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SÁBADO, 13 DE MARÇO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Capa
Resultado de uma série de encontros entre o
ensaísta e escritor italiano com o roteirista francês
Jean-Claude Carrière, Não Contem Com o Fim do
Livro será publicado no País em abril próximo

ANDREA BARBIROLI/AE
plesmente ganhou de amigos – caso de Má- “Estamos
rio Schenberg (1914-1990), físico, político e perdendo a
crítico de arte brasileiro, de quem o escritor memória histórica.
guarda as melhores recordações. Hoje, basta que
Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no um aluno dê um
PaísArteeBelezanaEstéticaMedieval (Record, clique para obter
368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabi- uma informação”
no) – exibe uma impressionante vitalidade.
Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado
de seu aparelho de DVD repousa uma cópia
da animação Ratatouille), mantém contato
comseus alunos em Bolonha,escreve artigos
para jornais e revistas e aceita convites para
organizar exposições, como a que o transfor-
mou, no ano passado, em curador, no Museu
doLouvre,emParis.Lá,oautorteveoprivilé-
gio de passear sozinho pelos corredores do
antigo palácio real francês nos dias em que o
museu está fechado. E, como um moleque
levado, aproveitou para alisar o bumbum da
Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito
bem-humorado que Eco – envergando um
elegante terno azul-marinho, que uma revol-
ta gravata da mesma cor tratava de desali-
nhar;o rosto sem acaracterística barba grisa-
lha (raspada religiosamente a cada 20 anos e,
da última vez, em 2009, também porque o
resistente bigode preto o fazia parecer Gen-
gis Khan nas fotos) – conversou com a repor-
tagem do Sabático.

● O livro não está condenado, como apre-


goam os adoradores das novas tecnologias?
O desaparecimento do livro é uma obses-
são de jornalistas, que me perguntam isso
há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um arti-
go sobre o tema, continua o questionamen-
to. O livro, para mim, é como uma colher,
um machado, uma tesoura, esse tipo de ob-
jeto que, uma vez inventado, não muda ja-
mais. Continua o mesmo e é difícil de ser
substituído. O livro ainda é o meio mais fá-
cil de transportar informação. Os eletrôni-
cos chegaram, mas percebemos que sua vi-
da útil não passa de dez anos. Afinal, ciên-
cia significa fazer novas experiências. As-
sim, quem poderia afirmar, anos atrás, que
não teríamos hoje computadores capazes
de ler os antigos disquetes? E que, ao con-
trário, temos livros que sobrevivem há mais
de cinco séculos? Conversei recentemente
com o diretor da Biblioteca Nacional de Pa-

Umberto
ris, que me disse ter escaneado praticamen-
te todo o seu acervo, mas manteve o origi-
nal em papel, como medida de segurança.

● Qual a diferença entre o conteúdo disponí-


vel na internet e o de uma enorme biblioteca?
A diferença básica é que uma biblioteca é co-
mo a memória humana, cuja função não é
apenas a de conservar, mas também a de fil-
trar – muito embora Jorge Luis Borges, em
seu livro Ficções, tenha criado um persona-
gem, Funes, cuja capacidade de memória
era infinita. Já a internet é como esse perso-
nagem do escritor argentino, incapaz de se-

Eco
lecionar o que interessa – é possível encon-
trar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de
Hitler. Esse é o problema básico da inter-
net: depende da capacidade de quem a con-
sulta. Sou capaz de distinguir os sites confiá-
veis de filosofia, mas não os de física. Imagi-
ne então um estudante fazendo uma pesqui-
sa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele ca-
paz de escolher o site correto? É trágico,
um problema para o futuro, pois não existe
ainda uma ciência para resolver isso. Depen-
de apenas da vivência pessoal. Esse será o
problema crucial da educação nos próxi-
mos anos.

“ELETRÔNICOS ● Não é possível prever o futuro da internet?


