Você está na página 1de 214

Ecossistemas Brasileiros

Ecossistemas Brasileiros E Gestão Ambiental


E Gestão Ambiental

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-7638-731-2
Mauricio Ferreira Magalhães
Marcia Lapa Frasson
Sandro Menezes Silva

Ecossistemas Brasileiros
Fundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-3032-3
E Gestão Ambiental
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mauricio Ferreira Magalhães
Marcia Lapa Frasson
Sandro Menezes Silva

Ecossistemas Brasileiros e
Gestão Ambiental

Edição revisada

IESDE Brasil S.A.


Curitiba
2012

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
© 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor
dos direitos autorais.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
________________________________________________________________________________

M164p

Magalhães, Mauricio Ferreira


Ecossistemas brasileiros e gestão ambiental / Mauricio Ferreira Magalhães, Marcia
Lapa Frasson, Sandro Menezes Silva. - 1.ed., rev. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2012.
210p. : 28 cm

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-3032-3

1. Ecossistemas - Brasil. 2. Gestão ambiental - Brasil. 3. Meio ambiente - Brasil. I.


Frasson, Marcia Lapa. II. Silva, Sandro Menezes, 1964-. III. Título.

12-5928. CDD: 577.0981


CDU: 574(81)

17.08.12 27.08.12 038301


________________________________________________________________________________

Capa: IESDE Brasil S.A.


Imagem da capa: Shutterstock

Todos os direitos reservados.

IESDE Brasil S.A.


Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200
Batel – Curitiba – PR
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Sumário
Floresta Amazônica I ...........................................................................................................9
Características geográficas........................................................................................................................9
Características gerais................................................................................................................................10
Características biológicas.........................................................................................................................11
Conclusões................................................................................................................................................12

Floresta Amazônica II ..........................................................................................................17


Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................17
Impactos ambientais.................................................................................................................................19
Conclusões................................................................................................................................................21

Floresta Amazônica III..........................................................................................................23


Amazônia Legal........................................................................................................................................23
Alternativas para sustentabilidade............................................................................................................24
Conclusões................................................................................................................................................29

Mata Atlântica I.....................................................................................................................31


Características geográficas........................................................................................................................31
Características gerais................................................................................................................................31
Características biológicas.........................................................................................................................33
Conclusões................................................................................................................................................36

Mata Atlântica II ..................................................................................................................39


Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................39
Impactos ambientais.................................................................................................................................40
Conclusões................................................................................................................................................41

Mata Atlântica III . ...............................................................................................................45


Situação atual............................................................................................................................................45
Medidas para reversão do quadro.............................................................................................................46
Programas para a Mata Atlântica..............................................................................................................47
Conclusões................................................................................................................................................50

Pantanal I..............................................................................................................................53
Geografia...................................................................................................................................................53
Conclusão.................................................................................................................................................58

Pantanal II ............................................................................................................................61
Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................61
Características das populações:o homem pantaneiro...............................................................................62
Exploração comercial...............................................................................................................................63
Impactos ambientais.................................................................................................................................64
Pecuária.....................................................................................................................................................64
Agricultura................................................................................................................................................64

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Erosão.......................................................................................................................................................65
Ecoturismo . .............................................................................................................................................65
Fauna.........................................................................................................................................................65
Rodovia Transpantaneira..........................................................................................................................66
Hidrovia Paraná-Paraguai.........................................................................................................................66
Gasoduto Brasil-Bolívia...........................................................................................................................67

Pantanal III............................................................................................................................69
Introdução.................................................................................................................................................69
Conservação e preservação.......................................................................................................................69
Pantanal: reserva da biosfera....................................................................................................................70
Unidades de conservação..........................................................................................................................70
Organizações Não Governamentais que atuam no local..........................................................................73
Escolas pantaneiras...................................................................................................................................74
Conservação da biodiversidade do pantanal.............................................................................................75
Conclusão.................................................................................................................................................75

Caatinga I..............................................................................................................................77
Introdução.................................................................................................................................................77
Características geográficas........................................................................................................................77
Hidrografia................................................................................................................................................78
Características gerais................................................................................................................................79
Biodiversidade..........................................................................................................................................79
Conclusão.................................................................................................................................................82

Caatinga II.............................................................................................................................85
Introdução.................................................................................................................................................85
Aspectos socioeconômicos e o êxodo rural..............................................................................................85
Impactos ambientais.................................................................................................................................86
Alternativas de soluções e indústria da seca.............................................................................................87
Unidades de conservação..........................................................................................................................88
Organizações Não Governamentais (ONGs)............................................................................................88
Comunidades e sustentabilidade...............................................................................................................89
Conclusão ................................................................................................................................................90

Cerrado I...............................................................................................................................93
Introdução.................................................................................................................................................93
Características geográficas do ecossistema..............................................................................................93
Características gerais: as queimadas naturais ..........................................................................................95
Biodiversidade: adaptações vegetais às queimadas..................................................................................96
Tipos de cerrado........................................................................................................................................96
Flora..........................................................................................................................................................99
Fauna.........................................................................................................................................................100
Conclusão.................................................................................................................................................101

Cerrado II..............................................................................................................................105
Introdução.................................................................................................................................................105
Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................105
Alta produtividade para a lavoura.............................................................................................................106

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Impactos ambientais.................................................................................................................................106
Alternativas de soluções...........................................................................................................................107
Unidades de conservação do cerrado........................................................................................................108
Conclusão.................................................................................................................................................111

Oceanos I..............................................................................................................................115
Características geográficas........................................................................................................................115
Características gerais................................................................................................................................115
Biodiversidade / características biológicas...............................................................................................119
Conclusões................................................................................................................................................120

Oceanos II.............................................................................................................................123
Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................123
Impactos ambientais.................................................................................................................................126
Manejo e gestão ambiental.......................................................................................................................127
Conclusões................................................................................................................................................129

Restingas I.............................................................................................................................131
Características geográficas do bioma........................................................................................................131
Características gerais................................................................................................................................132
Biodiversidade..........................................................................................................................................133
Conclusão.................................................................................................................................................138

Restingas II...........................................................................................................................141
Aspectos socioeconômicos das restingas..................................................................................................141
Impactos ambientais.................................................................................................................................142
Alternativas sustentáveis e conservação...................................................................................................145
Conclusão.................................................................................................................................................147

Manguezais I.........................................................................................................................153
Características geográficas........................................................................................................................153
Características gerais................................................................................................................................153
Biodiversidade / características biológicas...............................................................................................155
Conclusões................................................................................................................................................156

Manguezais II........................................................................................................................159
Aspectos socioeconômicos.......................................................................................................................159
Berçário marinho / importância ecológica................................................................................................160
Impactos ambientais.................................................................................................................................161
Sustentabilidade dos manguezais.............................................................................................................161
Conclusão.................................................................................................................................................163

Ambientes de ilhas................................................................................................................167
Características geográficas das ilhas.........................................................................................................167
Características gerais das ilhas brasileiras................................................................................................169
Biodiversidade..........................................................................................................................................170
Impactos ambientais.................................................................................................................................174
Alternativas sustentáveis..........................................................................................................................176

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos.....................................................................................................................183
Características geográficas........................................................................................................................183
Características gerais: aspectos físicos, químicos e riquezas do solo.......................................................184
Biodiversidade..........................................................................................................................................184
Aspectos socioeconômicos:pecuária e agricultura...................................................................................186
Impactos ambientais.................................................................................................................................187
Desmatamentos e queimadas....................................................................................................................188
Alternativas sustentáveis..........................................................................................................................188
Conclusão.................................................................................................................................................189

Mata dos Cocais....................................................................................................................193


Características geográficas ......................................................................................................................193
Características gerais................................................................................................................................193
Biodiversidade..........................................................................................................................................194
A utilização das palmeiras........................................................................................................................195
Impactos ambientais.................................................................................................................................199
Conservação e alternativas sustentáveis...................................................................................................199

Referências............................................................................................................................205

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Apresentação

O
Brasil é conhecido no cenário conservacionista mundial como um país superlativo: abriga
cerca de 13% de todas as espécies conhecidas, tem cerca de 40% da área remanescente de
florestas tropicais do planeta – quase toda na Amazônia –, abriga a maior área úmida tro-
pical – o Pantanal –, além de possuir o maior sistema fluvial do mundo, isso tudo somente para citar
alguns recordes.
Por esses motivos, ele é considerado um país “megadiverso” e tem um papel fundamental na
manutenção da biodiversidade em nível global. Soma-se a isto o fato de ser o quinto maior país do
mundo, o maior entre os países tropicais, com uma população aproximada de 180 milhões de habitan-
tes, distribuída de forma desigual entre as diferentes regiões. A variedade de paisagens e ambientes
no Brasil é impressionante, e por mais que se tente descrever é difícil ter uma visão detalhada do que
isto representa.
A Amazônia, com diferentes tipos de florestas condicionadas aos ritmos dos rios da maior bacia
fluvial do planeta, constitui a maior área remanescente de florestas tropicais do mundo. Fauna e flora
altamente diversificadas são marcas registradas do bioma amazônico, no qual espécies, as quais têm
a distribuição restrita a estes ambientes e muitas ainda nem conhecidas pela Ciência, mesclam-se a
outras cujas histórias remontam à época em que a região amazônica ainda mantinha contato com o
grande bloco florestal que hoje representa a Floresta Atlântica.
Saindo da Amazônia e indo em direção à região Nordeste ocorrem grandes áreas de transição, em
que a Mata dos Cocais, com o babaçu como espécie mais característica, é a formação predominante. A
origem desta zona com predomínio de palmeiras ainda é discutida, mas é bastante aceito que se trata de
uma forma de vegetação secundária resultante da degradação da floresta amazônica oriental.
A Mata dos Cocais anuncia o início da área de distribuição da caatinga, uma das maiores zonas
semiáridas da América do Sul, bioma com ocorrência exclusiva no Brasil. Com grandes variações
fisionômicas na vegetação, alto grau de endemismos e espécies altamente adaptadas às condições de
severidade climática, a caatinga guarda uma grande biodiversidade, relativamente ainda pouco co-
nhecida. Estimativas recentes apontam para uma redução de aproximadamente 50% na sua área de
ocorrência natural, sendo um dos resultados mais drásticos desta degradação a ocorrência de vários
núcleos de desertificação na região nordeste brasileira. As áreas de transição entre a caatinga e o cer-
rado, outro grande bioma brasileiro, são conhecidas em algumas regiões com o nome de “carrasco”,
e abrigam espécies tanto de um como de outro bioma.
O cerrado, segundo bioma em extensão original no Brasil, ocupava cerca de 24% da superfície
do país, com grande variedade de flora e fauna. Com uma vegetação que varia desde campos limpos
até florestas desenvolvidas em solos mais úmidos, abriga uma fauna diversificada, atualmente marca-
da por várias espécies sob ameaça de extinção. Considerado como um dos hotspots de biodiversidade
do planeta, tem no avanço da agropecuária sua principal ameaça. Estima-se que prosseguido o ritmo
atual de desmatamento no cerrado, em 2030 restarão somente as manchas de cerrado em áreas prote-
gidas sob alguma forma legal, como parques e reservas.

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Outro hotspot localizado em território brasileiro, a Floresta Atlântica, não teve destino diferente
do cerrado. Os quase 8% que restam atualmente do bioma estão, em sua maior parte, dentro de áreas
protegidas, e por mais que os esforços de conservação sejam aumentados, grande parte da biodiversi-
dade deste bioma certamente foi perdida sem que sequer tivéssemos conhecido. Boa parte da riqueza
que faz do Brasil um campeão em biodiversidade está na Floresta Atlântica, com todas as suas varia-
ções de vegetação em seus ecossistemas associados.
Falar da Floresta Atlântica sem lembrar da costa brasileira é praticamente impossível. São quase
9 mil quilômetros de litoral, com uma variedade imensa de paisagens. São manguezais, restingas, du-
nas, praias, lagoas, recifes de coral, falésias, brejos e costões rochosos, isto sem mencionar as centenas
de ilhas continentais e oceânicas, que ocorrem ao longo da costa.
O Pantanal, a maior planície inundável do planeta, tem no Brasil sua maior área de ocorrência,
sendo bastante conhecido internacionalmente por sua diversidade e abundância faunística. Ainda
relativamente conservado, o Pantanal tem uma relação estreita com o regime de chuvas nas suas
diferentes regiões de origem, mostrando ciclos hidrológicos que somente nas últimas décadas foram
compreendidos pelos pesquisadores brasileiros.
No sul do Brasil, as florestas com araucária e os campos dividem espaço na paisagem, já marca-
da por um clima subtropical, frequentemente com geadas e neve. Intensamente explorada no passado,
a floresta com araucária vive hoje um quadro dramático, pois apesar de sua riqueza e diversidade e
sua importância na conexão entre as florestas tropicais da encosta atlântica e da bacia do rio Paraná,
restam menos que 10% de sua área original de ocorrência, boa parte já bastante descaracterizada pela
ação do homem.
Mostrar um pouco da variação existente entre os biomas brasileiros, aproximar o leitor da bio-
diversidade que faz do país uma referência no cenário conservacionista mundial e, ao mesmo tempo,
apresentar criticamente as principais ameaças que rondam estes biomas e as consequências da ação
do homem, são os objetivos principais deste livro. Ao mesmo tempo são apontadas as ações positivas
que visam frear ou reverter este quadro de degradação ambiental, valorizando aquelas atitudes que
têm de fato contribuído de forma consistente para um futuro melhor.
Esperamos que você aproveite bem este material e que, na medida em que sua curiosidade
sobre a natureza brasileira aumentar, você siga nossas dicas de estudo e aprenda como é importante
conhecer para conservar.

Bons estudos!

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I
Mauricio Ferreira Magalhães*

N
esta aula estudaremos a maior floresta tropical do planeta. Identificare-
mos suas características geográficas gerais e sua diversidade biológica,
destacando o fato de que a Floresta Amazônica possui tanto a maior bacia
hidrográfica como também a maior biodiversidade do planeta.

Características geográficas
A Floresta Amazônica sempre encantou a todos devido à sua exuberância e Hileia
a pujança de suas matas. É conhecida como hileia (palavra que significa bosque) Amazônica
e classificada como floresta tropical pluvial úmida. Essa classificação se deve a – O maior
alguns fatores.
bosque do
Tropical – localizada na região próxima ao equador, com grande estabi- planeta
lidade climática.
Pluvial – regime de chuvas intensas e regulares durante todo o ano.
Úmida – grande emissão de água para atmosfera devido à intensa ativi-
dade de sua vegetação.
Quanto aos números, existe uma grande variedade de informações, porém
o Ministério do Meio Ambiente estima que essa floresta possua uma área, atu-
almente, de quatro milhões de quilômetros quadrados, ocupando nove países da
América do Sul: Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Guiana Francesa, Peru, Surina-
me e Venezuela. Corresponde a 31% de todas as florestas tropicais do planeta.
O Brasil detém cerca de 3,2 milhões de quilômetros quadrados da Floresta
Amazônica, o que corresponde a 40% de todo o território nacional distribuída por
oito estados da federação: Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondô-
nia, Roraima e Tocantins. Este fato só aumenta a responsabilidade do nosso país
sobre a Floresta. Mest re em Gestão A m-
bient al e Educação A m-
b i e n t a l . P r of e s s o r t i t u l a r

A pororoca d a U n i ve r s i d a d e C a s t e l o
Branco/ R J – das disci-
pl i n a s d e M e i o A m b i e n -
Representa o fenômeno da entrada de águas oceânicas no leito dos t e e D e s e n vol v i m e n t o
Hu m a n o , e L e g i s l a ç ã o e
rios. Devido à superfície irregular e aos obstáculos encontrados nestes Gest ão A mbient al. Co -
rios, formam-se ondas de grande amplitude, características do evento. Este ordena o Cu rso de Ciên-
c i a s Bi ol ó g i c a s e o N ú -
fenômeno ocorre em épocas de sizígia, ou seja, momentos em que temos cl e o d e M e i o A m b i e n t e
d a m e s m a u n i ve r sid a d e.
marés de lua nova e lua cheia. P r e sid e nt e d o I n s t i t u t o
A mbient al Goianá.

9
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

Características gerais
O clima
A Floresta Amazônica apresenta um clima quente e úmido, com temperatu-
ras variando entre 20ºC e 32ºC e média anual de 27ºC. Esta estabilidade climática
é fundamental para a manutenção do seu equilíbrio.

As chuvas
A atividade da mata promove uma constante evapotranspiração1. Devido a
esse fato, a umidade na região apresenta índices de 80 a 100%. Como consequên-
cia temos um regime de chuvas intenso, constante, com 12 trilhões de m3/ano.
Cerca de 45% deste volume é drenado para o Oceano Atlântico.
1 Fenômeno realizado pe-
los vegetais que consiste
em eliminar, por meio de seus
Os índices médios de chuvas giram em torno de 2 200mm/ano, com precipi-
estômatos (aberturas existen- tações diárias de uma hora, conhecidas como aguaceiros. O volume de água pode
tes nas folhas), parte da água
absorvida pelas raízes. Como
ser bem identificado no maior rio do mundo, o Amazonas, que lança em um só dia
consequência temos o inte- no Oceano Atlântico o equivalente a um ano do rio Tâmisa (Inglaterra), a 12 dias
rior das matas com elevada
umidade. do rio Mississipi (Estados Unidos) e a 5 dias do rio Congo (África).

10
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

O solo
O solo amazônico apresenta uma avançada idade geológica, o que pode
justificar sua pobreza em nutrientes. Outro fato que identifica essa baixa fertili-
dade é o fato deste solo ser constantemente lavado pelas chuvas, que dissolvem e
removem a camada de nutrientes do mesmo.

Como explicar a exuberância


da floresta com um solo tão pobre?
A Floresta Amazônica desenvolve uma intensa reciclagem natural da ma-
téria orgânica superficial, fenômeno denominado turnover2. Esta característica
permite a formação de uma serrapilheira3 densa que retém grande quantidade
de água e sais, garantindo assim a manutenção da exuberância da Floresta.

O ar
Existe um conceito de que a Floresta Amazônica representaria o “pulmão
do mundo”. Esta ideia predominou, inclusive em comunidades científicas, durante
muito tempo, pela densidade da mata amazônica.
Hoje, porém, sabemos que o pulmão do mundo está nos oceanos, devido à
atividade das algas planctônicas, e que as florestas continentais contribuem ape-
nas com 10% do oxigênio presente na atmosfera.
Mesmo sem ter grande importância na recomposição do oxigênio atmosfé-
rico, a Floresta Amazônica é fundamental para a manutenção do clima planetário.
Este fato refere-se à grande quantidade de água que a floresta lança na atmosfera,
e também na barreira geográfica natural para os ventos, o que a caracteriza como
“condicionador de ar do planeta”.

2 Fenômeno ecológico no
qual os fungos e bacté-

Características biológicas rias, presentes no solo, pro-


movem a decomposição da
matéria orgânica, retornando
Estudos sobre a diversidade biológica da floresta indicam que ela representa à sua forma inorgânica e enri-
quecendo o solo com nutrien-
tes que serão reaproveitados
o ambiente mais pluralizado do planeta. Detém cerca de 20% de toda a variedade pelos vegetais.
de espécies do mundo, o que gera interesses internacionais na região.

3 Camada superficial do

A flora
solo que abriga restos de
folhas, galhos, animais mor-
tos, fungos e bactérias, e na

A Floresta Amazônica tem suas matas classificadas em três grupos: qual onde ocorre o fenômeno
do turnover.

1. Matas de terra firme – localizadas em terras altas, estão permanente-


mente livres de inundações. Abrigam as árvores de grande porte (50m de
altura) com raízes tabulares4 extremamente importantes para sua susten-
4 Raízes que se desenvol-
vem próximas ao solo
e que se espalham sobre a
superfície, com isso apresen-
tação. tam uma grande capacidade
de sustentação para as árvo-
Ex.: guaraná, castanha-do-pará, maçaranduba, sapucaia. res de grande porte.

11
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

2. Matas de igapó – localizadas em terrenos baixos, permanecem inunda-


das na maior parte do tempo. Sua vegetação apresenta adaptações ao
alagamento contínuo como caules impregnados por suberina e lignina
(proteínas que os impermeabilizam).
Ex.: arbustos, cipós, epífitas, musgos, bromélias, vitórias-régias.
3. Matas de várzea – representam uma espécie de mata de transição entre
as duas anteriores. Sofrem inundação temporária e dependendo de sua
localização podem se assemelhar mais com matas de terra firme (regiões
mais altas) ou com matas de igapó (regiões mais baixas).
Ex.: cedro, cerejeira, mogno, virola, açaí, seringueira e plantas medici-
nais.

A fauna
A fauna amazônica também é bastante diversificada. Pesquisadores esti-
mam que 70% das espécies de invertebrados presentes nela ainda não foram ca-
talogadas. Segundo dados publicados pela National Academy of Science em um
único hectare de floresta tropical há mais de 42 mil espécies diferentes de insetos.
Alguns dados revelam esta extrema diversidade:
peixes – 1 400 espécies (ex.: pirarucu, pintado);
anfíbios – 518 espécies;
répteis – 550 espécies (ex.: jacaré-da-amazônia, jacaré-açu);
aves – 1 000 espécies (ex.: araçari, mutum-pinina);
mamíferos – 311 espécies (ex.: guariba, jaguatirica).

Conclusões
Nesta aula apresentamos parte do ecossistema da Floresta Amazônica. Em
nosso estudo destacamos a sua localização abrangendo nove países da América
do Sul e oito estados brasileiros.
Enfatizamos sua importância para a manutenção do clima planetário, a po-
breza do seu solo e a grande quantidade de água que drena para o oceano (12
trilhões de m 3/ano).
Por fim, caracterizamos sua diversidade biológica por exemplares da fauna
e da flora, bem como sua importância para pesquisas científicas, uma vez que
ainda desconhecemos a maior parte das espécies ali existentes.

12
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

Floresta Amazônica: uma comunidade clímax


(LOPES, 2004)
A Amazônia, que é a maior floresta tropical do mundo e tem sua maior porção em território
brasileiro, apresenta-se como um ecossistema extremamente complexo e delicado.
Sua incrível diversidade biológica, abrigando cerca de 20% de todas as espécies vivas do
planeta confere-lhe uma infinidade de inter-relações ecológicas. Todos os elementos – clima, solo,
fauna e flora – estão tão estreitamente relacionados que não se pode considerar nenhum deles
como principal. Todos contribuem para a manutenção do equilíbrio, de modo que a ausência de
qualquer um deles é suficiente para desarranjar o ecossistema.
O que acontece, então, quando se cortam as árvores, arrancam-se ou queimam-se os tron-
cos?
Cortada a vegetação nativa, a fina camada de húmus pode se esgotar em dois ou três anos,
pois não haverá a reposição de matéria orgânica. Além disso, com a retirada da vegetação nativa,
as chuvas quase contínuas lavam o solo, retirando e desagregando os poucos nutrientes que o
compõe.
Pouco a pouco, o solo se tornará nu e cada vez mais arenoso. Não haverá uma sucessão secun-
dária levando ao restabelecimento da mesma comunidade clímax anterior. Dificilmente a região
se transformaria em um deserto total, pois os ventos alísios, oriundos do oceano são capazes de
garantir uma umidade necessária para algumas formas de vegetação. Mas de qualquer maneira o
ecossistema estaria destruído.

1. Faça um levantamento da fauna amazônica, incluindo três variedades de vertebrados.

13
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

2. Justifique o fato do bioma amazônico apresentar tanta disponibilidade de água.

3. Comente os fenômenos do turnover e da evapotranspiração.

14
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites abaixo que permitirão uma maior
visualização da Floresta Amazônica:
<www.ambientebrasil.com.br>
<www.amazonia.org.br>
<www.mma.gov.br>

15
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica I


16
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

N
esta aula estudaremos de que maneira as tribos indígenas formaram a po-
pulação da Amazônia e qual é a situação atual das mesmas. Faremos uma
descrição da ocupação da floresta por expedições científicas, a relação do
homem com a exploração dos recursos, e também identificaremos os impactos
ambientais decorrentes do contato da atividade humana com esse ambiente.

Aspectos socioeconômicos
As comunidades indígenas representam o povo natural da região amazô-
nica. Estima-se que existiam originalmente 5,6 milhões de habitantes, e que os
mesmos representavam uma riqueza cultural expressa em 1 300 línguas diferen-
tes. Esses dados revelam o quanto a diversidade cultural acompanha a magnitude
da floresta.
Identificam-se hoje apenas 170 línguas e habitam a Amazônia Legal aproxi- A que se deve
madamente 170 mil índios, representando uma significativa redução na população
esta redução?
nativa da floresta.
Muitos índios morreram em consequência do contato direto ou indireto com
os europeus e as doenças por eles veiculadas. Doenças consideradas de pouco grau
de mortalidade atualmente (gripe, sarampo, coqueluche) foram extremamente le-
tais e outras mais graves, como tuberculose e varíola, representaram verdadeiras
pandemias1 nas comunidades indígenas. Os índios não tinham contato com estes
antígenos, logo, não possuíam anticorpos capazes de protegê-los.
Alguns povos indígenas conseguiram se isolar e, afastados, ficaram protegi-
dos desse tipo de situação. Outro fator a ser destacado é que conseguiram manter
suas culturas e tradições preservadas, e sobrevivem até os dias de hoje isolados
do convívio com a sociedade.

Relação dos índios com a floresta


Vivendo da caça, pesca, coleta e agricultura sustentável, os índios mantêm
uma relação de harmonia com a floresta respeitando os seus ciclos e sua capaci-
dade de suporte.
Esta relação equilibrada pode ser evidenciada em alguns exemplos entre o
meio ambiente e sua cultura, entre eles podemos destacar:
Rotação de culturas – consiste em respeitar a capacidade de crescimento
vegetal não esgotando o solo. Quando há a percepção de que a produtivi-
dade está caindo os índios mudam o seu local de colheita, permitindo uma
recuperação natural do solo e, devido ao fato de ser praticada uma agricul- 1 Surto de uma doença que
se dissemina e ataca um
elevado número de indivídu-
os numa população ou vários
tura de subsistência, as áreas exploradas são de pequenas proporções. povos no planeta.

17
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

Queimadas controladas – as queimadas realizadas pelos povos indígenas


não são sistemáticas, mas sim esporádicas. Este fato permite, inicialmente,
um aumento da fertilidade do solo, e, devido ao equilíbrio das culturas plan-
tadas, há tempo para a restituição dos micro-organismos decompositores.
Integração com a fauna – a caça é fonte de alimento proteico para os
indígenas, porém ocorre de forma equilibrada e apenas para atender a
subsistência da população local.
Flora – os indígenas exploram a flora como fonte de alimento, madeira
para moradia, armas, fogo, transporte e ervas medicinais.
Lendas e histórias – passadas de geração a geração.

A origem do guaraná
(BRANCO, 1997)

Um jovem indiozinho da tribo dos Maués é atacado na mata por Jurupa-


ri – um espírito do mal, que, assumindo a forma de uma serpente peçonhenta,
acaba o envenenando e, infelizmente, o matando. Tupã, o deus supremo, não
gostando nenhum pouco da situação, vinga-se do mau espírito, regando abun-
dantemente com suas chuvas o túmulo do indiozinho, de onde germina uma
bela planta benéfica.
Esta tal planta se parece com os grandes e brilhantes olhos da criança
desaparecida.

Conseguimos perceber que existe uma relação de respeito e harmonia dos


índios com a Floresta Amazônica. Esta é expressa em cada passagem em cada
postura e, principalmente, no dia a dia de exploração dos recursos que a floresta
pode oferecer, ou seja, em perfeita homeostase2.

Ocupação e exploração da floresta


Tudo começou com as expedições científicas dos colonizadores europeus
motivados pela possibilidade da presença de riquezas minerais, como as encon-
tradas em outros locais na América do Sul. Logo eles perceberam que na Floresta
Amazônica não havia ouro, nem pedras preciosas disponíveis como em outros
locais, portanto visualizaram a importância de focalizarem suas ações em pro-
postas científicas de estudos. Muitas expedições ocorreram e estudos nas áreas de
zoologia e botânica se proliferaram.
Os anos de 1840 foram significativos pela exploração da borracha das se-
2 Representa o equilíbrio
do metabolismo dos orga-
nismos vivos. Em ecologia,
ringueiras. Com uma matéria-prima de ótima qualidade poderiam confeccionar
definimos como a perfeita in- diversos objetos (bolas, capas, mangueiras, impermeabilizantes, entre outros).
ter-relação entre os recursos
oferecidos pelo meio ambien-
te, os diversos componentes
Em tempos mais modernos, especificamente no século XX, o governo bra-
da fauna, flora e homem. sileiro estimulou a ocupação daquela região, objetivando garantir o poder sobre
seu território contra possíveis invasões. Pessoas de diversos estados foram es-
18
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

timuladas a ocupar a floresta, principalmente com culturas de milho, cana-de-


-açúcar e gado (ano de 1940). Em 1975, a proposta se consolidou com a constru-
ção da estrada Transamazônica. Seu traçado saía de Pernambuco e da Paraíba,
percorrendo 8 100 quilômetros em diversos estados até a fronteira do Peru com o
Acre. A grande intenção deste megaprojeto era escoar a produção da região até os
portos do Oceano Pacífico.

Exploração comercial
A floresta foi explorada por um grupo de ocupação que não detinha a cultu-
ra do local e, principalmente, a sabedoria da melhor forma de utilizar os recursos
da natureza. Este fato ficou evidente nas alternativas encontradas pelo governo e
propostas à sociedade que ocupou o local, tais como:
lavoura de cana-de-açúcar, milho, arroz, feijão, mandioca, entre outras;
gado leiteiro e de corte;
madeira para construção de móveis e utensílios;
minérios como alumínio, ferro, ouro, entre outros;
hidrelétricas.

Impactos ambientais
O que vem a ser um impacto ambiental?
Para entender, temos que considerar a participação do homem, ou seja, im-
pacto ambiental representativo de qualquer forma de interferência antrópica 3 que
desencadeia alterações químicas, físicas, funcionais ou paisagísticas no meio am-
biente.
A Floresta Amazônica vem sofrendo todo tipo de impactos ambientais, ve-
jamos alguns.

Desmatamento
Talvez represente o impacto mais significativo e o que mais mobiliza as
pessoas quando é evidenciado. Estima-se que 16% da floresta original já foi des-
matada. Dados alarmantes revelam que só no estado do Pará já foram desmatadas
áreas equivalentes aos territórios da Holanda, Portugal, Áustria e Suíça juntos.
Existe uma região conhecida como o “Arco do Desmatamento” que cobre
os estados do Pará, Acre, Mato Grosso e Rondônia. Esses estados são responsá-
veis por 75% do desmatamento da Floresta Amazônica.
Hoje, 75% dos 30 milhões de metros cúbicos de madeira extraída da floresta
são legalizados por autorizações de desmatamento; 5% saem de áreas com plano
de manejo; e 20% são ilegais. Estima-se que 22 madeireiras estrangeiras estão
autorizadas a atuar na região e que o número das nacionais chegue ao triplo. 3 Representa qualquer coi-
sa pertencente ou relacio-
nada aos homens.

19
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

Os proprietários de terras podem desmatar 20% de suas propriedades em


regiões consideradas de florestas e em regiões características de cerrado esta au-
torização chega a 65%.

O desmatamento e o clima
Podemos considerar a prática do desmatamento nefasta sobre diversos as-
pectos, e um deles é o clima. O fato das árvores não promoverem o sequestro
do carbono4 implica no incremento do efeito estufa5 e a floresta amazônica tem
papel vital devido à densidade da mata que possui. Estima-se que 200 milhões de
toneladas de carbono/ano não são mais retiradas da atmosfera devido ao desmata-
mento da floresta amazônica.
Com o desmatamento, há a diminuição da reposição de água para a atmos-
fera, alterando sensivelmente o regime de chuvas.
A exposição do solo, desencadeada pela retirada da cobertura vegetal, pro-
voca a lixiviação6 do mesmo e o consequente empobrecimento de nutrientes.

Queimadas
A prática das queimadas é nefasta a médio e longo prazo. Quando queima-
mos o solo retiramos a cobertura orgânica ali presente. As cinzas geradas com a
4 Esta expressão é utilizada
para retratar a retirada de
dióxido de carbono da atmos-
queima enriquecem o solo num primeiro momento, porém com a prática sucessiva
fera pela ação dos vegetais no o calor provoca a morte dos microorganismos responsáveis pela reciclagem da
fenômeno da fotossíntese.
matéria orgânica. Esta interrupção na cadeia faz com que haja uma esterilização
do solo e, consequentemente, desencadeia o fenômeno da desertificação7.
5 Um fenômeno atmosféri-
co natural que garante a
manutenção de temperaturas
médias, no planeta Terra,
em torno de 18ºC. Este fator
Mineração
permite a sobrevivência da
maioria das espécies no pla- As atividades das mineradoras têm provocado impactos ambientais graves,
neta. A grande preocupação
da comunidade científica
pois deixam verdadeiras crateras nos locais de exploração, terrenos com mon-
internacional é com o fenô- tanhas de materiais não aproveitáveis (entulho) e muitos rios contaminados por
meno que está ocasionando o
superaquecimento global. mercúrio – neste caso, especificamente, para extração do ouro, uma vez que o
mercúrio permite uma precipitação do minério facilitando sua obtenção. Deve-
mos destacar que o contato com o mercúrio pode provocar sérias lesões no siste-
6 Mecanismo de lavagem
do solo pela exposição
excessiva às águas das chu-
ma nervoso e, a longo prazo, o câncer.
vas. Este processo leva os nu-
trientes e empobrece o solo.

Biopirataria
7 Formação de áreas sem
nenhuma forma de vida. Um problema grave na Floresta Amazônica é a exportação ilegal de espé-
Não há sucessão ecológica
devido à ausência de nu-
cimes nativos. Estima-se que o tráfico retire da floresta 38 milhões de exemplares
trientes e micro-organismos da fauna e da flora por ano. O que mais nos revolta é que apenas 10% dos animais
no solo. Sem a instalação de
formas de vida vegetais, os sobrevivem aos maus tratos e manejos inadequados, conseguindo chegar aos seus
animais migram para outras
regiões. destinos.

20
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

Conclusões
Nesta aula apresentamos a Floresta Amazônica como fonte de riquezas, e identificamos o histó-
rico da ocupação humana que dizimou as populações indígenas devido às pandemias.
Enfatizamos também a ocupação inadequada do local por pessoas que não dominam o conhe-
cimento da floresta, desencadeando uma exploração desordenada dos recursos.
Ainda destacamos os impactos ambientais decorrentes desta ocupação evidenciando o desma-
tamento como o maior vilão e suas consequências.

A cultura da predação e do desperdício


(MEIRELLES, 2004)
A madeira é o principal produto florestal explorado em larga escala na Amazônia. Das mais
de 3 100 espécies, cerca de 350 são utilizadas comercialmente e menos de 30 são responsáveis por
80% do mercado. Entre estas estão o mogno (mesmo proibido), a cerejeira (imburana), o angelim,
o jatoba, a intaúba, o cedro e o ipê.
Segundo Imazom, baseado em dados de 1998, 86% da exploração madeireira na Amazônia
é predatória, ou seja, provêm de invasões, grilagens em áreas públicas, como unidades de conser-
vação e áreas indígenas, desmatamentos em pequenas, médias e grandes propriedades. São cerca
de 2 500 madeireiras cortando 28 milhões de metros cúbicos de madeira. Os 14% cortados legal-
mente, de forma sustentável procedem de áreas de manejo florestal oficializado.
A madeira da Amazônia é sinônimo de desperdício e ilegalidade, desde o momento em que
sai da mata até chegar ao consumidor final. Mais da metade de cada tora retirada é desperdiçada,
primeiro na mata e depois no pátio da serraria. Quando a árvore cai, pode danificar cerca de 20
outras que estão ao seu redor.

1. Faça uma descrição das principais atividades econômicas exploradas na Floresta Amazônica.

21
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica II

2. Identifique três impactos evidentes presentes na floresta.

3. Comente os conceitos de desertificação e lixiação.

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites a seguir, que permitirão uma maior
visualização da Floresta Amazônica.
<www.ambientebrasil.com.br>
<www.geofiscal.eng.br>
<www.manejoflorestal.org.br>

22
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

E
sta aula tem como proposta discutir os conceitos de preservação e conservação apresentando o
Sistema Nacional de Unidades de Conservação e descrevendo como este sistema está configu-
rado na Floresta Amazônica.
Estaremos destacando as ações dos institutos de pesquisa, ONGs e órgãos governamentais que
atuam na região, relacionando suas principais ações e identificando suas relações com a sustentabili-
dade da Floresta.
Por fim, discutiremos a questão da soberania nacional sobre o território da Amazônia Legal.

Amazônia Legal
Entende-se como Amazônia Legal a área contemplada por todos os estados brasileiros em que
a Floresta Amazônica se distribui. Foi instituída em 1953, por meio da Constituição, objetivando a
inclusão do estado de Mato Grosso e o norte do estado de Goiás, atual estado do Tocantins.
Sua área constitui aproximadamente 50% de todo o país, com 11 248km de fronteiras e 1 482
quilômetros de costa.

Conservação e preservação
Normalmente, existe uma distorção na interpretação dos conceitos de preservação e conserva-
ção. Para a população em geral preservar o meio ambiente significa ter ações que contribuam para
proteção ou, principalmente, a manutenção de sua limpeza. Já conservar, na maioria dos casos, nem
aparece como conceito.
Mas como entendemos estes conceitos?
Conservação – representa o manejo dos recursos do ambiente, com o propósito de obter-se a
mais alta qualidade sustentável da vida humana. Objetiva entender os efeitos da atividade humana nas
espécies, comunidades e ecossistemas, desenvolvendo abordagens práticas para prevenir a extinção
das espécies e, se possível, reintegrar as espécies ameaçadas ao seu ecossistema.
Preservação – caracteriza ações de proteção e/ou isolamento de um ecossistema com a finali-
dade de que ele mantenha suas características naturais, por constituir-se como patrimônio ecológico
de valor.

Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC)


O SNUC foi instituído pelo Governo Federal no ano de 2000, por meio da Lei 9.985, de 18 de
julho de 2000. Foi estabelecido que as unidades de conservação (UCs) são áreas naturais protegidas
que devem estar enquadradas em normas especiais de administração, pretendendo que as mesmas
possam garantir a sua proteção.

23
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

Seu manejo e gerenciamento estão intimamente ligados à categoria em que


foi inserida no momento de sua criação.
De acordo com o Governo Federal, as unidades de conservação devem ser
criadas de acordo com a relevância do ecossistema e recursos naturais ali presen-
tes, e devem ser classificadas como disposto a seguir.
Unidade de conservação de proteção integral, caracterizada como de uso
indireto:
– estação ecológica;
– reserva biológica;
– parque nacional/estadual/municipal;
– monumento natural;
– refúgio de vida silvestre.
Unidade de conservação sustentável, caracterizada como de uso direto:
– área de proteção ambiental;
– área de relevante interesse ecológico;
– floresta nacional;
– reserva extrativista;
– reserva de fauna;
– reserva de desenvolvimento sustentável;
– reserva particular do patrimônio natural.

Unidades federais de conservação na


Amazônia
Proteção integral – 46%
Uso sustentável – 54%

Alternativas para sustentabilidade


Programas de áreas protegidas da Amazônia
Como isso A Floresta Amazônica vem sofrendo com o manejo inadequado de seus re-
vem sendo cursos e devido à ocupação desordenada de seu território. Várias alternativas são
feito na propostas para melhorar o quadro de devastação da Floresta; entre elas, algumas
floresta? caminham em consonância com as categorias de manejo identificadas anterior-
mente. Como exemplo podemos citar o Programa de Áreas Protegidas da Ama-
zônia.

24
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

Este programa tem como foco promover alternativas sustentáveis de explo-


ração da Floresta, por meio da criação, recuperação e estímulo de práticas que
reflitam estas alternativas. Devido a isso, foi criado o Projeto de Recuperação
de Áreas Alteradas na Amazônia (Arpa). Este projeto tem duração prevista para
dez anos e foi instituído pelo Governo Federal para aproveitamento econômico
sustentável da Floresta Amazônica. Em números pretende proteger 50 milhões de
hectares.

Ecorregiões
Segundo Dineerstein (1995), o conceito de ecorregiões estabelece um con-
junto de comunidades naturais, geograficamente distintas, que compartilham a
maioria das suas espécies, dinâmicas e processos ecológicos, e condições am-
bientais similares, que são fatores críticos para a manutenção de sua viabilidade a
longo prazo. Na Floresta Amazônica foram identificadas 23 ecorregiões e os pro-
gramas para sustentabilidade da Floresta devem dirigir suas ações considerando
este dado.

Agenda positiva
A agenda positiva para a Amazônia consiste em um grupo de propostas que
concorrem para a sustentabilidade da floresta. Estas ações compreendem uma
integração do poder público, das empresas e da sociedade local. Os itens identifi-
cados abaixo foram os propostos na comissão de estudo.
Zoneamento ecológico-econômico: estabelece mecanismos de explora-
ção dos recursos da Amazônia baseados em capacidade de suporte dos
ecossistemas.
Infraestrutura (transporte e energia): devem ser priorizados os transpor-
tes fluviais e o aproveitamento da malha hidroviária já existente. Quanto
à produção energética, a lenha que sobra das madeireiras e os restos de
cultivos podem ser fontes alternativas à utilização de energia pelas hi-
drelétricas. Apesar de possuir a maior bacia hidrográfica do mundo, os
rios apresentam pouca declividade e a instalação de usinas hidrelétricas
devem ser analisadas pelo impacto ambiental criado.
Geração sustentável de emprego e renda
– Agroextrativismo: técnica que respeita os ciclos naturais do ecossistema
amazônico. As comunidades que conhecem os mecanismos de funciona-
mento da Amazônia devem ser estimuladas a fazer a exploração susten-
tável de seus recursos.
– Produção florestal: a floresta deve fornecer madeira de forma sustentá-
vel, protegendo as espécies mais ameaçadas e, principalmente, garantin-
do o reflorestamento para reposição dos estoques de madeira.
– Pesca: grande fonte de proteína animal para a população da Amazônia
e um recurso de elevado valor econômico. Com a abundância de rios,

25
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

devem criar um plano de manejo do pescado, respeitando épocas de re-


produção e realizando o defeso.
– Agropecuária: estimular esta atividade em áreas apropriadas, (terrenos
planos) e não desmatar para implantar a atividade.
– Ecoturismo: ainda insipiente, mas pode ser uma grande fonte de renda
para a Amazônia, devido às suas belezas naturais e à sua biodiversidade;
atrai pessoas do mundo inteiro e também pesquisadores interessados em
conhecer as riquezas da Floresta.
– Biotecnologia: é necessário o investimento nesta área. Estima-se que
75% das espécies ainda não foram catalogadas e diversos países pesqui-
sam o universo amazônico na tentativa de novas descobertas.
Controle e fiscalização: estimular o controle de órgãos ligados aos mu-
nicípios, com tutela do Governo Federal, uma vez que com os 11 248
quilômetros de fronteiras fica muito difícil atuar com eficácia.
Ciência e tecnologia: estímulos às universidades, governos e empresas
para investirem numa exploração racional e utilizando a pesquisa cientí-
fica, em todos os níveis, como norte para suas ações.
Educação Ambiental: talvez seja este o principal fator diferencial para
a sustentabilidade da floresta, junto ao item anterior. Utilizar o conheci-
mento científico e tecnológico para promover ações que despertem nos
amazônidas a consciência da importância da manutenção do equilíbrio
da Floresta.

Projeto Castanha-do-brasil
Este projeto consiste na exploração sustentável da castanha-do-pará, tam-
bém conhecida como castanha-da-amazônia ou castanha-do-brasil. Foi desenvol-
vido pelo governo do Amapá e representa uma atividade de sucesso, tanto para a
população envolvida, como para o meio ambiente.
A lógica de produção da castanha sempre foi o extrativismo direto. A popu-
lação local, que depende do ritmo da floresta, é obrigada a ficar meses dentro da
mata (dezembro a junho), e necessita de recursos para subsistir durante este perí-
odo (querosene, óleo, sal, botas, facões etc.). Como a carência é muito grande, os
atravessadores implantaram o aviamento. Desta forma, os trabalhadores recebem
todo o material necessário para a extração e são obrigados a vender toda a produ-
ção aos atravessadores. Essa prática, quase escrava, só beneficia o intermediário,
que cria um ciclo de dependência no trabalhador e obtém elevados lucros com o
processo.
O governo do Amapá implantou uma nova ordem de produção, ou seja,
passou a fornecer a infraestrutura de trabalho para o castanheiro, financiando os
utensílios e a subsistência durante os meses em que o castanheiro fica na mata
para produção. Também garantiu o transporte, fornecendo um barco para realizar
o transporte de toda a castanha colhida pelos trabalhadores. Outro fator signifi-

26
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

cativo foi a garantia de compra de toda a produção, o que resultou na eliminação


da figura do atravessador. O governo passou a utilizar a castanha na merenda das
escolas do estado.
Foi solicitado um estudo ao Instituto de Estudos e Pesquisas do Amapá
sobre o beneficiamento da castanha, e a partir daí criaram uma cooperativa que
passou a fabricar cremes, xampus, óleo, azeite, farinha, biscoitos, entre outros
produtos. Com isso agregaram valor à produção e hoje já exportam para diversos
países. Conseguiram um selo de qualificação internacional do seu azeite como um
produto ecológico.
O projeto contempla diversos princípios básicos da constituição brasileira,
entre eles a promoção da cidadania dos povos da floresta, a utilização sustentável
dos recursos e o desenvolvimento social.

Projeto Produção de Açaí


Representa mais uma atividade de sucesso desenvolvida na Floresta Ama-
zônica.
Os extrativistas que exploravam o açaí muitas vezes derrubavam as palmei-
ras para obter seus frutos, numa prática insustentável de produção. Estimulados
pelo governo do Pará (criação de cooperativas) e por um projeto da Universidade
Federal do Pará, Programa Pobreza e Meio Ambiente (Poema), por meio do qual
os produtores de açaí passaram a processar a polpa e, principalmente, a organizar
a produção para o mercado.
Como resultados, o município de Igarapé-mirim tornou-se a capital mundial
do açaí. Empresas de diversas partes do mundo compram as polpas pasteurizadas
e o açaí com xarope de guaraná e agregaram mil por cento de aumento ao preço
original do produto.
O projeto tem um cunho de desenvolvimento local associado ao respeito
com o meio ambiente. As palmeiras hoje só são derrubadas quando estão muito
altas e não viabilizam mais a produção do açaí, mesmo assim fornecem madeira
e o palmito.
Ambos os projetos descritos valorizam o que chamamos da “floresta em
pé”, ou seja, o povo local não segue um modelo estabelecido por outras regiões.
Ao inverso, valoriza as particularidades da floresta e explora de forma racional,
percebendo que mantendo a floresta em pé ele terá mais sustentabilidade e rendi-
mentos perenes.

Madeira ecológica
No Acre também está sendo realizado um projeto de sustentabilidade para a
Floresta Amazônica – o Projeto Manejo Florestal Sustentável – em pequenas pro-
priedades no estado do Acre. O projeto representa uma parceria entre o Progra-
ma das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUD), a Empresa de Pesquisas
Agropecuárias local (Embrapa) e o governo do estado.

27
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

O projeto consiste em estimular pequenos produtores a utilizar técnicas sus-


tentáveis de exploração da madeira. Eles valem-se de apenas 5% de suas proprie-
dades por ciclo de produção e conseguem superar o rendimento que teriam com
a pecuária em uma área cinco vezes maior. Reservam metade da propriedade ao
programa, e, como utilizam 5% por vez, cada área é explorada de 11 em 11 anos,
o que garante sua possibilidade de recuperação.
São selecionadas apenas as árvores consideradas adequadas para a produ-
ção e que possuam ciclos de crescimento compatíveis com a proposta do projeto.
Cada árvore é derrubada individualmente e uma serraria portátil é levada até o
interior da mata. Toda a madeira é processada no próprio local e são aproveitadas
todas as partes da árvore. A retirada da madeira é feita por meio de tração animal,
o que evita o impacto do transporte.
A madeira produzida na região ganhou uma certificação pelo Forest
Stewarship Council (FSC), garantindo um melhor preço no mercado internacional.

Institutos de Pesquisas na Amazônia


(<www.amazonia.org.br>)

Cenaqua – Centro Nacional dos Quelônios da Amazônia


Atua em nove estados na promoção da proteção e manejo da tartaruga-
-da-Amazônia.
DNPM – Divisão de Geologia e Pesquisa Mineral
Caracterização, avaliação e mapeamento dos depósitos de ouro na região
amazônica.
Iepa – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do
Amapá
Tem como finalidade desenvolver estudos e pesquisas científicas, tec-
nológicas, econômicas, culturais e sociais tendo como base o homem, o
meio ambiente, a fauna, os recursos naturais e a flora em seus aspectos
gerais e medicinais.
Por meio de suas pesquisas com plantas medicinais conseguiu descobrir
maneiras eficazes de controlar o diabetes e espantar o mosquito trans-
missor da malária.
Inpa – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
O Inpa cumpre a missão de gerar, promover e divulgar conhecimentos
científicos e tecnológicos da Amazônia para a conservação do meio am-
biente e o desenvolvimento sustentável dos recursos naturais, em benefí-
cio principalmente da população regional.

28
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

Algumas áreas de pesquisa: Aquicultura, Biologia Aquática, Biblioteca,


Botânica, Ciências Agronômicas, Coleções Zoológicas, Ecologia, Ento-
mologia, Geociências, Laboratório de Sensoriamento Remoto, Produtos
Florestais, Produtos Naturais, Oncocercose, Silvicultura Tropical, Tec-
nologia de Alimentos.
Ipam – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
O Ipam tem como principais objetivos determinar as consequências eco-
lógicas, econômicas e sociais do desenvolvimento da Amazônia, por
meio da execução de programas de pesquisa científica e tecnológica.
Laboratório de Produtos Florestais – Ibama
Centro de Pesquisa do Ibama que desenvolve e transfere tecnologias para
promoção do desenvolvimento sustentável no setor florestal, por meio de
pesquisas nas áreas de caracterização tecnológica de madeiras, desen-
volvimento de produtos e processos, madeira na construção, energia da
biomassa, normalização e controle de qualidade, borracha natural etc.
Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)
Tem a missão de produzir e difundir conhecimento e acervos científicos
sobre sistemas naturais e socioeconômicos relacionados à Amazônia.
Naea – Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (UFPA)
Possui cursos de mestrado em Planejamento do Desenvolvimento e dou-
torado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, contribuin-
do grandemente para a formação de pesquisadores, docentes e técnicos
em planejamento e políticas públicas.
Ames Global Ecosystem Science (Nasa)1

Conclusões
Nesta aula abordamos o sistema nacional de unidades de conservação e
como a região amazônica está inserida neste contexto, identificando que 54% das
áreas de UCs na floresta são de uso sustentável e 46% são de proteção integral.
Apresentamos algumas experiências de sucesso na exploração sustentável 1 Mais informações podem
ser obtidas, em inglês, nos
dos recursos naturais em especial destacando as experiências com a castanha-do- endereços:
<http://geo.arc.nasa.gov/sge/
-Brasil, no Amapá; do Projeto do Açaí, no Pará; e da Madeira Ecológica, no casa/regmdl.html> e
<http://geo.arc.nasa.gov/sge/
Acre. brass/Brass.Biogeo.html>.

Listamos também os grandes centros de pesquisa atuantes na floresta ama-


zônica ressaltando a importância de todos eles para o futuro da região.

29
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Floresta Amazônica III

1. Analise comparativamente os conceitos de preservação e conservação, exemplificando-os.

2. Escolha uma das alternativas de projetos sustentáveis apresentados e o analise sobre uma pers-
pectiva crítica.

3. Pesquise uma das instituições que desenvolvem trabalhos na Floresta Amazônica explicitando
seus principais projetos.

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites a seguir que permitirão uma maior
visualização da Floresta Amazônica
<www.ambientebrasil.com.br>
<www.amazonia.org.br>
<www.mma.gov.br>

30
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

N
esta aula estudaremos a Floresta Atlântica, um bio-
ma que se estende por todo o Brasil. Demonstrare-
mos suas características geográficas, destacando a
distribuição de seu território pelo Brasil e sua importância
na manutenção dos mananciais para o abastecimento de
água das grandes cidades brasileiras. Identificaremos tam-
bém a riqueza de sua biodiversidade destacando a fauna e
a flora.

Características geográficas
Este bioma é conhecido como Floresta Tropical Pluvial Costeira. A classificação se justifica
devido às seguintes características:
está distribuída ao longo do Trópico de Capricórnio;
apresenta elevados índices de precipitações pluviométricas;
localiza-se ao longo da costa brasileira e é extremamente influenciada pelo Oceano Atlântico.
Os primeiros registros da extensão da cobertura original da Floresta Atlântica datam da época
do descobrimento e retratam que a mesma se estendia do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do
Sul, sendo que sua maior densidade ocorria a partir do sul da Bahia até o Rio Grande do Sul.
A Mata Atlântica está presente tanto na região litorânea como nos planaltos e serras do interior.
Sua largura varia entre pequenas faixas e grandes extensões, atingindo em média 200 quilômetros de
largura.

Curiosidades
Sua área ocupava 12% do território Nacional – 1,3mm/km²
Floresta tropical pluvial costeira
Clima quente e úmido (tropical)

Características gerais
A Floresta Atlântica se destaca pela sua grande exuberância vegetal. Algumas pesquisas iden-
tificam que em 1 hectare de Mata Atlântica podemos encontrar 600 espécies de plantas com flor,
enquanto em florestas de clima temperado apenas 30 espécies.

31
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

Toda esta riqueza de vegetais se justifica pela característica de seu substrato,


que é rico em nutrientes e com uma camada espessa de húmus1. Este solo garante
fonte de nutrientes em abundância para os vegetais, permitindo assim um ganho
em sua produtividade e uma maior densidade populacional.
Outra característica importante a ser ressaltada é a grande oferta de água
existente na Mata Atlântica. Este fato torna-se relevante uma vez que seus manan-
ciais abastecem as grandes cidades brasileiras, principalmente da região sudeste
(a região mais desenvolvida), permitindo a concentração de 70% da população
brasileira.
A presença da Floresta Atlântica nas encostas representa um fator funda-
mental para o equilíbrio desse local, uma vez que suas raízes formam um ema-
ranhado no solo garantindo a sustentação do terreno destas encostas e evitando a
erosão2.
Também é fundamental a cobertura de Mata Atlântica nas cabeceiras dos
rios (Mata Ciliar ou Mata de Galeria), o que permite a manutenção do leito dos
rios e garante o abastecimento de água.
1 Este tipo de substrato se
caracteriza pela gran-
de quantidade de nutrientes
agregados. Normalmente é
produzido pela atividade as-
sociada de bactérias e fungos
Estratificação da Floresta
decompositores, junto à ação
das minhocas, que, ao ingeri-
Encontramos na Floresta Atlântica uma distribuição vertical muito carac-
rem esta matéria, a enrique- terística, na qual as copas mais altas formam o dossel3 e chegam a atingir 30, 35
cem com cálcio favorecendo
o equilíbrio do pH do solo. e até 50 metros de altura. O tronco das árvores, normalmente liso, só se ramifica
bem no alto. Neste dossel, as copas das árvores mais altas tocam-se umas nas ou-
tras, formando uma massa de folhas e galhos que barra a passagem do sol.
2 Caracteriza o fenômeno
de degradação do solo,
pela remoção de partículas
Abaixo do dossel encontramos os arbustos e pequenas árvores, formando os
do mesmo, devido à ação das
intempéries (vento, sol, chu-
chamados sub-bosques. Estes vegetais desenvolvem adaptações para captação de
va etc.) ocasionando a forma- luz e fixação sobre outras plantas mais altas, característica de uma relação deno-
minada epifitismo4.
ção de cicatrizes e perda de
nutrientes do mesmo.

As regiões de maior densidade de mata se caracterizam pela presença de


3 Representa o conjunto
das copas de árvores de
grande porte, característicos
maciços rochosos: Serra do Mar, Serra da Mantiqueira e Geral. Este fato é facil-
mente explicado quando imaginamos a dificuldade de acesso a estas regiões, logo
de florestas densas, que dão
origem a uma camada con- fica mais difícil a ocupação desordenada do ser humano.
tínua e interligada que difi-
culta a passagem dos raios Existe também uma diferenciação da cobertura vegetal quanto à altitude:
luminosos para as regiões
inferiores e abriga uma fauna uma determinada espécie de árvore nascida no nível do mar difere de uma árvore
específica.
desta mesma espécie no topo da serra. Este efeito de variação também fica eviden-
te quando imaginamos a distribuição de outras espécies em nível continental, uma
4 Representa uma relação
ecológica classificada
como harmônica e interes-
vez que a floresta se distribui por toda a costa do território brasileiro.
pecífica. Nesta relação, algu- Existem próximo aos oceanos diversos ecossistemas associados ou varieda-
mas plantas se fixam sobre os
troncos de outras, sem retirar
des de ecossistemas de Mata Atlântica: as planícies de restinga, dunas, mangues,
nenhum tipo de nutrientes de-
las. Esta fixação permite uma
lagunas e outros estuários de menor proporção. Os mangues estão presentes às
maior captação de luminosi- margens das lagunas ou de rios de água salobra, variando conforme as marés.
dade e favorece a realização
da fotossíntese. Eles são considerados os berçários de grande parte da vida marinha.

32
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

Características biológicas
Alguns autores estimam que a Floresta Atlântica seria o ambiente mais di-
versificado do planeta e que, devido ao seu elevado grau de fragmentação, perdeu
esta posição para a Floresta Amazônica. A Mata Atlântica representa uma grande
riqueza de patrimônio genético e paisagístico, demonstrada por índices verdadei-
ramente impressionantes.

Mais de 15% dos primatas existentes no Brasil habitam a floresta, e a


grande maioria dessas espécies são endêmicas.
55% das espécies arbóreas e 40% das não arbóreas são endêmicas,
ou seja, uma entre cada duas espécies ocorre exclusivamente naquele
local.
70% de espécies (como as bromélias e orquídeas) e 39% dos mamífe-
ros que vivem na floresta são endêmicos.

