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AS CIÊNCIAS

SOCIAIS
Relatório
da Comissão Gulbenkian
sobre a reestruturação
das Ciências Sociais

PUBLICAÇÕES EU ROPA•AMÉRICA
PARA ABRIR
AS CIÊNCIAS SOCIAIS
COMISSÃO CALOUSTE GULBENKIAN

PARA ABRIR
AS CIÊNCIAS SOCIAIS

PUBLICAÇÕES EUROPA~AMÊRICA
Título original: Open tire Social Scienres

Tradução de Ângela Maria Moreira e João Paulo Moreira

Revisão técnica de Boaventura de Sousa Santos

Cura: estúdio~ P. E. A.

© Fundação Gulbenkian. 1996

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Ostransgressoressãopassíveisdeprocedimentojudicial

Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA.


Apartado 8
2726 MEM MARTINS CODEX
PORTUGAL

Edição n.º: 100304/6501

Execução técnica:
Gráfica Europam, Lda .•
Mira-Sintra - Mcm Martins
COMISSÃO GULBENKIAN
PARA A REESTRUTURAÇÃO
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Immanuel Wallerstein, presidente


Calestous Juma
Evelyn Fox Keller
Jürgen Kocka
Dominique Lecourt
Valentin Y. Mudimbe
Kinhide Mushakoji
Ilya Prigogine
Peter J. Taylor
Michel-Rolph Trouillot

Richard Lee, secretário cientifico

Comissão criada
pela Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa.
I

A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS,
DO SÉCULO XVIII ATÉ 1945

Pense-se na vida como um imenso problema,


uma equação ou, melhor ainda, uma farru1ia de
equações em parte dependentes mas também parcial-
mente independentes umas das outras ... subenten-
dendo-se que tais equações são bastante complexas
e cheias de surpresas e que muitas vezes somos inca-
pazes de lhes descobrir as «raízes».

1
fER:S:AND 8RAUDEL

A ideia de que somos capazes de reflectir de uma maneira


inteligente sobre a natureza do ser humano, sobre as relações
que este mantém com os seus semelhantes e com as forças es-
piri tuais, e sobre as estruturas sociais que ele mesmo criou e
dentro das quais se move, é uma ideia pelo menos tão antiga

1 Prefácio a Charles Morazé, Lcs bourgeois conq11éra11ts (Paris: Liv. Ar-


rnand Colin, 1957).

15
(0.\1/SS iO GUl.8c.NKU,\'

quanto a própria história conhecida. Estas são questões jíl


versadas tanto pelos textos religiosos que chegaram até nós,
corno pelos textos a que chamamos filosóficos. E há ainda a
abedoria oral transmitida ao longo dos tempos e tantas ve-
zes passada a registo escrito. É evidente que muita desta sa-
bedoria foi resultado de um processo de recolha indutiva,
nas mais diversas paragens e ao longo de um grande período
de tempo, feita a partir da plenitude da experiência vivencial
humana, não obstante os resultados serem apresentados sob
a forma de revelação ou de uma dedução racional a partir de
algumas verdades eternas e intrínsecas.
Aquilo a que hoje chamamos ciências sociais são o her-
deiro desta sabedoria. Mas trata-se de um herdeiro distante
e porventura frequentemente ingrato e nada reconhecido, já
que as ciências sociais se definiram a si próprias como sendo
a busca de verdades para lá dessa sabedoria obtida por le-
gado ou deduçã~. As ciências sociais constituíram um
empreendimento do mundo moderno. As suas raízes mergu-
lham na tentativa-uma tentativa plenamente amadurecida
já desde o século xvr, e que é parte integrante da construção
do nosso mundo moderno- de desenvolver um-saber siste-
·=·-
mático e,;secul~ acerca da realidade, que de algum modo
possa ser em{!irjç;ame..ute_ valídada.A esse saber chamou-se
scieniui, uma palavra que significava simplesmente conhe-
cimento. É claro que, etimologicamente, filosofia também
significa conhecimento - ou, mais exactamente, o gosto pelo
conhecimento.
A chamada visão clássica da ciência, dominante desde há
vários séculos, foi erigida sobre duas premissas. Uma delas
foi o modelo newtoniano, segundo o qual existe uma simetria

/6
f't\Rt\ t\lllUR t\S Ctf.NC/AS SOC/t\l.\

ntre o passado e o futuro. Estava-lhe subjacente uma pers-


pectiva quase teológica: a exemplo de Deus, nós podemos
chegar a certezas, e por esse motivo não precisamos de
distinguir entre passado e futuro, uma vez que tudo coexiste
num eterno prcs~nte. A segunda premissa foi o dualismo car-
tesiano, ou seja, o pressuposto de que existe uma distinção
fundamental entre a natureza e os seres humanos, entre a ma-
téria e a mente, entre o mundo físico e o mundo social/espi-
ritual. Quando, no ano de 1663, redigiu os estatutos da Royal
Society, Thomas Hooke fixou como objectivo desta «aumen-
tar o conhecimento das coisas naturais, e de todas as Artes
úteis, Manufacturas, práticas Mecânicas, Máquinas e Inven- ., ,,.

ções pela via da Experimentação», acrescentando a frase «em


que não entrem o Divino, a Metafísica, a Política, a Gramá-
tica, a Retórica, ou a Lógica»2. Estes estatutos traduziam
já, assim, a divisão entre os modos de conhecimento que C. P. c-"
Snow iria mais tarde designar por «as duas culturas».
A ciência passaria a ser definida corno a busca de leis uni-
versais da natureza que se mantivessem verdadeiras para lá
das barreiras de espaço e tempo. Alexandre Koyré, recons-
tituindo a evolução das concepções europeias de espaço do
século xv ao século xvm, observou o seguinte:

O universo infinito da nova cosmologia, infinito na


duração e na extensão, no qual a matéria eterna, de
acordo com leis eternas e necessárias, se move sem fim
e sem objectivo no espaço eterno, havia herdado todo

2
Apttd Sir llenry Lyons, Tlte Royal Society, 1660-1940 Jova Iorque:
Greenwood Press, 1968), p. 41.

Dlvtrsos-2
17
COlflSS.40 GULBENKIAN

os atributos ontológicos da divindade. Mas só estes:


quanto aos outros, Deus, ao partir do mundo, levou-os
com Ele;,.

Os outros atributos do Deus agora a n te eram, é claro,


os valores morais do mundo cristão, o amor, a
umildade e a caridade. Neste seu oyré não se pro-
nuncia sobre os valores que os vieram substitu , •.•o entanto
saoemos que, ao sair de cena, Deus - · .ou atrás de
', propriamente, um vazio moral aram
.ara além de todos os limi as ambições
umanas não lhes ncaram a

unco • de que fala Kovré r,"


cnsmo, De facto essa
mfSDa, altura a percepção o od-
t:) sofria uma transformação
f'Al?A ABIW? AS Clf.NCIAS SOCIAIS

comerciais e o subsequente alargamento da divisão do tra-


balho, factores que, por sua vez, iriam fazer encurtar decisi-
vamente as distâncias sociais e temporais.
Contudo, essa finitude da terra não constituiu fonte de
dissuasão, pelo menos até tempos recentes. Enquanto a visão
ideal de um progresso ilimitado se alimentava da infinidade
de tempo e espaço, a concretização prática do progresso nos
assuntos humanos por via do avanço tecnológico dependia
da disponibilidade do mundo para se deixar conhecer e ex-
plorar, de uma confiança na finitude deste quanto a certas di-
mensões-chave (com destaque para a sua epistemologia e
geografia). Com efeito, era crença geral que para atingir o
progresso se impunha que nos livrássemos completamente
de todas as inibições e de todas as restrições, enquanto des-
cobridores apostados em desvelar os segredos mais recôndi-
tos e em sugar os recursos de um mundo mesmo ao alcance
da mão. Parece que, até ao século xx, a finitude da esfera ter-
restre serviu antes de tudo para facilitar as viagens explora-
tórias e a própria exploração exigidas pelo progresso e para
dar exequibilidade às aspirações de dominação ocidentais.
No século xx, à medida que as distâncias terrestres começa-
vam a encurtar a ponto de se afigurarem constrangedoras, as
limitações da terra puderam ser evocadas como um incenti-
vo mais para as arremetidas exploratórias ( agora também pe-
los confins do espaço celeste) necessárias ao alargamento
dessa esfera de dominação. Em suma, a morada do nosso vi-
ver presente e passado passou a assemelhar-se menos a um
lar e mais a uma rampa de lançamento, lugar a partir do qual
nós, enquanto homens (e umas tantas mulheres) de ciência,

