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Ficha Técnica

Título
Efeitos da Vida
Olhos nos Olhos

Autor
Kennexiz Xavier

Projecto Gráfico
Daniel Oliveira

Revisão
Sónia Oliveira

Impressão
M. Barbosa & Filhos

1ª Edição – Janeiro 2014

ISBN
978-989-97897-4-6

Depósito Legal

Rua Massano do Amorim | B. Fátima – Cidade Alta | Huambo


e-mail: sag.edicoes@gmail.com | tel. 92 69 300 61

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios em-
pregados: electrónicos, mecânicos, fotográficos ou quaisquer outros, sem o consentimento prévio e
por escrito da editora e do autor.
Kennexiz Xavier

Efeitos da Vida
Olhos nos Olhos

Edições
Índice

9 Agradecimentos
10  Nota do Autor
12  Prefácio
15  Capítulo I
33  Capítulo II
39  Capítulo III
59  Capítulo IV
65  Capítulo V
83  Capítulo VI
89  Capítulo VII
93  Capítulo VIII
101  Capítulo IX
109  Capítulo X
121  Capítulo XI
131  Capítulo XII
141  Capítulo XIII
145  Capítulo XIV
159  Capítulo XV
169  Capítulo XVI
175  Capítulo XVII
187  Capítulo XVIII
199  Capítulo XIX
205  Capítulo XX
211  Capítulo XXI
217  Capítulo XXII

Kennexiz Xavier 5
À minha esposa:
Irina Lisandra das Neves Lino Xavier
Pelo seu grande amor e por ter cuidado de mim nas horas
que mais precisei

Kennexiz Xavier 7
Agradecimentos

Manifesto o meu enorme agradecimento à memória dos meus


pais: Manuel Fernandes Xavier Júnior e Marta Lussinga Fernan-
des, glórias da minha identidade.
À minha tia, Felismina Chilombo, minha melhor muleta que
jamais vi; seus filhos também.
À minha esposa, Irina Lisandra das Neves Xavier, companheira
fiel em minhas lutas e vitórias, a maior bênção da minha vida;
meus irmãos também.
Aos meus filhos, Irickennier Júnior das Neves Xavier e Heloísa
Ckennisah das Neves Xavier, frutos da minha mudança; meus
sobrinhos também.
À minha sogra, Maria Ferreira das Neves, meu sogro e minha
avó também.
A todos os que directa ou indirectamente serviram de mola
propulsora para a realização e concretização deste livro.
Com muito apreço e afecto, o neto; o filho; o sobrinho; o ma-
rido; o pai; o tio; o irmão; o genro.
Agradece pelo companheirismo, amor e motivação.
Eu sei bem, meus amores, que sois tantos irmãos, companhei-
ros e muito amigos e que, se qualquer de vós se encontrasse na
situação destas personagens do livro especialmente Alberto
Kappa, Kali, Seth e Asael decerto que procederia exatamente
como eles.
Porém, espero que os “efeitos da vida” não permitam que
passem momentos tão cruéis e enigmas e que a leitura deste
livro não lhes traga à memória tristes e exaustas recordações.

Kennexiz Xavier 9
Nota do Autor

Este livro trata-se de uma obra literária com contrastes de


acontecimentos da vida atual, baseando-se em fábulas, lendas,
ficção e ciência.
Ele foi escrito de uma inspiração do dia-a-dia, contendo as
minhas ideologias inerente aos efeitos da vida terráquea e side-
ral, perscrutei sobre as circunstâncias psíquico-socio-culturais
e a realidade dos momentos enigma do nosso quotidiano. Este
livro não obstante ser fruto de ficção; baseia-se em factos reais,
na ciência e na história de todas as civilizações da humanidade.
Com isso, auferiu-se experiências suficientes para a presente
obra literária; porém, apraz-me fazer lembrar ao ilustre leitor
que a ficção é apenas uma forma de ver o futuro, trazido por
seres com consciências perscrutantes e pelo que vejo, na Terra
há muitos agentes desempenhando tais funções.
Todavia, ao basear-me em factos históricos, fábulas, lendas,
ficção, ciência; e transformar os seus assuntos em perícopes e
narrativas para o meu livro, quero humildemente confirmar
que nada se cria, uma vez que somos apenas co-criadores, tu-
do se copia, e que toda a fábula, lenda, ficção têm um fundo
de verdade.
Nada está errado nele. Foi apenas adaptado para livro, para
que não se perdesse o alimento da verdade que vivifica a cons-
ciência, a inteligência e o espírito.
O meu desejo é que você esteja enaltecidamente remodelado
na leitura deste livro; e usufrua a vida através dele.
E eu, persuado-me que, depois de ler este livro, você jamais
se sentirá a mesma pessoa. Se tomares e plasmares na memória

10 Efeitos da Vida
todos estes exemplos que aclaram a organização e as relações
entre o homem, o nada, o espirito, a alma, a mente e a ordem
social. Outrossim, agouro que dificilmente me perdoarão o par-
tido que ousei tomar – O de ser materialista confesso em alguns
capítulos. Chocando de frente com toda a masmorra da vida,
com tudo aquilo que desperta, hoje, a admiração dos homens,
é óbvio, que só posso esperar para gerir a censura universal; e
não é por ter sido honrado pela aprovação de alguns sábios que
devo contar com a aceitação da conceção do vulgo: espero que
respeitem a minha opinião, também o meu partido está tomado.
Não me preocupo em agradar nem aos belos espíritos, nem à
gente da moda, nem às almas purificadas. Em todos os tempos,
haverá homens feitos para serem subjugados pelas opiniões do
seu século, da sua tradição, do seu costume, da sua cultura, do
seu país e da sua sociedade. Isso faz-me, hoje, o espírito forte
e o escritor amante da sabedoria que, pela mesma razão, não
passasse de um fanático do tempo da Fé. É preciso não escre-
ver para tais leitores, quando se quer viver além de seu século.
Ofereço este livro a todos os que não economizam esforços,
a todos os que descarregam energias físicas e neurais para fa-
zer do planeta Terra o melhor lugar para viver e reconstituir o
Paraíso miticamente perdido. E aos agentes que aceitaram ser
nessa vida o escudo da consciência que abre as portadas para
as tendências e os altares das constelações astrais e siderais na
formação do homem racional, intelectual e espiritual.
Kennexiz Xavier

Kennexiz Xavier 11
Prefácio

O restabelecimento das crenças, doutrinas, tradições, costu-


mes, ciências e das artes contribuiu para purificar ou para cor-
romper os efeitos da vida. Eis o que se trata de examinar nesta
obra literária. Que partido deve tomar nessa questão? Natural-
mente, toda a verdade sobre a eternidade ou sobre o princípio e
o infinito do universo é simplesmente, uma ficção artística, uma
metáfora, um mito, uma fábula ou uma parábola. Então ficare-
mos assim, sem questionar as causas dos efeitos da vida? Não,
o universo nunca existiu sem ter tido uma causa; obviamente,
terá um fim por causa das “N” mutações ecológicas.
Onde não há nenhum efeito, não há causa que procurar: mas,
aqui, o efeito é certo, na vida há muita cena por se contar, a de-
pravação humana é consistente, real, e nossas almas corrompe-
ram-se à medida que as nossas crenças, doutrinas, costumes e
tradições; nossos conhecimentos, pensamentos, ciências e nos-
sas artes encaminharam-se para a perfeição. Dir-se-á que é uma
desgraça peculiar à nossa existência? Não, não senhores; os males
causados pela nossa fútil fé e curiosidade são tão velhos quan-
to o mundo. A elevação e o abaixamento diários da consciên-
cia humana sujeitara-se regularmente ao curso do infinito e do
firmamento, dos espaços siderais, dos astros que nos iluminam
durante o dia e a noite do que a sorte da razão, da consciência e
da probidade ao progresso das ciências e das artes. Viu-se a rea-
lidade dos factos fugir à medida que a luz da fé e da ignorância
se elevava sobre o nosso horizonte cerebral, e o mesmo fenó-
meno se observou em todos os tempos e em todos os lugares.
Assim como desejamos saciar o estômago, outrossim quere-

12 Efeitos da Vida
mos saciar a inteligência pelo alimento da verdade e leituras de
bons livros.
Entretanto, para unir-se é preciso conhecer-se; para conhecer
é preciso saber, para saber é preciso aprender para aprender é
preciso entender.
Convém recolher livros para leituras enquanto é cedo e tens
visão, porque tarde de mais podes perder a visão e... jamais voltar
a ler. E perdes assim a verdade, o alimento próprio da inteligência.
“O mundo é um livro; o vulgo lê as palavras, apenas o sábio
pode dar a tradução” (Bacon)
“Da determinação que tens tomado não tornes por detrás, pois
é fraqueza desistir-se da coisa começada” (Camões).
Estes conselhos, que soam os bons sensos, dados dos falecidos
Rev. Bacon e Luís de Camões poeta maior Lusitano, contêm uma
sabedoria nascida da experiência. À primeira vista, pode parecer
que «um escritor; Poeta não contenha mais do que uma quanti-
dade de informações antiquadas, porém, aqueles que no entan-
to, sabem onde e como procurar, a massa proibitiva da matéria
não é uma barreira entre rochas, fortalezas, e entre o indivíduo
e a vida real, mas sim, é uma ponte para se chegar a uma apre-
ciação mais rica dela.
É quando perguntamos: “O que o escritor quis dizer? Porque
disse isto? Porque expressou assim? O que subjaz àquela obser-
vação? “
Então começamos a ver as coisas com uma nova luz, direção
refulgente.
Um escritor não é uma coletânea de sermões pré-dirigidos. É
mais, e muitas vezes mais um empreendimento coletivo de abrir
pedreira para construir. É enquanto, através de um nítido sabido
da consciência que se vai ilustrar no meio da quantidade de con-
sequências e experiências de dados em contraste e se procura
construir algo com ela, que os dados assumem vida.
Esta é a argúcia que norteia o escritor desta obra literária, ex-
por em livros os contrastes do nosso modus vivendi hodierno; e

Kennexiz Xavier 13
com o mesmo assumir a vida e fazer arrepender-se dos atos ma-
lévolos os homens atrozes e ignaros; outrossim para dignificar
a sua própria arte (literária) e o seu desenvolvimento cultural,
artístico e científico.
Apresenta-se este livro no seu sujeito título (EFEITOS DA VI-
DA) sem ínfimas inspirações pretende-se com esta obra literária
atenuar as duras e iniludíveis realidades que constituem a nossa
vivência atual; fundamentando-se em toda a história da civiliza-
ção humana.
Os temas contidos no livro são de noções da civilização atual
com um quê de fábula, lenda, ficção e ciência em que se defrontam
todos os contrastes – Riquezas e pobrezas, opulência e miséria,
cultura e barbárie, inteligência e estupidez, amor e ódio, altruís-
mo e egoísmo, paz e guerra, virtude e imoralidade, esperança e
desespero, ateísmo e teísmo.
Os objetivos fundamentais são três coisas, que o homem, seja
ele quem for, ou viva onde viver pede e diremos mesmo exige
constantemente:
– A paz, o Pão e a liberdade.
Pode-se dizer que o escritor tem como estilos literários para a in-
terpretação das suas inspirações e mensagens fundamentalmente:
– Contos poemáticos e prosaicos, crónicas, romance, poemas
abertos e fechados – Podem ser dramáticos e rimáticos – Satí-
ricos e trovadorescas.
O objetivo deste livro é o de descobrir as coisas de todas estas
calamidades que nos envolvem, que nos cercam; aliás, equidis-
tantes, que parecem apostados a tomar conta do homem da
humanidade, em todas as suas atividades e manifestações.

Irina Lisandra das Neves Lino Xavier

14 Efeitos da Vida
Capítulo I
Desespero e Tristeza

Desde que uma verdade tem um sabido ponto de apoio é com


rigorosidade que se tiram delas as consequências.
Kennexiz Xavier

Eu sou Alberto Kappa, em 1970 tinha 18 anos e orgulhava-me


dum futuro próspero; era filho de família devastada pela misé-
ria, também cresci na demanda do Estado angolano e, fui afetado
pelas falsas ideologias, pelos longos anos de guerra, de genocídio,
de fratricida e de violência, pela pobreza económica extrema que
dilaceraram profundamente as famílias angolanas. Também vi-
venciei na flor da própria carne as deslocações forçadas, a falta de
habitação condigna, a alimentação insuficiente, o desemprego, o
alcoolismo, o sistema de saúde deficitário. Também assisti no ecrã
da televisão das minhas angústias as relações extraconjugais, está-
veis ou ocasionais, causadoras de chantagens e rivalidades, que são
até à era contemporânea alguns exemplos de males gerados por
uma conceção deturpada da família e agravados pela instabilidade
provocada pela guerra. Outrossim, amargamente conheci, sobre a
maneira do aumento de lares constituídos, vi gerações múltiplas –
avôs, pais, filhos e netos; a partilharem espaços limitados, onde se
cruzam conflitos por interesses de espaços e de gerações... Claro!
– Este sou, de esperança moribunda, amarfanhado até ao último
consentimento pela asfixia, inumado vivo a embutida, morrendo
de agonia.
Um certo dia suprimindo meu orgulho num clube de auto
ensino na Ingombota, em Luanda, entreguei-me como filho
moribundo para ser instruído. E ainda assim, sentia-me muito

Kennexiz Xavier 15
deprimido e triste.
Porquê?
– Meus colegas passam a maior parte do tempo em aulas
a sorrirem-me desdenhosos, pois a minha vestimenta era, da-
queles que todos conhecem, de gente pobre e humilde. Meu
relacionamento no clube foi sempre assim, viver na pele dos
efeitos do bullying que é uma subcategoria do comportamento
agressivo que flui em espaços sociais ou em grupos sociais; mas
de um tipo particularmente pernicioso, uma vez que é dirigido,
com frequência e repetidas vezes, a uma vítima que se encon-
tra incapaz de se defender a si própria eficazmente. A pessoa
vítima de tal ato bárbaro pode estar em desvantagem etária,
censitário, ou só entre muitos, ser mais nova, menos forte, ou
simplesmente ser menos auto confiante. As pessoas agressivas
exploram esta oportunidade para infligir dano, obtendo quer
gratificação psicológica, quer estatuto no seu grupo de pares
ou, por vezes, obtendo mesmo ganhos financeiros diretos ex-
torquindo dinheiro ou objetos aos outros”, eu passava todos os
dias, sob este efeito macabro da vida, sob este subtipo de vio-
lência escolar; que se traduz num conjunto de comportamentos
agressivos, intencionais e repetitivos, levados a cabo por um ou
mais alunos contra outro.
As agressões a que eu era obrigado a submeter-me todos os
dias eram inerentes a ofensas morais, chibatadas psicológicas
como insultos, piadas, gozações, apelidos cruéis, ridiculariza-
ções, entre outros. Sofri deveras, uma forma de pressão social
que me acarretou muitos traumas na vida; enquanto aluno que
diariamente conviveu com esta realidade, fez com que, muitas
das vezes, condicionasse o meu quotidiano às solicitações dos
meus agressores. Mas como homem, e jurado profundamente
com firmeza em atingir um certo patamar, acima de tudo estava
motivado na certeza de alcançar uma mobilidade social e atingir
o ápice da mais alta realização humana, isto é, alcançar a felici-
dade, deixei de ser nada, pois que, ignorei os efeitos ignóveis da

16 Efeitos da Vida
vida e tentei não me deixar influenciar pelo bullying. Mas, o mais
agravante é que por vezes estes meus agressores, apresentavam
um ligeiro absentismo escolar e, portanto; não assistiam às aulas
porque não se concentravam de tanto me sorrirem e lacrimeja-
vam de desdém porque as minhas vestes os arrepiavam; e briga-
vam comigo por causa de coisas muito mínimas todos os dias.
Em resultado disso a minha memória passou a encher-se de
factos e recordações tristes, por causa de tanta injúria e perversão
adquiri pensamentos negativos, raciocínio enviesado e conflitos
comportamentais.
Apesar das minhas aspirações, das minhas tendências e objeti-
vos, fui forçado a ter um considerável insucesso escolar, a deixar
de frequentar o clube e consequentemente abandonar a escola.
Com isto, esqueci-me na totalidade de tudo que era necessá-
rio para viver a vida, já não suportava esperar para prosperar;
desvairado passava o tempo a dormir sob um embondeiro no
Mercado Popular da Boa Vista, o vulgo Rock Santeiro, abando-
nei meus pais, procurava o meu mantimento diário na lixeira,
comia pedra como pão e misturava com lágrimas a minha be-
bida, sentia-me feliz quando encontrava qualquer coisa morta
porque servia-me de melhor manjar.
Vivi assim durante todo o ano e, tarde depois, quando me des-
pertei do comportamento irracional e dos conflitos psicológicos,
fui a casa dos meus pais, ao bater o portão, veio abrir um dos
meus antigos vizinhos que ao ver-me sentiu-se vencido, encheu-
-se de ira contra mim e cuspiu-me na cara dizendo:

– Bêbado; cai fora daqui! – Teus pais já não fazem parte do


mundo dos vivos, quer dizer, eles todos pereceram.
E atirou o portão na minha cara, transformando-se-me o me-
nosprezo serventia para a rua.

Ouvindo isto sufocado chorei sem lágrimas para chorar, sem


querer desejei o fim das coisas e do mundo, eu sentia-me no dia

Kennexiz Xavier 17
do meu funeral, e dizia, não pode haver Deus, porque se houvesse,
não poderia permitir tanta asfixia e tanta iniquidade, tanto ódio
e tanta malvadez, tanto tédio e tanto sofrimento. Ali indaguei
que a vida não é nada mais do que uma corrida para morte, é
um jogo de grande asneira onde as tranças da alma se embara-
çam nos pentes da sepultura; é uma viagem sem objetivo, sem
sentido e cheia de miragens e sobressaltos.
E no entanto, lembrei-me dos velhos ditados que dizem:
“Se te ferem as pedras do caminho sorri... porque caminhas.“
“Quem não ignora factos que lhe parecem de ma-catadura ati-
ra o seu futuro na sepultura.” Entendi porque não fiz jorrar fios
de lágrimas sobre o meu frontispício, porque entendo, que foi
por meu desmazelo, e a morte dos meus pais agora está sobre
minha culpa porque se ignorasse as injúrias do clube, talvez isto
não tivesse sucedido, os meus pais não morreriam de certeza.
Sem destino para concretizar, projetos para traçar e conseguir
o pão da vida, como forma de sobrevivência levei a maior parte
da vida em bares jogando batotas com os amigos, praticando
incessantemente jogos de azar, tornei-me um autêntico alcoóla-
tra, deitei para longe de mim aquilo que almejava ser, e a maior
parte da responsabilidade e o bom, e certo caminho de penetrar
a porta da felicidade que é a mais alta realização humana; perdi
os valores morais da bem – aventurança. Já não me sentia de
acordo com o hinduísmo, que acredita na bem-aventurança infi-
nita considerada como um dos principais aspetos da divindade.
Mas, quando fazia cada esquina dos bairros e kimbos do meu
ego murados de ambientes frenéticos, de crenças, de religiões
e tabus, eu enxergava que o homem está tentando, inconscien-
temente, alcançar seu Ser divino – que é essa bem-aventurança
infinita. Concebia que não importa o quanto se consiga prazer
ou dinheiro, sempre se quer mais, discernia que a satisfação não
pode ser encontrada através deles. Ficava consciente de que a
felicidade proveniente do prazer e do dinheiro é finita, e final-
mente, a busca da felicidade através de meios externos e finitos,

18 Efeitos da Vida
não leva a lugar algum.
Mas apesar disso tudo, o meu desespero e tristeza era certeiro,
mesmo tomando um ou outro atalho, seguindo outro percurso,
era sempre certo o itinerário da minha desgraça e, porém, esse
conhecimento não me inspirara a mudar de direção e buscar,
conscientemente, a fonte da bem-aventurança infinita dentro
de mim. Já não me inspirara a crença de que quando a pessoa
chega a essa fonte perene de bem-aventurança infinita, todos
os seus desejos e vontades desaparecem. Que Ela tem então a
experiência de Deus – a divindade que tudo permeia – dentro e
fora de mim. Agora, é injusto para mim, quando se diz que Deus
enquanto essência de tudo e de todos os seres, ama a todos, até
mesmo seus inimigos, porque não vê inimigos em ninguém. Que
a sua bem-aventurança transcende todo o sofrimento, o medo e
a tristeza. – Não é verdade; essa loquaz, essa retórica afirmação, é
traiçoeira e sofista, porque este Deus fez-se meu inimigo, fez-me
como preza aos seus dentes canibais e está devorando-me vivo.
Certo dia quando vinha a caminho do casino, deparei-me com
duas raparigas que vinham da escola, todas elas de branco, equi-
libraram-me a psique, vivificaram o meu consentimento mori-
bundo, deram-me vida, deixando-me surpreendido por alguns
segundos. Olvidei a vida e não sabia o que era azar. As miúdas
olharam para mim a bom olhar, e talvez me tivessem reconhe-
cido, porque me tinham visto num dos bares onde eu fizera as
minhas bobagens e loucuras, logo saudaram-me:

– Fixe moço? – E eu respondi-lhes: – Bem fixe, obrigado moças!

As miúdas apresentaram-se a mim a elucidar o que elas que-


riam. Uma chamava-se Beatriz e a outra Cátia. Pois elas anda-
vam à procura de uma casa noturna para ganharem valores em
dinheiro e sustentar os seus vícios capitais tais como:
– A gula, a avareza, a soberba, a luxúria, a preguiça, a ira, a in-
veja, ganância e o egoísmo.

Kennexiz Xavier 19
1- Gula consiste em comer além do necessário e a toda a hora;
2-Avareza, é a falta de generosidade para compartilhar bens
materiais;
3- Inveja, é desejar os atributos, status, posse e habilidades de
outra pessoa, também se resume em ganância, egoísmo e con-
cupiscência;
4- Ira, é a junção dos sentimentos de raiva, ódio e rancor;
5- Soberba, é caracterizado pela falta de humildade de uma
pessoa, alguém que se acha autossuficiente;
6- Luxúria, é o apego aos prazeres carnais;
7- Preguiça, é a aversão a qualquer tipo de trabalho ou esforço.

Beatriz:
– Alberto K., nós estamos a estudar, mas, não temos emprego
nem sequer uma profissão. Por isso queríamos que nos ajudasses.

Alberto K.:
– Isto é muito enigmático! Não se entende... nem posso en-
tender! Vejam que não tenho família, não tenho nada, não sou
nada e como posso ajudar-vos? – Também não tenho profissão
nenhuma! Sou um estúrdio, um homem sem destino feliz. Em
que posso servi-las? Não valho nada! Sou um zero à esquerda,
absolutamente um zé-ninguém, fui gerado do nada, sou um na-
da no sentido fiel da palavra.

Beatriz:
– Está calmo! O caso é muito simples; não é preciso estudos,
nem formação, nem diploma académico, mas sim beleza e mui-
to sweg. E tu não te desanimes porque o estudo não faz sentido
sem profissão ou dinheiro. Porém, nós somos belas, não é?

Alberto K.:
– Estás perdida miúda!... Não, não há profissão sem estudo e
analfabeto com beleza; está provado que a instrução e a edu-

20 Efeitos da Vida
cação são as âncoras mestras de nossas liberdades, promovem
os valores da ordem social, são as fontes imediatas das normas
morais, religiosas, do trato social e jurídicas, consolidam a paz,
solidariedade, cooperação, a tolerância e aceitação da diversi-
dade...Vocês não batem bem, vocês são dementes e ignorantes
também!...

Cátia ofendida:
– Mas, o rapaz quer abusar de nós, não é?
– E tu também, Beatriz diga quê, quê ... é o que nos importa e
não faças cerimónia com este palhaço desgraçado.

Alberto K. assustado com as ameaças.


Com muito medo só disse: – Desculpem se ofendi porque eu
não queria injuriar-vos, não foi a minha intenção deixar-vos tris-
tes, encher-vos de ódio e rancor. Então, em que posso ser útil?

Beatriz, abertamente:
– Ouve, nós estamos fartas de depender dos nossos pais, que-
remos ter dinheiro, e neste caso como te conhecemos, e te vimos
a trabalhar no casino da deusa “Lilith $ Samael”; sendo assim,
achamos viável que a sua relação connosco pode ser útil. Vais
levar-nos para lá e nós tornamo-nos meretrizes para espremer
os milhões destes velhacos e ricos que têm cérebro de barata,
que têm os neurónios em guerra tal qual meninos na flor da
adolescência, com o juízo atropelado na cabeça.

Alberto K :
– Ah ah, ah!... isto não custa. É só fazermos um pacto baseado
num contrato; dividimos o dinheiro e seremos uma equipa... eu
faço o que querem ainda agora. Estamos?

Cátia:
– Não há de quê! Mas o problema é que nós somos virgens e

Kennexiz Xavier 21
não sabemos nada em relação a sexo, glamour, luxúria, estética!...
Os nossos pais nunca quiseram falar de sexualidade connosco,
porque dizem ser disparate. Dizei-nos, é verdade que falar de
sexo e órgãos genitais é disparate?

Alberto K.:
– Não, nunca o foi, os vossos pais querem impedir-vos de pro-
var as coisas boas da vida... Falar de sexualidade e órgãos genitais
não é crime, pecado nem imoral, antes pelo contrário, falar de
sexualidade, fazer sexo é o ato mais divino que existe.
– Eu vos ensino como se faz. Está combinado, somos agora
uma equipa denominada Galera da emulação.

Beatriz:
– Então nosso amo, quando é que faremos a nossa primeira
ação? Este rapaz veio a calhar! Estou comovida e muito passada...
somos a partir de agora figuras públicas, donzelas e super-donas
do casino ‘LILITH $ SAMAEL’, somos as próprias, as meretrizes do
terceiro milénio que vão deixar babados estes velhacos barrigudos
que passam a vida no gabinete a assistir vídeos pornográficos,
que amam a pedofilia como os padres iludidos por Jesus Cristo
e que se excitam por essa nossas bundonas frescas de virginda-
de. Cátia, qual é o kota que não adora ninfetinhas, que resiste
penetrar a bucetinha cheia de molho?

– Uau! Ele é o príncipe e nós duas princesas da Galera da Emu-


lação!

– Quando é que vamos fazer a primeira ação? Diz... vai... diz-


-nos nosso ilustre príncipe! – Secundou Cátia.

Alberto K:
– É já no próximo sábado, minha Cátia fofa. Vamos nessa!

22 Efeitos da Vida
A vida começa a mudar, tudo vai melhorar. Eu néscio e ignoran-
te pensava que Deus olhou para mim e era uma mudança para
a felicidade. Elas perguntaram-me, ou seja, pediram informações
de como se usar, e eu ensinei-as de uma forma vil e desonesta
conforme se pratica nas tais casas de prostituição.
Levei-as porém, numa tarde de domingo a uma pensão “era um
funeral para elas” onde levaram o tempo todo da vida, e acabaram
por viver lá a vida. Conforme o combinado eu estava engajado na
área de batotas, jogos de azar e num grupo de bandidos denomi-
nado a Máfia do terror e, elas na área da pornografia; davam-me
dinheiro em todos os fins-de-semana, engravidavam e provoca-
vam o aborto, isto é, todos os meses do ano matavam o feto. En-
tretanto, naquele tempo a vida era como que se estivéssemos no
paraíso prometido por Jesus Cristo, numa menção feita na Bíblia,
pois tínhamos tudo o que necessitávamos, o mundo curvava-
-se aos nossos pés como a terra é humilde ao sol, os semáforos
da miséria acendiam sempre depois de nós. Dávamos festanças
todos os santos dias, fomos alcoólatras na certeza, também de-
pendentes e viciados no sexo, e as miúdas, quando a família as
aconselhava, mandavam-nas emudecer e... convidavam a Máfia
do Terror para as percutir e humilhá-las. Tornaram-se crónicas,
prostituíam-se nas praças, nas casas noturnas, assim como nas
escolas; e conquistavam professores e envolviam-se sexualmen-
te em troca de certificados de habilitações literárias. Mas numa
reviravolta, onde o feitiço não funciona, a aflição do sol vira-se
ajoelhado às portas da sepultura, manifestou-se então o funeral
das miúdas... oito anos depois as raparigas que eram sensuais,
ninfas do rio Nilo, de pele macia e gordinhas, tornaram-se secas
e esbranquiçadas, pois que, a dor e a miséria macaqueava o seu
estilo asno e desenvolvia-se nas suas tangas e lingeries cor-de-rosa
e de muito custo valor. Todavia, o grupo que se chamava Galera
da Emulação as pessoas de sobrancerias denominaram-na galera
do auto inumação, porque auto vergastavam-se e destituíam as
suas longas vidas a si próprias e andavam sob e sobre as cidades

Kennexiz Xavier 23
à procura e em busca do destino funesto.
Acirradas, escarnecidas e escarnadas pela dor e miséria, foram
obrigadas ao arrependimento, mas já era tarde de mais. – Seis
meses depois Beatriz aconselhou a sua companheira a deixar a
vida imoral, sem ética, louca e terrível que descobriram perdida
e funesta; e fez-me lembrar um ditado que diz, “nada mais peri-
goso do que a lógica quando tem o falso e o engano por ante-
cedente”; e outro mais simples e vulgar que diz previne-te antes
que te arrependas e, porque ninguém sabe o momento que o
salteador vem assaltar a sua casa.
Como amigas íntimas, já cheias de dor, entenderam-se e em
poucos dias casaram e, no mesmo pouco, foram escorraçadas
pelos maridos porque descobriram que estavam contaminadas
com o vírus da SIDA, asma, sífilis, herpes, gonorreia, hepatite
entre outras doenças contagiosas. No momento de pranto e
dor, na emulação agora da morte porque já estava consumada
a batalha da vida, sem ver outra saída, as raparigas pediram-me
para ajudá-las, porque comíamos juntos e sempre já dei a minha
maior atenção a elas. Mas, manifestei-me indiferente defronte
das suas famílias, com o terror de me maltratarem, sem querer
neguei que fôssemos companheiros fiéis de lutas e vitórias. De
repente lembrei-me dos ditos que dizem:
“Ama o teu vizinho mas não derrubes o quintal; não se per-
suada, ter amigo fiel, porque na pena de morte o teu amigo te
negará.”
“Quem não dá a educação sexual à filha... está sujeito a ar-
ruiná-la.”
“Não aceites induzir-te ao mal porque o indutor perante os
teus problemas não estará presente.” As meninas coitadas, lá se
foram; as miúdas de vírus contagiosos pereceram; pouco tempo
a vida gozaram; muito tempo a vida não viveram.
Eu fiquei num mundo obscurecido e misterioso com vontade
de morrer também e jamais querer viver.
“Nada está realmente para ser você”, dizia para mim mesmo.

24 Efeitos da Vida
O mundo só quer aproveitar-se dos males que eu pratico, mas,
acredito no destino. E não tem de quê.
Entretanto, acredito que quando uma pessoa não aceita o
sistema da vida hodierna, mas não consegue foragir dele, aca-
ba tornando-se numa vítima para o julgamento e sentença dos
que não têm olhos para ver. Dizem que o correto é fazer parte
dele. Mas isto é uma forma de fazer com que o sistema continue
funcionando – dizendo que você precisa de casas luxuosas, di-
versos carros, formação acima da média; e então você será uma
pessoa de sucesso. E isto frustra quase todas as pessoas. Inclusive,
foi nesta pele que eu vivi por muito tempo, homem que acaba
criando uma personalidade mais gananciosa e então começou a
ter atividades desonestas com a ilusão de que se fizer desta for-
ma será independente, libertar-se-á das vicissitudes da natureza;
mas fez tudo em busca de algo que não existe, que nunca tem
fim. Não existe fim nos pecados capitais, na gula, na avareza, na
soberba, na luxúria, na preguiça, na ira e na inveja; eles são insa-
tisfações, sempre!... Este sistema influência qualquer pessoa, não
só a sentir muita dor, como também a tornar-se triste e frustrada,
cria estelionatários, prostitutas, corruptos e até ladrões de rua.
Nesta má vida que eu vivi, a vida ensinou-me que uma socie-
dade que não busca mais o bom costume, que não deseja apenas
viver em harmonia e livre de necessidades; uma sociedade que
deseja apenas o luxo... É esta a sociedade em que vivemos hoje.
E isto existe basicamente porque as pessoas em frenéticos
desesperos e tristezas como eu; estão cada vez mais orgulho-
sas e vaidosas. Todos os dias saem para buscar uma ilusão; não
enxergam a simplicidade como um meio de vida saudável e de
sucesso. Abandonam a razão para o esquecimento, a ignorância
e a superstição.
Nesta hora, creio outrossim, que o supérfluo é sinal de poder e
riqueza. Ora, é ótimo ter a liberdade de conseguir o que se quer,
na hora que desejar, mas qual é o sentido de perder toda a sua
vida, para usufruir de prazeres que são momentâneos; que fazem

Kennexiz Xavier 25
parte da vida ociosa. A pessoa que busca apenas aquilo que a faz
feliz, sem mais nem menos, acaba tendo o tempo preenchido com
o que lhe é conveniente. Com o que o completa. Quem busca o
luxo, tem sempre em frente de si uma batalha sem sentido, en-
riquecida de miragem e sobressaltos, uma batalha perdida. Nin-
guém pode vencer uma batalha que não tem fim, uma batalha
intransponível, que jamais vai acabar. Porque quanto mais você
tem, mais energia gasta, mais noites perde, mais tempo precisa
para cuidar de suas propriedades e, portanto, morrer lentamen-
te. Quando se tem mais dinheiro, mais tempo você precisa para
cuidar da sua vaidade, da sua aparência ou estética... Que é uma
mera fachada, não passa de uma piada e uma escravidão infernal.
Agora pretendo fitar os meus olhos naqueles interesses que
deixei por causa dos metais e da vida barata; penso numa ativi-
dade que me faz sorrir e alcançar a mais alta realização humana
inerente à felicidade. Estou em pleno gozo das potencialidades
mentais, deveras, acredito que não é o Ter que dá o Ser, confor-
me muitas pessoas com pensamento enviesado creem; mas sim,
é o Ser que dá o Ter, também creio que esquecera que o status
profissional não é relativo ao status social e afetivo, pois muitos
podem respeitar o seu cargo, mas não respeitam você. As pesso-
as em geral trocam o amor pelo dinheiro; esquecem-se de serem
pessoas melhores: melhores em casa, com os filhos e no traba-
lho. Umas frases antigas, que estão cada vez mais esquecidas são:
“Não julgue o livro pela capa”; “As barbas não fazem o filósofo”;
“Eu respeito o homem pelos seus atos e não pelo tamanho do
seu diploma”. Infelizmente poucos ousam dizer isso. Quem tra-
balha apenas pelo dinheiro não se entrega de corpo e alma. Usar
o seu corpo e sua mente por dinheiro, pode ser considerado uma
prostituição. Uma prostituta que age pelo instinto e gosta de ser
o que é, pode ser considerada mais honesta do que um milioná-
rio infeliz e avarento, do que um profissional diplomado sem o
carácter adequado. Daqui adiante farei o que eu quero fazer – o
que me faz feliz – isso é ser verdadeiro, porque é o meu eu ver-

26 Efeitos da Vida
dadeiro que está pedindo, e só isso é real.
E porque as pessoas buscam a gula, a avareza, a soberba, a
luxúria, a preguiça, a ira e a inveja? Existe algo que o ego ado-
ra... Ele ama a vaidade. A vaidade não é um mal, ela é ótima na
verdade quando se baseia na razão. Os humanos cuidaram do
corpo e da mente através de eras, porque dessa forma podiam
caçar melhor e conquistar sempre os melhores parceiros para
poderem ter filhos mais fortes e mais espertos. Assim podiam
se orgulhar de uma família sempre próspera e nobre. A vaidade
baseada na razão faz parte da resiliência da seleção natural, da
sobrevivência das espécies; tentar mostrar ao mundo que pode
melhorar o ambiente em que vive, que pode ser mais do que
um animal que trabalha. Fazer filhos e alimentar-se, faz parte da
vaidade, faz parte da vontade de ser melhor, de crescer; mostrar
o seu corpo de forma sedutora, sem vulgaridade, faz parte do
ser humano desde o início dos tempos. Porém com o tempo, as
pessoas começaram a passar dos limites; acreditam realmente
que pessoas que possuem carros grandes ou casas gigantescas
são mais interessantes do que belos corpos e mentes sábias.
Começaram a pensar que a vaidade é egoísta, e que uma pes-
soa pode ser mais interessante do que uma raça. Diferente dos
antigos que buscavam sempre uma raça superior, através da
mente e do corpo; nunca se esquecendo das doutrinas para con-
quistar a alma superior. Mas hoje as pessoas criam ídolos, elas
não se importam mais com a busca de uma raça superior, todos
juntos, com o mesmo interesse. Não, hoje as pessoas buscam
ser indivíduos melhores do que seus parentes, seus próximos. A
humanidade é uma família, que literalmente tem os seus irmãos
matando-se uns aos outros para conquistar ilusões. Hoje vejo
homens e mulheres tendo filhos com pessoas fracas ou cheias
de distúrbios por causa do luxo e iludidos pelos desejos. Vejo
mulheres humilhando-se para terem poder querendo igualdade
de género que jamais alcançarão. Seus filhos nascem doentes,
não só física e mentalmente, como também moralmente. Os

Kennexiz Xavier 27
filhos não serão mais inteligentes simplesmente porque convi-
vem com os pecados capitais, pelo contrário, o que vemos por
aí são pessoas simples tornando-se grandes pessoas, enquanto
o pecado capital está fazendo com que as pessoas esqueçam
a sua natureza e a sua responsabilidade com a evolução social,
cultural, psicológica e tecnológica. A nobreza nunca criou tan-
tos idiotas e esquizofrénicos como hoje em dia. Na verdade, não
existe mais nobreza; existem apenas ricos e pobres, bárbaros e
vítimas. Mas a vaidade é isso, tem os dois lados. Corpos lindos,
pessoas inteligentes e momentos divertidos; isso já bastaria para
criar ambientes melhores e acima de tudo um mundo melhor. E
esse caminho é contra o luxo e o egoísmo, essa loucura comple-
tamente desnecessária. Decerto entendo isso, não há nenhuma
necessidade em ter o que não tem utilidade essencial.
A internet provou com seus blogs e redes sociais como o fa-
cebook, o twitter (chilros), o instagram, o Google, etc.; o que
muitos já suspeitavam: as pessoas são completamente fanáticas
por elas mesmas, são extremamente egocêntricas. Elas fazem de
tudo para se mostrarem mais atrativas, ou que fazem parte de
uma determinada classe. Antes da internet as pessoas apenas
falavam sobre vaidade; as pessoas sempre foram vaidosas, mas
era diferente, não existia o ato de se expor ao extremo; de usar
lingeries em público, de exibir o corpo nu ou em trajes demarca-
dos, apenas os artistas faziam isto, mas isto apenas para sobre-
viverem no mundo do entretenimento, não porque gostavam.
As pessoas sempre lutaram pela privacidade, não gostavam de
ter as suas vidas invadidas.
O rótulo que antes era explícito apenas nas empresas, também
se tornou num meio pessoal para se tirar vantagens. As mulheres
agora despem-se, andam meia nuas na rua para impressionarem
porque acham que vestidas decentemente não são belas nem
têm estética. Tudo se tornou marketing. Inclusive, a rede social
que qualquer pessoa usa, o correio eletrónico que qualquer um
acessa, tudo, mas tudo está cheio de publicidade e informações

28 Efeitos da Vida
anti sociais. O que as pessoas compartilham em seus leviatãs di-
gitais, não passa de marketing pessoal. Todos querem mostrar o
que pensam, o que são e o que têm. As empresas querem mos-
trar o seu produto e as pessoas querem mostrar que são atrati-
vas. Posso concluir que quase tudo gira em torno da atração, de
tornar algo atrativo, e o caminho que as pessoas encontraram
inconscientemente é a publicidade. Se você não mostra, ninguém
se interessa e quanto mais pessoas te enxergam e sentem atra-
ção, mais retorno você tem. A internet tornou-se numa grande
vitrina de leviatãs.
O problema é que a indústria percebendo a vaidade das pes-
soas, passou a usar este meio para impor as suas futilidades; ela
domina e manipula todas as vontades das pessoas que querem
ser alguém. Pelas experiências próprias que tenho da má vida
que vivi... eu acho isto incrivelmente intrigante. Pode-se dizer que
eles conseguiram de certa forma, e ninguém percebe. Criaram
o luxo para as massas, os partidos da esquerda, os sistemas de-
mocráticos e capitalistas. As pessoas não querem mais apenas
qualidade, como em outras épocas; elas querem marcas, emble-
mas e nada pode ser falso. Pode ser de ótima qualidade, mas por
incrível que pareça, um emblema vale mais do que tudo isto. O
preço é mais importante do que o produto. Tem que vir de uma
marca de luxo, caso contrário não tem valor. Se uma pulseira é
vendida no mercado de rua, não tem valor, não presta. Mas se
estiver sendo comercializado por uma grande marca, mesmo
sendo idêntica, seu valor tem um salto de pelo menos mil por
cento. Que tipo de idiota aceita isto?
Mesmo que seja produzido na mesma fábrica, o produto deve
ser consumido em uma loja oficial para que tenha mais valor;
para que o monopólio continue a dominar o mercado e o go-
verno retire a sua grande parte, e então, eles lhe dizem que é o
certo, que é assim que se faz. Porque assim você pode continuar
a trabalhar honestamente para alimentar este sistema corrupto.
Como a futilidade é tola; é incrível saber que todos têm o mes-

Kennexiz Xavier 29
mo cérebro, até eu também passei por essa cegueira de valores
conspurcados. Talvez não tenham a mesma visão agora; mas,
a cegueira realmente é cruel. Quando você não compra um
produto “original de fábrica”, todos te reprimem de certa for-
ma. Isto é exatamente o que o governo quer, quer que todos o
ajudem para te poder influenciar a te sentires errado, para que
penses que estás a fazer um mal à sociedade, tirando empregos
e sonegando impostos; mas qual é a peça que não é original de
fábrica? Tudo foi e sempre será produzido numa fábrica; além
disso, todos sabem que as grandes empresas têm no seu quadro
de funcionários escravos e imigrantes ilegais, indiretamente, mas
têm, e que poucos ou nenhum emprego a mais é formado na
região onde atuam. Quase tudo é terceirizado nos dias de hoje;
a mesma fábrica que produz estes produtos de luxo, também
distribui os produtos falsificados ou de marcas desconhecidas
no mercado. São todos culpados por este sistema, inclusive vo-
cê. Não seja tolo!
Saia desse lixo chamado luxo. Vista-se bem, mostre-se atrativo
se isto lhe fizer bem, mas não se engane... Qualidade não é um
motivo para que existam preços altos.
Então, tendo em conta os danos que a luxúria, o raciocínio en-
viesado, a ganância, o egoísmo, que dizimou friamente as minhas
amigas; abri o olho, tomei uma determinação, e, mais uma vez
meti a mão na consciência, lembrei-me da minha self, pensei no
meu velho compromisso – o de fazer acontecer um destino ho-
nesto e trabalhador. Bati às portas de um senhor machucho onde
me empreguei como doméstico. Limpava o pó da casa, lavava os
pratos e o chão, banhava as crianças, lavava a roupa de todos, in-
clusive de outros empregados que asseguravam a outra área da
mansão; e dormia junto ao galinheiro. Ganhava minimamente
um dinheiro, que em 1992 tive o privilégio de ingressar no ensino
médio na Província do Huambo e fui promovido chefe da UNEA.
Mas mesmo ainda assim, a iniquidade não deixava de me tra-
quejar, todos colegas que sabiam e tinham dados da minha so-

30 Efeitos da Vida
brevivência escarneciam e sussurravam entre eles aos ouvidos:
– Este não pode ser chefe aqui! – Quem disse que um domés-
tico quando sai à rua tem de ser respeitado?
– Não pode, esse aí é um desgraçado, que está sujeito a dormir
à fome caso não lave os pratos e não for maltratado...

E, eu embora não tendo experiência, vivi a vida; isto é o que


eu tenho dito: Pensar melhor é a base de controlar as emoções.
E nada para mim era novidade; porém, ignorei tudo até finalizar
o ensino médio. E então o que é que me aconteceu? – É Incrível,
fui promovido de escravo para secretário-geral e ao mesmo tem-
po fui adotado pelo filho mais velho da casa, e entre todos os
nomes no quintal, o que sofria maiores audiências e solicitações
era o meu!... Então inspirei-me e formei uma frase que diz: “se te
aborrecem os cruzeiros do caminho... sorri a bom rir triunfado,
porque vai enxergando o destino.”
Pois, vivi com a gente daquela casa um bom tempo do tem-
po, aprendi mais coisas e também ensinava aos outros a viver
melhor a vida, a terem sempre um comportamento racional e
emoções equilibradas...
Todos gostavam de mim, quando eu passava uma noite fora
de casa ninguém achava sono nos seus olhos, nem descanso na
sua cama. Mas, um certo dia a casa tornou-se num caudal de
maré cheia, num vulcão do rio Kwanza e todas as almas num
mundo de desesperos e tristezas, numa fazenda de absinto e
num momento exatamente sem sentido, porque, eu tomei uma
decisão – O de me desamparar deles. Aconteceram as despe-
didas porque eu tinha um destino a buscar e a fazer acontecer.
Separámo-nos com profundas tristezas, porque a separação era
uma barreira de saudades entre corações de emoções e delírios.
E, eu outrossim fiz passar dos meus olhos um caudal de lágri-
mas tal qual do Rio Cunene e disse: – Vou ter saudades vossas.
Então fui-me, viajando a continuar a vida destinada.

