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Teoria decolonial ou


propostas para
deslocar o centro

Ana Lúcia Nunes de Sousa


Laboratório de Vídeo Educativo/NUTES/UFRJ
analucia@nutes.ufrj.br
FÓRUM MUNDIAL DO PENSAMENTO CRÍTICO,
BUENOS AIRES, 2018.

50 mil inscritos

50 pessoas negr@s

Somente 1 mesa com uma mulher


negra no centro
Autor@s movendo as estruturas do eurocentrorismo

para além do mainstream....

Deslocar o centro do pensamento hegemônico

Deslocar os espaços

Deslocar as cores

Deslocar as origens

Deslocar os gêneros
Clássicos do pós-colonialismo: Aimé Césaire
• "A consciência de ser negro, um simples
reconhecimento de um fato que implica
aceitação, assumir o destino de alguém como
negro, a história de alguém, a cultura de alguém;
é uma afirmação de uma identidade, uma
solidariedade, uma fidelidade a um conjunto de
valores negros”. (O Estudante Negro, 3, 1935)

• "Ninguém coloniza inocentemente (....). Uma


nação que coloniza é uma nação enferma” (1955,
p.17).
Albert Memmi

• O racismo é mais alta expressão


do colonialismo e uma das
características mais significantes
do colonizador”. IN: O
colonizador e o Colonizado,
1957.
Frantz Fanon


• "O branco está convencido de


que o negro é um animal; se não
for o comprimento do pênis, é a
potência sexual que o
impressiona. Ele tem necessidade
de se defender deste “diferente”,
isto é, de caracterizar o Outro. O
Outro será o suporte de suas
preocupações e de seus desejos”.
(p.147)
Subaltern Studies Group
Partha Chatterjee

Dipesh Chakrabarty

Ranajit Guha
Gayatri Spivak

• Pode o subalterno falar?

• Quem fala pelo subalterno?

• Quem o escuta, escuta o


subalterno ou escuta quem
fala por ele?
O Grupo Colonialidade Modernidade

Enrique Dussel

Aníbal Quijano

Walter Mignolo
Ramón Grosfoguel

Santiago Castro-Gómez

Boaventura de Sousa Santos


My darlings
José Carlos Mariatégui

• “La solución del problema del indio tiene que


ser una solución social. Sus realizadores deben
ser los propios indios. Este concepto conduce
a ver en la reunión de los congresos indígenas
un hecho histórico”. (7 ensaios de
interpretação da realidade peruana)
Steve Biko
• A partir dessas observações, portanto,
vemos que a expressão negro não
é  necessariamente abrangente, ou
seja, o fato de sermos todos não
brancos não significa necessariamente
que todos somos negros. Existem
pessoas não brancas e continuarão
a  existir ainda por muito tempo. Se
alguém aspira ser branco, mas sua
pigmentação o  impede, então esse
alguém é um não
branco. (“Consciencia Negra”, 1971).
Chinua Achebe
• “O homem branco é muito
inteligente. Ele veio em silêncio e
pacificamente com sua religião. Nós
nos divertimos com a sua tolice e
permitimos que ele ficasse. Agora
ele ganhou nossos irmãos e nosso
clã não pode mais agir como um. Ele
colocou uma faca nas coisas que
nos mantinham juntos e nos
desmoronamos”

• (Things fall apart, 1958)



• “o mundo inteiro, incluindo o
Ngugi Wa Thiong'o Ocidente, está submetido a uma
minoria burguesa, eurocêntrica,
branca e masculina. É necessário
deslocar o centro (...)” (p.26).

• Não se trata de substituir um centro


por outro. O problema se manifesta
quando alguém pretende usar a
perspectiva de um centro (o seu) e,
a partir dele, estabelecer a
realidade universal ” (p.32).

• In: Deslocar o centro (2017).


