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HISTÓRIA DA PSICOTERAPIA DE GRUPO

A psicologia grupal e a psicoterapia grupal surgiram na confluência entre a psicologia e a sociologia, mais
especificamente na psicologia social.
Entretanto, no que diz respeito à psicologia dos grupos, foi com a obra do psiquiatra e arqueólogo francês,
Gustave Le Bon (1841 - 1931), Psicologia das Multidões, escrita em 1895, que esse campo específico ficou
demarcado. Essa obra serviu, em 1921, aos estudos de Freud. Le Bon escreveu inúmeras obras, dentre as quais se
destacam: A psicologia do socialismo, A psicologia das revoluções e As opiniões e as crenças.
Marcos históricos da Psicologia Social e da Psicoterapia de Grupo:
1770: Mesmer, médico austríaco, é citado pelo seu método sugestivo. Realizava sessões de manipulação do
magnetismo animal das pessoas, onde fazia demonstrações dos fenômenos hipnóticos em grupo, valendo-se de
induções hipnóticas mútuas e coletivas de verdadeiras eletrizações histéricas em massa.
1891: médico francês, Alfred Binet (1857 - 1911) inicia seus trabalhos no Laboratório de Pesquisa da Sorbonne.
Entre eles, encontram-se estudos experimentais de pequenos grupos. O sociólogo italiano, Scipio Sighele (1868-
1913), publica A multidão criminosa.
1895: Gustave Le Bon publica Psicologia das Multidões. De acordo com Nilson Lage (2003):
A teoria sustentada por Sighele e Le Bon – o primeiro acusando o segundo de plágio – influenciou, também, o
pensamento dos teóricos americanos que, na década de 1920, inspirados pela volúpia do crescimento econômico e
da especulação financeira (a bolha estouraria em 1929) e orientados pelo Conselho de Relações Exteriores (1921),
que reunia as grandes corporações do país, pretendiam usar a coordenação das mídias (desde o sistema escolar até
o jornalismo de notícias, que confundiam com o texto opinativo da revista Time, criada em 1922) para "fabricar o
consentimento" (manufacture consent, a expressão é de Walter Lippman); ou, como escreveria Harold Laswell,
em 1927 (Propaganda Technics in the Wold War), para a "gestão governamental de opiniões".
1905: Joseph Hersey Pratt, médico americano, organizou seu primeiro grupo num sanatório para pacientes
tuberculosos no Boston Dispensary. Pratt usava o método didático, pelo qual proferia palestras a seus pacientes
tuberculosos, semanalmente, por uma hora e meia, com um grupo de aproximadamente 20 elementos. Esse
método, que mostrou excelentes resultados na aceleração da recuperação física dos doentes, é baseado na
identificação desses com o médico, compondo uma estrutura familiar fraternal e exercendo o que hoje chamamos
função continente do grupo. Serviu como modelo para outras organizações similares, como, por exemplo, a da
prestigiosa Alcoólicos Anônimos, iniciada em 1935, que ainda se mantém com uma popularidade crescente.
1908 - 1913: Jacob-Levi Moreno (1889 - 1974), médico e criador do psicodrama, da sociometria e da expressão
psicoterapia de grupo, desenvolve suas primeiras intervenções com crianças em Viena. Em 1912, inicia uma
intervenção com um grupo de prostitutas do bairro Spittelberg em Viena.
1917: a psicologia social adquiriu sua identidade como disciplina com a criação da cátedra de Psicologia Social
na Universidade de Harvard, que teve como titular, a partir de 1920, William McDougall (1871-1938), autor da
primeira obra especificamente dedicada à então nascente disciplina: Uma Introdução à Psicologia Social.
Publicou, em 1920, A Mente Grupal e Uma Nota sobre a Sugestão. Estes dois livros são comentados por Freud,
em seu livro Psicologia de Grupo e a Análise do Eu, no terceiro capítulo.
1918: Moreno trabalhou com refugiados de Tyrolean da Primeira Guerra Mundial, desenvolvendo as idéias
iniciais sobre sociometria.
1919: Cody Marsh, padre episcopal, tendo entrado na psiquiatria já maduro, utilizou o método grupal com
pacientes em hospital psiquiátrico, denominado método de classe. Ele dava aulas e fazia provas. Os participantes,
chamados de estudantes, que, por ventura, fossem reprovados, eram novamente submetidos ao curso. Ele
pretendia que os estudantes tomassem nota, estivessem presentes com pontualidade e atenção. Utilizava também
auto-falantes para se comunicar com a população de todo o hospital.
1920: o psicólogo britânico, William Mc Dougall, publica Uma Introdução à Psicologia Social.
1921: Sigmund Freud publica Psicologia de Grupo e a Análise do Eu. Moreno cria o Teatro do Improviso. Kurt
Lewin (1890 - 1947), doutor em Psicologia e fundador da dinâmica de grupo, inicia sua carreira docente no
Instituto de Psicologia de Berlim e, com alguns alunos, constitui um grupo intitulado Quasselstrippe. Edward
Lazell, psiquiatra, usou o método de Pratt para trabalhar com pacientes esquizofrênicos no St. Elizabeth’s Hospital
de Washington D.C.. Trabalhou com debates em grupo e conferências de apoio. Os métodos semelhantes ao de
Pratt são chamados de terapias exortivas que agem pelo grupo.
1927: Trigant Burrow, discípulo de Freud e Jung, um dos fundadores da Associação Psicanalítica Americana,
abandonou o divã em favor de pequenos grupos que eram trabalhados ao ar livre. Seu trabalho era realizado por
meio de debates com a participação de pacientes, suas famílias e colegas.