Kennexiz Xavier 31
Capítulo II
O Começo de uma Mudança

Discente é, docente será, como fizeres, assim acharás.


S.N.

Certo dia, porém, implorei de novo a minha ufania na universidade


Agostinho Neto em Luanda, isto é, no ramo da medicina para me
ajudar a cultivar o ministério da felicidade e encontrar o real moti-
vo para viver – o de ajudar os necessitados, a chegar a saber que a
vida não é nada senão a inteligência e a união das vidas, visto que; a
instrução e a educação estão em função da vida social. A sua fina-
lidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e
os grupos sociais, que é uma das bases do progresso da sociedade.
Portanto, uma vez mais, o meu projeto tornara-se um proble-
ma, conclui a minha formação mínima, mas, continuava a mesma
pessoa do velho passado, o mesmo homem desgraçado, desem-
pregado e perro, isto era, por causa do subdesenvolvimento da
Angola, nosso Estado.
Num mudar de olhares, então, achei não continuar mais com
os meus planos, nem sequer pensar em ser casado e pai de filhos,
quando olhava as crianças súcias e ambulantes que zungavam ar-
tigos e mercadorias nas muralhas das cidades, limpando sapatos
aos homens, com vulto roto cheio de tristeza, dor e pranto, a dei-
xar os estudos por causa da vida carente; lacrimejo eu também
lembrando-me da corrida difícil da minha infância.
Mas, então, declinei na desforra, e tornei-me revolucionário, e
meus planos foram regenerando, nos próximos dias como profis-
sional de medicina, comprei uma vivenda com dinheiro recebido
a crédito e fiz dela um posto de saúde, onde, juntei pessoas vítimas

Kennexiz Xavier 33
da pobreza da guerra, que não tinham o controlo médico medi-
camentoso. Além disso, recebia também pacientes como clientes
para investir o então referido centro de saúde. Durante dois anos
fui reconhecido pelo Governo. Fui empregado na função pública e
promoveram-me como Diretor do Hospital Municipal da província
de Nova Lisboa. Comecei a trabalhar e a servir a sociedade do modo
que queria, para orientar-me a usar os dons que eu tinha na vida.

– Com firmeza, dureza e zelo estive na vanguarda das vidas gra-


ves e moribundas de homens mutilados da guerra, de militares e
muito mais...

Sentia-me satisfeitíssimo com o recente momento de médico,


em ar desafiador. Certo dia em pleno exercício das minhas funções
ao voltar à sala do raio-X encontrei lá um único soldado forasteiro.
Era um soldado mutilado de visão e dos membros inferiores, que
se havia sentado a uma extremidade do balcão e acabava de zunir
com ar taciturno. Olhei-o e viu-o puxar a mochila, contar o pouco
dinheiro que ele continha e perguntei-lhe com altruísmo:

– Meu amor, herói da libertação da nossa mãe Nova Lisboa... o


que é que fazes aqui?

O soldado:
– Julguei que aqui fosse a cirurgia. Mas... preciso fazer um diag-
nóstico.

Dr. Alberto K.:


– Tens os condimentos necessários para intervenção ou diag-
nóstico?

O soldado:
– Se for documentos sim. Mas se for dinheiro, tenho muito pouco.

34 Efeitos da Vida
Dr. Alberto K.:
– Isso não tem importância – Devem-vos a pátria, vocês são he-
róis... e merecem tudo de graça.

O soldado assustado:
– Eu não pedi de graça! Pago; mas, tenho pouco dinheiro.

Dr. Alberto K.:


– Bem sei, mas isso não faz sentido, nem sequer entra na conta.
Costumamos dar de comer, beber e fazer diagnósticos, gratuita-
mente a militares. – Quanto mais assim, você? Está quieto.

O soldado:
– Muito agradecido, senhor doutor. Eis aqui a minha documen-
tação.

Li com exatidão sem desviar os meus olhos dos documentos. E...


apertei as mãos dele, beijei-o na face a lacrimejar e a soluçar dizen-
do: – Meu irmão! – Porque afinal o soldado é o primogénito dos
meus pais e é mesmo meu irmão, não nasci sozinho!...

Desfasando-me dele perguntei-lhe:


– Aonde vives, com quem?
– Depois da guerra sou finório, vivo na rua, e nunca conheci os
meus pais, a minha própria família e verdadeira raiz. Separei-me dos
meus pais muito cedo e na altura era o único filho – Respondeu o
soldado muito surpreendido.

Dr. Alberto K .:
– Eu também não conheço, cresci só por crescer. Talvez possa-
mos viver juntos, somos irmãos e única família real que resta, faço
parte da tua verdadeira raiz.

O soldado ouvindo firmemente a biografia do Dr. Alberto K, não

Kennexiz Xavier 35
resistiu a viver porque era doente de asma, morreu no momento
nas mãos de seu irmão de síncope.

– Sem chorar mais, porque estou crónico de viver momentos


funestos e incríveis, só disse para mim mesmo: Tens muita pena,
daqui a pouco também morres; mas, acredito no destino natural.
Não tem de quê! E nada acontece por acaso, tudo é planeado.

– Em poucos anos casei-me e tornei a ser pai de dois casais e um


rapaz. Onde descobri e posso mesmo dizer que me sinto realmente
feliz e que implorar o meu orgulho é o que tem contribuído para a
minha felicidade. Encontrei a verdadeira forma de ter irmãos – O
de respeitar o próximo e preocupar-se com as consequências que
vulneram a vida do nosso vizinho. E mais tarde os que eu ajudara
tornaram-se em varões e muito felizes, as crianças que eram gajos,
tornaram-se decisivas, e uniram-se às suas famílias, agora são jo-
vens estudantes.

Ao mesmo tempo agradeciam o meu zelo sacrifício, bondade e


virtude querendo retribuir.

E eu?
Achando que ainda não fiz nada, mas, atingi a meta; e só dizia
para mim mesmo:
– Estás fazendo um bocado senhor. Já está bom!

Pensando no meu passado como criança, aquela infância de cho-


rar sangue, suor e lágrimas, de cultivar orco, colher morte e comer
sepultura; batalhava para que não sucedesse aos meus filhos. Nos
tempos livres organizava as crianças, e, dava-lhes aquele mimo,
calor e amor que eu não tive na minha infância; educava-os como
vencer a grande emulação e o enigma e como viver na sociedade
em circunstâncias aflitas. Com fundamento de serem honestos e
trabalhadores, com vontade e dedicação para felicidade no futuro,

36 Efeitos da Vida
insinuei-os também a aprender a ser e estar, esperar para prosperar.
Porém, isto foi o meu principal dote e sofri por causa da impiedade
dos homens e, se pequei só foi para sobreviver nessas circunstân-
cias da vida, pois que nunca houve e não haverá humano perfeito,
digno de tudo que se alimenta e precisa de vestimentas, que não
seja pecaminoso. E se os efeitos da vida têm sido muito pesados,
amargos e catastróficos para mim, é tudo culpa minha, só logro
o que plantei. Por isso estou em pleno acordo com o hinduísmo
que crê veementemente que Deus não é responsável pelo prazer
e dor de Suas criaturas. São as criaturas que são responsáveis pelo
próprio desfrute e sofrimento, e sofrem ou desfrutam graças às
consequências dos seus próprios atos ruins ou bons – De acordo
com o hinduísmo, Deus é Karmaphaladātā – o doador dos frutos
das ações. Ele é o derradeiro distribuidor da justiça e nunca falha
na aplicação da equidade e isonomia, garante que todos recebam
os seus próprios Karmaphalas, e não uma outra pessoa. Cada pes-
soa deve merecer aquilo que lhe é devido. E todos são iguais à lei.
Aprendi com a própria experiência, que durante um período
médio de vida, a gente pratica inumeráveis ações, e igualmente
incontáveis são os efeitos dessas ações. Nem todos os efeitos das
ações retornam imediatamente à pessoa, embora alguns o façam.
Por exemplo, se uma pessoa planta uma macieira em seu jardim,
em alguns anos ela poderá colher os frutos, mas se essa pessoa co-
loca a mão no fogo, isso terá um efeito imediato, a sua mão ficará
queimada.
Foi mais um sol, em volubilidades circunstanciais e tempestuo-
sas da minha vida que se curva às portas do dilúvio, onde Deus e
o Diabo se beijam em memórias ao funeral das minhas alegrias.

Kennexiz Xavier 37
Capítulo III
Olhos em Olhos

A saúde não se reivindica, só é capaz quem consegue lutar por


ela. O poder da vontade sozinho não transforma o Homem, o
tempo não transforma o Homem, o amor transforma.
Kennexiz Xavier

O eu superior e a divindade interior do homem é ser feliz, é al-


cançar o ápice da mais alta realização, é rir muito, ganhar o respeito
de pessoas inteligentes, mentais e espirituais, é obter o afeto das
crianças, é suportar a traição de falsos amigos, apreciar a beleza
e a retidão, encontrar o melhor nas pessoas, deixar o mundo me-
lhor, seja por uma mensagem ou por um canteiro de jardim e até
mesmo uma redimida condição social conseguida com esforço e
honestidade, é transformar pela fé terras áridas em solos férteis. É
saber que nunca fez do próximo um degrau, é entender que a vida
fica mais fácil quanto menos nos ater à robotização materialista e
niilista. Ter sucesso é assumir conscientemente os efeitos da vida e
saber que uma única vida ficou mais fácil e espiritual por um toque
de seus fantásticos dígitos.
Tinha trinta anos quando o Dr. Alberto K se envolveu na campa-
nha internacional de erradicação da doença vulgo ou comunitária,
onde conquistava a moldura humana a reter os seus ditados, pre-
ceitos e princípios. Que num dos seus discursos realizados elucidou
o seguinte ditado:

– A medicina é a base fundamental da subsistência de qualquer


Estado “A urgência na erradicação de doenças, faz a vida progredir”;

Kennexiz Xavier 39
– Vistorio que a vida é o fator do progresso científico, económi-
co, produtivo... etc.
– “Cedo cumpra... ou morra”, pois queremos uma sociedade
saudável, isto é, erradicar a grande inflação de doenças. Esta é uma
das suas piores ditaduras, matar doentes estúrdios e graves que não
têm cartão visto do consultório médico. Certo dia aproximando-se
dele, a sua esposa Kali perguntou:

– Porquê matar?

Dr. Alberto K .:
– Amo os meus pacientes; e de que maneira. Mas, ai de quem
não me consultar, porque eu... acabo-o.

Kali:
– Meu amo... Não sabes que acabar com doentes é pecado e
perversidade...

Dr. Alberto K .:
– A divindade que não me condene...
– Estamos para acabar com a doença, previsto que o homem
que não procura controlar a sua doença ou saúde é um suicida, que
plasma a doença na sociedade, considerando-se saudável e enfim
seropositivo. Aliás, as Sagradas Escrituras no Antigo Testamento di-
zem que para acabar com o mal é preciso praticar o mal, e o vulgo
guerrilheiro diz “é melhor fazer guerra para acabar com a guerra”.
– Não têm escolha, temos de seguir em frente e tentar fazer o
melhor possível pela próxima geração. Está tudo tão ultrajante que
não podemos deixar as coisas bem para a próxima geração, o que
podemos fazer é eliminar o máximo possível de coisas más, antes
de partirmos.

Kali:
– Quando é assim meu bem, passariam porta por porta, e não

40 Efeitos da Vida
seria a porta a passar a porta do médico, esta ação superar-vos-ia,
em vez de ser um assassino; pois que quem quer o bem busca com
as suas forças próprias e nunca cansa, é escravo dos seus sentimentos
e não há ninguém que luta por ele. Aliás, as Escrituras Sagradas no
Novo Testamento dizem, convém praticar o bem para acabar com o
mal e se eu fosse o teu guerrilheiro teria que dizer é melhor terminar
a guerra, preservar a paz e julgar os culpados, isto é que é justiça...

Dr. Alberto K.:


– Sossega querida Kali... as circunstâncias, são olhos em olhos, os
efeitos da vida são paradoxos, e isto que disseste tem o seu senti-
do... Mas, eu só quero acabar com a doença na comunidade. Nós,
os doutores somos poucos e muito ocupados. Portanto, a comu-
nidade é minha e de todos, assim como o bem é para todos, por
isso lutemos todos na comida de todos e na boca de todos para o
bem de todos.

Kali:
– Tendes a vossa razão. Mas acabar com doentes gravíssimos não
é bom... é malvadez. Lembra-te meu amor, que a saúde é direito
natural e não questão de economia, política ou normas jurídicas.

Dr. Alberto K.:


– Se eu não morrer agora, prometo que neste mundo novo ad-
veniente não haverá mais doenças graves e crónicas; porque os
esforços que tenho feito nestes últimos dias têm valido bem um
pouco na humanidade, em mente digo:
Não sou absolutamente ninguém; não, não de modo nenhum,
mas tenho feito um bocado.

Kali:
– Tens feito de certeza um bocado. Mas sem princípios cristãos,
aceita que a tua maneira de cura não se baseia em Cristo Jesus... És
a encarnação do próprio Satanás meu amo.

Kennexiz Xavier 41
Dr. Alberto K .:
– Vou mudar e apegar-me ao novo testamento de Cristo Jesus
quando a crise e as pandemias forem extintas da terra. Desde já,
Jesus Cristo não faz milagres, ele é apenas uma alucinação e criatu-
ra dos iludidos pela fé.

– Isso é extrema blasfémia meu amor! – E blasfémia é um peca-


do que não tem perdão. Meu bem maior, se te ateres ao niilismo,
no dia do juízo final, quer dizer, no dia do senhor vais queimar no
fogo eterno do inferno – ripostou Kali.

Dr. Alberto K.:


– Sem intenção de desmascarar a Bíblia, Jesus cristo não afeta o
cérebro dos que vivem pela razão nem cabe na lógica da ciência
nem da medicina, visto que ele é o produto que os iludidos apropria-
ram de factos históricos e de lendas pagãs que glorificavam deuses
redentores como Tamuz, Hórus, Baal, Mitra e Krishna. Além das
religiões nada terem de divinas, e serem apenas formas de suprir as
fraquezas dos iludidos, caso Deus existisse era necessário aboli-lo,
porque Deus e o Diabo seriam a mesma Entidade, mas em “palcos”
diferentes, representando personagens opostas, e travariam uma
batalha eterna pela posse dos seres humanos e perpetrariam uma
vingança contra a humanidade com as suas leis sem misericórdias,
porque eles estariam dispostos a destruir a humanidade com o in-
ferno e o fogo eterno que eles próprios criariam. E portanto, não se
preocupariam nunca com a saúde das pessoas. Certo?

Kali:
– Aceito. Porque isto significa pensar diferente que nem sempre
é incoerente... O dom é a nítida base e fundamental de toda sabe-
doria adquirida, meu amado doutor. Por isso não há igual como és.

Estude quem estudar e pode ultrapassar o seu grau académico,

42 Efeitos da Vida
distinto sempre serás, porque não alcançará o seu nível intelectual
e, o dom faltará na pessoa que macaquear a sua sabedoria. Amo-
te, mas, amo-te mesmo meu marido.

O Dr. Alberto K. com um ar jocoso, puxou a esposa num baque


de peito a peito, acariciou-lhe os seios e depois de um beijo mei-
go – amo-te também tanto Kali, minha imaculada, esposa minha,
meu amor. As nossas vidas estão feitas um do outro, e estes nossos
frutos; frutos da ação do nosso prazer, crescem com educação po-
sitiva, cônscio e sábios através do calor do nosso amor na medida
que repartimos a nossa bondade. – Disse ele.

Depois de alguns dias Kali, ténia e solitária à noite na cama, isto


é, porque o seu apaixonado e afeiçoado marido estava fora da casa
por um programa de trabalho na França, ela encarava as lâmpadas,
os lençóis do seu quarto excitada sem pestanejar, com um desejo
estimulado de ardor e saudades estremecia o seu corpo nu a he-
sitar duvidosa como que se estivesse a ouvir os passos do marido
e a sua voz nas grelhas e degraus da varanda a chamá-la para que
abra a porta.

Ela de súbito vestiu-se para abrir ao marido, mas, não estava nin-
guém na porta, apenas a lua iluminava o seu luar na fresta da porta
coisa que acelerou as suas emoções e delírios Kamasutra. Os lábios
lambiam os dedos, chupava o mamilo e coçava-se sensualmente
no canal entre a vulva e o útero, a dizer:
– Ai, ai! – Que veemência e saudades!... Que excitação... excita-
ção... excitação!...

Acariciava-se cada vez mais com presteza a idear o primeiro coito


e o primeiro parto da sua vida, ciumava que o marido em baque
estava com uma outra mulher na hora da cópula carnal a ejacular,
sentia a cueca dormitaria molhada porque a masturbação apressa-
va a sua lubrificação genital e os sentimentos veemente privavam

Kennexiz Xavier 43
a secreção salivar.

– Agora vou tomar um banho na noite com água gelada. E assim


se foi e nasceu o dia seguinte.
– Quando ele chegar vamos fazer um tic tac... de coito moder-
no e o mais especial de todo o nosso matrimónio, por fim vamos
fazer um acampamento familiar com beijos na boca perpétuos,
ele vai ter que rebentar os meus seios e derrubar o meu clímax
excitado. – Disse ela.

Três semanas depois desaterrou o marido de viagem, por coin-


cidência bateu à porta da casa na hora exata em que a sua esposa
estava acelerada. As emoções foram conforme ela planeara e, tudo
começou no banheiro onde se chupavam com o sabonete no corpo
que depois de mais ou menos duas horas apagaram as lâmpadas
e abriram de novo o chuveiro; onde se beijavam, acarinhavam-se e
praticavam o coito de uma maneira mais pornográfica até atingir
o êxtase do orgasmo numa aventura Kamasutra dos tempos da
princesa Kali.

– Agora vais degustar como eu te adoro meu doutor. – Falou a


esposa.
– Tu também verás como eu sou macho, como eu posso fazer
sexo, como e quão sou dócil para contigo. – Respondeu o esposo.

O Dr. Alberto K. com um ar puxavante perguntou: puxa!... Como


sabes fazer... oh! Porque choraste?

Kali:
– Chorei por causa deste amor que não tem limites, é um ferro
estuante a ser domado. Amo-te sem saber e ninguém me julga
por favor. Fica calado, não fales nada, deixa eu te amar meu amor.

Ocorreu a noite toda assim... beijo por beijo, sonho por sonho,

44 Efeitos da Vida
olhos em olhos, amor por amor, paixão por paixão e carinho pró
amor é uma gama de baque.

No dia seguinte, aproximando-se Kali ao seu esposo disse: – Eu


sempre sonhei fazer-te assim meu amo...

– O mundo pode sujeitar-se à ruína, a luz viva do sol pode afogar-


-se; mas, só nós dois na luzidia muralha viveremos.

– O dia em que nasci pode perecer, ainda que o tempo não o


queira jamais dar; eu com firmeza e em amor fervoroso viverei para
sempre só por ti meu bem maior.

Dr. Alberto K.:


– Nasci por isto... é a pessoa certa que nasceu para mim. O meu
amor contigo tem destino traçado, tu és minha felicidade a razão
da minha existência.

Kali:
– Meu amor, é hoje unanimemente aceite que o ser humano se
configura como pessoa, especialmente nos primeiros anos da sua
vida, no seio da própria família. A família tem um lugar insubsti-
tuível e inalienável na formação, instrução e educação ou, se con-
siderarmos, na lapidação da personalidade humana. A família é a
comunidade na qual desde a infância se pode assimilar os valores
morais, cívicos, jurídicos, religiosos, do trato social e usar correta-
mente a liberdade nas relações com os grupos sociais. A vida em
família é a iniciação para a vida em sociedade, ou seja; é a família
que desde pequeno traça o destino do seu menino, (...) quero com
isso dizer que sempre quis que fizéssemos uma festa de floresta
com os nossos filhos e um verdadeiro acampamento romântico
para nós. O que achas dessa ideia meu amor?

Dr. Alberto K.:

Kennexiz Xavier 45
– É uma ideia genial, minha princesa amada. Esta é uma ideia
deveras psicopedagógica, você tem um carácter de uma professo-
ra brilhante e uma mãe fascinante...Este é o meu infantil espirito
utópico, meu fadário, meu dever enquanto marido e pai, por isso
sou proletário, porque não cresci no seio de uma família. Se não
morrer cedo, farei-me bola, alegria, exercícios físicos, música, poesia,
ciência e sabedoria deles.

Kali:
– Então, onde e quando poderemos acampar?

Dr. Alberto K.:


– Pela primeira vez será no centro turístico da Chianga, por ou-
tra nas águas quentes. É já no quarteirão do próximo mês, porque
nestes dias estarei muito ocupado com muito trabalho.

Kali:
– Farias o melhor, meu bem.

Kali ficou muito satisfeita e comovida com o marido e beijava os


seus filhos duas vezes por hora, perguntava-lhes uma vez por hora
o que precisavam comer. Então, espevitada e de um espirito anuen-
te, chamou os meninos e disse: Meus anjinhos, o papai e a mamãe
amam-vos demais...Gostaria de levar ao vosso conhecimento que
dentro dum breve espaço de tempo vamos fazer uma festa na flo-
resta da chianga, iremos lá acampar, conviver a vida e apreciar as
maravilhas da nossa natureza tecida nos napperons da cidade vida
que também já foi Nova Lisboa. Considerem que haverá muitas
surpresas para vocês meus filhos.

Seth:
– Uau! – Minha querida mamãe, isto é que é criar um projeto co-
mum de vida familiar, pois para a estabilidade da família não basta
a atração sentimental entre o pai e a mãe, porém, é necessário que

46 Efeitos da Vida
os pais sejam os reais governadores das suas casas e transmitam
os valores quando os vivem e deem testemunho deles de maneira
natural...Fico feliz, mas, muito feliz mamãe, com o sucesso e concre-
tização deste acampamento familiar, pois que, os pais que obrigam
seus filhos, a serem felizes, instruídos e educados e eles não o fazem,
esses pais não inculcam nos seus filhos uma correta escola de valo-
res. Graças, os meus pais são fascinantes e brilhantes!

Kali:
– Meu ilustre filho, teu pai e tua mãe, sempre almejaram ter uma
família estruturada, coesa e sólida no amor fraternal. E, por isso
meu filho, gostaria que estes valores que são precisos nas relações
sociais, vocês levassem em linha de conta: a dignidade, a honesti-
dade, a responsabilidade, o bem, a fidelidade, a justiça, a paciência,
a gratidão, a solidariedade, a compaixão, piedade, e o servir etc. E
como é urgente e importante transformar o mundo, partindo de
famílias unidas, felizes e bem estruturadas que eduquem os filhos
através dos principais valores, que reconheçam o valor da vida e
afrontem confiadamente o futuro. Meu filho, o teu pai e a tua ma-
mãe ao planificar estes acampamentos familiares chamam-vos a
educarem-se nos valores humanos.

Quando faltavam apenas alguns dias para que o dia aguardado


com tanta espectativa se materializasse, Kali resolveu ir ao mercado
para fazer as últimas compras, pois pretendia comprar algo espe-
cial e romântico para prendar o marido, ela estava acompanhada
do filho Seth. Fizeram várias compras, e faltou apenas achar aquilo
que viria a ser a prenda especial e romântica para o marido. Então,
voltou-se ao filho e perguntou:
– Meu filho, o que me aconselharia comprar para oferecer como
prenda ao seu pai?
– Hummmm! -Deixa pensar melhor!...Xeque mate!... – Prooontos
já sei – Retorquiu Seth.
– Sim! Diga lá meu filho!- Entusiasmou-se Kali.

Kennexiz Xavier 47
Seth:
– Mamã, compra uma cruz celta e o anel que o combina deve
compactar-se no pentagrama e no centro deste a rosa a germinar
em forma de eros.

Kali:
– Meu filho, eu não entendi quase nada. O que é isso que me
estás a sugerir filho?

Seth:
– Para melhor compreensão, venha, vê e eu explico-te o signifi-
cado oculto destes símbolos porque investiguei na net e nas obras
de DAN BROWN:

Cruz Celta

A Cruz céltica ou cruz celta combina a cruz com um anel que


lhe faz interseção por trás. É um símbolo que caracteriza os celtas,
e suas origens são anteriores ao cristianismo. Esta cruz representa
uma das principais formas na arte deste povo.
Associada à coragem e ao heroísmo, a cruz celta ajuda a supe-
rar obstáculos e a conquistar vitórias graças aos próprios esforços.
Atrai reconhecimento, fama e riqueza, mas essas bênçãos só são

48 Efeitos da Vida
garantidas para quem trabalha com afinco e dedicação. Por isso,
a cruz celta também concede força de vontade e disposição. A di-
vindade relacionada a esse talismã é Lug, o Senhor da Criação na
mitologia celta.

Pentagrama

“Num dos mais antigos significados do pentagrama, os Hebreus


designavam como a Verdade, para os cinco livros do Pentateu-
co (os cinco livros do Velho Testamento, atribuídos a Moisés). Na
Grécia Antiga, era conhecido como Pentalpha, geometricamente
composto de cinco As.”
É um dos símbolos pagãos com origem nas tradições hinduís-
tas, mais poderosos e mais populares entre os bruxos, feiticeiros,
mágicos, militares, cineastas, estadistas, religiosos e magos ce-
rimoniais, tradicionalistas e doutrinários. O pentagrama, quase
símil à estrela do rei Salomão é uma estrela de cinco pontas cir-
cunscrita num círculo e representa os quatro antigos e místicos
elementos: fogo, água, ar e terra, superados pelo espírito. Na
Wicca o símbolo do pentagrama é geralmente desenhado com
a ponta para cima a fim de simbolizar as aspirações espirituais
humanas. Um pentagrama voltado com duas pontas para cima
é um símbolo do Deus Cornífero.
Eros (amor erótico)

Kennexiz Xavier 49
Eros representa a sensualidade, atração física, a concupiscência
carnal e humana e a parte consciente do amor que uma pessoa
sente por outra. É o amor que se liga de forma mais clara à atração
física, e frequentemente compele as pessoas a manterem com apego
e afinco um relacionamento amoroso continuado. Nesse sentido
outrossim é sinónimo de sensualidade que leva à atracão física e
depois às relações sexuais até atingir as celestes núpcias orgásticas.
Por acaso a mamã percebeu?- insinuou o filho.

– Uau!...Porque não perceberia meu gostosão?! Está provado que


percebi e mais um bocado.- Disse Kali.

Kali ficou muito comovida, beijou filho na testa e afirmou:


– Tu és mesmo um génio meu filho, tens um cérebro deveras
de elefante e finalmente deve convencer-me que eu quase nasci a
reencarnação de Mozart.

Acabaram de fazer as compras retornaram a caminho de casa,


por onde encontrou já o marido a brincar com os demais petizes.
Aproximou-se com um passo doentio e cansado e, dirigiu-se ao
quarto enquanto o filho arrumava o produto vindo do mercado.
Instantes depois, dirigiu-se outrossim ao quarto o marido, entrou
com um ar ardoroso derramado na atmosfera dos quatro can-
tos do quarto exposto ao clímax do mistério feminino do amor,

50 Efeitos da Vida
quando viu a nudez do corpo dourado da esposa que apresentava
um rosto dócil e de legitimidade amorável a descansar num dor-
mente sono de anjinho, meia enrolada nos lençóis sobre a cama
esplêndida como um céu em lareira de lua cheia e com todas as
constelações das estrelas; o marido trémulo de excitação lamu-
riante tocou na sua imaculada esposa, ambos veementes e loucos
em núpcias começaram a chupar-se enquanto intercalavam os
beijos com as ideias divergentes relativamente ao amor, a estru-
turação das famílias, aos mitos, às crenças e ao acampamento ou
festim turístico almejado...

Kali:
– Meu amor, o ser humano não é exclusivamente um ser vivo
que só vive, ele também convive. E este é um ponto de parti-
da fundamental da mais alta realização humana, que durante
algum tempo ficou esquecido dentro dos núcleos das novas
famílias. Mas, se nós voltarmos o pensamento à interpretação,
alargarmos um pouco esta análise e observação, vamos chagar
a uma premissa em que não é só por necessidades materiais que
as pessoas convivem. Assim, por exemplo, um fator basilar, é a
necessidade afetiva. Todos querem amar, todos desejam serem
amados, e em grande parte os problemas contemporâneos, de
violência, de desajuste da infância e da juventude, são devidos as
carências afetivas por parte da família e da sociedade em geral.

– É verosímil – Retorquiu o marido – Minha linda esposa, eu


ainda me lembro, eu estudante visitando presídios, acompanha-
do de um grande mestre de Direito Penal, Joaquim Yetu, e várias
vezes no presídio eu ouvi o presidiário dizer: ‘se eu tivesse uma
mãe que cuidasse de mim, que gostasse de mim, que realizasse
festas e bodas para mim, que gastasse um pouco do seu tempo
para mim; muito provavelmente eu não estaria aqui’. Eu acredito
que em muitos dos casos, essas afirmações eram verdadeiras.
Kali:

Kennexiz Xavier 51
– Certo! A família é a base do desenvolvimento harmonioso e
equilibrado de qualquer sociedade. Por isso eu submeto-me a minha
família. -Meu ilustre e venerado marido a quem me submeto e não
reivindico nada como Lilith no Talmude descrita como a primeira
mulher de Adão. Eu sou a fêmea que Deus resolveu criar tal qual Eva,
moldada exatamente como as exigências da sociedade patriarcal.
A mulher feita a partir de um fragmento de ti; não brigo contigo,
não reivindico igualdade em relação a ti, não deixo-te “fervendo
de cólera”. Não quero liberdade de agir, de escolher e decidir, não
quero os mesmos direitos do homem, não quero obter status igual
a ti, não me rebelo e, jamais estarei decidida a não me submeter a
ti meu amo, amo-te sem igual, nunca resolverei abandonar-te. To-
das as vezes que quisermos fazer sexo, mostrar-me-ei conformada
e amada em ter de ficar por baixo de ti, suportando o peso de seu
corpo. E sentir-me-ei desejada, venerada e querida “Por deitar-me
em baixo de ti! Por abrir-me sob teu corpo! Por ser dominada por
ti! Contudo, (eu fui criada da tua carne e do teu sangue) eu fui feita
de carne e não de pó como você e, por ter saído de ti sob os teus
braços sou uma das tuas costelas, carne da tua carne e osso dos
teus ossos, devo ser protegida e amada por ti.” Não vamos inver-
ter as posições, por amar-te tanto assim, estou consciente de que
existe uma “ordem” que não pode ser transgredida. Enquanto tua
esposa devo submeter-se a ti meu amor, pois esta é a condição do
equilíbrio preestabelecido: Yin e Yang, Eletrões e Potrões, Enxofre
e Mercúrio, Macho e Fêmea.
– Minha esposa amada! -Consentiu Alberto K – És o modelo fe-
minino permitido ao ser humano pelo padrão ético judaico-cristão.
A mulher submissa e voltada ao lar!... Se tu me abandonares, sentirei
uma dor que dói demais, sentirei o fim de todas as coisas boas. E,
os nossos filhos sofrerão também.

Kali:
– Morrerei aqui ao teu lado, a te amar com muito amor – Meu
amor, tudo já está preparado para a realização do nosso acampa-

52 Efeitos da Vida
mento familiar. E resta-me saber se tens novas ideias?

Dr. Alberto K.:


– Da minha parte está tudo tranquilo, sem mudanças nem no-
vas ideias. Depois de amanhã partiremos para o local combinado,
minha imaculada mulher, minha esposa amada.

Kali:
– És dócil demais, meu esposo amado!...Farias o maior, querido
meu, meu príncipe encantado. És um senhor de palavra e nunca
infringis os teus ditos e ideais, sempre és você mesmo, não quebras
nenhum compromisso, atingis o ápice do trato social com tanta
assiduidade e pontualidade...Obrigada, quero mais beijar os beijos
da tua boca e lamber a tua língua que tem mel e leite.
Chegado o dia, partiram todos cheios de alegria com um senti-
mento e espírito da mais alta realização humana- a felicidade cum-
prida, um beijando deste e o outro daquele lado as crianças até ao
local do lazer. Montaram duas tendas grandes, uma dos pais e ou-
tra das crianças; as tendas eram luxuosas com uma cor inspirada
ao arco-íris, esculpida como as pirâmides de Faraó no baixo Nilo,
pareciam-se deveras, com uma câmara de relíquias, artefactos, es-
peciarias e ouro do Egito, os cantos das tendas apontavam para o
norte onde o sistema solar esplendia o solo da floresta com toda
a primazia dos seus asteróides e as constelações do firmamento,
enquanto se amavam, brincavam sem cessar, comiam, bebiam e
mergulhavam na lagoa com bolos, vinhos, champanhe e gasosas
na boca; a brisa do dia felicitava-os no olhar azul das águas da lagoa.

– Papá, estamos extremamente felizes e, tem muita vantagem para


nós se sempre tivermos estes momentos de lazer – Observou Seth.

– Meu filho – Respondeu Alberto K – brincarão, ainda melhor


do que hoje, este é apenas o começo da concretização das utopias
infantis do papai.

Kennexiz Xavier 53
E Seth a dar graças à família que tem disse:
– Muito obrigado papai, assim posso orgulhar-me da minha fa-
mília sempre próspera e nobre. E, estou aprendendo dos meus pais
que a vaidade “básica” faz parte da sobrevivência das espécies; ten-
tar mostrar ao mundo que podemos melhorar o ambiente em que
vivemos, que podemos ser mais do que um animal que trabalha,
faz-nos autênticos seres políticos, sociais e humanos. Fazer filhos,
alimentar-se e conviver, faz parte da vaidade, faz parte da vontade
de ser melhor, de crescer; mostrar o seu corpo de forma sedutora,
sem vulgaridade, faz parte do ser humano desde o início dos tempos.

Dr. Alberto K. respondeu:


– É mesmo isso meu filho, o lazer entre família, entre pais e filhos
propõe-se a promover os alicerces da convivência pacífica e pro-
missora. Essa é a finalidade do conjunto de acampamentos, festas e
bodas impostas pela sociedade a si mesma, através da família, para
manter a relação entre pais e filhos, garantir que estes vivam juntos,
vivam unidos, frequentemente chorem juntos e comentem sobre
os seus sonhos, mágoas, alegrias, frustrações e ordenem e coorde-
nem os interesses individuais e coletivos.
Dito assim, Alberto K. orientou os filhos para que fossem brincar
na tenda e dirigiu-se à sua esposa que já estava no interior da tenda
do casal e surpreendeu-a a dizer:

– É assim que a gente há-de viver e conviver, minha deusa, imacu-


lada esposa; pois que melhor divertidos que nunca estamos no dia
de hoje, salvo a minha última chegada de França, foi muito maravi-
lhoso, toda a nossa vida está mudada, olhas diferente, sabes fazer
o que não sabias; o teu beijo, o teu carinho, a nossa cópula carnal
está mudada e muito doce.

– Já dissera que sempre sonhei fazer-te assim tão feliz meu amo-
respondeu Kali – Agora fecha os olhos e verás mais uma outra coisa

54 Efeitos da Vida
outrossim diferente que nunca fiz por ti.

Fechando ele os olhos, ela beijou-o na boca, marinhou-lhe com as


mãos o pénis e com um sorriso lancinante desfasou-se dele, saltou
a correr que nem uma gazela que está no seu tempo de cio, iá em
direção à tenda dos filhos onde ela guardara a prenda para o marido.
Enquanto percorria o jardim com os pés suaves e a gingar a bunda
nua tal qual uma pantera, dizia:
– Não abra que eu volto já...

Assim que chegou, apertou as mãos dos filhos e beijou a boca


de Seth.
– Obrigada meu filho glória da minha prosperidade – Cochi-
chou ela.

Pegou o caixote onde continha a prenda para o marido e retirou-


-se a gingar de novo do mesmo estilo em que chegara deixando
assim as crianças surpreendidas. Logo que entrou na sua tenda,
aproximou-se ao marido e usou o mesmo gesto erótico aquando
da sua saída e, disse: – Abra os seus olhos e olhe para mim!...Este
gesto é para saberes que já estou de volta... o meu cheiro volta a
colar no teu corpo, volta a queimar a tua pele no calor da minha
nudez feminina, beija os meus lábios carnudos como eles são, va-
lente você é e ninguém consegue substituir-te no meu coração meu
amo, meu bem maior.
Meu amor, o nosso amor tem melaço e loucura, a felicidade na
nossa tenda até já virou cidade do amor. Eis-me aqui meu deus,
meu príncipe amado; quieta-te com os olhos fechados que vês
agora mesmo como a tua deusa Kali tem maximizado de grau nos
últimos dias tal qual uma molécula fina dentro do microscópio.
Com um ar veemente anunciou consentida: – Abra os olhos e
lamba-me os seios, já estou nua, despi os meus vestidos como tor-
narás a vestir-me, pus batom nos meus lábios como tornarás a lim-
par com os beijos dos teus beijos, teus carinhos e amores fazem-me

Kennexiz Xavier 55
sentir que sou tua, que sem ti não posso viver, possua-me todinha
porque estou no auge do prazer...

– Minha linda, que maravilha! – Interrompeu miraculado Al-


berto K. – Já sei, esta Cruz céltica, combinada a este anel que lhe
faz interseção por trás, está associada à coragem e ao heroísmo,
ela ajuda a superar obstáculos e a conquistar vitórias graças às
pessoas resilientes. Atrai reconhecimento, fama e riqueza, mas
essas bênçãos só são garantidas para quem trabalha com afin-
co e dedicação. Por isso, a cruz celta também concede força de
vontade e disposição. E este pentagrama, é uma estrela de cinco
pontas circunscrita num círculo e representa os quatro antigos
e místicos elementos: fogo, água, ar e terra, superados pelo es-
pírito, simboliza as aspirações espirituais humanas.
Eros representa a sensualidade, atração física, a concupiscência
carnal e humana e a parte consciente do amor que uma pessoa
sente por outra. É o amor que se liga de forma mais clara à atra-
ção física, e frequentemente compele as pessoas a manterem
com apego e afinco um relacionamento amoroso continuado.
Impressiona-me deveras, a maneira como tu descobres coisas
tão miraculosas que só me fazem feliz e conferem-me esperan-
ça, liberdade, paz de espírito, vida e muito amor. Estou sem pa-
lavras... amo-te muito Kali, minha esposa, companheira fiel de
minhas lutas e vitórias. Amo-te...mas, muito mesmo!

– Eu também te amo meu bem. – Consentiu Kali. – Por isso


faço todas estas coisas maravilhosas por ti, jamais farei tudo
isto para alguém, vivo apenas para ti e depois de ti não terei
mais homem; mude a vida como ela queira e leve-nos o tempo
para onde nos levar nunca se apagará a chama do nosso amor.
Você é meu homem e eu sou tua mulher, teu sangue corre nas
veias do meu coração... Estás compacto em mim para sempre
ó meu amado.
– Oxalá assim seja! – Observou Dr. Alberto K.

56 Efeitos da Vida
O acampamento decorria numa magia fraternal, todos se leva-
vam um atrás do outro e corriam na floresta. A princípio tentando
correr e se alcançar, mas então diminuindo a velocidade e escolhen-
do procrastinar. Era extraordinário para quem assistia o casal a vagar
por aquele campo de fragrâncias de árvores pulsantes, exuberan-
tes e flores que tremiam, era fascinante para qualquer marido que
contemplava a beleza feminina da sua esposa que fechava os seus
olhos contra a névoa deslumbrante, que refletia e brilhava e fazia
tudo mais brilhante.
Os filhos do casal prometiam que levariam mais um momento
a apreciar a sugestiva floresta. Mas, penosamente, assim tão cedo,
eles voltariam e se encontrariam em casa. E foi mesmo isto que su-
cedeu, quando eles, finalmente foram procurar além da euforia e
da magia da natureza quente, branca, brilhante, esplêndida, linda e
requintada de névoa, foi em tempo para ter um rápido deslumbre
deles sorrindo e acenando e cruzando uma ponte, meros segun-
dos antes de eles sumirem do centro turístico e chegarem a casa.

E então ouviu-se Seth a dizer:


– Mamã, qual foi a reação do papai quando recebeu a prenda
que eu sugeri?

– Foi uma maravilha, ele ficou muito espantado e contente. Meu


filho, tu és um grande gênio; muito obrigada. – Ripostou Kali.

– De nada mamãe, eu queria apenas que fôssemos muito felizes


por isso... – Respondeu Seth.

Realizavam sempre estas saídas para se divertirem com a família


diariamente. Trocavam prendas todos os dias, realizavam bodas de
aniversários, nestas bodas convidavam disco jockey, músicos, escri-
tores, poetas de renomes e astros do desporto que assistiam com
júbilo dando-lhes incessantes parabéns; tudo por causa da instru-

Kennexiz Xavier 57
ção e educação dos filhos, no entanto, o casal procurava exercer na
vida dos seus filhos a mais bela e nobre arte – de ser pai e professor,
como Augusto Curi diz, “Há um mundo a ser descoberto dentro de
cada criança e de cada jovem. Só não consegue descobri-lo quem
está encarcerado dentro do seu próprio mundo. Educar é realizar
a mais bela e complexa arte da inteligência. Educar é acreditar na
vida, mesmo que derramemos lágrimas. Educar é ter esperança no
futuro, mesmo que os jovens nos decepcionem no presente. Educar
é semear com sabedoria e colher com paciência. Educar é ser um
garimpeiro que procura os tesouros do coração.”
O Dr. Alberto K. beijou a mulher e anunciou que estão a fazer
alguma coisa para a estruturação da sua família. Ela acenou a ca-
beça seguido de um sorriso vislumbre. Com o tempo nós vamos
ensinar tudo aos nossos filhos, eu prometo. – Assentiu Kali. Mas
Kali, você precisa saber o que isso realmente significa em prole das
crianças. Você nunca vai estar com sua família caída no chão, cho-
rando, gritando, xingando, implorando, ouvindo promessas, que
eu sabia que nunca poderia manter. Você nunca vai cruzar aquela
miséria que eu passei na infância. Você precisa saber apenas no que
você está se metendo, principalmente no que está fazendo quanto
a estruturação da sua família – Ele segurou o queixo da esposa e
olha nos seus olhos:
– Se a eternidade começa hoje, então essa é a maneira como
eu vou viver. Por este dia, e apenas este dia. Sabendo que Kali se-
rá meu anjo da guarda e estará sempre ao meu lado. Quero dizer,
sempre. Certo?

Ela olhou para ele, esperando por um beijo.


– Eu amo você. – Ela sussurrou-lhe aos ouvidos.

– E eu te amo. -Ele sorriu, seus lábios procurando os dela. – Sem-


pre amei.
– Sempre amarei. – Terminou ela.

58 Efeitos da Vida
Capítulo IV
O Enigma

Quem morre pela bondade nunca falece, ressurge para a vida


eterna e, quem morre pela maldade, morre assustado de falecer
no inferno e jamais ver a vida.
Kennexiz Xavier

Passaram-se os tempos de luxos, modas, bodas e festanças,


então aquilo que as pessoas dizem começou a aparecer de águas
de fundo para cima: À medida que se vive alcança-se o destino
e o tempo vai passando atingindo o seu fim em tranças de odis-
seias feitas carapinhas duras; o equilíbrio natural, o mal nunca
pode separar-se do bem, porque por vezes a vida e o bem são
inânimes, os bondosos são odiados e os primeiros a bater a ca-
choleta... entretanto, não há coisa alguma sem contraste, nem
hoje nem nunca.
O Dr. Alberto K. numa noite a dentro, escura, a atmosfera ter-
restre cálida no ambiente, onde o único satélite da terra, a lua,
despontava a presença de 21% de gás oxigénio. Era quase meia-
-noite e o Dr. Alberto K. estava sentado sozinho em seu carro
Limusine, relendo mnemonicamente um longo memorando que
lera durante o dia e então, percorria o seu cérebro sem deixar
vestígios de qualquer significado; ele saía do hospital em direção
a sua casa, nas picadas da estrada via quatro imagens enigmas
que aparentavam ser homens, buzinava-lhes mas estes não saíam
da estrada, antes pelo contrário, vinham vindo ao seu encontro.
Os quatros homens materializaram-se, inesperadamente, a pou-
cos metros de distância, na estreita ruazinha iluminada pelo luar.
Por um momento eles ficaram imóveis, com os olhos ígneos e os

Kennexiz Xavier 59
dedos de unhas compridas apontados para o peito um do outro,
então, reconhecendo-se, dobraram os punhos sob a manga do
sebastro e começaram a andar apressados na mesma direção.
– Novidades? – Perguntou o mais alto dos quatros.

– As melhores. – Responderam em uníssono os demais.

A rua era ladeada por uma pequena flora, à esquerda, e por


uma muralha alta cuidadosamente aparada, à direita. Os longos
sebastros dos homens esvoaçavam silvados ao redor dos tor-
nozelos com bravuras e negrume enquanto eles caminhavam
velozes e furiosos aproximando-se da sua vítima.

– Porque é que até homens doutos acreditam em coisas vãs e


sobrenaturais? – Perguntou um dos homens enigma.

– É a dificuldade das pessoas acreditarem que o sobrenatural


inexiste. – Comentou outro companheiro ao lado. – Entenda-
-se por sobrenatural tudo o que exceda ao natural, isto é, todo
o fenômeno que não seja aderente às leis da natureza.