/9
COMJSS,\0 GULBI \KIAN

fomos capazes de pairar pelo espaço, posicionando-nos como


enhores de urna unidade cada vez mais cósmica.
Pode ser que aqui as palavras-chave sejam progresso e
descoberta, mas o léxico não fica completo sem recorrer a
outros termos - ciência, unidade, simplicidade, domínio, e
inclusivamente «o universo». As ciências da natureza, tais
como foram construídas no decurso dos séculos xvn e xvm,
provieram primordialmente do estudo da mecânica celeste.
Inicialmente, aqueles que tentaram estabelecer a legitimi-
dade e prioridade da demanda científica das leis da natureza
quase não fizeram destrinça entre a ciência e a filosofia. Do
mesmo modo que distinguiam os dois domínios, assim os
consideravam aliados na busca da verdade secular. Mas à
medida que o trabalho experimental e empírico se tomava
cada vez mais crucial para a visão da ciência, a filosofia sur-
gia cada vez mais aos olhos da gente das ciências naturais
corno mera substituta da teologia, igualmente culpada de
asserções de verdade apriorísticas não passíveis de serem
postas à prova. Nos princípios do século xix, a divisão do
conhecimento em.dois domínios havia descartado a noção de
que se trataria de duas esferas «separadas mas iguais», para
assumir - pelo menos na perspectiva dos cientistas natu-
rais - o aspecto de uma hierarquia: o conhecimento tido
como certo (ciência), por oposição ao conhecimento imagi-
nado e mesmo imaginário (a não ciência). Finalmente, seria
também por volta do início do século xtx que o triunfo da
ciência se iria firmar do ponto de vista linguístico. O termo
ciência desprovido de adjectivo qualificativo passou, então,
a ser associado primordialmente (e muitas vezes exclusi-

21)
PARA ABRIR AS Clt:NC/AS SOCIAIS

vamente) às ciências da natureza 4. Este facto assinalou o cul-


minar da tentativa das ciências naturais para chamar a si uma
legitimidade sócio-intelectual que era de todo distinta-e na
verdade até contrária - de uma outra forma de conheci-
mento chamada filosofia.
A ciência, ou seja, a ciência da natureza, foi objecto de uma r)~~
-
definição mais d~ do gu~ o seu contraponto, para o qual o
-
mundo não chegou nu~ca sequer a acordar num nome único.
Umas vezes designada por artes, outras vezes chamada
humanidades, outras ainda letras ou belles-lettres, e ainda de
outras vezes apelidada filosofia, simplesmente «cultura» ou,
como sucede em Alemão, Geisteswissenschaften, a alternativa
à «ciência» foi assumindo uma face e uma ênfase variáveis,
uma falta de coesão interna que não foi de molde a ajudar os
respectivos praticantes a defender a sua causa junto das auto-
ridades, principalmente se se considerar a sua aparente in-
capacidade de oferecer resultados «práticos». Com efeito,
começara a tomar-se evidente que a luta epistemológica por
aquilo que se considerava ser o conhecimento legítimo já não
era uma luta para saber quem havia de controlar o conheci-
mento relativo à natureza (já que os cientistas naturais haviam
claramente adquirido direitos exclusivos sobre este domínio
por volta do século xvm), mas antes uma luta em torno de

4
Este fenómeno transparece claramente tanto em Inglês como nas lín-
guas românicas. É menos claro em Alemão, onde a palavra Wisscnscluift
continua a ser utilizada como termo genérico para o conhecimento sistemá-
tico e onde as chamadas «humanidades» são designadas por Geisteswis-
senschaften, o que à letra significa conhecimento das coisas do espírito ou da
mente.

21
quem havia de controlar o conhecimento relativo ao num2-o
humano.
A necessidade, sentida pelo Estado moderno, de possuir
um conhecimento ma is exacto sobre o qual pudesse basear as
uas decisões havia conduzido ao surgimento de novas cate-
gorias de conhecimento já no século xvm, no entanto, tais ca-
tegorias afiguravam-se ainda incertas nas suas definições e
fronteiras. Os filósofos sociais começaram, então, a falar de
uma «física do social», e os pensadores europeus começaram
a reconhecer a existência, no mundo, de múltiplas espécies
de sistemas sociais («como é que se pode ser persa?»), cuja
variedade se impunha explicar. Foi neste contexto que a uni-
versidade (que em larga medida se revelara uma instituição
moribunda desde o século xvi, por força da sua anterior liga-
ção estreita à Igreja) foi revitalizada nos finais do século xvm
e princípios do século XIX, tornando-se o lugar institucional
preferencial para a criação de conhecimento.
A universidade conheceu, assim, um processo de revitali-
zação e transformação. As faculdades de Teologia perderam
importância - por vezes desaparecendo completamente, de
outras vezes dando lugar a simples departamentos de es-
tudos religiosos no interior das faculdades de Filosofia. As
faculdades de Medicina mantiveram a sua função de centros
de formação prática numa área profissional específica, de-
finida agora inteiramente como conhecimento científico
aplicado. Seria, antes de mais, no interior das faculdades de
Filosofia (e, em grau consideravelmente menor, nas faculda-
des de Direito) que iriam ser erigidas as modernas estruturas
do conhecimento. Seria, enfim, na faculdade de Filosofia
(que em muitas universidades se manteve estruturalmente

22
PARA ABRIR AS ClflNCIAS SOCIAIS

unificada, mas que noutras conheceria um processo de sub-


divisão) que os praticantes tanto das artes como das ciências
naturais iriam penetrar para aí edificarem as suas múltiplas
estruturas disciplinares autónomas.
A história intelectual do século xrx é marcada, antes de
tudo, por este processo de disciplinarização e profissionali-
zação do conhecimento, que o mesmo é dizer, pela criação de
estruturas institucionais permanentes destinadas, simulta-
neamente, a produzir um novo conhecimento e a reproduzir
~ ' os produtores desse conhecimento. A criação de disciplinas
~· ; múltiplas teve por premissa a crença segundo a qual a inves-
tigação sistemática exigia uma concentração especializada
nos múltiplos e distintos domínios da realidade, um estudo
racionalmente retalhado em cachos de conhecimento perfei-
tamente distintos entre si. Essa divisão racional prometia ser
eficaz, ou seja, intelectualmente produtiva. As ciências na-
turais não tinham ficado à espera da revitalização da uni-
versidade para gerarem uma vida institucional autónoma. A
razão por que puderam actuar mais cedo foi porque conse-
guiram angariar apoio social e político a troco da promessa
de produzirem resultados práticos traduzidos numa utili-
dade imediata. O crescimento das academias reais durante
os séculos xvn e xvm e a criação, por Napoleão Bonaparte, das
grandes écoles reflectem a disposição de promover as ciências
naturais por parte dos governantes. Os cientistas naturais
não precisavam sequer, porventura, das universidades para
levarem a cabo o seu trabalho.
E foram, de facto, outros estudiosos que não os das ciên-
cias naturais- os historiadores, os classicistas, os estudioso,
das literaturas nacionais -quem mais fez para revitalizar a

23
CO.\FJSS\O Ol'LBENKJA1

universidade durante o século XtÃ, usando-a como um me-


canismo para a obtenção de apoio estatal ao seu trabalho de
ínvesngação. Eles atraíram os cientistas naturais para o inte-
rior das florescentes estruturas universitárias, beneficiando
assim do perfil positivo que os caracterizava. O resultado,
porém, foi que a partir de então as universidades passaram
a ser o espaço privilegiado da permanente tensão entre as
artes (humanidades) e as ciências, dois modos de conheci-
mento agora definidos como sendo bastante diferentes ou até
antagónicos.
Em muitos países - com especial saliência para a Grã-
-Bretanha e a França- assistiu-se a uma certa clarificação de
toda esta discussão, forçada pelo surto cultural desenca-
deado pela Revolução Francesa. As pressões no sentido da
efectivação de transforrnaçôes político-sociais haviam assu-
mido uma premência e uma legitimidade que dificilmente
podiam continuar a ser contidas através da mera procla-
mação de teorias respeitantes a uma ordem supostamente
natural da vida social. Em vez disso, muitos foram os que de-
fenderam que a solução estaria antes em organizar e raciona-
lizar a mudança social que surgia agora como inevitável num
mundo em que a soberania do «povo» passava cada vez mais
a constituir a norma, sem dúvida na tentativa de limitar, por
essa via, a extensão do fenómeno. Mas se o que havia a fazer
era organizar e racionaJizar a mudança social, a verdade é
que primeiramente se impunha estudá-la e entender as re-
gras que lhe subjaziam. Verificava-se, assim, não apenas
existir um espaço para aquilo a que viríamos a chamar ciên-
cias sociais, mas também urna profunda necessidade social
no sentido do seu surgimento. Além disso, parecia ainda evi-