Flora
Em sua vegetação predominam espécies que possuem folhas largas (lati-
foliadas) e perenes (perenifólias). A primeira característica permite aos vegetais
uma intensa troca gasosa com o meio e, principalmente, uma grande liberação de
água para a atmosfera.
O fato de serem perenifólias permite uma maior produtividade, uma vez que
a taxa fotossintética se eleva em virtude das folhas permanecerem em atividade
durante todo o ano.
Veja a seguir alguns exemplos.
Jequitibá – árvore frondosa, com flores brancas e folhas permanentes,
sempre se sobressai pelo tamanho e pela copa. Floresce em dezembro e
janeiro. Árvores com 20 a 50 metros de altura. É muito usada para re-
florestamento, pois tem crescimento rápido. Pode atingir 3,5 metros em
dois anos de plantio. Sua madeira é considerada de lei, moderadamente
pesada, macia, bastante durável. Estende-se desde o sul da Bahia até o
Rio Grande do Sul.
Embaúba – são árvores de porte médio, com caule reto e ramificação ape-
nas na porção superior. Estão distribuídas por todo o país. Possui folhas
largas, muito lobadas, verde-claras na parte superior e verde-prateadas na
inferior. Dessa característica veio seu nome indígena (árvore que brilha).
As flores pequenas reúnem-se em pseudo-espigas e os frutinhos, que ali
se desenvolvem, são utilizados como alimento para vários animais. Seu
caule é oco, o que permite uma associação entre de parasitismo com
pulgões que se alimentam de sua seiva e elaboram uma secreção açuca-
rada, muito apreciada por algumas espécies de formigas. No interior dos

33
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

troncos, elas vivem associadas a esses pulgões, aproveitando-se do ex-


cesso de secreção produzida. Esta relação é denominada esclavagismo.
As embaúbas são frequentemente encontradas em matas ciliares e bordas
de capões. Florescem em setembro/outubro e estão muito presentes em
florestas secundárias, indicando um grau de sucessão ecológica e que
aquela área já sofreu desmatamento e recomposição da mata primária.
Pau-brasil – a árvore que deu o nome ao nosso país e que foi extrema-
mente explorada pelos colonizadores. Apresenta tamanhos variados, po-
dendo alcançar ate 30 metros de altura. Toda a superfície de seu caule é
recoberta por acúleos5 e apresenta diversas ramificações e frutos. Sua ex-
ploração ocorreu devido a uma característica de sua casca que apresenta
vasos secretores de pigmentos. Este tecido de secreção confere uma to-
nalidade rosa-pardacenta ou acinzentada à sua casca. Floresce entre os
meses de dezembro e maio, e suas estruturas florais são de cor amarelada
e com um perfume muito apreciado. A frutificação ocorre no mesmo
período da floração e sua estrutura é do tipo legume. Outra característica
interessante dessa árvore é sua madeira, que possui uma coloração laran-
ja, porém quando exposta ao ar torna-se avermelhada. Além disso, o seu
cerne é duro e de peso elevado, sendo muito utilizada na construção civil
e naval devido a sua grande resistência.
Palmito-juçara – é uma espécie de palmeira que vive em ambiente de
elevada umidade (higrófita). Árvore característica da Mata Atlântica e de
grande valor comercial pela exploração da sua extremidade. O Palmito-
-juçara tem o nome científico de Euterpe edulis e pertence à família das
Palmae. Sua maior incidência ocorre do sul da Bahia ao Rio Grande do
Sul. Sua árvore atinge 15 metros de altura com estipe6 de 10 a 20 centí-
metros de diâmetro. Floresce nos meses de setembro a dezembro e seus
frutos amadurecem de abril a agosto.
5 Representam estruturas
em forma de espinhos,
presentes nos caules dos ve-
Líquens – representam um grupo muito característico da Floresta Atlân-
getais, com a função de pro- tica. São organismos resultantes de uma associação de fungos (hifas)
teger a planta.
e algas (gonídias), numa relação harmônica denominada mutualismo7.
Ocorrem sobre os troncos e rochas da Mata Atlântica, podendo ser foliá-
ceos, crustáceos ou filamentosos.
6 Tipo de caule presente
nesta variedade de árvo-
re, sendo caracterizado pela Estão presentes sobre os troncos das árvores e nas rochas no interior da
formação anelar e composto
por uma madeira de grande mata. Dependem de muita umidade e ocorrem nos sub-bosques devido a sua pou-
resistência.
ca tolerância à luminosidade. São bioindicadores, ou seja, apresentam intolerância
à poluição, o que evidencia locais sem impactos atmosféricos incidentes.
7 Representa uma relação
harmônica interespecífi-
ca, em que os dois indivíduos
apresentam uma dependência
física e fisiológica. No caso
Fauna
dos líquens (uma associação
de fungos e algas) as células A fauna da Mata Atlântica apresenta um elevado endemismo e uma grande
dos fungos (hifas) fornecem
suporte, CO2 e água para a
biodiversidade. Entre os mamíferos, muitos se mostram como espécies vulnerá-
alga (gonidia), e ela fornece veis em virtude do extremo grau de comprometimento dos seus habitats. A seguir
alimento para este mesmo
fungo. descrevemos alguns desses espécimes relevantes:

34
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

Mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides) – é um primata endêmico da


Mata Atlântica. É o maior macaco das Américas, podendo atingir até
15 quilos. Existe uma grande preocupação com a redução da densidade
populacional deste animal, devido ao atual estado de fragmentação da
Mata Atlântica, essa espécie está ameaçada de extinção. Sua área de vida
original se configurava nos estados de São Paulo, Espírito Santo, Minas
Gerais, Rio de Janeiro e no sul da Bahia. Hoje, predominam nas matas
ombrófilas densas da região costeira e também florestas semidecíduas
do interior, principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e,
algumas famílias no Rio de Janeiro.
Mico-leão-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) – também é
uma espécie endêmica da Mata Atlântica, especialmente encontrada no
sul da Bahia. Apresenta como características fundamentais a cara aver-
melhada e as mãos pretas. Seus hábitos alimentares o classificam como
frugívoro-insetívoro e uma característica importante e comum às espé-
cies de micos-leões é o uso de buracos nos troncos das árvores como
abrigo, especialmente para dormitório. Ainda encontram-se com uma
densidade populacional aceitável para espécies em equilíbrio e progra-
mas recentemente estabelecidos para manter-se uma população viável
em cativeiro têm sido muito bem sucedidos. Com financiamento inter-
nacional da WWF (World Wildlife Fund) foi implementada a Reserva
Biológica de Uma (Bahia), única área protegida na qual a espécie pode
ser encontrada.
Bicho-preguiça (Bradypus variegatus) – recebe esse nome devido aos
seus hábitos de movimentos lentos e silenciosos, permanecendo quase
todo o tempo nas árvores e dormindo 14 horas por dia. Alimentam-se
de brotos das folhas e podem ser encontrados no solo quando estão mi-
grando de uma árvore para outra. Sua pelagem o camufla nas árvores,
permitindo assim uma proteção contra seus predadores. É encontrado
nas florestas tropicais da Mata Atlântica e da Amazônia, em diversos
países da América do Sul e da América Central. Existem alguns grupos
ameaçados de extinção, entre eles estão o bicho-preguiça comum e o de
coleira, encontrados no sul da Bahia. A extinção foi desencadeada pelo
intenso desmatamento promovido na Mata Atlântica. Animais de hábitos
solitários, os machos e as fêmeas só se encontram para acasalar. A gesta-
ção dura de seis a oito meses, nascendo apenas um filhote, entre os meses
de agosto e setembro. Quando adulto, um bicho-preguiça pode pesar até
cinco quilos e medir 59 centímetros da ponta do nariz a ponta da cauda.
O filhote mama durante um mês, permanecendo com a mãe até os cinco
meses, para aprender a se locomover e se alimentar sozinho. Atualmente,
o homem é seu principal predador, já que os predadores naturais, aves de
rapina e grandes felinos, estão em extinção também.
Gato-do-mato (Felis tigrina) – representa o menor gato selvagem da
América do Sul, sendo que sua estrutura corporal se assemelha bastante
à do gato doméstico. Sua pelagem é semelhante à da jaguatirica, com

35
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

presença de estrias transversais escuras na cauda e rosetas com manchas


escuras circulares na porção lateral do corpo. Caracteriza-se pela extre-
ma agilidade e pela capacidade de caçar pequenos animais. Está amea-
çado devido à perda de habitat e à captura ilegal para a comercialização
de peles. É encontrado na América do Sul e Central, e no Brasil está
presente na maioria dos ecossistemas, inclusive na Mata Atlântica.
Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) – espécie endêmica do Brasil, mui-
to característica da região de restinga. Alimenta-se de frutos e insetos
e, em especial, das espigas de embaúba. Ainda é comum nas áreas nas
quais há vegetação de restinga, podendo aparecer em loteamentos bem
arborizados. Infelizmente, a ocupação descaracteriza o ambiente natural,
prejudicando a sobrevivência dessa espécie, principalmente na região li-
torânea.
Cobras – o Brasil abriga cerca de 10% das espécies de cobras do mun-
do (2 500), cerca de 10% delas têm a capacidade de produzir veneno
(peçonhentas)8.
Como representante destes animais temos a jararaca Bothrops jararaca.
Essa cobra está distribuída por todo o Brasil. Por causa dessa amplitude
de ambiente, as jararacas são as campeãs em acidentes com os seres hu-
manos. Podem chegar até 1,6 metro de comprimento e alimentam-se,
principalmente, de roedores. Elas têm mais de 60 filhotes, que já nascem
desenvolvidos e que são capazes de dar uma picada venenosa 20 minutos
depois de terem nascido.

Conclusões
Nesta aula apresentamos parte do ecossistema da Mata Atlântica. Destacamos
a sua localização e enfatizamos suas características gerais, tais como: sua impor-
tância no abastecimento de água para a população das grandes cidades brasileiras.
Entendemos as diversas formas de classificá-la, quanto à formação vegetal.
8 Animais peçonhentos são
aqueles que, além de terem
o veneno, possuem um órgão
para injetá-lo. O veneno é uma Identificamos as características mais importantes na formação desse bioma,
secreção que funciona para a
captura e digestão do alimen-
tais como as adaptações dos seres vivos e as condições variáveis que ele oferece.
to e, também, como defesa do Ainda caracterizamos sua diversidade biológica por meio da exemplificação de
animal contra os seus agres-
sores. exemplares da fauna e da flora, bem como a importância de sua preservação.

36
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

Pau-brasil
(MORETTI apud LOPES, 2002)
O pau-brasil (Caesalpinia echinata) é uma leguminosa nativa da Mata Atlântica. Trata-se de
uma planta que já atingiu até 30 metros de altura. Floresce desde o final do mês de setembro até
meados de outubro. Entre os meses de novembro e janeiro ocorre a maturação dos frutos.
Os índios chamavam essa árvore de ibirapitanga, que significa pau-vermelho. Eles utiliza-
vam-na na pintura de enfeites e na confecção de arcos e flechas. Com os índios, os colonizadores
conheceram o corante vermelho extraído do cerne da árvore: a brasileina, que era largamente usa-
da como tinta para escrever e na coloração de roupas da nobreza. A madeira do pau-brasil servia
de matéria-prima nas indústrias civil e naval.
O comércio e a exploração do pau-brasil tiveram início em 1503, e, por um período de apro-
ximadamente 30 anos, a árvore foi mantida como único recurso explorado pelos colonizadores,
gerando bastante riqueza à coroa. Estima-se que, no século XVI, cerca de 2 milhões de árvores
tenham sido derrubadas. Foram 375 anos de exploração indiscriminada. Diante disso, após a in-
dependência do Brasil, a árvore já era considerada rara.
Além da exploração abusiva para o comércio, o pau-brasil foi e tem sido ameaçado pelo in-
tenso desmatamento da Mata Atlântica. Atualmente, é muito difícil encontrá-lo em estado natural,
a não ser em áreas de preservação. Apesar de ameaçado de extinção, sua exploração ainda ocorre
em locais em que há pouca vigilância.
Hoje, o pau-brasil é cultivado para ornamentação e exportação. Graças à sua textura e resis-
tência, sua madeira é muito indicada para a fabricação de violinos, tendo sido por isso exportado
para a Europa.
Em 7 de dezembro de 1978, com a promulgação da Lei 6.607, o pau-brasil tornou-se a Árvore
Nacional e o dia 3 de maio tornou-se sua data comemorativa.

1. Faça um levantamento das adaptações da vegetação da Mata Atlântica em decorrência da


água.

37
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica I

2. Identifique os tipos de solo encontrados na Floresta Atlântica.

3. Faça uma pesquisa da classificação dos líquens como bioindicadores.

BANKS, Martin. Preserve as Florestas Tropicais. São Paulo: Scipione, 1997.


DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Boletim Informativo, Ago./Set. n. 9, 1999.

38
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

N
esta aula estudaremos a Floresta Atlântica, destacando o seu processo de exploração pelos co-
lonizadores e a ocupação pela sociedade brasileira, ressaltando os momentos históricos após a
colonização com uma postura espoliativa evidenciada pelos ciclos do pau-brasil, do açúcar e
do café. Também entenderemos a relação desse manejo com os impactos ambientais mais significativos
na mata.

Aspectos socioeconômicos
A Floresta Atlântica representa a porta de entrada do Brasil, uma vez que se encontra distribuída
por toda a costa brasileira. Foi nesse ecossistema que os portugueses aportaram no ano de 1500, em
especial na região de Porto Seguro, no sul da Bahia.
Cerca de três anos após o descobrimento, os portugueses perceberam a imensa riqueza dessa
mata e, utilizando-se do conhecimento dos povos indígenas, os colonizadores iniciaram o ciclo do
pau-brasil.
O objetivo central era o desbravamento do território da colônia Terra Brasilis e na realidade o
tipo de colonização, denominado pelos historiadores como Colonização de Exploração, era calcado
numa postura de transferência das riquezas para o país colonizador, promovendo o enriquecimento
da metrópole.
Estima-se que a mata ocupava aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados e que se
estendia por todo o Brasil. Os portugueses utilizaram a mão de obra indígena e, posteriormente, a
dos negros africanos para viabilizar este ciclo de exploração.
Durante três séculos houve uma intensa exploração do pau-brasil, utilizado na fabricação de
corantes para tingimento e produção de caixotes, até que os portugueses perceberam que havia mais
contrabando do que produção oficial. Também houve a produção de novos corantes a partir de poços
de alcatrão, o que desvalorizou a exploração do pau-brasil (1859).
Com o desmatamento, principalmente no Nordeste, onde havia florestas de pau-brasil, abriu-se
espaço para a instalação de outras lavouras, e, aproveitando as terras férteis do local, foi sendo culti-
vado o açúcar. A madeira derrubada alimentava os fornos das usinas e os canaviais foram avançando
sobre a floresta.
Ainda neste período, o homem buscava novas alternativas para sua expansão e depois do século
XVII veio o momento de maior devastação com o ciclo do café, que perdurou até meados do século
XIX, principalmente na região sudeste.
Outra forma de exploração da floresta foi pela mineração. Motivados pela descoberta de ouro
em Minas Gerais, os colonizadores desmataram grandes áreas para o desenvolvimento da atividade.
Um aspecto significativo a ser destacado foi a exploração da fauna da Mata Atlântica, fato este
que agravou o impacto ambiental sobre as espécies animais, uma vez que os mesmos já se encon-
travam ameaçados pela fragmentação do seu ambiente e passaram a ser caçados para exportação
de seu couro, peles, penas, carapaças ou simplesmente pela sua exuberância. Hoje, muitas espécies
encontram-se ameaçadas de extinção ou já desapareceram.
39
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

Com o desenvolvimento tecnológico e da sociedade humana há uma expan-


são e a Mata Atlântica apresenta-se como um bioma com grandes atrativos, entre
eles podemos destacar:
localizada próximo ao mar, o que facilita a chegada de matéria-prima e
escoamento da produção;
solo muito fértil, o que permite uma agricultura forte;
abundância de água, sendo fundamental para atender a população e
suprir os processos industriais;
suas belezas naturais atraem a população para moradia.

Impactos ambientais
A Floresta Atlântica apresenta um grau de impactação elevado. Isto reflete
um histórico de exploração econômica inadequada e a falta de planejamento na
utilização dos recursos naturais oferecidos pelo ecossistema.
Outro fator significativo foi a densidade populacional. Desde o descobri-
mento, a população se instalou nesse local e alguns dados de pesquisa do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – indicam que 70% da população
brasileira vive em áreas da Floresta Atlântica, o que representa aproximadamente
130 milhões de pessoas.
Nesse bioma estão localizadas as maiores e mais produtivas cidades brasile-
iras, respondendo por 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Fica evidente que a Flo-
resta Atlântica sofre uma pressão antrópica muito grande, desde o descobrimento
do Brasil e, principalmente, pelo modelo econômico desenvolvido atualmente.
Como consequência desses fatores, houve uma redução significativa da
cobertura da mata, estima-se que 93% da cobertura original já desapareceu.
O desmatamento não ficou restrito ao pau-brasil. Madeiras consideradas
nobres como canela, jacarandá, canjerana, hoje só são encontradas em áreas de
unidades de conservação ou em florestas secundárias1.
Outro impacto ambiental evidente é a exploração do palmito Euterpe
edulis. Essa espécie de vegetal produz no topo de seu caule (estipe) um talo sa-
boroso e muito apreciado pelo homem, o que resulta numa exploração excessiva
dessa palmeira.
O impacto sobre essa espécie é ainda maior devido à maneira como é explo-
rada, ou seja, as árvores são retiradas da mata antes de seu período de frutificação,
o que impede a produção de novas sementes e a continuidade dos indivíduos.
Quando jovem, a árvore produz um palmito menor e para alcançar uma produ-
1 Esta classificação é utili-
zada para caracterizar re- tividade comercial o catador tem que derrubar uma maior quantidade delas, o que
giões de mata que já sofreram
um processo de desmatamen- causa um impacto ainda mais significativo.
to e posterior reflorestamen-
to. Algumas espécies são tí- Um grave problema quanto à extração clandestina de palmito e o seu pro-
picas dessas matas, tais como
a embaúba. cessamento, segundo dados da Secretaria de Saúde de São Paulo, é que a indústria
40
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

de palmito representa o maior risco epidemiológico, esse fato se deve à forma de


produção e conservação inadequadas e sem fiscalização.
Os consumidores do palmito correm o risco de adquirirem a bactéria
Clostridium botulinum, agente causador do botulismo2.
O desmatamento da Floresta Atlântica também desencadeou dois graves
problemas, sendo o primeiro a ocupação desordenada das encostas (2/3 da po-
pulação ocupa essa área com a finalidade de moradia), porém, essa prática resul-
ta na exposição do solo aos efeitos das intempéries naturais3, que somando-se à
retirada das raízes que sustentam o solo resulta em deslizamentos e acidentes com
mortes, principalmente nos períodos de chuvas. O segundo foi a retirada da mata 2 Doença causada pela to-
xina da bactéria Clostri-
dium botulinum que se desen-
ciliar4, promovendo o assoreamento com diminuição dos leitos dos rios e aumento volve na ausência de oxigênio
(anaeróbias estritas), sendo
das inundações. encontrada em conservas.
Sua toxina ataca o sistema
Identificamos ainda o impacto do desmatamento com o objetivo de produção nervoso central, provocan-
do a paralisia dos músculos
de energia através dos recursos da Floresta Atlântica. A Mata Atlântica foi muito respiratórios e do coração,
acarretando morte rápida da
utilizada como fornecedora de lenha para as indústrias, principalmente nas dé- pessoa contaminada.

cadas de 1940 a 1960, no século XX. Ainda hoje, a madeira para produção de
energia representa 22% do funcionamento das indústrias.
3 São fenômenos da natu-
reza, tais como incidência
de sol, ventos, chuvas, calor,
reações com gases da atmos-
fera, que provocam a desagre-

Conclusões gação das rochas e permitem


a formação do solo.

Nesta aula estudamos a evolução histórica da ocupação da Floresta Atlân-

4
tica, destacando a exploração predatória do pau-brasil, os ciclos do açúcar e do Representa a mata que
café como extremamente impactantes à mata. Identificamos o desenvolvimento ocupa as margens dos
cursos de água, inclusive os
da sociedade brasileira ocupando principalmente esta região e concentrando 80% rios, sendo fundamental para
o escoamento das águas da
do PIB do país neste bioma. Ainda evidenciamos o desmatamento como o prin- chuva, diminuição do pico de
cheia, estabilidade das mar-
cipal impacto ambiental da mata e sinalizamos que sua redução chegou a 7% da gens e ciclo dos nutrientes
nos corpos hídricos.
sua cobertura original.

500 anos de desmatamento


(SILVEIRA, 2000, p. 12)
Os 500 anos do Brasil na área ambiental foram marcados pela destruição. A área desmatada
dos três maiores biomas – Floresta Amazônica, Mata Atlântica e Cerrado – totaliza 2,7 milhões
de quilômetros quadrados ou 31,7% do território nacional e 62 vezes a superfície do estado do Rio
de Janeiro.
As principais vítimas do desmatamento foram a Mata Atlântica e a Mata de Araucária. Do
período colonial até hoje, a Mata Atlântica perdeu 93% de sua área, que originalmente cobria
1,3 milhão de quilômetro quadrado ao longo do litoral. A Mata de Araucária, no Sul do país,
está reduzida a apenas 2% da cobertura original. O cerrado perdeu 50%, ou 1 milhão de quilô-
metros quadrados da cobertura original desde o início de sua ocupação, na década de 1950. Já a

41
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

Amazônia, nos últimos 25 anos, teve destruída cerca de 15% da floresta ou 551 mil quilômetros
quadrados.
O nível de destruição ambiental a que chegamos nos primeiros cinco séculos de história do
Brasil é alarmante, e as próximas gerações estarão condenadas a um futuro sombrio, se não apren-
dermos a valorizar e usar de forma racional os recursos naturais.
Os ciclos econômicos do Brasil Colônia são exemplos da exploração predatória dos recursos
naturais. Grandes extensões de Mata Atlântica foram destruídas para abrir espaço para os cana-
viais. Calcula-se que para cada quilo de açúcar produzido queimaram-se cerca de 15 quilos de
lenha.
A atividade econômica do século XVIII foi dominada de forma predatória pela mineração
do ouro e dos diamantes. Encostas foram desmatadas, rios foram dragados e tiveram o curso
desviado. Pelo menos 100 toneladas de mercúrio foram utilizadas na extração do ouro em Minas
Gerais.
No século XIX, o ciclo do café também destruiu o meio ambiente. O plantio foi feito no Brasil
em áreas desmatadas da Mata Atlântica. Para cada hectare que se pretendia abrir para a lavoura,
destruíam-se de 5 a 10 hectares pelo fogo descontrolado.
Já no século XX, começaram a ser destruídos o cerrado e a Floresta Amazônica.
Desde os anos 1950, o mercúrio vem sendo usado nos garimpos. A fronteira agrícola conti-
nua em expansão. Ocorrem 30 mil focos de queimadas por mês no país durante a época da seca e
os desmatamentos nas encostas provocam erosão e enchentes.
Apesar da destruição, ao longo destes cinco séculos, o Brasil ainda possui 10% das florestas
do mundo, 13% de toda a água doce e cerca de 20% de todas as espécies.

1. Faça um levantamento dos aspectos históricos dos ciclos do pau-brasil, do açúcar e do café
no Brasil.

42
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

2. Identifique os tipos de impactos ambientais característicos da Mata Atlântica.

3. Demonstre as consequências do desmatamento como principal impacto ambiental da Flo-


resta Atlântica.

43
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica II

<www.sosmataatlantica.org.br>
<www.ibama.gov.br>
<www.educacional.com.br>

44
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

N
esta aula identificaremos os principais mecanismos e estratégias de con-
servação da Mata Atlântica. Apresentaremos os programas de pesquisa
relacionados a este ecossistema, e ainda as práticas de Educação Am-
biental que utilizam a Mata Atlântica como tema gerador. Destacaremos as ONGs
que têm como objetivo a preservação e a conservação dos remanescentes deste
ecossistema e alguns aspectos técnicos destes trabalhos.

Situação atual
A Floresta Atlântica, hoje, possui apenas cerca de 100 mil quilômetros qua-
drados, o que representa 7% de sua cobertura original. Os estados brasileiros em
que a floresta possui a maior densidade de mata estão localizados nas regiões sul e
sudeste (RJ, SP, MG, ES, PR). Este fato é justificado pelo tipo de formação de re-
levo nestes estados, que são caracteristicamente acidentados e consequentemente
dificultam, em muito, o processo de ocupação humana.
Esta área está distribuída em 456 manchas verdes e, mesmo sendo um res-
quício da cobertura original da floresta, ainda apresenta uma extensão maior que
a Espanha e França juntos.
O principal agente de pressão sobre a mata é o desmatamento e esta prática
ocorre continuamente em grandes cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São
Paulo. Alguns pesquisadores destacam e sinalizam que num prazo de 50 anos a
mata só restará em unidades de conservação.
O que nos causa espanto e apreensão é que a Mata Atlântica abriga 100 mi-
lhões de pessoas e concentra 80% do produto interno bruto. Este fato é relevante
para o equilíbrio socioeconômico do país.
Muitas empresas e pessoas utilizam os mananciais alimentados por essas
matas para os seus processos produtivos e para sua sobrevivência. Além desse
papel em regular o fluxo dos recursos hídricos, a mata mantém o equilíbrio das
encostas e escarpas garantindo a manutenção das mesmas. Também fica evidente
a preocupação com a manutenção da maior biodiversidade de árvores do planeta.

Hotspots – “zonas quentes”


A Mata Atlântica e o cerrado foram os dois biomas brasileiros classificados
pela Conservação Internacional (CI) como hotspots1 e figuram agora numa lista 1 São ambientes que apre-
sentam mais de 50% de
de 34 ambientes no planeta. Esta classificação é preocupante, pois significa que sua vegetação original perdi-
da e que possuem intenso en-
demismo. Esta classificação
esses ambientes apresentam um elevado grau de impactação, também apresenta implica em soma de esforços
o lado positivo, que implica em medidas de conservação e preservação, além de para que haja mecanismos de
controle e tentativa de recu-
financiamentos de instituições nacionais e internacionais. peração do ambiente.

45
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

Medidas para reversão do quadro


Criação de unidades de conservação
A Mata Atlântica apresenta 3% de sua área atual incluída em unidades de
conservação, existem discussões polêmicas quanto a esta alternativa ser a mais
viável para a solução dos problemas em áreas degradadas. Alguns cientistas de-
fendem que a criação de mais unidades de conservação favorece a exploração
exacerbada das áreas que não estão inclusas nestes locais.
A ciência que se ocupa em estudar e discutir as melhores formas de delimi-
tar essas áreas é a Biologia da Conservação, que estabelece alguns critérios, tais
como:
distribuição das espécies;
diversidade das espécies;
endemismo;
ameaça.

Corredores ecológicos
Outra medida adotada é a criação de corredores ecológicos. Esse tipo de
técnica consiste em unir, através de reflorestamento, áreas de mata impactadas
pelo desmatamento. Esta forma de recuperação da Mata Atlântica permite que
populações que se encontravam isoladas voltem a se encontrar. Isto favorece a
dispersão de vegetais e o fluxo gênico entre as populações de animais. Também
favorece o equilíbrio climático e a recuperação da paisagem, além de manter e
estimular a revitalização do solo.
Esses corredores podem integrar áreas de unidades de conservação de
diversos tipos (parques, reservas, Apas etc.) tanto públicas quanto privadas.
Entre os benefícios dos corredores ecológicos, podemos evidenciar:
aumento do fluxo de genes;
movimentação da biota;
maior possibilidade de dispersão das espécies;
favorecimento de populações que necessitam de grandes áreas de vida;
possibilidade de repovoamento de áreas degradadas.

Regeneração espontânea
2 Conceito é caracteriza-
do pelo aparecimento de
um novo ambiente em uma
Seguindo os princípios da sucessão ecológica2, é uma técnica muito inte-
área que se formou (em ilha ressante, uma vez que apresenta um baixo custo e utiliza mecanismos da própria
oceânica) ou ainda pela trans-
formação de um ambiente já natureza do local. Com essa forma de atuar deixamos a natureza se recuperar
existente (ex.: lago que vira
um campo). sozinha, interrompendo os fatores de impactos e pressão antrópica no local.

46
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

Este tipo de estratégia depende de fatores, tais como:


presença de bancos de sementes nativas ao redor;
isolamento da área;
restrição às espécies exóticas;
grande intervalo de tempo.
Podemos destacar algumas desvantagens desse tipo de manejo, entre elas a
menor diversidade da mata resultante; a competição com espécies pioneiras, que
tendem a colonizar mais intensamente o local; e a demora na recuperação.

Reflorestamento
Esta técnica de manejo consiste em ajudar a floresta a se recuperar através
do plantio de mudas de espécies nativas. Nesse caso existem ganhos significativos
quanto à economia de tempo e à manutenção da diversidade biológica das espécies
de vegetais, porém é um tipo de atividade que demanda um investimento maior.
Estudos demonstram que uma área de Floresta Atlântica, que promove sua
regeneração espontaneamente, demora 40 anos para se recuperar e a mesma área
com reflorestamento promove sua recuperação em 10 anos.
Neste manejo alguns cuidados são fundamentais:
replantar uma grande variedade de espécies;
plantar as espécies respeitando seu tempo de crescimento;
garantir uma sucessão;
controlar o desenvolvimento das mudas.

Fiscalização
O papel dos governos nas três esferas (municipal, estadual e federal) é fun-
damental. Eles devem trabalhar em conjunto na defesa dos remanescentes flores-
tais da Mata Atlântica. Alguns municípios/estados já criaram seus conselhos de
meio ambiente e suas polícias florestais, o que os torna ativos no combate à ação
dos homens sobre esse bioma, por meio de programas de conscientização e de
manutenção de áreas de preservação permanente nos locais.

Programas para a Mata Atlântica


Neste item apresentamos alguns programas de manejo sustentável e de re-
cuperação da Floresta Atlântica. Esses programas são implementados a partir de
iniciativas do poder público, da sociedade civil organizada e de instituições do
terceiro setor.

47
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

Subprograma Mata Atlântica


(Fonte: Ministério do Meio Ambiente dos Recursos Hídricos e Amazônia Legal – MMA)

Teve seu início a partir da aprovação, na Reunião dos Participantes em ou-


tubro de 1999, do Plano de Ação da Mata Atlântica.
As diretrizes do subprograma foram definidas como:
1. proteção da biodiversidade;
2. representatividade das diferentes fisionomias e unidades biogeográficas
que compõem o bioma;
3. desenvolvimento das pesquisas necessárias à implementação dos proje-
tos e ações desenvolvidos no âmbito do subprograma;
4. livre acesso e divulgação dirigida dos resultados obtidos;
5. fortalecimento institucional das organizações públicas, comunitárias e
privadas responsáveis pela implementação de projetos e atividades de-
senvolvidas no âmbito do subprograma;
6. compatibilização de políticas setoriais;
7. financiamento de projetos e atividades relacionadas à utilização econô-
mica de recursos florestais restrita à exploração de produtos não madei-
reiros.
Objetivos
– contribuir para a redução do processo de empobrecimento biológico e
cultural da Mata Atlântica;
– contribuir para a redução do desmatamento e queimadas;
– contribuir para a recuperação, regeneração, proteção, conservação,
valorização e uso apropriado dos recursos da Mata Atlântica;
– aumentar a quantidade de hectares de áreas protegidas na Mata Atlân-
tica;
– ações de capacitação, proteção e regularização fundiária das terras
das populações tradicionais e indígenas da região;
– apoiar a integração do manejo com a ocupação urbana nas áreas de
influência, entorno, tampão ou amortecimento de unidades de conser-
vação.

Projeto Manejo Regenerativo de


Ecossistemas Associados à Mata Atlântica
(<www.apremavi.org.br>)

Responsáveis pelo projeto: Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura


Alternativa (AS-PTA), nos municípios de São Mateus do Sul e Bituruna, no Es-
tado do Paraná.
48
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

O objetivo é alcançar o desenvolvimento sustentado em pequenas proprie-


dades rurais.
O projeto
– Sistemas produtivos de erva-mate (Ilex paraguariensis) integrados ao
manejo regenerativo das Florestas de Araucária.
– Rompimento do ciclo de degradação ambiental através da conserva-
ção dos recursos naturais e da promoção da melhoria de qualidade de
vida das populações locais.
– Capacitação de 40 técnicos e 1 003 agricultores da região.
– Preservar e recuperar a Mata Atlântica e ao mesmo tempo melhorar a
renda e a qualidade de vida do agricultor.

Projetos de Sequestro de Carbono


Desde a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, os países deveriam
reduzir e controlar até 2008-2012 as emissões de gases que causam o efeito estu-
fa, reduzindo-os em aproximadamente 5% em relação aos níveis registrados em
1990.
Baseando-se nesta proposta foram criados os projetos de Sequestro de
Carbono:
São projetos que vêm sendo implantados pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem
(SPVS) na região de Guaraqueçaba no litoral do estado do Paraná. Os projetos têm como
meta a fixação de 2,5 milhões de toneladas de carbono, em 40 anos. É premissa da SPVS
e exigência dos parceiros financiadores, que os projetos também ofereçam outros resulta-
dos, como a recuperação florestal, ações de conservação do meio ambiente e alternativas
de geração de renda para as comunidades que vivem próximas às suas áreas de influência
e a preservação da biodiversidade da Mata Atlântica da região.
A SPVS adquiriu e transformou em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)
uma área de 20 mil hectares, nesta área está sendo promovida a conservação da biodiver-
sidade, a restauração florestal em áreas degradadas, o enriquecimento de florestas secun-
dárias e o desenvolvimento rural sustentável junto às comunidades do entorno.
Os projetos fazem parte da ação contra o aquecimento global e pretendem contribuir para
combater o fenômeno negativo das mudanças climáticas, provocado pelo efeito estufa.
O último relatório divulgado do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da
ONU, divulgado em 12 de julho 2001, afirma que as temperaturas globais vão aumentar
de 1,4 a 5,8ºC até o fim do século. Tal aumento é quase duas vezes maior que o previsto
há cinco anos.

Projeto Mico-leão-dourado
Este programa é realizado pelo Ibama em parceria com oito municípios do
estado do Rio de Janeiro, em especial os de Silva Jardim e Casimiro de Abreu,
principal área de ocorrência da espécie.
Objetivo – Preservar o mico-leão-dourado ameaçado de extinção.
Projeto – Análise de viabilidade de população e de habitat (informações
sobre os animais e seu habitat).
49
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

Ações
– pesquisa genética;
– estudo de comportamento;
– ecologia dos animais;
– reprodução;
– aumento da área de reserva (Poço das Antas).
Para considerar o mico-leão-dourado salvo da ameaça de extinção, será
necessário alcançar até o ano 2025, uma população de 2 mil micos vivendo li-
vremente em seu ambiente natural. Para isso, são necessários 25 mil hectares de
florestas protegidas.

Conclusões
Nesta aula estudamos a situação atual do bioma Mata Atlântica. Identifi-
camos a grave situação de seus remanescentes (apenas 7%). Apresentamos as al-
ternativas adequadas ao manejo sustentável para recuperação da floresta, entre
as alternativas destacamos a sucessão espontânea e o reflorestamento. Também
identificamos algumas ações e instituições responsáveis pela recuperação da fau-
na e da flora, e como pontos relevantes o programa do Governo Federal para recu-
peração da mata e o Projeto Mico-leão-dourado.

Protocolo de Kyoto e o sequestro de carbono


(WWF, 2005)
O Protocolo de Kyoto é um instrumento para implementar a Convenção das Nações Unidas
sobre mudanças climáticas. Seu objetivo é que os países industrializados (com a exceção dos EUA
que se recusam a participar do acordo) reduzam (e controlem) até 2008-2012 as emissões de gases
que causam o efeito estufa em aproximadamente 5% os níveis registrados em 1990. Importante
ressaltar, no entanto, que os países assumiram diferentes metas percentuais dentro da meta global
combinada. As partes do Protocolo de Kyoto poderão reduzir as suas emissões em nível doméstico
e/ou terão a possibilidade de aproveitar os chamados “mecanismos flexíveis” (Comércio de Emis-
sões, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e a Implementação Conjunta). Esses mecanismos
servirão também para abater as metas de carbono absorvidas nos chamados “sorvedouros”, tais
como florestas e terras agrícolas. Os países que não conseguirem cumprir as suas metas estarão
sujeitos a penalidades.
Os países terão de mostrar “progresso evidente” no cumprimento de suas metas até 2005.
Considerando o tempo preciso para que a legislação seja implementada, é importante que os
governos atuem de forma rápida para que o Protocolo entre em vigor. O Protocolo de Kyoto não
possui novos compromissos para os países em desenvolvimento além daqueles estabelecidos na

50
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

Convenção sobre o Clima das Nações Unidas de 1992. Isto está de acordo com a Convenção, para
a qual os países industrializados – os principais responsáveis pelas emissões que causam o aque-
cimento global – devem ser os primeiros a tomar medidas para controlar suas emissões.

Critérios para a entrada em vigor


O Protocolo possui dois critérios para que entre em vigor. Primeiro, pelo menos 55 países
membros da Convenção sobre o Clima devem ratificar, aceitar, aprovar e aderir ao Protocolo. Em
segundo lugar, esse número deve incluir os países membros listados no Anexo 1 do Protocolo
(os países industrializados), os quais são responsáveis por 55% das emissões totais de dióxido de
carbono no planeta. O Protocolo entrará em vigor após um prazo de 90 dias do cumprimento dos
critérios estipulados. 83 países membros firmaram e 46 países membros ratificaram o Protocolo
em 11 de dezembro de 2001, sendo quase todos países em desenvolvimento. A barreira principal
à entrada em vigor do Protocolo encontra-se em conseguir um número suficiente de ratificações
dos principais emissores de CO2 visando o comprometimento dos responsáveis por pelo menos
55% das emissões globais.

1. Faça uma análise comparativa entre sucessão espontânea e reflorestamento, destacando os pon-
tos positivos e negativos de cada um.

2. Identifique os benefícios decorrentes da implantação de corredores ecológicos.

51
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata Atlântica III

3. Demonstre as principais ações do governo federal na tentativa de reverter o quadro de impacta-


ção do bioma Mata Atlântica.

<www.sosmataatlantica.org.br>
<www.ibama.gov.br>
<www.apremavi.org.br>

52
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I
Marcia Lapa Frasson*

Geografia

O
Pantanal é uma reserva da biosfera, patrimônio da
humanidade, que permite mostrar o que o Brasil
representa em termos de conservação. Conser-
vação esta que é de fundamental importância para se man-
ter a biodiversidade local, a vida do homem pantaneiro e
um projeto de desenvolvimento sustentável.
O Pantanal Mato-grossense é considerado a maior
área úmida do planeta, aborda um conjunto de pantanais que fazem
parte da bacia do Alto Rio Paraguai e compreende uma área de 133 465
quilômetros quadrados, situada entre as coordenadas 14º e 22º de latitude
sul e 53º e 59º de longitude oeste, em território brasileiro, limitado ao sul
pela serra da Bodoquena, a oeste pelo rio Paraguai, e por planaltos e chapa-
das à leste e ao norte. Cerca de 80% dessa planície localiza-se em território
brasileiro.
Compreende os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, sendo o
ponto mais elevado do planalto central brasileiro, com altitude variando entre 100
metros e 200 metros.
Ainda que o Pantanal se encontre em maior parte no Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul, no Brasil, uma parte pequena, porém não menos importante, lo-
caliza-se à leste de Santa Cruz, na Bolívia e ao norte do Paraguai (no Paraguai
recebe o nome de Planície do Chaco).
Pese que a atenção mundial se tem centrado nos esforços de conservação do
Brasil, o Pantanal boliviano também pode ter uma grande importância biológica
devido à existência de grandes extensões de cerrados e bosques secos, em inter-
valos que formam a periferia ocidental desta região.
A região do pantanal é rica em diversidades paisagísticas, com capões, cor-
dilheiras, baías, salinas e outros aspectos, que por serem característicos, são co-
nhecidos por nomes regionalizados em sua classificação.
Pode apresentar depressões e partes mais elevadas que não sofrem inunda-
Licenciada em Ciências
ções e recebem o nome de cordilheiras. As partes mais baixas, sujeitas a inunda- Biológicas pela UFPR. Pós-

ções, recebem o nome de baías ou largos. Podem aparecer morros isolados como
-Graduada em Análise Am-
biental pela UFPR e Magis-
tério Superior pelo Ibpex, de
é o caso do Maciço do Urucum, próximo a Corumbá. Curitiba/PR.

53
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

Diferentes feições bastante peculiares e de denominação regional:


baías – são as lagoas temporárias ou permanentes, de formas e dimen-
sões variadas;
cordilheiras – elevações arenosas, estreitas e alongadas, com vegetação
de cerrado e altura de até dois metros;
vazantes – escoadouros naturais da água na época das cheias, com vários
quilômetros de extensão e características de curso fluvial;
corixos – pequenos cursos fluviais perenes, de leito próprio, que ligam
“baías” contíguas.
A área total da bacia do Alto Paraguai é de 336 mil quilômetros quadrados e
engloba não só os pantanais, mas também as regiões serranas. Estas que se situam
fora do Pantanal e são muito importantes para a manutenção deste ecossistema.
O clima é tropical semiúmido, condicionado a elevadas temperaturas e a
baixa umidade, mesmo nos períodos mais chuvosos.

Pantanais
O Pantanal pode ser divido em formações diferenciadas, o que vai dar ca-
racterísticas também diferentes a cada região, por isso ele é dividido em diferentes
pantanais. Para podermos compreender melhor essa situação, apresentaremos a
seguir esses tipos de pantanais.
Descalvado
Formado principalmente pelos rios Corixo Grande, Jauru, Padre Inácio
e Paraguai. Com inundações de fraca a média e com formação vegetal
variando entre o cerradão e o campo limpo.
Poconé
Tem como rios principais o Cuiabá, o Bento Gomes e o Paraguaizinho.
Suas inundações variam de média a forte e a cobertura vegetal é carac-
terizada por campos sujos, cerradão, floresta de terras baixas, cerrado,
floresta estacional semidecidual aluvial.
Pirigara
Os rios que o formam são o Itiquira, o São Lourenço e o Cuiabá que
provocam inundações variando de fraca a média e a formação vegetal é
composta por cerradão, campo limpo, campo sujo e cerrado.
Paiaguás
Formação florestal de floresta estacional decidual aluvial e campo limpo.
Seus rios são o Paraguai e o Cuiabá que ocasionam inundações fortes.
Taquari
Com inundações que variam entre fraca, média e forte, é alimentado
pelos rios Taquari, Piquiri, Itiquira, Cuiabá, Paraguai, Abobral e Negro.
54
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

As formações vegetais predominantes são o cerradão, o campo limpo, o


campo sujo e o cerrado.
Negro
A vegetação compõe-se de cerrado, campo sujo, campo limpo, área de
tensão entre cerrado e vegetação chaqueana, floresta estacional decidual
aluvial. Dos rios Negro, Abobral e Aquidauana, provocam inundações
que vão de fraca a média e forte.
Miranda – Aquidauana
Sua vegetação caracteriza-se cerrado, campo sujo e campo limpo.
Seus rios contribuintes são Miranda e Aquidauana, que provocam
fortes inundações.
Tarumã – Jiboia
Apresenta média inundação ocasionada pelos rios Tarumã e Jiboia, pos-
sui uma vegetação característica de cerrado.
Nabileque – Jacadico
Possui vegetação chaqueana, caracterizando uma floresta estacional
decidual aluvial, com fortes inundações provocadas pelos rios Jacadi-
co e Nabileque.
Aquidabã
O cerrado é característico, e a fraca inundação é provocada principal-
mente pelo rio Aquidabã.
Branco – Amonguijá
Cerrado como vegetação característica, os rios Branco e Amonguijá pro-
vocam uma inundação classificada como fraca.
Apa
Formação vegetal cerrado e floresta aluvial, com fracas inundações pro-
vocadas pelos rios Apa e Perdido.

Hidrografia
A hidrografia do Pantanal é representada, principalmente, pelos rios Para-
guai, Cuiabá e Negro. Os outros rios são Corixo Grande, Jauru, Bento Gomes e
Paraguaizinho, Itiquira e São Lourenço, Taquari, Piquiri, Abobral, Aquidauana,
Jacadico e Nabileque, o Miranda, o Tarumã e o Jiboia, Aquibadã, Branco, Amon-
guijá, Apa e o rio Perdido.
Uma característica do Pantanal são as chuvas torrenciais que precipitam
anualmente em média 1 300 milímetros a 1 450 milímetros. Isso ocorre entre os
meses de outubro e março, sendo que de abril a setembro as terras encontram-se
enxutas, com pequenas lagoas. Este período de enchentes é considerado a época
de fertilização dos solos pela deposição de argila e detritos vegetais, que serão
depois absorvidos.
55
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

Fauna pantaneira
Considerada uma das grandes biodiversidades do planeta, a fauna diversifi-
cada e abundante é favorecida pela diversidade dos pantanais. O Pantanal possui
cerca de 80 espécies de mamíferos, 350 espécies de aves, 230 espécies de peixes
e cerca de 50 espécies de répteis. Citaremos alguns de seus representantes, entre
mamíferos, aves, répteis e peixes, sendo que alguns deles encontram-se ameaçados
de extinção.

Mamíferos
Capivara (Hidrochaeris hidrochaeris) – o maior roedor do planeta, vive
em bando, forma creches para cuidar de seus filhotes, habita locais pró-
ximos das águas que lhe servem de refúgio. É herbívora e faz parte da
cadeia alimentar, servindo de alimento para os carnívoros.
Ariranha (Pteronura brasiliensis) – com comportamento social bastante
ágil e agitado, é barulhenta. É um mamífero aquático.
Tamanduá-bandeira (Mymercophaga tridactyla) – vem sendo morto pe-
las queimadas, pela destruição de seu habitat e pelos cachorros das fa-
zendas. Alimenta-se principalmente de cupins.
Bugio (Allouata caraya) – primata que vive em bandos, possui olhos
grandes posicionados na frente da face e com pálpebras bem desenvol-
vidas. A cauda é preênsil, usada como quinto membro. Possui grande
dilatação do osso hioide na garganta, o qual permite a emissão de um
som rouco e forte, sendo possível ouvi-lo a longas distâncias.
Quati (Nasua nasua) – habita as matas, onde é possível observá-lo sobre as
árvores a maior parte do tempo, mas também pode ser encontrado no chão.
Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) – o maior da América do
Sul, muito sensível a doenças introduzidas pelo gado. Está ameaçado de
extinção.
Onça-pintada (Panthera onca) – mamífero carnívoro da família dos felinos,
habita a beira das matas, vive solitária, reunindo-se apenas em épocas de
acasalamento. Possui uma característica peculiar que é a variação da quan-
tidade de melanina, pigmento que lhe dá a cor negra. Quando isso ocorre é
também chamada de pantera. Uma fêmea de onça pintada pode ter filhotes
negros, bem como a onça negra pode ter filhotes pintados.

Aves
Tuiuiú (Jabiru mycteria), também conhecido como jaburu – ave símbolo
do pantanal – é a maior das cegonhas brasileiras. Sua alimentação tem
como base peixes, rãs e insetos. Passa horas planando no céu e faz seus
ninhos no alto das árvores.
Arara-azul (Anadorhynchus hyacinthinus) – maior de nossas araras, chega
a um metro de comprimento. Pela destruição de seu habitat e o comércio
ilegal da fauna silvestre, a cada dia se torna um animal mais raro.
56
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

Arca-maguari (Ardea cocoi) – é a maior garça brasileira. Vive solitária,


alimenta-se de peixes, crustáceos e moluscos.
Tucanoçu (Ramphastos toco) – destaca-se pelo seu grande bico alaran-
jado, e por pular de galho em galho. Suas asas são curtas e seu voo é
planado. É o mais conhecido dos tucanos.
Socó-boi (Trigrisoma lineatum) – é observado geralmente imóvel. Pes-
cador atento, quando assustado emite um som semelhante ao mugido de
um boi e sai em voo.
Colhereiro (Platalea ajaja) – recebe este nome pela forma de seu bico,
parecido com uma colher, que usa para filtrar os alimentos na água. Sua
plumagem é de cor rósea como resultado da presença de carotenoides em
sua alimentação.
Gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) – habita os banhados. Com
seu bico fino e afiado captura grandes caramujos e crustáceos.

Répteis
Jacaré (Caiman crocodilus yacare) – vive nas proximidades dos rios, das
lagoas e dos banhados. Emite variados sons associados à comunicação
entre a espécie. Quando ocorre a época das secas, movimenta-se pelos
campos à procura de água na qual possa encontrar alimento e abrigo.
Apresenta hábitos noturnos.
Sucuri do Pantanal (Eunectes notaeus) – durante as frentes frias pode ser
encontrada nas árvores para se proteger dos ventos, mas seu habitat são
as águas dos rios. Não é peçonhenta, alimenta-se de animais do porte de
um jacaré ou uma capivara.

Peixes
Dourado (Salminus maxillosus) – de coloração dourada, veloz predador,
bastante ativo, dá grandes saltos fora da água. Durante a época de repro-
dução sobe as corredeiras para desovar em águas claras e tranquilas. É
um dos maiores peixes de escama de água doce. Chega a pesar 20 quilos
e medir 1,1 metro. Possui dentes finos.
Piraputanga (Brycon microcepsis) – sua sobrevivência está relacionada à
quantidade de alimento encontrada nas matas que circundam as margens
dos rios.
Piranha (Pygocentrus nattereri) – é o mais temido dos peixes, por ser um
carnívoro voraz. Ataca suas presas em grupo.
Cascudo (Locariidae) – bastante comum no leito dos rios, permanece
imóvel durante o dia, porém à noite movimenta-se pelo fundo do leito
dos rios em busca de alimento.
Pacu (Characidae) – assim como a piraputanga, depende do alimento
disponível nas matas das margens dos rios.
57
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

Bagre (Tachys urus genidens) – chega a pesar até dois quilos e medir 30
centímetros de comprimento. Sua carne é saborosa. Tem nadadeiras dor-
sais e é desprovido de espinhos. Seus ferrões podem provocar ferimentos
sérios, motivo pelo qual não se pode pegá-lo com as mãos desprovidas
de proteção. Alimenta-se de presas diversas, pois sua boca é dilatável.

Flora pantaneira
Sua formação vegetal fisionômica varia entre campo limpo, no qual predomi-
na uma vegetação composta principalmente de gramíneas, até o cerradão, no qual
são comuns árvores de maior porte. Entre esses dois tipos vegetacionais estão o cam-
po sujo, o campo cerrado e o cerrado propriamente dito, onde gradativamente vão
aparecendo arbustos e árvores. Ainda possui os campos úmidos. As árvores carac-
terísticas do cerrado são lenhosas baixas, com troncos retorcidos, indo até a uma
densa mata com suas árvores características como o ipê-roxo, também conhecido
como peúva (Tabebuia sp.), a aroeira, o angico-vermelho, as figueiras
Nos períodos das (Ficus sp.), o cambará (Vochysia divergens), plantas aquáticas como o
cheias, as plantas aguapé ou camalote (Eichhornia azurea), como é mais conhecido no
aquáticas especializa- Pantanal, entre outras.
das recebem os O fogo é um elemento comum neste ecossistema, cuja presença
sedimentos que são pode ser notada pela espessa cortiça e pelo formato retorcido das árvores.
carregados pelas
águas da vazante,
tornando-a mais Conclusão
limpa nos campos O termo biodiversidade ou diversidade biológica descreve a ri-
alagados queza e a variedade do mundo natural. O homem não percebe que não
poderia sobreviver sem a biodiversidade. Os animais, as plantas, in-
clusive os micro-organismos, fornecem os alimentos, remédios e matéria-prima
que consumimos. Podemos extrair dos animais a carne, o couro, a insulina, e das
plantas a borracha, a madeira, as resinas e as fibras, já os microrganismos nos dão
os antibióticos como a penicilina, por exemplo.
Se a taxa de desmatamento se mantiver, de 5% a 10% das espécies que ha-
bitam nossos ecossistemas poderão ser extintas nos próximos 30 anos.
Devemos estar atentos a estes temas para que não continuemos tomando
atitudes apenas quando surgem os problemas. Necessitamos mudar nosso com-
portamento para evitar a continuidade dos processos de destruição e, desta forma,
manter os ecossistemas estáveis.

58
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

Pantanal – Águas
(BRAZIL NATURE, 2005)
Para decidir qual é a melhor época para conhecer o Pantanal, deve-se aten-
tar para três fatores: estação do ano, ciclo das águas e temperatura.
O ciclo das águas do Pantanal é dividido em enchente, cheia, vazante e
seca. Estas fases variam no Norte e no Sul da região pantaneira. Durante a
enchente, os rios transbordam e inundam planícies e baías; os peixes acompa-
nham o movimento das águas e, durante a cheia, penetram nos pântanos ricos
em matéria vegetal e lodo nutritivo; é o período mais fácil de se observar ma-
míferos que se refugiam e se concentram nos elevados.
Na vazante os peixes retornam para os rios onde irão desovar; muitos não
conseguem voltar, pois ficam presos nas baixadas e lagoas. Na estação seca os
peixes presos constituem numa oferta abundante de alimentos para as aves, no
seu ciclo de reprodução. Nesta época avistam-se milhares de aves e os ninhais.
De outubro a abril ocorre a estação chuvosa e de maio a setembro, a seca.
Porém os meses de chuvas não são concomitantes no Norte e no Sul. Na parte
Sul o período chuvoso se inicia em outubro, enquanto na parte Norte se inicia
dois meses mais tarde.
Apesar de chover primeiro na parte Sul, esta é a última que se inunda. A
região se alaga de forma irregular porque o terreno da bacia é mais inclinado no
sentido Leste-Oeste que no sentido Norte-Sul. As águas chegam “rapidamen-
te” a Oeste, ficando barradas pela Serra do Amolar, provocando inundações e
demoram para escoar rumo ao Sul. Por este motivo, as águas que provocam en-
chentes no rio Cuiabá (Norte) demoram para chegar em Porto Murtinho (Sul).1 1 Os rios São Louren-
ço, Piquiri e Taquari
(Leste-Oeste) têm incli-
No período de chuvas, o clima é mais quente e as precipitações nações que variam entre
45cm e 12cm por quilôme-
ocorrem somente numa parte do dia. Nas secas, o dia também é quen- tro percorrido, enquanto o
Rio Paraguai (Norte-Sul)
te e as noites mais agradáveis, com temperaturas mais baixas. Nesta épo- apresenta inclinação entre
ca, ocorrem as friagens, quando a temperatura pode ficar próxima a 0°C. 6,30cm e 1,03cm por quilô-
metro percorrido.

1. Reúnam-se em grupos de até cinco pessoas para discutirem os assuntos seguintes.


a) Qual sua opinião sobre a importância da conservação do ecossistema Pantanal?
b) Quais seriam as consequências da destruição deste ecossistema?
c) Você acredita que o homem, enquanto espécie planetária, tomará consciência de que suas
ações são mais destrutivas que construtivas? Por quê?

59
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal I

2. Após estas discussões dentro de seus grupos, formem agora um grande grupo com todos os
presentes, apresentem e discutam as diversas opiniões. Por fim redijam um relatório final que
contemple todos os aspectos.

BOFF, Leonardo. Ética da Vida. Brasília: Letraviva, 1999.


BRANDÃO, Luiz Fernando. Sesc Pantanal. Cuiabá: Buriti, s.d.
<www.escolavesper.com.br/pantanal/pantanal>
<www.brazilnature.com/pantanal>

60
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

Aspectos socioeconômicos

O
s indígenas locais sempre se utilizaram dos recursos naturais para sua sobrevivência, na
alimentação, construção de suas moradias e até na confecção de adornos, os quais tinham
uma função social dentro de sua cultura.
A partir daí, temos a história desse ecossistema se desenvolvendo de
Os povos indígenas
acordo com períodos, nos quais sua economia era dominante. Ocorreram deram origem aos
então mudanças nos hábitos, cultura e atividades econômicas. povos pantaneiros
Trataremos, pois, de apresentar algumas destas características que foram determinantes para a
configuração do pantanal que conhecemos hoje.
Os primeiros bandeirantes vindos de São Paulo chegaram através dos rios Tietê, Paraná e Pa-
raguai à Chapada Cuiabana. A partir da colonização, a economia do pantanal tem seu início com as
atividades de exploração da erva-mate nativa e do garimpo do ouro e de diamantes desde o século
XVIII, por volta do ano de 1700, levando a um fluxo migratório intenso. Com o desenvolvimento
destas atividades, houve uma grande migração de pessoas para esta região. Esta ocupação urbana
irracional das bacias hidrográficas do Pantanal, assim como a expansão agrícola, trouxe impactos ao
ambiente pantaneiro. Outra consequência dessa ocupação é o aparecimento da poluição com o lança-
mento de esgotos, dejetos industriais e agrotóxicos nos rios.
Surge então, por volta dos anos 1970, no estado do Mato Grosso, a inserção do processo de
uma economia moderna voltada para a produção da atividade agropecuária pantaneira, interferindo
diretamente na sobrevivência e reprodução da vida silvestre.
Este processo de desenvolvimento trouxe como consequência altíssimos níveis de degradação
ambiental relacionados principalmente ao desmatamento da floresta e do cerrado e também a de-
gradação do Pantanal Mato-grossense. Os altos níveis de desmatamento apontam para existência de
26,76% dos municípios com desmate superior a 60%, o que mostra o não cumprimento da legislação
em vigor.
Os resultados encontrados apontam para a necessidade de uma ação mais efetiva dos órgãos
ambientais com a ampliação e o aprofundamento das suas ações no sistema de licenciamento ambien-
tal de propriedades rurais para torná-lo mais eficiente.
Segundo Campos, extensas áreas de cerrado foram devastadas e atualmente são cultivadas com
soja. O pacote tecnológico adotado, insustentável do ponto de vista econômico, é também agressivo
ao ambiente. Prejuízos maiores ocorrem à fauna devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos e à
destinação inadequada das embalagens vazias, abandonadas em margens de estradas, levando subs-
tâncias químicas para mananciais de água e lençóis freáticos.
A pobreza do ribeirinho o sujeita à prática intensiva da pesca predatória, para atender à demanda
dos frigoríficos de pescados, aliada à grande procura pelo número de turistas pescadores, com o desen-
volvimento do turismo de pesca sem nenhum tipo de planejamento. Isto acarreta inúmeros problemas
61
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

locais, como a dispersão de lixo, a prostituição, o desrespeito à cultura local e ainda


o contrabando de animais silvestres e o comércio ilegal de suas partes.
Nas cidades, ocorre a compra do souvenirs feito de garras, dentes, peles,
pelos, penas e insetos, o que vêm agravar o quadro já bastante crítico da biodiver-
sidade pantaneira, em alto grau de ameaça de extinção.

Características das populações:


o homem pantaneiro
Pantanal – povos indígenas
Em harmonia com o meio ambiente, os po-
vos indígenas têm sofrido muito com a chegada
do homem não índio. Doenças e novos costumes
foram trazidas juntamente com as rodovias e a
estrada de ferro, ocasionando desespero a muitos
povos da região. Os povos indígenas que tradicio-
nalmente habitam o Pantanal são: Paiaguás, Guai-
kuru, Guatós, Terenas, Kaiowás, Bororos, Umoti-
nas, Parecis, Kinikinaos.
Desde os primórdios da colonização europeia, a valorização das terras e sua
exploração mineral e agropastoril produziram um conflito de interesses. Coloni-
zadores, garimpeiros e fazendeiros, através de suas ações nem sempre pacíficas,
interferiram nas comunidades humanas tradicionais locais, pressionando-as para
áreas cada vez mais periféricas da atividade econômica. Estas comunidades em-
pobrecidas, as quais vinham de uma tradição de lavoura de subsistência e pesca
artesanal complementar, foram sendo progressivamente enclausuradas em uma
estreita faixa ribeirinha e, como não tinham terra nem sequer para a cultura de
subsistência, passaram a se dedicar à pesca profissional.

