Você está na página 1de 11

19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

NOTÍCIAS CANDIDATOS ANÁLISE PRIMEIRO VOTO PESQUISAS BRASIL DESIGUAL NO TWITTER

ELEIÇÕES 2018

Nem fascistas nem teleguiados: os


bolsonaristas da periferia de Porto Alegre
Eles contrariam o estereótipo atribuído pelos críticos e fogem das 'fake news'.
O EL PAÍS mergulhou no fenômeno de adesão ao candidato de extrema direita
a partir da pesquisa de duas antropólogas

NAIRA HOFMEISTER

Porto Alegre - 17 AGO 2018 - 21:58 CEST

Ads help us run this site


Anriel do Prado Neves, de 24 anos, mostra o adesivo de Jair Bolsonaro no carro que dirige para um
When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your
aplicativo. TÂNIA device
MEINERZ
to serve relevant ads or personalized content. Cookies policy. If you continue browsing, you accept their
use
AO VIVO Debate da Cássio Martins tem 18 anos e quer que a lei do morro onde ele
Rede TV reúne vive, ditada pelos donos do tráfico, Learnvalha
More também para o TO SITE
CONTINUE

“asfalto”. Assim, ele não vai mais precisar esconder o celular


https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 1/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

candidatos a sempre que sair dos limites do Morro da Cruz, vila na periferia de
presidente de novo
Porto Alegre que tem um dos piores Índices de
Desenvolvimento Humano da capital do Rio Grande do Sul, mas
onde ele se sente confortável para ouvir música e checar o
Facebook no telefone sem medo de ser roubado. Essa é a
justificativa principal para dar o primeiro voto de sua vida para

Bolsonaro propõe
Jair Bolsonaro (PSL), o controverso candidato à presidência da
‘licença para matar’ República que promete rigor com a criminalidade.
para policiais e
venda de ativos da
Petrobras Também são os problemas com a segurança que levam Anriel
do Prado Neves, 24, a optar pela candidatura de extrema direita
do parlamentar e capitão do Exército reformado. Sua convicção
é tanta que até colou um adesivo com a cara do candidato na
traseira do automóvel que dirige para um aplicativo de
transporte. “Sei que tem gente que dá nota ruim por isso, mas
“Vendo camisetas
tudo bem”, se resigna. Ele já foi assaltado duas vezes quando
de Bolsonaro, mas
não voto nele”
era taxista, mas o que preocupa mesmo Anriel é o tráfico e a
guerra com a polícia. “Dos meus 30 amigos de infância, só
sobraram dois. Os outros todos morreram, foram executados”,
lamenta. No Morro da Cruz, metade das mortes de jovens entre
15 e 29 anos é por homicídio.

Rosana Pinheiro-
Para ambos, o perfil “linha dura” do militar, que promete
Machado conversa
sobre jovens e as endurecimento da legislação penal e a revisão do estatuto
eleições do desarmamento, poderia ajudar a solucionar os problemas.

Os dois estão na faixa etária em que Bolsonaro se destaca nas


pesquisas eleitorais: entre os 16 e os 35 anos. Mas, à exceção de
serem jovens, Cássio, Anriel e vários outros entrevistados pelo

Coronel da reserva
EL PAÍS no Morro da Cruz pouco têm em comum com o perfil
acusa general que institutos de pesquisa desenham dos possíveis eleitores
Mourão de do presidenciável do PSL: eles não são os mais escolarizados
favorecer empresa
(chegaram ao ensino médio), nem ricos e tampouco estão no
em contrato do
Ads help us run thisNorte
Exército site e Centro-Oeste do país. Também não se enquadram no
When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your device
estereótipo que os críticos do candidato dizem ter seus
to serve relevant ads or personalized content. Cookies policy. If you continue browsing, you accept their
use eleitores: são gente de fala branda, que defende opiniões com
serenidade e argumentação, busca informações na imprensa e é, inclusive, capaz de
discordar das propostas mais radicais de Bolsonaro.Learn More CONTINUE TO SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 2/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Anriel, por exemplo, fica “com um pé atrás” sobre a ideia de


