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APRESENTAÇÃO DO

MOVIMENTO INTITUCIONALISTA
Gregorio F. baremblitt
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O que chamamos de movimento institucionalista pode ser abordado em


dois sentidos: em termos de uma gênese conceitual e em termos de uma
gênese histórica ou histórico-social.

A gênese conceitual tenta reconstruir quais são as fontes principais, em


termos dos discursos teóricos, em que podemos localizar características
conceituais de onde o institucionalismo tirou suas influencias – ano por certo o
que o institucionalismo vai incorporar esses discursos de uma maneira original,
não vai toma-la ao pé da letra. Vai pinçar dos corpos teóricos de que se
originam determinados recursos e não outros e, também, vai tentar reformular
esses conceitos para incorpora-los a um aparelho teórico próprio.

O mesmo pode dizer-se dos procedimentos técnicos ou das praticas que


esses movimentos teóricos consagrados propõem a partir e seus campos
respectivos.

A outra gênese é a chamada histórico-social que se refere àqueles


acontecimentos históricos, correntes ou extraordinários fatos sociais concretos,
movimentos, organizações, das quais o institucionalismo foi surgindo em
continuidade ou ruptura.

Então, uma gênese aponta as contribuições teórico-metodológico-


técnicas no sentido amplo e a outra aponta aos acontecimentos, fatos,
movimentos historicamente realizados a partir dos quais o institucionalismo foi
se gestando.

Quanto a gênese conceitual, teremos que ser forçosamente


esquemáticos, porque, como vocês devem ter visto através de outras
exposições, essa gênese conceitual é muito diversa e poder acompanha-la é
um esforço que transcende os limites dessa exposição.

Uma característica interessante de se destacar é que o institucionalismo,


em termos teórico-metodológicos, é um saber intersticial, isto é, não é
exatamente o que se chama de uma interdisciplinar, e é claro que não é uma
disciplina, apenas ela se movimenta através das contribuições positivas feitas
por outras disciplinas, outra forma de dizê-lo é como diz Lourau: o
institucionalismo trabalha com a ausência e uma disciplina no seio da outra,
porque, na medida em que uma disciplina se define essencialmente por um
objeto que lhe próprio – especialmente se essa disciplina se pretende cientifica
– cada ciência é ciência partir desse objeto formal abstrato peculiar, objeto que
e uma conceptualização, um corte que pretende dar conta de um objeto real do
qual é modelo teórico.

Então, uma disciplina que se pretende cientifica tem seu exclusivo objeto
de conhecimento, tem seu próprio método – um conjunto de prescrições para
aplicar o objeto de conhecimento no conhecimento do objeto real de que se
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ocupa – e, no caso de ter uma técnica, ela é um conjunto de regras destinadas


a plicar o conhecimento formal concreto, particularizado, na transformação do
objeto real correspondente.

Em conclusão, uma disciplina cientifica se ocupa daquilo que lhe é


próprio, e não se ocupa daquilo que fica “fora” dos seus limites.

Há outras disciplinas que não reclamam para si a categoria de


cientificas, ou algumas que em certas ocasiões reclamam e em outras não; por
exemplo, há muitos teóricos o direito que falam em *ciência do direito *, outros,
não; mas, em termos da estética, por exemplo, não podemos dizer que é
ciência, mas sim uma disciplina ou um ramo da filosofia.

As disciplinas tem uma tradição ordenadora, normativa, dizem o que se


deve fazer e o que não se deve fazer, sobre um objeto determinado.

Então, o que faz Lourau dizer que a analise institucional não é disciplina
nem é ciência, e também que não é interdisciplinar, é que, a rigor, não tem
objeto próprio, não tem uma teoria sistematizada, não tem um campo, um
método especifico, uma área de atuação técnica especifica. Então, o modo de
abordagem, seu estatuto, consiste em que ela trabalha com esse fato – o fato
de que as disciplinas são como e que uma não pode ocupar-se daquilo com
que outra se ocupa, o que marca, em cada uma delas, a ausência das
demais..., usando uma metáfora sensorial, esses são os pontos ou áreas
cegas e cada disciplina. Inclusive, se pode fazer uma espécie de geografia
desses assuntos, porque esses pontos ou áreas cegas podem estar colocados
em diversos lugares dentro da tópica de um corpo teórico-metodológico-técnico
de cada disciplina. Por exemplo, há o problema dos limites às disciplinas, as
áreas limítrofes onde uma se toca com outra e onde, por definição, é uma área
da qual nenhuma das duas pode ar conta, porque nelas cada um se ocupa do
seu. Há outros pontos cegos, como, por exemplo, o que poderia ser a origem
do objeto de cada disciplina, porque cada disciplina não pode ar conta da
origem o seu objeto, na medida em que ela se funda como ciência sobre um
objeto já constituído, não podendo saber como ele era antes de ser, assim
como não pode dar conta de como ele pode vir a ser, por não é prospectiva,
não é futurológica, só pode falar o objeto como ele é; as disciplinas também
não põem se ocupar as formas utópicas possíveis ou virtuais e existência e seu
objeto.

