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O Diabo

e Outros Contos
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Autor: Lev Tolstói


Título: O Diabo e Outros Contos
Tradução e notas: Nina Guerra e Filipe Guerra
Revisão de texto: Aida Couto
Capa: Carlos César sobre pormenor de Retrato de Thadée-Caroline Jacquet,
de Edmond Aman-Jean, 1892

©Relógio D' Água Editores, Setembro de 2008

Se não encontrar nas livrarias o livro que procura da R. A., pode recorrer ao sítio
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Composição e paginação: Relógio D 'Água Editores


Impressão: Guide Artes Gráficas, Lda.
Depósito Legal n.º 281864/08
Lev Tolstói

O Diabo
e Outros Contos
Tradução e Notas de
Nina Guerra e Filipe Guerra

Clássicos
O DIABO

Eu , porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher, para a
cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.

Portanto, se o teu olho direito se escandalizar, arranca-o e atira-o


para longe de ti, pois que é melhor que se perca um dos teus mem­
bros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno .

E, se a tua mão direita se escandalizar, corta-a e atira-a para


longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se
perca do que seja o teu corpo lançado no inferno .

S. Mateus, 5:28,29,30

Evguéni Irténev tinha uma brilhante carreira pela frente . Possuía todas
as condições para tal . Excelente educação em casa, brilhante fim de cur­
so na Faculdade de Direito da Universidade de Petersburgo, relações ,
herdadas do pai recém-falecido , com a mais alta sociedade e , inclusiva­
mente, um início de prestação de serviço público no Ministério , sob a
protecção do próprio ministro . Tinha também fortuna, grande , embora
duvidosa: o pai vivera no estrangeiro e , em Petersburgo , dava aos seis
mil rublos a cada filho - a Evguéni e a Andrei, o mais velho , que ser­
via na cavalaria da guarda imperial - , e os próprios pais gastavam sem­
pre muito dinheiro. No Verão , e apenas no Verão , o pai ia viver dois me­
ses na herdade, mas não tratava dela, confiando tudo ao administrador
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empanzinado que também não cuidava de nada mas desfrutava da intei­


ra confiança do senhor.
Depois da morte do pai , no momento das partilhas , os irmãos desco­
briram que, afinal , as dívidas eram tantas que o seu procurador lhes che­
gou a aconselhar que recusassem receber a herança e ficassem apenas com
a herdade da avó, avaliada em cem mil rublos . Porém, o dono da herdade
vizinha, que tivera alguns negócios com o velho Irténev - ou seja, esta­
va na posse de uma letra assinada por este, razão pela qual se deslocou a
Petersburgo - , opinou que, apesar das dívidas , era possível recompor as
coisas e salvar a grande fortuna. Bastava para isso vender a floresta e al­
guns baldios , mas manter a mina de ouro - a herdade Semiónovskoe e as
suas dezasseis mil jeiras de terras negras , uma fábrica de açúcar e oito­
centas jeiras de lezírias - , com a condição de Evguéni Irténev se instalar
na aldeia e se dedicar à lavoura com cabeça e ponderação rigorosa.
Assim, na Primavera (o pai morrera na Quaresma) , Evguéni, depois de
ir à herdade e ter feito uma vistoria a tudo, decidiu apresentar a demissão
no Ministério , instalar-se com a mãe na aldeia e dedicar-se à administra­
ção da propriedade para salvar a herdade principal . No respeitante ao ir­
mão , com quem não mantinha relações de grande amizade , Evguéni
combinou o seguinte: pagar-lhe-ia quatro mil rublos por ano , ou oitenta
mil de uma vez, se desistisse da parte da herança a que tinha direito .
Isso foi feito e Evguéni Irténev, instalando-se com a mãe na casa gran­
de , deitou mãos à obra com ardor, sim , mas também com muitas cautelas .
É comum a ideia de que os velhos são os conservadores típicos e os
jovens são os inovadores . Não é bem assim. Os conservadores mais típi­
cos são os jovens , os que querem viver mas não pensam nem têm tempo
para pensar como viver e que, por isso , optam pelo modelo de vida já
existente .
Assim aconteceu com Evguéni . Na aldeia, o seu ideal , o seu sonho
consistiam em recuperar uma forma de vida que , de resto , não era a vi­
gente no tempo do pai - o pai era um proprietário desleixado - , mas
no tempo do seu avô . Tentava então - na casa, nos pomares , nas hortas ,
no campo (com as modificações próprias da época, evidentemente) -
fazer renascer o espírito geral da vida do avô , e tudo à grande: prosperi­
dade para todos , ordem e boa gerência da economia; ora, para construir
uma vida assim era necessário trabalhar muito: satisfazer os credores e
os bancos sendo para isso necessário vender terras e adiar pagamentos ,
e também arranjar dinheiro para manter de pé a enorme herdade de Se­
miónovskoe com as suas dezasseis mil jeiras de lavradio e a fábrica de
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açúcar; era também preciso providenciar para que no solar e no jardim


nada se parecesse com o abandono e a degradação .
O trabalho era muito, mas Evguéni também era dotado de muitas for­
ças - físicas e morais . Tinha vinte e seis anos , estatura meã, complei­
ção robusta, músculos desenvolvidos pela ginástica, era do tipo sanguí­
neo , de bochechas rosadas , dentes e olhos brilhantes , e cabelo não muito
espesso, macio e ondulado . O único senão físico de Evguéni era a mio­
pia, que ele próprio agravou com o uso de óculos , e já não dispensava a
luneta que começava a sulcar-lhe a saliência do nariz adunco . Assim era
ele fisicamente; ora, quanto à faceta moral , basta dizer que quanto mais
as pessoas o conheciam mais gostavam dele . A mãe sempre o preferira a
todos os outros e, depois da morte do marido , Evguéni não só preenchia
toda a sua ternura como concentrava toda a sua vida. Não só a mãe gos­
tava muito dele , também os colegas do liceu e da universidade o apre­
ciavam muito e , além disso , o respeitavam. Nos estranhos despertava a
mesma simpatia. Olhando para os olhos abertos e honestos de Evguéni ,
era impensável desconfiar-se do que ele dizia, era impossível suspeitar
que houvesse nele a mínima falsidade ou mentira.
De uma maneira geral , esta sua personalidade ajudava-o muito em to­
dos os negócios . Os credores , por mais exigentes e rigorosos que fossem
para com os outros , para com ele eram confiantes e cediam . O encarrega­
do, o regedor da aldeia, o mujique que aldrabariam e fariam sujeira com
outro qualquer, com ele esqueciam-se de aldrabar, tal era a impressão que
aquele homem bondoso , simples e sobretudo aberto lhes causava.
Estava-se no final de Maio . Evguéni conseguira finalmente libertar
um baldio da hipoteca e vendê-lo a um comerciante , ao mesmo tempo
que arranjava um empréstimo desse mesmo comerciante para comprar
cavalos , bois , carroças , etc . , e, acima de tudo , para dar início à constru­
ção da granja que se tomara indispensável . As coisas começaram a an­
dar. Acarretava-se a madeira, os carpinteiros já trabalhavam, oitenta car­
roças transportavam o estrume; porém, estava tudo ainda muito incerto .

\
No meio de tantas preocupações havia uma circunstância, aparente­
mente menos importante , que atormentava muito Evguéni . Na sua ju­
ventude , vivia como todos os outros homens solteiros , jovens e saudá­
veis , ou seja, mantinha relações com mulheres de vários tipos . Não era
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um depravado mas também não era um monge , como dizia de si mesmo .


E apenas se entregava a essas coisas na medida das suas necessidades -
a física, para bem da saúde , e a da liberdade intelectual - , como ele di­
zia. Começou aos dezasseis anos e , até ao presente momento, tudo cor­
rera bem. Correra bem no sentido em que não caíra na libertinagem, não
se deixara arrebatar por qualquer paixão, e não apanhara nenhuma doen­
ça. Em Petersburgo , a primeira que teve foi uma modista e, como a mo­
dista se depravasse , Evguéni arranjou outra mulher. Organizava tão bem
esta faceta da sua vida que não sentia embaraço de espécie alguma.
Agora, ao segundo mês de vida na aldeia, não sabe o que fazer. A conti­
nência forçada começa a provocar-lhe um efeito nocivo. Deveria ir à cida­
dezinha tratar disso? Mas onde? E como? Era esta a única fonte de inquie­
tação de Evguéni lrténev. E, convicto de que aquilo era uma necessidade e
de que tinha de a satisfazer, começou efectivamente a sofrê-lo como ne­
cessidade, e também a não se sentir livre, indo ao ponto de, involuntaria­
mente, acompanhar com os olhos cada mulher jovem que passava.
Achava mal meter-se com uma rapariga ou uma mulher da aldeia. Sa­
bia, pelo que lhe contavam, que o pai e o avô se distinguiam neste parti­
cular dos outros senhores rurais daquela época e , em casa, nunca tinham
relações com as servas ; decidiu que também não o faria. Mas , sentindo­
-se cada vez mais tenso , e imaginando com terror o que poderia
acontecer-lhe na vila, e levando em linha de conta que as mulheres já não
eram servas , encarou a ideia de que poderia desenvencilhar-se na aldeia.
Apenas tinha de arranjar maneira de ninguém saber e de fazer com que
as coisas se passassem sem depravação , tão-só para bem da saúde - as­
sim dizia a si próprio . Ora, tomada esta decisão , ficou ainda mais in­
quieto; quando falava com o regedor, com os mujiques , com o carpintei­
ro , desviava involuntariamente a conversa para o tema das mulheres; e ,
caso s e falasse de mulheres , fazia por manter este tema de conversa. E
observava, cada vez mais, as mulheres .

Porém, tomar uma decisão é uma coisa, realizá-la é outra. Abordar di­
rectamente uma mulher era impossível . Que mulher? Onde? Impunha-se
um intermediário , mas quem?
Um dia entrou em casa do guarda-florestal , antigo couteiro do seu pai .
Evguéni lrténev começou a conversar com ele , vieram à baila histórias
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de antigas pândegas de caça. Passou então pela cabeça de Evguéni que


não seria má ideia fazer o arranjinho na casa do guarda ou na floresta. Só
não sabia se o velho Danila se encarregaria disso . «Talvez fique horrori­
zado quando eu lhe falar nisso , e então será uma vergonha para mim; ou
talvez não , talvez aceite facilmente .» Evguéni ouvia as histórias de Da­
nila e era só nisso que pensava. Danila estava a contar como , um dia, ti­
nham ficado alojados em casa da mulher do salmista, no meio do couto ,
e como ele próprio arranjara mulher para o senhor Prianítchnikov.
«Posso» , pensou Evguéni .
- O seu paizinho , que descanse em paz , não cometia asneiras dessas ,
graças a Deus.
«Não posso» , repensou Evguéni mas , para sondar o terreno , disse:
- Mas tu, porque te prestavas a essas coisas feias?
- Feias porquê? A mulher ficava contente , e o senhor contentíssimo .
E, para mim, um rublo . Ele também tinha as suas necessidades, não? Não
é um corpo vivo? Bebe vinho . . .
«Sim, posso falar» , concluiu Evguéni , e disse logo a seguir:
- Ouve - e sentiu-se a corar como uma papoila - , ouve , Danila, já
não aguento.
Danila sorriu .
- Não sou monge nenhum, estou habituado .
Sentia que tudo o que lhe saí da boca era estupidez , mas estava con­
tente por ver que Danila o aprovava.
- Tudo bem, o senhor já podia ter dito . Sim, é possível - assentiu
Danila. - Diga só qual delas .
- Uma qualquer, francamente . Mas que não seja muito feia, é claro ,
e que não tenha doenças .
- Entendo ! - cortou Danila, e ficou a pensar. - Oh, sim, há uma
coisinha linda - adiantou . Evguéni voltou a corar. - Uma coisinha lin­
da. Acontece que a casaram no Outono - Danila passou a sussurrar - ,
mas o marido . . . não pode . Ora, para quem goste , isso vale muito .
Evguéni até franziu a cara de vergonha.
- Não , não - objectou . - Não é isso que eu quero . Pelo contrário
(o que podia ser o contrário?) , pelo contrário , quero apenas que seja sau­
dável e que não haja problemas . . . uma mulher de soldado , ou então . . .
- Já sei . Quer isso dizer que tenho de falar à Stepanida. O marido es­
tá na cidade , então é como se fosse mulher de soldado . É uma mulherzi­
nha boa, limpa. O senhor vai gostar. Aliás , ainda há pouco lhe disse: an­
da lá . . . E ela . . .
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- Então , quando?
- Pode ser já amanhã. Vou ao tabaco e passo por lá, e o senhor apa-
reça aqui à hora do almoço , ou então vá ter atrás da horta, ao pé dos ba­
nhos . Não há lá ninguém, além de que , a essa hora, está toda a gente a
dormir.
- Está bem.
A caminho de casa, apoderou-se de Evguéni uma emoção terrível .
«Como será ela? O que pode ser uma camponesa? E se for um estafer­
mo monstruoso, horrendo? Não , elas até são bonitas - dizia para si mes­
mo , recordando as mulheres que lhe prendiam a atenção . - Mas o que
lhe vou dizer, como é que faço?»
Passou todo o dia num desassossego . No dia seguinte , pelo meio-dia,
passou por casa do guarda. Danila estava à porta e apontou-lhe com a
cabeça, significativamente , na direcção da floresta. O sangue afluiu ao
coração de Evguéni , sentiu-o bem, e meteu a caminho da horta. Não ha­
via ninguém. Aproximou-se dos banhos - ninguém; entrou, saiu e , de
repente , ouviu o estalido de um ramo a partir-se, por trás do barranco .
Precipitou-se para l á , atravessou o barranco . A o fundo d a ribanceira ha­
via urtigas , em que não reparou . Picou-se e, deixando cair a luneta do na­
riz , subiu para a outra margem da barroca. Com um avental branco bor­
dado , saia vermelha escura e lenço escarlate , lá estava ela de pé,
descalça, fresca, durinha, bonita, sorrindo com timidez .
- Há aqui uma vereda, podia contorná-la - disse ela. - Estou aqui
há muito . Há que tempos !
Aproximou-se dela e , olhando para trás , tocou-lhe .
Um quarto de hora depois despediram-se . Evguéni encontrou a lune­
ta, passou por casa de Danila e, à pergunta «então, satisfeito?» , respon­
deu dando-lhe um rublo . Voltou para casa.
Estava contente . Só no início se envergonhara. Depois passou-lhe a
vergonha, correu tudo bem. Primeiro que tudo , sentia-se agora aliviado,
calmo , enérgico . Quanto à mulher, nem chegou a vê-la bem. Recordava­
-a como uma mulher limpa, fresca, nada feia e simples , sem requebras .
«A quem pertence? - pensava Evguéni . - Aos Petchnikov, como ele
disse? Mas quais? É que há duas farm1ias Petchnikov. Pelos vistos é no­
ra do velho Mikhaila. Sim, de certeza, porque o filho dele está em Mos­
covo . . . Hei-de perguntar ao Danila.»
A partir de então foi superado aquele inconveniente da sua vida na al­
deia - a continência forçada. Já nada impedia o livre curso do pensa­
mento ágil de Evguéni , podia dedicar-se livremente ao trabalho .
O Diabo e Outros Contos 13

Ora, o trabalho não se apresentava fácil: por vezes parecia-lhe que não
aguentava e que, afinal , seria necessário vender mesmo a herdade , que
todos os seus esforços iriam por água abaixo e que - o pior de tudo -
ficaria claro que se dera por vencido e não conseguira acabar a obra ini­
ciada. Era este último ponto que mais o preocupava. Mal acabava de ta­
par minimamente um buraco , abria-se logo outro, inesperado .
Entretanto , foram-se descobrindo cada vez mais dívidas do pai .
Tomava-se evidente que, nos últimos tempos da sua vida, o pai se endi­
vidava por todo o lado, sem pensar duas vezes . Em Maio , aquando das
partilhas , Evguéni pensava que já estava ao corrente de tudo . Porém, em
meados do Verão, recebeu uma carta que , de chofre , o punha a par da dí­
vida de doze mil rublos à viúva Essípova. Não existia letra, apenas uma
carta-promessa que , nas palavras do procurador, era possív�l contestar.
Mas nunca passaria pela cabeça de Evguéni furtar-se ao pagamento de
uma dívida real contraída pelo pai apenas porque era possível refutar um
documento . Bastava-lhe saber que a dívida era verdadeira.
- Mamã! Quem é esta Kaléria Vladimirovna Essípova? - perguntou
à mãe durante o almoço, refeição que, como de costume, tomavam juntos .
- Essípova? É uma educanda do avô . Porquê?
Evguéni falou à mãe da carta.
- Não sei como essa mulher não tem vergonha. O teu pai ajudou-a
muito, deu-lhe muito dinheiro .
- Mas devemos-lhe alguma coisa?
- Nem sei o que te hei-de dizer. . . Não , a dívida não existe , o teu pai ,
com a sua infinita bondade . . .
- Está bem, mas o pai considerava isto uma dívida ou não?
- Não sei dizer, não sei . Só sei que , já sem isto , tens problemas a
mais.
Evguéni via que Mária Pávlovna não queria opinar e como que o son­
dava.
- Só posso concluir que é preciso pagar - disse o filho. - Amanhã
vou falar com ela e peço-lhe um adiamento .
� Ai , coitado , como tenho pena de ti . Mas , sabes? Assim é melhor.
Diz-lhe que tem de esperar - aconselhou Mária Pávlovna, visivelmen­
te tranquilizada e orgulhosa com a decisão do filho .
A situação de Evguéni era ainda mais difícil porque a mãe , com quem
vivia, não entendia nada da situação. Toda a vida viveu à grande , estava
habituada a isso, de maneira que era incapaz de imaginar que, de um mo­
mento para o outro, podiam ficar sem nada, que o filho podia ter de ven-
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der tudo e passar a sustentar a mãe com o vencimento do serviço (na si­
tuação dele, não deveria ultrapassar os dois mil rublos) . Mária Pávlovna
não percebia que só era possível vencer o problema reduzindo todas as
despesas , e não compreendia que Evguéni pudesse ser tão poupado nas
coisas miúdas , nos gastos com jardineiros , cocheiros , criadagem, e até
mesa. Além disso , tal como a maioria das viúvas , ela tinha uma autênti­
ca veneração pela memória do marido , de longe maior do que a adora­
ção que lhe dedicava em vida, e não admitia a ideia de que ele fizera coi­
sas sem préstimo ou que precisassem de ser alteradas .
Evguéni , com grande esforço , mantinha o jardim e a estufa com dois
jardineiros , e a cavalariça com dois cocheiros . Ora, Mária Pávlovna con­
siderava ingenuamente que , pelo facto de não se queixar das refeições
preparadas pelo velho cozinheiro , nem de barafustar contra as alamedas
do jardim mal limpas , nem de reclamar contra a ausência de lacaios (ti­
nham apenas um criado , rapazinho para todo o serviço) , considerava en­
tão que fazia o possível como mãe que se sacrifica pelo filho . Quanto
àquela nova dívida - que para Evguéni era quase o golpe de misericór­
dia que se abatera sobre os seus empreendimentos - , Mária Pávlovna
apenas distinguia nela um caso que demonstrava a nobreza de Evguéni .
Havia ainda outra razão que levava a mãe a não se preocupar muito com
a situação material de Evguéni: a sua convicção de que o filho arranjaria
um casamento brilhante que iria resolver tudo . Na verdade , existia mes­
mo essa possibilidade de encontrar um partido brilhante: Mária Pávlov­
na conhecia uma dúzia de fann1ias que ficariam felizes se , qualquer de­
las , unissem a filha a Evguéni . E Mária Pávlovna queria efectivar esse
enlace o mais depressa possível .

Evguéni também sonhava com isso , mas de outra maneira, uma vez
que lhe repugnava a ideia de aproveitar o casamento como meio de me­
lhorar a situação material . Observava as meninas que encontrava e co­
nhecia, imaginava como seria estar casado com elas , mas não havia meio
de o destino lhe solucionar esse problema. Entretanto , contra todas as
suas expectativas , as relações com Stepanida continuavam e ganhavam
até foros de estabilidade . Para Evguéni , um homem sem a tendência pa­
ra a depravação , era muito penoso fazer o que fazia, essa coisa secreta e ,
pelo que sentia, muito má, por isso não tinha paz de espírito . Logo após
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o primeiro encontro , esperava nunca mais a ver; algum tempo depois ,


porém, voltou-lhe a inquietação , que atribuía à necessidade física. Mas ,
desta vez, já não era uma inquietação impessoal: imaginava precisamen­
te aqueles olhos negros e brilhantes , aquela voz peitoral que dizia «há
que tempos ! » , aquele cheiro a qualquer coisa fresca e forte , e aquele pei­
to alto debaixo do avental , precisamente naquela floresta de aveleiras e
bordos banhada de luz forte . Apesar da timidez e vergonha, voltou a re­
correr a Danila. E de novo foi marcado um encontro ao meio-dia, na flo­
resta. Desta vez, Evguéni observou-a melhor, e tudo nela lhe pareceu
atraente . Tentou falar com ela, perguntou-lhe pelo marido . Sim, era efec­
tivamente o filho de Mikhaila, trabalhava como cocheiro em Moscovo .
- Então , como é que podes . . . - Evguéni queria dizer «como podes
enganá-lo?»
- Como é que posso o quê? - perguntou ela. Pelos vistos era esperta.
- Como é que podes encontrar-te comigo?
- Ora! - respondeu num tom alegre. - É de supor que ele anda lá
com mulheres. Porque é que eu não posso?
Stepanida, provavelmente , estava a forçar um desembaraço e um ar­
rojo que não tinha. E isso agradou a Evguéni . Mesmo assim, não lhe
marcou novo encontro , nem quando ela própria sugeriu que combinas­
sem sem a mediação do Danila que , por qualquer razão , lhe era antipáti­
co . Evguéni tinha a esperança de que fosse aquele o último encontro .
Embora Stepanida o atraísse , embora pensasse que precisava muito da
relação com ela e não visse mal nenhum nisso , no fundo da alma de Ev­
guéni havia um juiz mais rigoroso que não o aprovava e que esperava
que fosse a última vez; ou , quem sabe , não esperava tal coisa, mas , pelo
menos , não queria participar na combinação dessa coisa.
Assim continuou todo o Verão , encontrando-se umas dez vezes com
ela, sempre por intermédio de Danila. Depois , uma ocasião , Stepanida
não pôde aparecer porque chegara o marido , e Danila propôs-lhe outra.
Evguéni recusou com repugnância. Quando o marido partiu , os encontros
continuaram como dantes , primeiro com a ajuda de Danila, mas depois
não: o próprio Evguéni passou a marcar sozinho o dia e a hora. Stepani­
da aparecia acompanhada por uma camponesa de nome Prokhorova por­
que, enfim, uma mulher não pode andar sozinha. Um dia, precisamente à
hora do encontro, chegou de visita a Mária Pávlovna uma farm1ia, com a
respectiva menina, menina essa em que a mãe pensava como possível
noiva para o filho , e Evguéni não pôde sair de casa. Logo que o pôde , fin­
giu dirigir-se para a eira mas , dando a volta por uma vereda, foi até à flo-
16 Lev Tolstói

resta, ao lugar do costume . Stepanida não estava lá. Naquele sítio , até on­
de alcançava a mão , estava tudo partido - o azereiro, a aveleira, até um
bordo jovem com o tronco da grossura de uma estaca. Adivinhava-se que
ela tinha esperado , se enervara e se irritara, e que também quisera deixar­
-lhe aquelas lembranças por pirraça. Evguéni ainda ficou ali algum tem­
po , depois foi a casa de Danila e pediu-lhe que marcasse encontro para o
dia seguinte . Ela apareceu e portou-se como sempre .
Assim se passou o Verão . Os encontros eram sempre na floresta e ape­
nas uma vez, já no fim do Verão , numa barraca da eira, nas traseiras da
casa. Nem passava pela cabeça de Evguéni que aquele seu relaciona­
mento pudesse ter qualquer importância para ele . Nem pensava nela.
Limitava-se a dar-lhe dinheiro . O que ele não sabia, nem suspeitava, era
que , na aldeia, já todos estavam ao corrente, tinham inveja de Stepanida
e que a famflia dela se aproveitava do seu dinheiro e a estimulava. As­
sim, por influência do dinheiro e da participação dos familiares , em Ste­
panida desapareceu por completo a noção do pecado . Como toda a gen­
te lhe tinha inveja, pensava ela, o que estava a fazer só podia ser bom.
«Preciso disto para a saúde , mais nada - pensava Evguéni . - Diga­
mos que é feio , e que toda a gente sabe, pelo menos alguns , embora nin­
guém diga nada. Aquela mulher que a acompanha sabe , por isso já deve
ter espalhado a notícia. Mas o que posso fazer? Estou metido numa coi­
sa muito má - pensava Evguéni - , mas não há remédio . O que vale é
que isto não vai durar muito .»
O que o embaraçava mais era o marido de Stepanida. A princípio, sem
saber porquê, imaginava o homem como um miserável sem préstimo , e
isso , em parte , servia-lhe de justificação . Mas , quando viu o marido , fi­
cou pasmado . Era um sujeito galhardo , um janota, nada pior que Evgué­
ni , ou talvez melhor. No encontro seguinte disse a Stepanida que tinha
visto o marido e ficara admirado com o homem donairoso que ele era.
- Não há outro como ele na aldeia - disse ela com orgulho .
Foi grande a surpresa de Evguéni . A partir de então tomou-se ainda
mais aflitivo pensar naquele marido . Um dia, passando por casa do Da-
nila, este disse-lhe no meio da conversa, de caras: .
- O Mikhaila há pouco perguntou-me: é verdade que a minha nora
se entende com o senhor? Respondi que não sabia. Mas sempre é melhor
com ele do que com um mujique qualquer, disse-lhe eu .
- E ele?
- Nada . . . Espera lá, disse ele , que se eu descubro dou uma sova a es-
sa cabra.
O Diabo e Outros Contos 17

«Bom, s e o marido voltasse , e u acabava com tudo» , pensou Evguéni.


Mas o marido vivia na cidade , e as coisas iam continuando no mes­
mo pé .
«Quando for preciso rompo com ela, não haverá mais nada» , pensava
Evguéni .
Isto parecia-lhe indubitável , até porque , durante o Verão , esteve mui­
to ocupado: a organização da granja nova, a colheita, as obras e , sobre­
tudo , o pagamento das dívidas e a venda do baldio . Eram assuntos que
absorviam toda a sua atenção e em que pensava quando se deitava, quan­
do se levantava, sempre . Era isso a sua verdadeira vida. Quanto às rela­
ções com Stepanida - a que nem sequer chamava um «caso» - , eram
algo de imperceptível . Era verdade que o desejo de a ver, quando irrom­
pia, era tão forte que não conseguia pensar em mais nada, mas não du­
rava muito , depois do encontro Evguéni esquecia-a durante semanas , às
vezes por um mês inteiro . . .
No Outono , Evguéni ia muitas vezes à vila. Foi lá que conheceu e tra­
vou amizade com a família Ánnenski . Os Ánnenski tinham uma filha
que terminara o curso no internato . E então , para grande desgosto de Má­
ria Pávlovna, aconteceu que Evguéni «Se vendeu barato» , segundo a ex­
pressão dela - apaixonou-se por Lisa Ánnenskaia e pediu-a em casa­
mento .
Desde então terminaram as relações com Stepanida.

Não é possível explicar-se a razão por que Evguéni escolheu Lisa


Ánnenskaia, tal como não é possível , de uma maneira geral , explicar-se
por que razões um homem escolhe uma mulher e não outra. Houve uma
caterva de razões , sem dúvida, umas negativas e outras positivas . Uma
delas foi que a menina não era rica, não era daquelas que a mãe lhe pro­
punha, além de ser ingénua e de lidar com humildade com a mãe dela;
além disso , embora não fosse feia, não era uma beldade que atraía todas
as atenções . Mas a razão principal residia na circunstância de Evguéni a
conhecer precisamente na altura em que já amadurecera para o casa­
mento . Apaixonou-se porque sabia que se casaria.
De início , Evguéni apenas simpatizava com Lisa, mas quando decidiu
que ela ia ser sua mulher, o sentimento tornou-se muito mais forte:
apaixonou-se.
18 Lev Tolstói

Lisa era alta, delgada, comprida. Tudo nela era comprido: o rosto , o
nariz que não era saliente mas como que estendido de cima para baixo ,
os dedos , os pés . A sua tez era tema, de um branco amarelado , ligeira­
mente tingida de cor; o cabelo comprido, loiro-escuro , macio e encara­
colado, os olhos muito belos , límpidos e meigos , confiantes. Foram os
olhos , aliás , o que mais impressionou Evguéni . Quando pensava em Li­
sa surgiam-lhe na imaginação aqueles olhos límpidos , meigos , confian­
tes .
Era assim o aspecto físico de Lisa Ánnenskaia. Quanto ao espiritual ,
Evguéni não sabia nada, apenas via aqueles olhos . Uns olhos que pare­
ciam dizer-lhe tudo o que ele tinha de saber. Ora, o sentido daqueles
olhos era o seguinte:
Desde os quinze anos , ainda no internato , Lisa apaixonava-se inces­
santemente por todos os jovens atraentes que encontrava, e apenas fica­
va animada e feliz quando se apaixonava. Quando saiu da escola conti­
nuou a apaixonar-se por todos os homens jovens que encontrava e ,
evidentemente , mal conheceu Evguéni também s e enamorou dele . Era
aquele estado de paixão que dava aos olhos de Lisa a expressão que fas­
cinou Evguéni .
Naquele mesmo Inverno já ela estava apaixonada por dois jovens , ao
mesmo tempo , e corava sempre que eles entravam em sua casa e também
quando alguém pronunciava os nomes deles na sua presença. Porém,
quando a mãe lhe insinuou que Evguéni lrténev tinha provavelmente in­
tenções sérias , a sua paixão por ele aumentou de tal maneira que os ou­
tros dois quase se lhe tomaram indiferentes; ora, quando lrténev come­
çou a visitá-la, aparecendo nos bailes , nos serões , dançando com ela
mais do que com as outras , tudo indicando que desejava apenas saber se
Lisa gostava dele , a paixão da menina por lrténev tomou-se quase doen­
tia, via-o em sonho e em vigília num quarto escuro , e todos os outros já
não existiam para ela. E quando ele a pediu em casamento e o compro­
misso foi abençoado , quando se beijaram e se tomaram noivos , Lisa dei­
xou de pensar fosse no que fosse que não ele , deixou de desejar fosse o
que fosse excepto estar com ele, para o amar e ser amada. Orgulhava-se
e enternecia-se , por ele e por ela própria, pelo amor recíproco , enlan­
guescia de amor por ele. E ele também, quanto mais a conhecia mais a
amava. Nunca esperara que o amassem tanto , e isso intensificava ainda
mais o seu sentimento .
O Diabo e Outros Contos 19

No fim do Inverno foi a Semiónovskoe para ver como corriam as coi­


sas e dar as suas ordens quanto à economia da herdade , mas sobretudo
para inspeccionar os arranjos da casa com vista ao casamento .
Mária Pávlovna não estava contente com a escolha do filho , não só
porque a menina não era o partido mais brilhante possível , mas também
porque não gostava de Varvara Alekséevna, futura sogra de Evguéni . Se
era boa ou má, isso não sabia, não se apercebia, mas viu claramente , des­
de o primeiro encontro, que não era uma senhora comme il faut, decen­
te , não era uma lady, na expressão de Mária Pávlovna, e isso era um des­
gosto para ela, afligia-a, uma vez que valorizava muito , por hábito de
sempre , a tal decência e , porque sabia que Evguéni também era muito
sensível a esse respeito , previa muitos dissabores para o filho nesse par­
ticular. Quanto à menina, agradava-lhe , sobretudo porque Evguéni gos­
tava dela. Sendo assim , era necessário amá-la. E Mária Pávlovna estava
pronta para isso , com toda a sinceridade .
Evguéni foi encontrar a mãe muito animada e contente . Organizava
tudo em casa e planeava ir-se embora quando Evguéni levasse para lá a
jovem esposa. Evguéni tentava convencê-la a viver com eles. A questão
continuava suspensa.
À noite , depois do chá, Mária Pávlovna tinha o hábito de fazer pa­
ciências . Evguéni ajudava-a. Era a hora das conversas mais íntimas en­
tre mãe e filho . Mária Pávlovna acabou uma paciência, não encetou ou­
tra e , hesitando um pouco , olhou para o filho e começou:
- Queria dizer-te uma coisa, meu filho . É evidente que não sei nada
mas , de uma maneira geral , queria aconselhar-te . Antes do casamento , é
necessário, é indispensável acabares com todas as relações de solteiro ,
para que nada venha a criar-te problemas , a ti e, Deus nos guarde , à tua
mulher. Estás a entender?
Sim , Evguéni percebeu de imediato que Mária Pávlovna lhe fazia uma
insinuação: as suas relações com Stepanida, cortadas já no Outono , mas
a que a mãe , como é próprio das mulheres solitárias , atribuía maior im­
portância do que tinham na realidade . Evguéni corou , não tanto porque
o envergonhasse e sim porque o desgostava a intromissão de Mária Pá­
vlovna - feita por amor, é claro - , mas mesmo assim em coisas que
não lhe diziam respeito e que era incapaz de compreender. Respondeu à
mãe que não tinha nada a esconder e que sempre se portaria de maneira
a que nada impedisse o seu casamento .
20 Lev Tolstói

- Ainda bem, amiguinho . Não te ofendas nem te zangues comigo -


disse Mária Pávlovna, envergonhada.
Porém, Evguéni bem via que ela não dissera tudo o que tinha para di­
zer. E não se enganava. Um pouco depois contou que , estando ele fora,
tinha sido convidada para madrinha de baptizado de uma criança dos
Petchnikov.
Desta vez Evguéni não corou de desgosto , mas de vergonha, com a es­
tranha consciência da importância do que lhe ia ser dito a seguir, uma
consciência involuntária, em pleno desacordo com o seu raciocínio .
Aconteceu de facto o que ele esperava. Mária Pávlovna, sem qualquer
intenção aparente , falando por falar, disse que nesse ano nasciam só ra­
pazes, o que era prenúncio de guerra. Na família dos Vássin e na dos
Petchnikov, os primogénitos das jovens mulheres eram rapazes . Mária
Pávlovna, que tencionava contar-lhe aquilo como que de passagem,
sentiu-se mal ao ver o filho a corar e a tirar nervosamente a luneta, a fa­
zer estalar-lhe a mola, a voltar a pô-la e a acender a toda a pressa um ci­
garro . Calou-se . Evguéni também ficou calado , não sabendo como que­
brar aquele silêncio. Concluíram ambos que se tinham compreendido um
ao outro .
- Na aldeia é preciso manter a justiça e que não haja favoritos , como
os tinha o teu tio .
- Mãezinha - disse de chofre Evguéni - , eu sei onde quer chegar.
Não tem motivos de preocupação . Para mim, a minha futura vida fami­
liar é tão sagrada que não quero de modo algum prejudicá-la. Quanto ao
que sucedeu durante a minha vida de solteiro , está definitivamente mor­
to e enterrado . E nunca me comprometi em caso nenhum, ninguém tem
quaisquer direitos em relação a mim.
- Muito bem, fico contente - disse a mãe. - Eu sei , conheço as
tuas ideias nobres .
Evguéni aceitou estas palavras como merecidas e calou-se .
Na manhã seguinte foi à vila. Ia a pensar na noiva, ia a pensar em tu­
do menos em Stepanida. Mas , nem de propósito para lha lembrar, quan­
do se aproximava da igreja começou a encontrar aldeões que saíam de lá.
Viu o velho Matvei com Semion, viu crianças , jovens raparigas . . . e , de
repente , duas mulheres, uma mais velha, a outra toda aperaltada, de len­
ço encarnado, com qualquer coisa de familiar. Andava em passo ligeiro e
enérgico, com um bebé ao colo . Ao chegar junto delas , a mais velha pa­
rou , fez-lhe uma vénia à antiga, e a mais nova apenas inclinou a cabeça,
brilhando-lhe sob o lenço uns olhos familiares , sorridentes , alegres .
O Diabo e Outros Contos 21

«Sim, é ela, mas j á está tudo acabado, nem sequer tenho de olhar pa­
ra ela. A criança talvez seja minha - passou-lhe pela cabeça. - Mas
não, não é, que disparate . Havia o marido , ela estava muitas vezes com
ele .» Evguéni nem queria fazer as contas . Precisou dela por razões de
saúde, e pagava-lhe, mais nada, não houve qualquer ligação entre eles a
não ser isso , e continua a não haver, não pode nem deve existir nada dis­
so - assim decidira e assim seria. Não que estivesse a abafar a voz da
consciência, era a própria consciência que não lhe dizia nada. Assim, de­
pois da conversa com a mãe e deste encontro , não voltou a recordá-la.
Também não tornou a vê-la. No dia de Todos os Santos , Evguéni casou­
-se na vila e logo a seguir levou a jovem esposa para a aldeia.A casa es­
tava bem arranjada, como é costume fazer-se para os recém-casados .
Mária Pávlovna queria sair de imediato , mas Evguéni e Lisa, principal­
mente Lisa, convenceram-na a não o fazer, e a senhora ficou , mas
mudou-se para o anexo .
Assim começou para Evguéni uma vida nova.

O primeiro ano de casamento foi difícil para Evguéni . Difícil porque


o peso dos problemas que pusera de lado durante o noivado caíam-lhe
agora em cima.
Afinal , foi impossível livrar-se das dívidas . A casa de campo foi ven­
dida, as dívidas mais prementes foram pagas , mas restavam as outras , e
dinheiro nem vê-lo . A propriedade deu um bom rendimento , mas foi pre­
ciso mandar dinheiro para o irmão e fazer as despesas do casamento, pe­
lo que não sobrou nada; a fábrica não pôde continuar a laborar, foi ne­
cessário parar a produção . Havia uma maneira de se desenvencilhar:
aproveitar o dinheiro da mulher. A própria Lisa o exigiu ao dar-se conta
da situação do marido. Evguéni aceitou, mas com a condição de passar
para o nome da mulher metade da herdade , o que foi feito , não por von­
tade de Lisa, que até se sentiu ofendida com a solução , mas por desejo
da sogra.
Tudo isso, com a alternância de êxitos e malogros , foi uma das causas
que envenenou a vida de Evguéni naquele primeiro ano. A outra foi a
saúde da mulher. Sete meses depois do casamento , aconteceu-lhe uma
desgraça. Lisa saiu no charabã ao encontro do marido, que estava de re­
gresso da vila, e o cavalo , normalmente manso , começou a empinar-se ,
22 Lev Tolstói

Lisa assustou-se , saltou do carro . O salto foi relativamente feliz - não


ficou presa na roda - , mas já estava grávida e, nessa mesma noite , teve
dores , abortou e tardou a restabelecer-se . A perda do filho, a doença da
mulher, o desconcerto que isso lhes causou à vida e, sobretudo, a pre­
sença da sogra, que chegou logo que Lisa adoeceu , fez com que o ano se
tomasse ainda mais difícil para Evguéni .
Apesar de todas essas circunstâncias penosas , no final do primeiro ano
Evguéni sentia-se muito bem. Primeiro , porque a sua ideia mais almeja­
da - a de recuperar a herdade e restabelecer a vida dos avós em moldes
modernos - ia-se realizando , por mais devagar e duramente que fosse .
Já nem sequer pensava em vender a totalidade dos bens para pagar as dí­
vidas . A parte principal da herdade , embora tivesse passado para o nome
da mulher, salvou-se , e bastaria que a colheita de beterraba fosse pródi­
ga e os preços bons para que , no ano seguinte , a situação de carência e
tensão fosse substituída por um estado de plena prosperidade . Seria o
primeiro ano de vacas gordas .
Segundo: por maiores que fossem as esperanças que depositava na
mulher, surpreendeu-o em absoluto o que descobriu nela. Lisa não era o
que esperava, era muito melhor. Deixou de haver entre eles , ou quase , os
enternecimentos e os enlevos da paixão , por mais que ele tentasse; mas
criou-se no casal uma coisa muito diferente - a sua vida ficou não só
mais alegre e agradável mas também mais fácil . Evguéni não percebia
porque acontecia semelhante coisa, mas era assim.
Porém, acontecia semelhante coisa porque ela, logo depois dos es­
ponsais , resolveu que Evguéni Irténev era o mais sublime , inteligente ,
puro e nobre de todos os homens que havia no mundo e que , por isso , a
obrigação de toda a gente era servir e agradar a Irténev. Ora, como era
impossível obrigar todo o mundo a fazê-lo , tinha de ser ela própria, na
medida das suas forças , a cumpri-lo . E cumpria-o de facto: todas as for­
ças da sua alma eram orientadas no sentido de descobrir, de adivinhar os
desejos do marido , de que coisas gostava Evguéni, e depois oferecer-lho ,
fosse o que fosse, por mais difícil que se apresentasse.
Graças ao grande amor de Lisa pelo marido , havia nela aquilo que faz
o principal fascínio no convívio com a mulher que nos ama, havia nela
uma clarividência da alma do marido . Adivinhava - e parecia a Evgué­
ni que o fazia melhor do que ele próprio - qualquer estado de espírito
dele , qualquer matiz do seu sentimento , e procedia em conformidade
com isso , ou seja, nunca lhe ofendia esse sentimento mas tentava
moderar-lhe as sensações penosas e reforçar-lhe as felizes . Além disso ,
O Diabo e Outros Contos 23

não eram só os sentimentos e as ideias de Evguéni que ela adivinhava e


compreendia, mas também os assuntos em que ele se envolvia, como a
agricultura, a fábrica e a avaliação das pessoas , apesar de serem matérias
estranhas para ela, e tinha a capacidade de ser não só interlocutora do
marido mas , como ele próprio dizia, conselheira útil e insubstituível . Li­
sa olhava para tudo , coisas e pessoas , unicamente do ponto de vista de
Evguéni . Gostava muito da mãe , mas quando viu que não era do agrado
de Evguéni a intromissão da sogra na vida deles , tomou de uma vez por
todas o partido do marido, e fê-lo tão resolutamente que Evguéni se viu
obrigado a moderar o ardor da mulher.
Além do que foi dito, Lisa dava ainda provas de grande delicadeza,
bom gosto e, sobretudo , serenidade . Fazia as coisas com subtileza, des­
percebidamente , só os resultados eram visíveis; em tudo punha asseio ,
ordem e elegância. Compreendeu num ápice qual era o ideal de vida do
marido e , na gestão da casa, tentava alcançar exactamente o que ele de­
sejava, e conseguia-o . Faltavam apenas os filhos , mas havia essa espe­
rança. No Inverno foram a Petersburgo consultar um obstetra que lhes ga­
rantiu que Lisa estava completamente restabelecida e poderia ter filhos .
O desejo foi realizado: no final do ano voltou a engravidar.
Havia porém uma coisa, uma só, que não se pode dizer que lhes en­
venenava mas ameaçava a felicidade conjugal: os ciúmes de Lisa, uns
ciúmes que ela refreava, que não manifestava, mas que a faziam sofrer.
Para Lisa, não só o seu Evguéni devia amar ninguém, porque não havia
no mundo mulheres dignas dele (ela própria se perguntava se era digna
de Evguéni) , mas nenhuma mulher, pela mesma razão , devia atrever-se
a amá-lo .

Viviam assim: ele levantava-se muito cedo e ia tratar da propriedade,


ou seja, umas vezes ia para a fábrica, que andava em obras , outras vezes
para os campos . Às dez voltava a casa para tomar o café . Tomavam-no
no terraço: Mária Pávlovna, o tio que vivia em casa deles e Lisa. Con­
versavam, muitas vezes animadamente , e despediam-se até à hora do al­
moço . Almoçavam às duas horas . Depois iam passear a pé ou de caleche .
À noite , quando Evguéni chegava do escritório, já tarde , tomavam chá,
às vezes ele lia em voz alta, ela fazia malha ou costura, por vezes músi­
ca, ou , se havia convidados , conversavam. Quando Evguéni se ausenta-
24 Lev Tolstói

va para tratar de negócios , não deixava de lhe escrever e Lisa respondia


às cartas todos os dias . Por vezes acompanhava-o , o que era muito agra­
dável . Nos aniversários , dela e dele , apareciam sempre convidados , e
Evguéni exultava com a arte de a mulher organizar tudo de modo a que
os convidados se sentissem bem. Reparava que todos admiravam tam­
bém a jovem e querida dona de casa, por isso amava-a ainda mais . Cor­
ria tudo às mil maravilhas , incluindo a gravidez, sem quaisquer proble­
mas , e o casal , embora com alguma timidez , começava a pensar na
maneira de criar o filho . Quanto aos métodos educativos , todas as deci­
sões eram tomadas por Evguéni , Lisa queria apenas cumprir com obe­
diência a vontade dele . Evguéni , com a intenção de educar o rebento
cientificamente , leu um montão de livros de medicina. Ela , evidente­
mente , estava de acordo com tudo , e preparava-se arranjando o berço e
costurando «trouxas» , as quentes e as leves. Assim chegou o segundo
ano e a segunda Primavera do seu casamento .

Foi na véspera da Trindade . Lisa ia no quinto mês de gravidez e, em­


bora usasse de todas as cautelas , andava animada e enérgica. Ambas as
mães , a dele e a dela, se haviam instalado lá em casa com o pretexto de
vigiar e proteger a grávida, mas , com as suas altercações constantes , não
faziam mais do que inquietá-la. Evguéni entregava-se com afinco ao tra­
balho: ensaiava novos métodos de cultivo da beterraba em grande escala.
Na véspera da Trindade , Lisa decidiu fazer grandes limpezas em casa
(não eram feitas desde a Páscoa) , tendo chamado duas mulheres-a-dias
para ajudarem a sua criadagem na lavagem do chão e das janelas , na lim­
peza dos móveis e tapetes , para cobrirem tudo de capas . De manhã cedo
chegaram as mulheres , puseram os grandes caldeirões de água a aquecer
e começaram a trabalhar. Uma delas era Stepanida, que acabara de des­
mamar o seu filho e, por intermédio do escriturário (com quem se en­
contrava agora) , pedira esse trabalho . Queria ver como era a nova se­
nhora. Tal como dantes , Stepanida continuava a viver sem o marido e, tal
como antes , continuava a fazer asneiras - com o velho Danila, que a
apanhara a roubar lenha, depois com o senhor, e agora com o jovem es­
criturário . No senhor já nem pensava. «Agora tem a mulher dele -
resignava-se . - Mas estou curiosa em vê-la, e à casa, dizem que está
bem arranjada.»
O Diabo e Outros Contos 25

Evguéni nunca mais a vira desde aquele dia em que a encontrara com
o bebé , porque Stepanida não ia trabalhar, tratava do filho , e Evguéni ra­
ramente ia à aldeia.
Então , nessa manhã de véspera da Trindade , Evguéni levantou-se ce­
do , um pouco depois das quatro , e foi para um arroteamento onde deve­
riam espalhar fosforitos . Saiu de casa quando as mulheres-a-dias ainda
estavam fora, ocupadas a aquecer os caldeirões .
Evguéni voltou para o pequeno-almoço alegre e cheio de fome .
Apeou-se junto da cancela e entregou o cavalo ao jardineiro; fustigando
com o chicote as ervas altas e repetindo para si uma frase fortuita, como
nos acontece tantas vezes , dirigiu-se para a porta de casa. A frase que ele
repetia era: «Ü fosforito vai justificar» - mas justificar o quê e a quem,
isso não sabia nem queria pensar.
Estavam a bater um tapete no relvado . A mobília tinha sido toda tira­
da para fora.
«Deuses do céu, que grandes limpezas a Lisa resolveu fazer. O fosfo­
rito vai justificar. Ena, que dona de casa! Sim, uma linda dona de casa -
dizia Evguéni para si mesmo , imaginando-a vestida de roupão branco ,
com aquela cara radiante que lhe via sempre que olhava para ela. - Sim,
vou mudar de botas , porque senão o fosforito justifica, ou seja, vai chei­
rar a estrume , e a linda dona de casa naquele estado . . . Qual estado? Pois ,
cresce dentro dela um menino, o novo Irténev - pensou . - Sim, o fos­
forito justifica.» E , sorrindo para os seus pensamentos , ia empurrar com
a mão a porta do seu quarto . Mas não teve tempo de o fazer, porque a por­
ta se abriu por si e Evguéni ia esbarrando com uma mulher que vinha de
encontro a si, com um balde na mão , as saias e as mangas bem arregaça­
das , os pés descalços . Afastou-se para deixar passar a mulher, ela também
se afastou , ajeitando o lenço na cabeça com as costas da mão molhada.
- Vai , vai , eu não entro se estais a . . . - começou Evguéni mas , ao
reconhecê-la, calou-se .
Stepanida, sorrindo com os olhos , lançou-lhe um olhar. E , puxando a
saia para baixo, saiu pela porta.
«Que raio de coisa é esta? . . . O que é isto? . . . Não pode ser» , dizia Ev­
guéni , carregando o sobrolho e sacudindo qualquer coisa como se fosse
uma mosca, descontente por ter reparado nela mas não conseguindo, ao
mesmo tempo, desviar os olhos do seu corpo a mexer-se num andar bam­
boleante e enérgico com os pés descalços , dos seus braços , ombros , das
pregas bonitas da camisa e da saia vermelha arregaçada até muito acima
das barrigas das pernas brancas .
26 Lev Tolstói

«Alto , porque estou a olhar? - disse para si mesmo , baixando os


olhos para não a ver. - Sim, tenho de entrar, preciso de calçar outras bo­
tas .» Dirigiu-se para o seu quarto e, não tinha dado ainda cinco passos ,
voltou a olhar para trás , sem saber como e por ordem de quem, para a
ver. Ela, no mesmo instante , antes de desaparecer por trás da parede,
também olhou para ele .
«Ah, o que estou a fazer? - recriminou-se . - Ela é capaz de pen­
sar . . . De certeza que já pensou .»
No quarto , o chão estava molhado . Outra mulher, velha e magra,
lavava-o . Evguéni passou em bicos de pés pelos charcos sujos até ao
canto onde estavam as botas e , quando ia a sair, a velha também saiu .
«Esta saiu , outra virá . . . a Stepanida . . . sozinha» - alguém, de repen­
te , começava a raciocinar assim dentro da sua cabeça.
«Meu Deus ! O que eu estou a pensar, o que eu estou a fazer! » Pegou
nas botas e correu para o vestíbulo , onde as calçou , limpou a roupa e en­
trou no terraço onde já estavam as duas mãezinhas a tomar o café. Lisa,
que pelos vistos esperava por ele , chegou ao terraço ao mesmo tempo ,
entrando por outra porta.
«Meu Deus , e ela que me toma por um homem honesto , puro , ino­
cente , se ela soubesse ! » , pensou Evguéni .
Lisa recebeu-o , como sempre , com o rosto radioso. Nesse dia, porém,
ele achou-a, por qualquer razão, demasiado pálida, amarelada e magra,
fraca.

10

À mesa do pequeno-almoço , como acontecia muitas vezes , a conver­


sa era a especificamente feminina, sem qualquer lógica aparente mas em
que havia sem dúvida um nexo qualquer pois , de outro modo , não se de­
senvolvia assim ininterruptamente .
As duas senhoras trocavam alfinetadas , Lisa manobrava habilmente
no meio delas .
- Que pena não terem arrumado o teu quarto antes de chegares -
disse ela ao marido . - Apetece-me pôr isto tudo em ordem.
- Ainda estavas a dormir quando eu saí?
- Sim, dormi bastante , agora sinto-me bem .
- Como pode sentir-se bem uma mulher no estado dela com este ca-
lor insuportável quando o sol bate de chapa nas janelas? - disse Varva-
O Diabo e Outros Contos 27

ra Alekséevna, mãe de Lisa. - Não têm gelosias nem cortinas exterio­


res . Em minha casa sempre houve essas cortinas .
- Mas aqui às dez horas já não bate o sol - disse Mária Pávlovna.
- Daí as febres . Por causa da humidade - disse Varvara Alekséevna
sem reparar que defendia agora o contrário do que acabara de afirmar. -
O meu médico diz sempre que é impossível diagnosticar uma doença
sem conhecer o carácter do doente . E é de confiança, um doutor dos me­
lhores que cobra cem rublos por consulta. O meu defunto marido não
acreditava nos médicos mas para mim não poupava em nada.
- Como é que um homem pode poupar seja no que for quando se tra­
ta da mulher e disso pode depender a vida dela e do filho . . .
- Mas quando há recursos a mulher pode não depender do marido .
Uma mulher como deve ser obedece ao marido - disse Varvara Alek­
séevna - , mas a Lisa, depois da doença, ainda está muito fraca.
- Não , não , mamã, sinto-me bem. Porque não lhe serviram natas fer­
vidas?
- Não é preciso. Posso pôr as cruas no café .
- Perguntei a Varvara Alekséevna, ela não quis - disse Mária Pá-
vlovna, como que a justificar-se .
- Não , não , hoje não quero . - E , como se quisesse pôr termo à con­
versa desagradável cedendo magnanimamente , Varvara Alekséevna
dirigiu-se a Evguéni . - Então , já espalharam os fosforitos?
Lisa apressou-se a ir buscar as natas .
- Mas eu não quero , não é preciso .
- Lisa! Lisa ! Cuidado - disse Mária Pávlovna. - Olhe que esses
movimentos bruscos fazem-lhe mal .
- Nada faz mal se houver paz de espírito - contrapôs Varvara Alek­
séevna, como se quisesse insinuar algo, embora soubesse muito bem que
as suas palavras não poderiam insinuar absolutamente nada.
Lisa voltou com as natas . Evguéni tomava o seu café e ouvia a con­
versa com ar soturno . Acostumara-se a estas conversas , mas aquela
irritava-o sobremaneira por causa do seu absurdo . Queria reflectir no que
acabara de lhe acontecer, mas semelhante baralhada impedia-o de pen­
sar. Varvara Alekséevna, acabado o seu pequeno-almoço , saiu mal­
-humorada. Ficaram à mesa Lisa, Evguéni e Mária Pávlovna. Decorreu ,
então , uma conversa simples e agradável . Lisa, porém, com a sua sensi­
bilidade amorosa, reparou numa certa aflição de Evguéni e perguntou­
-lhe se alguma coisa corria mal . Evguéni não estava preparado para se­
melhante pergunta e hesitou um pouco antes de responder que não se
28 Lev Tolstói

passava nada. A hesitação fez com que Lisa pensasse: alguma coisa o
afligia, e muito; e isso era tão evidente para ela como uma mosca no lei­
te , mas Evguéni calava-se .

11

Findo o pequeno-almoço , todos se dispersaram. Evguéni , cumprindo a


ordem estabelecida, foi para o seu gabinete, mas não pegou num livro nem
começou a escrever cartas; sentou-se a fumar, cigarro atrás de cigarro, e a
pensar. Aquele sentimento repugnante que se manifestara nele de forma
tão inesperada, e de que já se considerava liberto desde que se casara,
deixou-o terrivelmente estupefacto e amargurado. Em todo o tempo que
decorrera desde o casamento nunca mais havia experimentado aquele sen­
timento - nem em relação a essa mulher que conhecera, nem a qualquer
outra, tirando , é claro, a sua própria esposa. E, no fundo da alma, tantas
vezes se sentira feliz por se ter libertado ! Agora, de chofre, aquela casua­
lidade, na aparência tão insignificante, revelava-lhe que não, que não se li­
bertara ainda disso. Não era tanto o facto de novamente o dominar esse
desejo (de desejar outra vez Stepanida) - nem queria pensar nisso -que
o martirizava, mas o facto de esse desejo continuar latente dentro dele. Era
necessário estar alerta e resistir-lhe. E, na sua alma, não havia a mais pe­
quena sombra de dúvida de que ia resistir a esse sentimento .
Tinha de responder a uma carta e de elaborar um documento . Sentou­
-se à mesa a trabalhar. Quando acabou já esquecera por completo o que
o tinha inquietado . Saiu , com a intenção de ir à cavalariça. Então , por
azar, por infeliz acaso ou nem de propósito , mal saiu a porta viu surgir
de trás da esquina a saia e o lenço vermelhos , e Stepanida, abanando a
mão , passou ao lado dele no seu andar baloiçado . Em boa verdade ,
passou-lhe ao lado a correr, como numa brincadeira, e foi juntar-se à
companheira.
E de novo bombardearam a imaginação de Evguéni os meios-dias en­
solarados , as traseiras da casa do guarda Danila, a cara sorridente à som­
bra das árvores , a sua boca mordendo as folhas .
«Não , não posso deixar-me ir assim» , disse para si mesmo e ,
esperando que as duas mulheres desaparecessem, fo i para o escritório .
Estava na hora do almoço e Evguéni ainda queria apanhar o encarre­
gado . Este estava lá, efectivamente, acabado de acordar. Espreguiçava­
-se e bocejava, olhando para o vaqueiro que lhe dizia qualquer coisa.
O Diabo e Outros Contos 29

- Vassíli Nikoláevitch !
- Sim, meu senhor!
- Preciso de falar consigo .
- Diga, meu senhor.
- Acabe primeiro o que estava a fazer.
- E não o traz porquê? - perguntou Vassíli Nikoláevitch ao vaqueiro.
- É muito pesado , Vassíli Nikoláevitch .
- De que se trata? - perguntou Evgüéni .
- Uma vaca pariu no meio do prado . Está bem, eu mando atrelar um
cavalo . Diz ao Nikolai que atrele a Careca , pode ser à carroça.
O vaqueiro saiu .
- Oiça - começou Evguéni , corando e sentindo que corava - , oiça
o que eu lhe quero dizer, Vassíli Nikoláevitch . Ouve aqui umas coisas ,
quando eu ainda era solteiro , uns pecadilhos . . . Não sei se ouviu falar . . .
Vassíli Nikoláevitch, com os olhos sorridentes e, pelos vistos , com pe­
na do patrão , disse:
- Refere-se à Stepanida?
- Sim. Então . . . por favor, não lhe dê trabalho lá em casa. Tem de
compreender, é muito desagradável para mim . . .
- Mas acho que foi por ordem de Vânia, o escriturário .
- Então , por favor. . . Bem, como é , vão acabar de espalhar o sulfuri-
to que ainda falta? - perguntou Evguéni para esconder a atrapalhação .
- Vou agora mesmo para lá.
Assim acabou a conversa. Evguéni acalmou-se , com a esperança de
que tudo voltaria ao habitual do último ano , em que nunca a via. «Além
disso , Vassíli Nikoláevitch vai falar com o escriturário , este vai dizê-lo a
Stepanida, ela perceberá que eu não quero mais nada com ela» , pensava
Evguéni , satisfeito por ter conseguido ganhar coragem e dizer o que era
preciso a Vassíli Nikoláevitch , por mais que lhe custasse. «É melhor as­
sim, é melhor do que a dúvida, a vergonha» . Arrepiava-se só de recordar
o crime no seu coração.