Pantanal – o homem
O homem pantaneiro recebeu dos indígenas a agilidade física e o respeito à
natureza, que se encontra praticamente inalterada mesmo com mais de 200 anos
de ocupação e exploração econômica. Através dos rios Tietê, Paraná e Paraguai,
chegaram os primeiros bandeirantes vindos de São Paulo à Chapada Cuiabana.
Após a Guerra do Paraguai e com o declínio do ouro, o povoamento se deu
no sentido Norte-Sul, surgindo no Pantanal grandes fazendas de pecuária extensi-
va que, associadas aos fatores ambientais, consolidaram uma estrutura fundiária
de grandes propriedades (56% da área, com mais de 10 000ha).
No início deste século, o acesso aos grandes centros urbanos do país fazia-se
por Assunção, Buenos Aires e Montevidéu, resultando daí a absorção de inúmeras
manifestações culturais e folclóricas – música, vestuário, linguagem e alimentação.
62
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

A chegada da estrada de ferro (Noroeste do Brasil – 1914) incorporou novos


hábitos e costumes. As distâncias e o difícil acesso às fazendas fizeram o homem
pantaneiro acostumar-se ao isolamento e à solidão, porém ele manifesta o senti-
mento de cooperação quando trabalha com seu gado (manejo tradicional) ou nas
festividades típicas entre as fazendas. Vivendo a realidade de uma região inóspita,
enchentes, ataque de animais silvestres, problemas de transporte e sem política
diferenciada para a região, o homem pantaneiro pecuarista, vaqueiro ou pescador,
tem amor, respeito e apego por sua terra.

Exploração comercial
Desde meados dos anos 1970, intensificou-se no Panta-
nal a economia agropecuária. Nos dias atuais, há cerca de 4
milhões de cabeças de gado, o que torna a região uma impor-
tante produtora de carne. De maneira geral, a cultura do gado
não é considerada prejudicial ao meio ambiente. A imprevisi-
bilidade das grandes enchentes, no entanto, limita o tamanho
dos rebanhos e os mantém dentro dos limites de uma economia
ecologicamente sustentável. Na ausência de outros mamíferos
pastadores, além dos poucos cervídeos, o gado nelore não é
competidor da fauna original. Ele se tornou parte integral da
paisagem pantaneira.
Com o fim do ouro, surgem grandes fazendas de pecuária extensiva que, as-
sociadas aos fatores ambientais, consolidaram uma estrutura fundiária de grandes
propriedades (56% da área, com mais de 10 000ha).
As culturas de arroz, cana-de-açúcar e soja são as atividades fortemente de-
senvolvidas. Barragens, canais e aterros foram construídos para uma agricultura
irrigada. Foram também incorporadas plantas, como a Brachiara africana, para
aumentar o rendimento do pasto.
Muitos empresários do turismo culpam os jacarés pela diminuição do pei-
xe e propõem a permissão da caça ao réptil. Existe uma relação entre o número
de piranhas e a função ecológica dos jacarés. Alguns estudos apontam que os
jacarés mantêm a superfície das baías abertas e com isso a população de peixes
é equilibrada. Onde foram exterminados, o batume cobriu as baías, o oxigênio
ficou deficiente e as piranhas multiplicaram-se em detrimento de outras espécies
de peixes (alguns pescadores afirmam que o jacaré se alimenta de piranhas). De
qualquer forma, quanto maior é a população de jacarés, menor é a de piranha. Este
peixe voraz, em grande quantidade, traz riscos às populações de outros peixes e
animais e até ao homem.

Turismo cultural
A cultura popular pantaneira é muito rica e peculiar. Nela encontramos in-
fluências das várias sociedades indígenas, além das culturas hispânica e lusitana.

63
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

A viola de cocho, o tererê, a culinária, a cerâmica, a tecelagem artesanal de


redes com bordados primorosos, a música, os sotaques pantaneiros, os oratórios e
as manifestações religiosas são dotados de uma sensibilidade poética e mostram
um outro Brasil.

Impactos ambientais
O garimpo de ouro e diamantes contribui para a poluição e para o asso-
reamento de rios, corixos e lagoas. A quantidade de mercúrio lançada nos rios
contamina toda a vida aquática e, posteriormente, através da cadeia alimentar,
acumula-se em outros seres vivos e em sua descendência, inclusive no homem.

Poluição
A poluição do pantanal tem se agravado com a ocupação urbana das ba-
cias hidrográficas que cercam o pantanal. No caso da região norte do pantanal, a
questão é mais preocupante, uma vez que além da poluição urbana, há a poluição
dos garimpos de ouro e diamante, acompanhadas da destruição das nascentes dos
rios, dos agrotóxicos e fertilizantes das lavouras.

Poluição urbana
A poluição urbana, além dos dejetos naturais, origina-se principalmente de
usinas de cana-de-açúcar, frigoríficos e curtumes.

Pecuária
A pecuária não era vista como uma atividade impactante, pois o gado utili-
zava as pastagens naturais como alimento e não competia com as espécies nativas.
Mas, uma vez que ocorre a semeadura de aéreas de gramas exóticas e ainda há
disputa pelos capões e cordilheiras, retira-se do animal silvestre os refúgios das
épocas de cheia.

Agricultura
As culturas locais prejudicam o ambiente pantaneiro. A construção de bar-
ragens, canais e aterros que drenam terrenos para a agricultura, e ainda o desma-
tamento do cerrado, levam ao assoreamento de rios, como o Taquari, e interferem
na piracema. Plantas exóticas são espalhadas por semeadura aérea, tais como a
Brachiara africana, para aumentar o rendimento do pasto.
As áreas agrícolas interferem na paisagem local com o desmatamento da
mata ciliar e o consequente assoreamento dos rios, alterando os cursos fluviais e
sua navegabilidade.

64
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

Muitas áreas agrícolas localizam-se fora do Pantanal e, mesmo assim, nele


interferem. O desmatamento progressivo das cabeceiras dos rios e de sua mata ci-
liar leva à erosão dos solos, os quais são arrastados pelas águas. Isto provoca o as-
soreamento dos rios e a turbidez da água, afetando a composição dos organismos
que formam a base da cadeia alimentar e, consequentemente, todo o equilíbrio
ecológico. O assoreamento também tem como consequências a alteração dos cur-
sos fluviais e de sua navegabilidade, o que ocasiona enchentes cada vez maiores
em áreas mais extensas por mais tempo, interferindo na lucratividade da pecuária
pantaneira e na reprodução da vida silvestre.

Erosão
O mau uso do solo nas sub-bacias que compõem o Pantanal faz com que os
processos erosivos aumentem de intensidade ano a ano, aumentando, por conseguinte,
a quantidade de resíduos totais e o transporte de sedimentos no leito dos rios.

Ecoturismo
Apesar dos atrativos naturais, poucas agências de fato trabalham com o eco-
turismo. O turismo de pesca ainda é um setor muito forte da economia.
Quando escolhermos as agências de ecoturismo, estaremos colaborando
para a preservação e a conservação dos ambientes, e é importante ter conheci-
mento do que se entende por ecoturismo e principalmente quais os objetivos que
levaram a escolha de tal atividade. Os ecoturistas genuínos são aqueles que se
preocupam com as atividades desenvolvidas nos locais, sabendo que é importante
conhecer a capacidade de recepção de cada área, a valorização da cultura local,
a utilização de acessos autorizados bem como a não violação do ambiente e tam-
pouco deixar rastros ou vestígios da sua passagem pelo local.
Para suprir a necessidade do mercado local, o ribeirinho empobrecido e
isolado pelas atividades econômicas vigentes, sujeita-se às práticas intensivas da
pesca. Para atender à demanda dos frigoríficos de pescados, e ainda à procura de
turistas pescadores, ele passa a se comportar como pescador profissional, utilizan-
do-se de redes, ganchos e arpões para aumentar a sua produtividade pesqueira.
Esta prática predatória, somada ao turismo de pesca, e outros fatores, leva-
ram à redução das populações de peixes encontradas neste ecossistema.

Fauna
Ocorrem à fauna prejuízos maiores devido ao uso indiscriminado de agrotó-
xicos e à destinação inadequada das embalagens vazias, abandonadas às margens
de estradas, levando substâncias químicas para mananciais de água e lençóis fre-
áticos. Estas ações vêm interferindo diretamente na sobrevivência e reprodução
da vida silvestre.
65
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

O contrabando de animais silvestres e o comércio ilegal de suas partes co-


laboram na diminuição de populações de várias espécies. O jacaré foi muito ca-
çado, principalmente na década de 1970, para a obtenção de seu couro e, até hoje
o jacaré-de-papo-amarelo (Cayman latirostris) encontra-se sob risco de extinção.
Porém, com a proibição da caça, as populações destes répteis, principalmente a do
Cayman crocodilus yacare, vêm se recompondo. Hoje, existem criadouros destes
animais para suprir a demanda do mercado de peles e do alimentício.
A caça ainda persiste no Pantanal sendo o turista um dos responsáveis por
este problema. A carne de caça é uma fonte de proteína que complementa a dieta
das comunidades tradicionais pantaneiras. O turista possui fontes alternativas de
obtenção de proteínas, não dependendo da caça e induz o pantaneiro a fazê-lo
somente para experimentar a carne do animal silvestre.

Rodovia Transpantaneira
A construção da Rodovia Transpantaneira (MT), com o uso de terras deno-
minadas de áreas de empréstimo, e o aterro, realizado para a implantação da obra,
alterou a área alagável do regime sazonal das águas, repercutindo nas fazendas
vizinhas.
A Transpantaneira, ao dividir o pantanal de Poconé ao meio, impede que
durante as cheias a água se espalhe e, portanto, as enchentes são de grandes pro-
porções, limitando os movimentos do gado e animais silvestres nas áreas onde
falta pastagem. Com o aumento do nível das águas e a violência das enxurradas,
os fazendeiros acabaram perdendo seu investimento e alguns vendendo suas pro-
priedades.
Os fazendeiros da região de Poconé responsabilizam a rodovia pela alte-
ração dos costumes locais: a facilidade e a rapidez de deslocamento aos centros
urbanos geraram novas necessidades de gastos e despesas extras. Hoje a estrada
descentraliza os serviços da fazenda, gerando despesas com combustível, veícu-
los, lazer.
Agravadas pela baixa produtividade por hectare, pela concorrência com
áreas mais produtivas e pelo parcelamento sucessivo das fazendas, a pecuária
pantaneira torna-se cada vez menos lucrativa.
Recentemente, o governo anunciou o asfaltamento da Rodovia Transpanta-
neira, proporcionando mais conforto aos turistas, possibilitando a instalação de
grandes estruturas hoteleiras.

Hidrovia Paraná-Paraguai
A Hidrovia Paraná-Paraguai é um projeto que visa a ligação fluvial do porto
de Cáceres ao porto de Nueva Palmira no Uruguai, com aproximadamente 3 400
quilômetros e um custo estimado de US$1,3 bilhão.

66
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

Para viabilizar a navegação do rio Paraguai para embarcações de médio a


grande porte, é necessário corrigir o curso do rio, rebaixar sua calha, explodindo
rochas e construindo diques nos afluentes. O escoamento das águas do Pantanal
será facilitado, e uma área deixará de ser inundável alterando o clima e o equilíbrio
ecológico de toda a região. As áreas irão se alastrar, assim como o chaco boliviano
e o cerrado. Atualmente, as chatas, grandes embarcações de carga, manobram nas
curvas dos rios, avançando sobre os barrancos, danificando a vegetação ribeirinha
e colaborando para o assoreamento de rios nos quais vivem os maiores peixes e se
reproduzem as piraputangas. No trajeto, destroem os aguapés, plantas aquáticas
de importante papel ecológico que são dispersoras de sementes, fornecedoras de
alimentos a animais e colaboram para a manutenção da diversidade genética e
para a distribuição geográfica de espécies.
Quem vive no Pantanal não será beneficiado com a hidrovia. Quem se bene-
ficia são os produtores de grãos que fazem parte do Mercosul.
A passagem das chatas não gera impostos às cidades marginais ao rio Para-
guai. As empresas de turismo, pecuaristas e as prefeituras irão arcar com o ônus
dos problemas sociais e ambientais.

Gasoduto Brasil-Bolívia
O Governo Federal desenvolve estudos de viabilidade para a construção
do gasoduto Bolívia-Brasil. O objetivo é fazer com que, nos próximos 10 anos, a
participação do gás natural passe dos atuais 3% para 12%, enquanto a utilização
do gás nas usinas termoelétricas deverá aumentar de 9% para 19% da capacidade
instalada.
A usina térmica de Cuiabá está utilizando gás natural da Argentina. O ga-
soduto de 620 quilômetros que trará o gás está em fase de conclusão. Esse gás
natural substituirá o óleo diesel atualmente utilizado pela termoelétrica. A usina
tem capacidade de 480MW. O gasoduto traz o gás natural da Argentina a um pre-
ço um pouco menor do que o da Bolívia.

Manual global de Ecologia: o que você pode fazer


a respeito da crise do meio ambiente
(CORSON, 1996)
Há uma clara evidência da seriedade dos problemas de população, de recursos e do meio
ambiente mundiais: pobreza e fome; desflorestamento e extinção de espécies; erosão do solo e
surgimento de desertos; poluição do ar e das águas, chuva ácida e destruição da camada de ozô-
nio, além do efeito estufa e das mudanças de clima na Terra. Soluções eficazes para muitos desses
problemas estão sendo encontradas, e, ao mesmo tempo, está surgindo um consenso quanto ao

67
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal II

modo de implementá-las. Um grande número de pessoas – técnicos em desenvolvimento, ambien-


talistas, executivos, oficiais do governo, líderes religiosos e jornalistas – começam a reconhecer
que os projetos de longo prazo e as ações imediatas são mutuamente dependentes, e não devem ser
tratadas em separado. Considera-se, por exemplo, que a pobreza e o desgaste ambiental estão fre-
quentemente ligados; que muitos problemas ambientais do globo têm suas origens em condições
locais; que conservação, menor desperdício e reciclagem podem ser economicamente benéficos; e
que uma ação a nível local é, geralmente, o primeiro passo para uma solução global.

1. Em grupos, divididos em tópicos, levantar na bibliografia as atuais consequências das ações


antrópicas na história do Pantanal.

2. Montar uma exposição destas descobertas para serem apresentadas ao grupo.

3. Discutir no grande grupo visões de futuro para a região e quais as medidas necessárias a serem
tomadas para frear este desenvolvimento sem planejamento.

“Desde os primórdios da colonização europeia, a valorização das terras e sua exploração mine-
ral e agropastoril produziu um conflito de interesses. Colonizadores, garimpeiros e fazendeiros, atra-
vés de ações raramente pacíficas, exterminaram ou empurraram as comunidades humanas tradicio-
nais para áreas cada vez mais periféricas da atividade econômica. Estas comunidades empobrecidas,
as quais vinham de uma tradição de lavoura de subsistência e pesca artesanal complementar, foram
sendo progressivamente enclausuradas em uma estreita faixa ribeirinha e não tendo terra nem sequer
para a cultura de subsistência, passaram a se dedicar à pesca profissional.”
A questão é: até quando?
Ou ainda, há solução viável para esses impactos causados?

BOFF, Leonardo. Ética da Vida. Brasília: Letraviva, 1999.


REIGOTA, M. Meio Ambiente e Representação Social. São Paulo: Cortez, 1995.
<www.escolavesper.com.br/pantanal/pantanal>

68
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

Introdução
O natural é justo?

S
egundo Adam Smith, a partir do século XVIII existe uma busca pelo “preço natural, o preço
justo, enfim o valor real dos recursos naturais”.
A natureza passa a ser uma espécie de modelo para a sociedade: tal ordem é justa porque a na-
tureza, ao contrário dos homens, não tem subjetividade e portanto pode ser estudada objetivamente,
e a compreensão das suas leis, de seus processos, da ordem que a governa deve ser modelo para uma
sociedade racional, livre das paixões, das ideologias e da subjetividade típica dos homens.
Diante desse modelo, como nos portaremos, com que atitudes manejamos os recursos colocados
à nossa disposição? Que urgência vemos na quebra do paradigma vigente do lucro a qualquer custo?
Será que vislumbramos um futuro viável para nossa espécie ou, como preveem os mais pessi-
mistas, sucumbiremos à nossa própria ganância?
A hora é chegada, o tempo não para e nós, onde nos posicionaremos?
Esperando sensibilizá-lo é que chamo sua atenção para a continuidade desse processo.

Conservação e preservação
Pantanal é uma riqueza ainda a ser descoberta e estudada e para tanto deverá ser preservada e
conservada. Vamos então entender o que estes conceitos querem dizer.
Preservar: ato de resguardar, defender, livrar de perigo futuro.
Conservar: manter, continuar a ter, permanecer. Diz-se que “conservar é saber usar”.
A preservação ou conservação do Pantanal, principalmente daquilo que nós ainda não conhe-
cemos dele, está em nossas mãos. E de que forma? Por meio de incentivo aos programas que vêm
sendo desenvolvidos nas áreas de reprodução animal, preservação das espécies vegetais, ecoturismo,
atividades artesanais nativas e educação ambiental.
Importante também é ressaltar a necessidade do olhar diferenciado para áreas de relevante im-
portância para que estas ações possam se desenvolver. Que áreas são estas?
O Brasil criou o seu Sistema Nacional de Unidade de Conservação, o qual, por meio de suas
várias categorias e de acordo com as especificidades de cada área, objetiva a preservação e a conser-
vação de elementos dos ecossistemas.
Dentro deste sistema, iremos encontrar no Pantanal algumas destas categorias já decretadas e
demarcadas, as quais vêm garantindo a biodiversidade e as características naturais da região.

69
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

Pantanal: reserva da biosfera


Com o objetivo de promover a conservação da biodiversidade no Pantanal
por meio da criação e implementação de unidades de conservação, incentivo a
atividades econômicas de baixo impacto ambiental e implementação do desen-
volvimento sustentável, no ano de 2000 o Pantanal foi reconhecido como Reserva
da Biosfera Mundial – Patrimônio da Humanidade, pela Organização das Nações
Unidas para a Educação Ciência e Cultura – Unesco.
Com este título, é possível um apoio por parte do governo e da sociedade
civil para a conservação das suas riquezas, por meio de um planejamento de de-
senvolvimento sustentável na região.
Qual a diferença entre o patrimônio mundial natural e a reserva da biosfera?
Qual a diferença A reserva da biosfera vê o ecossistema como um todo, buscando for-
entre o patrimônio mas para seu desenvolvimento e como o homem vai interferir.
mundial natural Patrimônio mundial é uma categoria que garante aos governos um
e a reserva maior apoio dentro do que o país já faz para preservar a memória genética
da biosfera? do ecossistema decretado como reserva, para que os cientistas estudem sua
diversidade biológica, e que a humanidade possa, por meio dessa memória
genética, não só conservar mas também recuperar aquele ecossistema.
No Pantanal, o Parque Nacional do Pantanal e as Reservas Particulares do
Patrimônio Natural, Doroche, Penha e Acurizal formam um complexo de unida-
des de conservação que recebeu este título.
Ali está presente uma das mais importantes e representativas coleções do
todo da biodiversidade pantaneira.

Unidades de conservação
A ideia de área silvestre surgiu com a criação do primeiro parque nacional
do mundo, em 1872, o Yellowstone National Park, EUA, com o intuito de preser-
var a beleza local e tendo como objetivo evitar que esta área também perecesse,
como aconteceu com outras, que já haviam sido destruídas pelo avanço da colo-
nização. Passados quase 100 anos, nosso primeiro parque foi criado em 1937, o
Parque Nacional de Itatiaia, no Rio de Janeiro, seguido do Parque Nacional do
Iguaçu, em 1939.
Unidades de conservação são porções do território nacional, incluindo as águas territo-
riais, com características naturais de relevante valor, de domínio público ou propriedade
privada, legalmente instituídas pelo poder público com objetivos e limites definidos, sob
regimes especiais de administração e às quais aplicam-se garantias de proteção. (FUNA-
TURA apud MILANO, 1989)

São áreas que incluem importantes recursos naturais ou culturais, de difícil


quantificação econômica. Necessitam ser conservadas para que continuem sendo
silvestres, sendo manejadas adequadamente, e têm sido utilizadas para os mais
diversos fins, como ocupação urbana, industrial e agropecuária, e são compostas

70
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

por vários ecossistemas como florestas, campos, mangues, montanhas, desertos e


pântanos. O conceito de áreas silvestres vem sendo substituído pelo de unidades
de conservação.
Elas têm como objetivos, entre tantos, promover a conservação da biodi-
versidade no Pantanal, por meio da criação e implementação de unidades de con-
servação, incentivo a atividades econômicas de baixo impacto ambiental e imple-
mentação do desenvolvimento sustentável.
Parques nacionais são áreas de domínio público, delimitadas com a fina-
lidade de preservar atributos excepcionais da natureza, conciliando a proteção
integral da fauna e da flora e das belezas naturais com a utilização para fins edu-
cacionais, recreativos ou científicos, sendo proibida qualquer forma de exploração
dos recursos naturais.

Parque Nacional Mato-grossense


Foi criado em 1981, localizado no município de Poconé, no Mato Grosso,
com uma área de 135 mil hectares.
Seu clima é quente e semiúmido, com quatro a cinco meses secos e a tem-
peratura média anual é de 24ºC.
Seu relevo é plano e com altitudes não superiores a 200 metros.
Vegetação característica: cerrado gramíneo-lenhoso.
A fauna característica é composta por jaburus, garças, cabeças-secas, jaca-
rés, piranhas, capivaras, pintados, dourados, pacus, araras-azuis, gavião-caramu-
jeiro, sucuris, entre tantas outras espécies.
Muitas das espécies encontram-se ameaçadas de extinção, como a onça-
pintada e o lobo-guará, o cervo-do-pantanal, a lontra, a ariranha e o tamanduá-
-bandeira.
A visitação é permitida somente com a autorização do Departamento de
Unidades de Conservação, em Brasília.

Parque Nacional da Chapada dos Guimarães


Este parque foi criado em 1989, com uma área de 3 300 quilômetros qua-
drados.
Tem um ecossistema característico denominado cerrado no Mato Grosso,
com paredões de rochas areníticas, rios e cachoeiras que caem vertente abaixo.
A flora é constituída por ipês-amarelos, pequis, perobas, paus-santos, bro-
mélias, orquídeas, buritis e palmeiras nativas, entre outras.
A fauna é caracterizada pelo animais do cerrado, lobos-guarás, cachorros-
-do-mato, tatus-galinha, veados-campeiros, tamanduás-bandeira. Entre as aves,
as emas, as araras-vermelhas, os tucanos e as gralhas-do-campo.

71
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro


Situado na região centro-oeste do estado do Mato Grosso do Sul, abrange os
municípios de Aquidauana e Corumbá.
Com amostras de cerrado característico, possui uma área de 78 300 hectares
e foi criado no ano de 2000.
O Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro foi criado com o objetivo de
proteger um intenso sistema de irrigação: o brejão do rio Negro, lagoas permanen-
tes e cordões de matas que funcionam como refúgio e alimento da fauna silvestre
local.
Este ambiente é considerado como o berçário de engorda de peixes do Pan-
tanal.

Estações ecológicas
A estação ecológica permite o uso indireto, de posse do poder público. É
área natural, intocada em função de o ecossistema ser de valor científico, devendo
ser preservado.
Entre as estações ecológicas podemos encontrar:
Estação Ecológica de Taiamã, criada em 1981, com uma área de 14 325
hectares;
Estação Ecológica de Iquê, criada em 1981, com 20 mil hectares de área
protegida;
Estação Ecológica Serra das Araras, criada em 1982, que protege uma
área de 28 700 hectares.

Área de proteção ambiental


A área de proteção ambiental é de uso direto e indireto, de posse do poder
privado, com habitats e populações de fauna silvestre manejáveis, produtivas. E
na área de proteção ambiental se permite a ação humana direta com objetivos e
usos múltiplos.
A Área de Proteção Ambiental Meandros do Araguaia foi constituída em
1998, e possui uma extensão de 360 548 hectares.

Reservas Particulares
do Patrimônio Natural (RPPN)
As RPPNs são consideradas unidades de conservação de uso indireto, ou
de proteção integral, cujo maior objetivo é conservar a diversidade biológica. As
atividades que podem ser desenvolvidas devem ter “cunho científico, cultural,
educacional, recreativo e de lazer”.

72
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

As RPPNs têm caráter perpétuo, o que quer dizer que, tendo sido decretada
a unidade de conservação, se a propriedade vier a ser vendida os novos donos te-
rão que respeitar a RPPN e seus herdeiros também terão que respeitá-la, pois não
há maneira de revogar o título de reconhecimento da reserva.
RPPNs são áreas de conservação da natureza em terras privadas. O proprie-
tário é quem decide se quer fazer de sua propriedade, ou de parte dela, uma área
protegida, sem que isso acarrete perda do direito de propriedade.
Essas reservas são uma forma de contribuir para a preservação do meio am-
biente em nosso país. Atualmente, apenas 6% do território nacional são protegidos
em forma de unidades de conservação da natureza, tais como os parques nacionais,
estaduais ou municipais, reservas biológicas e estações ecológicas. Essas terras são
de propriedade da União, dos estados ou municípios. Sabe-se, porém, que a maioria
das áreas ainda bem conservadas situa-se em propriedades particulares.

Atividades permitidas
Existe a possibilidade de utilização, inclusive com fins lucrativos, podendo-
-se realizar pesquisa científica, levantamentos de flora e de fauna, estudos sobre o
meio ambiente, atividades de educação ambiental, práticas esportivas pouco im-
pactantes e também desenvolver atividades econômicas, especialmente no campo
do ecoturismo. Tais atividades, no entanto, deverão ser autorizadas ou licencia-
das pelo órgão responsável pelo reconhecimento e executadas de modo a não
comprometer o equilíbrio ecológico nem colocar em perigo a sobrevivência das
populações das espécies ali existentes. Deve-se observar, portanto, a capacidade
de suporte da área, ou seja, o quanto de uma atividade pode ser desenvolvido num
local sem prejudicar seu meio ambiente.

Organizações Não Governamentais


que atuam no local
A WWF – Fundação para a Proteção da Vida Silvestre, apoia projetos de
conservação no Pantanal. Em 1999, a WWF Brasil iniciou um programa de con-
servação que abrange os seguintes projetos:
apoio à criação de áreas protegidas;
identificação e estímulo a atividades econômicas e ambientalmente viá-
veis;
capacitação de empreendedores para instituir o turismo sustentável na
região;
ampliação do conhecimento científico da área;
incentivo à participação da sociedade nos debates ambientais e apoio à
definição de políticas públicas para a conservação;
adoção do slogan “Pantanal para sempre”.
73
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

Os programas desenvolvidos com os governos estaduais do Mato Grosso


e Mato Grosso do Sul e ainda os governos municipais, as universidades, ONGs
e proprietários de terra que partilham da construção de um modelo de desenvol-
vimento sustentável para o Pantanal vêm obtendo grande sucesso e resultados
extremamente positivos. Entre eles, podemos listar:
o projeto de reprodução da arara-azul, que de 1 500 exemplares em 1987
hoje conta com aproximadamente 5 000;
a implantação da estrada Parque Pantanal;
a criação da reserva da biosfera;
as implantações das reservas particulares do patrimônio natural
(RPPNs);
a identificação de áreas prioritárias para a conservação;
o manejo da bacia do rio Miranda;
o desenvolvimento do ecoturismo;
a capacitação em educação ambiental;
a implantação do projeto Escolas Pantaneiras;
o estudo sobre as aves migratórias (encerrado);
o estudo sobre os impactos da pesca esportiva no ecoturismo do pantanal
(encerrado);
o monitoramento de grandes projetos de desenvolvimento e meio am-
biente.

Escolas pantaneiras
As escolas pantaneiras destacam-se como uma iniciativa bem-sucedida no
Brasil. Este projeto foi escolhido como uma das cinco melhores iniciativas de
gestão pública e cidadania do Brasil, e visa desenvolver núcleos escolares rurais
que fortaleçam o conhecimento do ambiente pantaneiro, valorizando a história
e a cultura locais. Teve seu início em 1999, no município de Aquidauana, Mato
Grosso do Sul.
As escolas do ensino municipal são instaladas em fazendas particulares,
onde também residem os professores.
O objetivo do projeto é possibilitar a escolarização da população residente
na região rural, praticando calendários especiais que respeitam as características
físicas, climáticas, sociais e culturais da região, observando inclusive o ciclo das
águas. As aulas começam em abril, quando a água está baixa, e o período letivo
encerra quando os rios voltam a subir. O currículo é diferenciado e o material di-
dático produzido pelos próprios professores e alunos. Além do ensino formal, ofe-
rece conhecimentos do ambiente pantaneiro, resgata e valoriza a cultura local.

74
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

Parceiros: WWF Brasil, Prefeitura Municipal de Aquidauana, Associa-


ção de Parceiros, Pais e Professores da Escola Pantaneira – APPEP, Uni-
versidade Federal do Mato Grosso do Sul e CJ.

Conservação da biodiversidade
do pantanal
Outro projeto de relevante importância é o de Conservação da Biodiversida-
de do Pantanal – Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que promove a conservação
da biodiversidade no Pantanal por meio da criação e implementação de unidades
de conservação, fomento ao ecoturismo e a outras atividades econômicas de baixo
impacto ambiental. Teve início em 1998.
Seu objetivo é promover a conservação do Pantanal por meio da criação
de áreas protegidas, identificação e estímulo às atividades econômicas e ambien-
talmente viáveis e ampliação do conhecimento científico e técnico da região. O
projeto envolve representantes do governo, das universidades, de outras ONGs e
proprietários locais na formulação de um programa de conservação para a região,
o qual prevê a criação de uma rede de unidades de conservação (particulares e
públicas), promoção do uso sustentado dos recursos naturais, a formação e a parti-
cipação da sociedade nas questões ambientais, o controle de pesca e o ecoturismo
de baixo impacto.
Parceiros: WWF, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento Sustentável de Mato Grosso do Sul, Fundação Pantanal, Secreta-
ria Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Corumbá.
Outros parceiros: Ministério do Meio Ambiente, proprietários de terras
locais, Universidade Católica Dom Bosco e Universidade para o Desen-
volvimento do Estado e Região Pantanal (Uniderp), Instituto de Ensino
Superior do Pantanal (Iespan) e ONGs locais.

Conclusão
O homem se encontra hoje em um grande dilema entre o progresso e a con-
servação dos ecossistemas naturais como forma de conservar sua sobrevivência e,
por que não dizer, sua própria existência. A necessidade de lucros a curto prazo,
sem medir as consequências dos nossos atos, tem levado nossa espécie a pagar
preços altíssimos. O mais impressionante é que não percebemos que somos o
elemento mais frágil desta cadeia que nos une aos outros componentes da diversi-
dade biológica e do ambiente físico.

75
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Pantanal III

(CARDOSO, 1997)
O Pantanal é realmente uma preciosidade da biosfera, um patrimônio da humanidade [...]
Uma terra que permite simbolizar o que de melhor nós temos no Brasil [...] E a preservação do
Pantanal significa bem-estar para a população, significa a possibilidade de recriar-se a vida pan-
taneira, o modo de vida tão rico desta região [...] Trata-se do desenvolvimento sustentável, que é
possível. E nós vamos mostrar aqui, nesta região, como exemplo para o mundo, que seremos ca-
pazes de desenvolvê-la respeitando o meio ambiente, até porque o meio ambiente vai passar a ser
uma parte fundamental da sua própria economia [...] É o setor privado usando a terra para servir
ao público, e não para seus fins próprios. No caso do Sesc, quase 110 mil hectares, o que é muita
terra. O governo, sozinho, é impotente para fazer frente a tantos desafios. E aqui está se mostrando
um caminho concreto de colaboração.

1. Reúnam-se em grupos de cinco pessoas e analisem os temas a seguir.


O natural é justo? Sob que ponto de vista esta afirmação pode ser considerada?
Nos dias de hoje, ainda é viável falarmos em preservação?
Qual a importância de o Pantanal ter sido decretado como reserva da biosfera?

2. Após os trabalhos, escolham um representante que irá apresentar a posição do grupo, discutam
os aspectos levantados e elaborem um texto com a opinião do grupo sobre os pontos princi-
pais.

GRÜN, Mauro. Ética e Educação Ambiental: a conexão necessária. 4. ed. Campinas Papirus, 2001.
<www.ufmt.br>
<www.ibama.gov.br/ecossistemas/pantanal>

76
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I
Introdução

A
qui vamos apresentar o ecossistema caatinga.
Muitas vezes em função do seu aspecto
ressequido, não damos o devido valor a
este ecossistema.
O fato de a vegetação passar grande parte do
ano seca, devido à falta de acesso à água, e isso
proporcionar consequências danosas à popula-
ção local, não significa que os recursos não este-
jam presentes e nem tão pouco disponíveis.
Vamos apresentar as características geomorfológicas
da caatinga, bem como seu clima, paisagem e hidrografia.
E, por falar em hidrografia, não podemos esquecer da mais impor-
tante bacia hidrográfica que é a do rio São Francisco, que tem mantido
a salvo ainda a população, com seu fornecimento de água para consumo,
irrigação, pecuária e ainda o fornecimento de energia elétrica.
Importante também é ressaltarmos que a caatinga não é um
ecossistema desabitado de espécies vegetais e animais. Sua flora e sua
fauna são ricas e as mesmas apresentam adaptações para sobreviverem neste ambiente inóspito.
Esperamos mostrar uma outra caatinga que muitas vezes é tida apenas como um “grande pro-
blema sem solução”.
Sabemos que a solução é viável, que depende da vontade dos cidadãos, não importando a posi-
ção hierárquica que estejam por ora ocupando.
Devemos sim priorizar a sobrevivência desse ecossistema tão importante quanto qualquer ou-
tro, e amenizar a dura vida imposta à sua população.
Venha conosco nesta caminhada do conhecimento e sensibilize-se a ponto de desejar ir em
busca de maiores informações que complementem seus estudos.

Características geográficas
Em plena faixa subequatorial, entre a Floresta Amazônica e a Floresta Atlântica, encontra-se
a Caatinga do Nordeste brasileiro. Com cerca de 700 mil quilômetros quadrados, aproximadamente
10% do território nacional, é um bioma tipicamente brasileiro e abrange os estados do Ceará, Rio
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Piauí a sudeste e Minas Gerais ao
norte. Localizada em área de clima semiárido, apresenta temperaturas médias anuais que oscilam
entre 25ºC e 29ºC. As médias pluviométricas são inferiores aos 800 milímetros por ano.

Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,


mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

O planalto age como uma barreira às nuvens carregadas de umidade prove-


nientes do Oceano Atlântico. Ao ascenderem e se encontrarem com a barreira que
é o planalto, se condensam e fornecem umidade na forma de neblina, orvalho e
chuvas, mesmo na estação seca. Apresentando, então, um clima moderado e úmi-
do diferente do clima das regiões mais baixas.

Caatinga na língua O lado ocidental do planalto é mais seco, com condições


comparáveis às planícies, porque a altitude das montanhas des-
indígena significa “mata
viam as nuvens de chuva que vêm do Oceano Atlântico. Na lon-
branca”, e recebe este ga estiagem dos sertões, muitas vezes semidesertos e nublados,
nome em função do mesmo havendo vento, este é seco e quente o que não refresca o
aspecto da vegetação, ambiente.
principalmente na época
A paisagem típica da caatinga consiste em extensas planícies
da seca interplanálticas e intermontanas, que envolvem e interpenetram ma-
ciços residuais mais elevados.
A Serra do Tombador possui um relevo montanhoso que se destaca das
regiões mais baixas que o circundam. Sua altitude fica em geral acima de 800
metros, alcançando, aproximadamente, 1 000 metros nos pontos de maior altitude,
enquanto que a altitude nas planícies ao redor varia de 400 a 600 metros, embora
sofra um ligeiro aumento nas bordas do planalto.

Hidrografia
O rio São Francisco, denominado Rio da Unidade Nacional, representa a
força de todas as correntes étnicas do Brasil, porque uniu as raças desde as cama-
das humanas mais antigas às estruturas étnicas e políticas mais recentes do país.
Aproxima o sertão do litoral e integra homens e culturas.
Nasce na serra da Canastra em Minas Gerais e desemboca no estado de
Alagoas. É conhecido também como Rio dos Currais por ter servido de trilha
para transporte e criação de gado na época colonial, ligando a região nordeste às
regiões centro-oeste e sudeste.
A vida e a riqueza de suas águas possibilitam o múltiplo uso do seu po-
tencial hídrico, para abastecimento humano, agricultura irrigada, geração de
energia, navegação, piscicultura, lazer e turismo. Ao longo de sua extensão apa-
recem várias quedas d’água.
Vários problemas de natureza social e econômica vêm afetando o percurso
natural do rio, como o assoreamento, o desmatamento de suas várzeas, a polui-
ção, a pesca predatória, as queimadas, o garimpo e a irrigação. Ainda hoje, é o
principal recurso natural que impulsiona o desenvolvimento regional, gerando
energia elétrica para abastecer todo o nordeste, através das hidroelétricas de Paulo
Afonso, Xingó, Itaparica, Sobradinho e Três Marias.

78
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

Características gerais
Seca
Quando chega o mês de agosto, o sol forte e as altas temperaturas do solo
aceleram a evaporação das águas dos rios e lagos em seus trechos mais estreitos
e secam totalmente as árvores e arbustos raquíticos cheios de espinhos, formando
um aspecto triste e desolador. A temperatura do solo chega a 60ºC.
Os rios são intermitentes, isto é, correm apenas durante o período de chu-
vas, tendo seus cursos interrompidos durante a estação seca.
É após as chuvas que a diversidade animal e vegetal da caatinga se torna
evidente. As plantas florescem e os animais se reproduzem, deixando descenden-
tes que já possuem adaptações para suportar o longo período de seca seguinte.
No verão, as chuvas encharcam a terra e o verde toma conta da região. As plantas
ganham vida com um aspecto verde e vivo e a fauna volta a engordar.
As plantas da caatinga sofrem várias adaptações para sobreviverem ao seu
habitat. A aroeira, o mandacaru, o xique-xique e o juazeiro que não perdem suas
folhas na seca, são alguns exemplos da flora.
Quando não chove, os homens do sertão e sua família sofrem muito. Precisam
caminhar muitos quilômetros para conseguir água nos açudes. A irregularidade cli-
mática é um dos aspectos que mais interferem na vida do sertanejo da caatinga.
Os homens tentam sobreviver com a construção dos poços ou cacimbas
para reservarem água para a estação seca. Porém, geralmente essas construções
acabam contendo água salobra, que, na maioria das vezes, não pode ser utiliza-
da nem mesmo para os animais.
Os tradicionais açudes construídos de forma irregular, sem nenhum rigor téc-
nico, desrespeitando o ecossistema, os agrotóxicos utilizados na lavoura e os gran-
des criadores de gado transformaram a caatinga numa região mais difícil ainda de
se habitar e produzir.

Solo
O solo é básico, alcalino, o que causa salinização da água dos pequenos
açudes, com a evaporação. O escoamento superficial é intenso, pois os solos são
rasos e situados acima de lajeados cristalinos.
Mesmo quando chove, o solo raso e pedregoso não consegue armazenar a
água que cai. Somente em algumas áreas próximas às serras, onde a abundância
de chuvas é maior, a agricultura se torna possível.

Biodiversidade
Sua biodiversidade é única e sua vegetação diversificada inclui pelo menos
932 espécies, sendo 380 endêmicas, ou seja, exclusivas da caatinga.

79
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

Flora
Foram registradas cerca de 1 000 espécies, estimando-se que haja um total
de 2 000 a 3 000 plantas.
A paisagem mais comum da caatinga é a que ela apresenta durante a seca.
Apesar do aspecto seco das plantas, todas estão vivas; apenas perderam as folhas
para suportar a falta de água.
A vegetação é distribuída de forma irregular, contrastando áreas que se as-
semelham a florestas, com áreas com solo quase descoberto, xerofítica, caducifo-
liar que se refere à perda das folhas, e aberta, bem adaptada para suportar a falta
de água.
A caatinga apresenta três estratos:
arbóreos – 8 a 12 metros;
arbustivo – 2 a 5 metros;
herbáceo – abaixo de 2 metros.
As plantas da caatinga possuem adaptações ao clima, tais como folhas trans-
formadas em espinhos, cutículas altamente impermeáveis, caules suculentos, um
sistema bem desenvolvido de raízes para a absorção da água, entre outras. Todas
essas adaptações lhes conferem um aspecto característico denominado xeromor-
fismo – do grego xeros, seco, e morphos, forma, aspecto.
Duas adaptações são importantes à vida das plantas na caatinga: a queda
das folhas na estação seca e a presença de sistemas de raízes bem desenvolvidos.
A perda das folhas é uma adaptação para reduzir a perda de água por transpiração
e raízes bem desenvolvidas aumentam a capacidade de obter água do solo.
Algumas das espécies mais comuns da região são a emburana, a aroeira, o
umbu, a baraúna, a maniçoba, a macambira, o mandacaru e o juazeiro.
No meio de tanta aridez, a caatinga surpreende com suas “ilhas de umida-
de” e solos férteis. São os chamados brejos, que quebram a monotonia das condi-
ções físicas e geológicas dos sertões. Nessas ilhas, é possível produzir quase todos
os alimentos e frutas peculiares aos trópicos.
As espécies vegetais que habitam esta área são, em geral, dotadas de folhas
pequenas, uma adaptação para reduzir a transpiração. Gêneros de plantas da fa-
mília das leguminosas, como acácia e mimosa, são bastante comuns. A presença
de cactáceas, notavelmente o cacto mandacaru (Cereus jamacaru), caracterizam
a vegetação de caatinga.
Na caatinga encontram-se cactáceas como o mandacaru e o xique-xique, as
bromélias, e ainda o juazeiro, que não perde suas folhas na seca, e é o símbolo do
homem da região (enquanto houver folhas no juazeiro, há a esperança do retorno
das chuvas e da recuperação do ecossistema).
Forrageira, a caatinga apresenta um potencial de espécies como o pau-fer-
ro, a catingueira-verdadeira, a catingueira-rasteira, a canafístula, o mororó que

80
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

podem ser utilizadas como opção alimentar para a pecuária local como caprinos,
ovinos, bovinos e muares.
Entre a vegetação de potencialidade frutífera, destacam-se o umbu, o ara-
ticum, o jatobá, o murici e especificamente na caatinga da região de Morro do
Chapéu, é característica a palmeira licuri (Syagrus coronata).
Nas espécies usadas com finalidades medicinais, podemos encontrar a aroeira,
a braúna, o quatro-patacas, o pinhão, o velame, o marmeleiro, o angico, entre outras.

Fauna
Quando chove na caatinga, no início do ano, a paisagem e seus habitantes se
modificam. A vida animal é rica e diversificada.
São conhecidos, em localidades com feição características da caatinga se-
miáridas, 44 espécies de lagartos, 9 espécies de anfisbenídeos, 47 de serpentes, 4
de quelônios, 3 de crocodilia e 47 de anfíbios. Dessas espécies, apenas 15% são
endêmicas. Duas das espécies de aves mais ameaçadas do mundo são a ararinha-
-azul (Cyanopsitta spixii) e a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari).
Ainda apresenta 148 espécies de mamíferos. Entre as 348 espécies de aves,
sendo que 15 são endêmicas e 20 encontram-se ameaçadas de extinção.
Cabe ressaltar que espécies endêmicas são aquelas características e encon-
tradas somente em um determinado ecossistema.
A fauna de répteis é abundante, encontramos um grande número de lagartos
e cobras como a jararaca, peçonhenta, animal que possui o veneno e é capaz de
inoculá-lo na presa através de dentes adaptados com canais condutores, hábitos
terrícolas. Alimenta-se principalmente de pequenos roedores, como a cutia e o
preá, aves de rapina insetos e aracnídeos.
A dificuldade de se encontrar água inibi a existência de grandes mamíferos
na região, mas são encontrados cachorros-do-mato, o veado-catingueiro, tatu-
-peba, sagui-do-nordeste.
Um animal típico é o gato-maracajá que pesa em média 3 quilos, com garras retrá-
teis curvas e afiadas, apoia-se somente os dedos no solo ao caminhar, as patas com almo-
fadas lhe permite saltar com agilidade e sem ruídos. Reproduz de dois a três filhotes.
As aves encontradas são a asa-branca, as aves de rapina e a ararinha-azul
– a qual é considera a espécie de ave mais ameaçada do planeta –, entre outras.
O tatu-bola do Nordeste esteve desaparecido por mais de 22 anos tendo sido
considerado extinto até ser reencontrado na caatinga da Bahia, em 1989.
Em razão da semiaridez e do predomínio de rios temporários, era de se
esperar que a biota aquática da Caatinga fosse pouco diversificada. Mas já foram
identificadas pelo menos 185 espécies de peixes, distribuídas em mais de 100
gêneros. A maioria delas é endêmica. A situação de conservação dos peixes da
Caatinga ainda é precariamente conhecida. Apenas quatro espécies que ocorrem

81
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

no bioma foram listadas preliminarmente como ameaçadas de extinção, porém se


deve ponderar que grande parte da ictiofauna não foi ainda avaliada.
Nas regiões mais secas é possível observar adaptações de alguns animais até
que as condições climáticas se tornem favoráveis como a diminuição de suas ativida-
des metabólicas, a utilização da água armazenada nas bromélias ou ainda a busca de
esconderijos em fendas, frestas, buracos no solo ou sob pedras durante o dia.

Conclusão
Como pudemos constatar, o ecossistema caatinga não é pobre como um
estudo menos detalhado pode sugerir.
Se considerarmos que pouca atenção é dada a este ecossistema, e da mesma
forma poucos são os estudos desenvolvidos, podemos acreditar que muito ainda
existe para se descobrir.
Com estas descobertas talvez possamos tornar a caatinga brasileira uma
região habitável para as espécies e, principalmente, para a espécie humana com
agregação de maiores valores de qualidade de vida.
A caatinga carece de planejamento estratégico permanente e dinâmico com
o qual se pretende evitar a perda da biodiversidade do seu bioma.
Continuem, pesquisem, descubram novas informações e contribuam para o
desenvolvimento de estudos que possam contribuir para o desenvolvimento sus-
tentável deste ecossistema, a caatinga.

Caatinga
(2005)
A palavra caatinga, de origem tupi, significa mata branca. A razão para esta denominação
reside no fato de apresentar-se a caatinga verde somente no inverno, a época das chuvas, de curta
duração. No restante do ano, a caatinga, inteiramente ou parcialmente, sem folhas apresenta-se
clara; a vista penetra sem dificuldade até grande distância, perscrutando os caules esbranquiçados
que na ausência da folhagem dão o tom claro a essa vegetação. É esse aspecto claro o que mais
perdura, pois a seca persiste por muito mais tempo; em certas ocasiões pode prolongar-se por nove
meses ou mais, e, em alguns casos, nada chove durante anos sucessivos. As temperaturas são, em
geral, muito elevadas, as umidades relativas médias são baixas e as precipitações pluviométricas
médias anuais situam-se entre 250 e 500 milímetros aproximadamente. Há lugares em que cho-
ve menos. A duração da estação seca também é muito variável, em geral superior a sete meses.
As chuvas ocorrem no inverno que não é a estação fria, mas é a menos quente. O verão é muito
quente. O nordestino usa a palavra inverno não para indicar a época fria (que não existe), mas

82
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I

para designar o período das chuvas. É característica da caatinga não só a escassez, mas também a
irregularidade das precipitações pluviais.
Os solos são de origem variável. Quanto ao seu potencial químico, são tidos, em geral, como
férteis. Do ponto de vista físico, via de regra apresentam boa permeabilidade e são bem arejados.
À superfície ocorrem, com frequência, fragmentos de rochas, de tamanhos variáveis, testemu-
nhando intenso trabalho de desagregação mecânica. Os rios raramente são perenes. Geralmente
“cortam” (isto é, secam, interrompem seu curso) no verão, mesmo rios caudalosos no inverno. Nos
vales, a água pode-se acumular num lençol subterrâneo. Os poços ou cacimbas construídos pelo
homem para reservarem água para a estação seca contêm, em geral, água salobra, que, na maioria
das vezes, não pode ser utilizada nem mesmo pelos animais. A água salobra também pode persis-
tir durante a seca, no leito dos rios, em depressões chamadas caldeirões.

1. Como pudemos ver, o ecossistema da caatinga nos surpreende. Baseado nisso faça, uma análise
crítica, baseada nas informações aqui obtidas e nos conhecimentos que já possuía.

2. Após a análise, formular uma carta de intenções do grupo apontando as possíveis ações a serem
desenvolvidas para solucionar os problemas da caatinga. Se for de comum acordo encaminhar
uma cópia desta carta ao Ministério competente como sugestões de brasileiros preocupados em
participar ativamente das ações da nação.

< www.esam.br/caatinga>
<www.vivabrasil.com/preservação_da_caatinga.htm>
<www.acaatinga.org.br>

83
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga I


84
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

Introdução

I
remos percorrer a caatinga brasileira com uma visão talvez não tão crítica.
Tanto se fala na seca, na dificuldade da vida do homem da caatinga, tanto se critica o êxodo. Porém,
é necessário que saibamos qual a realidade local, quais as dificuldades enfrentadas.
Uma afirmação podemos fazer: ninguém gosta de abandonar suas origens, sua história, e não
seria diferente com esta população.
Mas, diante de tantas adversidades, como permanecer?
Vamos, portanto, conhecer a realidade deste ecossistema – a caatinga – suas verdadeiras rique-
zas, mesmo aquelas que ainda não foram utilizadas de forma adequada e planejada. Veremos aspectos
da sua potencialidade econômica, quais as atividades que estão sendo desenvolvidas para garantir a
sobrevivência desta população. Chamaremos sua atenção para os impactos ambientais que estão sen-
do impostos à caatinga pelas ações do homem.
É importante frisar que soluções existem e a própria comunidade deve participar ativamente
deste plano, para que se sinta parte integrante também da solução e não somente do problema.
Iremos conhecer as áreas que estão sendo conservadas na caatinga, sua categorização pela
Unesco como reserva da biosfera da caatinga, e o que isso significa. Convidaremos você a refletir so-
bre os aspectos aqui abordados, e ainda a aprofundar-se nas questões levantadas. Forme sua opinião,
discuta, participe ativamente, assim poderemos, como cidadãos, efetivamente tomar as rédeas das
soluções dos nossos problemas.

Aspectos socioeconômicos e o êxodo rural


Como sabemos, as condições ambientais tornam a vida do homem do sertão bastante difícil.
Sendo assim, verificamos ao longo da história vários êxodos desta população que migra em busca de
condições melhores de vida. Vamos conhecer melhor os aspectos socioeconômicos e impactos am-
bientais da caatinga.
Os viajantes que desbravaram o interior do Brasil há décadas atravessaram extensas áreas co-
bertas por um tapete de gramíneas com arbustos e pequenas árvores retorcidas. A primeira impressão
era de uma vegetação seca, marcada por queimadas.
A caatinga tem sido ocupada desde os tempos do Brasil Colônia com o sistema de capitanias
hereditárias, por meio de doações de terras, criando-se condições para a concentração fundiária.
Na época da colonização brasileira, fazendas de pecuária bovina e caprina se instalaram na
região. O clima árido, no entanto, dificultou a sobrevivência da população fora das poucas áreas fér-
teis. Na maior parte da caatinga a população mal consegue sobreviver por meio de uma agricultura e
pecuária de subsistência.
85
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

O sertão nordestino é uma das regiões semiáridas mais populosas do mun-


do. 27 milhões de pessoas vivem atualmente no polígono das secas. A extração de
madeira, a monocultura da cana-de-açúcar e a pecuária nos grandes latifúndios
deram origem à exploração econômica.
A caatinga apresenta um potencial econômico ainda pouco valorizado.
O solo raso e pedregoso torna a agricultura uma prática difícil na região. A
maior parte da população sobrevive às custas de uma agricultura insipiente, de um
extrativismo vegetal pobre, e de uma pecuária irrisória. Existe a pecuária bovina,
a ovina e a caprina, sendo esta mais importante. As cabras tiram seu sustento dos
brotos das plantas, e até de raízes que buscam cavando com seus cascos.

Impactos ambientais
Cerca de 100 mil hectares da chamada mata branca apresentam mostras
significativas de degradação pela ação do homem na luta pela sobrevivência. As
principais ações de desmatamento são as queimadas para produção de lenha e
carvão e para agropecuária. A identificação de áreas e ações prioritárias para a
conservação da caatinga é um importante instrumento para a proteção de sua
biodiversidade.
A caatinga encontra-se bastante alterada, com a substituição de espécies ve-
getais nativas por cultivos e pastagens. O desmatamento e as queimadas são ainda
práticas comuns no preparo da terra para a agropecuária que, além de destruir
a cobertura vegetal, prejudica a manutenção de populações da fauna silvestre, a
qualidade da água, e o equilíbrio do clima e do solo. Aproximadamente 80% dos
ecossistemas originais já foram antropizados1.
Outro problema é a contaminação das águas por agrotóxicos. Depois de
aplicado nas lavouras, o agrotóxico escorre das folhas para o solo, levado pela
irrigação, e daí para as represas, matando os peixes.
Nos últimos 15 anos, 40 mil quilômetros quadrados de caatinga se transfor-
maram em deserto devido à interferência do homem sobre o meio ambiente da re-
gião. As siderúrgicas e olarias também são responsáveis por este processo, devido
ao corte da vegetação nativa para produção de lenha e carvão vegetal.
Na caatinga existem regiões úmidas e de solo fértil chamadas de brejos,
nas quais os produtos agropecuários, como gado, frutas tropicais, café, manga e
outras espécies de uso medicinal têm sido desenvolvidas.
É necessário estudar a existência de águas subterrâneas, como o imenso
lençol que existe no Piauí que poderia vir a resolver o problema de escassez de
água de toda uma região, demonstrando que há uma questão de vontade política
para uma solução.
Os poços ou cacimbas construídos pelo homem para reservar água para a
estação seca contêm, em geral, água salobra, que na maioria das vezes não pode
ser utilizada nem mesmo pelos animais, mas que muitas vezes sem alternativa, o
1 Que sofreram ações dos
seres humanos. homem da caatinga acaba utilizando como último recurso.
86
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

Após o agravamento da crise do abastecimento hídrico do Nordeste no ano


de 1999, a transposição do rio São Francisco passou a ser vista como a única alter-
nativa de solução do problema. Atualmente, existem duas vertentes com relação
ao tema. A primeira é a vertente do imediatismo, caracterizada pela ânsia de fazer
chegar água, a todo custo, nas torneiras da população, sem haver, no entanto, a
preocupação com as consequências impostas ao ambiente ao se adotar essa alter-
nativa, e a segunda é a vertente da ponderação, caracterizada por preocupações
constantes com relação às limitações das fontes hídricas na condução do processo
de transposição.
Existindo o alerta quanto às limitações do rio São Francisco para o aten-
dimento à navegação, geração de energia, irrigação e abastecimento das popula-
ções sedentas do nordeste, torna-se evidente a necessidade da realização de um
planejamento hidráulico em sua bacia hidrográfica, de forma a possibilitar a sua
utilização de forma planejada e sem causar danos ao rio e seu entorno.
Os primeiros a chegarem na caatinga pouco entendiam da sua fragilidade,
cuja aparência árida denuncia uma falsa solidez. Para combater a seca foram cons-
truídos açudes para abastecer de água os homens, seus animais e suas lavouras.
Desde o império, quando essas obras tiveram início, o governo prossegue com o
trabalho.
Os grandes açudes atraíram fazendas de criação de gado. Em regiões como
o Vale do São Francisco, a irrigação foi o incentivo adotado sem o uso de técnicas
apropriadas e o resultado tem sido desastroso. A salinização do solo é hoje uma
realidade, especialmente na região, onde os solos são rasos e a evaporação da
água ocorre rapidamente devido ao calor. A agricultura nessas áreas tornou-se
impraticável.

Alternativas de soluções
e indústria da seca
O equilíbrio desse sistema, cuja biodiversidade pode ser comparada à ama-
zônica, é de fundamental importância para a estabilidade dos demais ecossiste-
mas brasileiros.
Torna-se necessária a elaboração de um banco de dados geográficos, em
parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, em que serão
disponibilizadas informações socioambientais, políticas e econômicas, em meio
digital, de acordo com as linhas temáticas prioritárias, definidas pelo Conselho
Nacional da Reserva da Biosfera da caatinga.
Apenas o canal principal do São Francisco mantém seu fluxo através dos
sertões, com águas trazidas de outras regiões climáticas e hídricas. Devendo este
potencial ser aproveitado de maneira a ser possível o desenvolvimento de ativida-
des sustentáveis que garanta a sobrevivência da população da região.

87
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

Unidades de conservação
Reserva da Biosfera da Caatinga
A Reserva da Biosfera da Caatinga, criada em 2001 pela Unesco, envolven-
do dez estados abrange uma área de 189 990 quilômetros quadrados.
Suas prioridades, além da conservação da rica biodiversidade regional, são
o combate à desertificação, a promoção de atividades sustentáveis como a apicul-
tura, turismo, artesanato etc., e ainda o estudo e a divulgação de dados sobre esses
importantes ecossistemas.
A Reserva da Biosfera da Caatinga gera um processo em que o governo e
as comunidades trabalham juntos para a conservação e preservação do patrimônio
biológico, visando a melhoria da qualidade de vida para a população do nordeste.
A Reserva da Biosfera da Caatinga é regida pelo Conselho Nacional da Re-
serva da Biosfera da caatinga.

Parque Nacional da Serra da Capivara


Com uma área de 129 mil hectares, é localizado a 40 quilômetros da cidade
de São Raimundo Nonato (PI). Este parque apresenta a maior concentração de sí-
tios pré-históricos da América do Sul. São mais de 400 sítios arqueológicos, com
30 mil pinturas rupestres presentes em 260 destes sítios.
O projeto de valoração do parque, em andamento, tem como objetivo es-
timar o valor do uso recreativo, de opção e de existência do Parque Nacional da
Serra da Capivara.
Outras unidades de conservação estão sendo implantadas no ecossistema
caatinga, envolvendo os governos estaduais e municipais.

Organizações Não Governamentais


(ONGs)
Instituto Amigos da Biosfera da Caatinga
O Instituto Amigos da Biosfera da Caatinga foi criado para potencializar
as ações do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Caatinga, apoiando a
implantação e o fortalecimento da reserva.
Tem como principais objetivos apoiar a realização de pesquisas e cooperar
com a iniciativa privada e o setor público para a incubação de novos projetos em-
preendedores.

88
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

Projetos de conservação
e manejo de ecossistemas
Estudo de representatividade ecológica do bioma caatinga
Esse projeto abrange toda a área nuclear do ecossistema caatinga. Por meio
de estudos científicos, o projeto objetiva delimitar as ecorregiões da caatinga e
analisar a representatividade da vegetação e áreas protegidas do bioma, identifi-
cando-se as lacunas.
Os temas básicos abordados são: geomorfologia, geologia, solos, clima, ve-
getação e sistemática botânica, fauna e biogeografia. Estão sendo realizados es-
tudos de compilação e trabalhos de campo para cobrir todas as possíveis lacunas
de conhecimento dos temas que compõem o estudo. Todas as informações são
referenciadas geograficamente e estocadas em banco de dados específico.
O projeto é coordenado pela UFPE e pelo Ibama, em parceria com outras
instituições de pesquisa.