Por outro lado, já não tem termos de seu objeto, mas em termos de sua
teoria mesma, a disciplina não pode dar conta da influencias que deram
sustentação para sua existência- por exemplo, a psicanalise não pode dar
conta das determinações históricas, politicas, sociológica que determinaram
sua aparição, sua existência, seu sucesso e sua possível extinção.
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Tradicionalmente se supunha que um saber integrador que teria que


colocar as diferentes disciplinas dentro de uma tópica e uma cronologia do
saber seria a Filosofia, especialmente a Epistemologia, ou a Historia das
Ciências, que não se consideram propriamente cientificas. Isto no que se refere
aos cortes disciplinares, mas se poderiam colocar os objetos da mesma
maneira – haveria um ramo da Filosofia que diria conta de uma articulação
entre os diferentes saberes e seus objetos. Agora, o que parece ser visto é que
este tratamento especulativo das disciplinas e seus objetos, que teriam uma
inter-relação dialética com elas, na medida em que toma seus objetos teóricos
para fazer a tópica delas mesmas, tem-se mostrado insuficiente. Insuficiente.
Insuficiente por duas raízes: uma delas, seria que a Filosofia não produz
conhecimento, simplesmente o coordena, articula, o que coloca a Filosofia
numa posição muito peculiar – de um saber que não conhece; então, é difícil
saber acerca do que se sabe e o que podemos saber acerca dele. A outra
questão que me parece importante é a questão de que a Filosofia seria uma
pratica eminentemente teórica e não teria dispositivos concretos, reais, de
subsistência e de aplicação pratica, dos quais ela mesma se considera alheia.
Numa certa leitura, tal coisa não é aceitável, na medida em que se suponha
que nenhum saber pode postular-se como completamente de-suturam aqueles
dispositivos concretos que o fazem histórica e socialmente possível e
desejável. Por outro lado, em geral, analisando as filosofias que se ocupam das
disciplinas, se descobre que essencialmente elas trabalham com os mesmo
últimos supostos, os mesmos fundamentos que inspiram os corpos teórico-
metodológicos as disciplinas que a Filosofia estuda, cuja cientificidade localiza
e consagra. Então, seja que se suponha classicamente que a Filosofia é a
mãe das ciências, seja que se suponha que é filha , ou irmã, o problema é que
fica “ tudo em família” e que os fundamentos em geral ficam não questionados
por esse tipo e analise.

O mesmo acontece com as chamadas interdisciplinas por razões


parecidas ou por aquilo que se exprime naquela frase “entre bueyes no hay
comadas”.

Podemos reconhecer dois tipos de interdisciplinas: as teóricas, em que


vários técnicos se esforçam para falar nas suas respectivas linguagens, sem
entender o que o outro diz e tratando, na medida do possível, de não falar nas
suas respectivas linguagens, sem entender o que o outro diz e tratando, na
medida do possível de não criticá-lo; ou as interdisciplinas técnicas, em que os
diferentes cientistas se reúnem para resolver um problema pratico e é uma
coisa interessante quando, ao final, se tenta saber porque um conseguiu
resolver o problema e não o outro – e aí se formam estruturas explicativas que
transcendem os limites das disciplinas.

Então, se as disciplinas são como são a Filosofia não pode dar conta
delas e as interdisciplinas também não; é por isso que se supõe que tenha
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aparecido o institucionalismo que vai dizer que todas as disciplinas e seus


objetos exigem, para poder existir concretamente, materializar suas lógicas em
dispositivos de implantação sobre o objeto, corporações jurídicas e especificas;
serem desempenhadas por agentes (indivíduos, sujeitos) e compreenderem
práticas sociais multideterminadas. Isso implica que não se podem separar os
critérios e verdade, os critérios de eficácia e critérios ético-científicos do fato de
elas não poderem abranger o campo as outras e do fato de elas terem que se
dar todos esses aparelhos para poder existir. Então, cada saber se á sobre um
fundo de não saber do qual alguém tem que dar conta.