liberar o porte de armas para a população. Ele tem medo que
discussões bobas de trânsito terminem em tragédia se alguém
estiver com um revólver na cintura. Por outro lado, a redução da
maioridade penal não é um problema. “Aqui, gurizada de 13 anos
Assine a newsletter
do EL PAÍS Brasil mata sem dó”, exemplifica. Cássio, por sua vez, gosta da ideia
de estar “no mesmo nível” de um potencial assaltante para
sentir-se protegido e toparia ter uma arma. Mas confessa que o
alerta do pai, sobre o radicalismo de Bolsonaro, o deixa
intrigado: “Ele tem receio de que se não conseguir fazer o que
pretende, possa dar um golpe ou coisa parecida”, revela.
Eleições 2018:
calendário, debates
e programa dos Anriel tem perfil mais liberal: admira o ex-prefeito e candidato a
candidatos à governador de São Paulo João Doria (PSDB) e faz discurso
presidência do
contra a burocracia para empreendedores. Mas tem consciência
Brasil
da profunda desigualdade brasileira e acha que ampliar
oportunidades aos mais pobres é tarefa do Estado. Quando faz
corridas para estudantes (ele detesta pegar passageiros das
humanas na federal do Rio Grande do Sul), nota diferenças: “Se
eu pego corrida na UFRGS é só Assunção, Menino Deus, bairros
Quem é quem na finos. Mas se é nas faculdades privadas, o destino é Restinga,
corrida eleitoral Pinheiro, só periferia”. Por isso, embora contrário a cotas raciais,
ele é simpático à reserva de vagas públicas a quem tem baixa
renda.

A pesquisa
A complexidade do pensamento desses jovens eleitores de
Bolsonaro e a disponibilidade que eles têm para o debate de
propostas chamou a atenção de duas antropólogas que
Cenário eleitoral pesquisam juventude, consumo e política no Morro da Cruz há
difuso põe à prova o quase uma década e que desenvolvem agora uma nova fase do
mítico poder das
trabalho que só termina depois das eleições. Foi acompanhando
campanhas de TV
no Brasil o trabalho de campo de Rosana Pinheiro-Machado e Lucia
Ads help us run thisMury
site Scalco que a reportagem do EL PAÍS esteve no local numa
When you visit our site, pre-selected companies
sexta-feira may“Eles
de agosto. access andsão
não usefascistas,
certain information on your device
pelo contrário,
to serve relevant ads or personalized content. Cookies policy. If you continue browsing, you accept their
use
tem argumentos para defender sua posição”, observa Rosana.

Learn More CONTINUE TO SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 3/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

De fato, tanto Anriel como Cássio se sentem incomodados com


os rótulos costumeiramente a eles atribuídos quando revelam
ser potenciais eleitores do militar da reserva. “Me dizem que sou
lixo, mas isso não descreve como sou. Eu não vou discriminar
outra pessoa só porque gosta da Dilma ou do Temer”, queixa-se
Igrejas evangélicas
e a Internet Cássio.
cumprem função de
escola no Brasil
popular Anriel também se ressente das frequentes investidas de
adversários: “Me chamam de racista. Justo eu, que namoro uma
negra… e ela discorda da minha posição, é contra o Bolsonaro”,
argumenta, confirmando, aliás, outro dos achados das
pesquisadoras.

A triste
conveniência dos
Em grupos focais que vem realizando em escolas, as
candidatos que antropólogas Lucia e Rosana perceberam que o voto em
querem ser eleitos Bolsonaro é também uma questão de gênero. “As meninas
sem enfrentar seus
são muito articuladas na crítica ao machismo que o candidato
eleitores
demonstra”, assevera Rosana. A convicção delas era tanta que
foi preciso criar um grupo exclusivamente masculino para que
os rapazes se sentissem à vontade para declarar seu voto, o que as pesquisadoras
também interpretam como uma reação ao feminismo crescente.

A namorada de Cássio faz campanha abertamente contra o capitão reformado, mas


para ele o candidato não parece preconceituoso e suas opiniões mais polêmicas
soam mais como galhofa: “Dizem que Bolsonaro é racista, machista e homofóbico,
mas acho que estão distorcendo. Uma pessoa assim não é legal e ele não parece ser
alguém ruim”, analisa.