Projeto de conservação
e manejo do bioma caatinga
Esse projeto foi elaborado com o objetivo de conservar, ordenar o uso sus-
tentável dos recursos naturais e contribuir para a divisão equitativa da riqueza.
Pretende-se adotar como método o planejamento e a gestão biorregionais.
Alguns dos seus componentes, relacionados a seguir, já estão sendo execu-
tados:
estudo da representatividade ecológica;
estudo de monitoramento da biodiversidade;
identificação de áreas para a criação de novas unidades de conservação;
definição e estabelecimento de corredores ecológicos;
estudos de valoração econômica da biodiversidade.
Os executores do projeto são o Ibama, governos estaduais, UECE, UFPI e
UFPE.

Comunidades e sustentabilidade
O sertão nordestino é uma das regiões semiáridas mais povoadas do mundo.
A diferença entre a caatinga e áreas com as mesmas características em outros paí-
ses é que as populações se concentram onde existe água, promovendo um controle
rigoroso da natalidade. No Brasil, entretanto, o homem está presente em toda a
parte, tentando garantir a sua sobrevivência na luta contra o clima.

89
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

É necessário criar cenários para o ecossistema caatinga, que constituam


uma projeção no espaço de informações sociais, ambientais e econômicas, visan-
do a construção de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável.
Ainda, criar um sistema de consultas que abrigará um visualizador para o
banco de dados geográficos com recurso de consulta e análise interativas, dis-
ponibilizado na web. Com objetivo de tornar acessíveis informações necessárias
para o desenvolvimento de um planejamento eficiente.
Em termos de forrageiras, apresenta espécies como o pau-ferro, a catin-
gueira verdadeira, a catingueira rasteira, a canafístula, o mororó e o juazeiro, que
poderiam ser utilizadas como opção alimentar para caprinos, ovinos, bovinos e
muares.
Entre as de potencialidade frutífera, destacam-se o umbu, o araticum, o
jatobá, o murici e o licuri, entre outros.
Entre as espécies medicinais, encontra-se a aroeira, a braúna, o quatro-
-patacas, o pinhão, o velame, o marmeleiro, o angico, o sabiá, o jericó, e outras
espécies.

Conclusão 
Pudemos observar através destes estudos que a caatinga é um ecossistema
viável. Sua história nos conta que este ecossistema sempre foi utilizado de for-
ma exploratória. Suas potencialidades não estão sendo utilizadas corretamente de
forma planejada e, ainda, quando feita é por poucos.
E a população como fica diante deste quadro devastador?
Sua importância é tão relevante que um órgão internacional a decreta como
reserva da biosfera. Este decreto tem um peso em termos de responsabilidade do
qual talvez ainda não tenhamos nos dado conta.
Sua economia é viável como pudemos ver através do conhecimento de algu-
mas atividades sustentáveis e não impactantes, fazendo frente a tantas outras que,
além de concentrar sua renda nas mãos de poucos, traz consequências danosas ao
ambiente, seja ele solo, regime hídrico e a diversidade de flora e fauna.
Sua conservação se faz necessária e urgente, tanto que áreas para este fim
estão sendo destinadas em níveis federal, estadual e municipal.
As medidas para as soluções são de caráter urgente, para que possamos
vislumbrar uma melhor qualidade de vida para a população que ocupa a região da
caatinga brasileira.

90
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

Rio São Francisco


(BRASIL, 2005)
Foi descoberto em 4 de outubro de 1501, pelos viajantes Américo Vespúcio e André Gonçal-
ves. Os índios que habitavam a região chamavam-no de Opara, que significa rio-mar. Recebeu o
nome de São Francisco em homenagem a São Francisco de Assis, nascido na Itália 319 anos antes
do descobrimento do rio.
É considerado o terceiro maior rio do Brasil. Possui 3 163 quilômetros quadrados de extensão
e sua bacia possui 640 mil quilômetros quadrados de área, o que equivale a sete vezes o país de
Portugal.
Ao longo de sua extensão estão várias quedas d’água, destacando-se a Cachoeira Grande,
com 2,8 mil metros de extensão; a Cachoeira de Pirapora, que faz limite entre o curso alto e médio
do rio; a Cachoeira de Sobradinho, com 5 quilômetros de extensão; Itaparica, a quarta cachoeira
do Alto ao Baixo São Francisco que, com seu grande volume de água, dá ao sítio um aspecto pi-
toresco e a Cachoeira de Paulo Afonso, a cascata mais alta do mundo com os seus 82 metros de
fundo e de beleza natural ímpar.
Há alguns anos, vários problemas de natureza social e econômica vêm afetando o percurso
natural do rio, como o assoreamento, o desmatamento de suas várzeas, a poluição, a pesca preda-
tória, as queimadas, o garimpo e a irrigação.
Quinhentos anos depois de seu descobrimento, o rio São Francisco é ainda hoje o principal
recurso natural que impulsiona o desenvolvimento regional, gerando energia elétrica para abaste-
cer todo o Nordeste e parte do estado de Minas Gerais, através das hidroelétricas de Paulo Afonso,
Xingó, Itaparica, Sobradinho e Três Marias.
Diante de sua extraordinária importância para o Brasil, no decorrer desses 500 anos de ex-
ploração, o Velho Chico necessita de um melhor tratamento. A sua preservação espacial se faz
necessária e urgente, para que ele possa ser útil também às futuras gerações.

1. Dentro deste cenário é importante fazer uma análise crítica sobre os temas. Então, dividam a
turma em seis grupos e, por escolha ou sorteio, cada grupo vai analisar um capítulo abordado,
levantando os pontos mais importantes.

2. Após esta análise, com o material produzido, montem uma apresentação informal, uma dra-
matização, teatro, programa de rádio ou televisão para apresentarem ao grupo seu trabalho
realizado.

91
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Caatinga II

ODUM, Eugene P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.


BRANDÃO, Luiz Fernando. Sesc Pantanal. Goiânia: Buriti, s.d.
<www.renctas.org.br>

92
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

Introdução

N
esta etapa de nosso trabalho estaremos apresentando o cerrado brasileiro, um típico represen-
tante do bioma savana, por isso algumas vezes também denominado de savana brasileira.
Vamos estudar suas características geográficas, como clima, solo e hidrografia.
Também teremos a oportunidade de conhecer sua flora, que é rica e diversificada, sua fauna e
as adaptações que seus representantes têm para sobreviverem nesse ecossistema.
Vamos descobrir qual é a influência que o fogo tem sobre seus componentes e as especificações
que desenvolvem as plantas como consequência de sua adaptação a este elemento.
Uma característica bastante interessante é que apesar de possuir sua área definida, pode apare-
cer como manchas em outros ecossistemas, distribuídos pelo Brasil.
É necessário conhecermos para podermos valorizá-lo e conservá-lo, pois sabemos que cada
ecossistema, dentro das suas características específicas, tem uma grande importância no contexto
geral, e é um ecossistema ameaçado, assim como outros.
Tire o máximo de informações possíveis e faça bom uso delas.

Características geográficas do ecossistema


Cerrado é o nome regional dado às “savanas tropicais
brasileiras”.
O cerrado é o segundo maior bioma do país, supera-
do apenas pela Floresta Amazônica.
Está localizado no Planalto Central Brasileiro e
em uma parte no Sul do Brasil, no estado do Paraná,
em Jaguariaíva.
Com uma extensão de mais de 2 milhões de quilômetros
quadrados, e dimensão de 25% do território nacional, não é de
admirar que esteja representado em grande parte dos estados
do país. É o ecossistema brasileiro mais ameaçado nos dias de hoje.
A partir dos anos de 1960, com a interiorização da capital e a aber-
tura de uma nova rede rodoviária, os ecossistemas deram lugar à pecuária
e à agricultura extensiva, como da soja, do arroz e do trigo. Tais mudanças se
apoiaram, sobretudo, na implantação de novas infraestruturas viárias e energéticas, bem como na
descoberta de novas vocações desses solos regionais, permitindo novas atividades agrárias rentáveis,
em detrimento de uma biodiversidade até então pouco alterada.

93
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

Nos anos 1970 e 1980, a fronteira agrícola se expandiu com os desmatamen-


tos, queimadas, uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, provocando a altera-
ção de 67% de áreas do cerrado, restando 20% de área em estado conservado.
O ecossistema é caracterizado por tipos específicos de vegetação, como a
caatinga, o cerrado, entre outros.
É cortado por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul.
Abrange os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Ge-
rais, Piauí, Distrito Federal, Tocantins e parte dos estados da Bahia, Ceará, Ma-
ranhão, São Paulo, Paraná e Rondônia. Ocorre também em outros estados como
Roraima, Pará, Amapá e Amazonas, aparecendo como manchas.
Compreende os extensos chapadões, cobertos por uma vegetação de peque-
nas árvores retorcidas, dispersas em meio a um tapete de gramíneas.
Faz fronteira com outros ecossistemas, podendo ocorrer em manchas no
Amapá e Roraima, até o Paraná. Aparece em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Pará
e no Amazonas, como encraves dentro da floresta.
Sua diversidade de vida está relacionada ao fato de ali se encontrarem nas-
centes que fazem parte das três grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazô-
nica, do Paraná e do São Francisco.
A rede hidrográfica apresenta características diferenciadas, em função da
sua localização, extensão territorial e diversidade fisiográfica.
Ao sul, abrange parte da bacia do Paraná; à sudeste, o Paraguai; ao norte, a
Bacia Amazônica; à nordeste, Parnaíba e à leste, o São Francisco.
O clima típico da região dos cerrados é quente, semiúmido e sazonal, com
verão chuvoso e inverno seco. A temperatura média anual fica em torno de 22ºC
a 23ºC. As máximas absolutas mensais não variam muito, podendo chegar a mais
de 40ºC. Já as mínimas absolutas mensais possuem uma grande variação, poden-
do atingir temperaturas próximas ou até abaixo de zero, nos meses de maio, junho
e julho. A ocorrência de geadas no cerrado não é incomum.
A pluviosidade anual fica em torno de 800 a 1 600 milímetros. Ao
contrário da temperatura, a precipitação média mensal apresenta uma gran-
de estacionalidade, concentrando-se nos meses de primavera e verão (outu-
bro a março), que é a estação chuvosa. Durante os meses quentes de verão,
quando as chuvas se concentram e os dias são mais longos, tudo se torna
muito verde. Curtos períodos de seca, chamados de veranicos, podem ocor-
rer em meio a esta estação, criando sérios problemas para a agricultura.
No período de maio a setembro os índices pluviométricos mensais
reduzem-se bastante, podendo chegar a zero. No inverno, ao contrário, o ca-
pim amarela e seca; quase todas as árvores e arbustos, por sua vez, trocam
a folhagem por outra totalmente nova.
Disto resulta uma estação seca de três a cinco meses de duração. No
início deste período a ocorrência de nevoeiros é comum nas primeiras horas
das manhãs, formando-se grande quantidade de orvalho sobre as plantas
94
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

e umedecendo o solo. Já no período da tarde os índices de umidade relativa do


ar caem bastante, podendo baixar a valores próximos a 15%, principalmente nos
meses de julho e agosto.
Os solos são geralmente muito antigos, quimicamente pobres e profundos,
azonados, de cor vermelha ou vermelho-amarelada, porosos, permeáveis, bem
drenados e, por isso, intensamente lixiviados. Em sua textura predomina a areia,
em seguida a argila e por último o silte. São predominantemente arenosos, areno-
-argilosos, argilo-arenosos e ainda eventualmente, argilosos. Sua capacidade de
retenção de água é relativamente baixa.
O teor de matéria orgânica destes solos é pequeno, entre 3 e 5%. A decom-
posição do húmus é lenta. A flora e a fauna de um solo são partes integrantes dele
e deveriam permitir distingui-lo de outros, física ou quimicamente.
São solos impróprios para a agricultura. A correção do pH pela calagem,
aplicação de calcário, de preferência o calcário dolomítico, que é um carbonato
de cálcio e magnésio, e adubação, pode torná-los férteis e produtivos, seja para a
cultura de grãos ou de frutíferas.
Quando pastagens nativas de cerrado são utilizadas ao máximo, o solo fica
muito exposto. É facilmente erodido, e sujeito à formação de enormes voçorocas.
O relevo do cerrado é em geral bastante plano ou suavemente ondulado,
estendendo-se por imensos planaltos ou chapadões. Cerca de 50% de sua área
situa-se em altitudes que ficam entre 300 e 600 metros acima do nível do mar;
apenas 5,5% vão além de 900 metros.
As maiores elevações que se apresentam são:
Pico do Itacolomi, com 1 797 metros, na Serra do Espinhaço;
Pico do Sol, com 2 070 metros, na Serra do Caraça;
Chapada dos Veadeiros, que pode atingir 1 676 metros.

Características gerais:
as queimadas naturais
Acredita-se que, como em muitas savanas do mundo, os ecossistemas de
cerrado vêm coexistindo com o fogo desde tempos remotos, inicialmente como
incêndios naturais causados por relâmpagos ou atividade vulcânica e, posterior-
mente, causados pelo homem. Tirando proveito da rebrota do estrato herbáceo que
se segue após uma queimada em cerrado, os habitantes primitivos destas regiões
aprenderam a se servir do fogo como uma ferramenta para aumentar a oferta de
forragem aos seus animais (herbívoros) domesticados, o que ocorre até hoje.
Apresentaremos os efeitos do fogo sobre o cerrado nativo, não sobre aquelas
áreas em que ele é destruído em sua vegetação e sua fauna, para a implantação
de agricultura ou pecuária em pastagens cultivadas, pois neste caso a situação é
muito diversa e os efeitos, por vezes, totalmente opostos.
95
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

A biomassa seca, de palha, acaba criando condições tão favoráveis à queima


que qualquer descuido com o uso do fogo, ou a queda de raios produzem incên-
dios danosos para o ecossistema.
Uma alternativa para se evitar estes danos são as queimadas programadas.
Manejar o fogo adequadamente, levando em conta alguns objetivos do manejo,
a direção do vento, as condições de umidade e temperatura do ar, a umidade da
palha combustível e do solo, a época do ano, a frequência das queimadas.

Biodiversidade:
adaptações vegetais às queimadas
A paisagem do cerrado é caracterizada por extensas formações savânicas,
intercaladas por matas ciliares ao longo dos rios, nos fundos de vale. Outros tipos
de vegetação podem aparecer na região dos cerrados, tais como os campos úmi-
dos ou as veredas de buritis, nas quais o lençol freático é superficial.
As savanas do Brasil ou cerrados destacam-se pela sua grande expressivida-
de quanto ao percentual de áreas ocupadas. Apresenta árvores baixas e retorcidas,
arbustos, subarbustos e ervas.
As plantas lenhosas, em geral, possuem casca corticeira, folhas grossas,
coriáceas e pilosas. Entre algumas espécies encontradas nessas áreas estão: Kiel-
meyera spp (pau-santo), Magonia pubescens (tingui), Callistene spp (pau-jacaré)
e Qualea parviflora (pau-terra-de-folha-miúda).
Muitas plantas herbáceas têm órgãos subterrâneos para armazenar água e
nutrientes.

Tipos de cerrado
Campo limpo
Tipo de vegetação herbácea, com poucos arbustos e nenhuma árvore. É en-
contrada junto às veredas, olhos d’água e em encostas e chapadas. Pode aparecer
de duas formas:
campo limpo seco – quando ocorre em áreas onde o lençol freático é
profundo;
campo limpo úmido – quando o lençol freático é superficial.
As áreas de campo limpo úmido são ricas em espécies herbáceas ornamen-
tais como por exemplo: Rhynchospora speciosa (estrelona), Paepalanthus elonga-
thus (palipalã-do-brejo), Lagenocarpus rigidus (capim-arroz), Lavoisiera bergii
(pinheirinho-roxo) e Xyris paradisiaca (pirecão).

96
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

Campo sujo
Apresenta vegetação herbáceo-arbustiva com arbustos e subarbustos espa-
çados entre si. Aparece onde os solos são rasos podendo apresentar pequenos
afloramentos rochosos ou solos mais profundos, mas pouco férteis.
Varia com a umidade do solo e a topografia, podendo ser classificado como
campo sujo úmido e campo sujo seco.
Entre as espécies encontradas nos campos sujos da região estão: Episte-
phium sclerophyllum (orquídea-terrestre), Paepalanthus speciosus (sombreiro),
Cambessedesia espora, Vellozia flavicans (canela-de-ema) e Didymopanax ma-
crocarpum (mandiocão).

Campo rupestre
Vegetação encontrada nos topos de serras e chapadas com altitudes superio-
res a 900 metros e afloramentos rochosos com predominância de ervas e arbustos.
Não aparece em trechos contínuos.
Apresenta topografia acidentada e grandes blocos de rochas com pouco
solo. Em campos rupestres é alta a ocorrência de espécies vegetais endêmicas,
específicas geograficamente.
Espécies dessa vegetação são: Wunderlichia spp (flor-do-pau), Bulbophyllum
rupiculum (orquídea), Xyris paradisiaca (pirecão) e Paniculum chapadense (gra-
mínea).

Cerrado rupestre
É uma das formas de cerrado com fisionomia arbórea, arbustiva e herbácea.
Os solos são rasos, com afloramentos rochosos e pobres em nutrientes.
No estrato arbóreo-arbustivo, estão presentes espécies como: Wunderli-
chia crulsiana (flor-do-pau), Didymopanax spp (mandiocão), Tabebuia spp (ipês),
Vellozia spp (canela-de-ema, candombá) e Mimosa regina.
No estrato herbáceo encontram-se: Rhynchospora globosa (amarelão),
Paepalanthus acanthophylus (chuveirinho), Paepalanthus eriocauloides (mos-
quitinho), Echinolaena inflexa (capim-flexina), Loudeotiopsis chrysothryx (brin-
co-de-princesa), Xyris schizachne (pimentona), Xyris hymenachne (pimentinha-
-prateada), Lagenocarpus rigidus tenuifolius (capim-arroz).

Cerradão
Apresenta elementos xeromórficos que são adaptações a ambientes secos.
Apresenta espécies que sempre têm folhas chamadas perenifólias, enquanto ou-
tras apresentam queda de folhas e são as chamadas caducifólias como: Caryocar
brasiliense (pequi), Kielmeyera coriacea (pau-santo) e Qualea grandiflora (pau-
-terra). São encontradas poucas espécies epífitas. Em geral, os solos são profun-
dos, de média e baixa fertilidade.
97
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

Como exemplo temos na Chapada dos Veadeiros, as seguintes espécies


lenhosas: Agonandra brasiliensis (pau-marfim), Callistene fasciculata (faveiro),
Stryphnodendron adstringens (barbatimão), Copaifera langsdorfii (copaíba), Ma-
gonia pubescens (tingui), Xilopia aromatica (pindaíba). Entre as gramíneas: Aris-
tida, Axonopus, Paspalum e Trachypogon.

Mata seca
Tipo de formação florestal que não está associada aos cursos d’água.
Pode ser de três tipos:
mata seca sempre-verde;
mata seca semidecídua;
mata seca decídua.
Os dois primeiros tipos aparecem em rochas básicas de alta fertilidade e
média fertilidade, já a mata seca decídua ocorre em afloramentos de rochas cal-
cárias.
O estrato arbóreo apresenta altura que varia entre 15 e 25 metros. Entre
suas árvores eretas destacam-se: Amburana cearensis (imburana), Anadenanthera
colubrina (angico) e Tabebuia spp (ipês). Nas matas secas encontra-se uma va-
riedade de espécies decíduas, semidecíduas e sempre-verdes, destacando-se as
leguminosas Acacia poliphylla (angico-monjolo), Anadenanthera macrocarpa
(angico), Sclerobium paniculatum (carvoeiro), Hymenaea stilbocarpa (jatobá) e a
voquisiácea Qualea parviflora (pau-terra-de-folha-pequena).

Mata de galeria
Floresta tropical sempre-verde, nunca perde as folhas, ocorre junto aos cór-
regos e riachos. Árvores com altura entre 20 e 30 metros. Os solos variam em
profundidade, fertilidade e umidade. Ocorre em solos pobres, até solos mais rasos
e mais ricos em nutrientes.
Nas matas de galeria ocorrem as espécies: Copaifera langsdorfii (copaíba),
Virola sebifera (ucuúba), Cabralea canjerana (canjerana), Talauma ovata (pinha-
-do-brejo), Euterpe edulis (palmiteiro), Guadua paniculata (taquara), Epidendrum
nocturnum (orquídea epífita).

Mata ciliar
Floresta densa e alta que acompanha os rios de médio e grande porte. Árvo-
res eretas com altura predominante entre 20 e 25 metros. As espécies perdem as
folhas na estação seca.
Os solos variam de rasos a profundos ou ainda aluviais. A camada de ma-
terial orgânico é rasa. Espécies arbóreas: Anadenanthera spp (angicos), Apeiba

98
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

tibourbou (pente-de-macaco), Aspidosperma spp (perobas), Celtis iguana (grão-


-de-galo), Inga spp (ingás), Myracrodruon urundeuva (aroeira), Sterculia striata
(chichá) e Tabebuia spp (ipês).

Vereda
Vegetação dominada pelo Buriti (Mauritia flexuosa), palmeira que ocorre
entre espécies arbustivo-herbáceas. As veredas são encontradas sobre solos hi-
dromórficos e circundadas por campo limpo, geralmente úmido. Nas veredas, em
função do solo úmido, são encontradas com frequência espécies ornamentais de
gramíneas.

Flora
O cerrado é constituído por formações de chapadas e vales, vegetações
distintas.
Já foram catalogadas 774 espécies de árvores e arbustos no cerrado, das
quais 429 endêmicas. Há também um grande número de orquídeas. A região dos
cerrados possui alta luminosidade, baixa densidade demográfica e intensa ativi-
dade pastoril, ao sul.
Sua extensão territorial abrange mais de 1 200 quilômetros de leste para
oeste e mais de mil quilômetros de norte para sul. O cerrado está ameaçado pela
expansão desordenada da fronteira agrícola, que já ocupa quase 50% da região. A
destruição da cobertura vegetal supera 70% da área original, e até agora menos de
2% do cerrado está protegido por parques nacionais ou reservas, separados entre
si por grandes distâncias.

Pequi – Caryocar brasiliense


Subarbusto xilopodífero de folhas trifoliadas, pecíolos com 1 a 8 centíme-
tros de comprimento, lâminas assimétricas, inflorescência racemosa, corolas de
1,8 a 3 centímetros de comprimento, pétalas amarelo-alvescentes e estames nu-
merosos. Frutos com 4 a 5 centímetros de comprimento e igual largura. Ocorre
em campo limpo, campos cerrados. Categoria: vulnerável.

Quina-do-campo – Strychnos rubiginosa


Arbustos escandentes providos de gavinhas e espinhos, com pelos averme-
lhados, folhas sésseis a curto-pecioladas, lâminas elípticas e ovado-lanceoladas,
ápices mucronados de 2 a 3 centímetros de comprimento e 2,5 a 4 centímetros de
largura, cartáceas. Inflorescência em cima terminais, multifloras. Possui cálices,
cinco-lobados, corolas de cor creme, fruto tipo baga. Ocorre nos campos cerrados.
Categoria: em perigo.

99
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

Jaborandi – Piper macedoi Yuncker


Arbustos de 2 a 3 metros com folhas elípticas e lanceolado-elípiticas, base
assimétrica, indumentadas de 12 a 17 centímetros de comprimento e 5 a 8 centí-
metros de largura. Espigas com 6 a 9 centímetros de comprimento, alvescentes,
eretas, pedúnculos com 1,5 a 3,5 centímetros de comprimento. Frutos tipo drupa
oblonga. Ocorrência campo cerrado. Categoria: em perigo.
Essas são algumas espécies da flora do cerrado entre tantas outras, como o
angico, o ipê-amarelo, o dedaleiro ou pecari, velozia e o buriti.

Fauna
Nos habitats naturais, o cerrado apresenta diversidade em espécies. A ri-
queza de ambientes, com vários recursos ecológicos, abriga comunidades de ani-
mais, com diversas espécies e uma grande abundância de indivíduos, alguns com
adaptações especializadas para explorar recursos específicos de cada um desses
habitats.
No ambiente do cerrado são conhecidas 1 575 espécies animais. Com cerca
de 50 das 100 espécies de mamíferos. Apresenta também 837 espécies de aves;
150 de anfíbios, das quais 45 são endêmicas; 120 espécies de répteis, das quais 45
endêmicas, 90 espécies de cupins, 1 000 espécies de borboletas e 500 de abelhas
e vespas.
O homem e as suas atividades impuseram modificações aos habitats e como
consequência, espécies estão ameaçadas de extinção, como o tamanduá-bandeira,
a anta, o lobo-guará, o pato-mergulhão e o falcão-de-peito-vermelho, o tatu-bola, o
tatu-canastra, o cervo, o cachorro-vinagre, a onça-pintada, a ariranha e a lontra.
Com grande diversidade podemos citar algumas espécies características
como:

O lobo-guará – Chrysocyon brachiurus


(Illiger, 1815)
É um canídeo de pernas longas e finas, adaptadas para correr, o focinho é
também longo, possui as orelhas em pé, a cauda peluda e a cabeça pequena. Mais
ativos à noite, solitários, caçam individualmente. Sua cor é castanho-avermelha-
do, misturando-se com preto na ponta do focinho e a extremidade dos membros.
Tímido, inofensivo. Os casais unem-se na época da reprodução e o período de
gestação é de 60 a 65 dias, nascendo de dois a cinco filhotes no inverno. Alimenta-
-se de pequenos animais, como aves, roedores, répteis, insetos, e também de um
tomate silvestre da planta chamada “lobeira”.

100
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

O tamanduá-bandeira –
Myrmecophaga tridactyla (Linnaeus, 1758)
Edentado, ou seja, sem dentes, crânio alongado, língua muito longa e fina
para apanhar seu alimento que são principalmente as formigas e os cupins. Tem
o terceiro dedo dos membros anteriores com uma garra forte e cortante. Sua len-
tidão de movimentos se justifica pela baixa temperatura corporal. Cauda coberta
por pelos longos e ásperos, pelagem castanho-acinzentado com uma faixa preta
que vai do peito até a metade do dorso. Terrestre, solitário, com atividade diurna e
noturna. Unem-se em casais apenas na época do acasalamento. Um único filhote
nasce na primavera após uma gestação de 190 dias e é carregado no dorso da mãe
por alguns meses.

Ema – Rhea americana (Linaeus, 1758)


Espécie típica do cerrado. Alimenta-se de folhas tenras, brotos e tubérculos,
também de invertebrados e certas larvas, aracnídeos e vertebrados de pequeno
porte. Vivem em bandos, em número de 20 a 30. Aparecem associados ao gado
bovino. Machos velhos são solitários e os casais, durante a época de reprodução,
oscilam-se para criar a prole. O ninho é construído numa cavidade pouco profun-
da no solo coberta por gravetos e folhas, e é o macho que o constrói e também
quem faz a incubação e os cuidados de alimentação e de defesa dos filhotes. Os
ovos aparecem a cada dois ou três dias podendo chegar até 30 ovos. As perdas são
grandes. A fêmea larga alguns ovos nas imediações para despistar os predadores.
Os ovos grandes chegam a pesar 600 gramas. A incubação dura 35 a 40 dias. Os
filhotes são acinzentados com estrias escuras e abandonam rapidamente o ninho
Chega a 1,5 metro de altura e peso de 35 quilos. O macho é um pouco maior
que a fêmea. De cor cinzento-fosco, para se tornar discreta no ambiente. Sem
cauda, pescoço e pernas longas, pés com três dedos.

Conclusão
Apresentamos as características do cerrado brasileiro. É importante salien-
tarmos que estudos e pesquisas estão em desenvolvimento para que um conheci-
mento mais aprofundado deste ecossistema possa ser disponibilizado para nosso
aprendizado.
É importante ressaltar que, dentro das suas características específicas, é de
suma importância a preservação e conservação desse patrimônio, e isso só é pos-
sível a partir de um conhecimento maior dos seus componentes.

101
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

O bioma cerrado
(FUNATURA, 2005)
O bioma cerrado é formado por um conjunto de ecossistemas extremamente ameaçados pela
expansão da fronteira agrícola brasileira para a produção de grãos, principalmente milho e soja, e
pela pecuária extensiva. Além disso, vem sendo abusivamente explorado para extração de lenha,
usada na produção de carvão.
Dados do Estudo Ambiental de Goiás 2002 – GeoGoiás – comprovam essa realidade: só na-
quela região, até o ano 2000, nada menos que 74% do território estavam ocupados pela atividade
agrícola. Isso em um único estado brasileiro.
O cerrado sofre ainda com a utilização de queimadas para limpeza de terreno para plantio e
renovação de pastagens para o gado. Estimativas apontam para uma antropização de cerca de 70%
de toda sua extensão.
(Mantovani e Pereira, INPE, 1998 In: Ministério do Meio Ambiente. Funatura. Conservation
International, Fundação Biodiversitas e Universidade de Brasília, 1999. Ações Prioritárias para
a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e Pantanal. Brasília. 32 p).
[...]
Certamente ainda há muito a ser pesquisado no bioma, mas, apesar disso, o que já se sabe
significa muito. Segundo Dias (1992) estima-se que existam cerca de 160 mil espécies animais e
vegetais, excetuando-se vírus, distribuídas por 35 filos e 89 classes. De acordo com Alho (1990)
já foram identificadas 110 espécies de mamíferos, com 70 gêneros, sendo a grande maioria de
roedores e mamíferos.
[...]
Filgueiras (1998) informa que existe cerca de 500 espécies de gramíneas nativas, a maioria
endêmica. Inúmeras espécies de valor econômico têm sido usadas para produção de remédios e
alimentos, entre outros usos, porém em uma escala muito aquém de seu potencial.
Clima e vegetação
[...]
A vegetação sofre, porém a resistência característica das espécies faz com que rebrotem rapi-
damente. As plantas do Cerrado dispõem de formas muito especiais de adaptação para suportar a
falta de chuvas e os estragos do fogo. (PROENÇA et al., 2000).
As raízes extensas da maioria das árvores do cerrado são a principal arma para garantir sua
sobrevivência. São elas que buscam água nas profundezas do solo e permitem que suas folhas
estejam sempre verdes, mesmo no auge da seca.
As cascas grossas e corticentas (semelhantes à cortiça) protegem os troncos da ação do fogo.
A vegetação rasteira apresenta xilopódios, bulbos, rizomas e gemas subterrâneas que resistem
dormentes mesmo quando toda a parte aérea da planta desaparece, rebrotando com as primeiras
chuvas de primavera, geralmente em setembro.

102
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I

A estação das chuvas é um período de intenso crescimento para as plantas do Cerrado. Nos meses
de novembro, dezembro e janeiro chove copiosamente, podendo ocorrer tempestades. As folhas das
plantas se apresentam muito verdes e viçosas, há poucas flores, porém muitos frutos. Muitas plantas
do cerrado produzem seus frutos nesta época, quando os animais estão em período de acasalamento e
também quando o bioma abriga muitas espécies de aves migratórias (PROENÇA et al., 2000).

1. Após o estudo do ecossistema cerrado, em grupos de no máximo sete alunos, analisem critica-
mente o texto apresentado, fazendo o relatório de cada item.

2. Com todas as informações contidas nos relatórios elaborem uma carta de intenções do grupo de
como fazer para minimizar a degradação do ecossistema cerrado.

<www.eco.ib.usp.br/cerrado>
<www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty>

103
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado I


104
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

Introdução

V
amos conhecer os aspectos socioeconômicos e os impactos ambientais causados ao ecossiste-
ma cerrado.
É importante ressaltar que, dentro deste contexto, apresentaremos propostas de soluções aos
problemas impostos ao ambiente, soluções viáveis, dentro de um contexto de expansão econômica e
viabilidade de sobrevivência das populações locais.
Vamos perceber a importância deste ecossistema e a necessidade urgente de medidas que abran-
dem os efeitos causados pelas ações dos seres humanos.
Pretendemos entender que é possível, sim, coexistir com recursos naturais, utilizando-os de
maneira racional e planejada, para não levá-los a um limite e exaustão.
Para tanto é importante estarmos atentos aos movimentos ou inter-relações que se estabelecem
dentro do ecossistema cerrado. Não podemos desprezar seus elementos naturais e ignorar seus fenô-
menos e sim devemos evoluir nosso conhecimento a ponto de podermos conviver com eles.
Então, você está disposto a mais esta empreitada?
Contamos com sua disposição para as ações necessárias à conservação de mais um ecossistema
brasileiro ameaçado de extinção, abrangendo a flora e a fauna.
Agradecemos por estarem nesta caminhada conosco.

Aspectos socioeconômicos
Até a década de 1950, os cerrados mantiveram-se quase inalterados. A partir da década de 1960,
com a interiorização da capital e a abertura de uma nova rede rodoviária, ecossistemas deram lugar à
pecuária e à agricultura. Tais mudanças foram apoiadas na implantação de novas infraestruturas viárias
e energéticas e na descoberta de novas vocações desses solos, permitindo o desenvolvimento de novas
atividades agrárias rentáveis, em primeiro plano, e colocando a biodiversidade em segundo plano.
A pressão urbana e o estabelecimento de atividades agrícolas na região vêm reduzindo a biodi-
versidade destes ecossistemas. Até os anos de 1960, as atividades agrícolas nos cerrados eram limi-
tadas, direcionadas principalmente à produção extensiva de gado de corte para subsistência ou para o
mercado local. Sendo os solos naturalmente inférteis para a produção agrícola.
O crescimento urbano e industrial da região Sudeste forçou a agricultura para o Centro-oeste. A
mudança da capital do país para Brasília foi outro foco de atração de população para a região central.
A água parece não ser um fator limitante para a vegetação do cerrado. Como algumas plantas
possuem raízes pivotantes profundas, que chegam a 10, 15, 20 metros de profundidade, atingindo ca-
madas de solo permanentemente úmidas, mesmo na seca elas dispõem de abastecimento hídrico.

105
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

Muitas espécies arbóreas de cerrado florescem em plena estação seca como


o ipê-amarelo, demonstrando o mesmo fato.

Alta produtividade para a lavoura


Os solos do cerrado são em algumas partes bem degradados devido às ativi-
dades agrícolas e pastagens, sendo recuperados com reflorestamento de espécies
de Eucalyptus, associado com plantio de milho e feijão, de café, maniçoba e pal-
ma. A correção do pH do solo é feita pela calagem, que é a aplicação de calcário, e
a adubação, é feita com macro ou com micronutrientes. Com esses cuidados o solo
se torna fértil e produtivo, seja para a cultura de grãos ou de plantas frutíferas. A
soja, o milho, o sorgo, o feijão, entre outros, e as plantas frutíferas como manga,
abacate, abacaxi e laranja são cultivados com sucesso. Os cerrados tornaram-se
grande área de expansão agrícola.
A pecuária também se expandiu com o cultivo de gramíneas africanas in-
troduzidas, de alta produção e palatabilidade, como a braquiária, por exemplo. A
regeneração artificial é feita com espécies de acácia, agathis, araucária, cássia,
cedrela, cupressus, pinus, podocarpus, terminalia, entre outras.
A maior evidência de que água não é o fator limitante do crescimento e
produção do estrato arbóreo-arbustivo do cerrado é o fato de aí encontrarmos ex-
tensas plantações de Eucalyptus, crescendo e produzindo. A termoperiodicidade
diária e estacional parece ser um fator de certa importância para a vegetação, par-
ticularmente para o estrato herbáceo-subarbustivo. Geadas, todavia, prejudicam
bastante as plantas matando suas folhas, que logo secam e caem, aumentando em
muito a serapilheira e o risco de incêndios.

Impactos ambientais
Degradação do cerrado
Durante as décadas de 1970 e 1980, houve um rápido avanço da agricultura,
com base em desmatamentos, queimadas, uso de fertilizantes químicos e agro-
tóxicos, que resultou em 67% de áreas do cerrado “altamente modificadas”, com
voçorocas, assoreamento e envenenamento dos ecossistemas. Restam apenas 20%
de área em estado conservado.
Desde 1990, governos e diversos setores organizados da sociedade discutem
a conservação do que restou do cerrado, buscando tecnologias que propiciem o
uso adequado dos recursos hídricos, a extração de produtos vegetais nativos, os
criadouros de animais silvestres e o ecoturismo.

106
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

Fogo no cerrado
Um dos fatores ecológicos importantes do cerrado é o fogo. Ele pode ser
gerado de diversas formas naturais, mas a principal delas são as descargas elétri-
cas. Os incêndios diminuem a densidade do cerrado, prejudicando o incremento
do material lenhoso e favorecendo a expansão das plantas herbáceas. Na verdade,
as queimadas periódicas, com intervalos maiores do que cinco a sete anos, já
aconteciam no cerrado antes da chegada do ser humano. A maioria das plantas do
cerrado está adaptada ao fogo, possuindo cascas grossas e brotos subterrâneos.
Há, inclusive, várias espécies de plantas que só germinam após as queima-
das. Mas as queimadas intensas, feitas a cada um ou dois anos pelos pecuaristas,
são extremamente nocivas ao cerrado.
Outra hipótese, de maior aceitação, considera o cerrado uma vegetação clí-
max, que não se torna uma floresta devido às condições de clima e solo, tendo o
fogo um papel secundário.
A radiação solar no cerrado é geralmente bastante intensa, podendo reduzir-
se devido à alta nebulosidade, nos meses excessivamente chuvosos do verão. Por
esta possível razão, em certos anos, outubro costuma ser mais quente do que de-
zembro ou janeiro. O inverno é seco, quase sem nuvens. Em agosto e setembro, a
intensidade reduz-se um pouco em virtude da abundância de névoa seca produzi-
da pelos incêndios e queimadas da vegetação.
As pastagens nativas de cerrado, quando são sobrepastejadas, deixam o solo
muito exposto e facilmente erodido. Devido às suas características texturais e es-
truturais, ele é também frequentemente sujeito à formação de enormes voçorocas.
Certas formas abertas de cerrado devem seu aspecto às derrubadas feitas pelo
homem para a obtenção de lenha ou carvão.
Espécies exóticas de gramíneas, de origem africana, como o capim-gordura,
o capim-jaraguá, a braquiária, estão invadindo estas unidades substituindo rapi-
damente as espécies nativas do seu riquíssimo estrato herbáceo-subarbustivo. É
urgente inverter esta situação.

Alternativas de soluções
Acredita-se que, como em muitas savanas do mundo, os ecossistemas de
cerrado vêm coexistindo com o fogo desde tempos remotos, inicialmente como
incêndios naturais causados por relâmpagos ou atividade vulcânica e, posterior-
mente, causados pelo homem. Tirando proveito da rebrota do estrato herbáceo que
se segue após uma queimada em cerrado, os habitantes primitivos destas regiões
aprenderam a se servir do fogo como uma ferramenta para aumentar a oferta de
forragem aos seus animais (herbívoros) domesticados, o que ocorre até hoje.
Já a vegetação herbácea e subarbustiva, formada por espécies predominan-
temente perenes, possui órgãos subterrâneos de resistência, como bulbos, xilo-
pódios, sóboles etc., que lhes garantem sobreviver à seca e ao fogo. Formam-se,

107
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

entre quatro a seis toneladas de palha por hectare/ano, um combustível que facil-
mente se inflama, favorecendo assim a ocorrência e a propagação das queimadas
nos cerrados.
Em termos de riqueza de espécies, esta flora deve ser superada apenas pelas
florestas amazônicas e pelas florestas atlânticas. Outra característica sua é a hetero-
geneidade de sua distribuição, havendo espécies mais típicas dos cerrados da Região
Norte, outras da Região Centro-Oeste, outras da Região Sudeste etc. Por esta razão,
unidades de conservação, com áreas significativas, deveriam ser criadas e mantidas
nas mais diversas do cerrado, a fim de garantir a preservação do maior número de
espécies da flora deste bioma, bem como da fauna a ela associada.
Atualmente, a região do cerrado contribui com mais de 70% da produção
de carne bovina do país (CORRÊA, 1989, s.p.) e, graças à irrigação e técnicas de
correção do solo, é também um importante centro de produção de grãos, princi-
palmente soja, feijão, milho e arroz.
Grandes extensões de cerrado são ainda utilizadas na produção de polpa
de celulose para a indústria de papel, através do cultivo de várias espécies de
Eucalyptus e Pinus, mas ainda como uma atividade secundária.

Unidades de conservação do cerrado


A conservação dos recursos naturais dos cerrados é representada por diver-
sas categorias de unidades de conservação, de acordo com objetivos específicos:
oito parques nacionais, diversos parques estaduais e estações ecológicas, compre-
endendo cerca de 6,5% da área total de cerrado (DIAS, 1993, s.p.).
Poucas são as nossas unidades de conservação, com áreas bem significa-
tivas, em que o cerrado é o bioma dominante. Entre elas podemos mencionar o
Parque Nacional das Emas, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, o Parque
Nacional da Chapada dos Guimarães, o Parque Nacional da Serra da Canastra, o
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e o Parque Nacional de Brasília.

Parque Nacional das Emas


Localizado em Mineiros, Goiás, com uma área de 131 868 hectares, com
clima subquente úmido com três meses secos, temperatura média variando entre
22ºC e 24ºC, pluviosidade entre 1 500 a 1 750 milímetros anuais, relevo suave
ondulado, solos vermelho-escuro e vermelho-amarelo.
Vegetação característica de savana e fauna da província geográfica cariri-
-bororó.
É considerado o mais significativo parque nacional do cerrado. Seu nome
foi dado em virtude do grande número de emas (Rhea americana) encontradas.
Os cupins são a base alimentar dos tamanduás. Algumas aves como a coruja-
-do-campo (Speotyto cunicularia) e siriema (Cariama cristata) aproveitam-se dos
cupinzeiros, como ponto de observação para atacar suas presas, pois os mesmos
podem atingir até dois metros de altura.
108
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

A vegetação é pouco degradada, com mata ciliar, campos limpos, campos


sujos, manchas de cerrado e pequenas manchas de cerradão. Podemos encontrar
o buriti (Maurita flexuosa) e a copaíba (Copaifera sp). As gramíneas dominantes
são dos gêneros Aristida, Axoponus, Paspalum, entre outras, e ainda encontra-
mos frutíferas como a fruta-da-ema (Parinari sp), caju Anacardium sp) e murici
(Byrsonima spp).
A fauna é representada pelo tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridac-
tyla), o veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus), as emas (Rhea americana) e
ainda a suçuarana (Felis concolor), os tatus-galinha (Dasypus novemcinctus), o
raro urubu-rei (Sacoramphus papa), as araras-canindé (Ara ararauna), o macaco-
-prego (Cebus apella) e o bugio (Alouatta spp.).
Podemos encontrar ainda os répteis, como sucuris (Eunectes murinus), jaca-
rés e cobras peçonhentas.
O parque não dispõe de infraestrutura para acomodação de visitantes, o
turismo é razoável.

Parque Nacional Chapada dos Veadeiros


Localizado em Alto Paraíso de Goiás e Cavalcanti, com uma área de 60
mil hectares, clima quente-úmido com quatro a cinco meses secos, temperatura
média anual entre 24ºC e 26ºC, pluviosidade varia entre 1 500 e 1 750 milímetros
anuais, relevo ondulado e solos vermelho-escuro. A vegetação de savana, cerrado
arbórea aberta e a fauna da província geográfica cariri-bororó.
Sua altitude varia desde 600 até 1 650 mil metros, sendo que as costas mais
elevadas formam a Serra da Santana na Chapada dos Veadeiros.
O principal rio é o Preto, afluente do rio Tocantins, com belíssimas cacho-
eiras.
A vegetação encontrada é composta por um tapete gramíneo-lenhoso, en-
tremeado por árvores xeromorfas, geralmente degradadas pelo fogo. Podemos en-
contrar o pau-terra-vermelho (Qualea multiflora), a lixeira (Curatella americana),
ainda o murici-rói-rói (Byrsonima cocaldsifolia), o caju-do-campo (Anacardium
sp), entre outras, como a aroeira (Astronium urundeuva), a copaíba (Capaifera
grandifolia), o jerivá (Arecastrum romanzaffianum), o buriti (Mauritia sp) e o
babaçu (Orbignya martiana).
Na fauna, encontramos o veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus), a onça-
-pintada (Panthera onça), o tapeti (Sylvilagus brasiliensis) – nosso único lago-
morfo silvestre entre os lobos-guarás (Chrysocyon brachyurus) –, o tatu-canastra
(Priodontes giganteus) e o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), entre
capivaras e antas, tucanos-de-bico-verde e emas.
O parque não possui infraestrutura para hospedagem e locomoção os visi-
tantes.
A visitação deve ser autorizada pelo Departamento de Unidades de Conser-
vação, em Brasília (DF).
109
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

Parque Estadual do Cerrado


O Parque Estadual do Cerrado foi criado em 1992, através do Decreto Es-
tadual 1.232. Mantém um dos últimos remanescentes de cerrado no Paraná, e
encontra-se localizado no município de Jaguariaíva, na região dos Campos Gerais
e Campos de Jaguariaíva.
Sua criação deu-se com o objetivo de conservar um dos últimos remanes-
centes de cerrado ainda existente no estado, considerado ameaçado em função da
pouca representatividade destas áreas no Paraná.
O parque, com área total de 420,4 hectares, tem uma importância científica
inestimável, já que o cerrado está entre os ecossistemas mais importantes e ame-
açados do mundo, expondo à perda representantes da flora e da fauna de um dos
ecossistemas mais ricos do país.
Com deslumbrante paisagem característica dos Campos Gerais, o Parque
Estadual do Cerrado apresenta, ao longo dos vales, afloramentos de rochas arení-
ticas esculpidas pelo vento e pela chuva e densa floresta ciliar.
Sua vegetação constitui-se de uma mistura de espécies botânicas encontra-
das no Brasil meridional, somadas às espécies características do Planalto Central
Brasileiro, em que predominam as áreas savânicas.
No parque não existe um padrão único de flora, no qual associam-se for-
mações de campos, cerrados e florestas, que juntos apresentam índices de riqueza
florística bastante elevados. Predominam espécies como o barbatimão, o pequi, a
copaíba, os ipês, o dedaleiro, entre inúmeras outras de porte arbóreo, arbustivo e
herbáceo.
São muitas as espécies animais que o habitam, sendo expressiva a diversi-
dade de aves, répteis, invertebrados e mamíferos já identificados: jacu, siriema,
quero-quero, anu-branco, carracho, tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, veado,
lobo-guará, capivara, gato-do-mato, suçuarana, onça-pintada, entre outras.
Apesar da interferência humana ser marcante em praticamente toda área do
parque, este se mantém em bom estado de conservação e representa efetivamente
a vegetação savânica que ocupou a região antes de sua colonização.
O parque destina-se basicamente a atividade de: ecoturismo, educação am-
biental e pesquisa, oferecendo
monitores voluntários capacitados para recepção e orientação;
estacionamento para micro-ônibus, vans, automóveis, motocicletas e bi-
cicletas;
centro de visitantes, alojamento para pesquisadores, centro de pesquisa,
casa do guarda-parque, posto avançado e torre de observação;
a infraestrutura energética fotovoltaica de saneamento alternativo, capta-
ção e tratamento d’água são também referenciais técnicos e educativos.

110
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

Um cenário de árvores retorcidas, em ambiente aparentemente árido e sem


vida, é a primeira impressão que temos ao entrar no cerrado. Mas na verdade esta-
mos diante de uma vegetação de beleza cênica única, que além de flores exuberan-
tes, apresenta uma imensa riqueza biológica e uma fauna rica e expressiva, fatores
que garantem que o cerrado seja a savana de maior biodiversidade do mundo.
Seguir através de trilhas com extensão total de 3 mil metros é uma opção
que nos dá a oportunidade de constatar a beleza deste cenário. Contemplar a vista
magnífica do cânion do rio Jaguariaíva do mirante ou mesmo descer até as suas
margens para ver as fortes corredeiras é outra opção.
Como um espetáculo a todo aquele que visita o parque, o Ribeirão Santo
Antonio segue com corredeiras e pequenas quedas, até formar uma cachoeira de
aproximadamente 40 metros, completando a rara beleza do cerrado paranaense.
O cerrado é apontado por especialistas como sendo uma das 19 áreas mais
representativas e ameaçadas para a biodiversidade no mundo. Novas espécies es-
tão sendo constantemente descobertas e estima-se que há ainda centenas de espé-
cies que nem sequer são conhecidas.
A conservação do cerrado é tarefa importante e sua participação e apoio
são fundamentais para a manutenção da biodiversidade vegetal e animal desta
Unidade de Conservação.
A grande maioria das atuais unidades de conservação, sejam elas federais,
estaduais ou municipais, encontra-se com problemas fundiários, de demarcação
de terras e construção de cercas, de acesso por estrada de rodagem, de comuni-
cação, de gerenciamento, de realização de benfeitorias necessárias, de pessoal em
número e qualificação suficientes etc.

Conclusão
Como pudemos observar, o ecossistema cerrado, aparentemente frágil, tem
sobrevivido a inúmeras ações dos homens, mostrando ser viável tanto do ponto
de vista da conservação como do ponto de vista da utilização dos seus recursos
disponíveis.
Para tanto, é necessário estudar melhor seus recursos para poder manejá-
-los com maior planejamento, garantindo assim a sua inesgotabilidade e seu uso
futuro.
Esperamos a sensibilização de todos para estas questões de relevante im-
portância e urgência.
Podemos ver que o Brasil é privilegiado em biodiversidade, em riqueza de
espécies de fauna e flora, formações cênicas exuberantes, mas isso nos impõe
uma maior responsabilidade sobre esses elementos.
Estaremos preparados para isto, então.

111
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

A Rede
(REDE DE SEMENTES DO CERRADO, 2005)
A Rede de Sementes do Cerrado é uma associação sem fins lucrativos que visa o fomento do
comércio e a melhoria da qualidade das sementes e mudas de espécies nativas do cerrado. Como
tal, a Rede incentiva e promove:
a conservação e a recuperação do cerrado;
a prestação de serviços referentes à conservação, promoção e exploração sustentada de
plantas nativas do cerrado;
estudos e pesquisas referentes às plantas nativas do cerrado;
a divulgação de informações técnicas e científicas;
a execução direta e indireta de projetos, programas e planos de ação pertinentes.
As ações da rede englobam todas as fases da produção e comercialização de mudas e semen-
tes, desde a caracterização de matrizes até o acompanhamento de mudas no seu destino final.
O projeto de estruturação da rede contou inicialmente com o apoio do Fundo Nacional do
Meio Ambiente/Ministério do Meio Ambiente (FNMA), por meio de um edital que, em 2001, le-
vou à criação de oito Redes nas diversas regiões do Brasil (Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica, e
Pantanal, além do Cerrado). Terminado o convênio com o FNMA, a Rede se organizou como uma
associação sem fins lucrativos, que, em breve, estará solicitando o título de Oscip (Organização
Social de Interesse Público).
O trabalho da Rede de Sementes do Cerrado é dinâmico e as informações contidas neste site
serão atualizadas constantemente, uma vez que a flora do cerrado compreende mais de 6 mil es-
pécies e grande parte das plantas ainda não foram estudadas. Contamos com sua colaboração no
envio de informações que enriqueçam nosso Banco de Dados.
Qualquer pessoa, instituição, associação ou empresa interessada em propagação, cultivo, pre-
servação, plantio ou fornecimento de sementes de plantas nativas do Cerrado poderá tornar-se
sócio da Rede de Sementes do Cerrado. Para obter mais informações, leia o Estatuto da Rede de
Sementes do Cerrado.
Sócios efetivos são as pessoas físicas que participaram da fundação da associação ou que
mantêm o status de sócio mantenedor, através do pagamento de anuidade por três anos consecuti-
vos; estes exercem os direitos de votar e ser votado. Os sócios colaboradores são as pessoas físicas
que se associam, gratuitamente, à Rede por compartilhar dos interesses da mesma; eles recebem
informações sobre as plantas nativas do Cerrado, cursos, publicações e eventos, além de obter
vantagens nos serviços e produtos da Rede. Atualmente são mais de 1 300 sócios colaboradores
no quadro da Rede de Sementes do Cerrado. Empresas e órgãos públicos e privados podem se
associar na qualidade de sócio institucional. [...]

112
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II

1. Baseados nas informações obtidas formem um grupo de debate, elabore uma lista das questões
indicadas como mais importantes.

2. Com base nesta lista de prioridades, junto com seu grupo de estudos, faça um quadro abordan-
do o problema prioritário e ao lado a possível solução.

<www.funatura.org.br/htm/cerrado.htm>
<www.unesco.org.uy/mab/BRA/bra2.htm>

113
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Cerrado II


114
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I
Mauricio Ferreira Magalhães

N
esta aula estudaremos o ambiente costeiro e as ilhas presentes nas águas
continentais do território brasileiro. Ainda estudaremos suas caracterís-
ticas geográficas, destacando sua classificação quanto a intensidade de
luz, massa d’água (profundidade) e distribuição dos seres vivos. Destacaremos a
importância dos ambientes insulares como locais de intenso endemismo e como
região de reprodução de diversas espécies de aves.

Características geográficas
O talassociclo (talassos = sal) é caracterizado como o conjunto dos Talassociclo: o
ambientes de águas salgadas no planeta, sendo o mais representativo, uma maior biociclo do
vez que compreende 71% de toda a área da terra. Formado pelos oceanos
planeta
Pacífico, Índico, Ártico, Antártico e Atlântico. Este último forma a região
costeira brasileira.
Os ecossistemas costeiros compreendem também os manguezais, as restin-
gas e os oceanos, que trataremos como objeto nesta aula. A costa brasileira com-
preende 8 698 quilômetros de extensão e é conhecida oficialmente como Zona
Costeira Brasileira.

Características gerais
Toda a costa brasileira é banhada pelo Oceano Atlântico. Este separa a Eu-
ropa e África a leste, da América a oeste. Este oceano tem uma área estimada em
82,4 milhões de quilômetros quadrados.
O Brasil possui uma das maiores regiões costeiras deste oceano e assinou
em 1982, ratificando em 1988, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do
Mar, estabelecendo a Zona Econômica Exclusiva (ZEE).
Nesta região, o país tem direito de soberania quanto à exploração e gerencia-
mento dos recursos vivos e não vivos. Tal convenção entrou em vigor no final de
1994. A ZEE situa-se além das 12 milhas náuticas (cerca de 22 quilômetros) do Mar
Territorial Brasileiro, estendendo-se até o limite de 200 milhas (cerca de 370 quilôme-
tros). No Brasil, essa área abrange cerca de 2,7 milhões de quilômetros quadrados.
O ambiente oceânico é extremamente estável, quando comparado aos ecos-
sistemas terrestres. 1 Representam o Biotopo,
ou seja, o conjunto de fa-
tores físicos e químicos que
Os fatores abióticos1 são fundamentais para a distribuição dos seres vivos compõem um ecossistema.
Interferem na possibilidade
neste ecossistema. Temos como exemplos: temperatura, salinidade, pressão, cor- de adaptação dos seres vivos
ao ambiente.
rentes e luminosidade.
115
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

Classificação quanto à luminosidade


O espectro de luz penetra na massa de água de acordo com sua intensi-
dade (insolação), com a quantidade de matéria em suspensão e devido à trans-
parência dessa água. Em virtude destes fatores podemos classificar o ambiente
marinho em:
zona eufótica – região onde a luz penetra de zero a 100 metros de profun-
didade. Por ser intensamente iluminada, estimula a proliferação de algas
e consequentemente desencadeia uma grande concentração de organis-
mos marinhos. Apresenta uma elevada produtividade primária2.
zona disfótica – região onde a luz penetra de 100 a 300 metros de profundi-
dade. Ocorre uma sensível diminuição da produtividade, uma vez que as al-
gas têm dificuldade de sobreviver neste local devido a baixa luminosidade.
zona afótica – região onde não há luminosidade. Compreende as pro-
fundidades após 300 metros. Não há ocorrência de organismos fotos-
sintetizantes e os seres são extremamente adaptados à total escuridão,
dependendo de matéria orgânica proveniente das regiões mais super-
ficiais dos mares.

Classificação quanto à profundidade


As formações oceânicas são determinadas pelo tipo de relevo que configu-
ra aquele local, sendo composto por diferentes configurações acompanhando as
características continentais. De acordo com a massa de água podemos classificar
o oceano em:
zona interdidal ou entremares (sistema litorâneo) – representa a região
que sofre a influência direta das marés. Os organismos que habitam este
local são adaptados a esta influência, que significa a exposição ao sol
durante parte do dia e o fato de ficarem submersos no restante.
zona nerítica ou plataforma continental (sistema nerítico) – representa a
região em que entramos no oceano. Este local próximo à costa caracteri-
za o Talude3 e sua profundidade média é de 200 metros. A extensão deste
local depende do grau de declive da plataforma continental, e quanto
mais suave for este declive maior a diversidade biológica. É o local de
maior variedade biológica, concentra 90% de toda a vida oceânica.
2 A taxa de produção de
matéria orgânica realiza-
da pelos organismos fotossin- zona oceânica ou batial (sistema batidal) – representa o local da grande
tetizantes. Nos oceanos, estes
organismos são representa- massa de água oceânica, ponto em que atinge uma profundidade de 200
dos pelas algas do fitoplânc-
ton e pelas macroalgas. a 2 000 metros. Há uma redução nas correntes e a diversidade biológica
é pequena. Caracteriza o local de rota para migração dos grandes cardu-
mes de peixes e os mamíferos marinhos.

3 Região escarpada que


forma a plataforma conti-
nental até a região pelágica.
zona abissal (sistema abissal) – representa a região das profundezas
oceânicas, entre 2 mil e 5 mil metros de profundidade, pouco estudada

116
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

pelo homem. Apresenta espécies muito adaptadas à elevada pressão e a


ausência total de luz. Os peixes que vivem neste local são cegos, com
adaptações diversas, tais como: bocas grandes, estômagos dilatados, bio-
luminescência4 etc.
zona hadal (sistema hadal) – representa as grandes fossas oceânicas. São
muito semelhantes à região abissal, compreendendo uma profundidade
entre 5 mil e 11 mil metros. Os seres que vivem neste local dependem
da chuva de detritos5. Alguns grupos são capazes de produzir alimento
através de quimiossíntese.

Classificação quanto à distribuição de seres vivos


Os seres vivos oceânicos sofrem influência direta das correntes com nu-
trientes, da temperatura da água, da salinidade, da luminosidade e da pressão.
Foram classificados de acordo com a capacidade de locomoção.
Plâncton – os organismos planctônicos são caracterizados por incapaci-
dade de vencer as correntes marinhas. Vivem próximos à superfície e re-
presentam a base de toda cadeia alimentar oceânica. São formados por
algas (micro e macroscópicas), larvas de moluscos, crustáceos, alevinos de
peixes, protozoários e bactérias. Podem ser divididos em dois subgrupos:
– fitoplâncton – organismos fotossintetizantes produtores de matéria
orgânica;
– zooplâncton – organismos consumidores de matéria orgânica.
Nêcton – os organismos nectônicos representam os grandes nadadores
ativos, se locomovem pelos oceanos em busca de maiores ofertas de ali-
mentos. Temos como exemplos peixes, répteis, mamíferos, alguns gru-
pos de moluscos.
Bênton – os organismos bentônicos apresentam como característica bá-
sica a relação direta com o substrato do fundo oceânico. Podem viver
fixos (sésseis) ou ainda apresentam uma locomoção limitada ao fundo e
aos costões rochosos. Temos como exemplos: ouriços, estrelas, cracas,
mexilhões, ostras, corais, estrelas-do-mar entre outros.
4 Capacidade de alguns
seres vivos (bactérias,
peixes, insetos) de emitirem
luz. Pode ser com a finalida-
de de atrair seus parceiros ou
simplesmente para orientar

Classificação quanto ao tipo de habitat


localização.