Então, quais são essas disciplinas que podem ter tido alguma influencia
sobre o institucionalismo? Sem pretender fazer levantamento exaustivo,
podemos dizer que as mais importantes têm sido determinadas sociologias,
teorias de economia a sociedade e da historia (as disciplinas que se ocupam
do problema do poder e dos processos sociais da produção de bens materiais),
disciplinas antropológicas que se ocupam da gênese do homem (mitos,
costumes, sistemas, simbólicos), semióticas ( as disciplinas que se ocupam do
signo, do sentido da informação, da comunicação) e, é claro, as disciplinas que
se ocupam aquilo que provisoriamente chamamos de subjetividade.

Tomando apenas o mais importante, tem tido especial influencia a


sociologia chamada “burguesa” – a partir de Comte e seus discípulos Durkheim
e Weber e seus subdiscipulos americanos – pedagogos como Mead e
sociólogos como Parsons. A partir dessas teorias sociológicas e as articulações
delas com teóricos da Psicologia comportamentalista e a Aprendizagem
(condutismo de Watson e as teorias de aprendizagem de Skinner), dos
gestaltistas e dos emigrados da Psissociologia centro-europeia, se cria uma
corrente, uma subespecialidade da Psicologia Social que é a chamada
Sociologia das Organizações ou Psicologia Social dos pequenos grupos depois
diversas formas, mas que são eficazes são). Esse desenvolvimento todo tem
uma grande influencia – de retorno a Europa depois de sua importação a
sociologia francesa ou italiana. Poderíamos citar a influencia e correntes a
Psicossociologia americana através de inúmeros trabalhos de Rogers, do
transasionalismo de Eric Berne, do bioenergetismo, enfim, toda uma série de
técnicas que também produziram na Europa um impacto fundamental.

O institucionalismo recebe uma marca a influencia do marxismo. Se


dividirmos o marxismo em uma Teoria de Sociedade e da História, uma
Filosofia e um Movimento Histórico e Politico – esses três ramos do marxismo
têm tido também muito efeito sobre o institucionalismo, apesar das criticas
deste. Outra influencia importante tem sido a dos anarquistas – em termos
históricos e políticos, mas também as teorias da sociedade, as correntes
teóricas dos chamados utopistas, particularmente Erasmo de Roterdão, Tomás
Morus, Rabelais, Fourier, Saint-Simon, Todos os sociólogos e pensadores
utopistas tiveram muito peso. Têm tido influência também alguns teóricos das
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instituições, teorias com muita importância no movimento à sociologia na


Europa, especialmente dois teóricos as instituições, teorias com muita
importância no movimento a Sociologia na Europa, especialmente dois
investigadores, Havriou e Renard, assim como Caran, que propuseram uma
teoria das instituições.

No marxismo, vão ter importância não só os fundadores, mas também


os continuadores – ate mais que os fundadores – como Lênin, Trotsky, Rosa
de Luxemburgo, Gramsci, Althusser e outros.

A Antropologia tem sua importância – tanto a positivista como a


culturaralista (Mauss, M. Mead), e também o estruturalismo de Lévi-Strauss... e
finalmente a antropologia “anarquista” de P. Clastres. Em semiótica tiveram
importância Pearce, os a teoria da comunicação, linguistas como Chomsky e
finalmente Lobov, Bakhtin e Hjelmslev.

Em termos de teorias filosóficas, há a enorme influência e Nietzshe,


Spinoza, os estoicos e também e Sartre, além de alguns ensinamentos e
Hegel. Também tem tido muita influiencia os psicanalalistas, especialmente os
freudo-marxistas, os psicanalistas antipsiquiatricos com Laing, Cooper; a
influência de Lacan tem sido importante, embora ainda não exaustivamente
explorada...; essa influência tem gerado alguns institucionalistas de peso como,
por exemplo, Eugene Enriquez e outros conhecidos, Manononni, Legendre,
Leclaire etc.

O que o institucionalismo faz com toas essas influencias é muito difícil


de sistematizar, porque o institucionalismo não é uma teoria, mas muitas, e o
que elas tem em comum são as características as quais falamos, às quais
podemos acrescentar uma critica do conceito e verdade e, em segundo lugar, o
problema do Poder; seja dos micro e macro poderes – do poder econômico,
politico; seja do poder como uma questão do domínio ou da capacidade de
fazer.

