Ela sorriu bamba e eu fiquei mais duro. Respirei fundo,
precisava de coisas práticas.
— Victória, me responda — Fiquei atento a seu rosto, cada
expressão.
— O que você quiser — resfolegou e eu sorri.
— Esse casamento é falso, não é?
— Sim!
— Você já se decidiu? Vai ficar comigo com certeza?
— Sim!
Oh, sim. Isso, amor.
— Eu tenho que esperar até esse sábado, é a data no
convite, e pronto? — Ela mordeu o lábio. — Então, acaba a
palhaçada e você volta para nossa casa?
— Sim.
Eu estava caindo de tanto alívio. Ela respondeu sem
titubear.
— Sem aquele doutor cheio de dedos para o seu lado?
— Sim, ele não me tocará, o casamento é mais falso que
nota de três reais rosa, já disse! — resmungou; — Agora posso
te morder?
Mas que raios de vontade é essa de me morder?
Franzi o cenho.
— Você vai me chupar, morder, não. — Vi seu biquinho. —
Me morda, se isso te faz feliz! Pode morder.
Victória segurou meu comprimento e eu travei meus
joelhos, felicidade enrolando através do meu corpo. Olhei para
ela, que esfregava meu pau no rosto enquanto soltava barulhos
de apreciação.
— Me tome em sua boca — pedi ansioso e ela me olhou
sorrindo, deixando-me sem palavras.
— Você também é meu.
— Oh, sim. — Soltei uma risadinha. — Todo seu.
E foi isso. Ela me tomou em sua boca e eu, depois de
séculos, estou tendo um oral lento e degustativo, feito pela
mulher da minha vida, em um jardim a céu aberto. Estamos
decadentes.
Fechei as mãos em punhos, eu não iria durar, foram
muitos meses e Victória parece esfomeada, ela está me
chupando muito duro, muito forte, sem trégua.
— Calma, pequena, devagar. — Segurei seus cabelos, logo
eu estava acariciando seu rosto. — Não irei a lugar algum. —
Ela acenou, dando batidinhas com a língua, joguei a cabeça
para trás e só curti o momento, sem me importar com mais
nada.
Agora eu só tenho pequenas tarefas para o meu fim de
jogo, que eram esperar até sábado, não matar Carlos por meter
Victória nessa confusão, fingir que não sei nada desse
casamento, viajar com ela, curtir minha mulher e meu filho.
Morrer em paz.
Estava entregue ao momento, ainda não acreditava que
estava tão perto do final feliz para mim e Victória!
— Pequena — eu a chamei, estava doendo pelo alívio —,
pare, eu vou gozar. — Tremi todo, fiquei tenso, meu corpo
arrepiou. Victória não parou, ela gemeu, me devorando, e
quando eu rugi meu descontrole, ela me mordeu. — CARALHO!
— berrei, fechando meus olhos, jogando a cabeça para trás de
novo. Meu pau sacudia, preso na mordida de Victória enquanto
ela mamava toda a minha semente, me deixando desossado e
meio morto. — Solta, amore mio — pedi baixinho, todo
carinhoso. Ela soltou devagar, antes de me deixar ir, lambeu
mais um pouco, tive que me controlar, a sensibilidade estava
demais.
Quando acabou, ela me olhou, e vi que o canto de sua
boca estava sujo, limpei, dando o dedo para ela chupar. Sou
sim a porra de um safado libertino, corrompi minha doce
virgem, moldando-a para ser minha.
— Tome tudo — incentivei —, isso mesmo. — Sorri por sua
obediência, depois segurei seu queixo, ajudando-a a levantar.
— Você explodiu minha fodida mente — falei próximo à sua
boca —, agora eu vou explodir a sua.
Começamos a nos beijar afoitos, eu provei meu sabor em
sua boca, o que me deixou doido, porque aí eu quase podia
sentir o novamente sua boca em meu pau. Apressado e
desajeitado, fomos até uma das paredes do jardim, encostei
Victória lá e estava tocando-a em todos os lugares, enfiei uma
das mãos dentro do short dela, com a outra, eu brincava com
seus mamilos.
— Não vejo a hora de poder me enterrar em você! — Lambi
e mordi seu pescoço. — Não vejo a fodida hora de poder fazer
amor com você, de poder dormir de conchinha e completamente
nu, não vejo a porra da hora de poder tomar meu café da
manhã entre suas coxas.
— Rocco, aqui, agora, não dá, para — resfolegou mordendo
o lábio.
— Eu não iria te tomar depois de tanto tempo no chão, e
não na sua condição. — Esfreguei o cabelo, frustrado. — Mas
eu posso fazer outra coisa.
Ajoelhei-me diante dela e puxei seu short, Victória ficou
nua e eu não perdi tempo.
Enfiei minha cara entre suas pernas, atacando seu sexo
sem dó. Ela conteve um grito, estávamos dando as boas-vindas
um ao outro.
— Puxa meu cabelo — grunhi com a cara enterrada no
meu lugar favorito no mundo. Aproveitei e coloquei uma perna
no meu ombro, deixando-a ainda mais exposta — Muito tempo
sem minha droga. — Afastei-me para falar. — Muito tempo. —
Enfiei a cara com tudo novamente e cheirei. — Muito tempo
sem provar. — Lambi com gosto. — Muito tempo sem beber seu
orgasmo.
Beijei seu sexo de boca aberta, pegando os grandes lábios
e tudo mais, chupei, lambi, afastei um pouco para olhar aquela
coisinha linda que já estava toda meladinha.
— Tão linda — ronronei voltando com tudo.
Victória só gemia, quase arrancando meus cabelos.
Usei minhas mãos para abri-la ainda mais e não me
importei de parecer malvado. Ela me torturou, por que eu não
iria devolver o favor? Continuei dando golpes com minha língua
em seu clitóris e aproveitando o rosto e a barba para judiar até
fazê-la gozar.
— Oh, Rocco. Apenas continue — gemeu alto, rebolando
na minha cara, concordei, fazendo o que ela fez comigo. Mordi
seu clitóris, e foi isso.
Victória quebrou, gozando forte, e eu, como um bom
futuro marido, chupei até que ela quase chorou.
— O prazer está virando dor — soluçou e eu dei uma
última lambida e um último beijinho.
Por estarmos no jardim, não poderia deixar Victória nua
como eu queria, mas ainda antes de vestir sua calcinha e short,
eu distribuí muitos beijos na sua barriga, que estava maior
desde a última vez que a vi.
— Papa voltou, mio bambino, e logo nós vamos para casa!
— Fiz um carinho demorado em sua barriga, mas o bebê não
mexeu.
Delicado, ajudei Victória a vestir a suas roupas. Quando
ela estava totalmente vestida, mas longe de estar composta, foi
que eu ajeitei meu pau dentro da cueca e fechei o zíper da
calça.
— Agora… — Sorri, empurrando-a para encostar na
parede, ao nosso redor era tudo flores e folhas, coloquei um
braço acima de sua cabeça, quase encostando nela. — … isso
foi matar um por cento de saudade. — Mexi em seus cabelos. —
A vontade que tenho é te levar para casa e pronto, poderíamos
juntos adiantar esse casamento de Carlos, não quero ter que
esperar! Agora que tive um pequeno momento, eu preciso de
mais, amore mio, muito mais.
— Eu também — suspirou, erguendo-se para morder meu
queixo. — Senti saudade quando viajou — Colocou as duas
mãos no meu rosto. — Eu demorei para me encontrar e
entender as coisas.
Dio mio.
— Victória, eu que peço perdão, errei muito, pequena, não
imagina como me sinto, por Deus, eu morri um pouco todos os
dias. Eu te amo, eu te amo, porra, Victória, eu te amo, caralho!
— Desajeitado, beijei seus olhos e nariz, minhas mãos estavam
loucas, tocando-a, memorizando, matando a saudade.
Eu estava sem funcionar direito, vivendo meus dias, ou
melhor, arrastando-me por eles. E agora, olha para isso. Dio
santo.
Voltei a beijá-la daquele jeito apaixonado, apertando seu
corpo lindo contra o meu, me afogando da melhor maneira
possível.
— VICTÓRIA!
Escutamos o berro que assustou, me virei, escondendo
Victória atrás de mim.
— Mas que pouca vergonha? — Antonieta Andrade estava
diante de nós, com uma cara de ódio tão grande que poderia
dar medo, se eu fosse menos homem, ruim para ela que eu sou
imune a isso. — Como você ousa fazer isso?! Largue esse
homem e venha aqui agora, estou mandando!
Tremi de raiva, minha fúria voltou com força e impacto. E
eu estava tão bem.
— Fale baixo com minha mulher. — Tentei me controlar —
Você aqui não manda, você aqui não faz caralho nenhum. — A
velha tremeu, eu vi pela forma como apertava as mãos. Victória
me abraçou mais apertado.
— Victória, estou chamando.
— Ela está ouvindo e ainda assim não vai! Não perca seu
tempo, é melhor você se mandar. — Apontei a saída.
Como se notasse que não iria me derrotar em um duelo de
palavras, ela resolveu apelar, e aí eu me segurei para não
surtar.
— Você está agindo como uma rameira — gritou
apontando o dedo, ainda bem que Victória estava bem
escondida atrás de mim. — Você me envergonha, onde estão os
seus valores? Onde está sua vergonha na cara? Está prestes a
se casar e fica fazendo pouca vergonha com um estranho!?
Senti Victória tremer ainda mais e encostar a cabeça nas
minhas costas. O som de seu choro quase me faz voar em cima
da velha.
— Lave a sua boca antes de falar essas merdas. — Apontei
o dedo. — Quem você pensa que é? Não sabe o que é amor,
quase matou o filho de tristeza, entregou a neta nas mãos de
uma oportunista, estragou o futuro feliz do próprio filho, você é
mal-amada!
— Você não sabe o que diz! — gritou. — Estávamos bem,
tudo se resolvendo, por que tinha que aparecer? Maldito, nas
bastasse tudo que fez com Victória ainda tinha que tentar
estragar a chance dela de se casar com um homem de verdade.
— Vovó, para com isso, por favor, entenda que a senhora
não sabe o que se passa realmente, mas me deixe explicar, vou
contar tudo…
— Eu sei o que acontece! — gritou descontrolada,
interrompendo Victória. — Eu te vi definhando todos os dias,
encolhida, chorando, afundando na depressão, muito perto de
adoecer gravemente porque ele não foi homem para te tratar
como deveria.
— Cala a boca! Cala a maldita boca! — tentei não gritar, a
situação por si só já estava horrível demais. — Não percebe que
suas palavras a estão machucando? Seja mais cuidadosa, ela
está grávida.
Victória já chorava, fora de controle. E por isso a puxei
para frente e a abracei, permitindo que seu rosto ficasse
enterrando em meu peito.
— Desculpa, Rocco, minhas emoções estão à flor da pele —
chorou e eu mordi a língua para não gritar em frustração.
— Está tudo bem, meu amor. — Acariciei seus cabelos,
beijando o topo de sua cabeça
Fazia isso encarando Antonieta.
— Não fale mentiras, Senhor Masari, seu egoísmo está
acabando com a vida dela uma segunda vez. — Comprimi os
lábios, não estava escondendo minha raiva, e ela tampouco. —
Seja homem, prove esse amor que diz sentir e deixe-a ser feliz.
— Eu sou o único homem que irá fazer Victória feliz. Se
quer saber, esse casamento não passa de uma…
— Parem com isso. — Victória se afastou. — Por favor, ela
tem que saber por mim ou Carlos, não dessa maneira. — Ela
me encarou suplicante.
Respirei fundo e assenti.
Logo Victória pegou meus cabelos e me puxou, me dando
um beijo cinematográfico que fez sua avó gritar chocada e
ainda mais revoltada.
— Não deixe ela te provocar. — Segurou meu rosto. —
Apenas não deixe.
— Não deixarei, agora vai, pequena — comandei e ela
negou, os cabelos de um lado para o outro. — Vai, estou te
pedindo, eu e sua avó temos pendências. Não te quero
presente.
— Mas, Rocco…
— Fica calma, eu não vou falar nada que não deva.
— Promete? — Ela me olhou atenta.
— Prometo.
Demos mais um beijo quente e molhado antes de ela me
obedecer e sair.
— Deixe minha neta em paz, ela vai se casar em cinco dias
com Carlos.
Tive vontade de esfregar na cara dela toda a verdade, mas
não vou trair a confiança depositada em mim, farei algo pior.
Vou deixá-la sem dormir à noite.
— Acha mesmo que eu vou deixar minha mulher se casar?
— Cruzei os braços em meu peito largo. — O truque do convite
não valeu uma merda. — Ri baixo. — O que aconteceu aqui só
prova que Victória ainda me quer, e eu vou lutar por isso,
custe o que custar.
— Eu sabia que você era um maldito egoísta! — acusou e
eu dei de ombros
— Sou mesmo, e daí? Morra com isso, mas Victória não vai
casar! — Caminhei até onde ela estava parada e tremendo,
peguei minhas coisas descartadas no chão e depois falei, bem
perto dela: — Acostume-se comigo em sua vida, coloque um
prato com meu nome, pois estaremos juntos em muitas festas
de família, vovó!
Saí de lá com ódio. Mas sabia que ela estava com mais ódio
que eu. A grande ameaça para esse casamento de merda, saber
que ela estava puta me deixava tranquilo, pois pelo menos eu
não iria morrer de ansiedade sozinho. Antonieta iria ficar com
medo de mim, e eu com medo de, por alguma desgraça do
destino, esse casamento se tornar real.
— Derrubo a igreja antes de permitir uma coisa dessas.
Cheguei à entrada do labirinto pensando em todas as
possibilidades, mas com a mente embolada com pensamentos
ardentes. Não queria nem pensar no tanto de safadeza que eu
iria aprontar com minha mulher grávida.
— Eu só precisava que Victória aceitasse se casar, não
importa o que ela falou, não importa o que você acha que ela
sente, eu vi ela e Carlos juntos. Se declarando um para o outro.
— Riu deliciada, me deixando tenso. — Quando eu perguntei
por que não me contaram sobre o casamento, ela me disse que
era porque você não poderia saber, porque depois de todo o
trauma que ela passou por sua culpa não queria a mídia em
cima dela de novo.
Senti como se um balde de água fria caísse em minha
cabeça. Ela tinha um forte argumento, visto que eu achava os
motivos para esse casamento bastante fracos. Carlos é um
homem, por que precisaria se esconder se queria se casar com
uma garota, ex-namorada?
— Você vê que eu tenho razão, eu os vi juntos. Eles me
confirmaram, e acredite em mim, Victória é uma pessoa muito
boa, ela seria capaz de falar algo que você gostaria de ouvir
apenas para não te magoar, mesmo você sendo um bastardo
que não merece o mínimo de consideração.
Foda-se! Respirei fundo e comecei a contar. Um, três,
sete…
Voltando ao plano original, decretei silencioso. Desculpe,
amore mio, mas eu não vou arriscar. É muita história diferente,
talvez a enganada seja você.
— Victória não vai se casar! — Impregnei certeza em meu
tom.
— Ela vai, sim, eu vou garantir, duvido que depois de
entrar na igreja ela consiga dizer não. Minha neta não é do tipo
que trai, isso que aconteceu aqui foi um momento de fraqueza
por parte dela — desdenhou, como se nosso momento não fosse
nada. — Além do mais, Carlos a quer, ele me confidenciou que
não vê a hora de ter Victória debaixo do mesmo teto.
— Você não quer guerra comigo, Antonieta — avisei e ela
riu
— Não me importo, desde que meus netos se casem, e
coloque na sua cabeça, irá acontecer, de um jeito ou de outro.
Dei as costas e comecei a andar novamente, não adiantava
brigar. Eu iria mostrar como o foderoso Masari agia.
— Ah, outra coisa, você não tem ideia de como foi linda a
consulta ontem, Victória e Carlos foram o perfeito casal feliz
esperando o primeiro filho.
Congelei meus passos, fechando meus olhos. Virei meu
rosto de lado, ela tocou minha ferida mais dolorosa, agora não
teria como recuar.
— Não importa, Antonieta, Carlos nunca poderá ser o pai
do meu filho — enfatizei. — Gianne já tem um pai. E não irei
facilitar em nada, agora ouça meu conselho. — Fiz um silêncio
para amedrontar. — Procure um abrigo antibombas, e depois
não diga que não foi avisada, velha insuportável.
Apressei o passo indo direto para o vestiário. Precisava me
acalmar antes de ir para casa. Se chegasse com essa cara de
psicopata, a nonna iria querer vir tirar satisfação, certamente
Antonieta iria ver a quem eu puxei minha agressividade.
Talvez assim ela veja que eu também tenho quem me
defenda.

***

Como uma pessoa que viveu boa parte da vida sendo um


bastardo cético e pragmático pode simplesmente se tornar um
idiota crédulo? Para mim o que parece feito, feito está!
Juro que acredito que Victória tem as melhores das
intenções, mas depois do que escutei meu foco mudou para
Carlos, e se por acaso ele deseja Victória e usou uma história
romântica para enganá-la? Antonieta parece muito segura com
este casamento.
— E se Victória estiver achando que o casamento é
fachada, mas na realidade é de verdade e, quando for perceber,
vai estar dizendo sim para o homem errado? — murmurei
apertando as têmporas, uma dor de cabeça começando a
latejar. — E se Carlos estiver manipulando Victória para
acreditar em uma coisa quando na realidade o plano é outro?
"Maledetto!", rosnei entrando no vestiário, perto da área da
piscina.
Confio em Victória cegamente, depois de tudo, como não
confiar? Mas não vou mentir para agradar ninguém; Fato
consumando, eu não confio em Carlos e, por isso, o plano
original está mantido!
— Foda! — Tirei minhas calças, precisava de um banho
para baixar minha ereção furiosa, e talvez um pouco da minha
raiva. Não estava sozinho em casa, precisava pelo menos,
disfarçar meu estado de ânimo.
A nonna é perigosa! No fim, a velha bruxa deveria me
agradecer por estar cuidando da integridade física dela. Liguei
a ducha colocando-a gelada. Entrei dando uma sacudida,
permitindo que a água apaziguasse meu calor, estava como um
vulcão, soltando fumaça para daqui a pouco começar a cuspir
fogo.
— Quem ela pensa que é? — Esmurrei a parede. — Como
se eu fosse idiota ao ponto de deixar o caminho livre para outro,
e pior, desistir depois de conseguir atravessar a pior fase.
Mas que merda! Eu esperei para ter Victória como tive
hoje, eu esperei muito. Desde que eu pudesse tocá-la e ela não
quisesse fugir. Por isso, não cogito nem a hipótese de desistir.
Eu amo Victória, mas amo ainda mais ver nós dois juntos. Sou
egoísta, sim, nunca disse o contrário.
Passei as duas mãos na cabeça, empurrando meu cabelo
para trás, permitindo que a água batesse diretamente em meu
rosto. Precisava dar um jeito de ficar frente a frente com Carlos
e saber as reais intenções dele, porque Victória ele até engana,
mas a mim, não!
Apesar dos pesares eu admiro aquele filho da puta, ele fez
muito por mim e por isso vou dar o beneficio da dúvida,
entretanto, se ele estiver dando uma de esperto para o lado de
Victória, infelizmente terá o prazer de conhecer o homem louco
que posso ser.
O barulho da porta sendo trancada me chamou atenção,
desliguei o chuveiro para investigar.
— Meu irmão, venha embora, homem. — Ouvi a voz de
Mirros-vald e revirei os olhos.
É serio? Olhei para o teto. Depois do estresse ainda vou
ter que lidar com esse covarde? Caralho, eu devo estar pagando
meus pecados.
— Lindo, meu filho, no Rio se arruma trabalho, pare de me
dizer não. — Mirros-vald parecia até mandão. — Eu sou o irmão
mais velho, o chefe, e você vai me obedecer. — Ouvi seu ultraje.
Quero só ver! Saí da área dos chuveiros e fui para os
vestiários, encontrei Mirros-vald sentado de costas no largo
banco de madeira.
— Lindoaldo Cremilton, você vai parar de chatear a mãe
com suas farras e vai trabalhar, seja aí ou aqui, mas chega,
não vou te sustentar mais.
Cruzei os braços ouvindo muitas reclamações, boa parte
eu não entendia direito porque era muito rápido e algumas
palavras estranhas. Fiz careta, realmente não entendi porra
nenhuma só as reclamações, depois o telefone foi desligado.
— Filho de uma égua! — Improvisou um grunhido, que no
fim acabou em uma tossida engasgada. — Como aquele
brutamontes consegue fazer isso tão bem? — questionou-se.
Bufei alto, imediatamente Mirros-vald ficou ereto.
— Dano-se, que agora eu tô tendo alucinação com aquele
demônio. — Riu, eu pigarreei, chamando a atenção.
— É assim que se faz, Mirros-vald! — grunhi e ele pulou
em pé, virando bruscamente, uma das mãos apertada contra o
peito.
Ele olhou para mim e arregalou os olhos. Eu estava de
braços cruzados e cara feia. Mesmo o Mirros-vald sendo
engraçado eu estava ainda puto, excitado e raivoso, porque
meu momento com Victória foi interrompido.
— Jesus tem poder! — exclamou me olhando como se eu
fosse algum tipo de aberração do circo dos horrores. — Eu já
vou, não quero incomodar, senhor Masari! — proferiu e correu
para a porta, mas a maçaneta emperrou e eu vi o homem se
desesperando quando não conseguiu fugir — Por favor, Deus,
não me deixe trancado com esse homem!
Revirando os olhos para seu desespero, eu vesti minhas
calças tranquilamente, enquanto isso as tentativas de abrir a
porta estavam falhando, até parecia que Mirros-vald choraria a
qualquer momento.
— Arrombe a porta logo, não vê que a maçaneta quebrou?
Não adianta ficar tentando encaixar de volta, não vai funcionar.
— Certo, certo. — concordou tomando distância, a
primeira pancada que deu na porta o fez cair no chão com
força.
Ri esfregando o rosto, a segunda tentativa foi pior.
Gargalhei, não tive como evitar. Na terceira eu interrompi.
— Espera, deixa que eu abro para você. — Balancei a
cabeça e fui para a porta, olhei as dobradiças e vi que eram
simples.
Ergui uma perna e chutei com força no lugar certo. O local
da fechadura arrebentou e as laterais cederam, uma parte caiu
e a outra ficou presa precariamente pelos parafusos.
Olhei para trás e tinha uma estátua de olhos arregalados
e boca aberta.
— Como?
— Técnica, e fique calmo, está parecendo que vai
desmaiar. E se cair não vou te carregar, portando escolha bem
o local, dê preferência a superfícies confortáveis.
Eu o vi se largar no banco, ainda olhando para mim e para
a porta.
— Eu quero ficar superforte também. — murmurou sem
me olhar.
— Comece treinando no saco de areia e alteres, daqui a
alguns anos você estará assim. — Ergui o braço fazendo força,
minha camisa quase rasgou as costuras. — E, por favor, deixe
de ser frouxo, não adianta ter músculos e não saber usar.
— Como eu faço para parar de ter medo? — resmungou. —
Eu simplesmente tenho! Não é como se eu achasse bonito.
Dio mio, eu juro que não tenho tempo para isso.
— Apenas enfrente, Mirros-vald, você não sabe o que pode
acontecer, mas seja homem, pelo amor de Deus, você causa
constrangimento alheio.
— Você me assusta!
— Pelo menos não está gaguejando, mas faremos assim,
eu vou te ajudar e você me ajuda em troca, que tal?
Ele me olhou e vi um brilho nos olhos, concordou.
— Eu quero que você me avise sempre que Dr. Carlos
chegar, eu preciso que você me avise na hora.
— Mas eu só vou dizer que ele chegou e mais nada, não
gosto de sair da linha, meu trabalho é muito precioso e eu
ganho bem. Sustento minha família no nordeste.
Assenti.
— Não se preocupe, Mirros-vald, se algo acontecer, o que
eu acho difícil, eu te arrumo um emprego, capisce?
— Sim, senhor! — Sorriu e eu estendi uma das mãos para
selar o acordo.
Meio desconfiado, ele aceitou e eu dei um aperto firme,
sorri malvado e apertei com força, fazendo-o contorcer e fazer
careta.
— Primeira lição. — Olhei em seus olhos, firme e conciso.
— Não demonstre fraqueza, portanto, pare de se dobrar, fique
reto, me encare, aja como se sua mão não estivesse doendo.
Mesmo vermelho, ele controlou a expressão, em seguida
ficou firme. Apertei mais forte, e ele me encarou, alguns
segundos depois eu larguei sua mão.
— Não importa o quanto esteja doendo, você tem que se
manter firme, isso pode fazer toda a diferença. — Dei umas
batidas em seu ombro e ele tossiu depois.
— Obrigado, senhor.
— Quantos anos você tem? — perguntei já na porta.
— Vinte e quatro.
— Só não tente dar uma de esperto para o meu lado, caso
aconteça, eu diria para ter, sim, medo de mim.
Saí de lá e fui direto para minha casa, encontrei a maior
farra na cozinha, nonna estava começando uma macarronada
ao sugo e Dimitri estava servindo de ajudante enquanto
William observava de seu canto. Assim que me viu, ela parou o
que estava fazendo e veio até mim, não precisei dizer nada, ela
colocou as duas mãos no meu rosto e me encarou.
— Quem te deixou com raiva e me diga onde essa pessoa
está?! — Ei, abraçando-a, logo beijei o topo de sua cabeça.
— Não se preocupe, Nonna, eu já resolvi, pode crer. — Ela
me beliscou no braço, não acreditando em minhas palavras.
— Rocco Gianello Masari! — Afastou-se apontando o dedo.
— Pode falar! — Fiz uma careta e tentei me afastar. Não
funcionou. — Pode abrir a boca! — mandou e eu me encolhi. —
Ou eu vou ter que arrancar de você?
— Se ferrou. — William riu.
— Bate nele, Nonna. — Dimitri incentivou.
— Calados! — Nós três baixamos a cabeça. — Agora
despeja, não me faça contar.
Fiz outra careta.
— Eu estava tendo um momento muito bom com Victória,
ela me aceitou de volta e estávamos nos beijando, estávamos
felizes, mas… — Esfreguei o rosto. — Antonieta chegou e ferrou
com tudo, resultado, Victória saiu de lá chorando, eu com ódio
e muito ferido. Ela me acha inferior, mas não me refiro a
dinheiro, e sim a caráter. O neto dela é melhor que eu.
Pronto.
— Eu vou matar essa velha! — Arrancou o avental. — Eu
vou mostrar quem é inferior! Como ela ousa falar assim com
você? Vou mostrar para essa velha quem é inferior!
Sorrindo eu a abracei. Ela me bateu com força.
— Va bene. — Acariciei suas costas. — Posso resolver esse
problema.
— Não gosto que diminuam meus netos — reclamou e eu
ri, encostando meu queixo no topo de sua cabeça. — Eu posso
bater, eu posso falar mal, mas os outros, não permito.
— Va bene, va bene. — Ri e ela me beliscou.
— Eu ainda vou dar umas porradas na avó de Victória —
decretou e eu ri ainda mais olhando para meus amigos.
— Só não bata muito, não quero Victória com raiva de
mim.
— Um olho roxo está bom? — perguntou esperançosa e
não teve jeito, o Dinka puxou a nonna e a apertou.
— Casa comigo. — Beijou a cabeça da nonna. — Te dou
um boneco Dojo para bater.
— Você tem idade para ser meu neto, seu tarado! — Ela
riu dando umas palmadas no ombro do Dinka.
— Partiu meu coração.
Todo mundo riu, a vingança esquecida por um momento.
Se bem que pelo que conheço da matriarca Masari, Antonieta
que se prepare.
Entre empurrões todos foram para a cozinha, já eu fui
para o meu quarto, lá troquei de roupa. Estava voltando para a
sala quando olho para o telescópio. Sem lutar contra o desejo
de vigiar Victória, eu fui até a sacada do meu quarto. Peguei o
equipamento com cuidado, ajustei o ângulo, tirei a tampa da
lente e olhei direto para seu quarto.
— Amore mio. — Lá estava ela, de olhos fechados, com o
rosto virado para o céu.
Fiquei ali apenas encarando-a de longe, como um bom
espreitador e perseguidor. Em nenhum momento ela mudou a
posição, seu rosto permanecia virado para o céu. Não resisti e
peguei meu celular novo, disquei seu número, instantes depois
ela atendeu.
— Quem é? — perguntou suave, daquele jeito tão dela.
— Amore mio. — Suspirou ao ouvir minha voz.
— Grandalhão.
Eu me larguei na cama, de olhos fechados, só me
concentrei em sua voz.
— Quero namorar um pouco; — Ri baixinho e ela gemeu.
— Eu também quero — confidenciou. — Queria você aqui
para te morder, você parece um bocado delicioso, Rocco.
Ri engasgado e já totalmente excitado. A voz dela era tão
sensual para mim, que fazia maravilhas com minha libido, que
já era pervertida por natureza.
— Me morder? — provoquei. — Só isso?
— Lamber, chupar, beber. — Ouvi sua respiração forte. —
Tenho fome de você.
— Caralho, amor — Quase afoguei no meu próprio desejo
ardente. — Estou queimando, pequena! Quero fazer tanta coisa
realmente malvada com seu corpo gostoso, sabe? Te ver nua,
poder te admirar grávida do meu filho. Ver o quanto seu físico
está mudando por causa do nosso bebê está causando um
inferno com meu controle. Porra, amor, eu quero fazer amor,
quero transar, quero brincar, quero tudo com você.
Só ouvia sua respiração acelerada, sabia que ela estava
excitada pensando no que fizemos mais cedo.
— Eu também, faz dias que meus pesadelos foram
substituídos por sonhos… — Pausou e eu apertei o telefone. —
Sonhos com você me possuindo com força, repetidas vezes,
então, quando eu já não tinha forças, você cuidava de mim. Te
desejo, entende? E não sei explicar, estou tremendo agora,
pulsando, quando penso em sua boca eu sinto meu desejo fluir.
Rocco, eu preciso de você!
— Porra, amor, acaba com essa droga de ideia, me permita
tomar a frente e organizar esse casamento, apenas diga sim,
amore mio, e amanhã tudo estará em minhas mãos, e você,
ainda hoje, agora, estará em meus braços.
Silêncio. Então ouvi seu suspiro rendido.
— Não aguento mais, foi tanto tempo e tendo medo, me
escondendo. Sua ausência me fez sentir sua falta, contei os
dias e entendi que pertencemos um ao outro. — Ouvi o
embargo em sua voz, apertei o celular com força, travando o
maxilar. — Rocco, vem me…
— Eu não acredito nisso. — Pulei da cama quando ouvi a
voz da megera. — Você não aprende!
— Saia do meu quarto, vovó, a senhora não foi convidada.
— Você está falando com ele, não é? Como você pode ser
tão baixa? Será que agora vai ser preciso vê-lo com uma
mulher na cama para notar que Rocco Masari não presta para
você?
— Não dê ouvidos, amore mio. — Senti-me agoniado. —
Apenas não dê ouvidos!
— Me entregue o telefone, Victória, agora!
— Não! — respondeu. — Rocco, não se preocupe. Aiiii!
Para, vovó! Me larga.
Victória e Antonieta gritavam uma com a outra, às vezes
eu entendia, mas quando português era muito rápido, ficava
um pouco confuso para mim, em um dado momento eu só
capturei fragmentos da conversa explosiva.
— Você vai ver que eu tenho razão, agora solta a droga do
celular, eu não quero te machucar.
— Filha da puta! — Raiva lavava meu corpo como se eu
houvesse mergulhado nela, e nem notei que já estava correndo
do quarto.
— Não vou soltar! — Victória estava firme, mas então ela
gritou alto. — Vovó, para!
— Estou fazendo para o seu bem! — Antonieta parecia
descontrolada. — Estávamos felizes, bastou aquele imundo
chegar e você ficou como uma qualquer, não percebe que ele
está plantando a discórdia em nossa família?
— Não estávamos, a senhora não sabe de nada! Me solta,
vou sair…
— Você não vai — Antonieta gritou e Victória berrou de
volta uma frase que não entendi, então ouvi o barulho alto de
um tapa.
Congelei sem acreditar, o olhar fixo sem que eu
enxergasse nada, o telefone apertado contra meu ouvido, o
corpo todo tremendo ao passo que minha visão foi ficando
vermelha de ódio. Quando ouvi o primeiro soluço chocado de
Victória todas essas sensações pioraram muito. Eu já não sabia
o que estava acontecendo, mas eu estava a caminho, e iria
subir naquele apartamento nem que para isso precisasse
escalar.
— Mas que merda você fez? — Ouvi o grito de Jason e a
voz apavorada de Antonieta.
— Eu não queria bater nela. Foi sem querer, eu não
queria.
— Vá embora, vovó!
— Para onde vai, filho? — minha nonna perguntou
colocando a mão em meu peito, eu a olhei.
Ela deu um passo atrás, não sei o que estava em minha
expressão, mas certamente não deve ser algo bom.
— Vou ver Victória, Antonieta acabou de bater nela
porque estávamos ao telefone.
Saí do meu prédio cego de raiva. Meu corpo todo duro
pronto para brigar feio.
— Amor, você está aí? — Não houve respostas.
Apressei o passo ansioso para chegar logo.
— Senhor. — Mirros-vald levantou assim que encostei no
balcão.
— Interfone! — Concordando, ele ligou. Instantes depois
começou a falar:
— Sr. Strauss, Rocco Masari está aqui. — Puxei o telefone,
já cuspindo as palavras.
— Libere minha entrada, Jason, ou juro por Deus que vou
derrubar essa merda.
— Pode subir.
Fui para o elevador e o chamei, não demorou muito e eu
estava subindo, assim que cheguei ao apartamento, entrei sem
cerimônia. A primeira coisa que vi foi a velha mal-amada
sentada, tentando chegar perto de Victória, a segunda foi a
forma como Victória parecia encolhida com a cabeça entre as
mãos.
— Pequena — chamei e ela ergueu a cabeça, quando me
viu correu para meus braços.
Fechei meus olhos para evitar me concentrar na marca em
sua face, minha vontade era de revidar, mas, infernos, eu não
bato em mulher.
— Rocco. — Ela me agarrou. — Você está aqui.
— Claro que estou. — Beijei sua cabeça. — Agora olha
para mim — pedi segurando seu rosto com cuidado, olhei para
a marca de dedos em sua face direita e respirei fundo para me
controlar. — Eu vou estar onde você estiver, sempre. —
Depositei um beijo suave no machucado, depois em seus lábios.
Victória suspirou me olhando, seus olhos estavam tão
lindos, eles eram duas enormes esmeraldas alagadas de
lágrimas. Tanto brilho, tanta beleza. Tirava meu fôlego.
Por cima da cabeça de Victória eu vi quando sua avó abriu
a boca em protesto à cena.
— Não tente! — falei alto o suficiente para ela pular
assustada. — Não estou em um bom momento, e você já me
provocou mais do que é saudável para uma pessoa.
— Isso é um desrespeito com Carlos, completamente
inaceitável, nunca me decepcionei tanto com uma pessoa como
com você, Victória, minha própria neta.
— Digo o mesmo, vovó, nem madame Blanchet me bateu
no rosto — disse erguendo o queixo. — A senhora atravessou
uma linha muito fina, eu não sou idiota, sei bem o que faço e
agora não vai ter casamento coisa nenhuma. Cada um que
resolva seus próprios problemas.
Abri um sorriso enorme, olhei para Antonieta pálida e de
olhos arregalados.
— O quê? — perguntou com a mão no coração, mas
Victória nem olhou, ela apenas me puxou pelo corredor.
— Feche a porta quando sair, boa noite! — Assim que
chegamos ao seu quarto, ela trancou a porta com um estrondo
alto.
Parei no meio do quarto de Victória, havia milhares de
desenhos em cima de uma mesa com recorte diagonal. Passei os
olhos pelo ambiente e tudo era a cara dela, desde ao jarro
pequenino com uma árvore Bonsai, até sua cama com uma
colcha de bolinhas brancas.
— Não repare. — Pareceu envergonhada, não respondi,
apenas abri os braços. Ela correu para mim, apertei-a bem
forte.
— Voltamos? — perguntei enterrando meu rosto em seu
pescoço. — Estamos bem? Bem mesmo? Sem ressentimentos?
Sem recaídas ou você descobrindo que não pode ficar no mesmo
lugar que eu?
Victória sorriu, mas fez careta, olhando bem, vi que o
canto de sua boca estava um pouco sujo de vermelho, examinei
o pequeno corte com cuidado. Vendo aquilo fiquei puto de novo,
minhas narinas inflaram, mas quando abri a boca para rugir
minha fúria, Victória tomou meus lábios.
Um beijo de amor e com gosto de sangue.
— Amore mio — tentei falar e ela me beijou novamente,
claro que eu deixava, Victória tinha o poder de me controlar.
Nós nos beijamos até que o oxigênio faltou, nos sentimos
tontos.
— Rocco. — Ela sorriu dando um passo atrás, cambaleou,
eu a firmei com cuidado e logo nós rimos. — Vem aqui.
Ela me pegou pela mão e me puxou para a varanda que eu
conhecia bem. Afinal, espionei que só a porra esse pequeno
pedacinho do quarto dela.
— Senta aí nessa poltrona — comandou e eu obedeci, logo
ela voltou para o quarto e trouxe a colcha de sua cama.
Ela me entregou e eu me ajeitei, passando pelas minhas
costas, já estava rindo e todo mansinho, abri os braços e
Victória se sentou toda encolhida, com a cabeça descansando
em meu peito. Puxei o ar e soltei o fôlego devagar, apertando
meus braços ao seu redor, agradecendo por ela se aconchegar a
mim.
— Todos os dias eu assistia ao nascer do sol aqui. —
Concordei beijando o topo de sua cabeça. — Eu não entendia o
porquê de não conseguir sair daquele desespero mudo. Às
vezes eu pensava que por nunca ter passado por aquilo eu não
sabia como primeiro lidar para depois esquecer e seguir em
frente.
— Perdoname, amore mio — falei contra seus cabelos. —
Eu fui um tolo.
— Aprendemos com nossos erros, não é? — perguntou e
eu concordei. — Mas então eu analisei tudo, Rocco, gostei de
você do jeito que era, o seu ciúme me enlouquecia, mas, no fim,
eu continuava gostando, então o problema não era realmente
esse.
— E qual era então? — perguntei e ela se ajeitou para me
olhar.
— Era o medo que você tinha de se magoar, era isso.
Fechei meus olhos e acenei afirmando.
— Eu vi como a mulher que eu considerava perfeita se
transformou em uma vadia da pior espécie. Foi diante dos meus
olhos. Depois eu não podia acreditar no quanto você era
perfeita, você chegou tão quietinha que quando dei por mim eu
já não poderia viver sem você.
Victória sorriu e eu a beijei, esses eram os beijos de que
eu mais gostava, lentos, molhados, exploratório. Simples e
deliciosos.
— Eu sempre acreditei que nada acontece sem que Deus
permita, eu fiquei um tempo afundada dentro de minha
automiséria, eu parei de ouvir aquela voz bondosa que me
dava forças para continuar nos meus dias de escuridão, então,
quando te perdoei, quando te aceitei de volta, eu senti como se
uma venda saísse dos meus olhos, agora eu vejo tão
claramente como antes.
Sorri feliz por tê-la me aquecendo como eu fazia por ela.
— Amore mio, você foi ontem para sua consulta? —
perguntei baixinho, eu estava com as palavras de Antonieta
engasgadas. Franzindo o cenho, ela negou.
— Eu cancelei, na verdade, desde aquele dia, no ateliê da
minha avó, eu ainda não saí de casa, tudo do casamento
resolvemos daqui mesmo.
— Carlos não se incomoda com isso? — sondei como quem
não quer nada
— O Carlos está tranquilo, ele deixa que a gente resolva,
na verdade ele só quer que eu chegue à igreja vestida de noiva.
— Fiquei tenso.
— Ele diz isso, é? — Ri para amenizar meu estado
crescente de agonia.
— Sim, “depois que minha noiva entrar pela nave da
igreja, ela não escapa mais”. — Riu, seus olhos brilhando. —
Carlos está mais ansioso do que eu.
Dio mio, porque parece que é Victória que vai se casar? E
por que malditamente parece que tem uma pedra no meu
estômago?
— Rocco, há detalhes desse casamento que você não vai
aceitar, portanto prefiro apenas que você confie em mim, certo?
Só saiba que estamos fazendo isso porque Gaby sofre de ataque
de pânico e ansiedade, já tentei falar com ela sobre as
diferenças e que agora minha avó não vai interferir, não
adianta, da última vez ela foi parar no hospital em mais uma
crise intensa.
Ela olhou dentro dos meus olhos e só acenei concordando,
mesmo que meu coração estivesse como se a qualquer
momento fosse ser arrancado.
Naquela noite Victória dormiu em meus braços, eu não
dormi. Uma angústia muito grande foi crescendo em meu peito
à medida que o sol foi nascendo e eu me vi mais e mais
desesperado. Alguma coisa não encaixava nessa história, e se
eu perguntasse, Victória poderia pensar que não confio nela.
“Só confie em mim, tudo bem?”, pediu antes de adormecer.
— Eu confio, amor, só não confio nos outros.

