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Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Minas Gerais

PROJETO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA

É o CRMV-MG participando do processo de atualização


técnica dos profissionais e levando informações da
melhor qualidade a todos os colegas.

VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL
compromisso com você

www.crmvmg.org.br
Editorial
A Escola de Veterinária e o Conselho Regional de
Medicina Veterinária de Minas Gerais têm a satisfação
de encaminhar à comunidade veterinária e zootécnica
mineira um volume dos Cadernos Técnicos destinado à
Criação de Bezerras Leiteiras, para a educação continua-
da da comunidade dos médicos veterinários e zootecnis-
tas de Minas Gerais. O manejo da vaca leiteira no perí-
odo pré-parto ou período seco é importante não apenas
para o desenvolvimento fetal, mas também para a involu-
ção e a regeneração da glândula mamária, determinantes
da produção leiteira na próxima lactação. Por sua vez,
as instalações adequadas para bezerras proporcionam a
proteção contra os extremos térmicos e climáticos, aces-
so ao alimento, segurança a traumas e controle geral da
saúde e do bem-estar. A partir de 2002, tem-se discutido
o fornecimento de mais volume de dieta líquida duran-
te o crescimento acelerado. Entretanto, a dieta líquida
é onerosa e representa até 70% dos custos variáveis e,
considerando os riscos com o uso de leite de descarte,
buscam-se alternativas como sucedâneos no aleitamento
integral. Para o desenvolvimento adequado dos pré-es-
tômagos e a gradual substituição do leite ou sucedâneo
por alimentos sólidos é necessário o consumo precoce
Universidade Federal
de concentrado com a produção de ácidos graxos volá-
de Minas Gerais teis, que resultam na conformação do sistema digestivo
Escola de Veterinária e mudanças no metabolismo do animal. Como o desen-
Fundação de Estudo e Pesquisa em
Medicina Veterinária e Zootecnia volvimento ruminal é fator chave para o desaleitamento
- FEPMVZ Editora de bezerras, a alimentação com forragem contribui na
Conselho Regional de evolução dessas etapas. O presente número aborda obje-
Medicina Veterinária do
Estado de Minas Gerais tivamente os principais temas que envolvem os aspectos
- CRMV-MG mais modernos da criação de bezerras de leite.
www.vet.ufmg.br/editora
Correspondência:
Prof. Nelson Rodrigo da Silva Martins - CRMV-MG 4809
Editor dos Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia
FEPMVZ Editora Prof. Renato de Lima Santos - CRMV-MG 4577
Caixa Postal 567
Diretor da Escola de Veterinária da UFMG
30161-970 - Belo Horizonte - MG
Telefone: (31) 3409-2042 Prof. Antonio de Pinho Marques Junior - CRMV-MG 0918
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E-mail:
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Presidente do CRMV-MG
Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Minas Gerais
- CRMV-MG
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Prof. Nivaldo da Silva
E-mail: crmvmg@crmvmg.org.br
CADERNOS TÉCNICOS DE
VETERINÁRIA E ZOOTECNIA
Edição da FEPMVZ Editora em convênio com o CRMV-MG
Fundação de Estudo e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia - FEPMVZ
Editor da FEPMVZ Editora:
Prof. Antônio de Pinho Marques Junior
Editor do Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia:
Prof. Nelson Rodrigo da Silva Martins
Editores convidados para esta edição:
Sandra Gesteira Coelho
Rafael Alves de Azevedo
Revisora autônoma:
Giovanna Spotorno
Tiragem desta edição:
1.000 exemplares
Layout e editoração:
Soluções Criativas em Comunicação Ldta.
Impressão:
Imprensa Universitária da UFMG

Permite-se a reprodução total ou parcial,


sem consulta prévia, desde que seja citada a fonte.

Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia. (Cadernos Técnicos da Escola de Veterinária da


UFMG)
N.1- 1986 - Belo Horizonte, Centro de Extensão da Escola deVeterinária da UFMG, 1986-1998.
N.24-28 1998-1999 - Belo Horizonte, Fundação de Ensino e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia, FEP MVZ Editora, 1998-1999
v. ilustr. 23cm
N.29- 1999- Belo Horizonte, Fundação de Ensino e Pesquisa em Medicina Veterinária e
Zootecnia, FEP MVZ Editora, 1999¬Periodicidade irregular.
1. Medicina Veterinária - Periódicos. 2. Produção Animal - Periódicos. 3. Produtos de Origem
Animal, Tecnologia e Inspeção - Periódicos. 4. Extensão Rural - Periódicos.
I. FEP MVZ Editora, ed.
Prefácio
Editores Convidados:
Sandra Gesteira Coelho1
Rafael Alves de Azevedo2
Escola de Veterinária UFMG1
Doutorando Escola de Veterinária UFMG2

A importância de se executar bem a


criação de bezerras e novilhas está em
fornecer bons animais para a reposição
do rebanho e possibilitar a redução da
idade do primeiro parto com menor cus-
to. Além dessas vantagens, outras tam-
bém têm sido relatadas, como: o melho-
ramento da saúde, da imunidade e, ainda
é possível, do ganho em produção de lei-
te nas lactações futuras. Os aspectos mais
importantes e críticos para obtenção de
bezerras saudáveis estão relacionados às
instalações onde são acolhidas -mater-
nidade e bezerreiro -, ao fornecimento
do colostro, a cura do umbigo, ao forne-
cimento de dieta líquida e sólida, ao de-
senvolvimento do rúmen e a integração
do manejo da alimentação e do ambien-
te. A importância do manejo, no final da
gestação, das instalações e do manejo da
alimentação serão os tópicos abordados
neste volume. Agradecemos a todos os
autores pela disponibilidade em escrever
os capítulos tratados aqui, trazendo suas
experiências profissionais para todos os
Médicos Veterinários e Zootecnistas do
Estado de Minas Gerais.
Sumário

1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e saúde dos


bezerros.......................................................................................................9
Sha Tao e Ana Paula Alves Monteiro

Entenda os efeitos do manejo durante o período pré-parto no crescimento e na


saúde de bezerros leiteiros.

2. Instalações para bezerras leiteiras................................................................26


Carla Maris Machado Bittar

Conheça os diferentes sistemas de criação de bezerras e as instalações


utilizadas.

3. Dieta líquida para bezerras ..........................................................................45


Sandra Gesteira Coelho, Rafael Alves de Azevedo e Camila Flávia de Assis Lage

Conheça as novas recomendações para o fornecimento de leite e sucedâneo


para bezerras e suas implicações no desenvolvimento do animal.

4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras...................................................56


Carla Maris Machado Bittar, Lucas Silveira Ferreira e Jackeline Thais da Silva

Aprenda a escolher um bom sucedâneo para bezerras.

5. Concentrado e água para bezerras ...............................................................75


Sandra Gesteira Coelho

Entenda a importância do fornecimento precoce do concentrado e de água


sobre o desenvolvimento do rúmen.

6. Forragem para alimentação de bezerras ......................................................91


Marta Terré, Llorenç Castells

Conheça os efeitos dos volumosos no desenvolvimento das bezerras.


1. Efeitos do
manejo no
período pré-
parto sobre o
crescimento
e a saúde dos
bezerros
bigstockphoto.com

Sha Tao 1

Ana Paula Alves Monteiro1


1
Department of Animal and Dairy Science, University of Georgia, Tifton 31794

Introdução tação (Capuco et al., 1997; Sorensen


et al., 2006). Além disso, o período de
O período pré-par- transição é caracterizado
to ou período seco da O período de transição por disfunção imune e
vaca leiteira é impor- é caracterizado por desafios metabólicos,
tante não apenas para o disfunção imune e o que leva ao uso de
desenvolvimento fetal, desafios metabólicos, diferentes estratégias
mas também para a in- o que leva ao uso de nutricionais e de mane-
tensa involução e re- diferentes estratégias jo durante o pré-parto,
generação da glândula nutricionais e de manejo visando melhorar o de-
mamária, os quais são durante o pré-parto, sempenho da vaca no
fatores que determinam visando melhorar o período pós-parto (revi-
a produção leiteira da desempenho da vaca no sado por Mallard et al.,
vaca na próxima lac- período pós-parto. 1998; Drackley, 1999;
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 9
Tao e Dahl, 2013). Durante os últimos de gestação, o que requer que grandes
dois meses de gestação, o crescimento quantidades de nutrientes sejam absor-
fetal encontra-se em sua mais alta taxa e vidas por meio da placenta (Bauman e
responde por cerca de 60% do peso cor- Currie, 1980). Diferentes status nutri-
poral no nascimento (Bauman e Currie, cionais do animal gestante podem ter
1980). A colostrogênese ocorre durante influências profundas na prole. Estudos
as últimas semanas de gestação e é fator conduzidos em outras espécies de ru-
crítico para a imunidade passiva do be- minantes, tais como bovinos de corte
zerro e sua saúde futura. Práticas de ma- e ovinos, têm mostrado
nejo que afetam a vaca que diferentes regimes
durante o período pré- Alterações moderadas nutricionais ou suple-
-parto também impac- na ingestão de energia
mentos têm efeito resi-
tam o crescimento e a e de nutrientes durante
dual na vida pós-natal
saúde da prole (revisado esse estágio da gestação
por Arnott et al., 2012; geralmente não afetam da prole, mas estudos si-
milares em vacas de leite
Merlot et al., 2013). Em o peso corporal do
comparação com outras bezerro ao nascimento, são relativamente limita-
espécies, pesquisas que mas podem influenciar dos. Para alcançar a con-
o desenvolvimento do dição corporal ótima da
avaliam o impacto do vaca desde a secagem até
manejo durante o perío- feto e o desempenho
pós-natal da prole. o parto, atender as ne-
do pré-parto no cresci- cessidades nutricionais e
mento e na saúde da cria minimizar a redução da
são relativamente limitadas em gado de ingestão de matéria seca (IMS) duran-
leite. Este capítulo tenta resumir os efei- te as últimas semanas antes do parto, o
tos de estratégias de manejo, durante o
período pré-parto é dividido em perío-
período pré-parto no crescimento e na
do seco imediato (da secagem até três
saúde de bezerros leiteiros.
semanas antes do parto) e período pró-
ximo ao parto (período correspondente
Manejo nutricional às três últimas semanas antes do parto).
O manejo nutricional durante o Durante o período seco imediato,
período pré-parto é crítico para a ma- as vacas devem manter balanço positivo
nutenção de uma condição corporal de energia e proteína. Dietas de baixa
ótima. Afeta o desempenho na próxima densidade energética são tipicamente
lactação e influencia diretamente a fun- fornecidas para prevenir a deposição
ção imune e a saúde da vaca no período excessiva de gordura corporal. A res-
de transição. A taxa de crescimento fetal trição da ingestão total de nutrientes
é maior durante os últimos dois meses não deve ter impacto no crescimento

10 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


fetal ou no desempenho pós-natal do tação pode afetar o desenvolvimento do
bezerro. Da mesma forma, a restrição sistema imune do bezerro e sua habili-
da IMS de vacas em até 75% da inges- dade de lidar com o estresse oxidativo
tão ad libitum, durante o período seco no início de sua vida (Gao et al., 2012).
imediato, não teve efeitos negativos no Além disso, Osorio et al. (2013) rela-
peso corporal do bezerro no nascimen- taram que bezerros nascidos de vacas
to, no crescimento pós-natal, no teor de alimentadas com dieta de moderada
imunoglobulina, no colostro e na imu- energia (1.47 Mcal/kg), durante o pe-
nidade passiva (Nowak et al., 2012). Por ríodo próximo ao parto, apresentaram
outro lado, durante o período próximo maior capacidade fagocítica de neutró-
ao parto, devido à redução gradual da filos quando comparado àquela obser-
IMS, uma dieta de moderada densidade vada em bezerros de vacas alimentadas
energética é comumente fornecida às com dieta de baixa energia (1.24 Mcal/
vacas. Alterações moderadas na inges- kg), indicando melhora da imunidade
tão de energia e de nutrientes durante inata. Muito cuidado deve ser tomado
esse estágio da gestação geralmente não ao interpretar os dados discutidos aci-
afetam o peso corporal do bezerro no ma, uma vez que vacas alimentadas com
nascimento, mas podem influenciar o dieta de baixa energia normalmente
desenvolvimento do feto consomem menos MS,
e o desempenho pós-na- A nutrição proteica é levando a redução da in-
tal da prole. essencial no manejo gestão total de proteínas
Quando vacas no pe- nutricional de vacas metabolizáveis e outros
ríodo próximo ao parto no pré parto e pode ser nutrientes. Portanto, são
foram alimentadas com um fator limitante no necessárias mais pesqui-
dietas de diferentes den- desenvolvimento e na sas para estabelecer se
sidades energéticas (bai- saúde da prole. apenas a diminuição no
xa: 1,25 Mcal/kg; mé- consumo de energia, em
dia: 1,41 Mcal/kg; alta: vacas do período seco
1,55 Mcal/kg), os bezerros das vacas imediato ou do período próximo ao par-
alimentadas com a dieta de alta ener- to, seria capaz de alterar o desempenho
gia apresentaram maior porcentagem dos bezerros.
de linfócitos T CD4 sanguíneos, maior A nutrição proteica é essencial no
concentração plasmática de interleuci- manejo nutricional de vacas no pré-
nas 2 e 4, e maior nível de marcadores -parto e pode ser um fator limitante no
antioxidantes sanguíneos. Esses resul- desenvolvimento e na saúde da prole.
tados sugerem que o plano de nutrição Estudos com gado de corte (Revisado
durante as últimas três semanas de ges- por Funston et al., 2010) e ovelhas

