Você está na página 1de 332

SARA GODOY

Baby Girl
LOST
Prólogo

assei anos da minha vida dedicando-me ao futuro. Quem eu gostaria de ser,

P o que gostaria de ter e a vida que levaria depois da faculdade, e tudo estava
dando certo, até ele colocar os olhos em mim. A noite em que recebi a
primeira rosa branca, um mês antes de começar a viver um inferno, foi no bar
da danceteria em que eu estava, mesmo sem saber quem a deixara, guardei-a.
Aceitar aquela rosa foi o que deu início a tudo, mas quem poderia saber o
que aconteceria depois?
Naquela noite, ele decidiu que eu estaria condenada a um futuro de dor,
contudo, ele não pode previr uma coisa: na noite em que me sequestrou, ele
não só acabou com a minha vida, mas com a dele também.
Capítulo Um

á passa das onze da noite. A essa hora, eu deveria estar me preparando para ir
J dormir. Depois do dia exaustivo que tive, algumas horas de descanso é tudo
o que preciso para ir trabalhar no dia seguinte, mas, ao invés disso, estou
sentada na cama de frente para minha melhor amiga, olhando dois vestidos
absurdamente curtos que ela segura diante de mim em mais uma tentativa de
achar algo para me vestir essa noite.
São horríveis, não combinavam comigo ou com o meu estilo e com toda a
certeza, não irei usá-los. Reviro os olhos, desanimada, e digo não para as duas
peças. O rosto de Alison assume uma expressão de desistência, prestes a perder
o pouco de paciência que ainda tinha.
Depois de usar a maior parte de suas chantagens para me convencer a sair,
ela agora tem a missão de encontrar algo para me vestir, o que provavelmente
estava sendo o mais complicado, já que não suporto suas roupas provocantes e
nenhuma das minhas servem para usar em um lugar como a Twice, que é nada
mais, nada menos, que uma danceteria mista de alta classe, sendo dividida entre
um prostíbulo e uma boate.
A garota, que é alguns anos mais velha que eu, volta a vasculhar sua parte
do guarda-roupa, e a cada resmungo, uma peça é descartada. Olho para o
relógio em meu pulso e não consigo evitar o suspiro alto que escapa de meus
lábios ao ver as horas.
Por estar encarregada de abrir a clínica veterinária, terei que levantar mais
cedo do que de costume e sair ainda não me parece uma boa ideia. Mas de uma
coisa tenho absoluta certeza: estarei completamente ferrada amanhã.
— Vamos, Skye, você precisa me ajudar a te ajudar. — A garota a minha
frente parece implorar antes de jogar mais um vestido sobre a cama.
— Não sei se quero ir. — Digo, encolhendo os ombros. — Tive um dia
exaustivo, estou cansada. E não suporto ir a lugares agitados, você sabe disso,
Alison.
— Qual é… — Ela diz, revirando os olhos.
— Minhas opiniões sobre esses ambientes não são agradáveis. Você não
deveria insistir para que eu vá.
— Não começa, a única coisa que você fez até agora foi estudar. Precisa se
divertir, ao menos um pouco. — Ela fala com a atenção ainda focada no
guarda-roupa.
— Não vejo problema em só estudar. — Resmungo.
— Não?! Onde já se viu uma garota com 18 anos de idade, que faz
faculdade, só ficar trancada dentro de casa? Você não sai com os amigos para
beber ou dançar, nunca aproveita nada e ainda é virgem! Ano que vem, vai estar
no segundo ano da faculdade e ainda não perdeu essa merda. — Ela dispara.
Consigo ver através de seus olhos azuis sua irritação por eu estar
constantemente inventando desculpas para permanecer em casa.
— Não tenho que ser como os outros. — Dou de ombros sem me
importar com sua opinião e como de costume, ignorando o assunto sobre
minha virgindade que ela faz questão de abordar.
— Não, mas não tem que se isolar como tem feito. Estudar é bom, mas
tudo tem limites, incluindo isso. Agora, vá logo tomar seu banho. — Ela fala,
puxando-me para fora da cama antes de me empurrar em direção ao banheiro.
— Agradeço se não demorar. Sabe que meu chefe não suporta atrasos. — Ela
conclui com um sorriso torto.
Alison - não por falta de oportunidades - trabalha na Twice como
dançarina e pelo que costuma dizer, ela gosta do que faz por ganhar mais do
que ganharia em outro emprego. Por mais que eu não apoie por saber que ela é
inteligente o suficiente para trabalhar com algo relacionado ao que estuda na
faculdade, ela se sente bem com isso, então, mesmo eu sendo contra, não vejo
motivos para reclamar. No fim das contas, é a vida dela.
Por saber que não teria outra opção além de ir com ela, reviro os olhos e
ligo o chuveiro antes de tirar a roupa e me enfiar sob o jato de água morna.
Tomo meu banho rápido e perto de terminar, deixo que a água caia em meu
corpo por mais alguns minutos. Estou realmente cansada e sem qualquer
disposição para festejar, mas sei que ficar em casa dormindo não é possível.
Talvez ela esteja certa, eu preciso me distrair um pouco e convencendo-me
disso, começo a aceitar o fato.
— Vamos logo! — Alison grita e bate duas vezes na porta, assustando-me.

5
— J-já terminei! — Respondo, apressando-me em fechar a água. Pego a
toalha, seco meu corpo e antes de colocá-la a minha volta, passo o óleo de
maçã com canela e volto para o quarto, onde Alison me espera, já pronta.
Nosso apartamento é pequeno, apenas um quarto onde dividimos o
armário e a cama de casal, uma sala, cozinha e o banheiro. Apesar do tamanho,
era um lugar luxuoso. O pai de Alison a presenteou com o apartamento depois
que ela se formou no ensino médio. É no centro e próximo a faculdade. Dois
anos depois de ela ter se graduado, eu terminei o ensino médio e antes de dar
início ao meu primeiro ano na mesma faculdade que ela, Alison pediu para que
eu viesse morar aqui.
É o suficiente para nós duas, já que Alison e eu nos conhecemos desde
que éramos crianças e isso nos dá certa intimidade. Dividimos as contas, que já
não são muitas, o dinheiro que restava nos permite gastar com o que queremos,
e eu, após muito tempo juntando o que sobrava do meu salário e com a ajuda
de meus pais, consegui comprar meu carro. E assim que terminar a faculdade,
irei alugar um apartamento para mim, seria só daqui a alguns anos, mas já está
tudo planejado, assim como o resto da minha vida.
Ao me ver caminhar até o armário e abrir minha gaveta de calcinhas,
Alison se vira para mim com um olhar vitorioso, parece estar satisfeita e
orgulhosa de si. E como toda a bagunça que tinha feito em busca de alguma
coisa para me vestir tinha sumido, não fica difícil saber o motivo.
— Separei sua roupa, foi difícil, mas consegui achar aquele macacão preto
que você achou bonito. Vai ficar bem justo no seu corpo e as costas vão ficar de
fora. É a única roupa que tenho que mistura o estilo de nós duas, mas tem um
problema… — Ela aponta para o par de sapatos pretos. Não consigo evitar a
cara de reprovação que faço ao ver os saltos finos. Eles acabarão comigo ainda
no começo da noite, mas não posso negar: será um conjunto realmente muito
bonito.
— Tudo bem. — Dou-me por convencida. Ela vai até a penteadeira, tira
de dentro da caixa de joias um par de brincos de diamantes e antes que eu
possa negar, os coloca em mim.
— Vai ficar perfeito! — Ela afirma ainda com um largo sorriso, então
caminha até a cama e se joga sobre o colchão, olhando animada para mim antes
de pegar o celular e começar a digitar sem parar.
— Nada que eu faça fará com que você mude de ideia sobre eu ir, não é?
— Pergunto, ainda com uma pontinha de esperança.
— Ainda bem que sabe, O'Brien. E ande logo com isso. — Ela responde,
e ainda com a atenção no celular, aponta para as roupas ao seu lado. Desisto de

6
continuar a tentar ficar em casa e começo a me arrumar. Tiro a toalha e quando
começo a vestir minha calcinha Alison olha pasma para meu corpo.
— Não se depilou? — Ela pergunta fixando o olhar nas minhas partes
baixas. Apresso-me em vestir a calcinha, seguida pelo macacão. — Skye…
— Ainda não está na hora. — Interrompo-a antes que eu comece a ficar
envergonhada.
— Já passou da hora de tirar isso.
— Não começa. — Resmungo.
— Tudo bem. Mas fique ciente de que o cara que ver isso vai se perder aí.
— Ela implica.
— Ninguém vai ver. E não seja exagerada. — Falo assim que termino de
me vestir.
— Ok, mata atlântica. Agora senta essa bunda aqui e me deixe maquiar
você. — Ela diz entre as risadas. Alison, mais do que ninguém, sabe como me
envergonhar ou me tirar do sério. Para não continuar com esse assunto que já
está me deixando constrangida, deito-me na cama e apoio a cabeça em suas
pernas para que ela possa me maquiar.
— Você é uma menina bonita, O'Brien, mas precisa ter mais senso de
humor.
— Agora sou chata só porque não gosto de algumas brincadeiras? —
Pergunto de forma ríspida.
— Quase isso. Mas principalmente porque você é séria demais. — Seu
tom de voz é calmo e por mais que esteja conversando, a maior parte de sua
concentração está na maquiagem. Acabamos ficando em silêncio por alguns
minutos, até ela terminar de esfumar a sombra escura em meus olhos. — Posso
te fazer uma pergunta? Só por curiosidade mesmo. — Balanço a cabeça
afirmando e então ela começa a preencher minhas sobrancelhas antes de fazer
sua pergunta. — Já chegou a ter vontade de transar?
— Já, assim como todo mundo. Mas não acho que eu deva fazer com
qualquer um, acredito que tenha a hora, o lugar e o momento certo para isso
acontecer. — Respondo. Alison para o que está fazendo e olha para mim,
surpresa. Provavelmente não esperava que eu fosse ter o pensamento tão
inocente como o que acabo de lhe expor.
— Nenhum dos seus ex-namorados te propôs isso? — Ela pergunta com
a curiosidade evidente.
— Ainda sou virgem, então… — Digo e ambas soltamos algumas
risadinhas. Estou surpresa por ela não estar fazendo piadas com isso, já que
tudo para ela gira em torno de sexo, assim como para a maioria das pessoas.

7
Alison só sai com pessoas como ela, sejam eles amigos ou amantes. Eu sou a
exceção, mas isso me leva a ouvir suas bobeiras com frequência.
— Agora eu sei o porquê de todos os seus relacionamentos terem
terminado no primeiro mês de namoro. Homens gostam de transar. Eles
pensam mais com a cabeça de baixo do que com a de cima.
— Klaus não foi um mal namorado. — Defendo meu ex mais recente.
Apesar do término, gostávamos muito um do outro, quase rolou várias vezes,
mas nunca me senti preparada. Nosso relacionamento acabou do jeito amigável,
e eu entendi o motivo, não poderia prendê-lo em uma relação que não lhe daria
todos os prazeres. E como homem ele tinha lá suas necessidades, ás quais eu
ainda não me sentia pronta para suprir.
— Claro, os homens fazem de tudo para conseguir uma transa. Tirar a
virgindade de uma garota é… Como posso dizer? É a mesma coisa que ganhar
na loteria. Quando Klaus viu que não liberaria sua amiga peluda aí, ele deu no
pé, mas manteve a “amizade” caso você resolvesse transar. — Ela responde e
parte para outras partes da maquiagem.
— Você é uma pessoa terrível, Alison! Sinceramente não sei como consigo
ser sua amiga. — Falo indignada, fazendo com que ela solte risadas divertidas.
— Bom, os opostos se atraem, e eu, ao contrário dos seus ex, te amo.
Você transando ou não. — Ela brinca e deixa um beijinho rápido em minha
testa.
— Você é uma idiota. — Digo, juntando-me a ela nas risadas mais uma
vez.
— Agora não se mexa. Vou passar o delineador e mesmo te amando, se eu
errar, terei que matar você. — Fico imóvel e quando ela enfim termina, calço os
malditos saltos, que tenho certeza que serão meus maiores inimigos essa noite,
e vou para o espelho. Nunca fui de me achar feia, mas todas as vezes que
Alison me arruma, sinto que sou outra pessoa que está refletindo aqui.
Arrumo os cabelos compridos e os jogo sobre os ombros. Passo meu
perfume favorito e volto a me analisar, e sorrio para meu próprio reflexo ao ver
que gostava do resultado.
— Pensa rápido!— Alison grita e, quando me viro, tira uma foto nossa. —
Essa vai para o Instagram. — Ela cantarola e sai saltitando em direção à sala.
— Alison! — Grito e vou atrás dela— Apaga isso agora.
— Você não manda em mim, O'Brien. — Ela ri e caminha em direção ao
corredor. Pego meu telefone, minha bolsa e vou atrás dela, trancando a porta
antes de chegar perto da garota loira que entrava no elevador.

8
— Não acredito que realmente postou isso. — Digo incrédula enquanto
olho a foto no instagram.
— Você tem que admitir que sua cara está imperdível!— Ela fala, ainda
aos risos.
— Você é uma grande filha da puta.
— Não, querida, a mulher que me gerou que tem uma grande filha puta.
— Ela pisca e sai do elevador. Antes que eu possa dizer qualquer coisa a
respeito, uma sequencia de mensagens que recebo de Todd chamam minha
atenção e enquanto respondo as mensagens sigo minha amiga pela a garagem
até chegarmos em nossas vagas. Entramos em seu carro e saímos em direção a
Twice. — Não se esqueça que a menina do terceiro andar vai deixar a Atlantis
em casa às sete. Deixei minha chave extra com ela, então quando sair para ir
trabalhar deixe o pagamento dela no balcão da cozinha.
— Tá bom. — Respondo e volto a trocar mensagens com meu amigo.
Durante o caminho ela tagarela sobre diversas coisas mesmo sabendo que
não estou dando atenção por estar concentrada no celular. A última coisa que
respondo a Todd é que estou saindo com a Alison, sem dizer para onde
estamos indo. Quando a garota estaciona na área de funcionários, deixo meu
amigo falando sozinho e desligo o celular e guardo minhas coisas no carro
antes de sair. É difícil de acreditar na quantidade de carros que tem aqui, o
número de funcionários é ainda maior do que eu me lembrava. Respiro fundo,
ajeito minha roupa e sigo Alison até a entrada dos funcionários. O segurança
abre a porta assim que nos aproximamos. Minha amiga acena para ele e passa
direto.
— Boa noite. — Eu o cumprimento e entro logo atrás de Alison. O
homem com cara de mal fecha a porta atrás de mim sem dizer nada. Mal
educado.
— Vamos, Skye, não tenho a noite toda. — Alison me apressa do outro
lado do corredor. Viro-me para ela, vou em sua direção e acompanho-a até o
camarim onde ela e mais três mulheres trocam de roupa, arrumam os cabelos e
fazem maquiagens mais pesadas. Elas se arrumam às pressas, uma atropelando
a outra, porém, apesar de parecerem estressadas, todas se tratam com total
respeito. Alison, ao terminar de se arrumar, guarda suas coisas pessoais em um
armário com senha e sem dizer nada, agarra um dos meus braços e me arrasta
para fora daqui. — Vou pedir pro Alexander preparar algo para você beber. —
Ela fala, tensa demais para perceber que eu a admiro. Ela realmente está muito
bonita.

9
Tento acompanhar seus passos, seguindo-a pelos corredores cheios de
pessoas. Damos a volta pela Twice até sairmos na parte da danceteria, ainda
estamos na área dos funcionários, então ela pega em minha mão e me puxa até
uma porta protegida por outro segurança, e assim que ele nos dá passagem, dou
de cara com a área vip completamente lotada. A música alta agride meus
ouvidos e isso já é o suficiente para me deixar desconfortável.
Ainda segurando a mão de minha amiga para não me perder dela,
seguimos em frente, entrando oficialmente na área vip. Estamos no segundo
andar, o andar abaixo de nós está ainda mais cheio por ser a pista comum e o
andar acima de nós é a área premium, onde apenas as pessoas com muito
dinheiro se atrevem a pagar cinco mil apenas para poder entrar ali, então é o
local com menos pessoas.
Passamos pelas pessoas que dançam na pista e caminhamos em direção ao
bar, Alison abre um sorriso enorme ao ver Alexander e não é diferente com ele
quando vê a garota andar em sua direção.
— Alison, que surpresa agradável. — O barman grita para que possamos
ouvi-lo. — E Skye, faz tempo que não vem aqui.
— Ando muito ocupada. — Respondo abrindo meu melhor sorriso.
— Alex, preciso que me faça um favor essa noite. — A garota vai logo ao
assunto já que sua pressa é evidente.
— Diga, gata.
— Fica de olho nela para mim? — Ela pede. Sou pega totalmente de
surpresa. Ela me deixaria sozinha como das últimas vezes?
— Espera, ficarei sozinha a noite inteira? — Pergunto, torcendo para que
eu tenha ouvido errado.
— Preciso trabalhar e você nem vai sentir minha falta, é só beber e ir
dançar.
— Se vou ficar sozinha, era melhor ter ficado em casa, não acha? — Estou
com tanta raiva que consigo facilmente me imaginar matando-a. Por mais
estressada que esteja, meu tom de voz demonstra minha decepção e não a raiva
que sinto.
— Você precisava sair de casa e fazer outras coisas. E você não está
sozinha, Alexander estará aqui o tempo todo, e combinei com Todd de vir te
encontrar. Agradeça-me depois. — Assim que ela termina de falar, uma mulher
tão arrumada quanto ela para ao seu lado, sussurra algo em seu ouvido e fica a
sua espera. — Bonitão, sirva-a, mas não exagere. Tenho que ir. Apareço por
aqui quando der.

10
— Eu te odeio! — Grito, e mesmo que ela esteja distante, sei que
consegue me ouvir.
— Também te amo! — Ela manda um pequeno beijo e volta a andar.
Observo minha amiga se afastar enquanto discute algo com a mulher que vai
falar com ela, até as duas desaparecerem por completo.
— Não fique chateada. — Alexander fala enquanto prepara meu copo.
— Assim como todos aqui, eu também trabalho, a única diferença é que
tenho que estar na clínica às seis da manhã.
— Pegue isso aqui e vá dançar, ficar parada se lamentando não vai adiantar.
Já que está aqui, aproveite.
— Tem razão. — Digo, respirando fundo. Bebo um gole da batida de
maracujá em meu copo para iniciar a noite.
E em questão de segundos, penso na chance de esperar Todd no bar,
parece melhor do que ir dançar sozinha, contudo, pensar no quanto ele pode
demorar a chegar faz com que eu tome logo minha decisão.
Sorrio para Alexander, bebo mais um pouco e caminho até a pista lotada
de pessoas bêbadas que não parecem precisar de nada além de seus copos.
Assim que me misturo a eles, meus batimentos aumentam e uma euforia me
domina. Surpreendo-me ao perceber que não foi preciso muito para eu deixar a
vergonha de lado e me juntar a eles em danças que me conectam a cada ritmo
de cada música que toca. Volto para o bar apenas para pegar mais bebida e sem
ter noção das horas, continuo nesse ritmo até sentir meu corpo se cansar e
precisar de uma pausa.

Segurando firme o copo em minha mão, saio da pista de dança direto para a fila
do banheiro, que não é longa, por sorte. Sempre que saio com Alison é assim:
ela me deixa sozinha e com o Alexander tomando conta de mim como se eu
fosse uma criança e não soubesse tomar conta de mim mesma. E mesmo que já
esteja acostumada, isso ainda me irrita e não sei o que me fez achar que essa
noite seria diferente das outras. Pelo menos hoje não demorou tanto para que
eu ficasse bêbada, e por mais que isso não me agrade, estar bêbada é a única
forma de conseguir me distrair a ponto de não pensar nos problemas do dia
seguinte. Então, sem pensar muito, termino de beber o conteúdo em meu copo

11
e o jogo no chão junto com os outros, em seguida, empurro as meninas a
minha frente e entro no banheiro escutando vários xingamentos que ignoro
com facilidade.
Olho a minha volta, sentindo a dificuldade de focar meus olhos em um
canto só, e tendo noção de que ultrapassei meu limite, caminho a passos
trôpegos até a cabine, me desfaço do macacão após fazer um esforço
constrangedor, e por fim, sento-me no vaso, sentindo o alívio ao esvaziar a
bexiga. Depois de travar mais uma luta com o macacão, dessa vez para me
vestir, vou até a pia, lavo as mãos e no momento em que olho para o espelho
para me arrumar, começo a rir ao ver o quão bêbada estou.
Ajeito a roupa e os cabelos e saio do banheiro, onde, já do lado de fora,
recebo vários olhares tortos das meninas que empurrei. Dou de ombros sem
dar a mínima para elas e volto para o bar. Alexander parece embolado com a
quantidade de pedidos, mas não é isso que o deixa nervoso; seus olhos
constantemente focam em algo no andar superior e a cada vez em que o faz,
seu nervosismo aumenta ainda mais. Ao me ver, ele arregala os olhos e vem até
mim, mascarando seu medo com um belo sorriso.
— Acho que alguém bebeu demais.
— Só ultrapassei um pouquinho o que costumo beber. — Falo rindo. —
Quero mais um copo, Alex.
— Não acha melhor voltar para casa? Eu a coloco em um táxi.
— Nada disso, só saio daqui com a Alison ou com o Todd.
— Skye… — Ele começa a falar, mas eu o interrompo, deixando-o no
mesmo estado de tensão de antes.
— Mais um copo, Alex, por favor.
— Tudo bem. — Ele diz, desviando seu olhar para o andar de cima e um
minuto depois, volta-o na minha direção. — Desculpe.
Ao se desculpar, o barman vira-se para a prateleira atrás dele e volta a
trabalhar. Tentando entender para o que ele tanto olhava, encaro o andar
superior, vendo apenas um homem que assistia lá de cima os acontecimentos
do bar. Não consigo ver bem seu rosto, mas pela a forma que se veste e por
aparentar ser novo, está longe de ser o dono da Twice. Ao notar que eu estou o
encarando, o estranho homem fixa seus olhos em mim e no mesmo instante,
um sorriso surge em seus lábios e meu corpo se arrepia diante de sua reação.
— Aí está você! — Alison grita e me abraça. — Está se divertindo?
A loira veste uma roupa mais comportada e a maquiagem escura parece ter
sido retocada. E por mais nervosa que estivesse com ela por ter me deixado

12
sozinha no começo da noite, fico feliz por vê-la e não consigo conter o sorriso
que teima em aparecer.
— Estou bêbada. — Respondo, vendo um sorriso aparecer em seu rosto
também. — Veio ver como estou?
— Estou no meu horário de descanso, aí pensei em vir curtir com você
por um tempinho, já que Todd não veio. — Ela responde, abraçando-me
novamente.
Não demora muito e Alexander aparece com a minha bebida, mas antes
que ele possa me entregar, Alison tira o copo de sua mão, bebe um pouco e me
entrega. Ela faz tudo tão rápido que quando percebo, estou sendo arrastada de
volta para a pista de dança. Eu posso ser desenformada em relação a muitas
coisas, mas a dança não faz parte de delas; é fácil achar o ritmo e dançar de uma
forma sensual e é exatamente o que eu e minha amiga fazemos, porém,
diferente da Alison, eu não permitia que os homens chegassem perto. O
homem que dança com ela, sussurra algo em seu ouvido e ela ri e concorda
antes de vir até mim, avisar que vai sair por uns minutos com um cara e depois
vai voltar ao trabalho. Faço um gesto afirmativo com a cabeça e observo-a
desaparecer por entre a multidão com o cara. E como resultado de dançar
algumas músicas sem parar, eu já me encontrava suada e ofegante, novamente
sem saber quanto tempo tinha perdido lá.
Estou pronta para descansar um pouco e pedir outra bebida antes de
voltar a dançar. Durante meu trajeto de volta para o bar, percebo que estou
mais bêbada do que realmente acreditava estar, talvez já seja hora de voltar para
casa, mas minhas coisas estavam no carro de Alison e eu não queria ir embora
sem meu celular, principalmente sem minhas chaves. Eu estou mesmo muito
ferrada. O único jeito é esperar minha amiga terminar o turno dela e ir embora
com ela, ou pedir para ela me levar até o carro para que eu possa pegar minhas
coisas. Isso, é isso que vou fazer.
Ao sair da pista, olho para o bar, onde vejo Alex andando de um lado para
o outro. Parece desesperado, e como se tivesse sentido minha aproximação, ele
se vira em minha direção e no mesmo instante faz um gesto para que eu vá até
ele. Sem entender o motivo de seu nervosismo elevado, empurro as pessoas que
estão em minha frente e vou até ele às pressas.
— O que foi?
— Alison. Eles a pegaram. — Ele está tão alterado que mal consegue
pronunciar as palavras.
— Eles, quem? Do que você está falando? Alison saiu com um cara e
depois voltou para o trabalho. — Digo, tentando acalmá-lo, caso o desespero

13
tenha sido causado pela visão de tê-la visto sair com outro cara da pista de
dança.
— Skye, ela estava inconsciente quando a levaram para o andar de cima.
Isso foi há uns quarenta minutos e ela ainda não voltou. — Ele grita, deixando
claro que o que está acontecendo é sério. Sinto meu coração apertar dentro de
meu peito.
— J-já ligou para a polícia ou chamou os seguranças? — Pergunto em
estado de choque.
— Já, mas…
— Preciso do seu cartão de funcionário. — Digo, interrompendo-o mais
uma vez.
— O que? Por quê?
— Dê-me logo a porcaria do cartão! — Grito, e no momento em que ele
tira o cartão do bolso, eu o puxo de sua mão e saio correndo em direção as
escadas que levam ao andar premium.
Empurro as pessoas que aparecem na minha frente enquanto subo os
degraus. Não consigo pensar direito, estou bêbada e desesperada demais para
pensar em algo com clareza, meu estômago está começando a embrulhar,
contudo, o pânico dentro de mim é ainda maior para que eu consiga parar para
vomitar. Sei que eu não poderia fazer muita coisa por Alison, sobretudo contra
homens com o dobro da minha força e tamanho, porém, é minha amiga que
está em perigo e eu farei o possível, e até mesmo o impossível, para evitar que a
machuquem.
Ao passar o cartão pelo leitor da porta, que se abre imediatamente, as
poucas pessoas que estão ali olham para mim por alguns segundos e logo
voltam suas atenções para o que faziam, não dando a mínima se eu aparento
estar em pânico.
Vasculho cada canto do ambiente até ver mais uma escada, e não penso
duas vezes em ver até onde elas levam, e subo correndo. No meio do caminho,
já sem ar, olho para os degraus que se tornam muitos e devido a meu desespero,
consigo ouvir meu coração bater de forma descontrolada. Alex trabalha aqui
todos os dias, e para ter aquela reação, as coisas realmente devem ser sérias, só
podem ser.
Quando estou chegando aos últimos degraus, encontro uma amiga de
Alison, que para no topo da escada ao me ver desesperada. Apesar de estranhar
minha reação, ela não diz nada.
— Viu a Alison? — Pergunto, me atrapalhando com as palavras.

14
— Estava sendo levada a sala quinze. Eu não iria lá se fosse você, ela está
trabalhando. — A morena avisa e me olha com desdém.
— Mas como eu não sou você, irei até lá. — Retruco e subo dois degraus
antes de parar e me virar para ela novamente. — Obrigada. — Ruby, sem
entender o motivo do meu desespero, agita a cabeça em resposta e volta a
descer enquanto eu subo.
Assim que chego ao corredor branco, deparo-me com diversas portas
idênticas, que também só podem ser abertas com cartão. No entanto, para a
minha surpresa, a número quinze, a última delas, está aberta e nada além de
murmúrios saem de lá, o que me faz começar a duvidar se Alison estaria
mesmo em perigo, e eu rezava para que realmente não estivesse. Ando com
cautela até o fim do corredor, ouvindo as vozes ficando mais altas conforme
me aproximo.
Torcendo para não encontrá-la, paro na porta e observo o quarto escuro
que aparenta estar vazio, até mesmo as vozes somem. Não parece a melhor
escolha, mas decido entrar. Nesse instante, as portas se fecham atrás de mim e
o ambiente, que antes estava sendo iluminado pela luz do corredor, torna-se um
completo breu.
Sentindo meu corpo tremer de medo e nervosismo, olho a minha volta na
esperança de conseguir enxergar, porém, o quarto está escuro demais para que
eu possa ver qualquer coisa, e silencioso o bastante para que eu consiga ouvir
apenas meus batimentos cardíacos e o som da minha respiração descompassada.
Não sei o que fazer, o álcool ainda tem efeito sobre mim, é difícil de pensar
com clareza, as únicas coisas que eu sei é que Alison está em uma situação
perigosa e que eu tenho que ajuda-la. Prestes a dar o primeiro passo para tentar
encontrar o interruptor, o barulho de algo se quebrando faz com que eu me
vire de imediato, e mesmo sem ver nada, caminho a passos cuidadosos até o
canto do quarto.
— Alison, é você que está aqui? — Pergunto baixo e não obtenho resposta.
— Alison?
— Cuidado! — Ela berra do outro lado do quarto. E antes que eu consiga
me mexer, alguém passa o braço em torno do meu pescoço e me imobiliza.
Debato-me contra o corpo alto e musculoso que me agarrava e quanto mais
resisto, mais a pessoa me enforca.
— Levem-na daqui. — Um dos homens manda.
— Skye! — Alison berra mais uma vez, então, em questão de segundos,
um tiro é disparado e eu perco a consciência no mesmo instante.

15
Capítulo Dois

onsigo ouvir os passos, as conversas e brincadeiras de mau gosto. Tenho


C total certeza que meus olhos estão abertos, mas não enxergam nada além da
escuridão. Sei que estou sobre um colchão duro, com as mãos e pernas
algemadas, mas não entendo o porquê disso estar acontecendo. Flashes dos
acontecimentos de antes de eu perder a consciência invadem minha cabeça,
deixando-me apavorada outra vez.
Tento me soltar, mas as algemas só apertam mais meus pulsos. Apesar da
dor, não desisto, e com o passar do tempo, o objeto fica tão apertado a ponto
de eu não aguentar mais. A sensação de estar com a pele cortada me faz parar e
encostar na parede atrás de meu corpo e para não chamar atenção, mantenho-
me quieta, implorando mentalmente para me tirem logo desse lugar.
Depois de muito tempo em silêncio, escuto uma movimentação vinda do
lado de fora. Os homens que antes brincavam, agora parecem se apressar, e em
pouquíssimos segundos, o silêncio volta a tomar conta do lugar.
— Cadê a garota? — A mesma voz da noite passada soa em outro
cômodo.
— Dentro do quarto, senhor. — Alguém pronuncia com a voz tomada
por total respeito.
— Ela está acordada? — O homem pergunta impaciente.
— Não sabemos, senhor.
— Abram. Irei entrar. — Ele ordena.
A porta do quarto se abre e os sons de suas botas ecoam pelo ambiente,
causando-me tremores no mesmo instante. Sinto meu coração bater forte em
meu peito, o desespero de não poder ver ou saber o que está acontecendo toma
conta do meu corpo e sinto o medo me paralisar. Ele está perto, o homem que
havia matado minha melhor amiga estava a poucos centímetros de mim, e eu
não consigo ter nenhuma reação.
— Vejamos… — Ele diz, puxando o pano preto de meus olhos. — Pele
clara, longos cabelos castanhos, olhos verdes claros, nariz bonitinho, lábios
carnudos… — Ele passa o polegar pelos meus lábios. — Vamos ver esse corpo.
— Suas mãos vão para a gola do vestido branco largo que me cobre, o que é
estranho, pois eu não usava essa roupa na noite passada, e saber que haviam
trocado minha roupa me deixa ainda mais assustada.
— Não encosta em mim. — Digo empurrando suas mãos, mas isso não o
abala, na verdade, sua expressão fica mais divertida. Ele agarra em meus cabelos
e me coloca de pé.
— Acontece que as coisas aqui funcionam como eu mando. — Ele
sussurra em meu ouvido e me joga contra a parede. Olho para sua mão que
segurava um canivete e paro de me mexer no mesmo instante. — E eu quero
ver o corpo da minha garota. — Seus lábios curvam-se em um sorriso
malicioso ao me ver tremer diante a sua presença.
A lâmina afiada desliza de minha bochecha até meu pescoço onde ele
deixa um pequeno corte antes de descê-la para os meus seios e rasgar o tecido
frágil do vestido. Seus olhos castanhos me analisam e seu lábio inferior está
entre os dentes. Esse homem parece gostar de ver a lâmina de seu canivete
passear por meu corpo. Sou virada bruscamente de frente para a parede e
recebo um tapa na bunda. Sabendo que não poderei fazer nada sem acabar
machucada depois, começo a chorar. Um choro baixo, mas que transmite meu
medo e minha dor, um choro cheio de agonia e sofrimento.
— Fiz bem em escolher você. — Ele diz, parecendo satisfeito, mas
continua a deslizar o objeto afiado por minha bunda.
— Por que fez aquilo com a Alison? — Pergunto entre os intensos soluços.
— Uma rosa por uma vida. — Ele responde.
— O quê?
— Mês passado, deixei uma rosa branca para você no bar e ela pegou.
Uma rosa por uma vida. Não há nada que justifique melhor o que fiz do que
isso. — Ele fala como se fosse óbvio. — Mas como precisava dela, eu a deixei
viva até a noite passada.
— Por que precisava dela? — Pergunto. Ele me vira de frente para ele e
me analisa de cima a baixo novamente.
— Para que você viesse até mim. A forma que dançava me chamou a
atenção.

17
— E como pode ter certeza de que eu iria atrás dela? — Pergunto outra
vez e sinto a ponta da faca ser enterrada em meu braço, fazendo-me gritar de
dor.
— Acha que trabalho sozinho? Tinha alguém lá para garantir que fosse
atrás de sua amiga. — Ele fala, olhando no fundo dos meus olhos.
— Alexander… — Sussurro. Está sendo difícil de acreditar que ele foi
capaz de trair Alison desta forma.
— Quem suspeitaria do barman? — Ele pergunta e ao não receber uma
resposta, abre um sorriso maligno. — Exatamente. Ninguém.
— Ela não merecia ter passado por isso. — É tudo o que consigo falar.
— Posso te garantir que o que ela passou não se compara com o que você
passará. — Ele ri e gira a faca em minha ferida. — Vou te mostrar o inferno.
Portanto, se acredita em Deus, comece a rezar logo. — Ele tira o objeto de meu
braço e caminha até a porta, mas antes de sair, vira-me me olhar e abre um
sorriso perverso.
— Irão vir atrás de mim! — Grito entre o choro.
— Pelo que fiquei sabendo, a jovem universitária de 18 anos, Skye O'Brien,
foi encontrada queimada esta manhã. E até agora, ninguém tem informações
sobre o caso. — Ele ri e sai do cômodo, batendo a porta com força. Monstro é
exatamente isso o que ele é. Um monstro.
Limpo o rosto com esforço, ainda algemada, e vou até o colchão velho.
Esse quarto deve ser de tortura. Não há além de uma cadeira de ferro no meio
do cômodo, o colchão onde estou deitada, uma mesa e um armário também de
ferro. As paredes não são pintadas, o cimento está manchado com sangue,
como o chão, e a pequena janela era coberta por grades.
Meu nariz está entupido, meus olhos já doem de tanto chorar, o sangue do
corte em meu braço está seco. Estou aqui há horas e nem um copo de água eles
me deram; sinto fome, sede e meu estômago faz barulhos altos. Meu cheiro não
é agradável e meu corpo encontra-se coberto por suor.
Algumas horas mais tarde, a porta range e o barulho de saltos interrompe
o silêncio do assombroso lugar.
— Levanta. — Uma mulher ordena antes de me chutar e me livrar das
algemas que me prendem.
— Para quê? — Pergunto baixo.
— Fique quieta e levante-se!— Ela aumenta seu tom de voz e me chuta
novamente. Faço o que me é ordenado e quando já estou em pé, ela segura em
meu braço e me guia para fora do cômodo.
— Aonde vamos? — Pergunto.

18
— O senhor Winter me mandou levá-la a seu novo quarto e cuidar de
você. — A mulher responde sem emoção em sua voz.
— Não preciso de cuidados . — Digo, ignorando totalmente meus
machucados. Eu apenas não queria que tocassem em mim.
— Como se tivesse opção. — Ela revira os olhos. — Acha mesmo que eu
queria ter que dar uma de faz tudo e cuidar da nova puta dele? Não mesmo. —
Sua voz é carregada por desprezo, nem um pouco abalada com minha situação.
— Não sou puta, sou uma universitária.
— Não é mais. No momento em ele coloca os olhos em você e a traz para
cá, toda sua vida antiga deixa de existir e você vira apenas um brinquedo. — Ela
diz. Sinto meu corpo perder as forças e minhas pernas fraquejarem. Tento me
agarrar em qualquer ponta de esperança, mas não encontro nada.
— Mas quando ele desistir… — Sou interrompida, ela ria alto, fazia
questão de mostrar que se divertia com casa coisa que saia de minha boca.
— Ele não desiste, apenas cansa e parte para outra.
— E o que acontece com a garota que ele usou? — Pergunto com a voz
trêmula. Ela me puxa pelo corredor e paramos diante de uma das janelas.
— Isso. — Ela diz, apontando para um pequeno cemitério atrás do
enorme jardim morto em seu quintal.

19
Capítulo Três

eus olhos se arregalam e minhas mãos vão até a boca. Ele tem um
cemitério no quintal da própria casa! E apesar de ser um quintal com toda
M a vegetação seca, é cercado por muitas roseiras, até mesmo dentro do
cemitério, o mar de rosas brancas torna tudo ainda mais bizarro,
principalmente por saber o motivo de ele as ter.
— Ele passa a maior parte do tempo lá. — Ela diz e aponta para o
homem distribuindo uma rosa branca para cada túmulo, e é uma quantidade
absurda de lápides.
— A-aquelas são as mulheres que ele prendeu aqui assim como eu? —
Pergunto horrorizada. Aquele homem é doente e o fato de eu ser sua nova
prisioneira apenas me deixa ainda mais apavorada do que antes.
— Até que é uma puta inteligente. — Ela diz de forma irônica e me puxa
de volta para voltarmos a andar.
— Já disse que não sou puta.
— Querendo ou não, agora é uma. — Ela abre uma das portas e me puxa
para dentro de um quarto.
— O que quer dizer com isso? — Pergunto. Sei que estava perguntando
demais, mas preciso de respostas. Preciso saber o que vou enfrentar.
— Acha que está aqui para quê? Para faxinar ou cozinhar? — Ela pergunta
e logo ri de minha cara mais uma vez. — Não sabia que ele iria te… — Ela
mesma se interrompe ao ver algo atrás de mim.
— Iria, o quê? — A voz grossa dele soa curiosa no momento em que
entra no quarto. Ele olha para a mulher, em seguida para mim, que me encolho
no mesmo instante.
— N-nada, senhor. — Ela gagueja.
— Vá pegar as coisas que Alexander trouxe para ela usar. — Ele manda e
ela assente antes de sair do cômodo. — Gostou do quarto? — Ele pergunta
para mim, com frieza estampada em seu tom de voz. Afirmo e olho para o chão.
— Quero escutar sua voz.
— Sim, é um belo quarto. — Respondo, mesmo não tendo reparado no
ambiente.
— Melhor. — Ele sorri e tenta se aproximar, mas recuo dois passos. —
Tentar fugir não é a coisa mais inteligente a se fazer, já que você está na minha
casa.
— Por que eu? — Pergunto, e começo a chorar ao vê-lo dar cada passo
em minha direção.
— Porque chamou minha atenção. Já te respondi isso antes.
— Não sou o tipo de garota que te agrada. — Sussurro, sentindo suas
mãos em minha cintura.
— É aí que se engana, você é exatamente meu estilo de garota. — Ele leva
os lábios ao meu pescoço e me beija.
— Por favor, me solta, não sou experiente com essas coisas. Não sou o
bastante para te dar o que quer. — Choro ainda mais.
— Sei que não entende dessas coisas. Gosto de saber com quem estou
lidando. E você… Tem a inocência, o ponto exato para o que eu quero. — Sua
voz é sussurrada em meu ouvido. — Vou te ensinar a ser uma boa garota.
— Para me matar e me ter apenas como mais uma em seu cemitério? —
Digo com o tom de voz mais autoritário. Sinto-o agarrar em meus cabelos e me
jogar no chão em um único movimento.
— Fale direito comigo. — Ele manda e se agacha em minha frente. —
Nunca mais se dirija a mim dessa forma ou descobrirá como as coisas
funcionam por aqui quando não me respeitam. E a partir de hoje, para as coisas
ficarem mais interessantes, deverá me chamar de Daddy, entendeu?
— Sim. — Afirmo, encarando aqueles olhos que transmitiam uma parte
do inferno.
— Sim? — Ele levanta as sobrancelhas, esperando que eu diga o que ele
quer de ouvir. E por mais nojento e ridículo que seja, eu o obedeço.
— Sim, Daddy. — Digo com a voz carregada de desprezo.
Quando ele vai dizer algo, a porta se abre e o som dos saltos retorna, mas
para no momento em que nos vê. O homem que deve ter uns vinte e cinco
anos se levanta e arruma sua postura.
— Paige… — Ele chama a mulher e se vira para ela.
— Senhor?

21
— Quero a garota completamente depilada para mim essa noite. — Ele
diz, caminhando até a porta. — E explique para ela o significado de Daddy Kink.
— Sim, senhor. — Ela afirma outra vez e coloca as diversas sacolas sobre
a cama.
— Arrume-a bem, ela jantará comigo essa noite. — Ele diz antes de dar as
costas e sair batendo a porta. Ela afirma novamente e então se vira para mim.
— O que você ainda faz aí no chão? Anda, levanta! — Paige grita. — Tire
essa roupa, vá para o banheiro e comece a se lavar. Já irei lá.
— Pra quê? — Pergunto num sussurro.
— Já mandei parar de fazer perguntas, eu não gosto e o senhor Winter
muito menos, então se quiser prolongar seu tempo de vida, evite fazê-las.
Apenas comece a se lavar e me espere lá.
— Não gosto da ideia de alguém me ver nua além de mim.
— Não tem que gostar. Irei te depilar, então, querendo ou não, terei que
vê-la nua. — A mulher, que deveria ter a mesma idade que ele, retruca: — Anda
logo que já levarei o shampoo e o resto das coisas.
Vou para o pequeno, porém luxuoso banheiro, nele há apenas uma
banheira, vaso, pia e o espelho. Ligo a água e deixo-a encher enquanto me olho
no espelho. Nunca estive tão acabada em minha vida.
Meus cabelos estão embaraçados, meus olhos inchados e com a
maquiagem preta escorrendo pelo meu rosto, e meu corpo encontrava-se sujo.
Mas sabia que não era a aparência que me fazia sentir daquela forma, e sim o
vazio, a dor e a saudades que Alison havia me deixado. A culpa por não ter
conseguido ajudá-la, mas principalmente por ter dito a ela que a odiava.

— O’Brien! — Ali grita, puxando-me para fora da cama.


— O que foi? — Resmungo.
— O’Brien, levanta agora! — Ela grita, impaciente e me puxa novamente.
— Está bem! Estou indo! — Por fim, desisto de dormir e me coloco a sua frente. — Espero
que o motivo seja muito bom para me acordar durante a madrugada. — Ela ri, segura
minha mão e me puxa até a sala, onde uma simples árvore de natal com poucos enfeites se
encontrava no meio do cômodo.
— Feliz Natal atrasado! — Ela grita, dando pulinhos.

22
— Achei que não gostasse de natais. — Digo, surpresa.
— Não gosto. Mas como é uma de suas épocas favoritas do ano, não queria te desapontar e
te deixar sem nada por minha causa.
— Obrigada. — Agradeço.
— Espera, tenho uma coisa para você. — Ela diz, ainda mais animada. — Feche os olhos
e estende os braços.
— Jesus, Alison, o que está aprontando? — Pergunto, rindo. Sinto algo peludo, porém,
pequeno e redondo sendo colocando em minhas mãos.
— Abra os olhos! — Ela manda, e quando abro os olhos, vejo um pequeno cachorrinho.
— Sério?! — Grito e abraço o pequeno animal.
— Adotei enquanto voltava para casa. Achei que gostaria dela, pois era a única que tinha
uma mancha em forma de lua.
— Eu amei. Obrigada, de verdade.
— Já escolheu o nome? — Ela pergunta, feliz por ter conseguido me surpreender.
— Já.
— Qual vai ser? — Sua voz é ansiosa.
— Alison.
— Meu nome? — Ela levanta as sobrancelhas.
— Sim.
— Por quê? Poderia ser Poopy.
— Poopy?
— Vai tomar no seu cu, Skye! A bichinha mal chegou em casa e você já começou a
traumatizá-la com esse nome de merda. — Ela pega a cachorrinha do meu colo e vai para o
quarto me deixando rindo sozinha. — A propósito, ela se chamará Atlantis!

Agito a cabeça de um lado para o outro na tentativa de afastar as lembranças e


limpo meu rosto antes de entrar na banheira.
— O Sr. Winter quer você bem perfumada, por isso irei colocar isso na
água e quando sair, passe esse óleo corporal, é o favorito dele. — Paige diz,
entregando-me as coisas para o banho. — Agora, vamos resolver isso aí. — Ela
aponta para a ferida em meu braço.
— Não precisa. — Sussurro e me encolho mais.

23
— Você é teimosa! — Ela me repreende. — Presta atenção, por mais que
seja pequeno, é profundo e precisa levar pontos.
— Tem anestesia?
— Isso aqui tem cara de hospital? Lógico que não tem.
— Algo forte para beber?
— O senhor Winter me mataria se soubesse que dei bebida alcoólica a
você. Faz o seguinte… — Ela olha em volta e puxa a pequena toalha de rosto.
— Morde isto e enquanto eu faço o curativo, explicarei o significado de daddy
kink. — Paige prepara as coisas e depois de alguns minutos começa a dar os
pontos. Aquilo doía demais, e tentando reprimir a dor, mordo o pano em minha
boca com força. — É o seguinte, irei resumir, Daddy Kink é um fetiche sexual
entre o Daddy, o senhor Winter, e sua Baby Girl, que é a submissa nessa relação,
no caso, você. Uma Baby Girl deve obediência ao seu daddy e caso desobedeça,
receberá uma punição. Como você não tem escolha além de aceitar ser uma baby,
fique ciente que terá que aceitar tudo o que ele quiser fazer. Não preciso
explicar muito sobre a palavra de segurança, já que será ele a escolher sua
punição, sem se importar se você morrerá no meio dela. No entanto, se você o
obedecer e fizer tudo correto, ele irá te recompensar com algo. O fetiche Daddy
Kink faz parte do BDSM, que é Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão,
Sadismo e Masoquismo. Um grupo de padrões do comportamento sexual
humano, porém com uma essência fofa, doce e carinhosa. Essa última parte de
ser bonzinho você pode descartar, ele não é disso. Conseguiu entender?
— Sim.
— Ótimo. Já terminei de dar os pontos. — Ela avisa ao terminar. —
Agora, termine logo esse banho e me espere no quarto.
— Aonde você vai? — Pergunto, levantando meus olhos para encará-la.
— Esquentar a cera. — Ela responde revirado os olhos. — Lave-se bem.

Três batidas ecoam na porta, fazendo a mulher que havia me depilado e feito
minhas sobrancelhas levantar e abrir o suficiente para mostrar metade de seu
rosto.
— A garota está quase pronta. — Ela diz antes da pessoa ter a chance de
falar.
— Houve mudanças, estamos em alerta, por isso o senhor Winter nos
quer vigiando a casa. Sobre a garota, ele a espera em seu quarto.
— Está bem, logo estarei em meu posto. — Ela afirma de forma séria e se
vira para mim. — Tire o vestido e os sapatos.

24
— Por quê? — Pergunto curiosa.
— O jantar foi cancelado.
— Posso saber o motivo?
— Não é de sua conta. — Ela responde e me joga um roupão de cetim
rosa bebê que combinava perfeitamente com a lingerie preta rendada em meu
corpo. — Tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar aqui cuidando
de você, então tire logo a merda do vestido e se cubra com essa porra de
roupão.
— Por que estão em alerta? — Pergunto enquanto o vestido desce por
minhas pernas.
— Já disse que não é da sua conta, isso é assunto entre o senhor Winter e
para quem trabalha pra ele. Já sua função é satisfazer todos os desejos dele.
Meu corpo estremece e cinto o nó na garganta se formar. Faço um
pequeno laço com a fita do roupão e calço os chinelos que ela havia jogado no
chão.
— Vamos. — Ela abre a porta e me puxa.
Minhas pernas estão bambas, o nó em minha garganta aumenta cada vez
mais, a cada corredor que viramos. Não queria chegar a porta de seu quarto,
não queria encontrá-lo e muito menos ficar a sós com ele. Tenho medo do que
ele pode fazer. Viramos mais um corredor dando de cara com a porta enorme
de madeira com um grande Z entalhado nela.
— Agora é com você. — Ela diz, empurrando-me para mais perto da
madeira que parecia pesada. Quando me viro para olhá-la, ela não está mais
aqui. Por alguns minutos, penso em sair correndo e sumir desse lugar, mas o
medo de ele conseguir me pegar e me matar é o suficiente para que eu me
aproxime da porta.
— Que se foda, Logan! Não quero saber de porra nenhuma, mande seus
capangas de merda voltarem ou mato cada um deles e vou atrás de você! — Ele
grita, e em seguida, quebra algo.
Engulo em seco e com o resto de coragem dou três toques na porta.
— Entre. — Sua voz sai mais séria do que estava mais cedo.
Giro a maçaneta e abro um pouco a porta, tendo a visão do homem de
costas, olhando janela afora. Seus dois braços são cobertos por tatuagens, um,
por é repleto de tatuagens aleatórias, e o outro parece ser cercado por espinhos.
Ele veste apenas uma calça preta e segurava um cigarro entre os dedos,
enquanto seus cabelos pretos são bagunçados pelo vento.
— Daddy? — Chamo por ele, que no mesmo instante se vira para mim.
— Baby Girl.

25
Capítulo Quatro

Mandou me ver? — Pergunto ao entrar no quarto. Seus olhos


me analisam de cima a baixo e pelo pequeno sorriso malicio
-M que se abre em seu rosto, deduzo que ele aprecia o que vê.
— Se está aqui e não trancada naquele quarto, é por
mandei que viesse até mim. — Ele diz, levando a mão para dentro da calça,
apertando o conteúdo que ela guarda. O cigarro em seus dedos volta para a
boca em uma longa tragada da nicotina antes de soltá-la no ambiente.
— O que você quer? — Minha voz sai trêmula assim como nas poucas
vezes que falei com ele hoje.
Ele começa a se aproximar com o cigarro entre os dentes. Prendo o ar e
recuo, saindo do cômodo.
— Volte. — Sua voz sai firme. — Agora!
Caminho lentamente de volta ao cômodo, ficando a três passos do homem.
Não posso negar, ele tem uma beleza surreal, olhos cor de mel bastante
chamativos, lábios que davam a qualquer um a sensação de querer beijá-los e
um belo corpo coberto por imagens, e agora de frente para mim, vejo que os
espinhos, que cobrem seu braço, são de uma enorme rosa negra. Seus cabelos e
barba dão o toque final para o que podemos chamar de “perfeição demoníaca”. E
eu, diferente das outras, não quero consumir o que ele tinha a me oferecer.
A porta é fechada com força atrás de mim, causando um barulho
estrondoso que me faz pular. Ele traga o que restava de seu cigarro e sopra a
fumaça em meu rosto, fazendo-me tossir descontroladamente.
— Sabe? Toda vez que tenta fugir, só me dá mais vontade de correr atrás
de você e te foder até me sentir satisfeito… — Engulo em seco e mordo os
lábios para não chorar mais do que já havia apenas hoje. — O problema é… —
Ele faz uma pausa, se aproxima, coloca meus cabelos para o lado e beija meu
pescoço. — Que nunca estou satisfeito.
A primeira lágrima desce por meu rosto e trato rapidamente de limpá-la. E
logo seus lábios voltam a fazer contato com minha pele.
— Por favor… — Peço, mas sou ignorada novamente. — Deixe-me ir
embora, prometo não contar a ninguém sobre você e seus capangas.
— Pare de tentar arrumar um meio de me convencer em deixá-la partir. —
Ele sussurra em meu ouvido e passa a mão por dentro do roupão. — Entenda
uma coisa: eu a quero aqui, quero te foder e escutar seus gemidos de prazer
enquanto eu te fodo.
— Pode pegar mulheres melhores do que eu, elas podem te dar o que quer,
não eu. — Insisto.
Sua mão entra em minha calcinha, acariciando minha parte baixa.
— Se disser mais alguma coisa relacionada a te deixar ir, será castigada.
— Não pode fazer pior do que já fez. — Digo, desafiando-o, e sou jogada
sobre a cama.
— Nunca te disseram pra não duvidar do que as pessoas são capazes? Vá
para o meio da cama agora! — Ele grita, mas não o obedeço. — Mandei ir para
o meio dessa porra de cama! — Ele grita novamente subindo no colchão. Sou
arrastada pra cima pelos cabelos e a dor me faz gritar. — Regra número um:
jamais teste minha paciência, eu não tenho. — Ele senta sobre minha barriga e
me imobiliza. — Regra número dois: você deve me obedecer, a menos que
queira passar por longos castigos que nenhum ser humano em sã consciência
pensa em fazer.
— Você é um monstro! — Grito e cuspo em seu rosto. Sua mão se fecha
em punho e acerta dois socos em meu rosto.
— Tem razão. Era para nossa noite ser bem diferente do que será. — Ele
diz, rindo, e acerta mais um golpe que pega perto do olho esquerdo.
Ele sai de cima de mim ainda rindo e vai até a cômoda, abre uma de suas
gavetas e dali tira uma algema.
— Espero que goste de brincar, Baby Girl, pois nossa noite será muito
divertida. — O nó em meu roupão é desfeito, deixando meu corpo exposto a
ele. Minhas mãos são presas na cabeceira e o mesmo acontece com as minhas
pernas. — Não queria iniciar nosso relacionamento desta forma, mas vejo que
tenho que te ensinar a ser uma boa garota.
Volto a morder os lábios para não chorar mais do que já estava, tento me
soltar, mas assim como da primeira vez as algemas apertam mais meus pulsos e
tornozelos. Olho para o homem novamente, no mesmo instante meus olhos se

27
abrem e o desespero toma conta de mim, levando meu corpo a se debater sobre
a cama.
— Porque está assim? Relaxa. — Ele ri enquanto acende um cigarro e em
seguida passa o chicote por minha barriga. — Lamento tanto ter que deixar
marcas nesse corpo tão belo.
— Por favor, não faça isso! — Imploro.
— Olha, ela ganhou educação. Mas ainda assim terei que te castigar, cuspir
no rosto das pessoas é um ato muito feio. — O chicote bate contra minha pele
com força, fazendo-me gritar de dor.
Seus olhos brilhavam e o sorriso em seu rosto aumenta a cada som de dor
que eu emitia. Já não sentia mais a mesma dor, meu corpo e minha mente
haviam se anestesiado com a quantidade de chicotadas recebidas. Meus olhos
não abriam mais, estava fraca. Iriam fazer vinte e quatro horas que não bebia e
nem comia nada.
— Depois disso poderíamos jantar. Bom, para ser mais exato: eu, depois
disso, poderia ir jantar. Você estragou a nossa noite, então como punição, não
comerá. — Ele larga o objeto de couro no chão e pega uma faca em cima da
cômoda.
— Para, por favor! — Uso o resto de minha força para falar. — Por favor.
— Por que deveria? — Ele pergunta, afastando o objeto de perto de mim.
— Desculpe-me por ter cuspido em seu rosto, nunca mais farei isso.
— Eu sei que não. — Ele faz bico e enfia a faca em minha perna. — Se
quer que eu pare, me dê um motivo bom. — Ele retira a faca e repete o mesmo
ato, cravando-a em minha perna outra vez.
— Eu faço qualquer coisa! Qual quer coisa, mas pare pelo amor de Deus.
— Agora, sim, estamos nos entendendo. — O objeto é retirado de minha
coxa e em seguida jogado para longe. Ele me solta e senta-se ao meu lado.
— Já chupou alguém alguma vez na vida, Baby Girl?
— Não. — Respondo, tirando o roupão.
— Está na hora de aprender. — Ele pega o tecido da minha mão, rasga e
o enrola sobre os machucados.
— O quê? — Pergunto, torcendo para ter escutado errado.
— Irá aprender a fazer um bom boquete. — Ele responde abrindo um
sorriso malicioso que toma conta de seu rosto.

28
Capítulo Cinco

á teve pelo menos um namorado? — Sua voz sai mais calma, mas sem
perder o tom rude e frio que carrega.
-J — Três.
— O quê? — Ele pergunta surpreso. — Teve três namorados que
não te comeram? Como conseguiram?
— Eles apenas sabiam que não era para ser de qualquer forma. —
Respondo baixo e volto a ficar quieta. Ele poderia muito bem, e sem nenhum
arrependimento, voltar a me bater, e já estou muito machucada fisicamente e
destruída mentalmente para aguentar isso.
Não consigo ver outra forma de evitar suas agressões, só tenho uma opção
e por mais que não me agrade, minha vida depende dela. Eu entraria em seu
jogo e faria tudo o que ele mandasse; a partir daqui, eu assumiria meu papel,
seria sua submissa até que me encontrassem ou eu que conseguisse fugir.
— Quanto tempo durou seus relacionamentos?
— Não muito, eles terminaram comigo no fim do primeiro mês. —
Respondo e ele começa a rir descontroladamente.
— Tudo bem, chega. — Ele diz ainda rindo. — Por sua vida ser uma
bosta, não quero mais que me chupe.
Sério que ele desistiu daquilo por causa do que contei?
— Três namorados que nunca te foderam. — Ele balança a cabeça, rindo.
— Baby Girl, deite e coloque as mãos para cima.
— O-o que vai fazer? — Pergunto, gaguejando.
— Apenas pare de me fazer perguntas e deite, porra!
Ajeito o travesseiro e me arrasto para baixo, deitando aos poucos na cama.
Ele vai até a ponta do móvel, agarra meus pés e me puxa de uma vez para a
ponta e coloca-se em cima de mim.
— Diga-me o que pretende fazer. — Sussurro, encarando seus olhos cor
de mel. Seus lábios se curvam em um sorriso com a língua entre os dentes, sua
respiração fica mais pesada e sua mão desce até minha cintura, segurando-a
com firmeza.
— O que eu quiser, Baby Girl. — Ele responde e deposita um beijo em
meu pescoço, e em seguida, deixa alguns chupões. Sua mão desce da minha
cintura para minha coxa e a aperta.
— Porra. — Ele sussurra em meu ouvido e faz uma trilha de beijos até
minha boca. Seus lábios tocam os meus com beijos intensos. Nossas línguas se
encontram com perfeição e a cada contato entre elas, algo cresce dentro de
mim, o calor aumenta e meu corpo se arrepia. Levo minhas mãos para seus
cabelos e os puxo, fazendo o homem sorrir entre o beijo. — Abre as pernas. —
Ele manda e o obedeço, fazendo-o encaixar-se entre elas.
Nossos lábios voltam a se tocar, sinto-o se empurrar para mim. Ele repete
algumas vezes o mesmo movimento, fazendo-me sentir sua parte baixa coberta
por seu jeans roçar na minha, que estava coberta apenas pelo tecido fino da
renda.
— Preciso te foder. — Ele sussurra com a respiração desregulada. — E
preciso agora.
Essas palavras deveriam me fazer recuar, ficar desesperada por estar
deitada com o cara que me sequestrou e matou minha melhor amiga, e
psicologicamente, me deixam em pânico. Mas meu corpo não reagiu assim,
apenas me fez desejá-lo mais. Nunca, em momento algum havia sentindo-me
desta forma e mesmo que seja uma sensação boa, é algo que me tortura.
— Então faça o que deseja. — Digo, também com a respiração
descontrolada, fazendo-o sorrir. Por dentro eu queria fugir dali e não deixá-lo se
aproximar de mim novamente. Mas eu sabia que tinha que aceitar tudo o que
ele quisesse fazer para continuar viva.
— O que está sentindo neste momento? — Ele pergunta, encarando-me.
— Desejo.
— E qual é a sensação?
— Boa, de certo modo.
— Imagine essa sensação triplicada e sendo saciada. É exatamente isso o
que vai sentir. — Ele deixa um pequeno beijo em meus lábios e se joga para o

30
lado onde se arruma e coloca as mãos atrás da cabeça. — Mas antes, levante-se
e dance para mim.
Faço o que ele me manda e no mesmo instante ele pega um controle sobre
a mesa de cabeceira e liga o som, que começa a tocar Arabella. Levanto as
sobrancelhas com a música escolhida. O homem na cama passa a língua entre
os lábios e leva a mão para dentro de sua calça.
Deixo o ritmo da música tomar conta de meu corpo e começo a me
movimentar da forma mais sensual que me é permitida, já que minhas coxas
estavam feridas. E logo sinto suas mãos em minha cintura e sou empurrada
para trás, sentindo seu membro duro, rebolo sobre ele e escuto-o arfar. Suas
mãos vão para minha cintura e me pressionam mais contra seu corpo. Volto a
me movimentar e ele faz o mesmo, acompanhando o ritmo.
Ele sussurra a música em meu ouvido e morde lóbulo de minha orelha, e
em seguida desce seus beijos para meu pescoço onde lambe minha pele,
deixando fortes chupões que me fazem gemer. Suas mãos acariciam meu corpo
antes de voltar a agarrar minha cintura e apertá-las. Sou jogada com brutalidade
sobre o colchão e logo ele assume seu posto em cima de mim, onde prende
minhas mãos a cima da cabeça.
— Nem comecei minha dança. — Digo com um suspiro.
— Foda-se. Estou duro demais para esperar você terminar. — Seus beijos
descem do meu maxilar até minha virilha. Ele rasga minha calcinha e abre bem
minhas pernas, fazendo-me corar por estar exposta pela primeira vez na frente
de um homem.
— Lisinha. Exatamente como eu queria . — Ele molha um dedo com
saliva e logo sinto-o me penetrando. Mordo os lábios e gemo ao sentir sua
língua juntar-se. Ele simplesmente me ignora e enfia mais um dedo, fazendo-me
sentir um ardor e uma dor desconfortável. Sua língua brinca com meu clitóris,
trazendo-me prazer, ele a movimentava para cima e para baixo, chegando a
pressioná-la algumas vezes. Para terminar, ele deixa um leve chupão, em seguida,
interrompe todos os movimentos e me encara.
— Terceira regra: não permito que encoste em mim durante o sexo.
Quarta regra: não tente deixar qualquer tipo de marca em meu corpo ou será
castigada. Quinta regra: não poderá questionar absolutamente nada. Entendeu?
— Sim…
— Sim? — Ele levanta as sobrancelhas, esperando que eu diga o que quer
ouvir.
— Sim, Daddy.

31
— Ótimo. — Ele diz, agarrando na algema que havia tirado de meus
pulsos há minutos atrás e volta a me prender.
Observo-o arrancar as calças e quando sua cueca desce um pouco, não
consigo continuar a olhar e desvio o olhar.
— Olhe. — Sua voz soa em um tom firme.
— Acho melhor não, Daddy.
— Não quero saber o que acha. Agora, olhe para mim.
Mordo os lábios e olho para ele, que já estava sem sua cueca. Olho para
seu membro e estremeço ao ver o tamanho, engulo em seco e tento desviar os
olhos, mas tal ato não me é permitido.
— Alguma pergunta? — Ele pergunta ao abrir minhas pernas.
— Te… Tem certeza que isso vai caber dentro de mim? — Um sorriso
convencido se abre em seu rosto e ele se posiciona entre minhas pernas.
— Qualquer coisa, darei um jeito de caber.
Sinto sua glande me tocar e no mesmo instante, aperto os olhos. Eu não
queria que minha primeira vez fosse desse jeito, no entanto eu não tenho outra
alternativa, minha virgindade não é mais importante do que minha vida.
Quando ele está quase penetrando, três batidas na porta ecoam pelo quarto.
— O que foi? — Ele grita, nervoso. — Espero que seja algo muito
importante.
— Desculpe, senhor, é que Logan Hall está no salão ameaçando matar a
todos se o senhor não aparecer.

32
Capítulo Seis

erda. — Ele xinga e sai de cima de mim, veste sua roupa e vai
até a porta. — Cubra-se com o roupão e volte para seu quarto
-M sem fazer barulho.
Ele passa pela porta e a bate com força. Esse tal de Logan
poderia ser minha salvação! Cubro-me com o tecido rasgado e tento sair
correndo até o andar de baixo, mas minhas feridas não permitem. Vou até a
escada, sento-me no cantinho e analiso o homem que há pouco estava sobre
mim descer as escadas.
Aquele homem matou Alison e agora me mantém presa nessa porcaria de
casa para apenas tirar a minha virgindade, me usar e quando cansar, fazer de
mim apenas mais uma no meio daquele cemitério. Eu não quero isso, só quero
voltar para casa e seguir com a minha vida da forma mais normal que me for
permitida.
Volto a espiar o homem que termina de descer as escadas apenas de calça
e com a blusa preta jogada sobre o ombro. Ele anda calmamente até o meio do
salão e para em frente a outro homem, que diferente dos outros, não faz uma
pequena reverência, e sim, ajeita sua postura. Esse deve ser Logan.
— Que bom que não me contrariou, Zared, já tinha até escolhido a sua
querida Paige como minha primeira vítima.
Então é esse seu nome? Zared? É diferente e combina perfeitamente. Ele
não responde, apenas tira uma arma da parte de trás da calça e aponta para o
meio da testa do homem, que não parece temer o objeto apontado para sua
cabeça.
— Dê-me um bom motivo para não meter uma bala no meio da sua
cabeça.
— Pode atirar, mas sua puta preciosa morre antes de apertar esse gatilho.
— Ela é tão insignificante quanto você.
A mulher fica surpresa e quando me vê parada na escada, apenas abre um
sorriso e olha para Logan.
— Não faço diferença, mas a garotinha dele faz. — Ela diz, apontando
para mim e no mesmo instante Zared se vira e seus olhos encontram os meus.
— Melhor arrumar outro refém. — É tudo o que ele diz antes de atirar
várias vezes na garota, que cai no chão já sem vida. Coloco as mãos na boca
para não gritar.
Resolvo não ficar mais ali, levanto com dificuldades e vou até o quarto que
ele havia dito ser o meu. Mas de quantas ele já foi? Quantas garotas já se
deitaram nessa cama, choraram, foram espancadas e até mesmo dormiram com
Zared em seu quarto? Não querer ser mais uma é pedir muito?
— O senhor Winter autorizou sua volta? — Um dos brutamontes que
vigia minha porta se pronuncia.
— Não acha que se ele não tivesse autorizado eu ainda estaria no quarto
dele? Ou precisa da autorização por escrito?
O homem me dá tapa no rosto e no mesmo instante, sinto o local ficar
quente, depois formigar e por fim a dor. Levo minha mão onde ele havia
acertado e acaricio aquela região. Eles abrem a porta e me vejo correndo para
dentro do cômodo já me debulhando em lágrimas. Sento-me na cama e abraço
minhas pernas. Isso não pode estar acontecendo, é apenas um pesadelo,
daqueles pesadelos bem reais. Mas por que estava demorando tanto a acordar?
Só quero abrir os olhos e encontrar Alison dormindo do meu lado, a
Atlantis latindo desesperadamente em meu ouvido. Limpo o rosto algumas
vezes e volto a chorar.
Por que estou chorando? Já estou cansada de tanto chorar.

Já não tenho noção das horas, sinto-me fraca até mesmo para levantar o braço.
Irá completar dois dias que não como nada, e vomitava só de ingerir a água da
pia do banheiro. Olha o ponto que cheguei, estou desesperada por comida e

34
bebendo água da torneira. A noite até que foi favorável, para alguém na minha
situação. Zared não apareceu para falar comigo, o que foi bom, já que ele
poderia me castigar por tê-lo desobedecido, mas certa decepção me atingiu ao
não vê-lo. Mesmo que ele fosse o causador de todo esse meu sofrimento, eu
odiava estar sozinha, por isso sua companhia não me seria ruim.
A luz do sol já ultrapassa a cortina, os pássaros dão sinal de vida com seus
lindos sons. Engraçado, nunca parei para admirar a natureza ou qualquer coisa
que não me fosse importante para assuntos particulares. Passo a língua pelos
lábios e me esforço ao máximo para sair da cama, vou praticamente me
arrastando até a janela e me seguro para não cair. A verdade que não sou uma
pessoa que aguenta ficar horas sem comer, tenho um organismo fraco, então
preciso fazer três refeições por dia ou fico muito mal.
Abro a janela e me apoio um pouco nas grades, respirando o ar fresco da
manhã. O dia é agradável, o que me faz querer descer e aproveitar ao máximo.
Olho para baixo e me deparo com o cemitério, consigo vê-lo trocando as rosas
murchas de ontem por novas. Ele caminhava túmulo por túmulo, deixava uma
flor em cada.
Zared veste a mesma roupa de ontem, mas com um sobretudo preto e
botas.
De longe, consigo observá-lo passar por um pequeno portão de ferro,
caminhar até os únicos quatro túmulos, que além de estarem afastados dos
outros, eram os únicos abandonados, e sentar-se no banco de concreto de
frente para eles. Passam-se alguns minutos e ele se levanta e sai daquela área
sem deixar nada sobre as lápides cobertas por folhas velhas, que caem da
enorme árvore acima deles.
Continuo a analisar cada movimento feito por ele, e quando está no meio
do cemitério, ele ergue o rosto e olha em minha direção. Não demonstro reação
nenhuma, e nem ele, que volta seu olhar para frente e sai de lá. Quanto a mim,
resolvo continuar a respirar ar puro ou desmaiarei. Fico parada aqui durante
meia hora, até escutar sua voz rude falando com os homens que me vigiavam.
A porta do quarto é aberta e seus passos pesados ecoam pelo ambiente vazio.
— Bom dia, Baby Girl. — Sua voz sai mais calma.
— Bom dia… Daddy. — Respondo ainda olhando a paisagem.
— Trouxe comida, não deveria ter deixado você sem comer por tanto
tempo. — Sua voz sai atenciosa? — Poderia se virar?
— Matou aquela mulher sem pensar duas vezes. — Digo, virando-me para
ele, que deixa uma bandeja cheia de comida sobre a cama e se senta na cadeira
da penteadeira.

35
— Ela contou sobre você. — Ele dá de ombros, não dando a mínima para
o que fez. — E você era um segredo apenas meu.
— Sou um segredo por que eles me salvariam de você? — Pergunto e ele
ri.
— Ninguém seria louco de te tirar de mim. — Ele suspira. — Paige sabia
que era proibido contar sobre você para qualquer um que aparecesse aqui sem
minha permissão, e ela contou. As regras eram claras.
— Por que ninguém pode saber sobre mim?
— Eu odeio perguntas, então pare de fazê-las. — Ele diz, começando a
ficar sem paciência.
— Por favor. Que mal eu poderia fazer se me respondesse?
Por mais cansado que esteja de responder minhas milhares de perguntas,
ele respira fundo e balança a cabeça, concordando com meu pedido.
— Esse negócio de sequestrar garotas é muito comum para pessoas como
eu, mas conseguir uma garota virgem é um prêmio. Você é meu prêmio, não
posso deixar que descubram sobre você.
— E por que as virgens são um prêmio?
— Sente-se para comer que responderei a todas as suas perguntas. — Ele
pede.
Espera? Ele estava me pedindo as coisas? Aproveitando seu bom humor,
decido não contrariá-lo. Caminho com dificuldade até a cama e não demora
muito para que ele comece a demonstrar preocupação.
— Estou bem. — Falo como se estivesse respondendo uma pergunta.
— Estou vendo. — Ele diz com sarcasmo e se levanta para me ajudar. Por
mais que eu não queira que ele me toque, não tiro sua mão de mim.
— Já disse que estou bem.
Ele recua, percebendo que não quero sua ajuda, e volta a se sentar na
cadeira. Subo na cama e puxo a bandeja para mais perto de mim, começando a
comer.
— Responda. — Digo após engolir o pedaço de bolo.
— É complicado achar uma mulher virgem atualmente.
— E depois de tirar a inocência dela e simplesmente cansar de tê-la, você a
assassina e a enterra no quintal da sua casa? — Digo, interrompendo-o.
— As virgens podem ter duas opções, mas depende do dominador.
Existem milhares de homens como eu, mas sou o único que tem um cemitério.
— Quais são as opções? — Pergunto me referindo as virgens.

36
— Se o dominador quiser, ele pode matá-la ou simplesmente tê-la como
sua. Já as que não são virgens recebem duas opções depois da primeira relação
sexual, o dono coloca uma arma no quarto e dá as opções.
— Quais são?
— Ou se matam ou as torturamos até a morte. — Ele responde como se
fosse a coisa mais normal a se fazer.
Sinto meu corpo estremecer e volto a comer sem dizer nada.
— O que, para sua sorte, não é seu caso. — Ele ri sem humor.
— Mas foi o caso da Alison. — Digo abaixando os olhos.
— Sim, mas ela foi planejada para que você viesse até mim.
— De tantas mulheres, por que logo eu?
— Porque você me atrai. — Ele responde sem pensar duas vezes, então
muda o foco da conversa. — Deixe-me ver sua perna. — Ele diz, tentando me
tocar, mas recuo diante de seu toque. — Não irei machucá-la. — Sua voz sai
tranquila.
Estico minha perna e ele se senta ao meu lado na cama e desfaz o nó dos
dois tecidos rasgados usados para estancar minhas feridas. Ele passa o dedão
sobre os machucados, então ergue os olhos até os meus.
— Vou cuidar de você.
— O que vai fazer? — Pergunto com a voz trêmula.
— Costurar.
— O que? Não! — Grito e saio da cama.
— Só estou querendo ajudá-la, Skye.
— Me deixe ir embora. — Imploro, segurando-me para não cair aos
prantos.
— Não posso.
— Por que não? — Pergunto sem conseguir entendê-lo.
— Porque você é minha, e se for embora, ficarei louco. E Logan já te viu,
o que torna você ainda mais atraente para ele. Acredite no que irei te falar, sou
bom quando a pessoa merece, mas com ele, isso não acontece.
— Agora virou o bonzinho? — Pergunto com sarcasmo. Zared se
aproxima, fazendo-me prender a respiração.
— Isso nunca. Como eu disse, sou bom quando a pessoa merece. — Ele
pega minha mão e me puxa para mais perto de seu corpo. — E eu causei isso
em você, está muito profundo, precisa ser fechado antes que inflame.
— Vai doer. — Digo, começando a chorar.

37
— Terei cuidado. — Ele fala e me leva até o banheiro, onde enche a
banheira e coloca o sabão. — Tire a roupa e entre. Colocarei uma música e já
volto para tratar desses machucados.
Afirmo e assim que ele sai, desfaço-me da roupa rasgada e entro na água,
sentindo meu corpo inteiro arder. Logo, uma música calma toca no volume
máximo e Zared aparece segurando a caixa de primeiros socorros. Ele cantarola
More Than Words.
— Gosta de músicas assim? — Ele pergunta, e balanço a cabeça.
— São boas. — Concordo e me silencio ao vê-lo começar a preparar as
coisas.
— Agora que tentei conversar com você e te fazer entender… — Ele
começa cantarolar. — Tudo o que você tem que fazer é fechar os olhos e
estender as mãos, para me tocar, me abraçar, não me deixar partir jamais. Mais
do que palavras é tudo o que você tem que mostrar, então você não precisaria
dizer que me ama, pois eu já saberia…
Ele para de cantar e coloca a mão dentro da água morna da banheira,
puxando minha perna para cima com cuidado e secando-a com sua blusa.
— Não tem alguma coisa que não me faça sentir dor? — Pergunto com a
voz trêmula.
— Não. — Ele morde os lábios e se aproxima dos meus, deixando um
pequeno beijo. — Agora morde isso e seja forte.
Coloco a toalha de rosto na boca e fecho bem os olhos ao sentir minha
pele ser perfurada. Mordo o tecido com toda a força que consigo e aperto a
beirada da banheira. Sentia as lágrimas descerem pelo meu rosto, e meu maxilar
doer. Ele volta a cantarolar, o que me relaxa mais, e outro sorriso toma conta de
seu rosto ao perceber, e por isso continua até terminar de fechar a primeira
ferida. Tiro o pano de minha boca e olho para ele.
— Responda-me outra coisa. — Digo. Mesmo sabendo sobre seu fetiche,
ainda estava curiosa sobre ele.
— Não, não te deixarei ir embora. — Ele responde sem me dar muita
atenção. Está concentrado demais em começar a fechar a outra ferida em minha
perna.
— Por que tenho que te chamar de Daddy? Eu sei que faz parte do seu
fetiche, mas por que o tempo todo?
— Porque sou responsável por você agora. E eu gosto que me chame de
daddy. — Ele fala, ainda não me dando muita atenção. Olho para baixo, em
seguida, volto a encará-lo. Não sabia se gostaria de fazer essa pergunta ou da

38
resposta que teria, mas era algo que me assombrava e precisava tirar essa dúvida
de dentro de mim.
— Eu vou morrer? — Pergunto, pegando-o de surpresa.
— Não sei. Talvez. — Ele responde. Mordo os lábios e me afasto dele.
Zared segura em meu pulso e me puxa de volta para o lugar onde eu estava. —
Depende apenas de você. Se conseguir me fazer gostar de você, não irei matá-la.
— E o que devo fazer para gostar de mim?
— Seja você mesma e descobrirá. Com o tempo, veremos onde isso nos
levará. — Ele dá de ombros, voltando a se concentrar no que fazia.
— Eu não quero morrer, mas também não quero continuar aqui, sendo
torturada.
— Obedeça-me e não precisará passar pelos castigos. — Ele fala e puxa
minha perna novamente. — Agora, vamos terminar isso aqui para podermos
descer para tomar um café da manhã decente.
— V-vou comer com você? — Gaguejo, surpresa.
— Sim, Baby Girl, todos os dias e todas as horas em que eu for comer.
— Obrigada. — Agradeço e coloco o pano de volta na boca e fico
olhando para ele, que se manteve concentrado no que fazia. Ao terminar, ele
mesmo tira a pequena toalha de minha boca e se levanta.
— Pronto. Termine o banho, se arrume e me espere vir buscá-la. — Ele
diz, juntando as coisas e sai do banheiro.
Tomo um banho rápido. Enrolo-me na toalha e vou até o quarto, sentindo
minha perna latejar por causa dos machucados. Seco meu corpo, visto o
conjunto de lingerie menos provocante. Tiro do cabide uma calça skinny e uma
blusa preta, visto e resolvo usar apenas os chinelos. Afinal, já é bem óbvio que
ele é obcecado por essa cor, já que o guarda-roupas inteiro é constituído por
peças pretas e brancas. Passo um pouco de creme nos cabelos e prendo em um
rabo de cavalo. Passo o desodorante e perfume.
— Está pronta, Baby Girl? — A voz de Zared soa na porta e vejo que ele
também tomou banho e trocou de roupa.
— Sim, estou.
— Então vamos. — Ele me apressa e abre mais a porta.
— Mas antes me responda uma coisa.
— Tem mais perguntas? — Ele revira os olhos e olha para mim
impaciente.
— Apenas duas.
— Faça. — Ele diz fechando a porta.

39
— Qual é seu nome? — Pergunto. Mesmo já sabendo, queria ter certeza
que ele estava me respondendo as coisas certas.
— É algo que não posso responder.
— Estou presa aqui até o momento que você resolver me matar, então
não vejo motivos para não me contar.
Ele suspira e passa as mãos pelo rosto.
— Meu nome é Zared Winter.
— Quem são as pessoas nos túmulos em que não deixa flores? — Faço a
segunda pergunta e no mesmo instante, arrependo-me de ter perguntado. Sua
expressão muda, trazendo novamente aquele homem frio que me machucou
fisicamente.
— Não é de sua conta. — Ele responde sem um tom específico na voz. —
Não quero que me faça mais perguntas, entendeu? — Ele diz de forma rude.
— Sim, Daddy.
— Ótimo, agora vem logo antes que eu desista da sua companhia e te
tranque aqui até o momento em que eu quiser te ver. — Ele abre a porta e
agarra meu braço com força, me puxando para o andar de baixo.
É estranha a forma repentina em que ele muda de humor e sinceramente,
aquilo só me deixava com mais medo. Homem bipolar.
Dois homens abrem a porta de uma das salas e me revelam a enorme sala
de jantar. Contem apenas uma mesa de madeira com desenhos entalhados a
mão, várias cadeiras a sua volta e belos quadros nas paredes, nada além disso.
— Sente-se. — Ele me empurra para a cadeira ao lado da sua, que fica na
ponta.
— Dad…
— Cala a boca. — Ele me interrompe.
— Desculpe-me por ter perguntado aquilo, não sabia que ficaria irritado.
— Eu mandei você calar a porra boca! — Ele grita, fazendo-me pular da
cadeira.
— Desculpe… — Digo e ele me olha pasmo ou como seu eu tivesse
alguma demência e eu provavelmente deveria ter.
— Se abrir a boca mais uma vez, irá ser castigada e não queira saber como
são meus castigos. O que eu lhe fiz ontem não chega perto do que sou capaz.
— Olho para minhas mãos em baixo da mesa. — Ótimo. Podem servir. — Ele
diz normalmente e os empregados saem da porta de onde deve ser a cozinha e
começam a lotar a mesa de comida e ao terminarem, eles saem sem nem olhar
para mim ou Zared. — Coma.

40
Começo a me servir e quando terminamos, os empregados voltam e tiram
tudo.
— Quem é Atlantis? — Ele me pergunta e não respondo. — Pode me
responder agora.
— Minha cadela.
— Ela está sozinha nesses dois dias?
— Não, costumamos a deixá-la com a vizinha.
— Irei buscá-la. — Ele diz, puxando minha cadeira e pegando minha mão
com calma, levanto-me e ele passa o braço em torno de minha cintura e cola
nossos corpos. — Desculpa por ter gritado com você, apenas não me faça
perguntas relacionadas a aqueles túmulos, tudo bem? — Ele sussurra em meu
ouvido.
Balanço a cabeça e ele me puxa para o andar de cima, viramos alguns
corredores até pararmos diante da porta de seu quarto. Ele solta minha mão,
destranca-a e ao entrarmos naquele cômodo, ele me pega no colo e ataca meus
lábios, iniciando um beijo intenso. Puxo sua blusa para cima, o que o faz rir.
Sou jogada na cama e minhas roupas são arrancadas de meu corpo,
ficando assim os dois apenas com peças íntimas. Eu não deveria gostar disso,
mas gosto, e quero fazer sexo com ele. Afinal, ele chega a ser uma aberração de
tão perfeito.

41
Capítulo Sete

amos começar o que não terminamos na noite passada. — Ele diz,


beijando meu pescoço, o que me faz soltar uma risadinha. — Mas
-V primeiro, vou te ensinar umas coisas.
Ele sai de cima de mim, deixando um pequeno beijo em meus
lábios, e se deita ao meu lado. Mordo os lábios e me sento, encarando o homem
a mexer na barra de sua cueca escura.
— Primeira coisa: você precisa excitar o homem usando algo mais do que
apenas a aparência desse corpo maravilhoso. — Ele diz, encarando meus olhos.
— Sente-se bem em cima do meu pau. — O tom de sua voz muda, trazendo
algo mais ameaçador e desejoso. Engulo em seco e me coloco em seu colo,
fazendo-o morder os lábios com o contato de nossas partes. Suas mãos
agarram minha cintura e me pressionam mais contra o local já duro e me
movimenta. — Rebole pressionando-me mais em mim. — Coloco as mãos em
sobre seu peito nu para me apoiar e inicio movimentos circulares, trazendo em
seu rosto um sorriso perverso. — Me beije. — Ele manda, também se mexendo
embaixo de mim.
Aproximo-me de sua boca e sinto sua barba por fazer arranhar meu rosto.
Mordo seu lábio inferior e sorrio ao sentir suas mãos entrarem dentro da minha
calcinha e apertar minha bunda. Jesus! O que está acontecendo comigo? Paro
de rebolar, deixando com ele se movimente para cima e para baixo, agarro seus
cabelos negros e os puxo enquanto ele morde meu lábio até sangrar e o suga.
Seus braços envolvem meu corpo e me puxam mais para ele, deixando-nos sem
espaço. Dou um pequeno empurrão em seu ombro e paro de beijá-lo para
retomar o fôlego que me havia sido tirado.
Zared ri, também com a respiração descontrolada e volta a atacar meu
pescoço, deixando beijos, mordidas e chupões.
— Segunda coisa: deve aprender a me chupar. — Sua voz sai rouca. Sinto
um nó se formar em minha garganta e cada canto de meu corpo estremece.
— Zared… — Digo e sinto um tapa em minha boca.
— Nunca me chame de Zared, senhor, Winter, ou porra parecida. Você
deve se dirigir a mim como Daddy, estamos entendidos? — Balanço a cabeça
devagar enquanto mordo os lábios para não chorar. — Quero que diga que me
entendeu.
— E-eu entendi. — Digo e outro sorriso toma conta de seu rosto.
— Ótimo. — Ele me tira de cima dele e olha para sua cueca com um
grande volume. — Está bem apertado aqui, Baby Girl. Faça as honras e resolva
o problema.
— Nunca fiz nada disso e se eu te morder? — Pergunto com os olhos
fixos naquela parte.
— Será castigada. — Sua voz sai com um leve humor. — Agora tire minha
cueca daqui. — Passo a língua nos lábios e levo minhas mãos trêmulas ao
elástico de sua box. Seus olhos me observam atentamente, olho para ele e
recebo apenas um incentivo pra continuar. Respiro fundo e começo a descer o
tecido fino até seus pés.
— O-O que eu faço agora? — Pergunto sem desviar meu olhar de seu
cumprimento.
— Dê-me sua mão. — Ele manda e o obedeço. Minha mão é levada para
o fim dele. Fecho-a em torno de seu membro e olho apavorada para ele, que
apenas abre um pequeno sorriso de lado para mim. — Vai movimentar essa
mão para cima e para baixo, desta forma. — Ele guia enquanto observo
atentamente. — Enquanto leva o resto para dentro de sua boca, mas antes
molhe-o com saliva para melhorar os movimentos. Está me entendendo?
— Aham.
— É seu primeiro boquete, não exigirei de você. Agora bote em prática.
— Não consigo. — Digo tirando a mão dele. — Desculpe, mas não
consigo…
— Sim, consegue. — Ele diz calmo. — E uma hora ou outra terá que me
chupar.
— Não consigo.
— Skye, coloque sua boca no meu pau agora! — Ele diz com autoridade.
Volto a colocar minha mão onde estava antes, curvo-me para mais perto,
fecho os olhos, passo a língua por sua glande, lambo cada parte de seu membro,

43
fazendo-o arfar. Quando já está molhado, vou introduzindo-o aos poucos
dentro de minha boca. Zared coloca a mão em minha cabeça e me empurra
mais, fazendo-me senti-lo em minha garganta, subo chupando e desço
novamente.
— Isso. — Ele geme baixo e começa a me guiar mais rápido. —
Movimenta a mão. — Abro os olhos e vejo-o de olhos fechados, com um
pequeno sorriso nos lábios. Movimento minha mão e começo a me mexer mais
rápido. — Caralho… — Ele sussurra em um gemido e me puxa para cima
pelos cabelos. — Cansei de esperar, vou te foder agora.
Não digo nada, apenas ataco seus lábios e ele me joga para o lado sem
atrapalhar nosso contato. Abro as pernas e as entrelaço em torno de sua cintura,
ele agarra meus pulsos e segura minhas mãos acima da cabeça.
— Boa menina. — Ele diz, saindo de cima de mim. — Abra os olhos,
quero que veja exatamente o que usarei em você. — Abro meus olhos
lentamente e vejo o homem a minha frente segurando em uma mão algemas e
na outra um chicote.
— Por favor…
— Cala a boca. — Ele diz, algemando minhas mãos na cama. — Eu
mando. E você fará exatamente do jeito que eu gosto. — Suas palavras são
sussurradas lentamente em meu ouvido, deixando-me arrepiada.
O objeto de couro é deslizado desde meu rosto até meus seios e de lá,
desce até minha barriga, onde ele dá a primeira chicoteada, fazendo-me gritar.
Por mais que eu esteja tentando entrar em seu jogo para conseguir continuar
viva, está sendo difícil suportar as consequências.
— Será pior se gritar. — O objeto de couro é acertado no mesmo lugar,
levando-me a morder o lábio machucado. — Foi o que pensei. — Ele ri e desce
até minha intimidade, onde a calcinha é rasgada como papel e jogada no piso de
madeira escura. Três chicotadas são dadas naquela parte.
— Para, por favor… — Imploro chorando.
— Não. — Ele diz simplesmente, dando-me mais algumas surras com
aquele maldito chicote.
— Por favor, está me machucando. — Digo, olhando em seus olhos que
queimavam de prazer. — Por favor. — Tento mais uma vez e, graças a Deus,
ele larga aquele objeto no chão. — Obrigada.
Ele não diz nada, apenas agarra minhas pernas e ergue-as um pouco,
deixando minha intimidade na altura de seu membro, que roça em minha
entrada. Começo a suar frio e meu coração acelera de tal forma que parece
capaz pular para fora de meu peito.

44
— Depois disso, será minha para o resto da sua de vida. — Ele diz
olhando em meus olhos e o mesmo inferno que ele transmitiu noite passada
volta mais intenso, deixando-me sem forças para pronunciar algo.
Ele se empurra para dentro de mim, fazendo-o gemer enquanto eu sinto
uma dor horrível e um ardor que também sou incapaz de explicar. Zared não se
mexe mais depois disso, apenas me olha com os olhos brilhantes. Ele se apoia
sobre mim, limpa as lágrimas que descem pelo meu rosto, sem momento algum
tirar seu olhar do meu. Nossas bocas voltam a se tocar num beijo mais calmo
do que antes e ele agarra os dois travesseiros ao meu lado enquanto inicia
movimentos calmos, saindo e entram em mim. Paro o beijo e viro o rosto, não
abrindo os olhos que ainda liberavam as lágrimas, aquilo não estava sendo nada
bom, doía e era mais incômodo do que dizem. — Baby Girl, olhe para mim. —
Ele diz, controlando-se para não gemer. Balanço a cabeça em um gesto
negativo, e sem saber por que escapa um gemido da minha boca, por que estou
a gemer se não estou a receber o tal prazer que dizem? Cadê toda aquela
sensação que dizem ser uma das melhores? Merda, isso está sendo horrível,
doloroso, desconfortável e nem um pouco prazeroso. — Olhe para mim. —
Sua voz sai mais como um pedido do que uma ordem.
— Não me obrigue a isso, por favor. — Digo, chorando.
— Estou te pedindo que olhe em meus olhos. — Ele diz parando por
completo. — Ande, olhe para mim, Baby Girl. — Forço-me a abrir os olhos e
automaticamente encaro aqueles olhos castanhos do inferno. Se há uma pessoa
que eu mais odeie no mundo, essa é Zared, eu o odeio com todas minhas forças.
— Pare de chorar.
— Machucou, isso está doendo, não estou sentindo nada além de dor. —
Digo e seus olhos caem.
— Deveria ter sido cuidadoso com você.
— O que? — Pergunto.
— Perdoe-me por tê-la machucado. — Ele passa a mão em meu rosto e
abre um sorriso carinhoso. — A dor passa conforme as vezes em que transa e
se estiver mais relaxada. — Ele se aproxima de meus lábios e deixa um
demorado selinho, cola nossas testas e volta a se movimentar sem tirar seus
olhos dos meus.
Ele abre a boca e deixa vários gemidos saírem. Levanto um pouco a
cabeça e puxo-o para outro beijo, que é interrompido por gemidos. Por mais
que não esteja a sentir um pingo de prazer, os gemidos são incontroláveis.
— Baby Girl… — Zared geme antes de pulsar e gozar dentro de mim. Ele
volta a me beijar e sai de dentro de mim, agora fazendo-me sentir minha

45
intimidade latejar. Ele desce até ela começa a lamber e chupar, agora sim,
dando-me prazer. A cada gemido, ele pressiona mais sua língua contra ela, e
também não demora muito para meu corpo arquear-se um pouco, tirando
minhas costas do colchão e eu atingir meu limite.
— Daddy… — Gemo, desfazendo-se sobre a cama macia. Zared sorri e
deixa um pequeno beijo em meus lábios antes de me soltar, jogar as algemas
para longe e deitar-se ao meu lado. O cômodo fica em puro silêncio, apenas
com nossas respirações desregulares sendo ouvidas. Foco meu olhar para o teto,
incrédula no que acabara de acontecer, viro o rosto e encaro o filho da puta ao
meu lado.
— Essa é a primeira vez que gozo tão rápido. — Ele diz dando pequenos
risos.
— Por quê? — Pergunto.
— Você foi a primeira virgem que fodi.
— Como foi sua primeira vez? — Pergunto, ele se vira para mim com um
sorriso.
— Nada importante. — Ele me beija, levanta-se, dá a volta pela cama e me
coloca de pé. Desvio meus olhos da marca de sangue no lençol para ele.

46
Capítulo Oito

le ri de minha cara e me puxa até o banheiro de seu quarto, abre a torneira

E da banheira, joga a espuma líquida na água e entra ali em seguida.


— Venha. — Ele diz e me estica o braço.
— Tomar banho com você? — Pergunto e ele afirma com a cabeça. —
Isso não é certo.
— Acabei de te tirar a virgindade e não acha certo tomar um simples
banho com seu dono?
— Não é meu dono, não sou animal ou um objeto. — Digo e ele fica serio.
— Sim, você é minha e será até eu me cansar. — Sua voz sai grossa e olho
imediatamente para o chão. — Baby Girl, entre nessa banheira e se sente no
meio de minhas pernas… isso é uma ordem. — Ando lentamente até a
banheira e pego em sua mão que me puxa calmamente para dentro do objeto
de banho. Zared abre um pouco as pernas e me sento entre elas, sentindo meu
corpo se arrepiar com o contato de seus lábios em meu ombro. — Viu? Não é
tão ruim assim. — Ele sussurra calmamente em meu ouvido. — Deveria me
ensinar coisas novas.
— Não sei o que posso lhe ensinar. — Digo fechando os olhos enquanto
suas mãos viajam por meu corpo.
— Ensine-me a compreendê-la. — Suas mãos vão para minha cintura e
me sobem na altura de seu membro, sentando-se sobre ele devagar, arrancando
de mim apenas um gemido atrapalhado. — Quero entender o que se passa
nessa cabeça, detalhe por detalhe, sem me deixar escapar nada. — Ele se
movimenta e sem saber o motivo exato, encosto-me em seu peito, jogando a
cabeça para trás par apoiá-la em seu ombro enquanto sinto-o sair e entrar em
mim, suas mãos apertam meus seios e seus dentes mordem o lóbulo de minha
orelha. Aperto a borda da banheira e deixo um gemido escapar. — Diga-me o
que está pensando nesse exato momento. — Sua voz soa mais como um
gemido.
— No por que de ter me entregado facilmente a alguém como você. —
Gemo e ele aperta mais meus seios e se movimenta mais rápido.
— Simples: você não tem escolha. Sei que desperto o pior de você e que
no fundo, você gosta de quando a toco, gosta da sensação de ter alguém a
desejando. — Não respondo, apenas gemo. — E sabe que depois de hoje, se
tornará uma pessoa insaciável, então, só quando se entregar de verdade a mim é
que seremos insaciáveis juntos. Todas as noites deitados naquela cama em busca
de mais desejo.
— Daddy…
— Geme, amor, mostre-me o quanto você me quer, sem momento algum
se conter. — Seus movimentos são interrompidos com uma batida abrupta na
porta. — Só pode estar de sacanagem. O que é, porra?! — Ele grita, nervoso.
— Desculpe senhor, mas o senhor Ward está no salão principal a sua
espera.
— Mande-o esperar, estou ocupado.
— Sim, senhor. — A voz grossa do outro lado diz antes de sair.
Zared me tira de cima dele, se lava rapidamente e sai dali enrolando a
toalha branca em torno de sua cintura.
— Terminamos por aqui, saia daí agora e retorne ao seu quarto sem fazer
um barulho. Fique a minha espera, pois irá retornar para ficar comigo. — Ele
diz de forma fria e me joga a toalha. — Tome seu banho lá e descanse.
— S-sim, Daddy.
Enrolo-me no pano macio e antes de sair do quarto, vejo minhas roupas
jogadas no chão, ou ao menos o que sobrou delas. Caminho apressadamente
pelos corredores lotados de homens que me encaram e até mesmo implicam
comigo. Paro diante dos dois homens que tomam conta do meu quarto.
— Tenho a permissão de retornar ao meu quarto. — Digo, tentando ser
firme, mas aquele papel não era muito a minha praia.
— Claro que tem. — O mesmo homem que me bateu morde os lábios e
ao abrir a porta, puxa minha toalha, deixa tapa em minha bunda e joga o pano
molhado de volta para mim.
Reprimo o choro e dirijo-me até o banheiro, onde preparo a banheira e
faço minha higiene. Volto para o cômodo quarto e me visto apenas com uma
camisola, ligo o ar-condicionado e por sorte, Zared pensou em algo para matar
meu tédio, disponibilizando-me uma televisão, um DVD e milhares de filmes

48
numa estante. Deixo o ambiente todo escuro, e dou play no filme Homens de
Preto. Deito-me no colchão macio e me cubro enquanto analiso a tela.
Eu realmente queria poder me distrair com o conteúdo apresentado na tela
média de plasma a minha frente. Mas como uma praga, não consigo parar de
pensar no homem que me mantém presa aqui, em seus lábios e em seu toque.
Parte minha quer poder fugir, mas outra quer aquele homem com atitudes
sórdidas. Se Alison estivesse aqui, ela estaria comemorando a perda da minha
virgindade e fazendo-me perguntas que não deveria, como o tamanho do pênis
dele ou se ele me chupou bem. Só que ela não está, pois ele a matou, e Deus
sabe lá o que ele fez com as partes do corpo dela.
Zared é um monstro e eu não deveria confiar ou até mesmo ter feito o que
fiz. Droga, eu sou uma vadia ou chego a ser pior. Dei minha virgindade a um
assassino, maníaco obsessivo com um prazer inexplicável em causar-me dor.
Puxo o segundo travesseiro para o meu lado e o abraço antes de ser
tomada pelo cansaço e acabar dormindo.

