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ALMEIDA, A. M. F.; MARTINS, H. H. T. D. S. Tempo Social. Scielo.

Disponível
em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
20702008000100001>. Acesso em: 07 nov. 2018.

Tempo Social
Sociologia da Educação
Ana Maria F. Almeida; Heloísa Helena T. de Souza Martins

Interessar-se pela educação significa interessar-se pelos processos de inculcação e


apropriação das habilidades, das sensibilidades e das disposições apropriadas para
uma determinada participação na sociedade. Supõe focalizar os processos de
transmissão intergeracional, indagando sobre as condições que tornam possível a
permanência, ao longo do tempo, das hierarquias que dão sentido às interações entre
os grupos em sociedades específicas.

As sociedades industrializadas contemporâneas têm de lidar com um elemento


fundamental na equação da transmissão, a escola única e obrigatória, invenção
coletiva que assumiu a forma que hoje conhecemos no século XIX, no bojo das
transformações que acompanharam a criação dos Estados Nacionais e a construção
da democracia moderna, forçando as famílias a dividirem com o Estado a
responsabilidade e o trabalho de formação das novas gerações (Ariès, 1973; Ringer,
1979).

Encarregada de formar os cidadãos necessários à nova ordem política, a escola torna-


se progressivamente encarregada também de garantir que o destino social dos
indivíduos deixe de ser definido pelo nascimento. Estabelecida como um espaço à
parte, controlando a definição de quem pode ser aluno tanto quanto a definição de
quem pode ser professor, a escola se quer autônoma das famílias. Atribui-se, então, à
máquina escolar de classificação a distribuição de diplomas e certificados que,
pensados como resultado de um processo em que as crianças e jovens são avaliados
em igualdade de condições, tomam legitimamente o lugar dos sobrenomes, isto é,
dos nomes de família, na definição do percurso social a que estão destinados seus
possuidores.

Desde a década de 1960, graças aos trabalhos de Pierre Bourdieu, Baudelot e Establet,
Bowles e Gintis, Coleman, entre outros, sabemos que as coisas não se passam
exatamente assim e que as operações escolares de separação e classificação dos alunos
não estão imunes às lutas das famílias para garantir a transmissão dos seus
patrimônios. A autonomia da escola para produzir seus veredictos é constantemente
desafiada, carregando de sentido e conseqüências decisões que, apenas na aparência,
podem ser pensadas exclusivamente por uma lógica pedagógica, como no caso da
definição dos conteúdos curriculares legítimos, ou econômica, como no caso das
decisões de se introduzir ou apoiar tal ou qual ramo do ensino, técnico ou generalista.
Essa é a questão que mobiliza os artigos reunidos neste Dossiê. O estudo dos
percursos sociais dos filhos de imigrantes nos Estados Unidos realizado por
Alejandro Portes e William Haller documenta exemplarmente essas lutas ao
mobilizar a noção de "assimilação segmentada" para mostrar que os efeitos da ação
escolar sobre os indivíduos só podem ser bem compreendidos quando examinados à
luz da ação, anterior mas também concomitante, que o grupo social exerce sobre eles
com mediação das famílias.

Os três artigos seguintes examinam essa questão com relação a grupos sociais
específicos. No primeiro deles, Graziela Perosa focaliza as relações estreitas que
unem famílias dos grupos médios e as escolas que escolhem para suas filhas,
revelando o efeito dessas relações em termos de construção de possibilidades de
profissionalização feminina na década de 1960. Operacionalizando a noção de
"educação total", esse texto problematiza o significado da existência de um setor
privado forte no interior do sistema de ensino brasileiro, mostrando como isso
permitia às famílias encontrarem, num "mercado escolar", a modalidade de
escolarização que mais serve aos seus interesses. Trata-se de uma situação que
perdura e talvez tenha se acentuado hoje.

Kimi Tomizaki, por sua vez, a partir do seu estudo sobre os processos de transmissão
intergeracional entre metalúrgicos de uma grande montadora, discute as
transformações no sentido atribuído às qualificações à medida que a expansão da
escolarização se acentua, num contexto de estreitamento das oportunidades de
trabalho, desvalorizando credenciais e impondo à própria escola, assim como às
famílias, o confronto com o desacordo entre a promessa materializada no diploma e
a realidade do mercado de trabalho.