1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 11


(Van Emon et al., 2014) sugerem que a tendo gordura suplementar (4,7-5,1%
restrição proteica ou a suplementação da MS da dieta, com 67-79 g de ácido
durante o período gestacional altera o linoleico/100g de gordura) nos últimos
crescimento, a qualidade de carcaça e a dois meses de gestação, com o uso de se-
saúde da prole. Em gado leiteiro, Burton mente de cártamo, tiveram melhora da
et al. (1984) relataram que diferentes resposta térmica e fisiológica ao estresse
teores de proteína bruta (918 vs 1598 causado pelo frio imediatamente após
g/d) em dietas de novilhas Holandesas o nascimento, quando comparado aos
no final da gestação, não tiveram impac- bezerros nascidos de novilhas alimenta-
to no peso corporal no nascimento do das com dietas de baixo teor de gordura
bezerro ou na concentração de imuno- (1,7-2,2% da MS da dieta, Lammoglia
globulinas (Ig) no colostro, mas os be- et al., 1999 a, b). Esses resultados suge-
zerros de mães alimentadas com dieta rem que a suplementação de gordura e/
de baixa proteína tiveram a imunidade ou de AG específico (tal como o ácido
passiva prejudicada e menor concentra- linoleico), durante o final da gestação,
ção sanguínea de Ig até 15 dias após o altera o desenvolvimento fetal e, con-
nascimento, comparado àqueles bezer- sequentemente, a termogênese e tole-
ros de mães alimentadas com dieta de rância ao frio do recém-nascido. Vacas
alto conteúdo proteico. Esses dados su- leiteiras no final da gestação suplemen-
gerem que a concentração de proteínas tadas com óleo de peixe (300 g/d con-
na dieta materna pode exercer efeitos tendo 1,9 g de ácido eicosapentaenóico
residuais no desempenho pós-natal dos e 1,4g de ácido docosahexaenóico/100
bezerros, entretanto, ainda não existem g de AG) pariram bezerros com maio-
estudos mais abrangentes nessa área res concentrações plasmáticas de ácido
para gado de leite. docosahexaenóico comparado àqueles
Além do teor energético e proteico nascidos de vacas alimentadas com AG
na dieta, outros suplementos da dieta saturados (240 g/d) ou óleo de linha-
materna podem exercer efeitos residuais ça (300 g/d contendo 18,7 g de ácido
no desempenho dos bezerros. Em rumi- α-linolênico/100 g de AG) (Moallem e
nantes, a transferência de ácidos graxos Zachut, 2012). Entretanto, ainda é des-
(AG) maternos para o feto por meio da conhecido se essa diferença exerceria
placenta é muito limitada, mas determi- algum efeito sobre o desempenho dos
nados AG têm a capacidade de entrar bezerros.
na circulação fetal e afetar o desenvol- Vacas Holandesas suplementadas
vimento do feto. Bezerros de corte nas- com sais de cálcio de AG (2,0 % da MS
cidos na primavera, provenientes de da dieta, contendo 27,4 g de ácido lino-
novilhas alimentadas com dietas con- leico/100 g de AG) pariram bezerros
12 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
com maiores concentrações plasmáticas -nascido, o qual depende de eficiente
de ácido linoleico e seu derivado ácido transferência placentária (revisado por
gama-linolênico, mas com menores Enjalebert, 2009). Os microminerais
concentrações dos ácidos eicosapentae- influenciam a função imune principal-
nóico e docosahexaenóico comparado mente devido ao seu papel como um
com bezerros nascidos de vacas suple- antioxidante e também por meio da in-
mentadas com AG saturado (1,7% da fluência no teor mineral do colostro e
MS da dieta, Garcia et al., 2014a). Esses no status dos recém-nascidos, exercen-
dados sugerem que a síntese e a trans- do assim um impacto na função imune,
ferência materna de AG pela placenta na saúde e no crescimento do bezerro
é bem regulada. Consequentemente, (Enjalbert, 2009). Em um estudo re-
esses AG podem ter uma função no de- trospectivo, envolvendo 10.325 ani-
senvolvimento fetal e no desempenho mais, em 2.080 fazendas de corte e lei-
pós-natal dos bezerros. te da Europa, Enjalbert
A suplementação de di- Os microminerais et al. (2006) relataram
ferentes fontes de AG, influenciam a função que o status de cobre,
durante o final da gesta- imune principalmente zinco e selênio em vacas
ção em vacas de leite, in- devido ao seu papel são fatores de risco para
fluenciou a imunidade e como antioxidante e a mortalidade perina-
o crescimento pós-natal também por meio da tal, as doenças e a baixa
da prole (Garcia et al., influência no teor de taxa de crescimento de
2014a, b). Bezerros nas- mineral do colostro e no bezerros jovens, o que
cidos e alimentados com status do recém-nascido, confirma a importância
o colostro de vacas su- exercendo assim um desses microminerais na
plementadas com ácidos impacto na função nutrição materna para o
graxos saturados tiveram imune, na saúde e no desenvolvimento fetal e
melhor transferência crescimento do bezerro. desempenho pós-natal
de imunidade passiva dos bezerros.
e maior ganho de peso, Além da quantidade
apesar de apresentarem menor capaci- de microminerais na dieta, a fonte da
dade fagocítica de neutrófilos, durante o qual esses minerais são obtidos tam-
período de pré-desmame. bém faz diferença. A comparação de
Os microminerais também são im- vacas suplementadas com cobre, zinco,
portantes na nutrição de vacas no perío- cobalto e manganês inorgânico ou uma
do de transição devido ao seu papel na combinação de minerais inorgânicos
função metabólica e imune, assim como com complexos de aminoácidos e mi-
no status de microminerais do recém- nerais (minerais orgânicos), durante
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 13
o período próximo ao bezerros de vacas que ti-
Bezerros de vacas que
parto, mostrou maiores
tiveram pelo menos uma veram pelo menos uma
concentrações de IgG doença dos 280 aos 50
doença dos 280 aos
no colostro produzido
50 dias antes do parto dias antes do parto ti-
quando a combinação
tiveram maior risco de veram um maior risco
foi fornecida (Kincaid et relativo de desenvolver
desenvolver doenças
al., 2004). De forma se-
respiratórias durante o doenças respiratórias
melhante, quando 66,6 período pré-desmame. durante o período pré-
mg/kg MS de sulfato de O que sugere que o -desmame, o que sugere
zinco foi substituído por desenvolvimento do que o desenvolvimento
um complexo de ami- sistema imune do feto do sistema imune do
noácido e zinco, em die- pode ser comprometido feto pode ser compro-
tas do período próximo pelo status de saúde da metido pelo status de
ao parto (75 mg/kg MS mãe. saúde da mãe. De forma
de zinco total), o colos- interessante, a incidên-
tro de vacas multíparas cia de mastite clínica du-
apresentou maiores concentrações de rante os últimos 49 dias de gestação foi
IgG (Nayeri et al., 2014). A qualidade associada a bezerros menores no nasci-
do colostro, especialmente o teor de mento (Lundborg et al., 2003), o que
IgG, é de grande importância para a demonstra a importância de práticas de
imunidade passiva, o futuro crescimen- manejo para prevenção de doenças du-
to e a saúde dos bezerros (Quigley and rante o período de gestação avançada,
Drewry, 1998), portanto a fonte dos mi- tal como a terapia de vaca seca.
crominerais na dieta das mães pode ter A vacinação no período de gestação
significativa influência no desempenho avançada é outra estratégia de mane-
da prole. jo importante, não apenas para a pre-
venção de doenças em vacas, durante
Saúde, vacinação de vacas o período seco e a lactação seguinte,
e dificuldade do parto mas também para aumentar as con-
Um dos objetivos de uma fazen- centrações de anticorpos específicos
da leiteira é manter as vacas saudá- nos bezerros por meio da transferência
veis e reduzir a incidência de doenças. passiva. Por exemplo, a vacinação de va-
Entretanto, a relação entre o status de cas leiteiras com extrato bacteriano de
saúde da mãe e o desempenho da pro- Salmonella (Smith et al., 2014) e com
le é frequentemente negligenciado. Em a vacina contra Pasteurella haemolytica
um grande estudo conduzido na Suécia, (Rodagens e Shewen, 1994) durante o
Lundborg et al. (2003) relataram que período seco, aumenta a concentração
14 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
de anticorpos no colostro e no soro de ção e metrite (revisado por Mee, 2008).
bezerros após a ingestão do colostro de O custo do tratamento e a perda de pro-
suas respectivas mães. Entretanto, diver- dução, ou a morte da vaca, ou do bezer-
sas considerações devem ser feitas para ro, são bastante caros. Pelo lado da vaca,
que se desenvolva um programa de va- a assistência durante o parto está asso-
cinação materna bem-sucedido. O perí- ciada à redução da produção e fertilida-
odo de vacinação é crítico, uma vez que de, aumento da incidência de doença e
algumas semanas são necessárias para alto risco de descarte do animal (Mee,
que a vaca desenvolva 2008). Pelo lado do be-
uma resposta máxima de É importante vacinar as zerro, a ocorrência de
anticorpo, além do fato vacas não menos do que distocia resulta em uma
de que a transferência três ou quatro semanas maior resposta ao estres-
de anticorpos do sangue antes do parto, a fim se após o nascimento e
para a glândula mamária de garantir que ocorra elevadas taxas de morbi-
apenas acontece durante a transferência de IgG dade e mortalidade du-
as últimas três ou qua- para o colostro. rante o período de pré-
tro semanas de gestação. -desmame, prejudicando
Assim, é importante vacinar as vacas o bem-estar geral do bezerro (Barrier et
não menos do que três ou quatro se- al., 2013). A dificuldade no parto é um
manas antes do parto, a fim de garantir problema multifatorial (Mee, 2008),
que ocorra a transferência de IgG para entretanto muitas práticas de manejo
o colostro. O mais importante é que o durante o pré-parto podem ser conside-
programa de vacinação durante o perí- radas como fatores de risco. Por exem-
odo seco não pode servir como um mé- plo, o aumento da concentração de
todo de substituição ao manejo adequa- hormônios de estresse circulante, como
do do colostro e dos bezerros. De fato, resultado de estresse periparto, é asso-
em rebanhos com ocorrência de falha ciado com estenose vulvar ou cervical
de transferência de imunidade passiva (Mee, 2008), o que poderia resultar em
a vacinação das mães não traz nenhum dificuldades no parto.
benefício prático aos bezerros (Hodgins Como será descrito posteriormen-
e Shewen, 1994). te neste capítulo, fatores de manejo
A ocorrência de dificuldade do par- no pré-parto que induzem estresse na
to, tecnicamente chamada de distocia, vaca resultam em maior incidência de
não é incomum em fazendas leiteiras, distocias. O cálcio é importante para a
no entanto pouca atenção tem sido dada contração muscular e a hipocalcemia
a esse problema quando comparado a e a hipomagnesemia, no período pe-
outras doenças como mastite, claudica- riparto, podem resultar em falhas na
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 15
contração miometrial e, fisiológica, o que por sua
Práticas de manejo
consequentemente, na vez altera o seu metabo-
durante o período
expulsão do feto durante lismo e função imune e,
pré-parto, como, por
o parto, resultando em eventualmente, seu cres-
exemplo, o transporte
distocias (Mee, 2008). cimento, sua produtivi-
de animais, podem
A utilização de dietas disparar respostas dade e sua saúde. No que
com balanço catiôni- de estresse na mãe se refere a um animal ges-
co-aniônico negativo, e influenciar o tante, o estresse materno
durante o período seco, desempenho pós-natal não influencia apenas o
estimula a absorção de da progênie. comportamento e o de-
cálcio no intestino e a sempenho da mãe, mas
reabsorção do cálcio de- também exerce efeito
positado nos ossos, auxiliando na ma- no desenvolvimento fetal por meio das
nutenção de uma concentração ótima respostas fisiológicas que encontram-se
de cálcio no sangue durante o início da alteradas. Hormônios de estresse como
lactação, o que pode ajudar na preven- o cortisol podem atravessar a placenta e
ção de distocias. Apesar de que a in- entrar na circulação do feto (Dixon et
fluência do escore de condição corporal al., 1970). A elevação artificial da con-
(ECC) e da variação no ECC durante o centração de cortisol materno, durante
período seco sobre a incidência de par- o período final da gestação em ovelhas,
tos distócicos ainda ser discutível (revi- altera o metabolismo de glicose e a sen-
sado por Roche et al., 2009), a alimenta- sibilidade à insulina pós-natal dos car-
ção excessiva durante o período final da neiros e parece comprometer as funções
gestação aumenta o tamanho do feto e a cardiovascular e renal, aumentando a
deposição de gordura no canal do parto, incidência de natimortos (Keller-Wood
o que contribui para a ocorrência de dis- et al., 2014; Antolic et al., 2015).
tocias (revisado por Mee, 2008). Práticas de manejo durante o pe-
ríodo pré-parto, como, por exemplo, o
Estresse e manejo transporte de animais, podem disparar
É largamente aceito que o bem-estar respostas de estresse na mãe e influen-
do animal é fator crítico para a obtenção ciar o desempenho pós-natal da progê-
de um desempenho ótimo, e que o au- nie. No gado de corte o transporte repe-
mento de resposta ao estresse durante a tido, do começo até o meio da gestação,
rotina de produção e o manejo animal altera as respostas fisiológicas da pro-
pode comprometer a saúde e a produti- gênie e diminui a adaptação ao estresse
vidade do animal. Sob condições de es- no período pós-natal (Lay et al., 1997).
tresse o animal apresenta forte resposta Durante a gestação avançada, o manejo
16 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
rude ou aversivo (movimentação rápida vada nos piquetes durante o pré-parto
e gritos) aumenta a liberação de cor- influencia a resposta da vaca ao estresse.
tisol nas ovelhas, quando comparado Em comparação com a densidade de
a um manejo gentil (comportamento 100% (1 vaca/estábulo, 0,67 m de espa-
calmo e falar suave) (Hild et al., 2011). ço linear para alimentação), a superlo-
Carneiros de mães tratadas de forma tação de vacas secas (2 vacas/estábulo,
rude exibiram níveis aumentados de 0,34 m de espaço linear para alimen-
medo durante o início da vida pós-na- tação) apresentou uma tendência de
tal (Coulon et al., 2011). Apesar de não maior conteúdo fecal de 11,17-dioxoan-
serem bem documentadas as respostas drostano, um metabólito do cortisol,
alteradas de estresse e do medo na prole, durante o período de pré-parto, indican-
devido ao estresse materno podem ter do um maior nível de estresse (Huzzey
impactos negativos na resposta do ani- et al., 2012). Devido à elevada resposta
mal ao manejo normal (descorna, agru- de cortisol estratégias de manejo estres-
pamento e desmame), o que poderia santes durante o pré-parto afetariam ne-
comprometer o crescimento e a saúde gativamente o desenvolvimento fetal e o
da prole. desenvolvimento pós-natal da prole.
Em gado de leite o impacto do es- O início da lactação é caracteriza-
tresse materno relacionado ao manejo do por um balanço negativo de ener-
sobre o desempenho do bezerro não é gia, resultando em uma alta incidência
bem documentado, mas deve ser consi- de cetose. A diminuição (≤ 30 d) ou a
derado quando quaisquer estratégias de omissão do período seco tem se mostra-
manejo forem implementadas no perío- do capaz de melhorar o balanço energé-
do de pré-parto. Durante o período seco tico e reduzir a incidência de cetose no
não é incomum o reagrupamento de início da lactação, apesar de ser associa-
animais, seja no período seco imediato do a uma redução na produção de leite
ou no período próximo ao parto, a fim (Grummer e Rastani, 2004). Quando
de manter a densidade animal ideal; en- comparado com a duração tradicional
tretanto, essa mistura é frequentemente do período seco (45-60d), o período
associada ao aumento das concentra- seco curto (30d) não tem influência na
ções de cortisol antes do parto, quando duração da gestação, do peso do bezer-
comparado à estratégia de agrupamento ro no nascimento, do rendimento e da
all-in-all-out (em que as vacas perma- qualidade do colostro e da imunida-
necem no mesmo grupo até que todas de passiva do bezerro (Mayasari et al.,
tenham parido sem que haja a introdu- 2015). Entretanto, um estudo recente
ção de vacas novas no grupo) (Silva et (Mayasari et al., 2015) mostrou que a
al., 2013). Uma densidade animal ele- omissão do período seco reduziu o peso
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 17
do bezerro no nascimento e também escuro). Em contraste, regimes de foto-
a produção e a concentração de Ig do período diferentes durante o período de
colostro, resultando em menor transfe- pré-parto não tiveram impacto no volu-
rência de Ig aos bezerros recém-nasci- me de colostro e no teor de Ig (Morin et
dos. Apesar de que os bezerros de vacas al., 2010), mas não há dados avaliando o
sem o período seco exibiram respostas impacto direto do fotoperíodo durante
humorais mais fortes a um processo de a gestação avançada no desenvolvimen-
imunização durante o período pós-des- to fetal e desempenho da performance
mame, a ordenha contínua das mães po- da prole em gado de leite.
deria representar um risco de doenças Outro fator ambiental que afeta o
aos bezerros devido ao comprometi- desempenho da vaca é o desafio térmi-
mento da imunidade passiva no come- co, incluindo ambos os estresses tér-
ço de suas vidas (Mayasari et al., 2015). micos causados pelo calor e pelo frio.
Além disso, Lundborg et al. (2003) Considerando-se que a grande parte
observaram uma associação entre o pe- das pesquisas com estresse térmico
ríodo seco de curta duração (< 45 d) e pelo calor ou pelo frio são focadas em
maior risco relativo de doenças respira- vacas leiteiras Holandesas, a variação
tórias em bezerros antes do desmame. da tolerância térmica entre espécies e
subespécies diferentes deve ser conside-
Fatores ambientais rada quando o conhecimento aqui apre-
Diferentes fatores ambientais, du- sentado for aplicado a outras espécies
rante o período seco, afetam o desem- leiteiras. Apesar do estresse pós-natal
penho da vaca no período de transição pelo frio afetar negativamente a imuni-
e na lactação subsequente. Por exemplo, dade e o desempenho do bezerro, não
como revisado por Dahl et al. (2012), há pesquisas que estudem os efeitos do
vacas multíparas Holandesas submeti- estresse pelo frio durante o pré-parto
das a um fotoperíodo curto (8h de luz: dos bezerros, principalmente porque
16h de escuro), no pe- as vacas possuem maior
ríodo seco, apresentaram Em vacas Holandesas tolerância ao estresse
melhor imunidade du- o efeito negativo do pelo frio comparado ao
rante o período de tran- estresse pelo calor, estresse pelo calor. Em
sição e produziram mais sobre a produção vacas Holandesas o efei-
leite na lactação subse- de leite, já pode ser to negativo do estresse
quente, comparado com observado quando o pelo calor, sobre a pro-
vacas submetidas a um Índice de Temperatura e dução de leite, já pode
fotoperíodo longo (16 Umidade (ITU) atinge ser observado quando o
às 18h de luz: 6 a 8h de 68. Índice de Temperatura e
18 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Umidade (ITU) atinge 68. Entretanto, teve um aumento médio da temperatura
o ITU apenas combina os efeitos da retal de 0,4°C, e um aumento de 1,5 a 2
temperatura de bulbo seco e da umida- vezes da frequência respiratória compa-
de relativa sem levar em conta a radia- rado às vacas que foram resfriadas.
ção solar e a velocidade do vento. Dessa Utilizando o mesmo modelo de es-
forma, esse parâmetro é um bom indi- tresse térmico pelo calor, estudos mais
cador do estresse térmico pelo calor em recentes mostram que o estresse por
vacas alojadas em espaços internos, mas calor durante o período seco também
não é bom parâmetro quando os ani- afeta a prole. Vacas que foram expos-
mais estão alojados em tas ao estresse por calor
um espaço aberto ou em Vacas que foram durante os últimos 45
um sistema baseado em expostas ao estresse por dias de gestação pari-
pastagem. calor durante os últimos ram bezerros mais leves
Estudos recen- 45 dias de gestação comparados àquelas que
tes conduzidos na pariram bezerros mais foram resfriadas durante
Universidade da Flórida leves comparados o período seco. Em com-
(University of Florida) àquelas que foram paração àqueles prove-
demonstraram que o es- resfriadas durante o nientes de mães resfria-
tresse pelo calor durante período seco. das, bezerros que foram
o período seco compro- expostos a condições
mete o desenvolvimento da glându- de estresse pelo calor in
la mamária antes do parto e a função utero pesaram cerca de 5 kg a menos ao
imune durante o período de transição. nascer e nenhum crescimento compen-
Dessa forma, a vaca apresenta um de- satório foi observado no período pré-
sempenho pior durante o período de -púbere, uma vez que eles ainda eram
transição e menor produção de leite, mais leves ao desmamar (Tao et al.,
mesmo quando um sistema de resfria- 2012; Monteiro et al., 2014) e com um
mento é implementado após o par- ano de idade (Monteiro et al., 2013).
to (do Amaral et al., 2011; Tao et al., Entretanto, não houve diferença no
2011; Thompson, et al., 2014). Nesses peso corporal após o parto (Monteiro
estudos, vacas Holandesas multíparas et al., 2013), indicando que houve um
foram alojadas em estábulos com cama crescimento compensatório após a
de areia durante o período seco, mas puberdade.
apenas a metade das vacas foi resfriada A redução do peso no nascimento,
utilizando-se ventiladores e aspersores. como consequência do estresse térmi-
A outra metade das vacas que foi sub- co pelo calor durante o final da gesta-
metida ao estresse térmico pelo calor ção é parcialmente atribuída à redução
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 19
da duração da gesta-
Uma breve exposição ao durante as duas primei-
ção, de geralmente de
estresse térmico durante ras semanas de vida em
quatro a cinco dias em bezerros de mães estres-
o período de gestação
mães estressadas pelo sadas pelo calor, compa-
avançada é suficiente
calor. Além disso, em para alterar a função rado aos provenientes de
diferentes espécies os imune da prole. mães resfriadas, o que
recém-nascidos mais também poderia con-
leves são associados ao tribuir para a alteração
retardo do crescimento fetal ligado à do metabolismo energético pós-natal
insuficiência placentária, uma condi- em favor de maior deposição de gordu-
ção geralmente observada em mães ra. Curiosamente, um estudo recente
estressadas pelo calor (Reynolds et al., (Ahmed et al., 2015) demonstrou que
2005). Especificamente em gado de lei- vacas nascidas de mães que passaram
te, o estresse pelo calor, durante a ges- por estresse pelo calor, no final da gesta-
tação avançada, compromete as funções ção, tiveram melhor habilidade de lidar
placentárias, o que é evidenciado pelas com o estresse térmico agudo compara-
menores concentrações de hormônios do àquelas nascidas de mães que foram
placentários, incluindo o sulfato de es- resfriadas, o que sugere que as mudan-
trona e glicoproteínas associadas à ges- ças metabólicas e/ou fisiológicas que
tação (Collier et al., 1982; Reynolds et ocorrem pelo estresse do calor in utero
al., 1985; e Thompson et al., 2013). favorecem a tolerância ao calor na prole.
Bezerros que desenvolveram-se sob Além da redução no crescimento fe-
estresse pelo calor, durante o período tal e das alterações metabólicas, ambas
final da gestação, também apresentaram as imunidades humoral e mediada por
metabolismo energético alterado no pe- células são afetadas pela exposição ao
ríodo pós-natal, uma vez que exibiram estresse térmico durante a fase avançada
maior capacidade de captação de glico- da gestação. A transferência da imunida-
se dependente de insulina logo após o de passiva é negativamente alterada pelo
desmame, comparado aos bezerros de estresse térmico durante o final da gesta-
mães que foram resfriadas no período fi- ção. Após a ingestão do colostro fresco
nal da gestação (Tao et al., 2014). Tal re- de suas respectivas mães, os bezerros
sultado sugere que os bezerros nascidos que foram termicamente estressados in
de mães estressadas pelo calor possuam utero apresentaram menor eficiência na
maior habilidade de estocar energia absorção de IgG (Tao et al., 2012), me-
como gordura (Tao e Dahl, 2013). Além nor proteína total plasmática e concen-
disso, Monteiro et al. (2014) relatou tração sérica de IgG durante o primeiro
menor concentração de cortisol sérico mês de vida, comparado aos bezerros
20 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
nascidos de mães resfriadas no final da tivamente reguladas no sangue durante
gestação (Tao et al., 2012). De forma o primeiro mês de vida, sugerindo um
semelhante, quando alimentados do comprometimento da imunidade inata.
mesmo pool de colostro, uma redução De forma interessante, bezerros nasci-
na eficiência de absorção de IgG é ob- dos de mães termicamente estressadas
servada em bezerros estressados termi- também apresentaram supraregulação
camente in utero comparado aos arrefe- de diferentes receptores de superfície
cidos (Monteiro et al., 2014), indicando celular e citocinas, tais como CD14,
que o estresse térmico prejudica a trans- TLR4, CD18 e DEC205, o que demons-
ferência da imunidade passiva indepen- tra uma alteração de ambas as funções
dentemente do colostro fornecido. da imunidade celular inata e adaptativa
A imunidade celular durante o pe- (Strong et al., 2015). Esses resultados
ríodo pré-desmame é também compro- sugerem uma inconsistência da respos-
metida pelo estresse térmico in utero, ta imune do bezerro ao estresse térmico
de forma que as células mononucleares in utero, portanto, mais pesquisas são
do sangue periférico isoladas de bezer- necessárias a fim de determinar se essas
ros nascidos de vacas termicamente mudanças poderiam alterar a resistência
estressadas tiveram menor taxa de pro- dos bezerros às doenças.
liferação quando expostas a mitógenos Na tentativa de quantificar impactos
in vitro, quando comparadas às células persistentes do estresse térmico pelo
obtidas de bezerros de mães arrefeci- calor in utero na saúde, na reprodução e
das (Tao et al., 2012). Além disso, um na produção leiteira, um estudo recen-
recente estudo (Strong et al., 2015) de- te (Monteiro et al., 2013) analisou os
monstrou que uma breve exposição ao dados de 72 novilhas nascidas de vacas
estresse térmico durante o período de termicamente estressadas pelo calor
gestação avançada é suficiente para al- ou resfriadas durante o final da gesta-
terar a função imune da ção, contemplando um
prole. Esse estudo mos- Bezerras nascidas de período de cinco anos
trou que bezerros nasci- mães termicamente consecutivos. Após o
dos de vacas que foram estressadas pelo calor nascimento, todas as be-
expostas ao estresse tér- tiveram maiores zerras foram alojadas em
mico por uma semana, taxas de morbidade e bezerreiros individuais
três semanas antes do mortalidade durante com cama de areia e ma-
parto, tiveram a expres- o período pré-púbere nejadas de forma seme-
são gênica de ambos, comparadas àquelas lhante. Bezerras nascidas
receptor tipo toll 2 e fator nascidas de mães que de mães termicamente
de necrose tumoral, nega- foram resfriadas. estressadas pelo calor
1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 21
tiveram maiores taxas de morbidade manejo de vaca seca implementado, o
e mortalidade durante o período pré- uso de um bom manejo que ajude os be-
-púbere comparadas àquelas nascidas zerros a lidarem com o calor no período
de mães que foram resfriadas. Apesar de pós-natal é crítico para o alcance de uma
nenhuma diferença ter sido observada bom desempenho durante o período
na idade da primeira inseminação e no pré-desmame e na vida futura.
parto, novilhas provenientes de mães
que sofreram estresse por calor neces- Conclusão
sitaram maior número de serviços por O período de transição é o mais de-
gestação confirmada 30d após a insemi- safiador no ciclo de lactação de vacas lei-
nação. Novilhas que passaram pela ex- teiras, e o manejo durante o pré-parto é
periência do estresse materno pelo calor um dos componentes mais importantes
no fim da gestação produziram cerca de para garantir uma transição de sucesso
5 kg/d a menos de leite nas primeiras e um desempenho eficiente. Apesar de
35 semanas da primeira lactação. Esses diversos estudos terem sido realizados
dados sugerem a existência de uma para comparar diferentes estratégias de
programação fetal causada por estresse manejo durante o período de pré-parto
térmico por calor in utero, a qual altera no desempenho das vacas, pesquisas que
o metabolismo, fisiologia e imunidade objetivam estudar o impacto do manejo
pós-natal do bezerro, o que, por sua vez pré-parto no desempenho de bezerros
afeta a capacidade geral de produção ou leiteiros são limitadas comparado com
o desenvolvimento da glândula mamá- outras espécies. Entretanto, com base
ria das novilhas. nas pesquisas disponíveis, diferentes es-
Apesar de não ser o propósito des- tratégias de manejo, tais como nutrição,
se capítulo, é importante enfatizar que saúde, ambiente e bem-estar da vaca,
a implementação de estratégias de ma- durante o período pré-parto, geram efei-
nejo para a redução do estresse térmico tos profundos no desempenho da prole.
por calor em bezerros após o nascimen- Embora mais pesquisas sejam ne-
to é crucial para atingir um bom desem- cessárias nessa área, com base nos li-
penho durante os meses de verão. Como mitados dados existentes, parece haver
relatado por Donavan et al. (1998), um impacto consistente de uma inter-
bezerros nascidos durante os meses de venção no manejo pré-parto sobre o de-
verão apresentam menor concentração sempenho no pós-parto de ambos, vaca
de proteína total plasmática e maiores e bezerro, de forma que uma estratégia
taxas de morbidade e mortalidade com- de manejo pré-parto afeta o desempe-
parado àqueles nascidos em meses mais nho pós-parto da vaca e o pós-natal do
frios. Portanto, independentemente do bezerro da mesma maneira, seja posi-
22 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
tivamente ou negativamente. De fato, Dwyer. The impact of dystocia on dairy calf he-
alth, welfare, performance and survival. Vet. J., v.
Tao e Dahl (2013) propuseram uma 195, p. 86-90, 2013.
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o desenvolvimento placentário durante nutrients during pregnancy and lactation: A re-
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o final da gestação e sugeriram consi- homeorhesis. J. Dairy Sci., v.63, p. 1514-1529,
derar os efeitos de ambos quando uma 1980.
intervenção no manejo pré-parto for 6. Baumgard, L.H., and R.P. Rhoads Jr. Effects of
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tal do bezerro (Lundborg et al., 2003). 2006.
Tais relações corroboram a ideia de que 9. Collier, R.J., S.G. Doelger, H.H. Head, W.W.
Thatcher, and C.J. Wilcox. Effects of heat stress
o manejo no pré-parto pode afetar a during pregnancy on maternal hormone concen-
mãe e o bezerro de maneira consistente. trations, calf birth weight and postpartum milk
yield of Holstein cows. J. Anim. Sci., v. 54, p.309-
Portanto, estudos futuros que venham 319, 1982.
avaliar diferentes estratégias de manejo 10. Coulon, M., S. Hild, A. Schroeer, A. M. Janczak,
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1. Efeitos do manejo no período pré-parto sobre o crescimento e a saúde dos bezerros 25


2. Instalações para
bezerras leiteiras

bigstockphoto.com

Carla Maris Machado Bittar1


1
Professora Depto. de Zootecnia, Esalq/USP, E-mail: carlabittar@usp.br

Introdução buem para o bem-estar de bezerros em


fazendas leiteiras, incluindo: instalações
O período de vida das bezerras de
e ambiente, manejo nutricional e sani-
raças leiteiras, que compreende o nas-
tário, manipulação e interação com o
cimento até o desaleitamento, é bas-
tante delicado. Nessa fase as bezerras tratador, dinâmica de rebanho, além de
são constantemente desafiadas pelo práticas comuns, como transporte, des-
ambiente, enquanto seu organismo ain- corna e remoção de tetos.
da depende de defesas adquiridas pelo Os objetivos gerais das instalações
consumo de colostro, o qual nem sem- para bezerros são a proteção dos extre-
pre é adequado. Muitos fatores contri- mos térmicos e climáticos, acesso ade-
26 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
quado ao alimento, garantir a segurança de crescimento e, finalmente, do bem-
no que diz respeito a ferimentos e con- -estar propriamente dito. Embora o con-
trolar a saúde e o bem-estar dos bezer- forto térmico e físico do ambiente para
ros. Tanto o sistema de instalação indi- bezerros tenha sido amplamente avalia-
vidual quanto o sistema de instalação do, apenas recomendações gerais foram
em grupo podem ser projetados para desenvolvidas para satisfazer as necessi-
atender a todas essas necessidades. No dades comportamentais específicas de
entanto, muitos tipos de instalações bezerros leiteiros. Essas necessidades
atendem as premissas em relação ao em um ambiente incluem a ausência de
bem-estar, mas o sucesso ainda depen- frustração, o sentimento de segurança e
de de gestão adequada. Assim, quando ausência de possibilidade de lesão, com-
se pensa em um abrigo para melhor portamento social de rebanho e intera-
alojar bezerras, existem quatro requisi- ção adequada com o tratador.
tos fundamentais que devem ser consi-
derados: 1) Ventilação; 2) Isolamento; Necessidades básicas
3) Conforto; e 4) Economia. No mun- O conforto térmico inclui um am-
do todo existem variadas formas de biente com temperatura amena e sem
criação de bezerras em aleitamento - extremos de temperatura. O estresse
criação em abrigos individuais, baias pelo frio ou pelo calor afetam bezer-
coletivas ou individuais, construções ros mais jovens, doentes ou feridos
fechadas ou abertas -, variando de acor- de forma muito mais severa do que
do com o local da exploração, o sistema animais saudáveis e mais velhos. O
de produção e, princi- conforto térmico para
palmente, o custo para Ambientes satisfatórios os animais é quantifi-
sua construção. para bezerros cado como a zona tér-
Ambientes satis- recém-nascidos e mica neutra, que varia
fatórios para bezerros em crescimento de 15°C a 25°C para
recém-nascidos e em devem proporcionar bezerros jovens, embo-
crescimento devem conforto físico, ra trabalhos mostrem
proporcionar conforto térmico, psicológico e mais variações nessa
físico, térmico, psicoló- comportamental. faixa (Davis e Drackley,
gico e comportamental. 1998). Dentro da zona
Cada uma dessas áreas térmica neutra, o be-
podem ser uma fonte de estresse para os zerro mantém a temperatura corporal
bezerros que, posteriormente, podem (homeotermia) por constrição ou di-
predispor os animais ao comprometi- latação dos vasos sanguíneos, alteran-
mento da resposta imunitária, das taxas do posturas e comportamentos para