***

Saí do apartamento deixando Victória dormindo


confortável em sua cama.
Quando cheguei em casa as coisas estavam meio
estranhas, talvez porque eu não estivesse pensando com
clareza. Minha mente estava embotada pelo medo de perder
Victória, de não fazer nada e estar errado, de fazer alguma
coisa e ferrar com tudo, mas o pior era o medo de ficar parado e
ver tudo se desenrolando como eu acho que vai. Ontem eu
pensei que não teria mais casamento, mas Victória disse que
falou para deixar sua avó com raiva. Então ainda vai haver
casamento, sim. Estava agoniado com as suposições, mas não
queria parecer desconfiado para Victória. Toda essa situação
estava fora do meu controle, o que me deixava fora do juízo.
Meu humor estava uma bosta, por isso me isolei no quarto.
Fiquei pensando e repensando. No fim, não desistiria seja lá
qual fossem os planos reais para esse maldito e fora do comum
noivado.
Após o almoço, uma sensação de mal-estar começou a
tomar de conta, eu comecei a ficar ainda mais ansioso, agitado,
estressado e agressivo.
— Preciso sair.
Levantei-me e me vesti às pressas, logo caminhava em
silêncio para a saída do meu apartamento.
— Ei vai para onde? — Dimitri perguntou, e pelo tom de
sua voz ele não queria que eu saísse.
— Vou descer, caminhar um pouco, respirar ar puro.
— Ei, cara, vamos jogar poker? — perguntou entrando na
minha frente. — Aposto meu GTO roxo, 1964, uma raridade.
Neste instante, soube que havia algo de errado, Dimitri
nunca iria apostar o carro que ele mais ama sem um motivo
muito filho da puta.
— Vou sair.
Empurrei Dimitri e entrei no elevador, meus amigos me
seguiram. Olhei para William e ele estava meio pálido e com
cara raivosa. Meu estômago afundou. Com sentimento de
preocupação ainda mais inquietante eu desci até a entrada
principal e vi muitos repórteres migrando para um determinado
local. Os jardins. Corri para lá e o que eu vi me deixou bambo.
— Amore mio. — Foi o único som que saiu da minha boca.
— Sinto muito! — William colocou a mão em meu ombro.
— O eclipse chega depois de amanhã — Dinka pontuou,
mas eu não ouvia, eu estava concentrado na visão tenebrosa
diante de mim. — Só fique tranquilo meu amigo.
Caminhei como um zumbi para perto do foco das fotos e
dos jornalistas. Muitos flashes disparavam ao redor, e Victória
era abraçada por um Carlos sorridente. Ela também sorria,
daquele jeito lindo, delicado e… apaixonado?
— Ah, Dio mio não! — Afoguei com minhas palavras.
Isso está errado! Minhas mãos começaram a tremer, eu as
fechei em punhos escondendo-as dentro dos bolsos da minha
calça.
— Carlos, você ama sua noiva? — alguém perguntou e ele
olhou para Victória, ambos deram um sorriso cúmplice.
— Com tudo que há em mim, não posso viver sem ela, ela
é tudo. Eu sou honrado por finalmente poder me casar com a
mulher da minha vida! — ele disse essas palavras e olhou para
Victória, ela piscou um olho em retribuição.
Eles parecem conversar apenas com os olhares.
— E você, Victória? — uma mulher loura perguntou. — O
que tem a dizer? Você ama seu futuro marido?
Dei as costas, mas não pude sair dali. Eu queria ouvir e
me preparei.
— Eu o amo com tudo que tenho. Eu até pensei que não
poderia amá-lo, mas me enganei. Posso dizer que agora eu amo
mais que ontem, e talvez menos que amanhã.
Dio santo, não é uma farsa, qualquer idiota pode ouvir o
amor em sua voz, é quase palpável. Chega até aqui onde estou
e me toca, infelizmente, não é para mim.
Meus olhos estavam ardendo, a raiva foi crescendo.
— Vamos sair daqui, cara! — William me chamou. — Você
não precisa ver isso.
— E quanto a seu ex e todo aquele problema? Você ainda
mantém contato com Rocco Masari?
— O necessário, afinal iremos ter um filho! — respondeu
seca me fazendo sentir muito mal.
— Só mais uma coisa — alguém falou. — Podem dar um
beijo para uma foto?
Virei-me bruscamente e vi quando Carlos segurou o
queixo da minha…
— Fica calmo, Rocco — Dimitri advertiu entrando na
minha frente.
— Não… — Respirei fundo. — … me peça para ter calma.
De propósito, peguei um tripé, derrubando-o no chão, um
estrondo alto soou e todos se assustaram. Victória me olhou e
seus olhos arregalaram, ela balançou a cabeça negando, o quê?
Eu não sei. Agora só era capaz de sentir ódio de Carlos por ter
enganado a todos. Estiquei um braço apontando para ele de
maneira acusadora. Vários flashes estouraram ao redor, mas
meu rosto estava bem escondido com meu boné baixo, mas eles
sabiam quem eu era. Virei as costas e ia sair, quando senti
uma mão me puxando. Olhei para o lado e Victória estava de
olhos arregalados e me encarava em pânico.
— Estou saindo fora — rosnei e ela deu um passo atrás. —
Só quero que você fique tranquila, não vou atrapalhar sua
vida.
Victória empalideceu, olhei ao redor, algo me incomodava.
E lá estava Antonieta sorrindo e me encarando. Saí de lá sem
nem olhar para trás. A primeira parte do plano estaria
entrando em curso. Até o eclipse chegar. Arrebentei minhas
mãos no saco de areia, meus nódulos abriram e eu não parei.
Mesmo quando linhas de sangue começaram a escorrer, eu não
parei nem falei nada. Estava calado, muito silencioso. Meu
telefone não parou de tocar, não atendi. E nem quis falar
quando atenderam por mim.
Eu sabia, a ingênua da minha mulher foi enganada.
Precisava agora tirá-la dessa boca de lobo.
— Merda! — Bati no saco e pensando que era aquela cara
sorridente de Carlos.
— Rocco, tem visita! — William falou e eu acenei.
Fiquei mais não sei quanto tempo ali, meio anestesiado e
cheio de raiva.
— Rocco, vai atender sua visita! — William me chamou de
novo. — A nonna saiu faz mais de quarenta minutos, ela disse
que tinha algo para fazer, vim aqui ver se você estava vivo.
Adiante, venha logo.
Olhei para William e ele deu de ombros. Mas me olhava
preocupado.
— Você está muito quieto! Isso não é comum de você.
— Estou ótimo.
Saí do meu quarto de treino e fui direto para a sala.
Chegando lá, vi Victória sentada ao lado de Carlos.
— Saia daqui, seu merda! — Não queria olhar na cara
dele, por isso virei as costas para voltar para o quarto.
— Você poderia deixar de ser um babaca precipitado pelo
menos uma vez? — Carlos falou alto e eu parei meus passos.
Fechei as mãos em punhos e contei, na tentativa de
acalmar. Um… sete…
Controle o temperamento, controle o temperamento.
Ouvi o barulho de porta fechando e pude respirar.
Comecei a caminhar de novo, e outra vez fui interrompido.
— Agora será podemos falar de uma vez?! — Carlos
insistiu e eu me virei.
— Eu não tenho nada para falar com você, agora saia da
minha casa, por favor. — O por favor rasgou para sair, mas eu
ainda tentei soar convincente.
— Você é um grande idiota!
— Eu? Eu? — perguntei furioso. — Pensa que não vi a
poucas semanas atrás você se insinuando para cima de
Victória? — acusei muito puto. — Então do nada surge um
casamento, você tem uma namorada, mas estranhamente neste
caso Victória que é a noiva trocada. Isso é não é coisa de
homem, ter medo da avó? Por favor! Não sou tão obtuso.
— Eu te ajudei — Carlos apontando o dedo. — Agora fica
quieto e não magoe Victória, logo as coisas ficam calmas. Me
deixa explicar o que vai acontecer, você vai entender.
— Vá se foder, Carlos! Que homem recorre a subterfúgios
e armações para se casar? Por que eu acho que essa história
está muito mal contada?
— Quer saber? Eu não te devo satisfação! — Jogou as
mãos para cima. — Às vezes eu acho que Victória é realmente
boa demais para você, pelo menos nisso estou começando a
concordar com minha avó.
Instantes depois de suas palavras meu punho estavam
revidando. Sinto muito, mas não parei. Estava cego de raiva,
ciúme e desgosto. Eu sabia que isso iria acontecer desde que
eu o vi na minha sala.
— Você a enredou na sua teia! — acusei vendo-o cuspir
sangue
— Seu mal-agradecido! Vá se ferrar!
Naquele momento eu pensei que uma merda grande não
poderia ficar maior.
— É sério que você fez isso, Rocco? — Victória perguntou
decepcionada, olhei para o lado e ela estava me encarando com
uma carinha triste. — Viemos aqui explicar os próximos passos,
mas você não escuta, não entende, simplesmente não colabora.
Pense o que quiser. — Abanou uma das mãos, sua expressão
mudando para cansada. — Sabe de uma coisa, lá no fundo eu
sabia que não dava para confiar em você, mas mesmo assim eu
resolvi que valeria a pena. — Balançando a cabeça ela
martelou um prego de 20 cm no meu peito. — Parei com você,
faz o que achar melhor e esquece ontem. Foi um erro, você não
passou dos dez anos, não preciso de uma criança mimada para
cuidar. — Acariciou a barriga. — Eu já estou esperando uma.
William, que estava esse tempo todo com Victória,
concordou com ela.
— Em breve você vai ver como ser um troglodita não
funciona, e eu nunca iria beijá-la. — Carlos limpou o sangue
que escorria pela boca e puxou Victória, ambos saíram que eu
nem vi.
Mais uma vez fiz merda, mas não me arrependia, eu
queria mesmo era dar uns murros em Carlos e dei. E se quer
saber, eu bato em William e no Dinka, ambos os bastardos são
meus melhores amigos, então não balance a cabeça me
julgando. Todo mundo sabia que isso iria acontecer, bastava eu
e Carlos estarmos a menos de três metros de distância e sem
barreira de contenção no meio. Agora vamos ao plano do dia.
Inundar uma igreja.
— Dio santo, perdoname. — Fiz o sinal da cruz e olhei para
William.
— Dimitri já tem os contatos, só basta dar o sinal — falou
sacudindo os ombros.
— Pode iniciar.
E então só faltavam três pequenas tarefas. E a principal
era: Sequestrar a noiva.
Capítulo 21
Victória

— Por favor, me desculpa por tudo — Carlos falou


— Para, eu entrei nessa porque quis. — Abanei uma das
mãos enquanto descíamos o elevador do apartamento de Rocco.
— Não era para termos vindo, eu conheço Rocco muito bem, no
mínimo eu deveria estar aqui sozinha. Eu disse para ele que
havia aspectos desse noivado com os quais ele não concordaria,
mas deveria ter explicado quais eram. Sejamos sinceros, Rocco
tem razão e nós sabemos disso.
— Eu sei! — Fez uma careta. — Eu não deveria ter
entrado nessa confusão.
— Sim, deveríamos ter enfrentado nossa avó e pronto, mas
em vez de fazer isso complicamos tudo! Queria dar uma lição
nela, tudo bem, mas ao contrário disso acabei complicando
minha vida.
— Desculpa — gemeu tocando o lábio partido — Porra, ele
bate com força.
Rocco é uma força bruta da natureza, tipo, ele pode ser
chamado de terremoto ou furacão Rocco Masari e não teria
problema.
— Carlos vou ser sincera contigo, ele bateu devagar. — Ri
sem querer. — Se ele quisesse, nos segundos que esteve te
batendo poderia ter te deixado fora de combate, eu já vi Rocco
derrubando cinco caras em um estacionamento, com raiva ele é
uma coisa fora do comum.
Carlos arregalou os olhos e logo explodiu em uma risada
intensa, que virou um gemido.
— Vocês são perfeitos um para o outro! — engasgou com a
dor. — Eu realmente teria feito o mesmo que ele.
Eu concordei.
— Então a ordem é você conversar com Gaby e explicar
para ela que teremos meu Rocco, não posso deixá-lo fora dessa,
vou só esperar ele acalmar para poder procurá-lo.
Carlos concordou e sorriu.
— Vou me casar com o olho roxo e o lábio partido, quanta
sorte.
Dessa vez quem fez careta foi eu. Realmente Carlos iria se
casar com o rosto colorido.
— Você está no lucro, se realmente quisesse, Rocco teria
te deixado uma massa sangrenta. — Arrepiei, mas não foi de
desgosto. — E por que, em nome de Deus, isso me deixa com
vontade de voltar lá e agarrar ele?
— Coisas de grávida, admita, prima, você gosta do seu
selvagem.
Era verdade, apesar de ainda achar que violência não
resolve nada, ver Rocco em ação me deixou ofegando.
— Não sei, mas agora quero que você case logo, desculpa,
primo, mas ser sua noiva é uma merda.
— Obrigado pela parte que me toca — fingiu estar
magoado — Mas, Victória, de fato parecia que eu iria te beijar,
encenamos tão bem que eu acabei ganhando um rosto novo.
— Já te disse para não reclamar, Rocco não quis
realmente te bater, ele foi gentil.
— Você o está defendendo? — perguntou com a
sobrancelha arqueada
— Claro, como não vou defender?
— Está certa, depois de tudo eu estaria louco também. Eu
sou pacífico, prima, mas não estou morto. E eu o provoquei,
tenho que pedir desculpas.
— O que você disse? — Carlos desviou o olhar e eu parei
de andar. Ele não me encarava.
— Talvez eu tenha dito que ele poderia não ser bom para
você e que nossa avó está certa quanto a isso. — Virei as costas
e comecei a caminhar. — Espera, aonde você vai?
— Você não deveria ter dito isso a ele, foi cruel, estamos
errados e ele não tem culpa se nós somos covardes a ponto de
não falar a verdade para nossa avó! No fundo, Carlos, toda essa
situação é medo que sentimos dela, porque como Rocco disse,
para quem ver essa história é muito mal contada. Somos
adultos, mas parece que não.
— Ele está com raiva agora, deixa ele acalmar, e vamos
resolver. Okay?
Respirei fundo e acenei. Mas duvidava, porque na minha
vida tudo é difícil, complicado, enrolado.
— De hoje não passa. — Carlos me abraçou.
— Eu te adoro, Victória Fontaine.
— Eu também.
Juntos caminhamos para meu apartamento. No meio do
caminho topei com uma mulher de idade, ela parecia bem
vigorosa e era muito bonita.
— Desculpe-me, senhora — falei em Português e ela
franziu o cenho, então sorriu.
— Não entendo o que diz. — Ela tinha uma voz linda
também, era suave, e as palavras flutuavam como uma
melodia.
— Eu pedi desculpa — corrigi em inglês e ela sorriu ainda
mais
— Que é isso, menina, eu que não vi por onde andava.
Eu encarei bem seu rosto e a achei familiar, mas não sabia
de onde. Ela tinha uns cabelos pretos e uns olhos pretos
também, a pele era levemente bronzeada.
— Que barriga linda. — Apontou
— Eu estou grávida de cinco meses. — Estufei o peito,
depois do meu acidente o fato de ainda estar grávida era minha
maior fonte de orgulho.
— Você deve estar orgulhoso. — Olhou para Carlos, que
logo negou.
— Ah, não, senhora, o bebê não é meu. Victória é só minha
prima.
A mulher nos olhou, eu me mexi um tanto desconfortável,
porque ela parecia me analisar.
— E o pai do bebê está feliz? — perguntou sorrindo
erguendo uma das mãos. — Mas quem vê pensa que vocês são
um casal.
— Só parece mesmo, mas não somos — revelei como um
segredo. — Só estamos enrolados até o final de semana.
— Complicações da vida. Quem nunca passou por isso que
atire a primeira pedra. não é mesmo?
— Sim, senhora, tem toda razão — concordei vendo-a
aproximar-se de mim.
Permiti que ela tocasse minha barriga, e logo suas duas
mãos estavam ali. Não sei como, mas Gianne começou a mexer.
A mulher conversava em inglês com ele, ela falava coisas
carinhosas que parecia deixar meu bebezinho agitado e
contente, e ele sempre foi quietinho.
— Sim, meu pequeno, tudo estará à sua espera e você terá
uma linda família feliz que o ama muito.
— Ele não mexe assim para ninguém. — Sorri permitindo
que ela ficasse à vontade
— Ele? — perguntou sem parar de tocar onde o bebê
mexia, de algum modo senti que ela já sabia.
— Sim, é um menino.
Por um momento eu vi orgulho em seu semblante, mas
bem rápido ela escondeu a expressão.
— A senhora leva jeito com crianças — afirmei e ela
concordou.
— Cuidei deles boa parte da minha vida, na verdade ainda
cuido.
Eu realmente acreditei. Ela tinha uma aura de paz e
carinho que a rodeava, eu não sei explicar, mas senti uma
ligação instantânea, era quase como se eu pudesse confiar
minha vida nas mãos dela. Um fato triste a admitir, mas não
senti essa forte conexão com minha avó. Na verdade a minha
não tinha essa cara, jeito e cheiro de avó. Não sei o que me
deu, mas eu queria muito abraçar a mulher diante de mim.
— A senhora é babá? — perguntei e ela sorriu.
— Sim, estou no momento cuidando de três crianças,
entretanto o meu garoto do meio está passando por uma fase
complicada — bufou —, ele está rebelde e me dando muito
trabalho.
— Crianças realmente têm seus momentos. — Senti uma
vontade de abraçá-la muito forte. — Espero que a senhora
esteja aqui quando meu bebê nascer, gostaria dos conselhos de
uma pessoa experiente — deixei escapar e ela sorriu.
— Minha menina, eu estarei sim. Aqui ou lá, pode ficar
calma, a gente vai ter oportunidade de trocar experiências.
— Que sorte essa família tem por tê-la cuidando de seus
filhos. — Coloquei minhas mãos em cima da dela. — Muita
sorte.
Eu olhei para nossas mãos juntas e vi que alguns de seus
nódulos estavam machucados. Ela parecia haver batido em
algo.
— Bobagem, eu cuidei do pai de um deles, me sinto uma
avó.
Rimos juntas e eu não aguentei, acabei abraçando-a.
— A senhora está bem? — perguntei baixinho. — Notei
que suas mãos estão um pouco machucadas.
— Eu apenas ensinei a alguém como não magoar meu
menino. Sou um tanto feroz com ele.
— Entendo perfeitamente, mas cuidado para não se
machucar.
Ela riu e me apertou forte, fiquei feliz porque a minha fé
nas pessoas estava de volta, me sentia como a velha Victória, e
para estar completa mesmo só faltava Rocco estar comigo.
O abraço que recebi foi tão afetuoso, tão carinhoso e tão
cheio de boas-vindas que eu comecei a chorar. Esse era o tipo
de abraço maternal e quente que te faz querer se aninhar e
não sair dali nunca mais.
— Calma querida — ela sussurrou alisando meus cabelos.
— Tudo vai ficar bem. Agora preciso ir, meu garoto deve estar
louco nesse momento — falou e pegou meu rosto me dando um
beijo em ambas as bochechas —, ele teve um desejo negado e
viu algo que o enlouqueceu. E isso o deixou fora de controle.
Concordei pedindo desculpa por tê-la prendido aqui.
— Senhora, eu não sei seu nome, eu não me apresentei
como deveria. Desculpa-me pela falta de educação. — Estendi a
mão. — Me chamo Victória.
— Eu sou Fiorella. — Mais uma vez me puxou para um
abraço apertado e gostoso. — Acho que seremos boas amigas, é
uma pena, mas preciso ir, até breve minha criança. — Acenou e
foi andando, rumo à torre vizinha a de Rocco.
Fiquei ali olhando para ela, até que Carlos suspirou do
meu lado.
— Por que ela não poderia ser nossa avó?
— É mesmo, por que não? — Dei de ombros. — Mas, em
todo caso, a nossa talvez não esteja perdida, eu sinto que
podemos resgatar ela de onde esteja escondida. Essa Antonieta
não me parece autêntica, Carlos, ela esconde algo.
Ficamos nos encarando durante alguns segundos. Por fim
concordamos que eu tinha razão.

