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Sociologia:

Debates Atuais
Material Teórico
Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Responsável pelo Conteúdo:


Profa Dra. Marcia Barros Valdivia

Revisão Textual:
Profa. Ms. Selma Aparecida Cesarin
Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

• Introdução
• Arquitetura e Urbanismo em Ação: Reformas, Inovações e Criações
Citadinas no Século XX

·· Perceber que o espaço urbano está em constante mudança, constrói-se e se


reconstrói constantemente, que há várias cidades em uma única.
·· Conhecer os principais polos urbanos de sociabilidades que se formaram da
segunda metade do século XX até o início do XXI, entre os principais movimentos
econômicos, políticos e sociais, que deixaram seus legados impressos na cultura
urbana.

Caro(a) aluno(a)
Nesta unidade vamos estudar a respeito das cidades no pós-Segunda Guerra Mundial, que
se tornaram cada vez mais híbridas em sua paisagem urbana, como também do ponto de vista
material e humano.
Espaços de convivência e conflito, as metrópoles foram o palco de espetaculares manifestações
políticas e culturais, como, por exemplo, durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. As
desigualdades sociais e as diversidades culturais intensificaram-se cada vez mais. Centro e
periferia interligam-se em ruas, avenidas radiais, e trilhos do metrô. Encontros e desencontros
de pessoas ocorrem no ritmo das metrópoles. Permanências e rupturas moldaram a face
citadina contemporânea.
É importante lembrar que vários recursos, como as atividades de sistematização e
aprofundamento, assim como o fórum de discussão e a videoaula, são contribuintes no
processo de aprendizagem. Após usufruir desses recursos, registre as dúvidas e as discuta com
o professor tutor.
Tenha bons estudos!

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Contextualização
As cidades no pós-Segunda Guerra Mundial se tornaram cada vez mais híbridas em sua
paisagem urbana, do ponto de vista material e humano.
Espaços de convivência e conflito, as metrópoles foram o palco de espetaculares
manifestações políticas e culturais, como, por exemplo, durante as décadas de 1960, 1970 e
1980.
As desigualdades sociais e as diversidades culturais intensificaram-se cada vez mais. Centro
e periferia interligam-se em ruas, avenidas radiais e trilhos do metrô. Encontros e desencontros
de pessoas ocorrem no ritmo das metrópoles.
Permanências e rupturas moldaram a face citadina contemporânea. Assim, é importante
perceber que o espaço urbano está em constante mudança, que ele constrói-se e se reconstrói
constantemente, que há várias cidades em uma única cidade.
Conhecer os principais polos urbanos de sociabilidades que se formaram da segunda metade
do século XX até o início do século XXI, entre os principais movimentos econômicos, políticos
e sociais, que deixaram seus legados impressos na cultura urbana, é o contexto da presente
Unidade.
O link de vídeo a seguir traz imagens do Rio de Janeiro ainda como capital do país, na
década de 1950 e início da década de 1960, quando o trânsito rodoviário intensificou-se.
A paisagem humana passou a formar multidões, transitando entre as ruas, avenidas e
arranha-céus. Assim, percebe-se o quanto o avançar do tempo formou o caos urbano, na
medida em que as cidades seguiam na cadência da modernização.