– Quais são então as causas de os humanos crerem em ma-


gias, feitiços e superpoderes? – Questionou um companheiro.

– As principais causas para a aceitação de que exista magia, fei-


tiços e superpoderes são: a ignorância, a insegurança, as crenças
e os valores. – Assentiu o companheiro ao lado. – A ignorância
do funcionamento do universo, do mecanismo da criação, do
que somos e do nosso papel na realidade são algumas das razões
que contribuem para a aceitação de fenômenos sobrenaturais.

– Há! Agora entendi. – Aferiu o outro companheiro. – Está


mais do que claro que, a ignorância da engenharia da natureza,
da mão tecnológica humana e do cérebro evolucionista; são a

60 Efeitos da Vida
principal causa para que muitos fenômenos sejam considerados
sobrenaturais.

– A insegurança da existência de que haja um futuro após a


morte também contribui muito para a aceitação da existência
dos fenómenos sobrenaturais. Ou seja, o medo da morte fun-
ciona como um inibidor da racionalidade, pois, ele, afeta os jul-
gamentos e propícia a aceitação de ideias ilógicas. – Desfechou
o último companheiro que vinha atrás dos outros.

Logo que as imagens dos homens enigmas se refletiram dian-


te do Dr. Alberto K., inexplicavelmente a limusine ficou com
o motor intacto, os faróis e os intermitentes quebraram e ele
sentiu-se vergastado, com o corpo todo dorido e desmaiou por
alguns minutos com a testa caída no volante. Mais tarde, tomou
alento sem qualquer consciência da realidade, por este efeito,
não via caminho para continuar a andar pois que esgrimia mo-
ribundo entre a vida e a morte; mas, de súbito enxergou que a
sebe do lado dianteiro da estrada sorria-lhe esplêndida e então,
concentrou-se e disse de si para si mesmo:

– Tu és forte, sempre o foste... Não se deixe vencer. Controla o


olho da tua mente meu camarada, porque nada nem ninguém
te pode fazer mal, és honesto e altruísta, ninguém te desafia...
Lembra-te se porfiarem contigo, luta como que se procurasses
a morte, porém, tudo o que tiver que acontecer vai acontecer
de forma natural e o que não conheces também não te conhe-
ce. Tu vais morrer apenas por morrer, não tens culpa, o bruxo
embruxa-te por inveja e o feiticeiro come-te por vontade de
comer carne.

Entretanto, fez esforço e saiu da limusine cambaleando até


chegar a casa, onde todos ficaram estupefactos com a sua che-
gada praticamente enigma.

Kennexiz Xavier 61
Aproximou-se dele, Kali e perguntou: – Meu amor, meu do-
ce, minha candura, porque vem chegando a estas horas e sem
o carro?

– Não convém falarmos nisto agora. – Retorquiu ele.

– Estás muito esquisito! – Insistiu Kali. – Conta meu amo, o


que te aconteceu?

– É muito mistério dentro desta noite, minha querida. – As-


sentiu Alberto K. – Fui atacado, parcialmente chibatado, atacado
por fantasmas e...

No dia seguinte sentados todos a mesa numa espécie de últi-


ma ceia, o Dr. Alberto K. narrou aos filhos toda a ocorrência dos
mistérios relativos aos quatros homens fantasmas sem se esque-
cer da conversa que aqueles demónios proferiam entre eles rela-
tivamente às crenças sobrenaturais enquanto se aproximavam
dele velozes e furiosos. Passado seis meses o caso ficou sério, o
Dr. Alberto K. ficou miraculosamente doente, o feitiço pegou e
dizimava assim um dos homens mais poderosos da medicina;
isto admirava a cidade inteira porque de todos os diagnósticos
feitos não acusava nada senão boa saúde. Giravam todos os cen-
tros hospitalares do país e até centros de medicina tradicional
e nada se diagnosticava. Foi então enviado para Espanha, con-
cretamente a Madrid, mas, mesmo assim, tudo continuava em
extremo mistério, não havia diagnóstico que dissesse qualquer
coisa acerca da doença.
Lá passaram sete meses e depois o Dr. Alberto K. decidiu re-
gressar a casa porque ele agourava a própria morte e a doença
era incrível e um enigma na realidade. Afinal, o destino foi mes-
mo um círculo misterioso, acabou de sucumbir ao desembarcar
do voo em pleno terreno do aeroporto internacional a quatro
de fevereiro em Luanda.

62 Efeitos da Vida
O Dr. Alberto K. tinha até este tempo, 40 quarenta anos de
idade, enquanto Kali sua esposa tinha trinta e cinco anos de ida-
de; deixou a mulher viúva com quatro filhos que formavam dois
casais que se chamavam:
– O primogénito Seth Matadi K., de onze anos de idade; o se-
gundo Mandume Yetu K. de nove anos de idade; o terceiro Sa-
lomé Cassilda K. de seis anos de idade e o último Jelciara Cláudia
K. de quatro anos de idade. A sua fiel companheira e esposa era
Heloísa Muzinga Kali que desesperadamente pranteava o mo-
mento funesto, enigmático e cheio de infelicidade.

Kennexiz Xavier 63
Capítulo V
O Funeral

É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em gran-


deza de alma, em desprezo...
Friedrich Nietzsche

A vida decorreu conforme a lei da natureza para a família


do Dr. Alberto K., pois a vida é assim: Nascer, viver, morrer; en-
tretanto, ninguém pode negar a existência do Tempo, pois a
efemeridade é uma evidência de que todos os efeitos da vida
são temporais. Em outras palavras, a morte ou o fim inevitável
de todas as entidades que existem é uma prova incontestável
de que todas as coisas estão sujeitas à ação do Tempo. Alberto
K. era um homem de 40 anos, moreno e forte, cheio de vitalida-
de. Tinha olhos verdes e uma inteligência à altura do seu porte.
A relação dos seres vivos com o tempo é tão natural que di-
ficilmente nos apercebemos dela. Absolutamente tudo que fa-
zemos na vida pode se fazer premissa em praticar eventos e
lograr efeitos, isto é, nós não fazemos outra coisa senão realizar
movimentos temporais. Exemplo:
Nascer, viver, conviver, estudar, aprender, comer, correr, dor-
mir, beber, falar, escrever, cantar, dançar...morrer. Vale destacar
que todos os efeitos da vida são um evento, no qual se origina
outros eventos e situações. É interessante notar que apesar de
por mais duradouras que sejam as situações também são even-
tos que inevitavelmente têm um fim.

– A vida não é nada mais do que uma corrida para morte. –


Sentenciou o padre Asael. Todos os presentes sabem muito bem
que o Dr. Alberto K. foi um cidadão autêntico e um patriota

Kennexiz Xavier 65
exemplar, com sentimento de unidade, um homem com um
intelecto sem igual, com experiência direta de união, com co-
nhecimento transcendente, compaixão e amor por tudo o que
vivia, com compaixão desligada ou amor incondicional por tudo,
o que o levava ao mais alto nível de consciência e júbilo. – Acres-
centou o padre Asael. – Todavia, temos conhecimento de que é
pelo seu carácter carismático que foi invejado e acabou por ser
enfeitiçado, por uma longa e terrível doença, porém, morreu sem
dar as ultimas considerações à sua prestimosa família, como ele
dissera: A minha doença é terrível e distinta de qualquer doença
humana, por isso fico só, antes que se propague na sociedade.
A separação foi hipnótica e miraculosa, havia por todo lado
nas almas presentes no momento do funeral, choro convulsivo.
Inesperadamente todos se sentiam zangados, deprimidos, tristes
e muito infelizes à tamanha provocação que este tempo perpe-
trou. Os dois pequenos de idade um pouco avançada e a mãe
na altura do funeral abraçaram-se à urna e não queriam apartar-
-se dela; entretanto, Kali sentia sensações a tilintar, tal qual um
camião carregado, sentia incessantes rodopios de formigueiros
e arrepios no couro cabeludo e/ou na medula espinal. Sentia
sensação de vibração energética no topo da cabeça, como se a
energia jorrasse em chuveiro. Sentia pressão na coroa, como se
alguém estivesse a pressionar um dedo contra o centro da cabe-
ça, sentia uma pressão mais generalizada, como se a cabeça esti-
vesse dentro dum aparelho muito suave. Estava com um ataque
de pânico, esquizofrénica e com transtorno cérebro-encefálico.
Estava muito alucinada e comovida com milhares de lágrimas a
rolarem-se-lhe no frontispício e como torrentes do caudal cheio
do rio Cunene desaguavam na cabeça dos filhos que ela abraçava
com apego e luto; apertou a mão dos dois filhos que assistiam as
exéquias fúnebres do pai, beijou-os expressivamente, visto que,
eram eles que afinal lhe deviam a sua prosperidade. E afastou-se
sem olhar para atrás e aconselhou-se a si mesma:
Concentre-se no seu coração e oiça o seu próprio discernimen-

66 Efeitos da Vida
to. Se sentir desconforto, peça ao seu Eu Superior para aumentar
ou diminuir a temperatura. A sua visão está a mudar de várias
maneiras; está a conhecer novas formas de ver. Seja paciente.
Aconteça o que acontecer, não se assuste. Visões nebulosas po-
dem ser aliviadas desviando o olhar.
Mulher, mais uma vez, não tem nada a temer! Aconselho-te
mais uma vez mulher: Renda-se. Deixe ir. Oiça. Os seus ouvidos
estão a ajustar-se a novas frequências.

Os dois rapazinhos ficaram na urna, a olhar para o céu e a


sepultura aberta, os seus fios de lágrimas todos casquinados
de angústia jorravam como dilúvios no fundo do jazigo; no en-
tanto, quando as pessoas os pegaram, Seth escapou-se deles e
voltou para a urna e de súbito lançou-se a lacrimejar nos braços
do padre Asael.

– Agora que o meu pai se foi embora, implora por nós a Deus,
para que não nos dê por presas aos seus dentes como pássaro no
laço dos passarinheiros e não nos pondes fora do seu coração, a
nós filhos e à nossa mãe, pois não? – Pediu Seth.

– Está sossegado! Tu, teus irmãos e a Kali vossa mãe serão


como meus filhos que eu perdi na guerra e não vos esquecerei
nem um segundo nas minhas orações e meditações advenien-
tes. – Declarou o padre Asael.

– Bom!- Exclamou Seth. – Não lacrimeje mais minha mãe, já


temos proteção...

– Não! – Resignou Kali. – Não meu filho, eu quero apenas de


volta o teu pai... Podemos ter uma proteção superior à do va-
ticano ou da CIA, não será nada para mim, porque o mais im-
portante é que o teu pai se foi e jamais o veremos, o tempo não
nos dará de volta.

Kennexiz Xavier 67
Kali choramingava com absoluta desesperança, depressão,
tristeza, exaustão, baixa energia e cepticismo; vivia nestes tem-
pos atormentados e o seu cérebro monologava por perguntas
tais como: O que somos nós? O que existe? O que acontece após
a morte? Foi exactamente assim que ocorreu o funeral, até ela
cair de síncope, porém, todos os presentes saíram do cemité-
rio a caminho da casa aonde decorria o velório. Posto em casa,
embalsamavam o corpo de Kali que continuava desmaiada, as
palmas das suas mãos quentes e pegajosas pressionadas com
força contra a sua própria bochecha enquanto a ponta do anel
de crânio dela deixava uma mancha na própria pele. E embora
os seus olhos estivessem cobertos e fechados, ela sabia que o
cabelo preto tingido dela estava repartido no meio, o turban-
te preto de vinil estava sendo usado sobre uma gola olímpica e
meio hasteado como uma bandeira homenageante (mantendo-
-se em conformidade com a política de vestimenta funerária), a
sua saia de cetin preta novinha já tem uma cinta perto da bai-
nha, e os olhos dela parecem dourados mas isso é só porque ela
está usando lentes de contacto; faziam-se esforços para ver se
ela recuperava, mas, mesmo assim, continuava agoniada e en-
quanto sobre efeito G ouvia a multidão comovida a descrever
a particularidade e brio profissional do malogrado. E um ancião
que ali esteve pediu que encobrissem Kali e dentro do cobertor
pusessem fogo com gindungo para ela recuperar e foi então que
não tardou e começou a estar boa. Olhou para todos e acabou
logo por adormecer porque estava a anoitecer e a tarde esteve
dentro da caligem, enquanto Seth mitigava os irmãos que todos
outrossim acabaram de adormecer.
Durante o profundo sono que Kali esteve submetida e sonhava
que andava por um deserto enegrecido e no fim das olheiras en-
xergava uma incrível cruz de ferro fundido, pintada a vermelho
aonde ouvia as vozes dos filhos a chamarem-na:

– Salve... e... e... e-nos mamãe!

68 Efeitos da Vida
Preocupada e amedrontada girava-se com presteza a olhar
nos quatros cantos do deserto a indagar subjetivamente o que
sucederia às crianças e de seguida viu um monte e dunas que
se rolava com velocidade à sua volta a bramir:

– Morre... e... e... es se te moveres!

Mas Kali não se interessou com o bramido de silvo agudo,


pôs-se a correr em direção à cruz, mas não chegava ao destino
porque este parecia infinito como um arco-íris. Logo no centro
do deserto cruzou-se com uma tempestade, com uma violen-
ta catástrofe, tratava-se de forças que a obrigam a desacelerar,
simplificar, mudar, reexaminar o que ela é, assim como o que a
sua vida lhe diz. Forças que não podia ignorar, que a obrigavam
a desapegar-se, que a acordavam para o amor e compaixão por
tudo. Portanto, deitou-a no chão e dizia:

– Salva-te a ti!... Porque a tua família já morreu toda. Kali ou-


vindo embora com força ténue de mulher conseguiu libertar-se
do vento e prosseguia com veloz a chamar:

– Seth!... Yetu!... Salomé!... Yara!...Não partam meus filhos, por-


que estou sozinha e não tenho mais ninguém. Por favor amados
do meu coração!... Não sucumbam.
Mas como é do conhecimento de todos, o ser leviano da mulher
moderna, ela não aprende a viver com incertezas, não sabe que
nada lhe aparecerá à sua frente, se não estiver pronta. Ela não se
enxerga nem quer considerar que a impaciência é, na realidade,
uma falta de confiança, especialmente no seu Eu Superior. Que
quando focar o presente, verá milagres a acontecerem, portanto,
o seu corpo não está estabilizado ou talvez a sua vida esteja dese-
quilibrada. Talvez ela não se preocupe em saber que em momen-
tos de quedas, acidentes e catástrofes o corpo esteja a dizer-lhe
para abrandar, examinar certos aspectos da sua vida ou a curar

Kennexiz Xavier 69
certos bloqueios. Ela não se acomoda em procurar o significado
da mensagem. Então Kali desertou do espírito amorável, deixou
de pensar nos filhos e deitou-se no monte e nas dunas que a cha-
mavam. Entretanto, Kali despertou do sono com o mesmo grito
de chamada...Olhou no seu relógio mickey, eram 23h 56 minu-
tos e 4 segundos; levantou-se da cama e começou a orar, depois
da oração foi ao quarto das crianças e dormiu ao lado delas. Ao
amanhecer, olhou para as crianças sob o efeito G, isto é; fenôme-
no Lazaro ou Experiência Quase-Morte (EQM), beijou-os a cho-
ramingar e a citar o nome de cada uma com a voz rouca, áspera,
como se ela fumasse dois maços de cigarro por noite, embora
ela só tenha tentado fumar um maço uma vez. Assim que Kali
saudou as pessoas que anoitaram no óbito, dirigiu-se à câmara
do padre Asael e narrou-lhe todo o sonho conforme o sucedido.
O padre Asael atentamente sem desviar os olhos e a sua atenção
dela, investigou o caso, interpretou o sonho com muito cuidado
e sabedoria e, no entanto; discerniu sem fazer nenhuma revela-
ção que Kali irá casar, terá uma grande briga e divergência com
os filhos, separar-se-á deles e causará muito sofrimento a Seth e
este terá uma vida mística até se tornar príncipe e o padre irá ser
assassinado por facciosismo político num futuro breve de tem-
po. Consequentemente deu um fraterno abraço sofrido a Kali
deixando cair um fio de lágrimas dos seus olhos e fê-lo rolar na
face. E como revelação disse apenas:

– Minha filha, não há perigo nenhum. É natural, fica calma, isto


é só mais um efeito da vida. Vá descansar...

Desampararam-se e o padre Asael dirigiu-se aos pequenos para


dar-lhes as últimas considerações. Encontrou-os deprimidos no
jardim da quinta onde brincavam e se divertiam com o pai aos
fins-de-semana, estavam um olhando para o outro sem dizer ab-
solutamente nada para ninguém. E o padre Asael aproximando-
-se deles saudou-os:

70 Efeitos da Vida
– Vocês estão bem?

– Estamos bem obrigado avô padre. – Respondeu Seth.- Mas,


só os meus irmãos e a nossa mamã é que não estão nada bem
pela saúde e pela vida por causa do passamento físico do papá.

– Coragem meus filhos. – Animou-os o Padre Asael. – A vida


tem de tudo um pouco para viver, estas coisas que parecem pos-
tadas a tomar conta da humanidade têm também efeitos tem-
porais. É chegado o vosso momento de emular os efeitos da vida,
a seleção natural e a lei da sobrevivência. É tempo de pensarem
diferente, pois que pensar diferente nem sempre é incoerente!

– Aconselho-vos com pensamentos de Schopenhauer – a


tarefa para vocês não é verem aquilo que ninguém viu, mas
pensar o que ainda ninguém pensou sobre aquilo que todo
mundo vê. Usem a razão para contribuírem a melhorar o pla-
neta, libertem-se das ilusões, paixões e crenças infundadas.
Com estes ensinamentos, deveis respeitar-vos uns aos outros
e abster-vos de disputas; não deveis ser, como a água e o óleo,
repelir-vos mutuamente, deveis ser, isto sim, como o leite e a
água, combinar-vos.
Estudai juntos, aprendei juntos e praticai juntos estes ensina-
mentos. – Não desperdiceis a vossa mente e tempo com o ódio
e com a discórdia. Desfrutai das flores da Iluminação, quando
ela a vós se apresentar e colhei os frutos deste caminho correto.
Nesta hora meus ilustres gravem na memória tudo que vou
vos dizer, porque, será a vossa melhor e intransponível espada
samurai que vos ajudará a esgrimir as vicissitudes naturais. To-
davia, esforcem-se para fazer do planeta Terra o melhor lugar
para viver. E sede os seres que aceitam ser nessa vida a chave
da consciência que abre as portas para as dimensões astrais e
siderais na formação do homem consciente que se guia pela
razão e transcende-se a si mesmo.

Kennexiz Xavier 71
E o padre Asael continuou dizendo:
– Meus amores, vocês bem conhecem o funcionamento de
uma máquina, o enxame das abelhas, a união que elas têm no
fabrico do favo de mel, conhecem os dentes e a língua, cada um
dos quais tem o seu nome e a sua função, mas unidos no moi-
nho dos alimentos e na fala. Sejam assim também vocês aliados
pois sereis uma força invencível, uma barreira intransponível,
fortaleza digital e um rochedo divino.
– Muito obrigado avô padre. – Agradeceu o menino Yetu que
escutava atentamente o conselho. – Agora poderei guiar-me e
ser dono do meu próprio nariz. Obrigado, mas, muito obrigado
mesmo por ter aceitado ficar conosco.

Oh! – Não tem de quê, é o meu dever. – Retorquiu o padre


Asael. – os velhos são as mais belas relíquias dos mais novos
tal qual as canetas e os livros que são as melhores armas da
revolução.
– Os velhos de cabelos brancos, pele rugosa, olhares intrépi-
dos e cérebros perscrutadores, aprenderam desde cedo que é
de pequenino que se torce o destino e a carreira do menino. Se
me prometerem serem unidos e fiéis companheiros de lutas e
vitórias, a alegria será toda minha.

– Seremos ternos companheiros, nós prometemos avô padre-


ripostaram os meninos em uníssono.

E menina Salomé que esteve sentada do outro lado observan-


do a conversa interveio a dizer:

– Avô padre, eu ouvi tudo que o senhor disse com ouvidos


perscrutadores, porém, fiquei embaraçada sobremaneira, sen-
do que sou uma menina condenada a ser mulher e vir a ter um
marido e as minhas responsabilidades de esposa, mãe e traba-
lhadora; então, sinto medo na verdade!...

72 Efeitos da Vida
– Acabe de falar!- Interrompeu o padre Asael. – Tens medo
de quê?

– ... De tudo, tudo que o avô padre falou mete-me muito medo,
tenho uma grande aversão a desamparar-me dos meus irmãos;
porque sozinha num lar o meu marido vai triturar-me facilmente.

– Quando casar, sê submissa ao seu marido, seja uma mulher


virtuosa, seja honesta e trabalhadora; e no entanto, nunca o seu
marido estenderá uma mão agressora ou diabólica sobre ti.- Afe-
riu o padre Asael. _ Acima de tudo o teu único interesse na vida
seja modificar os efeitos da vida na base do diálogo, ao relatar
as suas experiências pessoais demonstra no olhar a verdade, a
fidelidade, o amor e o quanto podes ser melhor, o quanto podes
ser saudável e próspera. Em momentos de conflitos mostra ao
seu marido que se tiverem coragem de encarar os vossos erros
e repará-los chegarão à vossa essência divina. A cura dos vossos
males só virá por meio da coragem de serem autênticos e cons-
cientes dentro do vosso lar e da vossa relação. Tenha somente a
pretensão de ser uma semente fértil das mensagens do Universo.

Braaavo.... o... o! – Salomé exclamou comovida. – Gente! Que


homem extraordinário, que sucede e vivifica nosso pai!...Obrigada
senhor padre, mas, obrigada mesmo do fundo do coração sua
santidade, por estar conosco neste momento de pranto e luto.

– Não tem de quê minha filha! – O padre Asael retorquiu com


um sorriso emprestado no rosto.

Salomé a sorrir a bom rir, virou-se para a sua irmã dizendo: -Ya-
ra, ouve também tu, minha irmãzinha e, ouça mesmo maninha,
uma vez que somos poucos são horas de armar defesas para que
não haja no universo força com mais força capaz de nos derrubar.
O padre Asael continuava a falar em parábolas e revelações,

Kennexiz Xavier 73
fazia perícopes e narrações para o diário dos meninos; que ra-
biscavam outrossim todas as informações no Ipod do seu he-
misfério esquerdo visto que as suas habilidades físicas, o seu sa-
ber intuitivo, os seus sentimentos e compaixão, a sua forma de
sentir o corpo, a sua visão, a sua expressão, todos emanam do
lado direito do cérebro. Para que esta parte do cérebro se de-
senvolva melhor, o lado esquerdo do cérebro deve «abrandar».
Normalmente, a capacidade do hemisfério esquerdo de ordenar,
organizar, estruturar, alinhar, analisar, rever, precisar, concentrar,
resolver problemas, e aprender matemática, domina o nosso me-
nos valorizado cérebro direito. Daqui resulta: o lapso de memória,
colocação de palavras na sequência errada, falta de habilidade
ou falta de vontade de ler durante muito tempo, falta de con-
centração, esquecer-se do que ia dizer, impaciência com formas
lineares de comunicação (áudio ou escrita), dispersão, perca de
interesse em investigar ou em informação complexa; sentimen-
to de ser bombardeado com palavras, conversas e informação.
Relutância em escrever. Por vezes sente-se «obtuso» e não tem
interesse em analisar, viver discussões intelectuais ou investigar.
Por outro lado, pode sentir-se inclinado ao que tem significa-
do: vídeos, revistas com fotografias, trabalhos artísticos, filmes,
música, escultura, pintura, estar com pessoas, dançar, jardinar,
andar a pé, e outras formas de esforço muscular. Pode procurar
informação espiritual, ou até ficção científica.
Portanto, os meninos enquanto ouviam o padre Asael a dis-
sertar toda a masmorra dos efeitos da vida permitiam que o seu
coração e o lado direito cerebral lhes orientem os fatores cogni-
tivos, permitindo com isto que o cérebro esquerdo seja ativado
apropriadamente para ajudar o cérebro direito. Eles estão bem
equilibrados cognitivamente, usando ambos os hemisférios com
maestria a perscrutar gnosticamente a alocução do padre Asael
que falava sem parar:

– Viver é experienciar! A vida é o laboratório de cada indiví-

74 Efeitos da Vida
duo. Portanto para estarem de bem com a vida, só depende de
cada um de vocês, são a fonte de todas as emoções e a qualquer
momento podem criá-las e modificá-las. Vocês podem sentir-se
bem o tempo todo só por compreenderem que estão vivos, que
entre milhões de espermatozoides vocês foram os que chegaram
ao óvulo, sendo, assim já nascestes vencedores. Não esperem
nada de ninguém. Façam a vossa parte e dai o vosso exemplo.
Lembro apenas que no Cosmo inteiro reina a paz, que, lá no fun-
do sua alma experimenta esta verdade. Só o motivo de estarem
vivos é mais do que suficiente para estarem de bem com a vida,
pois o compromisso com ela deve ser renovado regularmente.
É o primeiro passo para viverem com alegria e sabedoria. De-
finam suas vidas e trabalhem por elas. Trabalho é uma forma
de amor. Se vocês não trabalham, a abundância não fluirá nas
vossas vidas. As metas não são atingidas sem esforços. Mas será
que vosso objetivo está bem traçado? Será que foi bem esco-
lhido? Questionem-se, examinem o vosso nível de consciência.
Definam ou redefinam claramente as vossas metas e depois
trabalhem em função delas. Lembro-vos: quanto mais nobre
for a tua meta menos correrá o risco de se dececionar, porque
estarão livres das ilusões de esperarem recompensas. Uma das
maiores alegrias que o ser humano conhece é a alegria do dever
cumprido. Tenham confiança em vocês e no vosso futuro. Um
arqueiro quando aprende a manejar o arco descobre que as su-
as flechas atingem o alvo e isto inclui direcionamento, retidão
e impetuosidade. Usem agora a armadura da retidão de cará-
ter. Usem a força invisível da sua vontade. Usem agora a vossa
maior arma – a vossa ligação com o sobrenatural por meio de
uma tomada de consciência perante os efeitos da vida. “Fazei
vós mesmos uma luz. Confiai em vós mesmos: Não dependais de
mais ninguém. Fazei de meus ensinamentos a vossa luz: Confiai
neles; não dependais de nenhum outro ensinamento. “Considerai
o vosso corpo, pensai em sua impureza; sabendo que a dor e o
prazer são causa de sofrimento.

Kennexiz Xavier 75
A esperança consciente unida aos vossos esforços no melhor
transforma campos áridos em terras férteis, livrar-se-ão da desinser-
ção da razão, pois só invejarão os outros se não tiverem confiança
em vocês mesmos. Quando há autoconfiança, a atitude diante os
efeitos da vida é positiva, mas toda gula, toda avareza, toda sober-
ba, toda luxúria, preguiça, toda ira, toda maldade, toda inveja é
provisória. Permanente mesmo é a nossa conexão com a razão, a
justiça, a paz, o amor e a decência.
Por isso lembrem-se meus filhos amados: é melhor não se habituar
a dizer o que não é realidade. Viver em sintonia com os elemen-
tos divinos e a sua doutrina é viver com integridade. Deve haver
harmonia entre ação, pensamento e sentimentos, pois íntegros
viverão em paz. Vedes, o luxo conspurcou a mente dos nobres e
os ricos agora só se queixam do que não têm e usa com arrogân-
cia o que têm. O homem que se guia pela razão não se alterará
nos momentos difíceis nem fáceis dos consequentes efeitos da vi-
da. Será sereno, perscrutador. Conheçam-vos contra a autoilusão.
Busquem o vosso autoconhecimento, distorçam-vos da fantasia,
do fanatismo, mas sem se afiliarem ao niilismo. Desenverguem-se,
é de menino que se traça o destino.
Respirem agora, aprendam a respirar, é preciso inalar o oxigé-
nio; respirar é uma das chaves para se sentir melhor. Reparem, um
indivíduo que trilha os caminhos da conscientização tem a sua
ação sempre percetível, porque ele é capaz de inspirar nos outros
a ação correta.
Vedes, nunca será cedo ou tarde para serem bons, puros e for-
tes pois esta é a vossa essência... Vosso pai o foi com brio e profis-
sionalismo.
... Outrossim vocês conhecem meus filhos, o roncar do camião
carregado com grandes toneladas, de peso pesado, a choramingar
na estrada esburacada com descidas e subidas; conhecem o moto-
rista cansado, que não pára de acelerar mesmo com os obstáculos
da estrada, mas, sorri a bom rir porque caminha para chegar ao des-
tino, descarregar a mercadoria e receber o usufruto do seu salário.

76 Efeitos da Vida
Ainda conhecem, o ânimo da mulher gestante, carregada de
responsabilidade maternal, que suporta os efeitos da gravidez
durante nove meses, que às vezes corre o risco de morrer du-
rante o aborto ou o parto, portanto, torna-se felizarda ao dar à
luz o seu filho aguardado com tanta espectativa. Apesar deste
sacrifício todo, ela não se arrepende, volta a engravidar porque os
filhos são a razão da sua existência e a mais alta realização huma-
na de participar na criação do universo. Entretanto, sedes jovens
que ignoram as falhas e os erros da vida e os efeitos infortúnios
que a vida nos proporciona, sedes jovens que se alimentam de
esperança, pois, todas as situações na vida são temporárias e o
próprio tempo é um volante.

– Avô padre, mas o que o senhor quer insinuar? – Questionou


Yetu – Deixe-se lá de bobagens... A minha mente recusa-se a crer
que o tempo é um volante, porque se fosse o meu pai ressusci-
taria de entre os mortos.

– Meu pobre filho, fuja à ignorância – Assentiu o padre Asael – É


óbvio que o homem padece por arrogância; o arrogante, embora
presunçoso, é um fraco. Por isso se esconde atrás do poder que
acredita ter, por ser um homem iludido, mas no fundo não passa de
um medroso que usa a arrogância como autodefesa para se prote-
ger da sua própria fraqueza. Ao se afirmar que o amor é mais forte
que a morte, afirmamos que a nossa vida terá de ser vivida à luz do
amor e da verdade. Um homem que vive à luz da gula, da avareza,
da soberba, da luxúria, da preguiça, da ira e da inveja não sabe que
as situações da vida são temporais ou que o tempo é um volante.
Este sofre muito. É óbvio que o tempo é um volante, mas isto não
tem nada a ver com revoltas do pão massudo ou queimado, mas
sim, com um outro pão bem feito, com um outro perfil; a morte
não é meta, é metáfora, não se pára, anda-se, é finalidade do reco-
meço, é começo sem fim da imortalidade. Na autocondução para a
morte, seremos convocados a viver no ser íntegro-integrado, isto é,

Kennexiz Xavier 77
na vida espiritual, livre dos males capitais, livre do ter que não é de
nenhum modo sinónimo do ser, assim como a música que nasce
quando a corda geme no violão, na certeza feliz que um dia não
mais se morrerá; e em ondas de vibrações e o ser estará de olhos
abertos, mesmo que se negue a ver.

– Desculpa adorado padre. – Pronunciou-se o menino Yetu.


– Estou consciente do meu erro e do meu raciocínio enviesado.
Já consigo enxergar o falso, distorcer-me da ilusão e do concei-
to falso, estou vendo a realidade porque o que desconhecia é o
meu Eu superior e a minha divindade, a raiz da mecânica do ser
humano. Creio que nesse terceiro milénio que é a era do aquário
viveremos a era dominada pela conscientização da imortalidade.
Portanto, absolve-me querido avô de o tratar de bobo, porém, o
meu erro foi apenas uma inocência e não o facto de me perder.
Desculpa-me mesmo, avô padre.

O padre Asael assentiu com um sorriso fraterno nos lábios: –


Estás desculpado meu filho. Tu cresces mesmo assim, com os
teus erros genuínos, porque o homem que nunca errou não tem
experiências próprias e não sabe nada sobre a vida. Em suma, a
aprendizagem efetiva adquire-se por tentativas e erros... é ne-
cessário errar para acabar com os erros.

O padre Asael, sempre desesperado e triste, mas deleitado na


certeza ainda por causa do futuro infortúnio previsto por ele
mesmo, tentou finalizar a conversa e despedir-se das crianças,
virando-se a eles disse:

– Meus... são chegados os meus momentos... a hora mais du-


ra para vocês. Estamos juntos por enquanto, mas, considerai o
meu adeus.

– Adeus meus filhos! Portem-se bem!...

78 Efeitos da Vida
Seth que esteve sentado do lado direito do padre, ficou muito
estupefacto com a irónica despedida, levantou-se e dirigiu-se ao
padre e, sussurrou-lhe aos ouvidos: Não!...não...não!... Posso morrer
também e os meus irmãos ficarão sozinhos; por favor, não se vá.

– Desculpa filho, mas... tenho de partir mesmo, o destino trou-


xe-vos até aqui. Coragem – ripostou o padre Asael com uma
lágrima no canto do lho.

– Querido padre, se te fores embora, seremos crianças da rua.


Ignora o destino...

O padre Asael interrompeu Seth com grandes gargalhadas,


fingindo rir a bom sorrir – Não posso... mas, é mentira, estava
apenas a brincar convosco. Só foi uma piadinha...até ao sol se-
guinte meus filhos durmam em paz, estamos juntos.

– Obrigado ilustre padre, boa noite igualmente, adorei a brin-


cadeira... – Respondeu Seth.

– Avô padre, estou sabendo da vossa conversa de morrer e


não morrer – Observou Salomé – Quanto a mim, quero que não
se vá! Queira Deus afastar de nós este cálice envenenado e este
destino diabólico. Faça-se a vontade do divino e não a nossa...

– Uau! – Exclamou o padre Asael – Anima-te minha filha,


persuade-te que não irei a sítio algum, eu estava apenas... etc.

– Fala a sério senhor padre e deixa de ser reticente meu senhor


– Comentou Salomé.

– Filha... desabafou o padre Asael – Queria dizer-te que estava


a brincar com vocês. Mas agora, já que queres saber a verdade, é
esta a verdade, não me resta mais muito tempo para viver con-

Kennexiz Xavier 79
tigo. Caros filhos, o meu fim está se aproximando, a nossa des-
pedida é iminente, mas não vos lamenteis. A vida está sempre
mudando; ninguém pode escapar da dissolução do corpo. Esta
transitoriedade, vou mostrar-vos agora, com a minha própria
morte, com o meu corpo caindo em pedaços como um carro
apodrecido. Não vos lamenteis inutilmente, mas maravilhai-vos
com o princípio da transitoriedade e dele aprendei a vacuidade
da vida humana. Não alimenteis vãos desejos de que as coisas
mutáveis se tornem imutáveis.
O demónio das paixões mundanas está sempre a procurar
ludibriar a vossa mente. Se uma víbora morar em vosso quarto,
não podereis ter um sono tranquilo, se não a expulsardes.
Deveis romper os liames das paixões mundanas e expulsá-las,
assim como expulsais a víbora. Deveis, indubitavelmente, pro-
teger o vosso coração. E não choreis, ponde esta parábola na
memória e concentrem as suas mentes no momento presente
e nos tempos advenientes:
– Num pomar tinha uma árvore comprida, ramalhete e muito
velha, que já não produzia frutos, mas impedia o crescimento
dos arbustos viçosos que germinavam; no entanto, reparou o
camponês firmemente e pensou, vou cortar a árvore velha que
faz sombras às mais pequenas e que as impede de crescerem.
Cortou-a e acabou de secar e as pequenas cresceram sorriden-
tes e viçosas agradecendo ao camponês por cortar a árvore que
lhes fazia sombra e impedia o seu crescimento.

– Isto não tem nada a ver connosco – Interpretou Salomé – O


destino catastrófico não tem que nos humilhar, não, não aceita-
mos de modo algum. Nós queremos apenas, ter você aqui vivo
para vivermos juntos, o resto da vida.

– Acorda minha queridinha, não há e nunca houve na histó-


ria, nem em lendas nem em mitos manhãs contemporâneas das
noites ou filho que nasce ao mesmo tempo com os seus pais,

80 Efeitos da Vida
sol que nasce beijando a lua, apenas, um governa o seu tempo
e o outro no seu tempo – Explicou o padre Asael – Lembre-se
outrossim que, há três ocasiões de perigo em que um filho não
pode salvar os pais e, nem os pais podem salvar o filho: num
grande incêndio, numa inundação e num assalto. Mas, mesmo
nestas perigosas e angustiantes ocasiões, há oportunidades para
se ajudarem uns aos outros.
Entretanto, há três ocasiões em que é impossível a um pai ou
a uma mãe salvar o filho e o filho salvar os pais. Estas três oca-
siões são: o tempo da doença, o tempo de ficar velho e o mo-
mento da morte.
Como pode um filho ocupar o lugar da mãe ou do pai que
está envelhecendo? Como pode uma mãe ou pai adoecer em
lugar de seu filho? Como pode um ajudar ao outro, quando a
morte se aproxima? Não importa o quanto possam amar-se um
ao outro, nem quão íntimos possam ser, nenhum pode ajudar o
outro em tais ocasiões.

– Xeque-mate! Mais uma vez fui apanhada com a boca na


botija e com raciocínio enviesado – confessou Salomé – Estou
calada...Mas avô padre, não se vá embora, tenha piedade de nós.

– Ele... – examinou reticente – Eu, Asael não determino o meu


destino nem tampouco posso controlar a morte... Queira Deus
fazer passar este cálice distante de nós... Brilhe no vosso céu o
sol da paz.

– Passem bem!

Kennexiz Xavier 81
82 Efeitos da Vida
Capítulo VI
Lenços de Consolo

A coragem deve superar o status da política e os paradigmas


em busca da construção de um Estado consciente.
Kennexiz Xavier

Era uma tarde dentro da noite escura, quando os pequenos


saíram do jardim da quinta e se dirigiram para a casa. Encon-
traram a mãe na sala a conversar com as pessoas que estavam a
esperar o término do óbito e desempenhavam o papel de con-
solar a família enlutada e principalmente Kali que chorava como
terra abandonada sem valor, asfixiada, stressada e agoniada; que
já não pensava apenas no desaparecimento físico do marido, mas,
perscrutava inteligentemente o significado do sonho enigma
que sonhara. Os meninos ao entrarem na casa, ainda ouviram
as últimas palavras de uma mulher idosa que esteve sentada no
canto norte da sala enrolada nos seus panos negros, propícios
aos espaços fúnebres e de Alcione prima de Kali que estava em
pé no canto sul da sala encostada no alpendre a ouvir no seu
Iphone, música religiosa:

– Aprendamos a viver intensa e lucidamente um dia de cada


vez, buscando sempre a perceção do real e do bem que por ve-
zes não fazemos e do mal que aceitamos em nós.
Assim, como dizia Paulo de Tarso, o apóstolo: “é hora de tra-
varmos o bom combate”. Para ti Kali é a tua hora de travar o
bom combate e vencer barreiras onde muitos são derrotados;
deves levar em consideração que o bem, a paciência e a coragem,
em qualquer hipótese, são maiores que a maldade, o pranto e a

Kennexiz Xavier 83
miséria, por isso eles sempre triunfam – Aconselhou a mulher
idosa. Kali, nós vencemos apenas as agruras da morte porque
nos conformamos com os seus efeitos, e portanto, nesse instante
sabemos que o autoconhecimento é ação pura, em plena evi-
dência que na terra nada se tem ou se é. A morte não é o que
se vê, ela é o que se crê. É a passagem, passo a passo, a quaresma
a caminho de um encontro íntimo com a razão pura em Jeru-
salém. Terra prometida das promessas cumpridas desse espaço
sideral. – Aferiu Alcione prima de Kali.
– Então, cada tijolo daquilo que quisermos construir terá de
ser colocado por nossas próprias mãos, mais do que nós mesmas
ninguém nos pode enxugar as lágrimas; a morte tanto quanto a
infelicidade é um aspeto da realidade, aqueles que são insensíveis
a uma ainda não encontraram lenços de consolo para uma nem
para a outra – continuou Alcione.
Porém, Kali ouvia silenciosamente sem retribuir nenhuma pa-
lavra, lacrimejava apenas incessantemente.
As crianças aproximaram-se do lugar onde a mãe estava sen-
tada deprimida, beijaram-na e ultrapassaram direitinho aos seus
quartos dormitório. Porém, Seth não se conteve a dormir, quan-
do viu a mãe em apuros e amuada mesmo a ser descarregada
dos mais sábios conselhos e lenços de consolo, também se pre-
ocupava ainda com os irmãos que não tinham tomado o jantar.

– Mamã esqueça este cálice envenenado que bebemos, este


destino cruel e funesto; anima-te, a vida é mesmo assim – Falou
Seth, tendo assimilado e gravado na memória cada lição e cada
parábola do padre Asael.

– Meu filho, que natureza é esta a tua? Idiotice não é?

– Não, não é absolutamente nenhuma idiotice, de modo ne-


nhum. – Ripostou Seth – É natureza viável minha mãe querida;
conformar-se com os efeitos da vida e encarar a morte como uma

84 Efeitos da Vida
passagem para a vida espiritual, é a melhor maneira de ser feliz, é
o lenço de consolo que jamais se viu desde o firmamento até aos
nossos dias. Porém, chorando incessantemente ou desanimada,
o papá já não ressuscitará; as lágrimas apesar de ressarcirem o
espectro do papai, e nos mitigarem o stress, não salva ninguém
nem dá vida aos mortos. Convém pensar em nós e... tornarmos
águas passadas a morte do papai.

– Querido filho, se pensarmos em nós, decerto, haverá um


pensamento lacrimejante e um neurónio sideral a tilintar no
lado esquerdo do peito – confidenciou Kali – Haverá uma sau-
dade astral a tilintar no coração por causa da morte do seu pai.
Ai! Separar-me da alma que sempre amei, não ouvir a sua voz,
os seus conselhos, os seus beijos e amores; é esta a maior sau-
dade: a saudade de Alberto K., de forma autêntica e genuína.
Outrossim, não dá para calar os lacrimejos porque o vosso pai
é o único que mudaria a vossa vida e vocês não têm mais nin-
guém – Continuou Kali.

– Mamãe, a mudança da nossa vida é o tempo – Afirmou


Seth – O que temes e o que procuras está bem à tua frente. O
mistério da vida é a busca confiante em algo que seja maior que
tu mesma. Não te preocupes mamã, quanto ao futuro. Aguarde
no tempo como se ele fosse uma obra de arte de Picasso ou de
Da Vinci. Vá tecendo o cenário palmo a palmo. Não tema ma-
mãe – Continuou Seth – A vida nos reservará grandes alegrias
se não vivermos no imediatismo e vivermos um dia de cada vez.
A sujeita dor, o pranto a miséria não será para nós motivo de
sofrimento. Procuremos e encontremos o amor nos espaços as-
trais e siderais. Ele vence a morte e está em todo lugar. O papá
estará sempre no significado que deres à vida. Não te detenhas
no medo mamãe. Teus conhecimentos a respeito da vida de-
vem dar-te a dimensão correta do viver. Deves lembrar; lembrar
lentamente do teu passado. Será um bálsamo para a compre-

Kennexiz Xavier 85
ensão do futuro. Nas horas difíceis estarei com você e com os
meus irmãos. Serei uma companhia sincera e mostrar-te-ei os
teus erros e felicitá-la-ei pelos acertos. Nossos laços de amizade
se fortalecem no tempo.
– Seth meu filho, pude notar que és um filho excelente e um
irmão brilhante – Disse Kali. Mas, lembra meu filho, que mor-
rer é muito fácil; basta viver que é muito difícil. Ser feliz é lindo;
basta saber sofrer! Portanto, meu marido foi um amor, que eu
nunca esquecerei, porque o amor igual ao dele nunca mais en-
contrarei- continuou falando Kali.

– Obrigado mamãe, mas, muito obrigado mesmo, por me teres


dado irmãos para cuidar. Eu vou desafiar qualquer circunstância
por eles, viver ou morrer com eles; prometo mamã. Vá descan-
sar, portanto, boa noite.

Ainda na mesma noite Seth foi à cozinha preparar o jantar para


todos visto que comer é um dos maiores prazeres da vida. O sabor
dos alimentos é como recadinhos de amor que nos podem tra-
zer muita satisfação. Ele preparou um pequeno manjar recheado
de delícias, saúde e sabor; arrumou a mesa com uma dieta ideal,
de baixo teor de gorduras e elevado conteúdo de fibras, rica em
carboidratos complexos, colorida com variedades de frutas, ver-
duras, hortaliças, cereais integrais e legumes, além de sementes
e frutos secos oleaginosos. Entretanto era um jantar que provia
condições necessárias para uma vida com saúde.
Acordou os seus irmãos para apreciarem as delícias do banquete,
sentaram-se todos à volta da mesa, o manjar estava deveras deli-
cioso e fantástico; facto que comoveu absolutamente os convivas.
Comeram todos, os convivas, os seus irmãos, exceto Kali que
já se encontrava no mais alto e profundo sono.

– Aproveitando da bela e fúnebre noite que está hoje, eu gos-


taria de lhes contar uma história da tradição hinduísta – Disse

86 Efeitos da Vida
Alcione:
Conheci uma vez, uma árvore de tamanho meio exagerado, a
qual abrigava muitos pássaros.
Mas um certo dia apareceram umas pragas para destruir a
árvore. Os pássaros reuniram-se e disseram:
– Não podemos deixar que as pragas destruam a nossa árvo-
re. Onde vamos encontrar outro abrigo, o fruto para comermos?
Então um grande pássaro que havia entre eles disse:
– Vocês tomem conta da árvore e eu vou procurar ajuda. Pro-
curou, procurou até que encontrou um borrifador que desinfestou
aquele espaço e acabou de vez com as pragas, dando de volta a
vida da árvore...

