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Elites regionais e a formação do estado imperial brasileiro

Minas Gerais − Campanha da Princesa (1799-1850)

Marcos Ferreira de Andrade


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© Marcos Ferreira de Andrade
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A565e
2. ed.
Andrade, Marcos Ferreira de
Elites regionais e a formação do estado imperial brasileiro : Minas Gerais - Campanha
da Princesa (1799-1850) / Marcos Ferreira de Andrade . - 2. ed. - Belo Horizonte, MG :
Fino Traço, 2014.
412 p. : il. ; 23 cm. (História ; 49)
Inclui bibliografia
Anexo
ISBN 978-85-8054-222-6
1. Minas Gerais - História. 2. Brasil - História - Império, 1822-1889 . 3. Brasil - História
- Século XIX. I. Título. II. Série.
14-15542 CDD: 981.51
CDU: 94(815.1)

1ª edição: Arquivo Nacional, 2008.


2ª edição: Fino Traço.

Conselho Editorial Coleção História


Alexandre Mansur Barata | UFJF
Andréa Lisly Gonçalves | UFOP
Betânia Gonçalves Figueiredo | UFMG
Gabriela Pellegrino | USP
Iris Kantor | USP
Marcelo Badaró Mattos | UFF
Paulo Miceli | UniCamp
Rosângela Patriota Ramos | UFU

Fino Traço Editora ltda.


Av. do Contorno, 9317 A | 2o andar | Barro Preto | CEP 30110-063
Belo Horizonte. MG. Brasil | Telefone: (31) 3212 9444
finotracoeditora.com.br
Agradecimentos  9

Apresentação  13

Prefácio  21

Introdução  23

1. Campanha da Princesa: formação e expansão de uma vila no império  33


1.1 Da ocupação das “Minas do Rio Verde” à emancipação da vila
1.2  A vila da Campanha da Princesa: aspectos demográficos e econômicos

2. Elite escravista em Minas Gerais: a fortuna dos sul-mineiros  77

2.1 Elite escravista no Sul de Minas: opções de investimento


e composição da riqueza
2.2  Produção fabril e “casas de negócio”
2.3  Fazendeiro/negociante
2.4  Criação e comércio de gado

3. Cultura material e modos de vida da elite sul-mineira  133

3.1 Produção agrícola e hábitos alimentares


3.2  Criação de animais
3.3  Casas de vivenda e de morada
3.4  Senhores e caçadores na região dos Campos
3.5  Caminhos, tropas e tropeiros

4. Fortuna, família e poder na região dos Campos: o caso Junqueira  229

4.1 Campo Alegre e Favacho: berço da família Junqueira


4.2  Caminhos da fortuna: família, negócios e política
4.3  Alianças matrimoniais e endogamia: estratégias de manutenção
e ampliação das fortunas e fixação da identidade da parentela
4.4  Patriarcalismo em Minas Gerais: o caso Junqueira
5. Senhores e escravos na região dos Campos  299

5.1 População livre e escrava


5.2  População escrava: africanos e crioulos
5.3  Procedência dos cativos africanos
5.4  Estratégias senhoriais na composição das escravarias
5.5  Representações do escravo na visão senhorial
5.6  Senhores e escravos em confronto: a Revolta de Carrancas

Conclusão  359

Anexo I  363

Anexo II  385

Fontes  387

Bibliografia  393

Abreviaturas

AN – Arquivo Nacional
BN – Biblioteca Nacional
AHU – Arquivo Histórico Ultramarino
AHMOPP - Arquivo Histórico do Ministério de Obras Públicas de Portugal
APM – Arquivo Público Mineiro
AESP – Arquivo do Estado de São Paulo
IPHAN - SJDR – Escritório Técnico do IPHAN – São João Del-Rei
CEMEC-SM – Centro de Memória Cultural do Sul de Minas
CECML – Centro de Estudos Campanhense Monsenhor Lefort
ACDC – Arquivo da Cúria Diocesana de Campanha
À minha avó materna, Maria Ferreira de Jesus, in memoriam,
pela garra e alegria que tinha pela vida. Apesar das dificuldades
materiais e dos infortúnios que a vida lhe reservou, teve a força
necessária para criar e educar seus seis filhos e sete netos.
A meus pais, Pedro e Cecília, e a meus irmãos,
por tudo que significam na minha existência.
Agradecimentos

A primeira edição do presente texto foi resultado do Prêmio Arquivo


Nacional de Pesquisa 2005, cujo trabalho ficou em terceiro lugar, sendo
publicado em 2008. Agradeço ao conselho editorial da editora Fino Traço
pelo interesse na reedição do texto, contribuindo assim para que o estudo
atinja a um público mais amplo. Este trabalho, com algumas modificações,
corresponde à minha tese de doutoramento, apresentada sob o título Família,
fortuna e poder no Império do Brasil: Minas Gerais – Campanha da Princesa
(1799-1850), no Programa de Pós-graduação em História da Universidade
Federal Fluminense, em 29 de abril de 2005.
Muitas pessoas contribuíram para que este trabalho tivesse um ponto
final e a minha dívida para com elas não é pequena. Embora esteja correndo
o risco de alguma omissão ou esquecimento, gostaria de registrar alguns
agradecimentos especiais.
Primeiramente, a Prof.a Sheila de Castro de Faria. Falar de sua com-
petência e seriedade na orientação deste trabalho seria dizer muito pouco.
Além de tudo isto, tenho a registrar a generosidade, a atenção de sempre e
a amizade que pudemos construir ao longo dos anos, o que me forneceu as
condições necessárias para a conclusão do trabalho.
Aos membros da banca examinadora, formada pelos professores João
Luis Ribeiro Fragoso, Silvia Maria Jardim Brügger, Hebe Maria Mattos e
Carlos Gabriel Guimarães pelas diversas sugestões que, na medida do pos-
sível, foram incorporadas a esta versão.
A minha experiência como aluno da UFF foi gratificante não só pelo
que pude aprender com os professores, mas também com os colegas, em
relação aos quais fica consignada a agradável convivência que tive com
Alexandre, Luiz Antônio e Eduardo. Silvana também fazia parte deste grupo

9
e quero deixar assinalada a amizade que pudemos construir e a generosidade
demonstrada desde o primeiro momento em que nos conhecemos.
Lili e Joyce, duas colegas de ofício, que também eram “estrangeiras” na
“cidade maravilhosa”, mas que me acolheram de braços abertos e se tornaram
amizades preciosas.
Aos funcionários do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional, que
me franquearam o acesso a alguns documentos para reprodução digital,
uma vez que meu tempo disponível para pesquisa no Rio de Janeiro era
bastante escasso à época.
Aos funcionários do Arquivo Público Mineiro, especialmente à Edilane
Carneiro, pela atenção, generosidade, franquia e acesso a vários documentos
essenciais para a realização do trabalho.
Aos representantes e funcionários do Instituto Amilcar Martins, pela
cessão e consulta ao acervo de obras raras sobre Minas Gerais que faz da
parte da biblioteca da instituição.
Aos funcionários do Arquivo do Museu Regional de São João del Rei,
especialmente à Fátima, Diretora da instituição, que me possibilitou fotografar
vários documentos essenciais para a pesquisa; a Rafael, que esteve sempre
atento às minhas solicitações, especialmente em relação à documentação
que ainda estava sendo catalogada e nem disponível para consulta e estava
sob a guarda da instituição.
Ao professor Ivan Vellasco, Diretor do Laboratório de Restauração e
Conservação de Documentos e Obras Raras da Universidade Federal de
São João del Rei, que me franqueou o acesso à documentação cartorial de
Baependi, ainda em processo de higienização e restauração.
A Angélica Andrès, coordenadora do Centro de Estudos Campanhense
Mons. Lefort, pelo acesso irrestrito a todo o conteúdo do acervo.
Aos representantes e funcionários da Cúria Diocesana de Campanha,
não só pelo acesso e pela viabilização da pesquisa, mas também por per-
mitirem o trabalho de indexação e divulgação do conteúdo do acervo, que
resultou em um primeiro guia de fontes para a história do sul de Minas.
Em Campanha, além das instituições que me franquearam a consulta
aos acervos, tenho algumas referências especiais a registrar. Foi ali que pude
amadurecer profissionalmente e implementar o Centro de Memória Cultural

10
do Sul de Minas. Evidentemente, trata-se de um trabalho coletivo e que
contou com o apoio da comunidade e o empenho de algumas pessoas que
gostaria de destacar: Rachel de Souza Rocha, Agnamari Marçano da Cunha
e Maria Antônia Valladão, in memoriam, três colaboradoras que acredita-
ram na importância deste trabalho e nele apostaram, não só em relação à
instituição, mas também à comunidade sul-mineira. Rachel e Agnamari
foram e são parceiras na realização deste trabalho. A minha dívida para com
as duas é imensa. Se não fosse a acolhida e o envolvimento com afinco nas
atividades que resultaram na constituição do Centro, jamais o trabalho se
teria materializado. Maria Antônia foi essencial na defesa do Centro junto
à entidade mantenedora, na época em que fazia parte do Conselho Curador
da instituição. No caso da Agnamari, tenho que registrar um fato especial.
Além de parceira na realização dos projetos, foi responsável por digitar o
banco de dados de assentos de batismos e de supervisionar os bolsistas em
minha ausência.
Aos colegas de departamento, os Professores Almir, Ana e Patrícia, pela
compreensão e pela liberação de algumas atividades nos momentos finais
de elaboração da tese.
Aos bolsistas Raphael, Renata, Ana Cláudia, Luziara, Ana Lúcia, Vanila,
Selma, Reinaldo, Andréa, Marília, Ivanilda, que, em momentos distintos,
trabalharam na coleta dos dados e que foram utilizados neste trabalho. Em
São João del Rei, não poderia deixar de mencionar a coleta de parte dos
inventários do Arquivo do Museu Regional de São João del Rei, realizado
por Fernando da Conceição.
Ao Dr. José Américo Junqueira, com quem pude, novamente, trocar
informações e documentos acerca da história de sua família.
A Lilo, pela convivência agradável, quando realizamos o levantamento
fotográfico das fazendas e de alguns documentos particulares da família
Junqueira, no município de Cruzília.
A Lucila Reis Brioschi, pelo repasse de cópias de seus trabalhos e de
publicações que foram muito úteis para a realização deste.
Alguns amigos especiais e colegas de ofício também não poderiam dei-
xar de ser lembrados. Primeiramente, gostaria de mencionar Maria Tereza
Pereira Cardoso, com quem tive a sorte de me iniciar no ofício de historiador,

11
que se tornou uma amiga especial e parceira de vários projetos, especial-
mente o Memória Cultural do Sul de Minas. Não posso deixar de registrar a
convivência generosa e fraterna de tantos anos. Sílvia e Josemir também se
tornaram grandes amigos no decorrer desta tese. Com eles pude aprender
um pouco mais sobre a cultura popular carioca, especialmente as rodas
de samba da Lapa, tornando minhas idas ao Rio sempre mais agradáveis.
A Roberto Guedes, colega de ofício e grande amigo, que muito me
auxiliou no percurso deste trabalho, seja na confecção dos diagramas, orien-
tações no uso do programa Excel ou empréstimo da câmera digital para
fotografar os documentos.
A Francisca Dutra, que, nos momentos finais da tese, me auxiliou
na confecção de algumas tabelas, suprindo as minhas limitações no uso
do programa Excel. Não esqueço também da sua amizade de tantos anos.
Outros amigos que sempre estiveram presentes e que, de algum modo, de-
ram sua contribuição para que eu tivesse condições de finalizar o trabalho:
Ana Simões, Mariana, Cláudio, William, Suzana, Adriana, Chiquinho, Sara,
Andréa, Sérgio e Geraldo.
Minha família – um capítulo em separado: meus pais, Pedro e Cecília,
e meus irmãos e irmãs, a quem também dedico este trabalho. Venho de uma
grande família no sentido lato do termo, mas não de uma grande família
com um sobrenome de importância. A dignidade e a coragem com que
meus pais enfrentaram os desafios na educação e criação dos seus filhos é,
com certeza, o maior patrimônio que nos deixam.
A Nancy Faria, in memoriam, pelo zelo e competência na revisão do
meu texto, contribuindo substancialmente para a clareza e fluidez da escrita
e dos argumentos apresentados.
Por fim, agradeço a FAPEMIG, por me conceder uma bolsa de inicia-
ção científica para que um auxiliar coletasse parte dos dados da pesquisa.
Igualmente, a CAPES, que me concedeu a bolsa de doutorado.

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Apresentação

Este livro, com algumas modificações, corresponde à minha tese de


doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade
Federal Fluminense – UFF, em 2005, sob o título Família, fortuna e poder
no Império do Brasil: Minas Gerais – Campanha da Princesa (1799-1850). No
mesmo ano, o estudo obteve o terceiro lugar no Prêmio Arquivo Nacional
de Pesquisa, sendo publicado em 2008. A presente edição trata-se de uma
versão revista e atualizada.
Nos últimos anos é notável o avanço da historiografia no que tange
aos estudos sobre a política no século XIX e a formação do estado e da
nação brasileira1. Mas como destacou Maria de Fátima Silva Gouvêa, ainda

1. Cabe aqui mencionar somente alguns trabalhos já considerados clássicos sobre o tema
e alguns mais recentes, sem a pretensão de fazer um levantamento exaustivo da historio-
grafia. Ver: CARVALHO, José Murilo de. A construção da Ordem: a elite política imperial;
Teatro de Sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Relume-Dumará,
1996; MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. 3.
Ed. Rio de Janeiro: Access, 1994. Da produção mais recente é importante destacar o estudo
de Jeffrey Needell, a coletânea organizada por István Jancsó e as publicações do grupo de
pesquisadores do Centro de Estudos do Oitocentos - CEO-PRONEX- Universidade Federal
Fluminense - UFF. Ainda merece destaque o fórum de debates realizado a partir do texto
de Ricardo Salles, com os comentários de Carlos Gabriel Guimarães e de Maria Fernanda
Martins acerca do instrumental teórico proposto pelo autor para se pensar a ordem escra-
vista e o processo de formação do Estado Imperial brasileiro, publicado no número 4 da
revista eletrônica Almanack – UNIFESP – Guarulhos. Ver: NEEDELL, Jeffrey D. The Party
of Order: The Conservatives, the State, and Slavery in the Brazilian Monarchy, 1831-1871.
Stanford: Stanford Univ. Press, 2006; JANCSÓ, István. Brasil: formação do Estado e da
Nação. São Paulo: Hucitec; Ed. Unijuí; Fapesp, 2003; CARVALHO, José Murilo de (Org.).
Nação e cidadania no Império: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2007. RIBEIRO, Gladys S. (Org.). Brasileiros e cidadãos: modernidade política, 1822-1930.
São Paulo: Alameda, 2008; RIBEIRO, Gladys S.; BESSONE, Tania. (Orgs.). Linguagens e
práticas da cidadania no século XIX. São Paulo: Editora Alameda, 2010; CARVALHO, José
Murilo de; RIBEIRO, Gladys. S.; PEREIRA, Miriam Halpern ; VAZ, Maria João (Orgs.).
Linguagens e fronteiras do poder. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011; SALLES, Ricardo. O
Império do Brasil no contexto do século XIX. Escravidão nacional, classe senhorial e inte-

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são poucos os estudos publicados que tentam aprofundar o papel político
desempenhado pelas províncias na consolidação do Império do Brasil2. Este
estudo, de certo modo, procura trazer uma contribuição nessa perspectiva,
na medida em que analisa a trajetória das famílias da elite e a sua inserção
na política Imperial, a partir do estudo de caso da família Junqueira e uma
breve incursão sobre a trajetória política da família Veiga no Sul de Minas,
embora o estudo transcenda a esses aspectos. Procurou-se mapear o grupo
social que constituía a elite proprietária e escravista do Sul de Minas, com
destaque para o detalhamento das unidades produtivas acima de 20 cativos,
a composição da riqueza e a análise de aspectos da cultura material, explo-
rados, principalmente, através da análise dos inventários post mortem da
vila de Campanha, na primeira metade do século XIX. Discutiu-se ainda a
importância da mão de obra escrava no contexto regional, a forte dependência
do tráfico internacional, além das estratégias senhoriais na composição das
escravarias, mesmo em momentos de confronto, como no caso da Revolta
dos escravos de Carrancas.
Algumas das temáticas tratadas no livro vêm sendo objeto de leitura mais
aprofundada, como por exemplo, a trajetória política de Evaristo Ferreira da
Veiga e a importância de seus vínculos familiares no Sul de Minas, e a Revolta

lectuais na formação do Estado. Almanack, Guarulhos, n.4, p. 5-45, nov. 2012. Disponível
em: http://www.almanack.unifesp.br/index.php/almanack/article/view/840. Acesso em:
20/02/2013; GUIMARÃES, Carlos G. Uma leitura sobre o Império do Brasil no contexto
do século XIX: diálogo com Ricardo Salles. Almanack, Guarulhos, n.4, p. 46-52, nov. 2012.
Disponível em: http://www.almanack.unifesp.br/index.php/almanack/article/view/964.
Acesso em: 20/02/2014; MARTINS, Maria Fernanda. Das racionalidades da História: o
Império do Brasil em perspectiva teórica. Almanack, Guarulhos, n.4, p.53-61, nov.2012.
Disponível em: http://www.almanack.unifesp.br/index.php/almanack/article/view/965.
Acesso em: 20/07/2014.
2. A autora defendeu sua tese de doutorado em 1989, na Universidade de Londres, intitu-
lada Provincial Politics in Rio de Janeiro Under the Empire, 1822-1889, sendo, portanto um
estudo pioneiro nessa perspectiva. A versão em português foi publicada recentemente.
Ver: GOUVÊA, Maria de Fátima. O Império das Províncias: Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2008. Alguns outros estudos publicados mais ou menos no mesmo período tam-
bém podem ser enquadrados nessa perspectiva: DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto Imperial.
Origens do federalismo no Brasil. São Paulo: Globo, 2005; MARTINS, Maria Fernanda.
A velha arte de governar: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado
(1842-1889). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007; SILVA, Wlamir. “Liberais e Povo”: a
construção da hegemonia liberal-moderada na Província de Minas Gerais (1830-1834). São
Paulo: HUCITEC, 2009.

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de Carrancas. No primeiro caso, tem se procurado destacar a relação entre
família e política no período das Regências, a partir da atuação de Evaristo
e da constituição de sua base política na Província de Minas Gerais, com
especial destaque para o apoio construído por seus dois irmãos, Bernardo
Jacinto da Veiga e Lourenço Xavier da Veiga, que também atuaram na política
e imprensa locais, ambos residentes na vila de Campanha desde a segunda
década do século XIX. A atuação na imprensa periódica parece ter sido um
traço marcante na história dos Veiga, seja na Corte, através da publicação
da Aurora Fluminense, ou em Campanha, com o Opinião Campanhense3.
Também se tem procurado aprofundar o universo das representações feitas
pelos opositores de Evaristo e dos embates políticos travados entre as prin-
cipais facções políticas das Regências – Exaltados, Caramurus e Moderados
– através da análise de alguns dos principais periódicos que circulavam na
Corte, entre 1831 a 1835. Neste período, os moderados ocuparam os prin-
cipais postos de poder e o prelo constituiu um espaço de debate político,
onde os opositores de Evaristo procuraram abalar a hegemonia usufruída
pela facção liberal moderada que ele pertencia. Por sua vez, o redator da
Aurora Fluminense utilizou-se de seu periódico para se defender, expor suas
ideias e sua percepção política do contexto e do grupo ao qual pertencia4.
No segundo, pretendeu-se situar parte dos debates, projetos e leis re-
lativas à aplicação da pena de morte no Brasil, especialmente nos casos de
insurreição e de assassinatos cometidos por escravos na década de 1830 e sua
relação com as principais revoltas escravas do período (Carrancas – MG;
Malês – Salvador-BA e a de Manuel Congo – Vassouras-RJ). Particularmente
no caso das duas primeiras, discutiu-se o impacto e a repercussão nas instân-
cias políticas da Regência e sua influência no debate parlamentar em torno

3. ANDRADE, Marcos Ferreira de. Família e política nas Regências: possibilidades inter-
pretativas das cartas pessoais de Evaristo da Veiga (1836-1837). In: RIBEIRO, Gladys Sabina
& FERREIRA, Tânia Maria T. B. C. Linguagens e práticas da cidadania no século XIX. São
Paulo: Alameda, 2010. p. 247-272. Ver também: SILVA, Janaína de Carvalho. As relações de
Veiga e Vasconcellos no período das Regências: de aliados a adversários políticos (1831-1837).
Dissertação (Mestrado em História). São João del-Rei: UFSJ, 2014.
4. ANDRADE, Marcos Ferreira de & SILVA, Janaína de Carvalho. Moderados, Exaltados e
Caramurus no prelo carioca: os embates e as representações de Evaristo Ferreira da Veiga
(1831-1835). Almanack, Guarulhos, n.04, p. 130-148, 2º. Semestre de 2012. Disponível em: http://
www.almanack.unifesp.br/index.php/almanack/article/view/834. Acesso em: 20/07/2014.

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da aplicação da pena capital a escravos insurretos, prevista anteriormente
no Código Criminal de 1830, mas que acabou por resultar em uma juris-
prudência específica sobre o assunto cinco anos mais tarde. A “lei nefanda”,
como ficou conhecida a lei de 10 de junho de 1835, confirmava a pena má-
xima (morte por enforcamento) e punia com mais rigor todos os escravos
envolvidos em insurreições e assassinatos de seus senhores e prepostos.
Até então a historiografia havia associado a gênese da lei de 10 de junho
à Revolta do Malês, justamente em função da proximidade dos fatos. Ao
fazer um levantamento documental pormenorizado acerca dos crimes e da
história da pena de morte aplicada a escravos ao longo do Brasil Império,
João Luiz Ribeiro defendeu a hipótese de que a aprovação da referida lei teve
sua gênese na Revolta de Carrancas, pois, dentre os quatro projetos enviados
à Câmara dos Deputados, no dia 10 de junho de 1833, um era referente ao
julgamento dos crimes de escravos. Em muitos aspectos, o texto é bastante
semelhante à Lei de 10 de junho de 1835, principalmente o preâmbulo. No
projeto de 1833, previa-se a supressão do júri para julgamento de crimes
dessa natureza, sendo substituído por uma junta de paz da região onde
ocorresse o crime5. Concordo inteiramente com a hipótese levantada pelo
autor e há que se destacar o mérito da pesquisa documental empreendida,
mas discordo quando atribui à “histeria da população de São João del-Rei”
como elemento diferencial que teria contribuído para punição exemplar
dos escravos de Carrancas, daqueles que foram indiciados como “cabeças
de insurreição”, sem direito a se utilizarem dos recursos legais previstos
nos códigos e mesmo de impetrarem a petição de graça ao Imperador, se
comparados aos insurretos malês, em Salvador – Bahia, no ano de 18356.
No total, 16 escravos foram condenados e executados à pena de morte por
enforcamento na vila de São João del-Rei. Não custa reiterar que a histeria
esteve sempre presente em contextos tensos da história da escravidão bra-
sileira e era acionada com relativa frequência nos discursos das autoridades

5. RIBEIRO, João Luiz. No meio das galinhas as baratas não têm razão: a lei de 10 de junho
de 1835 – os escravos e a pena de morte no Império do Brasil, 1822-1889. Rio de Janeiro:
Renovar, 2005. P. 43-67. Ver também: PIROLA, Ricardo Figueiredo. A lei de 10 de junho de 1835:
justiça, escravidão e pena de morte. (Tese de doutorado) Campinas: IFCS/UNICAMP, 2012.
6. RIBEIRO, João Luiz. Op. cit. p. 64.

16
administrativas, legislativas, judiciais e também na imprensa. Considero
que a explicação mais adequada encontra-se justamente na violência com
que foram executadas as mortes contra a família Junqueira – fato que não
ocorreu na revolta dos malês – no temor e na repercussão causados entre
as elites locais, provinciais e a Regência, além da insurreição ter atingido
o âmago de uma família senhorial que havia conquistado grande projeção
socioeconômica na primeira metade do século XIX7. É preciso recordar ainda
que os nove brancos mortos pelos escravos de Carrancas pertenciam à famí-
lia de Gabriel Francisco Junqueira, deputado liberal moderado e colega de
parlamento de Evaristo Ferreira da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos,
que havia adquirido expressiva projeção no cenário econômico e político
em virtude das atividades ligadas ao abastecimento interno8. Todos esses
elementos revelam a complexidade da Revolta de Carrancas, o impacto que
causou nos bastidores da política regencial, implicando na apresentação e
discussão de um projeto de lei à Câmara dos Deputados, dois meses após a
rebelião, e na posterior formulação de uma nova jurisprudência que punia
com rigor e mais agilidade a rebeldia escrava.
Os estudos relativos à região do Sul de Minas também tem sido objeto
de novas investigações em várias frentes. Como o leitor terá oportunidade
de perceber, a escolha da região como objeto de pesquisa está relacionada
principalmente ao fato de haver me deparado com vários conjuntos de fon-
tes inéditas, que, na época de realização do estudo, ainda não tinham sido
explorados de forma mais sistemática e que também acabaram resultando
na divulgação de guias de fontes, acervos digitalizados e na constituição de
um centro de documentação. Todas essas iniciativas, de algum modo, deram
a sua contribuição para que novas pesquisas fossem implementadas e alguns
temas fossem investigados. Não constitui meu objetivo, nesta apresentação,
fazer um levantamento exaustivo dos trabalhos mais recentes sobre a região,

7. ANDRADE, Marcos Ferreira de. Revoltas escravas e pena de morte no Império do Brasil:
considerações sobre a origem da lei de 10 de junho de 1835. In: ANTUNES, Álvaro de Araújo
& SILVEIRA, Marco Antonio. Dimensões do poder em Minas: séculos XVIII e XIX. Belo
Horizonte: Fino Traço, 2012. p. 157-178.
8. Maiores detalhes sobre a trajetória da família Junqueira e da revolta dos escravos podem
ser encontradas nos capítulo 4 e 5 deste estudo.

17
mas apenas de situar aqueles que, de algum modo, dialogam com as questões
abordadas neste estudo.
Considerando a perspectiva revisionista dos estudos de história eco-
nômica e social, ao enfatizarem a importância das atividades econômicas
voltadas para o abastecimento interno e a ligação secular da província de
Minas Gerais com as províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, os estudos
mais recentes sobre a região só têm confirmado o que já é um consenso
historiográfico e as hipóteses comprovadas ao longo deste estudo. Alguns
trabalhos recentes, voltados para as localidades da comarca do Rio das
Mortes e do Sul de Minas, têm confirmado a importância dos circuitos
mercantis voltados para abastecimento interno, as ligações com a Corte e o
Vale Paraíba paulista, que contava com participação expressiva dos proprie-
tários escravistas nesses empreendimentos, com destaque para as atividades
agropastoris, mercantis e também a produção e comercialização de fumo9.
No âmbito da política, o Sul de Minas tem sido objeto de novas inves-
tigações principalmente dos aspectos relacionados à constituição de iden-
tidades regionais, dos projetos políticos e das representações espaciais, que

9. Ver: SOBRINHO, Juliano Custódio. Negócios Internos: estrutura produtiva, mercado e


padrão social em uma freguesia sul mineira de Itajubá (1785-1850). Dissertação (Mestrado em
História). Juiz de Fora: UFJF, 2009. RESTITUTTI, Cristiano Corte. As fronteiras da provín-
cia: rotas de comércio interprovincial (Minas Gerais, 1839-1884). Dissertação (Mestrado em
História Econômica). Araraquara: FCL-UNESP, 2006. TEIXEIRA, Paula Chaves. Negócios
entre Mineiros e Cariocas: família, estratégias e redes mercantis no caso Gervásio Pereira
Alvim (1850-1880). Dissertação (Mestrado em História). Niterói, RJ: UFF, 2009; RIBEIRO,
Isaac Cassemiro. Família e povoamento na comarca do Rio das Mortes: os “Ribeiro da Silva”
– fronteira, fortunas e fazendas (Minas Gerais, séculos XVIII e XIX). Dissertação (Mestrado
em História). São João del-Rei: UFSJ, 2014. Em meados da década de 1870, a chegada da
ferrovia no Sul de Minas não representou um rompimento com esse tipo de atividade.
Apesar de a produção do café ganhar algum espaço, a maioria dos gêneros transportados nas
“tropas de ferro” era praticamente a mesma que circulava nos lombos das bestas de carga,
na primeira metade do século XIX. Ver: CAMPOS, Bruno Nascimento. Tropas de aço: os
caminhos de ferro no Sul de Minas (1875-1902). Dissertação (Mestrado em História). São
João del-Rei: UFSJ, 2012. Embora não tratem especificamente dos aspectos econômicos, os
estudos de João Lucas Rodrigues e de Leonara Delfino também confirmam a importância
dessas atividades, com base na análise dos inventários dos proprietários escravistas das
áreas analisadas. Ver: DELFINO, Leonara Lacerda. A família negra na Freguesia de São
Bom Jesus dos Mártires: incursões em uma demografia de escravidão no Sul de Minas
(1810-1873) Dissertação (Mestrado em História). Juiz de Fora: UFJF, 2010; RODRIGUES,
João Lucas. Serra dos Pretos: trajetórias de famílias entre o Cativeiro e a Liberdade no Sul
de Minas (1811 -1960). Dissertação (Mestrado em História). São João del-Rei: UFSJ, 2013.

18
acabaram por resultar em movimentos separatistas e no projeto de criação
da província de Minas do Sul, na cidade de Campanha10.
Ainda é preciso ressaltar que o estudo de caso analisado neste trabalho
aponta para fortes indícios do significado do patriarcalismo na formação
social brasileira, uma vez que a família representou um capital político de
extrema relevância para a expansão e consolidação do sobrenome familiar e
na formação de fortunas, alicerçadas na propriedade da terra e de escravos,
nas atividades agropastoris e na vinculação com os circuitos mercantis do
sudeste do Império. As mesmas estratégias foram constatadas para um ramo
do grupo familiar que migrou para Franca, no norte da província paulista11.
Marcos Ferreira de Andrade
Julho de 2014

10. CASTRO, Pérola Maria Goldfeder e. Minas do Sul: visão corográfica e política regional
no século XIX. Mariana. Dissertação (Mestrado em História). Mariana: ICHS – UFOP, 2012.
Ver também: LAGE, Ana Cristina Pereira. Professores e alunos grevistas: a escola normal
e o movimento separatista – Campanha (MG), 1892. Anais do VII Seminário Nacional
de Estudos e Pesquisas - HISTEDBR: Campinas: UNICAMP, 2006. v. 01. Disponível em:
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario7/TRABALHOS/A/
Ana%20cristina%20pereira%20lage.pdf. Acesso em: 20/07/2014.
11. Trata-se da trajetória de Francisco Antonio Diniz Junqueira, nascido no Sul de Minas,
neto do patriarca da família, e que migrou para a região de Franca na segunda década do
século XIX. Ver: CUNHA, Maísa Faleiros da. Demografia e família escrava. Franca-SP, Século
XIX. Tese (Doutorado em Demografia). Campinas: IFCH-UNICAMP, 2009. p. 160-168.

19
Prefácio

Durante muitos anos a historiografia brasileira avaliou como “secun-


dário”, “ancilar” ou “subsidiário” o setor de produção de abastecimento do
Brasil escravista, resultado de uma visão que privilegiava a economia mundial
e o setor que a ela se ligava diretamente, a agroexportação. Adjetivavam as
produções de alimentos como pobres, ligadas à autossuficiência e incapazes
do uso da mão de obra escrava, posto que a grande lavoura seria autossufi-
ciente para alimentar os que a ela se dedicavam.
Desde as décadas de 1970 e 1980, quando teorias foram elaboradas para
explicar as sociedades escravistas numa perspectiva de relativa autonomia,
que se multiplicaram estudos que tinham como objeto o comércio interno
do Brasil. Constatou-se que havia áreas compostas por grandes produções
escravistas destinadas ao setor de abastecimento interno, em particular na
área pioneira como objeto de estudo, as Minas Gerais, que havia apresentado
um surpreendente dinamismo demográfico de livres e escravos, incluindo
o acesso ao fornecimento de cativos pelo tráfico atlântico, em fins do século
XVIII e primeira metade do XIX.
É dentro deste contexto que situo o trabalho de Marcos Ferreira de
Andrade, que conseguiu apresentar os detalhes do que até então eram so-
mente conjeturas por parte de inúmeros historiadores. Ao analisar uma
antiga região mineradora de Minas Gerais, bastante próspera no século
XIX e dedicada à produção de alimentos para o mercado, e, dentro dela,
uma família específica da elite local, os Junqueira, Marcos permitiu a todos
nós, historiadores, observar como se deram os mecanismos da produção, da
circulação das mercadorias e de uso do trabalho dos milhares de escravos
que se dedicavam ao abastecimento interno, em especial da cidade do Rio de
Janeiro – a Corte – mas também das áreas limítrofes. Ele foi mais além, pois
pela primeira vez descortinou como se deram a inserção e as articulações

21
das elites regionais/locais na política do Estado Imperial. Fez um belíssimo
e inovador trabalho, pois exemplificou uma situação existente em várias
outras regiões com perfis semelhantes.
É, portanto, de um estudo completo que se trata, pois toca em todos os
pontos fundamentais para o entendimento das redes de abastecimento interno
e a defesa de seus interesses na política mais ampla do governo imperial.
Não deixou de lado nada que possa ser considerado importante, como a
análise econômica quantitativa da produção, a hoje já clássica abordagem
das fortunas e das famílias, a avaliação das maneiras como essas fortunas e
famílias se mostravam no seu cotidiano através do estudo da cultura ma-
terial e nem mesmo os escravos, em toda sua complexidade, incluindo as
adaptações, com as relações familiares e rituais, e as transgressões, com a
impressionante e sangrenta relação entre eles e a família Junqueira, no pri-
moroso estudo sobre a Revolta de Carrancas. Para tanto, analisou a região
de Campanha da Princesa em fins do século XVIII e primeira metade do
XIX em diversos documentos, como registros paroquiais de batismo, listas
nominativas e inventários post-mortem, além de genealogias, doações de
sesmarias, atas do parlamento, correspondência pessoal, fotografias, etc.
Marcos foi meu orientando de doutorado, mas, quando entrou na
Universidade Federal Fluminense, era já um pesquisador de larga experiência.
Aprendi mais do que ensinei, principalmente sobre os caminhos de Minas
e a política imperial. O prêmio que recebeu do Arquivo Nacional é, pois,
mais do que merecido, pois contemplou um trabalho maduro de pesquisa
empírica expressiva e de refinamento teórico e metodológico.
Sinto-me honrada em apresentar, a todos, o resultado final desse esforço.
Sheila de Castro Faria
Setembro de 2007

22
Introdução

As histórias aqui retratadas têm como cenário uma vasta região ao sul
da capitania, depois província, de Minas Gerais, e se passam num período
marcado por profundas transformações na ordem sociopolítica, econômica
e cultural do Brasil. A mudança no estatuto colonial, com a instalação da
Corte no Brasil, em 1808, o processo de emancipação política, a partir de 1822,
além da construção do Estado e da formação da nacionalidade brasileiras,
que se esboçaram nas décadas seguintes, são algumas das transformações
a serem destacadas na primeira metade do século XIX.
No que se refere à capitania de Minas Gerais, particularmente à co-
marca do Rio das Mortes, já em fins do século XVIII o desenvolvimento
demográfico e econômico era bastante acentuado, tanto pelas estimativas
populacionais disponíveis, quanto pela emancipação de algumas vilas. Dentre
elas, destaca-se a vila da Campanha da Princesa, emancipada em 1799, e com
a primeira câmara instalada em 1800. Tratava-se de um grande território
demarcado pelo Rio Grande e que se confrontava com as capitanias do Rio
de Janeiro e São Paulo, através da serra da Mantiqueira. Uma área tão vasta,
entrecortada por vários caminhos que garantiam o acesso e possibilitavam a
interconexão comercial das principais áreas escravistas do Centro-Sul, não
poderia deixar de ser motivo de disputa entre as vilas mais antigas, como a
de São João del-Rei, e também as capitanias do Rio de Janeiro e São Paulo.
Grande parte deste trabalho abrange a primeira metade do século XIX,
tendo como marco final a Lei Eusébio de Queirós, que pôs fim ao tráfico
internacional de escravos a partir de 1850. Porém, foi necessário flexibilizar
a periodização escolhida, uma vez que se lida neste trabalho com a trajetória
das famílias da elite, donas de muitas propriedades e dezenas de escravos,

23
tornando-se indispensável considerar aspectos que remetem à origem e à
trajetória dessas famílias, bem como à formação e à expansão da vila.
Os personagens e as histórias apresentados pertenciam à elite escravo-
crata daquela região. São histórias de sucesso, de famílias que fizeram fortuna,
tendo como base as atividades agropastoris e a comercialização de gêneros
voltados para o abastecimento interno – gado, porcos, carneiros e produtos
como queijo e toucinho, além de fumo. O destino da produção, de modo
geral, era a praça mercantil carioca. Para tocar esses empreendimentos, a
mão de obra escrava era essencial. Num primeiro momento, o cenário que se
vislumbra é caracterizado por grandes propriedades e, logicamente, no caso,
por grandes escravarias. Não raras vezes, encontraremos um proprietário
acompanhado de sua família e rodeado por trinta, cinquenta e até mais de
cem cativos. Também são histórias marcadas por infortúnios e tragédias
que abalaram o prestígio de famílias bem-sucedidas, tanto no plano econô-
mico como político; acontecimentos que não se restringiram aos grandes
proprietários escravistas sul-mineiros, mas que acabaram atemorizando a
elite senhorial do sudeste do Império.

II

Por trás de qualquer investigação histórica, existem sempre as escolhas


e as motivações, relacionadas à trajetória individual do pesquisador. A op-
ção por investigar as famílias da elite do sul de Minas correlaciona-se com
a pesquisa empreendida durante o mestrado, quando tive oportunidade
de divulgar uma das maiores rebeliões escravas ocorridas no sudeste do
Império, a Revolta de Carrancas.1 Com o objetivo de compreender melhor
o contexto da rebelião, até então completamente desconhecida nos estudos
historiográficos sobre a escravidão no Brasil Império, fiz uma breve análise
da trajetória da família Junqueira, dona de grandes escravarias no curato
de São Tomé das Letras, freguesia de Carrancas, palco do conflito de 1833.

1. Marcos Ferreira de Andrade, Rebeldia e resistência: as revoltas escravas na província de


Minas Gerais (1831-1840).

24
A necessidade de aprofundar a compreensão do contexto regional de
formação e expansão das vilas do sul da província e também da elite pro-
prietária que ali se constituiu, ao longo da primeira metade do século XIX,
tornou-se mais evidente a partir da experiência com o mapeamento e a or-
ganização dos acervos da cidade de Campanha.2 O resultado deste trabalho
se materializou na constituição do Centro de Memória Cultural do Sul de
Minas, que, atualmente, mantém sob sua custódia um acervo documental
diversificado dos séculos XVIII a XX, disponível à consulta pública.3
As interrogações decorrentes da pesquisa de mestrado e o contato com
um acervo inédito de fontes sobre o sul de Minas serviram-me de estímulo
para mais esta empreitada. O objetivo central deste livro consiste, portanto,
em identificar a elite escravista do sul de Minas, geralmente ambientada em
áreas rurais, mas vinculada aos núcleos urbanos de maior importância do
período, como, por exemplo, as vilas de São João del-Rei e Campanha, e
especialmente com a Corte, considerando sua inserção na política e o papel
que desempenhou na construção do Estado Imperial.

III

Fortuna, família e poder são termos-chave para se compreender o objeto


deste estudo. Nos exemplos apresentados no decorrer deste livro, o leitor

2. Trata-se do projeto “Memória cultural do sul de Minas”, financiado pela Fundação de


Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e realizado em parceria com a
Universidade Federal de São João del-Rei. O projeto foi executado entre janeiro de 1998 e
março de 2000 e, graças a ele, pudemos mapear e catalogar os principais acervos históricos
da cidade. O projeto foi coordenado por mim e pelas professoras Maria Tereza Pereira
Cardoso (UFSJ) e Rachel de Souza Rocha (UEMG), além dos seguintes bolsistas: Andrea,
Marília, Selma, Ana Lúcia, Reinaldo, Vanila, Ivanilda e Luziara. Também foi fundamental
a contribuição de Agnamari Marçano da Cunha, secretária do Centro de Memória à época,
que sempre auxiliou toda a equipe, seja nas atividades de pesquisa, seja na montagem dos
catálogos, durante o período de execução do projeto.
3. O Centro de Memória Cultural do Sul de Minas está vinculado às atuais Faculdades
Integradas Paiva de Vilhena, unidade de Campanha, agregada à Universidade do Estado
de Minas Gerais. Em dezembro de 2001, lançamos o primeiro instrumento de busca, em
cd-rom, que contém um guia detalhado dos principais acervos da cidade. Ver Marcos
Ferreira de Andrade, Maria Tereza Pereira Cardoso e Agnamari M. Cunha, A vila da
Campanha da Princesa: fontes para a história do Sul de Minas. (CD-ROM).

25
terá oportunidade de perceber que eles não estavam dissociados. Com isto
também não se está afirmando que riqueza fosse sinônimo de prestígio e
poder, e vice-versa. A consolidação e a ascensão das famílias aqui analisadas
se deram por meio de estratégias diversas, que envolveram desde os relacio-
namentos consanguíneos até a constituição de alianças estratégicas fora da
parentela e a ocupação de cargos administrativos, eclesiásticos e políticos,
só para citar alguns exemplos.
O termo “fortuna” aqui tem o sentido de “haveres”, de bens, de riqueza
acumulada por algumas gerações, pois se trata da elite do sistema escravista.4
Geralmente, tais fortunas estiveram associadas a um leque diversificado
de atividades, destacando-se o tipo social do fazendeiro/negociante, que
comercializava parte de sua produção. Como a historiografia tem demons-
trado, a família foi fundamental na montagem e no funcionamento dos
empreendimentos econômicos desde os tempos coloniais, situação que se
manteve no Império.5 Sheila de Castro Faria afirma que é “pela família, não
necessariamente consanguínea, que todos os aspectos da vida cotidiana, pú-
blica e privada, originaram-se ou convergem”.6 “Poder” aqui é compreendido
num sentido bem amplo. Refere-se tanto ao domínio privado do senhor,
no espaço de sua propriedade, em relação à sua família, a seus agregados e
escravos, quanto à ocupação de cargos administrativos, civis, eclesiásticos e
públicos. Nesse caso, a família representava uma importante “fonte de capital
político”, que poderia ser acionada, sempre que necessário, nas lutas e nas
disputas entre as demais famílias de prestígio ou em outros tipos de conflito,
como se terá oportunidade de constatar no último capítulo.7

4. Sheila de Castro Faria utiliza o termo num sentido mais diversificado, compreendendo-o
também como “destino”, “fado”, “sorte”. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento:
fortuna e família no cotidiano colonial, p. 21.
5. O pioneirismo deste tipo de abordagem encontra-se em Gilberto Freyre, Casa-grande e
senzala. Ver, ainda, Oliveira Viana, Populações meridionais do Brasil: populações rurais
do centro-sul; Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante.
6. Sheila de Castro Faria, op. cit., p. 21.
7. Alguns autores já abordaram a história das famílias da elite nesta perspectiva. Ver, entre
outros: Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX; Linda Lewin,
Política e parentela na Paraíba: um estudo de caso da oligarquia de base familiar; Luís
Aguiar Costa Pinto, Lutas de família no Brasil: era colonial.

26
Ainda gostaria de chamar a atenção para o significado que se dá, neste
trabalho, ao termo “elite”. Pode-se empregá-lo em sentido amplo e com uma
série de significados, se considerarmos as categorias e os grupos sociais que
dispunham de maiores recursos em determinadas épocas e contextos.8 Talvez
o conceito que mais se aproxime dele seja o de “boa sociedade”, elaborado
por Ilmar Rohloff Mattos a partir das “recordações” do jurista campanhense
Francisco de Paula Ferreira de Resende, e utilizado para designar a elite
econômica, política e cultural do Império.9 Embora se trate de um termo
pouco preciso e, por isso, capaz de abarcar uma concepção mais ampla de
elite, considerou-se que a análise do material empírico e o estudo de caso
empreendido seriam os caminhos mais adequados para verificar as carac-
terísticas desse grupo e sua importância no cenário regional e nacional.
Quem fazia parte desse reduzido grupo e quais eram as estratégias de acesso
a ele? Como se dava a inserção de alguns de seus membros no universo da
política formal? Quais eram os ícones de representação social das famílias
que pertenciam a esse grupo? É novamente Francisco de Paula Ferreira
de Resende10 quem deixa algumas pistas sobre os homens de importância
daquele tempo. Além de possuir terras e escravos, o que também dava
notoriedade a um membro da elite era sua inserção na vida pública, seja
ocupando cargos políticos e administrativos, seja participando de alguma
confraria religiosa de importância do lugar. Este parece ter sido o caso do
capitão Manuel Luís de Sousa, citado pelo autor, que ocupou os cargos de

8. A reflexão em torno do significado do termo elite não é novidade nas ciências humanas,
notadamente nos estudos de cunho sociológico, e tem sido um território cada vez mais
frequentado pelos historiadores. Para uma discussão sobre o tema, ver: Flávio M. Heinz,
O historiador e as elites: à guisa de introdução, em Por outra história das elites, p. 7-16.
9. Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema: a formação do Estado imperial. Ver, espe-
cialmente, o capítulo 2, p. 103-109. Ver, também, Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, Boa
sociedade. In: Ronaldo Vainfas (org.), Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889); p. 95-97;
Francisco de Paula Ferreira de Resende, Minhas recordações.
10. Francisco de Paula Ferreira de Resende, como muitos homens de importância do seu
tempo, seguiu a magistratura, além de ser proprietário de terras e de escravos. Foi juiz,
fazendeiro de café e terminou sua vida como ministro do Supremo Tribunal Federal, no
princípio da República. Sua obra é um relato autobiográfico, que nos permite vislumbrar o
cenário cotidiano do Império, seja no sul de Minas, precisamente em Campanha, ou no Rio de
Janeiro, que o autor visitava com frequência, ou em São Paulo, onde completou seus estudos
de bacharelado em direito. Em 1887, deu início à redação de suas “recordações”, registrando
muitos aspectos que nos permitem melhor compreender o tempo do Império do Brasil.

27
juiz municipal da vila e presidente da Câmara, pertencia à Irmandade do
Santíssimo Sacramento, além de ser encarregado de levar o viático aos
moribundos, fora da povoação.11
A investigação das fontes foi realizada considerando os métodos quanti-
tativos, comuns aos estudos de cunho demográfico, econômico e social, e os
qualitativos, típicos das abordagens da micro-história. Como acentua Levi,
a “micro-história como uma prática é essencialmente baseada na redução
da escala da observação, em uma análise microscópica e em um estudo
intensivo do material documental”.12
As fontes de caráter massivo utilizadas se referem à documentação
paroquial (assentos de batismo), às listas nominativas de 1831-1832 e aos
inventários do termo de Campanha, analisados com o intuito de se obter
dados mais gerais sobre estrutura social, econômica e demográfica da região,
bem como sobre concentração de posse de cativos, produção econômica,
composição da riqueza, população escrava, percentual de africanos, estado
conjugal dos cativos, entre outras informações.
Graças ao cruzamento de várias fontes, como as listas nominativas, os
inventários, os registros de sesmarias, as atas do parlamento nacional, os
estudos genealógicos, as correspondências pessoais etc., foi possível cotejar
a trajetória socioeconômica e política das famílias mais abastadas, especial-
mente a dos Junqueira.
As genealogias foram consultadas como fonte auxiliar no levantamento e
na confrontação das informações sobre as famílias. Como ressalta Dupâquier,
“sob a condição de serem completas e de abrangerem um meio definido,
as genealogias constituem-se em excelente material para a construção da
história social”.13 A discussão metodológica e a análise crítica das fontes
utilizadas foram incorporadas ao texto e aparecem à medida que os docu-
mentos são utilizados.
Os dados analisados de modo agregado buscam elucidar a complexida-
de socioeconômica e populacional da área. Esta perspectiva metodológica
permeia pelo menos os três primeiros capítulos deste trabalho, todavia sem

11. Francisco de Paula Ferreira de Resende, Minhas recordações, p. 46.


12. Giovanni Levi, Sobre a micro-história, p. 136.
13. Jacques Dupâquier, Demografia histórica e história social, p. 29.

28
deixar de incluir histórias familiares e individuais, que complementam e
evidenciam as questões tratadas. Já nos dois últimos capítulos, quando se
analisa a trajetória da família Junqueira e as relações entre senhores e es-
cravos, as orientações metodológicas partem dos procedimentos próprios
da micro-história, da necessidade de reduzir a escala de observação para
esclarecer aspectos que, num contexto mais amplo, ficariam obscurecidos.14
É preciso destacar que, embora haja uma redução de escala e o estudo de caso
se reporte à trajetória da família Junqueira, a noção de região adotada não
deve ser esquecida, não só porque a família estudada teve ali a sua origem,
mas porque boa parte da área foi povoada por seus membros, atingindo
outras regiões do Império, como o nordeste de São Paulo, o sertão do Rio
Pardo, e até mesmo algumas freguesias do Rio de Janeiro.15

IV

O trabalho está estruturado em cinco capítulos. No primeiro, houve


a preocupação de apresentar a região estudada, considerando algumas in-
formações relativas ao povoamento, na primeira metade do século XVIII,
à formação e à expansão da vila da Campanha da Princesa. Seu objetivo
principal consiste em apontar o relevante significado da região que viria
a se tornar o termo da vila, consolidando-se como um importante núcleo
urbano, populacional, econômico e político na primeira metade do século
XIX. Além de comprovar-se que a área atraía um número cada vez maior
de pessoas ao longo do século XVIII e, especialmente, do século XIX, fez-se

14. Alguns trabalhos serviram de referência metodológica para a elaboração deste estudo.
Ver Giovanni Levi, op. cit., p. 133-162 e Herança imaterial: trajetória de um exorcista no
Piemonte do século XVII; Jacques Revel (org.), Jogos de escalas: a experiência da microanálise;
Emmanuel Le Roy Ladurie, Montaillou, povoado occitânico; Carlo Ginzburg, Sinais: raízes
de um paradigma indiciário e O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro
perseguido pela Inquisição.
15. Em termos metodológicos, há que considerar que este estudo se aproxima bastante da
prosoprografia ou do método das biografias coletivas. Para uma discussão da importância
do método nas ciências sociais e entre os historiadores, ver: Christophe Charlie, A proso-
pografia ou biografia coletiva: balanço e perspectivas; Jacqueline Lalouette, Do exemplo
à série: história da prosoprografia. In: Flávio M. Heinz (org.), Por outra história das elites.
p. 41-54; 55-74.

29
um mapeamento geral da economia, considerando as principais atividades
desenvolvidas, tanto nas unidades escravistas como nas não-escravistas,
demonstrando a sua articulação com as praças mercantis regionais e com
a Corte.
No segundo capítulo, tem início a discussão central do livro, ou seja,
procura-se deixar claro o que se está designando por elite do sistema escravista
em Minas Gerais, particularmente na região em estudo. Considerou-se mais
apropriado partir das fontes, principalmente dos inventários post mortem,
para verificar as características deste grupo e sua importância no cenário
regional e nacional, já que não se dispunha de um listagem dos proprietários
mais abastados da região que pudesse ser cotejada em vários documentos.
Certamente, o primeiro critério passou pela riqueza amealhada, que, no
primeiro momento, foi medida pelo número de escravos e pela fortuna acu-
mulada ao longo da primeira metade do século XIX. Procura-se desvendar
um pouco do funcionamento das grandes unidades escravistas, as opções
de investimento dos grandes proprietários, a origem das fortunas e também
o seu fracionamento, quando as fontes permitiram algum tipo de inferência
nesse sentido. As informações dos inventários foram analisadas de modo
agregado para os 64 maiores escravistas da área, buscando salientar a con-
centração da riqueza nas mãos deste pequeno grupo. Embora nesse capítulo
se dê ênfase à fortuna acumulada pelos grandes proprietários escravistas,
em nenhum momento são desconsideradas outras estratégias que poderiam
contribuir para o prestígio dessas famílias, como, por exemplo, a ocupação
de cargos administrativos civis, eclesiásticos e políticos, além das alianças
matrimoniais com outras famílias de elite. Esses aspectos foram mais bem
explorados no quarto capítulo.
No terceiro capítulo são discutidos alguns aspectos relativos à cultura
material da elite sul-mineira, destacando-se as mudanças nos hábitos e nos
costumes das famílias mais abastadas, com base nos registros deixados em
seus inventários. A primeira metade do século XIX é um período particu-
larmente interessante para se verificar tais mudanças, uma vez que a che-
gada da Corte provocou algumas transformações nos costumes dos mais
afortunados, seja nos hábitos alimentares, no modo de vestir, ou no estilo de
decorar o interior das casas etc. Pretende-se em que medida a rusticidade,

30
característica do interior das moradas, herdada do período colonial, pode
ser, de certo modo, relativizada, já que uma parcela da elite interiorana tinha
acesso a produtos só encontrados na Corte, chegando a Minas por meio das
várias rotas e caminhos que entrecortavam a região, daí a importância secular
do tropeirismo. Também são examinados os costumes da elite sul-mineira,
dando-se especial destaque para as caçadas, notadamente as realizadas nas
terras da família Junqueira.
O tema central deste trabalho é aprofundado no quarto capítulo. A partir
de um estudo de caso, são observadas as estratégias familiares, econômicas
e políticas que contribuíram para a consolidação do nome de uma família
da elite no Brasil Império. A história dos Junqueira oferece muitas pistas
acerca das estratégias mais ou menos comuns entre os membros dessa elite,
na busca de consolidar seu poderio econômico, social e político. Dentre elas,
cabe enumerar a importância dos casamentos endogâmicos e das alianças
fora da parentela, com famílias do mesmo grupo social. A consolidação do
nome da família também possibilitou o acesso a cargos políticos de relevo no
cenário imperial, permitindo-nos especular sobre o papel decisivo ocupado
pelas elites regionais na construção do Estado.
No último capítulo investiga-se como os grandes senhores compunham
suas escravarias e tecem-se considerações sobre suas estratégias de controle
da população escrava e em que medida elas poderiam ser bem-sucedidas ou
não, sem, evidentemente, desconsiderar a participação escrava no processo
de negociação e ampliação de certos “espaços de autonomia”. Este livro se
encerra com uma releitura da Revolta de Carrancas, avaliando a punição
exemplar dos escravos rebeldes e os artifícios adotados pelas famílias da
elite da região e pela Regência para minimizar o significado da rebelião.

31
1

Campanha da Princesa: formação e expansão


de uma vila no império

Antes de iniciar a análise propriamente dita do tema central deste livro,


é importante situar o leitor acerca de alguns aspectos históricos de uma
importante vila da província de Minas Gerais, região que deu origem ao que
hoje é definido imprecisamente como o “Sul de Minas”. Todos os memo-
rialistas da região são enfáticos em afirmar que a cidade da Campanha é o
“berço do Sul de Minas”, não só por sua importância política e econômica,
mas também por ser a mais antiga da região e ter sido a sede da comarca
do Rio Sapucaí a partir de 1833.1 Embora o meu objeto de estudo transcenda
o local estudado, seria oportuno fazer uma análise detalhada sobre a vila
de Campanha e seu termo, pois a investigação da trajetória das famílias
da elite em Minas Gerais, da virada do século XVIII até meados do XIX,
partirá desta região. Ainda neste capítulo, serão contemplados os aspectos
econômicos e populacionais relativos à província de Minas Gerais, abordados
pela historiografia mineira, e também alguns poucos trabalhos existentes
para a vila de Campanha2.
A noção de região adotada neste estudo está muito próxima da que é
proposta por Ciro Flamarion Cardoso, ou seja, foi fixada “operacionalmente
de acordo com certas variáveis e hipóteses, sem pretender que a opção ado-

1. Ver Alfredo Valladão, Campanha da Princesa (1737-1821) e Campanha da Princesa (1821-


1909); Mons. José do Patrocínio Lefort, Cidade da Campanha: monografia histórica; Bernardo
Saturnino da Veiga, Almanaque sul mineiro, de 1874. O mesmo almanaque foi reeditado,
com algumas alterações, dez anos depois.
2. Uma primeira versão deste capítulo foi publicada, sob o mesmo título, na Revista Eletrônica
de História do Brasil.