12

O esforço moral de Evguéni para ultrapassar a vergonha e falar com


Vassíli Nikoláevitch tinha-o acalmado . Parecia-lhe tudo resolvido . Lisa
notou de imediato que o marido já estava perfeitamente tranquilo e até
mais animado do que nunca. «É provável que o afligissem as altercações
30 Lev Tolstói

entre as mães . É verdade que custa muito , sobretudo a ele , com a sua
sensibilidade e nobreza, ouvir constantemente essas insinuações hostis e
de mau tom» , pensava Lisa.
Chegou o dia da Trindade . O tempo estava excelente , e as mulheres da
aldeia cumpriam a tradição de , no caminho da floresta aonde iam trançar
coroas , pararem ao pé da casa senhorial a cantar e a dançar. Mária Pá­
vlovna e Varvara Alekséevna, todas ataviadas e com as sombrinhas nas
mãos , saíram a terreiro e aproximaram-se da roda das dançarinas . Com
elas saiu também o tio de Evguéni , um bêbado depravado e balofo que
passava todo o Verão em sua casa.
Como sempre , o centro da festa era o círculo colorido de raparigas e
mulheres jovens e , à volta delas , girando à sua volta como planetas e sa­
télites, as rapariguinhas de mãos dadas , com os vestidinhos de chita no­
va a farfalharem, e os garotos a correrem por todos os lados e a rirem-se
de tudo e de nada, e os rapazes adultos com as suas poddiovkasl azuis e
pretas , de bonés e camisas vermelhas , cuspindo sem parar sementes de
girassol , e os criados , e a gente de fora observando de longe a roda a bai­
lar. As duas senhoras aproximaram-se da roda, e também Lisa, atrás de­
las , de vestido azul e laço da mesma cor na cabeça, mangas largas don­
de assomavam os seus braços compridos , brancos , de cotovelos
angulosos .
A Evguéni não apetecia sair, mas era ridículo esconder-se . Com o ci­
garro nos dedos , desceu os degraus da entrada, trocou vénias com os ra­
pazes e os mujiques , meteu conversa com um deles . As mulheres , entre­
tanto , berravam a plenos pulmões a cantiga da dança, sapateavam e
batiam as palmas ao ritmo da dança.
- A senhora está a chamá-lo - disse um rapaz aproximando-se de
Evguéni que não ouvira a voz da mulher. Lisa convidava-o para assistir
à dança e indicava-lhe uma das dançarinas de que gostava mais. Era Ste­
panida. Larga, enérgica, com as bochechas coradas , alegre, envergando
vestido amarelo , colete de veludo e lenço de seda. Pelos vistos , dançava
bem. Evguéni não quis ver nada.
- Sim , sim - dizia ele , tirando e pondo a luneta. - Sim, sim - re­
petia. «Quer isto dizer que não posso livrar-me dela» , pensava.
Não olhava para ela porque temia o seu fascínio , por isso o pouco que
via dela, de relance , parecia-lhe ainda mais atraente . Percebeu também
- pelo olhar brilhante de Stepanida - que ela o via e estava cienté de
que ele a admirava. Evguéni ficou ali apenas o tempo necessário para
não parecer inconveniente e, vendo que Varvara Alekséevna a chamava
O Diabo e Outros Contos 31

e falava com ela, de maneira desajeitada e falsa, tratando-a por «almi­


nha» , deu meia-volta e foi para casa. Meteu-se em casa para não a ver
mas , sem saber como nem porquê, enquanto as mulheres lá estiveram
não deixou de a observar pela janela, fascinado .
Enquanto ninguém estava a vê-lo , Evguéni desceu rapidamente , en­
trou devagarinho na varanda e acendeu lá um cigarro , depois saiu para o
jardim com o cigarro, entre os lábios , como se andasse por ali a passear,
e encaminhou-se na direcção que Stepanida tomara. Mal deu dois passos
pela alameda, rebrilhou por trás das árvores o colete de veludo por cima
do vestido amarelo e o lenço vermelho . Ia com outra mulher. «Vão a al­
gum lado» , pensou Evguéni .
De repente a volúpia desenfreada queimou-o, apertou-lhe o coração
como uma garra. Impelido por uma vontade que não era dele , Evguéni
olhou à sua volta e foi-se aproximando dela.
- Evguéni Ivánitch , Evguéni Ivánitch ! Preciso de falar com vossa
mercê - ouviu-se uma voz atrás dele , e Evguéni , ao ver o velho Samó­
khin, que andava a cavar-lhe um poço , caiu em si e, virando-se rapida­
mente , foi ter com ele . Enquanto falava com o velho, viu que as duas mu­
lheres iam na direcção do poço , mais abaixo , ou tomando o poço como
pretexto; depois , demorando-se ali um pouco , deitaram a correr para se
juntarem à roda.

13

Depois de falar com Samókhin, Evguéni voltou para casa mortificado,


como se tivesse cometido um crime . Em primeiro lugar, Stepanida pare­
cia ler-lhe na alma como livro aberto e saber que ele a queria ver e a de­
sejava. Em segundo lugar, a outra mulher, Anna Prokhorova, também o
sabia, pelos vistos .
Mas o mais grave era sentir que estava vencido, que se encontrava pri­
vado de vontade própria, que outra força o movia; que apenas por sorte
se salvara desta vez , mas que , mais dia menos dia, perder-se-ia da mes­
ma maneira.
«Sim, perdido - Evguéni não conseguia entender isso de outra for­
ma. - Enganar a própria esposa, jovem , cheia de amor por mim,
enganá-la na aldeia com uma campónia, à vista de toda a gente . . . Não
seria isso a perdição, a terrível perdição após a qual já rião seria possível
viver? Não , é necessário , é obrigatório tomar medidas ! »
32 Lev Tolstói

«Meu Deus , meu Deus ! O que hei-de fazer? Estarei mesmo perdido?
- interrogava-se . - Já não será possível tomar medidas? Mas tenho de
fazer alguma coisa. Não penses nela - ordenava a si próprio . - Não
penses ! » Mas logo começava a pensar e a vê-la, e a imaginar a sombra
do ácer.
Lembrou-se ter lido em tempos uma coisa sobre um eremita: para ul­
trapassar a tentação por uma mulher que tinha de curar impondo-lhe a
mão , pôs a outra sobre o braseiro e queimou os dedos . «Sim, antes quei­
mar os dedos do que caminhar para a perdição .» Então , sozinho no quar­
to , acendeu um fósforo e pôs o dedo sobre a chama. «Üra bem, pensa
agora nela - disse com ironia a si mesmo . Sentiu a dor, retirou o dedo
negro do fumo , deitou fora o fósforo e riu-se de si . - Que disparate . Não
é isto que é preciso fazer. É necessário tomar medidas para não a ver, ir­
-me embora, ou fazer com que ela se vá embora. Sim, afastá-la daqui !
Dar dinheiro ao marido para que se mude para a cidade ou para outra al­
deia. Mas iriam saber disso , iriam falar. Não interessa, sempre é melhor
do que este perigo . Sim, tenho de o fazer» , pensava, ao mesmo tempo
que não desviava os olhos dela. «Para onde foi?» , alarmou-se . Ela viu-o
à janela, de certeza, e agora, depois de lhe lançar um olhar, pega na mão
de uma mulher e vai para o jardim, abanando a mão . Evguéni , sem saber
porquê nem para quê , impelido apenas pelos seus pensamentos , foi para
o escritório .
Vassíli Nikoláevitch, de sobrecasaca festiva e cabelo untado de bri­
lhantina, tomava chá na companhia da mulher e de uma convidada com
um lenço todo cheio de ornamentos .
- Podemos falar, Vassíli Nikoláevitch?
- Faça o favor. Já tomámos chá.
- Não , é melhor sairmos .
- Está bem. Deixe-me só pegar no boné . Tânia, cobre o sàmovar -
disse Vassíli Nikoláevitch ao sair, bem-disposto .
Evguéni tinha a impressão de que o homem estava bebido , mas não
importava, talvez fosse até preferível , achá-lo-ia mais receptivo à sua si­
tuação .
- Vassíli Nikoláevitch , quero falar consigo do mesmo assunto - co­
meçou Evguéni . - É a propósito daquela mulher.
- Mas porquê? Já dei ordens para que não a chamassem para traba­
lhar lá em casa.
- Não é isso, estou a pensar noutra coisa e queria o seu conselho.
Não será possível mandá-los embora, à família toda?
O Diabo e Outros Contos 33

- Possível como? Para onde? - disse Vassíli Nikoláevitch com de­


sagrado e , como pareceu a Evguéni , com ironia.
- Pensei dar-lhes dinheiro , ou mesmo uma terra em Koltóvskoe, pa­
ra a tirar daqui .
- Mas como pode fazer uma coisa dessas? Como é que eles podem
abandonar a terra deles , as raízes? E também, para que raio o senhor pre­
cisa de fazer isso? Que estorvo é que a mulher lhe causa?
- Ah, Vassíli Nikoláevitch , já viu bem que seria horrível para a mi­
nha mulher se viesse a saber?
- Mas como, quem lhe vai dizer?
- Como posso viver com este medo? Além disso esta situação , de
uma maneira geral , é difícil para mim.
- Porque se preocupa tanto? Não percebo, francamente . . . Águas
passadas . . . Não há ninguém sem pecado .
- Mesmo assim, acho que seria melhor afastá-los daqui . Não pode­
ria falar com o marido dela?
- Por amor de Deus , Evguéni lvánitch ! Não há nada de que falar. Já
foi tudo esquecido . O que não acontece na vida ! E quem se vai atrever a
falar mal de si? É um senhor respeitável .
- Mas fale com ele , por favor.
- Está bem, falo .
Embora soubesse de antemão que era tudo inútil , esta conversa acal­
mou Evguéni . Pelo menos sentiu que, por nervosismo , tinha exagerado
o perigo .
Acaso tinha ido encontrar-se com ela? Não, isso era impossível, aliás. Ti­
nha ido apenas dar uma volta pelo jardim e, por puro acaso, ela aparecera ali.

14

No mesmo dia, o da Trindade , depois do almoço , Lisa foi passear pe­


lo jardim e , ao sair para o prado , onde o marido a levou para lhe mostrar
os trevos , ao passar por cima de uma pequena vala tropeçou e caiu . Foi
uma queda sem violência, de lado , mas Lisa gemeu , e Evguéni viu-lhe
não só o medo na cara mas também a dor. Quis levantá-la de imediato,
mas ela retirou a mão.
- Não, espera um pouco - disse ela, sorrindo debilmente e olhando
de baixo para Evguéni , com um ar culpado (assim pareceu a Evguéni) .
- Não foi nada, dei um passo em falso .
34 Lev Tolstói

- É o que eu estou sempre a dizer - intrometeu-se Varvara Alek­


séevna. - Como se pode saltar por cima das valas neste estado?
- Não , mamã, não foi nada. Já me levanto .
Apoiada pelo marido , Lisa pôs-se de pé , mas logo a seguir empalide­
ceu e estampou-se-lhe o susto na cara.
- Não estou lá muito bem , não - e sussurrou qualquer coisa à mãe .
- Ah, meu Deus , o que foram fazer! Eu não lhes disse que não de-
viam sair? - gritava Varvara Alekséevna. - Esperem aqui , vou chamar
alguém. Ela não pode ir pelo seu pé , tem de ser levada para casa.
- Eu levo-te . Não tens medo , Lisa? - disse Evguéni , enlaçando-a
com o braço esquerdo . - Segura-te ao meu pescoço . Isso , assim mes­
mo.
E , inclinando-se , pegou nela pelas coxas e levantou-a. Nunca viria a
esquecer a expressão sofredora e ao mesmo tempo deliciada que , naque­
le momento , viu no rosto de Lisa.
- Sou pesada, vai ser muito difícil para ti - dizia ela, sorrindo . - A
mamã vai a correr, chama-a!
Inclinou a cabeça e beijou-o . Provavelmente , queria que a mãe tam­
bém visse como Evguéni a levava.
Evguéni gritou a Varvara Alekséevna que não valia a pena correr, que
ele era capaz de carregar com Lisa. Varvara Alekséevna parou e respon­
deu gritando ainda mais:
- Vais deixá-la cair, de certeza. Só queres fazer-lhe mal . Não tens
vergonha na cara !
- Não , eu levo-a perfeitamente .
- Não quero , não posso ver como tu matas a minha filha. - E Var-
vara Alekséevna atacou em corrida a curva da alameda.
- Não te preocupes , isto passa - disse Lisa, sorrindo .
- O principal é não haver consequências , como aconteceu da outra
vez .
- Não me refiro a isso . Falo da mamã. Estás cansado , descansa.
Mas Evguéni, embora a carga fosse pesada, levou-a com alegria or­
gulhosa para casa e, sem recorrer à ajuda da criada e do cozinheiro , man­
dados por Varvara Alekséevna, entrou com ela no quarto e pousou-a na
cama.
- Vai , agora vai - disse ela, puxando a mão dele para si e beijando-
-lha. - Eu e a Ánnuchka tratamos de tudo sozinhas .
Mária Pávlovna também se deslocou do anexo , à pressa. Despiram Li­
sa, deitaram-na. Ele ficou na sala, com um livro na mão , à espera. Var-
O Diabo e Outros Contos 35

vara Alekséevna passou por ele com um ar tão acusador e sombrio que
Evguéni teve medo .
- Como está ela?
- Como? O senhor ainda pergunta? Está como o senhor desejava que
ela estivesse quando a obrigou a saltar os valados .
- Varvara Alekséevna ! - exclamou Evguéni . - Isto é insuportável .
Se a senhora quer martirizar as pessoas e envenenar-lhes a vida . . . -
Queria dizer-lhe «Vá para outro lado qualquer» , mas conteve-se . - Co­
mo é possível não se sentir mal a dizer essas coisas?
- Agora já é tarde .
E , sacudindo triunfalmente a touca, Varvara Alekséevna passou pela
porta.
A queda, de facto , foi má. Torceu muito o pé , havia o perigo de mais
um aborto . Toda a gente sabia que não havia nada a fazer senão mantê­
-la deitada e imóvel . Mesmo assim, resolveram chamar o médico .
«Estimadíssimo Nikolai Semiónovitch - escreveu-lhe Evguéni - , o
senhor tem sido sempre tão simpático para connosco que espero não re­
cuse agora vir dar assistência à minha mulher. Ela . . . etc . , etc .» Depois
foi à cavalariça dar ordens respeitantes aos cavalos e à carruagem. Era
preciso preparar também cavalos para trazer o doutor e ainda outros pa­
ra o levar. Quando a casa é modesta, isso não pode ser feito de ânimo le­
ve , é necessário arranjar maneira de o fazer. Depois de tratar de tudo e
mandar o cocheíro buscar o médico , já passava das nove quando Evgué­
ni voltou para casa. Lisa estava deitada e garantia que estava bem, que
não lhe doía nada; mas Varvara Alekséevna, sentada por trás do can­
deeiro com um quebra-luz improvisado de pautas musicais para proteger
Lisa da luz, tricotava um grande cobertor vermelho com o ar de quem di­
zia claramente: depois do que aconteceu , não há nem pode haver paz
nesta casa. Ora, aconteça o que acontecer, eu cumprirei o meu dever.
Evguéni sentia muito bem esse ambiente mas , para fingir que não re­
parava, contava com animação e ar despreocupado como preparara os
cavalos e como a égua Kávuchka se portava muito bem atrelada ao lado
esquerdo .
- Sim, o treino dos cavalos num momento de aflição vai mesmo a
tempo . Não me admirava nada que também atirassem com o doutor pa­
ra uma vala - observou Varvara Alekséevna, olhando para o seu traba­
lho por baixo da luneta e pondo-o mais perto da luz .
- Era preciso preparar tudo para mandar a carruagem. Fiz o melhor
que pude .
36 Lev Tolstói

- Pois, lembro-me muito bem como os seus cavalos me levavam a


galope como doidos .
Era uma velha invenção da senhora, e Evguéni teve o descuido de di­
zer que não tinha sido bem assim.
- Não é por acaso que eu recordo isso , e sempre disse ao príncipe que
o mais penoso de tudo é conviver-se com gente fingida, sem sincerida­
de . Sou capaz de aguentar tudo menos isso .
- Neste momento , se alguém está a sofrer, sou eu em primeiro lugar
- disse Evguéni .
- Vê-se .
- Vê-se o quê?
- Nada, estou só a contar as malhas .
Evguéni estava junto da cama e Lisa, olhando para ele, pegou com a
sua mão húmida a de Evguéni e apertou-a. «Tens de a suportar, fá-lo por
mim . Ela não pode impedir que nos amemos» , dizia o olhar dela.
- Não te preocupes , isto não tem importância nenhuma - sussurrou-
-lhe e beijou-lhe a mão comprida e húmida; depois beijou-lhe também as
pálpebras dos olhos queridos que se fechavam. - Será que vamos pas­
sar outra vez por aquilo? Como te sentes?
- Até tenho medo de o dizer, de me enganar, mas tenho a sensação de
que ele está vivo e vai nascer vivo - disse Lisa olhando para a barriga.
- Ah , que medo terrível , que medo só de pensar que . . .
Apesar de Lisa insistir com Evguéni para que fosse descansar no seu
quarto , ele passou a noite com ela, dormitando com um olho fechado e
outro aberto, sempre pronto a ajudá-la. Mas Lisa passou bem a noite e, se
não estivesse à espera do doutor, até seria capaz de se levantar de manhã.
À hora do almoço chegou o doutor e, obviamente, disse que as recidi­
vas inspiravam receios mas que , na verdade , não havia indícios exactos,
e como não os havia para o lado positivo nem para o lado negativo , era
possível supor-se qualquer coisa para um lado ou para o outro . À caute­
la, Lisa deveria ficar de cama e, embora ele não gostasse de receitar, Li­
sa deveria tomar isto e mais aquilo e manter-se deitada. Além disso , o
doutor fez a Varvara Alekséevna um discurso sobre a anatomia femini­
na, e a senhora, ouvindo-o com atenção, acenava significativamente com
a cabeça. Depois de receber o honorário , posto como de costume na par­
te do fundo da mão, o doutor partiu, e a doente ficou acamada durante
uma semana.
O Diabo e Outros Contos 37

15

Evguéni passava a maior parte do tempo à cabeceira da mulher aca­


mada, cuidava dela, falava com ela, lia para ela e - o mais difícil de tu­
do - suportava com resignação os ataques de Varvara Alekséevna, con­
seguindo até fazer desses ataques um objecto de brincadeira.
Mas não podia ficar sempre em casa. Primeiro , Lisa mandava-o sair
do quarto , com o argumento de que ele próprio ficaria doente se esti­
vesse sempre ao pé dela; segundo , os trabalhos na propriedade exigiam
a cada passo a sua presença. Não podia ficar em casa e , fosse para
onde fosse - para os campos , para a floresta, para a horta, para a
eira - , era perseguido não só pelo pensamento mas também pela ima­
gem de Stepanida, de tal modo que raramente se esquecia dela. Ora, is­
so era o mal menor, talvez conseguisse ultrapassar esse sentimento; o
pior era que, se dantes se passavam meses sem a ver, agora via-a e
encontrava-a muitíssimas vezes . Stepanida deve ter intuído que ele de­
sejava reatar as relações com ela e fazia tudo para se mostrar a cada pas­
so . Nem ele nem ela combinavam qualquer encontro , tentavam apenas
cruzar-se por acaso .
O lugar era a floresta, onde as camponesas iam à erva para o gado . Ev­
guéni sabia-o, por isso passava todos os dias à beira da floresta. Todos os
dias jurava a si mesmo que não iria, mas acabava por dirigir-se todos os
dias a essa floresta e, quando ouvia as vozes , punha-se à espreita atrás de
um arbusto , com o coração desfalecido , para ver se Stepanida era uma
delas .
Para que precisava de saber que era ela? Evguéni não sabia. Se fosse
ela e estivesse sozinha, Evguéni não lhe falaria - assim pensava - , dei­
taria a fugir. Uma ocasião deu de caras com ela: ia a entrar na floresta e
ela a sair, com um saco de erva às costas , na companhia de duas outras
mulheres . Se fosse um pouco antes talvez a tivesse encontrado na flo­
resta, mas assim, com as outras mulheres , Stepanida não poderia voltar
à floresta para ficar a sós com ele . Mesmo assim, com a certeza dessa im­
possibilidade , Evguéni deixou-se ficar muito tempo atrás de uma avelei­
ra, arriscando-se a chamar a atenção das outras camponesas . Ela não vol­
tou, evidentemente, mas Evguéni ainda demorou ali muito tempo . Meu
Deus , como a imagem dela o fascinava ! E não aconteceu apenas uma
vez , mas cinco , seis vezes . E de cada vez com mais força. Nunca ela lhe
surgira tão atraente na imaginação . Não, nem era isso: nunca dantes ela
se apoderara dele tão plenamente .
38 Lev Tolstói

Evguéni via-se a perder o autodomínio, sentia que se tomava quase lou­


co . Não deixava de ser rigoroso para consigo, pelo contrário, tinha cons­
ciência da abominação dos seus desejos e até dos seus procedimentos
(sim, porque as suas andanças pela floresta já eram procedimentos) . Sabia
que lhe bastava esbarrar com ela em qualquer sítio escuro e tocar-lhe para
que se abandonasse à sua obsessão. Sabia que apenas o retinha a vergonha
das pessoas , dela e de si próprio. E sabia também que andava à procura das
condições em que essa vergonha não fosse visível - a escuridão, ou o
contacto físico que abafa a vergonha com a força da paixão animal . Por is­
so sabia que era um criminoso hediondo, e desprezava-se e odiava-se com
todas as forças da sua alma. Odiava-se porque ainda não desistira da luta;
todos os dias rezava a Deus para que lhe desse forças , para que o salvasse
da perdição; todos os dias tomava a decisão firme de não dar nem mais um
passo, de não olhar mais para ela, de a esquecer. Todos os dias inventava
novos meios para se libertar do feitiço e utilizava esses meios .
Tudo em vão .
Um desses meios consistia em estar constantemente ocupado; outro
era o trabalho duro e o jejum; o terceiro era imaginar com nitidez a ver­
gonha que cairia sobre a sua cabeça quando todos soubessem - a mu­
lher, a sogra, os criados . Evguéni deitava mãos a tudo isso e parecia-lhe
que estava a conseguir, mas chegava o meio-dia, a hora dos antigos en­
contros e o momento em que a vira a apanhar erva, e Evguéni ia à flo­
resta.
Assim se passaram cinco dias de tortura. Evguéni apenas a via à dis­
tância, sem se aproximar dela uma única vez .

16

Lisa convalescia lentamente , preocupava-se com a mudança que no­


tava no marido e não compreendia.
Varvara Alekséevna ausentou-se por algum tempo , de maneira que
apenas estava com eles o tio . Mária Pávlovna, como sempre, morava lá.
Andava Evguéni naquele seu estado meio louco quando , como acon­
tece muitas vezes depois das tempestades de Junho , desabaram chuvas
torrenciais que não pararam durante dois dias . Todos os trabalhos foram
interrompidos . A humidade e a lama eram tantas que nem sequer se po­
dia transportar o estrume . Toda a gente ficava em casa. Os pastores
esfalfavam-se a trazer o gado para a aldeia. Vacas e ovelhas vagueavam
O Diabo e Outros Contos 39

pelos pastos junto às casas e dispersavam-se por todo o lado . As mulhe­


res , descalças , protegendo-se com lenços e chapinhando na lama, anda­
vam à procura de vacas tresmalhadas . Todos os caminhos se tinham
transformado em ribeiros , os prados estavam ensopados , a água borbu­
lhava nas calhas e caía ruidosamente nos charcos . Nesse dia, Evguéni es­
tava em casa, junto da mulher que tinha um ar mais triste do que nunca.
Perguntou várias vezes a Evguéni por que razão andava tão descontente ,
mas ele , irritado , respondia que não era nada. Lisa deixou de perguntar e
ficou ainda mais angustiada.
Estavam na sala, depois do pequeno-almoço . O tio , pela centésima
vez, contava as suas velhas histórias sobre os amigos da alta sociedade ,
todas inventadas . Lisa tricotava uma camisolinha e suspirava,
queixando-se do tempo e das dores nos rins . O tio aconselhou-a a deitar­
-se e pediu vinho . Evguéni sentia-se terrivelmente aborrecido , mole . Era
o tédio . Fumava e lia, mas não se concentrava no livro .
- Preciso de sair, vou ver os raladores que trouxeram ontem - dis­
se Evguéni . Levantou-se e dirigiu-se para a saída.
- Leva um guarda-chuva.
- Não é preciso , tenho o casaco de couro . Também vou só até à fá-
brica.
Calçou as botas , vestiu o casaco de couro e pôs-se a caminho na di­
recção da fábrica. Ainda não tinha dado vinte passos quando apareceu
ela, caminhando ao seu encontro , com a saia arregaçada até muito acima
sobre as barrigas das pernas brancas . Segurava o xaile que lhe protegia a
cabeça e os ombros .
- O que é? - perguntou ele ainda sem saber quem era. Quando a re­
conheceu já era tarde . Stepanida parou e pousou nele um longo olhar.
- Ando à procura do meu vitelo . Onde é que o senhor vai com esta
intempérie? - perguntou ela num tom de quem o via todos os dias .
- Vai ter à cabana - disse ele de chofre , involuntariamente , como se
fosse outro que dissesse estas palavras por ele .
Stepanida mordeu o xaile , fez sinal com os olhos e seguiu o caminho
da cabana, no jardim. Evguéni seguiu em frente , com a intenção de virar
para trás junto do lilaseiro e ir ter com ela.
- Meu senhor - ouviu que o chamavam atrás de si . - A senhora pe­
de que vá ter com ela por um minutinho .
Era Micha, o criado .
«Meu Deus , estás a salvar-me pela segunda vez» , pensou Evguéni e
voltou de imediato a casa. A mulher lembrou-lhe que ele prometera le-
40 Lev Tolstói

var o medicamento a uma mulher doente , à hora do almoço , por isso lhe
pedia que o fizesse .
Enquanto embrulhavam o medicamento , passaram-se uns cinco mi­
nutos . Depois, quando saiu , não se atreveu a ir directamente para a ca­
bana, podiam vê-lo de casa. Porém , mal entrou no espaço em que já não
era visível , deu meia-volta e dirigiu-se para a cabana . Já a via em ima­
ginação , parada no meio da cabana, com o seu sorriso alegre; mas , à
primeira vista, Stepanida não estava, e nada indicava que estivesse .
«Não apareceu» , pensou ele , ou então nem sequer percebeu bem o que
eu lhe disse . Resmunguei-lhe aquelas palavras como que para mim, co­
mo se tivesse medo que ela as ouvisse . «Üu talvez não quisesse? Por
que razão haveria eu de fantasiar que ela se atiraria de imediato ao meu
pescoço? Tem o marido; só o canalha de mim é que tem a mulher em
casa, uma mulher muito boa, e anda atrás de uma mulher alheia.» As­
sim cogitava Evguéni , sentado na cabana de colmo , com um buraco em
cima por onde pingava a água. «Que felicidade se ela viesse ! Sozinhos
aqui , com esta chuva. Queria abraçá-la, só uma vez , e depois fosse o
que Deus quisesse . Ah , pois - passou-lhe de repente pela cabeça - ,
posso ver se ela esteve aqui pelas pegadas .» Examinou a vereda trilha­
da e sem ervas até à cabana: via-se ainda a impressão de um pé descal­
ço , e que escorregara. «Sim, esteve cá. Mas , agora, nada feito . Vou ter
com ela, onde quer que se encontre . Vou de noite .» Ainda se demorou
muito na cabana, saiu de lá extenuado e mortificado . Levou o medica­
mento à enferma, voltou para casa, meteu-se no quarto e deitou-se até
à hora do almoço .

17

Um pouco antes do almoço, Lisa entrou no quarto de Evguéni e, sem­


pre na tentativa de descobrir qual era a causa do desgosto do marido ,
pôs-se a falar dos seus receios quanto ao que estava planeado para ela:
não lhe agradava ir fazer o parto a Moscovo , por isso decidira ter o be­
bé na aldeia. Não iria a Moscovo , estava resolvido . Evguéni conhecia os
medos de Lisa - medo do parto , medo de que a criança nascesse defei­
tuosa - , por isso comoveu-se ao ver a prontidão com que a mulher sa­
crificava tudo pelo amor que lhe tinha. Era verdade que em casa estava
tudo bem, alegre , limpo; mas na sua alma tudo era sujo, hediondo , terrí­
vel . Evguéni passou toda a tarde num tormento sabendo que , apesar da
O Diabo e Outros Contos 41

repugnância sincera pela sua fraqueza, apesar da sua firme intenção de


lhe pôr fim, no dia seguinte continuaria tudo na mesma.
«Não , isto assim é impossível - dizia para si enquanto andava pelo
quarto. - Tem de haver uma maneira de resolver isto . Meu Deus , o que
hei-de fazer?»
Alguém bateu à porta, à moda estrangeira. Era o tio , Evguéni já sabia.
- Entre - disse .
O tio apresentava-se como embaixador voluntário de Lisa.
- Ouve, noto uma mudança evidente em ti , Evguéni - começou ele
- , e vejo que isso magoa muito a Lisa. Compreendo que te custe muito
abandonar a obra excelente que encetaste, mas que veux-tu? O meu con­
selho é que façam uma viagem, para acalmar, a ti e a ela. Ouve ,
aconselho-te a Crimeia, por causa do clima. Há lá um obstetra maravi­
lhoso , e o parto calha na época das vindimas .
- Meu tio - disse de repente Evguéni . - É capaz de guardar um se­
gredo, um segredo meu , terrível? Um segredo vergonhoso .
- Por amor de Deus , então não confias em mim?
- O tio pode ajudar-me. E não só, pode salvar-me - continuou Ev-
guéni . E era agradável para ele a ideia de que revelaria o seu segredo ao
tio , por quem não tinha qualquer respeito , a ideia de se apresentar a esse
homem à luz mais desvantajosa, de se humilhar perante ele . Sentia-se
abominável , culpado , merecedor de um castigo .
- Fala, meu amigo , sabes bem como gosto de ti - respondeu o tio ,
talvez muito contente por lhe confiarem um segredo , por esse segredo ,
ainda por cima, ser vergonhoso, e por poder ser útil a alguém.
- Antes de mais devo dizer que sou um canalha, um velhaco , um ho­
mem ignóbil . . . sim, ignóbil .
- Ora, deixa-te disso . . . - replicou o tio , num tom inchado .
- Sou mesmo um canalha. Eu , o marido de Lisa, da Lisa . . . Com to-
da aquela sua pureza, o seu amor. . . E eu , marido dela, quero enganá-la
com uma campónia!
- Isto é , queres . . . ou já o fizeste?
- Já, ou seja, foi a mesma coisa, porque , se não o fiz, isso não de-
pendeu de mim . Estava pronto para o fazer. Houve um impedimento , se­
não . . . agora mesmo . . . estava feito . Não sei o que faria.
- Desculpa lá, explica-me . . .
- Muito bem, foi assim: quando era solteiro fiz asneira, mantive re-
lações com uma mulher de cá, da nossa aldeia. Encontrava-me com ela
na floresta, nos campos . . .
42 Lev Tolstói

- É bonitinha? - perguntou o tio .


Evguéni franziu a cara à pergunta, mas precisava tanto de ajuda que
fingiu não a ouvir. Continuou:
- Pensava que aquilo não era a sério , que quando me apetecesse aca­
bava com tudo . E acabei , ainda antes de me casar, e passei um ano sem
a ver nem pensar nela. - Era estranho ouvir-se a si próprio , ouvir a des­
crição do seu estado . - Depois , de repente , nem eu sei porquê . . . pala­
vra, às vezes até começo a acreditar em feitiços . . . vi-a e entrou-me o bi­
cho no coração . . . um bicho que está a sugar-me . Amaldiçoo-me , percebo
todo o horror dos meus actos , ou seja, daquilo que estou pronto a perpe­
trar a todo o momento , dou passos nesse sentido e, se ainda não cometi
nada, é porque Deus me tem salvado . Ontem ia ter com ela quando a Li­
sa me chamou .
- Como , com aquela chuva?
- Isto é uma angústia, meu tio , é insuportável . Resolvi confessar-lho
e pedir-lhe ajuda.
- Sim, é claro que é feio fazer isso na própria herdade . Alguém po­
de descobrir. . . Compreendo , a Lisa está fragilizada, é preciso ter cuida­
do com ela, mas porquê na tua própria herdade?
Evguéni tentou de novo ignorar as palavras do tio e passou à essência
da questão .
- Salve-me de mim próprio . Hoje fui impedido de o fazer por puro
acaso , mas amanhã ou noutro dia pode acontecer. E ela j á sabe . Por isso
quero pedir-lhe o seguinte: não me deixe andar sozinho .
- Está bem - disse o tio . - Mas estarás assim tão apaixonado?
- Ah, não é nada disso . Não é isso , é uma força qualquer que se apo-
derou de mim e não me larga. Não sei o que fazer. Ou ganho forças , ou
então . . .
- Tem de ser como eu digo, acredita - respondeu ele . - Vão até à
Crimeia.
- Sim, vamos , mas enquanto está aqui comigo, quero pô-lo sempre
ao corrente de tudo .

18

Depois de ter confessado ao tio o seu segredo, depois d e s e impregnar


do arrependimento e da vergonha daquele dia chuvoso , Evguéni caiu em
si. Passou-se uma semana, foi tomada a decisão de irem para !alta. Ev-
O Diabo e Outros Contos 43

guéni foi à cidade arranjar dinheiro para a viagem, deu ordens sobre a
gestão da propriedade na sua ausência, tomou-se de novo um homem
animado e muito próximo da mulher, como que ressuscitou moralmente .
Assim, sem ter visto uma única vez Stepanida, partiu com a mulher pa­
ra a Crimeia. O casal passou ali dois meses excelentes . As novas sensações
eram tantas que Evguéni como que apagou todo o passado da memória, ou
pelo menos assim lhe pareceu. Na Crimeia encontraram velhos conheci­
dos , tomaram-se bons amigos deles , fizeram novos conhecimentos . A vi­
da na Crimeia era uma festa permanente para Evguéni, além de edifican­
te e útil . Ficaram amigos do antigo decano da nobreza da sua província,
um homem inteligente, liberal, que gostou de Evguéni, o elucidou e o con­
verteu às suas ideias . Em finais de Agosto, Lisa deu à luz uma menina,
criança perfeitinha e saudável, e o parto, inesperadamente , foi muito fácil.
Os Irténev regressaram em Setembro a casa. Chegaram à herdade qua­
tro pessoas: eles e a criança com a ama, porque Lisa não podia ama­
mentar. Evguéni voltava livre dos horrores do passado , um homem novo
e feliz . Depois de sofrer tudo o que os maridos sofrem quando a mulher
está em trabalho de parto , começou a amar Lisa ainda mais . Quando pe­
gava na bebezinha ao colo sentia qualquer coisa nova, engraçada, muito
agradável , como que titilante . Também surgiu na sua vida um elemento
novo , graças à amizade com Dumtchin (o antigo decano) , um interesse
novo , fora dos trabalhos na propriedade: a Administração Rural . Em par­
te foi por ambição e, em parte , pela consciência do dever social que Ev­
guéni se meteu nisso . Estava prevista uma reunião extraordinária para
Outubro em que ele devia ser eleito . Foi uma vez à cidade e outra vez a
casa de Dumtchin e ficou tudo resolvido .
Abandonaram-no definitivamente os tormentos da tentação e da luta
contra a tentação, quase não conseguia reconstituí-los na sua imagina­
ção . Tudo aquilo lhe parecia uma espécie de ataque de loucura que o
atingira havia muito .
Sentia-se de tal maneira livre a esse respeito que não teve medo de fa­
zer perguntas ao encarregado quando ficou a sós com ele . E, como o ho­
mem estava ao corrente de tudo , também não se envergonhou de lhe per�
guntar:
- Diga-me , o Sídor Petchnikov continua fora?
- Sim, continua na cidade .
- E a mulher?
- Ora, frívola até mais não ! Agora anda metida com o Zinóvi . Com-
pletamente desencaminhada.
44 Lev Tolstói

«Ainda bem - pensou Evguéni . - Estou espantosamente impassí­


vel , espantosamente mudado .»

19

Realizou-se tudo o que Evguéni almejava. Manteve a herdade nas


suas mãos , a fábrica começou a funcionar, a colheita de beterraba foi ex­
celente , esperava-se um bom lucro; a mulher teve a filha sem complica­
ções , a sogra foi-se embora.
Depois das eleições , Evguéni voltava da cidade para casa. Tinha sido
eleito , toda a gente o felicitava, ele agradecia. Houvera um almoço em
que tinha bebido cinco taças de champanhe . Esboçavam-se planos novos
na sua vida. Pelo caminho, na carruagem , pensou muito neles. Era o Ve­
rão de São Martinho . Um caminho magnífico , o sol brilhante . Quando se
aproximava de casa ia a pensar que , em resultado da sua eleição , ocupa­
ria no meio do povo aquela posição com que sempre sonhara, ou seja,
um lugar em que podia servir as pessoas não só como empresário que as­
segurava trabalho mas em que teria também uma influência directa. Ima­
ginava a opinião que , dentro de três anos , os seus camponeses e os de ou­
tros teriam dele . «Este também , por exemplo» , pensou quando já rolava
dentro da aldeia e viu um mujique e uma mulher a atravessarem o cami­
nho carregando uma selha. Os dois pararam para deixarem passar a tra­
quitana de Evguéni . O mujique era o velho Petchnikov, a mulher era Ste­
panida. Evguéni olhou para ela, reconheceu-a, e sentiu , com alegria, que
ficara perfeitamente tranquilo . Ela continuava bonita, mas isso não o
emocionou minimamente . Chegou a casa, a mulher recebeu-o à entrada.
Era uma tarde maravilhosa.
- Então , podemos dar-te os parabéns? - perguntou o tio .
- Sim, fui eleito .
- Óptimo . Temos de brindar a isso .
No dia seguinte Evguéni foi ver os trabalhos na propriedade que des­
curara no período das eleições . Na granja já estava a trabalhar a debu­
lhadora nova. Pata a observar, Evguéni andou pelo meio das campone­
sas , evitando olhar para elas , mas , por mais cautelas que tivesse , reparou
por duas vezes nos olhos negros e no lenço vermelho de Stepanida que
andava a carregar palha. Por duas vezes olhou para ela de soslaio e vol­
tou a sentir qualquer coisa, não sabia bem o quê. Só no dia seguinte,
quando foi à eira da granja e esteve lá duas horas sem qualquer necessi-
O Diabo e Outros Contos 45

dade, sempre a acariciar com os olhos a bela figura familiar da jovem


mulher, percebeu que estava perdido , definitiva e irrecuperavelmente
perdido. De novo os mesmos sofrimentos , o mesmo horror, o mesmo
medo . E não havia salvação.

Aconteceu-lhe precisamente o que temia. No dia seguinte , ao fim da


tarde, Evguéni foi parar sem saber como às traseiras da casa dela, em
frente do barracão para a palha, onde já dantes , num Outono , tivera um
encontro com ela. Como se andasse por ali a passear, parou e acendeu
um cigarro. Uma vizinha viu-o , e Evguéni , arrepiando caminho , ainda a
ouviu dizer a alguém:
- Vai , ele está lá à espera, juro , está lá. Vai , sua parva !
Viu como uma mulher - ela - correu para o barracão, mas não foi
possível a Evguéni voltar para lá porque entretanto apareceu um muji­
que . Foi para casa.

20

Quando entrou na sala de estar tudo lhe pareceu louco e antinatural .


Ainda de manhã se levantara enérgico, com a firme decisão de acabar, de
esquecer, de se proibir de pensar nela. Porém, contra a sua vontade, pas­
sou toda a manhã sem se interessar pelo trabalho , fazendo tudo por se li­
bertar dele . O que havia pouco era importante para ele e lhe dava prazer
parecia agora insignificante . Inconscientemente, tentava esquivar-se do
trabalho , achava que só podia reflectir e analisar as coisas se se livrasse
dele. Pôs então de lado todas as tarefas e isolou-se . Mal ficou sozinho,
porém, foi vaguear pelo jardim, pela floresta. Sentia que todos os lugares
por onde passava estavam emporcalhados pelas recordações, recordações
que ao mesmo tempo o fascinavam. Deu por si a andar pelo j ardim e a
dizer a si mesmo que estava a reflectir em qualquer coisa, mas na verda­
de não pensava em nada, apenas esperava por ela numa ânsia louca, in­
fundada, esperava que ela, por um qualquer milagre, percebesse como ele
a desejava e aparecesse de repente, ali ou noutro sítio onde ninguém os
visse , ou de noite , sem lua, e nem ela o veria, e ele tocaria o seu corpo . . .
«Sim senhor, ora aqui está como eu rompi com ela quando quis ! -
recriminava-se. - Sim, senhor, foram apenas relações com uma mulher
46 Lev Tolstói

asseada, sem doenças , e simplesmente em prol da saúde ! Não , pelos vis­


tos não se pode brincar assim com ela. Pensava que a tomei , mas ela é que
me tomou , e não me largou mais . Pensava que era livre , mas não. Iludi­
-me a mim próprio quando me casei . Foi tudo um disparate, um engano .
Desde que me relacionei com ela comecei a experimentar um sentimento
novo , o verdadeiro sentimento de um marido . Sim, deveria viver com ela.
«Sim, tenho duas vidas; uma com Lisa: o serviço , o trabalho na pro­
priedade , a filha, o respeito por parte dos outros . Se escolher esta vida,
Stepanida não pode existir. É preciso expulsá-la daqui , como eu dizia, ou
exterminá-la para que não exista. Mas a minha outra vida é aqui . . . Tirá­
-la ao marido , dar dinheiro ao homem, esquecer o pudor e a vergonha, e
viver com ela. Mas nesse caso é preciso que não haja Lisa nem Mimi (a
filha) . Não , mas porquê? A criança não é estorvo nenhum. A Lisa sim,
tem de se ir embora. Que ela seja informada, me amaldiçoe e se vá em­
bora. Que fique a saber que a troquei por uma campónia, que sou um
traidor, um canalha. Não , é terrível de mais ! Não pode ser. Pois, mas po­
de acontecer que a Lisa adoeça e morra, por exemplo - continuava ele
a cogitar. - Ela morre e tudo se torna maravilhoso .
«Maravilhoso ! Oh , seu canalha ! Não , se alguém tem de morrer, que
seja aquela mulher. Se a Stepanida morresse , tudo passaria a correr mui­
to bem.
«Pois, é assim que se envenenam ou matam as mulheres e as amantes .
Pegava na pistola, cliamava-a e , em vez de abraços , pregava-lhe um tiro
no peito . E pronto .
«Porque ela é o diabo . Um verdadeiro diabo . Apossou-se de mim con­
tra a minha vontade .
«Matar? Sim. Das duas , uma: liquido a mulher ou liquido-a a ela. Por­
que viver assim é impossível . 2 Impossível . Preciso de reflectir muito
bem e de ver como se passarão as coisas . Se ficar tudo assim, o que acon­
tecerá?
«Será assim: volto a dizer que não quero , que vou acabar com isto ,
mas será tudo em vão , à noite vou postar-me outra vez nas traseiras , ela
sabe , e vai aparecer. Ou , então , alguém vai dizer à minha mulher, ou eu
próprio lhe digo porque não posso mentir, não posso viver assim. Não
posso . A notícia vai espalhar-se . Todos ficarão a saber, a Paracha, o fer­
reiro . . . Será possível viver assim?
«Impossível . Das duas , uma: matar a mulher ou a Stepanida. Mas ain­
da . . . Ah, pois , há uma terceira hipótese: matar-me , a mim próprio - dis­
se em voz baixa, e um arrepio percorreu-lhe o corpo . - Sim, a mim pró-
O Diabo e Outros Contos 47

prio, e então já não será necessário matar nenhuma delas .» Ficou apavo­
rado porque sentia que era a única saída possível . «Tenho um revólver.
Serei capaz de me matar? Nunca pensei nisso , vai ser estranho.»
Voltou para o seu quarto e abriu o armário onde guardava o revólver.
Mal o abriu , entrou a mulher.

21

- Outra vez - disse Lisa, assustada, quando olhou para ele .


- Outra vez o quê?
- Essa mesma expressão terrível que tinhas antes , e que não me que-
rias explicar. Evguéni , meu amor, fala comigo . Bem vejo que estás a so­
frer muito . Diz-me tudo , e ficas aliviado . Seja o que for, será melhor do
que esse sofrimento por que estás a passar. Porque tenho a certeza de que
não se trata de uma coisa assim tão grave .
- Sabes? Por enquanto . . .
- Diz-me , diz , diz. Não te largo .
Evguéni esboçou um sorriso lastimoso .
«Digo-lhe? Não , é impossível . Também não há nada a dizer.»
E talvez lhe tivesse dito se não entrasse a ama perguntando se podiam
ir passear. Lisa saiu para vestir a criança.
- Então , dizes-me? Volto já.
- Sim, talvez . . .
Lisa nunca viria a esquecer o sorriso sofredor com que Evguéni pro­
nunciou aquelas palavras . Saiu .
À socapa, muito depressa, como um malfeitor, Evguéni tirou o revól­
ver do estojo.
«Carreguei-o , sim, mas foi há muito tempo , e falta uma bala. Não in­
teressa, o que for se verá.»
Apertou o cano contra a têmpora, hesitou , mas bastou lembrar-se de
Stepanida, da decisão de não a ver, da luta, da tentação , da queda, da lu­
ta mais uma vez, e estremeceu de pavor. «Não , é melhor assim.» E pre­
miu o gatilho .
Quando Lisa irrompeu no quarto - acabava de descer da varanda -
foi encontrá-lo de bruços no chão , o sangue negro e quente jorrava-lhe
da ferida, o corpo ainda estremecia.
Foi feita a instrução de um processo . Ninguém conseguia compreen­
der nem explicar a causa do suicídio . Ao tio nem sequer passou pela ca-
48 Lev Tolstói

beça que a causa tivesse alguma coisa a ver com aquela confissão que
Evguéni lhe fizera dois meses antes .
Varvara Alekséevna afirmava que já previa aquilo, que sempre o pre­
dissera, que era evidente, que bastava ouvi-lo discutir. Lisa e Mária Pá­
vlovna não conseguiam perceber porque acontecera essa desgraça, mas
não acreditavam no que diziam os doutores: que Evguéni era doente men­
tal . Não concordavam com isso , ambas , porque sabiam que ele era o mais
sensato dos homens , mais do que centenas de pessoas que elas conheciam.
Efectivamente, se Evguéni Irténev era doente mental , então todas as
pessoas são doentes mentais , e , entre esses dementes , os mais incontes­
táveis são os que vêem os sinais de loucura nos outros e não reparam em
si próprios .

Variante do final do conto «0 Diabo»

- . . . disse para si mesmo e, aproximando-se da mesa, tirou da gave­


ta o revólver e, depois de o examinar (faltava uma bala) , meteu-o no bol­
so das calças .
- Meu Deus ! O que estou a fazer? - exclamou de repente e , jun­
tando as mãos , começou a rezar.
- Meu Deus e meu Senhor ajudai-me e salvai-me. Sabeis que não
quero fazer o mal , mas sozinho não sou capaz . Ajudai-me - rezava e
persignava-se diante do ícone .
«Mas eu posso controlar-me, vou passear e pensar em tudo .»
Foi ao vestíbulo , vestiu o casaco curto , calçou as galochas e saiu . Sem
dar por isso , dirigiu os seus passos ao longo do jardim, pelo caminho do
campo no sentido da granja. Na granja ainda rosnava a debulhadora e
ouviam-se os gritos dos arrieiros . Entrou no barracão . Ela estava lá, viu­
-a de imediato . Stepanida juntava as espigas num monte e, ao vê-lo , cor­
reu ágil e alegre , com os olhos risonhos , por cima das espigas espalha­
das , juntando-as habilmente com os pés . Evguéni não conseguia deixar
de olhar para ela, apenas caiu em si quando Stepanida desapareceu . O
encarregado explicou-lhe que já estavam na debulha das espigas esma­
gadas e que, por isso , o trabalho era mais demorado e a saída do grão era
menor. Evguéni aproximou-se do tambor que , de quando em quando, en­
cravava por causa das gavelas mal aplainadas , e perguntou ao encarre­
gado se essas gavelas amassadas eram muitas .
- Cerca de cinco carroças .
O Diabo e Outros Contos 49

- Então , oiça . . . - começou Evguéni, mas logo se calou . Ela


aproximou-se muito do tambor, desobstruindo-o das espigas por baixo , e
queimou-o com o seu olhar risonho .
Era um olhar que falava do amor alegre e despreocupado entre eles , que
afirmava saber do seu desejo por ela e da sua ida ao barracão à cata dela,
e era um olhar que, como sempre, dizia que estava pronta a viver e a
divertir-se com ele sem pensar nas conveniências nem nas consequências .
Evguéni sentiu-se sob o poder de Stepanida mas não quis entregar-se .
Lembrou-se da sua oração , tentou repeti-la mentalmente mas logo
percebeu que era inútil . Uma única ideia o obcecava: como marcar-lhe
um encontro sem ninguém dar por isso?
- Se acabarmos esta meda ainda hoje, começamos outra ainda hoje
ou deixamo-la para amanhã? - perguntou o encarregado .
- Sim, sim - respondeu Evguéni, seguindo automaticamente atrás
dela até ao lugar onde ela estava a juntar espigas com outra mulher.
«Como é possível que não consiga dominar-me? Estarei mesmo per­
dido? - interrogava-se Evguéni . - Meu Deus ! Não , não há Deus ne­
nhum . Há o Diabo . O Diabo é ela. O Diabo apossou-se de mim. Mas eu
não quero , não quero . O Diabo , sim, o Diabo .»
Aproximou-se dela, tirou o revólver do bolso e alvejou-a nas costas ,
uma, duas , três vezes . Ela ainda correu , mas acabou por se despenhar em
cima do monte de espigas .
- Valha-nos Deus ! Ai , Nossa Senhora ! O que é isto? - gritavam as
mulheres .
- Não , não foi sem querer. Matei-a de propósito - gritou Evguéni .
- Vão buscar a polícia.
Voltou para casa e, sem dizer nada à mulher, entrou no seu gabinete
de trabalho e trancou a porta.
- Não entres - gritou à mulher lá de dentro - , já vais saber tudo .
Uma hora depois tocou para o lacaio com a campainha e pediu-lhe:
- Vai saber se a Stepanida está viva.
O lacaio já sabia e respondeu-lhe que tinha morrido uma hora antes .
- Muito bem . Agora deixa-me sozinho . Avisa-me quando chegar a
polícia ou o juiz de instrução .
O chefe da polícia e o juiz de instrução chegaram na manhã seguinte .
Evguéni despediu-se da mulher e da filha e foi levado para a prisão .
Foi julgado . Corriam os primeiros tempos dos tribunais de jurados .
Reconheceram que o arguido sofria de doença mental temporária, pelo
que o condenaram apenas à penitência eclesiástica.
50 Lev Tolstói

Passou nove meses no cárcere e um mês no mosteiro .