– Uau! Que bela história, gostei minha Tia – Curtiu Seth.

E então Alcione continuou – “Era uma vez um homem cha-


mado Jesus Cristo, feito Deus, que antes estava no céu e veio à
terra para redimir os pecados aos pecadores, ele andava, mas
um dos apóstolos dele era São Pedro. Ele passou por um Casino,
tinha uma mulher xingando, mas o coração dela estava contrito
a Deus, aí ele abençoou a mulher. Eles pegaram a caminhar. Lá
à frente, encontraram uma outra mulher rezando na Igreja, e o
coração dela estava mal. Jesus excomungou ela, mas São Pedro
reprovou dizendo:

– Ora, Jesus, aquela mulher estava xingando, o senhor não a


excomungou!...

Aí, Jesus respondeu a São Pedro:


– Não, Pedro, aquela estava xingando mas o coração estava
em Deus, e esta está rezando, mas o coração dela está mal, não
está constrito a Deus; está a pensar na prostituição, no adulté-
rio, tem sentimentos de gula, avareza, soberba, luxúria, preguiça,
ira e inveja.”

Kennexiz Xavier 87
– Tia Alcione, são belas, cheias de ética e moral as tuas ane-
dotas – Elogiaram em uníssono os meninos.

– Obrigada meus ilustres sobrinhos – Alcione respondeu com


sentimento de dever cumprido. – Mas, estas histórias não são
inteiramente da minha autoria; só me inspirei no tempo e na
história. Quer dizer que acrescentei apenas um ponto no conto.

Depois do bom jantar, compartilhado com anedotas e estórias,


foram dormir também... O relógio dourado que fazia dançar su-
avemente a atmosfera e os quatro ventos da sala com a música
do seu tic-tac marcava 24h na parede.

88 Efeitos da Vida
Capítulo VII
Patrimónios

Lembre-se dos três ‘erres’: Respeito por si próprio, Respeito ao


próximo e Responsabilidade pelas ações.
Dalai Lama

– Depois de sete meses, já tendo aproximadamente terminado


as agruras do passamento físico Do Dr. Alberto K., o padre Asael
pôs-se a caminho da casa de Kali com o intuito de decidirem
sobre o futuro dos filhos, dividirem e distribuírem equitativa-
mente o património.

– Mas, Santo padre, o que é em termos jurídicos o dano? –


Questionou Kali incomodada com as atitudes do governo que
andavam a obrigar que ela abandonasse a casa.

– Dano é a agressão ou a violação de qualquer direito, mate-


rial ou imaterial, que, provocado com dolo ou culpa pelo agente,
cause a uma pessoa, independentemente de sua vontade, uma
diminuição de valor de um bem juridicamente protegido, seja
de valor pecuniário, seja de valor afetivo ou moral – Respondeu
o padre Asael – Mas, o que se passa Kali? – Voltou a perguntar
o padre.

– Estou conturbada, não sei aonde vamos viver porque este


governo corrupto e mesquinho quer despejar-nos da casa. Está
alegando que o Dr. Alberto K. foi um obcecado filantrópico, não
tinha poupanças, o apartamento onde vivemos é do erário pú-
blico, ele tem apenas como seu património três limusines, um

Kennexiz Xavier 89
Hummer 2, dois Audi, um lexus v8, dois Prados v8 e a Clínica.
No entanto, este património mal chega para mim quanto mais
para quatro filhos?

– Kali, pelo que eu sei, o homem planeia e constrói o seu


mundo de acordo com os seus ideais. Tem liberdade criadora,
mas, deve humanizar a natureza. – Disse o padre Asael – O go-
verno faz parte dessa humanização, que foi criado para regular
e possibilitar a convivência e as relações humanas, ou seja, deve
garantir a coexistência social. Deve garantir a paz, a justiça, a se-
gurança e o bem-estar da população; e não extorquir o próprio
cidadão e o estado.

– É mesmo isso, querido padre – Confirmou Kali – O gover-


no está em função da vida social; e não pode alegar desconhe-
cimento da lei e vir aqui com a pretensão de roubar-nos a casa
que é da nossa pertença.

– Estimada Kali, os políticos violam friamente as leis. Sempre


que o governo falha; sem pudor, culpam descaradamente o povo,
os partidos da oposição e os grupos de pressão. Neste momento
o país Lossólo é uma merda mas isso não significa que os Los-
solinos tenham de ser uma merda, mas é isso que querem que
sejamos e desta forma os pobres continuam pobres e a matar
pobres, enquanto os ricos enriquecem com o dinheiro do erário
público a vender aos pobres o sonho de virem a ser ricos, sem
nunca lhes darem as oportunidades de o ser.- Disse o padre Asa-
el, com uma argúcia anti-elite.

– Já percebi o porque é que o governo se conluia contra nós


e quer retirar-nos a casa que o meu marido ganhou do estado a
mercê do seu brio profissional.- Falou Kali.- É porque o governo
é uma elite de bandidos legalizados, conquistam bajuladores
e estes vendidos não se conseguem olhar ao espelho pois não

90 Efeitos da Vida
encontram a sua alma. É pela razão do meu marido ser quem
era e por poder olhar-se ao espelho e ver que a sua alma ainda
estava lá. Não a tinha vendido ao sistema, ela estava com ele,
ele podia senti-la.

– Parece-me óbvio Kali, que o governo não está aqui para fazer
justiça e por isso de nada nos vales pedir clemência. Não impor-
ta o que o governo faça ou diga, isto não é um País, é uma flo-
resta desprovida de tribunais de justiça, neste Estado não se faz
justiça, e mesmo agora se um membro do executivo vier aqui,
não nos conseguirá olhar nos olhos, por isso façam eles o que
entenderem e deem-nos a pena que quiserem dar; que usurpam
a casa... A nossa vida não está nas suas mãos, está nas mãos de
Deus – Garantiu o padre.

– Padre Asael, eu enquanto autêntica cidadã, aprendi na vida


que ninguém pode afirmar querer mudar o mundo, mas indivi-
dualmente podemos semear o conhecimento, a verdade, a paz,
a justiça, espalhar a informação que levará a que ele mude. Por-
tanto, os meus filhos não têm mais nada, não podemos permitir
que nos usurpem a única casa que temos. Só podemos ceder
esta casa morrendo e mesmo morrendo o nosso património
viverá para sempre – Disse Kali.

O padre Asael respondeu-lhe dizendo: deveras o vosso patri-


mónio não é efémero, permanecerá para sempre, porque Alber-
to K. foi o primeiro líder com brio e profissionalismo, a imagem
que a maioria dos líderes hoje em dia tentam passar, dizendo
que tiveram uma vida dura nas ruas até chegarem onde che-
garam quando isso não é verdade, quando a maioria teve vidas
privilegiadas em famílias de classe média. No entanto, mesmo
morto, a sua memória, o seu pensamento, os seus ideais, são o
vosso património que viverá para sempre. E, quanto aos teus
filhos, isto não constitui grave problema para nós; Kali, eles são

Kennexiz Xavier 91
um grupo de sábios e maestros. Todavia, conseguem guiar-se –
Determinou o padre Asael.

– Está bem, amado padre, oxalá eles se consigam guiar! E ad-


ministrem o seu próprio património para o interesse comum,
o bem-estar coletivo e a mais alta realização da família – Pro-
feriu Kali.

92 Efeitos da Vida
Capítulo VIII
A Revolução

Os poderes excessivos do Estado, sujeito às influências maléficas


do Executivo e por vezes inclinado aos reclamos da demagogia
popular, instiga a revolução e compromete a providência do gozo
da propriedade e a liberdade dos indivíduos.
Kennexiz Xavier

O século XX foi dominado pela efemeridade do poder terrá-


queo, foi demarcado em todo o seu transcorrer, pelas ideologias
políticas que sacrificaram o sangue de muito boa gente, que in-
felizmente os homens fizeram a sangue frio, bodes expiatórios.
Aqueles que imaginavam que o vazio deixado pelo declínio da
religião faria por diminuir ou desaparecer o fervor dos homens
e das sociedades em torno das crenças viram-se surpreendidos
pelos acontecimentos. Não houve absoluta e praticamente ne-
nhuma mudança, houve apenas uma troca de símbolos. Não
se lutou tanto pela Igreja ou pelo rei, como se fizera nas épocas
anteriores, nos estados politeístas e teocêntricos, mas por uma
causa, uma grande ideia nacional, patriótica ou internacionalista,
capaz de mobilizar milhões de homens e mulheres, nações in-
teiras, levando o mundo a travar duas guerras mundiais e várias
revoluções sociais de enorme repercussão catastrófica e cons-
ciencialização humana perpetrada pela mão manipuladora da
ciência. A era das massas não iria mais refluir. É muita pena que
os Estados terráqueos são dominados por poderes excessivos,
sujeito às influências maléficas do executivo e por vezes inclinado
aos reclamos da demagogia popular. Todavia, nós que, com toda
a moderação e humildade nos pronunciamos sobre os assuntos
anti-elite, anti-controle e pelas liberdades e direitos, e mesmo al-

Kennexiz Xavier 93
guns que o fazem já com algum radicalismo, onde incluímos os
gangsters, os anarquistas e os sofridos e martirizados revus, os
grupos de pressão, os partidos da oposição não somos os peri-
gosos. Perigosos são os que nutrem ódios e andam calados ou
até bajulam; são os vendidos que não se enxergam no espelho
porque venderam a sua alma às elites; a viver bem, de uma forma
ou outra vocês vão desistir. Agora somos uma ameaça só porque
vos lembramos de coisas que querem que esqueçam. Estaremos
aqui até que nos matem – Disse Mariato no fórum dos gangsters.
Pela sua nobreza, maestria política e experiência social; o padre
Asael foi convidado pelo seu homólogo Osíris xis, Juiz supremo
do tribunal constitucional, para assistir e examinar ao julgamen-
to do chefe do executivo Kinich Ahau. Onde ele se manifestou
como um grande patriota, autêntico cidadão e revolucionário;
ao conduzir a liberdade do povo.
Eram 8h00 da manhã quando o telefone do padre Asael tocava
sonolento sobre a banca da cabeceira da sua cama.

– Alô! Estou sim! – Atendeu o padre. E consequentemente


ouviu uma voz familiar, que não precisou dizer o nome:

– É te honrado o convite para partilhar connosco a justiça...

– Que tipo de justiça, quem é o arguido no processo-crime? –


Perguntou o padre.

– O réu é o Presidente da República Kinich Ahau – Ripostou


o juiz.

– Uau!... O que fez Kinich Ahau? – Perguntou o padre.

– O presidente é réu neste processo-crime, porque cometeu


os crimes de traição à Pátria e espionagem; crimes de suborno,
peculato e corrupção; por ser titular de alguma nacionalidade

94 Efeitos da Vida
adquirida; crimes hediondos e violentos tal como definidos na
presente Constituição.

– Estou vendo a gravidade do crime – comentou o padre –


deveras, compete ao Tribunal Supremo conhecer e decidir os
processos criminais contra o Presidente da República. Pelo que
vejo, ele está danado!

– Certo! – Explicou o Juiz – Compete ao Tribunal Constitucio-


nal conhecer e decidir os processos de destituição do Presidente
da República. Por isso venho por este meio convidar o senhor
para fazer justiça contra este infeliz dirigente, se confirmarmos
os factos, condenamo-lo à pena de morte; porque seria um lou-
co a cometer tais crimes.

– Sem dúvida – disse o padre – a vossa intenção é boa. Mas,


me parece que procederíeis mais sabiamente, senão mais sen-
satamente, evitando comprometer-vos com um louco numa
querela ridícula.

– Meu senhor, o comportamento dos juízes do tribunal su-


premo e constitucional, não poderia ser mais sábio. Salomão, o
mais sábio dos homens que a história se refere, disse: respondei
ao louco conforme a sua loucura. Pois bem, é isso o que faremos.

– Não é justo. Mas, em todo caso; muito obrigado, por nunca


me esquecerem... Farei o melhor! – respondeu o padre – Isto sig-
nifica, acabar com as elites que vendem o sonho de ser rico aos
pobres, mas, nunca nos concedem oportunidades para o ser. É
acabar com a guerra, preservar a paz e julgar os culpados. Até
amanhã eminente juiz – Despediu-se o padre Asael e voltou a
colocar o telefone sobre a banca.

Na noite dentro escura, apareceram uns gangsters que assalta-

Kennexiz Xavier 95
ram a prisão “Paraíso Leviatã”. Foram maltratados barbaramente
os presos e quase que estavam perto de apanhar o presidente
Kinich Ahau que eles procuravam para o martirizarem. Mas, os
guardas da prisão intervieram com emergência contra o assalto
e conseguiram salvar o presidente. Eles chegaram na altura cer-
ta. Mas, mais um pouco de demora, teriam encontrado o chefe
do executivo morto por “gangsters, vingadores da meia-noite e
famosos revus” porque já estava a ser alvejado na cara por in-
termédio do buraco da fresta da porta.
Na hora exatamente marcada para o julgamento, todos os in-
tervenientes do tribunal supremo e constitucional, aguardavam
pela chegada do Padre Asael; que estava a demorar a chegar. Nes-
te exato momento, o réu monologava intimamente: – O que eu
fiz não merece clemência do povo. Agora entendo que, um chefe
de Estado que provocasse o ódio e o desprezo dos cidadãos e
cujo governo não pudesse se manter senão pelas vexações, pela
pilhagem, pelo confisco e pela miséria Estatal, deveria descer do
trono e depor o poder supremo.

– Que arena de massacre é esta prisão Paraíso Leviatã? – Apre-


sentava-se o padre estupefacto com os presos caídos mortos ao
chão e feridos que gemiam de dor. É assim que se faz justiça?-
Continuou a perguntar o padre, enquanto se lhe encopavam
nas árvores do seu cérebro as célebres palavras de Voltaire: “Os
homens que comem carne e tomam beberagens fortes têm to-
dos, um sangue azedo e adusto, que os torna loucos de mil ma-
neiras diferentes. Sua principal demência se manifesta na fúria
de derramar o sangue de seus irmãos e devastar terras férteis,
para reinarem sobre cemitérios.”
O juiz contou-lhe tal como os gangsters invadiram as cadeias
e trocaram tiroteios com os antimotins – ainda o juiz explicou
– Os gangsters vinham vingar-se, porque sempre acreditaram,
que os homens fizeram os Presidentes para os homens e não
para as elites; colocaram o chefe de Estado à sua frente para que

96 Efeitos da Vida
pudessem viver comodamente ao abrigo das violências e dos ul-
trajes sociais; o dever mais sagrado do Presidente da República
é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria
felicidade; como um pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho,
e conduzi-lo às pastagens mais férteis.
E por conseguinte estendeu-lhe a mão num gesto de saudação,
fê-lo sentar-se ao seu lado e apresentou-lhe o processo-crime
contra o mandatário da nação.
O padre Asael leu atenciosamente os autos do processo, in-
quiriu que a querela e a instrução processual seguiram os trâmi-
tes legais dos termos da presente constituição como se rabisca:
A iniciativa dos processos fora devidamente fundamentada e
competira à Assembleia Nacional; a querela inicial foi apresen-
tada por um terço dos Deputados em efetividade de funções;
a deliberação foi aprovada pela maioria de 2/3 dos Deputados
em efetividade de funções, sendo que após isso, foi remetida a
respetiva comunicação ou petição de procedimento ao Tribunal
Supremo e ao Tribunal Constitucional, conforme o caso.

– Aonde está o presumível criminoso e o seu advogado? – Per-


guntou o padre – Quero vê-los.

– Eis o réu, todavia, não tem outro advogado senão o amigo


Asael – Disse o juiz.

– ...Até o Presidente da República foi alvejado pelos gangs-


ters!? – Espantou-se o padre – Se o povo faz revoluções não tem
nada a ver apenas com as artimanhas do executivo, há um quê
de demagogia popular, afinal há golpe de Estado!...– Explanou
reticente o padre Asael – O Paraíso Leviatã é uma prisão para
tornar mártires as elites, um lugar onde o Presidente da Repú-
blica pode ser condenado friamente à morte indigna.

– Ah! – Tribunal Supremo e Constitucional... descubro tudo hoje!

Kennexiz Xavier 97
– O sofrimento da população é de bandidos a bandidos, não
de Presidente da República ao povo. Agora estou sabendo quem
desemprega os cidadãos, quem faz guerra, demole as casas do
povo, despeja a população das suas humildes residências, orienta
os seus bajuladores a maltratar o cidadão; não é o chefe do exe-
cutivo, mas sim, são as elites do controle social, feitos gangsters
que formam grupos de rixas nas prisões. Encerrem-me já este
truque mesquinho, de processos crimes contra o Presidente da
República Kinich Ahau, porém, todos são bandidos legalizados
pela lei que vocês mesmo criaram para controlar os mais fra-
cos. Aqui não há tribunal que faça justiça, tal juiz é bandido;
os militares, a polícia, os bombeiros são uma elite de bandidos
legalizados. Gostaria que as elites se voltassem para si próprios,
considerassem o que eles são diante do que existe à sua volta;
que se encarassem como um ser extraviado neste pequeno setor
do Estado, e que da pequena cela onde se acham presos, do ter-
ritório, aprendam a avaliar em seu valor exato a população e as
massas, os reinos, os cidadãos, as cidades e eles próprios. Quem
é o chefe de Estado diante do Povo? -O padre Asael, vendo que
o caso não acabava, despediu com um aceno o réu parasita, e
mudou prudentemente o curso do depoimento. Logo depois
levantou-se da mesa para dar audiência aos juízes do tribunal
supremo, e despediu todos os confrades.

– Adeus!... adeus! – Todos são bandidos – Terminou o discurso


o padre Asael; levantou-se e foi embora.

O juiz ficou muito surpreendido com a eloquência do padre


Asael. No entanto, bufou uma gargalhada e disse:

– És muito humano meu querido mago. Na tua presença pa-


receu-nos ter estado com Deus; és um homem magno, distinto,
maestro e falas com língua afiada como a espada de um Samurai.
Todavia, trazem-me gasolina e fósforos para queimarmos estes

98 Efeitos da Vida
malditos processos crimes contra a decência, o pudor, o amor,
a fraternidade, e a liberdade dos direitos humanos. Está prova-
do; nós todos somos bandidos, somos uma elite de bandidos, o
tribunal das elites não faz justiça, é uma casa que não passa de
um casino de prostituição. Uau!... Que Mundo de bruxas que não
pode vencer o mal com o bem!... – Culminou o Juiz.
Assim, rasgou-se o véu que separava as elites e as massas. Com
ou sem as intimidações de ouvido, enquanto a população vivia
sob a tirania, não deixava de se pronunciar sobre a necessidade
das elites devolverem o poder do Estado ao Povo de todas as ra-
ças, culturas, costumes, etnias e regiões. Com o processo-crime
instaurado contra o chefe de Estado Kinich Ahau e a intervenção
do padre Asael, o regime acabou mal, naufragou por água abaixo,
por causa dessa ideia sofista de que as elites são superiores às
massas devido a fatores, culturais, geográficos, à sua coloração
de pele ou a seus hábitos e costumes.
Vejam só! – Fizeram-nos muito mal...

Kennexiz Xavier 99
Capítulo IX
Colóquios

A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao des-


prezo da autoridade; o homem livre e rico suporta com impaci-
ência um governo injusto e despótico.
Thomas Moore

Era uma manhã de verão, quando o padre Asael vinha no seu


Land Cruiser a caminho do Tribunal Supremo para a sua paró-
quia. Enquanto ouvia uma música gospel no compasso da de-
pressão inerente à sua morte pressagiada por ele mesmo; falava
consigo e para si mesmo:
Realmente, Asael, eu destoaria, se na minha idade, me agastas-
se por ter de morrer em breve. Não seja como os anos que não se
dispensam de se agastarem com a sorte ou os azares que lhes toca.

Passava um pouco mais das dez horas quando chegou à pa-


róquia de São Luís de Gonzaga, onde parou num instante para
trocar de roupa e arquivar a sua licença de advocacia. Pois, ti-
nha pela frente mais quinze quilómetros de estrada e precisava
chegar a tempo para a reunião com as crianças em casa da Kali,
esposa do malogrado Alberto K. Era uma manhã quente e calma.
Cortou a cidade procurando um lugar para o pequeno-almoço
e descansar. Planeava comer alguma coisa leve, tomar alento e
pegar a estrada novamente lá pelas doze horas da tarde.
Próximo à saída da cidade parou num posto de gasolina e pe-
diu para encher o depósito do seu carro. Enquanto o bombeiro
fazia o seu trabalho ficou admirando o céu. Era um dia de sol
quase aberto e ambiente solarengo. Era possível deslumbrar a
sua magnitude, mas o seu brilho ainda não era total. Com a vis-

Kennexiz Xavier 101


ta da cidade vislumbrada em edifícios magníficos, era possível
qualquer cérebro perscrutante visualizar as maravilhas do uni-
verso. Sem o ofuscamento dos edifícios mais altos da cidade ele
podia ver quilómetros de estrada à sua frente.
Após abastecer, rodou por mais alguns quilómetros e parou
em um restaurante de beira de estrada. Pediu um prato feito
e enquanto comia reparou novamente no céu. As condições
de sinalização e visibilidades da rodovia eram muito boas. De
repente deu-lhe vontade de continuar. A estrada... o céu, tudo
continuava tranquilo e calmo. Todavia, no meio do nada, deu-
-se conta que estava no portão da casa do seu destino. Desceu
do carro, tocou a campainha; veio de lá do fundo do quintal o
guarda a abrir-lhe o portão.

– A paz esteja convosco! – Disse o padre – Meus filhos, a felici-


dade que vos traqueje sem tréguas; tenho estado a orar por vocês.

– Muito obrigada, vem com Deus estimado padre – Respon-


deu Kali.

– Avô padre faz muito tempo que não te vejo. Por isso, estou
perplexa, desvairada, inepta, quer dizer; sem ti, tudo ame-me o
medo – Falou Salomé.

Padre Asael: – Minha filha, divorcia-te do medo que te ama,


sinta-se solitária no meio da multidão, só assim vencerás os mis-
térios dos efeitos da vida.

Salomé: – Minha alma não pode sentir-se solitária, sou claus-


trofóbica; seria um atentado contra o meu coração.

Padre Asael: – Ainda insisto que ames a solidão, porque toda


a arte é fruto de uma imaginação nascida da solidão. É óbvio, a
pequena Salomé sabe que esta é a verdade...

102 Efeitos da Vida


Salomé: – Está bem, vou procurar um psicólogo comportamen-
tal para ensinar-me a pensar melhor e a controlar as emoções.
Em suma, o medo desnecessário terá que passar envergonhado
pela janela.

Seth: – Faz bastante tempo de certeza; procurei-te na paróquia


de São Luís de Gonzaga e estranhei não o encontrar.

Padre Asael: – É que não me achava na paróquia.

Seth: – Por onde andavas?

Padre Asael: – Andei a resolver casos sobre a vida do Estado,


das Elites, das massas e do controle social. Em suma, venho do
tribunal supremo e constitucional, onde havia querela e tinha- se
exarado um processo-crime contra o Presidente Kinich Ahau. O
povo e os gangsters procuravam fazer justiça.

Seth: – Entendo que Kinich Ahau cometeu injustiças contra


o Estado, porém, depois de arruinar o Estado, as suas injustiças
já danificaram e a justiça beneficiará o quê?

Padre Asael: – Nada, absolutamente nada. Já o velho ditado


dizia: quem retorna a atirar a pedra ao maluco, maluco é.

Seth: – Acho que falas com acerto, avô padre. Afirmo, que ja-
mais se deve proceder contra a justiça.

Padre Asael: – Jamais, por certo. Nem mesmo retribuir a in-


justiça com a injustiça, como pensam os revolucionários, pois o
procedimento injusto é sempre inadmissível.

Seth: – Parece que sim. Porque a meu entender, é sempre in-


justo causar danos a quem tenha praticado injustiça.

Kennexiz Xavier 103


Padre Asael: – Todavia, dar a cada um o que lhe é devido ou re-
tribuir o mal que nos fazem não é justo, é absolutamente injusto.

Seth: – Absolutamente injusto. Sim, porque entre fazer mal


na tentativa de se cobrar justiça a uma pessoa e cometer uma
injustiça, não há diferença nenhuma.

Padre Asael: – Concordas com a verdade. Em resultado disso,


não devemos retribuir a injustiça, nem fazer mal a pessoa alguma,
seja qual for o mal que ela nos cause.

Yetu: – Avô padre, esperava por ti para ensinar-me a conduzir


o carro.

Padre Asael: – Menino Yetu, eu não tenho ensinado os teus


manos a conduzir o carro, mas sim a conduzir a vida.

Yetu: – Avô padre, isto que dizeis não é verdade. É pura menti-
ra...Oxalá soubesses que não sou criança a quem mentires. Diga
sim ou não, não me venha com parvalhões de palavreados.

Padre Asael: – Meu filho, ainda és muito novo, precisas conhecer


e compreender os mistérios da vida. Deves crescer para conhecer
os fundamentos do universo. É isto que tenho vindo a ensinar – a
essência da vida e do universo, para criar o homem-consciência.

Yetu: – Desculpa!... Exaltei-me desnecessariamente, estou erra-


do, não podia exaltar-me; desculpa-me mesmo avô padre, pois,
está comprovado que as crianças são inconsequentes...

Padre Asael: – Não tem de quê, por isso existo. Meu filho sossega.

Eles continuaram a conversar com o padre acerca da origem do


Universo e de tudo quanto existe no firmamento. O momento

104 Efeitos da Vida


interessante foi quando Seth perguntou:

– Avô Asael, qual é a origem do universo e do ser humano?

Padre Asael: – Os povos Sumérios como os antigos indianos,


japoneses, egípcios e gregos acreditavam numa idade de ouro,
quando a Terra foi governada por deuses, depois heróis e reis
sobre-humanos. A lista de reis Sumérios mencionava cinco cida-
des existentes antes do dilúvio – Eridu, Bad Tibira, Larak, Sipar e
Supupaque. O pai dos deuses dos povos Sumérios era Anunnak,
que segundo a crença morava na constelação da grande Ursa
como sete brilhantes da mitologia egípcia significativamente na
direção de onde as astronaves vêm à Terra, ou melhor, Sol de
Alcione, Plêiades, etc.
Na cidade de Nipur, 150 km ao sul da Babilónia, atual Iraque-
Bagdad, foi encontrada uma biblioteca suméria inteira conten-
do cerca de 60 000 placas de barro com inscrições cuneiformes.
As traduções dessas escritas dizem que a Terra teve origem ex-
traterrestre devido à colisão de dois corpos siderais. Parte dos
destroços caíram nessa constelação e no outro corpo celeste –
Nibiru, o 12º planeta onde a vida teve início.
Avançaram no estágio da evolução dos Sumérios, acreditavam
que os seus deuses vieram de Nibiru, que completa uma volta em
torno do Sol a cada 3.600 anos. As tábuas dos povos Sumérios
têm informações precisas sobre os planetas do sistema solar. O
mais impressionante são os dados sobre Plutão; a sua composi-
ção química e orgânica.
Afirmavam que Plutão era na verdade um satélite de Saturno
que se desprendeu e ganhou uma nova órbita. Durante o pro-
grama Apolo, a NASA confirmou esses dados.

Seth: – Seria possível esse conhecimento há 3.000 anos?

Padre Asael: – É Provável; as neurociências têm fundamentado

Kennexiz Xavier 105


estes factos serem prováveis. Porém, a história diz que após 35
milhões de anos, Nibiru corria o risco de se acabar totalmente.
Então, como a Terra era o único planeta em condições favoráveis
para a sua continuidade – que tem 21% de oxigénio e 79% de
azoto capazes de gerar vida; com isso, fizeram misturas genéti-
cas entre primatas e a sua espécie. A história ainda relata que
com o passar do tempo, esses ET’s misturaram-se com o resul-
tado da mistura de espécies, gerando assim novas raças e etnias.
Uma delas era chamada filhos dos deuses tão citada no livro do
Génesis, copiado no livro dos segredos de Enoch. Eles também
advertiram sobre os ajustes que o planeta Terra iria passar. No
caso, o planeta Nibiru passaria muito perto de nós e a atração
gravitacional iria provocar cataclismas de grandes proporções,
provavelmente até o final dessa Era Aquariana.

Seth: – Onde é que o avô Asael pesquisou este conhecimento


tão importante, e que o mundo desconhece?

Padre Asael: – Pesquisei este conhecimento que infelizmente o


mundo ignora em: Zecharia Sitchin , Coleções Crónicas da Terra
– Génesis Revisitado. Citado por Ângela Cristina De Paschoal.

Kali: – Padre, já estou a sonegar, porque estou muito cansada,


vou dormir. Até amanhã a todos.

Padre Asael: – Até amanhã querida Kali. Dorme em paz.

O padre Asael ficou na sala com os pequeninos, a contar histó-


rias, lendas, mitos, e ficções relativos ao bem e o mal, o poder e o
amor, e depois das quase dez horas e meia da noite despediu-se
das crianças tecendo as ultimas considerações:
– Conheçam as condições sob as quais se compreende os efei-
tos da vida, sob as quais assenta a essência do universo, sob as
quais devem a autorrealização e necessariamente compreende-

106 Efeitos da Vida


rem-se a vós mesmos – conheçam-se muito bem. Para suportar
suas seriedades, suas paixões, suas crenças, é necessário possuir
uma integridade intelectual levada aos limites extremos sem
medo. Estejam acostumados a viver no ápice das montanhas
neurais – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de
si. Não se detenham em superstições, astrologias e crenças in-
fundas tornando-se indiferentes; nunca perguntar se a verdade
será útil ou prejudicial... Possuam uma inclinação – originária da
força racional – para questões que ninguém possui coragem de
enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto,
pensar o que o vulgo vê sem capacidade de enxergar a verdade.
Tenham verdadeiramente uma experiência de sete solidões. Ou-
vidos novos, para música nova. Olhos novos e clínicos capazes
de ver o mais distante. Uma consciência nova para verdades que
até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em
grande estilo – acumular a sua força racional, o seu entusiasmo e
pensar diferente... Auto reverência, autorreferência, autoestima,
amor-próprio, absoluta liberdade para convosco...

Kennexiz Xavier 107


Capítulo X
Perseguição sem Tréguas

A compaixão posta em prática em nome dos malogrados e dos


fracos é mais nocivo que qualquer vício.
Friedrich Nietzsche

Depois de passado aproximadamente um mês, Seth resolveu


visitar a casa do juiz Osíris Xis, com a pretensão de falar-lhe a
versão que ele fez do ditado do seu pai; “a vida não é nada mais
do que uma corrida para a morte, um percurso para as cons-
pirações, os azares e deceções”. Porém, ele transformou-o em,”
a vida tem variadíssimas razões do nada; não é nada mais do
que nada, é uma fantasia sideral e espiritual no meio do nada”.
Enquanto ia andando pela rua da cidade, a paisagem fantástica
gerava-lhe no cérebro neurónios perscrutantes que o induziam
ao monólogo íntimo: – Denomino uma mente conspurcada e
corrompida, um animal irracional, uma espécie humana, um in-
divíduo esquizofrénico, quando perde os seus instintos e a razão,
quando escolhe, quando adota o que lhe é nocivo. Uma consci-
ência corroída pelas lendas e mitos, dos “sentimentos siderais e
espirituais”, dos “ideais da efemeridade humana” – e é possível
que deva ter de escrevê-la – praticamente explicaria por que o
homem é tão psicopata e as elites são absolutamente degene-
radas. A própria vida apresenta-se a mim como um instinto de
resiliência, para sobreviver às vicissitudes da seleção natural, para
a acumulação de forças efémeras, para o poder terráqueo: sem-
pre que há obsessão do poder ocorre o desastre social. Afirmo
que toda a reputação da mais alta realização humana carece de
valores morais e éticos – que os valores de decadência, de niilis-
mo, agora prevalecem sob as mais sagradas teorias.

Kennexiz Xavier 109


Mas, infelizmente, quando bateu à porta da casa do juiz Osíris
Xis, apercebera-se que a casa passara a ser a prisão domiciliar do
juiz e da sua família, por este ter soltado os presos e o presidente
Kinich Ahau. Os gangsters e as elites acusavam-no de não ter
julgado com imparcialidade e ter sido infeliz ao seguir os ensi-
namentos do padre Asael. Ao mesmo tempo procuravam pelo
Padre Asael por se ter feito o juiz e advogado do século, que
julgou com equidade – que acusava sem cerimónias- as elites,
os gangsters, os militares, os polícias, os bombeiros todos estes
serem uma cambada de bandidos...
Então Seth aproximou-se e bateu à porta.

– To... ,to... ,to... ; dá licença nesta casa!

– Não é de sua majestade juiz Osíris Xis? – perguntou Seth.

– Não insista à porta, senão morre – ouviu-se de dentro uma


voz aguda e rouca de um soldado.

– Quem és tu? – interrogou furioso Seth.

– Sou um soldado destemido, preparado para matar. Que jurou


com o sangue do pai e da própria mãe. Não volte a perguntar
nem mais nem meio nada – Ameaçou o soldado.

– Cuidado soldado! – O soldado devia estar também prepa-


rado para morrer. Diga-me imediatamente se esta é a casa do
juiz Osíris Xis. – Ripostou Seth.

O soldado abriu a porta com a arma apontada à cabeça de


Seth. Tinha a arma bala na câmara. Quase que puxava o gatilho...
Porém, o juiz Osíris Xis gritou afónico: – Tu soldado vai morrer
cedo, porque eu sou digno das palavras e ensinamentos do santo
padre. Qualquer pessoa deveria poder visitar-me.

110 Efeitos da Vida


O soldado não deu ouvidos à voz vitimada do juiz. Como mui-
tos outros predadores. A etapa final é a mais difícil.
O soldado foi-se aproximando, os pés instáveis sobre o degrau.
O adolescente Seth parecia extraordinariamente calmo agachado
no solo, os braços erguidos sobre a cabeça. O soldado apontou
direto para o peito dele, ponderando se deveria simplesmente
atirar e acabar logo com o assunto. Não. Ele sabe onde está o
padre Asael. Sabe onde está o velhaco revu. Preciso obter essas
informações!
Do clarão do pavimento, Seth observava o agressor. Não pôde
deixar de achar graça e ao mesmo tempo sentir uma certa pena
dele. O soldado era ameaçador e corajoso, isto, ele já comprovara.
Mas também não tinha muita prática por ser um policial novato
e nunca passou em frente do combate, era só mais um guarda
dos chefes de gabinete. O que também havia sido comprovado.
Gangsters sem experiência era suicídio. Havia regras de sobrevi-
vência. Regras antigas. E o soldado estava a quebrar todas elas.
Você tinha uma vantagem, o elemento adulto, armado e en-
contrado na trincheira. E desperdiçou-as todas. O soldado estava
indeciso, provavelmente esperando reforços ou talvez um ato
falhado do adolescente Seth que deixasse escapar informações
decisivas sobre o paradeiro ou endereço do padre.
Nunca faça um interrogatório antes de neutralizar a vítima.
Um inimigo encurralado é um inimigo mortífero.
De novo, o soldado estava falando. Sondando. Manipulando
a arma.
O Seth estava a ponto de cair na gargalhada. Este não é um
daqueles miraculosos filmes de Hollywood, nada de longas dis-
cussões com a arma na mão antes do tiro final.
Este é o final. Agora. Sem desgrudar os olhos do soldado, Seth
foi estendendo as mãos bem devagar até encostar-se na parede.
Olhando direto para frente, encostou-se com as costas e a mão
sempre ao ar. E fez a sua jogada. O movimento foi absolutamente
inesperado, veloz e assassino. Por um instante, o soldado achou

Kennexiz Xavier 111


que as leis de Newton haviam deixado de existir. Seth pareceu
pairar no ar enquanto as suas pernas se desdobravam em um
salto tal qual um leão a devorar a sua vítima, as botas atingin-
do certeiro o peito do soldado, empurrando o seu corpo para
dentro da casa arrastando consigo o portão. O soldado sentiu
o tacão das duas botas no peito e mais um murro na sua testa
atirando-o para trás com um chute mortal. Caiu com a cabeça
no chão de mosaico, quebrou o crânio frontal. Com o sangue
escorrendo-lhe pelo rosto, o soldado compreendeu tarde demais
o que tinha acontecido. O instinto de sobrevivência veio depois.
Notou que não segurava mais a arma. Ela tinha caído. Resiliente,
mexia-se o tempo todo, mas, alucinado de certeza. Não fazia a
menor ideia de onde viria o próximo golpe. Precisava encontrar
a arma! Desesperadamente, suas mãos procuravam às apalpa-
delas. Mas, quando ficou mais ou menos consciente entendeu
que Seth já havia ido embora. E admirou-se como é que ainda
estava vivo...
Seth correu até chegar a casa do padre Asael. Norteava-lhe no
espirito uma tendência de defesa e salvaguarda.
– Avô Asael... Avô Asael!... – Seth entrou a inspirar e expirar
fundo.

– O que se está a passar meu filho!? – Perguntou o padre Asael.

– O juiz está em prisão domiciliar, a ser agredido pelo conluio


perpetrado pelos gangsters e as elites, deram-me a entender
que o caso é de vós dois e outrossim, podem vir acolchetar-te
e prender-te. É melhor sairmos daqui imediatamente. Julgo que
desta vez as elites partem para a desordem e a perseguição sem
tréguas. – Disse Seth.

– Não temo os meus semelhantes. Lembre-se que eu saí da


paróquia para mudar o mundo, e abandonei o sacerdócio por-
que enquanto jovem eu pensava: “As glórias da paróquia, este

112 Efeitos da Vida


corpo saudável, esta alegre juventude! Que significam para mim?

– Pensava eu.“ Um dia, poderemos estar doentes, ficaremos


velhos, da morte não há escapatória. Orgulho da juventude, or-
gulho da saúde, orgulho da existência; – todas as pessoas sensatas
deveriam deixá-los de lado. Foi assim que deixei o meu orgulho.”

– Um homem, lutando pela existência, procurará naturalmen-


te auxílio – Continuou o padre Asael. – Há duas maneiras de se
buscar auxílio: a correta e a errada. Procurá-lo de forma errada
significa que, enquanto se reconhece que a doença, a velhice e
a morte são inevitáveis, busca-se ajuda entre a mesma classe de
coisas vazias e transitórias.
Procurar ajuda de maneira correta, reconhecendo a verdadeira
natureza da doença, velhice e da morte, é buscá-la naquilo que
transcende todos os sofrimentos humanos. Nesta paróquia vi-
vendo uma vida de prazeres, pareço estar procurando auxílio de
maneira errada, pensava eu. Aquieta-te! O meu destino quem
manda, é o rei... Não te incomodes com todos estes aconteci-
mentos. Jamais haverá no mundo uma fortaleza para mim nem
um esconderijo que me poderá livrar da minha morte que já
é um destino traçado desde o falecimento do Dr. Alberto K.
Todavia, tu suscitas dentro de ti o mais radical significado de
varão e homem.

– Avô padre, qual é o mais radical significado de varão e ho-


mem?

– A etimologia varão ou homem é “Vir”, em latim, significa


“varão”, “homem”. Ou seja, “virtu”, neste “sentido da Renascença
segundo Da Vinci”, designa qualidades viris como força, bravura,
vigor, coragem, e não humildade, compaixão, medo... é isso que
deves ser, salva-te a ti, os teus irmãos e o juiz Osíris Xis. Tens a
força e arma, vá e faça escapar o juiz da morte, porém, a tua his-

Kennexiz Xavier 113


tória começa hoje, agora mesmo meu filho. – Respondeu o padre.

– Este tipo de homem que o avô padre acha mais valioso já


existiu bastantes vezes no passado: mas sempre como um afor-
tunado acidente, um degenerado, como uma exceção, nunca
como algo deliberadamente desejado. Com muita frequência
esse foi precisamente o tipo mais temido, a espécie mais teme-
rária; até ao presente foi considerado praticamente o terror dos
terrores tal qual os gangsters e as elites astutas para apropriar-se
do controle social; – e devido a esse terror, o tipo contrário foi
desejado, cultivado e atingido: o animal doméstico, o animal de
rebanho, aquele que os niilistas dizem a doentia besta humana:
A humildade, a compaixão e o altruísmo. Portanto, não quero ser
político, para evitar ser perseguido pelas elites; já os mais velhos
disseram, ché menino, não fala de política – disse Seth.

– Meu filho, o problema que aqui apresento não consiste em


voltar a discutir o lugar da humanidade na escala dos seres vi-
ventes; apelo apenas para a lei da sobrevivência, porque as elites
querem tomar conta dos mais humildes homens, fracassá-los e
tomar posse deles. Não devemos enfeitar nem embelezar as elites:
eles travam uma guerra de morte contra a população mais fraca,
contra o cidadão indefeso, este tipo de homem inferior não faz leis
que o defendam, as elites anatematizam todos os instintos mais
profundos desse tipo de homem, destilam os seus conceitos de
mal e de maldade personificada a partir desses instintos. Sai fora
daqui, vá salvar o juiz da morte indigna – retorquiu o padre Asael.

– Eu entendo a degeneração das elites. Vou salvar o juiz, vou


sim escrever o meu nome na arena política, porque acredito ser
necessário dizer quem consideramos nossos adversários e lutar
contra eles: as elites, os gangsters e tudo que tem sangue de elite
correndo em suas veias – essa é toda a nossa revolução... É ne-
cessário ter coragem, astúcia, força para combater essa ameaça

114 Efeitos da Vida


de perto, melhor ainda, é preciso arriscar e sacrificar a vida para
a mudança e a liberdade. -Disse Seth.
Seth beijou afetivamente a mão do padre, bateu-se com a palma
da mão na testa e acenou um adeus de sobrolho. Desapareceu da
vista do padre num retiro miraculoso, corria a orar, a pedir que
Deus o ajude e lhe dê cobertura. Assim que chegou, ficou apla-
cado no jardim do quintal do juiz Osíris Xis; a ouvir atentamente
os movimentos que vinham de dentro. Mas, de dentro ouvia-se
apenas a voz do juiz que amaldiçoava as elites: -Vocês elites são
uma merda. Amaldiçoados sedes vós até à eternidade. Vocês são
degenerados e pervertidos de certeza, não sabeis viver para o fim
pelo qual fostes feitos. Todos os dias vejo-vos desmatando flores-
tas, esquecendo que são elas os pulmões do planeta e que todos
nós dividimos o mesmo ar. Vejo-vos a construir indústrias químicas
envenenando os nossos rios, as nossas águas, esquecendo que to-
dos bebem da mesma água. Vejo-vos a disseminar o ser humano, a
robotizar os cromossomas, esquecendo a sua identidade. Vejo-vos
indo às guerras, colocando-se irmãos contra irmãos, esquecendo
que matam os seus semelhantes por interesses políticos que nem
mesmo conhecem...
De sobressalto, Seth ouviu a porta a arrastar-se, a abrir-se leve-
mente, saíam de dentro da casa três soldados arrastando a esposa
e a filha do juiz Osíris Xis para serem violadas perversamente. Seth
conturbado com os factos transfigurou-se miraculosamente num
ser sobrenatural, moveu-se com presteza e atirou-se como um fu-
racão contra os soldados; derrubou-os num fechar e abrir de olhos.
Como o fez ninguém conseguia explicar.

– Não estou para matar ninguém, absolutamente que não, mas,


libertem esta família indefesa, que pranteia como um cosmos sem
valor, abandonado por Deus – disse Seth.

Os soldados olharam estupefactos para a reverência do adoles-


cente, pediram clemência, disseram que também eram inocentes

Kennexiz Xavier 115


e indefesos; que cumpriam apenas ordens superiores e consequen-
temente puseram-se em fuga. Os soldados enquanto fugiam per-
guntavam-se entre eles: Quem será aquele rapazinho? Não é um
adolescente qualquer, ele tem superpoderes. Deve ser o arcanjo
do padre Asael. O juiz fez menção dele.
Seth agarrou nas mulheres e foram para dentro da casa. Abra-
çou com afeto o juiz e disse-lhe: – Pequenas elites, reis, príncipes
e presidentes dominam enquanto a maioria da população social
se torna escrava dessa cegueira total do politiquismo. É hora de
se enxergar, encontrar-se e sair da escravidão politica, das artima-
nhas da inconsciência e rebeldia dos políticos. É hora de despertar,
combater as elites, quebrar as algemas da escravidão e do medo
porque o Estado não é dos cegos.

– Quem te disse que eu estava em prisão domiciliar e como con-


seguiste livrar-me destes malvados? – Perguntou o juiz surpreendido.

– Já te disse que é hora de despertar, combater as elites, quebrar


as algemas da escravidão e do medo porque o Estado não é dos
cegos. – Disse Seth. – Sou um homem geneticamente forjado de
força, bravura, vigor e coragem. Estou seguindo o percurso do meu
pai. Quero viver segundo a prescrição social e enxergar os motivos
da vida – O de ajudar os desolados, falar a favor do mudo, esten-
der a mão aos necessitados, abrir o coração aos aflitos e contritos
de espíritos. Vamos fora daqui antes que outros malfeitores nos
encontrem. – Afirmou Seth.