33
tada seja a única maneira ‘correta’ de recortar o espaço e de definir blocos
regionais”, sem, contudo, esquecer que toda delimitação geográfica não deixa
de simplificar uma realidade mais complexa, além da relação entre homem
e espaço estar em contínua transformação.3

1. Da ocupação das “Minas do Rio Verde” à emancipação da vila


Nas primeiras décadas do século XVIII, a região mais ao sul da capita-
nia de Minas Gerais era conhecida genericamente como as “Minas do Rio
Verde”.4 Desde o início do setecentos, a área foi ocupada pelos paulistas, que
devassaram o território mineiro na busca desenfreada pelo metal precioso.5

3. Ciro Flamarion S. Cardoso, Agricultura, escravidão e capitalismo, p. 73. Para Minas


Gerais existem algumas propostas de regionalização, notadamente entre os autores que
enfatizaram os aspectos demográficos e econômicos da província como um todo, ao longo
do século XIX. Outra opção bastante recorrente é o recorte considerando a extensão geo-
gráfica das comarcas e dos termos das vilas principais. Ver, entre outros: Roberto Borges
Martins, Growing in silence: slave economy of nineteenth-century Minas Gerais, Brazil;
Douglas Cole Libby, Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais
no século XIX; Clotilde Paiva, População e economia nas Minas Gerais do século XIX;
Marcelo Magalhães Godoy, Intrépidos viajantes e a construção do espaço: uma proposta
de regionalização para as Minas Gerais no século XIX; Afonso Alencastro Graça Filho,
A princesa do Oeste: elite mercantil e economia de subsistência em São João del Rei, 1831-1888
(este trabalho foi publicado pela editora Annablume, em 2003, sob o título A princesa do
Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais); Mônica Ribeiro Oliveira, Negócios de família:
mercado, terra e poder na formação da cafeicultura mineira, 1780-1870. (Este trabalho foi
publicado pela editora do Sagrado Coração, em 2005, sob o mesmo título); Carla Maria
Carvalho de Almeida, Homens ricos, homens bons: produção e hierarquização social em
Minas colonial, 1750-1822. (Este trabalho foi publicado pela editora Argvmentvm, em 2010,
sob o título Ricos e pobres em Minas Gerais: produção e hierarquização social no mundo
colonial, 1750-1822); Silvia M. Jardim Brügger, Minas patriarcal: família e sociedade (São
João del Rei, séculos XVIII e XIX). (Este trabalho foi publicado pela editora Annablume,
em 2007, sob o mesmo título). Em relação aos trabalhos publicados, estou tomando por
base o texto das teses para fazer as citações e as referências.
4. Esta denominação aparece na carta do ouvidor Cipriano José da Rocha, de 27 de dezem-
bro de 1737, quando comunica ao rei o descobrimento das referidas minas e a legalização
da ocupação do território.
5. Para uma síntese dessa discussão, ver Charles R. Boxer, A idade de ouro no Brasil: dores de
crescimento de uma sociedade colonial, especialmente os capítulos II e III, p. 57-110. Carla
Maria Junho Anastasia faz um histórico desses conflitos nas primeiras décadas do século
XVIII, culminando com os motins de Campanha do Rio Verde, em 1746 e 1751, em Vassalos
rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira metade do século XVIII. Belo Horizonte:
C/Arte, 1998, p. 113-121. Há na Biblioteca Nacional uma documentação bem interessante,
relativa ao ano de 1790, que se reporta aos conflitos entre as capitanias de Minas Gerais e
São Paulo, envolvendo as disputas pela posse dos arraiais de Jacuí, Cabo Verde e Santana,

34
As minas do Rio Verde, descobertas pelos paulistas nas primeiras dé-
cadas do século XVIII, foram mantidas na clandestinidade até 1737, quando
uma expedição militar, chefiada pelo ouvidor da vila de São João del-Rei,
Cipriano José da Rocha, fundou o arraial e tomou posse da região. Segundo
suas informações, em correspondência dirigida ao rei, as minas estavam
localizadas em “dilatados campos, que as findam vários córregos e ribeiros
com muitos matos proveitosos [e] agricultura, e ainda que tarde, se plantou
quase trezentos alqueires de milho em várias roças; em todos os córregos
e ribeiros se acha[va] ouro”.6 A área ocupada correspondia a mais de vinte
léguas, e as indicações de que este fenômeno já datava de algum tempo po-
dem ser inferidas das informações repassadas pelo próprio ouvidor, quando
afirmou que o local estava “povoado com praça e ruas em boa ordem e
muito boas casas”,7 faltando construir igreja e casa de intendência. As terras
minerais foram repartidas e o trabalho de exploração do ouro ficou a cargo
de, aproximadamente, sete mil negros.
A princípio, o arraial foi batizado como São Cipriano, em homenagem
ao ouvidor, e, posteriormente, quando da construção da capela, passou a
chamar-se arraial da Campanha do Rio Verde de Santo Antônio do Vale da
Piedade, sob a jurisdição da comarca do Rio das Mortes.
Os conflitos entre paulistas e representantes legais da comarca do Rio
das Mortes não cessaram com a chegada do ouvidor, muito menos com a
criação do arraial, aliás, perduraram por boa parte do setecentos. O governo
da capitania de São Paulo disputava o controle da área com a Câmara da vila
de São João del-Rei. Os conflitos se estenderam ainda por mais alguns anos,
tanto que, em 25 de fevereiro de 1743, a Câmara Municipal da vila de São
João del-Rei teve que ratificar o auto de ocupação de posse da área, porque
um representante do governo paulista se encontrava na região alegando o
direito de posse sobre o arraial.8 Segundo o relatório da Câmara, gastaram-se

áreas localizadas em região de fronteira entre as duas capitanias e próximas dos principais
registros que interligavam Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. BN, Minas Gerais, II, 36,07,020.
6. Carta do ouvidor da comarca do Rio das Mortes, Cipriano José da Rocha, de 9 de dezembro
de 1737. Documento citado por José Pedro Xavier Veiga, Efemérides mineiras (1664-1897), p. 913.
7. Idem.
8. Auto de posse do arraial de Santo Antônio da Campanha do Rio Verde (1743). Documento
publicado numa coletânea intitulada “Memórias municipais”. Revista do Arquivo Público

35
264 oitavas de ouro e usou-se muita gente armada para garantir a ocupação
do local, pois d. Luís Mascarenhas, então governador da capitania de São
Paulo, tinha nomeado Bartolomeu Correia Bueno como superintendente da
região.9 Como se tratava de uma área estratégica, de fácil acesso ao Rio de
Janeiro e a São Paulo, o que facilitava o extravio do ouro, em 1746 a Câmara
decide pela criação do Julgado de Santana do Sapucaí, com o estabelecimento
de um juiz ordinário com alçada no cível e criminal.
Foi em fins do século XVIII, mais precisamente em 1795, que os mora-
dores mais influentes do arraial decidiram reivindicar a criação da vila da
Campanha da Princesa, com base numa série de argumentos, que denotavam
o grau de expansão demográfica e econômica do território, pleiteado como
termo da vila. Entre os vários argumentos apresentados, alguns merecem
destaque, como a distância de 35 léguas da vila de São João del-Rei, as grandes
custas pagas aos oficiais de justiça da comarca do Rio das Mortes, o aumento
da população de Campanha e seu termo, ultrapassando o número de oito
mil habitantes e a necessidade de implementação de obras públicas (pontes,
chafarizes, calçamento de ruas, abertura de estradas etc.).10
A Câmara de São João del-Rei se manifestou contrariamente à solicitação,
alegando que “os moradores daquele lugar [eram] a maior parte mulatos,
escravos, e mestiços”11 e não eram “homens de nascimento e conceito”, dig-
nos de exercerem os cargos de juízes e de vereadores. Continuando o seu
arrazoado, afirmava que o ouro extraído era quase todo extraviado pelo
acesso a caminhos e atalhos que levavam ao Rio de Janeiro ou a Santos, e
que não havia igreja decente no arraial.
O Il.mo Ex.mo sr. Visconde de Barbacena quis evitar o extravio pelas re-
presentações desta Câmara e mandou para lá um destacamento; então
viu-se entrar na Casa de Intendência desta vila mais ou menos ouro
conforme a maior ou menor atividade, zelo do comandante do desta-
camento; mas o extravio continua. Uns vassalos que não obedecem às
leis de Sua Majestade, que a defraudam dos seus direitos senhoriais, que

Mineiro, ano I, fascículo 3º, julho a setembro de 1896, p. 457-458.


9. Ibidem, p. 464-465.
10. Ibidem, p. 460.
11. Ibidem, p. 461.

36
causam um prejuízo tão grave a toda esta capitania devem ser atendidos?
Eles são mais dignos de castigos, do que de graças. A vizinhança em
que estão da capitania de São Paulo; a facilidade de passagem ou para
a cidade do Rio de Janeiro, ou para a Praça de Santos, a comunicação
de tantas estradas, e a multidão de tantos são as causas que ajudam o
extravio. São aqueles moradores pérfidos, vingativos e malfeitores.
Uma Câmara composta desses espíritos, se não de todos, de alguns
ao menos, não pode fazer boa governança, porque ainda que as leis
sejam as mesmas, contudo a sua boa ou má execução, pende muito da
mão que as maneia e dirige; e ordinariamente os homens pervertem
pelas suas paixões o bom uso que devem fazer das coisas mais úteis e
necessárias.12 (grifos meus)

A região pretendida como termo de Campanha abrangia dez freguesias


(Lavras do Funil, Baependi, Pouso Alto, Santa Ana do Sapucaí, Camanducaia,
Ouro Fino, Itajubá, Cabo Verde e Jacuí) e três julgados (Santana do Sapucaí,
Itajubá e Jacuí). Como se pode perceber, a extensão do termo compreendia
praticamente toda a área do que hoje se denomina Sul de Minas (ver mapa
1). A preocupação real da Câmara de São João del-Rei se restringia, de fato,
às significativas perdas de receita, auferidas de lojas e vendas e da criação
de gado, já abundantes na região.13
Assim depauperam a esta Câmara e lhe tiram todas as suas rendas; a
aferição e cabeças é no que unicamente consistem tirados dez arraiais,
dez freguesias, e três julgados, que são os que têm algumas lojas e vendas,

12. As justificativas apresentadas pela Câmara de São João del-Rei contra a criação da vila
da Campanha também podem ser encontradas na documentação avulsa sobre a capitania
de Minas Gerais existente no Arquivo Histórico Ultramarino. “Carta de Bernardo José de
Lorena, governador das Minas, para d. Maria I, dando seu parecer sobre o requerimento
dos moradores do continente da Campanha do Rio Verde, de Santo Antônio do Vale da
Piedade, comarca do Rio das Mortes, pedindo para que seu arraial seja elevado a vila”,
14/4/1798, caixa 144, doc. 20, p. 4v.
13. A própria Câmara reconhece a importância da região e as consequências negativas para
a vila de São João del Rei com a perda de receitas e manutenção de despesas. São citadas
algumas despesas feitas com a ratificação da posse, em 1743 (264 oitavas de ouro), estabele-
cimento do julgado do Sapucaí (792 oitavas), destruição do quilombo do Rio Grande (500
oitavas); destruição do quilombo do Ambrósio (400 oitavas). Ver Memórias municipais,
Revista do Arquivo Público Mineiro, p. 8.

37
que aferem as balanças, pesos e medidas, e que dão consumo a alguma
rês, donde há de tirar esta Câmara rendimento para as despesas que tem?14

Para vencerem a resistência da vila de São João del-Rei e conquistarem


sua autonomia, alguns moradores, com extremo tato político, solicitaram
a criação da vila da Campanha da Princesa, homenageando duplamente a
esposa do príncipe regente, futuro d. João VI, através do nome da vila, e,
depois, separando a terça parte das rendas anuais, auferidas pela Câmara,
e enviando-a diretamente à princesa, em cofre em separado, para os seus
“alfinetes”.15 Essa doação continuou sendo enviada, mesmo depois que ela
veio para o Brasil, com a Corte, em 1808.16 Em sinal de gratidão, o príncipe
regente doou à princesa, d. Carlota Joaquina, o senhorio da vila.

14. AHU, “Carta de Bernardo José de Lorena, governador das Minas, para d. Maria I...”,
14/4/1798, caixa 144, doc. 20, p. 6v.
15. Os documentos relativos à criação da vila da Campanha foram coligidos e reunidos em
um livro de 47 folhas, com encadernação em cetim, além de um mapa de toda a extensão do
termo da vila. Estes documentos fazem parte do acervo do Arquivo Histórico Ultramarino e
se encontram reproduzidos na referida revista do Arquivo Público Mineiro, exceto o mapa.
Constam os seguintes documentos: alvará e carta régia, auto de declaração de criação da vila,
auto de levantamento do pelourinho, edital para eleição dos membros da Câmara, auto de
posse do juiz de fora, auto de criação de ofícios; auto de consignação voluntária que separa
a terça parte das rendas públicas anuais da Câmara para os cofres da Princesa; justificação
das cadeiras de ler, escrever e contar e de gramática latina; direitos que deve ter a Câmara
de administrar e aforar terras devolutas; demarcação do termo da vila; termo de encerra-
mento. Ainda fazem parte do mesmo livro os seguintes documentos, copiados e inclusos:
requerimento assinado pelos moradores da Campanha pedindo a demarcação do termo
da nova vila pelo Rio Grande; acórdão da Câmara pelo qual se registraram os protestos da
Câmara de São João del-Rei; acórdão sobre o oferecimento de uma consignação voluntária
para aumento das rendas públicas; patente do capitão-mor regente; importâncias das rendas
públicas do primeiro ano; ordem régia sobre as procissões e as propinas da Câmara de São
João del Rei; atestações dos professores; certidão das propinas que anualmente costumam
levar os juízes de fora da cidade de Mariana. AHU, Cons. Ultramarino/Brasil, códice n. 2166.
16. Memórias municipais, p. 527-537. Não sei precisar até quando a Câmara enviou a terça
parte das rendas anuais da vila para os “alfinetes” da Princesa. Provavelmente, deve ter sido
até o retorno de d. João VI a Portugal. A renda anual da Câmara, entre 1812 e 1814, atingiu a
quantia de 11:368$531. A terça parte deste valor, ou seja, 3:789$510, foi destinada aos “alfinetes”
da princesa, remetida em dinheiro no dia 12 de dezembro de 1815, “em um cofre que há de
ser entregue a mesma Augusta Senhora, defendido por outro de madeira e a suas respectivas
chaves o acompanham a esta em uma bolsa que vai aberta até a tesouraria da Junta Real
de Vila Rica a quem dirigimos o dito cofre...” AN, Série Interior, Negócios de províncias e
Estados, Correspondências enviadas pelas câmaras. IJJ9 525. Na sessão ordinária da Câmara,
datada de 30 de outubro de 1840, existe uma referência a um livro que estava arquivado e que,
em outros tempos, “servia de receita e despesa da terça pertencente à rainha...”. CEMEC-SM,
atas da Câmara Municipal de Campanha, CAMP LAC 03-(1839-1841), p. 107.

38
Mapa 1
Extensão do termo da vila da Campanha da Princesa – 1800

Fonte: AHU − Cons. Ultramarino/ Brasil − Códice nº 2.166 − O mapa é o último docu-
mento que vem anexo ao Livro de criação da vila da Campanha da Princesa (1799-1800),
com 47 folhas, das quais quatro em branco.

Sob protestos da Câmara de São João del-Rei, o arraial foi elevado à


categoria de vila mediante alvará de 20 de outubro de 1798, mas o auto de
criação se deu mais de um ano depois, em 26 de dezembro de 1799.17 Em 1800,
foi feita a demarcação do termo, tendo o rio Grande como limite natural
entre as duas vilas confinantes (ver Mapa 1). Realizaram-se a eleição e a posse
dos primeiros vereadores da Câmara e do juiz de fora e criaram-se vários
cargos de escrivão de ofícios, que atendessem às necessidades da Câmara e
da administração da justiça. As disputas entre as duas vilas ainda perdura-
ram um pouco mais, já que a Câmara de São João del-Rei não concordava
em que as freguesias de Lavras do Funil, Baependi e Pouso Alto fizessem

17. Memórias municipais, p. 469-470.

39
parte do termo da vila recém-criada. Depois de muita discussão, a Câmara
da vila da Campanha da Princesa resolveu ceder o território da freguesia
de Lavras do Funil, mantendo as outras duas freguesias sob sua jurisdição.18
Ao que parece, a emancipação da vila de Campanha não se resumiu
a uma simples disputa com a Câmara de São João del-Rei. O crescimento
econômico e demográfico e a defesa dos interesses de alguns “homens bons”
daquela área foram os motivos centrais da reivindicação e suas origens
remontam à Inconfidência Mineira. Como afirma João Pinto Furtado, não
se tratava de mera coincidência “o fato de que exatamente aqueles focos
de maior rebeldia da comarca do Rio das Mortes tenham sido, logo após a
repressão do levante, os primeiros (e únicos) locais atendidos no seu antigo
desejo de serem alçados à condição de vila”. A comarca do Rio das Mortes
conquistou duas novas câmaras, dentre elas, a de Campanha, o que não
era pouco, uma vez que a capitania de Minas teve apenas 14 vilas ao longo
do período colonial.19 Embora a emancipação tenha ocorrido somente em
1799, a solicitação havia sido feita em 1795 e, a considerar a contestação da
Câmara de São João del-Rei, parece que, logo após o levante, os “homens
bons” do arraial da Campanha do Rio Verde pleitearam a criação da vila.
O Ilmo. e Exmo. sr. Visconde de Barbacena criou três vilas no tempo do
seu governo: Tamanduá, Queluz e Barbacena: a utilidade dos povos
foi o móvel desta ação: mas a experiência lhe mostrou que elas foram
mais para a sua ruína do que para o seu bem, e suspendeu o desígnio de
criar outras, como era a mesma Campanha e Piranga. Estas novas vilas
não têm um advogado, que entenda as leis, e por isso têm acolhido em
si requerentes, escreventes e rábulas, que têm sido corridos de outras
partes por turbulentos, ou vão fugidos por criminosos: são estes os seus
advogados...20 (grifos meus)

No final de 1799, a Câmara discutiu as formas de taxação para cobrir


as despesas com a construção da casa da Câmara e da cadeia, de pontes e

18. Ibidem, p. 508-511.


19. João Pinto Furtado, O manto de Penélope: história, mito e memória da Inconfidência
Mineira de 1788-9, p. 159-160.
20. AHU, “Carta de Bernardo José de Lorena, governador das Minas, para d. Maria I...”,
14/4/1798, caixa 144, doc. 20, p. 5.

40
chafarizes e com o calçamento das ruas. A documentação publicada pelo
Arquivo Público Mineiro traz algumas informações, ainda que genéricas,
sobre as principais atividades econômicas desenvolvidas na região e que
fizeram a fortuna e a riqueza de alguns fazendeiros, na primeira metade
do século XIX. Os vereadores sugerem a taxação de um vintém de ouro
por cada barril de cachaça que saísse dos engenhos e a mesma quantia por
cada arroba de tabaco exportada. Também informam a respeito do grande
número de cabeças de gado existente nos largos campos da vila e seu termo,
além da quantidade de toucinho, que também é comercializado fora da vila,
e da necessidade de sua taxação.21
Tão logo d. João VI e sua comitiva se transferiram para a cidade do Rio
de Janeiro, os vereadores da Câmara da vila da Campanha se prontificaram
a fornecer víveres para o abastecimento da Corte. Em fevereiro de 1808,
já haviam conseguido 730 cabeças de gado, 250 capados e outros gêneros.
O toucinho deveria ser enviado no lombo de burros, como já era de costume
nesse tipo de comércio. Remeteriam duzentas cabeças de gado a cada viagem.
A tropa, formada por trinta bestas muares e cinquenta cavalos ferrados, seria
conduzida pelo tenente de milícias Joaquim Inácio Vilas Boas da Gama e dois
soldados do destacamento, acompanhados de um ferrador e vários pedestres.22
Em dezembro de 1815, o juiz de fora e os vereadores da vila solicitaram
a criação de uma nova comarca, tendo a vila da Campanha como sua sede.
Desta vez, o foco de disputa deslocou-se para o território que antes fazia
parte da jurisdição da vila. Com a emancipação dos arraiais de Santa Maria
de Baependi e São Carlos do Jacuí, os vereadores de Campanha se pautaram
nos mesmos argumentos, evocados anos antes pela Câmara de São João,
quando a vila pleiteou sua autonomia. A perda de território e de recursos
só seria compensada com a criação da comarca. Outros argumentos, como
a distância das vilas da região em relação a São João del-Rei, também foram
mencionados. Os camaristas e o juiz de fora reivindicavam que as duas
vilas recém-criadas e as que fossem criadas posteriormente no seu territó-
rio ficassem sob a jurisdição da nova comarca. As vilas recém-criadas de

21. Memórias municipais, p. 479.


22. Ibidem, p. 543.

41
Baependi e São Carlos do Jacuí foram consultadas e não aceitaram a cria-
ção de uma nova comarca, nem tampouco ficar sob a jurisdição da vila da
Campanha, alegando que não havia homens formados e com competência
para preenchimento dos cargos. A Câmara de Baependi argumentava que
sofria vexames na administração da justiça quando ainda era arraial, daí a
reivindicação de sua autonomia. Pertencer à nova comarca representaria a
submissão novamente.23

2. A vila da Campanha da Princesa: aspectos demográficos


e econômicos
Embora o período escolhido para análise se refira à primeira metade
do século XIX, é importante apontar como o termo da vila da Campanha
foi se tornando um polo de atração, especialmente na segunda metade do
XVIII. Infelizmente, não se dispõe de dados estatísticos populacionais para
o século XVIII, mas, considerando os números absolutos de batizandos por
década, assim como fez Sheila de Castro Faria para a região de Campos dos
Goytacazes, no Rio de Janeiro, é possível identificar o aumento significativo do
número de batizados, especialmente a partir da década de 1770.24 (ver tabela 1)

Tabela 1
Número absoluto de batizados por década Campanha –
Baependi – Aiuruoca
Décadas nº %
1741-1750 270 2
1751-1760 1.116 7
1761-1770 1.685 11
1771-1780 2.299 15
1781-1790 2.568 16
1791-1800 2.731 17
1801-1810 4.977 32
Total 15.646 100

Fonte: ACDC, Registros paroquiais de batismo de Campanha (1741-1810).

23. Ibidem, p. 557.


24. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 170.

42
Já na primeira década do século XIX, esse número aumenta signi-
ficativamente, confirmando o que tem apontado a historiografia sobre o
crescimento demográfico verificado na comarca do Rio das Mortes nesse
período. Em 1821, esta detinha 41,6% do total de habitantes da capitania,
totalizando 213.617 pessoas.25
João Pinto Furtado também destaca a importância demográfica e
econômica da comarca do Rio das Mortes, ao analisar o sequestro dos
bens dos inconfidentes que residiam naquela região. Mais da metade de-
les provinha daquela comarca e concentrava acima de 90% dos recursos
sequestrados, e grande parte dedicava-se às atividades agropastoris, com-
binadas com a mineração.26
Na primeira metade do século XIX, o termo da vila da Campanha da
Princesa, juntamente com outras vilas da comarca do Rio das Mortes, irá
adquirir maior dinamismo, atestado pelo crescimento populacional e pela
importância de algumas atividades econômicas voltadas para o abastecimento
interno e as ligações mercantis com a Corte.27
Para o ano de 1824, existem alguns dados populacionais expressivos
sobre as freguesias que compunham o sul-mineiro, visitadas por dom Frei
José da Santíssima Trindade, bispo de Mariana, entre 1820 e 1835. A região
era composta pelas freguesias de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca,
Santa Maria de Baependi, Conceição do Pouso Alto, Santa Catarina, São
Gonçalo e Santo Antônio da Campanha, atingindo um total estimado em
47.348 habitantes. As freguesias mais populosas eram as de Pouso Alto
(13.516), Aiuruoca (11.484), Campanha (8.788) e Baependi (7.560).28
Os dados referentes à população do termo da vila nem sempre são
claros o suficiente para se perceber o comportamento demográfico da área
investigada. Foi necessário partir de fontes diversas para traçar um quadro

25. Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira – Brasil e Portugal


(1750-1808), p. 110.
26. João Pinto Furtado, O manto de Penélope, p. 90-91.
27. O trabalho pioneiro a apontar a importância da região centro-sul de Minas Gerais e
suas ligações com o abastecimento interno e da Corte foi elaborado por Alcir Lenharo. Este
estudo será retomado em várias partes do trabalho, à medida que as fontes forem analisadas.
Cf. Alcir Lenharo, As tropas da moderação.
28. Dom Frei José da Santíssima Trindade, Visitas pastorais de dom Frei José da Santíssima
Trindade (1821-1825), p. 210-227.

43
geral da população da vila e seu termo, considerando o número absoluto e
o percentual de livres e de escravos.
Em Minas Gerais, a primeira metade do século XIX será marcada
pelo desmembramento, pela supressão e criação de novos distritos, vilas
e comarcas, justamente em função do crescimento demográfico e das de-
mandas de várias localidades, como se teve oportunidade de demonstrar
no caso de Campanha. Conforme constata Afonso Alencastro Graça Filho,
as subdivisões jurídico-administrativas a que se submeteu a capitania de
Minas foram marcadas por extrema maleabilidade.29 Até 1833, a comarca
do Rio das Mortes compreendia oito termos: Barbacena, Queluz, São José
del-Rei (atual Tiradentes) , São João del-Rei (cabeça da comarca); Baependi,
Campanha, São Bento do Tamanduá e São Carlos do Jacuí. Em 30 de junho
daquele mesmo ano, foram criadas as comarcas do Rio Paraibuna, agrupando
os municípios de Barbacena, Baependi e Pomba, e a do Rio Sapucaí, tendo
Campanha como cabeça da comarca, mais os termos de Pouso Alegre e São
Carlos do Jacuí.30
Não se está partindo da subdivisão jurídico-administrativa para a de-
limitação do recorte espacial, uma vez que o próprio objeto transcende a
geografia administrativa complexa e, muitas vezes, confusa, das comarcas,
das vilas e dos distritos. Por outro lado, também é interessante apontar que
as vilas escolhidas para estudo faziam parte do termo de Campanha, pelo
menos até a década de 30 do oitocentos.

29. Para maiores informações sobre as subdivisões jurídico-administrativas da comarca do


Rio das Mortes, ver Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, p. 23-32.
30. Ibidem, p. 27. Para outras discussões sobre o assunto, ver Raimundo J. da Cunha Matos,
Corografia histórica da província de Minas Gerais (1837), p. 88; Theophilo Feu de Carvalho,
Comarcas e termos, p. 122.

44
Tabela 2
População livre e escrava da comarca do Rio das Mortes e dos termos de
Campanha e Baependi
Livres Escravos Total
Ano Área
no % no %

1821¹ Comarca do Rio das Mortes 138.517 66,1 71.147 33,9 209.664

Campanha 29.317 75,0 9.595 25,0 38.912

Baependi 19.012 64,0 10.523 36,0 29.535

1832² Campanha* 19.667 65,0 35,0 30.340


10.673
Baependi** 10.199 56,0 44,0 18.186
7.987
1833-35³ T. de Campanha 25.130 69,0 11.335 31,0 36.465

T. de Baependi 26.240 60,0 17.767 40,0 44.007

*A população total do termo é de 36.467 habitantes. Não foram computadas as 6.126


pessoas para as quais não há informação sobre a condição. Os 1.647 forros foram inclu-
ídos entre a população livre.
**A população total do termo é de 19.671 habitantes. Os 320 forros foram incluídos entre
a população livre.
Fontes: 1. Silva Pinto, População da província de Minas Gerais – 1821, em Raimundo José
da Cunha Matos, Corografia histórica da província de Minas Gerais (1837), v. 2.
2. APM, Lista nominativa dos habitantes de alguns distritos do termo de Campanha e
Baependi; 1831-32. Banco de dados montado por equipe de pesquisadores do CEDEPLAR-
UFMG, sob a coordenação da profa dra Clotilde Paiva. Original: Arquivo Público Mineiro;
3. APM, Mapas de população de 1833-35. Documentação pertencente ao APM, reprodu-
zida e corrigida pelas pesquisadoras Clotilde Andrade Paiva e Maria do Carmo Salazar
Martins – CEDEPLAR/UFMG.31

Os dados apresentados na tabela acima, elaborada com base em várias


fontes, indicam que, na primeira metade do século XIX, houve um cresci-

31. Esta documentação foi produzida por iniciativa do governo provincial mineiro, a partir
de um decreto de 17 de julho de 1832, encarregando os juízes de paz dos diversos distritos da
província do preenchimento de um mapa-padrão, dele constando os dados da população de
seus respectivos distritos, discriminando a condição livre ou escrava, a cor, o estado civil
e o sexo. Tudo indica que os mapas começaram a ser preenchidos em 1833, estendendo-
se até o ano de 1835. Existem dados para 330 distritos da província, representando 79,6%
dos distritos existentes em Minas no período. Para uma análise mais geral dos dados, ver
Maria do Carmo Salazar Martins, Revisitando a província: comarcas, termos e distritos e
população de Minas Gerais em 1833-35, p. 12-29.

45
mento significativo da população na área, confirmando o dinamismo socioe-
conômico da comarca do Rio das Mortes, já apontado em vários trabalhos.32
Antes de proceder à análise dos dados, é preciso considerar alguns
aspectos relativos às fontes consultadas, que respondem à variação e à discre-
pância de algumas informações de um período para o outro. Primeiramente,
os dados referentes à população de Aiuruoca não vêm em separado porque
a mesma pertencia ao termo de Baependi. Para o ano de 1832, encontra-se
grande redução no número de habitantes do município de Baependi, con-
siderando o período anterior e posterior. A explicação está na ausência de
alguns distritos importantes, que pertenciam ao termo, e que não constam
das listas nominativas de 1832, incluindo a própria sede da vila. Já para
Campanha, os números se mantêm praticamente iguais para a década de 30,
considerando aquela parcela da população de 1832 para a qual não constam
informações sobre a condição.
Como apontado na tabela 1, a partir da década de 1770, verifica-se um
crescimento significativo do número absoluto dos batizados, sinalizando
que a área estava se tornando um polo de atração de pessoas, em virtude
da expansão das atividades agropecuárias já consolidadas na região. Este
ponto será objeto de investigação no tópico seguinte, quando será realizado
um mapeamento das principais atividades econômicas praticadas em várias
vilas e distritos, por meio da análise dos inventários. O que mais chama
a atenção nessa tabela é o percentual significativo da população dos dois
termos, considerando o total de habitantes da comarca do Rio das Mortes,
o que denota a importância estratégica e econômica da região, motivo pelo
qual os moradores reivindicaram o status de vila, em 1795. A população dos
dois termos respondia, aproximadamente, por quase 33% do total de habi-
tantes da comarca. O crescimento demográfico da região explica a oposição

32. Este aspecto foi salientado em trabalhos mais antigos, já citados. Estudos recentes, mais
focalizados na comarca e fundamentados em extensa documentação regional, resultaram
na elaboração de algumas teses de doutorado de grande importância para se compreender
o dinamismo econômico e populacional da comarca do Rio das Mortes. Estabelecerei um
diálogo com o resultado dessas pesquisas, na medida em que houver necessidade de com-
paração com os dados encontrados para o termo de Campanha. São os seguintes trabalhos:
Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste; Carla Maria Carvalho de Almeida,
Homens ricos, homens bons; Silvia M. Jardim Brügger, Minas patriarcal.

46
ferrenha da Câmara de São João del-Rei em relação à emancipação do arraial
da Campanha do Rio Verde.
O primeiro estudo demográfico sobre a população livre e escrava do
termo de Campanha foi elaborado por Clotilde Paiva e Herbert Klein, con-
siderando variáveis como idade, sexo, origem, estrutura ocupacional e dis-
tribuição da população escrava entre os senhores.
Embora os escravos não ultrapassassem 30% do total da população
da vila, destoando do restante dos municípios da província, cerca de 46%
eram de origem africana e representavam 14% do total dos habitantes do
município.33 Este percentual é característico de regiões onde predominava
a “grande lavoura” e a produção voltada para o mercado internacional.34
Outra indicação significativa da tabela é o peso que a população escrava
tinha no termo de Baependi. Desde a década de 1820, ultrapassava a cifra
dos 35% em relação ao total. É especificamente nesse termo que encontrei
vários proprietários superando a faixa de trinta escravos, outros, acima de
cinquenta, e dois com mais de cem, coisa rara no cenário provincial mineiro.35
Douglas Cole Libby, ao analisar em conjunto as listas nominativas de
1831-32, constata que, dos quase vinte mil domicílios analisados, cerca de dois
terços não possuíam escravos.36 Embora a posse de escravo fosse privilégio
de aproximadamente um terço da população livre, a grande maioria desses
proprietários, ou seja, quase dois terços, possuíam de um a cinco escravos.
Ainda que houvesse uma disseminação da posse escrava entre os pequenos

33. Partindo das mesmas fontes e utilizando a base de dados elaborada por Clotilde Paiva,
o total da população do termo vai além dos 35 mil encontrados pela autora, incluindo
aqueles sobre os quais não há informações relativas à condição. O percentual da população
escrava também é um pouco superior, atingindo a casa dos 35%. Isto pode ser explicado
porque excluí do cálculo as 6.126 pessoas para as quais também não constam informações
sobre a condição. Agregando este número ao conjunto da população livre, o percentual
é semelhante ao encontrado por Clotilde Paiva. Cf. PAIVA, Clotilde e KLEIN, Herbet S.
“Escravos e livres nas Minas Gerais do século XIX: Campanha 1831. São Paulo, Estudos
Econômicos, 22(1), jan/abr, 1992.
34. É o caso do município açucareiro de Itu, em 1829, onde os escravos africanos represen-
tavam 48% do total. Ibidem, p, 135.
35. Esta questão será objeto de investigação no próximo capítulo, quando serão analisados,
no conjunto, os dados dos inventários de que constam vinte escravos ou mais para a vila
de Campanha.
36. Douglas Cole Libby, Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas
Gerais no século XIX, p. 97.

47
proprietários, o índice de concentração dos cativos entre os médios e os
grandes era muito alto, formando o que o autor define como a “elite local”
do sistema escravista.37
Para se entender o funcionamento de uma sociedade pautada no tra-
balho escravo, é fundamental verificar como se estruturava, considerando
a posse ou não de cativos. No caso de Campanha, em 1831-32, cerca de 30%
da população livre possuía escravos,38 e aproximadamente dois terços dos
proprietários tinham de um a cinco, confirmando o padrão encontrado
para o restante da província. A distinção mais importante fica por conta dos
proprietários de nível médio e daqueles que estavam no topo da pirâmide
social escravista, ou seja, os que possuíam vinte cativos ou mais. Embora
juntos representassem pouco mais de um terço da camada proprietária,
concentravam mais de dois terços da população escrava. Os senhores com
vinte escravos ou mais concentravam sozinhos nada menos que um terço
dos cativos.

Tabela 3
Estrutura de posse de escravos em Campanha (1831-32)
Faixas de escravaria Fogos % Escravos %
1a5 1074 66 2.504 25
6 a 10 462 28 4.500 44
20 ou mais 97 6 3.204 31
Total 1633 100 10.208 100

Fonte: APM, Listas nominativas (1831-1832) do termo de Campanha. Tabela elaborada


de acordo com a tabela 10 do artigo de Clotilde A. Paiva e Herbert S. Klein, Escravos e
livres nas Minas Gerais do século XIX; Campanha 1831, p. 145.

Douglas Libby também constata que, dos 6.583 domicílios com escravos,
apenas 163 tinham mais de trinta. Unidades escravistas com mais de cem
cativos seriam raridade no cenário mineiro, não chegando a ultrapassar o
número de seis domicílios.39 Apenas 42, em toda a província, possuíam entre

37. Ibidem, p. 82.


38. Clotilde Andrade Paiva e Herbert S. Klein, op. cit., p. 136.
39. Douglas Cole Libby, op. cit., p. 98.

48
cinquenta e cem. Embora esteja trabalhando com um período mais amplo
e com base em outro escopo documental, é interessante verificar o que os
inventários têm a revelar sobre a estrutura de posse de cativos.
O critério de escolha, para definir como grande proprietário aquele
senhor que possuía vinte escravos ou mais, está diretamente relacionado à
pesquisa com as fontes. Verificou-se, nos inventários de Campanha, que a
maioria das grandes unidades escravistas oscilava em torno desse núme-
ro, ou seja, dos 64 maiores proprietários, 35 (56%) possuíam de vinte a 29
escravos, concentrando 943 (40%) deles. As unidades com mais de trinta
somavam quinze (24%), concentrando 588 (30%) escravos. Eram quinze
as unidades com mais de trinta (24%), concentrando 588 (30%) escravos.
Também havia um número expressivo de senhores com mais de cinquenta
escravos. Tratava-se de 13 (20%) proprietários que concentravam 826 (30%)
deles. Para Campanha, localizei apenas um proprietário que possuía acima
de cem escravos (ver tabela 4).
Embora os inventários não sejam a melhor documentação para discutir
estrutura de posse de escravos, o que importa destacar é que, neles, os níveis
de concentração da propriedade escrava são muito expressivos e revelam a
importância econômica da região na primeira metade do século XIX. Mais
de 12% dos senhores detinham acima de 45% da escravaria do município,
ou seja, 64 proprietários concentravam 2.357 cativos.

Tabela 4
Estrutura de posse de escravos em Campanha (1802-1865)
Faixas de escravaria nº de proprietários % nº de escravos %
1a5 222 44 611 12
6 a 19 216 43 2.189 42
20 ou mais 64 13 2.357 46
Total 499 100 5.157 100

Fonte: CEMEC–SM, Inventários post mortem de Campanha.


Obs: unidades não escravistas – 59.

O que primeiramente chama a atenção nos dados apresentados é que


a comarca do Rio das Mortes apresenta unidades escravistas à altura das

49
propriedades voltadas para a agroexportação. Esta hipótese – que também
considero apropriada – foi levantada por Afonso Alencastro Graça Filho, ao
estudar a elite mercantil e a economia de subsistência em São João del-Rei,
no período de 1831 a 1888. Os dados encontrados nesta pesquisa para o termo
de Campanha são muito aproximados dos que o autor encontrou para o de
São João del-Rei. Dos 103 maiores fazendeiros sanjoanenses, 54 possuíam
mais de trinta cativos. Os proprietários de mais de cinquenta totalizavam
22. Apenas dois deles tinham acima de cem.40 A média de escravos entre os
grandes proprietários de Campanha também era quase igual, ou seja, de 37
escravos, enquanto para São João del-Rei era de 36.41
É interessante comparar esses dados com os de algumas regiões es-
cravistas do Império, para perceber certas semelhanças com determinadas
áreas agroexportadoras e as diferenças com outras, voltadas para o abaste-
cimento interno.
Stuart B. Schwartz, ao classificar as ocupações no Recôncavo Baiano
segundo o número de escravos, constata que, 7,7% dos proprietários, ou seja,
165 senhores de engenho, possuíam em média 65 cativos.42 Evidentemente,
trata-se aqui de unidades escravistas voltadas para a agroexportação e daí
o número médio de escravos ser bem superior.
Para o caso do Rio de Janeiro, na localidade do Capivari, Hebe Mattos
encontra, para a segunda metade do século XIX, os maiores proprietários
com posses que oscilavam entre vinte e trinta escravos.43 A autora trabalhou
com uma área que não se situava no vale do Paraíba fluminense; embora
os fazendeiros cultivassem café, tratava-se de uma economia voltada para
o abastecimento interno.
Renato Leite Marcondes, ao estudar a gestação da economia cafeeira
no vale do Paraíba paulista, mais precisamente em Lorena, constata que,
em 1829, o maior nível de concentração da escravaria estava entre os pro-
prietários que possuíam vinte escravos ou mais.44

40. Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, p. 125-128.


41. Ibidem, p. 125.
42. Stuart B. Schwartz, Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, p. 360-367.
43. Hebe Maria Mattos, Ao sul da história, p. 41.
44. Renato Leite Marcondes, A arte de acumular na economia cafeeira: vale do Paraíba,
século XIX, p. 89-91.

50
Os casos apresentados são suficientes para demonstrar que os dados
encontrados para a comarca do Rio das Mortes, e particularmente para o
termo de Campanha, são grandes indicadores da importância da mão de
obra escrava nas fazendas daquela região e se aproximam dos índices obtidos
para as áreas agroexportadoras.
Como podem ser caracterizadas as fazendas sul-mineiras? Quais os
tipos de atividade econômica mais comuns na região, que demandavam
tanta mão de obra escrava? Na tentativa de responder a essas e a outras
questões, foi feito um mapeamento da economia local a partir da análise de
475 inventários, tendo sido possível identificar a atividade produtiva, entre
1802 e 1865. Mas, antes disso, é importante tecer algumas considerações a
respeito das fontes e da metodologia utilizadas para este tipo de investigação.
Em primeiro lugar, deve-se lembrar que os inventários campanhenses
estão sub-representados, se considerarmos a importância socioeconômica
e política da vila e o número total de documentos existentes para o século
XIX, cujo acervo completo consta de 983 processos.45 Em razão disso, não
foi possível estabelecer uma amostra por décadas e optou-se por traba-
lhar com todos os inventários existentes para a primeira metade do século.
Os correspondentes ao XVIII são inexpressivos e não ultrapassam seis do-
cumentos, sendo que alguns se encontram bastante deteriorados. Também
decidiu-se por transcender um pouco o recorte cronológico final, não so-
mente em virtude das razões apontadas, mas também porque as fortunas
acumuladas no momento da execução do inventário foram amealhadas na
primeira metade do século XIX46.

45. No final de 2001, divulguei, em forma de CD-ROM, um guia detalhado dos acervos
históricos campanhenses, dentre eles a relação nominal dos inventariantes e inventariados
no século XIX. Cf. Marcos Ferreira Andrade e Maria Tereza Pereira Cardoso, Campanha
da Princesa...
46. A primeira vez em que tive contato com os inventários campanhenses foi no período
em que coordenava as atividades do projeto Memória Cultural do Sul de Minas. Este acervo
encontrava-se no arquivo da Cúria Diocesana de Campanha, sob a responsabilidade do mons.
José do Patrocínio Lefort. Além de exercer as suas funções sacerdotais, ele dedicou grande
parte de sua vida a estudos históricos e genealógicos, tendo publicado alguns livros, artigos,
anuários eclesiásticos, entre outros, que contemplavam vários aspectos da história do Sul
de Minas. Durante a sua existência, coletou, ordenou e preservou conjuntos documentais
importantes da região. Organizou e encadernou todo o acervo da Cúria Diocesana, além
de outros conjuntos documentais não propriamente eclesiásticos. Tive oportunidade de

51
Ainda que esses inventários estejam sub-representados, como já re-
ferido, e que grande parte da documentação cartorial relativa ao termo de
Campanha se tenha perdido,47 os inventários revelam muito sobre a estrutura
socioeconômica e a vida material da área em estudo.
As fontes cartoriais, mais precisamente os inventários, têm sido larga-
mente usadas por historiadores e com propósitos e metodologias diversas.
Diversas pesquisas, realizadas ao longo da década de 1980, contribuíram
muito para o estudo da estrutura econômica e agrária brasileira, calcadas
nesse tipo de fonte.48
Do ponto de vista metodológico, a análise desse conjunto de inventários
se aproxima muito do procedimento e da percepção adotada por Sheila
de Castro Faria, quando analisou a trajetória de indivíduos e famílias que
tiveram seus bens inventariados na região dos Campos dos Goytacazes,
Rio de Janeiro, século XVIII. Como bem percebe a autora, assim como
uma fotografia, os inventários retratam um momento específico da vida
material das pessoas, mas, se tratados em conjunto, é possível “captar o(s)
movimento(s). Pode-se, por exemplo, agregar inventários em grupos espe-
cíficos e perceber trajetórias de vida que se assemelham, estabelecendo-se
padrões de conduta e de produção”.49

conhecê-lo e de ter acesso ao acervo da Cúria, pela primeira vez, quando finalizava minha
pesquisa de mestrado. Após a sua morte, os acervos não produzidos pela Cúria foram
distribuídos entre o Centro de Memória Cultural do Sul de Minas e o Centro de Estudos
Campanhense Mons. Lefort, que recebeu este nome em justa homenagem ao seu valioso
trabalho de preservação dos documentos históricos da cidade de Campanha e região.
47. Da documentação criminal, por exemplo, não restou praticamente nada relativo ao sé-
culo XIX. O primeiro conjunto documental que fez parte do acervo do Centro de Memória
Cultural do Sul de Minas, e cuja incineração conseguimos evitar, tem apenas duas caixas
correspondentes ao final do século XIX. Certamente não houve a preocupação de preservar
esses documentos. Alguns poucos livros cartoriais ainda estão em poder dos cartórios da
cidade. Para maiores detalhes sobre os acervos históricos de Campanha, ver o CD-ROM
Campanha da Princesa...
48. Alguns trabalhos merecem destaque pelas contribuições em termos metodológicos e
pelo uso extensivo dessas fontes. Como trabalho pioneiro não deve ser esquecida a obra
de Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante. Entre os vários estudos realizados
nas décadas de 1980 e 1990, destaco os seguintes: Zélia Cardoso de Mello, Metamorfoses
da riqueza: São Paulo, 1845-1895; João Luís Ribeiro Fragoso, Homens de grossa aventura:
acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830); Kátia M. de
Queirós Mattoso, Bahia – século XIX: uma província no Império; Sheila de Castro Faria,
A colônia em movimento: fortuna e família no Brasil colonial.
49. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 225

52
Serão verificadas as principais atividades econômicas desenvolvidas,
considerando o número de escravos que cada grupo de proprietários possuía,
com o intuito de fazer um mapeamento da economia local, bem como dos
seus principais agentes. Sempre que possível, alguma trajetória individual
ou familiar ilustrará a situação.
Na tabela adiante, a intenção foi a de classificar as unidades produtivas
por tipo de atividade. A classificação adotada permite perceber que tipos de
atividades eram mais recorrentes entre os proprietários, indicando também
o padrão das fazendas sul-mineiras. Mas, antes disto, é preciso explicar
os critérios para tal classificação. Optou-se por contabilizar os inventá-
rios, considerando a atividade mais importante implementada por cada
proprietário, embora vários desenvolvessem atividades consorciadas. Um
fazendeiro poderia ser dono de engenho, criar gado, produzir alimentos e
ainda dedicar-se ao pequeno comércio de loja ou ao comércio de tropas e,
também, à mineração. Como bem lembra Kenneth Maxwell, a fazenda de
Minas “combinava o engenho de açúcar com a mina, ou esta última com a
pecuária”. O autor até cita como exemplo o caso de Alvarenga Peixoto, um
dos inconfidentes, que possuía propriedades no arraial de São Gonçalo do
Sapucaí, pertencente ao termo de Campanha, dedicadas à mineração, ao
engenho de açúcar e à criação de gado.50 De início, procurou-se separar as
atividades para perceber sua importância na região e quantos proprietários
estavam mais diretamente envolvidos na sua execução. O consórcio de ati-
vidades será verificado no momento em que se discutir o que produziam as
pessoas inventariadas, segundo o tipo de unidade (escravista e não-escravista)
e a faixa de escravaria.
Portanto, foram considerados agricultores aqueles indivíduos que tinham
arrolado entre seus bens algum tipo de produção de alimentos (milho, feijão,
arroz, mandioca); como pecuaristas, todos os que se dedicavam exclusiva-
mente à criação de animais (gado, cavalos, bestas, porcos e ovelhas); e como
agropecuaristas todos os proprietários que aparecem claramente envolvidos
com as duas atividades, ou seja, os que se dedicavam à plantação e coleta de
alimentos bem como à criação de animais. O número de donos de lavras

50. Kenneth Maxwell, A devassa da devassa..., p. 111.

53
foi listado com o objetivo de se perceber o peso da mineração, sobretudo
no arraial de São Gonçalo da Campanha, mas esta nunca era uma atividade
isolada, como será verificado. O mesmo caso se aplica aos inventariados que
se dedicavam ao comércio e aos engenhos de açúcar. Dos 558 inventários
analisados, não foram encontradas indicações claras que permitissem inferir
o tipo de atividade desenvolvida para 83 inventariados. Em alguns casos,
trata-se de inventários incompletos, com a descrição somente de alguns bens
e/ou escravos; outros parecem indicar que os proprietários eram moradores
na vila. A respeito de alguns, é possível especular que se dedicassem a ofícios
mecânicos, tais como ferreiro, sapateiro, marceneiro etc., em razão dos bens
arrolados; já outros parecem ter vivido do ganho de um ou mais escravos.

Tabela 5
Número de proprietários por tipo de unidade produtiva
Faixa de escravaria nº de
Tipos de unidade produtiva %
S/E F1 (1 a 5) F2 (6-19) F3 (+ de 20) proprietários

Agrícola 6 3 1 10 2
Pecuarista 30 92 85 5 212 45
Agropecuária 8 51 67 20 146 31
Mineração 6 3 6 15 3
Comércio 3 7 5 3 18 4
Engenho de açúcar 6 39 29 74 16
Total 41 168 202 64 475 100

Fonte: CEMEC–SM, Inventários post mortem de Campanha.

O que primeiramente chama a atenção é que a grande maioria dos fa-


zendeiros do Sul de Minas se dedicava à produção de alimentos e à criação
de animais. O percentual reduzido dos que se dedicavam exclusivamente à
agricultura está explicado pelos critérios adotados para a elaboração da tabela.
Embora alguns inventários dos pecuaristas não apresentassem produção de
mantimentos no momento em que foram redigidos, muitos deles possuíam
sítios, fazendas, “terras de cultura e campos de criar”, como denominavam
os inventários e, certamente, cultivavam algum tipo de alimento, seja para a
própria subsistência, seja para o trato dos animais. Os estudos recentes para

54
a comarca do Rio das Mortes apresentam quadros semelhantes.51 Talvez a
grande diferença para o termo de Campanha esteja no peso e na importância
daqueles fazendeiros que também se dedicavam ao plantio da cana para a
produção de açúcar e/ou aguardente. Por isto, optou-se por demonstrar
quantos proprietários se dedicavam a este tipo de atividade. Verifica-se que
16% (74) estavam envolvidos diretamente com o plantio de cana e a produção
de açúcar e/ou aguardente, sendo que 29 estavam entre os que detinham
maior número de cativos. São números expressivos e que demonstram a
importância da produção de açúcar, rapadura e aguardente na região.

2.1 Terras de cultura e campos de criar

Vi-me diante de uma enorme extensão de colinas arredonda-


das, cobertas unicamente por um capim acinzentado, entre as
quais se viam aqui e ali tufos de árvores verde-escuros, como
que jogados ao acaso. Entrei na região dos campos.52

Esta foi a primeira impressão que o botânico francês Saint-Hilaire


teve da comarca do Rio das Mortes, em 1819, mormente na área demar-
cada pelo Rio Grande, contrastando com a região das florestas. Segundo
o autor, a serra da Mantiqueira era o limite natural entre as duas regiões.
Como o botânico cruzou o território mineiro algumas vezes, entre 1816 e
1822, percorrendo trajetos distintos,53 isto lhe possibilitou destacar algumas
diferenças marcantes em certas localidades da comarca, como em Baependi
e Aiuruoca. Este informava que, mais ao sul da capitania, entre Baependi e

51. Este é o mesmo cenário encontrado por Afonso Alencastro Graça Filho, para o termo de
São João del Rei, entre 1831 e 1888. Ver A princesa do Oeste, p. 113-159. Carla Maria Carvalho
de Almeida, embora tenha verificado um pequeno decréscimo da atividade agropecuária
no período de 1770-1822 para a comarca do Rio das Mortes, constata que era justamente
nesta atividade que estava concentrado o maior número de proprietários. Ver Homens
ricos, homens bons, p. 100-101.
52. Augusto de Saint-Hilaire, Viagem às nascentes do rio São Francisco, p. 45.
53. Para ver os itinerários de viagem (mapas e roteiros) dos principais viajantes que cruzaram
o território mineiro, principalmente Saint-Hilaire, ver Marcelo Godoy, Intrépidos viajantes
e a construção do espaço, p. 78-98.

55
Córrego Fundo, havia um trecho de quase nove léguas inteiramente coberto
de matas.54 A região próxima da vila de Aiuruoca era mais montanhosa e
possuía muitas matas.
É justamente nessa parte do território mineiro que a atividade agrope-
cuária irá se expandir significativamente. “As terras de cultura e os campos
de criar”, como denominam os inventários, irão garantir a sobrevivência de
pobres e sitiantes e farão a fortuna de alguns grandes fazendeiros.
O capitão Antônio Luiz Pinto, residente na freguesia de Santa Ana do
Sapucaí, pode ser considerado grande agropecuarista. Pelo seu inventário,
realizado em 1836, possuía 24 escravos que, certamente, estavam ocupados
nas atividades agropastoris. Em sua propriedade, havia 55 vacas com cria,
111 ditas “solteiras”, 27 bois novos, dez bois de carro, 41 novilhos, 74 vitelos
e vitelas, além de mais uma dezena de animais cavalares e algumas bestas
arriadas. O número de porcos também era expressivo: 101 de criar, 17 ce-
vados e 101 pequenos. Entre as culturas, destacava-se o milho, com alguns
alqueires já plantados e outros em ponto de colher.55
A importância que as atividades agrárias adquiriram na região pode
ser constatada não só pelo número de proprietários qualificados como
agricultores, pecuaristas e agropecuaristas, mas também pela produção de
alimentos e pela criação de animais, como demonstra a tabela 6. O traço
marcante é que todas as unidades produtivas (escravistas ou não) estavam
diretamente ligadas ao plantio e à colheita de alimentos e/ou à criação de
animais. Antônio Martins Coelho, por exemplo, em 1834, quando realizou
o inventário de sua esposa, Ana Inocência de Jesus, era um pequeno pro-
prietário, dono de quatro escravos. Possuía algumas poucas vacas de criar,
novilhas, bois e alguns animais cavalares, além de 15 carros de milho56.
A atividade agropecuária também estava disseminada entre a população
mais pobre. Aqueles que não tinham nenhum cativo, mas que possuíam um
sítio, parte de uma fazenda, ou mesmo nenhuma posse de terra, vivendo
talvez como agregado de alguma propriedade, criavam alguns poucos ani-
mais, geralmente gado, cavalo ou porco, como se verifica pela tabela seguinte.

54. Augusto de Saint-Hilaire, op. cit., nota 2, p. 48.


55. CEMEC-SM, Inventário post mortem do capitão Antônio Luiz Pinto (1836), caixa 08.
56. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Ana Inocência de Jesus (1834), caixa 07.

56
Antônio Correia de Lemos, por exemplo, inventariado em 1835, era dono
de uma parte na fazenda São João, na freguesia de Douradinho, e possuía
duas éguas, uma vaca e uma novilha, além de dois capados57.

Tabela 6
Produção agrícola e criação de animais nas unidades produtivas do termo
de Campanha (1802-1865)
Unidades
Unidades escravistas Total
Produção não-escravistas
agrícola F3 (20 ou
nº % F1 (1 a 5) % F2 (6 a 19) % % nº %
mais)
Milho 3 2 41 24 84 50 40 24 168 100
Feijão     16 23 35 50 19 27 70 100
Arroz 1 1 17 21 43 54 19 24 80 100
Mandioca     3 30 5 50 2 20 10 100
Criação
de animais
Gado vacum 25 7 117 33 159 45 56 16 357 100
Cavalar 30 8 127 33 164 43 59 16 380 100
Bestas 1 2 3 5 29 45 31 48 64 100
Porcos 15 6 76 31 112 46 39 16 242 100
Carneiros 4 3 44 31 71 50 24 17 143 100

Fonte: CEMEC-SM, Inventários post mortem de Campanha.

Os gêneros agrícolas mais comumente encontrados nos inventários


foram o milho, o feijão, o arroz e a mandioca. Os três primeiros faziam
parte da dieta básica da população, além de o milho servir para o trato de
animais, como porcos e galinhas. Dados sobre a produção de mandioca pouco
aparecem nos inventários, mas isto não quer dizer que não fosse largamente
cultivada. Como a região se tornou o principal polo abastecedor da Corte,
especialmente após 1808, há de se compreender a importância que a cul-
tura do milho desempenhava na economia local.58 Conforme demonstrou

57. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Antônio Correia de Lemos (1835), caixa 08.
58. Sobre o assunto, ver Alcir Lenharo, As tropas da moderação, caps. 3 e 4. Afonso Alencastro
Graça Filho (A princesa do Oeste, cap. 3) discute a importância do cultivo e da produção do
milho na região de São João del Rei, chegando a defini-la como “a civilização do milho”.

57
Roberto Martins59 e, mais recentemente, Cláudia Chaves, a exportação de
milho em grão para o Rio de Janeiro ou São Paulo era muito pequena. Mas a
argumentação de Robert Slenes sobre a “exportação indireta desse produto,
em lombo de porco” 60 pode ser considerada a mais adequada. De fato, o
aumento do comércio de suínos (animais vivos e toucinhos) com o Rio de
Janeiro pode ter intensificado o cultivo do milho nas fazendas sul-mineiras.
Embora Saint-Hilaire,61 em passagem pela comarca do Rio das Mortes, tenha
descrito o costume de se utilizarem tubérculos na alimentação dos porcos, a
expressiva quantidade de inventários que apresentaram produção de milho
demonstra o quanto era essencial o seu cultivo, garantindo assim o funcio-
namento e a expansão dos empreendimentos agropastoris (ver tabela 4).
Outro aspecto que confirma a produção de gêneros voltados para o
abastecimento é o número de bestas que havia em várias unidades escravistas.
Certamente, muitas delas eram utilizadas para o comércio de produtos que
interligava a província de Minas ao Rio de Janeiro, e vice-versa.62 Quase a
totalidade das bestas arroladas, ou seja, 93%, estavam nas mãos dos pro-
prietários de nível médio e grande. Cerca de 48% dos maiores fazendeiros
possuíam grande número delas, muitas arreadas, além das casas de tropa,
descritas nos bens de raiz. Em 1833, d. Maria Antônia de Jesus era proprie-
tária de 55 vacas, vinte reses, 19 bois de carro, 25 garrotes e novilhas, além
de nove bestas arreadas, e de uma escravaria de 28 cativos. Os indícios de
que também se dedicava ao comércio de gêneros para o abastecimento
podem ser percebidos pelos 84 queijos, arrolados entre os bens do casal.

59. Roberto Borges Martins, A economia escravista de Minas Gerais no século XIX; Cláudia
Maria das Graças Chaves, Melhoramentos do Brazil: integração e mercado na América
portuguesa (1780-1822), p. 325-341. Ver as tabelas elaboradas pela autora a partir dos mapas
de exportação e importação de Minas através dos principais registros, anexas ao final
de sua tese. Dos 11 registros fiscais analisados pela autora, somente três (Campanha do
Toledo, Malhada e Rio Preto) apresentam alguma produção de milho em grão com destino
a outras capitanias.
60. Em resposta ao debate iniciado pelos irmãos Martins, Robert Slenes questiona o caráter
“vicinal” da economia mineira oitocentista, especialmente no que se refere à desvinculação
da economia voltada para o abastecimento interno do setor exportador. Robert Slenes,
Os múltiplos de porcos e diamantes: a economia escravista de Minas Gerais no século XIX,
p. 481.
61. Augusto Saint-Hilaire, op. cit., p. 52-53.
62. Idem. A esse respeito, ver capítulo 2.