u
!'ANA AIIRIR AS CltNCIAS SOCIAIS

dente que, nesse esforço de organizar uma nova ordem social


sobre uma base estável, quanto mais exacta (ou «posítiva»)
fosse a ciência, melhor. Com esta ideia em vista, muitos
daqueles gue - sobretudo na Grã-Bretanha e na França -
começaram a lançar as bases das modernas ciências sociais
na primeira metade do século xrx voltaram-se para a física
newtoniana, tomando-a como modelo a seguir.
Outros, mais preocupados em repor a unidade social dos
Estados que tinham conhecido a ruptura ou que por ela se
viam ameaçados, voltaram-se para a criação das narrativas
históricas nacionais - narrativas agora mais centradas nos
«povos» do que nos príncipes - como forma de escorar as
novas ou potenciais soberanias. A reformulação da «histó-
ria» em termos de geschichte- isto é, de um acontecer real e
efectivo - fez com que ela conquistasse credenciais inata-
cáveis. A história deixaria de ser uma hagiografia de justifi-
cação de monarcas para se tomar um verdadeiro relato do
passado, capaz de explicar o presente e de oferecer as bases
para uma escolha avisada no futuro. Este tipo de história (ba-
seada na investigação empírica de arquivos) associou-se às
ciências sociais e naturais na rejeição da «especulação» e da
«dedução» (práticas acusadas de serem mera «filosofia»).
Mas precisamente porque se preocupava profundamente
com as histórias dos povos na sua grande diversidade empí- ,.,. ó,µ
rica, é que este tipo de história encarava com suspeição e até
hostilidade as tentativas dos expoentes da nova «ciência so-
cial» no sentido de generalizar, ou seja, de estabelecer lei
universais para a sociedade.
( No decurso do século xrx, as várias disciplinas como que

. l. J., •A f: \{ "·· -'· IA,. ,,t "'" Jw, (. l, , 25


se abriram em leque cobrindo toda uma gama de posiçõe
epistemológicas.Num dos extremos situava-se a matemática
(umaactividadedenaturezanãoempírica),elogoencostadas
a ela as ciências naturais experimentais (perfiladas, por sua
vez, numa espécie de ordem decrescente segundo o respec-
1 tivo g;rau de determinismo -a física, a química, a biologia).
o e'"xtr~o op~sto achavam-se as humanidades (ou artes e
)
letras), começando pela filosofia (contraponto da matemá-

•.. - -
tica enquanto actividade não empírica), seguida do estudo
das práticas artísticas formais (as literaturas, a pintura e a
escultura, a musicologia), que na sua prática concreta se
aproximavam muitas vezes da própria história, ao prefigura-
rem-se como uma história das artes. Por fim, entre as huma-
nidades e as ciências naturais ficava o estudo das realidades
ociais, com a história (ídíográfíca) a situar-se junto das facul-
dades de artes e letras ou mesmo no seu interior e com as
«ciências sociais» (nomotéticas) na proximidade das ciências
da natureza, Postos perante uma separação cada vez mais rí-
gida dos saberes em duas esferas diferentes, cada uma delas
com a sua ênfase epistemológica própria, os estudiosos das
realidades sociais viram-se como que entalados e profunda-
mente divididos por estas questões epistemológicas.
Tudo isto, porém, se desenrolava num contexto em que a
ciência (newtoniana) havia triunfado sobre a filosofia
(especulativa), afirmando-se como a incarnação mesma do
prestígio social no mundo do conhecimento. Augusto Com-
te tinha-se referido ao corte entre ciência e filosofia em termos
de um divórcio, não obstante ele representar de facto, antes
de mais, uma rejeição da metafísica aristotélica e não tanto de
preocupações filosóficas propriamente ditas. Mesmo assim,
.,. _
26
PARA ABRIR AS Clf.NCIAS SOCIAIS

as questões colocadas pareciam bem reais: será que o mundo


é regido por leis deterministas? ou será que há lugar, ou ca-
bimento, para a inventiva e para a imaginação (humanas)?
Além disso, as questões intelectuais fizeram-se acompanhar
das suas alegadas implicações políticas. Do ponto de vista
político, o conceito de leis deterministas afigurava-se mais
útil às tentativas de controlo tecnocrático dos movimentos
- potencialmente anarquizantes - apostados na mudança.
E ainda do ponto de vista político, a defesa do particular, do
não determinado e do imaginativo afigurava-se particu-
larmente útil não só para os que se opunham às mudanças
tecnocráticas em nome da conservação das instituições e das
tradições vigentes, mas também para aqueles que se batiam
por possibilidades mais espontâneas e mais radicais de inter-
ferência da acção humana no terreno sociopolítico. Tratou-se
de um debate contínuo mas desequilibrado, que teve como
resultado, no mundo do conhecimento, a circunstância de
em toda a parte a ciência (física) passar a ser colocada num
pedestal e de em muitos países a filosofia ser relegada para
um canto ainda mais esconso do sistema universitário. Neste
cenário, uma das reacções assumidas pelos filósofos consis-
tiu em redefinir as respectivas actividades de maneira mais
consentânea com o ethos científico (veja-se a filosofia analítica
dos positivistas de Viena).
A ciência foi proclamada como sendo a descoberta da
realidade objectiva através do recurso a um método que nos
permitia sair para/ora da mente, ao passo que aos filósofos se
não reconhecia mais do que a faculdade de cogitar e de escre-
ver sobre as suas cogitações. Esta visão da ciência e da filoso-

27
COMISS~O GULBI-.NA.IAN

fia foi afirmada de maneira muito dara na primeira metade


do século xrx por Comte e Mill, altura em que ambos os pen-
adores procuraram estabelecer as regras que iriam presidir
às análises do mundo social. Ao fazer renascer a expressão
«física social», Comte tomou claras as preocupações políticas
que o moviam. Era seu desejo salvar o Ocidente da «corrup-
ção sistemática» que havia sido «elevada ao estatuto de ferra-
menta indispensável da governação» por força da «anarquia
intelectual» instalada desde a Revolução Francesa. Na sua
opinião, o partido da ordem assentava em doutrinas desac-
tualizadas (de índole católica e feudal), enquanto o partido
do movimento assentava em teses - absolutamente negati-
vas e destrutivas-bebidas no Protestantismo. Para Comte,
a física social iria permitir a reconciliação da q_rdem e do
progresso ao entregar a solução dos problemas sociais a um
«n úmero reduzido de inteligências de elite» dotadas do nível
de instrução adequado. Deste modo, pôr-se-ia fim à Revo-
lução a partir do momento em que fosse instalado um novo

---
poder espiritual. A base tecnocrática e a função social da
nova física social tornavam-se, ãss:im, evidentes. - -
- Dê acordo com esta nova estrutura do conhecimento, os
filósofos tomar-se-iam - para usar uma expressão bem
conhecida - «especialistas em generalidades». O que isso
significava era que eles iriam aplicar ao mundo social a lógica
da mecânica celeste (aperfeiçoada pela versão laplaciana do
protótipo de Newton). A ciência positiva visava a libertação
total relativamente à teologia e à metafísica, bem como a
todos os demais modos de «explicação» da realidade. <'A
nossas investigações positivas [ ... ] devem limitar-se, sob

28
/'ARA AIJRIR AS Clf.NCIAS SOCIAIS

todos os aspectos, ao estudo sistemático do que é, renun-


1 dando vJcscoberta da causa primeira e do destino fina1»5•
John Stuart Mill, que no contexto inglês correspondeu, de
alguma forma, a Com te e que com ele se correspondeu, não
falou de uma ciência positiva mas sim de uma ciência exacta.
Contudo,omodelodamecânicacclestemanteve-seomesmo:

«[A ciência da natureza humana] fica muito aquém


dos padrões de exactidão que actualmente vigoram na
Astronomia; mas não há razão para que ela não seja
uma ciência como hoje o é o estudo das Marés ou como
o era a Astronomia quando os seus cálculos davam
conta dos fenómenos principais mas não ainda das per-
turbações-".