Saíram, foram andando na pretensão de encontrar refúgio na


casa do padre Asael. Mas, a perseguição era certeira e frequente.
Constataram logo ao chegar que o padre já fora raptado pelos
opressores. E as ruas estavam alagadas de multidões.

– Gente, vocês podem explicar-me onde está o padre Asael? –


Perguntou Seth.

116 Efeitos da Vida


– Ele foi raptado pelos policiais das elites-respondeu a gente- eles
disseram-nos que estão a fazer uma caçada às bruxas. Disseram, que
já assassinaram friamente o juiz Osíris Xis e faltava o infeliz padre
que se auto denomina Revu e gangster. Disseram outrossim, que
iam matar o padre porque este acusou em tribunal que o governo
e as elites são uma barricada de bandoleiros. Também acusou que
o governo terráqueo é uma merda.

– Aonde o levaram? – Voltou a perguntar Seth.

– Para onde o levaram não sabemos. – Respondeu um homem


ancião. – Seth, os nossos sentimentos de pesar. O governo terrá-
queo, na minha pobre mas forte opinião, não é governo para a
promoção da paz, concórdia, justiça, segurança e bem-estar social.
É um governo essencialmente para a mais alta realização das elites,
de que o Estado é obrigado a ser apêndice. Aqui quem fala a ver-
dade, dá a sua opinião sobre as elites e diz o que pensa, conquista
inimigos; no entanto, morre.

– Juiz Osíris Xis, eu ainda te aconselho a emigrares para fora da-


qui, você e a sua família. Eu fico dentro daqui para investigar aonde
levaram o padre Asael, eu prometo encontrá-lo mesmo que seja
necessário morrermos juntos. – Disse Seth.

– Não, não aceito abandonar-vos agora. Se tu podes morrer por


nós eu também posso por vós. Sou o mentor desta confusão to-
da, aliás; fui eu quem convidou o padre... não vou partir para fora
daqui, de modo nenhum. – Respondeu o juiz.

– Não seja recalcitrante, meu penoso juiz, pegue na sua mulher


e desapareça para fora daqui. Uma vez que isto já aconteceu com
o padre, aconselhei-o a foragir e ele não me deu ouvidos; todavia,
não quero mais me enganar.

Kennexiz Xavier 117


– Pensa bem meu filho, como vos abandonar, quando estamos
todos em sarilhos? Não posso, não, realmente não... – Retorquiu
o juiz.

– Juiz... mas, meu juiz, não seja renitente. Saia fora daqui, desa-
pareça deste Estado malevolente praguejado de gentes parvas.
Que te fique bem claro que se te raptarem de novo, não te irão
algemar mais nos braços, mas sim no pescoço; vão cortar-te a
garganta com baionetas. Não abuse da sorte, fuja agora mesmo.
Não quero viver mais em desaforos nem pegar o teu sangue. Saia
daqui por favor, admita abandonar-nos. – Disse Seth.

– Entendo a sua aflição... está bem meu filho, viajo amanhã


nas primeiras horas do dia. Oxalá venças as elites, meu gangster
destemido! – Falou o juiz.

– Farias o melhor – Retorquiu Seth – Juiz Osíris xis, quem são


os gangsters e quais são as suas ideologias?

– Você é um gangster perfeito meu filho... os gangsters são,


anarquistas, revus, homens sem pátria e sem Estado; a cor da sua
bandeira é negra. Eles são revolucionários solitários, ou o peque-
no grupo da fraternidade anarquista, que em seu gesto heroico
atacam sem cessar os símbolos mais evidentes da opressão das
elites: os integrantes do Estado opressor, as elites. Eles, os gangs-
ters, utilizam-se da violência para desmantelar tudo aquilo que
representa a autoridade secular ou religiosa, seja a do rei, do
príncipe, do presidente ou do papa, ao mesmo tempo em que
oferecem, através de atentados espetaculares, um exemplo cora-
joso para que os humildes, camponeses e operários, se insurjam
contra a ordem vigente que lhes é madrasta. Eles acreditam que
enquanto existir o Estado não há homem livre nem liberdade.
Desta forma, o dever do revolucionário é destruir inteiramen-
te as bases do Estado. O melhor governo seria aquele formado

118 Efeitos da Vida


por um infindável número de células gangsters anarquistas que
ascendentemente formariam uma federação mundial perfeita.
– respondeu o juiz. – Muito obrigado, pela explicação. Adeus!...
Anarquista. – Disse Seth – Quem faz, pois, a política num Esta-
do de gangsters? O cidadão! Quem deveria fazê-la? Igualmente
o cidadão.

Kennexiz Xavier 119


Capítulo XI
Martírio

Não há força com mais força que possa martirizar um revolu-


cionário destemido sem se ferir.
– Você nunca saberá os danos de uma traição a menos que
seja traído por alguém que você está tentando amar, mas não
cede por ilusão!
Kennexiz Xavier

– Ontem, o Povo Lossolino assistiu a mais uma barbaridade e


covardia das elites, ao raptarem o padre Asael e consequente-
mente acusá-lo de inimigo do povo. – Disse Seth. Vou contar-
-vos um episódio que meu pai me contou; aconteceu a 21 de
Novembro de 1984 no Guengue.
Nessa altura, uns meses antes da independência de Lossolo
(Por volta de Julho e Agosto de 1984), as elites prenderam vá-
rios Lossolinos e vários Mbotocomas pelas mais variadas razões.
Uns porque, alegadamente, tinham colaborado com os gangs-
ters, outros por terem roubado dinheiro, e outros sem mesmo
nenhuma razão. Todos esses prisioneiros passaram mal, muito
mal mesmo: fome, sede, coronhadas, chapadas, pontapés, ve-
xames de todo o tipo, superlotação dos locais onde estavam
presos, ausência total e deliberada de higiene nos locais da sua
detenção, fuzilamentos em situação de total ausência de culpa,
etc., etc. Aconteceu com milhares e milhares de Lossolinos, vários
Mbotocomas e cidadãos de outras nacionalidades.
Mas, no dia 21 de Novembro de 1984, 4 dias após a indepen-
dência proclamada unilateralmente, as elites pegaram em 12
desses Mbotocomas a quem intitulou de “inimigos do Povo,
anarquistas e gangsters” e apresentou-os à imprensa nacional e

Kennexiz Xavier 121


internacional. Entre eles estavam Alberto K., meu pai, Fernandes
Linus e Caló Hallaka.
Nessa altura, esses prisioneiros estavam num Campo de Reeduca-
ção que se situava na Kalima e foram daí levados até às traseiras do
Palácio do Governo, no Kalui-Yo-Sonde. Aí chegados, penetraram
em diversos corredores até chegarem a uma sala onde havia uma
mesa cheia de gravadores e de microfones, onde foram alinhados.
Depois abriram as portas e fizeram entrar uma quantidade enor-
me de jornalistas Lossolinos e estrangeiros.
Então, aí mesmo, o Comandante Xaví Jú Ngongo, na altura Porta-
-Voz do Estado-Maior dos avatares explicou como é que aqueles
“inimigos do Povo” funcionavam. Disse que à cabeça da conspi-
ração estava o Coronel Sebas e Benjamim Cutassi e recebiam de
banqueiros Mbotocomenses e de outras nacionalidades. Segundo
eles, tudo isso tinha sido organizado pela Cília. Assim, todos eles
tinham sido agentes da Cília.
Incrível! Os camaradas nem se tinham lembrado que naque-
la altura, antes da independência, não podiam sequer prender
ninguém. Mas, prenderam-nos, maltrataram-nos e criaram uma
grande mentira para que a comunidade internacional engolisse.
Os tais “inimigos do Povo” mal se conheciam entre eles e nem
tinham ligações nenhumas à Cília! Então, um jornalista Guenguia-
no quis saber dos prisioneiros como é que tudo tinha acontecido
e um dos prisioneiros respondeu simplesmente: não sabemos de
nada. Estamos a ouvir isso pela primeira vez. Que saibamos, nunca
tinha existido um programa desses.
Nisto, gera-se uma confusão na sala com vários jornalistas a
dizer que não podiam publicar aquilo, as elites tiveram de retirar
rapidamente os “inimigos do Povo” daquela sala para eles não ex-
plicarem a sua versão. Foi uma vergonha!
Eu não trago essa memória porque quero atiçar ódios ou coisa
parecida. Trago isso porque o próprio governo continua a fazer a
mesma coisa que fez no passado. Nessa altura, enganou muitos
Lossolinos que pensavam que as elites estavam a dizer a verdade,

122 Efeitos da Vida


mas não estavam, estavam em prol do povo, mas na verdade es-
tavam a martirizar o povo. Eu não estou a inventar nada. Vários
protagonistas desta história ainda estão vivos: Jú Ngongo, Xaví,
Fernando Linus, Caló Hallaka, entre outros.
Por isso, meus amigos saibam todos que com as elites a liber-
dade de imprensa será sempre assim: uma mentira, uma falácia,
uma manipulação. É por isso que o que temos mesmo de fazer é
denunciar as manobras das elites contra o Povo Lossolino. Como
essa de raptar o padre Asael por dizer a verdade sobre aquilo que
ele pensa e sabe, no entanto, acusá-lo de inimigo do povo. É por
isso, que não é exagero nenhum se disser que essas elites – que
fazem isso são uns verdadeiros bandidos. Ora, Lossolo é um país
sério e não merece continuar a ser governado por bandidos orga-
nizados para oprimir os outros cidadãos.
Os gangsters e os anarquistas, sim! Só esses podem unir todos
os Lossolinos! É pois preciso denunciar as manobras das elites que
visam manter o Povo na ignorância para se enriquecerem.
Era a manhã do dia 30 de Setembro de 2005. O sol já se ergue-
ra no céu, e despejava o seu esplendor dourado sobre a cidade.
Os soldados e o velho padre Asael, algemado adentraram aquele
portão da escola, através do qual rolara a corrente do triunfo, e
passaram muitos cativos do sul para serem massacrados na praça
de Fevereiro, como o clímax glorioso do bárbaro triunfo das elites.
O ambiente era abrasador! Pois, aquele dia era um monstro. Só
uma pessoa era o centro das atenções- O padre Asael sofria as
agruras duma espoliação tormentosa. Um soldado vinha acirrar-
-lhe de um lado, outro daquele lado. Humilhavam-no melindro-
samente, enquanto macaqueavam os seus gemidos amargurados;
Tudo por causa de uma verdade que se tornara disparate aos ou-
vidos das elites.
Para amedrontar o povo, os gangsters, os revolucionários e todos
os livres-pensadores; as elites remeteram convites a toda população
da cidade para virem assistir o escárnio, a perversidade, a humi-
lhação que um homem ousado sofre ao se meter com as elites. –

Kennexiz Xavier 123


Ninguém deve chamar bandido às elites, desacatar as autoridades
nem tampouco atentar contra a sua dignidade.- As elites estão
para a ordem e o bem-estar social. – Diziam os sipaios das elites.
Por sua vez o povo temerário solidarizou-se com o padre e
aceitou o convite das elites para exigir a justiça, a isonomia e a
Eleutéria. Compareceram de todos os pontos da cidade gangsters,
entidades revolucionárias, os filhos petizes do Dr. Alberto K., Seth,
Yetu, Salomé e dentre outros que vinham para dar uma lição de
humanismo e altruísmo às elites; enquanto marchavam, recitavam
a poesia de Kelps sob título:

UMA SÓ NAÇÃO

Respiramos o mesmo ar.


Vivemos em baixo do mesmo céu,
Forrado de quasares estelares iluminados pelo Sol,
Pela Lua,
Em baixo do mesmo teto,
Em um único Universo.
Bebemos a mesma água.
Nossa essência vibra a mesma cor,
O que nos direciona e conduz é a lucidez e o Amor
Estrelas binares.
Imensos quasares,
Via Láctea,
Reluz e seduz.
Viajores do infinito,
Percorremos neste azul,
Este orbe de granito,
Uma só nação sem sexo, cor ou religião.
Sem fronteiras, sem armas,
Sem barreiras,
Sem bandeiras,
Batemos como um só coração.

124 Efeitos da Vida


Os soldados ficaram satisfeitíssimos ao verem a multidão. E
dirigiram-se à multidão dizendo: -Este será o fim de todo aque-
le que afrontar as elites; que se achar gangster, revolucionário
e anarquista. Vai ser crucificado publicamente de patas ao ar e
por fim decapitado e esquartejado. É assim que vai morrer este
velhaco padre... esse tem de receber o prémio na proporção do
martírio; visto que, queria ganhar por todos, mas vai ser ironi-
camente o exemplo dos desgraçados que deseja pagar por eles.
Porem, Seth interrompeu a dizer; meus amigos, os chibates
sanguíneos, a injustiça que está derramando o sangue do ge-
neroso padre, também está deleitado; porque esperam num
breve espaço e curto de tempo ensanguentar os corpos que os
comandam para chibatar e vergastar outrem. Entretanto, doa a
quem doer! – Neste momento de agruras despem o meu mal-
dito medo e meço-me...Não são somente os fracos que choram,
os mais destemidos e fortes... Sou criança mas muito temerá-
rio transforme-me também em gangster e revolucionário; serei
obrigado a ser vingador e sanguinário pelas vossas artimanhas
e tiranias. Hei-de vingar-me de corpo, sangue e alma por todos
os martirizados... porque alguém já dizia, que há duas razões
para as pessoas mudarem; ou elas aprenderam demais ou elas
foram machucadas demasiadamente. Quando o meu maestro
adormecer, lutarei pela justiça, isonomia e democracia plena.

– Meu amigo, és somente um frustrado, sem orientação, sem


sucesso nem realização social. As tuas revoluções aqui não pe-
gam; nós não tememos nem toleramos frustrados como você,
vamos massacrar-te. – Disse o sargento-mor.

– Massacrem-me lá como já têm feito durante a vossa história


de ambição, injustiça e covardia. Sou um adolescente ousado,
não tenho medo da morte nem do martírio, porque acredito
que o meu povo merecerá a minha morte pela sua liberdade.
Todavia, frustrados são vocês que não se contentam com o que

Kennexiz Xavier 125


são. E de tanta obsessão pelo poder confundem que vocês não
são o Estado. Memorizem a verdade, a verdade é esta, as elites
não são o Estado, quando as elites morrem o Estado continua.
– Disse Seth.

– Não achem nada!... – Disseram em uníssono os sipaios. – Povo


fiel às elites e ao governo, ignorem os palavreados deste maroto.
Este rapaz está perdido no pranto e divido no antro.

– Não estou no que pensam nem sobradamente louco. Estou


em pleno rigor do juízo. Estou cônscio, vivo e estou por excesso
firme, duro e perigoso...- Falou Seth. – Os efeitos da vida é que
não me horrorizam...

– És claramente doido, seu filho da puta. – Retorquiu furioso


o sargento-mor. – Não sabes que és muito maroto e sem no-
ção do que dizes?- Seu asno, gangster de merda, filho de família
morta... chucha da tua tia mas é nas costas.

– Para crerem no que digo, tentem pôr um dos vossos dedos


no corpo do padre. E toquem-me só num dos fios do meu cabelo
para verem o diabo a assar sardinha. Eu, filho da puta, decerto,
hei-de julgar-vos. Considerem isto, por horror ao sofrimento, o
valor se renuncia. – Disse Seth.

– Seth vinga a tua vida, a dos teus irmãos e de qualquer pessoa


indefesa que estiver ao seu alcance e, não te preocupes comigo,
que já estou com o destino traçado há muito... e quanto aos
meus assassinos martirizem-me já porque é chegada a minha
hora. Vocês vão sorrir comigo a bom rir e a multidão vai chorar.
– Retorquiu o padre Asael.

– O que quer dizer com isto velhaco?- Vocês vão sorrir a bom
rir comigo e a multidão vai chorar... Também já deve estar louco

126 Efeitos da Vida


de agonia; não é? – Questionaram-se os sipaios.

– Não, não estou louco nem sobejamente agoniado, de modo


nenhum. Queria dizer somente que é chegada a hora do meu
destino, da vossa glória e do inferno. Visto que dos heróis mar-
tirizados nunca se esquece a agonia.

– O senhor quer aclarar-nos que o estupor do teu rapaz vai


seviciar-nos e julgar-nos por ti?

– Nem penses! – Disse o sargento-mor.

– Já vos elucidei que ele não se vingará por mim. Mas por ele
mesmo e pela sociedade adveniente. Todavia, vingar-se-á para
exigir das elites uma sociedade mais humana e fraterna. Promo-
ver a verdade e exterminar a mentira, a corrupção, o estelionato,
os crimes hediondos nos Estados. Tenho muita pena e dó dos
nossos políticos e das elites... extremamente pré-digeridos que
sempre sofreram de Esquizofrenia, Ataque de pânico, identidade
dissociativa e Transtorno cérebro-encefálico. Que pensam que
quando morrem o Estado morre com eles; e portanto, esque-
cem que quando o chefe de Estado morre o Estado continua!
– Retorquiu o padre Asael.

– Oh gente! Não podemos considerar o juízo escangalhado


deste velhaco. Nós vivemos num país democrático e de direito,
onde há separação de poderes e um parlamento representativo...
Vocês não acreditam nele! Não é? – Questionaram os sipaios.

– Nós acreditamos sim. O maestro padre está certíssimo, so-


mente ele diz a verdade; porque já dizia um grande ativista, se
não há comida quando se tem fome, se não há medicamentos
quando se está enfermo, se há ignorância e não se respeita os
direitos elementares das pessoas, a democracia é uma casa vazia,

Kennexiz Xavier 127


ainda que os cidadãos votem e tenham parlamento. Todavia, vós
inventastes um sistema cujo ridículo entra pelos olhos: o mal-
feitor bem aboletado na vida e com a família a prosperar devia
naturalmente rir-se de vós... As elites nunca se arrependem da
úlcera asquerosa que causam ao povo – Replicou o povo.

– Ôpa! – Então estamos quites! O povo está iludido, tem uma


considerável paixão e adesão aos anarquistas. Vocês vão ser mar-
tirizados com os anarquistas. – Disseram os sipaios.

– Sinceramente não entendo porque é que as elites se preocu-


pam em serem republicanos e bons patriotas, se nunca o serão,
como já dizia um pensador; um cão não pode levar dois ossos ao
mesmo tempo, ninguém pode levar a mão à boca falando com
respeito, curvar-se, ajoelhar-se, saudar e, enfim, comummente,
render um culto supremo a dois senhores e agradar os dois... a
Pátria é um conjunto de várias famílias; e, como se sustenta co-
mummente a própria família por amor-próprio, quando não se
tem um interesse contrário pelo mesmo amor-próprio se sus-
tenta sua cidade ou sua aldeia que se chama sua pátria. Quanto
mais essa pátria se torna grande menos é amada, porque o amor
repartido se debilita e é impossível amar enternecidamente uma
família muito numerosa, que apenas se conhece. Aquele que se
queima na ambição de ser edil, tribuno, pretor, cônsul, ditador,
grita que ama a sua pátria, e não ama senão a si próprio. Portanto,
a república outrossim é uma elite de bandidos. – Retorquiu Seth.

Os soldados tendo ouvido pujantemente Seth, enfureceram-


-se. Cheios de acinte pelos anarquistas e pelos gangsters que
apoiavam Seth; começaram então a fuzilar o povo. Iniciaram a
balear a perna do padre Asael. Mas este não se deixou vencer
facilmente, não fugiu da regra, como qualquer mártir disputou
com maestria, ousadia e heroísmo, morreu depois de matar 2\3
dos soldados. Deu assim uma grande aula aos seus assassinos e

128 Efeitos da Vida


mostrou-lhes que devia ser um revolucionário justo e imortal.
Ao enfrentar a morte com temeridade, dignidade, firmeza, fide-
lidade à pátria e competência de camaradagem.
Naquele momento, todo o povo se maravilhou. O milagre era
certeiro. Toda a gente lacrimejava surpreendida, pois que, toda
a palavra que fora proferida por Seth estava a ser cumprida ao
pé da letra. Os soldados, o governo, as elites também se mara-
vilharam e pediam clemência ao povo:

– De fato somos muito oportunistas, egotistas, nepotistas e


ignorantes. Idolatramos a realeza e o monarquismo em vez de
prover a república e a democracia para o bem comum. De fato
usurpamos um diminuto país pelas mais odiosas rapinas e as mais
nefandas crueldades que regista a história. Somos deveras uma
cambada de bandidos. Perdoem-nos!... portanto a humanidade é
obrigada a seguir os ensinamentos do padre Asael, pois contém
uma sabedoria nascida da experiência. O povo está condenado
à paz, ao pão e à liberdade.

Kennexiz Xavier 129


Capítulo XII
O Funeral II

O sangue dos mártires é o alicerce da mais alta realização dos


cidadãos ascendentes de um estado apunhalado pelo despotismo.
Kennexiz Xavier

Kali desejara, desde a infância, presidir uma cerimónia fúnebre


na necrópole dos mártires e heróis, e agora, ela se abria diante dela
com brilhante esplendor. Era uma floresta de templos, túmulos e
mansões, de um branco nevado que parecia imperecível às ma-
nobras do céu azul. Os seus olhos, porém, estavam embaçados
de lágrimas: o seu coração, moído de dor, pranto e tristeza pela
medonha escuridão que pairava sobre a necrópole meticulosa. O
esplendor e a magnificência dos seus monumentos de mármore e
ouro mais se assemelhavam à decoração de uma tumba colossal.
Com os braços cruzados sobre o peito, os beiços apertados aos
dentes, ela orou para que o sol da justiça sideral um dia raiasse
sobre o céu da cidade ignorante apunhalada pelo despotismo; que
o sangue de tantos mártires derramado em seu solo contribuísse
para que na vida de outros revolucionários se apresentassem os
frutos daquele sangue mais precioso vertido no Lossolo. Toda-
via, recitava outrossim, os seus belos e fúnebres poemas épicos:

– Oh gente! – Heróicos da liberdade eterna


Que reivindica a democracia com zelo e sem preconceito
Nesta hora de dor, calamidade e pranto
O nosso coração retrate homenagem
Ao sangue de todos os mártires
Ao maestro espoliado até no osso
Comtemplai a sua magnificência

Kennexiz Xavier 131


E a morte de todos os heróis nos mereça...e continuava:

Ah, sim! Qual monstro fero


Bisbórrias sobre o pedestal humano
Eis o soberano cujo carácter muito admiro
Este é o vampiro ao qual recai o governo...
O vampiro que espreita sem razão a vida já amargurada.

O governo que vi... era vampiro


Seja qual for, não erro
Quem vê... sabe!
Se sei é porque vi, e sinto na carne
Isto é o quão posso dizer – não é sátira afunilada
Digo, acérrimo com infeliz prazer.

Ai! Assas tristes;


Aproveita-se da nossa dulcíssima pobreza
Para a sua exclusiva riqueza
Bem lindo, bastante contente
E nós, sem esperança, cheios de vasca, pacientes.

De vês em quando poupa-nos


Dá-nos a custo vau, e extensa esperança
Às avessas põe-nos no cativeiro em negaça ...
Estes são os tais a quem demos confiança...
Fosse quem fosse, o povo sabe!...

O povo sabe de quem falo


Estoutro é ininteligível
Quem vê... sabe!...
Tiram-nos as nossas liberdades
E prejudicam-nos... é ridículo.
O que faz estes bisbórrias é terrível
Até os surdos ouvem!

132 Efeitos da Vida


Os cegos vêm!
Os leprosos na carne sentem!...
Eis os vampiros cujo carácter é mui coroável.

Quem então destruía as pontes?!


O povo sabe!!!
Quem arrefanhava os bens do povo!?
O povo sabe!!!
Quem se ufanava a fazer a guerra?!
O povo sabe!!!
Estrelas-do-mar em agruras
A ir germinando cadáver sem mera razão.
Aproveitam-se da nossa iletração
E nos infundem na alma tábuas de mentiras
E depois (...), (?!...); o povo sabe!

Quem matava os nossos irmãos?!...


O povo sabe!
Quem destruía as estradas
O povo sabe – vakué!
Não!... O povo não sabe de nada,
O povo foi apenas cego seguidor...

O povo tinha que aceitar mentira,


Quando lhe mostrassem o culpado;
Porque senão teria direito à sepultura.
Eis os vampiros, os quais nos castigaram durante a guerra
E que mais nos castigam depois da guerra;
E nos arrefanham o direito de terra.

Ah!
Até mesmo os tais saldados sabem, de nada
São apenas usurpadores iletrados
Com vida outrossim amarfanhada

Kennexiz Xavier 133


Eles são quartéis de bandidos legalizados...
Que espreitam sem mera razão, a vida da população.

– Até o próprio governo, sabia de nada!

Terminada a cerimónia fúnebre, Seth pegou os seus monanden-


gues que tinham o espírito deveras, caído ao chão, suas tendên-
cias despontavam no âmago milhares de queixumes pela terrível
oportunidade que a vida lhes concedera. Puseram-se a caminho
da casa para descansar, pensar e traçar medidas profiláticas de
forma a prosperar nos dias advenientes e incidentais. Mas, estes
optavam apenas enterra-los com a pessoa que eles achavam ser a
razão da sua existência e garantia da concretização do seu futuro.

– Meus irmãos, sosseguem!-Vamos embora daqui; vamos a casa


descansar. – Disse Seth.

– Como posso descansar mano?- Questionou Salomé. – Se a


pessoa que fora o nosso sossego e paz eterna pereceu...nunca, de
jeito nenhum; não irei a casa agora, nem hoje nem nunca. Ficarei
aqui para sempre. Morrerei aqui e serei enterrada aqui. Ninguém
me incomode, por favor!

– Minha pobre irmã, se fosse como tu, a minha hora e o meu


destino seria coeso ao do padre Asael... entregar-me-ia aos assas-
sinos porque estive perante a morte do maestro padre e diante
dos policiais políticos. Assisti com muito rancor e ódio o martí-
rio pelo qual esteve submetido o nosso ilustre maestro. A minha
única escolha era lutar ao lado dele para proteger-me e salvá-lo
mas... infelizmente não resultou. – Disse Seth.

– Por isso mesmo; tenho de ficar e sucumbir aqui, porque você


nos abandonou justamente no momento em que devíamos livrar
da morte o avô padre... Seth, tu foste muito egocêntrico. Agora,

134 Efeitos da Vida


abandona-me. Deixa-me sozinha! – Ordenou Salomé.

– Não serias tu, eu, nem mesmo o maestro padre a livrar-se da


morte, somente alguma força sobrenatural, ou seres siderais que
dão vida e tiram a vida. No entanto, sem o destino não haveria
força com mais força que poderia vencer-nos. – Retorquiu Seth –
E o próprio avô padre dizia, que, “neste universo equidistante não
há fortaleza nem esconderijo nem super- homem que me possa
salvar da morte; visto que a morte não gosta de ser enganada... o
meu destino já está traçado. Morrerei pela segurança, justiça e o
bem-estar social. Pela revolução e liberdade do meu país. Derra-
marei o meu sangue pela verdade e emancipação do meu povo,
porque todos os que nascem pela revolução e igualdade social,
são martirizados por isto; como cristo, como o internacionalista
Ernesto Che-Guevara, como o imortal primeiro presidente de
Angola António A. Neto, como o cavalheiro da mata, o camara-
da Jonas M. Savimbi, Mandume rei dos cuanhamas entre todos
os mártires da história universal que lutaram e morreram para a
libertação do mundo e em especial da Angola.”

– Isto não me interessa, eu nasci... se não lutassem, eu mesma


lutaria... Vou vingar-me e morrer pelo meu padre. – Disse Salomé.

– Acorda maninha, a vingança sempre foi um prato que se


comeu frio. Já alguém dizia que quando partir para a vingança,
prepare duas covas... E tu mesma aclaraste que lutámos e, não
o salvámos. Por isso não tem importância morrer por ele agora,
visto que os seus assassinos morreram com ele e a elite já pediu
publicamente clemência. Vais vingar quê e quem? – Retorquiu
Seth. – Suicidar-se já não tem valor. Reflete Salomé... a morte de
uma andorinha não significa o fim da primavera... por favor minha
irmã, não me negue o direito de te amar e te proteger.
– Meu irmão, tens toda a razão. Odeio-me muito porque nunca
acertei nada, absolutamente nunca. Sou sempre uma criança com

Kennexiz Xavier 135


tendências erradias. Mas, quanto a ti, amo-te de verdade porque
nunca quiseste deixar-nos tristes. – Disse Salomé.

– Caluda! Todo o ser humano com ira e aflição reage de ma-


neira vil e desumana. Errar é humano, todos nós temos maus
momentos. Porém, entendo que, dos heróis martirizados, nun-
ca se esquece a agonia. E por horror ao sofrimento, ao valor se
renuncia. Caluda! – Falou Seth.

– Na minha pessoa tem sido muito excedido e não sei se é por


ser muito ignorante. Entretanto, aconselhe-me em primeiro lu-
gar antes de encolerizar-me refletir se é o momento exato de me
frustrar. – Disse Salomé.

– Acertarás sempre se assim o fizeres. E jamais sofrerás. Chega


de lágrimas e, vamos caminhar. – Retorquiu Seth.

– Obrigada. Vamos descansar meus irmãos que nunca me dei-


xastes aflita. – Disse Salomé.

Os meninos caminhavam deprimidos com os braços entrela-


çados fraternalmente. A paisagem apreciava-lhes as maravilhas
e magnificência das muralhas que cercavam a cidade. Envoltos
em pensamentos, ouviam a admiração dos chilros das aves, ex-
pressas em diversas línguas, dos bantos de pássaros turistas que
fitavam as poderosas ruínas florestais. Milhares de andorinhas e
rolas entre inúmeros mamíferos afluem anualmente à necrópole
mágica, e simplesmente se apressam à capital memorial dos már-
tires, como a mais interessante das muitas vistas de Lossolo. Os
meninos seguiam a sua trajetória a perscrutar-lhes na memória
a paisagem mágica daquelas paragens onde de manhã à noite,
os estrangeiros são vistos na arena da famosa muralha; e bem
depois do anoitecer, quando o silêncio e a escuridão emprestam
uma atmosfera romântica adicional à sua magnificência, ainda

136 Efeitos da Vida


fica por ali. Quando a pálida luz da lua avoluma as arcadas me-
lancólicas para uma imensidão maravilhosa, o turista sentimen-
tal permanece na solidão pranteada da gigantesca construção, e
alimenta a vivida imaginação com imagens fantasmagóricas de
castelos e torres, e de outros anfiteatros; imagens que emergem
das flores, vasos quebrados e das paredes desintegradas. A necró-
pole dos mártires, uma vez vista, jamais é esquecida, quer tenha
sido contemplada ao esplendor do ardente sol da sesta, ou sob a
mágica influência da luz do luar da meia-noite. Aí, eles cruzaram-
-se de súbito com um caçador que parecia vir da caça com o seu
magnificente cachorro e uma mochila nas costas. Saudaram-no
e perguntaram-lhe: – De onde vem o senhor e para onde vai a
esta hora do dia?

– Venho de muito longe e, não sei para onde vou. – Respon-


deu o caçador.

– É só assim, de muito longe! Será que este longe não tem no-
me? – Questionou Yetu.

– Não me complique menino... é exatamente isto que eu disse,


muito longe, não tem nome. – Retorquiu o caçador.

– Não nos convence, a sua resposta. Os pontos cardiais, qual-


quer sítio, cada ponto equidistante tem um determinado nome.
– Interveio Salomé. – Vá lá meu senhor, de onde vens?

– Porque queres saber? – Questionou furioso o caçador. –


Quem são vocês e de onde vêm também?

– Queremos saber porque aprendemos do nosso pai que o filho


instruído e educado não desperdiça amizades. Faz novas amiza-
des e preserva com fidelidade as alianças amistosas – Retorquiu
Seth – Além disso, o teu cachorro impressionou-nos demais...

Kennexiz Xavier 137


Nós viemos da necrópole dos mártires.

– Querem-me dizer que vocês andam foragidos da sepultura e


sois fantasmas? – Inquiriu o caçador. – Desapareçam dos meus
olhos se não mato-vos e retorno-vos ao inferno de que vêm fo-
ragidos.

– Não somos o que o meu camarada está auferindo. Gosta-


mos apenas de ti e do teu companheiro, por isso queríamos fazer
amizade contigo. – Disse Seth. – E, então, se te atreves a ofender-
-nos; adeus!

Os petizes continuaram com a sua caminhada a sós até casa.


Como já era tarde cada um pôs-se no seu aposento e dormiram.
Enquanto Kali cogitava sobre os efeitos da vida, monologando
intimamente: A tarefa para a revolução e o bem-estar social não é
nada fácil, mas é das mais nobres. A bravura dos gangsters, revus
e anarquistas capazes de enfrentar um despótico; e uma maldi-
ção de líderes corruptos, tiranetes e egocêntricos, e que dará à
sua família estatal e patriótica o acesso à verdadeira liberdade,
virá só de mártires temerários. Todavia, os martírios não são uma
coisa do passado; neste momento, em algum lugar do mundo,
alguém está selando a segurança, a justiça e o bem-estar social
com o próprio sangue. E para tanto, são motivados pela revolu-
ção, liberdade, paz, harmonia e a continuidade de um Estado de
direito democrático e social. – Soliloquiava Kali.
No fundo do seu quarto, Yetu estava com sede, resolveu ir à
sala de jantar pegar água para beber; ele abriu a porta e o som
dos roncos dos seus irmãos subiram do andar de baixo. A luz
acesa no fundo do corredor pairou acima do seu ombro, crian-
do um caminho dourado nos degraus da escada, convidando-
-o a seguir. Ele desceu na ponta dos pés, hesitando no patamar
do primeiro andar para olhar em direção à porta parcialmente
aberta do quarto de sua mãe. Sem perigo de ser pego, ele desceu

138 Efeitos da Vida


furtivamente o lance seguinte, que era muito mais largo, com um
grosso corrimão de madeira e um degrau que rangia, o terceiro
a contar de baixo. Para evitar pisar nele, agarrou-se à grande bo-
la de madeira no balaústre e pulou para o chão, aterrissando ao
lado do relógio de pêndulo bem quando ele começou a bater a
meia-noite. Yetu soltou um gritinho de surpresa. Segundos de-
pois, a mãe o chamava.

– Yetu? – A voz de Kali denotava uma mistura de pranto e sono,


o que a fazia soar como outra pessoa, um estranho que entrara
sorrateiramente na casa enquanto ela estava ouvindo música no
auricular do seu computador. É você aí em baixo?- Perguntou ela,
a voz preocupada chegando mais perto.

A luz, que estava pairando na frente do mostrador do relógio


mickey, encolheu para o tamanho de uma bolinha de gude e
desapareceu dentro do porta-guarda-chuva, deixando Yetu no
vestíbulo escuro, somente com o brilho fraco das luzes da rua
para quebrar a escuridão.
A silhueta da sua mãe apareceu no topo da escada.

– O que você está fazendo? – Ela perguntou suavemente.

– Eu... Eu estava só indo tomar um gole de água, estava com


muita sede. – Retorquiu Yetu.

– Volte para a cama. – Sussurrou ela. Não acorde os seus irmãos.

– Boa noite, mamãe! – Disse ao passar por ela no patamar. A


mãe esticou um braço e acariciou-lhe a cabeça.

– Yetu? – Questionou ela


– Sim, mamã? – Retorquiu Yetu.

Kennexiz Xavier 139


Ele ouviu-a respirar fundo, como que se preparando para dizer
algo importante, mas em vez disso passou os braços em volta dele
e segurou-lhe tão apertado que ele pôde ouvir o coração dela ba-
tendo através do pijama branqueado. Ela soltou um suspiro can-
sado e uma mecha dos longos cabelos escuros caiu para a frente,
roçando a ponta do nariz dele. Yetu sentiu um espirro chegando.

– Você ficou resfriado? – Perguntou ela, sem notar que a insu-


portável comichão no nariz o estava fazendo tremer.

– Estou bem! – Yetu conseguiu dizer, e então o espirro explodiu.

– Vá para a cama. Mantenha-se aquecido. Você sabe como o


seu peito fica chiando quando você se resfria. – Disse Kali.

Ele começou a subir a escada para o seu aposento, mas sabia


que ela iria esperar ali até ele estar seguro no seu quarto. Voltou-
-se para olhá-la. As mãos dela estavam juntas em baixo do quei-
xo, como se estivesse rezando, mas Yetu sabia que ela fazia isso
quando estava preocupada. Sua mãe se preocupava um bocado
com o miserável momento de martirização, de dor, pranto e luto.

– Boa noite! – Disse ele enquanto recomeçava a subir.

– Durma bem! – Sussurrou ela quando ele fechou a porta.


Continuou a falar consigo mesma; as elites são satânicas... mas,
eu preciso ter em vista que os homens de maus instintos são mais
numerosos que os de bons instintos. Por isso se obtém melhores
resultados governando os homens pela violência e o terror do que
com discussões académicas, morais e éticas. Cada homem aspira
ao poder, cada qual, se pudesse, se tornaria ditador; ao mesmo
tempo, poucos são os que não estão prontos a sacrificar o bem
geral para conseguir o próprio bem. Bem-haja os mártires e he-
róis. E, dito assim; ela deitou-se também e dormiu.

140 Efeitos da Vida


Capítulo XIII
A Divisão do Património

A família na qual se congregam os interesses comuns na base do


altruísmo, que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria
mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências
da vida social constitui assim o fundamento da sociedade.
Kennexiz Xavier

Eram oito da manhã, o dia estava exclusivamente decorado com


nuvens branqueadas, com um céu azul dourado de raios solares
esplendorosos. Todo o ambiente cálido na atmosfera era uma rea-
lidade e transfiguração mágica dos tempos. Contudo, o esplendor
e a magnificência da cidade estão além da descrição. E em volta
da mesa estava sentada em sua casa Kali e os seus filhos a tomar o
pequeno-almoço.

– Mamã, nós ontem quando vínhamos a caminho da necrópole,


depois do funeral do padre, encontrámos um senhor enigma. Ele
estava acompanhado de um cão maravilhosamente lindo, transpor-
tava uma mochila às costas. Porém, quando lhe perguntámos de
onde vinha, ele disse-nos apenas que vinha de muito longe. – Disse
Yetu. – Mas, quem seria ele?

– É, decerto; é muito complicado encontrar nestas paragens um


homem tradicional como vocês o caracterizam. Ele podia estar a
vir mesmo de longe, ou seja; devia ser um caçador. – Retorquiu Kali.

– A mamãe acertou em cheio! Era mesmo um caçador, foi assim


que o tratámos, porém, ele não reclamou. – Disse Seth – mas, ele
não levava zagaia, flecha nem caçadeira. Falava pouco e ofendia

Kennexiz Xavier 141


muito... chamou-nos demónios.

– Basta. Vocês estão sendo humoristas. Acredito que querem


apenas fazer-me sorrir até nos olvidarmos deste momento a que
nos submeteu o destino. – Retorquiu Kali.

– Ah!... Mamãe se enxerga. Olvida o destino; a vida foi feita para


isto tudo... a primavera vai e volta, mas, a mocidade passa e jamais
volta. Emente, o adágio popular diz: a morte de uma andorinha
não significa o fim da primavera. A vida continua e o destino será
sempre certo – Replicou Salomé.

– Meus filhos, vocês estão extremamente estragados. Andam


iludidos que já estão crescidos o suficiente para pensar no próprio
umbigo. Filhos, vocês são muito pequeninos para se guiarem por
vocês mesmos. – Retorquiu Kali. – Ouçam, ainda temos muito que
pensar na realização do vosso futuro promissor... temos que dividir
o vosso património e cada um gerir à sua maneira. Todavia, a pes-
soa que me ajudava a pensar como resolver isso e a tomar conta de
vocês pereceu. E vocês demais egoístas ainda pensam que está tudo
bem. Acordem! Fácil é morrer porque difícil é viver.

– Ah! É só mesmo isso mamãe? – Replicou Seth. – Deixa para lá!


Até quando vais pensar que nós vagamos por aí, feitos baratas tontas,
seguimos caminhos e deixamos tudo para trás? Até quando, sim até
quando; vamos ficar a receber os mesmos ensinamentos, as mesmas
lições todos os dias, feitos jovens desencaminhados?

– Desde o papá, o avô padre até à mamãe a ensinarem-nos os


mesmos conteúdos e, ainda queremos mais? Irra!... mamãe quer
considerar-nos crianças com o juízo atropelado na cabeça.

– É verdade Seth está muito certo. Mamãe acha-nos adolescentes


feitos idiotas, sem cabeça e juízo. O padre Asael e, que Deus o tenha;

142 Efeitos da Vida


ensinou-nos com imensas parábolas, outrossim o papai. Quanto à
mamãe, ela sempre tomou bem conta de nós, cada vez que abriu
a sua boca tem sido uma aula para nós e, no entanto, nós juramos
seguir incondicionalmente tais ensinamentos para nunca nos perder-
mos...Será que entre nós alguém ousará infringir as mais nobres leis
da natureza? Não mamãe, chega de blá... blá...blá!... – Disse Salomé.

– Quanto à divisão do nosso património, para não haver diar-


reias, eu ficarei sem nada; posto que com os meus irmãos já terei
um tesouro, quer dizer, eles são o meu maior património e o meu
eterno tesouro. Todavia, ajudarei a mamãe a repartir o património.
– Disse Seth.

– Faço minhas as palavras de Seth. – Disse Salomé. – O próprio


património mal chega para um de nós, quanto mais para todos
nós? Eu sou mulher, está comprovado que todas as mulheres têm
muita sorte, justifica-se ser raro se não mesmo tem sido muito difícil
encontrar meninas de rua ou na rua. Por isso prefiro que o nosso
património vá para os rapazes que nestes casos são os mais vulne-
ráveis e (...) têm corrido um tormentoso risco de vida.

– Estão todos tão atentos, que bom! A nossa instrução e educação


foram eficientes. – Examinou Kali. – Filhos, não me surpreende a
vossa decisão, união e altruísmo. Vocês, sempre foram muito unidos,
companheiros fiéis em lutas e vitórias, irmãos exemplares e muito
amigos. Está certo o que vocês dizem, mas, todas as crianças têm o
mesmo direito perante a herança e o património dos pais. Portanto,
tenho a obrigação de fazer com que o pouco chegue para todos.
Nós temos que cogitar no pouco que temos do nosso património
e dividir para todos. – Continuou Kali.

– Está bem mamãe, se este é o seu dever; dividir equitativamente


o nosso património para nós, eu opto receber os meus irmãos co-
mo parte do meu património. Para que eles estejam comigo aonde

Kennexiz Xavier 143


eu estiver, porque também acho que eles são a única herança mais
digna e eterna que papai deixou para mim. Eles é que me vão en-
terrar quando eu morrer, é que me vão guiar e proteger-me contra
as vicissitudes e calamidades naturais. – Exarou Seth.

– Uau! – Eu já pensei. Opto receber a mamãe como parte do


meu património. Tu és a maior herança que o papai deixou para
mim. És a mais bela dos tesouros que há no universo; a riqueza mais
doce, nobre, eterna, que jamais se viu desde o firmamento até aos
nossos dias. És conselheira, companheira, amiga, onça temerária
e não reservada que carecerá dos meus cuidados – Falou Salomé.

– Filhos, vocês são muito inteligentes, se é linear para vocês, cer-


tamente será óbvio para mim não vos dividir o vosso património.

– Retorquiu Kali. – Sempre estão bem posicionados, enxergam os


efeitos da vida, resolvem com anuência os problemas terráqueos e
vivem unidos, afáveis no trabalho e altruístas na convivência. Mais
uma vez conseguistes vencer-me e educar-me. Agora sei que não é
lícito dividir o património pelos filhos porque estragaríamos a rela-
ção amistosa dos filhos. Salvo se houver egoísmo entre irmãos, se
permitem estas práticas feias. Porém, vocês deram-me a entender
que são muito unidos, o que é de Seth é de todos vocês e vice-versa.
– Disse Kali extremamente feliz. – Agrada-me a vossa maneira de
enxergar a vida. Obrigada, muito obrigada mesmo.

– Não tem de quê mamãe. Este é o nosso dever. Queremos mos-


tra-lhe que somos muito educados e que aprendemos cada lição
que o papai e o avô padre nos deram. Além disso dizer-lhe que, a
família na qual se congregam os interesses comuns na base do al-
truísmo, que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria
mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências
da vida social constitui assim o fundamento da sociedade – Termi-
nou Seth – Assim sempre serão... unidos até à eternidade. Jamais
a atrapalhação apelará a um de nós para o falso problema de ca-
da um cada qual, de raças e etnias amaldiçoadas, para justificar os
próprios pecados!

144 Efeitos da Vida


Capítulo XIV
Efeitos da Vida

A verdade está acessível para poucos, pois nem todos conseguem


compreendê-la; a maioria lê os efeitos enigmas da vida mas so-
mente a minoria dos sábios podem dar a tradução.
Kennexiz Xavier

Seis meses depois do funeral do padre Asael, o caçador con-


tinuava a boiar ao sabor do mar, divagava naquelas paragens da
necrópole; enquanto caminhava, refletia sobre os efeitos da vida e
os enigmas do universo. Questionava-se e respondia-se a si mesmo
como um cientista do terceiro milénio em volubilidades teóricas.