58
A produção de milho também era significativa, pois d. Maria possuía 27
carros de milho no paiol.63
A importância da agropecuária no Sul de Minas já havia sido ressaltada
pela historiografia, ainda que de forma bastante genérica. Caio Prado Júnior
descreve a formação dos núcleos de povoamento do interior da capitania,
mais precisamente ao sul, na bacia do Rio Grande, onde se formaria a co-
marca do Rio das Mortes, ressaltando o progresso da pecuária voltada para
o comércio, desde meados do século XVIII. “O progresso da pecuária nesta
região, favorecida por condições naturais destacadas, foi rápido; e já em
1756 descia gado daí para São Paulo, concorrendo com o fornecimento dos
campos do sul – Curitiba e Rio Grande.”64
Desde o final da década de 1970, os estudos têm demonstrado a diver-
sidade da economia mineira a partir das primeiras décadas do século XVIII,
quando a agricultura, a pecuária e a mineração eram executadas em conco-
mitância e o consórcio de atividades foi algo marcante no cenário mineiro,
situação que se prolongou e se acentuou no século seguinte,65 pelos menos
para algumas regiões, como a comarca do Rio das Mortes.66
Apesar das limitações, a documentação analisada indicou a importância
que as atividades agropastoris representavam para a maioria da população
sul-mineira. Outros documentos, como por exemplo as listas de população,
vêm confirmar o quadro demonstrado até o momento, com a diferença de
que algumas delas discriminavam sua produção e sua utilização, seja para
o consumo, seja para o comércio local e com outras praças, como a cidade
do Rio de Janeiro. É o caso de uma única lista localizada para o distrito de
Mata-Cachorros, pertencente ao arraial de São Gonçalo da Campanha, ter-
mo da vila da Campanha da Princesa, no ano de 1825. Não se tratava de um

63. CEMEC-SM, inventário post mortem de d. Maria Antônia de Jesus (1833), caixa 06.
64. Caio Prado Jr., Formação do Brasil contemporâneo, p. 57.
65. Ver, entre outros, Alcir Lenharo, As tropas da moderação; Roberto Borges Martins,
A economia escravista de Minas Gerais no século XIX; Carlos Magno Guimarães e Liana
Maria Reis, Agricultura e escravidão em Minas Gerais (1700-1750); Douglas Cole Libby,
Transformação e trabalho em uma economia escravista; Robert Slenes, Os múltiplos de
porcos e diamantes.
66. É o que têm mostrado as duas teses recentes já citadas. Ver Carla Maria Carvalho de
Almeida, Homens ricos, homens bons, p. 98-101; Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa
do Oeste.

59
distrito de grande importância, nem era um dos mais populosos do termo,
mas as informações constantes do documento são bastante esclarecedoras
em relação à dinâmica da economia voltada para o abastecimento interno
e vem reforçar muitos dos argumentos, apresentados pela historiografia
relativamente recente, acerca do potencial deste setor econômico para várias
províncias do Império, especialmente as da região Centro-Sul.67
O distrito de Mata-Cachorros tinha uma população de 1.105 habitantes,
assim distribuída: 817 (74%) brancos, 282 (25,5%) escravos e nove (0,5%)
forros. Deste grupo, destacam-se 45 proprietários de cativos. A taxa de
concentração da mão de obra escrava era expressiva. Apenas oito (19%)
senhores detinham mais de dois terços dos cativos, isto se considerarmos a
faixa de posse acima de dez. A grande maioria tinha de um a nove, corres-
pondendo a 37 (82%) indivíduos. Esses números são fundamentais para se
analisar não só a produção e a comercialização dos gêneros voltados para
o abastecimento interno, como também as relações sociais engendradas
entre os grupos mais abastados e os demais segmentos da população. Numa
primeira leitura da lista do distrito de Mata-Cachorros foi possível separar
a produção voltada para o consumo e a que era comercializada na praça
carioca. Dos 123 indivíduos listados como produtores, 65 (53%) eram do-
nos de títulos de posse e 58 (47%), agregados (ver tabela 7). Uma distinção
importante a considerar, e que não é possível vislumbrar na tabela, é que,
tanto numa categoria quanto na outra, há diferenças relevantes. Nem todo
dono de título de posse era grande proprietário ou abastado e nem todo
agregado era considerado pobre ou produzia exclusivamente para o consu-
mo. Numa primeira leitura dos dados, percebe-se que os donos de títulos de
posse estavam mais integrados à produção e à comercialização de gêneros
na praça mercantil do Rio de Janeiro, com destaque para o gado (25%) e,
sobretudo, os suínos, já que mais de 40% dos donos de títulos de posse os
enviavam para o Rio de Janeiro. Quase a totalidade deles produzia gêneros
essenciais para o consumo e o trato dos animais, caracteristicamente, o
milho, o feijão e o arroz. Há também expressiva quantidade de carás, que
serviam de alimentação suplementar, junto com o milho, para a engorda

67. João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura.

60
dos porcos, tão essenciais ao abastecimento da Corte. Percebe-se que a
criação de suínos destinados à comercialização fora de Minas também era
uma atividade de certa importância para os agregados, atingindo a cifra de
14%. Outros gêneros poderiam ter o mercado internacional como destino,
como é o caso do fumo, produzido e comercializado tanto por donos de
títulos de posses quanto por agregados, sem grandes diferenças em termos
percentuais. Estes últimos se destacavam mais na criação de porcos para o
consumo, embora 10% os enviassem para o Rio de Janeiro.
As informações contidas na tabela e na lista podem ser mais bem
exploradas quando se leva em conta as nuanças entre as categorias utiliza-
das e os dados existentes para alguns produtores. Como já foi destacado,
nem todo dono de título de posse era rico, dono de escravo ou produzia
e vendia para outras praças fora da província de Minas, e nem todos os
agregados eram pobres e sujeitos a uma relação de dependência para com
os grandes proprietários.
Os maiores proprietários, de modo geral, estavam envolvidos dire-
tamente na produção e na comercialização dos gêneros voltados para o
abastecimento. Em geral, criavam porcos e gado, que remetiam para o Rio
de Janeiro. Era o caso do capitão Braz Ribas, que produzia todos os gêneros
alimentícios voltados para o consumo e para o trato dos animais, criava
porcos para serem vendidos no Rio de Janeiro, e algum gado para o custeio
da fazenda. Para tocar os negócios de sua propriedade, contava com trinta
cativos. Alguns proprietários mais abastados poderiam comercializar também
com as praças locais. Foi o caso do dono de engenho e sargento-mor José
Joaquim Leite Ferreira, que possuía 46 cativos. Os produtos de seu engenho
eram comercializados nos arraiais de Santa Catarina, São Gonçalo e Pouso
Alegre. O gado, as éguas, os potros e os porcos eram remetidos para o Rio
de Janeiro.68
Os agregados não representavam, exclusivamente, a parcela mais pobre
da população que vivia sob a tutela de um grande fazendeiro. Esta relação
poderia ser estabelecida de pai para filho, de sogro para genro e com médios

68. CECML, Lista e número dos moradores do distrito de Mata-Cachorros (1825) –


Documentos diversos. Agradeço ao professor Josué Humberto Barbosa a indicação deste
documento.

61
e pequenos proprietários. Manuel José de Azevedo, por exemplo, era dono
de terras e produzia milho, feijão e arroz, além de fumo, vendido na praça
mercantil carioca. Para a execução dessas atividades, contava com o auxílio
de um escravo e tinha dois de seus filhos listados como agregados, além de
mais um camarada.
A tutela de um grande fazendeiro poderia representar melhores oportu-
nidades para alguns agregados, ainda que fossem qualificados como pobres.
Foi o caso de Antônio Frazão, agregado do capitão Brás Ribas, que, além de
produzir milho, feijão, arroz e mandioca para seu sustento, produzia fumo e
criava porcos, com o objetivo de vendê-los no Rio de Janeiro. Possivelmente,
esta produção somava-se à do fazendeiro, que a comercializava na praça
carioca. Mas este não foi o destino dos demais agregados do capitão. João
Pereira, Cristóvão Vitório e João Caetano também foram qualificados como
pobres e, ou seja, plantavam milho, feijão, arroz e criavam porcos para o
próprio consumo. Alguns outros poderiam ainda combinar as atividades
agrícolas com outros ofícios, como os de jornaleiro e carapina.
Entre os produtores que se dedicavam ao cultivo dos gêneros alimen-
tícios (feijão e arroz), alguns estavam voltados para o comércio local, ven-
dendo em praças vizinhas, como, por exemplo, o arraial de São Gonçalo.
Os produtores listados nesta categoria tinham títulos de posse e contavam
com o trabalho familiar ou de agregados para a produção de mantimentos.
Era o caso de José Lopes Pinheiro, que, além de criar algum gado e porcos,
remetidos para o Rio de Janeiro, contava com o auxílio de três agregados
para a produção de mantimentos, vendidos em São Gonçalo.69

69. Idem.

62
Tabela 7
Produção para o consumo e para exportação ao Rio de Janeiro – distrito
de Mata-Cachorros – termo de Campanha (1825)
Donos de títulos de posses
Agregados (total = 58)
(total = 65)
Produção agrícola Exporta para Exporta para
Consumo Consumo
o Rio de Janeiro o Rio de Janeiro
no % no % no % no %
Milho 65 100,0 54 93,0
Feijão 65 100,0 51 90,0
Arroz 57 88,0 26 45,0
Cará 25 38,5 5 8,5
Mandioca 21 32,5 6 10,0
Algodão 3 5,0 4 7,0
Banana 5 8,0
Café 1 1,5
Cana 4 6,0
Fumo 1 1,5 12 18,5 1 1,7 8 14

Animais
Gado vacum 14 21,5 16 25,0 2 3,5
Cavalar 13 20,0 2 3,0
Bestas 1 1,5
Porcos 14 21,5 28 43,0 8 14,0 10
Carneiros 1 1,5

Fonte: CECML, Lista e número de moradores do distrito de Mata-Cachorros, arraial de


São Gonçalo, termo da vila da Campanha, 1825 – Documentos diversos, n. 14.

As evidências encontradas demonstram que quase todos os segmen-


tos estavam envolvidos em atividades ligadas à produção de gêneros para
o consumo e para o abastecimento interno, com destaque reiterado para
a comercialização de gados, porcos e fumo, com destino certo: a praça
mercantil carioca. Como já foi verificado, os grandes proprietários escra-
vistas dispunham de mais recursos e estavam mais integrados à economia
do abastecimento. Os proprietários menos abastados e mesmo os que não

63
dispunham de escravos lançavam mão do trabalho familiar para garantir o
sustento de sua família e de outros dependentes.70
Estudos recentes têm confirmado a importância que as atividades agro-
pastoris desempenharam na economia mineira como um todo, notadamente
a partir da última década do século XVIII, contribuindo para o aumento
das receitas de entrada. Segundo Ângelo Carrara, em 1800, a região sul da
capitania de Minas Gerais teve um crescimento em tributos, que pode ser
explicado pela articulação com a praça mercantil do Rio de Janeiro.71 Ao
analisar os dados dos mapas demonstrativos das receitas e despesas da capi-
tania de Minas Gerais, entre 1795-1800, encontrados no Arquivo Histórico
do Tribunal de Contas de Lisboa, Carlos Gabriel também detectou um
aumento dos rendimentos e dos contratos no ano de 1800.72

2.2. Engenhos de açúcar e aguardente


Havia uma quantidade expressiva de proprietários que se dedicavam
ao cultivo de cana, à produção de açúcar e/ou aguardente. É interessante
destacar que representam mais de 45% dos grandes proprietários da região.
Clotilde Paiva e Herbert Klein mencionam um relatório fiscal da província,
datado de 1836, que evidencia a importância e o número de engenhos que
existiam no termo de Campanha. O município ocupava o sexto lugar na
produção açucareira, contando com 86 engenhos.73 Nos inventários anali-
sados, encontrou-se quase o mesmo número, ou seja, nada menos que 74
proprietários ligados a esse tipo de atividade (ver tabela 5).
Como já foi mencionado, tal atividade nunca estava isolada. Geralmente
um dono de engenho criava animais – gado, muares, porcos e ovelhas – além
de produzir os mantimentos de sempre (arroz, milho e feijão). Para alguns,
também é possível indicar claras ligações com o comércio através de tropas,
seja pelo número de bestas arreadas, seja por possuir casa para tropas e pouso

70. Sobre as formas de trabalho na sociedade escravista, especialmente do Centro-Sul do


Império, ver João Luís Fragoso, op. cit., p. 117-151.
71. Ângelo Alves Carrara, Agricultura e pecuária na capitania de Minas Gerais (1674-1807).
72. Carlos Gabriel Guimarães, O rendimento da capitania das Minas Gerais no período
de 1795-1800: uma comparação com as capitanias do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco.
73. Clotilde Andrade Paiva e Herbert S. Klein, op. cit., p. 133.

64
para tropeiros. A relação entre os engenhos e as casas de negócios também
foi constatada por Clotilde Paiva.74 Este parece ser o caso do desembargador
José Joaquim Carneiro de Miranda e Costa, inventariado em 1844. Figura
de grande projeção na vila, uma vez que foi o seu primeiro juiz de fora, era
dono de engenho, criava gado e produzia alimentos. Dentre os seus bens
de raiz, além de fazenda de cultura e engenho, possuía uma venda à beira
da estrada, que certamente servia para comercializar os produtos de sua
fazenda, entre eles, a aguardente.75
Morador no arraial de São Gonçalo da Campanha, Rodrigo Antônio
de Lemos teve seus bens inventariados no ano de 1850.76 Sua produção de
açúcar e aguardente representava a atividade principal da fazenda, o que
pôde ser constatado tanto pelos utensílios e benfeitorias próprias de um
engenho, quanto pela produção de sua unidade agropastoril. Possuía 16
fôrmas de fazer açúcar, tachos, várias pipas e um alambique. A produção
de seu engenho também era expressiva: 164 arrobas de açúcar em fôrmas,
vinte arrobas e meia de açúcar branco, além de 105 barris de aguardente. Para
garantir tal produção, foram arroladas várias lavouras de cana, em diversos
estágios. Assim como em outras fazendas, percebe-se a diversificação das
atividades. A produção de alimentos e a criação de animais, especialmente
gado vacum e suíno, faziam parte do seu empreendimento. Rodrigo possuía
cinquenta alqueires de arroz, 101 carros de milho no paiol, além de uma
centena e meia de cabeças de gado bovino e 51 de suíno. A importância da

74. Clotilde Paiva utiliza os relatórios de 1836 como fonte complementar em sua tese de
doutorado. A autora analisa as informações existentes para 41 distritos, com o objetivo
de perceber a riqueza da “relação dos engenhos e das casas de negócio”. Ver População e
economia nas Minas Gerais do século XIX, p. 77-85. Esta documentação já tinha sido objeto
de investigação mais detalhada em outro artigo: Clotilde Andrade Paiva e Marcelo Godoy,
Engenhos e casas de negócios na Minas oitocentista, p. 29-52.
75. CEMEC-SM, Inventário post mortem do desembargador José Joaquim de Miranda e
Costa (1844), caixa 16. Na relação de engenhos e casas de negócios de 1836, consegui loca-
lizá-lo como dono de um engenho movido por força animal e proprietário da única venda
situada na estrada próxima à sua fazenda. Ver APM, Seção Provincial, SP, PP 1/6, caixa 05.
76. Ao longo do século XIX, a unidade monetária era o mil réis, que se grafava da seguinte
forma: 1$000. Hum conto de réis equivalia a um milhar de mil-réis e se grafava 1.000$000.
Portanto, o inventário dos bens de Rodrigo Antônio de Lemos totalizou noventa e dois
contos, quinhentos e cinquenta e nove mil, setecentos e trinta e sete réis. Para fins de maior
fluidez do texto não será colocado por extenso os valores das fortunas analisadas a partir
da consulta dos inventários.

65
riqueza acumulada por este proprietário pode ser verificada pelo valor total
dos bens avaliados: 92:559$737.77
Evidentemente, nem todos os inventários têm essa riqueza de detalhes
e nem todos os senhores de engenho encontravam-se nesse padrão, mas o
número de proprietários com grande escravaria, dedicados a esta atividade,
não é desprezível, conforme já citado.
Os proprietários de nível médio constituíam a maioria dos donos de
engenho, ou seja, 39 (52%). Estudos sobre a cultura canavieira em diferentes
regiões da Colônia apontam para o fato, já consensual, de que esta era uma
atividade que demandava maior contingente de escravos78. Talvez esta seja
uma das razões para a média bastante expressiva de cativos por proprie-
tário, considerando os níveis de concentração da mão de obra escrava em
outras localidades.
Ao que parece, mesmo na segunda metade do século XIX, os engenhos
ainda representavam um papel essencial na economia sul-mineira, atestado
pelo relatório elaborado pela Câmara da vila da Campanha, no ano de 1857.
Segundo este documento, a lavoura era a principal “indústria” a que se dedi-
cavam os moradores do município, tendo como produtos mais importantes
o açúcar e a aguardente, o tabaco em rolo, os cereais, o gado vacum e suíno,
nesta ordem de importância.79
O funcionamento dos engenhos, bem como a produção e o comércio
do açúcar e da aguardente serão verificados com maior detalhamento no
próximo capítulo, quando será analisada a composição das fortunas das
grandes unidades escravistas.

2.3. Tabaco
O significado do cultivo do tabaco no Sul de Minas, mais precisamente
no termo de Baependi, é abordada de forma bastante genérica em vários
trabalhos, pois ainda faltam estudos mais detalhados dessa atividade na

77. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Rodrigo Antônio de Lemos (1850), caixa 24.
78. Ver Stuart B. Schwartz, Segredos internos; Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento.
79. APM, Relatório da Câmara Municipal de Campanha, datado de 20/2/1857, em resposta
à circular do governo da província sobre o estado da mineração, agrícola e fabril. SP 655.

66
região, destacando o volume da produção, a importância do comércio e sua
vinculação com o tráfico internacional,80 se é que ocorria. Este trabalho, por
sua vez, também não se destina a oferecer muitas respostas para o “ciclo do
fumo sul-mineiro”, como define Douglas Libby,81 mas, certamente, alguns
inventários denotam a importância que a atividade possuía na região e
quantos proprietários estavam diretamente envolvidos nela.
Cristiano Corte Restitutti revelou informações de extrema relevância
para se compreender os circuitos mercantis do fumo de Minas, com desta-
que para os principais centros produtores (Baependi, Cristina e Itajubá e os
mercados que absorviam a produção sul-mineira, especialmente a cidade
do Rio de Janeiro. Os circuitos terrestres garantiam a chegada do fumo até
a praça mercantil carioca, que se tornara o principal centro consumidor e
distribuidor do fumo sul-mineiro para outras províncias (Rio Grande do
Sul, Pernambuco e Santa Catarina) e a bacia do Prata (Montevidéu e Buenos
Aires), através do comércio de cabotagem. Em 1827-1832 e 1833-1838, o Rio
da Prata (Montevidéu e Buenos Aires) absorvia 69% e 91%, respectivamente,
do tabaco exportado do porto do Rio de Janeiro. Mas, como ressalta o autor,
nesse mesmo período, o Rio de Janeiro era responsável pelo consumo de
46% do fumo produzido em Minas Gerais82.
Numa primeira leitura dos inventários, pode-se perceber que a região
da freguesia de Santa Catarina, que mais tarde pertencerá à comarca de
Cristina, apresentava maior número de processos que mencionam lavoura
de tabaco, registrada nos documentos como “fumo em arroba”, “fumal” ou
“fumo em rolo”. Algumas propriedades da freguesia do Lambari, mais pró-

80. João Luís Fragoso relata o comércio de fumo e tecidos grossos para escravos, desenvolvido
entre Aiuruoca, Baependi e Cristina e a praça mercantil do Rio de Janeiro. Ver Homens de
grossa aventura, p. 25.
81. O autor destaca a inexistência de estudos mais sistematizados sobre o assunto, ao ana-
lisar as obras de Kathleen Higgins e Laird W. Bergard sobre Minas Gerais. Douglas Cole
Libby, Minas na mira dos brasilianistas: reflexões sobre os trabalhos de Higgins e Bergard,
p. 279-304. Também já havíamos chamado a atenção para este aspecto em artigo em que
analisamos o potencial das fontes regionais para a história do sul de Minas. Ver Marcos
Ferreira Andrade e Maria Tereza Pereira Cardoso, A vila da Campanha da Princesa: fontes
para a história do sul de Minas, p. 218.
82. RESTITUTTI, Cristiano Corte. Circuitos mercantis do tabaco mineiro, 1802-1892.
Anais do I Congresso Latino-americano de História Econômica (Montevidéu, dezembro
de 2007, CD-ROM).

67
ximas de Campanha, também detinham alguma produção ou lavouras de
tabaco. Nos 475 inventários analisados, foram localizados 31 (6,5%) proprie-
tários produtores de tabaco em arrobas ou em lavoura. Embora o número
seja pequeno, é representativo, quando se considera a faixa de escravaria.
Mais de 60% (22) dos proprietários que apresentavam alguma produção
de fumo estavam nas faixas média e grande de escravaria. Nenhum deles
parece ter-se dedicado exclusivamente à produção de fumo, aliás, como em
outros casos, as atividades estavam sempre consorciadas. Em 1833, d. Ana
Francisca de Jesus, por exemplo, residente na fazenda Congonhal, no termo
de Campanha, além de ser dona de engenho, criar gado e cultivar milho,
também tinha 32 arrobas de fumo.83
Segundo indicações de Bernardo Saturnino da Veiga, ainda na década de
1880, o fumo era o principal produto da freguesia de Santa Catarina, seguido
pelo café e cana.84 A importância que esta atividade teve naquele local pode
ser avaliada pelo inventário de d. Maria Bento Carneiro, realizado no ano
de 1849. Além de grande agropecuarista e detentora da maior escravaria
encontrada para o termo de Campanha, com mais de cem escravos, ela
era proprietária de algumas fazendas, tinha sociedade em outras tantas e
também residência na freguesia. A conexão entre a produção e a provável
comercialização do tabaco pode ser inferida pelo número de bestas arreadas,
ultrapassando três dezenas, e pelo alto valor do fumo em rolo. Embora não
haja menção à quantidade em arrobas, definida apenas como “uma porção
de fumo em rolos”, o valor era extremamente alto demonstra, sendo avaliado
em 4:408$49085.
Algumas informações prestadas pela Câmara Municipal de Campanha
ao Conselho de Governo, no ano de 1825, indicam a importância de deter-
minadas atividades econômicas praticadas na região, particularmente o
comércio de fumo. Os dados são apresentados de forma genérica, porém,
se confrontados com outras fontes, como, por exemplo, os inventários, são
muito úteis.

83. CEMEC-SM, inventário de dona Ana Francisca de Jesus (1833), caixa 06.
84. Bernardo Saturnino da Veiga, Almanaque sul-mineiro, p. 498.
85. CEMEC-SM, inventário post mortem de d. Maria Bento Carneiro (1849). caixa 22. Este
inventário será analisado mais detalhadamente no próximo capítulo, quando abordarei,
dentre outras questões, o funcionamento das grandes unidades escravistas.

68
Os vereadores informam que, entre as culturas mais importantes que
se desenvolvem em toda a extensão do termo, destaca-se o plantio de milho,
feijão, arroz, cana, fumo, mandioca e cará. Alguns agricultores plantavam
inhames, destinados à alimentação dos porcos. O algodão também era
cultivado razoavelmente nas terras próximas ao rio Verde. O trigo, que em
outras épocas era produzido em abundância e até exportado para o interior
da província e também para São Paulo, foi abandonado pelos agricultores
em razão de problemas no seu cultivo, tendo sido a sua farinha substituída
pelo polvilho e pela farinha de milho. Vários gêneros eram comercializados
entre os termos e as outras províncias:
[...] deste termo se exporta para o termo de Baependi, milho, feijão,
farinha, arroz, açúcar e aguardente de cana; e bem assim os moradores
d’aquele termo vêm a este comprar muito fumo para exportarem para a
corte do Rio de Janeiro; e da mesma sorte se exportam toucinhos para a
província de São Paulo. Igualmente se importam para este termo vindo
da corte do Rio de Janeiro e da província de São Paulo, e praça de Santos,
farinhas de trigo, vinhos e mais gêneros da Europa.86 (grifos meus)

No que se refere à produção de fumo, a informação da Câmara de


Campanha é bastante curiosa, pois as freguesias de Baependi e Cristina
eram comumente citadas como as principais regiões produtoras, embora
alguns inventários indiquem o cultivo do tabaco em algumas propriedades
do arraial do Lambari. Será que havia uma praça comercial em Campanha,
onde esses gêneros, especialmente o fumo, eram comercializados e, depois,
remetidos para o Rio de Janeiro? Esta hipótese parece provável, já que a
cidade, no final da primeira metade do século XIX, era um dos principais
entrepostos comerciais localizados mais ao sul da comarca do Rio das Mortes.
Na data em que a Câmara apresentou o seu relatório, Baependi já era vila
e havia uma série de freguesias, distritos e povoações sob a sua jurisdição.
Alcir Lenharo destaca as cidades de São João del-Rei e Barbacena como
os mais importantes entrepostos comerciais que interligavam Minas e a Corte.

86. APM, Memórias municipais, p. 625-626.

69
Pode-se considerar que Campanha também faça parte deste circuito, sobre-
tudo pela sua importância estratégica e econômica no período em estudo.87

2.4. Comércio
As indicações sobre as atividades comerciais podem ser inferidas nos
inventários de diversas formas. Por ora, interessa retratar os inventariados
que se dedicavam ao pequeno comércio, representado pelas casas de ne-
gócio, vendas, tavernas e boticas.88 Dos inventários analisados, em apenas
18 (4%) constava algum tipo de estabelecimento comercial. Embora seja
um número bem reduzido, dada a relevância socioeconômica da região no
período em estudo, acredita-se que esse número possa estar subestimado
em virtude da sub-representação das fontes. Se confrontarmos esses dados
com o Relatório Fiscal de 1836, a diferença é muito grande. Clotilde Paiva e
Herbert Klein identificam o termo de Campanha como a região que detinha
o maior número de estabelecimentos comerciais ou “vendas”. Dentre os 4.293
registrados, nada menos que 471 (11%) estavam localizados no termo da vila.89
Com base na análise dos livros da décima predial (1808-1835), produ-
zidos em virtude do alvará de 27 de junho de 1808, que criava o imposto da
décima dos prédios urbanos, atingindo arraiais, vilas e cidades do Império
Colonial Português, exceto os da Ásia, Ângelo Carrara verificou, para a vila
de Campanha, um crescimento do número de edifícios entre 1811 e 1821, e
um decréscimo entre 1822 e 1829. A considerar o registro do pagamento dos
impostos, a vila possuía, em 1821, 399 edificações e ocupava o sétimo lugar
entre os núcleos urbanos da província; porém, vinha em segundo lugar,
no que diz respeito ao valor dos prédios, sendo superada somente por São
João del-Rei..90
O capitão Antônio Lopes da Silva Araújo, residente na vila de Campanha,
teve seus bens inventariados em 1833. Além de ser dono de uma botica, pos-

87. Cf. Alcir Lenharo, As tropas da moderação, p. 89-90.


88. Idem. Para outras indicações relativas ao comércio, por meio de tropas, importante na
região, e ao empréstimo de dinheiro a juros, ver capítulo 2.
89. Clotilde Andrade Paiva e Herbert S. Klein, op. cit., p. 133.
90. Ângelo Alves Carrara, Espaços urbanos de uma sociedade rural: Minas Gerais, 1808-
1835, p. 148.

70
suía cinco escravos, uma casa no largo da Matriz e outra na rua da Áustria.
Também não exercia exclusivamente a atividade de comerciante. Criava
um número razoável de cabeças de gado, ultrapassando três dezenas, e
também outro tanto de potros e éguas, além de carneiros.91 Em alguns casos,
os donos de “vendas” à beira de estradas eram os próprios fazendeiros que
comercializavam seus produtos.
Como constata Clotilde Paiva, os estabelecimentos comerciais mais
sortidos tendiam a se concentrar nas áreas urbanas, já as vendas se locali-
zavam na beira de estradas, para atender a viajantes e tropeiros. Algumas
lojas poderiam especializar-se na venda de “secos”, outras, na de “molhados”,
ou tudo junto. Por “fazenda seca” entendia-se todo tipo de tecido (panos de
algodão, linho, seda etc.) e “fazenda molhada” eram os mantimentos e os
outros gêneros (carne seca, toucinho, farinha, milho, feijão, arroz, sal, fumo,
queijos etc.), assim denominados porque poderiam descorar ou umedecer.92
O capitão Miguel Teixeira Vitorino, morador na cidade de Campanha,
era um desses donos de lojas de “fazenda seca”. Na relação de seus bens,
inventariados em 1856, constava uma loja de comércio bastante sortida, com
vários tipos de artigos: sapatos, meias para homens e senhoras, suspensórios
de algodão, luvas, agulhas e linhas, além de vários artigos em ferro, objetos
para ferreiro e marceneiro. Enfim, seu estabelecimento era daqueles em que
se podia encontrar quase tudo que era necessário para o uso doméstico ou
mesmo para determinadas atividades de trabalho.93
A importância dos empreendimentos comerciais em Minas, bem como
de seus agentes, já foi objeto de estudo de significativos trabalhos, tanto para
o século XVIII, quanto para o XIX.94

91. CEMEC-SM, Inventário post mortem do capitão Antônio Lopes da Silva Araújo (1833),
caixa 06.
92. Clotilde Paiva, População e economia..., p. 81-83, especialmente a nota 43.
93. CEMEC-SM, Inventário post mortem do capitão Miguel Teixeira Vitorino (1856), caixa 31.
94. Ver, entre outros, Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes: mercadores
das Minas setecentistas; Júnia Ferreira Furtado, Homens de negócio: a interiorização da
metrópole e do comércio nas Minas setecentistas; Clotilde Andrade Paiva, População e
economia...; Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste.

71
2.5. Mineração
A economia sul-mineira não se restringia à agropecuária voltada para
o abastecimento de certos mercados, em especial o da Corte. A mineração
ainda era relevante e exercia um certo atrativo nas primeiras décadas do
século XIX, sendo praticada em diversos distritos da região, sobretudo no
arraial de São Gonçalo. No ano de 1814, são listados 42 mineradores e um
contingente de 564 escravos, que trabalhavam nas lavras, resultando numa
média de 13 escravos por proprietário.95 Também aqui se observa a concen-
tração de escravos nas mãos de um pequeno grupo de mineradores, ou seja,
dos 564 cativos empregados na mineração, 250 (44%) estavam nas mãos de
sete proprietários, donos de vinte escravos ou mais. Mas é preciso esclarecer
que os mineradores de maior escravaria quase sempre atuavam em sociedade.
Dos sete maiores, somente dois não mineravam em sociedade. É o caso do
capitão João Leite de Oliveira Bressane, que possuía sessenta cativos e uma
lavra no Bairro Alto, na vila da Campanha. Já o capitão Manuel Ribeiro de
Carvalho tinha 32 escravos e uma lavra no distrito da Lagoa, na freguesia
de Aiuruoca.96
Os inventários que fazem menção explícita à exploração de jazidas mi-
nerais são pouco expressivos. Apenas 3% (15) dos inventariados se dedicavam
à mineração. A hipótese da sub-representação pode ser novamente colocada,
pois, segundo a relação dos mineradores de 1814, o número era bem maior.
Um primeiro aspecto a ser destacado nos inventários é que a maior
concentração de mineradores se verifica no período entre 1802 e 1842, ou
seja, oito proprietários tinham alguma lavra e ainda exploravam o ouro.
Como nos demais inventariados, a atividade sempre aparece consorciada
com a criação de animais, a produção de alimentos e mesmo o comércio.
Outro ponto importante é que quase a metade dos donos de lavras possuía
vinte escravos ou mais, confirmando a necessidade e a importância desses
na exploração das jazidas (ver tabela 6).

95. APM, Lista das lavras, os nomes dos senhores delas e o número de escravos que se
empregam na mineração em todo o termo da vila da Campanha da Princesa, no ano de
1814. Documentação microfilmada da Casa dos Contos. Rolo 525, planilha 20107, item 01.
96. Idem.

72
Ainda na década de 1850, encontrou-se referência a alguns proprie-
tários que exploravam terras minerais. O coronel José Francisco Pereira
tinha morada de casas na localidade denominada Ouro Fala, pertencente à
freguesia de São Gonçalo da Campanha. Certamente o nome da paragem
estava relacionado à abundância do ouro naquela área, em outros tempos.
Além de criar alguns porcos e cabritos e produzir alguns alimentos, como
feijão, José Francisco também era dono de 26 escravos e de parte de uma
lavra de ouro.97
Os viajantes Spix e Martius registraram suas impressões quando pas-
saram pela região. Destacaram as imponentes construções, embora muitas
estivessem arruinadas, e o fato de alguns habitantes insistirem na atividade
mineradora. O fato de ainda haver pessoas dedicadas à mineração demons-
tra que ela poderia oferecer alguma rentabilidade, embora já não fosse tão
abundante quanto em outros tempos.
A aldeia de São Gonçalo, que dista a N. N. E. três léguas de Santa
Bárbara, tinha há uns trinta e tantos anos importantíssimas lavagens
de ouro e gozava de grande riqueza, de cujo passado dão testemunho
diversos edifícios imponentes já meio arruinados. Entretanto, a maio-
ria dos habitantes aqui ainda aufere dois até quatro mil cruzados das
suas minas, o que é para eles considerável lucro, quando com isso não
abandonam a lavoura. Ao longo do caminho de São Gonçalo para a
vila da Campanha, encontram-se por toda parte vestígios da principal
ocupação da lavagem de ouro, sobretudo as cóvas (sic), pelas quais a
água necessária e abundante é encaminhada das regiões mais altas, e
corre durante horas pelas encostas da montanha.98

Pôde-se extrair outras informações sobre a atividade mineradora


no termo da vila de Campanha através do relatório enviado pela Câmara
Municipal ao Conselho de Governo da província, em 1856. Algumas lavras
ainda eram exploradas no entorno da sede da vila, mas era em São Gonçalo
que se concentravam os principais mineradores. “A mineração tem neste
município decaído do estado florescente de que por muitos anos gozara, a
excetuar-se as lavras do Bairro-Alto, próximas a esta cidade, as de S. Luzia,

97. CEMEC-SM, Inventário post mortem do coronel José Francisco Pereira (1856), caixa 31.
98. J. B. von Spix e C. F. P. Von Martius, Viagem pelo Brasil, p. 280.

73
Palmital e S. José da freguesia de São Gonçalo, nem uma outra se acha em
pleno exercício.”99
Além das lavras em funcionamento, a Câmara comenta que existiam
boas formações de terras minerais que, devidamente exploradas, poderiam
apresentar algum resultado positivo, mas que esse trabalho só teria condi-
ções de ser executado por companhias mineradoras. Era principalmente
no arraial de São Gonçalo que vários faiscadores ainda garantiam a sua
sobrevivência e mobilizavam parte do comércio local. “Nas praias, porém,
do arraial de São Gonçalo e desta cidade e sobre os desmontes dos antigos
serviços, vê-se ainda numerosos faiscadores, colhendo grande número
de oitavas de ouro, com os quais sustentam suas famílias e boa parte do
comércio dos lugares mencionados.”100
Embora os números apresentados não sejam tão esclarecedores sobre
o peso que a mineração representava na economia sul-mineira, pelo menos
são indicativos de que a atividade ainda exercia alguma atrativo. Parece que a
mesma hipótese pode ser levantada para o termo de São João del-Rei. Carla
Maria Carvalho de Almeida, analisando a economia mineira em um estudo
comparativo por comarcas, constatou que em São João del-Rei, no auge desta
atividade (1750-1770), havia 42,9% de propriedades ligadas à mineração. No
período que denomina de “reacomodação econômica” (1780-1822), esse
percentual cai para 23,3%,101 mas, mesmo assim, ainda havia um número
significativo de pessoas dedicadas às lavras.
Por meio do mapeamento geral dos inventários analisados foi possível
constatar a importância do termo de Campanha no cenário sul-mineiro,
seja pela diversidade de empreendimentos exercidos, seja pelo crescimento
populacional verificado na primeira metade do século XIX, especialmente
da população escrava. Também chamam a atenção o nível de concentra-
ção de posse de cativos nas mãos de alguns poucos senhores e o número
de proprietários dedicados à produção de açúcar, rapadura e aguardente.
Característica marcante a ser enfatizada é o fato de as fazendas escravistas

99. APM, Resposta da Câmara Municipal da Campanha à circular de 4/11/1856 do Conselho


de Governo sobre o estado da indústria de mineração, agrícola e fabril. SP 655.
100. Idem.
101. Carla Maria Carvalho de Almeida, Homens ricos, homens bons, p. 98-99.

74
consorciarem diversas atividades – ao mesmo tempo em que se criava gado,
cavalos, porcos e ovelhas, plantava-se arroz, milho e feijão, sendo muitos
destes produtos destinados ao comércio inter e intraprovincial.
A atividade mercantil aparece nas “casas de negócios”, mormente nos
núcleos urbanos, mas também há indícios de que os fazendeiros negociavam
ou intermediavam sua produção através do comércio de tropas. Clotilde Paiva
chega a conclusões semelhantes, ao analisar a economia mineira da região
sul-central, no século XIX, cujas atividades estavam centralizadas em torno
de Campanha. “Registrou-se a produção do ouro e a presença de grandes
fazendas diversificadas. Não há informações sobre o comércio intra-regio-
nal, apenas referências secundárias ao comércio de bovinos com o Rio de
Janeiro.”102 A escassez de informações sobre o comércio intra-regional ou
mesmo sobre o de gado bovino com outras províncias, em especial a Corte,
salientado pela autora, talvez possa ser explicada pelo universo de fontes
investigado.103 Como nesta investigação examina-se a região de forma mais
detalhada e com base em um conjunto diversificado de fontes, em que se
destacam os inventários, serão feitas algumas considerações sobre o caráter
mercantil da economia sul-mineira e sua vinculação com outras provín-
cias, especialmente as do Rio de Janeiro e São Paulo. No próximo capítulo,
pretende-se investigar melhor como funcionavam essas grandes unidades
escravistas valendo-se dos indícios registrados nos inventários, justamente
com o objetivo de obter maiores detalhes a respeito dos mecanismos de
formação das fortunas, das opções de investimento e da importância do
comércio intra e interprovincial.

102. Clotilde Paiva, População e economia..., p. 121.


103. A importância do comércio de gêneros voltados para abastecimento, seja no interior
da capitania, seja mesmo com outras capitanias da Colônia, já foi comprovado por Cláudia
Maria das Graças Chaves, ao analisar os mapas de importação e exportação de Minas.
Cláudia Maria das Graças Chaves, Melhoramentos no Brazil..., ver, em especial, o último
capítulo, p. 274-319.

75
2

Elite escravista em Minas Gerais: a fortuna dos sul-


mineiros

Em 1834, José da Costa Rios, morador na fazenda Nossa Senhora das


Valias, no arraial de São Gonçalo da Campanha, deixou uma fortuna con-
siderável para a sua esposa e filhos, fruto de uma produção diversificada
de derivados da cana-de-açúcar. Era proprietário de 55 escravos, além de
mais sessenta, que aparecem distribuídos igualitariamente entre os seus
quatro filhos. Possuía numerosos objetos e equipamentos, que denotavam
a importância da atividade canavieira naquela unidade produtiva, tais como
barris, pipas, alambiques, caldeiras e fôrmas de fazer açúcar. Em suas pro-
priedades havia vários canaviais plantados e, certamente, os oitenta bois de
carro registrados eram utilizados como força motriz para o funcionamento
dos engenhos. Cultivava milho e dedicava-se também à criação de porcos
(cem cabeças) e de gado. As benfeitorias demonstram a importância e a
imponência da sede da fazenda. Havia “casas de vivenda”, engenho de cana
coberto de telhas, senzalas, engenho de serras e uma capela, com todos os
ornamentos e imagens, além de uma morada de casas que servia para dar
guarida ao vigário quando ia “dizer missa” na fazenda.1
O guarda-mor José da Costa Rios era casado com d. Maria Bárbara da
Conceição Dias de Jesus, com quem tinha quatro filhos: João da Costa Rios,
José Teixeira Rios, Francisco da Costa Rios e Manuel da Costa Rios. Ao que
tudo indica, no ano em que foi realizado o inventário do pai, os filhos não
mais residiam na unidade produtiva de origem, pois, do total de 115 escravos,
sessenta foram listados em poder dos quatro herdeiros, em suas respectivas

1. CEMEC-SM, Inventário post mortem de José da Costa Rios (1834), caixa 7.

77
unidades. Tendo localizado mais três inventários dos membros da família,
foi possível acompanhar algumas das transformações ocorridas na unida-
de de origem e nas da segunda geração, considerando o período de 1834 a
1850. Em 1837, morreu a esposa do guarda-mor, sendo que dois dos filhos,
o alferes João da Costa Rios e José Teixeira Rios, foram inventariados em
1840 e 1850, respectivamente. A localização desses processos permitiu-me
tecer algumas considerações acerca da extensão dos empreendimentos da
família, do enriquecimento e da formação das fortunas. Outras informações
foram complementadas a partir das listas nominativas de 1831-32.2
Em 1834, o guarda-mor teve seus bens avaliados em 87:118$380. Com
a morte de sua esposa, pouco tempo depois, não se observam grandes alte-
rações na avaliação dos bens, demonstrando que a viúva, juntamente com
os filhos, dera continuidade ao empreendimento de sucesso do marido.
O número de escravos ainda continuava o mesmo, 55. O valor dos bens
inventariados também não apresentou grande variação em relação ao que
a ela foi atribuído na partilha, perfazendo 50:459$612, total um pouco su-
perior ao da meação do inventário do esposo, realizado três anos antes.3
Os números indicam que a esposa conseguiu não só manter, mas até mesmo
ampliar um pouco mais o conjunto de seus bens.
Alterações significativas podem ser percebidas nas unidades escravistas
dos dois filhos para os quais foi possível localizar os inventários. Em 1840,
o alferes João da Costa Rios deu continuidade aos negócios da família, in-
dicando que a produção de açúcar e derivados ainda era bastante lucrativa.
Cerca de oito anos antes, seu nome aparece nas listas nominativas de 1831,
estava com 42 anos de idade, casado com Maria Tereza do Carmo, de 17, e
possuía 47 cativos.4 O sucesso do seu empreendimento pode ser verificado
pelo aumento do número de escravos ao longo dos anos: dos 47 que pos-

2. APM, Listas nominativas de 1831/1832 para o termo de Campanha. Documentação orga-


nizada em banco de dados por Clotilde Paiva, CEDEPLAR/UFMG. Todas as informações
referentes às listas nominativas de habitantes da província de Minas Gerais foram extraídas
deste banco de dados, gentilmente cedido pela autora.
3. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Maria Bárbara da Conceição Dias de Jesus
(1837), caixa 9. No inventário de seu marido, a parte líquida que lhe coube na meação foi
de 43:559$190.
4. APM, Listas nominativas de 1831/1832 para o termo de Campanha.

78
suía em 1831, e mais 15 que herdou do pai em 1834, e outros tantos depois
da morte da mãe, em 1840 tinha nada menos que 92. Quase dobrou 9 anos
depois. Além de grande proprietário escravista, dedicado ao plantio de cana,
à produção de açúcar e derivados e à criação de animais, entre seus bens
foram arrolados inúmeros “créditos a prêmio” por parte de vários devedores.
Esses créditos representavam 27,8% do valor total dos bens, avaliados em
85:654$343, e indicam sua atuação no empréstimo de dinheiro a juros. No
seu testamento, declara possuir “dinheiro a prêmio em créditos passados”
e, aos credores que prontamente pagassem, deveriam ser cobrados juros
de 12% ao ano. 5
José Teixeira Rios, o outro irmão, também deu continuidade aos empre-
endimentos açucareiros e apostou na diversificação como forma de ampliar
a fortuna herdada do pai. Nascera no arraial de Conceição da Barra, termo
de São João del-Rei, provável local de residência dos pais naquela época. Em
1831, com 50 anos de idade, permanecia solteiro e possuía 24 escravos.6 De
uma primeira análise do seu inventário, percebe-se que a maneira encontrada
para ampliar a fortuna herdada foi, além da diversificação das atividades, a
aquisição de novas propriedades. Até então, possuía uma parte na fazenda
dos pais, o que não aparece no inventário do seu irmão João da Costa Rios.
Provavelmente, a unidade produtiva paterna tenha ficado com um dos irmãos
para os quais não foram localizados os inventários. As indicações de que
os engenhos da família Rios eram um empreendimento familiar aparecem
claramente no testamento de José Teixeira Rios, quando legou uma quantia
em dinheiro para os seus irmãos: “Declaro que meu testamenteiro dará a meu
irmão, Manuel da Costa Rios, cinquenta mil réis, e a meu irmão Francisco
da Costa Rios, cinquenta mil réis, para desencargo da minha consciência,
há tantos anos que fomos sócios”.7
A fortuna acumulada por José Teixeira Rios também era expressiva,
atingindo o total líquido de 84:354$130, já descontadas as dívidas e as custas.
Possuía algumas fazendas e sociedade em outras tantas, 37 cativos, algumas
dezenas de cabeças de gado e de porcos, 25 carros de milho no paiol, setenta

5. CEMEC-SM, Inventário post mortem do alferes João da Costa Rios (1840), caixa 11.
6. APM, Listas nominativas de 1831-32 para o termo de Campanha.
7. CEMEC-SM, Testamento de José Teixeira Rios, incluso em seu inventário (1850), caixa 23.

79
alqueires de feijão no caixão e dez alqueires de arroz. Tinha vários cana-
viais plantados, em estágios diferentes, e era sócio em um cafezal.8 Mais da
metade do valor de seus bens (58,8%) estava empregada em propriedades.
Depois, vinham as dívidas ativas (21,5%) e os escravos (15,3%). A fazenda das
Congonhas, embora não totalmente quitada, e a sociedade na fazenda dos
Barreiros foram avaliadas em 22:350$000, considerando as terras de cultura
e de criar, os serrados e os campos, e as águas minerais. As benfeitorias na
fazenda das Congonhas compreendiam “casa de vivenda”, engenho de cana
e de serra, paiol, moinho, monjolo e senzala, com quintal e arvoredos de
espinhos, e foram calculadas em 1:000$000. A parte de terras que ainda
possuía na fazenda de seus pais e mais a metade das benfeitorias do terrei-
ro da mesma fazenda foram estimadas em 9:800$000. O valor das dívidas
ativas também era expressivo, ainda que seu percentual fosse um pouco
menor do que o observado nos bens de seu irmão, inventariado dez anos
antes. Correspondiam a 21,5% – 18:121$950 – do total dos bens avaliados. 9
Os engenhos da família Rios estavam entre os melhores e os mais bem
equipados do arraial de São Gonçalo. Pelo menos foi o que informou o juiz
de paz do arraial, ao enviar o seu relatório sobre os engenhos e as casas de
negócio existentes naquela localidade, no ano de 1836. Na relação, aparecem
quatro engenhos pertencentes à família, sendo que um era movido por for-
ça animal (bois) e os outros, a água. Os três últimos estavam em poder da
viúva, d. Maria Bárbara, e de seus dois filhos, Manuel da Costa Rios e João
da Costa Rios, respectivamente.10
Um pouco da história da família Rios pôde ser reconstituída em vir-
tude dos indícios materiais encontrados nos inventários de alguns de seus

8. Ainda que a cafeicultura sul-mineira só tenha expressão a partir da década de 1880, é


interessante perceber que o dono de engenho apostava na diversificação de atividades,
experimentando a cultura de café em sua fazenda, embora em pequena escala. Não há
menção ao número de pés de café plantados, muito menos ao volume de produção, seja
em café colhido, seja em sacas ou arrobas. Em 1850, José Teixeira Rios possuía metade de
um cafezal que foi avaliado em 100$000. Terei oportunidade de voltar a esta questão mais
adiante, inclusive relativizando a historiografia, em que pese os marcos de expansão do
café na economia sul-mineira.
9. CEMEC-SM, Inventário post mortem de José Teixeira Rios (1850), caixa 23.
10. APM, Relação dos engenhos e das casas de negócios de 1836. Seção Provincial, SP PP
1/6, caixa 04.

80
membros. As lacunas se devem à ausência dos inventários dos dois membros
restantes, mas seus nomes constam das listas nominativas de habitantes de
1831-32. Naquela época, Francisco da Costa Rios estava com 38 anos, era
solteiro e contava com o trabalho de 36 cativos para tocar os empreendimen-
tos de sua fazenda. Já Manuel da Costa Rios, com 40 anos, estava casado e
possuía 29 escravos.11 Embora não tenha informações anteriores a respeito
da família e nem da terceira geração – o que, de certo modo, impede a ve-
rificação da origem da fortuna e do posterior fracionamento do patrimônio
– os inventários localizados permitem constatar os caminhos encontrados
pelos grandes proprietários da região para expandir seus empreendimentos
e formar suas fortunas. Vimos que, além de dar continuidade à produção de
açúcar, a diversificação de atividades constituiu a estratégia principal para a
manutenção e a expansão do patrimônio e da riqueza herdada pelos filhos.
Pelo menos no caso da família Rios, observa-se que a produção canavieira
constituía uma atividade que envolvia todos os seus integrantes e esta parece
ter sido a estratégia de sucesso do empreendimento, que se manteve pelo
menos por duas gerações. As especulações sobre o fracionamento da fortuna
da família podem ser inferidas em razão da partilha dos bens do último
herdeiro inventariado. José Teixeira Dias casou-se duas vezes; do primeiro
consórcio teve um filho e, do segundo, sete. Depois de feito o seu inventário,
estabelecida a partilha, descontadas a meação e a terça, restou para cada
herdeiro apenas a quantia de 3:514$791. Provavelmente, as mesmas chances
de sucesso não estariam reservadas para todos os membros da terceira
geração, dado o número de herdeiros e o consequente fracionamento do
patrimônio. Neste caso, parece ser pertinente aquela máxima bem comum
para o século XIX, “pai taverneiro, filho barão e neto mendicante”, embora a
origem da riqueza da família Rios não esteja nas atividades mercantis, pelo
menos para as gerações que encontramos evidências.12
Neste capítulo, procura-se apresentar um pouco do funcionamen-
to das grandes unidades escravistas, as opções de investimento dos gran-
des proprietários, a origem das fortunas e também do seu fracionamento,

11. Idem; Listas nominativas de 1831-32 para o termo de Campanha.


12. Para esta discussão, ver Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, especialmente
o capítulo III, p. 163-222; e João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura.

81
sempre que as fontes permitirem algum tipo de inferência neste sentido.
As informações dos inventários serão analisadas de modo agregado para
os 64 maiores escravistas da área em estudo, buscando-se destacar a con-
centração da riqueza nas mãos deste pequeno grupo. Ao mesmo tempo,
procura-se acompanhar algumas trajetórias individuais capazes de ilustrar
as questões que se pretende enfatizar.

1. Elite escravista no Sul de Minas: opções de investimento e com-


posição da riqueza
Antes de analisar os dados agregados, é importante definir o que se
considera elite, já que o conceito é complexo e diverso, e depende muito dos
aspectos que se quer abordar. Considerou-se as unidades com escravarias a
partir de vinte cativos como pertencentes à elite do sistema escravista regional,
levando em consideração as fontes pesquisadas e os estudos demográficos
existentes, não só para Minas Gerais, como também para outras áreas es-
cravistas do Império, uma vez que não se conseguiu localizar nenhum tipo
de listagem ou documentação que se referisse aos maiores proprietários
escravistas da região, no recorte temporal analisado (ver capítulo 1). Embora
esteja partindo do parâmetro econômico para definir as famílias integrantes
da elite escravista, outros aspectos não devem ser desconsiderados, como,
por exemplo, o prestígio da família, a ocupação de cargos políticos, admi-
nistrativos, civis e eclesiásticos, e o acesso à escolaridade.13 Esses aspectos
serão abordados no capítulo 4, quando se reconstituirá parte da trajetória
da família Junqueira com destaque para um de seus membros, que teve
atuação expressiva no cenário político regional e nacional.14

13. Cf. Sheila de Castro Faria, op. cit., p. 207.


14. Também é preciso esclarecer que não estarei trabalhando com nenhum conceito de elite
política em particular, mas isto não exclui, de forma alguma, o diálogo necessário que esta-
belecerei com obras de referência sobre a política no Império e que será fundamental para se
compreender a atuação das famílias que se destacaram no mundo da política formal, sempre
resguardando as divergências de interpretações. Refiro-me principalmente às seguintes
obras e autores: José Murilo de Carvalho, A construção da ordem/Teatro de sombras; Ilmar
Rohloff de Mattos, O tempo saquarema; Alcir Lenharo, As tropas da moderação. Estudos
mais recentes sobre o tema serão incluídos, especialmente, quando discuto a trajetória do
deputado liberal moderado Gabriel Francisco Junqueira.

82
Por ora, pretende-se discutir o funcionamento das grandes unidades
escravistas, as opções de investimento dos grandes proprietários e a com-
posição da riqueza que é possível depreender da análise das fontes. Antes de
proceder ao estudo dos dados, é necessário tecer alguns esclarecimentos a
respeito dos ativos que compunham a riqueza dos proprietários sul-mineiros
e da periodização estabelecida.15 Foram considerados três subperíodos, com
o objetivo de detectar as mudanças na composição das fortunas e, conse-
quentemente, o percentual que cada rubrica representou no total dos bens,
especialmente em relação aos escravos, pois o período em estudo é marcado
por profundas transformações na conjuntura nacional e internacional, as
quais tiveram influência no preço dos cativos e na demografia do tráfico.
Para o primeiro subperíodo (1803-1830), o marco final é o tratado an-
titráfico estabelecido com a Inglaterra em 13 de março de 1827, que, em seu
artigo primeiro, afirmava que o tráfico seria considerado ilegal no prazo de
três anos. Após a abolição do tráfico internacional de escravos para as colônias
britânicas, em 1807, a Inglaterra iniciou uma intensa campanha para pôr fim a
este tipo de comércio em outras colônias, buscando neutralizar as vantagens
dos produtores de açúcar, principalmente do Brasil e de Cuba. Já em 1810,
d. João assumiu o compromisso de cooperar com a Inglaterra na abolição
gradual do tráfico para o Brasil, mas sem resultados práticos. A questão é
novamente colocada quando do reconhecimento da Independência do país,
em 1822, mas as discussões perduraram por mais quatro anos, quando foi
assinado o tratado antitráfico, ratificado pelo governo inglês em 13 de março
de 1827. Embora esse acordo tenha passado para a história como a lei “para
inglês ver”, certamente teve um papel importante, mormente na elevação do
preço da mão de obra escrava e na entrada maciça de cativos.16

15. Existem alguns trabalhos que já se tornaram referência para o estudo da composição
da riqueza a partir dos inventários e que foram de grande utilidade para a discussão deste
capítulo. Ver Zélia Cardoso de Mello, Metamorfoses da riqueza; João Luís Fragoso, Homens
de grossa aventura; Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia – século XIX. As duas teses mais
recentes que tratam especificamente da comarca do Rio das Mortes, ambas já citadas,
também apresentam estudos sobre a composição da riqueza na região tomando por base
os inventários: Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste; Carla Maria Carvalho
de Almeida, Homens ricos, homens bons.
16. Uma boa discussão sobre o assunto pode ser encontrada em Manolo Florentino, Em
costas negras, p. 41-44.

83
O segundo subperíodo (1831-1850) compreende as duas últimas décadas
de vigência do tráfico, ocasião em que a entrada de africanos no país atingiu
níveis elevados, em razão da conjuntura desfavorável ao tráfico negreiro
internacional, fazendo com que os negociantes escravistas burlassem a le-
gislação e possibilitassem um aumento nas cifras anuais de desembarque de
cativos no Brasil.17 E o último (1851-1865) merece destaque por ser o período
de uma conjuntura pós-tráfico internacional de cativos, quando o preço da
mão de obra escrava alcançou níveis mais altos e os escravos passaram a ter
um peso maior na composição das fortunas.
Quanto às rubricas estabelecidas, é necessário fazer alguns esclareci-
mentos. “Dinheiro” e “ações” foram considerados em separado, no sentido
de se verificar a representação de cada uma delas ao longo do período
estudado. Optou-se por agregar “utensílios, móveis e ferramentas” por-
que, na maioria das vezes, estes bens vinham descritos quase sempre em
conjunto e possuíam uma representação pequena, em termos de valor, no
total dos bens. Estes itens serão investigados com maior detalhamento no
próximo capítulo, quando se tratará dos hábitos, costumes e modos de vida
desse grupo, analisando o que havia no interior das “casas de morada” das
fazendas e nas “casas da vila”, bem como o vestuário. A rubrica “comércio”
se refere exclusivamente aos bens existentes nas casas de negócio de “secos
e molhados”. Optou-se por agregar “produção, plantação e mantimentos”,
compreendendo tanto a produção dos engenhos (açúcar, rapadura e aguar-
dente) quanto a das fazendas (queijos, milho, feijão, arroz). As plantações de
café, fumo e cana também estão incluídas nesta rubrica, assim como o sal,
embora seja um artigo importado. Os animais (gado vacum, cavalar, muar
e caprino) serão analisados de forma mais detalhada em tabela separada,
quando se discutirá a importância da agropecuária e do comércio de tropas
na região. Decidiu-se separar imóveis rurais e urbanos para distinguir as
propriedades rurais das classificadas como “casas de morada na vila”. Entre

17. Segundo Manolo Florentino, os “compradores de africanos acreditavam no fim próximo


e definitivo do comércio negreiro, e que tal crença refletiu no mercado de africanos entre
1826 e 1830”. O autor também comenta as cifras anuais de entrada de escravos, demons-
trando que, entre 1846 e 1850, esta cifra atingiu uma média anual de quase 50 mil africanos
desembarcados no Brasil. Ver Em costas negras, p. 43-44.

84
os imóveis rurais estão incluídas não só as terras, mas também as casas de
vivenda e as demais benfeitorias das fazendas, como os engenhos, os moi-
nhos, os monjolos, as senzalas etc.
Embora se esteja trabalhando com um grupo bastante reduzido e que
concentrava grande parte da riqueza, seja em escravos ou terras,18 existem
algumas diferenças marcantes no próprio grupo que necessitam ser apontadas.
Referem-se tanto ao valor das fortunas acumuladas, quanto às categorias
socioeconômicas que concentravam maior riqueza. Procurou-se estabele-
cer uma classificação das fortunas, no sentido de perceber as mudanças ao
longo do período estudado.19 O que era um homem rico naqueles tempos?
Evidentemente, passava pelo critério da posse de “homens e terras”, já que
se tratava de uma sociedade escravista. Como já mencionado, considerou-
se como mais afortunados os proprietários que detinham vinte cativos ou
mais. Kátia Mattoso, ao analisar os inventários da cidade de Salvador, chega
à conclusão de que, na primeira metade do século XIX, poderia ser consi-
derado homem rico quem possuísse mais de 10:000$000.20
Na tabela 8, pode-se perceber que, no primeiro subperíodo, a maior
parte (23%) das fortunas era de nível médio, embora a concentração maior
de riqueza (53%) estivesse nas mãos de um proprietário somente. O preço
ainda relativamente baixo da mão de obra escrava nas primeiras décadas
do século XIX pode ser a explicação para os menores valores das fortunas

18. Ver capítulo 1, na parte referente à estrutura de posses de cativos.


19. Com base no valor líquido do monte-mor dos inventários, adaptei a classificação das
fortunas adotadas por Kátia M. de Queirós Mattoso para a cidade de Salvador, província
da Bahia. Ver Bahia, século XIX, p. 605-615.
20. É importante mencionar que não estou desconsiderando as diferenças regionais nem a
importância socioeconômica de Salvador, Bahia, no século XIX. Além do mais, é preciso
salientar que estou trabalhando com uma área quase que estritamente rural e voltada para
o abastecimento interno, embora existam alguns poucos inventários de comerciantes que
residiam na vila. Mas nem por isto a contraposição dos dados encontrados para as duas
áreas deixa de fazer sentido. Guardadas as devidas diferenças na classificação das fortunas,
considerei apropriado adaptar a classificação adotada pela autora, em virtude do valor das
fortunas acumuladas pelos proprietários sul-mineiros ao longo da primeira metade do
século XIX. Também gostaria de deixar claro que não fiz conversão para libras, porque o
objetivo principal da análise consiste em verificar a importância dos ativos na composição
das fortunas e não propriamente os valores nominais. Para a flutuação cambial da moeda
brasileira ao longo do século XIX, ver a tabela reproduzida por Kátia M. de Queirós Mattoso,
Ser escravo no Brasil, p. 254.