Embora os fundamentos das divisões existentes no inte-


rior das ciências sociais mostrassem uma clara tendência
para cristalizarem já durante a primeira metade do século xrx,
a verdade é que só no período de 1850 a 1914 é que a diver-

-
sidade intelectual reflectida nas estruturas disciplinares das
ciências sociais teve um reconhecimento formal por parte das
principais universidades, sob as formas por que hoje as
conhecemos. É certo que já entre 1500 e 1850 existira biblio-
grafia respeitante a muitas das questões centrais tratadas

5Augusto Comte, Discurso sobre o Espírito Positiio (tradução, intro-


dução, tábua cronológica e sincrónica, e notas de Joel Sertão: Lisboa: Seara
Nova, 1947), p. 57.
6 John Stuart Mil!, A System of Logic Ratiocinativeand Jmt11cti<1e, Vol. Vlll

das Coílecreâ Works of John St11nrt Mil/ (Toronto; Univ. of Toronto Press,
1974), Livro VI, cap." tn. par. 2, p. 846.

29
COMf.'i'S,\O GULBENKIAS

naquilo a que hoje chamamos ciências sociais: o funciona-


mento das instituições políticas, as políticas macroeconómicas
dos Estados, as regras que presidem às relações interestatais,
a descrição dos sistemas sociais não europeus. Ainda hoje
lemos Maquiavel e Bodin, Petty e Grócio, os Fisiocratas
franceses e o Iluminismo escocês, assim. como os autores da
primeira metade do século XlX, desde Malthus a Guizot,
passando por Ricardo, Tocqueville, Herder e Fichte. Temos
inclusivamente, no período em questão, algumas das pri-
meiras discussões sobre o tema do desvio social, como por
exemplo na obra de Beccaria. Mas a realidade é que tudo isto
não constituía exactamente ainda aquilo que hoje em dia
entendemos por ciências sociais, da mesma maneira que ne-
nhum dos pensadores aqui mencionados se via ainda a si
próprio a funcionar no quadro daquilo que mais tarde viria
a ser considerado como as diversas disciplinas do saber.
A criação das múltiplas disciplinas das ciências sociais
inseriu-se no esforço global empreendido pelo século xtx no
sentido de garantir e de fazer avançar um conhecimento «ob-
jectivo» sobre a «realidade» na base de achados empíricos
(entendidos por oposição ao trabalho de «especulação»). O
intuito era «aprender» a verdade, em vez de a inventar ou
intuir. O processo de institucionalização deste tipo de activi-
dade do conhecimento não foi nada simples nem linear.
Antes de mais/ começava por não ser claro se uma tal activi-
dade deveria ser singular ou, antes, dividida em disciplinas
várias, como mais tarde viria a acontecer. Como claro não era
também, inicialmente, qual a melhor via para esse conhe-
cimento - ou seja, que tipo de epistemologia seria mais fru-
tuoso ou até legítimo empregar. E, sobretudo, não era nada
o
30
PANA ABRIR AS Ct[NCIAS SOCIAIS

claro se as ciências sociais poderiam de algum modo ser


pensadas como fazendo parte de uma «terceira cultura», si-
tuada-na formulação posterior de Wolf Lepenies-«entre
a ciência e a literatura». Em verdade, nenhuma destas questões
foi alguma vez resolvida em definitivo. O mais que podemos
fazer será dar nota das decisões efectivamente tomadas ou
das posições maioritárias que se revelaram tendencialmente
prevalecentes.

--
O primeiro aspecto a registar é onde é que esta institucio-
nalização teve lugar. No decurso do século xrx a actividade
das ciências sociais deu-se em cinco espaços principais: a
Grã-Bretanha, a França, as Alemanhas, as Itálias e os Estados
Unidos. A maioria dos estudiosos e das universidades (em-
bora não todos, obviamente) encontrava-se num destes cinco
espaços. Quanto às universidades dos restantes países, falta-
va-lhes o peso ou o prestígio internacional das destes cinco.
E até hoje a verdade é que a maior parte das obras oitocen-
tistas que ainda lemos foram ali escritas. 1

junto de no!::1-es de «assuntos» e de «disciplinas» avançado


no decurso do século passado. Todavia, por altura da
--
O segundo aspecto a registar é o vasto e diversíssimo con- (Íj/)J).. l/J _

I Guerra Mundial verificava-se urna convergência ou con-


senso geral em torno de um punhado de nomes específicos, Ir'
ao mesmo tempo que os demais candidatos eram mais ou,
menos preteridos. Corno adiante veremos, os nomes em cau- \ ')
sa eram, fundamentalmente, ci~stória, ~~mia,~ a
sociologia, a ciência política e a antropologia. Poderíamos
, acrescentar à 1 is ta, corno de resto veremos também, as chama-
das ciências orientais (também designadas por orientalismo),
não obstante o facto de estas se não verem a si próprias como
COMISS.~0 GVLBENlífAll.1

iências sociais. Adiante explicaremos ainda o motivo pelo


qual não incluímos na lista a geografia, a psicologia e o di-
rei to.
A primeira disciplina das ciências sociais a adquirir uma
existência institucional autónoma foi, de facto, a história. É
certo que muitos historiadores rejeitaram vigorosamente o
rotulo de ciências sociais - como de resto ainda hoje sucede
com alguns. Consideramos, porém, que estas disputas entre
.. os historiadores e as restantes disciplinas das ciências sociais
ão divergências internas das ciências sociais, como aqui
iremos procurar demonstrar. É óbvio que a história corres-
pondia já a urna prática de longa data, e a própria palavra é
bastante antiga. Os relatos alusivos ao passado, e em parti-
cular os relatos alusivos ao passado dos povos e dos Estados,
constituíam urna actividade já sobejamente conhecida no
mundo do conhecimento. A hagiografia, por seu lado, fora
sempre objecto de apoio por parte de quem detinha o poder.
O que distinguia a nova «disciplina» da história tal como esta
se veio a desenvolver no século xrx era a ênfase rigorosa por
ela posta na descoberta de- segundo a famosa expressão de
Leopold von Ranke - wie es eigentlich gewesen ist ( «o que
aconteceu efectivamente» ). E isso por oposição a quê? Acima
de tudo, por oposição a contar histórias imaginadas ou
exageradas, fosse por estas lisonjearem os leitores ou por
serviremos fins imediatos dos governantes ou de quaisquer
outros grupos poderosos.
Não passará certamente despercebido o facto de este lema
de Ranke reflectir em grande medida os temas utilizados
pela «ciência» na luta que travou com a «filosofia»: a ênfase
na existência de um mundo real e tido por objectivo e cognos-

JZ
f'AIU AIIRIH AS CltNCIAS SOCIAIS

cível, a ênfase na prova empírica, a ênfase na neutralidade do


estudioso. Além disso, e a exemplo do estudioso das ciências
naturais, o historiador não deve buscar a informação que
procura, nem nos escritos já existentes (ou seja, a biblioteca,
lugar da leitura), nem nos processos do seu próprio
pensamento (o estúdio ou estudo, lugar por excelência da
reflexão), mas antes num espaço onde é possível reunir, ar-
mazenar, controlar e manipular uma informação objectiva e
exterior (o laboratório ou o arquivo, que é o lugar da inves-
tigação).
Esta rejeição comum da filosofia especulativa aproximou
a história e a ciência enquanto modos de conhecimento «mo-
dernos» ( que o mesmo é dizer, não medievais). Mas dado que
----
os historiadores também rejeitavam a filosofia devido ao
facto de esta implicar a busca de esquemas gerais capazes de
explicar os dados empíricos, era sua convicção que qualquer
busca de eventuais «leis» científicas do mundo social o
reconduziria necessariamente à via do erro. É este duplo
significado que para os historiadores tem a sua rejeição da fi-
losofia que explica o porquê de terem sido capazes, no
âmbito do seu trabalho, não só de espelharem o novo pri-
mado da ciência no pensamento europeu, mas também de
surgiremcorno grandes arautos e defensores de uma posição
~gráfica e antiteórica. Por isso é que, ao longo de todo o sé-
culo xix, a maioria dos historiadores insistiu na ideia de que
pertencia às faculdades de Letras e se mostrou renitente em
identificar-se com as ciências sociais, essa nova categoria que
lentamente passava a estar na moda.
Não obstante o facto de alguns dos primeiros historiado-
res oitocentistas terem encarado a ideia de se abalançarem a