2. Instalações para bezerras leiteiras 27


conservar ou dissipar o calor, além de to. O espaço disponível para o bezerro
alterações nas propriedades isolantes deve ser suficiente para permitir com-
da pelagem. Abaixo de 15ºC (tem- portamentos normais de alimentação
peratura crítica inferior) o bezerro e consumo de água, repouso e excre-
começa a gastar energia para manter ção, além de locomoção. No caso de
sua temperatura corporal de forma baias e gaiolas é importante preocu-
que energia extra deve ser incluída na par-se com o piso, já que pode tornar-
dieta. -se escorregadio, ocasionando tombos
Outros fatores que podem afetar e traumas ou ainda tornar-se abrasivo,
a zona térmica neutra de um bezerro reduzindo a saúde dos cascos. Uma
são a espessura e o teor de umidade vez que bezerros passam grande parte
da pelagem do animal e a capacidade do seu tempo deitados, as condições
de adaptar-se a baixas temperaturas da área de descanso são importantes
ao longo do tempo. O estresse pelo para o bem-estar dos bezerros. Baias
frio também pode ser responsável por coletivas ou abrigos individuais situ-
diminuir a taxa de absorção do co- ados ao nível do solo são geralmen-
lostro em bezerros recém-nascidos. te providos de cama natural para os
A temperatura crítica animais. Dependendo
superior (25°C) ocor- Abaixo de 15ºC do clima e do tipo de
re quando o bezerro (temperatura crítica revestimento, materiais
não consegue dissipar inferior) o bezerro de cama são opcionais
o calor metabólico de começa a gastar energia para a elevação da ins-
forma suficiente para para manter sua talação de forma que
manter-se em home- temperatura corporal o animal deite-se em
otermia. Geralmente, de forma que energia local sempre seco e
o consumo de ração é extra deve ser incluída limpo, características
reduzido, diminuindo o na dieta. importantes da área de
calor gerado pela diges- descanso.
tão e absorção dos nutrientes, o que A qualidade do ar
acaba resultando em redução do de- também é importante para o conforto
sempenho. Assim, conforto térmico físico do bezerro. Altas concentrações
é importante para o desempenho dos de gases tóxicos tais como amônia,
animais. podem causar danos ao epitélio pul-
O conforto físico do ambiente in- monar. Esses gases são frequentemen-
clui o espaço disponível, a qualidade te associados com o acúmulo de urina
ou as condições do espaço e as superfí- e esterco ou a circulação de ar limitada
cies com as quais o bezerro tem conta- em espaços fechados. O limite máxi-
28 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
mo de 25 ppm de concentração de gás colostragem, estão também fortemente
amônia tem sido sugerido para as ins- relacionadas com as instalações e o ma-
talações de bezerros. nejo das mesmas.
A transmissão dos principais pató-
Sistemas individualizados genos que causam diarreia nos bezerros
A individualização tem como objeti- é do tipo oral-fecal, seja por meio do
vo principal a redução na disseminação contato entre animais ou pelo uso de
de doenças, muito embora existam des- utensílios (baldes, cochos) com limpe-
vantagens do ponto de vista compor- za inadequada, devido a isso a individu-
tamental. Uma pesquisa realizada nos alização entre os animais é considerada
EUA, em 2007, pelo National Animal um dos princípios fundamentais de um
Health Monitoring System (NAHMS, bom sistema de criação. Trabalhos de
2002), concluiu que a taxa média de pesquisa mostraram que animais no
mortalidade de bezerras até o desalei- aleitamento, criados em abrigos indivi-
tamento foi de 8% em fazendas leiteiras duais, apresentaram menor incidência
naquele ano. Desse total, 56,5% foram de diarreias e de microrganismos dos
devidas a diarreias intensas ou outros gêneros Cryptosporidium, Eimeria e ro-
problemas digestivos; 22,5% foram cau- tavírus nas fezes quando comparados
sadas por problemas respiratórios e os com animais alojados em baias cole-
demais 15% por outros motivos diver- tivas. A individualização dos animais
sos. Ainda nesse mesmo levantamento, também facilita a alimentação, evitando
12,5% e 18% de todos os animais em problemas com dominância, e permite
aleitamento foram tratados com anti- um controle mais rígido do consumo
biótico para controle de problemas res- individual, tanto de concentrado quan-
piratórios e diarreia, respectivamente. to de água, e da saúde do animal.
No levantamento sobre No levantamento
os sistemas de criação Altas concentrações realizado por (Vasseur
brasileiros, as diarreias de gases tóxicos tais et al., 2010) sobre prá-
foram apontadas como como amônia, podem ticas para o aumento do
o principal problema de causar danos ao epitélio bem-estar de bezerros,
saúde de bezerras, se- pulmonar. Esses gases 88% das propriedades
guidas pelos problemas são frequentemente entrevistadas utilizam
respiratórios (Santos e associados com o sistemas de alojamento
Bittar, 2015). Embora acúmulo de urina e individual. Esse sistema
essas duas doenças te- esterco ou a circulação tem sido visto como a
nham forte relação com de ar limitada em melhor forma de pre-
falhas no programa de espaços fechados. venir transmissão de
2. Instalações para bezerras leiteiras 29
doenças entre os animais. No entanto, galpões fechados. Como o piso é nor-
alguns estudos relatam que quando os malmente de cimento, existe a necessi-
animais não estão agrupados, são priva- dade de colocação de cama. No entanto,
dos de interação social e de espaço para alguns sistemas podem ter os pisos ripa-
exercitar-se, o que pode comprometer dos elevados, dispensando a colocação
o bem-estar e o desenvolvimento dos de camas e garantindo melhor ventila-
animais. O “Código Leiteiro de Práticas ção no galpão em algumas situações. É
Canadense” prevê que os animais sejam um sistema que tende a desaparecer das
alojados de forma a terem espaço para propriedades leiteiras, uma vez que não
deitar, ficar de pé, andar em volta, ter permite a locomoção dos animais, de
postura de descanso e ter contato visual forma a não atender uma das cinco li-
com outros animais. Na pesquisa reali- berdades necessárias, que é a de expres-
zada, muitos dos tipos de alojamentos são dos comportamentos normais.
utilizados provavelmente não atendem Bezerros recém-nascidos são co-
a essa exigência, como: tie-stalls (utiliza- mumente alojados individualmente em
do por 13,9% das propriedades), baias baias, gaiolas ou abrigos distribuídos em
individuais (27%) e amarrados à pare- área externa das mais variadas medidas.
de (5,7%). Segundo o levantamento do A literatura recomenda baias individuais
NAHMS (2007), nos EUA, em torno (Figura 2), com área mínima entre 2,2 e
de 87% dos animais no aleitamento são 2,8 m2 por animal (McFarland, 1996).
criados individualmente, sendo 75% em As gaiolas devem ser preferencialmente
abrigos ou baias e ainda 12% em sistema suspensas, facilitando a limpeza do gal-
de tie-stall. Já no levantamento nacional, pão (Figura 3). Os abrigos podem ser
45% das propriedades criam bezerras dispostos diretamente no solo, com pe-
leiteiras de forma individualizada, mas quena área externa para locomoção dos
esse percentual cresce para 64% quan- animais. Esses abrigos podem ser cons-
do se avalia somente propriedades com truídos em fibra de vidro, polietileno ou
produção acima de 700L/d (Santos e madeira (Figura 4) e os animais podem
Bittar, 2015). escolher entre o ambiente exterior ou
O sistema de tie-stall é aquele em interior, já que são amarrados ao abrigo
que o animal fica preso a uma coleira e a ou este tem uma cerca de perímetro. A
uma corrente que permitem apenas que individualização também pode ser feita
ele se deite e se levante numa área de por meio da criação em sistema de es-
aproximadamente 0,60 x 1,5 m (Figura tacas ou ainda no chamado bezerreiro
1). Foi muito adotado pela reduzida argentino (Figura 5). No sistema em es-
necessidade de área, normalmente em tacas, o animal tem um perímetro para
climas mais frios, onde são necessários se locomover, que depende do compri-
30 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
mento da corrente ao qual o mesmo está preso a uma coleira e a uma corrente
contido, além de água e concentrado. Já acoplada ao cabo extenso. De um lado o
no sistema argentino, o animal tem uma animal tem sombra disponível e do ou-
área mais ampla e possibilidade de es- tro lado água e concentrado.
colha do local para se deitar, já que está Nesses sistemas os animais normal-

Figura 1. Sistemas de alojamento em tie-stall (baias de contenção) com piso de cimento ou com piso
ripado elevado

Figura 2. Baias individuais

2. Instalações para bezerras leiteiras 31


mente têm acesso individualizado a água Assim, o controle da nutrição é também
e ao concentrado em baldes ou cochos, individualizado, para que se possa ava-
o que permite controle de consumo. O liar o manejo alimentar de acordo com
aleitamento é realizado de forma indi- os ganhos obtidos.
vidual utilizando baldes, mamadeiras Um dos modelos de alojamento
ou ainda bibeirões (baldes com bico). mais difundidos no Brasil é o de abrigos

Figura 3. Gaiolas suspensas

Figura 4. Abrigos individuais de variados modelos, medidas e materiais

32 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


individuais feitos de madeira, de acor- um adequado sistema de criação de ani-
do com as recomendações da Embrapa mais no aleitamento. O ambiente seco é
Pecuária Sudeste, também conhecido obtido por meio do posicionamento das
como casinha tropical (Figura 6), que casinhas em campo bem drenado, ade-
ganharam popularidade por seu cus- quadamente coberto com forragem ou
to inferior na construção de barracões, cama, sendo o sol um grande auxiliador
mas principalmente por serem bastante no controle da umidade. Além disso, a
eficazes no controle de doenças, espe- movimentação regular dos abrigos não
cialmente as respiratórias e as diarreias. permite a formação de barro ou acúmu-
Quando bem manejadas, permitem o lo de umidade. No entanto, épocas de
atendimento aos princípios básicos de muitas chuvas podem reduzir sua efici-

Figura 5. Bezerreiro em estacas ou sistema argentino

2. Instalações para bezerras leiteiras 33


ência, principalmente no inverno, uma lhas de zinco espaçadas, que funcionam
vez que os animais permanecem molha- como isolante térmico, diminuindo a
dos e em baixas temperaturas durante incidência de calor. A contenção das
muito tempo. bezerras é feita pelas coleiras com mos-
Esse tipo de sistema é de fácil cons- quetão girador e pelas correntes fixadas
trução, totalmente aberta, para uso em no chão por grampos. Isso permite a
ambientes tropicais. Também é leve, o movimentação da bezerra ao redor do
que permite mudanças frequentes de abrigo, acompanhando a projeção da
locais de modo a oferecer ao bezerro um sombra de acordo com a movimentação
lugar sempre limpo e seco para se deitar. do sol. Apesar de algumas vantagens,
O telhado geralmente é feito de duas fo- os abrigos utilizados normalmente ofe-

Figura 6. Casinha tropical desenvolvida pela Embrapa Pecuária Sudeste

34 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


recem pouca proteção aos efeitos dos brite) ou a céu aberto. Tanto no período
raios solares, principalmente em dias da seca quanto das águas, os animais
muito quentes. Na prática, o que se ob- apresentaram frequência respiratória e
serva são os animais durante todo o dia temperatura corporal normal durante
procurando uma posição melhor dentro a manhã, mas aumentada no período
da sombra projetada pelo abrigo, que da tarde para os animais alojados a céu
muitas vezes é posicionado de maneira aberto, em comparação aos animais
incorreta. Além disso, muitas vezes os em abrigos. No entanto, as frequências
abrigos são confeccionados com telha- respiratórias estavam acima do normal
dos de materiais que não protegem os para todos os animais no período da
animais dos efeitos da radiação solar. tarde. Durante o período das chuvas os
Nesse aspecto é importante distribuir animais criados a céu aberto apresenta-
os abrigos de forma que, no período da ram aumento no consumo de água, o
tarde, a sombra seja projetada à frente que associado com a alteração na fre-
do abrigo. Muitas vezes a sombra da tar- quência respiratória e na temperatura
de é projetada atrás do abrigo e, devido corporal sugere que os animais estavam
ao comprimento da corrente, a bezerra em situação de estresse térmico. Por ou-
não tem acesso à sombra. tro lado, animais alojados em abrigos
No Brasil, devido a grande variação móveis permaneceram mais tempo sob
climática (temperatura e umidade), o a radiação solar direta do que animais
alojamento dos bezerros deve ser adap- em abrigos fixos, mostrando maior con-
tado às diferentes condições dos climas forto com a cobertura de sombrite, em
subtropical e tropical. Os efeitos de tem- comparação a cobertura de zinco. No
peratura e de umidade do ar são, muitas entanto, os diferentes sistemas de aloja-
vezes, limitantes ao desenvolvimento mento não afetaram medidas compor-
dos animais, em razão do estresse a eles tamentais, como tempo em decúbito,
associado. Os trabalhos de Cunha et al. tempo de ruminação ou de consumo de
(2007 a e b) avaliaram o desempenho e concentrado, muito embora essas me-
as variáveis fisiológicas e comportamen- didas tenham sido afetadas pela idade
tais de bezerros mestiços, Holandês x do animal. Da mesma forma, o desem-
Zebu, mantidos em diferentes instala- penho dos animais não foi afetado pelo
ções durante as estações de seca (11,5 tipo de instalação.
- 30,7°C; U% 50 - 83) e chuvosa (16 - Assim, a escolha do local onde será
32,2°C; U% 54-81). Os animais foram alocado o bezerreiro é importante e
alojados em abrigos móveis (laterais fundamental, como a utilização de áre-
fechadas e cobertura de zinco), em abri- as que ofereçam sombra extra durante
gos fixos (mourão e cobertura de som- os períodos mais quentes do dia. Além
2. Instalações para bezerras leiteiras 35
disso, o adequado posicionamento dos de odores, além da melhoria na umidade
galpões ou dos abrigos individuais faz- relativa do local, principal responsável
-se necessário. Porém, é um erro bastan- pela ocorrência de problemas respirató-
te comum a inobservância dessas etapas rios nesta fase de vida do animal. Como
nas construções ou no posicionamento o sistema de criação adotado no Brasil
dos abrigos individuais (Figura 7). geralmente abriga os animais em campo
O uso de alojamentos com adequa- aberto, a preocupação com a remoção
da ventilação é fundamental para a redu- de gases e com o uso de equipamentos
ção de problemas com a transmissão de de ventilação torna-se desnecessária.
agentes patogênicos, para a eliminação Entretanto, a umidade das instalações,

Figura 7. Situações com problemas de acesso à sombra (superior) e bezerreiro com sombra extra
(inferior)

36 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


principalmente dos ar-
Mais do que garantir o cochos e baldes de água
redores, muitas vezes é mal higienizados ou mal
mínimo de conforto e
negligenciada.
sanidade, o interessante dimensionados; e áreas
Em algumas situa- com drenagem inade-
é assegurar ao animal
ções existe a necessidade quada que levam a for-
a sensação positiva e
de colocação de cama, crescente de bem estar. mação de barro. Mais do
como palha, serragem, que garantir o mínimo
casca de arroz e até areia de conforto e sanidade,
para manter o bezerro seco e confortá- o interessante é assegurar ao animal a
vel. A correta limpeza e gestão da cama sensação positiva e crescente de bem
em abrigos individuais é muito traba- estar. Para isso, é necessário que as fa-
lhosa e acaba não funcionando de forma zendas comecem a preocupar-se com
adequada. Quando o bezerro é removi- as práticas de manejo que precisam ser
do de um abrigo, ele deve ser limpo, hi- melhoradas.
gienizado e ter a cama substituída antes
da colocação de outro bezerro. Durante Sistemas coletivos
o período de chuva, pode haver forma- A criação de bezerras em sistemas
ção de lama devido a má drenagem do coletivos baseia-se no princípio de que
solo, havendo necessidade de realoca- os bezerros leiteiros são animais de re-
ção do abrigo para aliviar as condições banho (gregários) e o alojamento em
do barro. Essa possibilidade de deslocar grupo permite o desenvolvimento de
abrigos individuais auxilia na redução comportamento social. O alojamento
de estresse pelo frio, uma vez que sem- coletivo permite a manifestação de com-
pre é possível manter o animal em um portamentos lúdicos, ou seja, o exercí-
local seco para se deitar. cio e o jogo entre bezerros dentro do
Infelizmente, tem-se observado que grupo. Assim, a criação de animais em
os abrigos individuais, cada vez mais lotes tem sido considerada a mais ade-
adotados no país, também podem ser quada, do ponto de vista do bem-estar
mal manejados, reduzindo o desem- e do comportamento animal, por alguns
penho dos animais. É comum obser- pesquisadores. No entanto, é sabido que
var bezerros em abrigos individuais esse sistema resulta em grande dissemi-
contidos por correntes curtas, que não nação de doenças, além dos problemas
permitem locomoção ou acesso ao ali- associados à mamada cruzada e à falta
mento de forma adequada; posiciona- de controle de consumo individual de
mento inadequado em relação ao sol, dieta líquida ou sólida, dependendo do
de forma que os animais passam todo o sistema de alimentação.
período da tarde sem acesso à sombra; Estudos comprovam que a socializa-
2. Instalações para bezerras leiteiras 37
ção durante a fase de aleitamento é capaz ou não ao hábito de beber urina, com-
de reduzir problemas associados com a portamentos considerados problemáti-
alimentação e com a transição para no- cos. Além de problemas como traumas
vos ambientes. O contato social com a e inflamações de úbere, podem ocorrer
mãe e com outros animais faz com que problemas no umbigo ou na orelha dos
os bezerros reduzam as respostas à con- animais, regiões com preferência de ma-
tenção e aumentem os comportamentos mada (Figura 10). Quanto menos volu-
lúdicos. Inclusive, animais alojados em me de dieta líquida fornecida e maior
pares desde o início da vida ingerem ali- heterogeneidade do lote, em termos
mentos sólidos mais cedo e consomem de peso e altura, maior a ocorrência de
mais desse alimento durante a fase de mamada cruzada (de Passillé, 2001).
aleitamento, além de apresentar maior No entanto, (Laukkanen et al., 2010)
comportamento exploratório, quando mostraram que nem sempre os menores
comparados a animais individualmen- animais serão socialmente dominados
te alojados (Vieira et al., 2012). Além e, portanto, sempre aqueles que sofre-
disso, animais em grupos adaptam-se rão mamadas cruzadas. Estes autores
mais rapidamente a novas dietas, redu- sugerem que outros aspectos, que não
zindo o número de dias para explorar e somente o tamanho/peso do animal,
consumir alimentos novos (Costa et al., estejam relacionados com a chance do
2014), o que muitas vezes é um proble- animal sofrer e realizar a mamada cru-
ma logo após o desaleitamento quando zada. O trabalho não esclarece quais são
os animais têm alterações em suas dietas os fatores, mas aspectos como a idade, o
e manejo alimentar. volume de leite consumido e até o local
Os animais podem ser criados em onde os animais passam a maior parte
piquetes, em galpões abertos com pisos do tempo podem explicar a maior chan-
ripados ou não e ainda em galpões fe- ce de um ou outro animal sofrer e reali-
chados (Figura 8). Independentemente zar a mamada cruzada. Assim, é de ex-
do tipo de alojamento, é importante que trema importância observar os animais
o ambiente seja ventilado e com área de de forma a identificar estes aspectos es-
sombra disponível. Quando os animais pecificamente em cada um dos sistemas
são criados em piquetes, a área deve ser de produção. Vale lembrar que animais
bem drenada impedindo a formação de com fornecimento de dieta líquida em
barro na época das chuvas, e a sombra volumes restritos realizam mais mama-
pode ser natural ou artificial. das-cruzadas; mas, aqueles que conso-
Uma desvantagem desse tipo de alo- mem maiores volumes e que, portanto,
jamento é a possibilidade do desenvol- são animais maiores, também realizam
vimento de mamada cruzada, associado mais mamadas.
38 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Figura 8. Instalações para bezerros em sistemas coletivos

Figura 9. Sistemas coletivos com alta densidade animal

2. Instalações para bezerras leiteiras 39


exemplo. Além disso,
embora os animais
mamem facilmente a
partir de bicos, o trei-
namento para a ma-
mada em containers é
necessário, de forma
que os animais não fi-
quem deslocando uns
aos outros e tenham
consumo adequado. O
número de bicos deve
Figura 10. Animais criados em lote realizando e sofrendo mamada-cru-
ser sempre superior ao
zada após o fornecimento da dieta líquida
número de animais e a
Os sistemas de criação coletiva po- limpeza do container adequada no in-
dem ser manejados para aleitamento tuito de reduzir problemas com diarreia.
também coletivo, quando se usam con- A tendência dos animais em ficar tro-
tainers (Figura 11). Nesse sistema é de cando de bicos pode ser reduzida com a
extrema importância a homogeneidade utilização de divisórias, desde que estas
do tamanho do lote, de forma a redu- separarem, não somente a cabeça, mas
zir problemas de competição e variado também parte do corpo dos animais,
volume de dieta líquida consumida. A nos sistemas com animais criados em
grande desvantagem desse sistema é o par ( Jensen et al., 2008). O sucesso das
fato de que não se tem controle algum barreiras longas em reduzir a troca de
sobre o consumo da dieta líquida ou só- bicos deve-se ao aumento do esforço
lida, parâmetros importantes para a to- para mudar de bico, mais dificuldade
mada de decisão do desaleitamento, por para deslocar outro bezerro, melhor

Figura 11. Aleitamento coletivo

40 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


bloqueio da visão do bezerro, ou uma possibilidade do fornecimento de dieta
combinação de todos estes fatores. líquida ad libitum ou com a quantidade
Esse problema pode ser resolvido programada e controlada por compu-
com sistemas de aleitamento indivi- tador, de acordo com a idade do animal
dual para animais criados em lotes, e o manejo nutricional. Embora muitos
utilizando containers com divisões trabalhos venham mostrando os bene-
internas, que separe o volume de die- fícios desse tipo de alimentação, por
ta líquida para cada animal. A adoção ser semelhante a maneira como o ani-
de canzil para contenção dos animais mal se alimentaria normalmente, esses
no horário de alimentação também é sistemas podem ter várias desvanta-
uma alternativa (Figura 12). Esse siste- gens. Diarreias e doenças respiratórias
ma tem a vantagem de permitir que os podem se espalhar mais rapidamente
animais sejam mantidos por um perío- quando esse tipo de alojamento e de
do de tempo após o consumo da dieta alimentação são adotados. A concor-
líquida, até que percam o estímulo da rência por um número limitado de bi-
mamada, reduzindo a ocorrência de cos pode alterar os comportamentos
mamada cruzada. Já com uso de alei- de alimentação, especialmente quando
tador automático (Figura 13) existe a ocorre a introdução de novos animais

Figura 12. Sistema de canzil para aleitamento individual em sistemas de criação coletivo

2. Instalações para bezerras leiteiras 41


no grupo. Além disso, esses sistemas do também no melhor desempenho
podem dificultar o tratador no que se e menor frequência de enfermidades
refere ao acompanhamento do consu- (Schuetz et al., 2012). Abordar e mani-
mo de alimentos de forma individuali- pular o animal para práticas de manejo,
zada dos bezerros dentro do grupo. como pesagem, aplicação de vacinas,
Assim como nos sistemas indivi- diagnóstico de doenças ou uma simples
dualizados, nos sistemas coletivos o medida de temperatura é mais difícil
treinamento do tratador é decisivo em sistemas coletivos, onde o animal
para o sucesso na criação de bezerros, está solto e misturado a outros animais.
com altas taxas de crescimento e bai- Métodos rápidos para diagnóstico de
xas taxas de morbidade e mortalidade. doenças têm sido estudados no que se
O importante é que nos sistemas indi- refere a alterações no comportamento
vidualizados tratadores com atitudes ou no consumo da dieta líquida. Nos
positivas trazem grandes benefícios ao sistemas automatizados de aleitamen-
sistema de criação. A manifestação de to, os dados de consumo individual de
comportamentos lúdicos depende do dieta líquida podem auxiliar na iden-
atendimento de necessidades básicas, tificação de animais que apresentarão
como alimentação adequada, acesso à doenças, uma vez que o consumo é
sombra e água, conforto e sensação de reduzido dias antes do aparecimento
segurança. Animais assistidos por tra- da mesma (Borderas et al., 2009). No
tadores positivos são menos reativos e entanto, essa redução só é observada
mais ativos na expressão de comporta- em animais que recebem altos volumes
mentos lúdicos, o que acaba refletin- de dieta líquida. Assim, métodos e fer-

Figura 13. Sistemas coletivos com aleitador automático

42 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


ramentas de fácil aplicação, rápida res- Referências
posta e de baixo custo, que auxiliem na 1. Bach, A., Tejero, C., Ahedo, J. Effects of group
identificação de animais doentes são ne- composition on the incidence of respiratory
afflictions in group-housed calves after weaning.
cessárias. Outra ferramenta interessante J. Dairy Sci., v. 94, p. 2001-2006, 2011.
são os testes de abordagem. Cramer e 2. Borderas, T.F., Rushen, J., von Keyserlingk,
Stanton (2014) mostraram que animais M.A.G., de Passille, A.M.B. Automated measure-
ment of changes in feeding behavior of milk-fed
doentes apresentam baixo comporta- calves associated with illness. J. Dairy Sci., v. 92,
mento exploratório e alta apatia em re- p. 4549-4554 , 2009.
lação às coisas novas no ambiente para 3. Costa, J.H.C., Daros, R.R., von Keyserlingk,
M.A.G., Weary, D.M. Complex social housing
animais doentes. reduces food neophobia in dairy calves. J. Dairy
Os sistemas coletivos podem trazer Sci., v. 97, p. 7804-7810, 2014.
grandes benefícios do ponto de vista 4. Cramer, M. C., Stanton, A. Associations be-
tween bovine respiratory disease complex and
comportamental, mas estratégias para o the probability and latency of group-reared
adequado manejo alimentar e para a re- neonatal dairy calves to approach a novel ob-
ject or stationary person. J. Animal Sci., v 92,
dução de problemas, como as mamadas E-Supplement 2, 2014.
cruzadas e os diagnósticos de doenças, 5. Cunha, D.N.F., Campos, O.F., Pereira, J.C.,
devem ser adotados. Pires, M.F.A., Oliveira, F.M., Martuscello, J. A.
Desempenho, variáveis fisiológicas e comporta-
mento de bezerros mantidos em diferentes insta-
Considerações finais lações: época seca. Rev. Brasileira Zootec., v. 36,
p. 847-854, 2007.
A criação de bezerras é ainda um 6. Cunha, D.N.F., Campos, O.F., Pereira, J.C.,
dos gargalos nos sistemas de produção Liziere, R.S., Martuscello, J. A. Desempenho, va-
riáveis fisiológicas e comportamento de bezerros
de leite, principalmente devido às taxas mantidos em diferentes instalações: época chu-
de mortalidade e o impacto que essas vosa. Rev. Brasileira Zootec., v. 36, p. 1140-1146,
2007.
têm nas planilhas de custo. De maneira
7. Davis, C.L., Drackley, J.K. The development,
geral, qualquer tipo de instalação para nutrition, and management of the young calf.
bezerros pode ser adequada do ponto Ames: Iowa State University Press. 339 p, 1998.
de vista do bem-estar, desde que aten- 8. De Passillé, A.M. Sucking motivation and related
problems in calves. Applied Animal Behaviour
da as premissas básicas de local limpo e Science, v. 72, p. 175-187, 2001.
seco; acesso ao alimento, à água e à som- 9. Jensen, M.B., de Passille, A.M., von Keyserlingk,
bra; controle de temperaturas extremas M.A.G., Rushen, J. A barrier can reduce compe-
tition over teats in pair-housed milk-fed calves. J.
e interação com animais contemporâne- Dairy Sci., v. 91, p.1607-1613, 2008.
os. O treinamento dos tratadores deve 10. Laukkanen, H., Rushen, J., de Passille, A.M.
ser feito com vistas ao atendimento das Which dairy calves are cross-sucked? Applied
Animal Behaviour Science, v. 125, p. 91-95,
exigências específicas de manejo de be- 2010.
zerras em aleitamento de acordo com o 11. McFarland, D.F. Housing calves: birth to wea-
tipo de instalação. ning. In Calves, Heifers and Dairy Profitability:

2. Instalações para bezerras leiteiras 43


facilities, Nutrition and Health, Publication No.
74, 114-125. Ithaca, NY: Northeast Regional
Agriculture Engineering Service.
12. National animal health monitoring system
(NAHMS) Dairy 2002, Part I: Reference of
Dairy Health and Management in the United
States. USDA, Washington, DC. 2003.
13. National animal health monitoring system
(NAHMS) Dairy 2007, Part I: Reference of dai-
ry cattle health and management practices in the
United States. USDA, Washington, DC. 2007.
14. Santos, G., Bittar, C.M.B. A survey of dairy
calf management practices in some producing
regions in Brazil. Brazilian Journal of Animal
Science, v. 44, p. 361-370, 2015.
15. Schuetz, K.E., Hawke, M., Waas, J.R., McLeay,
L.M., Bokkers, E.A.M., van Reenen, C.G.,
Webster, J.R., Stewart, M. Effects of human
handling during early rearing on the behaviour
of dairy calves. Animal Welfare, v. 21, p. 19-26,
2012.
16. Vasseur, E., Borderas, F., Cue, R.I., Lefebvre, D.,
Pellerin, D., Rushen, J., Wade, K.M., de Passille,
A.M. A survey of dairy calf management practic-
es in Canada that affect animal welfare. J. Dairy
Sci., v 93, p. 1307-1315, 2010.
17. Vieira, A.D.P., de Passille, A.M., Weary, D.M.
Effects of the early social environment on behav-
ioral responses of dairy calves to novel events. J
Dairy Sci., v. 95, p. 5149-5155, 2012.

