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Rob Hopkins: palestra que teve lugar durante a cerimónia de

lançamento do Plano de Acção de Redução Energética de


Totnes (EDAP). 5/7/2010.

Há 3.119 dias, ou 3 anos, 8 meses e um dia, se preferirem, 400 pessoas juntaram-


se nesta sala para lançar o que na altura se decidiu chamar “Transition Town
Totnes”. Foi uma noite extraordinária que, tenho a certeza, alguns dos presentes
recordarão. Desde então, Transition Town Totnes (TTT) cresceu
significativamente, tornando-se uma força viva desta comunidade. O inquérito
levado a cabo durante a realização deste Plano revelou que 75% dos domicílios de
Totnes conheciam o TTT, 61% reconheciam que o trabalho desenvolvido pelo TTT
reflectia as suas preocupações, e mais de um terço tinham tido algum grau de
envolvimento prático com o movimento. O TTT atraiu a Totnes para cima de ¾ de
milhão de Libras, especialmente através do projecto Transition Streets, que
alastrou a toda a cidade e que, entre outras coisas, transformará este mesmo
edifício numa central de produção de energia. Durante a cerimónia de lançamento,
comprometemo-nos a trabalhar para a criação de um Plano de Acção de Redução
Energética para a cidade Totnes e para o Município, e hoje, ele aqui está.
Lançamos este plano no dia que se segue às eleições legislativas, durante as
quais os assuntos ambientais e as alterações climáticas foram, em larga medida,
esquecidas pela agenda política. Na corrida para prometer à população que tudo
voltará rapidamente à normalidade, alterações climáticas, pico do petróleo e a
estreita ligação entre energia a baixo preço e crescimento tornaram-se num
elefante fantasiado que dançava ebriamente na esquina. Parece que a maioria dos
votos recaiu sobre um partido cujos candidatos colocavam as alterações climáticas
em n.º 19 de uma lista com 19 temas, gente apostada em reduzir o investimento
na energia eólica, que advoga o intensificar da perfuração de petróleo no Mar do
Norte, e entre a qual se pode encontrar alguns cépticos assumidos das alterações
climáticas, e que se escusaram a propor objectivos para a redução das emissões
de carbono.
No entanto, as alterações climáticas continuam aí. O mês de Março foi o mais
quente desde que há registos, e cientistas em todo o mundo têm observado
acontecimentos apenas previstos nos cenários mais negros, e que não eram
esperados por muito anos. O gelo no Árctico derrete a um ritmo alarmante, as

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águas dos oceanos a aquecerem e a acidificarem, os solos a começarem a libertar
carbono em vez de o absorverem, gás metano a ser libertado com o degelo do
permafrost no Árctico. Como disse Joseph Romm, “se não agimos a tempo, será o
maior peso que teremos que carregar até ao fim das nossas vidas”.
Um conjunto de relatórios recentes, provenientes de organizações tão distintas
como o US Joint Forces Command, o UKERC (Centro de Pesquisa de Energia do
Reino Unido) e Richard Branson argumentam que estamos próximos ou já em
pleno pico na produção de petróleo. Os combustíveis nos postos de abastecimento
do Reino Unido estão mais caro do que nunca, e o recente derrame de petróleo no
Golfo do México só vem evidenciar os inconvenientes da exploração de petróleo
em águas profundas, reforçando a ideia que o único motivo porque extraímos
petróleo em profundidade, ou a partir das areias betuminosas de Alberta, no
Canadá – com as consequências que tal acto trará ao Mundo e ao clima – é
porque o petróleo fácil de extrair já foi consumido. Do mesmo modo, a bolha da
dívida global está aí a rebentar – a Grécia foi apenas o primeiro país a ser atingido
–, mas este desenrolar dos resultados de anos e anos a viver à tripa-forra,
empenhando o futuro das gerações futuras parece ter apenas começado.
No entanto, para a Transition Town Totnes, estes não são tempos de angústia ou
depressão, mas antes uma oportunidade para a criatividade, optimismo, e
empreendedorismo. Encaramos estes desafios cara-a-cara. Não nos podemos
esconder, e os tempos exigem a nossa criatividade. O “optimismo empenhado” é a
base em que a Transição se apoia para descobrir que caminho deveremos tomar a
partir daqui. Para nós, o fim das energias fáceis e baratas é mais do que trocar
lâmpadas e reciclar. É uma mudança de paradigma da globalização para um
Mundo intensa e inerentemente local. Como aquele vulcão islandês de nome
impronunciável, que recentemente entrou em erupção, veio mostrar, a nossa
sociedade encontra-se altamente vulnerável a qualquer perturbação à logística de
abastecimento e transportes programados. Uma semana sem aviões e os
agricultores quenianos deixam de ter mercados de exportação e nós alimentos fora
de época.
Mas reconstruir uma economia que nos possa manter aqui, uma agricultura local
saudável, sistemas de energias renováveis que controlemos e que nos beneficiem,
habitações energeticamente eficientes que utilizem materiais locais, mais trabalho
local e mais satisfatório, não são argumentos para um regresso às cavernas, mas
antes os fundamentos de uma economia resiliente e melhor adaptada aos tempos

