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Mayombe

Pepetela
A História de Angola
• Colônia portuguesa até 1975
• Guerra de Independência: 1961-75
• Vários grupos guerrilheiros lutando entre
si: UPA, MPLA, Unita
• Guerra de guerrilha: grupos de até 50
soldados se deslocando em grande
território
• Guerra fria: MPLA com apoio da URSS
A História de Angola
• Ambiente rarefeito da guerrilha: poucos
combates e muita ação política e
doutrinária junto às populações locais
• MPLA com dificuldades em Cabinda
• Acordo de independência e início da
Guerra Civil (1975-2002)
• MPLA se constitui força política dominante
até hoje
Angola – etnias e línguas
Ovambo (oshivambo)
Herero
Xi Ndonga
Ganguela (chocué)
Ovimbundu (umbundu)
Nhaneca-Humbe
Bakongo (kikongo, fiote)
Ambundu (kimbundu)
Chokwe
Khoi san
Floresta do Mayombe

•Floresta equatorial, densa, na costa atlântica da


•África, englobando 4 países: Angola, Congo, República
Democrática do Congo e Gabão.
Angola e o Mayombe
O estilo do autor
• Próximo ao Neorrealismo
• Retrato apegado à realidade material, sem
fuga para o fantástico
• Análise crítica dos conflitos dos
personagens
• Elementos do português angolano, tanto
do formal quanto do oral
• Imersão psicológica
“A espera era o pior. (...) As recordações tristes da
meninice misturavam-se à saudade dos amigos
mortos em combate e mesmo (ou sobretudo) ao
rosto de Leli. (...) Ao irem atacar o Posto de Miconje, a
imagem de Leli viera confundir-se com a chuva que
formava torrentes de lama, resvalando pela encosta
que subiam para atingirem o inimigo. (...) A lama e a
chuva cegavam-nos, asfixiavam-nos, ofegantes pelo
esforço de subirem de rastos uma montanha coberta
de mata densa. Fora aí, na cegueira da floresta e da
chuva, que Leli viera, se impusera de novo.
“A angústia perseguiu-o até dar a ordem de fogo. O
grito de fogo saíra-lhe como uma libertação, um urro
de animal fugindo da armadilha. O grito ferido de
Sem Medo afugentara a imagem de Leli.”
• Presença de Discurso Indireto Livre
“(...) Um trabalhador tinha um maço de cigarros, que
distribuiu pelos guerrilheiros. As palavras soltaram-se,
deitados perto do Lombe, e só então os trabalhadores
descobriram que Lutamos também era de Cabinda.
Pronto, pensou Sem Medo, viram que há um deles
entre nós, já têm confiança. O tribalismo às vezes
ajuda. Mas que tem o Das Operações que está tão
atento à conversa? Ah! Tenta captar o que diz
Lutamos, espiar se não trai. Com que prazer este tipo
não comeria o Lutamos, frito com óleo de palma...”
Estrutura narrativa
• Narrador onisciente, em 3ª pessoa,
acompanhado de digressões
• Digressões iniciadas com o título “Eu, o
narrador, sou...”, seguido do nome do
personagem Polifonia narrativa
• Digressões caracterizam o personagem
psicologicamente e apontam conflitos
políticos sob sua ótica
Resumo do Enredo
• Seis capítulos:
1. A missão
2. A base
3. Ondina
4. A surucucu
5. A amoreira
6. Epílogo
1 A missão
• Grupo de guerrilheiros segue para um
ataque contra a exploração de madeira
colonialista.
• Discussões entre os responsáveis: deve-se
proteger as populações locais.
• O motorista foge com o caminhão.
• Capturam dez trabalhadores, que são
interrogados e doutrinados.
1 A missão
• Os guerrilheiros destroem o trator e
instalam minas.
• Ingratidão do Tuga rouba uma nota de 100
escudos do mecânico da motosserra.
• Preparam emboscada, vitoriosa contra os
portugueses.
• Devolução do dinheiro para o Mecânico.
2 A Base
• Rotina da base rebelde, que é uma espécie
de escola.
• Falta de mantimentos. Comissário vai a
Dolisie em busca de comida.
• Ingratidão do Tuga vai preso.
• Comissário encontra Ondina. Relação frágil
dos dois.
2 A Base
• André, responsável do movimento, alega que
não tem dinheiro.
• Retorno com pouca comida.
• Conversa entre Comissário e Sem Medo
sobre Ondina.
• Novos recrutas e seus nomes de guerra.
• Debates sobre tribalismo e fome.
3 Ondina
• A comida não chega. Pensam em derrubar
André do poder.
• André foi pego com Ondina.
• Conflito entre Sem Medo e Comissário.
• André será levado para Brazzaville. Sem Medo
torna-se responsável provisório e recomenda
Mundo Novo para o cargo.
• Base portuguesa no Pau Caído.
4 A Surucucu
• Sem Medo e Ondina fazem sexo.
• Vewê avisa que a Base fora invadida.