44 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


3. Dieta líquida para
bezerros leiteiros
bigstockphoto.com

Sandra Gesteira Coelho1 - CRMV/MG-2335


Rafael Alves de Azevedo2
Camila Flávia de Assis Lage2
1
Prof. Associado IV Dep. Zootecnia EV.UFMG
2
Doutorando Programa de Pós Graduação Zootecnia EV.UFMG

Introdução mento restrito durante a fase de aleita-


mento proporciona baixo ganho médio
Durante o aleitamento a recomen-
diário (GMD), riscos de doenças e com-
dação adotada mundialmente consis-
portamentos indicativos de fome crôni-
te no fornecimento da dieta líquida de
modo restrito, em aproximadamente ca, reduzindo o bem-estar dos bezerros.
10% do peso corporal (PC) do bezerro, Bezerros alimentados à vontade ou
com o objetivo de junto com maior quantidade
com o desaleitamento Bezerros alimentados à de dieta líquida apre-
precoce, reduzir custos vontade ou com maior sentam melhor taxa de
com a alimentação e quantidade de dieta crescimento, ou até mes-
incentivar o consumo líquida apresentam mo redução de doenças,
precoce de concentrado. melhor taxa de fazendo com que, nas
Entretanto, o forneci- crescimento. últimas décadas, no-
3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 45
vos programas de aleitamento fossem Aumento do volume de dieta
propostos. A partir de 2002, tem sido líquida
discutido e preconizado o aumento
A recomendação de restrição de leite
do fornecimento do volume de dieta
(10% do PC no nascimento) surgiu pro-
líquida para bezerros, sendo esse for-
vavelmente a partir de uma revisão rea-
necimento denominado “crescimento lizada por Appleman e Owen (1975). O
acelerado”, “nutrição intensificada” ou desaleitamento precoce, aos 28 dias de
“crescimento biologicamente apro- idade, foi discutido logo em seguida em
priado”. Esse sistema consiste no for- uma revisão de literatura realizada por
necimento de dieta líquida à vontade Kertz et al. (1979). Essas duas práticas
ou em maior volume, sendo fornecido visavam o rápido aumento do consumo
de 6 a 12 L/dia ( Jasper and Weary, de alimentos sólidos e menos impacto
2002; Miller-Cushon et al., 2013, na transição durante a fase de desaleita-
Silper et al., 2014) ou no aumento dos mento, sendo denominado aleitamento
teores de sólidos totais do sucedâneo convencional.
e/ou do leite fornecido aos bezerros A restrição no volume de leite ofe-
(Glosson et al., 2015). recido consistentemente obriga os be-
Estes novos sistemas de aleita- zerros a buscarem alimentos sólidos
mento têm sido criticados devido à precocemente, no entanto, esse consu-
redução no consumo de concentra- mo é muito pequeno nas primeiras três
do quando grandes volumes de dieta semanas de vida e não é muito diferente
líquida são fornecidos. No entanto, do consumo de animais que recebem
mesmo que o maior volume de dieta maior volume de leite até essa idade
líquida proporcione menor consumo (Tabela 1).
de alimentos sólidos antes do desa- Nas primeiras semanas de vida o
leitamento, esta queda pode não per- rúmen apresenta: pequeno tamanho,
manecer após o mesmo, sendo que o população microbiana se estabelecen-
GMD e a ingestão de alimentos sóli- do, aumento gradual da capacidade de
dos após a fase de aleitamento geral- fermentação dos alimentos pela micro-
mente são semelhantes para bezerros biota e aumento gradual da capacidade
alimentados convencionalmente ou de absorção de produtos da degradação
com maiores quantidades de dieta lí- microbiana pelo epitélio em desenvolvi-
quida. A diferença de PC obtida pelos mento. Esses fatores associados respon-
animais aleitados à vontade ou com dem pela baixa capacidade de ingestão
maior volume de dieta líquida pode de alimentos sólidos no primeiro mês
persistir durante várias semanas após de vida, e pelas baixas taxas de ganho
a fase de aleitamento. de peso (65 a 370 g/dia, Coverdale et
46 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Tabela 1. Consumo médio de concentrado (MS) durante o primeiro mês de vida
de bezerros em diferentes experimentos realizados no Brasil e em outros países
Dieta Líquida/ Consumo con-
Autor Idade dias
dia centrado g/dia
Khan et al., (2007) Leite 4,5 kg 1 a 26 189,0
Batista et al., (2008) Leite descarte 4 L 1 a 28 169,9
Jasper e Weary (2002) Leite 4,91 kg 1 a 36 170,0
Coverdale et al., (2004) Sucedâneo 10% PV 1 a 32 260,0
Suarez-Mena et al., (2011) Leite 4,97 kg 1 a 28 176,0
Lesmeister e Heinrichs, (2004) Sucedâneo 10% PV 1 a 28 131,0
Silper et al., (2014) Sucedâneo 4 Litros 1 a 28 70,0
Jasper e Weary (2002) Leite 8 L 1 a 36 90,0
Khan et al., (2007) Leite 7,38 kg 1 a 27 215,7

al. 2004; Lesmeister e Henrichs, 2004; mento e ao tipo de dieta líquida a serem
Khan et al, 2007 Suarez-Mena et al, ofertadas aos bezerros tornaram-se o
2011; Silper et al., 2014) observadas foco de estudos nas últimas décadas.
com a restrição no volume de leite a Nos sistemas de aleitamento artifi-
10% do peso corporal. cial em que a dieta líquida é fornecida
Dessa forma, apesar do sistema de à vontade, normalmente os bezerros
aleitamento convencional ter sido pre- consomem em média 10 L/dia ( Jasper
conizado por muitas décadas e utilizado e Weary, 2002; Sweeney et al., 2010).
mundialmente, questionamentos a res- Já aqueles criados junto à mãe, em dois
peito da taxa de morta- turnos de duas horas por
lidade de 11% relatadas Nos sistemas de dia, ingerem em média
pelo National Animal aleitamento artificial 6,5 L/dia na primeira
Health Monitoring em que a dieta líquida semana de vida e 12,5
System (2003) nos EUA, é fornecida à vontade, L/dia na nona semana
durante a fase de aleita- normalmente os de vida (de Passillé et
mento, foram levantados bezerros consomem em al., 2008). Apesar dos
com o objetivo de verifi- média 10 L/dia. melhores resultados na
car se esse índice estava eficiência de crescimen-
de alguma forma ligado to durante o aleitamento
ao sistema de criação, que vinha sendo intensificado, o fornecimento de dieta lí-
adotado durante a fase de cria dos be- quida em maiores quantidades, do que a
zerros nos EUA. Diante disso, estudos fornecida convencionalmente, têm sido
relacionados à quantidade, ao forneci- criticado por proporcionar menor con-

3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 47


sumo de concentrado ( Jasper e Weary, dias (8L-1 a 30d/6L-31d a 60d/3L-61d
2002; de Passillé et al., 2008, Miller- a 90d). Aos 30 dias de idade as bezerras
Cushon et al., 2013) e consequente me- dos três grupos apresentaram consumo
nor desenvolvimento ruminal. de concentrado similar, mas aos 45 dias
Outro problema do fornecimento as bezerras do grupo que iniciou o ex-
de maior quantidade de dieta líquida, perimento consumindo 8 L/dia de leite
sem o aumento da frequência de for- apresentaram menor consumo de con-
necimento, foi apontado por Bach et centrado (tabela 2). Segundo o autor a
al. (2013), que demonstra resistência à melhor estratégia de aleitamento foi a
insulina aos sete, 30 e 60 dias de idade utilizada no Grupo 1 (6L-1 a 30d/4L-
em bezerras que receberam 8 L/dia de 31 a 60d/2L-61 a 90 dias), o qual pro-
sucedâneo, em duas refeições diárias. porcionou bom consumo de concentra-
Yunta et al. (2015) também mostraram do, taxa de ganho de peso semelhante
que bezerros recebendo 8 L/dia de leite, aos Grupos 2 e 3 e o baixo custo/kg de
em duas refeições, apresentaram baixa ganho de peso.
eficiência alimentar dos 35 aos 63 dias Mesmo com o menor consumo de
de idade, frente aos que estavam rece- concentrado observado em animais re-
bendo 6L e 4L/dia, possivelmente em cebendo maior volume de dieta líqui-
resposta a alteração no metabolismo de da, melhores taxas de crescimento são
glicose e a alta deposição de gordura, o observadas, com maior GMD e maior
que não é desejável para animais na fase desenvolvimento estrutural. Khan et
de crescimento. al., (2007) relataram aumento nas taxas
Leão (2013) avaliou três estratégias de ganho de peso de 600 g para 1 kg/
de aleitamento para bezerras mestiças, dia, aumento do crescimento estrutural
Holandês x Gir, com composição ge- e da eficiência alimentar em bezerros
nética acima de ¾ Holandês e PC ao alimentados de forma intensificada.
nascimento médio de 35 kg. As estraté- Appleby et al., (2001); Jasper e Weary
gias foram: Grupo1: 6 L de leite até os (2002) e Miller-Cushon et al., (2013)
30 dias, 4 L de leite dos 31 aos 60 dias relataram taxas de ganho de peso de 800
e 2 L de leite dos 61 aos 90 dias (6L-1 a 1,2 kg;/dia para bezerros alimentados
a 30d/4L-31d a 60d/2L- 61d a 90d); à vontade. Shamay et al., (2005) relata-
Grupo 2: 6 L de leite até os 45 dias, 4 L ram menor idade da puberdade e maior
de leite dos 46 aos 60 dias e 2 L de leite produção de leite corrigida para 3,5%
dos 61 aos 90 dias (6L-1 a 45d/4L-46d de gordura em bezerras que receberam
a 60d/2L- 61d a 90d); e Grupo 3: 8 L leite à vontade, comparadas a bezerras
de leite até os 30 dias, 6 L de leite dos 31 que receberam 450 g MS sucedâneo/
aos 60 dias e 3 L de leite dos 61 aos 90 dia. A diferença de desempenho obser-
48 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Tabela 2. Consumo médio de concentrado em gramas de matéria seca/dia
(média) a cada 15 dias das bezerras Holandês x Gir em três estratégias de
aleitamento, até os 90 dias de idade

Idade 6L-30d/4L-60d/2L-90d 6L-45d/4L-60d/2L-90d 8L-30d/6L-60d/3L-90d


(dias) (g de MS/d) (g de MS/d) (g de MS/d)

15 40,80 Af 31,48 Af 32,24 Af


30 186,53 Ae 173,35 Ae 115,87 Ae
45 514,75 Ad 422,45 ABd 332,37 Bd
60 984,07 Ac 877,88 Ac 584,58 Bc
75 1.766,46 Ab 1.575,86 ABb 1.382,24 Bb
90 2.358,55 Aa 2.177,26 Aba 1.984,10 Ba

Letras maiúsculas distintas nas linhas e minúsculas nas colunas diferem estatisticamente pelo teste SNK(P<0,05). CV =
31,17%. MS – matéria seca.

vada nesse trabalho não deve ser atribu- (2015) testaram três diferentes sistemas
ída apenas ao tipo de dieta líquida (leite de aleitamento: baixo volume de leite
x sucedâneo), e sim a diferença entre pasteurizado (4 L/dia até 35 dias de
ingestão de matéria seca (MS), prote- idade); moderado volume (6 L/dia até
ína bruta (PB) e energia metabolizável 49 dias de idade) e alto volume (8 L/dia
(EM) imposta pelas estratégias de alei- até 49 dias de idade), e verificaram que
tamento adotadas. o maior fornecimento de dieta líquida
Bach et al. (2013) observaram que proporcionou maior taxa de crescimen-
bezerros recebendo 8 L/dia de sucedâ- to dos bezerros, melhoria na eficiência
neo apresentaram taxas superiores de alimentar, porém, o estresse durante o
crescimento quando comparados a ani- desaleitamento foi maior para o grupo
mais alimentados com 6 L/dia, porém, com alto volume de dieta líquida quan-
no período entre o pré-desaleitamento do comparado ao de baixo e médio vo-
e o desaleitamento, quando o volume lume de dieta líquida, os quais apresen-
de 8 ou 6 L de sucedâneo taram menor consumo
foi reduzido para 4 L/ Para contornar a de concentrado durante
dia, aqueles que estavam queda no consumo a fase de aleitamento.
recebendo menor volu- de alimentos sólidos Para contornar a
me apresentaram maior durante o aleitamento queda no consumo de
taxa de crescimento do com maior volume alimentos sólidos du-
que os que estavam rece- de leite uma boa rante o aleitamento com
bendo maior volume de estratégia é o uso do maior volume de leite
dieta líquida. Yavuz et al. desaleitamento gradual. foram desenvolvidas as
3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 49
estratégias de desaleitamento gradual tava os bezerros com sucedâneo (28%
(Sweeney et al., 2010) e o aleitamento PB e 15% ou 20% de gordura) e eram
em “step-down” (Khan et al., 2007a). O desaleitados aos 50 dias de idade. Na
aleitamento em “step down” consiste no outra, eram fornecidos 900 g/dia de su-
fornecimento da dieta líquida a 20% do cedâneo comercial em volume final 3,8
peso corporal, até 28 dias de idade, com L/dia (28% PB e 15% de gordura), sen-
redução a partir daí para 10% do peso do os animais desaleitados também aos
corporal, essa queda no volume de lei- 50 dias de idade. Foi avaliado o GMD
te provoca aumento linear do consumo durante o aleitamento, a ingestão de
de sólidos, proporcionalmente à redu- energia proveniente do sucedâneo e de
ção na ingestão líquida. Os autores ob- outras variáveis para avaliar a influên-
servaram maior ganho de peso durante cia do GMD no período de aleitamen-
todo o período experimental, incluindo to sobre a lactação futura das fêmeas.
a fase pós-desaleitamento no grupo em Segundo os autores o plano nutricional
“step-down”. O maior ganho de peso foi durante o aleitamento pode contribuir
consequência do aumento da ingestão em 22% da variação na produção de lei-
de leite nas primeiras semanas, e ape- te na primeira lactação, mostrando que
sar do menor consumo de concentrado os planos nutricionais durante o aleita-
durante esse período, resultou em con- mento possuem efeito na produção fu-
sumo significativamente maior durante tura dos animais.
o restante do período de aleitamento Morrison et al. (2009) conduziram
e desaleitamento. O grupo “step down” experimentos para avaliar diferentes
apresentou melhor desenvolvimento planos de aleitamento. Um total de 153
dos pré-estômagos e do abomaso e au- animais (88 fêmeas e 65 machos) foram
mento no tamanho das papilas no rú- alocados em um dos quatro tratamentos
men (Khan et al.,2007b), o que indica no nascimento, para avaliar dois planos
que essa estratégia de aleitamento não de fornecimento de sucedâneo: 5 ou
impactou negativamente o desenvolvi- 10 L/dia de dieta líquida constituída
mento do rúmen. de 120 g/sucedâneo por litro de água,
O aumento da dieta líquida duran- que poderia ser de um sucedâneo com
te a fase de aleitamento e os seus efei- 210 g/PB/kg de matéria seca (MS) ou
tos ao longo prazo na vida produtiva 270 g/PB/kg de MS. Todos os animais
dos animais é outro ponto importante foram aleitados de cinco a 56 dias de
e que deve ser considerado. Soberon et idade. Os animais foram alojados em
al. (2012) realizaram uma meta-análise baias com alimentadores automáticos.
de dados de duas fazendas distintas que Água e concentrado com 22% PB foram
possuíam manejos parecidos. Uma alei- administrados à vontade para todos os
50 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
grupos. Após o desaleitamento todos primeiro parto e a produção de leite não
os animais passaram a receber a mes- foram diferentes entre os tratamentos,
ma dieta. Os animais foram insemina- assim não houve diferença na produção
dos aos 13,5 meses com 315 kg de PC. de leite. Quando foi avaliado o mérito
Dados de 88 animais na primeira lac- genético dos animais houve tendência
tação e 66 animais na segunda lactação (p=0,08) para maior produção de leite
foram avaliados, não sendo observada nos animais aleitados intensivamente.
diferença entre os grupos para a idade e Os autores consideraram essa tendência
peso no primeiro parto e para produção na avaliação econômica, e não encon-
de leite nas lactações avaliadas. traram diferença de custo entre os trata-
Davis Rincker et al. (2011) estuda- mentos, deixando a cargo do produtor
ram o efeito do aleitamento intensivo a escolha do melhor manejo nutricional
sobre o crescimento, a idade da pu- das fêmeas.
berdade, a idade do primeiro parto e a Kiezebrink et al. (2015) utilizaram
produção de leite e fizeram uma análi- 152 fêmeas da raça Holandês em dois
se econômica das diferentes estratégias tratamentos: 4 ou 8 L/dia de leite e rela-
avaliadas. Foram utilizados 40 animais taram que ao desaleitamento das fêmeas
em cada grupo experimental. O aleita- alimentadas com 8 L/dia apresentaram
mento convencional com sucedâneo aumento do PC e eram mais altas, po-
(21,5% de PB, 21,5% gordura) a 1,2% rém, essas diferenças desapareceram aos
PC na MS seca foi comparado com 112 dias de idade, não sendo observada
aleitamento intensivo com sucedâneo nenhuma diferença nos parâmetros re-
(30,6% PB e 16,1% gordura) adminis- produtivos ou de produção de leite na
trado a 2,1% PC na MS. Os animais fo- primeira lactação em relação aos ani-
ram desaleitados aos 42 dias de idade. mais aleitados convencionalmente.
O grupo de aleitamento convencional Yunta et al. (2015) avaliaram os efei-
recebeu concentrado com 20% PB e o tos em curto e médio prazo do forneci-
grupo com aleitamento intensivo rece- mento de 4, 6 ou 8 L/dia de sucedâneo,
beu concentrado com 24% PB. Após o duas vezes ao dia, sobre o desempenho
desaleitamento os animais foram sub- e o metabolismo de glicose de fêmeas
metidos ao mesmo manejo, sendo libe- da raça Holandês. O sucedâneo foi pre-
rados para inseminação artificial com parado para conter 15% ST (22,8% PB e
405 kg. Os animais em aleitamento in- 19,4% gordura). Segundo os autores, os
tensivo foram 31 dias mais precoces na animais que receberam 6 ou 8 L/dia de
puberdade do que os animais em alei- sucedâneo tiveram maior GMD durante
tamento convencional. Essa diferença o aleitamento e atingiram maior PC, po-
não se manteve e a idade e o peso do rém, durante o desaleitamento eles não
3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 51
conseguiram compensar a perda dos volumes de leite ou de sucedâneo por
nutrientes provenientes do sucedâneo animais que nasceram com baixo PC.
com o aumento do consumo de alimen- Sendo assim, uma estratégia que pode
tos sólidos, os animais que receberam contornar em parte esses problemas
4 L/dia passaram então a apresentar seria a adição de determinada quanti-
maior GMD. Por outro lado, os animais dade de sucedâneo em pó, aumentando
que receberam 6 ou 8 L/dia foram mais o ST da dieta líquida, sem aumentar o
precoces a primeira inseminação artifi- volume oferecido aos bezerros. Porém,
cial, não sendo observada essa diferença apenas três artigos foram publicados nas
para a idade das prenhes e para a taxa de duas últimas décadas tratando desse sis-
concepção. tema de aleitamento.
Em síntese, os resultados são con- Raeth-Knight et al. (2009) testaram
troversos e as conclusões mostram que cinco dietas líquidas diferentes, e dentre
aumentar o aporte nutricional no início elas, em uma fixou-se o volume de 3,5
da vida não garante aumento da pro- kg/dia de dieta líquida, composta de su-
dução de leite futura. Existem muitos cedâneo enriquecido para 13,9 % de ST
fatores de confundimento entre os tra- (convencional), em outra o volume foi
balhos avaliados que dificultam a elabo- mantido próximo a (3,4 kg/dia), com
ração de uma conclusão sobre o tema. 16,7% de ST (intensivo). Ambos os tra-
Mais trabalhos devem ser realizados tamentos foram fornecidos duas vezes
buscando contornar esses fatores para ao dia, com 50% do volume final sen-
maior segurança das recomendações de do oferecido em cada refeição até os 35
aleitamento. Além disso, fatores econô- dias. Dos 36 aos 42 dias as dietas líqui-
micos devem ser levados em considera- das foram reduzidas pela metade, sen-
ção para a tomada de decisão. do os animais desaleitados em seguida.
Durante a fase de aleitamento os autores
Aumento da concentração relataram que no sistema convencional
de sólidos totais na dieta as bezerras apresentaram menor consu-
líquida mo de MS total, de GMD, de PC e de
Por várias razões produtores e técni- eficiência alimentar do que as bezerras
cos relutam em aumentar o volume de em aleitamento intensivo, não foram
leite fornecido para os bezerros. Entre observadas diferenças entre o consumo
elas temos a redução no consumo de de concentrado, desenvolvimento cor-
concentrado e o possível atraso no de- poral e escore de fezes entre os animais.
senvolvimento do rúmen, com conse- No pós-aleitamento os animais apre-
quente perda de peso após o desaleita- sentaram similaridade de consumo, de
mento, e também a recusa de grandes desempenho e de eficiência alimentar,
52 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
bem como para a idade do parto e os pa- que nos demais. Já a eficiência alimentar
râmetros de produção e de composição foi superior nos animais do T3 e T4 do
do leite, demonstrando que as bezerras que nos animais aleitados convencio-
que receberam maior %) de ST na dieta nalmente ou no T2, os quais foram se-
líquida, em baixo volume, foram mais melhantes entre si, demonstrando que
pesadas durante a fase de aleitamento e a mesma está mais interligada ao consu-
no pós-aleitamento imediato (56 dias) mo de leite integral do que ao consumo
em comparação aos animais aleitados de ST. Possivelmente devido à diferença
convencionalmente. No entanto, essa constitucional dos nutrientes entre am-
vantagem não foi mantida durante a fase bos e ao melhor aproveitamento do leite
de recria das novilhas. pelas bezerras em relação aos sucedâne-
Glosson et al. (2015) avaliaram sis- os. Para as medidas de desenvolvimento
temas de aleitamento intensivos com corporal nenhuma diferença foi obser-
leite adicionado com produto em pó vada entre os tratamentos e, no final da
Milk plus balancer (o qual possui 25% de fase de aleitamento, os bezerros do T3
PB e 10% de gordura, sendo composto, apresentaram maior PC em relação aos
com ingredientes de soro de leite em pó, demais sistemas, os quais não diferiram
concentrado de proteína de soro de leite, entre si. O escore fecal foi maior nos ani-
soro de leite, leite em pó desnatado, lei- mais do T3, sem diferenças para o esco-
te em pó, proteína e gordura animal) em re respiratório entre os tratamentos. Os
três tratamentos intensivos: T1-3,8 L de autores concluíram que uma opção para
leite mais Milk plus balancer para 17,6% os produtores aumentarem o GMD, PC
de ST; T2-sistema Step-Down (3,8 L/d e a eficiência alimentar na fase de alei-
até 14 d; 5,7 L/d até 49 d e 2,8 até 56 d) tamento seria a utilização de leite enri-
com leite a 12,5% de ST; T3 - mesmo quecido com produto em pó balancea-
sistema Step-Down do T2, com Milk dor. Os autores chamam atenção que o
plus balancer para 17,6% de ST; contra investimento no período pré-desaleita-
um sistema convencional T4 (3,8 L de mento para bezerras deve ser benéfico
leite com 12,5 % de ST) de aleitamen- para o desempenho futuro como vacas,
to, até os 56 dias de idade. Observou-se ressaltando a importância de observa-
que o consumo de concentrado dos ani- ções de longo prazo para determinar os
mais aleitados convencionalmente foi efeitos desses sistemas na produção e na
superior aos outros sistemas avaliados, composição posterior do leite.
os quais não diferiram entre si, o GMD Azevedo et al. (2016 in press) ava-
dos animais aleitados convencional- liaram os efeitos do aumento dos teores
mente foi menor do que o T2 e o T3, de ST na dieta líquida, composta de lei-
sendo verificado maior valor no T3 do te integral acrescida de sucedâneo em
3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 53
pó, sob o consumo, o desempenho e os Referências
parâmetros de saúde no pré e pós-alei- 1. Appleby, M. C.; Weary, D. M.; Chua, B.
tamento de bezerras leiteiras. Segundo Performance and feeding behavior of calves on
ad libitum milk from artificial teats. Appl. Anim.
os autores, o aumento dos ST na dieta Behav. Sci., v. 74, p. 191-201, 2001.
até 20,4% é uma opção para aumentar o 2. Appleman, R.D.; Owen, F.G. Breeding, housing,
desempenho e o desenvolvimento cor- and feeding management. J. Dairy Sci., v.58 p.447-
464, 1975.
poral de bezerras durante e após o alei-
3. Azevedo, R. A.; Machado, F. S.; Campos, M. M.;
tamento, sem efeitos sob o consumo de Furini, P. M.; The effects of increasing amounts of
concentrado, escore de fezes e os dias de milk replacer powder added to whole milk on feed
intake and performance of dairy heifers. J. Dairy
diarreia. Sci. (In press), 2016.
4. Bach, A., M. Terré, A. Pinto. Performance and
Considerações finais health responses of dairy calves offered different
milk replacer allowances.  J. Dairy Sci. 96:7790-
Em linhas gerais fornecer mais nu- 7797, 2013.
trientes que os utilizados nos sistemas 5. Batista, C.G.; Coelho, S.G., Rabelo, E. et al.
Desempenho e saúde de bezerras alimentadas com
de aleitamento convencional (10% PC) leite sem resíduo de drogas antimicrobianas ou lei-
e menos que nos sistemas à vontade (8 te de vacas tratadas contra mastite adicionado ou
não de probiótico. Arq. Bras. Med. Vet. Zoot., v.60,
a 12 litros/dia), se mostram como boa p.185-191, 2008.
prática para a criação de bezerras, uma 6. Coverdale, J. A.; Tyler, H. D.; Quigley, J. D. et al.
vez que melhores taxas de crescimento Effect of various levels of forage and form of diet on
rumen development and growth in calves. J. Dairy
são observadas em programas de aleita- Sci., v.87, p.2554–2562, 2004.
mento com maior volume de dieta líqui- 7. Davis Rincker, L. E., M. J. VanderHaar, C. A. Wolf,
da, porém, o sucesso desses programas J. S. Liesman, L. T. Chapin, M. S. Weber Nielsen.
Effect of intensified feeding of heifer calves on
têm sido questionados devido à redução growth, pubertal age, calving age, milk yield, and
no consumo de concentrado durante o economics. J. Dairy Sci. 94:3554–3567, 2011.
aleitamento e de GMD na fase de pós- 8. De Passillé, A.M.; Marnet, P.G.; Lapierre, H. et al.
Effects of nursing on milk ejection and milk yield
-aleitamento. Uma boa estratégia para during nursing and milking in dairy cows. J. Dairy
minimizar essa redução do consumo Sci., v. 91, p.1416-1422, 2008.
é a implementação do desaleitamento 9. Glosson, K. M., B. A. Hopkins, S. P. Washburn, S.
Davidson, G. Smith, T. Earleywine, C. Ma. Effect
gradual, que permite que os bezerros of supplementing pasteurized milk balancer prod-
aumentem o consumo de concentrado ucts to heat-treated whole milk on the growth and
health of dairy calves. J. Dairy Sci. 98:1127-1135,
antes do desaleitamento. Aumentar o 2015.
fornecimento de nutrientes por enri- 10. Jasper, J., D. M. Weary. Effects of ad libitum milk
quecimento da dieta líquida, aumentan- intake on dairy calves. J. Dairy Sci. 85:3054-3058,
2002.
do-se a concentração e não o volume da
11. Khan, M. A.; Lee, H. J.; Lee, W. S. et al. Pre- and
mesma pode ser uma alternativa interes- postweaning performance of Holstein female
sante de aleitamento. calves fed milk through step-down and conven-