Barcelona: Rayo Verde.
Amílcar Cabral

• "(...) a luta de libertação


nacional não é apenas um fato
cultural, mas também um fator
de cultura”(1974, p.136-137)
Achille Mbembe
 • " P o d e r p r e d a d o r, p o d e r
autoritário e poder
polarizador, o capitalismo
precisou sempre de  subsídios
raciais  para explorar os
recursos do planeta. Assim o
foi e assim o é, ontem e hoje,
ainda que atualmente ele
esteja colonizando o seu
próprio centro e que as
perspectivas de um  devir-
n e g r o  d o m u n d o n u n c a
tenham sido tão
evidentes” (In: Crítica da razão
negra, 2013).
Mogobe B. Ramose
• “ser uma pessoa humana é
afirmar a própria humanidade
p e l o re c o n h e c i m e n t o d a
humanidade do outro, e
partindo desta base,
estabelecer relações humanas
entre si” (Ramose, 2003, p.
272).
• “Quando dizemos que os ancestrais dos negros,
que hoje vivem principalmente na África negra,
Cheikh Anta Diop  foram os primeiros a inventar matemática,
astronomia, calendário, ciências em geral, artes,
religião, agricultura, organização social, medicina,
escrita, técnica, arquitetura; que eles foram os
primeiros a erguer edifícios de 6 milhões de
toneladas de pedra (a Grande Pirâmide) como
arquitetos e engenheiros - não simplesmente
como trabalhadores não qualificados; que eles
construíram o imenso templo de Karnak, aquela
floresta de colunas com seu famoso salão
hypostyle grande o suficiente para conter Notre-
Dame e suas torres; que eles esculpiram as
primeiras estátuas colossais (Colossi de Memnon,
etc) - quando dizemos tudo o que estamos
apenas expressando a verdade simples e nua e
crua que ninguém hoje pode refutar por
argumentos dignos do nome. (The african origin
of the civilization, 1974p.234-235)
Trinh T. Minh-ha
Uma Narayan

• A posição da mulher indiana
como alguém a ser ’falada
por’, tanto pelas feministas
britanicas como pelo discurso
nacionalista indiano, nos dá
um exemplo caro de como os
desafios do status quo
político sempre repetem e
replicam aspectos da ”lógica
política” (1997, Dislocating
cultures....p.19)
• Qualquer discussão sobre a
Chandra Mohanti construção intelectual e política
dos ”feminismos do terceiro
mundo” deve tratar dois projetos
simultâneos: a crítica interna dos
feminismos hegemônicos do
Ocidente, e a formulação de
interesses e estratégias baseados
na autonomia, geografia, história
e cultura” (Feminism without
bordes, p.17, 2003)
Angela Davis
• O feminismo negro surgiu
como uma iniciativa teórica e
prática que demonstrava que
a raça, a classe e o gênero
eram inseparáveis no mundo
que habitamos (Em: A
liberdade é uma batalha
constante, 2018, p.19)
Oyèrónké Oyĕwùmí

• Na situação colonial, havia uma


hierarquia de quatro, não duas
categorias. Começando no
topo, estes eram: homens
(europeus), mulheres
(europeus), nativos (homens
africanos) e outros (mulheres
africanas). As mulheres nativas
ocuparam a categoria residual
e não especificada de Outro
(2003, pp. 122).
Amina Mama

• O que nossa pesquisa e


conhecimento contribuem para os
vários contextos e povos que
estudamos? (p.7)

• IN: 2007. Is it ethical to study


Africa?
Silvia Rivera Cusicanqui

• “No colonialismo as palavras


tem uma função muito
peculiar: as palavras não
designam, mas encobrem...”