***

— Gaby, está muito ansiosa? — Sua risada me confirmou


que sim.
— Ah, sim, você nem imagina, minha mãe está que não se
aguenta, felicidade nua e crua — suspirou. — Ela amou Carlos,
mas também, né? Ele não colabora em nada. Precisava ser tão
príncipe?
Sorri satisfeita, agora só faltavam dois dias. E graças a
Deus essa etapa estaria concluída, então, Carlos e Gaby iriam
caminhar sozinhos.
— Victória, Carlos me falou o que aconteceu, eu realmente
concordo em colocar Rocco a par de tudo.
— Obrigada, Gaby, eu vou falar com ele assim que desligar
essa chamada!
— Na internet eu vi a foto, realmente vocês pareciam que
iriam se beijar — comentou tranquila. — Converse com ele,
explique tudo direitinho que você vai ver. Se precisar de mim
para ajudar, é só chamar.
Larguei-me na cama, pensando em tudo daquele dia.
Desejando paz e menos confusão.
— A gente encenava para a vovó, você sabe de tudo—
suspirei chateada. — Rocco não entenderia nem se ele
soubesse também, mas acho que se te conhecer e vir como as
coisas estão, ele vai entender.
Na verdade desejava que Rocco apenas confiasse em mim.
Mesmo sob suspeitas eu queria que ele confiasse em mim
cegamente, assim como sempre acreditei em sua palavra, até
que ele me fizesse mudar de ideia. Por fim, mesmo querendo
pequenas mudanças, não nego o fato de que o amo como é, o
aceitei briguento, intenso, boca suja, arrogante. Rocco é um
grande e belo pacote completo, e eu tenho que aceitar todas as
artes dele, até as que eu não gosto.
É isso, apenas vamos trabalhar nos pequenos detalhes,
amore mio. Senti as borboletas de ansiedade voando em meu
estômago, e era maravilhoso, foi preciso muito autoavaliação
para entender que meu rancor nunca superaria meu amor.
— Se Rocco estiver nos ajudando, nada pode dar errado.
Se ele quer ele consegue, então se prepara, nem minha avó
consegue parar esse casamento. — Rimos juntas e ela avisou
que teria que desligar, Carlos havia acabado de chegar e iriam
jantar.
Olhei para meu celular sabendo que não precisava
esperar para falar com Rocco. Esclarecer as coisas e depois ele
poderia ver o que vai fazer. Nunca gostei da sensação de
pendência, se estava em meu poder resolver, então que fosse
logo, liguei para ele, chamou até cair. Tentei outras vezes e
nada, por fim mandei uma mensagem, e depois outra quando
não obtive resposta, olhei para o relógio e marcava oito e vinte.
Meu pai estava vivendo sua vida, mas só fez isso quando viu
que eu não iria cair no fundo do poço de novo, aceitou um dos
convides da Dra. Rosana para darem um volta. Eu não
precisava mais me consultar com ela, meu juízo estava no
lugar, e eu o coloquei sozinha, a melhor coisa que poderia ter
feito por mim mesma. Jason, por sua vez, tinha um sem-fim de
compromissos, hoje antes de ele vestir a camisa, vi que estava
com as costas todas arranhadas, os assuntos dele não era
pertinentes a mim. Tia Laura e Ricardo estavam em sua bolha
particular, era lindo vê-los juntos.
— Agora o que eu faço? — Levantei devagar, minha perna
estava muito melhor, só ter cuidado que tudo daria certo.
Andei pelo quarto batucando o telefone na mão. Ansiosa. Liguei
outras vezes para Rocco sem o menor sucesso.
Respirei fundo, naquele momento ouvi latidos ansiosos,
abri minha porta e duas bolas de pelos invadiram meu quarto,
na hora uma ideia me ocorreu.
— Bolinha, minha princesa, que tal irmos dar uma
voltinha?
Arrumei as coleiras e saí, iria resolver tudo com Rocco,
queria poder ir correndo, mas além das minhas limitações
controlar os dois cachorros era complicado, ainda bem que
Rocco estava bem perto. Cheguei em frente a seu prédio e o vi
parado ao lado de Dimitri. Ambos estavam arrumados, todos de
preto muito lindos. Porém Rocco exalava uma aura de perigo
inegável, talvez a supermoto assustadora em que ele se
recostava ajudasse. Sacudi a cabeça, andando em direção a
eles, que não me notaram, pois estavam engajados em uma
conversa fervorosa, estava muito próxima quando os cachorros
latiram, Rocco me olhou e fez uma cara que eu não
compreendi. Logo sua expressão se tornou distante. Ele fez um
sinal com a cabeça e eu ergui uma das mãos, imitando um
telefone. Deu de ombros, indiferente, subiu na moto me
olhando por um momento depois fechou a viseira e acelerou,
indo embora, o vi afastando-se em uma longa linha reta, sua
figura aos poucos se tornando indistinta.
Respirei fundo.
— Sinto muito. — Ouvi Dimitri do meu lado, nem o notei
chegando perto. Eu estava congelada e só sentia as sacudidas
nos meu braços, os cachorros estavam loucos. — Rocco foi
empurrado além do limite, bonequinha.
Olhei para o Dinka concordando.
— Eu os trouxe, estávamos com saudades… — Eu me
interrompi gaguejando. — Eles estavam, a Bolinha…
— Victória, me entrega as coleiras — pediu com carinho,
nem senti quando ele as retirou da minha mão.
— Para onde ele foi? Não quis falar comigo? — Houve um
longo silêncio, tenso, ansioso, quase sem respirar.
— Rocco está te deixando em paz, até ele sabe que ferrou
tudo e que precisa respeitar sua escolha. Ele sofre, mas quer te
ver feliz.
Olhei para Dimitri sem saber o que dizer.
— Ele desistiu de mim? — Levei uma das mãos ao peito,
meu coração doía — Depois de redescobrir… — Fechei os olhos
sem saber o que fazer, comecei a tremer e a ficar tonta
também.
— Opa, espera aí! — Dimitri me segurou quando
cambaleei. — Você está bem?
— Tenho que ir! — Eu me soltei dele, mas tudo rodou,
respirei fundo.
— Victória, senta aqui! — decretou e eu sentei em um
banco de ferro charmoso.
Fizemos silêncio longo e perturbador.
Eu não sabia como começar a descrever as loucas emoções
que estavam me engolindo. Rocco desistiu? Talvez sim, porque
eu não me importei com os sentimentos dele, como poderia
acreditar que eu estava segura de mim? Se quando saiu daqui
ainda os mesmos pesadelos circulavam minha mente. Eu sei
que a mudança ocorreu porque eu senti-a acontecendo, Rocco,
não, ele apenas viveu com minhas negações e pedidos de
abandono.
— Merda! — murmurei me sentindo sufocada. Rocco lutou
tanto para conseguir seu perdão e por minha aceitação, sempre
jurou que nunca desistiria, acostumei a vê-lo tentando.
Olhei para Dimitri ele me olhava como se eu fosse uma
impostora e talvez eu fosse mesmo.
— Para onde ele foi? — perguntei levantando. Eu tenho
que encontrar Rocco, pois ele com raiva fica cego e surdo, não o
quero fazendo besteira da qual vá se arrepender.
— Ele foi espairecer um pouco, aliviar a cabeça.
— Onde? — Já podia ouvir o desespero em minha voz. —
Eu liguei tantas vezes, se ele atendesse ao menos tudo se
resolveria. Preciso encontrá-lo.
— Victória, para. — Dimitri foi bem carinhoso, ele era um
querido amigo, muito querido mesmo. — Rocco encerrou,
querida, ele apenas está fazendo o que você pediu certo? Agora
aceite, deixe-o ir.
— NÃO! — Dei as costas e comecei a andar de volta para o
meu apartamento. — ELE É MEU!
Ouvi a risada de Dimitri e parei de andar para poder olhar
para trás.
— Vocês são iguais, você só não usa os punhos! —
Balançou a cabeça. — Vou levar os cachorros para casa. —
Concordei. — Você deveria deixar Rocco à vontade, agora
mesmo não é um bom momento para falar com ele. O homem
está no mínimo possuído.
— Não faz mal, Dimitri, me tornei especialista em expulsar
demônios interiores!
Em casa, não consegui dormir direito, me sentia péssima,
desconfortável, tonta e com dor de cabeça. O pouco que
consegui descansar não me ajudou, quando Gaby me ligou em
pleno desespero.
— Deu tudo errado! — Pude sentir o pânico em sua voz e
isso me deixou ainda pior. — O padre me ligou contando que a
igreja amanheceu inundada, os bancos estão molhados, tudo
alagado.
— Conta isso direito, Gaby! — pedi.
— O padre me ligou e avisou que os casamentos marcados
para hoje e para os próximos dias foram cancelados, a igreja
está inundada, tudo coberto d'água, ele me contou que já havia
solicitado uma manutenção hidráulica, mas como eu ia
adivinhar que isso poderia acontecer em cima da data do meu
casamento?
— Calma, podemos arrumar outra igreja, certo?
— Certo, o problema é a data, geralmente as novas
marcam para o sábado e as igrejas que eu vi já estão todas
ocupadas.
— Gaby que horas o padre deu a notícia? — perguntei
nervosa, um oco do tamanho do mundo estava na minha
barriga.
— Ele me ligou às seis da manhã, mas aí já não tinha jeito,
o vazamento durou a madrugada toda e só parou quando ele
solicitou o desligamento do fornecimento de água, os canos se
romperam, o assoalho de madeira está todo molhado, inclusive
uma parte dos bancos terá que ser descartada.
Jesus Cristo!
Levei uma das mãos à boca para evitar gritar em
frustração. Olhei para o relógio, eram dez horas.
— Por que demorou tanto para me avisar? — perguntei
correndo para o banheiro. — Você deveria ter ligado logo.
— Eu estava socorrendo minha mãe, ela passou mal
quando soube, e a saúde dela ainda é frágil. Então eu corri com
meu pai nas igrejas próximas e não teve jeito, o sábado está
ocupado.
Respirei fundo quando senti vontade de chorar. Se Rocco
estivesse aqui, ele daria um jeito! Nunca com ele sendo o dono
da situação, uma igreja alagada seria problema. E agora?
— Será que vou ter que adiar meu casamento? —
perguntou com a voz embargada.
— O que o padre falou das datas?
— Ele disse que a semana que vem era a semana da
oração do terço, ele pode cancelar para remarcar os
casamentos.
— Vamos ver outra igreja, minha avó vai ter que entrar
nessa, sinto muito.
— Sinceramente? Não estou nem aí, eu só não quero estar
perto dela, depois de casada eu enfrento, porque será o jeito,
mas só de pensar no que ela pode fazer entro em pânico. É
covardia minha, eu sei, mas sofri o pão que o diabo amassou na
mão dela.
— Tudo bem. — Suspirei. — Já enrolamos até agora, não
faz diferença um dia a mais.
— Obrigada, o que você está fazendo por mim, outra
pessoa não faria.
Esfreguei o rosto, mais essa agora. Minha dor de cabeça
pareceu piorar, evoluindo para o que parecia enxaqueca,
inclusive sentia um enjoo começando a surgir.
— Bom dia, Brother — cumprimentei assim que o avistei.
Jason estava a cada dia mais lindo. Ele tinha uma aura de
tranquilidade que estava ausente quando o conheci.
— Bonequinha. — Veio me abraçar. — Bom dia, meu
amor, como dormiu?
Eu o abracei de volta
— Dormi mal, Rocco não atende minhas ligações, a igreja
do casamento amanheceu com água para todo lado, Gaby está
doida e eu não sei mais o que fazer, parece que minha boa
intenção não está resultando em nada bom.
Jason afastou-se um pouco e me encarou
— A igreja amanheceu alagada? — perguntou com a
sobrancelha arqueada e eu afirmei.
Ele riu baixinho, então me abraçou de novo descansando o
queixo em minha cabeça.
— Onde estão os cachorros?
— Estão com Rocco, fui lá ontem, mas ele nem deu bola
para mim. — Funguei fazendo bico. — Ele montou naquele
monstro de metal e foi embora.
— Quer que eu dê umas porradas nele? — Jason ofereceu
solícito.
— Nem toque nele.
Jason começou a rir, então ele gargalhava da minha cara
de brava e eu querendo matá-lo.
— Não pense que estou brincando, eu estou grávida, com
hormônios em fúria, doida para resolver as coisas com Rocco,
enrolada com o casamento mentiroso, com raiva de mim por ter
me metido nessa confusão sem pensar nas consequências…
— Bonequinha — Jason estreitou os olhos. — Você
conhece Rocco, e das duas uma, ou ele iria te deixar ir… —
ponderou me deixando morta de medo. — Ou iria derrubar
meio mundo para te ter de volta. E o que ele fez?— perguntou
carinhoso colocando uma mecha do meu cabeço atrás da
cabeça.
— Ele desistiu. — Encarei Jason e desta vez eu soube que
fui longe demais.
— Victória, você falou que amava seu futuro marido em
rede nacional.
— Eu estava pensando em Rocco quando falei aquilo! —
exclamei quase gritando. — Será que não dá para notar? Ah,
meu Deus!
Com a mão tremendo eu peguei meu celular e liguei para
Rocco até sentir meu queixo tremendo pela força que eu fazia
para segurar o choro.
— Eu vou lá!
Saí de casa com Jason na minha cola. Quando cheguei à
torre vizinha fui direto para o elevador, meu Brother sempre
estava mudo do meu lado. Quando eu digitei no painel o código
de destravamento que Rocco me deu, não funcionou. Primeiro
pensei que eu tinha errado, então tentei de novo, aí eu já caí
no choro quando Jason tentou a ainda não funcionou.
— Por favor, interfone para a cobertura — pedi na
recepção.
Esperei com o coração na boca. Podia até ouvi-lo batendo
no meu ouvido.
— Bom dia, Sr. Masari? — Esperei paciente — Sr.
Romanov, Victória Fontaine está aqui. — O recepcionista ouviu
e então estendeu o telefone para mim.
Peguei sem querer, parecia que o aparelho era um carvão
em brasa.
— Alô.
— Querida, Rocco ainda não voltou desde ontem. —
Funguei quando ouvi. — Mas quando ele chegar, eu aviso para
você.
Acenei como se ele pudesse me ver.
— Obrigada, Dimitri. — Entreguei o telefone de volta para
o recepcionista. Olhei de um lado para outro. Sentindo-me
perdida.
Girei em meus calcanhares e comecei a andar sem prestar
atenção realmente.
Ele saiu, não voltou, não me atendeu e não quis falar
comigo.
Mordi o lábio com força, Jason era uma presença
silenciosa ao meu redor. Rocco falou que estava saindo fora e
que não iria atrapalhar minha vida. Ele caiu na noite carioca.
Imaginei as lindas brasileiras e Rocco. Não visualizei
muito. A bílis subiu e eu acabei tão enjoada que vomitei meu
suco gástrico. Foi preciso Jason me segurar.
— Ei, bonequinha, não vamos regredir, certo? —
murmurou pesaroso, não consegui olhar para ele, meu olhar
fixo em alguma coisa sem sentido. — Eu conheço esse olhar,
não vamos regredir, Victória!
Não respondi.
— Olha para mim! — exigiu e eu obedeci. — Amanhã é
meu aniversário, não me dê de presente seu desgosto, eu não
posso com isso. Por favor, tire esse olhar, não afunde em
suposições.
Acenei e fomos para casa. Assim que cheguei sentei no
sofá, meu olhar perdido em algum lugar, não sei quanto tempo
fiquei ali, mas quando minha avó chegou ela estava agitada e
revoltada. Reclamando da segurança no nosso prédio.
Quando a olhei vi que ela tinha um grande e gritante olho
roxo.
— Como a senhora conseguiu isso? — perguntei
preocupada. — Foi agora?
— Não, foi ontem, uma selvagem me atacou. Eu nem a vi
chegando — reclamou revoltada —, a segurança nesse
condomínio é uma porcaria, só Deus sabe de qual favela aquela
louca saiu. Cadê seu pai? — perguntou e eu dei de ombros
— Ele dormiu fora, eu acho.
Minha avó torceu a boca com raiva, mas aceitou.
— Preciso de gelo, meu médico mandou colocar para ver se
diminui o inchaço. Coisa ridícula, ir ao casamento dos meus
netos com um olho preto.
Enquanto ela foi à cozinha meu telefone tocou.
Atendi apática.
— Socorro, Victória, está tudo dando errado! — Fechei os
olhos sentindo as pontadas da dor de cabeça piorando.
— O que foi?
— A empresa de Decoração acabou de ligar cancelando, as
minhas flores se perderam, sumiram!— Gaby chorava e eu
estava quase lá também. — Não só isso, o Terrace Jardim fez
um comunicado, eu recebi um email avisando o cancelamento,
eles devolverão o dinheiro e ainda irão pagar uma multa.
— Simplesmente cancelaram? — perguntei fechando os
olhos e recostando-me do sofá, minha cabeça jogada para trás.
— Assim sem mais nem menos?
— Eles avisaram que houve uma infestação de insetos e
que vai ser feita uma dedetização extensa. — Gaby soluçou,
fungou e eu senti minhas lágrimas escorrendo.
— Mais algum problema?— suspirei limpando as lágrimas.
Eu até parecia calma, mas estava mesmo era a ponto de
correr gritando meu desespero.
— Quando escolhi o Terrace Jardim para ser a recepção,
eu pensei em praticidade, lá eles têm um Buffet maravilhoso, e
agora, resumindo, eu só tenho o bolo e os doces do casamento,
e sinceramente estou esperando para ver o que ainda vai dar
errado.
Minha mente deu um branco terrível, eu não sabia o que
fazer. Não sabia para onde ir. O casamento que estava pronto
há três dias hoje não está mais perto do que esteve um mês
atrás.
— Temos o vestido de noiva, o bolo e os docinhos —
murmurei e ela me mandou esperar. Alguém estava ligando
para ela.
Instantes depois a chamada com Gaby voltou. Com suas
próximas palavras pronunciadas eu senti a derrota impregnada
em seu tom.
— Sem bolo e sem doces, agora só tenho mesmo o vestido.
Foi suficiente. Comecei a chorar com grandes e gordas
lágrimas e soluços rasgados.
— Minha filha, o que foi? — vovó chegou e eu desliguei o
telefone.
Não consegui falar, mas eu estava desesperada,
angustiada e quase tendo uma parada cardíaca. Minha cabeça
doeu ainda mais, olhei para minha avó, mas por algum motivo
eu estava tendo dificuldade para focar a visão. Eu sentia como
se agulhas perfurassem meus olhos.
— Cancelado, vovó. — A sensação de mal-estar
aumentando muito.
— O que, minha querida? — ela falou toda carinhosa, mas
não chegou perto, depois do tapa ela estava receosa, e eu
agradecia por isso.
— O casamento. — Voltei a fechar os olhos, estava
começando a ficar enjoada devido à intensidade da dor.
— O quê? — gritou e eu gemi de dor. — Como assim?
— Igreja alagada, decoração extraviada — solucei largada
—, salão de festa infestado de inseto, Buffet incluso no item
anterior, bolos e doces cancelados também.
— Não mesmo! — Abri um olho e vi minha avó pegando a
bolsa. — Eu vou resolver, pode deixar.
— Vovó, passamos duas semanas para arranjar o
casamento, agora a senhora acha que vai conseguir
reorganizar em dois dias?
— Em cinco dias eu terei seu casamento todo pronto ou
não me chamo Antonieta Andrade!
Dito isso ela pegou a bolsa e correu para a saída.
— E agora? — Jason sentou do meu lado e eu me ajeitei
para deitar a cabeça em seu colo.
— Vamos comemorar seu aniversário, Brother —
resmunguei de olhos fechados —, a única coisa boa no meio
dessa porcaria toda.
Depois de comer forçada, porque Jason mandão entrou em
ação, dormi um pouco. Acordei sentindo uma leve dormência no
lado esquerdo, mas acho que foi porque eu dormir em cima do
braço. Durante o dia Gianne não mexeu de jeito nenhum, mas
ele era bem calmo então não me preocupei. Na tentativa de
fazer algo útil, fui navegar na internet em busca de um bom
restaurante para comemorar o aniversário do meu Brother,
durante poucos minutos tudo foi tranquilo, até que uma
matéria em destaque em um desses sites de fofocas saltou
diante dos meus olhos.

Rocco Masari e o Conde William Savage caem na


noite carioca
Isolados em toda a área privativa, os magnatas Ingleses
arrancaram suspiros da mulherada durante as mais de 5 horas
de noitada, com direito a drinques exóticos e muita música, a
noite foi regada com muita animação. Lembrando que o
gigantesco Iate do todo poderoso Masari atracou esta manhã na
marina carioca.
Quais serão as sortudas convidadas a conhecer o luxuoso
Eclipse?

Respirei fundo, a dor de cabeça voltou com força total,


meus olhos queimaram, mas tudo bem. Ele tem o direito de se
divertir e não tinha dizendo aqui que ele estava acompanhado,
então não preciso morrer do coração.
— Não quer dizer nada essa festa, ele só estava mostrando
a cidade a William — eu me convenci e fui continuar a procurar
o lugar para levar Jason.
Achei um restaurante com boa iluminação e nas fotos ele
parecia bem aconchegante, de brinde tinha vista para o mar.
Peguei o telefone e liguei. Como não havia calculado a
quantidade de pessoas, reservei quatro mesas. Acertei tudo, e
pronto, até um bolo teria. Aquele resto de dia foi um merda no
exato sentido da palavra, liguei para Rocco mais uma vez,
então mandei mensagens. Nada de resposta. Então mesmo sem
eu querer, algo daquela garota indiferente e sem amor voltou,
não me refiro a ficar remoendo sobre o que aconteceu no bar,
aquilo foi devidamente encarado e relegado às memórias
traumatizantes e de aprendizado, hoje me refiro a achar que eu
e Rocco não éramos para ser, ponto final. Não foi por falta de
tentar, eu tentei, os milhares de ligações e mensagens devem
significar alguma coisa.
Deitei para descansar um pouco, acabei dormindo. Acordei
toda agoniada, enjoada, tremendo de frio, o corpo estranho e
pesado, tentei me levantar, mas estava grogue.
— O que houve? — questionei confusa olhando a
escuridão ao redor, não sabia que horas eram, nem que horas
fui dormir. Mas foi toque do meu celular que me despertou.
Tentei me erguer, mas não consegui. Tudo rodou, fechei os
olhos. E não me lembro de mais nada.

***

— Victória, acorda. — Ouvi a voz do meu pai e abri um


olho.
— Pai. — minha língua estava embolada, mas acho que
era devido ao sono.
— Minha filha, são duas da tarde — afirmou me
encarando. — Você está se sentindo bem?
Afirmei e ele aceitou.
— O restaurante L'Etoile ligou confirmando reserva, é
certo?
— Sim, pai, hoje é o aniversário do Jason e eu queria
presentear ele com um jantar em família, ah, sim, eu queria
comprar uma guitarra para ele, mas não tive a oportunidade de
sair.
Meu pai sorriu de forma cúmplice.
— Quando peguei os documentos para a viagem eu vi a
data de aniversário dele, tem uma coisinha na nossa garagem
esperando para completar a surpresa. — Piscou um olho e eu
me levantei para abraçá-lo.
— Obrigada, pai, Jason é meu irmão de coração, não
temos o mesmo sangue, mas sobramos em amor e carinho.
— Eu sei, só espero que também ele goste do presente, eu
acho que é a cara do seu Brother.
— O que é? — perguntei curiosa
— Uma moto turbo, eu o vi paquerando uma na TV.
Ri feliz com a sensibilidade do meu pai.
— Vou indo, preciso falar com Carlos para ele ir ao jantar
hoje. — Deu de ombros. — Mamãe falou que foi atacada por
uma favelada, ela disse que não teve nem tempo de reagir,
quando notou estava sendo esmurrada sem dó.
— Eu só vi um olho roxo.
— Filha, um murro dado várias vezes no mesmo lugar
causa um grande olho preto, o da sua avó está em um nível
desses, hoje ela não conseguiu abri-lo.
Fiz uma careta
— Eu soube dos problemas do casamento, a mãe de Gaby
passou a noite no hospital, ela teve uma queda brusca de
pressão, Gaby também foi medicada, ela teve uma crise
nervosa. Carlos está em pânico.
— Foi um monte de fatalidades, pai.
— De qualquer forma, sua avó está com um longa lista de
contatos em mãos, esse casamento não demora a sair.
— Espero, minha vida vai se resolver a partir dele.
— Sei.
Meu pai saiu do quarto e eu me levantei para tomar um
banho. Fiz minha higiene e não entendi como pude dormir
tanto.
Peguei meu celular e vi uma chamada perdida. Quando vi
o número desconhecido sorri feliz. Poderia meu grandalhão.
— Rocco? — perguntei ansiosa.
— Não, Rocco não tem a sorte de ser tão gostoso.
— Dimitri. — Sorri. — Como você está, meu querido?
— Eu estou bem, mas estou ligando porque fiquei
preocupado com você, ontem quando você saiu parecia não
estar se sentindo bem.
Ouvi o barulho de algo caindo no chão.
— Ah, foi só uma dor de cabeça chata e um pouco de
tontura, mas estou bem agora.
— Então você teve dor de cabeça e tontura — ponderou —,
mais alguma coisa?
Dessa vez escutei um grunhido longe, achei que fosse
Rocco, mas logo descartei. Ele não iria deixar outra pessoa
falando comigo se estivesse preocupado.
— Não… tudo está bem.
— Está tudo bem mesmo? — repetiu e eu ri.
— Por que está repetindo o que eu estou falando? —
questionei achando engraçado, entretanto, mesmo se eu
quisesse, não daria para conectar um pensamento coerente ou
mais complicado, meu cérebro estava meio nebuloso.
— Eu não estou fazendo isso. — Ouvi sua risada baixa.
— Dimitri, o que vai fazer hoje?
— Absolutamente nada, estou preguiçoso, o calor me deixa
com vontade de ficar nu e dormir no ar-condicionado.
Gargalhei alto.
— Dimitri, você é demais sabia? Estava com saudade
dessas suas conversas. — Suspirei. — Mas então, hoje é o
aniversário do Jason e eu marquei um jantar, você gostaria de
ir?
— O convite se estende? — questionou e eu nem pensei.
— Com toda a certeza do mundo. — respondi rapidamente.
— Uhn, Rocco está aí? — perguntei receosa.
— Sim, ele está de ressaca, o porre ontem foi grande, você
quer falar com ele?
— Quero sim — respondi o mais rápido que pude, vai que
ele acha que eu estou pensando e não me deixa falar com
Rocco.
Ah, Céus, minha mente está confusa, mas como um
maratonista eu me preparei para despejar que eu não posso
viver sem ele quando ouço…
— Não quero falar com ela, Victória fez sua escolha. E eu
aceitei, agora estou fazendo a minha também.
Tremi inteira. Dimitri não revidou.
— Rocco está dormindo. — Talvez ele saiba que eu o ouvi.
— Tudo bem, meu querido, o jantar é às dezenove horas,
vamos sair daqui as dezoito para curtir um pouco, se quiser
poderemos sair todos juntos.
— Até logo.
Eu fiquei congelada com o telefone no ouvido. Estava dura
sem conseguir me mexer.
— Ela disse o quê? — Rocco perguntou e eu me encolhi.
— Idiota — foi a resposta de Dimitri, suspirando afastei o
celular, não iria bisbilhotar a conversa dos outros.
Ele realmente não quis falar comigo.
Baixei a cabeça, e uma agonia sem nome me engoliu
inteira. Nunca recebi um gelo tão intenso como esse. Respirei
fundo e olhei para frente, logo senti um líquido quente
escorrendo pelo meu nariz, naquele instante minha cabeça
pesou, mas foi bem passageiro.
***

O dia passou comigo focada em paparicar Jason, eu


coloquei toda minha atenção nele e não tirei.
Fiz um lanche com um tipo de panqueca que ele gostava,
fiz também suco de abacaxi e hortelã que descobri ser o seu
favorito. Assistimos a filmes de ação e terror, todo o tempo
revezávamos para ver quem ficaria com a cabeça sendo feita
cafuné. Eu o amava muito.
Às cinco e meia fomos nos arrumar, Jason estava feliz
demais. Nesse jantar só teriam pessoas queridas por ele. Eu,
meu pai, tia Laura, Ricardo, Doutora Rosana, Clara, a
fisioterapeuta que me reabilitou em tempo recorde, William,
Dimitri e Carlos, que iria apenas para a foto, porque estava
mesmo cuidando de Gaby e da mãe dela. Rocco não iria, ele me
isolou, e decidi não ficar morrendo por isso. A vida não vai
parar, ela vai continuar e eu preciso seguir. Não é como se o
mundo fosse estagnar porque eu, Victória Fontaine, estou com
problemas, minhas desgraças são minhas desgraças e de mais
ninguém. De qualquer forma não tenho esse poder e se tivesse,
ainda assim, não usaria. Parei de remoer, e só me concentrei na
noite de Jason. Por isso, às dezoito em ponto, estávamos na
garagem. Eu fiquei naquela chatice de vamos, vamos, estamos
atrasados, porque me arrumei rápido demais, no fundo acho
que a verdade era que eu queria sair de casa, espairecer,
tomar um ar e ver gente nova.
— Nosso presente para você, Jason — meu pai falou
sorridente, graça a Deus que ele interrompeu meus
pensamentos, porque era daí para baixo. Um ciclo venenoso,
certamente eu iria voltar a pensar em Rocco e iria começar a
sentir como se estivesse no corredor da morte.
Notei tio Ricardo entregando uma chave com um laço nas
mãos do meu Brother
— Meus parabéns, querido! — Tia Laura apertou Jason
em um abraço que foi prontamente retribuído.
— Não acredito! — Os olhos do meu Brother brilhavam
enquanto ele olhava ao redor. — Não vejo o carro.
Rindo, meu pai brincou.
— Carro você já tem. — Apontou com a cabeça para a
garagem vizinha. — Olhe direito.
— Puta merda! — Jason exclamou correndo em direção a
uma grande, monstruosa e reluzente moto prateada. — Eu não
sei o que dizer, que moto do caralho!
Todos nós rimos, e eu fui a primeira falar que ele fosse na
sua moto para inaugurar, meu presente estava dentro do carro
do meu lado, só iria entregar depois dos parabéns. Eu fui com
tia Laura e Ricardo, meu pai iria sozinho, pois no caminho iria
pegar sua namorada, a doutora Rosana. Sem surpresas, mas
desde o início eu soube que havia mais que amizade entre os
dois.
Jason saiu todo bonitão em sua moto, eu estava no carro
de trás e meu pai após o meu. Uma fila indiana e lenta.
Seguimos pelo caminho ladeado até a frente das torres.
Estava distraída brincando com uma mecha do meu cabelo,
olhando para baixo, os pensamentos em branco. Notei quando
uma moto parou ao lado da minha janela. Ouvi o barulho
persistente do motor, curiosa, ergui a cabeça.
— Rocco. — Meu coração acelerou quando o vi, agradeci o
vidro não ser fumê. Trêmula, baixei o vidro, estendendo uma
das mãos, e ele levantou a viseira, me encarou. — Conversa
comigo.
Nós nos encaramos, seus olhos azuis me queimando, e eu
morta de saudade.
— Fala comigo
— Não vou te atrapalhar. — Neguei suas palavras, mas ele
ergueu uma das mãos. — Acredite, pequena, não está sendo
fácil.
Fiquei muda. Não conseguia arrumar um jeito de falar.
Minha língua estava travada, meu cérebro derretido e o
sentimento de perda me engolindo.
Senti uma lágrima escorrendo e ele aproximou-se,
capturando-a. Logo sua grande mão fazia carinho em meu
rosto, eu fechei meus olhos aceitando, inclinando-me para
receber sua atenção.
— Rocco, eu quero que você saiba que…
— Shhh, não diga nada. Palavras não são necessárias —
falou piscando um olho. — Espero que amanhã tudo esteja
como você planejou. — Ele sorriu carinhoso e misterioso.
Então ele se afastou acelerando a moto. Meu carro logo
atrás.
Pela primeira vez depois de semanas eu estava saindo de
casa, e ainda assim me sentia uma estranha dentro do meu
próprio corpo. Sentimentos confusos, pesados e um grande mal-
estar estavam me tomando por completo. Escutei uma buzina e
olhei para o lado, Jason estava ali.
Sorri para ele. Meu irmão não merecia que no dia de seu
aniversário eu ficasse cabisbaixa, ele merecia o meu melhor.
Então coloquei no rosto o sorriso mais belo e o mantive. A
antiga Victória fazia isso, eu sou antiga e a nova Victória. Gosto
assim.
Soprei um beijo para ele e seguimos. Mais adiante, em
uma parte com pouco movimento da estrada, onde a grande
maioria dos lados era arborizada, outra moto emparelhou.
Olhei ansiosamente para ver se era Rocco, mas não era.
Paramos em um sinal e o estranho ergueu sua viseira. Ele me
olhou de um jeito fixo, como se eu fosse um objetivo. Senti
medo.
O sinal abriu e seguimos, o condomínio do meu pai ficava
em uma área muito isolada, e até chegar a um lugar bem
movimentado passávamos por muitos sinais e mansões, ou
seja, ruas desertas. Em um dado momento houve um grito e tio
Ricardo acelerou. Então, tia Laura gritou e o carro deu um
solavanco, agarrei meu cinto sentindo, um medo enorme me
engoliu.
— É uma tentativa de assalto — tio Ricardo berrou. — Se
segurem.
Ouvimos tiros e outro solavanco fez minha cabeça bater
na lateral da porta. Vi estrela, mas me mantive firme, tio
Ricardo acelerou muito, tanto que as luzes de iluminação da
rua pareciam linhas.
De repente as batidas nas laterais do carro aliviaram,
olhei para trás e vi quatro motos, uma havia caído.
— Oh, meu Deus! — gritei apavorada. Sabia da violência,
mas vivê-la desse jeito, não.
— Ricardo, acelera, ele está do meu lado! — tia Laura
gritou e de onde eu estava vi um cara apontar uma arma para
ela.
Gritei alto, o susto fazendo minha cabeça doer
terrivelmente, houve o barulho de tiro, meu coração parou por
um momento.
— O carro é blindado. — Ouvir isso me fez voltar a
respirar, pensei em soltar meu cinto para ver se tia Laura
estava bem, mas não deu tempo.
Escutamos mais tiros, e a gravidade pareceu deixar de
existir.
Algo explodiu em meu rosto, era fofo, porém a primeira
pancada real, me fez ofegar, pois senti a queimadura terrível do
cinto de segurança, a segunda fez coisas voarem em cima de
mim, me curvei protegendo minha barriga, na terceira pancada
eu não passava de uma boneca sem controle das pernas e
cabeça, tudo girava e girava, a guitarra que comprei para
Jason batendo repetidas vezes em mim com força gigantesca.
Os sons de vidro quebrando, lataria amassando, o estrondo de
cada pancada no chão me fez compreender. Estávamos
perdidos.
Então houve uma última batida intensa e tudo ficou
escuro.
Capítulo 22
Rocco

Algumas coisas podem te fazer perder a cabeça, outras


podem devolvê-la a seu lugar. Mas então existe uma minúscula
e quase inexistente quantidade de detalhes que pode te
transformar em um louco, semipsicopata daqueles que farão as
pessoas atravessarem a rua para não chegar perto. Por um
momento, um mísero e insuportável momento eu pensei em
deixá-la ir. Pensei em desistir, mas, porra, eu a amo demais e
tenho que fazê-la saber que eu descobri qual o tipo de amor
que eu sinto. Depois de fazer a última ligação e sabotar o
derradeiro detalhe do casamento Victória, eu me vi pensando
no quão egoísta eu estava sendo. Afinal eu tive minha chance,
eu tive várias, na verdade, mas não soube aproveitar. Antes de
o meu ciúme começar a me deixar cego, ou minhas atitudes
começarem a desviar meu bom julgamento tudo era mais fácil.
Infelizmente eu passei muito tempo sem ter alguém que
fosse meu, passei muito tempo desacreditado e, quando eu tive
tudo isso, as emoções foram demais para administrar.
E se ela pudesse ser feliz com Carlos? E se ela pudesse
ter a paz e tranquilidade que comigo quase nunca teve?
Confesso que esses pensamentos se infiltraram em minha
mente sem minha aprovação. Mas então me peguei sorrindo
nostálgico enquanto meu coração baqueava com a quantidade
de amor que sou capaz de sentir. Eu o sinto, eu o vivo todos os
dias. Eu iria abrir mão da minha felicidade pela da mulher que
eu amo mais que a mim mesmo. Então eu iria consertar tudo
para seu casamento acontecer, em segredo eu lhe daria meu
último presente.
Todavia, eu ainda continuo sendo eu. Um grande
bastardo. Então eu penso em arrumar as coisas que estraguei e
depois pegar minha mulher, mas, foda-se, eu a quero agora
mesmo! O amor altruísta e bondoso de que Victória tanto fala,
eu o sinto, mas não poderia simplesmente permitir que ela
escapasse. Eu sou sim o filho da puta mais egoísta do mundo,
mas então, eu nunca neguei isso a ninguém. Já disse, fiz e
ainda irei fazer coisas das quais me arrependerei, mas antes
serei um fodido se apenas baixar a cabeça e acatar as ordens
da via.
Vi como ela estava triste e queria me chutar por não ter
atendido suas ligações, foi difícil, estava apenas mantendo o
controle, e só tinha que esperar até o último item solicitado
pelo médico chegarem ao Eclipse e então iríamos fazer muito
mais que falar. Um pouco mais de paciência e pronto, para isso,
faria questão de encarar Antonieta, era uma pena que Victória,
minha pequena mulher, tão delicada, estivesse bem no meio de
uma briga de gente grande, sabia como tudo a afetava. Ela
tinha muito amor em seu coração para ver alguém sofrer.
Se eu fechar meus olhos e voltar ao tempo, poderia ver o
quão pouco da minha forte garota sobrou depois daquele
acidente terrível. Eu vi sua melhora e quando cheguei poucos
dias atrás, eu dei cara com a mesma garota que parou meu
coração em um sinal de trânsito. Victória se curou sozinha e
me curou junto. Eu a admirava muito por isso, pois, de algum
jeito, e apesar de sua aparência frágil, ela mesma encontrava
sua salvação.
Sem erros dessa vez. Sem desistências. O Eclipse estará
pronto em no máximo dois dias, não é possível que eles
consigam arrumar tudo em dois dias para esse casamento de
merda, e se conseguirem, ajudarei tudo sair do planejado.
Fiquei por perto, como um segurança, enquanto o carro que a
levava seguia caminho. Paramos em um sinal e outra moto
emparelhou ao lado de sua janela. Estreitei meus olhos quando
o ciúme bateu duro e profundo. Maldito vidro cristalino, de
alguma forma, a Victória exalava uma vulnerabilidade que
fazia com que as pessoas quisessem ajudá-la, ou ficar por perto
para atender qualquer uma de suas necessidades.
Coloquei minha moto para rugir, uma pequena forma de
mostrar que eu estou de olho e que aquela garota linda no
carro tem um dono muito possessivo e doente de ciúme.
Enquanto o sinal não abria, mais quatro motos pretas e um
carro da mesma cor surgiram, fiquei em alerta. Alguma coisa
me deixou desconfortável, lógico que para sair do setor de
mansões o trajeto era basicamente o mesmo, entretanto,
aquele conjunto estava estranho, muito estranho. Os
movimentos deles pareciam quase sincronizados, o carro estava
quase paralelo ao carro em que Victória estava, as motos o
flanqueando.
Buzinei para Jason e ele me olhou, indiquei com a cabeça
e ele acenou, fazendo um movimento de que estava de olho. O
sinal abriu e partimos, duas das motos desaceleraram, ficando
atrás de Victória. Naquele exato momento um peso afundou em
meu estômago e a vontade de pegá-la e correr foi tão grande
que acelerei minha moto indo para cima deles. Algo naquela
ação me fez ficar respirando ofegante. Inesperadamente eu
estava em pleno estado de preparo e alerta, não acreditei
quando vi que o carona de uma das motos sacou uma arma e
apontou. Escutei meu próprio rugido de fúria quando soube
que minhas conclusões estavam certas.
Aquilo era um assalto.
— CARALHO! — berrei acelerando minha moto, ao mesmo
tempo em que Ricardo acelerava o carro dele a uma velocidade
que me deixou suando frio.
Ouvi os primeiros tiros e surtei. Não dei valor a minha
vida. Eu tinha treinamento.
Foda-se. Era minha mulher! Minha mulher, porra!
Acelerei minha moto ainda mais, passando pelo outro
motoqueiro e pelo carro deles.
Eu suava frio, meu corpo todo tenso, preparado para
qualquer coisa. Ricardo tentava fugir, levando a velocidade
para um nível perigoso.
Puta que pariu, as ruas são estreitas, não dá para acelerar
tanto em uma curva!
Quase morri quando pensei nisso, os tiros no carro
continuava, e eu fui para cima do atirador, mas não deu tempo
de fazer nada, pois Jason cortou o caminho e atirou no piloto,
fazendo-o perder o controle da moto e cair.
— Mas que caralho, o bastardo está armado!
Senti um pequeno alívio com esse fato, que durou muito
pouco. Havia outros motoqueiros e atiradores, senti uma dor
aguda nas costelas, mas não me importei. Buzinadas atrás de
mim me fizeram olhar e ver Victor em seu carro, naquele exato
momento aconteceu a primeira pancada na lateral do carro em
que Victória estava. Eu sabia, pela forma das pancadas nas
laterais do carro, que a intenção deles era fazer com batesse
em algum poste ou saísse da estrada. Apesar das batidas e dos
tiros, o carro estava aguentando, era blindado, eu já sabia, mas
aquilo não me deixava aliviado, pelo contrário, me deixava com
muito mais medo, porque Ricardo acelerava a uma velocidade
quase homicida.
Dio mio!
O carro preto dos assaltantes ainda estava seguindo o
carro de Victória. A lateral já estava toda amassada e naquele
momento Jason atirou em um dos pneus, fazendo-o perder
equilíbrio. Todavia isso pareceu dar ao motoqueiro armado uma
ideia. Ele mirou, e eu decidi que minha vida não valia a pena,
fiz minha escolha, eu iria bater com minha moto e o resto que
se fodesse, eu não estava me importando comigo, Victória e
meu filho eram mais importantes. Infelizmente, antes que o
alcançasse e fizesse o que pretendia, o bastardo atirou nos
pneus até um deles explodir. Meus olhos saltaram, meu cérebro
se recusou a processar a imagem. Minha moto derrapou em
uma freada brusca.
O carro perdeu estabilidade, tentou frear, mas fez um som
horrível de frenagem antes de girar e começar a capotar.
Arranquei meu capacete congelado de pavor, observando
sem acreditar no que acontecia. Cada vez que o carro de
Victória batia no chão e girava meu coração sofria um espasmo
de dor intensa. Cada vez que eu ouvia um grito de medo meus
ouvidos queriam sangrar. Eu era um fodido observador
impotente. Meu fôlego parecia suspenso no ar, por um milésimo
de segundo, senti minha vista embaçando.
Eu estava preso em um tipo diferente de pânico, um que
eu já senti uma vez e nunca mais gostaria de sentir de novo.
Meu cérebro se recusando a processar aquela imagem tão
tenebrosa.
— Não, meu Deus, por favor, não. — O som saiu
estrangulado, quebrado, não parecia minha voz. — De novo
não.
Um poste foi o contentor do carro enlouquecido.
Ele me tirou da minha letargia, mas no fundo meu coração
não passava de uma pequena pedra sem força suficiente para
bater.