— Skye, acorda. — Escuto a voz grossa de Zared e suas mãos me balançam


freneticamente. — Com o que sonhava? — Ele pergunta, curioso, o que é até
estanho de ver, pois até parece uma criança com seus lindos olhos castanhos
sobre mim.
— Nada. — Dou de ombros e limpo os olhos.
— Conte-me.
— Estava sonhando com a Alison. — Digo olhando para minhas mãos e
no mesmo instante, um objeto de ferro é pousado sobre elas e nele um porta-
retratos com uma foto minha e dela na nossa formatura. — A última coisa que
eu disse a ela foi que eu a odiava. — Choro desesperadamente. — Eu não a
odeio e foi isso o que eu disse a ela.
— Você não sabia o que iria acontecer. — Sua voz sai fraca.
— Sabe o que ela me respondeu? Apenas um “também te amo, amor”. Ela
nunca, mesmo quando eu fazia minhas merdas, nunca me disse um eu te odeio.
— Skye, não se torture assim.
— Como você consegue? Como consegue dormir a noite sabendo que
matou todas as aquelas garotas?

49
— Eu não durmo. — Ele diz, sério, e sou obrigada a encará-lo. — Eu
tomo muitos remédios para dormir, muitos mesmo, e não durmo. Mas é apenas
o preço mínimo por tudo o que faço por prazer sem me sentir culpado depois.
— Como assim, não dorme?
— Não durante a noite, minha vida é noturna. — Ele dá de ombros.
— Responda-me uma coisa?
— Já não está fazendo isso? — Um sorriso cresce em seu rosto.
— O que fez com o corpo dela? — Pergunto e ele parece ficar surpreso.
— Coloquei dentro de um saco preto de lixo e joguei no lixão. — Ele
responde.
— Não se arrepende de não ter dado a ela um lugar naquele cemitério?
— O cemitério é apenas para garotas como você, as que eu escolho e
transo.
— Mas disse que nunca transou com uma virgem. — Digo, estremecendo.
— E nunca o fiz mesmo, porém, aquelas só tiveram um dia antes de
morrer.
— Elas já tiveram relações com você em sua cama ou dormiram neste
quarto?
— Não, você é a primeira de muitas coisas. — Ele parece incomodado ao
dizer isso.
— Mas vou ter um fim igual ao delas.
— Já disse que isso depende se eu gostar de você. — Ele tira os sapatos e
se deita ao meu lado debaixo das cobertas. — Não me arrependo de ter feito
aquilo com sua amiga, pois agora tenho você. — Ele ri como se o que ele disse
fosse uma piada. — Sou assim, e mesmo que me odeie, de certa forma, eu
admiro você. — Sua mão levanta um pouco minha camisola e logo sua
expressão fica séria. — Que porra foi essa? — Ele pergunta franzindo as
sobrancelhas enquanto encara minha bunda.
— Um dos caras que vigiam a porta de meu quarto, tirou-me a toalha e me
deu um tapa.
— Ele encostou em você?
— Está vendo que sim. — Digo e ele pula para fora da cama e abre a
porta. — Quero todos no salão agora!— Ele grita, fora de si. — Vem comigo.
Pego em sua mão e vou com ele para o andar de baixo onde cinco filas
com mais de dez homens e mulheres estão formadas.
— O que está fazendo? — Sussurro.

50
— Uma reunião. — Ele me responde e para diante a todos. — Quem foi?
— Ele pergunta auto e me encolho. — Quem foi o homem que deixou aquela
marca em você?
— Aquele. — Aponto para o cara que começa a tremer.
— Venha aqui agora!— Zared grita nervoso, fazendo-me pular. O homem
repugnante para diante a ele. — Quem mandou tirar a toalha do corpo da
minha garota e dar-lhe um tapa?
— Desculpe, senhor.
— Sabe quais são as regras e me desobedeceu. — Ele leva a mão para trás,
levanta um pouco a blusa cinza escura e agarra em sua arma escondida ali. —
Quantas vezes encostou nela?
— Duas, senhor. — A voz do homem demonstra pânico.
— O que fez da primeira?
— Dei um tapa no rosto dela.
— Desobedeceu-me duas vezes. — Zared solta uma risada, saca a arma e
dá um tiro na cabeça do homem, que cai no chão. — Vou deixar bem claro para
cada um de vocês: quem encostar nela, não terá a sorte de uma morte rápida
como ele. Só eu tenho o direito de bater, tirar algum pedaço de pano do corpo
dela ou encostar nela. Quem fizer uma dessas coisas irá ser torturado até a
morte, entenderam? — Todos concordam. — Ótimo, livrem-se dele e sirvam o
jantar lá em cima.
As pessoas parecem ficar surpresas quando ele pega em minha mão e me
puxa calmamente de volta para o andar de cima. Ao entrarmos em seu quarto,
sua mão se desprende da minha e a porta é trancada.
— Não precisava ter matado aquele homem. — Digo, ainda horrorizada
com o que tinha acabado de ver.
— Ele tocou em você. — Ele diz, tirando a blusa. — Ninguém além de
mim tem o direito de te machucar, de te dar prazer e até mesmo de te fazer feliz!
— Você me põem medo, não deveria.
— E por que não? Por que tirei sua virgindade? Ou por que fui no seu
apartamento buscar sua cadela? Posso ter atitudes que não demonstro
facilmente, mas isso não muda o fato, o desejo que tenho de te matar.
— E por que não faz isso logo? — Pergunto, mais autoritária.
— Porque ainda sinto vontade de te foder.

51
Capítulo Nove

u sou uma pessoa, tenho sentimentos, e sinto dor! Não sou um


brinquedo sexual. — Digo no mesmo tom.
-E Seus intensos olhos castanhos me encaram de forma séria.
Não, eu não me arrependo por ter dito aquilo, não poderia, ele, de
uma forma ou de outra, tem que saber que sou uma pessoa que sente as
mesmas coisas que ele. Mesmo sendo um homem desprezível, já o vi sendo
atencioso, de uma forma a dar medo, porém atencioso. Ele não pode ser um
monstro sem sentimentos o tempo todo. Eu acho.
— Gosta de música, Baby Girl? — Ele pergunta, abrindo o pequeno
frigobar em seu quarto, tirando de lá uma garrafa de cerveja. Sem dificuldade,
ele tira a tampa e leva o conteúdo até os lábios, bebendo uma boa quantidade
do líquido. — Eu te fiz uma pergunta! — Ele grita e joga a garrafa contra a
parede.
— Gosto. — Digo, encolhendo-me a cada passo paço dado em minha
direção. Suas mãos se fecham em meu braço e ele me encara com fúria evidente
em seu rosto.
— Já se acha meu brinquedo sexual com apenas uma transa? — Ele
continua a gritar enquanto me balança bruscamente. — Não sabe de merda
nenhuma! Aqui você não é absolutamente nada, estou pouco me fodendo para
a merda de seus sentimentos e o que sente. Está aqui para me satisfazer de
todas as formas que me vierem à cabeça e sem dizer uma mísera palavra para
me contrariar! — Sou jogada contra a parede e um chute é dado em minha coxa.
— Está aqui para limpar o chão do meu inferno com a língua! — Recebo outro
chute.
Meus olhos se encontravam completamente marejados, não vou me deixar
chorar em sua frente. Não em circunstâncias como esta.
Sua mão se fecha no meio de meus cabelos e me arrasta para fora do
quarto. Seus empregados não olham para ele, mas quando Zared está de costas,
os olhos deles vão diretamente na minha direção. Eu me debato e choro devido
a dor. Estou sendo arrastada pelos corredores assim como costumava ver em
desenhos animados; a parte em que o homem das cavernas agarra sua mulher
pelos cabelos e a arrasta de volta. É exatamente isso que estava me acontecendo.
Quando por fim ele para, a porta que logo reconheço de cara é aberta e sou
jogada sobre o carpete felpudo branco.
— Tire essa merda de pijama e se arrume. Volto em dez minutos e se não
estiver pronta até lá, irá apenas de lingerie. — Ele diz antes de bater a porta
pesada a minha frente.
Levanto-me de imediato e vou até o guarda-roupas. Minha cabeça lateja e
meus olhos já devem estar inchados pela a forma desesperada que estava
chorando. Eu poderia contrariá-lo e não me arrumar, mas só me resultaria em
mais dor. E obviamente ele me arrastaria pela casa apenas de roupas íntimas se
não o obedecesse, e seria mais uma na lista de humilhações que acabei de criar.
Seco os olhos com as costas da mão enquanto limpo a garganta. Pego um
casaco preto, uma das milhares blusas brancas com decote provocante e uma
calça jeans preta. Visto-me às pressas sem me preocupar com o sutiã, calço um
coturno, também preto, que se encontrava na sapateira e sento-me na cadeira
em frente a penteadeira, onde desembaraço os cabelos e faço um coque que
toma a maior parte de meu tempo para deixá-lo perfeito.
Um dos homens, que pela voz diferente deve ser novo, diz para o outro se
endireitar que Zared estava se aproximando. Apresso-me a limpar os olhos da
melhor forma e passo um batom marrom escuro nos lábios para descontrair a
falta de maquiagem em meu rosto.
Quando a porta de abre, dou um pulo para fora da cadeira e me encolho
com a presença do homem moreno a minha frente. Ele se vestia apenas de
preto, uma blusa regata, uma jaqueta de couro, calça rasgadas nos joelhos e
botas. E em sua boca, um cigarro ainda apagado.
— Se continuar me olhando desta forma e não sair desse caralho de
quarto, juro que desmancho essa merda de coque e te arrasto escada abaixo. —
Ele ameaça e apresso-me a me colocar a seu lado. Saímos do cômodo e
caminhamos pelos corredores até as escadas em silêncio. Minha cabeça
encontra-se baixa e meus olhos focados nos degraus. Os únicos cômodos da

53
casa que eu conhecia eram o salão, a sala de jantar e nossos quartos. — Por aqui.
— Ele diz, indicando o lado esquerdo com a cabeça.
Encaro cada enfeite e cada pintura que se encontram nas paredes. A casa
parece ser toda desse jeito e por mais que seja assustadora, ainda tem seu
charme e despertaria em qualquer um a curiosidade de sair explorando cada
canto. Ao menos é como me sinto. A cada porta que passamos, há pelo menos
dois homens de vigia, o que poderia ter de tão importante nesses cômodos?
Viramos o último corredor e entramos em uma porta que dava direto a
uma garagem. Não consigo conter minha surpresa a ver uma variedade de
carros esportivos estacionados ali e por estarmos em uma garagem e não em
uma sala de tortura.
— Vamos sair daqui? — Pergunto, virando-me para olhá-lo.
— Não se anime, não iremos muito longe e nem pense em tentar fugir de
mim… Mesmo que isso não vá ser o que fará ao chegarmos. — Ele diz,
encarando um painel cheio de chaves penduradas.
— Esse é um carro muito bonito. — Digo, apontando para um veículo
prata.
— Não perguntei. — Ele cospe e me atrevo a revirar os olhos, torcendo
para não ser apanhada fazendo tal gesto de desrespeito.
Ele olha para as chaves por mais alguns segundos, pega uma delas e
caminha até um Maverick preto. De uma coisa tenho certeza: esse homem tem
um fetiche pela cor preta. Sigo-o e sento-me no banco do passageiro enquanto
Zared se acomoda no do motorista.
— O cinto. Sua mãe nunca te ensinou isso, não? — Ele parece um pouco
mais simpático que antes.
— Não conheço meus pais. — Respondo olhando para frente.
— É adotada? — A surpresa evidente em sua voz.
— Não, por acaso fui convencida por Alison a fugir do orfanato quando
tínhamos dezesseis anos e nos abrigávamos nas casas de desconhecidos. Não
importa de qualquer forma. — Digo sem qualquer emoção.
Ele não diz mais nada, apenas liga o carro e dirige para fora de sua
propriedade. Minha vontade era de poder abrir a porta, pular para fora daquele
maldito automóvel e correr o mais rápido possível para o mais longe que
conseguir, mas ao invés disso, apenas me afundo mais no banco, sentindo a
tensão de sua presença. E como ele disse, o local realmente é perto, não nos
dando nem trinta minutos de viagem.
— Que é esse lugar? — Pergunto, olhando os homens que entravam.
Horríveis.

54
— Um lugar para pessoas como… Eu. Fora do radar de qualquer coisa
que possa nos foder. — Ele responde, estacionando o carro nos fundos, onde
tinha apenas um, também luxuoso.
— E-E o que é exatamente esse lugar? — Pergunto, sentindo o medo
tomar conta de mim.
— Está ouvindo a música? — Ele pergunta e ficamos em silêncio para que
eu possa ouvir o barulho que soa lá dentro, isso ao menos é considerado música?
Apenas gritaria.
Zared sai do carro e faço o mesmo depois de engolir um seco. A noite
estava fria o suficiente para o ar de minha boca sair em forma de fumaça; já da
dele, sai fumaça do conteúdo tóxico que havia acabado de acender.
— Um bar? — Pergunto e ele ri antes de dar a volta para estar ao meu
lado.
— Sim, um bar… Claro. — Ele afirma, rindo enquanto passa o braço em
torno de meus ombros, deixando-me surpresa com aquilo.
Conforme andamos de volta a frente do local, mais olhares são postos
sobre nós e novos sussurros como “essa deve ser a virgem dele”. Afinal, como eles
sabiam que eu era virgem?
Ao entrarmos, o som agressivo muda para algo mais calmo. O braço a
minha volta me aperta mais contra ele enquanto andamos no meio dos homens
amontoados.
— Essas são os verdadeiros brinquedos sexuais. — Zared diz enquanto
passamos por uma cortina vermelha.
O local é escuro, com paredes vermelhas e pretas, com o efeito de luzes
que mal nos permitia enxergar e o cheiro de cigarro com bebida misturado faz
meu estômago revirar. Meus olhos se arregalam e me agarro ao corpo dele, que
vira meu rosto para olhar as mulheres nuas que recebem chicoteadas dos
homens enquanto dançam.
Outras se masturbam de todas as formas possíveis enquanto se encontram
presas com coleiras com espinho em torno do pescoço. Tem também as que
são penduradas pelo pulso e qualquer um agarra suas pernas e as usa, as que
chupam os homens enquanto masturba outro com a mão, assim como fiz com
Zared mais cedo. As que se prostituem ali mesmo e as que se pegavam dentro
de gaiolas. Fecho os olhos e escondo o rosto no peito do homem que havia me
levado à esse lugar horrível. Nunca em minha vida pensei que algo como isso
acontecia, as mulheres eram literalmente usadas e torturadas como se não
fossem nada.

55
— Por que me trouxe aqui? — Pergunto, sentindo as lágrimas voltarem.
— Tire-me daqui, por favor.
— Olhe, quero que veja exatamente quem realmente são os brinquedos
desses homens. Ao menos duas, todas as noites, morrem por serem torturadas,
e se não ganham a quantia dinheiro que lhe é estipulada, são torturadas,
estupradas e mortas. — Ele diz, os olhos fixos nas mulheres.
— O-o que acontece com os corpos? — Pergunto, mesmo não querendo
saber a resposta.
— São esquartejados e jogados para os cães do dono. — Ele responde,
baixando o olhar para poder me ver.
— Por favor, Daddy, me tire daqui. — Peço mais uma vez. Ele me vira e
me puxa para uma área particular. O segurança cumprimenta Zared e nos deixa
passar. — Como ele te conhece?
— Costumava vir aqui. — Ele dá de ombros e me puxa pelo corredor
vazio. — Ross! — Ele diz firme e uma voz grossa e rouca manda entrar.
— O que foi, Winter? — O homem de olhos verdes, com os cabelos
enrolado até o pescoço, empurra a mulher de cima dele e nos encara. — Essa é
sua virgem? — Ele pergunta, surpreso.
— Vejo que todos já sabem. — Zared diz de forma fria.
— As notícias correm, meu amigo. Mas agora que a vi, não te julgo por se
colocar em risco por causa dessa garota. Olhe só pra ela… — O homem morde
os lábios enquanto me analisa. Vou imediatamente para trás de Zared, que pega
em minha mão.
— Quero um dos quartos. — É tudo o que ele diz.
— Escolha o que lhe agrada. — O homem ri e dá uma última olhada em
mim antes que Zared feche a porta.
— O que ele quis dizer sobre você se colocar em risco por minha causa?
— Pergunto enquanto sou puxada para uma das portas.
— Não interessa. — Ele cospe e me puxa para dentro do quarto.
Encaro o ambiente todo vermelho, uma cama redonda, correntes
penduradas no teto, um rádio, e em frente a cama, um pequeno palco com uma
barra de ferro. Sinto um frio na barriga ao escutar a porta ser trancada. Viro-me
para olhá-lo, as chamas em seus olhos voltam a domar aqueles castanhos que
sentem prazer em transbordar o inferno que é esse homem. Seus lábios se
curvam em um sorriso com a língua entre os dentes enquanto se aproxima de
mim, conforme dá mais passos para trás, mais divertido aquilo lhe parece. Sim,
está mais do que óbvio que eu sou a grande diversão, a peça principal em todo

56
esse circo. Dou mais alguns passos e acabo caindo sentada sobre a cama
redonda. Ele se aproxima de mim e fica na altura de meu ouvido.
— Quero que suba ali e me excite. — Ele sussurra.
— Quer que e… Eu faça um strip tease? — Pergunto baixo.
— É exatamente o que quero. — Ele afirma e me levanta da cama.
Vou devagar até o pequeno palco e subo nele enquanto Zared agarra uma
cadeira ao lado do aparelho de som e a coloca bem em frente ao pequeno palco.
Em sua mão, um pequeno controle, que ao se sentar, ele aperta e
imediatamente o som alto começa.
Ele se acomoda na cadeira e morde os lábios antes de me fazer um sinal
para começar. Fecho os olhos e deixo que o ritmo da música já conhecida me
fazer iniciar, agarro na barra com uma mão e dou a volta pelo palco, antes de
parar a sua frente e soltar o cabelo enquanto me movimento lentamente até o
chão e giro a cabeça para soltar cada fio. Subo tirando o casaco e o jogo para
um canto qualquer do quarto, dou as costas para ele e rebolo abrindo o botão
de minha calça.
— Tire essa merda logo. — Ele diz com um sorriso perverso no rosto.
— O strip é meu, então não se meta. — Digo, sorrindo.
— Desculpe? — Ele joga a cabeça para trás e ri em divertimento.
Mordo os lábios e me movimento na barra de ferro. Fazendo-o levar a
mão para dentro de sua calça e apertar seu membro. Faço o mesmo gesto que
ele, que ri mais. Tiro a blusa deixando meus seios a mostra enquanto passo a
mão atrás de minha nuca e levanto os cabelos ainda me movimentando
conforme a música.
— Não me provoque, menina. — Escuto sua voz dizer enquanto um
sorriso de lado toma conta de seus lábios.
— Baby Girl, Daddy, me chame de Baby Girl. — Digo engatinhando até
ele que se curva em minha direção e acaricia meu rosto antes de descer sua mão
para meu queixo e me puxar para um beijo que interrompo, empurrando-o de
volta para seu lugar.
Levanto-me e dou as costas para ele, que me encarava enquanto solta uma
risada nasalada e morde os lábios em frustração. Seguro na barra e consigo
pular e girar da mesma forma que já vi as garotas que trabalhavam com Alison
fazer. Por sorte, quando me cansava, ficava encarando com atenção cada
movimento que elas faziam e consegui aprender a maioria deles com isso. Vejo
que me são úteis hoje. Dou outro impulso e giro novamente, porém, parando
no chão com uma abertura impecável que faz seus olhos se arregalarem em
surpresa. Perfeito. Pelo menos a calça não me impede de fazer os mais

57
complicados movimentos. Volto para a ponta do palco onde agarro sua blusa e
o puxo para um beijo. Suas mãos me puxam para fora dali e me sentam em
cima de seu membro duro enquanto ataca meus lábios de forma desesperada.
Ele segura minhas pernas e com apenas um impulso, coloca-se de pé e me senta
na cama. Meu coração dispara, já sabendo o que irá acontecer e quando ele se
afasta, não consigo mudar minha expressão apavorada.
Acabei de fazer um strip que não é possível se considerar um, já que não
tirei minha roupa toda. Sou uma medrosa, isso sim, ele já se colocou dentro de
mim, talvez não seja tão ruim como foi mais cedo.
— Por que está tão nervosa, Baby Girl? — Ele pergunta, colocando-se
sobre mim.
— Porque não quero ser um objeto. — Digo num sussurro. Suas mãos
param em minhas coxas e a apertam bem em cima dos ferimentos, fazendo-me
gemer de dor.
— Não é um objeto, é minha única Baby Girl. — Ele coloca uma mecha
de meu cabelo atrás da orelha e se enfia no meio de minhas pernas.
— E você me causa medo. — Digo, tremendo diante de seu toque.
— Quanto mais medo causamos nas pessoas, mas respeitáveis somos. Não
vê aqueles idiotas lá fora? Ou meus servos? Por que acha que eles não tentam
nada contra mim? Porque sentem medo!
Suas mãos andam até minha cintura e me puxam para o meio da cama, ele
engatinha sobre mim e começa a lamber e morder meu pescoço.
— Vai me machucar novamente? — Pergunto com a voz trêmula.
— Não, apenas dar-te prazer. — Ele diz em meu ouvido e morde o lóbulo
de minha orelha.
— Já disse que não sinto nada além de dor.
— Quero que se acostume comigo aí dentro, por ser apertada demais,
chego ao limite rápido e certamente deve saber que não é agradável para um
homem gozar primeiro que a mulher.
— Se colocar dentro de mim não mudará o meu tamanho. — Digo e ele ri.
— É o que você pensa. — Sua voz rouca pelo desejo diz antes de puxar
minha calça e calcinha pelas pernas. — Apenas minha. — Ele sussurra antes de
começar a me beijar de uma forma desesperada, suas mãos viajam por meu
corpo e param no meio de minhas pernas. O beijo é interrompido por um
suspiro pesado que escapa de meus lábios ao sentir dois de seus dedos a
entrarem em mim.
— Daddy… — Sussurro e posso ver sua respiração se acelerar. — Isso
ainda dói. — Digo me referindo ao ardor já que seus dedos eram grossos.

58
— Apenas relaxe, meu amor. — Ele diz olhando em meus olhos. Seus
dedos entram e saem de mim com agilidade, fazendo-me agarrar os lençóis e
soltar um gemido. — Isso…
Levanto um pouco as costas do colchão e gemo novamente. Ele tira seus
dedos de mim, levanta da cama e analisa o quarto todo e quando acha o que
queria, puxa-me pelos pés e me coloca de pé. Sou puxada até um canto da sala e
vejo-o puxar uma corrente e prender meu pulso no objeto preso ao teto.
— O-O que vai fazer? — Pergunto enquanto sou tirada do chão por estar
presa pelos dois pulsos. — Daddy? — Digo tentando me soltar.
Zared se vira de costas para mim e tira sua jaqueta de couro e sua blusa,
jogando-as no chão. Seus músculos relaxam enquanto ele pisa fortemente no
chão, que range a cada passo até um armário de madeira escura. Ao abrir, sinto
o desespero tomar conta de mim, há inúmeros objetos sexuais e chicotes. O
homem olha as coisas lá dentro e agarra em um chicote com vaias tiras de
couro.
— Sabe, eu que ajudei o Ross a escolher cada um desses brinquedos. —
Ele se refere às coisas no armário. — E enquanto te fodida mais cedo só
conseguia imaginar o dia em que usaria os meus em você.
— Por favor… — Sinto minha voz sumir.
— Você foi uma garota má novamente, Baby Girl, não deveria ter falado
comigo daquela forma. — Ele diz fechando o armário e em seguida, andando
para trás de mim. — E meninas más devem ser castigadas.
Antes que eu possa lhe implorar para não me machucar, o couro faz
contato com a minha bunda, fazendo-me gritar. Outra chicoteada é distribuída.
Cada tira de couro que aquele objeto tem estala em minha pele, causando dor e
um ardor quase insuportáveis.
— Para, por favor… — Peço em meio às lágrimas que descem pelo meu
rosto vermelho.
— Cala a boca! — Ele grita e acerta mais de três chicoteadas por minhas
costas. — Agora as coisas serão do meu jeito e te ver submissa a mim é
excitante. — O objeto é passado delicadamente por todo meu corpo até ele
ficar de frente para mim. — Jesus, como quero te foder. — Ele diz encarando
meus olhos e me bate mais vezes com mais força.
Meu corpo já estava suado, as feridas que ele havia acabado de me causar
ardem por isso. Ele larga o objeto no chão e sai do quarto sem ao menos olhar
para mim. Tento mais algumas vezes me soltar dali, mas como das últimas vezes,
não é possível. Alguns minutos depois, a porta se abre e ele entra com algum
objeto na mão, levanto minha cabeça e encaro-o sem qualquer expressão, seus

59
olhos percorrem meu por cada canto de meu corpo e sem dizer nada pressiona
um ferro quente entre meus seios.
Aperto os olhos e deixo um grito pior do que os outros sair de minha
garganta. O ferro continua pressionado contra minha pele por um minuto ou
dois antes de ser jogado para longe. Abro os olhos com dificuldade para
enxergar as coisas por conta das lágrimas e olho para o local onde queimava e
sangrava por estar em carne viva. A imagem de um Z encontra-se ali e por
algum motivo aquilo deixa de ser pior do que estava sendo.
— Agora você é minha. — Sua voz sai fria. — E mato quem encostar no
que é meu.

60
Capítulo Dez

or que fez isso? — Pergunto em meio aos soluços.


Minha visão está turva, não permitindo ver a expressão
- P em seu rosto e isso me apavora, não saber o que poderia
acontecer comigo. Meu peito arde, meu corpo todo se
encontrava com marcas do chicote usado a pouco, e sangue descia de minha
ferida com a letra inicial de seu nome.
Estou sentindo-me uma ninguém, um brinquedo ou saco de bancadas. Ele
não buscava prazer apenas no sexo, mas na agressão também. Conseguia ver
seus olhos transbordarem o desejo a cada chicoteada que me dava, seus
músculos mostravam ficar mais calmos com o som de meus gritos e tudo
aquilo dava a ele um sentimento de êxtase.
— Não interessa. — Sua voz soa fria e o barulho de suas botas pisando na
madeira ecoam cada vez mais próximas. — Deus! Como quero te foder ainda
presa a essas correntes… — Ele sussurra para si mesmo, deslizando suas mãos
pelo meu corpo despido. — Merda, Baby Girl, como você é gostosa…
Levanto o rosto e pisco diversas vezes para poder recuperar minha visão,
tudo se torna ainda mais terrível sem conseguir enxergar. Escuto a fivela de seu
cinto fazer contato com o chão, chamando minha atenção de volta ao homem
que tirava sua calça, juntamente a cueca. Quando suas mãos pegam em minhas
pernas, engulo um seco e fecho os olhos ao sentir seu pênis ser passado
levemente por minha intimidade.
— Olhe para mim. — Ele diz com a respiração pesada. — Quero que olhe
para mim enquanto te fodo.
Abro meus olhos e encaro aquele castanho mel, que se encontra fixos em
mim, como se gostasse do que estava vendo a sua frente. Ele solta minhas
pernas, que por instinto entrelaço em volta de sua cintura, fazendo-o sorrir e se
aproximar de meus lábios para um beijo calmo. Zared se empurra para dentro
de mim e tento sair de seus lábios para soltar um gemido de dor, mas sou
impedida por ele, que morde meu lábio inferior com força enquanto se coloca
por completo.
— Porra! — Ele xinga, agarrando em minha cintura e iniciando seus
movimentos que me causam dor. Não como mais cedo quando tirou minha
virgindade, mas uma dor um pouco menos incômoda. Agarro nas correntes
que me prendem e as aperto com toda a força que consigo, o que não é muita já
que me sinto destruída fisicamente.
Os gemidos de Zared ecoam pelo quarto junto com a música. Em alguns
momentos um palavrão escapa de seus lábios, em outros, ele me aperta com
mais força: — Segura em mim. — Ele manda ainda gemendo. Aperto minhas
pernas em sua cintura de forma mais firme e quando uma de minhas mãos é
solta, passo o braço em torno de seu pescoço e escondo o rosto entre ele e meu
braço. Sinto minha mão direita se livrar da corrente e também a entrelaço em
torno de seu pescoço, abraçando-o com firmeza, para a surpresa de ambos.
Ele caminha até a cama redonda e me deita no meio dela. No momento
em que minha cabeça é pousada sobre o travesseiro macio, seus olhos
encontram os meus e ficam me encarando. Minhas mãos são levadas para cima
da cabeça, com as suas segurando meus pulsos, impossibilitando-me de movê-
las. Seus lábios se curvam em outro sorriso e ainda olhando em meus olhos, ele
se ajeita no meio de minhas pernas e volta a se colocar dentro de mim. — Te
peguei… — Ele ri e toma meus lábios com um beijo mais intenso que o outro.
Seus movimentos são rápidos, misturando com a música, nossos gemidos.
É inevitável não deixar os sons saírem de nossas bocas, eu obviamente não
sentia nem o começo do prazer que Zared sentia, por isso meus gemidos eram
a mesma coisa que um resmungo de dor, já os dele eram baixos e roucos que
soavam lentamente em meu ouvido. E de alguma forma, aquilo era excitante,
cada som que saía de sua boca, incluindo os palavrões que saiam em formas de
gemidos, eram excitantes. — Me beije, Baby Girl. — Ele pede, aproximando-se
de meu rosto novamente. Suas mãos soltam meus pulsos, que automaticamente
levo para seus cabelos, puxando-o para mim. Nossas línguas exploram
desesperadamente cada canto de nossas bocas e a cada toque entre elas, seu
corpo se arrepiava. Envolvo meus dedos finos em torno de seus cabelos e os
puxo, fazendo-o apertar os dois travesseiros ao lado de minha cabeça. — Faz
de novo.
— O quê? — Pergunto ofegante.

62
— Puxa a porra do meu cabelo de novo, caralho. — Ele diz, impaciente
enquanto se empurra para dentro com mais força. Volto a beijá-lo e puxo seus
cabelos com mais força, desta vez fazendo-o gemer. Ele para seus movimentos
e se coloca ao meu lado. — Deite de lado e fique de costas para mim.
Afirmo com a cabeça e faço o que me é mandado. Sinto a cabeça de seu
pênis em meu rabo e mordo os lábios com força ao senti-lo entrar. Aquilo doía
ainda mais do que na parte da frente. Sua mão direita vai para o meio de minhas
pernas e introduz dois dedos fazendo-me gemer.
— Te comer por trás chega a ser ainda melhor. — Ele geme e morde meu
ombro enquanto fazia os movimentos. — Brinque com seu clitóris.
Afirmo ao sentir o impacto de nossos corpos e levo a mão para o local
mandado, sem ao menos saber que brincar com ele.
— Dê-me seus dois dedos aqui. — Ele manda e lambe toda a extensão
deles, deixando-os bem molhados com sua saliva. — Tenho que dar um de
sexólogo enquanto te fodo, até que tem graça. — Ele solta uma risada. —
Agora leve-os de volta ao clitóris e faça movimentos circulares, mas sem
pressionar.
Balanço a cabeça, gemendo baixo e faço. Isso está começando a ficar bom,
estou sendo preenchida pelas duas formas que conheço e mais essa brincadeira
que tive que fazer, deu um toque a mais para a posição.
Ele geme mais e começa a lamber meu pescoço, deixando mordidas e
chupões na pele fina do local. Abro a boca ainda mais e gemo mais alto: —
Foda-se, não quero gozar assim. — Ele diz, saindo de mim e tirando seus dedos.
— Deita normal, abra as pernas e se masturbe.
— O-O que? — Pergunto, encarando o homem a minha frente.
— Quero que se masturbe para mim. — Ele revira os olhos.
— Eu não sei fazer isso. — Digo baixo e ele se aproxima, pega minha mão
e chupa dois dedos meus, antes de guia-los para o meu meio.
— Vai enfiá-los aqui e movimentá-los rapidamente para saírem e entrarem
em você. Entendeu? — Ele pergunta, afastando-se um pouco e colocando seu
pênis na mão. — Agora.
Passo a língua pelos lábios e penetro os dedos, levando-me a morder os
lábios. Olho para Zared, que me encara com um pequeno sorriso nos lábios.
Acelero os movimentos e começo a gemer, logo os gemidos grossos dele se
juntam aos meus. Volto a encará-lo e vejo-o se masturbar sem tirar seus olhos
de mim. Com a mão livre, agarro o travesseiro e gemo, sentindo algo quente em
meus dedos. Tiro meus dedos de mim, recebendo um olhar furioso dele
engatinho; nem ele esconde a cara de espanto.

63
Fico de joelhos e me aproximo de seus lábios, e inicio um beijo que ele
retribui calmamente. Desço minha mão para a sua que ainda encontrava-se
movimentando, ao sentir meu toque ele tira a sua e para o beijo para me encarar.
Abro um pequeno sorriso sem jeito e pego em seu membro fazendo
movimentos rápidos, seu braço esquerdo passa a volta de minha cintura, o
direito para meu rosto e ele inicia um beijo calmo. Continuo a movimentar
minha mão na mesma velocidade, quando ele pulsa, o beijo é interrompido e
um gemido mais alto sai de sua boca, enquanto o líquido branco cai no lençol
vermelho de ceda.
— Isso foi um tanto surpreendente. — Ele diz sorrindo. Encolho os
ombros e aperto os olhos ao sentir minha queimadura voltar a dar sinal. —
Vamos embora, vou cuidar de você. — Sua voz soa cautelosa.
Não digo nada, apenas me arrasto para fora da cama e com dificuldade,
pego minhas roupas do chão e as visto com cuidado. Quando estamos fazendo
sexo, a única coisa que pensamos é naquele momento e toda a dor que estou
sentindo passa, mas quando paramos, tudo vem em dobro e meu corpo parecia
ter passado no meio de uma roda punk.
Zared se veste e pega em minha mão, me puxando para fora do cômodo.
— Não temos que arrumar o quarto? — Pergunto baixo.
— Não, as garotas que não trabalharam hoje fazem isso. — Ele dá de
ombros e passa o braço em torno de meus ombros, levando-me para a área das
mulheres em que estávamos antes e se encontrava mais cheia do que quando
chegamos.
— Quando elas param? — Pergunto sendo puxada ainda mais para ele
enquanto passamos pelos homens bem vestidos e perfumados que lotavam o
lugar.
— Só depois de completarem vinte e quatro horas de serviço, e as que não
cumprem as ordens, ficam quarenta e oito horas. — Ele explica, abrindo a
porta da frente.
— Isso é horrível, elas passam por coisa pior do que… — Desisto de falar
quando seus olhos voltam a me encarar pelos cantos. — Desculpe.
Vamos até seu carro estacionado na parte dos fundos e entramos, voltando
com o mesmo clima tenso de antes. Voltamos para a casa silenciosa; se não
houvesse tantos homens parados em uma bela formação, no portão e a cada
canto, poderia dizer que estamos sozinhos. Ele para o veículo na única vaga em
sua garagem, volta a pegar em minha mão e me puxa até meu quarto. Assim
que os vigias nos veem, eles arrumam suas posturas e abrem a porta para

64
entrarmos no cômodo. Ao entrarmos, Zared me guia até o banheiro, solta
minha mão e se afasta.
— Tome um banho, não precisa se apressar. Estarei te esperando aqui fora.
— Ele diz parecendo estar confuso, e sai.
Encho a banheira, jogo um dos sabonetes líquidos na água morna, tiro a
roupa e no momento em que entro, meu corpo inteiro começa a arder. Minha
visão fica embaçada, o nó em minha garganta se torna ainda maior e começo a
chorar.
Não quero nada disso, nunca pensei na possibilidade de algo tão terrível
acontecer comigo, o máximo que me vinha a cabeça era de todos meus planos
não saírem como planejado, que ser veterinária não fosse tudo o que esperava,
ter problema com contas após me mudar do apartamento da Alison, não dar
conta das coisas. Mas ter minha melhor amiga estuprada, morta e mutilada, ser
sequestrada e ser um saco de tortura, jamais passou em minha mente.
A verdade é que agora sou sua boneca, assim como qualquer outra, posso
ser descartada a qualquer momento por uma nova, apenas não quero me juntar
as outras que ele brincou, quero criar vida e ir embora.
— Por que está chorando? — Sua voz soa praticamente ao meu lado e
acabo me assustando.
— Por nada. — Digo, encolhendo-me.
— Diga a verdade. Se mentir para mim, será castigada e você não foi
castigada ainda. — Ele diz, ajoelhando-se ao lado da banheira.
— É que estou sentindo-me horrível. Eu não queria nada disso, só
terminar a faculdade, trabalhar e ter uma vida calma. Eu… Eu só não queria
nada do que está acontecendo. — Digo, demonstrando meu desespero.
— Ser humano é se sentir mal. É ficar errado. É sentir medo e não poder
fazer nada. E você é humana. — Ele diz, deixando logo em seguida um beijo
em minha testa. — Fique aí até se acalmar. — Ele pega a caixa de primeiros
socorros e sai novamente, deixando-me sozinha.
Puxo minhas pernas para mais perto e enterro minha cabeça entre elas,
deixando mais algumas lágrimas caírem. Nunca fui de chorar, mas porque não
tinha realmente um bom motivo para isso, mas agora tenho, certo?
Já não fazia ideia de quanto tempo havia ficado ali chorando, mas a água
da banheira já se encontrava fria e meus dedos enrugados. Fungo e pego o
sabonete, enfim iniciando o banho. Ao terminar, esvazio a banheira, pego em
minha toalha, secando primeiro o rosto, depois o resto do corpo. Volto para o
quarto e me deparo com Zared sentado na cama com as pernas cruzadas,
mexendo no celular. Provavelmente tão concentrado que não notou minha

65
presença ali. Apenas quando abro o guarda-roupas é que sinto ele pegar em
meu pulso e me puxar com cuidado para a cama, onde nos sentamos.
— Vou cuidar de você, antes de se vestir. — Ele diz, encarando meus
olhos inchados.
— Não preciso que cuide de mim, posso te poupar disso. — Minha voz
sai rouca e baixa.
— Não estou te dando opção. Eu causei isso e eu irei tratar.
Suas mãos vão para o nó em minha toalha e o desfaz, fazendo o pano
molhado me tampar até a cintura. Ele ignora totalmente meus seios e se vira
um pouco, abrindo a caixa de primeiros socorros e tirando dela um algodão,
onde o molha em um remédio mais parecido com sangue, e o passa
delicadamente no Z que havia feito mais cedo. Resmungo e me afasto, sentindo
o local queimado arder.
— O remédio faz arder, mas é bom para limpar. — Ele explica,
aproximando-se de mim novamente. Aperto os olhos e gemo com a dor. Ele
coloca o algodão sujo sobre a tampa de plástico da caixa e tira de dentro dela
um tubo de uma pomada que conhecia, já que Alison costumava usar para
cicatrizar os machucados que ela tinha no corpo com frequência. Uma boa
quantidade do conteúdo é colocado em seu dedo e ele espalha com cuidado no
local que se encontrava em carne viva. — Não vamos tampar, cura ainda mais
rápido se a ferida respirar. — Um sorriso cresce em seu rosto, enquanto puxa a
toalha pro lugar onde estava para voltar a me tampar.
— Por que está fazendo isso? — Pergunto, encarando as chamas que seus
olhos nunca deixavam de transmitir.
— Isso, o quê? — Ele pergunta, passando a língua nos lábios.
— Cuidando do machucado que você mesmo fez, de propósito. Por que
está fingindo que se importa? — Pergunto novamente, sentindo minha
respiração acelerar.
— Não me importo. — Ele dá de ombros. — Mas também não estou
fingindo, é uma forma de me redimir por ter feito o que fiz.
— Não era mais fácil pedir desculpas do que tocar em mim?
— Não peço desculpas, a última coisa que irá me ouvir dizer a você é um
pedido de desculpas. — Ele se levanta e sai do quarto.
Reviro os olhos, pego as coisas que ele deixou sobre a cama, jogo fora o
algodão e guardo a caixa no armário debaixo da pia. Vou para o armário, pego
as roupas íntimas minúsculas, uma blusa com o decote profundo preta, e uma
calça de moletom cinza e me visto. Apago a luz do quarto e me encolho de
baixo das cobertas, sentindo meu rosto ficar molhado por conta das lágrimas.

66
Eu só quero sair daqui e pagar uma terapeuta três vezes por semana, o resto de
minha vida.
A porta range e no mesmo instante me cubro ao máximo. Pela falta de
som, a pessoa deveria estar descalça. Uma mão é pousada em meu braço e sou
balançada de leve.
— Baby Girl, está acordada? — A voz de Zared soa num sussurro.
— Estou. — Respondo tirando a coberta do rosto.
— Vem comigo. — Ele diz num tom animado e aquilo me assusta ainda
mais do que vê-lo irritado.
— Para onde? — Pergunto lentamente.
— Odeio perguntas, então pare de fazê-las e venha logo. — Posso
imaginá-lo a revirar os olhos com a impaciência.
Levanto-me e tento enxergar algo naquela escuridão toda.
— Daddy? Onde você está? — Pergunto esticando os braços para tentar
tocar nele.
— Estou aqui. — Ele diz, encontrando minha mão e entrelaçando nossos
dedos. Aproximo-me e ele me puxa para um abraço firme, seus braço me
apertam contra seu corpo com tanta força que o ar já havia escapado de meu
pulmões. — Vem… — Ele sussurra e me puxa com ele enquanto me guia para
o andar de baixo. Passamos pelo salão, sala de jantar e entramo-nos na cozinha
incrivelmente grande.
— O que viemos fazer aqui? Vai cortar minhas mãos com a faca de cortar
carne? — Pergunto e ele ri.
— Não, se fosse para isso, teria te levado para o quarto onde ficou quando
chegou. Primeiro arrancaria suas unhas, depois cortaria a ponta de seus dedos e
tiraria a pele da sua mão, antes de colocá-la no fogo. — Ele diz abrindo a
geladeira e tirando algumas coisas de lá.
— Já pensou em fazer isso comigo? — Pergunto tremendo.
— Já pensei em fazer tantas coisas com você. Isso antes de tirar a porra da
sua virgindade. — Ele responde colocando um saco de batata para fritar
congelado, hambúrgueres, queijo, salada e presunto. — Senta aí. — Ele aponta
a faca para a cadeira do balcão de mármore.
Atrevo a contrariá-lo e vou para o seu lado, pegando outra faca no
faqueiro. Ele me olha e sorri. — Ou dê a volta pelo balcão e me ajude a fazer
nosso lanche. — Diz soltando uma risada nasalada. — Prometa-me uma coisa?
Franzo as sobrancelhas e olho para ele. Ele estava sobre efeito de alguma
droga? Primeiro cuida de mim, depois vai atrás de mim, me abraça, me puxa

67
para a cozinha, sorri e é simpático. Ou ele está drogado ou tem um irmão
gêmeo milhares de vezes melhor.
— Fala… — Digo desconfiada.
— Não faça nada que me leve a machucar você, não quero me sentir
arrependido todas as vezes que te ver chorar. — Ele diz olhando em meus
olhos.

68
Capítulo Onze

— Mesmo que eu faça suas vontades, você me machuca. Não tenho opção. —
Digo, abaixando meu olhar para o saco de pão. — Você é enigmático.
— Não seja perspicaz, Baby Girl. Garotas perspicazes me dão tesão, e já te
fodi muito hoje. — Ele diz de forma ameaçadora e me encolho. — Você corta
os pães e eu frito os hambúrgueres?
Balanço devagar a cabeça e abro o saco, enquanto Zared vai até o fogão
preparar a panela pra poder iniciar sua parte.
— Vai comer quantos? — Pergunto de forma quase inaudível.
— Dois. — Ele me responde, acendendo o fogo. — Serão bem grandes,
então você decide o quando vai querer. Contanto que seja o suficiente para te
manter firme.
Corto três pães no meio, coloco algumas coisas de meu agrado no que
seria meu, e nos outros dois, algumas coisas que ele disse que não poderia faltar
nos dele, e todos tinham que ser em grande quantidade. Após terminar de
preparar os pães, levo a batata até ele e coloco os hambúrgueres grandes em
nossos pratos.
— Baby Girl, ligue aquele rádio, deixe tocando a música em que está e
prepare um baseado para mim. — Isso não é um pedido, e sim uma ordem.
Ele tira sua blusa de mangas e a joga sobre o balcão de mármore escuro,
ficando apenas de samba-canção e o pano de prato sobre o ombro.
Viro-me em direção ao enorme rádio que se encontrava na cozinha, paro
em frente ao objeto e encaro seus inúmeros botões. Aperto em ligar e dou play,
onde imediatamente começa a tocar Bob Marley e junto com a música, a voz de
Zared acompanhava cada palavra; sem notar meu olhar sobre ele, ele faz uma
pequena dancinha que me faz soltar um riso baixo.
— Daddy, onde estão as coisas para fazer seu cigarro? — Pergunto
erguendo a voz.
— Quarta gaveta. Já tem o papel cortado do tamanho certo e a erva esta
dentro de um pacote.
Vou até a gaveta e me surpreendo com a quantidade de drogas que se
encontravam ali. Pego a maconha e um pedaço do papel para fazer um único
cigarro. Sento-me no balcão começando a preparar, coloco uma boa quantidade
no papel fino, enrolo e passo a língua por todo o fim da folha para poder fixar.
Vou até o homem que cantarolava a música baixinho e entrego a ele, que me
olha surpreso.
— Fez sem dificuldades… Tem alguma coisa que queira me contar? —
Ele pergunta ao cruzar os braços.
— Não me drogava, se é a isso que se refere. — Respondo não querendo
entrar naquele assunto.
— Ele esta feito com perfeição. — Ele insiste.
— Alison fumava maconha e usava cocaína para poder relaxar, então ela
me obrigou a aprender a fazer para ela. — Digo, engolindo um seco ao lembrar
de minha amiga.
Ele dá de ombros, acende seu baseado e volta sua atenção para o fogão.
Dou as costas para ele, indo em direção ao balcão e me sento na banqueta
acolchoada, apoiando meu queixo na mão.
A música troca para Is This Love, que assim como as outras dele, eu
conheço. Gosto de escutar Bob Marley pelo motivo de ele falar sempre de
liberdade, paz, amor. E o mais irônico de estar tocando agora, é o fato de eu
não ter nada disso.
Começo a cantarolar baixo enquanto olho fixamente para uma faca, mas
sem prestar atenção nela. Minha mente viajava para meu passado e o quanto eu
não o aproveitei, que passei minha vida toda estudando para no fim não me
formar e acabar sendo uma boneca sexual humana. Um barulho soa ao meu
lado, fazendo-me pular e vejo Zared com a mão estendida em minha direção,
com o cigarro no canto de sua boca, os olhos ainda se encontravam da cor
natural, os músculos relaxados, seus cabelos amarrados em um pequeno rabo
de cavalo e a barba de forma desleixada. Estava incrivelmente charmoso.
Pego em sua mão e sou puxada imediatamente para seu corpo, onde ele
me prende com seus braços a minha volta. E pela a forma que ele me segura,
deixava bem claro que não tem a intenção de aumentar a velocidade da dança.
Repouso a cabeça em seu peito e o abraço.

70
— Eu quero amá-la e tratá-la direito. Eu quero amar você a cada dia e cada
noite. Estaremos juntos com um teto bem em cima das nossas cabeças. Nós
iremos compartilhar o refúgio da minha cama de solteiro, iremos partilhar o
mesmo quarto, sim, porém Jah proverá o pão. — Sua voz soa baixinho. Ele tira
o cigarro dos lábios e o joga no chão, pisando em cima, mas sem reclamar da
dor de uma provável queimadura. — Sabe, nunca dancei com ninguém como
danço com você. E isso é uma droga, você está em tantas exceções.
— Porque sou virgem, isso não muda o fato de que sou igual as outras
com quem já esteve, apenas não me matou de primeira por eu ser virgem. E só
não faz isso agora porque lhe proporciono um prazer maior por ser, como você
diz, apertada. — Digo sem qualquer emoção na voz.
— Não, eu não te matei, porque você é a minha garota, a garota que pode
me dar o que eu quero, e me faz sentir… Diferente. — Ele diz, fazendo uma
careta.
— O que você quer? — Pergunto levantando a cabeça para olhar para seu
rosto.
— Tenho que te dizer quantas vezes que odeio perguntas? — Ele carranca
e se afasta.
— Desculpe. — Digo rápido, temendo receber um tapa ou qualquer outra
coisa que possa me machucar.
— Que seja. — Ele da de ombros e pega o prato cheio de batata, e o
coloca na pequena mesa que tinha ali na cozinha mesmo. — Venha comer.
Vou até ele e me sento em sua frente, encarando meu enorme lanche e as
inúmeras batatas, que formavam um monte no prato que se encontrava no
meio da mesa.
— Tem ketchup aqui. — Ele diz sem me olhar e coloca o pote do molho
em minha frente.
— Você está começando a ter olheiras. — Digo olhando para seu rosto.
— E você já as possui. — Ele abre um sorriso grosso e morde um pedaço
de seu pão cheio de coisas.
— Estamos em casos diferentes, eu sofro e você usufrui do que quiser. —
Digo.
— Já disse, meu trabalho é durante a noite, sempre tenho coisas para
resolver e já faz dois dias que não durmo. — Ele explica desinteressado.
— Por que não deita e relaxa um pouco? — Pergunto e ele me ignora,
enchendo sua boca com batatas cobertas por molho picante. — Daddy…
— Sem perguntas. — Ele cospe.
— São perguntas inofensivas.

71
— Eu disse sem perguntas! — Ele grita, nervoso, fazendo-me pular para
fora da mesa por instinto. Um suspiro longo e pesado sai de sua boca. —
Sente-se. — Ele manda, controlando-se. Volto a meu lugar e fico encarando
minha comida. — Por mais que eu tente, eu não consigo dormir, nem com
remédios.
— Por quê? — Pergunto baixo.
— Porque penso demais no meu trabalho, apenas isso. — Ele aponta para
meu lanche. — Agora coma.
A última hora que passamos naquela mesa foi extremamente silenciosa. Eu
estava cheia de perguntas para lhe fazer, como sempre. Perguntas mais
relacionadas às virgens, ao que o Hayden do puteiro disse sobre Zared estar
arriscando a vida por mim, entre outras.
— Pode me levar ao cemitério? — Pergunto e seus olhos param em mim
pela primeira vez desde sua última reposta.
— Quer ir ao cemitério? — Ele ergue as sobrancelhas.
— Sim. — Afirmo.
— Por que quer ir lá? — Ele pergunta, rude.
— Não sei, apenas quero.
— Mas não irá. — Ele diz friamente. — Vem, está na hora de você voltar
para a cama.
Levanto-me e sigo-o até o andar de baixo, desta vez sem qualquer contato
físico. Nossos passos são silenciosos, já que nos encontramos descalços. Ao nos
verem, os seguranças arrumam suas posturas e abrem a porta.
— Estão dispensados por essa noite. Quero que vão até o Jack e peguem o
que ele me deve. Digam que se ele não me pagar, irei atrás dele pessoalmente, e
voltem com meu dinheiro ou serão castigados. Fui claro? — Zared diz sem
qualquer emoção na voz que sai autoritária.
— Sim, senhor! — Os dois homens dizem e saem.
Não escondo a surpresa em meu rosto assim que vejo Zared entrar em
meu quarto e me esperar ao lado da porta. Passo por ele, indo em direção a
minha cama, onde me sento com as pernas cruzadas enquanto encaro aquele
homem que fecha o pedaço de madeira e se vira para mim.
— Achei que estava na hora de eu ir dormir. — Digo baixo encarando
seus olhos negros.
— E está. — Ele diz ainda parado diante da porta. Seus olhos estão fixos
aos meus, porém não transmitiam qualquer tipo de pistas sobre seu humor. Ele
estica seu braço para o interruptor e apaga a luz, deixando o cômodo
completamente escuro. Sinto meu corpo estremecer e o medo me invadir. Seria

72
agora? Ele me mataria? — Quero tentar uma coisa. — Sua voz soa perto e não
demora muito para seus lábios fazerem contato com meu ombro.
Fecho os olhos e passo minhas mãos para suas costas, puxando-o mais
para mim conforme vou deitando. Ele tira minhas mãos dele, entrelaça nossos
dedos e prende minhas mãos acima de minha cabeça enquanto inicia um beijo
intenso, um beijo em que fiz questão de me entregar completamente. O
empurro para o outro lado da cama e me sento sobre seu membro que
começava a criar vida em baixo de sua samba-canção. Volto a colar nossos
lábios, sentindo sua barba arranhar meu rosto.
Suas mãos descem para dentro de minha calça e apertam minha bunda
com força, fazendo-me descontar com uma mordida em seu lábio inferior, que
ao começar a sangrar, se curva em um sorriso. Zared está sorrindo, como queria
poder ver isso. Passo minha língua pelo lábio machucado dele e logo o gosto de
sangue invade minha boca.
— Vamos, Baby Girl, me mostre do que é capaz. — Ele diz com diversão
na voz, mas não me parece sarcasmo, e sim que ele está a gostar disso. Outro
apertão é deixado em minha bunda e ele me rouba um selinho, fazendo-o rir
com aquilo. — Vá dormir. — Ele diz rindo e me tira de cima dele. — Já te fodi
muito hoje.
Engatinho até o topo da cama, puxo a coberta e me deito, sentindo-me
mais aliviada por ele ter me mandado dormir ao invés de me usar novamente.
Posso dizer que gosto de seus beijos, afinal, ele beija muito bem, mas ainda não
me acostumei com a nova forma de contato que aprendi hoje.
Pois é, no mesmo dia em que perco minha virgindade, ele me usa duas
vezes.
Sinto a coberta ser erguida, e seu corpo colar ao meu, passando seu braço
em torno de minha cintura.
— Vai dormir aqui? — Pergunto baixo.
— Cala a boca. Apenas cala a boca. — Ele diz no mesmo tom que eu.
Não sei como devo agir ou o que pensar com relação a isso, mas que é
estranho, é. Ele matou minha melhor amiga, que era mais considerada como
uma irmã, para que eu pudesse me aproximar dele para, por fim, me sequestrar.
Torturou-me, me bateu, me esfaqueou e até me obrigou a fazer sexo, e sem
contar que uma hora está sendo legal, e na outra, está ameaçando me castigar.
Uma hora, ele nem olha para mim e na outra está a me beijar. Pra me deixar
ainda mais confusa em relação a ele, ele vem dormir comigo, me abraçando.
Antes tinha duvida de ele ser bipolar, agora tenho certeza.
— Dorme. — Ele diz calmo.

73
— Estou tentando.
— Não, não está, posso sentir que não está apenas pela batida de seu
coração. No que está pensando? — Ele me vira para ele, mesmo que não
pudéssemos nos ver.
— Apenas tentando te entender. Você é uma pessoa… Difícil. —
Respondo, sentindo seu braço voltar para minha cintura.
— Como assim?
— Você age de formas diferentes a cada minuto. Há poucas horas,
estávamos em um quarto com você a me machucar, e agora estamos deitados
na mesma cama com você a me abraçar. Eu tenho tentado, mas é tão complexo
saber o que você está sentindo, porque no minuto seguinte, pode estar a me
bater. — Sua mão vem para meu rosto e o acaricia.
— Então pare de tentar, ninguém nunca irá descobrir o que sinto. — Ele
sussurra.
— Eu quero descobrir, quero poder te entender, só assim poderei agir da
forma certa. Mas você não demonstra.
— Não demonstrar o que sinto é a melhor forma de esconder minhas
fraquezas, não posso deixar você descobrir quais são. — Ele suspira. — Sabe
por que eu não te matei ainda? — Balanço a cabeça negativamente. — Você me
lembra muito uma pessoa. — Seu polegar acaricia minhas bochechas. — Agora
durma.
Suspiro e me aproximo de seu rosto. O ritmo de sua respiração desacelera
no momento em que nossos lábios se encontravam a centímetros um do outro.
Movo minha mão para seu rosto e beijo seus lábios. Ele puxa minha perna para
cima de sua cintura e se coloca sobre mim, intensificando o beijo, que assim
como o outro, entrego-me por completo. Solto seus cabelos e entrelaço meus
dedos entre eles, dando um leve puxão, no qual Zared sorri ao senti-lo. Passo
minhas pernas em torno de sua cintura e o mesmo se movimenta, fazendo
nossas partes te tocarem ainda cobertas. Sua mão esquerda entra em minha
blusa e distribui apertões em meu seio.
— Merda, estou ficando duro. Deveria fazer você me chupar por ter me
excitado. — Ele diz em meu ouvido.
— Toque-me, Daddy. — Sussurro no seu, sentindo meu corpo arder. —
Faça-me sua por completo essa noite.
— Merda. Deveria me dizer essas coisas mais vezes. — Ele diz surpreso e
se apressa em descer minha calça que vai de encontro ao chão junto a calcinha.
Sento-me e tiro a blusa, ficando completamente despida. Aproximo-me dele,
que se encontrava ajoelhado a minha frente, passo a mão por toda sua barriga

74
definida e deixo beijos conforme vou me ajoelhando. Beijo seu pescoço e chego
a seus lábios, que tomam os meus de forma necessitada. Desço minha mão para
dentro de sua samba-canção, dou um leve apertão em seu membro ereto e
depois acaricio-o enquanto ele ainda me beija.
Sou empurrada para a cama e depois de um minuto, Zared abre minhas
pernas, se coloca no meio delas e entra em mim devagar.
Choramingo com o desconforto de tê-lo dentro de mim, mas não reclamo,
já que estava querendo isso. Após um tempo sem se mexer, apenas me dando
selinhos, ele começa a se movimentar devagar, deixando suspiros escaparem de
seus lábios.
Não dói mais, mas ainda é desconfortável. Lembro que li sobre que
quanto mais relaxada a mulher estiver, menos dor terá. E na terceira vez, as
coisas começam a se tornarem mais gostosas. Agora vejo que aqueles sites e
aulas no ensino médio estavam certos.
— Porra!— Zared xinga quando entra em mim. — Odeio sexo calmo,
caralho. — Ele diz novamente e rio. — O que foi? Não ria, estou fazendo isso
por você.
Sorrio e puxo-o para um beijo.
— Obrigada por isso. — Digo e desço um pouco mais para obter mais
contato entre a gente. Ele ri, se apoia nos cotovelos e aumenta a velocidade de
suas investidas. O som de nossos corpos se chocando apenas aumenta, assim
como os gemidos do homem sobre mim; os meus são baixos, não tão cheios de
prazer como os dele.
— Preciso que sinta prazer, preciso escutar gritos saindo de sua garganta.
— Ele diz, colocando-se em mim com mais força, conseguindo o que queria.
Solto gemidos altos e reviro os olhos enquanto ele entra e sai de mim com
agilidade e força. Levo minhas mãos para suas costas e as agarro, fazendo-o
parar e segurar meus pulsos acima da cabeça. — Jamais toque em mim para
deixar qualquer tipo de marca. — Ele diz. Sério, e volta a se movimentar,
causando-me agonia por estar presa.
— Ah, Daddy! — Meu gemido sai fino e alto, chegando a meu limite.
Zared se movimenta mais algumas vezes e pulsa, também chegando a seu
limite.
Ele sai de dentro de mim e se joga ao meu lado. Nossas respirações
descontroladas, assim como os batimentos cardíacos. Ele acende a luz do abajur
que fica na mesinha de cabeceira ao seu lado e me encara sem uma expressão
fixa, seu corpo está suado, cabelos bagunçados e seu peito sobe e desce

75
rapidamente. Ele se levanta da cama e vai até o banheiro, voltando com um
comprimido em mãos.
— Tome. — Ele diz enquanto volta a se deitar sob as cobertas. Encaro o
remédio em minha mão e depois olho para ele.
— O que é? — Pergunto.
— Um remédio. — Ele levanta as sobrancelhas.
— Que tipo de remédio? — Pergunto novamente e ele revira os olhos.
— O que vai te impedir de ter um filho meu.
Imediatamente coloco o comprimido na boca e engulo, bebendo um
pouco de água que tinha na jarra ao meu lado.
— Obrigada. — Agradeço e volto a me deitar, mas dessa vez sinto o sono
vir. Ele boceja, apaga a luz e me abraça, deixando um beijo em meu ombro.
Fecho meus olhos e com certa dificuldade durmo.

Acordo e Zared já não está mais ao meu lado. Espreguiço-me, sentindo meu
corpo todo doer e resmungo de dor ao levantar. Vou até o banheiro, preparo
meu banho e entro na banheira, fazendo meu corpo reagir de uma boa forma
com o contato com a água quente. Prendo o cabelo num coque, fecho os olhos
e encosto a cabeça na parede gelada.
— Seu dia está bom? — A voz dele soa na porta do cômodo.
— Não sei, está? — Pergunto abrindo um olho para olhar para ele.
— Acho que sim, dormiu o tempo todo. — Ele responde, cruzando os
braços enquanto percorre o olhar pelo meu corpo visível pela a falta de espuma.
— Que horas são? — Pergunto, tentando me tampar.
— Vão dar 18h00. Só vim falar que te quero pronta antes das 18h30,
tenho que ir a um lugar e você tem que ir comigo. — É tudo o que ele diz antes
de dar a volta e sair dali. Tomo meu banho rápido, enrolo-me na toalha e vou
até o quarto, onde vejo uma blusa preta grande, uma jaqueta de couro, um short
jeans curto e um coturno também preto. Ao lado tinha uma lingerie vermelha
rendada.
Visto-me rápido e vou até a penteadeira desembaraçar meus cabelos e
fazer uma maquiagem legal. Por incrível que pareça, tinha um kit de pincéis,
sombras, bases, corretivos, delineadores, rímel e batons. Faço primeiro a pele,

76
não passando muita coisa, apenas o essencial para esconder minhas olheiras,
depois arrumo a sobrancelha, faço o delineador, passo o rímel e para finalizar,
um batom roxo escuro.
A porta se abre e como ontem, pulo para fora da cadeira. Zared me olha
de cima a baixo e passa a língua nos lábios.
— Pronta? — Ele pergunta voltando sua atenção para meu rosto.
— Só vou passar o desodorante e podemos ir. — Digo e passo o
desodorante, depois um perfume. Agarro a jaqueta de couro e a coloco
enquanto corro em sua direção.
— Vamos ter que tratar de negócios quando voltarmos. — Ele diz,
agarrando em meu braço com força. Engulo um seco e balanço a cabeça
afirmando. Sou puxada para a garagem onde vejo mulheres apenas de lingerie
entrando em uma van. — Você não vai com elas, vamos. — Ele diz friamente e
entra em um de seus carros pretos. Dentro do carro, eu podia ouvir o choro
delas.
— Para onde vamos? — Pergunto baixo.
— Não interessa. — Ele cospe. E assim que a van sai, ele vai logo atrás.
Encolho-me no banco do passageiro, coloco o cinto e viro a cabeça para
encarar a vista da estrada. Aquele lugar não tinha qualquer vestígio da cidade,
era apenas mato, árvores, terra. Mato, árvores e mais terra. A mão de Zared
pousa em minha perna e deixa um pequeno apertão.
— Você está muito bonita, Baby Girl. — Ele diz, desviando seu olhar para
mim por uns segundos.
— Obrigada. Você também. — É tudo o que respondo antes de voltar
minha atenção para a vista que agora não se passa de um borrão. — Qual é a
utilidade das mulheres na van? — Pergunto.
— Cada uma ali é contada como dinheiro.
— Como assim?
— Verá quando chegarmos. — Ele responde, tirando sua mão de mim e a
coloca de volta no volante.

Zared
Ao chegar ao local onde acontece o evento, estaciono meu carro na área
reservada, onde se encontram apenas quatro. Logan está aqui. Abro a porta do
automóvel e quando Skye está para sair, agarro em seu pulso com força,
fazendo-a se virar para mim.

77
— Tente qualquer gracinha que arranco suas mãos. E não saia de perto de
mim em momento algum, entendeu? — Ameaço-a.
— Sim, Daddy. — Ela afirma e por fim, solto seu braço. Tranco o carro e
vou até a garota que transborda o medo. Pego sua mão e a puxo para o lugar
lotado por carros, mulheres nuas, música alta, jogos. Nolan mais uma vez se
superou.
— E aí, Z! — Ele grita assim que me vê. — Essa é a sua virgem? — Olho
para Skye, que estava encolhida e horrorizada com o local. Mesmo que fosse ao
ar livre, era uma mistura de cassino, racha e puteiro. Dinheiro ali não valia de
porra nenhuma, as mulheres são a forma de pagamento.
— Essa é a Skye. — Digo e ele olha para ela dos pés a cabeça.
— Você serve perfeitamente! — Ele diz, mordendo os lábios.
Ela para sem entender nada e agarra mais minha mão. Todos que passam
por nós olhavam-nos curiosos e isso está me tirando do sério.
— Serve para o quê, caralho? — Pergunto, começando a ficar irritado pela
a forma que ele a analisava. Ela é minha porra, ninguém pode olhar dessa forma para
ela.
— Para soltar a bandeira de largada! — Ele diz como se fosse obvio.
— O quê? Porra, não! Nem fodendo que vou deixar você fazer essa merda.
— Digo, mas sou ignorado e ele a puxa de mim.
Se fosse qualquer outra pessoa eu teria metido um tiro no meio da cabeça,
mas era apenas o filho da puta do Nolan. De qualquer forma, é a minha virgem
que ele vai expor para mais de cinco mil filhos da puta. Sigo-os e paro ao lado
de um carro esporte.
— Ei, Z, vai correr? — Logan pergunta, levando uma garrafa de cerveja
até os lábios.
— Não é da sua conta L. H. — Cuspo, tentando ignorar a presença dele.
— Na verdade ele vai sim. — Nolan diz. — Entra nessa merda de carro, Z.
Logan abre um sorriso perverso e joga a garrafa de vidro no chão.
— E o que vai apostar? — Logan pergunta antes de entrar no outro
carro.
Olho para os lados e no mesmo instante meus olhos param sobre Skye,
que estava tendo sua blusa cortada. Eu mato esse loiro filho de caralho por isso!
— Minha virgem. — Respondo em voz alta e entro no veículo ao meu
lado, sentindo todos os olhares postos sobre mim. — Se você ganhar, fica com
a minha virgem.

78
Capítulo Doze

— O quê? Está louco? Sabe que se ele ganhar… — Nolan começa a falar e
imediatamente levanto a mão para que ele cale a boca, lançando-lhe um olhar
sério.
Já estava cansado de ouvir o que me aconteceria caso uma das milhares de
coisas acontecesse a Skye. Tomar a decisão de que ela seria minha vigem não foi
algo tão difícil, mas também não foi fácil. Aquilo me levou a uma reunião de
três horas com Leon a me dizer coisas que eu obviamente já sabia, mas estava
disposto a correr o risco, apenas para tê-la a gemer embaixo de mim.
Posso ser basicamente um homem obcecado por sexo, mas fodê-la é ainda
mais satisfatório do que qualquer uma das putas. Porra, sou o primeiro a chupá-
la e a estar a foder aquela boceta e rabo. Ela pertencia a mim, apenas a mim.
— Eu sei exatamente das consequências. — Cuspo e coloco o cinto que
me prende dos dois lados. — Tome conta dela enquanto corro, não quero esses
babacas em cima do que é meu.
— Z, aposte outras garotas, faço empréstimo das minhas, mas não aposta
a porra da sua virgem. — Ele suplica, me deixando nervoso.
Não sei por que diabos ele está tão apavorado. Afinal quem vai correr sou
eu, e a virgem é minha, então ele basicamente não tem motivos para se
encontrar desta forma. Não arriscaria minha vida se não me garantisse. A
última coisa que eu faria seria perder essa racha.
— Qual é a aposta dele? — Pergunto, ignorando sua súplica.
— Você é um burro do caralho, Z! — Ele diz, atordoado, e vai até Logan,
eles trocam poucas palavras e Nolan volta até mim, deixando claro seu medo
pelas as consequências que terei que pagar caso tenha de entregar Skye.
Regras de merda.
— Então? — Levanto as sobrancelhas.
— Ele quita todas as suas dívidas e lhe paga 50 mil. — Empurro-o da
minha frente e encaro o puto do L. H.
— Corro risco de morrer se perder minha virgem e a única merda que
aposta é essa miséria, seu caralho? — Grito e ele da de ombros.
— Quito suas dividas e dou-lhe um milhão. — Ele revira os olhos.
— Melhorou. — Afirmo e ligo o veículo.
— Não acredito que vai arriscar sua vida por dívidas quitadas e um milhão;
nem sua casa custa só isso. Apenas me faça um favor e não perca, ou quem te
mata sou eu. — Nolan me ameaça e trocamos um aperto de mãos. — Boa
sorte irmão.
— Fique de olho na minha virgem, seu puto, se alguma coisa acontecer a
ela, corto sua garganta. — Digo e ele ri, mesmo sabendo que eu falava sério.
Conduzo o carro para a linha de partida, observando atentamente a
escuridão que se encontra a minha frente. As pessoas se amontoam para ter
uma vista melhor e gritam por seus favoritos.
Deveria estar sentindo-me nervoso, com medo de perder essa merda, mas
não me encontrava assim. Estava relaxado, sentindo a adrenalina subir-me a
cabeça. E do nada, tudo fica em silêncio e as batidas de meu coração se
intensificam, meus olhos encontram com os da garota, que agora se encontrava
completamente exposta, sua blusa não se passava de trapos, seu short estava
mais curto do que antes, seus cabelos soltos caiam sobre o peito, criando leves
cachos nas pontas. E seus olhos se encontravam desesperados, com medo.
Merda, aquilo me excitava, aquela vadia a minha frente me excitava pra caralho.
Desço a janela escura de meu carro e faço um sinal pra ela se aproximar. A
mesma vem o mais rápido que consegue e se curva ao meu lado. Sua boca
tremia tanto que dava ainda mais raiva por ela estar fazendo aquilo. Mas ao
mesmo tempo não consigo evitar o desejo de querer ela a me chupar.
— Vem cá. — Mando e ela obedece. Coloco a mão em sua nuca e a puxo
para mim, beijando-a da melhor forma que consigo, o que torna tudo ainda
melhor é que ela devolvia na mesma intensidade. Sério, preciso foder
loucamente essa puta. Afasto-me dela e encaro seus olhos.
— Por que me apostou? — Ela pergunta, segurando-se para não chorar.
Merda, Skye, não faça isso caralho.
— Porque não vou te perder. — Respondo de forma fria e fecho a janela.
Deixando-a ainda mais cabisbaixa. Foda-se.
Ela vai até seu posto e com a contagem regressiva dos filhos da puta
pervertidos, ela olha para a minha direção e tenta disfarçar as lágrimas que caem

80
de seus olhos. Foda-se. Fiz uma merda do caralho, não posso perder essa garota.
Piso no acelerador, levantando uma grande quantidade de poeira na parte
traseira enquanto mantenho o carro preso no mesmo lugar. Ela tira uma um
lencinho vermelho do sutiã. Aquele loiro dos infernos me paga por isso. Após
o três, ela desce suas mãos, iniciando a corrida.
Saio em alta velocidade com L. H. ao meu lado. Mesmo com os vidros
levantados, trocamos olhares competitivos e aceleramos mais. Conforme nos
afastamos do local, menos luz tinha, dificultando a visão da estrada de terra
cheia de curvas. Tento ligar os faróis, mas lembro que modificamos algumas
coisas nos carros pra tornar tudo ainda mais complicado para os pilotos. Logan
joga seu carro para cima do meu, tirando-me para fora da estrada.
Minha mente não funciona direito, está tomada pela a adrenalina e o medo
de perder. Minha respiração estava mais acelerada, assim como as batidas de
meu coração. O carro de Logan apenas se distancia enquanto encontro-me
parado a olhar para ele indo embora. Troco a marcha e me tiro do meio daquele
mato, voltando para a estrada de terra. Acelero ainda mais, fazendo as coisas lá
fora não passarem de borrão. Aperto os olhos e desacelero ao ver uma curva
fechada, e para minha sorte, Logan não faz o mesmo, indo direto para o buraco.
Solto uma risada nasalada enquanto volto a acelerar após passar daquele local.
Apostamos uma única volta e ao ver a luz novamente, abro um sorriso vitorioso,
já que Logan se encontrava distante.
Paro o veículo no mesmo lugar enquanto as pessoas comemoram minha
vitória e Skye sorri aliviada. Ela sai do lado de Nolan, corre até mim e me
abraça firme.
— Tive medo que perdesse. — Ela diz com o rosto enterrado na curva de
meu pescoço. Agarro em seus cabelos, puxo-os para trás e tomo seus lábios em
um beijo que intensifico, passando meus braços em torno de sua cintura,
puxando-a mais para mim. Ela continua sendo minha.
— Eu disse que ia ganhar. — Digo confiante. Solto-a e vou até Nolan,
dando-lhe um soco no rosto. — Isso foi por ter exposto o que é meu, seu
caralho.
O carro de Logan derrapa contra a terra levantando poeira, fazendo
algumas pessoas protegerem o rosto. Ele sai do veículo arrumando o cabelo e
bate a porta com força.
— Parabéns, Winter. — Ele diz, ainda com o mesmo sorriso convencido
no rosto, que some ao olhar além de mim. Viro-me e me deparo com Leon a
bater palmas de forma lenta.

81
— Vem, quero os quatro comigo agora! — Ele diz, sério. — Pode trazer
sua virgem. — Sua voz sai com desprezo ao se referir a Skye.
— Nolan, vá chamar Hayden. — Digo e agarro na mão da garota em
meus braços, puxando-a comigo enquanto sigo Leon.
As pessoas abrem caminho ao nos ver, mas não dizem nada, a menos que
queiram morrer. A garota olha para mim e balanço a cabeça negativamente.
Odeio perguntas e ela é cheia delas. Distanciamos-nos da área pública e
entramos na vip, onde duas mulheres nuas nos serviram com bebidas. Inclusive
a Skye, que tenta pegar seu copo, mas tiro-o de sua frente, lançando um olhar
feio para a garota que se encolhe na poltrona.
— Muita coragem apostar sua virgem em uma merda de racha, Zared. —
Leon diz, colocando uma perna sobre a outra, arrumando-se de forma
desleixada na poltrona a frente do sofá onde encontrava-me sentado ao lado de
Logan.
— Eu sabia que não ia perder. — Me gabo.
— Sabe que não quero fazer, mas se perdê-la por causa de uma aposta,
terei prazer em te matar. Que isso não se repita, estamos entendidos? — Ele
pergunta.
— Sim. — Respondo e ele levanta as sobrancelhas.
— Sim, o quê? —
— Sim, senhor. — Repito e reviro os olhos.
— Bem melhor. — Ele sorri, satisfeito. Logan coloca a mão sobre a boca
e ri, chamando a atenção de todos.
— Tem algum palhaço aqui, seu porra? — Pergunto, irritado.
— Tirando eles dois, sim. — Ele provoca.
— Calem a boca! — Leon nos repreende. — Logan, se rir mais uma vez,
farei de você uma mulherzinha. — O sorriso dele se fecha e não consigo
esconder minha satisfação.
— Podemos entrar, senhor? — A voz muito reconhecida pergunta.
Hayden.
— Já deveriam estar sentados. — Leon responde sem tirar os olhos
furiosos de nós. Nolan se senta ao meu lado e Hayden, ao lado de Logan. —
Nolan, que caralho aconteceu com seu rosto?
— Dei um soco nele por ter exposto minha virgem. — Respondo e o
homem me olha.
— Só responda quando estiver dirigindo a palavra a você, Z. — Bufo e
cruzo os braços como uma criança malcriada. — Nolan…

82
— Z me socou por ter mandado cortar a roupa da virgem dele. — Ele
responde, olhando-me em forma de desculpas.
— E por que não vejo nada no rosto dele?
— Porque não devolvi. — Nolan encolhe os ombros.
— Então faça.
— O quê? — Perguntamos ao mesmo tempo.
— Quero que devolva o soco que ele te deu.
— Não é necessário. — Nolan responde rápido.
— Não é uma opção. Faça logo.
O loiro se levanta e acerta um soco em meu olho, fazendo-me levar as
mãos para aquele local. Ele volta a se sentar ao meu lado, voltando a atenção
para Leon que dava um grande gole de sua bebida.
— Por que nos chamou aqui? — Logan pergunta após um tempo.
— Ele está vindo.
— Ele quem? — Perguntamos ao mesmo tempo.
— Joseff. Ele estará aqui em breve e as coisas não serão boas, preciso de
vocês.
— Joseff ? O que ele quer com a gente? — Hayden pergunta, surpreso.
Todos estão iguais a ele, confusos, surpresos, chocados. O que a máfia rival faria
aqui?
— O que acha que ele quer aqui, H. R.?
— Ele deve estar louco, é a única explicação para dar as caras por aqui. —
Nolan diz.
— Sim, eu ficaria se o chefe da máfia rival me roubasse a irmã.
— Roubou a caralha da irmã dele? — Grito.
— Só um pouquinho. As coisas estavam calmas demais, queria dar mais
trabalho pra vocês.
Olho para Skye, que estava ainda mais confusa e assustada. Seus olhos
estão arregalados e suas pernas tremem, não apenas por medo mas por frio
também.
Os barulhos de tiros começam junto aos gritos. Ele chegou. Todos nós
levantamos, tirando nossas armas da parte de trás de nossas calças. Puxo a
garota para trás de mim e aponto a arma para a porta, atirando no primeiro
homem que entra.
— Se ficarmos aqui, vamos acabar morrendo. — Digo, sentindo a
adrenalina me possuir novamente.
— Se sairmos também. — Logan retruca.

83
— Foda-se. Ninguém aqui veio preparado para uma merda de guerra,
precisamos sair daqui agora! — Grito nervoso.
— Ele tem razão. — Leon diz. — Vamos brincar. — Um sorriso perverso
toma conta de seu rosto e ele sai da sala com os outros logo atrás.
— O que está acontecendo, Daddy? — A garota pergunta apavorada.
— Não é assunto seu. Só seja esperta e fiquei perto de mim… E tente não
ser baleada. Vamos. — Pego em sua mão e saio da sala, atingindo mais um
homem na cabeça, fazendo Skye soltar um grito. Corro para fora da área vip,
me deparando com o lugar num completo caos.
Pessoas mortas no chão, feridas, outras fugindo e tinha os que se divertiam
no meio daquilo tudo. Eu estaria sorrindo enquanto matava os homens da
máfia rival, porém, estou preocupado demais com minha virgem e quero
apenas tirá-la daqui. Empurro-a para trás de mim e começo a atirar. Puxo-a para
trás de um carro e a abaixo ao voltar a atirar. — Se enfia embaixo do carro! Já
volto.
— O quê? Por favor, não me deixe sozinha.
— Não vou deixar nada além de mim te machucar. Volto para te buscar.
Agora vai para baixo do carro, isso não é um pedido.
Assim ela o faz. Corro para longe do veículo, indo em direção aos quatro
que estavam de costas um para o outro, acertando os que se aproximavam ou
tentavam acertá-los.
— Zared, achei que iria nos abandonar pra fugir do tiroteio com sua
virgem. — Hayden diz, atirando bem no estomago de um cara.
— Nunca abandonarei vocês, manos. — Respondo me juntando a eles.
— Z, isso foi um tanto viado. — Leon diz. — Não repita isso.
Rio e acompanho o movimentos deles, trocando de lugar e disparando um
tiro logo em seguida.
— Leon, devolva o que você tirou de mim. — Joseff grita.
— Deveria ter pensado em conversar comigo antes de acabar com minha
festa! — Ele responde. — Z, tire sua virgem daqui antes que ela acabe morta!
— Dão conta sem mim? — Pergunto.
— Suma daqui logo! — Ele grita.
Suspiro em frustração e corro de volta ao carro, ou pelo menos onde ele
deveria estar. Meu coração dispara e começo a entrar em pânico. Ela não está
aqui. Nem ela, nem o automóvel que a escondia.
— Skye! — Grito com o máximo de voz que consigo. Sem resposta. Olho
em volta e não a encontro, apenas pessoas a correr e outras no chão sem vida.
— Skye!

84
Capítulo Treze

Volto a fixar meu olhar para o chão, deparando-me com marcas bruscas de
pneus. Filha da puta. Passo as mãos nos cabelos, puxando-os em irritação.
Sinto o ódio subir-me a cabeça e a decepção se juntar a ele, não trazendo
uma boa coisa. Vou matá-la, porra!
Puxo o máximo de ar que consigo e saio correndo em direção ao meu
carro, derrubando qualquer um que me aparece em minha frente. Foda-se,
minha virgem fugiu, porra. Como não pude pensar nisso antes? Deixei-a perto
de um carro com as chaves dentro, estava pedindo para algo do tipo acontecer.
Pensei que, com o medo que tinha de mim, não ousaria fugir, ela sabe que vou
encontrá-la, afinal, estamos muito longe de qualquer civilização.
Não somos burros em abrir puteiros masoquistas, andar a matar e estuprar
as meninas na cidade. Então, nos afastamos das pessoas e criamos um lugar
apenas nosso, um local com apenas casas e alguns comércios, todos habitados e
gerenciados por pessoas como eu.
Meu coração está disparado e quase não tenho fôlego, mas mesmo assim,
forço minhas pernas a correrem ainda mais. Meu corpo começa a implorar por
descanso, por fôlego. Sei que se parar, irei cair no chão após meus músculos
não obterem mais movimentos, por isso solto o que me resta e busco por mais
enquanto desvio dos carros e pessoas que passam por ali desesperadas.
— Z! — Leon me grita. No mesmo instante, sou atingido por uma bala na
região da costela esquerda.
Perco o equilíbrio, quase caindo nas pedras sob de minhas botas, e me viro,
encarando o homem com a arma apontada na minha direção. Coloco a mão no
local e sinto o sangue molhar meus dedos, subo o olhar de volta para o atirador
sem um único sinal de dor. Levanto minha mão que segura a arma e atinjo-o no
meio da testa, fazendo seu corpo cair como lixo.
Se não estivesse tão tomado pela a adrenalina, a dor seria ainda maior. Mas
meus pensamentos estão voltados a outra coisa. Skye. E nas diversas formas do
que fazer com ela quando a recuperar.
Volto a correr, um pouco mais lento por causa da ferida. Com esforço,
consigo chegar ao fim da subida, agarro a grade e começo a subir, no entanto,
sou puxado de volta e caio sobre as pequenas pedras. Aperto os olhos e levo a
mão esquerda à ferida enquanto gemo de dor.
O indivíduo acerta-me um chute, o que me leva a apertar os olhos ainda
mais.
— Achei que fosse mais complicado, Z, pelo que ouvi falar, você é um dos
melhores empregadinhos de merda do L. W. — Ainda de olhos fechados, curvo
os lábios em um sorriso que logo dá seu lugar a uma risada nasalada de minha
parte. Ele tenta me atingir mais uma vez, mas agarro seu pé.
— Primeira coisa: Você bate como uma garotinha, até minha virgem é
melhor. — Acerto seu joelho com um chute, logo em seguida, passo minhas
pernas ao lado da sua, derrubando-o no chão. Ele resmunga, mantendo-se
ocupado demais com a dor. Vou para cima de seu corpo e dou-lhe um soco no
nariz que quebra no mesmo momento. — Segundo: nunca pegue seu adversário
pelas costas, é golpe baixo. — Bato com sua cabeça nas pedras pontudas pelo
menos duas vezes. — Terceiro e último: ouviu falar de mim, duvidou e olha o
engraçado: serei a última pessoa que verá. — Ele arregala os olhos ao sentir
minhas mãos de cada lado de sua cabeça. — Te vejo no inferno. — Sorrio e
quebro seu pescoço.
Pressiono minha mão no lugar atingido; enquanto reclamo de dor, levanto
de cima do homem já morto, volto para a grade e pulo para o outro lado, vendo
meu carro. Aproximo-me dele, destranco e pulo para dentro, já colocando a
chave na ignição. Ligo o veículo, dou a ré e saio disparado pelo caminho escuro,
porém muito conhecido. Ligo os faróis para enxergar algo, já que tudo não se
passava de uma completa escuridão. Ao ter ideia do que se passa lá fora, piso no
acelerador, causando um borrão na paisagem. Minha intenção é continuar a
acelerar até encontrar o maldito carro em que ela deve estar.
Volto a levar uma das mãos ao ferimento que sangra em grande
quantidade. Se não achá-la logo vou acabar morrendo, caralho. Voltar para casa
sem aquela vagabunda eu não irei. Consigo sentir minha visão ficar turva, e
meu corpo vai ficando cada vez mais fraco. Minha blusa tem um furo
encharcada de sangue, o tecido gruda em minha barriga e fica ainda pior.

86
Porra, estou sem saída! Se não achá-la e voltar para casa, Leon me mata. Se
eu não encontrá-la a tempo, morro de hemorragia. Que bela merda em onde foi
se enfiar, seu cuzão. Tusso algumas vezes, sentindo ainda mais dor, que mesmo
que estivesse sendo anestesiada pela adrenalina, consegue doer mais do que o
caralho. Limpo os olhos rapidamente e piso mais fundo no acelerador.
Essa filha da puta deve estar longe ou talvez nem tanto, é uma estrada
muito complexa. Minha visão vai se desfazendo aos poucos, minha respiração
começa a desacelerar e meu corpo se encontra mais pesado do que o normal.
Aperto os olhos e um sorriso nada legal se abre em meu rosto, a adrenalina
sobe e acelero o máximo, por mais que ela estivesse rápida, não se comparava
ao meu carro. Bato meu veículo contra o dela, fazendo-o perder o controle,
repito o mesmo ato e ele capota.
Ótimo! Piso no freio, só não indo contra o vidro por conta do cinto que
me prendia. Sinto o prazer de vislumbrar aquele carro de cor vinho girar e
afastar-se alguns metros do meu. Quando ele enfim para, mostra-se
completamente amassado e sorrio com a possibilidade dela estar machucada,
assim piorava sua situação depois.
Desprendo-me do cinto, abro a porta e saio dali, indo em direção a ela.
Abaixo-me ao lado do motorista, onde vejo uma ruiva desacordada e a seu lado,
minha garota, que olha para mim com os olhos trêmulos enquanto o sangue e
feridas tomavam conta de seu rosto. Dou a volta e abro a porta, vendo a garota
balançar a cabeça negativamente de forma desesperada.
— Te achei. — Digo de forma fria e com o sorriso igualmente frio.
— Zared, por favor… Não, por favor… — Ela tenta se afastar. Sem
resultado. Agarro em seus cabelos e a puxo para fora do automóvel amassado.
— Não! — Ela chora e aquilo não me causa mais o mesmo efeito de pena de
antes, e sim prazer.
— Já avisei que deve me chamar de Daddy sua piranha !— Grito puxando
seus cabelos para trás, dando-lhe um tapa na cara. Jogo-a no chão, acertando
chutes em qualquer lugar. Estava descontrolado, não me importava onde
pudesse pegar, contanto que a machucasse. — Achou que iria escapar de mim,
princesinha? — Pergunto, abaixando-me e agarrando suas bochechas. —
Ninguém foge de mim! — Fecho a mão em punho e dou-lhe socos. — Só se
livrará de mim quando estiver morta. — Outro soco no olho. — E não me
darei o trabalho de te enterrar, conheço cachorros famintos por aí! — Acerto
mais três e a solto, fazendo sua cabeça bater no chão de terra.

87
Seu choro é alto, demonstrava tanta dor que se transformava em uma bela
melodia. Olho para trás e me deparo com a ruiva a correr, sorrio, tiro a arma de
parte de trás da calça e acerto um tiro em suas duas panturrilhas.
— Bom, aparentemente vamos ter uma convidada para a nossa diversão,
Baby Girl. — Bato sua cabeça no chão, deixando a garota desacordada. Pego-a
no colo, e prendo-a no banco do passageiro de meu carro. Volto até a ruiva, que
chorava da mesma forma que Skye, agarro-a pelos cabelos e a arrasto pelas
pedras como se fosse merda, o que tecnicamente todas as mulheres eram,
merdas. Jogo a garota que deveria ter uns dezesseis anos no banco de trás e
analiso seu corpo de cima a baixo. — Se tentar qualquer coisa, arranco suas
orelhas. — Digo, fechando a porta. Pulo novamente para o banco do motorista,
sentindo minha visão falhar. Ligo o veículo e sigo em direção a minha casa, um
longo caminho para pouca força. Ao chegar, os seguranças abrem os portões.
Desço o vidro e não deixo de reparar a cara de espanto de Robert ao me ver.
Deveria estar pálido igual a um caralho.
— Quero duas pessoas na garagem a minha espera. — Cuspo e o mesmo
afirma.
— Sim, senhor. — Ele pega o rádio e comunica a duas pessoas.
— Ótimo. E não quero visitas, mande qualquer um embora.
— Sim, senhor.
Balanço a cabeça e me despacho para garagem, onde dois homens se
encontram a minha espera. Estaciono e saio do veículo, passando as mãos no
rosto.
— Levem as duas para o quarto de tortura. — Vou até a porta que dá para
dentro da casa. — E não encoste nelas ou mato eu vocês.
— Sim, senhor. — Os dois afirmam ao mesmo tempo.
Passo pelos diversos corredores, subo as escadas e ando por mais
corredores até abrir a porta de meu quarto. Tranco-me ali e vou até meu
armário, onde tiro uma pinça, álcool, gaze e esparadrapo. Tiro a camiseta, jogo-
a no chão, despejo o álcool sobre a ferida para limpar, agarro na pinça e levo-a
para o local, aprofundando ainda mais até alcançar a bala e a tirar dali.

Skye
Abro os olhos, sentindo meu corpo todo doer. Ao recuperar a visão, reconheço
de imediato o local, o quarto onde me encontrava quando minha vida acabou.

88
— Bom dia, Baby Girl. — A voz de Zared soa ao meu lado. Viro o rosto e
vejo-a sentado numa cadeira em frente a pobre Marian que estava presa a
cordas. — Acordou bem a tempo de me ver brincar com ela aqui. —
Estremeço e tento me mexer, porém as algemas se apertam ainda mais em
meus pulsos e tornozelos.
— Não faça nada com ela, por favor. — Digo já chorando.
— E por que não? Só quero me divertir um pouco. — Ele franze as
sobrancelhas e se levanta, vindo em minha direção.
— Ela tem apenas dezesseis anos, não faça isso. — Peço. Ele se abaixa em
minha frente, e me dá um tapa no rosto.
— Não posso foder outra virgem, estou preso a você. — Ele diz com os
olhos fixos aos meus. — De qualquer forma, poderíamos estar acordando
agora muito contentes. Claro, se você me obedecesse. Mas vamos começar de
uma forma mais divertida, não? — Um sorriso maldoso se forma em seus
lábios.
Ele vai até uma pequena mesa ali, pega uma faca e se aproxima da garota,
passando a lâmina pelo rosto dela, que implora para que ele não faça aquilo,
mas era como falar com uma parede. Ele tira os cabelos dela de perto da orelha,
pega nela e corta, fazendo a menina berrar. Ele joga a orelha arrancada no chão
e repete a mesma coisa com a outra. Meus olhos estão arregalados e meus
gritos causam-me ardor na garganta. Ele está mutilando uma garota de
dezesseis anos viva!
— Diz para aquela mulher ali o quanto dói, ela é a culpada por isso. Afinal,
você irá morrer e ela, não… Injusto, não? E tudo isso é culpa dela. — Ele diz
com diversão em sua voz.
— Para, por favor… Eu te imploro. — Ela suplica aos berros.
— Olhe para aquela vagabunda presa no colchão e diz o quanto dói! —
Ele grita e arranca um lado da bochecha dela.
— Para! — Grito com todo o ar de meus pulmões. — Por favor, para!—
Ele olha para mim e ri, mais ri com diversão, como se estivéssemos num parque
de exposição.
— Deveria ter pensado nas consequências antes de fugir, Baby Girl, as
pessoas pagam pelos erros que você comete. É uma assassina. — Ele diz sério.
— Não sou eu quem mata as pessoas. — Cuspo.
— Não? — Ele franze as sobrancelhas e brinca com a ponta da faca, que é
pressionada contra seu indicador. — Vamos pensar, começando pela a sua
querida Alison, fodi tanto aquela boceta dela que ela gritava, depois deixei que
meus capangas brincassem com ela, mas ela gemia tanto sendo comida por dois

89
ao mesmo tempo… E depois, morta com uma facada no coração e mutilada.
Tudo isso para você se aproximar de mim sem que eu me aproximasse das
pessoas. — Ele solta uma risada sinistra. Meu coração dói, e imagens disso
acontecendo são formadas em minha mente, o que me leva a chorar ainda mais.
Ele é um monstro. — Segunda pessoa: lembra-se da garota que trabalhava para
mim, a que tive que matar porque você simplesmente não me obedeceu? Bom,
ela virou comida de cachorro. Terceira: um de meus melhores capangas, lembra?
Ele encostou em você, morreu. E a melhor parte é que você viu tudo. E agora
essa garota, ela vai morrer também por sua causa, por ter tentado fugir de mim.
Skye, as pessoas morrem por sua culpa, eu apenas faço o serviço, mas quem as
mata é ninguém mais, ninguém menos, do que você.
— Não, não, não… — Digo, não querendo me conformar com isso,
mesmo que seja verdade. Todas essas pessoas morreram por minha causa.
Ele volta para mesa, tirando de lá uma faca ainda maior.
— E posso continuar matando-as por sua causa… — Ele diz, colocando a
faca entre a boca de Marian. — O tempo todo. — Ele pressiona o objeto para
trás e corta, deixando a faca presa no final da cabeça da menina. Grito em
desespero ao vê-la morta. — Agora, sua vez. — Ele abre um sorriso e vem até
mim.