• Sem Medo junta reforços e marcham até a
Base.
• Ofensiva para retomar a Base. Suspense!
• Encontram Teoria. Não houve invasão.
• “Apanhem os abrigos” – “apanha vivo”.
• Conflito entre Sem Medo e Comissário.
5 A Amoreira
• Mundo Novo é nomeado chefe em Dolisie.
• Sem Medo continua Comandante até
transferência para o Leste.
• Decidem atacar o Pau Caído com 50 homens.
• O Mecânico quer ingressar no MPLA.
5 A Amoreira
• Comissário comandará o ataque
• 3 grupos: 10 homens com morteiros, 11 com
bazucas e 30 para o assalto.
• Conflito entre Comissário e Sem Medo.
• Sem Medo é ferido e morre.
• Vitória dos guerrilheiros.
• Enterram Sem Medo.
6 Epílogo
• Texto do Comissário, tornado Comandante.
• Admira o destino heroico de Sem Medo.
• Cabe a ele abrir outras frentes de luta,
assumindo o papel de Sem Medo.
Personagens - Guerrilheiros
• Lutamos: veio de Cabinda (onde está a
guerrilha); pesca; não quer estudar, só quer
ser guerrilheiro.
• Verdade: sanguinário.
• Ekuikui: caçador da tribo Umbundo.
• Pangu-A-Kitina: enfermeiro.
• Vewê: mais novo dos recém-chegados,
parente do Comandante.
Personagens - Guerrilheiros
• Milagre: Kimbundo. Odeia os tratores (que
arrancaram a cabeça de seu pai), contra os
militares e contra Lutamos; é o homem da
bazuka, quer seu povo com poder, quer que
todos os companheiros errados sejam
punidos.
• Ingratidão do Tuga – ladrão dos 100
escudos; do povo Kimbundo.
Personagens - Guerrilheiros
• Muatiânvua: destribalizado, com pais de
tribos diferentes (cresceu em Benguela, em
meio a muitas etnias); considerado
“anarquista nas palavras”, enérgico e
desbocado.
• Teoria: conflito de identidade (pai branco e
mãe negra), professor na base guerrilheira.
Tenta provar seu valor.
Personagens
• Mundo Novo
- aceita integralmente a ideologia do MPLA
- educado na Europa, acredita no socialismo
- combate o tribalismo e exige punições
- sempre em conflito com Sem Medo
• Chefe de Operações
• Dirigente do MPLA
• Mecânico da serra: quer se integrar ao MPLA
Personagens principais
• Comandante Sem Medo:
- personalidade forte de liderança
- amistoso e compreensivo com seus homens
- questiona a ideologia: “desidealista”, de
“natureza anarquista”
- pertence ao povo Kikongo, fala fiote
- experiência e maturidade na vida pessoal
- estudou em seminário e na Europa
- sempre pensa em Leli, sua ex-namorada
morta na guerra
Personagens principais
• Comissário (João):
- guardião da ideologia do movimento
- pertence ao povo Kimbundo
- personalidade insegura
- em busca de maturidade
- noivo de Ondina; relação conflituosa
- desilusão amorosa catalisa sua evolução
- conflitos com Sem Medo
- assume o papel de Comandante
Personagens principais
• Ondina
- professora ligada ao MPLA
- educada em Luanda
- senhora de sua vontade
- trai João com André e Sem Medo
• André
- responsável do MPLA por Dolisie
- ar de intelectual-aristocrata
- sempre sem dinheiro, desperta suspeitas
nos guerrilheiros
Temas – guerrilha e educação
• A guerrilha era muito dispersa no país
• Combates limitados e luta pelas armas
• Papel educativo junto aos guerrilheiros e
junto à população local
• Teoria: professor dos guerrilheiros
• Comissário: evita agredir a população e
procura doutrinar o povo
• Mecânico da Serra: exemplo de sucesso
Depois da partida do grupo, a maior parte dos
guerrilheiros foi ocupar a sala que se encontrava no
centro da Base e que servia de escola. Três combatentes
saíram em patrulha, outros ocupavam-se da cozinha,
alguns não faziam nada, arranjando pretextos para não
estudarem.
(...) Mundo Novo, que tinha estudado na Europa,
por vezes ajudava Teoria. Mas nesse dia estava livre, por
isso acompanhou o grupo de novatos. Deitado no
capim, onde o raro sol do Mayombe batia durante duas
horas, ouvia distraidamente as explicações de Sem
Medo, enquanto limpava a arma.
• Temos de mostrar primeiro que não somos
bandidos, que não matamos o povo. O povo daqui não
nos conhece, só ouve a propaganda inimiga, tem medo
de nós. Se apanharmos os trabalhadores, os tratarmos
bem, discutirmos com eles e, mais tarde, dermos uma
boa porrada no tuga, então sim, o povo começa a
acreditar e a aceitar. Mas é um trabalho longo. (...)