54 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


tional methods. J. Dairy Sci., v.90, p. 876-885, Broadwater. Impact of conventional or intensive
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mance through six months of age and during first
12. Khan, M. A.; Lee, H. J.; Lee, W. S. et al. Structural
growth, rumen development, and metabolic and lactation. J. Dairy Sci., v. 92, p.799-809, 2009.
immune responses of Holstein male calves fed milk 20. Shamay, A.; Werner, D.; Moallem, U. et al. Effect of
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3. Dieta líquida para bezerros leiteiros 55


4. Sucedâneos lácteos
para bezerras leiteiras

bigstockphoto.com

Carla Maris Machado Bittar1


Lucas Silveira Ferreira2
Jackeline Thais da Silva2
1
Prof.ª Associada do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP – carlabittar@usp.br - Av. Pádua Dias, 11 - CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP -
Fone: (19) 3429-4134
2
Doutor em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

Introdução proveniente de vacas com mastite e/


ou resíduo de antibióticos (Santos e
A dieta líquida é um dos componen-
Bittar, 2015). Nos Estados Unidos, por
tes que mais onera o custo de criação de
outro lado, a crescente preocupação
bezerras leiteiras, representando pelo
menos 70% dos custos variáveis. Dessa com o uso de antibióticos em subdo-
forma, o desaleitamento precoce ou a ses tem levado ao uso de sucedâneos
adoção de dieta líquida de baixo custo, ou às práticas de fermentação e pas-
pode reduzir o custo final da novilha de teurização do leite descarte, de forma
reposição. No Brasil, grande parte das a reduzir a contagem de patógenos ou
fazendas ainda fornece leite descarte, destruir resíduos de antibióticos. Entre
56 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
as vantagens do uso de O início do forneci-
Entre as vantagens
sucedâneos no aleita- mento de sucedâneos é
do uso de sucedâneos
mento de bezerros es- incerto e de alguma for-
no aleitamento de
tão - além da economia, ma dependente da abor-
bezerros estão - além
devido ao baixo preço dagem que damos a esse
da economia, devido
quando comparado com ao baixo preço quando termo. O fornecimento
o leite integral - a possi- comparado com o leite de soro de leite para be-
bilidade de aumento no integral - a possibilidade zerros é antigo, e hoje é
volume de leite comer- de aumento no volume um dos ingredientes de
cializado pelo produtor, de leite comercializado várias formulações co-
o fornecimento de dieta pelo produtor, o merciais. Dentre as alter-
líquida com composição fornecimento de dieta nativas de dieta líquida
sempre constante e a líquida com composição para bezerros, podemos
independência do alei- sempre constante listar o leite descarte ou
tamento em relação aos e a independência não comercializável, o
horários de ordenha. Por do aleitamento em colostro fermentado, o
outro lado, a qualidade relação aos horários de soro de leite e as formu-
do sucedâneo, principal- ordenha. lações comerciais. Essas
mente a fonte proteica, formulações comerciais
é o fator determinante serão chamadas, deste
para a obtenção de resultados semelhan- ponto em diante, de sucedâneos.
tes aos observados com o fornecimento
de leite integral (NCR, 2001). Leite não comercializável
Diversos sistemas e práticas de ma- O leite não comercializável, tam-
nejo de animais no aleitamento vêm bém chamado de leite descarte, pode ser
sendo adotados com o objetivo de re- composto por colostro de baixa qualida-
duzir o custo na criação desses animais. de (não indicado para armazenamento
Entretanto, a grande variedade de dietas no banco de colostro), leite de transição
líquidas disponível pode resultar em e ainda leite proveniente de vacas com
problemas de sanidade e de nutrição mastite ou em tratamento com antibió-
desses animais, resultando em baixos ticos. A grande preocupação com o uso
desempenhos. A decisão no uso de su- de leite descarte tem sido a contamina-
cedâneo deve-se basear em seu custo ção bacteriana excessiva e subdoses de
por litro diluído, comparado ao preço antibióticos. Embora bactérias possam
do leite vendido à indústria; a oferta de estar presentes no leite devido à ocor-
leite descarte na propriedade; e, princi- rência de mastite, a contaminação mais
palmente, na sua composição. provável está normalmente relacionada
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 57
ao inadequado manejo
O benefício econômico ras, resultando em altera-
de ordenha, principal- ções diárias na qualidade
da alimentação
mente com relação ao e composição da dieta lí-
com leite descarte
manuseio e armazena- quida, principalmente no
pasteurizado, em
mento do leite até o for- comparação a teor de sólidos (Moore
necimento aos bezerros. substitutos do leite, et al., 2009). A alta carga
Como resultado, é cres- tem sido demonstrada. bacteriana também é um
cente o uso de pasteu- Bezerros alimentados problema e pode resultar
rizadores para redução com leite pasteurizado em diarreias. Maynou et
de carga bacteriana e apresentam maior al. (2015) observaram
eliminação de patóge- ganho de peso e menores que bezerros aleitados
nos como Salmonella e taxas de morbidade e com leite de descarte
Mycoplasma (Moore et mortalidade. e pasteurizado tiveram
al., 2009). O benefício maior probabilidade de
econômico da alimenta- apresentar resistência à
ção com leite descarte pasteurizado, em ampicilina, à cefalotina e ao ceftiofur,
comparação a substitutos do leite, tem nos dias 35 e 56. Mas, valores superio-
sido demonstrada. Bezerros alimenta- res a 55,5% dos isolados de E. coli foram
dos com leite pasteurizado apresentam resistentes à penicilina, eritromicina,
maior ganho de peso e menores taxas de tetraciclina e a estreptomicina. Assim,
morbidade e mortalidade. fornecer leite descarte para bezerros,
Embora a redução mesmo que pasteuriza-
da contaminação bacte- ... fornecer leite descarte do, pode desencadear a
riana do leite fornecido para bezerros, mesmo ocorrência de E. coli re-
aos bezerros deva ser que pasteurizado, sistente no intestino de
o principal foco de um pode desencadear a bezerros leiteiros.
programa de alimenta- ocorrência de E. coli O ideal é a separação
ção de bezerras leiteiras, resistente no intestino do leite proveniente de
medidas relacionadas à de bezerros leiteiros. ... vacas com mastite, ou em
adequação da qualida- O ideal é a separação tratamento, para forneci-
de do leite, do ponto de do leite proveniente mento aos animais mais
vista nutricional, devem de vacas com mastite, velhos e alojados indivi-
ser consideradas. Muitas ou em tratamento, dualmente. O colostro de
propriedades formam para fornecimento baixa qualidade e o leite
um pool com todo o leite aos animais mais de transição devem ser
não comercializável para velhos e alojados fornecidos aos animais
fornecimento às bezer- individualmente. mais novos, tendo em
58 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
vista os efeitos benéficos do uso prolon- observaram que o uso de colostro fer-
gado de colostro tanto na saúde quanto mentado aerobicamente pode resultar
no desempenho dos animais (Berge et em recusa pela bezerra, reduzindo o
al., 2009). consumo de matéria seca proveniente
da dieta líquida e, assim, prejudicar o
Colostro e leite de desempenho. Esses trabalhos foram rea-
transição fermentado lizados com fermentação aeróbia, o que
O colostro fermentado também no Brasil não funcionou devido a alta
pode ser uma alternativa de dieta líqui- temperatura ambiental, resultando em
da para bezerros leiteiros. A fermenta- dieta líquida com presença de mofos e
ção de colostro excedente foi extensiva- bolores e, consequentemente, baixo de-
mente estudada durante as décadas de sempenho e alta mortalidade.
1970 e 1980 como uma possibilidade No entanto, Saalfeld (2008) desen-
de armazenamento e de utilização. O volveu uma técnica de fermentação ana-
primeiro trabalho referente ao forneci- eróbia, chamando o colostro fermenta-
mento de colostro ou leite de transição do de silagem de colostro. O colostro/
fermentado data do início da década de leite de transição é armazenado em gar-
1970 (Swannack, 1971) e estimulou rafas plásticas de 0,5, 1 ou 2 L, preenchi-
uma série de importantes trabalhos nes- das completamente de forma a retirar
ta área nos anos subsequentes (Foley e o ar do sistema, por um período de 21
Otterby, 1978; Foley e Otterby, 1979; dias. Em acompanhamento à proprie-
Otterby et al., 1980). De dade particular, com o
maneira geral, observou- De maneira geral, emprego da técnica e
-se que a fermentação observou-se que a desaleitamento com 60
de colostro e de leite de fermentação de colostro dias de vida, Saalfeld
transição pode resultar e de leite de transição (2008) observou ganho
em um alimento de boa pode resultar em de peso diário de 823
qualidade, que permite um alimento de boa g/d no primeiro mês de
taxas de ganho de peso qualidade, que permite vida das bezerras e uma
comparáveis àquelas taxas de ganho de peso média de 667 g/d até o
observadas com o for- comparáveis àquelas sexto mês. A fermenta-
necimento de leite ou observadas com o ção em meio anaeróbio
sucedâneo, desde que as fornecimento de leite ou de colostro colhido nas
condições de manejo ali- sucedâneo, desde que três ou quatro primeiras
mentar e sanitários sejam as condições de manejo ordenhas após o parto,
adequadas. No entanto, alimentar e sanitários parece uma interessante
Foley e Otterby (1979) sejam adequadas. maneira de se armaze-
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 59
nar colostro excedente. O armazena- morbidade, com animais apresentando
mento é importante em situações em sinais de dor abdominal e baixa aceita-
que a demanda por dieta líquida diária bilidade voluntária da dieta líquida. Por
é pequena, mas a produção de colostro outro lado, o trabalho de Azevedo et al.
é alta, como ocorre em pequenos reba- (2013) mostrou potencial de inclusão
nhos de vacas de alta produção. de silagem de colostro na dieta líquida
No entanto, o trabalho de de bezerros, quando é feita a diluição
Ferreira et al. (2013b) mostrou que em- em leite. Nessa situação, o ganho de
bora o material sofra fermentação ana- peso foi semelhante ao observado com
eróbia adequada, garantindo armazena- o leite integral (734,5 vs. 806,4 g/d), en-
mento sem o aparecimento de fungos e quanto que a diluição em água resultou
bolores, a qualidade nutricional é bas- em baixo ganho de peso (484,5 g/d) e
tante prejudicada. Ocorre grande queda consequente menor peso final, corrobo-
no teor de proteína, com acréscimo na rando os dados de Ferreira et al. (2013).
porção de nitrogênio não proteico, que
não é aproveitado pela bezerra nessa Soro de leite
fase. Também ocorre redução nos teores O soro de leite é um subprodu-
da lactose e o consequente abaixamento to da produção de queijo e pode estar
de pH permite que o material seja arma- disponível em grandes quantidades em
zenado por longo período. Em trabalho algumas regiões. É considerado um pro-
subsequente Ferreira et al. (2013a), ob- blema para a indústria, devido à impos-
servaram menor ganho de peso em be- sibilidade de descarte sem tratamento,
zerros que receberam silagem de colos- e por isso muitas vezes comercializa-se
tro como dieta líquida, quando este foi esse subproduto a preços irrisórios para
diluído em água na proporção de 1:1, e produtores de leite. Recentemente, a
comparado a um sucedâneo comercial indústria desenvolveu métodos de se-
de média qualidade (181 cagem desse material de
vs 279 g/d, P<0,05). Embora seja utilizado forma que o soro seco
Esse baixo desempenho por muitos produtores, o tem sido utilizado na
ocorreu provavelmente soro de leite é uma dieta produção de inúmeros
em resposta a grande re- líquida extremamente outros produtos para
dução na concentração desbalanceada alimentação humana ou
de proteína verdadeira e quando comparada mesmo animal, como na
no aumento no N não-
a composição do leite formulação de sucedâ-
-protéico da silagem.
integral, e não deve ser neos. Embora seja utili-
Além do baixo desem-
utilizado para substituir zado por muitos produ-
o leite dos bezerros. tores, o soro de leite é
penho, foi observada alta
60 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
uma dieta líquida extremamente desba- utilização de sucedâneos estão relacio-
lanceada quando comparada a composi- nados ao excesso de amido ou de fibra
ção do leite integral, e não deve ser utili- na formulação, tipo ou inadequada in-
zado para substituir o leite dos bezerros. corporação de fontes de gordura, mas,
Apresenta baixíssimo teor de sólidos principalmente, na utilização de fontes
(7%), 12% de gordura; 70% de lactose, proteicas de baixo aproveitamento ou
o que resulta em grande incidência de que promovam transtornos digestivos
diarreias; somente 10-12% de proteína; aos animais (Campos e Silva, 1986).
além de altas concentrações de mine- Devido à limitada capacidade de diges-
rais (Liziere e Campos, 2001). Assim, o tão dos animais ruminantes durante as
soro in natura não deve ser fornecido a primeiras semanas de vida, os ingre-
bezerros no período de aleitamento. dientes utilizados na formulação de
alimentos substitutos de leite merecem
Formulações comerciais especial importância.
Os primeiros produtos chamados De maneira geral, para a adequada
de substitutos de leite foram desenvol- formulação de um sucedâneo devem ser
vidos na década de 1950 (Otterby e utilizados ingredientes que contenham
Linn, 1981). Estes produtos eram ba- carboidratos, proteínas e gorduras di-
sicamente subprodutos da indústria gestíveis para bezerros. Diversos aspec-
leiteira adicionados de farelos de trigo, tos devem ser considerados quando se
aveia e óleos vegetais. Entretanto, os avalia diferentes formulações comer-
produtos desenvolvidos nessa época, ciais. A idade do animal deve ser con-
apesar de representarem siderada uma vez que
economia na criação dos Os problemas com a bezerros com menos de
animais, não resultavam utilização de sucedâneos três semanas não têm o
em adequadas taxas de estão relacionados ao trato digestório pronto
crescimento. O baixo de- excesso de amido ou de para digerir fontes de
sempenho era explicado fibra na formulação, carboidrato e de prote-
principalmente pela falta tipo ou inadequada ína de origem vegetal,
de tecnologia para in- incorporação de fontes como bezerros mais
corporação da gordura, de gordura, mas, velhos o fazem. Assim,
que resultava em diarreia principalmente, na alguns produtos comer-
nos animais, bem como utilização de fontes ciais só podem ser forne-
na utilização de fontes proteicas de baixo cidos para bezerros mais
vegetais na formulação aproveitamento ou que velhos, havendo neces-
(Noller et al., 1956). promovam transtornos sidade de outra dieta
Os problemas com a digestivos aos animais. líquida no sistema de
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 61
criação. O aspecto mais
Bezerros com menos de no Brasil são feitas para
importante na avaliação mais de 16% de sólidos.
três semanas de idade
dos sucedâneos é a ade- A adequação dos
devem receber fórmulas
quação dos ingredientes ingredientes é sem dú-
que contenham somente
e a taxa de inclusão dos proteínas de origem vida o ponto mais im-
mesmos. Sucedâneos de láctea, e quando houver portante na escolha de
boa qualidade devem proteína de origem uma formulação. A re-
apresentar em seu rótu- vegetal é necessário que comendação do NRC
lo a lista de ingredientes, seja uma fonte isolada é de que os sucedâneos
assim como os níveis de ou concentrada de contenham por volta
garantia em nutrientes. proteína. de 20-22% de proteína,
Normalmente, os pro- podendo ser a fonte pro-
dutos mais baratos são teica de origem láctea
aqueles que possuem alta inclusão de ou não. As proteínas lácteas são as me-
proteína não láctea, devendo-se atentar lhores fontes para bezerros jovens, uma
para isso principalmente quando o ob- vez que apresentam alta digestibilidade
jetivo for aleitar bezerros a partir da pri- (87-97%, dependendo da fonte), bom
meira semana de vida. balanço de aminoácidos e ausência de
As melhores taxas de diluição fo- fator antinutricional. Bezerros com
ram definidas com base no melhor de- menos de três semanas de idade de-
sempenho e também na ocorrência de vem receber fórmulas que contenham
diarreias. Trabalhos antigos (Pettyjohn somente proteínas de origem láctea,
et al., 1963; Jenny et al., 1982) avalian- e quando houver proteína de origem
do diferentes taxas de diluição dos pro- vegetal é necessário que seja uma fon-
dutos disponíveis naquela época, mos- te isolada ou concentrada de proteína
tram melhores desempenhos e menor (BAMN, 2014). Fontes de origem não
ocorrência de diarreias com diluições láctea podem reduzir a disponibilidade
de 10 a 15% de sólidos. Atualmente, de proteína, além de causar diarreias
diluições de até 17,5% de sólidos são alimentares e alergias, reduzindo o de-
recomendadas na literatura, sem preju- sempenho e aumentando as taxas de
ízos à saúde ou ao desempenho animal, mortalidade. Sucedâneos com fontes
sendo bastante comuns em programas não lácteas de proteína também podem
de crescimento acelerado. No entanto, ser consideradas adequadas, no entan-
a experiência no bezerreiro experimen- to, somente para bezerros com mais de
tal da ESALQ/USP mostra problemas três semanas de vida.
de aceitação da dieta líquida quando as Uma fonte láctea muito comum
diluições dos produtos comercializados nos sucedâneos é o soro de leite, um
62 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
coproduto da fabrica-
A proteína hidrolisada semanas. A proteína hi-
ção de queijos. Na lista drolisada do glúten de
do glúten de trigo é
de ingredientes podem trigo é de alta qualida-
de alta qualidade,
aparecer soro, soro de-
econômica e produzida de, econômica e produ-
sidratado, ou proteína a partir da farinha de zida a partir da farinha
concentrada de soro trigo pela separação da de trigo pela separação
(em inglês, WPC). A di- proteína e do amido do da proteína e do amido
ferença desses produtos glúten. do glúten. Assim, como
é a quantidade de lacto- as outras fontes não
se e minerais removida lácteas de proteína, é
na secagem ou desidratação do soro. recomendada para bezerros com mais
Por exemplo, soro desidratado contém de três semanas de idade. No entanto,
12%, enquanto o WPC contém 80% de tem baixa fibra e cinzas, além de con-
proteína. Também existe diferença em ter uma alta porcentagem de proteí-
termos de digestibilidade da proteína na quando comparada aos produtos
de acordo com o tipo de queijo produ- da soja. Além disso, não apresentam
zido, as temperaturas de secagem e ou- fatores antinutricionais que podem
tros processos de manipulação do soro. causar reações alérgicas, responsáveis
Essas proteínas são as de melhor qua- por reduzir o desempenho animal. As
lidade para animais jovens. Entretanto, proteínas de plasma são fontes únicas
o aumento no consumo de proteína do que contêm albumina ativa e proteínas
soro de leite por humanos tem torna- globulares. No entanto, já existem res-
do esse ingrediente cada vez mais caro, trições no uso deste tipo de ingrediente
muitas vezes inviabilizando sua inclu- na alimentação de ruminantes.
são nas formulações. Os dois compostos mais utilizados
As opções de fontes proteicas não para substituir proteína de origem lác-
lácteas incluem proteínas da soja, fari- tea são glúten solúvel de trigo e prote-
nha de soja, proteínas de trigo, batata e ína de soja concentrada, e em muitos
plasma animal. A proteína da soja tem sucedâneos a inclusão desses ingre-
baixa digestibilidade e conteúdo em dientes pode chegar a 50% (Drackley
aminoácidos. Além disso, assim como et al., 2006). No entanto, esses dois
a farinha de soja, pode causar reações substitutos de proteína láctea apresen-
alérgicas no intestino, reduzindo a dis- tam limitações; a proteína de soja con-
ponibilidade da proteína para o bezer- centrada tem o perfil de aminoácidos
ro causando diarreias. Essas duas fon- deficientes em metionina e lisina; e o
tes de proteína são melhor utilizadas glúten solúvel de trigo apresenta defi-
por bezerros com idade acima de três ciência em lisina e outros aminoácidos
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 63
essenciais. Para dimi- sucedâneos com alta
Bezerros com menos
nuir essas deficiências, gordura láctea reduzem
de duas semanas não
aminoácidos sintéticos o risco de diarreias. No
digerem fontes não
podem ser utilizados na entanto, como a gordura
lácteas de gordura, de
formulação dos sucedâ- forma que sucedâneos de origem láctea tem alto
neos (Tanan, 2007). com alta gordura láctea valor comercial, fontes
A exigência de reduzem o risco de alternativas, como óleo
aminoácidos por bezer- diarreias. No entanto, de coco ou de palma, são
ros na fase de aleitamen- como a gordura de largamente utilizadas.
to ainda não está bem origem láctea tem alto Essas fontes de gordura
definida. No entanto, valor comercial, fontes devem sofrer processo
uma série de estudos alternativas, como de dispersão e homoge-
têm sido desenvolvidos óleo de coco ou de neização, com redução
nos últimos anos para palma, são largamente de tamanho de partícu-
estabelecer esses valores. utilizadas. la de 3-4 nm, para seu
A base para adequar a melhor aproveitamento
formulação dos sucedâ- ( Jenkins et al., 1981).
neos é a composição do leite integral, Pontos importantes na avaliação das
uma vez que a proteína do leite pos- fontes de gordura são: ponto de fusão
sui o melhor padrão, com o perfil ideal (decisivo para que a homogeneização
de aminoácidos e alto valor biológico e a diluição do pó em água ocorram
(Drackley et al., 2006). A recomenda- de forma adequada), odor e perfil de
ção proposta por Hill et al. (2008) do ácidos graxos. Além disso, a adição de
fornecimento diário de 17 g de lisina emulsificantes como monoglicerídeos,
e 5,4 g de metionina para bezerros lei- diglicerídeos e, principalmente, a leciti-
teiros com menos de cinco semanas de na facilitam o aproveitamento pelos ani-
idade, tem se mostrado apropriada para mais ( Jenkins e Emmons, 1980).
suprir as exigências em aminoácidos es- A quantidade de fibra de uma for-
senciais e garantir taxas de crescimento mulação é um bom indicativo da in-
adequadas. clusão de fontes de proteína de origem
A porcentagem de gordura no leite vegetal. Quanto mais inclusão destas
integral com base na matéria seca é de fontes, mais alto será o teor de fibra da
30%. Os sucedâneos devem conter en- fórmula. Os sucedâneos para bezerros
tre 10 e 25% de gordura bruta (Davis e com menos de três semanas de idade
Drackley, 1998). Bezerros com menos não devem apresentar mais que 0,15%
de duas semanas não digerem fontes de fibra bruta em sua composição.
não lácteas de gordura, de forma que Embora os altos teores de fibra bruta
64 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
indiquem a inclusão de proteína de ori- cientes que o auxilie na escolha do suce-
gem vegetal, valores abaixo de 0,15% dâneo adequado. Um trabalho recente
não garantem sua ausência. Isso ocorre avaliou a composição de 15 marcas de
devido às tecnologias para retirada de sucedâneos comercializados no Brasil
carboidratos solúveis e, também, fibras (Tabela 1) e verificou que vários produ-
da proteína de soja, por exemplo. tos apresentam qualidade adequada para
A possibilidade de inclusão de adi- o sistema de aleitamento convencional,
tivos que auxiliam no controle profilá- mas não para o aleitamento intensivo
tico de diarreias também pode ser lis- (Silva, 2014). No sistema convencional
tada como benefício do fornecimento o fornecimento é de 4L diários (≈ 10%
de formulações comerciais. Embora os PV) divididos em duas refeições até a
antibióticos não estejam liberados na sexta ou oitava semanas de vida. Já no
composição de sucedâneos no merca- aleitamento intensivo os animais rece-
do brasileiro, é muito comum a inclu- bem maiores volumes de dieta líquida
são de oxitetraciclina em (≈ 20%PV) com o ob-
sucedâneos no mercado jetivo de apresentarem
A possibilidade de
americano. Os produtos
inclusão de aditivos que ganho de peso acelera-
nacionais podem trazer do. Nesse sistema os ani-
auxiliam no controle
em sua formulação os an-
profilático de diarreias mais têm as exigências
ticoccidianos (decoqui- também pode ser de proteínas aumenta-
nato e lasalocida), probi- listada como benefício das e podem apresentar
óticos (MOS), além de do fornecimento de aumento no potencial
ácidos orgânicos. formulações comerciais. de produção de leite
O desempenho do futuro (Soberon et al.,
bezerro depende da qua- 2012), sendo necessária
lidade da dieta líquida ofertada, e em a adoção de sucedâneos com teores aci-
sistemas especializados na criação de ma de 25% de proteína.
bezerros como os norte-americanos Os rótulos dos produtos e as in-
existem normas e guia de adequação do formações adicionais fornecidas pelas
sucedâneo (BAMN, 2014). A qualidade empresas devem ser suficientes para
do produto é padronizada e formulada nortear a escolha dos produtos. É im-
para atender às exigências dos animais, portante lembrar que o crescimento do
como exigências de crescimento e ga- animal é regulado pelo consumo diário
nho de peso. No Brasil, apesar de haver de proteína e de energia. Assim, a com-
diferentes produtos que poderiam aten- posição da dieta e os programas de alei-
der às diversas situações, muitas vezes o tamento devem estar em consonância
produtor não possui informações sufi- com as metas de desempenho animal.
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 65
Tabela 1. Análise bromatológica de sucedâneos lácteos comercializados no Brasil