5
Sistemas lagunares margeados por manguezais e marismas. Caracteriza a matéria
orgânica que decanta
Costões e fundos rochosos, com recifes de coral. das regiões superiores para
as regiões mais profundas.
Representa a forma de obte-
Bancos de algas calcáreas. rem alimento para sua sobre-
vivência, uma vez que são
Plataformas arenosas, recifes de arenito paralelos à linha de praias e seres incapazes de realizar a
fotossíntese.
falésias.

117
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

Dunas e cordões arenosos.


Ilhas costeiras e ilhas oceânicas.

Classificação de acordo
com as correntes e regiões do Brasil
Região Norte – nesta área o fundo oceânico sofre intensa influência dos
sedimentos carreados pela bacia amazônica. Predomina a corrente norte,
o fundo torna-se lamacento e rico em material particulado, este fato fa-
vorece o desenvolvimento de peixes de fundo e camarões.
Região Nordeste – nesta área há uma intensa formação coralínea que
favorece um habitat para peixes de pequeno porte e toda a fauna bentô-
nica. É uma região muito importante, pois vive lá o peixe-boi marinho e
representa o principal local de desova das tartarugas marinhas.
Região Central – muito semelhante à região nordeste, porém com maio-
res flutuações climáticas, onde as águas mais frias são trazidas por cor-
rentes oceânicas da Antártica. Apresentam uma intensa produtividade
sendo locais favoráveis para a pesca oceânica. Na região de Arraial do
Cabo e Cabo Frio (RJ) ocorre o fenômeno da ressurgência6. Este torna as
águas extremamente férteis e aumenta muito a produtividade no local.
Região Sul – caracterizada como uma região subtropical, abrange do Rio
de Janeiro ao Rio Grande do Sul. Apresenta variações climáticas mais
significativas que as outras regiões e também sofre influência direta do
encontro da Corrente Brasileira com a corrente das Malvinas.

Ilhas da costa brasileira


Devido à grande área oceânica pertencente ao Brasil, nosso ambiente tam-
bém apresenta muitas formações de ilhas. Nestes locais temos um elevado grau de
endemismo, uma vez que os organismos ficam isolados geograficamente e podem
apresentar variedades únicas.
6 Este fenômeno ocorre em
raros locais do planeta
(Peru, Portugal, África, Ca- De acordo com a formação do ambiente insular temos sua classificação:
lifórnia e no Brasil em Cabo
Frio e Arraial do Cabo-RJ), e
é caracterizado pela intensa A grande maioria de nossas ilhas apresenta sua formação como porções
fertilização das águas oceâ-
nicas. Em Cabo Frio e Arraial
do continente que afloram próximo à costa. São exemplos as ilhas oriun-
do Cabo-RJ a ressurgência é das das escarpas emersas da Serra do Mar.
o resultado da ação dos ven-
tos de quadrante leste/nor-
deste que atuam afastando a Outro grupo são as ilhas resultantes dos depósitos de sedimentos de bai-
Corrente do Brasil (vinda do
Nordeste) e permitindo que
xa altitude. Este processo de formação acaba caracterizando uma confi-
aflore a Corrente das Mal- guração de restinga, isolada pelas águas oceânicas. Muito encontrada no
vinas (vinda do Sul). Com
isso, os nutrientes do fundo litoral de São Paulo.
emergem para a superfície
favorecendo a proliferação
do fitoplâncton, que é a base
Um terceiro grupo, característico de regiões oceânicas mais distantes da
da cadeia alimentar marinha,
desencadeando um aumento
costa, são o resultado dos movimentos das placas tectônicas e das erup-
significativo da produtivida- ções vulcânicas. O assoalho marinho provoca a emersão de montanhas
de no local.

118
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

submersas formando este tipo de ilha. Fernando de Noronha e Abrolhos


representam os maiores exemplos no território brasileiro.
O quarto e último grupo são as ilhas coralíneas, conhecidas como atol. Os
corais se desenvolvem e afloram à superfície formando este tipo de ilha.

Biodiversidade / características biológicas


As florestas oceânicas são representadas pelas algas marinhas. Esses orga-
nismos são caracterizados pela intensa capacidade de realizarem fotossíntese. São
avasculares7 e não possuem estruturas básicas dos vegetais (raiz, caule, folha, flor
e fruto).
Dividem-se em dois grupos: microalgas e macroalgas.
Microalgas – representam o grupo de algas unicelulares com estrutu-
ras de locomoção própria (não conseguem vencer as correntes). Sua
intensa atividade metabólica e a grande disponibilidade de água, luz,
dióxido de carbono e minerais, permite uma intensa taxa fotossintética,
garantindo a elevada produtividade primária oceânica. Sua distribui-
ção é condicionada à disponibilidade de luz, apresentando uma elevada
densidade na zona eufótica.
São responsáveis pela produção de 90% do oxigênio molecular terres-
tre, logo, são consideradas o “pulmão do mundo”. Também apresentam
bioluminescência, que interfere no comportamento de diversos animais
e são a base de toda a cadeia alimentar marinha.
Classificadas como fitoplâncton, apresentam dois grupos que merecem
destaque: diatomáceas e dinoflagelados. O primeiro possui a célula com
um revestimento de sílica (capsula envoltória), que quando acumulada
forma o solo denominado diatomito, muito utilizado nas indústrias de
abrasivos, cosméticos e cremes dentais. O segundo apresenta uma tona-
lidade vermelho-parda e são responsáveis pelo fenômeno red tide (maré
vermelha).
Macroalgas – são pluricelulares e podem atingir dezenas de metros de
comprimento. Sua massa corporal pode fornecer alimento para toda a
fauna de herbívoros dos oceanos. Variam entre algas verdes (clorofí-
ceas), marrons (feofíceas) e vermelhas (rodofíceas). Podem se fixar ao
substrato rochoso, em cascos de animais e navios, píer etc. Apresentam
uma associação muito intensa com a fauna marinha, sendo esta denomi-
nada de fital.
A fauna oceânica é caracterizada por diversos grupos de seres, desde
organismos microscópicos como o zooplâncton (protozoários, bactérias, ro-
7 Ausência de vasos con-
dutores de seiva bruta e
elaborada. Esta característi-
ca obriga a alga a retirar os
tíferos, copépodos, radiolários etc.) até os maiores animais do planeta como seus nutrientes diretamente
as baleias, passando pela imensa variedade de peixes, tartarugas e mamíferos da água.

como o golfinho.

119
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

Conclusões
Nesta aula apresentamos parte do ecossistema Oceano Atlântico. Em nosso
estudo destacamos a sua localização e enfatizando a Costa Brasileira. Entende-
mos as diversas formas de classificá-lo, quanto a penetração de luz, massa de
água, distribuição de seres vivos, tipos de habitat e correntes oceânicas.
Identificamos as características mais importantes na formação desse bioma,
tais como interferências dos fatores abióticos, e a sua extrema estabilidade. Por
fim, caracterizamos sua diversidade biológica através da exemplificação de exem-
plares da fauna e da flora, bem como sua importância para produção de alimentos
e como renovação das cadeias alimentares.

El Niño
(LOPES, 2004)
Denomina-se El Niño o aumento anormal da temperatura da água superficial do oceano Pací-
fico na costa oeste da América do Sul. Essa ocorrência de águas quentes foi identificada há séculos
por pescadores peruanos, ao observarem enorme diminuição na quantidade de peixes sempre
próximo do Natal, data em que se comemora o nascimento do menino Jesus, daí terem dado ao
fenômeno o nome de El Niño (o menino, em espanhol).
Esse fenômeno ocorre geralmente em intervalos de dois a sete anos. Seu ciclo típico inicia-se
no começo de um ano, atinge sua máxima intensidade durante o mês de dezembro do mesmo ano
(e janeiro do ano seguinte), enfraquecendo-se na metade do segundo ano. Entretanto, com as alte-
rações climáticas que vêm ocorrendo no planeta, tanto a periodicidade quanto a duração e mesmo
a época de ocorrência do fenômeno tem variado.
Normalmente, os ventos alísios tropicais no oceano Pacífico, na altura da América do Sul,
sopram em direção à Ásia (de leste para oeste), “empilhando” as águas mais aquecidas no setor
oeste e fazendo com que o nível desse oceano na Indonésia fique cerca de meio metro acima do
nível que ele apresenta na costa oeste da América do Sul.
A temperatura na superfície do mar é cerca de 8ºC mais elevada na região da Indonésia e
em setores norte/nordeste da Austrália. Já a temperatura menor na costa oeste da América do Sul
deve-se às águas frias que sobem de níveis mais profundos do oceano (ressurgência).
Estas águas frias são ricas em nutrientes, permitindo a manutenção de ecossistemas mari-
nhos ricos em espécies, tornando-se uma área com muitos peixes.
Quando ocorre o fenômeno El Niño, os ventos relaxam, chegando até, algumas áreas na faixa
tropical, a inverter o sentido e passar a soprar para leste. As águas mais quentes e elevadas da
região da Indonésia e Austrália movimentam-se então em direção à América do Sul, em forma de
ondas conhecidas como ondas de Kelvin, elevando o nível do mar no lado leste. O deslocamento

120
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

das águas traz consigo a fonte de calor para a costa oeste da América do Sul, gerando mudanças
na circulação geral da água e da atmosfera.
As temperaturas das águas superficiais ficam, assim, acima da média na costa oeste da Amé-
rica do Sul. O fenômeno da ressurgência deixa de ocorrer e as águas ficam pobres em nutrientes,
o que causa grande mortalidade de organismos marinhos.
Com a inversão dos ventos para leste durante o fenômeno El Niño, há inversão também do
regime de chuvas. Passam a ocorrer secas na Austrália e Indonésia e chuvas ao longo de toda a
extensão de águas quentes dessa região do Pacífico até a costa oeste da América do Sul, principal-
mente sobre o Equador e o Peru.
Essas alterações acabam por afetar todo o clima do planeta, provocando em alguns lugares
chuvas torrenciais e em outros secas, calor extremo, vendavais e furacões.
No Brasil, os impactos do El Niño atingem diferentemente cada região:
Norte – estima-se que o El Niño deva diminuir as chuvas no leste e noroeste da Amazônia;
Centro-oeste – a influência do fenômeno não foi até agora muito estudada. Seu efeito não
é considerado dos mais proeminentes na região. Em geral, o fenômeno eleva as tempera-
turas médias e diminui as chuvas;
Sul – ao lado do Nordeste, é a região que costuma ser afetada pelo fenômeno. El Niño
aumenta a intensidade das chuvas durante a primavera no primeiro ano e fim do outono
e início do inverno no segundo ano (sobretudo na faixa que vai do norte do Rio Grande
do Sul até o Paraná);
Nordeste – esta é uma região extremamente afetada pelo fenômeno. O El Niño intensifica
a seca nordestina, exercendo influência especialmente nos meses de fevereiro a maio,
quando ocorre a estação chuvosa do semiárido;
Sudeste – os efeitos do El Niño nessa região não são tão intensos quanto no sul e Nordes-
te e se manifestam de forma, às vezes, contraditória. Na maior parte da região, o El Niño
tende a aumentar um pouco as temperaturas médias e a secura do ar, tornando o inverno
mais ameno. Em algumas áreas do Sudeste, no entanto, esse fenômeno pode provocar até
aumento das chuvas.

1. Faça um levantamento da fauna oceânica, incluindo cinco variedades de peixes ósseos e de


peixes cartilaginosos.

2. Justifique o fato do oceano ser identificado com o “pulmão do mundo”.

3. Comente as principais características dos organismos formadores do plâncton.

121
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos I

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites abaixo, que permitirão uma maior
visualização do ambiente oceanos.
<www.ambientebrasil.com.br>
<www.defesanet.com.br>
<www.mma.gov.br>

122
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

N
esta aula entenderemos a importância do ambiente costeiro para a população brasileira, e
estudaremos a utilização desse ecossistema para exploração econômica, com ênfase nas ati-
vidades pesqueiras, de maricultura e na exploração de petróleo da plataforma continental.
Identificaremos os principais impactos ambientais, bem como as alternativas de soluções e descreve-
remos os principais projetos de preservação relacionados a esse ecossistema.

Aspectos socioeconômicos
O oceano representa um ecossistema de fundamental importância para qualquer país. O Brasil
é privilegiado pelos seus mais de 8 mil quilômetros de costa banhados pelo Atlântico Sul.
Podemos destacar diversas atividades de integração do homem na tentativa de utilizar os recur-
sos oferecidos por esse oceano. Entre estas atividades temos: pesca (artesanal e industrial), exploração
de petróleo, biotecnologia, exploração de minerais, transporte de produtos, produção de energia alter-
nativa, produção de sal, maricultura, turismo, lazer etc.
Vamos particularizar cada uma dessas atividades, identificando como são realizadas e a sua
relevância para a população humana.

Pesca
A pesca no Brasil é uma das atividades mais importantes para a geração de renda. Estimamos
que 22% da população brasileira está instalada na região costeira. Este fato gera uma demanda de
realização da atividade pesqueira como forma de obtenção de alimento e de sustento para muitas
famílias. Isso é refletido na cultura da população de pescadores tendo impactos econômicos e sociais
marcantes.
Segundo o Ibama, 800 mil empregos diretos e 3 milhões de empregos indiretos são oriundos da
pesca no Brasil. Existem dados mais efetivos da pesca industrial, baseados em números das grandes
empresas.

Pesca artesanal
A pesca artesanal consiste na atividade predominante da costa brasileira. Com uma área de 8 698
quilômetros de extensão, é fácil entendermos a localização de diversas comunidades que ocupam o
local.
Existe uma dificuldade muito grande para monitorar e mensurar este tipo de pesca devido a
sua característica de subsistência ou amadora. Os números não são seguros. O fato é que este tipo de
pesca tem pouco alcance e, consequentemente, pequeno impacto sobre o ambiente. É realizada por
famílias que passam suas técnicas e tradições de geração a geração.

123
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

Existe também por este grupo uma preocupação com a capacidade de supor-
te do oceano, pois eles sabem da dependência da continuidade da pesca para sua
sobrevivência. Utilizam pouca tecnologia e barcos de pequeno porte, alcançando
no máximo 20 metros de profundidade e causando poucos impactos ambientais.
Esta atividade contribui com 40% da pesca em peso de pescado.

Pesca industrial
Destacam-se no Brasil as regiões Norte e Nordeste como as mais produ-
toras, seguidas da região Sul e Sudeste. O estado do Pará é o maior produtor de
pescado e crustáceos do Brasil, com 145 toneladas e Santa Catarina em segundo
lugar com 108 mil toneladas.
Mesmo alcançando os maiores índices de produção na pesca industrial e
na pesca extrativa de crustáceos, nas regiões Norte e Nordeste o clima quente
permanente e a baixa taxa de nutrientes na água não favorece o desenvolvimento
da pesca.
Quando analisamos a mitilicultura1 e a malacocultura2 percebemos que há
um desenvolvimento muito grande no Brasil na região Sul, com mais de 12 mil
toneladas produzidas em 2000.
As regiões sul e sudeste apresentam um contraste maior na temperatura das
águas da Corrente do Brasil (vinda do Nordeste) com a Corrente das Malvinas
(vinda do Sul). Este fenômeno, associado a uma menor salinidade, permite um
favorecimento para a produtividade marinha, também favorecida por uma maior
disponibilidade de nutrientes (ressurgência).
A pesca industrial é caracterizada por ocorrer na plataforma continental
(150 a 200 metros) e participa com 60% da produtividade pesqueira oceânica. Este
fato ocorre devido à alta tecnologia de exploração e modernas embarcações.

Exploração do petróleo
O Brasil é o décimo sexto país no ranking de produção de petróleo no mun-
do. Este é o recurso mineral marinho mais importante. Os estudos demonstram
que ainda temos cerca de 30 a 40% de petróleo a ser descoberto no Brasil e que
este mineral esteja localizado em mar aberto.
Nossas reservas de petróleo e gás na região costeira brasileira estendem-se
da foz do rio Amazonas até a costa do Rio Grande do Sul, sendo que sua maior
concentração está na bacia de Campos, no Rio de Janeiro.

1 Cultura de mexilhões em
fazendas marinhas.
Biotecnologia
A biotecnologia é caracterizada pela utilização de organismos vivos ou das
substâncias produzidas pelos mesmos em benefício humano. Os seres marinhos
2 Cultivo de ostras em fa-
zendas marinhas. têm se apresentado como fontes inestimáveis de recursos biotecnológicos.

124
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

Podemos citar exemplos:


esponjas marinhas – sustâncias inibidoras do crescimento de tumores;
peixes – anticancerígenos; anti-hipertensivos e controladores de gordura;
algas – ligas de cremes e sorvetes;
quase todos os seres – substâncias protetoras contra a radiação ultravio-
leta;
invertebrados – substâncias anticorrosivas;
bactérias – degradadoras de petróleo.

Exploração de minerais
As reservas de sedimentos a base de carbono que são exploradas para a pre-
paração da cal, são de grande interesse nas indústrias de cimento, vidro, abrasivos
e na agricultura como corretivo de solo.
Temos também as turfeiras ou solo turfoso – o acúmulo de estruturas vegetais
em zonas costeiras. Esta massa orgânica é utilizada como fonte de energia alterna-
tiva. Encontramos sua distribuição na costa brasileira apenas nos estados do Rio
Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Norte.

Transporte marítimo
As grandes empresas transportadoras em nível mundial utilizam o transpor-
te marítimo como sua principal atividade econômica. Safra de grãos, automóveis,
petróleo, carne, produtos manufaturados, atravessam os oceanos em contêineres.
Estas empresas são classificadas como megacarriers, ou seja, empresas
com capacidade acima de 100 navios e responsável pelo transporte dos principais
produtos dos países exportadores.

Energia
Muitas pesquisas têm sido desenvolvidas no sentido de produzirem fontes
alternativas de energia. O Japão é pioneiro neste tipo de ação e o Brasil, estimu-
lado pelo seu grande potencial costeiro, tem produzido algumas estações experi-
mentais para a produção de energia utilizando o potencial oceânico.
Uma das técnicas consiste em aproveitar a diferença de temperatura das
águas profundas e superficiais e gerar energia. Outra técnica é caracterizada pelo
represamento das águas oceânicas, aproveitando o efeito das marés e ondas, e
posteriormente soltando essas águas, que passando por turbinas, geram energia.
O mais importante é que estas formas de geração de energia são considera-
das limpas e renováveis, o que conduz a uma prática sustentável.

125
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

A produção de sal
O Brasil foi um grande produtor de sal de origem marinha, porém aos pou-
cos a atividade foi sendo preterida em função da especulação imobiliária, que
ocupou grande parte das áreas valorizadas destinadas às salinas e também da
produção de sal de origem terrestre (em minas).
O estado do Rio Grande do Norte ainda mantém uma boa produtividade
(4,6 milhões de toneladas ano), porém altos impostos dificultam a manutenção da
atividade.

Impactos ambientais
O Oceano Atlântico, como todo oceano, apresenta um grau de estabilidade
ambiental muito grande. A pequena variação dos fatores abióticos exerce uma
reduzida pressão seletiva, com isso a biodiversidade é bem menor entre os mares
e não é comparável com a encontrada no ambiente terrestre.
Sua pujança denota uma falsa impressão de que absorve os impactos com
maior facilidade, porém a manutenção de seu equilíbrio é fundamental para a
continuidade da vida no planeta.
No Brasil encontramos apenas 5% dos corais do Oceano Atlântico, mas o
endemismo é elevado (50% dos nossos corais e 20% dos nossos peixes). Esse fato
aumenta em muito a nossa responsabilidade no gerenciamento desses recursos e
nos impactos gerados neste ecossistema.
Os principais impactos ambientais a este ecossistema podem ser identifica-
dos como:
Pesca excessiva
– 50% dos estoques estão em exploração plena;
– 15% dos estoques estão sobre-explorados;
– 10% dos estoques estão em colapso;
– 30% dos estoques não são explorados.
Poluição por petróleo – estima-se que 6 milhões de toneladas/ano são
lançadas nos oceanos. Este óleo causa impactos profundos na fauna e
flora marinha: impede a respiração dos peixes, contamina os animais fil-
tradores, forma uma película de filme impedindo a fotossíntese, intoxica
os crustáceos, impregna as penas das aves matando-as por frio e intoxi-
cação.
Poluição por agrotóxicos – provocam a malformação em diversos organis-
mos, impedem o crescimento das algas, promovem a bioacumulação.
Poluição por resíduos sólidos – este tipo de poluição provoca a contami-
nação pelos diversos tipos de substâncias tóxicas presentes no lixo, além

126
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

de contribuir para a proliferação de vetores e doenças que podem afetar


a população que frequenta o local.
Poluição por esgoto – um dos maiores problemas enfrentados por praias
próximas aos grandes centros urbanos é a contaminação por esgotos.
Os emissários submarinos, quando existem, são construídos de forma
inadequada (muito próximos a costa) e as línguas negras nas praias fer-
tilizam as águas promovendo a multiplicação de bactérias tóxicas e con-
taminando a população com diversas doenças (dermatites, conjuntivites,
hepatites etc.).

Manejo e gestão ambiental


Após identificarmos a importância econômica e social deste ambiente. De-
vemos ressaltar a necessidade de um planejamento de gerenciamento costeiro.
Com isso podemos ordenar a exploração e interação do homem com o ambiente
oceânico. A seguir apresentamos algumas iniciativas de sucesso num paradigma
de sustentabilidade.

Projeto Tamar
Este projeto consiste na preservação das tartarugas marinhas por toda a
costa e ilhas brasileiras. Representa um programa do Ibama, associado à Funda-
ção Protamar e patrocinado pela Petrobras e por prefeituras municipais. Monitora
mais de mil quilômetros de praia, com 20 bases, em oito estados brasileiros.
O trabalho consiste em:
monitoramento das tartarugas marinhas quando em período de desova;
coleta de sangue e tecidos para análise de DNA, objetivando o incremen-
to de pesquisas científicas;
controle de ninhos e proteção de filhotes até o momento da soltura para
o mar;
recuperação de tartarugas feridas, capturadas em redes e posterior rein-
trodução do espécime ao oceano;
conscientização ambiental através de programa educacional voltado para
a população local e os turistas.

Projeto Baleia Jubarte


O grande objetivo deste projeto é a preservação da baleia Jubarte. Também é
um projeto do Ibama em parceria com a Petrobras. Consiste em avaliar o compor-
tamento, identificar cada espécime, coletar banco de DNA, estudar vocalização
e remover possíveis cetáceos encalhados. Seu principal foco é o Parque Nacional
Marinho de Abrolhos (BA), local de rota migratória em época de reprodução.

127
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

Projeto Peixe-Boi Marinho (Trchecus manatus)


Este projeto nasceu da experiência adquirida com a preservação do peixe-
-boi amazônico. Sabendo da necessidade de preservar também o peixe-boi mari-
nho, o Ibama em parceria com a Petrobras, mais uma vez, promoveu a execução
deste projeto.
Suas ações principais são:
resgatar, reabilitar e reintroduzir peixes-boi no seu habitat natural;
reprodução e nascimento de filhotes em cativeiro;
marcação e monitoramento diário por meio da radiotelemetria;
análise sanguínea e de DNA;
estudo de comportamento.

Defeso
O defeso representa uma estratégia de proibição e interrupção da pesca ou
coleta de qualquer ordem, dos animais marinhos em seu período de reprodução.
Com isso garantimos que haja a renovação dos estoques destes animais para man-
termos a densidade populacional adequada.
Em seguida apresentamos o exemplo da sardinha.

Julho a setembro, e novembro a março


A sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) foi pescada acima dos
níveis aceitáveis de sustentabilidade do recurso, ou seja, foi sobre-explora-
da. Atualmente, existe pouca sardinha no mar.
Aumentando a população reprodutiva (ou biomassa desovante), ou seja,
disponibilizando mais “pais” (adultos) para que possam gerar mais “filhos”
(juvenis), visando a incorporação e permanência destes novos indivíduos
(filhos) junto a população adulta. Este é o objetivo do defeso de recruta-
mento implementado a partir de julho de 2004.
O recrutamento ou repovoamento é um processo em que os juvenis de
sardinha (com aproximadamente meio ano de vida) afastam-se da costa em
sentido ao mar aberto para agrupar-se à população adulta, incorporando-se
ao cardume. Este evento inicia-se nos meses de abril, maio ou junho, depen-
dendo do início da desova. Os indivíduos de vida curta, como a sardinha,
têm a sustentação da população dependente deste ‘repovoamento’.
Secretaria Nacional de Agricultura.

128
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

Conclusões
Nesta aula identificamos como a população brasileira interage com o ecos-
sistema oceânico. Destacamos a importância econômica na exploração da pesca,
na prospecção de petróleo e outros minerais, no transporte da produção dos países
exportadores, na produção de sal e no turismo/lazer.
Ainda apresentamos os principais impactos ambientais causados pela ex-
ploração excessiva e desordenada da pesca, os derramamentos de petróleo com
comprometimento de toda a fauna e flora oceânica, a poluição por agrotóxicos,
lixo e por esgoto doméstico.
Finalmente demonstramos os principais projetos financiados pela Petrobras
e executados pelo Ibama, no intuito de preservar espécies ameaçadas, como as
tartarugas marinhas, a baleia jubarte e o peixe-boi marinho.

Petrobras ultrapassa 1 milhão e 800 mil barris


(2005)
A Petrobras registrou, em 12 de maio de 2005, a produção de 1 819 604 barris de petróleo,
suplantando, pela primeira vez, a barreira de 1,8 milhões de barris/dia. Esta marca é mais um
passo decisivo na direção da desejada, e cada vez mais próxima, autossuficiência brasileira em
petróleo.
Este recorde foi cerca de 28 mil barris superior ao anterior, obtido em 25 de abril de 2005
(1 milhão 792 mil barris); 6,8% superior ao último recorde mensal de produção obtido em abril
de 2005 (1 milhão 704 mil barris por dia); 14,9% maior que a média do 1.º quadrimestre de 2005
(1 milhão 583 mil barris por dia) e 21,9% acima da produção média de 2004 (1 milhão 493 mil
barris por dia). [...]
Esse novo recorde de produção deve-se, principalmente, à entrada em operação de poços
ligados à plataforma P-48, no Campo de Caratinga e à outra unidade, também instalada recente-
mente na Bacia de Campos, a P-43, no Campo de Barracuda,  que atingiu sua capacidade máxima
de produção (150 mil barris por dia). A produção conjunta destas duas unidades, P-43 e P-48,
chegou a 278 mil barris, ou 92,6% da capacidade máxima de processamento de 300 mil barris por
dia. A P-48 entrou em operação em 28 de fevereiro deste ano e deverá atingir o pico de produção
ainda neste 1.º semestre. [...]
A produção doméstica de petróleo da Petrobras atingiu a marca de 1,54 milhões de barris
por dia em 2003, representando cerca de 91 % da demanda de derivados do país nesse ano, de 1,7
milhões de barris por dia. Para atingir a meta de produção nacional estabelecida no Plano Estra-
tégico Petrobras 2015, de 2,3 milhões de barris por dia em 2010, representando um crescimento
médio anual de 5,9%, serão implantados 15 grandes projetos de produção de petróleo até o ano de
2008. [...]

129
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Oceanos II

1. Faça um levantamento de quatro fatores de exploração econômica do ecossistema oceânico.

2. Identifique os principais impactos ambientais causados pela exploração indequeada dos oceanos.

3. Pesquisa na internet as principais ações dos Projetos Tamar e Baleia Jubarte.

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites a seguir, que permitirá uma maior
visualização do ambiente oceano.
<www.ibama.gov.br/cma>
<www.defesanet.com.br>
<www.mma.gov.br>

130
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I
Sandro Menezes Silva*

Características geográficas do bioma

O
litoral brasileiro, com aproximadamente 9 mil quilômetros de exten-
são, pode ser considerado pobre em termos de grandes recortes, prin-
cipalmente quanto à relação entre sua extensão e a área territorial do
país. Com base nas características geológicas, oceanográficas e climáticas da
costa brasileira, podem ser reconhecidas cinco regiões: amazônica, nordestina,
oriental, sudeste e meridional1.
O litoral amazônico ou equatorial estende-se da foz do rio Oiapoque até o
Maranhão oriental, e tem como principal característica os manguezais, associados
às desembocaduras de grandes sistemas fluviais como o Amazonas e o Tocantins.
Em alguns pontos do litoral do Pará e do Maranhão ocorrem áreas de restingas,
onde sedimentos arenosos formam pequenas planícies e campos de dunas inter-
caladas por outros tipos de sedimentos, notadamente aqueles provenientes dos *Biológicas
Licenciado em Ciências
pela Universidade
grandes rios que deságuam na região. Federal do Paraná (UFPR),
com Mestrado e Doutorado
em Biologia Vegetal pela
O litoral nordestino, também conhecido como região das Barreiras, vai da foz do Universidade Estadual de
rio Parnaíba ao Recôncavo Baiano e tem como principais características a presença de Campinas. Professor de pós-
graduação em Ecologia e
depósitos sedimentares da formação Barreiras, que podem formar falésias2 juntamen- Conservação da Universida-
de Federal do Paraná (UFPR)
te com os arenitos de praia, além de barreiras com recifes de corais e extensas áreas e Coordenador de Incentivo
à Conservação da Natureza
com dunas de grande porte. Os manguezais ocorrem associados às regiões de estuá- na Fundação O Boticário de
rios3, enquanto áreas de restingas ocorrem de forma pontual e isolada, associadas a Proteção à Natureza.

outras feições sedimentares mais típicas deste trecho da costa.


O litoral oriental limita-se do Recôncavo Baiano ao sul do Espírito Santo, com 1 Esta divisão foi proposta
inicialmente por Silveira
(1964), sendo adotada pos-
teriormente, com algumas
muitas características comuns ao litoral nordestino, mas com o aparecimento das es- adições e modificações, por
carpas da Serra do Mar, ainda relativamente interiorizadas e que vão atingir as proxi- outros autores, como Suguio
e Tessler (1984), Suguio e
midades do oceano na região de Vitória (ES). A costa é geralmente baixa e caracteri- Martin (1987) e Villwock
(1994), entre outros.
zada pela ocorrência de áreas mais ou menos extensas de restingas, ora isoladas, ora
ligadas umas às outras e ao continente, formando as chamadas planícies costeiras.
2 Feições abruptas e íngre-
mes semelhantes a gran-
O litoral sudeste ou litoral das escarpas cristalinas compreende o trecho que des barrancos nas proximi-
dades da costa, formadas por
estende-se do sul do Espírito Santo ao Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, sedimentos arenosos conso-
lidados e que foram sujeitos
e tem na proximidade das escarpas cristalinas da Serra do Mar ao oceano seu à intensa erosão marinha,
comuns na costa do nordeste
principal aspecto físico da paisagem. A presença de grandes reentrâncias na linha do Brasil.
de costa, correspondentes a baías mais ou menos preenchidas por sedimentos de
origem diversa, e algumas lagunas com extensão e grau de sedimentação variá- 3 Corpo aquoso litorâneo
de circulação mais ou
menos restrita, ainda ligado
veis também são destaques nesta região. As restingas também constituem uma ao oceano aberto, em muitos
feição bastante característica desta região, muitas vezes associadas à formação de casos relacionados à desem-
bocadura de rios com intenso
amplas áreas de planície costeira. processo de sedimentação.

131
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

O litoral meridional ou subtropical abrange o trecho costeiro que vai do Cabo


de Santa Marta, na região de Laguna, até a desembocadura do rio Chuí, na divisa do
Brasil com o Uruguai; além do clima subtropical, tem ainda como aspectos marcantes
a ocorrência de amplas planícies sedimentares arenosas associadas a um conjunto de
lagunas com diferentes níveis de comunicação com o oceano.
Mas o que são as restingas e como se relacionam às demais feições litorâ-
neas? Quais os fatores que podem influenciar na sua formação e nas suas respec-
tivas características abióticas e bióticas?

Características gerais
Em todas as regiões reconhecidas da costa brasileira ocorrem planícies for-
madas por sedimentos terciários e quaternários, depositados em ambientes mari-
nho e continental. Frequentemente estas planícies estão associadas a desemboca-
duras de grandes rios e/ou reentrâncias na linha de costa, e podem estar
intercaladas por falésias e costões rochosos de idade pré-cambriana, sobre os
quais assentam-se eventualmente sequências sedimentares e vulcânicas acumula-
das em bacias paleozoicas, mesozoicas e cenozoicas (VILLWOCK, 1994). Estas
feições são comumente denominadas na literatura como planícies costeiras ou
planícies litorâneas, e frequentemente as restingas estão associadas a estas.
Existem vários significados para o termo restinga na litera-
Qual o significado do tura relacionada à região costeira do Brasil, variando de um sentido
termo restinga? puramente geológico até um caráter eminentemente ecológico. No
sentido geológico, restinga refere-se a sedimentos arenosos litorâneos
de diferentes origens e com feições deposicionais diversas, conotação bastante
abrangente e, portanto, de uso cada vez menos frequente entre os geólogos. No
sentido fitogeográfico, o termo relaciona-se a diferentes tipos de vegetação que
recobrem as áreas de substrato arenoso ao longo da costa brasileira, incluindo
desde a vegetação das praias e dunas até as florestas situadas em terrenos mais
interiorizados.
É comum encontrar-se na literatura o termo complexo da restinga relacio-
nado a este significado, justamente indicando a grande variedade de fisionomias
vegetacionais que caracteriza essas áreas litorâneas. Mas é o sentido ecológico do
termo aquele que tem sido mais empregado, inclusive neste texto, onde o termo
tem a conotação de um bioma ou conjunto de ecossistemas com substrato de ori-
gem marinha, sobre o qual desenvolvem-se diferentes tipos vegetacionais, geral-
mente formando as planícies costeiras. A formação geológica destas depende de
4 Correntes essencialmente
paralelas à linha de costa,
geradas pela incidência oblí-
vários fatores, dentre os quais destacam-se as variações relativas do nível do mar
decorrentes de mudanças ambientais ocorridas durante o período Quaternário,
qua de ondas a esta linha, e
que atingem maior velocida- as correntes de deriva litorânea4, das fontes primárias de sedimentos (aporte de
de quando as ondas chegam à
costa em ângulos que variam
rios ou da plataforma continental) e das “armadilhas” para retenção destes sedi-
de 45º a 58º. Também são mentos (saliências e reentrâncias na linha de costa, desembocaduras de grandes
conhecidas como correntes
longitudinais. rios, ilhas isoladas etc.). Uma explicação detalhada dos processos envolvidos na

132
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

formação das planícies costeiras formadas por cordões litorâneos ou feixes de


restingas pode ser encontrada nos trabalhos de Suguio e Tessler (1984) e Suguio
e Martin (1987).
As restingas formadas pela justaposição de cordões litorâneos são uma das
feições mais marcantes do litoral brasileiro, especialmente nas regiões Sudeste e
Sul, cujos ambientes atuais mais comumente encontrados são as praias, as dunas
frontais, os cordões litorâneos e as zonas intercordões. Os cordões litorâneos que
formam as restingas são, em alguns casos, pouco visíveis em campo, mas tornam-
-se evidentes em imagens de satélite e fotografias aéreas.
O reconhecimento de uma unidade de classificação para a região litorânea bra-
sileira, e dentro desta para as restingas, é mais ou menos evidente entre os diferentes
trabalhos que dedicaram-se ao estudo dos biomas e ecossistemas brasileiros. Entretan-
to, a denominação empregada, seja para designar e classificar a região litorânea, seja
para diferenciar especificamente suas respectivas fisionomias de vegetação, é bastante
diversa, e em alguns casos confusa. Tanto a restinga como os manguezais, bastante
expressivos ao longo de toda a costa brasileira, são reconhecidos praticamente em todos
os trabalhos consultados, mas a definição das diferentes comunidades, fisionomias e/ou
formações vegetacionais associadas a esses conjuntos carece de critérios de classifica-
ção objetivos e, ao mesmo tempo, flexíveis, permitindo maior aplicabilidade a todo o
litoral brasileiro.

Biodiversidade
Vegetação
A vegetação das restingas brasileiras é bastante heterogênea, florística e estru-
turalmente, com formações distintas ocorrendo relativamente próximas espacialmen-
te, característica esta que já foi evidenciada por diversos pesquisadores desde meados
do século passado. O uso de termos como complexos ou mosaicos para referir-se à
restinga, evidencia esse aspecto, reforçado por estudos mais recentes e detalhados,
que procuraram tipificar e denominar os distintos tipos vegetacionais costeiros. Esta
heterogeneidade é refletida na grande variedade de propostas de classificação e sis-
tematização encontradas na literatura, muitas destas com aplicação eminentemente
regional, e gera uma série de dificuldades para comparações entre as diversas áreas já
estudadas e conhecidas. Na literatura sobre a costa brasileira podem ser encontrados
relatos genéricos sobre os principais aspectos fisionômicos da restinga, listagens e
descrições detalhadas de diferentes regiões do litoral e propostas de mapeamento e
denominação das suas diferentes formações ou comunidades vegetacionais.
As formações vegetacionais da região litorânea brasileira já foram incluídas
nas chamadas formações edáficas, destacando o papel do solo no condicionamen-
to dos diferentes tipos vegetacionais costeiros. Seguindo esta tendência de reco-
nhecer o solo como um fator condicionador importante na vegetação litorânea, e
também procurando adequar a classificação da vegetação brasileira a um sistema

133
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

internacional, nos anos de 1970-1980 a equipe do projeto Radambrasil, realizou


diferentes tentativas de classificação fitogeográfica do espaço brasileiro, que evo-
luíram conceitual e metodologicamente, culminando com a proposta do IBGE
(1992) que, embora passível de críticas, principalmente em relação às escalas de
trabalho, apresentam critérios objetivos de classificação.
Neste sistema, as planícies litorâneas brasileiras incluem áreas representativas de
diferentes unidades fitoecológicas5, com destaque para as formações pioneiras com
influência marinha, flúvio-marinha ou fluvial/lacustre, agrupados nos sistemas edá-
ficos de primeira ocupação. As restingas equivalem em sua maior extensão às for-
mações pioneiras com influência marinha e fluvial/lacustre, onde mesclam-se tipos
vegetacionais arbóreos, arbustivos e herbáceos, variações fisionômicas que podem ser
observadas desde as praias até os pontos mais interiores da planície costeira.
Vários trabalhos regionais procurando classificar e caracterizar florística e
fisionomicamente as formações vegetais da restinga aparecem mais frequente-
mente na literatura nos anos de 1980-1990. Nos estado do Rio de Janeiro, Espírito
Santo e Rio Grande do Sul, esses estudos resultaram em conhecimentos mais
aprofundados, que reforçaram o caráter heterogêneo da vegetação e a importância
ecológica dessa variação na manutenção da biodiversidade litorânea.
Atualmente pode-se dizer que a vegetação das restingas do Brasil, notada-
mente nas regiões Sul e Sudeste, onde estas são mais características, tem vários
dos seus aspectos relativamente bem conhecidos, com um incremento substancial
na quantidade de trabalhos produzidos nos últimos 20 anos.
Os diferentes tipos de vegetação ocorrentes nas restingas brasileiras variam
desde formações herbáceas, passando por formações arbustivas, abertas ou fecha-
das, chegando a florestas cuja altura máxima raramente excede os 20-25 metros. Em
muitas áreas de restinga no Brasil ocorrem períodos mais ou menos prolongados de
inundação do solo, fator que tem grande influência na distribuição das formações ve-
getacionais. A periodicidade com que ocorre esse “encharcamento” e a sua respectiva
duração são decorrentes principalmente da topografia do terreno, da profundidade do
lençol d´água e da proximidade de rios e lagoas. Como consequência destas variações,
é comum a ocorrência de “mosaicos” de formações inundáveis e não inundáveis, com
fisionomias e composições variadas, justificando o nome de complexo, que é muitas
vezes empregado para designar as restingas.
As formações herbáceas ocorrem principalmente nas faixas de praia e ante-
dunas, em locais que eventualmente podem ser atingidos pelas marés mais altas,
ou então em depressões alagáveis, situação em que comumente são denominadas
de brejos ou banhados.
Nas zonas de praia e dunas mais próximas ao mar predominam espécies
5 Cada uma das categorias
reconhecidas no sistema
de classificação da vegetação herbáceas com caules longos e reptantes ou então formando touceiras, em
brasileira, incluindo desde os
níveis mais abrangentes (zo-
alguns casos associadas a pequenos arbustos e arvoretas e formando agrupa-
nas ou regiões) até os mais mentos mais densos, variáveis nas suas respectivas fisionomias, composições
específicos, como formações
e subformações. florísticas e graus de cobertura.

134
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

A vegetação das praias e dunas tem ocorrência praticamente ao longo de


toda a costa brasileira, mas a sua circunscrição e os termos empregados para
designá-la variam muito. Já foi denominada de vegetação praieira, vegetação ha-
lófita, vegetação psamófita, vegetação da praia e formação pioneira das dunas,
somente para citar alguns dos nomes encontrados na literatura específica.
Os brejos litorâneos são formações típicas das áreas mais abertas ao longo
dos cursos d’água das restingas brasileiras, em geral nas depressões do terreno ou
no entorno das lagunas e lagoas costeiras. A principal característica destas áreas é
o predomínio de espécies de capins das famílias das gramíneas e das ciperáceas,
raramente associados a arbustos e árvores. Os solos estão sujeitos à saturação por
água durante praticamente todo o tempo, mesmo nos períodos menos chuvosos, e
normalmente apresentam gradações tanto para áreas mais salinas, onde em geral
ocorrem os manguezais, como para locais arenosos com melhor drenagem, onde
ocorrem formações arbustivas e/ou arbóreas.
As formações arbustivas das restingas são seguramente os tipos vegetacio-
nais que mais chamam a atenção no litoral brasileiro, tanto pelo seu aspecto pecu-
liar, com fisionomia, variando desde densos emaranhados de arbustos misturados
a trepadeiras, bromélias e cactáceas; até moitas com extensão e altura variáveis,
intercaladas por áreas abertas que em alguns locais podem expor diretamente a
areia, principal constituinte do substrato das restingas no Brasil.
Alguns termos pouco conhecidos e usuais como scrub, thicket, e fruticeto já
foram empregados para designar formações com este aspecto na região litorânea,
todos destacando como características a alta densidade de arbustos, a mistura de
diferentes formas biológicas e a fisionomia que reflete os efeitos dos ventos predo-
minantes vindos do mar sobre as formas das copas, entre outras.
Um aspecto muito peculiar e interessante das formações arbustivas da res-
tinga é a ocorrência de locais onde o aspecto predominante da vegetação é um
conjunto de moitas de extensão e forma variadas, em meio às quais ocorrem áreas
abertas. O termo moita aqui empregado é definido como um “aglomerado” de
plantas arbustivas ou arbóreas, separadas de outras plantas por espécies de outras
formas de vida ou por áreas sem vegetação. As áreas abertas entre as moitas po-
dem apresentar cobertura vegetal variada, constituída tanto por espécies herbáce-
as, conforme citado anteriormente, como por “tapetes” mais ou menos extensos
de musgos ou agrupamentos de líquens arborescentes.
As florestas ocorrentes nas restingas do Brasil são bastante vari- Como são as florestas
áveis ao longo de toda a costa, tanto nos seus aspectos florísticos como de restinga?
estruturais, variações geralmente atribuídas às influências das florestas
adjacentes e às características do solo, principalmente sua origem, composição e
condições de drenagem. Estas florestas variam desde formações com altura das co-
pas chegando a pouco mais de 5 metros, em geral livres de inundações periódicas
decorrentes da ascensão do lençol freático durante os períodos mais chuvosos, até
formações mais desenvolvidas, com alturas em torno de 20-25 metros, em muitos

135
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

casos associadas a solos hidromórficos e/ou orgânicos. Estes dois tipos de florestas
em geral acompanham as variações topográficas decorrentes da justaposição dos
cordões litorâneos que originam as restingas, ao menos onde estas feições são bem
definidas. Em locais mais interiores na planície costeira, em terrenos mais depri-
midos e com solos saturados hidricamente e com uma espessa camada orgânica
superficial, ocorrem florestas mais desenvolvidas. A denominação empregada para
designar as florestas de restinga é variável, sendo os termos mata ou floresta de
restinga mais frequentemente empregados, muitas vezes sem especificar algo em
relação às respectivas condições de drenagem do solo, que nestas situações são
um fator ecológico importante.
A flora das restingas brasileiras é, em geral, caracterizada como um conjunto
de pouca riqueza, principalmente quando comparada com outros tipos de vegetação
do Brasil. Para muito botânicos e fitogeógrafos tal fato está relacionado às condições
adversas e estressantes encontradas nos ambientes típicos das planícies costeiras, re-
lacionados principalmente à origem, natureza e dinâmica do substrato. Além disto,
frequentemente é feita referência ao fato das restingas apresentarem poucas espé-
cies endêmicas6, o que comumente é justificado pelo fato das áreas de planície cos-
teira no Brasil serem relativamente recentes do ponto de vista geológico e, portanto,
com pouco tempo para que ocorresse a formação de novas espécies. Recebem uma
grande influência das formações vizinhas, com as quais mantinham conectividade
no passado, e têm nas famílias das bromeliáceas, orquidáceas, mirtáceas, lauráceas,
leguminosas e gramíneas seus elementos mais característicos.

Fauna
A fauna das restingas brasileiras é relativamente menos estudada quando
comparada com os conhecimentos que já se acumulam sobre suas respectivas
flora e vegetação. As lacunas nos conhecimentos das comunidades faunísticas
das restingas brasileiras já foi destacado por diversos zoólogos e naturalistas, que
destacaram o papel que os relatos de viagens feitos por naturalistas estrangeiros
que passaram pelo Brasil nos séculos XVIII e XIX, tiveram no registro de várias
espécies animais ocorrentes na zona costeira, mesmo que em alguns casos este
tenha sido realizado de forma imprecisa. Relatos anteriores ao século XIX, além
de mais escassos e pontuais, são de difícil obtenção e carecem ainda mais de de-
talhes que permitam uma visão mais completa das comunidades faunísticas das
restingas brasileiras (CERQUEIRA, 1984; MACIEL, 1984a, 1984b).
Naturalistas que passaram pela região litorânea nos séculos XVIII e XIX de-
ram importantes colaborações ao conhecimento da fauna das restingas, mas difi-
culdades de obtenção dos relatos originais e de acesso às coleções realizadas, bem
6 Espécie com distribuição
geográfica mais restrita,
seja a uma localidade espe-
como limitações metodológicas inerentes à época destes estudos, impossibilitam a
cífica ou a um ecossistema
construção de uma visão mais consistente sobre o assunto. Muitas das áreas visi-
ou bioma. O pau-brasil, cujo tadas por estes notáveis naturalistas viajantes atualmente encontram-se completa-
nome científico é Caesalpi-
nia echinata, é um exemplo mente alteradas, e em muitos casos, tais relatos constituem as únicas informações
de espécie endêmica da Flo-
resta Atlântica do Brasil. disponíveis para certas regiões.

136
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

A importância que determinadas espécies da fauna das restingas têm nas


zonas costeiras, nem sempre devido ao fato de serem exclusivos destes ambientes
e sim pelo destaque que têm em relação a outros, pode ser evidenciada pela gran-
de quantidade de topônimos relacionados às espécies animais ocorrentes na zona
costeira, tais como Jacarepaguá, Guaratiba, Guaratuba, Guaraqueçaba, Ararua-
ma, Sernambetiba, Catete, Inhaúma, entre outros, na sua maioria derivados das
linguagens indígenas dos grupos que ocupavam o litoral.
O levantamento bibliográfico sobre as restingas brasileiras realizado por
Lacerda et al. (1982) traz poucas referências sobre sua fauna, quando comparado
com os estudos sobre a geologia, geomorfologia e vegetação das restingas. Entre
os trabalhos mencionados, alguns tratam de assuntos muito específicos, como
novas ocorrências de espécies animais na região litorânea, descrições de espécies
novas ou de aspectos da biologia de uma ou poucas espécies, ou então tratam de
grupos mais relacionados aos ambientes aquáticos, não contribuindo significa-
tivamente para fornecer uma visão mais completa sobre a composição da fauna
destas áreas, e muito menos sobre os diferentes aspectos da estrutura e da dinâ-
mica das comunidades animais.
Grande parte desses relatos foram realizados no estado do Rio de Janeiro,
representando somente uma pequena parte do litoral brasileiro, e que podem ser
generalizados somente para as regiões mais próximas aos locais estudados.
Existem estudos envolvendo diferentes grupos de invertebrados, incluindo
os insetos, que mostram que muitas das espécies ocorrentes nas restingas também
ocorrem nos ecossistemas contíguos a ela, com poucas espécies novas descritas
na própria restinga. Os insetos que constituem um dos grupos de organismos vi-
vos mais diversificados da biosfera e os estudos realizados nas restingas brasilei-
ras estão longe de representar sequer uma pequena parte da importância ecológica
que estes têm quando o assunto é biodiversidade. Durante muitos anos, o único
invertebrado que fez parte da lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção
foi uma borboleta, cujo nome científico é Parides ascanius, e que é elemento típi-
co das zonas costeiras e restingas do Rio de Janeiro.
As libélulas (Odonata) vêm sendo amplamente estudadas nas restingas do
Rio de Janeiro desde a década de 1950, reunindo um volume considerável de in-
formações, sobretudo na costa fluminense.
A fauna de vertebrados ocorrente nas restingas brasileiras também é relati-
vamente pouco pesquisada, com destaque mais uma vez aos trabalhos realizados
no litoral do Rio de Janeiro, principalmente com pequenos mamíferos e répteis.
Neste grupo foram bastante estudadas espécies do gênero Liolaemus, endêmicos
de algumas áreas restritas de restinga no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Destacam-se ainda os trabalhos realizados com a avifauna, tanto no Rio
de Janeiro como em outras localidades da costa brasileira, que evidenciam que a
maior parte das espécies de aves das restingas ocorrem nas formações vizinhas,
assim como acontece também com os anfíbios. Não obstante este fato, existem
referências de espécies endêmicas e de espécies ameaçadas em vários trechos de
restingas no Brasil, nos diferentes grupos animais.

137
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

Vale salientar o trabalho desenvolvido por Maciel (1984b), que traz uma
relação de espécies animais de diversos grupos ocorrentes nas restingas do lito-
ral do Rio de Janeiro, onde são citadas mais de 100 espécies de invertebrados e
vertebrados, distribuídas entre os diferentes “componentes da restinga”, a saber:
“praia, cordão litorâneo, entrecordões e lagoa”.
Em uma reavaliação dos conhecimentos sobre a fauna das restingas do Brasil, Ma-
ciel (1990) destacou que naquela ocasião havia ocorrido poucos avanços sobre o assunto,
muito embora o ritmo de destruição das restingas, principalmente das áreas situadas na
região sudeste, tenha aumentado significativamente no período considerado. Chamou a
atenção mais uma vez para os poucos registros de espécies endêmicas nas restingas, assim
como para a ausência de uma fauna particular e característica deste conjunto de formações
vegetais, conforme já havia sido destacado por Cerqueira (1984).

Conclusão
A restinga é um ecossistema, ou conjunto de ecossistemas dependendo da
abrangência dada ao termo, de ocorrência praticamente em toda a costa brasileira,
associada a ambientes deposicionais distintos, porém sempre envolvendo sedi-
mentos arenosos. Outros significados para o termo restinga existem na literatura
específica, porém para um entendimento mais fácil tornou-se mais usual o empre-
go com este enfoque ecológico. As planícies costeiras são feições geográficas do
litoral que têm relação direta com a restinga, pois são os locais onde o ecossistema
ocorre em suas formas mais típicas.
A grande variedade de tipos de vegetação ocorrentes na restinga, associa-
dos a diferentes combinações de fatores do meio, tem como consequência uma
diversidade de ambientes, gerando uma certa diversidade na fauna que ocorre
nestes locais. A vegetação pode variar desde comunidades herbáceas, forma-
das por espécies de plantas rasteiras e graminoides, passando por formações
arbustivas de altura e grau de coberturas variáveis, até florestas desenvolvidas,
associadas a solos arenosos com características de drenagem distintas. Neste
gradiente de vegetação, que muitas vezes reflete o próprio processo de coloni-
zação das planícies costeiras pela vegetação, a principal tendência é de aumento
de biomassa, cobertura e complexidade, na medida em que se afasta do mar para
o interior do continente.
Tanto a flora como a fauna das restingas brasileiras podem ser consideradas
formas simplificadas em termos de composição em relação à Floresta Atlântica que
acompanha boa parte da costa brasileira. No entanto, existem registros de espécies
vegetais e animais endêmicas da restinga, notadamente nos estados do Rio de Janei-
ro e Espírito Santo, locais onde as restingas são mais estudadas e conhecidas.

138
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I

1. Faça um mapa esquemático localizando de forma geral as principais áreas com ocorrência da
restinga no Brasil. Você pode pesquisar estas informações na internet, acessando sites do IBGE,
do Ibama, de organizações não governamentais como o WWF Brasil e a Fundação SOS Mata
Atlântica.

2. Agora sobreponha a este mapa pontos representativos da localização das principais cidades da
região litorânea do Brasil e das principais unidades de conservação federais localizadas nesta
região, procurando estas informações em um Atlas geográfico ou nos sites da internet já reco-
mendados.

3. Discuta com os demais colegas do curso as implicações do resultado da análise conjunta dos
mapas elaborados para a conservação da restinga no Brasil, procurando exemplos de situações
para ilustrar as discussões realizadas.

4. Elabore em grupo um documento-síntese com os principais pontos do trabalho realizado, que


pode ser apresentado por escrito para outras turmas participantes do curso.

ESTEVES, Francisco de Assis; LACERDA, Luiz Drude.(ed.). Ecologia de Restingas e Lagoas Cos-
teiras. Rio de Janeiro: Nupem / UFRJ, 2000. 394 p.
Este livro constitui uma referência importante sobre as restingas do Brasil, pois faz uma síntese
do que se conhece sobre este bioma, com ênfase às restingas do Rio de Janeiro. Os capítulos tratam
da vegetação das restingas, seus aspectos geográficos e ecológicos, além de trazer informações resul-
tantes de pesquisas com diferentes grupos de vertebrados, especialmente mamíferos, aves e répteis,
e uma seção dedicada somente a estudos ecológicos realizados nas lagoas costeiras ocorrentes nas
restingas do Rio de Janeiro. A última parte traz dois artigos que abordam os aspectos socioambientais
em diferentes áreas do litoral do Rio de Janeiro.
Trata-se de uma base de consulta interessante para aqueles que buscam mais informações sobre
as restingas, pois cada capítulo traz um conjunto de referências bibliográficas que juntas somam qua-
se 500 referências sobre os mais diversos temas e regiões do Brasil.

139
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas I


140
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

Aspectos socioeconômicos das restingas

A
costa brasileira, com mais de 9 mil quilômetros de extensão, é banhada pelo oceano Atlântico
desde a foz do rio Oiapoque, no Estado do Amapá, até a foz do Arroio Chuí, no Rio Grande
do Sul. Ao longo de toda esta extensão ocorrem áreas mais ou menos expressivas de restingas,
aqui consideradas como ecossistemas que se desenvolvem sobre depósitos sedimentares arenosos
marinhos, com vegetação e fauna diversificada, e que têm em comum uma história geológica relati-
vamente recente, sendo bem estudada e compreendida nos dias de hoje.
Praticamente todas as áreas de restingas no Brasil têm em torno de 5 mil anos de idade, período mui-
to curto geologicamente falando, propiciando um caráter de maior instabilidade do sistema. Neste tempo,
diversas mudanças na linha associadas a processos consecutivos de erosão e deposição de sedimentos na
costa resultaram em paisagens bastante diversas, onde a vegetação teve um papel estabilizador fundamen-
tal, especialmente quando considerada a fragilidade do sistema como um todo.
A região costeira brasileira é muito rica em fauna e flora, resultado de um conjunto de paisagens
naturais variadas, que vão desde planícies de maré cobertas por manguezais e brejos salinos, até du-
nas de areia fixas e móveis, extensas praias arenosas, costões rochosos, baías, ilhas, lagoas, falésias,
estuários e recifes de coral, numa diversidade de ambientes que faz desta região detentora de diversos
títulos como Patrimônio da Humanidade, Reserva da Biosfera, entre outros.
Por outro lado, é uma das regiões mais densamente povoadas, abrigando cerca de 22% da po-
pulação do país, em grandes capitais e cidades muito importantes no cenário nacional e até mesmo
internacional. Quase todas as capitais dos estados banhados pelo oceano Atlântico no Brasil estão si-
tuadas na região litorânea, o que tem gerado uma série de impactos, não somente nas restingas, como
nos demais ecossistemas costeiros.
A ocupação territorial do Brasil por ocasião da chegada dos primeiros colonizadores ocorreu
num sentido geral do litoral para o interior, o que ocasionou um significativo adensamento popu-
lacional na região costeira. Estimativas do IBGE apontam que cerca de um quinto da população
brasileira vive nas regiões costeiras, resultando em uma densidade demográfica de 87 habitantes
por quilômetro quadrado, cinco vezes maior que a média nacional de 17 habitantes por quilômetro
quadrado. Considerando os espaços imediatamente contíguos à costa, numa faixa de aproximada-
mente 200 quilômetros da orla marítima, temos metade da população nacional.
O padrão de povoamento aí existente é altamente centralizado, com as dez maiores aglome-
rações litorâneas do país concentrando quase 25 milhões de habitantes. Somente as cinco maiores
regiões metropolitanas existentes na costa abrigam 15% do efetivo demográfico brasileiro. Dessa
forma, pode-se dizer que um caráter fortemente urbano e concentrado marca o povoamento da região
litorânea do Brasil.
Quando consideradas as condições de saneamento básico do Brasil, onde estima-se que 80%
da população urbana não é coberta por serviço de coleta e tratamento de esgoto, e 43% dos domicí-
lios urbanos não possuem sequer fossas sépticas, é de se supor que nas cidades localizadas na região
141
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

litorânea o quadro não é substancialmente distinto, e que estas representam fontes


poluidoras e de contaminação em intensidade diretamente relacionada com seus
respectivos tamanhos populacionais. Em geral os resíduos in natura têm como
destino o mar, o que faz das metrópoles litorâneas os maiores focos de polui-
ção ambiental na costa, e também qualificam-nas como os principais agentes de
impacto sobre os ambientes costeiros e marinhos.
Além da ocupação residencial da região costeira brasileira, parte considerável
da base industrial do país está situada nesta região, nos arredores das grandes aglome-
rações urbanas, como pode ser visto no Recife, em Salvador, no Rio de Janeiro e em
São Paulo. Devido à necessidade de certos tipos de insumos e de infraestrutura, seto-
res da produção como o químico, petrolífero e petroquímico instalam-se principal-
mente nas regiões costeiras, o que além de necessitar de modificações severas nas
condições naturais destas regiões, representam um fator de risco a mais para a integri-
dade ecológica da região litorânea, uma vez que movimentam grandes quantidades de
substâncias químicas de efeitos adversos severos sobre a biota regional.