Vídeo: www.youtube.com/watch?v=foRfuRPIM-M

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Introdução

No final dos anos 1940 e início dos 1950, a industrialização do país, embora dependente
do capital externo, era um fato irreversível. As expansões capitalista e urbana aumentavam
a importância das classes sociais “emergentes”. Eram elas a burguesia industrial e financeira,
as camadas médias ligadas à burocracia estatal, às empresas privadas e ao setor de serviços
urbanos e também o operariado, em sua maioria concentrado na região Sudeste.
Com o fim da guerra e a “derrota” dos regimes totalitários, a postura que Vargas manteve
durante o Estado Novo (1937-1945), com características voltadas ao autoritarismo, simpatizante
do totalitarismo, perdeu algumas de suas referências, já que as forças armadas voltaram da
Segunda Guerra para o Brasil com o espírito ideológico “democrático” e posicionado contra
o governo autoritário de Vargas.
Setores ligados ao Exército e grupos de oposição, como, por exemplo, o grupo que
representou a opinião dos intelectuais e artistas democratas no Congresso de Escritores,
realizado em São Paulo, pediram o fim do Estado Novo e a “volta da democracia”.
Assim, Vargas foi deposto e houve a eleição de um parlamento com poderes constituintes.
Ocorreu a candidatura de dois militares: o general Eurico Gaspar Dutra, ministro da guerra
durante o Estado Novo, representante da situação pela coligação PSD-PTB (Partido Social
Democrático, Partido Trabalhista Brasileiro) e o brigadeiro Eduardo Gomes, representante da
oposição pela UDN (União Democrática Nacional).
Com a vitória de Dutra (1946-1951), o Brasil continuou no período da Democracia Populista
no Brasil (1945-1964), trazendo a herança populista dos anos anteriores.1
O recorte temporal dessa Unidade perpassa a década de 1950 (1949-1959), iniciando-
se com o governo Dutra (1946-1951), passando pelo último governo Vargas (1951-1954)
e finalizando com o primeiro período do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961).
Prossegue com um panorama geral pelas décadas de 1960 (1959-1969), quando houve no
Brasil o golpe militar de 1964, de 1970 (1969-1979), quando ocorreu a abertura política, e o
fim da ditadura militar no Brasil, na década de 1980 (1979-1989).
A política e a economia do país interferiram nas decisões arquitetônicas e urbanísticas das
cidades, inclusive urbanizando a região do Centro Oeste, com a criação de Brasília para ser a
capital do país a partir da década de 1960.
As reformas urbanas foram intensas e constantes. Novidades, avanços e retrocessos fizeram
parte de todo esse longo período que a história do urbanismo brasileiro, apesar de inúmeros
estudos, ainda tem muito a desvelar.

1 Os governos populistas caracterizam-se por atrair as massas populares a participar do processo político. Essa participação, em
geral com grande visibilidade nos meios de comunicação, na verdade é submetida à direção governamental e as reivindicações populares
nem sempre são atendidas. O governo conta, no entanto, com o apoio do povo para eleger ou se reeleger, conduzindo e manipulando as
ambições nacionais. O populismo substituiu a ordem oligárquica da República Velha sem dar aos trabalhadores a autonomia política. Sobre
esse assunto, Cf. SKIDMORE, Thomas. Brasil de Getúlio a Castelo. São Paulo: Paz e Terra. 1982, p. 60-8.

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Arquitetura e Urbanismo em Ação: Reformas, Inovações


e Criações Citadinas no Século XX

A década de 1950 foi chamada de “Anos Dourados”. Naqueles anos, ideais de beleza,
charme, sofisticação e sensualidade2, ao lado de uma moral burguesa representada pelo
casamento, pela família, pela virgindade feminina e pelo trabalho, entre outros elementos,
simbolizaram uma sociedade saudável, moderna e progressista.
Esse modelo foi muito difundido no Brasil pela infiltração ideológica estadunidense, pelos
meios de comunicação de massa, como, por exemplo, o cinema hollywoodiano das décadas
de 1940 e 1950, que foi bastante significativo para a visualização do período, conforme
analisou o historiador Antonio Pedro Tota.

Fonte: Rita Hayworth/Wikimedia Commons

Para o referido autor, este veículo de comunicação foi uma das maiores inovações na área
do entretenimento e o maior divulgador do American way of life (modo americano de vida).
Segundo ele:

O componente ideológico mais importante do americanismo é o


progressivismo (…) Associado ao racionalismo, a ideia de um mundo
em abundância e capacidade criativa do homem americano. Essa
dimensão do americanismo enaltece o homem enérgico e livre,
capaz de transformar o mundo natural; graças a isso, o mercado
poderia oferecer em abundância vários produtos úteis e atraentes,
criando uma nova forma de prazer, o prazer de consumir.3

2 A sensualidade está relacionada àquilo que é agradável e prazeroso aos sentidos humanos, como o olfato, o paladar, a visão e a audição.
Sobre esse assunto, Cf. MIQUELIN, Maria Espíndola. A Linguagem da Sedução na Publicidade do Cigarro. São Paulo: PUC-SP, 1996, p.3.
3 TOTA, Antonio Pedro. O Imperialismo Sedutor. A americanização do Brasil na época da Segunda Guerra. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000, p.19. O autor faz referência em sua obra sobre a sedução ideológica do capitalismo e sua influência na
sociedade pelos meios de comunicação de massa.