Começou a beber ainda na cadeia, continuou no mosteiro e , quando
voltou para casa, era um alcoólico debilitado , com as capacidades men­
tais anuladas .
Varvara Alekséevna afirmava que já previa aquilo , que sempre o pre­
dissera, que era evidente , que bastava ouvi-lo discutir. Lisa e Mária Pá­
vlovna não conseguiam perceber porque acontecera essa desgraça, mas
não acreditavam no que diziam os doutores: que Evguéni era doente
mental , um psicopata. Não concordavam com isso , ambas , porque sa­
biam que ele era o mais sensato dos homens , mais do que centenas de
pessoas que elas conheciam .
Efectivamente , se Evguéni lrténev era doente mental no momento do
crime , então todas as pessoas são doentes mentais, e , entre esses demen­
tes , os mais enfermos são sem dúvida os que vêem os sinais de loucura
nos outros e não reparam em si próprios .
O PATRÃO E O MOÇO DE ESTREBARIA

Isto aconteceu nos anos setenta, no dia a seguir ao invernoso São Ni­
colau . Houve uma festa paroquial , e o estalajadeiro da aldeia, Vassíli An­
dreitch Brekhunov, comerciante do segundo grau, não pôde ausentar-se
da igreja - era zelador - , e depois , em casa, teve de receber e servir o
almoço a parentes e amigos . Quando , finalmente , os últimos convidados
saíram, Vassíli Andreitch começou a preparar-se para ir contratar a com­
pra de uma floresta com um proprietário rural vizinho , negócio que an­
dava a combinar havia muito . Estava com pressa, não fossem os nego­
ciantes da cidade ultrapassá-lo nessa compra lucrativa. O jovem senhor
pedia apenas dez mil rublos pela floresta, e isso porque Vassíli Andreitch
lhe oferecera sete mil (um terço do valor real da mata) . Talvez fosse pos­
sível a Vassíli Andreitch conseguir um preço ainda mais baixo , uma vez
que a floresta se situava nas suas redondezas e estabelecera-se havia
muito uma regra entre todos os comerciantes rurais de acordo com a qual
nenhum negociante rural podia subir os preços na área de outro; Vassíli
Andreitch, no entanto, como soube que os compradores da cidade tam­
bém se interessavam pela floresta de Goriátchkino , resolveu ir ajustar o
negócio o mais depressa possível . Assim, mal a festa terminou , tirou da
arca setecentos rublos do seu dinheiro , juntou-lhes dois mil e trezentos
do dinheiro da igreja, que guardava em casa, recontou os três mil rublos
com cuidado , meteu-os na carteira e ficou pronto para partir.
O jornaleiro Nikita, o único sóbrio de entre todos os trabalhadores de
Vassíli Andreitch , apressou-se a ir atrelar. Nikita não bebeu neste dia por­
que era um bêbado e, desde a véspera do tempo da abstinência, em que
52 Lev Tolstói

vendeu a poddiovka e as botas de couro para comprar vodca, fez a pro­


messa de não beber mais e já ia no segundo mês de sobriedade; assim,
aguentou-se sem beber também nos primeiros dois dias da festa, apesar
da tentação que lhe causava a quantidade de álcool que via a ser embor­
cada por todo o lado .
Nikita era um mujique de uma aldeia vizinha, rondava os cinquenta
anos , era mau dono da sua casa, como diziam dele, e vivia a maior par­
te da sua vida fora do lar, a labutar para os outros . Por outro lado , era
muito estimado por ser trabalhador esforçado , habilidoso e forte , e so­
bretudo pelo seu feitio bonacheirão e afável; mas não se adaptava, em la­
do algum, porque entrava todos os anos num estado de bebedeira contí­
nua, por duas ou mais vezes , e derretia tudo o que tinha na vodca,
incluindo a roupa, e além disso tomava-se violento e agressivo . Vassíli
Andreitch também já tinha corrido várias vezes com ele mas , dado o
apreço que tinha pela sua honestidade , amor aos animais e baixa joma
que aceitava, acabava sempre por recebê-lo de volta. Em vez dos oiten­
ta rublos da norma salarial corrente , pagava-lhe quarenta, e mesmo as­
sim aos poucos , sem acertos de contas e, na sua maior parte , com mer­
cadoria da sua loja a preços altos .
A esposa de Nikita, Marfa, outrora muito bonita, era uma mulher des­
pachada que cuidava da casa - com um filho adolescente e duas filhas
- e não pedia a Nikita que habitasse com eles porque , em primeiro lu­
gar, já alojava em sua casa um mujique de outra aldeia, um tanoeiro; e ,
em segundo , porque embora mandasse no marido a seu bel-prazer quan­
do ele estava sóbrio, tinha-lhe um medo de morte quando se embebeda­
va. Um dia emborrachou-se lá em casa e, certamente para se vingar de
toda a sua resignação quando abstinente , arrombou-lhe a arca, retirou de
lá os preciosos atavios de Marfa e, amontoando todos os seus vestidos
em cima do cepo , reduziu-os a farrapos à machadada. O salário de Niki,.
ta era entregue a Marfa, e Nikita nunca contestou essa form� de paga­
mento . Também este ano , dois dias antes da festa, Marfa tinha ido a ca­
sa de Vassíli Andreitch e este dera-lhe farinha de trigo, chá, açúcar e três
litros de vodca, tudo no valor de três rublos , e ainda cinco rublos em di­
nheiro; Marfa agradeceu-lhe como se fosse um favor especial que ele lhe
fazia, embora o mínimo que Vassíli Andreitch lhe deveria pagar fosse ,
pelo menos , vinte rublos .
- Será que fizemos algum contrato contigo? - dizia Vassíli An­
dreitch a Nikita. - Se precisares de alguma coisa, leva, depois pagas
com trabalho . Comigo as coisas não são como com os outros: esperar pe-
O Diabo e Outros Contos 53

los prazos , acertar contas , pagar multas . . . Nós fazemos tudo honesta­
mente . Tu andas a servir para mim, eu não te deixo ficar mal .
Ao dizer isto, Vassíli Andreitch estava sinceramente convencido de
que era um benfeitor de Nikita; aliás , sabia falar de forma muito persua­
siva e todas as pessoas dependentes do seu dinheiro, incluindo Nikita,
fortaleciam essa sua convicção de que não os enganava, antes lhes fazia
favores.
- Sim , eu percebo , Vassíli Andreitch, e sirvo-o com todas as minhas
forças , como se fosse o meu próprio pai , percebo muito bem - respon­
dia Nikita, ciente , na verdade , de que Vassíli Andreitch o enganava mas
sentindo ao mesmo tempo que nem valia a pena esclarecer as contas com
ele enquanto não arranjasse outro lugar e conformando-se com o que lhe
davam.
Assim, ao receber a ordem para atrelar, Nikita executou-a com a pron­
tidão e a alegria habituais , entrando no barracão com o seu passo enér­
gico e leve , tirando do prego a cabeçada de correias e borla, pesada, e
com um freio em que matraqueavam os arozinhos de madeira, e dirigiu­
-se para o estábulo onde estava, separado dos outros , o cavalo que Vas­
síli Andreitch mandara atrelar.
- Então , tiveste saudades minhas , meu parvinho? - disse Nikita,
respondendo aos relinchos débeis de saudação com que o recebia o ca­
valo meão, bem feito, com a garupa um pouco baixa, zaino , sozinho no
estábulo . - Xó , xó ! Espera lá, primeiro vou-te dar de beber - falava
com o cavalo como quem fala com gente, como se ele compreendesse a
fala humana, e , limpando-lhe com a aba do casaco os lombos gordos
com um sulco a todo o comprido , cobertos de pó, pôs o freio na cabeça
jovem e bonita do cavalo , libertou-lhe as orelhas e o topete , tirou-lhe o
cabresto e levou-o até ao poço.
O 'Zaino, depois de sair com cuidado do estábulo por causa da cama­
da alta de estrume que cobria o chão , saracoteou-se e escouceou , fingin­
do que queria acertar com a pata traseira em Nikita que troteava atrás de­
le a caminho do poço .
- Brinca, brinca, seu traquinas ! - repetia Nikita que conhecia bem
o cuidado com que o 'Zaino levantava a pata traseira e apenas lhe tocava
ao de leve no casaco de pele de ovelha; Nikita adorava aquele hábito do
cavalo .
Depois de se saciar com água gelada, o cavalo suspirou , mexeu os bei­
ços duros e molhados donde caíam gotas transparentes para a selha e
imobilizou-se , como que pensativo; depois , bruscamente , bufou alto.
54 Lev Tolstói

- Já sei , já sei , se não queres mais não bebas , é contigo; mas escusas
de pedir. - Nikita explicou ao 'Zaino, muito séria e ponderadamente , o
seu procedimento; e , dando puxões à rédea do cavalo alegre e jovem que
batia com os cascos sonoros no chão , voltou em passo de corrida para o
barracão .
Não se via nenhum dos moços que trabalhavam ali , apenas um ho­
mem de fora, marido da cozinheira, que viera à festa.
- Amigo, vai lá perguntar, se fazes favor - disse-lhe Nikita. - Que
trenó é que eu atrelo , o grande ou o pequenito?
O marido da cozinheira entrou na casa, de fundamentos altos e telha­
do coberto de ferro , e voltou rapidamente com a resposta: atrelar o trenó
pequeno . Nikita, entretanto, já tinha posto a coelheira, o cilhão com re­
bites e , levando numa mão o arco leve e pintado , conduzia com a outra
mão o cavalo para o sítio onde estavam os dois trenós , junto do barracão .
- O pequenito, está bem, seja o pequenito - disse ele e meteu entre
os varais o inteligente animal que não deixava de fingir que queria mordê­
-lo; depois , com a ajuda do marido da cozinheira, começou a atrelar.
Quando estava tudo pronto e faltava apenas a brida, Nikita mandou o
marido da cozinheira buscar palha ao barracão e a serapilheira ao celeiro .
- Assim está bem. Vê lá, não te abolses ! - dizia Nikita, aplainando
na carroça a palha de aveia acabada de malhar que lhe trouxera o homem
da cozinheira. Agora vamos pôr a esteira e, por cima, a serapilheira. -
Assim está bem, até dá gosto um homem sentar-se aqui - ia dizendo Ni­
kita enquanto ajeitava a serapilheira a toda a volta do assento .
- Obrigado , querido amigo - disse Nikita ao marido da cozinheira
- , isto a dois dá um jeitão . - E, desenlaçando a brida de couro com o
anel na extremidade , Nikita sentou-se na boleia e tangeu o bom do ca­
valo , ansioso por andar, metendo-o pelo estrume gelado do quintal até ao
portão .
- Ti Nikita, ó tio , tio ! - gritou nas suas costas a voz fininha de um
garoto de sete anos que chegava apressadamente ao quintal artilhado
com a sua peliça preta e curta, o gorro quente e umas botas de feltro
brancas a estrear. - Deixa-me sentar aí - pediu , abotoando a peliça.
- Está bem, anda cá, salta para cá, meu pombinho - disse Nikita e,
parando o cavalo , sentou no trenó o filho do patrão, pálido e magrinho ,
com a carita a irradiar alegria; depois , fez sair o trenó para a rua.
Passava das duas , o frio chegava aos dez graus negativos , o céu esta­
va escuro , soprava um vento cortante. Uma nuvem baixa e negra tapava
metade do céu . O quintal era abrigado e calmo , mas na rua o vento fazia-
O Diabo e Outros Contos 55

-se sentir, varria a neve do telhado do armazém vizinho e rodopiava na


esquina dos banhos . Mal Nikita saiu do portão e encaminhou o cavalo
para junto da porta da casa, Vassíli Andreitch , com o cigarro nos lábios ,
vestindo um casaco de peles com o forro por cima e muito cingido nas
ancas com o cinto , saiu da ombreira para o patamar da escada alta co­
berta de neve e que rangia sob as suas botas de feltro reforçadas com
couro . Parou . Puxou a última fumaça do cigarro , deitou a ponta para o
chão , pisou-a e , soltando o fumo através do bigode e olhando de soslaio
para o cavalo , começou a dobrar os cantos da gola, de ambos os lados da
cara rapada (menos o bigode) , para que o pêlo ficasse para dentro e não
se molhasse com a respiração .
- Ena, já estás aí, meu traquinas ! - disse ao ver o filho no trenó .
Vassíli Andreitch estava alegre do álcool ingerido na companhia dos
convidados , e por isso , mais do que o costume , agradado com tudo o que
era seu e com tudo o que fazia. Ver o filho , a quem sempre chamava
mentalmente herdeiro , dava-lhe agora um grande prazer; olhava para ele
estreitando os olhos e arreganhando os dentes compridos .
A mulher de Vassíli Andreitch, agasalhando a cabeça e o s ombros com
o lenço de lã, de modo que se lhe viam apenas os olhos , grávida, pálida
e magra, estava atrás dele no vestíbulo , para se despedir.
- Ouve , leva o Nikita contigo - dizia ela, assomando-se à porta com
timidez.
Vassíli Andreitch não respondeu àquelas palavras que , pelos vistos ,
não lhe agradavam, apenas carregou o sobrolho com irritação e cuspiu .
- Levas muito dinheiro - continuou a mulher numa voz lamentosa.
- Além disso também pode haver intempérie , Deus nos guarde . Por fa-
vor. . .
- Achas então que eu não conheço o caminho e não passo sem um
guia? - proferiu Vassíli Andreitch com aquela tensão antinatural dos lá­
bios que utilizava por norma quando falava com vendedores e compra­
dores , articulando cada sílaba com acentuada nitidez .
- Por favor, leva-o , peço-te por amor de Deus ! - repetia a mulher,
cruzando as pontas do lenço .
- Estás a ser aborrecida . . . Para que havia de o levar?
- Eu, por mim, estou pronto , Vassíli Andreitch . . . - disse Nikita ale-
gremente. - Só que é preciso que alguém deite o penso aos cavalos -
acrescentou , dirigindo-se à patroa.
- Eu trato disso, Nikita, mando o Semion - respondeu ela.
- Então , Vassíli Andreitch, quer que eu vá? - perguntou Nikita.
56 Lev Tolstói

- Está bem, já que a velha assim quer. Mas vai vestir então um casa­
co mais quente - observou Vassíli Andreitch, voltando a sorrir e pis­
cando o olho para o eterno casaquinho de Nikita, roto nos sovacos e nas
costas , de abas esfarrapadas , seboso e coçado , que tinha passado por tu­
do na sua longa vida.
- Eh , querido amigo , sai para fora, tem mão no. cavalo ! - gritou Ni­
kita para o marido da cozinheira.
- Eu é que seguro nele , eu ! - exclamou o miúdo com a sua voz fi­
ninha, tirando dos bolsos as mãozinhas vermelhas e agarrando-se às ré­
deas de couro frias .
- Mas não demores muito à procura do teu agasalho de gala, depres­
sa! - gritou Vassíli Andreitch a Nikita em tom de gozo .
- É um instante , Vassíli Andreitch ! - respondeu Nikita e , nas suas
botas velhas cambadas para dentro e reforçadas com solas de feltro, cor­
reu através do quintal para a isbá dos criados .
- Eh , Arínuchka, tira-me o cafetã de cima do fogão , vou com o pa­
trão ! - pediu Nikita, entrando e tirando a faixa do prego .
A cozinheira, que já acordara da sesta depois do almoço e estava ago­
ra a aquecer o samovar para o marido , recebeu Nikita com alegria e, con­
tagiada pela azáfama dele , atarefava-se também de um lado para o outro .
Pegou no cafetã de pano fraquinho e muito usado que estava a secar ao
fogão e começou a sacudi-lo e a alisá-lo energicamente .
- Agora ficas mais à vontade com o teu homem -'---- disse Nikita à co­
zinheira, uma vez que tinha o hábito de , por benevolente delicadeza, di­
zer sempre alguma coisa simpática à pessoa com quem, por acaso , fica­
va a sós .
Depois , cingindo-se com a faixa estreitinha, de fios embaraçados , en­
colheu a barriga magra e apertou bem o casaco .
- Assim é que é - disse, dirigindo-se à faixa e não à cozinheira, e
enfiando as pontas na cintura. - Assim não te desatas ! - e , levantando
e baixando os ombros para que os braços se movessem livremente, en­
fiou o cafetã por cima do casaco, voltou a dar aos braços e a retesar as
costas , para dar folga aos movimentos , bateu com as mãos por baixo dos
sovacos e tirou as luvas da prateleira. - Assim é que é .
- Havias de calçar outras botas , Nikita, essas estão todas esburaca-
das - observou a cozinheira.
Nikita parou , bateu na testa.
- Pois havia . . . Mas não faz mal , o caminho é curto !
E correu para fora.
O Diabo e Outros Contos 57

- Não vais ter frio , Nik:ita? - perguntou a patroa quando ele se apro­
ximou do trenó .
- Qual frio , quentinho - respondeu Nikita ajeitando a palha por ci­
ma dos pés e guardando por baixo o chicote, inútil para um cavalo da­
quela categoria.
Vassíli Andreitch já se acomodara no trenó, ocupando com as costas
agasalhadas por duas peliças quase toda a parte traseira do trenó , de es­
paldar curvo, e logo a seguir, pegando na rédea, tangeu o cavalo . Nikita
saltou para o trenó já em movimento , sentou-se à frente , do lado esquer­
do, e estendeu um pé para fora.

O cavalo arrancou , os patins rangeram ao de leve e começaram a des­


lizar com agilidade pelo caminho gelado e batido .
- Onde é que tu pensas que vais aí agarrado? Dá cá o chicote , Niki­
ta ! - gritou Vassíli Andreitch , visivelmente satisfeito com o herdeiro
que se enganchara atrás , em cima dos patins . - Olha que tu levas ! Vai
para a mãezinha, vai , meu filho da puta.
O rapaz apeou-se . O Z.aino acelerou o seu passo esquipado e passou a
trote .
O casario de Kresti , onde vivia Vassíli Andreitch, constava de seis ha­
bitações . Mal deixaram para trás a última isbá, a do ferreiro, notaram que
o vento era muito mais forte do que pensavam . Já quase não se via o ca­
minho . A neve cobria de imediato o rasto dos patins e só se distinguia o
caminho do resto do terreno porque estava um pouco sobrelevado . Voa­
va a neve rasteira por todo o campo e não se entrevia a linha que separa
o céu da terra. A floresta de Teliátino , que se distinguia sempre bem, ape­
nas negrejava vagamente no meio da poeira de neve . O vento soprava da
esquerda, inclinando para um lado a crina no pescoço levantado e chei­
nho do Z.aino , e dobrava-lhe a cauda felpuda atada com um nó simples .
A gola comprida de Nik:ita, sentado a sotavento , apertava-se-lhe à cara e
ao nariz .
- Com tanta neve, o bicho não anda quanto pode e sabe - disse Vas­
síli Andreitch, orgulhoso do seu valente cavalinho . - Uma vez fui nele
a Pachútino e pus-me lá em meia hora.
- O quê? - perguntou Nik:ita que não ouvira nada por causa da gola.
- A Pachútino em meia hora, disse eu - gritou Vassíli Andreitch .
58 Lev Tolstói

- Rico animal , nada a dizer ! - respondeu Nikita.


Calaram-se . Mas Vassíli Andreitch queria falar, apetecia-lhe .
- Então , disseste à tua mulher que não desse vodca ao tanoeiro? -
recomeçou Vassíli Andreitch , em voz gritada, convencido de que era
uma honra para Nikita conversar com um homem tão importante e inte­
ligente . Deixou-se embalar de tal modo pela sua brincadeira que nem lhe
passou pela cabeça que o tema poderia magoar Nikita.
Nikita voltou a não ouvir o som das palavras levado pelo vento .
Vassíli Andreitch , em voz alta e nítida, repetiu a piada sobre o ta­
noeiro .
- Que fiquem com Deus, Vassíli Andreitch , eu não entro nessas coi­
sas . Desde que ela não ofenda o meu filho , que faça o que quiser.
- Exactamente - disse Vassíli Andreitch . - Ouve , vais comprar um
cavalo no fim do Inverno?
- Tem de ser - respondeu Nikita, afastando a gola do cafetã e
inclinando-se para o patrão.
A conversa estava a tomar-se interessante para Nikita, queria ouvir
bem.
- O rapaz precisa, tem de começar a lavrar por conta dele , não pode
andar a chamar homens - disse .
- Ouve lá, então porque é que não compras o meu jarrete-liso , não te
levo muito por ele - gritou Vassíli Andreitch , todo excitado por entrar
no seu negócio preferido e que absorvia todas as suas forças mentais: a
especulação .
- Dê-me antes quinze rublos , praí, e eu compro um cavalo na feira -
disse Nikita, sabendo muito bem que o tal jarrete-liso valia sete rublos no
máximo e que, se Vassíli Andreitch lho cedesse , o havia de cotar em vin­
te e cinco e, por conseguinte , não lhe pagaria o salário de meio ano .
- É um bom cavalo . Para ti desejo o melhor, Nikita, como se fosse
para mim. Honestamente . Cá o Brekhunov não engana ninguém. Nem
que fiqu_e prejudicado , eu cá não sou como os outros . Honestamente ! -
gritou naquela sua voz com que dava a volta ao miolo dos seus compra­
dores e vendedores . - Aquilo é uma cavalgadura a sério !
- Certo - disse Nikita com um suspiro e, já ciente de que não valia a
pena ouvir mais, largou a gola que lhe tapou de imediato o ouvido e a cara.
Durante meia hora foram calados . O vento brocava a ilharga e o bra­
ço de Nikita onde o casaco estava roto .
Encolhia-se e respirava dentro da gola que lhe cobria a boca e , de uma
maneira geral , não sentia frio .
O Diabo e Outros Contos 59

- O que achas , metemos pelo caminho de Karamichevo ou seguimos


em frente? - perguntou Vassíli Andreitch .
Até Karamichevo era melhor caminho , ladeado por duas fileiras de
marcos , mas mais longo . Indo a direito, o trajecto era mais curto , mas
pouco movimentado e sem marcos indicadores em condições; se havia
alguns , estavam cobertos de neve .
Nikita reflectiu .
- Por Karamichevo é mais longe mas anda-se melhor - disse .
- Mas se formos em frente basta atravessarmos o barranco sem nos
perdermos , e depois é fácil , pela floresta - contrariou Vassíli Andreitch ,
a quem apetecia ir pelo caminho mais directo .
- O senhor é que sabe - disse Nikita e voltou a largar a gola.
Foi o que fez Vassíli Andreitch; ao cabo de meia verstá, junto a um
carvalho alto com os ramos agitados pelo vento e algumas folhas secas
quase a caírem, virou à esquerda.
Depois da viragem, o vento passou a soprar-lhes de frente . E começou
a nevar. Vassíli Andreitch conduzia, inchava as bochechas e soprava de
baixo para cima no bigode . Nikita dormitava.
Andaram assim em silêncio uns dez minutos. De repente , Vassíli An­
dreitch disse qualquer coisa.
- O quê? - perguntou Nikita, abrindo os olhos .
Vassíli Andreitch não respondeu , esticava o corpo , perscrutando o ter­
reno atrás e à frente do cavalo . Zaino , com o pêlo encaracolado na bar­
riga e no pescoço por causa do suor, andava a passo .
- O que foi?
- O quê , o quê - arremedou Vassíli Andreitch com irritação . - Não
se vêem os marcos ! Acho que nos perdemos !
- Então pare , vou ver o caminho - disse Nikita e , saltando suave­
mente do trenó , tirou o chicote de baixo da palha e foi para a esquerda.
Este ano a neve não era muito alta, podia andar-se por todo o lado .
Mesmo assim nalguns sítios chegava aos joelhos e enfiava-se para den­
tro das botas de Nikita. Este andava, andava, batia com as botas e espe­
tava o chicote , procurava, mas o caminho - nem vê-lo .
- Então? - perguntou Vassíli Andreitch quando Nikita voltou ao trenó.
- Deste lado não há caminho nenhum. Vou ver do outro lado .
- Ali adiante há qualquer coisa escura, vai lá ver - disse Vassíli An-
dreitch .
Nikita foi , aproximou-se do que pareciam manchas escuras - era ter­
ra, trazida pelo vento das sementeiras de Outono e que, caindo em cima
60 Lev Tolstói

da neve, a pintou de preto . Nikita explorou o lado direito , voltou para


junto do trenó , sacudiu a neve do casaco e de dentro das botas e sentou­
-se no trenó.
- Temos de embicar para a direita - disse resolutamente . - O ven-
to soprava-me do lado esquerdo , agora sopra-me de frente na cara. Para
a direita !
Vassíli Andreitch obedeceu e virou para a direita. Mas o caminho não
aparecia. Andaram algum tempo à deriva. O vento não abrandava, a ne­
ve começou a cair.
- Oiça, Vassíli Andreitch , perdemo-nos mesmo - disse Nikita de re­
pente , com um certo prazer, ao que parecia. - O que é isto? - pergun­
tou , apontando para as ramas negras de batata que assomavam da neve .
Vassíli Andreitch parou o cavalo suado que mexia com esforço os
flancos cheios .
- Porquê? - perguntou .
- Porque estamos no campo de Zakhárovka. Chiça, onde viemos parar!
- Estás a brincar ou quê?
- Não estou , Vassíli Andreitch, é verdade - disse Nikita - , e tam-
bém se nota pelo som dos patins: estamos a andar por cima do batatal , e
ali são os montões onde juntaram a rama. É o campo da fábrica de Za­
khárovka.
- Irra, que desvio estúpido nós fizemos ! - disse Vassíli Andreitch .
- Como nos vamos safar?
- É ir em frente e acabou-se , nalgum lado havemos de sair - propôs
Nikita. - Se não desembocarmos em Zakhárovka, desembocamos na
granja do fidalgo .
Vassíli Andreitch deu-lhe ouvidos e mandou o cavalo em frente. Andaram
assim bastante tempo. Por vezes iam dar a sementeiras de Outono desnudas
e o trenó estrondeava pelos cômoros de terra gelada. Outras vezes entravam
nos restolhais , ora de Outono, ora de Primavera, em que se espetavam da ne­
ve losnas e palhas que baloiçavam ao vento; outras vezes ainda entravam em
espaços de neve plaina, alisada, branca, onde não se via nada.
A neve tanto caía de cima como, às vezes , se levantava em nuvens do
chão . O cavalo estava visivelmente cansado , o suor encaracolava-lhe e
gelava-lhe o pêlo; ia a passo . De repente tropeçou e mergulhou num va­
lado . Vassíli Andreitch queria parar, mas Nikita gritou:
- Nem pensar! É preciso sair daqui . Anda, alminha, vai , força, anda
lá, amiguinho ! - gritou em voz alegre ao cavalo, saltando do trenó e
mergulhando também no valado .
O Diabo e Outros Contos 61

O cavalo arrancou e conseguiu sair, à primeira, para o aterro gelado .


Pelos vistos , o valado era artificial .
- Afinal , onde é que raio estamos? - perguntou Vassíli Andreitch .
- Já vamos saber! - respondeu Nikita. - Vá, não pare . Havemos
de chegar a qualquer lado .
- Aquela deve ser a floresta de Goriátchkino , não é? - alvitrou Vas­
síli Andreitch, apontando para qualquer coisa negra que lhes aparecia
adiante dos olhos .
- Quando chegarmos lá, logo vemos que floresta é - disse Nikita.
Nikita via que perto dessa coisa escura voavam folhas tocadas pelo
vento , umas folhas alongadas e secas de salgueiro , por isso aquilo não
podia ser uma floresta mas sim um povoado , só que não quis dizê-lo .
De facto , nem dez braças tinham andado e já se erguiam em frente de­
les umas árvores escuras . Ouviu-se um som novo , tristonho . Nikita adi­
vinhara: não era uma floresta mas um renque de salgueiros altos ainda
com algumas folhas a tremer. Os salgueiros , muito provavelmente , ti­
nham sido plantados ao longo do valado da eira. O cavalo , ao aproximar­
-se dos salgueiros que gemiam lastimosamente , levantou as patas dian­
teiras , mais alto do que o trenó e , fincando-se com as traseiras , subiu
para a elevação , virou à esquerda e deixou de se afundar na neve até aos
joelhos . Era um caminho .
- Bem , chegámos - disse Nikita - , só que não se sabe onde .
O cavalo , sem se desviar, meteu a passo pelo caminho nevada e , an­
o'adas m�nos de quarenta braças , viram a linha escura e recta de uma se­
be que cercava o celeiro com o telhado donde caía sem parar a neve da
camada grossa que o cobria. Quando ultrapassaram o celeiro , o caminho
fez uma curva, na mesma direcção do vento , e depararam com um mon­
te de neve . Porém, em frente via-se uma saída, uma viela entre duas ca­
sas , donde se concluía que o monte de neve se formara no caminho por
acção do vento , portanto só era preciso ultrapassá-lo. Assim fizeram, e
entraram numa rua. No primeiro quintal drapejava desalmadamente na
corda a roupa estendida, gelada: duas camisas , uma branca e uma ver­
melha, calças , grevas e uma saia. A camisa branca agitava-se com uma
força ainda maior, abanando as mangas .
- Que raio de mulher preguiçosa, ou então está a morrer: não tirou a
roupa antes da festa - disse Nikita, olhando para as camisas a baloiça­
rem.
62 Lev Tolstói

No princ1p10 da rua o vento era ainda mais forte e no caminho


acumulava-se ainda mais neve , mas no centro da aldeia tudo se tornou
calmo , tépido e alegre . Num dos quintais ladrava o cão; noutro , uma mu­
lher de poddiovka lançada por cima da cabeça e vinda não se sabe don­
de , entrou pela porta da isbá e parou para observar os viajantes . No meio
da aldeia ouvia-se o canto das raparigas .
Parecia que na aldeia havia menos vento e neve e frio .
- Mas isto é Gríchkino - disse Vassíli Andreitch .
- É mesmo - respondeu Nikita.
Era efectivamente Gríchkino . Portanto , tinham-se desviado para a
esquerda e feito cerca de oito verstás numa direcção um pouco diferen­
te da que precisavam; mesmo assim , conseguiram avançar um pouco
para o seu destino . De Gríchkino até Goriátchkino eram cerca de cinco
verstás .
No centro da aldeia encontraram-se com um homem alto que ia pelo
meio da rua.
- Quem são vocês? - gritou o homem, fazendo parar o cavalo; ao
reconhecer Vassíli Andreitch , agarrou-se ao varal e , passando as mãos
por ele , chegou até ao trenó e sentou-se na boleia.
Era o mujique Issai , conhecido de Vassíli Andreitch e com fama, em
toda aquela zona, de grande ladrão de cavalos .
- Vassíli Andreitch ! Aonde vai , para onde o leva a vontade de Deus?
- perguntou Issai , soprando para a cara de Nikita o cheiro a vodca.
- Íamos a Goriátchkino .
- Ena, para onde se desviaram ! Deviam ter ido na direcção de Malá-
khovo .
- Pois devíamos . Mas não calhou - disse Vassíli Andreitch, fazen­
do parar o cavalo .
- O cavalinho é jeitoso - disse Issai observando-o e , com um gesto
maquinal , apertando-lhe o nó lasso mesmo na base da cauda espessa. -
Então , vão pernoitar cá?
- Não , amigo , temos de ir.
- Estou a ver. E este quem é? Ora, o Nikita Stepánitch !
- Sou, quem mais poderia ser? - respondeu Nikita. - Diz-nos lá,
querido amigo , como é que podemos seguir caminho sem nos perdermos
outra vez?
O Diabo e Outros Contos 63

- Ora, perderem-se ! Não , vira para trás , segue sempre em frente e,


quando acabar a rua, também em frente , não vires para a esquerda.
Quando chegares à estrada, então é que viras à direita.
- Mas em que sítio da estrada? No cruzamento de Verão ou no de In­
verno? - perguntou Nikita.
- No de Inverno . Há lá uns arbustos e, em frente deles , um marco
grande , de carvalho . . . É mesmo aí.
Vassíli Andreitch deu meia-volta e seguiu pela aldeia.
- Ficavam cá, pernoitavam aqui ! - gritou-lhes às costas o Issai .
Vassíli Andreitch não lhe respondeu , entretido em governar o cavalo .
Tinham pela frente cinco verstás de caminho raso , duas das quais pela
floresta. Parecia fácil , até porque o vento abrandara e caía menos neve .
Depois de fazerem de novo em sentido contrário a rua lisa ·e batida,
com manchas negras de estrume fresco aqui e ali , e de passarem mais
uma vez pelo quintal com a roupa estendida (a camisa branca já estava
pendurada só por uma manga gelada) , voltaram a sair para os salgueiros
que uivavam pavorosamente e viram-se em campo aberto . Ora, a nevas­
ca não só não abrandara como parecia ainda mais forte . O caminho era
um manto de neve uniforme e só pelos marcos era possível orientarem­
-se e saberem que não se desviavam. Mas também já era difícil enxergar
os marcos porque o vento e a neve os apanhavam de frente .
Vassíli Andreitch estreitava os olhos , inclinava a cabeça, procurava os
marcos , mas depositava a sua esperança sobretudo no cavalo , deixando­
-o andar à vontade . E o Z<lino lá ia pelas sinuosidades do caminho que
sentia debaixo das patas , ora à direita, ora à esquerda, sem se desviar do
rumo. Apesar de nevar cada vez mais e o vento soprar com mais força
ainda, os marcos de ambos os lados ainda se viam .
Andaram assim dez minutos até que , de repente , surgiu em frente do
cavalo uma coisa negra a mover-se no meio da rede oblíqua da neve
tocada pelo vento . Eram pessoas que seguiam na mesma direcção . O
Zaino j á as ultrapassara e batia com as patas contra as pírtigas do tre­
nó delas .
- Passa . . . pa-as-sa . . . passa para a frente ! - gritavam do trenó .
Vassíli Andreitch , enquanto manobrava o seu trenó , olhava para o dos
outros: iam lá três mujiques e uma mulher. Voltavam da festa, sem dúvi­
da. Um dos mujiques fustigava a garupa coberta de neve do cavalinho .
Os outros dois agitavam as mãos , gritavam. A mulher, toda agasalhada e
coberta de neve , encolhia-se , imóvel , na parte traseira do trenó .
- Donde são? - gritou-lhes Vassíli Andreitch .
64 Lev Tolstói

- De a-a-a . . . io ! - Foi mais ou menos isto que se ouviu .


- Donde?
- De a-a-a . . . io ! - voltou a gritar um dos mujiques a plenos pul-
mões , mas não foi possível perceber-se mais do que aquele som.
- Anda ! Não pares ! - gritava outro , não deixando de bater no cava-
lo com a vara.
- Voltam da festa, não?
- Vai , vai ! Força, Siomka ! Passa ! Força!
Os trenós entrechocaram os ganchos laterais , quase se engataram, de­
pois desprenderam-se , e o trenó dos mujiques começou a atrasar-se.
O cavalinho deles , felpudo e barrigudo , todo branco de neve , resfole­
gando sob o arco baixo e , como tudo indicava , aplicando as suas últimas
forças para fugir da vara fustigante , tropeçava com as patas curtinhas na
neve funda, lançando-as para baixo da barriga. O focinho, aparentemen­
te jovem, com o lábio inferior metido para dentro, como o de um peixe ,
com as narinas dilatadas e as orelhas apertadas de medo , manteve-se al­
gum tempo junto ao ombro de Nikita, depois ficou para trás .
- O que faz a bebida ! - disse Nikita. - Esfalfaram o animal até à
morte . Asiáticos de merda !
Durante alguns minutos ainda se ouviram as fungadelas do cavalo ex­
tenuado e os gritos bêbados dos mujiques , depois deixou de se ouvir o
cavalo a fungar, depois deixaram de se ouvir os gritos . Não se ouvia na­
da a toda a volta a não ser o assobio do vento nos ouvidos e , de vez em
quando , o rangido débil dos patins nos sítios em que o vento varrera a
neve do caminho .
O encontro com os festeiros divertiu e animou Vassíli Andreitch que
impeliu para a frente o cavalo com mais ousadia, sem atentar nos mar­
cos , confiando no animal .
Nikita, como sempre lhe acontecia quando não tinha nada que fazer,
dormitava, compensando as muitas horas de sono em atraso . De repente
o cavalo parou , e Nikita, afocinhando , por pouco não caiu .
- Parece que não vamos bem outra vez - disse Vassíli Andreitch .
- Porque diz isso?
- Não vejo os marcos . Saímos do caminho , acho eu .
- Se saímos , procura-se - limitou-se a dizer Nikita, levantou-se e ,
na passada ligeira dos seus pés cambados para dentro, pôs-se a andar pe­
la neve .
Andou muito , ora desaparecendo da vista, ora reaparecendo , até que
regressou finalmente .
O Diabo e Outros Contos 65

- Aqui não há caminho nenhum, talvez mais longe - disse ,


sentando-se no trenó .
Começava a escurecer. A nevasca não se agravava, mas também não
dava sinais de abrandar.
- Se ouvíssemos ao menos aqueles mujiques - disse Vassíli An­
dreitch .
- Não , atrasaram-se muito . Estamos longe , acho eu . À s tantas tam­
bém eles se perderam.
- Então, e agora, como é que a gente sai desta? - perguntou Vassí­
li Andreitch .
- Vamos deixar o cavalo andar - respondeu Nikita. - Ele encon­
tra. Dá cá a rédea.
Vassíli Andreitch cedeu com prontidão o comando da rédea, até por­
que , apesar das luvas quentes, as mãos começavam-lhe a gelar.
Nikita tomou conta da rédea, segurando-a ao de leve e tentando não a
mexer; admirava a esperteza do seu querido cavalinho . De facto , o inte­
ligente animal , virando ora uma orelha, ora outra, começou a executar
uma volta.
- Só lhe falta falar - comentava Nikita - , olha só para ele ! Vai , vai
à vontade , meu lindo ! Assim mesmo .
O vento começou a soprar-lhes pelas costas , o ar parecia menos frio .
- Esperto , hã - continuava Nikita, cheio de admiração . - O cava­
lo quirguize é forte mas estúpido . Mas este . . . Olha só para o trabalho de­
le com as orelhas ! Não é cá preciso telégrafo nenhum, ele sente as coi­
sas a uma légua . . .
Não tinha passado ainda meia hora e já lhes aparecia à frente uma
mancha: escura - floresta ou aldeia - , e do lado direito começaram de
novo a aparecer os marcos . Pois , tinham saído do caminho .
- Bolas , é outra vez Gríchkino - disse Nikita.
Sim, lá estava o celeiro à esquerda, com a neve a ser varrida pelo ven­
to , depois a mesma corda com a roupa gelada, as camisas e as calças que
continuavam a drapejar ao vento desvairadamente .
De novo entraram na rua da aldeia e , também desta vez , era tudo mais
calmo , mais quente , mais alegre , de novo o caminho manchado de es­
trume , de novo as vozes , as canções, o cão a ladrar. Já escurecera a pon­
to de se verem luzes nalgumas janelas .
A meio da rua , Vassíli Andreitch virou o cavalo para uma casa grande
de tijolo , de dois pisos , e parou à entrada.
66 Lev Tolstói

Nikita aproximou-se da janela coberta de neve e gelo, a luz que vinha de


dentro fazia brilhar os flocos esvoaçantes. Bateu com o cabo do chicote.
- Quem é? - ouviu-se uma voz .
- Somos de Kresti , querido amigo , os Brekhunov de Kresti - res-
pondeu Nikita. - Sai cá fora por um momento .
Viu-se o vulto da pessoa a afastar-se da janela, dois minutos depois
ouviu-se a porta do vestíbulo , depois o som da tranqueta da porta da rua
e, segurando a porta por causa do vento , assomou-se um mujique alto e
velho, de barbas brancas , casaco curto de pele de carneiro por cima da
camisa branca de gala, e atrás dele um rapaz de camisa vermelha e botas
de couro .
- És tu , Andreitch? - perguntou o velho .
- Perdemo-nos , amigo , como vês - disse Vassíli Andreitch . - Da
primeira vez, queríamos ir para Goriátchkino , viemos parar aqui . Da se­
gunda, a mesma coisa, voltámos a perder-nos .
- Grande desvio fizestes - disse o velho . - Petrukha, vai abrir o
portão ! - dirigiu-se ao rapaz da camisa vermelha.
- É para já - respondeu o rapaz num tom alegre e correu para o ves-
tíbulo .
- Mas não ficamos para dormir - disse Vassíli Andreitch .
- Aonde ides a esta hora? Já é noite , fica cá.
- Ficava com prazer, mas tenho de ir. Negócios , meu amigo , não pos-
so ficar.
- Ao menos aquecei-vos , o samovar está pronto - disse o velho .
- Aquecer está bem - aceitou Vassíli Andreitch . - Já não escurece
mais , e com a lua vai ficar mais claro . Vamos entrar, Nikita, vamos
aquecer-nos .
- Aquecer-nos um bocado , isso sim - congratulou-se Nikita que já
rapara muito frio e queria desentorpecer os membros regelados .
Vassíli Andreitch entrou com o velho na isbá, e Nikita, por indicação de
Petrukha, foi pôr o cavalo debaixo do alpendre do barracão. O chão do bar­
racão estava coberto de estrume, e o arco alto prendeu-se numa travessa.
As galinhas e o galo , já empoleirados na travessa, cacarejaram, descon­
tentes , e arranharam o poleiro com as patas . As ovelhas , incomodadas , ba­
tiam com os cascos no estrume gelado, e afastavam-se com brusquidão. O
cão começou a ganir alto , depois desatou aos latidos estridentes , à manei­
ra de um cachorro assustado e raivoso com o aparecimento de estranhos .
Nikita falou com todos: pediu desculpa à s galinhas , acalmou-as di­
zendo que não as incomodaria mais , admoestou as ovelhas por se assus-
O Diabo e Outros Contos 67

tarem por uma coisa de nada, e, sem qualquer pausa, chamou à razão o
cachorro enquanto atava o 'Zaino.
- Assim está bem - disse, sacudindo às palmadas a neve da roupa.
- Irra , que refilão ! - acrescentou , dirigindo-se ao cão . - Deixa!
Deixa-te disso, parvinho . Preocupas-te em vão . Nós não somos ladrões ,
somos gente d e bem . . .
- Existem três conselheiros domésticos , como reza o Paulson3 -
disse o rapaz, enquanto , com o braço possante , arrastava o trenó para de­
baixo do alpendre .
- Como assim, conselheiros? - perguntou Nikita.
- Então , é o que vem escrito no Paulson: o ladrão ronda a casa, o cão
ladra, é para ter cuidado . Se o galo canta, toca a levantar. Se o gato lava
o focinho, significa que vai chegar uma visita querida, então prepara-te
para a receberes - disse o rapaz sorrindo .
Petrukha era alfabetizado , sabia quase de cor o único livro que tinha,
o de Paulson, e gostava de citar as máximas adequadas a cada ocasião ,
principalmente se estava bebido , como hoje.
- É verdade - confirmou Nikita.
- Está com frio , tiozinho?
- Um bocado - respondeu Nikita. E, atravessando o quintal , foram
para a isbá.

A casa onde Vassíli Andreitch foi recebido era uma das mais ricas
da aldeia. A família possuía cinco lotes de lavoura, e ainda arrendava
outros . Havia seis cavalos , três vacas , dois vitelos , vinte ovelhas . Era
uma família de vinte e dois membros : quatro filhos casados , seis netos
(um deles já casado , o Petrukha, precisamente) , dois bisnetos , três ór­
fãos e quatro noras com filhos . Era uma das raras casas em que ainda
não se haviam feito as partilhas ; mas já começara o surdo e sub­
-reptício trabalho da discórdia, despoletado , como era costume , pelas
mulheres , e que em breve deveria levar inevitavelmente às partilhas .
Dois filhos viviam em Moscovo , eram aguadeiros , um servia na tropa.
De momento estavam em casa o velho , a velha , o segundo filho e o fi­
lho mais velho , vindo de Moscovo para as festas , e todas as mulheres
e crianças ; além dos familiares , havia dois convidados : um compadre
e um vizinho .
68 Lev Tolstói

Estava pendurado por cima da mesa um candeeiro com quebra-luz que


alumiava bem o serviço de chá, uma garrafa de vodca, os petiscos e as
paredes de tijolo , com ícones no canto da frente e gravuras de ambos os
lados dos ícones . No lugar de honra sentava-se Vassíli Andreitch , enver­
gando apenas um dos seus dois casacos de peles , chupando o bigode ge­
lado e observando tudo à sua volta - pessoas e casa - com os seus
olhos proeminentes de gavião . Abancavam ainda à mesa o velho dono da
casa, careca e de barbas brancas , vestindo uma camisa branca de fabrico
caseiro; ao lado , de camisa fina de chita, estava o filho chegado de Mos­
covo , um homem de costas e ombros robustos; a seguir o outro filho ,
também espadaúdo , que tratava da casa, e ainda o vizinho, mujique ma­
gro e ruivo .
Os mujiques , depois de terem comido e bebido, preparavam-se para
tomar chá, e o samovar já uivava no chão, ao lado do fogão . Nos bancos
e nos catres por cima do fogão estavam as crianças . Num banco , uma
mulher baloiçava o berço . A velha dona da casa, com a cara sulcada por
rugas minúsculas em todas as direcções , inclusive nos lábios , servia Vas­
síli Andreitch .
Quando Nikita entrou , a velha estava a encher um copinho de vidro
grosso e a oferecê-lo ao convidado .
- Desculpa, Vassíli Andreitch , tem de ser, é festa - dizia ela. - Be­
be , alminha.
A vodca diante dos olhos , aquele cheiro , sobretudo depois de ter ra­
pado tanto frio e estar tão cansado , deixou Nikita muito embaraçado .
Carregou o sobrolho e , sacudindo a neve do cafetã e do gorro, pôs-se
diante dos ícones e, como se não visse ninguém, benzeu-se e inclinou­
-se três vezes , depois virou-se para o dono da casa, fez-lhe uma vénia,
depois outra a todos os comensais , depois outra às mulheres junto do fo­
gão e, dizendo «boas-festas» , começou a tirar o cafetã, sem olhar para a
mesa.
- Chiça, estás todo gelado - disse o filho mais velho , olhando para
a neve e o gelo que cobriam a cara, os olhos e a barba de Nikita.
Nikita tirou o cafetã, sacudiu-o mais uma vez , pendurou-o junto do fo­
gão e aproximou-se da mesa. Ofereceram-lhe vodca. Durante um minu­
to , travou-se dentro dele uma luta dolorosa: por pouco não pegou no co­
pinho e não emborcou o líquido transparente e cheiroso; mas olhou para
Vassíli Andreitch , lembrou-se da promessa, das botas perdidas para com­
prar vodca, do tanoeiro , do filho a quem prometera comprar um cavalo
no início da Primavera, suspirou e recusou:
O Diabo e Outros Contos 69

- Não bebo , muito obrigado - disse, carrancudo , e sentou-se ao pé


da janela, no banco .
- Porquê? - perguntou o filho mais velho .
- Não bebo , pronto - disse Nikita sem levantar os olhos , observan-
do de soslaio o gelo a derreter no bigode e na barba ralos .
- Não pode , faz-lhe mal - disse Vassíli Andreitch , metendo à boca
uma rosquinha depois de ter bebido .
- Toma chazinho, ao menos - disse a velha num tom carinhoso .
- Apanhaste frio , coitado . Porque demorais tanto com o samovar, ra-
parigas?
- Está pronto - respondeu uma das jovens mulheres e , abanando o
avental por cima do samovar fumegante de vapor, carregou com ele a
grande custo, levantou-o e pousou-o ruidosamente na mesa. ·

Entretanto , Vassíli Andreitch contava como se tinham perdido , como


passaram duas . vezes pela mesma aldeia, como andaram às voltas , como
encontraram os festeiros bêbados . Os donos da casa espantaram-se , ex­
plicaram onde e porquê eles se tinham desviado e quem eram aqueles bê­
bados . Por fim ensinaram-lhes o caminho .
- Daqui até Moltchánovka até uma criança vai , basta não falhar o
cruzamento ao pé do arbusto . E vocês , aí, falharam ! - disse o vizinho .
- Passai cá a noite . As mulheres fazem-vos as camas - tentava
convencê-los a velha.
- Iam de manhãzinha, até era bom - apoiava-a o velho .
- Não posso , meu amigo . Negócios ! - escusou-se Vassíli Andreitch .
- À s vezes perde-se numa hora o que não se recupera num ano -
acrescentou , lembrando-se da floresta e dos negociantes que podiam -
interceptar-lhe a compra. - Temos de ir, não é? - dirigiu-se a Nikita.
Nikita demorou a responder, ocupado , aparentemente , a tirar o gelo do
bigode e da barba.
- Podemos perder-nos outra vez - disse , soturno .
Nikita tornara-se sombrio porque lhe apetecia até à loucura um copo
de vodca, e a única coisa capaz de lhe atenuar o desejo era o chá, mas
ainda não lho tinham dado .
- Não, o essencial é chegarmos ao cruzamento , e dali já não pode­
mos perder-nos: seguimos pela floresta dentro até ao cabo - disse Vas­
síli Andreitch .
- Vossemecê é que sabe . . . Vamos lá, então - disse Nikita, pegando
no copo de chá que finalmente lhe tinham servido .
- Tomamos chá e arrancamos .
70 Lev Tolstói

Nikita não disse nada, apenas abanou a cabeça e, deitando com cuida­
do o chá no pires , começou a aquecer no vapor os dedos inchados do tra­
balho . Depois , trincando um torrão minúsculo de açúcar, fez uma vénia
aos donos da casa e disse:
- À vossa saúde - e sorveu o líquido retemperador.
- Se alguém nos acompanhasse até ao cruzamento . . . - disse Vassí-
li Andreitch .
- Porque não? Pode ser - disse o filho mais velho . - O Petrukha
atrela e vai convosco .
- Vai lá então , meu amigo , vai atrelar. Fico-te muito agradecido.
- Ora essa, pombinho - disse a carinhosa velha. - É um prazer
ajudar-vos .
- Petrukha, vai atrelar a égua - mandou o filho mais velho .
- É para já - disse Petrukha com um grande sorriso. Arrancou o
chapéu do prego e correu para fora.
Enquanto atrelavam a égua, a conversa da família voltou ao ponto em
que tinha sido interrompida com a chegada de Vassíli Andreitch . O ve­
lho queixava-se ao vizinho , regedor da aldeia, de um filho , o terceiro,
que não lhe tinha mandado nada para as festas , só um lenço francês pa­
ra a mulher.
- Estes jovens , já não se pode com eles - dizia o velho .
- É bem verdade - anuiu o compadre - , não há nada a fazer com
eles . Ficaram todos inteligentes . Olha o Diómotchkin: partiu o braço ao
pai . Foi também por ser inteligente de mais , é de supor.
Nikita escutava, olhava para as caras deles e , provavelmente , também
gostaria de tomar parte na conversa, mas estava muito concentrado no
chá e apenas acenava aprovadoramente com a cabeça. Bebia copo atrás
de copo e sentia cada vez mais calor, cada vez mais prazer. A conversa
era demorada, o tema era sempre o mesmo: o mal das partilhas - e, pe­
los vistos , não era uma conversa abstracta mas incidia sobre as partilhas
concretas naquela casa, exigidas pelo segundo filho , sentado ali à mesa
num silêncio carrancudo . Era sem dúvida um ponto doloroso e que inte­
ressava a toda a família, mas , por conveniência, não se discutia aberta­
mente essa questão familiar na presença de estranhos . Por fim o velho
não aguentou e , com as lágrimas nos olhos , começou a dizer que não dei­
xaria repartir a casa enquanto fosse vivo , que a casa estava bem, graças
a Deus , mas logo que houvesse partilhas ficariam todos na miséria.
- Como os Matvéev - disse o vizinho . - Era uma casa boa, como
deve ser, fizeram as partilhas e agora ninguém tem nada.
O Diabo e Outros Contos 71

- É isso que tu queres - disse o velho ao filho .


O filho não respondeu , instalou-se um silêncio desconfortável . Quem
o quebrou foi o Petrukha que já atrelara a égua e voltara à isbá, alguns
minutos antes , sempre a sorrir.
- Sobre isso há uma fábula no Paulson - disse ele . - O pai deu aos
filhos uma vassoura, para a partirem. Tentaram parti-la de uma vez, mas
não conseguiram. Ora bem, raminho a raminho partiram-na com facili­
dade . Passa-se a mesma coisa aqui - disse com um grande sorriso . -
Estou pronto ! - acrescentou .
- Se estás pronto , então vamos - disse Vassíli Andreitch . - Quan­
to às partilhas , não cedas , avô . Tu é que ganhaste tudo , tu é que és o do­
no . Vai ao juiz de paz . Ele te dirá como é a lei .
- Ele insiste , não me deixa em paz - queixava-se o velho em voz
chorosa - , não se pode lidar com ele. Desvairou .
Nikita, entretanto , acabando o quinto copo de chá, não o virou de bo­
cal para baixo mas pô-lo de lado , com a esperança de que lhe enchessem
o sexto. Mas já não havia água no samovar e a dona da casa não o ser­
viu mais , além de que Vassíli Andreitch já começara a vestir-se . Nada a
fazer. Nikita levantou-se, voltou a pôr no açucareiro o seu torrãozinho de
açúcar já trincado em todos os lados , limpou com a aba do casaco a ca­
ra suada e foi vestir o cafetã. Depois de vestido suspirou gravemente e ,
despedindo-se e agradecendo aos donos d a casa, saiu do quarto quente e
cheio de luz para o átrio escuro, frio e a uivar com o vento que tentava
entrar e com a neve que se introduzia pelas frinchas das portas tremen­
tes ; dali saiu para o quintal em trevas .
Petrukha estava no meio do quintal à espera com a cavalgadura, ves­
tido de peliça, sorrindo e dizendo os versos do livro de Paulson: «A tem­
pestade tolda os ares, / a neve gira em torvelinho, / ora como a besta a
uivar, / ora num choro de menino .»4
Nikita acenava com aprovação e desenlaçava a rédea.
O velho , acompanhando Vassíli Andreitch até ao átrio , levou a lanter­
na para o alumiar mas o vento apagou logo a chama. Já no quintal era vi­
sível que a nevasca estava mais forte .
«Irra, que tempo - pensou Vassíli Andreitch - , está visto que não
chegamos lá . . . mas é preciso , negócio é negócio ! Ora, como já me ves­
ti e o cavalo já foi atrelado . . . Havemos de chegar, assim Deus o queira
e nos ajude ! »
O velho também pensava que não deviam meter-se ao caminho , mas ,
como já tentara dissuadi-los e não tinham dado ouvidos , não valia a pe-
72 Lev Tolstói

na insistir. «Se calhar tenho medo por ser velho , mas eles vão conseguir
- pensava. - Além disso , assim podemos deitar-nos a horas , sem mais
preocupaç ões .»
Quanto a Petrukha, não pensava no perigo: conhecia perfeitamente o ca­
minho e o resto do terreno, além disso os versos sobre a neve que gira em
torvelinho animavam-no porque exprimiam com exactidão o que estava a
passar-se na rua. Ora, no tocante a Nikita, não lhe apetecia mesmo nada
meter-se à estrada, mas havia muito que já estava habituado a não ter von­
tade própria e a servir somente os outros . Por isso ninguém tentava detê-los.

Vassíli Andreitch aproximou-se do trenó , enxergando-o a custo na­


quele escuro de breu, sentou-se e pegou na rédea
- Vai à frente ! - gritou .
Petrukha, com um joelho na tábua do trenó , mandou a égua arrancar.
O Zaino , que havia muito não parava de relinchar, cheirando-lhe a égua,
arrancou atrás dela, e ei-los que saíram para a rua. Voltaram pela mesma
rua, passaram pelo mesmo quintal com a mesma roupa gelada que já não
se via na corda, ao lado do mesmo barracão que já estava praticamente
enterrado em neve até ao telhado, continuando a despejar massas de ne­
ve sem fim; passaram ao lado dos mesmos salgueiros sombrios que ra­
malhavam, assobiavam e se dobravam, e mais uma vez entraram no mar
de neve que barafustava por cima e por baixo . O vento era tão forte que ,
quando soprava de lado , inclinava o trenó e empurrava o cavalo lateral­
mente . Petrukha ia à frente no trote balançado da sua égua forte e solta­
va gritos entusiasmados . O Zaino ia na perseguição da égua.
Depois de andarem assim dez minutos , Petrukha virou a cabeça e gri­
tou qualquer coisa. Nem Vassíli Andreitch nem Nikita o ouviram por
causa do vento. Adivinharam, porém, que tinham chegado ao cruzamen­
to . De facto , Petrukha virou para a direita, e o vento lateral tomou-se de
novo frontal , e à direita, através da neve , negrejou qualquer coisa. Era o
arbusto que assinalava o ponto de viragem.
- Cá estamos . Deus vos ajude !
- Obrigado , Petrukha !
- «A tempestade tolda os ares» - gritou Petrukha e desapareceu .
- Olha-me só para aquele versejador - disse Vassíli Andreitch e
mexeu a rédea.
O Diabo e Outros Contos 73

- Bom rapaz , sim senhor, um mujique a sério - disse Nikita.