33
OMISS.~O GULBENKU,"''

uma história universal (numa espécie de derradeiro elo de


ligação à teologia), a acção conjunta dos seus vínculos idío-
gráficos e da pressão social exercida. pelos Estados e pela
opinião pública mais informada levou os historiadores a en-
veredarem primordialmente pela escrita das suas histórias
nacionais, sendo que a definição de nação era mais ou menos
circunscrita pelo recuo temporal do espaço ocupado, no
tempo presente, pelas fronteiras estatais já existentes ou em
vias de construção. Seja como for, a ênfase posta pelos histo-
riadores no uso dos arquivos, baseada num. conhecimento
contextual e aprofundado da cultura, fez com que a inves-
tigação histórica fosse vista como particularmente válida
quando o historiador a levava a cabo no seu próprio quintal.
E foi assim que os historiadores, que se haviam negado a
continuar a alinhar na justificação dos reis, se acharam na
posição de justificar as «nações» e amiúde os seus novos so-
beranos - os •<povos».
Isso seria, sem dúvida, útil aos Estados, mas apenas indi-
recta.m ente, porquanto terá contribuído para lhes reforçar a
coesão social. Não os ajudou a tomar decisões quanto às p_?-
líticas mais avisadas a empreender no presente, e por certo
que pouco lhes ensinou quanto às modalidades do refor-
mismo racional. Entre 1500 e 1800 vários foram os Estados
que se foram habituando a recorrer a especialistas, muitas ve-
zes funcionários públicos, para que os ajudassem na tarefa de
concepção de políticas, sobretudo nos momentos mais marca-
damente mercantilistas dos respectivos percursos históricos.
Estes especialistas ofereceram o seu conhecimento nos mais
diversos âmbitos, como sejam a jurisprudência.(um termo
antigo) e o direito das nações (t~~m.o novo}, a ec,onomia

34
!'AR/\ AIJRIR AS CllNCIAS SOCIAIS
I
política (um termo igualmente novo, que designava, de
forma bastante literal, a macroeconomia ao nível das socie-
dades políticamente organizadas), a estatística (outro termo
novo, que inicialmente designava os dados quantitativos re-
/
lativos aos Estados), e as Kameralwissenschaften {ciências da
administração). A jurisprudência já era ensinada nas facul-
dades de Direito das universidades, e, quanto às Karneralwís-
senschaften, é no século xv111 que passam a ser matéria de es-
tudo nas universidades alemãs. Contudo, só no século xix é
que começamos a encontrar urna disciplina chamada econo-
nuã ,umas vezes no interior da faculdade de Direito, mas
mais frequentemente na faculdade (por vezes ex-faculdade)
de Filosofia. E dadas as teorias económicas liberais preva-
lecentes no século xrx, a expressão «economia política» (uma
expressão corrente no século xvm) desaparece, na segunda
metade de oitocentos, em favor da palavra «economia». Ao
descartarem o adjectivo «política», os economistas ficavam
em condições de defender que o comportamento económico
era reflexo de uma psicologia individualista universal e não
de instituições socialmente construídas, argumento que pôde
então ser utilizado para afirmar o carácter natural dos prin-
cípios do laissez [aire.
A presunção de pressupostos universalizantes por parte
da economia fez ~n que o estudo desta se tomasse muito
voltado para o presente. Em consequência desse facto, a his-
-... -
tória económica foi sempre relegada para lugares inferiore
nos currículos da economia, e quando surge como subdisci-
plina essa evolução dá-se mais a partir da história (da qual se
irá parcialmente separar) do que da economia. A única
grande tenta tiva feita no século '<t x no sentido de desenvolver

35
CO.UISS,\O (;Ul..BE,\'KfAN

uma ciência social que não fosse nem nomotética nem idio-
grâfica, mas antes uma busca das leis subjacentes a sistemas
ociais caracterizados por uma especificidade histórica pró-
pria, fui a construção, na área alemã, de um campo do saber
chamado Str1afswissenscl111ften. Abrangendo uma mistura de
aberes que (para usar uma linguagem actual) incluía a his-
tória económica e a jurisprudência, a sociologia e a economia,
o campo em questão caracterizava-se por acentuar a especi-
ficidade histórica dos diferentes «Estados», abstendo-se de
estabelecer as distinções entre disciplinas que então começa-
vam a ser prática corrente tanto na Grã-Bretanha como na
França. A própria designação de Staa.tswissenschaften (ou
«ciências do Estado») apontava já para a circunstância de os
eus proponentes procUiarern preencher aproximadamente
o mesmo espaço intelectual antes ocupado pela «economia
política» na Grã-Bretanha e na França, desempenhando assim,
por conseguinte, a mesma função de facultar aos Estados um
conhecimento útil, pelo menos a longo prazo. Esta invenção
disciplinar conheceu um florescimento acentuado, sobre-
tudo na segunda metade do século xrx, vindo no entanto a su-
cumbir em face dos ataques dirigidos do exterior e de uma
certa tibieza interna. Na primeira década do século xx, as
ciências sociais alemãs começaram a adaptar as categorias
disciplinares em vigor na Grã-Bretanha e na França. Alguns
dos principais vultos das Staatswissenschaften, como Max
Weber, encabeçaram a fundação da Sociedade Alemã de So-
ciologia. Por altura da década de 20, a palavra Sozialswíssen·
sclrnflen (vciêncías socíais») havia substituído a designação
Staatswissenscliaften.
Ao mesmo tempo que a economia- nomotética e voltada

36
PARA AIJRIR AS CtfiNCIAS SOCIAIS

p_~ra o presente- se incrustava firmemente como disciplina


dentro das universidades, assistia-se à invenção de uma ou-
tra disciplina totalmente nova: a sociologia. Para o seu inven-
tor, Comte, a sociologia haveria de ser a rainha das ciências,
uma ciência social integrada e unificada e caracterizada pelo
«positivismo» (outro nelogismo criado por ÇoJ!Lte). Na práti-
ca, porém, a sociologia enquanto disciplina desenvolvera-se
no decurso da segunda metade do século xrx principalmente
a partir da institucionalização e da transformação, dentro das
universidades, do trabalho realizado pelas associações para
a reforma da sociedade, cujo programa de acção se tinha
ocupado primordialmente do mal-estar e dos desequilíbrios
vividos pelo número imparável da população operária ur-
bana. Ao levarem o seu trabalho para um ambiente univer-
sitário, estes defensores das reformas sociais acabaram, em
grande medida, por abdicar da sua militância activa em prol
de medidas legislativas imediatas. No entanto, a sociologia
manteve sempre a sua preocupação com a gente comum e
com as consequências sõciais damodemidade. Em parte
para consumar o corte com essas suas origens filiadas nas or-
ganizações para a reforma social, os sociólogos começaram a
cultivar_o i~pulso positivista que, juntamente com a sua dis- l(
posição para o estudo do presente, os empurrou, também a
eles, para o campo nomotético.
ciência política enquanto disciplina viria a surgir ainda
mais tarde, não porque o respectivo conteúdo - o Estado
contemporâneo e a sua componente política - se prestasse e {)~·
'"'ii

-
menos à análise nomotética, mas antes de mais devido à
-
resistência oferecida pelas faculdades de Direito quanto a
ceder o monopólio que detinham nesta área. A resistência a

37
CO.WSSÃO GUIBl-~\'l..'I:\,\'

esta matéria por parte das faculdades de Direito pode ex-


plicar a importância atribuída pelos cientistas políticos ao es-
tudo da filosofia política - por vezes sob a designação de
teoria política-, pelo menos até à revolução behaviorista do
período posterior a 1945. A filosofia política permitiu que
essa nova disciplina que era a ciência política reivindicasse
como sua uma herança que já vinha dos gregos, detendo-se
nal.eitura de autores desde há muito com lugar firmado nos
currículos universitários.
Mesmo assim, a filosofia política não chegava para justi-
ficar a criação de uma nova disciplina; em verdade, bem po-
dia continuar a ser estudada no interior dos departamentos
de Filosofia, como de resto veio a suceder. Enquanto discipli-
na à parte, a ciência política iria cumprir um outro objectivo;
o de legitimar a economia como disciplina autónoma. A
economia política fora rejeitada como matéria de estudo com
o argumento de que o Estado e o mercado funcionavam, e de-
viam funcionar, através de lógicas distintas. Tal facto exigia
logicamente, como garantia, o estabelecimento a longo prazo
I de um estudo científico autónomo da esfera política.
'(, Desde o momento em que a história, a economia, a socio-
\
logia e a ciência política se tomaram disciplinas universitá-

-
rias no século xrx (e de facto até 1945), o quarteto por elas
- não
constituído -- só-se limi tau a ser praticado nos cinco países
em que elas tiveram, colectivamente, origem, como se dedi-
cou, em grande medida, a descrever a realidade social desses
mesmos países. Não se pode dizer que as universidades dos
cinco países em causa ignorassem o resto do mundo. O que
sucedia é que nelas esse estudo era segregado para disci-
plinas diferentes.