Temas – crítica ideológica
• Sem Medo confronta os valores socialistas do
MPLA
• Confronto entre subjetividade e socialismo
• Sem Medo reconhece que não se vê em
Angola depois da Independência
– Não temos as mesmas ideias – disse Sem Medo. – Tu és
o tipo do aparelho, um dos que vai instalar o Partido único e
omnipotente em Angola. Eu sou o tipo que nunca poderia
pertencer ao aparelho. Eu sou o tipo cujo papel histórico termina
quando ganharmos a guerra. (...) Mas não chegarei lá.
– E entretanto o que fazes?
– Faço a guerra. Permito, pela minha ação militar, que o
aparelho se vá instalando.
– E quando o aparelho se instalar, o que farás?
– Não sei. Nunca soube responder a essa pergunta. O que
sei, o que queria que compreendesses, é que esta revolução que
fazemos é metade da revolução que desejo. Mas é o possível,
conheço os meus limites e os limites do país. O meu papel é o de
contribuir a essa meia revolução. Por isso vou até o fim, sabendo
que, em relação ao ideal
que me fixei, a minha ação é metade inútil, ou melhor,
só em metade é inútil.
– No fundo, é a minha posição – disse Mundo
Novo. – Eu sei que o comunismo não será conquistado
já, comigo em vida, que o mais que conseguiremos é
chegar ao socialismo. São precisos muitos anos para
vencer as relações de produção capitalistas e a
mentalidade que elas deixam. É a mesma posição!
– Não, não é. Tu estás na luta pela independência,
preparando ao mesmo tempo o socialismo. O teu móbil
é político. Para ti, tudo se passa em função do objetivo
político a atingir.
– E tu?
– Eu? Eu sou, na tua terminologia, um
aventureiro. Eu quereria que na guerra a disciplina fosse
estabelecida em função do homem e não do objetivo
político. Os meus guerrilheiros não são um grupo de
homens manejados para destruir o inimigo, mas um
conjunto de seres diferentes, individuais, cada um com
as suas razões subjetivas de lutar e que, aliás, se
comportam como tal.
– Não te percebo.
– Não me podes perceber.
Temas – tribalismo e unidade
• Presença dos conflitos históricos e
tradicionais de Angola
• O MPLA luta para superar as divergências nas
atividades diárias
• Sufocamento das identidades locais?
• Dificuldades para criar sentimento de unidade
nacional
Sem Medo escutava, mas estava também atento
aos comentários do resto dos guerrilheiros. Estes
dividiam-se grosso modo em dois grupos: os
kimbundos, à volta do Chefe de Operações, e o grupo
dos outros, os que não eram kimbundos, os kikongos,
umbundos e destribalizados como o Muatiânvua, filho
de pai umbundo e mãe kimbundo, nascido na Lunda.
Mundo Novo era de Luanda, de origem kimbundo, mas
os estudos ou talvez a permanência na Europa tinham-
no libertado do tribalismo. Mantinha-se isolado,
limpando a arma à luz da fogueira.
Somos nós que permitimos estes erros que
estragam as nossas relações com o povo. Somos nós,
com a nossa fraqueza, o nosso tribalismo, que
impedimos a aplicação da disciplina. Assim nunca se
mudará nada.
Temas – amor e maturidade
• Presença constante do amor na obra
• Conflito entre Comissário e Ondina leva ao
amadurecimento de João
• Sem Medo negocia a relação de ambos de
forma incomum, confrontando ambos
• As memórias de Sem Medo revelam o papel
de Léli em sua vida
• Amor afastado de valores tradicionais
– Sempre quis ultrapassar o meu lado humano.
Ser Deus ou um herói mítico. Fazes confusão entre mim
e o João. O que amas em mim é o que há de comum
entre o João e eu mesmo. Apenas, não o conheces
suficientemente para saberes que é esse o traço
comum. É como se fôssemos a mesma pessoa, mas com
dez anos de revolução de intervalo, percebes? Ele
pertence à geração que vencerá e que, ultrapassando-
se, te poderá compreender e aceitar. Eu compreendo-
te, mas não te aceito tal como és. Tentaria modificar-te
à minha imagem. Destruir-te-ia, dominar-te-ia. Não o
posso fazer.
Temas – Prometeu e Ogum
• Prometeu: herói grego que desafia os deuses e traz
o fogo aos homens, originando a tecnologia e a
civilização. É punido por Zeus.
• Ogum: orixá patrono do fogo, da tecnologia e das
pessoas guerreiras.
• Sem Medo = Prometeu. Simboliza o espírito crítico
e a força transformadora. Confronta a ideologia do
MPLA.
• O Mayombe é Zeus, dobrado à vontade dos
homens.
Elementos Centrais
• Questionamento dos pressupostos e da
organização do MPLA.
• Retrato do tribalismo, da diversidade
Angolana e da dificuldade de síntese.
• Conflitos humanos em tempo de guerra.
• Reflexão sobre o amor e a sexualidade.
• Amadurecimento dos personagens.
Mayombe
Pepetela