Seguiram em frente .
Nikita, agasalhando-se e enfiando a cabeça entre os ombros , de modo
a que a barbicha lhe cobrisse o pescoço , ia calado , tentando não perder o
calor que acumulara com o chá. Diante dos olhos via a linha recta dos
varais que , a cada instante , o enganavam parecendo um caminho batido;
via a traseira do cavalo a menear-se , com a cauda atada em nó e puxada
para o lado pelo vento , a coxa, a garupa e, mais adiante , o arco alto , a ca­
beça a badalar, o pescoço com a crina drapejante . De vez em quando dis­
tinguia os marcos , o que o sossegava e garantia que , por enquanto , iam
pelo caminho e não tinha de fazer nada.
Vassíli Andreitch conduzia, deixando o cavalo seguir o caminho à
vontade . O Zaino , porém, apesar de ter descansado na aldeia, ia contra­
riado e parecia desviar-se do rumo , pelo que Vassíli Andreitch se via
obrigado , por várias vezes , a orientá-lo .
«Üra cá está, um marco à direita, outro , mais outro , e a floresta é já ali
adiante» , pensou quando lobrigou uma massa escura. Mas o que lhe pa­
receu ser a floresta era apenas um arbusto , e, vinte braças adiante , o
quarto marco não aparecia, a floresta também não . «Devia aparecer já a
floresta» , pensava Vassíli Andreitch e , excitado pela vodca e pelo chá,
tangia a rédea, e o animal , bondoso e obediente , não resistia e corria, ora
a passo esquipado , ora a trote quando o mandavam, embora soubesse
que não o mandavam onde era devido . Passaram mais dez minutos, da
floresta nem sombra.
- Perdemo-nos outra vez ! - disse Vassíli Andreitch, parando o cavalo.
Nikita apeou-se em silêncio e, segurando o cafetã que o vento ora lhe
abria e tentava arrancar, ora lhe colava ao corpo , foi pesquisar para a ne­
ve; para um lado, depois para o outro . Por três vezes desapareceu de vis­
ta. Por fim voltou e tirou as rédeas das mãos de Vassíli Andreitch .
- Temos de ir para a direita - disse severa e resolutamente , virando
o cavalo para esse lado .
- Está bem, então vai para a direita - cedeu Vassíli Andreitch e, en­
tregando as rédeas a Nikita, enfiou as mãos geladas para dentro das man­
gas .
Nikita não respondeu .
- Vai , amigo, vê se trabalhas um bocadinho - gritou Nikita ao Zai­
no, mas este, apesar das sacudidelas da rédea, insistia em ir a passo .
A neve , nalguns lugares , já lhe chegava ao jarrete e , a cada seu movi­
mento , o trenó avançava aos arrancas .
74 Lev Tolstói

Nikita pegou no chicote pendurado na parte frontal do trenó e fustigou


o cavalo . O 'Zaino, que não estava habituado ao chicote , arrancou a tro­
te, mas foi impulso de pouca dura porque logo voltou a andar esquipado
e a passo . Foram assim durante uns cinco minutos . Estava tão escuro e
os novelos de neve eram tão densos , por cima e por baixo , que às vezes
nem o arco se via. Outras vezes dava a impressão de que o trenó estava
parado e que o campo corria para trás . De chofre , o cavalo fez uma pa­
ragem brusca, sentindo pelos vistos alguma coisa má à sua frente . Niki­
ta voltou a saltar com ligeireza do trenó , largou a rédea e já se dirigia pa­
ra a dianteira do cavalo , para ver porque tinha parado , quando , mal deu
um passo , se sentiu a escorregar por um declive qualquer.
- Xô , xô , xô - dizia a si mesmo , rolando sem conseguir parar. Só
parou quando os pés se enterraram numa camada alta de neve acumula­
da no fundo do barranco .
Um monte de neve, em equilíbrio à beira da ravina, estremeceu com
a queda de Nikita e desmoronou-se em cima dele , entrando-lhe neve pe­
la gola dentro .
- Ai seu malandreco ! - disse Nikita ao monte de neve e ao barran-
co , num tom de censura, tirando a neve do pescoço .
- Nikita, Nikita! - gritava Vassíli Andreitch lá de cima.
Mas Nikita não respondia.
Não estava para isso; sacudia a neve da roupa, depois procurava o chi­
cote que deixara cair durante a queda. Depois de o encontrar, tentou tre­
par por onde tinha caído , mas não havia maneira: escorregava, sendo
obrigado a procurar saída no fundo do barranco . Conseguiu trepar a três
braças do sítio onde caíra, de gatas , a grande custo . Chegado acima, se­
guiu pela beira do barranco até ao lugar onde deveria estar o cavalo . Não
o viu , nem ao trenó; mas como andava contra o vento , ouviu , antes de os
ver, o grito de Vassíli Andreitch e o relincho do 'Zaino .
- Já vou, já vou . Não berreis ! - disse ele .
Só quando chegou muito perto viu o cavalo e , ao lado dele , qual gi­
gantone , Vassíli Andreitch .
- C ' um raio , onde diabo te meteste? Temos de voltar para trás . Nem
que seja outra vez para Gríchkino - começou a descompô-lo o patrão .
- Eu também gostaria de voltar, Vassíli Andreitch , mas voltar por on­
de? E como? Está ali um barranco tão fundo que , se cairmos lá, já não
saímos . Custou-me a sair, a mim.
- Mas não podemos ficar aqui parados . Temos de ir para qualquer la­
do - disse Vassíli Andreitch .
O Diabo e Outros Contos 75

Nikita não respondeu . Sentou-se no trenó de costas para o vento ,


descalçou-se e sacudiu a neve das botas; depois pegou num punhado de
palha e , com muito cuidado , tapou um buraco na bota esquerda.
Vassíli Andreitch calava-se , como se tivesse resolvido que , doravante ,
competiria a Nikita tomar as decisões . Depois de pôr em ordem o calça­
do , Nikita encolheu as pernas no trenó , calçou as luvas , pegou na rédea
e deu volta ao cavalo para ir com ele ao longo do barranco; mas ainda
não tinham dado cem passos e já o cavalo parava de novo . O barranco
atravessava-se-lhes à frente mais uma vez .
Nikita voltou a sair para a neve . Andou bastante . Por fim apareceu do
lado oposto .
- Andreitch, estão bem? - gritou .
- Estou aqui - respondeu o patrão . - Então?
- Não se percebe nada. Está escuro . Só barrancos . É preciso andar
outra vez contra o vento .
Puseram-se de novo a caminho, Nikita, a pé , voltou a explorar as re­
dondezas brancas de neve . Sentava-se no trenó , saía, voltava a sentar-se ,
até que , finalmente , parou ofegante ao lado do trenó .
- Então? - perguntou-lhe Vassíli Andreitch .
- Então , acontece que estou estafado . O cavalo também não quer an-
dar.
- O que vamos fazer?
- Espera um pouco .
Nikita voltou a desaparecer, mas voltou depressa.
- Vem atrás de mim - disse ele , pondo-se à frente do cavalo .
Vassíli Andreitch já não mandava , obedecia a Nikita.
- Atrás de mim ! - gritou Nikita, desviando-se para a direita, agar­
rando na rédea de Zaino e dirigindo-o algures para baixo, onde havia um
monte de neve .
O cavalo começou por resistir, mas depois arrancou, com vontade de ul­
trapassar o monte, mas não conseguiu e enterrou-se nele até à coelheira.
- Sai daí! - gritou Nikita a Vassíli Andreitch que continuava senta­
do no trenó, e , pegando num varal , começou a empurrar o trenó contra o
cavalo . - É difícil, amigo - dirigiu-se ao Zaino , mas tem de ser, faz
-

um esforço . . . vai , vai , só mais um bocadinho ! - gritou .


O cavalo deu um arranque , depois outro , mas não saiu do sítio e vol­
tou a sentar-se , como que a reflectir.
- Então , amigo? Mau, assim não vamos lá - Nikita tentava persua­
dir o Zaino . - Mais uma vez , força !
76 Lev Tolstói

Nikita pôs-se de novo a empurrar o varal do seu lado; Vassíli An­


dreitch fazia o mesmo do outro . O cavalo moveu a cabeça, e depois , de
repente , arrancou .
- Vai ! Vai ! Não tenhas medo que não te afogas ! - gritava-lhe Nikita.
Um arranco , um salto , outro e, por fim, o cavalo saiu do monte de ne­
ve e parou , resfolegando e sacudindo-se . Nikita queria depois avançar
em frente , mas Vassíli Andreitch , com as suas duas peliças vestidas , ha­
via perdido o fôlego e não podia andar; deixou-se cair dentro do trenó .
- Deixa-me retomar o fôlego - disse, afrouxando o lenço com que
na aldeia apertara a gola da peliça.
- Aqui ficas bem, deixa-te estar deitado - disse Nikita - , eu levo-
-o sozinho - e, com Vassíli Andreitch no trenó , levou o cavalo pela ré-
dea uns dez passos , depois mais um pouco , a subir, e parou .
O lugar onde Nikita parou não era uma depressão onde a neve varrida
dos montículos poderia sepultá-los por completo , pelo contrário, estava
parcialmente protegido do vento por uma das paredes do barranco . Havia
alturas em que o vento parecia abrandar um pouco , mas não era por mui­
to tempo e, como que para compensar essas tréguas , a tempestade volta­
va a investir com uma força decuplicada, batia e rodopiava ainda com
mais raiva. Uma rajada das fortes passou precisamente no momento em
que Vassíli Andreitch, depois de recuperar o fôlego , se apeou e se aproxi­
mou de Nikita para combinar o que iriam fazer. Ambos se encolheram ins­
tintivamente e esperaram até que a fúria da rajada abrandasse. O Zaino,
nada contente , também apertava as orelhas contra o crânio e sacudia a ca­
beça. Quando a rajada perdeu um pouco da sua violência, Nikita descal­
çou as luvas , prendeu-as à faixa e começou a desatar as rédeas do arco .
- O que estás a fazer? - perguntou Vassíli Andreitch .
- A desatrelar, o que mais posso estar a fazer? Não aguento mais -
disse Nikita, como que a desculpar-se .
- Queres dizer que não podemos sair daqui para qualquer lado?
- Não , só se matássemos o cavalo . Olha para ele, coitado , já não dá
conta de si - disse Nikita apontando para o cavalo obedientemente pa­
rado , resignado, respirando com dificuldade, com os flancos largos mo­
lhados . - Temos de pernoitar aqui - insistiu , como quem fala de uma
dormida na estalagem, e começou a desatar a correia da coelheira.
A coelheira abriu-se .
� Não vamos gelar aqui? - perguntou Vassíli Andreitch .
- Bom . . . Se gelarmos , paciência - respondeu Nikita.
O Diabo e Outros Contos 77

Vassíli Andreitch , com as suas duas peliças , estava bem quentinho , so­
bretudo depois de se ter esforçado naquele monte de neve; mesmo assim,
foi percorrido por calafrios nas costas quando percebeu que era necessá­
rio passar a noite no local . Para se acalmar, sentou-se no trenó e pôs-se
a procurar os cigarros e os fósforos .
Nikita, entretanto , desatrelava o cavalo . Desprendeu o ventrilho, o ci­
lhão , tirou a rédea e o arco , sempre a falar com o Z,a,ino , animando-o .
- Sai , sai - dizia, tirando-o dos varais . - Ficas aqui amarrado .
Tiro-te o freio, dou-te penso - assim falava com ele , fazendo o que es­
tava a dizer. - Vais petiscando, entreténs-te .
Mas os discursos de Nikita, pelos vistos , não acalmavam o ·Z,a,ino. Es­
tava inquieto, mexia as patas , encostava-se muito ao trenó , pondo-se de
garupa para o vento , e esfregava a cabeça contra a manga de Nikita.
Era como se o Z,a,ino não quisesse cometer a indelicadeza de recusar
a palha que Nikita lhe metia debaixo do focinho , por isso abocanhou
bruscamente um pouco , mas logo a largou , e o vento depressa a espa­
lhou , a levou e a cobriu de neve .
- Agora vamos fazer uma marca - disse Nikita, e virou o trenó de
frente para o vento e, atando os varais com o tirante , levantou-os e
puxou-os para a parte dianteira do trenó . - Assim, se a neve nos cobrir,
há-de haver boa gente que vai ver os varais e desenterrar-nos - disse
Nikita, batendo com as luvas e calçando-as . - Foi o que nos ensinaram
os velhos .
Vassíli Andreitch , entretanto , desatando a faixa e cobrindo-se com as
abas da peliça, riçava os fósforos de enxofre na caixinha de aço , uns atrás
dos outros , mas as mãos tremiam-lhe , os fósforos não ardiam ou eram
apagados pelo vento no momento em que os aproximava do cigarro . Por
fim houve um que se acendeu e , por momentos , alumiou-lhe o pêlo da
peliça, a mão com o cachucho de ouro no dedo anelar dobrado e a palha
de aveia a espreitar da serapilheira coberta de neve; o cigarro acendeu­
-se. Deu duas fumaças ávidas , engoliu o fumo , soltou-o através do bigo­
de, quis continuar a fumar mas o vento arrancou-lhe o cigarro dos dedos
e levou-o na mesma direcção da palha.
Mesmo assim, aquelas poucas fumaças animaram Vassíli Andreitch .
- Muito bem, passamos aqui a noite e acabou-se ! - disse com ar re­
soluto . - Mas espera lá, ainda vou fazer uma bandeira - disse ele pe­
gando no lenço que tinha atirado para dentro do trenó depois de o tirar
78 Lev Tolstói

do pescoço; descalçou as luvas , pôs-se de pé na dianteira do trenó,


esticou-se para apanhar o cilhão , atou com um nó forte o lenço ao lado
do varal .
O lenço começou de imediato a drapejar, ora colando-se ao varal , ora
inchando , esticando-se e estalando .
- Óptimo , está lindo ! - disse Vassíli Andreitch admirando o seu tra­
balho e sentando-se no trenó . - Juntos ficávamos mais quentes , mas
não cabemos os dois - disse ele .
- Eu arranjo lugar - respondeu Nikita - , mas é preciso cobrir o ca­
valo , está suado , coitadinho . Vá, levanta-te - acrescentou e puxou a se­
rapilheira de baixo de Vassíli Andreitch .
Dobrou-a e, tirando primeiro a retranca e o cilhão, cobriu o 7.aino com
ela.
- Assim ficas mais quentinho , meu parvo - ia dizendo ao cavalo en­
quanto voltava a pôr a retranca e o cilhão por cima da serapilheira. - O
senhor não precisa da esteira? Dê-me também alguma palha - disse Ni­
kita aproximando-se do trenó depois de ter tratado do cavalo .
Depois de ter extraído estas coisas de baixo de Vassíli Andreitch, Ni­
kita foi para trás do espaldar do trenó , cavou ali um buraco na neve,
acolchoou-o de palha, enterrou o gorro na cabeça até às orelhas , fechou
bem o cafetã e, depois de se cobrir com a esteira, sentou-se na palha e
encostou-se bem ao espaldar de casca de tília, de maneira a ficar bem
protegido do vento e da neve .
Vassíli Andreitch, vendo o que estava a fazer Nikita, abanou a cabeça
com desaprovação; de uma maneira geral , não aprovava a ignorância e a
estupidez dos mujiques; depois começou a acomodar-se para dormir.
Nivelou os restos da palha no fundo do trenó , pôs um reforço debaixo
de si e , metendo as mãos para dentro das mangas , encostou a cabeça num
canto da parte dianteira do trenó , o que o protegia do vento .
Não tinha sono . Deitado , pôs-se a pensar, sempre na mesma coisa, no
seu único objectivo , no sentido , no orgulho e na alegria exclusivos da sua
vida - o dinheiro que tinha acumulado e o que podia acumular ainda;
pensava no dinheiro que outras pessoas conhecidas tinham ganho e co­
mo , e de que maneira ele , Vassíli Andreitch, tal como essas pessoas , po­
dia ganhar ainda muito mais dinheiro . A compra da floresta de Goriách­
kino era para ele um assunto de enorme importância. Tinha a esperança
de um lucro imediato , talvez de dez mil rublos . E começou a avaliar de
cabeça a floresta que vira no Outono e a que contara todas as árvores
(num espaço de oito jeiras) .
O Diabo e Outros Contos 79

«Ü carvalho será para patins de trenó . Há as madeiras , é claro, mas


também a lenha, quase sete braças quadradas por jeira - dizia Vassíli
Andreitch para si mesmo . - No pior dos casos , cada jeira vai render ses­
senta rublos . Duzentas e vinte e quatro jeiras , cinquenta e seis centenas ,
mais outro tanto , cinquenta e seis dezenas , mais outro tanto ainda, mais
vinte e oito dezenas .» Via que o total ultrapassava os doze mil rublos
mas , sem ábaco , não conseguia calcular com exactidão . «Mesmo assim,
não lhe dou dez mil , dou-lhe oito , e tem de me abater as clareiras . Dou
algum ao agrimensor . . . cem ou cento e cinquenta rublos . . . para me me­
dir vinte jeiras de clareiras . Aí, o homem tem de ma ceder por oito mil .
Dou-lhe logo três mil de entrada, mão na mão , e ela larga-ma, de certe­
za - pensava, apalpando com o antebraço a carteira no bolso . - Só
Deus sabe como nos extraviámos . Devia ser aqui a floresta e a casa do
guarda. Se ao menos ouvíssemos os cães a ladrar . . . Mas , quando é pre­
ciso , os malditos não ladram.» Afastou a gola da orelha e pôs-se à escu­
ta: só se ouvia o mesmo assobio do vento, o drapejar e o estalar do len­
ço atado ao varal e a neve que fustigava o espaldar do trenó . Voltou a
agasalhar-se .
«Se eu soubesse tinha ficado lá a dormir. Bom, não interessa, vamos
amanhã. É só um dia perdido . Com este tempo , os outros também não
chegam lá.» E recordou que , no dia nove, o magarefe tinha de pagar pe­
los carneiros . «Ele próprio quer ir fazer o pagamento , mas se eu não es­
tiver em casa, a mulher não dá conta do recado . É muito tacanha, não sa­
be tratar com as pessoas - continuava Vassíli Andreitch a pensar,
recordando como a mulher não soubera comportar-se como era devido
com o chefe da polícia, convidado lá para casa. - Já se sabe . . . estas mu­
lheres ! Ao fim e ao cabo , ela viu alguma coisa na vida? Quando os meus
pais eram vivos , como era a casa? Nada de especial , era a casa de um
mujique abastado: um moinho , uma estalagem , mais nada. E eu , veja-se ,
o que consegui em quinze anos? Uma loja, duas tabernas , um moinho ,
uma eira, duas propriedades arrendadas , uma casa com celeiro e telhado
de ferro - recordava com orgulho . - Pois , não se compara com a casa
do meu pai ! Actualmente , quem é que toda a gente conhece nas redon­
dezas? O Brekhunov.»
«E porquê? Porque não paro de trabalhar, esforço-me , não sou como
os outros , uns mandriões que só fazem asneiras . Nem durmo de noite .
Chuvadas , nevões , seja o que for, saio de casa e vou onde tenho de ir. É
por isso que o negócio anda. Eles pensam que isto de ganhar dinheirinho
é uma brincadeira. Não , tens de ir lá aos sítios , tens de pôr a cabecinha a
80 Lev Tolstói

trabalhar. Tens de dormir em pleno campo , como eu , passar as noites em


branco e ao relento . É preciso pensar tanto que até a almofada se mexe
debaixo da cabeça - reflectia Vassíli Andreitch com orgulho . - Eles
acham que a gente se pode fazer alguém por sorte . Olha os Mirónov, che­
garam a milionários . E porquê? Trabalho , é preciso trabalhar. Quando é
assim, Deus ajuda. E se Ele nos der saúde , então tudo bem.»
E a ideia de que também podia tomar-se milionário como Mirónov
que começou do nada, subiu a pulso , emocionou-o tanto que sentiu von­
tade de falar com alguém. Mas não tinha com quem falar . . . Quando che­
gassem a Goriátchkino conversaria com o fidalgo , mostrava-lhe quem
era o Vassíli Andreitch .
«Irra, que ventania! A neve amortalha-nos aqui , às tantas amanhã já
não saímos de baixo dela» , pensou enquanto escutava as rajadas de ne­
ve puxadas a vento contra a dianteira do trenó , fustigando-a, abanando­
-a, dobrando-a. Soergueu-se e olhou para trás: na escuridão branca e on­
dulante apenas negrejava a cabeça do Zaino e o seu dorso coberto com a
serapilheira drapejante , e a cauda espessa com o nó; de resto , por todo o
lado - à frente , atrás - , sempre as mesmas trevas monótonas , brancas ,
ondulantes , matizadas (parecia que ora se aclaravam, ora se adensavam
ainda mais) .
«Fiz mal em dar ouvidos ao Nikita - pensava Vassíli Andreitch . -
Devíamos ter continuado a andar, havíamos de ir dar a qualquer lado.
Nem que fosse outra vez a Gríchkino , pernoitávamos lá em casa do Ta­
rass. Esta agora, passar aqui a noite ao relento ! Está bem , o que estava eu
a pensar e que era bom? Ah , pois: Deus recompensa-nos pelo trabalho , e
não cuida dos mandriões , molengões e parvos . Vamos fumar ! » Sentou­
-se , tirou a cigarreira do bolso , virou-se de barriga para baixo e , com a
peliça, tentou fazer uma barreira ao vento para acender o cigarro; mas o
vento encontrava por onde penetrar e apagava os fósforos uns atrás dos
outros . Por fim conseguiu acender um fósforo e começou a fumar. O fac­
to de ter vencido aquela luta deixou-o muito contente. Embora o cigarro
fosse mais fumado pelo vento do que por ele , conseguiu dar três boas fu­
maças , e isso voltou a animá-lo . Apoiou de novo as costas no espaldar,
agasalhou-se e, uma vez mais , pôs-se a recordar, a sonhar, até ao mo­
mento em que perdeu o sentido das coisas e mergulhou na modorra.
De repente , como se o tivessem empurrado com brusquidão , acordou .
Quer fosse o Zaino, a arrancar algum bocado de palha de baixo dele,
quer fosse alguma coisa dentro dele, o certo foi que se sentiu sacudido e
acordou , com o coração a bater com tanta força e rapidez que, parecia-
O Diabo e Outros Contos 81

-lhe , abanava e fazia estremecer o trenó . Abriu os olhos . À volta dele ,


sempre a mesma coisa mas , aparentemente , mais clara. «Está a clarear
- pensou ele - , já falta pouco para raiar a manhã.» Logo percebeu , po­
rém, que a Lua se mostrava e que aquela claridade era do luar. Soergueu­
-se , observou primeiro o cavalo . O Zaino estava de garupa contra o ven­
to e tremia todo . A serapilheira coberta de neve abrira-se de um lado , a
retranca descaíra, e a cabeça branca de neve , com o topete e a crina a es­
voaçarem, estavam agora mais à vista. Vassíli Andreitch dobrou-se e
olhou para trás do espaldar. Nikita mantinha-se na mesma posição em
que o vira ao deitar-se . A esteira que o agasalhava e as pernas estavam
cobertas com uma camada espessa de neve . «Oxalá que o homem não
morra de frio , tem uma roupinha tão fraca. Depois ainda me iam acusar
disso . Irra, que gente tão ignorante . É o obscurantismo , palavras para
quê .» , pensava Vassíli Andreitch e esteve quase para se levantar e tirar a
serapilheira do cavalo e cobrir com ela o Nikita, mas mexer-se e
levantar-se, com o frio que estava . . . e além disso também tinha medo
que o cavalo gelasse . «Para que o trouxe comigo? Tudo por causa da es­
tupidez da mulher ! - cogitava Vassíli Andreitch , lembrando-se da mu­
lher que não amava, e de novo rolou para o seu lugar, mais perto da fren­
te do trenó . «Ü meu tio , uma vez , também ficou à neve toda a noite -
lembrou-se - , e não lhe aconteceu nada. Já o Sevastian , quando o tira­
ram de dentro da neve - veio de repente à cabeça de Vassíli Andreitch
esse outro caso - , já estava morto , congelado como uma carcaça.»
«Se tivesse ficado a dormir em Gríchkino já não acontecia nada dis­
to .» E, fechando bem a peliça, de modo a que o calor do pêlo não se per­
desse por lado nenhum - pescoço , joelhos , pés - , fechou os olhos e
tentou adormecer de novo . Mas , por mais que tentasse , não o conseguia,
pelo contrário , uma espertina enérgica mantinha-o agitado e de olhos
abertos . Voltou ao cálculo dos lucros, do dinheiro que os outros lhe de­
viam , tornou a gabar-se a si mesmo , muito satisfeito consigo e com a sua
situação na vida, mas desta vez os seus devaneios eram interrompidos de
vez em quando pelo medo crescente que o invadia e pelo arrependimen­
to de não ter ficado a dormir em Gríchkino . «Teria sido tão bom: deita­
do ali , quentinho .» Virava-se e revirava-se , tentando acomodar-se, en­
contrar uma posição mais confortável e protegida do vento , mas
continuava a sentir-se incómodo; voltava a soerguer-se , mudava de posi­
ção , agasalhava melhor os pés , fechava os olhos e quedava-se imóvel .
Então , ou eram as pernas que estavam dobradas e os pés dentro das bo­
tas de feltro rijas que começavam a doer-lhe , ou era o vento que se in-
82 Lev Tolstói

traduzia no corpo , e Vassíli Andreitch , depois de se manter deitado al­


gum tempo , lembrava-se mais uma vez, arrependido e desgostoso de si
próprio , como poderia estar a descansar sossegado na isbá quente de
Gríchkino , voltava a soerguer-se , a virar-se , a agasalhar-se e a deitar-se
de novo .
A certa altura pareceu-lhe ouvir o canto longínquo dos galos . Alegrou­
-se , afastou a gola das orelhas e pôs-se à escuta com atenção , mas , por
mais que apurasse o ouvido , não havia nada além do vento a assobiar nos
varais e a agitar o lenço , e a neve a fustigar o espaldar do trenó .
Nikita continuava sentado e recostado na mesma posição , e não se
mexia, nem sequer respondeu a Vassíli Andreitch quando este , por duas
vezes , o chamou . «Este não se preocupa, está a dormir de certeza» , pen­
sou Vassíli Andreitch com desgosto , espreitando pela borda do espaldar
para o Nikita coberto de neve .
Ora, Vassíli Andreitch levantou-se e deitou-se umas vinte vezes . A
noite parecia-lhe não ter fim. «A manhã não deve tardar - pensou nu­
ma das vezes em que se soergueu , olhando à volta. - Vou ver as horas .
Se me descobrir apanho frio , mas pelo menos , quando vir no relógio que
não falta muito para amanhecer, já fico mais aliviado . E podemos come­
çar logo a atrelar.» No fundo da alma, Vassíli Andreitch sabia muito bem
que a manhã estava ainda longe , mas o medo cada vez maior levava-o a
iludir-se a si mesmo . Desprendeu com cuidado os colchetes da peliça e ,
metendo a mão dentro , demorou muito tempo à procura, até chegar ao
colete . Conseguiu tirar com dificuldade o relógio de prata com o esmal­
te às flores e tentou consultá-lo . Sem luz não se via nada. Voltou a pôr­
-se de bruços , apoiando-se nos joelhos e nos cotovelos , como fizera pa­
ra fumar, tirou os fósforos e começou a riscá-los . Com a prática, já fazia
as coisas com mais cuidado: apalpou e escolheu um fósforo com a cabe­
cinha de enxofre maior e acendeu-o à primeira. Com a chama sobre o
mostrador, olhou e não quis acreditar no que viam os seus olhos: os pon­
teiros marcavam apenas meia-noite e dez . Tinha ainda toda a noite pela
frente .
«Üh , que longa é a noite ! » , pensou Vassíli Andreitch , sentindo um ar­
repio nas costas . Voltou a fechar os colchetes , agasalhou-se e apertou-se
contra um cantinho do trenó , preparando-se para esperar com paciência.
De súbito , no meio do barulho monótono do vento , ouviu com nitidez
um novo som, um som vivo , que crescia gradualmente , até se tomar cla­
ro e distinto , começando depois a enfraquecer do mesmo modo paulati­
no . Não havia dúvidas: era um lobo . Uivava de tão perto que o uivo, tra-
O Diabo e Outros Contos 83

zido pelo vento, deixava imaginar como a alimária, mexendo as mandí­


bulas , modulava os sons da sua voz . Vassíli Andreitch afastou a gola e
escutou com atenção. O Zaino ouvia com a mesma atenção , orientando
as orelhas para o som e , quando o lobo deu por finda a sua ária, mexeu
as patas e bufou em sinal de advertência. Depois disto era que Vassíli An­
dreitch já não podia adormecer nem acalmar-se . Por mais que tentasse
enlevar-se nos seus cálculos , negócios , glória, dignidade e riqueza, o me­
do apoderava-se dele com uma força cada vez maior, e em todos os seus
pensamentos se imiscuía obsessivamente a ideia triste de que poderia ter
ficado a dormir em Gríchkino .
«Pro diabo a floresta, não faltam negócios . Ah , se eu tivesse ficado a
dormir lá! - lamentava. - Quem morre de frio é quem está bêbado , se­
gundo dizem - alertou-se . - E eu bebi .» E , ficando mais atento às sen­
sações que experimentava, começou a tremer, sem saber se era de medo
ou de frio que tremia. Tentava cobrir-se o melhor possível e continuar
deitado como antes, mas já não conseguia, nem estar quieto , o seu im­
pulso era levantar-se , fazer qualquer coisa para abafar aquele medo que
crescia dentro dele , um medo contra o qual se sentia impotente . Voltou a
tirar os cigarros e os fósforos - só lhe restavam três , os piores. Os três
desfizeram-se sem pegarem fogo .
«Para o diabo contigo , maldito ! » , insurgiu-se , sem saber contra quem,
e deitou fora o cigarro esmagado . Ia fazer o mesmo com a caixa de fós­
foros , mas interrompeu o gesto e meteu-a no bolso . Apoderou-se dele
uma inquietação tão grande que não podia ficar parado , não era capaz .
Saiu do trenó e , virando-se de costas contra o vento , voltou a atar a fai­
xa, ao nível das ancas , apertando-a com força.
«Para que hei-de ficar deitado à espera da morte? É montar a cavalo e
ala daqui para fora ! - passou-lhe de repente pela cabeça. - Assim, o
cavalo não pára. E ele - referia-se a Nikita - , em qualquer caso mor­
re . Mas também, que vida é a dele? Não tem razões para a lamentar, ao
passo que eu , graças a Deus , tenho motivos para viver. . . »
Desprendeu o cavalo, lançou-lhe as rédeas ao pescoço e tentou saltar­
-lhe para o lombo , mas as duas peliças e as botas tomavam-no tão pesa­
do que falhou . Subiu então para o trenó e tentou montar, mas este balan­
çava tanto que falhou de novo . À terceira tentativa, conseguiu:
aproximou o cavalo do trenó e , subindo depois com cuidado para a bor­
da da caixa, conseguiu deitar-se de barriga no lombo do cavalo . Parou
um pouco , arrastou o corpo uma vez, outra e , por fim, lançou a perna por
cima da garupa e sentou-se , apoiando os pés na correia da retranca. O ar-
84 Lev Tolstói

ranco do trenó acordou Nikita que se soergueu , e pareceu a Vassíli An­


dreitch que ele lhe estava a dizer qualquer coisa.
- Dar ouvidos a estes parvalhões , isso é que não ! Morrer assim, sem
mais nem menos , isso é que não , obrigado ! - gritou Vassíli Andreitch
e, entalando sob as coxas as abas da peliça batidas pelo vento , deu volta
ao cavalo e mandou-o na direcção em que lhe parecia situar-se a flores­
ta e a casa do guarda.

Nikita permanecia imóvel desde que se sentara, coberto com a esteira,


atrás do trenó. Como toda a gente que convive com a natureza e conhe­
ce a miséria, era paciente e capaz de esperar horas a fio , ou mesmo dias ,
sem se inquietar nem irritar. Tinha ouvido o patrão a chamá-lo , mas não
respondeu - porque não se queria mexer nem falar. Embora ainda guar­
dasse algum calor do chá que bebeu e se tivesse esforçado muito a andar
na neve funda, sabia que esse calor não daria para muito mais tempo e
que já não teria forças para se aquecer andando e mexendo-se , porque se
sentia tão cansado como um cavalo quando pára, por mais chicote que se
lhe aplique; ora, o dono sabe muito bem que lhe deve dar de comer para
ele recomeçar o trabalho. O pé de Nikita com a bota furada regelou, já
não sentia o polegar. Além disso , o corpo em geral estava a ficar-lhe ca­
da vez mais frio . Por todos os indícios , passou-lhe pela cabeça que po­
deria morrer essa noite, mas a ideia não lhe pareceu especialmente desa­
gradável nem assustadora. Não era desagradável porque a vida de Nikita,
ao invés de ser uma festa permanente , era um calvário de trabalho cons­
tante de que já começava a cansar-se . E não era muito assustadora por­
que, além dos patrões como Vassíli Andreitch, que servia neste mundo ,
se sentia dependente do patrão principal , o que o mandara para esta vida;
e sabia que, mesmo depois de morrer, ficaria sob a alçada desse patrão ,
um patrão que não o ofenderia. «É pena abandonar o habitual , o que nos
é querido? Nada a fazer, temos de nos habituar ao novo.»
«Pecados» , pensou Nikita, e lembrou-se das suas bebedeiras , do di­
nheiro que derretia nelas , de como ofendia a mulher, praguejava, não ia
à igreja, não cumpria os dias magros da abstinência nem o resto, o que
levava o padre a descompô-lo durante a confissão . «Pecados , é claro ,
mas será que fui eu que os inventei para mim? Não , de certeza que Deus
já me fez assim. Pecados , pronto . Nada a fazer.»
O Diabo e Outros Contos 85

Assim , depois de pensar num primeiro momento no que lhe poderia


acontecer nessa noite, não voltou a insistir nesses pensamentos , deixando­
-se levar pelas recordações que lhe surgiam espontaneamente: a visita de
Marfa e a pândega dos operários , como ele se recusou a beber, a isbá de
Tarass e as conversas sobre as partilhas, o filho, o 'Zaino que não teria frio
assim coberto com a serapilheira, o patrão que se virava e revirava no tre­
nó fazendo-o ranger. «Coitado, também deve estar arrependido de não ter
ficado lá a passar a noite - pensou. - A verdade é que, com a vida dele,
não apetece morrer. Não é como nós .» E todas as suas cogitações come­
çavam a entrelaçar-se, a emaranhar-se na sua cabeça, e Nikita adormeceu.
Ora, quando Vassíli Andreitch, ao montar o cavalo , abanou o trenó e
o espaldar a que Nikita se recostava, o patim bateu nele e acordou-o; Ni­
kita, contrariado , viu-se obrigado a mudar de posição . Endireitando a
muito custo as pernas donde caiu a neve acumulada, levantou-se e , de
imediato , um frio torturante atravessou-lhe o corpo todo . Ao perceber o
que se passava, gritou a Vassíli Andreitch que lhe deixasse a esteira que
cobria o cavalo , já inútil porque ele o montava.
Mas Vassíli Andreitch não parou e desapareceu no meio da poeira de
neve .
Quando se viu sozinho , Nikita ainda pensou por um momento no que
poderia fazer. Sentia que já não tinha forças para andar e procurar uma
aldeia; também já não se podia acomodar no mesmo sítio , porque entre­
tanto se cobrira de neve . Dentro do trenó também não ficaria mais quen­
te , uma vez que não tinha nada para se cobrir (o cafetã e a peliça já ti­
nham deixado de o aquecer) . Tinha tanto frio como se estivesse apenas
de camisa. Invadiu-o o terror. «Deus Nosso Senhor, Pai dos Céus ! » , mur­
murava ele , e a consciência de que não estava sozinho , de que alguém o
ouvia e não ia abandoná-lo tranquilizou-o. Suspirou fundo e , sem tirar a
esteira da cabeça , entrou no trenó e deitou-se no lugar do patrão .
No trenó também não conseguia aquecer-se . Tremia-lhe o corpo todo,
a princípio, e a pouco e pouco começou a perder a consciência. Não sa­
bia se estava a morrer ou a adormecer, mas sentia-se preparado para uma
e para a outra coisa.

Entretanto , Vassíli Andreitch , com os pés e com as rédeas , apressava


o cavalo na direcção que, por qualquer ignota razão , imaginava ser a flo-
86 Lev Tolstói

resta e a casa do guarda. A neve cegava-lhe os olhos , o vento parecia


querer detê-lo , mas lançava o corpo para a frente e, fechando constante­
mente a peliça e enfiando-a entre o corpo e o cilhão frio e desconfortá­
vel , não parava de incitar o cavalo . O Zaino , embora à sobreposse , avan­
çava com obediência e a passo esquipado na direcção que o dono
indicava.
Vassíli Andreitch andou uns cinco minutos sempre em frente (assim
lhe pareceu) , sem ver nada além da cabeça do cavalo e do deserto bran­
co , sem ouvir nada além do assobio do vento que fustigava as orelhas do
cavalo e a gola da sua peliça.
De chofre surgiu-lhe à frente uma mancha negra. O coração palpitou­
-lhe de alegria e precipitou-se para essa coisa escura, imaginando já as
paredes das casas da aldeia. Mas essa coisa não estava imóvel , mexia-se ,
e não era uma aldeia mas uma artemísia alta que surtia da neve e se do­
brava desvairada só para um lado pela força do vento sibilante . E, por
qualquer razão , à vista daquela artemísia martirizada pelo vento impla­
cável , Vassíli Andreitch estremeceu e pôs-se a incentivar o cavalo , sem
se dar conta de que , ao mandar o cavalo na direcção da artemísia, se afas­
tava muito do rumo anterior ao mesmo tempo que imaginava seguir pa­
ra a possível casa do guarda. Ora, o cavalo tinha sempre a tendência de
meter para a direita, mas Vassíli Andreitch orientava-o para a esquerda.
De novo viu a neve a enegrecer em frente dele . Animou-se , seguro de
que , dessa vez, era uma aldeia. Mas era outra artemísia, a marcar um li­
mite entre courelas . De novo se agitavam ao vento as ramagens secas ,
inspirando um medo incompreensível a Vassíli Andreitch . Mais ainda:
não era só a artemísia, espalhavam-se também por ali pegadas de cavalo
que a neve ia cobrindo . Vassíli Andreitch parou , inclinou-se , olhou:
aquelas pegadas só podiam ser as do seu próprio cavalo . Tinha andado
às voltas , e num espaço pequeno . «É o meu fim» , pensou e , para fugir
das garras do medo , pôs-se a instigar o cavalo ainda mais , perscrutando
a bruma branca em que imaginava ver pontinhos luminosos que desapa­
reciam mal tentava distingui-los melhor. A certa altura julgou ouvir lati­
dos de cães , ou uivos de lobos , mas os sons eram tão fracos e indefini­
dos que já não tinha a certeza de os ouvir ou de apenas os imaginar;
parado , começou a escutar sofregamente .
De repente um grito terrível e ensurdecedor soou-lhe mesmo dentro
dos ouvidos e tudo tremeu debaixo dele . Agarrou-se ao pescoço do ca­
valo , mas o pescoço do Zaino também tremia, e o grito terrível tornou­
-se ainda mais assustador. Durante alguns segundos , Vassíli Andreitch
O Diabo e Outros Contos 87

não conseguiu recompor-se e perceber o que acontecia. Era, simples­


mente , o seguinte: o Z,aino , fosse para ganhar ânimo , fosse a pedir so­
corro, relinchou na sua voz alta, sonora. «Porra, c'os diabos ! Assustou­
-me, o maldito cavalo ! » , disse Vassíli Andreitch . Porém , mesmo depois
de perceber o que o assustara, não conseguia dissipar o medo .
«Tenho de me acalmar, tenho de me controlar» , dizia para si mesmo ,
mas não conseguia conter-se e apressava o cavalo , sem notar que já ia na
direcção do vento e não contra. O seu corpo , sobretudo a parte que não
estava bem tapada e em contacto com o cilhão , doía-lhe de frio , as per­
nas e as mãos tremiam-lhe , entrecortava-se-lhe a respiração . Via-se a pe­
recer no meio daquele terrível deserto de neve e não vislumbrava qual­
quer meio de salvação .
Para cúmulo , o cavalo mergulhou bruscamente e, atolado na neve fun­
da, começou a debater-se e a perder o equilíbrio, escorregando para o la­
do . Vassíli Andreitch saltou , arrancando a retranca em que apoiava o pé
e o cilhão a que se agarrara quando saltou . Mal Vassíli Andreitch se
apeou , o cavalo conseguiu equilibrar-se, endireitar-se e arrancar, dar um
pulo , outro pulo e, com um relincho e arrastando consigo pela neve a se­
rapilheira caída e a retranca, desapareceu da sua vista e deixou-o sozinho
na neve . Vassíli Andreitch precipitou-se atrás dele, mas a neve era tão
funda e as duas peliças tornavam-no tão pesado que se enterrou na neve
até acima dos joelhos e , ao fim de vinte passos esforçados , perdeu o fô­
lego e parou . «Floresta, madeira para patins , renda, loja, tabernas , casa
com telhado de ferro , celeiro , herdeiro - pensava Vassíli Andreitch - ,
como é que tudo isso vai ficar sem mim? Como , como pode ser? É im­
possível ! » , relanceou-lhe na cabeça. Veio-lhe à memória, sem saber por­
quê, a artemísia abanada pelo vento pela qual passara, e dominou-o um
terror tão grande que deixou de acreditar que tudo aquilo fosse real .
«Não será um sonho?» , pensou, e pensou também que era melhor acor­
dar, mas não havia saída para o sonho . Era uma neve real que lhe chico­
teava a cara, o cobria todo e lhe gelava a mão direita (perdera a luva) , e
também aquele deserto onde se encontrava sozinho era real , como a ar­
temísia, à espera da morte inevitável , próxima e absurda.
«Rainha dos Céus , São Nicolau que nos ensina a temperança» - Vas­
síli Andreitch recordava a liturgia do dia anterior e o ícone de rosto es­
curo dentro do caixilho dourado , e as velas que vendia para que ardes­
sem diante desse ícone e que depois lhe devolviam, apenas um pouco
gastas , e que ele guardava na gaveta. E pôs-se a pedir a esse São Nico­
lau milagroso que o salvasse , prometendo-lhe um ofício litúrgico e ve-
88 Lev Tolstói

las . Mas logo percebeu clara e indubitavelmente que tudo isso - o íco­
ne, o caixilho, as velas , o sacerdote , a liturgia - era muito importante e
necessário lá, na igreja, mas que no meio da neve não o podia ajudar, que
entre as velas e a liturgia e a sua desastrosa situação actual não havia
nem podia haver qualquer ligação . «Não desanimar - pensou - , é pre­
ciso seguir as pegadas do cavalo , antes de a neve as cobrir completa­
mente - passou-lhe pela cabeça. - O cavalo vai mostrar-me o cami­
nho , e se calhar até vou conseguir apanhá-lo . E nada de pressas , porque
se me precipito , a desgraça ainda é pior.» Apesar da sua intenção de ir
com calma, Vassíli Andreitch desatou a correr em frente com precipita­
ção , caindo e levantando-se vezes sem conta. As pegadas do cavalo iam­
-se tornando quase imperceptíveis nos sítios onde a neve não era tão al­
ta. «Estou tramado - pensou Vassíli Andreitch - , se perco as pegadas
e não apanho o cavalo .» No mesmo instante , olhando em frente , viu uma
coisa negra. Era o Zaino, e não só o Zaino mas também o trenó e os va­
rais com o lenço pendurado . O cavalo , com a retranca e a serapilheira
descaídas para o lado , não estava no antigo lugar mas mais perto dos va­
rais e abanava a cabeça puxada para baixo pela rédea que pisava. Afinal ,
Vassíli Andreitch atolara-se na mesma depressão em que se tinha enter­
rado da outra vez , ainda com Nikita, quando o cavalo o levara para trás ,
até ao trenó; e tinha-se apeado , afinal , a não mais de cinquenta passos do
sítio em que estava o trenó .

Chegando a custo até junto do trenó , Vassíli Andreitch agarrou-se a ele


e ficou ali muito tempo , imóvel , tentando acalmar-se e retomar o fôlego .
Nikita não estava no lugar anterior mas , dentro do trenó , havia um alto
coberto de neve . Percebeu que era Nikita. O medo de Vassíli Andreitch
já se dissipara por completo e , de momento , se temia alguma coisa era
sentir aquele medo louco que experimentara quando , montado no cava­
lo , se vira sozinho no meio da neve . Era necessário não deixar que esse
medo o vencesse, e para isso tinha de fazer alguma coisa, ocupar-se com
alguma coisa. Então , pôs-se de costas para o vento e desatou a faixa. De­
pois , retomando um pouco o fôlego , sacudiu a neve das botas e da luva
esquerda (perdera a direita, irrecuperavelmente , devia estar algures en­
terrada na neve); a seguir voltou a atar a faixa nas ancas , apertando-a
muito , como costumava fazer quando saía para a entrada da loja a com-
O Diabo e Outros Contos 89

prar o grão trazido pelos mujiques , e dispôs-se a agir. O seu primeiro tra­
balho deveria ser libertar a pata do cavalo, o que fez, e , soltando a rédea,
voltou a prender o lii ino ao grampo de ferro da parte dianteira do trenó
e , quando foi para trás do cavalo pôr em ordem a retranca, o cilhão e a
serapilheira, notou qualquer coisa a mexer-se dentro do trenó e , logo a
seguir, viu a cabeça de Nikita a surgir do monte de neve que o cobria.
· Nikita, com um esforço sobre-humano - porque já estava certamente a
regelar - , soergueu-se e sentou-se, abanando a mão diante do nariz de
maneira estranha, como que a afugentar as moscas . Agitava a mão e di­
zia qualquer coisa (pareceu a Vassíli Andreitch que Nikita chamava por
ele) . Vassíli Andreitch largou a serapilheira, sem a ter ajeitado no lombo
do cavalo, e aproximou-se do trenó .
- O quê? - perguntou . - O que estás a dizer?
- Estou a mor. . . morrer, é isso - balbuciou Nikita com grande difi-
culdade . - O que eu tenho a receber. . . dá-o ao meu filho . Ou à minha
.
mulher. . . tanto faz .
- O que é que tu tens , estás com frio? - perguntou Vassíli Andreitch .
- Sinto que chegou . . . a minha hora . . . perdoa-me por amor de Cris-
to . . . - respondeu Nikita em voz chorosa e a agitar a mão em frente da
cara como se sacudisse as moscas .
Vassíli Andreitch ficou meio minuto petrificado , em silêncio; de re­
pente , num gesto tão resoluto como os que fazia no momento de concluir
um negócio , recuou um passo , arregaçou as mangas da peliça e, com am­
bas as mãos , começou a tirar a neve de cima de Nikita e do trenó . Feito
isso , Vassíli Andreitch desatou apressadamente a faixa, abriu a peliça,
empurrou Nikita e deitou-se em cima dele , cobrindo-o não só com a pe­
liça mas com todo o seu corpo ainda esquentado . Enfiou as abas da pe­
liça por baixo de Nikita, prendeu a bainha com os joelhos e ficou assim,
deitado de bruços , de cabeça encostada contra a dianteira do trenó , dei­
xando de ouvir os movimentos do cavalo e os assobios da nevasca, es­
cutando apenas a respiração de Nikita. Este deixou-se ficar muito tempo
imóvel, depois suspirou alto e mexeu-se .
- Assim está bem, e tu: ai que eu morro , ai que eu morro . Fica quie­
to, aquece-te, e nós então , é assim . . . - Começou a dizer Vassíli An­
dreitch .
Mas , para seu grande espanto , não foi capaz de continuar o discurso
porque os seus olhos se marejaram de lágrimas e o queixo lhe começou
a tremer. Deixou de falar, apenas engolia o que lhe apertava a garganta.
«Apanhei medo de mais, enfraqueci» , pensava. Aquela fraqueza de Vas-
90 Lev Tolstói

síli Andreitch, porém, não lhe desagradava, enchia-o até de uma alegria
muito especial que nunca antes sentira.
«Nós , então , é assim» , dizia para si mesmo , sentindo dentro dele uma
ternura inédita, solene . Esteve deitado assim muito tempo , limpando os
olhos com o pêlo do casaco e entalando debaixo dos joelhos a bainha que
o vento não parava de levantar.
Teve então um desejo muito forte de contar a alguém o seu estado de
alegria.
- Nikita - chamou-o .
- Estou bem, estou quentinho - respondeu este de baixo .
- Pois é , amigo , também já pensava que era o meu fim. Morrias tu,
morria eu . . .
E de novo lhe tremeu o queixo e se lhe encheram de lágrimas os olhos ,
e não conseguiu falar mais.
«Não faz mal - pensou . - Eu próprio sei tudo de mim, sei o que
sei .»
E deixou-se ficar assim muito tempo, calado .
Por baixo aquecia-o o calor de Nikita, por cima o da peliça; só as
mãos , com que segurava a peliça dos lados , e as pernas , que o vento in­
sistia em descobrir afastando as abas , começavam a esfriar. Sobretudo a
mão direita, a que não tinha luva. Mas não pensava nas pernas nem nas
mãos , só pensava em aquecer o mujique por baixo dele .
Olhou várias vezes para o cavalo e viu-lhe o dorso descoberto , a sera­
pilheira e a retranca tinham caído para a neve; devia levantar-se e ir aga­
salhar o cavalo , mas não tinha coragem de abandonar Nikita por um mi­
nuto que fosse nem de interromper o estado de alegria em que se
encontrava. Já não sentia medo nenhum.
«Apanhei-te , já não foges» , dizia para si mesmo, com a mesma gaba­
rolice que usava para falar das suas compras e vendas , querendo signifi­
car que ia salvar o mujique do frio .
Ficou assim deitado uma hora, duas horas , três horas , mas não sentia
o tempo a passar. Primeiro correram-lhe pela imaginação as sensações ,
tremendo-lhe diante dos olhos , as impressões da nevasca, dos varais, do
cavalo sob o arco, de Nikita debaixo dele; depois começaram a misturar­
-se as lembranças da festa, da mulher, do chefe da polícia, da caixa de
velas , e de novo Nikita, debaixo dessa caixa; a seguir visualizou os mu­
jiques a venderem e a comprarem, e as paredes brancas , e as casas com
telhados de ferro , sob os quais estava deitado Nikita; depois tudo se con­
fundiu , umas coisas penetravam nas outras , como as cores do arco-íris
O Diabo e Outros Contos 91

fundindo-se numa cor única e branca, todas as sensações se misturavam


num único nada, e depois Vassíli Andreitch adormeceu . Dormiu muito
tempo , sem sonhos , mas antes do amanhecer voltou a sonhar: estava ao
pé da caixa das velas e a mulher de Tíkhon pedia-lhe uma de cinco co­
peques para a festa, e ele queria pegar na vela e dar-lha mas as mãos não
lhe obedeciam, ficavam-lhe presas aos bolsos . Queria contornar a caixa
mas os seus pés não se mexiam, as galochas novas colavam-se ao chão
de pedra, era impossível levantá-las e tirar os pés de dentro delas . De re­
pente, a caixa de velas transformou-se em cama, e Vassíli Andreitch vê­
-se a si próprio deitado nela, ou seja, na sua cama, em sua casa. Está dei­
tado na cama e não consegue levantar-se , ora ele precisa muito de se
levantar porque deve estar quase a chegar Ivan Matveitch , o chefe da po­
lícia, e terá de ir com ele comprar a floresta ou endireitar os elevadores
do Z<lino . Pergunta então à mulher: «Diz lá, Nikoláevna, ele ainda não
chegou?» - «Não - diz ela - , ainda não veio .» E ouve um trenó a
aproximar-se da sua casa. Tem de ser ele . Não , não é , passou ao lado e
seguiu . «Nikoláevna, ouve , ele ainda não chegou?» - «Não chegou .»
Está na cama e não consegue levantar-se , sempre à espera, à. espera, e é
uma espera pavorosa e feliz . De repente , bafeja-o a felicidade: chega
aquele que esperava, mas já não é o chefe da polícia Ivan Matveitch mas
outra pessoa, exactamente a pessoa que esperava. Chegou e chama por
ele , exactamente a mesma pessoa que o chamou e o mandou deitar-se em
cima de Nikita. E Vassíli Andreitch está contente por alguém ter vindo
buscá-lo . «Já vou ! » , grita ele com alegria, e o seu grito acorda-o . Mas
Vassíli Andreitch acorda como uma pessoa diferente da que tinha ador­
mecido . Quer levantar-se e não pode; quer mexer o pé , também não po­
de . Quer virar a cabeça - nem isso pode . Fica surpreendido com isso ,
mas nada triste . E lembra-se de que Nikita está deitado debaixo dele , já
aquecido, vivo , e ele próprio é Nikita, e Nikita é ele , e a vida não está ne­
le , Vassíli Andreitch , mas em Nikita. Apura o ouvido e ouve a respiração
e até o ressonar suave de Nikita. «Se o Nikita está vivo , então eu tam­
bém estou» , afirma para si mesmo triunfalmente .
E recorda o dinheiro , a loja, a casa, as compras , as vendas e os milhões
dos Mirónov. É difícil para ele saber por que razão esse homem chama­
do Vassíli Brekhunov fazia o que fazia. «Pois , ele não sabia as coisas -
pensa ele de Vassíli Brekhunov. - Não sabia como eu sei agora. Agora
já não há erro . Agora sei.» E volta a ouvir a voz daquele que o tinha cha­
mado . «Já vou , já vou ! » , grita todo o seu ser com alegria e ternura. E sen­
te que está livre e que nada mais o retém.
92 Lev Tolstói

E Vassíli Andreitch já não via, nem ouvia, nem sentia mais nada nes­
te mundo .
A toda a volta voavam as mesmas nuvens de neve . Rodopiavam os
mesmos turbilhões de neve , cobrindo a peliça de Vassíli Andreitch mor­
to , cobrindo o 'Zaino sacudido pelos tremores , cobrindo o trenó quase en­
terrado na neve e, no fundo dele , o Nikita aquecido , debaixo do seu pa­
trão morto .

10

Perto do amanhecer, Nikita acordou . Acordou-o o frio que voltava a


penetrar-lhe nas costas . Sonhou que voltava do moinho , com uma carro­
ça carregada de farinha do patrão , e , quando atravessava um riacho ,
desviou-se sem querer da entrada da ponte , e a carroça atolou-se . Deitou­
-se então debaixo da carroça e, endireitando as costas , tentou levantá-la
em peso . Mas , coisa estranha, a carroça fica-lhe colada às costas , não se
mexe , e Nikita não consegue levantá-la nem sair debaixo dela! Esmaga­
-lhe os rins . E é tão fria! Ora, é preciso tentar sair. «Chega - diz ele a
alguém que está a empurrar-lhe as costas para baixo - , descarrega os sa­
cos ! » Mas a carroça esmaga-o e fica cada vez mais fria. De repente ,
qualquer coisa bate , Nikita acorda e lembra-se de tudo . A carroça fria é
o patrão morto e gelado em cima dele . E a pancada que se ouviu , duas
vezes , foi o 'Zaino a bater com os cascos contra a carro ça.
- Andreitch , Andreitch , ouve ! - diz Nikita, a medo , ao patrão , pres­
sentindo já a verdade e retesando as costas .
Mas Vassíli Andreitch não responde , e as suas pernas e barriga estão
duras , frias e pesadas .
«Faleceu , então . Que Deus o guarde em paz ! » , pensa Nikita.
Vira a cabeça, escava a neve diante da cara e abre os olhos . É dia, o
vento silva nos varais como antes , a neve cai na mesma com abundân­
cia, com a única diferença de que já não fustiga o trenó mas cobre-o si­
lenciosamente , e também ao cavalo , amontoando-se mais e mais, e já
não se ouve o cavalo a mexer e a respirar. «Ü 'Zaino também morreu de
frio» , pensa Nikita. Sim, era verdade , e as pancadas no trenó que acor­
daram Nikita eram dos cascos do 'Zaino regelado no seu esforço agónico
de se manter de pé.
«Deus Nosso Senhor, então é isso , estás também a chamar-me - diz
Nikita mentalmente . - Seja feita a Tua santa vontade . Mas é pavoroso.
O Diabo e Outros Contos 93

Bom, morte há só uma, e ninguém lhe escapa. Mas que seja depressa . . » .