• (P.175, Sociologia de la
Imagen, 2015)
Gloria Anzaldúa
• Fronteiras são criadas para
definir os lugares seguros e os
inseguros; para distingui-los de
nós. (...) Os únicos habitantes
legítimos são os que detém o
poder, os brancos e aqueles que
se alinham a eles ”(p.3-4)

• In ”Borderland, 1987.
• El feminismo descolonial, al tiempo
Yuderkis Espinosa que recupera corrientes críticas
anteriores, como el black feminism,
el feminismo de color, el feminismo
poscolonial pero también el
feminismo materialista francés y el
feminismo posestructuralista,
avanza poniendo en duda la unidad
de “las mujeres” pero, como
intentaré demostrar, de una manera
radicalmente inédita, de forma que
ya es imposible reconstituirla
nuevamente. (p.144, 2016)
Bell Hooks

O primeiro paradigma no qual


moldei minha pedagogia foi
com a ideia de que a sala de
aula deveria ser um local de
excitação, nunca um local
chato. (1994, p.7)
• …as mujeres racializadas y sin
Ochy Curiel privilegios de clase, como las
indígenas y afrodescendientes,
se constituían en “las otras” del
feminismo de la región,
asumidas como víctimas, como
testimonios, irreconocidas en
sus teorizaciones y epistemes,
pero sí utilizadas como materia
prima para la búsqueda de
financiamientos y créditos
académicos.» (p.15, 2015)
María Lugones

• La raza no es ni más mítica ni


más ficticia que el género –
ambos son ficciones
poderosas (2008, p.94)
Kimberlé Williams
Crenshaw
•Sugiro que a
interseccionalidade ofereça
uma forma de mediar entre a
tensão que se dá entre
reafirmar uma identidade
múltipla e a necessidade de
desenvolver políticas
identitárias (1995, p.115)
Audre Lorde/  Gambda
Adisa
• Sobrevivência é aprender a assumir
nossas diferenças e a torná-las forças.
Pois as ferramentas do senhor nunca
desmantelarão a casa grande. Elas
podem nos permitir temporariamente
vencê-lo em seu próprio jogo, mas
elas nunca nos permitirão fazer uma
mudança genuína. E este fato é
somente ameaçador para aquelas
mulheres que ainda se utilizam da
casa grande como sua única fonte de
apoio (1988).
• … aquilo que chamo de ‘pretuguês’ e que
Lélia González nada mais é do que marca de africanização
no português falado no Brasil (…). O caráter
tonal e rítmico das línguas africanas trazidas
para o Novo Mundo, além da ausência
de  certas consoantes, como o l ou o r, por
exemplo), apontam para um aspecto pouco
explorado da influência negra na formação
históricocultural  do continente como um
todo” (GONZALEZ, Lélia, 1988, p.70)
• “A categoria político-cultural de
amefricanidade.” Tempo Brasileiro, Rio de
Janeiro (92/93): 69-82, jan./jun. 1988.
Beatriz Nascimento

• A democracia racial brasileira


talvez exista, mas em relação
ao negro inexiste. (Por uma
história do homem negro,
1974, p.94)
• Nós não podemos ficar olhando essa
Ailton Krenak história do contato como se fosse um
evento português. O encontro com as
nossas culturas, ele transcende a essa
cronologia do descobrimento da
América, ou das circunavegações, é
muito mais antigo. Reconhecer isso nos
enriquece muito mais e nos dá a
oportunidade de ir afinando, apurando o
reconhecimento entre essas diferentes
culturas e “formas de ver e estar no
mundo” que deram fundação a esta
nação brasileira, que não pode ser um
acampamento, deve ser uma nação que
reconhece a diversidade cultural, que
reconhece 206 línguas que ainda são
faladas aqui, além do português. (1999)
Daniel Munduruku
• Talvez a maior contribuição que
o Movimento Indígena ofereceu
à sociedade brasileira foi o de
revelar – e, portanto, denunciar
– a existência da diversidade
cultural e linguística.

• (In: O caráter educativo do


movimento indígena brasileiro.
p.222, 2012.)
Griots, pajés, yalorixás, machis: os guardiões do
conhecimento oral
Recursos
• https://globalsocialtheory.org
Carlos Moore
Renato Noguera
Clélia Rodriguez
Assata Shakur
Epsy Campbell
Sueli Carneiro
Jurema Weneck
Houria Boutledja
Vandana Shiva
Nilma Lino
Aurora Vergara Figueroa
Patricia Hill Collins
Luiza Barrios
Lúcia Xavier
Linda Tuhiwai Smith
Avtar Brah