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Nos anos 1950, o processo de industrialização brasileiro com ênfase na ideia de substituir a
importação de produtos industrializados pela criação de indústrias nacionais e na modernização
foi apoiado pelo capital externo. Por exemplo, o plano SALTE, durante o governo Dutra
(1946-1951), caracterizado por uma administração na qual o Estado, na concepção do novo
governo, devia interferir nas áreas sociais fundamentais, como na saúde, na alimentação,
no transporte, na energia etc. Desses setores, elaborou-se o nome do plano, formado pelas
iniciais daquelas áreas de atuação.
Entre outras obras, o referido plano proporcionou a pavimentação da rodovia Rio
de Janeiro-São Paulo, que levou o nome do presidente: Rodovia Eurico Gaspar Dutra,
inaugurada em 1951.
Na política externa, Dutra estreitou laços com os EUA, aliando-se a este contra a União
Soviética, decretando a ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
O mandato do General Dutra encerrou-se em 1951 e ele foi substituído na presidência por
Getúlio Vargas, que venceu as eleições realizadas em 1950:

Ao assumir a presidência, em janeiro de 1951, Getúlio


se deparava com um Brasil muito diferente do país
que havia governado como presidente autoritário de
1937 a 1945. A sociedade brasileira apresentava uma
estrutura de classes mais nitidamente diferenciada do
que a do tempo do Estado Novo, especialmente nos
primeiros anos. O duplo processo de industrialização
e urbanização se ampliara e fortalecera em três
setores: os industriais, a classe operária urbana e a
classe média urbana (…) Durante o princípio da
década de 50, contudo, a questão do desenvolvimento
econômico veio gradativamente a ocupar a atenção
dos políticos que, cedo, viram que as implicações
políticas do estabelecimento das diretrizes econômicas
não poderão ser ignoradas por muito tempo (…)4

Aos poucos, grandes empresas monopolistas internacionais transferiram para o Brasil


parte de sua tecnologia já ultrapassada nas matrizes. Os investimentos concentravam-
se principalmente nas indústrias de eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, máquinas,
equipamentos, comunicações e, especialmente, na indústria automobilística, de enorme
visibilidade no governo Juscelino Kubitschek, conhecido como JK e eleito como presidente
em 1956, após os acertos políticos devido ao suicídio de Vargas.
A Volkswagen (investimento alemão), a Simca (investimento francês) e a Willys Overland
(investimento estadunidense) são exemplos. Eram elas as representantes da expansão
imperialista das potências que trouxeram ao mercado brasileiro seus produtos sedutores.
As estratégias desenvolvimentistas apoiadas no capital externo tiveram enorme visibilidade
nos projetos de JK. Com a abertura do mercado interno para a entrada de diversas indústrias
e com o barateamento do fornecimento de matérias-primas, iniciava-se o seu projeto de levar
o Brasil a 50 anos de progresso em 5 anos de governo.
4 SKIDMORE, Thomas, op. cit. p.111-2.

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Prenunciado nos discursos do candidato, o clima reinante nos


primeiros anos de governo era de entusiasmo e confiança ilimitada
na “aspiração social nova”. Para alcançá-la, dizia JK – todo
sacrifício deve ser “encarado como uma espécie de redenção”.
A industrialização era apresentada, tal e qual nos anos 30, como
chave de emancipação de todos e a conquista do bem-estar geral.
Brasília, a nova capital, cuja construção JK audaciosamente
iniciou, representava o sinal “dos novos tempos”, apontando para
“um novo Brasil”, “uma nova maneira de ser”.5

Você sabia?