85
nesse subperíodo. O número reduzido de inventários pode também ter tido
influência no resultado encontrado. Será avaliado mais adiante o peso que
a mão de obra escrava tinha na composição das fortunas. Trata-se de uma
constatação mais ou menos óbvia, uma vez que, numa sociedade escravista,
o braço cativo é fundamental para o funcionamento e a manutenção do
sistema econômico e para ampliação da riqueza dos senhores.
Já para o segundo subperíodo, com um número maior de inventariados,
constata-se uma elevação considerável no nível da riqueza. Todas as fortunas
acumuladas estavam acima de 10:000$000. Apesar de as fortunas médias
altas representarem a metade do total de inventariados, sete proprietários,
que possuíam mais de 50:000$000, concentravam 41% da riqueza. Essas
mudanças sinalizam que algumas atividades econômicas praticadas na re-
gião, especialmente as ligadas à agricultura e à pecuária, possibilitaram o
enriquecimento de alguns proprietários. Os níveis dessa acumulação po-
dem ser percebidos no subperíodo seguinte, quando as faixas mais altas de
riqueza aumentaram visivelmente. Embora os proprietários com fortuna
acima de 10:000$000 representassem a maioria (46%), somente cinco (19%)
concentravam 48% de toda a riqueza acumulada no período. Foi justamente
nessa época que se encontrou grande número de indivíduos com fortunas
superiores a 100:000$000.21 ,

21. Afonso Alencastro Graça Filho encontra um monte-mor médio para os 103 maiores fa-
zendeiros são-joanenses de 39:942$525, na primeira metade do século XIX, e de 80:308$893,
na segunda metade. Cf. GRAÇA FILHO, Afonso Alencastro. A princesa do oeste... p. 153.
Para Campanha, encontrei o seguinte resultado: 44:804$771 para a primeira metade do
XIX e, para o período de 1850-1865, 83:280$936. São valores bem aproximados, embora um
pouco maiores do que os encontrados para a vila de São João del Rei, mas são indicativos
do potencial dessas unidades produtivas voltadas para o abastecimento interno.

86
Tabela 8
Classificação das fortunas (em contos de réis), nos inventários com vinte escravos ou mais – Campanha (1803-1865)
1803-1830 1831-1850 1851-1865
Classificação
no de inv. % Valor % no de inv. % Valor % no de inv. % Valor %

Médias (até 10:000) 3 50 22.115$435 23

Médias altas (10:000 a 50:000) 2 33 22.902$839 24 24 75 717.067$833 50 12 46 379.127$320 19

Grandes (50:001 a 100:000) 1 17 50.363$336 53 7 22 583.559$264 41 9 35 661.966$348 33

Maiores fortunas (acima de 100:001) 1 3 132.828$570 9 5 19 958.294$992 48

Total* 6 100 95.381$610 100 32 100 1.433.455$667 26 100 1.999.388$660 100

Fonte: Ver tabela 4. *Monte-mor bruto. Não estão incluídos valores correspondentes às dívidas passivas, nem aos dotes.

87
De acordo com a classificação, quais eram as atividades econômicas
principais desse grupo? Conforme já se constatou, acima de 40% dos in-
ventariados mais ricos estavam relacionados diretamente às atividades de
engenho. Os 64 indivíduos mais ricos do Sul de Minas podem ser assim
classificados: 29 (45%) donos de engenho, 26 (40%) agropecuaristas, seis (9%)
mineradores e três (5%) comerciantes. Das seis maiores fortunas do termo
da vila da Campanha, cinco tiveram origem na atividade agrária, sendo três
senhores de engenho e dois agropecuaristas. Somente uma teve origem em
negócios mercantis. Os níveis de concentração de recursos neste pequeno
grupo também são expressivos, como já foi assinalado. Tais dados apontam
a importância dessas unidades escravistas agropastoris e evidenciam sua
capacidade de gerar riqueza e se articular com o abastecimento interno.
João Luís Fragoso constata que, no Rio de Janeiro, as sete maiores for-
tunas tinham ligação com os negócios mercantis e representavam o topo da
hierarquia econômica. Evidencia-se, então, o papel decisivo desempenhado
pelos negociantes na reprodução do sistema escravista colonial.22 Embora
não seja este o perfil da área em estudo, deve-se ter em conta que a praça do
Rio de Janeiro “era uma área privilegiada para as operações das produções
coloniais voltadas para o abastecimento interno”,23 além de desempenhar
inegável papel articulador e integrador com outras áreas escravistas, in-
cluindo o Sul de Minas.

22. Ver João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 313-314. Afonso Alencastro encontra
situação semelhante para a vila de São João del-Rei, onde 31 negociantes grossistas concen-
travam grande parte da riqueza em imóveis urbanos, controlavam o crédito e financiavam
parte da produção agropastoril. Cf. A princesa do Oeste, p. 91-92.
23. João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 307.

88
Tabela 9
Composição da riqueza (em mil réis), nos inventários de Campanha
– (1803-1865)
1803-1831 1832-1850 1851-1865
Ativos
Valor % Valor % Valor %
Dinheiro 1.280$554 0,01 33.345$718 2,22 44.111$410 2,14
Ações 60.560$000 2,94
Metais preciosos 180$015 0,17 201$700 0,01 10.628$470 0,52
Joias 253$290 0,24 1.168$190 0,08 2.123$425 0,10
Utensílios, móveis e
1.829$240 1,76 34.450$959 2,30 25.704$712 1,25
ferramentas
Comércio 3.916$282 0,19
Produção, plantações
1.840$000 1,77 31.255$310 2,08 42.606$880 2,07
e mantimentos
Animais 3.937$600 3,78 69.848$060 4,65 98.147$620 4,76
Escravos 36.116$750 34,71 530.368$610 35,33 819.445$096 39,73
Imóveis rurais 40.387$716 38,81 454.803$103 30,30 618.120$099 29,97
Imóveis urbanos 1.505$000 1,45 44.237$054 2,95 31.742$000 1,54
Dívidas ativas 8.071$445 7,76 233.756$963 15,57 242.282$666 11,75
Dotes 8.662$800 8,32 67.607$673 4,50 63.076$211 3,06
Totais 104.064$410 100,0 1.501.043$340 100,00 2.062.464$871 100,00
Total de inventários 6 32 26

Fonte: ver tabela 4.

Constata-se, na tabela 9, que os três ativos de maior importância na


composição das fortunas dos proprietários sul-mineiros eram os escravos,
os imóveis e as dívidas ativas. 24 Somente no primeiro subperíodo é que se

24. Quase a totalidade dos trabalhos que discutem a composição das fortunas tomando
por base os inventários constata a importância desses três ativos. O que muda é a ordem
que cada ativo possui no conjunto das fortunas analisadas. Com pequenas variações, al-
guns trabalhos referentes a outras áreas escravistas do Império encontraram um quadro
semelhante ao da região em estudo. Zélia Cardoso de Mello, ao analisar a composição da
riqueza dos proprietários paulistas, constatou que, pelo menos até 1860, escravos, dívidas
ativas e imóveis eram os ativos mais importantes, oscilando a ordem de acordo com a faixa
de riqueza. Ver Zélia Cardoso de Mello, Metamorfoses da riqueza, p. 94-98. Kátia M. de
Queirós Mattoso, ao estudar a província da Bahia, também constata a importância destes
três ativos na fortuna dos baianos, principalmente aquelas categorias relacionadas ao mundo
agrário, como os senhores de engenho e os proprietários agrícolas. Ver Bahia, século XIX,
p. 629-630. A mesma ordem de importância destes três ativos foi constatada para a comarca

89
verifica uma pequena alteração, quando os valores correspondentes aos
imóveis rurais superam os valores investidos em escravos. Pelo menos duas
explicações podem ser sugeridas para esta variação.
Em primeiro lugar, o preço médio de um escravo em idade adulta (15 a 45
anos) era bem menor que nos períodos subsequentes, portanto, representava
um peso menor na composição da riqueza. E, em segundo, pelo número
bem inferior dos inventários existentes para o primeiro subperíodo, de
acordo com a amostra selecionada. Nos subperíodos seguintes, a conjuntura
internacional desfavorável ao tráfico e a sua posterior abolição certamente
contribuíram para a elevação do preço do escravo, fazendo com que este
ativo representasse valores percentuais cada vez maiores na composição das
fortunas – 35,33% e 39,73%, respectivamente.
Segundo Afonso Alencastro Graça Filho, na comarca do Rio das Mortes,
um escravo em idade adulta (entre 15 e 45 anos) valia em média 378$041
nos primeiros cinco anos da década de 1830 e, entre 1860 e 1865, chegou ao
patamar de 1:378$333.25
Em relação ao peso que representavam as dívidas ativas no total da
riqueza, há um consenso entre os estudiosos do tema sobre a escassez de
moeda circulante e a frágil liquidez da economia colonial e também de boa
parte do período imperial, pelo menos até a primeira metade do século XIX.
Trata-se de uma economia com traços pré-industriais e mercado restrito,
como afirma João Luís Fragoso. Daí a importância desempenhada pelo setor
mercantil, representado pelo comércio e pelas dívidas ativas.26 Em Campanha,

do Rio das Mortes e de Vila Rica. Ver Carla Maria Carvalho de Almeida, Homens ricos,
homens bons, p. 172-175. Quando a autora analisa especificamente a composição da riqueza
entre os homens mais abastados, esta ordem muda, ou seja, eles são detentores do crédito e
as dívidas ativas ocupam o primeiro lugar na opção de investimento, seguidas pelos imóveis
e, em último lugar, os escravos. Já Afonso Alencastro Graça Filho, ao analisar a fortuna dos
103 maiores fazendeiros são-joanenses, constata que os imóveis representavam uma fatia
maior dos bens, em segundo lugar estavam os escravos. Ver A princesa do Oeste, p. 153-154.
25. O autor chega a esta conclusão ao fazer um estudo dos preços dos cativos com base nos
inventários. Optei por não fazer análise semelhante, por acreditar que esses valores apre-
sentariam pouca variação, uma vez que estou trabalhando com o mesmo período e em uma
área relativamente próxima à sede da comarca do Rio das Mortes. Nos outros subperíodos,
o autor encontrou a seguinte média: 1841-1845 (585$197); 1851-1855 (766$404). Ver Afonso
Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, p. 266.
26. Ver João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 306. Para uma discussão sobre o
grau de endividamento e o papel do crédito em Minas, ver os seguintes autores: Charles R.

90
os percentuais relativos a metais preciosos e joias nunca ultrapassaram o
percentual de 1%, nos três subperíodos. Somente a partir da década de 1830
o dinheiro (em notas ou moedas) irá ultrapassar o percentual de 2%. E só
da segunda metade do século XIX em diante será possível encontrar dois
proprietários investindo em ações, seja do Banco do Brasil ou de companhia
de mineração. Como já mencionado, a baixa liquidez e a escassa circulação
de moedas justifica a existência de percentuais tão modestos.
Quanto aos imóveis, representavam o segundo item mais importante da
fortuna dos sul-mineiros. Optou-se por separar as sedes das propriedades
rurais das “casas na vila ou no arraial”, para perceber a importância que o
segundo tipo de residência teve ao longo do período em estudo. Embora
não haja alteração significativa nos percentuais, a partir da década de 1830
os imóveis urbanos passam a ter uma representação maior, denotando a
importância que a sede da vila da Campanha adquire nesse período. É tam-
bém a partir dessa época que as residências localizadas nas ruas principais
da vila atingem um preço mais elevado. Nas primeiras décadas do século
XIX, uma casa no largo da Matriz custava cerca de 800$00027 e, em 1846,
uma morada de casas no mesmo local podia custar até 8:400$000.28
O plantio de cana, a produção de açúcar, rapadura, aguardente, alimentos
e a criação de animais estavam entre as principais atividades que garanti-
ram a sobrevivência e o enriquecimento dos proprietários mais abastados
do sul de Minas. Alguns deles também plantavam fumo e até mesmo um
pouco de café. Em termos percentuais, esses ativos representaram pouco
na composição da riqueza, mas constituíam a vida das fazendas. Era em
torno dessas atividades que se montava a estrutura das grandes unidades

Boxer, A idade do ouro no Brasil; Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes;
Júnia Ferreira Furtado, Homens de negócio; Marco Antônio da Silveira, O universo do
indistinto: estado e sociedade nas Minas setecentistas; Carla Maria Carvalho de Almeida,
Homens ricos, homens bons; Afonso Alencastro Graça Filho, op. cit.
27. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Ana Bárbara Firmina de Oliveira (1816),
caixa 02.
28. CEMEC-SM, Inventário post mortem do vigário José de Sousa Lima (1846), caixa 18.
Evidentemente, não tenho maiores detalhes sobre as características das construções, mas
posso supor que a residência do vigário fosse um sobrado de alguma importância na vila,
inclusive pelo alto valor de sua avaliação. Para algumas considerações sobre a crescente
urbanização da vila de Campanha, ver capítulos 1 e 3.

91
escravistas, fazendo surgir as “casas de vivenda”, as senzalas, as benfeitorias
(moinhos, monjolos, engenhos, paióis, casas de tropa) e as plantações. Para
sua execução, a mão de obra escrava foi fundamental. Parte do excedente
da produção açucareira ou da criação de animais podia ser comercializada
nos mercados locais, regionais ou mesmo fora da província.

2. Produção fabril e “casas de negócio”


Consultando a relação de engenhos e “casas de negócio” de 1836, foi
possível perceber que a importância do comércio está sub-representada nos
inventários encontrados para o período. Na sede da vila da Campanha, por
exemplo, existiam 55 “casas de negócio”, assim discriminadas: sete lojas de
fazendas secas, gêneros importados e aguardente; duas de fazendas secas
e gêneros importados; dez que comercializavam somente fazendas secas;
uma de gêneros importados; 15 de gêneros importados e aguardente; e vinte
que vendiam somente aguardente. Além disto, havia 28 casas que vendiam
aguardente nas estradas dos distritos pertencentes à vila.29 Esses números
indicam a articulação entre o setor produtivo e o comércio, já que a produção
dos engenhos era comercializada nos inúmeros estabelecimentos à beira das
estradas que interligavam as fazendas, os arraiais e as vilas e também nos
caminhos para as províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Certamente,
grande parte da produção dos 11 engenhos de Campanha era comercializada
nesses estabelecimentos comerciais. Para o ano de 1856, há informação de
78 engenhos em todo o termo da vila, sendo 28 movidos à água.30 As lojas
de fazendas secas e gêneros importados localizavam-se na sede da vila e
atendiam às demandas cada vez mais crescentes dos que podiam comprar
toda sorte de artigos importados procedentes da Corte.31
Outros distritos importantes pertencentes ao termo de Campanha
apresentaram um quadro semelhante ao aqui descrito. No de Bom Jesus do

29. APM, Relação dos engenhos e das casas de negócios de 1836. SP PP 1/6.
30. APM, Relatório da Câmara Municipal de Campanha, de 20/2/1857, em resposta à circular
do governo da província sobre o estado da “indústria” da mineração, agrícola e fabril. SP 655.
31. A esse respeito, ver capítulo 3.

92
Lambari, havia 22 casas de negócio e mais sete à beira de estradas.32 O distrito
de São Gonçalo da Campanha era o maior produtor de açúcar, aguardente e
rapadura da região e possuía um grande número de engenhos, inclusive os
mais bem equipados. Em 1836, contavam-se 11 engenhos, sendo que quatro
deles eram movidos por força hidráulica e o restante por bois.33 A articulação
entre o setor produtivo e o comercial pode ser constatada pelo número de
casas que vendiam a aguardente simples. A articulação entre o setor pro-
dutivo e o comercial pode ser constatada pelo número de estabelecimentos
que vendiam a aguardente simples: 48, sendo que 19 estavam localizados
dentro da povoação, e os demais, fora do arraial, certamente nos caminhos
e nas estradas que interligavam as vilas e as praças comerciais da província
e mesmo fora dela. A produção dos engenhos sul-mineiros estaria voltada
para o consumo interno, sendo comercializada nas praças locais e regionais.
Segundo Clotilde Paiva e Marcelo Godoy, os engenhos mineiros podiam ser
classificados de duas formas: os que desempenhavam uma atividade comple-
mentar na unidade produtiva, geralmente voltados para o consumo interno
e a comercialização do excedente em mercados locais; e os que constituíam
a atividade central da fazenda, detinham tecnologia mais avançada e eram
similares aos das áreas agroexportadoras.34
As relações entre as atividades voltadas para o abastecimento interno e
as de exportação têm de ser vistas numa perspectiva mais ampla, compre-
endida aqui não só em relação aos produtos voltados para a praça carioca,
mas também para o mercado internacional, como o tabaco. Essas atividades
estavam articuladas e faziam parte de um complexo agroexportador, que
tinha efeitos multiplicadores nas economias local e regional, como defende
Robert Slenes, e garantia a reprodução e a ampliação do sistema escravis-
ta.35 Como afirmou o autor, na década de 1980, “sem pesquisa em arquivos

32. APM, Relação dos engenhos e das casas de negócios de 1836 para o distrito de Bom Jesus
do Lambari. SP P 1/6, caixa 05.
33. APM, Relação dos engenhos e das casas de negócios de 1836 para o arraial de São Gonçalo
da Campanha. APM, SP PP P1/6, caixa 05.
34. Cf. Clotilde Andrade Paiva & Marcelo Godoy, Engenhos e casas de negócios na Minas
oitocentista, p. 33, nota 9.
35. Ver Robert Slenes, Os múltiplos de porcos e diamantes. Ver também Alcir Lenharo,
As tropas da moderação, e João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura.

93
locais só podemos especular sobre os efeitos multiplicadores da economia
de exportação de Minas”.36
No distrito de Pouso Alto, por exemplo, uma povoação localizada numa
área estratégica, onde os caminhos em direção à Corte e à província de São
Paulo se entrecruzavam, existia somente um engenho, mas o número de
casas que vendiam aguardente da terra e do reino e fazendas secas era muito
expressivo: havia quatro casas de negócio que comercializavam fazendas
secas e molhados, duas exclusivas de fazendas secas e 26 de aguardente da
terra. Naquela localidade, havia quatro casas de negócio que comercializa-
vam fazendas secas e molhadas, duas exclusivas de fazendas secas e 26 que
vendiam aguardente da terra. Provavelmente, parte da produção da vila de
Campanha poderia estar direcionada para locais relativamente próximos,
como Pouso Alto, e o fluxo de tropeiros e comerciantes em direção à praça
carioca justificava a existência de tantas vendas à beira das estradas e o papel
importante que elas desempenharam na economia local e regional.
Existem vários estudos dando conta da dinâmica do comércio regional
das Minas e de outras regiões do Império que apresentam um cenário seme-
lhante. Algumas tipologias já foram estabelecidas no sentido de identificar
os principais ramos de comércio e seus respectivos agentes. Sheila de Castro
Faria encontrou a seguinte hierarquia mercantil para a região de Campos dos
Goytacazes, Rio de Janeiro, no século XVIII: no topo, estavam os usurários
exclusivos (sem mercadorias), seguidos pelos negociantes de fazenda/usurá-
rios; a base era formada pelos pequenos comerciantes (vendeiros, mascates
e pequenos lojistas). A liquidez do mercado regional estava nas mãos dos
usurários e dos comerciantes de fazenda, que financiavam a manutenção e
a reprodução da lavoura e da indústria açucareira, bem como as atividades
pastoris ou os investimentos em bens agrários.
A agroindústria açucareira da região foi resultado direto do investi-
mento de capital por parte de grandes comerciantes, alguns da praça do
Rio de Janeiro. O mercado matrimonial também desempenhou um papel

36. Robert Slenes, op. cit., p. 461.

94
importante na mudança de status socioeconômico, ou seja, na passagem do
comerciante a lavrador/senhor de engenho.37
Para Minas Gerais, destacam-se as contribuições de Cláudia Chaves,
que estabeleceu uma tipologia dos agentes do comércio na região. Os co-
merciantes do mercado mineiro estavam divididos em duas categorias:
volantes e fixos. Os volantes constituíam um grupo diversificado, formado
por tropeiros, comboieiros (secos e molhados, cavalos, bestas e escravos),
boiadeiros, mascates e negras de tabuleiro. Os quatros primeiros percorriam
grandes distâncias e passavam pelos postos fiscais. Os comerciantes fixos
eram formados pelos vendeiros, lojistas e comissários (abastecidos por
tropeiros, produtores rurais e artesãos mineiros).38
Afonso Alencastro Graça Filho apresenta alguns dados expressivos sobre
a atuação dos negociantes na comarca do Rio das Mortes, mais precisamente
no termo de São João del-Rei. Ao analisar a fortuna dos 31 negociantes gros-
sistas da região, no século XIX, o autor chega às seguintes conclusões: dos
23 de que foi possível saber a naturalidade, 11 eram de origem portuguesa;
o grande negociante poderia ser também um fazendeiro, pois 12 deles eram
proprietários de imóveis rurais. Por outro lado, os negociantes não eram
grandes fazendeiros, uma vez que o investimento de capitais estava, em
grande parte, alocado em imóveis urbanos, apólices ou dívidas ativas, e não
em atividades produtivas (terras, lavouras, animais e escravos). A busca do
ideal aristocrático se verifica no controle social do crédito e na obtenção de
títulos nobiliárquicos ou militares.39
Em relação ao sul de Minas, existiria alguma diferença marcante na
tipologia estabelecida para outras regiões da província e, mesmo, do Império?
De modo geral, o quadro traçado até o momento não aponta grandes diver-
gências, mas algumas particularidades já foram registradas, principalmente

37. Em proporções menores, a autora identifica o mesmo fenômeno constatado por João
Luís Fragoso para a área urbana do Rio de Janeiro, ou seja, a grande maioria das fortunas
tinha origem no comércio. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, ver capítulo
3, p. 163-206.
38. Ver Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes, p. 50-61. Ver também
Júnia Ferreira Furtado, Homens de negócio, especialmente o capítulo 4; e Luciano Raposo
de Almeida Figueiredo, O avesso da memória: cotidiano de trabalho da mulher em Minas
Gerais no século XVIII.
39. Afonso Alencastro Graça Filho, op. cit., p. 101-112.

95
no que se refere à concentração da riqueza, à categoria socioeconômica e
às atividades econômicas predominantes. Pretende-se discutir melhor o
funcionamento dessas unidades produtivas, a importância dos engenhos
e do cultivo do tabaco, sua produção e comercialização, com o objetivo de
detectar as semelhanças com os estudos realizados até então e também as
especificidades regionais.
Embora o número de inventariados qualificados como comerciantes
seja bastante reduzido, um olhar mais atento sobre os indícios encontrados
em seus espólios demonstra a importância do comércio, sua articulação
com o setor produtivo e as principais opções de investimento. Vejamos, com
maior detalhe, os bens dos três indivíduos qualificados como comerciantes.
Luiza Amália de Lemos teve seu inventário realizado em 1843. Moradora
no arraial de São Gonçalo da Campanha, possuía 21 escravos, uma pro-
priedade rural, avaliada em 750$000, mas grande parte dos seus bens se
localizava na sede do arraial. Era também proprietária de uma morada de
casa de sobrado, avaliada em 8:000$000, e de um estabelecimento onde
funcionava uma fábrica de chapéus. Trata-se da conhecida fábrica de chapéus
de São Gonçalo – muito citada na literatura memorialista do sul de Minas
–, pertencente ao barão do Rio Verde, tenente João Antônio de Lemos, seu
marido e, na época, seu inventariante. Os louvados foram generosos ao
descrever alguns dos objetos e materiais que constavam no armazém onde
funcionava a fábrica: 2.769 chapéus avaliados em 8:526$120; peles de lebre e
de coelho avaliadas em 3:134$271; além de 400 peças de cadarço e 108 côvados
de seda para forros. Ao que parece, o proprietário da fábrica possuía uma
grife própria que identificava os artigos produzidos no seu estabelecimento,
pois foram arroladas nada menos que 4.500 marcas para chapéus.40
João Antônio de Lemos era o filho mais velho de Rodrigo Antônio de
Lemos, imigrante português que se estabeleceu e constituiu família no ar-
raial de São Gonçalo, na segunda metade do século XVIII. Teve importante
atuação política no cenário regional: foi vereador em Campanha, deputado
provincial e, depois, deputado no parlamento nacional, tendo recebido o
título de cavaleiro da Ordem de Cristo. Integrava o grupo que pleiteava a

40. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Luíza Amália de Lemos (1843), caixa 15.

96
criação da província de Minas do Sul, projeto defendido pelos Veiga e outros
proprietários e políticos sul-mineiros em meados da década de 1850. Teve um
fim trágico, foi assassinado pelo marido de sua neta, o dr. Joaquim Gomes
de Sousa, afamado médico de Campanha. Segundo seus biógrafos, o médico
campanhense passou a apresentar sinais de insanidade mental depois que
sua esposa havia tido nove filhos. Conta-se que tinha exagerados ciúmes
da mulher, “a quem prendia, pelas longas tranças, à gaveta de uma cômoda,
levando a chave quando saía”. Dona Adelaide conseguiu mandar uma carta
ao avô, relatando os fatos, e acabou se separando do marido e indo morar no
solar do barão. Depois de certo tempo e aparentemente conformado com a
situação, o médico procurou o barão para uma reconciliação. Este lhe sugeriu
que se mudasse para São Gonçalo, para que ali pudesse clinicar. No dia 30
de dezembro de 1864, quando João Antônio de Lemos saiu de seu solar para
visitar um amigo, o comendador Francisco de Paula Bueno da Costa, foi
assassinado com nove facadas nas costas, ao atravessar o largo da Matriz.41
A sua manufatura de chapéus parece ter sido uma das principais ativi-
dades de transformação no termo da vila. 42 Do total de escravos arrolados
no inventário, alguns tiveram sua profissão declarada, o que indica a sua
utilização no serviço da fábrica: três chapeleiros e duas costureiras. Esta
constatação é explicitada nas listas nominativas de 1831-32, pois João Antônio
de Lemos aparece ali qualificado como proprietário de uma fábrica de cha-
péus, com um total de 24 cativos, sendo que sete eram chapeleiros, cinco
cardadores e três costureiras, além de um escravo sapateiro, dois pedreiros
e mais cinco que trabalhavam na mineração. Havia também três homens
livres, brancos, que trabalhavam como chapeleiros e cardadores.43 Ao que
tudo indica, a produção da fábrica tinha como mercado principal a praça
carioca. Num relatório enviado pela Câmara Municipal de Campanha ao

41. Ver Antônio da Rocha Almeida, João Antônio de Lemos – Barão do Rio Verde, p. 339-344.
42. De acordo com o Almanaque sul-mineiro, de 1884, editado por Bernardo Saturnino da
Veiga, a fábrica ainda continuava em funcionamento e foi assim descrita: “Existe em São
Gonçalo uma fábrica de chapéus, a primeira de Minas, e uma das primeiras do Império,
fundada em 1825 pelo barão do Rio Verde; este importante estabelecimento ainda subsiste,
sob a direção do distinto major Francisco Bernardes de Lemos e Silva”. Almanaque sul-
mineiro, p. 188. Para uma discussão sobre as atividades de transformação na província de
Minas Gerais, ver Douglas Cole Libby, Transformação e trabalho em uma economia escravista.
43. APM, Listas nominativas de 1831-32, termo de Campanha.

97
Conselho do Governo, em 1857, o empreendimento foi descrito com maiores
detalhes, incluindo informações sobre a quantidade de chapéus produzidos
por ano e o valor bruto da produção.
A indústria fabril neste município acha-se até agora limitada a uma
fábrica de chapéus finos em S. Gonçalo, ocupa ela de 24 pessoas en-
tre livres e escravos no seu estado efetivo, recebendo do estrangeiro
as matérias-primas para alimentar o fabrico dos chapéus. O número
que fabrica por ano tem regulado nestes últimos dois anos de oito a
nove mil. A importância de seu produto regula, uns pelos outros, em
24:000$000, sujeito aos gastos dos materiais e do pessoal empregado
no seu fabrico.44

A importância da atividade comercial aparece no percentual que as


dívidas ativas representavam no total da fortuna acumulada até aquela data
(50%) e também no valor do dinheiro em espécie – 15:873$000 (18%). Outros
indícios claros aparecem nas conexões que a família tinha com a praça do
Rio de Janeiro e mesmo com negociantes brasileiros em praças europeias.
É o caso de José Lúcio Correia, negociante brasileiro em Paris, que devia
ao casal a quantia de 1:440$000 por uma letra de câmbio sacada por Warre
Ford & Cia. contra Warre Brethans, de Londres. Registra-se, ainda, uma
dívida no Rio de Janeiro, no valor de 216$000, em poder de Moreira Pinto.
Além disso, as conexões com a praça carioca aparecem nas dívidas passivas,
que representavam 15% do valor total dos bens avaliados. Algumas dívidas
são relativas aos herdeiros, mas, pelo menos duas, de grande porte, estavam
provavelmente relacionadas à compra de matéria-prima para a fabricação
dos chapéus produzidos em São Gonçalo. O casal devia 4:100$000 a Tomás
José de Castro e 928$600 a Blafs & Tesche, possivelmente uma casa comer-
cial da Corte.45
Domingos de Oliveira Carvalho teve seus bens arrolados em 1851. Era
proprietário de uma chácara no subúrbio da vila da Campanha, onde talvez
criasse algumas poucas cabeças de gado, de uma morada de casas de vivenda

44. APM, Resposta da Câmara Municipal da Campanha à circular datada de 4/11/1856 sobre
o estado da indústria de mineração, agrícola e fabril, do comércio e do estado sanitário do
município. SP 655.
45. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Luíza Amália de Lemos (1843), caixa 15.

98
e outra para negócios, localizadas na rua do Fogo, na sede da vila. Além da
casa de negócio anexa à de morada tinha também rancho e quartos, que
talvez alugasse para tropeiros, em passagem pela vila. O inventário não dá
maiores detalhes sobre o tipo de atividade que desenvolvia, mas, consultan-
do uma relação de casas de negócios de 15 anos antes, consegui localizá-lo
como dono de uma loja de fazendas secas. 46 A importância que a atividade
comercial representou na acumulação da fortuna de Domingos Carvalho
pode ser inferida do volume das dívidas ativas e dos bens transmitidos à
herdeira, dona Escolástica. Por ocasião de seu casamento, recebeu a quantia
de 2:000$000, relativa a um ano de negócios. As dívidas ativas correspondiam
a 13:514$062, equivalente a 67% do valor dos bens inventariados. Tratava-se
de um negociante dedicado ao comércio de loja, como já mencionado.47
Em 1860, foi realizado o inventário da esposa do comendador Francisco
de Paula Bueno da Costa, morador no arraial de São Gonçalo da Campanha,
detentor da maior fortuna encontrada para a região – 281:690$482.48 De fato,
tratava-se de um grande comerciante que, além de uma casa de negócios de
fazenda seca,49 possuía expressiva quantidade de dinheiro em espécie, grande
valor em ações e, evidentemente, em dívidas ativas. Segue-se com mais de-
talhe a sua fortuna, amealhada ao longo da primeira metade do século XIX.
Pela tabela 10, percebe-se que a ordem dos ativos mais importantes
corresponde às dívidas ativas, escravos e ações, os dois últimos quase idên-
ticos em termos percentuais. Somando o valor dos bens em dinheiro com
o das ações, chega-se a um percentual um pouco superior ao das dívidas
ativas, portanto, mais de 60% dos bens do comerciante eram constituídos
por dinheiro, ações e dívidas ativas. Do total investido em ações, destacam-

46. APM, Relação dos engenhos e das casas de negócio de 1836 para a vila da Campanha.
SP PP 1/6, caixa 06.
47. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Domingos de Oliveira Carvalho (1851), caixa 25.
48. O comendador atuou na política local, sendo vereador em Campanha, entre 1841 e
1844. CEMEC-SM. Atas da Câmara Municipal de Campanha, CAMP LAC 04. Faleceu
em São Gonçalo, no dia 17 de setembro de 1869. Segundo Bernardo Saturnino da Veiga, o
comendador teve no comércio a origem de sua “grande fortuna, a que sempre deu o melhor
emprego”. Ver Almanaque sul-mineiro, p. 107.
49. Na relação das casas de negócio de 1836, seu nome também aparece como negociante
de fazenda seca. Ver APM, Relação de engenhos e casas de negócios de 1836 para o arraial
de São Gonçalo, SP PP 1/6, caixa 05.

99
se 20:000$000 na Sociedade Mauá MacGregor e 10:000$000 no Banco
do Brasil.50 Tinha um grande número de devedores: nada menos que 236
pessoas lhe deviam algum dinheiro. Esta ordem de importância dos ativos
indica que Francisco de Paula Bueno da Costa talvez controlasse parte do
crédito na região.51

Tabela 10
Composição da fortuna (em mil-réis) acumulada pelo comerciante
Francisco de Paula Bueno da Costa – 1860
Ativos Valor %
Dinheiro 30:200$000 10,7
Ações 60:000$000 21,3
Metais preciosos 505$120 0,2
Joias 306$400 0,1
Utensílios, móveis e ferramentas 1:181$840 0,4
Comércio 3:916$282 1,4
Produção, plantações e mantimentos 260$000 0,1
Animais 2:230$000 0,8
Escravos 61:600$000 21,9
Imóveis rurais 12:113$352 4,3
Imóveis urbanos 21:142$000 7,5
Dívidas ativas 88:235$488 31,3
Total (monte-mor bruto) 281:690$482 100,0

Fonte: CEMEC-SM, Inventário post mortem de Alexandrina Justiniana da Silveira Bueno


(1860), caixa 35.

Incluindo também os valores correspondentes às fazendas secas e aos


imóveis urbanos, a cifra atinge 72,2% dos seus bens, ou seja, 203:493$770
estavam ligados às atividades mercantis. Além do sobrado de morada, lo-
calizado no largo da Matriz, alguns de seus imóveis no arraial estavam

50. Seu nome aparece na relação dos acionistas do Banco do Brasil, publicada em julho de
1857. Cópia de documento gentilmente cedida pelo professor Carlos Gabriel Guimarães.
51. Os vários trabalhos já citados apresentam quadros semelhantes. Ver João Luís Fragoso,
Homens de grossa aventura; Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento; Kátia M. de
Queirós Mattoso, Bahia, século XIX; Carla Maria Carvalho de Almeida, Homens ricos,
homens bons; Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, entre outros.

100
alugados para outras pessoas, que se dedicavam ao pequeno comércio,
como Hermenegildo Luís, dono de uma botica. Francisco Bueno também
era proprietário de uma morada de casas de sobrado na vila de Campanha.
Quanto aos imóveis rurais, possuía várias partes em fazendas, obtidas
por herança ou por compra. Tinha também algumas lavras e terras minerais,
todas localizadas no arraial de São Gonçalo. Embora grande parte de seus
bens estivesse relacionada às atividades mercantis, era dono de 48 escravos.
Não se obteve maiores informações a respeito de sua trajetória individual e
familiar, mas foi localizado em 1831-32 com 36 escravos, e mais 14 pessoas de
cor branca, habitando a mesma residência, sem se especificar a relação de
parentesco com o chefe da casa. Todos os seus escravos tinham a ocupação
declarada: a maioria dos homens (18) estava empregada na atividade mine-
radora e sete mulheres eram costureiras. Nessa época, com 36 anos de idade,
o nosso personagem já tinha no comércio a sua principal atividade, pois foi
qualificado como negociante (negócio, loja, negócio de feitos da terra).52
O que esses casos ilustram sobre o comércio no sul de Minas? Foi
possível identificar pelo menos três tipos de comerciante: os que atuavam
diretamente na produção/transformação e comercialização; os que se dedi-
cavam ao pequeno comércio de loja; o grande comerciante, que atuava em
áreas diversas, entre elas o pequeno comércio, e que pode ser enquadrado
como negociante de grosso – caso, por exemplo, do comendador Francisco
de Paula Bueno da Costa.
De acordo com Jorge Pedreira, o termo negociante só se tornará cor-
rente durante o século XIX, definindo aquele que se ocupa de um vasto
leque de atividades econômicas (comércio de grosso, indústria, agricultura
comercial). Antes desse período, o que se encontra são definições genéricas
e imprecisas.53 Já no Dicionário Universal de Commercio, de Jacques Savary
des Brulons, a expressão homens de negócio se refere à ocupação do comércio

52. APM, listas nominativas do Termo de Campanha – 1831-32. Esta classificação vem des-
crita no código de profissões para consulta do banco de dados sobre as respectivas listas,
elaborado por Clotilde Paiva, CEDEPLAR/UFMG.
53. Jorge L. Pedreira, Os homens de negócio da praça de Lisboa de Pombal ao Vintismo (1755-
1822). Diferenciação, reprodução e identificação de um grupo social. Ver, em especial, o
capítulo 2, p. 63-151. Segundo Fernand Braudel, a polivalência era uma das características do
negociante por atacado e uma exigência da sociedade pré-industrial. “Tornar-se e sobretudo
ser negociante é ter, não o direito, mas sim a obrigação de mexer, quando não em tudo, pelo

101
de longa distância, atividade que apresentava altos riscos, mas, por outro
lado, criava oportunidades de lucros excepcionais. “Este commercio feito por
terra, ou por mar, na Europa, ou com outras partes do mundo, tem distinto
nome de commercio em grosso, e os que se ocupão nele são chamados de
homens de negócios.”54
A diferença entre o negociante de grosso e o comércio de retalho ti-
nha um significado importante no mundo mercantil, tanto em termos de
classificação social, quanto de acesso às distinções simbólicas. Apesar das
recorrentes reclamações contra a banalização das condecorações, o hábito
da Ordem de Cristo continuava sendo a distinção social mais procurada
pelos negociantes no século XVIII e representava uma “aparente certidão
de nobreza”. Havia duas formas para conseguir esse intento: o abandono
do comércio e a adoção de um estilo de vida nobiliárquico ou a retribuição
de serviços relevantes prestados ao rei. A última foi largamente utilizada e
favorecida pelos reis e pelos governos nos séculos XVII e XVIII.55 No período
pombalino, verifica-se uma conjuntura bastante favorável para a admissão
dos negociantes na Ordem de Cristo, contribuindo decisivamente para in-
troduzir a diferenciação entre grossistas e retalhistas. Com a aprovação dos
estatutos da Mesa do Bem Comum dos Mercadores, em 1757, esta divisão
se consolida institucionalmente.56
A concessão de mercês, títulos honoríficos e nobiliárquicos a fazendeiros
e negociantes, assim como as nomeações para cargos políticos importantes,
foram também recursos amplamente utilizados no Brasil, não só como forma
de cooptação política, mas como compensação por serviços (empréstimos,
construções de estradas etc.) prestados ao Estado. 57

menos em muitas coisas.” F. Braudel, Civilização material, economia e capitalismo – séculos


XV-XVIII: o jogo das trocas, p. 334.
54. Alberto Jaqueri de Sales, Dicionário universal de comércio, verbete comércio. Documentação
gentilmente cedida pelo professor Carlos Gabriel Guimarães.
55. Jorge L. Pedreira, op. cit., p. 84-90.
56. Ibidem, p. 70-72.
57. Ver Alcir Lenharo, As tropas da moderação, p. 65-68; Riva Gorenstein e Lenira Martinho
Meneses, Negociantes e caixeiros na sociedade da Independência, p. 147-150; João Luís Ribeiro
Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 353-355; Jurandir Malerba, A corte no exílio: civili-
zação e poder no Brasil às vésperas da Independência (1808-1821), p. 253-268; Lilia Moritz
Schwarcz, As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, p. 159-194.

102
David Hancock realizou um importante estudo sobre a atuação dos as-
sociates londrinos, no período de 1735 a 1785. Esses negociantes desenvolviam
inúmeras atividades ligadas ao comércio de além-mar, consequentemente,
estavam articulados com o processo de expansão do império britânico,
que garantia maiores oportunidades de negócio para eles, que, por sua vez,
eram atores fundamentais no processo de expansão.58 O autor identifica um
grupo de 23 negociantes em grande escala, fixados em Londres, delineando
a extensão de seus negócios, a nacionalidade, a origem social e religiosa e a
formação educacional. As atividades do comércio de além-mar podem ser
verificadas pelo número de viagens realizadas por esses negociantes entre
os anos de 1745 e 1785: foram 456, numa média de 11 por ano.59
Um aspecto comum observado na trajetória dos associates é que, de-
pois de estabelecidas as suas redes comerciais, retornavam a Londres e
se tornavam grandes proprietários, embora nunca deixassem de ser co-
merciantes. Não se afastavam do mundo do comércio, condição essencial
para a manutenção da riqueza.60 Neste aspecto, se compararmos ao caso
brasileiro, os estudos realizados indicam um caminho inverso. João Luís
Fragoso, ao analisar a composição dos bens na praça do Rio Janeiro, na
primeira metade do XIX, constata que os negociantes construíram suas
fortunas usando de práticas monopolistas e especulativas,61 e conquistando
a liderança sobre a economia, embora, em determinado momento, parte
do capital acumulado fosse revertido na aquisição de fazendas escravistas.
Vários dos descendentes dos negociantes transformaram-se em membros
da aristocracia fundiário-escravista.62

58. David Hancock, Citizens of the world: London merchants and the integration of the
British Atlantic Community 1735-1785, p. 25-39.
59. Ibidem, p. 117.
60. Ibidem, p. 43. O autor destaca a importância das alianças matrimoniais neste processo
de inserção dos associates na aristocracia inglesa.
61. Em artigo publicado no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo, Sérgio
Buarque de Holanda (1973) já chamava a atenção para a importância sociopolítica e econô-
mica dos homens ligados ao trato mercantil, sobretudo no Primeiro Reinado. A riqueza e
o prestígio dos comerciantes urbanos podiam ser inferidos pela sua participação em quase
todos os ministérios de d. Pedro I.
62. João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 362-369. Ver também João Luís Fragoso
e Manolo Florentino, O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite
mercantil no Rio de Janeiro, c.1790-c.1840.

103
Dos poucos casos analisados anteriormente, não foi possível comprovar
se houve o abandono da atividade mercantil em função do caráter nobi-
litador que a terra e a posse de escravos conferia na sociedade escravista.
O que se pôde concluir é que grande parte dos bens dos comerciantes estava
alocada em atividades de cunho mercantil, ainda que possuíssem terras e
escravos. No tópico seguinte, haverá oportunidade de constatar que a figura
marcante no cenário sul-mineiro é a do fazendeiro-negociante, pois grande
parte da elite agrária atuava direta ou indiretamente na comercialização do
produto de suas fazendas.

3. Fazendeiro/negociante
Dona Maria Bento Carneiro, esposa do coronel Joaquim Severino de
Paiva e Silva, moradora na freguesia de Santa Catarina, termo da vila da
Campanha, já foi brevemente apresentada no capítulo anterior. Agora, será ana-
lisado com detalhes o funcionamento da unidade escravista a ela pertencente,
buscando identificar não só as opções de investimento, mas também a relação
de complementaridade existente entre as atividades agrárias e as mercantis.63
Em 1831, Joaquim Severino de Paiva e dona Maria Bento Carneiro já
estavam casados, ambos com 39 e 29 anos, respectivamente. Tinham cinco
filhos com idade inferior a dez anos. Em 1849, quando foi realizado o inven-
tário da mulher, já tinham nove. Na época em que foram recenseados, eram
proprietários de 25 cativos e 23 libertos, que também residiam no mesmo
fogo. O chefe da família foi qualificado como negociante e não como lavrador,
fazendeiro ou pecuarista.64 Na lista das casas de negócio de 1836, Joaquim
Severino aparece como proprietário de uma casa de comércio de fazenda

63. Esta questão foi colocada de maneira bem apropriada por Alcir Lenharo, quando descreve
a relação de proprietários de terra/tropeiros para o sul de Minas, área tradicionalmente
ligada ao abastecimento da Corte, especialmente a partir da primeira metade do século XIX.
“[...] o tropeiro aparece como um prolongamento da categoria social matriz – proprietário
de terras – já que, frequentemente, além de dar conta da produção, o proprietário é ele
mesmo o comercializador dos seus próprios produtos.” Ver Alcir Lenharo, As tropas da
moderação, p. 32. Esta relação também é percebida por outros autores para outras localidades
do Império. Cf. Sheila de Castro Faria, Fortuna e família em Bananal no século XIX, p. 78.
64. APM, Listas nominativas de 1831-32.

104
seca.65 Mas a seguir ficará demonstrado que grande parte da sua riqueza foi
amealhada a partir de um consórcio de atividades, destacando-se a relação
de complementaridade entre o mundo agrário e o mercantil.

Tabela 11
Composição da fortuna (em mil-réis) acumulada pelo fazendeiro-nego-
ciante Joaquim Severino de Paiva e Silva – 1849
Ativos Valor %
Dinheiro 765$000 1
Joias 170$800 0
Utensílios, móveis e ferramentas 755$680 1
Produção, plantações e mantimentos 5:352$490 4
Animais 7:136$000 5
Escravos 47:490$000 36
Imóveis rurais 42:707$500 32
Imóveis urbanos 2:300$000 2
Dívidas ativas 26:551$103 20
Total (monte-mor bruto) 133:228$573 100

Fonte: CEMEC-SM, Inventário post mortem de dona Maria Bento Carneiro (1849).
CEMEC-SM, caixa 22.

Conforme se constatou para o conjunto dos 64 proprietários mais ricos


da região, a ordem de importância dos ativos praticamente não se altera, ou
seja, os escravos, os imóveis rurais e as dívidas ativas são itens que atingem
os maiores percentuais. Todavia, o que importa destacar, neste momento, é
a extensão dos empreendimentos agrícolas e comerciais desse proprietário,
em particular. Se, em 1831, possuía 25 cativos, em 1849 este número sobe
para cem, denotando a expansão de suas atividades e seu enriquecimento.
Será que Joaquim Severiano era um comerciante que, depois, acabou se
tornando um grande fazendeiro, dono de várias propriedades e muitos
escravos, sem, contudo, abandonar a atividade mercantil? Infelizmente
não se tem como responder a esta pergunta. O que se pode concluir, pela
documentação analisada, é que grande parte de sua fortuna estava alocada
nas atividades agrárias (imóveis rurais, escravos, animais, plantações etc.),

65. APM, Relação das casas de negócio e de engenhos de 1836. SP PP 1/6, caixa 04.

105
correspondendo a mais de 70% do valor dos bens arrolados. No inventário
da esposa, não aparece nenhum valor referente a mercadorias de loja de
comércio e nenhum estabelecimento identificado como tal. Há referência
a alguns imóveis na sede da freguesia de Santa Catarina, mas sem maiores
detalhes. Já o número de imóveis rurais, parte deles em várias fazendas, é
bastante expressivo. Os indícios de que a atividade comercial continuava
sendo exercida estão no número de dívidas ativas – nada menos que 449
pessoas tinham contas a pagar ao casal. As evidências de que atuavam no
comércio através de tropas são claras. Do total de 121 bestas que possuíam,
38 eram arreadas e 16, também arreadas, eram tropas alugadas.
A produção das fazendas era diversificada, o que sugere ser parte dela
destinada ao comércio e, certamente, não só ao mercado local ou regio-
nal, mas também ao de outras províncias, especialmente à praça carioca.
O rebanho era composto por 78 cabeças de gado vacum (vacas com crias,
reses, garrotes e bois de carro), 57 equinos e 121 cabeças de porco. Entre as
plantações e os mantimentos, havia uma roça de milho plantada, 80 carros
de milho no paiol, além de uma porção de fumo em rolos, sem referência
ao peso, avaliada em 4:408$490. A freguesia de Santa Catarina era uma das
grandes produtoras de tabaco, atividade que ainda se destacava na economia
local na década de 1880 (ver capítulo 1).
Pelos dados analisados, percebe-se que a estratégia adotada pelo pro-
prietário Joaquim Severino para ampliar a sua fortuna se baseou não só na
diversificação das atividades, mas sobretudo na articulação entre o setor
produtivo e o comércio. Nos estudos que investigam a trajetória de alguns
homens ricos do Oitocentos, a origem das fortunas esteve, quase sempre,
ligada a fatores como os investimentos diversificados, os casamentos com
dotes e o recebimento de heranças e a participação em empreendimentos
comerciais.66 Vejamos a seguir como se estruturava uma grande unidade
escravista cuja atividade principal era o engenho de cana-de-açúcar.

66. Um bom exemplo de estudo empreendido sobre o assunto é a série de artigos publica-
da sob a coordenação de Hebe Maria Mattos e Eduardo Schnoor. Trata-se da análise da
trajetória de um dos fazendeiros mais ricos de Bananal, Manuel Aguiar Valim, ligado à
atividade cafeeira. Para a discussão em andamento, dois artigos são bastante esclarecedores
das estratégias de enriquecimento adotadas pelos homens mais abastados do século XIX.
Ver Sheila de Castro Faria, Fortuna e família em Bananal no século XIX; João Luís Fragoso
e Ana Maria Lugão Rios, Um empresário brasileiro do oitocentos, p. 63-98, p. 197-225.

106
Em 1851, o alferes Luís Gonzaga Branquinho, morador na fazenda da
Serra, freguesia do Rio Verde, havia acumulado uma fortuna considerável,
resultado do cultivo da cana-de-açúcar e da produção de seus derivados.
Embora não haja menção explícita em seu inventário à produção de açú-
car, rapadura e/ou aguardente, vários utensílios, ferramentas e benfeitorias
comprovam a importância que esta atividade adquiriu naquela unidade pro-
dutiva. Pipas, tachos, foices de cortar cana, alambique, engenho de cilindros
para moer cana estavam entre os bens arrolados. Foram relacionados ainda
dois canaviais, um em ponto de moer, avaliado em 1:000$000 e um novo,
de 200$000. A diversificação das atividades se manifestava no cultivo de
alimentos e na criação de animais. Havia trinta carros de milho velho, que
certamente estavam depositados no paiol, e 65 na roça, para serem colhidos,
além de sessenta alqueires de feijão e uma plantação de algodão. A criação
de animais também era expressiva: 269 cabeças de gado vacum, além de 29
bois de carro, 26 animais cavalares, 24 bestas, sendo que 17 estavam arreadas,
e 188 cabeças de porcos.67

Tabela 12
Composição da fortuna (em mil-réis) acumulada pelo dono de engenho
Luís Gonzaga Branquinho – 1851
Ativos Valor %
Dinheiro 650$000 1
Metais preciosos 3$900 0
Joias 98$500 0
Utensílios, móveis e ferramentas 1.268$500 1
Produção, plantações e mantimentos 1.688$000 2
Animais 7.525$000 7
Escravos 20.375$000 18
Imóveis rurais 74.360$000 67
Imóveis urbanos 2.300$000 2
Dívidas ativas 1.961$360 2
Total (monte-mor bruto) 110.230$260 100

Fonte: CEMEC-SM, Inventário post mortem de Luís Gonzaga Branquinho (1851), caixa 25.

67. CEMEC-SM, Inventário de Luís Gonzaga Branquinho(1851), caixa 25.

107
Pela tabela 12, percebe-se que boa parte de sua fortuna estava empregada
nos imóveis rurais e em escravos. Mais de 60% do valor dos seus bens estavam
investidos na fazenda da Serra. Não se tem informação sobre o tamanho da
propriedade, mas presume-se sua importância pelo valor em que foi avalia-
da: nada menos que 70:000$000. As benfeitorias, como a casa de vivenda,
o engenho, o moinho, o paiol, o monjolo e as senzalas foram avaliados em
3:600$000. A posse de 56 cativos evidencia que a produção dos engenhos
exigia grande quantidade de mão de obra. Como a maioria dos fazendeiros
daqueles tempos, o alferes possuía uma morada de sobrado na rua principal
do arraial. Além desta, tinha uma outra, no distrito de Águas Virtuosas da
Campanha (atual Lambari). O percentual relativo à criação de animais era
significativo e confirma a necessidade de reposição dos animais de tração
para o funcionamento dos engenhos. O número de bestas arreadas sugere
que parte da produção poderia ter como destino os mercados regionais e,
possivelmente, o de outras províncias.
A necessidade de animais de tração para o funcionamento dos engenhos
e de porcos para o consumo interno justificavam o fato de o grande senhor
de engenho dedicar-se também à pecuária.68 No caso de Luiz Gonzaga
Branquinho, o caminho para o enriquecimento girava em torno da produção
de açúcar, rapadura e aguardente e, provavelmente, de sua comercialização
em mercados locais e regionais.
Francisco Machado de Azevedo, detentor da maior fortuna que se pôde
localizar para um senhor de engenho, também acumulou grande parte de
sua riqueza a partir da fabricação e da comercialização de derivados da
cana-de-açúcar. Era proprietário da fazenda de Santa Rita dos Pinheiros,
no arraial de São Gonçalo e, quando morreu, sua fortuna foi avaliada em
mais de 220:000$000.
As benfeitorias de seu engenho foram relacionadas de forma detalhada
entre seus bens de raiz: uma fábrica de engenho de cana com duas pipas, uma
pipa de quatrocentos barris e outra de duzentos, quatro caixões de açúcar,
vinte barris vazios, quarenta fôrmas de fazer açúcar e três tachos de cobre.
Esses bens, juntamente com a casa de vivenda, três senzalas, um paiol, uma

68. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 245-249.

108
tenda de ferreiro e uma de marcenaria, além do moinho e dos pilões, foram
avaliados em 5:000$000. Um alambique e um paiol tiveram avaliação em
separado de 4:000$000. Estimou-se a fazenda em em 51:000$000. Francisco
Machado tinha também uma morada de casas no arraial de São Gonçalo,
avaliada em 6:000$000.69
Dentre os produtos do engenho, só se fez menção a cinquenta barris de
aguardente, avaliados em 200$000. Embora não exista informação sobre a
quantidade de açúcar produzido, pela descrição dos objetos e dos equipa-
mentos do engenho, nota-se que era um dos itens produzidos na fazenda.
A importância da unidade produtiva também pode ser constatada pelo
número de escravos que nela trabalhavam, nada menos que 91. Como seus
bens foram avaliados dez anos após a promulgação da lei que pôs fim ao
trafico internacional de escravos, faz sentido a representação de 57,52% que
os escravos tinham em seu patrimônio (ver tabela 13).

Tabela 13
Composição da fortuna (em mil-réis) acumulada pelo dono de engenho
Francisco Machado de Azevedo – 1860
Ativos Valor %
Dinheiro 700$000 0,31
Metais preciosos 102$720 0,05
Joias 160$000 0,07
Utensílios, móveis e ferramentas 1:377$880 0,62
Produção, plantações e mantimentos 6:580$000 2,95
Animais 13:535$000 6,07
Escravos 128:190$000 57,52
Imóveis rurais 60:150$000 26,99
Imóveis urbanos 6:000$000 2,69
Dívidas ativas 6:078$100 2,73
Total (monte-mor bruto) 222:873$700 100,00

Fonte: CEMEC-SM, Inventário post mortem de Francisco Machado de Azevedo (1860),


caixa 35.

69. CEMEC-SM, Inventário de Francisco Machado de Azevedo, caixa 35.

109
Assim como em outras fazendas, a atividade agropecuária ocupava um
espaço importante. Francisco Azevedo possuía 183 cabeças de gado vacum,
além de 39 bois de carros, 16 bestas – sendo seis delas arreadas –, e 180 porcos.
Provavelmente, o gado bovino destinava-se ao serviço de tração e à reposição
dos animais, e os porcos, ao consumo interno. A atividade principal deste
proprietário estava centrada na produção de açúcar, aguardente e rapadura
e teria como destino os mercados locais ou regionais.
Como podem ser caracterizadas essas unidades produtivas, que tinham
como atividade principal o cultivo da cana e a fabricação de açúcar e aguar-
dente? A primeira constatação é de que grande parte da fortuna acumulada
tinha origem na produção e na comercialização dos produtos dos engenhos,
e que a criação de gado bovino e suíno fazia parte do empreendimento e
era fundamental para a reposição dos animais de tração e para o consu-
mo interno. Parece que, nesses casos, trata-se de propriedades mais bem
equipadas e cuja produção destinava-se, certamente, à comercialização em
mercados locais – pelo que se observa da correlação entre os engenhos e o
número de casas de negócio existentes nas vilas, nos arraiais e à beira das
estradas. Será que esta produção atingia outros mercados, principalmente
os das províncias de São Paulo e Rio de Janeiro? Não se pode confirmar esta
informação, mas, nos mapas de importação e exportação da capitania de
Minas Gerais, analisados por Cláudia Chaves, o açúcar e a aguardente da
terra aparecem como itens exportados tanto para São Paulo quanto para o
Rio de Janeiro.70
Os registros de Mantiqueira, Rio Preto e Itajubá eram os principais elos
de ligação entre o sul de Minas e o Rio de Janeiro. Os registros de Campanha
do Toledo, Jaguari e Jacuí estabeleciam a conexão com São Paulo. Em alguns
desses postos fiscais, o açúcar e a aguardente da terra figuravam como itens

70. Cláudia Maria das Graças Chaves, Melhoramentos no Brazil, p. 286-301. Os mapas de
importações e exportações mineiras compreendem o período de 1805-1832. No ano de 1815,
a comarca do Rio das Mortes respondia por 31,5% da produção de açúcar da capitania de
Minas com destino ao Rio de Janeiro, ou seja, 4.114 arrobas foram exportadas naquela data.
A comarca de Ouro Preto vinha em primeiro lugar com 37% (4.775 arrobas). Ibidem, p. 303.
No final da tese, a autora apresenta tabelas mais detalhadas, nas quais é possível verificar não
só os produtos importados e exportados através de cada registro, mas também o volume,
seja em unidades, arrobas, barris ou varas. Ibidem, p. 324-341.