Ao mesmo tempo, ele é crítico ao ataque de Bolsonaro à deputada federal Maria do


Rosário (PT). Em duas ocasiões, o presidenciável do PSL disse que não estupraria
sua colega na Câmara Federal porque ela “é feia” e “não merece”. Bolsonaro já foi
condenado no Superior Tribunal de Justiça por essa agressão, e ainda responde a
outro processo, em andamento no Supremo Tribunal Federal. “Totalmente
Ads help us run this site
desrespeitoso”, condena Cássio.
When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your device
to serve relevant ads or personalized content. Cookies policy. If you continue browsing, you accept their
use

Learn More CONTINUE TO SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 4/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Cátia Cunha, fã de Bolsonaro. T.M.

A grosseria é o ponto fraco do candidato mesmo na opinião dos mais aficcionados.


No Morro da Cruz, uma dessas figuras é Cátia Cunha de Almeida Lopes, 40, que
exibe num caderno uma lista com 28 motivos para votar em Bolsonaro e viaja todos
os anos para o Rio de Janeiro em busca de um encontro com o ídolo. “Já entrei na
casa dele, no condomínio, conheci a família… Mas ver ele mesmo, pessoalmente, foi
uma vez só, e por acaso”, recorda, exibindo a caneca em que mandou imprimir a foto
que registra o momento. Ela também guarda revistas elogiosas ao candidato, que
ocupa o mesmo lugar da dupla Bruno e Marrone no seu panteão pessoal. Mesmo
assim, para a técnica em enfermagem, na discussão com Maria do Rosário “ele
pegou pesado”, embora tenha sido uma reação dita no calor dos acontecimentos —
perdoável, portanto.
Ads help us run this site
When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your device
to serve
Anrielrelevant
também adsrelativiza
or personalized
outracontent. Cookies
polêmica, mesmo policy. If you continue
mantendo browsing,
um tom youoaccept
crítico: their
voto de
use
Bolsonaro contra Dilma Rousseff, quando ao lado de outros 366 parlamentares, na
Câmara, abriu caminho para o impeachment que viria na More
Learn sequência.CONTINUE
Na ocasião,
TO o
SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 5/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

candidato do PSL fez de seu voto uma homenagem ao coronel Carlos Brilhante Ustra,
condenado por torturar presos políticos durante a ditadura militar.

“Eu tenho pena da Dilma, aquilo não era para ter ocorrido. Passamos uma vergonha
na frente de outros países. Ela tinha votos para estar lá”, lamenta. Ainda assim,
entende a posição do seu candidato: “Ele estava fazendo política. Bolsonaro é um
democrata”, acredita.

O morro
Os bairros onde o Morro da Cruz está localizado não são muito familiares ao porto-
alegrense médio (São José é o principal, mas também a Vila João Pessoa e Coronel
Aparício Borges). Mas nem por isso a favela é desconhecida da população em geral:
lá se celebra anualmente a procissão de Páscoa mais famosa da cidade, com a
encenação da via sacra que termina justamente no alto da montanha, debaixo da
cruz que lhe dá nome. O morro também está a meio caminho entre as duas
universidades mais tradicionais da capital, a católica PUC e a federal UFRGS, e é pelo
mesmo corredor onde passam os ônibus dos estudantes que se acessa a
comunidade, na avenida Bento Gonçalves, uma das mais importantes artérias de
Porto Alegre.

Não é raro ouvir de um morador do Morro da Cruz que ele “vai pra Porto Alegre”
quando precisa sair da localidade (são nove quilômetros até o centro). Lá tem de
tudo: supermercado, farmácia, mecânica, padaria. Placas de freteiros e de
confeiteiras são muitas, penduradas nas grades de ferro das casas. Mesmo a parte
alta do morro é abastecida com transporte coletivo, os postos de saúde atendem a
população apesar da precariedade, as escolas estão abertas. Em uma lan house que
estava cheia perto do meio-dia de uma sexta-feira, os cartazes avisam: “É proibido
pornografia”. Quem não atender é punido com a “perda de todos os créditos”. Já
falar palavrão ou ter um ataque histérico são falhas menos graves, custam 30
créditos a quem cometer os deslizes.