E Nikita esconde a mão , fecha os olhos e mergulha na modorra, perfei­


tamente convencido de que chegara a hora da sua morte .
Só à hora do almoço os mujiques desenterraram com estadulhos Vas­
síli Andreitch e Nikita, a trinta braças do caminho e a meia verstá da al­
deia.
A neve amontoara-se em cima do trenó e já o cobria, mas ainda se
viam os varais e o lenço . O 'Ztlino, enterrado na neve até à barriga, com
a retranca e a serapilheira caídos , estava todo branco e encostava a ca­
beça morta ao pescoço hirto; das narinas pendia-lhe gelo , os olhos tam­
bém estavam cobertos de geada e sincelo, como se fossem lágrimas . Só
naquela noite , emagreceu tanto que ficou esquelético . Vassíli Andreitch
estava gelado como uma carcaça e tinha as pernas abertas - foi assim
que o tiraram de cima de Nikita. Os seus olhos , proeminentes como os
de um açor, e a boca aberta, sob o bigode aparado , estavam cheios de ne­
ve. Ora, o Nikita estava vivo , embora todo queimado pelo frio . Quando
o acordaram, estava convencido de que já não era deste mundo e que tu­
do o que estava a acontecer-lhe decorria no além. Quando ouviu os gri­
tos dos mujiques que tiravam o Vassíli Andreitch gelado de cima dele e
o desenterravam, Nikita, em primeiro lugar, ficou espantado ao ver que
os mujiques do além gritavam da mesma maneira que os mujiques terre­
nos e que os seus corpos e aparências eram iguais; mas quando percebeu
que estava ainda neste mundo , ficou mais triste do que contente , sobre­
tudo ao sentir que o gelo lhe queimara os dedos de ambos os pés .
Nikita ficou dois meses no hospital . Amputaram-lhe três dedos , os ou­
tros sararam, logo podia trabalhar. Viveu ainda vinte anos - primeiro
como trabalhador à jorna e , depois de velho , como guarda. Morreu este
ano , em casa dele , como desejava, sob a protecção dos ícones e com uma
vela de cera na mão . Antes de morrer pediu perdão à sua velha e , por sua
vez , perdoou-lhe aquele seu caso com o tanoeiro; despediu-se do filho e
dos netos , e morreu sinceramente feliz por ter libertado o filho e a nora
de uma boca a mais para alimentar, e de ele próprio se libertar de uma
vida que já aborrecia e entrar noutra que , com o passar dos anos , se lhe
tinha tornado cada vez mais atraente e promissora. Estará melhor ou pior
lá, onde acordou depois de ter morrido verdadeiramente, ter-se-á desilu­
dido ou terá encontrado precisamente o que esperava? . . . Todos nós o sa­
beremos , não vai tardar muito .
O PADRE SÉRGUI

Na década de 1 840 , em Petersburgo , ocorreu um acontecimento que


espantou o mundo: um belo homem, príncipe , comandante do esquadrão
imperial do regimento de couraceiros , a quem unanimemente se predizia
uma carreira brilhante de ajudante-de-campo junto do imperador Nico­
lau 1, apresentou o pedido de passagem à reserva e, um mês antes do
aprazado casamento , rompeu com a noiva, uma belíssima dama da corte
que gozava dos favores especiais da imperatriz; entregou a sua pequena
herdade à irmã e foi para um mosteiro , com a intenção de tomar hábito .
O acontecimento parecia extraordinário e incompreensível para as
pessoas que não conheciam as suas causas íntimas , mas para ele próprio ,
príncipe Stepan Kassátski , tudo era tão natural que nem sequer imagina­
va que pudesse proceder de outra maneira.
O pai de Stepan Kassátski , coronel da guarda imperial na reserva,
morreu quando o filho tinha doze anos . Por mais penoso que fosse para
a mãe separar-se do filho , não ousou desrespeitar a vontade do defunto
marido que decidira o seguinte: quando morresse , o filho não deveria
manter-se em casa mas ser colocado na escola militar. E, assim, a mãe
mandou o filho para a escola militar. A seguir, a viúva mudou-se para Pe­
tersburgo com a filha Varvara, para poder estar perto do filho e recebê­
-lo em casa nos feriados .
O rapaz destacava-se pelas suas capacidades brilhantes e por um
amor-próprio sem limites , o que o levou a ser sempre o primeiro tanto
em ciências , sobretudo em matemática, a sua matéria preferida, como
nos exercícios militares e na equitação . Apesar da sua estatura acima da
média, era bonito e ágil . E poderia ser também um aluno exemplar no
96 Lev Tolstói

respeitante ao comportamento se não fosse o seu carácter explosivo . Não


bebia, não alinhava na devassidão e era espantosamente verdadeiro , e só
não era um perfeito exemplo porque , de quando em vez, tinha ataques de
ira em que perdia por completo o controlo e se tomava uma fera. Uma
ocasião , por pouco não atirou pela janela um colega que se lembrou de
ironizar sobre a sua colecção de minerais . Noutra, pouco faltou para pôr
fim à sua carreira: arremessou uma travessa de costeletas contra o ecó­
nomo e atirou-se a um oficial a quem bateu , dizia-se , porque este menti­
ra na sua cara desdizendo-o quanto às palavras que proferira. Seria de
certeza despromovido a soldado se o director não tivesse abafado o caso
e despedido o ecónomo .
Aos dezoito anos terminou o curso com a patente de oficial e foi co­
locado no aristocrático regimento da guarda imperial . O imperador Ni­
colau já o conhecia da escola e continuou a distingui-lo no regimento ,
pelo que lhe vaticinavam a promoção a ajudante-de-campo da corte. E
Stepan Kassátski ansiava por isso , não só por ambição mas sobretudo
porque , já desde os tempos da escola, adorava, mas adorava mesmo, o
imperador. De cada vez que Nicolau 1 visitava a escola - o que aconte­
cia com frequência - e entrava por ali adentro, com passo enérgico ,
aquela figura alta e fardada, de peito inchado , nariz aquilino , bigode e
suíças aparados , cumprimentando os pupilos com uma voz potente, Kas­
sátski experimentava a exaltação de um apaixonado , a mesma que iria
sentir ulteriormente quando encontrava uma mulher amada. Mas a ad­
miração apaixonada pelo imperador era mais forte . Tinha vontade de lhe
mostrar a sua abnegação ilimitada, sacrificar por ele alguma coisa,
sacrificar-lhe a própria vida. E Nicolau sabia que despertava essa admi­
ração e incitava-a de propósito . Brincava com os pupilos , reunia-os à sua
volta e tratava-os ora com uma simplicidade infantil , ora amigavelmen­
te , ora com solenidade majestosa. Depois do último escândalo de Kas­
sátski , com o oficial , Nicolau não lhe fez qualquer observação , mas
quando o rapaz se aproximou muito dele, afastou-o com um gesto teatral
e, carregando o sobrolho , brandiu o dedo para ele; depois , quando se des­
pedia, disse:
- Fique sabendo que estou a par de tudo mas não quero saber de cer­
tas coisas . Mas guardo-as aqui .
E apontou para o coração .
E quando compareceram diante dele os recém-formados da escola mi­
litar, já não mencionou o assunto , limitou-se a dizer, como de costume ,
que podiam sempre dirigir-se a ele , que seria o melhor amigo deles em
O Diabo e Outros Contos 97

todas as ocasiões e que o servissem fielmente e à pátria. Todos se como­


veram, como era habitual , enquanto Kassátski , lembrando-se do passa­
do , chorou e fez a promessa de servir o adorado czar com todas as suas
forças.
Quando Kassátski entrou no regimento , a mãe e a irmã mudaram-se
para Moscovo , primeiro , e depois para a aldeia. Kassátski doou à irmã
metade da sua fortuna. O resto dava-lhe à justa para o seu mantimento
no regimento de luxo em que servia.
Aparentemente , Kassátski não fugia da norma do oficial da guarda do
imperador: jovem, brilhante , esforçando-se por fazer carreira; no seu ín­
timo , porém, fervilhava qualquer coisa complicada e tensa. Essa tensão
- que tinha desde a infância, aliás - , era por certo muito diversificada,
mas na essência resumia-se a isto: alcançar a perfeição e o êxito em tu­
do aquilo com que lidava, provocando os louvores e a admiração dos ou­
tros . Quando se tratava dos estudos , da ciência, lançava mãos ao traba­
lho com afinco e era louvado e apontado como exemplo . Logo que
atingia um objectivo , lançava-se noutro . Foi assim que conseguiu o pri­
meiro lugar nos estudos; foi assim que, ainda na escola militar, vendo
que se portara desajeitadamente numa conversação em francês ,
esforçou-se tanto que passou a dominar o francês como dominava o rus­
so; foi assim que , também na escola, aprendeu a jogar xadrez e se tornou
um jogador excelente .
Além da vocação principal na sua vida - servir o czar e a pátria - ,
tinha sempre um objectivo específico a que se entregava de corpo e al­
ma, por mais insignificante que fosse , vivendo só para ele até o atingir.
E, mal o conseguia, passava logo para outro que substituía o anterior. As­
sim, logo que foi promovido a oficial , colocou-se como finalidade al­
cançar a máxima perfeição no conhecimento do serviço , e rapidamente
se tornou um oficial exemplar, embora continuasse a sofrer do mesmo
defeito da irritabilidade desenfreada que , também no serviço , o levava a
cometer acções feias e que prejudicavam a sua própria ascensão . A cer­
ta altura, numa conversa num círculo da alta sociedade , notou que havia
lacunas na sua cultura geral; pois bem, logo se impôs o desígnio de a en­
riquecer, e , atirando-se aos livros , alcançou o que determinara nesse par­
ticular. Depois foi dominado pela ideia de conseguir uma posição bri­
lhante na sociedade aristocrática, e foi assim que aprendeu a dançar na
perfeição , não tardando a ser convidado para todos os bailes e serões da
alta sociedade. Mesmo assim, não estava satisfeito: habituara-se ao pri­
meiro lugar e, neste caso , não o ocupava, longe disso .
98 Lev Tolstói

Naquela época, a alta sociedade , na minha opinião, era constituída, co­


mo sempre e por todo o lado , por quatro espécies de pessoas: 1 - ricas
e cortesãs; 2 - menos ricas mas que viviam na corte desde o nascimen­
to; 3- ricas que procuravam a protecção dos cortesãos para entrarem na
corte; 4 - menos ricas e não cortesãs que procuravam a protecção das
primeiras e das segundas . Kassátski não pertencia aos dois primeiros cír­
culos , mas era recebido com prazer nos últimos . Ao entrar na alta socie­
dade colocou-se um objectivo: ter relações com uma senhora dessa so­
ciedade . E conseguiu-o com uma rapidez inesperada. Porém, não tardou
a perceber que os círculos que frequentava eram de nível inferior, e que
existiam os de nível superior, próximos da corte , onde Kassátski , apesar
de bem recebido, era um estranho . Tratavam-no com cortesia, mas
davam-lhe a entender que não pertencia àquele lugar. Pois bem, Kassáts­
ki almejou ascender também ao círculo superior. Para isso tinha de se tor­
nar ajudante-de-campo da corte - do que estava à espera - , ou casar­
-se no seio desse círculo . E decidiu fazê-lo escolhendo uma menina, uma
autêntica beldade , dama da corte, que não só pertencia à sociedade em
que ele pretendia entrar mas com a qual toda a gente alta e solidamente
colocada nessa sociedade superior queria ter boas relações . Era a con­
dessa Korotkova. Não foi apenas por razões de carreira que Kassátski co­
meçou a cortejar Korotkova, mas porque a menina era muitíssimo atraen­
te e Kassátski apaixonou-se por ela rapidamente . A princípio a condessa
tratava-o com frieza, mas depois tudo mudou de repente: começou a ser
carinhosa, a mãe dela convidava-o com insistência a visitá-las .
Kassátski fez o pedido de casamento , logo aceite . Ficou espantado
com a facilidade com que acedera a uma tal ventura e com alguma es­
tranheza pelo comportamento tanto da mãe como da filha. Estava tão
loucamente apaixonado e deslumbrado que não notou o que toda a cida­
de conhecia: um ano atrás , a sua noiva era amante de Nicolau 1 .

Duas semanas antes do dia marcado para o casamento , Kassátski


encontrava-se na casa de campo da noiva, em Tsárskoe Seló . Era o mês
de Maio, o dia era de calor. Os noivos passearam pelo jardim e sentaram­
-se num banco da alameda de tílias sombreada. Mary, de vestido de mus­
selina branca, estava particularmente bonita. Uma personificação da ino­
cência e do amor. Estava ali sentadinha, ora cabisbaixa, ora lançando
O Diabo e Outros Contos 99

olhares para o belo gigante que lhe falava com grande ternura e punha
muito cuidado em cada gesto , receando insultar, profanar a pureza ange­
lical da sua noiva. Kassátski pertencia àquele tipo de homens dos anos
quarenta, hoje em dia inexistentes , que não condenavam para si próprios
- e até aceitavam conscientemente - as relações sexuais impuras , mas
exigiam uma pureza ideal e celestial à esposa e reconheciam em todas as
meninas do seu círculo essa mesma pureza, tomando para com elas a ati­
tude correspondente.
Esse ponto de vista, ao permitir a devassidão masculina, era sem dúvi­
da errado e nocivo; por outro lado , no respeitante às mulheres , enquanto
visão claramente oposta ao dos jovens actuais que vêem em cada mulher
ou rapariga uma fêmea à procura de macho , entendo que era útil . As ra­
parigas , vendo essa divinização de que eram alvos , tentavam,. na medida
do possível , ser deusas . Kassátski , como também era adepto deste ponto
de vista, encarava a sua noiva de acordo com ele. Naquele dia sentia-se
especialmente enamorado e sem qualquer impulso sensual em relação à
noiva, pelo contrário, olhava para ela como para algo inacessível .
O corpulento rapazão ergueu-se então diante dela, apoiando-se no sa­
bre com as duas mãos , e disse:
- Só agora conheço a enorme felicidade que um homem pode expe­
rimentar. E é a menina, és tu - disse , sorrindo com timidez - , que me
proporciona essa felicidade .
Naquela fase ainda não se acostumara ao «tu» e , olhando para a noi­
va de baixo para cima no sentido moral , tinha medo de conspurcar aque­
le anjo com o «tu» .
- Foi graças a . . . ti que fiquei a conhecer-me melhor; e concluí que
era melhor do que pensava.
- Sei isso há muito . Foi por isso que comecei a amá-lo .
Um rouxinol trinou perto deles , a brisa fazia bulir ao de leve a folha­
gem fresca.
Kassátski pegou na mão dela e beijou-lha, as lágrimas marejaram-lhe
os olhos . Ela percebeu que Kassátski estava a agradecer-lhe por ela ter
dito que o amava. Ele deu alguns passos , calado , depois aproximou-se do
banco , sentou-se .
- A menina sabe, enfim, tu sabes . . . bom, não interessa . . . que eu não
agi desinteressadamente quando me aproximei de ti , o meu fito era esta­
belecer relações na alta sociedade , mas depois , quando te conheci . . . isso
tomou-se tão fútil para mim. Não ficas zangada comigo por causa disso?
Ela não respondeu , apenas lhe tocou na mão .
1 00 Lev Tolstói

Ele percebeu: «não , não fico zangada» .


- Ouve, acabaste de dizer. . . - Hesitou, achando que ia dizer uma coi­
sa demasiado atrevida. - Disseste que já me amas , e eu acredito em ti, mas,
desculpa, há qualquer coisa que te preocupa, que te incomoda. O que é?
«Agora ou nunca - pensou ela. - De qualquer maneira, chegará o
dia em que ele vai saber. Mas agora não me vai abandonar. Ah , será ter­
rível se ele me abandonar! »
E envolveu num olhar temo toda a sua grande , potente e nobre figura.
Já o amava mais do que a Nicolau , e se este não fosse imperador nunca
o trocaria por Kassátski .
- Oiça, não posso esconder-lhe a verdade . Tenho de lhe contar tudo .
Pergunta-me o que é? É: . . é que eu já amei .
Cobriu-lhe a mão com a sua, num gesto de súplica.
Kassátski esperava calado .
- Quer saber a quem? A ele, a sua majestade .
- Todos gostamos dele , eu compreendo , e a menina, no internato . . .
- Não , foi depois disso , apaixonei-me , mas já passou . Mas tenho de
dizer que . . .
- O quê?
- Não foi simplesmente . . .
Tapou o rosto com as mãos .
- Como? Entregou-se a ele?
Ela ficou calada.
- Amante dele?
Continuou calada.
Kassátski saltou do lugar e , pálido como a morte, com as faces sacu­
didas pelas tremuras , ficou especado em frente dela. Lembrando-se de
que Nicolau , ao encontrá-lo na Avenida Névski , lhe deu carinhosamente
os parabéns .
- Meu Deus , o que eu fiz !
- Não me toque , não me toque . Oh , que sofrimento !
Virou-se e foi na direcção da casa.
Ali , encontrou a mãe dela.
- O que tem , príncipe? Eu . . .
A senhora calou-se ao atentar na expressão de Kassátski . O sangue
subiu-lhe à cara de repente .
- A senhora sabia-o e queria encobrir-mo . Se não fossem mulheres . . .
- gritou ele, levantando por cima dela o punho enorme . Depois deu
meia volta e fugiu .
O Diabo e Outros Contos 101

Se o amante dela tivesse sido u m particular, matá-lo-ia, mas era o seu


czar adorado .
Logo no dia seguinte pediu a licença de férias e , simultaneamente , o
pedido de passagem à reserva, declarou-se doente para não ver ninguém
e partiu para a aldeia.
Passou o Verão na aldeia , a organizar tudo . No fim do Verão não vol­
tou para Petersburgo , foi directamente para um mosteiro e tomou hábito .
A mãe escrevia-lhe, tentando convencê-lo a repensar aquele passo de­
cisivo. Respondia que a vocação de Deus estava acima de todas e quais­
quer considerações e que era assim que ele o sentia. Apenas o com­
preendia a irmã, orgulhosa e cheia de ambição , como ele . Compreendeu
que ele se tornara monge para se colocar acima dos que lhe queriam
mostrar a sua inferioridade .
E tinha razão , a irmã. Ao vestir o hábito , Kassátski provava o seu des­
prezo por tudo o que havia parecido tão importante aos outros e a ele , no
período do seu serviço militar, e que se alcandorava a uma altura em que
podia olhar de cima para baixo aqueles que antes invejava. Porém, con­
trariando o que pensava a sua irmã V árenka, não o movia apenas este
sentimento , também existia nele uma autêntica índole religiosa que Vá­
renka desconhecia e que, entrelaçando-se com o orgulho e a ânsia de pri­
mazia , o estimulava. A desilusão quanto à noiva que imaginara um pu­
ríssimo anjo e a sensação de ter sido insultado eram tão fortes que o
levaram ao desespero, desespero esse que o levou a Deus , à fé infantil
que nunca tinha desaparecido do seu íntimo .

No dia do Manto da Virgem, Kassátski entrou no mosteiro .


O superior do mosteiro era fidalgo , escritor culto e stárets5 , ou seja,
continuava a tradição originária da Valáquia em que os monges obede­
cem incondicionalmente ao mestre e orientador escolhido . Era discípulo
do famoso stárets Amvróssi , por sua vez discípulo de Makári , sendo es­
te discípulo de Leonid, por seu lado discípulo de Paíssi Velitchkóvski .
Foi a esse superior que Kassátski escolheu como stárets e a quem fez vo­
to de obediência.
Além do sentimento da sua superioridade que experimentava no mos­
teiro, Kassátski , tal como em tudo o que empreendia , também ali se ale­
grava com o conseguimento da perfeição , tanto exterior como interior.
102 Lev Tolstói

Se no regimento não era tão-só um graduado impecável mas um oficial


que fazia mais do que o exigido , ampliando os cenários da perfeição , no
mosteiro , como monge, também tentava ser perfeito: sempre laborioso ,
abstinente , resignado , humilde , puro nos actos e nos pensamentos , e obe­
diente . Era sobretudo esta última qualidade , ou perfeição , que lhe servia
de refrigério na vida. Se muitas das exigências daquele mosteiro (situa­
do muito perto da capital e muito visitado) não lhe agradavam, porque
representavam a tentação , a obediência apagava isso tudo: não me com­
pete raciocinar, compete-me cumprir com obediência o que me for de­
signado , seja ficar ao lado do relicário, seja cantar no coro , seja fazer a
contabilidade da hospedaria. Toda e qualquer possibilidade de dúvida era
eliminada pela obediência ao stárets . Se não fosse a obediência, seriam
entediantes para ele a morosidade e a monotonia dos ofícios , a azáfama
criada pelos visitantes, o mau feitio dos irmãos . Ora, a obediência não só
lhe permitia suportar tudo isso de cara alegre como também lhe dava
uma consolação e um socorro na vida. «Não sei porque tenho de ouvir
várias vezes ao dia as mesmíssimas orações , só sei que isso é necessário .
Ora, uma vez que o sei , encontro nelas alegria.» O stárets disse-lhe que ,
tal como o alimento material é necessário para manter a vida, também o
alimento espiritual - a oração - é necessário para o mantimento da vi­
da espiritual . Kassátski acreditava nisso e, de facto , o ofício na igreja, pa­
ra o qual se levantava a custo ao raiar da manhã, dava-lhe uma calma e
uma alegria indubitáveis . Regozijava-o também a consciência da sub­
missão e do carácter indiscutível do comportamento que havia sido de­
terminado , todo ele , pelo stárets . Ora, o interesse da sua vida consistia
não só na sujeição cada vez maior da sua vontade , na sua humildade ca­
da vez mais ampla, mas também em alcançar todas as virtudes cristãs , o
que , nos primeiros tempos , lhe parecia fácil . Entregou toda a sua fortu­
na ao mosteiro e não o lamentava. De preguiça não sofria. A humildade
perante os inferiores não só era fácil como lhe dava prazer. Até a vitória
sobre a concupiscência, nas suas vertentes de avareza e luxúria, foi sim­
ples para ele . O stárets prevenia-o com especial insistência contra este
último pecado , mas Kassátski até era feliz por se sentir livre dele .
A única coisa que o atormentava era a recordação da noiva. Não era
uma simples lembrança, mas a imagem viva do que poderia ter sido e
não foi . Recordava também, involuntariamente , uma sua conhecida que
tinha sido favorita do imperador e que se tomou depois uma excelente
esposa e mãe de família. O marido dessa senhora tinha um cargo impor­
tante , poder, honras e uma boa mulher contrita.
O Diabo e Outros Contos 103

Havia bons momentos na vida de Kassátski em que estas recordações


nem sequer o incomodavam. Quando o passado lhe vinha à memória
nesses bons momentos , sentia-se feliz por se ter libertado das tentações .
Mas havia outras alturas em que tudo se lhe tomava cinzento e , embora
continuasse a acreditar na mudança de vida que fizera, deixava de o ver
claramente , não conseguia invocar a sensação dessa vida nova, e
dominava-o - que horror dizê-lo ! - o arrependimento de ter tomado
hábito .
Nesses transes , a salvação era a obediência - o trabalho - e o dia in­
teiro entregue à oração . Rezava sempre muito mas , nestas alturas , ainda
mais , prostrando-se e inclinando-se , mas era como se rezasse com o cor­
po , sem alma. Isso durava um dia, às vezes dois , e passava por si. Porém,
eram dias terríveis , Kassátski sentia que não estava sob o seu controlo
nem sob o poder de Deus , mas que havia uma vontade alheia que o do­
minava. E tudo o que podia fazer, e fazia, era seguir o conselho do stá­
rets: resistir, não fazer nada, esperar. Nesses dias , Kassátski não era guia­
do pela sua própria vontade mas pela vontade do stárets , e nessa sujeição
residia um sossego muito especial .
Assim viveu Kassátski , neste primeiro mosteiro, durante sete anos . Ao
fim do terceiro ano foi ordenado padre-frei , com o nome de Sérgui . Pa­
ra Sérgui , foi um grande acontecimento da sua vida interior. Já sentia
grande consolação e elevação de espírito quando comungava, mas ser ele
próprio a administrar os sacramentos punha-o num estado de enlevo , de
comoção . Mas , com o tempo, até este sentimento se lhe embotou , e ca­
da vez mais , ao ponto de um dia, quando lhe aconteceu ministrar os sa­
cramentos no estado de espírito oprimido que de vez em quando o atin­
gia, sentiu que também o enlevo não durava sempre . Assim enfraqueceu
a sua chama, embora o hábito permanecesse .
De uma maneira geral , Sérgui , no decurso do seu sétimo ano no mos­
teiro, sentia muito o tédio daquela vida. Já aprendera tudo o que tinha pa­
ra aprender, já alcançara tudo o que era preciso alcançar, já não tinha
mais nada que fazer ali .
Por outro lado, o seu entorpecimento tomava-se cada vez mais forte .
Foi nesse período que recebeu as notícias da morte da mãe e do casa­
mento de Mary. Recebeu ambas as comunicações com indiferença. Con­
centrava toda a atenção e interesses na sua vida interior.
No quarto ano após a sua ordenação , o prelado mostrou-se particular­
mente carinhoso para com ele , e o stárets disse-lhe que , se fosse chama­
do para cargos mais altos , não deveria recusar. Foi então que entrou em
1 04 Lev Tolstói

campo a vaidade , essa mesma que tanto lhe repugnava nos outros mon­
ges . Foi enviado para um mosteiro próximo da capital . Tentou recusar,
mas o stárets ordenou-lhe que aceitasse a nomeação . Anuiu , despediu-se
do stárets e mudou-se para o novo mosteiro .
Essa mudança para o mosteiro da capital foi um acontecimento im­
portante na vida de Sérgui . As tentações eram de todo o género , o que
absorvia todas as forças de Sérgui .
No mosteiro anterior a tentação feminina pouco o atormentava, mas ,
no novo , o desejo erguia-se com uma força impressionante e chegou a
adquirir contornos definidos . Havia uma senhora conhecida pela sua má
conduta que começou a aproximar-se de Sérgui . Meteu conversa com
ele , pedindo-lhe que a visitasse . Sérgui , severo , recusou , mas o desejo
real que sentiu deixou-o apavorado . Assustou-se tanto que escreveu ao
stárets; mais ainda: para refrear o impulso , chamou o seu jovem noviço
e, vencendo a vergonha, confessou-lhe a sua fraqueza e pediu-lhe que o
vigiasse, que não o deixasse ir a lado nenhum a não ser aos ofícios divi­
nos ou aos trabalhos .
Havia outra grande tentação: o superior do novo mosteiro era um ho­
mem de sociedade , esperto , que aproveitava a Igreja para fazer carreira.
Despertava grande antipatia em Sérgui . Por mais que lutasse consigo
próprio , não conseguia ultrapassar essa antipatia. Resignava-se, mas , do
fundo do coração , não deixava de censurar o superior. Este mau senti­
mento , por fim, irrompeu à luz do dia.
Aconteceu já no segundo ano da sua vida no novo mosteiro . Foi as­
sim: no Dia do Manto da Virgem, o ofício noctumo era na igreja grande .
Havia muita gente vinda de fora. Oficiava o próprio superior. O padre
Sérgui estava no seu lugar habitual e rezava, ou seja, debatia-se na luta
costumeira que travava durante os ofícios , sobretudo na igreja grande
(quando não era ele a oficiar) . Irritavam-no os fiéis , os fidalgos , sobre­
tudo as senhoras - era essa a sua luta. Fazia por não os ver, por não re­
parar em nada do que se passava à sua volta - não ver como os solda­
dos lhes abriam caminho , empurrando o povo , como as senhoras
mostravam umas às outras os monges - muitas vezes a ele próprio e
também a um conhecido monge bonitão . Tentava não ver nada, pondo
uma espécie de antolhos à sua atenção , além do brilho das velas junto da
iconóstase , do ícone e dos clérigos; não ouvir nada além das palavras das
orações , ditas e cantadas , e não experimentar qualquer sentimento além
da abnegação e da consciência do dever cumprido que a repetição contí­
nua das rezas lhe dava sempre .
O Diabo e Outros Contos 105

E assim rezava, e se benzia quando era preciso , e assim lutava, ora se


entregando a uma censura fria, ora provocando conscientemente em si
mesmo uma letargia de pensamentos quando o padre Nikodim (também
uma grande tentação para o padre Sérgui que o censurava por bajular o
superior) se aproximou dele e , dobrando-se numa vénia, disse que o su­
perior o chamava ao altar. O padre Sérgui puxou a capa para baixo ,
cobriu-se com o capuz e foi , devagar, através da multidão .
- Lise, regarde à droite, c 'est lui6 - ouviu uma voz feminina.
- Ou, ou? II n 'est pas tellement beau7 .
Sérgui sabia que estavam a falar dele . Ouvia aquilo e , como sempre
fazia nos momentos de tentação , repetia as palavras «não nos deixeis cair
em tentação» e , baixando a cabeça e os olhos , passou o púlpito , contor­
nou os canonarcas com os seus sticharion que se encontravam nesse mo­
mento ao lado da iconóstase , e entrou na porta norte . Uma vez no altar,
inclinou-se diante do ícone , como era costume , depois levantou a cabe­
ça e , de soslaio , olhou para a silhueta do superior ao lado de outra figu­
ra, toda enfeitada de adereços brilhantes .
O superior, envergando todos os seus paramentos , estava junto da
parede com as mãozinhas rechonchudas fora das vestes afagando o ga­
lão da estola por cima da barriga redonda; sorrindo , falava com um ge­
neral - o padre Sérgui , com uma olhadela de militar experiente aos
monogramas e agulhetas da sua farda, apanhou de imediato que se tra­
tava de um general do estado-maior. Viu também que tinha sido o an­
tigo comandante do seu regimento . Pelos vistos , ocupava agora um
cargo importante , e o padre Sérgui reparou também que o superior o
sabia e que isso lhe dava prazer, como denotava o estado radioso da
sua rubicunda cara gorda e da careca . O padre Sérgui sentiu-se logo
ofendido e amargurado , sentimento que se exacerbou ainda mais
quando o superior o informou de que deveria satisfazer a curiosidade
do general , que queria ver o seu antigo camarada - assim se expri­
miu .
- Estou muito contente por vê-lo na sua imagem angélica - disse-
-lhe o general estendendo-lhe a mão - , espero que não se tenha esque-
cido do velho camarada.
A cara do superior, vermelhusca e sorridente dentro da moldura da es­
cassa cabeleira branca, com a expressão aprovadora de tudo o que dizia
o general; e o general , com um sorriso presunçoso e cheiro a álcool da
boca e a charuto das suíças indignaram o padre Sérgui . Voltou a fazer
uma vénia ao superior e disse:
106 Lev Tolstói

- Vossa Reverência chamou-me? - E calou-se, mas a expressão do


seu rosto e a sua pose diziam claramente: para quê?
O superior respondeu:
- Para se encontrar com o general .
- Reverência, abandonei o mundo para me salvar das tentações -
disse o padre Sérgui empalidecendo e com os lábios trémulos . - Então,
porque me sujeita a elas durante a oração e no templo de Deus?
- Vai , vai-te embora - disse o superior, corando e carregando o so­
brolho .
No dia seguinte , o padre Sérgui pediu desculpa ao superior e aos ir­
mãos pelo seu orgulho mas , depois de uma noite que passou a rezar, de­
cidiu que era necessário abandonar o mosteiro em que actualmente se en­
contrava e, nesse sentido, escreveu uma extensa carta ao stárets,
implorando-lhe que autorizasse o seu regresso ao mosteiro dele . Sentia a
sua fraqueza e sabia que , sozinho , sem a ajuda do stárets , era incapaz de
lutar contra as tentações - assim escrevia Sérgui . E arrependia-se do
seu pecado de orgulho . No correio seguinte chegou a resposta do stárets:
sim, escrevia ele , a causa de tudo era o seu orgulho . Explicava ainda que
aquela explosão de ira se devia ao facto de não se ter resignado a aceitar
as honras espirituais , e que não o fizera por Deus mas sim por orgulho:
olhem para mim, olhem como eu sou , não preciso de nada. E, só por is­
so , Sérgui não suportou o que o superior fez: por Deus abandonei tudo ,
e agora exibem-me como a um animal . «Se menosprezasses a glória em
nome de Deus , suportarias aquela situação . O orgulho mundano ainda
não se apagou do teu coração. Tenho pensado em ti , meu filho Sérgui , e
tenho rezado muito por ti , e eis então o que Deus me sugeriu: continua a
viver como dantes e resigna-te . Chegou-me agora a notícia de que no
eremitério morreu o eremita Illarion , um homem que levou uma vida
santa. Permaneceu lá durante dezoito anos . O superior do mosteiro Tam­
bínski perguntou-me se eu sabia de algum irmão que quisesse viver lá.
Entretanto , recebi a tua carta. Vai ter com o padre Paíssi do Mosteiro
Tambínski , vou escrever-lhe nesse sentido , e pede que te deixem ocupar
a cela de Illarion . Não digo que possas substituir Illarion, mas precisas
de reclusão para domares o teu orgulho . Que Deus te abençoe .»
Sérgui obedeceu ao stárets, mostrou a carta ao superior e , depois de
ter obtido a sua autorização e entregado a cela e os pertences ao mostei­
ro , partiu para Tambínski .
O superior do Mosteiro Tambínski , que provinha da classe dos co­
merciantes e era um excelente administrador, recebeu Sérgui de maneira
O Diabo e Outros Contos 107

simples e calma, e alojou-o na cela de Illarion; a princípio destacou um


noviço para lhe fazer os serviços , mas depois , a pedido de Sérgui ,
deixou-o sozinho . A cela era uma caverna aberta no monte . Nela foi se­
pultado Illarion , no compartimento recuado . No compartimento da fren­
te havia um nicho para dormir, com uma enxerga de palha, uma mesinha
e uma prateleira com ícones e livros . Havia outra prateleira ao lado da
porta exterior, com fecho; uma vez por dia, um monge trazia a comida
do mosteiro e colocava-a ali .
Assim o padre Sérgui se tomou eremita.

No sexto ano da sua vida de eremita, por altura do Entrudo , juntou-se


numa cidade vizinha um rancho alegre de pessoas ricas , homens e mu­
lheres, que , depois dos crepes e do vinho , foram passear nas troicas . O
grupo compunha-se de dois advogados , um proprietário rural abastado ,
um oficial e quatro senhoras . Uma era a mulher do oficial , outra a mu­
lher do proprietário , a terceira era a irmã deste , ainda rapariga, e a quar­
ta uma mulher divorciada, bonita, rica e extravagante ao ponto de sur­
preender e revoltar a cidade com os seus desmandos .
O tempo estava excelente , o caminho liso como um soalho . Alonga­
ram o passeio para dez verstás 8 fora de portas , pararam e começaram a
discutir o que fazer: seguir ou voltar para trás?
- Aonde vai dar este caminho? - perguntou a bela Makovkina, a di­
vorciada.
- Daqui a Tambinó são doze verstás - disse o advogado que corte-
java Makovkina.
- E depois segue até L., atravessando o mosteiro .
- Onde vive o tal Padre Sérgui?
- Exactamente.
- Kassátski? O eremita bonitão?
- Esse mesmo .
- Mesdames ! Meus senhores ! Vamos visitar o Kassátski . Primeiro
descansamos em Tambinó , comemos alguma coisa.
- Mas assim não temos tempo de voltar para casa a horas de dormir.
- Não faz mal, ficamos lá, com Kassátski .
- Sim, é possível , há lá uma hospedaria no mosteiro , muito boa até .
Hospedei-me lá quando fui advogado de Mákhin .
108 Lev Tolstói

- Não, eu quero dormir na cela de Kassátski .


- Isso é impossível , mesmo para uma mulher todo-poderosa como a
senhora.
- Impossível? Quer apostar?
- De acordo. Se a senhora dormir na cela dele , faço tudo o que qui-
ser.
- À discrétion9 .
- Mas você também !
- É claro . Vamos .
Ofereceram vodca aos cocheiros . Tiraram a caixa com bolos , vinho e
confeitos . As senhoras agasalharam-se com peliças brancas de pele de
cão . Os cocheiros discutiram um pouco sobre quem ia à frente , e um de­
les , jovem, pondo-se de lado com galhardia, brandiu o chicote compri­
do, gritou - e soaram as sinetas , guincharam os patins .
O trenó estremecia e balançava ligeiramente , o cavalo lateral corria a
passo regular e alegre , com a cauda atada num nó alto sobre a retranca
de placas , o caminho era liso , como que oleado, e ficava rapidamente pa­
ra trás , o galhardo cocheiro abanava a brida, o advogado e o oficial, sen­
tados à frente , tagarelavam para Makovkina, enquanto esta,
agasalhando-se bem na peliça, se mantinha imóvel e pensava: «Sempre
a mesma coisa, e sempre abominável: caras vermelhas , lustrosas , chei­
rando a vinho e a tabaco , os mesmos discursos , as mesmas ideias , e tu­
do a girar em volta da porcaria. E todos muito contentes e convencidos
de que deve ser mesmo assim e de que podem continuar do mesmo mo­
do até ao fim da vida. Já não posso mais. É um tédio . Preciso de qual­
quer coisa que subverta isto tudo . Nem que seja como o que aconteceu
àqueles em Sarátov: foram passear e parece que morreram gelados . O
que fariam os nossos numa situação dessas? Como se portariam? Como
uns velhacos , com certeza. Cada qual pensaria apenas em si . E eu tam­
bém havia de me portar ignobilmente. Mas eu, pelo menos , sou bonita.
Eles sabem-no . E aquele monge? Será que já não compreende essas coi­
sas? Não, não pode ser verdade. É a única coisa que todos eles com­
preendem . Como no Outono , corri aquele cadete . Que parvo ele era . . . »
- Ivan Nikolaitch ! - disse ela.
- Diga.
- Que idade tem ele?
- Ele quem?
- Kassátski .
- Parece que já passa dos quarenta.
O Diabo e Outros Contos 109

- E como é, recebe toda a gente?


- Toda a gente , mas nem sempre .
- Tape-me os pés . Não , assim não . Que falta de jeito ! Mais , mais , is-
so , assim. Mas não vale a pena apalpar-me as pernas .
Chegaram à floresta onde se encontrava a cela.
Makovkina saiu e mandou os outros embora. Tentaram dissuadi-la,
mas zangou-se e insistiu em que se fossem. O trenó partiu e ela, embru­
lhada na sua peliça branca de cão , caminhou pela vereda. O advogado
apeou-se e ficou a ver.

O padre Sérgui já ia no seu sexto ano de eremita. Tinha quarenta e no­


ve anos . O mais difícil não era o jejum, nem a oração permanente , mas
aquela luta interior de que não estava à espera. Eram duas as fontes des­
sa luta: a dúvida e a concupiscência carnal . E estes dois inimigos anda­
vam sempre juntos . Na verdade , era um só inimigo , embora lhe pareces­
sem dois diferentes e, se eliminasse a dúvida, desapareceria também a
luxúria. Mas o padre Sérgui , pensando que eram dois diabos diferentes ,
lutava contra eles em separado .
«Meu Deus, meu Deus ! - pensava ele. - Porque não me dais fé? A
luxúria, sim, Santo Antão e outros lutaram contra ela, mas com fé ! Eles
tinham-na, mas eu passo minutos , horas , dias em que não a tenho . Para
que existe o mundo, o encanto do mundo, se ele é pecaminoso e temos de
o renegar? Para que criastes esta tentação? Tentação? Mas não será por­
ventura tentação eu querer fugir das alegrias do mundo e trabalhar para
uma coisa onde talvez não haja nada? - interrogou-se o padre Sérgui ,
aterrorizado e repugnado de si mesmo. - Abominável, és abominável !
Queres ser santo . . . » Sérgui insultava-se a si mesmo . E rezava. Porém, mal
começou a orar, imaginou-se vivamente no mosteiro , como tinha sido no
mosteiro: de capuz, de manto, com um ar majestoso. E abanou a cabeça:
«Não , não está certo. É errado. É um engano, mas se posso enganar os ou­
tros , a mim não posso, nunca, nem a Deus . Não sou um homem majesto­
so, sou um homem miserável e ridículo.» E, afastando as abas da sotaina,
olhou para as suas miseráveis pernas enfiadas nas ceroulas . E sorriu .
Depois largou a sotaina e começou a rezar, a benzer-se, a inclinar-se.
«Este leito será o meu túmulo?» , lia ele . E foi como se um diabo lhe sus­
surrasse: «Ü leito solitário é mesmo um túmulo . Mentira.» E viu em ima-
1 10 Lev Tolstói

ginação os ombros de uma viúva com quem vivera. Sacudiu a cabeça e


continuou a ler. Depois de ter lido a Regra, abriu o Evangelho e calhou­
-lhe um fragmento que já sabia de cor: «Eu creio , Senhor! Ajuda a minha
incredulidade .» Afastou todas as dúvidas que transpareciam. Como quem
põe de pé um objecto em equilíbrio instável , pôs a sua fé num apoio cam­
baleante e retirou-se com cuidado para não a puxar nem derrubar. Colo­
cou os antolhos , acalmou-se . Repetiu a sua oração infantil: «Meu Senhor,
toma-me , toma-me» , e sentiu-se não só aliviado mas feliz , enternecido .
Benzeu-se e deitou-se na esteira colocada sobre o banco estreitinho, me­
tendo debaixo da cabeça a batina de Verão . E adormeceu .
No meio do sono leve pareceu-lhe ouvir guizos , mas não sabia se eram
reais ou se sonhava. De repente , foi acordado por pancadas na porta.
Levantou-se, não querendo acreditar nos seus ouvidos . Mas as pancadas
repetiram-se. Sim, estavam a bater à porta, e uma voz feminina chamava.
«Meu Deus ! Será verdade o que li nas crónicas dos santos , que o Dia­
bo toma a forma de mulher? . . . Sim, é uma voz de mulher. Uma voz mei­
ga, tímida, querida ! Oh , que nojo ! - Cuspiu . - Não , é uma ilusão» , dis­
se e afastou-se para o canto onde havia um pequeno facistol e
ajoelhou-se com aquele movimento habitual e correcto que lhe dava
sempre tanta consolação e prazer. Dobrou-se , o cabelo caiu-lhe para a ca­
ra, rojou a testa, já ampla da calvície , na passadeira fria e húmida. (A cor­
rente de ar varria o chão .)
. . . Pôs-se a ler o salmo que , de acordo com as palavras do velho pa­
dre Pímen , era um esconjuro contra os devaneios . Depois levantou com
facilidade o corpo magro e ágil nas suas pernas fortes e nervudas , e quis
continuar a ler; mas não lia, apurava involuntariamente o ouvido . Queria
ouvir, mas estava tudo silencioso . As mesmas gotas caíam dentro da se­
lha posta a um canto . Lá fora a neblina carcomia a neve . Silêncio , silên­
cio . De repente algo roçagou do lado de fora da janela e ouviu-se clara­
mente uma voz - a mesma voz meiga, tímida, uma voz que só podia
pertencer a uma mulher bonita - a pedir:
- Deixe-me entrar. Por amor de Deus . . .
Pareceu-lhe que todo o sangue lhe afluiu ao coração e lho paralisou .
Não conseguia respirar. «Levante-se Deus e sejam dissipados os seus ini­
migos . . . »
- Não sou o Diabo , não . . . - E era evidente que os lábios que o pro­
nunciavam sorriam. - Não sou o Diabo , sou uma simples mortal, e
perdi-me . . . no sentido literal e não no figurado (riu-se) , estou cheia de
frio , peço-lhe abrigo . . .
O Diabo e Outros Contos 111

Ele encostou a cara ao vidro , onde luziam os reflexos da lamparina.


Pôs as mãos em pala dos lados da cara e olhou: nevoeiro , uma árvore e ,
à direita, ela . . . Sim ela, uma mulher dentro de uma peliça de pêlo com­
prido, de chapéu , um rosto amoroso , tão querido , assustado , ali , a três
polegadas da sua cara, inclinando-se para ele . Os seus olhos cruzaram-se
e reconheceram-se , não por se terem encontrado alguma vez , mas nos
olhares que ambos trocaram, sentiram (sobretudo ele) que se conheciam,
que se compreendiam um ao outro . Depois daquele olhar não podia ha­
ver dúvidas de que ela era o Diabo , não podia ser uma mulher simples ,
bondosa, querida, tímida.
- Quem é? O que quer? - perguntou ele .
- Abra a porta - disse ela num tom de arbitrariedade caprichosa. -
Tenho frio . Já lhe disse que me perdi .
- Mas eu sou monge, eremita.
- Por isso mesmo, abra a porta. Ou quer que eu morra de frio en-
quanto o senhor reza?
- Mas como é que . . .
- Eu não mordo . Deixe-me entrar, por amor de Deus . Tenho frio ,
vá lá.
Ela própria começava a sentir medo. Falava quase em voz chorosa.
Ele afastou-se da janela. Olhou para a imagem de Cristo com a coroa
de espinhos . «Deus , ajudai-me , Deus , ajudai-me» , rezou , benzendo-se e
dobrando-se em reverências , foi até à porta da antecâmara, abriu-a. En­
controu às apalpadelas o gancho da porta da rua, começou a abri-lo. Do
outro lado ouviu passos: a mulher caminhava da janela para a entrada.
«Ai ! » , gritou ela, e Sérgui percebeu que se tinha metido no charco acu­
mulado à entrada. As mãos dele tremiam, nunca mais conseguia levantar
o gancho , que estava perro .
- Porque demora tanto , deixe-me entrar! Estou encharcada. Tenho
frio . Está a pensar na salvação da alma, e eu aqui transida de frio .
Puxou a porta para si , levantou o gancho e , calculando mal a força,
empurrou-a com tanta violência para fora que foi bater nela.
- Ah , desculpe ! - disse ele , assumindo de imediato a sua outra ma­
neira de ser: a que tinha o hábito antigo de tratar as senhoras .
Ela sorriu ao ouvir aquele «desculpe» . «Não é tão assustador como is­
so» , pensou .
- Não faz mal . Eu é que lhe peço desculpa - disse ela, passando ao
lado de Sérgui . - Nunca me teria atrevido a bater-lhe à porta, mas é um
caso excepcional .
1 12 Lev Tolstói

- Faça o favor - disse ele , indicando-lhe o caminho . O aroma forte


a perfume fino , havia muito esquecido, abalou-o . Ela atravessou a ante­
câmara, entrou no quarto . O padre Sérgui cerrou a porta exterior, sem
baixar o gancho , e atravessou por sua vez a antecâmara.
«Nosso Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim que sou pecador,
meu Senhor, tende piedade de mim» , rezava ele sem parar, não só men­
talmente mas mexendo os lábios sem querer.
- Faça o favor - disse ele .
A senhora, escorrendo água para o chão , estava no meio do quarto e
examinava-o . Riam-se-lhe os olhos .
- Desculpe ter perturbado a sua reclusão. Mas tenha em conta a minha
situação. Resolvemos dar um passeio de troica, saímos da cidade, e em
Vorobiovka apostei que seria capaz de voltar a pé para a cidade, sozinha,
mas perdi-me, e se não tivesse encontrado a sua ermida . . . - começou ela
a mentir. Mas o rosto dele embaraçava-a, foi incapaz de continuar e calou­
-se. Não esperava que ele fosse assim. Não era tão bonito como tinha ima­
ginado, mas aos seus olhos era maravilhoso . O cabelo encaracolado, algu­
mas brancas na cabeça e na barba, o nariz fino e regular, os olhos ardentes
como brasas quando olhava a direito - tudo isso a espantava.
Sérgui viu logo que ela estava a mentir.
- Sim, pois - disse ele , lançando-lhe um olhar e baixando logo os
olhos . - Eu vou para ali , e a senhora pode ficar aqui . - E, pegando no
candeeiro, acendeu uma vela e, com uma grande vénia, saiu para um cu­
bículo por trás da divisão . Ela ouvia-o a arrastar lá qualquer coisa. «Pe­
los vistos está a barricar-se , para se defender de mim» , pensou ela com
um sorriso e, depois de despir a peliça branca, começou a tirar o chapéu ,
que se lhe prendia ao cabelo , e o lenço de lã por baixo do chapéu . Não
se molhou quando estava à janela, foi apenas um pretexto para que ele a
deixasse entrar, mas era verdade que , à porta, metera os pés no charco ,
tendo molhado a perna esquerda até meio da canela; a botina estava en­
charcada. Sentou-se na cama dele - uma tábua coberta com uma estei­
ra - e começou a descalçar-se . A cela parecia-lhe encantadora. O quar­
to era estreitinho , de três côvados de largo por quatro de comprido , e
muito limpo . Havia apenas uma cama, onde ela estava sentada, por cima
uma prateleira com livros; a um canto estava um pequeno facistol . Jun­
to à porta, penduradas nos pregos , uma peliça e uma sotaina. Por cima
do facistol , a imagem de um Cristo com coroa de espinhos e uma lam­
parina. O cheiro era estranho: a óleo , suor e terra. Tudo aquilo lhe agra­
dava, até o cheiro .
O Diabo e Outros Contos 1 13

Os pés molhados incomodavam-na, sobretudo o esquerdo , e apressou­


-se a descalçar-se , sempre a sorrir, contente não só por atingir o seu ob­
jectivo mas ainda mais por ver que embaraçava um homem tão fasci­
nante , estranho, impressionante , atraente . «Não respondeu . . . mas não
faz mal , paciência» , pensou ela.
- Padre Sérgui ! Padre Sérgui ! É assim que se chama?
- O que deseja? - respondeu em voz baixa.
- Tem de me desculpar por eu ter perturbado a sua solidão . Mas ju-
ro que não tinha outra saída. Corria o risco de adoecer. Ainda não sei se
estou bem. Estou toda encharcada, os pés gelados .
- Desculpe - respondeu a voz baixinha - , não posso ajudá-la em
nada.
- Nunca o teria incomodado , palavra de honra. Só fico até ao ama­
nhecer.
Ele não respondeu . Ela ouvia-o a sussurrar, pelos vistos uma oração .
- Não entra aqui , pois não? - perguntou ela, sorrindo . - Porque te­
nho de me despir para secar a roupa.
Sérgui não respondeu , continuando na divisão ao lado a ler as suas re­
zas com voz pausada.
«Sim, este é que é um homem» , pensava ela, tentando descalçar com
grande esforço a botina cheia de água. Puxava, não conseguia , e aquilo
parecia-lhe cómico. Ria-se quase em silêncio , mas sabendo que ele esta­
va a ouvi-la, e que o seu riso iria provocar nele o efeito que ela preten­
dia; e riu-se mais alto , e o som alegre, natural e bondoso do seu riso
atingiu-o em cheio , exactamente como ela queria.
«É possível apaixonar-nos por este homem. Que olhos . E este rosto
simples , nobre e . . . por mais que murmure as suas rezas . . . cheio de pai­
xão - cismava ela. - A nós , mulheres, ninguém nos engana. Quando
aproximou a cara do vidro e me viu , compreendeu imediatamente , e re­
conheceu isso . Brilharam-lhe os olhos, e esse brilho ficou . Apaixonou-se
por mim, desejou-me . Sim , desejou-me» , pensava ela, descalçando fi­
nalmente a botina e começando a tirar as meias . Para despir as meias al­
tas e de elásticos , tinha de levantar as saias . Sentiu vergonha e disse:
- Não entre .
Do outro lado da divisória não houve resposta. Continuava o murmú­
rio regular e o barulho de movimentos . «Provavelmente está a dobrar-se
em reverências até ao chão - disse para si mesma. - Mas não vai con­
seguir nada. Está a pensar em mim . Como eu estou a pensar nele . O sen­
timento dele é igual ao meu , agora está a pensar nestes pés» , dizia ela de-
1 14 Lev Tolstói

pois de tirar as meias molhadas e esfregando , sentada, os pés no catre .


Ficou assim algum tempo , abraçando os joelhos e olhando em frente
com ar pensativo . «Este deserto , este silêncio . E ninguém saberia, nun­
ca . . . »
Levantou-se , foi até junto do fogão para pendurar as meias no respi­
radouro , que era de um formato invulgar. Girou-o e , depois , voltou li­
geira e descalça para o catre e sentou-se. Por trás da divisória caíra o si­
lêncio . Ela olhou para o relógio minúsculo que lhe pendia do pescoço .
Eram duas horas . «Os outros chegam por volta das três .» Faltava menos
de uma hora.
«Então, vou ficar aqui sentada sozinha? Que disparate ! Não quero .
Vou chamá-lo .»
- Padre Sérgui ! Padre Sérgui ! Serguei Dmítritch, príncipe Kassátski !
Do outro lado , o silêncio.
- Oiça, isso é cruel . Não teria chamado por si . . . se não precisasse .
Estou mal . Não sei o que tenho - disse ela num tom de voz sofredor. -
Oh ! Oh ! - gemeu , deixando-se cair para o catre . E , coisa estranha, sen­
tia que estava a sofrer de verdade , que lhe doía tudo , que tremia de fe­
bre.
- Ajude-me . Não sei o que se passa comigo . Oh ! Oh ! - Desabotoou
o vestido , abriu os braços nus até ao cotovelo e deitou as mãos à nuca.
- Oh ! Oh !
Durante todo este tempo , Sérgui rezava no seu cubículo . Depois de ter
lido todas as orações da noite , quedou-se imóvel , com os olhos fixos na
ponta do nariz , dizendo a «oração mental» muito rapidamente: «Senhor
Jesus Cristo , Filho de Deus, tende piedade de mim.»
Mas ouvia tudo . Ouvia o seu vestido de seda a roçagar quando ela es­
tava a tirá-lo , ouvia-a a andar descalça pelo chão , a esfregar os pés com
as mãos. Sentia que era fraco e que , a qualquer momento , poderia
perder-se , por isso rezava sem parar. Sentia-se um pouco como o herói
do conto de fadas que tem de andar sem olhar para trás . Farejava o peri­
go ali perto , por cima dele , à volta dele , e só poderia salvar-se se não
olhasse para aquela mulher, um instante que fosse . De súbito , porém,
dominou-o o desejo de olhar. E foi nesse mesmo instante que ela disse:
- Oiça, é desumano . Posso morrer.
«Sim, eu vou , mas da maneira que o fez aquele santo que pôs uma
mão na prostituta e a outra no braseiro . Só que não há braseiro .» Olhou
à sua volta. O candeeiro . Colocou o dedo sobre a chama e carregou o so­
brolho , preparando-se para sofrer. Durante bastante tempo, pareceu-lhe
O Diabo e Outros Contos 1 15

que não sentia nada, mas de repente - ainda sem perceber se lhe doía
muito - franziu a cara e retirou a mão , abanando-a. «Não , não posso
fazê-lo .»
- Por amor de Deus ! Oh , venha cá! Estou a morrer, oh !
« Então , lanço-me na perdição? Não , isso não .»
- Já vou , um momento - disse ele e, abrindo a sua porta, passou a
seu lado sem olhar para ela pela porta da antecâmara, onde costumava
rachar a lenha, encontrou às apalpadelas o cepo para cortar as achas e o
machado , encostado à parede .
- Um momento - disse ele . Pegou no machado com a mão direita,
colocou o dedo indicador da esquerda no cepo, levantou o machado e
abateu-o abaixo da segunda articulação . O dedo decepado soltou-se mais
facilmente do que sucedia com os ramos da mesma grossura,. rolou até à
borda do cepo e caiu no chão .
Sérgui ouviu o som antes de sentir a dor, mas antes de se surpreender
com a ausência da dor, sentiu-a, dilacerante , e também o calor do sangue
a jorrar. Apertou logo o coto do dedo com a aba da sotaina e, premindo­
-o contra a anca, voltou a entrar no quarto e , parando em frente da mu­
lher, perguntou baixinho , com os olhos no chão:
- O que deseja?
Ela olhou para a cara muito pálida de Sérgui , com a face esquerda a
tremer, e sentiu vergonha de repente . Saltou do catre , pegou na peliça e
embrulhou-se nela.
- Pois , estava cheia de dores . . . apanhei frio . . . eu . . . Padre Sérgui . . .
eu . . .
Ele ergueu os olhos que irradiavam uma luz serena e bendita, e disse:
- Minha irmã amada, porque querias levar a tua alma imortal à per­
dição? As tentações entram no mundo , mas ai daquele por quem elas en­
tram . . . Reza a Deus para que nos perdoe .
Ela ouvia e olhava para ele . De repente ouviu pingos . Viu que lhe go­
tejava sangue da mão , através da sotaina.
- O que fez à mão? - Lembrou-se do som que ouvira e, pegando na
lamparina, correu para a antecâmara e viu no chão o dedo decepado. Vol­
tou , mais pálida ainda do que ele , tentou falar-lhe , mas ele saiu lenta­
mente para o cubículo e trancou a porta.
- Perdoe-me - disse ela. - Como posso redimir o meu pecado?
- Vai-te embora.
- Deixe-me fazer-lhe uma ligadura.
- Vai-te embora daqui .
1 16 Lev Tolstói

Vestiu-se à pressa e em silêncio . Já com a peliça, sentou-se, à espera.


Lá fora ouviram-se guizos .
- Padre Sérgui . Perdoe-me .
- Vai . Que Deus te perdoe.
- Padre Sérgui , vou mudar a minha vida. Não me abandone .
- Vai .
- Perdoe-me e dê-me a sua bênção .
- Em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo - ouviu-se por trás
da divisória. - Agora vai .
Ela, desfeita em pranto , saiu da cela. O advogado caminhou ao seu en­
contro.
- Pois bem, parece que perdi a aposta, nada a fazer. Onde é que a se­
nhora quer sentar-se?
- Tanto faz .
Até casa, sentada no trenó, não pronunciou uma única palavra.

Um ano depois tomou hábito e passou a viver uma vida de rigoroso


recolhimento no mosteiro , sob a orientação do eremita Arséni , o qual lhe
escrevia cartas de vez em quando .