***

Victória

“Amore mio, por favor, pequena, me ouça… Filha…


bonequinha…”
Senti uma mão tocando meu rosto, dedos me acariciando
com gentileza.
Gemi de dor.
— Minha pequena, per favore, responda-me, per favore.
— Rocco. — Minha voz saiu quase inaudível. Havia uma
grande pressão em meu crânio, como se eu estivesse de cabeça
para baixo. Meus ouvidos doíam.
Tentei falar novamente, mas só conseguia tossir. Mais dor
irradiou pelo meu corpo. Mexer doía muito. Respirei fundo, meu
ombro queimando de dor também.
— Amore mio…
Abri um olho, vendo tudo fora do lugar, me mexi e vidro
caiu de cima de mim.
— Victória, fale comigo.
— O quê? — perguntei olhando de lado, vi os olhos aflitos
de Rocco. Há uma pequena brecha entre o que antes era a
janela do carro e a rua.
— Victória. — Mais uma vez sua mão me toca, senti um
líquido escorrendo e pingando por meu rosto. Está escuro.
— Estou bem. — Fiz uma careta. — Estou bem.
Essa foi a maior mentira, se eu fosse catalogar onde doía,
eu teria que tirar na sorte por onde começar. Desde a cabeça
até os dedos dos pés.
— Você precisa soltar o cinto, pode fazer isso? — Sua voz
era baixa e carinhosa, tentei obedecer, mas não deu, não
consegui movimentar minha cabeça, ela estava explodindo.
Meus braços estavam frouxos e pesando uma tonelada.
O cheiro de sangue me fazendo revirar os olhos de nojo,
uma grande tontura me engolindo inteira.
— Tia Laura? — murmuro, mas não tenho resposta. Tento
movimentar meu braço, mas não consigo.
Minha mente confusa, aos poucos organizando as ideias.
— Tia. — Respirei fundo, segurando a dor, me
concentrando. — LAURA — tentei um grito, mas saiu um som
estrangulado e sem força, porém ouvi seu gemido. Dentro do
carro tudo era uma confusão de vidro quebrado, lataria
amassada e tecido do airbag.
Fechei os olhos tentando absorver a dor, para poder
administrá-la. Todavia, entre a dor de cabeça, a pressão nos
ouvidos, eu tinha muitos pontos diferentes em que me
concentrar.
Impossível.
— Victória, amore mio. — Senti uma luz em meu rosto e
virei para olhar, gemi de dor.
— Rocco. — Fazendo um esforço sobre-humano, estendi
uma das mãos e ele a pegou, entrelaçando nossos dedos. — Tia
Laura, por favor, tia Laura precisa de ajuda.
— Estávamos esperando o resgate — ele falou baixo, sua
voz estava estranha. — Fala comigo, meu amor, apenas fala
comigo, tudo bem?
Devo ter feito uma careta, pois Rocco berrou alguma coisa
para alguém. Minha cabeça pesando mais e mais.
— Ei, olha para mim — pediu e eu abri os olhos. Respirei
fundo, com calma, virei meu rosto para olhá-lo. — Fica comigo,
apenas mantenha os olhos em mim, okay?
Acenei, o gesto foi terrível, gemi pela dor aguda em meu
pescoço, parecia que várias agulhas eram enfiadas em meu
crânio em pontos diferentes. A posição não estava ajudando.
Ouvi o barulho do que parecia chuva, cada pingo reverberava
como uma martelada em minha cabeça, manter os olhos
abertos estava se tornando uma difícil tarefa.
— Victória, acorda! — Rocco tateou meu rosto, senti seus
dedos em minha bochecha, em minha testa, em meus lábios.
Abri meus olhos, mas logo tornei a fechá-los, a luz focada em
meu rosto não estava me ajudando muito.
— Essa luz dói!
— Tudo bem, vou tirá-la, apenas fique comigo, certo?
— Rocco — chamei por ele, sentindo-me ainda mais
estranha —, minha cabeça…
Ofeguei com a pressão prestes a explodir meu crânio.
Estava começando a sentir falta de ar.
— O que foi? — perguntou aflito, e quando eu mesma
toquei minha cabeça, sangue molhou minha mão.
A tontura piorou. Rocco gritou e uma frouxidão foi
tomando conta, eu estava segurando a mão dele, mas aos
poucos fui perdendo o agarre.
— VICTÓRIA! — Escutei seu berro.
Meu corpo entrou em uma espécie de letargia, eu o ouvia
berrando comigo, mas não conseguia responder. Sangue
escorria de algum canto da minha cabeça e pingava, eu sentia
a mão de Rocco tocando onde podia.
— Responde, caralho! Responde!
As vozes de Rocco e de Jason se misturavam, eles estavam
meio loucos. Até para minha mente confusa era fácil notar o
desespero em ambas as vozes.
Depois de tanto barulho, não ouvi minha tia em nenhum
momento, ela estava silenciosa. A preocupação fez com que
lágrimas escorressem dos meus olhos fechados. Não havia
soluços, não havia nada. Apenas lágrimas silenciosas.
— Amore mio, fala comigo.
Eu adoraria, mas não era como se eu estivesse me
segurando para não falar. Apesar de tudo, Rocco continuava
me tocando, e a única forma que eu tinha de mostrar que
estava consciente era movimento meus lábios, ele me tocava e
eu beijava seus dedos.
Em algum momento, e mesmo sob protestos, Rocco foi
afastado. Ouvi barulhos de sirenes, carros chegando, gritos de
muitas pessoas. Então o barulho terrível de uma serra quase
me fez desmaiar. Gritei alto, usando minhas últimas reservas
de força. O barulho foi demais. O som parecia perfurar meus
ouvidos. Rocco berrou alto também, como se respondesse ao
meu grito. Os rangidos da lataria sendo removida me fizeram
tremer, suavemente uma brisa soprou em minha pele úmida,
levando o cheiro de sangue. Escutei gritos, blasfêmias. Uma luz
ainda mais forte foi despejada em cima de mim. Senti quando
meu cinto foi solto, caí mole.
Fui amparada com cuidado. Logo a chuva me molhava.
— Rocco…
— Victória, sou eu, Carlos.
— Rocco…
— Estou aqui. — Sua voz me acalmou. — Sai para lá, seu
merda! — Logo suas mãos me tocavam. Um grande zumbindo
ecoava dentro da minha cabeça.
— Rocco… — Senti-me sendo retirada do meu
confinamento. Meus olhos abriram, buscando-o. Mas não o
encontrei. Talvez meu choro tenha aumentado, não sei. —
Rocco — minha voz foi apenas um sussurro suave. Logo ele
surgiu ali, meus olhos eram duas pequenas fendas, ainda
assim eu o olhei.
— Pequena — sua voz soava aliviada e ao mesmo tempo
pesarosa. Ele estava com o cabelo pingando de chuva.
— Me ouça. — Fechei os olhos. — Preciso te dizer…
Muitas pessoas estavam ao meu redor, eu não conseguia
fazer com ele me ouvisse. Desesperei-me, naquele momento
meu pescoço foi imobilizado, meu corpo colocado em cima de
alguma prancha dura. Comecei a tremer muito, engasgando
com os movimentos.
— Ela está em choque. — Escutei um grito e então estava
coberta. — Corra com isso, João — alguém falou. — A pressão
dela está 15x10.
— Porra, o que isso quer dizer? — Rocco perguntou em
meio a um grito.
Minha visão começou a ficar entrando e saindo de foco,
olhei para o lado, pontos brilhantes piscando diante das
imagens.
— JOÃO! Precisamos correr!
Escutei outro berro, minha cabeça rodou, doeu ainda
mais.
— Minha cabeça. — Busquei ar.
— Há quantos dias você tem essas dores?
— Estou bem.
— Há quantos dias, Victória? — Dois Roccos surgiram em
meu campo de visão.
E então lá estava aquele homem que voltou a ser apelativo
para mim. E foi bom sentir isso. Foi incrivelmente bom,
entretanto, ele desistiu.
— Não. — Afoguei em meu lamento. — Rocco, me ouça…
— Eu queria explicar, eu precisava explicar. Ele tinha que me
entender. — Não foi verdade. Não é verdade.
— Ela está agitada demais, precisamos ir agora! — alguém
falou, escutei o som contínuo de sirene sendo acionada, então
houve batidas de porta. — A pressão está subindo, vamos sedá-
la
— Rocco…
— Estou aqui! — Ouvi sua voz aflita, mas estava presa em
meu próprio martírio. — Estou bem aqui, calma, amore mio,
tudo vai se resolver confia em mim.
Fechei meus olhos, e não os abri mais. Eu sentia tanta
tontura que mesmo de olhos fechados tudo rodava. Não desista
de mim. Queria gritar, mas não pude. Deixei que os sons se
perdessem. Permiti-me ser levada para um lugar onde não
havia dor.

***

Acordei me sentindo mole, havia sons à minha volta. Sons


familiares.
Abri meus olhos e encarei a forte luz no teto.
— Oh, finalmente! — Olhei de lado e vi Jason, ele parecia
ter envelhecido alguns anos.
— Ei, Brother — falei baixinho —, água, por favor.
Ele sorriu, foi até um aparador e pegou água para mim.
Com cuidado me ajudou a tomar tudo. Então ele descartou o
copo e ficamos nos encarando.
— Desculpa. — Mordi o lábio. — Eu não planejava que seu
aniversário fosse tão ruim.
Jason rosnou alguma palavra que eu nem sabia em que
língua era. Então se ajeitou para me puxar em um abraço
apertado. Eu o abracei como pude.
— Como pode dizer isso? Você está bem, tia Laura está
bem.
Respirei aliviada.
— Avaliação do meu estado? — brinquei. — Estou me
sentindo amassada.
— Não brinque com coisa seria! — resmungou e eu ri um
pouco. — Você quase nos matou de susto.
Ficamos em silêncio. Na verdade eu não sentia dores,
apenas dormência. Então acho que estava bem. Minha dor de
cabeça desapareceu, graças a Deus por isso.
— Estou me sentindo bem. — Olhei para mim mesma,
imediatamente, estranhei o fato de estar com um monitor fetal.
— Jason, por que estou com isso em minha barriga?
Respirei fundo, mas a calma estava lá.
— Bonequinha, você e o Gianne estão em observação —
declarou empalidecendo um pouco —, sua pressão subiu muito,
o médico colocou você em 72 horas de observação, para ter
certeza que está bem.
Franzi o cenho. Eu não tinha histórico de pressão alta, em
todas as consultas de pré-natal, ou quando a Dra. Rosana ia
me visitar ela verificava e estava sempre ótima.
— O que eu tenho, Jason? — perguntei direto. — E onde
está Rocco?
Era um fato, eu precisava encontrá-lo.
— Rocco foi em casa — murmurou desviando o olhar. —
Ele foi… — Pigarreando, Jason não conseguia em encarar.
— Jason, Rocco estava lá comigo, eu me lembro dele me
tocando, então por que ele não está aqui agora?
— Rocco precisou resolver algumas coisas, bonequinha! —
Mais uma vez ele desviou o olhar
— Por que você não me olha quando fala? — questionei. —
Ele não quer me ver, é isso?
Jason não respondeu e eu fiquei com raiva e vontade de
chorar. Mas chega.
Quando sair daqui Rocco vai ter que falar comigo.
— Cadê o médico, preciso sair daqui! — Tentei me erguer,
mas não fui muito bem–sucedida em minha tentativa. Eu
estava morta e acordada. Meu corpo um peso inútil.
— Você está em observação.
— Eu estou bem! Apenas grogue, mas posso sair daqui.
Vamos, me ajude.
Jason fechou a cara.
— Você teve um ombro machucado, levou três pontos
perto da têmpora. Teve início de eclâmpsia, além do susto —
grunhiu —, fique quieta aí, droga!
— Não sou obrigada! — Apontei o dedo. — Estou ótima! E
já estourei minha cota de hospitais, nem meu filho vou ter em
um.
Congelei. As informações que Jason acabara de me dar
finalmente atravessando a névoa que envolvia meu cérebro.
Uma máquina apitou, acho que foi meu monitor cardíaco.
— Calma aí, bonequinha, tudo está sob controle. Mais dois
dias e você sai daqui.
— Fiquei fora quanto tempo? Que horas são?
Jason respirou fundo, então fez uma careta entre aliviado
e assombrado. Coitado, para viver comigo tem que ter o coração
forte.
— Considerando que você deu entrada às oito da noite,
fazia dezesseis horas que você estava fora de combate.
— Liga para Rocco! — pedi e Jason arqueou uma
sobrancelha. — Vamos, liga para ele, diga que acordei e que
precisamos conversar.
Bufando contrariado, Jason pegou um telefone e me
entregou. Chamou e chamou. Liguei de novo, sem nenhum
sucesso.
— Mas o que ele está fazendo? — Não teve resposta para
minha pergunta, mudei de assunto para não supor coisas
demais. — Jason algum dos assaltantes foi preso?
Meu Brother fez uma cara tão malvada que eu tremi um
pouco.
— Só o que eu dei um tiro ficou para trás — respondeu
dando de ombros —, infelizmente ele não pode nos ajudar
muito, o coração parou de bater pouco tempo depois. Infarto,
eu acho.
— Brother, eu vou ter que ficar aqui mesmo? Tia Laura
está aqui também? E o tio Ricardo?
— Estão dividindo o mesmo quarto. — Rimos juntos. —
Eles sofreram apenas escoriações leves. Você só esteve pior por
causa da pressão. Apesar da intensidade do acidente, o cinto de
segurança ajudou e o airbag criou uma barreira protetora, o
carro era bem equipado com protetores, uma equipe da
Mercedes Benz está vindo para avaliar, a blindagem do carro
era de fábrica, eles querem fazer alguns testes.
Fiz uma careta, eu parecia que tinha andado em um
kamikaze a força. Deus me livre, que horror!
— Então não preciso me preocupar? — questionei
— Não mesmo. — Sorriu. — Você ainda vai ganhar um
Mercedes top de linha com blindagem extra e especial. — Jason
esfregou as mãos. — E eu irei dirigir com toda a certeza do
mundo!
Ri um pouco, ele parecia um garoto com um brinquedo
difícil de conseguir.
— Então agora devo concentrar minha apreensão em
Rocco. — Desviei o olhar. — Ele realmente desistiu, não foi,
Jason? Ele parece que cansou.
E talvez tenha razão, nossa história de amor foi muito
cheia de altos e baixos, acho que em uma dessas quedas, não
pôde mais levantar.
— Não poderia falar com certeza, mas no momento em que
tudo aconteceu, ele parecia um louco para te proteger. —
Jason sacudiu o ombro. — Rocco estava fora de si, não se
importou com nada. Ele estava implacável. Nem parou quando
levou um… — Jason calou-se e eu me estiquei, minhas orelhas
atentas.
— O quê? O que aconteceu?
— Ah, não foi nada! — Abanou uma das mãos. — Rocco é
meio máquina mortífera quando o assunto é você!
Ri sem muito prazer, mas lá no fundo minha consciência
empurrava o fato de eu estar carregando o filho que ele tanto
queria. E por isso talvez ele não abriu mão complemente.
Baixei meu valor e peguei meu coração de volta. Guardei-
o onde ninguém poderia alcançar.

***

O dia foi tranquilo. Apesar de eu estar muito triste, porque


Rocco nem deu as caras. Minha família toda veio me ver, até tia
Laura em uma cadeira de rodas já chegou reclamando sobre o
fato de ser uma grávida com péssimo humor. Eu ri muito dela
contando o saco que era Ricardo, enquanto ela carregava o
peso do bebê, suportava o cansaço e as dores nas costas, ele
que reclamava de tudo. Mesmo com a alegria em saber que
minha tia amada estava bem, a cada instante eu ficava mais e
mais triste, não queria que entre mim e Rocco terminasse
assim, porém, de uma coisa tenho certeza, seremos bons
amigos pelo bem do nosso filho.
Meu pai veio e quase me parte ao meio de tanto que me
abraçou, devo estar com os botões de sua camisa tatuados na
minha bochecha, mas compreendia, ele em pouco tempo já
levou muito susto comigo. No fim do dia eu recebi visita da
minha avó. E ela estava feliz por me ver bem, sabia que eu e
Carlos éramos seu calcanhar de Aquiles.
— Consegui tudo! — Sorriu de orelha a orelha. — O
casamento será dois dias depois que você sair daqui, e ainda
terá uma despedida de solteira. Nikolas está organizando tudo.
Concordei. Agora que Rocco não está nem aí para mim,
tanto faz se vai ter despedida de solteira, se o casamento é
hoje, amanhã, ou poderia ser agora.
— O médico disse que você estava sob muito estresse, e
por isso sua pressão subiu. Mas não se preocupe, tudo vai dar
certo. — Ela parecia tão contente. — Ah, outra coisa, aquele
véu cobrindo o rosto é fora de moda, eu gostaria de retirar,
acho seu rosto muito lindo para esconder.
— O véu fica, vovó, minha mãe amava noivas com véu
cobrindo o rosto, então eu quero um.
Grande mentira deslavada. Isso era para ela não ver
Gaby, isso sim.
Porque eu e Carlos complicamos tanto esse casamento?
Agi como uma adolescente, em vez de adulta. Sinceramente,
planejar não é muito comigo.
— Outra coisa, vovó, no dia da noiva eu vou ficar no hotel
— falei bem tranquila —, vou dormir lá um dia antes, a equipe
vai me arrumar lá.
— Eu gostaria de ir, mas esse olho ridículo precisa de um
especialista em maquiagem, vou ter que camuflar, o inchaço
vai ter diminuído, mas olhe, ainda está muito roxo.
— Eu vejo azul e verde também. — Mordi o lábio. — A
senhora apanhou feio, hein?
— Eu sou uma dama — bufou. — Não sei brigar como uma
selvagem, com certeza aquela mulher deve ter saído de alguma
favela.
— Vovó, tia Laura é uma dama e briga melhor que muito
homem.
Minha avó fez uma cara horrenda de pavor. Então se
empertigou toda.
— Tenho que ir, vou fechar a orquestra que vai tocar na
recepção.
— Vovó, nem sonhe! Quero uma banda eclética, que toque
de tudo. Não quero meus convidados dormindo em meu
casamento.
Fazendo uma careta, aceitou. Esse era um desejo de Gaby,
ela queria dançar muito no próprio casamento. Então quem sou
eu para dizer não? Fiquei sozinha durante alguns minutos, até
que escutei vozes, e uma delas fez meu coração crescer de
felicidade. Sentei-me mais ereta e ajeitei meus cabelos. Até
belisquei as bochechas, para ficar bonitinha e corada.
A porta abriu e Jason entrou, ao lado dele William, Dimitri
e dois gêmeos, ao olhá-los minha boca escancarou, pois eles são
muito, quero dizer, eles são…
Marcantes! Digo, eles são enormes, musculosos e
exatamente iguais. Entretanto um parece ter uma cara de
bonzinho enquanto o outro tem uma cara mais perversa. É isso
ou devo estar ficando louca. De qualquer forma, não importa,
ouvi a voz de Rocco, e ele está aqui.
— Rocco Masari, apareça! — falei alto e a porta abriu. Lá
estava ele, lindo demais. Meu coração deu um pulo, que foi
prontamente visto no monitor. — Desculpem, meus queridos, e
vocês, gêmeos, também. — Não parei de olhar para Rocco. —
Podem sair e me dar um minuto a sós com o senhor Masari?
Dimitri riu e veio me dar um beijo na cabeça.
— Você me matou de susto, se fizer outra dessas, eu vou
te estapear, menina malvada! — Ri de suas palavras e Rocco
grunhiu.
— Querida, envelheci muitos anos. — William me abraçou.
— Se procurar, verá cabelos brancos, e olha que sou o caçula
dessa turma desajustada.
Soltei outra risada
— E ainda assim, mesmo com cabelos brancos, continuaria
arrancando suspiros das garotinhas desavisadas, você é lindo,
conde.
— E eu? — Dinka reclamou. — Por que só ele arranca
suspiros?
Eu ri de sua carinha triste.
— Espere, me deixe corrigir. — Pigarreei. — Vocês dois
ainda arrancariam suspiros das garotinhas desavisadas.
Muito mais satisfeitos, eles saíram. Os gêmeos ficaram.
— Esses serão seus novos seguranças, — A voz de Rocco
viajou em meu corpo, causando estrago em meu coração cheio
de saudade. — Dominic e Drake Harper.
Observei chocada, eles não pareciam velhos, nem tinham
cara de seguranças. Pareciam mais como dois universitários
jogadores de basquete.
— Sei o que está pensando, mas somos especialistas, não
se preocupe, Srta. Fontaine, estará segura enquanto estiver
sob nossos cuidados.
O que falou parecia ter uma cara mais malvada.
— Você é? — perguntei ao cara mau.
— Drake. — Sorriu todo galanteador e veio pegar minha
mão. — É um prazer.
— Guarde suas mãos para você mesmo, Drake. — Rocco
não o deixou me tocar e eu fiquei levemente contente.
Se ele tem ciúmes, talvez não esteja totalmente perdido.
— Obrigada, rapazes, mas podem, por favor, nos dar
licença? — Ambos saíram e eu fiquei sozinha com Rocco. —
Vamos conversar! — decretei e ele veio até onde eu estava. Mas
não sentou, nem se aproximou muito. — Você não atende as
minhas ligações — acusei —, qual é a sua?
Era estranho perguntar, porque agora eu estava
confrontando-o.
— Você mandou eu te esquecer. — Deu as costas. — Você
disse para eu esquecer.
— Para com isso! Nem vem, onde está o verdadeiro Rocco?
— O quê? — perguntou confuso.
— Você está estranho. — Estreitei os olhos. — Está
aprontando! É um fato.
Vi o exato momento em que seus olhos acenderam. Um
fogo lento começou a queimar em seus olhos azuis e lindos, eu
me arrepiei toda, entretanto, ele não fez nada para me ajudar.
Muito pelo contrário, ele saiu e não disse nada! Nem tive
tempo de gritar.
Fiquei muda, encarando a porta. Baixei a cabeça desolada
quando a realidade bateu dura e crua.
Então ouvi a porta abrir bruscamente. Levantei minha
cabeça e lá estava Rocco, todo poderoso, quase em cima de
mim, segurando meu rosto tão próximo que quase podia beijá-
lo.
— Tudo que eu fiz foi para não te perder. Não medi
esforços, fui até o fim. — Sua voz soava aflita. — O médico falou
que por conta do estresse você esteve em perigo, nosso filho
também. Me culpo por isso. Eu te coloquei sob pressão, eu não
pensei no que minhas ações causariam. Preciso absorver isso,
não me sinto bem quando penso em tudo que poderia ter
acontecido — rosnou. — De todas as coisas que te
aconteceram, as piores foram por minha causa, pessoas te
machucaram, mas foi eu que te quebrei, foi seu quase príncipe
que matou o que havia de melhor em você. Desculpe, amore
mio, e não me odeie pelo que irei fazer.
— Rocco, as coisas podem… — comecei a falar, mas ele já
estava saindo. — EI, ESPERA AÍ! — chamei, entretanto, longe
de me ouvir, ele bateu a porta com muita força. — Idiota! —
bufei de cara feia e braços cruzados. — Fuja enquanto pode! —
grunhi e naquele instante resolvi que ele era um bobo por não
querer me ouvir.
Ele até parece estar fugindo! Mas aprendi com o melhor a
ser insistente até conseguir o que quero. Hora de praticar.
Capítulo 23
Victória

— Vamos lá, garota — murmurei não me deixando abater


—, apenas continue tentando — decidi firme.
Vou procurar por Rocco. Explicar as coisas, e vamos nos
entender. Suspirei mais aliviada quando pensei assim.
Imaginar as coisas de outra forme me deixava sentindo como se
um peso extra houvesse sido depositado em minhas costas. E
sinceramente eu não precisava carregar nada mais.
— Vamos lá, grandalhão. — Mais uma vez peguei o celular
de Jason para ligar. Quando não obtive resposta, resolvi
brincar de enviar mensagem, foram vinte no total, mais ou
menos assim:

1ª mensagem:
Oi, está aí?

2ª mensagem:
Fala comigo, homem selvagem!!!

3ª mensagem:
Sinto sua falta! Por favor, vem me ver (carinha implorando).

E nada de ele dar resposta, tentei várias maneiras


diferentes com o mesmo estilo de mensagem curta, permaneci
sem sucesso. Então tentei outra forma. Algo leve e engraçado.
Que o fizesse ao menos sorrir.
9ª mensagem:
Ei, em vez de fugir, por que não me deixa falar? Terei que
marcar um horário com sua secretária? Posso pedir para Jason
fazer isso? Poderia ser para as três da tarde de hoje, mais
precisamente, o horário de visitas? Neste caso você iria abrir
uma exceção para minha pessoa, mas vamos lá, grandalhão, eu
tenho algum privilégio, não é mesmo?

15ª mensagem:
Tudo bem, tuuudo bem! Eu falei besteira, me processe, eu
pago. Então poderemos conversar agora? Por favor, Rocco, vem
me ver?! Eu estou te implorando, não aguento de saudade, e já,
já vou começar a cantar o elefante incomoda muita gente até
você aparecer, as pessoas irão pensar que sou louca. Rsrs,
você vai, por acaso, deixar que a mãe do seu filho seja
internada em um manicômio? Vou pegar piolhos e terei que
cortar o cabelo, você falou que amava meu cabelo, agora me
imagine careca! Imaginou? A culpa será sua.
P.S: Isso não é chantagem.

Esperei vários minutos. Presa em meu silêncio expectante,


eu esperava ansiosamente um aviso de mensagem. Na verdade
eu estava beirando o desespero com isso. E quando, ainda
assim, não obtive resposta, tentei novamente.

17ª mensagem
Olha só, quando a gente for brincar você tem que brincar,
jogar sério contigo é sacanagem. Homem, VENHA ME VER!
Estou implorando, fazendo aquela cara do Gato de Botas. É
irresistível. Apenas compreenda esse fato, quando uma pessoa
faz essa cara é porque já atingiu o último estágio do desespero.
Preste atenção no olhar do Gato de Botas, dá pena, não é?
Então, não se faz isso com uma mulher grávida! Eu DESEJO te
ver! Captou? É desejo, hein?

Esperei, e nada, tentei mais outras duas. Enfim. O sucesso


foi o mesmo. Nenhum. Respirei fundo, tomando uma decisão.

20ª mensagem:
Oi, grandalhão,
Eu não sei mais o que falar. Rsrs. Isso está ficando
constrangedor. Ouço os grilos cantando enquanto espero uma
resposta sua. Triste fato!
Olha só, eu não vou te encher o saco. É estranho ficar com
o celular de Jason na mão enquanto espero por algo que nunca
vem. Não se sinta mal por isso. Eu apenas estou do outro lado,
passando pelo que fiz você passar. Sinceramente, já entendi
seu recado. Sabe, grandão, eu ouvi em algum lugar a seguinte
frase "O dom da palavra é lindo, mas a sabedoria do silêncio é
sublime e perfeita!".
Com essa última mensagem, estarei parando por aqui. Não
vou mais tentar algo que não vai acontecer. Veja bem, com essa
vigésima mensagem que te mando, eu cheguei a um número
excessivo de insistência.
Passei do limite de uma pessoa normal, apenas me
desculpe por isso!

Durante um longo momento em que Jason me permitiu


encarar a porta fechada, eu tive minha mente em branco. Não
havia pensamentos, não havia planos, não havia problemas.
Não havia nada. Em silêncio, eu devolvi o celular do meu
irmão. Em silêncio eu recebi meus medicamentos, em silêncio
eu me recolhi. Naturalmente criei uma concha protetora à
minha volta. Isso era bom. Naquele dia eu dormi feito uma
pedra. Mas não pense que foi porque estava naturalmente
tranquila, ah, não. Foi por causa dos remédios que me
deixavam em estado de tranquilidade plena. Mesmo assim,
minha vontade era de sair daqui e matar Rocco e sua aparente
covardia.
— Oh, meu Deus. — Respirei fundo. — Estou com tanta
saudade. — Mordi o lábio. Depois do nosso momento no jardim
secreto, eu simplesmente não posso pensar de outra forma.
Para que vou mentir? Não adianta.
Apesar da minha ansiedade em ver Rocco, hoje eu me
sentia bem, apenas dolorida, mas, no geral, bem. Queria mesmo
era ir embora, mas não, eu ainda tinha que ficar aqui pelo bem
do meu bebê, e sendo assim, eu ficaria.
— Jason, alguém já morreu de tédio? — perguntei ao meu
Brother, que se recusava a sair do meu lado. Os gêmeos
também estavam aqui, mas do lado de fora.
Coitadinhos.
— Não que eu saiba! — Riu baixinho
— Preciso de algo para fazer — murmurei suspirando.
Mente vazia é uma oficina de problemas, primeiro você pensa
em algo, então se concentra naquilo, imagina várias
possibilidades e dependendo começa a morrer por causa do
primeiro item da lista, não ter nada para fazer e depois começar
a pensar besteira. É um longo e irritante ciclo vicioso e eu
sempre fui extremamente ocupada. Agora estou de molho me
sentindo meio louca, porque estou ociosa.
Quando Gordon me agrediu, eu tinha Rocco, passaria
horas apenas olhando para ele. Enquanto ele mexia no
computador, lia algo ou falava ao telefone. Suas expressões
faciais variavam entre linda, irritantemente perfeita, até
concentrada e muito chateada. Assim, pensando nele mesmo
sem querer, me sentia tão apaixonada que era quase como se
eu estivesse voltado no tempo. Não sei como foi exatamente que
me peguei sentindo-me assim de novo. Todavia, se eu comparar
meu pensamento de agora aos de antes, irei encarar a mesma
garota tremente de amores. Mesmo em minha concha protetora
eu não consegui deixá-lo de fora, Rocco entrou comigo, e está lá
quietinho. Muito quieto na verdade.
Ocupando espaço!
Sentia-me quase igual ao que eu já fui uma vez, apenas
não tão acreditada na bondade das pessoas. O que é bom, eu
amo a Victória de antes do acidente. E eu amo mais ainda por
ela estar de volta.