– É um grande e belo espectáculo ver o homem sair, de qualquer


maneira, do nada, por seus próprios esforços; dissipar, com as lu-
zes da razão, as trevas nas quais a natureza o envolvera; elevar-se
acima de si mesmo; ascender-se da realidade terráquea, atirar-se
pelo espírito até às regiões siderais; percorrer, a passos de gigante,
como o sol, a vasta extensão do universo; e, o que ainda é maior
e mais difícil, entrar de novo dentro de si mesmo para aí estudar
o homem e conhecer a sua natureza, os seus deveres e o seu fim.
Todas essas maravilhas são renovadas, há poucas gerações que
podem alcançar os enigmas do universo. O universo encerra mi-
lhares de segredos que os cépticos e iludidos religiosos acham que
jamais se desvendarão. – Monologava intimamente o caçador.

– Estamos no tempo de Aquário mas, ainda vejo que o Ho-


mem do vulgo não mudou em nada. Não quer aprender com os
milagres da ciência. Nem abdicar-se dos efeitos da vida racional.
Continua iludido com fantasias, mitos, fábulas, lendas e alucina-

Kennexiz Xavier 145


ções religiosas Continuava a falar o caçador para si mesmo – O
homem vulgar não se enxerga jamais, não quer usar a razão pa-
ra entender que se Deus existisse seria necessário aboli-lo. Está
fanaticamente curvado à estúpida crença por causa da cegueira
motivada pela desgraçada fé.

– Sim, este Deus do iludido é rebelde, egoísta, despótico, vin-


gador e sanguinário, promotor de guerras; em toda a história da
civilização dos iludidos cometeu crimes hediondos e genocídios
(ver a Bíblia). Vedes como ele é injusto: condenava o povo até à
sua quarta geração. Não sabe perdoar, por ciúmes e estigma de
superioridade, sem direitos a advogados condenou Adão e Eva
a pena perpétua e transferiu o crime e incluível a pena aos ino-
centes que não participaram do crime. Entretanto, ele não sabe
amar, criou o inferno para exterminar a humanidade, aqueles que
não se humilham diante dele e não se abdicam à fé porque está
obcecado pelo poder, ele gosta demais de ser superior e adorado.
Ele adora comer a carne do bode expiatório, sempre adorou. E
que não se conteve em comer a carne do próprio filho, o outro
vilão produto da ilusão das elites romanas. O golpista, o vigarista,
provavelmente ladrão e adúltero; que se auto proclamou rei dos
Judeus, com isso foi condenado a pena de morte, mas, como ele
era um bom vigarista ordenou aos seus discípulos que evange-
lizassem as nações e dissessem que morreu e foi crucificado pe-
los pecados dos religiosos. Entretanto, o Deus do iludido é um
assassino em série até à eternidade! É execravelmente racista,
preconceituoso, separatista, desumano, genocida e por isso pro-
moveu guerras santas em seu nome próprio, em nome de seres
siderais, em nome do Paraíso eterno, em nome da vida espiritual
e celestial que ninguém conhece...oxalá a ilusão dos religiosos seja
falsa!... se o Deus dos Judeus esquizofrénicos for real, é urgente
exterminá-lo, porque ele está mais do que preparado em lançar
sem misericórdias toda a humanidade no inferno. Como segundo
a lenda bíblica, ele tinha experimentado com os povos de Sodo-

146 Efeitos da Vida


ma e Gomorra. Portanto, fora de lá, ou seja; exceto a doutrina da
Igreja e a moral religiosa que é um bem e norma para estabele-
cer a ordem, a inter-relação e tornar possível a convivência social,
Deus é uma ameaça para a continuidade humana...
Enquanto conversava consigo mesmo repercutia-se-lhe na me-
mória as palavras de MIKHAIL BAKUNIN que dizia: Três elementos
ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condi-
ções essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou indi-
vidual: primeiro a animalidade humana; segundo o pensamento e
terceiro a revolta. À primeira corresponde propriamente a econo-
mia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade.
Os idealistas de todas as escolas, naturalista, positivista, exegetas,
evolucionistas, teólogos e metafísicos, políticos e moralistas, reli-
giosos, filósofos ou poetas, sem esquecer os economistas liberais,
adoradores desmedidos do ideal, como se sabe, ofendem-se muito
quando se lhes diz que o Homem, com sua inteligência magnífica,
suas ideias sublimes e suas aspirações infinitas, nada mais é, como
tudo o que existe neste mundo, que um produto da vil matéria.
Poderíamos responder-lhes que a matéria da qual falam os ma-
terialistas, matéria espontaneamente, eternamente móvel, ativa,
produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e
manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas,
animais e inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta
matéria, nada tem de comum com a vil matéria dos idealistas.
Esta última, produto de falsa abstração, é efetivamente uma coisa
estúpida, inanimada, imóvel, incapaz de dar vida ao mínimo pro-
duto, um ser mortulho, uma infame imaginação oposta a esta bela
imaginação que eles chamam Deus; em relação ao Ser supremo,
a matéria, a matéria deles, despojada por eles mesmos de tudo
o que constitui sua natureza real, representa necessariamente o
supremo nada. Eles retiraram da matéria a inteligência, a vida, to-
das as qualidades determinantes, as relações ativas ou as forças,
o próprio movimento, sem o qual a matéria sequer teria peso,
nada lhe deixando da impenetrabilidade e da imobilidade abso-

Kennexiz Xavier 147


luta no espaço; eles atribuíram todas estas forças, propriedades
ou manifestações naturais ao ser imaginário criado por sua fan-
tasia abstrativa; em seguida, invertendo os papéis, denominaram
este produto de sua imaginação, este fantasma, este Deus que é o
nada, “Ser supremo”; e por consequência necessária, declararam
que o Ser real, a matéria, o mundo, era o nada. Depois disso eles
vêm nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir
qualquer coisa que seja, até mesmo colocar-se em movimento por
si mesma, e que por consequência deve ter sido criada pelo seu
Deus. Quem tem razão, os idealistas ou os materialistas? Uma vez
feita a pergunta, a hesitação torna-se impossível. Sem dúvida, os
idealistas estão errados e os materialistas certos. Sim, os fatos têm
primazia sobre as ideias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada
mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência
constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral, política
e social da humanidade é um reflexo de sua história económica.
Todos os ramos da ciência moderna, da verdadeira e desinte-
ressada ciência, concorrem para proclamar esta grande verdade,
fundamental e decisiva: o mundo social, o mundo propriamente
humano, a humanidade numa palavra, outra coisa não é senão
o desenvolvimento supremo, a manifestação mais elevada da
animalidade pelo menos para nós e em relação ao nosso plane-
ta. Mas como todo o desenvolvimento implica necessariamente
uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanida-
de é, ao mesmo tempo e essencialmente, a negação refletida e
progressiva da animalidade nos homens; e é precisamente esta
negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e
lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de
todas as leis naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o
ideal, o mundo das convicções intelectuais e morais, as ideias.
Sim, os nossos primeiros ancestrais, o nosso Adão e Eva foram,
senão gorilas, pelo menos primos muito próximos dos gorilas, dos
omnívoros, dos animais inteligentes e ferozes, dotados, em grau
maior do que o dos animais de todas as outras espécies, de duas

148 Efeitos da Vida


faculdades preciosas: a faculdade de pensar e a necessidade de se
revoltar. Estas duas faculdades, combinando sua ação progressiva
na história, representam a potência negativa no desenvolvimento
positivo da animalidade humana, e criam consequentemente tu-
do que constitui a humanidade nos homens. A Bíblia, que é um
livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o
consideramos como uma das mais antigas manifestações da sa-
bedoria e da fantasia humana, exprime esta verdade, de maneira
muito ingénua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de
todos os bons deuses adorados pelos homens foi certamente
o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o
mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da digni-
dade e da liberdade humana, Jeová acabava de criar Adão e Eva,
não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele
pôs, generosamente, à disposição deles, toda a terra, com todos
os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a
este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos
da árvore da ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de
toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal,
sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu
senhor. Mas eis que chega Leviatã, o eterno revoltado, o primeiro
livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem
envergonhar-se da sua ignorância e da sua obediência bestiais;
ele emancipa-o, imprime em sua fronte a marca da liberdade e
da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da
ciência. Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, cons-
tituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do
que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou
Leviatã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se,
por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças
quando se põem em cólera; e não contente em atingir os nossos
ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas
gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ances-
trais. Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito

Kennexiz Xavier 149


profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iní-
quo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somen-
te um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor,
após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres
seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu
piedade e para salvá-los, para reconciliar o seu amor eterno e
divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas
e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória,
seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto
é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões
cristãs. Ainda se o divino Salvador tivesse salvado o mundo hu-
mano! Mas não; no paraíso prometido por Cristo, como se sabe,
visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O
resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão
eternamente no inferno. Enquanto isso, para nos consolar, Deus,
sempre justo, sempre bom, entrega a terra ao governo das elites,
do rei, do príncipe, do presidente e do papa para nos humilhar e
maltratar. Entretanto, no mito do pecado original, Deus deu razão
a Leviatã; ele reconheceu que o diabo não havia enganado Adão
e Eva ao lhes prometer a ciência e a liberdade, como recompensa
pelo ato de desobediência que ele os induzira a cometer. Assim
que eles provaram do fruto proibido, Deus disse a si mesmo, cons-
ta na Bíblia: “Aí está, o homem tornou-se como um dos deuses,
ele conhece o bem e o mal; impeçamo-lo pois de comer o fruto
da vida eterna, a fim de que ele não se torne imortal como Nós.”
Deixemos agora de lado a parte fabulosa deste mito, e conside-
remos o seu verdadeiro sentido, muito claro, por sinal. O homem
emancipou-se, separou-se da animalidade e constituiu-se homem;
ele começou a sua história e o seu desenvolvimento especifica-
mente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é,
pela revolta e pelo pensamento.

– Opa!... Agora entendi – Disse alto o caçador mas, não se sur-


preendeu – Todavia, o homem primata, sumério, hinduísta, ju-

150 Efeitos da Vida


deu, grego e romano, criou tudo o que existe à sua volta, desco-
briu tudo o que se achava enigma no universo, mas, como não
entendia absolutamente nada sobre os efeitos da vida, imputou
a sua genialidade a um ser supremo inexistente, fantasiado por si
mesmo. O homem iludido, sem razão, alucinado pela fé; fez-se a
si mesmo escravo da sua própria criatura fantasiada pela sua de-
mência, psicose e transtorno cérebro encefálico. Acreditando e
adorando um Deus esquizofrénico que traumaticamente tem a
sua mente dividida em duas partes a pensar que toda a humani-
dade está contra ele e por isso deve criar o inferno eterno, ardente
com fogo e enxofre para exterminar o ser humano e tudo que há
sobre a terra. Como em plena cólera este mesmo deus certifica-se
demolidor, vingador, assassino em série quando diz, “não haverá
pedra sobre pedra que não seja derrubada”, além doutra frase que
diz, “quem não crê em mim e no pai que me enviou, não herdará a
vida eterna, mas sim, herdará o inferno e o abismo do fogo eterno.”
De outras paragens vinham a caminho da necrópole Seth e os
seus irmãos. Estes resolveram visitar o jazigo do seu pai e do padre
Asael. Quando ergueram os olhos diante da estrada cruzaram os
olhares com o caçador que haviam visto anteriormente após o
funeral do padre. O caçador amparando-se aos petizes gritou: –
Miúdos; esperem por mim! – Os miúdos pararam e aguardaram-
-no. Os petizes estavam muito comovidos com o reencontro...

– Tivemos saudades suas... meu camarada forasteiro, muito


prazer em revê-lo – Disse Yetu.

– Eu também pensei muito em vocês. Senti deveras a vossa


falta na estrada. Mas, o que não gosto mesmo, é que me tratem
por forasteiro meu amiguinho – Retorquiu o caçador.

– Não, não se zangue. Nós não conhecemos o senhor, por isso


tratamo-lo de tal maneira. Se não gostou, queira desculpar-nos
– Disse Yetu.

Kennexiz Xavier 151


– E não só, tu mesmo quiseste que isso acontecesse; visto que
quando queríamos conhecê-lo o camarada xingou-nos e chamou-
-nos demónios e espíritos malignos – Exarou Seth.

– Não fiquem zangados comigo; naquele momento, estava ater-


rorizado convosco. Não foi de bel-prazer ofender-vos, pois não vos
queria infernizar nem tampouco deixar-vos tristes – Disse o caçador

– Eu chamo-me Jefferson Prazer dos Anjos, filho de um padre


que respondia pela graça de Asael, era um cabinda que por moti-
vo de estudo emigrou para a província de Nova Lisboa. Fez a sua
formação na missão do Cuando, morreu na guerra dos cinquenta
e três dias em Nova Lisboa com toda a sua família onde eu esca-
pei da morte.

– Então o teu pai não é padre, e se é padre, era uma fraude. Um


pecador comum que não resistiu em degustar o pecado original.
Mentindo para o mundo sobre um ato tão traiçoeiro em sua es-
sência que eu duvido de pés curvados que o próprio Deus pudesse
perdoá-lo. – Seu juramento! – Disse Seth – O teu pai quebrou seu
juramento a Deus! Logo o teu pai não é padre, não passava de um
pecador entre todos os homens!

– Opa, que desgraça, quanta depravação! E se alguém descobrisse


que o padre tinha gerado um filho e não soube controlar as suas
testosteronas? Que profanação da Igreja! Então os votos sagrados
do Padre, nada significavam? – Questionou Salomé.

– Antes de morrer ele explicou-me como tudo aconteceu – Re-


plicou Jefferson – Há muito tempo ido, o Padre Asael, neste caso
o meu pai; quando ainda era apenas um presbítero, apaixonara-
-se por uma jovem freira. A jovem tinha feito voto de celibato e
nunca pensou em romper o seu compromisso com Deus. Com
isto mesmo, o amor deles era abrasador e, embora conseguissem

152 Efeitos da Vida


resistir às tentações da carne e controlarem as hormonas e tes-
tosteronas, viram-se ambos desejando algo em que nunca tinham
pensado: participar do supremo milagre da criação, gerar um filho.
Seu próprio filho. O anseio, especialmente da parte dela, tornou-se
veemente. Mas Deus ainda vinha em primeiro lugar. Três anos mais
tarde, quando a frustração tomara proporções quase insuportáveis,
ela foi ao encontro dele, toda excitada. Acabara de ler um artigo
sobre um novo milagre do terceiro milénio e novas mágicas da me-
dicina – Um processo pelo qual duas pessoas, sem terem relações
sexuais, podiam ter um filho. Ela pressentia que aquilo era um sinal
de Deus. O meu pai, neste caso o presbítero viu a felicidade a raiar
o seu esplendor nos olhos dela e concordou. Um ano mais tarde,
ela teve um filho por meio do milagre da inseminação artificial.
Gerou-se este homem que vos fala; Jefferson Prazer dos Anjos.

– Fantástico, o padre Asael foi um senhor amável e extrema-


mente humano! – Retorquiu Seth – Mas dizei-nos, morreram
todos ou não viste nada aquando da guerra dos cinquenta e três
dias em Nova Lisboa?

– Digo sim e não. Via-me somente de baixo do cadáver da minha


mãe que eu tenho a certeza que morreu mesmo. Mas, quanto ao
meu pai não sei, porque não enxergava bem por causa de vários
cadáveres que estavam sobre mim – Replicou Jefferson.

– E depois de toda esta tragédia, o que fizeste, não procuraste


pelo teu pai? – Questionou Seth.

– Decerto que procurei, sim; quando me deram alta no hospital,


aliás; os meus médicos já procuraram pelos meus familiares mas
ninguém se pronunciou – Respondeu Jefferson.

– Com quantos anos assistiu esse momento fortuito e com


quem cresceste? – Questionou Salomé.

Kennexiz Xavier 153


– Eu tinha a idade de sete anos, cresci com um médico altru-
ísta e ativista social que responde pela graça de Aberto Kevin,
que na altura acolhia pessoas vítimas da guerra e órfãs. Vivi com
ele durante cinco anos – Respondeu Kali.

– Como é que se desamparou dele e porquê? – Questionou


Salomé.

– Eu aprendi em estudos de filosofia que a melhor maneira


de prever o futuro é criá-lo – Retorquiu Jefferson – Eu não quis
apenas corrigir-me, nem fugir ao destino, nem tampouco abs-
ter-me as circunstâncias, antes me queria transformar. Não me
garantia, nem sequer esperava, que nada já restasse em mim
sem necessitar de mudança...já era um adolescente de idade e
porém, o doutor falava mais com crianças e muito pouco co-
migo porque era óbvio para ele que já me ensinara o suficiente,
era outrossim linear para mim que o doutor já me instruíra e
aprendera com ele que é uma tendência humanista formar uma
pessoa para que se torne capaz de se situar no mundo e de situar
a atual humanidade na história e no universo, que respeite o le-
gado transmitido pelos antigos, que integre os novos elementos
e que participe ativamente no movimento para o futuro; no en-
tanto, eu era introvertido, tímido e empático. Por este e outros
motivos fui forçado a separar-me do Dr. Alberto K., pois ele já
era casado e o recente momento de responsabilidade familiar
e profissional o impedia de acolher pessoas vulneráveis em sua
casa como o fazia no seu tempo de solteiro. Entendi aquilo que
Saramago dizia, O que sabemos dos lugares é coincidirmos com
eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava
ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou,
o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar.
Foi assim que a tropa me agarrou para combater na guerra civil
perpetrada pelas elites egocêntricas e genocidas.

154 Efeitos da Vida


– Você disse que viveu com o doutor Alberto K.? – Questio-
nou Seth.

– Foi mesmo isso que ouviste – Retorquiu Jefferson.

– Opa, que coincidência! Afinal a vida é assim! Tem muita his-


tória para se contar – Exclamou Seth – Só uma curiosidade, por-
que desertou da tropa?

– Levei o tempo todo da minha juventude nos quartéis e fileiras


militares. Mas, certo dia por causa de ódio, arbitrariedade, arro-
gância, e ditadura de chefias e comandantes; entrei em litígios com
o meu comandante de brigada, lutamos e parti-lhe os maxilares.
Foi assim que incorri ao crime de conduta indecorosa e agressão
a superior hierárquico. Fui julgado injustamente e condenado a
dois anos de prisão maior. Revoltado com estas circunstâncias,
após dois meses de tanta humilhação, sofrimento e maltratos, fugi
da prisão e andei foragido pelos matos a fora até hoje. Todavia,
enquanto vagava pelos matos fazia alguns biscates, associei-me
em alguns grupos de garimpo e adquiri um pouco de ouro e dia-
mantes que pretendo oferecer à pessoa que me acolhera e me fez
crescer no meio do nada – essa pessoa é sem sombra de dúvidas
o doutor Aberto K., que me cuidou, me educou e me instruiu
com tamanha generosidade, zelo e altruísmo – Falou Jefferson.

Tu conheces onde ele vive e recordas-te da esposa dele? – Ques-


tionou Seth.

– Já não me lembro da casa dele porque há um know how con-


siderável, a cidade mudou e está tudo diferente. Mas, quanto à
sua esposa, ainda me lembro dela como se fosse hoje. Lembro-
-me do sorriso dela dentro do véu expressando nos lábios amor,
felicidade, fraternidade, paz e harmonia enquanto o padre no

Kennexiz Xavier 155


altar deslumbrante a benzia;

– “Parabéns Kali”. Lembro do nome porque me faz lembrar a


deusa Kali da mitologia hinduísta. Além disso, inscrevi na memó-
ria o nome dela porque queria nomear a minha primeira filha ou
alcunhar a minha esposa. Mas infelizmente isto não aconteceu
porque sou nómada – Respondeu Jefferson.

Seth ouviu atenciosamente a bibliografia de Jefferson e chorou


imenso. – Porque choras? – Perguntou Jefferson – A minha his-
tória magoou-te? Desculpe, que não te traga na memória tristes
recordações. Deixa-te calado – Ordenou Seth – Ficaremos para
sempre juntos, nunca mais se desampare de nós ó senhor.

– Miúdos, eu não entendo o vosso maninho. Que quer ele de


mim? – Questionou Jefferson.

– Jefferson, Seth é o seu irmão também... Tu fazes parte do


sangue do homem que nos cuidou e tomou conta de nós com
muito humanismo, amor e paternidade. E, no entanto, todos po-
demos chorar porque dói na certeza a sua história – Disse Yetu.

– Mas podem explicar-me o que se possa nas vossas cabeci-


nhas? – Perguntou Jefferson perplexo.

– Abdique-se apenas aos efeitos da vida – Retorquiu Seth.

– Não entendo quase nada. Vocês estão a dar chicotadas no


meu cérebro – Disse Jefferson.

Notou-se um silêncio prolongado entre os meninos, ninguém


queria ouvir nem dizer mais nada, caminhavam indiferentes.
Somente Jefferson estava muito perplexo e preocupado, insistia
em ser esclarecido sobre tudo o que os petizes manifestavam

156 Efeitos da Vida


sem clareza. Postos no portão da necrópole os meninos sacaram
dos seus vasos uma flor e ofereceram-na a Jeferson. Todavia, ele
perguntou, porque me oferecestes estes ramalhos de flores logo
aqui na necrópole?

– Caluda! Verás tudo agora. Mas tenho muita pena de ti meu


amigo – Disse Seth.

O cão começou a ladrar perscrutante como que se visse um


perigo. Bateu-se nas pernas de Jeferson e fez rolar outrossim uma
lágrima funesta no canto do olho. Momentos a seguir, o extraor-
dinário cão entrou as portadas a correr na necrópole em direção
aos jazigos dos maestros Alberto K. e Asael. Cada vez Jefferson
se complicava com a amabilidade e modéstia dos petizes. Apro-
ximou-se a Seth e disse: – Estou assustado rapaz, nunca tinha
visto o meu cão a uivar e lacrimejar desta maneira. O que é que
estamos a fazer aqui? Porque o meu cachorro chora? – Questio-
nou Jefferson.

– Isto é execrável e miraculoso, nunca se viu da certeza tal me-


tamorfose. Mas eu ainda acho que os efeitos da vida também são
antropomorfistas – Disse Seth – Amado Jefferson, deixa as coisas
acontecerem naturalmente. Aproximaram-se das tumbas onde
o cão estava a uivar com aspereza, estava com os olhos ígneos a
lacrimejar triste e amargamente, então Seth dirigiu-se a Jefferson
e disse: – Tenho pena de ti, mas, muita pena meu irmão. Eis aqui
Aberto K. o senhor que tu procuravas, para agradecer-lhe pelo
bem que te fizera...além disso, tens aqui o maestro padre Asael,
teu pai, aquele que não reconheceste quando benzia Kali. Eles são
nossos pais, por isso tenho pena de ti porque o maestro padre foi
sepultado no dia em que você nos chamou demónios. Morreu
martirizado pelas elites. Jefferson abraçou triste e asperamente
os petizes, o cão e as sepulturas chorando perdido e reencon-
trado. -Sem saber nem me enxergar eu convivia, comia e bebia

Kennexiz Xavier 157


à mesa com o meu pai sem nunca nos darmos conta. Eu estava
mais próximo, mas, muito distante ainda do meu pai – Disse ele

– Esta vida afinal é assim!? Tem muitas cenas para contar... neste
momento fatal, de pranto, dor e luto que eu me esquecera com-
pletamente de ti, mas te amava ainda, perdoa-me pai. Os enganos
e desilusões, os delírios e emoções, a realidade que não consegui
enxergar e conceber, a idolatria, a superstição, a crença em seres
superiores, que me fizeram perderem o tempo de viver livre e feliz,
o ódio e o desamor que tive com a vida, o desespero e tristeza que
tive por pensar erroneamente que morreras naquele genocídio
de 1992; desculpa-me meu pai, foram os efeitos da vida que me
cegaram, que me deixaram traumático, transtornado, depressi-
vo, estressado, melancólico e moribundo. Entretanto, nunca me
esquecera que o senhor me amava muito, eu também sempre te
amei e para sempre te amarei. Sim pai, se te amo tanto assim foi
você mesmo que me ensinou. Descansem em paz meus amores
no seio eterno da ciência – Rezava Jefferson a olhar para o céu
com uma maré negra cheia de lágrimas nos olhos.

– Chega de lágrimas! Jefferson, todos nós te amamos nos nossos


corações; vamos para nossa casa viver – Disse Salomé – Estarás
connosco e com a nossa mamãe. Vamos viver até ao fim conti-
go e com tudo o que é seu, nós adoramos o seu cachorro, ele é
insolente e muito maravilhoso.

– Obrigado pela especialidade com que me cuidam, pelo lenço


de consolo; pelo amor, carinho, respeito e consideração que têm
pelo meu pai – Retorquiu Jefferson – Vocês são o máximo. Eu
também vos amo e vocês sabem! Amar-vos-ei até à eternidade.

158 Efeitos da Vida


Capítulo XV
O Jardim do Éden

É comum os que nasceram para servir procurar “ajuda” nas re-


ligiões, porem esse delírio é desastroso, vicia; é óbvio, faz com que
o iludido perca a capacidade de racionalizar.
Kennexiz Xavier

Era uma vez, numa terra longínqua que ficava no espaço orien-
tal duma região chamada Éden, algures na Babilónia, atual Iraque,
sitiada entre a nascente de quatro famosíssimos rios da Ásia,
entre eles o rio Eufrates e o rio Tigre e os pseudo rios, Pisom e
Giom; onde se disseminavam mentes iludidas, de criacionistas,
artistas e poetas transtornados, cérebro-encefálicos que produ-
ziam perícopes e narrativas inconsistentes. Estes antropoteístas
fabricavam um país utópico e imaginavam um cenário que, se
tivesse acontecido, denunciaria um Deus irresponsável, maldoso
e de um masoquismo ecológico inadmissível do ponto de vista
moral e jurídico. Eles, idealizavam alucinantemente um jardim
paradisíaco. Onde não havia perturbações nem os efeitos da vi-
da agitada de uma cidade frenética e grande. Ela é paradisíaca,
enorme, sideral e a paz impera eternamente. Melhor ainda, nesse
lugar a mente humana está vedada de preocupações, estresse,
depressão e perturbações; o corpo vive para sempre sem dor,
pranto, lágrimas, doenças, alergia e morte. Sua psique está livre
de sentidos absurdos, funciona perfeitamente, absorvendo tudo
ao seu redor. Entretanto, nesse lugar o homem não pensa apenas
nem é simplesmente racional, mas, é a própria sabedoria; pensa
melhor e controla as emoções e delírios.
Neste lugar, o ser humano olvida todas as atrocidades terrá-
queas, os seus olhos espairecem e deleitam-se com o esplendor

Kennexiz Xavier 159


exuberante das flores lúdicas, com as águas cintilantes dos quatro
rios divinos, com as mais adversidades naturais e com as várias
nuances do viço das árvores, do verde das folhagens na luz do
sol da sesta e da sombra do meio-dia. Os espíritos sentem a bri-
sa suave em sua pele e o perfume cheiroso das doces fragrâncias
que ela traz no silêncio de uma nova geografia e nova harmonia
interpessoais. No Éden mítico, houve-se o farfalhar das folhas, o
barulho das quedas de água batendo nas rochas, o assobio e o
canto dos pássaros e o zumbido dos insectos carnívoros feitos
herbívoros misticamente. Então estes sonhadores, acreditam
que a humanidade teve origem num lugar como esse. O lugar
onde Deus fez mágica, feitiçarias e milagres...Em que disse haja
luz. E houve luz. Fez com isto o dia e a noite. Haja separação no
meio das águas, e haja separação entre águas e águas. Juntem-se
as águas debaixo dos céus num lugar, que é o mar; e apareça a
porção seca, que é a terra. Vendo que estava bom demais disse:
produza na terra relva, árvores verdes frutíferas e não frutíferas
que dêem semente segundo a sua espécie; haja sol, lua, estrelas e
constelações em todo o firmamento, para colorir e iluminar o dia
e a noite. Haja oxigénio, azoto e carbono para gerar vida que me
esqueci de fabricar com as próprias palavras. Povoem-se a terra,
as águas dos rios e do mar, multidões de seres viventes segundo
a sua espécie e modus vivendi. Sede fecundos e multiplicai-vos
porque eu não vos posso fabricar mais do que sou capaz. Entre-
tanto, participai da magia, bruxaria, feitiçaria e do milagre de gerar
vidas, fazei os vossos filhos segundo a vossa mutação e imagem.
Também disse para a sua sombra: – façamos o homem à nossa
imagem, conforme a nossa semelhança loucura, barbaridade,
luxúria, soberba, inveja e egoísmo, seja ele o deus dos animais ir-
racionais, pode matá-los, comê-los e sacrificá-los em toda a sua
glória; mas, dele nós tomamos conta, podemos matá-lo, comê-
-lo e sacrificá-lo em nossa glória. Assim criaram um hermafrodi-
ta – homem e mulher ao mesmo corpo, criado do nada ou do
inerte, do pó da terra e do próprio fútil fôlego; isto é, criado sem

160 Efeitos da Vida


espermatozóide, sem cromossomas e células genéticas. O gêne-
ses comprova que, o Adão místico não seria mais do que um ser
inanimado. E no fim de tudo separou da costela do hermafrodita
a mulher, a fez sua companheira fiel e idónea, formando um só
corpo e uma só carne, mas, separados ainda. Porém, tudo isso é
pura ilusão porque, a realidade do adapta-se ou morra, o equilí-
brio natural, a seleção ecológica e o facto da sustentabilidade da
cadeia trófica ser dinâmico, se metamorfosear ao longo do tem-
po evidencia que a complexidade e organização do mais simples
tipo de uma célula conhecida, é tão grande que é impossível que
tal objecto pudesse ter sido ajuntado miraculosamente por um
evento eloquente e anormal, vastamente improvável. Fica óbvio,
que as possibilidades de a vida se ter originado por um simples
dizer, por um simples fôlego, por um simples inerte são tão in-
significantes que podem ser completamente eliminadas. A vida
não pode ter surgido da eloquência de Deus nem tampouco dum
simples fôlego; todos estes factos detonam a versão de que um
ser sobrenatural criou por simples dizeres todas as espécies num
único dia, pois está comprovado que somente através de N mu-
tações é possível que os seres vivos ocupem espaços terráqueos
ou siderais sem acarretar um caos trófico nutricional, ou algum
desastre ambiental. Todas as culturas e civilizações da humani-
dade infelizmente, crêem neste Éden paradisíaco, sempre foram
assim; desde os sumérios, hindus, judeus, gregos, romanos até
aos nossos dias nos corrompemos com esta verdade infundada
– Narrou Jefferson curvado nos jazigos com argúcia fúnebre sem
que os meninos dessem conta da sua narrativa profana.

– Não, não posso crer que nesta hora da morte os nossos pais
voltaram ao seu solo; nem tampouco me conter que neste dia,
pereceram os seus pensamentos; que já não falam, não sentem
nem pensam nada – Queixava-se Seth.

– Seth, meu mano; não queixume deste modo, acredita somente

Kennexiz Xavier 161


em Deus, posto que, as Almas são substâncias divinas. E depois
da morte abrem um caminho para o céu – Aconselhou Salomé.

– É pena que só nós viventes estamos cônscios de que morre-


remos; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente
nada, no jazigo não há cultura, arte, ciência, trabalho, planea-
mento, conhecimento e sabedoria; neste lugar para onde todos
nós vamos descair não há almas viventes – Retorquiu Jefferson.

– Ó Jefferson; se é verdade que a alma do mais virtuoso se evola


mais facilmente, no momento em que a morte a destaca da pri-
são e dos laços corpóreos, pensas tu que a volta aos seres siderais
pode ser mais fácil que a dos pecadores? – Questionou Seth – Te-
merei então, afligindo-me disto, mostrar mais inveja, mais ódio,
mais soberba, mais egoísmo do que altruísmo ou amizade. Se é
verdade, ao contrário, que um mesmo fim afoga a alma e o corpo
e que nenhum sentimento sobrevive, como não há nenhum bem
na morte, igualmente não há nenhum mal. Porque o sentimento,
uma vez extinto, é, absolutamente, como se nunca tivesse nascido.

– É injusto que a morte nos trate assim! – Disse Jefferson –


Querido Seth, a morte e a sepultura pautam sobre a isonomia,
não olham na cara, cuidam todos do mesmo modo, não importa
rico ou pobre, santo ou pecador. Infelizmente, neste lado têm algo
em comum – O profundo e categórico esquecimento com a cru-
ciante perda mortal da mente ou da alma – Retorquiu Jefferson.

– Amado Jefferson, não penso como tu nem tampouco sou


apologista dos que recentemente se puseram a sustentar que a
alma perece com o corpo, e que tudo é destruído pela morte.
Prefiro submeter-me à autoridade dos antigos, à dos nossos pais,
que rendiam aos mortos honras religiosas – Replicou Salomé.

– Chega de lágrimas; irmãos vamos crer que o ser humano tem

162 Efeitos da Vida


uma alma imortal, a qual na morte vai para o céu ou para o in-
ferno. Vamos crer na ressurreição em Cristo Jesus... os nossos pais
vão ressurgir para a vida eterna no dia do senhor – Disse Yetu

– Porque também me parece que de um tão alto grau de glória


temente a Deus, de maestria, de humanidade que demonstra-
ram os nossos pais eles deverão mais brevemente subir aos céus
que aos infernos.

– Certíssimo! Fascinante e brilhante ideia é esta de Yetu. Vamos


crer no paraíso e nas promessas miraculosas de Deus – Observou
Salomé – E ninguém me tira, nem tu Jefferson nem tampouco o
mais astuto ateu me tirará a confiança que tenho desde cedo, de
que as almas dos homens são divinas, e que à sua saída do corpo
no retorno para o céu este lhe fica aberto, este retorno das almas
ao céu somente será tanto mais fácil quanto foram elas mais jus-
tas e mais puras na vida terráquea.

– O equilíbrio natural! A ressurreição, Yetu e Salomé – disse-


-lhes Jefferson, – É a coisa mais simples deste mundo. Não é mais
surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo é ressurreição
no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semen-
te ressuscita em árvore; todos os animais, sepultados na terra,
ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros animais,
de que vão constituir em breve uma parte da substância: todas
as partículas que compunham os corpos são transformadas em
diferentes seres.

– E tu – perguntou Salomé a Jefferson – que pensas a respei-


to de Deus?

– Eu não creio no paraíso nem tampouco em Deus, sem que


me provem a existência material deste vilão – Respondeu Jeffer-
son enquanto enxugava as masôxi dos olhos – Lembre-se que o

Kennexiz Xavier 163


Deus do Éden é perverso, imperialista e opressor; não se deteve
em condenar os seres viventes à morte perpétua... Quando os
indígenas – o Adão e a Eva míticos violaram a suposta lei do
Supremo, a punição não foi a imortalidade. Esta teria sido uma
recompensa e não uma punição! Antes pelo contrário, disse-se-
-lhes que voltariam ao inerte, ao pó, pois dele foram tomados e
miraculosamente criados. A possibilidade de existir um paraíso
eterno e um inferno; na realidade é zero. Portanto, a crença da
imortalidade, da ressurreição inerente à alma não consta até no
próprio Gêneses, mas o cristianismo adaptou-o de religiões não
cristãs que a antecederam.

– Ó Jefferson, tu queres dizer que o cristianismo não tem nada


a ver com Jeová? Disseste que Jesus Cristo não é igual a Jeová e
que a tríade divina é uma fraude? – Questionou Seth.

– É mesmo isso que ouviste querido Seth. A resposta é óbvia,


ninguém pode ser igual a Jeová, o próprio Salmista oitenta e três
verso dezoito declara de forma simples: “tu cujo nome é Jeová,
somente tu és o ultíssimo sobre toda a terra” para este Salmista
a tríade divina é uma aberração ao Jeová que se deve eliminar –
Retorquiu Jefferson – As doutrinas fundamentais da Bíblia e do
Alcorão são paradoxas; tanto os judaísmos, os islamismos quanto
o cristianismo se baseiam em mitos antigos – Os da Babilónia,
Mesopotâmia, do Egito, da Grécia entre outros. Os ensinos tais
como o Jardim do Éden, a convivência pacífica entre os animais
ferozes, domésticos e o homem, a imortalidade inerente à alma dos
seres viventes, o tormento eterno num suposto inferno ardente
com fogo e enxofre, o purgatório, a trindade – Três seres supre-
mos numa única Divindade, são mitos das civilizações antigas.

– Jefferson! Não, não acredito que tu estás a dizer isto, você


é um ateu confesso, deves ser comunista – Exarou Seth – Não
é justo que continues assim. Aconselho-te a mudar de posição

164 Efeitos da Vida


e opiniões blasfemas. Não tomes partido nas arrogâncias dos
ateus e comunistas astutos. Todavia, a Bíblia ensina que não dei-
xe que a má conduta de pessoas egoístas que vivem contrárias
aos bons conselhos da Bíblia o impeçam de lograr proveito dos
seus tesouros.

– Não sou comunista querido Seth... Sou ateu e ponto; este é


o partido que tomei e ouso segui-lo até ao fim dos tempos do
aquário. O meu cérebro fez-me entender que Deus é uma fraude
dos mitos, fábulas e lendas antigas. E pronto; não se fala mais nisto.

– Amigo, Deus é o todo-poderoso, o criador dos céus e da terra


e de tudo que existe no firmamento – Afirmou Seth.

– Ó Seth; entendes o que é dizer e criar? – Perguntou Jefferson.

– Entendo sim. Dizer é expor palavras, recitar, narrar, ordenar,


dar opinião. E criar é inventar, projetar, desenvolver, gerar, pro-
duzir, amamentar, fazer nascer– Respondeu Seth.

– E então Seth, segundo a versão da Bíblia Deus criou ou disse


ao Universo para existir? – Perguntou Jefferson.

– É claro que segundo o Gêneses Deus disse haja o firmamento


e assim se fez – Respondeu Seth.

– Se eu disser que no gêneses Deus foi um narrador de factos


e fenômenos naturais, será blasfémia? – Questionou Jefferson.

– De modo nenhum– Respondeu Seth.

– E se disser que Deus não criou absolutamente nada, estarei


a contrariar a Bíblia? – Perguntou Jefferson.

Kennexiz Xavier 165


– Também não – Respondeu Seth.

– Tu não achas que a crença em entidades siderais é uma neces-


sidade viciante que afeta o cérebro de maneira semelhante a dro-
gas, como o álcool, a cocaína e a heroína? – Questionou Jefferson.

– Até certo ponto, é verdade o que dizes – Respondeu Seth –


Mas diz-me querido Jefferson; Adão foi criado antes ou depois
dos homens das cavernas?

– As 42 gerações até Jesus Cristo são incompatíveis e pouquíssi-


mos demais para justificar o quase um milhão de anos que separam
os homens das cavernas até ao homem hodierno. Claramente se
entende que Adão e Eva ou Lilith foram criados depois dos homens
das cavernas, não são os primeiros humanos e a humanidade não
descende do casal mítico originário do Éden, de Adão e Eva; mas
sim, dos homens das cavernas – Respondeu Jefferson – Todavia, no
cérebro do teísta iludido a resposta para os fenómenos inexplicáveis
é atribuído sempre a um ser supremo e sobrenatural. Entretanto, se
Adão fosse criado antes dos homens das cavernas, já que os homens
das cavernas tinham um cérebro primitivo, de apenas 500 c.c. e não
um cérebro super-poderoso de 1400 c.c., como os humanos atuais;
o primeiro casal de humanos teria sido de “idiotas patológicos”.

– Tu queres dizer que Adão não sabia ler nem escrever? Ques-
tionou Seth.

– Não me faça Seth! Até a própria Bíblia ensina que a escrita


começou com Moisés e que todos os seus ancestrais eram anal-
fabetos, mesmo que, o sinal posto na testa de Caim por Deus te-
nha insinuado que os homens primitivos já sabiam descodificar
símbolos – Respondeu Jefferson.

– De onde se tirou esta ideia absurda de Adão ter redigido um

166 Efeitos da Vida


testamento se era matumbo? – Perguntou Seth.

– Embora a reengenharia Bíblica transforme lendas e mitos sem


coerência em textos canónicos, o Adão do jardim do éden não
teria dado nome aos milhões de animais hodiernos, aos animais
endémicos ou mesmo aos animais antigos, até porque, como está
comprovado, Adão era analfabeto, ironicamente teria vivido antes
de Moisés e antes da escrita, e portanto, o chamado testamento
de Adão nunca existiu! – Respondeu Jefferson.

– A vida tem tanta cena para narrar! – Exclamou Seth.

– E então, vamos considerar que Deus é o projetista do céu


e da terra e de todos os seres viventes e, a teoria da evolução é
meramente profana e irreal? – Perguntou Jefferson.

Não, absolutamente não. Porque a meu ver o Géneses e Char-


les Darwin, isto é, a teoria da evolução, convergem em todos os
sentidos quando ambos nos informam que a vida surgiu do na-
da, do inerte, do pó, do disse do acaso e do acidente biológico
– Disse Seth – Deus se for o projetista do universo, aqui há um
xeque-mate fatal da teoria da evolução; pelo menos ele tem de
surgir do nada, tem de ser um acidente biológico, porque, está
comprovado tanto para os ateus como para os teístas que, do
nada não se tira nada. Entretanto, se deus é o criador dos céus e
da terra, quem fez deus e este tal quem o fez? A resposta é óbvia;
tanto Deus quanto o homem são um acidente biológico.

Ôpa! Assim estamos num ponto eclético; se o firmamento


nunca existiu, Deus também nunca existiu nem tampouco existe
e ponto final – Disse Jefferson – Toda a história da ciência tem
sido a realização gradual de que eventos não ocorrem de forma
arbitrária, mas de que eles refletem uma certa ordem fundamen-
tal, que não pode ser divinamente inspirada – Ele parou de falar

Kennexiz Xavier 167


por alguns instantes, como se estivesse recuperando o fôlego e
continuou: Todavia, o viciado em seres siderais é tão impotente
quanto o dependente químico. As religiões causam dependên-
cia psíquica num grau acentuado; o teísta iludido e viciado em
alguma entidade sideral facilmente trocará a razão por alguma fé
irracional que distorce e conspurca a realidade, deixará de usar a
lógica, bem como terá uma necessidade incontrolável de acreditar
num éden milagroso, num mundo paradísico que supostamente
interage com os seus desejos e as suas necessidades.

– Tens razão Jefferson; antes crer na teoria da evolução do que


estar iludido com os criacionistas utópicos e paradoxos, que acre-
ditam em factos que jamais verão – Disse Seth – Vamos para ca-
sa, já faz muito tempo que estamos aqui na necrópole. A mamãe
deve estar preocupada connosco...

168 Efeitos da Vida


Capítulo XVI
A Amizade

Assim como, no trato íntimo da amizade, os superiores devem


igualar-se aos inferiores; assim, os inferiores não se devem preocupar
de ver-se sobrepujados pelos amigos em gênio, riqueza e dignidade.
Cícero

Dois anos depois, Kali ficou empregada, começou a trabalhar


como secretária do Diretor Geral numa fábrica de carros deno-
minada Xis 21 Company. Certo dia apareceu-lhes um cliente es-
trangeiro a visitar a Xis 21 Company, este que ao mesmo tempo
vinha para encomendar o fabrico pessoal de um carro. Quando
se reuniram para o almoço, o olhar atraente e o rosto de candu-
ra de Kali chamou a atenção do estrangeiro que ficou profunda-
mente apaixonado. Enquanto degustavam as delícias do manjar;
eles debatiam acerca da amizade, do amor e da virtude. A virtu-
de concilia as amizades, quando, pelos seus primeiros clarões, a
simpatia aproxima e une as almas, surge daí, necessariamente, o
amor – Disse um dos convivas.

– Decerto, não há bem mais apreciável que a amizade, a virtude


e o amor; a fortuna de muitos a exclui às vezes – Retorquiu Kali.

– Eu aprendi em estudos de filosofia que, devem-se procurar


amizades, pelos auxílios e vantagens que possam oferecer, e não
por benevolência e afeição. Assim, aquele que menos possui co-
ragem e força é que deseja com ansiedade os amigos: conclua-
-se que as benfeitorias da amizade serão mais procuradas pelas
mulheres que pelos homens, pelos pobres que pelos ricos, pelos
infelizes que por aqueles que passam por afortunados – Replicou

Kennexiz Xavier 169


descontraidamente o estrangeiro.

– Isto que vós dizeis é desonroso para a humanidade, visto que


a amizade é filha legítima da natureza. Eis uma admirável sabedo-
ria! Mas parecem remover o sol do universo aqueles que afastam
da vida a amizade, a virtude e o amor, estes dons, os melhores e
os mais nobres sentimentos, mais agradáveis que nos ofereceram
os seres siderais e imortais. O mais corajoso ou o mais forte, po-
derá seduzir à primeira vista, mas na realidade é condenável por
vários motivos pela natureza – Disse Kali – Eu aprendi de Cícero
que, não basta, porém, na amizade, que os superiores se dimi-
nuam; é preciso que elevem, por assim dizer, os inferiores à sua
altura. Há muitas pessoas que deturpam o encanto da amizade
pela impressão de serem depreciados; o que acontece somente
àqueles que se creem dignos de desprezo. Precisamos curá-los
desta apreensão com o auxílio de palavras e, sobretudo, de ações.

– Kali és tão sábia quanto bela! – Disse veemente o diretor –


Creio plenamente em ti; e que, sem a maturidade da razão, não
há pois amizade nem amor conjugal durável. A diversidade dos
gostos, as concupiscências carnais, os interesses materiais, desune
as amizades: e se os bons não podem amar os maus, nem os maus
amar os bons, é unicamente a dissemelhança dos seus costumes
e gostos que o determina.