Proteína Extrato Fibra Energia


Cinzas
Marca1 MS, % bruta etéreo bruta Bruta, cal/g
%MS MS
Amamenta leite
91,89±0,08 7,80±0,08 23,53±0,26 13,34±0,39 3,43±0,04 4.301,57
B (1)
Bovilac (1) 94,22±0,14 5,22±0,18 24,94±0,22 13,87±0,24 2,65±0,11 5.399,36

Desmame (1) 90,66±0,10 2,66±0,03 12,48±0,11 4,91±0,08 1,91±0,34 3.935,05

Feedtech (3) 95,54±0,21 8,70±0,17 21,64±0,38 15,52±0,38 1,05±0,04 4.380,41

Lactal (1) 95,09±0,13 5,99±0,10 20,87±0,26 14,79±0,16 1,45±0,07 4.465,63

Lacthor (7) 95,35±0,44 9,65±0,11 22,80±0,36 16,80±0,41 0,75±0,29 4.422,43

Nattimilk E (1) 94,16±0,07 9,69±0,50 21,67±0,34 17,51±0,54 0,87±0,18 4.466,00


Nattimilk E Max
96,49±0,12 7,50±0,17 21,69±0,28 17,13±0,53 -- 4.629,29
(2)
Nukamel
94,19±0,18 7,62±0,53 19,89±0,22 15,78±1,17 0,61±0,04 4.408,79
Orange (2)
Nukamel yellow
94,88±0,06 7,32±0,16 20,59±0,09 11,97±0,28 1,86±0,2 4.244,80
(2)
Nutramilk (2) 95,80±0,11 6,26±0,15 22,07±0,36 15,89±0,05 1,26±0,02 6.728,17

Nutrileite (2) 91,36±0,29 2,87±0,43 14,30±2,70 4,97±1,38 2,15±0,59 3.843,12

Primoleite (1) 94,14±0,01 4,78±0,27 20,32±0,01 11,55±0,34 2,61±0,06 4.371,71

Sprayfo Azul (3) 93,13±0,28 9,38±0,18 23,86±0,18 18,53±0,73 0,87±0,07 4.576,67


Sprayfo Violeta
95,74±1,40 9,32±0,46 20,91±0,87 15,14±0,50 1,34±0,62 4.360,12
(14)
Média 94,88±1,72 6,98±0,23 20,77±0,33 13,85±0,41 1,63±0,08 4.568,87±68,90

Número de amostras analisadas de acordo com o lote das amostras recebidas


1

Como discutido anteriormente, alguns Os níveis de garantia têm informa-


produtos comerciais não são indicados ções quanto ao teor de proteína bruta,
para o aleitamento intensivo. A avalia- devendo ser avaliada sua fonte que está
ção do rótulo tem informações básicas intimamente relacionada à sua digesti-
de níveis de garantia, ingredientes utili- bilidade/disponibilidade, além da pre-
zados e possíveis substitutos, instruções sença de fatores antinutricionais. O teor
de diluição e, em algumas situações, as de gordura indica o valor energético
instruções de alimentação, além de re- daquele produto, e sua composição vai
comendações gerais/manejo. definir a temperatura da água na qual o
66 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
sucedâneo deverá ser diluído. Os ácidos fornecimento de sucedâneo com maior
graxos têm diferentes pontos de fusão, teor de gordura (20%) ou então o for-
de forma que a composição em lipídeos necimento em maiores quantidades por
deverá determinar a temperatura para refeição, maior concentração de matéria
melhor diluição do produto. O teor de seca ou maior números de refeições.
fibra superior a 0,15% indica a presen- De maneira geral, trabalhos com-
ça de proteína vegetal, muito embora parando o fornecimento de sucedâneo
quando <0,15% não se tem garantia da com leite integral para bezerros no pe-
ausência. O teor de vitaminas A, D e E ríodo de aleitamento apresentam va-
deve ser avaliado, pois são necessárias riação entre os resultados, dependente,
para o crescimento e a saúde. principalmente, da qualidade do pro-
O produto deve ser escolhido com duto utilizado. Lynch et al. (1978) não
base no sistema de aleitamento no qual observaram diferenças no desempenho
vai ser empregado, uma de bezerros consumin-
vez que quanto maior ...nos sistemas em que o do leite integral ou su-
a taxa de crescimento, sucedâneo é fornecido cedâneo. Neste trabalho,
mais alta será a exigên- em containers com foi observada diferença
cia de proteína. Nesse bico (alimentador somente no valor nutri-
caso, o teor de energia automático) e está cional da proteína uti-
(lipídeos) não é alterado, disponível todo o tempo, lizada na fabricação do
considerando a meta de é de suma importância sucedâneo, apresentan-
crescimento dos animais que a formulação seja do deficiência em alguns
e deposição de tecido acidificada, de forma a aminoácidos essenciais.
magro. Nesse sistema são reduzir o crescimento de Silva et al. (2004) tam-
utilizados volumes e ta- microrganismos bém não observaram
xas de diluição variáveis. diferenças no ganho de
Ainda, nos sistemas em peso diário e no peso
que o sucedâneo é fornecido em con- vivo de bezerros consumindo diferen-
tainers com bico (alimentador automá- tes sucedâneos comerciais e leite inte-
tico) e está disponível todo o tempo, é gral, assim como Jenny et al. (1982). Da
de suma importância que a formulação mesma forma, trabalhos mais recentes
seja acidificada, de forma a reduzir o como Ferreira et al. (2008) avaliaram
crescimento de microrganismos com o o fornecimento de leite integral ou su-
passar do tempo. No caso de aleitamen- cedâneo a partir da terceira semana de
to durante o inverno, devido a maior vida dos animais e não observaram di-
exigência em energia para controle de ferenças no consumo de concentrado,
temperatura corporal, recomenda-se o ganho de peso e nas concentrações plas-

4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 67


máticas de glicose. inconsistentes, mostran-
Entre as fontes de
Por outro lado, do grande variação entre
origem láctea, o leite
Medina et al. (2002) os trabalhos.
desnatado, o soro de
observaram baixo de- Como já menciona-
leite e a proteína isolada
sempenho de animais do soro de leite são do, as fontes proteicas
desaleitados aos 49 dias os ingredientes mais são as principais respon-
de idade consumindo comuns, encontrados sáveis pela variação nos
substituto de leite quan- na maioria das dados de desempenho,
do comparados com ani- formulações e são os sendo os baixos ganhos e
mais consumindo leite que apresentam os a alta ocorrência de diar-
integral. Da mesma for- melhores resultados. reias observadas quando
ma, Fontes et al. (2006), de desempenho com o a fonte é de origem não
apesar de não observa- passar do tempo. láctea. Entre as fontes de
rem diferenças no con- origem láctea, o leite des-
sumo de concentrado, natado, o soro de leite e a
feno e água por animais consumindo proteína isolada do soro de leite são os
leite integral ou sucedâneo a base de ingredientes mais comuns encontrados
soro de leite, verificaram que a substi- na maioria das formulações e são os que
tuição total do leite integral por sucedâ- apresentam os melhores resultados de
neo resultou em baixo desempenho dos desempenho (Morril et al., 1971; Davis
animais quanto ao ganho de peso diá- e Drackley, 1998). Entretanto, devido
rio. Dados semelhantes foram obtidos ao valor econômico do leite desnata-
por Meyer et al. (2001), que embora do, um grande número de pesquisas foi
tenham observado maior consumo de desenvolvido com o objetivo de encon-
concentrado inicial por bezerros aleita- trar substitutos equivalentes. Alguns
dos com sucedâneo, com ou sem a adi- trabalhos mostram que a substituição
ção de probiótico, verificaram menor total do leite desnatado por soro de lei-
peso vivo desses animais no momento te não prejudicou o ganho de peso dos
do desaleitamento. Dessa forma, pode- animais, além de ter reduzido o custo
mos observar que o efeito do forneci- de produção (Reddy e Morril,1988;
mento de sucedâneos no desempenho Terosky et al.,1994; Lammers et al.
e também no consumo de concentrado 1995). Esses resultados foram confir-
pelos animais é variável e dependente de mados por Tomkins et al. (1994) em
sua qualidade. De acordo com Otterby e trabalho com 600 bezerros consumindo
Linn (1981), devido à grande variação leite desnatado ou proteína concentrada
na composição nutricional desses ali- de soro de leite como fonte proteica no
mentos, os resultados com o seu uso são sucedâneo. Porém, apesar de apresen-
68 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
tarem os melhores resultados, o soro e outros vegetais resultam em produtos
de leite e o leite desnatado apresentam de valor comercial mais baixo, porém,
custo bastante elevado, sendo crescente com qualidade inferior. Entretanto,
a busca por fontes de origem não láctea. quando produtos vegetais são utilizados
Segundo Davis e Drackley (1998), ape- na forma de proteína isolada, ou seja,
sar de apresentarem menor custo, quan- um produto quase sem fibras e com cer-
do comparados aos produtos de origem ca de 85% de PB, os resultados encon-
láctea, algumas proteínas vegetais, como trados são satisfatórios, desde que se li-
a proteína de soja, podem apresentar al- mite a inclusão da fonte em substituição
guns fatores antinutricionais. Inibidores ao soro de leite.
de proteases, presença de carboidratos Outras fontes proteicas bastan-
indigestíveis, taninos e compostos fenó- te pesquisadas na última década são
licos são alguns desses fatores antinutri- as proteínas do plasma e a inclusão de
cionais que podem causar decréscimo ovos liofilizados como substitutos do
na digestão de proteínas, inibição da se- soro de leite. A escolha pela utilização
creção de enzimas e diarreias. das proteínas do plasma e dos ovos ba-
Silva e Huber (1986) observaram seia-se no fato de que elas apresentam
redução no desempenho e na digestibi- proteínas altamente solúveis e com um
lidade quando proteínas do leite foram bom perfil de aminoácidos (Quigley e
substituídas por 66% de concentrado Bernard, 1996; Quigley, 2002). Quigley
proteico de soja (CPS) ou 66% de fa- e Bernard (1996) avaliaram a substitui-
rinha de soja tostada. Dawson et al. ção de 25% do soro de leite por plasma
(1988) também não observaram efeito bovino e não observaram diferenças no
positivo com o uso de farinha de soja desempenho dos animais. Dados seme-
tostada em relação ao CPS ou soro de lhantes foram observados por outros
leite. Por outro lado, Luan et al. (2009) autores (Quigley e Wolfe, 2003; Wood
observaram que a substituição de 50% et al., 2009) com a substituição de 5%
de fonte láctea de proteína por CPS não na composição final do produto. Por
afetou o desempenho dos animais, re- outro lado, a inclusão de ovos liofiliza-
presentando redução de 26% no custo dos parece não resultar em bons resul-
de fabricação do sucedâneo. tados. De acordo com Quigley (2002),
Dados com a utilização de proteí- a substituição de até 20% da proteína de
nas de origem vegetal são conflitantes. origem láctea prejudicou o desempenho
A principal razão disso ocorrer é devido dos animais, assim como observado por
à forma como o produto é adicionado Touchette et al. (2003) com a substi-
à formulação. De maneira geral, a utili- tuição na ordem de 5, 10 ou 15%. De
zação de farelos e farinhas de soja, trigo qualquer forma, embora os resultados
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 69
com a inclusão de plas- mentação com aminoá-
Atualmente, o foco
ma sejam satisfatórios, cidos essenciais de for-
das pesquisas com a
a baixa disponibilidade
utilização de sucedâneos ma atender as exigências
do produto como ingre- dos animais tanto em
no aleitamento de
diente parece limitar a bezerras parece estar sistema convencional
sua comercialização. voltado à adequação do como intensivo de alei-
Atualmente, o foco perfil de aminoácidos tamento. Entretanto, a
das pesquisas com a uti- para essa categoria exigência em aminoáci-
lização de sucedâneos animal. dos por bezerras durante
no aleitamento de bezer- esta fase ainda é pouco
ras parece estar voltado conhecida e estudada.
à adequação do perfil de aminoácidos A lactose é o principal carboidrato
para essa categoria animal. Trabalhos encontrado em sucedâneos comerciais.
como de Hill et al. (2008a) mostram Embora represente custo mais elevado
aumentos de até 15% no ganho de peso em relação a outras fontes como o ami-
e eficiência quando a deficiência em do, o fator principal que justifica sua
alguns aminoácidos como lisina e me- utilização está relacionado à limitação
tionina é corrigida. Hill et al. (2008b) enzimática dos animais durante as três
observaram que quando suplementadas primeiras semanas de vida (Otterby e
com metionina em doses crescentes em Linn, 1981). Durante esta fase, os ani-
um mesmo sucedâneo (26% de PB) fo- mais apresentam baixa atividade das en-
ram observadas melho- zimas amilase e maltase,
rias no ganho de peso A lactose é o principal sendo a lactase a princi-
diário de bezerras. O carboidrato encontrado pal enzima encontrada
trabalho de Silva (2014) em sucedâneos no sistema digestório.
mostrou que o perfil em comerciais. Embora De acordo com Davis e
aminoácidos dos sucedâ- represente custo mais Drackley (1998) em um
neos comercializados no elevado em relação curto período de tempo
Brasil não é adequado, a outras fontes como a atividade destas enzi-
sendo as concentrações o amido, o fator mas triplica, enquanto
de lisina e metionina principal que justifica que a atividade da lacta-
menores que aquelas ob- sua utilização está se decresce pela metade.
servadas no leite integral. relacionado à limitação Dessa forma, a adição
Assim, para os produtos enzimática dos de fontes vegetais como
disponíveis atualmente animais durante as três substitutos da lactose
no mercado nacional, primeiras semanas de são restritas, e pesquisas
recomenda-se a suple- vida. relacionadas com o tema
70 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
geralmente são mais escassas quando os vegetais de palma, coco, soja, entre
comparadas com pesquisas em relacão a outros, as principais fontes. De acordo
utilização de fontes protéicas. com Davis e Drackley (1998), entre os
Com base nestes conceitos, Huber óleos vegetais destaca-se o óleo de coco
et al. (1968) avaliaram o desempenho por apresentar um perfil e digestibilida-
de bezerras alimentadas com sucedâneo de de ácidos graxos muito próxima da
com a adição de doses crescentes de ami- encontrada na gordura do leite. Jenkins
do em substituição à lactose. Os resulta- et al. (1984) compararam quatro fontes
dos mostraram que quando a lactose foi de gordura vegetal (óleo de coco, cano-
substituída em mais de 9% por amido, la, milho e sebo bovino) e observaram
o ganho de peso pelos animais foi prati- excelentes resultados no ganho de peso
camente reduzido à metade. Entretanto, quando o óleo de coco era utilizado
quando observados os dados de desem- como fonte lipídica. Resultados com
penho dos animais após três semanas de diferentes teores de gordura apresen-
vida, não são observadas diferenças no tam grande variação, sendo dependen-
desempenho. Isso ocorre porque, após tes da fonte lipídica utilizada e da forma
esse período, os animais passam a oti- como essa é incorporada na formulação
mizar a produção das enzimas maltase ( Jenkins et al. 1981).
e amilase. Entretanto, ainda é comum Hill et al. (2008c) não observaram
encontrarmos no mercado sucedâneos diferenças significativas no ganho de
com alto teor de amido para aleitamen- peso quando o fornecimento de um
to de bezerras desde a primeira semana sucedâneo com 20% de gordura foi
de vida. comparado a um com 28%. Aita et al.
Em trabalho mais recente, Bernard e (2006) observaram menor consumo
Kertz (2009) observaram que a substi- de concentrado por bezerros alimenta-
tuição de até 10% da lactose por xarope dos com leite integral (0,270kg/d) ou
de milho não alterou o ganho de peso, sucedâneo contendo 15 ou 20% de ex-
o consumo de concentrado ou o escore trato etéreo (0,487kg/dia e 0,470kg/d,
fecal de bezerros no período de aleita- respectivamente), quando comparados
mento. Resultados semelhantes foram com animais consumindo um sucedâ-
encontrados por Ebert et al. (2008) e neo com 10% de gordura (0,640kg/d).
Raeth-Knight et al. (2009) com a subs- Neste trabalho foi observada maior
tituição de 15% e 35% da lactose por gli- conversão alimentar pelos animais con-
cerol, respectivamente. sumindo leite integral, embora ao final
Outra fonte energética bastante im- do experimento não fossem encontra-
portante são as gorduras e óleos, sendo a das diferenças entre esse tratamento e
própria gordura animal (ou sebo) e óle- os animais consumindo sucedâneo com
4. Sucedâneos lácteos para bezerras leiteiras 71
10% de extrato etéreo na principalmente para for-
A utilização de
MS. necimento de animais
sucedâneos no Brasil
A utilização de su- mais jovens.
vem crescendo graças
cedâneos no Brasil vem Apesar de diversos
à entrada de bons
crescendo graças à en- produtos estarem dis-
produtos no mercado
trada de bons produtos poníveis no mercado
nacional.
no mercado nacional. brasileiro, ainda existe
Entretanto, ainda nos de- grande dificuldade para
paramos com grande resistência de pro- os produtores encontrarem o produto
dutores para a adoção dessa tecnologia, ideal para o seu sistema de produção, e
de forma que apenas 13% dos produto- para tanto devem ser auxiliados por téc-
res de leite fornecem sucedâneos lácteos nicos treinados.
(Santos e Bittar, 2015). O principal mo-
tivo para essa resistência está associado Referências
aos trabalhos iniciais com sucedâneos 1. Aita, M. F.; Fischer, V.; Stumpf JR, W. Efeitos dos
níveis de extrato etéreo no sucedâneo do leite sobre
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dâneos, no entanto, apresentam variada calves. J. Dairy Sci., v. 92, p.286–295, 2009.
composição, sendo importante o enten-
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72 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


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74 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


5. Concentrado e água
para bezerros

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Sandra Gesteira Coelho - CRMV/MG-2335
Profa da Escola de Veterinária UFMG

No nascimento, os quatro estô- mações que irão aumentar a capaci-


magos dos bezerros já estão forma- dade de absorção.
dos, no entanto o desenvolvimento Esse desenvolvimento pós-natal
dos pré-estômagos (rúmen, retículo é didaticamente divido em três fases,
e omaso) não está completo, sendo de acordo com a utilização dos nu-
necessárias ainda algumas semanas trientes pelo trato digestivo: na pri-
para a microbiota se estabelecer, o meira os bezerros são considerados
rúmen retículo aumentar de tamanho pré-ruminantes, eles vivem pratica-
e o epitélio do rúmen sofrer transfor- mente do leite ou do sucedâneo e a
5. Concentrado e água para bezerros 75
ingestão de alimentos O reflexo da goteira A terceira fase co-
sólidos é muito peque- esofagiana leva o leite meça no desaleitamento
na. O reflexo da goteira e o sucedâneo direto ao e dura por toda a vida, a
esofagiana leva o leite e o omaso e ao abomaso, energia necessária para
sucedâneo direto ao oma- e os nutrientes são mantença, crescimen-
so e ao abomaso, e os nu- digeridos por enzimas no to e produção futura
trientes são digeridos por abomaso e no intestino vem da fermentação de
enzimas no abomaso e no delgado. ... Essa fase carboidratos, das prote-
intestino delgado. A ener- dura de duas a três ínas e dos lipídios que
gia necessária para a man- semanas... chegam ao intestino, e
tença e o crescimento do a proteína vem da pro-
animal vem, principalmente, da lactose e teína bacteriana e de fontes de proteína
dos ácidos graxos presentes no leite e no não degradada no rúmen (Davis e Clark,
sucedâneo, o nitrogênio vem da proteína 1981; Davis e Drackley, 1998).
de origem láctea. Essa fase dura de duas a A expansão do volume do rúmen, o
três semanas e durante esse período exis- desenvolvimento da musculatura e do
te grande limitação no uso de carboidra- epitélio - observados durante os primei-
tos que não seja a lactose e de proteínas ros meses de vida - não são interdepen-
de origem vegetal (Davis e Clark, 1981; dentes, mas são dependentes da dieta e
Davis e Drackley, 1998). podem ser acelerados ou modificados
A segunda fase é considerada de pelo regime alimentar (Baldwin 2004).
transição e dura até o desaleitamento do O consumo de forragens direcionará
animal. A ingestão de alimentos sólidos a fermentação para o aumento da produ-
aumenta rapidamente e a microbiota se ção de acetato, não proporcionando estí-
multiplica e se diversifica. O rúmen re- mulos ao desenvolvimento das papilas,
tículo tem rápido aumento do seu volu- uma vez que a baixa atividade da enzima
me, a microbiota degrada os alimentos acetilCoA sintetase no epitélio do rúmen
produzindo os AGV que estimulam o parece limitar o metabolismo do aceta-
desenvolvimento do epitélio ao serem to e seu efeito sobre o desenvolvimento
absorvidos, e são uma importante fonte do epitélio (Harmon et al., 1991). Já o
de energia para os bezerros. A proteína consumo de grãos aumenta a produção
microbiana passa a contribuir para aten- de propionato e butirato estimulando o
dimento das exigências de proteína para desenvolvimento das papilas do rúmen.
os bezerros. Durante essa fase as exigên- Segundo Baldwin et al, (2004) esse efei-
cias nutricionais são supridas pela dieta to pode estar relacionado ao aumento
líquida e sólida (Davis e Clark, 1981; do fluxo sanguíneo durante a absorção e
Davis e Drackley, 1998). também ao efeito direto sobre a expres-
76 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
são gênica no epitélio para não provocar en-
O consumo de
ruminal. A presença con- chimento do rúmen
forragens direcionará
tínua dos AGV no rúmen retículo, devido ao pe-
a fermentação
mantém o crescimento, queno tamanho desses
para o aumento da
o tamanho das papilas e compartimentos nas pri-
produção de acetato,
a sua função de absorção. meiras semanas de vida
não proporcionando
Diante disso, para e a baixa capacidade de
estímulos ao
acelerar o desenvolvi- fermentação pela micro-
desenvolvimento das
mento dos pré-estôma- papilas. ... Já o consumo biota que está se estabe-
gos e garantir que os lecendo - e ainda promo-
de grãos aumenta a
bezerros ao serem desa- produção de propionato ver a movimentação do
leitados sejam capazes e butirato estimulando rúmen desenvolvendo a
de ingerir quantidades o desenvolvimento das musculatura e, ao mes-
adequadas de alimentos mo tempo, impedindo a
papilas do rúmen.
sólidos é necessário que deposição de várias ca-
os animais comecem a madas de queratina no
ingerir concentrado precocemente, uma entorno das papilas (paraceratose). A
vez que a degradação desses alimentos deposição dessas camadas de queratina
produzirá os AGV responsáveis por mu- impede a absorção dos nutrientes e pre-
cisa ser evitada.
danças morfológicas no sistema digesti-
vo e no metabolismo do animal. Fatores que afetam o
É importante que as bezerras este- consumo de concentrado
jam consumindo entre 1,0 a 1,5 kg de Diversos fatores contribuem para
concentrado no momento do desaleita- a variação no consumo de concentra-
mento, com essa ingestão o estresse nu- do pelos bezerros, entre eles podem-se
tricional é minimizado. destacar: preferência, pa-
Para que elas atinjam esse A preferência está latabilidade, forma física,
consumo por volta dos ligada ao sabor, ao composição, volume de
60 dias de idade, é pre- cheiro e à textura dos leite oferecido, disponi-
ciso estimulá-las a partir alimentos, que varia bilidade de água, manejo
da primeira semana de entre os indivíduos da alimentação, estado
vida (três a quatro dias e se desenvolve em de saúde dos animais,
de idade). resposta às associações peso no nascimento, tipo
Para estimular o con- entre as propriedades de instalação utilizada,
sumo, os concentrados sensoriais dos alimentos dentre outros.
devem ser palatáveis, e as consequências A preferência está
ter alta degradabilidade pós-ingestão. ligada ao sabor, ao chei-
5. Concentrado e água para bezerros 77
ro e à textura dos alimentos, que varia com maior valor energético, assim como
entre os indivíduos e se desenvolve em os animais adultos (Miller-Cushon e
resposta às associações entre as pro- DeVries 2011).
priedades sensoriais dos alimentos e as A palatabilidade está ligada ao sabor
consequências pós-ingestão. A soma das (bom ou ruim) e cheiro dos alimentos,
propriedades sensoriais dos alimentos e afeta o consumo de alimentos sólidos,
com o feed back pós-ingestão influencia no entanto, é apenas um fator para o su-
a percepção de palatabilidade, levan- cesso no uso dos concentrados.
do o animal a selecionar ou a rejeitar Para melhorar a palatabilidade é co-
determinado alimento (Provenza et al. mum o uso de melaço nos concentrados
1992). De acordo com Montoro e Bach comerciais em concentrações de 5 a
(2012) existem evidências de que be- 12%. O melaço também é empregado no
zerros e bovinos adultos têm preferên- controle da poeira dos concentrados. É
cias inatas para determinados sabores misturado aos ingredientes do concen-
considerados mais palatáveis. trado, antes da peletização para agregar
Segundo Miller Cuschon et al. as partículas, ou pulverizado sobre os
(2014) e Montoro e Bach (2012), os ingredientes quando o concentrado tem
bezerros preferem como fonte de prote- textura grosseira. Como é um produto
ína o farelo de soja a outras fontes pro- que fermenta rapidamente no rúmen a
teicas quando foram realizados testes quantidade utilizada deve estar entre 5 a
de curto prazo. Ainda, segundo Miller 7% para evitar queda no pH do rúmen e
Cuschon et al. (2014) o farelo de soja flutuações no consumo. Lesmeister and
pode ser utilizado para melhorar a in- Heinrichs (2005) relataram queda no
gestão de alimentos em momentos em ganho de peso quando 10% ou mais de
que seja necessário estimular o consu- melaço foi usado no concentrado. Soro
de leite em pó e leite desnatado também
mo de alimentos, por exemplo durante
têm sido usados como palatabilizantes.
e após o desaleitamento.
Outros alimentos que influenciam o
Nos testes de preferência realizados
consumo podem ser observados na ta-
com bezerros após o desaleitamento
bela seguinte.
Miller Cushon et al. (2014) relatam
que para bezerros recém desaleitados,
Forma física do
milho, farelo de trigo e sorgo podem ser
considerados fontes de energia altamen-
concentrado e
te palatáveis, enquanto farelo de arroz e processamento dos grãos
glúten de milho são menos preferidos. São normalmente utilizados e co-
Após o desaleitamento, os bezerros se- mercializados os concentrados com as
lecionam os alimentos a favor de grãos, seguintes formas físicas: farelados (to-
78 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Tab. 1 Efeito dos alimentos sobre a palatabilidade