O institucionalismo se interessa pela questão o Desejo, da intervenção


de forças inconscientes em todas as atividades humanas, e não apenas na
questão a saúde; onde quer que a subjetividade tenha participação, o
institucionalismo está preocupado em desvendá-la: interessa-se pela questão o
inconsciente, postulando a existência de muitos inconscientes e a
impossibilidade de universalizá-lo, totalizá-lo e, sobretudo torna-lo domínio ou
da capacidade de fazer.

O institucionalismo estaria na critica do que se chama a


profissionalidade e a especificidade, ou seja, pontos cegos que too corpo
doutrinário têm ao ocupar-se de uma coisa e os escotomas que se criam,
porque todo corpo disciplinar, para poder implantar-se como conhecimento na
sociedade, tem que fazê-lo através de postulações teóricas, mas também de
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organizações. Para poder desenvolver sua investigação em torno desses


interesses, o institucionalismo vai pegar de cada corpo de saber o que serve
para permanente crítica, para propiciar na concretude o que aspira como
meta: o incremento da produção de liberdade ou do libre fluir das produções –
o que, em termos operativos, quer dizer uma proposta autogestiva, isto é, que
os grupos tenham suas próprias organizações , suas próprias leis, seus
próprios objetivos, enfrentar todo tipo de exploração, domesticação e
mistificação. Bem, isto muito provisoriamente, acaba com a gênese conceitual.

No que diz respeito à gênese histórico-social, poderíamos dizer que o


institucionalismo, num sentido amplo, pode contar, como precursores, todos
aqueles acontecimentos e processos históricos em que estes objetivos
estavam esboçados, propostos – desse o comunismo primitivo, passando pela
rebelião de Espártaco e seguido por todas as iniciativas autogestivas que se
conhece na História.

Porque todos esses movimentos históricos precursores contemporâneos


são institucionalistas avant-la-lettre, antes de existir o institucionalismo, sem
necessidade do institucionalismo. O institucionalismo é apenas uma tentativa
de entender como eles se dão e propiciar que sejam mais frequentes e bem
sucedidos.

Quer dizer, sempre foi, e na atualidade continua sendo óbvio, que os


movimentos autogestivos se façam sem o institucionalismo mais do que com o
institucionalismo. O institucionalismo é apenas uma tentativa de produzir saber
acerca de como apuram, estudam sistematicamente, o que configura um saber
constante, disponível não é sine qua non para aquilo que ele propõe que
aconteça. Ele apenas se propõe saber como os agrupamentos fazem aquilo
que ele esta propugnando fazer para aplica-lo a outros agrupamentos que não
conseguem fazê-lo. Nossa linha se pode considera como percursores os
movimentos como os quilombos, a republica Espanhola, determinados grupos
revolucionários latino-americanos (comoneros do Paraguai...); há muitas
comunidades brasileiras como aquelas que se ligam ao movimento de Teologia
da Libertação. Agora, por outro lado, em termos de uma gênese histórico-social
mais circunscrita, menos ampla, há uma sequência que vale a pena recuperar.
É uma passagem que houve no campo da saúde mental: o impacto que
recebeu a psiquiatria tradicional, classificatória, positivista, fenomenológica, a
partir dos granes questionadores da Psicologia comportamental, a psicologia
da forma, da psicanalise, da Pedagogia libertaria e da Anti-psiquiatria. A partir
dai houve o questionamento de todos os aparatos da psiquiatria e apareceram
tentativas de operar eficiência terapêutica utilizando as mesmas organizações
a psiquiatria, as mesmas que ela tinha utilizado como lugar e segregação; dá-
se o questionamento da instituição psiquiátrica e a utilização dos hospitais
como instrumento de ressocialização e cura, não como instrumentos de
eliminação – isto deu origem ao que se chama Psicoterapia institucional, que
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começou com Tosquelles na Espanha e com Píchon –Rivière na Argentina. A


partir dela se gerou o que chamamos de análise institucional – uma ampliação
da leitura feita das instituições psiquiátricas e seus modos de operar, a todas
as outras organizações, inclusive aquelas que não fazem parte da questão
psiquiátrica. Isto continuou com a Psiquiatria Comunitária, com a Psiquiatria de
Setor francesa e, posteriormente, com a Psiquiatria italiana, para gerar too
esse movimento de institucionalismo que tem diferentes ramos dos quais vocês
conhecem como mais importantes a Socioánalise, a Análise institucional e essa
forma mais revolucionaria que é a Esquizoanalise Deleuze e Guattari.