O texto de Elizabeth Linhares funciona, nesse contexto, como o outro lado do


espelho, ao acompanhar as transformações vivenciadas por um grupo de antigos
colonos do café hoje assentados na serra fluminense, mostrando como as
possibilidades de relação que esse grupo pode estabelecer com a escola se modificam
ao sabor das mudanças nas suas condições de existência e nas condições
institucionais de oferta escolar, implicando em alterações no ciclo de vida, nas formas
de organização do tempo, nas modalidades de definição da dependência de uns para
com os outros e, particularmente, de uma geração para com a outra.

Não poderíamos tratar desta questão sem um mergulho mais preciso na instituição
escolar e em suas contradições tão bem captadas pelo artigo de Jean-Jacques Paul e
Maria Lígia Barbosa, que estuda a contribuição dos professores para a redução das
desigualdades sociais. Tendo como referência uma pesquisa comparativa realizada
em Belo Horizonte (Brasil), Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile) e Leon-
Guanahato (México), os autores discutem como o trabalho docente pode exercer
papel significativo na melhoria da qualidade de ensino de alunos de diferentes
origens sociais. A análise estatística dos dados revela a existência do que denominam
"perversidade do efeito docente", ou seja, os professores nesses quatro países
aparecem como fatores decisivos das trajetórias de seus alunos e acabam por reforçar
as desigualdades sociais existentes.
Depois do mergulho na escola, uma imersão nas famílias é o que nos propõe o artigo
escrito por Monique de Saint Martin, Mariana Heredia e Daniella Rocha. Nele, as
autoras retomam a questão da correspondência entre condições de vida e construção
das percepções subjetivas sobre o mundo, incluindo aí as percepções sobre o lugar a
ser ocupado nesse mundo pelas novas gerações que presidem os investimentos no
futuro dos filhos. As autoras apontam, particularmente, a produtividade de se levar
em conta o trabalho cotidiano desenvolvido coletivamente pelas famílias para
construir sentidos precisos ao abundante e às vezes contraditório fluxo de
experiências a que são expostas, usualmente pensadas de uma maneira totalizante
como "experiências de classe".

Encerramos a discussão com um esforço de refletir sobre os próprios termos que a


estruturam. Voltando aos processos de construção do sistema nacional de ensino, o
artigo de Ana Maria F. Almeida procura pelas condições que permitiram a
construção de uma relação causal entre educação e desigualdade de renda e sua
elevação a uma posição proeminente no debate sobre os rumos da educação nacional
nas últimas décadas, explicitando o papel aí desempenhado pelas disputas entre
juristas e economistas pelo protagonismo na definição das competências de Estado e
dispositivos de governo.

Apresentamos ao final uma entrevista com Christian Baudelot e Roger Establet, dois
autores que mostram de maneira exemplar como a sociologia da educação ganha
energia e sentido ao ser tomada como um capítulo dos estudos sobre as classes sociais
e os processos de dominação. Indagando sobre as condições de produção da empresa
intelectual compartilhada a que se dedicam desde os anos de 1960, procuramos
explicitar a configuração particular que torna possível tal tratamento das questões
educacionais. O relato desses dois sociólogos nos permite perceber o contexto escolar
e político dos anos de 1960, período em que realizam os seus estudos superiores, a
militância política contra a guerra na Argélia e a compreensão da sociologia como
um campo de reflexão sobre os acontecimentos que marcavam a sociedade francesa
e a vida universitária. É interessante perceber, ainda, o processo de aprendizagem
nas aulas de dois dos maiores intelectuais franceses, Bourdieu e Althusser, que
tiveram importante papel na sua formação, com a ênfase no trabalho de pesquisa
como condição para fazer e ensinar sociologia e no estabelecimento de uma ética
intelectual.

Esperamos que esses breves comentários sobre os textos que compõem este Dossiê
sobre a educação e a construção das desigualdades despertem o interesse dos leitores
e que as reflexões aqui expostas motivem novas pesquisas.

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