O padre Sérgui ainda viveu mais sete anos no ermitério . A princípio


aceitava muitas das coisas que lhe levavam: chá, açúcar, pão de trigo , lei­
te , roupa, lenha.
Mas , com a passagem do tempo , impôs cada vez mais rigor à sua vi­
da, rejeitando tudo o que não fosse estritamente necessário, chegando ao
ponto de aceitar somente pão de centeio uma vez por semana. Distribuía
todas as dádivas entre os pobres que lhe batiam à porta.
Passava o tempo na cela a rezar ou a conversar com os visitantes , ca­
da vez mais numerosos . Saía apenas para ir à igreja, três vezes por ano,
e também para ir à água e à lenha quando tinha necessidade.
O que se passou com Makovkina - a notícia da sua visita noctuma
espalhou-se rapidamente , assim como a sua mudança de vida e a entra­
da no mosteiro - , ocorreu no sexto ano de eremita do padre Sérgui .
Desde então , a sua fama começou a crescer. Foram aparecendo cada vez
O Diabo e Outros Contos 1 17

mais visitantes , instalaram-se monges nas proximidades do seu abrigo e


foi construída uma hospedaria e uma igreja. A fama do padre Sérgui ,
com os exageros habituais das suas façanhas , divulgava-se cada vez
mais, e afluíam de longe as multidões trazendo-lhe doentes , convictos de
que ele poderia curá-los .
A primeira cura deu-se no oitavo ano da sua estada no retiro. Uma mãe
levou-lhe um rapaz de catorze anos e exigiu que o padre Sérgui lhe fi­
zesse a imposição das mãos . Pois bem, a Sérgui nem passava pela cabe­
ça que pudesse curar enfermos , e considerava isso , até, como um grande
pecado de orgulho; mas a mãe do rapaz não parava com as súplicas ,
rojava-se aos pés dele, dizia: porquê , se curas os outros , porque não cu­
ras o meu filho? E pedia, implorava por amor de Cristo . Ao ouvir da bo­
ca do Padre Sérgui que só Deus podia curar, aquela mãe pediu.então que ,
pelo menos , lhe impusesse a mão e rezasse . O padre Sérgui recusou-se e
foi para a sua cela.
Porém, no dia seguinte (era no Outono , as noites já estavam frias) , ao
sair da cela para ir buscar água, deu de caras com a mãe e o seu lívido
filho de catorze anos , e teve de ouvir as mesmas súplicas . O padre Sér­
gui lembrou-se da parábola sobre o juiz injusto e , embora antes não ti­
vesse dúvidas de que deveria recusar, começou a senti-las; retirou-se pa­
ra rezar e não interrompeu a oração até que lhe surgiu uma decisão:
cumprir o desejo da mulher, porque a sua fé podia salvar-lhe o filho; e
ele, padre Sérgui , seria apenas um instrumento humilde escolhido por
Deus.
O padre Sérgui foi ao encontro dessa mulher e anuiu ao seu desejo:
pôs a mão na cabeça do rapaz e rezou .
A mãe e o filho partiram, um mês depois o rapaz já se encontrava em
franca convalescença, e depressa correu pelas redondezas a notícia da
santa força curadora do stárets Sérgui , como passou a ser chamado . Des­
de então, todas as semanas acorriam os doentes para junto do padre Sér­
gui, de perto e de longe; ora, como não se tinha negado a socorrer o ra­
paz de catorze anos , também não podia negar-se aos outros , e havia
muitos que se curavam depois de ele lhes impor as mãos e rezar. A fama
do padre Sérgui chegava cada vez mais longe.
Assim se passaram vinte anos , sete no mosteiro e treze no retiro . O pa­
dre Sérgui tinha ar de velho: barba comprida e branca, apesar de o cabe­
lo, já mais ralo , ainda ser preto e encaracolado .
1 18 Lev Tolstói

Uma ideia persistente pairava na cabeça do padre Sérgui havia já vá­


rias semanas: faria bem em sujeitar-se àquela situação , em que caíra não
tanto pela sua própria vontade mas pela do arquimandrita secundado pe­
lo superior do mosteiro? Tudo começou depois da convalescença do ra­
paz de catorze anos , e desde então , Sérgui sentia, com a passagem dos
meses , das semanas , dos dias , como a sua vida interior se dissolvia e era
substituída pela exterior. Como se estivesse a ser virado do avesso .
Sérgui via muito bem que era um chamariz para atrair ao mosteiro vi­
sitantes e benfeitores e que , para esse efeito , as autoridades do mosteiro
criavam à sua volta as condições para que pudesse atingir a utilidade má­
xima. Por exemplo , já não lhe davam qualquer possibilidade de traba­
lhar. Forneciam-lhe tudo o que necessitava e apenas exigiam dele que
não recusasse a bênção às pessoas que iam vê-lo. Para maior conforto ,
estabeleceram os dias da semana em que recebia. Organizaram uma sala
de recepção para os homens e um lugar - para abençoar os visitantes -
munido de uma cerca para que não fosse derrubado pelas mulheres que
se atiravam a ele . Diziam-lhe que era necessário às pessoas e que , se que­
ria realmente cumprir a lei de Cristo e do amor, não podia recusar às pes­
soas o desejo de o verem, que seria uma crueldade afastar-se dessa gen­
te; Sérgui não podia discordar disso , mas , à medida que imergia nessa
vida, sentia que o seu íntimo se volvia em exterior, que se esgotava den­
tro dele a fonte de água viva, que tudo o que fazia era cada vez mais pa­
ra as pessoas e cada vez menos para Deus .
Quando falava aos fiéis, ou simplesmente os abençoava, ou quando
rezava pelos doentes , ou dava conselhos e orientações de vida aos visi­
tantes , ou quando ouvia os agradecimentos das pessoas bafejadas pela
sua ajuda ou por uma cura (como lhe diziam) , não podia evitar uma gran­
de alegria, e também a preocupação pelas consequências da sua activi­
dade , a influência que tinha sobre as pessoas . Pensava-se uma luminária
ardente; e quanto mais o pensava, mais sentia que a luz divina da verda­
de que trazia dentro de si amortecia até se extinguir. «Em que medida é
para Deus isto que faço? E em que medida é para as pessoas?» - era es­
ta a questão que o atormentava permanentemente e à qual não podia res­
ponder, ou antes , não se atrevia a responder. Sentia no fundo da alma que
o Diabo , furtivo , havia substituído toda a sua actividade para Deus pela
actividade para os homens . Sentia-o porque , tal como dantes lhe era pe­
noso que o arrancassem à sua solidão , agora era-lhe penosa a solidão . Os
O Diabo e Outros Contos 1 19

visitantes cansavam-no , desgostavam-no , mas no fundo do coração fica­


va feliz com a chegada deles e com os louvores que lhe teciam .
Houve uma altura em que decidiu ir-se embora, desaparecer. Chegou
a planear em pormenor como o faria. Pôs de parte uma camisa, calças ,
um cafetã e um gorro de mujique . Disse que era roupa para distribuir pe­
los pedintes. Guardava-a na cela, imaginando como se vestiria, como
cortaria o cabelo e como viajaria. Primeiro o comboio , trezentas verstás ,
depois apeava-se e iria a pé pelas aldeias . Fez perguntas a um velho sol­
dado para saber como era a vida de um vagamundo , onde davam esmo­
la, onde deixavam dormir. O soldado informou-o sobre os lugares onde
davam melhor esmola e deixavam entrar nas casas , e era precisamente
isso que o padre Sérgui queria fazer. Uma noite chegou a vestir-se , com
vontade de partir, mas não conseguia decidir-se sobre o que era bom: fi­
car ou partir? A princípio estava indeciso , mas a força do hábito logo dis­
sipou a sua hesitação e subjugou-se ao Diabo; a roupa de mujique ape­
nas lhe evocava de vez em quando os seus pensamentos e sentimentos .
A cada dia que passava era visitado por mais gente , e cada vez tinha
menos tempo para a consolidação espiritual e a oração . Por vezes , em
momentos de claridade , pensava que se tornara como um sítio onde an­
tes houvera uma nascente . «Havia uma fraca nascente de água viva que
corria de mim serenamente , através de mim. Aquilo era vida verdadeira
quando "ela" (era sempre com fascínio que se lembrava dela e daquela
noite; agora era a irmã Ágnia) , quando ela o tentou seduzir. Ela saboreou
aquela água pura. Mas , desde então , mal um pouquinho desta água sobe
no poço , vêm os sedentos e acotovelam-se , lutam por ela. E pisaram tu­
do , ficou só lama.» Assim pensava ele nos seus raros momentos de luci­
dez; no entanto, o seu estado normal passou a ser o cansaço e a pena en­
ternecida de si mesmo por causa desse cansaço .

Era Primavera, quarta semana depois da Páscoa, véspera de uma fes­


tividade . O padre Sérgui oficiava à noite na sua igreja da caverna, reple­
ta com quanta gente lá cabia: perto de vinte pessoas . Só fidalgos e co­
merciantes , ricos . O padre Sérgui deixava entrar toda a gente , mas o
monge encarregado de o ajudar, e um outro - dos que lhe mandavam
todos os dias do mosteiro - faziam uma selecção . Assim, juntou-se no
exterior uma multidão de oitenta peregrinos , na sua maioria mulheres ,
esperando pela saída do padre Sérgui e pela sua bênção . O padre Sérgui
1 20 Lev Tolstói

dizia o ofício e quando , cantando o Glória, saiu para se dirigir ao túmu­


lo do seu antecessor, cambaleou e teria caído se o comerciante e o mon­
ge que o acolitava não o segurassem por trás .
- O que tem? Paizinho ! Padre Sérgui ! Alminha! Oh , meu Deus ! -
ergueram-se as vozes das mulheres . - Ele está branco como um lençol .
- Mas o padre Sérgui recompôs-se de imediato e ; embora continuasse
pálido , afastou o comerciante e o diácono e continuou a cantar. O diáco­
no , padre Serapion , os salmistas e a senhora Sófia Ivánovna, que estava
sempre ao pé da ermida e cuidava do padre Sérgui , começaram a pedir­
-lhe que interrompesse o serviço religioso .
- Isto não é nada, não faz mal - disse o padre Sérgui esboçando sob
o bigode um sorriso débil - , não interrompam.
«Sim , isto é mesmo coisa de santo» , pensaram eles .
- Santo ! Anjo de Deus ! - ouviu ele . Era a voz de Sófia Ivánovna
atrás dele , e também a do comerciante que o segurara. Não deu ouvidos
às persuasões e continuou a oficiar. Mais uma vez , a multidão de fiéis
meteu pelo corredor e entrou na igrejinha onde o padre Sérgui terminou
o ofício nocturno , embora abreviando um pouco .
Logo depois do ofício , o padre Sérgui abençoou os fiéis e saiu para se
sentar no banquinho sob o ulmeiro à entrada da caverna. Queria descan­
sar, respirar o ar puro , sentia essa necessidade , mas , logo que saiu , a mul­
tidão precipitou-se para junto dele , pedindo a bênção, conselhos e ajuda.
Havia ali peregrinas que passavam a vida de santuário em santuário , de
stárets em stárets, enternecendo-se sempre diante de cada relíquia e de
cada stárets . O padre Sérgui conhecia esse tipo de pessoas - vulgar,
frio , convencional e nada religioso . Havia também peregrinos , na sua
maioria velhos soldados na reserva que tinham abandonado e perdido a
vida sedentária, que estavam na miséria e alcoolizados (quase todos) e
que se arrastavam de mosteiro em mosteiro apenas para se alimentarem;
havia ainda camponeses e camponesas rudes com as suas exigências
egoístas de cura ou de solução de dúvidas relativas a assuntos meramen­
te práticos: o casamento da filha, o arrendamento de uma lojeca, a com­
pra de uma terra, ou então o perdão dos pecados por terem concebido um
filho bastardo ou sufocado o bebé durante o sono por descuido. Conhe­
cia tudo isso desde sempre, e não lhe interessava. Já sabia que não ia ou­
vir nada de novo da parte dessa gente , que nada daquilo lhe despertaria
qualquer sentimento religioso , mas gostava de ver a multidão de indiví­
duos para quem a sua bênção e a sua palavra eram necessárias e precio­
sas; por isso a chusma de fiéis era ao mesmo tempo penosa e agradável
O Diabo e Outros Contos 121

para ele . Serapion começou a expulsá-los , dizendo que o padre Sérgui


estava cansado , mas Sérgui , lembrando-se das palavras do Evangelho -
«Não os impeçais de vir a mim» - , enterneceu-se consigo mesmo e dis­
se que os deixassem aproximar-se .
Levantou-se , acercou-se do corrimão junto do qual as pessoas se aper­
tavam, pôs-se a abençoá-las e a responder às suas perguntas numa voz
fraca que até a ele comovia. Porém, apesar da sua vontade de os receber
a todos , não teve forças: turvaram-se-lhe de novo os olhos , cambaleou ,
teve de se agarrar ao corrimão . Voltou a sentir a afluência de sangue à ca­
beça, a cara, primeiro , ficou-lhe muito branca, depois vermelha .
- Até amanhã, parece que tem de ser. Hoje não posso - disse ele e,
depois de dar uma bênção geral , encaminhou-se para o banco . O comer­
ciante voltou a ajudá-lo , levou-o pelo braço , sentou-o .
- Nosso pai ! - ouviu-se no meio da multidão . - Nosso pai ! Paizi­
nho ! Não nos abandones . Sem ti estaremos perdidos .
O comerciante, depois de ter sentado o padre Sérgui no banco sob o
ulmeiro, assumiu a sua obrigação policial e pôs-se a escorraçar o povo .
De resto , fazia-o em voz baixa, pelo que o padre Sérgui não podia ouvi­
-lo , mas com resolução e raiva:
- Fora, fora daqui ! Ele já vos abençoou , o que quereis mais? Andor!
Senão levais , juro . Embora, rápido ! Tu , mulher, a das botas pretas , de­
sanda daqui , ouviste? Onde pensas que vais? Já te disseram: acabou .
Amanhã há mais, se Deus quiser, ele hoje está cansadíssimo .
- Paizinho , deixa-me só ver-lhe a carinha querida - pedia a velha.
- Ver o quê? Onde é que andas a meter o nariz?
O padre Sérgui , notando que o comerciante agia com uma severidade
exagerada, disse ao monge, em voz débil , que não expulsassem o povo .
Sabia muito bem que acabariam por correr com toda a gente dali e , em­
bora ansiasse por ficar sozinho e descansar, tinha dado a ordem, para
causar efeito .
- Está bem , está bem, mas eu não estou a escorraçá-los , estou só a
chamá-los à ordem, para que tenham vergonha - desculpou-se o co­
merciante . - É que isto é gente para mortificar o homem. Não têm pie­
dade , só pensam neles. Não pode ser, ouviram? Embora ! Amanhã . . .
E o comerciante fez dispersar toda a multidão .
Empenhava-se muito , aquele comerciante , por duas razões: gostava
da ordem e de tiranizar o povo, mas sobretudo porque precisava do pa­
dre Sérgui . Era viúvo e tinha uma filha única, doente, que não queria
casar-se; viera de longe (mil e quatrocentas verstás) para que o padre
1 22 Lev Tolstói

Sérgui a curasse . Já tentara tratá-la em vários sítios , durante dois anos .


Primeiro na clínica do centro distrital , onde havia uma universidade -
não resultou; depois levou-a a um curandeiro de Samara - melhorou
um pouco; a seguir foram consultar um médico de Moscovo que se fazia
pagar principescamente - não ajudou nada. Foi então que lhe disseram
que o padre Sérgui curava enfermos , e o comerciante não hesitou em
levá-la à ermida. Pois bem, quando dispersou toda a gente, aproximou­
-se do padre Sérgui e , sem quaisquer preliminares , pôs-se de joelhos e
disse bem alto:
- Padre , nosso santo ! Abençoa a minha filha enferma para que se cu­
re da sua maleita. Atrevo-me a recorrer a ti e a rojar-me aos teus santos
pés .
E juntou as mãos numa súplica. Procedia como se estivesse a fazer uma
coisa clara e firmemente definida pela lei e pela tradição , como se fosse
assim mesmo que se devia proceder e não de outra maneira qualquer, que
era aquele o processo de pedir a cura da filha. Fê-lo com tanta convicção
que o próprio padre Sérgui acreditou que era assim que se devia falar e
agir. Mandou-o levantar e contar o que se passava. O comerciante relatou
que a filha, moça de vinte e dois anos , adoecera dois anos atrás , após a
morte prematura da sua mãe: a rapariga fez «ah ! » e a partir daí ficou mal
da cabeça. Que a trouxera da terra, a mil e quatrocentas verstás , e que es­
tava na hospedaria à espera que o padre Sérgui a recebesse. De dia não se
atreve a ir à rua, tem medo da luz , só sai depois do sol-pôr.
- Está muito enfraquecida? - perguntou o padre Sérgui .
- Não , não , fraqueza não tem muita, até está cheiinha, mas é nervo-
rótica , como disse o doutor. Se o padre Sérgui a recebesse hoje, eu ia lá
buscá-la num instante . Meu santo, alivie o coração de um pai , ponha-lhe
a prole em ordem, cure a filha enferma de um pai .
E o comerciante voltou a tombar de joelhos e , dobrando a cabeça e en­
costando a face às mãos juntas , imobilizou-se . O padre Sérgui mandou­
-o de novo levantar e , cogitando na dureza da sua actividade e na sub­
missão com que tinha de a levar por diante , suspirou gravemente e ,
depois de alguns segundos de silêncio , disse:
- Está bem, traga-a hoje à noite . Nessa altura rezarei por ela, mas
agora estou muito cansado . - E fechou os olhos . - Depois mando avi­
sar.
O comerciante , pisando o chão em bicos de pés , o que fazia com que
as suas botas rangessem ainda mais , foi-se embora e o padre Sérgui fi­
cou sozinho finalmente.
O Diabo e Outros Contos 1 23

A vida do padre Sérgui estava repleta de ofícios divinos e fiéis visi­


tantes , mas o dia que findava tinha sido particularmente difícil . De ma­
nhã recebera um dignitário importante com quem tivera uma conversa
demorada; depois uma senhora com o filho . O filho era um jovem pro­
fessor universitário, descrente , trazido pela mãe que era uma crente ar­
dorosa e adepta abnegada do padre Sérgui . Pediu-lhe que falasse com o
filho. A conversa tinha sido muito angustiante . O jovem , que parecia não
querer entrar em discussão com o monge , concordava em tudo com ele ,
como se desse parte de fraco , mas o padre Sérgui percebeu muito bem
que o jovem não tinha fé e que , apesar disso , se sentia bem, sem proble­
mas , tranquilo . Sérgui recordava agora com desgosto essa conversa.
- Comer, paizinho? - perguntou o noviço .
- Sim, traga alguma coisa.
O noviço foi para uma pequena cela a dez passos da entrada da ca­
verna, deixando o padre Sérgui sozinho.
Tinham passado havia muito os tempos em que o padre Sérgui vivia
sozinho e fazia tudo sem a ajuda de ninguém, alimentando-se de pão eu­
carístico e de pão de centeio . Haviam-lhe provado que não tinha o direi­
to de descurar a sua saúde , e preparavam-lhe pratos magros mas nutriti­
vos . Comia pouco , mas mesmo assim muito mais do que antes , muitas
vezes com grande prazer, e não como no passado , em que o fazia com
repugnância e a consciência do pecado . Foi assim mais uma vez . Comeu
papas de cereal , bebeu uma chávena de chá e comeu metade de um pão
de trigo .
O noviço deixou-o sozinho no banco debaixo do ulmeiro .
Era uma tarde de Maio divinal , as folhas tinham brotado há pouco nas
bétulas , nos álamos trémulos , nos ulmeiros , nos pados e nos carvalhos .
Os pados por trás do ulmeiro estavam em plena floração , as pétalas ain­
da não tinham começado a cair. Os rouxinóis - um muito perto e outros
dois ou três em baixo , nos arbustos da ribeira - chilreavam , desfaziam­
-se em canto . De longe , do lado do rio , ouviam-se as cantigas dos traba­
lhadores que voltavam da labuta; o sol descia por trás da floresta e sol­
tava jorras de raios , quebrados quando atravessavam as folhagens . De
um lado era tudo verde-claro , do outro , onde estava o ulmeiro , era escu­
ro . Os besouros voavam, esbarravam contra os arbustos, caíam.
Depois do jantar, o padre Sérgui começou a leitura das orações : «Nos­
so Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus , tende piedade de nós» , depois um
salmo , mas de repente , no meio da leitura, um pardal mergulhou do ar­
busto para o chão e , piando e saltitando, aproximou-se dele , assustou-se ,
1 24 Lev Tolstói

esvoaçou e fugiu . O padre Sérgui lia uma oração que falava em abdicar
do mundo , e fazia-o o mais rapidamente que podia para mandar chamar
o comerciante e a filha doente: ela interessava-o . E o seu interesse pro­
vinha de ela ser uma pessoa nova, diferente, uma variação , e também
porque tanto a rapariga como o pai o consideravam um santo a quem
Deus ouvia. Sérgui, embora o negasse , no fundo da alma também se via
santo .
Muitas vezes espantava-se , não compreendia a razão por que lhe ca­
lhara, a ele , Stepan Kassátski , ser um homem tão bem-aventurado, um
autêntico milagreiro; e não tinha a mínima dúvida acerca disso: não po­
dia deixar de acreditar nos milagres que operara e que ele próprio verifi­
cara, desde o rapaz de catorze anos doente até à velhota que recuperara
a visão quando ele intercedera por ela nas suas orações .
Por mais estranho que parecesse, era verdade . Portanto, a filha do co­
merciante interessava-lhe porque era uma pessoa nova, porque tinha fé
nele e , ainda, porque queria confirmar com ela a sua força curadora e a
sua glória. «Viajam milhares de verstás para me verem, escrevem sobre
mim nos jornais , o próprio imperador está ao corrente , toda a Europa ou­
viu falar de mim , a própria Europa descrente» , pensava o padre Sérgui .
De repente teve vergonha daquela sua vaidade , voltou às orações . «Meu
Deus , Rei do Céu , consolador, alma da verdade , vinde e entrai em nós ,
purificai-nos de toda a imundície , salvai as nossas almas . Purifica-me da
conspurcação da glória humana que me domina» , repetia, recordando ao
mesmo tempo as vezes , inúmeras , em que tinha orado assim inutilmen­
te: as suas orações faziam milagres para os outros , não para si próprio; a
vontade divina não o libertava da sua paixão miserável .
Recordou as suas rezas nos primeiros tempos de retiro , quando im­
plorava a Deus a pureza, a humildade e o amor. Naquele tempo , pare­
cia-lhe que Deus ouvia as suas preces , sentia-se puro ao ponto de de­
cepar um dedo para não cair em tentação , e levantou o coto do dedo ,
com a pele enrugada, e beijou-o; naquele tempo , ao sentir uma repug­
nância constante pelo pecado , sentia-se humilde de verdade , e acredita­
va que havia amor dentro dele , e recordou com que ternura recebera,
uma ocasião , um velho soldado bêbado que lhe exigia dinheiro . . . E
evocou também a visita daquela mulher. Mas agora? Interrogou-se:
amava alguém, amava Sófia Ivánovna, o padre Serapion? Alimentava o
sentimento do amor por toda aquela gente que o visitava, pelo jovem
cientista com quem tivera uma conversa didáctica, cuidando apenas em
exibir-lhe o seu intelecto e em mostrar que estava à altura dele no to-
O Diabo e Outros Contos 1 25

cante a educação? O amor deles era-lhe agradável e necessário , mas


não lhes retribuía esse amor. Já não havia nele o amor, nem a humilda­
de , nem a pureza.
Gostou de saber que a filha do comerciante tinha vinte e dois anos , e
gostaria também de ver se era bonita. Na verdade, quando perguntou se
ela estava «enfraquecida» , queria apenas saber se tinha ou não encanto
feminino .
«Será que caí assim tão baixo? - interrogou-se . - Meu Deus, valei­
-me , restabelecei-me , meu Senhor e meu Deus .» Juntou as mãos e reco­
meçou a orar. Os rouxinóis trinavam. Um besouro bateu nele e rastejou­
-lhe pela nuca. Sacudiu o bicho . «Mas será que Ele existe? E se estou a
bater à porta de uma casa fechada por fora? . . . O cadeado está na porta,
posso vê-lo . É um cadeado de rouxinóis , besouros , natureza. Talvez
aquele jovem tenha razão .» E começou a rezar em voz alta, durante mui­
to tempo, até esses pensamentos desaparecerem e ele se sentir de novo
calmo e seguro . Tocou a campainha e pediu ao noviço que fosse dizer ao
comerciante e à filha que poderiam vir imediatamente .
O comerciante levou-lhe a filha pelo braço e , depois de a meter den­
tro da cela, deixou-a e foi-se embora.
A filha era loira branquíssima, pálida, gorda, muito pacata, com uma
cara infantil e assustada e formas femininas bem desenvolvidas . O padre
Sérgui quedou-se sentado no banquinho à entrada. Quando a rapariga,
chegando ao pé dele, parou e ele lhe deu a bênção , ficou horrorizado
consigo por ter examinado daquela maneira o corpo dela. Ela passou , e
Sérgui como que se sentiu picado . Viu pela cara da moça que era sensual
e mentalmente débil . Levantou-se e entrou na cela. A rapariga estava
sentada no banco à espera dele .
· Quando Sérgui entrou, ela levantou-se .
- Quero o meu pai - disse .
- Não tenhas medo . O que te dói? - perguntou o padre Sérgui .
- Dói-me tudo - respondeu e , de repente, o seu rosto iluminou-se
num sorriso .
- Vais ficar boa - disse Sérgui . - Reza.
- Rezar para quê? Já rezei , é inútil . - E não parava de sorrir. - Re-
ze o senhor por mim, e imponha-me as mãos . Vi-o num sonho .
- E viste o quê?
- Vi que o senhor me punha a mão no peito, assim . - Pegou na mão
dele e apertou-a contra o seu peito . - Aqui .
Ele deixou que ela lhe apertasse a mão direita contra o seio .
1 26 Lev Tolstói

- Como te chamas? - perguntou , todo a tremer, sentindo-se já ven­


cido , sabendo que a luxúria fugira já do seu controlo .
- Mária. Porquê?
A rapariga pegou-lhe na mão e beijou-lha, depois envolveu-lhe a cin-
tura com o braço e puxou-o contra si .
- O que estás a fazer, Mária? - disse ele . - És o Diabo.
- Ora bem, não faz mal , talvez .
E , sempre a abraçá-lo , sentou-se com ele na cama.

Ao amanhecer, Sérgui saiu à soleira da porta.


«Será verdade que tudo isto aconteceu? Chega o pai , ela conta. O que
hei-de fazer? Bom, aqui está o machado com que cortei o dedo .» Pegou
no machado e já ia a entrar na cela.
Apareceu-lhe o noviço .
- Quer que eu corte a lenha? Dê-me o machado , por favor.
Entregou-lhe o machado . Entrou na cela. Mária dormia. Olhou para
ela com terror. Atravessou o quarto, foi buscar a roupa de mujique ,
vestiu-a, pegou na tesoura, cortou o cabelo e , metendo pela vereda, des­
ceu o monte até ao rio , onde já não ia há quatro anos .
O caminho estendia-se ao longo do rio; seguiu-o e caminhou até à ho­
ra do almoço . Depois entrou numa seara de centeio e deitou-se. À noite
chegou a uma aldeia na margem do rio . Não entrou na aldeia, meteu pa­
ra a margem escarpada do rio .
Despontou a claridade da manhã, faltava meia hora para o nascer do
sol . Tudo era cinzento e sombrio , do ocidente soprava o vento frio da
madrugada. «Sim, tenho de acabar com isto . Não há Deus . Mas acabar
como? Atirar-me ao rio? Mas sei nadar, não me afogo . Enforcar-me?
Muito bem, está aqui a faixa, está ali o galho .» Pareceu-lhe aquilo tão
possível e próximo que se aterrorizou . Quis rezar, como fazia normal­
mente nos momentos de desespero . Mas não havia a quem rezar. Não ha­
via Deus . Estava deitado , com a cabeça apoiada na mão . De repente sen­
tiu uma necessidade tão grande de dormir que se tomou incapaz de
apoiar a cabeça na mão , estendeu o braço , pousou nele a cabeça e ador­
meceu de imediato . O sono durou apenas um instante; acordou e pôs-se
a recordar, ou então entrou em devaneio .
Está a ver-se criança , ou pouco mais , em casa da mãe , na aldeia.
Aproxima-se uma caleche , pára, saem de lá o tio Nikolai Serguéevitch ,
O Diabo e Outros Contos 1 27

com as barbas enormes , largas , negras , e uma miúda magricela, a Pá­


chenka, de grandes olhos meigos e cara tímida, lamentosa. Levam a miú­
da Páchenka para junto do grupo dos rapazes , têm de brincar com ela,
mas é enfadonho . É estúpida. Então riem-se dela, obrigam-na a mostrar
como sabe nadar. Ela estende-se no chão e mostra. Obrigam-na a fazer
essa figura de parva e todos se riem. Páchenka percebe, a cara dela
cobre-se de manchas vermelhas , e tem um ar tão desgraçado , tão mise­
rável que ele nunca mais irá esquecer aquele sorriso torcido , bondoso e
submisso da miúda Páchenka. E Sérgui lembra-se de a ter visto mais tar­
de, muitos anos depois , antes de ele tomar hábito . Estava casada com um
proprietário de terras que esbanjou toda a fortuna de Páchenka e a es­
pancava. Páchenka tinha dois filhos , um menino e uma menina. O filho
morreu criança.
Sérgui recordava como a vira cair na desgraça. Depois viu-a no mos­
teiro , já viúva. Sempre a mesma - nem tanto estúpida, mas miserável ,
humilde , de mau gosto . Chegou ao mosteiro com a filha e o noivo des­
ta. Já eram pobres . Depois ouviu dizer que vivia numa cidade da pro­
víncia e passava por grandes necessidades . «Porque estou a pensar nela?
- perguntava a si mesmo . - Onde estará? Como estará? Continua a ser
uma desgraçada como no tempo em que demonstrava a seco como se na­
dava, deitada no chão? Mas porque estou a pensar nela? O que se passa
comigo? Tenho de pôr um fim a tudo isto .»
Voltou a ter medo e, para fugir do pensamento do medo , recomeçou a
pensar em Páchenka.
Ficou assim muito tempo , deitado , ora a pensar na necessidade de pôr
termo à vida, ora em Páchenka. Esta, em boa verdade , surgia-lhe como
a salvação . Por fim adormeceu . Sonhou com um anjo que chegava e di­
zia: «Vai ter com Páchenka e saberás , pela boca dela, o que tens de fa­
zer, e qual é o teu pecado , e onde está a tua salvação .»
Acordou e, convicto de que aquela visão tinha sido uma mensagem de
Deus , decidiu cumprir o que lhe aparecera no sonho . Sabia em que cida­
de ela vivia - a trezentas verstás dali - e meteu-se a caminho .

Há muito que Páchenka não era Páchenka mas Praskóvia Mikhái­


lovna, velha, ressequida, enrugada, sogra de um homem azarado e bê­
bado , o funcionário Mavríkiev. Vivia na cidade em que o genro tivera
1 28 Lev Tolstói

a última colocação e era lá que alimentava a farru1ia: a filha, o genro


doente , neurótico , e cinco netos . Ganhava para o pão dando aulas de
música às filhas dos comerciantes , a cinquenta copeques a hora. Dava
quatro aulas por dia, às vezes cinco , fazendo assim sessenta rublos
mensais. Era com isso que viviam enquanto esperavam por nova colo­
cação de Mavdkiev. Entretanto , Praskóvia Mikháilovna escrevera a to­
dos os parentes e conhecidos , incluindo a ele , pedindo ajuda para a ob­
tenção de um cargo , mas a carta destinada a Sérgui já não o apanhou no
mosteiro .
Era sábado , Praskóvia Mikháilovna preparava o pão doce com passas
de uva que , em tempos , o servo cozinheiro do seu pai fazia muito bem.
Queria regalar os netos no dia seguinte, um feriado .
Macha, a filha, estava a tratar do mais pequeno , os mais velhos , um
rapaz e uma rapariga, estavam na escola. O genro , que não tinha dormi­
do toda a noite, adormecera havia pouco . Também Praskóvia Mikhái­
lovna se deitara tarde , depois de mais uma tentativa para acalmar a rai­
va da filha contra o marido .
Via que o genro era uma criatura fraca que não sabia falar nem viver
de outra maneira, e via que eram inúteis as censuras com que a mulher o
alvejava, sendo por isso que se esforçava por acalmar a filha, tentando
atenuar essas censuras e essa maldade . Sentia-se incapaz, quase fisica­
mente , de suportar as más relações entre as pessoas: para Praskóvia Mi­
kháilovna era claro como água que isso não melhorava as coisas , só as
piorava. De resto , nem sequer pensava nisso , apenas sofria ao ver o es­
pectáculo da raiva, como quem sofre com o mau cheiro , com o barulho
brusco , com as pancadas no corpo .
Toda orgulhosa, estava a ensinar Lukéria a preparar a massa fermen­
tada, quando o neto de seis anos , de bibe e meias remendadas nas pernas
tortas , entrou a correr na cozinha com a carinha toda assustada.
- Vovó , está ali um velho horroroso a perguntar por ti .
Lukéria foi ver.
- É verdade, minha senhora. Um peregrino qualquer.
Praskóvia Mikháilovna limpou os antebraços magros um contra o ou­
tro , limpou as mãos ao avental e já ia pegar no porta-moedas para tirar
os cinco copeques da esmola quando se lembrou de que não tinha moe­
das pequenas , só de dez , resolvendo dar pão ao pedinte; voltou ao apa­
rador e, de repente , envergonhada da sua sovinice e sentindo-se corar,
disse a Lukéria para cortar uma fatia e foi buscar uma moeda de dez. «É
este o castigo - disse para si - , agora dou a esmola a dobrar.»
O Diabo e Outros Contos 1 29

Com muitas desculpas , entregou ambas as coisas ao peregrino , sem se


orgulhar da sua generosidade , pelo contrário , com vergonha de oferecer
tão pouco - tão respeitável era a figura do peregrino .
Apesar de ter feito trezentas verstás a pedir esmola por amor de Cris­
to e de ter ficado esfarrapado , magro , escuro de cara, apesar do cabelo
cortado , do chapéu e das botas de mujique , apesar das suas vénias hu­
mildes , Sérgui mantinha aquele seu aspecto respeitável que tanto atraía
as pessoas . Mesmo assim, Praskóvia Mikháilovna não o reconheceu .
Aliás , nem podia reconhecê-lo porque não o via há quase trinta anos .
- Desculpe , sim, paizinho? Talvez queira comer alguma coisa?
Sérgui pegou no pão e no dinheiro mas não se foi embora. Praskóvia
Mikháilovna ficou surpreendida ao ver que o homem ficava ali especa­
do a olhar para ela.
- Páchenka, vim cá falar contigo . Recebe-me .
Os belos olhos negros de Sérgui , suplicantes e brilhantes das lágrimas ,
estavam pousados nela. Sob o bigode grisalho tremiam-lhe lastimosa­
mente os lábios .
Praskóvia Mikháilovna levou a mão ao peito ressequido , abriu a boca,
ficou paralisada a olhar para a cara do peregrino .
- Não é possível ! Stepan ! Sérgui ! Padre Sérgui !
- Sim, é o próprio - disse Sérgui baixinho . - Mas não sou o Sér-
gui , nem o Padre Sérgui , sou o grande pecador Stepan Kassátski , um ho­
mem perdido , um grande , grande pecador. Recebe-me , ajuda-me .
- Parece impossível como pode humilhar-se dessa maneira ! Vamos ,
entre .
Estendeu-lhe a mão, mas Sérgui não lha tomou . Entrou atrás dela.
Para onde podia levá-lo? O apartamento era pequeno . A princípio ti­
nha sido destinado para Páchenka um quarto minúsculo , quase uma des­
pensa, mas depois teve de deixar esse cubículo para a filha que , de mo­
mento, se encontrava lá a embalar o bebé .
- Sente-se aqui por enquanto - disse Páchenka, apontando para o
banco da cozinha.
Sérgui sentou-se e, com um gesto já habitual , desprendeu as correias
do saco de um ombro e , depois , do outro .
- Meu Deus , meu Deus , como se humilha tanto ! Com essa fama, e
olhe . . .
Sérgui não respondeu , apenas sorriu com meiguice , pondo o saco de­
baixo do banco .
- Macha, sabes quem é este senhor?
1 30 Lev Tolstói

E Praskóvia Mikháilovna, num sussurro , contou à filha quem era Sér­


gui e , juntas , tiraram a roupa da cama do cubículo e o berço , libertando­
-o para Sérgui .
Praskóvia Mikháilovna levou Sérgui para o quartinho .
- Descanse . Não leve a mal , isto é um pouco . . . Eu, agora, tenho de
sair.
- Onde vai?
- Dou aulas , até é vergonha dizê-lo . . . dou aulas de música.
- De música? Isso é bom. Ouça, Praskóvia Mikháilovna, eu vim cá
de propósito para falar consigo . Quando poderei fazê-lo?
- Para mim vai ser uma felicidade . E se for esta noite?
- Pode ser, mas quero pedir-lhe uma coisa: não diga a ninguém quem
eu sou . Confessei-o apenas a si. Vim-me embora e ninguém sabe para
onde . Tem de ser mesnio assim.
- Ah , mas eu já contei à minha filha.
- Então peça-lhe para ela não dizer nada.
Sérgui tirou as botas , deitou-se e , depois de uma noite em branco e de
ter palmilhado quarenta verstás , adormeceu de imediato .

Quando Praskóvia Mikháilovna voltou, Sérgui estava no cubículo à


espera dela. Não tinha ido almoçar com a família, mas comeu a sopa e
as papas que Lukéria lhe levou .
- Porque vieste mais cedo? - perguntou Sérgui . - Já podemos falar?
- A que devo a bem-aventurança de uma visita assim? Cancelei uma
aula, dou-a depois . . . Sempre sonhei visitá-lo, escrevi-lhe uma carta e , de
repente , esta felicidade .
- Páchenka ! Por favor, toma as palavras que te vou dizer como uma
confissão , como palavras que diria na hora da morte ao próprio Deus . Pá­
chenka, não sou um homem santo , nem sequer um homem simples , vul­
gar: sou um pecador imundo , perdido , orgulhoso . Não sei se sou o pior
dos pecadores , mas estou entre os piores de certeza.
Páchenka, a princípio , olhava para ele de olhos esbugalhados , mas
acreditava nas suas palavras . Depois , quando a sua crença se consolidou ,
tocou a mão dele e disse-lhe com compaixão , sorrindo:
- Stepan , não estarás a exagerar?
- Não , Páchenka. Sou um devasso , um assassino , um blasfemo e um
aldrabão .
O Diabo e Outros Contos 131

- Meu Deus ! Mas o que é isso? - balbuciou Praskóvia Mikhái­


lovna.
- Mas tenho de viver. Eu , que imaginava que sabia tudo , que ensi­
nava aos outros como deviam viver . . . não sei nada e peço que me en­
sines .
- Por amor de Deus , Stepan, deves estar a brincar. Porque é que vo­
cês todos se riem sempre de mim?
- Muito bem, estou a brincar, mas diz-me só: como viveste e como
vives a tua vida?
- Eu? Olha, foi uma vida péssima, a vida mais nojenta que pode ha­
ver, e agora Deus está a castigar-me , e eu mereço-o , e vivo muito mal ,
muito mal . . .
- E como foi o teu casamento , como viveste com o teu �arido?
- Correu tudo mal . Casei-me porque me apaixonei de maneira re-
pugnante. O meu pai era contra. Eu não quis ouvi-lo , casei . E depois de
casada, em vez de ajudar o marido , fazia-lhe a vida negra com os meus
ciúmes , uns ciúmes que não conseguia ultrapassar.
- Ouvi dizer que ele bebia.
- É verdade , mas eu também não sabia acalmá-lo . Passava o tempo
a censurá-lo . Ora, a bebida é uma doença, ele não conseguia parar, mas
eu proibia-o . Tínhamos cenas horríveis .
E olhava para Kassátski com os seus olhos maravilhosos que essas re­
cordações enchiam de sofrimento .
Kassátski lembrava-se do que lhe contavam: que o marido espancava
Páchenka. Agora, olhando para o seu pescoço magro e seco , com os ten­
dões proeminentes por trás das orelhas e o puxo de cabelo ralo , meio
acinzentado e meio loiro , via como que ao vivo o que acontecia.
- Depois fiquei sozinha com dois filhos e sem quaisquer recursos .
- Mas vocês tinham uma herdade .
- Vendemo-la, ainda o Vássia era vivo . . . e gastámos tudo . Era pre-
ciso sobreviver, mas eu não sabia fazer nada, como todas nós , as meni­
nas do nosso meio . Mas eu era a mais inútil, a mais incapaz de todas . En­
tão , enquanto vivíamos com o último dinheiro que nos restava, eu dava
a instrução aos meus filhos e aprendia também alguma coisa. O meu Mí­
tia , já na quarta classe , adoeceu de repente e Deus levou-mo . A Macha
apaixonou-se por Vânia, o meu genro . Ele é bom homem, mas desgra­
çado . Um doente .
- Mãezinha - interrompeu-a a filha - , tome conta do Micha, não
chego para todos .
1 32 Lev Tolstói

Praskóvia Mikháilovna estremeceu, levantou-se e , correndo ligeira


nos seus sapatos gastos , saiu e voltou logo a seguir com um miúdo de
dois anos ao colo; a criança lançava o corpinho para trás e agarrava-se
ao lenço dela.
- Ora bem, o que estava eu a dizer? Ah , pois, o Vânia tinha aqui um
cargo muito bom e um chefe muito querido , mas não era capaz de traba­
lhar, teve de pedir a suspensão .
- Que doença tem ele?
- Neurastenia, uma coisa terrível . Teve uma consulta, precisa de tra-
tamento , mas não temos meios para isso . Tenho a esperança de que aqui­
lo passe por si . Não lhe dói nada em especial , mas . . .
- Lukéria ! - ouviu-se a voz dele , zangada e fraca. - Mandam-na
sempre a qualquer lado quando preciso dela. Mãezinha!
- Já vou . - Praskóvia Mikháilovna voltou a interromper o seu rela­
to . - Ainda não almoçou . Não pode almoçar connosco .
Saiu para tratar das suas coisas e voltou , limpando as mãos magras e
bronzeadas .
- É assim que eu vivo . Estamos sempre a queixar-nos , sempre des­
contentes , mas os netinhos , graças a Deus , são muito queridos , têm saú­
de , e assim pode-se viver. Mas para que estamos a falar de mim?
- E vivem de quê?
- Eu ganho alguma coisa. Veja lá, dantes a música aborrecia-me , mas
agora tiro proveito dela.
Tinha a mão pequena em cima da mesa e , como se fizesse exercícios
no teclado , fazia correr os dedos magros pelo tampo .
- Quanto lhe pagam pelas aulas?
- Entre cinquenta copeques e um rublo , mas também há quem pague
só trinta. São todos muito bons para mim.
- E os alunos , fazem progressos? - Havia um ligeiro sorriso nos
olhos de Kassátski .
Num primeiro momento , Praskóvia Mikháilovna não acreditou que a
pergunta fosse a sério e olhou-o interrogativamente nos olhos .
- Alguns fazem progressos , sim. Há uma miúda muito querida, filha
do talhante , muito bondosa. É claro que , se eu fosse uma mulher decen­
te , poderia arranjar um bom emprego para o meu genro com a ajuda das
pessoas conhecidas do meu pai . Mas não sabia nada, e foi assim que os
levei a todos a esta situação .
- Pois , pois - disse Kassátski inclinando a cabeça. - Páchenka, e
como participa na vida da i�reja?
O Diabo e Outros Contos 133

- Ah , não me fale disso ! Muito mal , tenho-me descuidado . Preparo-


-me para a comunhão , com os filhos , e vou sempre com eles à igreja, mas
de resto passam-se meses a fio sem pôr lá os pés . Mando os filhos .
- Porque é que não vai?
- Para dizer a verdade . . . - Praskóvia Mikháilovna corou . - Com
estes farrapos até tenho vergonha de ir com a filha e os netos , não tenho
nada que vestir. Ou , se quiser, tenho preguiça, pura e simplesmente .
- Mas reza em casa?
- Rezo, mas que reza é essa? Tudo maquinal. Sei que é errado, mas não
há um verdadeiro sentimento, há apenas a consciência do meu pecado . . .
- Pois, pois, é isso - dizia Kassátski , como que aprovando .
- Já vou , já vou - respondeu ela ao chamamento do genro e , ajei-
tando a trancinha na cabeça, saiu do quarto .
Demorou bastante. Quando voltou , Kassátski estava sentado na mes­
ma posição , cabisbaixo e com os cotovelos apoiados nos joelhos . Mas de
saco às costas .
Quando ela entrou com um candeeiro de lata, sem campânula, Sérgui
levantou os olhos belos e cansados e suspirou fundo , muito fundo .
- Eu não lhes disse quem era o senhor - começou ela com timidez
- , disse apenas que era um peregrino fidalgo que eu conhecia. Vamos
para a sala de jantar tomar chá.
- Não . . .
- Então trago-lho cá.
- Não, não é preciso . Que Deus te proteja, Páchenka. Eu vou andan-
do . Se tens pena de mim, não digas a ninguém que me viste . Peço-te pe­
lo Deus vivo: não digas a ninguém. Obrigado por tudo . Tenho vontade
de me rojar aos teus pés mas sei que isso te embaraça . Obrigado e , por
amor de Cristo , perdoa-me .
- Dê-me a sua bênção .
- Deus te abençoe. Perdoa-me .
Já ia a sair mas ela deteve-o , entregando-lhe pão , roscas e óleo . Sér­
gui pegou em tudo e saiu .
Estava escuro e , logo à distância de dois prédios , Páchenka deixou de
o ver e só percebeu onde ele ia quando o cão do arcipreste lhe ladrou .

«Era então esse o significado do meu sonho . Páchenka é precisamen­


te a pessoa que eu deveria ter sido mas não fui . Vivia para as pessoas fin-
1 34 Lev Tolstói

gindo que era para Deus, mas ela vive para Deus imaginando que vive
para as pessoas . . . Sim, uma boa acção , uma chávena de água oferecida
sem pensar na recompensa é mais preciosa do que toda a minha benefi­
cência para com as pessoas . Mas , em parte, não terá havido sempre em
mim o desejo sincero de servir a Deus? - perguntou a si próprio e res­
pondeu: - Sim, mas tudo isso estava conspurcado , coberto com a lama
da glória mundana. Pois é , não há Deus para quem viveu como eu , em
prol da glória mundana. Vou procurar Deus.»
E foi de aldeia em aldeia - como já fazia antes de chegar à casa de
Páchenka - , ora se juntando , ora se separando dos peregrinos e pere­
grinas , esmolando o pão e a pernoita por amor de Cristo . Por vezes era
insultado por uma dona de casa maldosa, ou por um mujique bêbado ,
mas na maioria dos casos davam-lhe de comer e beber, e até alguma coi­
sa de reserva para o caminho . O seu ar de fidalgo despertava a simpatia
de algumas pessoas . Outros , pelo contrário , regozijavam-se por verem
um senhor que caíra na miséria. A humildade de Sérgui , porém, vencia
toda a gente .
Muitas vezes , ao encontrar numa casa um Evangelho , lia-o em voz al­
ta e as pessoas comoviam-se e espantavam-se , como se estivessem a ou­
vir uma coisa nova e , ao mesmo tempo , familiar.
Quando servia as pessoas com um conselho , com um serviço de ho­
mem culto , ou apaziguando os desavindos , não esperava pela gratidão
que lhe votassem, virava as costas e ia-se embora de imediato . E , a pou­
co e pouco , Deus começou a revelar-se nele .
Uma ocasião caminhava na companhia de duas velhas e de um solda­
do . Um senhor e uma senhora, viajando num charabã atrelado a um be­
lo trotador, e outro senhor e uma menina montados nos cavalos ,
mandaram-nos parar. Nos cavalos iam o pai e a filha, e a mãe ia no cha­
rabã com um francês , por certo um viajante.
Mandaram parar os caminhantes para mostrarem ao francês les pele­
rins10 que , seguindo a superstição própria do povo russo , caminhavam
de um lugar para outro em vez de trabalharem.
Falavam em francês , pensando que nenhum dos peregrinos os com­
preendia.
- Demandez-leur - disse o francês - s 'ils sont bien surs de ce que
leur pelerinage est agréable à Dieu l l .
Perguntaram-lhes . As velhas responderam:
- Será como Deus o aceitar. Com os pés vamos , prouvera que com o
coração também .
O Diabo e Outros Contos 1 35

Perguntaram ao soldado . Respondeu que estava sozinho no mundo ,


que não tinha abrigo .
Perguntaram a Kassátski quem era.
- Sou um servo de Deus .
- Qu 'est-ce qu 'il dit? II ne répond pas l 2 .
- II dit qu 'il est un serviteur de Dieu l 3 .
- Cela doit être un fils de prêtre . II a de la race . Avez-vous de la pe-
tite monnaie? l 4
O francês encontrou uns cobres . Deu a cada peregrino vinte copeques .
- Mais dites-leur que ce n 'est pas pour des cierges que je leur don­
ne, mais pour qu 'ils se régalent de thé; chá, chá, pour vous, mon vieuxl 5
- disse ele sorrindo e dando pancadinhas com a mão enluvada no om­
bro de Kassátski .
- Que Deus vos ajude - disse Kassátski , sem pôr o chapéu e incli­
nando a cabeça careca.
Este encontro foi particularmente agradável para Kassátski porque
não se importou com a opinião das pessoas e fez a mais simples e insig­
nificante das coisas: aceitou com humildade a moedinha e deu-a ao com­
panheiro , um pedinte cego . Quanto menos importância tinha a opinião
das pessoas , tanto mais Deus se fazia sentir.
Kassátski deambulou assim durante oito meses, ao nono foi detido nu­
ma capital de província, no albergue nocturno onde ficou a dormir com
outros peregrinos , e, como não tinha passaporte, foi levado para a es­
quadra. À s perguntas sobre os documentos e a identidade, declarou que
não tinha passaporte e que era servo de Deus . Foi considerado vagabun­
do , julgado e deportado para a Sibéria.
Na Sibéria instalou-se na granja de um mujique rico e ainda hoje lá es­
tá. Trabalha na horta do patrão, dá aulas às crianças e cuida dos doentes .
DEPOIS DO BAILE

- Dizem os senhores que é impossível perceber-se , apenas por si , o


que é o bem e o que é o mal , que tudo depende do ambiente , que o en­
volvimento social nos constrange . Mas eu acho que tudo depende do
acaso . Posso apresentar-me como exemplo .
Assim falou Ivan Vassilievitch , um homem respeitado por todos, no
termo da nossa conversa sobre a asserção de que , para o aperfeiçoa­
mento pessoal , é necessário modificar previamente as condições em
que as pessoas vivem. Em boa verdade , ninguém tinha dito que era
«impossível perceber-se apenas por si o que é o bem e o que é o mal» ,
mas Ivan Vassilievitch tinha esta mania de responder às ideias próprias
que lhe surgiam na conversa e, também, a de contar episódios da sua
vida que a discussão lhe sugeria. Muitas vezes entusiasmava-se tanto
com a sua história que se esquecia por completo do motivo que lhe es­
tava subjacente , além de que contava as coisas com muita franqueza e
veracidade .
Assim aconteceu também desta vez .
- Posso apresentar-me como exemplo . O rumo da minha vida foi
sempre este e não outro , e não foi por causa do ambiente social mas de
uma coisa muito diferente .
- Foi por causa de quê , então?
- É uma longa história. Para a compreenderem, tenho de contar tudo
até ao fim.
- Então conte.
Ivan Vassilievitch ficou pensativo , abanou a cabeça.
- Pois é - disse ele. - Para mudar toda a minha vida bastou uma
noite, ou antes , uma manhã.
- O que aconteceu?
1 38 Lev Tolstói