Pergunta: onde estava o institucionalismo antes de existir como tal? Se


existia o institucionalismo, o que a gente poderia chamar aprés-coup,
retroativamente?

Podemos localiza-lo em forma absolutamente heterogênea, em todos os


pensamentos questionadores como em Sartre e sua análise da Revolução
Francesa, em sua tentativa de tematizar as organizações politicas como em
Sartre e sua analise da Revolução Francesa, em sua tentativa de tematizar as
organizações politicas dessas categorias elaboradas em sua obra; em Marx
quando ele analisa a Comuna de Paris, em Trotsky, quando ele se opõe à
formação o socialismo em um só país; em Rosa de Luxemburgo quando
questiona as determinações em última instância econômicas; enfim
poderíamos chamar tudo isso de institucionalismo.

Poderíamos falar também e todas as produções anarquistas, de


posições individuais como daquele professor americano, Thoereau, que não
quis pagar impostor, Bakunin, Bauer, Simrner. Mais contemporaneamente.
Acho que a melhor resposta esta nesse livro e Castel, que vocês tiveram a
sorte de ter aqui. Quando Castel dá uma passada por todos os sistemas ou
não-sistemas espontâneos e formas de sociabilidade alternativas que reúnem
grupos e interesse – por exemplo, as comunidades étnicas americanas - uma
enorme serie de movimentos que, primeiro, é difícil a gente acompanhar e,
segundo, que não se dá o nome de institucionalismo porque seria um
imperialismo... Deleuze disse uma coisa que me deixou emocionado: numa
discussão com um jovem chamado Michel Cresole, ele disse: Michel, você é
muito ruim porque você é alternativo, marginal; eu não gosto de marginais,
eles são muito ostensivos...” acho que ele disse isso no sentido de que os
movimentos que conhecemos são alternativos e marginais, e eles já são muito
visíveis, já se dão a conhecer... provavelmente o verdadeiro institucionalismo é
o que não aparece, é um conjunto e tentativas absolutamente espontâneas,
invisíveis e que provavelmente estejam muito mais perto o clandestino –
acreditarmos que existe uma rede de invisíveis e que provavelmente estejam
muito mais perto o clandestino – acreditamos que existe uma rede de
clandestinidade que, por suas características, não é nem reconhecível nem
qualificável de institucionalismo.
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Pergunta: podemos falar um pouco mais da área de saúde?

Poderíamos falar do ponto e vista das teorias, mas acho mais


interessante pensar o ponto e vista dos acontecimentos. Por exemplo, em
1950, em Buenos Aires, houve uma greve num hospício onde Pichon-Rivière
era psiquiatra e psicanalista. Ele tentou organizar os pacientes em grupos em
que cada um designava um paciente como coordenador para poder ir levando
a rotina do hospital, desde os problemas organizativos (comia, roupas, etc.) até
para lidar com a ansiedade produzida pela situação. Depois de uma semana se
convocou uma assembleia geral para que se discutisse a experiência- essa
experiência ficou famosa e se chamou a experiência do “Hospício de las
Mercedes”, considerada por Pichon como aplicação de sua teoria dos grupos
operativos; podemos falar de toas as inspirações Kleinianas, hegelianas,
culturalistas etc. que tem a teoria de Pichon-Rivière o que interessa ai é que os
pacientes se reuniram e prescindiram dos coordenadores-técnicos, eles
próprios geriram o hospital, não aconteceu naa grave e se demonstrou o que
se demonstra sempre: que os técnicos atrapalham. Em 1960, Tosqueles, que
era circunstancialmente enfermeiro num hospital do país basco, teve uma
experiência semelhante deixou que os pacientes se organizassem e notou que
eles, jogando futebol, não precisavam e arbitro, eles mesmo resolviam se tinha
sido falta ou não..., concluiu que o potencial autogestivo do paciente entro de
uma instituição era incalculável. Anos depois, durante a Segunda Guerra
Mundial, Basaglia constatou que, num hospício bombardeado, os pacientes
saíram por toa parte e não se soube de nenhuma experiência grave e inclusive
alguns deles apareceram depois “auto curados”.