1929: Moreno abre a sua própria clínica psiquiátrica em Beacon, no estado de Nova Iorque.
1930: as psicoterapias grupais passaram a ser utilizadas, de maneira planejada, com as seguintes contribuições:
Alexandre Wolf; Fritz Redl; Jacob L. Moreno; Louis Wender; Paul Schilder; Samuel R. Slavson.
1932: Moreno utiliza pela primeira vez o termo psicoterapia de grupo, em uma conferência na American
Psychiatric Association, na Philadelphia.
1933: Kurt Lewin continua a sua carreira acadêmica nos Estados Unidos, na Universidade de Cornell e depois no
Instituto de Pesquisas sobre o Comportamento da Criança, na Universidade de Iowa.
1940: o médico suíço-argentino, Pichon-Rivière, inicia seus estudos sobre os grupos familiares no Asilo de Torres,
com crianças oligofrênicas.
1944: Kurt Lewin utiliza a expressão Dinâmica de Grupo pela primeira vez.
1945: Kurt Lewin funda, no Massachussets Institute of Techology (MIT), o Research Center for Group Dynamics
- Centro de Pesquisas em Dinâmica de Grupo.
1948: o médico inglês, S. H. Foulkes, publica Introduction to Group Analysis.
1952: S. H. Foulkes, funda a Sociedade Grupo-Analítica de Londres. O médico e psicanalista inglês, Wifred
Ruprech Bion (1897 - 1979), publica seu derradeiro trabalho que escreveu sobre gupos, intitulado, Group
Dynamics: a re-view.
1953: B. F. Skinner publica Ciência e Comportamento Humano.
1954: Leon Festinger postula a teoria do processo de comparação social.
1957: Leon Festinger publica Teoria da Dissonância Cognitiva.
1957: S. H. Foulkes publica, em conjunto com o médico americano E. J. Anthony, o livro Psicoterapia de Grupo.
Na segunda edição do livro, em 1963, os autores escrevem na introdução (p. 1):
Desde a primeira edição deste livro, a psicoterapia de grupo continuou a se expandir de maneira cada vez mais
rápida em todo o mundo. Criou-se um Conselho Internacional de Psicoterapia de Grupo, com representantes em
46 países. Este Conselho realizou, recentemente, seu Terceiro Congresso Internacional de Psicoterapia de Grupo,
reunido em Milão, no ano de 1963, e durante o qual foram debatidos problemas envolvendo doze zonas de
interesses.
A partir dos anos 60, assistiremos a uma reformulação no trabalho terapêutico com grupos, influenciada pelo auge
das chamadas técnicas de potencial humano. Estas técnicas privilegiam um trabalho não-verbal voltado para a
liberação do corpo. Como indica Saidon (1983, p. 18), "atualmente, práticas como a do Grupo de Encontro de
Rogers, A Gestalt-Terapia de Perls e as orientações bioenergéticas influenciam marcadamente todo o
desenvolvimento da Psicoterapia de Grupo".
1959: Wolfgang Köhler publica Gestalt Psychology Today. John Thibaut e Harold Kelley publicam o livro The
Social Psychology of Groups.
1961: Carl Rogers publica Tornar-se Pessoa.
1962 - 1969: Pichon-Rivière obtém uma formulação totalizadora de seu esquema conceitual.
1963: Geoges Lapassade e René Lourau publicam o livro Chaves da Sociologia. Surge a corrente da Análise
Institucional, que procurará abordar o grupo na relação instituinte-instituído, estudando a instituição como lugar
de reprodução das contradições sociais.
1967: Rollo May publica A Psicologia do Dilema Humano.
1970: Carl R. Rogers publica o livro Grupos de Encontro.
1971: B. F. Skinner publica O Mito da Liberdade. O psiquiatra italiano Franco Basaglia publica A Instituição
Negada.
1975: Mary Henle publica Gestalt Psychology and Gestalt Therapy.
REFERÊNCIAS

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<http://www.geocities.com/cepag_franca/lateral/biblioteca/trabalho3.html>. Acesso em: 18 de março de 2009.
BLATNER, Adam. A historical chronology of group psychotherapy and psychodrama. Disponível em:
<http://www.blatner.com/adam/pdntbk/hxgrprx.htm>. Acesso em: 18 de março de 2009
DREYFUS, Catherine. Psicoterapias de grupo. São Paulo: Verbo, 1980.
FOULKES, S. H.; ANTHONY, E. J. Psicoterapia de grupo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
LAGE, Nilsom. A comunicação decepcionante. Disponível em:
<http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd230420031.htm>. Acesso em: 18 de março de 2009.
LAPASSADE, Georges; LOURAU, René. Chaves da sociologia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d.
MOREL, Pierre. Dicionário biográfico PSI. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1997.
NETTO, Samuel Pfrom Netto. Psicologia: introdução e guia de estudo. São Paulo: EPU; EDUSP; CNPq, 1985.
OSÓRIO, Luiz Carlos. Psicologia grupal: uma nova disciplina para o advento de uma nova era. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
PEREIRA, Marcos Emanoel. História da psicologia: linha de tempo das idéias psicológicas. Disponível
em:<http://www.geocities.com/Athens/Delphi/6061/linha3.htm>. Acesso em: 18 de março de 2009.
PICHON-RIVIÈRE. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
ROGERS, Carl R. Grupos de encontro. São Paulo: Moraes, 1972.
SAIDON, Osvaldo. Práticas grupais. Rio de Janeiro: Campus, 1983.