E o que são as Ainda persistem, em diferentes pontos do litoral brasileiro, locais com
populações adensamento demográfico relativamente baixo, onde vivem as chamadas po-
pulações tradicionais. Assim têm sido chamadas as populações que vivem em
tradicionais?
relativo isolamento geográfico, com cultura e formas de relacionar-se com a
natureza distintas em relação à sociedade urbana. Muitas destas passaram nas
últimas décadas por um processo acelerado de incorporação à economia de merca-
do, motivado principalmente pelo aumento da atividade turística e de veraneio na
região costeira. Estas comunidades, cuja base de sobrevivência era proveniente de
recursos pesqueiros e/ou florestais extraídos de áreas naturais, passaram a deman-
dar um maior volume destes recursos para suprir o aumento da demanda decorrente
da intensificação das atividades comerciais, passando, em alguns casos, a ser um
vetor de impacto na já fragmentada paisagem litorânea atual.

Impactos ambientais
Os principais impactos ambientais na zona costeira brasileira decorrem das
atividades econômicas desenvolvidas nesta região, além da própria ocupação hu-
mana nas grandes aglomerações urbanas. Como estas se distribuem de forma de-
sigual ao longo da costa, os principais vetores de impacto atuantes em cada região
têm importância diferenciada, e mesmo sendo de mesma natureza, podem variar
em intensidade conforme a geografia da costa e a sua respectiva capacidade de
suporte a alterações decorrentes da atividade humana.

Região Norte
Na região Norte pode-se dizer que os ecossistemas costeiros estão bem con-
servados e as ações que provocam maior impacto são reduzidas e tem efeitos
mais pontuais e localizados. As áreas de restingas, assim como de manguezais
e demais ambientes do litoral amazônico, estão submetidas a uma dinâmica das
142
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

marés e de variações geográficas constantes, impróprias para instalação de mora-


dias e edificações definitivas. Além disto, boa parte dessas áreas caracterizam-se
como áreas de preservação permanente, em que há uma série de restrições legais
às atividades humanas.
Em boa parte do litoral norte os agrupamentos humanos localizam-se em
pequenas cidades e vilas, na sua maioria instaladas em áreas limítrofes aos ecos-
sistemas de terra firme. Algumas destas localidades já começam a sentir os im-
pactos do turismo, principalmente onde existem belas praias, e a procura por es-
paços para construção de habitações gerou uma alta especulação imobiliária, que
avançou sobre áreas de restingas e de manguezais.
Outro fator de impacto na região norte é a pesca predatória, que tem cau-
sado uma diminuição da atividade de pescadores tradicionais e industriais, com
sinais evidentes de declínio de algumas espécies importantes no comércio local,
como o caranguejo e os camarões, espécies mais relacionadas aos manguezais.
A coleta intensiva de caranguejo é preocupante, pois existem evidências
de que o nível de retirada do recurso das áreas costeiras está acima do nível de
reposição natural que as populações conseguem manter, processo que tende a
agravar-se com o aumento da atividade turística. Em áreas com acesso facilitado
por estradas e nas proximidades das cidades maiores este impacto é mais signifi-
cativo, tanto em termos sociais como ambientais.
A pecuária em áreas de restingas e campos alagáveis, que nesta região é pra-
ticada principalmente com gado bubalino, ocasiona uma série de impactos diretos
e indiretos, desde o estabelecimento das pastagens, quando áreas naturais são
cortadas e queimadas, em alguns casos com a substituição das espécies de pasto
nativas por espécies africanas, além dos efeitos sobre o solo e corpos d´água.
A extração de areia e argila, realizada em diferentes pontos do litoral Norte,
tem um impacto considerável sobre as restingas, assim como a extração de madeira,
lenha e carvão, para diferentes finalidades. A remoção da vegetação das restingas para
diferentes usos pode vir associada à especulação imobiliária, fator cada vez mais im-
portante nas regiões mais visadas pela atividade turística. Nestas localidades, a falta
de tratamento adequado dos dejetos também tem sido um fator de impacto sobre as
restingas, onde devido à natureza do substrato pode ocorrer contaminação das águas
subterrâneas, ocasionando prejuízos para a saúde humana.

Região Nordeste
Na região Nordeste os fatores de impacto são de natureza similar ao descrito
para a região Norte, com algumas peculiaridades relacionadas às características
da costa. Em alguns pontos da costa a atividade de extração de petróleo tem pro-
vocado uma série de impactos, especialmente decorrentes de acidentes durante o
processamento e transporte do óleo. Alguns setores da atividade pesqueira têm
alegado que esta atividade tem prejudicado a pesca na região, principalmente em
função de restrições de acesso às áreas próximas às plataformas e consequente
necessidade de deslocar a área de pesca para zonas mais distantes da costa.
143
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

A indústria do sal tem na região nordeste, especialmente no Ceará e no Rio


Grande do Norte, seu principal parque produtivo instalado, que tem gerado um
processo de degradação ambiental especialmente nas áreas de manguezais, atin-
gindo eventualmente as restingas limítrofes.
A aquicultura, especialmente a carcinocultura (cultivo de camarões) tem
sido apontada como uma atividade de bastante impacto sobre os ambientes cos-
teiros, notadamente dos manguezais e das lagoas costeiras. As áreas de criação,
geralmente da espécie asiática denominada cientificamente de Penaeus vannamei,
localizam-se às margens de estuários e lagoas costeiras, e provocam uma des-
caracterização severa da paisagem. O impacto é acentuado pela possibilidade
de contaminação dos ambientes naturais com esta espécie, que é exótica, e pelo
despejo de uma grande quantidade de resíduos produzidos pela espécie nos am-
bientes costeiros, provocando desequilíbrios nos ciclos minerais das lagoas e dos
estuários, com reflexos diretos sobre as restingas. O cultivo extensivo de espécies
estuarinas, em geral praticada por pequenos pescadores em viveiros artesanais e
rudimentares (“currais”), é uma prática bastante difundida nos estuários, em locais
com abundância de pescado e maior renovação da água, podendo ser considerada
como uma atividade de baixo impacto sobre os ambientes costeiros. Um dos im-
pactos mais notáveis dessa atividade é a retirada de madeira para construção dos
currais, que é feita tanto das áreas de restinga como das áreas de manguezais.
Um processo de ocupação das restingas, que na região nordeste já se trans-
formou em um símbolo regional, é o cultivo do coco. Áreas extensas de restinga
e ecossistemas associados, em praticamente todos os estados da região, já foram
transformadas em coqueirais, causando uma descaracterização completa destes
ecossistemas. Pegando um estado como exemplo, em estimativas oficiais dos ór-
gãos estaduais de planejamento do estado do Ceará, a produção média anual de
coco na década de 1990 foi algo em torno de 90 mil toneladas, figurando entre as
cinco maiores culturas do estado.
A atividade turística, característica econômica marcante na região Nordeste,
tem sido uma das principais responsáveis por diversos impactos sobre as restingas
e demais ecossistemas na região. Esses impactos também atingem direta ou in-
diretamente a população local, gerando em muitos casos um efeito em cascata de
degradação ambiental, e populações marginalizadas do processo turístico acabam
por pressionar mais os ambientes naturais, em busca de itens básicos de subsis-
tência, como madeira para construção de habitações e para lenha, até animais de
caça para suprir as necessidades nutricionais básicas.
Além da ocupação de áreas de restinga para construção de casas de vera-
neio e equipamentos de recreação e lazer, a atividade turística ocasiona impactos
diversos, como degradação de dunas por automóveis de recreação que realizam
passeios com os turistas, alteração das lagoas associadas às restingas e dunas pelo
despejo de lixo e dejetos orgânicos, aumento da pressão de pesca sobre os itens
mais procurados pelos turistas, como camarão, caranguejo e lagosta, entre outros.
Como essas atividades não absorvem todo o contingente que foi deslocado pela

144
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

própria expansão da atividade, há um aumento da pressão destas populações so-


bre os recursos naturais, conforme mencionado anteriormente, atingindo não só
as restingas, mas todos os ecossistemas que compõem a região costeira.

Regiões Sudeste e Sul


Nas regiões Sudeste e Sul o principal fator de impacto da região costeira, in-
cluindo as grandes áreas de restingas que originalmente ocorriam, decorrem da ocu-
pação humana, visto que as maiores cidades do país localizam-se nesta região ou
muito próxima dela. Além disso, balneários de veraneio atraem anualmente milhares
de pessoas para essas regiões, não só do Brasil como de outros países, mesclando os
impactos de uma ocupação urbana acentuada com a pressão exercida pela atividade
turística. As instalações urbanas, as estruturas de produção que suportam boa parte
da economia nacional e um conjunto extenso de balneários de veraneio degradaram
praticamente todas as áreas de restinga nesta região, com exceção daquelas que estão
sob algum tipo de proteção especial, principalmente em unidades de conservação. São
comuns nessa região conflitos entre comunidades tradicionais que habitam alguns tre-
chos e as frentes de ocupação, sejam turísticas ou de outra natureza, colocando muitas
vezes a conservação da biodiversidade como a responsável por parte significativa das
demandas sociais destas comunidades.
Além destes fatores, impactam diretamente a zona litorânea do sudeste e
do sul do Brasil, onde antes ocorriam extensas áreas de restingas e ecossistemas
associados, atividades agrícolas e pecuárias extensivas, além de reflorestamen-
tos com finalidades comerciais. Algumas culturas importantes nesta região são
a mandioca, a cana-de-açúcar, a banana, o gengibre e o abacaxi, além de outras
de expressão mais localizada. Nas áreas úmidas associadas às restingas é comum
o plantio do arroz, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. A
bubalinocultura é a principal atividade pecuária nas áreas úmidas associadas às
planícies costeiras do sul de São Paulo e do Paraná, sendo responsável por diver-
sas alterações ambientais, entre as quais a degradação de áreas para implantação
de pastagens, o pisoteio e consequente degradação do solo, alterações no regime
hídrico, introdução de espécies forrageiras exóticas, entre outras.

Alternativas sustentáveis e conservação


A história mais recente das relações do homem com a natureza tem sido
marcada por conflitos entre os interesses de diferentes grupos, que têm na natu-
reza sua fonte de sobrevivência ou de recursos naturais, dependendo da ótica do
grupo de interesse. As restingas, com ambientes extremamente frágeis devido
principalmente à natureza do substrato, frequentemente são vistas como ecossis-
temas menos importantes e “empobrecidos” em relação à vizinha Floresta Atlân-
tica, e portanto sujeitos à degradação mais acelerada de seus recursos naturais.

145
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

Dessa forma, transformar em prática o discurso de uso dos recursos que


sejam de fato sustentáveis é um tanto quanto difícil, pois esta região vem so-
frendo com a destruição dos habitats praticamente desde a chegada dos coloni-
zadores europeus ao Brasil no século XVI, e áreas naturais são cada vez mais
escassas, para utilizar-se de forma direta os recursos naturais e garantir a manu-
tenção dos processos ecológicos em áreas restritas em paisagens fragmentadas.
Existem evidências que até mesmo antes disto, os indígenas que habitavam a
região costeira já provocavam alterações mais ou menos severas na biota cos-
teira, muitas das quais devidamente documentadas pela grande quantidade de
sambaquis1 conhecidos no litoral brasileiro.
Dificilmente atividades como a exploração petrolífera e a mineração de areia
e sal, que geram impactos severos sobre o ambiente, podem ser sustentáveis. Elas
retiram de forma definitiva recursos que não podem ser renovados naturalmente,
ao menos em um tempo compatível com o ciclo de vida do homem, e o melhor
é cercar-se dos cuidados necessários para que essas práticas impactem o menos
possível os ambientes naturais.
Já outras atividades, como a pesca, a aquicultura e o turismo, podem ser
feitas de forma ambientalmente mais amigável, com vistas à sustentabilidade dos
recursos. O que acontece, no entanto, é que a busca por um retorno financeiro
rápido dos investimentos realizados para implantação de empreendimentos desta
natureza invariavelmente desconsideram esta possibilidade. Como consequência,
o que se percebe é um aumento da degradação ambiental nas regiões costeiras,
mesmo quando ações que poderiam contribuir para a conservação dos ecossiste-
mas acabam tendo efeito contrário.
1 Grandes acúmulos de
restos da atividade do
homem primitivo, como se
O turismo, atividade muitas vezes considerada como de baixo impacto sobre
fosse uma espécie de “depó- os ambientes naturais, pode ser uma alternativa interessante para algumas áreas
sito de lixo” da Pré-história,
onde predominam conchas de
com restingas na costa brasileira, especialmente o chamado turismo de natureza
moluscos (ostras e berbigões,
principalmente), instrumen-
ou ecoturismo. Como na região litorânea são abundantes os atrativos naturais e
tos de pedra e osso, além de locais de notável beleza cênica, o potencial desta atividade é imenso. No entanto,
esqueletos ou parte de ani-
mais e humanos. para que esta seja de fato uma prática de pouco impacto, faz-se necessário um
planejamento adequado dos locais de visitação, compatibilizando o volume de
visitação esperado com as condições naturais e de infraestrutura das áreas, de for-
2 Segundo o Sistema Na-
cional de Unidade de
Conservação da Natureza
ma a não transformar esta atividade em mais uma fonte de impactos, não só nos
(Lei 9.985, 18/7/2000), são
espaços territoriais e seus
ambientes visitados, mas também nos locais que servem de ponto de apoio para a
respectivos recursos am- realização das atividades, como pequenas cidades, vilas e povoados.
bientais, com características
naturais relevantes, criados
pelo poder público, com limi- Certamente a melhor forma de fazer conservação nas áreas costeiras, in-
tes e objetivos definidos, para cluindo aí as restingas e demais ecossistemas associados, é por meio das unidades
as quais se aplicam garantias
legais de proteção visando de conservação2. A despeito da polêmica que muitas vezes envolve a criação e
a conservação da biodiver-
sidade. implementação destas unidades, as poucas áreas de restinga no Brasil que ainda

146
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

conservam, ao menos em parte, as suas características originais, estão localizadas


em parques, reserva e estações ecológicas, somente para citar alguns exemplos
destas unidades. Embora estas sejam criadas pelo poder público, federal, estadual
ou municipal, e podem ser tanto de domínio público como privado, frequente-
mente geram parcerias com organizações não governamentais e instituições de
ensino, pesquisa e extensão, seja na gestão das unidades, seja no desenvolvimento
de atividades que complementam os objetivos de conservação das unidades, como
pesquisa científica e educação ambiental.
O trabalho conjunto do poder público com as organizações não governa- O que pode
mentais que atuam na conservação dos ambientes litorâneos é um ponto funda-
ser feito para
mental para a garantia de perpetuidade das zonas costeiras do Brasil, pois ao mes-
mo tempo em que estas regiões são importantes para a garantia de continuidade
salvar o que
dos processos ecológicos que mantém a biodiversidade brasileira, também são restou da
muito visadas por grupos com interesses puramente lucrativos. Neste contexto, a restinga?
inserção das comunidades ditas “tradicionais”, que mantêm, ou ao menos man-
tiveram relações históricas com a região, é fundamental, pois estas também têm
interesses e anseios em relação a estas áreas, que podem comprometer esforços de
conservação que conflitem com estes interesses coletivos.

Conclusão
As restingas brasileiras, como ambientes tipicamente costeiros, estão
sujeitas a todas as pressões que a região litorânea sofre e, portanto, passando
por um processo intenso de degradação. A substituição de áreas de restinga
por empreendimentos urbanísticos, turísticos e de produção animal, a expan-
são de áreas para agricultura e pecuária, a intensificação das atividades de
mineração e a industrialização verificada especialmente próximo aos grandes
núcleos urbanos têm sido as principais causas desta destruição. Embora as
restingas sejam consideradas “ecossistemas associados inseridos no domínio
Mata Atlântica”, e por causa disso estejam sujeitas às condições de uso pre-
vistas no Decreto 750/93 (ver em <www.lei.adv.br/750-93.htm>.) , que “dis-
põe sobre o corte, a exploração e a supressão de vegetação primária ou nos
estágios avançado e médio de regeneração de Mata Atlântica”, os esforços de
conservação não estão sendo efetivos para proteger estes ambientes em toda
a sua área de ocorrência na costa brasileira. Iniciativas do poder público e de
organizações não governamentais no sentido de garantir a conservação da
biodiversidade das restingas ainda estão aquém das reais necessidades, tendo
em vista a história de ocupação do território brasileiro e a velocidade com que
o processo de ocupação da costa vem ocorrendo.

147
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

Vida e morte sobre a areia.


Biólogos do Rio avaliam o grau de destruição
de 17 restingas, onde ainda vivem espécies exclusivas
(BICUDO, 2004)
A expedição terminou com um sabor de melancolia. Durante cinco meses, 20 biólogos per-
correram 1 600 quilômetros do litoral brasileiro, do sul do Rio de Janeiro ao sul da Bahia. Quase
palmo a palmo, examinaram plantas e animais que vivem em meio à restinga, uma vegetação
baixa e úmida que cresce sobre a areia, entre o mar e a montanha. Encontraram 12 espécies de
animais que habitam exclusivamente esse ambiente, como a perereca Xenohyla truncata, de 3
centímetros de comprimento, que se esconde no interior das bromélias. Mas, à medida que pros-
seguiam, enfrentando os brejos e a chuva contínua, os pesquisadores sentiam que a satisfação
pelas descobertas se transformava em desalento, ao constatarem o desaparecimento gradual desse
ambiente. Condomínios de luxo e favelas avançam sobre as restingas, também usadas como depó-
sito ilegal de lixo e fonte clandestina de areia para a construção civil. Onde ainda é paradisíaca, a
restinga sofre com o turismo desordenado e abertura de estacionamentos e trilhas.
Coordenada por quatro professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) –
Monique Van Sluys, Carlos Frederico Duarte da Rocha, Helena de Godoy Bergallo e Maria Alice
Alves –, a equipe que cuidou desse levantamento avaliou cada uma das atividades humanas que
ameaçam as dez restingas inicialmente analisadas – cinco delas no chamado corredor de biodi-
versidade da Serra do Mar (as de Grumari, Maricá, Massambaba, Jurubatiba e Grussaí), quatro
no corredor central da Mata Atlântica (Setiba, Guriri, Prado e Trancoso) e uma no extremo sul do
Espírito Santo (Praia das Neves). Cada ação humana – da construção de estradas à abertura de
trilhas de acesso às praias – recebeu uma nota, de zero a dois, de acordo com o impacto sobre o
ambiente. A soma dos pontos resultou num primeiro diagnóstico preciso das condições de conser-
vação das restingas dessa faixa do litoral brasileiro.
“A restinga com pior nível de conservação é a do Prado, na Bahia, com 20 pontos”, revela Ro-
cha. Em situação igualmente crítica encontram-se duas restingas do Rio, as de Grumari e Grussaí,
ambas com 15 pontos, seguidas de perto pelas de Setiba, no Espírito Santo, e Massambaba, tam-
bém no Rio, com 12 pontos cada uma. “Agora enxergamos de modo mais concreto a dimensão dos
estragos”, diz Luiz Paulo de Souza Pinto, diretor do Centro de Conservação da Biodiversidade da
Conservation International do Brasil, um dos parceiros da UERJ no projeto.
Embora a área de restinga tenha encolhido 500 hectares entre 1995 e 2000 apenas nos estados
do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, de acordo com um estudo da organização não governamen-
tal SOS Mata Atlântica, ainda há trechos em bom estado de conservação. Hoje, o levantamento
abarca 17 restingas, das quais sete bem preservadas, três em estágio intermediário e sete bastante
degradadas. “Em Trancoso, na Bahia, restou apenas o trecho junto à Barra do Rio do Frade”, co-
menta Rocha. “O resto já foi destruído.” Apenas por se encontrarem relativamente isoladas das
cidades e dos turistas é que algumas áreas ainda escapam do que parece ser o destino desse con-
junto de matas à beira-mar, chamado de porta de entrada da Mata Atlântica.
Esse é justamente um dos problemas. Souza Pinto lembra que as restingas praticamente de-
saparecem diante da Mata Atlântica, uma vegetação mais exuberante à qual estão associadas – e

148
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

igualmente devastada desde que os colonizadores europeus aportaram suas caravelas. Ainda hoje
as restingas são muito pouco estudadas, embora se espraiem por uma faixa de cerca de 5 mil
quilômetros ao longo da costa brasileira, o trecho mais ocupado do território, com cerca de 87
habitantes por quilômetro quadrado – cinco vezes a média nacional.
Formada pelo acúmulo de areia e outros sedimentos nas regiões planas de onde o mar recuou
nos últimos 5 mil anos, a restinga exibe feições diferentes. Sobre solo arenoso, pobre em nutrien-
tes e com salinidade elevada, cresce apenas uma vegetação rasteira, constituída basicamente por
gramíneas – esse é o trecho mais exposto à ação humana e a de mais difícil recomposição, justa-
mente por causa do solo. À medida que se afasta das praias, surgem arbustos e moitas com 2 a 5
metros de altura, com trepadeiras, bromélias e cactos.
Só mais adiante, de 1 a 2 quilômetros do mar, é que aparecem árvores de médio e grande
porte, que podem atingir até 20 metros de altura, como a figueira-vermelha, o ipê-amarelo, a
quaresmeira ou o manacá-da-serra e o guapuruvu. “Essa mudança na estrutura da restinga já era
conhecida”, diz Monique. “Os estudos sobre a fauna de vertebrados nas restingas é que ficavam
em segundo plano.” Essa lacuna foi em parte esclarecida com esse levantamento. Ao longo da
expedição, realizada entre novembro de 1999 e março de 2000, a equipe carioca catalogou 147
espécies de animais que vivem nas restingas. Predominam as aves (96 espécies), seguidas pelos
anfíbios (28 espécies), pequenos mamíferos (12) e os répteis (11).

Animais exclusivos
O inventário da diversidade biológica revelou 12 espécies exclusivas dessa região – por essa
razão chamados endêmicos –, descritos pela equipe da UERJ no livro A Biodiversidade nos Gran-
des Remanescentes Florestais do Estado do Rio de Janeiro e nas Restingas da Mata Atlântica,
lançado em junho pela editora RiMa. É o caso da Xenohyla truncata, uma perereca de até 3 cen-
tímetros de comprimento e pouco mais de 4 gramas, que apresenta um comportamento incomum
entre os anfíbios: alimenta-se de pequenos frutos, além de insetos, como é habitual entre esses
animais, e assim atua na propagação das plantas, ao espalhar as sementes na restinga de Maricá,
onde foi encontrada.
Já nas restingas da costa do Rio de Janeiro, desde Marambaia até Cabo Frio, vive um lagarto
com pequenas tarjas marrons e laranja nas costas – é o Liolaemus lutzae, também chamado de
lagartixa-da-areia. Abundante até a década de 1970, essa espécie corre hoje risco de extinção, à
medida que seu habitat se esvai com a ocupação humana. Em algumas áreas, como Prainha, no
município do Rio, Barra Nova, em Saquarema, e Praia dos Anjos, em Arraial do Cabo, norte do
estado, já não se vê mais o pequeno réptil. Com até 7 centímetros sem a cauda, é uma das presas
preferidas de corujas e gaviões, mas às vezes consegue escapar com um artifício peculiar: quando
perseguido, o lagarto solta a cauda – o movimento que faz sobre a areia depois de desligar-se do
corpo atrai a atenção dos predadores, que desse modo nem sempre percebem o animal fugindo.
Entre as aves, a única espécie endêmica de restinga é o formigueiro-do-litoral (Formicivora
littoralis), registrada apenas em uma das áreas estudadas no estado do Rio – e ameaçada de ex-
tinção devido à degradação acelerada de seu habitat. Outra espécie que vive nas restingas, cuja
sobrevivência também está em jogo, é o sabiá-da-praia (Mimus gilvus). Em latim, mimus quer
dizer imitador – a capacidade de reproduzir cantos de outros pássaros é uma das características
marcantes dessa ave, que atinge quase 25 centímetros. Com cauda longa e plumagem cinza-
claro nas costas e branca nas sobrancelhas, lembra as espécies da família dos sabiás, como o
sabiá-laranjeira.

149
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

Endemismo concentrado
Nas restingas, as espécies endêmicas se concentram em duas regiões – evidentemente, as que
se encontram em melhor estado de conservação, ainda pouco visitadas pelos turistas e construto-
res de condomínios. A primeira consiste de trechos isolados ao longo de 500 quilômetros, desde
Linhares e Guriri, no norte do Espírito Santo, até Prado e Trancoso, no sul da Bahia. É ali que
se encontra, por exemplo, o Cnemidophorus nativo , um lagarto com duas listras laterais brancas
e uma dorsal de cor salmão sobre o corpo verde-oliva. Descrita num artigo na revista científica
Herpetologica, essa espécie de até 6 centímetros de comprimento exibe uma característica rara
entre os répteis: é formada apenas por fêmeas, que se reproduzem por um processo conhecido
como partenogênese – o óvulo se desenvolve em um ser adulto sem a necessidade de fertilização
por um espermatozoide.
Ao sul, o endemismo é alto nas restingas de Maricá e Jurubatiba, no Rio. Só ali vive outro
pequeno lagarto, semelhante ao C. nativo, o Cnemidophorus littoralis , apresentado na revista Co-
peia. “A concentração de espécies endêmicas nessas regiões”, diz Rocha, “deve-se provavelmente
às variações ocorridas nos últimos 10 mil anos no nível do oceano, que promoveram o isolamento
de populações de ancestrais, que assim divergiram geneticamente e passaram a constituir espécies
diferenciadas.” Mas, afinal, as restingas desaparecerão? Se depender dos pesquisadores do Rio,
não. No livro em que detalham as descobertas da expedição, eles mostram o que poderia ser feito
para ao menos reduzir o impacto humano.
As ações consideradas prioritárias: aumentar a extensão das áreas já protegidas por lei e rea-
lizar levantamentos mais abrangentes das espécies de plantas e animais encontrados nas restingas,
além de desenvolver programas de educação ambiental nas regiões litorâneas. Os pesquisadores
propõem ainda a transformação de áreas com o ambiente mais degradado – como a restinga de
Grussaí, no norte do Rio, de Praia das Neves, no município de Presidente Kennedy, Espírito Santo,
e de Trancoso, na Bahia – em unidades de proteção integral, nas quais são permitidas apenas a
realização de pesquisas científicas, atividades educacionais e de recreação. “Em Grussaí, ainda
há uma importante área remanescente em bom estado, que, embora pequena, deveria ser preser-
vada”, recomenda Rocha. “O entorno está muito degradado por causa da ocupação irregular do
solo.” Segundo ele, outra relíquia que deveria ser preservada é a restinga de Praia das Neves, que
apresenta uma rara riqueza e diversidade de espécies, embora ainda não exista na região nenhuma
área de conservação.
O diagnóstico sobre o estado de conservação das restingas confirma a relação entre o grau
de destruição de um ambiente e a ausência de políticas públicas. Nas chamadas unidades de
proteção integral, como o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, que inclui a mais preser-
vada entre as restingas estudadas, a ação predatória do homem é bastante reduzida. Sem prote-
ção nem fiscalização, porém, o impacto humano tende a eliminar a vegetação natural e reduzir
as chances de sobrevivência dos animais que ali vivem. Mesmo o clima das cidades pode mudar
sem as dunas e a vegetação litorânea, que ajudam a regular a temperatura. “O ritmo de destrui-
ção é muito acelerado”, lamenta Monique.

150
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

1. Formem grupos com no máximo quatro participantes e busquem mais informações, na litera-
tura ou na internet, sobre as principais causas da degradação e desaparecimento da restinga no
Brasil, trazendo exemplos de situações que provocam esta destruição. As referências bibliográ-
ficas e de sites da internet da aula podem ajudar. Façam um resumo contendo os pontos mais
relevantes discutidos no grupo, procurando organizar as informações obtidas por região e por
agente dos impactos levantados.

2. Ainda em grupo, façam um levantamento sobre as unidades de conservação federais existen-


tes no Brasil que protegem ambientes de restinga. As informações sobre as unidades federais
podem ser obtidas no site do Ibama (www.ibama.gov.br) e das unidades estaduais nos sites das
secretarias de estado responsáveis pela execução da política ambiental estadual. Discuta no gru-
po como estas áreas podem contribuir para reduzir o processo de degradação da restinga, como
estão distribuídas em relação à área de ocorrência do bioma e procure sistematizar as principais
informações sobre cada unidade levantada em um quadro sinóptico com as características des-
tas.

Sugestão: pode-se dividir os estados costeiros do Brasil entre os grupos, de forma a otimizar o
tempo de pesquisa e discussão dos resultados e propiciar maior interação entre os grupos du-
rante as apresentações.

3. Apresente os resultados sumarizados por sua equipe para os demais grupos, procurando ressal-
tar aqueles aspectos mais importantes e que foram mais marcantes durante as discussões.

ROCHA, Carlos Frederico Duarte da; ESTEVES, Francisco de Assis; SCARANO, Fabio Rubio. Pes-
quisas de Longa Duração na Restinga de Jurubatiba: ecologia, história natural e conservação. São
Carlos: RiMa, 2004. 374 p.
Trata-se uma excelente coletânea de artigos científicos relativos a pesquisas realizadas no Parque
Nacional da Restinga de Jurubatiba (RJ), por mais de 50 pesquisadores, na sua maioria ligados às ins-
tituições de ensino superior e pesquisa do Rio de Janeiro. Os assuntos tratados são variados, abordando
diagnósticos florísticos e faunísticos e estudos de interações sobre organismos vivos, tanto dos ambien-
tes terrestres como aquáticos, além de aspectos relacionados à conservação e educação ambiental.

151
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Restingas II

Endereço eletrônico do Ministério do Meio Ambiente: <www.mma.gov.br>.


Site oficial do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, onde é possível encontrar informações
sobre as ações governamentais em curso na região costeira, permitindo ainda acesso direto ao Ins-
tituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama, órgão executor da
Política Nacional e Meio Ambiente e responsável pelas unidades de conservação no Brasil.
Endereço eletrônico <www.restinga.net>.
Site especializado no tema que traz uma base de dados sobre a flora, especialistas, bibliografia
e unidades de conservação nas restingas brasileiras, com uma base nos trabalhos publicados e nas
espécies vegetais registradas para o bioma no Brasil.

152
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I
Mauricio Ferreira Magalhães

N
esta aula vamos identificar a distribuição dos man-
guezais pelo território brasileiro. Ainda estu-
daremos suas características geográficas, en-
tendendo sua relação com o ambiente costeiro e sua
classificação como ecossistema associado à Mata
Atlântica. Destacaremos a importância dos man-
guezais para o equilíbrio dos oceanos e sua diversi-
dade biológica.

Características geográficas
Os ecossistemas de manguezais são classificados como ambientes
de transição entre a região costeira e a mata continental. Estão distribuídos
por todo o planeta nas Américas, Ásia, África e Oceania. São encontrados
em regiões tropicais e subtropicais, podendo ocorrer em climas tempera-
dos, onde são denominados de marismas1.
Estima-se que no Brasil tenham uma área de 15 mil quilômetros quadrados,
abrangendo desde o Oiapoque (Amapá) até Laguna (Santa Catarina). Acompa-
nham a região costeira, podendo ser interrompidos por costões rochosos ou ainda
áreas de falésias2.
Os estados de Pernambuco, com 270 quilômetros quadrados, e São Paulo,
com 240, representam as maiores áreas contínuas de manguezais no Brasil.
Há uma influência muito evidente da distribuição dos manguezais devido
à topografia do local. Esses ambientes são caracterizados por relevos com pouca
declividade, favorecendo a amplitude de penetração das águas costeiras.

1 Representam áreas de
manguezais, ambientes
alagados próximos ao mar,
encontrados em regiões de

Características gerais climas temperados.

Clima 2 Áreas de terras ou ro-


chas altas, presentes no
ambiente costeiro (à beira
mar), extremamente íngre-
Os manguezais apresentam clima quente e úmido, e as temperaturas médias mes. Formam-se a partir da
são superiores a 20ºC, sendo que as médias mínimas não devem chegar a menos ação das intempéries (vento,
sol, chuva e marés) devido à
de 15ºC, o que pode comprometer todo o equilíbrio do ecossistema. intensa erosão no local.

153
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I

Devido à influência dos rios que compõem esse ecossistema, seu regime de
chuvas é intenso, podendo chegar a 1 500 milímetros ao ano. Também não identi-
ficamos períodos marcantes de seca.

Salinidade
Devido à sua localização em ambiente estuarino3, os manguezais apresen-
tam influência direta da salinidade. As águas oceânicas invadem os rios e salini-
zam o local, tornando a água salobra 4. Este fenômeno condiciona a distribuição da
mata de manguezal. Essas matas são halófilas5, o que representa uma grande tole-
rância à salinidade, e com isso conseguem ter condições de vencer a competição
com plantas adaptadas à água doce, garantindo assim sua distribuição. Logo, as
matas de manguezais apresentam uma grande densidade em regiões mais salinas
e têm uma formação mais esparsa em locais menos salinos.

Marés
Sendo ecossistemas de transição entre o ambiente costeiro e a desembo-
cadura dos rios, os manguezais sofrem uma grande influência da amplitude das
marés. A sazonalidade da invasão das marés sobre os leitos dos rios permite a sa-
linização do substrato e consequente colonização de espécies arbóreas adaptadas
a essa pressão seletiva.
Outro fato significativo é a capacidade das águas oceânicas promoverem
uma renovação do oxigênio do substrato dos manguezais.

Substratos
3 Representa o ambiente
presente nos manguezais
que se caracteriza pelo en- O solo dos manguezais normalmente apresenta uma tonalidade acinzenta-
contro entre as águas oceâ-
nicas e a água costeira. Sua
da. Sua constituição é instável, sendo extremamente rico em componentes. Este
condição típica é a salinidade fato deve-se ao encontro do rio com o mar, onde há o carreamento de substâncias
intermediária.
de ambos os ecossistemas. Em sua composição encontramos basicamente:

4 Caracteriza um tipo de
água que apresenta sali-
nidade intermediária, varian-
siltes – material de origem mineral;
do entre 1 g/sais/l e 3 g/sais/l. areia;
Típica dos estuários, favore-
ce a reprodução de inúmeras partículas coloidais – estas são for-
espécies.
madas pela associação dos minerais,
com a matéria orgânica e com a água
5 São vegetais caracteristi-
camente adaptados a re-
giões de extrema salinidade.
salgada oceânica;
São distribuídas pelas matas
de manguezais e no ecos-
matéria orgânica – proveniente dos
sistema de restingas. sedimentos trazidos pelos rios, agregados a restos de animais, galhos de
plantas e seres que vivem no próprio mangue;
6 Fenômeno de produção
de matéria orgânica a
partir da energia obtida pela
recifes de corais.
oxidação de compostos inor-
gânicos presentes no ambien- A riqueza de matéria orgânica fertiliza o local e favorece o desenvolvimento
te. É tipicamente realizada
por bactérias e fungos que de bactérias decompositoras. Estas podem utilizar fontes de enxofre para promo-
promovem a reciclagem dos
nutrientes no solo.
verem sua nutrição, realizando um fenômeno denominado quimiossíntese6.
154
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I

É notório que o substrato dos manguezais sofre grande influência de fatores


físicos e químicos do ambiente, sendo característica a riqueza de matéria orgânica
e o aspecto lamacento.

Biodiversidade / características biológicas


Flora
A mata de manguezal apresenta uma pequena variedade de espécies, porém
uma grande densidade populacional. Estimamos em 13 os tipos de plantas de
mangue. No Brasil encontramos predominantemente quatro espécies:
Rizophora mangle – mangue vermelho;
Laguncularia racemosa – mangue branco;
Avicennia tomentosa – mangue preto;
Avicennia shaueriana – mangue preto.
Esta vegetação pode atingir até 12 metros, mas em média encontramos a
mata com 3 a 6 metros de altura. São bem adaptadas às condições oferecidas pelo
ambiente e apresentam características que permitem seu sucesso frente à pressão
seletiva do meio.
A seguir estão alguns exemplos de adaptações.
Raízes escoras: raízes em forma de guarda-chuva que aumentam o poder
de estabilização da planta, uma vez que o solo é extremamente instável e
sofre a influência das marés.
Pneumatóforos: raízes que crescem perpendicularmente ao solo de man-
gue, no sentido oposto ao crescimento normal das raízes vegetais. Apre-
sentam um mecanismo denominado geotropismo7 negativo. Essas raízes
possuem pneumatódios8, que permitem a troca de gases com a atmosfera.
Propágulos: caracterizam adaptações das sementes de manguezal. Como
o solo é extremamente instável e a influência das marés é intensa, as
sementes necessitam de um tempo para sua dispersão e fixação, logo,
apresentam um desenvolvimento inicial ainda ligadas às plantas mães
7 Representa movimento
de crescimento das es-
truturas dos vegetais, tendo
(viviparidade) até encontrarem um local que permita a sua fixação. como estímulo o solo. Quan-
do este crescimento ocorre
a favor do solo destacamos
Pressão osmótica elevada: a pressão osmótica caracteriza a força de atra- que é um tipo de geotropismo
positivo, porém quando este
ção que o soluto exerce sobre o solvente em uma solução. Os vegetais crescimento se dá em senti-
do contrário ao solo, classi-
necessitam absorver água em suas raízes para a realização do fenômeno ficamos como geotropismo
negativo.
da fotossíntese e conseguem executar esta função devido ao vacúolo de
suco celular que apresenta uma concentração maior que o meio. Nas
plantas de manguezais este processo fica mais evidente, uma vez que
o ambiente é salinizado pelas águas oceânicas, logo, devem concentrar
8 Representam as abertu-
ras presentes nas raízes
denominadas de pneumató-
foros, encontradas em ve-
maior quantidades de sais em seu interior, tornando o potencial de osmo- getação de manguezal e que
permite a troca gasosa com o
se mais intenso. meio ambiente.

155
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I

Fauna
Os manguezais representam o “berçário do mar”. Tal classificação é justifi-
cada pelas inúmeras espécies marinhas que se reproduzem neste local. Esta busca
pelo ecossistema de manguezal ocorre devido a alguns fatores:
águas calmas – facilitam as desovas;

Os oceanos raízes das árvores – permitem a proteção e fixação de muitos animais;


dependem dos salinidade – a salinidade intermediária favorece a eclosão e desenvolvi-
manguezais? mento dos filhotes;
alimento – devido à grande quantidade de matéria orgânica, os mangue-
zais possuem uma produtividade alta, resultando em muita oferta para as
diversas cadeias alimentares.
Com estas características muitas espécies de animais que formam a fauna
do manguezal são temporárias, pois quando se desenvolvem retornam aos ocea-
nos para completar o seu crescimento.
Alguns exemplos de animais: camarões, alevinos, fitoplâncton, zooplâncton,
robalos, tainhas, manjubas, caranguejos, colhereiros, garças, ostras e mexilhões.

Conclusões
Nesta aula apresentamos parte do ecossistema de manguezal. Em nosso es-
tudo destacamos a sua distribuição por todos os continentes do planeta, exceto o
europeu, enfatizando a localização no Brasil (Pernambuco, com 270 quilômetros
quadrados e São Paulo, com 240 km2, representam as maiores áreas contínuas de
manguezais no Brasil).
Identificamos as características mais importantes na formação desse bioma,
tais como: estabilidade climática, salinidade intermediária, influência direta das
marés e sua grande importância como berçário para os oceanos.
Por fim, caracterizamos sua diversidade biológica através da exemplificação
de exemplares da fauna e da flora, bem como suas características adaptativas.

Salvando o manguezal
(MOSCATELLI, 1999, p. 41-42)
Não é de hoje que a relação entre o homem e os manguezais caracteriza-se por um preocupan-
te desconhecimento sobre a importância universal destes ecossistemas e, de forma particular, de
toda forma de vida existente no nosso litoral. Nos últimos 500 anos, para dar uma referência tem-
poral a partir do momento da chegada dos europeus ao Brasil, esta floresta justamarítima começou

156
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I

a ser sistematicamente eliminada em função de sua localização geográfica, altamente propícia à


instalação de portos, e à expansão das cidades nestas prolíferas áreas. Tal quadro perdurou, em
linhas gerais, até fins da década dos anos 1960 quando os manguezais obtiveram científica e aca-
demicamente, um definitivo reconhecimento da importância do seu valor econômico-ambiental;
isto aconteceu, inicialmente, graças ao aparecimento, em diversos países, de inúmeras publica-
ções que estudavam o fluxo de energia gerado pelos ecossistemas de manguezal, particularmente
a partir da divulgação dos estudos fitogeográficos elaborados sobre as cadeias alimentares dos
mangrove, o ecossistema da península da Flórida.
Apesar desse gradativo reconhecimento, tanto oficial como privado, estima-se que atual-
mente mais de 1 milhão de hectares de manguezais são perdidos a cada ano em todo o mundo.
Diversas áreas litorâneas brasileiras, onde existiam extensos ecossistemas de manguezal, como
as baías de Todos os Santos, Guanabara, Santos, Paranaguá, e outras de desenvolvimento mais
recente, como as de Sepetiba e de São Marcos – também estão perdendo estes recursos naturais
num processo cada vez mais acelerado.
Tomemos o exemplo do estado do Rio de Janeiro onde 40% dos manguezais localizados na
Baía de Guanabara foram eliminados à medida que a costa sofreu o processo de urbanização.
Apenas no município de Angra dos Reis, um importante e conhecido balneário do litoral sul-
-fluminense, nos últimos 30 anos os manguezais foram reduzidos à 40% de sua área original, por
causa da instalação de grandes loteamentos e marinas, além da construção da rodovia BR-101;
totalizam mais de 50%, as perdas de manguezais associados em toda a Baía da Ilha Grande, so-
mando aproximadamente 2 mil hectares.
Ainda hoje, infelizmente, em boa parte da costa brasileira está sendo sistematicamente des-
truído o nosso patrimônio ambiental.
Paradoxalmente, neste momento no qual temos, por um lado, uma legislação ambiental que
“peca” por defender indiscriminadamente a intocabilidade dos ecossistemas costeiros sem levar
em consideração o seu contexto geográfico, ambiental, econômico e social; e pelo outro, ações e
intervenções públicas ou privadas mal planejadas, que privilegiam o discutível objetivo do uso
lucrativo do solo sem levar em conta as peculiaridades ambientais que caracterizam a exuberância
da região; alguns grupos empresariais começam a perceber não somente a importância da pre-
servação dessas áreas, mas o seu potencial ecoturístico. Tal é o pioneiro caso do grupo Hotel do
Bosque, localizado à margem da estrada Rio-Santos, entre o Rio de Janeiro e São Paulo.
Esta iniciativa pretende, dentro das normas legais vigentes, transformar o manguezal loca-
lizado na foz do Rio Mambucaba numa Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), uma
área atualmente protegida e conservada pelo grupo Hotel do Bosque. Este grupo empresarial,
além de desenvolver atividades ecoturísticas compatíveis com a existência deste habitat, tais como
visitações por meio de embarcações ou sobre estruturas palafitadas e observações de aves em pon-
tos suspensos, implementou um plano de outras atividades associadas à educação ambiental que
está atualmente em andamento.
Estão sendo incrementadas as visitações vinculadas à rede escolar propiciando às crianças
e à comunidade local, informações gerais sobre a vital importância dos manguezais para a vida
marinha. Esta tarefa educativa, em breve, será desenvolvida por meio de palestras e visitações
in loco, conduzidas por monitores especialmente preparados que explicarão o funcionamento do
ciclo da vida no manguezal, as características da sua fauna e da sua flora.
A iniciativa do Grupo do Hotel do Bosque é uma efetiva demonstração da possibilidade real
de gerenciar ambiental e lucrativamente este importante e significativo recurso ambiental da Baía

157
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais I

da Ilha Grande. É oportuno destacar que, seguindo as normas de gerenciamento ambiental decor-
rentes da Agenda 21, o Parque Nacional de Morrocoy, localizado na Venezuela, fatura anualmente
com atividades turísticas associadas ao meio ambiente (manguezais, recifes, praias), U$ 7 milhões
aproximadamente, bem como as ilhas Trinidad e Tobago, da mesma forma, obtêm com seus re-
cursos naturais, U$ 2 milhões ao ano.
Graças ao indiscutível sucesso financeiro desta modalidade de exploração dos recursos am-
bientais, talvez possa ser despertado o interesse das prefeituras e da própria sociedade e estimula-
do o empresariado da região, para que, de fato, num futuro imediato, se possa gerenciar sustenta-
velmente todo o ecossistema e o habitat dos manguezais da Baía da Ilha Grande.

1. Faça uma pesquisa com os seus amigos com o tema “Qual a importância do Manguezal?”

2. Justifique o fato dos manguezais serem denominados o “berçário do mares”.

3. Comente as adaptações das plantas de manguezais à salinidade do ambiente.

Sugiro que aprofundem seus estudos navegando pelos sites abaixo, que permitirão uma maior
visualização do ambiente de manguezal.
<www.ambientebrasil.com.br>
<www.2.ibama.gov.br/unidades>

Também recomendo a bibliografia abaixo para o estudo das características dos ecossistemas de
Manguezais.
SCHAEFFER-NOVELLI, Yara. Manguezais: ecossistema entre a terra e o mar. São Paulo: Caribean
Ecological research, 1995.

158
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II
Mauricio Ferreira Magalhães

N
esta aula vamos identificar as relações estabelecidas entre o homem e o
ecossistema dos manguezais. Destacaremos a importância socioeconô-
mica e ecológica deste ambiente. Identificaremos os principais impactos
ambientais decorrentes da ação antrópica e ainda apresentaremos alguns projetos
de preservação e o manejo ambiental adequado para a sustentabilidade.

Aspectos socioeconômicos
O homem e o manguezal
Devido à localização os ecossistemas de manguezais têm uma importância sig-
nificativa para o homem. Um dos principais fatores de interesse do homem por este
ambiente é a grande oferta de água. Esse fato favorece a instalação de diversos tipos
de indústrias (siderúrgicas, usinas nucleares, polos petroquímicos etc.) junto aos leitos
dos rios, com a facilidade de obtenção de água a baixos custos, e ainda a praticidade
de poder eliminar os resíduos de sua produção. A grande facilidade de acesso ao mar
também garante o escoamento de sua produção e a chegada de matéria-prima.
Existe um grande interesse dos grupos de construção civil e naval, justi-
ficado pela beleza dos manguezais e a proximidade das praias. Isso favorece a
construção de marinas e condomínios de luxo.
Uma grande parcela da população que ocupa os manguezais não se enqua-
dra nessas características, mas utiliza o ecossistema para sua subsistência. Essa
população, normalmente carente, encontra no local proteína de alta qualidade
com fartura, podendo alimentar suas famílias e gerar alguma renda com a venda
dos diversos produtos que os manguezais podem oferecer.

Exploração econômica
Vamos entender um pouco os produtos que os manguezais podem nos ofere-
cer. Das matas de manguezais são extraídas as madeiras para construção de casas,
pontes, ancoradouros, dormentes, entre outros objetos.
1 Fenômeno que se carac-
teriza pela acidificação
O carvão vegetal também representa um produto importante utilizado pelo das águas das chuvas, devi-
do às reações de poluentes
homem, uma vez que gera uma grande quantidade de energia quando queimado, atmosféricos (óxido nitroso,

aproximando-se da eficiência do carvão mineral. Porém, há um ganho atmosféri-


dióxido de enxofre) com a
água, formando ácido nítrico
co significativo, já que a combustão do carvão mineral produz o óxido nitroso e o e ácido sulfúrico. Provoca
destruição de estruturas me-
dióxido de enxofre, promovendo o incremento da chuva ácida1, enquanto o carvão tálicas, esculturas em pedras,
impacto sobre os corpos hí-
vegetal produz o dióxido de carbono, evitando este fenômeno. dricos e as florestas.

159
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

Extraído da casca da mata de mangue e algumas árvores da floresta atlânti-


ca temos o tanino2. Esta substância é utilizada para impermeabilização de velas,
redes de pesca, dormentes de cais, pontes, e recentemente está sendo utilizado
como um desinfetante eficaz no tratamento de água.
Ainda com relação à madeira do manguezal, também está sendo desen-
volvido um projeto de utilização da mesma para produção de álcool combustí-
vel, principalmente na Ásia. No Brasil não houve grande interesse nesta forma
de exploração, pois utiliza-se a cana-de-açúcar com a mesma finalidade.
Os manguezais também estão sendo utilizados para o cultivo comercial de
ostras. As fazendas são instaladas nos rios que desembocam no mangue e, favore-
cidas pela intensa produtividade deste ecossistema, apresentam um elevado índice
de crescimento.
Estas fazendas marinhas consistem em estruturas fixas ao fundo por poitas
de lastro que têm amarrada em cada lado uma corda-guia denominada espinhel.
Nesta estrutura instalam-se boias de sustentação. Uma vez colocadas na água re-
presentam um ponto para pendurarmos as lanternas de ostras. Estes animais são
alimentados pela própria matéria orgânica presente na água do manguezal.

Berçário marinho / importância ecológica


Os manguezais representam um ecossistema de transição entre os rios e os
mares. Suas características físicas e químicas interferem diretamente no equi-
líbrio do ambiente marinho. Alimentam continuamente os oceanos de matéria
orgânica e sais minerais, sendo então responsáveis pela fertilização das águas
oceânicas. Apresentam em suas matas e águas calmas um ambiente favorável à
procriação da biota marinha, sendo caracterizados como grandes berçários para
as espécies marinhas. Promovem a alimentação de diversas espécies de peixes,
moluscos, crustáceos, além de serem pontos de reabastecimento e procriação de
algumas espécies de aves.
Alguns fatores devem ser destacados para entendermos esta particularidade:
salinidade intermediária (favorece a sobrevivência dos filhotes);
águas calmas e emaranhados de raízes (permite a fixação e formação de
2 O tanino vegetal é uti-
lizado como agente
antimicrobiano, em geral
ninhos);
fungicidas e antibacterianos,
antitermitas, reguladores de
grande quantidade de sedimentos (favorece as cadeias alimentares);
crescimento e germinação de
microorganismos. estabilidade de temperatura;
grande disponibilidade de água.
3 Área onde não deve haver
a exploração dos recursos
naturais. Esta classificação
Todos estes fatores elegem os manguezais como o ecossistema mais im-
visa preservar os mananciais, portante para o ambiente marinho. Percebendo esta característica o governo
a biota, o equilíbrio e fluxo
gênico das espécies, o solo brasileiro protegeu os manguezais, classificando-os como área de preservação
e as populações humanas
nativas. permanente (APP) 3.

160
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

Impactos ambientais
Culturalmente há um estigma relacionado ao ecossistema de
manguezal, devido às suas características naturais, como o solo la-Decreto 89.336, de 31
macento, cheiro acentuado de matéria em decomposição, acúmulo de janeiro de 1984 –
de resíduos e foco de mosquitos transmissores de doenças. Com estabelece as reservas
isso, as pessoas entendem que o mangue já é um ambiente impacta- ecológicas, áreas de
do naturalmente, logo, ficam à vontade para poluí-lo e degradá-lo. preservação permanente
Percebemos que a exploração econômica dos manguezais e áreas de relevante
representa uma pressão significativa sobre este ecossistema, e por interesse ecológico
suas características pode ser extremamente danoso para o equilí-
brio dos mares.
A destruição das matas para ocupação inadequada é um dos impactos mais
evidentes. Construção de indústrias, usinas, marinas, condomínios, áreas faveliza-
das, representam alguns exemplos. O desmatamento também fica evidente para a
exploração da madeira (construções diversas, carvão, álcool, tanino etc.).
Uma vez que é ocupado com indústrias e moradias, as águas dos rios for-
madores do manguezal são impactadas com toda a sorte de resíduos. Isto desen-
cadeia a poluição do ambiente e um fenômeno denominado eutrofização4.
Os manguezais também têm sido vitimados pela exploração excessiva, tan-
to do solo, a fim de utilizar a argila para a fabricação de tijolos, como da fauna
(caranguejos, ostras, peixes, lagartos, tartarugas, siris, mexilhões, entre outros).
Outro aspecto preocupante em relação a esse ecossistema é o turismo de-
sordenado. Estimulados pela oferta de alimentos exóticos (frutos do mar, peixes,
caranguejos etc.) e pela proximidade com as praias, os turistas têm buscado os
manguezais, e isso interfere na capacidade de suporte deste ambiente.
A construção de barragens (represas em rios) tem interferido no equilíbrio
das regiões costeiras, desencadeando um processo de erosão. Esse represamento,
associado à presença de indústrias poluidoras no local, favorece a ocorrência da
bioacumulação ou magnificação trófica5, que provoca a morte de organismos lo-
calizados nos topos das cadeias alimentares.
4 Caracteriza a fertilização
dos corpos hídricos pelo
excesso de matéria orgânica
presente no ambiente. Este

Sustentabilidade dos manguezais fato permite uma prolifera-


ção de bactérias aeróbicas
que consomem o oxigênio
dissolvido na água e provo-
cam a morte dos organismos
Iniciativas de sucesso aeróbios, favorecendo a pro-
liferação de bactérias anae-
róbias.
Carcinicultura
Algumas pesquisas estão apontando para uma polêmica muito grande em rela- 5 Fenômeno que se carac-
teriza pelo acúmulo de
poluentes nos corpos da bio-
ção ao cultivo de camarões de água salgada (carcinicultura), enquanto a maior parte ta. Tem como característica
da comunidade científica aponta para o intenso impacto ambiental nos manguezais, básica a potencialização do
poluente quanto mais avança-
causado pela expansão da atividade. Pesquisadores da Universidade do Ceará apre- mos nas cadeias alimentares,

sentam um significativo estudo sobre o tema. Avalie e tire suas próprias conclusões. afetando principalmente os
grandes carnívoros.

161
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

Estudo mostra que cultura


de camarão não destrói mangues
(CASTELO BRANCO, 2004)
Nos últimos 26 anos, áreas aumentaram em 40% na região Nordeste. A
despeito do crescimento de atividades econômicas como a carcinicultura –
cultura de crustáceos, como o camarão – as regiões de manguezais no Nordes-
te estão crescendo. Pesquisa realizada pela Fundação Sociedade Internacional
para Ecossistema de Manguezal do Brasil (ISME-BR), em parceria com o
Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará
(UFCE), revela que a área de manguezais no Nordeste registrou crescimento
de 40%, no período que vai de 1978 até o primeiro semestre de 2004.
O levantamento comparou os resultados do trabalho do professor Rena-
to Herz, do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP),
realizado em 1978, com a situação encontrada no primeiro semestre deste
ano. A pesquisa utilizou a mesma metodologia aplicada por Herz, utilizando
tecnologias como sensoriamento remoto (via satélite), sistema de informações
geográficas e vetorização, para calcular as áreas de mangue.
O professor Luiz Parente, do Labomar, explica que o estudo comparou a
cobertura de mangue em 1978, com a atual situação em 2004, nos estados do
Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, onde também está
concentrada 75,4% da área ocupada pela atividade de carcinicultura no Brasil.
Todos os estados pesquisados registraram aumento na área de mangue.
Entre os estados incluídos na pesquisa, o Ceará tem a maior extensão de
manguezais da região, totalizando 17 mil hectares. Esse número é bem maior
que a área ocupada pela criação de camarão, que chega a 3 376 hectares, segun-
do Censo 2003 da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). “A
pesquisa identificou a existência de 20 estuários no estado”, observa Parente,
ressaltando que nos últimos 26 anos o mangue cearense registrou crescimento
de 32%, com uma expansão de 4,2 mil hectares. O estado conta hoje com 185
empreendimentos de carcinicultura, que foram responsáveis pela produção de
26 mil toneladas de camarão em 2003.

Avanço das dunas


Parente destaca que nas áreas onde houve redução do mangue, a migração
natural das dunas foi o principal fator de desaparecimento do ecossistema.
Segundo a pesquisa, algumas regiões chegam a registrar um avanço de 10 a 15
metros de areia das dunas por ano. Por outro lado, foi percebido o crescimento
da vegetação de manguezal ao longo dos canais de captação usados pela ativi-
dade de carcinicultura.
Na avaliação do presidente da ABCC, Itamar Rocha, o resultado da pes-
quisa demonstra que, para cada hectare de viveiro instalado nos seis esta-
dos pesquisados, o mangue cresceu 1,55 hectares. A zona costeira do Piauí

162
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

a Pernambuco tem 11,1 mil hectares de viveiros de camarão e o incremento


na cobertura de mangue foi de 17,4 mil hectares, totalizando 61 mil hectares
de manguezal na área monitorada. “Essa relação sugere que pode existir uma
complementação positiva entre o cultivo de camarão e o ecossistema onde ele
está instalado”, reforça.

Valoração de costeiros
Outra proposta que coaduna com a visão da sustentabilidade é o Programa
de Valoração das Regiões Costeiras, objetivando não só a identificação dos im-
pactos ambientais causados sobre os ecossistemas de manguezais, mas também a
capacidade de mensuração e valoração dos referidos impactos.
Os estados que apresentam programas significativos nesta direção são Santa
Catarina e Bahia. Os pesquisadores aplicaram um modelo que se baseia na inter-
ferência do homem sobre o ecossistema, e o conjunto de transformações impostas
no local. Este modelo foi criado pela Organização para Cooperação de Desenvol-
vimento Econômico (OCDE), modelo pressão-estado-resposta.

Projeto de valoração econômica do recôncavo baiano


Originalmente conhecido como Projeto de Conservação e Valoração Socio-
econômica dos Ecossistemas de Manguezais na América Tropical – Recôncavo
Baiano, objetiva avaliar as atividades e impactos ambientais ocorrentes nas bacias
de drenagem do Recôncavo Baiano que comprometem a manutenção dos ciclos
naturais dos manguezais e outros ecossistemas associados.
Este projeto proposto pela Unesco é coordenado pelo Ministério do Meio
Ambiente conta com a parceria de Ibama, IO/USP, UFBA e CRA.

Conclusão
Nesta aula concluímos os conteúdos referentes ao Ecossistema de Mangue-
zal. Em nosso estudo destacamos as relações estabelecidas pelos homens com este
ambiente, onde ficou evidente a intensa exploração de: madeira, pesca, coleta de
caranguejos, cultivo de camarões, instalação de indústrias, como atividades eco-
nômicas características neste ecossistema.
Também identificamos os principais impactos ambientais decorrentes desta
relação de exploração, cabendo ressaltar a poluição por esgoto e industrial, a espe-
culação imobiliária e a destruição das florestas como exemplos relevantes dentro
desses impactos.
Por fim apresentamos alguns exemplos de pesquisas e programas que visam
alternativas sustentáveis para a exploração viável e permanente desse ecossistema.