Saiba mais sobre a construção de Brasília por meio das experiências e vivências
dos migrantes que ajudaram a construção da capital do Brasil e o povoamento da
região Centro Oeste. São histórias de vida que vão além do urbanismo de Lucio
Costa e das edificações de Oscar Niemeyer. http://goo.gl/QwWiod

Fonte: Wikimedia Commons

Desenvolveu-se, aos poucos, durante os mandatos presidenciais dos presidentes Dutra


(1946-1951), Vargas (1951-1954) e JK (1956-1961) uma mentalidade progressista, que
passou a formar os discursos hegemônicos, contribuindo para que o clichê “Anos Dourados”
se solidificasse como imagem de um tempo repleto de maravilhas.
Mas o ciclo de crescimento e desenvolvimento do Brasil na década de 1950 e início da década
de 1960 também teve seu outro lado. A economia brasileira foi marcada pela dependência do
capital externo, baseada em padrões tecnológicos do capitalismo europeu e estadunidense,
que sustentou os novos ramos industriais (automóveis, eletrodomésticos, têxteis e sintéticos,
entre outros), que absorviam limitadamente a mão de obra disponível e acentuavam o caráter
concentracionista e internacionalizado da economia brasileira.
Os benefícios se estendiam para a burguesia, para as camadas médias e altas (engenheiros,
analistas, técnicos). Já os “soldados do desenvolvimento”, como eram chamados os operários,
participavam de forma desigual das maravilhas sedutoras do Capitalismo.
5 SKIDMORE, Thomas, op. cit., p.207.

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Dessa forma, o processo do desenvolvimento econômico e social brasileiro não se realizou
de maneira uniforme. Os discursos hegemônicos da época corroboraram a necessidade de
autoafirmação que os países chamados de subdesenvolvidos tiveram em relação aos seus
próprios processos de modernização.
Na prática, ocorria uma defasagem entre o projeto modernizador e as condições sócio
materiais para concretizá-lo efetivamente, devido ao processo histórico dos países que
tiveram um passado colonial, como o caso do Brasil. O que existiu de fato foi a elaboração de
necessidades individuais que despertaram desejos e alimentaram sonhos que foram acalentados
pelos sujeitos sociais, mas inspirados nos referenciais estrangeiros, especificamente no pós
Segunda Guerra Mundial.
Além da dependência econômica exposta até aqui, o Brasil pareceu “esforçado” para ser
semelhante ao mundo “civilizado” de europeus e estadunidenses, revelando o empenho de se
esculpir um retrato do povo brasileiro com princípios e valores trazidos de fora. È bastante
significativo ressaltar que os conceitos de modernidade, moderno e modernização foram
produzidos primeiramente nas sociedades europeias.
A ambição ao moderno e à modernidade foi aos poucos impondo os seus valores e
significados, inspirados nos moldes do American dream (sonho americano), que foi iniciado
nos tempos do entre guerras nos EUA. As indústrias cresciam de forma veloz, fossem elas
de bens de consumo duráveis, automóveis, eletrodomésticos ou de entretenimento, como o
rádio, cinema, jornais e revistas, entre outros.
A industrialização e a modernização trouxeram consigo algumas características que
marcaram esses dois fenômenos como únicos. Uma delas foi a concentração de pessoas nas
cidades. O fenômeno da multidão está presente até hoje.
A ordem capitalista seguia um esquema no qual a indústria, localizada de preferência nas
metrópoles, atraía pessoas que, em sua maioria, trabalhavam na fábrica. Explorava pessoas e
matérias primas, produzia bens para serem consumidos em grande escala, gerava competição
sem limites e aglomerava pessoas no espaço urbano.

A palavra de origem grega metro siginifica mãe, e polis significa cidade.


Metrópolis é o termo empregado para designar as cidades centrais de
Glossário áreas urbanas, formadas por cidades ligadas entre si fisicamente através
da conurbação ou de fluxos de pessoas e serviços. Assim, as metrópoles
assumem importante posição econômica, política e cultural na rede urbana.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Metrópole

Diante do American way of life (modo americano de vida), muito bem expresso nos meios
de comunicação, foi apresentada à sociedade brasileira a necessidade do bem estar, expresso
no consumismo de bens materiais, já que as indústrias estavam produzindo novidades
como eletrodomésticos, automóveis, imóveis, roupas e acessórios que marcavam a época e
delineavam estilos.
As pessoas foram seduzidas a ter bens materiais para que pudessem aceitar o convite para
entrar na sociedade de consumo, desde que tivessem o passaporte principal: “o capital”.