38
PARA ABRIR AS Clf:.NCIAS SOCIAIS

A criação do moderno sistema-mundo implicou o encon-


tro-e, as mais das vezes, a conquista-e-. pelos europeus, dos
povos do resto do mundo. Em termos da experiência euro-
peia e das suas categorias, esses encontros foram o deparar
com dois tipos bastante diferentes de povos e de estruturas
sociais. Havia os povos que viviam em grupos relativamente
pequenos, sem um sistema de registos escritos, desinseridos
de qualquer sistema religioso geograficamente amplo, e mi-
litarmente débeis em relação à tecnologia europeia. Recor-
reu-se então a diversos termos genéricos para designar tais
povos: em Inglês, eram normalmente apelidados de «tribos».
Noutras línguas, receberam o nome de «raças» (muito em-
bora posteriormente esta designação caísse em desuso, por
causa da confusão com o uso da palavra «raça» com referên-
cia a agrupamentos bastante mais vastos de seres humanos
feita na base da cor da pele e de outros atributos biológicos).
O estudo destes povos passou a ser domínio de uma nova
disciplina chamada antropologia. Tal como a sociologia ti-
nha, em grande medida, começado por ser uma actividade
das organizações para a reforma da sociedade levada a cabo
fora das universidades, assim também a antropologia come-
çou sobretudo fora das paredes da instituição universitária,
e antes de mais como uma prática de exploradores, viajante
e funcionários dos serviços coloniais das 'potências euro-
peias; e ~xemplo ainda da sociologia, viria a ser mais tarde
institucionalizada como disciplina universitária, embora se-
gregada das demais ciências sociais dedicadas ao estudo do
mundo ocidental.
Não obstante alguns dos primeiros antropólogos terem
sido atraídos pela ideia de uma história natural da humani-

39
CO~IISS.~O GIJLBt::NKIA,\'

d ade de contornos uníversaís (com os seus supostos estádios


de desenvolvünento), da mesma maneira que os primeiros
historiadores tinham sido atraídos pela história universal, as
pressões sociais exercidas pelo mundo exterior acabaram por
levar os antropólogos a tornar-se etnógrafos deste ou da-
quele povo, toro ando normalmente por objecto de estudo os
povos que encontravam. nas colónias internas ou externas
dos respectivos países. Daí resultou, como consequência
guase inevitável, a adopção de uma metodologia muito espe-
ófica, construída em tomo do trabalho de campo (respon-
dendo assim à exigência do etlws científico da investigação
empírica) e da observação participante numa área deter-
minada (em resposta à exigência de se atingir um conheci-
mento aprofundado sobre a cultura em estudo, tão difícil de
conseguir nos casos em que a cultura se apresenta como
muito estranha para o cientista).
A observação participante ameaçou desde sempre violar
o ideal da neutralidade científica. Outra ameaça no mesmo
sentido era a que advinha da tentação sentida pelo antropó-
logo (à semelhança do missionário) de se transformar num
mediador entre o povo que estudava e o mundo dos conquis-
tadores europeus, principalmente devido ao facto de aquele
tender a ser um cidadão da potência colonizadora do po\'o a
estudar (como seja o caso dos antropólogos ingleses na África
Oriental e Meridional, dos antropólogos franceses na África
Ocidental, ou dos antropólogos italianos na Líbia. ou dos an-
tropólogos dos Estados Unidos que se dedicaram ao estudo

d os antropólogos
... - ----- --
da ilha de Guam e dos índios americanos). O enraizamento
- foi Q factor
nas estruturas da universidade
.,______ -~

40
PARA ABRIR AS CJf.NCJAS SOCIAIS

que mais pesou para que estes mantivessem a prática da et-


nografia dentro das premissas normativas da ciência.
Acresce que a busca pelo estado primitivo das culturas
(por um estado de «pré-contacto») empurrou os etnógrafos
para uma crença na ideia de que estariam a lidar - para usar
a penetrante expressão de Eric Wolf- com «povos sem his-
tória». Isso poderá ter feito com que assumissem uma posição
nomotética e debruçada sobre o presente, semelhante à dos
economistas, e a verdade é que a seguir a 1945 a antropologia
estrutural viria, efectivamente, a conhecer uma evolução
desse tipo. Mas de início foi dada prioridade à necessidade de
justificar o estudo da diferença, bem como de defender a legi-
timidade moral de não se ser europeu. E por isso, seguindo
a mesma lógica dos primeiros historiadores, os antropólogos
resistiram à exigência de formular leis, dedicando-se, na sua
maioria, à prática de uma ep!~eE'-olo~ia idio_g_rá~.
Mas nem todos os povos não europeus se prestavam a ser
classificados como «tribos». Desde há mui to que os europeus
mantinham contactos com outras civilizações ditas «avança-
das», como fossem o mundo islâmico-árabe e a China. Essas
regiões eram consideradas como correspondendo a «civili-
zações avançadas» precisamente porque tinham escrita,
porque dispunham de sistemas religiosos que cobriam um
vasto espaço geográfico, e porque politicamente se encon-
travam organizadas (pelo menos por períodos de tempo
alargados) sob a forma de grandes impérios burocráticos. O
estudo dessas civilizações por parte dos europeus começara
com os clérigos medievais. Entre o século x111 e o século xviu
a sua capacidade militar revelar-se-ia ainda suficientement
forte para opor resistência às tentativas de conquista por

41
C<)\IISS.~0 GUlRF..\'1".\

parte dos europeus, sendo por isso olhadas com respeito e,


por vezes, com admiração e até mesmo com uma certa estu-
pefacção e assombro.
o século ,1\, contudo, e em consequência dos novos pro-
ressos tecnológicos europeus, estas «civilizações» foram
transformadas em colónias -ou pelo menos semicolónias -
da Europa. Os estudos orientais, que tiveram as suas origens
no interior da Igreja e que inicialmente tiveram por justifica-
ção ser um auviliar da evangelização. passaram a ser uma
prática de carácter mais secular, acabando finalmente por
encontrar o seu lugar no quadro evolutivo das estruturas
disciplinares das universidades. Em verdade, a instituciona-
lização dos estudos orientais foi precedida pela do antigo
mundo mediterrânico, ou seja, pelo estudo da Antiguidade
da própria Europa, vulgarmente chamado «cultura clássi-
ca». T ratava-se também de um estudo de uma civilização di-
ferente da da Europa moderna, no entanto a abordagem era
diferente da que era utilizada nos estudos orientais. Assim,
o que esse estudo versava era a história dos po,·os que eram
definidos como sendo os antepassados da Europa moderna,
em contraste, por exemplo, com o estudo do Antigo Egipto
ou da Mesopotâmia, Explicava-se a civilização da Antigui-
dade como tendo sido a fase inicial de um desem.·oh'imento
histórico uno e contínuo, que teria culminado com a moder-
na civilização «ocidental». Ela faria, assim, parte de uma sa-
a única: primeiro a Antiguidade; depois, com as conquista
dos bárbaros, a continuidade assegurada pela Igreja;ascguir,
com o Renascimento, a reincorporação da herança greco-ro-
mana; e por fim a criação do mundo moderno. Neste sentido,
a •.\nti'
. .!'Uidade não possuiria uma história autónoma, consti-
PAH/\ Aflf{!R AS CltNCIAS SOCIAIS

tu indo antes, de facto, como que o prólogo da modernidade.