À primeira vista, portanto, o Morro da Cruz não parece uma comunidade vulnerável.
Anriel
Ads help mora comthis
us run a irmã em uma casa de concreto e rua pavimentada. Cássio ajuda a
site
mãe
When younavisit
creche particular
our site, que companies
pre-selected ela mantém maytambém emuse
access and construção de alvenaria,
certain information bem
on your device
to serve relevant
defronte a umaads parada
or personalized content. Cookies
de ônibus. policy. If you
Mas as estatísticas sãocontinue
claras:browsing,
a região you accept their
do Morro
use
da Cruz está na posição 581 entre os 722 locais acompanhados regularmente pelo
Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil. Segundo o IBGE,
Learn More 5% dos domicílios
CONTINUE da
TO SITE
localidade são considerados indigentes - seus moradores sobrevivem com ¼ de

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 6/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

salário mínimo por pessoa, algo em torno de 250 reais. Outros 20% estão em
condição levemente melhor: são os pobres, cuja renda per capita é de meio salário
mínimo. Entre 2000 e 2010, o rendimento médio dos chefes de família do Morro da
Cruz caiu pela metade.

E a realidade pode ser ainda pior do que mostram os dados oficiais, porque há uma
imensidão de áreas irregulares no entorno do centrinho mais organizado, nos becos.
Essa parte não entra nas estatísticas. Por exemplo, se os dados do IBGE contabilizam
uma população de pouco mais de 16.000 pessoas, estima-se que a vila tenha entre
35 e 45 mil moradores. “São muitas ocupações, é impossível saber com precisão”,
argumenta Lucia Mury Scalco, que divide seu tempo no morro entre a pesquisa de
pós-doutorado em antropologia e um trabalho social que criou depois de 12 anos
estudando a população do local.

No mapa de vulnerabilidade do Departamento de Habitação (Demhab) de Porto


Alegre, há duas enormes áreas de risco pintadas de azul sobre a região da
favela, além de outras duas pequenas. A maior parte das ocorrências da Defesa Civil
na comunidade se refere a desabamentos ou desmoronamentos.

Ads help us run this site


When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your device
to serve relevant ads or personalized content. Cookies policy. If you continue browsing, you accept their
use Vista de um bairro do Morro da Cruz. T.M.

Learn More CONTINUE TO SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 7/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Na última eleição presidencial, em 2014, 20% dos moradores do Morro da Cruz


habilitados ao voto não comparecerem às urnas. Anriel não tem certeza, mas talvez
tenha ajudado a engordar as estatísticas: “Acho que justifiquei, porque o candidato
que eu ia votar, morreu”, diz, em referência a Eduardo Campos (PSB). Sua
substituta na chapa PSB-Rede, Marina Silva, não o atraiu tanto (nem antes nem
agora) e ele se absteve.

Quem votou em uma das cinco zonas eleitorais do bairro São José, onde fica a maior
parte do Morro da Cruz elegeu Dilma Rousseff (PT) —a candidata petista venceu
Aécio Neves (PSDB) em todas as seções eleitorais da região. A sigla tem certa
tradição na localidade: a população do morro sempre foi muito atuante nas
assembleias do Orçamento Participativo, criado no final dos anos 80 durante a
gestão de Olívio Dutra na prefeitura, figura sempre lembrada e referência no bairro.

Cássio lembra que os pais e os tios falam rotineiramente que “o PT ajudou muito o
povo mais pobre”, mas ele mesmo não sabe opinar sobre se a vida era melhor ou pior
antes da era Lula, por exemplo —tinha dois anos quando o ex-mandatário assumiu o
poder.

Por essas e outras razões, as antropólogas acham que o jogo no Morro da Cruz pode
ter virado. “Nas últimas semanas, muitas pessoas nos abordam na rua para dizer que
vão votar no Bolsonaro. Sabem que estamos pesquisando o assunto e vem nos dar
suas justificativas”, revela Rosana.