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Outra questão apresentada foi a preocupação com a reorganização do espaço urbano.


O embelezamento, o saneamento e a normatização passaram a representar a “ordem e o
progresso”. Para isso, fazia-se necessária a presença de profissionais que, por meio de seus estudos
científicos e racionais, colocassem em prática esses ideais, como os arquitetos e os engenheiros.
São Paulo, como metrópole, foi o grande foco iluminador, caminhando a largos passos para
a industrialização, ao lado do Rio de Janeiro, capital do país até a inauguração de Brasília, em
21 de abril de 1960.
Rio de Janeiro e São Paulo davam a visibilidade do desenvolvimento, do progresso, da
ciência, da tecnologia, da abundância, da racionalidade e da eficiência. Foram metrópoles que
serviram como exemplos de modernização.
Na década de 1950, a cidade de São Paulo se transformava de modo ousado sobre
o Planalto Paulista. O centro da cidade que, anteriormente foi formado na região mais
próxima do Vale do Anhangabaú, nas imediações da Rua Direita, da Praça Ramos de
Azevedo e do Largo São Francisco, expandiu-se para o outro lado do Viaduto do Chá,
cheio de novidades e modernizações.
A cidade foi marcada pela industrialização, pelas avenidas, pelos bondes, pelos
automóveis e também pela reurbanização, um fator considerável, porque acentuou a
formação das periferias, das favelas e dos cortiços. A metropolização se consolidava entre
o construir e o demolir, diante da desigualdade social que aumentava. Assim foi feita a
expansão urbana.
A década que tem como significado a cor dourada foi bem representada pela São Paulo
iluminada e elegante da elite e da classe média, na qual as mulheres saíam de casa com
vestidos acinturados, sapatos de salto alto, luvas, joias e ou semi joias. Os homens, de
terno, gravata e sapatos lustrados. Ambos podiam complementar o visual com o chapéu.
A “Paulicéia engomada” ainda está presente nas crônicas, nas revistas, nos jornais e nas
fotografias, como também nos livros sobre o período e nas memórias nostálgicas de quem
viveu na época.
Não faltaram vitrines enfeitadas, como da famosa loja Mappin Store, localizada na Rua
Xavier de Toledo, as casas de chá, cafés e leiterias eram bonitas e aconchegantes, a Leiteria
Campo Belo, localizada na Rua São Bento, tinha charme, a Confeitaria Vienense, na Rua
Barão de Itapetininga, tinha até apresentação de orquestra. Havia também os restaurantes,
como o Spadoni e o Gigetto, na Avenida Ipiranga. Isso tudo para aqueles que apreciavam os
passeios diurnos, vespertinos e também noturnos.
Já para os frequentadores das altas horas da noite e das madrugadas, os chamados boêmios,
havia aproximadamente vinte e sete bares e ou boates para desfrutarem. O Paribar, na Praça
Dom José Gaspar, o Brahma Bar, restaurante e boate em funcionamento até hoje, que está
localizado na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João e o Nick Bar, na Rua
Major Diogo. Esses foram exemplos dos mais famosos, curtidos e renomados lugares.
A cidade contava também com espaços de teatro. O Boa Vista, na Rua Boa Vista, o
Santana, na Rua 24 de Maio e o Municipal, na Praça Ramos de Azevedo, entre outros.