90
Capítulo Catorze

Sem pensar em me soltar das algemas, Zared agarra meus cabelos e me arrasta
para fora do colchão, fazendo-me debater as pés, o que leva as algemas
apertarem ainda mais. Sinto minhas coxas serem arranhadas pelo cimento do
chão, parece que cada fio de cabelo que ele tem entre os dedos de sua mão está
arrebentando, e meu corpo arde pela quantidade de adrenalina.
Sou largada no chão, e no mesmo instante, o corpo sem vida de Marian cai
em cima de mim, fazendo-me gritar em desespero. O homem ri em
divertimento enquanto olha meu desespero e as tentativas falhas de tirar a
garota morta de cima de mim. Ele se aproxima, pega nos cabelos ruivos dela e
no momento que o puxa, a parte do lábio superior, até o topo da cabeça se
desconectam do corpo.
— Oh… Merda! — Ele gargalha enquanto olha para metade da cabeça em
sua mão direita. — Isso é novo. — Completa, já sem ar.
Volto a chorar em desespero, tinha um cadáver com o sangue ainda quente
em cima de mim e Zared estava rindo enquanto se divertia vendo meu estado
de pânico, ainda mais com a parte que ele segurava pelos cabelos. Começo a
gritar e graças a Deus, sua atenção volta para mim, fechando o sorriso sinistro
que tinha no rosto. Ele joga o que estava em sua mão para a parede onde faz
um barulho horrível, e chuta o corpo magro de cima de mim. Agarra meu
braço e me põe de pé, em seguida, tira uma chave do bolso de sua calça e me
livra das algemas.
— Pare de chorar! — Ele grita, agarrando em meus cabelos, me levando
para as cordas que antes prendiam Marian. — É uma piranha chorona.
Mordo os lábios e com a mão livre, limpo meus olhos enquanto sou
amarrada. Estava em alerta e sabia que ele iria me machucar, ou até me matar,
mas não conseguia mandar sinais pro meu corpo, tudo o que conseguia fazer
era chorar e tremer. Ele puxa minha mão com brutalidade pra longe de meu
olho, pega em outra corda e amarra meu pulso o mais apertado que consegue.
Sem dizer nada ou até mesmo olhar pra mim, se abaixa e também amarra meus
pés, imobilizando-me.
— Não vai precisar de roupa. — É tudo o que pronuncia. Ele se vira para
a mesa de metal cheia de objetos cortantes, chicotes, até mesmo uma cerra.
Suas mãos se dirigem para o fim da blusa que veste e a puxa pra cima, deixando
a mostra todas suas tatuagens.
Poderia dizer que era uma visão muito sexy, se ele não estivesse se
preparando para me machucar. A blusa é jogada na cadeira onde ele estava
sentado quando acordei, entretanto, ele fica imóvel, analisando tudo o que tem
ali com suas mãos apoiadas na mesa. Seus olhos se direcionam para mim por
alguns segundos, quando voltam para a mesa, ele vê o que quer e vem em
minha direção, coloca a faca entre os lábios e abre um sorriso que me faz
tremer ainda mais. Suas mãos agarram a gola cortada da minha blusa e a rasga
com facilidade, o mesmo acontece com o resto da roupa que me cobrem,
deixando-me nua a sua frente.
— Como eu disse, não precisa de roupa. — Ele diz após tirar o objeto da
boca. Ele morde os lábios, não escondendo o sorriso que tem estampado no
rosto na medida em que me olha de cima a baixo.
A lâmina viaja pela a região de minha barriga, desce para minha cintura, e
ao chegar em cima dos pontos ainda bem recentes, seu sorriso aumenta e o
objeto invade aquela parte, abrindo os pontos novamente. Aperto meus olhos e
deixo um grito sair de minha boca.
— Gosta de ser tratada como uma boneca? Então será! — Ele grita e gira
a faca, fazendo-me gritar ainda mais. Meus olhos continuam fechados, minhas
mãos se fecham. Todo meu corpo está contraído. Ele puxa o objeto dali e limpa
o sangue em minha barriga, continua a me analisar e no mesmo instante em que
vê a cicatriz que havia feito em meu braço em meu primeiro dia aqui, ele leva a
lâmina até lá e sem pensar duas vezes a enterra no mesmo lugar. As facas são
tiradas de meu corpo, sendo postas na mesa novamente.
Torno a fechar meus olhos, sentindo meu corpo doer e o sangue de meus
machucados abertos escorrer. O som de suas botas ecoa por trás de meu corpo
e quando para, uma chicoteada é dada ali, fazendo-me voltar a gritar. Cada vez
que o objeto de couro faz contato com minha pele, um grito pior do que o
outro sai de minha garganta. Zared não diz nada, apenas ia diminuindo
conforme cansava. Já podia me considerar fora de meu corpo, apenas minha

92
consciência funcionando naquele momento. Sinto minhas pernas serem soltas,
logo em seguida minhas mãos, fazendo-me cair no chão assim como corpo da
garota caiu em cima de mim. Ele torna a pegar em meus cabelos para me por
de pé, o que não é fácil já que estou mole.
— Por… Por que está fazendo isso? — Pergunto soluçando. E sou jogada
contra a parede.
— Porque você suplicou por isso, caralho! — Ele grita e me dá um soco
no estomago, em seguida, agarra em meu pescoço, prendendo-me na parede. —
E como sou um ótimo anfitrião, resolvi atender seus pedidos. — Sua mão
aperta mais, começando a me tirar o ar. Quando já não o tenho, sou solta,
entretanto recebendo um soco logo em seguida. Caio no chão, sentindo o ar me
faltar ainda mais. — Não preciso te amarrar para te castigar, é tão patética, tão
fraca que mesmo que mesmo livre, continua no chão chorando! — Sua perna se
afasta e me acerta com um chute.
Meus olhos ardem e doem, por mais que eu queira parar de chorar, ou
gritar, não consigo. Estou acabada, não havia mais nada que ele pudesse
destruir. Estava morta, e qualquer dignidade que tinha desaparecera no
momento em que fui jogada para dentro desse quarto pela a primeira vez, só
não tinha percebido.
Ele sobe em cima de mim e começa a me bater, dando-me socos. No
momento em que ele para, me olha horrorizado enquanto seu peito sobe e
desce de forma irregular.
— Por favor… Para. — Sussurro e vejo seus olhos se arregalarem. — Por
favor.
— Você… Você precisa aprender que não pode fugir… Não pode. — Ele
se levanta de cima de mim, ainda perplexo. Pelo pouco que consigo ver, seus
olhos estão fixos em mim, sua boca levemente aberta, enquanto sua mão
encontra-se fechada em punho, e com machucados.
Ele se vira e sai do quarto. Deixando o medo se apoderar do que resta de
mim, por mais que eu quisesse, não encontrava forças para me arrastar de volta
para o colchão. Então, quando já me encontrava sem a adrenalina, meu corpo
se torna pesado, e me vi desistindo de sair dali, me entregando ao cansaço.

Zared

93
— Não ouvi gritos o suficiente. — Leon diz, direcionando seu olhar para mim
no momento em que deixo o cômodo onde me encontrava com a Skye. Ele
tem os braços cruzados e a perna esquerda apoiada na parede, a minha espera.
— Foda-se, não consigo! — Digo frustrado.
Vou até a sala de estar e me sento no sofá, passando as mãos no rosto.
Leon vem logo atrás e senta-se ao meu lado, olhando-me de forma furiosa e
confusa ao mesmo tempo.
— Como assim não consegue? — Sua voz sai autoritária.
— Simplesmente não consigo castigá-la da forma certa. Bati nela quando a
encontrei, bati na garotinha, torturei, matei, e bati na Skye novamente. Minha
raiva dela ter fugido passou. — Digo e seus olhos ganham ódio.
— Está criando algum tipo de sentimento pela sua virgem, Z? — Olho
para ele de imediato.
Não, apenas olhar para ela naquele estado me fez parar e perder a coragem.
Estava uma Skye suja, coberta de sangue e suor, com o rosto cheio de
hematomas e cortes. E não a Skye que me deixa duro apenas de imaginá-la
sendo fodida por mim.
— Não. — Respondo sem uma expressão fixa.
— Melhor assim. — Um suspiro escapa de seus lábios. — Volte para
aquele quarto e castigue-a de forma correta!
— Não. — Respondo novamente.
— Se não levantar essa merda de bunda dessa porra de sofá, quem será
castigado será você por me desobedecer. — Ele rosna já sem paciência.
Passo a mão por minha barba e me viro para ele, desafiando-o.
— Que se foda. — É tudo o que digo, abrindo um sorriso no mesmo
instante.

Skye
Abro os olhos com muita dificuldade, encarando o lustre no teto. Arregalo os
olhos e passo as mãos pela a cama, sentindo os lençóis de seda. Esse não era o
meu quarto ou o de tortura, e sim, o de Zared. Franzo as sobrancelhas e me
levanto, deparando-me com uma grande quantidade de sangue que ia até o seu
banheiro. Por mais que eu quisesse andar rápido, sentia meu corpo me
repreender por isso, então me mantive em passos lentos.
Assim como no outro cômodo, o banheiro se encontra cheio de sangue,
chão, banheira, pia e espelho. Sinto meu coração acelerar, não tinha nenhum

94
sinal dele, estava tudo sujo, e eu me encontrava limpa. Afinal, quem foi que me
limpou?
— Pretendia limpar isso antes que você acordasse. — Dou um pulo e me
viro, deparando-me com um Zared cheio de marcas no rosto. Seus lábios
cortados e inchados, o olho com um grande hematoma roxo, e um corte na
bochecha. Ele veste uma calça de moletom preta, blusa de mangas cumpridas
vermelha, e uma touca da mesma cor, que puxava seus cabelos negros pra trás.
Um sorriso se abre em seu rosto e ele tenta se aproximar, mas recuo dois passos.
— Não vou te machucar. — Ele continua calmo e estende a mão para mim. —
Prometo.
Ainda receosa, volto a me aproximar e coloco minha mão sobre a sua,
fazendo seu sorriso aumentar. Ele me puxa para seu corpo e geme em dor no
momento em que bato contra seu peito. O que aconteceu com esse homem,
Jesus?
Ele acaricia minha bochecha com o polegar e por instinto, deito meu rosto
em sua mão. Sua mão livre desce para o fim de minhas costas, puxando-me
ainda mais para ele antes de aproximar-se aos poucos, e ainda olhando para
mim, ele junta nossos lábios em um selinho demorado, que se aprofunda
quando sua língua entrar em minha boca. Subo minhas mãos para sua barriga e
ele treme sob meu toque. Afasto-me um pouco e seus olhos encontram os
meus, adentro sua camisa e passo a mão pela a área de seu umbigo e a desço
pelo seu abdome, fazendo-o fechar os olhos e abrir um pequeno sorriso.
Ele nunca me permitia tocá-lo, por que está a deixar logo agora? E por que
eu o estou tocando mesmo depois do que me fez? Não sei, mas é novidade e
quero poder continuar. Passo a ponta de meus dedos por sua marca e vejo sua
respiração pesar.
— Por que está me deixando tocá-lo? — Pergunto baixo.
— Não pode me tocar para deixar marcas durante o sexo, mas pode me
tocar desta forma. — Ele responde da mesma forma que eu. — Entretanto, é
melhor pararmos por aqui. — Um sorriso gentil se forma em seu rosto. Suas
mãos vão até onde estão as minhas e as tiram. — Tem fome, Baby Girl?
— Um bocado. — Assumo, encolhendo os ombros, e outro sorriso se
forma em seu rosto.
— Ótimo. — Ele pega em minha mão e me puxa para fora do cômodo.
Os corredores estão vazios, assim como as portas, que antes eram guardadas
por dois homens cada uma. O que aconteceu por aqui? Está tudo tão…
Estranho, vazio, calmo. Continuo a olhar a procura de alguém, mas nenhum
sinal de outras pessoas além de nós dois. Ao passarmos pela a sala de jantar,

95
entramos na cozinha, que continha um cheiro ótimo. — Depois de dar-te
banho, trocar sua roupa e colocá-la em minha cama, vim aqui preparar algo
para comer, já fazem vinte e quatro horas que não come nada.
— Vinte e quatro horas? — Pergunto confusa.
— Não comeu nada desde ontem, quando saímos daqui. — Dá de
ombros e indica a mesa, caminho até ela e me sento. — Espero que goste. —
Ele coloca um prato de lasanha a minha frente. — Sou um bom cozinheiro. —
Diz sem jeito e fica me olhando, a espera que eu leve a primeira garfada a boca.
— Não vai comer? — Pergunto, desviando meu olhar da comida para ele.
— Já comi. — Ele diz.
— Oh, mas acho que tem muito aqui… Come comigo. — Digo, pegando-
o de surpresa.
— Quer que eu coma com você? No mesmo prato? — Afirmo. Ele se
levanta, vai até uma das gavetas do armário e se senta ao meu lado, quase
encostando em mim.
— Daddy? — Chamo sua atenção.
— Sim? — Ele desvia seu olhar do prato para mim.
— Cadê todas aquelas pessoas? — Pergunto.
— Dormindo, treinando, outros vigiando. Queria a casa vazia. — Ele
responde. — Agora sem perguntas, já disse para parar de fazê-las. — Sua voz
continua calma.
Balanço a cabeça. A última coisa que quero é ele nervoso comigo
novamente. Levo o garfo cheio até a boca, surpreendendo-me logo em seguida
com o gosto da comida. Zared olha pra mim com as sobrancelhas arqueadas,
mastigando o que tem na boca, a espera de uma resposta minha.
— Então? — Ele me incentiva a falar. A curiosidade estampada no rosto,
assim como a impaciência, que, por mais calmo que ele esteja, nunca o
abandona.
— Isso esta ótimo! — Digo, tapando a boca cheia. Seus lábios se curvam
em um sorriso satisfeito, ele se acomoda de maneira mais confortável na cadeira
e enche o garfo novamente.
— Eu sei, sou um ótimo cozinheiro. — Ele se gaba.
— É sim! — Concordo, ajudando a aumentar ainda mais seu ego.
— Te apeteceria se eu cozinhasse mais vezes pra você? — Ele pergunta
curioso.
— Seria ótimo. — Abro um sorriso sem jeito. — Mas poderia deixar ainda
melhor…

96
— Já vou perder meu tempo lhe fazendo comida, ainda quer mais coisas?
Não podemos oferecer o dedo que a pessoa quer o braço todo. — Ele revira os
olhos. — O que melhoraria?
— Se comesse comigo, exatamente da forma que estamos fazendo agora.
— Respondo pegando-o de surpresa.
— Casais felizes que fazem esse tipo de coisa. — Ele diz, ainda sem reação.
— Estamos bem longe de sermos um casal, não chegamos nem ao nível de
colega. Já viu o que eu te fiz?
— Não preciso ver como estou agora, meu corpo todo dói, Daddy. —
Respondo e vejo seu rosto se quebrar. Ficamos em silencio por uns minutos, ele
apenas me olhando comer, e eu, com os olhos fixos no prato quase vazio. Não
tinha a intenção de comer mais ou acabaria passando mal. — Desculpe, foi uma
péssima ideia. — Digo, encolhendo-me.
— Pare de pedir desculpas. — Ele diz, incomodado. Mordo os lábios,
afirmo lentamente com a cabeça e me arrumo na cadeira. — Tudo bem, eu
concordo, só porque me beneficia.
Zared encosta na cadeira, deixando seu olhar fixo em mim, como estava
fazendo antes. Sua atenção toda dada a cada espaço de meu corpo. Uma de suas
mãos gira o talher entre os dedos e a outra entra para dentro de sua calça,
apertando o conteúdo que tinha ali. Viro-me para poder olhá-lo melhor,
mesmo com o rosto inchado e com hematomas, ele não deixa de ser atraente.
Desço meus olhos até sua mão, que se movimentava dentro da calça, e pela
expressão em seu rosto, ele não está a se masturbar, mas não deixa de gostar do
que faz. Minha respiração pesa, meu coração acelera e me pego presa aos
movimentos que o mesmo causava naquela área.
— Não deveria olhar tanto, ele gosta muito de você. — Sua voz sai
divertida. Sua mão sai de dentro da calça, mostrando um relevo ali. — Você,
Baby Girl, está ficando uma pervertida, uma pervertida descarada. Com quem
aprendeu isso? Não lembro de ter te ensinado.
— E-eu não estava… — Tento me explicar, mas sua aproximação me
atrapalha.
— Não estava, o quê? — Ele sussurra, deixando um beijo em meu ombro.
— Olhando pra onde pensa que eu estava. — Seus beijos vão subindo até
meu pescoço, onde deixa uma leve mordida.
— E eu não estava lembrando da sensação de sua mão em torno do meu
pau. — Ele diz, soltando uma breve risada contra a pele de meu pescoço. —
Mentir é fácil, Baby Girl. — A sua mão adentra minha camiseta branca,
começando a acariciar minha barriga. — Só pra lembrar, não coloquei um sutiã

97
em você. — Ele me solta e afasta sua cadeira para longe de mim, com um
sorriso convencido enquanto olha para meus seios. — É, eu realmente causo
efeito em você. — Ele se levanta e caminha até meu lado ainda rindo. — Vai
comer mais?
— Não. — Respondo, envergonhada. Ele pega o prato e se vira em
direção a pia.
— Quer mais alguma coisa?
— Não.
— Cadê sua educação? Achei que tinha aprendido alguma coisa com o
castigo de ontem. — Seu tom de voz continua calmo, e por ele estar de costas,
não me era permitido ver sua expressão. Olho para baixo e estremeço ao
lembrar dele me esfaqueando.
— Desculpe. — Sussurro.
— Tudo bem. — Ele suspira. — Venha comigo. — Ele estende o braço
em minha direção.
Com um certo esforço, levanto da cadeira e caminho lentamente até ele,
duvidando de minha própria capacidade de continuar andando sem me
espatifar no chão.
Minhas coxa lateja demais, assim como meu braço. Meu rosto dói cada vez
que eu sorrio ou pisco. E minhas costas tem uma mistura de tudo. Zared me
acompanha com os olhos e parece alerta para que, caso eu caía, ele me pegue.
Mas o mesmo não parecia assim tão disposto, ele faz caretas ou geme baixo
algumas vezes, assim como eu. No momento em que dou mais um passo em
sua direção, minha perna fraqueja e quase me vou de encontro ao chão, por
sorte consigo me apoiar no balcão de mármore, e Zared dá um passo em minha
direção, mas para no momento em que levanto a mão em sua direção.
— Não preciso da sua ajuda… Obrigada. — Ele revira os olhos e vem até
mim, passando meu braço em torno de seu pescoço e me pegando no colo em
seguida. O mesmo geme de dor, mas logo para ao se lembrar de mim. — Eu
disse que não precisava de ajuda.
— Não me interessa, dependendo da forma que cair, seus pontos abrem e
você não estará dopada para não sentir dor. — Ele caminha para fora da
cozinha, passando pela a sala de jantar, e quando penso que estou sendo levada
para meu quarto, ele vira e faz um caminho totalmente diferente da escada.
— Para onde está me levando? — Pergunto franzindo as sobrancelhas.
— Vamos fazer assim? Cala a boca que quando chegarmos, te deixo me
fazer algumas perguntas. — Ele baixa seu olhar para mim e abre um pequeno
sorriso. Balanço a cabeça concordando com sua proposta e fico apenas a

98
analisar o caminho que ele faz. Ao nos aproximarmos da porta da sala de
tortura, imediatamente meu corpo fica rígido e trêmulo, minha garganta ganha
um enorme nó e direciono meu olhar para o homem que havia notado meu
desespero. — Calma, não vou te levar pra lá.
— Promete? — Instantaneamente seus olhos encontram os meus.
— Se não me der mais motivos para te colocar lá, sim, prometo.
— Obrigada. — Abro um pequeno sorriso, o qual não é correspondido.
Ele vira o corredor, me disponibilizando a vista de uma enorme porta de
madeira escura. Ela estava aberta e era possível ver as árvores sendo agitadas
pelo vento forte da noite. Ao chegarmos ao batente, sou colocada no chão com
cuidado e o homem respira fundo, como se estivesse começando a se
arrepender do que tivesse planejado. Estamos na porta que dá direto ao jardim
morto detrás da casa. É realmente assustador, chega até ser irônico pela parte
em que a neblina cobre tudo, típico de filme de terror, só faltava o assassino.
Outra ironia: o próprio assassino que me carregou até aqui.
A grama morta se mantém da mesma forma de uma que acabou de ser
aparada. Algumas árvores apenas com seus troncos ocos atiradas ao chão. As
que se mantinham de pé, causavam um barulho amedrontador, e a única árvore
viva naquele espaço todo sussurrava coisas, suas folhas e galhos se debatiam
conforme o vento soprava. Não é possível vê-la toda, mas é tão grande que
mesmo distanciada do jardim morto, permitia ver seu topo, e eu sabia
exatamente onde ela se localizava.
E o que mais me chama atenção é o enorme chafariz no meio do jardim
com a imagem de um grande anjo, que mesmo de manhã, é todo preto, e em
sua mão tem uma cabeça humana feminina, e logo abaixo de seus pés, o corpo.
— Esse é Zauren, o cavaleiro negro. — A voz de Zared soa logo atrás de
mim. — O maior de todos os anjos. Até mesmo Lúcifer se curvaria diante ele.
— Achei que anjos fossem do bem. — Viro-me para encarar o homem
atrás de mim.
— Nem sempre as coisas são o que parece. — Ele abre um sorriso largo,
o tipo de sorriso que nunca vi ou pensei que veria em seu rosto. — Gostaria de
saber a história do grandioso Z, Baby Girl?
— Achei que você fosse o Z. — Olho para ele, por mais que eu não esteja
a demonstrar, estou admirada com a ideia de saber a história do anjo naquela
estátua, e com o sorriso do homem. Ele solta uma risada nasalada e desce
alguns degraus a minha frente, se vira para mim e abre outro sorriso, tão
intenso quanto o anterior.

99
— Acompanhe-me? — Ele pergunta, estendendo a mão em minha direção.
Seus olhos queimam, seu sorriso é atrativo demais e eu me sentia fora de mim,
submissa aos encantos dele.
Por que ele se encontrava tão disposto e tão modificado com a menção do
cavaleiro negro? Ainda a minha espera, o homem faz um sinal com a mão,
incentivando-me a aproximar-me dele novamente. Respiro fundo e desço os
quatro degraus que nos separam, e coloco minha mão sobre a sua. Um calafrio
se espalha por meu corpo e algo em Zared muda, e como se ele estivesse
atrativo demais, sombrio demais, demoníaco demais, puxo minha mão de volta.
— Algum problema? — Ele pergunta, franzindo as sobrancelhas. E lá está
ele, normal novamente. Balanço a cabeça, negando e pego em sua mão
novamente, desta vez sem sentir nada. Não acredito que tive uma alucinação.
Seu sorriso volta e o mesmo me guia em direção a estátua no meio do jardim,
que é ainda maior do que eu pensava. — Ele foi um grande anjo negro que
usava as mulheres por uma única noite, depois as matava arrancando seu
coração e cortando sua cabeça, e as enterrava no cemitério que havia feito atrás
de sua casa. — Ele solta minha mão. — Até que ele viu uma bela garota que se
destacou entre as outras por ser a mais emburrada e por estar dançando sozinha,
não se esfregando em outro cara. Ele foi atrás da amiga dela para saber mais
sobre a garota, e quando ele descobriu que ela era virgem, a sequestrou e
naquele momento a fez sua. — Ele me olha com um sorriso brincalhão. —
Baby Girl, eu sou ele, só inventei o nome para te deixar intrigada.
— Deu certo. — Encolho os ombros envergonhada — Então foi a Alison
que te contou que sou… Era virgem? — Ele balança a cabeça, afirmando, e
passa o braço em torno de minha cintura. — Não sei por que me surpreendo.
— Solto uma risada tristonha. — Sinto falta dela. — Viro a cabeça para olhá-lo.
— A saudade é uma coisa boa, nada dura para sempre, nem mesmo uma
amizade. — Ele responde com cautela.
— É como se nada pudesse ocupar aquele vazio deixado por ela. — Olho
para o chão por uns segundos antes de voltar a encará-lo. — O que fez com o
corpo de Marian?
— Queimei. — Ele responde, encarando a estátua.
— Achei que iria enterrá-la junto às outras. — Falo, tomando todo o
cuidado para não dizer algo que o irrite.
— Não, as que são enterradas são as com quem fodo e mato no dia
seguinte.
— Daddy… — Chamo sua atenção e Zared me encara de forma calma, o
que é bom… Até demais. — Já que estamos aqui…

100
— Já sei o que vai me pedir e a resposta é não. — Ele continua da mesma
forma.
— Por favor… — Tento mais uma vez. — Faço qualquer coisa. — Ele me
olha surpreso, cruza os braços e fica de frente para mim.
— Por que quer tanto ir aquele cemitério?
— Não sei, mas gostaria muito. — Respondo com sinceridade.
— E por isso faria qualquer coisa? — Ele levanta as sobrancelhas como se
já tivesse algo em mente. Balanço a cabeça afirmando. — Quero ouvir sua voz.
— Sim. — Respondo sentindo um arrepio subir por minha espinha.
— Então vai cumprir sem reclamar, e lembre-se, você quem deu a ideia.
— Seus lábios se curvam em um sorriso malicioso, antes de pegar em minha
mão e me puxar em direção ao cemitério escuro.
O caminho até ele é cheio de pedras, buracos e galhos que me fazem
tropeçar e a cada vez em que ele se vira para ver como eu estava, sentia-me
mais tola por ter dito que faria qualquer coisa para um homem como ele.
Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um assassino, bipolar e estuprador.
Agora, até eu não sabia mais o que se passava em minha própria cabeça por
estar tão ansiosa para descobrir o que ele me obrigaria a fazer. Sou uma idiota,
uma doente que realmente pede por tudo o que passa.
Zared abre o pequeno portão enferrujado, que range quando é empurrado.
Minhas mãos ficam trêmulas, meu corpo fica gelado, meus olhos arregalados e
meus lábios tremem. Ao perceber, ele solta uma risada nasalada e me puxa
consigo para dentro do lugar sombrio. A enorme árvore fica na parte dos
caixões separados e onde estamos, há uma bela fila de roseiras brancas,
obviamente onde Zared pega suas rosas. Elas pareciam intactas, mesmo com o
vento forte ameaçando arrancar todas pela raiz. Os túmulos são simples, mas
bonitos, e como esperado, não têm identificação. Solto minha mão da dele e
aproximo-me dos túmulos, passando as pontas de meus dedos por eles,
imaginando as diferentes formas que foram mortas.
— Quantos caixões tem aqui? — Pergunto me virando para o homem que
me encarava sem uma expressão fixa.
— Em torno de cinquenta e seis, não contando com aqueles que te proibi
de falar. — Sua voz ecoa pelo espaço vazio.
— Você… Com todas elas? — Pergunto sentindo meu coração apertar ao
vê-lo afirmar sem hesitar. — Oh… — É tudo o que consigo dizer enquanto
paro diante a um e fico a observá-lo. — Alguma vez pensou em não matá-las?
— Agora meus olhos se dirigem aos dele.

101
— Não, era a parte que eu mais esperava, sinto-me vivo a cada vez que as
ouço implorar pela a vida. — Ele responde de forma fria e vem caminhando
em minha direção. — Você não entenderia.
— E nem me forçaria a tentar. — Digo, afastando-me.
— Não deveria estar com medo de mim, Baby Girl, sabe que não irei te
matar depois de te foder. — Ele solta uma risada. — Acho que está na hora de
cumprir o que me disse, venha aqui. — Ele faz um gesto com o indicador, me
chamando, e depois aponta para o chão a sua frente. Um sorriso perverso
tomava conta de seus lábios. Forço-me a manter a calma e vou me
aproximando aos poucos, o que faz seu sorriso se aumentar. — Sente aqui. —
Ele aponta para o túmulo no meio da primeira fileira. — E abra as pernas. —
Engulo um seco e faço o que me é mandado. Ele se aproxima, ficando no meio
de minhas pernas, leva os dedos para meu queixo e levanta minha cabeça com
calma para poder me olhar. — Isso era apenas uma fantasia que tinha quando
pensava nas possibilidades de ter uma virgem, agora que tenho, vou realizá-la
com você. — Sua mão direita desliza para o fim de minhas costas.
— E… E que fantasia é essa? — Pergunto, olhando em seus olhos.
— De foder você no meio do cemitério, composto apenas por garotas
com quem já fodi. — Ele se curva em minha direção e beija meu ombro. —
Pensar em ter você nua, deitada em um túmulo a gemer por mim me deixa
louco. — Sua voz sussurra em minha ouvido enquanto suas mãos vão subindo
o tecido branco que cobria meus seios.
Seus lábios molhados vão descendo para meu pescoço e o consome com
beijos e chupões intensos, fecho os olhos e deixo um gemido baixo sair de
minha boca. Ele se afasta um pouco e tira minha blusa, deixando meus peitos a
mostra. Zared sorri e se coloca em cima de mim, sendo assim, eu deitada no
túmulo molhado com folhas secas, e ele sobre mim a olhar-me. Ele passa a
língua pelos lábios e desce até meu seio direito, onde lambe todo meu mamilo e
o abocanha, enquanto mordisca, chupa e acaricia com a língua, e massageia o
esquerdo. Mordo os lábios e levo minhas mãos para meus cabelos. Ao escutar o
primeiro gemido escapar de minha boca, ele mordisca meu seio e sorri. Olho
para ele e me arrependo no mesmo instante, não por estar fazendo algo, e sim
por estar parado admirando-me.
— É uma linda menina, Skye. — Ele diz sério e meu coração se acelera.
Primeiro: é a primeira vez em que me chama pelo meu nome. Segundo: estou
desejando-o de uma forma ridícula. Terceiro: ele havia me elogiado pela
primeira vez e provavelmente última.

102
— Daddy… — Tento falar, mas paro ao vê-lo balançar a cabeça
negativamente.
— Cala a boca. — Ele manda. Seus dedos brincam com o elástico de
minha calça e a desce junto com a calcinha, deixando-me completamente
exposta embaixo de seu corpo. — Sabe, Baby Girl, eu adoraria ver você me
surpreender.
— C-como? — Pergunto fazendo ele rir.
— Sua inocência me excita. — Ele passa o polegar em meus lábios. — Se
eu te falar como, não irá me surpreender, certo? — Sinto meu rosto arder
enquanto ele me observa de forma desejosa. Passo as mãos por seus ombros e
ao chegar em sua nuca, puxo-o para um beijo, que diferente do que ele
imaginava, o beijo que inicio é intenso. Desço minhas mãos por toda sua
barriga e continuo a descer até chegar a seu membro, que acaricio por cima da
calça. Subo mais um pouco e adentro-a, sentindo o calor de seu conteúdo. —
Oh, merda, Baby Girl. — Ele geme entre o beijo, mas não tira minha mão que o
acaricia e o aperta de leve. — Minhas calças estão apertadas.
— Mas elas são um pouco largas em vo… Oh. — Paro de falar ao
entender ao que ele se refere. — Livre-se delas. — Digo e outro sorriso toma
conta de seu rosto.
— E por que você não faz isso? — Tiro minha mão dali e começo a
desabotoar sua calça, e com sua ajuda, consigo livrá-lo dela. Agarro sua blusa e
o puxo para mim, ocupando nossos lábios com outro beijo. Sem nos
interromper, ele passa o dedo por minha intimidade e introduz um dedo em
mim. — Molhadinha. — Ele diz, sugando meus lábios. — Vou deslizar para
dentro de você, amor. — Ele diz introduzindo mais um dedo fazendo-me
gemer com o desconforto. Sua mão se movimenta de forma rápida, fazendo-
me gemer ao seu toque. — Como quero te foder… — Ele sussurra em meu
ouvido, deixando-me ainda mais molhada. Passo as mãos em suas costas,
sentindo algo diferente, e as dirijo até a barra de sua blusa, puxando-a para fora
de seu corpo. Ele tira seus dedos de mim e se desfaz do tecido leve.
— O que houve com você? — Pergunto chocada. Meus olhos analisam as
faixas que passavam de seu peito até suas costas.
— Nada interessante. — É tudo o que ele responde antes de abrir minhas
pernas, descer sua cueca e deixar a mostra o que apertava tanto sua calça. Seu
pênis está totalmente ereto e por sua expressão, aquilo estava incomodando. Ele
se acomoda no meio de minhas pernas e introduz com calma, fazendo ambos
arfarmos de satisfação.

103
Nossa, nunca foi tão bom tê-lo dentro de mim antes. Seus movimentos
vão aumentando assim como minha agonia, no momento em que levo minhas
mãos para arranhar seus braços, o mesmo as agarra pelo pulso e as prende
acima de minha cabeça: — Nada disso. — Reviro os olhos e gemo em alto e
bom som, demonstrando um pouco do prazer que estava recebendo. Zared
joga a cabeça para trás e geme um “Oh meu Deus!” alto.
Está sendo incrivelmente gostoso, e por mais que eu queira muito manter
meus olhos fechados, vê-lo sair e entrar em mim é ainda melhor. As nuvens se
afastaram da lua por um breve momento, deixando a luz dela nos iluminar, e
não fui a única a perceber, pois Zared abriu os olhos e me olhou, ainda se
movimentando com a mesma intensidade, e abriu um sorriso que fez o calor de
meu corpo aumentar ainda mais. Ele realmente deveria ser um anjo negro,
porque nem em sonhos pensei em ver um homem tão bonito e tão charmoso
como ele, afinal, que homem teria a fantasia de fazer sexo no meio de um
cemitério? Ou fica tão bem com apenas a luz da lua a iluminar seu sorriso?
Exatamente, ele era o único.
— Daddy… — Gemo e aperto as mãos.
— Deixe-me vê-la, Baby Girl. — Ele geme e começa a diminuir a
velocidade. Que pelo que sei, ele só faz isso quando está perto de seu limite.
Aperto os dedos dos pés e um sentimento extasiante percorre meu corpo e
com ele, o cansaço, pela a primeira vez havia chegado ao orgasmo por puro
prazer e satisfação. Zared sorri no momento em que me desfaço embaixo de
seu corpo e não demora muito para gemer um palavrão e também chegar a seu
limite. Ele cai sobre mim com a respiração descontrolada, demora uns minutos
até que ambos nos controlarmos. — Então? — Ele olha para mim, fazendo-me
sorrir. — Gostou? — Ele acaricia meu rosto, e eu igual a uma bobona, sorrio
ainda mais.
— Foi… Foi inexplicável! — Respondo baixo, soltando um risinho que o
faz sorrir de uma forma diferente do comum.
— Que bom. — Ele responde e se aproxima com um beijo calmo. —
Melhor irmos para dentro e tomarmos um banho. — Ele sai de dentro de mim
e começa a se vestir.
Diferente das roupas dele, as minhas estavam jogadas no barro molhado,
ou seja, não tinha nada para me cobrir.
— Daddy… — Chamo-o olhando para o chão. Ele termina de vestir a
calça e me entrega sua blusa de mangas.

104
— Vista isso e deixe suas roupas aí que eu junto amanhã. — Visto sua
blusa que me cobre até as coxas, e quando me viro, vejo-o segurando uma rosa
branca em minha direção.
— Pra mim? — Pergunto baixo.
— Não, para a antiga menina que morreu essa noite. — Ele diz de forma
sincera e me entrega a flor molhada. — Agora Baby Girl, você é uma nova
garota, a minha verdadeira Skye.

105
Capítulo Quinze

Franzo as sobrancelhas por não ter entendido bem o que ele quis dizer com
aquilo e abaixo meu olhar para a rosa em minhas mãos, tão bela, e as gotas de
orvalho em suas pétalas a deixava ainda mais bonita. Zared me olha com
cautela, mas não parece se arrepender do que havia feito ou dito. Apenas estava
parado, vendo-me admirar a flor que havia acabado de receber sem dizer nada.
Estava ainda mais gelado do que antes, fazendo cada pelo de meu corpo se
arrepiar, e o vento levava embora algumas das folhas da árvore.
— Vamos entrar. — Ele diz, olhando para as nuvens densas que cobriam
o céu, deixando tudo escuro novamente. — Baby Girl. — Olho para ele, que já
se encontrava no portão. — Anda logo. — Balanço a cabeça e volto a olhar
para aquela rosa, ela não pertencia a mim. Ao invés de ir até o homem que me
esperava, viro-me e vou caminhando entre os túmulos a procura de um lugar
vazio. Podia ser um cemitério no quintal de trás da casa dele, mas não deixava
de ser grande e assustador. — O que está fazendo? — Ele aumenta a voz sem
demonstrar raiva.
Mordo o lábio inferior e continuo a andar pelo cemitério escuro, tentando
não tropeçar ou pisar nos galhos que poderiam me machucar ainda mais do que
já estava. Por estar descalça, meus pés estavam sujos de lama, e a cada passo,
tinha que procurar uma área com menos pedras e gravetos pontudos. Se mortos
fizessem algo, obviamente essas mulheres estariam me matando pelo
desrespeito de estar andando por ali com apenas a blusa de seu assassino
cobrindo meu corpo desprovido de qualquer roupa íntima.
Principalmente por ter tido relações com ele no lugar de descanso delas.
Viro a direita e continuo caminhando até o final da fileira, onde um bom
espaço se encontrava a poucos metros das roseiras. Não consigo evitar um
sorriso por ter achado o lugar perfeito. Ajoelho-me diante dele, deixando a rosa
em minha mão.
— Não deveria ficar andando pelo cemitério dos outros assim, nunca se
sabe o que pode acontecer. — Escuto a voz de Zared logo atrás de mim,
fazendo-me virar por uns segundos para encará-lo e depois voltar a fixar meu
olhar na rosa a minha frente.
— Não temo os mortos, Daddy, eles não fazem nada. Temo os vivos e o
que eles são capazes. — Respondo com os olhos fixos no mesmo lugar.
— O que veio fazer aqui? — Sua voz torna a adquirir o tom frio. — E o
que a rosa que eu te dei faz na grama?
— Essa rosa não é minha. — Viro meu rosto para encara-lo. — É da
Alison, ela morreu por minha causa, por mais que ela não esteja aqui, quis
homenagear. — Ele suspira e olha para a roseira ao meu lado.
— Poderia ter dado uma rosa nova, essa não pertence a ela. — Ele
caminha até as flores e arranca uma. — Tome, dê esta aqui. — Ele se abaixa ao
meu lado e me estende outra rosa branca.
— Achei que iria me castigar se eu mexesse em suas flores sem permissão.
— Digo, analisando seu rosto sem expressão. Ele era sempre tão vazio, só
permitia que vissem o ódio que ele carregava. Seria bom poder saber o que ele
sentia ou pensava ao menos algumas vezes.
— Está começando a aprender como as coisas funcionam por aqui. — Ele
solta uma risada nasalada acompanhada por um sorriso perverso.
— Por que está concordando comigo?
— Porque ela era sua amiga. Mas se quiser, eu posso amassar as duas rosas
e te puxar pelos os cabelos para fora dessa merda de lugar. — Ele sugere como
se aquilo fosse a coisa mais normal que alguém poderia dizer.
— Não, obrigada. — Digo, mordendo o canto de meu lábio inferior. Ele
olha pro chão e me estende a flor novamente, pego-a de sua mão e volto a me
estender para colocar a nova no lugar da minha.
— Agora vamos entrar que vai começar a chover. — Ele diz, colocando-se
de pé. — A menos que queira passar a noite brincando de morto e vivo com
suas amigas do peito e futuras vizinhas. — Engulo um seco e não consigo olhá-
lo de uma forma tranquila. Ele havia acabado de admitir que iria me matar. Não
quando, mas admitiu.
— E-então vai me matar? — Digo com a voz falha, sentindo meus olhos
lacrimejarem. Ele arruma a touca em sua cabeça e franze as sobrancelhas.
— Achei que já tinha deixado bem claro que tenho uma vontade enorme
de ver você pendurada em ganchos, ensopada de sangue só para eu poder

107
admirar por uma hora antes de esquartejar e te enterrar bem aí. Olhe o lado
bom, Baby Girl, deixei você escolher onde seu corpo vai apodrecer. Agora
levanta. — Ele agarra meu braço, coloca-me de pé sem nenhum problema e me
puxa pra fora do cemitério.
Eu não sabia bem como reagir, nunca havia desistido da possibilidade dele
me matar, nunca deixei de pensar para ser mais sincera. Pela a primeira vez na
vida, consegui me iludir com a chance dele me dar uma oportunidade de
continuar viva, mesmo que eu tivesse que viver assim, não seria tão mal ser
usada para satisfazê-lo.
O quê? O que está acontecendo comigo? Desde quando comecei a pensar
desta forma tão repulsiva e desprezível? Sou uma puta! Ao passarmos pelo
portãozinho de ferro, a única divisória entre o jardim morto e o cemitério, vejo-
o olhar pra mim com o canto dos olhos e sua mão parar de me apertar e ser
deslizada pelo meu braço até minha mão, onde entrelaça nossos dedos. Ele é
um maluco bipolar que está me corrompendo e levando minha sanidade pra
algum lugar bem longe de mim. Olho para nossas mãos e a vontade de tirar a
minha e ir para bem longe dele me consome, quase chego a criar coragem, mas
a perco quando ele tenta me passar tranquilidade prendendo-me ainda mais a
ele.
— Está com sono? — Ele pergunta e faz com que eu me encolha.
— Não, Daddy. — Repondo baixo, tentando não cair no meio da grama
seca do jardim morto.
— Ótimo. Tenho uma coisa pra você. — Ele não olha para trás e nem
para de me puxar, estávamos praticamente correndo, a cada paço parecia que
iria tropeçar em meus pés e dar de cara com o chão. — Está sentindo alguma
dor?
— Estou, meu corpo todo dói, principalmente no local dos cortes.
— Não perguntei onde, só se estava com dor. — Ele dispara e abaixo meu
olhar.
— Desculpe. — Sussurro.
— Pare de pedir desculpas, você é educada demais, um pouco de
atrevimento seria bom. — Reviro os olhos e respiro fundo, como sempre,
torcendo para ele não ver meu gesto desrespeitoso ou acabaria voltando para o
quarto de tortura.
Ao subirmos as escadas, ele volta a abrir a porta e me puxa para dentro da
casa. Havia criado um medo tão grande daquele quarto que ao passar por ali,
sinto meu corpo todo estremecer, o que acontecia lá dentro era pior do que o
próprio inferno. Viramos os corredores até chegarmos ao salão já conhecido, e

108
sem diminuir os passos, sou praticamente arrastada até as escadas que nos leva
ao andar superior.
— Vejo que já terminaram de brincar de casalzinho feliz. — Uma voz
masculina conhecida se pronuncia e me faz apertar a mão do homem, que fica
tenso ao reconhecer imediatamente a pessoa que estava se escondendo no
escuro do cômodo. Sou empurrada para trás do corpo de Zared, que segurava
minha mão com tanta força que parece que posso ser tirada dele a qualquer
momento.
— O que faz aqui? — Zared mantém a voz firme, pronunciando as
palavras de forma respeitosa. — Melhor, como conseguiu passar pela a
segurança? Deixei bem claro que não queria ninguém aqui. — Olho pro
movimento na sombra e logo reconheço o homem que sai do escuro.
Leon.
— Fale direito comigo, seu merda. — O homem diz com superioridade e
frieza. — Passei por seus capangas por ser o homem pra quem você trabalha
como um cachorrinho. Agora largue sua vadia na jaula dela e venha falar
comigo, tenho um trabalho pra você.
— Já mandei não falar assim da minha virgem. — Zared diz raivoso e por
um momento, sinto-me especial.
— Acontece, Z, que quem manda em tudo aqui sou eu, e se estou aqui
para te dar um trabalho, você, como um bom escravo, vai calar a boca, deixar
essa… Virgem na coleira e vir falar comigo. Agora. — Zared suspira e olha para
mim, preocupado.
— Vá direto para seu quarto e me espere lá. — Balanço a cabeça e solto
sua mão, subindo as escadas o mais rápido que consigo. Não estava afim de
ficar perto deles. Se uma coisa estou aprendendo em relação a eles é: não se
envolva em seus assuntos, não encare e seja obediente. Caso contrário, você
morre.

Zared
— O que faz aqui? — Pergunto, cruzando os braços acima do peito. Por mais
que Leon seja meu chefe, não demonstro respeito necessário, ou o reverencio,
todos sabiam que eu era um dos motivos de ele estar onde está, então isso me
dava mais poder do que já costumava a ter. Mas isso não o impedia de me
castigar.
Ele solta um longo suspiro e abre um sorriso logo em seguida.

109
— Achei que depois daquela transa animal no cemitério você deveria estar
mais calmo. Espera, não está ensinando a sua virgem a te dar o melhor orgasmo?
Que decepção, Winter. — Reviro os olhos e continuo da mesma forma, apenas
analisando cada movimento que ele fazia.
— Vou perguntar mais uma vez, o que veio fazer aqui? — Ele me ignora,
e se vira em direção a sala de estar, deixando-me sozinho no salão. Fecho os
olhos para manter minha calma e caminho devagar até o cômodo, vendo-o ir
direto para o uísque na jarra de cristal. Além de estragar minha noite, ainda vai
beber do meu uísque, ótimo. Apoio-me no batente da porta e continuo com a
mesma cara de merda.
— Sabe a parte que mais gostei? Quando deu a rosa. — Continuo calado,
observando o copo ser preenchido. — Foi tão “awnn” que quase chorei, juro. —
Ele continua a debochar e, por fim, se vira para mim com um biquinho ainda
mais ridículo. — Você é mais gay do que eu imaginava, Z. Fique longe dos
outros, pode ser contagioso. — Limpo a garganta e continuo da mesma forma.
Leon caminha até o sofá e se senta, apoiando seus pés com as botas sujas de
lama em cima da mesinha de centro.
— Já acabou ou podemos resolver logo o motivo de ter vindo aqui? —
Pergunto, voltando com meu tom frio e sem qualquer tipo de emoção além do
ódio que estava constantemente a carregar.
— Ainda está chateado com o que aconteceu ontem? Não seja sentimental,
foram apenas trinta chicoteadas, e o chicote não tinha nada mais do que o
couro e as correntes.
— Claro, foi só isso. Então por que não vai pedir pro Logan fazer o
serviço sujo pra você? Acho que estou ocupado demais com os machucados do
seu castigo e o ferimento do tiro que levei. — Disparo, irritado.
— Seu pinto caiu e deu lugar a um útero e uma boceta? Está menstruado?
Que sentimentalismo. Vou mandar comprarem absorvente pra você ou quem
sabe eu não vá pedir pra sua virgem, acho que você deve ter comprado alguns
pacotes. — Ele ironiza novamente e leva o copo até a boca, bebendo um longo
gole.
— Não tem mais sentido chamá-la de virgem, já a comi, não tem mais
nenhum sinal de pureza além do tamanho. — Ele ri e dá de ombros.
— Senta logo a bunda aí que tenho um trabalho pra você que tem que ser
feito ainda essa noite. — Vou até o móvel de couro branco e me sento sem
encostar as costas machucadas.
— Essa noite estou ocupado, mas posso resolver isso amanhã. — Digo,
olhando-o ainda mais sério do que antes.

110
— Tem compromissos? — Ele pergunta arqueando as sobrancelhas.
— Talvez. — Digo sem me importar.
— Já passou dias demais vagabundeando e rodeando sua nova puta ex-
virgem. Acorda pra realidade, você tem mais o que fazer além de ficar comento
boceta apertadinha. — Ele diz, impaciente. — E de qualquer forma, o infeliz
está tentando voltar a Espanha sem me entregar o mapa da joalheria e alguns
milhares.
— Desde quando se importa com mapas de joalherias? Ou dinheiro? Você
praticamente usa as notas de cem para limpar a bunda.
— Importo-me porque é o próximo trabalho que fará com Hayden, Nolan
e Logan. E não mandaria você atrás de um merda se o assunto não me fosse
importante.
— Claro. — Bufo, demonstrando meu cansaço. — E o que quer que eu
faça?
— Pegue o que é meu, e se ele não tiver o dinheiro, faça o que sabe de
melhor. — Ele dá de ombros e me entrega o copo.
— Como se já não soubesse que eu faria isso. — Rio com amargura.
— O FBI está com uma séria dificuldade para decifrar o Z entalhado no
peito das suas vítimas, você além de gay é bizarro.
— Era só isso? — Pergunto, vendo-o levantar-se.
— Era, depois fique a espera do meu chamado. Vai comendo umas putas
enquanto isso… Oh, me esqueci, já tem a sua boceta de ouro. — Ele sorri e
joga um papel com o endereço. — Um de meus homens conseguiu conversar
com ele oferecendo documentos falsos e passagem de avião, vai encontrá-lo
nesse endereço.
— Não irá ninguém levar as coisas a ele, certo? — Pergunto, começando a
me divertir com a ideia.
— Não. — Ele sorri enquanto balança a cabeça negativamente. Ao sair da
sala, ele recua três passos e volta a olhar para mim. — A propósito, esse uísque
é uma merda. — É tudo o que diz antes de ir embora. Bebo o resto do líquido
no copo, coloco o papel no bolso de trás da calça e subo até o quarto de Skye,
que estava quieto demais. Abro a porta e a vejo sentada no meio da cama, ainda
vestida com a minha blusa, olhando para a foto que havia dado a ela quando fui
buscar a cadela dela.
— Levanta. — Digo alto, o que a faz pular de susto. — Não irá ficar aqui.
— Ela encolhe os ombros, deixa o objeto na mesinha de cabeceira e vem até
mim. — Pegue sua toalha e pijama, a menos que queira dormir despida. — Ela
arregala dos olhos e logo se apressa em pegar o que mandei.

111
— Onde irei passar a noite, Daddy? — Ela pergunta com o medo evidente
na voz.
— No meu quarto. — Respondo e volto a me calar, deixando-a curiosa.
Ela era sempre cheia de perguntas e aquilo me irritava, mas ver que ela se
interessava em saber mais sobre mim ou outras coisas deixa-me satisfeito, gosto
da curiosidade que as pessoas têm para saber coisas sobre mim, nem que seja a
marca das minhas cuecas, e isso ela já sabia. Abro a porta de meu quarto e vou
direto para meu guarda-roupas pegar minha blusa, jaqueta e luvas de couro
pretas.
— Vai sair? — Ela pergunta, pousando as coisas em seus braços na cama.
— Tenho um serviço. Espero que quando eu voltar, você esteja dormindo
e não fuçando nas minhas coisas. Não irei demorar.
— Tudo bem. — Ela afirma e se senta, ainda olhando-me com
desconfiança.
Arrumo-me, tranco a janela do quarto e vou até minha cômoda, de onde
tiro da segunda gaveta minha calibre .38 e munição. Torno a trancar as coisas
que contem armas ou qualquer coisa do tipo, e antes de sair do quarto, jogo o
controle da televisão para ela.
— Assista algum filme, durma ou fique olhando para o teto, mas não
mexa nas minhas coisas. — Fecho a porta atrás de mim e a tranco por
precaução.

— O que viemos fazer aqui, senhor Winter? — Luka pergunta sem entender o
motivo de estarmos parados com o carro em baixo da ponte há trinta e quatro
minutos.
— Cale a boca, seu imprestável. — Analiso a escuridão a minha frente sem
nenhum sinal de movimento. Aperto mais os olhos e vejo o homem
desbloquear o celular. — Ele está aqui. — Dou o último trago em meu cigarro
de maconha, carrego a arma e saio do carro, indo com calma até o escuro,
tomando cuidado para não fazer barulho. O homem distraído com algo no
celular não percebe minha presença, o que torna mais fácil atingi-lo com uma
coronhada no nariz e prensá-lo contra a parede.

112
— Pensou que poderia ir embora? — Falo em espanhol e pressiono a
arma embaixo de seu queixo.
— Não sei do que está falando! — Ele diz, entrando em desespero. Bem
do jeito que eu gosto.
— Vamos a refrescar sua memória. Onde está o mapa da joalheria? —
Bato sua cabeça contra a parede e pressiono minha mão em seu pescoço.
— Não sei de nenhum mapa. — Choco sua cabeça contra a parede
novamente.
— Tem três segundos para me dizer e eu te mato. Escolha. — Digo,
ficando sem paciência. — Um, dois…
— Bueno, bueno! — Ele diz, por fim. — Dentro da pasta.
— Abra. — Jogo-o em cima da mochila, onde ele a abre e me entrega a
pasta. — Leon Ward envia suas saudações. — É tudo o que digo antes de atirar
em sua cabeça.
Abro a pasta e sorrio ao ver que era exatamente o que eu queria. Bom, foi
mais fácil do que pensei. Chuto o corpo do homem e abaixo-me até a mochila,
onde encontro o dinheiro de Leon. Junto os dois dentro da bolsa, viro o corpo
morto ao meu lado, tiro a faca de dentro da minha bota direita e entalho o
famoso Z em seu peito, antes de voltar para o carro e ir embora.

Skye
A porta do quarto é destrancada e aberta logo em seguida, mostrando a figura
de Zared com uma mochila pendurada em um dos ombros. Ele joga o objeto
no chão e se vira para me olhar.
— Não está dormindo. — Ele diz, sentando-se ao meu lado para tirar as
botas.
— E nem mexendo em suas coisas. — Respondo com um sorriso sem
jeito. — Vi que tinha O Guarda-costas e resolvi assistir, tem bom gosto para
músicas e filmes, Daddy.
— Eu sei. — Ele dispara e começa a tirar o casaco e blusa, deixando seu
peito enfaixado a mostra, o curativo na parte das costas estava com sangue e
aquilo me fez estremecer. — Vou tomar um banho, e precisarei de sua ajuda.
— Tudo bem. — Afirmo e volto a olhar para a tela da televisão. Zared se
levanta e vai até o banheiro, onde começa a se despir sem fechar a porta. Tento
voltar meu olhar para o filme, mas pareço ter sigo hipnotizada. Ele tira a cueca,

113
deixando seu membro a mostra, e quando vai começar a tirar a faixa do curativo,
olha para mim dos pés a cabeça e fecha a porta. Uau.
— Faça-me o favor de tirar a roupa e me esperar de pernas abertas. — Ele
grita do banheiro, fazendo meus olhos se arregalarem na hora.

114
Capítulo Dezesseis

Começo a me despir e deixo a roupa na ponta da cama. Por mais que ele já
tivesse me visto nua tantas vezes, estava com vergonha de estar deitada em sua
cama desprovida de qualquer tipo de pano, a espera dele. Sentia-me acabada
pelo que fizemos no cemitério mais cedo. Está aí, mais uma coisa que nunca
pensei em fazer, bom, nada do que acontece aqui eu nunca sequer cheguei a
imaginar que aconteceria comigo, muito menos em que faria.
Tudo bem que as pessoas têm desejos sexuais bem estranhos, mas o dele
era o mais absurdo e esquisito. Alison, por exemplo, tinha vontade de fazer sexo
no escritório, e eu, das poucas vezes que pensei nesse assunto, criei certo desejo
de poder fazer na praia. Nem nos filmes pornôs mais nojentos tem sexo no
cemitério, eu acho. Ele é o homem mais estranho que já conheci, e eu uma
doente por gostar do jeito durão dele.
— Acho que mandei você me esperar de pernas abertas. — Sua voz ecoa
no quarto novamente. Levanto meu olhar e o vejo com os cabelos molhados
pingando em sua pele, também molhada. Assim como eu, Zared também estava
completamente despido, sem a faixa do curativo, sem cueca. Nada.
Sua postura o deixava ainda mais atraente do que já estava, mesmo que
estivesse coberto de hematomas. Seus olhos me analisavam com tanta atenção
que no mesmo instante, sinto meu rosto ficar completamente quente. E o lábio
inferior que estava entre seus dentes parecia que começaria a sangrar a qualquer
momento se continuasse a ser mordido daquele jeito.
— Ahn… Não…não ouvi o chuveiro ser desligado. — Respondo com a
voz trêmula.
— Porque ele não foi… — Um sorriso atrevido toma conta de seu rosto,
causando em meu corpo uma mudança de temperatura sobrenatural. — Quero
que tome banho comigo. — Ele completa, estendendo-me a mão.
Engulo um seco e levanto-me da cama devagar, controlando-me para não
sair correndo e me atirar em cima ele. A cada passo que eu dava, ele parecia
ficar cada vez mais inquieto. Ainda receosa, coloco minha mão sobre a sua e
olho para seu rosto com marcas roxas que, mais um pouco, ficariam pretas. Sua
bochecha e sobrancelha direita continham pequenos cortes fechados por
pontos. Jesus, ele era perfeito até com o rosto ferido.
— Foda-se! — É tudo o que ele diz antes de me empurrar contra a parede
ao lado da porta e me prensar nela com seu corpo, iniciando um beijo caloroso.
Suas mãos estavam uma de cada lado de minha cabeça como se quisessem
impedir uma suposta fuga de minha parte, seu corpo tão colado ao meu que
parecia que iria me atravessar. Aquele estava sendo um dos beijos que nunca
pensei que ele fosse capaz de me dar, era algo desesperado, como se ele
estivesse dependente.
Subo minhas mãos para seus cabelos e os puxo, fazendo-o sorrir e morder
meu lábio. Essa era uma das manias que eu mais gostava nele. A cada momento
que continuávamos ali, o fogo natural de meu corpo aumentava. Não sabia o
quanto era possível sentir isso tão rápido, era bom, mas ao mesmo tempo,
torturante.
— Preciso de ar. — Digo, afastando-me de seus lábios para recuperar o
fôlego. Ele solta uma breve risada, e quando penso que vai me beijar novamente,
o mesmo se abaixa um pouco mais e lambe meu pescoço, mordiscando a pele
fina do local. Fecho os olhos e deixo a sensação boa tomar conta de mim.
É algo inexplicável sentir seus lábios e sua língua em contato com minha
pele quente. Só conseguia pensar no quão excitante e gostoso era aquele toque.
E algo me garantia que Zared era o único que sabia fazer aquilo tão bem.
— Vem. — Ele diz, pegando em minha mão e me puxando para dentro
do banheiro coberto por vapor. A porta atrás de nós é trancada, deixando-me
mais nervosa. Zared estava agindo diferente e suas mudanças de humor nunca
são boas, então, em momento algum sei o que me pode acontecer. Ele caminha
até mim, coloca suas mãos em minha cintura e me guia com cuidado para
dentro do boxe, levando-nos pra baixo do chuveiro, onde a água morna cai de
maneira que relaxava qualquer um.
O pouco espaço que tinha entre nós é fechado com ele me puxando para
seu corpo, seu membro roçava em minha bunda. Suas mãos agarram meus
seios e os massageia enquanto deixa uma trilha de beijos desde meu ombro até
meu pescoço, apertando meus seios com mais força. Ele solta uma risada
maliciosa ao se pressionar ainda mais contra minha bunda, fazendo-me grunhir.

116
— Está ficando assanhada, amor, não sabe o quanto gosto disso. Fiz bem
em escolher você para ser minha. — Ele sussurra bem baixinho em meu ouvido.
— Por quê? — Pergunto quase gemendo.
— Porque agora você é uma parte de mim. — Não consigo evitar a
surpresa em ouvir aquilo. — E sem contar que é bonita, gostosa… E me deixa
mais louco do que já sou. — Sua mão direita solta meu seio e desliza para o
meio de minha pernas, que por instinto se distanciam uma da outra.
— Oh… — Suspiro, tombando minha cabeça em seu ombro, enquanto
seus dedos brincam com meu clitóris. — Ahn… Daddy… — Gemo em alto e
bom som. — Merda… — Ele ri e para de movimentar seus dedos ao ver que
minhas pernas começarem a ficar bambas.
— Precisa me excitar, querida. — Olho para ele.
— O… o quê? — Pergunto ainda fora do ar.
— Precisa me excitar também. — Ele repete, virando-me de frente para
ele. — Vamos lá, você consegue. — Ele inicia outro beijo intenso e se distancia
de mim.
Desço minhas mãos por sua barriga até chegar a seu membro não muito
distante de minha intimidade. Mordo seu lábio inferior, seguro seu membro e
inicio os movimentos, fazendo-o sorrir e soltar um suspiro pesado.
— Essa mão, puta que pariu! — Ele diz com o tom de voz mais pesado.
— Segura um pouco mais firme, e aumente a velocidade. — Sua mão vai de
encontro a minha, instruindo-me. — Oh merda! Bem assim, meu amor. — Ele
geme.
Recuamos alguns passos até eu me encontrar prensada contra a parede
gelada novamente, fazendo-me gemer, começando a deixá-lo duro: — Continue
assim, e quando ver que já estou duro, abaixe-se e trabalhe com a boca. — Não
sabia se o agradeceria por estar me ajudando a fazer aquilo ou se me sentia uma
babaca por não saber e por estar gostando de fazer aquilo logo com ele. Sinto-o
ficar duro em minha mão, e ainda na dúvida se sabia fazer, coloco-me de
joelhos, sentindo seus olhos a me analisarem. — Baby Girl?
— Oi? — Pergunto mais concentrada em seu pênis ereto em minha mão
do que no que ele falava.
— Porra, pare de olhar para meu pau por um momento e me chupa logo,
caralho! — Olho para ele, envergonhada, e vejo a diversão estampada em seu
rosto por me ver com os olhos fixos em seu membro. Faço o que me é
mandado e me aproximo mais de seu pênis, movimentando minha língua em
forma circular em sua glande. Escuto um porra ser sussurrado por ele, e quando

117
levanto os olhos, acabo por encontrar os dele, e seus lábios curvados em um
sorriso atrevido, que de alguma forma, aumenta ainda mais meu próprio fogo.
Passo a língua por seu comprimento e em seguida, coloco-o na boca,
movimentando-me devagar. Zared agarra em meus cabelos e me puxa para ele,
fazendo-me engasgar. Tiro-o da boca e começo a tossir enquanto ele me olha
surpreso, como se aquilo fosse algo novo.
— O que… — Tento dizer mas tusso mais duas vezes. — O que foi?
— É a primeira vez que vejo alguém se engasgar com meu cacete. — Ele
diz, segurando-se para não rir. Olho para ele sentindo-me uma idiota e abaixo
meu olhar para o chão. Nem Alison havia me falado na possibilidade de alguém
conseguir se engasgar enquanto faz um… Um boquete. — Não se preocupe,
você estava indo bem, a culpa foi minha que te forcei a fazer garganta profunda.
— Ele diz mais sério. — Tente novamente. — Ainda receosa, volto a pegar em
seu membro e coloco-o na boca, concentrando-me em dar-lhe prazer e tentar
esquecer o deplorável acontecimento.
Os gemidos dele se tornam cada vez mais altos, misturados a palavrões, até
mesmo pronunciados em outras línguas. Ele me levanta e me encosta na parede
fria novamente com a expressão tão séria que me leva ao estado de nervosismo
novamente. Suas mãos deslizam até minhas pernas, e em um impulso, tiram-me
do chão.
— Segure-se em mim. — Sua voz sai rouca. Entrelaço-as em torno de sua
cintura, e no mesmo instante, ele sussurra um boa garota em meu ouvido. Seus
lábios voltam a fazer contato com os meus, dessa vez para um beijo mais calmo.
Passo meus braços em torno de seu pescoço enquanto sinto-o me prender
ainda mais contra seu corpo e a parede, tirando o resto de ar que tem em meus
pulmões. Poderia afastá-lo como fiz da primeira vez, no entanto, ele foi mais
rápido e separou nossos lábios.
Com a respiração irregular, seu peito sobe e desce tão colado ao meu que
até as batidas aceleradas de seu coração são perceptíveis. Desço e mantenho
sobre o órgão vital tão acelerado quanto o meu. Zared olha para minha mão
por mais ou menos um minuto e volta a me olhar com a boca entreaberta.
Parece surpreso, receoso, e até mesmo com uma mistura entre ódio e…
Felicidade. Ele volta a ocupar nossos lábios enquanto solta uma de minhas
coxas e brinca com minha entrada antes de adentrar-me, tirando um gemido.
Seus movimentos vão aumentando cada vez mais, os gemidos são sussurrados
em meu ouvido, assim como no cemitério, como se cada um deles fosse um
segredo apenas nosso que ninguém jamais poderia saber.

118
— Não me arranhe, filha da puta! — Ele rosna, fazendo-me afastar as
mãos de seu ombro.
Estava sentindo um prazer inexplicável. Assim como Alison havia dito, é
algo que não tem como descrever, só sabemos quando estivermos praticando.
Concordo com ela, é algo realmente maravilhoso e parece que cada momento
de dor não aconteceu. Claro que nunca serão esquecidos, afinal, quem
conseguiria esquecer? — Oh… Merda, Skye! — Dessa vez ele geme alto. — É
tão gostosa… Tão apertadinha. — Era admirável sua capacidade de conseguir
falar durante aquele momento, já que a única coisa que saía de minha boca eram
gemidos que ele parecia querer escutar cada vez mais altos. Sou colocada de
volta ao chão e virada de costas para ele. — Empina a bunda pra mim,
amorzinho.
Apoio-me na parede, e com sua ajuda, posiciono-me exatamente como ele
queria. Ele sai do boxe por um momento e volta com um vidrinho em mãos,
seu conteúdo é colocado em minha entrada traseira e em seu membro ereto,
depois é jogado no chão. Mordo os lábios e aperto os olhos com força a espera
da dor horrível que sentia quando ele entrava, no entanto, ela não vem e ele
entra com mais facilidade, dando-me apenas dando a sensação desconfortável.
Suas mãos vão para minha cintura e me apertam com a intenção de deixar
marcas e logo começa a me guiar junto a ele.
— Caralho! — Grito e escuto sua risada satisfeita atrás de mim.
— Sei que pode fazer melhor. — Ele diz com autoridade. Solto mais
alguns gemidos, ele enrola meus cabelos em sua mão e os puxa, acompanhado
movimentos mais rápidos e brutos.
— Porra, que pau grande do caralho! — Digo com dificuldade. Não estava
mentindo, seu tamanho era realmente surpreendente. E aquilo era exatamente o
que ele esperava escutar, tanto que se curvou e deixou um beijo em minhas
costas.
Como se não fosse o suficiente seu pênis, ele leva uma mão livre pro meio
de minhas pernas e inicia uma espécie de brincadeira com meu clitóris. Eu
gemia, ele gemia, e o ambiente se tornava cada vez mais barulhento. Minhas
pernas começam a fraquejar, ameaçando vacilar a qualquer momento. Ao notar,
ele aumenta a velocidade de suas investidas e brincadeiras, trazendo-me o
segundo orgasmo daquela noite. Ele sai de dentro de mim e volta a me por a
sua frente, segurando meus braços de maneira que eu não fosse de encontro ao
chão.
— Preste atenção no que vou te falar, você vai voltar pro quarto e deitar
na porra da minha cama, e ficar a minha espera de pernas bem abertas. Quando

119
eu chegar lá quero te ver com dois de seus dedinhos dentro de sua boceta.
Entendeu?
— S-sim. — Afirmo balançando a cabeça devagar.
— Ótimo. — Ele me empurra para fora do boxe. — Ah, e se seque com a
toalha de rosto, a sua está molhada e não vou te emprestar nenhuma das
minhas limpas. — E volta a tomar banho como se nada tivesse acontecido.
Olho pro chão, pego a pequena toalha vermelha e vou para o quarto.
— Atlantis! — Grito e corro até a cachorrinha que estava deitada na cama
de Zared. Ele realmente a trouxe, parece que faz tanto tempo que havia me
prometido que traria ela de volta para mim. Tenho que admitir que meu ódio
por ele diminuiu 0,1% depois disso. Era ótimo ver minha cadelinha, a única
coisa que Alison me deu que realmente prestou.
— Wow! — Escuto-o da porta do banheiro, fazendo-me virar para vê-lo
me olhar com o mesmo sorriso pervertido de antes, mas dessa vez, com a
toalha a sua volta. — Sabia que te encontraria abraçada com a cachorra, mas
não sabia que encontraria deitada na minha cama de bruços. Acho que estou
excitado novamente. — Ele morde os lábios pela milésima vez só aquela noite.
— Obrigada por trazê-lo para mim. — Digo, chorando.
— Ai, caralho. Por que está chorando, porra? — Ele pergunta, passando as
mãos no cabelo em frustração.
— É que ela é tudo o que me restou da Alison… Da minha vida antiga. —
Ele cruza os braços e fica me olhando com tédio.
— Já acabou? Agora, vá se secar direito e colocar sua roupa. Estou
cansado demais para ficar aturando sentimentalismo. — Ele cospe. Cavalo
como sempre. — E tira esse saco de pulgas da minha cama. Mandei que
trouxessem, mas era para vir dentro de uma caixa ou sei lá o que a impedisse de
fazer contato com minhas coisas… Tirando você. — Viro-me de costas, faço o
que ele me mandou, pego a roupa que havia deixado na ponta da cama e volto a
me vestir. — Vou cuidar de seus ferimentos. — Afirma e me sento no chão
para poder ficar com Atlantis sem que Zared se irritasse. Tentativa falha. Ao me
ver ali e não em sua cama, ele se aproxima, agarra meu braço e me joga sobre o
colchão. — Vai dormir comigo, não te quero suja. — Ele diz de forma
grosseira, jogando a caixa de primeiros socorros ao meu lado. — A queimadura
ainda dói? — Ele pergunta se referindo ao Z marcado entre meus seios.
— Uhum. — Afirmo.
Ele se senta a minha frente, me olha com cuidado e puxa a blusa do
pijama para fora de meu corpo. Assim como da primeira vez que cuidou da
queimadura, seus olhos não olharam para meus seios, apenas se mantém fixos

120
no ferimento. Ele abre a caixa, tirando dali uma pomada cicatrizante. Uma boa
quantidade é colocado em seu indicador, que o espalha com todo o cuidado
possível, depois coloca mais um pouco e espalha nos cortes fechados por
pontos em minha perna. Vê-lo tão concentrado é estranho, mas a expressão
séria que ele tem é bastante atraente, e seria mentira se eu dissesse que não era
atraída por ele. Tirando a maioria das coisas em sua personalidade complexa, e
o que faz da vida, não seria ruim estar com ele.
— Deita de bruços. — Ele diz, parecendo calmo. Assim que o faço, sinto
suas pernas uma de cada lado de minha cintura e logo depois, seus cuidados
com outros tipos de remédios em minhas costas marcadas e cortadas pelo
chicote. Ao terminar de passar um remédio que ardia, sua respiração é sentida
em meu ombro e logo em seguida seus lábios fazem contato com minha pele,
deixando um pequeno beijo. — Pronto. Só falta o rosto. — Ele sussurra em
meu ouvido.
— Obrigada. — Agradeço baixinho.
— Fique assim até o remédio secar, depois vista blusa. — Ele sai de cima
de mim. — Onde foi que deixei a merda da outra faixa? — Sua voz sai num
sussurro, deixando claro que estava falando sozinho. — Achei!
Depois de meia hora tentando impedir que a cachorrinha subisse em sua
cama, com as costas já cobertas pela a faixa, ele levanta irritado, puxa um
colchão de debaixo da cama, coloca lençol, uma coberta que estava guardada
dentro do enorme guarda-roupas e coloca a cadela deitada lá.
— Você! Vá dormir no chão junto com essa vira-lata pulguenta.
— E-eu? — Pergunto confusa.
— Não, porra, eu! — Levanto-me e puxo o travesseiro comigo. O colchão
que ele havia arrumado para mim é bem confortável, e com o sono que sentia,
bastou me aconchegar e Atlantis se aninhar entre meus braços que dormi.

Não havia muito tempo que o sinal para o fim da aula havia tocado. E os alunos se
apertavam para poder sair. Todos muito animados com o baile de outono que aconteceria
naquela noite. Bom, todos menos eu. Acontece que havia esperado alguém me chamar, mas
como previsto, ninguém o fez. Alison havia matado aula todas as sextas-feiras com a desculpa
de estar com cólica, claro que essa ela só usava essa uma vez por mês. E enquanto isso
utilizava as outras mais clichês: dor de cabeça, dor de garganta, tontura, dor de cabeça e
tontura, enjoos. E eu, com o meu incrível medo de me juntar a ela, ficava e aturava as aulas
mais chatas da semana.

121
Ao me encontrar sozinha na sala de aula vazia, fecho meus livros, guardo meu material
na mochila, jogo-a sobre um dos ombros e vou de encontro a minha amiga que estava
pendurada em Todd. Um dos garotos populares e seu namorado.
— O’Brien, animada com o baile? — Ela pergunta com um sorriso de orelha a orelha.
A verdade é que ela não suportava a ideia de ninguém simplesmente não me chamar, então
todos os dias desde o começo do mês ela vem me atormentar com as mesmas perguntas.
— Claro, vai ser demais tomar ponche sozinha. — Digo no tom casual. — Na
verdade não irei, tenho que estudar para o teste de francês. — E era verdade. O pior é que
não me abalava em não ter sido convidada, se eu fosse eles, também não chamaria uma
desconhecida para me acompanhar. E tinha coisas mais importantes a fazer do que beber
ponche batizado.
— Nada disso! Olha, meu pai me chamou para ajudá-lo com uma coisa urgente e não
poderei ir, por isso Todd vai te levar. — Se não a conhecesse tão bem, acreditaria, mas sabia
que era mentira.
— O quê? — Eu e o garoto falamos ao mesmo tempo.
— Por que a surpresa, Todd? Eu tinha te avisado… — Ela levanta as sobrancelhas
para que ele entre em sua mentira.
— É… Isso, tinha me esquecido. — Reviro os olhos e cruzo os braços.
— Tudo bem, mas posso ir ajudar seu pai no seu lugar, Ali. Afinal, não comprei
nenhum vestido. — Digo, tentando fugir.
— Não é problema, usa o meu! — Ela solta um gritinho e bate palmas. — Mas com
uma condição: vai ter que se divertir bastante.
— Claro… — Concordo olhando para Todd que tinha um sorriso gentil no rosto.
— Ótimo! — Ela grita novamente.

Abro os olhos, assustada com os gritos apavorados que vinham da cama de


cima. Zared se debatia e chorava ainda dormindo. Levanto-me com medo, subo
na cama engatinhando até o homem em pânico que parece piorar cada vez mais,
já que seus gritos eram realmente desesperados e repetia várias vezes.
— Não, mamãe! Aisha, Zed, me desculpem! — Ele pronunciava aos gritos
e entre os soluços, com o corpo todo suado. Agora não estava com medo e sim
preocupada, e precisava acordá-lo daquele pesadelo logo.
— Zar… Daddy! — Balanço-o. — Daddy, acorda! — Ao não receber
resultado, sento um pouco acima de seu membro e tento segurar suas mãos. —
Ei, acorda, por favor! — Grito, fazendo-o arregalar os olhos, assustado, e
segurar minhas mãos para se defender de algo.

122
— S-Skye? — Ele pergunta com a respiração irregular. Com a voz tão
fraca e vulnerável que fez meu coração quebrar.
— Sim, sou eu… — Digo e acaricio seu rosto molhado pelo suor. —
Você estava tendo um pesad… — Tento dizer, mas sou interrompida com seus
braços me puxando para ele em um abraço apertado. E mais uma vez sou
surpreendida.
— Não dorme lá em baixo, não, fica comigo, por favor, fica aqui comigo.
— Ele pede, apertando-me mais contra ele.
— Eu fico, agora se acalma. — Minha orelha estava em seu peito, podia
ouvir o som das batidas aceleradas de seu coração. Afinal ele tinha um, só não
sabia como usá-lo. — Quer me contar o que sonhava?
— Não. — Ele diz, soltando-me um pouco.
— Isso acontece sempre? — Pergunto, voltando a me sentar sobre ele.
— Todas as vezes em que resolvo dormir. — Ele admite.
— É por isso que não dorme mesmo quando toma remédio? — Ele
balança a cabeça. — Por que não teve pesadelo quando dormiu comigo no meu
quarto?
— Não sei, aquela foi a melhor noite que tive durante anos. — Só era
possível ver o brilho de seus olhos no meio daquela escuridão toda. Ao
contrário dele, que me via melhor por causa da luz da lua que começava a se
esconder atrás das árvores.
— Isso acontece comigo todas as vezes em que durmo, tudo o que já me
fez ver fica se repetindo, e quando não é isso, são sonhos do que já vivi com a
Alison. Enfim, é melhor dormirmos. — Aproximo-me de seu rosto e dou-lhe
um selinho demorado. Tento sair de cima dele, mas ele me impede. E com
dificuldade, ele se senta, passa os braços a minha volta. Agora que ambos
estávamos ao lado da janela, era possível ver seu rosto magoado por socos.
— Se for para beijar, que beije direito. — Ele diz e se aproxima de mim,
iniciando outro beijo intenso.

Pisco duas vezes até recuperar a visão e encarar o lustre apagado no teto.
Espreguiço-me, olho para o lado e encontro a cama vazia, mas os acordes do
violão se misturavam a voz de Zared em uma música conhecida.
— Minha blusa está a sua disposição. — Ele diz sem deixar de tocar o
instrumento. Não conseguia vê-lo, mas parecia que ele conseguia me ver. Olho
para a ponta da cama onde uma regata preta estava dobrada a minha espera. —

123
E antes que comece a procurar, rasguei sua calcinha antes de fodermos durante
a madrugada.
Franzo as sobrancelhas. Estico-me até sua blusa, visto-a e saio de debaixo
das cobertas quentes, sendo recebida pelo ar frio da manhã. Vou até o batente
da porta da varanda, onde ele está sentado em uma poltrona de couro preta,
com o violão sobre as pernas, tocando Patience. Na outra poltrona está Atlantis,
deitada com as patas da frente cruzadas. O dia está nublado, venta muito, e está
coberto por neblina. As árvores se debatem contra o vento, que as atinge com
tanta força que projeta um barulho alto e sombrio. Ele me olha e indica a
cadeira a sua frente. Pego a cachorrinha e a coloco em meu colo logo após me
sentar. Ele continua a tocar a música. Sua voz sai perfeitamente, combina com a
música quase quanto a do próprio vocalista.
Ao terminar de cantar, ele fica me olhando, não da mesma forma de
ontem a noite, mas sim com ódio.
— Fiz alguma coisa? — Pergunto baixo.
— Não, se tivesse feito estaríamos no quarto de tortura. — Ele responde,
cerrando os dentes.
— Posso te fazer as perguntas que me prometeu deixar ontem a noite?
— Não. — Ele responde, fecha os olhos e respira fundo.
— Mas você prometeu. — Digo desapontada. Ele joga o violão lá em
baixo e agarra meus braços, apertando-os com força.
— Presta atenção, garota! Eu decido se vou responder ou não suas
malditas perguntas. E sobre ontem, você não viu e nem ouviu porra nenhuma !
se abrir essa boca pra falar com alguém sobre isso, eu acabo com você de uma
vez por todas. Se está pensando em me convencer a não te matar está fazendo
isso muitíssimo errado! — Ele me joga da cadeira para o chão e sai da varanda.

Zared
— QUE MERDA VIERAM FAZER AQUI?! — Grito ao me deparar com
Hayden, Logan, Nolan e Leon parados em frente a escada.
— Temos coisas a fazer. Logan vai ficar aqui e cuidar de sua ex-virgem. —
Leon diz, autoritário.
— O quê? Não vou deixá-la com esse porra! — Grito e Leon sobe as
escadas para ficar cara a cara comigo.
— Vai me contrariar? — Ele pergunta e quando não obtém resposta, abre
o mesmo sorriso de merda. — Foi o que pensei. — Ele ri. Olho para Logan,

124
que está de braços cruzados e um sorriso convencido no rosto. Se esse caralho
encostar um dedo se quer nela…

125
Capítulo Dezessete

Skye

— Já pode sair daí, virgem. — O homem que ficaria de olho em mim diz,
levantando seu rosto em direção as escadas. Logo após a saída de Zared com os
outros três. — Sua sorte foi que seu dono estava puto demais para te ver
agachada aí. — Engulo em seco e me agarro ainda mais a balaustrada,
encolhendo-me ainda mais.
Podia garantir que não fiz nenhum barulho, se tivesse a vista ou me
escondido tão mal, Zared teria percebido, até porque ele está sempre atento e
perderia a cabeça. As luzes do salão estavam apagadas, e como estava um
tempo chuvoso, não tinha muita luz. O homem que me olhava lá de baixo sorri,
um sorrio um tanto maligno e coloca as mãos dentro do sobretudo. Recua dois
passos, girando nos calcanhares em direção ao canto mais escuro do cômodo.
Estava com medo, não gostava da ideia de ficar sozinha com um homem que
até mesmo Zared diz ser tão ruim quanto ele em relação as mulheres. Poderiam
ter deixado aquele loiro com a metade do rosto com cicatriz de queimadura, e
com cara de amargurado. De todos, ele parece o menos ruim. Até aquele dono
da casa masoquista de bonecas tem algo que me assusta, a forma que ele me
olhou quando me viu pela a primeira vez foi intimidante, começando pela a
incrível cicatriz no olho direito, deve ter sido sorte ter atingido apenas a
sobrancelha e o começo da bochecha. Arrasto-me até os degraus e sem levantar,
desço apenas os dois primeiros, olhando atentamente através do espaço entre
os balaustres. A parte onde o homem havia sumido em meio a escuridão.
— O que foi? Z comeu sua língua? — Sua voz causa vários ecos pelo
ambiente vazio e sem iluminação. — Não me surpreenderia, é bem do feitio
dele.
— C-Como sabia que eu estava escondida? — Pergunto com a voz
trêmula.
— Olha, você fala! Bom, se vamos conversar, não vou precisar me
esconder também, certo?
— Ahn… A… Acho que não. — Respondo, sentindo a única coisa que
era normal sentir por aqui: medo.
— Legal. O clima não está agradável, principalmente nesse escuro. — Seu
tom de voz muda completamente, quase tão rápido quanto as trocas de humor
repentinas do amigo. Se é que eles são amigos. Em um simples clique, o
cômodo se ilumina, mostrando-me que o lugar onde ele está é um bar. A sua
frente está um belo balcão feito com madeira escura, o mármore sobre ele é
preto e combina com as banquetas. Logo atrás de seu corpo tem uma enorme
estante repleta de diversos tipos de bebidas fortes. — Aposto que você deve
estar cheia de perguntas sem resposta. — Ele vira o rosto em direção as escadas.
— Co… Como sabe? — Pergunto mais curiosa. Ele realmente estava
sendo gentil, e parecia estar interessado em conversar comigo. No entanto
poderia ser uma encenação, nunca se sabe do que esses malucos são capazes, e
não é porque um deles parece estar simpático que devo confiar. O homem solta
uma risada divertida e volta a se virar para a estante.
— Z odeia perguntas, e existe uma possibilidade de 0,1% de suas respostas
serem verdade. Mas, ao contrário dele, adoro jogos de perguntas e respostas, se
estiver interessada posso responder o que sei. — Arregalo os olhos e me solto
aos poucos do corrimão.
— Como posso saber que as suas respostas serão verdadeiras? — Disparo.
Não seria tão idiota de cair em qualquer coisa que ele me diga.
— Se for inteligente, saberá distinguir a verdade da mentira. — Ele volta a
se virar,desta vez, segurando uma garrafa de uísque. — Mas é você que decide
acreditar ou não.
— Qual é o seu nome? — Pergunto, arrastando-me mais um degrau
abaixo.
— Logan, também conhecido como L.H ou Sinner. — Ele responde sem
parar para pensar. Tudo bem, essa resposta ele deve ser gravada. Vamos ver
uma que eu já saiba. Estava disposta a descobrir mais sobre aquele monstro que
se diz meu dono, e se receberei o que quero tão facilmente, preciso ter uma
noção se ele realmente sabe algo.

127
— E o dele? — Pergunto a primeira coisa que me vem a cabeça.
— Zared, mas é chamado de muitas formas, como por exemplo: Z, Z. W.,
Devil ou Lúcifer, Estripador, entre outros que ele deve saber. — Levanto-me e
desço as escadas com a melhor postura que conseguia naquele momento, sendo
seguida pelos seus olhos. — Acho que você não está muito bem… — Ele diz,
visivelmente espantado com minha aparência. Ainda estava apenas com a blusa
preta de Zared que vesti há menos de uma hora, e meu cabelo está preso em
um rabo de cavalo improvisado, deixando todos os meus ferimentos da perna,
braço e rosto amostra.
— Quê isso! Só levei vinte e cinco chicotadas, socos, facadas, chutes,
puxões de cabelo, fui estuprada, arrastada pelos os corredores pelos cabelos,
jogada no chão tantas vezes que perdi a conta… Estou ótima.
— Oh… Acho que ele te vê como um saco de pancadas. — Ele diz sem
se importar. — É lamentável. Você é atraente fisicamente e esses hematomas
não ajudam a mostrar isso.
— Diga coisas que eu já não saiba. — Reviro os olhos. Puxo a banqueta
do meio, sento-me e mantenho braços e pernas grudados, evitando um possível
contato.
— Z achou a mulher perfeita, assim podem ser mal-humorados e sacrificar
gatos pretos para o demônio juntos. — Ele resmunga, revirando os olhos. —
Olha, amorzinho, posso ser mais paciente e agradável do que os outros, mas se
continuar a usar esse tom enquanto fala comigo, irei te castigar. — Engulo um
seco e me encolho. — Agora, a próxima pergunta! — Respiro fundo, soltando
todo o ar em um longo suspiro.
— Por que ele faz essas coisas? — Pergunto com respeito na voz.
— O único que realmente sabe é o nosso chefe, Leon. Mas lembro-me
que quando comecei a trabalhar, tínhamos em torno de dezessete anos, Z
sempre foi muito calado, inexpressível, frio e bem reservado. Quando nos
reuníamos na casa de Leon, ele sempre estava lendo livros, apostilas ou papéis
que eram guardados dentro de caixas velhas. — Ele franze as sobrancelhas e
coça a cabeça tentando lembrar de algo. — Uma vez, aproveitei que ele tinha
ido ao banheiro e peguei uma das folhas para ver o que é que tinha de tão
interessante…
— E o que tinha? — Pergunto, curiosa demais. Essa é primeira e última
coisa que saberei dele. Logan abre a garrafa, pega dois copos e os enche até a
metade, empurrando um para mim.
— Histórias antigas de serial killers, assassinos, estupradores, mafiosos,
estripadores, ladrões, sadistas e masoquistas. Tudo o que possa imaginar. Ainda

128
lembro a história que ele lia naquela noite, era a de Jack, o estripador. — Fiquei
bem chocado ao ver o quão mórbido ele podia ser.
— Ainda se lembra de como era a história? — Pergunto estremecendo.
— Vejamos… Por volta de 1888, Jack, o estripador, pseudônimo dado a
ele, foi um assassino em série não identificado que agiu no distrito de
Whitechapel, em Londres. Foi nomeado desta forma por causa de uma carta
que foi enviada à Agência Central de Notícias de Londres por alguém que se
dizia o criminoso. Uma idiotice, porque, que tipo de criminoso enviaria uma
carta admitindo ser o culpado? Pura babaquice essa porra! Provavelmente quem
mandou foi alguém que queria foder com a vida de algum otário naquela
época… — Ele para e fica me olhando. Minha expressão não é uma das
melhores, tanto que ele faz um biquinho, olha para os lados, bebe um gole de
sua bebida e volta seu olhar para mim. Arqueio as sobrancelhas enquanto
continuo com cara de desinteressada em relação a sua opinião sobre a história
ou não.
“Desculpe. Vamos voltar a história. As vítimas de Jack eram sempre
mulheres que tentavam ganhar a vida através da prostituição. Duas delas
tiveram as gargantas cortadas e os corpos mutilados. Para não provocar barulho,
as vítimas eram primeiro estranguladas, o que era a única coisa que justificava a
falta de sangue nos locais dos crimes. Além de serem sufocadas, terem as
gargantas cortadas e os corpos mutilados, Jack também removia seus órgãos. E
isso fez com que os oficiais da época acreditassem que ele possuía
conhecimentos anatômicos ou cirúrgicos. Os oficiais tiveram um grande
fracasso em capturá-lo e os jornais, cuja circulação crescia consideravelmente
naquela época, deram ampla cobertura ao caso devido à natureza selvagem dos
crimes e ao fracasso da polícia. Jack nunca foi capturado, seu verdadeiro nome
nunca foi descoberto. — Encolho-me e olho para os cantos do cômodo,
sentindo o medo tomar conta de mim. — Depois que até os pelos das minhas
bolas estavam arrepiados, Zared sussurrou em meu ouvido “Grande história,
não?”, fazendo-me pular para fora do sofá igual a uma bicha desvairada. Sabe,
acho que essas histórias mexeram com o cérebro dele, tiraram qualquer tipo de
sanidade ou humanidade que lhe restava.
— Não acha que essa história muito parecida com a dele? Ele faz
exatamente isso, mas pelo que sei, até agora o único órgão que ele arranca é o
coração. Podemos dizer que ele é o novo Jack do século XXI. — Respondo
baixo e o homem a minha frente balança a cabeça, porém, com um sorriso
brincalhão. — Logan, por que essa história te deixa nervoso se você mesmo faz

129
isso? — Ele estava prestes a beber mais um pouco quando para de movimentar
o braço no meio do caminho.
— Não faço o mesmo, trabalho para Leon e faço outras coisas, se for para
matar, que seja de uma vez. — Ele da de ombros. — As prostitutas que fodo
são mortas com um tiro na cabeça, apenas quando estou irritado ou frustrado
que as torturo.
— Mas da forma que ele diz, parece obrigatório… — Levanto meu olhar
em sua direção, vendo-o balançar a cabeça lentamente negando.
— Para ele, sim. Z tem um ódio incomum pelas mulheres, ele costuma
dizer que só servem para foder ou servirem de empregadas. Mas nem o próprio
Leon sabe o motivo desse sentimento em relação a vocês. Assim como odeia as
mulheres, ele também odeia os animais…
— Como sabe? — Pergunto com medo de algo acontecer com minha
cachorrinha.
— Em uma noite, nessa mesma época em que ele lia essas histórias, todos
estávamos aqui quando, de madrugada, escutamos o choro de um animal.
Todos levantamos e bem ali. — Ele aponta para a frente da escada. — Ele
estava parado de costas, e a sua frente, uma de suas cadelas que ajudavam a
guardar a casa havia escapado e entrado. Zared estava tão estranho que matou o
animal a facadas. Eu e os outros presenciávamos perplexos aquela cena bizarra
parados no topo da escada. Vimos a cadela se debater e não fizemos nada, só
tomamos alguma atitude quando ele se virou com um sorriso enquanto
segurava o coração. Foi nesse dia em que Hayden ganhou aquela cicatriz
próxima ao olho.
— Não! Não, não, não! — Grito escondendo o rosto nas palmas da mão.
— Você está mentindo, essa história está forçada demais, está tudo muito
forçado! — Sentia meu coração doer e as lágrimas me virem aos olhos.
— Se dúvida tanto por que não pergunta a ele? — Ele diz, voltando com
seu ar sombrio. Levanto o rosto com a boca entreaberta e os olhos arregalados.
— O-O quê? — Pergunto, sentindo meu corpo todo tremer. Logan olha
para além de mim e faz um movimento quase imperceptível com a cabeça
indicando a porta. Sentindo o calafrio subir-me a espinha, me viro devagar e
vejo o homem moreno olhando em nossa direção com ódio. Como sempre.
Mas algo mais se misturava, talvez o medo e a surpresa por me ver sentada ali.
Logo atrás dele, os outros três se aproximavam rindo de alguma coisa.
— Que merda pensa que está fazendo aqui em baixo, sua vadia?! — Ele
berra e vem em minha direção. — Estavam bebendo? Deu bebida para a porra

130
da minha virgem !? — Ele agarra o copo que começa a tremer assim que é pego
e atirado ao chão logo em seguida.
— Z, querido, agora é ex-virgem, bebê! — Leon ironiza rindo.
— Ela estava apenas conversando comigo e goza logo que se não
percebeu, seu babaca, o copo está cheio. A garota não bebeu. — Logan
responde revirando os olhos, mantendo sua voz no mesmo tom calmo. Zared
agarra em meu pulso e me puxa para fora da cadeira, fazendo-me tropeçar e
cair. — Ei, ela não fez nada de mal, não precisa bater nela ainda mais do que já
fez.
— Cala a porra da boca, Logan, não se meta. Agora que ele não está
agindo como um bambe, você quer que ele pare? — Leon se pronuncia
novamente com animação e diversão na voz.
— Mas isso não está certo, ela não fez nada de errado! — Logan continua
a me defender. Zared me solta e se vira para o amigo atrás do balcão.
— Cale a boca seu merda! Sei exatamente o que está querendo, mas só vou
dizer uma vez: a porra da garota é minha, se encostar um dedo nela, você vai se
ver comigo! — Logan ri e bebe o resto do uísque em seu copo. Minha visão
estava embaçada por causa das lágrimas, mas conseguia ver o mesmo sorriso
maligno em seu rosto enquanto Zared gritava e apontava para ele.
— Pode fazer o que quiser. Claro, se não te matarem primeiro por não
conseguir proteger sua virgem a ponto de roubarem-na de você.
— Está avisado. — Zared repete e volta a se virar para mim. Minha visão
estava tão turva que não conseguia descobrir qual era a expressão que tomava
conta de seu rosto. Arrasto-me pelo chão na tentativa de conseguir me afastar
dele, no entanto, sou interrompida assim que pisam em minha mão, olho para
cima e deixo um soluço escapar, deparando-me com o homem de cabelos
compridos, que me olhava sério e pisava ainda mais em minha mão.
— Seja boazinha. — Ele diz sem qualquer sinal de emoção na voz. Assim
que Zared se aproxima de mim, ele levanta o pé e volta a olhar para frente
como se aquilo não o afetasse. O homem moreno se abaixa a minha frente,
agarra em meu pulso novamente e me levanta antes que o mesmo tente algo.
Tomo coragem, tiro meu pulso de sua mão, o empurro com o máximo de força
que consigo, fazendo-o recuar apenas três míseros passos e saio correndo
escada acima, tropeçando em meus próprios pés.
— Skye! — Escuto o barulho de suas botas em contato com a madeira
logo atrás de mim. Corro o mais rápido que consigo e entro justamente em seu
quarto. — Skye! — Ele grita novamente. Quando vou empurrar a porta para
trancá-la, ele a empurra, fazendo-a bater com força contra a parede. Minha

131
respiração é irregular, o coração acelerado e o rosto completamente molhado
pelas lágrimas. — Que merda foi aquela lá em baixo? — Ele pergunta histérico.
Conforme se aproximava, eu recuava. Por sorte, consigo desviar de sua cama,
logo encontro com a mesma parede onde estávamos a nos agarrar noite
passada. Sem saída. — Responde! — Ele grita assim que se aproxima perto o
suficiente de mim. Sem pensar nas consequências, dou um passo a frente e
acerto-lhe um tapa no rosto. O mesmo olha para o lado sorrindo e antes que eu
possa fazer alguma coisa, ele acaba por me devolver o tapa, agarrando meus
dois pulsos logo em seguida. Sou empurrada de volta para a parede, suas mãos
me prendem com tanta força que seus dedos já estavam brancos. Fico a espera
de mais surras, xingamentos ou coisas do tipo, no entanto, sou surpreendida
com seus lábios entrando em contato com os meus, iniciando um beijo intenso
que não dura muito. — Se voltar a me bater irá, receber mais do que um tapa.
— Ele diz, soltando-me com brutalidade, caminha até a cama e se senta,
passando as mãos no rosto enquanto solta um longo suspiro frustrado.
— E por que não me bate agora? Anda, me bate! — Grito partindo pra
cima dele com mais tapas. — Vai seu covarde estúpido!
— Cala a boca, porra! — Ele agarra em meu pescoço, fazendo-me parar
no mesmo instante. — O que deu em você? Ficou louca? — De alguma forma,
ele se levanta sem que eu caia ou tropece para trás. — Tenho nojo de olhar para
seu rosto. — Ele me dá outro tapa. — Então cala a boca antes que eu decida te
jogar da sacada, assim como fiz com meu violão. — E mais um tapa é dado em
meu rosto. — Me fez quebrar o violão, como vai fazer para corrigir seu erro,
hein? — Não o respondo, apenas continuo a olhá-lo com desprezo. — Foi o
que pensei. — Ele ri e me joga no chão, levando-me a bater a cabeça na ponta
da cama. Fecho os olhos e deixo um grunhido sair de minha boca. — Entenda
uma coisa: seu trabalho é me satisfazer, apenas isso. — Sou agarrada pelos
cabelos, e como há uns dias, sou arrastada dali até a porta de meu quarto. —
Tome banho que logo mandarei alguém trazer sua roupa. — Sou chutada para
dentro do cômodo e sem dizer mais nada, ele bate a porta atrás de si, deixando-
me sozinha.
Antes que eu consiga me mexer, a porta volta a se abrir e Atlantis é jogada
de qualquer forma no chão, fazendo-a chorar.
— O que está esperando para ir se limpar? É demente o suficiente para
que eu tenha que enfiar sua cara dentro da banheira cheia? — Olho para o
carpete que continha algumas gotas de sangue, franzo as sobrancelhas e passo a
mão na parte de trás de minha cabeça que estava molhada, e vejo minha mão

132
coberta por sangue. — Está machucada? — Ele pergunta. — Baby Girl, você
está machucada?
— Estou. — Afirmo com a voz tão baixa que até mesmo eu tive
dificuldades para ouvir. Zared solta a maçaneta da porta e se apressa em vir até
mim. Quando ele tenta me tocar, me arrasto para longe, com a expressão tão
assustada que parecia a primeira vez que ele me machuca. Minha cabeça latejava
de uma forma tão insuportável que até mesmo a luz incomoda. Ele dá mais
dois passos em minha direção, tão preocupado que nem parecia o homem que
estava a ameaçar de me afogar na banheira. — Baby Gir…
— Não chega perto de mim. — Digo, encolhendo-me contra a parede que
acaba por ficar manchada.
— Deixe-me ver se é grave. — Ele tenta se aproximar mais uma vez, mas
acabo por levantar e correr para dentro do banheiro, trancando-me lá. — Tudo
bem, deixarei que tome banho. Mas estarei aqui a sua espera.
Tiro minha mão da maçaneta e me viro para o espelho, que refletia algo
deplorável. Ele estava certo, só de olhar para meu rosto dá nojo. Caminho até a
pia, onde me apoio, meus olhos fixos na garota que estava ali, com olheiras,
cortes e hematomas fortes que consumiam toda a beleza que um dia já existiu
nela. Pobre garota, uma inocente em um lugar de pecadores. Há menos de duas
semanas, estava me admirando e não me reconhecendo, hoje me olho e sei que
não tem ninguém aqui, pareço ter morrido no momento em que vi Alison.
— Sua imbecil! — Grito socando o espelho que corta minha mão logo
após partisse em pedaços que se espalham na pia e chão. — Droga. — Sussurro
correndo até o rolo de papel higiênico, tiro dele uma boa quantidade e aperto
sobre a ferida.
— Se chame do que quiser, mas não quebre as coisas que não são suas,
elas são mais importantes do que você. — A voz de Zared ecoa do outro lado
da porta. Estava sentindo-me estranha, com desprezo e ódio por mim mesma,
essa era a verdade. Se eu não fosse tão burra, nada disso teria acontecido e hoje,
estaria enchendo o saco de Alison para tirar os cabelos do ralo, e ela
escondendo meu material para que eu não estudasse. Fecho os olhos, respiro
fundo e ligo o registro para poder encher a banheira, coloco um dos sais de
banho que tinha ali e começo a me despir, o que não foi trabalhoso, já que
estava apenas com a blusa de Zared. Aperto os olhos e balanço a cabeça na
tentativa de estabilizar minha visão. Ao entrar na banheira, solto um suspiro de
alívio, a sensação de água quente junto aos sais de banho é ótima. Já para o final
do banho, mergulho por alguns segundos e quando volto a me sentar, vejo a
água meio alaranjada, minhas dores na cabeça pioram. Pisco diversas vezes e

133
acabo por voltar para baixo da água sem conseguir me mexer, até ficar
inconsciente.