- Sucedeu que eu estava loucamente apaixonado . Isso já me tinha


acontecido muitas vezes, mas aquele amor era sem dúvida o mais forte .
Ora bem , águas passadas , ela já tem filhas casadas . Era a menina B . . . ,
sim, Várenka B . . . Aos cinquenta anos ainda era de uma beleza incrível ,
agora imaginem-na na juventude , aos dezoito . Era encantadora: alta, es­
belta, graciosa e majestosa, sim, era mesmo isso - majestosa. Sempre
de costas muito direitas , como se a sua postura não pudesse ser outra,
empinava a cabeça ligeiramente para trás , e isso , em conjunto com a be­
leza e a estatura alta (apesar de magra e um pouco ossuda) , dava-lhe um
ar de realeza que faria recuar as pessoas se não fosse o sorriso sempre
meigo e alegre que lhe pairava nos lábios e nos olhos brilhantes, além de
todo o seu ar jovem e querido .
- Ena, que belo retrato o Ivan Vassilievitch está a pintar.
- Por mais que pinte , não poderei descrevê-la de maneira a que os se-
nhores vejam como ela era. Mas não se trata disso . A história que quero
contar passou-se nos anos quarenta. Nessa altura eu estudava numa uni­
versidade da província. Não sei se era uma coisa boa ou má, mas naque­
le tempo não havia na nossa universidade quaisquer círculos ou teorias ,
éramos simplesmente jovens e vivíamos como é próprio da juventude:
estudávamos e divertíamo-nos . Eu era um rapaz muito faceto e remexi­
do , e ainda por cima rico . Tinha um cavalo soberbo - um lindo esqui­
pador - , brincava nos montes de gelo com as meninas (os patins ainda
não estavam na moda) , estroinava com os meus companheiros (naquela
altura só bebíamos champanhe; quando não tínhamos dinheiro , não be­
bíamos nada, não nos metíamos na vodca como se faz agora) . Pois bem,
o meu principal prazer era os serões e os bailes . Dançava razoavelmen­
te e não era nada feio .
- Ora, ora, que modéstia ! - interrompeu-o uma das interlocutoras .
- Vimos o seu retrato , ainda em daguerreótipo . Qual feio, qual quê, era
um bonitão .
- Feio ou bonito , não interessa. O que importa é que , na altura desse
meu amor louco por ela, no último dia do Entrudo fui ao baile a casa do
decano da nobreza dessa província, um velhote bondoso , rico , hospita­
leiro e KammerherrI 6 . Quem recebia os convidados era a esposa, de es­
pírito benevolente como ele, vestida de veludo castanho-avermelhado ,
com umaferronniere 1 7 de diamantes na cabeça, os olhos e o peito deco­
tados , velhos , roliços , como nos retratos da imperatriz Isabel . O baile foi
uma maravilha: a sala excelente , com galerias , os músicos famosos -
naquele tempo ainda eram servos do senhor rural - , o bufete era ópti-
O Diabo e Outros Contos 1 39

mo , servindo um mar de champanhe . Embora eu fosse um grande ama­


dor dessa bebida, não lhe toquei , porque embriagado já eu estava, mas
de amor. Dancei até não poder mais - quadrilhas , valsas , polcas - e
sempre com Várenka, quando era possível , evidentemente . Ela estava de
vestido branco com faixa rosada, luvas brancas de pelica que não chega­
vam mesmo até aos cotovelos magros e agudos , e com sapatos de cetim
branco . A mazurca foi-me roubada pelo engenheiro Aníssimov, esse ve­
lhaco - ainda hoje não posso perdoar-lhe - , que a convidou mal ela en­
trou na sala (eu tinha-me atrasado porque fui a uma loja buscar umas lu­
vas) . Por conseguinte não dancei a mazurca com ela mas com uma alemã
que andara a cortejar um pouco algum tempo antes . Naquela noite , po­
rém, receio que não fui suficientemente delicado com ela: não falava,
não olhava para ela, enfim, só tinha olhos para a figura alta e esbelta de
vestido branco e faixa cor-de-rosa, com o rosto radioso e corado, com
covinhas nas faces e olhos meigos , queridos . E não era só eu , toda a gen­
te olhava para ela com admiração , tanto os homens como as mulheres ,
apesar de ela as ofuscar. Era impossível que alguém não a admirasse .
Digamos que, pelas regras , não foi com ela que dancei a mazurca, mas
na realidade estive sempre a dançar com V árenka. Ela , sem se embara­
çar, atravessava toda a sala para se juntar a mim, e eu saltava do lugar
sem esperar pelo seu convite; e ela agradecia a minha sagacidade com
um sorriso . Quando era levada à minha frente e não conseguia acertar na
minha característical 8 e estendia a mão a outro , encolhia os ombros ma­
grinhos e sorria-me em sinal de lamento e consolação.
Quando as figuras da mazurca eram em valsa, dançava com V árenka
demoradamente , e ela, com a respiração apressada e um sorriso , dizia­
-me «encore» . E eu continuava a valsar mais e mais e nem sentia o meu
corpo .
- Como podia não sentir? Acho que sim, que sentia. Quando a abra­
çava pela cintura, sentia não só o seu corpo mas também o dela - disse
um dos convidados .
Ivan Vassilievitch ficou vermelho de repente e quase gritou:
- Por aqui se pode ver o que são vocês , o que é a juventude moder­
na. Não vêem outra coisa a não ser o corpo . No nosso tempo não era as­
sim. Quanto mais apaixonado ficava, mais incorpórea ela se tomava pa­
ra mim. Vocês vêem pés , tornozelos e não sei que mais , despem com os
olhos as mulheres por quem estão apaixonados , mas para mim, como
disse Alphonse Karr (um bom escritor, por acaso) , o objecto do meu
amor trajava sempre de bronze . Não só não as despíamos com os olhos
1 40 Lev Tolstói

como tentávamos encobrir-lhes a nudez, tal como fazia o bom filho de


Noé . Aliás , vocês não podem perceber . . .
- Deixe lá isso . O que aconteceu a seguir? - apressou um dos pre­
sentes.
- Ora bem , eu dançava sobretudo com ela e nem sentia o tempo a
correr. Os músicos , com o cansaço, já tinham entrado numa espécie de
desespero (sabem como é , no fim dos bailes?) , repetiam as passagens da
mazurca, nas salas de estar, os paizinhos e as mãezinhas já estavam à es­
pera da ceia e levantavam-se das mesas de jogo , os lacaios andavam nu­
ma azáfama para trás e para diante , transportando qualquer coisa. Passa­
va das duas da manhã. Era preciso aproveitar bem os últimos minutos .
Voltei a ir buscá-la e, pela centésima vez, evoluímos através da sala.
- Então , depois da ceia a quadrilha é minha? - perguntei-lhe quan-
do a levava ao seu lugar.
- Sem dúvida, se não me levarem para casa - disse ela sorrindo .
- Eu não vou deixar - respondi .
- Dê-me o leque - pediu ela.
- Tenho pena de lho devolver - disse eu, entregando-lhe o seu le-
que branco e barato .
- Fique então com uma pena - disse ela, arrancando uma do leque.
Peguei na pena e, só com o olhar, exprimi-lhe todo o meu fascínio e
gratidão . Não estava apenas animado e contente, estava feliz , pairava na
bem-aventurança, cheio de bondade, eu não era eu, era uma qualquer
criatura não terrestre que desconhecia a maldade e só era capaz de fazer
o bem.
Guardei a pena dentro da luva e fiquei especado , incapaz de me afas­
tar dela.
- Olhe , estão a teimar com o meu pai para dançar - disse-me ela
apontando para a figura alta e esbelta do seu pai , coronel de dragonas
prateadas que estava junto à porta com a dona da casa e outras senhoras .
- Várenka, venha cá - ouvimos a voz alta da anfitriã com aferron­
niere de diamantes e os ombros à imperatriz Isabel .
V árenka aproximou-se da porta, eu fui atrás dela.
- Ma chere , convença o seu pai a dançar consigo . Por favor, Piotr
Vladislávitch - continuava a senhora a insistir.
O pai de Várenka era um senhor muito bonito , esbelto , alto e fresco ,
com um rosto de cores sadias , bigode branco frisado à la Nicolas /, suí­
ças também brancas que se ligavam ao bigode , patilhas e cabelo das
têmporas alisados para a frente , e um sorriso feliz nos olhos e nos lábios
O Diabo e Outros Contos 141

como o d a filha. Era de bela compleição , peito largo e inchado à ma­


neira militar, adornado com poucas condecorações , ombros fortes e per­
nas compridas e direitas . Era um chefe militar à antiga, da escola de Ni­
colau 1 .
Quando nos aproximámos da porta, o coronel continuava a fazer-se
caro, pretextando que já desaprendera a dançar; mesmo assim , sorrindo ,
levou a mão ao lado esquerdo, tirou a espada do cinturão , entregou-a a
um jovem obsequioso e , enfiando a mão direita na luva de camurça -
«é preciso respeitar as regras» , disse sorrindo - , pegou na mão da filha
e virou-se a três quartos , esperando .
Ao ouvir o início da melodia da mazurca, bateu com um pé, lançou o
outro com um movimento elegante , e a sua figura alta e sólida, ora nu­
ma fluência silenciosa, ora batendo os pés um contra o outro com baru­
lho e agitação , começou a evoluir pela sala. A figura graciosa de Váren­
ka, encurtando ou alongando imperceptível e atempadamente os passos
dos seus pezinhos de cetim branco , planava ao lado do pai . Toda a sala
seguia os movimentos do par. Quanto a mim, deliciava-me e olhava pa­
ra aquilo tudo com ternura e enlevo . Comoviam-me sobremaneira as bo­
tas do pai , com aquelas presilhas em cima - óptimas botas de cabedal ,
mas fora de moda, sem saltos , de biqueira larga e quadrada e não de bi­
queira pontiaguda. Feitas , pelos vistos , pelo sapateiro do batalhão . «Pa­
ra vestir e levar ao baile a filha querida, ele não compra botas na moda,
usa as caseiras» , pensava eu , extremamente comovido com aquelas bi­
queiras quadrangulares. Era notório que , no seu tempo , o coronel tinha
sido um dançarino excelente, mas agora, com as pernas pesadas e pouco
flexíveis , já não executava a preceito os passos rápidos e bonitos da dan­
ça. Mesmo assim, fez com habilidade duas rondas . E quando saltou
abrindo rapidamente as pernas , as tomou a juntar e, embora um pouco
pesadamente , caiu de joelho no chão , e ela, sorrindo e ajeitando a saia
que ele puxara sem querer, passou com graça ao seu redor, todos aplau­
diram com força. Depois de se endireitar com algum esforço , o coronel ,
com um gesto de ternura engraçada, pegou na filha pelas orelhas e
beijou-lhe a testa; depois levou-a até mim, pensando que eu era o par de­
la. Expliquei-lhe que não era eu o cavalheiro de Várenka.
- Não interessa, faça uma ronda com ela - disse ele , sorrindo-me
com carinho e enfiando a espada no cinturão .
Tal como , depois de uma gota, se derrama aos borbotões todo o con­
teúdo de uma garrafa, assim a minha paixão por V árenka libertou-me na
alma toda a minha capacidade de amar. Naquele momento eu abarcava
1 42 Lev Tolstói

todo o mundo com o meu amor. Amava a anfitriã da ferronniere com o


seu busto à Isabel , amava o seu marido , os seus convidados e os seus la­
caios , e amava até o engenheiro Aníssimov, amuado comigo . E pelo pai
dela, com as suas botas e o seu sorriso meigo , parecido com o dela, ali­
mentava nesse momento grande ternura e fascínio .
A mazurca terminou , os donos da casa convidaram toda a gente para
a ceia, mas o coronel B . . . escusou-se , dizendo que tinha de se levantar
cedo no dia seguinte , e despediu-se . Tive medo de que levasse a filha,
mas não , ficou com a mãe .
Depois da ceia, dancei com ela a prometida quadrilha. E embora esti­
vesse , como tudo indicava, infinitamente feliz , a minha felicidade não
parava de crescer. Não falávamos de amor, eu não lhe perguntava, nem
perguntava a mim próprio , se ela me amava. Bastava-me amá-la. Só ti­
nha medo de uma coisa: que alguma coisa estragasse a minha felicidade .
Quando voltei para casa despi-me e pensei em deitar-me, mas perce­
bi que não podia dormir. Tinha na mão a pena do leque de V árenka e
também uma luva que ela me oferecera, antes de se ir embora, quando
eu as ajudava a subir para o coche , a ela e à mãe . Olhava para aqueles
objectos e, sem fechar os olhos , via-a diante de mim no momento em
que , ao escolher entre dois cavalheiros, adivinhava a minha característi­
ca e , na sua voz querida, dizia: «Orgulho? Acertei?» , e me dava a mão
com alegria; ou quando , durante a ceia, levava aflute de champanhe aos
lábios e olhava para mim de soslaio , com aqueles olhos temos . Mas via­
-a sobretudo a dançar com o pai , movendo-se com graça e lançando
olhares de orgulho e alegria, por ela e por ele , aos espectadores admira­
dos . Involuntariamente , juntava pai e filha no mesmo sentimento de ca­
rinho e orgulho .
Naquele tempo , eu e o meu falecido irmão vivíamos sozinhos . Ele , de
uma maneira geral , não gostava da sociedade, não ia aos bailes ; além dis­
so , na altura preparava o exame do bacharelato e levava uma vida muito
recatada e regular. Estava a dormir. Olhei para a sua cabeça afundada na
travesseira e tapada até às orelhas pelo cobertor de flanela, e tive uma
grande pena e ternura por ele . Pena porque não conhecia nem partilhava
a minha felicidade . O nosso lacaio Petrucha saiu ao meu encontro com
uma vela na mão , para me ajudar a despir, mas mandei-o dormir. Até a
cara sonolenta e o cabelo desgrenhado de Petrucha me pareciam como­
ventes . Tentando não fazer barulho , fui em bicos de pés para o meu quar­
to e sentei-me na cama. Não , não conseguiria dormir, estava demasiado
feliz . Além disso, o calor era muito dentro dos quartos aquecidos; então ,
O Diabo e Outros Contos 1 43

sem despir a farda, fui para o vestíbulo , pé ante pé, pus o capote, abri a
porta e saí para a rua.
O baile acabara às quatro; gastei duas horas a chegar a casa, contando
com o tempo que passei no quarto , de maneira que , quando saí à rua, já
amanhecera. Era uma manhã típica da época do Entrudo: nevoeiro , neve
saturada de água a derreter-se nos caminhos , todos os telhados a pingar.
Naquele tempo, os B . . . viviam na periferia da cidade , junto a um cam­
po grande onde , numa ponta, era o internato das meninas e, na outra, um
espaço para passeios . Depois de sair de casa percorri a nossa ruela de­
serta e entrei na rua grande onde já se viam transeuntes e cavalos de car­
ga puxando trenós que já arranhavam a calçada por baixo da neve . Os ca­
valos , sob os seus arcos lustrosos , balançando a compasso as cabeças
molhadas , e os cocheiros , protegendo-se com esteiras e chapinhando ao
lado das carroças com as botifarras enormes - tudo aquilo era muito
simpático e significativo para mim .
Desemboquei no campo e , perto da casa deles , na zona dos passeios ,
vi qualquer coisa grande e escura donde jorravam os sons de flauta e
tambor. Também na minha alma tudo tocava e cantava, mas era mais a
melodia da mazurca. Ora, aquela música era outra, rude , feia.
«0 que será?» , pensei , e meti a direito pelo campo, seguindo o cami­
nho aberto pelos carros , todo escorregadio , na direcção dos sons . Depois
de ter andado uns cem passos, comecei a distinguir na neblina os vultos
escuros das pessoas , muitos . Eram soldados , pelos vistos . «Devem andar
em exercícios militares» , pensei , e fui atrás de um ferreiro de casaco de
pele seboso e avental , transportando qualquer coisa, e aproximei-me do
ajuntamento . Os soldados de fardamento preto estavam alinhados em
duas filas , frente a frente , com as espingardas em descanso, e não se me­
xiam . Por trás deles estavam os tambores e um flautista que repetiam
sem parar a mesma música esganiçada, desagradável .
- O que estão a fazer? - perguntei ao ferreiro que parara a meu
lado .
- Castigam um tártaro que andou fugido - disse o ferreiro, num tom
descontente , olhando para o extremo , bastante longínquo , das filas .
Pus-me também a olhar para lá e vi , entre as filas , uma coisa pavoro­
sa que se aproximava. A coisa era um homem nu até à cintura, amarrado
às espingardas dos dois soldados que o levavam . Ao lado ia um militar
alto de capote e boné em que reconheci algo de familiar. A vítima do cas­
tigo , contorcendo o corpo todo e chapinhando pela neve derretida sob os
golpes que choviam em cima dele de ambos os lados , aproximava-se de
1 44 Lev Tolstói

mim , ora caindo para trás , e então os sargentos que o levavam empurra­
vam-no para a frente , ora tombando para a frente , sendo empurrado pa­
ra trás pelos sargentos . Ao rés dele , sem se deixar atrasar, marchava em
passo firme e sacudido o militar alto . Era o pai de Várenka, com a sua
cara rubicunda e o bigode e as suíças brancos .
A cada golpe , o castigado como que se espantava e virava a cara tor­
cida de sofrimento para o lado donde choviam as pancadas e , arrega­
nhando os dentes , repetia umas palavras quaisquer, sempre as mesmas .
Só quando já estava muito perto distingui as suas palavras . Não falava,
soluçava: «Amigos, piedade . Amigos , piedade .» Mas os amigos não ti­
nham piedade e, quando a procissão chegou ao sítio onde eu estava, vi
um soldado a dar um passo resoluto em frente e ouvi o assobio do pau
que ele descarregou com força nas costas do homem. O tártaro tropeçou
para a frente , mas os sargentos logo o mantiveram direito e uma paulada
igual atingiu-o do outro lado , e mais uma deste , e mais outra do outro .
O coronel acompanhava o castigado e olhava ora para o chão , ora para o
desgraçado , inspirando o ar pelo nariz e , de bochechas inchadas ,
expirando-o lentamente pelos lábios em tubo . Quando passaram ao meu
lado vi de relance, através da fila, as costas do castigado: era uma coisa
tão multicolorida, molhada, escarlate e antinatural que não acreditei que
fossem de um corpo humano .
- Oh , meu Deus - murmurou o ferreiro .
Afastaram-se . As pancadas continuaram a chover de ambos os lados
sobre o homem que tropeçava e se contorcia, e ao mesmo compasso to­
cavam os tambores e silvava a flauta, e com o mesmo passo firme avan­
çava a figura alta e esbelta do coronel ao lado do homem espancado . De
repente o coronel parou , depois aproximou-se rapidamente de um dos
soldados .
- Isso são carícias? - ouviu a sua voz irada. - Carícias? Anda lá,
que eu dou-te as carícias !
E , com a mão forte na luva de camurça, esmurrou a cara do soldado
baixinho e fraco , assustado, porque este não batera com a força sufi­
ciente nas costas vermelhas do tártaro .
- Trazei Spiessruten 1 9 novos ! - gritou , lançando um olhar para trás ,
e viu-me . Fingindo que não me reconhecera, carregou o sobrolho seve­
ramente , com raiva, e virou-me logo as costas . Senti tanta vergonha que ,
não sabendo para onde olhar, baixei os olhos como se tivesse sido apa­
nhado a cometer qualquer coisa ignóbil , e apressei-me a voltar para ca­
sa. Soavam-me nos ouvidos , durante todo o caminho , ora os sons dos
O Diabo e Outros Contos 1 45

tambores e da flauta, ora as palavras do tártaro: «Amigos , piedade» , ora


a voz convencida e irada do coronel: «São carícias , hã, carícias?» E o
meu coração enchia-se de uma angústia quase física, até à náusea, tão
forte que parei várias vezes . Ia com a sensação de que , a qualquer mo­
mento , vomitaria o horror que aquele espectáculo metera dentro de mim .
Não me lembro como cheguei a casa e me deitei , só sei que , mal come­
çava a adormecer, voltava a ouvir aquilo tudo . Saltei da cama.
«Pelos vistos , ele conhece alguma coisa que eu ignoro - dizia de
mim para mim pensando no coronel . - Se eu estivesse a par do que ele
sabe , compreenderia certamente o que vi e não me atormentaria tanto .»
Mas , por mais que matutasse , não chegava a perceber o que o coronel sa­
bia e eu não . Só adormeci à noite , e mesmo assim depois de ter passado
por casa de um amigo e me ter embebedado ferozmente .
Acham então os senhores que , depois daquilo , eu concluí que a cena
era um acto mau? Nada disso . «Se aquilo era feito com tanta convicção
e reconhecido por todos como necessário , significa que eles sabiam al­
guma coisa que eu não sei» , pensava eu , tentando compreender. Pois
bem , por mais que tentasse , não consegui compreender, nem sequer mais
tarde , até hoje. E como não compreendi , fui incapaz de entrar para o ser­
viço militar, como desejava antes dessa cena, e mais: não prestei serviço
militar nem prestei serviço nenhum . Mas , como é evidente , eu também
não prestava para nada.
- Ora, ora, bem sabemos como não prestava para nada - disse um
dos presentes . - Diga antes quantas pessoas não prestariam para nada
se não fosse o senhor.
- Isso é um disparate , francamente - respondeu Ivan Vassilievitch
com um desgosto sincero .
- Então , e o amor? - perguntámos .
- O amor? O amor, a partir daquele dia, começou a minguar. Quan-
do ela ficava pensativa e com aquele sorriso na cara, o que lhe acontecia
muitas vezes , lembrava-me do coronel no campo e sentia-me desconfor­
tável , desagradado; comecei a visitá-la cada vez menos . E o amor foi de­
saparecendo aos poucos . São estas as coisas que nos acontecem, são es­
tas circunstâncias que fazem alterar e reorientar toda a vida de um
homem . . . E vocês ainda dizem que . . . - concluiu Ivan Vassilievitch .
ALBERT

Passava das duas da madrugada quando cinco homens ricos e jovens


chegaram a um bailezinho petersburguense com a intenção de se diver­
tirem um pouco .
Tinha-se bebido bastante champanhe , os cavalheiros , na sua maioria,
eram muito jovens , as meninas eram bonitas , o piano e o violino toca­
vam razoavelmente uma polca atrás de outra, as danças e o barulho não
paravam; mesmo assim pairava ali uma sensação de tédio , um descon­
forto e , por qualquer razão desconhecida (fenómeno nada raro) , parecia
a todos que aquilo não batia certo , que era desnecessário .
Esforçaram-se repetidas vezes por criar um ambiente de alegria, mas
a alegria forçada era ainda pior do que o aborrecimento .
Um dos cinco jovens, o mais descontente consigo próprio , com os ou­
tros e com o baile , levantou-se com um ar repugnado , foi buscar o cha­
péu e saiu do salão com o propósito de se ir embora despercebidamente .
No vestíbulo não havia ninguém, mas da sala contígua chegavam duas
vozes que discutiam. O jovem parou e pôs-se a escutar.
- Não pode, há lá convidados - dizia a voz feminina.
- Deixe-me ir, por favor, não há problema ! - suplicava a débil voz
masculina.
- Não o deixo ir sem a autorização da madame - dizia a mulher - ,
onde acha que vai? Ah, este homem . . .
A porta escancarou-se e saiu do quarto uma estranha figura masculi­
na. A criada, ao ver um convidado , deixou de tentar retê-lo , e a estranha
figura, com uma vénia tímida, cambaleando nas pernas dobradas , entrou
no salão . Era um homem de estatura mediana, de costas estreitas e cur-
1 48 Lev Tolstói

vadas , cabelo comprido e desgrenhado . Vestia sobretudo curto e calças


apertadas e rotas por cima das botas rudes e não engraxadas . A gravata,
torcida como uma corda, pendia-lhe do pescoço longo e branco . Das
mangas assomavam os punhos da camisa suja sobre as mãos esquálidas .
Porém, apesar da extrema magreza do seu corpo , o rosto era terno e bran­
co , as suíças e a barba, negras e ralas , deixavam até adivinhar alguma cor
fresca nas faces . O cabelo emaranhado , lançado para trás , não lhe tapa­
va uma testa alta e limpa. Os olhos escuros e cansados olhavam em fren­
te com uma suavidade suplicante mas , ao mesmo tempo , com imponên­
cia. Entreviam-se , por trás do bigode também ralo , uns lábios frescos e
curvos nas comissuras cuja expressão se fundia com a dos olhos , o que
lhe dava encanto .
Deu alguns passos , parou , virou-se para o jovem convidado e sorriu .
O sorriso saiu-lhe como que a custo mas , quando lhe iluminou a cara, o
jovem não pôde deixar também de sorrir.
- Quem é? - perguntou em voz baixa à criada quando a estranha fi­
gura entrou no salão .
- É um músico maluco do teatro - respondeu a criada. - À s vezes
vem visitar a patroa.
- Onde é que tu estás , Deléssov? - gritaram na sala.
O jovem, de nome Deléssov, voltou para o salão .
O músico estava à porta e , olhando para os pares dançantes , sorria e
batia o ritmo com os pés , exprimindo assim o prazer que lhe dava o es­
pectáculo .
- Como é? Vá também dançar - disse-lhe um dos convidados .
O músico fez uma vénia e olhou interrogativamente para a dona da ca­
sa.
- Vá, vá lá . . . já que os senhores o convidam.
O corpo magro e frágil do músico entrou de repente num movimento
enérgico e, piscando o olho , sorrindo e sacudindo-se , pôs-se a saltitar pe­
la sala, inábil e pesado . A meio da quadrilha, um oficial divertido que
dançava de maneira muito bonita e animada, empurrou o músico com as
costas , sem querer. As pernas fracas e cansadas do músico não o aguen­
taram, e o músico , depois de alguns passos em desequilíbrio , estatelou­
-se no chão . Apesar do som brusco e seco da queda, num primeiro mo­
mento quase toda a gente se riu.
Mas o músico não se levantava. Os convidados emudeceram, até o
piano se calou , e Deléssov e a dona da casa foram os primeiros a acudir
ao homem. Estava estendido , apoiando-se num cotovelo e com o olhar
O Diabo e Outros Contos 1 49

fixo no chão . Quando o levantaram e sentaram numa cadeira, com um


gesto rápido da mão ossuda alisou para trás o cabelo e pôs-se a sorrir,
sem responder às perguntas que lhe faziam.
- Senhor Albert ! Senhor Albert ! - exclamava a dona da casa. -
Não se magoou? Onde lhe dói? Eu bem lhe disse para não dançar. É tão
fraquinho ! - continuou , dirigindo-se desta vez aos convidados . - Mal
se aguenta nas pernas , como pode dançar?
- Quem é ele? - perguntavam à senhora.
- É um homem pobre , um artista. É bom rapaz , coitado , mas estão a
ver como ele é?
Dizia aquilo sem se importar com a presença do músico . Este caiu em
si e , como se alguma coisa o tivesse assustado de repente , encolheu-se
todo e repeliu as pessoas que o rodeavam.
- Isto não é nada - disse bruscamente , soerguendo-se na cadeira
com um esforço visível .
E , para provar que não lhe doía nada, foi até ao centro da sala onde
tentou dar um saltinho , mas cambaleou e voltaria a cair se não o segu­
rassem .
Todos olhavam para ele , embaraçados e calados.
O olhar do músico voltou a enevoar-se , e o homem, talvez alheado de
todos , pôs-se a esfregar o joelho . De súbito , ergueu a cabeça, esticou a
perna tremente , voltou a atirar para trás o cabelo no seu gesto costumei­
ro e, aproximando-se do violinista, pegou no instrumento dele .
- Não é nada ! - repetiu , levantando o arco do violino . - Meus se­
nhores , vamos à música.
- Indivíduo esquisito ! - comentavam os convidados .
- Talvez esta criatura desgraçada tenha um grande talento que está a
perder-se ! - disse alguém.
- Sim, é um pobre miserável ! - disse outro.
- Tem um belo rosto ! . .. Há qualquer coisa de extraordinário nele -
disse Deléssov. - Aguardemos . . .

Albert, entretanto, sem prestar atenção a ninguém, com o violino en­


talado entre o ombro e o queixo , andava ao lado do piano a afinar o ins­
trumento. A expressão da sua boca era impassível , os olhos não se lhe
viam, mas as costas estreitas e ossudas , o pescoço comprido e branco, as
1 50 Lev Tolstói

pernas tortas e a cabeça negra e hirsuta formavam um conjunto estranho ,


e no entanto , por qualquer razão , sem nada de ridículo. Afinado o violi­
no , executou um acorde e, erguendo a cabeça, dirigiu-se ao pianista já
preparado para o acompanhar.
- Mélancolie G-dur - disse-lhe num tom e com um gesto autoritá­
rios .
Depois , pedindo desculpa pelo gesto autoritário , esboçou um sorriso
meigo e passou o olhar pelo público . Afastando o cabelo da testa com a
mão que segurava o arco , Albert parou junto do piano e aflorou as cor­
das com um movimento suave do arco . Ergueu-se na sala um som puro ,
harmonioso , e logo se instalou o silêncio absoluto .
Os sons do tema fluíram então , livres e elegantes , iluminando com
uma luz clara e apaziguadora, inesperada, o mundo interior de cada ou­
vinte . A atenção obediente do público não era distraída por qualquer som
falso ou descomedido , todas as notas saíam límpidas , graciosas e elo­
quentes. Toda a gente seguia o fluir da música em silêncio , com as almas
palpitantes de esperança. As pessoas haviam passado , súbita e imper­
ceptivelmente , do estado de distracção barulhenta e de modorra espiri­
tual para um mundo diferente que já tinham esquecido . Umas vezes era
a contemplação serena do passado que lhes enchia as almas , outras ve­
zes era a recordação apaixonada de um momento feliz , outras ainda era
a necessidade infinita de poder e brilho , ou também o sentimento de sub­
missão , de amor insatisfeito e de tristeza. Os sons ora se faziam tristes e
temos , ora impulsivos e arrojados e , misturando-se livremente , fluíam de
forma tão graciosa e forte que mais pareciam uma torrente de poesia es­
pontânea e maravilhosa que , apesar de conhecida e familiar havia mui­
to , jorrasse pela primeira vez . A cada nota, era como se Albert se tomas­
se mais alto . Não dava ares de fealdade nem de extravagância, longe
disso . Co.m o queixo fincado na madeira do violino , escutava os sons que
produzia com uma atenção apaixonada e mexia convulsivamente os pés .
Endireitava as costas , depois curvava-as . A posição do braço esquerdo
era tão tensa que parecia petrificado , apenas se movendo na ponta, aos
espasmos , os dedos ossudos; já o braço direito se movia com uma fluên­
cia elegante e quase imperceptível . Do rosto irradiava-lhe uma alegria
constante , fascinada; nos olhos luzia-lhe um brilho seco e claro , as nari­
nas dilatavam-se , os lábios vermelhos entreabriam-se de prazer.
Por vezes inclinava ainda mais a cabeça para o violino, fechava os
olhos , e a sua cara meio encoberta pelo cabelo iluminava-se com um sor­
riso de suave deleite . Às vezes endireitava-se com brusquidão , estendia
O Diabo e Outros Contos 151

o pé para a frente, e a testa ampla e o olhar brilhante que passava pela


sala exibiam orgulho , grandeza, poder consciente . Houve uma passagem
em que o pianista se enganou, tocando o acorde errado , e foi como se o
sofrimento físico tomasse conta do rosto e de toda a silhueta de Albert.
Parou e , com uma expressão de raiva infantil , batendo o pé, gritou: «mol,
c-mol» . O pianista emendou o erro . Albert fechou os olhos , sorriu e, de
novo esquecido de si , dos outros e de todo o mundo , voltou a entregar­
-se à sua arte .
Enquanto Albert tocava, reinava na sala um silêncio submisso , apenas
os sons da música pareciam viver e respirar.
O oficial divertido mantinha-se imóvel na sua cadeira ao lado da ja­
nela, com os olhos fixos no chão e a respiração lenta e penosa. As meni­
nas sentavam-se, tacitumas , nas cadeiras encostadas ao longo das pare­
des , e só de vez em quando trocavam olhares aprovadores , quase
perplexos . A cara gorda e sorridente da anfitriã derretia-se de prazer. O
pianista devorava com os olhos a cara de Albert, seguindo-o com aten­
ção , muito esticado no banco , com medo de errar. Um dos convidados ,
que bebera mais do que os outros , estava deitado de bruços no divã e , pa­
ra esconder a emoção , tentava não se mexer. Deléssov experimentava
uma sensação insólita. Era como se um arco frio , a apertar e a alargar,
lhe cingisse a cabeça. As raízes dos cabelos tomavam-se sensíveis , cala­
frios percorriam-lhe as costas , subindo cada vez mais , até à garganta,
agulhas fininhas picavam-lhe o nariz e o céu-da-boca, lágrimas incon­
troláveis molhavam-lhe as faces . Sacudia a cabeça, tentava retê-las e,
sorrateiro , limpá-las , mas jorravam-lhe outras novas e corriam-lhe pela
cara. Por estranha associação de ideias , os primeiros sons do violino de
Albert catapultaram logo o nosso Deléssov para a sua primeira juventu­
de. E agora, menos jovem, já cansado da vida, gasto , sentia-se de chofre
um moço de dezassete anos, uma criatura bonita e contente com isso, de­
liciosamente parvinha e inconscientemente feliz . Veio-lhe à memória a
primeira paixão - pela prima de vestidinho cor-de-rosa - , a primeira
declaração de amor na alameda de tílias , o ardor e o encanto incom­
preensível do beijo repentino, a magia e o mistério da natureza naquela
hora. Na sua imaginação retrospectiva brilhava ela , no meio da neblina
de esperanças indefinidas , desejos incompreensíveis e fé indubitável na
possibilidade da ventura impossível . Todos os subvalorizados instantes
daquele tempo , um após outro , se ergueram diante dos seus olhos , não
como instantes sem significado no presente fugaz mas como imagens do
passado , estáticas , ampliadas e acusadoras . Contemplava-as , deliciado , e
1 52 Lev Tolstói

chorava, sem lamentar aquele tempo todo que poderia ter aproveitado
melhor (mas , se lhe devolvessem esse tempo , não tinha a certeza de que
o aproveitaria melhor) , chorava tão-só porque esse tempo nunca mais
voltaria. As recordações surgiam por si , e o violino de Albert dizia sem­
pre a mesma coisa: «Para ti já passou , de uma vez por todas , o tempo da
força, do amor e da felicidade , passou e nunca mais voltará. Chora-o , es­
gota as tuas lágrimas , morre chorando esse tempo - é a única e melhor
felicidade que te resta.»
No final da última variação , o rosto de Albert enrubesceu , os seus
olhos ardiam e não se apagavam, gotas de suor corriam-lhe, grossas , pe­
la cara. Incharam-lhe as veias da testa, todo o seu corpo se agitava mais
e mais, os lábios pálidos já não se fechavam, e toda a sua figura expri­
mia uma enlevada avidez de prazer.
Abanando o corpo com força e sacudindo o cabelo , Albert baixou o
violino e olhou para a assistência com um sorriso de orgulho majestoso
e de felicidade . Depois curvou as costas , baixou a cabeça, cerrou os lá­
bios e, como que envergonhado , lançando olhares tímidos e tropeçando ,
saiu para outra sala.

Algo estranho acontecera a todos os presentes , sentia-se essa estranhe­


za no silêncio tumular que se instalou depois da música. Era como se ca­
da um quisesse mas não soubesse exprimir o significado daquilo . O que
era aquilo - a sala quente e cheia de luz, as belas mulheres , a aurora nas
janelas , o sangue emocionado e a sensação de pureza deixada pelos sons
da música? Ninguém tentava defini-lo, pelo contrário , toda a gente,
sentindo-se incapaz de passar totalmente para aquele outro lado que a no­
va sensação lhes abrira, se revoltou , no fundo, contra esse mundo novo .
- É verdade , toca bem - disse o oficial .
- Espantoso ! - respondeu Deléssov limpando discretamente a cara
com a manga.
- Ora bem, são horas de irmos andando , meus senhores - disse o
que estava deitado no divã, recuperando a calma. - Temos de lhe dar al­
guma coisa. Vamos fazer uma colecta, meus senhores.
Nesse momento estava Albert noutra sala, sentado no divã. Dobrado ,
apoiando os cotovelos nos joelhos ossudos , afagava a cara com as mãos
suadas , sujas , armava o cabelo e sorria, feliz , para si próprio .
O Diabo e Outros Contos 153

Pois bem, fizeram uma colecta choruda e Deléssov ofereceu-se para


lhe entregar o dinheiro .
Além da colecta, Deléssov - insólita e fortemente impressionado
com aquela música - queria muito ajudar o homem. Passou-lhe pela
cabeça levá-lo para sua casa, vesti-lo , arranjar-lhe emprego , em suma,
tirá-lo daquela sórdida situação .
- Está cansado? - perguntou Deléssov quando se aproximou de
Albert.
Albert sorria.
- O senhor tem um verdadeiro talento , deveria dedicar-se a sério à
música, tocar para o público .
- Gostaria de beber alguma coisa - disse Albert, como se tivesse
acordado de repente.
Deléssov foi buscar vinho , o músico emborcou dois copos com avi-
dez.
- Que vinho maravilhoso ! - opinou Albert.
- Melancolia, que peça encantadora ! - disse Deléssov.
- Oh , sim, sim - respondeu Albert com um sorriso - , mas , descul-
pe, não sei com quem tenho a honra de falar; talvez o senhor seja conde
ou príncipe: não poderia emprestar-me algum dinheiro? - Fez uma pau­
sa. - Não tenho nada . . . Sou pobre . E não sei se poderei pagar-lhe a dí­
vida.
Deléssov corou , sentiu-se embaraçado , e apressou-se a entregar ao
músico o dinheiro da colecta.
- Agradeço muito - disse Albert pegando no dinheiro - , mas ago­
ra vamos à música, vou tocar para si quanto o senhor quiser. Mas antes ,
se fosse possível , beberia alguma coisa, lá isso beberia - acrescentou ,
levantando-se .
Deléssov foi buscar mais vinho e convidou-o a sentar-se a seu lado .
- Se estou a ser indelicado , desculpe-me ----' disse Deléssov. - Fi­
quei muito interessado no seu talento . . . mas , ao que parece , isso não evi­
ta que esteja numa situação difícil , não é verdade?
Alberta olhava ora para ele, ora para a dona da casa que acabara de en­
trar na sala.
- Permita que lhe ofereça alguma ajuda - continuou Deléssov. -
Se o senhor está realmente necessitado , seria um grande prazer para mim
se aceitasse viver em minha casa por algum tempo . Vivo sozinho , talvez
lhe possa ser útil .
Albert sorriu e não respondeu .
1 54 Lev Tolstói

- Porque não agradece? - instou a dona da casa. - Seria bom pa­


ra si , sem dúvida nenhuma. Mas eu não lho aconselharia - dirigiu-se
desta vez a Deléssov, abanando negativamente a cabeça.
- Agradeço muito - disse Albert, apertando entre as suas mãos hú­
midas a de Deléssov. - Mas agora, por favor, vamos à música.
Os outros convidados , porém, já estavam prestes a partir e , por mais
que Albert tentasse convencê-los , saíram para o vestíbulo .
Albert despediu-se da dona da casa e , depois de cobrir a cabeça com
um chapéu coçado e ter vestido uma capa larga de Verão - a isso se re­
sumia o seu agasalho de Inverno - , saiu para a rua com Deléssov.
Quando Deléssov entrou no coche com o seu novo conhecido e sentiu
o bafo desagradável a álcool e surro que se soltava do músico , começou
a arrepender-se e a acusar-se de ter um coração pouco sensato e de uma
brandura infantil . Além disso , tudo o que dizia Albert era tão estúpido e
vulgar, e ficara bêbado tão rapidamente e de maneira tão sórdida que De­
léssov, ao chegar ao ar livre , se sentiu enojado . «0 que vou agora fazer
com ele?» , pensou .
Albert acabou por se calar ao fim de um quarto de hora, o chapéu caiu­
-lhe aos pés . Tombou para o canto do coche e começou a ressonar. As ro­
das rangiam com monotonia pela neve gelada, a fraca claridade do ama­
nhecer apenas aflorava as janelinhas embaciadas pela geada.
Deléssov olhou para o seu companheiro . O corpo comprido , coberto
com a capa, jazia inânime ao seu lado . Deléssov tinha a impressão de que
na extremidade daquele tronco balançava uma coisa comprida - a ca­
beça com um grande nariz; porém, ao apurar melhor a vista, viu que
aquilo que tinha tomado pelo nariz era o cabelo , e que o verdadeiro ros­
to era mais abaixo . Inclinou-se para observar os traços fisionómicos de
Albert. E, mais uma vez, a beleza da fronte e da boca serenamente fe­
chada voltaram a impressioná-lo .
Os nervos cansados , a excitação e a falta de sono àquela hora matinal
e a música que ouvira voltaram a mergulhar Deléssov no mundo deli­
cioso para que espreitara nessa noite; voltou a recordar o tempo feliz e
generoso da juventude e deixou de se arrepender pela sua decisão. Nes­
se instante gostava sincera e calorosamente de Albert e tomou a firme re­
solução de o ajudar.
O Diabo e Outros Contos 1 55

No dia seguinte , quando o acordaram porque tinha de ir para o servi­


ço , Deléssov, com um espanto desagradável , viu-se rodeado dos seus
biombos velhos , do seu velho criado e do velho relógio de mesa. «Bom ,
o que querias ver quando acordaste além disto que desde sempre te ro­
deia?» , disse para os seus botões . Então lembrou-se dos olhos negros e
do sorriso feliz do músico; e passaram-lhe de relance pela imaginação a
melódica «Melancolia» e a última e estranha noite .
Porém , não tinha tempo de reflectir sobre se procedera bem ou mal ao
levar o músico para sua casa. Enquanto se arranjava, planeou o seu dia:
pegou nos papéis , deu as ordens necessárias em casa e, à pressa, calçou
as galochas e vestiu o capote . Quando passava ao lado da sala de jantar,
espreitou pela porta. Albert, com a cara enterrada na almofada, de braços
e pernas abertos , a camisa rota e suja vestida, dormia como uma pedra
no divã de marroquim onde o tinham deitado, inconsciente, nessa noite .
«Há qualquer coisa que não está bem» , parecia a Deléssov.
- Vais ter com o Boriuzóvski , e pedes-lhe da minha parte o violino ,
para este senhor, por dois ou três dias - disse ao criado . - E quando o
senhor acordar, dá-lhe o café e uma roupa minha para vestir, interior e
um fato velho qualquer. Por favor, vê lá se tratas bem dele .
Para grande espanto de Deléssov, quando voltou à noite para casa não
encontrou Albert.
- Onde está ele? - perguntou ao criado .
- Saiu logo a seguir ao almoço - disse este . - Pegou no violino e
foi-se embora, prometeu que demorava uma hora, mas ainda não voltou .
- Irra, que coisa - disse Deléssov. - Porque foi que o deixaste ir,
Zakhar?
Zakhar era um lacaio petersburguense que já servia há oito anos em
casa de Deléssov. Este , como homem sozinho e solteiro que era,
confiava-lhe as suas intenções e gostava de saber a opinião do criado so­
bre todos os seus assuntos .
- E não devia deixá-lo sair porquê? - respondeu Zakhar, brincando
com o sinete do seu relógio . - Se o Dmítri lvánovitch me tivesse avi­
sado de que era preciso mantê-lo em casa, então . . . Mas só me deu ins­
truções a respeito da roupa.
- Eh , raio de coisa ! E o que foi que ele fez cá em casa na minha au­
sência?
Zakhar sorriu-se .
1 56 Lev Tolstói

É verdade , Dmítri lvánovitch , é mesmo um artista. Mal acordou


pediu Madeira. Depois fartou-se de conversar com a cozinheira e o cria­
do dos vizinhos . É tão cómico . . . Mas tem um feitio muito bom . Dei-lhe
chá, depois o almoço , mas não gosta de comer sozinho , chamava-me
sempre para a mesa. E toca cá de uma maneira que , francamente , nem o
Izler tem muitos artistas desses . Este sim, vale a pena. Tocou-nos «Pelo
Volga Abaixo» tal e qual como quem chora. Muitíssimo bem ! Veio gen­
te de todos os andares para o nosso vestíbulo , para o ouvir.
- Muito bem . . . e deste-lhe alguma coisa para vestir? -
interrompeu-o Deléssov.
- É claro que dei , uma camisa de noite sua e um sobretudo meu. Um
homem destes merece que o ajudem, é bom homem. - Zakhar sorriu .
- E não parou de me perguntar que patente era a sua, se tinha conheci­
mentos importantes na sociedade , quantos servos tinha . . .
- Muito bem, mas agora é preciso localizá-lo , e daqui em diante não
se lhe dá álcool , faz-lhe mal .
- Lá isso é verdade , vê-se que ele é fraco de saúde - observou Za­
khar. - Dantes , o nosso amo tinha um feitor assim . . .
Deléssov, que já conhecia havia muito a história do feitor alcoólico ,
não deixou que Zakhar continuasse e , depois de o mandar preparar tudo
para a noite , ordenou-lhe que fosse procurar Albert.
Deitou-se , apagou a vela mas , sempre com o pensamento em Albert,
não conseguia adormecer. «Isto pode parecer estranho a muitos dos meus
amigos - cogitava Deléssov - , mas é tão raro fazermos alguma coisa
pelos outros que devemos dar graças a Deus quando nos aparece uma
oportunidade como esta, e não a vou deixar fugir. Vou fazer tudo , abso­
lutamente tudo , para o ajudar. Talvez não seja louco , apenas alcoólico .
Não terei grandes despesas com ele: onde come um, comem dois . Pri­
meiro passa aqui uns tempos em minha casa, depois logo se lhe arranja
um emprego ou um concerto, e tira-se o homem do atoleiro. Logo se vê .»
Pensar assim acabou por mergulhar Deléssov num estado agradável
de satisfação .
«É verdade , não sou uma pessoa assim tão má - continuou - , até
sou bastante bom. Muito bom até, em comparação com alguns .»
Já estava enlevado no sono quando o barulho da porta e de passos no
vestíbulo o despertou .
«Tenho de ser rigoroso com ele - pensou . - É o melhor a fazer; te­
nho mesmo de me impor.»
E Deléssov fez soar a campainha.
O Diabo e Outros Contos 1 57

- Então , trouxeste-o? - perguntou a Zakhar mal este entrou no


quarto .
- É um desgraçado , Dmítri lvánovitch - disse Zakhar abanando sig-
nificativamente a cabeça e fechando os olhos .
- Está bêbado?
- Está fraquinho .
- Trouxe o violino?
- Trouxe , a patroa devolveu-o .
- Por favor, agora não o deixes entrar aqui no quarto, deita-o e ama-
nhã não o deixes sair de casa.
Porém, mal Zakhar saiu do quarto , entrou Albert.

- Já está a dormir? - perguntou Albert, sorrindo . - Pois eu lá fui ,


a casa de Anna lvánovna. Passei um bom bocado: fizemos música, ri­
mos , o ambiente era muito agradável . Permita que eu beba um copo -
acrescentou , pegando no jarro de água da mesinha - , mas de água
não .
Albert estava como na véspera: o mesmo sorriso nos lábios e nos
olhos , a mesma fronte límpida e inspirada, os mesmos membros frágeis .
O sobretudo de Zakhar assentava-lhe bem, e o colarinho comprido , lim­
po e não engomado da camisa envolvia-lhe o pescoço fino e branco de
maneira pitoresca, dando-lhe um ar infantil e inocente . Sentou-se na ca­
ma de Deléssov e ficou a olhar para ele, com um sorriso silencioso , ale­
gre e grato . Deléssov olhou-o nos olhos e, num instante , voltou a ficar
sob o poder daquele sorriso . Perdeu o sono, esqueceu a obrigação de ser
rigoroso e, pelo contrário , apeteceu-lhe divertir-se, ouvir música e taga­
relar amigavelmente com Albert, nem que fosse até de manhã. Deléssov
mandou Zakhar buscar uma garrafa de vinho , cigarros e o violino.
- Óptimo - disse Albert - , ainda a noite é uma criança, vamos fa­
zer música, vou tocar para si tudo o que quiser.
Zakhar, visivelmente agradado , foi buscar uma garrafa de Lafitte , dois
copos , os cigarros leves que Albert costumava fumar e o violino. Depois ,
em vez de ir para a cama como lhe mandou o senhor, acendeu u m cigar­
ro e sentou-se na sala contígua.
- Primeiro vamos falar - disse Deléssov ao músico que já pegara no
violino.
158 Lev Tolstói

Albert sentou-se obedientemente na beira da cama e voltou a sorrir


com alegria.
- Ah, lembrei-me - disse ele dando uma palmada repentina na tes­
ta e tomando uma expressão preocupada e curiosa. (A expressão do seu
rosto antecedia sempre o que queria dizer.) - Permita que lhe faça uma
pergunta . . . - Pensou um pouco . - Aquele senhor que estava lá ontem
à noite consigo . . . o senhor tratava-o por N . . . , não é filho do famoso
N. . . ?
- É - respondeu Deléssov sem perceber que interesse poderia ter
para Albert uma coisa dessas .
- Pois - disse este, satisfeito - , notei logo que havia qualquer coi­
sa de muito aristocrático nas maneiras dele . Gosto de aristocratas , num
aristocrata transparece sempre beleza e elegância. E aquele oficial que
dança maravilhosamente . . . também gosto muito dele , é tão divertido ,
tão fidalgo . Parece que é ajudante-de-campo de N . . . , não é?
- Qual oficial? - perguntou Deléssov.
- Aquele que foi contra mim quando estávamos a dançar. Deve ser
um homem simpático , não?
- Não , é um fútil .
- Ah , não ! - defendeu-o Albert com ardor. - Há nele algo de mui-
to , muito agradável . E é um bom músico - acrescentou . - Tocou lá
qualquer coisa operática. Há muito que não gostava tanto de alguém.
- Sim, toca bem, mas não gosto da execução dele - disse Deléssov
com a intenção de levar o seu interlocutor a falar de música. - Não
compreende a música clássica, e Donizetti e Bellini , ora bem, isso não é
música nenhuma. O senhor deve ser da mesma opinião , não?
- Oh , não , não , desculpe - disse Albert num tom meigo, intervindo
a favor desses músicos - , a música moderna também é música, tanto
como a antiga. Na moderna também há uma beleza extraordinária.
Lembre-se de «A Sonâmbula» , do final de Lucia , de Chopin , e de Ro­
berto, o Diabo ! Penso muitas vezes . . . - calou-se, ordenando pelos vis­
tos as ideias - que , se Beethoven fosse vivo choraria de alegria ouvin­
do «A Sonâmbula» . O belo existe por todo o lado . Ouvi pela primeira
vez «A Sonâmbula» quando estavam cá o Viardot e o Rubini . . . era cá
uma coisa - disse ele , com os olhos brilhantes e o gesto , com as mãos ,
de quem arranca alguma coisa do peito . - Mais um pouco e seria im­
possível aguentar aquilo .
- Está bem, mas a ópera actual . . . o que acha dela? - perguntou De­
léssov.
O Diabo e Outros Contos 1 59

- A Bozio é boa, muito boa - respondeu Albert - , é incrivelmente


graciosa, mas não me comove , aqui - apontou para o seu peito cavado .
- Uma cantora precisa de paixão , coisa que ela não tem . Dá prazer mas
não faz sofrer.
- E o Lablache?
- Ouvi-o ainda em Paris , no Barbeiro de Sevilha; naquele tempo era
único, mas agora está velho . . . não pode ser artista, está velho .
- Está velho , sim, mas isso não importa, continua a ser bom nos mor­
ceaux d 'ensemble . -Deléssov repetiu o que costumava dizer sempre
sobre Lablache .
- Como é que não importa? - objectou Albert com severidade. -
O artista não pode, não deve ser velho . A arte implica muita coisa, mas
a principal é o fogo ! - disse com as mãos erguidas e os olhos a brilhar.
Realmente , podia dizer-se que um terrível fogo interior ardia em toda
a sua figura.
- Ah , meu Deus ! - disse de chofre . - O senhor não conhece Pe­
trov, o pintor?
- Não , não conheço - sorriu Deléssov.
- Gostaria muito que o conhecesse. De certeza que teria muito pra-
zer em falar com ele . Ah, como ele compreende bem a arte ! Dantes
encontrávamo-nos muitas vezes em casa de Anna lvánovna, mas ela
zangou-se com ele , não sei porquê . Gostaria muito de lho apresentar. É
um talento enorme , enormíssimo .
- Pinta quadros?
- Não sei . Não, acho que não, mas era pintor da Academia. Que
ideias brilhantes ele tem ! Quando se põe a falar, é espantoso . Oh , o Pe­
trov é um grande talento , mas leva uma vida muito divertida. É pena,
grande pena - acrescentou Albert, sorrindo. Depois levantou-se , pegou
no violino e começou a afiná-lo .
- Diga-me, há muito tempo que não vai à ópera? - perguntou-lhe
Deléssov.
Albert olhou para ele e suspirou .
- Ah , já não posso - disse , deitando as mãos à cabeça . Voltou a
sentar-se ao pé de Deléssov. - Oiça, vou ser sincero - sussurrou . -
Não posso ir à ópera, não posso tocar lá, não tenho roupa, não tenho na­
da, não tenho casa, não tenho violino . Uma vida horrível ! Horrível ! -
repetiu várias vezes. - Mas , para que preciso de ir lá? Para quê? Não
preciso - disse e sorriu . - Ah, o Dom João !
E deu uma palmada na testa.
1 60 Lev Tolstói

- Vamos juntos , se quiser - propôs Deléssov.


Albert, sem lhe responder, saltou do lugar, pegou no violino e come­
çou a tocar o final do primeiro acto de Dom João, contando ao mesmo
tempo o seu conteúdo .
Arrepiaram-se os cabelos de Deléssov quando Albert tocou a voz do
comendador moribundo.
- Não , hoje não consigo tocar - disse Albert, largando o violino - ,
bebi de mais.
Aproximou-se da mesa, encheu um copo , emborcou-o e voltou a
sentar-se na cama.
Deléssov não desviava os olhos de Albert que , de vez em quando , es­
boçava um sorriso , e Deléssov sorria também. Embora calados , comuni­
cavam entre si grande afecto por meio dos olhares e dos sorrisos . Delés­
sov sentia que gostava cada vez mais daquele homem e também uma
alegria que não conseguia explicar.
- Alguma vez esteve apaixonado? - perguntou de repente .
Albert reflectiu uns segundos , depois o seu rosto iluminou-se com um
sorriso triste . Inclinou-se para Deléssov e olhou-o nos olhos com aten­
ção .
- Porque mo pergunta? - sussurrou . - Pois bem, conto-lhe tudo,
gosto de si - continuou , dando uma olhadela para trás . - Não o vou
enganar, vou contar-lhe toda a verdade, desde o princípio . - Parou de
falar, os seus olhos imobilizaram-se de uma maneira estranha, louca. -
O senhor sabe que tenho debilidade mental , não sabe? - disse brusca­
mente . - Sim, sim . . . A Anna lvánovna, pelos vistos , já lhe contou . Ela
diz a toda a gente que sou maluco ! Não é verdade , di-lo por brincadeira,
é boa mulher, mas eu, de facto , há algum tempo que não ando bem.
Albert calou-se e fixou os olhos , muito abertos , na porta escura.
- Pergunta se já estive apaixonado? Sim, estive - disse num mur­
múrio, erguendo o sobrolho . - Aconteceu há muito tempo , quando eu
ainda tinha emprego no teatro . Era segundo violino na ópera, e ela tinha
uma frisa no lado esquerdo .
Albert levantou-se e inclinou-se para o ouvido de Deléssov.
- Não , não vou dizer o nome dela - declarou . - O senhor conhece-
-a, de certeza, toda a gente a conhece . Eu estava lá, limitava-me a olhar
para ela, calado; sabia que não passava de um artista pobre, e ela era uma
aristocrata. Sabia isso muito bem. Apenas olhava para ela e não pensava
em nada.
Albert ficou pensativo , recordando .
O Diabo e Outros Contos 161

- Não me lembro como isso aconteceu , mas um dia convidaram-me


a acompanhá-la ao violino . Não passo de um artista pobre ! - disse , aba­
nando a cabeça e sorrindo . - E não sei contar as coisas , não sei . . .
acrescentou , deitando as mãos à cabeça. - Que feliz eu estava !
- Ia muitas vezes a casa dela? - perguntou Deléssov.
- Só uma vez, uma só . . . mas a culpa foi minha, fiz uma loucura. Sou
um artista pobre , e ela uma grande fidalga. Devia ter-me calado , não lhe
dizer nada. Mas enlouqueci, fiz asneira. A partir desse dia tudo acabou
para mim. O Petrov disse a verdade: o melhor, para mim, era vê-la ape­
nas no teatro .
- Mas o que fez o senhor?
- Ah , espere , espere , tenho dificuldade em contá-lo .
E , tapando a cara com as mãos , ficou algum tempo calado·.
- Cheguei atrasado à orquestra. Naquela noite bebi muito , com o Pe­
trov, fiquei desvairado . Ela estava na sua loja, a conversar com um ge­
neral . Não sei quem era esse general . Estava sentada à frente , com as
mãos apoiadas no parapeito; trazia um vestido branco e pérolas ao pes­
coço. Falava com ele e olhava para mim. Fê-lo duas vezes. Tinha um
penteado assim._. . Eu não tocava, estava ao pé do contrabaixo a olhar pa­
ra ela. Então , passou-se uma coisa estranha comigo . Ela sorria ao gene­
ral e olhava-me . Estava a falar de mim, eu sentia-o . De repente , vi que já
não estava na orquestra mas na frisa, pegando na mão dela, assim . O que
foi aquilo? - perguntou Albert depois de uma pausa.
- Jogo de imaginação - disse Deléssov.
- Não , mas não . . . sei explicar - objectou Albert franzindo a cara.
- Naquela altura eu já era pobre , não tinha casa e , quando ia ao teatro ,
ficava lá a dormir muitas vezes .
- O quê? No teatro? Na sala escura e vazia?
- Ah, eu não tenho medo dessas ninharias . Espere . . . Quando saía to-
da a gente, eu ia para a frisa dela e dormia lá. Era a minha única alegria.
Que noites eu passava lá ! Só que uma vez voltou a acontecer-me aqui­
lo . . . Comecei a ver muitas aparições , mas não posso contar tudo . - Al­
bert, de cabeça baixa, olhava para Deléssov. - O que será isso?
- É estranho ! ----: disse Deléssov.
- Não , espere , espere ! - E Albert continuou a falar em sussurro ao
ouvido de Deléssov. - Beijava-lhe a mão , chorava e conversava muito
com ela. Sentia o aroma do seu perfume , ouvia a sua voz . Uma noite, ela
disse-me muito. Depois peguei no violino e comecei a tocar baixinho . E
toquei muito bem nessa noite . Mas fiquei assustado . Não tenho medo
1 62 Lev Tolstói

dessas parvoíces nem acredito nelas , mas tive medo do que se passava
na minha cabeça - disse , sorrindo com amabilidade e tocando na testa
com a mão - , tive medo pela minha pobre mente , parecia-me que tinha
havido uma mudança qualquer na minha cabeça. Ou talvez não fosse na­
da? O que acha?
Ficaram uns minutos sem falar.
- Und wenn die Wolken sie verhüllen, / Die Sonne bleibt doch ewig
klar - cantou Albert com um sorriso sereno . - Não é verdade? - E
continuou a cantar: - /eh auch habe gelebt und genossen20 . - Depois
disse: - Ah ! O velho Petrov explicá-lo-ia muito bem.
Deléssov, silencioso e aterrorizado , observava a cara comovida e pá­
lida do seu interlocutor.
- Conhece a valsa «Juristen»? - exclamou de repente Albert e, sem
esperar pela resposta, saltou do lugar, pegou no violino e pôs-se a tocar
a valsa alegre . Esquecido de tudo e , imaginando pelos vistos que estava
a tocar com toda a orquestra, Albert sorria, baloiçava-se , mexia os pés e
tocava excelentemente .
- Eh , chega de divertimento ! - disse quando acabou e levantando o
violino . - Vou-me embora - disse , depois de se ter sentado um pouco
a descansar. - O senhor não vem?
- Aonde? - não percebeu Deléssov.
- Vamos outra vez a casa de Anna Ivánovna; aquilo lá é divertido:
barulho , muita gente , música.
Deléssov, num primeiro momento , quase disse que sim, mas caiu em
si e começou a persuadir Albert a não sair nessa noite .
- Só por um bocado .
- Oiça, não vá, a sério .
Albert suspirou e largou o violino .
- Acha que devo ficar em casa?
Olhou mais uma vez para a mesa Uá não havia vinho) , deu as boas­
-noites e saiu .
Deléssov tocou a campainha.
- Vê lá, não deixes o senhor Albert ir a lado nenhum sem a minha
autorização - disse a Zakhar.
O Diabo e Outros Contos 1 63

O dia seguinte era feriado . Depois de se levantar, estava Deléssov a


tomar café e a ler um livro na sala de estar. Albert, na sala de jantar ao
lado, ainda não dava sinais de vida.
Zakhar abriu a porta dessa sala com cautela e espreitou .
- Dmítri lvánovitch , ele está a dormir no divã sem roupa de cama,
palavra de honra ! Ontem recusou-se a fazer a cama, juro ! Uma autênti­
ca criança. É mesmo um artista.
Já passava das onze quando se ouviram atrás da porta a tosse e os ge­
midos de Albert.
Zakhar voltou a entrar na sala; antes disso , Deléssov tinha ouvido o
tom carinhoso de Zakhar e a voz fraca e queixosa de Albert. ·
- Então? - perguntou Deléssov a Zakhar.
- Aborrece-se , coitado , não se quer lavar, está sombrio. Pede vinho .
«Não , já que me encarreguei disto , tenho de mostrar carácter» , disse
Deléssov para si mesmo .
Deu a ordem de não lhe servirem vinho e voltou ao livro , sem no en­
tanto deixar de manter o ouvido atento ao que se passava na sala de jan­
tar. Ali nada mexia, a não ser, de vez em quando , uma grave tosse peito­
ral e o barulho de expectoração . Assim se passaram duas horas . Deléssov
vestiu-se e, antes de sair, decidiu entrar na sala do seu hóspede . Albert
estava sentado à janela, imóvel , com a cabeça apoiada nas mãos. Olhou
para trás e Deléssov viu uma cara amarelada, franzida e não só triste mas
infeliz . Viu que tentava sorrir ao saudá-lo , mas o resultado foi uma ex­
pressão ainda mais angustiada. Parecia prestes a chorar. Levantou-se a
custo e fez uma vénia.
- Um singelo copinho de vodca, se for possível - suplicou - , es­
tou tão fraco . . . por favor!
- O café é muito melhor para lhe restabelecer as forças . É o conse­
lho que lhe dou .
A cara de Albert perdeu de repente a expressão infantil; depois de lan-
çar um olhar frio e baço para a janela, sentou-se sem forças na cadeira.
- Ou talvez queira o pequeno-almoço?
- Não , obrigado, não tenho apetite .
- Se quiser tocar, não me incomoda - disse Deléssov, pondo o vio-
lino na cadeira.
Albert olhou para o instrumento com um sorriso de desprezo .
- Não. Estou fraco de mais, não posso tocar - disse e arredou o violino.
1 64 Lev Tolstói

Depois, fosse o que fosse que Deléssov lhe sugerisse - ir dar um pas­
seio , ir à noite ao teatro - , Albert limitava-se a fazer vénias submissas
e a calar-se . Deléssov saiu , fez várias visitas , almoçou em casa de ami­
gos e , antes de ir ao teatro , passou por casa para mudar de roupa e ver
como estava o músico . Albert, no vestíbulo escuro , com a cabeça entre
as mãos, olhava para o fogão aceso . Estava vestido com asseio , pentea­
do , lavado , mas com os olhos baços , mortiços , e todo ele era a imagem
da fraqueza, da fadiga - ainda mais do que de manhã.
- Então , senhor Albert, almoçou? - perguntou-lhe Deléssov.
Albert fez que sim com a cabeça, olhou para Deléssov e baixou logo
os olhos assustados .
Deléssov sentiu-se embaraçado .
- Hoje falei de si ao director - disse, baixando também os olhos . -
Terá o prazer de lhe dar um lugar se o senhor se submeter a uma audi­
ção .
- Obrigado , mas não posso tocar - respondeu Albert como que pa­
ra si próprio e saiu logo para o seu quarto , fechando a porta com um cui­
dado exagerado .
Uns minutos depois a maçaneta da porta girou devagarinho e Albert
saiu com o violino . Lançando para Deléssov um olhar rápido e maldoso ,
pousou o violino na cadeira e voltou a desaparecer.
Deléssov encolheu os ombros e sorriu .
«Ü que posso fazer mais? Que culpa tenho eu?» , pensou .
- Então , como está o músico? - perguntou a Zakhar logo que vol­
tou para casa, já de noite .
- Está mal ! - foi a resposta curta de Zakhar. - Suspira; tosse , não
fala (só para pedir vodca, cinco vezes) . Já lhe dei um copinho . Senão ,
Deus nos livre , até podemos dar cabo do homem, Dmítri Ivánovitch .
Ainda lhe acontece como ao feitor . . .
- E não toca o violino?
- Nem pega nele . Levei-lho duas vezes . . . e ele trazia-o de volta -
respondeu Zakhar, sorridente . - Então , sempre lhe proíbe a vodca?
- Não lhe dês vodca nenhuma, vamos esperar mais um dia, logo se
vê . E agora, o que é que ele está a fazer?
- Trancou-se na sala de estar.
Deléssov foi ao seu gabinete e escolheu vários livros em francês e um
Novo Testamento em alemão .
- Amanhã põe isto no quarto dele e , vê lá, não o deixes sair - disse
a Zakhar.
O Diabo e Outros Contos 1 65

No dia seguinte , Zakhar relatou ao patrão que o músico não tinha dor­
mido toda a noite , que deambulara pela casa, fora ao bufete e tentara
abrir a porta do aparador. Mas , por precaução , estava tudo fechado à cha­
ve . Zakhar contou que, fingindo-se adormecido , ouviu Albert a murmu­
rar para si próprio no escuro e a agitar as mãos .
A cada dia que passava, o músico tomava-se mais sombrio e tacitur­
no . Parecia ter medo de Deléssov, via-se-lhe na cara um terror doentio
quando os seus olhos se cruzavam. Não tocava nos livros nem no violi­
no, não respondia às perguntas que lhe faziam.
No terceiro dia de hospedagem do músico , Deléssov voltou para casa
muito tarde, cansado e aflito . Passara o dia a correr, tentando resolver um
assunto que lhe parecia muito simples e fácil mas , como acontece tantas
vezes , não avançou nada, apesar de todos os seus esforços . Ainda por ci­
ma, passara pelo clube e perdera ao whist. Estava mal-humorado .
- Deixa-o, não lhe ligues ! - respondeu a Zakhar que lhe explicava
a triste situação de Albert. - Amanhã vou encostá-lo à parede de uma
vez por todas: quer ou não quer ficar comigo e seguir os meus conselhos?
Se ele não quiser, não insisto. Parece que fiz tudo o que era possível .
«Depois disto , será que vale a pena ajudar as pessoas? - pensava ele .
- Incomodo-me com ele , tenho cá em casa esta criatura porca, nem pos­
so receber as pessoas durante a manhã, ando a pedir por ele , e ele olha
para mim como se eu fosse um facínora qualquer que , por prazer, o fe­
chou numa jaula. Mas o pior é que não quer fazer o mínimo esforço por
ele próprio. São todos assim (este «todos» dizia respeito às pessoas em
geral e , sobretudo , àquelas com quem acabara de tratar do seu assunto) .
O que se passa com ele agora? Em que anda a cismar, o que o entriste­
ce? Tem saudades da depravação a que o arranquei? Da humilhação em
que se encontrava? Da miséria donde o tirei? Pelos vistos caiu tão baixo
que lhe custa olhar para uma vida honesta.»
«Está bem, foi um acto infantil - concluiu Deléssov. - Como é que
posso tomar conta de alguém e reeducá-lo quando mal consigo fazê-lo
comigo próprio?» Ainda quis deixá-lo partir imediatamente, mas pensou
melhor e resolveu adiar isso para o dia seguinte .
Em plena noite , Deléssov foi acordado bruscamente pelo barulho de
uma mesa a cair no vestíbulo , de vozes e de pés a bater. Acendeu a vela
e, surpreendido , pôs-se à escuta.
- Vou já dizer a Deléssov - avisava Zakhar. Depois ouviu a voz de
Albert, exaltada, a sibilar qualquer coisa desconexa. Deléssov saltou da
cama e , com a vela na mão, correu para o vestíbulo . Zakhar, em trajo de
1 66 Lev Tolstói

noite , estava de costas para a porta; Albert, já de chapéu e capa, empurra­


va-o para o afastar da porta e gritava com ele em voz chorosa.
- Não têm o direito de me fechar aqui ! Tenho passaporte , não lhes
roubei nada ! Podem revistar-me ! Vou queixar-me ao chefe da polícia !
- Já viu isto , Dmítri Ivánovitch? - Zakhar dirigia-se ao senhor, ao
mesmo tempo que continuava a defender a porta com as costas . -
Levantou-se de noite , tirou a chave do bolso do meu sobretudo e bebeu
um jarro cheio de vodca licorosa. Acha isso bem? Agora quer ir-se em­
bora. O senhor proibiu , portanto não o posso deixar sair.
Albert, ao ver Deléssov, pôs-se a atacar Zakhar ainda com maior
ardor.
- Ninguém me pode prender aqui ! Não têm o direito ! - gritava ele,
levantando cada vez mais a voz .
- Afasta-te , Zakhar - disse Deléssov. Depois dirigiu-se a Albert: -
Eu não quero , nem posso , impedi-lo de sair, mas aconselho-o a ficar até
de manhã.
- Ninguém me pode impedir ! Vou apresentar queixa ao chefe da po­
lícia ! - gritava Albert, cada vez mais alto , dirigindo-se apenas a Zakhar
e não olhando para Deléssov. - Socorro ! - berrou de repente , desaus­
tinado .
- Mas porque está você a gritar dessa maneira? Ninguém o impede
- disse Zakhar, abrindo a porta.
Albert deixou de gritar. «Não conseguiram, pois não? Queriam acabar
comigo , não queriam? Mas não conseguem» , murmurava ele para os
seus botões , calçando as galochas . Sem se despedir e continuando a de­
bitar coisas sem sentido , saiu pela porta. Zakhar alumiou-lhe o caminho
até ao portão e voltou .
- Graças a Deus , assim é melhor, Dmítri Ivánovitch ! Senão ainda
acontecia alguma desgraça - disse Zakhar ao amo . - Já tenho de ir
contar os talheres de prata.
Deléssov abanou a cabeça e não respondeu . Recordou vivamente as
duas primeiras noites com o músico , recordou os dias tristes que Albert,
por causa dele , passara em sua casa, e recordou sobretudo o meigo sen­
timento de espanto , o amor e a compaixão que, à primeira vista, aquele
homem estranho despertara nele; e sentiu muita pena de Albert. «Ü que
vai ser dele agora? - pensou . - Sem dinheiro , sem roupa quente , sozi­
nho no meio da noite . . . » Ainda quis mandar Zakhar atrás dele, mas já
era tarde .
- Está frio na rua? - perguntou ao criado .
O Diabo e Outros Contos 1 67

- Está um frio de rachar, Dmítri lvánovitch - respondeu Zakhar. -


Aliás , tenho-me esquecido de lhe dizer que a lenha não vai chegar até à
Primavera, temos de comprar mais .
- Mas que conversa é essa, se tinhas dito que a lenha dava e sobrava?