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Havia também inúmeras salas de exibição de filmes, os famosos cinemas. Numa parte da
cidade, entre as Avenidas São João e Ipiranga, havia a Cinelândia. Ali, localizavam-se os cines
Metro e Marrocos, nos quais era obrigatório o uso de vestes elegantes, como no caso do Cine
Marrocos, no qual o homem que não estivesse de gravata era barrado na porta.
Próximo às Ruas 7 de Abril, Bráulio Gomes, Marconi e 24 de Maio estavam as redações
dos jornais Diário Associados (redatores da revista O Cruzeiro), do Estado de São Paulo e
Folha da Manhã, os estúdios das rádios Difusora, Tupi, Excelsior e Record, como também as
agências de propagandas e as editoras.
Os mesmos padrões estadunidenses que faziam parte do cotidiano da sociedade paulistana
veiculavam no Rio de Janeiro.
Nas ruas, desfilavam automóveis nas versões cadillacs e rabos-de-peixe. Nos bailes, os pares
dançavam ao som de Nat King Cole, com rosto colado, ou ao som de Elvis Presley, com o seu
frenético rock and roll. Os rapazes usavam topetes com brilhantina e as moças, de vestidos
rodados, esperavam ansiosas um convite para a dança e, assim, conversar sob os olhares dos
pais, do irmão mais velho ou de uma “tia solteirona”, que as acompanhavam nos bailes.
É importante ressaltar, também, a sociabilidade noturna nos bares e boates cariocas, como
Arpége, Baccarat, Bottles Bar, Cangaceiro, Cervantes, Litte Club Manhattan, Marrocos, Vogue,
entre outros. Em alguns deles, houve glamourosas apresentações de nomes consagrados das
canções de “dor-de-cotovelo”, como Dolores Duran, Cauby Peixoto e Lupicínio Rodrigues,
entre outros artistas.

Fonte: iStock/Getty Images

No Rio de Janeiro, os estudos sobre o imaginário da cidade evocam o lazer, a


sensualidade, a beleza e o prazer. Mais que um espaço geográfico, a cidade constitui-
se numa paisagem de gestos, ritmos e cores exuberantes, em contraste com São Paulo,
“terra do trabalho”. Ocorreu que São Paulo também foi sedutora e envolvente. Além
disso, possuiu uma vida boêmia intensa e não menos interessante que a do Rio de Janeiro,
apesar de suas particularidades.6

A respeito do conceito de imaginário e sua aplicação nos


estudos históricos, veja o artigo “O conceito de imaginário:
reflexões acerca de sua utilização pela História”.
www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/download/701/522

6 Sobre esse assunto, Cf: VALDIVIA, Marcia Barros. A São Paulo Glamourosa. Encantos e desencantos (1949-1959). Tese de
Doutorado em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008.

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

As eleições para presidente da República, em 1961, deram a vitória a Jânio Quadros, que
renunciou em agosto do mesmo ano. Com esta renúncia, as Forças Armadas e os grupos
conservadores tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart (Jango), que se
encontrava em missão oficial na República Popular da China.
A Rede da Legalidade, comandada por Leonel Brizola, incentivava a resistência popular e
irradiava inflamados discursos a favor da posse de João Goulart. A solução para o impasse foi
a adoção do Parlamentarismo no Brasil.
Vale ressaltar que as medidas políticas e econômicas de João Goulart, como a mobilização
sindical, a redistribuição da renda, a reforma agrária, a Lei de remessa de lucros, o congelamento
de aluguéis e a permissão dada às manifestações estudantis, entre outras, fortaleceram a
oposição. Assim, o governo foi alvo de críticas dos conservadores da direita capitalista que, com
o apoio dos Estados Unidos, junto com os militares, planejaram o golpe, que foi consumado
em 01 de abril de 1964:

O governo de João Goulart, do início ao fim, da posse à destituição,


assolado por constantes crises de poder e institucionais, associadas
às adversidades econômico-financeiras (inflação alta, crescimento
baixo, carência de investimentos e ameaça de recessão), viveu
o tempo todo num equilíbrio instável, caminhando no “fio da
navalha”. Não é demais lembrar que Jango assumira a presidência
numa situação extraordinária, fruto de um fato imprevisto:
a renúncia intempestiva de Jânio Quadros da presidência da
República, em agosto de 1961, com somente sete meses no cargo.
Goulart, eleito vice em chapa diversa, era o sucessor imediato.
Os ministros militares das três forças, no entanto, incitados por
setores antidemocráticos das classes dominantes, resolveram
vetar arbitrariamente sua posse, alegando que ele era não só um
demagogo populista, mas um adversário da ordem (...) Goulart só
assumiria depois de uma grave crise política, ameaça de guerra
civil e uma grande mobilização em defesa da legalidade e, mesmo
assim, por meio de uma solução de compromisso com a reforma
da Constituição e o estabelecimento de um parlamentarismo de
ocasião. O parlamentarismo, eventual e de curta vigência (setembro
de 1961 a janeiro de 1963), foi deveras tumultuado, marcado por
constantes trocas de gabinetes – em apenas 16 meses, ocuparam
o cargo de primeiro ministro Tancredo Neves, Brochado da Rocha
e Hermes Lima. Em janeiro de 1963, é realizado um plebiscito
sobre o regime de governo e a volta do presidencialismo é vitoriosa.
Por larga margem de votos. Como não interessava praticamente
a ninguém, da esquerda à direta, o parlamentarismo foi derrotado
na proporção de cinco votos para um (...) O governo Jango,
acossado pela direita e pela esquerda, viveria o tempo todo na
“corda bamba”, sob dois fogos. De um lado, setores dominantes,
no mais das vezes conservadores. Já a esquerda, constituída de
grupos e vertentes bastante heterogêneas.7

7 TOLEDO, Caio Navarro. Teses Revisionistas sobre 1964: Democracia e golpismo, In: VALLE, Maria Ribeiro do. 1964-2014:
Golpe militar, história, memória e direitos humanos. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014, p.44-7.

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Diante daquele quadro social, econômico e político, no qual houve inúmeras manifestações
populares e partidárias em diversas cidades do país, os militares tomaram o poder e, por meio de
um ato institucional, iniciaram perseguição a todos que fossem considerados ameaça ao regime.
Foram vinte e um anos nos quais a ideologia da “ordem e do progresso” foi celebrada,
apesar de que, na prática, a sociedade desejasse muito contestar, reclamar e viver longe das
atrocidades do regime.
A arquitetura e o urbanismo imprimiram a identidade nacional por meio da estética
brutalista8, inserida no modernismo. Arquitetos de renome realizaram várias intervenções no
espaço urbano, no qual foi possível expressar suas diferentes linguagens personificadas em
cada obra, embora haja semelhança no uso de materiais e na estética construtiva, que está
presente nas obras de infraestrutura, como abertura de estradas e rodovias, entre outras, como
também nos edifícios de instituições estatais e ou particulares.

Os princípios essenciais do Movimento Moderno foram mantidos


rigorosamente, e as diferenças pertenceriam mais à linguagem
pessoal do arquiteto e a uma resposta ao condicionamento rural
ou urbano do sítio e ao seu ambiente “ecológico”: as casas
“tropicais” de Rino Levi não estão distantes das desenhadas por
Sérgio Bernardes; o Museu de Arte Moderna de Affonso Reidy,
no Rio de Janeiro, é tão “brutalista” quanto o MASP de Lina
Bo Bardi, em São Paulo; os grandes vãos sem apoios internos
foram utilizados igualmente por Niemeyer e Vilanova Artigas; a
viga monumental do Memorial da América Latina, de Niemeyer,
é conceitualmente parecida com a laje do Mube de Paulo
Mendes da Rocha. Não é por acaso que Sérgio Ferro, oposto
à noção de “estilo”, criticasse intensamente o formalismo e o
exibicionismo estrutural de um “brutalismo caboclo” assumido
como brasileiro.9

Fonte: Dennis Fidalgo/Wikimedia Commons

8 A arquitetura brutalista foi um movimento arquitetônico desenvolvido por arquitetos europeus pós-Segunda Guerra Mundial. Em
meados das décadas de 1950 e 1960, as obras começaram a ser edificadas na sociedade. A estética brutalista privilegia a verdade estrutural
das edificações, ou seja, não esconde os seus elementos estruturais, deixando visível o concreto armado e ou destacando os perfis metálicos
de vigas, pilares e conduites. Confira o site www.arquiteturabrutalista.com.br/index1port-conceitos.htm.
9 Sobre esse assunto, Cf: SEGRE, Roberto. O Eterno Vazio e a Realidade na Arquitetura Brasileira. Disponível em:
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/137/o-eterno-vazio-22214-1.aspx.