Abro os olhos devagar e me deparo com a forma de Zared parado diante da


janela, olhando para alguma coisa lá fora, ao seu lado, o homem de cabelos
cumpridos fumava um cigarro, soprando a fumaça pela janela. Por sorte,
nenhum dos dois notaram que eu já me encontrava consciente. Ainda sentia
vontade de bater nele, sentia-me cansada de sofrer com as agressões dele e não
fazer nada. Dei-lhe o que queria fácil demais, nem sequer tentei impedi-lo,
apenas fui envolvida em seus jogos e acabei gostando de ter relações sexuais
com ele, outra coisa inteiramente inaceitável de minha parte.
— Sabe, Z, você a trata como se fosse sua prisioneira, uma escrava sexual.
Se não quer bater nela, comece a tratá-la bem, afinal, ela é a única pessoa por
quem você poderá se apaixonar. — O homem ao seu lado diz baixo, seu tom é
calmo e menos frio do que antes. Zared ri e se vira para o amigo.
— Sabe que não me apaixono, chega até ser estúpido você dizer isso.
— Então por que resolveu ter uma virgem? Para morrer facilmente? — O
homem pergunta, irritado.
— Não importa. — Ele fecha os olhos e abaixa a cabeça. — De qualquer
forma, não quero andar com ela parecendo um zumbi, viu o estado deplorável
em que ela está.
— Já disse, seja gentil que não precisará castigá-la, burro. — O homem
deixa um tapa na cabeça do amigo antes de notar que eu já estava acordada. —
Veja quem acordou. — Zared rapidamente se vira para mim, enquanto o outro
sai do quarto com as mãos dentro nos bolsos da frente da calça, deixando-nos
sozinhos.
— Há quanto tempo está acordada? — Ele pergunta de forma rude.
— A-Acabei de acordar. — Franzo as sobrancelhas e puxo mais a coberta
para me cobrir.
— Como se sente? — Ele dá a volta pela cama e se senta no espaço vago
ao meu lado. — O que aconteceu? Te chamei várias vezes e quando não deu
sinal, arrombei a porta e te vi submersa. Por acaso estava tentando se matar?
— Não, apenas senti dores fortes na cabeça e provavelmente afundei já
inconsciente. — Digo, virando a cabeça. Não estava afim de ter que aturar mais
uma das trocas de humor desse maluco. Apenas queria poder ficar sozinha, só
isso.

134
— Quando vi que tinha pulso, te peguei no colo, te deitei na cama e fiz o
que podia até você cuspir toda água. Depois te sequei e vesti uma camisola em
você. — Ele diz devagar, como se estivesse relembrando tudo o que aconteceu.
— E o que isso me importa? Devia ter economizado tempo e me deixado
morrer logo. — Disparo sem qualquer emoção na voz. Ele fecha os olhos,
soltando um longo suspiro enquanto seus lábios se movem como se estivesse
pronunciando uma pequena contagem até o três.
— Só estou tentando entender o que aconteceu. — Ele diz, por fim, ainda
de olhos fechados. — Tome o remédio para dor e comece a se arrumar, tenho
que sair e não posso te deixar sozinha. — Observo-o se levantar e ir em direção
a porta. — Sua roupa está sobre a poltrona, quero que me faça te desejar, então
se arrume bem. Estarei aqui em cerca de uma hora. — Assim que a porta é
fechada, saio da cama e caminho até onde está a roupa que ele queria que eu
vestisse, pego uma jaqueta de couro, a calça rasgada nas coxas, um coturno e
uma calcinha. Tiro o short e começo a me vestir, como faltava uma blusa,
continuei com a camisola cobrindo meus seios e fui em direção a penteadeira
onde passo o desodorante, e um dos perfumes doces que tinha ali.
— Senhorita? — Uma voz feminina ecoa do outro lado da porta após três
leves batidas. — Posso entrar? — Uma mulher? O que uma mulher faz aqui? E
ainda por cima sendo educada.
— P-Pode. — Respondo, receosa. A enorme porta branca se abre,
mostrando uma mulher. — Ainda não estou pronta.
— Eu sei, o senhor Winter me mandou vir ajudar a senhorita a se preparar.
— Ela sorri e entra no cômodo carregando em uma das mãos uma maleta.
— Poderia parar de me chamar de senhorita? — Peço, estranhando seu
comportamento. — Afinal, por que está a ser tão educada?
— Desculpe, mas tenho ordens para chamá-la apenas por senhorita. —
Ela abre um sorriso e empurra a porta com os pés, nos fechando ali. — E por
que faltaria com respeito? Aposto que sou a primeira a te tratar assim.
— Sim, é. — Afirmo, abrindo um sorriso sem jeito, fazendo o seu
aumentar. — Pode me falar seu nome ou o estúpido do seu chefe não permite?
— Ela solta uma risadinha e se aproxima, colocando a maleta em sua mão
sobre a penteadeira, mostrando produtos de maquiagem e cabelo.
— Chamo-me Jackie. — Ela responde, olhando para mim como se
estivesse escolhendo o que fazer primeiro. — Vamos começar pela maquiagem.
— Era perceptível a animação em sua voz.
— Não sabia que tinha mais mulheres trabalhando para ele. — Digo
enquanto ela prende meu cabelo em um coque.

135
— Eu não trabalho para ele, sou irmã de Leon. — Arregalo os olhos e
acabo por me engasgar.
— Não sabia que ele tinha uma irmã. — Digo, pasma. — Mas se não
trabalha para o Zared, por que o chama de senhor e obedece as ordens dele? —
Ela faz uma careta e começa a preparar minha pele.
— Sou uma mulher em um lugar onde os homens são cruéis, por isso sigo
as ordens deles, mas nem todas. Quando fiquei sabendo que o senhor Winter
tinha uma virgem, o que no caso foi hoje, aproveitei a ideia e vim te conhecer.
— Oh… Prazer em te conhecer. — Ela ri e afirma com a cabeça.
Era ótimo falar com alguém normalmente, e Jackie era realmente muito
simpática, não parecia que me ajudaria caso eu decidisse fugir, mas transmitia
ser uma boa pessoa. Em pouco tempo, ela consegue tapar meus hematomas
sem deixar pistas que tinha bastante maquiagem. Meus olhos se tornaram ainda
mais chamativos com uma sombra preta. Nos lábios, um batom marrom-escuro.
O cabelo foi o que não levou tanto tempo, ela apenas alisou e cacheou nas
pontas, jogando um pouco para o lado inchado de meu rosto.
— Então, o que achou? — Ela pergunta, parecendo satisfeita com seu
trabalho.
— Nem parece a pessoa que estava refletindo há pouco. — Sorrio,
admirando meu reflexo no espelho.
— Claro que parece, apenas sem marcas de sofrimento. Agora tire a blusa
e vista a jaqueta. — Sou puxada para fora da cadeira, fazendo-me tropeçar . —
Vai colocar isso aqui para impedir que seus mamilos apareçam enquanto usa
apenas a jaqueta.
— O quê? Não posso sair sem uma blusa.
— Mas é assim que o senhor Winter te quer vestida. — Reviro os olhos e
tiro a camisola de ceda roxa. Coloco os adesivos e logo em seguida a jaqueta de
couro. — Está maravilhosa, senhorita. — Sorrio para ela e a abraço.
— Obrigada. — Agradeço, realmente feliz por me ver tão diferente do que
estava mais cedo.
— Já está pron…. — A voz grossa de Zared ecoa da porta, fazendo-me
virar para encara-lo. — Nossa… — Ele sussurra, olhando-me de cima a baixo.
— Bom trabalho, Jackie.
— Fiz por ela e não por você. — Ela responde, rude. Guarda tudo dentro
da maleta e sai do quarto, batendo contra o ombro do homem que não liga,
apenas fica parado me olhando. E assim como ele, eu também o analisava.
Zared vestia calça jeans que lhe ficava um pouco larga, jaqueta de couro,

136
deixando sua barriga definida amostra, uma bandana azul-clara, boné e um
colar com um medalhão e coturno. Estava realmente sexy.
— Vamos, estão nos esperando. — Ele diz, parecendo acordar do transe
em que havia entrado. Assim que me aproximo dele, o mesmo sussurra em meu
ouvido. — Temos negócios a tratar quando voltarmos, meu amor.

Ao parar seu Porsche em uma das vagas ao lado dos carros de seus amigos, ele
sai do veículo, dá a volta e quando vai abrir a porta para mim, acabo por abri-la
primeiro, fazendo-a bater com força em seu membro. Zared faz uma cara de
dor e deixa vários palavrões saírem de sua boca enquanto o mesmo mantinha
suas mãos sobre o local atingido.
— Ops… Desculpe, Daddy. — Digo, abrindo um sorriso satisfeito.
— Tudo bem… — Ele diz, gemendo.
— Essa deve ter doído. — Logan ri e levanta a mão para mim, que bato
nela, fazendo Zared se virar, lançando um olhar raivoso para o amigo.
Ao se recuperar, ele passa o braço em torno de meus ombros e me puxa
para seu corpo, fazendo-me passar meu braço em torno sua cintura. O lugar era
como um encontro de motoqueiros, um grande palco onde as músicas de rock
tocavam tão altas que precisávamos gritar para poder ouvir. Várias barracas
com acessórios, roupas, bebidas entre outras coisas estavam montadas ali.
Parecia algo totalmente normal, tirando as mulheres andando de calcinha fio
dental e saltos altos, as outras sendo usadas sexualmente como se fosse a coisa
mais normal. Mais um típico evento desses homens doentes.
— Ei, Z, vamos para a barraca de bebidas! — Leon grita. Cada um deles
estava acompanhados, mas eu era a única a andar abraçada, deixando claro que
eu era diferente da grande maioria ali. Andamos por meio das pessoas que nos
olhavam com respeito, obviamente já sabendo quem éramos, principalmente eu
por ser a virgem de Zared, e por isso era motivo de olhares tortos vindo das
mulheres e desejosos dos homens. Após passarmos por umas vinte barracas,
por fim, paramos em uma de bebida.
— Daddy, como se chamam seus amigos? — Pergunto em seu ouvido.
— Aquele acompanhado da loira é o Hayden, Nolan, Leon e Logan. —
Ele responde em meu ouvido, indicando cada um com o dedo. Os últimos dois
eu já sabia.
— Casalzinho, o que vão querer? — Leon grita.
— Quero um copo grande de caipirinha, e ela não vai beber. — Ele
responde fazendo-me olhar para ele com as sobrancelhas arqueadas.

137
— E por que não? Trouxe-me aqui para me tratar como uma criança? Vou
beber, sim.
— Eu mando em você, e se estou dizendo que não vai beber, é porque não,
vai! — Ele diz, apontando para mim.

— Sabe, eu posso te odiar, mas você é um tesão, Daddy! — Digo toda


embolada e começo a rir sem nem achar graça. Zared revira os olhos e tenta
pegar o copo de minha mão, mas o afasto. — Por que quer roubar minha
bebida? Você tem a sua, então não pegue a minha, seu estúpido.
— Chega, já bebeu demais. — Ele diz, tentando pegar o copo de minha
mão novamente.
— Ai, credo, você não é meu pai, Daddy. Droga, eu preciso fazer xixi…
Jackie, vem comigo?
— Claro. — Ela afirma e pega em minha mão.
— Vou com vocês. — Zared diz e dá dois passos para se aproximar.
— Qual é a sua? Posso nem mais fazer xixi que esse cara quer vir junto. —
Fomos até o meio do mato, fizemos o que queríamos e voltamos para perto dos
outros. — Quem é aquela? — Pergunto franzindo as sobrancelhas, vendo uma
garota acariciar o membro de Zared por cima da calça.
— Não sei. — Jackie responde também olhando aquela cena.
— Essa eu quero ver. — Hayden e os outros riem, já meu acompanhante
está ocupado demais sendo acariciado e sorrindo para a mulher para notar que
voltei.
— Merda. — Digo, aproximando-me deles. Dou uma leve cutucada no
ombro da garota loira, que se vira para me olhar com uma cara de nojo, talvez
por causa da bebida e por não estar conseguindo pensar direito, acerto-lhe um
soco no olho, puxo-a pelos cabelos para longe dele e a jogo no chão, em
seguida, jogo uma garrafa de vidro em seu rosto. — Vadia! Piranha! Puta!
Cachorra! Sabe aquele ali? Então, ele já tem uma garota, e essa garota sou eu,
então se ele precisar ser acariciado pode deixar que eu mesma faço isso! —
Digo, batendo a cabeça dela contra o chão de terra seco.
— O que pensa que está fazendo? Não é permitido agredir as garotas !—
Um homem grita, aproximando-se. Ele agarra em meu braço e tenta me tirar de
cima dela.
— Não encosta nela! — Zared grita, corre até a gente e começa a socar o
homem, iniciando uma briga entre eles. A garota que estava embaixo de mim

138
me derruba e começa a me bater, mas logo a empurro para longe de mim,
agarro em outra garrafa jogada no chão e acerto em sua cabeça, empurro-a até
um dos carros e bato com sua cabeça contra o vidro. Ao ver que já estava com
sangue e a garota não fazia mais nada, solto-a e fico encarando o rosto
ensanguentado dela, enquanto as pessoas torciam para Zared que ainda estava
na briga com o homem. Arregalo os olhos e tampo a boca com as mãos.
Matei a puta!

139
Capítulo Dezoito

As coisas ao meu redor não faziam muito sentido, meus pés não conseguiam se
mover de maneira correta, a cada passo eles torciam, pisavam em falso ou
simplesmente me faziam crer que cairia de cara em cima das coisas. Minha visão
estava totalmente embolada, tudo parecia girar e se multiplicar. Não conseguia
distinguir quais eram realmente meus sentimentos com o que eu havia acabado
de fazer, esse é o problema de estar bêbada, estou ciente do que estou fazendo,
mas ao mesmo tempo não consigo controlar o que falo ou faço. A garota estava
morta e eu a tinha matado! Seu rosto estava coberto por sangue, e assim como
todas as outras, ela usava apenas uma calcinha vermelha fio dental e um salto
alto escandaloso da mesma cor da roupa íntima.
— Desculpe-me! — Peço, abaixando em frente ao corpo. — Não queria te
matar, puta, só te fazer ficar longe do Daddy… — Digo, entrando em desespero.
Matei uma pessoa. Mais uma das coisas que pensei que nunca aconteceria.
— Olha quem está aqui… — Uma voz masculina ecoa atrás de mim, e
logo em seguida, três risadas diferentes. — Já ouvi muitas coisas sobre você,
como por exemplo: você ser a escolhida para pertencer ao Z para ser sua
preciosa e intocável virgem. Cá entre nós, ele fez uma péssima escolha, você é
muito magrinha não tem o que morder. — Levanto-me, olho para trás e me
deparo com mais ou menos quatro homens, é difícil saber, cada um deles tinha
uma cópia ao seu lado. Todos com um metro e oitenta de altura, cobertos por
músculos, que tornavam suas blusas apertadas, e mantinham um olhar mal
intencionado. Pisco diversas vezes e recuo dois passos, enquanto olho
atentamente para os homens que passavam algum objeto de mão em mão.
— Mas por que caralho todos me chamam de virgem? Meu dono já tirou a
porra da minha virgindade. — Digo, já irritada de sempre se referirem a mim
como virgem, droga, até sexo no cemitério já fiz.
— Então vocês já estão ligados? Ele é rápido, porém burro. — O homem
ruivo dá um passo em minha direção, parecendo se divertir com o que estava
acontecendo.
— O que quer dizer com ligados? — Pergunto, franzindo as sobrancelhas.
Ele apenas ri em divertimento e continua se aproximando.
— Então, o que faz aqui sozinha? cadê seu dono? — Ele me ignora, assim
como ignorava o corpo da puta sem mostrar qualquer compaixão com o que
havia acontecido a loira atrás de mim. Recuo mais dois passos e tropeço no
corpo da mulher, fazendo-me cair ao seu lado. — Acho que ele não se
importaria em dividi-la com a gente. Estou louco para descobrir o que é que
levou o estripador a se arriscar tanto por você. — Seu sorriso se aumenta ainda
mais. Ele se aproxima e em um único movimento, sou agarrada pelos
tornozelos e arrastada com dificuldade, já que debatia minhas pernas na
tentativa de conseguir me livrar e correr até os outros, que se encontravam a
três fileiras a minha frente. — Seja boazinha e colabore com o titio. — O
homem rosna enquanto se mantém com dificuldades de me segurar. Ele me
pega pela cintura e me tira do chão com mais facilidade do que pensei.
— Solte-me!— Grito desesperada. — Daddy! — E continuo a tentar me
soltar, sem resultado.
Os braços do homem me seguravam firme contra seu corpo e por mais
que eu me debatesse o máximo que conseguia, no momento, era tudo em vão.
Eu estava completamente bêbada, estava tonta, e só implorava mentalmente
para poder ficar normal e recuperar o controle de meu próprio corpo. Não
estava chorando, apenas me encontrava em estado de pânico enquanto o
homem tentava me colocar sobre o capô de um dos carros. Assim que
consegue, ele se aproxima tentando se colocar sobre mim, mas o impeço com
um chute no nariz. Santo Daddy que não me manda usar saltos e sim coturnos.
— Daddy! — Grito e um dos homens cobre minha boca enquanto o ruivo
tapa o nariz quebrado com as mãos. O som estava alto, e tudo menos a estrada e
o estacionamento são iluminado, e com a quantidade de pessoas que se
encontram ali, seria difícil me encontrarem. Chuto o homem de cabelo azul e
moicano, o que tampava minha boca, e saio de cima do carro, no entanto, o
ruivo com o nariz quebrado agarra meus cabelos e volta a me pegar. — Socorro!
— Grito, já sentindo a vontade de chorar presa em minha garganta. — Me solta
seu idiota!

141
— Skye! — Escuto Zared berrar, obviamente a minha procura. Quando
vou respondê-lo, o ruivo coloca a mão sobre minha boca e nariz, deixando-me
sem ar. O homem moreno aparece em meio aos carros e vira a cabeça em nossa
direção, ele estava sem a jaqueta e o rosto um pouco mais machucado pela briga
com o outro homem. O ódio que ele sentia constantemente se mistura com
algo diferente, a primeira coisa que ele faz é levar as mãos para trás de seu
corpo e tirar de trás da calça a mesma arma de ontem. — Solte-a. — Seu tom
de voz faz todos os meus pelos se arrepiarem; era o desespero que havia se
misturado a ódio. Zared estava desesperado, por mais que não parecesse, ele
mal mantinha seus olhos no homem, parecia que só conseguia me olhar. —
Quantas vezes vou ter que mandar? Coloca a minha mulher no chão! — O
homem que me segurava solta mais uma risada divertida e pressiona ainda mais
sua mão contra meu rosto.
— Quem diria, o lendário Z tão vulnerável, e tudo graças a essa garota,
agora entendo o motivo de ter resolvido querer uma virgem, deve ser uma
delícia comer essa, mesmo que ela seja magrinha demais. — Reviro os olhos e
tento tirar sua mão que me impedia de respirar, mas isso só faz com que ele a
pressione ainda mais do que antes. Zared continua a me olhar, aos poucos
movimenta seus olhos para o pênis do ruivo e volta a olhar para mim, me
indicando o que eu deveria fazer, já que havia percebido o quanto o ar me fazia
falta. Dou um chute para trás, atingindo o pênis do homem, que me solta e cai
no chão gemendo de dor. Corro para trás do moreno que parecia menos tenso,
o homem se levanta e tenta vir atrás de mim novamente, mas Zared o impede, e
entrelaça nossas mãos atrás de suas costas para ter certeza que eu estava ali.
— Skye! — Jackie faz uns movimentos com as mãos me chamando para ir
atrás do carro. Tento me soltar para ir até ela, mas sou impedida, no entanto,
após ver alguma coisa a sua frente, ele me solta e impede novamente que o
homem consiga se aproximar de mim, colocando a mão no peito do rival. —
Você está bem? — A irmã mais nova de Leon pergunta me analisando.
— Estou vendo duas de você, quase fui violentada, quero vomitar, mas
fora isso, estou ótima. — Respondo olhando para onde estava Zared e o
restante de seus amigos brigando com os homens. — Cadê o… — Tento
perguntar mas sou interrompida.
— Estou aqui. — Logan diz sorrindo. — É uma pena ter que perder uma
briga, mas preciso ficar de olho nas duas únicas mulheres da família.
Reviro os olhos e volto a me agachar para poder ver o que acontecia no
meio dos carros: Hayden joga um dos homens para cima de um automóvel azul
com tanta força que o vidro quebra; Leon rasga a garganta de um; Nolan

142
esfaqueia o outro; Zared se esquiva dos socos do ruivo e retribuía com quatro
seguidos, acertando queixo, estômago, nariz e olho. Assim que o homem
enorme cai no chão desorientado, ele se coloca em cima do ruivo e começa a
bater com a arma no rosto do homem, que não demora muito para parar de se
movimentar. Quando todos já estavam mortos, os amigos de Zared vão até ele
e tentam tirá-lo dali, mas o mesmo se livra e volta a dar coronhada. O que me
deixava com medo não era o que ele estava fazendo, e sim as enormes marcas
que mostravam a carne de suas costas, era isso o que ele tanto escondia por
baixo daquelas faixas sujas de sangue, por isso que o banheiro outro dia estava
todo vermelho, ele não havia se metido em uma briga, fizeram alguma coisa.
Levanto-me e corro até ele, que descontava a raiva no rosto já sem forma do
ruivo morto.
— Daddy, para! — Grito e seguro seu pulso com o máximo de força que
consigo. Ele se vira, mostrando-me seu rosto sujo de sangue que havia
respingado. No momento em que me vê, ele se levanta e solta a arma no chão,
passa seus braços em torno de minha cintura e me abraça forte enquanto
esconde o rosto na curva de meu pescoço. Retribuo o gesto e fico em silêncio,
sentindo as batidas aceleradas de seu coração.
— Você está bem? — Balanço a cabeça negando e começo a chorar.
— Eu matei a puta! — Meu tom já era desesperado. Aquilo estava
acabando comigo, saber que bati tanto em uma mulher até ela morrer, e ainda
por cima por não ter gostado de vê-la acariciando ele. Droga, desde quando me
incomoda tanto? Nem gostar dele eu gosto.
— Alguém olha a garota! — Ele grita sem se distanciar de mim, pelo
contrário, me puxando ainda mais para ele. — Ele te machucou?
— Não. — Respondo entre o choro. — Eu bati em dois deles também.
Matei a puta e bati em dois daqueles homens. O que está acontecendo comigo?
— Shhhh… — Ele tenta me acalmar acariciando a parte de trás de minha
cabeça. Doía por ter machucado hoje mais cedo, mas suas carícias eram leves,
até mesmo acolhedoras.
— Ela não está morta, apenas inconsciente. — A voz calma e rouca de
Hayden é ouvida enquanto olhava a mulher e tirava seus dedos do pescoço dela.
— Tem certeza? — Ele pergunta, virando seu rosto para encarar o amigo.
— Absoluta. — Hayden afirma e joga a jaqueta de couro para o moreno.
— Ótimo. — Zared me solta, volta a vestir a peça de roupa, e pega em
minha mão, me puxando até a garota. — Aqui, quando começamos o trabalho,
temos que terminar. — Ele vira o rosto para mim. — E ela ainda está viva. —

143
Arregalo os olhos e balanço a cabeça negando. Ele se abaixa e tira da bota uma
faca e me entrega. — Termine o que você começou. — Ele diz de forma fria.
— O quê? Não! — Tento me afastar, mas ele agarra em meu pulso e me
puxa novamente. — Não vou matar ela, por favor, para com isso. — Imploro,
movimentando as mãos e a cabeça de forma negativa.
— Se não fizer, quando chegarmos em minha casa você será castigada e
passará uma semana no quarto de tortura sem comer ou beber. — Ele me
ameaça. Mais uma mudança de humor, está se superando cada vez mais.
— Z, pare! — Nolan diz, indignado.
— Cala a porra da boca que a garota é minha! — Ele me olha, sério, pega
em minha mão e a leva para o coração da mulher e antes que eu possa
raciocinar, ele enterra a faca no peito dela, repete o gesto mais três vezes e tira
sua mão de cima da minha.
— Quando vemos alguém além de nós com os nossos parceiros, no nosso
caso, a virgem e o dono, nós as matamos! Se você começa a bater em uma
pessoa na intenção de tirar a vida dela, você a mata! Tudo o que começa tem
que ser finalizado. Entendeu? — Sem esperar uma resposta minha, ele tira a
faca do coração da mulher, limpa em minha jaqueta e volta aguardar dentro de
sua bota. — Logan se livra dos corpos, queime-os na mata, quero que virem
cinzas. Nos encontramos em frente ao palco. — Ele segura em meu braço, me
puxando para cima. Antes de começarmos a andar, ele passa o braço em torno
de meus ombros e beija minha bochecha, como se nada tivesse acontecido.
Saímos do estacionamento e voltamos a nos misturar entre as pessoas.
Deveríamos estar nos apertando para passar, mas ao invés disso, as pessoas
abrem espaço para nós. Hayden, Nolan, Logan não tinham mais suas parceiras
e Leon andava agarrado a sua irmã.
— Por que me fez fazer aquilo? — Pergunto olhando para meus pés, sem
saber como reagir, deveria me encontrar sem chão, mas eu apenas não sabia
mais como reagir. — Não a matei, você quem fez aquilo. — Digo, tentando me
convencer.
— Já expliquei, tudo o que começa precisa ser finalizado. E não era eu que
segurava a faca, apenas coloquei minha mão sobre a sua e você a movimentou
até o coração da garota. — Ele diz, guiando-me para a barraca de bebidas. — E
estou orgulhoso de você.
— Se orgulha que eu tenha tirado a vida de alguém? Agora sou um
monstro igual a você e isso era a última coisa que eu queria. — Digo, soluçando.
Ele joga a cabeça para trás e solta uma gargalhada alta e escandalosa, como se
eu tivesse contado a piada do século.

144
As pessoas nos olhavam curiosas, afinal, eu chorava igual a uma condenada
e ele ria de forma escandalosa, e sem contar que ele e seu grupo estavam com
Leon, que pelo que sei, é o chefe desse lugar.
— Entenda, ninguém é pior do que eu. — Ele diz, orgulhoso de si mesmo.
— Você matou uma única pessoa. Eu matei várias, cada uma de forma
diferente. Matei animais e crianças de várias idades apenas para ter o prazer de
ouvir seus gritos e vê-las todas presas em ganchos, todas enfileiradas a minha
frente, já sem vida. Não há nada melhor do que ver a pessoa te implorar pela
vida. — Olho para ele, incrédula e tento me afastar, mas sou impedida. — Dou
uma oportunidade a cada uma delas, digo que se elas acreditam em Deus, que
rezem para ver se ele faz algo, mas a verdade é que quando elas estão a minha
frente, eu sou o Deus, eu decido se elas vivem ou morrem, a hora, quando e
como.
— Você não é Deus, e sim um psicopata! Nada pode ter acontecido
quando aquelas pessoas rezaram, mas o que é seu está guardando, pronto para
te castigar. — Zared se vira e agarra em meu pescoço, me empurrando para
uma das barracas.
— Está me ameaçando? — Ele pergunta começando a me sufocar.
— Não.
— Sabe, Baby Girl, recomendo que faça o mesmo que eles, pois já tomei
minha decisão, não preciso mais de você. — Ele rosna. — Se seu Deus é tão
poderoso quanto eu, vamos ver o que te acontece.
— Zared… — Hayden agarra o pulso do amigo e olha para ele. —
Lembra do que conversamos mais cedo, não é assim que vai conseguir o que
quer. — O moreno fecha os olhos, respira fundo e solta meu pescoço. —
Vamos beber. Todos estamos precisando. — O rapaz olha para nós dois e volta
a seguir o caminho até a barraca de bebidas. Dou as costas para o moreno e
continuo caminhando até onde o resto do grupo estava.
— Não saia de perto de mim, a menos que queira ser estuprada e
assassinada. — Zared sussurra em meu ouvido e volta a me abraçar pelos
ombros. Solto uma risada nasalada, mas não digo nada. — O que foi? — Ele
arqueia as sobrancelhas, parecendo surpreso com tal atitude minha.
Obviamente esperava que eu estivesse chorando, não rindo.
— Qual das duas você ainda não fez? Tudo o que você quer machucar é
apenas carne e osso. Já fui assassinada há muito tempo. Quer me bater, me
ameaçar ou me usar como um objeto de prazer? Tudo bem, vá em frente, já
não faz mais diferença. — Respondo com o olhar fixo nas costas largas de
Hayden. Tiro seu braço de meus ombros e saio andando em sua frente,

145
deixando-o sozinho. Passo por umas três barracas antes de chegar ao destino de
todos. Naquele momento, Zared estava ao meu lado, olhando-me a procura de
alguma coisa que não conseguia encontrar.
— Casal, o que vão querer? — Dessa vez quem pergunta é o Nolan.
— Quero um copo grande de absinto. Ela não vai beber, já está bêbada
demais, não está tendo noção do que fala.
— E desde quando você controla a quantidade de coisas que eu bebo? —
Disparo, chamando a atenção do grupo.
— Desde quando virou minha submissa. — Ele responde parecendo se
controlar.
— Já disse para parar de me tratar como uma criança. Você me bate, me
faz fazer sexo, me tortura, me deixa sem comer um dia inteiro e quando me traz
a um lugar como esse, acha que não vou beber? Acabei de matar uma mulher.
Vou beber, sim, e você não vai me impedir. — Ele dá um passo em minha
direção, uma de suas mãos fechada em punho. — Vai fazer o quê? Me bater?
Não seria novidade, Daddy.
— Vamos conversar quando chegarmos em casa. — É tudo o que ele diz
antes de se virar, pegar uma bebida e puxar uma garota para longe do grupo.
— Quero o mesmo que ele. — Digo, engolindo o nó que havia se
formado enquanto o observava beijar o pescoço da garota morena, que parecia
satisfeita em tê-lo ali.
— Quer um conselho? Faça algo, Z é o mais desejado pelas prostitutas. —
Hayden sussurra em meu ouvido.
— E o que eu faço? — Pergunto vendo Zared se agarrar com a garota. —
Quero tira-lo do sério e fazer com que pare de beijar aquela vadia. — O rapaz
atrás de mim ri.
— Beba todo esse copo de uma vez, balance bem a cabeça e faça o que
acha que chamará a atenção dele. — Concordo e levo o copo descartável até o
lábios, bebendo tudo em goles de grandes quantidades. O álcool era ainda mais
forte do que imaginei, e me faz cair sentada no chão de terra. — Estamos
dentro de uma tenda escura, apenas com a luz violeta florescente e o projetor
de fumaça. Pense bem no que isso pode te ajudar. — Se antes minha visão
estava ruim, agora havia piorado mais ainda. Tudo o que eu conseguia fazer era
sorrir igual a uma idiota e ficar olhando para meu dono praticamente comendo a
garota em minha frente. Olho os objetos ao meu redor e vejo um palco bem no
meio da tenda.

146
— Já sei. Obrigada pela ajuda, Haydenzinho. — Dou três tapinhas em seu
ombro e caminho até o palco, empurrando os homens que me olham com
malícia.
Subo os quatro degraus, fazendo todo o ambiente silenciar, ainda não era
o suficiente, aquele idiota continuava a engolir a mulher. Vejo Hayden sorrir e
caminhar até o DJ e pedir alguma música, assim que o fez, ele me olhou e me
piscou um dos olhos. No momento em que a música inicia, seguro no poste de
pole dance e começo a me movimentar bem lentamente, esfregando a parte da
frente de meu corpo no objeto enquanto descia aos poucos. Os homens que
estavam no local começam a gritar, até mesmo Jackie, a única mulher além de
mim que não estava trabalhando como prostituta.
Zared solta a garota e se vira para ver o que é, assim que me vê em cima
do palco, ele empurra a puta para longe e tenta se aproximar, mas Hayden
agarra sua jaqueta e o puxa, Nolan coloca uma cadeira bem em frente ao palco
e Hayden empurra o amigo para se sentar. O moreno me encarava com raiva e
aquilo me faz sorrir para ele. Ao me abaixar por completo, rebolo e jogo a
cabeça para trás, enquanto deslizo a mão livre para o meio de minhas pernas,
onde me acaricio por cima da calça. Seus olhos castanhos acompanham minha
mão, ele parecia nervoso, mas seu instinto faz com que ele me analise com
cautela. Solto uma risada maliciosa e volto a subir devagar. Meus cabelos caem
para um único lado, alguns fios grudam em meu rosto, mas nada que não o
atraísse. Ele segura no assento da cadeira e a puxa para mais perto do palco,
entrelaçando seus dedos e apoiando os braços nos joelhos. Seus lábios estavam
curvados em um sorriso com a língua entre os dentes, aqueles olhos castanhos
me fitavam com tanta intensidade que o calor natural de meu corpo aumenta.
No momento em que tiro os coturnos e levo as mãos para o botão da calça, os
homens começam assobiar e a me motivar.
— Isso, querida, tira tudo, mas não garanto que eu vá deixar você terminar
essa dança! — Um dos homens que estavam ao lado do moreno grita e começa
a fazer gestos obscenos. Zared se levanta, agarra-o pela gola da blusa e acerta-
lhe socos.
— Se mais alguém falar assim da minha mulher vai levar mais do que três
socos. — Sua voz grita no único tom que usa para falar com as pessoas que não
são de seu interesse. Ele volta a se sentar na cadeira, mas dessa vez mais
desleixado, o único barulho que tinha era o da música, os outros homens se
mantinham calados. Livro-me da calça e a jogo junto com meus sapatos,
ficando apenas com a calcinha rendada preta e a jaqueta de couro. Volto a
segurar no objeto de dança, encosto a parte detrás da cabeça nele e rebolo até o

147
chão com as pernas abertas. Zared morde os lábios e faz um gesto para que eu
vá até ele, desço do palco e me aproximo dele, que sem parar de morder o lábio
inferior, abre um sorriso sapeca e tenta me tocar, no entanto dou-lhe um tapa
nas mãos e balanço a cabeça. Apoio o joelho na cadeira entre suas pernas
abertas e me debruço sobre ele, deslizando uma de minhas mãos para dentro de
sua calça, acariciando-o, enquanto beijava seu pescoço, deixo uma leve mordida
na pele fina do local e me afasto. Zared solta uma risada galanteadora, segura
minha cintura e me puxa para ele sem pressa. Coloco uma perna de cada lado
das suas, sento em seu membro e rebolo devagar, pressionando-me contra ele,
enquanto o mesmo brincava com o elástico da calcinha, pronto para tirá-la a
qualquer momento.
— Quero esse lugar vazio em cinco segundos! — Ele grita sem tirar os
olhos das nossas partes em contato. — 1… 2… — Todos os homens dali
correm para fora. — Leon, Nolan, Hayden e Jackie, encontraremos vocês em
frente ao palco daqui a pouco, e deem um jeito de ninguém entrar. — Assim
que todos saem, Zared, agarra em minhas pernas e se levanta, caminhando em
direção a mesa de sinuca, me colocando sentada na ponta do objeto.
— O que pensa que está fazendo? — Pergunto, olhando para seu rosto
que tinha a expressão séria.
— Não estou pensando. Vou te foder em cima dessa maldita mesa. — Ele
responde me empurrando para o meio e se colocando em cima de mim. — Ou
achou que sairia impune daquele showzinho que fez?

148
Capítulo Dezenove

Minha respiração estava descompensada, minha boca entreaberta a poucos


centímetros da sua, seus olhos castanhos fixos aos meus. Nos encontrávamos
deitados no meio da mesa de sinuca, Zared se mantinha parado sobre mim,
uma de suas mãos apertava minha coxa enquanto a outra era usada para ele não
jogar ainda mais seu peso sobre mim. Nossas respirações estavam em sintonia e
nossos peitos tão colados um ao outro que me dava a certeza de que ele tinha
fechado quase todo o espaço entre a gente. Sem tirar seus olhos do meu, ele
abre um sorriso e solta uma breve risada nasalada enquanto balança a cabeça
tentando afastar qualquer tipo de pensamento que estava a ter naquele
momento.
Sua mão sai de minha coxa, traçando caminho até o meio de minhas
pernas. Ele se ergue um pouco para poder levá-la até onde queria e por fim,
pressiona dois de seus dedos em minha intimidade, que o desejava ainda mais.
Zared morde os lábios ao sentir a umidade em minha calcinha e aproxima o
rosto do meu, mas desvia, deixando seus lábios muito próximos a minha orelha,
causando-me arrepios.
— Desta vez vou deixar minha menina comandar. — É tudo o que diz
antes de se virar e me colocar sobre ele.
— O quê? — Digo, demonstrando minha surpresa. — Eu não sei… —
Sinto minhas bochechas ficarem vermelhas. Escondo meu rosto com as mãos
na tentativa de esconder meu constrangimento, e para piorar minha situação, o
som de suas risadas se misturam com uma música desconhecida que estava
quase no fim. Sentia-me uma estúpida por não saber como comandar, só sabia
o que ele havia me ensinado e aquilo deveria ser o básico. Meu medo naquele
momento era fazer tudo errado e ele não gostar. No momento em que tento
sair de cima dele, seus risos param no mesmo instante e suas mãos me puxam
de volta para a altura de seu pênis, pressionando-me com certa força sobre o
volume em sua calça.
— Tire a mão do rosto e olha para mim. — Seu tom de voz é firme ao
pronunciar as palavras, assim como suas mãos em minha cintura. Lentamente
tiro minhas mãos do rosto, assim como mandado, e encaro o seu, vislumbrando
um sorriso malicioso se formar em seus lábios cortados. — Não se finja de
santa, Baby Girl, a poucos minutos estava me mostrando um lado que não
esperava conhecer tão cedo, você sabe o que fazer, só falta me dar o prazer de
te foder sobre a mesa. — Meu subconsciente gritava para eu sair de cima do
homem, que eu estava sendo uma grande tola por estar fazendo aquilo e
adorando, enquanto a outra parte me amaldiçoava por ter bebido tanto. Já por
fora, todos os meus impulsos me levam a atacar seus lábios ferozmente,
fazendo-o soltar pequenas risadinhas por ter conseguido o que queria.
Sentir o toque de sua língua na minha era extremamente excitante e me
causava um enorme frio na barriga. Zared era quente e atraente como o fogo e
eu estava louca para me queimar e ser consumida pelo calor de seus toques. Aos
poucos, suas mãos soltam minha cintura, traçando caminhos diferentes, a
esquerda vai para minha nuca, puxando-me ainda mais para seus lábios, e a
direta desce para minha bunda, dando apertões. Pressiono minhas duas mãos
em seu peito e afasto-me de seus lábios, deixando com cara de desentendido.
— Mas que porra? — Ele diz alto e tenta me agarrar novamente,
entretanto afasto seus braços, cravando minhas unhas em seus pulsos,
deixando-o ainda mais irritado.
— Não seja mal, Daddy. — Digo com um sorriso atrevido, aproximo-me
de seu peito e deixo o primeiro beijo antes de traçar um caminho até seu quadril
enquanto mantenho os olhos fixos nos do moreno que tem a cabeça arqueada
para frente para poder ver o que faço. Desabotoo sua calça e a desço até suas
canelas, vendo o volume crescer dentro de sua cueca. Para me ajudar a despi-lo
de uma vez, ele se desfaz do casaco de couro e dos sapatos que são tirados de
seus pés com certo esforço, já que ambos estavam com os cadarços bem
amarrados. Aproximo-me de seu membro, beijo-o ainda por cima da cueca, que
não demora muito para se juntar ao resto de suas roupas. Meus olhos se
prendem naquela parte de seu corpo, deixando-o ansioso por um toque meu.
Sinto sua mão segurar a minha, guiando-a para a parte quase dura.
— Deve parar que ficar olhando para meu pau dessa força, ele quer te
sentir e não ser admirado por você. — Ele diz com a voz transbordando de
desejo.

150
Balanço a cabeça afirmando enquanto meu rosto fica ainda mais vermelho.
Por mais que eu tente não ficar paralisada olhando seu pênis, não consigo, é
impossível, mesmo que eu já o tenha visto mais vezes do que gostaria ainda não
consigo me acostumar com a ideia que aquilo consegue entrar por inteiro em
mim. Pensamento infantil, mas realmente não me acostumei com a ideia de ver
a parte genital de um homem com tanta frequência, e de desejá-la tanto,
principalmente quando ela pertence ao idiota bipolar que só sabe foder com a
merda da minha vida.
Meus movimentos não demoram muito a começar, fazendo a respiração
do moreno pesar e um pequeno oh ser liberado de sua boca. Quando ele já está
completamente duro, começo a estimulá-lo com a boca, percorrendo minha
língua por quase todo o seu comprimento, e o que eu não alcançava recebia
movimentos com a mão.
— Foda-se, Skye, mal começou a foder e já é tão boa! — Ele diz, gemendo.
Uma grande quantidade de meus cabelos são agarrados e meus
movimentos, apressados, levando o homem a gemer um pouco mais. No
momento em que ele fica rígido, subo e lambo sua glande antes de ser puxada
de volta para seus lábios, passando o gosto de bebida misturado com cigarro
para minha boca novamente. Esse era o gosto de seus beijos na maior parte do
tempo.
— Apenas hoje, quero te ouvir gemer meu nome, deixe o Daddy e Baby
Girl para amanhã, hoje quero te ouvir chamar por mim como chamarei por
você, querida. — Ele só podia estar brincando, ou muito bêbado para me deixar
chamá-lo pelo nome. A velocidade de seus dedos aumentam e o terceiro se
junta aos outros dois, um beijo é deixado em meu ombro, quando ele vai se
ocupar com um de meus seios dá de cara com o adesivo usado para cobrir meu
mamilo. — Por que é que sempre tem algo me atrapalhando? — Ele resmunga
sem paciência, fazendo-me rir e morder os lábios para conter um gemido. Tiro
os dois adesivos e sem dizer nada, ele abocanha um, deixando um chupão que
causa um formigamento antes do local começar a ganhar cor. O mesmo ato é
repetido diversas vezes antes de ele conseguir fazer com que eu me desmanche
sob seu corpo, ele tira seus dedos de dentro de mim e leva até a boca,
lambendo-os. — Chega de brincadeiras. — Ele coloca minhas pernas em seus
ombros para poder ter mais acesso e se coloca em mim, dando-me a sensação
maravilhosa de estar completa.
— Dad… Zared! — Gemo alto o suficiente para que ele escute por cima
da música. Ele aperta minhas coxas e não disfarça todos os pelos de seu corpo
arrepiados. Seus movimentos não eram tão rápidos, mas eram fortes, que se

151
não fosse pela música poderia ser audível o som de nossos corpos se chocando.
Fecho os olhos e procuro descontar todo o prazer que sentia na mesa,
arranhando seu tecido verde. Suas estocadas são cessadas, mas mantenho meus
olhos fechados, minhas pernas são levadas para sua cintura, onde as entrelaço.
— Essa noite serei seu, Skye, mas quando acordar tudo não passará de um
sonho. — Ele sorri e pisca um olho antes de voltar a com os movimentos. Meu
coração estava desregulado, e meu corpo mais quente do que o normal, o que
aconteceu com esse homem? Se for para viver a minha vida ou o que me resta
dela com ele, que seja assim. Meus pensamentos são interrompidos com nossos
lábios entrando em contato, e o beijo sendo aprofundado. Aquele ponto ele não
se incomodava mais com os arranhões que eram distribuídos na área de seus
ombros e braços, que já se encontravam totalmente marcados, quando ele
começa a ficar cansado, empurro-o para trás, ele entende e se deita.
— Zared. — O moreno embaixo de mim aperta minhas coxas com
tamanha força e chegamos ao limite. Sem sair de dentro dele, deito-me sobre
ele enquanto ambos tentávamos normalizar nossas respirações, fecho os olhos
e me permito sentir as batidas aceleradas de seu coração e mais uma vez sou
pega de surpresa com seus braços me rodeando.
— Foi divertido. — Ele diz com a voz rouca.
— Pois foi. — Concordo e olho para ele, vendo seus lábios se curvarem
em um sorriso que é formado assim que nossos olhares se encontram. —
Obrigada por estar sendo legal por agora. — Ele balança a cabeça concordando
e me solta para que eu possa sair de cima dele e me vestir.
— Tenho que parar de te foder sem camisinha, não quero ter um filho
seu… Não agora. — Ele sussurra as últimas palavras, fazendo-me olhá-lo
novamente. Ele desce da mesa e começa a se vestir. Faço o mesmo e fecho a
jaqueta já que os adesivos não permitiam ser colados novamente. Estava
sentada no pequeno palco onde havia feito minha dança olhando fixamente
para o moreno, estava com medo de encarar mais uma mudança de humor
repentina, sempre que acho que as coisas estão melhorando, ele faz questão de
mostrar que estou totalmente enganada. Encolho-me e no momento em que ele
se vira em minha direção, desvio minha atenção para meus pés já calçados pelo
coturno. — Algo errado? — Ele pergunta calmo e se aproxima de mim,
passando seus braços a minha volta.
— Não vai durar muito, não é? Vamos voltar a estaca zero de uma hora
para outra. — Ele balança a cabeça negando e deixa um pequeno beijo em
meus lábios.

152
— Te prometo que essa noite vamos ficar assim, farei o que puder para
manter essa promessa de pé. — Abro um pequeno sorriso e o abraço. — Agora
vamos, estão a nossa espera.
Afirmo e quando tento sair, ele me puxa e entrelaça nossos dedos. Ao
sairmos da tenda damos de cara com dois homens totalmente desconhecidos
evitando a entrada dos outros, Zared volta com a expressão sombria e olha para
os dois que mantém o olhar carregado de respeito e a multidão enfurecida se
cala assim que vê o moreno olha-los com desprezo.
— Podem voltar a seus afazeres, apenas limpem a mesa de sinuca, vão
encontrar um pouco de sujeira nela. — Mordo o lábio inferior e me escondo
atrás dele assim que vejo todos os olhares postos sobre mim. — Perderam
alguma coisa na cara da minha mulher? — Agora ele se dirigia às pessoas que
me fuzilavam com o olhar, principalmente aquela puta com quem ele se
agarrava antes de me ver em cima do palco, imediatamente todos procuram
algo melhor para encarar, menos a puta, que sussurra um vadia.
— Sou a vadia que faz ele largar qualquer lixo apenas para me olhar dançar.
— Retruco, empurrando para que eu pudesse passar. Quando já nos
encontrávamos longe da tenda escuto as risadinhas de Zared logo atrás de mim.
— O que foi? — Pergunto parando em frente a uma barraca de tatuagens.
— Estou prestes a fazer uma loucura, pior do que matar uma puta. — Ele
diz, agarrando em minha mão, olho para ele preocupada e recuo um pouco.
— O que vai fazer? — Pergunto, sentindo o medo tomar conta de mim,
ele abre um sorriso e volta a pegar minha mão.
— Uma tatuagem. — Solto um suspiro de alívio e solto uma pequena
risada, mas paro assim que vejo a barraca de bebidas ao lado da que iríamos. O
moreno se vira e me olha confuso, provavelmente sem entender o motivo de eu
ter parado já que iríamos apenas para a barraca do tatuador. — O que foi?
— Estou pensando em fazer uma tatuagem também, mas acho que só
consigo se estiver um pouco mais fora de mim. — Ele olha para a barraca de
bebidas e mesmo que não quisesse que eu bebesse mais, vamos até lá e
compramos mais dois copos grandes de caipirinha. Pelo que Logan me disse
quando chegamos, quando eles fazem eventos como este, eles trazem vários
tipos de bebidas, até as brasileiras. Pego meu copo da mão do rapaz que me
olha e voltamos para a tenda onde o tatuador deixa a tatuagem sem terminar
para atender Zared, e o homem que seria tatuado falaria alguma coisa. Até olhar
para o moreno ao meu lado e fechar a boca antes de pegar a blusa e voltar para
a fila.

153
— Senhor Winter. — O homem careca, também todo tatuado, com dois
um metro e noventa e cinco de altura, coberto por músculos e barbudo o
cumprimenta com respeito. Aparentemente todos o respeitavam, o que era
estranho, porque caras como esse tatuador podem quebrá-lo como um palito de
dente, e não digo isso por ele ser magro.
— Gorden. — Ele o cumprimenta com um aperto de mãos, sem sorrisos
e muito menos sinais de que se conheciam. — Skye, este é meu tatuador,
Gorden, esta é minha mulher, Skye. — O homem olha para mim assim como
olha para Zared e imediatamente me pergunto como é que ele não se sente
desconfortável pela a forma que o olham.
— Senhora Winter. — Sou surpreendida pela a forma que o tatuador se
refere a mim. Olho para o moreno que olhava com severidade para o homem
que não sabia como reagir, mas não diz nada a respeito da forma que o Gorden
me chamou, apenas solta minha mão e a enterra no bolso de trás de minha
calça. — Ouvi recentemente rumores sobre sua decisão, senhor, com todo o
respeito, tenha cuidado, ela agora será o alvo de muitos.
— Nada o que eu já não saiba. Agora indo para algo que realmente te
interessa, estou com uma coisa bem simples em mente. — Ele caminha até a
cadeira e se senta, tirando a blusa. — Quero que esse último espaço em branco
aqui no meu braço seja preenchido. — O tatuador puxa uma cadeira para que
eu sente de frente para Zared e os dois iniciam uma conversa sobre a futura
nova tatuagem.

— Então, o que achou? — Zared diz, mostrando-me um BG que cobria o


último espaço em seu braço. Analiso as letras pintadas em preto e franzo as
sobrancelhas por não entender.
— E o que elas significam? — Pergunto passando meu segundo copo com
o mesmo tipo de bebida para a outra mão. Não pude sair da frente do moreno
nem por um mísero segundo. Então quando minha bebida acabou, ele mandou
uma das pessoas que estavam esperando ir buscar o segundo copo, o qual
estávamos dividindo, visto que ele não me queria ainda mais bêbada antes de
terminar sua tatuagem.
— Baby Girl. — Ele responde fazendo-me engasgar com a bebida que
tinha acabado de levar a boca, coloco a mão sobre o peito e tento acalmar a
crise de tosses. Olho para as iniciais e vejo uma rosa negra cercando as duas

154
com seus espinhos. Se ele disse que vai me matar, por que é que fez uma
tatuagem em minha homenagem.

Fico paralisada observado as iniciais cercada por uma rosa negra coberta por
espinhos. Estava sem reação, mal conseguia pensar por causa da quantidade que
álcool que havia ingerido, e aquilo era algo que estava muito além de minha
capacidade mental no momento, já que me encontrava praticamente fora do
controle. Pisco diversas vezes e volto meu olhar para o moreno que estava à
espera de alguma palavra da minha parte, com as sobrancelhas arqueadas. Abro
a boca para tentar pronunciar algo, mas eu nem ao menos sabia o que dizer,
estava tão surpresa e confusa que nem uma simples frase conseguia ser
pronunciada.
Ele revira os olhos já sem paciência de tanto esperar minha opinião e se
levanta da cadeira, pegando da mão do tatuador uma pomada que é espalhada
por toda a região de sua nova tatuagem. Continuo imóvel na cadeira o
observando com indiferença, os dois homens se viram para me olhar, fazendo-
me encolher na cadeira desconfortável. Zared volta a entregar o tubo do
remédio ao homem, fala alguma coisa e se aproxima de mim, pegando o copo
de minha mão, bebendo um longo gole da caipirinha. Em seguida, desce sua
atenção para mim e pega em minha mão com gentileza, puxando-me para fora
do objeto para que ele pudesse se sentar. O homem coberto por piercings me
entrega uma pasta com várias imagens diferentes de diversas tatuagens, ignoro
o livro e me sento na cadeira.
— Já sei o que vou querer. — Digo, confiante, levando as mãos para o
botão da calça. Zared se levanta às pressas, colocando as mãos sobre as minhas,
impedindo-me de desabotoar. E vira a cabeça para olhar de forma feia para o
homem, que parece ficar sem jeito no mesmo instante.
— Vá beber alguma coisa, deixe que eu faço isso. — Gorden balança a
cabeça afirmando e se retira. O moreno a minha frente me olha da mesma
forma e entrega o copo, antes de se virar e ir para onde se encontrava o
equipamento de tatuagens, limpando tudo e se preparando para fazer a primeira
de minha vida. Coloco o copo descartável sobre a mesa de plástico, e começo a
tirar a calça, a abaixando até minha intimidade, e por fim, dobro a parte de cima
da calcinha, deixando a área que queria livre de qualquer pano. — O que vai
querer fazer? — Ele pergunta, olhando-me de cima a baixo.

155
— Quero que escreva Daddy com um lacinho Rosa. Bem aqui. — Digo
com um pequeno sorriso assim que indico o início de minha intimidade. Vejo-o
encarar a ponta de meu dedo que tocava o local, desligando totalmente, e no
momento em que acorda de seu transe, ele balança a cabeça de um lado a outro
na tentativa de se livrar do que lhe vinha a cabeça.
Mordo o lábio inferior com um sorriso atrevido, sabendo o que passava
em sua cabeça, e observo o homem colocar uma agulha que continha diversas
mais, preparar duas pequenas tampinhas, uma com a tinta preta e a outra com a
rosa. Ele se aproxima de mim se senta na banqueta segurando uma prancheta e
caneta, e com a maior concentração, ele escreve o que eu havia pedido em uma
bela letra corrida e desenha um belo laço, o que deixava a tatuagem fofa, em
seguida, passa algo sobre o local onde seria tatuado e aplica o papel contra
minha pele, fazendo a palavra e desenho saírem com perfeição. Ele, na intenção
de me provocar, aproxima-se de minha cintura e morde a pele até um pequeno
gemido escapar de meus lábios, fazendo-o se afastar rindo em divertimento
enquanto volta a mexer com o que fazia antes.
— Vai doer um pouco, é como uma picada de abelha, porém, com
algumas amigas ao mesmo tempo. — Ele tenta me amedrontar. As agulhas são
pousadas sobre a tinta preta, em seguida, a máquina é ligada, iniciando um
barulho irritante.
— Nenhuma dor se compara a que eu sinto a cada segundo, e não é uma
simples tatuagem que me fará mudar de ideia. — Vejo-o tentar ignorar o efeito
que minhas palavras causam nele. O mesmo balança a cabeça afirmando
lentamente e começa a contornar as letras. Não é tão dolorido como diziam, era
algo suportável e se nos concentrássemos em outra coisa, poderíamos sentir
apenas a vibração contra a pele. Realmente não parecia que mais de três agulhas
estavam a me furar ao mesmo tempo.
Olho para baixo e vislumbro o rosto de meu sequestrador, tão bonito.
Suas mãos estavam cobertas por luvas brancas que trabalhavam na área tatuada.
Sua expressão está concentrada. Por algum motivo, meu coração estava
acelerado, e por mais que eu quisesse, não poderia parar de olhar para ele e ver
um homem mais atraente que o comum, queria poder parar de me sentir atraída
por aqueles olhos demoníacos, aqueles lábios carnudos tão macios que
despertava o desejo de beijá-los, seu corpo definido, suas tatuagens e até
mesmo seu nariz. Tudo nele estava se tornando atraente demais, o que é
loucura total.
Estico o braço até o copo descartável e pego um gelo, colocando-o na
boca, iniciando uma brincadeira entre o conteúdo congelado e minha língua.

156
— Afinal, você realmente sabe fazer isso, Daddy? — Pergunto, descendo
meu olhar para ele novamente, observando-o afastar a máquina de minha pele,
passar o papel e voltar a pressionar as agulhas em minha intimidade.
— Sei, ou não faria em você. Agora não se mexa. — Fico olhando para
cima, observando os ferros que seguravam a lona branca que formavam a tenda.
Fecho os olhos e acabo por relaxar sobre a cadeira confortável, sentindo os
olhos do moreno sobre mim.

— Sabe, O’Brien, eu ainda farei uma tatuagem e será bem na vagina. — Alison diz,
despindo-se e deitando ao meu lado. Viro a cabeça em sua direção e franzo as sobrancelhas.
— E o que seria? — Pergunto, estranhando a escolha do local que ela iria tatuar. Ela
abre um sorriso e solta pequenas risadas maliciosas.
— Estacionamento grátis. — Arregalo os olhos e caio na risada com ela.
— Ninguém faria algo assim, é algo horrível para se tatuar. — Digo, tentando
recuperar o ar que me faltava. Ainda rindo, ela apoia o queixo em minha barriga e sorri
sapeca.
— Gosto de ser diferente, e é por isso que farei essa tatuagem na vagina.

No momento em que o barulho da máquina cessa, abro os olhos e vislumbro o


moreno me olhar com indiferença, mas algo em seus olhos demonstravam que
ele estava a gostar do que via. Ele limpa a tatuagem já finalizada, passa a mesma
pomada cicatrizante sobre ela, colocando-se em pé para poder ir até o pequeno
espelho e trazê-lo até mim, permitindo-me olhar minha primeira tatuagem.
Sorrio e olho para ele que desvia os olhos dos meus, evitando contato visual
entre a gente. Mordo o lábio inferior e puxo a calcinha transparente rendada
para cima, juntamente a calça que imediatamente é abotoada.
— O que achou? — Sua voz grossa soa baixo enquanto pega minha mão e
me ajuda a descer da cadeira. Ele me solta e vai até sua jaqueta de couro,
vestindo-a.
— Fiz para você, Daddy… Zared, então o que achou? — Ele leva as mãos
para sua cintura e abaixa a cabeça, balançando-a negativamente de um lado a
outro, enquanto solta uma risada nasalada sem jeito, e me permite ver seus
lábios curvados em um pequeno sorriso. Aproximo-me dele, passo os braços
em torno de sua cintura e deixo um beijo em sua clavícula, depois outro em seu
pescoço, em seguida, um selinho simples em sua boca. Ele abre os olhos e olha

157
para mim, surpreso, quando acho que receberei outro em troca, ele coloca uma
mão sobre meu ombro e me afasta.
— Melhor irmos para a frente do palco, os outros estão nos esperando há
mais de duas horas. — É tudo o que ele diz antes de desviar seu olhar para o
chão, pegar minha mão e me guiar para fora do local sem dizer nada.
O lugar desse encontro de motoqueiros estava ainda mais cheio, milhares
de vozes se misturavam e várias pessoas se apertavam para passar. Menos Zared,
que assim como antes, as pessoas abrem espaço para podermos passar sem
qualquer dificuldade. Vários olhares curiosos e maliciosos caíam sobre mim,
Zared havia percebido, mas nada fez para que parassem. Todos sabiam que eu
era a virgem dele, mas vários cochichos eram trocados entre as pessoas, até as
mulheres que eram forçadas a trabalhar ali me olhavam com pena. Apresso
meus passos e me coloco a seu lado, mas continuo a ser ignorada, então solto
sua mão, fazendo-o se virar para me olhar.
— O que foi, porra? — Ele pergunta com agressividade na voz. Olho para
os lados, percebendo que a atenção de todos havia caído sobre nós, deixando-
me ainda mais sem jeito. Solto um suspiro cansado e volto a me aproximar do
moreno, sendo observada cautelosamente por ele.
— Eu que pergunto: fiz algo de errado lá na tenda? Não gostou da
tatuagem que você mesmo fez? Foi um erro eu ter te beijado? — Ele olha para
os lados, solta uma risada irônica e amargurada e passa as mãos sobre o rosto,
soltando um longo suspiro antes de se aproximar de mim.
— Eu só quero que pare de me agradar, pare de me beijar por vontade
própria, você é a minha submissa, apenas um objeto usado para me satisfazer.
Não pode me fazer começar a gostar de você, Skye, porque se isso acontecer,
você será meu ponto fraco. Não sei como está conseguido fazer isso, só pare,
pois sou o tipo de homem feito para causar dor. — Ele diz, olhando-me com
uma raiva forjada.
Estava sentindo-me uma completa estranha, nada do que estava sentindo
era verdade, apenas o efeito do álcool sobre mim, suas palavras e sua confissão
sobre estar começando a gostar de mim não poderiam me afetar como
pareciam fazê-lo. Em um único impulso, vou até ele, seguro sua jaqueta de e
grudo nossos lábios. Ele parecia relutante no começo, mas não demora muito
para eu sentir uma de suas mãos em minha nuca e a outra no fim de minhas
costas puxando-me mais para ele. Sua língua entra em minha boca,
aprofundando o beijo. Por um momento não havia música de rock, pessoas
falando e muito menos qualquer sentimento desgostoso em relação a ele.

158
Apenas queria sentir seus toques em meu corpo e sua língua passando o
gosto da caipirinha para a minha. Quando as coisas estavam prestes a se
intensificar, ele me afasta de seu corpo e encara as pessoas a nossa volta, que
tinham a surpresa pelo que haviam acabado de ver estampada na cara.
Imediatamente, todos voltam a fazer as mesmas coisas de antes. Zared vira-se
para mim e abre um sorriso caloroso, fazendo-me retribuir a ação
involuntariamente. Ele se aproxima de mim, envolve meu rosto em suas mãos e
deixa um pequeno beijo em meus lábios.

159
Capítulo Vinte

— Por Deus, acho que estou ficando maluco. — Ele diz baixo, abaixa a cabeça
e se afasta soltando pequenas risadinhas incrédulas. Parecia tão surpreso quanto
eu por sua própria ação, e sua expressão mostrava receio pelo que havia
acabado de fazer. Encolho os ombros e abraço meu próprio corpo, recuando
um passo do homem que naquele exato momento deveria estar a brigar consigo
mesmo mentalmente. — Por que está a se afastar de mim? — Ele pergunta ao
levantar seu olhar para poder me ver.
Dou de ombros, observando com cautela o moreno se aproximar de mim,
pegar em uma de minhas mãos e entrelaçar nossos dedos. Por um momento
penso em me afastar, já que tudo está errado demais, as sensações, meus
desejos que se afloravam sexualmente cada vez mais por ele, a admiração por
tamanha beleza e a forma em que estava aceitando tudo o que me acontecia. E
a pior coisa que tem é aceitar e se acostumar com a dor física, emocional, e
espiritual que outro alguém causa propositalmente a você, isso era o que estava
acontecendo comigo, a antiga Skye se afastava constantemente, eu estava
morrendo aos poucos e da forma mais dolorosa. Porém, esse novo lado que ele
havia despertado era insaciável como ele, e gostava de mostrar ser mais forte do
que realmente era.
Sou puxada para me aproximar ainda mais, ele passa seu braço em torno
de meus ombros, guiando-nos no meio da multidão até o palco vazio. As
pessoas não faziam contato visual com Z, mas me olhavam como se eu fosse
um bom filé. Levo meu braço para sua cintura e escondo meus dedos na lateral
da mesma, enterrando-os dentro de sua calça. Ao perceber meu desconforto
com toda a atenção que estava a receber de forma descarada, ele olha para mim
e abre um pequeno sorriso na tentativa de conforto, entretanto, essa seria a
última coisa que ele me causaria.
— Por que me olham desta forma? — Pergunto, encolhendo-me um
pouco mais contra seu corpo. Ele solta um longo suspiro, mantendo sua
atenção no caminho que traçávamos até os outros, que estavam a nos esperar a
horas. Z umedece os lábios, os abre e fecha novamente, indeciso sobre sua
resposta, repetindo esse mesmo ato duas vezes seguidas.
— Você está aqui comigo, isso já é um bom motivo, não acha? — Ele
responde ainda com sua atenção fixa no caminho.
Ele pega o copo descartável de minha mão e bebe o resto do álcool que
tinha ali, jogando o plástico entre os outros que se acumulavam no chão do
local. Bom, a única coisa que sabia sobre ele era que tinha poder, dinheiro,
trabalhava para um homem que deveria ter sua idade e controlava as pessoas
como se fossem marionetes, entre outras poucas coisas. O que eu sabia era por
pura sorte ou bondade de sua parte por me contar, tinha mil perguntas para lhe
fazer, a maioria, mais concentrada nele do que em minha situação.
Naquele ponto quase nada me importava, nem mesmo se eu viveria ou não,
acho que é uma das coisas que acabei aprendendo com ele. Não podemos viver
a vida pensando nos acontecimentos futuros, nem fazer planos, muito menos
nos apegarmos, tudo o que temos que fazer para continuarmos vivendo dia
após dia é conviver com o que temos, por mais deplorável que seja, talvez
apenas desta forma conseguiremos abrir os olhos pela manhã e lutar pelo que
queremos, já que a vida nos leva apenas para a morte, de um jeito ou de outro.
— Estou em um ponto que achar não é o bastante. — Respondo-o, por
fim, chamando sua atenção para mim. Sua expressão era indecifrável, seja qual
sentimento ou reação que estava a ter no momento, sem dúvidas era algo que
ele não queria deixar pistas para que eu descubra.
Fico à espera de alguma resposta de sua parte, porém nada vem, apenas o
balançar de sua cabeça em uma afirmação rápida: — Preciso saber mais sobre
você, Zared, tudo o que tenho é um grande nada, e necessito saber como lidar
com o homem que estará me esperando quando o sol nascer. Por favor. —
Peço, sendo guiada em direção a outra barraca de bebidas. Seu silêncio estava a
acabar comigo, ele nunca fica quieto desta forma, é assustador já que suas ações
são imprevisíveis. Ele empurra todos da fila com arrogância e brutalidade,
chegando em frente a barraca. Alguns pensam em socar-lhe o rosto, mas
recuam ao ver quem era. E mais uma vez, tínhamos o Z abusando do poder.
— Uma caipirinha. — Ele diz com a voz mais grossa e firme do que antes.
O atendente afirma e se vira para preparar o pedido. Zared, se vira em minha

161
direção e fica a me olhar antes de levar uma das mãos para o bolso da frente da
calça e tirar dali um maço de cigarros, colocando um de maconha entre os
lábios, acendendo-o e dando uma longa tragada. Apenas fico parada a sua
frente observando seus lábios machucados soprarem a fumaça em minha
direção, levando-me a abanar as mãos em frente ao rosto, fazendo-o soltar
risadinhas.
— Por quê? — Ele pergunta com um sorriso travesso no rosto enquanto
me olhava de cima a baixo, aparentemente gostando do que via. Franzo as
sobrancelhas por não entender o que ele queria dizer com aquilo e me encolho
ao sentir a atenção dos homens sobre mim. — Por que quer tanto saber sobre
mim? Não basta o que já te contei? — Balanço a cabeça negativamente e olho a
minha volta, vendo os sorrisos maliciosos que eram direcionados a mim. A
atenção do moreno volta para os homens e depois para mim, levando-o a rir
baixinho novamente, mas desta vez ele usa o indicador para me chamar, uma
ação não notada pelos outros. Caminho até ele e sinto sua mão ir para o fim de
minhas costas, enquanto se apoiava no balcão improvisado com o outro braço.
— Porque quero saber quem é o verdadeiro homem que me fode todos os
dias desde que acabou com a minha vida. — A fumaça é liberada para fora de
sua boca e o cigarro se mantém no meio do indicador e médio. Ele se aproxima
de mim com os lábios curvados no mesmo sorriso travesso, ficando a
milímetros dos meus, deixando minha respiração pesada.
— Boa resposta. Deveria usar esse vocabulário porco mais vezes. —
Fecho os olhos e deixo a sensação dos toques de sua língua contra a pele fina
do meu pescoço tomar conta de toda a minha atenção. A mão que estava no
fim de minhas costas descem para minha bunda e a aperta, a outra vai para
minha nuca. No momento que torno a abrir os olhos, me deparo com ele
admirando-me, sua boca estava entreaberta enquanto seus olhos desciam para
olhar meus lábios, que naquele momento, desejavam loucamente os seus. Ele se
aproxima de mim e quando estamos prestes a nos beijar, Zared é puxado para
longe de mim, fazendo-me pular para trás.
— Leon está puto atrás de vocês, já estamos esperando os dois há mais de
três horas. — Escuto a voz de Logan, que olha para mim e pisca um olho.
Zared olha para o chão e faço o mesmo, vendo o cigarro de maconha coberto
por terra. Ele arruma a jaqueta de couro, se vira para Logan e o derruba no
chão. — Ops, desperdicei o cigarrinho da brisa. — Logan diz, rindo, captando
imediatamente o motivo de estar caído sobre as pedras.
Mordo os lábios para contrair os risos enquanto observo os dois entrarem
em uma brincadeira um tanto agressiva, porém, ambos gargalhavam enquanto

162
tentavam mobilizar um ao outro. Em um impulso, Zared coloca a perna na
frente de Logan, agarra em um dos braços do amigo e o joga no chão, se
afastando logo em seguida para acender outro cigarro, o que me leva a duvidar
se aquele maço tinha cigarros ou apenas seus baseados. Ele tira o conteúdo
tóxico da boca, solta a fumaça e me olha enquanto mantém um sorriso. Ele faz
um sinal com a mão para que eu me aproxime, obedeço e caminho até o rapaz
de cabelos negros, que olhava com diversão o amigo levantar do chão, todo
sujo de terra. Ele agarra em minha cintura e me puxa para seu corpo, deixando
um selinho rápido em meus lábios. Logan limpa toda a sujeira de sua roupa,
acende um cigarro e rouba o copo cheio de alguma bebida da mão de um dos
homens, que é obrigado a ficar quieto. O rapaz bebe um longo gole do álcool
em seu copo e da sua segunda tragada do cigarro.
— Vão abrir o palco, Leon vai nos matar se chegarmos atrasados. —
Franzo as sobrancelhas e olho para Zared, que apenas me balança a cabeça. Ele
pega a bebida que pediu, bebe um pouco e me entrega o copo antes de passar o
braço em torno de meus ombros e vamos até o enorme palco.
— Por que seu chefe ficaria puto se vocês chegassem atrasados? —
Pergunto em seu ouvido, já que estava mais complicado de nos falarmos com a
volta da música e o falatório. Logan estava logo a nossa frente e parecia se
divertir implicando com as putas que se encontravam nuas por lá, já Zared
parecia não se importar com as mulheres, estava ocupado demais pensando em
alguma coisa.
— Gostamos de inaugurar o palco, Leon considera isso como uma
tradição, para mim é uma perda de tempo, mas me divirto. — Olho para baixo
e abro um sorriso, enfim algo normal nesse lugar de loucos.
Bebo um bom gole da caipirinha, sentindo-me ainda mais bêbada do que
antes. Ao chegarmos ao tão falado palco, fico boquiaberta, era algo realmente
enorme e alto. Leon, olha para trás e revira os olhos quando me vê abraçada a
Zared, que ignora o chefe e passa pela a grade, puxando-me junto a ele. Logo
atrás de nós vinham os outros conversando sobre algo relacionado a abertura
que fariam. Era estranho ver pessoas como eles se divertindo com música, nem
ao menos sabia que gostavam de cantar.
Tudo bem, não sei de nada.
Ao chegarmos ao backstage, Zared solta minha mão, joga a jaqueta sobre a
cadeira, pega uma guitarra e toca algumas notas. Hayden também tira a blusa e
se senta no sofá, segurando uma folha que havia sido distribuída para todos, à
exceção de Jackie e eu.

163
— Nunca tocamos essa música, Z. — Nolan diz, segurando as baquetas
da bateria. O moreno olha para ele, me puxa para sentar em seu colo, mas não
me permite ler o que tem na folha. — Nem ao menos sei quem canta essa tal
de Sexy Error.
— Não conhecem porque fui eu quem escrevi. — O moreno responde
desinteressado e ignora a surpresa de todos no local. — Hayden cantará comigo,
o resto será como o de costume. Qualquer dúvida, as notas que terão que tocar
estão aí. — O moreno me dá um pequeno tapinha na coxa para que eu levante.
Olho para todos e vejo-os pegar algumas coisas e se dirigirem ao palco. Zared
pega em minha mão e me puxa logo atrás. Detrás das cortinas é possível ver a
multidão pronta para assistir a abertura. — Jackie, quero que leve-a para baixo e
fique com ela até acabar, irei encontrá-las por lá. Cuide dela.
Sem dizer uma única palavra, Jackie me puxa escada abaixo, arrastando-me
até a frente do palco, onde conseguia vê-los com clareza. Nolan se arruma na
bateria, Leon tocava o baixo, Logan o teclado, Hayden e Zared guitarra. Ambos
estavam sem blusa com o instrumento pendurado pela alça e na boca de cada
um, um cigarro. Os olhos descem até mim e me pisca um dos olhos, fazendo
olhares curiosos caírem sobre mim. Jackie tinha um sorriso enorme no rosto e
me abraçava. No momento em que as batidas da bateria se iniciam, todos
começam a gritar e a pular. A batida aumenta e logo é acompanhada pelo som
das guitarras. A música não era calma e nem tão agitada, mas parecia ter algo
sexy nela, sem, por um momento, perder o foco do rock que eles queriam.
Hayden se aproxima do microfone e começa a cantar, me deixando espantada
com sua voz grossa e rouca.

Ninguém sabe, mas estou ficando louco


Sei que sou eu, mas não sinto isso
Minha mente está uma bagunça,
o certo me parece tão errado e o errado, tão sexy

Um erro tão prazeroso, que chamou-me a atenção enquanto dançava


Ela não queria estar lá, sua expressão dizia isso
Tudo estava planejado, se aquela pequena garota é um erro,
não quero estar certo

Hey, garota, se soubesse o quanto estou dependente se você,


não tornaria as coisas tão complicadas

164
Quero apenas tocar-lhe e sentir o sabor de seus lábios
pelos quais estou tão dependente

Se soubesse do que sou capaz por você,


foderia tudo o que tento criar
Porra, acho que estou maluco

Hayden se afasta do microfone rindo e começa a caminhar pelo palco,


apenas observando a multidão gritar. Zared tenta pegar o cigarro da boca, mas
o conteúdo cai no palco, fazendo-me rir de sua careta. Ele se aproxima do
microfone, e apenas escuto o ritmo diminuir, trazendo um som um pouco mais
calmo do que o de Hayden.

Talvez você seja minha e não sabe


Assim como não sabemos ao certo
quantas porras de estrelas iluminam o céu escuro
(você apenas não sabe, você não sabe)

Mas garota, talvez eu também seja seu, e não sei


Estou começando a gostar de você
e desse pequeno sorriso que ocupa seus lábios
Sou um babaca fantasiado de rei
e você, uma puta vestida de dama,
enganando a todos com esse lindos olhos mel esverdeados
que transborda inocência

Baby Girl, eu sei quem você realmente é


quando estamos sozinhos, tão sexy que me leva a loucura
E talvez eu também seja seu e não sei,
ou apenas não quero dar o braço a torcer

Mas quando estamos a sós,


quero que todos ouçam o que te causo,
porque você me deixa insano, um babaca capaz de tudo por você
Estou começando a gostar de você
e isso nunca foi tão perigoso

165
Pobre garota, vivendo em um mundo de malícias,
mal sabe que isso combina perfeitamente com ela,
assim como seu corpo é perfeitamente iluminado
pela a luz da lua que entra pela a sacada de meu quarto,
ocupando as quatro paredes por gemidos
Isso lhe cai tão bem

É garota, estou insano


porque quero pertencer a pequena vagabunda disfarçada de dama
Estou de joelhos a sua frente
apenas torcendo para que minha mascara não caia
E agora você sabe, talvez eu seja seu

Minha mente está uma bagunça,


o certo me parece tão errado,
e o errado tão sexy
Se aquela pequena garota é um erro,
não quero estar certo…

Hayden termina a música e no mesmo instante sou atingida por algo,


fazendo-me gritar de dor e imediatamente abaixar ao ouvir sons de armas
disparando. Escuto o som dos instrumentos serem largados no chão do palco e
as pessoas gritarem. Jackie se abaixa e coloca a mão sobre meu braço, tentando
parar o sangramento. Aperto os olhos e começo a chorar, sentia meu braço
latejar e o sangue descer por ele.
— Cadê ela? — Zared grita ainda longe e corre em minha direção,
empurrando a garota para longe de mim. — Ei, ei, ei, calma. — Ele diz e
abaixa-se ao meu lado para analisar a ferida. — Olha pra mim, Skye, vai ficar
tudo bem, pegou apenas de raspão. — Aperto os olhos e deixo o choro escapar
ainda mais, meu braço doía e minha mão já estava suja de sangue. Talvez minha
reação estivesse sendo exagerada demais para eles, mas era insuportável. Ele se
levanta e da um chute na coxa de Jackie que se encolhe contra a grade. — Eu
não mandei ficar de olho nela, caralho? — Ele grita e chuta a garota novamente,
sendo afastado por Logan e Leon. — Nem para olhar a porra da minha virgem
você presta, sua filha da puta! — Ele continua a gritar e tenta se soltar dos
braços dos amigos. Sem sucesso.

166
— Para! — Grito, abrindo os olhos, vendo o moreno me olhar com o
mesmo desprezo de hoje mais cedo. — Ela não tem culpa, Zared, ninguém
sabia o que iria acontecer. — Digo entre o choro, fazendo sua expressão dura
se quebrar, provavelmente ao se lembrar do que havia me prometido. A
multidão logo atrás de nós parecia agitada, chamando a atenção dos homens. As
pessoas que antes assistiam a abertura do palco abrem espaço, onde dois
homens aparecem arrastando um homem que abre um sorriso ao ver os cinco
homens a sua frente.
— Nos perdoem em atrapalhar os senhores, mas conseguimos pegar o
atirador. — Um dos homens diz. No mesmo instante, Logan e Leon soltam
Zared, que vai até o homem que estava a ser arrastado há pouco, agarra-o pela
blusa, e o puxa até onde estávamos, derrubando as grades divisórias.
— Você trabalha para quem? — O moreno grita, batendo a cabeça do
homem loiro contra o chão cheio de pedras, apenas fazendo o atirador rir.
— Como você é nervosinho, Z. W., não pergunta nem o nome antes de
irmos para a tortura. — O loiro ironiza, aparentemente se divertindo com o
que estava acontecendo.
— Não estou interessado em saber como se chama. — Zared rosna e soca
três vezes o rosto do homem, que abre um sorriso coberto de sangue. — Agora
me responda para quem trabalha, antes que eu perca minha paciência e te mate
logo. — O loiro solta uma gargalha, olha para o rosto do moreno e cospe.
— Se me matar, não saberá para quem trabalho. E a propósito, bela
virgem, não sabe o que eu faria com ela. Adoraria ter aquela boca linda em
torno do meu pau. — Encolho-me contra a grade para ficar o mais longe
possível dos dois. As palavras parecem causar efeito sobre Zared, levando-o a
tirar um canivete do coturno, enterrando o objeto cortante na coxa do homem,
e repete o ato seis vezes. Ele se levanta, esticando a perna do refém, e usa toda
sua força ao pisar no joelho homem, que berra ao ter a perna quebrada. Ele
volta a se abaixar, tirando a pequena faca de onde estava e levando-a para o
lábio inferior que é cortado e jogado para trás. Todos assistiam aquilo com
prazer, Jackie parecia não se comover, provavelmente já acostumada em ver
essas coisas. Já eu, sentia-me apavorada pelo homem, mesmo que ele tivesse
tentado me matar, ninguém merece passar pelo que ele está a passar.
— Agora me diz para quem trabalha antes que eu corte o caralho que tem
no meio das pernas! — Ao perceber que não receberia o que queria, Zared
abaixa as calças do homem e corta-lhe o pênis, deixando-me ainda mais
apavorada. Arrasto-me até a irmã de Leon e me abraço a ela, fechando os olhos

167
para não ver mais as coisas que o moreno era capaz, e mesmo tapando os
ouvidos, ainda era possível ouvir os gritos do homem enquanto era multilado.
Tento me concentrar em outras coisas, lembrar de coisas que boas nas
quais estive presente, porém, tudo o que me vinha em mente eram as imagens
de minutos atrás quando o moreno cantava sua música olhando fixamente para
mim. Todos pareciam pessoas normais, apenas cinco homens curtindo um
encontro de motoqueiros, onde diversas pessoas sobem ao palco para cantar e
se divertir, mas como um choque, fui lembrada da realidade. Eu simplesmente
não sentia nada por ele, apenas ódio, e voltaria para minha vida antiga, era
realmente isso o que queria acreditar, no entanto, lá estava a realidade batendo
em minha porta novamente, fazendo-me ver que estou completamente
submissa a ele, que gosto de sentir seus toques, e de como ele me faz sentir
quando estamos em um momento íntimo.
Ainda o odiava, mas agora estava sendo diferente, esse lado gostava e
estava disposto a se entregar a esse homem sadomasoquista.

Zared
Estava descontrolado, parte de mim não aceitava na promessa que havia feito a
Skye; era algo errado e sem cabimento. A outra me afirmava que a garota
precisava disso ou acabaria morrendo se continuássemos naquele ritmo. Era
uma merda estar constantemente me controlando para não gritar com ela,
mandar-lhe calar a boca. Contudo, eu estava começando a gostar. Se
continuássemos assim, ela consegue ser irritante, mas acho que isso é o que me
atrai nela, sua estupidez, irritabilidade e bela personalidade. E isso me deixa
puto, não posso simplesmente começar a gostar de alguém. Amor, amizade,
família são os pontos fracos de qualquer um, no meu caso, meu ponto fraco
tinha nome, e mesmo que não crie qualquer sentimento, ela sempre será meu
ponto fraco.
Após conseguir a informação que queria, limpo minhas mãos em um pano
e caminho sem pressa até a garota que se encolhia contra as grades que
dividiam a área vip. Me abaixo a sua frente e acaricio seus braços, afastando
suas mãos das orelhas.
— Ei, olhe para mim. — Digo com o tom de voz mas calmo que consigo.
E vejo a garota abrir os olhos marejados e me olhar assustada. — Terei que
resolver umas coisas, mas preciso que seja forte e fique sempre atrás de mim,

168
Ok? — Ela balança a cabeça para cima e para baixo afirmando. — Prometo te
proteger de todos, menos de mim, não sou uma pessoa confiável.

169
Capítulo Vinte e um

Zared

Seguro em suas pequenas mãos e ajudo a garota se levantar do chão. Ela ainda
estava assustada, seus olhos estavam transbordando o medo, assim como as
lágrimas que molhavam seu rosto. Viro-me para olhar os outros que se
mantinham atrás de mim. Pela segunda vez, não estávamos preparados para
algo do tipo, porém Joseff já estava a nos dar nos nervos, o filho da puta havia
mandado pegar a porra da Skye, e quando seu primeiro plano não deu certo,
mandou que a matassem.
Ninguém tenta me tirar do jogo desta forma, não morrerei por causa dessa
garota, mesmo que ela não faça a mínima ideia que seja a única coisa que me
mantém entre a vida e a morte. As pessoas a nossa volta estavam em alerta, os
homens que trabalhavam para Leon nos cercavam para impedir que algo
acontecesse ao chefe, mesmo que a prioridade dele fosse manter a irmã a salvo,
algo que não aconteceria se me deixassem chegar perto dela novamente. Já
estava esgotado, a noite estava sendo muito longa, com muitos acontecimentos
imprevistos, e com a maioria de nós fora do controle por conta das bebidas e
drogas ingeridas, não conseguiríamos fazer nada direito.
Ou estou ficando muito mole depois que decidi ter uma virgem, não, com
toda a certeza, não, estou agindo como um filho da puta por causa da maldita
promessa que fiz em ser diferente apenas por essa noite, e céus, como me
arrependo por isso. Se eu não tivesse tido a brilhante ideia de escutar a porra do
conselho do Hayden, provavelmente minha noite estaria sendo mais agradável,
não precisaria fingir ser o tipo de homem que não chego perto de ser.. Porra, eu
sou louco e pessoas loucas não se controlam, muito menos cumprem com as
promessas feitas.
— Então, o que faremos? — Logan pergunta, cruzando os braços sem
deixar qualquer rastro de que estava a agir como uma criança minutos atrás.
Leon passa as mãos sobre o rosto e solta um longo suspiro frustrado. Pois
é, a noite não estava sendo como planejada para ninguém. Reviro os olhos e
empurro Skye para eles, deixando de lado a promessa que havia feito a ela há
algumas horas atrás. Simplesmente não dava para continuar fingindo que me
importo; estou pouco me fodendo se ela foi baleada, se sente-se a vontade
comigo ou não, se a machucarei mais de uma vez por dia. Foda-se, esse sou eu e
isso não mudará. Reviro os olhos e pego a arma na parte de trás da minha calça,
checo a munição e saio da frente deles, mas sou impedido por Hayden, que
agarra em meu braço, fazendo-me virar a cabeça em sua direção para poder
olhá-lo.
— Que merda pensa que está fazendo? — Ele pergunta. Levanto a perna
e dou um chute em sua barriga, depois um soco, afastando o membro mais
novo para longe de mim.
— Vou acabar logo com essa palhaçada, enquanto vocês perdem tempo
pensando em algo. — Respondo, sentindo o ódio voltar a tomar conta de meu
corpo, estava cansado e puto por tentarem me atingir através da garota. Leon
solta uma risada e se aproxima de mim, atingindo-me com um soco no nariz.
— Quem você pensa que é, Winter? Eu sou o chefe aqui, você não passa
de um simples empregado, então abaixa essa autoridade que pensa que tem e
use a porra da cabeça, seu merda. — Solto uma risada enquanto limpo o sangue
que descia pelo meu nariz e vou até ele, passando meus braços a sua volta, o
empurrando-o para o chão.
Acerto-lhe um soco no olho e antes que possa dar outro, o mesmo me
atinge e parte para cima de mim, que desvio de sua mão, fazendo-o bater com
ela contra o chão de terra. Empurro-o para longe de mim e quando tento ir
para perto dele novamente, Logan me segura e Nolan a Leon. Limpo meu nariz
novamente e solto uma risada irônica.
— Mas que merda está acontecendo com vocês? Se matem depois, agora,
se não se importam, temos que ir atrás de Joseff. — Nolan diz, desviando seu
olhar de Leon para mim. — Se os capangas dele estão por aqui, ele obviamente
deve estar longe da ação, mas perto o suficiente para ver a desgraça se espalhar
pelo evento. — Solto-me de Logan e olho em volta, vislumbrando um morro a

171
uma boa distância de onde estávamos, era o único lugar possível de se manter a
salvo e assistir de camarote as pessoas morrerem.
Eu pensaria no mesmo, se não fosse mais esperto que ele.
— Já sei onde. Sigam-me. — Puxo Skye pelo braço ferido para se
aproximar de mim, para chegarmos até os carros sem mais problemas.
As duas únicas meninas que estavam com a gente andavam no meio e a
cercamos para impedir que qualquer outro tiro as atinja. Não sabia o que mais
me incomodava, se era o fato de estarmos sendo atacados novamente ou os
grunhidos da garota que chorava e resmungava por eu estar apertando sua
ferida, que sujava minha mão de sangue. Ela coloca sua mão sobre a minha,
tentando se livrar de meu aperto, mas para no momento em que forço ainda
mais. Minha atenção não estava sobre ela, estava concentrada demais nos
movimentos a minha volta, a procura de alguém que não me fosse familiar. Um
homem dá um tapa no ombro do outro para chamar sua atenção, ambos soltam
seus copos e começam a caminhar devagar em nossa direção com uma das
mãos atrás das costas.
— Zar… — Ela tenta falar, mas a empurro para cima de Jackie, assim que
os dois sacam uma arma cada um e apontam em nossa direção.
Tiro minha arma da minha calça e atiro no estômago do homem da
esquerda, e quando estou prestes a atirar no segundo, sou agarrado pelo
pescoço, o braço se apertava cada vez mais sobre ele, começando a me deixar
ser ar. Meus olhos percorrerem a nossa volta, vendo todos impedindo de
tocarem as garotas. Desço minha atenção para o pé do homem que me
enforcava por trás, e esperto o gatilho, fazendo-o gritar de dor e me soltar. Vou
até ele, seguro em cada lado de sua cabeça e a viro, permitindo-me ouvir o som
de seu pescoço quebrando enquanto observo o corpo cair a minha frente sem
vida. Estava tão louco pelo efeito da adrenalina que no momento em que me
viro, dando de cara com o segundo homem, acerto-lhe um chute na área das
costelas, um soco em sua garganta, outro em seu queixo, e quanto já o tenho
desnorteado e com dificuldades de respirar, me abaixo em sua frente, tirando
meu canivete de dentro de meu coturno e abro um sorriso ao cortar sua
garganta.
— Z! — Leon grita, chamando minha atenção. Corro até eles, usando o
resto de minha munição para atirar naqueles que os cercavam. Skye e Jackie
estavam encolhidas no meio dos quatro, tão apavoradas e grudadas uma na
outra que facilmente uma imagem de pornô lésbico entre as duas se forma em
minha mente, mas não demoro muito para me livrar delas, não era momento e
nem lugar para aquilo. Puxo um homem careca pela a jaqueta, jogo-o no chão e

172
atiro em sua cabeça, recebendo olhares dos outros, vislumbrando o medo que
sentiam por mim em seus olhos. Uma multidão se aproxima, atingindo todos os
rivais, que não demoram a morrer.
— Precisamos ir. — Olhando para Leon, que assente e puxa a irmã com
ele. Olho para a menina que agora abraça as próprias pernas e agarro em seu
braço ferido e o aperto com toda a força que tenho, fazendo a garota gritar e
chorar em dor, o que me causa um leve sorriso de satisfação.
Em um impulso, ela se levanta ainda aos prantos, e tenta acompanhar
meus passos apressados. Por isso, a mesma tropeçava, caía entre as pedras ou
cambaleava e tudo o que eu fazia era puxá-la cada vez com mais brutalidade.
Não estava com paciência, minha cota de pessoa boazinha já estava esgotada há
horas e o momento não me permitia tentar ser um pouco menos bruto com ela.
Precisava pegar Joseff ainda essa noite. Ao chegarmos ao estacionamento
escuro, cada um vai para seu carro. Abro o meu e jogo a garota para o banco do
passageiro, vendo-a encolher-se nele. Vou até meu porta-malas e o vasculho em
busca de uma caixa de primeiros socorros e assim que a acho, coloco-a no chão
e começo a me preparar, pegando mais munição e armas, escondendo-as por
baixo da roupa. Ao ter tudo o que preciso, fecho o capô e pulo para o banco do
motorista com a caixa branca em mãos.
— Você prometeu não me machucar, não essa noite. — Skye sussurra e
soluça enquanto se vira para me encarar. Ligo o carro, acendo a luz no teto e
abro a caixa, pegando dela um algodão que molho com álcool e me aproximo
da garota, que se afasta um pouco. Pego em seu braço e o puxo para mim, jogo
o álcool sobre a ferida, fazendo-a apertar os olhos e gemer de dor. Passo o
algodão molhado sobre o machucado para limpá-lo bem, em seguida, pego uma
faixa e a enrolo bem apertada para estancar o sangue. Ao terminar o curativo,
sem olhar para Skye ou pronunciar algo, jogo a caixa para o banco de trás,
coloco a cabeça para fora da janela, assobio e faço um sinal com a mão. — Não
consigo te entend…
— Cala a boca, não aguento mais escutar a porra da sua voz, caralho! —
Grito, fazendo-a dar um pequeno pulo e se encolher ainda mais contra o banco.
Saio com o carro em direção ao morro onde Joseff deve estar. A velocidade
não era nada razoável, era rápido demais, fazendo as coisas do outro lado não
passarem de borrões. — Coloca a porra do cinto de segurança! — Grito
desviando minha atenção da estrada para a garota ao meu lado que tremia.
Atrás de mim, os outros quatro vinham às pressas, Hayden em sua moto e o
restante de carro. — Ei, Baby Girl, pegue um cigarro aqui para mim. — Mando,
indicando o bolso da frente da minha calça.

173
Ela se aproxima de mim lentamente, coloca a mão dentro de bolso e puxa
o maço de cigarros, colocando um em minha boca, depois volta com a mão
para dentro do bolso e tira o isqueiro. Pego o objeto de sua mão e acendo a
porcaria do cigarro, dando um longa tragada. Torno a colocá-lo entre meus
dentes e faço a curva, fazendo o veículo derrapar entre as pedras. Não estava
longe do local, por isso levo a mão para fora do carro e mando diminuírem a
velocidade para não chamar a atenção e fazer com que o filho da puta fuja
novamente. Coloco a mão sobre a coxa da Skye e dou-lhe um levo aperto,
fazendo seus olhos inchados e vermelhos subirem em minha direção.
— Vai ficar atrás de mim o tempo todo, não se distancie e nem pense em
fugir, não sei quantas pessoas estão nos esperando lá. Qualquer um vai querer
te matar, então não se distancie de mim, entendeu? — Ela balança a cabeça e
volta sua atenção para os pés.
Paro o carro e desço, tentando enxergar algo em meio a escuridão que
dominava o lugar alto, acompanhada com o mato que batia a cima dos joelhos,e
árvores que cercavam o ambiente todo. Todos fazem o mesmo e caminham até
mim evitando fazer qualquer barulho, tiro minha arma da parte de trás da calça
e vou andado pelo local, quanto mais me aproximava mais audível ficava os
gemidos que vinham de algum lado. Sinto a mão fria de Skye encostar no fim
de minha espinha e agarrar na cintura da calça. Aperto os olhos para poder ver
algo, e enfim consigo vislumbrar um carro preto estacionado na ponta do
morro, os gemidos vinham dali.
— O filho da puta está fodendo? — Hayden pergunta o óbvio. Balanço a
cabeça e me aproximo mais do veículo, eu, Leon e Nolan de um lado e Hayden
e Logan do outro, movimento minha boca em uma contagem regressiva e no
três, todos tiramos as armas e atiramos contra o vidro, que se parte em mil
pedaços. Abro a porta e dou de cara com Joseff fodendo um homem enquanto
o outro o comia. Franzo as sobrancelhas e puxo o branquelo ruivo para fora do
veículo.
— Sempre soube que você era feito de mulherzinha, Joseff. — Digo,
agarrando-o pelos cabelos e jogando no mato. Hayden segura o terceiro e bate
com a cabeça do mesmo contra o vidro.
— Odeio viados. — Ele diz, divertindo-se enquanto espanca o moreno.
Reviro os olhos e volto minha atenção para Joseff que ainda se mantinha entre
o mato. — Ei, Leon, o que acha de fazermos uma fogueira por aqui mesmo? —
Rio junto com ele e concordo assim como todos os outros.
— Baby Girl, vá até meu carro e pegue a garrafa de álcool que usei em
você agora pouco e uma fita. — Mando, abrindo um sorriso que parece assustá-

174
la, mas ela não questiona, apenas afirma e caminha até meu carro. — Logan,
pegue todos os pneus reservas que tivermos, Nolan vá ajudá-lo. — Ambos
afirmam e saem rindo em diversão. Agarro os pés do homem a minha frente e
o arrasto para perto dos outros dois que estão um do lado do outro. Enquanto
Leon e sua irmã os vigiam, eu e Hayden vamos até o carro do dono da máfia
rival e tiramos os quatro pneus e mais os reservas. Volto para a frente dos
homens e começo a prendê-los dentro dos círculos de borracha.
— O que pensa que está fazendo, Devil? — Joseff pergunta e solta uma
risada irônica enquanto me observa terminar de prender o segundo. — Vai me
matar e ficar com o meu território? — Ele continua a ironizar. Balanço a cabeça
e abro um sorriso ao dar três passos ao lado para ficar a sua frente.
— Olha, eu nem tinha pensado nisso, mas é o que farei. — Respondo e
me abaixo até meu coturno, onde pego meu canivete. Olho para o lado e
observo minha garota chegar com o que eu havia pedido e me entregar, sorrio e
a puxo para um beijo curto. — Ops, que falta de educação a minha, querida,
esse é o Joseff, Joseff essa é a minha virgem, aquela que mandou matar para me
tirar do jogo. — Ironizo e dou um tapa na bunda da garota que reprime um
pequeno sorriso. — Antes de eu tratar de negócio, amor, quero que devolva o
que ele mandou que fizessem com você, mas no mesmo local. — Ela me olha
horrorizada e balança a cabeça em negativa. — Não foi um pedido. — Digo,
sacando a arma.
Vou para trás da garota, coloco o calibre em suas pequenas mãos e
posiciono a minha junto com a sua, deixando nossos dedos juntos no gatilho.
Sinto a respiração da garota pesar e no momento em que miro, aperto o gatilho,
atingindo em cheio o braço do homem, que grita. Torno guardar o que é meu e
antes de voltar minha atenção para meu rival, aproximo-me da garota e deixo
um beijo em seu pescoço: — Boa garota. — Sussurro em seu ouvido, distancio-
me dela e vou para frente do homem que me olha com ódio.
Abro o canivete, aproximo-me dele e corto-lhe o pinto e testículos,
causando gritos que chegam a meus ouvidos como música, nada mais
prazeroso que a vingança. Aproveitando que sua boca estava aberta, enfio suas
genitais nela, e com a ajuda de Hayden, que o impede de cuspir a parte do
corpo, uso a fita para cobrir sua boca.
Viro-me para Hayden e damos um toque de mãos, prendo o loiro no meio
dos pneus jogo o álcool da garrafa que havia pedido. Fixo minha atenção nos
olhos de Joseff e abro um sorriso vitorioso enquanto brinco com o isqueiro.
— Foi tão fácil. — Rio da sua cara de pavor. — Isso é para aprender que
ninguém nunca conseguirá me tirar do jogo através da minha mulher. Como

175
dizem, sou o anjo caído feito para escravizar o próprio Lúcifer. — Solto uma
risada e jogo o isqueiro aceso sobre o homem que entra em chamas no mesmo
instante. Leon e Nolan fazem o mesmo com os outros dois, iniciando uma
sessão de gritos, e céus, como aquilo era alimentava mais minha mente maníaca.
Recosto-me no capô do carro e puxo a Skye para mim, envolvendo-a em meus
braços, sem momento algum tirar minha atenção dos três homens que gritavam
enquanto morriam queimados.