Não para mim. Quando comecei a usá-la,
nos anos 1980, eu era obrigado a colocar
DURAM 10 ANOS, disquetes, rodar programas. Hoje, basta
apertar um botão. Eu não imaginava isso
naquela época. Talvez, no futuro, o homem

LIVROS, 5 SÉCULOS” não precise escrever no computador, ape-


nas falar e seu comando de voz será reco-
nhecido. Ou seja, trocará o teclado pela
voz. Mas realmente não sei.
Eco a aceitar o convite de um colega francês, prateleiras repletas que não parecem ter
UBIRATAN BRASIL Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de ou- fim. Os antigos quartos? Transformaram-se ● Como a crescente velocidade de processar
tro incorrigível bibliófilo, o escritor e rotei- em escritórios, dormitórios, sala de jantar, dados de um computador poderá influenciar
ENVIADO ESPECIAL / MILÃO ristaJean-Claude Carrière,discutir apereni- etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a a forma como absorvemos informação?
dadedolivrotradicional.Foramessesencon- chave, climatizado e com uma janela que ve- O cérebro humano é adaptável às necessi-
bom humor parece tros (“muito informais, à beira da piscina e da a luz solar: lá estão as raridades, obras dades. Eu me sinto bem em um carro em al-

O
ser a principal ca- regadoscombons uísques”,informaUmber- produzidas há séculos, verdadeiros tesou- ta velocidade, mas meu avô ficava apavora-
racterística do se- to Eco) que resultaram em Não Contem Com ros. Isso mesmo: tesouros de papel. do. Já meu neto consegue informações
miólogo, ensaísta e o Fim do Livro, que a editora Record lança na Conhecido tanto pela obra acadêmica (é com mais facilidade no computador do que
escritor italiano segunda quinzena de abril. professor aposentado eu. Não podemos pre-
Umberto Eco. Se A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro de semiótica, mas ainda ver até que ponto nos-
não,éamaiseviden- é uma invenção consolidada, a ponto de as permanece na ativa na **
“O problema crucial so cérebro terá capaci-
te.Aopasmadovisi- revoluções tecnológicas, anunciadas ou te- Faculdade de Bolonha) dade para entender e
tante, boquiaberto midas, não terem como detê-lo. Qualquer como pelos romances da educação no absorver novas infor-
diante de sua cole- dúvida é sanada ao se visitar o recanto mila- (O Nome da Rosa, publi- futuro será reconhecer mações. Até porque
ção de 30 mil volumes guardados em seu es- nês de Eco, como fez o Estado na última cado em 1980, tornou- o que é confiável uma evolução física
critório/residência em Milão, ele tem duas quarta-feira. Localizado diante do Castelo se um best-seller mun- também é necessária.
respostas prontas quando é indagado se leu Sforzesco, o apartamento – naquele dia so- dial), Eco é um colecio- ou não na web” Atualmente, poucos
toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses prado por temperaturas baixíssimas, a neve nador nato; além de li- ** conseguem viajar lon-
livros são apenas os que devo ler na semana pesadainsistindoemembranquecer aformi- vros, gosta também de gas distâncias – de Pa-
que vem. Os que já li estão na universidade” dável paisagem que se avista de sua sacada – selos,cartões-postais,rolhasde champanhe. ris a Nova York, por exemplo – sem sentir
– é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa encontra-se em um andar onde antes fora Na sala de seu apartamento, estantes de vi- o desconforto do jet lag. Mas quem sabe

}
a segunda. “Se não, por que os guardaria?” um pequeno hotel. “Se eram pouco funcio- dro expõem tantos os livros raros – que, no meu neto não poderá fazer esse trajeto no
Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 nais para os hóspedes, os longos corredores momento, lideram sua preferência – como futuro em meia hora e se sentir bem?
mil volumes, pois os demais estão em outra são ótimos para mim pois estendo aí minhas conchas, pedras, pedaços de madeira. As pa-
casa, no interior da Itália. E é justamente tal estantes”, comenta o escritor, com indisfar- redes expõem quadros que Eco arrematou ● É possível existir contracultura na internet?
paixão pela obra em papel que convenceu çável prazer, ao apontar uma linha reta de nas visitas que fez a vários países ou que sim- Sim, com certeza, e ela pode se manifestar