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que se avizinham. Totnes goza de uma situação única para lá chegar. É
suficientemente grande para que a ideia funcione, e suficientemente pequena para
que o consiga fazer rapidamente, e como a TTT mostrou, o que aqui iniciamos
pode espalhar-se por todo o lado a uma velocidade incrivelmente rápida e
virulenta. Totnes emerge do inquérito como uma comunidade preparada, optimista
e adaptável. Totnes como modelo que inspire a direcção futura da humanidade?
Porque não?
E passemos ao EDAP (Plano de Acção de Redução Energética). Estou tão
orgulhoso deste documento. Estou orgulhoso de todos os que contribuíram para a
sua conclusão. Tem sido um processo extraordinário, um processo que, como
muito do que fazemos em Transição, teve que ser feito para ontem. Chamamos-
lhe Plano, mas eu vejo-o mais como um história. Afinal de contas, quem somo nós
para escrevermos um plano detalhado do futuro? O que aqui criámos é uma
história de como poderemos lá chegar. É rica em investigação e dados – os factos
e números de que precisaremos. Mais importante ainda, conta uma história que
começa nos anos 50, que foi a última vez que esta comunidade teve menos
comida, menos energia e era mais localizada. As histórias que construímos em
conjunto a partir dos testemunhos históricos recolhidos, descrevem um mundo
mais localizado e resiliente, de que podemos aprender bastante. O futuro poderá
ser ou não ser como aqui descrevemos, mas faço o convite para que tornem esta
história parte da vossa.
Este plano não ficará esquecido numa prateleira a apanhar pó. A TTT está
empenhada em levar este projecto para a frente e torná-lo realidade. O Dartington
Hall Trust (organismo de gestão da propriedade de Dartington) deu início a um
processo de revisão do uso do território que inclui propostas da TTT, com o
propósito de acomodar a diversidade de necessidades locais. Também a
Sharpham Estate abraçou entusiasticamente esta iniciativa. Com o projecto
ATMOS estamos a tentar trazer a propriedade da antiga Dairy Crest (uma empresa
leiteira que encerrou portas) de volta à comunidade. O TRESOC (centro de
compostagem anaeróbica) está praticamente em marcha. O Plano de Acção de
Redução Energética de Totnes não é uma fantasia. Engloba o que se encontra já
em marcha. Temos uma nova eco-escola em Dartington, e a King Edward Sixth
Community College tem-se mexido com grande entusiasmo. No nosso inquérito,
66% das pessoas mostraram-se confiantes face à tarefa de produzir alimentos.
Também já cá temos a School for Social Entrepreneurs (Escola para

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Empreendedores Sociais), ensinando as pessoas a tornar estas ideias em modos
de vida. Podemos fazê-lo. Este Plano de Acção de Redução Energética expõe a
nossa visão para Totnes e mostra que esta é realizável.
Finalmente, quero agradecer a uma pessoa. Jacqi Hodgson. Se estas visões da
comunidade, ideias, inspirações e pesquisa foram conciliadas neste EDAP deve-se
inteiramente à Jacqi. A sua dedicação tem sido extraordinária. O seu
profissionalismo, e a sua determinação para que este maravilhoso trabalho fosse
publicado. A excelência deste documento deve-se inteiramente à Jacqi. À medida
que nos distanciamos do petróleo, é com energia como a que a Jacqi injectou
neste projecto que temos que o substituir.
Gostaria de deixar este mundo e esta bela cidade, única, diferente, criativa e
teimosa aos meus filhos, com uma piscadela de olho, em vez do profundo pesar a
que Joseph Romm se referia. Este Plano expõe como o podemos fazer, e espero
que lhe abram os vossos corações, que o façam vosso, e nos ajudem a fazer aqui
a história que será cantada e contada pelos habitantes da Totnes do futuro. Muito
obrigado.

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