***

Finalmente liberdade.
Nesses dias de molho eu aproveitei para conhecer melhor
os gêmeos. Eles são lindos, engraçados e muito legais. Gostei
dos dois.
Apesar de ter tido um contratempo chato com minha avó.
Em um primeiro momento ela não quis aceitar os meninos, pelo
simples fato de ter sido Rocco a trazê-los. Conversamos e ela só
concordou quando meu Brother entrou pelo meio e afirmou que
agora com os dois gigantes dando apoio, ninguém chega perto
de mim.
— Confio em você Jason, então eles ficam! — exclamou
toda altiva, mas isso ela era mesma. Quando Dona Antonieta
Andrade queria, não tinha quem parecesse mais da realeza.
Em contrapartida Jason mantinha uma marcação cerrada,
ele não deixava os gêmeos sozinhos comigo. Quando perguntei,
ele apenas deu de ombros e disse:
— Você tem uma tendência a adotar cães sem dono!
Classifiquei essa frase como ciúme e pronto, mas brinquei
dizendo que agora poderíamos montar uma mesa e jogar
cartas.
Jason riu e me apertou em um abraço quente e gostoso.
— Eu te amo — murmurei baixinho acariciando seu rosto.
— Eu também, minha bonequinha.
Ainda pude vislumbrar um olhar pidão em ambos os
gêmeos, e naquele momento eu compreendi o que Jason quis
dizer sobre eu gostar de adotar.
Ri um pouco, mas tentaria fazer esse tempo com gêmeos
especial para eles. Eu gosto de família grande, meu sonho era
poder fazer um almoço onde todos iriam para minha casa e
passaríamos um dia incrível. Iria ter de tudo, desde brigas até a
parte em que todos alegam que, nós brigamos, mas nós
amamos incondicionalmente. E aí seria só festa e alegria.
Isso é ser família.
Talvez eu pudesse fazer isso, mas então eu deveria
esperar, agora mesmo eu tinha que me preocupar com o que
estava acontecendo e nesse exato momento, confesso que
enquanto me aproximava da porta da frente do hospital uma
leve ansiedade fazia minha barriga flutuar, era como se meu
corpo estivesse tocando o chão apenas de leve. E ninguém
conseguiria descrever o tamanho do meu sorriso quando enfim,
cheguei à saída e já avistei uma cabeleira loira e outra negra.
Meu coração acelerou para enfim desacelerar, não era
Rocco. Eram Dimitri e William.
Estiquei meu pescoço olhando a redor, mas nada. Ele não
veio.
Respirei fundo, testando um sorriso convincente.
— Viemos te escoltar. — William veio para perto de mim e
eu o abracei apertado. Aspirando seu cheiro bom, segurei a
vontade de chorar. Mas acho que tremi um pouco. — Ei, minha
princesa — murmurou afastando-se para poder segurar meu
rosto com ambas as mãos —, não quero ver esses bonitos olhos
lacrimosos — incentivou carinhoso. — Vamos, me dê um
sorriso.
Dei um sorriso meio fungado e ele sorriu de volta, me
dando outro abraço.
— Tudo vai se resolver, apenas confie, tudo bem?
Concordei. Ele era um querido amigo para mim.
— Oi. — Acenei para Dimitri e nem protestei quando ele
me puxou para seus braços também.
Estava tão difícil não chorar. Eles me abraçavam como se
estivessem tentando me dizer algo. Não era um abraço
qualquer.
— Será possível que eu tenha ganhado três irmãos, em vez
de um só? — brinquei e ambos sorriram concordando. Dimitri,
antes de se afastar, me beijou na testa com muito cuidado e
carinho, até parecia que estava a ponto de quebrar.
— Provavelmente sim, cectpa — Dimitri murmurou
acariciando meu rosto. — Irmã, em russo. — Piscou um olho e
eu dei-lhe um beijo na bochecha.
Sorrindo e me sentindo mais aliviada, fui encaminhada
para um grande carro preto. Ele tinha sete lugares. E eu sentei
no banco meio, perto da janela. A grande turma distribuída
pelos outros lugares. Só faltava Rocco.
— Onde está o amigo de vocês? — perguntei e William deu
de ombros
— Está arrumando os detalhes finais para sua viagem,
Rocco vai sair pelo mar afora.
Nem perguntei mais. Baixei a cabeça e me arrependi por
ser curiosa. Por que eu sentia como se alguém acabasse que
cortar meu suprimento de ar? Agora eu já não queria mais
saber. Rocco bateu o martelo e eu estou aceitando. Agora é
tocar o barco. Fiz uma careta para a analogia infeliz. Contudo
era um fato. Tenho tanta coisa para fazer, Deus sabe o tanto de
trabalho que me espera.
— Vamos para o ateliê da minha avó, Jason. Preciso ver
algumas coisas.
— Seu pai está nos esperando em casa. — Ele me olhou do
banco do motorista. — Sabe como foi difícil ele deixar a gente te
levar?
— Sim, mas será que você pode ligar para ele? —
perguntei e meu irmão aceitou. — Quando chegarmos ao
Ateliê, certo?
Jason sorriu e piscou um olho. E lá fomos nós. A todo
momento minha cabeça presa em divagações sobre os meus
problemas acerca do futuro. Rocco pegou sua carta de alforria e
optou pela liberdade. Agora eu tenho que voltar aos planos que
eu tinha antes perdoá-lo. Antes de querê-lo de volta como
quero agora.
Recostei minha cabeça no vidro do carro fechando meus
olhos, pensando em como pequenos erros, frases mal colocadas,
reações mal interpretadas ou omissões podem mudar tanta
coisa em nossa vida. Por que tudo em mim grita e pede que eu
tente novamente? Minha parte racional sabe que já acabou,
mas minha parte emocional, aquela parte onde eu guardo
minha fé, ainda acredita que há uma possibilidade. Suspirei
abrindo meus olhos.
Havia um motoqueiro do meu lado. Imediatamente eu me
afastei, virando o rosto. Dom estava ali e me abraçou. Eu
comecei a tremer. Não era como se eu pudesse controlar.
— Eu sabia que você não deveria vir na janela! —
sussurrou baixinho. — Da próxima vez eu vou escolher, ouviu?
— Uhum — concordei e fiquei por ali. Ele era o que estava
mais próximo de mim.
Chegamos ao ateliê, e eu soltei um enorme suspiro de
alívio. Os barulhos das motos estavam me deixando
angustiada, e se não fosse por Dom, que me abraçou, eu acho
que teria tido um ataque de pânico.
— Obrigada, Dominic. — Estendi uma das mãos e ele
aceitou, beijando-a delicadamente.
— Não há de quê. — Piscou um olho, fazendo Jason me
puxar.
— Mantenha suas mãos guardadas. — Meu Brother
fechou a cara e eu quase ri. Ele estava com ciúme.
Carinhosamente, toquei seu rosto e ele me olhou, então
me ergui e beijei sua bochecha. Em seguida entramos na
Luxury's.
— Minha diva. — Nikkita veio todo saltitante me abraçar,
as mãos cheias de floreados. Dom entrou na frente, impedindo
sua passagem, colocando uma das mãos espalmada no peito do
meu amigo exagerado e muito feminino.
— Não avance. — Sua voz soou baixa e mortal, Drake
emparelhou com seu irmão. Juntos eles criaram uma imagem e
tanto.
— Aiiin, meu Deus, eu bebi ou estou vendo em dobro? —
Nikkita olhava de um para outro e até notei o fato de ele estar
levemente vermelho.
Revirei os olhos
— Nikolas, esses são meus seguranças Dominic e Drake —
Apontei para os gêmeos. — Meus amigos, William e Dimitri,
meu irmão você já conhece — apresentei logo todo mundo para
não perder tempo.
Houve um momento de silêncio enquanto Nikkita
dissecava os cinco. Então ele me olhou mordendo o lábio.
— Dom, pode deixar ele passar, aqui dentro está tudo
bem, podem ficar à vontade.
Acenando, saíram de perto de mim. Cada um foi para um
lado, já eu fui puxada para um abraço apertado.
— Por tudo que há de mais sagrado, me diga que pelo um
deles é gay! — Nikolas murmurou no meu ouvido. — Eu imploro
para você me dizer isso, ganharei meu ano e serei a criatura
mais feliz de galáxia. Minha nossa senhora, que tanto de
homem lindo é esse?
Eu ri. Nikkita não estava com sorte.
— William, Dimitri e meu irmão, com certeza, não são. —
Sorri vendo-o morder o lábio enquanto os olhava. — Os gêmeos
eu não sei, mas acho que não também.
— Olha o cabelo daquele homem! — exclamou abanando o
rosto. — Olha as tatuagens daquele outro.
— Nikolas, não vá por aí — alertei —, William e Dimitri são
muito bem resolvidos, você nunca os viu em alguma revista ou
site de fofoca? São bem importantes na Europa. William é um
conde.
— Não tive essa sorte, acha que eu não reconheceria?
Meu Deus, eu tenho o direito de sonhar. Estou com meu corpo
palpitando de emoção por estar na presença desses seres
humanos deliciosos e apetitosos, e musculosos e… — Revirou
os olhos, mordendo o lábio. — Eu bem que poderia ser você,
vamos encarar os fatos, meu bem, você é rodeada de homem
gostoso e tesudo.
Rimos juntos de sua cara de aflição. Nikolas era um
homem bonitão, com cara de homem e arrumado como um, mas
não escondia sua preferência.
— Você deveria tentar uma namorada — provoquei e ele
ofegou, levando uma das mãos ao coração.
— Minha querida, sem chance, não vai acontecer. —
Abanou o braço displicentemente. — Prefiro converter alguém.
— Dito isto, ele encarou Dimitri. — Aquele ali, o tatuado, ele
me parece um lindo caderno de colorir, dizem que é
terapêutico, eu bem que poderia tentar — murmurou
pensativo, contemplado a ideia.
Ri afogada. Ele escolheu o pior de todos, o mais safado e
galinha! Lembro-me de Rocco e suas histórias sobre o Dinka.
Amo todos eles, exatamente do jeito que são.
— Depois não fale que eu não te avisei.
— Sonhar não me custa nenhum centavo. — Sorriu. —
Agora vamos para perto deles, porque independentemente de
comer ou dar — dramatizou —, eu quase posso cortar a
testosterona com uma faca depois que eles chegaram. Sinta o
cheiro — suspirou respirando fundo —, é uma delicia.
— Louco, você vai levar umas porradas, se não controlar
sua língua! — avisei, segurando o riso.
— Se assim eu puder ter as mãos de qualquer um deles
em cima de mim, aceito!
Nikolas parecia ansioso, já eu, estava incrédula. Mesmo
assim fomos em direção aos meus amigos.
— Olá, prazer, meu nome é Nikolas. — Revirei os olhos e
quase morri quando Dimitri abraçou William.
— Olá — falou e esfregou o nariz na cabeleira do conde.
Olhei chocada quando William deu uma cotovelada no Dinka,
todavia não o afastou. — Pare de violência na rua, deixe isso
para a intimidade do nosso quarto.
Quase caí dura tamanha a ousadia do Dimitri. Mas pior
que eu ficou Nikolas. Ele tinha os olhos grandes e brilhantes.
Parecia que estava vendo a coisa mais linda do mundo.
— Vocês? Será que vocês são…?
— Sim, somos casados há alguns anos — Dimitri falou e
William revirou os olhos.
— Idiota! — o conde bufou.
E lá estava Nikkita quase morrendo de um enfarte
miocárdio. Seus olhos pregados nos gêmeos.
— Não mesmo. Nem vem! — Dom grunhiu levantando. —
Eu gosto de boc… — interrompeu-se e me olhou. — De mulher
— completou apenas para que nós ouvíssemos, logo ele e Drake
saíram de perto da gente.
— Vocês gostam de experimentar outros casais? — Nikolas
perguntou esperançoso olhando para meus amigos, podia ver
claramente Jason segurando o riso. — Ou um solteiro?
— Ah, sim.
— SIM! — Nikolas berrou, mas logo baixou o tom. —
Poderíamos?
O Dimitri deu um sorriso malvado, que eu reconhecia
muito bem.
— Não nos dividimos com um semelhante — falou em tom
confidente apontando dele para Nikolas. — Apenas incluímos
mulheres no meio, sabe como é, às vezes gostamos de brincar
de perfuradores simultâneos.
Observei Nikolas murchar e sair. Ele parecia preste a
chorar em algum canto.
— Dimitri, por que você fez isso? — Cruzei os braços.
— E perder a cara de desgosto da Barbie? — Riu dando de
ombros. — Nunca!
Balancei a cabeça e fui em direção ao estúdio das noivas.
Estava quase chegando quando de repente a porta abre e uma
mulher sai aos prantos. Ela soluçava escondendo o rosto entre
as mãos.
— Opa, moça! — Segurei seu braço quando trombamos.
— Desculpe, por favor — fungou, o rosto banhado em
lágrimas.
— Posso te ajudar? — perguntei gentil e ela negou. — Tem
certeza?
Ela negou novamente. Respirei fundo olhando a porta por
onde ela saiu. Então a observei.
— Você saiu de uma das salas de prova de vestido de
noiva, devo supor que ou era para você ou está acompanhando
alguém, certo? — Ela fungou e concordou. — Então? —
incentivei e finalmente consegui algo.
— Eu estava provando, mas… — Outra rodada de lágrimas
angustiadas se seguiu. — Não tem nada que sirva. Eu sou…
Olha para mim.
Eu olhei e não vi problema nenhum. Arqueei uma
sobrancelha esperando.
— Faz três dias que eu estou procurando um vestido sem
parar, muitas vendedoras me atendem mal, outras bem, mas a
grande maioria nem olha na minha cara. Hoje ouvi a frase “Não
precisa nem entrar porque aqui não tem nada que caiba em
você” mais vezes do que posso contar. Minha vontade é de
desistir, vou ter que me casar de salto e calça jeans.
— Não vai, não! Se não tem vestido que sirva, faremos um,
é para isso que temos um ateliê, oras. — Sorri. — A propósito,
meu nome é Victória, e o seu?
— Bárbara. — Estendi uma das mãos e ela pegou
— Tudo bem, Bárbara, vamos encontrar seu vestido certo?
— Ela concordou e eu voltei para a sala da qual ela tinha saído.
Abri a porta e olhei ao redor. — Mostra quem te atendeu —
pedi e ela apontou para uma moça loira e com cara de enjoada,
eu não a tinha visto aqui na minha apresentação.
— Você voltou e trouxe uma amiga? — a atendente
resmungou, vindo em nossa direção, ela não tentava esconder
sua falta de educação. Com certeza não me reconheceu, só
pode ser. — Eu já falei que aqui não tem nada que te sirva,
nossos vestidos são para manequins no máximo 40, e não para
modelos plus size, pelo amor de Deus, você tem 108 cm só de
busto.
Outra atendente que estava aqui no dia da minha
apresentação ficou pálida, ela abriu a boca para falar, mas eu
ergui uma das mãos, fazendo-a se calar.
— Qual seu nome? — perguntei e a moça mal-educada fez
uma cara de raiva
— Nós também não temos vestidos para grávidas!
— Tudo bem, meu vestido foi feito pela minha própria avó,
agora seja educada e me diga o seu nome.
Eu acho que se ela pudesse me fuzilar com os olhos faria.
A mulher diante de mim parecia pisar no chão à força.
— Meu nome é Paola, por quê?
— Bom, para começar, Paola, você vai voltar a atender
Bárbara e vai encontrar um vestido para ela, não estou nem aí
para o que terá que fazer, se vira. Depois você vai falar com
Nikolas, ele estará esperando por você! — Estava tranquila,
graças a meus anos com Blanchet eu sabia muito bem como
funcionava um ateliê de alta costura.
Ela riu debochada.
— E quem você pensa que é? — perguntou toda petulante
— Eu não sou ninguém e quero apenas que você faça seu
trabalho. Você é paga para isso, agora mãos à obra.
Longe de sair do canto, ela apenas me olhou com a cara
ainda mais feia.
— Sinto muito, querida, mas eu já falei que não temos
vestidos tamanho gigante.
Bárbara tremeu do meu lado, eu bufei sentindo raiva. E
isso não era bom. Naquele momento a porta abriu e Nikolas
entrou, ele estava com os olhos um pouco vermelhos, como se
houvesse chorado. Fiz careta, Dimitri era tão mau.
— Victória, a rainha chegou e quer te ver — falou
suavemente e eu sorri.
— Querido, me diga por que aqui não tem vestido de
noivas plus size? — perguntei realmente curiosa.
Nikolas me olhou ultrajado. Ele parecia até magoado.
— Eu desenho para todos os tamanhos, de onde tirou isso,
Victória?
Olhei para Paola e ela agora me fitava com os olhos
saltados, parecia que iriam pular de seu rosto e rolar pelo chão.
Uma pena. Não quero esse tipo de gente trabalhando em algo
que é meu. E esse ateliê é meu.
— Ótimo saber, primeiro, quero que você pessoalmente
cuide do vestido de Bárbara. — Entreguei a mão da minha
garota tristonha para Nikolas. — Segundo, quero ela fora
daqui.
Apontei para Paola.
— Aqui temos modelos plus size, mas não temos vagas
para pessoas ignorantes e arrogantes. Você tem que aprender
que o cliente tem sempre razão, independente de ter um
vestido ou não, é sua obrigação atender bem. Resolve isso
Nikolas, e que não volte a se repetir. Se tiver que reestruturar
a equipe inteira, farei isso.
— Pode deixar, e me desculpe — ele falou já guiando
Bárbara para um reservado. Ela me olhou sorrindo e eu pisquei
um olho.
Feliz casamento, moça, pensei acreditando que eu estava
fadada a ajudar aos outros e não a mim mesma
Saí daquele ambiente que cheirava a casamento e fui
andando pelos corredores.
O ateliê Luxury's era imenso, caberia tranquilo uns cinco
ateliês da Madame aqui. Isso me distraiu um pouco, até que
ouvi uns murmúrios ofegantes. Dobrei uma esquina e vi
Dimitri engolindo Márcia em um beijo desentupidor de pia. Ele
segurava os cabelos dela com uma das mãos enquanto a
obrigava a se curvar para trás. Ele parecia cair em cima dela e
ele podia, pelo simples fato de dele ser muito mais alto. Uma
das mãos estava agarrada firmemente à cintura delicada da
minha cúmplice no casamento de Gaby. Ele vai engolir a garota!
Estava me sentindo uma observadora descarada. Dimitri
interrompeu o beijo e sorriu, murmurando algo que fez Márcia
desfalecer. Então ele lambeu os lábios delas e voltou a beijá-la.
Fui para o banheiro e quando me olhei no espelho tremi
inteira. Meu rosto estava vermelho, minha respiração ofegante.
— Minha nossa! — resmunguei mordendo o lábio.
Sacudi meu corpo para espantar essas sensações, liguei
uma torneira e praticamente me afoguei na água para esfriar.
Não queria nem pensar nos gêmeos em William aprontando
coisa igual, seria uma guerra mundial se minha avó pega uma
coisa dessas acontecendo aqui dentro. Só quando consegui
acalmar minha respiração e meu rubor sumiu eu fui procurar
minha avó. Quando a encontrei tive que sorrir, pois ela estava
toda chique usando um chapéu de aba longa, certamente era
para esconder o olho machucado.
— Minha filha! — Veio até onde eu estava e em abraçou.
— Que coincidência maravilhosa. — Ela me deu uns beijos no
rosto, acabei rindo mais.
Quando ela era carinhosa assim, me derretia toda. Eu
gostava dela, apesar de seus defeitos, que não eram poucos.
Contudo, quem é perfeito? Ninguém, e outra, se Deus permitiu
que ela fosse sangue do meu sangue, é porque era para ser.
— Vamos provar o seu vestido, meu amor? — perguntou
toda contente. — Seu casamento é depois de amanhã e se
precisar de algum ajuste, já faço agora.
Só Deus sabe como foi que dona Antonieta conseguiu
arrumar esse casamento em tão pouco tempo. Juro que até
pensei que ela já tinha tudo pronto, porque não é possível. Foi
quase em um piscar de olhos.
— Claro que sim, vamos — aceitei e ela me levou até uma
lugar que tinha luz natural, era uma grande sala com vidros do
chão até o teto, ficava na parte da frente do ateliê.
— Vamos para o biombo, vou te ajudar a se trocar — falou
toda contente e fomos.
Quando tirei minha roupa ela revirou os olhos para minha
tatuagem, depois eles se encheram de lágrimas quando ela viu
a grande mancha roxa em meu ombro.
— Não repare, vovó — pedi fazendo um carinho nela. — Já
passou, e eu seu bisneto estamos bem, nem dói, pelo menos
combinamos nas cores. — Pisquei um olho e ela me abraçou. —
Eu te amo muito, me perdoe por ter te magoado, eu não quis.
— Tudo bem — ela aceitou minhas palavras, mas notei
que limpou os olhos.
Com cuidado ela me ajudou com o vestido, ele era de
manga comprida e decote canoa. Não havia corpete por causa
de minha barriga, apenas uma delicada faixa abaixo dos seios,
o resto era solto, a seda caía de um jeito que deixava minha
barriga linda, toda delicada e redondinha.
Meu filho mexeu, parecia como se uma bolinha estivesse
rolando pela minha pele, até vi o caminho que fez. Passei minha
mão sobre a seda que cobria minha barriga, minha avó fez
carinho também.
— Coisa mais linda da mamãe. — Sentia-me feliz da vida
por ele estar bem. O ultrassom morfológico mostrou que ele
está perfeito. Nenhum problema devido ao que passei.
Deus olhava por nós e por isso meu filho era blindado!
— Venha para a plataforma — ela me chamou e eu fui,
subi no círculo elevado e fiquei lá parada enquanto minha avó
me rodeava.
Mordi o lábio me sentindo de repente constrangida. Eu me
sentia observada, mas de fato eu estava sendo mesmo. Minha
avó mantinha seus olhos de águia sobre mim.
— Vou buscar minha maleta, preciso ajustar a barra. Não
quero os equipamentos usados por qualquer um — completou
saindo da sala.
Fiquei ali, parada esperando. Enquanto isso comecei a
acariciar minha barriga. O melhor passatempo de todos.
— Mais um milagre, não foi, meu filho? — Eu o senti mexer
como se concordasse. — Não vou questionar nem tentar
explicar, porque, de fato, milagres não se explicam, eles apenas
acontecem para serem vividos, eu vivo o meu. — Senti meus
olhos queimando. — Não vejo a hora de te ter em meus braços.
Naquele momento o sol pareceu me fazer de alvo. Eu me vi
invadida pela luz, que fazia a seda do meu vestido brilhar
levemente.
Fechei meus olhos, erguendo o rosto para receber esse
calor. Minhas mãos ainda em minha barriga, meus
pensamentos vagando até Rocco, apenas nele. Lágrimas
rolaram. Senti desgosto pela situação. Como se algo me
atraísse, abri meus olhos e comecei a procurar, e lá estava ele.
Lindo e maravilhoso, do outro lado do vidro. Logo na
calçada, parado em sua moto gigante. A mesma que esteve ao
meu lado quando eu estava vindo para cá.
Mordi o lábio, ele estava me olhando de maneira fixa.
Vi o brilho em seus olhos azuis, o leve sorriso enquanto me
encarava sem parar. Fechei minha cara estreitando os olhos,
ele arqueou uma sobrancelha, então lambeu os lábios e depois
de tudo que os amigos pervertidos dele fizeram aqui, eu me vi
ofegando.
Eu o queria tanto.
— Rocco, seu homem mau! — murmurei e como se
houvesse me ouvido ele sorriu, beijando dois dedos, em seguida
piscou um olho e apontou para mim.
Dando um tiro imaginário.
Tremi inteira, pensando nos dois dedos, igualmente os dois
dias que faltavam para o "meu" casamento.
Minha nossa senhora, o que isso quer dizer?

***

— Olha, você só terá que dançar, se divertir e depois ficar


com cara de assanhada vendo alguns homens tirando a roupa
para você! — Nikolas falou e eu fiz careta. — Já está tudo certo,
eu fechei a boate para sua despedida, todo mundo do ateliê vai
estar lá, as mulheres, é claro, mas dadas as circunstâncias,
você pode levar seus brutamontes com você. — Ele sorriu
lambendo os lábios. — Não vejo problema algum!
Eu não estava achando isso uma boa ideia. Não mesmo.
Depois de Rocco e sua aparição relâmpago eu fiquei ainda mais
dolorida, chateada, ansiosa.
Fechei os olhos, mortificada, nunca fui do tipo assanhada.
Tampouco chorona, nunca imaginei que uma gravidez mudasse
tanto o emocional de uma mulher.
— Vamos, Victória — Márcia insistiu me fazendo
despertar. — Eu vou levar uma amiga minha, ela vai amar a
despedida. — Piscou um olho e eu sorri pela primeira vez
depois que Nikolas começou com essa história absurda. Eu não
estava no clima para festa, nem despedida, nem conversa, nem
nada.
— Tudo bem! — Não fazia muita diferença mesmo. Não é
como se eu me importasse em ver homens tirando a roupa, eu
já vi o mais perfeito de todos nu em pelo, então os meus
padrões estavam mais ou menos na estratosfera.
As meninas gritaram erguendo os braços assim que eu
concordei. A partir dali, foi tudo combinado nos mínimos
detalhes. Desde o horário da minha saída de casa com meus
três garotos até a chegada na boate. Todavia, antes minha avó
consultou Carlos e ele autorizou, lógico que eu tinha uma
extensa lista de coisas proibidas. Nada de álcool, nada de saltos
muito altos, nada de exageros, nada disso ou daquilo. Se bem
que eu não sei como vou me sentir dentro dessa boate, minha
primeira e última experiência foi no mínimo traumatizante, de
qualquer maneira não era como se eu fosse beber ou até
mesmo aceitar alguma coisa que me oferecessem.
Eu aprendi levando na cara.
— Bom, agora eu vou indo! Quero chegar em casa, tomar
um banho e me esticar na minha cama fofa.
Nikolas me abraçou sussurrando em meu ouvido:
— Você não imagina os boys magia que eu arrumei para
dançar para você. — Fechei os olhos. — Tudo grande,
musculoso, gostoso. Se bem que você é muito bem servida de
homem gostoso, mesmo assim, esses seus não são para tocar,
mas o que contratei dá até para comer.
Acabei rindo. Apesar do meu estresse, eu tinha que dar o
braço a torcer, essa turma do ateliê é muito dez.
— Bobo, pare com isso, Nikolas, não provoque muito.
— O que posso fazer? Eu amo comer, e seu irmão é um
churrasco inteiro, com direito a guarnição e acompanhamento.
— Suspirou. — Vi Jason no banheiro — confidenciou no meu
ouvido. — Eu espiei sabe? Na maior cara de pau, e que pau. —
Engasguei. — Ele não me viu, mas não importa. Minha
felicidade foi de 0 a 100 mais rápido que o Porsche Carrera GT.
Parei de andar para poder encarar Nikolas.
— Qual o nome que dá se juntar anaconda mais cadeira
de rodas? — Piscou um olho e eu viajei, ainda estava pensando
no tamanho do descaramento do meu amigo, Nikkita era um
enorme libertino espreitador.
"Ah, se Jason sabe! Cabeças rolariam."
— Nikolas, sinceramente, você está fazendo perguntas
difíceis — resmunguei e ele riu.
— Olhe para mim que eu olho para a resposta! — Fiz como
ele mandou, e a reposta era Jason.
Neguei balançando a cabeça enquanto engasgava com a
risada! Minha nossa, o ateliê tem algum pólen para escrotice.
Hoje o dia foi muito quente aqui dentro e Nikkita não dava
valor à sua própria vida.
— Então até amanhã, Nikolas e meninas — eu me despedi
de todos e entrei no carro. Jason iria dirigindo, agora eu estava
sentada no meio dos gêmeos, as janelas distantes de mim.
— Obrigada pelo cuidado — agradeci a ambos e eles
beijaram minha cabeça.
Jason não gostou, mas os irmãos não estavam nem aí. Até
riram.
— Estamos na fila — Drake provocou. — Não me importo
em ser adotado!
Dom concordou, Jason mostrou o dedo. Eu ri suspirando,
prevejo mais espaço em meu coração para esses irmãos
incríveis.
Como o caminho para casa era um pouco distante, eu
pude ter bastante tempo para pensar na forma como Rocco
parecia seguro quando me olhou. Ele sorria e estava feliz, mas
além de tudo ele olhava para mim como se eu fosse a próxima
refeição. Os olhos dele me queimaram mais que os raios
solares, o rosto dele estava tenso e lindo, sua expressão
perversa e decadente. Um verdadeiro príncipe sombrio,
poderoso em todo seu mistério.
Por fim, ele pareceu se divertir comigo, como um gato que
brincava com o rato, dando-lhe esperança quando no fim ele
não passa de um joguete, raiva se misturou com desejo. Uma
combinação péssima e louca, e justamente por isso, resolvi que
precisávamos de férias, longe de tudo isso.
— Jason, o que me diz de conhecer o nordeste do país? —
perguntei olhando um pouco do seu rosto
— O que tem? — questionou
— Eu estava pensando no casamento, você vai ficar por
aqui sem fazer nada, que tal se depois seguir direto para o
aeroporto e escapar para umas férias relaxantes?
— E nós dois? — Drake apontou para o irmão ao mesmo
em tempo que fazia uma carinha triste.
Tão fofo! Vou adotá-los também.
— Não iria deixá-los jogados por aí, babies. — Pisquei um
olho e Jason mais uma vez rosnou um palavrão. — Vocês três
podem ir juntos?
— O que tem nesse lugar? — Dom interveio puxado
assunto e eu ri empurrando seu ombro com o meu.
— Praias, boa comida, cultura local e tranquilidade. — De
repente a ideia parecia muito boa. — Poderiam começar por
alguma praia mais acima e ir descendo até aquelas mais ao sul
do nordeste, lá tem até praia de nudismo, eu acho.
Os gêmeos sorriram.
— Topamos! — falaram juntos e eu ri alto. Coisa de
gêmeos.
— Bonequinha, se você quiser me mandar para a o polo
sem roupa de frio eu vou, porque confio em você — Jason falou
alto demais, parecia querer se sobressair.
Perfeito!
— Então fechou — decidi sentido um frio na barriga, era só
uma ideia e que tomou forma. Senti apreensão, mas não era
como se eu tivesse quem me impedisse. — Vou comprar as
passagens ainda hoje, vocês irão ficar lá em casa? — perguntei
aos gêmeos e foi Jason que respondeu.
— Sim, seu pai já arrumou o quarto de hóspedes, ele
colocou duas camas de solteirão para esses usurpadores.
Gargalhamos da cara amarrada de Jason.
— Pronto, então faremos assim, vocês me entregam os
documentos para eu comprar as passagens e reservar os hotéis
quando chegarmos.
— Tudo certo! — os três responderam sincronizados e me
pareciam bem contentes.
Ai, meu Deus… Agora a perspectiva de viajar e sair dessa
fadiga me deu um novo ânimo.
Deixaria Rocco com seu celular que não atende! Porque eu
estou indo para as férias da minha vida, mas os gêmeos só irão
saber que eu vou junto na hora de viajar.
Para todos os efeitos, estarei me casando.

***

— Rapazes, passagens compradas e primeiro hotel


reservado! — Olhei por cima da tela do meu computador e os
gêmeos sorriam, Jason levantou de frente a TV largando o
controle do videogame e veio beijar minha cabeça.
Já que nenhum deles falava português não seriam de
muita ajuda na parte das compras, então essa etapa era
exclusivamente por minha conta.
— Irão passar quatro dias em Fortaleza, mais
precisamente em Jericoacoara, venham aqui — chamei os
gêmeos. — Olhem as fotos.
Ouvi os assovios de admiração, e logo eu estava
mostrando o trajeto até chegar à Paraíba.
— Começarão por essa praia das fotos, olhem. — Eu me
empolgava cada vez mais, pois os três grandalhões do meu lado
estavam tão elétricos e ansiosos quanto eu. Sorri e continuei
mostrando pacientemente todas as praias que iríamos ter o
prazer de conhecer. Olhei para Jason e ele piscou um olho, ele
sabia que eu ia junto, apenas os gêmeos não.
— Ah, cara, eu realmente mereço essa viagem, já me vejo
nessas praias! — Drake exclamou e socou a própria mão.
Parecia um grande menino, lógico que acrescente aí a cara de
mau.
— Continuando — proferi sorrindo, detalhei cada praia,
mostrando as fotos, os pontos turísticos e o que fazer.
— Puta merda, é muito do caralho esse roteiro — Dom
exclamou e eu ri concordando
Estávamos agora os quatro em pleno estado de
expectativa. Eu queria poder contar aos gêmeos meus planos,
mas ainda não era a hora.
— Haverá um momento para descansar, pelo menos um
dia, assim poderão sair à noite para paquerar um pouco.
Os gêmeos começaram a se empurrar rindo e brincando.
Estavam muito felizes.
— Sugiro muito protetor solar para essas caras brancas.
— Apontei para os gêmeos, mas eles estavam mesmo era com
os olhos brilhando.Olhei para Jason e ele também sorria
abertamente. — Batam aqui. — Ergui os dois braços e
fechamos as parcerias. — O paraíso vos aguarda. — Jason me
abraçou descansando o queixo no meu ombro, enquanto juntos
encarávamos a última praia que iríamos visitar. — Esse é meu
presente para você, meu irmão — murmurei apertando suas
mãos. — Perdoe-me por tudo, eu queria que seu aniversário
houvesse sido perfeito.
— Para com isso! — grunhiu e eu acenei, ainda
encarávamos a tela do computador. — Você me deu uma
família, Victória, já cansei de dizer que presente maior que
esse, bonequinha, não há. — Suspirou. — Já me vale por uma
vida inteira.
Sorri sentindo meus olhos ardendo. Eu queria
recompensar Jason pelo fiasco do seu aniversário, mas
também, lá no fundo, eu estava mesmo era usando essa
desculpa trágica para fugir. Tal como fiz em Londres, tal como o
farei agora. Depois de discutir o que seria necessário levar para
um primeiro momento, eu fui me deitar. Estava morta, exausta
mesmo, e olha que passei mais tempo deitada que outra coisa.
Deitei em meu travesseiro e fiquei mordendo o lábio. Meu
celular firme em minhas mãos.
E se sabe que para tudo tem um tempo certo! O tempo de
sorrir, o tempo de festejar e o tempo de tentar.
— Só mais essa vez. — Fechei os olhos, prometendo a mim
mesma.
Então comecei a ligar.

***

Rocco

Meu telefone tocou em algum lugar e eu comecei a


procurar feito um louco. Desde que resolvi me ausentar
completamente e ignorar Victória — mesmo morrendo por
dentro — eu não estava são.
Não me importava se tinha feito meus amigos jurarem me
conter para evitar que eu colocasse tudo a perder, eu sabia que
chegaria o momento em que eu me veria agoniado, como estou
agora.
— Essa merda já está de bom tamanho — rosnei ansioso
para ouvir a voz da minha garota, foram poucos dias de
ausência, que para mim valeram uma eternidade. Só vê-la não
estava sendo de muita ajuda para meu completo estado de
necessidade violenta.
Já estava me estressando, era sempre um pé de guerra
quando o telefone tocava, e olha que ele tocou muito esses
dias. Parecia de propósito que os idiotas deixassem o maldito
telefone ligado, eles pareciam felizes com meu desespero.
Resisti o máximo que pude a não atender, agora não mais. O
telefone parou de tocar e eu passei a mão no cabelo. Freando
minhas divagações e a ansiedade, o toque recomeçou.
— Merda! — Procurei o celular por todo lado, parecia um
maldito cão farejador e nada.
Amore mio, calma aí, estou indo. Os bastardos devem ter
escondido e estão rindo do meu desespero.
— William, onde está meu celular? — Longe de se importar
com meu estado, ele veio caminhando todo displicente da
cozinha.
— Está por aí, onde você deixou? — respondeu indiferente.
— Meu celular agora. — Estendi a mão e o Dinka passou
batendo no meu ombro.
— Procure, você perde suas coisas e quer que eu ache?
Não sou sua empregada.
Filhos da puta! Eles estavam de complô, me olhando torto
desde que voltaram do ateliê.
— Foda-se! — rosnei jogando as almofadas do sofá no
chão, em uma semana nonna deixou meu apartamento com
cara de lar. — Onde está? Merda. Merda!
— Você deveria ter pensando nisso antes. — O Dinka
sentou no sofá só de calção com um pote de sorvete e uma
colher. — Agora te vira, quem mandou ser idiota?
Não sei o que diabos acontecia, eu procurava, mas
simplesmente não encontrava, mesmo ouvindo o toque que às
vezes parecia longe e ao mesmo tempo perto.
— Me empresta o seu, Dimitri. — Estendi a mão e ele
negou. — William? — Outra recusa.
Apertei meu nariz, raiva rastejando em minha pele. Olhei
ao redor, me concentrando no toque, e finalmente consegui
encontrar. O infeliz estava escondido, entre os livros da minha
estante.
— Bando de filho da puta. — Fui pegar o maldito celular,
mas antes de chegar fui interceptado por William.
— Não, senhor, a promessa era quebrem meus braços,
mas não me deixem atender ao maldito telefone. — Ergueu o
dedo negando então estalou os dedos. — Realmente, você
deveria saber que nunca quebro minhas promessas.
— Saia da minha fodida frente — falei lentamente cada
palavra, meu corpo ainda mais tenso, agora que sabia onde
estava o celular. — Saia! — Estiquei meu 1.91 m de altura,
estava pronto para mais uma rodada. Cada vez que Victória
ligava era assim que funcionava
Por que eles simplesmente não entendem que eu me
arrependi dessa ideia assim que Victória me ligou pela segunda
vez?
— Eu falei da boca para fora, foi uma péssima ideia, me
arrependo Okay. Preciso atender. Pode ser importante.
— Você começou essa merda! — William tentou falar, eu
só fiz empurrá-lo da minha frente — Cara, não quero abrir teus
pontos, ontem você estava queimando de febre. Para de dar
trabalho, já aguentou até agora, só espere até amanhã.
— Vai se ferrar, Conde! — grunhi partindo para cima do
grande bastardo.
E mais uma vez, começamos a pancadaria. Dei-lhe uma
ombrada violenta sentindo na alma a dor nas minhas costelas,
o lugar que levei o tiro estava doendo muito.
Grazie a Dio não fui perfurado pela bala, mas, porra, o
bastardo que atirou abriu um talho na minha pele e eu tive
que levar oito pontos nessa porra! Na hora nem senti, na
verdade só quando o sangue já manchava minha calça foi que
meus amigos surtaram. Eu enfraqueci por causa de perda de
sangue. E mesmo assim só pensava em estar perto de Victória,
ela me chamava. E fiquei muito puto por não poder
acompanhá-la na ambulância, aquele doutor de merda estava
lá com ela. Tive que ser amarrado para ter minha ferida
suturada, não conseguia ficar quieto, eu queria mesmo era
estar com minha mulher e meu filho. Nada mais.
A solução para me conter? Os bastados me sedaram!
Agora, apesar da dor, eu estava com muita raiva.
— Você quer confusão, idiota? — berrou William. — Quer
voltar a ser costurado? Não bastasse abrir os pontos uma vez,
quer fazer uma segunda?
Eu nem estava ouvindo. Todas as vezes que eu tentava
pegar meu celular os bastardos não deixaram, então eu ficava
mais e mais puto e briguento, só quando passava a raiva, o que
equivalia a horas, era que eu poderia me considerar apto a
raciocinar.
— Saia da minha fodida frente, William! — rosnei, fazendo-
o dar de ombros.
— Não estou a fim.
— Sai da minha fodida frente, porra! — grunhi e o Dinka
riu, o que me deixou ainda mais puto.
— Cara, isso está melhor que assistir à TV! — debochou e
eu surtei quando pela sexta vez o telefone tornou a tocar.
— Victória pode estar precisando de mim.
— Se fosse assim, os gêmeos ligariam, e outra você teve
muita oportunidade de conversar com ela e não fez, agora
espere, não estrague tudo — William apontou tranquilamente.
— Agora baixa esse fogo, quem já esperou até hoje, espera até
depois de amanhã!
— Eu queria que fosse você! — Esfreguei os cabelos
revoltado
— Então certamente eu estaria agora com minha mulher
em meus braços dormindo ou fazendo amor — respondeu os
olhos inflamados. — Você ferra seus próprios esquemas, quem
manda ser metido a esperto? Se Victória estava te ligando era
porque deveria ser importante, não?
Fechei só olhos totalmente arrependido. Minha cabeça
começou a latejar, minha lateral doía para caralho e a saudade
era a que mais estrago causava.
— Você age por impulso, a primeira coisa feita com
cuidado foi esse plano de sequestro, e provavelmente deve ser a
única coisa que vai dar certo.
E o telefone tocando.
— Preciso atender! — resmunguei esfregando o rosto.
Levantei-me para tentar pegar o telefone, entretanto a decisão
foi tomada de mim.
Nonna chegou pisando duro na sala e o atendeu.
— Rocco está ocupado e não pode atender, assim que
puder ele retorna! — Desligou olhando para mim. — Resolvido o
problema, eu fico com isso! — Balançou o celular e saiu
andando. — Ah, arrumem a bagunça. E você, Rocco… —
Apontou o dedo fazendo cara feia. — … tome a merda do seu
remédio, não me faça te enfiar goela abaixo!
— Você está tão fodido — Dimitri exclamou lambendo a
colher suja de sorvete. — A sua sorte é que além de gigante, o
Eclipse é veloz, quando Victória compreender o que está
acontecendo vocês estarão longe, caso contrário eu não queria
estar na sua pele. Já ouvi dizer que mulheres grávidas são
loucas e têm impulsos assassinos. — Riu apontando a colher
para mim. — Ela nem seria condenada à morte, provavelmente
seria apenas um caso de internação psiquiátrica.
— Mas que raios de conversa sem pé nem cabeça é essa,
Dinka? — Afastei-me do Conde. — Merda! — Fiquei tonto, logo
fui amparado.
Com um ajuda de William, consegui me largar no sofá. Eu
sabia que juntando a tensão de tudo que passei esses dias,
mais minha falta de cuidado comigo mesmo, estava quase tão
mole quando Mirros-vald.
— Estou só falando que, caso Victória te mate, quando
descobrir que você idealizou e executou um plano para raptá-la
levando-a para sua ilha que fica em caralholândia… — Ri um
pouco das palavras do idiota do Dinka. — … ela seria absolvida,
porque no geral você é um infame filho da puta que está
magoando nossa garotinha!
Minha boca torceu em uma careta exagerada. Meus
amigos, depois de presenciarem todo o ocorrido na tentativa de
assalto, estavam muito protetores com Victória.
— Menos mal, Dinka. — Suspirei fechando os olhos. —
Pelo menos minha mulher não estaria atrás das grades.
Fechei meus olhos enquanto tentava me acalmar. Estava
muito perto, bastava apenas um pouco de controle e pronto.
Tudo daria certo.
— Boa noite, idiotas! — Ouvi a voz de Drake e nem fiz
questão de abrir os olhos, apenas estirei o dedo e mais nada.
— Rocco, precisamos conversar! — Dom começou, notei a
tensão em sua voz, me ajeitei para encará-lo.
— O que foi? — E pronto. Meu coração já estava acelerado.
— Aconteceu alguma coisa? Minha mulher? Meu filho? — Os
gêmeos se entreolharam. — Falem, porra!
— Não vou enrolar — Drake começou — Os planos
mudaram, vamos viajar.
Enruguei a testa confuso. Eu trouxe os bastardos para
ajudar na segurança e no plano de pegar minha garota, não
para viajar.
— Bom, por onde começar? — Dom respirou fundo. —
Victória está triste pelos cantos, mas ainda assim pensa em nós
e por isso teve uma ideia que eu apoio muito.
— Nós apoiamos, na verdade! — Drake completou. — Ela
nos propôs fazermos um tour pelo litoral do país, digo, uma
parte mais para cima do mapa, eu acho. — Coçou a cabeça. —
Quando ela sair de lua de mel com o doutor vamos embarcar
para esse lugar, Norest, eu acho que fala assim.
— Impossível!— grunhi ficando em pé. — Isso não vai
acontecer!
O que esses bastardos filhos de uma puta estão
pensando? Eles têm que ficar do meu lado, não contra.
— Na verdade, já temos as passagens compradas, hotéis
reservados e o trajeto muito bem definido, não sei se quero que
Victória tome outra decepção contigo, ela me parece muito
frágil e nos sentimos protetores com ela. Sinto muito, mas não
sei quero fazer parte desse sequestro.
Dio mio, dai-me paciência para não voar na cara desse
bastardo e arrebentá-lo.
— E não só isso. — Drake parecia estar adorando me dar
notícias perturbadoras. — Não está nos seus planos, mas
amanhã a Bonequinha…
— O nome dela é Victória! — grunhi apontando o dedo. —
Não me faça quebrar seus dentes!
Os idiotas apenas riam.
— Estamos a meio caminho de sermos adotados. — Dom
apenas meneou a mãos. — Voltando ao assunto, amanhã terá
uma despedida de solteira organizada pelo tal do Nikolas, pelo
que ouvi Victória apenas terá que se sentar e sorrir enquanto
alguns caras dançam para ela.
— Só por cima do meu cadáver! Ninguém vai se esfregar
em Victória nem tirar a roupa na frente dela. Que merda é
essa?
Não contava com uma despedida de solteira! Essa com
certeza é uma novidade perturbadora.
— Rocco, às vezes eu tenho pena de você — Dimitri
debochou. — Vai correr o risco de perder a mulher e o filho por
ser um idiota descontrolado.
William concordou. Perderia muito da minha vida se o
sucesso desse plano não fosse garantido.
— Eu te falei para agir logo e não ficar protelando.
Respirei fundo e soprei o ar em uma longa e ruidosa
baforada.
— Eu estava esperando o momento certo! Não queria
atropelar as coisas e correr o risco de errar.
— Idiota! — William apontou o dedo para mim. — Por que
você tem todas as chances e eu não? Eu só queria que minha
garota estivesse viva, aí você iria ver como se pega uma mulher
de jeito, nunca deixaria que nada nos separasse, nada,
entendeu? Seria perfeito para ela, tudo que ela precisasse, não
importando o quê.
Revirei os olhos chateado com o dia de hoje. Só houve um
misero bom momento, mas ele foi tão rápido que nem deu para
encher o recipiente da calma.
— Quando chegar a vez de vocês, e isso eventualmente irá
acontecer, eu quero só ver — bufei. — Falar é fácil, o difícil é
fazer. Eu não vou perder minha mulher, eu já tenho tudo
pronto. Só não sei como vou fazer com essa despedida de
solteira. — Esfreguei meus olhos, eu estava tão perto de
conseguir que nem dormir eu estava conseguindo. — A avó da
Victória vai? — perguntei aos gêmeos e eles negaram. — Menos
mal.
Nesse instante o Dinka riu alto, e eu rosnei um palavrão
decadente. O infeliz estava se divertindo com o quê?
— O que é agora?
— Meu amigo, sempre existe uma coisa muito importante
em todo casamento! — falou com a voz mais calma do mundo.
— Despedida de solteiro! — riu. — É tão obvio, como não
pensamos nisso?
Confesso que fiquei aflito. A expressão do Dinka dava até
medo.
— O que você está pensando, hein? — perguntei
esperançoso, Dimitri quando fazia essa cara sempre estava
armando.
Ele era um vigarista de alta patente.
— Ora… — começou falando mas o William fechou a cara
fazendo o Dinka soltar uma longa risada — dançarinos seminus
e pouca luz! O que parece? — Sorriu mostrando todos os
dentes. — O momento exato para pegar uma mulher
desprevenida!
Estreitei os olhos, um leve sorriso se desenhando em meus
lábios.
— Onde iremos encontrar os dançarinos certos e de
confiança até amanhã? — perguntei e o louco inclinou-se em
minha direção.
— Estou olhando para três deles. — Apontou em minha
direção, ele mesmo e o William. — Todavia, aqui tem mais dois.
— Apontou os gêmeos e com cara de quem acabou de quebrar
uma banca de poker com um belo Royal flush, completou: —
Eles irão nos colocar para dentro. — Olhou para os gêmeos. —
O plano perfeito.
Todos fizemos silêncio. Estava tenso, mas a ideia era boa, a
melhor que eu poderia arrumar com desespero e pressa.
— Temos um problema! — Esfreguei o rosto. Era muito
problema de última hora para resolver, minha cabeça estava
estourando.
— E qual seria? — Dinka perguntou muito tranquilo.
— Eu não danço! — William e eu grunhimos juntos.
Dimitri e os gêmeos gargalharam.
— Correção, vocês não dançavam — murmurou
levantando —, sorte que eu sou um bom professor, agora, mãos
à obra, tenho pouco tempo para transformar dois CEOs
engomadinhos em perfeitos dançarinos.