Dos rolezinhos a Bolsonaro


Elas percebem que potencialmente os jovens estão de fato declarando voto em
Bolsonaro - e isso surpreendeu a ambas, que acompanham os movimentos da
juventude do lugar desde 2009. Elas haviam desenvolvido uma tese de que as
excursões aos shopping centers apelidadas pelos jovens da periferia de “rolezinhos”
ao mesmo tempo que eram uma atitude juvenil voltada consumo, também tinham
um forte caráter reivindicatório de inclusão e de circulação no espaço público.
Intimamente, as pesquisadoras concluíram que havia ali um embrião de um
movimento
Ads político
help us run thispromissor.
site Quando as ocupações estudantis secundaristas
explodiram
When emsite,
you visit our 2016 - no Rio Grande
pre-selected domay
companies mais de
Sul access anduma centena
use certain escolasonforam
information your device
to serve relevant
ocupadas ads or personalized
durante meses - tudocontent. Cookies policy. Ifa you
parecia confirmar continue
hipótese. Masbrowsing,
quando youforam
acceptao
their
use
Morro da Cruz perguntar aos jovens sobre as “ocupas”, a maioria ignorava ou até
desprezava o movimento secundarista. “Eram os vagabundos,
Learn More maconheiros”,
CONTINUE TO SITE
ilustram.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 8/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Foi nesse caldo surpreendente que a candidatura de Jair Bolsonaro começou a


decolar, pelo menos no Morro da Cruz, em Porto Alegre. “Não há um padrão nem no
perfil dos jovens eleitores de Bolsonaro nem nos argumentos que usam para
defendê-lo”, dizem as pesquisadoras. Há simpatizantes do presidenciável em todos
os universos possíveis: no Funk, no tráfico, na igreja ou na escola. “Cada um desses
grupos juvenis se apega a uma parte do repertório que, em comum, apenas passa
pela figura de um homem que oferece uma solução radical à vida como ela é”,
sintetiza Rosana, que junto com Lúcia finaliza um livro sobre a pesquisa completa,
que deve chamar From Hope to Hate: the rise and fall of Brazilian emergence (Da
esperança ao ódio: ascensão e queda da emergência brasileira) .

Mas há outros elementos em jogo. Anriel, por exemplo, se decidiu no ensino médio,
“antes dos protestos” do últimos protestos. Como no Morro da Cruz não há escolas
secundárias, Anriel frequentou o tradicionalíssimo colégio estadual Julio de
Castilhos, na região central de Porto Alegre, um caldeirão da política local, onde
estudaram Leonel Brizola e Luciana Genro, entre uma galeria de celebridades da
vida pública brasileira (Caco Barcelos e o avô do atual presidente do TRF4, Carlos
Eduardo Thompson Flores também foram alunos).

A militância estudantil é uma marca do “Julinho”, como a escola é conhecida no Rio


Grande do Sul. “Vinha gente principalmente dos partidos de esquerda, como o PSOL.
Eu ouvia, mas comecei a procurar o outro lado e vi que concordava mais”, recorda.

O argumento usualmente desqualificado pela esquerda de que o Bolsa Família


incentivava as pessoas a não procurarem trabalho fez sentido para ele - que tinha
uma irmã recebendo o benefício, porque a creche da filhinha exigiu o cadastro no
programa para aceitar a matrícula da menina. “Eu sei que tem gente que precisa
mesmo, mas também conheço muitos que ficaram parados depois. Acho que deveria
ser obrigatório, para quem recebesse, ir todos os dias no SINE para arrumar
emprego”, opina.

Ele também desconfiava do expediente utilizado pelos partidos tradicionais para


arregimentar apoios da estudantada do Julinho. “Eles ofereciam lanche para quem ia
Ads help us run this site
nos protestos”, revela. Às vezes também prometiam algum benefício imediato para
When you visit our site, pre-selected companies may access and use certain information on your device
jovens
to serve lideranças
relevant ads orda escola. Mas
personalized o problema policy.
content. Cookies prático da falta
If you de professores,
continue browsing, you por
accept their
useexemplo, não era atacado. “A gente nunca teve professor fixo de história e filosofia,

posso contar nos dedos as aulas que tive e era muito fácil de passar”, assegura
Learn More CONTINUE TO SITE
Anriel.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 9/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Acostumado a vincular militância partidária com algum tipo de “pagamento”, ele


decidiu adesivar a traseira do seu automóvel no dia em que viu a recepção que o
candidato teve no aeroporto de Porto Alegre. Ele estava a trabalho no local - por isso
lamenta não ter podido descer do carro para chegar mais perto. “Era um fanatismo
impressionante. Nunca vi ninguém receber assim um candidato sem ser pago”,
explica.