– Não há coisa mais prejudicial na amizade que a adulação e a


sedução. Portanto, não se devem admitir certas opiniões estra-
nhas sobre a amizade – Disse Kali.

A refeição decorreu deleitosamente, mas, na altura da sobre-


mesa o estrangeiro suspirou e disse dirigindo-se a Kali:
– O dia de amanhã será muito alegre para ti.

– Porquê? – Questionou Kali surpreendida.

170 Efeitos da Vida


Eu e o teu patrão falaremos em puridade contigo – Respon-
deu o estrangeiro – Minha linda, não se inquiete nem tampouco
se conturbe! Porém, vale apenas me conhecer, chamo-me Assis
Fontes Zé-Povinho.

– Estou conturbada sim senhor! – Retorquiu Kali – Porque é


que quer tanto me conhecer?

– Graças a Xis 21 Company, o centro do nosso encontro e de


pessoas bonitas como nós... nada mais me resta dizer agora se
não mesmo explicar-lhe que gostei muito de ti. És na certeza bo-
nita demais, a tua beleza é mágica; as tuas divinas feições fazem
estremecer a minha alma e o meu mágico coração está perdida-
mente apaixonado por ti – disse Zé-Povinho – Bonitona, como
te chamas?

– Eu sei que sou esbelta demais... Chamo-me Heloísa Muzinga


Kali. Muito prazer em conhecê-lo – Respondeu Kali.

– As pessoas bonitas têm sempre nomes bonitos – Retorquiu


Zé-Povinho – Eu vou ter saudades tuas porque... Estou procurando
por uma pantera negra para saciar as minhas testosteronas – por
toda a eternidade... quero ouvir-te dizer que me queres amar. E
se estivesses próxima de mim, picava-a com um beijo na testa.
És bonita demais.

– És muito cómico e astuto meu senhor. Cuidado! Assédio se-


xual é crime... Não admito que me trates deste modo. Não volte
a falar comigo assim. Cuidado! – Respondeu Kali a rir.

– Minha senhorita; vou cuidar-me, sempre me cuidei. Mas tu és


bonita demais – Retorquiu Zé-Povinho – Talvez prefira conhecer
a minha casa. Eu viajo amanhã; se precisares de mim sabes onde
me achar, estou no condomínio da Xis 21 Company. Eu quero

Kennexiz Xavier 171


amar-te, pense nisso Kali. Aliás, está resolvido levo-a comigo!

– O senhor é tendencioso; sim, já o demostrou com a sua lín-


gua astuta e macabra, acredito que tem ideais estúpidas e inde-
centes – Retorquiu Kali.

– Ofensas; palavras obscenas, a senhorita está a disparatar –


Reagiu Zé-Povinho – Aclare, aclare e não faça cerimônia.

– Não é nada disso, Zé-Povinho – Retorquiu Kali – Eu queria


dizer... ideias absurdas, aliciantes e, é mesmo. Nunca me esqueci
que a língua é o espelho de qualquer personalidade. O senhor é
arrogante, astuto, confucionista e aliciante. Já percebi que o se-
nhor é categoricamente desumano, somente faz amizades por
concupiscência.

– Tu tens vindo a digitar a mesma tecla. Está pois, claro, que


tenho ideais obscenas – Examinou Zé-Povinho – Senhora Kali,
então, esta é a moeda com a qual me pagas para corresponder
ao meu amor? Muito agradecido!

– Não seja malvado Zé-Povinho! Você bem sabe que não passou
pela minha cabeça a tendência de magoá-lo – Disse Kali.
Ao dizer isso, Zé-Povinho disse: – Kali, você pode arrepender-se
se ousar e atrever-se a chamar-me doido. E que fique bem paten-
te o adágio; os homens não se medem aos palmos, uma pessoa
de aparência absurda pode com certeza ser muito importante.
Entretanto, o homem que desprezas pode vir a ser teu marido,
padrasto ou pai. Cuidado!
Tão logo Zé-Povinho terminou de dizer as suas máximas, Kali
levantou-se calmamente da mesa e saiu da sala amuada e extre-
mamente passada de si mesma. Todavia, Zé-Povinho, mesmo
assim, não queria deixar a senhora ir-se embora azoada consigo;
mostrou-se muito mais deleitado, cheio de apreço e amabilida-

172 Efeitos da Vida


de, seguiu-a e disse-lhe: – Minha amiga, acorda mas é; tu és uma
grande louquinha é que eu estava a caçoar contigo para suavizar
a sesta do dia, o almoço e a desforra do trabalho.

– Então é brincadeira, não é? – Questionou Kali – Não gos-


to de parvalhões e loucos, continuou ela. Subiu as escadas em
direção à sua secretaria, pegou na sua carteira, despediu-se do
diretor e pôs-se a caminho da sua casa com lágrimas nos olhos.
E Zé-Povinho, mais assustado do que queria suscitar gritou-lha
apenas: – Minha prezada senhora, tem mau coração! Perdoe-me
a especialidade com que lhe falei e, creia que a minha alma está
cheia de reconhecimento. Mas gostei de si com certeza! É bonita
demais. Ainda que esteja na defensiva e fria demais. Prometo que
o melhor de mim, eu vou dar para a ter; porque o que eu sinto é
puro e maior que tudo. Portanto, já não viajo amanhã. Somente,
espero que pense nisso, venha dar-me a sua mão e ser feliz comigo.

– Nem morta; vá para o inferno! – Disse ela.

Kennexiz Xavier 173


Capítulo XVII
Amor Efémero

O amor não é nada mais do que uma corrida veemente dos pra-
zeres, dos hormônios, das testosteronas curvados à concupiscência.
Kennexiz Xavier

– No dia seguinte Zé-Povinho não queria considerar-se levia-


no, aguardou a chegada de Kali no portão. E quando ela vinha
a balancear o seu corpo atraente sobre as relíquias e labirintos
das suas divinas feições, atravessou os impecáveis jardins, en-
trou no prédio, passou um guarda, acenou sensualmente com
os dedos, porém, em gestos de saudação disse dirigindo-se a Zé-
-Povinho: – Bom dia bobo, mordaz, aliciante e sedutor; dá-me
licença se faz favor!

– Bom dia! Obrigado excelente senhorita. – Respondeu Zé-


-Povinho surpreso com a especialidade da saudação. Kali sem
dizer mais nada nem manifestar interesse de olhar para o seu
interlocutor, pôs-se a subir as escadas do edifício da Xis 21 Com-
pany, percorria cintilante, deslumbrante, o corredor estreito do
edifício, escalonava todas as escadas que davam para o norte
onde se localizava a sua secretária executiva. O Zé-Povinho ob-
servou Kali enquanto ela ia andando pelo corredor. Notou que
os seus olhos dourados vibrantes pareciam meio equidistantes,
mas o seu rosto exibia um certo frescor, e os cabelos castanhos,
na altura do ombro, ainda estavam húmidos. Ela deixava atrás
de si um suave e erótico perfume de Lauroderme para bebés.
O apaixonado percorreu com os olhos, as suas costas bem tor-
neadas, observando a blusa branca com a marca do sutiã quase
invisível por baixo. Desceu o olhar pela saia até chegar às per-

Kennexiz Xavier 175


nas – as famosas pernas excitantes de Kali; ela atraía, assediava,
e por fim; abandonava o Zé-Povinho à mercê da febricitante
paixão, porém, somente ele exclamou: – Poças! – Que ninfeti-
nha barrosa! Entretanto passou assim ele todo dia preocupado
e a cismar com ardor e veemente paixão, a tristeza invadia-lhe
a alma, o dia era longo, já não entardecia, mas, aguardava com
firmeza a hora da largada. Todavia, avistaram-se apenas no fim
do dia e de todas as atividades na saída da secretaria da gerente
da administração na estalagem da Xis 21 Company. Logo que os
seus olhares se reencontraram Zé-Povinho não hesitou, fechou
a passagem a Kali e disse: – Boa tarde, senhorita Kali.
Kali sorriu, cansada.

– Oi, Zé-Povinho!

– Não esperava vê-la aqui a esta hora – Fingiu ele.

– É, nem eu esperava vê-lo aqui hoje. – Retorquiu ela.

– Posso falar consigo senhorita Kali?

– Por Jeová; o senhor é muito sínico! – Retorquiu ela – Mas o


senhor não dizia que viajaria na matina de hoje? Ou quer empre-
gar-se aqui? Diga, pois que eu posso fazer-lhe esse favor; emprego-
-o como auxiliar de limpeza na minha casa, posto que, aqui não
serve nem tampouco para graxear os sapatos do meu patrão.

– Desculpe senhorita Kali; se faz favor, gostava que moderas-


se a linguagem – Retorquiu Zé-Povinho – Não pude viajar hoje
porque deixei-a muito entristecida ontem. Por isso, as minhas
mais profundas desculpas; eu sei que estou errado e a minha
alma está cheia de reconhecimento.

– Não tem de quê! O mais importante é que você reconhece

176 Efeitos da Vida


o seu erro. Chausinho! – Replicou Kali.

– Por favor; preciso dizer-lhe algo, posso? – Interrompeu Zé-


-Povinho.
– Sê breve. Em que posso ser útil? – Cedeu Kali.
Conversaram durante muito tempo e mesmo sem Kali ter
consentido chegaram a trocar madrigais ou palavras amorá-
veis, a mais comovente foi quando Kali perguntou: – Qual é o
seu Status?

– Primeiro-ministro! – Respondeu ele.


Kali ficou estonteada com a surpresa, mudou de posição, bu-
fou um sorriso arreganhado, franziu o sobrolho a fingir que a sua
voz não se repercutiu aos ouvidos dela, mas, no fundo desejava
que estivesse a ser hipnotizada ou pelo menos a sonhar, e que
aquele momento não se tornasse real jamais, porém, retornou
a pergunta: – Não se faça de surdo; eu perguntei-lhe qual é o
seu Status Zé-Povinho?

– Eu disse-te primeiro-ministro. – Voltou a responder ele.


Kali escalonou um degrau, tirou a boina da cabeça, abotoou
o último botão da blusa e consequentemente disse: – Sua Ex-
celência! Queira desculpar-me pela maneira mordaz pelo qual
o tratei desde ontem. Acredite que a minha alma está cheia de
remorso, eu não devia menosprezá-lo. Porém, eu não sabia... não
podia adivinhar... nem tampouco me passou pela mente que o
senhor fosse o primeiro-ministro. – Não tem de quê! Confundir
é humano, caluda minha ninfetinha! – Disse ele acediosamente
e, de seguida avançou alguns passos para trás pegou dois cáli-
ces de vinho tinto no restaurante da estalagem, para ele e para
Kali; e voltando-se na posição anterior continuou: – Aceito de
boa vontade o seu perdão. Apraz-me as suas divinas feições,
acredite que é bonita demais; e o meu coração tem plena sede
de ti desde que a vi.

Kennexiz Xavier 177


– Também é bonito demais! – Retorquiu sensualmente Kali.
– Terei saudades suas se for embora daqui. Estou plenamente
convicta que o senhor não me queria ofender, de forma algu-
ma. A verdade é que não entendi absolutamente nada naquele
momento, respondi-lhe por acaso e sem precaução, portanto,
perdoe-me senhor ministro, por favor perdoe-me mesmo.

– Descanse Kali! – Replicou Zé-Povinho. – Eu somente falei


consigo porque gostei demais de si. Você fez-me sentir uma eter-
na felicidade, uma paixão febricitante, labareda e atracão pelas
suas magníficas feições. E se quiser coescreva-me nas pirâmides
do seu coração, visto que, já pendurei os cabides da minha ale-
gria nas paradisíacas paredes da sua alma.
A resposta era simples: – Há pessoas para as quais não se diz
“não”. Não há de quê! Se o senhor outrossim quiser – Respon-
deu Kali. – Já atraquei o barco do meu amor no porto sideral
do seu coração. Nesta hora, pode amar-me, todas as curvas do
meu corpo são sua propriedade porque estou condenada à pe-
na de amor perpétuo e presa ao seu lado para nos amarmos até
à eternidade.

– Ôpa! Quanta felicidade... – Exclamou Zé-Povinho – Como


Deus me ama! Não posso crer que você, todinha, é minha!

– Kali, mais sedutora do que uma pantera negra, girou a sua


bunda serpenteante, desabotoou os últimos botões da blusa,
estreou ao seu predador os seus felinos decotes, e por último
franziu o sobrolho e disse: – Podes crer meu amo, isto tudo é
seu, sim, de hoje em diante, todas as minhas feições são da sua
propriedade.
A cena estava comovente. Zé-Povinho não acreditava que ain-
da estava acordado, fitou veemente, os seios excitados de Kali.
Ela estava tão excitada quanto um grupo de fãs que se casaria
com um astro do rock. Pingos de chuva começaram a ouvir-se

178 Efeitos da Vida


no telhado, vapores de águas arrombaram as janelas, percorriam
o corredor inteiro e contagiaram calafrios gelados pelas suas
veias. Ele tinha esperado uma eternidade por esse momento. Os
seus sonhos de monandengue agora tornavam-se realidade. Ele
queria ser um anjo erótico da noite e domador do clímax femi-
nino. E consequentemente não hesitou em abraçá-la e beijá-la
amavelmente na boca. Minúsculas candeias iluminaram o tra-
jeto de Kali, espesso no corredor do prédio como uma pista de
descolagem gótica. Mas quando ela deu o seu primeiro passo
em direção a Zé-Povinho começou a perguntar -se se estava a
fazer a escolha certa. O seu coração começou a bater enquanto
ela seguia adiante. Imagens da vida que ela tinha passaram em
flashes por ela.
Kali tentava concentrar-se, nos beijos eróticos de Zé-Povinho,
mas, os seus pensamentos acabavam voltando para ele, Alber-
to K. O único homem que havia amado em toda a sua vida.
Lembre-se que Alberto era um homem de 40 anos, mestiço,
charmoso e forte, cheio de vitalidade e argúcia reverente. Tinha
olhos castanhos e uma inteligência à altura de seu porte. O seu
queixo comprido e feições bem marcadas faziam com que Kali
se lembrasse de uma estátua de bronze. Com mais de um metro
e oitenta de altura, jogava basquetebol e fazia pugilismo com
uma presteza miraculosa que surpreendia os seus homólogos.
Depois de massacrar o seu oponente na quadra ou no ring, ele
costumava refrescar-se enfiando a cabeça em baixo de um lavabo
e deixando a água escorrer pelo cabelo cacheado e preto. Então,
ainda pingando, em geral tomava uma Red Bull, uma vitamina
de frutas com uma sanduíche em companhia do adversário. So-
mente agora minha Némesis me achou – Murmurou Zé-Povinho.
Ele pegou as mãos de Kali quando ela tentou escapulir. -Você é
minha agora, senhorita Kali. Para sempre.
Ele passou mais uma vez a sua língua pelos lábios dela e foi em
direção à sua nuca e sussurrou sensualmente: – És bonita demais!
Encenaram as suas memórias, ouviram-se entre as partes aten-

Kennexiz Xavier 179


tamente, cada um escutou a história do outro, Kali manifestou em
suas memórias que é viúva do famoso Dr. Alberto K., outrossim
confidenciou que carecia de um companheiro amoroso e já era
a hora de arrumar um homem capaz de suceder o malogrado,
estava mais do que pronta para partir para outro amor. Logo que
selaram o compromisso com beijos e amasios, ambos partiram
para deixar Kali em sua casa. Assim que chegaram a casa, ao
entrar o portão do quintal Seth questionou-os: – Mamãe, por-
que é que vem a estas horas e acompanhada de um vampirão,
se isso nunca aconteceu? Entretanto, uma secretária executiva
não tem autorização de sair tarde e chegar a estas horas a casa.

– Meu filho, tínhamos muito que fazer, aliás, recebemos visitas


de altas personalidades na empresa. Eu estava a organizar todos
os detalhes da assembleia dos trabalhadores, foi muito longa; es-
te é com certeza o motivo que fez com que a mamãe chegasse
tarde, ou seja, a estas horas – Respondeu Kali com argúcia de
ludibriar o menino.

– Certamente! Se é que a verdade tenha alguma força! Eu jamais


me perderia nas tuas vãs fintas – Replicou Seth com um espíri-
to ciumento. – Mamãe não pode vir a esta hora e acompanha-
da deste vampirão porque eu ainda não acredito na fidelidade
das mulheres, elas são levianas, conspurcam o verdadeiro amor,
deixam-se envolver facilmente por efeitos efémeros das hormo-
nas. Além disso, sempre fomos perseguidos, no entanto, não se
esqueça que pode vir a cair na armadilha destas sanguessugas.

– Sim! Ela a tem; mas não em teu proveito! Em tua boca sa-
tânica, ela já se mostra fraca... Os teus ouvidos e a tua consci-
ência estão fechados, assim como os teus olhos. – Retorquiu
Kali. – Tu vives nas trevas... Não poderias nunca ferir-me nem
tão pouco encontrar-se em minhas fintas, ou a quem quer que
viva em plena luz.

180 Efeitos da Vida


– Está pois claro que a senhora se transfigurou em meretriz
profissional. – Asseverou Seth.

– Seth, está calado mas é! Que tens tu contra mim, meu filho,
que estás tão colérico; e os teus fúteis beiços, não... não poupam
proferir aberrações e palavras ultrajantes? Que queres tu insinu-
ar? – Retorquiu Kali. – Não é justo que me fales assim. Cuidado
com essa boca esquadra!

– Vós mulheres histéricas, delirais somente no ápice do or-


gasmo, mas, os seus efeitos são efémeros, sem dúvida! Mamã;
se você se envolver nas desordens dos prazeres, você causaria a
minha desgraça, e a sua! – Replicou Seth.

– Oh! Não repetirás impunemente tão ultrajante acusação! –


Seth, tais palavras, da tua parte, não são razoáveis, nem amistosas
para com a mulher que te gerou com um amor incondicional
e que te mantém, visto que lhe recusas a revelação do respeito
que te solicita desde muito cedo. – Retorquiu Kali. – Porém, fala
o quanto quiseres... O que dizes, de nada valerá; pois, este teu
bluff enciumado comigo não pega.

– Não estou a fazer bluff, de modo nenhum, eu estou certo


de que este vampirão é o teu companheiro sexual. – Replicou
Seth. – Fale a verdade. Pois eu asseguro que te uniste, prostituta
e indecentemente, sem o saber, àqueles que te são mais caros; e
que não sabes ainda a que desgraça te lançaste!

– Meu filho, eia! Crês tu que assim continuarás a falar, sem


consequências? – Falou Kali – E és tu, ó filho infeliz! Que me fa-
zes agora esta censura... Mas um dia virá, muito breve, em que
hás-de engolir todas estas palavras ultrajantes, sem exceção, pior
vitupério os deuses hão-de formular contra ti! Cuidado com essa
boca esquadra!

Kennexiz Xavier 181


– Mãe, eu somente queria cuidar de ti, sempre cuidei. – Res-
pondeu Seth – Mas se ousas ameaçar-me cuidarei da minha
boca esquadra, daqui para diante superprotejo-a, visto que,
em boca selada não entra mosca. Quanto a si mamãe, não se
esqueça que é viúva de um grande homem... Controle as suas
hormonas; pois, o seu amor pelo meu pai não deve ser eféme-
ro. E que fique bem claro; não vou corroborar consigo neste
partido que ousas tomar – O de ter novas amizades ou novos
parceiros sexuais. Nem morto hei-de concordar! Dê licença, fui...

– Assim que a tempestade se acalmou e o bluff colérico fei-


to. O Dilúvio de Seth sossegou, germinou um silêncio que se
deteve entre trevos e campânulas cambiantes, e fez a sua prece
ao arco-íris, através do isco do pescador marinho. Desde então
intrépidos lagos de masôxi, saltos de ira, espuma de ódio, ro-
lavam sobre a ponte e por cima dos bosques das almas recém
-enamorados; naperons negros e órgãos de pesar, trovão e raio
de emoções e delírios, subiam e rolavam aos espíritos decaídos;
águas e tristezas massacrantes, subiam as marés altas de cora-
ções atraídos e renovavam as ideias Diluviais de Seth.
Pois desde que dissiparam os bluffs e ataques ciumentos de
Seth, as pedras preciosas enterrando-se, e as flores se debo-
chando! Tudo é um tédio! E a paixão, a Feiticeira concubina que
acende a sua brasa num pote de barro; mas, humano ainda,
não inspirava, querer contar-lhes jamais tudo o que Seth sabia
reivindicar sobre o amor efémero, e que eles ignoraram. Neste
instante; Kali assistia na televisão das angústias, que murcharam
os ecrãs românticos das flores, que já, olhavam apaixonadas as
pedras preciosas que se escondiam no âmago silvestre do seu
terno coração; então, entristecida, deprimida e colérica dirigiu-
-se ao homem que a acompanhava e disse:

– Meu amor, perdoa-me o transtorno que lhe causei. Os meus


filhos são ciumentos sem controlo, eles são gênios e portanto,

182 Efeitos da Vida


muito fora da lei, isto é; do ponto de vista moral e cívico. Por
favor perdoa-me; o nosso jantar romântico que fique para um
outro dia, quando o sol do amor não se firmar no nosso céu
esquadrejado, mas, sorria-nos a candura circular dos seus má-
gicos raios solares. Eu vou relaxar, digerir a situação, pensar ra-
cionalmente neste nosso caso amoroso que já está a pegar fogo.
Zé-Povinho franziu o sobrolho e retirou-se como o pôr-do-sol,
envergonhado sem dizer absolutamente nada; e por sua vez, Ka-
li entrou em casa com o mesmo ambiente, frustrada, colérica,
contra Seth e, dirigiu-se a ele com estas palavras:

– Seu palhaço, minha besta de merda, insolente e safado do


raio; não foi justo o modo como me trataste! O que querias in-
sinuar? E, como é, que te atreveste, faltar-me ao respeito diante
de uma pessoa muito importante?

– Por jeová mamãe, basta! Imploro-te, basta mãe! A senhora


já me ofendeu mais do que o necessário. Imploro-lhe com pés
juntos, não seja reservada comigo. – Retorquiu Seth. – Eu já lha
disse que vou cuidar de mim... Mamã; não é justo que não me
queira entender; – Oh! Só não sei porque o amor tem fim. –
Amávamo-nos em memória do papai tão bem, somente; bastou-
-nos, a presença do vampirão para tudo mudar. Todavia, minha
matrona, eu não lhe faltei ao respeito como está a insinuar!...

– Pois quê! Ó tu, o mais acelerado de todos os homens! Tu


irritarias um coração de pedra! E continuarás assim, inflexível
e inabalável? Somente tu achas que te expressaste bem – Re-
plicou Kali.

– Porta-te como mãe e viúva de um grande homem...não pode


chegar a esta hora a casa e acompanhada...todas as mulheres
são infiéis e se envolvem facilmente aos efeitos efémeros...novas
amizades ou companheiros sexuais...

Kennexiz Xavier 183


– Blasfémia meu filho; isso é disparatar contra a própria mãe.
Cuidado! Da próxima que te atreveres a blasfemar contra mim,
não serás meu filho, mas sim, terás despertado o diabo que vive
dentro de mim e conquistarás a tua pior inimiga.

– Desculpa minha matrona – Replicou Seth. – Eu falei-te na-


queles termos, porque tinha a plena certeza que aquele vampi-
rão era o teu namorado. Porém, eu não concordo... Pelos deuses!
Visto que tu sabes que o amor não é efémero, não nos ocultes
a verdade! Todos nós, todos nós, de joelhos, te rogamos! Quem
é aquele vampirão?

– Jamais causarei tamanha dor a ti, nem a mim! Por que me


interrogas em vão? De mim nada ouvirás! – Disse Kali.

– Que dizes?!... Conhecendo a verdade, não falarás? Por acaso


tens o intuito de nos trair, causando a perda das memórias do
nosso pai? – Questionou Seth – Censuras em mim a cólera que
estou excitando, porque ignoras ainda a que eu excitaria em
outras circunstâncias das demandas dos teus prazeres iníquos
e proibidos! Ignoras... e, no entanto, injurias-me!

– Quem não se irritaria, com efeito, ouvindo tais aberrações,


acusações ultrajantes e palavreados, que comprovam o quanto
desprezas e blasfemas contra a própria mãe! – Retorquiu Kali – O
que tem de acontecer, acontecerá, embora eu guarde silêncio!...

– Visto que as coisas futuras fatalmente virão, tu bem podes


predizê-las! – Disse Seth.

– Mas, filho... e é verdade... mas, eu não posso ter um novo


amor? – Questionou reticente Kali. – Mas eu também não vou
mentir, estou mesmo sentindo-me muito sozinha. Preciso ter um
companheiro sexual que me possa satisfazer os prazeres; pois,

184 Efeitos da Vida


não consigo controlar as minhas hormonas.

– Mamã – reagiu Seth; – para teu benefício e de uma maneira


geral o nosso, eu bem sei, o teu desejo é inoportuno. Logo, a fim
de não agir imprudentemente...

– Eu não abrirei a mão do homem que quero amar para o


resto da minha vida. O meu partido está tomado e ponto final;
queiras ou não queiras!... – disse Kali. – Mas se tu continuares a
opor-te à minha relação, serás a pessoa que odiarei com toda a
minha força e nesse dia deixarás de ser meu filho.

– Nada mais direi! Deixa-te levar, se quiseres, pela cólera mais


violenta; pelas hormonas; pelas concupiscências! Somente não
sei porque o amor tem fim – Replicou Seth.– Pois bem! Mesmo
irritado, como estou, nada ocultarei do que penso! Sabe, pois, que,
em minha opinião, tu não devias amar outro homem além do
meu pai, entretanto; tu és cúmplice se o nosso amor for efémero.
Ao dizer isto a brava mãe tinha os olhos cheios de lágrimas e
dizia para si mesma:- Ó porcaria duma figa! Ó besta! Ó mulher
desprezível! Ó glória de uma vida consagrada ao amor efémero,
quanta inveja desperta contra o filho que tu mesma geraste!
Sim! O filho que tu mesma geraste, hoje blasfema contra ti,
menospreza-te, chama-te meretriz e não te respeita. És fútil mu-
lher, não vales para absolutamente nada...Nunca pensei que o
meu próprio filho crescesse anátema e viesse aqui dizer-me tantas
tolices; pelo contrário, não o carregaria nas minhas entranhas
durante nove meses e não o faria nascer!
As crianças choraram com ela. A nosso ver, ó mãe tanto as tuas
palavras, como as de Seth, foram inspiradas pela cólera. Talvez
essa acusação injuriosa lhes tenha sido ditada pela cólera mo-
mentânea, e não pela reflexão. Ora, não se trata agora de julgar
esses debates; o que urge é dar cumprimento as memórias do
nosso pai, à família sólida, pacifica, harmónica, solidária e amo-

Kennexiz Xavier 185


rosa – Disse Yetu. Então Kali sem mais energias físicas despediu-
-se:- Eu retiro-me. Ó meninos! Venham consolar-me os anjos que
nos vigiam enquanto dormitamos!
Depois de Kali ter-se retirado sem jantar, Seth demorou-se um
pouco a conversar com os seus irmãos acerca dos dias vindouros...

186 Efeitos da Vida


Capítulo XVIII
Conflitos

Passamos grande parte de nossas vidas acreditando que certos


eventos nunca ocorrerão connosco. Gostamos de pensar que são
fatos para pessoas com muita sorte ou com muito azar.
Kennexiz Xavier

Eram seis e cinquenta e três da manhã no momento em que os


meninos desceram as escadas de pijama. Estavam todos no meio
de um bocejo quando ouviram a batida pesada da aldraba. Seth
abriu a porta e o Jefferson sorriu em baixo do seu gorro pontudo.
Bom dia, Seth! – Saudou ele.
– Bom dia Jefferson! – Respondeu Seth.

A lufada de ar frio beliscou os pés descalços de Seth e ele es-


tremeceu, lembrando-se de alguma coisa da noite anterior. Mas
aquilo teria de esperar, pois Jefferson perguntara-lhe de onde
vinha o berro que ouvira do seu anexo; parecia-lhe a voz de Kali
e de Seth. Ele ergueu os olhos, e ali, como se aparecida do nada,
estava a mãe dele, com o seu roupão azul felpudo e um leve chei-
ro de bacon. Uma nuvem de ar morno a seguira da cozinha, e
Seth sentiu também cheiro de torradas de pão e leite. Ela olhava
para ele como se o garoto tivesse acabado de cometer um ato
muito perigoso.

– Seth! -Suspirou ela; e seus grandes olhos dourados piscaram


desconfiados, a sua alma contorcia-se nas veias do seu coração
que tilintava como uma bomba relógio, pois, suspeitava que Se-
th estivesse na porta a brigar com Zé-Povinho. Você não deve
abrir a porta sem verificar quem está do outro lado – Disse ela

Kennexiz Xavier 187


aliviada. O vento chacoalhou as vidraças sem poupar as persia-
nas bronzeadas presas no lado de dentro da porta enquanto ela
acrescentava: -Nunca se sabe quem pode estar espreitando lá fora.
O Jefferson não ficou nem um pouco feliz em ser considerado
um espreitador, e para mostrar o que sentia deu uma pequena
tossida de desaprovação.

– Bom dia, Kali! – Saudou ele rigidamente.


Kali pareceu nem notar. Estava mais preocupada em tomar
alento, mostrar-se vingadora e indiferente diante dos enérgicos
sorrisos de Seth – Mãe não se preocupe eu sou crescido e sei de-
fender-me de olhos e ouvidos perscrutantes que há na rua – Disse
Seth. Mas os lábios de Kali continuaram apertados a expressarem
um ódio infernal. De sobressalto viu-se Kali a escalar as escadas,
seguida pela voz de Jefferson que dizia a Seth:

– Hoje o dia está muito estranho nesta casa! Eu prefiro tomar


o pequeno-almoço no restaurante da Universidade.
Mas Seth já estava seguindo a mãe pelo vestíbulo, olhando o
cinto do roupão dela se arrastar no chão, recolhendo poeira do
tapete. Ele estava pensando num jeito de recuperar a confian-
ça e o afeto da sua mãe que estava colérica e reservada demais.

– Então os seus cotovelos projetaram-se para fora dos dois la-


dos do corpo e ela começou a andar energicamente.

– O bacon! – Ela virou bruscamente à direita, para dentro da


cozinha.

Os irmãos de Seth, já estavam todos sentados à mesa da cozinha,


uma das mãos segurando o pão torrado e a outra, uma caneca
de leite. Salomé deu um sorriso sonolento de lado e, erguendo o
pão torrado da mão, disse: – Bom apetite, Mamã e Seth!
Estava usando um amarrotado pijama listrado amarelo e bran-

188 Efeitos da Vida


co e mocassins de pele de tigre. O seu cabelo castanho era uma
massa emaranhada de nós e, abaixo dos seus olhos, sombras em
meia-lua repousavam sobre bolsas de pele murcha. Ela olhou para
os convivas amuados e de seguida perguntou:

– O Jefferson já passou, ele foi para a universidade sem o pe-


queno-almoço, Mamã?

– Sim, e você deveria ter estado com os ouvidos atentos – Res-


pondeu Kali. Ela voltou-se do fogão e deu uma olhada significativa
para eles. Retornou à mesa e sentou-se.

– Bom apetite a todos! – Desejou ela.

– Obrigado e igualmente, mamãe! – Responderam em unís-


sono, as crianças.
Seth estava sentado silencioso numa cadeira de pinheiro, do
lado frontal de Kali, entristecido com a indiferença de sua mãe;
tinha a cabeça entre as mãos e o espirito esmorecido. Depois
de alguns minutos de um considerável silêncio; Seth contagiado
com uma argúcia histérica levantou-se num ritmo de trovoada
e relâmpago, deu um estrondoso e tempestuoso murro sobre a
mesa em que a sua mãe e os seus irmãos estavam a tomar o pe-
queno-almoço. Todos os convivas ficaram com o coração a bater
nas mãos, assustadíssimos soltaram um bramido surpreendido.
E noutro instante, ele estava a olhar a sua mãe tranquilamente,
deu umas voltas pela cozinha como que se tomasse alento e disse:

– Sou um filho pacato, sempre o fui! Amo-te tanto, sempre


te amei! Mas tu, mãe, estás tão dura com o coração dobrado e
infiel ao nosso amor. A senhora está exagerando em bancar-se
uma fêmea felina. Não devia ser assim! Se tu possuis o régio poder,
ó Mãe, eu posso falar-te de igual para igual! Tenho esse direito!
Não sou teu subordinado, mas sim teu filho; tampouco jamais

Kennexiz Xavier 189


seria um cupido de qualquer vampirão que te queira enamorar.
Digo-te, pois, já que ofendeste a memória do nosso pai; nós va-
mos retirar-nos daqui. Sim... É prudente que fiques sozinha! A
tua companhia importuna-nos; longe daqui não nos molestarás.

– Mas...filho! – Observou Kali – Estás louco?

– Não estou louco; mas, deixa-nos ir embora para o nosso e o


teu bem – Retorquiu Seth.

– É loucura sim... Um dia virá, em que serás expulso desta cidade


pelas maldições maternas e paternas – Replicou Kali – Vês agora
tudo claramente; mas em breve cairá sobre ti a noite eterna. Que
asilo encontrará, que não ouça os teus gemidos? Que recanto da
terra não vibrará com as tuas lamentações quando souberes em
que funesto consórcio veio terminar a tua antiga carreira – O de
ser um político e ativista social? Tu não podes prever as misérias
sem conta que te farão igual, na desdita, a teus filhos. E agora...
Podes lançar toda a infâmia sobre mim, e sobre os sentimentos da
minha alma, porque nenhum mortal, mais do que tu, sucumbirá
ao peso de tamanhas desgraças! Por ousar envenenar-se contra a
própria mãe. Portanto; podes insultar-me... Hás-de engrandecer-
-me ainda.

– Essa grandeza é que causa a tua infelicidade! – Examinou Seth.

Dito nestes termos, Kali levantou-se com presteza, precipua-


mente dirigiu-se ao seu local de trabalho para assinar o livro de
ponto que nem se lembrou da sua carteira. Assim que ela chegou
ao seu trabalho, encontrou Zé-Povinho a aguardá-la no portão
com um ramalhete de rosas.

– Devo ter chorado a noite inteira porque tinha os olhos íg-


neos de paixão, sofrendo indivisível solidão – Disse Zé-Povinho.

190 Efeitos da Vida


– Certamente!... Não te recusarei essa revelação, visto que es-
tou reduzido a uma última esperança. A quem poderia eu, com
mais confiança, fazer uma confidência de tal natureza, na situação
em que me encontro? Outrossim vivo na mesma situação. Estou
pagando com o sacrifício de perder o amor dos meus filhos, pela
covardia de te querer amar; pois, não consigo controlar as hor-
monas. Todavia, os meus filhos depreciam-me pelo nosso amor.

– A senhorita é muito modesta! De argúcia solenemente amo-


rável – Disse Zé-Povinho – Mas agora, o que tens que fazer, é ig-
norar os teus filhos quando estás comigo. Outra nava que ainda
não me contou!... como terminou a briga de ontem? – Tens um
filho imperialista.

– Não gosto de falar do passado. Mas...cumpri somente com


o meu papel de mãe – Retorquiu Kali – Meu amor, ouça bem o
que devo dizer-lhe, não vou ignorar nunca os meus filhos, eles são
o meu maior e precioso tesouro. Uma metade de mim, ama-te
e, não se quer importar com os meus filhos, mas outra metade
de mim ainda venera os meus filhos e, não quer saber de ti, não
te ama. Não meu amado, por favor! – Beijando-o nos lábios a
choramingar.

– Então! O que faremos, se eles não te querem ver casar de no-


vo? – Questionou Zé-Povinho – Pelas divindades imortais! Se tens
amor à tua vida e se queres manter sólido o nosso amor, abandona
essa preocupação que tens dos teus filhos. Já é bastante o que eu
sei da arrogância do teu filho, para te torturares.

– Não importa! Escuta-me! Eu suplico-te! Não insistas nessa


indagação! Eles hão de se acostumar – Respondeu Kali – No
entanto, tranquiliza-te! Mesmo que eu tivesse sido amaldiçoada
desde três gerações, tu não serás humilhado por isso!
– Duvido! Aquele teu filho é visionário, duro e imperialista.

Kennexiz Xavier 191


Acostumar-se? Duvido! – Replicou Zé-Povinho – No entanto, é
para o nosso bem que assim te aconselho.

– Acredito... Mas esses teus conselhos há muito me importu-


nam! – Replicou Kali – Nesta vida, tudo tem conserto! Vou tendo
conversas sérias com eles, acredito que tudo se há-de consertar.
Era uma tarde fresca durante as férias de outono, e Jefferson
voltava da sua corrida matinal para o anexo de três quartos ce-
dido pelas crianças com o conhecimento de Kali. Juntou-se aos
miúdos que estavam na sala de estar; refletia sobre a recente vida
de Kali, que como as crianças a acusam, abandonara as memórias
do seu malogrado marido e partira para uma nova relação amo-
rosa. Enquanto conversavam no silêncio e candura do anoitecer
do dia, subitamente; a harmonia da sala foi quebrada quando
Zé-Povinho entrou com uma mala de bijuterias de ouro, com
intuito astuto de aliciar e corromper os miúdos que não estão
de acordo com aquele enlace.

– É chegada a hora do meu enlace matrimonial com a vossa


matrona – Disse Zé-Povinho – Peço-te a mão da tua mãe; Seth,
pelo amor que tenho por sua mãe, dou-te este relógio dourado
entalhado, este anel de ouro puro, esta mascote também.

– Ó mísero e infeliz! – Sai fora! Afaste-se de mim! Eu não estou


à venda, nem minha mãe nem meus irmãos são bagatelas – Gri-
tou Seth – Qual o homem, santo Jeová! Que se sujeitaria a viver
na abundância de tanto ouro, diamante e prata, a transbordar
de riquezas, sob a condição de jamais amar nem ser amado por
ninguém? Tal é a vida dos tiranos como tu ó infeliz vampirão;
este seu ouro e argúcia corruptível na qual não pode haver se-
gurança, nem carinho, nem confiança, nem uma afeição durá-
vel, onde tudo é inquietação e dúvida, onde, nem há lugar para
a amizade. Tu és uma besta adestrada. O que tu nos causaste
não tem perdão.

192 Efeitos da Vida


– Querido Seth, tu vais ter que nos perdoar! Mas, o tempo trou-
xe-nos até aqui, o nosso destino está traçado. Eu amo a sua mãe e
ponto – Agora vai ter que se acostumar – Replicou Zé-Povinho.

– Ó besta! A amizade é uma suma harmonia das coisas divinas


e humanas, com benevolência e amor. Dons tão grandes, que não
sei se os Deuses concederam, outro maior aos mortais – Acusou
Seth – Preferem uns o ouro, o diamante, a prata, o petróleo e as
riquezas, outros a boa saúde, outros o poder, outros as honras,
e, muitos, os prazeres. Estes últimos são só muito próprios das
bestas como tu, ó mísero vampirão.

– Cuidado com essa língua anátema! Ó menino! Não desperte


o demónio que há em mim – Aconselhou Zé-Povinho.

– Ninguém concorda com este fútil enlace matrimonial – Dis-


seram em uníssono os miúdos – Se te atreveres a passar aqui para
corromper-nos esmagaremos o teu pénis com os nossos pés. Por
isso, aconselhamos-te a controlares as tuas testosteronas.

– Quê? Vocês atrevem-se, com essa imprudência, a articular


semelhante profanação aos seus pais, e pensais, porventura, que
sairás daqui impune? Se assim continuarem vão morrer na pri-
são porque eu mesmo me encarregarei de prendê-los – Asseve-
rou Zé-Povinho – Não se conturbem, o que está feito, está! Nós
amamo-nos, vamos casar e ponto! Com ou sem o vosso consen-
timento. Eu conheço a verdade poderosa do amor! Até a vista!
Tão logo saiu Zé-Povinho, estava outrossim a entrar Kali com
uma interna tristeza que lhe invadia a alma e uma amargura
devorando-lhe o coração. Tanta coisa na sua vida se modificou,
o seu novo amor abriu as portas para a rivalidade com os seus
próprios filhos. Deu tudo errado, somente a sua casa, agora, é
um campo de batalhas, residia guerra e ódio. Ela estava confusa,
e a sua vida, estava dividida em duas metades antagónicas. Uma

Kennexiz Xavier 193


metade era-lhe abrigo e a outra metade era-lhe cansaço. Uma
metade era-lhe partida e a outra metade era-lhe saudade e so-
lidão. Sentia-se como um pássaro ferido, sem saber o que fazer,
estava ferida pela loucura e o prazer. Mas este era apenas, um
sinal de que, as comportas do céu das angústias abriram e vai
chover tempestade.

– Mãe, já não nos ama, eu sei; mas, portem-se com idoneidade


antes que firam a vossa vitória. Ninguém me vai impedir de in-
fernizar o vosso matrimónio se continuarem a importunar-nos.
Sete vezes o vosso sonho de amor promíscuo cairá por terra –
Disse Seth.

– Eia! Deixa de provocar-me Seth. Tenha dó de mim – Retor-


quiu Kali – já não falo contigo, ficamos quites assim.

– Enquanto aquele vampirão infeliz não parar de passar aqui


em casa, jamais, nunca pararei de falar contigo – Replicou Seth.

– Está calado! Eu já falo com ele! – Disse Kali.


O sinal do seu relógio finalmente tocou, era o alarme de ir para
a cama para dormir.
Em vez disso ela saiu à procura de Zé-Povinho pelo Campo,
pelo ginásio, na cantina onde os snobs jogadores comiam as suas
baguetes e os seus filés mignons. “-Onde está Zé-Povinho?” Ela
perguntou a um guarda que estava saindo da estalagem. Ele a
olhou de cima a baixo. Ele a encarou como se ela fosse uma rai-
nha e ele era um servo que tinha ousado tropeçar no castelo dela.
Ele pegou a sua arma makarofe e virou-se como se ela já tivesse
desperdiçado muito do seu tempo.

– Você viu Zé-Povinho? – Ela repetiu.

– Ele está no seu apartamento – Rosnou o guarda.

194 Efeitos da Vida


– Você quer dizer que eu poderia ter ficado em casa também?

– Murmurou Kali – Eu só vim ao condomínio hoje para me


encontrar ele.
O guarda desrolhou os seus olhos a Kali e continuou a cami-
nhar. Ela em vez de entrar furtivamente, teve que fazer a sua en-
trada conhecida. Bateu à porta do apartamento de Zé-Povinho
e ele vinha abri-la.
– Meu amor, os meus filhos estão cada vez mais endemoniados
por causa da nossa relação. Não consigo controlar-me, estou em
conflitos comigo mesma.

– Realmente! Os teus filhos são a maquete do próprio Levia-


tã – Disse Zé-Povinho – Agora mesmo, venho da sua casa...eles
menosprezaram-me com certeza.

– Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de provar


o amor que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não
me tape os ouvidos e a boca, porque metade de mim é o que eu
grito, mas a outra metade é o silêncio e a saudade – Recitava Ka-
li – Juro que é constrangedor o que sinto, porque uma parte de
mim é amor e a outra parte é remorso. Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece e nem repercutidas com fervor,
somente respeitadas como a única coisa que resta a uma mulher
inundada de paixão e amor; porque metade de mim é o que sin-
to, mas a outra metade é o que choro. Que essa minha vontade
de te amar se transforme na calma e na paz que eu mereço, e
essa cólera que me corrói por dentro seja um dia recompensada;
porque metade de mim é o que amo e a outra metade é uma
tempestade. Que o medo da solidão se afaste, que o convívio
comigo mesma se torne ao menos suportável, que o espelho re-
flita em meu efígie um sorriso de mel e leite que eu me lembro
ter dado na infância; porque metade de mim é a lembrança do
que fui, a outra metade... eu não sei. Que as minhas hormonas

Kennexiz Xavier 195


efervescentes na minha vagina, não seja preciso mais do que
uma simples alegria histérica no ápice do orgasmo para me fazer
aquietar o espirito, e que o silêncio das tuas testosteronas me fale
cada vez mais; ó amado, porque metade de mim é tesão, mas a
outra metade é esterilidade. Que a mente genial de Picasso nos
aponte uma resposta para o êxtase do amor pintado nas telas
dos nossos corações, mesmo que ela não saiba, e que os meus
filhos não tentem complicar, porque o prazer sexual é vital... que
a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor
e a outra metade... também!

– Metade de mim! Eu adorei o seu poema baseado na sabedo-


ria de Osvaldo Montenegro; mas, meu amor, deves digerir este
conflito – Replicou Zé-Povinho.

– Cai fora! Ó Inferno!...Eu não sei o que fazer com eles. E o mais
agravante, é que eles prometeram infernizar e acabar a mal com
o nosso enlace matrimonial – Resmungou Kali.

– Já os avisei para terem cuidado; e por serem renitentes vou


processa-los criminalmente agora mesmo. Kali permita-me que
eu faça isso em defesa do nosso amor.

– Não, não é justo que façamos isto! E o mais agravante é que


não temos de que acusá-los. Duvido que as autoridades conce-
dam prisão a um processo contra casamento; além do mais, são
os filhos que não querem ver a própria mãe casar-se de novo.
Processá-los, duvido que sejam presos!... Observou Kali.