Em contraste - mas scgu indo a mesma lógica-, as demais
<<civilizações» também não possuiriam uma história autó-
noma; a história que delas se contava resumia-se a um
conjunto de histórias paradas no tempo, desprovidas de pro-
gressão e desse desembocar culminante na modernidade.
O estudo da cultura clássica revestia-se de um carácter es-
sencialmente literário, apesar de claramente coincidir com o
estudo histórico da Grécia e de Roma. Ao procurarem criar
uma disciplina distinta da filosofia (e da teologia), os classí-
cistas definiram o objecto do seu estudo como sendo uma /
mistura formada por todos os tipos de literatura (e não ape-
nas a que era reconhecida pelos filósofos), pelas artes (bem
como pela arqueologia, sua nova associada), e pela história
possível de fazer, dentro dos parâmetros da nova história (o
que não seria muito, dada a escassez de recursos primários).
Essa mistura fazia com que, na prática, a cultura clássica se
aproximasse daquelas disciplinas - então também em vias
de surgimento - que se debruçavam sobre as literatura
nacionais de cada um dos principais Estados da Europa Oci-
dental.
Marcado, assim, por este seu pendor literário, o estudo da
cultura clássica preparou o terreno para as muitas varieda-
des de estudos orientais que começaram a dar entrada no
currículos universitários. No entanto, os Orientalistas, dada
as suas premissas, adoptaram uma prática muito própria. O
interesse não estaria, como no caso da história europeia, cm
reconstruir as sequências diacrónicas, visto que se partia do
princípio de que a história em causa era desprovida de
progressão. O que interessava, isso sim, era chegar a uma

.JJ
COMISS,iO GULBENKIA

compreensão e a uma avaliação conecta do conjunto deva-


leres e de práticas que estavam na origem de civilizações que,
embora consideradas «avançadas», eram. vistas como sendo
estáticas. Tal compreensão. dizia-se, só podia ser conseguida
através de uma leitura minuciosa dos textos que eram a
incarnação da sua sabedoria; e isso exigia capacidades
linguísticas e filológicas semelhantes às que haviam tradicio-
na lm.ente sido utilizadas pelos m.onges no estudo dos textos
cristãos. Neste sentido, os estudos orientais ofereceram total
resistência à modernidade, mantendo-se, de um modo geral,
à margem do ethos científico. Os Orientalistas viram nas
ciências sociais ainda menos vantagens do que os historia-
dores. Por isso se furtaram escrupulosamente a qualquer
contacto com elas, preferindo considerar-se integrados nas
«humanidades». Mesmo assim, preencheram um importan-
te nicho nas ciências sociais, dado que durante muito tempo
os estudiosos do Oriente foram praticamente os únicos que
na universidade se dedicaram à investigação das realidades
sociais relativas à China, à Índia ou à Pérsia. É certo que, para
além deles, existiram alguns cientistas sociais interessados
em comparar as civilizações do Oriente com as do Ocidente
(como foi o caso de Weber, Toynbee e - embora de forma
menos sistemática - Marx). Mas estes comparativistas. ao
contrário dos estudiosos do Oriente, não se mostravam inte-
ressados nas civilizações orientais em si mesmas. Ao invés, a
sua principal preocupação intelectual foi sempre explicar a
razão por que foi o mundo ocidental, e não estas civilizações,
quem caminhou no sentido da modernidade (ou do capita-
lismo).
Impõe-se dizer também uma palavra com respeito a três

44
l'AHA AHRIR AS CttNCIAS SOCIAIS


campos que nunca lograram ser componentes basilares das
ciências sociais: a geografia, a psicologia e o direito.~ ~eo~ra-
fia, tal como a história, correspondia a uma prática já antiga.
Nos finais do século xrx ela procedeu à sua própria reconstru-
ção como disciplina nova, sobretudo nas universidades ale-
mãs, que assim serviram de inspiração à evolução verificada
noutras paragens. Apesar de partilhar com as ciências sociais
as suas grandes preocupações, a geografia resistiu à_categori-

--
zação. Procurou fazer a ponte com as ciências naturais pela
via da atenção à geografia física e com as humanidades pela
via da atenção à chamada geografia humana (desempe-
nhando um trabalho de algum modo semelhante ao dos an-
tropólogos, se bem que com uma ênfase nas influências exer-
cidas pelo meio). Além disso, durante o período anterior a
1945 a geografia foi a única disciplina que se esforçou de
forma consciente por ter uma prática verdadeiramente
mundial quanto ao seu objecto de estudo. Essa foi a sua vir-
tude, e porventura também a sua perdição. À medida que,
nos finais do século xix, o estudo da realidade social se foi
compartimentando em disciplinas distintas, de acordo com
uma nítida divisão do trabalho, a geografia tornou-se anacró-
nica devido ao seu pendor generalista, sintetizante, e não
analítico.
Talvez em resultado desse facto, a geografia manter-se-ia,
durante todo o período em causa, uma espécie de parente
pobre tanto em número como em prestígio, servindo fre-
quen temente como mero acólito da história. Em consequên-
cia, o tratamento do espaço e dos lugares nas ciências sociai
foi relativamente negligenciado. A tónica posta no progresso
e as políticas para a organização das transformações sociai
fizeram com que a dimensão temporal da existência social
adquirisse uma importância de primeiro plano_, mas deixa-
am a dimensão 1t-spacial no limbo da indefinição. Se os pro-
a:sMJS eram universais e subordinados a um determinismo,
o espaço era teoricamente irrelevante, Se eram praticamente
úniros e irrepetíveis, então o l"'SpclÇO não passava de um mero
aspecto (e um aspecto menor) daquilo que era específico.
Segwido a primeira perspectiva, o e-paço era encarado
simplesmentecomou.maplatafozmaemqueororriamaconte-
címentos ou se desenrolsvam p.roce.ssos - um espaço es-
senciaJmente inerte e como que voláni De acordo com a
segunda. perspectiva, o~ -paço
- pa.ssaYa a Sia""umcontextoque
exercia urna determinada influência sobre os acon~entos
(fosse na história idiog:rá.fica, nas relações íntemacíonaís de
cariz realista, nos • efeitos de vizinhança», e até mesmo nas
extemalidades e nos processos de aglomeração marshal-
líanaj. Na sua maior parte, porém, esses efeitos contextuais
eram vistos como simples influêru:ias-aspectos residuais a
ter em conta para se obter melhores resultados empíricos,
mas não essenciais para a análise ..
Apesar disso, na prática as ciências sociais baseavam-se
numa visão específica-ainda que não assumida -da espa-
cialidade. O conjunto de estruturas espaciais que, no pressu-
posto dos cientistas sociais, presidiam à organização da vida
das pessoas eram os territórios soberanos que celectíva-
menle definiam o mapa político mundial. Ka sua grande
maioria, os dentistas sociais tinham como assente a ideia de
que estas fronteiras políticas fixavam os parâmetros es-
paciais de outras interacçêes fundamentais: a sociedade do
sociólogo, a economia nacional do macroecenemista, o sis-
tema político do cientista político, a nação do historiador.
!'ANA Ali/UI< AS Cl[NC/AS SOCIAIS

Cada um deles partiu do pressuposto de que os processos


políticos, sociais e económicos estavam ligados por uma
congruência espacial fundamental. Neste sentido~ciências
sociais terão sido um produto mais ou menos directo dos Es-
tados_,_ cujas fronteiras elas encararam como sendo factores
cruciais de confinamento social.
A psicologia foi um caso diferente. Também aqui a disci-
plina cindiu da filosofia, buscando reconstituir-se de acordo
com a nova forma científica. Contudo, a sua prática passou a
ser definida como residindo, não no terreno social, mas prin-
cipalmente no terreno médico, e em resultado desse facto a
sua legitimidade passou a estar dependente do grau de pro-
ximidade da sua associação com as ciências naturais. Acresce
que os positivistas, partilhando da premissa de Comte («o
olho não se pode ver a si próprio»), empurraram a psicologia
nesta direcção. Para muitos, a única psicologia cientifica-
mente legítima teria de possuir uma natureza fisiológica e até
mesmo química. Daí que procurassem que a psicologia fosse
«para além» das ciências sociais, por forma a transformar-se
numa ciência «biológica», e daí também que, em consequên-
cia desse facto, na maior parte das universidades a psicologia
acabasse por se mudar das faculdades de ciências sociais
para as de ciências naturais.
Havia na psicologia, evidentemente, modalidades teó-
ricas que punham a tónica na análise do indivíduo visto em
sociedade. Esses estudiosos, que se dedicavam à chamada
psicologia social, tentaram de facto permanecer no campo
das ciências sociais. Mas a psicologia social, na maior parte
dos casos, não conseguiu estabelecer uma autonomia institu-
ciona 1 completa, sofrendo por parte da psicologia o mesmo