163
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

O Brasil tem uma das maiores


extensões de manguezais do mundo
(2004)

Valoração e problemas nos manguezais


De acordo com Schaeffer-Novelli, os manguezais se desenvolvem em regiões costeiras pro-
tegidas banhadas pelas marés, e suas maiores estruturas são observadas em áreas onde o relevo
topográfico é suave e ocorrem grandes amplitudes de maré. São encontrados em latitudes entre
os Trópicos de Câncer e Capricórnio (zonas tropicais e subtropicais), tanto nas Américas como na
África, Ásia e Oceania.
No Brasil, os mangues são protegidos por legislação federal, devido à importância que repre-
sentam para o ambiente marinho. São fundamentais para a procriação e o crescimento dos filhotes
de vários animais, como rota migratória de aves e alimentação de peixes. Além disso, colaboram
para o enriquecimento das águas marinhas com sais nutrientes e matéria orgânica.
Os manguezais possuem elevada produtividade biológica, pois nesse ecossistema encontram-
-se representantes do elo da cadeia alimentar. As folhas que caem das árvores se misturam com o
sedimento e os excrementos dos animais, vertebrados e invertebrados, formando compostos orgâ-
nicos de vital importância paras as bactérias, fungos e protozoários. Os próximos níveis da cadeia
alimentar são constituídos por integrantes do plâncton, dos bentos e do nécton, como crustáceos,
moluscos, peixes, aves e até pelo homem, no topo da pirâmide.
Os manguezais estão entre os principais responsáveis pela manutenção de boa parte das
atividades pesqueiras das regiões tropicais. Servem de refúgio natural para a reprodução e desen-
volvimento (berçário), assim como local para alimentação e proteção para crustáceos, moluscos
e peixes de valor comercial. Além destas funções, os manguezais ainda contribuem para a sobre-
vivência de aves, répteis e mamíferos, muitos deles integrando as listas de espécies ameaçadas ou
em risco de extinção.
Devido à grande importância econômica dos manguezais, estes ambientes são degradados
diariamente pela ação e ocupação do homem. Essa ocupação desordenada deve-se principalmente
ao fato desses locais apresentarem condições favoráveis à instalação de empreendimentos os quais
normalmente visam atender interesses particulares.
Entre as condições favoráveis, destacam-se, segundo Schaeffer-Novelli (1995):
oferta quase ilimitada de água, insumo importante para indústria, como a siderúrgica, a
petroquímica e as centrais nucleares;
possibilidade de fácil despejo de rejeitos sanitários, industriais, agrícolas e/ou de mi-
neração;
proximidade de portos, que facilitam a importação de matéria prima para a transforma-
ção e a exportação de produtos, diminuindo custos de carga e transporte;
pressão do mercado imobiliário;
construção de marinas.

164
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

A áreas de manguezais, devido às várias atividades, sofrem grandes impactos, causados pe-
las populações caboclas que vivem no litoral, que desenvolvem atividades como a pesca e a coleta
de siris, caranguejos e sururus, contribuindo significativamente para o sustento destas populações.
Estas comunidades litorâneas também costumam se alimentar de aves costeiras (inclusive aves
ameaçadas de extinção), primatas, assim como de alguns répteis tais como lagartos e tartarugas,
e de seus respectivos ovos.
A flora também tem sido explorada: as árvores do manguezal são utilizadas para obtenção
de madeira para construção de barcos, casas, cercados, armadilhas de pesca, além de servirem
para produção de combustível na forma de carvão.
Segundo Rodrigues Teixeira, além da exploração da fauna e da flora, o solo do manguezal
também é explorado: a argila é utilizada por olarias para produção de telhas e tijolos de cerâmica.
Essa retirada de sedimentos argilosos poderá no futuro comprometer a estrutura do fundo dos
canais afetando também a fauna associada a este sedimento.
O processo de exploração do turismo tem como consequência a expansão imobiliária em
áreas de manguezal. Estes empreendimentos podem, no entanto, levar ao aterro dos manguezais
assim como à extinção da fauna e da flora de maneira irreversível.
Com a grande degradação e vital importância que os manguezais apresentam, é de extre-
ma urgência que haja uma legislação mais rígida em relação à exploração dos recursos naturais
visando técnicas sustentáveis. No nível federal estão incluídos no artigo 2 do Código Florestal e
no Decreto Federal 750/1993 de tombamento da Floresta Atlântica, como ecossistema associado.
Em alguns casos são considerados como preservação permanente com isso havendo uma maior
conservação deste ecossistema.
Existem também inúmeros projetos de recuperação de manguezais que antes serviam como
entulho de lixo ou até mesmo aqueles que sofreram aterro por empreendimentos imobiliários. Há
também programas de conservação de fauna e flora que geram fluxos de energias que subisidiam a
cadeia alimentar e dão suporte aos recursos pesqueiros, assim sendo de extrema importância para
a manutenção destes ecossistemas.
O Ibama executa o projeto Dinâmica Ambiental do Sistema Coralino de Abrolhos, que visa
identificar as fontes de impacto sobre os ambientes costeiros (manguezais e matas de restinga) e
sobre o sistema coralino de Abrolhos a fim de minimizar esses impactos e definir porções repre-
sentativas destes ambientes para a preservação em unidades de conservação.

1. Construa uma pirâmide em que fiquem evidentes os mais graves impactos ambientais nos man-
guezais.

2. Descreva duas alternativas sustentáveis para a exploração racional do ecossistema de manguezal.

3. Proponha uma atividade de Educação Ambiental que tenha o manguezal como tema.

165
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Manguezais II

<www.ambientebrasil.com.br>
<www.2.ibama.gov.br/unidades>

166
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas
Sandro Menezes Silva

Características geográficas das ilhas

O
litoral brasileiro, com pouco mais de 9 mil quilômetros de extensão é banhado pelo Oceano
Atlântico desde o Cabo Orange, na foz do rio Oiapoque (AP), até a foz do arroio Chuí (RS).
Apresenta um conjunto de paisagens bastante diversas, onde manguezais, restingas, dunas,
falésias, brejos, costões rochosos e recifes de coral ocorrem de forma descontínua e em diferentes
combinações, proporcionando à costa brasileira uma grande variabilidade ambiental.
As ilhas, aqui definidas como uma área emersa circundada por um corpo d´água, neste caso, o
Oceano Atlântico, ocorrem ao longo de toda a costa brasileira, mesclando diferentes tipos de ambien-
tes e com características muitas vezes peculiares e únicas. Com base em fatores relacionados ao tipo e
à origem da costa, ao clima, às correntes marinhas e à latitude, entre outros, podem ser reconhecidas
cinco regiões no litoral brasileiro, aqui usadas didaticamente para entender-se um pouco melhor as
características da costa do Brasil, e nesta, a inserção dos ambientes de ilhas.

Litoral amazônico ou equatorial


O Litoral amazônico ou equatorial vai da foz do rio Oiapoque à foz do rio Parnaíba, sendo
caracterizado por grandes extensões de terras baixas e inundáveis, em clima marcadamente equa-
torial. A ilha do Marajó situa-se nesta região, entre a foz do rio Amazonas e o Oceano Atlântico; é
uma das maiores ilhas brasileiras, com cerca de 48 mil quilômetros quadrados, considerada a sétima
maior ilha atlântica. Uma outra referência importante nesta região é a cidade de São Luís, capital do
Maranhão, localizada em ilha de mesmo nome, às margens da baía de São Marcos, entre o Oceano
Atlântico e o estreito dos Mosquitos.

Litoral nordestino ou das Barreiras


O Litoral nordestino ou das Barreiras vai da foz do rio Parnaíba à região de Salvador (BA),
sendo sua feição mais característica as falésias da Formação Barreiras bem próximas ao mar. O clima
semiárido, típico da parte voltada para o norte nesta região, propicia a formação de dunas de grande
porte, como pode ser observado no Ceará e Rio Grande do Norte. As ilhas oceânicas mais conhecidas
do Brasil pertencem aos estados localizados nesta região, como o arquipélago de Fernando de Noro-
nha, as ilhas de São Pedro e São Paulo e o Atol das Rocas, este um dos mais importantes recifes de
coral do Atlântico Sul.

Litoral Oriental
O Litoral Oriental vai do Recôncavo Baiano até o sul do Espírito Santo, onde alternam-se de-
pósitos sedimentares da Formação Barreiras com afloramentos do complexo cristalino. Recifes de
corais, que no litoral nordestino já aparecem de forma expressiva, nesta região formam alinhamentos
167
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

paralelos à linha de costa, especialmente no litoral sul da Bahia. O arquipélago


de Abrolhos situa-se nesta região, notável pela ocorrência de grande diversidade
de corais e demais organismos marinhos. A capital do Espírito Santo, Vitória, faz
parte de um arquipélago com 34 ilhas, tendo ainda uma porção continental, sendo
um exemplo de ilha costeira densamente ocupada na costa brasileira. Além disto,
as ilhas oceânicas de Trindade e Martin Vaz, também na costa do Espírito Santo,
pertencem ao município de Vitória, distando cerca de 1 100 quilômetros da costa,
em linha reta em relação à cidade.

Litoral sudeste ou das escarpas cristalinas


O Litoral sudeste ou das escarpas cristalinas vai do sul do Espírito Santo ao
Cabo de Santa Marta (SC), onde as paisagens mais características são os morros
da Serra do Mar associados a amplas concavidades da costa preenchidas por sedi-
mentos de diferentes origens, formando as planícies litorâneas. No litoral do Rio
de Janeiro, a presença de lagoas, restingas e ilhas costeiras resultantes da submer-
são de porções da Serra do Mar são bastante típicas, como é o caso de Ilha Grande
e das ilhas mais próximas à costa na altura da cidade do Rio de Janeiro. No litoral
sul de São Paulo e no Paraná, ocorrem ilhas costeiras sedimentares extensas,
como a ilha Comprida (SP), a ilha das Peças e a ilha do Mel (PR). Estima-se que
só no litoral do Paraná existam mais de 100 ilhas, na sua maioria originadas de
terrenos sedimentares formados em baixios da parte interna das baías de Parana-
guá e Guaratuba. Na ilha de Santa Catarina, no litoral central do estado de mesmo
nome, situa-se a sede urbana da cidade de Florianópolis, capital do estado.

Litoral meridional ou subtropical


O Litoral meridional ou subtropical, com clima subtropical, é uma região
essencialmente arenosa e baixa, sendo as praias extensas e lagunas de dimensões
consideráveis as feições mais típicas. A Praia do Cassino, maior extensão de praia
1 Diminuição da variabili-
dade genética resultante
da colonização de um local
do Brasil, e as lagoas dos Patos, Mirim e do Peixe, todas localizadas no Rio Gran-
de do Sul, são algumas localidades de referência nesta região.
por um ou poucos indivíduos,
podendo levar à diferenciação
de populações e consequente
As ilhas sempre despertaram o interesse dos estudiosos Ilhas como
formação de novas espécies. de biogeografia, pois são excelentes laboratórios naturais para laboratórios
o estudo da evolução. A grande ilha que forma o continente
para estudos
australiano, a Nova Zelândia, Madagascar, a região do Caribe,
entre outras, estão repletas de exemplos de “novidades evoluti- de evolução
2 Conjunto de subpopula-
ções vizinhas ligadas por
indivíduos que se deslocam
vas”, razão da constante busca de cientistas por explicações para os processos evo-
entre os grupos, algumas po- lutivos decorrentes do isolamento geográfico, do efeito do fundador1, da formação
dendo estar em declínio en-
quanto outras crescem, sendo de metapopulações2, somente para citar alguns exemplos.
estas muitas vezes as respon-
sáveis pela recolonização dos
locais onde ocorreram as ex-
No Brasil, são conhecidas algumas espécies com distribuição geográfica res-
tinções. trita a uma ou poucas ilhas, algumas com hábitos distintos de seus “parentes” mais
próximos do continente, como é o caso de duas espécies de serpentes que ocorrem
3 Espécie com distribuição
geográfica restrita a so-
mente um local, como uma
no litoral de São Paulo. Na ilha Queimada Grande, situada a aproximadamente
33 quilômetros da costa na região de Itanhaém, ocorre uma espécie endêmica3
ilha, uma serra, um estado
etc. de jararaca, chamada de jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), que ao contrário de
168
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

seus ancestrais continentais, desenvolveu hábitos arborícolas, tendo nas aves seu
principal alimento. Para imobilizar as presas com maior rapidez e eficiência, esta
espécie desenvolveu um veneno mais potente que as demais espécies de jararaca,
com forte efeito anticoagulante. Na ilha de Alcatrazes, a cerca de 35 quilômetros
da costa na região de São Sebastião, ocorre uma outra espécie de jararaca exclu-
siva, a jararaca-anã (Bothrops alcatraz), que se especializou em alimentar-se de
lacraias e outros invertebrados, além de pequenos anfíbios, que vivem em meio ao
folhedo no chão da floresta. Esse hábito da espécie é compartilhado apenas com
as formas jovens de seus ancestrais continentais, uma das razões a qual atribui-se
seu menor porte, visto que estas presas são menos energéticas do que roedores,
principal item da dieta das espécies que vivem no continente.

Características gerais das ilhas brasileiras


Na costa brasileira podem ser reconhecidos dois tipos de ilhas, conforme
suas respectivas relações geológicas e de origem com os continentes.
As ilhas continentais são geralmente próximas à costa e relacio- Qual a diferença en-
nadas geologicamente ao continente, do qual separa-se por regiões com tre ilhas continentais
profundidades inferiores a 200 metros, situadas sobre a plataforma con- e oceânicas?
tinental. Podem apresentar-se como porções emersas das serras costei-
ras afogadas, apresentando-se como prolongamentos dos relevos litorâneos e de
suas respectivas composições geológicas, como as ilhas situadas na região da
baía de Angra dos Reis (RJ), por exemplo. Podem também ser ilhas sedimentares
de baixa altitude, formadas em geral por diferentes tipos de depósitos arenosos e
limosos, onde restingas e manguezais em geral são os ambientes predominantes,
como pode ser visto no litoral sul de São Paulo (Ilha Comprida) e norte do Paraná
(Ilha das Peças).
As ilhas oceânicas ocorrem bastante afastadas dos continentes, erguendo-
se do assoalho oceânico, em locais mais profundos, tendo em geral origem vulcâ-
nica. Podem estar associadas a bancos e recifes de corais e formar arquipélagos,
como nos casos de Fernando de Noronha, Trindade, Rocas e Abrolhos.
Compreender bem esta distinção entre os tipos de ilhas da costa brasileira
é fundamental, pois as características ambientais destas estão relacionadas dire-
tamente com a maior ou menor proximidade do continente, especialmente no que
diz respeito à composição da biota4.
Nas ilhas continentais formadas pela submersão parcial de alguns setores
da cadeia montanhosa que acompanha a costa brasileira, conhecida normalmente
como Serra do Mar, é comum a presença de grandes blocos rochosos, muitas ve-
zes com vegetação restrita a locais como fendas de rochas e depressões no terreno,
e que em geral servem de abrigo ou local de nidificação para várias espécies de 4 Todo o conjunto de es-
pécies, de micro-orga-
aves. Nas partes próximas ao mar, é comum a presença dos costões rochosos, com nismos, vegetais e animais
ocorrentes em um determi-
flora e fauna associadas bastante características. nado local.

169
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

Nas ilhas continentais sedimentares, as feições litorâneas mais caracterís-


ticas são as restingas e o manguezal, cada qual associado a um tipo específico de
ambiente deposicional5. Enquanto a restinga é formada principalmente por se-
dimentos arenosos depositados em ambientes de maior energia, como as praias,
por exemplo, o manguezal é constituído predominantemente por sedimentos mais
finos (lodosos), depositados em ambientes de menor energia, como desembocadu-
ras de rios, estuários e planícies de maré.

Biodiversidade
A composição da flora e da fauna das ilhas do litoral brasileiro tem grande
relação com a respectiva origem da ilha, bem como do seu processo de formação e
idade. O tempo de isolamento, no caso específico das ilhas continentais, pode ser
determinante na maior ou menor riqueza biológica, dependendo de como a ilha
é formada. No caso das ilhas formadas pela submersão de partes mais altas da
Serra do Mar, as áreas emersas guardaram amostras de ambientes alto-montanos,
enquanto as ilhas sedimentares formaram-se ao longo de um processo lento e
gradual, em que a chegada de plantas e animais ocorreu por diferentes agentes,
principalmente vento e água.
Nos exemplos citados acima, das ilhas Queimada Grande e Alcatrazes, no
litoral de São Paulo, estima-se que o isolamento delas do continente, decorrente
do final da última glaciação, tenha ocorrido há cerca de 11 mil anos. Ilhas sedi-
mentares formadas por depósitos associados à restinga são mais recentes, normal-
mente não excedendo os 5 500 anos. Neste caso, a possibilidade de ocorrência de
espécies exclusivas é menor, já que no processo de especiação normalmente está
envolvido um tempo maior que este, além deste tipo de ilha formar-se, em geral,
em locais mais próximos ao continente, possibilitando migração de espécies deste
para a ilha.
É nas ilhas oceânicas que são encontrados os exemplos mais interessantes
do ponto de vista biogeográfico, com importância ímpar quando o assunto é con-
servação da biodiversidade.

Arquipélago de Fernando de Noronha


O arquipélago de Fernando de Noronha situa-se a três graus ao sul do Equa-
dor e cerca de 350 quilômetros a nordeste do Cabo de São Roque (AP). É compos-
to por 20 ilhas, ilhotas e rochedos, sendo conhecida como Esmeralda do Atlânti-
co. Abriga uma das principais bases do Programa Brasileiro de Conservação das
Tartarugas Marinhas, mais conhecido como Projeto Tamar, destacando-se pelas
condições ideais para pesquisas sobre o comportamento das tartarugas marinhas,
sendo ainda uma base estratégica para atividades de educação ambiental, em fun-
ção do grande fluxo turístico na ilha principal do arquipélago. É sítio reprodutivo
da tartaruga-verde ou aruanã (Chelonia mydas), que desova entre janeiro e junho,
5 Condições ambientais em
que ocorre o processo de
deposição de sedimentos, co-
e área de alimentação de juvenis de tartaruga-verde e tartatura-de-pente (Eretmo-
nhecido como sedimentação. chelys imbricata).
170
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

Como é uma ilha de origem vulcânica, que nunca esteve ligada ao conti-
nente, sua flora e fauna foram transportadas pelo ar e pelo mar, tanto por agentes
bióticos como abióticos, e mais recentemente, pelo homem, que teve um papel
fundamental na introdução de espécies, com consequências desastrosas para a
biota original da ilha.
Exemplos de aves endêmicas de Fernando de Noronha são a juruviara-
-de-noronha (Vireo gracilirostris) e a cocoruta (Elaenia ridleyana). A juruviara-
-de-noronha reproduz-se na ilha principal de Fernando de Noronha, enquanto a
cocoruta reproduz-se tanto na ilha principal como em outras ilhas maiores do
arquipélago. Essas espécies são mais abundantes nos remanescentes da floresta da
ponta oriental da ilha e ao redor da base do Morro do Pico, ocorrendo ainda nas
árvores ao longo das estradas, em áreas com vegetação arbustiva e nas proximi-
dades das casas.
Várias espécies de aves marinhas procuram o arquipélago de Fernando de
Noronha para a reprodução, como o atobá-mascarado (Sula dactylatra), o atobá-
-de-pé-vermelho (Sula sula), o atobá-pardo (Sula leucogaster), a fragata (Frega-
ta magnificens), o trinta-réis-marinho (Sterna fuscata), o trinta-réis-escuro (Anous
stolidus), o trinta-réis-preto (Anous tenuirostris) e o trinta-réis-branco (Gygis alba).
Entre os répteis, também são registradas duas espécies endêmicas no arqui-
pélago: o lagarto conhecido popularmente como cobra-de-duas-cabeças (Amphis-
baena ridleyi) e a pequena lagartixa de nome científico Euprepis atlanticus. Esta
inclusive desenvolveu hábitos pouco comuns a representantes deste grupo, como
alimentar-se de pólen e néctar de flores.
Em Fernando de Noronha não ocorriam anfíbios, até a introdução pelo ho-
mem do sapo cururu (Bufo schneideri) e da perereca arbórea (Scinax ruber). Além
disso, o lagarto-teiú (Tupinambis merianae) e a lagartixa-de-parede (Hemidac-
tylus mabouia) foram introduzidos pelo homem na ilha principal.
Relatos do explorador Américo Vespúcio, datados de 1503, mencionam a
ocorrência de “ratos muito grandes” em Fernando de Noronha, de uma espécie que
provavelmente extinguiu-se no arquipélago, e que foi descrita somente em 1999,
como Noronhomys vespuccii. O rato de Fernando de Noronha foi o único mamífero
terrestre nativo do arquipélago, e em função de suas semelhanças com algumas es-
pécies de ratos-do-brejo semiaquáticos do continente sul-americano, sugerem que
descendam deste grupo de roedores, tendo chegado ao arquipélago provavelmente a
bordo de troncos e outros materiais trazidos pelas marés do continente.
Três espécies de roedores foram introduzidas em Fernando de Noronha: o
rato-doméstico (Rattus rattus), o camundongo (Mus musculus) e o mocó ou roedor
(Kerodon rupestris). Supõe-se que os dois primeiros colonizaram a ilha há pelo
menos 500 anos, trazidos por navios que visitaram a ilha, enquanto o último foi
introduzido em Fernando de Noronha por volta de 1967. Além de roedores, o gato,
o cachorro, cabras, carneiros, bois e cavalos também foram introduzidos na ilha
pelo homem.
Os únicos mamíferos que ocorrem naturalmente na região do arquipélago
são os golfinhos, entre os quais destaca-se o golfinho-de-bico-comprido ou golfi-
171
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

nho-rotador (Stenella longirostris), que procura a chamada Baía dos Golfinhos na


ilha principal para descanso e reprodução, proporcionando um espetáculo a parte
para os visitantes da ilha. Em Fernando de Noronha é registrada a maior concen-
tração desta espécie no mundo.

Fernando de Noronha – perfil em números


Latitude: 3º54’ S
Longitude: 32º25’ W
Área total: 26km2
População: Pouco mais de 2 000 pessoas
Relevo: Irregular, formado por uma cordilheira de origem vulcânica
Altitude: 60m
Clima: tropical, quente oceânico
Temperatura: média de 25,4ºC
Índice pluviométrico: 1 300mm anual
Distância: 345km de Recife (PE), 360km de Natal (RN)

Atol das Rocas


Outra ilha oceânica brasileira melhor conhecida do ponto de vista da sua
respectiva biodiversidade é Rocas, mais conhecida como Atol das Rocas. Está
localizado a aproximadamente 267 quilômetros a leste da cidade de Natal (RN) e
é o único atol de coral do Atlântico Sul. Sua importância ecológica é grande, pois
tem alta produtividade biológica e é um importante abrigo, local de alimentação
e de reprodução de várias espécies, especialmente de aves e répteis no ambiente
terrestre, e de uma infinidade de organismos no ambiente aquático. Estas razões
justificaram a criação da primeira reserva biológica marinha do Brasil, em 5 de
julho de 1979, a Reserva Biológica do Atol das Rocas.6
A formação dos corais, assim como os fragmentos de conchas, ossos de
animais e detritos vegetais estão assentados sobre elevações de origem vulcânica
no fundo do oceano, sendo o nome atol alusivo a uma formação de recifes de co-
ral em forma de anel. Durante os períodos de maré alta, somente duas pequenas
ilhas ficam emersas, enquanto na maré baixa surgem várias piscinas naturais no
interior do atol, sendo importantes como locais de crescimento de uma série de
espécies de peixes e demais organismos marinhos.

6 Decreto 83.549/79. Dis-


ponível em: <www2.iba-
ma.gov.br/unidades/biolog/
A esparsa vegetação terrestre existente no Atol é formada principalmente
por espécies herbáceas, há entre as quais destacam-se as gramíneas. Alguns co-
docleg/833/dec83549.htm>.
queiros foram plantados há muitos anos e permanecem lá até hoje.

172
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

O Atol também se destaca por ser uma importante área de desova da tarta-
ruga-verde (Chelonia mydas), além de ser área de abrigo e alimentação da tartaru-
ga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tal qual Fernando de Noronha. O Atol das
Rocas também é uma base importante do Projeto Tamar.

Biodiversidade do Atol das Rocas


110 – número de espécies de algas macroscópicas, isto é, visíveis a olho nu,
registradas
7 – número de espécies de corais escleratíneos já identificados
147 – número de espécies de peixes ocorrentes nas águas da Reserva
2 – número de espécies de peixes endêmicos do Atol
Stegastes rocasensis
Thalassoma noronhanum
150 mil – número estimado de indivíduos de aves no Atol
5 – número de espécies de aves que se reproduzem no Atol
Sterna fuscata
Sula dactylatra
Sula leucogaster
Anous stolidus
Anous minutus
24 – número de espécies de aves migratórias que usam o Atol como ponto de
alimentação e descanso
18 – número de espécies de crustáceos decápodos ocorrentes no Atol
(<www.ibama.gov.br>)

O arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas integram a área


denominada de Ilhas Atlânticas Brasileiras, designada pela Unesco como Patri-
mônio Mundial Natural em 2001. Ganharam este título por serem exemplos de lo-
cais que mantêm processos ecológicos e biológicos significativos para a evolução
e desenvolvimento dos ecossistemas costeiros e marítimos, das comunidades de
plantas e animais, e por abrigarem fenômenos naturais, áreas de beleza natural e
importância estética excepcionais. Protegem habitats naturais importantes e re-
presentativos para a conservação in situ da diversidade biológica, incluindo espé-
cies ameaçadas de valor único do ponto de vista da ciência e da conservação.

Arquipélago de Abrolhos
Outro arquipélago de ilhas oceânicas bastante interessante do ponto de vista
da biodiversidade é o Arquipélago de Abrolhos, onde localiza-se o Parque Nacio-

173
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

nal Marinho de Abrolhos. Este ocupa uma área de aproximadamente 3 800 qui-
lômetros quadrados, entre as coordenadas 17°20´ a 18°10´ S e 38°35´ a 39°20´ W,
no litoral sul da Bahia, a cerca de 65 quilômetros do continente. A maior ilha do
arquipélago é Santa Bárbara, com cerca de 1 500 metros de extensão por 300 de
largura e 32 de altitude. A região do arquipélago de Abrolhos concentra a mais re-
presentativa formação de coral do Brasil, com cerca de 19 espécies, entre as quais
destaca-se Mussismulia brasiliensis, exclusiva de Abrolhos. Além disto, já foram
identificadas 26 espécies de aves marinhas, sendo quatro residentes na área (atobá
branco – Sula dactylatra, atobá marrom – Sula leucogaster, fragata – Fregata
magnificens, e grazina – Phethon aethereus) e as demais migratórias, como a viu-
vinha (Anous stolidus), que chegam às ilhas em bando com até 3 200 indivíduos,
nidificando no período compreendido entre março e outubro.

Impactos ambientais
A região costeira do Brasil é uma das mais densamente povoadas do país,
abrigando cerca de 22% da população, em grandes capitais e cidades importantes.
É também uma das regiões mais ricas em termos de diversidade biológica, com
paisagens naturais variadas, como lagunas com manguezais e marismas, costões
e fundos rochosos, recifes de coral, bancos de algas calcárias7, plataformas are-
nosas, arenitos paralelos à linha de praias e falésias, dunas, restingas e ilhas. As
praias arenosas são mais conhecidas e utilizadas pelas atividades turísticas, mas
destacam-se neste contexto também alguns estuários e lagoas costeiras, como no
Rio Grande do Sul; praias, falésias e dunas, como na região Nordeste; ilhas cos-
teiras, como na costa Sudeste; e ilhas oceânicas, como as que ocorrem na costa
do Nordeste.
A degradação A partir da chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil, que aconteceu
dos ambientes pelo litoral, as alterações provocadas pelo homem na região costeira têm sido uma
costeiros constantes, principalmente se lembrados os diferentes ciclos econômicos pelos
quais a história do país passou. Desde o ciclo do pau-brasil, espécie típica da Flo-
resta Atlântica que chegava a ocorrer em algumas áreas de floresta de restinga,
passando pelo ciclo da cana-de-açúcar, que tinha nos solos das baixadas litorâneas
um local propício para implantação dos cultivos, chegando até os dias atuais, com
um intenso processo de urbanização e industrialização da região costeira, os im-
pactos observados sobre os ambientes de ilhas, especialmente nas ilhas costeiras,
são basicamente de mesma natureza daqueles verificados nas porções continen-
tais próximas.
Na região Norte, áreas extensas de manguezais com muita matéria orgânica
7 Nome genérico que de-
signa um grupo de algas,
vermelhas (rodófitas) ou ver-
propiciam boas condições para alimentação de peixes e camarões, que são explo-
des (clorófitas), que utilizam rados pela pesca industrial e artesanal. Dezenas de ilhas costeiras com mangue-
o gás carbônico (CO2) de
ambiente para a formação de zais relativamente bem conservados e pouco explorados pela pesca artesanal são
carbonato de cálcio (CaCO3),
que deposita-se no local em consequência da baixa densidade populacional nestes locais, que sofrem apenas
que desenvolvem-se, muitas
vezes formando extensos impactos localizados da pesca e das áreas urbanas e industriais nas proximida-
bancos que contribuem para
a modelagem do relevo ma-
des das áreas metropolitanas. Na ilha do Marajó, uma das ilhas localizadas nesta
rinho.

174
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

região, a criação de búfalos e a substituição de áreas com campos naturais por


cultivos agrícolas têm sido as principais causas de degradação ambiental.
A região Nordeste, que combina belas praias com falésias e recifes de co-
rais, tem como principais impactos aqueles decorrentes das atividades relaciona-
das ao turismo, especialmente nas ilhas oceânicas localizadas nesta região. Além
disto, a ocupação urbana nas cidades costeiras, sobretudo nas últimas décadas
com a vinda de muitas famílias das regiões secas e mais pobres do interior; o
aumento do turismo, que muitas vezes representa a única fonte de sobrevivência
para as populações locais; a sobrepesca8, decorrente tanto da atividade pesqueira
realizada em escala comercial como artesanal; a implantação de obras portuárias;
a mineração; a ocupação de áreas de manguezais para a carcinocultura9, também
provocam alterações significativas nas paisagens costeiras, que atingem em dife-
rentes níveis as ilhas costeiras e oceânicas localizadas nesta região.
Nas regiões Sudeste e Sul, onde concentra-se boa parte da população bra-
sileira que vive na costa, os principais impactos decorrem da pesca industrial,
sobretudo em regiões de maior produtividade como no litoral do Espírito Santo
e do Rio de Janeiro, além obviamente das pressões decorrentes da ocupação ur-
bana, infraestrutura, turismo desorganizado e atividades industriais, processos
que atingem os ambientes de ilhas em escalas e intensidades distintas daquelas
observadas nas porções continentais.
Pode-se dizer que o nível de degradação nos ambientes das ilhas brasileiras
depende essencialmente da distância e das relações desta com o continente. Ilhas
costeiras próximas aos núcleos urbanos e industriais – como no litoral de São Pau-
lo, por exemplo – as atividades de turismo, pesca, exploração de areia, agricultura
e pecuária, entre outras, são frequentes, em detrimento do caráter especial das
ilhas, que, como patrimônio da união, deveriam estar sob algum regime especial
de ocupação.
Vale a pena lembrar ainda que três capitais brasileiras situam-se em ilhas
costeiras: São Luiz, no Maranhão, Vitória, no Espírito Santo e Florianópolis, em
Santa Catarina. Neste sentido, todos os vetores de impacto comuns nas grandes
cidades costeiras brasileiras atingem estas ilhas, independente do fato de boa par-
te destas ser enquadrada como Área de Preservação Permanente (APP), conforme
8 Usa-se o termo para de-
signar uma situação em
que a atividade pesqueira
retira mais recursos dos am-
previsto no Código Florestal do Brasil10, e que portanto deveriam estar sob regime bientes naturais do que estes
conseguem repor no mes-
especial de proteção. mo período de tempo, como
acontece com várias espécies
Nas ilhas oceânicas, em geral mais distantes da linha de costa e conse- de peixes e crustáceos no li-
toral brasileiro.
quentemente de mais difícil acesso, os principais impactos observados provêm da
pesca predatória e das atividades turísticas inadequadas e mal planejadas, reali-
zadas com embarcações de passeio e conduzidas por guias que muitas vezes são
despreparados para esta atividade. 9 Cultivo comercial de
crustáceos; no Brasil, a
espécie mais frequentemente
criada é o camarão Vanamei,
Atualmente, mesmo dentro de unidades de conservação, como é o caso de mais comumente na região

muitas ilhas no Brasil, é intensa a degradação de habitats. Devido à alta vulnera-


nordeste.

bilidade destes ambientes, distribuição geográfica restrita de algumas populações,


baixos índices de colonização por espécies migratórias e pouca resistência à inva- 10 Disponível para con-
sulta em <www.
são de espécies exóticas, as consequências podem ser mais severas. controle-ambiental.com.br/
codigo_florestal.htm>.

175
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

Alternativas sustentáveis
Alternativas sustentáveis de utilização dos recursos naturais nas ilhas são
um assunto polêmico, especialmente em relação às ilhas oceânicas brasileiras,
consideradas ambientes frágeis e que já se encontram sob algum regime especial
de proteção. No caso das ilhas costeiras, mais próximas ao continente e, portan-
to com relações de ocupação mais estreitas a este, algumas medidas podem ser
adotadas para minimizar os impactos nas atividades humanas. Tais medidas não
diferem essencialmente daquelas necessárias para a zona costeira como um todo,
considerando-se que cada vez mais se faz necessário o planejamento do uso dos
recursos em nível regional, utilizando-se da escala de paisagem para proposição
de tais medidas.
O turismo, considerado como uma forma indireta de utilização dos recursos
naturais, e que depende essencialmente da manutenção de ambientes conserva-
dos, tem sido apontado como uma atividade promissora para a região costeira, em
especial para as ilhas. A possibilidade de empregar mão de obra local e difundir
a cultura das populações que vivem nesta região, por meio da culinária e do ar-
tesanato, por exemplo, surgem como atrativos para que, cada vez mais, pequenas
iniciativas nesse sentido sejam implantadas na região costeira.
As ilhas oceânicas brasileiras, em especial, são relativamente pouco co-
nhecidas turisticamente pelo público em geral, quando comparadas com as áreas
continentais. Dificuldades de acesso e restrições legais, além da própria distância
da costa, têm sido apontadas como as principais razões desse desconhecimento.
Muitas vezes esses locais nem sequer aparecem nos livros e mapas de Geografia,
assim como nos guias da costa brasileira.
O isolamento ao qual as ilhas estão sujeitas cria condições bastante frá-
geis, sendo comum a existência de relações específicas entre animais e plantas,
fato mais notável justamente nas ilhas oceânicas. Interferências externas podem
alterar severamente o ambiente das ilhas, gerando assim a necessidade de que as
ações planejadas para estas leve em consideração estes aspectos, de forma a evitar
a degradação.
Das principais ilhas oceânicas brasileiras, três estão protegidas legalmente
na forma de unidades de conservação criadas e mantidas pelo Instituto Brasileiro
de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama): Fernando de No-
ronha e Abrolhos, que são parques nacionais marinhos, e Atol das Rocas, que é
uma reserva biológica. Além disso, Fernando de Noronha e Atol das Rocas foram
reconhecidos em 2001 como sítios do patrimônio natural mundial pela Unesco,
conforme já mencionado anteriormente. Nos dois parques nacionais é permitida a
visitação controlada, sujeita às normas e condições previstas nos seus respectivos
planos de manejo, enquanto na reserva biológica só é permitida a presença huma-
na com finalidades de pesquisa ou de educação ambiental e fiscalização.
Podemos concluir que, apesar da diversidade de ambientes costeiros do Bra-
sil, sendo as ilhas parte deste contexto, com restingas, manguezais, costões rocho-
sos, dunas, lagunas, brejos, certas particularidades na fauna e flora destes locais,

176
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

resultantes do isolamento geográfico e de sua interferência nos mecanismos da


especiação e distribuição das espécies, merecem destaque do ponto de vista geo-
gráfico e, consequentemente, de conservação.
Pode-se generalizar que a riqueza específica de uma ilha é reflexo da varie-
dade de ambientes que apresenta, assim como da distância e relações de origem
com o continente, do seu tamanho e localização e das possibilidades de migração
de espécies, somente para citar os fatores mais importantes. Considerando que a
maioria dos vetores de impacto nas ilhas brasileiras são de mesma natureza da-
queles que atuam nos ambientes continentais, já bastante degradados, as perspec-
tivas de conservação e sustentabilidade no uso dos recursos naturais são pouco
positivas.
A maioria dos ambientes de ilha que ainda conservam suas características
naturais livres de algum tipo de intervenção humana está dentro de unidades de
conservação, instituídas pelo poder público e gerenciadas por profissionais es-
pecializados, muitas vezes em parceria com organizações não governamentais e
institutos de pesquisa. Talvez aí esteja a chave para a compreensão da necessidade
de conservação desses ambientes, em conjunto com as demais regiões costeiras,
com ênfase do planejamento biorregional.

Arquipélago de São Pedro e São Paulo:


um santuário ecológico perdido no meio do oceano
(CONTE, 2005)
Um pequeno grupo de ilhotas, dez no total, e diversas pontas de rochas, em forma de meia-
lua, desabitadas e desprovidas de qualquer tipo de vegetação de grande porte, localizadas a cerca
de 1 100 quilômetros da costa nordeste do Rio Grande do Norte e que servem de apoio para aves
em alto-mar. Quem pensa que estamos falando do Atol das Rocas se enganou. Na verdade, a des-
crição acima é do Arquipélago de São Pedro e São Paulo (doravante identificado no texto pelas
iniciais ASPSP), um caso raro no planeta, onde, a partir de uma falha tectônica (deformação da
crosta terrestre), surgiu uma formação natural de ilhas estrategicamente localizadas na rota de
peixes migratórios com alto valor econômico, como a albacora laje, uma espécie de atum.
Mas como explorar comercialmente este pequeno grupo de ilhas perdidas no Oceano Atlân-
tico? A resposta veio da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar (CNUDM),
que mudou a ordem jurídica internacional relativa aos espaços marítimos e garantiu aos estados
o direito de explorar e aproveitar os recursos naturais dos oceanos. E para que esse direito fosse
exercido de forma plena, havia a necessidade de se desenvolver projetos de pesquisa para o apro-
veitamento racional dos recursos.
Em 11 de junho de 1996 a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM)
aprovou o Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo (Proarquipélago), com o objetivo de
conduzir programas de pesquisas científicas nas seguintes áreas: geologia e geofísica, biologia,

177
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

recursos pesqueiros, oceanografia, meteorologia e sismografia. Desse modo, o ASPSP pôde ser
incluído como uma região privilegiada para o desenvolvimento de pesquisas em diversos ramos
da ciência.

A ocupação da região
De fato, a posição estratégica do arquipélago e as características peculiares das ilhas que o
compõem, aliadas aos interesses científicos e econômicos, eram fortes argumentos para a imple-
mentação de uma base permanente, que durante muitos anos foi uma aspiração do meio cientí-
fico. E no dia 25 de junho de 1998 foi inaugurada a Estação Científica do ASPSP, garantindo a
habitabilidade do arquipélago e assegurando ao Brasil a reivindicação de uma área marítima de
200 milhas de raio (cerca de 450 000 km2), denominada pela CNUDM como Zona Econômica
Exclusiva (ZEE).
O projeto e a construção da base foi fruto de uma parceria entre o Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Laboratório de Planejamento e
Projetos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que juntos planejaram uma estação
científica extremamente confortável e eficiente, erguida na ilha principal do Arquipélago. A mon-
tagem e a instalação da estação, sob a coordenação técnica da arquiteta e professora Cristina Engel
(UFES), que idealizou o projeto, durou 12 dias, e contou com o apoio do navio Faroleiro Almiran-
te Graça Aranha. O comando da operação foi de responsabilidade do Capitão-de-Mar-e-Guerra
Geraldo Juaçaba, da SECIRM.
A Estação é composta por uma edificação principal para quatro pessoas, sala de estar, co-
zinha, banheiro e varanda, depósito, paiol de combustível, alojamento para outras duas pessoas,
além de um píer. Normalmente a Estação é ocupada por três ou quatro pesquisadores civis, que
são substituídos a cada 15 dias por embarcações fretadas. A cada quatro meses são realizadas
expedições ao arquipélago, com apoio de navios da Marinha, para manutenção preventiva nas
instalações e nos equipamentos da estação.

Os projetos em andamento
Desde que foi implantado, o Proarquipélago tem desempenhado um papel vital na condução
e desenvolvimento de projetos, que tem por objetivo aproveitar o enorme potencial dos recursos
naturais da região. É importante ressaltar que o ASPSP funciona como um laboratório natural,
permitindo que cientistas das mais diversas áreas de conhecimento tenham a oportunidade de
realizar pesquisas científicas num ambiente totalmente preservado e que ainda não sofreu com o
impacto da poluição. O esforço destes incansáveis pesquisadores tem gerado, nestes últimos anos,
informações bioecológicas e ambientais que deverão fundamentar futuras ações direcionadas à
preservação do meio ambiente e ao uso sustentável dos recursos naturais marinhos.
Atualmente a estação científica do ASPSP é ocupada por pesquisadores de diversas institui-
ções de ensino que desenvolvem vários projetos de pesquisa. Um desses projetos, denominado
Bioecologia das lagostas e coordenado pelo pesquisador e mergulhador PDIC, Jorge Lins, da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), tem como objetivo principal estudar e apro-
fundar os conhecimentos bioecológicos sobre o crescimento e a reprodução desses crustáceos,
gerando informações técnico-científicas que proporcionem uma exploração racional do estoque
de lagostas (exploradas comercialmente no Arquipélago de São Pedro e São Paulo), além de sub-
sidiar informações científicas para a implantação de medidas de regulamentação que permitam a
manutenção deste importante recurso pesqueiro.

178
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

“A falta de um controle do esforço de pesca, exercido atualmente sobre este recurso natural,
sobretudo com a captura de indivíduos ainda em estágio juvenil, e a carência de informações bio-
lógicas sobre certos aspectos do ciclo de vida das lagostas, pode levar essa atividade pesqueira,
num curto período, a um colapso com graves consequências sociais e econômicas”, afirma Jorge
Lins. E prossegue: “Antes de se propor qualquer medida de gerenciamento para a exploração
da espécie, é indispensável aprofundar os conhecimentos a respeito do seu ciclo biológico, mais
precisamente sobre as fases larval e juvenil, e seu ciclo reprodutivo, que atualmente é pouco co-
nhecido. Desta forma, estudos que visam uma exploração racional e a recuperação dos estoques
naturais são metas a serem alcançadas neste programa de estudos”.

O papel da PDIC
A utilização do mergulho autônomo como ferramenta de trabalho para o desenvolvimento
de novas pesquisas científicas no arquipélago, em especial no estudo da lagosta, tem se revelado
de fundamental importância para o sucesso dos programas implementados. Desta forma, a neces-
sidade de se capacitar cientistas que tenham conhecimentos teóricos e práticos das técnicas atu-
alizadas do mergulho autônomo torna-se uma exigência cada vez mais premente. Com o auxílio
dessas ferramentas os pesquisadores das áreas de biologia marinha, paleontologia ou geologia ma-
rinha têm a oportunidade de desenvolver plenamente suas atividades, seja na obtenção de imagens
e fotos, na coleta de material ou na simples observação do ambiente marinho, não só no ASPSP,
bem como em outras regiões do Brasil.
Nos últimos anos, diversos países como, Austrália, Japão e Estados Unidos implantaram a
disciplina mergulho científico em seus currículos universitários direcionados às ciências mari-
nhas, permitindo que os futuros cientistas utilizem essa tecnologia em seus estudos sobre o meio
ambiente marinho. Nos Estados Unidos, por exemplo, a American Academy of Underwater Scien-
ces (AAUS), atua desde 1984 como órgão governamental na padronização dos ensinamentos de
técnicas de mergulho científico.
No Brasil, a disciplina mergulho científico, que faz parte do curso de graduação em Ciências
Biológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, está baseada nos conhecimentos do
mergulho autônomo, recreativo e técnico, padronizados pela Professional Diving Instructors Cor-
poration (PDIC) e pela Global Underwater Explorers (GUE), certificadoras de mergulho reconhe-
cidas internacionalmente pelos altos padrões de qualidade. Neste contexto, é importante ressaltar
o pioneirismo da PDIC na implantação da disciplina, bem como a aplicação prática das técnicas
de mergulho em estudos científicos.

O mergulho no ASPSP
É difícil descrever o mergulho no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, um local que não
se destaca somente pela variedade dos corais, mas sim pela sua beleza selvagem, quase agressi-
va, formada por rochas escuras provenientes das camadas mais interiores da terra, que tornam
o ambiente sombrio e ao mesmo tempo fascinante. Nesse ambiente, onde a imaginação cria ce-
nários povoados de seres marinhos, cada mergulho transforma-se numa aventura eletrizante. A
diversidade de sua fauna é endêmica, tendo, através dos tempos e do isolamento genético, criado
formas bizarras. A sensação de se mergulhar numa água azul anil, onde a visibilidade é o infini-
to, é descrita por Jorge Lins, que teve o privilégio, como poucos, de mergulhar no ASPSP: “Por
mais imaginação que tivesse, não conseguiria descrever a beleza dos corais negros fixados na
‘parede’ e guardados por raríssimos peixes-borboletas. A penumbra da profundidade permite ao

179
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

mergulhador uma visão estranha, como se fossem árvores anãs com grossos troncos, plantadas
verticalmente numa parede de pedra”.
O arquipélago é o habitat natural de grandes mantas e dos tubarões baleias e martelos, mo-
radores permanentes da região e presentes a cada mergulho, além, é claro, das lagostas, que se
contam aos milhares, algumas quase centenárias. Grandes pelágicos também frequentam o local,
onde costumam se concentrar para armazenar energia e continuar suas longas migrações.

1. Pesquise em um livro sobre geologia o significado dos seguintes termos:


planície de maré;
estuário;
sedimentos lodosos;
restinga;
falésia.

2. Discuta com os demais colegas os significados encontrados e procure contextualizá-los em re-


lação à costa brasileira, com ênfase nos ambientes de ilhas.

3. Forme grupos com até cinco pessoas e procure na literatura e nos sites recomendados infor-
mações sobre o papel da conservação das ilhas costeiras do Brasil na manutenção da biodiver-
sidade litorânea. Uma sugestão é que cada grupo pesquise uma ilha ou arquipélago, entre os
seguintes: Fernando de Noronha, Abrolhos, Trindade e Martim Vaz, Rocas, Ilha Grande (RJ),
Arvoredo (SC), Superagui (PR).

180
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas

JOHN, Liana. Dois pesos, duas medidas. Terra da Gente, v.1, n.5, p.18-29, 2004.
Artigo de divulgação escrito por uma das mais reconhecidas jornalistas especializadas em na-
tureza no Brasil, que aborda de forma comparativa as ilhas de Queimada Grande e Alcatrazes, no
litoral de São Paulo, ilustrando de forma clara a importância das ilhas no cenário de conservação e a
forma como o poder público atua em relação a este fato.
SAZIMA, Ivan; HAEMIG, Paul. Pássaros, Mamíferos e Répteis de Fernando de Noronha. Dispo-
nível em: <www.ecologia.info>. Acesso em: 2 jul. 2005.
Artigo com informações atualizadas sobre as espécies de aves, répteis e mamíferos que ocor-
rem no arquipélago de Fernando de Noronha, com várias referências bibliográficas que suportam as
informações apresentadas. São comentados alguns aspectos referentes à introdução de espécies exó-
ticas no arquipélago e suas implicações sobre as espécies nativas.
Site eletrônico do portal Ambiente Brasil: <www.ambientebrasil.com.br>.
Neste site são encontradas informações gerais sobre o litoral brasileiro, como definições básicas
relacionadas a ilhas e outras feições da costa, além de coletânea sobre legislação ambiental referente
à costa e seus respectivos ambientes.
Site eletrônico do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis:
<www.ibama.gov.br>.
Neste site é possível encontrar informações sobre as unidades de conservação existentes na
costa brasileira, incluindo aquelas que têm em seus limites ilhas costeiras ou oceânicas.
Site eletrônico da Enciclopédia Livre Virtual Wikipedia em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lis-
ta_de_ilhas_do_Brasil>.
Neste endereço é possível encontrar uma lista com várias ilhas do Brasil, classificadas por
estado, sendo o nível de informação para cada ilha bastante heterogêneo. Algumas ilhas levam a
informações em outros sites, em alguns casos mais completos e com outros assuntos relacionados ao
litoral brasileiro.
Site eletrônico Os historiadores do mar: <www.nomar.com.br/ilhas_01.htm>.
Neste endereço pode-se encontrar informações históricas sobre algumas ilhas brasileiras, que
dão uma excelente noção sobre a ocupação destas e suas implicações para as populações que nelas
residem e nas suas respectivas biotas.

181
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ambientes de ilhas


182
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos
Marcia Lapa Frasson

N
este capítulo, percorreremos o extremo sul do Brasil para co-
nhecer os campos, também conhecidos como campos
sulinos. Esse ecossistema, como os diversos encontra-
dos no Brasil, é rico em diversidade de flora e fauna, tem uma
bela e característica paisagem com suas peculiaridades.
É mais um ecossistema brasileiro dentro dos biomas
terrestres que devemos conhecer, estudar e pesquisar, para
que com estas informações possamos promover sua preservação e
conservação.
Observaremos sua fragilidade, como se comporta frente à forte ação
antrópica no desenvolvimento das suas atividades econômicas. Teremos uma
visão de suas características geográficas, clima, solo, entre outras. Também
conheceremos alguns exemplares de flora e fauna e, portanto, sugerimos que
seu estudo não termine aqui, mas que essa aula sirva de incentivo para a busca de
mais informações.
Mantenha-se informado, acompanhe a evolução dos fatos e promova discussões, ações que
possam garantir e assegurar que os recursos estarão disponíveis para nossas futuras gerações. Temos
que nos lembrar que os recursos naturais não nos pertencem, estamos nos utilizando deles, então de-
vemos provar que, como seres inteligentes, saberemos utilizá-los com parcimônia e equilíbrio. Assim
daremos tempo ao ambiente para recuperação necessária.

Características geográficas
Os campos da região Sul do Brasil são denominados de pampas, termo indígena que significa
região plana, abrangendo o estado do Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina. Os campos su-
linos foram assim nomeados pelo estudo de prioridades para a conservação e o uso sustentável da
biodiversidade.
Esta denominação, no entanto, corresponde somente a um dos tipos de campo, mais encontrado
ao sul do estado do Rio Grande do Sul, atingindo o Uruguai e a Argentina. Outros tipos conhecidos
como campos do alto da serra são encontrados em áreas de transição com o domínio de araucárias.
Em outras áreas encontram-se, ainda, campos de fisionomia semelhantes à savana.
Os campos são áreas extensas, ocupando 100 mil quilômetros quadrados no Sul do Brasil. Pos-
suem relevo suave-ondulado, caracterizado por vegetação baixa e rasteira, constituída basicamente
por gramíneas e arbustos nativos.
Em função da ausência de grandes árvores, o solo fica exposto à ação direta do sol. Uma adap-
tação a essas condições climáticas nos vegetais é o desenvolvimento de folhas de formato alongado e
pontiagudo, para evitar a perda excessiva de água.

183
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

No clima temperado do extremo sul do país desenvolvem-se os campos do


sul, que já representaram 2,4 % da cobertura vegetal do país. Os terrenos planos
das planícies e planaltos gaúchos e as coxilhas, de relevo suave-ondulado, são
colonizados por espécies pioneiras campestres que formam uma vegetação tipo
savana aberta. Há ainda áreas de florestas estacionais e de campos de cobertura
gramíneo-lenhosa. A temperatura é baixa a moderada, com umidade do ar mo-
derada. A pluviosidade varia entre 1 200 e 2 mil milímetros anuais, com estação
seca acentuada.

Características gerais: aspectos


físicos, químicos e riquezas do solo
Os campos em geral parecem ser formações edáficas, do próprio solo, e não
climáticas. A pressão do pastoreio e a prática do fogo não permitem o estabele-
cimento da vegetação arbustiva, como se verifica em vários trechos da área de
distribuição dos campos do sul.
A região geomorfológica do Planalto de Campanha, a maior extensão de
campos do Rio Grande do Sul, é a porção mais avançada para oeste e para o sul
do domínio morfoestrutural das bacias e coberturas sedimentares.
Nas áreas de contato com o arenito botucatu, ocorrem os solos podzólicos
vermelho-escuros, principalmente a sudoeste de Quaraí e a sul e sudeste de Ale-
grete, onde se constata o fenômeno da desertificação.
São solos em geral de baixa fertilidade natural e bastante suscetíveis à ero-
são, geralmente sem carência de nutrientes. A paisagem predominante com cam-
pos de gramíneas secos ou alagáveis.

Biodiversidade
Flora
As florestas dos campos sulinos abrangem em sua maioria as florestas tropi-
cais mesófilas, florestas subtropicais e os campos meridionais. As florestas subtro-
picais compreendem basicamente a Floresta com Araucária, distribuindo-se sobre
os planaltos oriundos de derrames basálticos, e caracterizando-se principalmente
pela presença marcante do pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). E em di-
reção ao Arroio Chuí, na divisa com o Uruguai, estabelece-se um campo com
formas arbustivas sobre afloramentos rochosos.
Os campos são ecossistemas formados por vegetação rasteira, constituída
de gramíneas, podendo aparecer vegetais arbustivos e arbóreos. Alguns campos
são “limpos”, com forte predominância de gramíneas; é o caso dos pampas suli-
nos, que oferecem excelentes condições para a criação de gado. À primeira vis-

184
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

ta, a vegetação campestre denota uma aparente uniformidade, apresentando nos


topos mais planos um tapete herbáceo baixo, de 60 centímetros a 1 metro, ralo e
pobre em espécies, que se torna mais denso e rico nas encostas, predominando
gramíneas, compostas e leguminosas.
Descendo ao litoral do Rio Grande do Sul, a paisagem é marcada pelos ba-
nhados, isto é, ecossistemas alagados com densa vegetação de juncos, gravatás e
aguapés. O banhado do Taim é o mais importante, devido à riqueza do solo. Ten-
tativas extravagantes de drená-lo para uso agrícola foram definitivamente aban-
donadas a partir de 1979, quando a área transformou-se em estação ecológica.
Mesmo assim, a ação de caçadores e o bombeamento das águas pelos fazendeiros
das redondezas continuam a ameaçar o local.

Fauna
A vegetação dos campos é uniforme, com pouca variedade, porém com-
pensada por grande número de animais. Exemplos como o graxains-do-campo,
veados-campeiros, pica-paus-do-campo, codornas, emas, perdizes, bugio-ruivo,
garimperinho, entre répteis e insetos, procuram seu alimento e seu abrigo nestes
ambientes.
Bugio (Alouatta sp) – pelagem longa, sua coloração varia de acordo com
o sexo, sendo os machos mais avermelhados. A dilatação do osso hioide
na garganta, funciona como uma caixa de ressonância, emitindo som
rouco e forte. Como hábito social, forma pequenos grupos. A gestação é
de aproximadamente 140 dias, na qual nasce apenas um filhote. Alimen-
ta-se de folhas, brotos e frutos.
Veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus) – sua pelagem é marrom-cla-
ra, o ventre a cauda e o lado interno das extremidades é de cor branca.
Olhos rodeados por anel branco. Apenas o macho possui chifres, nor-
malmente com três pontas e que podem atingir, no adulto, até 30 centí-
metros. É manso e seu principal recurso para escapar dos predadores é a
velocidade. A fêmea tem apenas um filhote por ano, após uma gestação
de aproximadamente nove meses. O filhote nasce com pequenas man-
chas brancas que facilitam sua camuflagem no ambiente. A destruição do
habitat, a pressão da caça e a febre aftosa transmitida pelo gado são as
principais causas da sua extinção.
Puma, suçuarana ou onça-parda (Felis concolor) – com 180 a 220 centí-
metros, o macho pesando entre 67 e 105 quilos e a fêmea entre 30 e 60
quilos. Possuem pelos curtos pardo-avermelhados sem manchas escuras;
grandes olhos de íris amarela, corpo delgado, cauda e pernas longas. Os
filhotes em número de dois ou três nascem com manchas e linhas pretas
no pescoço e anéis escuros na cauda. Têm uma vida solitária e hábitos
noturnos, e são muito ágeis. A gestação varia de 90 a 96 dias e os filhotes
nascem com 220 a 440 gramas. O desmame se dá com seis semanas e os
filhotes ficam com a mãe por aproximadamente dois anos.

185
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

Aspectos socioeconômicos:
pecuária e agricultura
Devido à ocupação do território, a exploração indiscriminada de madeira,
iniciada pela colonização no planalto das Araucárias favoreceu a expansão gra-
dativa da agricultura. Os gigantescos pinheiros foram derrubados e queimados
para dar lugar ao cultivo de milho, trigo, arroz, soja e uva. O cultivo de frutíferas
tem avançado amplamente, criando uma pressão nas áreas florestais; juntamente
com o extrativismo seletivo de espécies madeireiras que está comprometendo os
remanescentes florestais. Além dos grandes desmatamentos para o cultivo, existe
ainda uma forte pressão de pastejo e a prática do fogo que não permitem o estabe-
lecimento da vegetação arbustiva.
A vegetação baixa e a ausência de grandes árvores tornaram favoráveis o
desenvolvimento das atividades agropecuárias, sendo as principais responsáveis
pela degradação desta formação ambiental. Restam hoje menos de 3% da sua
área original sendo que apenas 1,7% do remanescente encontra-se protegido por
unidades de conservação.

Pecuária
A vocação da região está na pecuária de corte. Porém, o manejo adotado já
se provou inadequado para as condições desses campos e a prática artesanal do
fogo não é conhecida em todas as suas consequências.
As pastagens em sua maioria são utilizadas sem preocupações com a re-
cuperação e a manutenção da vegetação. Os campos naturais no Rio Grande do
Sul são explorados sob pastoreio extensivo. Na região dos pampas, as planícies
situadas na fronteira com o Uruguai e a Argentina, estão as estâncias de gado, que
desempenham papel fundamental na economia gaúcha.
O Rio Grande do Sul possui o maior número de ovinos e o terceiro maior
número de suínos do país, e ainda o quinto rebanho de gado bovino, a maior parte
destinada ao corte.

Agricultura
A agricultura é outra atividade econômica importante, baseada na utiliza-
ção dos campos. O estado é o maior produtor nacional de grãos, soja, milho, fei-
jão, trigo e arroz. Também é líder na produção de maçã.
No planalto médio, a expansão da soja e do trigo levou ao desaparecimento
dos campos e à derrubada das matas. Essas duas culturas ocupam praticamente
toda a área, provocando a diminuição da fertilidade dos solos. Disso também re-
sultam a erosão, a compactação e a perda de matéria orgânica.

186
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

Impactos ambientais
Os principais problemas são o frio, inundações, sazonalidade acentuada na
disponibilidade de alimento, predadores e competidores.
A agricultura, a pecuária de corte e a industrialização trouxeram vários pro-
blemas ambientais, como a degradação, a compactação dos solos, a contaminação
e o assoreamento dos aquíferos, devido ao manejo inadequado das culturas. O
manejo inadequado em áreas inapropriadas dos campos sulinos tem levado a um
processo de desertificação, principalmente em áreas cujo substrato é o arenito.