Informação
A militância espontânea é um fator citado por muitos dos eleitores de Bolsonaro no
Morro da Cruz entrevistados pela reportagem do EL PAÍS. Outro ponto repetido por
vários jovens é que o candidato é visto como alguém sem papas na língua, que não
tem medo de dizer o que pensa e cuja comunicação na internet - feita sobretudo por
memes - fala diretamente a esse público. “Eu deslizo o meu Facebook e só aparecem
as coisas dele, nada dos concorrentes”, exemplifica Juan da Paz, 19 anos.

Apesar disso, os simpatizantes do presidenciável não são nem de longe pessoas


desinformadas. A maioria procura informação fora das redes do candidato e alguns
têm o costume de conferir postagens antes de repassar fake news. “Quando morreu
a Marielle (Franco), eu quase compartilhei que ela era envolvida com o tráfico. Mas aí
vi que nenhum jornal dizia isso e não fui atrás”, revela, aliviado, Anriel.

Eles também querem ouvir o que os outros candidatos têm a dizer e acompanham
entrevistas e declarações. A participação de Bolsonaro no Roda Viva foi
acompanhada por todos, mas não na TV, e sim, pelas redes sociais. Anriel, por
exemplo, precisou resgatar o vídeo no YouTube na manhã seguinte, embora tenha
tentado ver ao vivo: “Travou a transmissão do Twitter dele e não consegui mais
assistir”.

A entrevista ficou registrada na memória como uma batalha entre o candidato e os


jornalistas - outro argumento repetidamente levantado a seu favor: “Estão
perseguindo ele, o tempo todo tentam fazer ele cair numa pegadinha”, critica.
“Ninguém perguntou sobre o que importa: educação, saúde. Só sobre tortura, essas
coisas
Ads helpque
usjárun
passaram”,
this siteargumenta o motorista - repetindo, de certa maneira, o
pensamento
When you visit ourdo próprio
site, candidato
pre-selected que mencionou
companies no programa
may access and a lei da anistia:
use certain information “São
on your device
to serve relevant
feridas ads devem
que não or personalized content. Cookies
mais ser lembradas”. policy. If you continue browsing, you accept their
use

Oposição Learn More CONTINUE TO SITE

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 10/11
19/08/2018 Eleições 2018: Nem fascistas nem teleguiados: os bolsonaristas da periferia de Porto Alegre | Brasil | EL PAÍS Brasil

Apesar de ter grande apoio, Bolsonaro não é unanimidade no Morro da Cruz —e há


muitos jovens contra suas propostas. Mas mesmo quem o critica, reconhece
qualidades: “Eu não gosto dele e não votaria nele, mas ele propõe coisas diferentes
do que estamos acostumados”, avalia Shaiane Carolina Azevedo, de 19 anos. “As
propagandas dos outros são todas iguais”, lamenta Bianca Martins, 20 anos,
também contrariada.

A pauta da segurança, por exemplo, é reconhecida como importante mesmo por


seus detratores. “Ele tem objetivos maravilhosos, fantásticos. Quem não quer sair
tranquilo, de noite, na rua? Eu tenho filhos e fico preocupada se demoram a chegar
do serviço, da faculdade… Mas como ele sugere resolver, vai instigar mais a violência.
O Brasil dele não é real”, contesta Fabiana Carniel Gonçalves, 42 anos.

Por motivos como esses, Camila Diefenthaler Zafanelli, 19 anos, está tentando virar o
voto do pai, bolsonarista convicto. “A gente conversa muito em casa, ele super apoia
(o Bolsonaro), mas eu estou insistindo”.

ARQUIVADO EM:

Eleições Brasil 2018 · Jair Bolsonaro · Eleições Brasil · Brasil · América do Sul · América Latina
· Eleições · América · Política

© EDICIONES EL PAÍS, S.L.


Contato Venda de Conteúdos Publicidade Aviso legal Política cookies Mapa EL PAÍS no KIOSKOyMÁS Índice RSS

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/17/politica/1534457864_835707.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM 11/11