47
COMISSÃO Gl.JLBt.,\'Af,111.1

tipo de marginalização que a história económica havia so-


frido por parte da economia. Em muitos casos, ela sobreviveu
por absorção, continuando a existir mas só como subdisci-
plina da sociologia. É verdade que existiam várias espécies
de psicologia não positivista, como por exemplo a psicologia
geisteswisse11schnftlicl1e ( de Windelbrand) ou o gestaltismo. A
teoria freudiana - a mais forte e mais influente teorização da
psicologia, e por isso mesmo aquela que se apresentava mais
capaz de fazer com que esta se autodefinisse como ciência so-
cial - não o fez, e isso por duas razões. Em primeiro lugar,
porque saiu da prática da medicina; e, em segundo lugar,
porque o ambiente de escândalo que inicialmente a envolveu
tornou-a uma espécie de actividade pária, o que levou os psi-
canalistas a criar estruturas de reprodução institucional to-
talmente fora do sistema universitário. Essa circunstância
poderá ter ajudado a preservar a psicanálise enquanto prá-
tica e enquanto escola de pensamento, mas por outro lado
teve como resultado que dentro da universidade os conceitos
o freudianos encontraram abrigo em departamentos que não
os de psicologia.
Um terceiro campo que nunca chegou a atingir o estatuto
de ciência social foi o dos estudos jurídicos. Diga-se que já
existia a faculdade de Direito, cujo currículo se achava es-
treitamente ligado à sua função primeira, que era a de formar
advogados. Os cientistas sociais de vocação nornotética en-
caravam a «jurisprudência», ou a filosofia do direito, com
cepticismo. Aos seus olhos, ela parecia-lhes demasiado nor-
mativa e insuficientemente enraizada na pesquisa empírica.
As suas leis não eram leis científicas. O seu contexto afigura-
va-se demasiado idiográfico. A ciência política desistiu de

48
PARA AIJNIR AS CttNC/AS SOCIAIS

analisar essas leis e a sua história para se dedicar à análise das


regras absrractas que presidiam aos comportamentos polí-
ticos, a partir das quais se haveria de tornar possível extrair
sistemas jurídicos apropriadamente racionais.
Há um último aspecto da institucionalização das ciências
sociais que é importante referir. Todo esse processo teve
lugar ao mesmo tempo que a Europa finalmente confirmava
o seu domínio sobre o resto do mundo. E daí a pergunta ób-
via: por que razão é que esta pequena porção do mundo foi
capaz de derrotar todos os rivais e de impor a sua vontade às
Américas, à África e à Ásia? Tratava-se, de facto, de uma per-
gunta de magna importância, e a maior parte das respostas
avançadas situaram-se, não ao nível dos Estados soberanos,
mas sim ao nível da comparação de «civilizações» (facto para
que já acima chamámos a atenção). A Europa, na acepção de
civilização «ocidental» - e não apenas a Grã-Bretanha, a
França ou a Alemanha, independentemente da dimensão
dos respectivos impérios-fora quem havia patenteado um
poderio militar mais forte e mais eficaz. Esta preocupação
com o modo como a Europa se tinha expandido até dominar
o mundo coincidiu com a transição intelectual darwiniana. A
secularização do conhecimento promovida pelo Iluminismo
foi confirmada pela teoria evolucionista, e as teses de Darwin
alastraram muito para além das suas origens biológicas.
Ernbora a metodologia das ciências sociais fosse dominada
pelo paradigma da física newtoniana, a biologia darwiniana
teve uma influência bastante grande nas teorias do social
graças a essa metacoustrução irresistivelmente apelativa que
dava pelo nome de evolução, com a sua enorme ênfase no
conceito de sobrevivência do mais apto.

Dl'i'tnms-.J 49
·ito de sobrevivência do mais apto foi sujeito a
muitos usos e abusos ~ frequentemente confundido com o
Je éxito po.r via da competição- .Assi ... -

regresso culminava nessa auto-evi-


·rioridade da sociedade europeia
or exemplo, as teorias

da
PARA ABRIR AS C!Í:NCIAS SOC/,HS

de graus nessa disciplina. A institucionalização da formação


foi acompanhada pela institucionalização da investígação:
veja-se a criação de revistas especializadas em cada uma das
disciplinas; a constituição de associações de investigadores
por disciplinas (primeiro, de âmbito nacional, depois, de
âmbito internacional); ou a catalogação das colecções das
bibliotecas também de acordo com as diferentes áreas disci-
plinares.
Elemento essencial neste processo de institucionalização
das disciplinas foi o esforço feito por cada uma delas no
sentido de definir aquilo que a distinguia das demais, e em
particular o que a diferenciava das que lhe pareciam estar,
quanto ao conteúdo, mais próximas no estudo das realidades
sociais. Os historiadores, a começar por Ranke, Niebuhr e
-
Droysen, afirmaram ter uma relação privilegiada com um
tipo especial de materiais, com destaque para as fontes con-
tidas em arquivos e textos afins. Esses mesmos historiadores
sublinharam estar interessados na reconstrução da realidade
do passado, para o que se propuseram relacioná-la com as
necessidades culturais do presente. E fizeram-no seguindo a
via interpretativa e hermenêutica e insistindo em estudar os
fenómenos - mesmo os mais complexos, como as culturas e
as nações na sua globalidade - enquanto entidades indivi-
dualizadas e enquanto momentos (ou partes) de contexto
diacrónicos e sincrónicos.
Os antropólogos procederam à reconstrução de modos de
organização social muito diversos das formas que caracte-
rizavam os povos do Ocidente. Com o seu trabalho, demons-
traram que certos costumes que se afiguravam estranhos ao
olhos dos ocidentais não eram, de facto, irracionais, funcio-

5/
egiaraman-
história:
te regem
mportamentn humano; a prennczo
enómenos a estudar como
idualizadas); a necessidade de segmentar a realidade hu-
mana para poder analisá-la; a possibilidade e a vantagem de
recorrer a métodos estritamente científicos rcomo seja a for-
mulação de hipóteses teóricas, a testar posteriormente em
confronto com as provas disponíveis e através de procedi-
mentos rigorosos e, se possível, quantitativos): a opção por
provas produzidas de forma sistemática (como por exemplo
ados obtidos através de inquéritos por questionário) e pela
observação controlada, de preferência a textos preexistentes
e a outros elementos residuais.
ma vez estabelecida, assim, a separação entre as ciência
sociais e a história idiográfica, os cientistas sociais de orien-
tação nomotétíca - economistas, cientistas políticos e soció-
logos - mostraram-se, eles também, ansiosos
... - __ ~.
por demarcar
,._.-.,....,..

os respectivos territórios relativamente aos restantes, vin-


cando diferenças que se lhes afigura\'am essen<?,ais (tanto
nos conteúdos como nas metodologias). Os economistas (íze-
rarn-no através da insistência na validade do pressuposto de
/'ARA ABRIR AS Clf.NCIAS SOCIAIS

que, ceieris paribue, se impunha estudar as operações do mer-


cado. Quanto aos cientistas políticos, fizeram-no limitando a
sua investigação às estruturas governamentais formais. E os
sociólogos fizeram-no por via da insistência numa proble-
mática social emergente, descurada tanto pelos economistas
como pelos cientistas políticos.
Pode afirmar-se que tudo isto se traduziu, em ampla
medida, numa história de sucesso. O estabelecimento dases-
truturas disciplinares gerou estruturas de investigação, de
análise e de formação que não apenas se revelaram produ-
tivas e viáveis, como também deram origem à considerável
bibliografia que hoje consideramos ser legado das ciências
sociais contemporâneas. Por volta de 1945, a panóplia de dis-
ciplinas compreendidas pelas ciências sociais encontrava-se
praticamente institucionalizada na maioria das universida-
des de todo o mundo. Nos países fascistas e comunistas
verificara-se uma resistência a estas classificações (e até
mesmo a sua recusa). Com o fim da II Guerra Mundial, as ins-
tituições alemãs e italianas passaram a alinhar inteiramente
pot· aquilo que já era o padrão geralmente aceite, o que no
caso dos países do bloco soviético viria a suceder nos finais 1
da década de 50. Além disso, ainda por volta de 1945, as ciên-
cias sociais distinguiam-se claramente, por um lado,
das ciências naturais - que estudavam os sistemas não hu-
manos-, e, por outro lado, das humanidades - que toma-,
varn para seu objecto de estudo a produção cultural, mental
e espiritual das sociedades humanas «civilizadas».
Todavia, no preciso momento em que, pela primeira vez,
as estruturas institucionais das ciências sociais pareciam

53
CO,lfl.'iS·iO GVUIF.VKIA

finalmente montadas e claramente definidas, as práticas dos


cientistas sociais iriam começar J mudar após a II Guerra
Mundial. Tal circunstância iria criar um fosso cada vez mais
fundo entre, de um lado, as práticas e as posições intelectuais
dos cientistas sociais, e, de outro lado, a organização formal
das ciências sociais.

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