Ingredientes Efeito
Bicarbonato de sódio (>1%) ↑↓
Gorduras e óleos (>3%) ↓
Soja grão e caroço de algodão ↑
Ionofóros ↓
Leveduras ↑
Melaço ↑
Farelo de soja --↑
Milho --↑
Polpa de beterraba ↓
Ureia ↓

Adaptado de Quigley (1998), ↓ estudos mostraram diminuição na palatabilidade, ↑ aumento na palatabilidade, -- sem efeito
sobre palatabilidade.

dos os ingredientes são finamente


moídos), peletizados (ingredientes
finamente moídos e aglomerados)
e os concentrados texturizados ou
com múltiplas partículas (parte dos
ingredientes como proteína, carboi-
drato vitaminas e minerais estão pe-
letizados e a outra parte é composta
por grãos processados ou não).
A forma física do concentrado Concentrado peletizado

Concentrado texturizado ou de alta granulometria Concentrado farelado

5. Concentrado e água para bezerros 79


pode influenciar a palata- ... quanto menor o receberam concentra-
bilidade, a preferência e o tamanho da partícula do com partículas fina-
Sob o aspecto de utiliza- maior será a superfície mente moídas frente
ção dos alimentos pelas para ataque microbiano a concentrado com
bactérias ruminais, quan- favorecendo a digestão tamanho de partículas
to menor o tamanho da e absorção. No entanto, grossas. Franklin et al.
partícula maior será a partículas com alta (2003) relataram maior
superfície para ataque granulometria ... consumo e peso nas
microbiano favorecendo provocam efeitos seis semanas de idade
a digestão e absorção. No físicos que estimulam para bezerros que re-
entanto, partículas com a movimentação do ceberam concentrado
alta granulometria são rúmen, induzindo o na forma texturizada,
importantes porque pro- desenvolvimento da quando comparado ao
vocam efeitos físicos que musculatura e do volume peletizado ou ao farela-
estimulam a movimenta- do órgão... do, não existindo dife-
ção do rúmen, induzindo renças entre os dois úl-
o desenvolvimento da musculatura e do timos. Coverdale et al. (2004) relataram
volume do órgão e consumo. Sob o as- menor média diária de ganho de peso
pecto de utilização dos alimentos pelas para bezerros alimentados com concen-
bactérias ruminais, quanto menor o ta- trado com partículas finamente moídas,
manho da partícula maior será a superfí- comparado ao concentrado texturizado.
cie para ataque microbiano favorecendo Porter et al. (2007) observaram maior
a digestão e absorção. No entanto, par- média de ganho de peso diário, maior
tículas com alta granulometria são im- consumo e início da ruminação mais
portantes porque provocam efeitos físi- cedo em bezerros alimentados com
cos que estimulam a movimentação do concentrado texturizado, comparado
rúmen, induzindo o desenvolvimento com o farelado. Bach et al. (2007) ava-
da musculatura e do volume do órgão, liaram o consumo e o desempenho de
a ruminação, a salivação, a manutenção bezerros que receberam concentrado
do pH adequado no rúmen e a saúde do em múltiplas partículas ou peletizado,
epitélio por retirar as camadas de que- a composição e a proporção dos ingre-
ratina que vão se acumulando entre as dientes utilizados era a mesma. Os auto-
papilas (Beharka, et al.,1998; Zitnan et res relataram menor consumo no grupo
al., 2005; Greenwood et al., 1997) que recebeu concentrado peletizado, o
Lassiter et al. (1955), Gardner peso final nos dois grupos foi similar, o
(1967) e Kertz et al. (1979) relataram que indica alta conversão alimentar no
menor consumo quando os bezerros grupo que recebeu concentrado peleti-
80 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
zado. Bateman et al. (2009) observaram ída ou peletizada não provoque grandes
redução no consumo e no desempenho transtornos a esses animais, contudo, se
quando o concentrado continha uma mantidos sobre piso de areia, terra bati-
significante parcela de partículas finas. da ou gaiolas com piso de madeira, se-
Mesmo que em todos esses experi- guramente é necessário o fornecimento
mentos alguma parte da metodologia de uma dieta com alta granulometria, ou
não tenha sido totalmente explicada ou com uma textura grosseira, para provo-
tenha algum grau de confundimento, as car a movimentação do retículo-rúmen,
conclusões até aqui são de que os bezer- a ruminação, a salivação e a manutenção
ros têm melhor desempenho e parecem de um pH mais adequado.
preferir os alimentos mais grosseiros Lesmeister e Heinrichs (2004) com-
em detrimento a alimentos farelados. pararam os efeitos da inclusão na dieta
Além disso, segundo Greenwood et al. de bezerros de 33% do milho como: mi-
(1997) e Davis e Drackley (1998) os lho grão inteiro, milho laminado a seco,
concentrados nas formas farelada ou milho floculado a vapor e milho tostado
peletizada (pellets macios), não provo- e laminado. O ganho de peso não dife-
cam estímulo físico a movimentação e a riu na fase anterior ao desaleitamento
ruminação (salivação, tamponamento), (28 dias), mas favoreceu os bezerros
pois os pellets são facilmente quebrados alimentados com milho inteiro e milho
na boca do animal e o alimento chega laminado a seco, após o desaleitamento
na forma farelada ao rúmen. Além disso, (29 a 42 dias). O consumo de alimentos
essas formas de concentrados causam também tendeu a ser melhor nos ani-
mais facilmente paraqueratose ruminal, mais alimentados com milho inteiro e
por ficarem retidas entre as papilas, di- milho laminado a seco, mas não diferiu
minuindo a área de absorção ruminal. após o desaleitamento.
Assim a dieta oferecida aos bezer- Bateman et al. (2009) testaram o
ros dependerá do local de criação dos processamento de milho (milho inteiro
mesmos. Se são mantidos soltos em vs. laminado ou floculado). Os autores
piquetes ou individualizados sobre gra- relatam que não observaram diferenças
míneas, seguramente eles a ingerem, no consumo e no ganho de peso dos
mesmo que em pequena quantidade, bezerros, devido ao processamento do
o que pode provocar um efeito físico grão quando os concentrados conti-
sobre o retículo-rúmen aumentando a nham ingredientes e conteúdo de nu-
motilidade, a ruminação, a salivação e trientes similares.
permitindo a manutenção de um pH Franzoni (2012) testou três pro-
mais adequado. Provavelmente, o for- cessamentos do milho na dieta de be-
necimento de uma dieta finamente mo- zerros (33% do milho quebrado, milho
5. Concentrado e água para bezerros 81
floculado e milho farelado), o consumo zerros em todo o mundo. Os valores de
de concentrado da 5ª a 8ª semanas foi amido presentes nesses grãos são: 70
menor no grupo farelado e semelhante a 73% no milho, no sorgo e no arroz,
entre grupos a partir da 9ª semana. Ao 77% no trigo (Huntington, 1997) e 57
final do experimento, aos 90 dias, os be- a 58% na cevada e na aveia; sendo o tri-
zerros do grupo farelado apresentaram go, a cevada e a aveia mais rapidamente
o menor peso corporal. degradados que o milho e o sorgo. Ao
Jarrad et al, (2013) avaliaram os serem degradados no rúmen produzem
efeitos do processamento dos grãos de os AGV que são importantes fontes de
cevada (moído grosso, inteiro, prensado energia para os bezerros e estão envol-
a vapor ou tostado) sobre o consumo, o vidos no desenvolvimento das papilas
ganho médio diário, a eficiência alimen- ruminais.
tar, o crescimento, o escore fecal, o pH Khan et al, em 2007 e 2008, compa-
do rúmen e o pH dos bezerros. Os dife- raram dietas contendo - como principal
rentes processamentos da cevada não in- fonte de energia no concentrado de be-
fluenciaram o consumo de matéria seca, zerros - milho, cevada, aveia e trigo. Os
ganho médio diário, eficiência alimentar, autores relataram maior consumo de
crescimento, saúde e pH do rúmen. concentrado, ganho de peso e melhor
Dessa forma, mesmo que o proces- pH no rúmen, para os animais alimen-
samento do milho disponibilize mais tados com a dieta à base de milho como
amido para a microbiota, pelos expe- fonte de energia.
rimentos relatados acima, os bezer- A polpa cítrica é um coproduto fi-
ros parecem não se beneficiar desses broso da indústria de suco de laranja
processamentos, uma vez que nesses e tem sido muito utilizado no Brasil,
experimentos o oferecimento do grão na alimentação de animais adultos, em
quebrado proporcionou taxas de de-
substituição parcial ou total do milho,
sempenho e consumo similares aos dos
sendo rica em sacarose, pectina e fibra
diferentes processamentos.
de boa digestibilidade. Coimbra (2002)
avaliou a substituição total do milho
Composição pela polpa cítrica no
dos O milho, a cevada, o concentrado de bezer-
concentrados sorgo, o arroz, o trigo e ros de um a 90 dias de
O milho, a cevada, o a aveia são as fontes de idade. O consumo de
sorgo, o arroz, o trigo e energia mais utilizadas concentrado na ma-
a aveia são as fontes de nos concentrados de téria natural foi maior
energia mais utilizadas bezerros em todo o da 5a a 9a semana para
nos concentrados de be- mundo. os animais do grupo
82 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
milho. O ganho de peso são usados, incluindo
O NRC (2001)
foi semelhante entre os semente de linhaça,
recomenda que o
tratamentos. farelo de algodão e
concentrado das
A proteína é o segun- soja tostada, moída
bezerras tenha 18% de
do componente nutri- proteína bruta por quilo ou extrusada (Davis
cional mais importante de matéria seca e 20% e Drackley, 1998). A
depois da energia, recebe na matéria natural. soja parece ser o me-
muita atenção por ser o Segundo o NRC (2001), lhor nutriente proteico
componente mais caro da o que limita ganho de para bezerros, já que
dieta (Davis e Drackley, peso nos bezerros, entre sua substituição por
1998). O NRC (2001) 60 e 90 kg, é a energia e outros alimentos não
recomenda que o con- não a proteína. tornou o animal mais
centrado das bezerras te- eficiente.
nha 18% de proteína bruta por quilo de As recomendações na utilização de
matéria seca e 20% na matéria natural. proteína não degradada no rúmen e no
Segundo o NRC (2001), o que limita concentrado de bezerros têm resultados
ganho de peso nos bezerros, entre 60 e contraditórios na literatura. O desen-
90 kg, é a energia e não a proteína. Vários volvimento incompleto do rúmen e da
trabalhos confirmam a recomendação população microbiana durante a fase de
do NRC (2001) para os valores de pro- aleitamento, a redução da palatabilidade
teína (Luchini et al., 1991 Akayezu et - ou a falta de sincronismo entre a fer-
al., 1994). mentação de carboidratos - e a degrada-
Segundo Drackley (2008), possivel- ção proteica talvez expliquem esses re-
mente os bezerros submetidos a planos sultados contraditórios (Hill et al, 2007;
alimentares para acelerar o crescimento, Drackely, 2008).
com fornecimento de maior volume de A utilização de fontes de nitrogê-
leite, ou sucedâneo, ou que recebem su- nio não proteico, como a ureia, não é
cedâneo com alta concentração de pro- recomendada em dietas de bezerros
teína, talvez se beneficiem dos valores entre o nascimento e a 10a a 12a semanas
de PB no concentrado maiores durante de idade (Davis e Drackley, 1998).
a transição da dieta líqui- Milho e farelo
da para a sólida. Milho e farelo de soja de soja são, respec-
A fonte de proteína são, respectivamente, as tivamente, as fontes
mais utilizada em con- fontes de energia e de de energia e de pro-
centrado para bezerros proteína mais utilizadas teína mais utilizadas
é a soja, no entanto ou- nos concentrados de nos concentrados de
tros alimentos também bezerros no Brasil. bezerros no Brasil.
5. Concentrado e água para bezerros 83
Apesar das oscilações é um dos fatores que
As fontes de fibra
nos preços desses grãos, influencia sua inclusão
mais utilizadas no
essa combinação for-
concentrado de bezerros na dieta, alimentos de
nece bom equilíbrio de
são farelo de trigo, casca alto valor nutricional,
aminoácidos e é livre de
de soja e casca de aveia. como casca de algodão,
muitos fatores antinu- casca de soja e casca de
tricionais, além disso, são bem aceitos aveia poderão ter maior inclusão do
pelos bezerros. que alimentos de menor valor nutricio-
nal, como forrageiras maduras (Davis e
Fontes de fibra Drackley, 1998).
As fontes de fibra mais utilizadas
no concentrado de bezerros são farelo Gordura
de trigo, casca de soja e casca de aveia. Bezerros têm alta exigência de ener-
A aveia é boa opção para inclusão no gia e de proteína, e consomem quanti-
concentrado de bezerros por ser mui- dades limitadas de matéria-seca, dessa
to palatável e ser ótima fonte de fibra forma, fontes de gordura podem ser in-
(Davis e Drackley, 1998). cluídas no concentrado com o objetivo
Valores abaixo de de aumentar a ingestão
6% de fibra em deter- Estudos em que de energia pelos bezer-
gente ácido (FDA) gordura foi adicionada ros. No entanto, algu-
ou acima de 20% de ao concentrado mas fontes de gordura,
FDA devem ser evi- demonstraram como óleo de milho,
tados. Concentrados diminuição da sais de cálcio de ácido
com pouca fibra po- ingestão de matéria- graxo, dentre outras,
dem causar problemas seca. Portanto, a têm sido usadas com
digestivos, como aci- adição de gordura no alguns, mas limitados,
dose ruminal, e deve- concentrado acima benefícios. Estudos em
-se limitar o consumo. de 1% para auxiliar que gordura foi adicio-
Concentrados com va- na formação do pellet nada ao concentrado
lores de fibra acima de ou na diminuição da demonstraram dimi-
20% não conseguirão pulverulência (poeira) nuição da ingestão de
atender às demandas não é recomendada. matéria-seca. Portanto,
energéticas dos bezer- a adição de gordura no
ros. O conteúdo de fibra em detergente concentrado acima de 1% para auxiliar
neutro (FDN) depende de muitos fa- na formação do pellet ou na diminuição
tores, mas concentrações aceitáveis es- da pulverulência (poeira) não é reco-
tão entre 15% e 25%. A fonte de FDN mendada (Drackley, 2008).
84 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Coccidiostáticos tidade deve ser calculada e pesada cor-
retamente, pois a dose tóxica para os be-
Os coccidiostáticos são incluídos
zerros é próxima da dose recomendada.
na dieta para aumentar a eficiência
Além disso, a mistura deve ser bem ho-
alimentar e a prevenção de coccidiose
mogênea para que todo o concentrado
ou eimeriose. Para que sejam efetivos,
contenha a mesma quantidade do cocci-
eles dependem do consumo adequado
diostático. As doses recomendadas são:
do concentrado, qualquer queda no
Monensina 16,5 a 30g/tonelada do con-
consumo provocará perda da sua efi-
centrado, Lasalocida 90
ciência no controle da
Os coccidiostáticos são a 150g/tonelada do con-
cococidiose. Quando
incluídos na dieta para centrado. Essas doses
adicionados ao con-
aumentar a eficiência são para uso profilático
centrado aumentam
o ganho de peso vivo, alimentar e a prevenção e não para o tratamento
de coccidiose ou da coccidiose (Davis e
mesmo quando não há
eimeriose. Drackley, 1998).
diagnóstico clínico de
coccidiose. Os cocci-
diostáticos mais utilizados são monen-
Manejo da
sina e lasalocida. alimentação
Deve-se ter cuidado no momento Várias práticas de manejo têm sido
de adicioná-los ao concentrado, a quan- usadas para estimular o consumo de

Tabela 2. Sugestões de limites de participação de alguns alimentos em


concentrados para bezerras

Alimento Recomendação
Algodão, farelo Até 20%
Amendoim, farelo Até 30%
Arroz, farelo Até 20%
Arroz, farelo desengordurado Até 20%
Canola, farelo Sem restrições
Melaço Até 7%
Milho, grão Sem restrições
Soja, farelo Sem restrições
Soja, grão cru Até 20%
Trigo, farelo Até 30%
Ureia* Até 1/3 da proteína total

*Fornecida após 12 semanas de idade. Adaptado: Campos & Lizieire EMBRAPA Nota técnica.

5. Concentrado e água para bezerros 85


Tabela 3. Recomendação de nutrientes no concentrado de bezerros NRC 2001
Nutriente Concentrado
EM Mcal/kg 3,11
NDT % MS 80,0
PB % 18,0
EE% 3,0
Minerais
Cálcio % 1,0
Fósforo % 0,45
Magnésio % 0,10
Sódio % 0,15
Potássio % 0,65
Cloro % 0,20
Enxofre % 0,20
Minerais % (mg/kg)
Ferro % 50,0
Manganês (mg/kg) 40,0
Zinco (mg/kg) 40,0
Cobre (mg/kg) 10,0
Iodo (mg/kg) 0,25
Cobalto (mg/kg) 0,10
Selênio (mg/kg) 0,30
Vitaminas UI/kg de MS
A 4.000,0
D 600,0
E 25,0

concentrado, precocemente. Entre elas É importante para manter o con-


estão: colocação de concentrado à dis- sumo de concentrado o fornecimen-
posição do bezerro a partir do terceiro to de alimentos frescos, portanto
dia de vida; o fornecimento de leite uma retirar a sobra de concentrado dia-
vez ao dia a partir dos 30 dias de idade; riamente e oferecê-lo em vasilha-
redução do volume fornecido a partir de mes e cochos limpos é fundamental.
30 dias de idade quando esse volume é Alimentos molhados e mofados são
superior que 6 litros/dia (ex: 6 litros até menos consumidos e podem provo-
30 dias e 4 litros de 31 a 60 dias). car doenças.
86 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Disponibilidade de sumo de matéria seca
Várias práticas
Água e de 38% no ganho de
de manejo ... para
Para que as bactérias peso (Kertz et al, 1984).
estimular o consumo
se desenvolvam no rú- Kertz et al. (1984)
de concentrado... Entre
men deve haver presen- avaliaram 355 bezerros
elas ...colocação ... à
ça de água. Sem água su- durante três anos em
disposição do bezerro
ficiente as bactérias não dois tratamentos, forne-
a partir do terceiro dia
conseguem crescer e se
de vida; o fornecimento cimento restrito de água
multiplicar, o que com- e fornecimento à vonta-
de leite uma vez ao dia
promete o desenvolvi- de de água. O perfil de
a partir dos 30 dias
mento ruminal. Grande consumo de água dos
de idade; redução
parte da água que che- bezerros foi alto após o
do volume fornecido
ga ao rúmen provém da nascimento e caiu após
a partir de 30 dias
água ingerida livremente três a quatro dias de
de idade quando esse
pelo bezerro (Quigley,
volume é superior que 6 vida. Segundo o autor,
1997). É importante isso acontece pois após
litros/dia...
salientar que o leite ou o nascimento foram for-
seus substitutos não necidos quatro litros de
constituem fonte de água direta para o colostro, durante três dias consecutivos,
rúmen, já que irão passar pela goteira divididos em dois fornecimentos diá-
esofágica e cair diretamente no omaso e rios. O colostro possui maior concentra-
no abomaso (Quigley, 1997). Portanto, ção de sólidos e ao mudar a dieta para
a água limpa e fresca deve ser colocada à o sucedâneo no quarto dia de vida, na
disposição dos bezerros a partir do nas- mesma quantidade, houve queda brusca
cimento. O livre acesso à água aumenta na concentração do alimento fornecido,
o consumo de matéria seca e o ganho diminuindo a sede do animal. Após 21
de peso, acelerando o dias de vida, o forne-
desenvolvimento do Sem água suficiente as cimento de sucedâneo
rúmen. Para cada litro bactérias não conseguem passou a ser apenas em
de água ingerida a mais crescer e se multiplicar, uma refeição diária, o
ocorre aumento no con- o que compromete que causou aumento
sumo de matéria-seca de o desenvolvimento significativo e progressi-
82g/d e ganho de peso ruminal. Grande parte vo no consumo de água
de 56g/d. Já, quando a da água que chega ao e concentrado pelos ani-
água não é oferecida às rúmen provém da água mais. Porém, os bezerros
bezerras, pode ocorrer ingerida livremente pelo do grupo com consumo
redução de 31% no con- bezerro. de água restrito apresen-

5. Concentrado e água para bezerros 87


taram menor consumo de concentrado Referências Bibliográficas
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executar bem a criação de bezerras e 9. Coimbra, E.P. Avaliação da substituição do milho


pela polpa cítrica em concentrados para bezerros:
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88 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


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90 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


6. Forragem para
alimentação de
bezerras

bigstockphoto.com

Marta Terré1
Llorenç Castells 1
1
Dep. Prod. Ruminantes, IRTA (Institut de Recerca e Tecnologia Agroalimentares), Caldes de Montbui, Espanha

Introdução O consumo de desaleitamento (oito se-


alimentos sólidos é o manas de idade). De for-
Do nascimento
maior responsável ... ma contrária, o rúmen
ao desmame o trato
preparando o rúmen aumenta de 35% no nas-
gastrointestinal de ru-
minantes passa por para sua capacidade cimento para 65% no de-
importantes mudan- total de fermentação. saleitamento (oito sema-
ças anatômicas. No Quando as bezerras nas de idade) (Sydney,
nascimento o aboma- começam a consumir 1988). O consumo de
so representa 51% dos alimentos sólidos ... a alimentos sólidos é o
compartimentos esto- produção de ácidos maior responsável por
macais totais, e chega a graxos voláteis (AGV) tal mudança, preparando
representar 21% após o no rúmen aumenta. o rúmen para sua capaci-
6. Forragem para alimentação de bezerras 91
dade total de fermentação. Quando as men durante as primeiras semanas de
bezerras começam a consumir alimen- vida são muito dependentes da dieta.
tos sólidos (especialmente concentrado Alimentação exclusiva com leite para
e grãos), a produção de ácidos graxos bezerras ou carneiros não estimulou
voláteis (AGV) no rúmen aumenta. A o desenvolvimento das papilas, en-
presença desses AGV ajudará no de- quanto o consumo de dieta sólida re-
senvolvimento das papilas da mucosa sultou no aumento das concentrações
ruminal, as quais serão responsáveis de AGV no rúmen e o desenvolvi-
pela absorção de AGV, pelo transporte mento morfológico ruminal (Assane
de AGV para a corrente sanguínea e o e Dardillat, 1994; Lane et al., 2000).
metabolismo dos AGV (principalmen- Dietas contendo feno estimularam o
te butirato). Rey et al. (2012) descreve- aumento do volume e o peso do conte-
ram em bezerras que consumiam leite, údo ruminal, em contraste com dietas
concentrado e feno os principais parâ- com concentrado, que aumentaram o
metros físico-químicos, de fermenta- peso do tecido retículo-rúmen (Stobo
ção e as atividades enzimáticas durante et al., 1966). Muito desse aumento do
os primeiros 83 dias de vida (Figura peso do retículo-rúmen, em bezerras
1). Com o aumento do consumo de alimentadas com dietas ricas em con-
alimentos sólidos as concentrações de centrado, pode ser atribuído ao maior
AGV no rúmen começam a aumentar e desenvolvimento das papilas do que ao
o pH do rúmen diminui. É importante crescimento muscular da parede rumi-
ressaltar a presença das atividades enzi- nal (Stobo et al., 1966). O desenvolvi-
máticas no rúmen em idades precoces, mento ruminal é fator chave na garan-
ainda que nenhum alimento sólido te- tia do desaleitamento de bezerras, e
nha sido consumido. por meio deste artigo, nós tentaremos
Mudanças na microbiota ruminal avaliar as contribuições da alimentação
também ocorrem nas primeiras se- com forragem para as bezerras em re-
manas de vida, bactérias amilolíticas, lação ao desenvolvimento ruminal e o
proteolíticas, celulolíticas e metano- desaleitamento.
gênicas aumentam linearmente com
o avanço da idade (Anderson et al.,
Desaleitamento e
1987; Beharka et al., 1998), enquanto consumo de concentrado
bactérias utilizadoras de lactato e co- Em fazendas de vacas de leite o
liformes reduzem gradualmente nas consumo de concentrado deve ser con-
primeiras semanas de vida (Anderson siderado como critério para o desalei-
et al., 1987; Agarwal et al., 2002). Por tamento, uma vez que garante ganho
último, as mudanças estruturais no rú- médio diário (GMD) adequado após
92 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Figura 1. Parâmetros físico-químicos e de fermentação e atividades enzimáticas de bezerras nos pri-
meiros 83 dias de vida.

o desaleitamento. A ma-
Se o ganho de 1 kg/dia 2006b, 2007, 2009). Se o
nutenção do correto ganho de 1 kg/dia após o
após o desaleitamento
GMD durante a transi- desaleitamento é a meta,
é a meta, então as
ção é muito importante bezerras devem então as bezerras devem
devido à relação próxi- consumir mais de 1 consumir mais de 1 kg/
ma entre o crescimento kg/dia de concentrado dia de concentrado antes
dos animas, no começo antes do desaleitamento. do desaleitamento.
de suas vidas, e a produ- Dessa forma, estra-
ção de leite futura (Bach, tégias que estimulam o
2012). Além disso, esse parâmetro consumo de concentrado são de grande
também contribui para alcançar o obje- valor na indústria leiteira, e a alimen-
tivo de aumentar a substituição do reba- tação com forragem no início da vida
nho: obter o primeiro parto aos 22-23 pode contribuir nessa tarefa.
meses sem comprometer o peso corpo-
ral (PC) no parto (620-650 kg antes do Efeitos do fornecimento
parto em rebanhos Holandês). A Figura de forragem no início da
2 mostra o consumo de concentrado
na semana anterior ao desaleitamento
vida
relacionado ao GMD da semana poste- Na literatura, algumas vantagens
rior ao desaleitamento, considerando os e desvantagens de oferecer forragem
dados individuais das bezerras dos estu- para bezerras têm sido descritas e foram
dos realizados por Terré et al., (2006a, resumidas na Tabela 1.
6. Forragem para alimentação de bezerras 93
2
GPC ajustado – semana após a desmama, kg/d

1,5

0,5

0 0,5 1 1,5 2
Consumo concentrado na semana anterior ao desaleitamento, kg/d

Figura 2. Relação quadrática observada entre o consumo de concentrado na semana anterior ao de-
saleitamento, com o GMD ajustado em um estudo na semana posterior ao desaleitamento. GMD (kg/
dia) = 0,395 + 0,809 consumo na semana antes do desaleitamento – 0,168 (consumo na semana antes
do desaleitamento)2, R2=0.42, P<0,001.