Skye
Os braços de Zared apertavam-me contra seu corpo enquanto ele assiste com
satisfação os três homens que berram enquanto queimavam até a morte.
Encolho-me e escondo o rosto em seu peito, tentando não visualizar aquela
cena terrível, que agradava tanto àqueles cinco homens macabros. Todos
parecem se divertir com o momento e mantém uma conversa de como foi fácil
matar aquele homem.
O cheiro de carne queimada toma conta do lugar, deixando-me enjoada e
tonta por saber de onde vinha. Ao perceber, Zared me olha sem qualquer tipo
de expressão no rosto e se levanta do capô do carro, puxando-me com ele para
longe dali. O vento frio da madrugada nos atinge com força, as árvores
parecem murmurar milhares de coisas para nós. Estamos distante dos outros,
nem a luz do fogo dava mais sinal, estávamos em um campo onde o mato alto e
flores ocupavam a área, e por estarmos longe de qualquer lugar com luzes, o
céu se mostrava repleto de estrelas, que parecia agradar até mesmo a Zared com
tamanha beleza.
Olho para o moreno que tem a cabeça erguida ao admirar o céu com os
lábios curvados em um pequeno sorriso, ele se vira para mim e me puxa para
um ponto com a grama mais baixa, onde nos sentamos em silêncio, mantendo
o olhar nas milhares estrelas que fazem tudo parecer surreal.
— Por que me tirou de perto de seus amigos? — Pergunto baixo, estava
com medo de sua reação. Ele desvia o olhar do céu para mim e dá de ombros,
não deixando claro o que sentia naquele momento. — Desculpe… — Sussurro
e encolho-me, voltando minha atenção para a única coisa iluminada ali.
— Não poderia fazer o que quero perto deles. — Ele responde devagar,
tão calmo que não parecia que estava me forçando a atirar em um homem. E lá
vamos nós para mais uma mudança de humor. Franzo as sobrancelhas por não

176
entender o que ele quer dizer. — Ainda temos algum tempo antes do sol nascer,
e não responderei suas perguntas depois. — Solto um grande oh e assinto.
Ele estava terminando de cumprir sua promessa, mesmo que a tenha
quebrado algumas horas atrás. Passo a língua pelos lábios e me viro para ele
cruzando as pernas, enquanto ele apenas se mantém parado me observando,
sem dizer nenhuma palavra. Porém, naquele momento, nenhuma das perguntas
que eu tanto queria saber a resposta me vinham a mente, solto um suspiro
frustrado e fico encarando o moreno, que fazia o mesmo comigo.
— Uma vez, quando me levou para o puteiro do Hayden, ele disse que
valia a pena você arriscar sua vida por mim. Por que se arriscaria por mim?
— Uma virgem se torna o ponto fraco de quem a tiver, no momento em
que ele fode com ela. Se baterem, matarem ou foderem você, Leon será
obrigado a me matar e não é uma morte rápida. — Ele responde, soltando
algumas risadas sem humor.
— Por que isso?
— É uma regra bem antiga entre pessoas como nós, e será sempre assim.
Dizem que quando tiramos a virgindade de uma garota, a submissa e seu dono
criam um vínculo, ela vira apenas dele, e se torna a única pessoa com quem ele
pode casar e formar uma família. Ou seja, você é a única pessoa por quem
posso me apaixonar e ter uma vida menos vazia. — Ele responde sem qualquer
tipo de emoção na voz, sua expressão estava vazia, sua voz carregada de um
grande nada, mas algo em seus olhos contrariava-o. Suas palavras não pareciam
ter qualquer significado para ele, mas todas atingiram-me em cheio, deixando
meu coração acelerado.
— Por que me chamam de virgem mesmo sabendo que não sou mais? —
Essa mania deles vinha me deixando maluca, até porque é uma forma bem
irônica de se referirem a mim.
— É uma forma que usamos para diferenciar você de uma puta. Se eu
digo “minha virgem”, as pessoas se afastam, não tocam em você e a respeitarão
assim como me respeitam. Você não precisa ser mais virgem para eu continuar
me referido a você assim, entendeu?
— Mais ou menos. — Digo e ele ri. — Algum dia vamos continuar assim?
Sem você me machucar? — Pergunto com a voz um pouco mais falha. Ele
solta um suspiro e balança a cabeça, negando. — Entendo. Posso fazer
perguntas sobre você? — Ele balança a cabeça, negando novamente, o que me
leva a descartar perguntas que me deixavam curiosa, como por exemplo as dos
caixões. — As pessoas tentam me matar para você morrer depois? — Ele
afirma e ambos ficamos quietos outra vez.

177
O fim da noite estava calmo, deveriam estar faltando pouco menos de
quatro horas para acabar e todo esse clima calmo acabaria. Só não estou
preparada para acordar e ver seu lado obscuro ativo novamente, mas como
dizem, o que é bom dura pouco.
— Sabe, Skye, agora estou um passo mais perto de estar dois passos mais
longe de você. Não importa o quanto eu tente ser diferente, nunca conseguirei
ser o cara que se apaixona, sempre me afastarei. — Ele diz tão baixo que era
como se não quisesse que eu escutasse. — Mas estou dependente de você, e
isso é uma merda, porque eu não quero te desejar tanto. — Abaixo meu olhar
para as flores a nossa volta e me esforço para não sentir algo positivo com suas
palavras.
Mas estava bêbada demais para pensar no que ele havia me feito, só
conseguia pensar na música, e no desejo que sentia por ele.
— Zared… — Chamo-o e volto a encará-lo. — Alguém alguma vez
quebrou seu coração? Você parece ter tanto medo de se relacionar com alguém.
— Ele abre outro sorriso triste e olha para frente, evitando fazer contato visual
comigo.
— Não se pode quebrar algo que nunca esteve inteiro, Skye. — Ele
responde, parecendo estar distante. Engatinho até ele e viro seu rosto com
cuidado para poder olhar seus olhos castanhos.
— Mas pode concertar, é só você se permitir sentir. — Digo e vejo sua
expressão vazia se quebrar. Desço minha mão direita para seu peito e mantenho
a esquerda em sua bochecha. — Ninguém é condenado ao vazio sem ter
alguém para resgatá-lo. Nem mesmo uma pessoa com tantas mortes na alma
como você.
As batidas de seu coração se tornam irregulares, sua respiração pesa,
apenas sinto duas mãos agarrarem em minha cintura e me sentar sobre seu colo
e seus braços me apertarem contra seu corpo. Passo meus braços em torno de
seu pescoço e me aproximo de seus lábios lentamente, junto os seus aos meus
em um beijo intenso. Zared leva sua mão para o zíper de minha jaqueta, desce
aos poucos e logo sua pele gelada entra em contato com a minha, quente,
fazendo-me arrepiar e soltar um pequeno gemido ao senti-lo agarrar meu seio e
massageá-lo enquanto a outra mão aperta minha bunda. A sua barba espetava
meu rosto, causando-me alguns risinhos enquanto ele descia seus beijos até meu
pescoço: — Seu chefe pode nos encontrar. — Sussurro enquanto sua língua faz
contato com a pele fina do local.
— Foda-se. — Ele murmura e se movimenta embaixo de mim. Coloco a
mão sobre seu ombro e o empurro para se afastar de mim, deixando-o com a

178
mesma cara de desentendido de mais cedo. Solto uma risadinha e tiro sua
jaqueta, em seguida me abaixo até sua calça e a tiro junto com a cueca e os
deixo até o coturno, que me impedia de tirá-los completamente. — Está frio
caralho. — Ele xinga assim que se encontrava descoberto. Passo minha mão
sobre seu pênis e o acaricio, fazendo o homem a minha frente abrir um sorriso
e tombar a cabeça sobre o mato que nos rodeava, enquanto soltava um “oh”
prolongado. Masturbo-o até seu membro se encontrar inteiramente ereto. —
Chupe-me logo, amor. — Ele geme. Quando começo a brincar com sua glande,
escuto uma risadinha ao nosso lado.
— Nossa, também quero. — A voz de Hayden ecoa ao nosso lado. Olho
para o lado e vejo-o me lançar um sorriso malicioso. Solto o pênis de Zared e
encolho-me, sentindo meu rosto ficar vermelho por ter sido vista em um
momento íntimo como aquele.
— Mas que porra, Hayden! — Zared grita, irritado, e se apressa em subir a
calça e a cueca. Arrumo a jaqueta e torno a fechá-la para cobrir meus seios.
— Não queria atrapalhar seu boquete, mas estamos esperando vocês para
irmos embora. — Zared se levanta xingando mil e um palavrões e passa o
braço em torno de meus ombros enquanto caminhamos de volta para o carro.
— Fiquem tranquilos, não falarei para ninguém que a peguei fazendo sexo oral
em você.
— Vai pro inferno. — Zared diz, revirando os olhos. Olho para ele e vejo-
o mexer em suas genitais que causavam um grande relevo em sua calça.
— Está tudo bem? — Pergunto baixo e ele me olha de forma feia.
— Já andou com o pau latejando por estar tão duro? — Balanço a cabeça,
negando o óbvio, e volto meu olhar para sua mão que não parava de mexer
naquela parte. — É uma merda insuportável! — Ele completa. — E antes que
eu me esqueça, eu nunca, nunca, te chamei de amor. Entendeu? Isso não
tornará a se repetir. — Balanço a cabeça e ao chegarmos perto dos outros, sou
puxada direto para dentro do carro, que vai embora antes mesmo dos outros
entrarem nos seus.
Pela a expressão horrível em seu rosto, ele podia matar qualquer um nesse
exato momento. O mesmo soca a porcaria do volante e continua xingando.
— Para o carro. — Digo com a voz firme, deixando o moreno ao meu
lado surpreso. — Para a porra do carro! — Repito e ele obedece, parando o
automóvel na beira da estrada.
— O que foi, porra? Quer mijar? — Ele pergunta sem paciência.
Reviro os olhos e passo para seu banco, ficando no meio de suas pernas,
desabotoo sua calça e puxo até seus joelhos junto a cueca, fazendo seu membro

179
saltar a minha frente. Zared se mantinha calado, apenas observando o que eu
fazia, surpreso por minha atitude. Olho para ele e coloco seu pênis em minha
boca, lambo toda seu comprimento e ao subir deixo um chupão: — Isso! —
Ele geme alto ao se sentir em minha garganta.
Ele leva suas mãos para minha cabeça e me guia para cima e para baixo da
forma que queria, permitindo-me ouvir seus gemidos. Após um tempo no
mesmo ritmo, ele me solta e solta um gemido mais grosso antes de gozar
dentro de minha boca. Engulo todo o seu líquido e volto a me sentar no banco
do passageiro, antes de olhar para ele com um sorriso atrevido e limpar os
cantos da boca.
Ele se aproxima de mim, agarra meus cabelos e leva-me para ele, iniciado
um beijo tão intenso quanto o outro, ele se afasta puxando meu lábio inferior e
deixa um selinho rápido antes de voltar a colocar a calça e volta a dirigir, mas
dessa vez com um sorriso bobo no rosto: — Talvez, gostar de você não seja tão
ruim assim. — Abro um sorriso e me aproximo dele novamente, deixo um
simples beijo em sua bochecha.
Ele desce sua mão para minha coxa e a aperta antes de se virar para mim e
piscar um dos olhos. Olho para o lado e no mesmo instante meu sorriso se
desmancha ao ver o sol começar a dar sinal, olho para o homem, começando a
ficar com medo dele novamente e no instante que também vê, ele tira sua mão
da minha perna e desfaz o sorriso em seu rosto. Afasto-me dele e me encosto
na porta, tentando ao máximo me afastar dele.
Ao chegarmos em sua casa, os homens que guardam o portão não se
movem até o chefe deles abaixar o vidro para se identificar.
— Dia de folga, quero vocês de volta à meia-noite. — Ele diz, firme e
entra. Ao estacionar o carro, ele sai, dá a volta e abre a minha porta e agarra em
meu braço, tirando-me do veículo com brutalidade.
— Zared… — Tento dizer mas recebo um tapa no rosto, fazendo o local
atingindo formigar.
— Cala a boca. — Ele diz e arrasta-me para dentro da casa, onde seus
empregados me olham com pena ao ver a expressão do chefe e a marca em
meu rosto. Subimos as escadas e entramos em seu quarto. Ele me joga para
cima da cama, tranca a porta e caminha em direção a seu armário e tiram de lá
um chicote. Arrasto-me para o meio da cama e sinto um nó se formar em
minha garganta só de ver o sorriso perverso tomar conta de seus lábios. —
Daddy quer brincar. — Ele diz, rindo em diversão, e no mesmo instante, o
couro entra em contato com minha pele. — Tira a roupa.
— Por favor, para. — Peço aos prantos. — Eu não fiz nada de errado.

180
— Tira a porra da roupa! — Ele grita e me dá outra chicoteada. Faço o
que me é mandado, sentindo meu corpo todo tremer. Ele se livra da sua, vem
até mim, abre minha pernas e passa dois dedos por minha intimidade. —
Deveria estar molhada. — Ele diz e torna a me machucar com o objeto de
couro, que faz contato com minhas pernas até as duas se encontrarem com
feridas abertas e cobertas por sangue.

Zared
— MÃE! — Acordo em um pulo. Meu coração estava acelerado, minha cabeça
doía e o cheiro de sangue era insuportável. Ainda ofegante olho para o lado e
apenas vejo o local onde a Skye deveria estar encharcado de sangue, franzo as
sobrancelhas e vejo nossas roupas no chão, mais distante delas, um de meus
chicotes que também parece estar sujo de sangue.
Passo as mãos pelo rosto por não saber do que aconteceu e sinto minhas
costas e braços arderem. Levanto da cama nu e vou até o espelho, onde me
deparo com a parte de meus ombros e braços arranhados: — Baby Girl? —
Chamo por ela e não recebo resposta. — Baby Girl? — Aumento meu tom de
voz e vou até o banheiro. Vazio.
Automaticamente olho para meu armário e vejo-o com as portas abertas.
Vou até porta de meu quarto, tentando abri-la, mas a tentativa se torna falha.
— Merda, está de sacanagem !— Grito passando as mãos nos cabelos e os
puxando em irritação. Escuto um “tenha um bom dia, senhor” vir lá de baixo,
fazendo-me correr até a sacada e ver um meus carros passar pelo portão as
pressas. Sinto meu coração parar e o pânico se misturar. — SKYEEEE!

181
Capítulo Vinte e dois

Skye
Aperto os olhos e choro. Meu corpo está todo coberto de sangue, as feridas
que ele havia aberto latejavam com o máximo de força que podiam, as roupas
que vestia também se encontravam sujas e coladas ao meu corpo, o que me
dava certeza de que estava muito machucada e perdendo muito sangue, mas
naquele momento, o que me importava não era meu estado ou o quanto de
sangue havia perdido, e sim, não chamar o atenção, o que estava sendo bem
complicado graças ao carro esportivo prata que eu dirigia. Após horas tentando
achar a saída daquele lugar no meio do nada, enfim consigo escapar e entrar na
estrada que me leva direto para a cidade de Los Angeles.
Para onde eu iria? Zared sabe onde eu moro e aquele lugar deve estar
sendo investigado, e pensar nisso me deixa ainda mais curiosa em saber como
ele conseguiu entrar e sair sem chamar atenção. Ao ver a placa verde indicando
Los Angeles solto um longo suspiro que parecia estar sendo preso há tempos.
Tiro os óculos escuros e abaixo o capuz do casaco de moletom.
Eu estava livre!
Não evito o sorriso que se forma em meus lábios, era o mais verdadeiro
que havia aberto nos últimos tempos. Minha visão está embaçada, deixando-me
com dificuldades de ver a estrada, porém, descarto rapidamente a possibilidade
de parar para me acalmar. Era evidente que estava mais aliviada, mas algo em
minha mente havia mudado, podia perceber pela forma que apertava o volante
e o jeito que olhava constantemente para o retrovisor.
Eu estava paranoica, achando que aquele homem fosse brotar ao meu lado
e me castigar; castigar, não. Matar. Ele pensa que passei a infância em um
orfanato com Alison, então poderia ir para a casa de meus pais, eles devem
estar arrasados com a minha suposta morte. Só de pensar na dor que eles
deveriam estar sentindo, sinto meu coração apertar.
Não posso ir vê-los, é arriscado demais e jamais me perdoaria se algo
acontecesse a eles. Aperto o volante e piso no acelerador, sabendo que acabaria
recebendo multas por excesso de velocidade. Eu estava sem ter um lugar para ir,
sem comer há dois dias, então me sentia péssima, sem contar que estava mais
magra do que quando ele me sequestrou. A única pessoa que tinha de confiança
era Todd, que depois de Alison romper o relacionamento de dois anos e pouco,
manteve contato comigo mesmo eu sendo a melhor amiga dela. Sabia ele estava
cursando medicina, que mantinha suas notas sempre acima da média e gostava
de ser descolado para esconder seu lado nerd. Então além de ter um lugar para
ficar, teria alguém para cuidar de meus machucados sem me levar para o
hospital.
Ao chegar ao centro da cidade, sinto meu corpo aquecer e voltar a dar
sinal de vida, meu coração estava acelerado, meus olhos marejados, enquanto
admirava sem me importar com as buzinas dos carros atrás de mim. Já com a
velocidade reduzida, olho as pessoas e os prédios altos a minha volta com
admiração, mesmo sabendo que boa parte deles não eram tão normais quando
pareciam.
O trajeto até o prédio de Todd leva em torno de uma hora e meia, e ao me
encontrar com o carro estacionado em frente dele, sinto minha coragem
evaporar. Torno a colocar o óculos e o capuz, saio do veículo e atravesso a rua a
passos longos e apressados. Ao parar em frente ao prédio, o porteiro me olha
de forma desconfiada, mas não parece me reconhecer. Aproximo-me de sua
mesa e vejo sua expressão aterrorizada no momento em que tiro o óculos e
levo o indicador até os lábios pedindo silêncio. Ele permite minha entrada,
parecendo confuso e aliviado por me ver, agradeço a ele e vou até o elevador e
aperto o botão do décimo primeiro andar.
Enquanto subia, evitava ao máximo me mexer diante da dor que sentia.
Fico encarando a porta a minha frente e aperto a campainha, torcendo para que
ele esteja em casa a aquela hora da noite. Repito o mesmo ato quatro vezes
seguidas e escuto a porta ser destrancada, uma mulher loira, bem magra e alta
aparece vestindo uma blusa masculina.
— O Todd está? — Pergunto baixo, mas alto o suficiente para ouvir
passos pesados e apressados lá de dentro. O homem de cabelos castanhos e

183
olhos azuis para logo atrás da mulher, encarando meu rosto de forma incrédula,
como se estivesse vendo um fantasma. Olho para ele e sinto as lágrimas se
formarem, começando a embaçar minha visão.
— S-Skye? — Ele sussurra tão baixo quanto eu, o que parece surpreender
a loira que se encontrava a nossa frente. Posso ver a emoção nos olhos do
homem que não parece acreditar no que estava vendo. Balanço a cabeça
devagar e vejo-o empurrar a loira para trás e me abraçar. Por mais que estivesse
doendo, não faço nada além de retribuir o gesto da mesma intensidade. Quase
havia me esquecido de como era boa a sensação de saber que a pessoa que está
te envolvendo realmente se importa com você. — Você não está morta. — Ele
sussurra em meu ouvido e sinto seus braços me apertarem com mais força. —
Eu não perdi você. — Ele diz mais para ele do que para mim.
E com essas palavras, inicio um choro desesperado e aliviado ao mesmo
tempo enquanto afundo meu rosto na curva de seu pescoço e o abraço com
mais força, cravando minhas unhas em sua pele apenas para ter certeza que não
é um sonho.
— Ajude-me… Por favor. — Peço apertando os olhos e chorando o
suficiente para ocupar os corredores.
Todd leva uma mão para trás de minha cabeça e carícia meus cabelos, não
escondendo as lágrimas que desciam de seu rosto. Sem desgrudar meu corpo
do seu, ele se vira para a porta e me leva para dentro do apartamento luxuoso,
sentando-me no sofá, sem se importar se eu o sujaria ou não. Não me
importava se a mulher, que provavelmente deveria estar transando com ele
antes de eu chegar, estava puta da vida por eu chegar em um momento como
aquele, muito menos se estava me vendo chorar de forma tão descontrolada.
Tudo o que eu queria era me sentir acolhida pelo meu amigo e poder ser
tratada com atenção e carinho. A loira fecha a porta e se aproxima, parando a
alguns metros com a mão na cintura, como se exigisse uma explicação. Todd
parece não perceber a irritação de sua namorada, estava ocupado demais me
envolvendo contra seu corpo com uma intensidade adorável, tentando me
tranquilizar.
— Alguém pode me explicar o que está acontece? Quem é essa garota,
Todd? — A voz elegante da mulher ecoa pelo cômodo silencioso.
O homem olha para mim como se perguntasse se poderia dizer algo, e eu
balanço a cabeça lentamente negando. Quanto menos souberem que estou viva
e andando por aqui, menos as chances de Zared me encontrar. Todd solta um
longo suspiro e olha para a garota parada no meio da sala. Se eu não estivesse
tão ruim, perguntaria qual era o problema dela, até porque se uma garota pálida,

184
com a roupa encharcada de sangue aparecesse na porta do apartamento de meu
namorado, eu não ficaria com raiva, e sim preocupada. Mesmo não a
conhecendo, sinto que já não vou com a cara dela, então apenas agarro no
braço do meu amigo e olho para ela de forma ameaçadora, como se estivesse
marcando território. — Então? — Ela exige a resposta que ainda não recebeu,
não se comovendo com o olhar sinistro que lançava em sua direção. Todd se
levanta e vai até a loira, colocando a mão em suas costas e guiando-a até a porta.
— Melhor você ir, nos falamos qualquer hora. — Ele diz, abre a porta e a
empurra para fora do apartamento sem ligar se ela estava apenas com sua blusa.
Uma atitude um tanto cretina, mas não deixo de me sentir satisfeita ao vê-lo dar
um pé na bunda dela sem pensar duas vezes apenas para me ajudar. Assim que
ele tranca a porta após escutar as ameaças da namorada, seus olhos caem sobre
mim cheios de preocupação. — Eu… Eu ainda não acredito que esteja aqui. —
Ele sussurra e volta a se sentar ao meu lado, me olhando com indiferença.
Encolho os ombros e balanço a cabeça concordando, sentindo meus olhos
doerem de tanto chorar.
— Para falar a verdade, nem eu acredito. — Respondo com a voz rouca.
Direcionando minha atenção para seus olhos marejados. — Desculpa por ter
atrapalhado sua noite e por ter impedido que falasse sobre mim com sua
namorada. — Finjo estar sentida em relação a loira. Ele abre um sorrisinho
gentil e passa o polegar sobre minha bochecha, secando meu rosto.
— Ela não era minha namorada, e mesmo se fosse, a mandaria embora de
qualquer forma. Minha amiga que foi dada como morta aparece na minha porta
me pedindo ajuda, é lógico que mandaria qualquer um ir embora. — Sorrio e
deito minha cabeça em sua mão em rosto. — O que houve? Onde você estava
esse tempo todo? De quem são essas roupas? — Ele pergunta, tentando não
me assustar com tantas perguntas ao mesmo tempo, mas não dá muito certo,
sinto meus olhos se arregalarem e imediatamente me distancio de seu toque.
Não sei se estava pronta para falar sobre isso, mas o que eu queria? Apareço na
casa dele toda acabada, um tempo depois de minha suposta morte e não seria
obrigada a falar o que estava acontecendo? Claro que não seria assim, até
porque se fosse ao contrário, eu faria o mesmo. — Desculpe.
— Tudo bem. Tem algum problema se falarmos disso depois? Não estou
nada bem. — Respondo, sentindo minha visão começar a embaçar. Tinha dois
motivos para estar assim: a falta de comida e a perda de sangue.
Ele logo parece tomar consciência do meu estado e se levanta, vindo até
mim e me pegando no colo como um bebê. Se fosse em outras circunstâncias,
eu reclamaria e diria que posso andar sozinha, mas pareço ter usado toda a

185
minha energia para chegar até aqui e agora que a adrenalina passou, toda a força
sumiu.
Sou carregada até o banheiro e sentada sobre o vaso enquanto ele decide
se tira minha roupa ou não. — Vai cuidar de mim? — Pergunto com os olhos
quase fechados, abrindo um sorriso mínimo que parece deixá-lo ainda mais
apavorado. — Acredite, você não vai sentir tesão ao me ver nua. — Tento
acalmá-lo, mas ele apenas solta risadas tensas para me satisfazer.
Depois de cada minuto que havia passado com Zared, perceber as
emoções, distinguir a verdade da mentira, parece tão fácil quanto piscar. Todd
vai até o chuveiro, liga-o e vem em minha direção sem gostar da ideia de me
despir. Suas mãos puxam a blusa de moletom para cima e a joga no cesto de
roupa suja e seus olhos se arregalam ao ver a queimadura que começava a
cicatrizar entre meus seios, a marca recente do chicote em minha barriga e os
pontos dos cortes em meus braços.
— Mas que merda fizeram com você? — Ele diz em pânico. Abro um
sorriso sinistro e dou de ombros.
— Deixaram-me vazia e oca como uma boneca. — Respondo tão distante
que não me incomodo com o fato de estar com os seios a mostra para um
homem.
Acho por ter ficado despida tantas vezes na frente de um desconhecido
torna o momento tão insignificante. Com minha ajuda, ele desce a calça
também de moletom e parece ficar ainda mais espantado ao ver minhas coxas
em carne viva graças a manhã horrível que tive enquanto era torturada e
estuprada. Vejo que seus olhos descem rapidamente para a tatuagem em minha
vagina, mas ele não diz nada, apenas passa os braços a minha volta e me leva
para dentro do boxe, deixando que a água morna molhe nós dois. A única
diferença é que ele está vestido.
— Vou cuidar de você. — Ele diz e pega no sabonete, lavando-me com
certa dificuldade.
No momento em que seus dedos chegam ao meio de minhas pernas, sinto
um medo tomar conta de mim, mas ele se afasta, entrega-me o sabonete e se
ocupa em lavar meus cabelos. Quando o chuveiro é desligado, vejo-o olhar em
volta em busca de alguma toalha, e ao não achar, seus braços me envolvem e ele
me leva para o quarto, onde sou sentada na ponta da cama antes de ser secada
com uma toalha que não demora a ficar suja de sangue.
O motivo de eu estar com tantas dificuldades de me mover leva-o a ter que
fazer tudo e sinto-me dependente. Odiava ter que vê-lo andar pelo quarto para
pegar uma cueca e uma blusa branca sem mangas, depois vesti-las em mim com

186
o maior cuidado antes de me deitar na cama de casal e apoiar a toalha sobre
minhas pernas.
— Estou sem medicamentos aqui, então irei em uma farmácia que tem
aqui perto e logo estarei de volta. Por favor, não se mexa. — Ele diz e vai até a
sala, voltando com um telefone fixo e um caderno em mãos. Ele anota alguma
coisa e coloca na mesinha de cabeceira ao meu lado. — Qualquer coisa, me liga.
— Quase consumida pelo sono, balanço a cabeça e sinto seus lábios em minha
testa. Ele diminui a luz do quarto e sai.
Sei que deveria estar louca, mas por mais estranho que pareça, sinto-me
relaxada o suficiente para conseguir dormir. Não lembro ao certo quanto
tempo consigo dormir, mas não o suficiente, já que meus olhos se abrem no
momento em que o telefone toca ao meu lado. Esfrego os olhos, estico o braço
e pego aparelho, atendendo o telefone com um simples “alô” sonolento.
— Boa noite, Baby Girl. — Meu coração para no instante em que a voz
fria ecoa do outro lado da linha acompanhada por sua risada divertida. —
Sentiu saudades?

187
Capítulo Vinte e três

Desligo o telefone e afasto-me do aparelho, sentindo o pânico tomar conta de


mim. Meu peito dói e quase não consigo respirar.
Levo minhas mãos para os cabelos e os puxo em desespero enquanto
coloco minha cabeça no meio das pernas, balançando meu corpo de um lado ao
outro, sentindo minhas lágrimas molharem meu rosto. Ele havia me achado,
Todd não estava em casa, eu estava sozinha com aquele homem em algum lugar
a me vigiar.
Escuto a campainha tocar e dou um pulo, concentrando meu olhar na luz
que vem da sala. Levanto-me da cama de forma lenta sentindo o chão gelado
sob meus pés, caminho até a sala, preparando-me para atender, seja lá quem for.
A campainha volta a tocar, mas desta vez, de forma mais frenética, fecho os
olhos e aproximo minha mão da maçaneta, giro a chave e abro a porta, mas
nada acontece, nenhum barulho de sapatos pelo corredor e ninguém a minha
frente.
Quando estou quase para me trancar novamente no apartamento, meus
olhos caem sobre um envelope branco com Baby Girl escrito em letras corridas.
Solto um gemido de dor ao me abaixar para pegar o papel. Ainda desconfiada,
dou uma última olhada no corredor escuro e torno a trancar a porta. Tiro do
envelope uma folha e meu coração para ao ler

Gosto de brincar com a comida, espero que esteja no clima, você é minha peça principal.
Os amigos são os primeiros a te traírem.

-Z
Tiro o segundo conteúdo e sinto seus espinhos furarem meus dedos. Era
uma de suas rosas brancas, estava tão bela que me faz pensar que deveria ter
sido colocada ali há pouco tempo. Fico encarando a flor, sentindo cada pedaço
de meu coração se partir e cair no vazio. Minha atenção é totalmente tomada
pelos sons de chaves, largo as coisas e me apresso em ir para a cozinha, olho
em volta e a primeira coisa que vejo é o faqueiro sendo ocupado por apenas
uma única faca de cortar carne. Pego-a e me abaixo. Vejo a pessoa ir em direção
ao quarto, prendo a respiração com ódio por ter sido entregue pelo meu melhor
amigo tomando conta e deixando-me cega o suficiente para tentar esfaquear o
homem pelas costas. Porém, sou pega de surpresa quando ele se vira e pega em
minha mão por puro reflexo, posso ver algo estranho em seus olhos, mesmo
que os meus estivessem cheios de lágrimas.
— Como pôde? Como pôde dizer a ele onde eu estava? Eu confiei em
você, Todd! — Grito, tentando empurrar a faca afiada até seu peito. Ele puxa o
objeto de minha mão e joga-o para longe. Parto para cima dele, mas ele agarra
meus pulsos enquanto me observa chorar e desisto de fazer algo contra ele. —
Ele vai me matar… — Digo, abaixando a cabeça, sentindo suas mãos
apertarem meu pulso com força.
— Ele quem? Do que você está falando? — Ele nem parece que tinha
acabado de impedir que sua amiga o esfaqueasse. — Skye, quem vai te matar?
— Levanto a cabeça e encaro seus olhos azuis repletos de preocupação.
— Como consegue ser tão falso? — Sinto as lágrimas caírem com a
derrota em minha voz. — Ele me ligou, ligou para a porcaria do telefone da sua
casa e falou comigo! Deixou a porcaria de uma carta na frente da sua porta! Eu
nunca fiz nada ruim para você, não mereço ser traída dessa forma! — Grito,
deixando-o ainda mais confuso.
— Eu não falei com ninguém desde que chegou aqui, Skye. — Ele diz,
ainda mais preocupado do que antes e solta meus pulsos. — E muito menos
faria algo que te machucasse. — Solto uma risada que o deixa sem saber como
agir, aquele olhar em seu rosto é como se estivesse olhando para uma louca,
mas havia amor ao mesmo tempo.
— Então como ele conseguiu vir até seu andar e me deixar a carta? Como
ele ligaria para sua casa sem saber o número? Explique isso! — Praticamente
berro as últimas palavras. Ele tenta se aproximar, mas recuo alguns passos e
sinto minhas pernas ficarem cada vez mais fracas.
— Que carta? — Aponto para o chão atrás de mim e quando me viro, não
vejo nada, a carta, o envelope e a rosa simplesmente desapareceram. — C-

189
Como? — Pergunto para mim mesma e me viro para encará-lo. — Estava ali,
eu larguei tudo quando ouvi as suas chaves, estava tudo ali… Estava ali.
Eu não poderia ter alucinado, era tudo muito real. A ligação, a campainha,
a rosa, tudo! Eu senti os espinhos furarem meus dedos. Imediatamente abaixo
meus olhos para minha mão e não vejo qualquer vestígio do ferimento.
— E… Eu… Perdoe-me! — Digo, caindo ainda mais no choro. Eu quase
matei meu amigo por causa de uma alucinação. Todd se aproxima de mim e
coloca a mão sobre minha testa, então pega-me no colo e me leva de volta para
o quarto, deitando-me em sua cama novamente. — Eu juro que…que ele tinha
me ligado. —
— Você está ardendo em febre, e pelo que vejo no seu corpo, você sofreu
muito, então, misturando os dois você acabou tendo uma alucinação que, para
você, era real. — Ele diz e abre um sorrisinho amoroso para mim.
Eu não merecia aquele sorriso, ele deveria estar me colocando para fora,
não me deitando em sua cama novamente.
— Quase matei você… — Sussurro, sentindo o medo em minha voz. Ele
não parece dar bola para o que digo, apenas se aproxima e beija minha testa.
— Não se martirize por algo que não é culpa sua, vou cuidar de você e
quando estiver melhor, escolherá o que fazer, mas por enquanto, você será
minha primeira paciente.
Ele pisca e se levanta, saindo do quarto por um momento antes de voltar
com duas sacolas cheias e colocá-las ao meu lado. Fico parada, observando-o
pegar a toalha, passar sobre o sangue que desce por minha perna e vasculhar as
sacolas até tirar delas uma embalagem de seringa com agulha e um vidrinho que
pelo que consegui era anestesia.
— Vou precisar colocar isso antes de poder costurar suas feridas, tudo
bem? — Balanço a cabeça e aperto os olhos ao sentir a agulha no local
machucado.
Se ele soubesse que estava sendo o primeiro a cuidar de mim e evitar que
qualquer tipo de dor fosse causada, enquanto Zared me fazia sentir a agulha
perfurar minha pele diversas vezes, dando-me apenas uma toalha para morder.
Ao concluir, ele passa uma pomada sobre as feridas e enfaixa minhas coxas
antes de me cobrir e arrumar a bagunça dos medicamentos: — Boa noite, Skye.
— Ele diz e beija minha testa novamente antes de colocar um pano frio sobre
ela. Quando ele tenta se afastar, seguro sua mão e olho em seus olhos, sentindo-
me a pior pessoa do mundo por quase tê-lo machucado.
— Dorme aqui comigo? Tenho medo de ficar sozinha. — Peço, sentindo
minha voz falhar. Ele balança a cabeça, tira os sapatos e a blusa e se deita ao

190
meu lado. Ainda não sentindo minha perna direito, me viro e deito a cabeça em
seu peito. — Eu não mereço alguém que cuide de mim tão bem como você,
não depois do que eu fiz. — Sinto seu braço envolver minha cintura.
— Todos merecem o que é bom, Skye. — Ele sussurra. Imediatamente, as
lembranças de como Zared dizia que estava dependente de mim surgem em
minha mente.
Será que eu era a coisa boa que ele merecia?

Zared
— Eu preciso dela. — Digo andando de um lado ao outro no meio do salão,
seguido pelos os olhos verdes de Hayden, que se encontra sentado em uma das
banquetas do bar, observando sem qualquer expressão fixa no rosto.
— Por quê? — Ele pergunta levando o copo cheio de uísque até a boca.
Quando vou responder, ele ergue o indicador. — Quero que me responda com
sinceridade uma vez na vida, Z. Por que precisa tanto da garota? Não me venha
com “ela é minha virgem”, porque você poderia tê-la matado há muito tempo, e
muito menos porque vai ser morto se alguém fodê-la. — No mesmo instante,
sinto meu corpo se arrepiar e o ódio subir à cabeça, deixando-me
completamente descontrolado apenas de pensar em alguém tocando nela,
ninguém além de mim pode tocá-la.
Sou o único que pode sentir a doçura dos toques de seus lábios, a
inocência de cada toque íntimo, ouvir seus gemidos gostosos enquanto me
enterro para dentro dela e o único que pode passar uma noite inteira olhando
para seu rosto enquanto dorme. Só eu posso tê-la de todas as formas. Tudo o
que eu queria poder fazer no momento era tê-la abaixo de mim, deixando-me
cada vez mais insano com cada som produzido. Queria poder me lembrar de
tudo o que aconteceu, mas só me recordo de flashes. De suas palavras, por
exemplo.
Ninguém é condenado ao vazio sem ter alguém para resgatá-lo.
De certa forma, aquilo começou a fazer sentido. Seria ela a me tirar do
vazio? Ou me levar a morte?
— Estou esperando pela resposta. — Viro-me para ele e sinto a coragem
me deixar; pela a primeira vez não estava tão confiante de algo. Por que preciso
tanto dela? A resposta é simples, mas parece mais pesada do que qualquer outra
coisa. Passo as mãos nos cabelos e os puxo com força.

191
— Porque… Porque… — Tento dizer, mas o nervosismo toma conta de
mim, estava sendo difícil aceitar, mais difícil ainda assumir para outra pessoa. —
Porque ela se tornou tudo o que preciso. — Respondo em outras palavras, mas
essas serviam. — Ela é a única pessoa que eu quero por perto. — Hayden abre
um sorriso satisfeito e repousa o copo sobre o balcão.
— Está apaixonado por ela? — Ele pergunta. Balanço a cabeça. Eu não
estava apaixonado por ela, era diferente, eu precisava dela, não por amor e sim
por ela ser a única capaz de me fazer bem. — Então, e se você a encontrasse?
O que aconteceria? — Ele pergunta, ainda mais curioso. Essa resposta é óbvia.
Por mais que esteja gostando dela, não deixaria de castigá-la.
— Faria com que ela desejasse nunca ter nascido. — Respondo, pensando
nas milhares de coisas que passavam em minha cabeça, percebendo meus lábios
se curvarem em um sorriso maldoso.

Skye
A noite não tinha sido boa; meus sonhos eram baseados no moreno e em seus
olhos. Cada momento que passei com ele se misturavam, tinha momentos em
que conseguia desejar que seus lábios estivessem em contato com os meus, que
compartilhamos momentos íntimos com ele percorrendo meu corpo com as
mãos e sussurrando seus gemidos em meu ouvido.
Estava há três dias sem comer, por mais que meu corpo implorasse por
comida, a única coisa que conseguia fazer era ficar parada encarando o prato a
minha frente sem me mexer, sentindo o cheiro embrulhar meu estômago.
— Algum problema? — Todd pergunta logo ao meu lado. Ele estava com
o rosto sonolento enquanto enchia a boca de panquecas. Dirijo meu olhar para
ele e abro um sorriso mínimo, enquanto balanço a cabeça. — Não parece.
— Eu só não quero comer nada, desculpe. — Digo, encolhendo os
ombros, vendo o homem me examinar. Já era magra, e com a falta de
alimentação, estava ainda pior, o que não era nada atraente.
— Vou levar você para a casa dos seus pais, é uma viagem de quatro horas,
não posso deixá-la de estômago vazio. — Ele diz e balanço a cabeça, sentindo
meu coração apertar com a menção de meus pais.
Estava louca para vê-los, dizer que os amo demais e que eles são as
pessoas mais importantes para mim, queria poder abraçar minha mãe e deixar
que ela cuide de mim, passar um tempo com meu pai e ouvir suas conversas
sobre baseball. Mas não posso, eles acham que estou morta e preciso que

192
continuem acreditando nisso, assim Zared não fica sabendo da existência deles
e eu não sofro por saber que, por minha causa, ele matou meus pais.
— Não, se ele descobrir que tenho família, é capaz de matar todos… —
Digo com a voz falha, percebendo seu olhar mudar para algo mais tenso.
Mordo os lábios e volto minha atenção para o prato, forçando-me a cortar um
pedaço de minha panqueca e colocar na boca.
— Zared? — Ele pergunta e no mesmo instante, os talheres caem de
minhas mãos e meu corpo para de funcionar, deixando-me paralisada, com os
olhos fixos na panqueca que começa a se distorcer até ter a forma de um
coração humano coberto por sangue.
Pulo para fora da mesa. Todd some e dá lugar ao homem moreno que
sorria de forma sombria para mim. Não sei como, mas corro para o quarto e
tranco-me nele, escutando as batidas aceleradas de meu coração. Eu estou louca,
estou ficando cada vez mais maluca. Olho em minha volta e vejo o quarto de
tortura e o corpo de Alison pendurado por ganchos.
— Isso é tudo culpa sua, assassina. — Arregalo os olhos assim que ela
abre os dela e olha para mim. Vejo Zared segurando um chicote, acertando a
primeira chicotada em meu rosto. Encolho-me ao armário, aperto os olhos,
cubro os ouvidos e grito com toda a minha força, desejando que aquilo pare.

193
Capítulo Vinte e quatro

Sinto suas mãos em meus braços e sou balançada enquanto ouço os gritos de
Alison acusando-me por sua morte. Aperto os olhos e continuo a gritar para
aquilo parar, minha amiga morta estava me acusando de algo que não era culpa
minha, mas não conseguia parar de pensar que eu sou culpada por sua morte, se
aquele maluco não tivesse colocado os olhos em mim, ela ainda estaria
viva, eu estaria viva.
Zared me matou aos poucos, deixando apenas um corpo vazio e com uma
mente que já não funciona mais. Ele era culpado por eu estar assim. Queria
poder fazer com que ele sentisse a mesma dor que me causa, porém ele é tão
amargurado que seu castigo por tudo o que faz é ter que continuar vivendo dia
após dia, morrendo sozinho com seu próprio veneno, sem ninguém para
lamentar sua morte. As mãos que antes me balançam tiram as minhas de meus
ouvidos e logo a voz de Todd começa a aparecer junto com o silêncio do lugar.
Os gritos acusativos somem e o homem ao meu lado desaparece, dando lugar
ao meu amigo parado a minha frente gritando meu nome. Olho para ele em
pânico, sentindo-me quebrada por inteiro.
Os cantos de meus lábios se curvam para baixo e imediatamente inicio um
choro desesperado, ele me puxa para seu colo, permitindo-me esconder o rosto
em seu peito nu, deixando sua pele molhada por minhas lágrimas. Envolvo seu
corpo com meus braços e o aperto forte, tentando de alguma forma não
escapar da realidade novamente, tentando me convencer de que eu voltaria dos
mortos e retomaria minha vida, mas essa vida parece ser impossível.
— Eu estou louca! — Digo entre o choro descontrolado com o rosto
contra seu peito. O mesmo começa a acariciar a parte de trás de minha cabeça,
deixando um longo beijo no topo dela. — Ele me destruiu, não existe mais
nada intacto dentro de mim… — Meu tom de voz é alto e claro, mesmo com a
dificuldade de falar ou respirar, é possível entender cada palavra que sai de
minha boca.
— Shhh… Não fala assim. — Ele me aperta mais contra seu corpo, o que
me traz o conforto necessário no momento. — Você apenas não está em
condições, seja lá o que tenham feito, você sempre será a minha Skye, e
ninguém mudará isso. — Por mais que sua intenção fosse fazer com que eu me
sentisse melhor, o efeito causa algo totalmente ao contrário, levando-me a
chorar ainda mais e balançar a cabeça. Eu já não era mais a mesma, podia ver e
sentir isso a milhas de distância, e se ele soubesse tudo o que vi, senti e fiz, não
estaria dizendo isso.
A verdadeira eu jamais cederia ao prazer que aquela submissão me
proporcionava e jamais pensaria que um homem como aquele fosse sentir pena
o suficiente para mantê-la viva e não machucá-la, mesmo fazendo tudo o que
ele quisesse, e nunca o desejaria tanto como o desejo. Noite retrasada, achei
mesmo que ele estava sendo sincero enquanto conversávamos, que eu poderia
ajudá-lo a sair do vazio no qual seu espírito e qualquer tipo de bondade que
existia nele estavam.
Pensando nisso agora, apenas algumas horas depois de tudo, sinto-me
patética por acreditar em um lado dele que jamais existirá, e por ainda ter
esperança em voltar a ser a garota que ele destruiu.
— Jamais deixarei que tornem a machucá-la, cuidarei de você e provarei
que a garota com quem fui no baile de formatura nunca deixou de existir. Eu te
prometo. — Encosto-me no peito dele e agarro suas costas.
Queria poder acreditar que estarei protegida, que eu possa viver com meus
planos antigos, voltar a ser a antiga garota que acreditava que o único mal é
aquele que costuma passar na televisão, sendo ingênua demais para poder
lembrar que o mundo é grande o suficiente para esconder outras verdades
obscuras.
Mas sei que não será assim, porque quando Zared quer algo, ele consegue,
então se ele quiser me achar, será a primeira coisa que fará. E quando esse dia
chegar, espero que o castigo seja pesado o suficiente para me matar.
Só espero que essa minha brincadeira de esconde-esconde não acabe tão
cedo.

Zared

195
Olho para a garota morena que tem os olhos inocentes em mim. Algo neles me
deixa louco, o sorriso em seus lábios deixa claro que a chama entre nós arde
sem nos queimar. Seus movimentos lentos acompanhados pelo som da música
que ecoa pelo quarto a deixa mais sexy.
Sua boca está avermelhada, seus cabelos, jogados por cima do ombro, ela
está tão gostosa com aquela lingerie preta rendada que já podia sentir o espaço
em minha calça diminuir. Faço um sinal para que ela venha até mim, mas
recebo apenas o balançar de sua cabeça negando meu pedido, fazendo-me
levantar da cama e ir até ela, que abre um sorriso atrevido quando passo meus
braços a sua volta e deixo beijos em seu pescoço. Ela movimenta o quadril de
um jeito gostoso, fazendo com que sua bunda empinadinha acaricie meu
membro, que lateja dentro da calça. Fecho os olhos, solto um gemido em seu
ouvido, causando-lhe arrepios.
Passo minhas mãos por seu corpo machucado, e desço-as para o meio de
suas pernas, que se afastam para permitir meu toque. Acaricio seu clitóris,
fazendo-a tombar a cabeça em meu ombro e morder os lábios para conter os
gemidos que eu tanto queria escutar.
Deus, como eu precisava ouvi-la.
— Sinto sua falta, Skye. — Sussurro em seu ouvido e sinto meu peito doer
graças ao vazio que me domina pela falta dela.
— Então venha atrás de mim, Daddy. — Ela geme e passa a mão pelo meu
pescoço.
— Diga-me onde você está. — Já não sinto mais seu toque, as coisas a
nossa volta somem, e mais uma vez, tudo está deixando de ser real. Ela me
deixava pela milésima vez. — Eu preciso de você. — Sussurro ao me encontrar
no vazio.
Abro os olhos e encaro a cama vazia, assim como o resto do quarto; sem
vestígio de sua presença, tirando os lençóis sujos com o sangue dela que fiz
questão de manter, por mais que eles cheirassem mal, e a cadela que dormia ao
meu lado. Ainda sonolento, levo as mãos para meus cabelos e os puxo, olhando
para o teto, sentindo a raiva tomar conta de mim.
Um mês se passou desde que ela fugiu. Um mês em que venho sendo
atormentado por pesadelos e sonhos com ela. Estava ainda mais vazio do que
antes, qualquer tipo de sentimento que estava começando a ter, dava lugar ao
ódio por ter sido deixado, odiava sentir falta de alguém que simplesmente
parecia não fazer diferença antes de perdê-la. Sem perceber criei algum tipo de
sentimento, algo suficiente para me fazer sentir falta daquela maldita. Olho pela
janela e observo as árvores se debaterem contra o vento e a lua iluminar o lugar.

196
Levanto da cama e vou até o banheiro, vendo meu reflexo no espelho.
Balanço a cabeça de um lado a outro, desaprovando meu estado. Ligo a torneira
da pia e molho o rosto antes de voltar a encarar as profundas olheiras em torno
de meus olhos, as cicatrizes em meu corpo e a barba maior do que já me atrevi
a manter. Eu estava uma merda, exausto, com um peso enorme dos pesadelos
durante as noites, e pela a primeira vez em minha vida, com saudades. Tudo por
causa dela. Meu próprio reflexo me faz lembrar de como quero machucar,
beijar e foder desesperadamente aquela filha da puta.
Sem pensar, fecho minha mão em punho e soco o espelho. Observo o
vidro cair em pedaços dentro da pia e no chão. Estava tão partido quanto os
milhares de cacos espalhados pelo chão do banheiro. O sangue quente que
desce por minha mão faz com que eu sinta meus nervos se acalmarem o
bastante para que minha mente volte a funcionar e junto com ela, a forma de
ter o que é meu de volta.
Desvio o olhar de minha mão vermelha e encaro o que sobrou do espelho
na parede, vendo meu rosto de vários ângulos e o sorriso que se apodera dele.

Skye
Estou há exatos trinta e um dias a escrever em um caderno sem obter respostas, até mesmo as
mais desnecessárias. Queria dizer que isso me faz bem, como Todd disse que faria. Segundo
ele, isso me fará sentir mais próxima de você.
Não faz. Apenas me sinto cada vez mais fora de mim e acho que se continuar assim,
nem mesmo o corpo resistirá, porque a cada dia que passa, estou mais impossibilitada de sair
do pequeno espaço escuro e frio em que me encontro psicologicamente. Você costumava dizer
que não sentia quando perdia alguém, mas se estivesse em meu lugar, sentiria alguma coisa
com minha ausência? Porque depois que as feridas deixadas por ele se cicatrizaram e as coisas
se acalmaram, a tão falada dor da perda chegou, torturando-me mais que o tempo que passei
com aquele homem cruel. O homem que despertou o pior de mim, tornando-se minha
perdição…

Solto a caneta na mesa e rasgo o papel, sentindo as lágrimas molharem meu


rosto enquanto abraço minhas pernas e escondo o rosto, deixando-me chorar
de forma baixa, aproveitando que Todd não está em casa. Não gostava de
chorar em sua frente, podia ver a dor que isso lhe causava, até mesmo quando
as alucinações vinham cada vez piores. Estava recebendo uma ajuda maior do

197
que imaginei. Mesmo tendo uma maluca que foi dada como morta em seu
apartamento, ele faz questão de me dizer para ficar, e não questiona quando
peço para ele dormir comigo. Mas sei que estou tirando sua liberdade, e com ela,
suas noites de diversão com os amigos e até mesmo com garotas. Então,
prometi que ficaria até um tempo, apenas para ter certeza de que estou melhor
e que não tem ninguém atrás de mim.
— Está tudo bem? — Ele percorre os olhos pelo ambiente, parando-os
em mim. Tento secar meu rosto sem que o homem perceba, mas vejo por sua
expressão que não deu certo. O mesmo coloca as sacolas de sua compra no
canto e caminha até mim, sentando-se ao meu lado. Encolho-me e dou de
ombros sem saber o que dizer. Era obvio que não estava bem. Fisicamente, sim,
mas não por dentro.
— Mais ou menos, aquela porcaria de caderno não anda ajudando.
— Quer sair? Acho que ver outras pessoas pode te fazer bem. — Ele
sugere. A primeira coisa que penso é que se eu sair desse condomínio, serei
reconhecida, já que passava constantemente no jornal algo relacionado a minha
morte, ou que serei encontrada, e no momento, nenhuma dessas duas opções é
boa.
No entanto, parte de mim deseja muito poder ver algo diferente, já que
nos últimos tempos a única coisa que vi foram os cômodos do apartamento. E
essa parte, por incrível que pareça, leva-me a afirmar, fazendo um sorriso largo
se formar no rosto de meu amigo. Ele me leva para o quarto e me mostra
algumas roupas que havia comprado para mim, achando que eu não me sentia
muito bem com suas roupas grandes e largas. E tinha razão. Agradeço diversas
vezes enquanto encaro as peças bonitas. Acabo por escolher um jeans escuro,
uma blusa que esconde o Z, os únicos tênis pretos que tinha, e para não ser
reconhecida, um casaco verde dele, que me ajudaria muito, graças ao capuz.
Tomo um banho rápido e arrumo meu cabelo, deixando-o solto, e visto-
me de uma forma que garanta que eu não seja reconhecida, cobrindo minha
cabeça com uma touca e o capuz do casaco. Ao sairmos de sua casa, sinto o
nervosismo tomar conta de meu corpo. A chuva que estava lá fora não era forte,
mas pelo que vi no jornal, durante a noite pioraria.
A sensação do vento frio e das gotas contra minha pele me trazem
tranquilidade e até consigo soltar algumas risadinhas enquanto corro de mãos
dadas com Todd até seu carro. Assim que as portas são destravadas, ambos
pulamos para dentro rindo sem motivo.
Ninguém reconheceu você! Meu subconsciente acrescenta, deixando-me com
um sorriso ainda maior. Parecendo satisfeito ao me ver daquela forma, ele liga o

198
som e aperta os botões do rádio para passar as músicas, parando em uma que
me faz ficar de boquiaberta e receber uma pequena piscadela como resposta.
Ele aumenta o som e começa a cantar a música Perfect, improvisando um
microfone invisível com a mão enquanto sua voz desafinada me faz rir de
verdade, sendo invadida por memórias da nossa noite do baile de formatura, na
qual Alison deu seu lugar e namorado para que eu fosse.
A forma com que ele me tratou super bem mesmo não sendo muito
íntimos, com que me fez ficar bêbada pela primeira vez apenas com ponche
batizado e como fizemos o DJ repetir essa mesma música umas cinco vezes
enquanto dançávamos e pulávamos, gritando um para o outro que aquela seria a
nossa música mesmo que não tivesse nada a haver com o momento. Pensando
nisso, queria poder voltar no tempo e aproveitar mais minha adolescência ao
invés de ficar trancada no quarto estudando.
— Essa noite, Skye, vamos sair e relembrar a noite em que você entrou em
minha vida! — Ele grita, animado, e pega minha mão. — E se tiver problemas
com alucinações, chame-as para curtirem com a gente, porque nada irá destruir
nossa noite! — Mesmo que a ideia de sair durante a noite me apavore, não
consigo dizer não. Além de a ideia me agradar, ambos sabíamos que eu
precisava me divertir. E ele também, por aturar a barra que é me ter em sua casa.
— Não tenho nada para ir em lugares assim, e posso ser facilmente
reconhecida. lembro-lhe, mas o mesmo não parece se afetar.
— Não seja por isso, o shopping é um ótimo lugar para roupas,
maquiagem e sapatos. Sobre a danceteria, todos vão estar bêbados, ninguém vai
sair procurando a garota morta que passa no jornal. Sem contar que você está
mais magra, se se arrumar da forma correta, pode ter certeza que será outra
pessoa. — Ele diz enquanto dirige para o centro da cidade. Não gosto da ideia
de ele gastar tanto comigo, mas não o questiono, ele parece não se importar
com o dinheiro e a ideia de sairmos juntos apenas o deixa mais contente.

Meu primeiro dia fora de casa acaba sendo mais agradável do que pensei que
chegaria a ser, mesmo com minhas paranoias e medo, acaba tudo indo muito
bem e ninguém nos locais nos quais estivemos pareceram notar algo estranho
em mim, o que acabou me deixando mais confortável. Ao voltarmos, Todd fala
para que eu tome banho primeiro, já que eu demoraria mais a me arrumar e é o
que faço, no entanto, por estar cedo, ele se senta para jogar vídeo-game
enquanto pinto meu cabelo com uma cor mais escura.

199
Mesmo que o cansaço do dia esteja começado a dar sinal, não deixo de me
sentir ansiosa para me divertir e esquecer todos os meus problemas. É isso o
que acontece quando as pessoas bebem demais e se deixam envolver, certo?
Enquanto espero a tinta tingir meu cabelo, vou para o quarto e começo a
separar a roupa provocante, e com isso, me pego pensando no que Zared
sentiria ao me ver vestida com essas roupas, provavelmente me diria “Temos
assuntos pendentes a tratar quando chegarmos em casa.”
Solto uma risadinha ao me lembrar de sua cara quando me viu vestida para
ir naquela porcaria de evento de motoqueiros, mas logo interrompo-me,
sentindo raiva por minha reação. Coloco tudo sobre a cama e fixo meus olhos
na roupa preta; eu jamais me atreveria a vestir isso e é exatamente por isso que
irei usar, se já não sou eu, não tenho motivos para me recusar a usar. Ao passar
tempo o suficiente vou para o banheiro, lavo o corpo, os cabelos e me depilo,
após ter certeza que não deixei nenhum pelo, tanto em minhas pernas quanto
em minha intimidade, desligo o chuveiro e volto para o quarto enrolada na
toalha.
— Fiz bem em escolher uma cor escura para seu cabelo, fica muito bem.
— A voz de Todd soa na porta assim que chego perto da cama.
Ele está apenas de cueca com a toalha pendurada em um dos ombros e os
cabelos castanhos bagunçados. Percorro todo seu corpo com os olhos, parando
no volume que seu membro causa na cueca sem nem estar duro, não sei como
não havia reparado nisso antes, mas, Jesus, como ele é perfeito. Sei que estou
parada encarando-o descaradamente e que preciso desviar a atenção para outra
coisa, entretanto, encontro paralisada, e para piorar minha situação ele se
aproxima, e coloca as duas mãos em meus ombros.
— Está tudo bem? — Ele pergunta, obviamente achando que o motivo de
eu estar parada sem reação é alguma coisa ligada as minhas alucinações. Balanço
a cabeça devagar, sentindo o fogo do meu corpo aumentar. — Vou tomar
banho, qualquer coisa é só me chamar. — E de forma ingênua, ele me abraça e
beija o topo de minha cabeça antes de se virar e entrar no banheiro.
Desde quando temos a intimidade ficarmos de roupas íntimas no mesmo
quarto? Tudo bem que eu estou apenas de toalha, mas não muda o fato de
termos nos aproximado demais, mesmo que sua curiosidade em relação a meu
corpo não deva ser algo grande, já que me viu nua quando. Pisco diversas vezes
e acabo sendo despertada de meu transe pelo barulho do chuveiro. Viro-me
para as roupas sobre a cama e começo a me vestir, sem conseguir evitar os
pensamentos e a vontade que sinto de fazer coisas impróprias com meu amigo,
meu amigo lindo e gostoso. Visto a lingerie, passo creme de em meu corpo e

200
vou para o espelho, onde ligo o secador de cabelo na tomada e inicio a secagem
de meus fios, ansiosa para vê-los com a nova cor. Quando estou terminando de
enrolar as pontas, Todd sai do banheiro todo molhado, com a toalha branca em
torno de sua cintura, mas logo paralisa ao me ver apenas de peças íntimas logo
em frente ao espelho.
Parece que os papéis inverteram, não? Seus olhos me encaram de uma
forma diferente e logo, vejo suas bochechas assumirem uma cor meio
avermelhada, fazendo-me abrir um meio sorriso.
— Tudo bem? — Pergunto, virando-me de frente para ele, vendo-o
encarar meus seios descaradamente. Pois é, amigo, aparentemente estamos
desejando a mesma coisa e espero conseguir isso no fim da noite.
Espera, o quê? Sinto meu rosto arder com os meus próprios pensamentos
e encolho os ombros.
— S-Sim. Quer dizer… A cor ficou muito boa em você. — Ele gagueja e
abre um sorriso sem jeito, que retribuo.
Vou até minha roupa, colocando o top justo preto e a saia de cintura alta
preta. Todd, veste a cueca por baixo da toalha e a joga sobre a cama, voltando
sua atenção para o guarda-roupas. Coloco uma meia e a bota que ultrapassa
meus joelhos, antes de ir para a frente do espelho e passar uma maquiagem
pesada. Assim como Todd disse mais cedo no carro, eu não parecia eu. Já o
homem atrás de mim continuava o mesmo, mas agora usava uma calça preta,
coturnos, blusa cinza e jaqueta de couro que me faz lembrar de Zared
imediatamente. Logo que ele termina de passar o perfume, vira-se para mim e
arregala os olhos, parecendo ficar sem reação novamente.
— O que achou? — Pergunto, dando uma volta para que ele possa
analisar-me por inteiro. — Muito exagerado?
— Porra… — Ele deixa um palavrão escapar e solto uma risadinha,
levando aquilo como um elogio. — Estou vendo que passarei a noite
espantando os pervertidos.
— Não será necessário, vou estar com você o tempo todo. — Respondo
com um sorriso atrevido e em seguida lanço-lhe uma piscadela, deixando-o
ainda mais sem jeito. O que foi que aconteceu com a menina de hoje mais cedo?

O som do local era alto, as músicas que tocavam por eram ótimas e as pessoas
se espremiam pela pista para conseguir dançar. Todd entrelaça nossos dedos e
puxa-me pelo ambiente lotado. Sei que não deveria pensar nisso, mas estávamos

201
parecendo um casal e a ideia me agradava demais. Ele me puxa para mais perto
e passa o braço em torno da minha cintura, lançando olhares feios para quem
me olhava com malícia. Vamos até o bar, onde ele pede dois copos de alguma
bebida que não parei para ouvir qual era, e se abaixa até o chão, antes de
colocar algo em minha cabeça e abrir um sorriso um tanto sedutor. Não, Skye,
seu amigo não está flertando com você.
— O que é isso? — Levanto a voz enquanto ajeito-a em minha cabeça.
— Aquelas tiaras com orelhas de gatinho. — Ele responde e se aproxima
de mim e se curva para sussurrar algo em meu ouvido. — A propósito, elas
ficam sexy em você, principalmente vestida assim. — Solto uma risadinha,
tentando ignorar o efeito que suas palavras causam em mim. Ele continua bem
próximo, permitindo-me sentir seu perfume.
— Por acaso está dando em cima de mim, senhor? — Pergunto levando o
copo até a boca.
— Só um pouquinho. — Ele responde, também bebendo um pouco do
álcool em seu copo. Reviro os olhos e sorrio.
— Pois saiba que estou acompanhada e meu amigo é muito ciumento. —
Ele coloca o copo sobre o balcão, pega o meu de minha mão e coloca ao lado
do seu.
— Acho que ele não vai se importar que eu dance com você. — Ele
concluí e me puxa para a pista lotada, fazendo alguns corpos trombarem contra
a gente, mas acabamos por conseguir um espaço e por ali dançamos variadas
músicas, parando apenas para descansar e beber ainda mais.
Assim como no baile, ambos estávamos bêbados, dançado conforme a
música e falando coisas aleatórias, o sorriso em seu rosto é contagiante,
aproveitando a próxima música, viro-me de costas para ele, que segura em
minha cintura e começo a me movimentar devagar contra seu corpo. Ele me
vira para si, passa um braço em torno de minha cintura e usa a mão livre para
segurar minha nuca, puxando-me para um beijo calmo.
Agarro em sua jaqueta e o puxo para mim, sentindo sua língua contra a
minha em toques calmos, porém excitantes. O beijo é interrompido logo que
esbarram contra ele, que não se afasta de mim, apenas fica me olhando ficar
sem graça, desejando seus lábios nos meus novamente. — Desculpe… — Ele
diz baixo, mas consigo decifrar através do movimento de sua boca. Balanço a
cabeça negando e o puxo para mim apenas para um selinho demorado.
— Sem problemas, eu gostei. — Sua expressão se alivia.
— Preciso ir ao banheiro. — Ele diz, fazendo uma careta que me faz rir.

202
Voltamos para o bar e ele pede mais duas bebidas antes de me beijar
novamente e ir em direção ao banheiro. Mordo os lábios tentando conter o
sorriso bobo e arrumo a tiara de orelhinhas em minha cabeça. Nunca pensei em
beijá-lo, nem sequer pensei que poderia me sentir atraída por Todd, no entanto,
gosto da forma que me sinto quando estou com ele, e gosto de como ele se
preocupa comigo. Mas não consigo conter o remorso por estar gostando do ex-
namorado de Alison; ele a amou demais, mas ela não retribuiu, e isso o magoou
e fui a única a ver como, não quero fazer o mesmo, porque irei embora em
breve. Encolho os ombros e pego um dos copos deixados pelo barman, dou
um longo gole e paraliso ao ouvir a música Arabella tomar conta do ambiente e
imagens do moreno dançando comigo em seu quarto invadem minha cabeça.
— Escapa de mim há um mês e já te encontro beijando outro, Baby Girl.
Que decepção. — Sinto meu coração apertar e meu corpo começar a tremer
com sua voz áspera atrás de mim. Sem saber como reagir, viro-me devagar e
encontro-o com um copo de bebida na mão e um cigarro aceso na outra,
fazendo meus olhos arregalarem. — Sentiu saudades, amor? — Ele pergunta
com um sorriso sinistro no rosto.

203
Capítulo Vinte e cinco

Não era uma alucinação. Ele havia me encontrado.


Podia ver a fúria por trás dos olhos mel do moreno a minha frente, que me
analisava com cuidado, como se estivesse tentando escolher o que fazer. O
sorriso em seu rosto estava ainda mais sombrio do que um mês atrás, e só Deus
sabe o que se passa em sua mente para fazê-lo sorrir assim. Diferente de mim,
ele estava com uma aparecia péssima, com grandes olheiras abaixo dos olhos,
que estavam vermelhos e inchados, e a expressão que carregava era como se
não dormisse há dias. Não que eu me importe com o quão mal ele está, mas era
novidade e um tanto estranho vê-lo com uma aparência tão vulnerável. Mesmo
que seus cabelos cortados e a barba rala me fizessem duvidar de minhas teorias.
A mão que usava para segurar o copo estava enfaixada, deixando-me
preocupada com a pessoa com quem ele deve ter brigado. Meu peito dói como
se uma lâmina em brasa tivesse sido enterrada contra meu coração, minhas
pernas ficam bambas e trêmulas e meus olhos se enchem de lágrimas por saber
o que estava a minha espera. Ele se apoia no balcão e leva o a boca, bebendo o
álcool forte como se fosse água enquanto mantenho-me paralisada a sua frente
sem saber como reagir. Cada célula de meu corpo berrava para que eu saísse
correndo ou fosse atrás de Todd, mas minhas pernas parecem estar presas ao
chão e minha mente logo lembra que Zared não pode encontrar meu amigo, ou
eu acabaria perdendo mais alguém. Vejo pelo sorriso satisfeito em seus lábios
que era exatamente assim que queria me ver, desiludida, surpresa, sem reação,
petrificada logo a sua frente.
— O que foi, amor? o cara engoliu sua língua durante o beijo? — É
possível ver algo diferente em sua voz; é estranho pensar nele magoado por
minha causa e sei que não é isso o que ele sente no momento. Seus olhos
percorrem meu corpo com atenção, parando na marca que havia feito. — Você
está gostosa e muito, muito bonita. — Ele diz com naturalidade e morde os
lábios, enquanto abre um sorriso cafajeste.
— C-Como… Como conseguiu… — Tento pronunciar algo, no entanto,
as palavras estão presas em minha garganta e meu cérebro parece ter
dificuldades para processar todos os acontecimentos. Ele solta uma risada
nasalada e se aproxima, acariciando meu rosto. Eu queria poder me afastar dele,
ir para bem longe e até mesmo sumir da vida de Todd, talvez dessa forma ele
não corresse tanto risco, mas estava tão chocada em vê-lo novamente que
qualquer comando que a parte em alerta de meu corpo tente mandar,
simplesmente não funciona.
— Como eu te encontrei? — Ele conclui o que eu tentava dizer,
aproximando-se ainda mais, permitindo-me sentir seu perfume misturado com
o cheiro de nicotina e maconha. Por mais que essas duas drogas cheirassem mal,
nesse maldito homem, elas se misturam perfeitamente com seu perfume
amargo.
Ele continua se aproximando, parando quando estamos perto o suficiente
para sentir nossos peitos subirem e descerem conforme respiramos. A grande
bola de ar que se forma em minha garganta fica ainda maior com a forma
cautelosa que ele me admirava. Seus lábios estão entre abertos alguns
centímetros acima dos meus enquanto seu polegar acaricia minha bochecha. A
parte mais insana, a que eu vinha tentando matar e enterrar dentro de mim
vence a batalha, fazendo-me desejar que ele me beije, que acabe com toda a
necessidade que esse lado meu tem por ele.
— Simples, ninguém nunca duvida do barman. — Meus olhos desviam
para o homem que limpava o balcão, deixando-me mal por ter sido entregue
exatamente como da primeira vez. — E quem diria que minha doce garota
resolveria sair no mesma noite em que resolvo procurar por ela? Apenas uma
ligação e eu dirigi até aqui para tê-la novamente. — Ele diz devagar e começa a
se curvar, deixando nossos rostos cada vez mais perto um do outro. — Para ter
o que é meu de volta e nunca mais perder. — Sinto a ansiedade tomar conta de
mim, apenas sendo torturada com seus lábios roçando nos meus, e quando vão
me beijar sinto o moreno ser puxado para longe me mim com brutalidade.
Olho para frente e vejo Todd agarrando na blusa do moreno e dando o
primeiro soco. Ah, não. Vejo a mudança de humor em Zared e no mesmo
instante, um sorriso se abre em seu rosto enquanto meu amigo parece um touro
descontrolado, encarando Zared, que era mais baixo e bem mais magro do que
ele. Sei que não teria problemas em colocar o tatuado em seu lugar, se o tatuado

205
fosse apenas mais um cara, mas para o azar dele, ele havia provocado o próprio
capeta em pessoa. No momento em que meu acompanhante vai dar seu
segundo golpe, minha mente parece voltar ao normal, permitindo que eu me
aproxime dos dois correndo antes de me agarrem e impeçam.
— Solte-me! — Grito e debato-me na tentativa de me livrar dos braços
fortes que me rodeiam, não permitindo que eu tente livrar meu amigo da merda
em que se meteu. Mas meus movimentos não me levam a nada, apenas sou
mais apertada contra o corpo magro e forte, que cobre minha boca com a mão.
— Por favor, Skye, fique quieta. — A voz de Logan soa ao meu ouvido,
deixando-me ainda mais apavorada. — Lamento por ter sido encontrada e
lamento por seu namorado ali. — Ele diz e sinto meu coração se quebrar ao
ouvi-lo se lamentar por Todd.
Não, eles não vão machucá-lo, não podem. Levo uma de minhas mãos
para trás de meu corpo e aperto sua parte baixa com toda minha força,
fazendo-o me soltar enquanto reclama de dor. Não sei de onde Hayden surge,
mas ele tenta me impedir. Por sorte, consigo desviar e chegar perto dos dois.
Zared impede meu amigo de acertar outro golpe em seu rosto enquanto o
outro tenta acertá-lo.
— Todd, solte-o! — Grito e agarro seu braço. Ele parece ficar surpreso
por minha atitude. Por mais que eu não estivesse olhando para ele, podia sentir
seus olhos me encarando. — Por favor, solte-o e vai embora! — O pânico
óbvio em minha voz parece pegá-lo de jeito e deixá-lo confuso por eu estar
começando a chorar. — Vai embora… Por favor… — Ele solta Zared e se vira
para mim, incrédulo.
— O quê? — Ele pergunta sem acreditar em minhas palavras. Por mais
estranho que seja, Zared não diz nada e nem se mexe, apenas fica me olhando,
ainda surpreso por minha atitude. Sentindo meu coração apertar, limpo o rosto
e olho nos olhos de Todd, torcendo para que ele entenda.
— Some daqui! Está tão difícil de entender que é para vazar da minha
frente? — Grito, vendo a desilusão e a tristeza tomar conta de seu corpo. Só
preciso que ele vá embora daqui sem que nada aconteça. Não vou aguentar a
dor de perdê-lo.
— Não vou embora, Skye, não vou deixar você em um lugar como esse e
sozinha, principalmente depois d…
— Depois do quê? De nos beijarmos? Foi só um beijo insignificante,
Todd, não crie esperanças, elas servem apenas para te iludirem. — Digo mais
para mim do que para ele, então olho em seus olhos confusos e tristes. Ele não

206
entendeu. Deveria saber que não entenderia. — Agora vá embora e finja que
nunca me conheceu.
— Que lindo, mas temos que ir. — Zared diz, agarrando em meu braço,
fazendo com que Todd olhe pare ele. Eu não iria me entregar a Zared, depois
que meu amigo sumisse daquele lugar, eu pensaria em alguma coisa para fugir,
mas o moreno acaba achando o momento perfeito para que eu vá com ele sem
fazer escândalo ou contrariá-lo.
— Quem você pensa que é para achar que ela vai com você? — Todd
rosna, fazendo Zared dar um passo a frente com um sorriso vitorioso.
— O namorado dela. — Ele diz com superioridade.
Sinto meu coração parar pela a milésima vez, sem esperar pelas palavras. E
não sou a única, Hayden, Logan e até mesmo o próprio Zared se juntam a mim.
Todd olha para ele como se estivesse lidando com um bêbado chapado, mas ao
me ver chorando enquanto torço para que o mesmo vá logo embora, ele
arregala os olhos e volta sua atenção para mim como se tivesse enfim ligado
todos os pontos. Movimento os lábios mandando ele sair. Sei que ele está
prestes a negar, então entrelaço meus dedos aos do homem ao meu lado e o
puxo para longe.
Sei que o que estou fazendo é suicídio, mas dessa vez prefiro morrer do
que ver alguém que amo pagar por meus erros. Jamais pensei que me entregaria
para ele por vontade própria, mas aqui estou eu, segurando sua mão e o
puxando para algum canto do lugar lotado. As pessoas não parecem notar que
estou chorando. Passo a mão livre nos olhos para tirar as lágrimas que me
impediam de ver o caminho, sentindo o cílios postiços começarem a soltar.
Zared para de andar e me vira de frente para ele, sua expressão está carregada
de raiva, mas ele não faz nada, apenas fica parado me olhando chorar a sua
frente.
— Vamos para casa. — Ele segura minha mão mais firme e me puxa para
o lado oposto da entrada, indo para a saída de emergência. Claro que ele não
entraria pela porta da frente. Dava para ver seu corpo rígido, e pelo que o
conheço, sei que está tentando não explodir.
Ao estarmos apenas alguns metros da grande porta vermelha, vejo alguém
puxá-lo pela a jaqueta com uma brutalidade. Imediatamente vislumbro Todd
com o rosto contorcido de ódio. Zared me solta e se vira para socar o nariz do
meu amigo, e para minha surpresa, ele pega em minha mão e me puxa para fora
da boate, fazendo meu corpo se encolher com a chuva forte e o frio que nos
atinge. Seu carro estava estacionado logo a nossa frente, mas ele não se mexe,
simplesmente fica parado. E como se já soubesse que isso aconteceria, Todd

207
abre a porta e olha para o homem ao meu lado, depois para mim. Antes que ele
possa fazer algo, Zared saca sua arma e atira em meu amigo.
— Todd! — Grito em desespero e tento ir até ele, mas sou agarrada pelos
cabelos e jogada contra a parede de tijolos. Ele volta sua atenção para o homem
caído no chão, guarda a arma e caminha até Todd, que aperta os olhos e grita de
dor enquanto leva a mão até a perna ferida. Corro até Zared e agarro seu braço,
tentando puxá-lo para longe. — Não o mate, por favor, não o mate. — Grito,
fazendo-o virar-se para mim.
— Você não tem o direito de me pedir nada, porra! — Ele grita tão alto
que as veias de seu pescoço aparecem, mas não me afasto. — Você me deixou,
Skye! Passei um mês sem você e quando te encontro, está beijando esse filho da
puta! Não tem mais o direito de me pedir coisas. — E então ele explode, como
se um flashback da cena do beijo passasse e repassasse em sua mente.
Ele me empurra de volta contra a parede e a soca com a mão machucada a
centímetros de minha cabeça, seus olhos arregalados pareciam queimar e sua
mão aperta meu pescoço.
— Arrependo-me imensamente de não tê-la matado depois de te comer
pela primeira vez. — Seguro em seu pulso e tento tirar sua mão de meu
pescoço, mas ele apenas a pressiona mais, impedindo-me de respirar.
— Z, solte-a, porra! — Logan grita ao sair pela porta de emergência, mas
não adianta, podia ver pelo brilho de seus olhos que ele estava disposto a me
matar e que estava sendo prazeroso me ver sufocar. Logan se apressa em vir até
a gente e tirar o homem de perto de mim. — Que merda pensa que está
fazendo? — Ele grita, imobilizando o amigo, que xinga e se debate para se
soltar. Deixo que meu corpo deslize pela parede e caia sentado no asfalto do
lugar mal iluminado. — Ei, olha para ela, não era isso o que queria? Encontrá-la?
Ela está bem ali. Agora pare para pensar na merda que ia fazer. — Zared
obedece e olha para mim. Ele estava ofegante, molhado e cheio de ódio. — Sua
garota está bem ali. Então se acalma e comece a pensar antes de fazer alguma
merda. — Logan diz antes de soltá-lo e olhar para Todd no chão.
Ele fecha os olhos, passa a mão pelos cabelos molhados e olha para mim
mais calmo. Ele se aproxima de mim e se abaixa a minha frente, vendo eu me
encolher contra a parede.
— Vou deixar uma coisa bem clara: se fugir novamente, eu mato você e
todos que você ama, entendeu? — Sua voz sai firme, quase rouca por ter
gritado, e balanço a cabeça.
Ele segura meu braço e me leva para dentro do carro. Antes de ele entrar,
ouço Logan perguntar o que fazer com Todd, mas apenas vejo o homem magro

208
fazer sinais com a mão e pular para o banco do motorista e trancar as portas.
Encolho-me no banco de trás e abraço minhas pernas, afundando o rosto entre
elas antes de começar a chorar em desespero. Zared solta um longo suspiro e
liga o rádio do carro, colocando o volume alto o suficiente para não me ouvir.
Ele liga o carro e sai dali, fazendo-me enfrentar mais de duas horas de
viagem até sua casa. Assim que a vejo, sinto meu coração apertar e o medo
tomar conta de mim. Eu já sabia o que iria me acontecer assim que entrássemos
nela e eu queria aquilo. Queria ser castigada de forma tão grave apenas para não
resistir e morrer. Ele abaixa o vidro, fala com os seguranças e entra assim que o
portão é aberto. Ao estacionar o carro no meio dos outros, ele pega o celular,
manda uma mensagem para alguém e sai do veículo, vindo até a porta de trás e
puxando-me para sair também.
— Seja bem-vinda, Baby Girl. — Ele diz com um sorriso sinistro e pega
em minha mão, puxando-me para dentro da casa. Não tinha forças para discutir,
estava arrasada por tudo aquilo e a imagem de Todd sendo baleado se repete
em minha mente, deixando-me ainda pior. Quando penso que serei levada para
a sala de tortura, ele me surpreende ao começarmos a subir as escadas. O nó
em minha garganta está cada vez maior e paramos em frente a terrível porta
com a sua inicial entalhada; começo a tremer. — Entra. — Ele diz, analisando-
me de cima a baixo. Sem questioná-lo, forço minhas pernas a entrarem no
quarto. Ele tranca a porta e vai em direção ao rádio. Percorro os olhos pelo
cômodo e vejo uma cama de cachorro no canto do quarto, o que me faz
lembrar de minha cadela.
— C-Cadê ela? — Pergunto baixo, mas sei que ele ouviu. Ele digita algo
no celular e o coloca na cômoda, olhando-me com as sobrancelhas erguidas.
— A cadela? — Balanço a cabeça e observo-o apertar alguns botões no
controle e uma música começa a tocar em volume alto. — Está andando por aí.
— Ele responde sem se importar e começa a tirar a roupa encharcada.
— Por que me trouxe aqui? Não deveria estar me castigando? — Pergunto,
vendo-o livrar-se do coturno e desabotoar a calça. Ele olha para mim e abre um
sorriso enquanto se aproxima. Prendo a respiração e encolho-me ainda mais ao
sentir suas mãos em minha cintura. Estava apavorada, normalmente Zared me
arrastaria pelos cabelos até o quarto de tortura e faria tudo o que viesse em sua
cabeça doentia, e estar em seu quarto depois que fugi por um mês me deixava
mais nervosa. Ele estava atrás de mim, colocando meus cabelos para o lado sem
me dar uma resposta.
— Por que acha que eu te trouxe aqui, amor? — Ele sussurra em meu
ouvido, arrastando a voz, deixando suas palavras saírem lentamente. Não

209
deveria, mas sinto meu corpo se aquecer assim que ele diz isso e beija meu
ombro. — Estou com saudades de te sentir e, porra, preciso te ouvir gemer por
mim. Cá entre nós, eu mereço muito por ter deixado seu namorado vivo, não
acha? — Ele não merece nada de mim, nem o ódio, mas de uma certa forma,
sou grata por não ter matado Todd.
— Ele não é meu namorado. — Digo e sinto seus beijos subirem para
meu pescoço. O lado que ele havia despertado toma conta de mim, fazendo
com que seus toques me agradem. Qualquer pensamento de desgosto é
enevoado junto a minha vontade de afastá-lo por sentir nojo de voltar a ser
tocada por ele. Era como se esse lado estivesse contente por estar com ele
agora e só conseguisse pensar na sensação de tê-lo enquanto meu lado racional
é mandado para longe.
— Não mesmo. Eu sou. — Ele diz contra minha pele, que se arrepia por
inteira ao ouvi-lo repetir o que achava que era. Claro que Zared não era meu
namorado, quando se namora tem que ter amor envolvido e isso era a última
coisa que teríamos. Eu o odeio, e ele apenas me usa para se satisfazer. E sem
contar que suas atitudes são o oposto do que deveriam ser. — Eu sou seu
namorado, e você é a minha. Louco, não? — Ele solta uma risada e me vira
para poder me ver. — Diz alguma coisa… — Posso ouvir algo diferente em sua
voz enquanto olha em meus olhos. Eu já estava fora de mim, estava desejando-
o com todas as minhas forças e queria poder morrer por isso, mas minha
necessidade de senti-lo era insuportável.
Ninguém resiste a Zared Winter, é como se não conseguisse dizer não para
seus desejos.
— Eu te odeio. — É tudo o que digo, vendo seu sorriso virar algo
selvagem, como se quisesse ouvir isso o tempo todo apenas para provar o
contrário. Eu estava louca, mas sei que essa é a única forma de mantê-lo menos
raivoso e que ele usa o sexo para se acalmar. Então, se estou condenada a viver
nessa merda, por que não me deixar envolver e pensar apenas no prazer que
proporcionamos um para o outro?
Tiro meu top e a saia, ficando apenas com a lingerie e a bota. Seus olhos
percorrem todo o meu corpo, e ele murmura um “caralho” antes de apertar seu
membro por cima da calça.
— Vai para a cama. — Ele manda com a voz carregada de tesão. Sei que
estou fazendo uma merda entregando-me tão fácil, mas era como se ele
estivesse me controlando, deixando-me sem vontade própria.
Ele morde meu lábio inferior e o suga antes de encerrar o beijo para
podermos recuperar o fôlego, mas seus movimentos apenas se tornam mais

210
fortes quando tocam minha parte baixa. Ele olha em meus olhos e morde seus
lábios avermelhados e inchados, graças ao soco que levou, então volta a se
aproximar de minha boca antes de acariciar meu rosto e me olhar com cautela.
— O que foi? — Pergunto baixinho e acaricio seus cabelos. Ele para de se
mexer e desce suas carícias até meus lábios, onde passa o dedão por eles.
— Senti sua falta. — Ele diz, sério, sua voz não passando de um sussurro.
Quando tento dizer alguma coisa, ele balança a cabeça negando e me cala
novamente. — Eu preciso de você, então só peço que não tente me deixar
novamente, pois sei que acabarei fazendo uma merda e irei me arrepender,
porque simplesmente não posso mais ficar sem você. — Não sei o que deu nele,
mas parecia estar sendo sincero e isso acaba mexendo comigo.
Zared não precisa de mim, apenas para se satisfazer, mas de resto, não
sirvo a ele para mais nada. Puxo-o para outro beijo, o qual ele parece se
entregar ainda mais do que os outros. Coloco as pernas em torno dele e tento
descer sua calça e cueca, mas não consigo, o que acaba fazendo-o rir, e tirá-las,
deixando seu corpo todo amostra logo a minha frente. Mordo os lábios e sinto
uma pressão abaixo de minha barriga ao ver seu membro completamente ereto.
Posso afirmar que disso eu senti falta, apenas eu e ele, ter a visão dele despido é
algo maravilhoso. Assim que ele volta a se aproximar, abro as pernas e observo-
o se encaixar no meio delas, deixando seu membro roçando em minha
intimidade. Zared se aproxima coloca seu membro em minha entrada,
enterrando-se em mim com facilidade.
A sensação de estarmos encaixados nos faz parar o beijo para gemermos e
quando agarro em suas costas, posso vê-lo abrir os olhos em reprovação, mas
não diz nada, apenas morde o próprio lábio e começa a se mover. Cravo as
unhas em suas costas, reviro os olhos e gemo, não me importando com mais
nada, apenas com aquele momento maravilhoso, e ele faz o mesmo. Nossos
gemidos vão ficando mais altos conforme ele aumenta o ritmo, e aproveito para
deixar minhas marcas em seu corpo.
— Porra, eu vou gozar. — Ele avisa gemendo em meu ouvido. Eu
também estava prestes a atingir meu limite. Somos outras pessoas quando
estamos em um momento tão íntimo.
Arqueio-me e chego ao orgasmo gemendo por ele. Zared morde meu
ombro e geme alto quando me preenche com seu líquido quente. Ele cai sobre
mim e deixa um pequeno beijo em meu pescoço, acariciando minhas pernas.
Ao sair de dentro de mim, ele agarra o controle do ar condicionado, liga e puxa
a coberta para nos cobrir. Um tempo depois, com a luz do quarto apagada e
ambos em silêncio, sou puxada para mais perto de seu corpo, ele envolve minha

211
cintura com o braço e se mantém quieto. Com a luz da lua que entrava, consigo
ver uma nova tatuagem em sua costela. Aperto os olhos e leio em voz alta.
— “Ninguém é condenado ao vazio sem ter alguém para resgatá-lo.” Por
que tatuou o que eu disse para você? — Pergunto, passando o indicador pelas
letras. Zared pega minha mão e leva-a até seus lábios, beijando minha palma. —
Responda-me, por favor. — Peço, apoiando o queixo sobre seu peito,
vislumbrando o homem de olhos fechados que entrelaça nossos dedos.
— Porque acredito que você seja a pessoa que vai me resgatar. — Ele
responde de forma lenta, quase dormindo.
Estava tão cansado que parecia fazer tempos que não dormia. Não digo
mais nada, pois mais uma vez sou pega de surpresa, então apenas volto a deitar
a cabeça em seu peito e fecho os olhos, ouvindo as batidas calmas de seu
coração e sentindo seu cheiro. Por que ele não poderia ser assim o tempo todo?
Quando estou quase dormindo, sinto seus lábios tocarem minha testa em
um beijo delicado e as batidas de seu coração aceleram. Achando que eu estava
dormindo, ele deita o rosto em minha cabeça e acaricia minha cintura,
puxando-me ainda para mais perto: — Eu te adoro, Skye.

212
Capítulo Vinte e seis

Acordo com uma dificuldade de respirar por ter algo pesado sobre mim. Tento
me mexer, mas Zared me impede, saindo de cima de mim, deixando apenas o
braço apertar-me contra seu corpo quente antes de voltar a dormir. Minha
mente reprisa com frequência cada toque, cada beijo e até mesmo cada palavra
dita por ele na noite anterior, causando-me uma sensação de arrependimento,
mas não o suficiente para me impedir de abrir um sorriso bobo ao lembrar do
“Eu te adoro, Skye.”
Ele realmente me adorava? Se ele simplesmente tivesse dito isso em
qualquer momento, eu não acreditaria, afinal, ele é um grande mentiroso. No
entanto, ele me esperou dormir para me dizer, como se quisesse que eu
soubesse, mas não ouvisse. Algo nele mudou, como se o tempo em que passei
sumida tivesse mudado alguma coisa nele, não é difícil de perceber, ele poderia
ter me arrastado pelos cabelos assim que parou ao meu lado, entretanto ele
tentou me beijar. Poderia ter matado Todd por ter me beijado e batido nele,
mas não, ele se segurou e quando explodiu, o máximo que fez foi atirar na
perna de meu amigo.
Não que seja algo bom, mas para uma pessoa perturbada como ele é uma
coisa muito rara de acontecer. Sem contar que mesmo depois de ter quase me
matado sufocada, a primeira coisa que fez quando chegamos aqui foi me
arrastar para seu quarto para fazer sexo, sem qualquer tipo de agressão, apenas
toques necessários. Gosto desse Zared, nunca pensei que diria isso, mas é
verdade, desse jeito ele é agradável. Com certa dificuldade, viro-me de frente
para ele, mas me deparo com Alison morta onde ele deveria estar, o que me faz
gritar e pular para fora da cama.
— Você é uma vadia, Skye. Como pode dormir com o homem que me
matou? — Ela fala, levantando e vindo em minha direção. Balanço a cabeça e
cubro a boca com as mãos, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas. —
Como pode estar começando a gostar dele?
— N-Não estou, Ali, juro. — Começo a chorar. Ela olha para mim,
furiosa, e tenta se aproximar, mas recuo. Seu corpo está pálido, cheio de
cicatrizes e com um buraco enorme onde deveria estar seu coração, seu corpo
está coberto por sangue seco e seu cheiro é horrível.
— Não minta para mim! Eu te conheço e sei que está se apaixonando pelo
homem que me torturou até a morte. — Ela berra, totalmente fora de controle.
Não a culpo por estar com raiva de mim, eu também estaria.
Eu era a errada, não ela. Aperto os olhos e balanço a cabeça negando
enquanto recuo, quando torno abri-los, vejo Zared parado a poucos metros de
mim, com um chicote em mãos, o corpo coberto por sangue fresco e seus
lábios curvados em um sorriso maligno. Sinto minhas pernas fraquejarem e o
pavor tomar conta de meu corpo. Ele se aproxima gritando várias coisas,
enquanto acerta o objeto de couro contra minhas pernas, fazendo-me gritar de
dor antes de cair no chão sentindo minha pele arder.
Tento me proteger colocando as mãos na frente, mas não adianta, ele está
tão descontrolado que me bate em vários lugares, até parar e me encarar com
ódio, seu peito sobe e desce, sua mão aperta o cabo do chicote. Com o resto da
força que tenho, fico de pé e afasto-me, ele tenta me pegar, mas corro em
direção ao banheiro, e sem ver, piso em diversos pedaços de vidro. Viro-me
para o espelho e vejo-o partido antes de voltar minha atenção para a porta para
ver Zared parado ali, nu e com a expressão de pavor enquanto me encara com
os olhos arregalados.
— Mas que merda? — Ele diz, incrédulo. Sinto os vidros entrarem em
meus pés, mas não consigo me mexer ou desviar o olhar do moreno. Ele ignora
os cacos por todo o chão e vem até mim, envolvendo meu rosto em suas mãos
enormes, forçando-me a olhar em seus olhos. Começo a chorar ainda mais e me
abraço a ele, que não hesita em retribuir, apertando-me mais contra seu peito.
— Desculpe. — Peço entre o choro e ouço as batidas de seu coração se
acalmarem. — Desculpa, desculpa, desculpa. — Ele balança a cabeça e me pega
no colo, volta para o quarto e senta-me na beira da cama. Eu não queria soltá-lo,
queria poder permanecer ali como Todd fazia quando eu tinha um ataque como
esse, no entanto, ele não era a pessoa que eu queria no momento, e também não
está ciente de que sua querida Baby Girl está completamente maluca, então ele
apenas tira meus braços de seu pescoço e abaixa, olhando-me com indiferença.

214
Viro a cabeça para a porta, tentando evitar seu olhar, mas ele segura em
meu queixo e me obriga a olhá-lo novamente. Sua expressão já estava mais
calma, mas ele realmente parecia não entender, e como poderia? Quando fui
embora não estava maluca, e se hoje estou assim, é por culpa dele.
— Vai me dizer que merda foi essa? — Ele pergunta um pouco ríspido.
Encolho os ombros e faço que não. — Achei que tinha alguém aqui. Não faça
isso de novo. — Ele se levanta e volta para o banheiro, saindo de lá com uma
caixa de primeiros, tornando a se ajoelhar em minha frente antes de pegar em
meu pé.
Ele mexe na caixa e tira dela uma pinça, concentrado em fazer o curativo
em meus pés. É impossível não admirá-lo quando está tão concentrado em algo,
sua expressão tão fica diferente, a forma com que suas sobrancelhas se unem e
o jeito com que seus lábios se comprimem o deixa tão bonito como quando
está sorrindo.
— O que foi? — Balanço a cabeça novamente e encolho-me ainda mais
assim que ele tira um pedaço de vidro grande. — Posso te fazer uma pergunta,
Baby Girl? — Seu tom de voz muda novamente, mas dessa vez, para algo mais
receoso.
— A função de negar respostas é sua, Daddy. — Respondo fazendo-o
soltar uma risada e balançar, concordando comigo. Ele passa a língua entre os
lábios para umedecê-los, morde o inferior e volta a prestar atenção no que faz,
limpando todo o sangue antes de passar um remédio e enfaixar. — Então? —
Ele solta um suspiro pesado e me olha novamente.
— Você gosta… De mim? — Sua voz sai falha e baixa, como se estivesse
nervoso pela a resposta. A resposta é obvia: eu não gostava dele. Bom, não
quando está sendo um estúpido agressivo, mas quando age como ontem antes
de dormir, a resposta é totalmente contrária. Entretanto, sua pergunta pega-me
desprevenida e acabo por não conseguir esconder a surpresa, fazendo-o soltar
uma risada desapontada. — Claro que não. — Ele diz de forma fria e volta a
enfaixar meu pé.
— Na verdade, gosto, mas só quando está sendo legal, como ontem
durante depois que fizemos… Você sabe. — Ele termina o curativo e se coloca
em meio de minhas pernas, acariciando-as até passar os braços em torno de
meu corpo desnudo.
— Então… Se eu te levar para jantar comigo em um lugar de verdade,
você não tentaria escapar? — Ele sussurra e mordisca meu mamilo, fazendo-me
dar um pequeno pulo, meu corpo se arrepia por inteiro e aquece assim que ele

215
passa a língua quente pelo meu seio. — Responde, bebê… — Ele murmura
contra a pele molhada, fazendo-me fechar os olhos.
— Não. — Respondo com a voz tão vulnerável que faz com que ele ria e
aperte minha cintura. — Daddy…
— Não fala dessa forma, principalmente quando estou pelado e com uma
vontade enorme de te comer. Mas quem sabe mais tarde? Agora temos que nos
arrumar para irmos comer. — Franzo as sobrancelhas e olho para o relógio em
sua mesinha de cabeceira, vendo-o marcar 19h00.
Dormimos demais. Balanço a cabeça devagar e observo o moreno pegar
uma blusa regata jogada sobre a cômoda e me entregar. Enquanto a visto, ele
veste uma bermuda larga cinza e pega em uma toalha branca. Ele segura minha
mão e nos guia pelo corredor sem ligar para os olhares curiosos que seus
funcionários nos lançam ao nos verem de mãos dadas.
— Tome um banho e se arrume, mandarei alguém para te ajudar. Estarei
aqui em uma hora e meia. — A porta do meu quarto é aberta, revelando o
cômodo arrumado e perfumado. Zared me espera entrar e torna a trancá-la.
Parece que faz anos desde que estive aqui e isso me faz lembrar do
monstro que Zared é. Solto um longo suspiro e vou até o armário mancando,
mas quando abro as portas, vislumbro alguma coisa atrás de mim, assim que me
viro vejo uma rosa branca em um copo de água. Ele costuma deixá-las apenas
para as garotas que matou, será que eu estou morta para ele?
Sou desperta de meu transe assim que a porta volta a se abrir, mostrando
uma mulher loira de olhos verdes e peitos, coxas e bunda maiores do que as
minhas. Sua expressão não era nada boa, e parecia estar com raiva de algo,
então apenas encolho os ombros, vendo-a bater a porta enquanto caminha na
minha direção.
— O que foi? — Ela pergunta, o que me deixa ainda mais sem jeito.
Odeio a forma que ela me olha, o jeito que fala comigo e a autoridade que acha
que tem sobre mim.
— Nada. — Respondo com um dar de ombros, surpreendendo-me pela
acidez em minha voz. Ela me olha dos pés a cabeça e me empurra da frente do
armário, começando a mexer nas peças penduradas nos cabides. — Será que
pode pedir para outra pessoa vir me ajudar? — Pergunto, arrumando minha
postura. Não vou deixar que ela me olhe sem jeito, não tenho medo dela. O
chefe dela me assusta, ela não. E por mais que ela seja alta, eu sou ainda maior,
mesmo ela não ligando para isso.
— Por que, princesa? Não gosta de ter a passatempo do seu querido Zared
no mesmo quarto que você? — Ela pergunta e sorri assim que me vê com uma

216
cara de dor. É, aparentemente saber que ele transa com outras me afeta. — Não
achou mesmo que ele só fodia você, não é? — Mordo os lábios e desvio meu
olhar para o chão, não sabendo o que eu poderia fazer se olhasse para ela
novamente. — Awn, você achou. — Ela diz rindo.
Reviro os olhos e vou para o banheiro escutando suas risadas irritantes.
Tranco a porta e olho-me no espelho antes de me apressar a tirar a blusa
daquele idiota do corpo. Ligo a água, coloco os sais na água e entro, tomando
cuidado para não molhar o curativo no pé. Sinto-me uma idiota por ter
acreditado que era a única que transava com ele sem ir parar naquele cemitério.
Demoro mais do que pretendia no banho e quando saio, sou obrigada a olhar
para a loira. Vou para o armário, pego um conjunto rendado de lingerie
vermelha e visto-o e vasculho o armário.
— Separei sua roupa. — Escuto sua voz logo atrás de mim.
— Eu sei escolher minha roupa sozinha. Obrigada. — Respondo, pegando
um vestido preto justo com um decote chamativo. Confesso que minha vontade
de jantar com ele diminuiu bastante depois de descobrir sobre essa garota, mas
não tenho escolha.
Pego um salto fechado e começo a me vestir, tentando ao máximo ignorar
o olhar da garota. Vou até a penteadeira e começo a fazer uma maquiagem, pois
sei que fico bem diferente. Quando estou passando perfume, a porta se abre,
revelando Zared. Seus cabelos estão penteados para trás, o que me faz sorrir ao
vê-lo vestido formalmente; ele fica maravilhoso de terno. Tinha anéis em suas
mãos, um em cada, e uma caixa de veludo preta. Ele paralisa ao me ver e me
olha da cabeça aos pés antes de engolir um seco.
— Trouxe algo para você… — Ele caminha até mim, ignorando
totalmente a loira sentada em minha cama.
Assim que estamos bem próximos, ele coloca a caixa em minhas mãos e
para atrás de mim. No momento em que abro, vejo um medalhão com uma
rosa branca entrelaçada em uma negra; a segunda era coberta por espinhos.
Assim que o abro, vejo uma foto minha com Alison e o outro lado vazio.
— Permita-me. — Afasto os cabelos, Zared pega o colar e o coloca em
mim, deixando um beijo demorado em meu pescoço. E mais uma vez, sou pega
de surpresa. Esse é o primeiro presente que ele me dá, e não consigo tirar os
olhos dele.
— É perfeito. — Digo, virando-me de frente para ele. — Obrigada. —
Aproximo-me e beijo seus lábios, sentindo seus braços envolverem-me e
aproximarem-me antes de descer as mãos e repousá-las em minha bunda. Sua

217
língua toca a minha com ansiedade, fazendo com que o fogo de meu corpo
aumente. Ele morde meu lábio inferior e o suga antes de se afastar.
— Melhor irmos ou vamos perder a reserva. — Sua voz é carregada de
malícia, o que não torna difícil entender o que se passa em sua mente.
Afirmo e pego o sobretudo, também preto, o que me faz rir por parecer
que vamos a um enterro, não a um jantar. Retoco o batom borrado e observo
Zared limpar a boca para tirar o que ficou do batom nela. Ele está tão estranho,
calmo e gentil que parece outra pessoa.
Assim que termino, ele passa o braço em torno de minha cintura e me
puxa para frente da cama, chamando a atenção da loira, que parecia furiosa.
— Arrume toda a bagunça e vá se juntar aos outros empregados. —
— Sim, senhor. — Ela diz com respeito e me lança um olhar feio. Abro
um sorriso implicante e me aproximo mais do moreno, que me puxa com
delicadeza para fora do quarto.