Desertificação
(CAVALCANTI, 2001)
A desertificação é um processo de destruição do potencial produtivo da
terra nas regiões de clima árido, semiárido e subúmido seco. O problema está
sendo observado desde os anos 1930.
Muitas outras situações consideradas como graves problemas de deserti-
ficação foram sendo detectadas ao longo do tempo em vários países do mundo.
A medida que o estudo sobre a origem dos desertos evoluiu, surgiram concei-
tos a respeito do assunto:
deserto – região de clima árido; a evaporação potencial é maior que a
precipitação média anual. Caracteriza-se por apresentar solos ressequi-
dos; cobertura vegetal esparsa, presença de xerófilas e plantas tempo-
rárias;
desertificação – origina-se pela intensa pressão exercida por ativida-
des humanas sobre ecossistemas frágeis, cuja capacidade de regene-
ração é baixa;
área propensa à desertificação – área onde a fragilidade do ecossiste-
ma favorece o processo de instalação da desertificação.
As causas mais frequentes da desertificação estão associadas ao uso ina-
dequado do solo e da água no desenvolvimento de atividades agropecuárias, na
mineração, na irrigação mal planejada e no desmatamento indiscriminado.
As regiões sul-americana e caribenha têm inúmeros países com expressi-
vas áreas de seus territórios com problemas de desertificação. Os mais signifi-
cativos são Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Peru e México.
O desmatamento compromete a biodiversidade, deixa os solos descobertos
e expostos à erosão, é resultado das atividades econômicas, para uso da agricul-
tura, ou para a pecuária, quando a vegetação nativa é substituída por pasto.
A irrigação mal conduzida provoca a salinização dos solos, inviabilizan-
do algumas áreas e perímetros irrigados do semiárido, o problema tem sido
provocado tanto pelo tipo de sistema de irrigação, muitas vezes inadequado às
características do solo, quanto, principalmente, pela maneira como a atividade
é executada, fazendo mais uma molhação do que irrigando.

187
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

As áreas desertificadas brasileiras apresentam características geoclimá-


ticas e ecológicas, as quais contribuíram para que o processo fosse acelerado.
Diversas regiões brasileiras padecem deste problema, como por exemplo:
Rio Grande do Sul – área do sudoeste do estado como os municípios
de Alegrete, São Francisco de Assis, Santana do Livramento, Rosário
do Sul, Uruguaiana, Quaraí, Santiago e Cacequí são atingidos pela
desertificação. Outras áreas passíveis de degradação estão presentes
no sul-riograndense, em especial onde predominam os solos originá-
rios do Arenito Botucatu; faz-se necessário um estudo de capacidade
de uso, conservação e manejo para que tais áreas não iniciem rapida-
mente o processo de degradador.
Diante de tudo o que foi abordado, conclui-se que o processo de recupe-
ração de uma área desertificada é complexo, pois necessita de ações capazes
de controlar, prevenir e recuperar as áreas degradadas. Paralelamente a essas
ações, cabe uma maior conscientização política, econômica e social no senti-
do de minimizar e/ou combater a erosão, a salinização, o assoreamento entre
outros.

Desmatamentos e queimadas
Devido à ocupação do território, a exploração indiscriminada de madeira,
iniciada pela colonização no planalto das Araucárias favoreceu a expansão grada-
tiva da agricultura. Os gigantescos pinheiros foram derrubados e queimados para
dar lugar ao cultivo de milho, trigo, arroz, soja e uva.
O cultivo de frutíferas está tendo um grande avanço, criando uma pressão
nas áreas florestais; aliado ao extrativismo seletivo de espécies madeireiras que
está comprometendo os remanescentes florestais.
Além dos grandes desmatamentos para o cultivo, existe ainda uma forte
pressão de pastejo e a prática do fogo que não permitem o estabelecimento da
vegetação arbustiva.

Alternativas sustentáveis
Essas regiões ainda guardam áreas protegidas restritas a ecossistemas na-
turais, que são alvo de preocupação em relação à sua conservação e preservação.
Atualmente estão implantadas unidades de conservação voltadas para a conser-
vação dos campos sulinos.

Parque Nacional de Aparados da Serra


Localizado nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina nos municí-
pios de Cambará do Sul e Praia Grande, o Parque Nacional de Aparados da Serra
possui uma área de 10 250 hectares.
188
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

Apresenta clima mesotérmico brando superúmido, sem seca e temperado.


A temperatura média anual varia entre 18ºC e 20ºC, com uma pluviosidade entre
1 500 a 2 000 milímetros anuais.
O relevo é suave ondulado, com solos terra-roxa estruturada. Vegetação ca-
racterística de campos gramíneo lenhoso e a fauna da província zoogeográfica
guarani.
Os Aparados da Serra, também conhecidos como Itaimbezinho, nome de
origem tupi-guarani que significa pedra (ita) afiada (aimbe). Os cânions do Itaim-
bezinho representam uma fenda de 5,8 quilômetros de extensão e paredões de até
600 metros de altura, com grandes quedas de água e a Fortaleza dos Aparados em
função de seus penhascos lembrarem torres e muralhas de um castelo.
Temperaturas em geral são amenas, com as quatro estações quase definidas,
influenciadas pelas massas tropicais atlânticas e continental, que dão origem a
ventos alíseos. A massa polar atlântica origina súbitas quedas de temperatura. A
média é em torno dos 16ºC, em janeiro varia de 20 a 22ºC, mas em junho e julho
pode chegar a 0ºC.
A distribuição de chuvas é regular durante o ano, sendo mais acentuadas de
agosto a outubro, com a pluviosidade atingindo 35% do total anual. Os nevoeiros
são frequentes.
Entre os representantes da fauna, estão o lobo-guará, o puma, o veado-
-campeiro, o ouriço-cacheiro, o bugio e a capivara entre os mamíferos. As aves
são representadas pelo gavião-pato, gavião-pega-macaco, águia-cinzenta, que
se encontram ameaçados de extinção. Ainda temos o urubu-rei, a gralha-azul, o
cuiu-cuiu, o papagaio-de-peito-roxo e a curicaca. Há ainda alguns répteis, como a
cascavel e a urutu, além do lagarto teiú.
O Parque tem área de camping, restaurantes, área para piquenique, hotéis
nas cidades de Cambará do Sul e São Francisco de Paula.
Há ainda o Parque Nacional da Lagoa do Peixe com 36 753 hectares.
Na Área de Proteção Ambiental do Rio Ibirapuitã, inserida neste ecossis-
tema, ocorrem formações campestres e florestais de clima temperado, distintas
de outras formações existentes no Brasil. Além disso, abriga 11 espécies de ma-
míferos raros ou ameaçados de extinção, ratos d’água, cervídeos e lobos, e 22
espécies de aves nesta mesma situação. Pelo menos uma espécie de peixe, cará
(Gymnogeophagus sp., família Cichlidae), é endêmica da bacia do rio Ibirapuitã.
Além disso, há a Estação Ecológica do Taim com 111 326 hectares. Essas áreas
aparecem como uma alternativa de sustentabilidade e de contenção das atividades
humanas, conservando os ambientes.

Conclusão
Após conhecermos o ecossistema campos sulinos, com suas características
gerais, fauna e flora, relevo, paisagem, resta-nos questionar qual o futuro desse

189
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

ambiente. Haverá tempo para sua recuperação e se ocorrer, ela será natural ou
dependerá da ação dos homens que tanto têm interferido com suas ações e nem
sempre ações positivas?
Aproveite esta oportunidade, faça dos seus estudos um instrumento de evo-
lução e de aprimoramento, lembrando-se sempre de colocar à disposição das co-
munidades o seu trabalho, para que ele se torne útil e tenha sentido pleno.

Bioma – Campos sulinos – Informações


Os campos sulinos foram assim nomeados pelo estudo de prioridades para a conservação e
o uso sustentável da biodiversidade da Mata Atlântica e dos campos sulinos do MMA/Pronabio,
elaborado pela CI, ISA, WWF, Ibama. De maneira genérica, os campos da região Sul do Brasil
são denominados como pampa, termo de origem indígena para região plana. Essa denominação,
no entanto, corresponde somente a um dos tipos de campo, mais encontrado ao sul do estado do
Rio Grande do Sul, atingindo o Uruguai e a Argentina.
Outros tipos conhecidos como campos do alto da serra são encontrados em áreas de transição
com o domínio de araucárias. Em outras áreas encontram-se, ainda, campos de fisionomia seme-
lhantes à savana.
Os campos, em geral, parecem ser formações edáficas (do próprio solo) e não climáticas. A
pressão do pastoreio e a prática do fogo não permitem o estabelecimento da vegetação arbustiva,
como se verifica em vários trechos da área de distribuição dos Campos do Sul.
A região geomorfológica do planalto de Campanha, a maior extensão de campos do Rio
Grande do Sul, é a porção mais avançada para oeste e para o sul do domínio morfoestrutural das
bacias e coberturas sedimentares. Nas áreas de contato com o arenito botucatu, ocorrem os solos
podzólicos vermelhos-escuros, principalmente a sudoeste de Quaraí e a sul e sudeste de Alegrete,
onde se constata o fenômeno da desertificação. São solos, em geral, de baixa fertilidade natural e
bastante suscetíveis a erosão.
À primeira vista, a vegetação campestre mostra uma aparente uniformidade, apresentando
nos topos mais planos um tapete herbáceo baixo – de 60 centímetros a 1 metro –, ralo e pobre
em espécies, que se torna mais denso e rico nas encostas, predominando gramíneas, compostas
e leguminosas; os gêneros mais comuns são: Stipa, Piptochaetium, Aristida, Melica, Briza. Sete
gêneros de cactos e bromeliáceas apresentam espécies endêmicas da região. A mata aluvial apre-
senta inúmeras espécies arbóreas de interesse comercial.
Na Área de Proteção Ambiental do Rio Ibirapuitã, inserida nesse bioma, ocorrem formações
campestres e florestais de clima temperado, distintas de outras formações existentes no Brasil.
Além disso, abriga 11 espécies de mamíferos raros ou ameaçados de extinção, ratos d’água, ceví-
deos e lobos, e 22 espécies de aves nesta mesma situação. Pelo menos uma espécie de peixe, cará
(Gymnogeophagus sp., família Cichlidae), é endêmica da bacia do rio Ibirapuitã.

190
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

A “vocação” da região de Campanha está na pecuária de corte. As técnicas de manejo ado-


tadas, porém, não são adequadas para as condições desses campos, e a prática artesanal do fogo
ainda não é bem conhecida em todas as suas consequências. As pastagens são, em sua maioria,
utilizadas sem grandes preocupações com a recuperação e a manutenção da vegetação. Os campos
naturais no Rio Grande do Sul são geralmente explorados para o pastoreio contínuo e extensivo.
Outras atividades econômicas importantes, baseadas na utilização dos campos, são as cul-
turas de arroz, milho, trigo e soja, muitas vezes praticadas em associação com a criação de gado
bovino e ovino. No alto Uruguai e no Planalto Médio, a expansão da soja e também do trigo levou
ao desaparecimento dos campos e à derrubada das matas. Atualmente, essas duas culturas ocu-
pam praticamente toda a área, provocando gradativa diminuição da fertilidade dos solos. Disso
também resultam a erosão, a compactação e a perda de matéria orgânica.

1. Formem grupos de sete pessoas e cada grupo deverá analisar um tópico, levantando os pontos
principais.

2. Cada grupo então deverá desenvolver uma atividade demonstrativa, podendo ser lúdica, para
apresentar o tema estudado e elaborar as considerações do grupo.

<www.pick.upau.com.br/mundo/brasil_biodiversidade/campos_sulinos.htm>
<www.businestravel.com.br/ecotur>
<www.portalbrasil.net/educação_seresvivos_biosfera.htm>

191
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Campos sulinos

192
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais
Sandro Menezes Silva

Características geográficas

E
ntre as diversas paisagens que definem os principais biomas e ecossistemas
brasileiros, a Mata dos Cocais é uma das menos conhecidas e valorizadas do
ponto de vista ecológico. Ocorre nos estados do Piauí, Maranhão e parte do
Ceará e Tocantins, em uma zona de transição da floresta amazônica com a caatin-
ga nordestina. O clima desta área também é de transição, entre os tipos equatorial,
semiárido e tropical.
A parte mais significativa da região de ocorrência da Mata dos Cocais está
nos estados do Maranhão e Piauí, antigamente incluídos na região chamada de
“Meio Norte”. Esta região foi proposta principalmente devido à sua constituição
geológica, uma grande bacia sedimentar, que contrasta com a maior parte do Nor-
deste, cuja origem é predominantemente cristalina1.
Na proposta de classificação em ecorregiões2 do Brasil3, a maior parte da
Mata dos Cocais foi enquadrada dentro de zonas de transição com características
específicas, existentes entre os principais biomas brasileiros, como uma forma de
direcionar os esforços de conservação. A área desta região é de aproximadamente
144 583 quilômetros quadrados, sendo o babaçu (Attalea speciosa- Arecaceae),
uma palmeira nativa das regiões norte e nordeste do Brasil, a espécie mais carac-
terística. Existem diversas evidências de que esta formação resulta da degradação
de áreas com floresta amazônica, onde esta espécie e outras palmeiras ocorrem
misturadas a várias outras espécies florestais.
Além do babaçu, agrupamentos de pelo menos duas outras espécies de pal-
meiras integram esta região, que são os chamados carnaubais, onde a espécie mais
característica é a carnaúba (Copernicia prunifera), e os buritizais, onde o buriti
(Mauritia flexuosa) é o elemento mais típico. As condições de ocorrência destas 1 Diz-se da origem de um
embasamento geológico
quando este é bastante anti-
três palmeiras assemelham-se pelo tipo de terreno preferencial no qual dessas go, de idade pré-cambriana,
formado pelo chamado Escu-
formam os agrupamentos mais expressivos, que são vales de rios e planícies inun- do Brasileiro, base de todas

dáveis. A delimitação de algumas bacias hidrográficas na região Meio Norte pode


as demais formações geoló-
gicas do país.
ser definida pela zona de ocorrência do babaçu, assim como nascentes de rios
podem ser localizadas pela ocorrência de buritizais.
2 Cada uma das regiões
ecologicamente similares
reconhecidas para o Brasil,
em geral com mesmo tipo de
clima, relevo, geologia e, so-

Características gerais bretudo, vegetação.

A principal área de ocorrência da Mata dos Cocais inclui os estados do Ma-


ranhão e do Piauí, na Região Nordeste do Brasil, embora os limites exatos desta 3 Disponível no site <www.
wwf.org.br>.

193
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

região em diferentes mapas variem. Pode-se dizer que os babaçuais, ou seja, as


áreas onde predomina o babaçu, são mais características dos vales dos rios Itapi-
curu, Mearim e Pindaré, no estado do Maranhão, e do Rio Parnaíba no Piauí.
Os carnaubais, onde a espécie de palmeira predominante é a carnaúba (Co-
pernicia prunifera), são mais comuns da borda oriental da área de ocorrência
da Mata dos Cocais, em terrenos com solos argilosos e úmidos, geralmente nas
várzeas dos rios. Os maiores carnaubais no Brasil ocorrem nos estados do Ceará
e Piauí, em locais com maior influência do clima semiárido.
Uma terceira espécie de palmeira que ocorre nesta área, formando agrupa-
mentos mais ou menos densos, é o buriti (Mauritia flexuosa). É comum em solos
alagados e beiras de rios, onde forma grandes concentrações, frequentemente em
meio a campos inundáveis.

O ambiente das Matas dos Cocais


O clima nessa área é bem mais úmido do que na caatinga, caracterizado
por valores de precipitação anual em torno de 1 500 a 2 mil milímetros, como os
meses mais chuvosos entre março e abril e os mais secos entre agosto e dezembro.
A média anual de temperatura fica em torno de 26°C, com pequenas variações
entre os meses do ano.
A principal feição de relevo da área de ocorrência da Mata dos Cocais é de
planície, em geral acompanhando os planos de inundação dos rios perenes desta
região do Nordeste, predominantemente suave ondulado. Elevações montanhosas
são pouco frequentes e raramente ultrapassam os 150 metros de altura.
Os solos são em geral higrófilos, isto é, sujeitos à saturação hídrica na maior
parte do ano, com uma camada orgânica superficial espessa. Como a camada de
água do solo é bastante superficial, as espécies de palmeiras típicas da Mata dos
Cocais passam a maior parte do tempo com as raízes em um ambiente saturado
de água, o que é um fator seletivo bastante forte para a maioria das espécies flo-
restais.

Biodiversidade
O nome Mata dos Cocais relaciona-se à predominância fisionômica de espé-
cies de palmeiras, especialmente do babaçu, da carnaúba e do buriti. No entanto,
outros tipos de vegetação podem ocorrer associados aos bosques de palmeiras,
como matas de galeria4 e campos inundáveis.
Os babaçuais são quase exclusivamente constituídos pelo babaçu, com maior
4 Tipo de vegetação flo-
restal que acompanha o
curso de um rio, em geral em
expressão em amplas áreas do Maranhão e Piauí. Podem ocorrer associados a car-
naubais e buritizais, porém estes com menor expressão. Chegam a ocorrer mais
meio a uma paisagem em que
predominam formações cam-
de 1 500 plantas por hectare, com indícios de que em algumas regiões houve um
pestres. Também é conhecida
como mata ciliar.
avanço da área dos babaçuais sobre a floresta amazônica, o que denota a origem
antrópica de parte da Mata dos Cocais.

194
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

Os carnaubais são comuns também em terrenos mais úmidos, até mesmo


alagados temporariamente, e como os babaçuais, são formações quase puras. Em
ambos é comum a presença de algumas espécies herbáceas, principalmente de
gramíneas, sob a sombra dos palmeirais.
Os buritizais costumam ocorrer mais próximos às nascentes de pequenos
rios, em áreas permanentemente alagadas cuja vegetação dominante é campestre.
Os agrupamentos de buriti normalmente acompanham o curso dos rios, formando
uma paisagem que na região do Brasil Central é conhecida pelo nome de vereda.
Cabe destacar que é frequente a ocorrência de campos úmidos em meio às
áreas de cocais, assim como de florestas ciliares e florestas estabelecidas em solos
com melhor drenagem. O caráter transicional da Mata dos Cocais, e sua provável
origem secundária, ao menos em grande parte da área de ocorrência, sugerem
uma certa variedade de fisionomias vegetacionais, apesar da predominância das
espécies de palmeiras.
A fauna ocorrente na Mata dos Cocais é pouco conhecida e documentada, Existe uma
havendo registros esparsos e genéricos na literatura a respeito de sua composição, fauna típica
de suas espécies mais características, seus níveis de endemismos e registros de da Mata dos
ocorrência de espécies ameaçadas.
Cocais?
5
Segundo informações presentes no site do Ibama , na reserva extrativista do
Quilombo do Frexal, localizada no Maranhão, em plena zona dos cocais, ocorrem
várias espécies de fauna comuns na floresta amazônica e na caatinga, como pacas,
veados, capivaras, cutias, catetos e outros animais, em populações pequenas, que já
refletem os impactos do desmatamento e da caça de subsistência. Entre as espécies
mais pescadas nesta reserva, destacam-se a traíra, o pacu, o aracú, a piranha, o piau
e a piaba, entre outros. De uma forma geral, as espécies mais comuns são as mesmas
que ocorrem nos biomas vizinhos, com uma diminuição na frequência daquelas que
dependem de ambientes florestais mais conservados, como observado na Floresta
Amazônica em toda a borda oeste da Mata dos Cocais.

A utilização das palmeiras


Babaçu
Costuma-se dizer nas regiões norte e nordeste, onde esta espécie ocor- Mas qual é
re com maior frequência, que do babaçu aproveita-se tudo. O estipe, como é
a parte mais
conhecido o caule das palmeiras, é empregado para a construção de casas e
demais usos como suporte, uma vez que tem grande resistência. A região de
importante
crescimento das folhas, protegida pelas bainhas foliares, pode ser usada na ali- do babaçu?
mentação como palmito. As folhas são empregadas na cobertura de casas e para
fabricação de peças rústicas usadas no trabalho diário dos habitantes dos baba-
çuais, como balaios e peças de montaria.
É no fruto que está a maior importância econômica do babaçu, e é por este
uso que a planta é mais conhecida. Das sementes extrai-se um óleo amplamente 5<www.ibama.gov.br>

195
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

utilizado nas indústrias de sabão, detergentes, margarinas e demais tipos de gor-


dura vegetal, além de servir de base para a produção de lubrificantes para apare-
lhos de alta precisão. O resíduo da prensagem da semente pode ser usado como
ração para o gado e a casca do fruto pode ser empregada como material combus-
tível substituto da lenha ou então na preparação do coque siderúrgico. Pesquisas
desenvolvidas com os frutos do babaçu estimam que ele pode reduzir em até 70%
as úlceras gástricas, com ação antiinflamatória e praticamente sem toxicidade.

Babaçu
Nome científico: Attalea speciosa Mart. ex Spreng.
Família: Arecaceae (=Palmae)
Sinônimos populares: baguaçu, aguaçu, auaçu, bauaçu
Alguns sinônimos científicos: Attalea apoda Burret, Orbygnia barbosiana
Burret, Orbygnia martiana Barb. Rodr., Orbygnia phalerata Mart., Orbygnia
speciosa (Mart.) Barb. Rodr.
Principais características: Palmeira de tronco não ramificado, robusto,
que pode atingir até 20 metros de altura, com folhas partidas que podem che-
gar a mais de 5 metros de comprimento. As flores são pequenas e reunidas em
grandes inflorescências, que após a fecundação formam cachos com até 200
frutos, cada qual podendo chegar a 10-12 centímetros de comprimento quando
maduro. Em geral cada fruto tem de 4 a 8 sementes, protegidas por um envol-
tório lenhoso, bastante resistente, podendo pesar até 500 gramas. Uma planta
adulta pode produzir anualmente até 2 mil frutos.
Ocorrência: os conhecidos babaçuais são mais comuns no Maranhão,
porém a espécie estende-se do Acre ao Tocantins, podendo tanto formar agru-
pamentos mais ou menos densos, como ocorrerem isoladas na floresta ou em
áreas abertas. Em áreas perturbadas pode tornar-se uma espécie invasora, de-
vido ao seu caráter pioneiro.

Carnaúba
Os carnaubais são mais comuns
nos estados do Piauí, Ceará e Rio
Grande do Norte, sendo a carnaúba,
sua espécie mais característica, co-
nhecida como árvore da providência
ou árvore da vida. Tais denominações
são devidas ao aproveitamento que é
dado à espécie, da qual usa-se desde
a raiz até as folhas. Às raízes são atri-
buídas propriedades medicinais, no
tratamento do reumatismo e da artrite. Queimadas e pulverizadas, substituem o sal
de cozinha. O estipe, muito resistente, é usado como apoio na construção de casas,
como postes ou traves. Dos brotos da folha extrai-se um palmito comestível.

196
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

As folhas são usadas na cobertura de casas e para confecção de cordas,


chapéus, esteiras, cestos e sandálias. A base das folhas desfiada é usada como
vassoura. Das folhas também é extraída a cera, produto que tornou a carnaúba
amplamente conhecida, e que representa uma importante fonte de renda em várias
regiões do Nordeste. A cera acumulada no verso das grandes folhas da carnaúba
é usada na fabricação de velas, vernizes, ceras, polidores para madeira, imperme-
abilizantes de embalagens e isolantes de materiais elétricos.
Os frutos da carnaúba são usados como alimento para o gado, sendo ainda
utilizados na fabricação de doces caseiros. As sementes são ricas em óleo, que
ainda não é explorado em escala industrial.
A carnaúba tem grande potencial ornamental, sendo uma excelente alterna-
tiva para locais úmidos, como margens de rios e lagos.

Buriti
O óleo dos frutos, amplamente utilizado na indústria cosmética, tem sido
um dos principais produtos obtidos em escala industrial do buriti. Os buritizais
chegam a ter uma densidade de 550 plantas por hectare, tendo as plantas femini-
nas duas a oito florações durante ao ano. Cada cacho contém em média 850 frutos,
sendo possível obter 20 quilos de óleo por planta ao ano. Considerando uma média
de 250 plantas por hectare, é possível obter-se um total anual de 5 mil quilos de
óleo vegetal por hectare ao ano.
Este óleo tem sido promissor na pesquisa brasileira de produção de bio-
diesel, juntamente com óleos provenientes de outras espécies oleaginosas do norte
e nordeste do país.
As folhas do buriti são usadas na fabricação de artesanato refinado, como
bolsas, chapéus, tecidos, esteiras e abanadores, sendo bastante procurado nos
mercados de artesanato do Nordeste.
A polpa dos frutos do buriti é empregada na fabricação de uma bebida co-
nhecida como vinho de buriti, bastante apreciada em algumas regiões do Piauí.
Também é usada na fabricação de doces e licores, comuns nas feiras livres e mer-
cados de várias cidades do Piauí e Ceará.

Óleo de buriti integra novo plástico.


Material emite e absorve luz e seria
biodegradável, diz pesquisa
da Universidade de Brasília (UnB)
(LOPES, 2005)
O escritor Guimarães Rosa menciona o buriti, palmeira típica do cerrado,
a cada meia página de seu clássico Grande Sertão: Veredas.

197
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

Mas, por mais íntimo que fosse da planta, provavelmente não imaginaria
que cientistas da UnB dariam uma função high-tech ao óleo de buriti: criar
plásticos que emitem e absorvem luz – e, de quebra, biodegradáveis.
Desenvolvido pela química Jussara Angélica Durães, que está fazendo
seu doutorado sobre o tema, o trabalho já conseguiu integrar o óleo da palmei-
ra ao poliestireno e ao polimetacrilato, os mesmos materiais que compõem os
copos plásticos e lentes de óculos escuros, por exemplo.
Ambos são polímeros, ou seja, moléculas gigantescas compostas de uni-
dades idênticas que se repetem várias vezes. “Uma das possibilidades seria
aplicar a mistura à fabricação de polímeros para telas de computador, que se-
riam finas e maleáveis”, diz Durães. Segundo a química, cujo trabalho é orien-
tado por Maria José Araújo Sales, a ideia de usar o óleo como um componente
dos polímeros surgiu principalmente por causa de suas propriedades ópticas,
como a de absorver luz visível e na faixa do ultravioleta.
Entre os vários componentes do óleo, dois são os principais responsáveis
por essas propriedades. São o caroteno, um pigmento amarelo-avermelhado
que é usado pelo organismo de quem consome a planta para fabricar vitamina
A; e o ácido oleico, que responde por 76% do óleo de buriti.
“O tipo de ligação dessas moléculas permite que os elétrons delas mu-
dem facilmente de um nível de energia para outro”, explica a pesquisadora da
UnB.
Quando o elétron absorve energia (na forma de luz, por exemplo), muda
de nível; ao retornar ao nível original, ele devolve a energia novamente na
forma de luz.
“Assim, o óleo absorve e emite [luz] o tempo todo”, diz Durães.
Diante desses truques interessantes, os pesquisadores da UnB passaram a
estudar meios de incorporar o óleo aos plásticos já existentes.
[...] o produto do buriti foi integrado aos polímeros na forma de esferas
minúsculas, com cerca de cinco micrômetros (um micrômetro é um milésimo
de milímetro).

Óculos escuros
Além da possível utilização em telas de computador, a pesquisadora es-
tima que os polímeros com a mistura do óleo poderiam entrar na composição
de LEDs (diodos emissores de luz, na sigla inglesa), peças comuns em PCs e
telefones celulares, bem como em películas protetoras de óculos escuros e até
janelas de avião.
Testes de resistência em laboratório sugerem que o material seria biode-
gradável, embora os pesquisadores ainda não saibam estimar com precisão
quanto tempo seria necessário para que eles se decompusessem na natureza.
“De qualquer maneira, essa propriedade não deve diminuir a vida útil dos
plásticos”, afirma Durães.
Os compostos desenvolvidos no projeto já geraram um pedido de patente,
que foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

198
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

Para Durães, há outra vantagem ambiental no uso do buriti: “promovería-


mos a utilização sustentável de um recurso do cerrado para fins industriais”.
Um composto com propriedades mais modestas, o amido de mandioca,
também está sendo usado pelo grupo para fabricar plásticos ecologicamente
corretos.
Segundo Durães, nesse caso a molécula está sendo incorporada à fabrica-
ção de copos de plástico, com bons resultados. Além da mandioca, o óleo de
buriti também entra na fórmula.

Impactos ambientais
Na região dos babaçuais, é comum a substituição das palmeiras por planta-
ções de arroz, devido principalmente à ocorrência destas em solos úmidos, propí-
cio a esta cultura. O cultivo da soja também avança sobre algumas áreas da Matas
dos Cocais, notadamente mais perto dos limites entre ela e o cerrado, provocando
fortes alterações na paisagem, com drenagem de terrenos e uso de grande quanti-
dade de insumos agrícolas.
A industrialização da região Meio Norte também tem levado vários babaçu-
ais ao desaparecimento, especialmente a partir da década de 1980, quando várias
plantas industriais foram instaladas no Maranhão para dar suporte à exploração
mineral realizada na região amazônica.
O avanço das pastagens também tem contribuído para a redução das áreas
de babaçuais e carnaubais, embora estas espécies tenham grande capacidade de
regeneração.
O próprio crescimento populacional verificado em algumas regiões do Nor-
deste, notadamente nas proximidades das maiores cidades, também tem provoca-
do a degradação dos cocais, especialmente pelo corte e queima das palmeiras para
uso da área para construção de habitações.
Apesar da importância econômica da carnaúba, especialmente em função
do uso que a cera da espécie tem na indústria da informática, números resultan-
tes de uma pesquisa realizada pelo Núcleo da Seca da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte mostram que 70% dos carnaubais plantados na região do
Vale do Açu, polo produtor de cera do Nordeste, desapareceram nos últimos 30
anos. Aproximadamente 17 mil hectares da área que restou foram utilizados para
produção da cera nos municípios, sendo que a cada ano milhares de hectares são
substituídos por atividades mais lucrativas.

Conservação e alternativas sustentáveis


Uma das formas mais efetivas para proteção da biodiversidade, são as uni-
dades de conservação. Na legislação brasileira que trata especificamente deste
assunto6, são reconhecidas duas categorias de unidades de conservação, deno-
minadas de “proteção integral” e de “uso sustentável”. Estas últimas têm como 6 Lei 9.985 de 18 de julho
de 2000, Decreto 4.340
de 22 de agosto de 2002.

199
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

objetivo principal compatibilizar a conservação da natureza e o uso sustentável


dos seus recursos naturais, com base no conteúdo do chamado plano de manejo
da unidade, validado pelo seu respectivo Conselho Deliberativo. Esta é a instância
responsável pelo gerenciamento da área, tendo como presidente o representante
do órgão gestor da reserva.
Um exemplo de unidade de conservação de uso sustentável localizada na
região de ocorrência da mata dos cocais é a reserva extrativista7 do Quilombo
do Frexal, localizada no estado do Maranhão. A criação dessa reserva está ligada
à luta da comunidade negra do Frexal pelo reconhecimento do estado ao direito
de terem acesso à terra, garantido aos remanescentes das comunidades de qui-
lombos no texto da Constituição do Brasil. A Reserva está situada no município
de Mirinzal e foi criada pelo Decreto 536 de 20 de maio de 1992, com uma área
aproximada de 9 542 hectares.
Em termos de acesso, a reserva é cortada na direção norte-sul, pela Rodovia
MA-006, que liga a área a São Luís, capital do estado, a uma distância aproxima-
da de 300 quilômetros. A reserva está incluída na área de proteção ambiental da
Baixada Maranhense, criada por um decreto estadual em junho de 1991.
Existem três pequenas comunidades no interior da Reserva, onde vivem
cerca de 180 famílias. Embora muitas áreas de babaçuais tenham sido devasta-
das, ainda existem grandes extensões onde a exploração extrativista é praticada, a
despeito do baixo preço que o produto atinge no mercado, nas mãos dos atraves-
sadores. A produtividade média dos babaçuais da reserva é de 608,7 quilos por
hectare, com uma produção anual em torno de 82 500 toneladas.
A amêndoa de babaçu é utilizada para a produção de óleo e leite e suas
folhas na confecção de cestos e construção de casas. A casca dos frutos é usada
na produção de carvão vegetal. As outras palmeiras ocorrentes na região, como
o buriti, o açaí, o tucum e a bacaba têm uso mais restrito, basicamente como
alimento, porém com importância na economia doméstica. Diversas plantas têm
usos na medicina popular das comunidades, entre as quais a contra-erva, bol-
do, quina, pega-pinto, para-tudo, algodão, jataúba, janaúba, bacuri, santa-maria,
araticum, catinga-de-bode, junca, goiaba azeda, andiroba, quando-é, assussena,
pinhão branco e jaborandi. Também são bastante utilizadas algumas espécies de
cipós para confecção de artefatos de pesca e para amarrar cercas e casas.
A Mata dos Cocais, ambiente transicional entre a Amazônia e a caatinga,
não tem recebido a atenção devida por parte dos estudiosos que trabalham em um
ou no outro bioma. Muitas vezes interpretadas como formações secundárias, não
têm sido alvo de ações efetivas de conservação da biodiversidade como outros
biomas têm sido. Com uma riqueza de espécies relativamente baixa, onde três
7 Categoria de unidade de
conservação de uso sus-
tentável criada em área em
espécies de palmeiras são amplamente dominantes dependendo do local consi-
que populações tradicionais derado. No entanto, considerando a importância econômica e social que estas
praticam extrativismo dos
recursos naturais, que tem espécies têm na região, a proposição de alternativas que sejam de fato sustentáveis
como objetivos principais
garantir o uso sustentável dos
para a população envolvida e que garantam a manutenção dos palmares é urgente.
recursos naturais por estas O que se vê na maior parte da região da Mata dos Cocais são iniciativas isoladas
populações, mantendo seus
modos de vida e cultura. do poder público e de organizações não governamentais, que mostram que alguns

200
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

caminhos podem ser mais interessantes para a utilização destes recursos, espe-
cialmente agregando-se valor aos produtos obtidos das palmeiras.
O uso de produtos destas espécies na obtenção de materiais usados em pro-
cessos tecnológicos de ponta acenam com uma perspectiva mais consistente nesta
direção, não eliminando a necessidade de melhoria nas condições de coleta dos
produtos das palmeiras, especialmente dos frutos do babaçu e das folhas da car-
naúba, feitas até os dias de hoje de forma rudimentar e sujeita a riscos.

Quebradeiras de Coco recebem o


prêmio Banco Mundial de Cidadania 2005
(MARANHÃO, 2005)
O projeto de aproveitamento integral do coco babaçu das mulheres rurais de Itapecuru-Mi-
rim, que fazem parte do Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Maranhão, foi reconheci-
do como uma experiência social inovadora pelo Banco Mundial, que concedeu às quebradeiras de
coco o terceiro lugar no prêmio Banco Mundial de Cidadania 2005 – Voz Mulher.
O primeiro lugar ficou com um projeto de floricultura de uma associação de mulheres da Pa-
raíba. Em segundo lugar foi escolhido o projeto de capacitação de mulheres indígenas na geração
de renda através do artesanato (elas aprenderam o valor de produzir renda e de comercializar). O
Coletivo de Mulheres do Maranhão dividiu o terceiro lugar com a Associação dos Beijuzeiros da
Bahia.
Concorreram ao prêmio do Banco Mundial somente as mulheres rurais do Nordeste, sendo
que os nove estados inscreveram três projetos inovadores de desenvolvimento sustentável cada
um, com um total de 27 experiências inscritas.
A experiência das quebradeiras de coco de Itapecuru faz parte do Projeto Quebra Coco,
desenvolvido pela Superintendência da Agricultura Familiar e Reforma Agrária, vinculada à Se-
cretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Seagro, para as mulheres
rurais que vivem do extrativismo vegetal do coco babaçu.
Para Maria Domingas Marques Pinto, presidente do Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Ru-
rais, as quebradeiras de coco aproveitam o óleo para fazer o sabão e o sabonete. Já do mesocarpo
elas fazem biscoitos, pães, bolos e chocolate. Maria Domingas disse ainda que “o reconhecimento
do Banco Mundial à experiência de geração de renda com o coco babaçu em Itapecuru-Mirim
valoriza a cidadania da mulher rural quebradeira de coco e reconhece o projeto econômico de
aproveitamento integral do coco babaçu”.
O superintendente estadual de Agricultura Familiar e Reforma Agrária, José Mário Frazão,
ressaltou que a premiação reconhece o trabalho de inclusão social das quebradeiras pelo Projeto
Quebra Coco. Ele disse ainda que o projeto é o resultado de mais de 15 anos de pesquisas para a
construção da concepção técnica.
O próprio Frazão esteve à frente dos estudos e experimentos, em que foi criado um conjunto
de máquinas que quebram e separam os componentes do coco. A torta, um resíduo da extração do
óleo, é associada à farinha amilácea do mesocarpo para compor uma ração usada na alimentação
de aves caipiras e suínos, agregando valor ao produto.

201
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

A secretária estadual de Agricultura, Conceição Andrade, disse que essa premiação do Ban-
co Mundial reconhece o esforço empreendedor da mulher rural maranhense que vem procurando
inserir-se na economia de mercado com projetos produtivos sustentáveis de geração de renda:
“Esse prêmio é um importante selo de certificação a um projeto de agricultura sustentável, que
promove o desenvolvimento com equilíbrio, preservando os recursos naturais”. “O projeto é fruto
da parceria entre o governo do estado e das mulheres quebradeiras de coco socialmente organiza-
das”, completou Conceição Andrade.
Além do projeto de aproveitamento integral do coco babaçu, do Coletivo de Mulheres, tam-
bém disputaram pelo Maranhão ao prêmio do Banco Mundial, o projeto de fabricação de sabo-
netes de andiroba, da Associação de Produtores de Andiroba de Axixá (que tem financiamento
do Programa de Combate à Pobreza Rural, PCPR) e o projeto de capacitação e qualificação para
garantir emprego e renda, do Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa.
Uma das unidades do Projeto foi construída numa parceria do governo do estado com o
Banco Mundial. Para o superintendente Estadual do Núcleo de Programas Especiais (Nepe), Gua-
lhardo Prazeres, o selo “atesta que o projeto está dando certo e melhorando a qualidade de vida
das trabalhadoras rurais maranhenses. As mulheres do Projeto Quebra Coco, de Itapecuru-Mirim,
conquistaram um selo internacional, podendo comercializar seus produtos como oriundos de um
projeto social de uma comunidade rural brasileira”.
Junto com Maria Domingas, estiveram em Recife representando as mulheres rurais mara-
nhenses, Francerli Santos Neres, Associação de Produtores de Andiroba de Axixá, e Josanira
Rosa Santos da Luz, Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa.
“O prêmio é mais uma forma de participação social das comunidades, de aproximar a so-
ciedade civil das operações do Banco Mundial; de ajudar as comunidades a buscarem recursos e
participarem dos programas de governo, estreitando relações com o banco” definiu Carla Zardo,
assistente do Departamento da Sociedade Civil do Banco Mundial, em Brasília.
O prêmio Banco Mundial de Cidadania foi entregue durante o Encontro Nordeste de Experi-
ências Sociais Inovadoras, em Recife no final da semana passada.

O Projeto Quebra Coco


O Projeto Quebra Coco faz parte do programa Apoio ao Extrativismo e Preservação dos
Babaçuais, que foi criado pela Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento
Rural, desde 2002, para dar suporte ao aproveitamento integral e à racionalização do sistema pro-
dutivo nas comunidades rurais organizadas e nos assentamentos rurais da reforma agrária, onde
o coco babaçu representa importante fonte de renda para as famílias. O projeto tem um polo de
processamento do coco babaçu com cinco unidades satélites e uma unidade central para processar
e comercializar óleo, sabonete, mesocarpo e carvão.
Unidade piloto – O foco do Quebra Coco é o processamento integral dos frutos, aumentando
a eficiência da exploração através da quebra mecânica do coco, com o envolvimento das mulheres
quebradeiras em todas as fases do beneficiamento.
A unidade piloto, base de demonstração para outras comunidades e de pesquisas para o de-
senvolvimento de novos produtos, funciona no povoado de Olho D’água das Guaribas.
Metas – Inclusão social das mulheres quebradeiras de coco por meio da melhoria na renda,
nas condições de trabalho e no número de postos de trabalho das famílias rurais que vivem da
atividade extrativa do coco babaçu:

202
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

Preservação dos ecossistemas dos babaçuais maranhenses estimulando a exploração ra-


cional e integrada do coco;
Aproveitamento da mão de obra que sobrevive deste extrativismo nas comunidades rurais;
Incremento na criação de animais de pequeno e médio portes (aves e suínos) usando como
fonte de alimentação a ração produzida a partir do mesocarpo e da torta do babaçu.
Destino da produção
O óleo produzido é vendido para a União de Clubes de Mães de Itapecuru-Mirim, que trans-
forma o produto em sabonetes.
A torta e o mesocarpo estão sendo utilizados na ração de aves caipiras e suínos. O mesocar-
po está sendo usado também na produção do amido industrial. Já o carvão obtido do coco babaçu
está servindo como matéria para produção de carvão ativado.

Fabricação do sabonete
A unidade de fabricação de sabonetes naturais de babaçu foi criada em Itapecuru-Mirim
através de uma parceria entre a União dos Clubes de Mães do município e o governo do estado,
através do programa de Apoio ao Extrativismo e Preservação dos Babaçuais. A produção é feita
a partir do óleo extraído pela unidade de Olho D’Água das Guaribas. As mulheres associadas aos
30 Clubes de Mães de Itapecuru trabalham na unidade em regime comunitário.

1. Faça uma pesquisa na internet, em revistas e em estabelecimentos comerciais, como farmácias


e mercados, de produtos que utilizam matérias-primas extraídas das espécies de palmeiras que
predominam na mata dos cocais – babaçu, carnaúba e buriti. Reúna as informações obtidas em
um quadro sinóptico, apresente aos seus colegas e discuta em grupo as formas de utilização
mais encontradas e o quanto estas formas agregam de valor ao produto obtido das plantas.

2. Preencha o quadro abaixo com as principais formas de utilização das diferentes partes das pal-
meiras típicas da Mata dos Cocais.

Parte usada/Espécie Babaçu Carnaúba Buriti


Raízes

Caule (estipe)

Folhas

Frutos

Sementes

Outros usos

203
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Mata dos Cocais

3. Apesar das três espécies anteriormente citadas serem as predominantes na Mata dos Cocais,
existem outras espécies de palmeiras que também ocorrem nesta região, algumas relativamente
bem conhecidas. Faça uma pesquisa nas fontes recomendadas no texto e levante pelo menos
outras três espécies de palmeiras que ocorrem nesta região, ressaltando as principais caracterís-
ticas destas espécies e seus usos mais relevantes para o homem.

FERRI, Mário Guimarães. Vegetação Brasileira. Belo Horizonte: Livraria Itatiaia. São Paulo: USP,
1980.
Trata-se de um livro-texto clássico de fitogeografia do Brasil, onde são apresentados os princi-
pais biomas brasileiros à luz de suas respectivas vegetações e fatores condicionantes mais importan-
tes. A Mata dos Cocais, tratada no texto como “Zona dos Cocais”, ocupa um capítulo a parte, assim
como os carnaubais e os buritizais.
Site eletrônico da WWF Brasil: <www.wwf.org.br>.
Site brasileiro da organização conhecida como World Wildlife Fund, que tem ampla atuação
mundial, onde é possível encontrar informações a respeito da região onde ocorrem as matas de cocais,
com mapa de ocorrência e principais características.
Site eletrônico: <www.sertão.org.br>.
Site de organização não governamental que tem um projeto envolvendo a utilização da carnaú-
ba como uma alternativa para a geração de renda e para a conservação dos carnaubais do Nordeste
do Brasil.
Site eletrônico: <www.ibama.gov.br>.
Site eletrônico do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, no
qual podem ser encontradas informações sobre as unidades de conservação, sendo indicado uma vi-
sita às unidades de conservação de uso sustentável, com ênfase para as reservas extrativistas, onde a
presença de populações tradicionais que utilizam os recursos naturais é uma característica.

204
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Referências
AB’SABER, A. N. O Pantanal mato-grossense e a teoria dos refúgios. Revista de Geografia: v. 50,
n. 2, p. 9.57. 1988.
ALBUQUERQUE, M. Um passo adiante na preservação. Ecologia e Desenvolvimento, Rio de Ja-
neiro. Ano 2, n. 22, dez. 1992.
BANKS, M. Preserve as Florestas Tropicais. São Paulo: Editora Scipione, 1997.
BÉRGUERY, M. A Exploração dos Oceanos. São Paulo: Difel, 1979.
BICUDO, F. Vida e Morte sobre a Areia. Biólogos do Rio avaliam o grau de destruição de 17 res-
tingas, onde ainda vivem espécies exclusivas. In: Universia Brasil. Disponível em: <www.universia.
com.br/html/materia/materia_edcj.html>. Acesso em: 16 set. 2005.
_____. Ecologia, Mundialização, Espiritualidade. São Paulo: Ática, 1993.
BOFF, L. Ética da Vida. Brasília: Letraviva, 1999.
BRANCO, S M. O Meio Ambiente em Debate. São Paulo: Moderna, 1997.
BRASIL. Ministério da Cultura. Fundação Joaquim Nabuco. Pesquisa Escolar. Rio São Francisco.
Disponível em: <www.fundaj.gov.br/docs/pe/pe0048.html>. Acesso em: 25 ago. 2005.
_____. Ministério do Interior. Unidade de Conservação do Brasil. Parques e Reservas Biológicas.
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis: Ibama. Vl. I. 1989.
_____. Ministério do Meio Ambiente. Ibama. Ecossistemas Brasileiros. Campos sulinos. Disponível
em: <www.ibama.gov.br/ecossistemas/campos_sulinos.htm>. Acesso em: 5 set. 2005.
BRAZIL NATURE. Pantanal: águas. Disponível em: <www.brazilnature.com/pantanal/agua.html>.
Acesso em: 15 set. 2005.
BRASIL NATURE. Disponível em: <www.brazilnature.com/caatinga.html> Acesso em: 24 ago.
2004.
CAATINGA. Disponível em: <www.zoologiarn.hpg.ig.com.br/caatinga.thm>. Acesso em: 22 set.
2005.
CÂMARA, I. G. Plano de Ação para a Mata Atlântica. Fundação SOS Mata Atlântica. São Paulo:
Interação, 1992.
CARDOSO, F. H. Discurso proferido na cerimônia de certificação da Reserva Particular do Pa-
trimônio Natural do Sesc. Corumbá, 25 jul. 1997.
CASTELO BRANCO, A. Estudo mostra que cultura de camarão não destrói mangues. Gazeta Mer-
cantil, São Paulo, 6 de setembro 2004. Disponível em: <www.aqualider.com.br/news.php?recid=3874>.
Acesso em: 1.º set. 2005.
CAVALCANTI, E. Para Compreender a Desertificação: uma abordagem didática e integrada. Te-
resina: Instituto Desert, 2001. Disponível em: <www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./
agropecuario/index.html&conteudo=./agropecuario/artigos/desertificacao.html>. Acesso em: 2 set.
2005.

205
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Referências

CAVALIERO, C. K. N.; SILVA, E. P. Estudo de viabilidade da introdução do uso de óleos vegetais


na geração de energia elétrica nos sistemas isolados. In: Encontro de Energia no Meio Rural, 3, 2000,
Campinas. Proceedings online. Disponível em: <www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_a
rttext&pid=MSC0000000022000000200044&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 5 set. 2005.
CERQUEIRA, R. Comunidades animais. In: LACERDA, L. D. et al. (Orgs.). Restingas: Origem,
Estrutura e Processos. Niterói: CEUFF, 1984.
CIVITA, V. Enciclopédia do Mar. São Paulo: Abril, 1975.
COIMBRA FILHO, A; CÂMARA, I. G. Os Limites Originais da Mata Atlântica na Região Nor-
deste do Brasil. Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza. Rio de Janeiro: 1996.
_____. Os limites originais da Mata Atlântica na região Nordeste do Brasil. Fundação Brasileira para
a Conservação da Natureza. Rio de Janeiro, 1996. In: BANKS, Martin. Preserve as Florestas Tro-
picais. São Paulo: Editora, 1997.
CONTE, J. R. Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Santuário ecológico perdido no meio do oce-
ano. Disponível em <www.pdic.com.br/biblioteca/spsp.asp>. Acesso em: 1.º set. 2005.
CORRÊA, A. N. S. Pecuária de Corte no Brasil Central. In: Curso sobre Pastagens. Campo Grande:
Embrapa-CNPGC, 1990.
CORSON, W. H. Manual Global de Ecologia: O que você pode fazer a respeito da crise do Meio
Ambiente. 2. ed. São Paulo: Augustus, 1996.
DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
DIAS, B. F. S. A conservação da natureza. In: Pinto, M. N. Cerrado: caracterização, ocupação e
perspectivas. Brasília: Universidade de Brasília, 1993.
DIAS, G. F. Educação Ambiental: princípios e práticas. 5. ed. São Paulo: Gaia, 1998.
DIEGUES, A. C. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 2. ed. São Paulo: NUPAUB/USP, 1998.
Dinerstein, E.; BOOKBINDER, M. p. A Conservation Assessment of the Terrestrial Ecoregions of
Latin America and the Caribbean. Washington D. C.: The World Bank/The World Wildlife Fund,
1995.
D’ALINCOURT, L. Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cuiabá. São Paulo: Edusp/
Itatiaia, 1975.
ESTADO DE SANTA CATARINA. Fundação do Meio Ambiente. Convênios. GEF: Fundos para o
meio ambiente. Disponível em: <www.fatma.sc.gov.br/projetos/convenio_gef.htm>. Acesso em: 5 set.
2005.
ESTADO DO AMAZONAS. Biblioteca Virtual do Amazonas. Meio Ambiente. Campos Sulinos.
Disponível em: <www.bv.am.gov.br/portal/conteudo/meio_ambiente/campos_sulinos.php>. Acesso
em 5. set. 2005.
ESTEVES, F.; LACERDA, L. D. Ecologia de Restingas e Lagoas Costeiras. Rio de Janeiro: NU-
PEM / UFRJ, 2000.
EUGENE, P. O. Ecologia [tradução, Christopher J. Tribe]. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

206
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Referências

FERRI, M. G. A Vegetação de Cerrados Brasileiros. São Paulo: USP, 1973.


FUNATURA. Conhecendo o Cerrado. O Bioma cerrado. Disponível em: <www.funatura.org.br/
htm/cerrado/apresentando/bioma.htm>. Acesso em: 23 set. 2005.
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Boletim Informativo, Fundação SOS Mata Atlântica,
ago./set., n. 9, 1999.
GONÇALVES, C. W. P. Os (Des)Caminhos do Meio ambiente. São Paulo: Contexto, 1993.
HUECK, K. As Florestas da América do Sul: ecologia, composição e importância econômica. São
Paulo: Polígono, 1972.
IBAMA. Projeto Unidades de Conservação. Guia do Chefe: Manual de Apoio ao Gerenciamento de
Unidades de Conservação Federais. Ibama & GTA, 2000.
IBGE. Manual Técnico da Vegetação Brasileira. São Paulo. IBGE. Manuais Técnicos em Geociên-
cias n.1., 1992. 92p.
INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ. Unidades de Conservação. Secretaria do Meio Ambien-
te e Recursos Hídricos: Governo do Paraná. Folder.
LACERDA, L. D.; ARAUJO, D. S. D.; MACIEL, N. C. Restingas Brasileiras: uma bibliografia. Rio
de Janeiro: Fundação José Bonifácio, 1982.
LOPES, R. J. Óleo de buriti integra novo plástico. Material emite e absorve luz e seria biodegradável,
diz pesquisa da Universidade de Brasília (UnB). Folha de S.Paulo, 26 maio 2005. Disponível em:
<ctjovem.mct.gov.br/index.php?action=/content/view&cod_objeto=20209>. Acesso em: 5 set. 2005.
LOPES, S. Bio. São Paulo: Saraiva, 2002. v. 3.
LORENZI, H.; et al. Palmeiras no Brasil: nativas e exóticas. Nova Odessa: Plantarum, 1996.
MACHADO, R. B.; RAMOS NETO, M. B.; PEREIRA, P. G. P. et al. Estimativas de Perda da
Área do Cerrado Brasileiro. (Relatório técnico não publicado). Brasília: Conservação Internacional,
2004. Disponível em: <www.conservation.org.br/arquivos/RelatDesmatamCerrado.pdf>. Acesso em:
23 set. 2005.
MACIEL, N. C. Fauna das restingas do estado do Rio de Janeiro: levantamento histórico. In: LACER-
DA, L. D. et al. (Orgs.). Restingas: origem, estrutura e processos. Niterói: CEUFF. 1984a.
_____. Fauna da restinga: avanços nos conhecimentos. In: ACIESP (org.). 2.º Simpósio sobre Ecossis-
temas da Costa Sul e Sudeste Brasileira. Anais..., v. 3, 1990.
MACIEL, N. C.; ARAÚJO, D. Os manguezais do recôncavo da Baía de Guanabara. Rio de Janeiro:
Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente. Cadernos FEEMA, (Série Técnica), n. 10, p.
1-113, 1979.
MALHEIROS, G. Ilhas. Rio de Janeiro: Arte Ensaio, 2004.
MARANHÃO. Assessoria de Imprensa da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento
Rural. Quebradeiras de Coco Recebem o Prêmio Banco Mundial de Cidadania 2005. São Luís,
3 jul. 2005.
MEIRELLES, J. O Livro de Ouro da Amazônia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
MENEZES, L. F. T.; PEIXOTO, A. L.; MACIEL, N. C. A riqueza ameaçada dos manguezais. Ciência
Hoje, n. 27, v. 158, p. 63-67, 2000.

207
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Referências

MILANO, M. S. Conceitos básicos e princípios gerais de planejamento, manejo e administração. In:


_____. Manejo de Áreas Naturais Protegidas. Curitiba: Fundação O Boticário de Proteção à Natu-
reza/Universidade Livre do Meio Ambiente, 1999.
_____. Unidades de Conservação: conceitos e princípios de planejamento e gestão. Curitiba, 1989.
Fupef (Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná).
MORAES, A.C.R. Contribuições para a Gestão da Zona Costeira do Brasil. Elementos para uma
Geografia do Litoral Brasileiro, São Paulo: Editora Hucitec/Edusp, 1999.
MOSCATELLI, M. Salvando o manguezal. Rio de Janeiro: Tricontinental. Revista Brasileira de
Ecologia do Século 21: Eco 21, v. IX, n. 41, jul./ago. 1999.
O BRASIL tem uma das maiores extensões de manguezais do mundo. Valoração e problemas nos
manguezais. Ambiente Brasil, n. 1.073, 9 set. 2004. Disponível em: <http://www.redmanglar.org/
ebol3/docs/noti3.html>. Acesso em: 1.º set. 2005.
ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
PARANÁ. Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Lista Vermelha de Plantas Ameaçadas de Ex-
tinção no Estado do Paraná. Curitiba: Sema e GTZ, 1995.
PETROBRAS ultrapassa 1 milhão e 800 mil barris. In: Revista Brasileira de Risco e Seguro. Dispo-
nível em: <http://www.rbrs.com.br/notícias/noticias_interna.cfm?id=1263>. Acesso em: 23 set. 2005.
PONTO TERRA. Flora Brasileira. Campos Sulinos. Disponível em: <www.pontoterra.org.br/flora/
campos.htm>. Acesso em: 5 set. 2005.
POR, Francis Dav; FONSECA, Vera Lúcia Imperatriz; LENCIONI NETO, Frederico. Pantanal. Dis-
ponível em:<www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/meioamb/ecossist/pantanal>. Acesso em:
22 set. 2005.
REDE DE SEMENTES DO CERRADO. A Rede. Disponível em: <http://sementesdocerrado.bio.br>.
Acesso em: 19 set. 2005.
RENOVÁVEIS. Unidades de Conservação do Brasil. Parques Nacionais e Reservas Biológicas. I.
Ministério do Interior. Brasília, 1989.
ROCHA, C. F. D. et al. A Biodiversidade nos Grandes Remanescentes Florestais do Estado do
Rio de Janeiro e nas Restingas da Mata Atlântica. São Carlos: RiMa, 2003.
RODRIGUES, Miguel Trefaut Urbano. Caatinga. Disponível em: <www.mre.gov.br/cdbrasil/itama-
raty/web/port/meioamb/ecossist/caatinga> Acesso em: 24 ago. 2004.
SCHAEFFER-NOVELLI, Y.  Perfil dos ecossistemas litorâneos brasileiros, com especial ênfase so-
bre o ecossistema manguezal. São Paulo: USP. Publicação Especial do Instituto Oceanográfico da
USP, n. 7, p. 1-16, 1989.
SCHAEFFER-NOVELLI, Y.; CINTRÓN, G. Guia para Estudo de Áreas de Manguezal: estrutura,
função e flora. São Paulo: Caribbean Ecological Research, 1986.
SESC PANTANAL. Estância Ecológica. Editora Sesc.
SILVA, J. M. C.; DINNOUTI, A. Análise de Representatividade das Unidades de Conservação
Federais de Uso Indireto na Floresta Atlântica e Campos Sulinos. Disponível em: <www.bdt.fat.
org.br/workshop/mata.atlantica/BR/rp_uc>. Acesso em: 2 set. 2005.

208
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Referências

SILVEIRA, J. D. S. Morfologia do Litoral. In: AZEVEDO, A. Brasil: a terra e o homem. São Paulo:
Nacional, 1964. v.1.
SILVEIRA, V. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 de abril de 2000.
SUGUIO, K. Dicionário de Geologia Marinha. São Paulo. T.A. Queiroz, 1992.
SUGUIO, K.; MARTIN, L. Classificação de costas e evolução geológica das planícies litorâneas
quaternárias do sudeste e sul do Brasil. In: ACIESP (org.). Simpósio de Ecossistemas da Costa Sul e
Sudeste Brasileira. Anais..., v. 1, 1987.
SUGUIO, K.; TESSLER, M. G. Planícies de cordões litorâneos do Brasil: origem e nomenclatura.
In: LACERDA, Luiz Drude et al. (orgs.). Restingas: origem estruturas e processos. Niterói: CEUFF,
1984.
_____. Geomorfologia das restingas. In: Aciesp (org.). 2.º Simpósio sobre Ecossistemas da Costa Sul
e Sudeste Brasileira. Anais..., 1990. v. 3.
SKINNER, B. J.; Turekian, K. K. O Homem e o Oceano. São Paulo: Blucher/ USP, 1977.
TIAGO, G. G. Aquicultura, Meio Ambiente e Legislação. São Paulo: Annablume, 2002.
TUAN, Yi-fu. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo:
Difel, 1980.
VILLWOCK, Jorge Alberto. A costa brasileira: geologia e evolução. In: Aciesp (org.). 3.º Simpósio
sobre Ecossistemas da Costa Brasileira. Anais..., v. 1, 1994.
WWF. O Protocolo de Kioto. Disponível em: <www.wwf.org.br/participe/minikioto-protocolo.htm>.
Acesso em: 22 Set. 2005.

209
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br
Ecossistemas Brasileiros

Ecossistemas Brasileiros E Gestão Ambiental


E Gestão Ambiental

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-7638-731-2
Mauricio Ferreira Magalhães
Marcia Lapa Frasson
Sandro Menezes Silva

Ecossistemas Brasileiros
Fundação Biblioteca Nacional
ISBN 978-85-387-3032-3
E Gestão Ambiental
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.,
mais informações www.iesde.com.br