Tabela 1. Vantagens e desvantagens relatadas na literatura do fornecimento de


forragem a bezerras antes do desmame.
Vantagens Desvantagens
Aumento do consumo de concen- Redução do consumo de concentrado (Stobo et al., 1966; Hill
trado (Castells et al., 2012) et al, 2008)
Estimula o desenvolvimento da ca- Efeito de preenchimento gástrico (acúmulo de material não
mada muscular do rúmen (Tamate digerido no rúmen) (Warner et al., 1956; Jahn et al., 1970;
et al., 1962) Drackley, 2008)
Promove a ruminacão (Hodgson.,
Reduz a digestibilidade da dieta (Leibholz., 1975)
1971; Phillips., 2004)
Mantém a integridade e a saúde Não estimula o desenvolvimento epitelial do rúmen (aumen-
da parede ruminal (Haskins et al., ta a área de absorção), assim como o concentrado faz (Zitnan
1969; Suarez et al., 2007) et al., 1998).
Ausência de bactérias celulolíticas antes de três-quatro
Reduz problemas comportamen-
semanas após o parto (Anderson et al., 1987; Sahoo et al.,
tais (Philips, 2004)
2005)
Aumenta o pH ruminal (Thomas e
Hinks, 1985)

94 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


A partir da revisão de rentes estudos, em que a
... desvantagens ... foram
literatura, é importante forragem foi incluída na
observadas quando as
chamar atenção como
bezerras foram forçadas dieta de bezerras, foram
tais conclusões foram
a consumir determinada analisados (Stobo et al.,
obtidas, uma vez que em 1966; Suárez et al., 2007;
quantidade de
alguns casos a relação
forragem, em contraste Khan et al., 2008; Khan
forragem e concentrado às vantagens ... et al., 2011; Castells et al.,
foram pré-estabelecidas quando ... consumiram 2013). A partir de todos
nos estudos (Stobo et al., concentrado e forragem os estudos encontrados
1966; Hill et al., 2008), por conta própria. na literatura que analisa-
e em outros estudos for- ram a oferta de forragem
ragem e concentrado fo- a bezerras, o parâmetro
ram oferecidos aos animais a vontade mais comum usado para relatar o preen-
(Thomas e Hinks, 1982; Philips, 2004; chimento gástrico foi o peso do rúmen
Castells et al., 2012). De forma curiosa, cheio. Dessa forma, esse parâmetro foi
as desvantagens relatadas na literatura usado para fazer as relações entre consu-
foram observadas quando as bezerras mo inicial de concentrado e o consumo
foram forçadas a consumir determinada de forragem. Para evitar diferenças do
quantidade de forragem, em contras- PC no abate, nos diferentes estudos usa-
te às vantagens que foram observadas dos nessa análise, o peso do rúmen cheio
quando bezerras consumiram concen- expresso como porcentagem do PC foi o
trado e forragem por conta própria. parâmetro selecionado para representar
o efeito de preenchimento ruminal. O
Efeito de preenchimento consumo de concentrado, o consumo de
gástrico concentrado como percentagem do PC,
Os pesquisadores que não acredi- o consumo de forragem e o consumo de
tam que o uso da forragem na dieta traz forragem como porcentagem do PC fo-
benefícios para as bezerras atribuíram a ram avaliados quanto ao seu enquadra-
melhora do ganho de PC ao preenchi- mento a um modelo linear ou quadrático
mento gástrico de animais alimentados que pudesse explicar o peso do rúmen
com forragem, devido ao seu acúmulo cheio expresso como % do PC. Foi de-
no trato gastrointestinal, ao invés do ga- terminado que apenas a variável con-
nho de peso de carcaça. Para determinar sumo de forragem como porcentagem
os fatores relacionados às bezerras e à do PC fosse um parâmetro significativo
dieta que poderiam afetar o preenchi- nesse modelo. Portanto, após ajustar
mento ruminal e consequentemente os dados para o efeito aleatório do es-
modificar o ganho de PC, dados de dife- tudo, e adicionando a idade como uma
6. Forragem para alimentação de bezerras 95
covariável no modelo, uma análise de invés do ganho de peso de carcaça, esta-
regressão quadrática foi realizada entre vam parcialmente certos. Castells et al.,
o consumo de forragem expresso como (2012) ofereceram diferentes fontes de
porcentagem do PC e o peso do rúmen forragem a vontade a bezerras e obser-
cheio. A equação resultante foi: varam o consumo de forragem expresso
como porcentagem do PC, responsável
Peso do rúmen cheio como %PC = por apenas 0,15 e 0,32% do PC, de-
6,2 + 11,1 (Consumo de forragem
como % PC) - 2,5 (Consumo de
pendendo da fonte de forragem. Além
forragem como % PC)2 disso, altas porcentagens do consumo
(R2=0,74; P<0,001) de forragem (como % do PC) podem
ser observadas apenas quando as be-
Essa equação demonstra que o au- zerras não têm a opção de escolher sua
mento do consumo de forragem acar- própria dieta ou quando a dieta é fixada
reta o aumento do peso ruminal cheio e contém grandes quantidades de forra-
(Figura 3). Portanto, os autores que de- gem (ex.: > 10,5% da MS total).
sencorajaram o consumo de forragem
por bezerras devido ao crescimento ob- Tipos de forragem
servado em tais bezerras estar relacio- Geralmente, as forragens ofere-
nado ao aumento do peso do rúmen, ao cidas às bezerras são gramíneas ou
20
Peso do rúmen cheio, % PC

15

10

0 0,5 1 1,5 2 2,5


Consumo de forragem, % PC

Figura 3. Relação quadrática entre o peso do rúmen cheio expresso como porcentagem do PC e o
consumo de forragem expresso como porcentagem do PC de bezerras alimentadas com baixas quan-
tidades de leite.

96 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


leguminosas. Gramíneas são da família ( Jones and Wilson, 1987) comparado
Graminaceae e as leguminosas da famí- às gramíneas. Além disso, plantas legu-
lia Leguminosae. As gramíneas contêm minosas têm maior conteúdo de maté-
muito material estrutural lignificado ria orgânica fermentável e maior dispo-
em suas folhas, em particular na ner- nibilidade de N e energia comparada às
vura mediana e na bainha das folhas. gramíneas (MacRae and Ulyatt, 1974;
Leguminosas têm folhas relativamente Beever et al., 1986; Jones e Wilson,
não estruturadas nas extremidades dos 1987). Todos esses fatores promovem
caules. Esses aspectos gerais são impor- maior crescimento microbiano no rú-
tantes de serem conside- men quando legumino-
rados devido ao seu im- De forma geral, as sas são fornecidas aos
pacto direto na nutrição leguminosas são mais animais, comparados ao
dos animais. degradadas do que fornecimento de gramí-
Do ponto de vista gramíneas devido neas. O baixo conteúdo
nutricional, um aspec- ao seu baixo teor de de parede celular das
to importante que pode parede celular, apesar leguminosas é respon-
modificar o valor da for- ... do teor de lignina de sável pela maior quebra
ragem é o teor de lignina sua parede celular ser de partículas durante a
na planta. A deposição de maior comparado ao mastigação (Minson,
lignina nas leguminosas da parede celular de 1990). Quanto maior a
é mais restrita e localiza- gramíneas. quebra de partículas de
da nos caules, enquanto leguminosas e quanto
em gramíneas está distri- mais fácil a passagem dessas partículas
buída por toda a planta. De forma geral, do rúmen, maior é a saída das legumi-
as leguminosas são mais degradadas do nosas degradadas do rúmen para o abo-
que gramíneas devido ao seu baixo teor maso (Galyean and Goetsch, 1993). O
de parede celular, apesar da parede celu- maior fluxo de saída de partículas das
lar da leguminosa ser menos degradável leguminosas do rúmen, comparado às
do que a das gramíneas, por causa do partículas de gramíneas, torna possível
teor de lignina de sua parede celular ser o aumento do consumo das legumino-
maior comparado ao da parede celular sas em ruminantes. Consequentemente,
de gramíneas (Galyean and Goetsch, ruminantes alimentados com dieta
1993). Outras diferenças entre legu- baseada em leguminosas apresentam
minosas e gramíneas são o teor de nu- melhor desempenho em comparação
trientes das plantas. Geralmente, legu- àqueles alimentados com dieta basea-
minosas apresentam maior conteúdo de da em gramíneas (Thorton e Minson,
substratos solúveis e estoque de amido 1973; MacRae e Ulyatt, 1974; Moseley

6. Forragem para alimentação de bezerras 97


e Jones, 1979; Cruickshank et al., 1985; -secada é uma mistura das duas técnicas
Rooke et al., 1985,1987; Beever et al., em que se deixa a forragem secar até al-
1986; Jones e Wilson, 1987; Reid et al., cançar 40-60% de teor de humidade no
1990). Por último, gramíneas em geral pasto, seguido de um processo de emba-
têm mais frações de fibra potencial- lagem com plástico a fim de promover
mente fermentáveis e taxas de fermen- fermentação anaeróbica.
tação mais baixas (Smith et al., 1972),
o que tende a fazê-las boiar por mais
Fontes de forragem
tempo, devido à retenção de partículas Castells et al. (2012) avaliaram os
de dióxido de carbono e metano pro- efeitos de diferentes fontes de forragem
duzidos por microrganismos associa- para bezerras, do nascimento até duas
dos às partículas. Portanto, o tempo de semanas após o desaleitamento. As fon-
retenção de gramíneas no retículo-rú- tes de forragem estudadas foram: palha
men é geralmente mais alto do que o de de cevada (74% FDN, e 43% FDA),
leguminosas. feno de aveia (60%
Forragens podem Forragens podem FDN, e 32% FDA), si-
ser oferecidas em qua- ser oferecidas em lagem de milho (42%
tro apresentações prin- quatro apresentações FDN, e 25% FDA), si-
cipais, de acordo com o principais, de acordo lagem de triticale (65%
método de preservação: com o método de FDN, e 42% FDA), feno
pasto, silagem, feno ou preservação: pasto, de azevém (59% FDN, e
silagem pré-secada. Os silagem, feno ou silagem 35% FDA) e feno de al-
pastos na maioria das pré-secada. fafa (40% FDN, e 30%
vezes não estão disponí- FDA). Bezerras alimen-
veis durante todo o ano, tadas com todas as fon-
de forma que é necessário preservar as tes de forragem (exceto feno de alfafa)
forragens seguindo um dos métodos a consumiram mais concentrado e cresce-
seguir: ensilagem, ensilagem pré-seca- ram mais, comparadas àquelas bezerras
da ou feno. O feno é obtido por meio suplementadas sem forragem (Figura
da secagem da forragem a fim de ob- 4). É importante destacar que bezerras
ter um produto com menos de 15% de alimentadas com gramíneas, volunta-
água, enquanto a silagem é um método riamente consumiram 10% a menos
de preservar a forragem pela redução de forragem. Em contraste, bezerras
do pH por um processo fermentativo alimentadas com feno de alfafa (uma
com bactérias de ácido lático sem que leguminosa) consumiram 13,6% de
seja necessário secar a forragem antes forragem em relação ao total de sólidos
da ensilagem. Por último, a silagem pré- consumidos, o que afetou negativamen-
98 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
1,2 Concentrado 8,1% 3,9%
Forragem
GPC 5,4%
4,4% 4,9%
1
Consumo ou GPC, kg/d

0%

0,8 13,6%

0,6

0,4

0,2

0
CON AH RH OH BS TS CS
Fonte de forragem

Figura 4. Consumo de forragem, de concentrado e o ganho diário médio de bezerras alimentadas com
diferentes fontes de forragem: COM (concentrado apenas), AH (feno de alfafa), RH (feno de azevém),
OH (feno de aveia), /bs (palha de cevada), TS (silagem de triticale) e CS (silagem de milho). As por-
centagens indicam a proporção de forragem de alimentos sólidos consumidos voluntariamente pelas
bezerras.

te o consumo de concentrado inicial. Essa equação indica que a forragem


Dados de diversos estudos incluída a 3,75% da dieta otimizou o
(Huuskonen et al., 2005; Khan et consumo de concentrado, e quando a
al., 2007; Kristensen et al., 2007; forragem é consumida em porcentagem
Huuskonen et al., 2011; Castells et al., mais alta que 10% impediu o consumo
2012; Terré et al., 2013; e dados não de concentrado em bezerras (Figura 5).
publicados dos estudos de IRTA) foram Pouca informação existe a respei-
usados para avaliar o efeito da porcen- to da oferta de gramíneas frescas para
tagem de forragem na dieta de bezerras as bezerras Holandesas jovens. Phillips
no consumo inicial. A equação resultan- (2004) cortou o pasto de azevém e ofe-
te foi a que segue: receu às bezerras e relatou consumo de
Consumo inicial 0,7 kg MS/dia de gramíneas e 1,41 kg/
ajustado (kg/dia) =0,982 + 0,007. dia de concentrado, ou seja, 33% do
%forragem – 0,00098. consumo de alimentos sólidos foram na
(%forragem)2 (R2=0,45; P<0,01) forma de forragem. Os autores atribuí-
ram o grande consumo de forragem ao
6. Forragem para alimentação de bezerras 99
Consumo de concentrado ajustado, kg MS/d

% de forragem na dieta

Figura 5. Relação quadrática entre a porcentagem da forragem na dieta de bezerras com o consumo de
concentrado inicial (kg/d).

alto conteúdo de carboidratos solúveis no rúmen, consequentemente o aumen-


em água e proteína e ao comportamen- to do pH ruminal (Thomas and Hinks,
to alimentar mais natural, ou ao sabor 1982; Khan et al., 2011), e o aumento
da gramínea fresca, comparado ao do da proporção molar de acetato (Thomas
feno da gramínea, ou da palha. and Hinks, 1982; Suárez et al., 2007).
As Figuras 6a e 6b do estudo de Castells
Papel da et al. (2013) mostram a
forragem no As concentrações evolução do pH ruminal
ruminais totais de e a concentração de AGV
rúmen AGV são resultado em bezerras alimentadas
Uma característica da fermentação com três dietas diferen-
comum da fermentação dos alimentos pela tes: sucedâneo do leite
ruminal na alimentação microbiota ruminal e a e concentrado (CON);
de forragem a vontade capacidade de absorção sucedâneo do leite, con-
em bezerras é a redução de AGV pelo epitélio centrado e feno de alfafa
da concentração de AGV ruminal. (AH); e sucedâneo do
100 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
Concentração total de AGV, mmol/L
pH ruminal

Semana de estudo Semana de estudo

Figura 6a e 6b. Evolução do pH ruminal e da concentração de ácidos graxos voláteis no rúmen em


bezerras suplementadas com diferentes fontes de forragem: não suplementadas (controle), suplemen-
tadas com feno de alfafa (alfafa) e suplementadas com feno de aveia (aveia).

leite, concentrado e feno de aveia (OH). Graham et al., 2007). Portanto, pode ser
As concentrações ruminais totais de especulado que o aumento de MCT1 em
AGV são resultado da fermentação dos bezerras suplementadas com forragens
alimentos pela microbiota ruminal e a possa ser parcialmente responsável pelo
capacidade de absorção de AGV pelo aumento da absorção de ácidos graxos de
epitélio ruminal. No estudo de Castells cadeia curta.
et al. (2013), foi observado aumento da
expressão de MCT1 na
Forma física da fibra
parede ruminal de be- As fontes de fibras
zerras suplementadas Montoro et al. (2013) para bezerras podem
com forragem. MCT1 forneceram feno de ser oferecidas por meio
é um transportador gramíneas picadas (3-4 cm) do concentrado inicial
localizado na mem- ou de feno de gramíneas (pelo aumento do con-
brana basolateral do finamente moídas (2mm) teúdo de FDN e FDA
epitélio ruminal, e está a uma taxa de 10% da dos concentrados), por
envolvido no transpor- dieta total das bezerras. adição de ingredientes
te de lactato, acetato Eles observaram alguns fibrosos finamente ou
e prótons do epitélio benefícios quando o feno de grosseiramente moí-
ruminal para a corren- gramíneas foi incluído de dos, tais como casca
te sanguínea (Gäbel forma picada ao invés de de soja, semente de
e Aschenbach, 2006; finamente moído. trigo, polpa de beter-
6. Forragem para alimentação de bezerras 101
raba, grãos destilados, ou suplemen-
concentrado;
tados, concentrado com mais de uma
• Aumento do crescimento;
fonte de forragem picada. Montoro et
• Aumento do tempo de
al. (2013) forneceram feno de gramí-
ruminacão;
neas picadas (3-4 cm) ou de feno de
• Redução do comportamento
gramíneas finamente moídas (2mm)
oral não nutritivo;
a uma taxa de 10% da dieta total das
• Aumento do pH ruminal e
bezerras. Eles observaram alguns bene-
redução da concentração no
fícios quando o feno de gramíneas foi
rúmen.
incluído de forma picada ao invés de
finamente moído. A partir de tais observações, a se-
Com outro enfoque, Terré et al. guinte questão é levantada: “O que
(2013) compararam os benefícios da acontece se a forragem for oferecida
oferta de fibras a bezerras vindas de apenas após o desaleitamento?” Castells
fontes de concentrado e forragem. O et al. (2015) responderam essa ques-
estudo foi realizado em um delinea- tão comparando um grupo de bezerras
mento fatorial 2x2 sendo os dois fato- alimentadas com feno de aveia picado
res: alto (27% FDN) ou baixo (18% (68% FDN, e 27.8% > 20 mm tamanho
FDN) de fibra peletizada de concen- de partícula), a partir de sete dias de
trado, combinada com a suplemen- idade, até duas semanas após o desa-
tação ou não de feno de aveia picado leitamento, com um grupo de bezerras
(63% FDN e 38% >20 mm tamanho de em que a mesma forragem foi oferecida
partícula). Nesse estudo, as principais apenas após o desaleitamento:
vantagens da suplementação de forra-
gem foram observadas durante as duas • Consumiram menos concen-
semanas após o desaleitamento, desta- trado inicial durante o período
cando a importância da disponibilida- pré-desmame;
de de forragem nas semanas próximas • Cresceram menos durante o perí-
ao desaleitamento: odo pré-desmame;
• Após o desaleitamento (quan-
• Concentrado com baixo teor de fi- do todos os grupos foram su-
bra melhorou a eficiência alimentar plementados com a forragem):
durante o período pré-desmame; • Não houve diferença em de-
• Benefícios da suplementação com sempenho e consumo de
forragem foram observados após o concentrado;
desaleitamento: • Não houve diferença na diges-
• Aumento do consumo de tibilidade da dieta.

102 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016


Textura do Em alguns estudos, melhoras
de estereotipias orais
concentrado vs. no desempenho dos animais foram observados.
forragem picada foram observadas quando Entretanto, alguns
A partir das se- concentrados texturizados autores aceitam que
ções acima, pode ser foram oferecidos sozinhos, bezerras alimentadas
recomendada a in- sem nenhuma fonte de com concentrados de
clusão de forragens forragem (quer seja na textura grosseira têm
de gramíneas picadas forma de feno de gramíneas benefícios, uma vez
no momento do nas- ou na forma de camas de que apresentam de-
cimento do bezerro, palha). sempenhos similares
com taxas menores àquelas alimentadas
que 5% da propor- com forragem. Alguns
ção total de alimentos sólidos, uma vez estudos comparando a forma física do
que na maioria da literatura revisada concentrado estão listados na tabela
nenhum efeito negativo ou benefício abaixo.
em consumo, desempenho e redução A partir dessa lista, pode-se prever
Autor Tratamento Efeito
Milho processado: inteiro, lami- Milho inteiro e laminado a seco apresenta-
Lesmeister e
nado a seco, laminado assado, ram os melhores resultados de desempe-
Heinrichs, 2004
floculado a vapor. nho e consumo de concentrado.
Concentrado de alta vs baixa fibra O tratamento com alto teor de fibra e gros-
Porter et al.,
Concentrado grosseiramente seiramente moído apresentou os melhores
2007
moído vs peletizado resultados de desempenho e consumo.
Bezerras alimentadas com dieta multi-
particulada aumentaram o consumo de
Concentrado multiparticulado vs concentrado com crescimento similar
Bach et al., 2007
peletizado àquelas alimentadas com dieta peletizada.
Portanto, a dieta peletizada melhorou a
eficiência alimentar das bezerras.
Em bezerras alojadas em cama de palha ou
Textura grosseiramente moída vs
Bateman et al., alimentadas com feno de gramíneas pica-
peletizado
2009 do, o processamento de grãos de cereais
Bezerras em camas de palha
teve pouco impacto no desempenho.
Mistura de estudos:
O tratamento com alta concentração de
Texturizado vs peletizado vs farelo
amido adicionado a 5% de feno mostrou
Hill et al., 2012 Alto vs baixo amido
o melhor desempenho e consumo de
Todas as dietas misturadas com
concentrado.
5% de feno

6. Forragem para alimentação de bezerras 103


que a alimentação com concentrado cujo concentrado peletizado com palha
grosseiramente moído/texturizado/ foi oferecido, comparado àquelas em
multiparticulado estimulou o consumo que o concentrado foi oferecido sem
de concentrado. Em alguns estudos, palha (tanto na forma de pellet ou textu-
melhoras no desempenho dos animais rizada), apesar do pH do rúmen ter sido
foram observadas quando concentrados similar nas bezerras suplementadas com
texturizados foram oferecidos sozinhos, palha e nas bezerras alimentadas com
sem nenhuma fonte de forragem (quer concentrado texturizado sem palha.
seja na forma de feno de gramíneas ou Devido a grande variedade de con-
na forma de camas de palha). A fim de centrados texturizados que aparecem na
comparar os benefícios no desempenho literatura, e estão disponíveis no merca-
de bezerras alimentadas com concen- do, é difícil avaliar se a textura do con-
trado texturizado e peletizado, sozinho centrado inicial, que as bezerras estão
ou em combinação com feno de gramí- sendo alimentadas, têm ação abrasiva
neas, dois estudos foram compilados suficiente no rúmen para aumentar o
por Terré et al. (2015). No primeiro es- pH ruminal e impulsionar o consumo
tudo, bezerras foram alimentadas com de concentrado. Além disso, parece
grande quantidade de leite (8L/d) e mais seguro oferecer aos animais uma
com concentrado texturizado por meio forragem picada de baixa qualidade (nu-
tricionalmente) a fim de garantir saúde
de cevada, milho e aveia triturada com
ruminal adequada e estimular o consu-
ou sem palha picada, e comparada à ali-
mo alimentar de sólidos.
mentação de concentrado peletizado
e de palha picada. No segundo estudo, Leve essa mensagem
bezerras foram alimentadas com baixas • A suplementação de concentrado
quantidades de leite (4L/d) e concen- inicial com feno de gramíneas pi-
trado texturizado com milho inteiro, e cadas ou palha a uma taxa de 5%
comparadas com concentrado peletiza- irá:
do com ou sem palha. No primeiro estu- • Melhorar o consumo das be-
do, nenhuma diferença foi observada no zerras sem impedir o desem-
desempenho e no consumo de concen- penho das mesmas (eficiência
trado, provavelmente devido aos altos alimentar, crescimento e diges-
volumes de leite oferecido. Entretanto, tibilidade da dieta);
o pH ruminal foi maior em bezerras que • Ajuda a manter o pH ruminal
palhas foram oferecidas (quer seja na ótimo a fim de facilitar o de-
forma de concentrado peletizado ou na senvolvimento. do epitélio ru-
forma texturizada). No segundo estudo, minal e absorção de AGV.
o desempenho foi melhor nas bezerras
104 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 81 - junho de 2016
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