110
exportados pelos mineiros. Pelos registros do Jacuí e do Rio Preto eram
exportados açúcar e aguardente da terra, e pelo da Mantiqueira, somente
açúcar, embora nunca figurassem como os principais produtos exportados.
Independentemente de a produção atender às necessidades dos mercados
locais ou mesmo dos mercados de fora de Minas, o importante é tentar com-
preender o funcionamento das grandes unidades produtivas, a capacidade
de acumulação de riqueza, sem deixar de perceber as suas vinculações com
os mercados locais, regionais e, mesmo, com outras províncias do Império.
Um outro caso, que ilustra a atuação dos fazendeiros/negociantes e as
articulações que mantinham com distintos segmentos sociais e com vários
tipos de praças comerciais, pode ser pinçado através da trajetória do coro-
nel Antônio José Ribeiro de Carvalho. O “velho do Condado”, como ficou
popularmente conhecido, por possuir uma propriedade com este nome
nas imediações da freguesia de Nossa Senhora do Carmo, em Baependi,
casou-se com Helena Nicésia Junqueira, filha do deputado Gabriel Francisco
Junqueira.71 Além de grande proprietário escravista, era negociante envolvido
com a condução de tropas de Minas para a Corte, e vice-versa, comerciali-
zando tanto os gêneros da terra, como as mercadorias que trazia do Rio de
Janeiro. Parte de sua história pode ser contada porque o fazendeiro/tropeiro
fez diversos apontamentos sobre seus negócios em um livro de notas.72
Em 1832, seu nome aparece na lista nominativa de habitantes do Termo de
Baependi, qualificado como tropeiro e proprietário de 92 cativos.73
Primeiramente, é preciso chamar a atenção para o tratamento meto-
dológico que se dará a este tipo de registro. Poderia ter optado pelo quan-
titativo, mas este não foi o caminho escolhido, especialmente em razão da

71. Sobre a trajetória da família Junqueira, ver o capítulo 4.


72. Livro de notas de Antônio José Ribeiro de Carvalho. Documento original pertencente a
Walter Ribeiro Junqueira – Carmo de Minas/MG. O livro contém quase duzentas páginas
manuscritas, sendo que somente 99 foram numeradas, pois não há paginação no verso.
O primeiro contato que tive com este documento foi por meio da cópia da transcrição do
livro, que, gentilmente, recebi de Lucila Reis Brioschi, em 1995. Ela havia mencionado a
existência do documento em sua dissertação de mestrado, embora não o tenha analisado.
Também não tive tempo hábil e condições para incluí-lo na minha dissertação. Acredito que
agora seja o momento mais adequado para inseri-lo no contexto das atuais investigações. Em
novembro de 2003, tive acesso ao documento original e pude fotografá-lo, com a autorização
do sr. Walter Ribeiro Junqueira, a quem também gostaria de registrar meus agradecimentos.
73. APM, Lista nominativa de habitantes do Termo de Baependi - 1831-32.

111
dificuldade para analisar o documento. Não se trata, simplesmente, de um
livro de registro de dívidas ativas e passivas, e sim de um livro de notas, no
qual o negociante registrou todo tipo de despesa e crédito, que nem sempre
aparece claramente. O livro serviu ainda para anotar questões que envolviam
sua família, como, por exemplo, o pagamento da legítima a seus herdeiros
diretos, o que é extremamente interessante, pois nos permite ter uma di-
mensão da fortuna acumulada em determinado momento de sua trajetória.74
Em que pesem as dificuldades apontadas, foi possível destacar algumas
partes do documento e perceber um pouco da lógica do negociante ao fazer
suas anotações. Parece que se tratava de um livro para registro de questões
referentes a seus negócios, compra e venda de mercadorias, empréstimos e
dívidas, entre outros assuntos.
Logo na primeira folha, não numerada, aparece a relação nominal de
seus 19 filhos, acompanhada de anotações à margem, que registravam o
falecimento de três deles. No final dessa mesma folha, há uma relação de
assentos de batismo de cinco escravos crioulos. Na primeira página nume-
rada é que se inicia o registro dos negócios propriamente ditos. Primeiro,
menciona-se o mês, logo em seguida vem o nome do devedor, depois, a
relação de mercadorias e os respectivos preços. Também são discriminadas
algumas informações relativas aos pagamentos feitos, aos abatimentos das
dívidas e o que ainda restava a pagar. Em outros momentos, há informa-
ções referentes às despesas feitas com a tropa, à venda de alguns bens dos
familiares e a empréstimo de dinheiro.
O livro cobre um período extenso da vida do negociante, de março de
1820 a 1872, mas o maior volume de informações se concentra entre os anos
de 1820 e 1850. Evidentemente, este trabalho não pretende esgotar todas as
possibilidades de análise que o documento oferece, mas apenas destacar
algumas partes que permitam elucidar um pouco do universo social do fa-

74. O inventário do “velho do Condado” encontra-se no fórum de Cristina. Infelizmente,


ainda não tive acesso a este processo. Em novembro de 2003, consultei parte do acervo que
está em fase de catalogação por voluntários na cidade. Trata-se de um conjunto documental
de extrema relevância para o estudo de um município que teve grande importância na
produção do fumo. Nesta época, pude fotografar o inventário de seu irmão, o “velho de
Pouso Alegre”, que também se casou na família Junqueira. Este inventário é analisado no
capítulo 4 deste trabalho.

112
zendeiro/tropeiro, das mercadorias que vendia, das relações que estabelecia
com aparentados ou não e como conduzia seus negócios. 75
Embora não se tencione estabelecer uma quantificação, selecionaram-
se os primeiros cinco anos de registro, para saber quantas pessoas foram
relacionadas como devedoras. Entre 1820 e 1825, o negociante registrou cem
devedores, sendo que 22 nomes aparecem mais de uma vez e dois, quatro
vezes.76 As mercadorias eram negociadas com representantes de diversos
segmentos sociais: fazendeiros, agregados, forros, camaradas, entre outros.
O negociante vendia todo tipo de mercadoria que se poderia imaginar.
A princípio, suspeitou-se que fosse comerciante fixo, dono de loja de “secos
e molhados”, pela infinidade de mercadorias relacionadas. Depois, pôde-se
perceber que se tratava de um livro de registro das mercadorias que forne-
cia para seus clientes, onde se anotavam os itens, a quantidade, o preço, os
abatimentos e o que restava pagar. Vejamos alguns exemplos.
Antônio Villas Boas, que aparece registrado no livro algumas vezes,
adquiriu várias mercadorias das mãos de Antônio José Ribeiro de Carvalho.
Em março de 1820, comprou um aparelho de louça para café, uma tigela
amarela, um urinol, três pratos/travessas pretas, dois pequenos, uma ca-
neca pintada, uma terrina, quatro tigelas, um copo de vidro, uma tesoura,
um pente para cabeleira, um sabonete, meia saca de sal e duas garrafas de
vinho francês.77 Percebe-se, neste caso, que são mercadorias vindas de fora
da província de Minas, certamente do Rio de Janeiro.
Além de utensílios domésticos, há uma variedade muito grande de
tecidos e cortes de panos muito procurados pelos fregueses. Pode-se tam-
bém imaginar a comoção causada pela chegada de uma tropa e de uma
encomenda, e a expectativa de se ela estava ou não do agrado do freguês.
Vitória Maria do Rosário, preta,78 moradora na freguesia do Carmo, havia

75. Neste aspecto, em particular, as reflexões propostas por Karl Polani acerca das sociedades
e dos sistemas econômicos que antecedem à economia de mercado são de extrema relevância
para compreender que a “economia, como regra, está submersa em suas relações sociais”.
Ver Karl Polani, A grande transformação: as origens de nossa época, p. 63.
76. Livro de notas de Antônio José Ribeiro de Carvalho, p. 1-54.
77. Ibidem, p. 1.
78. Parece que se tratava de uma preta forra, mas esta informação não aparece registrada
no livro. Ibidem, p. 4.

113
adquirido um xale de seda, 11 varas e meia de fita e um lenço de seda. Sua
compra ficou em 8$680. Havia liquidado quase a totalidade de sua dívida,
restando somente $240.
Um dos aspectos que chama bastante a atenção no documento é a for-
ma de pagamento ou como ocorriam os abatimentos de parte das dívidas.
Às vezes, só se mencionavam os valores que haviam sido pagos e o que
restava a pagar. Em vários casos, as dívidas eram abatidas em pequenas
quantidades de arrobas de fumo, demonstrando a importância da cultura
deste produto na região.79 De 1820 a 1832, por exemplo, o fumo aparece lis-
tado nada menos que 24 vezes como moeda de pagamento das mercadorias
adquiridas por seus clientes.80 Esse foi o caso de Tomé Francisco de Paiva,
morador nas Laranjeiras, que quitou sua dívida com oito arrobas de fumo.
A forma de pagamento deixa evidente a escassez de moedas na época, que,
às vezes, estava em poder de poucos negociantes e fazendeiros abastados.
Joaquim Pereira, por exemplo, adquiriu um chapéu que pagou em fumo.81
Nas centenas de páginas do livro de notas, somente em um momento se faz
menção ao pagamento de uma dívida no valor de 100$000, no ano de 1829,
feito em dinheiro (notas).82
Uma análise mais detalhada das mercadorias adquiridas é indicativa da
classificação social de sua clientela, como já houve oportunidade de men-
cionar. Poderiam ser fazendeiros, artesãos, agregados, camaradas, forros,
entre outros. O capitão Joaquim Ribeiro de Carvalho, que talvez fosse um
parente, adquiriu várias mercadorias somente acessíveis a pessoas de cabedal.
Comprou duas garrafas de cerveja, dois pares de meia, um vestido bordado,
um canivete, uma garrafa de cerveja do reino, uma de licor, pentes e fitas,
além de ter obtido dinheiro em empréstimo do negociante.83

79. Bernardo Jacinto da Veiga, na edição dos dois almanaques, destaca a cultura do fumo
como uma das atividades econômicas principais da freguesia de Nossa Senhora do Carmo
e da comarca de Cristina. Ver Almanaque sul-mineiro, p. 120 (edição de 1874), p. 485-493
(edição de 1884).
80. Livro de notas de Antônio José Ribeiro de Carvalho, p. 1-58.
81. Ibidem, p. 35.
82. Ibidem, p. 62.
83. Ibidem, p. 9.

114
Antônio José Ribeiro de Carvalho também comercializava esporadi-
camente feijão e alguns animais, como gado e porcos, que não constituíam
a maioria das mercadorias relacionadas.84 Nas viagens que fazia ao Rio de
Janeiro com sua tropa, eventualmente, também negociava escravos. Há re-
gistro de uma dívida relativa à compra de um negro (escravo), adquirido em
agosto ou setembro de 1825, para ser paga em três anos. Do total de 150$000
da dívida, a metade já tinha sido paga em fumo, em 1827.85
No rol das dívidas de seus clientes, era comum aparecerem pequenas
quantias de dinheiro em empréstimo. Em função da atividade que exercia,
certamente dispunha de dinheiro em espécie, que lhe permitia atuar como
prestamista para diversos tipos de clientes, até para escravos que dispunham
de pecúlio para adquirir sua alforria. Este foi o caso de Antônio Borges,
crioulo, que tinha uma dívida de 300$000 com o negociante, feita para a
compra de sua alforria.86
Parece que o “velho do Condado” era um exímio negociante. Além das
relações que estabelecia com diversos segmentos sociais, em virtude de sua
ocupação, estava atento aos negócios da família e dos aparentados. Além de
importar mercadorias da Corte e atender às necessidades dos moradores da
região, negociava os gêneros da terra, que produzia em sua propriedade e
também na dos aparentados. No seu livro de notas, prestou conta da venda
de animais pertencentes a seus filhos e cunhados. Este foi o caso dos bezerros,
das vacas e dos garrotes de sua filha Maria Ribeira, vendidos por 103$000.87
Como negociava toda sorte de mercadorias e também atuava como
prestamista, acabou administrando a herança dos filhos até 1872 (última
data que aparece no livro), colocando o dinheiro a “prêmio” e vendendo os
animais que tocaram a cada herdeiro. Em dezembro de 1859, fez o seguinte
registro no seu livro de notas: “só serve este livro desta folha em diante para

84. Na década de 1820, Custódio Pereira de Macedo, além de dever alguns cortes de tecido,
havia adquirido do negociante quatro alqueires de feijão. Ibidem, p. 30.
85. Idem.
86. Idem.
87. O negociante ainda registra a venda do gado que pertencia a outros dois filhos e também
os negócios que tinha com seu cunhado, Francisco de Andrade Junqueira, filho do deputado
Gabriel Francisco Junqueira. Ibidem, p. 63-64.

115
meus filhos verem suas contas para com seu pai”.88 O negociante registrou
o pagamento da legítima feita a cada um dos 16 herdeiros, por ocasião do
inventário realizado provavelmente em virtude do falecimento da esposa.89
Foram declarados as partes de terras que os filhos tinham na fazenda do
Condado e na fazenda Bela Cruz, quatro a seis escravos que couberam a
cada um, carros de milho, porcos, gado e dinheiro. Nessa época, o número
de escravos continuava quase o mesmo de 1830, ou seja, noventa. Cada
herdeiro teve sua legítima avaliada em 8:493$287. Como eram 16 filhos, o
monte-mor do inventário atingiu a quantia de 135:028$592.90 Como se disse
anteriormente, o negociante continuou administrando os bens dos filhos
até 1872 e prestou conta do valor adquirido com a venda dos animais e dos
rendimentos auferidos pela colocação do dinheiro a prêmio.91

4. Criação e comércio de gado


Gado, toucinho, queijo e algodão estavam entre os principais itens de
exportações de Minas para outras capitanias, depois, províncias.92 No caso
específico do sul de Minas, pelo menos os três primeiros ocupavam lugar de
maior destaque na pauta das exportações. Esta discussão é bastante recorrente
na historiografia, mas somente a partir do final da década de 1970 e da de
1980 novas pesquisas, calcadas em extensa base documental, procuraram
dar conta da dinâmica dessa atividade, dos seus efeitos na economia regional
e da sua articulação com outras praças comerciais.93

88. Ibidem, p. 78.


89. Os inventários de Helena Nicésia Junqueira e de Antônio José Ribeiro de Carvalho
encontram-se no fórum de Cristina. Não sei precisar a morte de sua esposa, mas, pela data
do registro no livro de notas, deve ter sido provavelmente em 1859.
90. Livro de notas de Antônio José Ribeiro de Carvalho, p. 78-85.
91. Ibidem, p. 86-99.
92. Bernardo Saturnino da Veiga, Almanaque sul-mineiro, p. 295.
93. Entre os estudos pioneiros, destacam-se as seguintes obras: Caio Prado Jr., Formação
do Brasil contemporâneo; Sérgio Buarque Holanda, Metais e pedras preciosas; Mafalda P.
Zemella, O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. Entre os estudos
mais recentes, destacam-se: Alcir Lenharo, As tropas da moderação; Roberto Borges Martins,
A economia escravista de Minas Gerais no século XIX; Carlos Magno Guimarães e Liana
Maria Reis, Agricultura e escravidão em Minas Gerais; Douglas Cole Libby, Transformação
e trabalho em uma economia escravista; Robert Slenes, Os múltiplos de porcos e diamantes;
João Luís Fragoso, Homens de grossa aventura; Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos

116
Com base na documentação pesquisada, o que se pode dizer sobre a
atividade agropecuária sul-mineira e sua conexão com outras praças? Antes de
analisar os números do seu rebanho, vejamos a composição da riqueza de um
dos maiores agropecuaristas localizado entre os inventariados de Campanha.
João José Mendes, morador no distrito do Espírito Santo da Mutuca,
na fazenda Monte Alegre, em 1831, tinha 42 anos e estava no seu primeiro
consórcio com Bárbara Maria Rangel, com a qual teve sete filhos. Nesta
época, possuía uma escravaria de tamanho médio, não ultrapassando 13
cativos, além de cinco libertos, que também residiam na sua propriedade.
Foi qualificado como lavrador.94 Passados 31 anos, além do segundo con-
sórcio com Inês Claudina de Carvalho e de ter com ela mais quatro filhos,
verifica-se um acúmulo expressivo de sua riqueza.
Na década de 1860, detinha uma fortuna avaliada em quase 150 contos
de réis (ver tabela 14). De lavrador de porte médio em 1831, tornou-se um
grande agropecuarista e de considerável fortuna para os padrões encontrados
na área em estudo. Quais foram os caminhos para o enriquecimento? Um
belo arranjo matrimonial a partir do segundo consórcio? O investimento
na criação e na comercialização do gado vacum? As duas opções podem
explicar a formação de uma fortuna tão expressiva ao longo de três décadas.
Quanto à primeira, não se tem maiores detalhes sobre as segundas núpcias
e não são discriminados os bens da noiva, se é que existiram, por ocasião
do casamento. A segunda possibilidade parece mais razoável, pois alguns
proprietários sul-mineiros acabaram enriquecendo por meio do forneci-
mento de víveres para a Corte, especialmente o comércio de carnes verdes,
que, a partir de determinado momento, atendeu também à região cafeeira
em expansão no vale do Paraíba paulista e fluminense.95

negociantes; Júnia Ferreira Furtado, Homens de negócio; Carla Maria Carvalho de Almeida,
Homens ricos, homens bons; Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, entre outros.
94. APM, Listas nominativas de 1831-32.
95. Para uma discussão sobre a articulação entre o setor de abastecimento e a economia
cafeeira, ver Robert Slenes, Os múltiplos de porcos e diamantes; Stanley J. Stein, Vassouras:
um município brasileiro do café, 1850-1900. Trabalhos recentes também apontam esta
conexão. Renato Leite Marcondes, Formação da rede regional de abastecimento do Rio de
Janeiro: a presença dos negociantes de gado (1801-1811); Lucila Reis Brioschi, Fazendas de
criar; e Carlos de Almeida Prado Bacellar, Uma rede fundiária em transição.

117
Tabela 14
Composição da fortuna (em mil-réis) acumulada pelo agropecuarista
João José Mendes – 1862
Ativos Valor %
Dinheiro 2:025$070 1,4
Joias 456$500 0,3
Utensílios, móveis e ferramentas 2:247$782 1,5
Produção, plantações e mantimentos 6:656$000 4,5
Animais 20:124$500 13,5
Escravos 57:300$000 38,4
Imóveis rurais 56:662$898 37,9
Dívidas ativas 3:869$886 2,6
Total (monte-mor bruto) 149:342$636 100,0

Fonte: CEMEC-SM, Inventário post mortem de João José Mendes (1862), caixa 38.

Em 1862, grande parte da fortuna do agropecuarista estava alocada


em escravos e imóveis, como era de se esperar. O que chama a atenção é
o percentual significativo da fortuna investido em animais, ou seja, 13,5%.
Verificou-se que tanto entre os maiores senhores de engenho que também
criavam animais, quanto entre os 64 proprietários, a pecuária nunca ultra-
passou os 7% do total dos bens. Também há que considerar que os animais
não figuravam entre os itens de maior valor de um inventário, embora os
de carga fossem mais bem avaliados, em razão do importante papel que
desempenhavam no comércio, através das tropas ou no cotidiano das fa-
zendas. Analisando mais detidamente o rebanho de João José Mendes, vê-se
que possuía 443 cabeças de gado vacum, mais 43 bois, e 11 de gado cavalar,
além de 31 bestas, 643 porcos e cinco carneiros. Ainda que não haja menção
de as bestas serem ou não arreadas, pelo volume de animais que possuía e
por ter casa de tropa entre seus bens de raiz, certamente grande parte da
produção de sua fazenda era transportada no lombo de burros e bestas em
direção aos mercados regionais e, provavelmente, para as províncias do Rio
de Janeiro e de São Paulo.
Entre os mantimentos que João José Mendes tinha, destacam-se duzentos
alqueires de arroz, oitenta de feijão e 196 carros de milhos no paiol. A grande

118
quantidade de milho em estoque garantia a engorda das centenas de porcos
existentes na propriedade. O número de escravos também era considerável,
nada menos que 61 se dedicavam à criação de animais, à produção de ali-
mentos e ao comércio. Aqui cabe um parêntese a respeito de uma discussão
bastante recorrente na historiografia sobre a pouca necessidade de mão
de obra escrava, especialmente na criação de animais. Muitas vezes essas
conclusões são tiradas de uma leitura apressada dos relatos dos viajantes
e, mesmo, dos documentos oficiais,96 mas, quando se examina com maior
rigor o funcionamento das grandes unidades escravistas, percebe-se que a
diversidade era o traço marcante das fazendas, não só as mineiras, e que,
mesmo as unidades mais voltadas para a produção agropastoril demandavam
grande contingente de cativos.97
Saint-Hilaire, em viagem a Minas, no ano de 1819, ressalta que as exce-
lentes pastagens da região do Rio Grande propiciavam a existência de grandes
criadores de gado na comarca do Rio das Mortes, alguns deles chegando a
possuir de cinco a oito mil cabeças.98 Durante esta pesquisa, não se localizou
nenhum criador desse porte, mas, pelos inventários encontrados, pôde-se
elaborar uma tabela que nos dá ideia da importância da criação de gado na
região e, mesmo, da sua quantidade. Do total dos 64 maiores proprietários
sul-mineiros, 12 (19%) possuíam rebanho acima de cem cabeças e concen-
travam 59% (2.879) do gado bovino.

96. Saint-Hilaire afirma que, na comarca de São João, “onde se explora a pecuária os es-
cravos são, com efeito, bem menos necessários do que naquelas onde se extrai o ouro e se
cultiva a cana-de-açúcar”. Ver Viagens às nascentes do rio São Francisco, p. 55. Alcir Lenharo
(op. cit., p. 98-99) chama a atenção para a contradição nas informações do botânico, ora
demonstrando a importância dos cativos na criação e no comércio de animais, ora menos-
prezando o seu significado.
97. É o que tenho constatado com o resultado desta pesquisa e também nos trabalhos exis-
tentes para a comarca do Rio das Mortes, já citados. Em minha dissertação de mestrado,
também tive oportunidade de relativizar tal afirmação ao discutir, brevemente, a trajetória
da família Junqueira: Rebeldia e resistência – as revoltas escravas na província de Minas
Gerais (1831-1840), p. 150.
98. Auguste Saint-Hilaire, op. cit., p. 32.

119
Tabela 15
Animais de criação e de transporte – Campanha (1803-1831)
1803-1831 1832-1850 1851-1865
Animais
N Valor % N. Valor % N. Valor %
Gado vacum 429 1:513$100 38,4 1.593 22:842$600 32,7 1.721 44:953$000 45,8
Bois de carro 129 900$800 22,9 636 13:224$000 18,9 392 13:096$000 13,3
Equinos 37 431$660 11,0 487 9:255$600 13,3 329 8:258$000 8,4
Muares 70 1:084$000 27,5 417 19:350$800 27,7 309 20:836$000 21,2
Suínos 1.607 4:560$060 6,5 1.690 10:492$020 10,7
Caprinos 27 8$100 0,2 340 615$000 0,9 308 512$600 0,5
Total 692 3:937$660 100,0 5.080 69:848$060 100,0 4.749 98:147$620 100,0
Total de inv. 06 32 26

Fonte: ver tabela 4.

Na tabela 15, percebe-se que a criação de gado vacum foi a atividade


cujo crescimento foi constante nos três subperíodos. Em segundo lugar, vêm
os animais de carga (bestas e muares), muito utilizados no transporte dos
gêneros produzidos nas fazendas mineiras e na importação de produtos de
outras praças, em especial de São Paulo e Rio de Janeiro. Representavam um
percentual maior porque eram mais caros que os outros animais. Também
os porcos constituíam um item dos mais importantes das exportações mi-
neiras, ainda que não apareçam no primeiro subperíodo, o que pode ser
explicado pelo número reduzido de inventários para essa época. Já nos dois
subperíodos seguintes, observa-se um crescimento constante, sobretudo
entre 1851-65, quando o percentual praticamente dobra. Embora, em termos
percentuais, a quantidade de caprinos não seja tão expressiva, quase todos os
grandes proprietários possuíam rebanhos de carneiros, demonstrando que
sua criação era largamente difundida entre os proprietários sul-mineiros.99
A importância da pecuária também pode ser mais bem visualizada pelo
cálculo do número médio de animais. Para a primeira metade do século

99. Saint-Hilaire informa que “os criadores dessa região e de um modo geral da comarca de S.
João possuem rebanhos de carneiro. Ali não se faz como nas vizinhanças do Rio de Janeiro,
ou seja, não deixam que se perca a lã”. Ver Viagens às nascentes do rio São Francisco, p. 53.

120
(1803-1850), a média de bovinos era de 73 cabeças e, na segunda metade
(1850-1865), este número sobe para 77. Preferiu-se não considerar a média
para os dois subperíodos da primeira metade do século XIX, por causa do
número pouco representativo de inventários relativos ao primeiro subperí-
odo, o que poderia comprometer a análise dos dados. Ainda que não tenha
encontrado a mesma média registrada por Afonso Alencastro Graça Filho
para São João del-Rei, 100 este número é bem expressivo, se comparado a
outros apresentados em estudos relativos a diferentes regiões do Império.
Hebe Mattos calculou a média de 15 cabeças de gado vacum para as fazendas,
e sete, para os sítios de Capivari, no Rio de Janeiro, na segunda metade do
século XIX.101 Carla Almeida chegou a uma média de oitenta cabeças de gado
vacum para a comarca do Rio das Mortes, no período de 1780-1822, com
base no exame de 215 inventários.102 Trata-se de um número aproximado
do que se conseguiu localizar para Campanha.
Os bois de carro foram discriminados, na tabela 15, justamente pela
sua importância no funcionamento das atividades das fazendas, seja como
puxadores dos carros de boi para levar o milho da roça para o paiol, seja para
transportar alguns produtos das fazendas até os mercados mais próximos
e, principalmente, nos engenhos, onde eram utilizados como força motriz.
Assim como Sheila de Castro Faria, ao analisar a região de Campos dos
Goytacazes, no Rio de Janeiro, pôde-se constatar que quase todos os enge-
nhos eram movidos por tração animal. Somente alguns, mais sofisticados,
utilizavam força hidráulica.103
Os burros e as bestas de carga eram essenciais para a comercialização
dos produtos das fazendas e estavam presentes em praticamente todos os
inventários dos grandes proprietários.104 Como está se tratando de gran-

100. Alencastro localizou uma média de 146 cabeças de gado por proprietário na primeira
metade do século XIX (1831-1850) e 133 na segunda metade. A diferença também pode ser
explicada pelo número de inventários analisados. O autor trabalhou com os 103 maiores
fazendeiros de São João, abarcando o período de 1831-1888. Afonso Alencastro Graça Filho,
A princesa do Oeste, p. 146.
101. Hebe Maria Mattos, Ao sul da História, p. 51.
102. Carla Maria Carvalho de Almeida, Homens ricos, homens bons, p. 132.
103. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 247-249.
104. A esse respeito, ver capítulo 1. Hebe Maria Mattos também chega a conclusões seme-
lhantes, destacando que os burros e as bestas de carga estavam presentes em quase todos
os inventários dos fazendeiros e sitiantes de Capivari. Ver Ao sul da história, p. 50.

121
des unidades escravistas, onde a figura do fazendeiro/negociante parece
ser predominante, não resta dúvida de que os animais de carga têm uma
importância fundamental para o deslocamento da produção em direção
aos mercados locais e para fora da província. A média de muares ficou em
aproximadamente 12, tanto para a primeira metade do século XIX, quanto
para a segunda.
Deixando um pouco de lado as médias e os números, pois muitas vezes
esses resultados não dizem muito, serão tecidos alguns comentários sobre
a criação de gado em Minas e o comércio com outras províncias. Essas
informações foram cotejadas a partir do relatório enviado pelo presidente
da província de Minas ao marquês de Olinda, ministro dos Negócios do
Império, referente à solicitação de informações sobre os principais criadores
de gado em Minas e os principais agentes que atuavam no comércio desses
animais, em virtude do monopólio do comércio das carnes verdes, elevando
o preço do produto na praça carioca. Desde a segunda metade do século
XVIII, a capitania de Minas, particularmente o sul, já fornecia gado para
o Rio de Janeiro.105 Com a chegada da Corte, em 1808, a demanda de gado
mineiro, porcos e derivados só fez aumentar.106 Algumas regiões de Minas
se tornaram os principais polos abastecedores de animais para a Corte e
também para as áreas cafeeiras paulista e fluminense.107 E, ao que parece, pelo
menos é o que indicam as fontes, as exportações mineiras de gado vacum e
suíno continuaram tendo muita importância na segunda metade do século
XIX. Baseado nas informações contidas no Almanaque Administrativo da
província de Minas, datado de 1864, Alcir Lenharo também demonstra que

105. Caio Prado Jr., Formação do Brasil contemporâneo, p. 197-198.


106. Alcir Lenharo, em trabalho pioneiro (As tropas da moderação, especialmente os capítulos
3 e 4), conseguiu demonstrar a importância e a efervescência desse comércio, ao cruzar os
dados estatísticos elaborados por Eschwege com os relatos dos viajantes e os códices sobre
tropeiros, do Arquivo Nacional.
107. Embora a diversificação tenha marcado o cenário da economia mineira, algumas
comarcas se especializaram na produção de certos gêneros, que tinham como destino o
mercado de outras capitanias, no período colonial. A comarca do Rio das Mortes, além de
ocupar o primeiro lugar na produção e na exportação do tabaco, tinha na pecuária e em
seus derivados os gêneros de maior importância destinados ao mercado do Rio de Janeiro.
O gado da comarca do Rio das Mortes era de melhor qualidade e chegava mais em conta ao
Rio de Janeiro e a São Paulo, em virtude das distâncias e das variações na cobrança de direitos
de entrada. Ver Cláudia Maria das Graças Chaves, Melhoramentos no Brazil, p. 307-309.

122
o sul de Minas exportava praticamente os mesmos produtos que quarenta
anos antes. Entretanto, há que se discordar do autor quanto ao fato de que
o café já tivesse se “irradiado” pela região nesse período. No universo de
475 inventários pesquisados, somente 11 (2,3%) fazendeiros plantavam algum
café, e não eram cafezais de grande porte.108
Atente-se para o que diz o relatório do presidente da província de Minas.
No inquérito que lhe foi enviado, o marquês de Olinda argumentava sobre a
necessidade de coibir o monopólio do comércio de carnes verdes no Rio de
Janeiro,109 além de solicitar informações a respeito dos principais criadores de
gado em Minas, de que maneira eram feitas as remessas para a Corte e quais
eram “as pessoas que na boa fé, e ignorando o mal que [faziam], [estavam]
cooperando para o monopólio em prejuízo de todos”.110 Em resposta a esse
ofício, foram elaborados dois relatórios, apresentando basicamente o mesmo
conteúdo, só que com assinaturas diferentes. Os relatórios são interessantes
em vários aspectos, tanto pelas omissões no repasse de certas informações,
quanto pela análise que fazem da criação e do comércio de gado em Minas
e pelos dados apresentados. Optou-se por agregar as informações dos dois
relatórios naquilo em que há convergência. As diferenças serão indicadas
na medida em que se analisar o seu conteúdo.
Os relatores informaram que os principais criadores de gado vacum
estavam localizados no vale do Rio Grande e seus confluentes até Uberaba,
e que não era tarefa fácil indicar os seus nomes, pois quase todos criavam
gado vacum e lanígero por aqueles “lados” da província. Eles pertenciam às
famílias Junqueira,111 Andrade e Vilela, que habitavam vários municípios do

108. Ver Alcir Lenharo, op. cit., p. 92-93. Para uma discussão sobre o café no sul de Minas,
há um estudo publicado recentemente, baseado em fontes dos arquivos locais, e que situa
a gênese do café na região a partir da década de 1880: Maria Lúcia Prado Costa, Fontes
para a história do sul de Minas: os trabalhadores de Paraguaçu e Machado (1850-1900), em
especial o capítulo 1, p. 11-22.
109. As crises de abastecimento eram recorrentes também na primeira metade do século
XIX e os “atravessadores”, os “monopolistas” ou os “ponteiros” eram acusados de dominar
o comércio de carnes verdes. Ver Alcir Lenharo, op. cit., p. 44-54.
110. APM, Correspondência do Ministério dos Negócios do Império enviada ao presidente
da província de Minas, 19 de novembro de 1857, SP 655.
111. Esta questão já tinha sido apontada em minha dissertação de mestrado, notadamente
no tópico “Fortuna e família na região dos Campos”. Rebeldia e resistência, p. 161-174. Ver
também Lucila Reis Brioschi, Fazendas de criar, p. 59-63.

123
sul de Minas, como Baependi, Lavras do Funil, Três Pontas, São João del-Rei
e Uberaba, sendo que, neste último, muitas outras famílias se dedicavam à
criação de gado.112
Um dos pontos que mais chamam a atenção no primeiro relatório é
um resumo dos mapas de exportação e importação de 1850-1855, contendo
informações sobre a quantidade de gado vacum, lanígero e suíno criado
em Minas, bem como de alguns derivados (toucinhos, couro de boi, sola)
e bestas novas importadas.
Verifica-se, pelos dados apresentados na tabela 16, que houve um cres-
cimento constante na exportação do gado mineiro e também do couro de
boi, durante os primeiros cinco anos da década de 1850. O mesmo ocorre
com a importação de bestas novas, exceto para o ano de 1851. Se a criação de
gado estava em expansão nos últimos cinco anos, como explicar o aumento
do preço das carnes verdes na praça carioca? O próprio relator tenta encon-
trar respostas para esta questão, informando que “o gado exportado para
a província do Rio de Janeiro é quase todo da província de Minas e pouco
da província de Goiás”,113 mas sem dar maiores detalhes de como era feita
a remessa para a Corte e quais eram os principais negociantes envolvidos
nesta atividade.
Não sei o modo mais especial por que fazem as remessas para o Rio de
Janeiro mas consta-me que há companhias que fazem com regularidade
esse comércio comprando, engordando com esmero os gados e fazendo
chegar ao mercado do Rio grandes porções com melhores vantagens.
Há também negociantes de gado que o compram a pequenos criadores e
depois exportam.114 (Grifos meus)

Parece que, nesse aspecto, o relator preferiu não dar maiores detalhes
de como se fazia a remessa de gado para a Corte e também não relaciona os
nomes dos envolvidos nesse comércio. Curioso que ele até sugere como isto

112. APM, Resposta do presidente da província aos quesitos solicitados pelo Ministério
dos Negócios do Império, SP 655. As famílias Andrade e Vilela eram aparentadas com os
Junqueira, por meio de vários casamentos (ver capítulo 4).
113. Idem.
114. Idem.

124
poderia ser feito. Era só uma questão de verificar os nomes dos negociantes
nas recebedorias ou nos livros em que se registra o pagamento de direitos
do gado exportado.
Alcir Lenharo destaca duas categorias monopolizadoras do mercado,
na primeira metade do século XIX: os consignatários ou comissários, res-
ponsáveis pela compra da carne de criadores, invernistas ou condutores;
e os marchantes, que negociavam as reses para a matança e distribuíam a
carne para os açougues. No final da década de 1840, os marchantes anulam
a função dos comissários, tornando-se “senhores do mercado”.115

115. Alcir Lenharo, op. cit., p. 54.

125
126
Tabela 16
Resumo dos mapas de exportação, de criação e produção da província de Minas Gerais e importação de bestas novas
(1850-1855)
Criação e produção 1850-51 % 1851-52 % 1852-52 % 1853-54 % 1854-55 % Total %
Gado vacum 51.488 16,3 58.823 18,6 61.425 19,5 68.971 21,8 75.020 23,8 315.727 100
Lanígero 7.930 13,2 10.443 17,4 12.213 20,3 13.319 22,1 16.271 27,0 60.176 100
Porco em pé 39.805 17,5 44.993 19,8 69.072 30,4 47.701 21,0 25.417 11,2 226.988 100
Arrobas de toucinho e carne
230.943 19,8 221.147 19,0 250.060 21,5 232.610 20,0 229.769 19,7 1.164.529 100
de porco
Couro de boi 2.963 11,6 3.375 13,2 5.985 23,3 6.386 24,9 6.926 27,0 25.635 100
Sola 2.020 18,2 1.373 12,4 728 6,6 1.935 17,5 5.015 45,3 11.071 100
Bestas novas 5.986 9,2 3.471 5,4 11.328 17,5 21.167 32,7 22.831 35,2 64.783 100

Fonte: Relatório do presidente da província, enviado ao Ministério dos Negócios do Império, 21/12/1857.
APM, Seção Provincial, SP 655.
A argumentação do relator sobre as causas prováveis no aumento do
preço da carne na praça carioca é bem interessante e merece ser explorada
com maior detalhe. Embora se tenha verificado uma expansão da criação
de gado e também de sua exportação, houve um aumento do consumo da
carne bovina em Minas entre 1854-56, em virtude das pestes e das moléstias
que dizimaram muitos porcos, elevando o preço do gado. O consumo de
carne de porco era algo muito presente na culinária mineira e, pelo resumo
do mapa de exportação e importação, verifica-se, de fato, uma queda na
exportação de porcos, toucinho e carne, nesse período.
Outro ponto interessante, defendido pelo relator, estava ligado à impor-
tância que o couro de boi e as solas tinham na confecção dos arreios para
as tropas, além da utilização, cada vez mais frequente, dos bois em carretos,
que eram empregados no transporte de gêneros alimentícios para outras
povoações e nos misteres da lavoura.
[...] o consumo de gado na província cresceu nestes três últimos anos
extraordinariamente com o emprego dos arreios de tropas novas e
basta saber que nos de 1853-54–1854-55 a introdução das bestas novas
na província, além das que nelas se criam, elevou seu número a 21.167 e
22.831, o dobro sobre o ano de 1852-53 – quase o triplo sobre o de 1851-
52 e o quádruplo sobre 1850-51 como demonstra o quadro que junto
apresento. Ora, devendo julgar-se que dois terços das bestas importadas
na província sejam arreadas para a condução de cargas, teremos no
emprego de arreios quase 30.000 couros de boi e sola. Assim se pode
explicar o alto preço dos couros e da sola na província e também a
maior exportação dos mesmos para fora nestes últimos três anos.116

A argumentação do relator parece bastante convincente, pois o vai e


vem de tropeiros com suas bestas de carga fazia parte da paisagem mineira
desde o século XVIII. E, mesmo com a chegada dos primeiros trilhos de
ferro, no final da década de 1880, as tropas e as boiadas ainda podiam ser

116. APM, Resposta do presidente da província aos quesitos solicitados pelo Ministério dos
Negócios do Império, SP 655.

127
vistas nos caminhos e nas estradas de Minas.117 Mas, ao que tudo indica, o
relator não queria dar maiores detalhes sobre os negociantes de gado.
Outras razões também foram apontadas, principalmente em relação
ao consumo de gado nas áreas cafeeiras do vale do Paraíba fluminense e
paulista. As carnes charqueadas e de porco estariam sendo substituídas
pela carne bovina, pois aquelas estavam mais escassas nos últimos anos.
As informações do relator sugerem que a venda do gado “em caminho”118
era um negócio bem mais atrativo para os negociantes de pequeno porte,
que levavam poucas cabeças de gado, “do que expor-se à concorrência com
as companhias mais fortes”.119
O governo do Império propunha a criação de uma agência pública, na
tentativa de regular o abastecimento e o preço da carne na praça carioca.
Havia um consenso contra a criação dessa agência nos dois relatórios, mas é
especialmente no segundo que o autor acabou expondo de modo mais claro a
sua posição, defendendo os princípios da liberdade de mercado e afirmando
que este não era o papel do Estado. Pelo contrário, uma intervenção pública
poderia prejudicar ainda mais o abastecimento de carnes verdes na Corte.
Uma semelhante agência contrariava os mais conhecidos princípios da
ciência econômica, tinha visos de injustiça. Se o governo aparecesse no
comércio com vistas excepcionais estragava os fundos públicos que não
foram notados para esse fim e devendo ser efêmera sua concorrência
porque o governo não é negociante, podia conseguir agravar o mal no
futuro, fazendo que os proprietários das invernadas que são negociantes
deixassem de as melhorar quando não fosse lucrativo o produto de seu
trabalho, e é visto que encontro visos de injustiça quando o governo

117. Alcir Lenharo, op. cit., p. 99-100.


118. Sobre o comércio de gado mineiro com o Vale do Paraíba, ver: Ibidem, p. 79-81. Em
trabalho recente, já citado, Renato Leite Marcondes menciona uma representação dos mo-
radores da vila de Santa Maria de Baependi, datada de 1817, remetida à Câmara de Lorena,
solicitando o conserto do caminho na serra da Mantiqueira, confirmando a importância
que teria o uso do caminho novo da freguesia de N. Sra. da Piedade para a condução de
parte dos rebanhos mineiros em direção ao Rio de Janeiro. Ver Formação da rede regional
de abastecimento do Rio de Janeiro, p. 52-53.
119. APM, SP 655.

128
transpondo sua esfera administrativa vai limitar o uso de um direito.120
(Grifos meus)

A defesa dos princípios de liberdade de comércio por parte do relator


tem de ser analisada com cautela. Infelizmente, não se tem maiores informa-
ções sobre quem está assinando o relatório, se os argumentos são do relator,
do presidente ou de qualquer outro membro do governo da província de
Minas.121 Também é possível especular que o autor dos argumentos seja um
grande negociante de gado ou tenha interesses mais estreitos ligados a esta
atividade, talvez algum tipo de vínculo familiar.
Outra informação importante que constava dos relatórios era sobre as
invernadas,122 propriedades formadas por bons pastos e alugadas por tem-
porada, essenciais para a engorda do gado antes do seu destino final. Uma
das prováveis razões por não se ter encontrado nenhum grande criador ou
mesmo negociante, pelo menos do porte descrito pelos viajantes, parece ser
o fato de as invernadas se localizarem mais ao sul da província, pelo menos
na segunda metade do século XIX. No primeiro relatório, o informante
diz não ter conhecimento de invernadas de pastagens no Rio de Janeiro e,
em Minas, só as do vale do Rio Grande, mas não sabia precisar os locais.
Já no segundo, as informações são menos genéricas. As invernadas mais
importantes estavam localizadas em Passos, Caldas e Formiga e algumas em
Pitangui, dos herdeiros do finado Antônio Alves da Silva; no Rio de Janeiro,
a mais importante era a da fazenda Santa Cruz.123
Comparando os dados dos relatórios com os dos inventários, o que
mais chama a atenção é a ausência de pecuaristas de grande porte entre
os inventariados de Campanha. Segundo o relatório de 1857, o número
de cabeças de gado criado em Minas era muito expressivo e tinha como
destino principal a praça carioca. Onde estariam esses grandes criadores,
considerando-se que tenham existido, se o vale do Rio Grande era umas

120. Idem.
121. Os nomes citados nos relatórios são os seguintes: primeiro, Domingos de Andrade
Figueira e Joaquim Antônio Fernandes Leão; segundo, Quintiliano José da Silva e Manuel
Bernardes de Resende.
122. Uma descrição sobre as invernadas pode ser encontrada em Alcir Lenharo, op. cit.
123. APM, Seção Provincial, SP, 655.

129
das principais regiões criatórias da província? Nem mesmo os membros
da família Junqueira, mencionados no relatório como grandes pecuaris-
tas, possuíam número significativo de cabeças de gado.124 O curioso é que
também para São João del-Rei, Afonso Alencastro não localizou grandes
criadores de gado e invernistas, embora a média de animais entre os 103
maiores fazendeiros seja bem mais expressiva do que a encontrada para
Campanha.125 Será que não teríamos de rever essas estimativas repassadas
pelos viajantes, em face dos dados encontrados nos inventários? O cenário
encontrado parece ter sido de criadores com algumas centenas de cabeças
de gado, atividade bastante disseminada entre os proprietários sul-mineiros.
Acredito que o caminho mais adequado para compreender a importância
da pecuária regional esteja muito além dos números e das médias. É preci-
so aprofundar mais as pesquisas sobre a criação e o comércio de gado em
Minas e com outras províncias do Império. Parece que aqui entra em cena
um ator importante, o negociante de gado, que poderia comprar a produção
de pequenos, médios e grandes criadores, como afirmou o relator, e colocá
-la nos mercados de outras províncias, principalmente a do Rio de Janeiro.
Renato Leite Marcondes, em estudo recente, analisou o abastecimento de
gado destinado ao mercado carioca, especialmente a partir da chegada da
Corte, identificando os principais comerciantes que passaram pelo caminho
de N. Sra. da Piedade, São Paulo, que dava acesso ao Rio de Janeiro.

124. As fazendas da família Junqueira localizavam-se, na sua grande maioria, no termo de


Baependi. No referido relatório, o município foi mencionado como uma área de grande
criação de gado. Como o leitor terá oportunidade de constatar, a quantidade de gado
vacum arrolado nas propriedades dos Junqueira não diferia muito do padrão encontrado
em propriedades similares no termo de Campanha (capítulo 4). Talvez isto se explique
pelo tipo de fonte utilizada. Alguns membros da segunda e da terceira geração que se
deslocaram para o sertão do Rio Pardo, no nordeste da província de São Paulo, também
se ocupavam das mesmas atividades desenvolvidas pelos membros da família que ficaram
em Minas Gerais. Em 1829, os Junqueira estavam entre os maiores criadores de gado de
Franca, a saber: capitão Antônio Francisco Diniz Junqueira, 700 reses; Antônio Sancho
Diniz Junqueira, 400 reses; tenente Francisco Antônio Junqueira, 400 reses, e capitão João
Francisco Junqueira, 400 reses. AHMUF – Câmara Municipal, Livro dos assentamentos
de gados de Franca, 1825-1836, v. 58, caixa 11, apud Lucila Reis Brioschi et al. Entrantes no
sertão do Rio Pardo: o povoamento da freguesia de Batatais, séculos XVIII e XIX, p. 277-293
(a relação dos criadores de gado vem, em anexo, no final do livro).
125. Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste, p. 124 e 146-149.

130
No caso das prestações de contas levantadas, nota-se a presença de 173
negociantes de gado. A sua grande maioria promoveu a passagem de
mais de uma tropa de gado. O número total de tropas registradas nas
prestações de contas alcançou 819 viagens. Deste modo, cada comer-
ciante, em média, teria conduzido quase cinco conjuntos de animais
pelo caminho novo.126

O autor também constata a concentração deste comércio nas mãos de


uma elite mercantil. No período de 1801 a 1811, os mercadores que conduziam
mil ou mais cabeças de gado correspondiam a pouco mais de 6% do total de
negociantes e transportaram mais da metade dos animais, ou seja, cerca de
35 mil cabeças de gado. Outro aspecto importante salientado pelo autor é que
a maioria desses mercadores possuía residência no vale do Paraíba. Alguns
tinham vínculos com grandes escravistas naturais de Minas, como é o caso
de Brás de Oliveira Arruda, casado na família de Hilário Gomes Nogueira,
natural de Baependi, e o maior escravista de Bananal no final do século XVIII.127
Embora algumas questões tenham ficado sem respostas, o que se consi-
dera essencial destacar nos relatórios analisados é a importância que a criação
de animais ocupava no cenário da economia mineira, em particular no sul
de Minas, onde esta atividade ainda era um dos principais núcleos geradores
de riqueza, como se constatou do exame dos inventários. As grandes fazen-
das mineiras, assim como as de outras regiões do Império, a princípio nos
dão a impressão de serem autossuficientes e produzirem de quase tudo.128
Certamente, a origem da riqueza estava relacionada ao consórcio de várias

126. Renato Leite Marcondes, Formação da rede regional de abastecimento do Rio de


Janeiro, p. 55-56.
127. Ibidem, p. 57-58
128. Esta foi a percepção de Roberto Borges Martins ao analisar o funcionamento das
fazendas, baseado, principalmente, nas descrições dos viajantes. A ideia de isolamento e
autossuficiência também é ampliada para a economia mineira como um todo. São fontes
de grande relevância para o estudo dos costumes, dos aspectos culturais e econômicos, mas
devem ser sempre relativizadas, na medida em que for possível estabelecer comparações
com outras fontes. Sem este cuidado, corre-se o risco de passar uma imagem distorcida do
funcionamento destas unidades agropastoris. A historiografia recente sobre Minas Gerais
e a discussão empreendida neste trabalho demonstram o quanto este tipo de interpretação
está superado. Roberto Borges Martins, A economia escravista de Minas Gerais no século
XIX, p. 37-39.

131
atividades e, quase sempre, um grande fazendeiro também era negociante,
pelo menos é este o quadro que se conseguiu traçar para a área em estu-
do. Entretanto, um olhar mais atento indica que o cotidiano das fazendas
esteve sempre associado ao das vilas, dos arraiais, do comércio à beira de
estradas e com outras províncias. A dependência dos artigos importados
começava pela mão de obra, vinda da África, e passava por vários outros
produtos, como o sal e os instrumentos agrícolas, fundamentais para tocar
os “negócios” das fazendas. As famílias mais abastadas poderiam dar-se ao
luxo de consumir artigos importados, que eram moda na Corte ou mesmo
na Europa. As questões relativas aos hábitos e aos costumes dos grandes
proprietários sul-mineiros serão objeto de investigação no próximo capítulo.
3

Cultura material e modos de vida


da elite sul-mineira

Na sequência deste trabalho, pretende-se destacar alguns aspectos do


cotidiano das famílias da elite do sul de Minas, seguindo os passos do que
antropólogos e arqueólogos definem como cultura material.1 Para isso, por
meio de indícios encontrados nos documentos, serão relacionadas infor-
mações sobre a produção agrícola e os hábitos alimentares, a criação de
animais, o vestuário, o exterior e o interior das casas de morada (sedes de
fazendas e sobrados nas vilas).
Segundo Richard Bucaille e Jean-Marie Pesez, o termo é demasiado
impreciso para ser considerado um conceito, justamente em função do
significado global evidente.
[...] a ideia de cultura material continua a ser uma noção [...]. Na realida-
de, a cultura material corresponde a uma necessidade atual das ciências
humanas. Tem o atrativo de reunir, oferecendo-lhes um esquema, estudos
dispersos, até agora mal integrados e sem estatuto científico: as pesquisas
sobre a vida cotidiana, por exemplo. Sem se identificar exatamente com
a cultura material, a vida cotidiana decalca-a em grande parte, mas os
estudos que lhe são dedicados conservam ainda um caráter marginal,
mesmo anedótico.2

1. A definição de cultura material aqui utilizada está muito próxima da compreensão de


Peter Burke, ao analisar o pioneirismo de Freyre no tratamento do tema. Peter Burke,
A cultura material na obra de Gilberto Freyre, p. 55. Outra referência fundamental para as
discussões deste capítulo é, também, Fernand Braudel, Civilização material e capitalismo:
séculos XV-XVIII, especialmente os capítulos 3, 4 e 5. As obras clássicas de Gilberto Freyre
(Casa-grande e senzala; Sobrados e mocambos e Ingleses no Brasil) também servirão de
orientação para a discussão dos tópicos deste capítulo.
2. Richard Bucaille e Jean-Marie Pesez, Cultura material, p. 45.

133
Para se reconstruir parte do universo cotidiano das elites, várias fontes
serão necessárias: inventários, relatos dos viajantes, documentos particulares
das famílias investigadas, genealogias e memórias, fotografias, entre outras.
Os inventários são fontes primordiais para este tipo de investigação e
já foram pioneiramente utilizados por Alcântara Machado,3 que, em mui-
tos aspectos de sua obra clássica, esteve atento para desvendar aspectos do
cotidiano dos bandeirantes paulistas e perceber as transformações ao longo
do período trabalhado. De acordo com o autor,
Não é frívola curiosidade que nos leva a inquirir onde moravam os nossos
maiores, a maneira por que se alimentavam e vestiam, o de que tiravam
os meios de subsistência, a concepção que tinham do destino humano.
Tudo isso facilita o entendimento do que fizeram ou deixaram de fazer.
Só depois de frequentá-los na intimidade e situá-los no cenário em que
se moveram, estaremos habilitados a compreender-lhes as atitudes.4

Da mesma forma que Alcântara Machado, é importante estar atento


às inúmeras transformações que ocorreram na conjuntura nacional e inter-
nacional da primeira metade do século XIX e como isto, de algum modo,
interferia nos costumes da elite interiorana, em algumas vilas e mesmo
em algumas fazendas. Os “trastes”, expressão recorrente nos inventários
para discriminar os bens existentes no interior das casas, revelavam sinais
claros de uma mudança nos costumes, nos modos de se vestir e até mesmo
nos de decorar o interior das casas. Procurar-se-á dar conta da distância
de um passado que não é tão remoto assim, mas que apresenta profundas
diferenças com o modo de vida atual. Guardadas as devidas diferenças no
espaço e no tempo, as afirmações de Fernand Braudel, ao se dedicar aos
pormenores da vida material na Europa dos séculos XV ao XVIII, prestam-
se perfeitamente ao contexto a ser investigado, ou seja, entre o passado
e a atualidade, “surgiram tremendas distâncias: a iluminação da noite, o
aquecimento, os transportes, a alimentação, as doenças e os medicamentos
[...]”.5 Serão também observadas as permanências, os hábitos e as práticas

3. Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante.


4. Ibidem, p. 29.
5. Fernand Braudel, op. cit., p. 16.

134
seculares, que, apesar das inúmeras mudanças ocorridas nos séculos XX e
XXI, ainda podem ser vistas na paisagem interiorana mineira, hoje bastante
valorizadas e ressignificadas cultural e socialmente.

1. Produção agrícola e hábitos alimentares


Grande parte da economia sul-mineira estava concentrada nas ativida-
des voltadas para o abastecimento interno, com destaque para a produção
agrícola e a pecuária, embora a mineração ainda exercesse algum atrativo,
especialmente para os faiscadores. Foi a partir dessas atividades, em particu-
lar na comarca do Rio das Mortes, e notadamente após a chegada da Corte
no Rio de Janeiro, que vários proprietários sul-mineiros enriqueceram, e
alguns deles se destacaram no cenário político imperial (ver capítulos 2 e 4).
Observando atentamente a estrutura arquitetônica das grandes fazendas
mineiras do período, verifica-se que, além das “casas de vivenda”, existiam
as benfeitorias, compostas de casas para tropa, queijos e farinha, moinhos,
monjolos e engenhos de serra e de moer cana. Toda esta estrutura era vital
para o funcionamento dos empreendimentos agropastoris e estava intima-
mente relacionada ao que se produzia, ao que se comercializava e ao que se
consumia no dia a dia das fazendas.
A existência de tantas benfeitorias era marca registrada das grandes
fazendas, onde o senhor, juntamente com sua família e um significativo con-
tingente de cativos, comandava os negócios da propriedade. Daí a necessidade
de tantas “casas”, muitas delas utilizadas para a produção de alimentos, que
atendiam tanto à demanda interna da unidade produtiva, quanto à produção
voltada para o abastecimento regional, seja da província ou de fora dela.
Comecemos pela cultura do milho e pela casa do moinho. O milho era
essencial nas fazendas mineiras, para alimentar gado e porcos ou para produzir
farinha (fubá), que atendia à dieta básica dos escravos e, mesmo, dos senhores.
É o caso específico do angu, ainda tão marcante na culinária mineira.6
Augusto de Saint-Hilaire, ao empreender a sua segunda viagem a Minas,
em 1822, retornou ao Rio de Janeiro naquele mesmo ano, transitando por

6. Ver as considerações de Luís da Câmara Cascudo, História da alimentação no Brasil; e


Eduardo Frieiro, Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Este último faz
uma seleção de passagens sobre os hábitos alimentares dos mineiros, descritos pelos viajantes.

135
um trecho do caminho novo da Paraíba, que passava por parte do sul de
Minas, mais precisamente por Carrancas e Aiuruoca. Nos primeiros dias
de março, depois de pousar no rancho da Traituba, importante estabeleci-
mento que dará origem à grande fazenda de mesmo nome7 e que servia de
invernada e pouso para viajantes e tropeiros, chegou até a vila de Aiuruoca,
onde discorreu sobre a importância do cultivo dos dois principais gêneros
agrícolas da comarca do Rio das Mortes e, por extensão, do sul de Minas, ou
seja, o milho e o feijão. O viajante comenta ainda sobre a importância que a
cultura do milho desempenhava, principalmente para a produção de farinha
de milho, que, de certo, tinha como destino a mesa de senhores e escravos,
para a produção de uma das iguarias principais da cozinha mineira, que
é o angu. O milho também era utilizado para o trato dos animais (porcos,
burros, cavalos e galinhas).
Entre S. João e Aiuruoca colhem-se principalmente milho e feijão;
mas os gêneros não saem da região. [...] Os arredores de Carrancas e
Aiuruoca são muito altos, o café ali sofre com a geada todos os anos; o
açúcar e o algodão não vão por diante. [...] Planta-se pouco mandioca,
porque se prefere, e com razão, à farinha extraída desta raiz a do milho,
mais nutritiva e de melhor paladar. Utiliza-se também o milho como
alimento de porcos, burros, cavalos e galinhas.8 (Grifos meus)

Em viagem anterior, quando o botânico passou novamente pela região


do Rio Grande, fez nova assertiva sobre a dieta das famílias dos fazendeiros;
mesmo os mais abastados geralmente se alimentavam de um prato de feijão
cozido com algumas verduras, angu, arroz e, às vezes, canjica.9 Os principais
gêneros agrícolas cultivados nas unidades escravistas do termo da vila da
Campanha foram milho, feijão e arroz (ver capítulo 1). O trivial “feijão, angu
e couve”, que marca a tradição da culinária mineira e que mereceu maiores

7. Esta era uma das grandes fazendas da família Junqueira, que pertenceu primeiramente
a João Pedro Diniz Junqueira, sobrinho do deputado Gabriel Francisco Junqueira, futuro
barão de Alfenas, que será analisada mais adiante.
8. Augusto de Saint-Hilaire, Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São
Paulo: 1822, p. 54-55.
9. Augusto de Saint-Hilaire, Viagem às nascentes do rio São Francisco, p. 61.