Todas essas experiências foram-se juntando para que os psiquiatras,


psicanalistas, psicólogos concluíssem que numa instituição hospitalar
psiquiátrica, onde os pacientes estão recolhidos para serem segregados da
sociedade, reprimidos em seus sintomas, submetidos sistematicamente a
tratamentos medicamentosos, eliminatórios do paciente ou da sintomatologia
etc..., se poderiam empregar todos os mecanismos da vida comunitária a
serviço de uma nova cultura, utilizar os espaços, tempos formas de convivência
alternativa e psiquiátrica ou aos limites e uma organização concreta, mas devia
ser levado a todas as instituições – dái aparece características “ortopédicas”,
orto-sociológicas.

Pergunta: (Pedro Mascarenhas): Qual a influência o institucionalismo


proveniente de outras áreas?

A sua pergunta faz lembrar a minha omissão a enorme influencia de


Moreno: primeiro, a questão técnica do Psicodrama que nenhum
institucionalista consegue ignorar, que pode-se não saber usar, mas reconhece
que é fundamental; depois, a questão teórica da vida social entendida como
teatro. Um campo de muita influencia também é o campo pedagógico, com
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Pestalozzi, Freinet, Paulo Freire, enfim muitos outros. Em outras áreas, há


também trabalhos – o institucionalismo faz questão de cultivar o que se chama
“cidade cientifica submersa” como na URSS e no Uruguai- me parece que há
trabalhos de biólogos, urbanistas, físicos, que têm operado na clandestinidade.

Pergunta: (Antônio Lancetti coloca duas questões: uma acerca de o


institucionalismo vivar outra instituição, outra a respeito dos fracassos as
revoluções...).

A contradição básica do institucionalismo é que é critico mais ou menos


radical, da razão ocidental, instrumental, pragmática, da sua especificidade e o
profissionalismo. O problema é como subsistir numa atividade assim num
mundo que esta organizado neste sentido, em sociedades em que se produz
demanda e responder a essa demanda de forma autorizada e legal implica
estar localizado em algum lugar dessa superfície. O que o institucionalismo faz
é assumir que tem de fazer isso – mas produzir instrumentos para aprofundar a
autocritica das contradições que se prouzem devido a essa colocação. Se esse
instrumental consegue isso, ou não, é a grande discussão do institucionalismo.
O institucionalismo tem entre outras uma proposta “entrista”, isto é você vai
aonde lhe chamam, uma vez que você esta dentro, você faz sua “conspiração”;
ai esta a outra posição que é não entrar em nenhum lado, mas se postular
enquanto algo com princípios claros e definidos e avaliar se interviu ou não de
dispositivos cada vez mais inéditos, cada vez mais desenquadrados, e que
intervém sem emana e participa e coloca sua forma de participação e cria
formas e subsistência que não são enquadráveis nem na profissionalidade nem
na especificidade.

Vou dar um exemplo que me impactou. Fui para a Argentina e me ligou


um rapaz que tinha sido meu aluno há dez anos e do qual não me lembrei, a
não ser porque tocava saxofone. Combinamos nos encontramos e ele disse
que tinha vindo e não sabia se era para me cumprimentar ou para se despedir.
Então me disse que achava que não tinha nada mais para fazer comigo, que
quando eu tinha ido embora ele estava numa organização clandestina e que
todos os seus companheiros estavam mortos, sua casa e seus livros tinham
desaparecidos... que precisava despedir-se de alguém... Precisava, porque ao
despedir-se de mim estava se despedindo também de seu mestre, de sua
profissão, porque fazia uma pratica que não tinha nada a ver com o que eu lhe
havia ensinado, nem com sua profissão, nem com sua militância. Perguntei
qual era a pratica e ele me disse: “jogo futebol em peladas... vou, assisto a um
jogo, no outro dia volto e peço para entrar e , como jogo bem futebol, eles me
convidam para voltar. Então, passo a conviver com o grupo e a conversar –
observando como as pessoas jogam bem futebol, compreendo as pessoas e
posso ajuda-las... e que vivo disso; peço para que eles juntem . então nos
abraçamos e ele se foi. Eu sabia que jamais voltaria a vê-lo. Essa é outra forma
de profissionalidade... o que ensinei a ele não lhe serviu, o que posso ensinar
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agora não sei se servira, mas sei que ele pode me ensinar muitas coisas, tenho
certeza... ele faz uma pratica de ajuda mútua, nômade... o verdadeiro
institucionalismo.

REFERENCIAS BIBIOGRÁFICAS:

BAREMBLITT, G. F. Apresentação o Movimento Institucionalista. In: Revista


Movimento. Psicologia – Sociedade – Transdisciplinaridade. Ano 1, nº1,
nov./1995,p.31-35

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