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A frase de Eco é parte de uma correspondência sua com o Cardeal Carlo Maria Martini

(disponível em <http://www.crosscurrents.org/ecofall02.htm>, acessado em 26/10/2015). Segundo


Eco, a ética é uma questão que se torna necessária na medida em que é preciso decidir o que é
certo ou errado, aceitável ou não, desejado ou indesejado, no comportamento do ser humano.
Seja o respeito às mais básicas ações humanas, como falar, caminhar ou permanecer, ou às
suas variações sociais mais complexas, como dialogar, migrar ou fixar-se.

Entretanto, para Eco – como para Martin Buber (cf. ROHR, Ferdinand. "Ética e educação:
caminhos buberianos". “Educação em Revista”, Belo Horizonte, v. 29, n. 2, pp. 115-142, Junho
2013. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
46982013000200006&lng=en&nrm=iso>, acessado em 28/09/1025) – a relação “eu e o outro” não
é necessariamente definida pela presença do outro, mas por sua existência ou possibilidade. Na
verdade o outro é uma realidade intrínseca e essencial da própria existência do eu. Sem o
primeiro o segundo não se concretiza. Assim a dimensão do outro pode se manifestar em sua
presença de fato, em sua possibilidade ou também em uma transcendência que o imponha.

Segundo Eco, antes do Estado secular, o outro era a própria manifestação de um sentido de
equivalência entre o ser humano e seu criador, a quem lhe devia semelhança e dever. Torna-se,
então, fácil entender como a questão ético-moral era respondida de forma clara e assertiva
enquanto a sociedade manteve-se sob o manto homogêneo da Igreja. Porém, com a perda desse
sentido transcendental, o outro se torna dependente de acepções culturais. O outro pode ficar
limitado aos membros de uma tribo ou de uma etnia.

Certamente Eco não preconiza uma total relatividade do outro, somente reconhece um possível
modus operandus em situações reais e tristes, como na construção e manutenção de campos de
extermínio ou no estupro criminoso de mulheres na guerra da Bósnia. É certo que o outro existe e
tem de ser reconhecido em nossa natureza comum humana e por meio de uma razão que está
acima de informações contextuais.

Seja tal fundamentação, da universalidade da existência do outro, dada por um sentimento


humanista (como defende Buber) ou pela razão (como se pode observar nos fundamentos das
três fórmulas do imperativo categórico kantiano), a verdade é que em um mundo secular, resta à
escola um papel ainda maior na formação de uma capacidade reflexiva – ou ética – e na
construção de um conjunto de valores morais realmente sólidos e compartilhados. Esse processo
não se restringe à socialização dos alunos ou à percepção do outro, ou à proposição de valores
externos à realidade imediata dos alunos e alunas, mas implica a reflexão sobre tudo que possa
ser apresentado como norma e sua efetiva internalização, mediante uma metodologia que
favoreça a argumentação, a escolha, o reconhecimento e o compromisso com valores e normas
necessárias à coesão da sociedade e, ao mesmo tempo, com o devido respeito àquilo que
individualmente ou particularmente seja legítimo.