136
considerações no ensaio de Eduardo Frieiro, tem sua origem histórica nos
hábitos alimentares dos mineiros dos séculos XVIII e XIX.10
Parece que as impressões de Saint-Hilaire acerca do consumo prefe-
rencial da carne de porco na dieta dos mineiros estão corretas: os bois eram
utilizados para tocar os engenhos, no transporte de mercadorias e no dia a
dia das fazendas; as vacas serviam para dar cria e produzir leite, essencial
na dieta dos mineiros e na produção dos queijos; o gado mais novo era
comercializado e tinha destino certo, especialmente os mercados da Corte.
Os fazendeiros só se desfaziam das vacas quando estavam muito velhas
e não podiam procriar; os porcos não se destinavam apenas ao consumo
interno das fazendas, o toucinho constituía um valoroso ramo do comércio
que estreitava as relações entre a comarca do Rio das Mortes e as províncias
do Rio de Janeiro e de São Paulo, representando importantes divisas para
os proprietários da região.
O sal era artigo raro na província de Minas, destinando-se a complemen-
tar a alimentação do gado, e a garantir a manutenção de um melhor rebanho
e de maior produção de leite. Talvez por isso os mineiros da região em estudo
não tivessem muita tradição de consumir carne de sol. A carne de porco se
constituía numa das principais iguarias mineiras, podendo ser consumida
de várias formas: fresca, conservada sob a forma de linguiça, misturada com
pedaços de toucinho, ou conservada na gordura (toucinho frito, derretido e
resfriado) do porco. O procedimento consistia em fritar parte do toucinho
em grandes panelões de ferro ou tachos de cobre11 e deixá-lo esfriar por
horas, transformando-o numa massa pastosa e consistente. A carne – em
geral as partes mais nobres, como os pernis traseiro e dianteiro, além do
lombo – era cortada em pedaços não muito grandes e, após ser cozida e/ou
frita, era mergulhada nessa banha de porco e ali ficava acondicionada por
meses, sendo utilizada na medida da necessidade. Uma saída inteligente para

10. Ver Eduardo Frieiro, op. cit.


11. Em todos os inventários analisados, é recorrente a menção a tachos de cobre de vários
tamanhos e, em alguns casos, também são listados caldeirões e panelas de ferro. Nas uni-
dades de produção de açúcar, muitos desses tachos poderiam ser utilizados para ferver a
garapa da cana. Mas, certamente, teriam outras funções, como fazer os tradicionais doces
mineiros e mesmo fritar o toucinho, para fazer a banha de porco, e fritar as carnes para
posterior conserva.

137
uma época em que não se dispunha de melhores meios para a conservação
desse tipo de alimento. Até bem pouco tempo, este procedimento podia ser
encontrado no interior de Minas, seja em fazendas antigas e/ou mesmo nas
moradas de pessoas de menos recurso. Luís da Câmara Cascudo comenta
que essa tradição remonta à culinária portuguesa.12
As excelentes pastagens da região do Rio Grande favoreceram a criação
do gado leiteiro. Embora não se tenha encontrado grandes criadores de gado
na região, a atividade estava bastante disseminada entre os proprietários
rurais (ver capítulo 2). Nesse momento, interessa destacar como se exercia
a agropecuária e sua relação com o cotidiano das fazendas. A produção do
leite era essencial tanto para o consumo interno, quanto para a fabricação
dos queijos, consumidos também internamente, mas que constituía outro
ramo fundamental do comércio que ligava Minas ao Rio de Janeiro. Produzia-
se muito queijo em São João del-Rei, cabeça do termo da comarca do Rio
das Mortes. Segundo Saint-Hilaire, este foi um dos principais produtos de
exportação da região do Rio Grande. Vale a pena reproduzir a descrição
detalhada do viajante, sobre a maneira como os queijos eram fabricados:
[...] tão logo o leite é tirado coloca-se nele o coalho, o que o faz talhar-se
instantaneamente. O coalho mais usado é o de capivara, por ser mais
facilmente encontrado. As formas são de madeira e de feitio circular,
tendo o espaço livre interno mais ou menos de tamanho de um pires.
Essas formas são colocadas sobre uma mesa estreita de tampo incli-
nado. O leite talhado é colocado dentro delas em pequenos pedaços
até enchê-las. Em seguida a massa é espremida com a mão, e o leite
que escorre cai dentro de uma gamela colocada embaixo. À medida
que a massa talhada vai sendo comprimida na forma, nova porção é
acrescentada, continuando-se a espremê-la até que a fôrma fique cheia
de uma massa totalmente compactada. Cobre-se de sal a parte superior
do queijo, e assim ele é deixado até a noite, quando então é virado ao
contrário, pulverizando-se também de sal a parte agora exposta. Na
manhã seguinte o queijo é posto ao ar livre, num lugar ensombrado e

12. “Também se conhece, imemorialmente em Portugal [...] meter a carne assada dentro da
massa de banha de porco, como meio popular de conservação.” Luís da Câmara Cascudo,
História da alimentação no Brasil, p. 87.

138
de tempos em tempos é virado. Ao fim de oito dias está pronto. Esses
queijos, aos quais se dá exclusivamente o nome de queijos de Minas,
são muito afamados. Sua consistência é compacta, sua cor se aproxima
da dos queijos de Gruyères, mas o tom amarelo é mais pronunciado, ao
que me parece. Seu sabor é suave e agradável. Quando são transpor-
tados para o Rio de Janeiro, os queijos são colocados dentro de cestos
(jacás) feitos com bambu grosseiramente trançados. Cada cesto contém
cinquenta queijos, e dois cestos constituem a carga de um burro.13

A relevância que a produção de queijo e, consequentemente, o seu con-


sumo e a sua comercialização alcançaram para os fazendeiros sul-mineiros
pode ser verificada pela existência de espaços específicos para produzi-los,
ou seja, “casas de queijo”. Nas fazendas de maior porte, esses estabelecimen-
tos eram dotados de melhor infraestrutura e cobertos de telhas. Em alguns
inventários trabalhados, há indicações explícitas da importância desse ali-
mento para o comércio e o consumo. Em 1833, d. Maria Antônia de Jesus
(ver capítulo 1) teve nove fôrmas e 84 queijos arrolados entre os seus bens.14
Este era também o caso de Manuel Borges da Costa, cujo inventário registra
a posse de partes em algumas fazendas próximas da vila de Campanha e de
fôrmas de fazer queijo.15

2. Criação de animais
No quadro geral que Saint-Hilaire traçou sobre a região do Rio Grande,
não deixou de reiterar a exuberância dos campos e das pastagens, que contri-
buíram, decisivamente, para a existência de um gado de porte mais arrojado
e de vacas que produziam muito leite. Geralmente, as terras dos proprietários
mais abastados estavam divididas em dois grupos: os terrenos melhores e mais
férteis eram dedicados ao plantio de gêneros agrícolas e os excelentes pastos,
característicos da região, à criação de animais. Como já demonstrado nos
capítulos 1 e 2, a fortuna dos maiores fazendeiros do sul de Minas teve origem
num complexo de atividades agropastoris ligadas ao abastecimento interno.

13. Augusto de Saint-Hilaire, Viagem às nascentes do rio São Francisco, p. 52.


14. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Maria Antônia de Jesus (1833), caixa 06.
15. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Manuel Borges da Costa (1850), caixa 24.

139
Embora Saint-Hilaire tenha percebido e registrado vários aspectos
do cotidiano e dos costumes dos fazendeiros mineiros e de suas famílias,
essas informações devem ser interpretadas de forma crítica, dialogando
com outros documentos e observando certos preconceitos e estereótipos,
que, algumas vezes, marcaram a narrativa dos viajantes. Sem dúvida, essas
fontes são de extrema relevância para o estudo do cotidiano e dos costumes
da sociedade mineira na primeira metade do XIX, conquanto não se possa
negar o contexto e os objetivos desses viajantes ao fazerem o registro de
nossa fauna, flora e mineralogia. É necessário considerar também a visão
eurocêntrica, bem como os aspectos pessoais que interferiam na análise dos
costumes e do modo de vida dos brasileiros.16 No caso de Saint-Hilaire, por
exemplo, o seu olhar sobre os moradores de determinada fazenda, hospe-
daria ou vila, poderia variar em função do tratamento e da hospitalidade
com que era recebido.
Em sua passagem pelos caminhos e pelas fazendas próximas ao sul de
Minas, Saint-Hilaire fornece alguns detalhes dos procedimentos na lida com
o gado e sua importância na economia local e provincial. Embora mencione
que os criadores do Rio Grande não possuíam estábulos, isto não implicava
deixar o gado à própria sorte, como ocorria no sertão. Fazendeiros proprie-
tários de rebanhos maiores tinham o costume de dividir os pastos, por meio
de fossos,17 em quatro partes: para vacas leiteiras, bezerros, novilhas e touros.

16. A historiografia brasileira tem longa tradição no uso do relato dos viajantes, que muitas
vezes serviu para a confirmação de certos preconceitos acerca da cultura e da sociedade
brasileira, sendo lido e interpretado de modo acrítico. A historiografia recente tem tido
mais cuidado na análise dessas informações, utilizando-as de forma bastante apropriada
e criteriosa. No caso específico de Minas, há que registrar pelo menos dois trabalhos:
o de Marcelo Godoy, que propõe uma regionalização para o estudo de Minas Gerais, com
base na rota dos viajantes que passaram por lá no século XIX, e o de Clotilde Paiva, que
utiliza essas fontes como complemento para o estudo dos aspectos econômicos, sociais e
populacionais de Minas no século XIX. Do ponto de vista metodológico, vale ressaltar a
competência de Robert Slenes no uso dessas fontes, sempre contrapostas a outras, combi-
nando o ofício de historiador com o de etnógrafo, com o objetivo de extrair informações
sobre a importância da família escrava no sudeste escravista e a tradição africana presente
nos mocambos construídos por escravos e libertos. Ver Marcelo Godoy, Intrépidos viajantes
e a construção do espaço; Clotilde Paiva, População e economia nas Minas Gerais do século
XIX; Robert Slenes, Na senzala, uma flor.
17. Também podiam ser denominados popularmente como “valas” ou “cavas”.

140
As novilhas são mantidas separadas dos touros para que possam desen-
volver-se devidamente antes de serem cruzadas com eles, produzindo
assim bezerros mais sadios. Quanto às vacas leiteiras, sempre é colo-
cado um touro no seu pasto, a que dão o nome de touro-grande e que
faz mais ou menos o papel da madrinha da manada, a qual defende
ferozmente dos touros que escapam de outros pastos.18

Continuando a sua descrição, o botânico francês chama a atenção


para o procedimento de separação dos bezerros das vacas, depois de des-
mamados, condição essencial para a produção de leite em maior escala.
Os bezerros desmamados iam para os pastos e, à noite, eram recolhidos
em um curral próximo da casa ou do retiro. Apesar da narrativa um pouco
longa, é possível imaginar a cena que causava tanta admiração ao autor e
que era por ele definida como pequena “comédia mineira”, referindo-se ao
fato de os bezerros se encaminharem espontaneamente para a fazenda, ao
cair da tarde, para rever a mãe e receber o leite.
Pela manhã são trazidas as vacas que foram deixadas nos pastos cer-
cados, enquanto que as que passaram a noite soltas se aproximam
espontaneamente da casa do dono. Quando chegam, já encontram os
bezerros reunidos no pátio da fazenda. Os vaqueiros deixam que entrem
no pátio, de cada vez, apenas um número de vacas que corresponda
ao dos encarregados de cuidar delas. Ao reconhecer a mãe, o bezerro
se aproxima para mamar. É então amarrado à perna direita da vaca,
com a cabeça voltada para as tetas. Em seguida tira-se o leite de três
das tetas, deixando-se a quarta para o bezerro. Ao entardecer as vacas
são de novo reunidas aos bezerros, mas nessa hora eles podem mamar
à vontade. Depois as crias são recolhidas de novo ao curral e as vacas
reconduzidas ao pasto. Quando o fazendeiro não prende os bezerros
num cercado, eles se encaminham espontaneamente para a fazenda,
todos os dias à mesma hora, sem esperar que alguém vá buscá-los. E é
um prazer ver, ao cair da tarde, os animaizinhos chegando aos pinotes
para rever a mãe e receber a sua costumeira alimentação.19

18. Augusto de Saint-Hilaire, Viagens às nascentes do rio São Francisco, p. 51.


19. Idem.

141
As tradicionais queimadas, ou seja, a prática de se colocar fogo nos
campos para a formação dos pastos e, mesmo, para o plantio de gêneros
agrícolas, deveriam ser feitas no tempo da seca. Como os grandes proprie-
tários dividiam as pastagens em quatro porções, realizava-se a coivara em
partes, a cada três meses, para renovar o capim. Esse trabalho era executado
por um homem, a pé ou a cavalo, que percorria o pasto arrastando um
bambu comprido, em chamas, sempre no mesmo sentido do vento, contro-
lando, assim, a queimada do pasto certo. Saint-Hilaire, após uma conversa
com um fazendeiro da região, chega à conclusão que, nas proximidades de
Aiuruoca, depois de realizadas as queimadas e formados os verdes, não se
podia alimentar mais que seiscentas ou setecentas cabeças de gado num
raio de duas léguas.20
A criação de porcos, necessariamente enfatizada, se constituía num
dos mais importantes empreendimentos das fazendas mineiras. O touci-
nho, juntamente com o queijo, representava um dos ramos do comércio de
maior importância das Minas Gerais e estreitava a sua relação com outros
mercados, como o da Corte, para onde era transportado em jacás (cestos de
taquara), no lombo de burro. Cada carga continha dois cestos de três arrobas,
quando o animal não estava acostumado. Passava para quatro, quando já
fazia trajetos regulares entre Minas e a Corte, e vice-versa.21 Também não
custa reiterar que o consumo de carne de porco, em variados pratos, era
uma tradição secular e fazia parte da dieta básica dos mineiros.

3. Casas de vivenda e de morada22


Saint-Hilaire apontou diferenças no estilo e no padrão de construção
das fazendas de Minas, entre as da região aurífera e as da comarca do Rio das
Mortes. As primeiras se assemelhavam um pouco com os castelos de seu país,
e as últimas, com as granjas. Na sua descrição, ressaltam os seguintes aspectos:

20. Idem.
21. Ibidem, p. 53.
22. Uma primeira versão deste tópico foi publicada na Revista Anais do Museu Paulista,
sob o seguinte título: Casas de vivenda e de morada: estilo de construção e interior das
residências da elite escravista sul-mineira – século XIX.

142
Um muro de pedras rústicas mais ou menos da altura de um homem
cerca um pátio bastante vasto, no fundo do qual se enfileiram as choças
dos escravos, os galpões para beneficiamento ou depósito de produtos
agrícolas e a casa-grande. Esta, de pau a pique e coberta com telhas, é
construída ao rés do chão.23

Assim também o era na região de Vassouras, antes da expansão ca-


feeira. Alguns dos primeiros povoadores da área procediam de Minas e
traziam consigo o estilo simples das construções do período colonial e da
primeira metade do século XIX. As sedes das fazendas eram quase sempre
construídas no sopé dos morros, próximas às quedas d’águas, destinadas
a fornecer força hidráulica para moinhos, monjolos e engenhos. Além da
“casa de vivenda”, sede da propriedade, e das senzalas, havia uma série de
benfeitorias que permitiam o funcionamento da fazenda, como: paióis, casas
de tropa, moinhos, monjolos, estrebarias, chiqueiros etc. A rusticidade foi
a marca inicial dessas construções e utilizava-se o material disponível na
região, ou seja, madeiras, pedras, cipós etc.
As vigas dos cantos das paredes eram de madeira, toscamente cortadas,
e os espaços preenchidos com escoras verticais de madeira de palmeira,
através das quais estavam atadas tiras da mesma madeira. Como o
metal era difícil de se obter e o transporte por mulas era trabalhoso e
caro, usava-se cipó (cipó-de-são-joão) para atar as traves transversais
da palmeira às estacas. Sobre esta estrutura atirava-se o barro, criando
a construção pau a pique ou sopapo, comum nessa época no interior
brasileiro. A terra batida era o assoalho dos aposentos construídos
sobre os fundos do porão, pois tempo e trabalho eram dedicados à
pavimentação dos armazéns a fim de evitar que a umidade e os ratos
causassem danos à colheita.24

É evidente que Stanley Stein está se referindo ao processo inicial des-


sas construções, certamente mais ou menos comum no interior mineiro.
Também é preciso salientar que certas sedes de fazendas em Minas Gerais,

23. Ibidem, p. 56.


24. Stanley J. Stein, Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900, p. 48.

143
particularmente no sul, sofreram transformações importantes, tanto na
estrutura de sua construção, quanto no tamanho e no estilo, indicando um
tempo de fortuna e proeminência de algumas destas propriedades.
Sheila de Castro Faria apresenta uma discussão detalhada e muito inte-
ressante sobre as casas de morada e a pluralidade de habitações nos Campos
dos Goytacazes, no século XVIII, incluindo figuras que nos permitem visua-
lizar as unidades agrárias produtoras de alimentos, gado ou cana-de-açúcar,
elaboradas com base na análise dos inventários para a área em estudo.25
Nos inventários aqui pesquisados, as fazendas vêm arroladas entre os
bens de raiz e nem sempre sua descrição é muito detalhada, omitindo-se
maiores informações sobre as “casas de vivenda” e as senzalas. Porém, os
avaliadores não se esqueciam de mencionar as benfeitorias da propriedade,
ressaltando, por exemplo, a existência de casas de tropa e de queijos, en-
genhos, moinhos, monjolos, paióis, entre outras. Pode-se ainda encontrar
anotações sobre o tipo de cerca que delimitava a sede da fazenda. Nas mais
antigas, a sede era cercada por arvoredos de espinhos e, nas mais abastadas,
por muro de pedras.
Se, por um lado, a escassez de dados impossibilita o conhecimento mais
detalhado dos padrões de construção, por outro, a importância econômi-
ca de algumas delas pode ser constatada, tanto pelo preço por que foram
avaliadas, quanto pelo número de benfeitorias anexas à “casa de vivenda”,
comumente cobertas de telhas. Veja-se, por exemplo, o caso da fazenda
Narciso, pertencente à família Junqueira e arrolada entre os bens do barão
de Alfenas, em 1868, quando foi realizado o seu inventário.
[...] consta de engenho de cilindros com todos os seus acessórios, en-
genho de serra com seus pertences movidos por seu competente rego
d’água, moinho e monjolo movido por outro rego, paiol, casas para
queijos, um rancho, olaria, fornalha respectiva, tudo coberto de telhas,
avaliados em cinco contos, oitocentos e setenta e cinco mil réis.26

25. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 355-391.


26. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem do barão de Alfenas, Gabriel Francisco Junqueira,
cartório de Baependi, 1868.

144
Algumas dessas sedes, em particular as da família Junqueira, conservam
até hoje parte da estrutura arquitetônica oitocentista. Evidentemente, não
estão sendo desconsideradas as intervenções e as mudanças que sofreram
ao longo dos séculos XIX e XX, mas muito da descrição dos inventários
do XIX ainda pode ser observada nas várias fazendas que sobreviveram à
ação do tempo. Em diversos casos, também se conservou o nome antigo
das sedes: Bela Cruz, Boa Vista, Narciso, Favacho, Traituba, Angaí, Campo
Lindo. A sede da antiga fazenda Campo Alegre, que foi de propriedade do
deputado Gabriel Francisco Junqueira, não existe mais.
Observe-se, primeiramente, o caso da fazenda Bela Cruz, palco da
rebelião dos escravos de 1833 (figuras 1 a 7). É possível verificar a mesma
estrutura descrita nos inventários, como os muros de pedra e de adobe,
cercando e separando as principais benfeitorias, a importância do curso
d’água para os moinhos e os monjolos, os engenhos e as senzalas de pau a
pique. A sede também está bastante deteriorada em alguns pontos e sofreu
transformações, como a retirada de duas janelas laterais na parte frontal.
Não foi possível precisar a data dessa construção, mas parece tratar-se de
uma segunda sede, construída a partir da década de 1860.
Quase todas as fazendas da família conservam uma estrutura bastante
semelhante. São construções de um só pavimento, pé direito muito alto,
grandes portais e várias janelas. A base de sustentação é geralmente de
pedra e o assoalho é sempre de madeira, apoiado por grandes vigas, muitas
delas peças extensas e inteiras, atestando uma época em que o material era
abundante na região (ver figuras 8 a 10, das fazendas Boa Vista e Narciso;
figuras 14 e 15, fazenda Campo Lindo). Certas benfeitorias como os paióis,
construídos de madeira e cobertos de telha, ainda podem ser vistos em
algumas fazendas (ver figura 12, fazenda Angaí). Duas fazendas destoam
do padrão discutido até agora e estão relacionadas diretamente à saga da
família Junqueira e ao sucesso de seus empreendimentos, ligados ao setor
abastecedor, tão importante no sul de Minas na primeira metade do século
XIX. Não obstante essas construções também terem sofrido algumas trans-
formações necessárias, por causa da ação do tempo, não deixam de atestar
a riqueza acumulada pela primeira geração dos Junqueira, nas décadas
iniciais do oitocentos.

145
A fazenda do Favacho foi adquirida pelo patriarca da família, João
Francisco Junqueira, de um português chamado José Vieira de Almeida,
que requereu sesmaria na região, na segunda metade do século XVIII.27
Embora a construção não tenha sido feita por João Francisco, esta fazenda
é considerada o berço da família Junqueira. Ainda apresenta sinais claros
de que, em outros tempos, era uma importante unidade escravista cuja
arquitetura causava admiração entre os moradores da região. Trata-se de
uma construção de um só pavimento, como a maioria das construções rurais
mineiras do XVIII e do XIX. O que mais chama a atenção é a sua estrutura
interna, assim como os detalhes dos portais (ver figuras 17 a 19). Além da sede
e das benfeitorias, possuía uma capela em separado, um pouco distante das
“casas de vivenda”, benta em 1761. Lá muitos membros da família Junqueira
foram batizados e alguns deles também enterrados, no cemitério do lado
direito da capela. Logo atrás, localiza-se o cemitério dos escravos (ver figura
20). Já no inventário realizado em 1826, por ocasião da morte do filho do
patriarca da família, João Francisco Junqueira (Filho), os avaliadores foram
muito econômicos na descrição da propriedade, para tristeza do historiador,
relatando somente os valores, sem nem mesmo mencionar as benfeitorias.
A propriedade foi assim descrita: “Mais uma outra parte de terras e casas
de vivenda com todos os mais pertences na fazenda Favacho, freguesia de
Baependi, avaliados em hum conto, quinhentos e setenta mil novecentos e
cinquenta e dois réis”.28
A fazenda Traituba29 surgiu no local denominado “rancho da Traituba”,
um dinâmico pouso para tropeiros, conhecido e descrito por Saint-Hilaire,
em 1822.
Paramos num imenso rancho, situado em notável posição. Fica rodeado
de colinas e dominado por montanha bastante alta, terminada por um
tabuleiro cortado a prumo, na face que dá para o rancho. Depois de

27. AHU – Conselho Ultramarino, Brasil/MG, “Requerimento do capitão José Vieira de


Almeida, residente no sítio do Ingai Abaixo, freguesia de Baependi, termo da vila de São
João del Rei, comarca do Rio das Mortes, pedindo carta de confirmação de sesmaria de
uma légua e meia de terra, não obstante ter passado três anos”, 9/6/1766, caixa 88, doc. 4.
28. Cópia impressa do inventário de João Francisco Junqueira (Filho) – 1826, divulgada por
Adélia Diniz Junqueira Bastos, em Lendas e tradições da família Junqueira, p. 94.
29. Trata-se de uma corruptela da palavra Itaituba, que em tupi-guarani quer dizer
“pedra-grande”.

146
nós, várias caravanas vieram sucessivamente aboletar-se no rancho.
Vêm umas do Rio de Janeiro para S. João e Barbacena, carregando sal;
vão outras destes arredores para a capital e levam toucinho e queijos.30

Quinze anos depois, este “imenso rancho”31 transformou-se na imponente


fazenda Traituba, construída pelo coronel João Pedro Diniz Junqueira, sobri-
nho do deputado Gabriel Francisco Junqueira. Trata-se de uma construção
arrojada para os padrões da época e, especialmente, para uma sede ligada
à atividade agropastoril e ao abastecimento interno. Segundo a tradição
familiar, a sede era composta de dois pavimentos, mais um mirante, num
total de 25 quartos, sete salas e dependências domésticas.32 Foi construída
para receber o imperador d. Pedro I, que nunca veio, pois tão logo a fazen-
da ficou pronta, ele abdicou do trono (ver figuras 23, 24 e 28). Também se
comenta que o proprietário ficou bastante endividado em razão dos gastos
com a construção da sede.33
Esta fazenda já foi objeto de investigação, no que se refere à sua estrutura
arquitetônica e às mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Petrônio
Nicoliello e Evandro de Barros Carvalho encontraram indícios de que havia
o segundo pavimento e o mirante, ao detectar vestígios no barroteamento,
que ainda se conserva na estrutura da sede atual (ver figuras 21 e 22).34

30. Augusto de Saint-Hilaire, Segunda viagem..., p. 48-49.


31. Parece que a fazenda Traituba já existia, há pelos menos uma década. Em 1811, quando
foi realizado o inventário de Gabriel de Sousa Diniz, pai de João Pedro Diniz Junqueira, foi
mencionada como umas das confinantes com a Santo Inácio. Ao que parece, a imponência
da sede, construída pelo coronel João Pedro, foi resultado da riqueza auferida com as ati-
vidades ligadas ao abastecimento e à articulação com a praça mercantil do Rio de Janeiro.
A fazenda era ponto de parada obrigatório de comerciantes e tropeiros. Estava situada na rota
do Caminho Velho e relativamente próxima dos principais centros urbanos da comarca do
Rio das Mortes, como as vilas de São João del Rei e Campanha. Os Junqueira amealharam
grande parte de sua fortuna criando e comercializando animais (gado, cavalos e porcos),
toucinho e queijo com a cidade do Rio de Janeiro. Certamente, a fazenda Traituba tinha
um papel estratégico na articulação desse tipo de comércio. Os sinais de um tempo de
fortuna ficaram registrados na imponência da construção, seja pelos seus murais, portais
e pelo tipo assobradado de construção. Para maiores detalhes sobre a trajetória da família
Junqueira, ver capítulo 4.
32. José Américo Junqueira de Mattos, Família Junqueira: sua história e genealogia, p. 143.
33. Lucila Reis Brioschi, Família e genealogia: quatro gerações de uma grande família no su-
deste brasileiro, p. 197; Frederico de Barros Brotero, Memória e tradições da família Junqueira.
34. Petrônio T. Nicoliello e Evandro de Barros Carvalho, Levantamento arquitetônico,
histórico e reconstituição da fazenda Traituba.

147
Segundo os autores, a construção apresenta uma característica única na
arquitetura rural da região, pois não havia “nenhum enxerto de puxados
anexos nos fundos da construção”. Tudo fazia parte de um só bloco, separado
por alas: no retângulo maior, ficava a ala social; no retângulo menor, “A”, a
cozinha e a despensa e, no retângulo menor, “B”, a suposta tecelagem e os
aposentos para os escravos domésticos. Em 1902, a sede da fazenda passa por
uma reforma radical, sendo demolidos o mirante e o segundo pavimento.
“O telhado, antes de quatro águas, recebe configuração eclética, em moda
na Europa; os chalés de duas águas [são] ornados com lambrequins de ma-
deira.” Essa alteração se deu no retângulo maior, pois somente este possuía
dois pavimentos, os outros dois continuaram com quatro águas. A senzala
foi demolida na década de 1940.35
Considerando todas as transformações sofridas ao longo do tempo, a
sede da fazenda ainda impressiona a todos os visitantes que por lá passam e
pernoitam. Dando continuidade à tradição dos tempos de outrora, a fazenda
continua servindo de pouso, só que, agora, para os “tropeiros” modernos,
que procuram descansar, relembrar a infância na roça e entrar em contato
com os vestígios do tempo da escravidão, um tempo aparentemente distante,
mas que, no entanto, está muito próximo. Como afirma Alberto da Costa
e Silva, a história do continente americano e, particularmente, do Brasil
está profundamente marcada pelo “surgimento e a expansão do tráfico
transatlântico de escravos – o tráfico que povoou o Brasil e pôs a África em
nossas veias (...)”36
Os indícios da opulência de parte das famílias de elite do sul de Minas
ainda podem ser percebidos nos belos portais heráldicos, ricamente traba-
lhados em pedra-sabão. São dois laterais e um frontal. O mais imponente
é o que dá acesso principal pela parte frontal da fazenda. Depois de cruzar
o portal, basta o viajante olhar para trás e ver, cravada no marco central
do portal, a data de finalização da construção: Ano de Nosso Senhor Jesus
Cristo, 1831 (ver figuras 25 a 27). O extenso gramado que separa o portal da
entrada da sede, em outros tempos servia de pouso para tropeiros, e inúmeros

35. Ibidem, p. 15.


36. Alberto da Costa e Silva, A manilha e o libambo, p. 10.

148
negócios ali foram realizados, garantindo a riqueza de muitos proprietários
e negociantes. Além de hotel-fazenda, os descendentes da família continuam
criando gado leiteiro e o cavalo manga-larga marchador, mantendo parte
da tradição secular dos Junqueira.
Adentremos agora o espaço íntimo da casa dos grandes senhores ru-
rais sul-mineiros, para vasculhar o interior de suas moradas, em busca de
maiores informações e detalhes sobre o seu estilo de vida.
Ainda na fazenda Traituba é possível perceber a importância dos re-
tratos familiares, pintados a óleo, que estão na sala principal da fazenda. Se
atualmente eles se reportam à história familiar e à dos primeiros proprie-
tários da fazenda, em outros tempos poderiam ser vistos não só como um
objeto de decoração ou de ostentação no espaço doméstico, mas também de
autorrepresentação das famílias da elite da região, costume bastante comum
em várias partes do Império, em especial no sudeste escravista (ver figuras
31 e 32, quadros a óleo do coronel João Pedro Diniz Junqueira e do major
José Flauzino).37
Outro quadro que chama bastante a atenção é o óleo sobre tela do
“Barão de Alfenas”, pintado pelo artista Nicolau Facchinetti, em junho de
1876, por encomenda do padre João Ribeiro Maia, vigário da freguesia de
São Tomé das Letras. O barão e sua família deveriam ser relembrados como
provedores e devotos de São Tomé e o seu retrato ficaria exposto dentro da
igreja. A trajetória da família Junqueira confunde-se com a do município,
tendo sido a matriz de São Tomé construída pelo patriarca da família, João
Francisco Junqueira, e terminada pelo seu filho, Gabriel Francisco Junqueira,
futuro barão de Alfenas (ver capítulo 4).
O artista italiano Facchinetti, nascido em Treviso, chegou ao Brasil em
1849 e por aqui permaneceu até a sua morte, cinquenta anos depois, deixando
retratadas inúmeras paisagens da Corte, de Petrópolis e das fazendas do vale
do Paraíba fluminense. Muitos desses trabalhos eram feitos sob encomen-
da, e entre seus clientes encontravam-se as famílias dos barões do café da
região de Valença e Vassouras. O pintor acabou chegando até São Tomé das

37. Ver Ana Maria Mauad. Imagem e autoimagem no Segundo Reinado, p. 181-232.

149
Letras, onde retratou paisagens da Mantiqueira e do arraial, algumas delas
patrocinadas por membros da família Junqueira (ver figura 33).38
Facchinetti tinha por hábito fixar uma superfície em madeira no verso
do chassi da pintura, para fazer anotações que tornam possíveis identificar
não só o título do quadro, mas também o autor da encomenda e a partir de
que material o quadro foi reproduzido.39 No caso específico do óleo sobre
tela em discussão, é possível verificar a seguinte anotação: “Gabriel Francisco
Junqueira – Exmo. – x. Barão D’Alfenas. – falecido em 18 de janeiro de 1868.
Retrato executado sobre um ambrótypo, em junho de 1876, por especial en-
comenda do Revdo. Pdre. João Ribeiro Maia, vigário collado d’esta freguesia.
Nota do autor N. Facchinetti.”40
Embora o artista reiterasse que suas paisagens e retratos eram cópias
fiéis do original, seja do local ou a partir de fotografias, percebem-se inú-
meras intervenções e acréscimos posteriores, que imprimiam uma série
de significados aos motivos retratados. No caso específico da tela “Barão
de Alfenas”, como acertadamente constataram Fernanda Tozzo Machado
e Raquel Teixeira, observa-se a presença de alguns signos que certamente
não faziam parte do ambrótipo que serviu de inspiração para a produção
do quadro. Gabriel Francisco Junqueira é retratado em primeiro plano, de
corpo inteiro, e com o braço direito flexionado e apoiado na “pedra da bruxa”,
que está localizada a alguns quilômetros de distância, no parque Antônio
Rosa, atrás da igreja.41
Os signos de representação e diferenciação social das famílias de elites
podem ser vislumbrados por elementos essenciais na indumentária masculina

38. Uma excelente mostra do trabalho do artista foi realizada no período de 30 de março
a 6 de junho de 2004, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, Maiores de-
talhes sobre a importância de Nicolau Facchinetti na história da arte brasileira podem ser
encontrados nos textos produzidos para o catálogo da exposição. Ver Nicolau Facchinetti.
Facchinetti. Curadoria de Carlos Martins e Valéria Piccoli; textos de Carlos Martins, Valéria
Piccoli e Maria Pace Chiavari. Rio de Janeiro: CCBB, 2004.
39. Ver Valéria Piccoli, Visão natural e artifício na pintura de Facchinetti. In: Facchinetti, p. 24.
40. Ver Fernanda Tozzo Machado e Raquel Teixeira, Restauração do quadro “Barão de
Alfenas”, de Nicolau A. Facchinetti, São Thomé das Letras, MG. Trabalho inédito gen-
tilmente cedido pelas autoras. O quadro foi restaurado pelas duas especialistas em con-
servação/restauração de bens culturais. Disponível em:http://www.pedigreedaraca.com.
br/artigo_restauracao_quadro_barao_de_alfenas_abracor.pdf. Acessado em: 25/09/2012.
41. Idem.

150
daqueles tempos e que passava uma imagem de seriedade e respeitabilida-
de, como o terno escuro, a gravata borboleta, a bengala e o chapéu. Ainda
podem ser vistas a igreja Matriz e a pedreira onde foi encontrada a imagem
de São Tomé. E em último plano aparece a casa de propriedade da família
Junqueira. Percebe-se que os signos retratados na foto, além de reforçar
a imagem do barão como um dos grandes representantes das famílias da
elite da região, revelam a importância que São Tomé das Letras tinha no
imaginário familiar, constituindo-se como identidade coletiva para a maior
parte dos grupos familiares extensos ligados aos Junqueira (ver figura 57).
Também foi possível localizar fotografias que retratam alguns mem-
bros da família e buscam registrar não apenas a memória familiar, mas
uma certa representação social através da imagem fotográfica que não foge
ao padrão das elites do sudeste do Império. Como constata Ana Maria
Mauad, ao analisar os álbuns de família dos proprietários do vale do Paraíba,
havia um padrão de representação na indumentária que acompanhava
as tendências do século XIX, marcada pela simplicidade. Nas figurações
masculinas era comum o uso de terno escuro, gravata borboleta fina, co-
lete e camisa branca, além da corrente do relógio de bolso, como joia. Nas
figurações femininas também não se observam muitos adereços ou enfeites.
O padrão encontrado foi o do vestido escuro, com detalhes discretos em
rendas ou pregas e um brinco ou broche pequeno. Outra característica
marcante do ritual do retrato era a pose. Nas fotos de pé, o olhar deveria
se voltar para a frente, sendo indispensável o apoio. A seriedade consti-
tuía uma marca constante, sorrisos só poderiam ser levemente insinuados.
A escolha da pose certa e a seriedade visavam construir uma imagem de
respeitabilidade, própria daqueles que compunham a “boa sociedade”.
A ênfase na representação masculina está intimamente ligada aos valores
de uma sociedade com traços patriarcais, em que o homem é responsável
pela administração dos negócios, a reprodução da riqueza e a manutenção
da ordem.42 Considerando esses aspectos, as fotografias de alguns membros
da família Junqueira obedecem ao mesmo padrão das imagens de famílias
cafeeiras do vale do Paraíba. (ver figuras 54 a 57).

42. Ana Maria Mauad, Resgate de memórias, p. 99-138.

151
Boris Kossoy, um dos pioneiros no Brasil a considerar a fotografia
como registro para a produção do conhecimento histórico, nos alerta para
o cuidado que se deve ter ao utilizá-las como fontes. Os procedimentos
são semelhantes aos adotados para qualquer outro tipo de testemunho
do passado, mas guardam algumas especificidades. As fotografias nunca
devem ser tomadas como expressão fiel da realidade. Elas estão eivadas de
ambiguidades, significados e/ou omissões, e sua capacidade informativa
depende da contextualização das imagens com a experiência histórica no
tempo e no espaço que as fizeram surgir.43
Ou ainda, de acordo com Ciro Flamarion Cardoso e Ana Maria Mauad:
A imagem fotográfica compreendida como documento revela aspectos
da vida material de um determinado tempo do passado de que a mais
detalhada descrição verbal não daria conta. Neste sentido, a imagem
fotográfica seria tomada como índice de uma época, revelando, com
riqueza de detalhes, aspectos da arquitetura, indumentária, formas de
trabalho, locais de produção, elementos de infraestrutura urbana tais
como tipo de iluminação, fornecimento de água, obras públicas, redes
viárias etc.; ou ainda, se a imagem for rural, tipo de mão de obra, meios
de produção, instalações diversas... Uma leitura que ultrapasse a ava-
liação da fotografia como mera ilustração, contudo ainda se restringe
à avaliação iconográfica da foto.44

O interior das “casas de vivenda” das fazendas mineiras era marcado


pela simplicidade e rusticidade, em muitas estava reduzido a poucas mesas,
bancos e algumas cadeiras. Esta foi a constatação de Saint-Hilaire quando
passou pela comarca do Rio das Mortes, nas primeiras décadas do século
XIX. O autor confirma a rusticidade das construções e do interior das casas
dos mineiros mais abastados, ao pernoitar numa fazenda de um grande
negociante de gado, possuidor de uma riqueza conhecida de todos, e cuja
casa e modo de vida impressionavam os demais habitantes da região.

43. Boris Kossoy, História e fotografia e Estética, memória e ideologias fotográficas: decifrando
a realidade interior das imagens do passado, p. 13-24. Ver também Annateresa Fabris (org.)
Fotografia: usos e funções no século XIX.
44. Ciro Flamarion Cardoso e Ana Maria Mauad, História e imagem: os exemplos da fo-
tografia e do cinema, p. 406.

152
Sua casa, entretanto, que ele mesmo mandou construir, era pequena,
baixa e de um só pavimento. As paredes, feitas de barro, nunca tinham
sido caiadas, e todo o mobiliário da sala consistia numa mesa grande,
dois bancos e alguns tamboretes forrados de couro. Dois ou três quartos
pequenos, que pude entrever e davam para a sala, mostravam os móveis
igualmente modestos. Entretanto, o meu tropeiro fazia grandes elogios
a essa casa, o que vem provar de maneira clara que o luxo não tinha
feito grandes progressos nessa parte da província. Não quero deixar de
mencionar a entrada do pátio da fazenda que é construída simplesmente
de uma porteira, semelhante às que são usadas para fechar pastos. São
feitas com duas vigas verticais e algumas tábuas horizontais, separadas
umas das outras.45

Em outra passagem, o viajante comenta sobre outra fazenda, na qual


o dono não se encontrava presente. Depois de os escravos permitirem que
ele e seus acompanhantes se estabelecessem na varanda da sede da fazen-
da, mais tarde, à noite, eles tiveram acesso à sala, para que ali dormissem.
Novamente o autor descreve a simplicidade do interior das fazendas mineiras,
que se resumia a alguns bancos, camas e mesas, e também ao costume de
se pregarem várias cruzes de madeira nas paredes.
Tive, por conseguinte, ocasião de ver o interior e achei-o igual ao da
maioria das habitações desta comarca, quer dizer, quase nu. Na sala,
apenas uma mesa e um banco, e nos quartos duas armações de camas
de madeira. Nas paredes da varanda e sala está pregada uma série de
cruzes de pau, de diferentes dimensões, costume observado em todas
as casas antigas.46

Em que medida as informações de Saint-Hilaire fazem sentido e em


que aspectos podem ser relativizadas? O caminho mais natural para a busca
desta resposta está na análise mais detalhada dos bens existentes no interior
das casas de morada da elite escravista sul-mineira. No capítulo anterior,
verificaram-se os ativos que compunham a riqueza dos maiores proprietários
da área em estudo. Agora, pretende-se analisar o interior das casas, durante

45. Augusto de Saint-Hilaire, Viagens às nascentes do rio São Francisco, p. 56.


46. Augusto de Saint-Hilaire, Segunda viagem..., p. 36.

153
os mesmos subperíodos pesquisados antes, procurando identificar sinais de
mudança nos hábitos da elite e a existência de bens indicativos de diferen-
ciação social. A primeira metade do século XIX foi marcada por profundas
transformações na história do Império brasileiro. Logo na primeira década
do XIX, a chegada da Corte, embora não tenha alterado de imediato o
estatuto colonial, produziu mudanças importantes na ordem sociopolítica,
econômica e cultural, com a implantação e a reprodução de várias institui-
ções portuguesas nos trópicos.47 Novos hábitos e costumes puderam, aos
poucos, ser percebidos, tanto na forma de se construir, quanto de mobiliar
as residências, de se vestir, de se alimentar, entre outros. O consumo de
bens industrializados ingleses e a influência francesa, de início restritos à
Corte, se estenderam, em parte, às vilas e às fazendas do Império. Em áreas
mais próximas do Rio de Janeiro e de intensa ligação mercantil com a praça
carioca, como parte das províncias de Minas e São Paulo, essas influências
puderam ser percebidas com maior clareza, tendo continuado ao longo da
segunda metade do século XIX.48
Primeiramente, observemos os sinais de mudança nos costumes, que
se manifestaram nos bens de uso pessoal, nos utensílios domésticos e nos
“trastes” do interior das moradas sul-mineiras, ao longo da primeira metade
do século XIX.
Tendo em vista o enfoque deste capítulo, outros aspectos precisam ser
destacados, que não são somente a sub-representação dos inventários para
o primeiro subperíodo. Como não foram localizados inventários para o final
da segunda metade do século XVIII, fica difícil perceber em que medida
eles podem revelar mudanças nos costumes da elite, nos anos que se segui-
ram à chegada da Corte. Por outro lado, como a maioria dos inventários
se concentra no subperíodo posterior (1831-1850), será possível identificar
algumas transformações nos hábitos da elite e até mesmo constatar certas
tendências que se confirmarão no subperíodo seguinte. Outro aspecto a

47. Ver Maria Odília da S. Dias, A interiorização da metrópole (1808-1853); Alcir Lenharo,
As tropas da moderação; Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves e Humberto Fernandes
Machado, O Império do Brasil.
48. Para essas considerações, ver Sheila de Castro Faria, Modernização, p. 537-539; Luiz Felipe
Alencastro, Vida privada e ordem privada no Império; e Gilberto Freyre, Ingleses no Brasil.

154
considerar é que se trata de uma elite escravista ambientada, em sua grande
maioria, na área rural, embora quase sempre possuísse moradas nas vilas
e nos arraiais próximos às sedes de suas fazendas. A ideia de rusticidade,
de estilo de vida simples, seja pela qualidade, ou pela quantidade dos bens
arrolados nos inventários, à primeira vista parece confirmar as impressões
de Saint-Hilaire. Mas os indicativos de mudanças nos hábitos e nos costumes
de uma parcela da elite podem ser percebidos a partir de um olhar atento
ao conteúdo dos inventários.
As joias poderiam, ao mesmo tempo, representar um investimento e
também denotavam prestígio social, sendo geralmente utilizadas em cerimô-
nias religiosas, profanas e civis. As arroladas nos inventários constituíam-se
de cordões de ouro, laços com pedrinhas, brincos, colares, pulseiras, alfine-
tes, botões, anéis com pedras preciosas e, em alguns casos, incluíam-se até
mesmo os anéis com pedras falsas. Foi assim no inventário de Luiz Antônio
Azevedo, realizado em 1817, no qual se listava um anel de topázio, outro
menor, com duas pedras de diamante e um inferior, “com pedra falsa”.49
Algumas peças religiosas de uso doméstico, desde que ornamentadas com
ouro e pedras preciosas, vinham arroladas como joias, como no inventário
de Lauriana Gonçalves de Brito, de 1814, que possuía um rosário de ouro
com sua cruz e uma imagem de Cristo com duas pedras.50 No inventário
do primeiro juiz municipal de Campanha, o desembargador José Joaquim
Carneiro de Miranda da Costa, destacam-se um rosário de ouro, um cordão
com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, um colar e uma cadeia
de relógio com duas pedras.51

49. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Luiz Antônio de Azevedo (1817), caixa 03.
50. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Lauriana Gonçalves de Brito (1814), caixa 02.
51. CEMEC-SM, Inventário post mortem do desembargador José Joaquim Carneiro de
Miranda da Costa (1844), caixa 16.

155
Tabela 17
Proporção dos bens de uso pessoal, utensílios domésticos e do interior
das moradas nos inventários com vinte escravos ou mais – Campanha
(1803-1865)
Itens 1803-1830 1831-1850 1851-1865
n de inv.
o
% n de inv.
o
% no de inv. %
Joias 3 50 14 43 13 50
Relógio de algibeira 2 33 8 25 9 34
Talheres e facas de prata 3 50 27 84 16 61
Aparelhos de chá 2 33 6 18 4 15
Louças 11 34 11 42
Mesa de jantar 1 3 3 11
Armário de guardar roupa 1 3 1 4
Marquesas, cadeiras e tambores
6 18 10 38
com assento de palhinha
Escrivaninha 2 6 1
Estante para livros 1 4
Guarda-livros 1 3
Oratório 1 16 18 56 9 34
Relógio de parede 1 3 10 38
Relógio de mesa 3 9 1 4
Piano 1 3 1 4
Quadros 3 9
Livros 1 3
Total de inventários 6 32 26

Fonte: CEMEC-SM, Inventários post mortem do termo de Campanha.

Dona Maria Bento Carneiro, por exemplo, teve várias joias arroladas
e muitas delas de ouro e pedras preciosas. Em 1849, possuía três pares de
botões de ouro e dois alfinetes, um par de pulseiras, um anel de pedra roxa,
um dito amarelo, um par de brincos de pedra e um relógio de ouro.52 Como
se constata na tabela 15, a proporção de joias encontrada nos três subperíodos
não apresenta grande variação, sinalizando o significado socioeconômico
desses bens para uma parcela da elite escravista. Mesmo depois da década

52. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Maria Bento Carneiro (1849), caixa 22.

156
de 50, não há mudança significativa no padrão das joias listadas nos inven-
tários. Continuavam a ser mencionados rosários, brincos, anéis, memórias,
correntes, botões, alfinetes etc.
O que se pôde perceber nos inventários foi o aumento do número de
relógios de algibeira, que começou a fazer parte da indumentária dos bra-
sileiros já nas primeiras décadas do século XIX e, especialmente, após 1850.
Os de algibeira ou “cebolões”,53 que mais tarde seriam conhecidos popular-
mente como “relógio de bolso”, de modo geral vinham acompanhados de
uma corrente de ouro ou prata e até mesmo de pedras preciosas. O coronel
Roque de Sousa Magalhães, morador na fazenda Pedra Branca, freguesia de
Santa Catarina, em 1838, possuía um relógio de algibeira acompanhado de
uma corrente de ouro.54 Eram artigos importados, que se tornaram ícones
de prestígio e status, quase sempre ingleses ou franceses. O tenente João
Bernardes Pinto, em 1833, possuía um relógio de algibeira francês.55 Francisco
de Paula Ferreira de Rezende nos oferece uma descrição detalhada desse
acessório de grande importância para muitos homens daquele tempo.
[...] relógios que pela sua forma e tamanho às vezes se chamavam
cebolas: pois que além de serem muito grandes ainda estavam encer-
rados em uma grande porção de capas de prata que no abrir ou tirar
muito se pareciam a uma cebola que se descasca; tendo esses relógios
além da fita ou cordão de ouro que os segurava, um grande número de
penderucalhos (sic) alguns dos quais se compunham de pedras mais
ou menos preciosas.56

Embora os relógios de algibeira fossem se tornando cada vez mais co-


muns e fizessem parte da indumentária dos brasileiros, os exemplares que a
elite possuía representavam, muitas vezes, uma joia de família, repassada para
as gerações seguintes. Ainda que a profusão desses relógios introduzisse uma
nova noção do tempo, esta mudança não afetou, de imediato, a disciplina
do trabalho, como brilhantemente demonstrou Edward P. Thompson, ao

53. Luiz Felipe de Alencastro, Vida privada e ordem privada no Império.


54. CEMEC-SM, Inventário post mortem do coronel Roque de Sousa Magalhães (1838), caixa 10.
55. CEMEC-SM, Inventário post mortem do tenente João Bernardes Pinto (1833), caixa 06.
56. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas recordações, p. 212.

157
discutir sobre o tempo, a disciplina do trabalho e a transição para a sociedade
industrial na Europa.57
As bocetas de prata vinham arroladas junto com as joias e também
estavam presentes na maioria dos inventários. Além do relógio de algibeira,
o lenço e a boceta de tabaco faziam parte do vestuário masculino. O uso do
tabaco era muito comum entre os diversos segmentos da população, sendo
cheirado, pitado, fumado e mascado. As diferenças ficavam no tipo de fumo
usado e na forma do uso. Segundo Francisco de Paula Ferreira de Rezende,
o cigarro era um vício comum nas classes baixas. Em todos os segmentos
havia o costume de mascar e cheirar. O uso de cachimbos era comum entre
os escravos. Mas o que predominava naqueles tempos era cheirar tabaco.
E também havia diferenças na qualidade e no tipo de fumo utilizado. Daí a
importância do uso das bocetas de prata, especialmente para os membros da
elite. Antes da profusão das diferentes espécies de rapé, o fumo mais utiliza-
do era o tabaco torrado e moído, na maioria das vezes em casa, conhecido
como esturro. Era mais grosso. O mais fino e preparado com mais cuidado
era conhecido por amostrinha. O terceiro era mais caro e só poucos lhe
tinham acesso. Era feito de um fumo especial, de cheiro mais agradável do
que os dois primeiros. De acordo com Rezende, este fumo era importado
do litoral de São Paulo.58
Os utensílios domésticos, como talheres e facas de prata, aparelhos de
chá e louças, se tornarão cada vez mais frequentes a partir da década de 1830,
indicando que a maioria das famílias que detinha algum grau de riqueza
poderia adquiri-los e até mesmo ostentá-los em ocasiões especiais. Não foi
possível avaliar se a existência dos talheres implicava seu uso cotidiano,
durante as refeições. Também são listados talheres de ferro, talvez os mais
utilizados no dia a dia pelos senhores e seus familiares. Pela proporção de
talheres encontrados nos inventários, temos alguns indícios da inserção
das “boas maneiras” de se comportar à mesa. Evidentemente, este foi um
processo de mais fácil observação nos núcleos urbanos importantes do
Império, em especial na Corte. Ali, o contato com os costumes europeus e

57. Edward Palmer Thompson. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular,
p. 267-304.
58. Francisco de Paula F. de Rezende, op. cit., p. 212-213.

158
sua influência ganhavam mais espaço, e o ideal de civilização foi interpretado
como progresso e estratégia de distanciar a elite do mundo da escravidão.59
Segundo Norbert Elias, o termo começou a ser empregado na França, a
partir de meados do século XVIII, com o objetivo de demarcar as diferenças
socioculturais da nobreza e da burguesia em ascensão, em relação aos hábitos
rústicos das populações pobres e rurais. Dentre os instrumentos que sinali-
zavam este ideal de civilidade, destacavam-se os manuais de bons costumes,
de higiene, dos bons modos à mesa, do vestuário etc.60 No século XIX, esses
manuais tiveram larga aceitação entre uma parcela da elite no Brasil.
Ainda que o cenário das fazendas mineiras tenha sido marcado pela
rusticidade, seja no interior das moradas, seja no vestuário e mesmo na
simplicidade dos costumes, parte da elite tinha acesso aos bens importados
e procurava exacerbar este sentimento aristocrático que a diferenciava dos
outros segmentos da população livre. Em 1853, dona Maria Teresa do Carmo,
por exemplo, possuía um aparelho de chá de louça azul, uma dúzia e meia
de pratos grandes de beira azul, compoteiras de louça, xícaras pintadas,
travessas de mesa, sopeira azul e cálices pequenos para servir vinho.61 Este
também parece ter sido o caso de Maria Antônia de Jesus, que, em 1833,
possuía duas dúzias de louças de beira verde, uma branca usada, sete pratos
e travessas com beira branca usados, seis copos de vidro, cinco pares de pires
e de xícaras amarelas.62

59. Essa busca de combinação do ideal aristocrático com o progresso e a modernidade


verificou-se, especialmente, entre os grandes cafeicultores do Vale do Paraíba, na segunda
metade do século XIX. Esses aspectos poderiam ser detectados tanto no estilo neoclássico
de construção das fazendas, como nos objetos de decoração existentes no interior das casas
e no uso cada vez mais frequente de utensílios de prata e porcelana, além do número de
escravos empregados em atividades domésticas e até mesmo como integrantes de bandas
de músicas. Ver Hebe Maria Mattos de Castro e Eduardo Schnoor (orgs.), Resgate: uma
janela para o oitocentos; Sheila de Castro Faria, Barões do café, p. 141-143. Na década de
1780, José Vieira de Almeida, o provável construtor da fazenda do Favacho, parece que
também possuía uma banda de música composta por escravos. Alguns foram qualificados
como trombeteiros e tocadores de tambor. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem de José
Vieira de Almeida (1782), caixa 07.
60. Nobert Elias, O processo civilizador. Ver também Martha Abreu, Civilização, p. 141-143.
61. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Maria Teresa do Carmo (1853), caixa 28.
62. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Maria Antônia de Jesus (1833), caixa 06.

159
Vimos, pelo depoimento de Saint-Hilaire, que o interior das fazendas
mineiras era marcado por grande rusticidade. Os móveis se restringiam a
poucas mesas, algumas cadeiras e alguns bancos. Mesmo em relação àqueles
senhores, tidos como os mais abastados pelos moradores de determinada
povoação, a rusticidade das acomodações causou espanto ao botânico francês.
Pelos inventários pesquisados, percebe-se que, em parte, Saint-Hilaire tinha
razão. Como já se comentou, quase todo grande proprietário possuía uma
morada de casas na vila mais próxima. Comparando o interior das sedes
das fazendas com o das moradas nas vilas, podem-se perceber algumas
diferenças e a importância que certo tipo de mobiliário passou a adquirir,
aos poucos, entre os mais abastados. Aí também se incluem os objetos de
decoração e o vestuário, tanto o de uso pessoal, quanto as roupas de cama,
de mesa e banho. Para tecer essas considerações, serão analisados alguns
inventários em que a descrição destes bens aparece de forma mais detalhada.
Antes de tudo, é preciso chamar a atenção para o fato de que grande
parte dos inventários consultados não distingue os objetos que havia nas
sedes das fazendas daqueles encontrados nas moradias das vilas. Muitas ve-
zes vinham descritos genericamente, como uma morada de casas no arraial
“com todos os seus pertences”. José Carvalho de Mourão, por exemplo, teve
seus bens inventariados em 1844. Possuía uma morada de casas na rua da
Áustria, em Campanha, coberta de telha, com quintal e “mais pertences”.63
Em casos mais raros, essa descrição vinha em separado, o que permite
ao historiador detectar algumas diferenças no mobiliário e nos objetos de
uso pessoal existentes nos dois tipos de moradia. É o que se observa no
do inventário da sogra do barão de Pouso Alto, realizado em 1855.64 Dona
Isabel Maria do Espírito Santo acumulou a maior fortuna que se conseguiu
localizar para os proprietários do termo de Baependi. Grande parte do su-
cesso de seus empreendimentos se deve à participação e à sociedade com
seu sogro, o sargento-mor Francisco Teodoro da Silva (barão de Pouso
Alto), que também foi um dos seus inventariantes. Os bens inventariados
totalizaram mais de 400:000$000, destacando-se numerosa escravaria para

63. CEMEC-SM, Inventário post mortem de José Carvalho de Mourão (1844), caixa 16.
64. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem de d. Isabel Maria do Espírito Santo, Baependi.