O local é enorme e elegante, com uma pista um pouco afastada do salão onde
tocava músicas românticas para os casais dançarem. Durante todo o percurso
até nossa mesa, Zared não solta minha mão e não parece se preocupar em estar
em público, minha respiração estava presa e eu olhava para os lados para ver se
alguém me reconhecia, mas ninguém nos olha de forma estranha. A
recepcionista nos deixa em nossa mesa e pede licença antes de se retirar. Ele
puxa a cadeira para mim, depois senta a minha frente e não diz nada enquanto
admiro o local. A maioria das pessoas que estavam ali eram mais velhos, o que
fazia com que nos destacássemos.
— Nunca trouxe ninguém para jantar, então não sei o que fazer. — Ele
admite, desfazendo o silêncio entre nós, o que era compreensível já que temos
uma longa lista de acontecimentos que nunca envolve algo assim. Para ser
sincera, não sei como chegamos a isso.
Quando abro a boca para responder algo, o garçom chega, entregando-nos
o cardápio. Zared fica em silêncio a observar-me, mas ao perceber que não faço
ideia do que seja aquilo que tem no cardápio, ele fecha o seu e pega o meu de
minha mão, entregando-os ao garçom com certa brutalidade.
— Quero a sugestão do chefe, algo que combine com o melhor vinho que
tiverem. — Ele diz, deixando homem simpático sem saber como agir. Olho
para ele e abro um sorriso como pedido de desculpas.

218
— E a senhora, senhora Winter? — Arqueio as sobrancelhas e olho para
Zared, que tinha um sorriso satisfeito nos lábios, segurando-se para não rir da
minha cara de espanto. Abro a boca algumas vezes para responder, mas minha
voz não sai o que faz o moreno achar ainda mais engraçado. Mas logo fecha a
cara ao olhar para o homem.
— Eu e minha esposa vamos querer o mesmo. — Assim que o garçom sai,
posso ver o divertimento em seus olhos. Eu não estava achando engraçado.
Para falar a verdade, estou com medo desse bom humor dele, é algo inédito e
sei que a qualquer momento ele pode ter um ataque e matar alguém. — Então,
o que está achando de ser minha mulher agora? — Ele pergunta em tom
brincalhão.
— Não sou sua mulher. — Digo e vejo seu sorriso crescer.
— Não é o que os funcionários acham. — Ele diz e pisca um dos olhos. O
jantar se segue em silêncio, com ele apenas perguntando se eu havia gostado da
comida ou do vinho.
Nenhum dos dois sabia como agir, então o silêncio era a melhor opção.
Minutos depois, fico parada observando as pessoas dançarem, até ele se colocar
a minha frente e estender a mão para mim. Pego o sobretudo e levanto, mas ele
balança a cabeça negando.
— Não vamos embora, deixe o casaco aí. — Obedeço sua ordem e seguro
sua mão, sendo puxada para o meio dos outros casais na pista. A música acaba
e dá lugar a I Have Nothing. Zared me puxa para mais perto de seu corpo, desce
uma mão para o fim de minhas costas e segura minha mão com a outra
enquanto mantenho a minha em seu ombro iniciando uma dança lenta.
— Não vai durar muito, não é? — Pergunto, chamando sua atenção. Olho
para ele e seus olhos descem até os meus, encarando-me.
— A música tem quatro minutos, Baby Girl. — Ele diz com calma e
continua a nos guiar.
— Estou falando sobre você continuar sendo legal.
— Não sei. — Ele assume. — Você me deixa louco, então não sei como
irei reagir em algumas horas. — Desvio o olhar, deito a cabeça em seu peito e
fecho os olhos, tentando concentrar-me naquele momento, que sei que não
voltará a se repetir.
O mais irônico é que nunca pensei em dançar ela com alguém como Zared.
Ouço as batidas de seu coração acelerarem e sua mão me puxa para mais perto.
Ele abaixa a cabeça até meu ouvido e começa a cantarolar a última parte da
música, o que me faz arrepiar por inteiro.

219
— Não fuja para longe de mim, não se atreva a andar para longe de mim. Eu não
tenho nada, nada, nada… Se eu não tenho você. — Ele se afasta o suficiente para eu
poder olhá-lo. Ele se aproxima de mim e quando vai me beijar, algo em seu
bolso começa a vibrar, fazendo com que nos afastemos. Zared sussurra um
“merda” e leva a mão ao bolso.
No momento em que atende, poucas palavras são trocas e antes que ele
desligar. Sabia que estava demorando para seu humor mudar.
— Temos que ir. — Ele diz com pressa e pega em minha mão, passando
na mesa apenas para deixar o dinheiro e pegar nossos casacos. O caminho que
ele faz é diferente, mas não digo nada, apenas fico parada com medo de falar
algo e ele explodir. Ele entra em um casarão, e ao sairmos do carro, pega em
minha mão novamente e entramos no local, parando ao chegarmos no salão
vazio. — Não saia daqui para canto algum até eu voltar, entendeu? — Balanço a
cabeça e vejo-o sair para algum lugar. Fico parada ali por vinte minutos até uma
sessão de gritos familiar se iniciar do lado oposto de onde Zared foi.
— O quê? — Olho mais uma vez para o lugar por onde ele sumira e assim
que os gritos voltam, eu começo a andar em direção a eles devagar, tomando
cuidado para não fazer barulho. O lugar fica em silêncio por um momento e
quando os gritos voltam, paro diante da porta de onde eles vinham.
— Não aguento mais você, garoto. — A voz de Leon ecoa lá dentro e
uma porta se fecha. Abro a porta devagar e entro no cômodo igual ao quarto
de tortura de Zared, mas com mais instrumentos. Continuo me aproximando
até ver um homem sem blusa virado de costas para mim, amarrado em uma
cadeira. No momento em que ele vira o rosto para o lado, vejo que é meu
amigo e isso me faz entrar em desespero, meu coração aperta de uma forma
insuportável e minhas pernas ficam bambas.
— Todd! — Grito desesperada e corro até ele, sentindo o corte em meu
pé dar sinal, mas é algo que consigo ignorar facilmente. Ele olha para mim e
arregala os olhos, como se estivesse aliviado em me ver bem. Eu começo a
chorar ao ver seu rosto inchado, roxo e coberto por sangue, assim como seus
braços.
— Skye? — Ele sussurra com a voz fraca e vejo seus olhos se encherem
de lágrimas.
— Perdoe-me, por favor! — Digo me ajoelhando a sua frente enquanto
me abraço a ele. Ele esconde o rosto na curva de meu pescoço. — Perdoe-me.
— Solto um soluço e continuo a chorar até escutar palmas ecoarem do outro
lado, provavelmente da porta de onde Leon saiu.

220
— Por que é que você nunca me obedece, Baby Girl? Achei que estávamos
nos entendendo.

221
Capítulo Vinte e sete

Mantenho meus olhos fixos no moreno. Não me importo em ter feito o que fiz
e nem as consequências de meus atos. Escutei gritos e vim atrás, dando de cara
com meu melhor amigo amarrado; não suporto vê-lo desta maneira. Todd é um
homem muito bom, e se está sofrendo assim é por minha culpa e não deixarei
que isso continue, nem que eu precise apanhar em seu lugar, não deixarei que
esse filho da mãe me tire mais uma pessoa que amo. Zared caminha até nós e
lanço-lhe o melhor olhar ameaçador que consigo, vendo o canto de seus lábios
se curvarem em um pequeno sorriso.
— Você mentiu para mim. — Digo entre os dentes.
Acompanhando cada movimento seu, percebo uma de suas mãos fechada
em punho, como se pressionar seus dedos um nos outros fosse uma de suas
tentativas de não fazer alguma besteira. Zared estava alguns metros a nosso lado
enquanto estou sentada no colo de Todd, abraçando-o com toda minha força,
como se fosse protegê-lo do mal em que o envolvi.
Admito que sou a grande culpada por tudo isso, pela morde de Alison, por
ter uma das únicas pessoas que amo com grandes chances de morrer apenas
por ter me ajudado e ter sido mais do que eu já pensei em pedir em um homem.
Se eu tivesse simplesmente pego o carro e ido para bem longe, depois trocado
por dinheiro, poderia ter me virado sozinha por um tempo e não estaríamos em
um quarto de tortura. Eu não precisaria me preocupar em ver esse psicopata
novamente.
Isso tudo é culpa minha, apenas minha.
— Em qual momento? — Ele pergunta com um sorriso maligno nos
lábios. — Eu minto para todo mundo o tempo inteiro. — Os batimentos de
Todd estavam acelerados, sua respiração, descontrolada, mas não de medo, ele
estava com raiva.
— Falou que o deixaria, disse que me merecia por tê-lo deixado vivo e
olha onde estamos! — Grito e coloco-me de pé para ir em sua direção.
Não sabia ao certo o que estava fazendo, mas sabia que não daria certo e
acabaria tudo fora do controle, mas já não estava ligando para qualquer merda
que fosse acontecer. Ele mentiu para mim, me fez acreditar que havia poupado
meu amigo e acabo dando de cara com ele em uma sala de tortura. Zared fecha
a cara e parece começar a ter um tique em um dos olhos enquanto sua
respiração acelera, fazendo-o me olhar furioso.
— Eu disse que merecia por tê-lo deixado vivo, mas não disse por quanto
tempo. Porra, ele te beijou, vai saber se te fodeu também. Aprenda uma coisa,
Baby Girl, ninguém toca na minha única mulher! — Ele berra, fazendo com que
as veias de seu pescoço saltem. Estou tão fora de mim que não me assusto com
seus gritos, o medo dele simplesmente desapareceu.
— Eu te odeio. — Digo sentindo lágrimas acumularem em meus olhos. —
Eu te odeio demais. — Engulo o nó em minha garganta e me viro para Todd.
Quando estou prestes a me aproximar dele, sou agarrada pelo braço e
jogada contra a parede, ouvindo apenas o homem amarrado na cadeira gritar
para o moreno me soltar. Levanto meu olhar e encaro seus olhos olhando-me
de uma forma acabada, mas não me comovo. Quero que ele vá para o inferno.
Ele e esse bando de doentes que fazem as mesmas coisas que ele. Ele segura
meus pulsos contra a parede, prendendo o resto de meu corpo com o seu e me
deixa imóvel.
— Não… Não odeia. — Ele diz, tentando se convencer do contrário.
Fecho os olhos, sinto as lágrimas descerem por minhas bochechas antes de
voltar a abri-los e confirmo com a cabeça. Eu o odiava mais do que qualquer
outra coisa. Não estamos em um história da Disney, não sou a bela e ele, a fera,
nunca vamos nos dar bem e nunca teremos um final feliz, nem mesmo quando
a última pétala da rosa dada pela a bruxa que o amaldiçoou cair depois do beijo
de amor verdadeiro.
Até porque entre nós nunca terá nada além de ódio e desejo. Zared não
tem cura, ele não é um objeto que pode ter conserto trocando uma única peça,
e se fosse, estaria inteiramente acabado. Ninguém é capaz de gostar, muito
menos amar alguém como ele. Ninguém ama um monstro. Ele se aproxima e
tenta me beijar, mas viro o rosto, impedindo o contato de nossos lábios.
— Beije-me. — Ele sussurra, como se fosse um pedido. Mantenho minha
cabeça virada para o lado oposto e fixo meus olhos na parede suja de sangue

223
seco. — Olha para mim. — Ele diz, mais autoritário. Volto a encará-lo de
forma fria. — Eu mandei você me beijar.
— Deixe-o ir embora e faço o que quiser, mas deixe-o ir. — Respondo
com voz de choro. Ele abre um sorriso maligno e balança a cabeça.
— Não, vou matar seu amiguinho por ter se metido onde não devia,
depois vou te foder como a noite passada. — Ele aumenta a voz para que Todd
possa escutá-lo.
Olho para meu amigo e ele abaixa a cabeça, fixando a atenção em seus pés.
Não gosto da ideia de Todd saber que transei com Zared noite passada. Ele
tenta me beijar novamente, mas viro o rosto outra vez, deixando o homem a
minha frente com ainda mais raiva. Ele segura meu queixo e me força a olhá-lo,
então pressiona seus lábios contra os meus, me beijando sem ser retribuído.
— Me beija ou eu o mato. — Beijá-lo não é o problema, mas fazer aquilo
a força na frente de alguém que não merece ver é algo totalmente diferente,
torna o ato nojento. Quando não faço o que me é mandado, ele pressiona o
cigarro aceso pressiona contra meu braço, fazendo-me apertar os olhos e soltar
um pequeno grito de dor. — Vamos ver como a pequena Skye fica vendo o
amigo morrer.
Ele diz e me solta, indo em direção a Todd. Vou até ele, seguro em seu
blazer e beijo-o com o máximo de intensidade que consigo naquele momento.
Zared solta uma risada e segura meu pescoço, pressionando seus dedos em
minha garganta enquanto me encara.
— Você esqueceu qual é o seu lugar, garota. — Ele diz e me joga no chão,
vira-se para Todd. O moreno pega em seus cabelos e os puxa, forçando Todd a
olhá-lo. Seus lábios ainda estavam curvados em um sorriso quando seus dedos
se embolam nos cabelos do homem a sua frente.
Os dois se encaram da mesma forma odiosa, no entanto, não dura mais
que um minuto e ambos estão caindo na gargalhada, aquele tipo de risada
histérica que só dão quando estão se divertindo. Então olham para mim como
se eu fosse uma idiota.
— O quê? — Gaguejo olhando para os dois se divertindo às minhas custas.
Zared se vira na minha direção, e quando penso que vira para mim, ele volta a
ficar de frente para Todd e enfia um objeto pontudo de madeira em forma de
cone na garganta de meu amigo. Arregalo os olhos sem acreditar naquela cena e
grito. — Todd!
— Você é tão dramática… — Uma voz feminina familiar ecoa ao meu
lado. Consigo ver os cabelos de Alison parada ao meu lado, não ligando para o
que havia acabado de acontecer a seu ex-namorado. — Ainda não consegue

224
diferenciar a mentira da realidade, O'Brien? — Ela solta risadas frias que
chegam a fazer meu corpo arrepiar. — Olhe de novo. — Ela faz um sinal com
a cabeça. Não quero ver meu amigo morto, é doloroso demais, mas em um ato
involuntário, volto minha atenção para onde os dois estavam e vejo-os
encararem-me. Zared tinha as sobrancelhas franzidas, sem entender o motivo
do meu pânico, e Todd me olhava com carinho.
— Tire-a daqui. — Todd diz, sua voz carregada de súplica. — Ela não está
bem e não vai ajudar se ela vir isso. — Zared olha para ele, depois para mim,
que estava encolhida contra parede.
— Como assim ela não está bem? — Ele pergunta. Não quero que ele
saiba que estou maluca, posso ser descartada por outra, como aquela loira, e
não estou a fim de morrer para ser substituída por uma loira qualquer.
Olho para o homem preso a cadeira e balanço a cabeça, implorando para
que ele não conte. Ele movimenta os lábios em um pedido de desculpas e conta
que ando tendo alucinações. Zared olha para mim e se afasta de Todd, vindo
em minha direção antes de se abaixar em minha frente.
— Então temos que prender a maluquinha, não? — Ele abre um sorriso
sombrio, agarra meus cabelos para colocar-me de pé e arrasta-me para algum
canto da sala sob os gritos de Todd. — Isaac! — O moreno berra, fazendo com
que um homem apareça rapidamente. Sua primeira reação é olhar para mim,
fechar os olhos e respirar fundo antes de assumir uma posição ereta e voltar
com a expressão séria.
— Senhor? — O homem desvia o olhar para a mão de Zared em meus
cabelos. Sinto uma pressão e uma dor na cabeça assim que sou arrastada para a
frente de Todd novamente, que tem os olhos vermelhos e raivosos direcionados
para o moreno. Ele se vira em nossa direção, mas não se move para sair do
lugar. O homem rasga meu vestido.
Para minha surpresa, o empregado de Zared vira o rosto para evitar me
olhar e meu amigo se remexe na cadeira.
— Isaac, traga isso para cá. — Zared diz se referindo a um objeto de
madeira com cinco cintos de couro, um no meio para prender a barriga, dois
para os braços e mais dois para as pernas. Parecia ser pesado para uma única
pessoa arrastá-lo.
Meu corpo treme ao imaginar o que está a se passar na mente do homem
que me segura, e no que ele pensava em fazer comigo naquele instrumento de
imobilização. Viro meu rosto para olhá-lo e vejo que ele não está realmente em
si.

225
— Senhor, é um objeto muito pesado… — Ele tenta dizer, mas logo se
cala ao receber um olhar de reprovação. Ele respira fundo e começa a arrastar
objeto até nós e sou virada de frente para o moreno, que tinha a expressão de
seriedade e deleite.
— Uma pena termos que voltar a isso, mas você pediu. Por que sempre
tem que estragar as coisas, querida? — Ele diz com um sorriso e me arrasta até
objeto. — Some daqui. — Diz ao empregado, que se apressa para obedecer.
Sou amarrada com todos os cintos, ficando imobilizada apenas de lingerie.
Zared percorre os olhos por todo o meu corpo e morde os lábios: — Então
vamos começar. — Ele bate as palmas e as esfrega antes de ir até um armário
velho e aparecer a minha frente com um chicote fino e comprido e um aparelho
de eletrochoque.
Ele se vira e acerta o chicote no rosto de Todd. Arregalo os olhos e vejo o
corte na bochecha começar a sangrar. Ele se aproxima mais e acerta golpes
brutos contra o rosto já ferido de Todd, e quando para, está ofegante. Então é
minha vez de gritar e me remexer desesperadamente ao vê-lo agarrar o pescoço
do refém.
— Diga, garoto, por que prefere passar por tudo isso do que simplesmente
deixá-la comigo, ahn? — Ele olha nos olhos de Todd. Ao não receber resposta,
ele abre um sorriso e começa a rir — Está apaixonado por ela. — Diz entre
gargalhadas e acertar o objeto diversas vezes em meu amigo, que grita de dor.
— Ok, garotão. Agora vamos ver se ela sente o mesmo. — Zared se vira para
mim. Ele passa o chicote por minha barriga e dá o primeiro golpe, fazendo-me
apertar os olhos e reprimir o grito mordendo a língua. — E você, amor? Gosta
do Romeu ali? — Abro os olhos com a visão embaçada por conta das lágrimas,
mas não consigo olhá-lo por muito tempo.
— Ela está… — Algo faz com que ele fique ainda mais frio e maldoso,
deixando-o com um jeito perturbador. — Todd… É esse o seu nome, não é?
Acho que hoje é seu dia de sorte. Ou não… — Ele diz entre gargalhadas, então
começa a se livrar da roupa, ficando apenas com a calça e o sapato, deixando a
faca em sua cintura amostra.
Ele tira a faca de lá e passa o objeto cortante por minha barriga, usando
força o bastante para cortar, deseenhando um Z enorme. Naquele ponto eu já
estava chorando. O homem tatuado olha em meus olhos e leva a faca para sua
costela, onde ele mesmo passa a lâmina por cima da frase que havia feito. Ele
era definitivamente maluco. Em seguida, a joga para longe, rasga minha calcinha,
solta minhas pernas, abre o zíper de sua calça e as agarra.
Aperto os olhos e deixo que as lágrimas caiam.

226
— Sabe, Baby Girl, Leon tem razão, é melhor ser odiado e ter o que quer
do que amar e não ser retribuído.

227
Capítulo Vinte e oito

Todd tinha uma escolha: ir embora e me deixar aqui, mas ele era teimoso e não
aceitava a proposta, não importava o quanto apanhasse. Depois de levar outra
surra, ele acaba desacordado, deixando-me sozinha com Zared, que estava
parado a minha frente com o corpo suado e o corte que fez sobre a tatuagem
sangrando, deixando-o com a região da costela coberta por sangue. A raiva que
sentia era óbvia, assim como o cansaço de estar ali há mais de quatro horas nos
torturando. Ergo a cabeça e direciono meu olhar para seus olhos, que estavam
mais confusos do que costumam ser.
— Responda-me uma coisa? — Pergunto com a voz fraca. Sinto as
lágrimas em meus olhos descerem pelas minhas bochechas enquanto o temor
toma conta do meu corpo.
Zared vira o rosto por um instante com um longo e pesado suspiro, passa
as mãos nos olhos e volta a me encarar de forma menos dura: — P-Por que
você disse que me adorava e agora está fazendo isso comigo?
Sua expressão dura se quebra, dando lugar a surpresa por saber que eu o
ouvi noite passada. Ele me ignora e se vira, pegando tudo o que usou para
guardar em um armário de ferro já enferrujado, tranca tudo com um cadeado
antes de pegar sua roupa e aproximar-se de mim, usando a mão livre para
acariciar minha bochecha.
Ele se aproxima o máximo que consegue, deixando nossos corpos colados
sem se importando com o sangue que o sujaria, então sinto seus lábios tocarem
os meus em um beijo mais longo mais do que deveria. Quando ele se afasta,
não olha para mim, só sai da sala, apaga a luz e a tranca. Sentindo meu corpo
doer, tento sair dos objetos de couro, mas falho.
Sem forças nem ao menos para chorar, fecho os olhos e fico relembrando
da noite passada, do seu toque, de seus gemidos e suas palavras. Zared se
transformava em outra pessoa quando estávamos sozinhos e eu gostava do que
ele se tornava. Se ele realmente tivesse feito o que me disse que fez, não
estaríamos aqui, provavelmente fazendo outra coisa, mas ele quem erra e eu sou
castigada.
Tudo bem que eu o desrespeitei, mas era meu amigo gritando, e aposto
que se fosse Leon, ele teria feito o mesmo. Quando estou prestes a cair no sono,
o barulho da porta ecoa pelo quarto escuro, fazendo-me abrir os olhos. Os
passos não fazem barulho, no entanto, ignoro por achar que é um dos amigos
de Zared. Mas sou surpreendida no momento em que uma lanterna de celular
acende, permitindo-me ver o homem de mais cedo, o tal Isaac. Ele abre um
pequeno sorriso e se vira, deixando o aparelho sobre a mesa para poder
iluminar o máximo antes de se virar para mim com algo em mãos. Não consigo
ver o que é e começo a me mexer, sentindo pavor se apoderar. Meus olhos
estavam arregalados, mas sou interrompida assim que ele também arregala os
olhos e balança a cabeça, negando apavorado.
— Por favor, não faça barulho, eu só vim ajudar. — Ele sussurra com
certa urgência na voz. Ele se aproxima com um sanduíche, o que me deixa mais
calma de imediato. Meu corpo fica imóvel e desmorono. — Imagino que esteja
com fome. — Usando o resto de minha força, levanto a cabeça para poder
olhá-lo e mantenho meus olhos abertos com bastante dificuldade. Não sabia o
que ele queria com isso, mas estava infringindo as regras do chefe. Ele aproxima
o pão de minha boca e mordo com urgência o lanche simples de ovos e bacon.
— Está bom? — Ele me olha com atenção e assinto antes de morder mais um
pedaço. — Meu nome é Isaac. — Engulo o que tenho na boca e abro um
sorriso forçado.
— S-Skye, meu nome é Skye. — Apresento-me, apenas observando o
homem balançar a cabeça antes de virar-se para pegar uma garrafinha de água, e
leva para minha boca, onde a bebo com um certo desespero.
— Lamento pelo que estão passando, o senhor Winter é um tanto duro, só
não esperava que fosse assim com a própria virgem. — Ele encolhe os ombros
e volta a me alimentar.
Olho para o lado e vejo Todd ainda desacordado, então abaixo o olhar.
Isaac olha para meu amigo e usa o resto da água na garrafinha para acordá-lo.
O olhar apavorado e confuso do homem é a primeira reação que recebemos, a
segunda é um gemido de dor. Cuidando do outro prisioneiro, acabo
descobrindo que Isaac tem vinte e três anos, Zared o salvou e disse que agora o

229
garoto tinha uma dívida eterna de vida ou morte com ele, e que ele não faz as
mesmas coisas que os outros, apenas está ali pagando sua dívida sem querer
ferir ninguém.
Mesmo não contando a história de seu resgate, não desconfio que seja
verdade, só o que estava fazendo mostrava que era diferente. E logo depois de
ele terminar de contar isso, todos ficamos em silêncio, não queríamos chamar a
atenção dos outros e não era o melhor momento para ficar conversando. Pela
forma que vejo meu amigo avançar na metade de meu lanche e no outro,
percebo que não foi alimentado desde que o colocaram aqui, e pela a forma que
bebe a água, vejo que nem isso deram a ele.
— Por que está fazendo isso? — Todd pergunta e o homem leva o último
pedaço de pão para a boca de Todd, que termina em uma única mordida. E
então levanta e pega tudo o que trouxe.
— Porque não gosto da forma que eles tratam as pessoas por aqui, e gosto
de pensar que um dia alguém faria o mesmo por mim… Sabe, a lei do retorno.
— Ele abre um sorriso sem graça e olha para a porta. — Lamento pelo que
estão passando. Queria poder ajudá-los de outra forma, mas isso é o máximo
que posso fazer. — Ele encolhe os ombros e caminha para a porta.
— Isaac? — Chamo e ele se vira para mim. — Obrigada. — Ele abre um
sorriso amigável e sai do cômodo, deixando-nos no escuro novamente. Ficar ali
presa daquela forma estava machucando meu corpo, sentia dores, o que era
insuportável, porém, menos mal do que ter o corpo todo machucado como
costumava ficar.
Comparado ao que costumava a fazer, Zared estava pegando leve comigo
apenas o Z enorme em minha barriga com um corte leve que parou de sangrar
pouco depois. E quando pensei que seria abusada na frente de Todd, ele
simplesmente recuou gargalhando. Sabendo um pouco do que ele era capaz, dá
para perceber que anda agindo de forma estranha, é como se ele não quisesse
me machucar fisicamente, que só me mantém aqui para que eu fique olhando-o
torturar meu amigo. E se faz isso, é porque sabe que me machuca mais do que
levar chicotadas, apanhar e levar facas, ele sabe que ficar paralisada sem poder
fazer nada para ajudar alguém que amo é a pior forma de me machucar.
Após um tempo desde a saída de Isaac, estamos em silêncio, eu não
saberia o que dizer além de pedir perdão por ele estar passando por tudo isso, e
ele não pararia de repetir que não tenho culpa, mesmo sabendo que não é
verdade.
— Perdoe-me. — Sua voz fraca ecoa pelo ambiente. Não me dou ao
trabalho de me mover, as emoções logo se afloram ao ouvi-lo. — Falhei com

230
você, prometi que ninguém nunca mais te machucaria e falhei. — As lágrimas
aparecem pela a milésima vez.
— Você não tem que pedir desculpas por nada, Todd. Se tem uma pessoa
culpada por tudo isso, sou eu. Desde o início, do momento em que arrancaram
Alison do palco até agora, você não teve culpa, nem sei por que sente que tem.
— Digo e torno a fechar os olhos para poder parar com aquele assunto.
O resto da noite vira um inferno, meu corpo já não aguentava ficar
pendurado daquela forma e as dores estavam se tornando insuportáveis a ponto
de me fazer chamar por Zared aos prantos. Óbvio que ele não veio.
Ao nascer do sol, a porta se abre e Zared vem direto em minha direção e
começa a me soltar, Isaac fica na porta, e no momento que estou prestes a cair
no chão, ele me segura, passa seu sobretudo em torno de meus ombros e me
pega no colo, tirando-me da sala. Olho para Todd, que me encara com
estranheza e preocupação. Como a casa é diferente, não sei para onde estamos
indo, mas assim que uma enorme escada surge a nossa frente, imagino que
estou sendo levada para um quarto e acabo acertando. Com dificuldade, o
moreno abre a porta, caminha para dentro do cômodo e me leva direto para o
banheiro.
Tenho vontade de perguntar o que aconteceu para que ele mudasse de
ideia, no entanto, decido que o silêncio é tudo o que ele merece. Sou colocada
sentada sobre o vaso sanitário, onde ele tira o sobretudo e meu sutiã antes de
me colocar na água morna da banheira.
— Sabe que poderia ter sido diferente, não? — Ele pergunta em tom
casual enquanto me limpa, mas não recebe nenhuma resposta minha, na
verdade, só viro a cabeça para o lado oposto para deixar bem clara a resposta.
— Não me arrependo do que fiz, Baby Girl, só tenha consciência de que não
vou admitir que te tirem de mim, que vou fazer o necessário para não ter
ninguém no meu caminho, e seu amigo está nos atrapalhando. — Arregalo os
olhos e saio da banheira, apressando-me para ir até meu amigo. Pego sua blusa
social preta que estava usando noite passada, visto-a e quando estou prestes a
sair do quarto, Zared bate a porta. — Para onde pensa que está indo? — Ele
pergunta em meu ouvido. Viro-me para ficar diante dele e não sei o que
acontece, mas não consigo me controlar, só percebo o que estou fazendo
quando acerto um tapa em seu rosto, o que o faz levar a mão a lugar atingido.
— Mas que merda foi essa?
— Como tem a coragem de me dizer que vai matá-lo? Eu te odeio, seu
doente do caralho! — Empurro-o e ele recua um passo a cada empurrão, e ao
perder a cabeça, avanço para cima dele, acertando-lhe tapas e arranhões. Agarro

231
seu pescoço, cravando minhas unhas grandes em sua pele. Sinto suas mãos
agarrarem meus pulsos assim que o arranho de forma bruta. — Eu te odeio! —
Digo entre o choro e caio sentada no chão.
Ele leva uma das mãos para a área arranhada do pescoço e xinga assim que
vê que está sangrando, se vira e vai até o banheiro, provavelmente para ver
como está o novo machucado. Quando estou percorrendo os olhos pela a cama,
vislumbro sobre a mesinha de cabeceira a calibre 38 que sempre o acompanha.
Sem pensar duas vezes, levanto-me do chão e engatinho pela cama, pego a
arma e me levanto, ficando parada ao lado da cama com a arma apontada para a
porta do banheiro. Zared sai com o arranhão já limpo e quando me vê com a
arma apontada em sua direção, ele recua um passo.
— Tem certeza de que consegue fazer isso? — Ele pergunta e ergue as
mãos. Sua reação é totalmente contrária a que deveria ter. Ao invés de continuar
recuando ou falar para eu não atirar, ele simplesmente começa a andar em
minha direção, fazendo-me recuar e tremer ao mesmo tempo. Assim que ele
está a alguns centímetros da arma, vejo sua expressão séria me encarar com os
olhos enevoados escondendo o que realmente sente. — Atira. — Ele fala e dá
mais um passo, fazendo com que o cano da arma aponte para seu peito,
diretamente no coração. — Anda, atira. — Ele repete, dessa vez com a voz
firme. — Sabia que não teria corag… — Ele para de falar assim que eu aperto
o gatilho. Seus olhos se arregalam e sinto meu coração se apertar.
O que foi que eu fiz?

232
Capítulo Vinte e nove

Zared olha para mim boquiaberto, sem acreditar no que eu havia acabado de
fazer, e para ser sincera, nem eu. Ele desce o olhar para a arma, depois olha
para mim antes de puxá-la de minhas mãos. Ele mexe nela, verifica munição, a
destrava e atira, fazendo com que o tiro pegue de raspão na lateral da minha
coxa. Caio no chão gritando e levo as mãos ao lugar atingido. Ele joga a arma
em algum canto do quarto e senta na cama passando as mãos no rosto.
— Se você tem a intenção de atirar nas pessoas, não use armas que não
sabe mexer. — Ele diz com a voz quase que inaudível, como se estivesse
magoado. — Não acredito que iria me matar. — Então olha para mim de uma
forma estranha, então se levanta e tranca a porta do quarto antes de ir para o
banheiro e se trancar lá. Sentia uma dor insuportável em minha coxa, e por mais
que meu choro fosse alto, os gritos de Zared e o barulho de coisas se partindo
eram ainda mais altos.
Eu quase matei uma pessoa, não importa quantas coisas ele tenha feito
para mim, isso não muda o fato que quase matei alguém. Nunca me perdoaria
por isso. Eu o odiava, mas o odiava porque conseguia gostar dele mesmo
depois de tudo. Ele sabia que eu não tinha coragem, por isso mandou que
atirasse, por isso se aproximou tanto, porque sabia que eu não faria. Aperto os
olhos e encosto a cabeça na parede enquanto levo as mãos trêmulas ao
ferimento.
A dor era terrível, não sabia como explicar; ardia e latejava, obviamente era
uma junção de dores que não consigo decifrar. Puxo a gola da camiseta para a
boca e a mordo na tentativa de abafar o choro descontrolado, tentando me
obrigar a parar de fazer escândalo. Não sei por que estar assim me incomoda,
tiros doem e esse é um motivo para chorar, então por que estou tentando
abafa-lo?
Fico ouvindo apenas os berros do homem trancado no banheiro, já devia
ter destruído todo o cômodo. A porta se abre e ele tenta acertar um vaso de
porcelana em minha cabeça, mas me esquivo e o objeto atinge a parede e os
pedaços caem sobre meu corpo jogado ao chão. Olho para o homem com uma
expressão nova no rosto, como se estivesse magoado, decepcionado e até
mesmo desiludido, era novidade vê-lo assim.
Ele vem até mim, agarra meus cabelos e me arrasta, como se eu fosse uma
mala pesada, para fora do quarto, jogando-me escada abaixo. Rolo degrau por
degrau até o último e dou de cara com o piso do salão. O homem desce as
escadas e ao invés de pular meu corpo caído, ele pisa em mim, torna a agarrar
meus cabelos e me arrasta como lixo pelo cômodo vazio, agora preenchidos
pelos meus gritos agudos de dor. Ele abre a porta do quarto de tortura onde eu
estava e sou empurrada para lá, onde dou de cara com Todd preso, mas dessa
vez, deitado sobre um colchão.
Assim que vê Zared me agarrar pelo pescoço para que eu fique em pé, ele
manda o moreno se afastar de mim, mas como previsto, sua tentativa não
funciona e acabo recebendo um tapa no rosto. Ele agarra meu pulso e tenta me
puxar até o mesmo objeto onde eu estava presa, mas complico sua trajetória ao
máximo para não ir até onde ele quer. Estava sendo quase impossível ficar de
pé graças ao ferimento em minha coxa, por isso minhas tentativas não duram
muito e sou sendo presa ali novamente, mas dessa vez, os cintos estão tão
apertados que prendem minha circulação.
— Vou te ensinar a ter mais respeito por mim. — Ele puxa uma cadeira
ferro até Todd e tenta acertar meu amigo, que o segura antes que entre em
contato com seu corpo. Zared solta uma risada em diversão e larga o objeto
velho, abaixando-se até o homem. — Resolveu agir como homem? — Ele
pergunta entre risadas amarguradas. — Vamos ver se briga como um. —
Quando menos espero, o moreno solta o refém das algemas e se levanta,
esperando um ataque.
Por mais que Todd seja esperto, ele é homem, e homens sentem uma
vontade de mostrar que são capazes, principalmente de se defender, então ele
parte para cima de Zared, acertando-o com um soco no estômago, outro na
região na bochecha, e jogando-o contra a parede de cimento sujo. O moreno se
esquiva dos golpes pesados do homem, sai de onde estava encurralado,
agarrando na cadeira em outra tentativa de acertar o homem, mas Todd age
mais rápido e a tira das mãos do outro, jogando-a no chão antes de tentar

234
acertar outro golpe, que é interrompido por um soco no maxilar, o suficiente
para deixá-lo desnorteado antes de receber três joelhadas na região da barriga e
outro golpe que o deixa desorientado.
Zared solta uma risada, abaixa-se na frente de Todd e o força a olhá-lo no
rosto enquanto ri de sua perda.
— Você bate bem, mas é só mais um playboyzinho da cidade grande. —
Sei que em uma luta justa, o rapaz teria uma grande chance de machucá-lo, e
duraria mais do que simples 5 minutos, ele é bom em luta, só não é experiente
como Zared.
Ele é arrastado de volta para o colchão e algemado outra vez antes que o
moreno segure sua perna e a quebre, fazendo-me gritar junto com o homem.
Aperto os olhos já inchados e doloridos, sentindo as lágrimas descerem por
meu rosto, abrindo-os devagar, vislumbrando em meio às lágrimas o moreno
abrir o armário e pegar um chicote antes de caminhar em minha direção,
acertando as tiras de couro contra minha pele sem se importar onde pegaria.
Torno a fechar os olhos e gritar até minha garganta arder enquanto ele fica em
silêncio, acertando-me com força sem dizer nada.
— Por favor, para! — Berro assim que ele se afasta para me machucar
novamente. — Para… Por favor, para. — Digo entre o choro. Zared solta uma
gargalhada e se aproxima, abaixando a mão que segurava o chicote.
— Parar? Por que eu deveria? Você tentou atirar em mim. — Ele fala com
os lábios curvados em um meio sorriso. Sei que na visão dele eu merecia passar
por tudo isso, mas se ele não fosse tão estúpido, eu não teria tentando aquilo.
Perdi a cabeça quando ele disse que mataria Todd por estar em seu caminho.
Afinal, ele estaria no caminho para quê? Odeio o fato de parecer uma
tonta, mas quando o assunto é entender Zared, qualquer um parece ter
dificuldade para interpretar as coisas que ele diz, principalmente por ele ser um
homem muito perturbado.
— Por favor… — Tento novamente, mas dessa vez minha voz não se
passa de um sussurro. Ele continua sorrindo antes de se afastar e balançar a
cabeça.
— Não estou a fim. — Ele ri e acerta mais uma chicoteada em mim, mas
dessa vez as tiras pegam em minhas pernas, acertando a região ferida há pouco
tempo, o que me faz gritar com todo o ar que tenho nos pulmões.
Só não estava mais machucada graças a sua blusa social preta que eu vestia,
impedindo que fizesse contato direto com a pele. Quando solto um soluço e
mordo os lábios para reprimir outro grito, Zared joga o objeto para o outro

235
lado e passa as mãos nos cabelos, puxando-os com força como se fosse um
louco.
— Por quê, Skye? Por que simplesmente não me obedeceu? — Ele
pergunta, descontrolado. — Eu… Eu estava tentando te agradar, te dar uma
noite boa! Iríamos jantar, dançar, e mesmo com aquela ligação, sairíamos daqui,
eu te beijaria, transaria com você e faria com que tivesse uma ótima noite. Mas
você sente prazer em me contrariar e estragar tudo. — Por algum motivo,
aquilo me faz chorar ainda mais. As lágrimas desciam por meu rosto uma atrás
da outra. Não sei por que, mas saber de seus planos para a noite passada me
deixa pior, faz com que meu coração se aperte. Será que ele não enxerga? Ele
mentiu para mim, trancou meu melhor amigo em um quarto de tortura e surtou
quando viu que eu descobri. Ele era o errado, ele quem estragou nossa noite,
não eu. — Mas eu não sou ele, e não importa o que eu faça, você nunca vai
gostar de mim. — Ele diz mais baixo.
Respiro fundo e levanto a cabeça para olhá-lo e obviamente minha
expressão era vazia e carregada de desprezo, magoa e decepção.
— Como quer que eu mude de ideia se você só me machuca? — Pergunto
olhando em seus olhos mel. — Se eu tentei o que tentei foi porque você não
faz nada além de tentar acabar comigo e está conseguindo.
Zared tinha os lábios curvados pra baixo e o queixo contraído, como se
estivesse prestes a chorar, no entanto, o motivo era ele estar com raiva. Ele
funga, balança a cabeça e sai do cômodo. Ouço o barulho das correntes e vejo
Todd se deitando no colchão com dificuldade.
— Vocês transaram? — Ele pergunta após meia hora de gemidos de dor
vinda de ambas as partes, virando a cabeça em minha direção. Fecho os olhos e
balanço a cabeça, não estava a fim de ver sua cara de nojo ao saber. — Ele te
forçou? — Nego e sinto o nó se formar em minha garganta. — Você gosta dele,
não gosta? — E como um flash, a noite em que ele disse que me adorava
repassa em minha mente, fazendo-me voltar a chorar. — Como consegue
gostar de alguém como ele? — Posso notar um pouco de decepção em sua voz,
mas nada como repulsa.
— Ele nem sempre é assim… — Respondo após uns minutos. — Não é
romântico, mas quando estamos sozinhos, ele vira outra pessoa, e eu gosto
dessa pessoa que ele se torna… Só eu conheço. — Respondo sentindo-me uma
idiota por estar falando sobre isso logo para o cara por quem estou apaixonada
e que está aqui por minha causa.
— Ele tem sorte por ter tido a chance de te tocar. — Abro os olhos e ele
desvia a atenção para o teto. Queria poder dizer alguma coisa para confortá-lo,

236
mas não sei o que falar, não posso tocá-lo, isso mataria Zared, e confesso que
não quero que ele morra, mais uma burrice de minha parte, mas realmente não
queria que ele morresse.
— Se eu conseguir com que ele deixe você ir… Você vai? — Pergunto
torcendo para mudar de assunto, e para que ele diga sim.
— Ele não te merece, sabe disso, não sabe? — Quando estou prestes a
falar algo, a porta se abre e Zared entra e vai direto até meu amigo como um
furacão, segurando um chicote de espinhos na mão.
Arregalo os olhos e grito assim que o objeto é acertado com brutalidade
no rosto de Todd. Zared estava descontrolado, o rapaz que apanhava não
demorou a estar mais machucado e sangrando graças aos golpes horríveis que
recebia. Assim que para, o moreno está ofegante, entretanto, isso não parece
impedi-lo, o objeto cai de sua mão e ele parte para cima, acertando vários socos
no rosto já deformado, inchado, cheio de hematomas e feridas, de Todd.
— Você não é ninguém para dizer que eu não a mereço, seu moleque! —
Zared grita e continua a espancar meu amigo. Ele estava ouvindo tudo? — Ela
é minha, seu merda, e não vou perdê-la por sua causa.
— Solte-o! — Zared se vira para me olhar e sai de cima do outro, tirando
meu amigo quase desorientado dali e o prendendo na cadeira novamente. Não
sei o motivo de ter trocado de lugar, mas ver a expressão sombria e maliciosa
em seu rosto me deixa com medo, e assim que ele vira a cadeira em direção ao
colchão, fico ainda mais confusa. O moreno vem até mim, me solta dali e me
arrasta para o colchonete velho, deita-me lá e me prende, e tira um vibrador do
armário. Ele olha para mim com um sorriso maligno antes de se aproximar e se
ajoelhar a minha frente, rasgando a manga da blusa que eu usava para cobrir a
ferida.
— Vamos brincar um pouco, Baby Girl. — Ele olha para Todd, então para
mim, e leva as mãos para os botões de sua blusa em meu corpo, fazendo-me
lembrar que não estava usando lingerie. Assim que o último botão é aberto,
Zared se debruça sobre mim e beija meus lábios com calma, deslizando uma
das mãos para meu seio, massageando-o.
A princípio, eu sentia uma onda de calor apenas com seu beijo, mas estava
errado, ele estava fazendo tudo isso na frente de Todd, e sinto-me suja por ter
que retribuir. Zared se afasta, lambe um de seus dedos e o desliza para o meio
de minhas pernas, abertas o suficiente para ele me tocar no ponto mais sensível,
fazendo-me engasgar. Seus lábios molhados se curvam em um sorriso malicioso
e roçam em meu pescoço antes de distribuir pequenos beijos que seguem o
ritmo de seu dedo em meu clitóris. Mordo a língua para evitar soltar um gemido,

237
sentindo meu corpo responder aos toques do moreno, mesmo sabendo que não
deveria por estarmos na frente de outra pessoa.
— Vamos fazer o seguinte, vou brincar com você por um tempo, se você
gozar, eu mato seu amigo, se ficar meia hora sem chegar ao limite, eu o solto.
— Ele sussurra em meu ouvido. Só pode estar de sacanagem. Ao terminar de
falar, ele para os movimentos com o dedo, abre minhas pernas e vai se
abaixando, deixando beijos e pequenas mordidas por todo o caminho até onde
ele queria. — Porra, eu amo essa tatuagem. — Ele sussurra e passa a língua
sobre ela, fazendo-me olhar para Todd, que desce os olhos até a tatuagem.
Zared continua a descer até que eu possa sentir sua respiração contra
minha parte baixa totalmente exposta. Ele olha para mim enquanto passa a
língua em minha intimidade, observando-me ficar com a respiração falha e
pesada. Ao ter a reação que queria, ele começa a me estimular. Arquejo ao sentir
sua língua ali e acabo afastando-me, fazendo com ele passe os braços em torno
de cada coxa minha, puxando-me para ele novamente e me mantendo ali sem
que eu consiga sair.
Sinto-me uma idiota por gostar de alguém tão podre como Zared. Estou
sendo humilhada e exposta. Gosto da sensação que ele me disponibiliza
fazendo essas coisas, mas só quando estamos sozinhos. Isso era um jogo para
ele e eu sabia que não chegar ao orgasmo com esses toques seria quase
impossível. Sua língua faz movimentos circulares por minha entrada e um dedo
para acaricia meu ponto sensível. Jogo a cabeça para trás e me forço para não
gemer, no entanto, Zared deixa um chupão e um gemido baixo pronunciando
seu nome espaça de meus lábios e sinto vontade de chorar. Todd olha para o
lado e pisca diversas vezes, tentando ao máximo não ver o que acontecia.
— Para, por favor, para. — Praticamente imploro, mas o homem no meio
de minhas pernas não liga, simplesmente finge que eu não disse nada. Esse era
o Zared que eu odiava com todas as minhas forças, ou sou idiota o suficiente
para não perceber que ele sempre foi o mesmo, só não estava com raiva antes.
Talvez seja isso, ele sempre agiu da forma dele.
— Não me dê mais motivos para machucar você — Ele diz, mas é ele que
escolhe os motivos, não eu.
Seja você mesma, ele dissera para eu ser eu mesma para ele gostar de mim, mas
quando faço isso, acabo me machucando.
Com certa dificuldade, vejo-o pegar algo ao seu lado, e ao fazer isso, ele
mexe e sobe até minha boca. Sou obrigada a corresponder por medo de ele
fazer algo mais contra Todd. Ele sorri entre o nosso contato e sinto-o
introduzir algo que me faz parar de beijá-lo, mas ele me obriga a continuar.

238
Sinto algo vibrar dentro de mim e arregalo os olhos, o que faz o moreno
apertar um botão e aumente a intensidade. Seus lábios saem dos meus lábios e
vão para meu pescoço, onde sua língua passa por toda a pele antes de mordiscar
e chupar.
Mordo os lábios, aperto os olhos e solto um grunhido, ele continua
aumentando até colocar o objeto no último. Aperto as unhas nas palmas das
mãos e me forço para não dar a ele o som que quer tanto escutar, pois sei que
apenas o ajudaria a jogar na cara de Todd que ele consegue tudo o que quer.
Quando não sinto mais seu peso sobre mim, abro os olhos e vejo-o descer a
calça de moletom e começar a se masturbar em minha frente. Quando solto
outro grunhido, Todd olha para mim com os olhos suplicantes e sei que tudo
aquilo estava magoando-o e não posso fazer nada para mudar isso.
Zared abre um sorriso presunçoso, olhando para mim enquanto
movimenta sua mão por todo seu comprimento. Não consigo tirar os olhos
daquela parte, por algum motivo, vê-lo se tocando deixa-me até que excitada,
claro que não vou demonstrar porque é algo podre de minha parte. Seus olhos
caem sobre mim e sei que ele não está mais ligando para o cara ao nosso lado,
está concentrado demais no que estava fazendo e posso ver seu sorriso diminuir
para algo mais arrependido, mas seu orgulho não permite que ele pare.
Ele se apoia no braço livre e deixa um beijo em meus lábios antes de
esconder a cabeça na curva de meu pescoço. Percebo que ele parou de se tocar
quando sua mão puxa o vibrador de dentro de mim e o desliga, mas antes que
eu possa falar alguma coisa, sinto sua grande em minha entrega e logo meu
corpo congela. Ele ia transar comigo ali? A resposta chega no momento em que
ele se empurra para dentro de mim, mordendo meu ombro com um grunhido.
— Sai de cima dela! — Todd grita, mas a única coisa que preciso é que ele
cale a boca e não torne as coisas mais complicadas do que já são. Zared começa
a se mover devagar, depois recua devagar e volta com mais brutalidade,
acariciando minhas coxas.
— Zared… — Gemo em um tom mais alto do que pretendia e abro meus
olhos imediatamente, vendo Todd olhar para mim e agora, a repulsa está
estampada em seu rosto. Mas sou distraída ao sentir a boca do moreno abrir um
sorriso largo.
— Eu te adoro, Skye… — Ele geme com os lábios colados em meu
ouvido para ter certeza que ouvi. Não sei o que responder, odeio a forma com
que ele está agindo, obrigando alguém a ver isso, mas escutar isso me deixa
confusa.

239
Ele me deixa confusa, sei que ele teve uma boa intenção ao me levar lá
para cima, mas quando acha que está arrumando as coisas, ele bagunça tudo. Se
a noite passada tivesse dado certo, o que estaria acontecendo com a gente? Ele
arrumaria algum motivo para me bater? Ou estaria sendo legal como antes? É
exatamente por não saber a resposta que agarro seu braço, já que as algemas
não me permitem mover mais do que até seu ombro.
— Eu te adoro, porra. — Ele geme novamente e aumenta suas investidas,
fazendo-me gemer mais. Zared levanta a cabeça e me encara, beija meus lábios.
Ele não estava mesmo se importando com outra pessoa vendo tudo isso?
Porque eu estou e não consigo sentir exatamente todo o prazer que costumo
sabendo que meu amigo está aqui. Meu corpo fica tenso e arqueio as costas,
sentindo meu limite chegar.
Ele percebe que estou atingindo o orgasmo e não diz nada, continua no
seu ritmo até se contrair e gemer enquanto atinge o seu. Ele beija minha
bochecha e sai de cima de mim, subindo a calça. Quando penso que ele vai rir
de mim, ele me livra das correntes, fecha a blusa e aperta a manga da camisa
para amarrá-la minha coxa. — Vem. — Ele diz, tentando me puxar, mas recuo.
— Para onde? — Pergunto com a voz trêmula. Ele me olha e pega em
minhas mãos novamente, mas não me puxa até responder.
— Para o nosso quarto. — Olho para Todd, puxando minhas mãos de
volta para meu corpo. Fazendo com que sua expressão relutante dê lugar a raiva.
Meu amigo me olha surpreso, minha vontade de ficar aqui para, protegê-lo. —
Prefere ficar aqui e vê-lo morrer do que ir para o quarto e ficar comigo? — Ele
rosna, fechando as mãos em punho. Encolho-me contra a parede e balanço a
cabeça.
Ele se vira para meu amigo, depois para mim, posso ver em seus olhos a
dor de não ter sido escolhido.
— Para o inferno vocês dois. — Ele diz e acerta um soco no rosto de
Todd, solta-o da cadeira e o joga em cima de mim. — Aproveite o resto do seu
tempo. — Ele diz para meu amigo, vai até a segunda porta e antes de abrir, ele
se vira e olha para mim. — Não me impressionaria se desse para ele também,
vendo a puta que se tornou. — Olho para baixo e só escuto a porta bater. Vou
até Todd e o abraço, começando a chorar novamente. Ele geme de dor e
quando penso que está com raiva de mim, sinto seus braços me apertarem.
— Desculpa por ele ter feito você ver tudo isso, e por estar passando por
isso por minha causa.

240
— A culpa é dele, não sua. — Ele tenta me reconfortar, mas não adianta.
— E valeu a pena o mês que passou comigo, foi bom saber que confiava em
mim para aparecer. — Escondo o rosto em seu pescoço e acaricio seus cabelos.
— Foi isso que te colocou aqui, pode se mostrar irritado por isso? —
Praticamente peço para que ele fique irritado, grite comigo e fale que tudo isso
é culpa minha, mas ele não faz isso.
O tempo passa e ninguém diz nada, ele não parece magoado com o que
está acontecendo a ele. Aproximo-me dele e apoio minha cabeça em seu ombro,
sinto seus lábios beijarem o topo de minha cabeça. O cômodo é escuro, a única
janelinha protegida por barras de ferro mostra que o dia já havia se passado e
Zared não havia dado sinal, e sou grata por isso.
— Lembra que no dia seguinte ao baile você acordou ao meu lado na
minha cama e achou que tínhamos transado e ficou meia hora chorando
repetindo que havia dormido com o namorado da sua melhor amiga? — Ele
diz com a voz fraca e solta uma risadinha.
Lógico que lembro, eu havia vomitado no banheiro e ele pediu para a irmã
me dar banho, ela não quis emprestar uma roupa, então dormi com uma blusa
dele e quando havia acordado, ele estava ao meu lado só de cueca. E acabou
que ele também tinha passado mal e a irmã dele pensou que eu fosse namorada
dele, já que ela não conhecia Alison, e o colocou ao meu lado.
— Enquanto você chorava, eu fingia estar abalado, mas a verdade é que eu
queria muito que aquilo tivesse acontecido.
— Não faz isso, por favor. — Peço. Sua voz está com um tom de
despedida e não quero que ele pense que vai morrer. Ele não pode.
— Eu te amo, Skye… — Ele diz com os olhos cheios de lágrimas. Eu não
sabia como respondê-lo, então apenas viro seu rosto em minha direção e beijo
seus lábios.
Ele leva uma mão para o meu rosto e intensifica o nosso contato. Sua
língua não tocava a minha com tanto desejo ou necessidade como Zared, mas é
um beijo gostoso e tranquilo. Assim que paramos, abraço-o e ele faz o mesmo,
até que a porta se abre e a luz é acesa. Meus olhos doem por causa da luz e os
fecho, mas vejo o moreno olhar para nós e logo atrás dele, Isaac entra junto
com outros dois carregando um caixão. Assim que me acostumo com a luz,
percebo que Zared está logo a minha frente e sou empurrada para longe de
Todd, que é puxado para ficar de pé e ele cai por causa da perna quebrada,
então é arrastado para perto do caixão, e quando o moreno começa a socar seu
rosto, tento ir até eles, mas Logan me impede.

241
Grito o máximo que consigo para ele parar, mas não adianta. Zared pega
seu canivete e perfura alguma parte que não consigo ver. Isaac olha para mim e
vai até Zared, mas acaba levando um soco e tem a bochecha cortada com o
canivete. Ele joga meu amigo para dentro do caixão e se vira para mim, posso
ver o ódio sem nem olhar seu rosto, assim que ele segura meu braço, começo a
socá-lo e acabo revendo um tapa no rosto, fazendo com que Logan se
aproxime exatamente como Isaac. O homem não diz nada, apenas me arrasta
para perto do caixão e me coloca lá dentro junto a Todd e fecha-o. Meu amigo
ainda estava vivo, mas o nosso oxigênio poderia acabar a qualquer momento.

— Perdoe-me. — Acaricio o rosto de Todd, mas ele não me responde. Sua


respiração estava falha e sinto meu corpo entrar em desespero assim que ele
quase não dá mais sinal. — Zared! Pelo amor de Deus! Zared! — Começo a
berrar enquanto estapeio a tampa do caixão. — Zared, eu te imploro, abre por
favor! — Continuo até que a luz bate em meus olhos e o moreno me encara
sem expressão. Agarro em sua blusa branca e olho em seus olhos que só
demonstram frieza. — Tire-o daqui, não me faça perder outro amigo, por favor.
— Imploro, mas ele não esboça nenhuma emoção.
— Não tenho motivos para isso. — Ele diz e me empurra de volta, mas
consigo impedi-lo.
— Faça isso pela única parte minha que não consegue ficar sem você, por
favor. — Tento novamente.
Não estava mentindo, tinha uma parte minha que realmente o deseja. Ele
respira fundo, tira Todd dali e torna a me trancar dentro daquele objeto. Fecho
os olhos e continuo a chorar. Após um tempo, o caixão torna a ser aberto e
Zared aparece junto com Nolan, o moreno joga um balde de sangue fresco em
cima de mim, seu amigo o ajuda a jogar partes de um corpo masculino, menos a
cabeça.
Ele solta uma risada sombria e joga o colar de Todd em meu rosto, antes
de me trancar ali com o corpo mutilado de meu amigo. Ele matou Todd,
mesmo depois de eu lhe ter implorado. Agarro o colar e começo a berrar
enquanto soco a tampa do caixão, sentindo o sangue escorrer para meus olhos.
Nesse momento, uma parte minha se desliga e sinto minha mente mudar,
deixando-me descontrolada. Eu havia morrido, restando a parte louca.
— Eu vou matar você seu desgraçado! — Grito até minha garganta arder.

242
As farpas da madeira vagabunda do caixão entram sob minhas unhas
enquanto arranho a tampa. Não aguentava mais estar ali, não tinha mais ar puro,
o sangue de Todd sobre meu corpo estava seco, e seus restos em estado de
decomposição. Já não tinha mais o que chorar, não tinha mais o que lamentar.
Meu corpo só estava ativo por causa do ódio que o dominava. Meu cérebro
tinha apenas a parte agressiva funcionando.
Passei um mês lutando contra isso, atormentando meu falecido amigo nas
horas mais inesperadas e ele cuidava de mim como se aquilo não fosse nada.
Todo seu esforço foi para eu acabar presa em um maldito caixão com seu corpo
mutilado me sufocando com o ar podre, e com uma mente sem controle.
Minhas cordas vocais estavam tão ruins quanto minha sanidade, já não
conseguia mais gritar ou falar. Continuo esmurrando a madeira até ser
interrompida ao escutar vozes se aproximando de onde eu estava. Era Zared e
Isaac, o garoto parecia menos aborrecido que ontem, até mesmo ansioso.
— Sai! — Escuto a voz autoritária de Zared ecoar logo ao meu lado,
causando um fervor em meu sangue. O barulho de correntes pesadas caindo no
chão de cimento me dão a certeza de que o moreno está prestes a abrir o caixão,
e quando o faz, seu rosto se contorce com o cheiro podre que exalava e se
misturava com o cheiro de urina, no entanto não demora para ele se recompor
e olhar em meus olhos.
Os seus estavam vazios, não demonstram nada, sei que ele vê nos meus a
insanidade.
— Agora que se acalmou, poderá sair daqui. — Ele estende a mão para
me ajudar. Ignoro o seu gesto e saio de lá com dificuldades, fraca. Estar parada
a sua frente só me fazia ficar encarando seus olhos e aquilo me irritava. Ele
tenta se aproximar, mas recuo no mesmo momento, outra tentativa vem logo
em seguida, e recuo novamente, esbarrando no caixão, fazendo-o cair e o corpo
de Todd ir para o chão.
O que mais me surpreende nisso tudo é que estou recuando, todos os
meus impulsos me mandam avançar nele, eu queria isso, mas a outra parte
minha sabia que com o corpo fraco dessa forma, eu provocaria apenas
aranhões e não era isso o que queríamos.
— Não vou te machucar, não tenho mais motivos para isso. — Ele se
aproxima com calma. Continuo com minha atenção no caixão e quando seus
dedos tocam meu antebraço, afasto-me e arranho seu rosto antes que possa
pensar, deixando marcas visíveis na região de sua bochecha. Depois de fazer
isso, corro até as partes de meu amigo e as pego, apertando-as perto do peito
para que eu possa colocar tudo dentro do caixão novamente.

243
Zared fica me olhando com indiferença, como se ele estivesse vendo uma
pessoa doente ou até mesmo perigosa. Coloco as partes que caíram de volta ao
lugar onde estava antes e me mantenho ali por ser longe o suficiente do moreno.
— Baby Girl, só quero cuidar de você, não vou te machucar. — Ele diz
estendendo as mãos, pedindo para que eu me mantenha calma. Eu não estava
calma, nem física, tampouco mentalmente, ele não tem o direito de me pedir
coisas que não posso fazer.
Meu corpo não se mexe até ele se aproximar, e quando está para abrir um
sorriso, eu avanço para cima dele, cravando minhas unhas em sua pele,
arranhando-o o máximo que consigo até ser interrompida. Ele segura meus
pulsos e me imobiliza, impedindo que eu tente outra coisa.
— Mas que merda deu em você? — Ele rosna e prende minhas mãos com
uma algema. Quero dizer para ele ficar longe de mim, que eu o odeio mais do
que antes e que nunca mais tocará em mim, mas não falo, simplesmente
continuo calada, debatendo-me na tentativa de me livrar da algema que apenas
se aperta mais em meus pulsos.
Seus olhos descem até o colar de Todd pendurado em meu pescoço antes
de me puxar para fora daquele quarto. A casa estava repleta de empregados e
todos fazem uma cara de nojo ao sentir o cheiro nojento que vem de mim, mas
não deixavam de ter a pena estampada no rosto. Ao chegarmos a escada, vejo
Isaac olhar para mim e ficar mais tranquilo, não totalmente por me ver em um
estado tão deplorável.
Minha mente fica menos agitada em ver alguém ali que tenha ajudado a
mim e a Todd, afinal, nele eu posso confiar. Zared me puxa para que eu volte a
subir os degraus, quase me levando ao chão, o que não acontece por ele me
segurar no mesmo instante. Afasto-me de suas mãos e o empurro para longe de
mim e subo alguns degraus sozinha, no entanto, ele me alcança e me puxa pelos
cabelos, fazendo-me tropeçar e cair escada abaixo. Ainda caída no chão, coloco
a mão na cabeça e gemo de dor, ele desce e tenta se aproximar, mas ameaço
chutá-lo. Ele segura meus tornozelos e senta sobre meu corpo.
— Presta atenção. — Ele segura meu queixo, força-me a olhá-lo. — Eu
não quero te machucar, mas você não está me dando escolha. Então pare de ser
tão complicada. — Olho em seus olhos, cuspo em seu rosto e abro um sorriso.
Ele limpa o e se controla para não me bater, o que me faz gargalhar. Ao
sair de cima de meu corpo, sou colocada de pé novamente e nesse mesmo
instante, ouço uma voz familiar ecoar pelo salão vazio. Viro-me para ter a
certeza de que era quem eu estava pensando, dando de cara com Alexander, que

244
para de andar assim que me vê, mas ao perceber o moreno me segurando, ele
abre um sorriso debochado, passa por nós para entrar em um quarto.
Sem dizer uma palavra, subo as escadas sendo puxada por Zared. Ele me
leva para o mesmo quarto onde tentei atirar nele e me guia direto para o
banheiro. Não vou dizer que não estou mais aliviada por saber que irei ficar
limpa outra vez, pois estou. Ele se aproxima e tenta tirar sua blusa que está em
meu corpo, no entanto, para assim que me vê tentar atacá-lo novamente.
As algemas que apertavam meus pulsos são abertas, e sem pensar duas
vezes, sou deixada sozinha. Tiro a blusa e entro na banheira, evitando me olhar
no espelho. A água está morna, mas a visão de uma água limpa não demora
para dar lugar a algo sujo assim que começo a me lavar, sinto o pânico tomar
conta de mim, meus olhos se arregalam encarando a cor vermelha. Levanto
minhas mãos e analiso toda a parte suja de meu corpo enquanto gotas
vermelhas caem do meu cabelo. Abro o ralo e por ter muita sujeira para tirar de
mim, opto por usar o chuveiro, mas não me levanto enquanto me limpo.
Esfrego bem meu corpo com a esponja e lavo o cabelo pelo menos umas
três vezes para ter certeza que está completamente limpo. Ao desligar o
chuveiro, torno a fechar o ralo da banheira, abro a torneira e ajeito-me de uma
maneira desconfortável, mas meu tempo de descanso não dura muito, escuto a
porta ranger ao se abrir, em seguida, Zared entra com uma de suas blusas e uma
cueca dobradas e com uma toalha. As coisas são deixadas sobre a pia e ele torna
a sair sem nem olhar para mim.
Viro-me para certificar que a porta está fechada e que não tem ninguém
prestes a entrar, abro o medalhão do colar de Todd e vejo pela primeira vez que
as fotos ali eram eu e ele, de um lado, a noite do baile, do outro, nós dois pouco
antes de eu começar a viver um inferno. Seus braços me abraçam enquanto ele
beija minha bochecha e eu ria.
Fico olhando para a foto e sinto meu peito se apertar e começo a chorar.
Seguro firme o medalhão e fixo meus olhos na água que agora já está perto de
meu peito. Sem pensar duas vezes, escorrego para baixo dela pronta para acabar
com isso. Logo meu corpo está implorando por ar e me forço a continuar ali,
só falta mais um pouco para toda essa dor passar quando braços tatuados me
puxam para fora da banheira, puxo o máximo de ar que consigo, enquanto o
moreno senta no chão e me coloca em seu colo, apertando-me contra seu peito.
Ele não diz nada, apenas tiro seus braços de mim e me apoio no vaso para
poder levantar.
Zared fica parado me olhando de uma forma preocupada, no entanto, se
levanta, pega na tolha e estende em minha direção, evitando olhar para mim.

245
Pego-a de sua mão e fico observando com cautela o homem limpar os
arranhões que sangram e olhar para mim enquanto seco meu corpo, mas todas
as vezes que me via com a atenção nele, ele desvia o olhar. Assim que estou
completamente seca, fico parada ainda nua a sua frente e me aproximo devagar,
pegando a roupa para vestir, e como sempre, seu cheiro está nelas.
Ele tenta se aproximar, mas recuo e posso ver que minhas reações com
suas tentativas de aproximação estão lhe afetando. Vou para o quarto, seguida
por ele, e sento-me na poltrona, encarando a cama sem intenção de me deitar
nela.
— Toma. Fiz enquanto tomava banho. — Ele coloca uma bandeja de
macarrão a bolonhesa em meu colo. Desço minha atenção para a comida e
depois para ele, que continua parado a minha frente, provavelmente angustiado
por eu não ter dito nada até agora. Pego no copo de suco e jogo contra a
parede, e em seguida, seguro nas laterais do objeto em meu colo e jogo em cima
do moreno, sujando-o todo com a comida.
— Vá para o inferno. — Digo com a voz rouca e ele me olha sem saber
como reagir, e por sua expressão, ele havia notado algo diferente em mim, mas
ao invés de descontar a raiva me batendo como costuma a fazer, ele só suspira e
vai para o banheiro.
No momento em que o barulho de água começa, caminho até os cacos do
vidro do prato, pego em um e passo a parte cortante pelo meu antebraço,
fazendo com que o sangue escorra. Não sei o motivo de estar fazendo isso, mas
gosto da sensação. Olho para a parede branca e subo na cama, deixando o
sangue pingar por toda a colcha. Uso três dedos para recolher um pouco do
sangue e escrevo ASSASSINO antes de sair do quarto e descer as escadas
tomando cuidado para que ninguém me veja.
— Senhora Winter, posso ajudá-la em alguma coisa? — Ouço uma mulher
de meia idade perguntar. Olho para ela e levo meu indicador sujo de sangue
para os lábios, pedindo para que ela faça silêncio.
Ela assente e se retira. Olho para a porta onde vira Alexander entrar e
caminho até ela. Por sorte, está aberta, permitindo-me entrar no cômodo
escuro sem dificuldades. Não me dou ao trabalho de fechar a porta, e a luz que
entra não acorda o homem esparramado pelo colchão. Subo na cama e vou
para perto do barman que se dizia amigo meu e de Alison, e sento-me pouco
acima de seu membro. Pego o travesseiro ao seu lado e vejo-o abrir os olhos,
que se arregalam assim que me vê.
— Ela confiava em você. — Enfio o vidro em sua garganta e coloco o
travesseiro sobre seu rosto para sufocá-lo. — Você merecia algo pior que isso.

246
— Digo enquanto pressiono o travesseiro com mais força. O homem se debate
embaixo de mim, mas aos poucos vai parando e não percebo o sorriso
estampado em meu rosto até escutar a voz grossa do moreno logo atrás de mim.

Zared
Ao me escutar chamar por ela assim que a vejo sentada sobre Alexander, Skye,
que antes era inofensiva e ingênua, se vira para poder me ver e o sorriso
psicótico que toma conta de seus lábios se desfaz. Ela sai de cima do homem e
esconde as duas mãos atrás do corpo, ficando ali parada a analisar-me. Seus
olhos estão mudados, a pureza que eles carregavam some para dar lugar a algo
ameaçador. É como se já não fosse mais a mesma pessoa. No entanto, seu rosto
fica facilmente com um expressão de inocência, que mesmo fingida, me faz
lembrar da minha antiga garota. Olho para o corpo do homem que já não se
mexe mais, depois para ela, que vem se aproximando de mim a passos lentos.
— Eu ainda sou sua garotinha, não sou, Daddy? — Sua voz rouca ainda
me incomoda, mas sei que é ela, então isso é apenas um dos detalhes que vai
passar com o tempo. — Não sou? — Ela para a minha frente com um pequeno
sorriso. Levo a mão a seu rosto e acaricio sua bochecha.
— Sim, você sempre será minha única garotinha. — Respondo e abro um
sorriso mínimo ao sentir sua mão acariciar meu braço. — Sempre. — Repito.
O sorriso no rosto dela se torna algo mais sombrio e ela crava as unhas em
meu braço, atingindo-me com um pedaço de vidro que segurava com a outra
mão, me causando um corte na barriga. Em seguida, parte para cima de mim,
que apenas recuo para não acabar fazendo algo que a machuque ainda mais.
Quando ela tem a chance de me machucar, ela arregala os olhos, olha para a
mão que segura o vidro, que havia cortado sua mão, e o solta, colocando sua
atenção sobre mim.
Seus olhos transbordam o medo e o pavor que a verdadeira Skye carrega
quando tenta algo do tipo e ela cai no chão em um choro desesperado. Não sei
como reagir.
— Skye… — Chamo sua atenção e abaixo-me a sua frente, mas ela se
afasta como se estivesse vendo um monstro.
— Fica longe de mim. — Ela implora, segurando o colar do amigo como
se fosse uma forma de me dizer que eu a perdi por ter feito o que fiz. — Eu
estou maluca. — Ignoro seu pedido e me aproximo dela, colocando as mãos
em suas coxas.

247
— Baby Girl… — Tento falar mais uma vez, mas ela me interrompe e se
afasta do meu toque. Por algum motivo, aquilo dói mais do que o fato de ela ter
me machucado. Ela leva as mãos trêmulas para trás do pescoço e tira o colar
que dei a ela e o coloca em minha mão, ficando apenas com o que era do idiota
do Todd, fazendo com que a dor de antes piore.
— Não sou mais a sua Baby Girl, Zared, nunca quis ser. Então pelo
menos uma vez faça algo por mim e mate-me, porque eu não aguento mais
viver assim. — Ele pede entre o choro, com a voz carregada de certeza do que
havia me pedido.
— Você não tem o direito de me pedir uma coisa dessas. — Olho para ela,
que não para de chorar. — Não pode me pedir isso. — Por algum motivo, no
momento não consigo me ver tirando a vida dela, é estranho me sentir assim,
como se pela primeira vez na vida, eu me importasse com alguém que não seja
eu mesmo.
No entanto sei que morrer seria a melhor opção sob seu ponto de vista,
mas não no meu. Acho que não me vejo mais sem ela, por mais louco que seja.
Não é um sentimento amoroso, é algo egoísta, pois sei que depois que ela
morrer, não poderei ter outra virgem, e se pudesse, ninguém me enfrentaria
como ela faz. Skye me desafia sem saber, estamos em um jogo doentio que eu
mesmo criei e adicionei as regras, e parece que ele virou. Agora é ela quem está
vencendo enquanto eu apenas perco o jeito e esqueço como funcionam as
partidas.
Nunca pensei que poderia ser tão difícil vê-la dessa forma, e para piorar, a
dor que se instala em meu peito; a culpa é minha. Eu quebro as coisas e destruo
as pessoas, mas não planejava quebrá-la. Sou dono de uma alma condenada que
agora depende de uma corrompida. E as poucas chances que me restavam,
evaporaram, trazendo-me lembranças que sempre me assombraram.
— Você é a última pessoa que deve falar sobre direitos, logo você que não
tinha o direito de fazer o que fez, e que tirou as pessoas que eu amava. — Ela
aperta o colar em seu pescoço com mais força, então volta a me olhar, fixando
seus olhos nos meus. — Você me destruiu, e se não fizer o estou pedido, pode
ter certeza que eu irei te destruir e não vou parar até conseguir.
— Boa sorte, vai precisar para encontrar algo que não esteja destruído
dentro de mim. — Respondo ainda encarando seus olhos, guardando o colar
que havia dado a ela no bolso de minha calça. Sua expressão muda para algo
irritado ao perceber que minha resposta serve como um não para seu pedido,
fazendo com que a garota avance para cima de meu corpo, cravando as unhas
em minha pele, arranhando meu pescoço, braços e barriga.

248
Assim que consigo segurar em seus pulsos, ambos nos olhamos com a
respiração ofegante, no entanto, seu momento de calma não dura muito, e logo
estou forçando minhas mãos em seus pulsos para que ela não me machuque, ou
para que eu não a machuque mais. Jogo-a no chão com certo cuidado e me
coloco sobre ela, prendendo suas mãos, uma de cada lado da cabeça. — Escuta,
você querendo ou não, sempre será minha Baby Girl! E vou cuidar de você,
depois disso, não te colocarei mais em nenhuma sala de tortura… Eu prometo.
— Pegue suas promessas e diga para alguém que queira viver ao seu lado,
seu monstro! — Ela berra o mais alto que pode. Aquilo me tira do sério, mas
realmente quero mostrar a ela que não a machucarei, por isso não darei o que
ela tanto quer para que possa me odiar mais do que já o faz. Tiro a algema que
havia pego em cima da cômoda e torno a prender seus pulsos, para levantar a
garota descontrolada e sair do quarto do idiota do Alexander.
Por saber que ela pode tentar algo contra mim durante a noite, e que a
última coisa que ela faria seria dormir comigo, levo-a para o último quarto no
fim do corredor do segundo andar. É um cômodo simples, confortável e sem
cores fortes, contendo apenas uma cama, quadros nas paredes, um armário e o
banheiro. Com a chave em mãos, aproximo-me da única mulher que me tem de
quase todas as formas possíveis, deixo um beijo demorado em sua testa e a
solto, indo direto para a porta.
— Vai ficar tudo bem, Baby Girl, eu juro. — Digo com sinceridade de
fechar a porta e trancar a garota lá. Escuto-a gritar várias ameaças e espancar a
porta. Não peço desculpas, nem pretendo pedir algum dia, no entanto, vou para
meu quarto pensando se fazer isso me ajudará com ela.
No meio do caminho, dou ordens para se livrarem do corpo de Alexander,
limparem o ambiente e para mandarem Isaac me encontrar em meu quarto. Ao
passar pela a porta, meus olhos param imediatamente na palavra ASSASSINO
feita com sangue escorrendo pela parede branca, depois para o chão cheio de
cacos de vidro. Fecho os olhos com um suspiro cansado e me sento na cama,
apoiando os cotovelos nos joelhos, cobrindo a boca com as mãos.
Suas palavras ficam fixadas em minha mente, deixando-me ainda mais
frustrado. O fato é que ninguém quer viver comigo e não quero ninguém ao
meu lado além daquela maldita garota. Quero que ela fique comigo, mas por
vontade própria, quero que ela tome alguma atitude para poder receber o prazer
que apenas eu sei dar, e quero ter a chance de mostrar que sou capaz de fazer
com que ela viva coisas inesquecíveis, por mais que eu não saiba lidar com
muitas coisas relacionadas ao mundo dela. Posso ser um monstro, só que fui
criado assim, não sei lidar com sentimentos novos ou ter que agir de forma

249
diferente com outras pessoas. No entanto, preciso da ajuda dela para saber lidar
comigo mesmo e com essas coisas novas e para isso, tenho que me concentrar
em fazê-la voltar ao normal.
— O que eu faço? — Pergunto em um sussurro antes de esconder o rosto
nas palmas das mãos.
— Senhor? — A voz do garoto ecoa da porta. Sem dizer uma palavra,
levanto-me e torno a sair do cômodo até um dos quartos vagos.
— Precisa saber de duas coisas. Primeira: confio em você, e são poucas as
pessoas que recebem minha confiança. Segunda: se algum dia eu descobrir que
está tramando algo contra mim, irei te matar, entendeu? — Ele balança a
cabeça lentamente. Posso ver o medo e a confusão em seus olhos. Sei que o
rapaz jamais faria algo cruel, está aqui porque diz ter uma dívida eterna comigo,
e mesmo sabendo que nunca colocarei alguém tão inexperiente para lutar,
mantenho-o aqui para me ajudar com outras coisas, e agora precisarei dele mais
do que já precisei algum dia. — Vá pegar suas coisas na casa que divide com os
outros empregados, irá morar comigo em minha casa. A partir de hoje não
precisará fazer nada a menos que eu mande, suas refeições serão junto com as
minhas, e quando estivermos aqui esse será o seu quarto. Seja bem-vindo. —
Dou três tapas em seu ombro e caminho até o corredor. — Estarei te
esperando no carro essa madrugada, esteja lá uma da manhã sem um minuto a
mais.
Mantendo a postura e o garoto se apressa em sair para juntar suas coisas.
Não pretendo mais ficar nesta casa, desde que vim aqui resolver as coisas em
relação ao amigo de Skye só aconteceu merda, e talvez estar em um lugar
conhecido seja bom para ela. Retorno ao quarto em que estava, apressando-me
em juntar minhas roupas e colocar dentro de uma pequena mala. O relógio
marca 00h48 então vou até à garagem, coloco a mala dentro do carro e volto a
subir as escadas em direção ao quarto dela.
Ao destrancar a porta, vejo-a no escuro a chorar.
— Para de me bater! — Ela berra e estende as mãos, tentando se proteger
de alguma coisa. Suas expressões e gritos eram como se alguém realmente
estivesse batendo nela, e me apresso em correr até ela e pegar suas mãos
trêmulas. Abaixo-me e observo seus olhos inchados e completamente
vermelhos, seus braços marcados por arranhões e tinha uma marca vermelha na
testa como se tivesse batido contra a parede ou algo do tipo. — Eu nunca te fiz
nada, Daddy, por que faz isso? — Por mais que eu estivesse a sua frente, seus
olhos olhavam através de meu corpo. Viro-me, mas não vejo nada além da
porta aberta da sacada.

250
— Baby Girl, vamos para casa. — Digo, mas não recebo resposta, ela
continua parada olhando com pavor para trás de meu corpo como se estivesse
vendo algo real. — Ei, Baby Girl… — Chamo outra vez e não recebo resposta,
o que acaba me deixando sem saber o que fazer; ela estava paralisada, presa em
um mundo ou por lembranças, não fazia a menor ideia de que eu estava ali
segurando suas mãos. Levo minhas mãos para cada lado de seu rosto e o
envolvo, aproximado-me mais. — Meu amor, olha para mim. Precisamos ir
embora daqui, então olha para mim. — Tento novamente enquanto acaricio
suas bochechas com os polegares. Ela olha para mim e ao me ver, ali se apressa
em se distanciar de meu toque, tornando a agarrar o colar daquele babaca.
— Não me toque. — Ela diz de forma fria e me olha de cima abaixo com
desprezo.
Afasto-me dela e torno a dizer que precisamos ir embora, sem receber
uma resposta observo-a levantar-se e estender as mãos para que eu a prenda
com as algemas, e assim faço, puxando-a até a garagem onde o garoto já está a
minha espera com uma mochila em mãos. Não falo nada sobre ele quase não
ter roupas, só abro a porta de trás para a garota entrar. Isaac se acomoda no
banco do passageiro, e após fechar o porta-malas, pulo para o banco do
motorista e saio daquela casa que só me trouxe mais desgraça.
O retorno para casa é tranquilo, quando chegamos, está tudo em perfeita
ordem. Mando Scarlett acompanhar Isaac até um dos quartos e levo minha
virgem para o seu. Assim que entramos no cômodo, percebo que sua atenção
cai sobre a rosa branca morta que estava dentro do copo de água, o quarto
estava da mesma forma que ela deixou quando saímos para jantar, a porta do
guarda-roupas aberta, a roupa que Scarlett escolheu para ela, o mesmo cheiro
do perfume que Skye usou naquela noite.
— Agora que já me deixou aqui, pode me trancar e ir foder com aquela
puta loira que trabalha para você. — Ela se vira para mim e estende as mãos em
minha direção.
— Do que está falando? — Pergunto sem entender. Ela abaixa as mãos e
me olha cheia de desprezo, o que era totalmente o oposto da forma que me
olhava antes.
— Você foi um canalha por mandar aquela vadia com quem fode por ser
mais experiente vir me ajudar para sairmos. — Se estivéssemos em outra
ocasião, eu iria abrir um sorriso satisfeito por vê-la com ciúmes. Mas agora,
vendo nossa situação, não vejo graça.
— Baby Girl, a única pessoa com quem eu transo mais de uma vez é você,
e sabe disso. — Respondo com sinceridade e observo-a revirar os olhos,

251
achando que estou mentindo. — E por mais que não tenha experiência, você é
a única garota que vou desejar.
— Nunca dormiu com ela?
— Nunca. — Nego e me aproximo dela para abrir as algemas.
Posso ver uma mudança em seus olhos, mas a forma fria e desprezível que
ela me olha não muda. Ao livrá-la do que a prendia, observo-a garota tirar
minha blusa e minha cueca, ir em direção ao guarda-roupas pegar uma de suas
roupas e vestir uma camisola e uma calcinha. Quero mostrar que posso ser
diferente, por isso apenas saio do quarto e tranco a porta para evitar que ela saia
matando mais alguém.
Era bom estar em casa novamente, gosto de poder estar aqui depois de
tantas coisas que aconteceram. Sem interesse em ir dormir por saber que terei
os pesadelos novamente, desço as escadas e vou até a sala de estar. Coloco
uísque no copo e sento-me na poltrona, bebendo um longo gole antes de entrar
em uma pilha de lembranças que me afastam da realidade, porém, meu
momento não dura muito e logo a loira que Skye parece odiar tanto entra no
cômodo com um pijama minúsculo e caminha em minha direção. Reviro os
olhos e levo o copo a boca, bebendo uma quantidade grande o suficiente para
me deixar meio tonto por alguns instantes. Scarlett senta em meu colo e começa
a brincar com a gola de minha camiseta.
— Ouvi dizer que a virgem do senhor está doidinha. — Ela arrasta a voz
na tentativa de ser sexy, porém esse tipo não me agrada, já estou acostumado a
vê-lo em putas. A única coisa que me excita é a garota que está trancada lá em
cima e que não posso ter até conseguir com que ela volte ao normal. — Aí
pensei que não deve estar sendo fácil não ter alguém para passar a noite e… —
Jogo a mulher no chão e me a abaixo em sua frente, agarrando seu pescoço.
— Se falar da minha mulher mais uma vez, eu mato você. — Rosno e a
puxo para cima, jogando-a na poltrona antes de acertar um tapa em seu rosto.
— E se mentir para ela novamente sobre ter sido fodida por mim, farei com
que prefira morrer, entendeu? — A loira a minha frente balança a cabeça e
acaricia a bochecha. — Ótimo. — É tudo o que eu digo antes de beber o resto
do uísque e jogar o copo na parede.
Depois disso, vou para meu quarto e quando o sol está para nascer, vou
em silêncio para o de Skye, onde a encontro dormindo. Caminho até a cama e
acaricio seu rosto, ajeito a coberta em seu corpo e deixo um beijo em sua testa.
— Eu realmente te adoro. — Sussurro, acreditando que lá no fundo ela
possa ouvir e gostar de minhas palavras.

252
O tempo que parecia se acalmar há dois dias apenas piora, Skye está mais
agressiva, já não dorme, e não come. Não sei como ainda se mantém de pé
após tanto tempo sem se alimentar. E mesmo que eu sempre acabe com algum
arranhão novo, sempre tento falar e fazê-la comer algo. Ando ignorando as
ligações de Leon ou de qualquer um dos outros quatro, não quero ter que me
preocupar com outra coisa além de Skye que precisa da minha ajuda mesmo
não querendo.
Depois do jantar, preparo uma bandeja e subo as escadas em direção ao
cômodo onde a garota está. Os seguranças abrem a porta e fecham assim que
entro no quarto escuro. Acendo a luz e vejo Skye com os cabelos bagunçados,
braços e pernas cobertos por sangue dos arranhões que ela mesma causou. Ao
me ver, a garota levanta e corre em minha direção gritando, e com algo em
mãos que só percebo ser o vidro do espelho do banheiro que enfia em meu
braço. A bandeja cai no chão e sou atingido por uma série de arranhões, tapas e
até mesmo socos. Não devolvo nenhum de seus golpes, apenas me afasto e tiro
o vidro de meu braço.
— Eu vou matar você, seu desgraçado! — A garota grita e se aproxima
novamente. Ela estava realmente com uma aparência horrível, seus cabelos
estavam emaranhados, seus olhos com duas marcas escuras em torno deles, seu
hálito e cheiro não eram agradáveis.
A forma com que estava agindo e se machucando apenas a deixava com a
aparência de uma louca. Seguro em suas mãos, coloco-as atrás do corpo e
prendo-a com as algemas. Estou cansado de ter que prendê-la, preciso dela com
urgência, preciso da minha antiga Skye ou vou acabar ficando pior do que já
sou e jamais me perdoarei pelo que fiz a ela. Ela começa a bater com a cabeça
no armário e a se xingar, fazendo aquilo cada vez com mais força. Tiro-a dali e
prendo-a deitada na cama, mas não parece tirá-la daquela crise. Skye se
contorce e se debate contra o colchão, enquanto grita o máximo que consegue.
— Eu te odeio, Zared! — Ela olha para mim. Não aguentando ver o
ponto em que ela chegou, saio do cômodo direto para o andar de baixo, onde
vou para o bar. Ao chegar lá, passo meus braços sobre o balcão e derrubo
copos e garrafas que se encontram ali em cima dele. Agarro a banqueta e jogo-a
contra a parede, chuto as outras, minha visão está embaçada graças a lágrimas
que nunca imaginei derramar por causa de uma garota. Eu estava chorando pela
a primeira vez em muito tempo.

253
— MERDA!— Chuto a banqueta caída, fazendo com que ela bata contra a
parede. Caminho até a estante lotada por garrafas, pego algumas e as jogo
contra o quadro com minha imagem estampada. — Você é um merda! —
Berro olhando para a minha imagem.
Os poucos empregados estavam paralisados me olhando surtar. Com a
última garrafa em mãos, viro-me para eles de braços abertos e jogo a garrafa
perto de um deles.
— SUMAM DAQUI, SEUS IMPRESTÁVEIS! — Eles se apressam em me deixar
sozinho. Com a respiração falha, sento-me diante da estante de bebidas, limpo
os olhos e levo a mão para dentro do bolso da calça, tiro o colar que havia dado
para a garota, lembro-me ter mandado fazer apenas para ela. Observo as rosas
entrelaçadas entalhadas no medalhão.
A rosa branca estava sendo totalmente envolvida pela a negra cheia de
espinhos, ambas representando pessoas totalmente diferentes. A bela garota
inocente com um grande coração sendo envolvida por um homem frio que a
corrompe, transformando-a em uma jovem insana. Abro o medalhão que com
apenas uma foto, já que ela não tem quem mais colocar no espaço vago. Jogo o
colar do outro lado do cômodo e passo as mãos nos cabelos e volto a chorar de
forma desesperada.
Após um tempo ainda aos prantos, levanto e pego uma garrafa de uísque a
caminho do cemitério. A noite está mais fria que o normal e o vento gelado me
recebe assim que passo pela divisória dos quatro caixões. Bebo uma boa
quantidade do conteúdo da garrafa e sento-me no banco em frente aos túmulos.
— Já não sei o que fazer, mãe, você nunca me disse o que deveria fazer
quando gostasse de alguém, sempre deixou que as palavras do pai parecessem o
correto. Eu só… Só não quero perder aquela garota. — Minha voz sai em um
tom de fracasso.
— Sabe que ela não vai te dar uma resposta, não sabe? — A voz de
Hayden ecoa logo atrás de mim. Olho para ele e volto a beber.
— O que você quer? — Pergunto com os olhos fixos nos túmulos a
minha frente. Ele respira fundo e se senta ao meu lado com as mãos escondidas
nos bolsos do casaco, seus olhos pareciam transbordar pena, o que me deixa
ainda mais irritado, mas ele não diz nada sobre me ver chorando pela primeira
vez em sua vida.
— Leon me mandou aqui ver o que estava acontecendo para você não
estar atendendo nossas ligações. — Solto uma risada sarcástica e volto a beber.
— Encontrei aquele garoto, Isaac, arrumando sua bagunça no salão e perguntei
o que estava acontecendo, ele contou que a Skye não está bem e que você está

254
magoado por estar perdendo-a. — Olho para ele e rio de forma amarga
enquanto balanço a cabeça.
— Ela pode ir para o inferno. — Tento parecer convincente em
demonstrar que não me importo com a garota, mas minha voz sai falha.
— Eu te conheço, Z, sei que aquela garota está mexendo com você. Fala a
verdade ao menos uma vez.
— Ela já não é mais ela, não importa o que sinto. Estou cansado de perder
as pessoas. — Direciono meu olhar para os quatro túmulos a nossa frente. —
Mas dessa vez a culpa é minha, e não quero ter que colocar um quinto caixão
aqui.
— Olha, cara, você pediu para passar por isso. Tem sorte de ela ainda estar
viva depois de tudo pelo que passou. Para ser sincero, eu gosto da forma com
que ela luta para continuar viva mesmo que tenha que viver com alguém tão
ruim como você. — Olho para ele de forma feia, mas não digo nada por saber
que está certo. Se eu tivesse simplesmente cumprido a promessa de deixar Todd
livre, eu e ela estaríamos entrelaçados na cama, fazendo-a me querer ainda mais.
— Ela me pediu para matá-la por não aguentar mais viver assim. — Digo
com a voz embargada.
— Não foi a parte consciente dela que disse isso. Não importa como ela
esteja, se você for sincero, pode ter certeza que ela vai voltar ao normal, apenas
mostre quem você é de verdade e deixe essa fama de durão de lado, mostre que
assim como qualquer outro ser humano, você também tem sentimentos.
— Isso vai trazê-la de volta para mim? — Pergunto como se fosse uma
criança confusa e limpo as lágrimas dos olhos.
— Se ela já tiver sido sua algum dia, então sim. — Ele com um sorriso
amigável. — Só vim dizer que Leon está puto por você estar ignorando as
ligações, atenda a próxima ou ele irá vir aqui. — Balanço a cabeça e observo-o
levantar-se e ir embora.
Fico mais um tempo no cemitério e quando a bebida acaba, vou
cambaleando até o quarto, mas meus olhos não se fecham e acabo me
levantando para ir até o quarto de Skye, que parece estar no meio de alguma
alucinação, e seja lá qual for, ela estava calma e sorrindo assim como a garota
doce que era antes faria se estivesse vendo o amigo.
E posso ouvi-la conversar com alguém com tranquilidade, e quando me
aproximo, ouço-a pronunciar o nome de Todd e aquilo me deixa com ciúmes.
Até percebo que o problema é quando ela me vê, eu que a deixo agressiva, e
talvez seja melhor que ela fique longe de mim. Mesmo não querendo me afastar

255
da garota, é o que faço. Saio do quarto dela e vou até Isaac, que é mais esperto
que Alexander e tranca a porta, fazendo-me socar a porta.
— Senhor? — Ele parece confuso, mas mantém o respeito mesmo vendo
que estou bêbado.
— Preciso que vá ao quarto da minha virgem, ela deve gostar de você
depois que ajudou o amigo. — Seu rosto fica pálido ao descobrir que sei sobre
ele ter ido levar comida aos dois. — Anda logo. — Digo e ele se apressa em sair
do quarto para ir até ela.
Enquanto ele entra, fico escondido vendo a reação da garota, que é
totalmente o oposto de quando me vê, mesmo que esteja meio desconfiada, o
garoto se sai bem em convencê-la que está lá para conversar. Deixo os dois
sozinhos e volto para meu quarto, ligo para Leon e recebo um trabalho, que
aceito, já que terei que passar duas semanas na Europa. Assim que o sol nasce,
encarrego Isaac de cuidar da garota enquanto fico fora e vou embora sem falar
com ela.

Skye
Após vários dias, recebo visitas apenas de Isaac, que consegue me fazer comer
três vezes ao dia. E como recompensa por estar me alimentando de forma
correta, ele me leva para andar pela casa, e depois de me mostrar que há uma
biblioteca, fico lá até dar o horário de voltar para o quarto. E hoje, por ser o
décimo primeiro dia desde que isso começou, Isaac disse que terei uma
surpresa.
Depois de diversas afirmações de que gostarei, ele sai do quarto e me
deixa com a primeira refeição. Na bandeja tem bolo, sanduíche e uma pequena
jarra com suco de laranja. Mesmo que eu não consiga mais me livrar das
alucinações, fico feliz em ter tido paciência e não ter recebido nenhuma visita
de Zared. Nos primeiros dias, minhas alucinações faziam com que a imagem de
Isaac desse lugar ao do moreno e eu o atacava mesmo não querendo.
Durante cinco dias, andei completamente muda, não conseguia me mexer
e isso me levava a fazer minhas necessidades onde eu estava, Isaac passou esse
tempo tirando-me cama, dava-me banho, arrumava-me, escovava meus dentes,
alimentava-me e até mesmo lia livros, colocava filmes e me contando coisas que
já viveu. Por mais que eu não demonstrasse qualquer sinal de que estava bem,
comecei a gostar de sua companhia. Após esses cinco dias, voltei ao normal.