***

Victória

Acordei sentindo meu rosto doer.


Eu chorei tanto, mas tanto, que acho que meus dutos
lacrimais estão atrofiados. De tudo que eu poderia esperar, eu
nunca pensei que Rocco realmente iria seguir em frente.
— Por isso eu continuava insistindo — murmurei olhando
o teto.
Eu sabia que ele estava apenas dando um tempo. Mas
talvez eu o tenha empurrado demais, Rocco tem muita
personalidade, ele sempre foi ele mesmo. Com sua ignorância,
truculência e agressividade, ele nunca deixou de ser autentico,
intenso.
Como eu pude pensar em mudá-lo?, questionei, agora que
o perdi. Eu encarava aquela marra toda como apenas um
chame a mais em todo seu belo e grande pacote.
Quando eu falei que iria tentar uma última vez eu
realmente não iria cumprir. No hospital eu disse isso várias
vezes e sempre acabava ligando de novo e de novo.
Só Deus sabe como me senti quando ouvi aquela voz de
mulher ao telefone. Ela nem era Brasileira, pois falou em um
inglês fluente, o que me leva a crer que ela em algum momento
veio da Inglaterra.
— Ah, meu Deus. — Levantei da cama e fui para o
banheiro.
Dei-me mais meia hora de choro convulsivo largada no box
de roupa e tudo.
Aquele seria meu último choro. O Choro de abstinência e
desistência. O choro da cura.
Ao fim, eu me levantei, tirei minha roupa e pensei:
“Acabou Sr. Masari! Não sofro mais por você!”

***

— Victória, você está pronta? — Jason bateu em minha


porta e eu gritei que sim.
Ele entrou e assim que me viu arregalou os olhos. Apesar
de estar com uma linda barriga redondinha, eu não iria para
essa despedida de solteira com cara de enterro. Decidi que vou
me divertir, afinal depois de tanta porcaria envolvida, o
casamento de Carlos e Gaby vai sair. Por isso, chamei tia Laura
e juntas tivemos o dia das garotas, pintei as unhas, hidratei
minha pele, me depilei e fiz um belo cacheado no meu cabelo.
Estava tentando me senti bonita.
De pé em frente ao meu espelho, não parecia grávida ou
com cara de quem chorou até dormir, eu parecia uma jovem a
fim de curtir a vida. Correção: Eu sou uma jovem mãe a fim de
viver bem a vida. Joguei o cabelo para trás. Mulheres
geralmente tem uma forma de reagir quando sofrem decepções
amorosas. E o mais fácil é trabalhar no visual. Parecer bem, e
fazer as pessoas pensarem que está bem.
— Vamos, Brother. — Sorri e o vi estreitar os olhos. —
Meu irmão, por que está me olhando assim? Vamos dançar,
baby, quero curti um pouco hoje.
Jason pareceu cair no meu truque e saímos. Os gêmeos
quando me viram também ficaram meio estarrecidos. O
caminho até a boate foi feito sob muitas risadas, e eu nem
estava fingindo. Parei de me enfiar em autopiedade, ninguém
vive assim. Eu estava viva, tinha que me decepcionar e superar
quantas vezes fossem preciso, até criar uma couraça e
endurecer.
— Chegamos — Jason falou e eu o observei entrar em um
estacionamento exclusivo, que a essas horas estava lotado.
— Parece que todo mundo veio mesmo! — Drake sorriu
misterioso. — Tomara que uma certa garota também tenha
vindo — completou e Dom grunhiu baixo.
Assim que chegamos tivemos que parar na entrada,
quando dei meu nome, um tipo de sirene foi tocada e, bom,
colocaram em mim uma tiara com chifre de diabinho e eu
ganhei um garfo. Olhei e notei que eu era a única com aqueles
apetrechos. Todo mundo do ateliê estava aqui, e quando vi
Gaby não evitei eu tive que abraçá-la.
— Obrigada! — sussurrou no meu ouvido. — Eu não estou
acreditando nessa despedida.
Naquele momento começou a tocar uma música
superdançante e animada, sorri para Gaby puxado-a para
pista.
— Me diga o que você quer? — cantei. — Do que você
gosta e se está bem…
Sorrimos juntas, de mãos dadas começamos a dançar. A
música era boa, tinha um ritmo gostoso, eu me joguei. Logo
Nikkita chegou por ali, entrando no meio, dançamos juntos os
três.
— Tudo que acontece em uma despedida de solteiro… —
entoou levantando um copo longo com um líquido azul — fica
na despedida de solteiro.
Gritamos um sonoro sim, Márcia, Lucy e Fernanda
chegaram por ali e nossa turma estava incrível demais. Apesar
de algumas marcas da minha provação, não havia dor que me
proibisse de dançar, estava sendo o fim daquele noivado
maluco e complicado.
— Vocês deveriam se odiar! — gritou para mim e Gaby. —
A antiga e a atual. — Balançou a cabeça. — EU ADORO ISSO!
As pessoas começaram a se beijar, Nikolas puxou uma
garota pelo cabelo deu-lhe um beijo que a meu ver parecia
muito gostoso. Eu nem acreditei quando vi.
— Ele fica doido quando está na balada. — Lucy riu e eu ri
também, de olhos fechados, me jogando ao ritmo.
Dançamos muito, as músicas eram todas incríveis, uma
seleção demais.
Senti um toque em meu ombro e olhei para cima, Jason
estava ali sorridente, segurando um copo de água gelada.
— Preciso hidratar minha bonequinha — enfatizou o
minha me entregando o copo, bebi tudo. E já estava começando
sentir fome.
— Não precisa ter ciúmes de mim, Brother. — Abracei seu
grande corpo. — Você é meu irmão mais velho e mais querido,
os gêmeos são os caçulas, e na hierarquia…
— Eu dou as ordens! — exclamou sorrindo eu olhei para
cima ainda o abraçando
— Exatamente! — Pisquei um olho, o puxando para
dançar.
Logo ele estava tendo que dar conta de Lucy, Márcia e
Fernanda, as três o fizeram de alvo e Jason estava gostando
muito. Todavia ele não saia de perto de mim, e os gêmeos
também não, era como se eles houvessem traçado um
perímetro triangular, eu estava no meio, e cada um deles nas
extremidades invisíveis.
Em um determinado momento eu comecei a me sentir
observada. Olhei ao redor e pude jurar que vi os olhos azuis de
Rocco me comendo viva, acreditei ser o efeito das luzes, pois em
um momento estava lá e em outra não.
— Loca, loca, loca — Nikkita berrou dançando, me
puxando e eu indo. Dançando também.
As luzes, as pessoas, parecíamos uma massa elétrica.
Braços agitados, muita vibração positiva. E a surpresa, eu não
sabia que o ateliê tinha tanto funcionário. Aqui tinha mais de
cem pessoas. As horas passaram entre muita dança, parabéns
pelo casamento e muitos copos de água ou suco. Meu Brother
era tão cuidadoso comigo que me matava de orgulho, os gêmeos
também, de vez em quando um deles me abordava com algo
para comer.
Estava realmente entregue àquela despedida de solteira e
tive que agradecer mentalmente a Nikolas, pois graças a esse
momento, eu não estava pensando no meu… Ou melhor, em
Rocco!
— PARA TUDO, DJ! — a voz de Nikolas soou ofegante nos
autofalantes, ele parecia que iria explodir de felicidade. —
Chegou o momento da tão esperada dança de solteira!
Todo mundo gritou e eu olhei ao redor, notei que os
gêmeos haviam sumido, mas Jason estava perto de mim.
— Por favor, Victória, suba no palco e sente na cadeira! —
Nikolas estava com o microfone do DJ, dando as ordens,
naquele momento, eu senti meu rosto queimando.
Neguei sem parar, morta de vergonha.
— Ah, minha querida, queria eu poder ter cinco delícias
esfregando toda a gostosura no meu lindo face! — Riu batendo
palma e várias pessoas gritaram.
Eu ainda continuei negando.
— Ooookay! Leve uma amiga! — Deu a ideia e uma luz
acendeu. — Uma sugestão: escolha uma amiga gay, linda e
gostosa, por favor.
Gargalhei alto.
— Gaaaaby! — Ergui os braços e as pessoas gritaram o
nome dela, quando dei por mim, estávamos sentadas em duas
cadeiras no meio de um palco.
As luzes ficaram ainda mais loucas, os tons escuros de
azul e roxo predominando.
Uma música começou a tocar, e era sexy, louca e eu amei.
Eu conhecia e para esse momento era perfeita. Era uma
remixagem nova, diferente que casou com o estilo do homem
que entrou no palco. As mulheres e homens — Nikolas e afins
— gritaram ensandecidas. Eu tinha que dar o braço a torcer o
homem era simplesmente de cair o queixo. Trajando apenas
uma calça jeans ajustada, boné baixo uma máscara e muitas
tatuagens, ele me pareceu conhecido, mas a ideia era tão
absurda que eu descartei. Estava mesmo era com mania de
perseguição.
O dançarino abriu os braços contraindo o corpo
musculoso. Olhei para Gaby e ela sorriu de olhos arregalados.
Nesse momento a música realmente começou dançar, ele era
simplesmente perfeito, e eu confesso. Nunca vi um homem
dançando desse jeito, apenas nos filmes da franquia Ela dança,
eu danço.
— OMG! — Gaby gritou quando o dançarino todo marrento
fez uns trejeitos poderosos com o corpo. Eu gritei também.
Aquilo era muito incrível.
A batida da música era intensa, louca e o dançarino não
era fraco não. Eu estava amando, não vou mentir. Outra vez
ele abriu os braços e ficou apenas atiçando, olhei para Gaby e
juntas começamos a gritar batendo os pés no chão. Todo mundo
enlouqueceu. O Dançarino parecia um Deus, ele comandava.
Sabia prender atenção de todos.
Colocou uma das mãos no meio das pernas e com as
outras chamou a multidão hipnotizada.
Levei minhas duas mãos à boca de olhos plenamente
arregalados.
Ele dançava de uma forma que fazia você não conseguir
tirar os olhos, em um momento todos já gritavam, a música
incentivando-o a dançar ainda mais.
Ele o fez. Então a música aliviou a batida, e ele se postou
no meio do palco, apenas um pouco mais atrás. Esticando um
braço para a direita chamou. Engraçado, a música pareceu
encaixar perfeitamente com o momento, no palco surgiu outro
dançarino. Meus olhos quase saltaram, pois ele era grande,
muito grande. Também mascarado, de boné baixo e apenas de
calça jeans, sem tatuagem. Esse dançarino apenas se movia
devagar, sem dançar só mexendo o corpo perfeito, ele me
atraiu, os outros dançarinos perderam o brilho.
Todo mundo estava quase derrubando a boate com os
gritos.
— Se Carlos sonha! — Gesticulei e ela concordou rindo
meio enlouquecida.
A música se encaminhou para o final, e o único a
barbarizar dançado foi o tatuado.
Quando acabou eu acho que afundamos alguns
centímetros da fundação do prédio. Tamanho foi à loucura de
todas nós. Eu já estava rouca de tanto gritar, mas parecia que
agora que o show iria começar. Os três se posicionaram e um
toque começou a embalar.
Eu encarei o meu dançarino. Sentia-me abalada por ele,
me vi derretendo.
A música não colaborava em nada, era sexy demais,
quente demais. E eles dançando chegava a ser obsceno. Era um
vai e vem lascivo, gostoso, no ritmo exato, movimentando seus
corpos, com poder, precisão e carisma.
Nós só ouvíamos a música, parecia que as vozes foram
perdidas. Até me inclinei para frente, para tentar enxergar
melhor, a luz estava muito baixa, muito escura, não dava para
ver com clareza suficiente. No ponto alto da música mais dois
dançarinos entraram, não vou nem dizer como estavam.
Juntos, dançavam com tal perfeição que certamente deveriam
ser muito requisitados, os movimentos eram sincronizados,
quase mágicos em sua sutileza.
— AHHHH! — foi o grito da geral quando simultaneamente
os homens abriram os botões de suas calças.
Cravei meus olhos gulosos no dançarino número 2 e vi o
grande volume entre suas pernas que um flash de luz me
permitiu captar.
Engoli em seco. E foi com desespero crescente que vi um
dos dançarinos chegando perto de mim para vendar meus
olhos.
Mordi o lábio, a boate foi à loucura. Meus nervos à flor da
pele queimando por algo que eu nem sabia o que era. Mas que
precisa e muito. Estar vendada aumentava a tensão no meu
corpo, quase saltei da cadeira quando senti mãos firmes
pegando as minhas.
Eu reconheço essas mãos, é impossível!, eu me convenci,
a loucura está me fazendo senil.
— Minha nossa! — Puxei o ar quando o dançarino colocou
minhas mãos em seu peito e começou a deslizar bem
lentamente pelo seu abdome sarado e duro.
Mordi o lábio quando senti sua pele muito próxima, senti
seu cheiro familiar e mesmo com a venda, fechei os olhos ainda
mais apertados, sua mão veio para minha nuca, ele comandou
sutilmente e eu nem pensei, coloquei a língua em sua pele e o
lambi.
Seu corpo tensionou, senti porque seu abdome contraiu
sobre meu toque. A música sumiu, os sons calaram. Eu me vi
querendo agarrar esse homem que eu nunca vi na minha vida,
e exatamente por isso eu entendi o que a frase de Nikolas quis
dizer com a frase :O acontece em uma despedida de solteiro,
fica na despedida de solteiro!
De fato, agora eu sabia que era a mais pura verdade!

***

— Minha nossa, o que foi isso Victória? — Gaby perguntou


me abraçando. Nós duas estávamos tremendo muito.
Quando a música acabou e eu parei de molestar
publicamente o podre do dançarino, a vergonha bateu dura e
intensa. Ainda bem que estava mas escuro e quando a música
acabou eles sumiram. Estava muito inclinada a cometer uma
loucura com aquele dançarino especifico.
— Preciso de um enorme copo de água gelado, Gaby —
exclamei encarando-a, sabia que estava com meu rosto
pegando fogo, e a julgar pelos olhos brilhantes, Gaby não
estava muito longe do meu estado.
Quero dizer, eu não sei se ela esta molhada, com os seios
pesados e o meio das pernas pulsando. Descemos do palco
ovacionadas, as meninas estavam meio loucas, Nikolas estava
ofegante e vermelho como eu.
— Estou roxo de inveja! — exclamou. — Eu sabia que eles
eram bons, mas não sabia que eram TÃÃÃO BONS! — gritou o
final abanando o rosto.
Tive que concordar. Eles eram, sim, mas o meu dançarino
me deixou fervendo.
— Apesar dos pesares, meu bem… — Nikkita estava quase
brilhando de felicidade. — … eles são gays! — Gargalhou como
se houvesse descoberto a caverna do Aladin e então me vi
morrendo de vergonha.
Primeiro eu fiquei louca e acessa por um cara que gosta de
homem, e depois eu estava mortificada com esse fato. Talvez eu
esteja me curando do meu vício por Rocco, bastou um
dançarino top para me fazer nem pensar nele.
— Bonequinha. — Jason chegou perto de mim e eu nem
conseguia olhar para ele.
— Preciso ir ao banheiro.
Fugi para resfriar. Ultimamente eu estava tendo um
momento com banheiros e torneiras. Eu era oficialmente uma
grávida subindo pelas paredes, não sei se por causa da minha
decepção em saber que Rocco está com uma mulher que eu me
vi caindo nessa despedida com tudo que tenho.
De repente uma coisa que eu não entendia se fez muito
clara!
— Por isso ele mudou a senha do elevador! — exclamei
com raiva. — Era para eu não ter acesso e ver coisa que não
devia. — Molhei o pescoço respirando fundo. — Não quero mais
ver aquele grande safado nem pintando de ouro! — decretei
firme. — Rocco, você é um pervertido!
— Disso você sempre soube, mas talvez eu deva
considerar que nas cores naturais eu sirva para você, já que de
ouro você não quer?
Ouvi sua voz e a porta batendo bruscamente. Virei-me
pronta para enfrentá-lo, mas a verdade era que eu queria
correr e me esconder. Olhar para ele me causada um misto de
angústia e alívio tremendo. Empertiguei-me toda, notando que
ele estava a uns dois metros de distancia. Tão lindo que dava
ódio mortal e tristeza desenfreada.
— O que está fazendo aqui?!
— Eu vim fazer algo muito importante! — disse todo
misterioso.
Nem tive tempo de falar, ele veio para cima de mim, e me
beijou com força. Comecei a brigar com ele, batendo em seu
peito ou costelas. Ele gemeu, parecia mais de dor que de
prazer.
Afastei-me olhando para ele confusa.
Então suas mãos serpentearam para meu pescoço. Ele
fechou os olhos, concentrado. Franzi o cenho, meu corpo
começara a se sentir estranho. Muito rápido suas mão
aacertaram determinados pontos específicos e ele pressionou,
meu corpo travou, deu um curto circuito e eu não sei o que
houve.
— Técnica Ninjútsu! — ouvi sua voz murmurada.
Apaguei.
Ouvi uma voz suave e melodiosa enquanto um líquido
fresco escorregava pela minha garganta.
— Vamos, minha pequena, beba devagar. — Eu estava
morrendo de sede
Eu era compelida a obedecer. E em vez de acordar, eu me
senti deslizando ainda mais na inconsciência.

***

Rocco

Cuidadosamente recolhi o corpo flácido de Victória em


meus braços.
Ainda não acreditava que havia dado certo. Ou melhor,
até agora deu certo.
Minha entrada aqui, vigiá-la e finalmente dançar. Aquela
parte eu tive que aproveitar, foram muitos dias sem um toque,
sem um gosto. E ter sua língua quente em minha pele foi um
pequeno incentivo para continuar e ignorar a dor pulsante em
minhas costelas que guerreava com a dor em minhas bolas.
Ergui-me do chão gemendo baixinho de dor e esforço.
O peso ínfimo da minha garota que para eu carregar
sempre foi simples estava me fazendo trincar os dentes, quando
fisgadas de dor disparam através da minha lateral ferida.
Respirei fundo, me ergui completamente e me preparei
para sair. Eu já havia checado cada saída desse lugar, e sabia
que ao lado do banheiro feminino havia um corredor que me
daria a chance de escapar sem ser muito notado. Sorte a minha
que os banheiros ficavam em um corredor longo, sem muito
olho curioso, era quase como se o destino colaborasse comigo.
Abri a porta e olhei ao redor. Dimitri estava ali para me
dar cobertura, ele impedia as pessoas de passarem, apressei-
me em direção a saída.
Quando o frescor da noite me saudou eu quase sorri, mas
só estaria tranquilo quando estivesse no eclipse e este já a
quilômetros de distancia da costa.
— Aonde você pensa que vai?! — Ouvi a voz de furiosa de
Jason e parei de andar. — Acha mesmo que ela estando sob
meus cuidados eu não iria perceber quando tentasse levá-la?
Sou melhor que isso, Rocco, e você sabe!
Virei-me e vi Jason com uma cara horrenda encarando-me
com Victória nos braços.
— Me lembre de não brigar com Jason nunca mais. —
Dimitri apareceu limpando o sangue da boca. — Esse cara é um
louco.
Respirei fundo. Agora mesmo eu não estava páreo para
Jason. Então eu precisava que ele colaborasse comigo.
— Jason, por favor, não me faça perder essa oportunidade,
eu trabalhei muito para chegar a esse momento, realmente.
Ele me olhou sem dizer nada, parecia me ler de algum
jeito.
— Rocco, chega de tanto problema, ela precisa de paz, você
também! — Abri a boca e ele me interrompeu. — Eu sei que
talvez me arrependa, mas eu te disse uma vez que Victória às
vezes precisava que alguém empurrasse seus limites. Vamos lá,
conde, saia daí, aqui quem dirige sou eu.
Não acreditei.
— Então? — perguntei e ele sorriu aproximando-se
— Vou ajudar, e no caminho para onde irei levá-los você
me explica tudo. — Deu um tapinha no meu ombro. — Acha
que não notei vocês? Ótima performance. — Gargalhou alto —
Agora vamos, e vocês, voltem, enrolem o povo — apontou para
meus amigos. — Os gêmeos já estão deixando ocupada uma das
garotas que poderia notar a falta de Victória.
— Entreter amigas é comigo mesmo. — Dimitri
praticamente correu de volta para a boate.
— Eu vou terminar um assunto que ficou pendente! — O
Conde apertou meu ombro. — Bom recomeço meu irmão.
— Obrigado!
— Eu sei que não podemos mudar as coisas que estão fora
do nosso controle — começou me encarando muito sério —, mas
você está tendo mais uma chance, por favor, Rocco, apenas não
desperdice. — Apertou meu ombro. — Não me decepcione, mas,
principalmente, não a decepcione.
— Não vou, irmão.
— Vamos, Nikolas já, já começa a alardear o sumiço da
noiva! — Jason alertou e eu entrei no grande SUV preto e
fumê. — Vai precisar dos documentos de Victória?
— Sim, por favor! — respondi prontamente.
— Toma. — Jason estendeu uma bolsa pequena. — Aqui
tem tudo, inclusive o passaporte.
— Como? — questionei
— Para todos os efeitos Victória ainda é turista, e nós só
saímos com todos os documentos. — Sorri feliz ajeitando meu
farto em meus braços. — Para onde? — perguntou ajustando o
cinto de segurança
— Vamos para a marina, o Eclipse está lá.
— Eu sabia! — Riu guiando o carro para saída. — Eu
soube assim que ele chegou, só estava esperando para ver o
que você faria. — Vi quando balançou a cabeça. — Cara, vocês
se superaram.
— Por Victória eu faço tudo! — exclamei e Jason acelerou.
Durante o trajeto o dia começou a clarear. Quando
chegamos, desci com a ajuda de Jason, ainda me senti
levemente tonto, mas ele me ajudou a estabilizar.
Respirei fundo, recusando-me a soltar minha garota.
— O que você tem? — perguntou preocupado
— Nada, apenas estava deixando a dever em certos
cuidados porque eu tinha prioridades, agora as coisas iram
entrar nos eixos.
Apressado, caminhei até o Eclipse. A essa hora e como não
houve momento suspeito da minha parte, a área estava limpa
de paparazzi.
Mentira, eu mandei uma turma de seguranças limparem a
zona. Claro que sutilmente ou não.
— Rocco, muito cuidado, certo? — Jason falou assim que
subimos a bordo. — Por favor, não me faça te caçar com uma
faca!
Ri baixo.
— Se eu cometer algum erro, te dou a faca.
Jason sorriu inclinando-se para beijar a testa de Victória.
— Seja muito feliz, bonequinha — murmurou acariciando
sua bochecha. — Agora não haverá erros. Seu Brother
promete.
Jason afastou me dando uma última olhada demorada.
— Estou confiando. — Acenei então ele partiu.
— Ordens, senhor? — o capitão do Eclipse aproximou-se
perguntando, eu quase não cabia em mim de felicidade.
— Preparar para zarpar a todo vapor, Kostas, quero estar
bem longe daqui quando o sol estiver alto no céu!
Olhei para o horizonte, o sol ainda era uma pequena linha
de fogo.
— Agora não haverá fuga, amore mio! — Olhei para
Victória adormecida em meus braços e suspirei.
Agora é me preparar para quando ela acordar! E sim, a
ideia me parecia revigorante!
Capítulo 24
Victória