160
os padrões da época, no total de 259 cativos.65 Como a maioria dos grandes
proprietários sul-mineiros, a riqueza amealhada ao longo da primeira metade
do século XIX tinha estreita relação com a produção de gêneros voltados
para o abastecimento interno e com os vínculos estabelecidos com a praça
mercantil carioca, além de também se dedicarem ao comércio de fumo.
Para sorte do historiador, os bens de dona Isabel foram discriminados,
tanto os das várias fazendas que possuía como os do sobrado da família, na
vila de Pouso Alto, o que, certamente, nos ajuda a perceber as semelhanças
e diferenças entre o que havia no interior das duas residências. No início da
descrição dos seus bens, vem arrolado um aparelho de prata com as seguin-
tes peças: um jarro, uma bandeja, um bule, uma cafeteira, uma leiteira, um
açucareiro, uma manteigueira, um faqueiro completo, com três dúzias de
talheres, além de quatro castiçais. Depois são descritos os bens em separado
por fazendas e na morada em Pouso Alto. A título de comparação, esco-
lheu-se os os bens de uma das fazendas mais importantes da família, a dos
Pessegueiros, confrontando-os com os que existiam no sobrado de Pouso
Alto. A princípio, o que chama a atenção é a qualidade dos móveis arrolados
no sobrado da vila. Sua descrição foi mais econômica, mas dá para perceber
que se tratava de móveis melhores, até porque para uma família detentora
de grandes posses exigia-se algum nível de ostentação e diferenciação social.
Na fazenda Pessegueiros havia uma cômoda com duas gavetas, cinco
mesas de pinho ordinárias, três aparadores, oito tambores usados, 18 cadeiras
(dez com acento de sola e oito de palhinhas ordinárias), um armário grande,
quatro caixas grandes de pinho, dois espelhos, duas jarras pequenas, um reló-
gio de mesa parado, louças, um par de canastras usadas e 14 rodas de fiar. Já
no sobrado de Pouso Alto havia dois sofás, quatro aparadores, uma mesa de
meio de sala, 12 cadeiras de palhinha, um catre de armação, quatro castiçais
de casquinha velhos e várias peças em louça. Mencionou-se, genericamente,
a existência de objetos de decoração, como, por exemplo, quadros e espelhos.
A descrição dos objetos de vestuário e de uso pessoal também foi mais
econômica para a moradia na vila, embora seja possível especular que as
melhores roupas de cama e mesa nela estivessem. Foram descritas gene-

65. A escravaria de d. Isabel será objeto de análise no capítulo 5.

161
ricamente várias roupas de cama, toalhas de mesa e de mão da fazenda
Pessegueiros, e arroladas 540 varas de algodão grosso, 89 varas de riscado,
33 mantas inglesas, 31 côvados de baeta vermelha e 14 paus de barbante.
O algodão provavelmente era utilizado na confecção de tecidos grossos
para vestir a numerosa escravaria.66 Em Pouso Alto, havia duas colchas de
damasco, roupas de cama, toalhas de mesa e de mão e uma rede.
Em alguns inventários, as roupas de cama e mesa e as toalhas de mão
vêm descritas de modo mais detalhado. O guarda-mor José da Costa Rios,
dono de engenho na freguesia de São Gonçalo, possuía lençóis de paninho
com colcha de seda, uma colcha de chita forrada de baeta e uma colcha de
lã.67 No inventário do filho do casal, realizado em 1840, são arroladas seis
camas com colchas de chita e cinco com cobertores espanhóis.68 Detalhes
sobre os artigos de tecido utilizados em casa, tais como toalhas, guardanapos
e lençóis, aparecem com mais frequência nos inventários dos que possuíam
propriedades na vila, como é o caso de dona Maria Antônia de Jesus, já
mencionada, moradora na fazenda Pitangueira e proprietária de uma casa
em São Tomé das Letras. Entre seus bens, são arroladas seis toalhas de mesa,
algumas delas de tecido fino e bordadas, além de toalhas de mão e guarda-
napos. No inventário do tenente João Bernardes Pinto e Maria Cristina dos
Reis (1833), foram arrolados seis lençóis de paninho, dois de algodão ameri-
cano, cinco de algodão com babados, onze de algodão grosso, seis colchas
de baeta usadas, três de chita, quatro cobertas de lã grossa, dois cobertores
de algodão grosso pintados, oito toalhas grandes de mesa, 14 de mão e 24
guardanapos.69 Em alguns inventários, as roupas de cama são descritas de
forma bastante genérica, como no de dona Francisca de Paula Gualdino de
Resende (1833), no qual constam oito camas “com seus pertences”.70

66. Sobre a disseminação da produção caseira de tecidos na paisagem mineira, ver Douglas Cole
Libby. Transformação e trabalho em uma economia escravista: Minas Gerais no século XIX.
67. CEMEC-SM, Inventário post mortem do guarda-mor José da Costa Rios (1834), caixa 07.
68. CEMEC-SM, Inventário post mortem do alferes João da Costa Rios (1840), caixa 11.
69. CEMEC-SM, Inventário post mortem de João Bernardes Pinto e Maria Cristina dos
Reis (1833), caixa 06.
70. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Francisca de Paula Gualdino de Resende
(1833), caixa 06.

162
Quanto ao mobiliário existente nas moradias das famílias mais abas-
tadas, o quadro apresentado indica a frequência cada vez maior do uso de
marquesas, tamboretes e cadeiras de palhinha. Este tipo de móvel estava
presente também nas fazendas, mas os melhores e mais novos vinham lista-
dos, quase sempre, nas moradias das vilas. O desembargador José Joaquim
Carneiro de Miranda, já mencionado, possuía uma marquesa de palhinha e
outra de tábua, três mesas, três catres, duas cômodas, um oratório com uma
imagem do Senhor crucificado e uma mesa com duas gavetas.
Os oratórios também poderiam figurar como peças de decoração e até
mesmo de ostentação, embora tivessem muito mais a ver com a tradição
religiosa mineira, que remonta ao século XVIII. Estavam presentes em
grande parte das residências dos proprietários mineiros, especialmente nas
fazendas. O capitão José Pinto Ribeiro, por exemplo, morador no arraial da
capela do Rio Verde, possuía, em 1831, um oratório com oito imagens, dois
castiçais e uma campainha.71
As propriedades mais abastadas tinham capelas contíguas às casas de
vivenda e, em casos mais raros, a capela era separada da propriedade, como
acontece na fazenda do Favacho, de propriedade da família Junqueira (ver
figura 20). Em propriedades que possuíam capelas contíguas ou separadas,
os ornamentos dos altares vinham descritos com detalhes: cálices, missais,
casulas, estolas, toalhas para o altar (ver figura 13, capela da fazenda Angaí).
É o que se constata no inventário de dona Ana Josefa Dias, moradora da
freguesia de São Gonçalo, em 1842.72
Na segunda metade do século XIX, os oratórios ainda desfrutavam de um
espaço significativo nas residências mineiras. Nas mais abastadas, poderiam
apresentar maior requinte e tamanhos maiores (ver figura 16, oratório da fa-
zenda Campo Lindo). Valeriano Manso da Costa Reis, por exemplo, em 1864,
deixou para seus herdeiros um oratório grande de Santa Luzia do Sabará.73
Sem dúvida alguma, o inventário da esposa do barão do Rio Verde,74
brevemente apresentado no capítulo anterior, constitui um dos documentos

71. CEMEC-SM, Inventário post mortem de José Pinto Ribeiro (1831), caixa 05.
72. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Ana Josefa Dias (1842), caixa 13.
73. CEMEC-SM, Inventário post mortem de Valeriano da Costa Reis (1864), caixa 40.
74. CEMEC-SM, Inventário post mortem de d. Luíza Amália de Lemos (1843), caixa 15.

163
mais preciosos para se verificar as mudanças que se operavam nos hábitos
e nos costumes de parte da elite escravista, que podia ter acesso a certos
bens geralmente consumidos na Corte. Não se trata aqui de estabelecer
generalizações para a elite regional sul-mineira, ao contrário, pretende-se
demonstrar os diferentes caminhos encontrados por algumas famílias, no
sentido de combinar o ideal aristocrático com o progresso e a modernidade,
preservando a estrutura escravista. Como se viu no capítulo anterior, o barão
do Rio Verde possuía uma fábrica de chapéus finos em São Gonçalo do Sapucaí
que combinava trabalho livre com escravo e cuja produção era exportada
em grande parte para a Corte. O que interessa destacar por ora é até que
ponto o interior de sua propriedade mostrava indícios das transformações
que se verificaram nos hábitos e nos costumes da elite imperial brasileira.
Não será tarefa muito difícil vasculhar sua residência em busca de
sinais dessa mudança, pois os louvados foram generosos na descrição de
detalhes de alguns dos objetos existentes em seu sobrado de São Gonçalo do
Sapucaí. Dentre os bens inventariados, nota-se certo requinte nos itens de
uso pessoal, nos utensílios domésticos, nos móveis e nas peças de decoração.
O proprietário possuía um relógio de ouro inglês, além de vários objetos de
prata, como castiçais, faqueiro completo e colheres. Tinha ainda um aparelho
de chá de prata com seis unidades, bules, leiteira, cafeteira, manteigueira,
açucareiro e tigela, tudo novo, além de três salvas e um paliteiro.
Como peças de decoração, destacam-se oito quadros grandes – que
ficavam na sala –, dois retratos grandes, dois vasos de cristal para flores,
um espelho de sala, um oratório e seus pertences, e um relógio de mesa.
Alguns quadros foram descritos, para felicidade do historiador, e permitem
especular sobre a orientação política do proprietário. Talvez se tratasse de
um partidário das ideias republicanas, uma vez que foram arrolados dois
quadros da Declaração da Independência, mais um, com o ato escrito da
Independência Americana, outro, com os seis presidentes americanos, e
mais um, de João Napoleão (seria de Napoleão Bonaparte?).
No mobiliário, destacam-se 12 cadeiras de mola, 12 cadeiras de cabiúna
novas, 12 cadeiras americanas, um sofá, uma mesa redonda e uma mesa de
sala de espera. Listaram-se ainda uma mesa para escritório e uma escriva-
ninha, móvel indispensável em uma biblioteca, certamente utilizado para

164
realizar as “escritas” referentes à sua fábrica de chapéus. Algumas evidências
de mudança nos costumes e até mesmo de certo conforto na residência po-
dem ser percebidas pela menção a três lavatórios e a uma mesa de barbear.
O proprietário também possuía uma biblioteca, “292 volumes de livros en-
cadernados”, de diferentes obras que, infelizmente, não foram discriminadas.
As roupas de cama, mesa e banho eram em quantidade razoável. Foram
listados vinte lençóis de linho novos, e mais vinte usados, dez fronhas grandes
de paninho, duas para almofadas, dez travesseiros, dois cobertores de lã,
seis toalhas grandes de algodão, duas de linho, 12 guardanapos de algodão,
12 toalhas de linho de mão, 12 ditas de pé, trinta mantas de lã, três peças de
morim fino e uma peça de brim fino.
A importância do sobrado pode ser deduzida pelo seu valor de ava-
liação, em comparação com o estabelecimento onde funcionava a fábrica.
O sobrado foi avaliado em 8:000$000, enquanto a sede da fábrica, com
todos os seus utensílios, em 1:650$000.
Os relógios de mesa e de parede (carrilhão) também se tornaram objetos
cada vez mais comuns no interior das casas de morada (ver figura 19, relógio
de parede da fazenda do Favacho). Percebe-se que, depois da década de 1850,
os relógios de parede, assim como os de algibeira, aparecem repetidas vezes
nos inventários. E, como já assinalado anteriormente, a utilização cada vez
mais frequente de relógios está muito mais relacionada à influência dos
costumes vigentes na Corte – que, por sua vez, eram mais influenciados
pelos costumes europeus – do que propriamente a uma mudança na noção
de tempo, com implicações na disciplina do trabalho, pois o tempo, nas
fazendas, continuava sendo regido pelo romper da aurora e o pôr do sol e,
dependendo da atividade, poderia varar a noite.
O piano era outro objeto acessível apenas a uma parcela da elite, par-
ticularmente por ser um artigo caro e importado. Também não se devem
desconsiderar os signos de modernidade e diferenciação social, distinguindo
as famílias que o possuíssem. Poderia ser utilizado durante os bailes e quando
se cantavam modas e árias em algumas das casas mais abastadas, onde se
mantinha esta tradição, é o que nos informa Francisco de Paula Ferreira de
Rezende sobre esse costume na casa de seu avô. Dentre os 64 inventários
analisados nesta amostra, somente dois mencionam a existência de pianos.

165
Além das razões apontadas, é preciso chamar a atenção para o alto custo e
as dificuldades no transporte desse tipo de mercadoria, uma vez que todos
os artigos que chegavam ao sul de Minas vinham em lombo de burros.
O memorialista foi atento ao registrar tal aspecto, chamando a atenção para
a raridade desse artigo nas casas dos campanhenses mais abastados.
Nos bailes de meu Avô tocava-se também piano e creio que se cantavam
modas e árias; mas isso só se dava em casa dele; porque tendo hoje a
Campanha dezenas de pianos, naquele tempo só havia esse de meu Avô
que era um piano de cauda e de uma cauda tão comprida que ocupava
boa parte da sala; e pode-se fazer ideia da dificuldade que não deveria
haver para se conduzir uma peça destas por meio de animais e de uma
tão grande distância e por tão maus caminhos como os que então existiam
entre a Campanha e a Corte.75 (Grifos meus)

O autor escreve suas memórias em fins da década de 1880, período em


que a ferrovia estava em expansão no sudeste do Império e também atingia
o sul de Minas. Em 1884, a Minas and Rio Railway Company concluiu a linha
que ligava Cruzeiro (entroncamento da Estrada Pedro II) a Três Corações. Em
1886, inaugurou-se o ramal de Poços de Caldas, pertencente à Cia. Mogiana.
Certamente, a modernização dos meios de transporte contribuiu para a
redução dos custos das mercadorias e para que artigos de grande volume,
como os pianos, por exemplo, pudessem chegar em maior quantidade aos
principais núcleos urbanos sul-mineiros.
Muitos deles, nas Minas Gerais do Oitocentos, foram descritos su-
perficialmente como as vilas de domingo. A difusão desta expressão pode
ser atribuída a Deffontaines, em seu estudo de 1938, sobre a constituição
das redes de cidades no Brasil.76 Saint-Hilaire, ao passar por várias vilas e
arraiais da província de Minas, acaba reiterando esta afirmação, com base
em sua própria percepção e nas informações dos curas com os quais teve
contato. O relato dos viajantes precisa ser lido com cuidado. Nem sempre o

75. Francisco de Paula F. Rezende, op. cit., p. 195.


76. Esta afirmação parte de Sérgio da Mata em seu estudo pioneiro sobre a gênese dos antigos
arraiais e vilas mineiras, resultado de uma tese de doutorado, recentemente publicada. Ver
Sérgio da Mata, Chão de Deus: catolicismo popular, espaço e proto-urbanização em Minas
Gerais, Brasil, séculos XVIII e XIX.

166
que é dito deve ser tomado por realidade. Quando o botânico fornece esse
tipo de informação, sempre menciona a população que estava presente na
vila durante a semana, desqualificando-a socialmente. Embora, em algu-
mas passagens, reiterasse a presença de artífices e pessoas que viviam do
comércio, também não deixava de apresentar um olhar estereotipado sobre
a população de cor e as prostitutas. Outro ponto a destacar é que a descrição
do local visitado variava de acordo com a forma pela qual era recebido. Se
o recebiam bem, não se cansava de tecer elogios e a descrição era mais de-
talhada. Caso contrário, percebem-se claramente seu aborrecimento e um
olhar carregado de preconceitos.
Algumas vilas mais urbanizadas, como a de Barbacena, mereceram
maior atenção do viajante.
Foi construída no cume de duas colinas extensas das quais uma concorre
perpendicularmente para o meio de outra e compõe-se de duas ruas
compridas. A igreja paroquial ocupa o centro de uma praça formada
pelo encontro de duas ruas. Além desta igreja, existem três outras das
quais uma ainda não terminada.
As casas são baixas e pequenas, mas bem bonitas. Cinco ou seis têm um
andar além do térreo, e entre estas, existe uma que se torna notada pela
bela parreira que lhe cobre a fachada. Veem-se em Barbacena várias
lojas bem sortidas, diversas vendas e algumas estalagens. Em nenhuma
vila nesta capitania é a mão de obra tão cara quanto aqui. Isto provém
do fato de ser ela incessantemente atravessada por viajantes que an-
siosos por alcançar seu destino deixam que os operários lhe ditem leis.
Barbacena é célebre entre os tropeiros, pela quantidade de mulatas que
nela habitam e entre as quais deixam os homens o fruto do trabalho.77

Já para a vila de Aiuruoca, a descrição parece bastante contraditória.


Apesar de confiar nas informações do cura do lugar, não deixa de comentar
a existência de lojas de comércio, de uma população que morava na vila e
até de uma farmácia.
[...] compõe-se de cerca de oitenta casas. Constituem elas três ruas,
cuja principal é bastante larga e paralela ao rio. A igreja paroquial er-

77. Augusto de Saint-Hilaire, Segunda viagem..., p. 39-40.

167
gue-se na extremidade mais elevada desta rua, é pequena, sem sino, e
nada oferece de notável. Veem-se além dela uma capela e outra igreja
recentemente construída pela irmandade do Rosário e colocada num
morro que domina toda a cidade. Como quase todas as aglomerações
de Minas, parece muito pouco habitada nos dias úteis. Torna-se, porém,
provavelmente muito mais movimentada nos domingos e feriados. Prova
de que nem vive tão deserta quanto hoje é o fato de possuir algumas lojas
bem regularmente sortidas, vendas e até mesmo uma farmácia.
Segundo o que me disse o cura, as conjeturas que formava ontem sobre
a população desta cidade estão perfeitamente fundadas. Não é habitada
durante a semana senão por mercadores, operários e prostitutas. Mas
aos domingos e dias de festa, torna-se um lugar de reunião para todos
os agricultores da comarca.78 (Grifos meus)

Sobre a vila de Baependi, Saint-Hilaire não ofereceu muitas informa-


ções. “Fica situada à encosta de uma colina pouco elevada e compõe-se de
várias ruas desiguais e irregulares. As casas que a margeiam são, em geral,
muito pequenas, e estão longe de atestar opulência. A igreja, construída
numa praça pública, nada tem de notável.”79
O viajante tinha planos de ir até a vila de Campanha, mas mudou a
rota para não prolongar o seu trajeto em direção ao Rio, preferindo seguir
viagem pelo registro da Mantiqueira, um caminho mais curto em direção à
Corte. Depois, arrependeu-se amargamente do rumo escolhido, em virtude
da sinuosidade dos caminhos na Serra da Mantiqueira.
Em Pouso Alto, não conseguiu hospedagem decente para pernoitar. Sua
descrição da vila acabou sendo muito resumida, com poucas informações e
com alguns equívocos, considerando-a como cidade e sede de comarca, o
que ainda não era realidade em 1822. Como se trata de uma vila que estava
a meio caminho das províncias de Minas Gerais, Rio Janeiro e São Paulo,
produtora de fumo e rota de tropeiros, certamente a descrição do viajante
não condiz com a realidade. A vila possuía grande contingente populacio-
nal já nas primeiras décadas do século XIX, demonstrando a importância

78. Ibidem, p. 53.


79. Ibidem, p. 60.

168
do lugar e sua conexão com atividades agropastoris e comércio de gêneros
voltados para o abastecimento interno. “Paramos na cidade de Pouso Alto,
sede de comarca. Está construída em anfiteatro, no declive de uma colina
e representa como que uma pirâmide cuja igreja forma o vértice. A colina
avança entre duas montanhas cobertas de mata e no sopé corre um riacho
num pequeno vale.”80
E o viajante acabou reforçando o preconceito, presente nas descrições
anteriores, acerca da população que vivia nas vilas e nos distritos durante
a semana. “As cidades, como já o disse, são apenas povoadas, durante a
semana, pela mais vil canalha; alguns artífices, em sua maioria homens de
cor, mandriões e rameiras.”81 A descrição variava de acordo com o humor e
com a forma como era recebido nas vilas, como já foi dito. Também há de se
considerar a profusão de vendas na região de Pouso Alto e, por ser uma vila
que estava na rota dos tropeiros, deveria ser de grande movimento durante
toda a semana, inclusive nos domingos e dias de festas.
Vejamos o que outras fontes nos podem informar a respeito dos prin-
cipais núcleos urbanos do sul de Minas. No final do ano de 1836, quando já
se encontrava no ostracismo político, Evaristo Ferreira da Veiga fez a sua
primeira e única viagem a Minas Gerais, com o objetivo de visitar seus dois
irmãos, que residiam em Campanha desde a segunda década do século XIX.
Durante os quase três meses em que ficou na companhia de Lourenço Xavier
da Veiga e Bernardo Jacinto da Veiga, escreveu várias cartas a seu irmão
João Pedro, que ficara no Rio. Estas correspondências serão utilizadas com
objetivos diversos, pois o seu conteúdo possibilita várias ilações sobre sua
vida política, pessoal e familiar, além de conter comentários sobre as regiões
visitadas. Depois de passar alguns meses na vila de Campanha e de visitar
Baependi, Evaristo Ferreira da Veiga informava ao irmão e à família maiores
detalhes sobre a região, a população, os costumes e a impressão que teve
das vilas que garantiam parte do seu apoio político no parlamento nacional.
Sobre Baependi, Evaristo não fornece muitas informações. Comenta
apenas que a povoação era menos numerosa do que a de Campanha e que a

80. Ibidem, p. 64.


81. Ibidem, p. 65.

169
maioria dos moradores se ocupava da agricultura. “Viemos visitar esta vila,
aonde estamos há quatro dias, tendo sido cordialmente acolhidos. É vila pouco
menor que a da Campanha, e cuja população existe quase toda espalhada
pelos arredores ocupada na agricultura.”82 Já sobre a vila de Campanha, o
relato foi mais detalhado. Informou o número de casas, as ruas e o estado
ruim do seu calçamento. “A vila terá coisa de quatrocentas casas, as ruas
são mal calçadas, tortas, em subidas e descidas, e no tempo das chuvas é
preciso cuidado ao andar por elas para não se escorregar.”83 Evaristo estava
muito gordo nessa época e, provavelmente, tinha dificuldades para caminhar,
sobretudo por ruas sinuosas de aclive um pouco acentuado. Sem esconder
o desconforto físico em que se encontrava, chegou a comentar com o irmão
João Pedro que seu sobrinho e afilhado, filho de Lourenço, residente em
Campanha, e que jamais havia visto o tio-padrinho, fez o seguinte comen-
tário: “que homem é este tão barrigudo?”84 Evaristo nunca tinha saído da
Corte. O seu parâmetro de cidade e de calçamento de ruas era o do Rio de
Janeiro. Evidentemente, não esperava encontrar uma situação semelhante
nas vilas interioranas mineiras. Para quem vinha de uma cidade litorânea,
com grande área plana, os aclives pouco acentuados da vila de Campanha
certamente não deixariam de ser desconfortáveis. Pela litografia em anexo,
encomendada por seu irmão Bernardo Jacinto da Veiga, pode-se perceber
que, se comparada a outras vilas antigas de Minas, Campanha não possuía
subidas tão íngremes e o traçado de suas ruas não era tão torto como des-
creveu. Pelo número de casas, sobrados e edificações religiosas, nota-se a
importância que a vila adquiriu ao longo do século XIX (ver figuras 34 –
litografia da cidade de Campanha de 1847 – a 43).
Além da diversidade socioeconômica, profissional e cultural, as vilas
também possuíam os conhecidos pontos de comércio fixo, denominados
de lojas de “secos e molhados”, já discutidos anteriormente. Nem sempre os
inventários constituem a melhor fonte para esse tipo de investigação, a não
ser quando o inventariado era lojista, e a mercadoria de seu estabelecimento
tivesse sido arrolada minuciosamente pelos louvados. As cartas pessoais são

82. BN, Cartas de Evaristo Ferreira da Veiga ao irmão João Pedro da Veiga, em 4/3/1837, I-02.
83. Ibidem, 13/12/1836, I-02.
84. Idem.

170
uma outra boa fonte para esse tipo de investigação, especialmente quando se
trata de correspondências de negociantes. Mas não é este o caso. As cartas
de Evaristo também oferecem indícios de alguns produtos que só pode-
riam ser adquiridos pela elite, como, por exemplo, as bonecas francesas e
os brincos. Em relação ao número de bonecas encomendadas, certamente
o autor estaria presenteando suas sobrinhas e prováveis afilhadas. “Para aí
parte um dos genros do Mano Bernardo e por ele lhe remetemos o João.
Pelo acima dito, pode você remeter-me seis ou oito bonecas francesas, mas
que não sejam caras, assim como dois pares de brincos de filigrana, cujo
preço não exceda a 20$ r. cada par.”85
Um dos irmãos de Evaristo residentes em Campanha, Lourenço Xavier
da Veiga, era dono de uma casa de negócios de “secos e molhados”. Seu nome
aparece no relatório de 1836, já mencionado. No verso da carta citada ante-
riormente, há uma resposta de Lourenço, informando ao irmão, morador
no Rio de Janeiro, chegara somente parte do material solicitado e que ainda
havia alguns artigos nas residências da família, na Corte.
O que veio agora pela última tropa ainda não é tudo o que estava
pronto: faltando uma caixa de Los. [livros], uns ferros de lampiões,
que estavam no Miranda, vieram só parte, e um fogareiro de ferro, um
tacho pequeno e dois ferros de alfaiate, e estas últimas coisas ficaram
em sua casa ou na casa de Evaristo.86

Como não se trata de grande quantidade de artigos, não dá para per-


ceber se eram produtos a serem comercializados em seu estabelecimento
ou se para seu consumo próprio.
O que se pode depreender dos casos analisados é que uma parcela da
elite tinha acesso a produtos importados da Corte e os sinais de mudança,
distinção e diferenciação social poderiam ser percebidos tanto na estrutura
das construções, quanto no que havia no seu interior.

85. Ibidem, 18/12/1836, I-02.


86. BN, Carta de Lourenço Xavier da Veiga a seu irmão João Pedro da Veiga. Campanha,
18/12/1836, I-02.

171
4. Senhores e caçadores na região dos Campos
Francisco de Paula Ferreira de Rezende mencionou os divertimentos
mais comuns do interior sul-mineiro, tanto nas vilas e nas cidades, como nos
campos, partindo das reminiscências de sua infância na cidade de Campanha.
Destacou as festas nacionais, religiosas, os cantos e as danças. Dividiu-os
por segmento social, ressaltando os que faziam parte da elite, diferencian-
do-os dos segmentos mais pobres da população, embora os considerasse
mais interessantes e alegres, sendo que alguns eram proibidos, como, por
exemplo, os batuques organizados pelos negros.87 Parece que a realização
de bailes não era uma tradição comum entre a elite sul-mineira, ainda que
o autor mencione um baile realizado pelo seu avô, no qual o piano da casa
animava a reunião, quase sempre com contradanças de influência inglesa e
espanhola. Referiu-se também às caçadas, mas sobre elas não gastou mais
que uma linha, embora este pareça ter sido um divertimento comum para
grande parte da elite rural que, de fato, promoveu inúmeras delas pela região
dos campos, abundantes em onças, lobos e veados.
Augusto de Saint-Hilaire também faz referências às caçadas como um
dos passatempos preferidos dos habitantes da província de Minas Gerais e
sua breve descrição sobre o assunto se aproxima bastante das informações
localizadas para alguns proprietários sul-mineiros. Em passagem pela vila do
Príncipe, ao pousar na residência de um vigário, adepto deste passatempo,
o viajante descreve que as caçadas eram sempre realizadas a cavalo e os cães
veadeiros farejavam e descobriam a caça.
Não são fechados em canis como os da Europa; é-lhes permitido an-
darem pelas casas, geralmente atrelados dois a dois com uma corrente
de ferro, e são alimentados com angu e canjica. Chegando ao mato em
que se deseja caçar, desatrelam-se os cães; estes se dispersam, e dão o
sinal logo que farejam um veado. Os caçadores conservam-se fora do
mato, formando um semicírculo; o animal perseguido procura alcançar
o campo, e cai nas mãos dos seus perseguidores. Quando os caçadores

87. Francisco de Paula F. de Rezende, Minhas recordações, p. 194-218.

172
reconhecem, pelo latido dos cães, que o veado vai sair do bosque pelo
lado oposto àquele em que se enfileiraram, procuram a galope atingir
a orla do mato pela qual se supõe que o animal vai passar, e tratam
assim, de alcançá-lo com rapidez.88

A caçada era um dos passatempos prediletos de alguns proprietários


abastados do sul de Minas, em particular dos Junqueira. Esta tradição se per-
petuou ao longo dos séculos entre os membros da família, tornando-se uma
verdadeira paixão e motivo de orgulho, o que pode ser observado ainda hoje
em algumas fazendas de seus descendentes, no atual município de Cruzília.89
Segundo reza a tradição familiar, Francisco Antônio Junqueira tinha
o costume de participar de caçadas na Corte, juntamente com o príncipe
regente d. Pedro I.90 Esse também parece ter sido o caso de João Pedro Diniz
Junqueira. Além de companheiro de caçadas, ele costumava receber presentes
do imperador, como, por exemplo, um casal de vitelos alentejanos, que aca-
bou se tornando o tronco da raça vacum denominada junqueira.91 Quando
nasceu o primeiro filho de Francisco Antônio, este regressou a Minas com
a família e ficou na fazenda do Favacho por vários meses. Nesse período,
fez uma viagem ao Rio de Janeiro e conheceu a futura imperatriz do Brasil,
d. Leopoldina. Algum tempo depois, a princesa enviou-lhe um presente,
dois cães de caça, presos por uma trela de prata que continha as armas da
Coroa. Ainda segundo a tradição, aquela trela podia ser vista, muitos anos
mais tarde, nos cães do filho de Francisco Antônio, o “Capitão Chico”, que
deu continuidade à tradição da família e era um exímio caçador (figura 52).92
As caçadas adquiriram tanta importância na família que eram registradas
em livros, narrando detalhadamente cada momento de sua realização. Os cães
tinham nomes e seus latidos ficaram conhecidos quando estavam próximos

88. Augusto de Saint-Hilaire, Viagens pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, p. 147.
89. Evidentemente, hoje em dia não se mata mais nenhum animal, só se caça por pura
diversão, correndo atrás dos animais do campo até cansar, por duas razões: pela proibição
do IBAMA, órgão que fiscaliza a preservação da fauna brasileira, e porque a preservação
dos animais é garantia de que o divertimento propiciado pela atividade possa manter-se.
Mas não foi assim em outros tempos. Tinha-se como tradição na família que onças, veados
e lobos não sobreviviam nas terras dos Junqueira.
90. Adélia Diniz Junqueira Bastos, Lendas e tradições da família Junqueira, p. 13.
91. José Américo Junqueira de Mattos, Família Junqueira, p. 143.
92. Adélia Diniz Junqueira Bastos, op. cit., p. 18.

173
da presa. Como afirma Paulo Duarte, os cães eram “tratados pelos Junqueira
como filhos adotivos”,93 em razão da importância que tinham nas caçadas.
Pelo menos um desses livros foi preservado e pôde-se ter acesso ao
seu conteúdo, bem como a algumas fotos guardadas por descendentes dos
Junqueira. Embora a documentação transcenda o recorte cronológico deste
trabalho, muito do seu conteúdo traz inúmeros indícios da importância do
ritual das caçadas para as famílias da elite do sul de Minas, que remonta à
primeira metade do século XIX. O livro “Canhenho de caçadas” registrou
-as, assim como o número de animais mortos pelo caçador João Oswaldo
Junqueira e outros fazendeiros, entre 1880 e 1913. Para a presente discussão,
será mais relevante destacar as caçadas realizadas na década de 1880, bem
como o número de animais caçados/abatidos no período.
O mau estado de conservação em que se encontra o documento di-
ficultou a consulta da fonte, sem, contudo, inviabilizar a pesquisa. O livro
está bastante danificado, perdeu parte da encadernação, que é de brochura,
possui várias folhas soltas e não tem nenhum tipo de paginação. A ordem
utilizada para os relatos é anual, enumerando todas as caçadas realizadas
nos anos respectivos. A escrita é linear, sem ponto, nem vírgula e, em al-
guns momentos, indecifrável, seja pela caligrafia, ou mesmo porque faltam
partes das folhas. Em que pesem todas as dificuldades mencionadas, foi
possível perceber um padrão, por parte do relator, ao registrar as caçadas.
Vê-se, logo nas primeiras páginas, uma relação de nomes de cães, seguidos
de datas em que nasceram, entre 1875 e 1888. É possível ver nomes como
Belina, Biguá, Metralha, Guariba, Basto, Barrosa, Piano, Cacique etc. Antes
do início dos relatos, são listados os cães que participaram das caçadas na-
quele ano, geralmente oscilando entre 18 e pouco mais de vinte. Logo em
seguida, descreve-se de modo sucinto a caçada, citando primeiramente o
mês, depois o dia, o nome do cão ou cadela que localizou o animal, o local
e, por último, os caçadores, autores dos disparos e/ou que mataram a caça.
Seguem-se alguns exemplos:

93. Ibidem, p. 12. Apresentação de Paulo Duarte.

174
Janeiro 2, um viado (sic) nas Machadinhas levantado pelo Cabana e o
trucerão-o (sic) em um fôlego até a casa da (?) e aí ficou por ser noite...94
Março 10 uma viada (sic) levantada nas capoeiras de Joaquim Lourenço
pela Murzella, chumbiada (sic) pelo T. Cel. Assis Vieira, errada por
Vieira, atirada e morta pelo Cosme.95

Em alguns momentos, os relatos são bem sucintos e não dá para per-


ceber o desfecho. É o caso de uma caçada realizada no dia 25 de janeiro de
1881, quando uma onça foi acuada pelo cão Fidalgo, num lugar denominado
Caititu.96 Em outras ocasiões, elas poderiam oferecer mais resistência. No
mesmo local, uma onça precisou ser perseguida por seis vezes, até que foi
morta com um tiro, dado por um dos caçadores.97
Em outras passagens do livro, percebe-se o desapontamento por que
passavam os bons atiradores, quando erravam os seus alvos. Isto ocorria
quando os animais eram maiores e davam muito trabalho aos caçadores.
Essas caçadas mereceram registros mais detalhados, demonstrando o caráter
competitivo da diversão e a disputa entre aqueles considerados os melhores
atiradores. Assim como os cães bons de caça mereciam um lugar especial nos
registros, os célebres atiradores sempre eram destacados, tanto no sucesso,
quanto no fracasso. Veja-se o relato de uma caçada realizada no dia 22 de
junho de 1887, no lugar denominado Livramento, na fazenda de Quirino.
[...] um viado (sic) levantado pela Bengala, de Carvalho, saiu em uma
falha, foi errada vergonhosamente pelo célebre atirador Carvalho, que
muito sentiu por ser presenciado por muita gente. Este ficou exposto
como nunca se viu e quando os mais caçadores alcançaram, ele gritou:
já pegaram? [...] e o toque ainda continuou. Ele ficou muito desaponta-
do porque arrasta[va] muita amala (sic). Continuando ainda o toque,
distância de 5 quartas de légua, isto sempre por mata e serra acima,

94. “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira”.
Documentação particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília/MG. O relato das caçadas,
bem como do número de animais abatidos, vai até 1913. O objetivo deste trabalho consiste
em demonstrar o significado e a distinção social que representavam um dos principais
passatempos da elite rural sul-mineira e não de contabilizar os dados para todos esses anos.
95. Idem.
96. Idem.
97. Idem.

175
atravessou o rio Francês uma vez e ainda subia uma grande serra, voltou
ao mesmo Rio encontramos o viado (sic) em uma cachoeirada (sic)
medonha. Aí foi atirado por Osvald e Fausto. Quando o célebre atirador
viu as chumbadas de Osvald e Fausto disse: estou satisfeito, não errei.
E sustenta[va] isso só para não dar o braço a torcer, mas apelou para
quantos caçadores lerem esta descrição, se um viado (sic) chumbiado
(sic) fazia o que fez. O homem é cabeçudo deveras! Verificou-se que o
viado (sic) tinha 5 pontas de chifres e é muito grande.98

Os cães eram imprescindíveis para a realização de uma boa caçada e


desempenhavam várias funções durante estes eventos. Em primeiro lugar,
eram responsáveis por localizar ou “levantar” a presa, depois, por “desa-
moitar” os animais que, certamente, fugiam da perseguição dos cães e se
embrenhavam por matas, capoeiras, brejos e várzeas. É o caso de uma caçada
realizada no Varadouro, no dia 4 de janeiro de 1887, quando um veadinho
foi “levantado” pela cadela Cabana, “desamoitado” a primeira vez pelo cão
Goiano, a segunda vez pela cadela Cataluna e “pego” pelo cão Café. O ba-
rulho ensurdecedor dos latidos dos cães e a chegada dos caçadores com
seus cavalos quase sempre representavam o martírio final para os animais
do cerrado, ou, às vezes, não, pois era bastante comum não se acertar de
primeira. Às vezes era preciso mais de uma salva de tiros e chumbos para
tombar os veados, as onças e os lobos nos campos e nas matas do sul de
Minas. Pelo quadro 1, percebe-se a quantidade de animais abatidos ao longo
da década de 1880, confirmando a máxima da tradição da família de que
“veados, lobos e onças não sobreviviam nas terras dos Junqueira”. Nota-se
claramente que já não havia em grande quantidade onças e lobos, de certo
devido à tradição de caça a estes animais por parte da família. Não se pode
informar se a carne dos animais abatidos era consumida, em especial a dos
veados. Certamente, as peles e os chifres deveriam ser tirados e expostos
como troféus de caçadas bem-sucedidas.
A paixão pelos cães pode ser demonstrada não só pelos nomes que
recebiam, mas pelo lugar que ocupavam nesses divertimentos. Os melhores
cães mereciam tratamento especial, seja pelas trelas que usavam ou pelo re-

98. Idem.

176
gistro em fotos e pinturas, já mencionadas. Em alguns casos, recebiam uma
homenagem especial, após sua morte, como a cadela Murzella. Tratava-se
de uma grande cadela de caça que, até 1885, havia “levantado” 22 animais
durante as caçadas.99 “No dia 7 de novembro [1886] morreu de velha a grande
Murzella. O Cosme e a cachorrada tomaram luto por oito dias. O Capitão
(?) e o Chumbo foram os coveiros e deram-lhe a sepultura na horta das
laranjeiras aonde tem três pés juntos de laranja.”100
As caçadas que resultavam em maior diversão para os participantes eram
aquelas em que a presa dava mais trabalho. E também foram as que merece-
ram mais linhas na visão do relator. Se hoje as caçadas ainda são realizadas
com objetivo de dar continuidade à tradição e à diversão dos descendentes
da família, a satisfação está em “levantar” e “desamoitar” a caça, persegui-la,
encantoá-la e, depois, deixá-la seguir seu rumo. Antigamente, estas etapas
eram muito valorizadas e apreciadas pelos caçadores e consideradas as que
propiciavam mais emoção aos participantes.
No dia 17 de setembro de 1887, realizou-se uma caçada nas capoeiras do
dr. Fidélis, que mereceu um registro detalhado por parte do relator, justamente
pelo trabalho que demandou a perseguição do animal. O curioso é que, nessa
caçada, a presa não foi abatida. Depois de perseguida exaustivamente, foi
marcada e solta no canavial. Primeiramente, o veado foi “levantado” pelo
cão Pagode. Logo em seguida, a caça saiu no campo, onde se encontravam os
caçadores Osvald Sá, Fausto e Cosme, que pegaram seus cavalos e persegui-
ram o animal. Aquela caçada prometia e a presa não se daria por vencida na
primeira perseguição. “Entrou nas capoeiras, foi ao rio Aiuruoca, atravessou-o
duas vezes, foi desamoitada pelo Bollo, deu uma grande volta, tornou ao
mesmo rio, atravessando-o ainda duas vezes.” O animal resistia bravamente
à perseguição. Fugiu para o pasto do dr. Fidélis, saindo em direção à capela
do Varadouro, caindo novamente no rio e amoitou, certamente cansado de
tanta perseguição por parte dos cães e dos caçadores. Mas o sossego não
duraria por muito tempo. Foi logo “desamoitado” pelo cão Goiano, que deu
“batidas muito bonitas”. A presa deu mais umas voltas pelo lado direito do
rio e retornou à esquerda, saindo no patrimônio da referida capela. Neste

99. Idem.
100. Idem.

177
local estavam presentes os caçadores Osvald Sá e Cosme. Montados em
seus cavalos, continuaram a perseguição ao animal, mas este já estava muito
cansado. Não foi difícil para os caçadores pegar a presa sem o uso de armas.
Cosme apeou de seu cavalo e pegou o veado “sem o machucar”. Levaram o
animal para casa e o soltaram “na capineira, pondo-lhe nas orelhas a marca
do gado da fazenda”. Os caçadores pretendiam soltá-lo e o fizeram no dia
seguinte, indo ele para o canavial. Era macho e chifrudo.101
É possível especular que a caça já estivesse rareando por aqueles campos,
capoeiras e matas, em virtude de anos e anos de atividade contínua e morte
de animais, como comprova o quadro 1. O número de onças e lobos mortos
vai desaparecendo dos registros e, provavelmente, dos campos, resultado da
tradição de caça praticada pela família desde a primeira metade do século
XIX. Mesmo no caso dos veados, percebe-se uma redução significativa
após 1887. A diminuição da fauna do cerrado também pode ser explicada
pela frequência com que eram realizados esses eventos. As caçadas pode-
riam ocorrer mais de uma vez por mês e, em alguns anos, ultrapassavam o
número de trinta.102

Quadro 1
Número de veados, onças e lobos abatidos pelos caçadores (1880-1890)
Animais
Ano
Veados Onças Lobos Total
1880-1886 155 8 3 166
1887 41 1 42
1888 33 1 34
1889 23 1 24
1890 34 2 36
Total 286 11 4 302

Fonte: “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo
Junqueira”. Documentação particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília-MG.

101. Idem.
102. Idem.

178
Quando as onças e os lobos ameaçavam e atacavam as criações, espe-
cialmente os carneiros, vários caçadores eram convocados para perseguir e
matar os animais. Este foi o caso da caçada a uma onça, no mato do Serrano,
que, segundo o relator, havia matado cinco carneiros. Arregimentaram-se
nada menos que 18 caçadores e mais outros tantos cães para pôr fim ao
animal que estava atormentando os fazendeiros da região. A onça havia
sido “levantada” pelo cão Goiano, e, logo depois, seguida pelos demais cães,
que a trouxeram para o mato, onde foi recebida a bala e chumbo por quase
todos os atiradores: “foram seis espingardas, uma garrucha e houveram (sic)
quatorze tiros e fulminaram-na no pau”.103
Evidentemente, essas ocasiões representavam a forma mais comum de se
divertir e de passar o tempo. Também se costumava comemorar aniversários,
do próprio caçador, ou de seu casamento, realizando uma boa caçada. E a
data do aniversário ou da comemoração era comentada em alto e bom tom
durante as caçadas. O próprio relator foi caçar no dia 11 de julho de 1884,
em comemoração ao aniversário de seu segundo casamento. Parece que a
caçada não foi bem-sucedida, apesar de a cadela Murzella ter “desamoitado”
um veado. Embora tenha ficado desapontado, o caçador lembrou-se de que
era aniversário de seu casamento e gritou: “Viva! Quem faz anos! Que Deus
me conserve casado mais uns 80 anos”.104
O passatempo poderia contar com o congraçamento de mais pessoas,
além dos caçadores, quando a caça era perseguida em áreas próximas aos
núcleos urbanos. No dia 18 de janeiro de 1890, foi encontrado um veado na
chácara do major Nogueira, “levantado” pela cadela Lagoa. O animal correu
para o lado esquerdo do rio Aiuruoca e amoitou. Depois foi “desamoitado”
pela cadela Beleza, dando uma volta na chácara de João Benfica, retornando
ao rio e se escondendo debaixo da ponte. O animal continuou sendo perse-
guido. A esta altura, o espetáculo já era assistido por grande parte do povo
da cidade, especialmente quando entrou “na horta de Inácio”. Os caçadores
dr. Luiz e Osvald “correram para lá, logo viram uma manada de moças e
velhas a mostrarem o viado (sic)”. As espingardas dos dois caçadores negaram

103. Idem.
104. Idem.

179
fogo, causando desapontamento ao público que assistia à caçada. O animal
foi encantoado em uma cerca próxima à porta da cozinha e foi pego por
Osvald. Grande número de pessoas compareceu para ver o animal preso.105
As caçadas também poderiam ser articuladas com proprietários de
outras fazendas, em regiões próximas. O autor das memórias sobre as ca-
çadas, João Oswaldo Junqueira, fez uma viagem a Águas de Contendas,
tanto para fazer uso das águas da região, quanto para caçar nas fazendas
de parentes e conhecidos. Saiu do Angaí, levando consigo nada menos que
19 cães de caça.106
Todas as fazendas mais importantes dos Junqueira, como a do Favacho,
Angaí, Traituba e Narciso, possuíam grande número de cães de caça; os
utilizados nas caçadas eram de raça inglesa ou americana, puro sangue,
conforme atesta uma correspondência de Amado Simões, natural de São
Paulo, ao sr. Oto Junqueira, solicitando-lhe um casal daquela raça para cruzar
com os seus, pois também era um apaixonado por caçadas.107 Isto pode ser
constatado pelas fotos dos cães, em anexo (figuras 44 a 47).
Selecionei algumas fotos gentilmente cedidas pelos parentes, que nos
permitem vislumbrar a importância que os cães bons de caça tinham para
a família. Além de bons caçadores, sua prole era cuidada com esmero, pois
representava a garantia de novos cães bons de caça e a manutenção do esporte
e do divertimento. O título das fotos demonstra a distinção de alguns cães,
como é o caso da “incomparável” cachorra Inglesa e sua prole (figura 44).
Ou no caso dos cães Fidalgo e Irajá (figura 46). Em algumas fotos de caçadas,
certos cães mereceram destaque, como foi o caso da cadela Fidalga (figura
45) e do cão Capitólio, entre a cachorrada da Traituba (Figura 47). Uma das
fotografias que chama bastante a atenção é a de um garoto, provavelmente
descendente de escravos, segurando a cachorra Gazela e sua prole (figura 44).
Na figura 48, aparecem os caçadores reunidos e uma matilha, talvez em
preparação para o início de uma caçada. Logo abaixo da foto, são listados
os nomes dos caçadores. Foi tirada em frente de uma das fazendas que, na
primeira metade do século XIX, pertencia ao barão de Alfenas, Gabriel

105. Idem.
106. Idem.
107. Carta de Caio Simões, sem data, encontrada no interior do livro.

180
Francisco Junqueira. O que chama a atenção, de início, é a indumentária dos
caçadores e sua elegância no vestir, com o uso de botas, calça, colete, paletó
e chapéu. Ainda é possível verificar parte da indumentária necessária para
um empreendimento desta natureza, como, por exemplo, a utilização de
peças de couro, comumente usadas por vaqueiros e que protegia as pernas,
além dos sinetes (espécie de berrante). As caçadas eram realizadas sempre
a cavalo, e os Junqueira tinham larga tradição na criação de equinos e no
cruzamento de raças.108 Nessa foto não aparecem porque, talvez, os caçado-
res quisessem registrar o início da caçada, tirando fotos somente com sua
“cachorrada”. Nas figuras 49 a 51, percebe-se a importância que os cavalos
desempenhavam nesses empreendimentos e o seu porte. Tratava-se, pro-
vavelmente, de cavalos da raça manga-larga marchador, introduzidos pela
família Junqueira.109 Nessas fotos, pode-se observar, com maiores detalhes,
parte dos apetrechos necessários a uma boa caçada – cavalos bem arriados
e selas confortáveis. As espingardas eram um artigo fundamental para o
abate das caças. Os berrantes talvez fossem usados para dar o sinal de que a

108. É recorrente nos inventários e nos documentos centenários da família a preocupação


em relacionar nomes e características dos cavalos e das bestas, o que reforça a tradição
dos Junqueira no cruzamento e na origem de novas raças, como a do cavalo manga-larga
marchador. No auto de partilha amigável de João Pedro Diniz Junqueira e sua esposa
Helena Constança Junqueira, foram relacionados os nomes dos cavalos Vaivém, Assombro,
Brazil, Bigode, Vereno. Os burros e as bestas também recebiam nomes, como, por exemplo,
Dourado e Damasco. Também foi relacionada uma besta chamada Brioza, que talvez fosse
a madrinha da tropa dos 15 burros arriados que possuía. IPHAN - SJDR, Inventário e auto
de partilha amigável de João Pedro Diniz Junqueira e Helena Constança Junqueira (1855).
A origem do cavalo manga-larga marchador se confunde com a história dos Junqueira,
pois a primeira referência a este tipo de animal aparece no inventário de Gabriel Francisco
Junqueira, o barão de Alfenas.
109. Para conhecer um pouco mais sobre a importância do cavalo na história portuguesa e
brasileira, ver José Alipio Goulart, O cavalo na formação do Brasil e Tropas e tropeiros na
formação do Brasil. E sobre a história do cavalo manga-larga marchador e a família Junqueira,
ver Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador, A história do
cavalo mangalarga marchador; José Américo Junqueira Mattos, Família Junqueira, p. 101-139.
Neste volume, o autor escreveu um capítulo muito interessante sobre a história do cavalo
manga-larga marchador e a importância que tinha para a família. Há passagens em que o
autor fornece uma verdadeira genealogia dos cavalos mais importantes da família, criados
nos campos e nos pastos da comarca do Rio das Mortes, entre os termos de Baependi e São
João del Rei. Os cavalos podiam ser utilizados para finalidades diversas, como, por exemplo,
em viagens, caçadas e até mesmo na lida diária das fazendas, sem desconsiderar o status
que representavam para aqueles que os possuíam.

181
caça havia sido “levantada”. As figuras 50 e 51 retratam o fim de uma caçada
e o animal abatido é apresentado como um troféu. Na última, aparecem os
nomes de todos os caçadores e quem carrega a caça abatida parece ser um
negro, de nome José, provavelmente um descendente de escravos.
Os escravos poderiam participar das caçadas, como “cachorreiros”,110
ao conduzirem os cães e, mesmo, no abatimento dos animais. Na década de
1880, ocorreu uma caçada num local denominado Vilela, que contou com a
participação da “cachorrada” do Favacho, ocasião em que a cadela Rapina
“levantou” um veado, “desamoitado” pelo cão Barroso e “atirado pelo Lino,
escravo de Osvald”.111
Essa tradição acompanhava os membros da família por onde quer que
fossem. No caso específico de Francisco Antônio Junqueira, que migrou para
o sertão norte paulista juntamente com João José de Carvalho em busca de
novas oportunidades, e ali constituíram as fazendas Invernada e Santo Inácio,
respectivamente, o costume de caçar os acompanhou. Além de diversão, a
princípio a atividade representava uma necessidade, sobretudo no caso das
onças e lobos que atacavam o gado, como já tivemos oportunidade de ver.
A caça a veados constituía, evidentemente, pura diversão e costume que
denotava alguma distinção social (ver figura 53).
A força dessa tradição acabou virando filme, em 1923. Nos sertões
do Avanhandava, a maior caçada do Brasil, era o título da produção da
Independência e Omnia Filmes, musicada pelos maestros Marcelo Tupinambá
e Raul Toledo Galvão. Adélia Bastos informa que o filme foi apresentado em
São Paulo, no Cine República, e que o conservador da Cinemateca de São
Paulo, já falecido, dizia ter sido um grande sucesso de bilheteria até 1976.
O filme retrata a partida de Orlândia e as cenas de caçada foram rodadas
no mesmo município. “Ali embarcaram a matilha em pequenos caminhões,
com os cachorreiros, caçadores e cineastas e partiram para os sertões do
Avanhandava. Arranchados em terras de um amigo, iniciaram as caçadas
no Tietê, onde foram filmadas as antas e veados que caíam no rio.”112

110. Expressão utilizada por Adélia Diniz Junqueira Bastos, Lendas e tradições da família
Junqueira. Nos documentos consultados, não foi encontrada nenhuma referência a este termo.
111. “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira”.
112. Ibidem, p. 67.

182
Até aqui, foram destacados os aspectos da cultura material da elite
escravista sul-mineira, apontando em que medida estes ícones denotavam
riqueza, prestígio e diferenciação social. Também é importante pensar,
assim como fez Thompson, ao analisar a relação entre a gentry113 e os “tra-
balhadores pobres da Inglaterra”, no século XVIII, que o controle da classe
dominante se localizava especialmente numa hegemonia cultural. “Definir
o controle em termos de hegemonia cultural não é desistir das tentativas
de análise, mas se preparar para a análise nos pontos em que deve ser feita:
nas imagens de poder e autoridade, nas mentalidades populares e na subor-
dinação.”114 Guardadas as devidas diferenças entre a sociedade inglesa e a
sociedade escravista imperial brasileira da segunda metade do século XIX,
algumas semelhanças no comportamento da elite podem ser detectadas.
Ainda que grande parte dos proprietários rurais se visse compelida a um
contato cada vez mais estreito com seus cativos, determinados aspectos
da cultura material, apontados aqui, denotaram claramente o sentimento
aristocrático que pairava entre muitos deles naquele tempo. Isto era visível
no estilo da construção de várias sedes de fazenda, dos sobrados nas vilas e
nas cidades, no que podia ser encontrado no interior de algumas moradas,
no vestuário, nos rituais sociais exclusivos da elite, como em festas cívicas,
religiosas, bailes e, particularmente, nas caçadas.

5. Caminhos, tropas e tropeiros


No início do século XIX, ainda eram utilizados os mesmos caminhos
antigos que ligavam Minas ao Rio de Janeiro durante o século XVIII. As rotas
mais conhecidas foram o Caminho Novo e o Caminho Velho. O primeiro
era o preferido dos viajantes que circulavam entre Minas e Rio de Janeiro.
Partia do Porto da Estrela, passando por Petrópolis, até atingir o registro do
Paraibuna, depois Juiz de Fora, Barbacena e São João del-Rei, até chegar a Vila
Rica.115 Já os condutores, tropeiros e proprietários sul-mineiros utilizavam

113. Alta nobreza agrária inglesa. Ver Edward Palmer Thompson, Costumes em comum:
estudos sobre a cultura popular tradicional, p. 25-85.
114. Ibidem, p. 46.
115. Obras de referência sobre o Caminho Novo: André João Antonil, Cultura e opulência
no Brasil e Lea Q. C. Peixoto, Principais antigos caminhos fluminenses para as Minas Gerais.

183
um caminho mais longo, passando pela Mantiqueira e, na altura de Lorena,
tinham acesso ao caminho que ligava São Paulo ao Rio de Janeiro. O trajeto
do sul de Minas até o centro da capitania era feito através do Caminho Novo,
na parte que seguia de São João del-Rei até Vila Rica.
Ao longo do século XVIII e principalmente no XIX, os caminhos que
entrecortavam o sul de Minas tornaram-se mais movimentados. O vaivém
de tropas e tropeiros era cada vez mais frequente. A chegada da corte, em
1808, e os problemas crônicos de abastecimento que se seguiram desde então
exigiram da administração joanina uma política de fomento à construção
de novas vias de comunicação (estradas do Comércio e da Polícia) e reparos
nas já existentes. O foco era dirigido especialmente à comarca do Rio das
Mortes, como bem demonstrou Alcir Lenharo, a qual se tornara o principal
centro abastecedor do Rio de Janeiro. Essas obras públicas contavam com
a participação e o patrocínio de proprietários abastados, que viam nesses
empreendimentos uma ótima oportunidade de ampliar seus negócios, con-
quistar mais sesmarias para os membros de suas famílias e adquirir títulos
nobiliárquicos pelos serviços prestados.116
A conexão mercantil entre o sul de Minas e a Corte tornou-se tão impor-
tante que os proprietários sul-mineiros tomaram a iniciativa da construção
da estrada do Picu. O projeto foi apresentado e encaminhado à Secretaria
de Estado dos Negócios do Reino, em 1818, e a obra finalizou-se em 1822.
A nova estrada abreviava em cinco dias a marcha para a Corte e foi constru-
ída por iniciativa dos proprietários de Campanha, Baependi e Pouso Alto.117
O novo caminho representava uma economia significativa de custos e tempo
para o comércio por meio de tropas. Seguem-se os argumentos apresentados
pelos proprietários na solicitação que encaminharam a d. João VI.

Ver também Mafalda P. Zemella, O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século
XVIII, p. 115-130; Alcir Lenharo, As tropas da moderação, cap. 2.
116. É o caso do barão de Ubá, João Rodrigues de Almeida, e do barão de Aiuruoca, Custódio
Ferreira Leite. Ambos souberam tirar proveito das vantagens na construção das estradas
do Comércio e da Polícia, respectivamente. Ver Alcir Lenharo, op. cit., p. 67-68.
117. Houve um engano por parte de Alcir Lenharo ao mencionar que os proprietários de
Pouso Alegre teriam participado da construção da Estrada do Picu. Na realidade, tratava-se
dos proprietários de Pouso Alto, uma importante vila que fazia parte da rota do Caminho
Velho, que seguia para a Corte. Certamente, os proprietários de Pouso Alegre também tinham
interesse na construção da estrada, mas, nessa época, o arraial pertencia ao termo da vila
de Campanha. Sua emancipação ocorreu somente alguns anos mais tarde. Ibidem, p. 85.

184
Dizem os moradores do vasto território que compreendem as vilas da
Campanha, Baependi, Pouso Alto, compostas de muitas freguesias que
fazem grandes exportações para esta Corte, por muito, mau e longo, que
segue de Capivari pelo registro da Mantiqueira ao porto da Cachoeira,
dando grande volta, que se vê no mapa incluso, a buscar a vila de Areias,
que eles têm descoberto novos pontos por onde se pode dirigir a estrada
mais reta, e por melhor terreno, poupando cinco dias de marcha às
tropas [...].118 (Grifos meus)

Os proprietários chamavam a atenção para o número expressivo de


bestas que circulavam pela estrada e justificavam que o encurtamento do
caminho representaria a duplicação do número de viagens, atendendo aos
interesses dos moradores (fazendeiros e negociantes) e também da Corte,
na medida em que supririam a cidade do Rio de Janeiro com os produtos
oriundos da região. Finalizam a petição solicitando licença para a abertura
da nova estrada às suas próprias custas.
Pelo mapa aqui reproduzido da estrada do Picu, percebe-se claramente
qual trecho foi abreviado (ver mapa 2). De fato, o caminho anterior, que
seguia do Capivari, passando pelo registro da Cachoeira até atingir a estra-
da de São Paulo, representava uma grande volta. Infelizmente, na petição
não há menção sobre o número de dias necessários para realizar a viagem
pelo caminho antigo, mas, pelo traçado, é possível perceber que se gastava,
no mínimo, o dobro de tempo. O trecho projetado, e depois construído,
eliminava a volta por completo, tornando esta parte da estrada quase reta,
passando pelo pico do Picu, localizado na Serra da Mantiqueira, para de-
pois atingir a estrada de São Paulo, na altura da vila de Areias. O que ainda
chama a atenção nesse mapa é como as outras freguesias importantes do sul
de Minas estavam interligadas por caminhos que se entrecruzavam com a
principal via de acesso à Corte. É o caso dos distritos de Lambari, Carmo
e Conceição e das vilas de Baependi e Pouso Alto. Embora o documento
analisado não traga nenhuma relação de assinaturas, nota-se o motivo pelo
qual vários fazendeiros-negociantes, comerciantes e tropeiros tinham grande
interesse na construção da estrada do Picu e não deixaram de envidar todos
os seus esforços políticos e financeiros para construí-la e concluí-la em 1822.