256
Ele me levou para caminhar e quando chorei por causa dos meus amigos, ele
deu um jeito de fazer com que a dor parasse.
Enquanto caminhávamos pelo jardim, não pude deixar de notar que os
túmulos não tinham rosas novas e que alguns funcionários cochichavam
brincadeiras do tipo que Zared poderia morrer na viagem que fazia. Por algum
motivo, senti-me menos desprotegida sabendo que ele não está na casa, mas um
lado meu já sabia disso, jamais andei por aqui com tanta liberdade como ando
fazendo desde que ele viajou. Assim que termino de comer, a porta de meu
quarto se abre, revelando Jackie, que sorri e corre em minha direção, dando-me
um abraço apertado.
— Como você está horrível! — Ela diz com um sorriso enorme no rosto e
me abraça. — Mas seu amigo disse que você está engordando e ficando melhor,
é verdade?
— Acho que isso acaba quando Zared aparecer pronto para me machucar.
— Respondo e mesmo com isso, seu sorriso não diminui.
— Não vamos falar dele. — Ela diz e puxa-me para fora da cama,
arrastando-me até a penteadeira. — Vou te maquiar e arrumar seu cabelo.
Sorrio e afirmo. O dia passa bem rápido, e quando percebo, Jackie está
saindo do quarto prometendo voltar quando Leon sair do pé dela. As horas se
passam e o quarto fica completamente escuro, apenas com a luz da lua que
entra pela janela. Passo por duas horas sendo torturada por alucinações e
quando elas acabam, estou arranhada, a maquiagem está borrada e os cabelos
bagunçados. E isso parece agradar a loira, que entra no quarto com um pote de
cachorro com meu nome escrito.
— Ainda estou tentando encontrar o que Zared viu de tão especial em
você. — Ela diz, jogando o pote com ração misturada com leite em minha
direção. — Pode deixar que quando ele chegar eu irei cuidar dele do jeito que
ele gosta. Bom jantar. — Olho para o pote em minha frente, depois para a
mulher que caminha até a porta e sem pensar duas vezes, jogo o pote de
plástico em sua cabeça. Ela se vira em minha direção e se aproxima, pegando
uma quantidade da ração do chão antes de agarrar em meus cabelos e me fazer
engolir a comida de cachorro.
Nesse momento, só agora, desejo que Zared entre e pegue sua puta
fazendo isso comigo, mas ele não aparece, então acabo por agarrar os cabelos
da mulher e puxá-los até que ela perca o equilíbrio. Após fazer isso, levanto-me,
chuto seu rosto, me abaixo para segurar em seus cabelos e a arrasto para o
banheiro, onde a tranco antes de sair correndo para fora do quarto, e enquanto
desço as escadas correndo, pego-me desejando que o moreno estivesse aqui, o

257
que me deixa ainda mais nervosa por saber que o lado que gosta dele havia
voltado.

Zared
A volta para casa se torna uma total agonia. Durante as duas semanas, Isaac tem
me mantido informado sobre Skye e não consigo conter o alívio de saber que
ela andou interagindo normalmente, mesmo sabendo que isso não funcionaria
comigo. Ela me odeia e perde o controle ao me ver, por isso pretendo manter
distância até que ela decida querer me ver. Assim que estaciono o carro na
garagem e entro, percebo que a casa está agitada, os funcionários ficam
nervosos ao me ver entrar com a mala pendurada no ombro, e ao ver a cara de
Isaac, percebo que tem algo estranho.
— Qual o problema? — Pergunto ao garoto, que fica ainda mais nervoso.
Quando ele abre a boca para responder, Jackie aparece aos prantos.
— Skye está sumida há dois dias. — Paraliso com a notícia. Deixo que a
mala caia no chão e avanço para cima do garoto responsável por ela, agarro em
sua blusa e o empurro até a parede exigindo saber como ela sumiu. — Ele não
sabe, tudo o que sabemos é que Scarlett estava trancada no banheiro e alguns
empregados a viram entrar lá antes da garota sumir. — Jackie diz e me afasta de
Isaac. — Vamos achá-la, Z.
— Viram no cemitério? — Sinto o pavor tomar conta de meu corpo.
— O senhor deu ordens para ficarmos longe do cemitério. — Um dos
empregados diz.
— Não quando minha mulher está sumida, porra! — Grito e saio
correndo para a parte de trás da casa. Eles me seguem, mas ninguém entra no
cemitério. — Baby Girl? — Chamo com o pavor óbvio em minha voz, mas não
recebo resposta.
Quando estou desistindo de ficar lá, percebo alguém se mexer perto dos
quatro túmulos que ficam separados dos outros. Corro até lá e vejo a garota
escondida entre a árvore e os túmulos, ela estava encolhida, o vestido branco
estava sujo de terra e em suas mãos, uma rosa branca. Ela olha para mim com
os olhos inchados e começa a chorar. Pego-a no colo e sinto meu coração
acelerar ao sentir seus braços passarem em torno de meu pescoço.
— Eu sabia que iria me achar. — Ela sussurra com o rosto escondido na
curva de meu pescoço e enquanto caminho até o pequeno portão, ela volta a
falar: — Eu senti sua falta. — Sorrio com suas palavras e a aperto mais contra

258
meu corpo. Posso ver o alívio nos olhos de Isaac e Jackie, mas passo por eles e
vou direto para meu quarto e coloco a garota em minha cama antes de trancar a
porta. — Por favor, não me castigue. — Ela começa a tremer e em um impulso,
envolvo seu rosto em minhas mãos e beijo seus lábios de forma carinhosa,
então me afasto e olho em seus grandes olhos.
— Nunca mais irei te machucar. — Digo, acariciando seu rosto com o
polegar. — Não posso mais ficar sem você, Skye.

Zared
Eu poderia ficar parado ali, observando-a permitir que eu a tocasse por horas, e
por mais que não queira ir rápido demais, eu preciso senti-la. Nunca pensei que
estaria tão dependente de alguém como estou por essa garota. Posso notar que
Isaac cuidou bem dela simplesmente por ver que ela ganhou um pouco mais de
peso. Ainda não sei o que aconteceu para ela mudar de ideia, mas seja lá o que
for, fico feliz já que ela está a minha frente. Estou ajoelhado no meio de suas
pernas com os braços em torno de seu corpo e ela toca meus cabelos.
— Daddy, preciso tomar banho. — Ela sussurra e afasto-me para ajudá-la a
levantar. Realmente quero ser diferente com ela.
Enquanto Skye vai até o banheiro, aproveito para ir em seu quarto pegar
um short jeans, blusa de mangas, meias e uma lingerie. Assim que retorno ao
meu quarto, tranco a porta e vou até o banheiro, onde ela está sentada no vaso
encarando o chuveiro despejar água quente. Assim que me vê chegar, a garota
abre um pequeno sorriso e olha para suas coisas em minhas mãos.
Era estranho ver ela me olhar de uma forma que nunca fez antes, mas
qualquer coisa é melhor do que ouvi-la dizer que me quer longe dela. Coloco
suas coisas sobre a pia e fico sem saber o que falar, estou em uma das situações
que não sei como lidar e não quero fazer uma besteira e afastá-la de mim outra
vez. Ela se levanta e vem até mim, passa seus braços a minha volta, encostando
a cabeça em meu peito. Retribuo seu gesto de uma forma desengonçada e apoio
a cabeça na sua. Suas mãos deslizam para o fim de minha blusa e começam a
levantá-la.
— Toma banho comigo? — Ela me pega de surpresa. Sei que devo recusar,
mas não posso mudar tudo em mim, por isso apenas balanço a cabeça e logo
me apresso em tirar minha roupa, e assim que a vejo nua, o desejo de tê-la se
intensifica.

259
A garota pega em minha mão e me puxa, entrando embaixo d’água sem
pensar duas vezes, e fico parado observando-a. Ela olha para mim e solta uma
risada sapeca antes de sair para que eu possa entrar. Enquanto me lavo, não
consigo tirar os olhos dela, que escova os dentes com minha escova. Não gosto
da ideia de compartilhar as coisas, mas uma única vez não mataria ninguém.
Estava sendo um banho tão normal que fico dividido entre esperar que
aconteça e aproveitar o momento. Ao ter os dentes limpos, acabamos por
trocar de lugar, mas dessa vez, ficamos parados encarando um ao outro. Seus
olhos descem para meu pênis e por um instante, sei que ela está pensando no
mesmo que eu.
Ela vem até mim, segura em minha cintura e me puxa para baixo d’água
junto a ela, e pela a forma com que sua respiração fica pesada, percebo que ela
está ansiosa, mas em dúvida se deve ou não se entregar a mim. Interrompo seus
pensamentos ao colocar uma mão em seu pescoço e me abaixar para deixar um
beijo calmo em seu ombro.
Ela fecha os olhos e seus lábios se curvam em um sorriso satisfeito ao ver
que tomei a iniciativa. Deixo outro beijo em seu maxilar, bochecha e em sua
testa. Suas mãos deslizam até minha bunda, onde recebo um apertão; olho para
ela com um sorriso malicioso e a empurro até a parede, onde a pressiono antes
de atacar seus lábios de uma forma necessitada. Nossas línguas se tocam com
desejo e sinto meu coração acelerar ao ver que a garota retribui o toque na
mesma intensidade. Pressiono meu corpo no seu enquanto levo minhas mãos
para seu seio e o aperto, fazendo-a gemer entre o beijo e cravar as unhas em
minhas costas. Curvo-me até seu pescoço e mordisco sua pele, deixo chupões.
Havia sentido tanta falta dela que só percebi agora que estou beijando-a.
Quando penso em brincar com seu ponto sensível, ela segura meu pulso e
balança a cabeça.
— Acho melhor não. — Ela murmura e se afasta. — Desculpe. — Fico
parado, observando-a sair do boxe e começar a se secar, tão frustrado por não
poder senti-la e por ter sido impedido de fazer o que espero há semanas. Porém,
por mais que não gostasse daquilo, respeito seu pedido.
Desligo o chuveiro e espero a garota se secar e me entregar a toalha antes
de começar a se vestir. Seco-me e vou até o quarto com a toalha amarrada na
cintura. Visto uma cueca, bermuda, arrumo os cabelos e passo o desodorante
antes de perceber Skye entrar no quarto sem jeito. Provavelmente achando que
serei grosso com ela por não termos feito sexo.
— O que foi? — Deito-me na cama depois de jogar a toalha sobre a
cadeira. Estava cansado e só queria duas coisas: transar com a minha garota e

260
dormir. Skye se vira para mim e encolhe os ombros antes de sentar na ponta da
cama, parece ficar surpresa quando faço um sinal pedindo para que ela se
aproxime. A mesma fica de quatro e engatinha até o meu lado, ainda cheia de
receio, e se senta, olhando-me da mesma forma que eu ainda não sabia se era
boa ou ruim.
— Não pense que não quero transar com você, só acho que precisamos
conversar antes. Não posso me entregar sem saber o que realmente quer
comigo. — Ela me responde em um sussurro. Eu também gostaria de saber
quais são minhas intenções com ela, mas não sei.
— Eu não sei. — Respondo com sinceridade, então me sento. — Mas
quero que me ajude a descobrir, tá? — Seus olhos mostram as terríveis marcas
que causei a ela. — Só sei que não vou aguentar te perder novamente. — A
garota balança a cabeça e toca minha tatuagem, o BG cercado por uma rosa
negra. Seus dedos contornam a tatuagem, depois descem para a frase que já
havia se recuperado do corte feito sobre ela.
— Ninguém é condenado ao vazio sem ter alguém para resgatá-lo. — Ela
repete a frase baixo antes de colocar uma mão em meu rosto. Fico parado,
deixando que a garota me toque sem malícia. — Acha mesmo que posso te
ajudar? Quer dizer, eu não sou mais uma pessoa sã.
— Mas é a minha Baby Girl. — Acaricio seu rosto e ela deita a cabeça na
palma de minha mão, fecha os olhos e permiti-se sentir minhas carícias.

Skye

Eu não sabia o motivo de estar ali novamente, mas agora minha mente parece
ficar melhor quando o moreno está por perto. Pode ser louco, mas por mais
que ele seja o causador disso tudo, eu o desejava e sofria por tudo o que me fez
ao mesmo tempo.
Após horas em silêncio, ele acaba por dormir sem me permitir sair de seus
braços. Minha cabeça estava uma bagunça, uma parte minha grita para eu fazer
algo com ele e acabar com isso, no entanto, a outra que acredita que as coisas
podem mudar, a que gosta do homem que está dormindo ao meu lado pode ser
alguém melhor, vence sem dizer nada. Zared parecia outra pessoa durante o
sono, sua expressão era calma, seus lábios até se curvavam em um pequeno
sorriso como se gostasse de seus sonhos. E como havia passado dois dias sem
dormir, deito minha cabeça em seu peito e meus olhos se apressam em me
colocar em um sono profundo, repleto de pequenas coisas que o homem disse
ou faz que me agradaram.

261
Não tenho noção da hora quando acordo, com o céu escuro, suspeito que
seja madrugada. A cama é ocupada somente por mim, o que me faz olhar para
a varanda e vislumbrar a silhueta do moreno, que se apoia no pequeno muro
enquanto sua voz se mistura ao som do vento agitando as folhas das árvores.
Pelo ritmo e pela letra da música, logo reconheço a música de um dos meus
filmes antigos favoritos. Levanto-me da cama sem fazer barulho e me aproximo
da sacada para poder ouvir sua voz, e por sorte, ele não parece notar e continua
cantarolando.

Ela é como o vento que sacode minha árvore


Ela passeia pela noite ao meu lado,
ela me guia pela luz do luar,
só para me queimar com a luz do sol

Ela roubou meu coração, mas ela não sabe o que fez
Sinto sua respiração em meu rosto,
seu corpo perto de mim
Não consigo olhar em seus olhos,
ela está fora do meu alcance

Só um bobo para acreditar,


que eu tenho algo que ela precisa
Ela é como o vento
Eu olho no espelho e tudo que vejo é um jovem envelhecido,
com apenas um sonho
Será que eu estou apenas me enganando?
Achando que ela vai parar meu sofrimento?
Viver sem ela me levaria a loucura.

Vou até ele, que só nota minha presença quando passo o braço em torno
de seu corpo, deixando um beijo demorado em seu ombro. Vislumbro os lábios
dele se curvarem em um sorriso. Zared segura minha mão e me puxa para sua
frente, deixando-me de costas para ele, envolvendo-me com seus braços.
— Há quanto tempo está acordada? — Ele sussurra.
— Acabei de levantar. — Respondo com tranquilidade, sentindo seus
lábios roçarem meu ombro.

262
— É feio espionar os outros. — Ele deixa um beijo em meu pescoço e me
pressiona contra o pequeno muro de proteção. — Ouviu alguma coisa? —
Posso notar o receio em sua voz como se estivesse implorando para que eu não
o tenha escutado cantar She's Like The Wind.
— Não ouvi. — Minto e o escuto sussurrar um “bom”. O mesmo torna a
olhar para as árvores, depois para mim, e outro sorriso toma conta de seu rosto.
— Sabe nadar? — Faço que sim e minha resposta parece animá-lo ainda
mais com seja lá o que esteja pensando. — Vamos passear. — É tudo o que diz
antes de se afastar para voltar para dentro do quarto.
— O quê? À essa hora? — Ele se vira para mim com um sorriso malicioso
e abre o guarda-roupa, tirando de lá uma regata e uma toalha.
— As coisas são mais interessantes quando feitas no escuro. — Ele
responde enquanto calça os chinelos e pega minha mão, puxando-me até meu
quarto para que eu coloque um sapato e quando faço isso, sou arrastada até a
garagem, onde ele entra no carro menos chamativo e dirige para um lugar
afastado de seu mundo maluco.
Ele só estaciona quando estamos em um lugar completamente escuro e
rodeado por mato alto e árvores. Saímos do carro e sou guiada para o meio das
árvores, quanto mais entramos na floresta, mais medo eu tinha, e mais rápido
era puxada. Só paramos quando vislumbramos um lago. Ali, a lua permitia que
sua luz iluminasse a água e o resto das coisas. Zared olha para mim, solta minha
mão e coloca suas coisas na raiz de uma árvore. O homem começa a se livrar de
sua roupa, ficando completamente nu antes de levar as mãos acima da cabeça e
mergulhar sem pensar duas vezes.
— Vem. — Ele chama e estende a mão para mim.
— Acha mesmo que vou entrar aí? — Minha pergunta aparenta divertir o
moreno, que nada até a beira e estende a mão para mim.
— Anda logo, Baby Girl. — Solto um suspiro e tiro minha roupa, ficando
totalmente despida assim como o homem. Coloco minhas mãos sobre as dele e
recebo sua ajuda para entrar no lago antes de mergulhar e abrir um sorriso para
o moreno.
O tempo não estava dos melhores, ventava bastante, por isso, nado até
Zared e me abraço a ele, que tem o corpo quente, seus braços me envolvem e
ficamos daquele jeito no meio da água gelada.
— Acho que sei o que quero de você. — Ele sussurra em meu ouvido e
olha em meus olhos.
— O que é? — Entrelaço minhas pernas em torno de sua cintura
enquanto sinto as batidas de seu coração aumentarem.

263
— Quero que seja minha namorada. — Ele me aperta mais contra seu
corpo. — Quero que fique comigo por vontade própria.
Não sabia como reagir com seu pedido, jamais pensei que ele seria o tipo
de pessoa que falaria algo assim, afinal, ele acabou com a minha vida sem
hesitar, não parou para pensar que suas ações poderiam dar uma resposta
oposta ao que ele queria. Não que uma relação comigo seja algo que ele deseja,
Zared é incapaz de amar por ser portador de um corpo sem coração, ele não
tem sentimentos, é uma pessoa insensível que mata por prazer e não para para
se perguntar o quão importantes aquelas pessoas são para outras, ele é um
psicopata que morrerá sozinho sem nunca saber o que é amar ou ser amado.
Ele havia me tirado duas pessoas que me ajudavam a ser quem eu era, uma
boa garota, mas após muito sofrer e perder mais uma pessoa por causa dele, já
nem sei mais quem sou, perdi minha identidade, um nome já não basta mais.
Seu rosto tinha uma expressão de ansiedade e nervosismo, talvez por nunca ter
feito um pedido desses antes, e ao mesmo tempo, seus olhos tinham um brilho
novo, suas mãos acariciam minhas costas de forma lenta, sobem até meus
ombros e descem até o final de minha espinha.
Ele estava sendo um Zared tão diferente, tão vulnerável, como se nossos
papéis estivessem invertidos. Eu sabia que não deveria estar perto dele desta
forma, não depois de tudo o que fez, mas ao mesmo tempo, não quero ficar
longe. Mas seu pedido era demais e tendo consciência que aquilo poderia me
ajudar a não sofrer tanto em sua mão, nego com a cabeça enquanto vislumbro
seus lábios se fecharem e as carícias em minhas costas são interrompidas.
— Desculpe… — Sussurro tirando minhas pernas que estavam
entrelaçadas em torno de sua cintura. Seu rosto toma uma expressão de dor ao
ser rejeitado e seus braços me soltam aos poucos, ele realmente parecia não
acreditar no que tinha acabado de acontecer. Ele se vira de costas para mim e
passa as mãos nos cabelos molhados, soltando um longo suspiro. — Daddy…
— Cala a boca. — Ele nada até a beira e me deixa sozinha no meio do
lago. O medo de ele me deixar naquela floresta me apavora e vou até ele, que
não olha para mim. Observo-o se secar e colocar a cueca antes de estender a
toalha branca para mim e se sentar no mato sem dizer uma única palavra.
— Daddy? — Chamo-o novamente e torno a colocar a lingerie. Sento-me a
seu lado enrolada na toalha, mas sou ignorada, ele continua com os olhos fixos
na água escura do lago onde poderíamos estar se ele não tivesse feito um
pedido absurdo para alguém que fez tanta coisa ruim para mim. — Daddy, eu…

264
— Eu mandei você calar a porra da boca! — Ele grita o mais alto que
pode e vira a cabeça na minha direção, fazendo-me pular com o susto. Ele
espumava de raiva.
— Você não manda mais em mim! — Retruco também gritando e posso
ver o antigo voltar, mas ele não diz nada. — Eu não posso aceitar um pedido
desses, ainda mais feito por você. — Continuo falando, fazendo com que o
moreno puxe os cabelos com cada palavra que sai de minha boca. Ele estava
furioso, mas o mesmo se controla para não fazer algo que quebre sua promessa.
— Você me vê como um monstro. — Ele diz com uma risada amargurada
e balança a cabeça de um lado a outro com os lábios curvados em um sorriso.
— Você é o monstro que me torturou de todas as formas possíveis, matou
minha melhor amiga, me deixou louca, e ainda por cima, matou Todd. Jogou
um balde de sangue em mim, deixou-me uma semana presa em um caixão com
os restos de uma pessoa que eu amava! — Digo sentindo a raiva que tinha por
ele me dominar.
As coisas estavam tranquilas demais para ser verdade, quando temos um
tempo de tranquilidade, alguma coisa acontece e acabamos voltando para a
estaca zero. É assim que vivemos desde que fui parar naquela casa, jamais
temos sossego, e está tão repetitivo que qualquer um que souber disso enjoará;
para ser sincera, não sei como os que nos conhecem não deram um basta logo.
Claro, porque ninguém se mete na vida do dominador e da virgem.
— Matei aquele filho da puta mesmo, e faria de novo, ele iria tirar você de
mim, porra! — Zared berra e se levanta. Ele parecia magoado, mas acima de
tudo, irritado. E por um momento, acho que a culpa é minha, no entanto, tudo
o que está acontecendo é culpa dele.
Não sou a vilã dessa história, e ele certamente não é o mocinho, e nem que
tente conseguirá ser uma pessoa boa. Meu sangue parece estar fervendo
enquanto encaro o homem furioso em pé a minha frente, como ele quer que eu
fique com ele se não demonstra qualquer arrependimento com o que fez? Ao
contrário dele, eu não finjo ser o que não sou. Eu sou uma estúpida por estar
aqui com ele. Ele me tirou pessoas, eu deveria estar indo atrás dele para me
vingar e não tomando banho, dormindo e vindo para um lago no meio da noite
com alguém tão desprezível como se nada tivesse acontecido.
— Não é isso o que as pessoas fazem quando gostam da outra! — Grito
de volta. Ele tira da bermuda um cigarro de maconha e o acende antes de tragar
e olhar para mim soltando risadas divertidas obscuras. Vejo-o soltar a fumaça
pelas narinas e curvar-se na minha direção. Sua expressão é fria e ele não

265
demonstra qualquer sinal do Zared que havia feito o pedido para que fossemos
um casal.
— Não, Baby Girl, as pessoas não fazem isso quando amam e eu não amo
você. — Ele abre um sorriso antes de tragar e soprar a fumaça em meu rosto,
causando-me uma crise de tosses enquanto abano as mãos. — Você se tornou
uma inútil desde que ficou maluca, pensei que se pedisse para termos algum
tipo de relacionamento você poderia melhorar e me deixar te comer. E como
sabemos, eu ainda te mantenho aqui para poder foder sua boceta gostosinha.
Sua voz é carregada de desprezo, deixando-me sem saber como reagir. Ele
estava sendo cruel como costumava a ser e surpreendo-me com sua atitude tão
agressiva. Eu sabia que tinha alguma coisa por traz de toda aquela compreensão
e bondade vindas do moreno, mas saber e não ouvir isso é melhor do que ter
noção do que se passa em sua mente problemática através de palavras sujas.
Eu o odeio tanto e me odeio ainda mais por ter uma parte em mim que
acredita que ele pode ser alguém melhor. Por mais que ouvir aquilo tenha me
causado um imenso ódio, não perco tempo para fazer algo contra ele, estava
irritada mais comigo do que com ele. Passo a língua entre os lábios e viro a
cabeça para o lado, tentando não demonstrar o que, mas não vale a pena, logo
escuto sua risada fria ecoar.
— Você é patética. — Assinto e não digo nada. O moreno volta a arrumar
sua postura e vira para ficar em frente ao lago, seus pés estavam dentro da água.
Por mais escuro que estivesse, consigo vislumbrar as coisas que preenchiam
seus braços e o músculo de suas costas ficarem ainda mais tensos. Ele era o
mesmo Zared de antes, mas tinha algo mudado nele, não sei o que é, mas tinha
algo que estava louca para descobrir. — Alguém… Enquanto estive fora
encostou em você? — Sua voz sai mais calma, porém a irritação ainda era óbvia
assim como a mágoa, que querendo ou não, tinha por ter sido rejeitado.
— Aquela loira que você tanto gosta. — Respondo ainda sem saber como
reagir. O moreno se vira para me encarar e encolho-me. — Antes de passar
dois dias no cemitério, ela levou um pote de ração com leite para eu comer. Eu
joguei o pote nela, ela agarrou nos meus cabelos e enfiou a ração em minha
boca, depois disso bati nela e a arrastei até o banheiro, onde a tranquei e corri
até o cemitério. — Abraço meu corpo assim que o vento bate contra nós. Posso
ver a raiva em seu rosto aumentar enquanto ele larga o cigarro na água e se
aproxima, vestido sua roupa às pressas. Faço o mesmo e pego as coisas antes de
ele segurar minha mão e me puxar de volta para o carro. — O que está fazendo?
— Ninguém toca em você e fica impune. — Ele gira a chave na ignição e
pulo para o banco do passageiro antes de ele dar ré e sair dali.

266
Apresso-me em colocar o cinto e percebo que ele me encara pelo canto
dos olhos e tirar uma mão do volante para pegar a minha sobre minha coxa.
Não me afasto de seu toque, apenas viro minha cabeça para o lado, encarando
as coisas do lado de fora que não passam de um borrão. Ele não diz nada, mas
também não solta minha mão. O jeito que ele olhava para a frente me deixa
desconfortável, no entanto, saber que aquela cadela não vai sair impune pelo
que fez me faz gostar mais de Zared.
Ele vira a cabeça para me olhar melhor, no entanto, logo torna a encarar a
estrada a sua frente. Passamos o caminho todo em silêncio, e ao chegarmos em
sua casa, os empregados abrem o portão e o homem estaciona seu carro na
garagem. A casa está vazia e silenciosa quando entramos, Zared parece
pensativo demais enquanto caminha ao meu lado pelo salão, subimos as escadas
e quando estamos indo para lados opostos ele se vira: — Foda-se. Skye, vem cá.
— Ele diz ao agarrar meu antebraço, empurrar-me para a parede antes de
segurar minha nuca e atacar meus lábios com um beijo intenso. Tento afastá-lo
empurrando-o pelo ombro, mas ele segura meu pulso e me impede ao
pressionar seu corpo contra o meu.
Eu o correspondia, ele sabia que eu lutava comigo mesma quando o
assunto era ele. Sua língua acaricia a minha e o moreno morde meu lábio
inferior com força e o puxa, fazendo-me gemer baixinho. Abro os olhos e
vislumbro o moreno com um sorriso malicioso no rosto. A porta mal é
trancada e o moreno avança para cima de mim, empurrando-me para a parede,
mas o que encontro é a cômoda. Ele passa o braço por mim e me senta sobre o
móvel, se coloca entre minhas pernas.
— Eu te odeio.
— Eu sei. — Suas mãos descem devagar até o fim de minha blusa e o
mesmo a tira de meu corpo. Sua atenção cai sobre meus seios, então ele olha
em meus olhos antes de levar suas mãos para meus seios e os apertar. — Como
eu senti sua falta. Você é a minha vadia, Skye, só minha.
Sei que deveria me ofender com a forma que ele me chama, no entanto
aquilo me causa o efeito contrário: — E você é meu, Daddy? — Passo os dedos
em seus lábios enquanto nos encaramos.
— De quem mais eu seria? Não quero ser de mais ninguém, apenas seu.
— Sua voz sai firme e calma, seus olhos pegam fogo e jamais saberei decifrar o
que eles querem dizer nesse momento.

267
— Você é o meu paraíso nessa zona de guerra, Skye. — Ele sussurra e deixa
um beijo em minha cabeça sem parar com suas carícias.
— Eu poderia ficar na cama o dia inteiro apenas para continuar tendo o
verdadeiro você. — Contorno sua tatuagem de BG.
— Eu perco os sentimentos quando estou em outros lugares. — Ele diz
calmo. — Apenas recupero-os quando tenho você. — Levanto a cabeça com
um sorriso e deixo um beijo simples em sua boca, o moreno sorri e me beija.
Após isso, torno a deitar minha cabeça em seu peito e durmo sentindo
suas carícias. Meus sonhos são focados no moreno novamente, mas dessa vez
ele está diferente, e diz que estava pronto para sair dessa vida para viver comigo,
mas precisava saber o que eu sentia por ele. Quando acordo, o sol estava
escondido através de nuvens densas e chovia bastante, fazendo com que
trovões deixassem o dia barulhento. A brisa fresca que entra pela janela me faz
querer ficar ali e voltar a dormir, mas naquele ponto já não tenho sono. Abro os
olhos e logo percebo que estou sozinha na cama, Zared não está no banheiro
nem na sacada, então estava sozinha.
Espreguiço-me e me sento, encarando o cômodo silencioso, mas logo ao
meu lado percebo uma bandeja de café da manhã e nela havia um bilhete ao
lado da comida, de uma flor e do colar que ele havia me dado. Um sorriso
involuntário se abre em meu rosto antes de pegar a flor e o pequeno bilhete
com a caligrafia de Zared.

Essa é uma gardênia, assim como as rosas, também branca, mas seu significado é amor
secreto e virgindade.
Zared.

Sinto seu perfume antes de tocar suas pétalas e colocá-la ao meu lado. Tomo
meu café e pego o colar, colocando junto com ao de Todd no pescoço.
Levanto-me da cama e caminho até o guarda-roupa de Zared para pegar uma
blusa antes de prender o cabelo e sair do quarto, levando a bandeja com as
sobras; deixei o bilhete e a flor sobre a cama. Uma das empregadas sorri, a pega
de minha mão e sai antes que eu possa agradecer.
Quando estou para voltar para o quarto de Zared, escuto gritos vindos do
quarto de tortura e logo vou até lá. A porta está aberta, então assim que entro
no cômodo, vejo o moreno com uma arma na mão enquanto a loira que estava

268
despida. Zared estava de calça e os arranhões em suas costas, braços e nuca
estavam vermelhos e inchados.
— Ninguém jamais toca na minha mulher e farei você pagar pelo que fez.
— A loira percebe minha presença e olha para mim, que apenas abro um
sorriso e aceno.
Pela primeira vez, olho para Zared machucar alguém e não me sinto mal
por aquilo, para ser mais exata aquela cena me agrada muito, mas não era aquilo
que eu queria, não é ele que deve acertar as contas por mim. Eu quero ter o
prazer de olhar nos olhos daquela vadia e matá-la, ou ser motivo de seus gritos
enquanto a observo agonizar de dor.
Saio e vou até um dos empregados na cozinha, peço para que me leve um
pote de ração com água quente até a sala de tortura. Sorrio e giro nos
calcanhares antes de caminhar de volta ao cômodo, onde Zared ainda gritava
com a mulher sobre ela ter desobedecido ordens dele enquanto ela implora por
perdão. Encosto-me na parede com satisfação e deixo uma risada escapar de
minha boca, fazendo o moreno se virar e me encarar da cabeça aos pés.
Posso ver que ele está estranhando meu comportamento. Muito surpreso
para falar, e confuso o suficiente para não se levantar e me expulsar.
— O que faz aqui? — Zared pergunta depois de um tempo, sua voz tinha
o costumeiro tom sombrio e vazio, no entanto, posso ver seus olhos me
encararem de uma forma totalmente diferente.
Desvio meu olhar para a mulher que estava deitada no chão chorando,
depois olho para o homem que esperava por uma resposta minha e dou de
ombros. Quando abro a boca para responder, a mesma mulher para quem eu
havia pedido a ração aparece pedindo perdão por atrapalhar, entrega-me a
vasilha e sai. Zared levanta as sobrancelhas, apressado por uma resposta, e tudo
o que recebe de minha parte é um sorriso enquanto levanto o pote e balanço-o
enquanto caminho em direção a eles.
— Matar a puta. — Respondo como se fosse óbvio. Ele não demonstra
qualquer reação, apenas fica parado observando eu me abaixar em frente à
mulher e colocar o pote de ração em sua frente antes de apontar para o objeto.
— Coma. — Scarlett olha para mim com um pequeno sorriso e pega o pote de
plástico vermelho soltando uma risada ao ver a ironia da situação. Alguns dias
atrás, ela estava se aproveitando de meu estado para me humilhar, e hoje sou eu
que estou a fazer isso, e tenho certeza que ela sabe que sua situação era de longe
mais humilhante que a minha chegou a ser em algum momento.
— Vá para o inferno. — Ela joga o pote para o outro lado do cômodo e o
conteúdo dele se espalha pelo chão, fazendo-me morder os lábios e olhar para o

269
chão a minha frente. O sorriso que ocupa seus lábios some no momento em
que eu abro o meu, soltando risadas vazias e sem um pingo de humor antes de
me levantar e ir até o pote. Pego a comida de cachorro do chão e torno a me
aproximar dela, agarrando seus cabelos enquanto pressiono minha mão contra
sua boca, forçando-a comer exatamente como ela fez comigo.
Ela segura meu pulso enquanto tenta me afastar, porém, acabo
conseguindo o queria, fazendo com que ela engula aquilo. Limpo minha mão
em seus cabelos e me abaixo em sua frente, encaro seus olhos azuis odiosos e
dou-lhe um tapa no rosto.
— Eu já estou no inferno. — Solto risadas amarguradas. Zared segura
meus braços e me puxa para longe da mulher e me vira em sua direção para me
prender contra a parede, mas não diz nada, apenas fica me encarando. Eu não
estou completamente sã, minha cabeça está um caos, mas não estou assim por
ser uma pessoa insana, estou assim por causa de tudo pelo que passei, ele me
deixou assim e não tem o direito de me olhar como se desejasse a antiga eu. —
O que foi, Daddy? Não está gostando do monstro que você mesmo criou? —
Pergunto com um sorriso forçado no rosto e o empurro para me livrar de seu
toque, no entanto, ele é mais rápido e torno a ser prensada contra a parede.
— Não vai fazer isso.
— E por que não? — Solto uma risada e o empurro na tentativa de sair
dali, mas ele não se move e me vejo obrigada a encará-lo de forma séria.
— Porque você não mata pessoas, Skye! — Ele grita em meu rosto,
fazendo-me virar a cabeça para o lado. — A minha Baby Girl me implora para
eu não fazer isso com as pessoas, não pode ter mudado tanto de uma noite para
a outra.
— Como se você se importasse com isso. Já conseguiu me foder
novamente, certo? Não precisa mais fingir se importar comigo. — Rosno e o
empurro, pego a arma de sua mão, abaixo-me a sua frente e acerto um tiro em
sua perna. Ela berra enquanto leva as mãos para o local que sangra, não teria
muito tempo antes de morrer de hemorragia e quero fazer mais do que atirar
nela, por isso me apresso em olhar em volta a procura de alguma coisa. No
canto da sala, vejo um objeto de ferro enorme e olho para Zared, que me
observa em silêncio. — Quero aquilo.
O homem não diz nada para mim, apenas chama quatro de seus capangas
para levarem o objeto para o jardim morto atrás da casa e acenderem o fogo.
Eu estava fora de mim, não parei para pensar que passei e ainda passo por tudo
o que Scarlett está passando.

270
Nesses momentos em que não tenho controle, minha culpa e medo de
fazer algo de ruim são deixados de lado no momento em que meu cérebro
repete diversas vezes “faça isso por Alison e Todd, essas pessoas os tiraram de você”. E
pensar nisso me torna uma pessoa insensível, assim como o moreno que me
causou isso.
Aproveito que os homens estão levando o que pedi para fora para ir até o
armário. Vejo Scarlett tentar fugir, mas o moreno a impede e torna a jogá-la no
chão sem emitir qualquer som. Abro as portas e encaro a quantidade de objetos
variados de tortura, pego um com o formato de uma pera. Observo o moreno
se abaixar até a loira e a segurar para que eu possa usar aquilo na mulher. Pelo
que observo, para aquilo funcionar como deveria, eu precisava entortar o
parafuso que as quatro partes se abrem.
A loira começa a balançar a cabeça e implora entre o choro para não fazer
aquilo. Ajoelho-me a frente à mulher, abro suas pernas e pressiono aquele
objeto em sua entrada, fazendo com que ela aperte os olhos e grite de dor.
Entorno o parafuso e me afasto. Quando o objeto está completamente aberto,
Zared solta a loira e tira o objeto dela enquanto eu fico parada observando o
sangue no chão. Cruzo os braços e eu fico em silêncio quando Zared manda
dois capangas levarem Scarlett para dentro da bola de ferro, onde o objeto já
deveria estar extremamente quente.
Os homens afirmam e a arrastam para fora do cômodo. Zared olha para
mim e me empurra de sua frente antes de ir para fora atrás dos empregados.
Solto um suspiro prolongado e vou atrás dele, parando a seu lado para observar
a garota implorar com o resto de força que tinha para não fazermos aquilo,
então peço para esperarem e me aproximo dela e me curvo até seu ouvido.
— Eu realmente não queria estar no seu lugar, mas não se preocupe, vou
cuidar direitinho do seu chefe como faço todas as noites. — Digo rindo e me
afasto o suficiente para que os homens a joguem para dentro da bola de ferro e
a tranquem lá, e enquanto o fogo aquece o objeto, meu sorriso aumenta e
escutamos os berros da garota que iria morrer queimada.
— Zared tem razão, você não é mais a garota por quem me apaixonei. —
Escuto a voz de Todd carregada de decepção. Olho para os lados e o vejo
parado atrás de mim, olhava para mim como se eu fosse um monstro. — O que
você se tornou? — Ele pergunta. Dou um passo em sua direção, mas ele se
afasta e meu coração se aperta.
— Todd, eu… — Começo a falar e caminho até ele, porém, no momento
em que pisco os olhos, ele some.

271
— Você vai morrer sozinha e infeliz como ele. — Ouço a voz de Alison,
mas não a vejo em canto algum. Fico agitada enquanto olho para todos os lados
na tentativa de achá-la. E como se um interruptor de luz tivesse acendido em
minha mente, meu lado que havia desligado no momento em que fui presa
naquele caixão retorna. — Vai pagar por tudo o que está fazendo aos outros. —
Agarro meus cabelos os puxo antes de colocar a mão sobre os ouvidos na
tentativa de abafar a voz de Alison, mas não adianta.
— Deixe-me em paz! — Grito começando a chorar, então me abaixo,
apertando os olhos enquanto tentava gritar ainda mais alto que as vozes em
minha cabeça.
— Skye? — Ouço Zared me chamar, olho para o objeto de ferro onde
Scarlett estava e me levanto para ir até ele, mas o moreno passa os braços a
minha volta e me impede.
— Tire-a de lá! Tire-a de lá! — Berro. Zared não diz nada, apenas manda
tirarem a garota, e quando o fazem, ela está com partes corpo totalmente
queimadas, e aquilo acaba comigo. Solto-me dos braços do homem que me
segurava e vou até a garota, que ainda respirava, mas não estava consciente. —
Perdoe-me. — Digo entre o choro e me levanto, saio correndo para longe
daquele lugar.

Eu precisava ficar sozinha, tentar achar alguma coisa para me ajudar a sentir
melhor. No momento em que entro na casa, não sei para onde ir, eu estava
descontrolada, mal conseguia ver as coisas a minha frente e minha respiração
estava falha. Quando escuto a voz de Zared me gritar, corro para uma das
portas e acabo dando de cara com uma biblioteca. Viro-me para fechar a porta,
mas o moreno já me viu e me impedia de fechá-la para me olhar. Cubro a boca
com uma das mãos e me seguro em uma mesa para eu não dar de cara com o
chão. O moreno diz meu nome e dá um passo em minha direção e recuo.
— Isso dói, Zared, dói muito! — Mal consigo dizer e percebo sua
expressão se quebrar e ele demonstrar um pouco de compaixão. — Você fez
isso comigo. — Digo e vou para cima do homem, enchendo-o de tapas. Ele
segura minhas mãos e me puxa para seu corpo, abraçando-me com força. —
Por favor, desfaça! Volte a fingir que se importa e cuida de mim, por favor. —
Escondo o rosto em seu peito descoberto e ele me abraça e acaricia a parte de
trás de minha cabeça. — Eu sou um monstro.
— Não, você não é.

272
— Não deixe aquela garota morrer, por favor.
— Ela não vai. — Ele responde e me afasta, passa o polegar por minhas
bochechas para limpar as lágrimas e sorri. Volto a me aproximar de seu corpo,
deixo um beijo em seu peito e outro em seu pescoço. Sinto suas mãos descerem
para minha bunda. — Eu já disse que eu adoro te ver com minhas blusas? —
Franzo as sobrancelhas, empurro-o para dar um tapa em seu rosto, e quando
vejo que ele está confuso, abro um sorriso e o puxo para um beijo. — Vou te
foder toda. — Ele me pega no colo, coloca-me sentada na mesa e sua mão
desce para o fim de minhas costas, puxando-me para a ponta do móvel. Mordo
seu lábio inferior e o puxo enquanto arranho suas costas. — Porra, eu vou te
foder muito. — Ele murmura e me dá um tapa nas coxas.
Quando estamos rindo sem motivo, a porta da biblioteca se abre e Leon
entra com uma cara entre medo e preocupação.
— Levaram o Hayden! — Ele grita desesperado, fazendo o moreno se
afastar de mim no mesmo instante. — Vão matá-lo.
Todos estávamos em silêncio, eu já não sei mais como reagir quando nos
pegam em um momento íntimo ou aos beijos. Não sei o motivo, mas os toques
de Zared são como o fogo, por mais perigoso que seja, eu sempre irei atiçá-lo
para receber mais de seu calor. Leon fica impaciente com a falta de reação do
amigo e grita por ele, que se afasta de mim e sai do cômodo xingando milhares
de palavrões. Leon olha para mim rapidamente e sai atrás dele.
Respiro fundo e deito sobre a mesa enquanto passo as mãos no rosto.
Nunca vou entender as coisas que acontecem aqui ou em minha mente; uma
hora Zared é o Lúcifer em pessoa, em outra, ele parece não saber como reagir e
demonstra com muita dificuldade o que sente.
Sou uma completa imbecil por ser tão vulnerável quando se trata daquele
homem, como se eu não tivesse controle de minhas ações, simplesmente reajo a
seus toques exatamente como ele quer, não sei dizer não e isso me torna fácil e
fraca. Estou cansada de ser fraca, quero mostrar que Zared não tem total
controle sobre mim, mesmo que isso vá me levar a ser torturada outra vez.
— Não sabia que o senhor Winter havia comprado uma nova decoração.
— Ouço uma voz masculina bem humorada e sorrio ao ver Isaac com uma
expressão brincalhona aproximar-se para se sentar na cadeira ao lado da mesa.
— Então, diga para seu babá: o que a bebê tanto pensa deitada nessa mesa? —
Solto um suspiro e sento.
— Você me acha uma pessoa fraca? — Ele faz que não. — Mas parece
que sou. Quem passa por tudo isso e continua a ter relações com o homem que
só faz mal? E ainda por cima gosta de como ele é quando estão sozinhos? —

273
Minha voz sai como um gemido frustrado, fazendo o rapaz pegar em minha
mão de modo amigável.
— Skye, ninguém passa por tudo o que você passou e sai vivo, você estar
aqui viva reclamando por ser fraca apenas mostra o quão forte você é. E sobre
você ceder facilmente aos toques do senhor Winter, tem apenas duas
alternativas: ou você já sabe que não adianta lutar, pois ele sempre tem o que
quer, ou você é uma estúpida apaixonada pelo seu sequestrador… O que é bem
estranho.
Ele faz uma careta ao analisar a segunda alternativa, melhorando um
pouco meu humor, e levanta-se, puxando-me para fora da mesa em direção a
sala de estar. Após tanto procurar, ele apaga a luz e coloca o DVD. Logo me dou
conta de que o filme é da Disney, e quando entra no menu, levanto as
sobrancelhas ao ver A Bela e a Fera.
— Você e o chefe tem uma vida baseada em um dos contos clássicos da
Disney e nem sabiam. — Ele diz com um sorriso. Eu já havia feito
comparações entre a gente e o desenho, mas não tem lógica.
Afinal, por que Zared tem esse tipo de filme?

Zared
Quando sou deixado em casa, largo minha bolsa de armas no chão e caminho
pelo salão em silêncio até ouvir uma música ecoar da sala e logo depois, tornar
a repetir. Assim que adentro o cômodo, a televisão está no menu de um filme
infantil, Skye está dormindo toda encolhida no sofá e Isaac faz o mesmo no
outro. Encaro a tela da TV e a desligo, depois balançar Isaac e mandá-lo ir para
o quarto e pegar Skye no colo. A garota abre os olhos por um momento, e ao
me ver, abre um pequeno sorriso e passa seus braços em torno de meu pescoço
antes de cair no sono outra vez. Vou para o meu quarto e deito a garota em
minha cama. Não sei como vou tratá-la sem a ajuda de meu amigo, sou um
grande bosta quando se trata dela, não sei lidar com ela e isso me tira do sério.
Vou para o banheiro, me livro da roupa e tomo um banho gelado antes de
vestir a cueca e colocar uma bermuda. Não tenho vontade de fazer nada por
agora, então apenas me sento na ponta da cama e passo as mãos no rosto,
enquanto bufo frustrado, por ter sido incapaz de achar Hayden. Ouço a garota
bocejar e após uns minutos, escuto sua voz sonolenta meio rouca.
— Zared? Conseguiram resgatar o Hayden? — Quando não a respondo,
ela engatinha até parar perto de mim e me abraça por trás de um jeito

274
amedrontado e desengonçado, rodeando os braços por minhas costelas
enquanto deixa um beijo em meu ombro e deita a cabeça no mesmo. —
Lamento. — Ela sussurra, deixando-me realmente puto. Levanto-me de forma
bruta, fazendo com que ela quase caia de cara no chão.
— Ele não morreu! — Grito. Agarrando o abajur sobre a cabeceira e o
jogo contra a parede, fazendo com que o objeto quebre em mil pedaços. Olho
ofegante para Skye, que está encolhida enquanto me olha amedrontada. —
Merda! — Grito socando o vidro da porta da varanda antes de levar as mãos
para os cabelos.
Hayden não morreu, eu apenas não o encontrei, vou trazê-lo de volta e
não importa o que aquele imbecil vá dizer, ele vai morar nessa porra de casa
comigo. Piso no vidro no chão e vou até a varanda, apoiando-me na barra de
proteção de mármore, fixando minha atenção na lua. Se não sei manter a garota
por perto, então que eu a afaste como faço com o resto, não posso criar mais
qualquer tipo de sentimentos por ela.
Sinto suas mãos tocarem minhas costas, seus lábios subirem com beijos
até meu ombro, onde ela para e sussurra um desculpa em meu ouvido. Puxo-a
para mim e a prendo contra o pequeno muro e meu corpo, fazendo com que
ela encare meus olhos em busca de alguma emoção, mas tudo o que sinto é
ódio e desejo por ela.
— Eu preciso de você.

Skye

Quando abro os olhos, deparo-me com o quarto vazio, Zared não estava lá,
mas os vidros do abajur e da porta da sacada espalhados pelo chão me
garantem que a noite de ontem foi bem real. Não sei o que esperar de sua parte,
ele é tão bipolar que hoje pode ver qualquer motivo para me trancar no quarto
de tortura.
Pego sua blusa e minha calcinha e me visto, prendo os cabelos em um
coque bagunçado. Quando chego perto da escada, ouço os gritos de Zared e,
em seguida, o som de vidro se partindo. Apresso-me em descer os degraus e
vislumbro o moreno se sentar na banqueta do bar, levando uma garrafa de
uísque a boca. O salão estava cheio de vidro de garrafas espalhados pelo chão, o
que me leva a andar na ponta dos pés até o moreno, que encara um pedaço de
papel sem ao menos ter consciência de minha presença. Aproximo-me do
homem que aparentava estar furioso e coloco a mão sobre o seu ombro,
fazendo-o virar a cabeça para me encarar. Seus olhos castanhos estavam

275
carregados de ódio, mas quando me olham, sei que não tenho nada haver com
isso e me surpreendo quando ele vira a banqueta para ficar de frente para mim,
passando seus braços em torno de minha cintura, puxando-me para o meio de
suas pernas. Ele encosta a cabeça em minha barriga e não diz nada enquanto
me abraça.
— O que houve? — Acaricio seus cabelos, surpresa com sua ação. Ele
suspira e sem se distanciar de mim, pega o pedaço de papel e me mostra.
Demoro um tempo para por minha atenção na folha; ele estava estranho, antes
não me permitia fazer tantas coisas, agora parece ignorar as próprias regras.
Não esperava ser abraçada, muito menos receber a resposta a minha pergunta,
mas como havia recebido, abaixo meus olhos para a folha e leio o conteúdo
escrito nela, afasto-me e ele me olha irritado por eu ter saído de seus braços. —
Acha que pode ser do Hayden? Ou uma tentativa dele de te alertar? — Zared
balança a cabeça negando e passa as mãos sobre os cabelos, soltando um
suspiro frustrado.
— Hayden foi sequestrado. Isso é de algum filho da puta tentando fazer
alguma brincadeira de mau gosto, e vou matar o desgraçado quando descobrir.
— Ele leva a garrafa a boca e posso notar pela sua voz que ele está bêbado. É a
primeira vez em que o vejo magoado com a morte, ou desaparecimento, de
alguém. Pelo que lembro dos dois juntos, eles pareciam ser mais amigos um do
outro do que eram dos outros três.
— Vou encontrar Hayden e ele vai morar aqui na nossa casa. — Franzo as
sobrancelhas com o nossa casa e ele faz o mesmo, acompanhado de uma careta.
— Minha casa. — Sua voz sai embolada enquanto se corrige. No momento em
que abro a boca, escuto as portas se abrirem e baterem contra a parede,
chamando nossa atenção para os três homens que entram.
Dois deles estão calmos, já o terceiro parece prestes a matar alguém. Zared
geme baixinho por parecer mais problema e se levanta cambaleando enquanto
encara os amigos de forma raivosa, porém não sai do lugar, apenas me empurra
para trás de seu corpo.
— MAS QUE MERDA É ESSA?! — Leon grita e ergue um pedaço de papel
antes de agarrar o pescoço de Zared para afastá-lo de mim e empurrá-lo para a
parede, pressionando suas mãos contra a garganta do mesmo, como se
realmente quisesse matá-lo sufocado. — O QUE VOCÊ QUER DIZER SOBRE
ESTAR CANSADO DESSA VIDA?
Leon afasta umas das mãos e acerta um soco no rosto do amigo, que não
parece se abalar e abre um sorriso coberto por sangue ao empurrar o chefe para
longe, mas não parece ter a intenção de retrucar. Vou em direção ao moreno,

276
colocando as mãos em seu rosto e observo seu lábio cortado sangrava. Estava
mais preocupada do que deveria, e sussurro “você está bem?”, recebendo apenas
um movimento lento de sua cabeça.
Sinto uma pontada de medo ao perceber os olhos de Leon me encararem
cheios de fúria e julgamento, como se eu tivesse algo a ver com aquilo tudo.
— É POR CAUSA DESSA VADIA, NÃO É?
— Vá para o inferno! — Zared sussurra e limpa o canto da boca com a
mão antes de assumir uma expressão tão fria e odiosa quanto a de seu agressor
e cuspir sangue no chão já sujo.
— VOCÊ ESTÁ VIRANDO UM MERDA QUE SÓ PENSA EM FICAR AQUI
COMENDO ESSA PIRANHA! — Posso ver o corpo do moreno ficar tenso
enquanto treme e fecha as mãos em punhos. — EU VOU ACABAR COM ESSA
PALHAÇADA AGORA! — O homem tenta segurar meu braço, mas é impedido
por Zared, que afasta sua mão, agarra-o pela blusa e em um movimento rápido,
joga-o por cima do bar e dá a volta.
Ele pega a garrafa que antes estava bebendo e tenta atingir o amigo, mas
Leon consegue desviar, fazendo com que o objeto de vidro se despedace no
chão. Nada contente por ter errado, o mesmo soca a cara do amigo, que revida
sem parecer abalado com os socos que teriam nocauteado qualquer um no
mesmo instante, porém, esses homens estão tão acostumados a passar por
brigas como aquela que eram difíceis de serem derrubados.
— Se você falar da minha mulher assim mais uma vez, eu te mato! — O
moreno rosna ao aproximar seu rosto ao do outro. Quando levanta o braço
livre, fecha a mão em punho e tenta dar mais um golpe, porém, Logan segura o
pulso do homem magro, e depois em seu corpo, antes de tirá-lo de cima de
Leon, que cospe sangue, limpa a boca e olha para mim com ainda mais ódio,
surpreso por toda aquela reação do moreno ter sido por minha causa. Zared se
afasta do toque do rapaz, empurrando-o com brutalidade para vir até mim e
pegar minha mão antes de me puxar para a escada. — Quero vocês três fora da
minha casa agora. — Ele olha para trás e sobe os degraus, puxando-me com ele.
— VOCÊ VAI SE ARREPENDER DISSO, WINTER! — Leon grita e posso vê-lo
sair ainda cuspindo sangue. Nolan olha para o chefe, depois para nós antes de ir
embora com Logan.
Sou arrastada até o quarto do moreno, onde ele nos tranca e xinga ao pisar
em cima de um vidro. O tatuado senta sobre a cama e tira o fragmento do
abajur partido de seu pé e me observa sentar a seu lado, encarando-o com
curiosidade e sem reação pelo acontecimento lá embaixo.

277
— O que foi, porra? — Ele pergunta grosseiro, fazendo com que eu me
afaste. Ele estava bêbado, nervoso, e com certeza louco para achar algo para
descontar a raiva, e eu não estou a fim de ser seu saco de pancadas. Zared passa
as mãos no rosto. Ignoro meu medo e toco em seu ombro, fazendo com que
ele agarre meu pulso com força e olhe para mim, empurrando-me para que eu
me afaste. — Some daqui. — Ele diz, mas não o obedeço e me mantenho
parada ali. — Eu mandei sair, caralho. Agora além de trouxa é surda? — Ele
grita, mas não digo nada, não tenho nenhuma reação. — Você pode pelo
menos uma vez nessa merda de vida agir como deveria? Eu fodi e matei sua
amiga, matei seu namoradinho, te prendi com o resto do corpo dele e te
torturei. Pare de ser estúpida uma única vez e fique longe de mim, puta do
caralho.
Acerto um tapa em seu rosto, tão forte que o estalo me surpreende por
sair tão alto. Bato nele sem me importar com o que aconteceria depois. Eu
sabia de tudo o que ele acabara de falar, não me esqueci de nada, nem se eu
quisesse teria como. Ele agarra meus pulsos e me joga contra a parede,
acertando um soco na mesma, fazendo com que sua mão afunde ao lado de
minha cabeça.
— Eu te odeio! — Ele grita e segura meus braços antes de me chacoalhar
como uma boneca e me jogar sobre a cama. Levanto-me e vou para cima dele
novamente, marcando seu corpo com arranhões e tapas, mas ele segura mais
uma vez contra a parede. Ambos estávamos com a respirações desreguladas e
ele tinha seus olhos postos sobre os meus, parecendo mais calmo. Ele me solta
e torna a se sentar na cama enquanto me mantenho parada no mesmo lugar. —
Por que ainda continua me olhando? Vai embora daqui! — Ele grita, frustrado
por não ter conseguido me afastar dele, e se levanta, agarrando outro abajur
para jogá-lo na parede.
— Porque eu sou idiota o suficiente para gostar de você! — Grito de volta
e ele se vira de imediato, chegue perto bufando de ódio, mas com surpresa
estampada no rosto.
— Repete. — Ele diz em um tom sombrio e fixa os olhos nos meus
novamente, como se quisesse ter certeza do que havia ouvido certo. Fecho os
olhos e quando torno a abri-los, analiso a expressão ansiosa no rosto do
moreno bipolar. — Anda, Baby Girl, repete. — Ele está impaciente e se
aproxima mais de meu corpo, ficando a centímetros do meu rosto.
— Eu sou idiota por gostar de você. — Digo com a voz falha e o moreno
pressiona seu corpo contra o meu e acaba com todo o espaço entre nós
atacando meus lábios, tirando-me o fôlego restante. O toque de seus lábios é

278
intenso; talvez só nos entendamos assim. Usando toda a força que consigo
arrumar com a falta de espaço, paro de retribuir ao contato de sua língua e o
empurro, fazendo com que o homem me encare com um pequeno sorriso nos
lábios inchados e avermelhados com a respiração irregular. Ele tenta se
aproximar, mas o empurro e acerto um tapa em seu rosto, que vira para o lado
antes de ele levar a mão ao local e olhar para mim.
— Posso gostar de você quando está calmo, mas não muda o fato de que
eu te odeio por tudo o que me fez passar. E um pouco do meu afeto não muda
o fato de que você vai morrer sozinho e que as pessoas vão comemorar, eu vou
comemorar quando isso acontecer. — Sua expressão se quebra e torna-se algo
doloroso. Como se ouvir aquilo, ou a ideia de ser tão insignificante para todos e
acabar sozinho, o assombrasse. Zared não se mexe ou tem qualquer tipo de
reação, simplesmente balança a cabeça e vai para varanda, sentando-se em uma
das poltronas que tinha lá sem dizer uma palavra. Respiro fundo e solto o ar em
suspiro pesado. — Ainda há tempo para mudar, mas depende de você. —
Murmuro, ciente de que ele ouviu.
Abro a porta do cômodo e saio de seu quarto, deixando-o sozinho.
Assim como costumava a ser antes, cada espaço da casa havia homens
espalhados para todos os lados, mas apenas poucos se atreviam a olhar para
mim. Isaac havia me contado que depois que matei Alexander, alguns dos
empregados adquiriram certo medo. Mas por outro lado, sabia que por estar
mais próxima ao chefe deles, todos achavam que tinham que me dar o mesmo
respeito e evitar me olhar, exatamente como fazem com o chefe.
Passando pelas portas a caminho do quarto, deparo-me com Isaac saindo
de um dos quartos com uma bandeja de comida. Ele não parecia bem, estava
pálido e parecia prestes a vomitar.
— Está tudo bem? — Pergunto para o rapaz, que olha para mim e abre
um pequeno sorriso e balança a cabeça.
— Acabei de sair do quarto onde Scarlett está, ela não quis comer nada, e
sua aparência é… Nojenta. — Pela expressão estampada em seu rosto, percebo
que ele não tem a intenção de entrar ali outra vez, por isso seguro a bandeja de
e passo por ele.
Ao adentrar o quarto, posso ver a cara de nojo das mulheres gordas e feias
que cuidam da garota. Por mais que suas caras estivessem estampadas com uma
expressão que manteria qualquer um longe, ambas as mulheres de meia idade
são gentis. Na cama, percebo o corpo da garota coberto com lençóis finos e um
lado de seu corpo estava inteiramente coberto por toalhas úmidas. Aparentava
estar dormindo, mas tinha expressão de dor. Um lado meu parece satisfeito em

279
vê-la naquele estado, mas eu estava tão arrependida do que fiz que resolvi fazer
o trabalho das duas que pareciam decidir quem faria o curativo.
Coloco a bandeja sobre a mesinha de cabeceira e vou até a o álcool em gel
para limpar as mãos antes de começar a retirar as toalhas, sentindo meu
estômago embrulhar ao ver que Isaac tinha razão. A pele de Scarlett estava
queimada sobre a carne, com áreas avermelhadas, e bolhas. Retiro a toalha de
seu rosto e uso outra para limpar o lado ferido, coloco uma pomada para
queimadura em meu indicador e dedo médio e aplico por toda a área. Passo o
resto do meu dia cuidando da loira, que não havia aberto os olhos nem por um
minuto, assim como eu sentia meu estômago reclamar o dia inteiro. Sentada em
uma cadeira ao lado da mulher que há uns dias eu não hesitaria em matar, faço
o segundo curativo.
O céu lá fora já estava escuro quando coloco as toalhas sobre a parte
queimada, escuto a porta se abrir e as duas mulheres pulam das poltronas e
fingem estar se ocupando com algo, poupando-me de virar a cabeça para ver
quem era.
— Baby Girl, quero falar com você. — Escuto a voz do moreno soar tão
baixa e derrotada que balanço a cabeça e deixo que as mulheres terminem
aquilo para eu poder sair do cômodo e seguir Zared até meu quarto. Ele não
fala nada nem olha para mim, apenas se apressa em abrir a porta, mas não entra.
— Se arrume, vamos sair.
— Não quero sair com você. — Disparo.
— Você não tem que querer. — Ele diz e fica em silêncio, mas logo se
apressa em olhar para meu rosto, evitando encarar meus olhos como costuma
fazer. — Só se arrume. E não me obrigue a estragar as coisas.
Ele sai e fecha a porta, mas não a tranca. Ele se arruma rápido, então me
apresso em ir tomar um banho apressado. Ao voltar para o quarto, visto uma
lingerie rendada com um sutiã que deixa meus seios enormes, e com a toalha
nos cabelos recém lavados presos na toalha acima da cabeça, sento-me sobre a
penteadeira e me apresso em fazer uma maquiagem que cobre todos os efeitos
ruins.
Ao terminar, apresso-me em secar os cabelos antes de ir até o guarda-
roupas e analisar os vestidos. Acabo escolhendo um com decote que chega até
meus joelhos. Calço uns saltos e pego o casaco. Encaro-me na frente ao espelho
e percebo que o colar de Todd não combina, então tiro-o e guardo na gaveta da
penteadeira, deixando em meu pescoço somente o medalhão que havia
ganhado do moreno.

280
— Vamos? — A sua voz rouca e sombria soa da porta. Afirmo e quando
me aproximo, percebo seus olhos caírem para o colar e ele abre um sorriso ao
não ver o de meu amigo. — Está bonita. — Ele diz antes de estender a mão e
entrelaçar seus dedos nos meus, puxando-me até a garagem. O caminho é feito
em silêncio, com apenas o barulho da música que toca no rádio. Percebo que
ele está agitado e nervoso e que evita a olhar para mim.
— O que está planejando em fazer? — Ele olha para mim e liga o ar
condicionado, enquanto as janelas se fecham.
— Te levando para sair.
— Por quê? Você não faz isso. — Ele respira fundo e se vira para mim.
— Porque eu também gosto de você. E não sabe o quanto lamento por
saber que nunca serei o tipo de pessoa que você precisa. Esse sou eu, e não vou
mudar porque uma garota apareceu. — Ele responde com sinceridade, então se
aproxima e coloca a mão em meu rosto. — Mas posso te mostrar que tenho
lados interessantes que devem ser mantidos apenas entre nós. — Ele diz mais
baixo e deixa um beijo em minha bochecha. — Eu te adoro. — Sua voz soa
como um sussurro em meu ouvido.
Ao chegarmos ao restaurante, percebo que parece ser ainda mais elegante
do que o primeiro. Era a segunda vez que saía com ele, e não deixo de me
encontrar preocupada, já que no final do nosso primeiro encontro foi um
pesadelo e confesso ter um pouco de medo do que pode acontecer desta vez.
Eu não teria mais ninguém a perder caso acontecesse algo, ele mal sabe que eu
e Isaac estamos no início de uma amizade e quando descobrir vai perder a
cabeça e fazer alguma coisa, o que me deixa mais preocupada com o rapaz que
me ajudou na época em que eu havia chegado ao extremo.
Zared sai e dá a volta para abrir a porta para mim antes de pegar minha
mão e me puxar para fora. A chave é entregue ao manobrista. O braço dele
desce até o fim de minhas costas e me abraça pela cintura enquanto nos guia
para dentro do restaurante.
O lugar é mais amplo e romântico, as mesas são redondas e cobertas por
toalhas brancas, no centro tem pequenas velas e vasos transparentes com rosas
vermelhas, e enormes lustres ocupam o teto. Uma música calma ocupa o lugar e
têm diversas pessoas jantando, comemorando algo, fazendo pedidos ou se
declarando, todos extremamente felizes, o que me faz ter inveja das mulheres
que ocupam as cadeiras. Não por terem homens bonitos, mas por estarem
felizes e com sorrisos largos e emocionados enquanto estou acompanhada por
um homem bonito demais, mas que não tem qualquer valor sentimental a
ninguém por ser uma pessoa ruim, egoísta e manipuladora.

281
Percebo que ele fala alguma coisa a recepcionista e acordo do meu transe
enquanto sou puxada pelo lugar. Ela nos guia até uma área mais privada. A luz
é fraca, quase dando a impressão de que as velas eram as únicas coisas que
iluminavam o ambiente, e poucos lugares ali são ocupados, provavelmente
umas duas ou três pessoas jantando sozinhas. A mulher indica uma mesa e se
retira em seguida sem parecer interessada no moreno, o que me agrada. Percebo
que nossa mesa está coberta por uma toalha vermelho-escura, e no pequeno
vaso, uma rosa negra falsa se encontrava entre as brancas. O homem se senta e
quando estou puxando minha cadeira, ele pula para fora da sua, como se tivesse
se tocado de algo, e leva as mãos para me ajudar a tirar o casaco antes de puxar
a cadeira para mim e se sentar a minha frente.
— Por que estamos aqui? — Pergunto chamando sua atenção para mim.
Ele limpa a garganta, mas não diz nada quando um garçom de cabelos grisalhos
se aproxima com um sorriso gentil que logo se torna sem jeito ao ver a
expressão severa de seu cliente. Zared pede a sugestão do chefe e o melhor
vinho para acompanhar, o garçom anota e pede licença, saindo de perto de nós
como se fossemos monstros prestes a atacá-lo, então o moreno olha para mim
e puxa minha cadeira para ficar mais próxima da sua, apoiando o braço nas
costas de minha cadeira, como se estivesse a abraçar meus ombros, mas ele não
o faz.
— Porque não existe apenas o lado ruim em estar comigo e quero te
mostrar. — Ele responde e leva a mão para dentro do bolso do casaco e tira
uma caixa preta de veludo, que é colocada sobre a mesa, empurrando-a para
mim sem dizer uma palavra. Ao abrir, vejo um anel de prata com um diamante
negro pequeno e delicado. Olho para Zared, maravilhada, e não escondo um
sorriso, o que parece relaxá-lo.
Ele pega a caixa e tira o anel, segurando minha mão antes de colocá-lo;
parece que foi feito sob medida.
— Não é um anel de compromisso, mas tenho um e… Gostaria que usasse
também. — Olho para suas mãos a procura do tal anel e percebo que está no
anelar. Para mim, quando duas pessoas usam um par de anéis é porque tem algo
sério, mas se ele diz não ter significado, então creio que realmente não haja.
O restante do jantar é feito em silêncio, poucas palavras são trocadas,
como se ambos estivéssemos evitando dizer algo errado que poderia acabar
com a noite. Para minha surpresa, Zared não come quase nada, apenas fica
parado olhando para algum canto atrás de mim, perdido em seus pensamentos.
Não pedimos sobremesa e passamos uma hora em silêncio até que ele olha para
mim e se levanta.

282
— Vamos, a noite ainda não acabou. — Olho para ele de forma suspeita,
mas não digo nada, apenas pego o sobretudo e sigo-o até o lado de fora. O
manobrista traz o carro e ganha cem dólares de gorjeta.
— Para onde vamos? — Pergunto ao entrar no automóvel, observando
Zared se livrar do casaco e jogá-lo na parte de trás, sem parecer ter interesse em
me responder.
Encosto no banco e observo as ruas bem iluminadas. Ainda estava irritada
com ele, mas a última coisa que quero é sair estapeando-o outra vez, por isso
estou fazendo o que ele quer e agindo da melhor forma que consigo. Estar em
silêncio no mesmo lugar que ele me faz ficar curiosa, já passamos por tantas
coisas e mal o conheço, queria saber tantas coisas sobre ele. Viro o rosto para
ele e não contenho um pequeno sorriso ao vê-lo olhando para mim por um
breve segundo antes de retornar a atenção para a pista assim que nota meu
olhar nele. — Daddy… Qual a parte do meu corpo que você mais gosta? —
Seus lábios se curvam em um sorriso malicioso e ele solta uma risada.
— Sua boceta. — Ele responde sem pensar duas vezes e reviro os olhos,
desmanchando o sorriso. Sentia vontade de rir com sua resposta, mas algo em
mim esperava mais de sua parte, não uma resposta tão óbvia. Ele me analisa
pelo canto dos olhos e limpa a garganta antes de se ajeitar e voltar a encarar a
rua. — Seus olhos, são diferentes, têm uma inocência única e gosto de olhar
para eles. — Um sorriso involuntário cresce em meus lábios e olho para frente,
virando a cabeça para encará-lo outra vez após dois minutos.
— Eu gosto de tudo em você. — Respondo dando de ombros. Era
verdade, ele todo me agradava. — Não o seu jeito bipolar, agressivo,
manipulador e psicopata de ser, mas sua aparência. Você é lindo, tem um belo
corpo e suas tatuagens parecem sempre terem sido parte de você, não consigo
te imaginar sem elas. — Olho para baixo e solto pequenas risadinhas. —
Resumindo: acho que se fossemos de realidade normal, eu me atrairia por você.
— Concluo e vislumbro um sorriso querer se formar em seus lábios, mas ele se
força a manter a expressão séria. O carro para em algum lugar e Zared vai
direto até o porta-malas. Saio do veículo e vou até ele, vendo-o tirar a camisa
social e pegar uma regata e sua jaqueta de couro, bagunçando seus cabelos
negros logo em seguida, assumindo seu costumeiro estilo.
— Só tira o casaco. — Faço o que é mandado e coloco o casaco no porta-
malas. Ele pega minha mão, entrelaça nossos dedos antes de me puxar para
uma porta e adentrarmos o estabelecimento barulhento enquanto ele guarda as
chaves dentro do bolso da calça. Estamos em uma danceteria comum, repleta

283
por gente da nossa idade e sem nenhum sinal de mulheres se prostituindo ou
dançando sem roupa.
O lugar era escuro, iluminado apenas pelas luzes vermelhas e repleto por
fumaça sintética enquanto as pessoas se agarram, bebem e dançam. Sou puxada
até o bar e ele pede duas doses de tequila, entrega-me um dos copos de vidro e
me diz para beber de uma única vez e assim faço, tendo uma sensação de
queimação horrível que aquece meu corpo.
O copo é tirado de minha mão e substituído por outro, com vodka e
pedaços de morango. Zared se aproxima de mim e me prende contra o balcão
do bar. Penso que ele vai me beijar, mas ele desvia e para com os lábios a
centímetros de meu ouvido.
— Preciso resolver umas coisas. Não saía daqui. — Ele diz e deixa um
beijo em meu pescoço antes de se afastar, mas retorna e me olha de forma séria:
— Tenho pessoas de olho em você, se tentar alguma gracinha, nossa noite vai
acabar assim como a última. — Balanço a cabeça e sento-me na banqueta,
observando-o sumir em meio à multidão. Passo um bom tempo encarando as
pessoas se divertirem enquanto eu não poderia sair da cadeira se não meu par
acabaria pirando com alguma coisa.
Sabia que essas coisas que ele tinha que resolver era matar alguém e eu não
podia fazer nada. Enquanto fico esperando, acabo bebendo mais do que deveria
e estou quase dormindo no balcão quando ele aparece com uma expressão fria
que eu odiava de uma forma mortal.
— Precisamos sair daqui agora. — Ele resmunga e me puxa para fora da
banqueta, ignorando meu estado totalmente alcoolizado. Ele tira umas notas da
carteira e no balcão antes de sua mão apertar meu braço com força enquanto
me arrasta de volta ao carro. Por mais bêbada que eu estivesse, um lado meu
parecia bem consciente e não estava gostando nem um pouco da forma que ele
estava agora, estava como aquele homem horrível que ele era antes de prometer
não me bater mais.
Não que eu acredite nessa promessa ou nessa mudança repentina, mas não
gosto de ver esse Zared agir como o outro Zared. Ao passarmos pela porta, puxo
meu braço de sua mão e paramos, ficando um de frente para o outro com uma
expressão nada boa.
— Já vai estragar nossa noite? Porque se acha que um anel idiota me
compra, está muito enganado, ainda estou irritada com você por tudo o que fez
e pelos acontecimentos de hoje. — Tremo ao sentir o vento gelado
acompanhado por algumas gotas de chuva. Ele olha para os lados e passa as
mãos nos cabelos antes de me olhar novamente.

284
— Não sou eu quem está bêbado.
— Estou bem consciente, Daddy. Quem sumiu por horas e apareceu todo
irritado foi você. Só te peço uma coisa: se todas as vezes que me levar para sair
acabar de uma forma ruim, então pare, porque já tenho mágoas demais. —
Dou a volta e entro no carro, seguida por ele. Acomodo-me no banco e tiro os
saltos, cruzo as pernas antes de apoiar a cabeça no vidro enquanto o homem ao
meu lado suspira. O veículo é ligado e ele liga o aquecedor antes de tirar sua
jaqueta e colocar sobre minhas pernas descobertas.
— Não quero estragar nossa noite. — Ele murmura. — Mas precisamos
sair daqui de qualquer forma. — Olho para ele de e balanço a cabeça.
Zared dirige para longe e me ocupo em procurar uma música na rádio, e
ao não achar, procuro CDS no porta-luvas e encontro um do Arctic Monkeys, que
muda o ambiente para algo mais tranquilo. Assim que olho pela janela, noto
que estamos em uma praia distante da cidade outra vez.
— Não gosto de lugares agitados. — Ele dá de ombros, o carro para e saio
dele, sentindo a brisa agradável. Ouço a porta bater e olho para trás, vendo o
moreno andar com calma e se sentar sobre o capô sem dizer uma palavra.
Sento-me a seu lado e abro um sorriso ao ver o céu iluminado pelas estrelas.
Não conseguia ver o mar com clareza, mas ouvia o som das ondas
quebrando e sentia o ar salgado. A música ainda tocava no carro e percebo que
várias se passaram sem que nenhum de nós dissesse nada. Respiro fundo e me
aproximo do moreno, atrevendo-me em pousar minha mão em sua barriga
coberta, e sua mão pega a minha e entrelaça nossos dedos, mas ele não diz nada.
— O que Leon quis dizer sobre você ter escrito uma carta dizendo que
estava cansado dessa vida? — Esforço-me para ter uma boa visão de seu rosto
sério ao encarar nossas mãos entrelaçadas.
— Antes de ter você, eu estava sozinho, estava cansado de fazer tudo o
que faço. Algumas horas antes de te ver naquele puteiro, eu havia escrito aquela
carta e fui até a casa dele deixá-la. O idiota só foi ler agora. — Sua resposta vem
mais rápido do que eu esperava e livre de qualquer emoção, o que me deixa um
pouco desconfortável.
— Por que Leon acha que eu sou motivo disso? — Aproximo-me mais
dele, que olha para frente e torna a encarar nossas mãos.
— Porque você é. — Ele sussurra baixinho e se curva para mim, deixando
um beijo em meu ombro antes de ficar com o rosto próximo ao meu.
— Eu, o quê? — A boca do moreno se curva em um sorriso, ele se
aproxima mais e deixa um selinho em meus lábios.

285
— A única garota que eu quero. — Ele sussurra e morde o lóbulo de
minha orelha, fazendo-me fechar os olhos enquanto sinto sua mão deslizar até
minha cintura, puxando-me para seu corpo.
— Pessoas como você são incapazes de sentir afeto por alguém. —
Afasto-me dos toques calorosos dele, que torna a se aproximar.
— Não, elas sentem. Até Hitler teve suas paixões, não somos incapazes de
sentir, somos humanos, Baby Girl, é só que pessoas como
nós não podem cometer o erro ter laços afetivos com outras…
— Porque elas se tornam sua fraqueza. — Concluo e ele assente, então
abre um pequeno sorriso antes de olhar em meus olhos.
— E agora você é minha fraqueza. O melhor erro que já cometi.
O moreno mantém-se quieto a espera de alguma reação minha, mas tudo
o que consigo fazer é olhar para ele sem saber como agir com aquelas palavras.
Ele havia acabado de admitir que sente algo por mim. Por alguns instantes
minha mente volta para o dia em que estávamos no banheiro do quarto que
agora dizemos ser meu, no segundo dia em que passei em sua casa, o dia em
que ele disse que não me mataria se gostasse de mim, no entanto, ele já disse
tantas vezes que me adora e isso é algo maior do que um simples gostar.
Sinto uma parte de meu corpo se acender, como se a ideia de poder ter um
pouco de certeza que continuarei viva me deixasse em chamas. Sei que não
tenho mais opções, e que nunca mais terei uma vida normal, porém continuar
viva me faz acreditar em um recomeço e isso é tudo o que eu preciso, mesmo
que seja ao lado do homem que causou tudo isso.
Balanço a cabeça antes de levar minha mão a seu rosto e acariciar sua
bochecha com o polegar enquanto vejo o brilho de seus olhos. Era tudo tão
louco, tão clichê. É impossível gostar de uma pessoa como ele, não? Não. Não
quando se tem uma mente problemática que tem um lado que acredita com
todas as forças que ele pode ser salvo de tudo isso e se redimir por todos seus
erros e pecados. Porém, meu outro lado o odeia e faz tudo isso por saber que se
desrespeitar qualquer uma das vontades dele é capaz do homem voltar a me
bater.
Zared leva suas mãos para minhas pernas e as abre o suficiente para poder se
colocar no meio delas, ficando sobre mim antes de descer seus lábios até meu
pescoço deixando beijos calmos e demorados naquela área. Ele torna a subir até
meu rosto e deixa um beijo simples em minha bochecha antes de encarar meus
olhos.
— O que foi? — Ele sussurra e acaricia minha coxa com uma das mãos.
Respiro fundo e tiro sua mão antes de empurrá-lo com delicadeza, afastando-o

286
para que eu torne a me sentar. Olho para o lugar de onde vêm os barulhos das
ondas e mordo o lábio antes de encará-lo novamente, mas com tristeza.
— Não importa o que eu faça, jamais me deixaria partir, não? — Ele ri e
desce do capô, abre a porta do carro, pega um cigarro e o acende antes de
apoiar os cotovelos nos joelhos. Ficando ambos em silêncio. A brisa fria e
salgada que vem do mar é forte, deixando-me com um pouco de frio. Zared
senta no banco do motorista com as pernas para fora do carro, e permaneci no
capô, de costas para o homem, encarando a imensidão.
— Achei que já tínhamos passado dessa parte. — Por fim ouço sua voz
soar ríspida, como se ele estivesse irritado por saber que eu ainda não desisti da
ideia da ir embora. Mesmo que eu não possa ir atrás de minha família , eu ainda
quero tentar ter uma vida normal, ter esses momentos horríveis somente como
lembranças, ou simplesmente acabar com tudo isso.
Ainda sem me virar para tentar vê-lo, posso ter uma noção de como seu rosto
está contorcido de raiva só pelo som de sua voz. Coloco uma mecha do cabelo
atrás da orelha e umedeço os lábios antes de me virar para trás e ver somente a
parte acesa de seu cigarro, e no mesmo instante o moreno começa a brincar
com seu isqueiro, acendo e apagando o fogo.
— Não desistirei da minha liberdade. — Respondo e me levanto. Zared
acende o isqueiro e olha para mim sério, limpando a garganta antes de desviar o
olhar para o fogo que se apaga.
— Pois deveria, jamais permitirei que me deixe. — Ele torna a acender o
isqueiro, mas dessa vez ele, o faz para olhar para mim, que vou até ele, irritada.
Por algum motivo, isso me faz querer chorar e ao perceber, ele abre um sorriso
de lado e ri. — Chora, baby. — Ele zomba da minha cara e leva o cigarro a boca.
— POR QUE NÃO ME DEIXA IR? — Grito sem ter noção do por que. Eu só
quero ir embora, esquecer tudo isso, mas ele me prende como se eu fosse um
animal de estimação. Zared larga o isqueiro e cospe antes colocar-se de pé,
agarrar meus braços e me jogar contra o carro.
— PORQUE VOCÊ É MINHA ÚNICA FAMÍLIA. NÃO PODE ME TIRAR ISSO.
NÃO POSSO FICAR SEM NINGUÉM OUTRA VEZ! — Ele aperta meus braços com
força. Sua voz estava alterada como se essa fosse um dos assuntos que mais o
ferisse e, como sempre, não sei o motivo. Ele solta meus braços e se vira de
costas para mim, passando as mãos nos cabelos antes de puxá-los.
— Eu não quero continuar aqui, Zared. Seu mundo me apavora, você é
cruel, e por mais que não tenha medo de nada, eu tenho, e só quero parar de
sentir. — Murmuro e ele torna a se virar para mim e solta uma risada.

287
— Eu tenho medo, Skye. Tenho medo de ficar sozinho. Estou me
esforçando para ser melhor com você para não te perder, então nunca mais
toque nesse assunto outra vez. — Sua voz é carregada de vulnerabilidade e sua
expressão furiosa dá lugar a uma expressão de dor.
Olho para o lado e me abraço, senti meus braços latejarem graças a seu
aperto. Escuto o barulho de suas botas pisarem nas pedrinhas no chão e logo,
sou puxada para seu corpo e envolvida em seus braços, que me apertam contra
seu corpo antes de deixar um beijo em minha testa. Afasto-me um pouco para
poder descruzar meus braços e retribuo seu gesto, e ficamos daquele jeito por
um tempo até ele se afastar e levar uma das mãos a meu pescoço, deixando
beijos ali.
Desço minha mão para dentro de sua blusa e cravo minhas unhas em suas
costas, fazendo-o soltar um gemido enquanto me empurra até que meu corpo
encontre o carro. Zared agarra minhas pernas e me tira do chão antes de tomar
meus lábios em um beijo intenso e cheio de desejo, causando um efeito positivo
em mim. Suas mãos deslizam para dentro de meu vestido e brincam com o
elástico de minha calcinha. Ele se afasta de meu beijo e encara meus olhos.
— Eu te vi como uma benção, mas me enganei. — Ele diz com a voz
grossa e me solta antes de abrir a porta de trás e me empurrar para lá, onde me
deito enquanto ele fecha a porta e se coloca sobre mim, lambendo a parte
descoberta de meu seio antes de deixar um chupão no local. — Você é minha
maldição, Skye. — Ele sussurra em meu ouvido e morde minha orelha antes de
subir meu vestido e apertar minhas coxas com força.

— Eu não costumo gostar das pessoas, Baby Girl, mas gosto de você, e uma vez
mudada minha opinião, mudada para sempre. — Ele diz com calma e se
aproxima de mim. — Só peço que não tente me deixar. — Quando penso em
responder alguma coisa, o celular dele começa a tocar. Ele o evita por um
tempo, mas ao ver a persistência de quem o liga, ele se afasta e tira o aparelho
do bolso. No momento em que o moreno aperta minha perna, sei que não é
coisa boa. Nunca é. Observo-o desligar o celular e sair do veículo para ocupar o
banco do passageiro. Fecho os olhos e respiro fundo antes de ir para o banco
do passageiro enquanto ele sai em alta velocidade. — Vamos a um lugar onde
você não vai poder dizer nada, entendeu? Só faça o que eu mandar. — Ele avisa
sem qualquer emoção na voz.

288
Zared fica em silêncio todo o caminho, mas sua expressão não é boa.
Talvez estivesse irritado por termos sido interrompidos outra vez. Por algum
motivo, tinha a impressão de que algo errado aconteceria, sempre que nos
resolvemos acontece algo para estragar, então não duvido de nada. Após
algumas horas de viagem até o lugar, chegamos a uma casa ainda maior que a
de Zared, maior do que todas as que eu tinha visto e com o triplo de segurança,
que só nos permitem entrar ao reconhecerem o moreno. O carro é estacionado
e assim que saímos, o homem se apressa em pegar nossos casacos antes de
entrelaçar nossos dedos e me puxar para dentro da enorme casa lotada. Ainda
no primeiro andar, Zared nos guia até uma sala de reunião, lotada por homens
desconhecidos, e reconheço Logan, Nolan, Leon e sua irmã, que estava parada
ao seu lado de cabeça baixa.
— Finalmente você e sua… Virgem chegaram, Z. — Ouço a voz de Leon
e o cômodo fica quieto, todos nos olham. O chefe tem um sorriso sinistro nos
lábios e seus olhos recaem sobre mim; seu sorriso fica ainda maior e tremo.
— Ela é minha mulher. — Zared vai direto para o bar e coloca uísque em
um copo antes de passar seu braço em torno de meus ombros, puxando-me
para mais perto de seu corpo.
— Senhor, precisamos conversar. — Isaac aparece diante de nós. Zared
assente e sussurra em meu ouvido para ficar ali no canto da sala e não falar com
ninguém. Ambos os homens saem às pressas e abaixo a cabeça, evitando olhar
para Leon outra vez, mas não demora muito para um par de sapatos pararem a
minha frente.
— Mulher do Z? Desde quando deixou de ser a virgem para ser a mulher?
— Ouço a voz calma de Nolan, mas quando o encaro, vejo um sorriso
malicioso em seu rosto, o que faz com que eu me encolha. — Ele tem sorte,
você é bonita e gostosa, também te foderia pra caralho se fosse ele. — Nolan se
aproxima e acaricia meu rosto, mas é afastado por Logan, que apenas sorri para
mim.
— Desculpe, ele está chapado, jamais daria em cima da mulher de um
amigo. — Assinto e me abraço. — À propósito, está linda. — Sorrio e observo-
o afastar-se enquanto puxa o loiro para perto de Leon outra vez. Alguns
minutos depois, Zared aparece ainda mais emburrado, mas me abraça pela
cintura enquanto Leon fala algumas coisas que eu não entendo. E do nada, seus
olhos mal intencionados caem sobre mim outra vez.
— Aproveitando que estamos todos aqui… — Ele abre um sorriso
horrível para mim, depois para Zared, que parece tenso. — Apresento
oficialmente o novo integrante que está entre nós há pouco tempo, ele fará

289
parceria com o Z e substituirá Hayden. E ambos têm um desejo em comum. —
O homem torna a olhar para mim e noto Zared me apertar mais contra seu
corpo. A porta da sala é aberta e passos pesados ecoam pelo cômodo silencioso.
O homem usava jaqueta com capuz, e quando o tira, vejo seus cabelos
castanhos, seus olhos encontram os meus e meu peito dói. Tento ir até ele, mas
Zared agarra meu braço e me impede.
— Skye. — O homem a minha frente diz e abre um sorriso. Tiro meu
braço da mão do moreno e o empurro para longe de mim antes ir encarar o
rapaz por um tempo antes de sair correndo até ele, atirando-me em seus braços,
que me apertam com tanta força que todo o ar some, enquanto eu faço o
mesmo e começo a chorar.
— Eu te amo tanto, Todd. — Não era uma alucinação, meu melhor amigo
estava realmente ali comigo.
Mesmo sentindo o calor de seu corpo e seus braços me apertando contra
ele, ainda não conseguia acreditar que Todd realmente estava ali, que ele estava
realmente vivo. Zared não o matou, ele cumpriu meu pedido, manteve meu
melhor amigo vivo por todo esse tempo. Mas por que não me contou? Por que
afirmou tantas vezes que havia matado o rapaz ao invés de me contar a verdade?
Poderia ter me poupado de tanto sofrimento.
Mas naquele momento meus pensamentos não se concentravam no
moreno, e sim, no único homem que mostrou que daria sua vida apenas para
não me abandonar. Os braços dele me soltam e recuo para ter uma visão de seu
rosto sorridente quando ele toca meu rosto, acaricia minha bochecha com o
polegar. Fecho os olhos e abro um sorriso antes de colocar minha mão sobre a
sua ainda sem acreditar que ele estava ali. Jamais estivera tão feliz quanto me
sinto agora, como se um peso fosse tirado de minhas costas, o peso de saber
que sou a culpada pela morte de mais uma pessoa que amo.
Eu preciso de Todd assim como precisamos respirar. Para minha surpresa,
ninguém faz nada para me separar de meu amigo, nem mesmo Zared, o que me
deixa satisfeita, mas preocupada ao mesmo tempo. Olho para trás e vejo o
homem olhando em nossa direção antes de abaixar a cabeça para a encarar o
copo de uísque em sua mão.
— Tem certeza que ela é sua mulher, Z? Ou você a roubou de outra
pessoa? — Ouço a voz de Leon do outro lado do cômodo. Seu tom era
carregado por ironia e satisfação.
Antes que eu possa me soltar de meu amigo, ouço o barulho de algo se
partindo, o que me faz dar um pequeno pulo e olhar para a parede molhada por
uísque e o copo estilhaçado aos pés de Leon. O homem estava com a

290
respiração acelerada, seu rosto contorcido e vermelho pela raiva, e antes que
qualquer um pudesse raciocinar, ele vai até Leon e o ataca com um soco antes
de empurrar e pressionar o amigo contra a parede enquanto agarra a gola de
sua blusa, ambos encarando os olhos um do outro com ódio. Por mais que
aquela sala esteja repleta de pessoas cruéis, é possível ver o medo deles ao
presenciarem a cena, como se os dois homens fossem bombas prestes a
destruir tudo. Talvez por saberem que se aquela discussão passasse para algo
mais pesado do que agressão física, eles terão que escolher um lado e ninguém
quer fazer isso.
— Não esqueça que eu posso te tirar daí tão fácil quanto coloquei. —
Zared rosna e empurra o chefe antes de soltá-lo com brutalidade. O moreno se
aproxima e encara Todd com desprezo antes de agarrar a blusa dele com uma
das mãos. — Deveria ter esquecido esse lugar, garoto. Farei da sua vida um
inferno, e quando eu achar Hayden, vou matar você e foder sua amiguinha,
como faço todas as noites. Dessa vez você não volta. — Diz com a voz
carregada de nojo e sai da sala sem ao menos olhar para mim, sendo seguido
por Isaac. Não penso duas vezes antes de sair correndo atrás do moreno,
deixando meu amigo gritando meu nome no meio de todos aqueles homens.
Eu estava feliz por ver Todd, mas não poderia perder tudo o que conquistei
com Zared, não quero voltar a estaca zero e ter que apanhar ou ser torturada
por qualquer coisa que eu faça, não agora que enfim estamos nos entendendo
melhor e ele está sendo bom comigo.
Assim que atravesso as portas, vejo o moreno indo em direção ao carro e
corro até ele, que finalmente me nota e se vira em um movimento inesperado, o
que me faz bater contra seu peito. Sou empurrada para longe dele, que se vira
para abrir a porta do veículo, ele respira fundo e se vira para mim outra vez
com a expressão carregada de dor e ódio.
— “Eu te amo tanto, Todd”, que merda foi aquela? — Ele grita com a voz
trêmula. Estava chateado. Franzo as sobrancelhas e observo-o passar as mãos
pelo rosto.
— Por que se importa com isso? Aliás, eu só sirvo para transar com você,
não é? Então por que se incomoda tanto com o que sinto por outro homem?
— Pergunto irritada, principalmente surpresa por sua atitude. Ele abre e fecha a
boca diversas vezes enquanto me olha sem saber o que responder e ri, mas não
me responde, apenas fica parado, olhando-me sem saber como reagir diante de
toda a situação. Quando começo a pensar que o deixei sem palavras, seus olhos
encaram os meus, deixando claro que a resposta está ali, ele que não queria
dizer.

291
— Entra no carro. — É tudo o que ele diz e faço que não. — Entra na
merda do carro, Skye! — Ele berra e bate com a mão no teto do automóvel,
causando um barulho que me faz pular, mas não faço o que ele manda. Zared
balança a cabeça e dá de ombros antes de me dar às costas, prestes a entrar no
carro e me deixar ali.
— Responda! — Jogo um dos saltos na cabeça dele, o que o faz virar-se
ainda mais furioso.
— Porque eu sou louco por você!— Ele grita tão alto que as veias de seu
pescoço se tornam perfeitamente visíveis. Seus olhos se tornam mais obscuros
e transbordam toda a raiva. Fico paralisada, só consigo olhar para o moreno,
que só faltava espumar de tão descontrolado, mas sou despertada no momento
em que ele fecha a mão em punho, soca o vidro da janela do banco de trás e
vejo sua mão começar a sangrar no mesmo instante. — Entra na merda do
carro ou vou te deixar aqui. — Ele continua gritando, e ao olhar para o lado,
vejo Isaac assistindo tudo aquilo tão surpreso quanto eu, porém, ele logo se
apressa em ocupar o banco do motorista do carro que usou para vir até aqui.
Ao notar o moreno ocupar seu assento, dou a volta com calma e abro a
porta do passageiro, sentando-me no banco em silêncio enquanto o automóvel
é tirado da vaga a velocidade tão alta que bato com a cabeça no vidro. Zared
finge que não viu e continua dirigindo, logo atrás do carro de Isaac. Noto o
sangue respingar no vestido e pressiono a mão sobre a ferida em minha testa.
Durante todo o caminho, o homem ao meu lado vai resmungando uma enorme
quantidade de palavrões e quando já não tinha mais o que falar, ele torna a dizer
a mesma coisa. Assim que chegamos ao portão de sua casa, ele espera Isaac
entrar e quando estamos passando pelo portão, ele para, abaixa a janela e encara
um dos guardas.
— Deixe aberto. — É tudo o que ele diz antes de acelerar o carro para
dentro da propriedade, parando com o veículo diante da entrada da mansão. —
Sai do meu carro.
— Aonde você vai? — Olho para Zared, mas ele me ignora e solta uma
risada.
— Melhor não saber. — Continuo esperando pela resposta. — Vou
encher a porra da minha cara e foder uma vadia que saiba fazer algo além da
porra de única posição, porque eu simplesmente estou com nojo de olhar para
sua cara depois da sua declaraçãozinha, principalmente depois de eu ter dito
para todo mundo que você era minha mulher. — Meu coração aperta e sinto
vontade de chorar presa na garganta. Não havia pensado em nada no momento
em que vi Todd, muito menos que ele se sentiria magoado ao me ouvir dizer

292
aquilo depois de ter dito na frente de todos aqueles homens que me
considerava mais do que um objeto de prazer.
— Zared… — Tento dizer, mas o moreno me cala no momento em que
se estica e abre a porta do passageiro para eu sair.
— Sai. — Sua voz sai sem qualquer emoção além da mágoa e raiva.
Saio do carro e antes que possa me virar para fechar a porta, ele acelera e
sai dali tão rápido quanto chegou. Ao entrar na casa, vou direto para meu
quarto, tranco-me e tiro a roupa e vou tomar banho.
No dia seguinte, acabo por acordar tarde. Não sentia vontade de levantar e
encarar a vida que tinha fora daquele quarto, era como se se eu ficasse trancada
no cômodo, pudesse me convencer de que não vivia tal realidade. Passo as
mãos pelo com um bocejo e ao me levantar, vou direto pegar uma blusa cinza,
short jeans, e tênis. Troco de roupa sem me dar o trabalho de colocar um sutiã
e saio do quarto, passo os dedos entre os cabelos até chegar ao meio da escada,
parando assim que vejo Zared passar e parar diante dela para me olhar da
cabeça aos pés com uma expressão nada boa. Vejo que ele raspou a cabeça e
que seu rosto está com cortes e hematomas.
Encaramo-nos por tempo o suficiente para perceber o quão intenso os
olhares se tornavam e Zared é o primeiro a deixar o cômodo. Pisco e escuto o
barulho da porta principal bater e Todd aparecer em meu campo de visão.
Desço os degraus restantes correndo, porém torno a parar no momento em
que Isaac para na frente de meu amigo, nenhum dos dois notando minha
presença ali. Isaac tem uma expressão furiosa, já Todd se mantinha calmo.
— Vir aqui não é a coisa mais inteligente a se fazer, não quando o dono da
casa quer te matar. — Isaac diz de forma ríspida enquanto impede meu amigo
de entrar.
— Não veio aqui falar o que eu já estou cansado de saber, o que é? —
Isaac dá um passo a frente e abro um meio sorriso antes de cruzar os braços
sobre o peito.
— Tem razão. Se tentar qualquer coisa para afastar Skye do senhor Winter,
eu faço de você a primeira pessoa que matarei desde que cheguei aqui. Fique na
sua. — Isaac termina de falar e sai. Todd respira fundo e olha a sua volta,
percebendo minha presença, o que o faz abrir um sorriso enorme para mim,
que retribuo antes de sair correndo até ele e pular em seu colo, sentindo seus
braços me apertarem contra seu corpo com força. Deixo um beijo em sua
bochecha e o solto ainda sorrindo.
— O que faz aqui? — No momento em que pego em sua mão, percebo
Zared parado em frente a uma porta olhando para nós antes de voltar ao

293
cômodo em que estava. Olho para meu amigo e abro um pequeno sorriso.
Puxo-o para a cozinha e começo a preparar algo para eu comer enquanto ele se
senta e fica me observando. — Então, vai me responder?
— Vim te ver. — Ele responde, pega uma maçã e a morde antes de
apontar para mim. — Mas não é só por isso.
— O que é?
— Acho que você já sabe. — Abro um sorriso e balanço a cabeça. —
Leon vai dar uma festa no Sinful Dolls, aquele puteiro bizarro do desaparecido,
vocês vão estar lá. — Por mais que eu não saiba de festa alguma, confirmo com
um aceno já que Zared sempre me leva. Pego o prato e sento-me ao lado dele
para comer.
— O que aconteceu com você? Como está vivo? — Encaro seus olhos e
ele abre a boca para responder, mas é interrompido pelo celular. Ele encara a
tela, depois olha para mim antes de levantar-se.
— Nos vemos a noite. — é tudo o que ele diz antes de ir embora.
Termino de comer e saio dali, passando pelo cômodo onde o moreno estava.
Por mais que estivesse com raiva dele, não conseguia deixar de ficar preocupada
pela sua aparência. Aproveito que a porta está aberta e espio para ver que
parece ser uma academia, e no meio dela, estava o tatuado socando um saco de
areia que não parava no lugar. Ele não usava luvas e pela força de seus golpes, a
bandagem branca de sua mão machucada estava coberta por sangue. Encosto
no batente da porta e fico observando-o treinar, no entanto, em um de seus
socos, ele acaba se afastando e gemendo de dor segurando a mão machucada,
mas como se se lembrasse de algo, ele se volta para o objeto e o chuta com
tanta força que a primeira coisa que consigo notar é o estalo forte, depois o
objeto caindo no chão, causando um barulho alto que me faz saltar com o susto
e esbarrar na porta, que se abre.
Zared vira a cabeça e me olha. Ouço-o dizer meu nome em tom surpreso,
mas não fico para saber o que ele teria para falar, corro para o quarto e fico por
lá até a noite cair e acabo dormindo, porém, acordo no momento em que sinto
alguém se deitar ao meu lado logo após ligar o ar condicionado. Sinto seus
braços me abraçarem, mas o tiro de perto de mim.
— Não toca em mim, não depois do fez ontem. — Digo com a voz rouca,
porém fria o suficiente para que ele solte um suspiro pesado. Podia notar que
ele havia acabado de sair do banho, só vestia a cueca e não cheirava a álcool.
— Eu não comi ninguém além de você. — Ele diz no mesmo tom frio. —
Na verdade eu voltei para a casa de Leon e terminei o que comecei mais cedo.
— Franzo as sobrancelhas e acendo a luz do abajur ao meu lado, que ilumina

294
seu rosto repleto por hematomas e cortes. Ele me olhava com uma expressão
cansada e se apoiava em um dos braços para me ver melhor.
— O que faz aqui? Achei que estivesse com nojo de mim. — Umedeço os
lábios e vejo-o negar com a cabeça negando antes levar sua mão até meu rosto
e tocar a área machucada com o polegar de sua mão enfaixada.
— Em parte, estava com raiva de você, mas estava puto daquela forma por
Leon meter aquele babaca e achar que o imbecil pode substituir Hayden, ele
nem ao menos saiu para continuar procurando. Simplesmente o substituiu. E
colocou Todd por saber que você vai ficar com ele, e se pensar bem, você tem
motivos para isso, mas não vou deixar que fique com outro, não porque eu
possa morrer por isso, mas porque não posso perder minha mulher… Minha
família. — Cruzo os braços e continuo em silêncio. Por mais que Zared
estivesse bem a minha frente, seus olhos mostram outra coisa, ele estava ali
comigo, mas sua mente estava em outro lugar e seja lá o que ele esteja pensando,
parece afetá-lo. A sombra que ele tem nos olhos sumiu, seus sentimentos estão
cada vez mais fáceis de serem desvendados, mas ainda assim, ele continua
sendo um mistério. — Aliás, quero te ensinar umas coisas. — Ele abre um
sorriso antes de morder o lábio e descer sua mão do meu rosto até o seio
coberto pela blusa. Abro um sorriso mínimo e levo minha mão até a dele,
tirando-a dali.
— Meu melhor amigo apareceu vivo depois de você ter gritado várias
vezes que havia o matado, acha mesmo que vou transar com você depois disso?
— Vejo seu sorriso desaparecer. — E você me deve respostas.
— Eu não lhe devo merda nenhuma. — Ele responde bufando antes de se
jogar ao meu lado sem paciência. Dou de ombros e me levanto da cama,
acendo a luz e vou até o armário a procura de roupas. — O que está fazendo?
— Leon vai dar uma festa, não vai? — Ele abre a boca, mas não diz nada,
apenas assente, levanta da cama e sai do quarto dizendo que é para eu estar lá
em baixo em meia hora.
Tomo um banho rápido, coloco um vestido vermelho bem justo e me
apresso em encontrar Zared e ambos vamos até o carro sem dizer nada.
Ficamos assim durante todo o caminho. Assim que ele estaciona na parte de
trás do puteiro de Hayden, vejo-o encarar o lugar e respirar fundo. Coloco
minha mão sobre a sua no volante e ele olha para mim, que sorrio antes de
deixar um selinho em seus lábios.