Sim, na rua estava muito frio, mas Albert, esquentado pelo álcool e pe­
la discussão , não o sentia.
Mal saiu olhou para trás e esfregou as mãos , contentíssimo da vida. A
rua estendia-se , deserta, mas a longa fila de lampiões ainda luzia com os
seus fogos vermelhos; o céu estava limpo e estrelado . «Üra toma ! » , dis­
se ele dirigindo-se à janela iluminada da casa de Deléssov e, depois de
agasalhar as mãos nos bolsos das calças , avançou pela rua fora, para a
direita, num passo pesado e incerto . Sentia um peso enorme nas pernas
e no estômago , na cabeça fervia-lhe um barulho qualquer, uma força in­
visível lançava-o de um lado para o outro , mas continuava sempre na di­
recção da casa de Anna lvánovna. Pela mente vagueavam-lhe pensa­
mentos estranhos e incoerentes . Ora recordava a última discussão com
Zakhar, ora o mar e a sua primeira chegada à Rússia (sabe-se lá porquê) ,
ora uma noite feliz passada com um amigo na lojeca que acabava de ver
na rua em que seguia; ora, de repente , começava a soar-lhe na imagina­
ção uma melodia familiar e, então , evocava o objecto do seu amor e a
noite terrível passada no teatro . E, apesar da incoerência, todas essas re­
cordações lhe surgiam tão vivas que , fechando os olhos, não sabia o que
era mais real: se o que estava a fazer, se o que estava a pensar. Não se
dava conta nem sentia como mexia os pés , nem como , cambaleando , es­
barrava contra a parede , nem como entrava em mais uma rua. Apenas ti­
nha consciência e sentia as imagens que , bizarras , surgiam na sua cabe­
ça, alternando-se e emaranhando-se .
Na Rua Málaia Morskaia, Albert tropeçou e caiu . Quando recuperou
por um instante os sentidos , viu à sua frente um edifício enorme e mag­
nífico , e foi para lá. No céu não se viam estrelas nem a aurora, nem a lua,
não havia lampiões , mas todos os objectos se delineavam com nitidez .
Nas janelas do edifício que se erguia ao fim da rua brilhavam luzes , mas
balançavam como reflexos . O edifício aproximava-se e crescia, cada vez
mais nítido aos olhos de Albert. Mal Albert entrou pela porta larga, as lu­
zes desapareceram . Lá dentro , a escuridão . Passos solitários ecoavam,
1 68 Lev Tolstói

sonoros, sob as abóbadas e , quando se aproximava, deslizavam sombras


fugitivas . «Para que entrei aqui?» , perguntava-se Albert; mas uma força
desconhecida e irresistível empurrava-o para a frente , para o fundo da
enorme sala . . . Havia ali um estrado , com pessoas pequeninas e silencio­
sas à volta. «Quem vai falar?» , perguntou Albert. Ninguém respondeu,
só um homem apontou para o estrado: já lá estava um sujeito alto e ma­
gro , com o cabelo como cerdas e um roupão colorido . Albert reconheceu
de imediato o seu amigo Petrov. «É muito estranho ele estar aqui ! » , pen­
sou Albert. «Não , amigos ! - começou Petrov, apontando para alguém.
- Não compreendestes o homem que vivia ao vosso lado; não o com­
preendestes ! Não é um artista venal , não é um executor de música me­
cânico , não é um louco nem um homem perdido . Ele é um génio, um
grande génio da música que pereceu ao vosso lado sem que o notásseis
e apreciásseis .» Albert não tardou a perceber de quem falava o seu ami­
go , mas não quis incomodar e baixou modestamente a cabeça.
«Ele ardia e pereceu como palha no fogo sagrado que todos nós ser­
vimos - continuou a voz - , mas cumpriu tudo o que lhe foi designado
por Deus; por isso mesmo tem de ser apelidado de grande homem. Po­
deis tê-lo desprezado , martirizado , humilhado - a voz continuava a su­
bir de tom - , mas ele era, é e será incomensuravelmente superior a to­
dos vós . E é feliz , e é bondoso . Ama e despreza (o que é a mesma coisa)
toda a gente em igual medida, mas serve apenas aquilo que lhe foi de­
signado pelo Céu . Ama a beleza, o único bem incontestável do mundo .
É assim este homem ! Rojem-se todos aos seus pés , ajoelhem-se ! » , gri­
tou bem alto .
Mas , no canto oposto da sala, soou baixinho outra voz:
«Não quero ajoelhar-me aos pés dele - dizia a voz que Albert reco­
nheceu de imediato como a de Deléssov. - Grande homem porquê?
Porque haveríamos de nos inclinar diante dele? Será que se comportou
como pessoa honesta e justa? Foi útil à sociedade? Será que não sabe­
mos que ele pedia dinheiro emprestado e não o devolvia e que roubou o
violino ao seu companheiro artista e o empenhou? . . . ("Meu Deus , como
pode ele saber tudo isto?" , pensou Albert, baixando ainda mais a cabe­
ça.) Será que não sabemos que ele bajulava as pessoas mais insignifi­
cantes só por dinheiro? - continuava a voz de Deléssov. - Será que
não sabemos que foi expulso do teatro? E não saberemos porventura que
Anna Ivánovna quis entregá-lo à polícia?» («Tudo isto é verdade , Deus
meu , mas mesmo assim defende-me - pediu Albert. - Só Tu sabes por­
que fiz tudo isso.»)
O Diabo e Outros Contos 1 69

«Pare , tenha vergonha - voltou a erguer-se a voz de Petrov. - Que


direito tem de o acusar? O senhor viveu porventura a vida dele? Sentiu
os fascínios dele? ("É verdade, é verdade" , sussurrou Albert) A arte é a
mais alta manifestação do poder do homem. É um poder concedido a
poucos e ergue o eleito a alturas em que a cabeça anda de tal maneira às
voltas que é difícil manter uma mente sã. Na arte , como em qualquer lu­
ta, há heróis que deram tudo à sua causa e pereceram sem atingirem o
objectivo .»
Petrov calou-se , e Albert levantou a cabeça e quis gritar bem alto: «É
verdade ! É verdade ! » Mas a voz saiu-lhe esmorecida, sem som.
«Não é consigo - dirigiu-se-lhe severamente Petrov. - Sim,
humilhem-no , desprezem-no - continuava ele - , mas , de entre todos
nós , ele é o melhor e o mais feliz ! »
Albert , deliciado por ouvir estas palavras , não s e conteve e
aproximou-se do amigo para o beijar.
«Afasta-te de mim, não te conheço - disse-lhe Petrov - , segue o teu
caminho , senão não chegas . . . »
- Irra, que grande bebedeira ! Não chegas . . . - gritou-lhe um guarda
no cruzamento .
Albert parou, juntou todas as forças que lhe restavam e , tentando man­
ter o equilíbrio, virou para a ruela.
Até à casa de Anna lvánovna faltavam apenas alguns passos . A luz
coada da antecâmara caía sobre a neve do quintal , e junto à cancela es­
tacionavam trenós e coches.
Agarrando-se com as mãos geladas ao corrimão, subiu a escada e to­
cou à porta.
A cara sonolenta da criada espreitou pelo postigo e olhou com raiva
para Albert. «Não pode entrar! - gritou-lhe . - Está proibido ! » , e fe­
chou o postigo . Chegavam à escada o som da música, o vozeio das mu­
lheres . Albert sentou-se no chão, encostou a cabeça à parede e fechou os
olhos. No mesmo instante , a chusma de visões desconexas mas aparen­
tadas rodeou-o com força renovada, abraçou-o com as suas ondas e
levou-o para longe , para os espaços livres e magníficos dos sonhos .
«Sim, é o melhor e o mais feliz ! » , soava repetidamente na sua imagina­
ção . De dentro chegavam os sons da polca. Esses sons também afirma­
vam que ele era o melhor e o mais feliz. «Vou voltar àquela sala - de­
cidiu Albert. - Petrov ainda tem muito para me dizer.» Na sala já não
havia ninguém e , em vez do pintor Petrov, estava no estrado o próprio
Albert a tocar no violino tudo o que antes fora dito pela voz. O violino
1 70 Lev Tolstói

era de modelo estranho , todo em vidro , e, para que emitisse som, tinha
de se agarrar com as duas mãos e abraçar-se lentamente contra o peito .
Os sons do instrumento eram de uma doçura e encanto que Albert jamais
tinha ouvido . Quanto mais apertava o violino ao peito , mais deleitado se
sentia. Quanto mais alto soava o violino, mais depressa se dissipavam as
sombras e mais se iluminavam as paredes com uma -luz transparente. Ao
mesmo tempo , era preciso manipular o violino com muito cuidado para
não se partir. Albert tocava aquele instrumento de vidro com muito cui­
dado e muita perícia. Tocava peças de música que ninguém no mundo
ouviria alguma vez mais . Assim o sentia. Já começava a cansar-se quan­
do foi distraído por outro som, distante , surdo . Era o sino que falava:
«Sim - dizia o sino, badalando algures ao longe , nas alturas - , parece­
-lhes miserável , desprezam-no, mas é o melhor e mais feliz ! Ninguém
mais tocará alguma vez este instrumento .»
De súbito , estas palavras familiares pareceram tão inteligentes a Al­
bert, tão novas e justas que deixou de tocar e, tentando manter-se imó­
vel , ergueu as mãos e os olhos ao céu . Sentia-se belo e feliz. Apesar de
não haver ninguém na sala, Albert endireitou o busto e , com a cabeça or­
gulhosamente levantada, tomou uma postura que o realçasse em cima do
estrado . De repente , uma mão tocou-lhe ao de leve no ombro; virou e viu
na penumbra uma mulher. Olhava com tristeza para ele , abanava negati­
vamente a cabeça. Albert percebeu que era mau o que estava a fazer e
sentiu vergonha. «Para onde vou , então?» , perguntou à mulher. Ela vol­
tou a pousar nele um olhar longo e perscrutador, e inclinou a cabeça com
tristeza. Era ela, a mesma que amava, e o vestido era o mesmo , e no pes­
coço cheio e branco tinha um fio de pérolas , e os braços magníficos es­
tavam nus até acima do cotovelo . Pegou-lhe na mão e levou-o para fora
da sala. «A saída é do outro lado» , disse Albert, mas a senhora, sem res­
ponder, sorriu e fê-lo sair da sala. À saída, Albert viu a lua e a água. Mas
a água não estava em baixo, como é normal , e o círculo branco da lua
não estava em cima, como sempre se viu . A lua e a água estavam juntas
e por todo o lado - em cima, em baixo, dos lados , à volta deles . Albert
e a senhora atiraram-se à água e à lua, e ele percebeu que agora já podia
abraçar aquela que amava mais do que tudo no mundo; abraçou-a e sen­
tiu uma felicidade insuportável . «Não será um sonho?» , perguntou a si
mesmo . Mas não ! Era a realidade , era mais do que a realidade , era tam­
bém recordação . Sentia que estava a passar a felicidade inexprimível que
o deleitava e que nunca mais voltaria. «Porque estou a chorar?» , per­
guntou à senhora. Ela olhou para ele em silêncio , tristemente . Albert
O Diabo e Outros Contos 171

compreendeu o que ela queria significar com aquilo . «Mas como pode
ser? Estou vivo» , disse ele . Ela não respondia, olhava em frente com
uma fixidez imóvel . «É terrível ! Como explicar-lhe que estou vivo?» ,
pensava Albert com pavor. «Estou vivo, santo Deus , tente compreen­
der» , sussurrava ele .
«É o melhor e o mais feliz» , dizia a voz. Mas alguma coisa oprimia
Albert cada vez mais . Era a lua e a água, eram os abraços e as lágrimas
da mulher? Não sabia, só tinha a sensação de que era incapaz de expri­
mir tudo o que era preciso , e que em breve tudo acabaria.
Dois convidados que saíam da casa de Anna Ivánovna tropeçaram em
Albert estendido junto à porta. Um deles voltou para dentro e chamou a
dona da casa.
- É uma crueldade - disse-lhe o homem - , a senhora poderia matá-
-lo ao expô-lo assim ao frio .
- Ah , este Albert - respondeu Anna Ivánovna - , onde ele s e veio
pôr! Ánnuchka ! Deite-o no quarto - ordenou à criada.
- Estou vivo , para que querem enterrar-me? - murmurava Albert
enquanto o transportavam, inconsciente , para dentro de casa.
TRÊS MORTES

Outono . Rolavam pela estrada duas carruagens , ao trote rápido dos ca­
valos . No coche da frente iam duas mulheres , a senhora, magra e pálida,
e a criada, de bochechas lustrosas e coradas . A criada, com a mão verme­
lha que a luva rota deixava ver, ajeitava compulsivamente o cabelo curto
e seco que lhe queria fugir do chapéu deslavado. O peito alto , coberto
com um xaile ornamentado , respirava saúde , os olhos negros e ágeis ora
observavam os campos , ora fitavam com timidez a patroa, ora percorriam
com preocupação os cantos do coche . Diante do nariz da criada oscilava
na rede o chapeuzinho da senhora, ao colo levava um cachorro , sentava­
-se com os joelhos alteados porque tinham acondicionado umas caixas no
chão da carruagem, mesmo por baixo dos seus pés que tamborilavam li­
geiramente ao ritmo do estremecimento das molas e do tilintar dos vidros .
A senhora, com as mãos juntas nos joelhos e os olhos fechados , ba­
lançava um pouco sobre as almofadas metidas atrás das costas e , fran­
zindo a cara, tossicava sem barulho . Cobria-lhe a cabeça uma touca de
noite branca, rodeava-lhe o pescoço suave e pálido um lencinho azul ce­
leste . Uma risca direita, desaparecendo por baixo da touca, dividia-lhe ao
meio o cabelo louro-escuro , muito liso e coberto de pomada, e havia al­
go de seco e mortiço na brancura do couro cabeludo que aquela risca lar­
ga deixava ver. Uma pele flácida, levemente amarelada, cobria-lhe o ros­
to de traços finos e bonitos . Manchas vermelhas espalhavam-se-lhe pelas
faces e pelas maçãs-do-rosto . Os seus lábios eram secos e inquietos , as
pestanas ralas e espetadas , e o pano do casaco de viagem formava pre­
gas direitas sobre o peito cavado . Apesar dos olhos fechados , o rosto da
senhora mostrava cansaço , irritação e sofrimento prolongado.
1 74 Lev Tolstói

O lacaio , apoiando os cotovelos no assento , dormia na boleia. O co­


cheiro de posta, soltando gritinhos animadores , governava os quatro ca­
valos corpulentos e suados , e de quando em vez lançava olhadelas para
o outro cocheiro que, atrás deles , instigava os cavalos da sua caleche. Os
sulcos paralelos feitos pelas rodas , largos e direitos , formavam linhas
perfeitas na lama calcária do caminho . O céu estava cinzento e frio , uma
bruma húmida caía sobre os campos e a estrada. Dentro do coche o ar era
abafado, cheirava a pó e a água-de-colónia. A doente esticou a cabeça pa­
ra trás e abriu lentamente os olhos: grandes , brilhantes de um tom escu­
ro e maravilhoso .
- Outra vez - disse ela, arredando nervosamente , com a mão boni­
ta e magra, a bainha do casacão da criada que lhe tocava na perna, e tor­
ceu a boca num esgar de dor. Matriocha apanhou a bainha com as duas
mãos , soergueu-se nas pernas fortes e sentou-se mais afastada. O rosto
fresco da criada tingiu-se de cores vivas . Os belos olhos da doente se­
guiam com avidez os movimentos da criada. A senhora apoiou-se com
ambas as mãos no assento e também quis soerguer-se para se acomodar
melhor, mas as forças traíram-na. Contorceu a boca de tal maneira que
lhe deformou todo o rosto numa expressão de ironia impotente e raivo­
sa. «Podias ao menos ajudar-me ! Ora, não é preciso ! Posso fazer isto so­
zinha, só quero que não ponhas em cima de mim esses sacos , por fa­
vor! . . . Ah, deixa-te estar quieta, não me toques , já que não tens jeitinho
nenhum ! . .. » Fechou os olhos , voltou a abri-los e a olhar para a criada.
Matriocha, mordendo o lábio vermelho , olhava para ela. Um suspiro pe­
noso saiu do peito da doente mas , sem terminar, transformou-se em tos­
se . Virou a cara à criada, franziu-a, agarrou-se ao peito com ambas as
mãos. Quando a tosse parou , fechou de novo os olhos e continuou imó­
vel . O coche e a caleche entraram na aldeia. Matriocha tirou a mão gor­
da de baixo do xaile e benzeu-se.
- O que é isso?
- É a estação , minha senhora.
- Estou a perguntar porque te benzeste .
- A igreja, minha senhora.
A doente virou a cabeça para a janela e pôs-se a fazer lentos sinais-da­
-Cruz , com os olhos arregalados fixos na grande igreja da aldeia que o
coche estava a contornar.
O coche e a caleche pararam ao lado da estação . Da caleche apearam­
-se o marido da doente e o médico , que se aproximaram do coche.
- Como se sente? - perguntou o doutor apalpando o pulso à doente.
O Diabo e Outros Contos 1 75

- Como te sentes , meu amor, não estás cansada? - perguntou o ma­


rido em francês . - Não queres sair?
Matriocha, juntando as trouxas ao pé de si , encostava-se muito ao can­
to para não estorvar durante a conversa.
- Tudo bem, estou na mesma - respondeu a doente. - Não, não saio.
O marido hesitou um pouco e entrou no edifício da estação; Matrio­
cha saltou do coche e correu em bicos de pés para o portão .
- O meu estado não é razão para o senhor não tomar o pequeno-
-almoço - disse a doente, com um sorrisinho , ao doutor que continua-
va parado ao lado da janela.
«Nenhum deles quer saber de mim - acrescentou mentalmente quan­
do o médico se afastou devagar e , depois , subiu muito depressa as esca­
das da estação . - Está bem, tanto lhes faz. Oh, meu Deus ! » ·
- Chegue-se , Eduard Ivánovitch - disse o marido quando viu o dou­
tor e esfregou as mãos com um sorriso alegre . - Mandei trazer a lan­
cheira e o vinho , o que acha?
- Acho bem - respondeu o doutor.
- Como está ela? - perguntou o marido, baixando a voz, levantan-
do o sobrolho e suspirando .
- Já lhe disse que ela não chega a Itália, nem sei se aguenta até Mos­
covo . E muito menos com caminhos destes .
- O que podemos então fazer? Ah, meu Deus, meu Deus ! - O ma­
rido tapou os olhos com a mão . - Dá cá isso - disse ao criado que en­
trava com a lancheira.
- Ela devia ter ficado onde estava - respondeu o médico , enco­
lhendo os ombros .
- Mas diga-me , o que podia eu fazer? - replicou o marido . - Fiz
tudo para a dissuadir: falei-lhe do dinheiro, dos filhos que iam ficar so­
zinhos , dos meus negócios . . . mas ela não quis ouvir nada. Faz planos de
vida para o estrangeiro como se fosse uma pessoa saudável . Ora bem,
mas se argumentasse com a situação dela era o mesmo que matá-la.
- Mas ela já está morta, e tem de o saber, Vassíli Dmítritch. A pessoa
não pode viver quando já não tem pulmões , e olhe que não lhe vão cres­
cer novos . Isto é triste , mete muita pena, mas não há nada a fazer. De­
pende de nós dois que o fim dela seja o mais calmo possível. Nesta si­
tuação, é necessário um testamenteiro .
- Ah , meu Deus ! Tente perceber a minha situação: como é que lhe
posso lembrar isso , falar-lhe da última vontade? Tudo menos isso , não
falo disso com ela. O senhor sabe como ela é bondosa . . .
1 76 Lev Tolstói

- Pelo menos tente convencê-la a esperar até que abram os caminhos


de Inverno - disse o doutor abanando significativamente a cabeça. -
Senão pode acontecer o pior pelo caminho . . .
- Aksiúcha, Aksiúcha ! - gritou com estridência a filha do chefe da
estação , lançando por cima da cabeça o casaquinho e batendo com os pés
no patamar sujo da entrada traseira. - Vamos ver a senhora de Chírki­
no , dizem que a levam para o estrangeiro , por causa do mal do peito . Eu
nunca vi uma pessoa tísica.
Aksiúcha saiu , e as duas raparigas , de mãos dadas , correram para fo­
ra do portão . Abrandaram o passo , foram para junto do coche e espreita­
ram pela janelinha aberta. A doente encarou-as mas , ao ver a curiosida­
de das miúdas , carregou o sobrolho e virou-lhes a cara.
- Nossa Senhora dos Céus ! - exclamou a filha do chefe . - Era uma
beldade como nunca se viu , e agora? Até mete medo . Viste, viste , Ak­
siúcha?
- Vi , que magrinha! - apoiava a outra. - Vamos vê-la outra vez, co­
mo se fôssemos ao poço . Ela virou-se , mas eu vi . Ah, que pena, Macha !
- Oh , tanta lama ! - respondeu Macha, e as duas correram para trás .
«Fiquei monstruosa - pensava a doente . - Estrangeiro , estrangeiro,
e o mais depressa possível , lá é que estou bem.»
- Então , como vai isso , meu amor? - perguntou o marido , ainda a
mastigar, ao aproximar-se do coche .
«Sempre a mesma pergunta - pensou a doente - , e ainda vem a co­
mer ! »
- Não estou pior - disse ela entre dentes .
- Ouve , meu amor, tenho medo que a viagem te faça mal , sabes , com
este tempo . . . e o Eduard Ivánovitch é da mesma opinião . Não achas que
seria melhor voltarmos para trás?
Ela calava-se , zangada.
- O tempo há-de melhorar, os caminhos vão ficar bons , e nessa altu­
ra iríamos todos juntos .
- Desculpa, mas se não te tivesse dado ouvidos há j á muito tempo ,
estaria agora em Berlim, e curada.
- O que é que queres , meu anjo? Isso era impossível , sabes muito
bem . Se ficasses , só mais um mês , melhoravas um pouco e eu podia pôr
os meus negócios em ordem . Depois levávamos as crianças connosco . . .
- As crianças estão bem, mas eu não .
- Mas vê bem, alminha, com este tempo , s e piorares pelo caminho . . .
e em casa sempre . . .
O Diabo e Outros Contos 1 77

- Em casa o quê? . . . Morrer em casa? - replicou a doente com irri­


tação . A palavra «morrer» , porém, assustou-a, e olhou para o marido com
uma interrogação suplicante . Ele baixou os olho s , calou-se .
A boca da doente curvou-se como a de uma criança, as lágrimas jorra­
ram-lhe dos olhos . O marido tapou a cara com o lenço e afastou-se do
coche .
- Não, vou, vou - disse a doente erguendo os olhos para o céu; de­
pois juntou as mãos e pôs-se a murmurar palavras confusas . - Meu
Deus ! Que culpa é a minha? - dizia, e as lágrimas corriam mais e mais .
Rezou com ardor, muito tempo, mas sentia sempre no peito a mesma dor,
o mesmo aperto; o céu , os campos e o caminho eram os mesmos, cinzen­
tos e sombrios , e a bruma outonal era a mesma, sem aumentar nem dimi­
nuir, caindo sobre a lama da estrada, sobre os telhados , sobre o coche e
sobre os casacos de pele de ovelha dos cocheiros que, tagarelando nas
suas vozes fortes e animadas , untavam as rodas e atrelavam os cavalos . . .

O coche estava atrelado, mas o cocheiro demorava a aparecer. Passou


pela isbá dos cocheiros . Lá dentro estava escuro, calor, o ar abafadiço e
pesado , cheirava a casa habitada, a pão quente , a repolho e a pele de ove­
lha. V árias cocheiros se acomodavam ali, a cozinheira atarefava-se ao
fogão , e em cima dele, no catre rente ao tecto , estava deitado um doente
coberto com um cafetã de pele de ovelha.
- Tio Fiódor! Tio Fiódor! , ouve - disse o jovem cocheiro , de cafe­
tã e chicote entalado na faixa da cintura, entrando no quarto e dirigindo­
-se ao doente.
- O que queres tu do Fedka, mandrião? - interpelou-o um dos co-
cheiros . - Não vês que estão à tua espera no coche?
- Quero pedir-lhe as botas , rompi as minhas todas - respondeu o
rapaz, sacudindo o cabelo e ajeitando as luvas sob a faixa. - Está a dor­
mir? Eh, tio Fiódor! - repetiu , aproximando-se do fogão.
- O que é? - ouviu-se uma voz fraca, e uma cara ruiva e magra
inclinou-se do catre do fogão . A mão larga, esquálida e branca, coberta
de pêlos , puxava o cafetã para cima do ombro aguçado debaixo da ca­
misa suja. - Dá-me água, amigo . . O que queres?
.
178 Lev Tolstói

O rapaz chegou-lhe uma concha com água.


- Pois eu , tio Fiódor, é o seguinte . . . - disse ele , baloiçando-se nas
pernas - parece que tu , acho eu , já não vais precisar das tuas botas no­
vas . Dá-mas , já não vais poder andar mais , acho eu .
O doente , encostando a cara cansada à concha lustrosa e molhando o
bigode ralo na água escura, bebia com avidez e dificuldade. Tinha a bar­
ba emaranhada e suja, os olhos turvos e encovados abriam-se a custo pa­
ra ver a cara do rapaz. Largou a concha da água e quis levantar a mão pa­
ra limpar o bigode molhado mas não teve forças e limpou-se à manga do
cafetã. Respirando suavemente pelo nariz, olhava nos olhos o rapaz, jun­
tando as últimas forças .
- Se calhar já as prometeste a alguém - disse o rapaz - , mas não
está certo . Olha como está tudo encharcado lá fora, e eu tenho de ir tra­
balhar; então pensei: peço as botas ao Fedka, ele já não vai precisar de­
las , acho eu . Mas se precisares , diz, porque então . . .
No peito do doente começou a borbulhar qualquer coisa, e uma tosse
violenta e seca, sem expectoração, fê-lo dobrar-se e engasgar-se .
- De que é que ele precisa agora? - metralhou de repente a cozinheira
em voz alta e fina. - Faz dois meses que não sai lá de cima, tosse tanto
que parece que se rasga, até a mim me dói tudo cá por dentro quando o oi­
ço . As botas para quê, para que é que ele as quer? Não o vão enterrar com
botas novas . Já há muito que devia ter ido, Deus me perdoe o meu peca­
do. Irra, parece que arrebenta com a tosse. Se calhar devíamos levá-lo pa­
ra outra isbá, ou para outro sítio qualquer, sei lá . . . Na cidade há hospícios
para isto . Isto assim está certo? Ocupar o lugar todo e não sair de lá? Vi­
vemos aqui neste aperto . . . E depois ainda querem que haja asseio .
- Eh, Serioga! Anda depressa, os senhores estão à espera - gritou
pela porta o responsável pelos cocheiros .
Serioga já ia a sair sem a resposta, mas o doente , tossindo , deu a en­
tender com os olhos que queria responder.
- Leva lá as botas , Serioga - disse ele, prendendo a tosse e descan­
sando um pouco . - Mas , estás a ouvir? , compras-me a lápide quando eu
morrer - acrescentou .
- Obrigado pelas botas , tio , e compro a lápide , juro .
- Ouviram, rapazes? - conseguiu articular o doente, e de novo se
dobrou e começou a engasgar-se e a sufocar com a tosse .
- Ouvimos , ouvimos - disse um dos cocheiros . - Vai , Serioga,
despacha-te , já vem aí o responsável a correr. E a senhora de Chírkino
que está tão doente .
O Diabo e Outros Contos 1 79

Serioga descalçou rapidamente as suas botas rotas e grandes de mais


para ele , e atirou-as para debaixo do banco . As botas novas do tio Fiódor
ficavam-lhe a matar, na medida certa, e Serioga, olhando para elas com
satisfação , foi para o coche .
- Ricas botas ! Deixa que eu unto-tas - disse o cocheiro com a gor­
dura lubrificante na mão , enquanto Serioga, subindo para a boleia, le­
vantava a rédea. - Deu-tas de graça?
- Estás com inveja? - respondeu Serioga, erguendo-se e envolven­
do as pernas com as abas do cafetã. - Embora ! Eh, meus lindos ! - gri­
tou aos cavalos , agitando o chicote; e o coche e a caleche, com os seus
passageiros , as malas e toda a carga, arrancaram e seguiram agilmente
pelo caminho húmido , desaparecendo no meio do cinzento nevoeiro ou­
tonal .
O cocheiro doente ficou na isbá abafada e , sem conseguir aliviar a tos­
se e a respiração , virou-se com dificuldade para o outro lado e ficou as­
sim muito quieto .
Até à noite entravam e saíam pessoas , almoçavam - e do lado do
doente não vinha qualquer som. Antes de se deitar, a cozinheira subiu ao
catre do fogão e tirou de lá a peliça, puxando-a por cima das pernas do
doente.
- Não te zangues comigo , Nastássia - disse o doente - , já não du­
ro muito , não tardo a deixar vago o teu cantinho .
- Está bem, está bem, não se apoquente - murmurou Nastássia. -
Mas o que dói , tio? Diz lá.
- Doem-me as entranhas todas . Só Deus sabe.
- A garganta também, quando tosses?
- Dói-me por todo o lado . Chegou a minha hora, é isso . Oh, oh , oh !
- gemeu o doente .
- Agasalha os pés , assim, assim - dizia Nastássia enquanto o cobria
com o cafetã. Desceu para o chão .
De noite luzia a candeia mortiça dentro da isbá. Nastássia e dez co­
cheiros , espalhados pelo chão e em cima dos bancos , ressonavam alto.
Só o doente gemia, tossia e se virava no seu catre . Perto do amanhecer,
calou-se.
- Hoje tive um sonho esquisito - dizia a cozinheira, espreguiçando-
-se na penumbra da manhã. - Vi o tio Fiódor a descer do fogão e a ir
rachar lenha. Deixa que eu te ajude , Nastássia, disse ele . E eu: como é
que tu , tão fraquinho, podes cortar a lenha? Mas ele pegou no machado
e pôs-se a rachá-la, e de que maneira, as achas saltavam para todos os la-
1 80 Lev Tolstói

dos . Como é que és capaz , se estavas nas últimas? Não , disse ele , já es­
tou melhor, e levantou o machado de tal jeito que eu fiquei apavorada.
Gritei e acordei . . . Será que o homem morreu? Tio Fiódor, ó tio !
Fiódor não respondia.
- À s tantas finou-se. Temos de ir ver - disse um dos cocheiros que
já tinha acordado .
A mão esquelética coberta de pêlos ruivos pendia do catre, fria e branca.
- Parece que morreu, vou avisar o chefe - disse o cocheiro.
Não havia ali parentes de Fiódor, ele era de outra terra. No dia se­
guinte enterraram-no no cemitério novo, por trás do bosque, e Nastássia,
durante vários dias , andou a contar a toda a gente o seu sonho e a dizer
que tinha sido a primeira a lembrar-se de ir ver como estava o tio Fiódor.

Chegou a Primavera. Pelas ruas molhadas da cidade, no meio do es­


trume gelado murmuravam os riachos apressados; as cores das roupas e
os tons das conversas nas ruas eram vivos . Nas árvores dos jardinzinhos
por trás das cercas inchavam os gomos , os ramos balançavam levemen­
te ao vento fresco . Em todo o lado caíam, de todo o lado jorravam gotas
transparentes . . . Os pardais novos piavam e esvoaçavam desajeitada­
mente nas suas asas pequeninas . Nas cercas, nas casas e nas árvores, do
lado em que batia o sol , tudo mexia e brilhava. Havia alegria e juventu­
de no céu , na terra e no coração dos homens .
Numa das ruas principais , em frente de uma grande mansão senhorial ,
tinham espalhado palha fresca; dentro da casa encontrava-se aquela
doente terminal que mostrara tanta vontade e pressa de ir para o estran­
geiro .
Junto à porta fechada do quarto estavam o marido da doente e uma
mulher idosa. No divã sentava-se o padre, de olhos baixos e segurando
nas mãos qualquer coisà envolvida na estola. A um canto , no cadeirão
Voltaire, estava deitada outra idosa, a mãe da doente, chorando com
amargura, e ao pé dela uma criada a postos com um lenço, à espera que
a velha senhora lho pedisse; outra criada esfregava-lhe as têmporas com
qualquer coisa e soprava-lhe para a cabeça encanecida coberta com uma
touca .
- Deus a ajude, minha amiga - dizia o marido à senhora que estava
ao pé dele - , ela confia muito em si, e a senhora sabe falar muito bem
O Diabo e Outros Contos 181

com ela, por isso tente convencê-la, minha alminha, vá lá. - Já ia a


abrir-lhe a porta quando ela, prima dele, o deteve , depois apertou várias
vezes o lenço contra os olhos e sacudiu a cabeça.
- Agora parece que já não se notam as lágrimas - disse ela, e abriu
a porta e entrou .
A emoção do marido era tanta que parecia completamente desnortea­
do . Foi na direcção da velhota mas , ao chegar perto dela, deu meia vol­
ta, passeou pela sala e aproximou-se do padre . Este olhou para ele , er­
gueu os olhos e os sobrolhos ao céu e suspirou . Também a sua barbicha
espessa e grisalha se levantou e baixou.
- Meu Deus ! Meu Deus ! - disse o marido .
- Nada a fazer - suspirou o padre , e o sobrolho e a barba dele vol-
taram a erguer-se e a baixar-se .
- E a mãezinha que está cá ! - disse o marido num tom quase de­
sesperado . - Não vai aguentar. Porque amá-la assim, amá-la tanto co­
mo ela, acho que . . . não sei. Talvez o padre possa acalmá-la e convencê­
-la a sair daqui . . .
O padre levantou-se e aproximou-se da velha senhora.
- É verdade, o coração de uma mãe é inestimável - disse-lhe ele - ,
mas Deus é misericordioso.
O rosto da velhota pôs-se de repente a tremer, e logo foi acometida por
um ataque de soluços histéricos .
- Deus é misericordioso - continuou o padre quando ela se acalmou
um pouco. - Posso dizer-lhe que na minha paróquia havia um doente
muito mais grave do que Mária Dmítrevna. E o que aconteceu? Um po­
pular, um homem simples , curou-o com ervas , em pouco tempo. Esse
popular está agora em Moscovo . Já disse a Vassíli Dmítritch que se po­
dia tentar. Pelo menos seria uma consolação para a doente. Para Deus tu­
do é possível .
- Não, ela já não sobrevive à doença - disse a velha senhora. E os
soluços histéricos intensificaram-se de tal maneira que perdeu os sentidos .
O marido da doente tapou a cara com as mãos e fugiu da sala.
No corredor deparou com o miúdo de seis anos correndo desalmada­
mente atrás da irmã mais nova.
- E as crianças , não quer que as leve para junto da mãezinha? - per­
guntou a ama-seca.
- Não , ela não quer vê-las . Isso iria entristecê-la muito.
O rapazito parou por um instante, perscrutou a cara do pai e , de re­
pente , dando um coice no ar, continuou a correr.
1 82 Lev Tolstói

- Pai , ela, faz de conta, era um murzelo ! - gritou , apontando para a


irmã.
Entretanto , no quarto de dormir, a prima estava sentada à beira da
doente e , com uma conversa habilmente orientada, tentava prepará-la pa­
ra a ideia da morte . O doutor, ao pé da janela, preparava uma beberagem
qualquer.
A doente , de roupão branco , estava sentada na cama, encostada a vá­
rias almofadas , e olhava em silêncio para a prima.
- Ah , minha amiga - disse ela, interrompendo-a bruscamente - ,
não me prepare . Não me tome por uma criança. Sou cristã. Sei tudo. Sei
que já não me resta muito para viver, sei que , se o meu marido me tivesse
dado ouvidos em devido tempo, estaria agora na Itália, e talvez tivesse
melhorado . Toda a gente lhe dizia isso . Agora, nada feito , é a vontade de
Deus . Todos nós carregamos os nossos pecados , sei isso muito bem, mas
tenho esperança na misericórdia divina, Deus perdoa a todos , pelos vis­
tos , perdoa a todos . Agora tento compreender-me , a mim própria. Tenho
muitos pecados na consciência, minha amiga, mas também sofri muito.
Tentei suportar com paciência os meus sofrimentos . . .
- Então , quer que chame o padre , minha amiga? Depois de comun-
gar ficará muito mais aliviada - disse a prima.
A doente inclinou a cabeça, anuindo .
- Meu Deus , perdoai os meus pecados - sussurrou .
A prima saiu e fez um sinal de olhos ao padre .
- Ela é um anjo ! - disse ao marido , com as lágrimas nos olhos . O
marido chorou , o padre franqueou a porta, a velha senhora continuava in­
consciente , na sala instalou-se o silêncio absoluto . Cinco minutos depois
o padre saiu do quarto e , depois de tirar a estola, ajeitou o cabelo .
- Está mais calma, graças a Deus - disse ele . - Quer ver o senhor.
A prima e o marido entraram. A doente chorava baixinho, olhando pa­
ra o ícone .
- Deus seja louvado, meu amor - disse o marido .
- Obrigada ! Que bem me sinto agora, que delícia indizível - dizia
a doente com um leve sorriso nos lábios finos . - Como Deus é miseri­
cordioso ! É misericordioso e omnipotente , não é verdade? - E, com as
lágrimas nos olhos , dirigiu de novo os olhos para a imagem.
Depois veio-lhe de súbito à memória alguma coisa. Fez sinal ao mari­
do para que se aproximasse .
- Nunca queres fazer o que eu te peço - começou ela numa voz fra­
ca e descontente .
O Diabo e Outros Contos 1 83

O marido , esticando o pescoço , ouvia com submissão .


- O que queres , meu amor?
- Quantas vezes te disse que estes doutores não percebem nada, que
os curandeiros simples é que curam . . . O padre disse . . . que havia um po­
pular . . . Manda-o buscar.
- Buscar quem?
- Meu Deus ! Não queres perceber nada! . . - A doente franziu a ca-
.

ra e fechou os olhos .
O doutor aproximou-se e pegou-lhe na mão . O pulso estava cada vez
mais fraco . O médico lançou um olhar ao marido . A doente captou esse
olhar e, assustada, virou a cabeça. A prima voltou-se de costas para cho­
rar.
- Não chores , não te atormentes , a ti e a mim - disse a. doente - ,
isso tira-me a última tranquilidade.
- És um anj o ! - disse a prima beijando-lhe a mão .
- Não, beija-me aqui , a mão só se beija aos mortos . Meu Deus , meu
Deus !
Na mesma noite a doente já era um corpo , metido no caixão e coloca­
do na sala da casa. No grande salão , com todas as portas fechadas , ape­
nas se encontrava o salmista a ler os salmos de David com uma voz ca­
denciada, nasal . A luz forte dos círios derramava-se dos altos castiçais de
prata para a testa branca da defunta, para as suas pesadas mãos cor de ce­
ra e para as pregas petrificadas da mortalha que se alteava assustadora­
mente nos joelhos e nos dedos dos pés . O salmista lia com cadência me­
cânica, sem perceber o que lia, e era estranho como as palavras dele
soavam e logo esmoreciam na sala silenciosa. De vez em quando chega­
vam de um longínquo quarto as vozes e o bater de pés das crianças .
«Escondes o teu rosto , e ficam perturbados - rezava o Livro de Sal­
mos - : se lhes tiras a respiração , morrem e voltam para o seu pó . En­
vias o teu Espírito , e são criados , e assim renovas a face da terra. A gló­
ria do Senhor durará para sempre .»
O rosto da defunta era rigoroso , calmo e majestoso . Nada se movia na
fronte límpida e fria nem nos lábios cerrados com finneza. Toda ela era
atenção. Compreenderá ela, pelo menos agora, o significado destas gran­
des palavras?
1 84 Lev Tolstói

Um mês mais tarde era erguida uma capela de pedra sobre o túmulo
da falecida. Na campa do cocheiro ainda não havia lápide, apenas as er­
vas verde-claras brotavam em cima do montinho de terra que era o úni­
co sinal da existência acabada do homem.
- Será um pecado, Serioga - disse uma ocasião a cozinheira - se
não comprares a lápide para a campa do Fiódor. Há pouco dizias: é In­
verno , é Inverno . . . mas agora já não é, porque não cumpres a tua pala­
vra? Eu estava lá, ouvi . Ele já te apareceu uma vez, pediu-te; se não cum­
prires , ele volta e esgana-te .
- Não digo que não - respondeu Serioga - , hei-de comprar uma
laje de rublo e meio , como disse e está dito . Não me esqueci , mas é pre­
ciso trazê-la. Mal apareça um serviço para a cidade, vou e compro-a.
- Ao menos podias pôr lá uma cruz - disse um velho cocheiro - ,
senão , digo-te já, está mal feito . Não te esqueças que andas com as bo­
tas dele .
- Onde é que arranjo a cruz? Pego num madeiro e talho-a?
- Não digas disparates . De um madeiro não , mas pega num macha-
do e vai ao bosque . Corta um freixo , digamos . Pronto , já tens uma cruz.
Vai cedo , senão ainda tens de pagar para a vodca ao guarda florestal . Es­
se também, por cada merdinha, bota cá vodca. Isso pode ser? Olha que
eu , há dias , parti um varal , fui lá cortar outro, lindo , e ninguém me dis­
se nada.
De manhã cedinho , ao romper de alva, Serioga pegou no machado e
foi ao bosque .
Estava tudo amortalhado no manto frio e baço do orvalho ainda não
alumiado pelo sol . O levante aclarava-se imperceptivelmente, a sua luz
fraquinha reflectia-se no firmamento tapado por nuvens finas . Em baixo
nem uma ervinha bulia, em cima, na copa da árvore , as folhas também
estavam paradas , nem o mais pequeno rumorejo quebrava o silêncio do
bosque . De repente, levantou-se um som estranho e hostil à natureza e
parou na orla do bosque . Soou de novo e começou a repetir-se ritmada­
mente por baixo do tronco de uma das árvores imóveis . Uma das copas
tremeu , e era insólito: as folhas suculentas sussurravam, e um pisco-de­
-peito-ruivo pousado num dos ramos esvoaçou, assobiou duas vezes e ,
sacudindo o rabo , mudou-se para outra árvore .
As machadadas na base do tronco soavam cada vez mais surdas , pro­
jectando lascas brancas e cheias de seiva para cima das ervas orvalhadas .
O Diabo e Outros Contos 1 85

De repente , no meio das machadadas , ouviu-se um ligeiro estalido. To­


do o corpo da árvore estremeceu , inclinou-se , endireitou-se logo , e cam­
baleou , assustado, na sua raiz . Por um instante silenciou-se tudo , mas a
árvore voltou a inclinar-se , de novo se ouviu o estalido estranho no seu
tronco e , quebrando os galhos e os ramos , a árvore tombou inteira no so­
lo húmido, da copa à raiz. Os sons do machado e dos passos calaram-se .
O pisco assobiou e voou mais para cima. O raminho que o pássaro tocou
com as asas balançou um pouco e imobilizou logo todas as suas folhas ,
como os outros . As árvores , no novo espaço aberto , exibiam com uma
alegria ainda maior os seus ramos imóveis .
Brilharam no céu o s primeiros raios de sol , atravessando uma nuvem,
e correram para a terra. O nevoeiro começou a ondular nos barrancos , o
rocio cintilou na verdura, as nuvens esbranquiçadas e transparentes
dispersavam-se no firmamento azul . Os pássaros azafamavam-se no fun­
do do bosque e, enlevados , trinavam qualquer coisa feliz, as folhas pal­
pitantes de seiva cochichavam, alegres e calmas , nas ramagens vivas que
se mexiam com vagar e majestade por cima da árvore caída e morta.
Notas

1 Peça de vestuário masculino , uma espécie de cafetã pregueado Iia cintura.


2 A partir daqui, o final do conto tem duas variantes .
3 Livro de Leitura de 1. N. Paulson , conhecido pedagogo ( 1 825- 1 898).
4 Da poesia «Noite de Inverno» de Aleksandr Púchkin .
5 Monge que ascende a mentor espiritual dos irmãos e, em geral, dos fiéis.
6 Lise , olha para a direita, é ele . (Fr.)
7 Onde , onde? Não é assim tão bonito . (Fr.)
8 Antiga medida itinerária russa equivalente a 1 060 metros , aproximadamente .
9 À vontade. (Fr.)
10 [ . . . ] os peregrinos . (Fr.)
1 1 Pergunte-lhes [ . . . ] se eles têm a certeza de que a sua peregrinação é do agra-
do de Deus . (Fr.)
1 2 O que diz ele? Não responde . (Fr.)
1 3 Diz que é um servo de Deus . (Fr.)
1 4 Deve ser filho de padre . Tem raça. Tem trocos? (Fr.)
l 5 Mas diga-lhes que não lho dou para velas , mas para que se regalem com chá

[ . . . ] para si, meu velho . (Fr.)


1 6 Um dos títulos honoríficos da corte imperial .
1 7 Cadeia de ouro com uma jóia ao meio da testa.
1 8 Trata-se de uma das figuras da mazurca: são levadas duas senhoras (ou dois
cavalheiros) perante o cavalheiro (ou a senhora) para ser escolhido um deles .
Em certos casos, a escolha era feita pelo processo de adivinhar uma «carac­
terística» que cada um dos dançarinos inventava para si .
l 9 Spiessruten (al .) - paus ou vergas para açoitar; este castigo aplicava-se na
tropa e aos servos da gleba condenados pelo tribunal; esteve vigente até ao
ano de 1 863 .
2º Que as nuvens cubram o Sol , ele continua a ser muito claro . [ . . . ] E eu vivia
e deliciava-me (al.).
Índice

O Diabo 7
O Patrão e o Moço de Estrebaria 51
O Padre Sérgui 95
Depois do Baile 1 37
Albert 1 47
Três Mortes 173

Notas 1 87
ÜBRAS DO AUTOR NESTA EDITORA:

Anna Karénina

A Sonata de Kreutzer

A Morte de Ivan Iliitch


NESTA COLECÇÃO

1 . Johann W. Goethe: Fausto


2 . Choderlos Lados: As Ligações Perigosas
3 . Jean-Jacques Rousseau: Confissões
4 . Herman Melville: Moby Dick
5 . Oscar Wilde: O Retrato do Sr. W. H.
6 . Gustave Flaubert: Madame Bovary
7 . Stendhal: A Cartuxa de Parma
8 . S . Masoch: A Vénus de Kazabaika
9. Edith Wharton: Ethan Frome
1 0 . Heinrich Heine: O Livro de Le Grand
1 1 . Rainer Maria Rilke: Ewald Tragy
1 2 . Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray
1 3 . Montaigne: Ensaios (Antologia)
1 4 . Yeats: Onde Nada Existe
1 5 . Hermano Melville: As Ilhas Encantadas
1 6 . Hõlderlin: A Morte de Empédocles
1 7 . Oscar Wilde: De Profundis
1 8 . Emily Bronte: O Monte dos Vendavais
1 9 . Tchékhov: Contos (Volume /)
20 . Tchékhov: Contos (Volume II)
2 1 . Tchékhov: Contos (Volume III)
22. Oscar Wilde: O Crime de Lorde Artur Savile e Outros Contos
23 . Giacomo Leopardi: Pequenas Obras Morais
24. Benjamin Constant: Adolfo
25 . Marcel Proust: Do Lado de Swann (Vol . I de Em Busca do Tempo Perdido)
26 . Marcel Proust: À Sombra das Raparigas em Flor (Vol . II de Em Busca do
Tempo Perdido)
27. Marcel Proust: O Lado de Guermantes (Vol. fil de Em Busca do Tempo Perdido)
28 . Marcel Proust: Sodoma e Gomorra (Vol. IV de Em Busca do Tempo Perdido)
29 . Marcel Proust: A Prisioneira (Vol. V de Em Busca do Tempo Perdido)
30 . Marcel Proust: A Fugitiva (Vol . VI de Em Busca do Tempo Perdido)
3 1 . Marcel Proust: O Tempo Reencontrado (Vol . VII de Em Busca do Tempo
Perdido)
32. Edith Wharton: Verão
3 3 . R . M . Rilke: As Anotações de Malte Laurids Brigge
34 . Franz Kafka: O Desaparecido
35 . Tchékhov: Contos (Volume IV)
36. Ivan Búnin: O Amor de Mítia
37. Tchékhov: Novelas (Drama na Caça e O Duelo)
3 8 . Rainer Maria Rilke: A Balada da Vida e da Morte do Alferes Cristoph Rilke
e Outros Contos de Juventude
39 . Miguel de Cervantes: D. Quixote de La Mancha
40 . Franz Kafka: A Metamorfose
4 1 . Franz Kafka: Contos
42 . Giovanni Boccaccio: Decameron (vols . 1 e II)
43 . Charles Baudelaire: A Invenção da Modernidade (Sobre Arte, Literatura
e Música)
44. Tchékhov: Contos (Volume V)
45 . Franz Kafka: O Castelo
46. Honoré de Balzac: A Rapariga dos Olhos de Ouro
47 . Tchékhov: Contos (Volume VI)
48 . Lev Tolstoi: Anna Karénina
49 . Gustave Flaubert: Salammbô
50 . Hugo von Hofmannsthal: Andreas
5 1 . Ivan Turguéniev: Pais e Filhos
5 2 . Tchékhov: Contos (Volume VII)
53 . Willa Cather: Uma Mulher Perdida
54. Lev Tolstói: A Sonata de Kreutzer
55 . Honoré de Balzac : Pierrette seguido de O Padre de Tours
5 6 . Mikhail Bulgákov: Margarita e o Mestre
57. Lev Tolstói: A Morte de Ivan Iliitch
5 8 . Murasaki Shikibu : O Romance do Genji (Tomo /)
59 . Ivan Turguénev: O Primeiro Amor
60 . Mikhail Lérmontov: O Herói do Nosso Tempo
6 1 . Murasaki Shikibu : O Romande do Genji (Tomo 2)

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