Acordei me sentindo estranha, com cuidado, me levantei


um pouco, desafogando meu rosto do colchão, esfreguei os
olhos caindo de sono, notei que havia um sutil balanço, não sei
o que poderia significar, entretanto eu tinha vontade de voltar
a enfiar o rosto naquele travesseiro excessivamente fofo, aquela
cama tinha o cheiro de Rocco, isso era ainda mais estranho,
com certeza eu deveria estar sonhando. Mexi-me mais um
pouco e mais daquele perfume delicioso flutuou até meu nariz,
comecei a procurar, farejando a cama para ver se achava
aquela fonte, encontrei no travesseiro ao meu lado, o cheiro
estava mais forte. Dei uma boa respirada, meu corpo tremendo
de saudade, a vontade de chorar se tornando quase inevitável.
A última coisa que lembro foi Rocco surgindo do nada, eu
estava sozinha no banheiro, debatendo sobre como nunca mais
iria ficar a mercê dele, de repente, cada palavra dita caía por
terra porque lá estava mais de um metro e noventa de homem
gostoso, cheiroso e tudo mais. Sabia que seria apenas mais
uma de suas aparições, ele estava brincando comigo, como se
mostrasse o que havia perdido. Com muito esforço, porque
estava preguiçosa, me ergui, olhei ao redor e não acreditei, o
hotel escolhido era incrível e o quarto de um luxo ímpar.
Poderia aproveitar a cama por um século, mas agora não
poderia, pois tinha muita coisa para resolver.
Com cuidado me arrastei até a borda da enorme cama,
ainda olhando ao redor, eu balancei meus pés, a cama era alta
demais, tinha medo de pisar em falso e cair, porém, assim que
coloquei meus pés no chão, me senti ainda mais estranha e
confusa por duas coisas, a primeira: Quem me vestiu com essa
camisa de botão enorme? Segunda: Por que não tenho
estabilidade nos pés?
Cocei a cabeça, olhando ao redor, vasculhando em minha
mente algum ponto de recordação, mas não havia nenhuma.
Um detalhe daquele hotel me chamou atenção, mudando o foco
dos meus pensamentos, as janelas eram diferentes, menores do
que seriam janelas comuns. Excêntrico demais, contudo,
lembro que minha avó disse que o hotel era inovador em
design.
Curiosa por não haver nenhuma barulho de vida exterior,
caminhei até uma janela e…
— Jesus Cristo! — gritei, tampando minha boca, choque e
incredulidade disparando através do meu sistema.
Eu não vi rua, eu não vi barulho de carro, pessoas, nada!
Digo, sim, eu estava ouvindo barulho da água batendo contra
algo.
O que eu vi foi a linha do horizonte, céu azul e água.
Muita água!
— Onde eu estou? — Engasguei, começando a sentir
pânico. Olhei ao redor, procurando algo que fosse familiar,
quase desmaiei quando encontrei um relógio delicado e vi a
hora.
— Nove e meia da manhã, estou atrasada! — Corri de um
lado para outro, procurando minha calça e minha blusa,
precisava chegar logo para ajudar Gaby, o casamento era às
dez, meu Jesus, estava na hora.
Andei de um lado para o outro, nervosa, então resolvi
começar pelo início. Fui até uma porta e puxei, estava
trancada. Olhei ao redor, havia outra porta, corri para ela,
precisava encontrar minhas roupas, precisava encontrar calma
também, mas acima de tudo tinha que encontrar uma forma de
sair daqui. Gritar por ajuda não iria resolver, pelo amor de
Deus, eu estava apenas com uma camisa, não poderia sair por
aí assim mesmo se a ajuda chegasse e…
Congelei em posição de correr quando percebi que estava
muito confortável entre as pernas, receosa, agarrei a barra da
camisa que eu vestia e subi, apenas para encontrar meu sexo
exposto. Senti-me tonta e com medo. Jason nunca deixaria
ninguém me levar, havia os gêmeos também e Rocco já estava
com outra mulher, a mesma que atendeu ao telefonema, então
o que houve para eu estar assim? Quem me trocou? Quem?
— Calma, Victória, você estava com suas colegas de
trabalho! — Respirando fundo, testei a outra porta e ela abriu,
era o banheiro. Sentia-me presa em uma grande cilada, mas
pelo menos encontrei minhas roupas. — Porcaria. — Mordi o
lábio, juntando minhas roupas dobradas ao lado de uma
bancada, tirei a blusa, ficando completamente nua, segurei as
bordas da pia baixando a cabeça. Respirei uma vez, duas. Até
mesmo cinco vezes. — Tudo bem — falei baixinho. — Vamos
pelo princípio. Quem poderia ter me trazido aqui? Será que
Rocco teria coragem?
Descartei a ideia, ele que não seria, não agora que está
com outra além do mais foi claro ao dizer que estava seguindo
em frente. Rocco deixou claro que eu sou passado, ele estava
apenas me provocando com suas aparições, só isso. De
qualquer forma, eu nem o amo tanto assim, a prova disso foi o
dançarino que me fez tremer nas bases, tenho certeza que
Rocco não tem poder sobre mim. Esse desespero todo é porque
ele foi o único homem que tive em minha vida e meus
hormônios que estão loucos. Apressada, vesti minhas roupas,
tudo parecia ter sido lavado, depois de pronta liguei a torneira
para de alguma forma fazer algo normal, na inútil tentativa de
colocar na minha cabeça que tudo iria dar certo, joguei água no
rosto, em seguida mexi no espelho diante de mim, ele deslizou,
revelando algo que me assustou.
Todos os meus cremes para o cuidado da minha gravidez,
minhas vitaminas e tudo, absolutamente tudo que eu usava,
estava arrumado ali dentro, tremendo, peguei a escova de
dentes rosa, ela estava ao lado de uma azul. Balancei a cabeça
e não sei se o ato de escovar os dentes me fez desabar, mas eu
chorei, tentando parecer racional, não sei definir o exato
sentimento que me assolava, mas era algo grande, sequei as
lágrimas, fugir não adiantava, não enquanto eu estivesse
trancada, me olhei no espelho e, espirando fundo, agora era
encarar o que estava por vir. Saí do banheiro de cabeça baixa,
ansiosa, nervosa. Sem saber o que esperar.
Ouvi uma porta abrindo, fechei os olhos apertando minhas
mãos em punhos. Engoli o soluço que tentava escapar.
— Levante a cabeça, amore mio. — Ouvi sua voz e fechei
os olhos mais apertado. Duvidando dos meus ouvidos. —
Levante a cabeça, amore mio! — comandou e eu a ergui.
— Não chegue perto — pedi, meu corpo estava começando
a reviver, como todas as outras vezes, e logo ele iria embora,
me deixando uma massa trêmula de desejos não realizados.
Longe de me ouvir, ele continuou vindo em minha direção.
Um sorriso tão lindo marcava seus traços que me vi recuando.
Tentando fugir.
Eu não queria ficar presa em seu feitiço e depois despertar
sozinha, em meio às lágrimas de saudade. Eu estava sem saber
como coordenar meus movimentos, era apenas um caos de
sentimentos arrebatadores e receosos. Todavia eu tinha que
começar por algo, sabia que logo Rocco iria embora, como fez
das outra vezes, sem ao menos me ouvir.
— Não se aproxime. — Minha voz patética e sem muita
convicção.
— Amore mio — ronronou muito próximo, ele ignorava
meu inseguro protesto.
Meu fôlego travou com sua proximidade, lutei para seguir
respirando. Estava travando uma batalha interna, presa entre
a vontade de ser feliz e o medo de sofrer de novo. Era tão fácil
para ele me magoar. Era tão fácil.
— Por favor — implorei estendendo um braço, não havia
mais escapatória, eu fugi até onde deu, acabei por bater na
parede, e ele ainda vinha.
Com uma gentileza que me assombrou, Rocco pegou
minha mão e começou a beijar meus dedos, um por um, bem
devagar, meu tolo coração galopava, sentia-me ansiosa,
sufocada, desesperada. Por ele. Não adiantava negar, tentar me
convencer e esconder atrás de sorrisos. Era ele, sempre foi e
sempre será. Não era desejo apenas do meu corpo, era desejo
principalmente do meu coração, baixei a cabeça, depois de
tudo, o amor levou a melhor.
— Amore mio — chamou baixinho. Esqueci o mundo e tudo
que eu deveria estar fazendo. — Amore mio, olha para mim —
tornou a me chamar e eu ergui minha cabeça, obedecendo-o.
Rocco colou nossos corpos, deixando-nos o mais próximos
que minha barriga permitia. Lentamente suas mãos
começaram a fazer carinho em meu rosto, como se estivesse me
adorando, ou apenas, não sei, mas o permiti, porque amava
aquilo.
— Feitos um para o outro — sussurrou e eu tremi, novas
lágrimas surgindo em meus olhos, essa foi a primeira música
que eu cantei para ele, na comemoração da minha recuperação
após sofrer as agressões de Gordon.
Aquele momento foi especial. Único, e o que se seguiu foi
divino. Eu toquei o céu, e tempos depois desci o inferno. Rocco
era o único que detinha o poder sobre minhas grandes e
pequenas emoções. Com o gelo que ele me deu, eu vi como sou
vulnerável a ele, e depois também percebi como ele é
vulnerável a mim.
— Diga para mim, amore mio. — Seus olhos azuis
brilhantes em sua intensidade.
Cheguei ao fim, eu estava cansada de lutar contra esse
amor, de negar, de tentar arrumar empecilho, de não confiar,
fiz o que tinha que fazer, eu ajudei as pessoas que eu amo, eu
fiz tudo que pude. E se Deus permitiu que o amor que tenho
por Rocco permanecesse, é porque era para ser. Depois de tudo
eu sentia como antes, abrindo o caminho, queimando minhas
indecisões, concretizando um amor que talvez nem fosse vivido
pela primeira vez.
Somos predestinados, almas gêmeas, e nos completamos.
— Feitos um para o outro — insistiu mais baixo, e pude
sentir sua ansiedade depois de tudo que ele fez, uma nota de
medo entristecia seu tom.
— É assim, eu e você — suspirei baixinho e ele sorriu, o
sorriso que arrebatou meu coração para sempre.
Rocco beijou meus olhos, esfregou nossos narizes. O amor
fluía de novo, parecendo quase palpável, depois de tanto tempo
a felicidade era pura, porque eu retribuía da maneira correta.
— A gente combina, amore mio, se você me olhar eu juro
que sinto como se pudesse te amar mais, sou feliz por me sentir
preso a você, a única mulher que conseguiu derrubar minhas
barreiras e me amou quando viu o pior de mim, você conseguiu
o que ninguém jamais conquistou. — Sorri, entre um suspiro
de amor. — Te entreguei tudo porque eu te amo tanto, mas
tanto, que não posso pensar em ficar nem mais um dia sem
você ao meu lado. — Rocco parecia querer gritar tamanho era o
sentimento que ele despejava naquele momento, não que das
outras vezes que ele tentou se aproximar, me beijar ou tocar
ele não tenha sido intenso, a diferença é que agora é tudo ou
nada para mim, mas principalmente para ele
— Isso parece um sonho, mas sei que é real. — Sorri e
uma lágrima escorreu, esse era o nosso recomeço, o nosso início
sem reservas.
— Eu te amo, Victória, para sempre. Até meu último
fôlego.
Finalmente! Fechei os olhos baixando a cabeça, meus
soluços baixinhos, era tão bom me sentir 100% de volta, eu era
de novo a antiga garota crédula e apaixonada pelo seu príncipe
imperfeito, pertencendo ao único homem a quem sempre iria
amar.
— Victória, olha para mim. — Rocco colocou a mão no meu
queixo. Eu sabia que ele estava sendo muito cuidadoso porque
me considerava frágil, mesmo que eu não fosse. — Eu te amo
muito, pequena. — A emoção estava demais, e meus hormônios
loucos não estavam colaborando em nada. — Eu descobri que
esse amor é altruísta. A minha felicidade depende da sua,
mesmo que… — Engoliu em seco, fazendo uma careta linda.
— Mesmo quê? — incentivei, me inclinando um pouco em
sua direção, eu queria ouvir o que ele iria falar.
— Mesmo que não seja comigo.
Meu coração falhou uma batida, era desse tipo de amor
que eu estava falando. O amor bondoso, abnegado, que não é
egoísta. Solucei mordendo o lábio, ainda havia uma pergunta.
— Se você diz isso, por que me sequestrou? — perguntei
encarando-o, sua expressão mudando de carinhosa para
preocupada.
— Eu iria lutar até o fim por você. Não podia deixar você se
casar com outro sem saber como eu me sinto de verdade, você
precisava saber, para decidir, eu não poderia deixar, amor. Só
não poderia. — Sua expressão era sofrida, desesperada, Rocco
parecia travar uma batalha interna. — Mas… — Engoliu em
seco, soltando meu rosto e afastando-se alguns centímetros. —
Mas eu te vi dormindo, e eu soube que nunca poderia negar
sua felicidade — Esfregou o rosto e eu vi o quanto era difícil
para ele dizer isso. — Se você não me quiser, eu vou te dar isso,
te deixarei ir, eu… — Virando as costas, Rocco baixou a cabeça,
logo suspirou, admirei seus ombros largos, o quanto ele estava
maior, digo, mais forte, e muito mais musculoso, puxei o ar,
tentando frear meus impulsos por tê-lo. — Eu te amo, Victória,
quero somente sua felicidade, a minha não importa. Só a sua,
como eu disse, mesmo que não seja comigo, quero que seja
muito feliz.
— Você está falando serio? — perguntei muito
emocionada, ele virou-se vindo para perto de mim, tomando
meu rosto em suas mãos, seu calor me invadindo.
— Sim. — Parecia angustiado. — Porém rogo a Deus que
me queira de volta, que me perdoe, que me permita mostrar o
quanto eu te amo. Só queria mais uma chance, só mais uma. —
Seus olhos presos ao meu rosto, devorando-me de algum jeito.
— Eu queria poder te beijar. — Pude sentir sua ansiedade, ela
estava destacada em suas feições. — Na verdade, eu necessito,
estou sedento, desesperado por um gosto seu.
Sorri, soltando um suspiro leve.
— Eu sinto muita falta do seu beijo. — Mordi o lábio dando
assim a resposta que ele queria.
— Dio santo. — Tomou minha boca com saudade e amor.
Muito amor.
Meu corpo explodiu em chamas, durante todo esse tempo
em que estivemos separados, sofri desejando-o, mas o medo me
impedia de confiar. Minhas noites eram horríveis, eu chorava
muito porque ele não estava ali para me abraçar, os pesadelos
me assolaram. Ainda antes, mesmo que meu filho crescesse em
eu ventre, havia uma parte em mim que estava perdida, e
graças a Deus e sua infinita bondade eu a encontrei.
— Eu te amo — ofeguei entre beijos. — Eu te amo muito e
nunca deixei de te amar.
— Eu te amo mais, muito mais — replicou distribuindo
milhares de beijos pelo meu rosto, pescoço, ombro.
Estávamos em nossa bolha, era como se o passado não
importasse e justo nesse momento não importava mesmo. Como
se quisesse participar do momento de entrega, nosso filho
chutou, e por estar com seu corpo colado ao meu, Rocco pôde
sentir. Sua reação me encantou, ele gargalhou, jogando a
cabeça para trás.
— Mio bambino. — Sorriu e eu vi seus olhos enchendo de
lágrimas. — Meus amores — falou baixinho, ficando de joelhos.
Permiti que ele erguesse minha blusa, não estava nada
pequena e já na primeira olhada em minha barriga de quase
seis meses, após aquele momento no jardim secreto, Rocco
desabou.
Ele chorava como um garoto e eu também, porque foram
tempos difíceis.
— Meu filho — soluçou passando as grandes mãos em
minha barriga redonda. — Meu bebê, meu pequeno milagre. —
A todo momento ele distribuía beijos, afagos, suas lágrimas
manchado minha pele, sua felicidade deixando meu coração
limpo e sem manchas. Sem qualquer dúvida. Acariciei seus
cabelos e permiti que ele matasse a saudade, que tanto nos
fizera sofrer e perder cenas lindas como está. — Mexe para o
papa, mio bambino. — pediu baixinho e nosso bebê chutou.
Rocco riu alto de novo, e mais uma vez eu fui chutada. Nós
fomos.
Gianne começou a fazer festa em minha barriga enquanto
ouvia a voz do pai, Rocco conversava com ele e chorava, mas
ele mantinha um sorriso nos lábios. Meu bebê nunca fez isso,
digo, ele mexe muito, mas dessa forma, ele não fazia, era quase
como se estivesse dando as boas-vindas ao papai.
Éramos uma família de novo.
— Eu estava fraco sem vocês. — Rocco deitou seu rosto em
minha barriga, descansando ali enquanto conversava comigo e
com nosso filho. — Eu estava fraco demais para continuar sem
vocês. Eu não podia desistir, eu não poderia deixar de tentar. —
Seu corpo tremeu, e ele me abraçou, porém seus carinhos em
minha barriga ele não parava de fazer. Ele fazia isso com os
lábios, com o nariz. Da forma que podia. — Olha para mim,
amore mio. — Sua voz soou partida pela emoção. — Eu estou
aqui despido de minha armadura, das minhas ressalvas, de
tudo. — Ele me encarou de joelhos e de braços abertos, com o
rosto molhado de lágrimas, e o coração despido. — Eu juntei
minhas forças para fazer esse último ato desesperado. Me veja.
Olhe para mim, eu não sou o foderoso Masari, agora eu sou
apenas um homem de joelhos diante da mulher que ele ama,
pedindo apenas mais uma chance, pedindo um recomeço.
— Rocco… — Acariciei seu rosto emocionada.
— Não existe Rocco sem Victória, não existe vida,
felicidade nem amor sem você, não existe um lar, é triste não
ter alguém para voltar. Não me importo em me por de joelhos.
Esse é seu poder, você me tem e eu estou aqui humildemente
aos seus pés, porque quero que veja… — Pausou para respirar.
— … que eu não sou nada sem você. Foda-se o orgulho, o
poder, a minha riqueza, tudo. Nada disso me faz sentir
completo como só você faz. Nada me faz sentir vivo como só
você consegue. — Pausou, então uma expressão de dor crua
rasgou seus traços. — Nada me faz sentir verdadeira amado
por ser apenas Rocco. O ser humano, o homem que erra e que
está aqui, pedindo perdão exposto e sem vergonha de se
mostrar indefeso.
— Grandalhão…
— Sem você não sobra nada de mim — murmurou
apaixonado, baixinho, rendido. — Você me fez seu homem, e eu
só posso ser seu, de mais ninguém. Perdoname, amore mio, por
tudo que fiz, me permita saber que é minha, me dê a chance de
mostrar que posso ser tudo para você, que não vai se
arrepender…
— Rocco, não diz mais nada. — Eu me joguei em seu
braços, na mesma hora ele me apertou com força. — Eu te amo
e quero lutar por nossa família. — Beijei suas lágrimas, seus
lábios, ele me tocava em todos os lugares, respirávamos entre o
choro e o beijo. Era algo tão puro que penso que tudo que
passei foi algo para nos quebrar, apenas para depois nos
levantar ainda mais fortes.
— Você disse que me ama! — exclamou quase sem
acreditar. — Eu pensei que nuca mais iria ouvir.
Sorri me soltando, logo me levantei estendendo a mão,
estava na hora de demonstrar o quanto eu também precisava
dele, e não digo apenas de forma emocional, precisava da nossa
união. Dos nossos corpos conectados e sentidos entrelaçados.
— Vem, amore mio — chamei me sentindo ainda mais
apaixonada quando ele sorriu levantando. — Eu te quero
muito. — Rocco parou, parecia não acreditar.
— Victória? — sua voz soou insegura
— Quero meu foderoso Masari. — Sorri, ele sorriu
também. Rocco se entregou para mim, e eu iria cuidar de dele.
— Você vai me aceitar para sempre? — perguntou e eu vi
suas mãos abrindo e fechando, estava claro que ele estava
igual a mim, ansioso para concretizar a união de nossos corpos
e mente, e depois de tudo que passamos, a começar por todos
os medos, das noites insones, inclusive deste momento eu só
queria estar em seus braços e sob seus cuidados também.
— Sim, e nunca mais vou te deixar ir. — Chamei com
minhas duas mãos.
— Dio mio. — Puxou-me para seus braços. — Eu devo
estar sonhando. Não esperava chegar a esta felicidade.
— Me beija, Rocco, eu também estou necessitada, me faça
feliz. Completa-me — implorei, meu corpo queimando de
excitação, de felicidade e prazer;
— Tudo por você, meu amor. — Senti sua respiração, seus
lábios a meros milímetros dos meus. — Sou completamente
seu, sem nenhuma cadeia, você me libertou de todas, agora
posso te dar o que você merece.
Puxei sua cabeça até minha boca estar ao alcance de seu
ouvido.
— Sempre foi você, sempre será você, para todo o sempre.
— Mordi o lóbulo de sua orelha. — Nesta vida ou na próxima,
me corpo é seu, meu amor é seu e meu coração também é seu.
— Rocco tremeu e permiti que ele encostasse nossas testas. —
Sou totalmente sua. — Suspirei dando-lhe um selinho. —
Desde o primeiro olhar.
— Dio santíssimo, Grazie. — Ele me apertou, eu retribuí,
mas logo afrouxei meu aperto quando um gemido de dor o fez
tremer, porém antes de perguntar algo ele me ergueu em seus
braços.
— O que está fazendo? — perguntei enlaçando seu
pescoço.
— Eu te faço minha de novo. — Sorriu tomando meus
lábios com fervor. Entreguei-me ao beijo, permitindo que ele me
levasse ao doce e sublime céu.
— Eu vou te amar como nunca. — Procurei seus olhos
lindos. — Eu vou te amar como se fosse a primeira vez Rocco.
Ele puxou meu lábio inferior, depois me beijou em meio a
um gemido doloroso e apaixonado. Com cuidado me deitou na
cama, acompanhando o movimento deitando do meu lado,
Rocco me olhava com adoração.
— Eu sinto falta do seu toque. — Deslizei meus dedos pelo
seu rosto. — Do seu cheiro. — Eu me inclinei um pouco,
enfiando meu rosto eu seu pescoço onde pude aspirar seu
cheiro maravilhoso.
Mordisquei sua pele, acalmando-a com lambidas lentas e
degustativas. Rocco gemia baixinho, suas mãos me apertando
com força e ao mesmo tempo delicadeza. Quando alcancei meu
objetivo eu primeiro passei minha língua no lóbulo de sua
orelha, notei que ele tremeu sugando uma respiração afiada,
então eu o mordi e fui recompensada pelo seu gemido de
prazer.
Aquele som, baixo, rouco, primitivo e puramente
masculino.
— Eu sinto falta de te ter dentro de mim — confessei
audaciosa. — Eu sinto falta de fazer amor, eu preciso muito,
necessito, na verdade.
Nem precisei dizer mais nada, eu acho que o provoquei
demais, Rocco ergueu-se, notei que ele estava cuidadoso com
seus movimentos. Porém não pude perguntar, pois ele segurou
minha bata e rasgou em duas partes.
— Adoro quando é assim — Suspirei fazendo-o rir. — Você
é meu homem selvagem. — Me desfiz dos restos da blusa, logo
meu sutiã foi arrancado também. — Oh, sim. — Arqueei as
costas, assim que senti suas mãos em meus seios pesados e
doloridos.
— Como estão lindos. — Pareceu admirado. — Grandes e
maravilhosos, parecem suculentos. — Seus polegares
esfregavam meus mamilos duros.
— Por que não prova para ter certeza?
— Farei mais que apenas provar. Dio mio, olhe para eles…
— Rocco parecia falar consigo mesmo, beliscando meus mamilos
enquanto eu sentia necessidade que os tomasse na boca. —
Estão grandes, sensíveis e são meus, amore mio, só meus.
Não tive tempo de falar, sua língua começou a lamber os
bicos túrgidos. Choque, eletricidade e muito prazer me tomou.
— Ah, que gostoso — gemi no mesmo instante que o senti
sugando um mamilo sensível.
Minha barriga pareceu afundar, meu sexo contraiu várias
vezes, como se chamasse por algo.
— Por favor, me tome logo.
— Eu quero ir devagar, quero te saborear!
— Faça isso depois. Preciso que mate meu desejo por você,
foram muitos meses, por favor, quero fazer amor.
— Não fale assim, amore mio, droga, você acaba comigo. —
Pareceu agitado, quase pulando em cima de mim, ele só não o
fez por causa da minha barriga, ainda assim, agarrou meu
cabelo com força, aproximando o rosto o suficiente para me
encarar
— Eu vou te amar tanto, mas tanto que ficaremos
desmaiados — falou baixinho, bem safado. — Mas antes eu
preciso te provar e eu vou.
— Você é mau me fazendo esperar! — reclamei e ele riu.
— Você ama que eu seja.
— Amo mesmo. — Eu me levantei, ficando de joelhos para
tentar tirar sua camisa, porém ele não deixou.
Estreitei meus olhos e tentei de novo, sem sucesso.
— Tire a camisa agora.
Ele riu e negou com o dedo. Fiz beicinho e ele me beijou.
Já fui logo montando em cima dele, enfiando minhas mãos em
seu cabelo. Acabando-me em seu sabor e beijo.
Era gostoso demais.
— Calma. — Ele me afastou para respirar, eu o sentia
duro como pedra, tão delicioso, longo e grosso, marcando sua
calça de moletom.
Não pedi permissão, eu comecei a me esfregar. Ele riu
engasgado. Eu procurei seus lábios. Rocco me beijava com um
desespero fora do comum, famintos um pelo outro.
— Tira a roupa, pelo amor de Deus, quero te sentir, pele
contra pele.
Fazendo careta ele me empurrou de leve, quando deitei
minha calça começou a ser retirada, depois só restava a
calcinha e pronto tentei tirar, mas fui impedida.
— Por que demora tanto, Rocco? Você quer um discurso
antes de fazer amor? Posso começar a escrever?
— Safada! — Riu inclinando-se, ele estava tomando
cuidado demais com os movimentos, mas tudo bem. — Na
verdade eu estou apenas curtindo cada segundo, porque sei
que agora nada vai nós impedir, nada vai atrapalhar. E tão
logo, amore mio, estaremos tão unidos que seremos um só. Mas
esperei muito por isso e não quero pular algumas etapas que
são muito importantes. — Piscou aquele olho azul perfeito, me
deixando ainda mais molhada e pronta. — Agora se segure
bem, estamos partindo para uma viagem de sensação e minha
língua será a primeira a entrar na brincadeira.
Sem tirar minha calcinha ele esfregou o nariz, pura
felicidade viajando através do meu corpo.
— Eu te banhei com um pano úmido ontem — rasgou
minha calcinha. — A cada passada que dava com o pano em
sua bocetinha rosada, eu queria que fosse minha língua, porra,
Victória, você me tornou um homem viciado em tudo que se
refere a você e por isso…
Gritei quando ele abocanhou meu sexo. Não foi um toque
de língua, foi uma chupada beijo, com o rosto todo. Coisa de
outro mundo, na mesma hora desfaleci, só para voltar a ficar
tensa. Meu corpo estava sem saber o que queria.
— Oh delícia. — Esfregou o rosto em meu sexo, enviando
milhares de sensações por todo meu corpo.
— Você é malvado. — Agarrei seus cabelos, me arqueando
em busca de mais prazer.
— Eu sou fodidamente mau.
Rocco me lambia, chupava e mordia. Ele sempre tinha um
jeito selvagem na cama, e sempre quando eu estava recebendo
os carinhos de sua boca, ele parecia que ficava ainda mais
intenso. Puxei seu cabelo com força e ele gemeu alto, estava
insuportavelmente molhada precisado tê-lo dentro de mim.
Sentia-me a ponto de gozar.
— Minha mulher. — Seus dedos me abriram, deixando-me
tão decadente e exposta que quase gozei. — Minha, toda
minha.
— Sim — suspirei concordando, essa era a mais pura
verdade.
Não houve pausa, não houve momento para me recuperar.
Rocco estava em modo perverso, ele me levou ao limite e
quando estive perto de cair ele parou, arrancou as calças
fazendo uma careta. Enquanto eu sofria por ele.
Meu orgasmo retrocedeu, deixando uma dor latejante no
mais profundo do meu ser.
— Porra! — gemeu fazendo uma careta enquanto curvava
para tirar a calça, admirei suas coxas musculosas.
— Nossa, como você é lindo, Rocco, tira a camisa — pedi
ansiosa para vê-lo sem roupas. Eu queria poder admirar seu
corpo por inteiro. Sorrindo e sem atender meu pedido, ele veio
para cima de mim, parou um momento e se livrou da cueca. —
Tira a camisa — suspirei. — Quero sentir nossas peles juntas.
Rocco me encarava, ele estava quente, notei que ele
estava assim desde que nos tocamos.
— Você está quente amor — tentei me esfregar nele,
queria contato.
— Eu sou quente amore mio — piscou um olho e pegou
meu sutiã largado — Mãos para cima — obedeci e ele amarrou
meus pulsos
— Mas por quê? Quero te tocar.. — ele me beijou
interrompendo minha fala, depois se afastou e sorriu — eu
quero poder… — Voltou a me beijar, chupando minha língua
tão devagar que quase morri ali mesmo — Preciso te tocar, me
solte.
Sua mão começou a me tocar, a brincar comigo sem
pressa. Ele veio ficar do meu lado, não podia ficar em cima de
mim como gostaríamos, minha barriga não permitia.
— A camisa… — eu o lembrei e ele riu.
— Olhos em meu rosto — obedeci, deslizei meu olhar pelas
suas penas, lambi os lábios, queria poder ver mais — Você tem
um olhar faminto pequena.
— Quero você. — Fechei os olhos de prazer no exato
momento que seu dedo brincou com minha entrada, sondando,
para em seguida me penetrou devagar.
— Eu estou muito faminto — pude ouvir o sorriso em sua
voz — Gostosa.
Sua voz era decadente, o que fazia também, pois estava
trazendo o dedo brilhante do meu desejo até perto dos meus
lábios, tentei lamber mas ele o fez primeiro, sem seguida
lambeu meus lábios e com um gemido baixo me beijou
devorando minha boca de forma tão perversa, tão delirante que
me vi tremendo, quase gozando de novo
— Por favor — implorei tentando respirar — Preciso de
você dentro de mim.
Rocco me beijou de novo, voltou a acariciar meus seios,
meu sexo. Ele tinha as mãos por todos os lugares, fazendo
mágica, ansiosa esperei. Podia ouvir sua respiração acelerada
em meu rosto, podia sentir sua tensão, ele veio para cima de
mim de novo, desta vez para me levar ao céu como tanto pedi.
— Olha para mim — murmurou, eu o olhei — Quero seus
olhos nos meus.
Senti o exato momento que ele guiou seu membro até
minha entrada, houve uma pressão sutil, meu prazer
aumentou, a ansiedade também, não queria respirar e perder o
segundo em que entrasse dentro de mim, mas ainda assim, ele
não o tinha feito, Rocco fechou os olhos, comprimindo os lábios,
parecia muito concentrado.
— O que foi? — perguntei tentando beijá-lo, já que tocar
eu não podia
— Tenho medo de te machucar — murmurou sofrido.
— Amor, eu tenho certeza que você já se informou sobre
isso. — Ele deu um aceno positivo e curto. — Então sabe que
não há problema.
— Eu sei! É só que… — Respirou fundo. — Você é tão
importante para mim, e nós ainda não fizemos amor você
estando tão grávida assim.
Sorri acariciando seu rosto.
— Meu amor, você quer um folheto informativo? —
perguntei tentando aliviar sua tensão, ele riu. — Vamos,
grandalhão, o que está esperando, depois de tanto tempo você
vai hesitar? — Ele não me respondeu, mas começou a me
penetrar.
Ofeguei extasiada, Rocco gemeu.
— Dio Santo, te sinto me puxando para dentro, é como
veludo quente. — Havia assombro em sua voz, mas não
hesitação, ele continuou empurrando, me fazendo aceitá-lo por
inteiro. Meus mamilos eram dois pontos duros que eu
aproveitei para esfregar em seu peito másculo. — Estou
voltando para casa. — Estocou, enterrando-se todo em meu
interior. — Me sinta complemente dentro de você, me sinta
pulsar enquanto te completo. — Seus olhos eram uma coisa
linda. Tão brilhantes e emocionados.
— Eu te sinto, meu amor — murmurei apaixonada, pronta
para voar, já sentia aquele friozinho de expectativa, o prelúdio
do prazer intenso. Eu estava na borda.
Muito lento, Rocco puxou até certo ponto, então empurrou
de volta. Algumas lágrimas escaparam e ele as beijou.
— Eu sei, amore mio. — Esfregou o nariz por meu rosto. —
Eu sei.
Ele me amava devagar, com cuidado, como se saboreasse
cada estocada individualmente. Rocco parecia estar se
contendo, como se tivesse medo de não ser real, Todavia, em
seu rosto, notava-se a felicidade, era uma coisa viva e muito
intensa.
— Eu preciso de você! — exclamei no fim da necessidade.
— Eu preciso que me dê o que só você pode.
Uma chama ainda mais forte acendeu em seus olhos, ele
respirou fundo, tornou a puxar quase tudo de dentro de mim,
por um momento nossos olhares se prenderam, nossas
respirações suspensas, ao fim daquele milésimo de segundo,
Rocco estocou com força.
— Assim mesmo — gemi alto e dessa vez ele não parou.
Rocco colocou as duas mãos em meu rosto, colando nossas
testas, perdendo o controle de seus quadris.
Ele me penetrava com precisão cruel, seu membro
atingindo todos os meus pontos sensíveis com selvageria
apaixonada. Eu só gemia e implorava, enquanto ele me dava
mais e mais dele. Eu estava recebendo meu foderoso Masari. O
amante perverso e generoso.
— Toma tudo de mim, te entrego tudo.
Suas palavras o jeito que me tomava foram o suficiente
para me enviar ao limite. Gritei meu orgasmo enquanto ele o
tomava até que o prazer pareceu ser infinito. Minha mente
desconectou e ele nunca parou, não conseguia respirar, nem
pensar.
— Rocco — ofeguei atordoada, parecia que meu gozo não
ia acabar nunca.
— Ainda não, quero todo seu prazer. — Ele me mordeu e
isso era algo que me deixava fora de mim, gozei de novo.
— Ahhh, por favor. — Ele não parava de bombear entre
minhas pernas. — Calma.
Rocco estava descontrolado, parecia preso entre a luxuria
e a realidade. Mal havia voltado respirar, quando ele
massageou meu clitóris, tentei fugir das sensações, muito
tempo sem sentir tanto prazer e quase não podia aguentar.
— Isso, adoro sentir você me apertando.
— Rocco! — Delirando de prazer o ouvi gritar meu nome
pulsando dentro de mim, queimando-me com seu calor.
— Porra! — urrou baixinho. — Isso é felicidade!
Eu deveria estar flutuando porque ouvia sua voz distante,
ele ainda se movia, despejava sua semente dentro de mim. Seu
corpo extremamente quente, incendiando o meu.
— Agora me sinto completo — Beijou meus olhos fechados.
— Agora sim reivindiquei minha mulher de volta.
— Sim — suspirei desfalecida. — Sua mulher de volta.
Escutei sua risadinha, queria acompanhar mas estava
acabada.
— Felizes para sempre? — perguntou, mas eu estava sem
um pingo de força, então apenas sorri.
Mas em meu interior gritava um categórico sim.
Capítulo 25
Victória