Zared

295
Nunca fui de usar as garotas daqui, só ajudava quando Hayden precisava de
algo, mas só fodia as putas ou mulheres que eu escolhia em Los Angeles. O
lugar estava cheio e não deixo de me sentir um pouco incomodado com o
decote do vestido que a garota ao meu lado usa, e por saber que ela chamaria
atenção, puxo-a para perto e abraço-a. Vou até o bar e peço um copo de uísque.
Vou até a parte vip, onde vejo todos sentados conversando, exceto Hayden, que
fora substituído por Todd. Skye olha para todos e arregala os olhos ao ver Leon
com o rosto ainda pior do que o meu, o que a faz acreditar no que eu disse
mais cedo. Quando ela se vira para mim, o babaca se levanta e a olha de cima a
baixo antes de abrir um sorriso. Ela tenta ir até ele, mas seguro sua cintura com
força o suficiente para mantê-la ao meu lado e fazer com que o máximo que seu
amigo ganhe seja um sorriso.
— Agora que viu que eu não menti, podemos descer e dançar? —
Sussurro em seu ouvido e vejo-a abrir um sorriso e assentir.
— Deixe-me falar com ele primeiro. — Respiro fundo e anuo. Ela vai até
ele e o abraço no canto da sala, onde conversam alguma coisa e olham para
mim. Ela volta e me puxa para fora dali. Analiso-a antes de morder os lábios e
empurrá-la para a parede, segurar sua cintura e puxá-la para mim para um beijo
intenso, o qual ela retribui, o que me faz sorrir. Eu a desejava, precisava senti-la
de todas as formas possíveis ainda essa noite.
— Acho que eu mereço beber um pouquinho, Daddy. — Ela diz antes de
descer sua mão até meu copo, e assim que o tira de minha mão, ela me afasta e
vira todo o álcool, o que a faz rir enquanto aperta os olhos.
— Se for beber o que é meu, deverá ir repor. — Ela assente e vai até o bar.
Observo-a se debruçar sobre o balcão e pedir outro. Só tiro os olhos dela no
momento em que noto Todd olhando para mim, o que me faz abrir um sorriso
de satisfação antes de Skye me entregar o copo cheio e me beijar outra vez.
Enquanto as músicas tocam altas, ela rebola e pula, ignorando totalmente o que
tanto a atormenta a sua volta como se aquela fosse sua última noite. Ela olha
para mim e sorri antes de segurar em minha blusa, empurrar-me em uma
cadeira e se curvar até meu ouvido.
— Sua bebida acabou. — Ela sussurra, pega o copo e vai em direção ao
bar outra vez. Vejo-a pegar a bebida e se virar para mim, então ela se senta no
meu colo, entrega-me o copo e bebo quase a metade antes de colocá-lo na mesa
para puxá-la para outro beijo.
Ela desce as mãos para dentro de minha camiseta enquanto rebola em meu
colo, deixando-me cada vez mais excitado. Desço os beijos para seu pescoço e o

296
chupo antes de dar leves mordidas antes de descer até seus seios e repetir o
movimento, fazendo-a suspirar antes de me afastar, pegar o copo e me entregar.
— Beba. — Faço o que ela diz e Skye torna a se levantar; dessa vez, vejo-a
olhar para o lugar onde Todd deveria estar, depois para mim, e balançar a
cabeça. Começo a ficar tonto e minha visão duplica, o que me leva a balançar a
cabeça e abrir bem os olhos. Quando Skye retorna, ela está mais tensa, entrega-
me o copo e fica em pé. — Vamos subir. — Ela pede, mas faço que não.
— Vamos embora. — Bebo toda a bebida e levanto com dificuldade, mal
o suficiente para não conseguir ficar de pé. A garota torna a me sentar na
cadeira e vai em direção ao bar, demora alguns segundos e volta com uma
garrafinha de água, a qual bebo metade antes de jogá-la para longe. Sentia-me
cada vez pior, como se se meus olhos estivessem prestes a fechar, e quando
penso que Skye está preocupada comigo, vislumbro Todd parar ao lado dela e
rir da minha cara, antes de me dar um soco, só não acertando porque ela se
coloca na minha frente.
— Ajude-me a levá-lo para o carro. — Ela diz com a mão no peito do
amigo para poder mantê-lo longe de mim.
— Não vou levar esse merda para canto algum. — Ele tenta puxá-la, mas
ela recua e balança a cabeça.
— Se quer que eu vá, vai ter que me ajudar a levá-lo para o carro. — Ela
diz e olha para mim, que passo a ver apenas um borrão. Todd respira fundo e a
ajuda a me tirar da cadeira, ambos me levando com dificuldade para a parte de
trás do lugar.
— Que história é essa de ir com ele, Baby Girl? — Pergunto com a voz
meio atrapalhada, mas qualquer um poderia notar meu desespero.
Todd abre um pequeno sorriso e empurra a porta dos fundos antes de
tirar a chave de meu carro do bolso traseiro de minha calça: — Por que você
não me responde? Você vai embora com ele? — Viro a cabeça para poder olhá-
la e vejo-a morder o lábio para não chorar. O amigo me solta e caio no chão ela.
— Você vai me deixar outra vez depois de tudo o que eu te disse?
Ela olha para mim e pelo que consigo ver, ela começa a chorar antes de
voltar a me segurar e me colocar sentado no banco do motorista. Todd dá um
tapinha no ombro dela e vai até um dos carros estacionados ali enquanto ela
fica ao meu lado.
— Não me deixe, por favor. — Digo e sinto um tapa em meu rosto.
Quando o carro do imbecil para diante do meu, ele a chama e seguro sua mão
para tentar impedi-la. — O que foi que você me deu? Merda! Não consigo

297
respirar. — Sinto as mãos dela em minha jaqueta e ela a tira, seguida por minha
regata, para jogar no banco do passageiro e ver minha tatuagem nova.
— “Don't feel”. O que você não sente? — Ouço a voz chorosa dela, torno a
pegar sua mão e a coloco sobre a tatuagem.
— O que você sente agora? — Pergunto com dificuldades, ela olha para
nossas mãos juntas sobre meu peito e volta a chorar.
— Seu coração… — Ela responde e então olha para mim.
— Pelo menos um de nós pode senti-lo. — Ela puxa a mão e sai correndo
para o carro a sua espera.
Sinto o nó em minha garganta e me apoio na porta do carro para ficar de
pé, e quando chego ao capô, o carro sai dali, deixando-me desesperado. Tento
sair correndo, mas tudo o que consigo é dar três passos antes de cair no chão
como o saco de areia de mais cedo, sentindo minha pele arranhar contra o
asfalto. — SKYE!— Grito o mais alto que consigo, e antes que eu possa notar,
já estou chorando enquanto observo o carro ir embora. E fico no chão sem
poder fazer nada para impedir que minha única família vá embora. — Eu
preciso de você.

Ficar caído no chão sem conseguir me mover ou poder fazer qualquer coisa
para impedir que aquele babaca a leve embora me faz sentir inútil, e como se já
não bastasse estar drogado, o efeito do que quer que ela tenha me dado, está
demorando para me deixar inconsciente e isso me tortura. Meus olhos estão
fixos no mesmo lugar há minutos, minha mente dopada repete diversas vezes a
expressão de seu rosto quando viu a tatuagem em meu peito, a forma com que
se apressou para entrar no carro.
Por uma fração de segundos, consegui ver seu rosto através do retrovisor:
ela chorava, mas algo em seu rosto dizia que não era por estar feliz por
conseguir a liberdade que tanto queria. Sempre soube que ela partiria quando
tivesse a chance, horas antes de descobrir que o melhor amigo estava vivo, ela
havia dito que não queria ficar aqui, a ideia me apavorou e eu precisei dizer o
que tinha em mente, admiti que ela é minha única família. E então quando a
ouvi dizer que o amava, precisei admitir que sou louco por ela, mas sabia que de
nada adiantaria, algo sempre me garantiu que ela jamais ficaria comigo e não a
culpo por escolher o mocinho. Eu sempre fui o vilão e como em toda história,
o mocinho leva a garota. Mas não antes que ela levasse algo de mim. Eu a

298
destruí, a condenei ao vazio, e Todd a resgatou antes que eu pudesse, através
dela, encontrar a minha salvação, e sem saber, ela levou minha esperança.
Não demora muito mais para que minha visão passe a ficar embaralhada,
mas não suficiente para me impedir de reconhecer os três pares de sapatos que
param a minha frente. Um deles me vira para que eu o veja.
Leon. Parado ali com um sorriso nojento. Logan e Nolan estão atrás dele,
cada um de um lado como seguranças, mas o único dos três que parece
surpreso é Logan, que tenta se aproximar para me ajudar, mas se interrompe no
momento em que o chefe acerta um chute em minha costela. Aperto os olhos e
gemo ao sentir a dor de seus chutes, e ao notar que não tenho forças para
impedi-lo, ele solta uma risada humorada e se abaixa a minha frente antes de
acertar socos em meu rosto.
— Você ficou fraco. — Ele diz rindo de minha cara antes de acertar um
soco em meu nariz, quebrando-o, fazendo com que eu me afogue em meu
próprio sangue. — O que pensou que aconteceria, Z? Achou que ela escolheria
você? — Pergunta com a voz carregada de sarcasmo, e ao ver meus olhos
voltarem a se fixar no caminho que o carro tomou, ele ergue as sobrancelhas e
ri. — Não acredito, você realmente acreditou que ela ficaria com você.
Sinto outro soco acertar minha boca e acabo me engasgando com a minha
própria saliva ensanguentada. Uso o resto de minhas forças para me pôr de lado
e cuspir o sangue e tossir sem conseguir parar. Quando vou ser atingido por
outro soco, Logan agarra no pulso do chefe e o afasta de mim, levando ambos
a entram em uma discussão, a qual não sei como termina, já que perco a
consciência.

Skye
Eu estava livre, depois de muito sofrer nas mãos de Zared. Mas por que não
estou feliz com isso? Por que uma parte minha sente-se vazia? Sempre que
parava para me imaginar livre, jamais pensei que seria desta forma, nunca
sequer pensei na possibilidade de sentir um vazio quando esse momento
chegasse.
Meus olhos estavam fixos no retrovisor, vendo somente a poeira que o
veículo levantava da estrada de terra e deixava para trás, assim como fiz com o
homem moreno que aos poucos foi se abrindo sem realmente se mostrar, e que
agora estava caído no chão. Zared nunca me pediu para ficar, mas dessa vez,
pude ver através de seus olhos cada pedaço seu desmoronar e, por um mísero

299
momento, pude ver a súplica para que eu não fosse embora. E como se isso
não bastasse, a visão dele se esforçando para se levantar e sua tentativa de
correr até meu carro para impedir minha partida antes de cair no chão acaba
comigo.
Tudo o que eu conseguia pensar é no quão tola sou por sentir mágoa por
ter feito isso com ele, por ter consciência que isso não chega perto do que ele
merecia por ter torturado e matado outras mulheres além de mim, porque sei
que morri, mas assim como uma fênix, renasci das cinzas com a mesma
aparência, porém mais cruel e capaz de suportar muito além do que qualquer
um. No tempo em que estive nesse mundo cruel de Zared, descobri que ele me
fez forte para superar tudo, menos as lembranças de cada segundo com ele que
ficaram marcados até minha morte. Porque eu sai dali, mas uma parte minha
sempre estará lá com ele.
Afundo no banco e passo as mãos sobre o rosto e fungo pelo menos mais
uma vez já. Podia sentir o vestido quase no começo de minha cintura e a forma
que o frio não parecia causar efeitos em meu corpo que estava fervendo.
Desvio meu olhar do espelho e olho a hora que marcava no relógio do rádio,
00h49 e penso que está errado, mas lembro que tudo começou muito cedo e
que a noite estava apenas começando. E como se meu cérebro acordasse,
lembro que meu amigo estava vivo por um motivo e que ele havia conseguido
com que Leon o aceitasse como mais um membro daquele lugar, o que me faz
olhar para ele, que também me olha para mim antes de sorrir e voltar sua
atenção para a estrada.
— Como? — Pergunto mais para mim do que para o homem, que me
olha mais uma vez.
— O quê? — Ele pergunta, soltando leves risadinhas.
— Como você está vivo? E acima de tudo, por que Leon te aceitou? Você
não passa de um garoto inexperiente para eles, como conseguiu entrar? — O
julgamento é claro em meu tom e apenas observo-o fechar a cara e limpar a
garganta.
— Sou um garoto inexperiente para eles ou para você? — Ergo as
sobrancelhas, irritada por sempre fugirem quando faço essa pergunta, seja ele
ou o moreno.
Todd olha para mim pela terceira vez e ao me ver furiosa, respira fundo e
aumenta a velocidade.
— Eu me lembro de ter perdido a consciência quando estava no caixão
com você, depois de acordar e estar com curativos, com mulheres levando
comida para mim em um quarto no qual fiquei preso por seis dias recebendo

300
cuidados. Não vou mentir, aquele idiota realmente mandou que cuidassem de
mim, mas no sétimo dia, ele entrou no quarto onde eu estava, me algemou e me
levou para fora, onde me colocou dentro do porta-malas do carro e me largou
na estrada. Perguntei o motivo de não ter me matado e ele disse “eu não
aguentaria o peso de saber que tirei mais alguém dela.” Depois me mandou ir embora e
esquecer você, e voltou acompanhado por aquele cara que está sempre o
defendendo. Eu não sabia bem como sair desse lugar, então após horas
caminhando, Leon me encontrou e dentro do carro me fez uma oferta. Ele me
ensinaria a me defender, eu te tiraria de Zared e ele cuidaria do resto, mas que
era meu trabalho afastar vocês dois, que pelo que eu soube, estavam juntos
como um casal.
— Todd… — Tento falar, mas ele me interrompe.
— Vão dar um prazo para ele poder te achar, se ele não conseguir vão
matá-lo, e é por isso que vou te tirar da Califórnia. — Sinto meus batimentos
acelerarem e, em seguida, uma dor se alastrar pelo meu peito, como se
estivessem esmagando meu órgão. Minhas mãos ficam geladas e tenho certeza
que meu corpo inteiro empalideceu por completo. Meu melhor amigo olha para
mim preocupado e leva uma de suas mãos para minha perna. — Skye…
— Não podem matá-lo. — Tento dizer alto, mas minha voz não passa de
um sussurro. E de repente sinto-me de volta a meu corpo e sinto tudo com
mais clareza, o vento congela meu corpo que antes fervia e meus ouvidos
capturam o som dos pneus contra a estrada. — Leve-me de volta. — Digo alto
o suficiente para que o rapaz olhe para mim com incredulidade.
— Não. — Ele diz com firmeza e acelera o carro, fazendo com que a
minha parte insana queime dentro de mim.
— Dê meia volta e me leve de volta agora! — Aviso de forma lenta
enquanto me coloco de joelhos sobre o banco, encarando-o como se fosse
matá-lo. Podia sentir minhas mãos tremerem ao me segurar no encosto do
banco e encará-lo com a expressão lunática.
— Eu já disse que não, Skye! — Ele berra. Pulo para seu colo e piso no
freio com brutalidade, fazendo com ambos sejamos jogados para frente e meu
corpo bata contra o vidro da frente enquanto o veículo derrapa. Todd se
apressa em tentar me tirar de cima dele, mas o impeço e cravo a unha em seu
rosto, deixando um profundo arranhão em sua bochecha e em seus braços.
Viro-me de frente para ele e seguro em seu queixo, fazendo-o olhar para mim.
— Não vou deixar que o matem.

301
— Por quê? — Ele está ofegante e emocionalmente destruído por me ver
daquela forma, até eu estava surpresa com minha atitude, mas não seria o
motivo para matarem-no.
— Porque ele precisa sentir algo pelo menos uma vez. — Ele agarra
minhas mãos e me puxa para ele, grudando seus lábios nos meus, cujo contato
não correspondo, apenas aproveito que ele está distraído e abro a porta para
jogá-lo pra fora do veículo.
Respiro fundo sem tempo para pensar duas vezes. Troco a marcha e dou a
ré, viro o caro e acelero sem me preocupar em fechar a porta. Vejo o corpo de
Todd caído no chão e acelero até ele sumir do meu campo de visão. Fecho a
porta, percebendo que tudo lá fora não se passa de um borrão, inclusive o carro
prata que passa por mim e grita meu nome; pela voz, percebo ser Logan, mas
ignoro-o. Eu poderia estar voltando ainda mais rápido do que fui, mas parecia
uma eternidade e meu coração acelerava cada vez mais.
Ao ver o letreiro do Sinful Dolls, diminuo a velocidade e viro o carro para
entrar no estacionamento do lugar, quase atropelando alguns homens e
mulheres. Assim que chego à parte em que havia deixado Zared caído, paro e
vejo-o atirado ao chão. Saio do automóvel e corro até ele, que estava
inconsciente com o rosto coberto por sangue e o nariz inchado e torto. Levanto
sua cabeça e apoio-a em minhas coxas enquanto acaricio seus cabelos e seu
rosto.
— Se tem uma coisa que aprendi é que monstros têm seus pontos fracos e
eu sou o seu, mas não deixarei que o matem, sei que você sente algo, não pode
ser uma fera o tempo todo, assim como não posso apenas uma bela garota
indefesa… Monstros podem ter finais felizes, Zared.
Deixo um beijo em sua testa e olho a minha volta, mas não vejo mais
ninguém. O carro dele e o que roubei de meu amigo são os únicos ali e preciso
levá-lo embora. Respiro fundo e com o corpo trêmulo, retiro sua cabeça do
meu colo e volto a deitá-la no chão duro antes de me levantar e ir até seu carro.
Coloco a chave na ignição e ligo o veículo, levando-o para mais perto de seu
corpo. Abro a porta de trás e agarro os braços do homem, arrastando-o para o
automóvel, adentro a parte de trás, e com muito, esforço puxo-o para dentro,
deixando seu corpo deitado no banco. Ocupo o do motorista e dirijo para a
casa dele com mais cuidado.
O caminho é complexo, mas das vezes que saímos, prestei atenção no
caminho que ele tomava. Assim que paro, os seguranças se aproximam e me
encaram, porém parecem saber quem eu sou e permitem minha entrada. Paro
diante da porta e grito por Isaac, que aparece somente de calça de moletom e

302
fica assustado ao ver meu estado. Ele sai da casa e vem até mim, agarrando meu
rosto para me examinar, parecendo preocupado.
— O que aconteceu com você? Cadê o senhor Winter? — Afasto-me do
rapaz e indico o corpo dele no banco do carro. Ele se apressa em abrir a porta e
fica mais preocupado ao ver o estado do chefe. — O que aconteceu com vocês?
Quem fez isso?
— Eu o droguei e tentei fugir com o Todd, mas desisti ao saber o que
planejavam, então voltei e quando o encontrei, ele estava dessa forma, não sei
quem foi capaz de atacá-lo no estado em que estava. — O moreno olha para
mim, depois para o chefe sem saber como reagir diante daquilo. — Só leve-o
para o quarto, por favor. — Peço e ao vê-lo anuir, sinto-me um lixo e uma
burra por ter voltado. Isaac tira o chefe do carro e o pendura no ombro. Vou
caminhando atrás dele de cabeça baixa, passando a frente para abrir a porta do
quarto de Zared, que é posto na cama. Ele se vira para sair, mas interrompe
seus passos e olha para mim.
— Fico feliz que tenha mudado de ideia. Pode ter certeza que ele também
ficará quando acordar, mas tenha em mente que ele não vai te receber com
beijos e abraços. — Balanço a cabeça e desvio minha atenção para o chão.
— Eu sei.
— Já vou avisá-la para depois não ficar chateada comigo, se eu vir seu
amigo outra vez, pode ter certeza que vou matá-lo. — Ele sai e olho para o
homem deitado na cama.
Tomo um banho e visto minha lingerie outra vez. Sentia nojo de olhar
para meu reflexo no espelho, então o evito e abaixo para pegar uma caixa de
primeiros socorros que levo até a cama e pego uma bacia, encho-a com água,
pego na esponja e o sabonete líquido. Levo tudo para o quarto e coloco-os
sobre a mesinha de cabeceira. Mergulho a esponja na água, coloco um pouco
do sabonete e passo por seu peitoral e braços, secando com a toalha, e ao
deixar seu corpo e rosto limpos, subo na cama e abro a caixa de primeiros
socorros. Pego o álcool e um pedaço de algodão, passo nos machucados em
seus braços, depois pego outro algodão e passo nos machucados de seu rosto
antes de e pegar a pomada cicatrizante.
Passo com cuidado e ao terminar de cuidar de seus machucados, levo a
caixa de volta para o banheiro e jogo a água suja na pia. Ao voltar para o quarto,
tiro os coturnos dos pés dele e apago a luz, deito-me ao lado dele e não demora
muito, o quarto está iluminado pela luz da lua, o que me faz abrir um pequeno
sorriso enquanto admiro seus traços fortes. Posso vê-lo contrair os músculos e
sussurrar algo que eu não entendo, mas continua inconsciente. Levo minha mão

303
para seu rosto e o acaricio, passo a ponta do dedo por cada traço de seu perfil,
contorno seus lábios machucados e me debruço sobre seu corpo para deixar
um selinho em sua boca antes de voltar a me deitar e abraçá-lo.
— Só me perdoa. — Sussurro antes de fechar os olhos e adormecer com
dificuldade.

Quando acordo no dia seguinte ele ainda está adormecido, então me levanto e
coloco meu vestido antes de descer e me deparar com Isaac sentado no balcão
da cozinha com uma xícara de café. Conversamos um pouco, o suficiente para
eu descobrir que ele não me odeia por eu ter tentado ir embora e ele até faz
uma piadinha de como sou idiota por ter voltado por causa do meu agressor, o
que acho engraçado.
Tomo uma xícara de café sem açúcar e volto para o andar de cima, e para
minha surpresa, me deparo com Zared diante ao espelho analisando seus
machucados cuidados, parecendo confuso por estar em casa.
Ao escutar a porta abrir, ele se vira e fica estático enquanto me olha e seus
olhos ganham dor por acreditar que eu não passava de uma alucinação. Afinal, a
última vez em que me viu, eu estava indo embora e nem mesmo ele via motivos
para eu voltar, então acreditava que eu não era nada mais que uma brincadeira
de mal gosto de sua mente drogada.
Ele dá um passo em minha direção e seus olhos ficarem marejados, ele
leva as mãos a cabeça para tentar puxar os cabelos que não tinha mais, então
apenas passa as mãos pela cabeça, se vira e agarra a poltrona atrás de seu corpo
e a joga em minha direção, antes de me olhar com lágrimas descendo-lhe pelo
rosto.
— Por que você não sai da minha cabeça? — Ele berra e soca a cabeça
para ver se eu desaparecia de sua frente. — Por que você sempre continua
comigo mesmo depois que me deixa? Já não me destruiu o suficiente? — Ele
continua gritando enquanto olha para mim, que começo a chorar parada ali. —
Eu sabia que você ia embora, sabia que me abandonaria assim como os outros,
sabe por quê? Porque todos com quem eu me importo vão embora. A única
diferença é que você me tinha sob seus pés e quando percebeu isso, pisou em
mim. Acabou com o que restava de mim! — Ele berra aos prantos. Essa era a
primeira vez em que eu o via demonstrar qualquer sentimento e meu coração
parece ficar cada vez menor. Entro no cômodo e tranco a porta antes de passar
pela poltrona e caminhar até ele devagar. — Por que você me deixou? Eu quero

304
você, Skye, volta para mim… Por favor! Por favor… — Engulo um grande nó
e toco seu rosto, ele faz o mesmo e seca minhas lágrimas.
— Eu sou real, Zared.
— Não, não é. Você foi embora com Todd… Você o ama, não a mim,
você foi embora para ter uma vida com ele, Skye… Você foi embora. — Ele diz
e volta a chorar, o que me deixa sem saber como reagir diante do sofrimento
que causei. Desço minhas mãos para sua nuca e peitoral antes de puxá-lo para
um beijo. Seu corpo parece eletrocutado e sua pele arrepia com o contato de
nossas línguas. Suas mãos descem pelo meu rosto e o envolve enquanto beija-
me como se estivesse dizendo adeus. Afasto-o com cuidado e encaro seus olhos.
— Eu sou real, Zared. Perdoe-me pelo que te fiz ontem. — Sinto seu
polegar acariciar minha bochecha, em seguida, seus braços me envolvem e me
apertam contra seu corpo com força. O rapaz afunda seu rosto na curva de
meu pescoço e me prende ainda mais a ele e passo meus braços a sua volta, em
um contato que, pela primeira vez, vejo algo sem malícia. Suas lágrimas
molham minha pele enquanto ele me aperta com cada vez mais força.
— Eu preciso de você. Não me deixe, por favor. — Ele pede, manhoso, e
me solta. Abro um pequeno sorriso e me afasto. O moreno olha para o chão e
vai para a sacada enquanto saio do quarto em silêncio.
Vou para meu quarto e me tranco lá por horas. Quando percebo que o sol
já sumia por detrás das árvores, levanto-me da cama e tomo um banho, visto
uma lingerie e um vestido preto largo e saio do cômodo em direção ao andar de
baixo, mas ao chegar perto da escada, ouço a voz meio bêbada de Zared, em
seguida a de Isaac. Ambos conversavam sobre mim, e pelo tom do moreno,
posso perceber que ele ainda estava magoado.
Desço alguns degraus e vejo-o sentado em uma poltrona de frente para a
lareira segurando uma rosa branca e Isaac largado no sofá com uma garrafa de
cerveja.
— Ela só me vê como o monstro que sou. — O tatuado diz e pega a
garrafa de uísque que descansava em uma mesinha a seu lado. — Não há
esperança. — É tudo o que ele diz antes de amassar a rosa e jogá-la no fogo.
Desço as escadas e me aproximo, vendo Isaac levantar a garrafa em minha
direção com um pequeno sorriso, Zared se levanta no mesmo instante e se vira
para mim, me olhando da mesma forma de mais cedo. — Está tudo bem? —
Anuo. — Precisa de algo? — Faço que não e olho para o chão por um
momento. — Qualquer coisa é só pedir para os empregados… A casa… Ela é
sua também. — Ele diz sem jeito enquanto dá de ombros e coça a cabeça. —
Quer… Sei lá, conversar? — Afirmo e observo-o largar a garrafa e tropeçar nos

305
móveis graças a sua pressa. Ele pega minha mão e me puxa para o lado de fora
da casa, guiando-me até o cemitério.
Para minha surpresa, o mesmo me puxa para a parte dos túmulos
separados, mas antes que possamos dizer qualquer coisa, Zared olha para uma
pedra sobre um dos túmulos e puxa o papel abaixo ela. No mesmo instante, sua
expressão magoada se torna furiosa, caminho até ele e leio o papel.

Ela não deveria ter voltado.


A menos que queira um quinto caixão aqui, deve protegê-la.
-H

Olho para o moreno, que rasga o papel, pega minha mão e me arrasta de
volta para a casa gritando para os empregados trancarem a casa e para os
guardas assumirem cada entrada e saída do lugar, e só se cala quando nos tranca
em seu quarto.
— O que está acontecendo? Quem deixou o bilhete? Por que você
obedeceu? — Ele anda de um lado a outro enquanto passa a mão na cabeça. —
Por que Leon quer matar você? — Ele para de andar e me olha.
— Porque eu o coloquei lá e ele sabe que eu posso tirá-lo. — Ele nota
minha confusão e se aproxima. — Matei o pai dele, Skye, e como não quis ficar
no comando, deixei-o com o título que tanto queria. Sou a peça mais forte do
tabuleiro dele e depois que você chegou… Ele não aceita perder, então quer me
matar. — Ele dá de ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Achei que fossem amigos.
— Meu único amigo sumiu, Skye. — Ele se senta e apoia os cotovelos nas
pernas enquanto esconde o rosto entre as mãos.
Respiro fundo e tento ir até a porta, mas ainda sentado, ele segura minha
mão, levanta e me puxa para perto antes de colocar a mão em minha nuca,
aproximando seu rosto do meu para poder me beijar com calma.
— Obrigado por voltar. — Ele sussurra e abro um pequeno sorriso e o
abraço, logo sentindo seus lábios deixarem beijos demorados em meu ombro,
que vão subindo até meu pescoço. — Transa comigo. — Ele pede e me afasto,
sentindo uma de suas mãos descerem até minha bunda enquanto a outra segura
um lado de meu pescoço. — Deixe-me mostrar um pouco do prazer que é estar
comigo. — Ouço sua voz sair arrastada e baixa, deixando-me arrepiada por

306
inteiro, o que o leva a sorrir com o rosto ainda grudado ao meu. — Eu
realmente não me importo em mostrar-lhe o lugar certo para o meu amor, Skye.
Ele morde o lóbulo de minha orelha e me aperta mais contra seu corpo.
Fecho os olhos e abro um sorrio ao sentir seus toques contra minha pele que
parece queimar de dentro para fora. Ele desliza as mãos para as minhas pernas,
sou tirada do chão em um único movimento, encostada a parede com
brutalidade antes de olhar para meu rosto com a expressão séria enquanto me
prensa entre seu corpo e a parede.
Ao soltar minhas pernas, o homem desliza com calma suas mãos por
minhas coxas e adentra o vestido, soltando algumas risadas assim que chega em
minha calcinha.
— Já notou que por mais que diga que me odeie, sempre está aqui, e por
mais que eu tente me convencer de que está viva até agora porque é minha
virgem, eu não acredito em nenhuma palavra. Sabe por quê? Porque ambos
sentimos a dor e o prazer quando estamos juntos, nós somos nosso paraíso e
nossa zona de guerra, e quando estamos com os corpos juntos, é o momento
em que nos permitimos sentir. Somos nossos inimigos e aliados, Baby Girl. —

Zared
Deixo a garota em meu quarto e desço as escadas para ver homens atacando
meus seguranças, e vislumbro o corpo de Isaac caído atrás do bar, me levando a
correr até o garoto, que ainda está vivo, porém inconsciente. Solto um suspiro
pesado e olho a minha volta, vendo minha equipe conseguir assumir o controle
da situação. Travo o gatilho da calibre 38 e a coloco na parte de trás de minha
calça antes de tirar o rapaz para dentro da biblioteca.
Coloco-o sobre a mesa e me apresso em procurar uma caixa de primeiros
socorros que sempre mantenho em todos os cômodos. Ao achá-la, volto para
perto dele e me apresso em jogar um pouco de álcool no ferimento e uso uma
pinça para retirar a bala. Por mais que estivesse acostumado a passar por coisas
do tipo, minhas mãos tremiam, o que tornava a tentativa de colocar a linha na
agulha impossível, e sinto mãos tirarem o objeto das minhas e assim que olho
para cima, vejo Skye concentrada em terminar o nó na ponta da linha e respirar
fundo antes de começar a costurar a pele do rapaz.
— O que faz aqui porra? Mandei que ficasse no quarto! — Grito e tiro a
arma de trás da calça e fico olhando para a porta, mas ela. — Fique aqui e não
me desobedeça. — Digo e corro até o lado de fora, vendo Logan, Leon e

307
Nolan atirarem contra os desconhecidos, e não penso duas vezes em ir ajudá-
los, afinal, estavam aqui protegendo a minha casa.
O número de pessoas caídas no chão era grande, mas conseguimos acabar
com todos, e quando Nolan mata o último, a primeira coisa eu faço é agarrar
Leon pela jaqueta e jogá-lo contra porta antes de acertar um soco em seu rosto.
Ele se defende e certa um em minha boca, o que me deixaria com o rosto mais
inchado. Bato sua cabeça contra o vidro da porta, acerto uma joelhada em sua
barriga e jogo-o no chão.
— Deveria ter me matado noite passada, porque agora quem vai te matar
sou eu. — Chuto seu rosto, porém sou empurrado para a parede e um braço é
pressionado em minha garganta, quando olho para a pessoa prestes a tirá-lo de
perto de mim, meus olhos se arregalam e um pequeno sorriso se abre em meus
lábios. — Seu merda. — É tudo que digo antes de soltar algumas risadinhas,
vendo o homem a minha frente.
— Cadê a porra da sua mulher, Zared? — Hayden grita e me solta. —
Cadê ela, caralho? — Olho em volta e vejo apenas Leon e Nolan olhando para
nós. — Eu avisei para protegê-la! — Pisco diversas vezes e olho para a porta da
biblioteca que estava aberta. Sinto meu coração parar dentro de meu peito e
corro até o cômodo em que havia deixado a garota cuidando de Isaac, mas tudo
o que vejo ao chegar lá é o corpo do garoto sobre a mesa e seus pontos
finalizados, mas não havia qualquer sinal de luta ou que ela tenha ido contra a
vontade. — Ela confiava nele, Z, ela iria com ele sem pensar duas vezes porque
gosta do Logan. — Hayden diz logo atrás de meu corpo.
— Ele vai machucá-la, vai? — Viro-me para meu amigo.
— Não é ela quem ele quer matar. — O rapaz diz sem saber como ficar
com aquilo. — Se tocá-la nela…
— Eu morro. — Interrompo-o e sinto cada parte minha se desmoronar
aos poucos. — Eu sabia que isso aconteceria uma hora ou outra.

Todos se mantém em silêncio. Hayden olha fixamente para mim, Nolan tem a
cabeça baixa enquanto encara suas mãos, Leon enfiava a faca na madeira do
batente da porta enquanto eu encarava a janela por onde eles haviam saído.
Minha mente estava um caos, sentia meu peito doer cada vez mais e minha vista
ficava ainda mais turva graças às lágrimas que quase transbordavam de meus
olhos. Abaixo a cabeça e pisco o suficiente para fazer com que as lágrimas
molhem meu rosto e seco-o sem que alguém perceba.

308
Não conseguia distinguir o que estava sentindo no momento, estava
desesperado com o que Logan poderia fazer a ela e muito puto por ela nunca
me respeitar. Desde o início eu venho querendo mantê-la longe dele, sempre
soube que ele uma hora ou outra tentaria me atingir através da garota. Porém,
ela, mesmo que já tenha feito muitas coisas, consegue ser ingênua a ponto de
acreditar em qualquer um que for bom com ela. Sei que a levei para o inferno,
quase a matei, e apesar de não me orgulhar disso, nunca mostrei ser nada além
do que realmente sou, e mostrei uma pequena parte que ninguém jamais veria.
Não acho normal ela gostar de mim, principalmente depois de tudo o que
fiz, mas ela gosta, sua volta é a prova disso, e se eu tiver a chance de encontrá-la
viva, farei o mesmo. Não fazia a menor ideia do por que de estar parado,
deveria estar atrás dela, mas por mais que queira, não consigo. Aceitar o que me
espera, em silêncio, é tudo o que consigo fazer.
— Precisamos fazer alguma coisa. — Nolan diz e viro-me pra poder
encarar a todos. O loiro não tem mais uma expressão cabisbaixa, conseguia ver
a raiva transbordar de seus olhos. Era como se ele vivenciasse o passado outra
vez, mas agora ele pode fazer algo para mudar e posso ver através de seus olhos
que ele não ficaria parado. — Não podemos deixar Logan sair dessa. Não vou
deixar que Zared tenha o mesmo fim que meu irmão. — Leon solta uma risada
e se vira para nós antes de olhar para mim com um sorriso vitorioso.
— Não vale a pena. — Ele diz e aponta para mim com a faca. — Eu te
avisei das consequências de ter uma virgem, não espere que eu vá perder meu
tempo ajudando vocês no resgate daquela vagabunda. Isso é um assunto
pendente entre Logan e Zared, não vou me arriscar, não quando você é o
errado. Ou esqueceu-se do que você fez a irmã dele? Caso consigam tirá-la de lá
antes de Logan comer a bunda dela, me liguem. — Observo-o guardar a faca e
sair andando pelos corredores. Os dois me olham a espera de uma reação com
a menção de Aisha e Leon retorna rindo. — Havia me esquecido, caso não
cheguem a tempo… — Ele olha para os dois homens ao meu lado e para mim,
fazendo seu sorriso aumentar. — Vai ser um prazer matá-lo. — Hayden solta
um rosnado e tenta ir para cima do chefe, mas coloco meu braço na frente.
Leon solta uma gargalhada e sai. Meu amigo chuta a cadeira logo ao seu lado.
— Quando voltarmos, vou adorar matar a irmã desse filho da puta.
Tudo o que faço caminhar até Isaac, pendurar o garoto em meus ombros e
andar para fora da biblioteca sem dizer uma única palavra.
— Zared, para onde está indo? Precisamos ir atrás da garota! — Hayden
grita enquanto ele e Nolan me seguem. Subo as escadas, entro em um dos
quartos e coloco o rapaz deitado na cama antes de checar sua pulsação, sair e

309
fechar a porta. — Zared, porra! — Meu amigo grita e me empurra para a
parede antes de agarrar meu pescoço. — Eu sei o que está fazendo e não vou
deixar.
— E o que eu estou fazendo?
— Aceitando uma morte que pode ser impedida. — Ele me solta. — Skye
precisa de você, assim como você dela, vai mesmo deixar que Logan tire-a de
você?
— Ele perdeu a irmã por minha causa.
— Ele não foi o único a perder alguém! — Viro-me sentindo um nó na
garganta.
— Cala a boca. — Digo entre os dentes e sinto as lágrimas voltarem.
— Você também perdeu alguém naquela noite. — Ele continua, fazendo
com que as lembranças de oito anos atrás retornem. — E foi para tentar
novamente que decidiu ter uma virgem. Você quer uma família, Zared, não quer
mais viver assim. Mas para isso, precisa da Skye, a primeira pessoa por quem se
apaixonou, e ela está com o Logan e só Deus sabe o que ele já deve ter feito a
ela. — Fixo minha atenção nele, sentindo as lágrimas caírem de meus olhos
enquanto balanço a cabeça. — Seu tempo nesse lugar já acabou há muito
tempo. Está na hora de lutar para ter a vida que sempre quis.
Quando vou responder-lhe, a porta do andar de baixo se abre, levando-nos
a descer as escadas para dar de cara com Todd. Ele tinha o rosto coberto por
hematomas, um grande arranhão em uma das bochechas e feridas mais recentes.
Fecho as mãos em punhos e tento ir até ele, mas Nolan me impede assim que o
idiota se aproxima.
— Que merda aconteceu com você?
— Logan me soltou para que eu viesse entregar isso. — Ele diz e me
estende um pen drive.
— O que é?
— Eu não sei. — Ele responde sem fôlego. Desço os degraus e pego o
pequeno objeto, vou até a sala, onde o conecto a TV. Assim que a tela mostra o
que tinha lá imediatamente, congelo. Meus olhos se fixam na garota que
chorava e gritava enquanto debatia-se na tentativa falha de sair dali. Seus olhos
estavam fechados, as lágrimas escorriam pelos olhos e seu rosto estava
vermelho. Logo Logan aparece, seu rosto tinha um sorriso nojento.
— Eu vou matá-lo. — É tudo o que consigo dizer enquanto encaro a tela.
— Ele…ele… — Todd tenta pronunciar alguma coisa, mas apenas para e
olha para mim, que continuo com a atenção fixa na televisão. “Faça uma cara feliz,

310
docinho, esse vídeo vai para o seu Daddy”, Logan diz e segura o queixo dela, forçando
a garota a olhar para a câmera antes de sussurrar um “Desculpe”.
— Zared… — Hayden tenta chamar minha atenção, mas tudo o que faço
é ir até a TV, pegar um atiçador de lareira e bater com o ferro contra a tela até
que ela pare de exibir as imagens.
— Vamos tirá-la de lá. — Solto o ferro, deixando-os parados enquanto
sigo para o cômodo de armas. O que me importava agora não era mais se eu
viveria ou morreria, era apenas a garota. Eu a tiraria de lá e a reconfortaria.
Afinal, ela é minha família.

Skye
Deixo um pequeno beijo na testa de Isaac e me afasto no momento em que a
porta da biblioteca se abre. Ergo o olhar e vejo Logan me olhar com urgência,
mas, apesar de sua expressão, sinto meu corpo relaxar por ser alguém de
confiança. O homem corre até mim, pega minha mão e tenta me levar em
direção à janela, mas puxo-a, fazendo-o virar-se para mim outra vez. Ele parece
agitado e atento, tanto que ele me olha por um momento, depois para a porta.
Vejo-o suspirar e se aproximar, pegando minha mão outra vez.
— Zared me mandou tirá-la daqui. O lugar está sendo devastado, eles
querem você, Skye, por isso preciso tirá-la daqui. — Sinto meu coração apertar
e olho para a porta, sentindo medo pelo que poderia acontecer ao moreno,
porém seria muito pior se me encontrassem.
— Mas e ele?
— Nos encontrará em minha casa. — Olho para Isaac. — Não é a ele que
procuram, o garoto ficará bem. Agora precisamos ir. — Respiro fundo e
concordo.
Logan me puxa até a janela e após a pularmos, corremos até seu carro
parado de qualquer forma no portão. Aproveitando que as portas do estavam
abertas, nos jogamos nos bancos da frente. O homem liga o automóvel e pisa
no acelerador, nos tirando de lá às pressas. Apesar de ter mandado Logan me
tirar da casa, não consigo deixar de me sentir preocupada, Zared jamais
mandaria alguém fazer isso se a situação realmente não estivesse séria. Encolho-
me ainda mais no banco de couro e percebo Logan olhar para mim pelo canto
dos olhos e limpar a garganta.
— Não se preocupe, você ficará bem. — Encolho ainda mais os ombros.

311
— Não é comigo que estou preocupada. — Sinto uma de suas mãos tocar
meu ombro e franzo o cenho com uma cara não muito boa.
— Deveria estar. — Ele comenta subindo sua mão até minha nuca e para
na parte detrás. Tento me afastar, mas ele agarra meus cabelos e bate com
minha cabeça no painel do carro. Pisco diversas vezes e sinto algo quente
descer pela minha testa. Levo a mão ao local e apesar de minha visão estar turva,
vejo o sangue em meus dedos. Sem conseguir impedir, meus olhos se fecham e
antes de perder a consciência, sinto-o acariciar meus ombros. — Não é nada
pessoal. — Solto um gemido e acabo desmaiando antes mesmo de perceber.

— Cale a boca seu merda! Sei exatamente o que está querendo, mas só vou
dizer uma vez, a porra da garota é minha, se encostar um dedo nela você vai se
ver comigo! — Logan ri e bebe o resto do uísque em seu copo. Minha visão
está embaçada por causa das lágrimas, mas conseguia ver o mesmo sorriso
maligno em seu rosto enquanto Zared gritava e apontava para ele.
— Pode fazer o que quiser. Claro, se não te matarem primeiro por não
conseguir proteger sua virgem a ponto de roubarem-na de você.
Abro os olhos com dificuldades, dando-me conta de que estou em um
lugar escuro. Tento me mexer, mas as algemas que me prendem a uma cadeira
de metal apertar mais meus pulsos, dando-me a estranha e conhecida sensação
de estar em um quarto de tortura. Respiro fundo e tento sair dali, mas paro
assim que ouço uma risada feminina. Alison estava sentada bem a minha frente
com uma expressão de divertimento.
— Se continuar se mexendo as algemas irão apertar cada vez mais,
O’Brien. — Ela diz ao cruzar as pernas antes de apoiar o queixo na palma da
mão.
— Por que estou vendo você? Eu não estou mais… — Tento dizer, mas
sou interrompida por sua risada escandalosa.
— Louca? Ah, querida, você está pior que antes. — Faço que não com a
cabeça. — Eu sou seu lado obscuro, O'Brien, só apareço quando você precisa.
E você, nesse momento, precisa de mim.
— Não preciso. — Ela abre um sorriso satisfeito e antes que eu possa
piscar, a imagem de Alison dá lugar a uma minha, exatamente como eu estava
agora, porém a alucinação estava livre e sorria para mim.
O barulho da porta do cômodo sendo aberta me faz pular de susto e
imagem some. Meus olhos arregalados encaravam o espaço e a luz é acesa,

312
permitindo-me ver Logan entrar com um sorriso nojento no rosto. Pisco
diversas vezes e assim que minha visão entra em foco, encaro o homem com
total desprezo. Ele se apoia em uma mesa a minha frente e fica me olhando.
— Realmente não tenho nada contra você, Skye. O problema aqui é Zared.
— Ele começa a falar e parece magoado. — Eu não quero machucá-la, apenas
preciso fodê-la, depois disso, meu problema será resolvido sem que eu precise
sujar as mãos. — Observo-o se aproximar e colocar o indicador em meu queixo,
levantando minha cabeça enquanto olha para mim como se eu fosse seu lanche
da tarde. — E você vai ser uma boa garota e irá me ajudar, certo? — Balanço a
cabeça de um lado a outro e continuo calada. — Como consegue ser patética a
ponto defender alguém que não está nem aí pra você? — Abro um pequeno
sorriso e reviro os olhos antes de soltar um bocejo em deboche.
— Você não o conhece. É claro que ele se importa comigo. — Logan
morde o lábio e torna a se curvar em minha direção.
— E você o conhece?
— Claro. — Respondo tentando manter meu tom de voz convincente. Eu
não sabia nada sobre o passado do moreno, mas sei que ele se importa comigo,
sua reação ao ver que eu não era uma alucinação me prova isso.
— Talvez você esteja certa. Talvez eu não o conheça tão bem como você,
mas ambos sabemos que você vai acabar como a sua antecessora, certo? Mas se
tivermos sorte, dessa vez não terá um bebê. — No momento em que ele diz
isso, meu sorriso convencido se desfaz, o que leva o homem a minha frente
erguer as sobrancelhas e soltar uma gargalhada enquanto me observa como se
tivesse ganho o jogo, vendo-me desmoronar por completo em sua frente.
— O-o quê? — O coração parece ser esmagado enquanto um nó se forma
em minha garganta. Cada parte minha implora para que eu não tenha entendido
suas palavras, para que isso seja uma grande mentira dele. Logan abre um
sorriso e olha em meus olhos.
— É exatamente o que está pensando, amor. — Ele diz ainda mais
satisfeito quando as primeiras lágrimas caem de meus olhos. — Minha irmã
estava grávida de cinco meses quando foi assassinada há oito anos. E quem
você acha que a matou?

Ao ouvi-lo dizer que Zared matou a garota e seu primogênito que ainda se
formava no útero da mãe, sinto algo dentro de mim perder toda a esperança
que me fazia acreditar que o homem poderia se tornar alguém diferente, alguém

313
que poderia ajudar as pessoas para compensar toda a dor que causou. Porém
estava completamente enganada, ele é cruel o suficiente para matar o próprio
filho, e se a pessoa é capaz de tirar a vida do filho, então ela é capaz de tirar a de
qualquer um.
Enquanto Logan permanecia com os olhos fixos em mim e mantinha um
sorriso satisfeito no rosto, eu continuo paralisada apenas lembrando-me das
coisas que o moreno havia me falado e que eu ao menos parei para pensar.
Sempre esteve tudo tão na cara, os caixões, a raiva que sentiu quando perguntei
sobre eles, a forma com que ele sempre quis me manter por perto, mas estava
constantemente me afastando, o fato de ele não conseguir mais dormir sozinho
e os pesadelos. Na noite em que ele gritava enquanto dormia e pedia com
frequência por perdão, pude ouvi-lo dizer três nomes dos quais não me recordo,
mas há um quarto túmulo que deve ser o do bebê.
— A verdade é de partir qualquer coração, não? — Ele se aproxima. Sinto
seus dedos tocarem meu rosto antes de descerem até meu queixo e levantar
meu rosto forçando-me a olhá-lo. — Zared nunca foi e nunca será uma boa
pessoa, Skye. Sei que acredita que ele possa mudar porque é isso o que pessoas
ingênuas pensam, mas aceite, ele é uma pessoa ruim que jamais se sacrificará
por alguém… Nem mesmo por você.
— Não se pode partir algo que nunca esteve inteiro. Se acha que
contando-me coisas que ele fez no passado fará com que eu me entregue por
vontade própria está enganado. Ele significando ou não para mim, jamais
transarei com você. — O homem parece ficar ainda mais nervoso e segura meu
queixo com mais força.
— Ah você vai, sabe por que? Porque se não, matarei seu amigo. Se você
tivesse apenas ido embora, eu não precisaria fazer isso. Mas quando as pessoas
estão apaixonadas, elas fazem merda, mas você fez a pior de todas por ter
voltado por alguém como ele, principalmente depois de tudo. — A indignação
é óbvia em sua voz alterada, estava claro que a raiva por não conseguir me fazer
querer a morte de Zared é clara.
Escuto alguém gargalhar e olho para os lados para ver minha imagem
parada ao meu lado. Quando me dou conta, as gargalhadas saíam de mim, não
dela. Olho para Logan e continuo rindo da situação.
— Olha, as suas histórias são realmente comoventes, até ajudaria na sua
vingança se eu realmente estivesse normal, mas creio que esse é mais um dos
casos que Zared deve ter escondido de vocês… Tudo o que você tem bem a
sua frente é uma mente que não funciona e que jamais concordaria em fazer
algo para matar o seu amigo, então desista, pois não mudarei de ideia. — Ele se

314
afasta antes de virar-se para mim e acertar um tapa em meu rosto, fazendo o
local formigar e arder. Passo a língua no canto da boca e volto a sorrir. — Ai,
que dor, nunca senti nada pior que isso nos últimos meses da minha vida.
— Você é idêntica a ele e isso me faz querer acabar com você também. —
O sorriso em meu rosto aumenta e me curvo o máximo que consigo para
frente.
— Veremos. — Ele pigarreia e se apressa em sair do quarto.
Com o passar das horas, minha esperança de Zared aparecer vai se
esvaindo, deixando-me cada vez mais assustada a cada barulho. Se Zared
quisesse me encontrar, o teria feito isso horas atrás, mas talvez Logan tenha
razão, ele jamais se sacrificaria por alguém. Quando me dou conta de que o
moreno jamais virá, a porta se abre.
Conforme o homem se aproxima, balanço a cabeça em desespero, mas ele
parecia fora de si, não nervoso, mas drogado. Ele tira uma chave do bolso da
calça e solta as algemas. Pulo para fora da cadeira e tento correr até a porta,
porém, ele passa os braços a minha volta e começa a rir. Cravo as unhas em sua
pele e o arranho enquanto me debato.
Ele me joga contra a parede e se aproxima, eu o empurro e dou-lhe um
chute nas genitais, fazendo-o se apoiar na parede por conta da dor. Aproveito a
oportunidade e corro para fora do cômodo, olho o salão enorme a minha volta
e ao ver a porta da frente, corro até ela, mas dois homens aparecem e a fecham.
Dou as costas para eles, quase indo parar no chão, e corro até a porta dos
fundos onde mais dois homens fecham a passagem. Levo as mãos para os
cabelos e os puxo antes de começar a chorar.
— Saiam da minha frente!— Grito, mas sou empurrada. — Por favor, me
deixem ir! — Peço e olho para trás, vendo Logan caminhar em minha direção.
— Por favor! — Tento novamente, mas nenhum dos dois se mexe.
Com o homem perto, desisto de convencer seus capangas e volto a correr,
subindo as escadas, trancando-me no primeiro quarto que vejo. Distancio-me
da porta com os olhos nela, parando somente quando esbarro na ponta da
cama e ao me virar, dou de cara com um corpo de uma mulher esquartejada na
cama, fazendo-me gritar e correr até a porta. Ao sair, dou de cara com Logan,
que me agarra. Os gritos machucavam minha garganta enquanto era arrastada,
tentava sair de seu aperto, mas qualquer coisa que eu fizesse era em vão, o que
me fazia chorar ainda mais.
Ele leva as mãos para meus cabelos e os agarra com força enquanto abre a
porta e me joga para dentro de um quarto com aparência luxuosa. Levanto-me
do chão e corro em direção a porta, sendo jogada para dentro outra vez.

315
— Deixe-me ir!
— Depois que eu comer você. Mas creio que Zared a mate quando voltar,
sei que ele sentia satisfação em saber que era o único a te foder, então quando
isso mudar, qualquer admiração que tiver por você vai acabar e você irá para
aquele cemitério. Isso se ele tiver tempo de te enterrar. — Ele declara de modo
debochado e tranca a porta do quarto.
Meu corpo estremece conforme Logan se aproxima e eu recuo, parando
somente quando encontro com a parede. O sorriso aumenta e ele me alcança.
Seu rosto vem até mim e impeço-o de deixar um beijo em meu pescoço assim
que acerto um tapa em sua bochecha, que estala em alto e bom som. Ele agarra
meus pulsos e me joga em cima da cama. Apresso-me em tentar sair, no entanto,
ele se joga para cima do meu corpo e se senta sobre minha barriga, dificultando
minha respiração enquanto luta para pegar meus pulsos.
Acerto-lhe tapas e me debato sob seu corpo, mas não funciona e quando
segura meu pulso, ele o prende a uma algema presa à cabeceira, depois prende a
outra com ainda mais facilidade e sai de cima de mim corpo e prende meus
tornozelos, deixando-me totalmente impotente.
Com a vista turva, vejo-o pegar uma câmera e posicioná-la em um tripé.
Ele a coloca de modo que pegue a cama em um ângulo e tira da calça um
canivete para aproximar-se de mim com a satisfação e a diversão estampadas.
Sinto suas mãos acariciarem minhas coxas enquanto eu me debato e ele rasga
eu vestido. Fico completamente nua a sua frente. Meu choro descontrolado era
alto, meu coração doía, minha insanidade parecia cada vez pior, minha alma
parecia estar sendo esmagada e meus sentimentos sendo tirados de mim.
Só conseguia pensar onde Zared estaria, se havia sobrevivido. Sentia-me
abandonada e desiludida, só implorava a Deus que o moreno entrasse pela
porta antes que algo acontecesse comigo, só rezava para que ele me salvasse,
que tirasse esse homem de cima de mim e me abraçasse firme e me garantisse
que ninguém me machucaria. Logan começa a se despir.
— Por… Por favor não faz isso. — Peço, mas sou ignorada. Os olhos
azuis dele repousam sobre mim enquanto ele envolve seu membro e começa a
se masturbar.
Debato-me contra a cama, fazendo com que as algemas apertem ainda
mais e Logan agarra minha cintura e levanta meu corpo.
— Não! — Berro e ele se coloca dentro de mim, machucando-me ao
extremo. Minhas unhas cravam em minha palma mão com tanta força que as
sinto perfurar minha pele. Meu choro torna-se algo mais desesperado enquanto
me contorço e tento sair dali. Sinto-me quebrar em mil fragmentos e virar pó

316
enquanto perco o ar de tanto gritar e chorar. — Zared! — Grito sem qualquer
esperança que ele apareça. Logan tinha um sorriso sinistro enquanto se
movimentava, parecendo ter mais prazer em me ver daquele jeito do que com o
que realmente fazia. Sinto-o sair de dentro de mim e pegar a câmera, gravando-
o enquanto entra em mim novamente e me debato contra o colchão. Ele vira a
câmera para mim e se debruça sobre meu corpo, deixando a gravadora bem
próxima a meu rosto. Aperto os olhos com força, mas ainda assim as lágrimas
continuam caindo.
— Faça uma cara feliz, docinho, esse vídeo vai para o seu Daddy. — Ele
anuncia, fazendo-me abrir os olhos inchados no mesmo instante e olhar para a
câmera.
— Desculpe… — Imploro sentindo-me culpada pelo que vai acontecer a
ele e por não ter conseguido impedir aquilo. Por mais que meu subconsciente
me avisasse que eu havia tentado, sentia-me um lixo. Logan sai de dentro de
mim xingando e se masturba até gozar, então desliga a câmera. Saindo de perto
de mim com tanta rapidez que o máximo que eu faço é piscar e soluçar.
Quando ele sai do cômodo, meu corpo pesa e sinto-me dolorida, desejando
morrer naquele momento. — Me perdoe… — Sussurro tão baixo que mal
ouço minha própria voz.

Zared

Assim que abro a porta do quarto de armas, não consigo me conter e


derrubo a mesa no centro do cômodo. O vídeo toma conta de minha mente e
só sei me sentir cada vez pior. Era minha culpa, eu a deixei sozinha, eu fiquei
parado aqui enquanto ela era abusada. Minha doce Skye estava lá com ele nesse
momento. Jogo as cadeiras nos armários de vidro onde as armas ficam e as
chuto assim que caem no chão. O espaço a minha volta parecia ficar cada vez
menor, minha mente parece querer explodir e a dor em meu peito é
dilaceradora.
Eu era o culpado, eu e mais ninguém. A raiva que tomava conta do meu
corpo não era direcionada a ninguém além de mim. Sentia o peso de tudo o que
a fiz passar antes de ter sentimentos por ela, por ter causado tanta dor física e
emocional. Sinto-me um bosta por saber que a maior parte do tempo que
passei ao lado dela foi com agressões. Não estava me importando em morrer,
não temia a morte, temia nunca mais vê-la. Eu preciso tê-la apenas mais uma
vez.

317
Não lutarei contra o que vai me acontecer, não até poder me redimir por
tudo, não antes de me despedir. Caio de joelhos e choro, mas choro como
nunca havia feito antes. Sinto uma mão em meu ombro.
— Não é o fim. — Hayden diz com a voz embargada. — Vamos atrás
dela. — Concordo e pego sua mão estendida. Seco os olhos e tento me
recompor para podermos sair logo dali.
Com as armas nas bolsas e as munições estávamos prontos para ir, no
entanto, dou de cara com Isaac parado na porta com o corpo pálido a analisar a
sala destruída.
— Eu também vou.
— Não. Vá se deitar, você não está em condições. — Tento passar, mas o
rapaz coloca a mão em meu peito e me olha de forma feia.
— Ela é minha amiga, senhor, eu irei com vocês! — Ele estende a mão
para que eu entregue uma arma.
— Você vai morrer lá, garoto.
— Ela é boa demais para que eu não me arrisque. — Ele olha para Todd.
— Eu não vou matar você agora porque temos que ir atrás dela. — Respiro
fundo, tiro da bolsa uma arma e entrego a ele, que acena e abre passagem.
Todos nos dirigimos para o meu carro e não penso duas vezes ao tirá-lo da
garagem e acelerar para fora do lugar. Logan morava longe de minha casa, mas
levo metade do tempo que costumava para chegar lá. Com Todd ao meu lado,
pego a bolsa e jogo-a para Hayden no banco de trás. Sem que o garoto perceba,
tiro uma algema do bolso e em um movimento rápido, prendo-o ao carro.
— Mas que merda é essa? — Olho para ele por um breve minuto e suspiro.
— Ela jamais me perdoará se você morrer, então vai ficar aqui. — É tudo
o que digo antes de ignorar completamente suas tentativas de me fazer mudar
de ideia. Olho para Isaac e o vejo ainda mais pálido, a blusa escura com uma
marca de sangue. — Está tudo bem?
— Vou ficar. — Ele responde com a voz fraca e leva a mão ao
sangramento. — Só se preocupe com a Skye, senhor. — Ele concluí e começa a
tossir, mas não falo mais nada, apenas balanço a cabeça afirmando.

Skye

Quando Logan volta ao quarto, parece ainda mais drogado. Mas não tem
qualquer expressão de satisfação a me ver presa. Não chorava mais, meu corpo
parecia ter secado, então apenas o encaro com frieza. Sentia nojo de mim

318
mesma e só desejava morrer para que aquela sensação sumisse, para que todo o
meu sofrimento sumisse e eu pudesse ficar em paz.
O homem pega uma chave em seu bolso, me solta e quando estou livre, ele
sai de perto de mim e acende um cigarro. Levanto-me da cama com o corpo
trêmulo e dolorido e tento sair do quarto, no entanto, ele agarra meus cabelos e
me joga contra a parede e torna a sorrir antes de me beijar. Tento afastá-lo, mas
pela pouca força que tenho, não consigo, então ele se distancia e olha para mim
com deboche.
— Você não vai a lugar algum. Eu ainda não terminei. — Ele desce a mão
para o meu seio. — Agora sei o que fez o Z querê-la. Você tem a boceta
gostosa de foder e eu quero mais, mas dessa vez, vou gozar dentro de você. E
não fará nada para me impedir. — O homem ri e sinto meu lado insano
queimar dentro de mim.
Ele torna a avançar e ao invés de tentar afastá-lo, meus olhos fixam no
objeto na cama, então apenas puxo-o para um beijo e assim que ele se afasta,
vou até o colchão e me sento, pegando o que eu queria sem que ele perceba e
levanto. Aproximo-me dele, deixo um beijo em seu pescoço, e quando ele está
completamente distraído, passo o canivete pelo seu pescoço, fazendo-o
arregalar os olhos. Olho para ele e abro um sorriso.
— O problema de vocês é duvidarem do que posso fazer. — Rosno e tiro
o canivete de sua garganta para enterrá-lo em seu peito. Quando ele cai, sento-
me nele e o esfaqueio até me sentir cansada.
Ouço barulhos no andar de baixo e os passos se aproximam. Apresso-me
em sair de cima do corpo de Logan e corro para atrás da porta com o canivete
em mãos. No momento em que a porta é aberta com cuidado, alguém entra e
ao perceber o corpo do homem morto no chão, saio de detrás da porta e tento
atacá-lo, no entanto, o homem tem o reflexo atento, agarra meu braço e se vira,
fazendo-me soltar todo o ar.
— Zared. — Digo sem fôlego e solto o canivete. O moreno não pensa
duas vezes antes de tentar me abraçar, mas eu recuo e isso parece despedaçá-lo.
— Skye? — Ele diz, expondo sua vulnerabilidade. Por mais que quisesse
me agarrar a ele, minha mente me faz recordar que ele havia matado um bebê e
isso me impede. — Perdoe-me por não ter chegado antes. — Ele analisa meu
corpo desprovido de roupas e tira sua blusa preta, estende-a e não recuso.
— Por que não me contou sobre ela? — Pergunto com um nó na garganta
e me visto, vendo seu rosto tomar uma expressão de dor.

319
— Eu respondo o que você quiser saber, mas deixe-me levá-la para um
lugar seguro. — Hesito, mas afirmo. Assim que ele pega minha mão, puxo-a e
olho para baixo para evitar encará-lo.
Antes de sair do cômodo, olho para o corpo de Logan e o sangue que suja
o carpete. Estremeço e sigo Zared até o andar de baixo, onde me deparo com
Hayden. Ele sorri e apesar de eu querer retribuir, ainda não consigo expressar
qualquer coisa.
— Tudo pronto? — O moreno pergunta para o amigo e ao vê-lo afirmar,
pega minha mão com tanta força que não consigo me distanciar e corro com
eles.
Entro no banco de trás com Hayden e Zared se apressa em tirar o carro
dali. E quando estamos longe o suficiente, uma grande explosão me faz pular.
Olho para o banco do passageiro e vejo Todd olhar para mim e sorrio. Ao meu
lado está Isaac, mas ao contrário de meu outro amigo, ele está de olhos
fechados e pálido. Abro um sorriso e seguro sua mão fria, o sorriso em meu
rosto se desfaz e me apresso em colocar a mão sobre seu peito, mas não sinto
nada, o que me deixa desesperada. Seguro nos ombros do rapaz e o balanço,
fazendo-o abrir os olhos com dificuldade.
— Desculpe, não consegui sair do carro. — Ele olha para mim e meus
olhos enchem de lágrimas. Ele segura uma de minhas mãos com o máximo de
força e faço o mesmo. — Eu não nasci para essa vida. Sou mais eficiente sendo
seu babá. — Ele brinca e abre um pequeno sorriso, o que me faz soltar uma
risada triste e passar os braços a sua volta, deixando um beijo em sua cabeça.
Percebo Hayden dar um tapa no ombro de Zared, que olha para nós pelo
retrovisor, para o carro e o desliga.
— Obrigada por tudo. — Ele mantém o sorriso e balança a cabeça.
— Eu que agradeço por ter feito esses últimos meses os melhores. — Ele
deita a cabeça em meu ombro enquanto sua respiração vai diminuindo. —
Senhor? — Ele chama por Zared, que não se vira, apenas abaixa a cabeça.
— Sim?
— Obrigado por salvar minha vida naquela noite. — Ele respira fundo. —
Eu sei que também fará o que for certo para a Skye.
— Farei. — O homem no banco da frente concorda.
— Eu nunca duvidei disso. — Ele diz com a voz muito baixa, então aperta
minha mão e para de respirar, sua mão vai soltando a minha.
Sinto meu coração apertar e meu choro ocupa o silêncio do carro.
Envolvo o corpo de meu amigo o máximo que consigo e o abraço com força,
sentindo uma parte minha morrer com ele. Zared sai do banco do motorista e

320
abre a porta de trás, solta meus braços do rapaz e quando começa a tirá-lo de lá,
eu tento impedi-lo, mas Hayden me segura enquanto o moreno carrega o corpo
de Isaac para o meio da floresta.
Tento sair dos braços do homem que me impedia. Tentativa falha. Meu
choro se torna pior ao ver fumaça sair da mata e o tatuado aparece e ocupa o
banco de trás. Hayden me solta e vai para o banco da frente enquanto me
agarrava ao moreno com força. O veículo sai dali e minha mente só me faz
pensar que meu único amigo nesse lugar havia morrido, e que o corpo dele
estava queimando na floresta.
— O que eu fiz de errado? Eu tirei a bala, e suturei. Então por que ele
morreu? — Pergunto entre soluços e sinto os braços de Zared me apertarem.
— Ele não iria sobreviver e sabia, só queria te ver antes de… — O tatuado
diz e engole um nó.
— Por que não o enterrou no seu cemitério? Ele te adorava e merecia um
enterro digno! — Minha voz é abafada contra sua pele.
— Porque se voltarmos para casa, eu morro.
Olho para ele através das lágrimas e lembro-me que está sentenciado a
morte. Sinto meu peito doer ainda mais, mas não me abraço a ele, abraço meu
próprio corpo, sentindo minha cabeça girar e meu estômago embrulhar. Muita
coisa estava acontecendo no mesmo dia, eu havia sido estuprada, descoberto
coisas sobre ele, matado Logan e visto meu amigo morrer em meus braços.
Era muita coisa para processar e com a ideia do homem ao meu lado
morrer por minha causa, as coisas ficam ainda piores. Minha cabeça estava um
caos, diversas coisas se acumulavam a ponto de me deixar com dores fortes.
Podia ouvir o moreno falar algo para o amigo no banco do motorista, mas
não presto atenção, só consigo pensar em Isaac e em como o rapaz não merecia
aquilo, ele era bom demais para estar aqui, e a forma que fora largado e
queimado apenas me deixa ainda mais chateada.
Após uma eternidade, o carro para e posso ouvir o barulho de muitos mais.
Limpo o rosto com as mangas e vejo uma rodovia. Hayden solta Todd das
algemas que eu nem havia visto e abre a porta do passageiro, meu amigo tinha
uma expressão confusa, mas o moreno parecia saber bem o que aconteceria.
Observo-o sair, dar a volta pelo carro e puxar Todd para blusa. Quando
vou sair também, Hayden tranca as portas e pede para eu ficar calma que os
dois só precisavam conversar.
Pelo vidro, vejo o moreno arrastar o rapaz para mais perto da estrada e
quando ambos estão afastados do carro, eles param um de frente para o outro e
Todd parece nervoso enquanto grita algo para o homem, que tem uma

321
expressão derrotada. Com a maior calma que jamais o vi ter com qualquer um,
até mesmo comigo, ele fala algo para meu amigo, que parece ficar surpreso.
Ambos olham para o carro e posso ver o maxilar de Zared se contrair antes de
abaixar a cabeça, e apesar de estar com a visão ruim, percebo que ele estava se
segurando para não demonstrar qualquer sinal de fraqueza.
Depois de um minuto naquela posição, ele respira fundo e volta a falar
com Todd, que apenas concorda e vejo-o estender a mão para o meu amigo e
os dois trocam um aperto de mão antes de ele fazer um sinal para Hayden, que
destrava as portas. Assim que Zared se acomoda no banco do passageiro e
Todd abre a porta e me puxa para fora, arregalo os olhos e nego.
— Não vou deixá-lo. — Digo para meu amigo, que concorda.
— Eu sei. — Ele abre um sorriso. — Só quero me despedir antes de ir.
— Ir para onde? — Sinto um nó se formar em minha garganta.
— Embora. — Ele passa a língua pelos lábios e fica em silêncio. — O que
viu nele?
— Um coração despedaçado e uma alma aflita.
— Por que voltou? — Dessa vez, posso ver que ele tem a resposta, apenas
queria saber qual seria a minha.
— Porque ele precisa de mim. — Respondo e desvio minha atenção para
meus pés descalços.
— Ninguém arrisca a própria vida por causa de alguém como ele a menos
que… — Ele se interrompe e posso ver sua decepção. — Preciso ir. —
Concordo e o abraço com força.
— Adeus, Todd. — Despeço-me e deixo um beijo em sua bochecha. Ele
se afasta e abre um sorriso forçado antes de fechar a porta assim que me
acomodo ao banco.
O moreno abre o vidro e entrega ao meu amigo uma mochila antes de
todos ficarmos quietos observando-o conseguir uma carona de volta a Los
Angeles. Não podia negar de que não vê-lo mais me magoa, mas ele não
deveria estar aqui, então saber que ele estará a salvo e que ao menos uma das
pessoas que amei não morrerá por minha causa me deixa feliz.
Hayden sai com o carro e percebo que eles trocam um olhar que não
consigo decifrar e logo entram em uma trilha diferente.
— Para onde vamos? — Pergunto, mas não obtenho respostas. O carro
fica em silêncio, exceto pelo som da arma que Zared carrega. Sinto meu corpo
inteiro doer e mantenho minhas pernas unidas enquanto lembranças do que
passei mais cedo tomam minha cabeça, mas reprimo o choro. Quando o
automóvel para, os homens pegam todas as malas e descem.

322
— Vamos. — Zared entra na floresta, mas ao perceber que não me movo,
ele e Hayden se viram para me encarar.
— Para onde estamos indo?
— Você verá, mas precisamos ir agora. — Ele responde e olha para mim
com a mesma expressão derrotada que carrega desde que apareceu no quarto
de Logan.
Respiro fundo e vou até ele, que segue Hayden cada vez mais para dentro
da floresta. A caminhada dura mais de três horas, sem qualquer pausa para
descanso, cerca de cinco horas andando até vermos uma cabana e Nolan
aparece em seguida. O loiro olha para mim, aliviado, e volta a mexer nas armas.
— Vocês dois ficam lá dentro, eu e Nolan vigiaremos pelo resto da noite.
— Hayden anuncia e olha para Zared, que parece agradecê-lo. — Faz bastante
frio por aqui, usem as cobertas, nada de lareira. Faremos uma fogueira rápida
para comermos as sopas enlatadas, mas logo a apagaremos.
O moreno concorda e continuamos a nos aproximar da cabana. Hayden
fica na varanda com Nolan e entro atrás do moreno. Ele joga as bolsas ao lado
da cama e olha para mim, permitindo-me ver toda a preocupação que sente,
mas não falamos nada. Ele analisa a cabana e ao ver uma porta, ele a abre e se
deparada com um banheiro com apenas vaso e pia. Enquanto caminha pelo
lugar inteiro atrás de algo, mantenho-me de pé, observando-o. Ele enche um
balde com água e se aproxima de mim, mas recuo. Eu não quero estar tão perto
dele até me diga o motivo de ter matado o próprio filho.
— Eu só quero te ajudar. — Ele sussurra e tenta se aproximar, mas
continuo recuando.
— Não preciso da sua ajuda, não mais. — Vejo sua expressão mudar ao
entender a que me refiro.
— Eu sei, e estou sendo procurado por isso. — Diz como se eu não
soubesse e ele encara meus olhos. — Quero cuidar de você, deixe-me fazer algo
bom por você ao menos uma vez. — Sua voz sai trêmula. — Por favor…
Respiro fundo e sento-me na ponta da cama, tiro sua blusa e ele se
aproxima se ajoelha a minha frente antes de pegar a blusa ao meu lado e molhá-
la. A água gelada me faz prender a respiração, mas não digo nada enquanto ele
limpa meu corpo, a mão de Zared treme como o restante de seu corpo, ele
parece concentrado, mas seu nervosismo é claro.
Ele nunca esteve assim antes, nem mesmo quando chorava em seu quarto
e gritava comigo pensando que eu era uma alucinação. Observando-o agora, era
como se ele estivesse com medo, mas havia algo mais. Ele analisava meu corpo

323
com todo o cuidado possível como se quisesse memorizar cada parte. Sinto-o
tocar minhas coxas para poder abrir minhas pernas, mas as fecho e estremeço.
— Não vou machucá-la. — Ele olha em meus olhos antes de torcer a
blusa e abro minhas pernas devagar. Podia sentir o medo de sua reação ao me
ver, ao perceber que ele não é mais o único que me tocou, ele agir como o
Daddy e me machucar como Logan disse que ele faria assim que visse o vídeo,
mas não acontece, ele apenas passa a blusa na área dolorida com cuidado e
assim que termina, fecha minhas pernas e olha para mim. — Viu? Só quero que
se sinta limpa.
Assim que ele fala, noto que ele não se refere a limpar meu corpo, mas a
sensação que sinto, a de desgosto e nojo de mim mesma, e isso me faz querer
chorar, mas me mantenho quieta enquanto ele limpa meus pés. Assim que estou
completamente limpa, ele pega em uma das bolsas um moletom preto e uma
blusa verde que usa para me secar. Após colocar uma de suas cuecas em mim,
ele me veste e se afasta, indo novamente para o banheiro jogar a água suja fora.
— Você tinha razão esse tempo todo. Logan nunca quis me ajudar, eu
devia ter te escutado. — O moreno se apoia na pia e agita a cabeça em
movimentos negativos. — Sim, eu deveria. Você vai morrer por minha causa!
— Não! — Ele grita e se vira de repente. — Eu comecei tudo isso. Eu
destruí a sua vida porque não aguentava mais estar sozinho. Fui eu que passei a
maior parte do tempo te machucando ao invés de aproveitar. Você só conhece
o mau que tem em mim, Skye, e não vai ter a oportunidade de saber como é
estar perto de mim de verdade e isso está acabando comigo! — Ele grita e ao
não ter mais o que falar, ele sai da cabana e bate a porta.
Abaixo a cabeça me deito no colchão, abraçando o travesseiro com força,
sentindo as lágrimas escaparem. Sentia-me cansada, mas estava com medo de
fechar os olhos. Encaro a parede enquanto luto contra minha própria mente
para manter as imagens de Logan longe, mas não consigo e as lembranças me
fazem chorar ainda mais e afundar o rosto no travesseiro. O sorriso que ele
tinha na cara enquanto me violava está estampado em minha mente acima de
qualquer outra memória. Sinto-me idiota por ter confiado nele. Quando estou
sem ar, tiro o rosto do travesseiro e respiro fundo, só parando de chorar ao
perceber Hayden parado em frente a cama, me levando a pular de susto.
— Desculpe, só queria te chamar para jantar. — Ele diz com pena e abre
um sorriso antes de sair. Limpo o rosto e me levanto, sentindo meu corpo doer.
Ando devagar até o lado de fora, deparando-me com Nolan, Hayden e
Zared sentados em torno do fogo enquanto comiam. Aproximo-me, ignorando
os olhares do moreno, e me sento distante deles. Pego a única lata de sopa que

324
tem lá, mas apesar de estar com fome, sinto meu estômago embrulhar, então
apenas fico encarando a comida sem dizer nada. As imagens de Logan ainda
continuavam vindo e isso me deixa inquieta. Sinto uma mão repousar em minha
coxa e assim que viro a cabeça, vejo o moreno olhando para mim. Tiro sua mão
de minha perna e me afasto dele para voltar minha atenção para a.
— Skye? — Jogo a lata no fogo e me levanto, caminho de volta a cabana e
assim que bato a porta, ela torna se abrir e Zared aparece. — Pare de me afastar.
— Ele pede e viro-me para ele, posso sentir as lágrimas voltarem a assumir
meus olhos, deixando-o um completo borrão.
— Não posso ficar perto de alguém que nunca me falou nada sobre o
passado! Por que tenho que descobrir coisas sobre você através de outras
pessoas? Mas que merda, eu fui estuprada para proteger um estranho!
— Por que quer tanto saber sobre meu passado?
— Porque preciso conhecer você, preciso de respostas! Não me negue isso,
não depois de tudo pelo que passamos. — Quando penso que ele vai negar, ele
respira fundo e assente. Torno a me sentar na cama e observo-o se aproximar,
sentar-se ao meu lado e olhar para frente.
— O que você quer saber? — Ele pergunta com a voz falha.
— Tudo.
— Eu nasci nesse lugar e assim como você, minha mãe foi a virgem do
meu pai. Sou o filho mais velho, tinha um irmão mais novo chamado Zack. As
crianças do seu mundo costumam brincar, estudar e comer na hora certa, mas
no meu, são criadas para se tornarem cruéis. Eu fui criado de uma forma
desumana, claro que contra a vontade da minha mãe, ela apanhava sempre que
tentava se meter nos ensinamentos do meu pai. Meus aprendizados começaram
quando eu tinha cinco anos e pioraram com o tempo. Se eu errasse qualquer
coisa, meu pai me castigava e me deixava sem comer até que eu acertasse. —
Ele então tira a blusa e pega minha mão para percorrer as cicatrizes que suas
tatuagens cobriam. — Quando cheguei aos dez anos, já havia matado alguns
animais que meu pai me mandava caçar. Aos treze, ele me levou ao Sinful Dolls,
que na época pertencia ao pai de Hayden, me fez perder a virgindade contra
minha vontade e matar a garota, e depois dela, passei a descontar minha raiva e
frustração nas mulheres que eu fodia.
“Aos dezesseis, passei a ficar todas as noites fora de casa para não ter que
vê-lo bater na minha mãe ou no meu irmão. Levava Zack para ficarmos
observando as famílias normais em Los Angeles e fazia o possível para deixá-lo
agir como um dos garotos da idade dele e quando meu pai descobriu, me bateu
até que eu quase morresse. Quando cheguei aos dezoito, conheci Aisha, assim

325
como eu, ela odiava esse lugar, mas era uma vadia, transamos algumas vezes e
falávamos sobre irmos embora dali, mas não para ficarmos juntos, apenas para
termos uma vida normal. Quando fiz vinte anos, Aisha engravidou, ela não
sabia se eu era o pai, mas pediu para que eu assumisse ou Logan a mataria e foi
o que eu fiz, ela era uma amiga.
“Passei cinco meses discutindo com o meu pai, já sentia um amor pela
criança e afirmava com toda a certeza que era meu, não me importava se era ou
não, já amava a criança e não me importava com mais nada. Uma noite, meu pai
partiu para cima do meu irmão e se eu não tivesse interferido ele o teria matado.
Foi a primeira vez que tive coragem para enfrentá-lo e a briga foi feia, então sai
por algumas horas, quando eu voltei, minha mãe e Aisha estavam mortas, o
corpo de Zack havia desaparecido, assim como meu pai, e desde aquele dia,
fiquei completamente sozinho até que vi você. Sua amiga falou mais do que
deveria e assim que descobri que você era virgem, decidi que eu a teria. Foi o
maior erro que eu já cometi, veja o que eu fiz a você.
— Não matou o bebê?
— Eu queria ser pai, Baby Girl. Perdê-los mexeu comigo, eu esqueci quem
eu era e passei a agir como o meu pai.
— Os túmulos… Por que quatro?
— Minha mãe, Aisha e do meu filho e um é do Zack, apesar de eu nunca
ter encontrado o corpo. O último é meu; eu morri naquela noite, me perdi
dentro de meu próprio corpo. — Zared responde sem pensar duas vezes e
continua não olhando para mim.
— Você disse que havia dado o poder a Leon, por que não assumiu?
— Ser o chefe poderia nos ajudar agora, mas apesar disso, nunca quis ter a
responsabilidade de lidar com esse lugar. Parte minha, a que odeia isso aqui,
sempre me fez acreditar que eu poderia viver como uma pessoa normal. — Ele
se vira e me olha com cautela. — Faça a pergunta que realmente importa.
— Por que não me matou? — Pergunto e ele abre um sorriso triste, encara
meus olhos marejados.
— Porque eu estou completamente apaixonado por você. — Sua voz é
tomada por convicção.
— V-Você, o quê? — Pergunto sem acreditar.
— Estou apaixonado por você, Skye. — Ele repete e faz meu coração
querer saltar de dentro do peito. Sinto seus dedos se entrelaçarem aos meus, ele
toca meu rosto e me beija com cuidado.
Ele se afasta um pouco e abre um pequeno sorriso antes de me beijar de
novo, mas com mais desejo e o retribuo com certa insegurança.

326
— Eu só preciso de você. — Ele murmura contra meus lábios, mas o
afasto. — Não desse jeito, seria maluquice. Só deixe-me ficar com você essa
noite. Só quero apagar as luzes, deitar ao seu lado e deixar que você silencie
essas vozes em minha cabeça. Tudo bem? — Anuo e deito-me sob as cobertas
enquanto ele apaga as luzes e se coloca ao meu lado. Puxo o cobertor pelo seu
corpo magro e sinto-o aproximar-se de mim, abraçar-me e deitar a cabeça na
minha. — Eu sei que não posso fazê-la me amar, mas poderia fingir só por hoje?
— Eu não sei o que sinto por você, mas não vou fingir. — Digo com
sinceridade e levo minha mão para seu rosto, acariciando-o devagar. Sinto-o
estremecer e fungar antes de me abraçar com força e esconder o rosto na curva
de meu pescoço.
— Perdoe-me. — Sinto suas lágrimas molharem meu pescoço enquanto
ele me aperta ainda mais contra seu corpo. — Perdoe-me por tudo que eu te fiz.
— Zared…
— Eu preciso que você me perdoe. Não posso morrer sem seu perdão…
— Ele tenta falar, mas o afasto e seguro seu rosto.
— Você não pode me deixar.
— Só me responde. — Ele pede e assinto antes de abraçá-lo.
— Eu te perdoo. — Ele chora ainda mais. Apesar de não ser uma resposta
completamente sincera, era o que ele precisava ouvir.
Ele agradece entre o choro e sinto seus lábios em contato com os meus e
sinto o nervosismo assim que nossas línguas se tocam, mas relaxo assim que
suas mãos se entrelaçam às minhas e ele aperta com força antes de se colocar
sobre mim.
Apesar da posição, ficamos apenas nos beijos, e ele não tem qualquer
intenção de levar isso para algo mais. Zared se deita outra vez e me puxa para
cima de seu corpo, onde eu fico deitada. Com a cabeça encostada em seu peito,
sinto as batidas de seu coração e apenas deixo um beijo no local, sentindo-o
colocar os braços a minha volta.
— Eu sinto.
— O quê? — Ele abre um pequeno sorriso. Sua mão pega a minha e leva
até seu peito, fazendo-me sentir seu coração.
— Posso senti-lo. — Aproximo-me de seus lábios e o beijo com carinho
antes de tornar a me deitar. Apesar de estarmos em silêncio agora, sinto o
corpo de Zared cada vez mais tenso.
— Por que sinto que você está se despedindo?
— Talvez porque eu realmente esteja. — Ele responde em um sussurro.
— Você não vai morrer. — Abraço-me mais a ele.

327
— Não tem como eu escapar disso, Skye. Mesmo que eu fuja com você,
eles vão me achar, mas o que não posso deixar é que coloquem as mãos em
você. Prefiro morrer sabendo que estará a salvo do que deixar Leon te
machucar.
— Por que Leon iria me querer? — Estremeço só de imaginar o
acontecimento de mais cedo se repetindo.
— Quando tocam na virgem, o responsável morre e a garota passa a ser
do chefe para ele fazer o que bem entender, como se fosse um brinquedo novo.
Mas não se preocupe, não deixarei que isso aconteça a você. — Ele acaricia
minhas costas com calma. — Durma, não foi um dia fácil. — Tendo falar
alguma coisa, mas ele beija meus lábios. — Estarei ao seu lado quando acordar.
— Desço de cima de seu corpo e me deito no colchão. Zared me abraça por
trás, entrelaça nossas mãos e se aconchega de forma que me deixe bem próxima
e bem aquecida, e apesar de toda a situação, sinto-me segura em seus braços.

Zared

Assim que Skye adormece, continuo abraçado a ela. Realmente não queria
soltá-la, por mim, o tempo poderia congelar e nos deixar assim. Sei que não
aproveitei meu tempo com ela, mas ter a oportunidade de saber como é estar
apaixonado compensa. Não lutaria contra o que me aconteceria, nunca me
importei com a ideia de morrer, se eu estou aqui é apenas para poder ter mais
algumas horas com ela, era tudo o que precisava.
Lutei durante todo esse tempo contra meus sentimentos, me fiz acreditar
que não a matei por ela ser minha virgem, mas por mais que eu soubesse que
era mentira, conseguia me convencer ao contrário. Se tivesse me entregado a
isso mais cedo, como estaríamos? Ela me amaria? Nunca vou saber a resposta,
mas se nada do que fiz tivesse acontecido. Talvez ela não gostasse de mim
como sei que gosta, então sou grato pelas coisas que aconteceram até dois dias
atrás.
Respiro fundo e escondo o rosto em suas costas e acabo dormindo.
Quando acordo, sons de tiros ecoam pelo local, passos apressados na varanda
me fazem ter certeza do que eu já sabia. Leon está aqui. Pulo para fora da cama
e balanço a Skye até que ela acorde. Ela tenta falar, mas coloco a mão sobre sua
boca e balanço a cabeça. Tudo o que Leon sabia era que Hayden e Nolan
estavam aqui, era incerto que soubesse sobre nós. Faço um sinal para que ela
fique em silêncio e ela me olha com os olhos arregalados. Pego as armas e as
guardo comigo antes de puxar a garota até a janela, passo primeiro e olho em

328
volta, vendo apenas Hayden. Ajudo-a a passar pela janela e assim que a coloco
no chão, meu amigo corre até nós.
— Mandaram poucos, mas tem outros vindo com Leon. — Anuo e olho
para ele. — Tome cuidado.
— Tomarei. — Respondo e ele me abraça. Apesar de termos feito isso
somente quando perdi minha família, eu retribuo. — Vou sentir sua falta, irmão.
— Cala a boca. — Ele responde com a voz embargada e olha para a Skye
com um pequeno sorriso. — Boa sorte. — Pego em sua mão, puxando-a para a
floresta.
Ouço barulho de tiro e os gritos de Hayden. Olho para trás e vejo-o caído
com a mão na perna. O homem que havia atirado se aproxima, mas antes que
possa matá-lo, Nolan acerta um tiro em sua cabeça e a última coisa que vejo é
ele ajudando o garoto. De mãos dadas com Skye, corro de volta para o carro,
que está a algumas horas daqui. Era o mais próximo que tínhamos e distante o
suficiente para não indicar onde estávamos.
Quando estamos no meio do caminho, ela solta minha mão e resmunga de
dor, vendo-a sentar-se e segurar um dos pés, dou-me conta de que ela está
descalça. Tiro minhas botas e calço-as nela. Estávamos ofegantes e mal
conseguíamos enxergar, mas ainda assim precisávamos continuar. Ela não diz
nada, talvez por estarmos em uma situação complicada. Assim que amarro o
cadarço, puxo-a para ficar de pé e seguro seu rosto.
— Está bem? — Ela assente. — Precisamos continuar. — Ela concorda
novamente e voltamos a correr. Os galhos nos arranham e meu pé dói sem
sapatos, mas consigo ignorar a dor. Quando chegamos ao carro, nos
apressamos em entrar. Ligo o veículo e acelero. Meu tempo com ela havia
acabado, ela não podia mais ficar. Ela arregala os olhos ao reconhecer o
caminho e vejo o pavor tomar conta dela.
— Por que estamos voltando para sua casa? — Ela grita e posso ver que
está prestes a chorar.
— Você precisa ir. — Sinto minha voz falhar e meu peito doer.
— Não pode estar falando sério! Ninguém é condenado ao vazio sem ter
alguém para resgatá-lo. Lembra? Eu te condenei a morte Zared, não vou deixá-
lo até cumprir com a promessa!
— Eu não quero que me resgate, Skye, eu quero libertá-la! Não posso ver
você morrer. — Grito sentindo as lágrimas tornarem minha visão turva.
Assim que os empregados me veem entrar, vejo a surpresa estampada em
seus rostos, mas não me importo, preciso tirar Skye daqui. Estaciono o carro

329
em frente e pulo para fora do veículo, vou até a porta do passageiro e abro,
pego na mão da garota e a puxo para fora. Vou para dentro da casa.
Skye chorava igual a uma criança quando quebra um brinquedo e eu sabia
que não estava tão longe de chegar ao mesmo ponto que ela. Praticamente a
arrasto até meu quarto e assim que abro a porta, pego uma mala e a jogo no
chão antes de empurrar minha cama para o lado e passar os dedos pela a
madeira do chão até encontrar o rachado. Puxo a madeira solta e vejo o cofre,
coloco a senha e assim que abre, jogo todo o dinheiro e diamantes dentro da
mala até que tudo o que tenho ocupe a mala. Assim que fecho a bolsa,
penduro-a em meu ombro e torno a pegar a mão fria e trêmula da garota e
puxo-a para o andar de baixo.
Por onde passávamos podia ver, os empregados nos olharem sem acreditar
que tive a coragem de voltar e que havia conseguido pegar minha mulher. Passo
pela porta que dava na garagem e vou até um carro coberto por uma lona velha.
Era um carro antigo caindo aos pedaços e é por não parece com o que costumo
usar; jogo a bolsa com mais de dois milhões no banco de trás e puxo Skye, que
balança a cabeça recusando-se a entrar.
— Não complique as coisas. — Peço com a voz embargada e seguro sua
cintura. — Vá embora.
— Não! — Ela bate em meu peito, afastando-me, mas me puxa para ela e
me abraça com o máximo de força. E antes que eu perceba, sinto as lágrimas
descerem pelo meu rosto. Passo meus braços em torno de seu corpo e deixo
um beijo em seu ombro.
— Não sabe o quanto lamento por não ser a pessoa que você precisa.
Esqueça esse lugar. Finja que eu e todo o resto não passamos de um pesadelo.
— Respiro fundo e a afasto com dificuldade. Ela olha para mim com os olhos
inchados, passa os braços em torno de meu pescoço e me beija como nunca
havia feito antes. Aperto-a mais contra meu corpo e retribuo. Quando me
afasto, deixo um beijo em sua testa e olho uma última vez para seus olhos.
— Zared… — Ela choraminga e chora ainda mais.
— E-Eu am… — Tento falar mas as palavras não saem, eu sabia que dizer
aquilo agora apenas pioraria as coisas. Já havia aceitado o que aconteceria, só
precisava que ela me deixasse. Pela primeira vez, preciso que alguém me deixe
para que eu não me machuque. — Olha para mim. — Ergo seu rosto. — Você
precisa ir agora. — Observo-a entrar no carro e assim que o veículo sai da
garagem, eu caminho até ele e me apoio na janela.
— Daddy?
— Sim, Baby Girl?

330
— Eu amo você. — Sinto o sorriso em meu rosto se desfazer. Antes que
eu possa falar qualquer coisa, ela acelera e a observo ir embora.
Olho para a aliança e vou para a parte de trás da casa. Pego uma marreta e
caminho até o cemitério, onde quebro a maior parte dos túmulos até que meu
corpo se sinta cansado. Largo-a marreta e vou até a roseira, arrancando de lá
uma rosa antes de subir até meu quarto para observar o nascer do sol.
— Por que a deixou ir? — Ouço a voz familiar e me viro para encarar seu
portador por poucos segundos antes de fixar minha atenção na rosa branca.
— Porque a amo.

Skye
Assim que saio da casa de Zared, deixo o carro na floresta e volto para a casa
dele, escondendo-me atrás dos muros. Ainda do lado de fora, vejo Leon entrar
e minutos depois, sair arrastando Zared algemado. Ele estava machucado e
sangrava, mas ainda assim mantinha-se inexpressivo. Conforme ele caminha,
dou um passo a frente, e quando saio de meu esconderijo, seus olhos repousam
em mim e vejo o desespero tomar conta dele. Zared se debate contra as
algemas e tenta sair de perto de perto de Leon, mas o homem apenas tira uma
arma da parte de trás de sua calça e atira no moreno, que cai no chão com os
olhos fixos em mim. Sinto um aperto do no coração e o desespero toma conta
de meu corpo, mas quando tento ir até ele, alguém cobre minha boca para
impedir meu grito e me puxa para longe dali enquanto me debato e choro. Sou
encostada na parede e arregalo os olhos inchados assim que vejo quem é.
— Ele sabia que você não iria embora tão fácil. — O homem diz e me
abaixa assim que o carro de Leon sai dali. — Está na hora de irmos embora.
— Eles o mataram ele. Mataram o Zared! — Digo entre o soluço e o
choro. Meu corpo tremia e apesar de meus olhos doerem de tanto chorar,
lágrimas grossas continuavam molhando meu rosto.
— O senhor Winter fez o que achava certo, Skye, ele se entregou para que
você pudesse ter sua liberdade. — Isaac diz e me puxa de volta para o carro.
Enquanto corremos pela floresta, olho para o lugar onde o corpo de Zared
estava, mas tudo o que vejo é sangue. Assim que entramos no carro, Isaac dirige
até chegarmos a um motel barato, onde Todd nos esperava. Assim que saio do
automóvel, corro até meu amigo e me atiro em seus braços.

331
— Está tudo bem. Você está livre. O pesadelo acabou. — Ele diz e tudo o
que faz é me deixar pior. Afasto-me dele e olho para Isaac, abraço-o também e
diferente de Todd, ele esfrega minhas costas e me aperta firme contra seu corpo.
— Ele amava você. — Ele sussurra em meu ouvido e apesar de gostar de
saber, eu não acreditava, poderiam ser palavras ditas apenas para que eu me
sinta melhor.
Assim que retornamos ao carro, encaro o anel que Zared havia me dado,
mergulhando em um mar das pequenas boas lembranças e sou desperta quando
Isaac chama por mim e me estende uma rosa branca e uma folha rasgada pela
metade com a letra de Zared. Quando li o bilhete, senti lágrimas me invadirem.
Permiti-me desabar sobre suas palavras, que agora ficaram cravadas em meu
peito, pois só consigo pensar nas coisas boas que passamos juntos e que o
único homem que amei está dando a vida para me salvar. As palavras que
manterei guardadas até o dia da minha morte.
Zared Winter me viu como mais uma de suas rosas brancas, mas esqueceu
de tirar meus espinhos e com isso, sangue foi derramado.

332

Interesses relacionados