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Estiveram nessa empreitada profissionais que, contraditoriamente, foram perseguidos pelo


Estado ditatorial por serem militantes da esquerda, como, por exemplo, João Batista Vilanova
Artigas e Oscar Niemeyer, entre outros, que se destacaram naquele período:

[...] no período da ditadura militar, regime que pretendia


construir o “Brasil grande e moderno”, não aconteceu o “silêncio
arquitetônico”. Ao contrário, foram produzidas obras significativas
em todo o País. Como os arquitetos e os edifícios dependem mais
da economia do que de ideologia, ocorreu em quase todos os
países da América Latina que, das mais duras ditaduras - como
a de Pinochet no Chile, e a de Videla na Argentina - surgiriam
prédios de qualidade projetados por reconhecidos profissionais.10

Você pode conhecer as principais obras da Engenharia e da


Arquitetura durante o regime militar no Brasil no link:
www.youtube.com/watch?v=12NudIjjxN4

Entre o século XX e o início do século XXI, o espaço urbano tornou-se cada vez mais híbrido.
A paisagem humana, natural e arquitetônica desenvolveu-se cada vez mais multifacetada e
desigual, na qual podemos encontrar várias cidades em apenas uma.
Dessa forma, existe uma complexidade formadora do paisagismo urbano, que é
composto por elementos naturais e culturais. Inseridos no âmbito cultural, estão os aspectos
sociopolíticos e econômicos.
O resgate histórico dos principais marcos naturais e culturais das paisagens urbanas permite-
nos ler a cidade e assim interpretá-la também de diversas formas, mas o importante é perceber
as causas de seus problemas e avaliar possíveis soluções diante do conhecimento de cada
realidade histórica citadina.
Assim, propõe-se a seguinte reflexão:

A cidade é representação já no próprio plano urbano que a prefigura


ou mesmo naquele que registra em um momento posterior a sua
forma desenvolvida. Quando o plano original da cidade é concebido
por um homem ou grupo de homens específicos, parece ficar mais
claro que estes trazem para o traçado urbano a sua própria visão de
mundo e o universo cultural no qual se acham mergulhados. Mas da
mesma maneira, quando se produz um “plano espontâneo”, por mais
contraditória que seja esta expressão, cada novo habitante contribui
de maneira microscópica para um traçado que, na sua totalidade e no
seu conjunto de detalhes, revelará também uma concepção geral do
mundo. O tijolo que se acrescenta e a estrada que se força a aparecer
por entre um grupo de árvores, nada disto é rigorosamente gratuito.
A cidade, tal como já se assinalou (...) é também obra coletiva.11

Portanto, as cidades do litoral, do interior, das montanhas, dos vales e dos grandes centros
metropolitanos vão modificando-se, equilibrando-se no fio condutor da História, que apresenta
a todo instante desafios a serem vencidos. Afinal, o tempo não para.
10 PADOVANO, Bruno Roberto. Arquitectura contemporánea en Brasil: !Qué ha ocurrido después de Brasilia!, In: Revista de
Cultura Brasileña no 2, setembro 1997, p.14-99.
11 BARROS, José D`Assunção. Cidade e História. Rio de Janeiro: Vozes, 2007, pp. 93-94.

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Material Complementar

Vídeos:
Faça a leitura crítica da minissérie “Anos Dourados”, com base naquilo que foi estudado
na Unidade VI, a partir dos comentários do elenco e do autor Gilberto Braga, ressaltando
os conflitos da vida privada que permearam o cotidiano da classe média carioca na
década de 1950. Documentário disponível em:
http://globotv.globo.com/rede-globo/memoria-globo/v/webdoc-minisserie-anos-dourados-1986/2094415/

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Unidade: Cidades híbridas, metrópoles em trânsito

Referências

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Historia e Teoria (UFRJ).

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Anotações

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