Ainda de olhos fechados depois de sentir o maior prazer


possível, abri a boca em busca de ar. O que ganhei? Oxigênio e
Rocco, ou melhor a língua de Rocco para eu me deleitar.
— Gostoso — gemi chupando-o, trazendo seu sabor aditivo
para dentro de mim.
Já o sentia começar a estocar devagar, fazendo um
barulho molhado, o barulho dos nossos fluidos e orgasmos
misturados, o nosso desejo e paixão, criando um som
maravilhoso. Sem muita dificuldade, consegui me livrar do
sutiã que prendia meus pulsos. Suspirei porque agora eu iria
tocá-lo, queria sentir todo aquele calor que emana dele,
enquanto minhas mãos deslizassem pela sua pele. Por um
momento eu pensei que algo estava errado. Na verdade, algo
tentava me alertar, mas eu estava ocupada sendo consumida,
ansiosa por senti-lo enfiei minhas mãos em seu cabelo,
aprofundando o beijo.
Rocco tinha um jeito único de beijar, ele gostava de
degustar, então tinha toda uma questão sobre pequenas
mordidas, chupadas, lambidas ou como agora em que ele
beijava meu rosto com adoração, enquanto murmurava juras
de amor. Eu suspirava entregue, suas mãos escovavam com
cuidado meu cabelo tirando-o do caminho de sua boca voraz.
Sentia-me feliz e muito apaixonada, Rocco esfregava os
lábios em minha pele aquecida e suada, lambendo-me como um
gato. Não poderia querer mais nada, a vida parecia certa, as
coisas em seu lugar, exceto por sua temperatura começar a me
incomodar.
— Rocco, amor, você está muito quente. — Puxei seus
cabelos dos olhos e o que vi me fez sentir medo instantâneo. Ele
estava muito vermelho e seco, sempre quando fazíamos amor
ele ficava molhado. — Rocco… — Apoiei minhas mãos em suas
costelas.
Ele gemeu assim que o toquei, uma expressão de dor
marcando seus traços.
Foi ali que senti um grande inchaço lateral, além de uma
parte rígida.
— Rocco, para de se mover agora.
Sentia-me péssima por não ter notado que havia algo
errado.
— Gosto daqui — proferiu com a voz apertada, tensa, o
maxilar travado. — Estou no céu, amore mio, poderia morrer
feliz!
— Rocco, por favor, eu preciso ver o que você tem! Você
está quente demais. — Toquei seu rosto. Ele me olhava com os
olhos baixos, intensos. Um lindo sorriso marcava seus traços.
— Eu sou quente, amor, muito quente e você sabe.
Para testar a extensão de sua dor, eu apenas toquei o
local machucado. Ele tensionou mais, então pressionei mais um
pouco. Rocco prendeu a respiração.
— Dói muito meu, amor? — Ele acenou afirmando. — Me
deixa te cuidar — pedi e mais uma vez ele acenou. — Saia de
cima de mim. — Ele negou.
Além de me preocupar eu me culpava por ser uma egoísta
que só estava pensando em sexo se tivesse prestado atenção
teria notado com certeza.
— Esperei muito tempo por isso — gemeu dolorido. — Não
quero sair. — Fez um bico.
Respirei fundo, eu estava sem clima e preocupada, já ele
estava muito feliz onde estava.
— Amor, eu preciso de você saudável, como você vai
cuidar de mim? — perguntei baixinho, aquilo pareceu fazê-lo
refletir.
— Você ainda estará aqui amanhã! — ele pareceu falar
consigo mesmo. — Vai cuidar de mim, amore mio?
— Irei cuidar com todo meu amor, serei sua enfermeira,
farei o que você quiser! — falei apressada. — Mas você precisa
sair de cima de mim, precisa me deixar ir.
— Você não vai!
— Rocco Masari, sai de cima de mim! — quase gritei e ele
me encarou sorrindo.
— Você está dando ordens ao terceiro homem mais
poderoso do mundo? É isso mesmo?
— Obedeça, terceiro homem mais rico do mundo. — Dei
um tapinha em sua bunda. — Agora.
— Me beija enquanto eu vou me retirando, só aceito
nesses termos. — Concordei e ele começou um beijo lento,
molhado e apaixonado. Devagar demais ele foi se retirando,
senti cada instante de sua ausência, largou-se de lado, a
camisa cobrindo-o. Sua expressão não estava feliz.
— Não faz essa cara, não é de sexo que você precisa, e sim
de um médico! Vou sair daqui e te levar a um hospital, vamos
procurar um médico para te atender.
— Primeiro: eu preciso de sexo com minha mulher sim,
passei meses sem fazer! — falou descontente, puxando a colcha
para cobrir as pernas. — Segundo: Não existe uma chance no
inferno de eu permitir que você desça desse iate, estamos em
alto mar.
— Mande voltar — quase gritei já pulando da cama,
juntando minhas roupas. — Mande fazer meia-volta. — Já
puxava minha calça pelas pernas, pulando feito uma louca, o
cabelo alvoroçado na minha cara. — Vamos, ligue para o piloto
desse barco.
Rocco começou a rir, logo ele gargalhava entre gemidos de
dor e ofegos em busca de ar.
— Para de rir! — acusei irritada com a vontade de chorar.
— Para de brincar com coisa séria! Você está doente! DOENTE!
— Nunca me senti tão preocupada, comecei a tremer muito,
uma vertigem escurecendo as coisas ao redor, mesmo sem
querer, cambaleei um pouco, respirei fundo, buscando controle.
— Amore mio? — Ouvi sua preocupação, e sabia que ele
viria me ajudar, mesmo que nesse momento o doente seja ele.
— Se você sair dessa cama, será o terceiro homem mais
rico e morto do mundo! — Minha voz saiu trêmula. Eu estava
morta de preocupação e raiva de mim mesma, por não ter
percebido antes, ainda não me conformava. — Eu estou com
raiva por não ter notado! — reclamei correndo no banheiro,
peguei a blusa que estava vestida mais cedo e coloquei, já que
a minha estava destruída. Não estava nem ai se estava com
cara de quem acabou de fazer amor, eu tinha que ter um
médico examinando Rocco agora e o resto ficava para depois.
Voltei para o quarto já prendendo meu cabelo em um
coque.
— Venha à cabine principal. — Rocco falava com alguém
— Sim. Agora mesmo, minha esposa está nervosa.
— Com quem estava falando? — Corri para ficar do seu
lado, assim que cheguei coloquei minha mão em sua testa —
meu Deus! — exclamei com desgosto, logo minhas mãos
tocavam todo seu rosto, pescoço testando a temperatura que a
meu ver estava alta demais.
— Amore mio, estou bem, não vai ser uma febre besta que
vai me derrubar! — debochou e eu queria matá-lo.
Não, meu Deus, me escute! Eu não quero isso! Me perdoe.
— Pequena, não fica preocupada. — ele colocou a mão e
meu rosto — eu só estava com muita coisa na cabeça e não tive
tempo nem me lembrei de tomar meus remédios.
— Eu vou cuidar de você eu juro! — Balancei a cabeça —
Eu vou cuidar, pode confiar!
Ele riu de novo, fazendo uma careta.
— Ah, meu Deus, está doendo não é? Claro que está
doendo! — Bati na minha testa. — Eu me aproveitei de um
homem doente, um homem enfermo. Eu não vou para o céu.
Mais uma vez ele riu, eu queria me debulhar em lágrimas,
mas deveria me controlar. E foi o que fiz, mesmo com meu
queixo tremendo e os olhos ardendo.
— Quero beijar esse bico de choro. — Tentou me pegar, eu
saltei me afastando.
— Você está doente. Precisa de cuidado, não de beijo —
reclamei, logo uma batida na porta me fez pular de susto.
— Ei, fica calma per favore, sua pressão pode subir — ele
falou preocupado e eu concordei, enquanto atendia a porta.
Assim que abri vi um homem de meia-idade parado. Ele
trajava jaleco e carregava uma maleta.
— Eu sou o médico.
Nem deixei que ele terminasse.
— Entre, ele está ali.
O médico entrou e eu fui na cola dele, ele me pediu espaço
quando removeu a camisa de Rocco, vi um curativo e minhas
pernas ficaram bambas. Mil e uma coisa passando pela minha
cabeça, e ali a reposta do porque ele não queria e nem tirou a
camisa quando pedi, comecei a andar de um lado para o outro,
roendo as unhas de ansiedade.
— Sr. Masari, isso aqui está infeccionado! — o médico
falou alto. — Os pontos estão quase enterrados em meio ao
inchaço, precisamos começar o tratamento agora, mas antes
preciso saber, o que causou esse ferimento?
Parei de andar e o encarei. Rocco me olhou, e ficou pálido
quando o médico mexeu em seu ferimento.
— Não vê que está machucando ele? — eu estava louca. —
Mais cuidado aí.
O médico que eu nem perguntei o nome me olhou
balançando a cabeça.
— Sim, senhora, eu preciso ver como está os pontos e
preciso ver se será preciso abrir para limpar com o
procedimento de raspagem.
Rocco ficou ainda mais pálido.
— Não vai abrir coisa nenhuma! — Apontei meu dedo. —
Me diga o que fazer para ajudar e farei, mas não vai causar
mais dor nele. Não vou deixar. — Limpei uma lágrima teimosa.
Rocco me olhava fascinado, mesmo com a dor estampada
em suas feições ele me olhava e sorria.
— Eu te amo, pequena leoa. — Soprou um beijo.
— Eu te amo mais! — retruquei indo até ele tocá-lo. — Não
se preocupe, vou cuidar de você.
— Você já disse isso, amor, e eu estou ansioso para ser
seu paciente. — Piscou um olho.
— Senhor, preciso saber que tipo de instrumento causou
esse ferimento! — o médico tornou a perguntar e Rocco me
olhou erguendo a mão até meu rosto.
— Pensa no bebê, meu amor, fica calma, certo? — Deu um
beijinho na ponta do meu nariz.
Concordei.
— Eu levei um tiro de raspão.
— O quê? — gritei e o Gianne começou a mexer, minha
preocupação era a dele também. Fechei is olhos e as imagens
na agradáveis se infiltraram. Se essa bala fosse para esquerda
talvez. — Meu Deus! — ofeguei sentindo-me agoniada. —
Rocco…
Minha cabeça estava embaralhada. Só em imaginar no
que poderia ter acontecido eu me sinto morrer. Agora pensando
no que Rocco viu, no que ele sentiu quando eu de fato estava
entre vida e a morte, posso sentir um milésimo de seu
desespero. Então eu penso, trago de volta de imagem de ele
com aquelas mulheres, Não senti nada, sem dúvidas eu estava
curada.
— Rocco — Enfiei meu rosto com cuidado em seu pescoço.
— Por isso se escondeu de mim, não quis que eu visse. Não
deveria ter feito isso.
— Shhh. — Ele acariciava meus cabelos. — Está tudo bem.
Tudo bem.
— Eu preciso de você saudável. — me apertei contra seu
pescoço, tendo cuidado para não machucar — Eu não acredito
que você levou um tiro.
— Está tudo bem — continuou acariciando meus cabelos,
meu coração parecia a ponto de explodir.
— Senhor Masari sua esposa precisa se acalmar. — o
médico pigarreou me trazendo a realidade.
— Me desculpe — me afastei de Rocco relutante em me
deixar ir — Eu só soube agora. — respirei fundo — eu, ainda
estou absorvendo isso tudo.
— Certo eu entendo — o médico riu — O bom é que seu
marido é de boa constituição, desde que ele tenha os cuidados
adequados, boa alimentação e repouso, ficará novo em folha.
— Deixe comigo! — concordei sem corrigi-lo por achar que
eu Rocco somos casados.
— Nós temos uma enfermeira a bordo, vou encaminhá-la
para cá.
— Deixe comigo! — tentei falar calma mas eu estava
agressiva — Eu cuido dele.
— Tudo bem. — o médico concordou continuando seu
exame. — Eu vou passar um antibiótico e um remédio para
febre. Vou primeiro fazer uma boa assepsia da ferida para que
o processo de cura recomece.
— Certo! — concordei observando atentamente cada passo
a passo.
De vez em quando eu olhava para Rocco, apesar dos lábios
comprimidos em uma linha tensa, ele não reclamou nenhuma
vez, mesmo nos momentos em que eu prendia a respiração
porque parecia doer muito. Em um momento o médico começou
a apertar a ferida de um jeito eu a cor sumiu do rosto de Rocco
e ainda assim ele não reclamava, fui para a cama, sentando do
lado, virei seu rosto para mim, beijei seus olhos fechados, os
lábios selados o nariz aquilino e perfeito.
— Vai passar, vai ficar tudo bem eu prometo — ele
acenava, enquanto enrijecia cada vez que o médico apertava ao
redor da ferida. A dor que ele sentia deveria está tão grande
que pequenos espasmos sacudiam seus ombros. Eu tremia
junto com ele, minhas mãos geladas.
— Nem dói tanto assim. — resmungou e eu o olhei — De
fato, nossa separação doeu muito mais! Essa ferida —
gesticulou — é um passeio no parque.
— Bobo — beijei seus lábios — Eu te amo muito, obrigado
por não desistir.
Ele me olhou incrédulo!
— Acha mesmo que eu Rocco Masari iria desistir da minha
mulher? — perguntou me encarando
Eu neguei. A personalidade dele exigia essa intensidade
toda, e eu cheguei a uma conclusão depois de tudo isso.
— Rocco, me lembre de falar sobre essas suas loucuras
quando você estiver bem. — fazendo uma careta concordou.
Mais algum tempo depois o médico se deu por satisfeito.
Ele ainda passou uma pomada no local, me avisou que ele
precisaria de muito repouso, nada de coisas extravagantes.
Rocco rosnou um palavrão que eu obviamente não dei a
mínima, em seguida o médico me falou dos benefícios da
compressa, segundo ele, a quente ajuda a dilatar os vasos
sanguíneos, diminuindo o risco de inflamações, no caso de
Rocco seria minimizar os danos.
Eu iria fazer três vezes ao dia, apenas na área ao redor da
ferida, não aplicando diretamente sobre o machucado, certo eu
ouvi tudo com muita atenção. Em seguida avisou que mandava
alguém entregar os remédios em alguns minutos, junto com a
manipulação de cada um e os horários, antes de terminar ele já
deixou Rocco medicado contra a febre.
— Obrigado Doutor — agradeci segurando a porta — Ah
uma coisa, sobre os banhos dele, devo fazer de forma diferente?
Ou eu por enquanto não o permito levantar da cama?
O homem me olhava como se eu fosse estivesse com um
terceiro olho. Ele parecia não acreditar.
— Incrível — Sorriu balançando a cabeça, eu não entendi
mas não importava — Bom, quanto mais ele descansar mais
rápido vai se recuperar, os banhos podem ser normais, lave a
ferida com sabão líquido, seque bem em seguida pode passar a
pomada. Fica até melhor.
— Tudo bem, mais uma vez obrigado! — sorri apertando
sua mão.
— Ah, nada de frutos do mar, quando se está com
imunidade baixa, as pessoas tendem a desenvolver alergias, ele
em breve vai querer um banho, logo estará muito suado, o
relaxante térmico que ministrei é anti-inflamatório também a
dor vai diminuir rápido.
— Entendido! Vou preparar tudo.
— Amore mio volte aqui. — Rocco gritou da cama — Estou
carente.
Ri de sua manhã e o médico também.
— Prevejo um paciente muito mimado. — brincou e eu
concordei.
— No que depender de mim, ele será sim.
Fechando a porta voltei imediatamente para cama.
— Vamos tomar banho? — o chamei com carinho — Você
vai poder dormir tranquilo.
— Essa história de repouso exclui fazer amor!? —
debochou sorrindo de lado — Não vou ficar com minha mulher
do meu lado sem poder tocá-la. Não estou morto.
— Você pode baixar o fogo, uma semana de repouso e não
tem conversa! — ajudei-o a levantar, digo eu apenas puxei
suas mãos, pois ele mesmo levantou fazendo uma cara muito
feia.
— Vou passar a mão, apertar onde eu quiser! — deu de
ombros enquanto íamos para o banheiro — Tenho direito a
tocar os peitos da minha mulher!
Ri de sua safadeza, no banheiro tirei minhas roupas para
ajudá-lo em seu banho. Comecei lavando seus cabelos, o que
foi uma verdadeira tarefa, ele era tão alto quando uma arvore,
foi complicado mas consegui. Terminado essa parte, lavei suas
costas, tendo muito cuidado com a ferida, baixei lavando suas
pernas. Fiz o mesmo na parte da frente.
— Lava meu pau também amore mio. — olhei para ele de
olhos estreitados — Estou de repouso, ordens médicas. —
ergueu as mãos, eu o lavei com cuidado, mesmo que ele tenha
ficado duro em minha mão.
— Nada de esforço físico — avisei — guarde suas mãos,
você não vai me convencer a esquecer os seus cuidados.
— Se você me chupar eu não terei que me mexer — sorriu
— eu vou ficar paradinho aqui na minha, em pleno repouso.
Ri alto, negando.
— Até parece que você não vai estar enterrado dentro de
mim em dois segundos. Não vai rolar.
Revoltado prometeu vingança. Eu apenas mandei que ele
primeiro ficasse bom. No maior esmero lavei seu abdome, com
cuidado na ferida também em seguida seu peitoral, pescoço,
braços, por fim lavei a ferida, eu estava realmente preocupada,
pois olhando de perto ela tinha uma aparência muito dolorosa e
feia. Meus olhos encheram de lágrimas de novo., respirei fundo,
tentando me controlar mas devo ter demonstrando, pois Rocco
pegou meu queixo, me fazendo encará-lo.
— Minha pequena. — Sorriu amoroso — Eu fiz o que tinha
que fazer, faria mil vezes mais se fossem necessário.Se por
alguma desventura do destino, eu tivesse que tomar uma bala
por você, o faria de braços aberto e sorrindo.
— Rocco — chorei mesmo sem querer, seu nome já saiu
como um lamento dos meus lábios — Não diz isso. Por favor.
— Vem aqui — chamou e eu neguei, não poderia
machucá-lo — Vem aqui mulher! — rosnou erguendo meus
braços e colocando-os em seu pescoço.
Abraçamos-nos. Ambos nus, molhados e sob o vapor da
água.
— Eu sou um homem protetor amore mio! — falou
encostando o queixo na minha cabeça — Eu nunca iria ficar
assistindo pacificamente uns filhos da puta tentando machucar
minha mulher, eu sei que você detesta violência, eu sei que
não suporta que eu seja esse brutamontes que bate primeiro e
pergunta depois, mas esse é em essência o que eu sou, juro
que estou trabalhando em uma forma…
— Rocco. — Ergui meu rosto obrigando-o a me olhar. — Eu
não quero que você mude! — funguei — eu não quero que você
faça isso porque esse não seria você! Saber que poderia ter
morrido me faz enxergar que eu te amo assim, desse jeitinho
todo truculento e ogro de ser. Não mude não, só te peço que
confie em mim, em minhas palavras quando eu te pedir isso.
— Amore mio — beijou meus lábios, logo encostou nossas
testas — Eu ainda nem acredito que estou aqui com você.
— Estamos, e você vai ter que me engolir pelos próximos
cinquenta anos.
— Inaceitável! — rosnou bruto — vamos negociar, não
aceito nada menos que setenta anos! — Ri em meio a soluço.
— Não aceito nada menos que a vida toda!
— Assim soa melhor! — sorriu daquele jeito lindo para logo
me beijar apaixonado.
— Assim soa muito melhor! — concordei, assim que ele e
permitiu respirar.

***
— Ah oi, boa dia senhor. — enrolei o fio do telefone no
dedo — Eu gostaria de pedir, por favor, que o senhor..
— Amore mio, você é manda aqui, apenas fale o que
precisa — Rocco estava segurando o riso, olhei para ele
estirando língua e ele riu de verdade.
Respirei fundo, eu não estava com jeito de dar ordens a
outro homem. O chefe de cozinha estava esperando meu
pedido. E eu enrolando.
Ajeitei-me melhor, olhando para Rocco sentando todo lindo
com uma montanha de travesseiro apoiando suas costas. Ele
ainda estava com o cabelo molhado do banho, e já tinha tomado
a primeira dose do remédio.
— Oi, bom dia de novo — ri sem graça
— Bom dia senhora! — ouvi a resposta educada do chef.
Já havia repetido o cumprimento umas três vezes.
— Eu gostaria de pedir que para Rocco seja preparado
uma refeição reforçada para o café da manhã, e no almoço pode
ser um bife bem passado, salada, batatas e grãos.
— Sim, senhora, estou providenciando o almoço, irei
alterar o cardápio, mas não será um problema. Para beber tem
alguma preferência?
Olhei para Rocco e ele acenou confirmando minha escolha.
— Sim, eu quero um suco de beterraba com limão — agora
o ouvi meu homem gemer.
— Sim, senhora, algo mais?
— Sim, eu preciso que entre os intervalos das refeições
você arrume pequenos lanches de preferência com frutas e
sucos.
Encolhi-me um pouco, não queria ser chata. Era só que
Rocco precisava ficar bem alimentado, se eu seguir a risca o
que o médico recomendou talvez essa ferida logo estará sendo
apenas uma lembrança esquecida.
— Sem problema, tudo será organizado! — podia sentir a
cordialidade em seu tom — devo mandar arrumar o lanche e o
almoço no Convés superior?
— Obrigado, mas poderia por favor, mandar trazer aqui no
quarto?
— Claro Senhora, mandarei servir o almoço aí mesmo, na
cabine principal.
— Agradecida. — sorri contente que deu certo desligando
em seguida.
Olhei para Rocco e ele me encarava com um sorriso bobo.
Arrumei meu cabelo, de repente tímida o que era estranho
porque fazíamos cada coisa juntos.
— Você é tão linda amore mio. — me chamou com o dedo.
— São seus olhos — me aconcheguei em sua lateral boa.
Suspirei feliz da vida. E só então e lembrei-me do casamento. —
Ai meu Deus! — bati na minha testa e tentei levantar, Rocco
não deixou.
— O que foi? — perguntou olhando para mim.
— Eu devo ligar para casa só para saber se o casamento
deu certo.
Rocco me olhou sem expressão, o rosto estava limpo não
demonstrando nada.
— Amore mio por acaso você não estava sendo ludibriada
pelo seu primo e sua avó? — questionou baixinho — Era tão
convincente tudo, que eu acreditei. Vocês iam se beijar naquele
dia, eu me senti mal por várias coisas, pude estar no seu lugar,
e acho que isso foi pior, mas então eu surtei, fiquei louco de
verdade.
— Grandalhão, a gente nunca se beijou, era assim que
funcionava. — me ergui ficando de frente para ele, então foi me
aproximando até desviar meu rosto e beijá-lo na bochecha —
nos apenas fingíamos, bem — ri baixinho de sua cara de
espanto — nossa avó sempre ficava satisfeita. Naquela hora
quando perguntaram ao Carlos se ele amava a noiva dele, ele
falou que sim porque era verdade. Gaby estava radiante
quando ligou para mim naquele dia. O dia que eu fui lá com os
peludos.
Rocco me olhava com uma cara entre engraçada e
arrependida.
— Então, quando você falou que amava seu noivo de quem
que falava?— perguntou em expectativa.
— Era de você que eu estava falando, era apenas de você.
— me inclinei para beijá-lo.
Não permiti que aprofundasse muito, Rocco poderia ficar
assanhado muito rápido.
— Naquele dia eu ia te contar todo o plano, havia
conversado com Gaby e ela entendeu. Mas infelizmente você
saiu naquela besta fera de metal.
— Besta fera? — perguntou rindo me fazendo revirar os
olhos.
— Chato!
— Gata!
— Bobo
— Gostosa!
Acabei rindo também. Senti tanta saudade de estar assim
com ele, e só agora percebo como senti falta. Aqui não éramos
ninguém a não ser nós mesmos, um casal apaixonado, que
superou um grande obstáculo mas que agora está junto mais
firme eu antes e sim, ansiosos pela chegada do nosso primeiro
filho.
— Continuando, infelizmente no dia seguinte as coisas
começaram a desandar — fechei só olhos relembrando do medo
que sentimos— a igreja alagou, Gaby surtou e eu comecei a
sentir a pressão de tudo caindo em cima de mim.
Se eu for contar a expressão de Rocco agora, séria. Pego no
flagra. Eu o conheço muito, e ele está sem querer e encarar.
— Eu queria tanto que você estivesse sabendo — estreitei
os olhos encarando-o — eu sei que você resolveria — ele olhava
para todo lado menos para mim — o casamento de Gaby era o
sonho dela se realizando, para você ver, a mãe dela passou mal,
Gaby também. — Respirei fundo. A certeza me atingindo. —
Rocco Masari você tem algo para relevar a sua mulher grávida?
— fiz uma pressãozinha e ele gemeu.
— Estou doente, preciso repousar — ele começou a
remexer, fazendo breves caretas de dor. Estava tentando deitar
para fugir.
— O que você aprontou? — peguei sua mão, com cuidado
beijei seus dedos — Não vamos começar mentindo certo?
Ele concordou, mas parecia infeliz.
— Só quero salientar que, eu estou ferido, sentindo dores,
meio tonto, enjoado e acho que minha febre está voltando.
Arregalei meus olhos colocando minha mão e seu pescoço.
Frio.
— Você não está com a febre voltando. — soltei a
respiração.
— Está vindo de dentro. — apontou para ele mesmo — Eu
sinto, e isso me deixa indefeso contra ataques de mulheres
furiosas.
Já me preparei para o que ele diria.
— Você inundou a igreja não foi? — perguntei encarando
seu rosto, notei que ele avermelhou um pouco. Rocco corou?
Não acreditei em meus olhos, por um momento achei que era a
febre voltando, só que em mim. — Responde a minha pergunta,
por favor — controlei minha voz e ele acenou afirmando,
respirei fundo tentando ficar calma — O que mais você fez?
Ele nem me olhava.
— Possivelmente eu tenha, encontrado sem querer, um
homem meio maníaco que tinha uma colônia com milhares de
insetos.
A infestação no salão de festas. Naquele instante tive
certeza que ele fez todo o resto. Que mente diabólica, que
homem doido meu Deus.
— Como você conseguiu cancelar o bolo e os doces?
É sério que eu estava curiosa e ainda decidindo que tipo
de castigo eu daria a ele.
— O Dinka jogou um papo em uma das meninas que
trabalham na limpeza da torre onde fica minha cobertura —
resmungou — ela ligou, se passando por você, e então puff —
ele imitou uma explosão com a mão — Estava cancelado.
Fiquei muda, eu nem sabia o que pensar.
— As flores, foi fácil. Consegui uns aquecedores portáteis..
Ele nem falou mais nada, e eu só o encarava, congelada.
Logo Rocco começou a ficar nervoso, ele abria e fechava as
mãos. A angústia começou a aparecer por ali, então em meio a
tudo um único e estranho pensamento se fez: Rocco
conseguindo insetos. Um grande empresário temido,
conseguindo insetos para destruir o casamento que ele
pensava ser da ex-mulher dele. Ele ama mesmo, é um louco
mas me ama.
— Amore mio per favore, não fique com raiva, estávamos
tão bem…
Eu ri mesmo quando não deveria. Ele calou-se e me olhou
como se eu fosse doida, de repente estava gargalhando feito
uma louca, apontando para ele.
— Você, o terceiro homem mais rico do mundo… — Ri alto
há séculos não ria assim — mexendo com insetos nojentos.
Rocco Masari, brincando com baratas e sei lá mais o quê? — caí
de lado na cama, segurando a barriga, gargalhando
enlouquecida. — Imagino uma transação de negócios muito
importante. Por favor, gostaria por obsequio de uns quantos
insetinhos nojentos para ir ali sabotar um casamento — rolei
na cama, ele bufava de desgosto. — Eu iria me matar de rir da
cara dele.
— Não ria de mim Victória! — exclamou parecendo
chateado — Eu não falei: Por favor, nem por obsequio. — ri
ainda mais ele falando — eu falei assim: Pelo amor de Deus, eu
preciso de todos esse insetos para trazer minha mulher de
volta. O conde ainda diz ter pesadelos com a enorme caixa.
— Meu Deus porque eu to rindo disso? Rocco, isso é tão
errado! Por favor me internem, estou louca. — Logo eu chorava.
Alternava entre riso e choro. Não sei como quando dei por mim
estava com o rosto enterrado no peito dele.
— Eu sei, eu sei, sou um louco, mas eu nunca poderia
deixar uma merda dessa acontecer! — resmungou acariciando
meus cabelos, ele parecia aliviado — Só para que saiba, mandei
uma boa doação para a igreja, além de pagar toda a
restauração, nas outras coisas também. Acenei, erguendo a
cabeça. — Minha pequena — Rocco me olhou abraçando meus
ombros, nossos rostos muito próximos — Você não está me
odiando?
— Não Rocco, eu estou te amando! — falei rouca, meu
corpo tremendo pelo acesso de riso.
Ele suspirou fechando os olhos, muito satisfeito com
minhas palavras.
— Dio santo amore mio, meu coração está cansado de
sofrer pequenos infartos — ri baixinho — eu tenho medo de
você mulher! Eu tenho medo de você.
Ergui-me um pouco para poder dar um beijinho em seus
lábios lindos.
— Setenta anos amor, setenta anos. — pisquei um olho. —
Agora me diga que raios uma mulher faz no seu apartamento?
Isso sim é motivo para seu corar parar de bater. — Ele fez
careta. Ajeitou-se melhor e eu resolvi apelar. — Me conta isso
que eu te conto uma coisa muito importante que aconteceu,
como falei eu quero a verdade entre nós, e muita confiança.
Ele estreitou os olhos acenando.
— É uma mulher que eu amo, — me encolhi tentando me
afastar, ele logo tratou de aumentar o agarre que tinha em
mim.
— Eu, já entendi. — me chutei por minha voz tremer, tem
horas que odeio meus hormônios
— Certamente você também vai se apaixonar por ela, todo
mundo o faz — continuou falando bem tranquilo.
— Você bateu a cabeça — falei o mais baixo que pude.
Ele riu alto.
— Claro que ela vai querer te contar como eu fui um
garotinho lindo, e que provavelmente nosso filho será tão lindo
quando eu, sabe como é Gianne será bisneto herdeiro, já que
eu sou o chefe da família Masari, meu filho também será.
— Rocco, quer dizer quê? — Senti a vergonha
esquentando meu rosto.
— Você ficou ciumenta da Nonna?
— Não que isso, você está confundindo as coisas, eu só
estava curiosa, só isso.
— Amore mio estava com ciúmes sim — Seu sorriso era
imenso, e ele se possível ficou ainda mais lindo— Estava
morrendo de ciúmes da nonna.
— Eu não me chamo Rocco Ciumento Masari querido! —
fiz careta porque agora quem ria feito um louco era ele.
— Você não é, mas ainda assim, ficou morrendo de ciúmes!
— ele parecia se deleitar.
— Vou embora daqui!
— Nem adianta, estamos em alto mar amore mio, longe
para caralho da costa! — se possível ele riu mais.
Acabei contagiada e rindo também, s felicidade era tão
grande que nosso filho resolveu se mostrar. Eu me ajeitei para
ficar de costas em seu lado bom, assim que estava acomodada e
confortável ele colocou sua grande mão em minha barriga.
— Hoje é um dia muito feliz amor — sorri colocando
minhas mãos em cima das suas — Carrego nosso filho há seis
meses.
Senti quando respirou fundo em seguida um beijo foi
depositado em minha cabeça.
— Obrigado amore mio — falou próximo ao ouvido — por
você não ter desistido, graças a sua força hoje eu posso ter um
filho para esperar e uma mulher para amar.
— Você me chamou Rocco, escutei sua voz, você foi meu
guia o farol em meio à escuridão. — Senti que ele, olhei para
trás e seus olhos brilhavam mais que duas pedras preciosas —
Eu ouvi sua dor, ela me trouxe de volta.
— Eu estava me sentindo tão sozinho, não conseguia
funcionar direito. Sem Victória não existe Rocco.
— Sem Rocco não existe Victória. — Suspirei concordando.
Olhávamos-nos. O amor fluindo dele para mim e indo de
mim para ele.
— Eu te amo — dissemos juntos.
E naquele instante nosso filho chutou onde nossas mãos
repousavam entrelaçadas.
Capítulo 26
Victória

— Está confortável assim? — Ajeitei os travesseiros atrás


de Rocco esperando que ele se acomodasse bem.
Ainda sinto meu coração querendo falhar quando ouço o
eco de sua voz em minha consciência dizendo que levou um
tiro! Sempre me arrepio inteira, quantas vezes eu relembre,
quantas vezes eu pense nisso.
— Amore mio você está bem? — perguntou atencioso, logo
senti sua mão tocando meu braço — Você está muito arrepiada.
Está com frio?
Neguei, mas não falei. Às vezes o nó em minha garganta
era grande demais para conseguir pronunciar uma simples
palavra como sim ou não. Outra onda de arrepios percorreram
minha pele.
— Victória? — notei quando ele incorporou-se. Não queria
ficar remoendo, mas era impossível. — O que está me
escondendo? — perguntou agitado. Agora sim, eu precisava em
controlar, para no mínimo não preocupá-lo.
Rocco me conhece demais! Ensaiei um sorriso, daqueles
discretos, que não deixam transparecer muito dos
pensamentos.
— Grandalhão, eu perguntei se você está confortável
assim?
Rocco me encarou, logo segurou meu queixo,
aproximando-se um pouco.
— O que está me escondendo? O que está tentando
disfarçar? Fala pequena o que você sente.
— Eu… — por um momento a visão do grande homem
diante de mim embaçou — Eu, não posso viver sem você.
Sorrindo, mas ainda assim com muito cuidado ele me
abraçou. Pude sentir seu calor, seu cheiro, e me senti mais
calma.
— E você não vai. Lutamos muito para ficarmos juntos,
agora há uma grande muralha a nossa volta.
— Sim. — concordei sentindo-o me apertando um pouco
mais.
— Você é minha, desde que pousei meus olhos em você!
Naquele instante eu sabia, que você seria minha, apenas
minha. Assim como eu também seria seu.
— Gosto disso. — desta vez meu sorriso era sincero, eu me
senti melhor porque ele estava ali, grande, imponente, com o
coração batendo. E isso era o que importava. A contra gosto me
afastei, agora mesmo ele precisava descansar. — Então bonitão.
— fiquei do seu lado tentando ajustar o ângulos dos
travesseiros — Me fala se está bom assim?
Não vou mentir e dizer que eu estou agindo com
tranquilidade, acho que fiquei paranoica, mantive os olhos
pregados dele, cuidando-o e a cada gemido despercebido, eu já
estava em cima perguntando o que ele estava sentindo. Rocco
estava meio deslumbrado, já eu estava uma pilha, morrendo de
medo! Infecção não é brincadeira, graças a Deus a febre não
voltou com tanta intensidade, ela estava bem moderada. Em
relação a isso eu mantinha o horário do remédio como algo
sagrado.
— Quero dormir com a cara enterrada nos seus peitos. —
suspirou estendendo os braços para alcançar meus seios —
Eles são macios o suficiente para mim! Quero fazê-los de
travesseiro.
— Fica quieto! — resmunguei deixando ele me apalpar —
Você dá trabalho Rocco, como você dá trabalho.
Essas pequenas perversões dele me deixava
estranhamente aliviada, lógico que eu tinha que mostrar
firmeza, todavia eu gostava muito. Sabia que o meu medo era
porque eu o amava com loucura, mas também sabia que se ele
obedecesse direitinho as regras, não estava nem aí para a
quantidade de trabalho que ele daria. Rocco era um grande
manhoso, tudo era motivo para me tocar, diz ele que ajudava a
sarar mais rápido, depois ainda teve a ousadia de pedir para
me penetrar, prometendo ficar quietinho.
— Não vou dormir meio sentado meio deitado! — cruzou os
braços — Você é tirana! Além de me fazer engolir esses sucos
horríveis quer que eu durma sozinho.
Fechei os olhos não acreditando na situação. Eu não
queria nem saber se ele reclamava, faria tudo como o médico
falou e não tem conversa, quero Rocco pronto para acabar com
meio mundo em plena forma e vigor, do jeito que ele sempre foi.
— Os sucos eram com frutas ricas em ferro, beterraba é
bom, ajuda a fortalecer — respondi tranquila sua chateação —
depois, dormir nessa posição vai te ajudar a evitar deitar sobre
a ferida. Vai dormir aí, e eu vou ver aquele sofá enorme do
outro lado do quarto, não quero te machucar.
Eu sabia que Rocco iria chamar palavrões, e assim foi.
Esperei a enxurrada passar. Foi assim o dia inteiro. Ele ficava
entre cochilar por causa dos remédios combinados, e tentar me
convencer de que um homem saciado cura mas rápido, ele
queria sexo. Quente e suado.
— Meu amor, vamos cuidar da sua recuperação okay,
depois eu serei sua de todo jeito que quiser. — Rápido demais
ele puxou o lençol, mostrando sua nudez, em nenhum
momento se preocupou em colocar uma roupa.
— Olhe aqui, estou pronto. — ele me chamava enquanto
se tocava preguiçoso, com movimentos de vai e vem — Veja
como estou recuperado! Estou perfeito, venha logo, quero fazer
amor e dormir.
Arqueei uma sobrancelha para sua ousadia. Apesar de
ainda sentir o calor em meu rosto eu não sentia vontade de
desviar o olhar. Aos pouco eu aprendi que não preciso ter
vergonha de olhar para ele não preciso me esconder, as reações
naturais do meu corpo não posso esconder, como sempre ficar
vermelha com as palavras diretas e sem filtro que ele diz.
— Olha para isso? Toda coradinha. Você é tão linda. —
suspirou — venha aqui amore mio, estou tão carente, satisfaça
o último desejo de um homem moribundo.
O encarei e ele encarou de volta. Seguramos nossos
olhares. Ele sorriu, eu inclinei a cabeça, conversávamos
silenciosamente, por fim Rocco fez cara feia puxando o lençol,
deixando uma tenda armada.
— Eu te conheço querido — subi na cama apalpando seus
travesseiros — E você só ganha de mim quando eu não estiver
muito disposta a lutar.
Ele resmungou algo em italiano e eu o deixei com suas
reclamações.
— Boa noite meu amor. — beijei sua bochecha e mais uma
enxurrada de palavrões se seguiram — Vou deitar um
pouquinho com você.
Era bom está com ele de volta, garanto que quando essa
ferida estiver curada tudo ficará perfeito. Agora mesmo eu não
tenho muito que desejar.
Estou com meu homem, e enquanto eu estiver cuidando
dele, vendo como está sua recuperação eu sei que nada tenho a
temer, não tenho problemas nem preocupações, Jason deve
saber que Rocco me levou e vai acalmar minha família, depois
acredito na inteligência de todos os envolvidos para ter feito o
casamento chegar aos finalmente. E por fim, eu só quero poder
curtir o restinho da minha gravidez com Rocco.
— Inevitável sposa mia — tremi toda quando ele colou nas
minhas costas — Vamos dormir assim, eu mereço. Você
também merece mas principalmente nosso filho merece — anui
sentindo-o colocar uma das mãos por baixo da blusa que eu
vestia. Sentir seus dedos acariciando minha barriga era tão
bom. Nosso bebê mexia um pouco, depois da festa de hoje
quando juntos o sentimos chutar para todo lado, Gianne ficou
mais preguiçoso. — Dando boa noite para o papai mio bambino?
— perguntou com uma voz mansa, suave e tão carinhosa que
eu me derreti ainda mais se é que isso é possível — responde
ao papa mio angelo.
Naquele instante minha barriga esticou para a esquerda,
era quase como se o bebê estivesse se espreguiçando. Logo ele
deu alguns chutes bem firmes que fez Rocco rir feliz e se
aconchegar ainda mais em minhas costas.
— Levanta a cabeça e deita no meu braço — obedeci —
assim, agora levanta um pouco a perna.
— Rocco para.
— Obedeça seu homem! — rosnou na minha orelha
mordendo-a em seguida — Ou não vamos dormir, posso passar
a noite toda acordado só te chateando.
Ri baixinho mas fiz como ele queria, dei essa pequena
concessão. No fim, estávamos tão agarrados que éramos um só
Rocco me abraçava apertado, uma perna dele entre as minhas
seu grande corpo abrangendo o meu bem menor. Perfeito. Era
justo nessas horas que eu amava o fato de ser baixinha e ele
tão alto.
— Eu te amo Victória — sua voz soou ao pé do ouvido,
fechei os olhos para que suas palavras viajassem pelo meu
corpo — Você pegou um homem bruto, e com paciência e
carinho remodelou-o para ser seu. Apenas seu tesoro mio.
— Eu também te amo Rocco, você entende?
— uhn run. — mordiscou minha orelha — Eu entendo.
— Você me transformou na sua mulher, nunca poderia ser
de outro.
— Você não será! — o tom de voz parecia perigoso em sua
certeza, me arrepiando toda — Você não será, eu não
permitiria.
Se possível ele me apertou mais. Dormi assim, sentindo
Rocco dos pés a cabeça.
***

Calor. Muito calor.


— Minha nossa. — ofeguei sentindo-me queimar. Abri
meus olhos, sabendo imediatamente o que estava tão quente —
Rocco? — Chamei por ele, tentando me soltar de seus braços —
Rocco, amor, por favor, acorde.
Não tinha como eu me soltar sem ajuda, ele praticamente
me prendia. Seus braços eram duas bandas de aço a minha
volta. Cada vez que eu me mexia ele apertava ainda mais.
Parecia temer algo.
— Rocco, me solta. — empurrei seus braços com um pouco
mais de força.
— Não. Não vá — sua voz soou gasta, amortecida pelo
sono — Fique comigo.
Sabia que ele dormia e poderia estar sonhando, só que
não podia esperar, ele precisava do remédio, estava queiman