– Respeita o meu posto Kali. Eu sou primeiro-ministro, mando


e determino quem é quem? Há polícia ou juiz que vai recusar-me
prender arbitrariamente alguém? – Disse Zé-Povinho – Deixa
comigo, eles hoje mesmo serão presos porque nunca quiseram
respeitar-nos.

196 Efeitos da Vida


A mente de Kali estava em turbilhão – Tenho medo e dó de-
les; porque são os meus filhos – Retorquiu ela – E não têm mais
ninguém... eu serei uma besta, porque não é normal uma mãe
cometer tal barbaridade contra os seus próprios filhos. Não, não
nos convém praticar tal...

– Psiu! Kali, você ama-me ou não? – Questionou Zé-Povinho.

– Se não te amasse, eu não teria conflitos com os meus filhos

– Respondeu Kali – Amo-te com certeza; são palavras do meu


íntimo coração. Mas isso não nos dá o motivo... eles são os meus
filhos!

– Eia! Não se fala mais nisso. Vou acusá-los do crime mais vio-
lento. Agora mesmo vou prender Seth e aquele tal de Jefferson
– Disse Zé-Povinho.
Dito e feito. Eram 8 horas e meia da noite; quando Seth e Jeffer-
son estavam em contas com o tribunal. Os noivos alegres e em
terapia de amor quebravam taças de whisky auto desejando-se:
– Felicidade para nós!... Que dure para sempre este nosso en-
lace matrimonial.

Kennexiz Xavier 197


Capítulo XIX
O Dia do Casamento

Nascemos sozinhos, vivemos tensos por prazeres efémeros, hu-


manizamo-nos em convívios insignificantes por causa da renúncia
à solidão e morremos sozinhos.
Kennexiz Xavier

Estavam no seu quarto de dormir, no seu apartamento preferi-


do no condomínio da Xis 21 Company. Zé-Povinho olhava para
ela, sorrindo.

– Então, querida, o que me diz? Vamos casar-nos?

Deitada na cama, ela devolveu o olhar erótico e apaixonado.


Aquele era o homem certo, mesmo que não possível; mas, capaz
de fazer uma substituição necessária do seu primeiro amor. Para
sempre. Enquanto admirava os seus profundos olhos castanhos,
em algum lugar equidistante uma campainha começou a tocar.
Ela tentou abraçá-lo, beijá-lo ou amaciá-lo, mas os seus braços en-
contraram apenas o vácuo.
O ruído do telefone acabou despertando Heloísa Kali do seu
sonho.
Ela suspirou sonâmbula, sentou-se na cama e tateou em volta,
procurando o telefone.

– Alô? Quem está ao telefone?

– Oi, Kali é o teu amado Zé-Povinho! Eu acordei-te?

Ela sorriu sensualmente, rolando na cama.

Kennexiz Xavier 199


– Ai! Tesão. Estava sonhando com você. Vem para cá ficar
comigo...

– Ainda está escuro lá fora – Replicou a sorrir Zé-Povinho.

– Humm! – Kali sussurrou, sensualmente – Então você tem


mesmo que vir para cá. Vamos fazer amor. Podemos dormir um
pouco antes do sol raiar.

– uff! – Zé-Povinho soltou um suspiro de frustração.

– Não é por isso que estou ligando. Vamos ter que adiar o
nosso casamento.

– O quê? – Kali acordou totalmente, como se tivesse levado


um murro.

– Mil desculpas. Vou ter que viajar, pois tenho que estar no
conselho de ministros hoje. Mas volto amanhã. Podemos casar
amanhã de manhã bem cedo e ainda daremos mais tempo para
a orquestra e o conservador se arrumarem.

– Mas eles já estão preparados e já fiz os convites para hoje.


Disse Kali, contrariada – Consegui a reserva do nosso quarto
para a lua-de-mel. É para hoje.

– Eu sei, mas é que... -Retorquiu, reticente Zé-Povinho.

– Esta é uma data especial, não devíamos adiá-la. Você ainda


lembra que estamos noivos, não é? – Questionou Kali.

– Kali, não posso explicar os detalhes agora. – Zé-Povinho suspirou


– Eles, os membros do conselho de ministro, mandaram um carro
que me está esperando lá fora. Ligo do avião e explico tudo depois.

200 Efeitos da Vida


– Avião? – Perguntou Kali, espantada. – O que está aconte-
cendo? Por que a assembleia...?

– Não é a nada. Ligo depois e explico. Preciso ir agora, estão


me chamando. Entro em contato assim que puder, prometo.

– Zé! – Gritou Kali. – A que está... Ele já havia desligado.


Heloísa Kali ficou acordada durante horas, esperando que ele
ligasse, mas o telefone não tocou.
Mais tarde, naquela mesma manhã, Kali sentia-se abandonada.
Resolveu tomar um banho. Entrou na banheira e afundou a
cabeça na água, tentando esquecer as aventuras do dia do ca-
samento.

– Onde será que ele está? Por que não ligou ainda?
Aos poucos, a água quente foi ficando morna, depois fria, e
ela estava a preparar-se para sair do banho quando o telefone
deu sinal de vida.
Levantou-se com pressa, espalhando água pelo chão enquanto
agarrava o aparelho que havia deixado sobre o lavabo.

– Meu amor? Ainda estás aí? – Questionou Kali.

– Sim. Por causa do nosso casamento o presidente da repú-


blica dispensou-me – anunciou Zé-Povinho – Está tudo pronto,
casamos hoje.

– Felicidade! – Suspirou Kali. – Também não é bom adiar acon-


tecimentos importantes da vida.

No meio dos jardins, entre duas cascatas, elevava-se um salão


oval de trezentos pés de diâmetro, cuja abóbada de lápis lazúli,
semeada de estrelas de ouro, representava todas as constelações
com os planetas, cada qual no seu verdadeiro lugar, e essa abóba-

Kennexiz Xavier 201


da girava como o céu, por meio de máquinas tão invisíveis como
aquelas que dirigem os movimentos celestes. Cem mil archotes,
encerrados em cilindros de cristal de rocha, alumiavam o exterior
e o interior da sala de jantar. Um aparador em degraus sustentava
vinte mil vasos ou pratos de ouro; e defronte ao aparador havia
outros degraus repletos de músicos. Dois outros anfiteatros acha-
vam-se carregados, um com os frutos de todas as estações, o ou-
tro de ânforas de cristal onde brilhavam todos os vinhos da terra.
Os convivas acomodaram-se em torno à mesa, cujos assentos
eram separados por grinaldas de pedras preciosas, que figuravam
flores e frutos. A bela formosente, ou simplesmente Kali, foi co-
locada entre o Zé-Povinho, o presidente da república, o rei dos
Dembos e o do Bailundo. Havia cerca de cem príncipes e cada um
deles se achava ao lado de uma das mais divinas e belas damas do
universo. O rei do Bailundo, ao centro, defronte à neta que iro-
nicamente também se chama Kali, parecia conturbado, dividido
entre o pesar de não a ter casado e o prazer de ainda a conser-
var consigo virgem. Kali a xará da noiva, pediu licença para ficar
com o pássaro a seu lado, na mesa, o que o rei achou muito bem.
A música, que começou a tocar, deu a cada príncipe a inteira
liberdade para entreter a sua vizinha. O festim pareceu tão agra-
dável quão magnífico. Tinham posto diante de Heloísa Kali um
petisco que o Zé-Povinho seu noivo muito apreciava. Kali deu um
pé de dança com a maioria dos convivas. No momento em que
o Dj colocou uma música house, Kali remexeu a bunda tal qual
uma avestruz. Desenrolava, assim, a tão linda cauda do vestido
de noiva, as suas ancas distendidas ostentavam tão brilhantes
cores, tamanho fulgor lançava o ouro da sua pele mestiça, que
todos os olhos só se fixavam nela.
Todos os músicos cessaram de tocar e permaneceram imóveis.
Ninguém comia, ninguém falava, só se ouvia um murmúrio de
admiração. A metamorfose da princesa de Babilónia ou simples-
mente Kali beijou o seu noivo durante toda a ceia, sem ao menos
pensar que havia reis e príncipes neste convívio ou cerimónia.

202 Efeitos da Vida


Ninguém se lembrava naquela altura de coisas infernais, de mi-
seráveis circunstâncias em que viver não faz o mínimo sentido,
nem refletiam concomitantemente sobre: o amor ingénuo e puro,
amor carnal, fidelidade e traição, amizade, ódio, vingança, inveja,
prazer e dor, guerras, mortes, ressurreição, afeição e respeito pelos
seres indefesos. Havia somente três pessoas tristes: eram os filhos
de Kali; Yetu, Salomé e Yara.
Com a argúcia de animá-los e fazer olvidar o que se passava na
cabeça das pobres crianças, o Zé-Povinho disse-lhes: – Não de-
sanimem! Então eu não estou aqui? Arranjarei a vossa vida como
quiserem. Verão!

– O senhor é descarado! Imputou sortilégio aos nossos irmãos


sem provas. E com ajuda de um juiz malandro, pô-los arbitra-
riamente na prisão. Agora vens vindo a dizer que arranjarás as
nossas vidas; está maluco, não é? Case bem e não fique doido!
– Disse Yetu.

Conversaram durante um tempo. Houve sobranceria, escárnios


proferidos pelos lábios protestantes das crianças.
Enfim, após Zé-Povinho haver testemunhado a mais profunda
humilhação e sobranceria vinda dos rapazes, retirou-se envergo-
nhado. Acusado pela própria consciência, quase todos os seus
neurónios concluíram que ele era impertinente e como minis-
tro não se lhe devia obedecer; que nada era mais indecente para
a sua própria consciência, e sobretudo para a sua alma... sair a
vaguear sem saber por onde; que esse era o verdadeiro meio de
não casar, ou de fazer um casamento clandestino, vergonhoso e
ridículo; que, numa palavra, esse enlace matrimonial não tinha
senso comum. Ele retornou à mesa.

– Enganei-me, contudo, a respeito do carácter dos meninos,


quer dizer dos teus filhos: eles não são tão amáveis como pare-
ciam. – Disse ele à Kali. A conversa de ambos tornou-se muito

Kennexiz Xavier 203


interessante, estavam muito satisfeitos e já seguros, um do outro,
quando se levantaram da mesa. Após a ceia, foram passear pelos
bosques; e consequentemente, foram para o hotel reservado para
a lua-de-mel e os convivas foram todos cada um para a sua casa.

204 Efeitos da Vida


Capítulo XX
A Lua de Mel

Se alguém acusa um outro, lhe imputa um sortilégio, mas não


pode dar a prova disso, aquele que acusou, não deverá festejar,
conviver nem viver impune; é com rigor que se lhe vira o juizo.
Kennexiz Xavier

– Que faremos com estas crianças, minha esposa? – Juntou-se


a Kali, Zé-Povinho depois do casamento e em plena lua-de-mel
agora. Elas estão a perpetrar uma vingança contra nós. Acredito
que não dormirão até que consumam a justiça e julguem toda a
demanda de nossas artimanhas e injustiças – Disse ele.

– Eu sei, sim! Mas tenho de respeitar o teu posto, porque tu


mesmo assim me ordenaras – Retorquiu Kali – Porque me as-
sustar? Se tu é que és o criminoso em conluio com o juiz. Por-
tanto, eu estou fora.

– Pois bem! Mesmo irritado, como estou, nada ocultarei do


que penso! Sabe, pois, que, em minha opinião, tu foste cúmplice
no crime, talvez tenhas sido a mandante, embora não o tendo
cometido por tuas mãos. Se não fosse teu esposo, a ti, somente,
eu acusaria como autora do crime.

– Se ambos somos criminosos, ao menos vou respeitar o teu


Status – Abrandou Kali.

– Kali, a justiça consiste em fazer o bem aos amigos e mal aos


inimigos. Entrementes, a justiça é redistribuir a cada um aquilo
que lhe é devido. A justiça é isonomia, não julga com estereó-

Kennexiz Xavier 205


tipos, todos somos iguais perante a justiça; a justiça não define
etnia, raça, cor da pele, crença, status – Replicou Zé-Povinho –
Ora, nós somos criminosos e o salário do criminoso é a prisão.

– Oh! Terrível coisa é a justiça, quando o crime se torna inútil!


Eu bem assim pensava; mas creio que o esqueci, pois do con-
trário não teria consentido em aprisionar injustamente os meus
filhos – Arrependeu-se Kali – De ti, nós dependemos agora! Sê
útil, quando para isso tens os meios e poderes. Se me livrares
sem prejuízos do amor dos meus filhos é a mais grata das tare-
fas que me farás!

– Que tens tu, Heloísa Kali, que estás tão desalentada? – Ques-
tionou Zé-Povinho.

– Já estamos casados; porém, os meus filhos já não são um


perigo para nós. Ordena que eles sejam libertados e reconduzi-
dos a minha casa, ó amado. Se me atenderes, melhor será para
ti, e para mim – Disse Kali – Eu não quero manchar a minha re-
putação nem tampouco ir presa por abuso de poder.

– Não pensemos em coisas tristes. Tudo vai correr bem. De-


pende somente de que os meninos aceitem a nossa companhia
– Replicou Zé-Povinho – Você vai ajudar-me a tratar disso e
conquistar a amizade deles.

– Se a vida deles, dependesse, somente de mim, não haveria


perigos; pois, tê-lo-ia resolvido muito breve. Mas também, não
tem de quê. Embora que eles sejam muito duros e vingativos,
pedir-lhes-ei clemências setenta vezes setenta. Até que eles se
acostumem com a nossa companhia – Garantiu Kali.

– Muito bem! Não se esqueça o que acabou de me dizer – Re-


torquiu Zé-Povinho – Agora chega de lágrimas! É preciso con-

206 Efeitos da Vida


vivermos, bebermos, comermos e apreciarmos as virtudes da
nossa lua-de-mel.
Uma das criadas bateu à porta do quarto onde estavam aos
beijos e amassos os recém-casados a comemorar a sua lua-de-mel.

– Senhor ministro, o jantar já está na mesa! – Anunciou ela.


Foi uma fascinação! A mesa estava deveras, extasiada, multi-
color e bem decorada; e o jantar estava miraculosamente em
puridade cozinhado.

Enquanto o casal comia, estendidos num leito de rosas, qua-


tro pavões, felizmente mudos, abanavam com as suas brilhan-
tes asas; duzentos pássaros, cem pastores e cem pastoras lhes
deram um concerto de dois coros; os rouxinóis, os canários, as
toutinegras, os tentilhões faziam soprano com as pastoras; os
pastores faziam o contralto e o baixo: era em tudo a bela e sim-
ples natureza. A Heloísa Kali miraculada confessou que, se havia
mais magnificência em todo o firmamento, a natureza era mil
vezes mais agradável entre os gangárides; mas, enquanto lhe
ofereciam aquela música tão consoladora e voluptuosa, derra-
mava inconscientemente, lágrimas e dizia ao seu recém-marido:

– Esses pastores e pastoras, esses rouxinóis e canários, estão


todos amando, enquanto me sinto possuída por ti, meu herói gan-
gáride, digno objeto dos meus mais ternos e impacientes desejos.

A meio do jantar, Kali propôs um brinde à artista protagonista


do tão surpreendente manjar.
Enquanto assim fazia a sua refeição, e admirava, e chorava,
dizia a criada ao outro mordomo:

– Senhor, não podeis deixar de ver a noiva encantada; bem


sabeis que... Seth tirou-lhe as palavras da boca quando lhe apre-
sentou o seu rosto vingativo. Levantou as mãos, e mostrou as

Kennexiz Xavier 207


algemas a clamar glorioso: é chegada a hora, de importunar e
infernizar o vosso enlace matrimonial ou lua-de-mel!
Hum! Assim cuida-te dona Heloísa Kali. É aquilo que se tem
dito; quando a mãe estiver envolvida no sabor e prazeres do vi-
nho verde, esquece completamente os filhos – Acusou ele iro-
nicamente – Vais ser julgada. Eis-me aqui soldadesco... e a partir
de agora vocês estão presos.

– Apreciem a vossa lua-de-mel na prisão! – Desejou Jefferson.

– Terminamos assim! Porque assim havíamos combinado. Vo-


cês têm de aprender a não me desrespeitar – Sentenciou Seth.

– Meu filho, absolve-nos! Nós já estamos arrependidos. Sabe-


mos humanamente que a gente errou. Porém, agimos precipi-
tadamente. Não vos queríamos fazer mal. Por favor, eu imploro,
perdoa a tua mãe – Implorou Kali.

– Ah! Senhora! – Exclamou Seth. – Acaso a gente examina o


que deseja? Meu coração a escuta de sobra. Mas onde está a
dignidade do nosso amor como teus filhos? Onde está a nossa
felicidade, a nossa amada amizade, a minha paz? Onde está a
minha vida?

Que caminho tomou a senhora? Iria procurá-la em todos os


globos que o Eterno formou e de que ele é o mais belo orna-
mento. A senhora trocou-nos por prazeres efémeros. Traiu o
amor do meu pai por este vampirão. O que fez não tem perdão
– Discursou Seth.

– Meu filho, todas as pessoas merecem ter uma segunda opor-


tunidade – Retorquiu Kali – Dê clemência a sua mãe!

– A senhora não merece nenhuma oportunidade. Prefiro mor-

208 Efeitos da Vida


rer do que perdoar-lhe – Retorquiu Seth.
– Faça-se a sua vontade! Uma decisão favorável, pois acredito
que mesmo as coisas desagradáveis, se delas nos resulta algum
bem, tornam-se uma felicidade. Sê feliz! Vinga-te da sua própria
mãe – Abateu-se Kali – É justo o ódio que sentes; mas não está
em nosso poder coagir a divindade a proceder de forma contrária
à sua vontade vingativa. Fala perante todos estes espectadores;
que vai manchar com a tua vingança inclemente a reputação da
sua mãe. O seu sofrimento me causa maior desgosto do que se
fosse meu, somente.

– Mas, por que meios queres ser perdoada e realizar essa purifi-
cação? De que mancha se trata? Se a senhora é a própria arquiteta
de suas desgraças – Replicou Seth – Mesmo que eu tenha medo
de te condenar; o que me fizeste, não te vou perdoar nunca mãe.

– Não tenha medo! De que serve afligir-se em meio de terrores,


se o homem vive à lei do acaso, e se nada pode prever ou pres-
sentir! O mais acertado é abandonar-se ao destino. A ideia de que
profanarás a efígie de tua mãe aflige-te; mas tem havido quem
tal faça em sonhos... O único meio de conseguir a tranquilidade
de espírito consiste em não dar importância a tais temores. Vá
em frente! – Retorquiu Kali.

– Louvado seja Jeová! – Exclamou Seth. – Mais outra recusa


em meu favor! Minha felicidade ultrapassou minha esperança,
como minha desgraça ultrapassou a todos os meus temores.
Encarcerem-me estes criminosos. Zé-Povinho não abriu a boca.
Humilhou-se diante os sipaios, estendeu friamente os braços
para ser algemado. Obedeceu apenas às circunstâncias e enfim
disse: – Aqui só direi breves palavras sobre o que entendo por
verdadeira justiça e, juntamente, o que é a suma justiça. Para
compreender isso corretamente, note-se que a justiça e a in-
justiça não se dizem senão relativamente, de maneira que uma

Kennexiz Xavier 209


mesma coisa pode ser chamada boa ou má conforme as diversas
relações, assim como se dá com perfeito ou imperfeito.
Nada, com efeito, considerado em sua natureza, será dito per-
feito ou imperfeito; principalmente depois de sabermos que tudo
o que é feito acontece segundo uma ordem eterna e conforme
leis certas da Natureza. Como, porém, a fraqueza humana não
alcança aquela ordem pelo seu conhecimento, e, entretanto, o
homem concebe alguma natureza humana muito mais firme que
a sua, vendo, ao mesmo tempo, que nada obsta a que adquira tal
natureza, sente -se incitado a procurar os meios que o conduzam
a tal perfeição: e tudo o que pode ser meio para chegar a isso
chama -se verdadeira justiça. A suma justiça, contudo, é chegar
ao ponto de gozar com outros indivíduos, se possível, todos os
bens dessa natureza. Mas neste; entretanto, se alguém acusa
um outro, lhe imputa um sortilégio, mas não pode dar a prova
disso, aquele que acusou, não deverá festejar, conviver nem viver
impune; é com rigor que se lhe deve virar o juízo. Entrementes;
não pedirei clemência, eu sou o artista das minhas desgraças.

– Sem pretensão de auto defender-me; os meninos eram uma


ameaça para o meu casamento, digo que resolvi enfim, prendê-
-los, porque à primeira vista parecia sensato querer deixar uma
coisa certa como lição, sobre outra então incerta em que não
se dava a respeitar a própria mãe – Dirigiu-se Kali aos sipaios, a
lacrimejar.

210 Efeitos da Vida


Capítulo XXI
Masôxi

A barreira amistosa, a mente mal orientada, a ausência de


perdão numa relação e o clima frio contribuem para que uma
pessoa se sinta infeliz e solitária.
Kennexiz Xavier

O resto da criançada soube da loucura da sua mãe e do seu ir-


mão Seth. Assim transcorriam as suas vidas numa eterna solidão
e viam esquadrejado o sol que brilhava no seu céu. Discorriam os
corsários dias e as crianças implantavam na memória saudades
oferecidas pela ausência e separação da sua mãe; e as horas êx-
tases eram tão cruéis que trazia-lhes à alma tristes recordações.
Aproximando-se o tão esperado dia do julgamento, todos
eles se prepararam para assistir o depoimento vingativo e in-
clemente do seu irmão contra a própria mãe. Saíram de casa;
entristecidos e refugiados em lágrimas de sol, andavam todos
radiantes de transe, solitários e amuados. Seth parecia amável,
já esquecera a sua má disposição contra Kali sua mãe; todavia,
olvidara que tinha mãe.
O jovem Jefferson estava outrossim, a sentir os enigmas dos
efeitos da vida a trespassar-lhe na memória, mergulhava numa
maré de remorsos, quando contemplava o vulto das crianças que
tinham o espírito em pedaços, decaídos, amuados, num paraíso
de masôxi por causa da ausência da sua mãe, e não conseguiam
manifestar o seu reconhecimento.
Salomé parecia outra. Asfixiada e muito triste, ligeira e sem-
pre mal-humorada, choramingava em puridade tanto como
Yetu e Yara...

Kennexiz Xavier 211


A prisão Nova Lisboa parecia um formigueiro; o número de
reclusos que ali internava era cada vez maior. A adversidade de
rostos fantasmagóricos, não facilitava os meninos reconhecer a
sua própria mãe. Além disso, todos tinham a pele queimada pelo
sol do verão, outrossim, estavam todos estafermos.
O mais curioso de tudo era que Seth parecia indiferente, já não
manifestava confiança aos seus irmãos, somente, permitia que
fizessem o que era indispensável ao seu particular depoimento.
Proibia-lhes que tocassem no seu ombro, na sua carteira e nem
sequer permitia que lhe perguntassem sobre aquilo que vai de-
por. Entretanto, os seus irmãos estavam inquietos por causa do
seu escuso e misterioso comportamento, mas, quando falaram
disso, Seth declarou explicitamente:

– Não narreis coisa alguma, para não vos aniquilarem a vós


mesmos, meus irmãos. Eu responsabilizo-me de tudo; cuido de
tudo, faço tudo, ponho no seu lugar tudo e ainda pago tudo.

– E o depoimento? – Perguntou Jefferson.

– Eia! Não pense em nada. – Respondeu Seth – Já lhe disse que


quem faz tudo aqui sou eu. Sou eu quem que faz a vingança,
que faz justiça, que insinua, que depõe, etc., etc.

– Mas, o Seth é imisericordioso, sacrílego, tem um coração


dobrado, não sabe respeitar a própria mãe, como é... fazes tu
tudo? – Replicou Salomé – O Seth é covarde, está contra a nossa
mãe; abandonou o seu primeiro amor e olvidou a sua vida. Ele
está com a mente desorientada.

– Mulherzinha! Quieta-te! Não sou eu que está contra a nossa


mãe, mas sim, a justiça – Retorquiu Seth – E se tiveres alma e
coração, saberás que eu estou sendo apenas um autêntico ho-
mem; pois, o autêntico homem é aquele que cumpre com as

212 Efeitos da Vida


leis da natureza, embora estejam erradas. Lembre-se que, quem
esconde um criminoso também é criminoso. Aquele que enco-
bre a verdade semeia atrocidades e obviamente, é criminoso.
Outrossim, lembre-se que, quando nos apontam uma arma, te-
mos somente duas oportunidades; morrer ou matar o inimigo.

– ...Ainda te arrependerás; e vais lacrimejar lágrimas de sangue,


porque está escrito: respeita os teus pais para que os teus dias
se prolonguem cá na terra – Aconselhou Salomé – Lembra-te
que deste modo não farás justiça, o mundo da justiça e da in-
justiça é criado pela mente, a ela se sujeita a virtude e é por ela
regida; a mente é o senhor de todos os efeitos da vida. O mundo
do sofrimento é assim causado por uma mente mal orientada.

– Eu amo os meus pais; sempre amei, é por isso que estou


aqui, pois que a obsessão pela memória do meu pai atirou-me
contra a minha mãe. E eu não usarei os princípios dos meus
sentimentos nem a equidade nem a minha mente, contrário
aos princípios da natureza e a essência da justiça – Replicou
Seth – Mas chega de lágrimas!...
Os rapazes continuaram a caminho do tribunal. Salomé esta-
va apoquentadíssima com o recôndito depoimento cruciante
de Seth para o qual não tinha nada, mas, absolutamente nada
para lhe contrapor. Assim que chegaram viram que a audiência
já havia começado, e que somente faltava o ultimo depoimento
que era de Seth, o autor do processo.
Seth tinha lido a narrativa diante do juiz sem franzir o seu
sobrolho e quando ele terminou atirou-se ao juiz e abraçou-o.
Ele soluçava e os seus irmãos choramingavam silenciosamente.
O juiz correspondeu ao seu abraço e enxugou-lhe as lágrimas;
outrossim, tinha anunciado a sentença...

– Dezasseis anos de prisão maior, recolham os réus para a


cadeia – Dissera ele.

Kennexiz Xavier 213


De seguida Seth ergueu o rosto, limpou com o dedo indica-
dor suavemente as lágrimas no canto do olho e dirigiu-se aos
réus a dizer:

– Ora bem! Agora acabou-se tudo, minha mãe! Ó Zé-Povinho!


Não há mais desgraças, tristezas nem depreciação. Jamais vos
separareis. Vivereis unidos para sempre. Eu não sei se sóis pre-
sos ou escravos desta prisão Nova Lisboa; mas, sei que vivereis
o resto da vida aqui, porque usurpastes o nosso património,
apontastes-me a arma e deflagrastes-me com um tiro no pé,
querias matar-me, infringistes a lei, os direitos da criança, en-
carniçaste a minha modesta e subtil alma.

– Viveremos somente os dois...e os meus filhos? – Perguntou


Kali com ansiedade.

– Se lhes tinhas imputado sortilégios para os seviciar por cau-


sa das multidões dos seus prazeres e novo casamento! Gostas
muito deles? – Retorquiu Seth.

– Você sabe! Eu gosto muito, mas, muito mesmo dos meus


filhos – Replicou Kali – Eles são tão bons como a justiça; che-
gam tarde mas nunca falham!... Ficaremos todos juntos, por
favor Seth!

– Mas se a senhora está presa! Como é que ficarás junto de


nós? – Questionou Seth – Estas palavras são de arrependimen-
to. Está pois claro que a senhora não nos queria na sua vida...

– Seth, não é bem assim o que tencionas dizer... entrementes,


era bom que conhecesses a primeira lei da natureza – Obser-
vou Kali.

– Qual é a primeira lei da natureza? Diga-me minha mãe –

214 Efeitos da Vida


Retorquiu Seth.

– A tolerância! – É o apanágio da humanidade; sendo que,


somos todos injustos e estamos empedernidos, encarniçados,
degenerados de debilidades e erros, perdoemos reciprocamente
as nossas concupiscências, tolices, idiotices e malícias, pois, esta
é a primeira lei da natureza – Explicou Kali.

– Desta vez, mamãe, não haverá tolerância, nem para ti nem


para a primeira lei da natureza – Replicou Seth.

– Está terminada a audiência – Disse o juiz; e consequente-


mente levantou-se e foi embora. E estava assim consumado o
sacrilégio de Seth – O de condenar a própria mãe à prisão. As-
sim, o conflito mental continuou a atormentar o espírito das
crianças, pois, elas começaram a chorar alto desfitados contra
Seth, consideravam-no anátema, perverso, tirano e encarnação
do próprio Diabo.

– Seth, purifica a tua mente, pensa melhor, controla as tu-


as emoções e perdoa a tua mãe. É óbvio, uma mente impura
levará o homem a cambalear numa áspera e íngreme estrada,
onde haverá muitas quedas e sofrimentos. Mas uma mente pu-
ra o conduzirá por um caminho suave, onde a viagem lhe será
tranquila, mas, para isso respeita os teus pais – Disse Jefferson.

– Certo! O Jefferson tem razão, Seth. Você está com a mente


mal orientada, por isso, nos causas tanta infelicidade assim –
Concordou Yetu – Aquele que tiver o corpo e a mente puros,
aquele que puder romper as malhas do egoísmo, da vingança,
do ódio, do rancor, dos maus pensamentos e desejos, estará
percorrendo o caminho da felicidade. Aquele que tiver a mente
calma adquirirá a paz e, assim, poderá sempre cultivar a mente
com maior diligência.

Kennexiz Xavier 215


– Poupem o vosso cérebro, porque da determinação que te-
nho tomado não torno atrás, porque é fraqueza desistir da coi-
sa começada. Digo assim porque a minha mente está sã e pura
– Retorquiu Seth.

Eles imploraram a Seth para que retirasse do tribunal supre-


mo a queixa contra a sua mãe. Porque diziam: – Não há pior
sofrimento na vida quando na ausência da própria progenitora
os efeitos da vida precisem da sua presença. Mas, a colaboração
com Seth não era fácil, somente, as masôxi.

216 Efeitos da Vida


Capítulo XXII
Soltura e Separação

Aquele que tiver o corpo e a mente puros, aquele que puder


romper as malhas do egoísmo, da vingança, do ódio, do rancor,
dos maus pensamentos e desejos, estará percorrendo o caminho
da felicidade.
Kennexiz Xavier

Após alguns dias de dilacerantes angústias e lágrimas, de um


último aperto de coração, de uma dor amarga, de uma profunda
melancolia que se apoderaram das ingénuas criaturas; as crianças
no seu sofrimento, meteram-se no leito a discutir sobre a soltu-
ra da sua mãe, à espera que o vento colérico e vingativo de Seth
mudasse de posição; mas este soprou treze dias inteiros com uma
violência desesperadora no oriente de sua vingança, orgulho, ódio
e egoísmo. Somente depois de um mês e de uma marcha de in-
trigas e divergências concitais, entraram numa grande concórdia,
perdão e reconciliação que o artista reinante da disjunção e das
controvérsias mandava embelezar as suas virtudes misericordiosas.
Foi então assim que Seth recorreu ao tribunal supremo, pagou até
o último tostão do seu património e venceu o diamante bruto
que era a soltura de sua mãe e do marido de sua mãe.

– Meus filhos, após uma terrível briga, estamos de novo juntos


graças à virtude do vosso heróico irmão – Disse Kali – Seth, meu
filho amado; tu és deveras a virtude! Beneficência para com o pró-
ximo. Poderei chamar virtude a outra coisa senão ao bem maior
que me fizeste? Eu sou indigente, tu és liberal, estava em perigo,
tu foste em meu socorro; enganei-me, tu disseste-me a verdade;
tu consolaste-me, eu sou ignorante, tu instruis-me, chamar-te-ei

Kennexiz Xavier 217


sem dificuldades de virtuoso.

– Muito bem! Afinal das contas; a briga de família é como o estô-


mago; que não se aborrece com os alimentos – Replicou Jefferson.
Todos abraçavam Seth com grande alegria e ligeira gratidão.

– Agora sim, acabou tudo minha família! Não há mais desgraças,


tristezas, nem depreciação nem masôxi, jamais nos separaremos.
Viveremos eternamente unidos – Disse Salomé.

– Claro! Estamos a começar uma nova vida; e Seth é o nosso


maioral, o nosso herói, valente e corajoso, é um leão destemido
que divide o seu pão e dá a vida. Sempre é menos avisado e muito
cuidadoso – Retorquiu Kali.

O Zé-Povinho muito respeitosamente somente disse: – Perdão


meu filho pelos danos que causei à tua família. Devo-te respeito.
O nosso erro só foi um lapso e não é um perder-se... por favor
perdoa-nos.

– Os efeitos da vida que não me amargurem – Retorquiu


Seth – Gostaria que me não dissessem mais nada, porque eu
não estou ansiado, não desejo nem quero perdoar ninguém...
mas francamente digo, não estou intentado a perdoar-vos. Se
retirei a queixa contra vocês, foi pelos meus irmãos. Porém,
eu estou disposto a ser aquilo que sou e pretendo ser; como
alguém já dizia: com a morte do pai a família toda desfasou-
-se, porque cada um pensa em si mesmo. Eu porém, pensarei
em mim mesmo...

– Filho; deslumbra o mistério, do teu coração. Não te deve ser


enigma perdoar-nos, aceite só o nosso reconhecimento – Implo-
rou Zé-Povinho – Entretanto é lícito salvar quem anseia ser salvo.
Imploro-te, por favor, perdoa-nos!

218 Efeitos da Vida


– Isto não é um enigma. Vocês é que querem mistificar os fac-
tos; eu somente estou a dizer que não perdoo ninguém, e pronto
– Replicou Seth – Eu ficarei sozinho, não tenho pais; e se calhar
outrossim não tenho irmão porque os que tinha agora são um
grupo de bandidos. Digo porque estão a fazer pactos amisto-
sos com bandidos, criminosos, malandros, etc. Entrementes, eu
não quero ser criminoso, porque a vida de um criminoso está
sempre sujeita à ruína.

– Seth, aceita, mano! Tu bem sabes que errar é humano e per-


doar é divino. O que se passou entre nós, foi apenas, um acidente
e um mal-entendido; pois, todos nós temos sempre maus mo-
mentos – Disse Salomé – Suponhamos um homem que queira
remover toda a sujeira do chão. É-lhe uma tarefa impossível, pois
usa uma pá e uma peneira, com a qual vai espalhando a sujei-
ra, ao invés de removê-la. Como este tolo, não podemos ter a
esperança de eliminar todas as palavras. Devemos disciplinar as
nossas mentes e enchê-las de simpatia, a fim de que não sejam
perturbadas pelas palavras faladas por outrem. Alguém pode
tentar pintar um quadro, com águas coloridas, no céu azul, mas
é impossível. Como também é impossível secar um grande rio
com o calor de uma tocha feita de feno, ou produzir um som
metálico, friccionando-se duas peças de couro bem curtido.
Assim, para que haja impossibilidade de ter suas mentes per-
turbadas por quaisquer palavras que possam ouvir, os homens
devem discipliná-las.
Devem disciplinar suas mentes e mantê-las tão vastas como a
terra, tão ilimitadas como o céu, tão profundas como um grande
rio e tão suaves como o couro bem curtido.

– Eu bem sei desse assunto – Replicou Seth – Mas lembrem-


-se que ao espairecer ao sol por muito tempo resultou a morte
da salamandra. Ao envolver-se nos prazeres gera a ruína da vi-
da. Enfim, por causa da excessiva ânsia de salvar a humanidade

Kennexiz Xavier 219


degenerada, Jesus Cristo morreu barbaramente. Cuidado!... Eu
não vou perdoar ninguém. Não, absolutamente não.

– Seth, não estarás seguindo os ensinamentos da virtude, se


ao seres preso e torturado pelo inimigo, sentires algum ressen-
timento. Sob quaisquer circunstâncias, deves aprender a pen-
sar: “Minha mente é inabalável. Palavras de aversão, vingança e
ódio não passarão por meus lábios. Cercarei meu inimigo com
pensamentos de simpatia e piedade que fluem de uma mente
cheia de compaixão para com todos os seres vivos” – Aconse-
lhou Jefferson.

– Isto que o Jefferson disse tem um sabido ponto de experi-


ência. Purifica a tua mente e lembra-te que, quando se expressa
o pensamento da mente em ação, há uma reação que lhe se-
gue. Quando se recebe abuso, há a tentação de responder com
bondade ou de se vingar – Replicou Kali – Todavia, deve-se estar
alerta contra esta reação natural. É como cuspir contra o vento,
não molesta a ninguém a não ser a si próprio. É como varrer a
poeira contra o vento: não se livra da poeira, suja-se a si próprio.
O infortúnio segue sempre os passos daquele que alimenta de-
sejos de vingança.

– Pensa! Mas, pensa mesmo nisso, Seth – Replicou Jefferson –


Você já ajudou muito ao revolver a felicidade da gente quando
pediu a soltura da sua mãe, porém, aconselho-te para abando-
nar a mente egoísta e substitui-la com a mente que é sincera em
ajudar os outros. E lembre-se que a felicidade nasce do praticar
ações que deixam os outros felizes; que milhares de velas po-
dem ser acesas com uma única vela, a qual não terá, por causa
disso, diminuída a sua vida; que a felicidade nunca decresce por
ser compartilhada.

Seth estava sentado na alfombra sem querer sentar-se na pol-

220 Efeitos da Vida


trona que ele adorava deitar-se enquanto apreciava um filme
dramático. Estava silenciado a perscrutar o conselho de cada
um dos seus interlocutores. Já não queria saber do seu filme dra-
mático preferido porque a sua própria vida já era um miserável
drama. Após todos se terem cansado de falar-lhe, levantou-se
e foi deitar-se na sua cama porque já era noite. Deitado na sua
cama rolava-se de um lado ao outro encomiado, ensonado, mas
outrossim, marado de insónias. Não se enxergava nem sequer se
lembrava que, a vingança, o egoísmo, a ira e a tolice são como a
febre. Se um homem estiver com esta febre, sofrerá e será ator-
mentado pela insónia, mesmo estando num quarto confortável.
Aqueles que não tiverem esta febre, não sentirão dificuldade ne-
nhuma em dormir tranquilamente, mesmo numa fria noite de
inverno, sobre o chão, com uma fina coberta de folhas, ou numa
sala abarrotada, em uma quente noite de verão.

– Jamais lhe passava pela cabeça a realidade de que a vingan-


ça, o egoísmo, a ira e a tolice são portanto, as fontes de todas as
aflições humanas. E que para se livrar destas fontes de aflição,
se deve observar os preceitos, deve-se praticar a concentração
mental e deve-se ter sabedoria. Talvez precisasse que um anjo
caísse do céu para explicar-lhe que a observância dos preceitos
removerá as impurezas da alma egoísta; a correta concentração
mental removerá as impurezas do ódio; e a sabedoria removerá
as impurezas da tolice. Ele, somente; lia o silêncio das árvores que
se lhe rabiscavam na memória tristes e silenciosas recordações
de um sorriso passado que se lembrava ter dado no berçário.
Os sonetos dos chilros dos pássaros, do coaxar das rãs, o coaxo
dos grilos solitários, condoíam-se dele, deixando-o num mundo
despercebido sem saber o que fazer, somente traçava trajetos à
matroca a sentir o frio a concavar-lhe a alma, a ira e o ódio a fazer
envelhecer o seu coração, as lágrimas a macular o seu rosto, ali,
ele redigia uma formidável elucubração acerca da sua separação.
Mas tudo continuava perplexo e indeciso para ele, não conseguia

Kennexiz Xavier 221


formular teses, antíteses nem sintetizar nada, absolutamente
nada. Entretanto, ficou a monologar intimamente: “Ficar não
posso; porque estarei a armar-me ciladas. Ir-me embora daqui,
outrossim não posso; porque a minha família far-me-á muita
falta...então diz o que farás monandengue? A resposta é óbvia,
prefiro ir do que armar-me ciladas. Parto amanhã; está decidido.
De madrugada levantou-se Seth, preparado para partir e co-
meçar a sua viagem, iniciar uma nova vida, discorrer em nova
história e nova civilização. E toda a sua família vinha ter com ele,
o pedir para que não fosse. Porém, Kali consternada e demais
exasperada, sem espectativas de purificar a mente do filho, fa-
zendo-se ficar de pé no meio de todos disse: – Meu ilustre filho,
é com demasiada liberação que o digo, é melhor transformar
abutres em libélulas, é mais nobre dar a mão aos degenerados e
ajudá-los a subir ao pedestal glorioso aonde a virtude está assen-
te. É pois agradável aos seres siderais, quando o homem suporta
os fracos, os sicários, os criminosos; quando o homem carrega
o fardo do seu próximo; quando o homem chora com os que
choram e persuade o vingador a servir-se do amor e do perdão.
Isto, ela dizia com o intuito de tentar persuadi-lo. Mas Seth
apresentava-se duro que nem um diamante, mais que uma bar-
reira entre as rochas. Ele estava inclinado com a cabeça entre as
mãos, escrevia no chão com suas lágrimas e tinha os olhos ígneos.
Como todos insistentemente lhe expunham máximas e pro-
vérbios para tentar persuadi-lo a não se ir embora, ele levantou-
-se e disse-lhes:

– Quem dentre vós estiver cônscio de que é lícito viver mal


acompanhado, que é lícito cometer varias vezes o mesmo erro,
tornar-se malfeitor quando tens mil vezes lições de que é invir-
tuoso ser malfeitor; seja o primeiro a dizer-me não vá e fica con-
nosco. E inclinando-se novamente continuou a fazer lagoas no
chão com as suas satíricas lágrimas.
Ouvindo eles esta resposta, e acusados pela própria consciên-

222 Efeitos da Vida


cia, começaram outrossim a choramingar. Todavia, Salomé não
guardou a sua última palavra. Em gestos de despedida, dirigindo-
-se insolente e sarcástica ao seu irmão disse:

– Faça a sua tola vontade. Meu maninho, tens um coração


perverso, podes ir embora, convenci-me que somos um grupo
de bandoleiros, mas tu, fica a saber que não é com vergastes que
se mudam caracteres. O justo não pode separar-se dos injustos,
porque ele é a experiência da mudança. Lembre-se que os desejos
humanos são infindáveis. São como a sede de um que bebendo
água salgada, não se satisfaz e a sua sede apenas aumenta.
Assim acontece com o homem que procura satisfazer os seus
desejos; apenas, consegue o aumento da insatisfação e a multi-
plicação das suas aflições.

– Fala como quiseres, somente irão desperdiçar as vossas ener-


gias. Não pensem mais em mim, conservem as vossas memórias
para não envelhecer precocemente, pois eu já não tenho ouvidos
para vos ouvir – Retorquiu Seth.

Então ele levantou-se e foi arrumar a sua mochila de viagem.


Os irmãos ajudaram-no a arrumar, puseram-lhe farnéis de via-
gens e os seus vestidos. Após tudo, com uma saudade perversa
no peito, todos começaram a beijá-lo.

– Adeus! Tornar-me-ei forasteiro – Dizia ele por cada beijo.


Antes viver na selva do que estar numa cidade frenética, cheia
de gentes malévolas e inconcebíveis. Digo porque a natureza
do homem é como uma mata cerrada, impenetrável e incom-
preensível. Comparada a ela, a natureza das feras, é muito mais
fácil de compreender.

– Vá com Deus! Que esteja assim a sua ansiedade. Nosso pe-


queno herói; vá com Deus apesar dos pêsames! – Retorquiam

Kennexiz Xavier 223


eles – E este teu pequeno exemplo de compaixão, conservado nas
nossas almas de dez anos de convivência pacífica em conjunto,
emociona e confundem esses nossos tempos de barbaridade e
separação. Todavia, a sua luz, o seu frontispício, não se apagará
nos nossos corações, ainda que tu queres com este teu destino
inapropriado que apaguemos a tua história da nossa vida, não
se conspurca a sua lucidez; não, absolutamente não. Até vê-se
melhor porque sarcásticas e assustadoras são as trevas e aflições
dos nossos dias advenientes.

– Quanto a mim, meu nobre irmão; ainda queria ficar mais


tempo contigo, mas, você não quis, porque traçaste um outro
destino. No entanto, sorte não tenho para te desejar, mas, con-
vence-te que a ciência é amor – Pronunciou-se Jefferson – Não
tenho nada para lhe oferecer como recordação, mas, dou-te este
meu cachorrinho para te ser companheiro fiel. Eu bem sei que
não serve nada, para nada absolutamente, mas que seja o teu
amigo do mato; e para que quando casares, digas aos teus filhos
que tiveste um bom amigo que era teu admirador.

– Obrigado irmão. Eu terei muitas saudades tuas – Replicou


Seth comovido e com amargas lágrimas nos olhos – Outrossim
convence-te que a ciência é amor. Adeus!... Fiquem com Deus!
Na esperança de que assim como há causas e efeitos para todo
o sofrimento humano, existe, também, um meio pelo qual ele
pode findar, porque tudo no mundo é o resultado de uma grande
confluência de causas e condições; e todas as coisas desaparecem,
quando estas causas e condições mudam ou deixam de existir.
O chover, o soprar dos ventos, o vicejar das plantas, o amadu-
recer e fenecer das folhas são fenômenos relacionados às causas
e condições; são por elas motivados e desaparecem, quando se
alteram estas causas e condições.

Todos olhavam para ele a lacrimejar e a beijar a mão, a dizer-lhe:

224 Efeitos da Vida


– Adeus! Adeus! Amado Seth.

Até ele desaparecer nas esquinas da entrada do mato.

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