118. AN, Junta do Comércio, Agricultura e Navegação, caixa 443, pte. 3.

185
A localização geográfica do termo de Campanha e a proximidade das
principais rotas de acesso que interligavam outras capitanias, como São
Paulo e Rio de Janeiro, podem ser facilmente visualizadas no mapa de 1800,
elaborado para demarcar a extensão do termo. Tratava-se de uma área de
fronteira, palco de conflitos e disputas desde o início do século XVIII, sempre
recorrentes até o final do XIX. O mapa indica as distâncias de Campanha
para as outras povoações. Embora não possua legendas, parece que as linhas
indicam o traçado dos caminhos que interligavam todas essas povoações
ao principal núcleo urbano do sul de Minas, naquela época. Também é
fundamental ressaltar que o termo abarcava, em sua extensão, nada menos
que quatro importantes postos de passagem (os registros da Mantiqueira,
Jaguari, Toledo e Caldas), tornando a área de grande relevância estratégica
e econômica (ver mapas 1 e 2).
Parece que a estrada havia se tornado a rota oficial dos tropeiros e
de todos os que se aventuravam numa viagem de longos dias até a Corte,
pelo menos se considerarmos os fazendeiros-negociantes e os tropeiros
que partiam de Campanha, Baependi e Pouso Alto. Em dezembro de 1836,
Evaristo Ferreira da Veiga faria o seu percurso em direção a Minas passando
pela serra do Picu, certamente utilizando a estrada já há muito conhecida
no Rio de Janeiro.
Em 1839, foi a vez de Francisco de Paula Ferreira de Rezende se referir
a essa estrada, quando fez a sua primeira viagem à Corte. Na época, era
apenas um garoto, mas a experiência ficou gravada em sua memória, seja
pelo contentamento que uma aventura dessas poderia acarretar para uma
criança, ou pelas histórias que se ouviam dos tropeiros sobre os perigos da
viagem, em certos trechos inóspitos do caminho de acesso à Corte.
O memorialista relata a emoção dos preparativos para a viagem e como
grande parte da elite tinha o desejo de conhecer a Corte. Além dele, fize-
ram parte da comitiva seu pai, sua mãe e uma tia. O Rio de Janeiro não se
constituía apenas de uma praça comercial importante para os proprietários
sul-mineiros. Uma viagem à Corte poderia significar o contato com um
universo que há muito povoava o imaginário das elites, graças aos relatos
dos tropeiros, e às notícias veiculadas nas folhas interioranas. A cidade
não representava somente o principal centro de poder do Império, era o

186
centro da moda, das manifestações culturais e de costumes que atendiam
aos gostos da elite, como, por exemplo, as óperas, os teatros e os bailes. Se,
para as mulheres, uma viagem à Corte podia simbolizar o contato com um
mundo antes existente apenas na imaginação, para Ferreira de Rezende as
razões do contentamento tinham outra origem.

Mapa 2
Projeto da estrada do Picu que possibilitava o acesso ao Rio de Janeiro – 1818.

Fonte: O original pertence ao Arquivo Nacional. Cópia digital feita a partir da repro-
dução publicada em A história do cavalo mangalarga marchador. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1991, p. 67.

187
Era a primeira vez que montava seu cavalo, chamado Pequira, e tam-
bém a primeira vez na vida que usava botas brancas de couro de veado,
conhecidas como botas mineiras. No menino, elas chegavam até o joelho e
eram presas à cintura por meio de correias com fivelas. A emoção do autor
ao montar o próprio cavalo e usar botas fez com que se sentisse como se já
fosse um homem. Só faltavam as esporas, que ele recebeu de presente de
um amigo de seu pai, depois que fizeram um pouso em sua casa, no arraial
de Três Corações, logo após o primeiro dia de viagem.119 Todos esses ape-
trechos eram peças essenciais, que faziam parte da indumentária masculina
daqueles tempos.
Por outro lado, a viagem era marcada por apreensão e medo, não só
por ser algo completamente novo, mas em razão das histórias repetidas por
tropeiros sobre a existência de bandos de salteadores, notadamente na serra
da Mantiqueira, por onde o autor deveria passar. Em 1839, comentava-se a
existência de uma quadrilha liderada por Chico Paz, que residia nas ime-
diações do Capivari e da serra do Picu.120 Isto fez com que o pai do autor
preferisse outra rota, embora o retorno a Campanha tenha sido feito pela
estrada do Picu.
No terceiro dia de viagem, seguiram para São Tomé das Letras. O ar-
raial possuía poucas casas, quase todas parecendo desabitadas, e poderia
ser comparado a “um verdadeiro ninho de aves”, dada a sua localização e
topografia. A descrição do memorialista pode ser visualizada na pintura
do arraial encomendada ao pintor italiano Nicolau Facchinetti, no ano de
1876, por Domingos Teodoro de Azevedo Junqueira, parente do barão de
Alfenas (ver figura 33).
Prosseguindo, chegaram à vila de Aiuruoca e pousaram em casas de
parentes. O pouso em casa de amigos e/ou parentes parece ter sido a estratégia
adotada por proprietários que viajavam com suas famílias. A viagem poderia
demorar mais tempo, contudo também se corriam menos riscos. De Aiuruoca
até Resende, o autor não se lembrou de muita coisa, apenas de que havia
passado pelo Rio Preto, quase à noite. Atravessaram o rio de barca, formada

119. Francisco de Paula Rezende, Minhas recordações, p. 93.


120. Ibidem, p. 92.

188
por “um assoalho de tábuas sobre três canoas e o todo cercado de grades
com duas porteiras”.121 Embora ele não comente, essas barcas provavelmente
serviam para transportar animais, cargas e pessoas de uma margem do rio
a outra. Em Resende, localizaram um parente, em cuja residência se hospe-
daram e, depois, se dirigiram para o Rio de Janeiro. Passaram pelas vilas da
Posse (Barra Mansa), Arrozal, Itaguaí, Santa Cruz. Em Pavuna, o autor teve
oportunidade de ver o mar, pela primeira vez. Daí chegaram a Venda Grande,
que ficava a duas léguas de distância da cidade. Finalmente, alcançaram o
rancho de São Cristóvão, pouso tradicional dos tropeiros vindos de Minas,
onde paravam a fim de se preparar para entrar na capital. Segundo nosso
informante, Campanha ficava a 64 léguas da Corte, distância que podia ser
percorrida em dez a 12 dias de viagem É de se imaginar o estado em que se
encontravam os viajantes e os animais, depois de tantos dias de cavalgada,
expostos à variação do tempo e às dificuldades do trajeto. Talvez por isto,
algumas famílias mineiras mais abastadas preferissem chegar à cidade du-
rante a noite. Segundo Francisco de Paula Ferreira de Resende, os “animais
estavam tão magros e tão escalavrados”, que considerou uma falta de respeito
e respeitabilidade entrar na cidade à luz do dia.122
Depois de ficar por quase três meses na Corte, nosso memorialista re-
tornou a Campanha pela estrada do Picu. O receio de encontrar o bando do
Chico Paz já não era tão grande, pois, segundo ele, “naquele tempo quem ia
à Corte levava dinheiro e quem de lá voltava vinha sempre com as algibeiras
vazias”. Certamente, parte do dinheiro era gasto na compra de mercadorias
a um preço bem mais em conta do que as similares existentes nas lojas de
comércio nas vilas mineiras. O viajante ficou maravilhado com o cenário
topográfico que se descortinou logo ao chegar à serra do Picu, e destacou
as diferenças de paisagem entre as duas regiões.
Divisa das duas províncias, do lado do Rio de Janeiro a subida é muito
curta e muito íngreme, pois apenas tinha três quartos de légua; e quando
se voltavam os olhos para trás se via o mais ameno e o mais risonho
dos panoramas – era a província do Rio toda descampada e com os

121. Ibidem, p. 95.


122. Ibidem, p. 97.

189
seus baixos e redondos morros todos cobertos de café; entretanto,
que apenas se chegava ao alto e se começava a entrar no território de
Minas, o espetáculo tornava-se imediatamente ou sem a menor tran-
sição inteiramente outro; pois que em vez de um descampado, eram
três léguas de uma alterosa serra toda envolta em neblina e sempre a
desdobrar-se toda coberta de mato.123

Além do risco de ser assaltado por algum bando, a serra escondia ou-
tros perigos. Nos invernos mais intensos, burros de carga morriam de frio
e até mesmo tocadores e tropeiros poderiam entorpecer-se ou encarangar-
se, como popularmente se dizia. Alguns deles ficavam imobilizados, sem
poder caminhar. Quando um companheiro se encontrava nessa situação, os
tropeiros lançavam mão do relho de tanger os burros e aplicavam o mesmo
processo no companheiro encarangado, que, rapidamente, recobrava suas
forças e se punha a caminho novamente.124
Deve-se ressaltar que, na parte meridional das vias mineiras, que da-
vam acesso às províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, não circulavam
unicamente ouro, pedras preciosas e gêneros voltados para o abastecimento
interno e externo da província. Por elas também vinham enfermos, que
procuravam a cura para seus males nas Águas Virtuosas da Campanha,
como antigamente se chamava a atual cidade de Lambari. Homens, mulheres
e crianças (livres e escravos) percorriam longas distâncias, transpondo as
barreiras naturais de acesso ao sul de Minas, em busca de alívio para suas
dores e doenças, na crença da cura através das águas. Vejamos um desses
mapas, datados do mês de outubro de 1853.
Os relatórios de uso das fontes hidrominerais eram preenchidos e envia-
dos ao presidente da província pelo fiscal das águas. O objetivo da inclusão
desse material para análise é desvendar um pouco do cotidiano dos caminhos
que ligavam Minas às províncias limítrofes de São Paulo e Rio de Janeiro e
em que medida o uso das “águas virtuosas” da Campanha contribuía para
aproximação e contato de famílias de vários pontos do sudeste do Império.

123. Ibidem, p. 107.


124. Ibidem, p.107-108.

190
No quadro 2, percebe-se claramente que era bastante comum virem famí-
lias inteiras, ou parte delas, para se tratar com as águas minerais. Os escravos
provavelmente acompanhavam a família para auxiliá-la na viagem e nas ocupa-
ções domésticas durante a estada em Minas. Em alguns casos, este número era
bem expressivo. Natural da vila de Barra Mansa, província do Rio de Janeiro, o
comendador Lucas Antônio Monteiro de Barros, por exemplo, além de parte
da família, sua mulher e três filhos, trouxe também seis senhoras e onze
escravos. Já se teve oportunidade de comentar as dificuldades enfrentadas
pelos que se aventuravam a transpor a serra da Mantiqueira em direção à
Corte e vice-versa. Talvez essas viagens fossem mais complicadas quando
envolvessem famílias. Seguramente os escravos atuavam como carregadores
das bagagens e das liteiras, com as suas respectivas senhoras.
Em meados de dezembro de 1836, quando Evaristo Ferreira da Veiga
veio a Minas para visitar seus irmãos em Campanha, ao passar pela serra
do Picu, em virtude da topografia íngreme e das chuvas constantes, sua
esposa foi obrigada a abandonar a liteira em que viajava, de certo carregada
por mais de um escravo. “Bastante nos custa a descida da serra do Picu,
efetuada em tempo de chuva e aonde a Edelthrudes foi obrigada a apiar-se
(sic) da liteira.”125
As queixas mais comuns por parte dos que buscavam nas águas a cura
para seus males eram as moléstias relativas ao estômago. No caso específico
das senhoras, as do ventre. Parece que havia uma crença de que o uso das
águas poderia curar inflamações e problemas do útero. Em outros mapas,
não apresentados aqui, também aparecem doenças ligadas aos intestinos, aos
pulmões e ao reumatismo, entre outras. Outro aspecto que chama a atenção
no mapa selecionado é a procedência dos usuários das fontes hidrominerais.
Vinham pessoas de várias partes da província de São Paulo e do Rio de Janeiro,
além das vilas e dos distritos vizinhos. Também é importante destacar o
extenso período que algumas famílias permaneciam em tratamento, às vezes
ultrapassando trinta dias. Embora não se tenha elementos mais concretos
para avaliar o impacto socioeconômico da permanência prolongada dessas
famílias, não é difícil especular a importância da atividade para a região e

125. BN, Cartas de Evaristo Ferreira da Veiga ao irmão João Pedro da Veiga, em 13/12/1836, I-02.

191
para a província, tanto que o uso das águas era regulamentado e fiscalizado
pela presidência da província. Apesar de a documentação se referir à déca-
da de 1850, o potencial de cura das águas de Campanha já era conhecido e
discutido desde 1840. Esse tipo crença também está presente no nome que
recebeu o distrito que continha as fontes hidrominerais: Águas Virtuosas
da Campanha. O uso dessas águas, por mineiros ou forasteiros, representou
um ramo importante da economia sul-mineira, que deve ser compreendido
de forma integrada às demais atividades voltadas para o abastecimento de
Minas e de outras províncias.

Quadro 2
Mapa das famílias que fizeram uso das Águas Virtuosas da Campanha (1853)
Dia de Dias de aproveita-
Nomes Moléstias Residência
chegada mento das águas
João Gomes Marcondes
de Araújo, sua mulher, a mulher, do Vila da Barra ainda se acha no
1/10
dois filhos e quatro estômago Mansa uso das águas
escravos

Com. Lucas Antônio


Monteiro de Barros, sua Vila da Barra a 3 de novembro,
1/10 estômago
mulher, três filhos, seis Mansa melhor
senhoras e onze escravos

Doutor João Caetano da Vila da Barra a 3 de novembro,


1/10 estômago
Silva e um escravo Mansa melhor

Antônio Pereira Leite,


a mulher e o
sua mulher, duas filhas, Cidade do a 31 de outubro,
1/10 cunhado, do
um cunhado e mais uma Bananal melhoras
estômago
senhora e nove escravos

Francisco Pereira Leite


Barreto, duas irmãs, um as senhoras, Cidade de a 22 de novembro,
5/10
cunhado, um camarada e do ventre Resende melhoras
quatro escravos
João Pereira Leite, sua
o dito, feri-da
mulher, uma filha, um São João de a 23 de novembro,
11/10 em um dedo
camarada, uma agregada Queluz melhoras
do pé
e três escravos

192
Dia de Dias de aproveita-
Nomes Moléstias Residência
chegada mento das águas
Capitão Francisco
Antônio Pinto, sua as senhoras, Freguesia do a 30 de novembro,
12/10
mulher, duas filhas, um estômago Carmo melhoras
genro e seis escravos
Doutor Joaquim José
Teixeira Leite, sua mu- o dito, Vila de a 1o de dezembro,
12/10
lher, duas filhas e oito estômago Vassouras melhor
escravos
Dona Ana Vitória da
a 6 de novembro; a
Fonseca, uma irmã, a 1a e a 2a, Cidade da
12/10 1a, no mesmo esta-
uma sobrinha e quatro estômago Campanha
do; a 2a, me-lhorou
escravos

Dona Maria do Carmo da a 1a, incô-


Freguesia da a 6 de novembro,
12/10 Fonseca, três filhas, duas modo de
Campanha no mesmo estado
agregadas e três escravos olhos

Carlos Firmino Brandão,


sua mulher, um cunhado, a senhora, São João de a 15 de novembro,
13/10
uma agregada e três ventre Queluz melhor
escravos
Dona Cândida Bernarda Cidade da a 9 de novembro,
26/10 estômago
de São José Campanha melhor
Fonte: CEMEC-SM, Mapas das famílias e pessoas que fizeram uso das Águas Virtuosas
no quarto trimestre do ano de 1853.

As tropas e os tropeiros tiveram uma importância destacada na formação


social mineira, desde o início do século XVIII, contribuindo para o surgi-
mento e o desenvolvimento de vários núcleos populacionais, constituídos
a partir dos pousos, das tavernas e das áreas de invernadas, existentes ao
longo dos caminhos que ligavam Minas às principais províncias do Império.
Também no sul de Minas, o tropeirismo126 foi responsável pela articulação
entre o mundo rural e o urbano, pelo desenvolvimento e o surgimento de
várias unidades agropastoris e povoações. Algumas cidades ainda conservam

126. Termo cunhado pela historiografia para definir as atividades relacionadas com a cria-
ção de tropas de mulas, oriundas dos campos do Rio Grande do Sul, desde o século XVIII.
Também se refere ao comércio de mercadorias realizado em lombo de burros para atender
às necessidades de consumo do interior da Colônia e, posteriormente, do Império. Este
tipo de transporte dominou a paisagem brasileira até a segunda metade do século, quando
começou a sofrer concorrência com as estradas carroçáveis e, posteriormente, com a che-
gada da ferrovia, a partir de 1870. Ver Sheila de Castro Faria. Tropeirismo. In: VAINFAS,
Ronaldo: Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 705-707.

193
sua toponímia relacionada a este tipo de atividade, como é o caso de Pouso
Alto e Pouso Alegre.
A expansão demográfica e econômica sul-mineira, nas primeiras dé-
cadas do século XIX, tem muita relação com a intensificação do comércio
por meio de tropas de muares. A ausência de saídas fluviais e marítimas fez
com que este tipo de comércio fosse largamente utilizado e toda e qualquer
espécie de mercadoria saía de Minas e a ela chegava em lombo de burros.
Evidentemente, havia algumas rotas fluviais internas, mas o grosso do co-
mércio de mercadorias era feito por meio de tropas de bestas de carga.
Além das tropas, o termo tropeirismo está associado obviamente à
figura social do tropeiro. O dicionarista português Antônio de Moraes nos
oferece algumas pistas sobre a origem etimológica desses termos, conside-
rados genuinamente brasileiros. A expressão tropa se referia a “bestas de
carga, que fazem o transporte de mercadorias, onde não há vias férreas, ou
fluviais, e seguem com os seus condutores como que em caravanas”. Já o
tropeiro remetia ao “condutor de tropas; homem que viaja com cavalgaduras
de carga, e cáfila, onde não há vias férreas e fluviais, negociante que compra
e vende tropas de muares”.127
Percebe-se, pela definição do dicionarista, que o termo tropeiro poderia
remeter-se tanto ao “condutor de tropas”, quanto ao “negociante que compra
e vende tropas”. É justamente na caracterização social do tropeiro que se
desenvolveu o debate entre os estudiosos do tema. Dada a polissemia do
termo, surgiram interpretações divergentes acerca do lugar ocupado por
esses homens na hierarquia social da época.
Maria Silvia de Carvalho Franco considerou o tropeiro um tipo social
hierarquicamente inferior, subordinado ao poder dos grandes proprietários,
dos quais dependia para manter os animais nos pastos das fazendas. A relação
de dependência para com o grande proprietário poderia ainda ser maior, uma
vez que muitos condutores de tropa faziam parte do pessoal da fazenda.128
Mafalda Zemella salienta os traços característicos que o tropeiro adqui-
riu, na medida em que garantia o abastecimento das Gerais. Num primeiro

127. Antônio de Moraes e Silva, Diccionario da Língua Portugueza. Lisboa, Typ. Lacerdina, 1813.
128. Maria Sílvia de Carvalho Franco, Homens livres na ordem escravocrata, p. 60-77.

194
momento, “teve qualquer coisa de antipático”, pela função de especulador
que exercia no comércio dos gêneros. Esta imagem se reverteria algum
tempo depois, em virtude do papel social que também passou a desempe-
nhar, sendo portador de notícias, recados, cartas, além de responsável pela
difusão das novidades da política e da moda, articulando os núcleos urbanos
e as áreas rurais. Este aspecto já havia sido ressaltado, pioneiramente, por
Pandiá Calógeras, em 1927, quando o autor chamou a atenção para o sentido
social que o tropeiro representava em uma sociedade com vários núcleos
populacionais distantes da Corte e extremamente carente de informações.
O tropeiro acabava se tornando um agente de extrema importância para
os proprietários do interior, pois os colocavam a par não só das novidades
políticas, mas também das variações comerciais. A função requeria vários
atributos e exigia alguma instrução e certo capital, o que levou o autor a
concluir que o tropeiro pertencia à “gente melhor da província”.129
José Alípio Goulart definiu-o como “patrão”, “dono da tropa”, “empre-
sário dos transportes”, dando especial destaque para a fortuna que se podia
acumular no exercício da atividade.130 Acaba por reforçar os argumentos de
Mafalda Zemella, que também enfatiza o caráter especulativo da ocupação
e o enriquecimento advindo do comércio de mercadorias destinadas ao
abastecimento das Minas.131
Talvez seja Alcir Lenharo o autor que mais nos aproxima do universo
social do tropeiro, ao demonstrar que a categoria, quase sempre, aparece
como um tipo social indefinido, podendo ser “ofuscado pela parametragem
detida sobre a categoria proprietário, densa e absolutizada, de quem o tro-
peiro se apresenta como se fosse apenas uma sombra”.132
Na documentação analisada por Lenharo, raramente o tropeiro é visto
como uma categoria especializada. Os termos mais recorrentes são “ne-
gociante”, “aquele que vive de negócio” e “negociante de tropas”, “solta” ou
“carregada”.133 E também há vários proprietários que exerciam a atividade de

129. Pandiá Calógeras, Transportes archaicos, apud Alcir Lenharo, op. cit., p. 108.
130. José Alípio Goulart, Tropas e tropeiros...
131. Mafalda Zemella, op. cit.
132. Alcir Lenharo, op. cit., p. 110.
133. Idem.

195
tropeiro, apresentando-se nesses casos as categorias proprietário/tropeiro
associadas. Os homens mais abastados do sul de Minas poderiam ser de-
finidos como fazendeiros/negociantes, na medida em que eram donos de
terras e escravos e estavam envolvidos direta ou indiretamente no comércio
dos seus produtos (ver capítulos 2 e 4).134
O tropeirismo também foi bastante enfatizado por alguns autores da
literatura brasileira, especialmente por aqueles que enfatizaram o papel
social desempenhado pelo tropeiro ao atuar como um arauto de notícias e
como um elo de ligação entre o mundo urbano e rural. Neste contexto cabe
mencionar o romance A menina morta, de Cornelio Penna. O enredo das
histórias é ambientado no século XIX e se desenvolve em Porto Novo, às
margens do Rio Paraíba, em uma fazenda escravista denominada Grotão.
É do autor uma brilhante passagem sobre a comoção que poderia causar a
chegada de uma tropa vinda da Corte.
“Quando era anunciada a aproximação das tropas (...) todos se reuniam
sob as telhas do alpendre, na esperança de trazerem cartas e jornais, e
logo ao surgir a madrinha, carregada de cincerro e guizos no peitoral,
a soarem estranhamente alegres na atmosfera grisalha, logo seguida
pelos outros animais de carga, cobertos pelas bruacas reluzentes de
água, eram recebidas entre exclamações, dominadas pelos gritos dos
escravos acorridos para prendê-las pelos cabrestos e levá-las até junto
da sala dos arreios, onde eram descarregadas”.135

Saint-Hilaire, em sua passagem pela comarca do Rio das Mortes, não


deixou de registrar suas impressões a respeito daqueles indivíduos que se
dedicavam à atividade de conduzir tropas, destacando-lhes o tipo social,
físico e a indumentária.
Existem entre eles tanto brancos quanto mulatos. Como se acostumam
cedo a longas caminhadas e ao regime frugal, são em geral magros e
bastante altos. Dão em geral passadas enormes; o rosto lhes é estreito
e comprido; de todos os mineiros são talvez os de fisionomia menos
expressiva. Andam com os pés e pernas nus e um grande bastão à mão;

134. Este também foi o quadro encontrado por Cláudia Chaves para Minas Gerais no século
XVIII. Cláudia Maria das Graças Chaves, Perfeitos negociantes, cap. 2.
135. PENNA, Cornelio. A menina morta, p. 1192.

196
usam chapéu de aba estreita, copa muito alta e arredondada; vestem
calção e camisa de algodão cujas fraldas passam sobre o calção, colete
de pano de lã grosseira e geralmente azul-claro.136

Quando o viajante passou pelo registro da Mantiqueira, atentou para a


profusão de tropas que passavam por aquele posto fiscal, apesar das chuvas
intensas. Muitas dessas tropas pertenciam a ricos proprietários da vizinhança,
conduzidas por seus filhos, e levavam fumo para o Rio de Janeiro. “Um dos
proprietários dessas tropas possui 300.000 cruzados, e todavia seus filhos
tangem os burros.” Seguindo a sua narrativa, comentou a importância do
fumo como principal moeda de troca na aquisição de escravos, o que acabava
fazendo a fortuna de muitos fazendeiros-negociantes. “Os proprietários ricos
daqui têm mais ou menos o mesmo gênero de negócios que os de Minas
Novas. Vão procurar negros no Rio de Janeiro; revendem-nos a longo prazo
aos cultivadores menos abastados, aceitam fumo em troca e ganham assim
muitas vezes o valor de seu capital.”137
A conexão mercantil entre as províncias de Minas Gerais, Rio de Janeiro
e São Paulo se fez presente na narrativa do botânico francês, quando des-
taca que a vila da Cachoeira tornou-se a rota preferida dos tropeiros que
saíam de Baependi e redondezas, em direção à Corte, abarrotado de fumo
e retornavam com várias mercadorias, em especial o sal.
A vila da Cachoeira compõe-se apenas de uma dezena de casas e não
passa de distrito da vila de Lorena. Ali se encontram algumas lojas e
vários ranchos. Os ferradores são bastante numerosos, seu trabalho tem
muita reputação na região. A cidade de Cachoeira é lugar de passagem
de todas as tropas que vão ao Rio saindo de Baependi e redondezas;
partem para a capital carregadas de fumo e voltam cheias de sal.138

Na documentação pesquisada sobre a família Junqueira, foram encon-


trados fortes indícios dessa relação de complementaridade entre atividade
agropecuária e mercantil, incluindo o tráfico interno de escravos. Os pro-
prietários mais bem-sucedidos da família exerciam, ainda que esporadica-
mente, a atividade de tropeiros. Este parece ser o caso do proprietário da

136. Augusto de Saint-Hilaire. Segunda viagem..., p. 22.


137. Ibidem, p. 67.
138. Ibidem, p. 70.

197
fazenda Traituba, coronel João Pedro Diniz Junqueira, que algumas vezes
foi obrigado a adquirir passaportes para transportar mercadorias e escravos
da Corte para Minas Gerais. Passou pela Intendência da Polícia nada menos
que quatro vezes, entre os anos de 1815, 1816, 1819 e 1830, remetendo dezenas
de escravos novos para o interior das Minas Gerais, que, certamente, tinham
como destino as fazendas de sua família e também as de outros grandes
proprietários da região. “João Pedro Diniz Junqueira remete para a vila de
Resende noventa e três escravos novos do que prestou a competente fiança...”139
Segundo João Luís Fragoso e Roberto Ferreira Guedes, os melhores
tropeiros do sudeste provinham de Minas Gerais e dominavam o comér-
cio de escravos e mercadorias tanto para Minas, como para os municípios
fluminenses. O fato de muitos proprietários/tropeiros mineiros optarem
por declarar os municípios fluminenses como seu destino poderia ser uma
estratégia para pagarem menos impostos aos oficiais da Intendência de
Polícia, uma vez que a tributação sobre escravos e mercadorias para Minas
era bem maior do que a cobrada para as vilas do interior fluminense.140
Os livros de memória da família Junqueira constituem-se em boas fontes
para se investigar o lugar social do tropeiro e de que maneira poderia se
integrar a um núcleo familiar de certa notoriedade social. Segundo Adélia
Diniz Junqueira Bastos, havia um empregado de confiança da família que
era tropeiro, chamado João José de Carvalho, e pertencia a uma antiga
família de Campanha.141 Responsável pelo registro das contas da fazenda,
ele fiscalizava os depósitos e acompanhava as tropas que se dirigiam ao Rio
de Janeiro, levando toucinho, couro e queijo, retornando carregadas de sal
e outras mercadorias.
De acordo com a autora, tratava-se de um empreendedor ambicioso,
e conta-se que, uma vez, vindo do Rio de Janeiro em direção a Minas, no
primeiro ou segundo pouso acabou se encontrando com um negociante
que necessitava de uma tropa que levasse uma encomenda urgente para a
Corte. João José de Carvalho providenciou para que as suas mercadorias

139. AN, Códice 421, v. 5, 2/3/1815.


140. João Luís Fragoso e Roberto Guedes Ferreira, Alegrias e artimanhas de uma fonte
seriada, p. 253.
141. A esse respeito, ver capítulo 4.

198
ficassem guardadas naquele pouso e desceu a serra novamente, de volta
ao Rio. Na fazenda do Favacho, os proprietários já estavam impacientes
com a sua demora e enviaram alguém ao seu encontro, o que ocorreu no
primeiro dia de marcha. Dadas as devidas explicações a seus patrões, a
viagem para o Rio de Janeiro saíra de graça, além de ter trazido algum
dinheiro para a fazenda.142
Outro aspecto importante salientado por Adélia Diniz é que esse tro-
peiro acabou casando na família Junqueira, com a moça que conheceu ao
acompanhar Francisco Antônio Junqueira, sobrinho do barão de Alfenas,
quando este ia noivar na fazenda Traituba. Casou-se com Helena Fausta,
filha de Gabriel de Sousa Diniz e Maria Francisca da Encarnação Junqueira,
irmã da noiva de Francisco Antônio Junqueira.143
Como a historiografia tem demonstrado, o caminho para o enriqueci-
mento e a formação de fortunas estava na prática de atividades mercantis,
incluindo aí o transporte de mercadorias nos lombos de burro e o comércio
de escravos. A atividade agrícola por si só não era geradora de grande ri-
queza, embora denotasse prestígio social. Ainda no século XIX, o comércio
continuava sendo mal visto, herança do Antigo Regime português, que con-
siderava como portadores de “defeito mecânico” os que trabalhavam com
as mãos. A estratégia para se desvincular de tal herança poderia residir na
omissão das ocupações ligadas ao comércio, ou no estabelecimento de enla-
ces matrimoniais com membros de famílias detentoras de terras e escravos.
No próximo capítulo, serão abordadas com mais pormenores a trajetó-
ria da família Junqueira e a maneira que encontrou para amealhar fortuna
e conquistar prestígio social e político ao longo da primeira metade do
século XIX.

142. Adélia Diniz Junqueira Bastos, op. cit.


143. Francisco Antônio Junqueira e João José de Carvalho acabaram migrando para o nor-
deste paulista e ocuparam grandes glebas de terra naquela área (a respeito, ver capítulo 4).

199
1 - Vista frontal da fazenda Bela Cruz. Percebe-se que foram retiradas duas janelas de
ambos os lados, que faziam parte da estrutura original da construção. Trata-se de uma
segunda sede, construída na segunda metade do século XIX, algumas décadas após a
rebelião dos escravos, em 1833. Cruzília/MG. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de
Lilo, novembro de 2003.

2 - Vista parcial da fazenda pelos fundos. Pode-se observar a senzala,os muros de pedra
que separam a sede do curral. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

200
3 - Uma das senzalas da fazenda, a única que resistiu à ação do tempo. Fonte: Acervo
particular do autor, novembro de 2003.

4 - Vista da senzala pelos fundos. Destaque para a construção em pau a pique. Fonte:
Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

201
5 - Detalhe do muro de pedra que divide as partes internas da fazenda (pomar, currais
etc.). Fonte: Acervo família Junqueira. fotos de Lilo, novembro de 2003.

6 - Detalhe do muro de adobe que cerca parte da fazenda. Fonte: Acervo família Junqueira.
Fotos de Lilo, novembro de 2003.

202
7 - Curso d’água para atender as diversas demandas da fazenda,especialmente para o
funcionamento do moinho. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro
de 2003.

8 - Fazenda Boa Vista. Cruzília/MG. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

203
9 - Vista parcial da sede da fazenda com destaque para parte do pomar. Fonte: Acervo
família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

10 - Fazenda Narciso. Cruzília/MG. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

204
11 - Vista lateral da fazenda Angaí. Cruzília/MG. Esta sede sofreu inúmeras transformações
e está bastante descaracterizada. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

12 - Fazenda Angaí. Espaço para amansar cavalos e ao fundo pode-se ver um paiol. Fonte:
Acervo particular do autor, novembro de 2003.

205
13 - Pequena capela no interior da fazenda, com as imagens, cálices, patenas, missais,
toalhas e paramentos. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

14 - Vista lateral da fazenda Campo Lindo. Cruzília/MG. Fonte: Acervo particular do


autor, novembro de 2003.

206
15 - Vista frontal da fazenda. Segunda sede, construída em 1870. Fonte: Acervo família
Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

16 - Grande oratório localizado no interior da sede da fazenda Campo Lindo. Fonte:


Acervo particular do autor, novembro de 2003.

207
17 - Vista frontal da fazenda do Favacho. Cruzília/MG. Fonte: Acervo família Junqueira.
Fotos de Lilo, novembro de 2003.

18 - Vista lateral da fazenda do Favacho. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo,
novembro de 2003.

208
19 - Relógio de parede (carrilhão) da fazenda do Favacho. Fonte: Acervo família Junqueira.
Fotos de Lilo, novembro de 2003.

20 - Capela de São José do Favacho, benta em 1º de janeiro de 1761. Fonte: Acervo família
Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

209
21 - Pintura da fazenda Traituba com base na foto mais antiga. Observa-se que a sede
antiga era constituída de dois pavimentos, mais um mirante no meio. Fonte: Acervo
família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

22 - Perspectiva da fazenda Traituba em 1827, com base nos vestígios encontrados na


sede atual e em informações da família. In: Petrônio T. Nicoliello e Evandro de Barros
Carvalho. Levantamento arquitetônico, histórico e reconstituição da fazenda Traituba.
Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

210
23 - Vista frontal da sede atual da fazenda Traituba. Cruzília/MG. Fonte: Acervo particular
do autor, novembro de 2003.

24 - Vista lateral da fazenda. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

211
25 - Portal heráldico que circunda a sede da fazenda. Fonte: Acervo particular do autor,
novembro de 2003.

26 - Detalhe do portal principal de entrada da fazenda, ricamente trabalhado em pedra-


sabão. Fonte: Acervo particular do autor, novembro de 2003.

212
27 - Detalhe do portal heráldico da entrada, onde se pode constatar a seguinte referência:
“Anno de N. S. J. C . 1831”, data de finalização da construção da sede da fazenda. Fonte:
Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

28 - Vista parcial da fazenda, pelos fundos. Fonte: Acervo particular do autor, novembro
de 2003.

213
29 - Móvel do interior da sala onde se guardavam bengalas, cajados, chapéus etc. Fazenda
Traituba. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos de Lilo, novembro de 2003.

30 - Cama, com detalhes em marchetaria na cabeceira. Segundo a tradição familiar, esta


foi construída para receber o imperador d. Pedro I. O fato não se concretizou, pois em
abril de 1831 ocorreu a abdicação do monarca. Fonte: Acervo família Junqueira. Fotos
de Lilo, novembro de 2003.

214
31 - Coronel João Pedro Diniz Junqueira, proprietário e construtor da fazenda Traituba,
localizada no atual município de Cruzília-MG. Óleo s/tela. s/a.,s/d. Fonte: Acervo família
Junqueira. Fotos de Arnaldo Pereira, 2004. Os quadros originais se encontram expostos
na sala principal da fazenda Traituba, em Cruzília (MG).

32 - José Frauzino Junqueira, filho do capitão João Francisco Junqueira (filho), segundo
proprietário da fazenda Traituba. Óleo s/ tela., s/a., s/d. Fonte: Acervo família Junqueira.
Fotos de Arnaldo Pereira, 2004. Os quadros originais se encontram expostos na sala
principal da fazenda Traituba, em Cruzília (MG).

215
216
33 - São Tomé das Letras, 1876. Óleo sobre madeira. Pintura de Nicolau Facchinetti. Coleção particular, Rio de Janeiro. Fonte: Cópia digital
feita a partir da publicação do catálogo da obra de Nicolau Facchinetti. Facchinetti. Curadoria de Carlos Martins e Valéria Piccoli; textos de
Carlos Martins, Valéria Piccoli e Maria Pace Chiavari. Rio de Janeiro: CCBB, 2004.
34 - Vista da cidade da Campanha da Princesa, do alto do morro de Santa Cruz. Litografia
realizada no Rio de Janeiro a pedido de Bernardo Saturnino da Veiga, em 1847. Fonte:
CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de Araújo Ferreira Lopes”.

35 - Vista parcial da cidade Campanha – década de 1930 (Em que pese todas as modifi-
cações sofridas ao longo do século XIX, percebe-se que o traçado principal da cidade se
manteve até as primeiras décadas do século XX, incluindo parte do casario oitocentista).
Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de Araújo Ferreira Lopes”.

217
36 - Matriz de Santo Antônio – 1894. Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino
de Araújo Ferreira Lopes”.

37 - Procissão na antiga Rua Direita – 1900. Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico


“Paulino de Araújo Ferreira Lopes”.

218
38 - Prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia de Campanha – s/d (provavelmente
do final do século XIX). A edificação está restaurada e ainda funciona como sede da
instituição. Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de Araújo Ferreira Lopes”.

39 - Casarão da esquina da antiga Rua Direita com a praça Dom Ferrão, que depois se
tornou o primeiro palácio episcopal. O sobrado ainda existe e está em bom estado de
conservação. (início do século XX). Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de
Araújo Ferreira Lopes”.

219
40 - Teatro São Cândido, localizado no largo da Matriz – Cidade de Campanha-MG
(início do século XX). Depois da primeira reforma, transformou-se no Teatro Municipal
que, posteriormente, foi demolido, dando lugar a um cinema. Atualmente, o local fun-
ciona com um centro de convenções. Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino
de Araújo Ferreira Lopes”.

41 - Interior do Teatro São Cândido – Campanha/MG (início do século XX). Fonte:


CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de Araújo Ferreira Lopes”.

220
42 - Antigo solar dos Ferreira e sede da Escola Normal de Campanha (em 1929). Esse
prédio foi construído pelo avô materno de Francisco de Paula Ferreira de Rezende, em
1831. Além de residência particular, serviu de sede do governo provisório do movimen-
to separatista que pretendeu criar o estado de Minas Gerais do Sul, com a capital em
Campanha (31/1 a 21/4/1892). Fonte: CEMEC-SM, acervo fotográfico “Paulino de Araújo
Ferreira Lopes”.

43 - Antigo Solar dos Ferreira em chamas, 30/5/1996. O prédio incendiou-se por uso ina-
dequado de suas dependências, resultando em uma perda irreparável para o patrimônio
histórico edificado da cidade. Parte dos cômodos foi utilizada para o funcionamento
de uma fábrica de sapatos, com uso de maquinário pesado, fiação exposta, depósito de
materiais que facilitavam a propagação do fogo, como por exemplo, estopas, couro, cola
etc. Cerca de um mês antes da tragédia, houve a visita de um técnico do Instituto Estadual
do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de Minas Gerais (IEPHA) e constatou-se
a situação de risco e a utilização irregular do prédio. Um projeto de restauração e uso
cultural do casarão estava em andamento quando ocorreu o incêndio. Fonte: Foto de
Almir Ferreira Lopes.

221
44 - Cachorra “Inglesa” e sua prole, 1912/1913. Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho
de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira“.
Documentação particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

45 - Garoto segurando a cachorra “Gazela”, acompanhada de sua prole. Fazenda da


Traituba – 19/2/1913. Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho de caçadas desde
1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira“. Documentação particular
pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

222
46 - Cachorros “Irajá” e “Fidalgo”, s/d. Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho de
caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira“. Documentação
particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

223
47 - Walter e cachorrada da Traituba. Destaque para o cão chamado “Capitólio”, s/d.
Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças
mortas por João Oswaldo Junqueira“. Documentação particular pertencente a Samuel
Junqueira, Cruzília (MG).

48 – Fazendeiros se preparando para uma caçada. Da esquerda para a direita: Bilota,


Waldemar, Manuel Furtado, Loreto, Otto, Ramiz, Celso Torquato. Fazenda Narciso, s/d.
Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças
mortas por João Oswaldo Junqueira“. Documentação particular pertencente a Samuel
Junqueira, Cruzília (MG).

224
49 - Major Flausino, Otto, Loreto, Bilota, Waldemar e Bentinho se preparando para mais
uma caçada. Fazenda do Favacho, s/d. Fonte: as fotos originais estão no “Canhenho de
caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo Junqueira“. Documentação
particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

50 - Término de mais uma caçada e exibição de um animal abatido pelas armas dos
caçadores. Não foram mencionadas nem a fazenda, nem a data. Fonte: as fotos originais
estão no “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo
Junqueira“. Documentação particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

225
51 - Fim de mais uma caçada. Parece tratar-se de uma foto tirada nos currais da fazenda
Traituba. Destaque para o negro segurando um veado abatido pelos caçadores. A cachorra
Fidalga mereceu destaque, talvez por ser uma cadela boa de caça. Fonte: as fotos originais
estão no “Canhenho de caçadas desde 1880. Relação das caças mortas por João Oswaldo
Junqueira“. Documentação particular pertencente a Samuel Junqueira, Cruzília (MG).

52 - Francisco Marcolino Diniz Junqueira, “Capitão Chico”, e seu cachorro Piano. Baependi-
MG, 1867. Alguns descendentes que migraram para o Nordeste Paulista tinham o hábito
de se encontrar com seus parentes nas fazendas da Traituba e Favacho para participarem
de caçadas. Fonte: Acervo família Junqueira.

226
53 - Caçada na fazenda Rio Morto, município de Guarantã-SP, de propriedade do coronel Joaquim da Cunha Diniz Junqueira, 1928. Fonte:
Acervo família Junqueira.

227
4

Fortuna, família e poder na região dos Campos:


o caso Junqueira

Década de 1750, termo da vila de São João del-Rei, comarca do Rio das
Mortes. Neste período e local teve início a trajetória de uma das grandes
famílias da elite do sudeste escravista mineiro, a família Junqueira, que
construiu sua tradição, fortuna e poder consorciando diversas atividades
em suas fazendas, articuladas ao setor do abastecimento interno e à praça
mercantil carioca. Como qualquer outra história, essa também foi marcada
por revezes e infortúnios que colocaram em xeque o poder, o prestígio e a
fortuna familiar.
A saga da família teve início com a chegada do português João Francisco,
natural de São Simão da Junqueira, à comarca do Rio das Mortes por volta
de 1750. Ali ele se estabeleceu e deixou numerosa descendência. Na ter-
ceira década do século XIX, as propriedades de seus filhos estavam entre
as melhores e as mais bem equipadas, com grande número de cabeças de
gado, cavalos e porcos, vendendo grande parte de sua produção na Corte.
A importância socioeconômica da família também se refletiu na política,
pois um de seus membros, Gabriel Francisco Junqueira, tornou-se deputado
geral da província de Minas, por várias legislaturas seguidas, ao longo da
década de 1830.
A importância das propriedades da família Junqueira podia ser perce-
bida pelo número de escravos que nelas havia. De modo geral, era superior
a trinta cativos, coisa rara no cenário escravista mineiro naquela época e, em
algumas delas, podia chegar a cinquenta ou mesmo a mais de cem. Justamente
no início da década de 1830, parte da família sofreu um duro golpe, quando

229
nove de seus membros foram brutalmente assassinados na maior rebelião de
escravos do sudeste brasileiro de que se tem notícia (ver capítulo 5).
Pretende-se, aqui, reconstituir parte dessa trajetória, destacando as es-
tratégias1 familiares, econômicas e políticas que contribuíram para o sucesso
e a consolidação do nome da família.2 Em que medida o estudo de caso pode
ser considerado um exemplo típico da trajetória de uma família da elite, no
tempo do Império, levando em conta alguns dos elementos que constituem
o modelo de família extensa e do tipo patriarcal? Que espécie de correlação
pode ser estabelecida entre as atividades ligadas ao abastecimento interno e
aos vínculos mercantis com a praça carioca e o enriquecimento da família?
Quais foram as estratégias familiares adotadas para consolidar o poderio
econômico e político no sul de Minas e em outras áreas do Império? Qual
a importância de alguns segmentos da família no cenário político local,
provincial e nacional? Essas e outras questões serão objeto de investigação
deste capítulo.
Para isto, serão examinadas fontes diversas – e não poderia ser dife-
rente. Os estudos já realizados sobre a família, como memórias, genealo-
gias e mesmo alguns trabalhos acadêmicos, serão devidamente incluídos e
analisados. Dentre as fontes primárias, cabe citar inventários, testamentos,
listas nominativas de habitantes, registros paroquiais, processos, anais do
parlamento nacional, documentação particular e fotografias, entre outras.
Como afirma Edward Thompson, ao se reportar aos estudos sobre
a relação entre a aristocracia e os trabalhadores pobres da Inglaterra no
século XVIII, as fontes sobre a elite existem em profusão, até porque havia

1. O conceito de estratégia utilizado está muito próximo da compreensão do significado do


termo empregado por Giovanni Levi, ao analisar a trajetória de um exorcista no Piemonte do
século XVII. “[...] a participação de cada um na história geral e na formação e modificação
das estruturas essenciais da realidade social não pode ser avaliada somente com base nos
resultados perceptíveis: durante a vida de cada um aparecem, ciclicamente, problemas,
incertezas, escolhas, enfim, uma política de vida cotidiana cujo centro é a utilização estra-
tégica das normas sociais.” Giovanni Levi, A herança imaterial, p. 45.
2. Alguns destes aspectos foram brevemente trabalhados em minha dissertação de mes-
trado, no capítulo 5, no tópico “Fortuna, família e poder na região dos Campos”. Naquela
época, meu objetivo era discutir, ainda que brevemente, parte da trajetória da família,
com a finalidade de compreender melhor o contexto da Revolta de Carrancas, ocorrida
em algumas propriedades da família, no ano de 1833. Ver Marcos Ferreira de Andrade,
Rebeldia e resistência, p. 162-174.

230
grande interesse em registrar certos acontecimentos para as gerações futuras,
destacando um tempo de opulência e poder. O historiador é capaz de “se
identificar facilmente com suas fontes: ele se vê cavalgando atrás dos cães
de caça, comparecendo a uma sessão trimestral do tribunal” e de perceber,
através dos documentos, muito do cotidiano das elites.3 Parte deste exercício
já foi empreendido no capítulo anterior, no qual se destacou a importância
das caçadas para a família Junqueira. Por outro lado, a profusão de registros
pode causar certa angústia e é preciso que o historiador fique atento aos
objetivos da pesquisa para não se perder no emaranhado de informações
contidas nos inúmeros registros, até porque, como acertadamente afirmou
Marc Bloch, as fontes têm mais a dizer naquilo que procuram esconder.4

1. Campo Alegre e Favacho: berço da família Junqueira


Assim como muitos portugueses pobres do norte de Portugal, João
Francisco veio tentar a sorte no Brasil, especialmente nas Minas Gerais,
onde o fausto do ouro ainda exercia grande fascínio sobre os lusitanos.5
Pelo processo de genere et moribus,6 elaborado para a ordenação sacerdotal
de seu terceiro filho, entre os mais velhos, João Francisco descendia de
família pobre de camponeses, todos moradores na freguesia de São Simão
da Junqueira, termo de Barcelos, arcebispado de Braga. Seu pai e os avós
paternos “viviam de uns limitados bens que tinham”.7

3. Edward Palmer Thompson, Costumes em comum, p. 26.


4. Marc Bloch, Introdução à história.
5. Seguindo o costume de seus patrícios, incorporou ao seu nome o da aldeia onde nasceu.
Maiores informações sobre a origem da família podem ser encontradas em outras obras,
como Lucila Reis Brioschi, Família e genealogia, p. 174-178; Leonel Junqueira, Genealogia das
famílias “Junqueira” e “Forastiere”, p. 12-15; Frederico de Barros Brotero, Memória e tradições
da família Junqueira; José Guimarães, As três ilhoas, p. 183-250. Em publicação recente,
ricamente documentada, José Américo Junqueira de Mattos fornece maiores informações
sobre a ascendência de João Francisco, resultado de pesquisas em arquivos portugueses.
Ver Família Junqueira: sua história e genealogia, p. 29-82.
6. Processo eclesiástico que era elaborado com o objetivo de investigar a vida pretérita do
aspirante ao sacerdócio.
7. Processo de genere et moribus da ordenação de Francisco Antônio Junqueira. Cúria
Metropolitana de Mariana, n. 504. Documento citado e transcrito, em parte, por José
Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 679.

231
Ainda moço, com pouco mais de vinte anos, João Francisco chegou à
comarca do Rio das Mortes. Em 16 de janeiro de 1758, casou-se em São João
del-Rei, na capela do Carmo, com Elena Maria do Espírito Santo, brasileira,
descendente de portugueses,8 filha de Antônia da Graça, uma das lendárias
três ilhoas que imigraram para as Minas Gerais no início século XVIII e
formaram os principais troncos familiares da comarca do Rio das Mortes.
Delas descendem as famílias Junqueira, Rezende, Franco, Carvalho, Meireles,
Guimarães e Garcia, entre outras. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, ao
comentar a sua origem familiar, faz a seguinte observação acerca desta história:
Eram três irmãs que, tendo vindo para Minas, logo que esta província foi
descoberta, aqui se casaram e tornaram-se os troncos das três grandes
famílias de Rezendes, Carvalhos e Junqueiras, que, entrelaçando-se,
há tantos anos, com tantas outras, hoje cobrem quase todo o centro e
o sul de Minas e uma grande parte de São Paulo.9

A perspectiva da família-tronco é muito cara aos genealogistas e aos


memorialistas, mas, neste trabalho, não tem tanta importância. Considerando
o estudo de caso analisado, interessa apontar o papel desempenhado pelo
mercado matrimonial, como uma estratégia de inserção em uma família
da elite.
Nada se sabe sobre as ocupações de João Francisco, anteriores ao período
em que requereu a sesmaria de Campo Alegre, na freguesia de Carrancas,
termo de São João del-Rei, em 5 de abril de 1769. José Américo Junqueira de
Mattos especula que, nessa fase inicial, seu ascendente poderia ter acumulado
alguma fortuna com o exercício da atividade mineradora.10 Não existem docu-
mentos que atestem este fato, mas é possível conjecturar que, naquela época,
ele já desfrutava de certo prestígio socioeconômico, pois casou-se com uma
integrante de família da elite do termo de São João del-Rei. Também deve-se

8. Elena Maria do Espírito Santo foi batizada em 16 de junho de 1737, na capela de Santo
Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filial da matriz de N. Sra. do Pilar da vila de São João
del Rei. Era filha de Ignácio Franco, português, natural da freguesia de Santa Maria de
Válega, distrito de Aveiro, província de Beira Litoral, e de Maria Tereza de Jesus, natural
da freguesia de N. Sra. das Angústias, vila de Horta, ilha do Fayal. Ibidem, p. 31.
9. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas recordações, p. 51.
10. Ibidem, p. 32.

232
considerar que seu casamento se realizou na capela de N. Sra. do Carmo,
em São João del-Rei, espaço preferido para a realização dos casamentos de
membros das famílias de elite da região.11 No período colonial, o casamento
constituía-se, muitas vezes, numa estratégia de sucesso para a inserção no
topo da hierarquia social.12 Este parece ter sido o caminho encontrado por
João Francisco Junqueira. De origem pobre, é possível especular que tenha
acumulado alguma fortuna ao longo de uma década, o que lhe deu maiores
oportunidades para se casar com um membro de uma das principais famílias
da comarca do Rio das Mortes.
Os ganhos que João Francisco Junqueira obteve ao fazer parte de uma
família da elite podem ser inferidos da análise do texto de sua carta de ses-
maria para a qual solicitou confirmação em 5 de abril de 1769. Nessa época,
já residia em suas terras na paragem denominada Campo Alegre, freguesia
de Carrancas, termo de São João del-Rei. Nela, cultivava “umas terras de
matas virgens”, confrontando-se da parte nascente com as terras de José
Vieira de Almeida; do poente, com Francisco de Sousa; do norte, com Inácio
Franco e do sul, com Antônio Gonçalves e Francisco de Oliveira.13 Como
acertadamente demonstrou José Américo Junqueira de Mattos, alguns dos
confrontantes de João Francisco eram integrantes de famílias aparentadas,
através de casamentos realizados algumas décadas antes. A propriedade de
João Francisco se confrontava com as de alguns familiares de sua esposa,
inclusive com a de seu sogro Inácio Franco.14 Ao que tudo indica, grande
parte das terras de cultura e dos campos de criar da freguesia de Carrancas
era administrada pela parentela de sua esposa. No final da década de 1770,
João Francisco Junqueira e Elena Maria do Espírito Santo já haviam criado
sete filhos, cinco dos quais eram maiores de idade.15
As características topográficas e as excelentes pastagens na região do Rio
Grande, tão acentuadas por Saint-Hilaire entre 1819-1822,16 atraíram o interesse

11. Casamentos de São João del Rei – 1o vol. 1756-1762, p. 144, apud José Américo Junqueira
de Mattos, op. cit., p. 31.
12. Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento.
13. APM, Seção Colonial, carta de sesmaria, de 5/4/1769, códice 156, p. 174.
14. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 34.
15. Ibidem, p. 35.
16. Augusto de Saint-Hilaire, Viagem às nascentes do rio São Francisco, p. 50.

233
de vários proprietários desde as primeiras décadas do século XVIII. A região
de Carrancas ficava próxima aos caminhos que interligavam a capitania de
Minas ao Rio de Janeiro. A ocupação desta área, as atividades voltadas para
o abastecimento da capitania e as ligações comerciais com a praça carioca
garantiram o sucesso e o enriquecimento de algumas famílias detentoras de
títulos de sesmaria na região.17 Esse processo se consolidou ainda mais nas
primeiras décadas do século XIX, após a chegada da corte ao Brasil.
A fazenda do Favacho não foi construída pelo patriarca da família,
mas adquirida do capitão José Vieira de Almeida, juntamente com a sede,
benfeitorias e capela, em separado, benta em 1761(ver capítulo 3).18 A região
do Favacho e do Angaí já estava ocupada, desde 1725, por Antônio Rodrigues
da Fonseca, morador no Caminho Velho, naquelas paragens. Parece que se
tratava de um grande criador de gado, pois conseguiu a concessão de uma
sesmaria de quatro léguas, justificando a necessidade da grande extensão
de terras para a criação dos animais, no que foi atendido. No caso de José
Vieira de Almeida, desde 1754 já se encontrava de posse da referida sesmaria,
que se compunha de “sete casas de vivenda, engenho de farinha e terras de
plantar e matos”.19 Os documentos relativos ao pedido de confirmação de
sua sesmaria são bem interessantes, pois remetem ao processo inicial de
ocupação da área e à história de outros proprietários que se estabeleceram
na região. São também fortes indicativos da importância estratégica que a
região adquiriu, desde as primeiras décadas do século XVIII, e de como a
economia – voltada para o abastecimento interno – e a proximidade das
rotas comerciais, que interligavam as capitanias de Minas Gerais, Rio de

17. Marta Maria Amato traz uma relação dos títulos de sesmaria concedidos em áreas
próximas ao Caminho Velho, na freguesia de Carrancas, ao longo do século XVIII. Muitas
dessas propriedades estavam nas mãos de famílias aparentadas, incluindo os parentes da
esposa de João Francisco, os Vilela e outros. Ver A freguesia de N. Sra. da Conceição de
Carrancas e sua história, p. 26-37.
18. Para maiores detalhes sobre a história da fazenda do Favacho e Angaí, ver José Américo
Junqueira de Mattos, op. cit., p. 40-59.
19. AHU – Conselho Ultramarino, Brasil/MG, “Requerimento do capitão José Vieira de
Almeida, residente no sítio do Ingai abaixo, freguesia de Baependi, termo da vila de São
João del Rei, comarca do Rio das Mortes, pedindo carta de confirmação de sesmaria de
uma légua e meia de terra, não obstante ter passado três anos”, 9/6/1766, caixa 88, doc. 4.

234
Janeiro e São Paulo, promoveram não só a ocupação da área, mas o sucesso
de vários empreendimentos agropastoris.
Em 1780, ao fazer o seu testamento, José Vieira de Almeida acabou
detalhando um pouco dos bens acumulados em anos de atividades ligadas
ao abastecimento. Deixava uma casa de vivenda de sobrado (provável sede
atual da fazenda do Favacho), engenho, paiol, senzala, tudo coberto de
telhas e matos virgens, capoeiras e campos. Alguns sinais da riqueza que
conseguiu amealhar ao longo da segunda metade do século XVIII podem ser
percebidos pelas residências que possuía na vila de São João del-Rei, detrás
da igreja do Carmo, e no arraial de Baependi. Era também proprietário de
algumas terras minerais.20 No seu inventário, realizado em novembro de
1782, a descrição dos bens, evidentemente, foi mais generosa. Além dos bens
de raiz descritos no testamento, havia 34 bois de carro, trezentas cabeças de
gado, 105 potros, vinte bestas, 258 éguas, 106 porcos, sessenta ovelhas, além
de 89 escravos. Eram ainda listados dez arrobas de fumo, noventa carros de
milho e 18 alqueires de feijão.21 Nota-se que em sua propriedade consorciava
várias atividades, como criação de animais, agricultura e engenho, e possuía
numerosa escravaria. Como tantos outros exemplos já citados, também
construiu sua fortuna desenvolvendo atividades relacionadas à produção e
à comercialização de gêneros voltados para o abastecimento interno.
A fazenda do Favacho é considerada, até os dias de hoje, a “casa-mãe”
da família, uma vez que a maioria dos batizados, casamentos e óbitos foram
ali oficializados, especialmente por um dos membros da família, o padre
Francisco Antônio Junqueira.22 A sesmaria de Campo Alegre era um vasto
latifúndio, posteriormente subdivido em várias fazendas, que passaram a
ser administradas pelos filhos e netos do casal. Além da fazenda Campo
Alegre, outras ficariam conhecidas na história dos Junqueira, como, por
exemplo, Bela Cruz, Jardim, Sobrado, Boa Vista, Santo Inácio, Cafundó,

20. IPHAN-SJDR, Testamento de José Vieira de Almeida (1780), caixa 7.


21. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem de José Vieira de Almeida (2/11/1782), caixa 7.
22. As ermidas de São Tomé, Baependi e Carrancas também serviram de palco para a rea-
lização de alguns rituais de batismo, casamento e óbito dos Junqueira. O vigor da tradição
e da importância que esta fazenda representa no imaginário familiar pode ser constatado
ainda hoje. Em março de 2003, na capela do Favacho, realizou-se o casamento de Evangelina,
filha de José Américo Junqueira de Mattos.

235
Narciso, Traituba, entre outras. Várias propriedades ainda conservam seus
nomes originais e algumas delas guardam parte de sua estrutura arquitetô-
nica, que podem ser vistas na paisagem sul-mineira, no atual município de
Cruzília ( ver capítulo 3).
João Francisco Junqueira faleceu aos 91 anos de idade, cego, no dia 5
de abril de 1819, em sua fazenda.23 Seu enterro foi acompanhado de muita
pompa, com missa de corpo presente, celebrada por cinco sacerdotes, deno-
tando o prestígio social que desfrutava naquela região. Seu corpo foi envolto
no hábito de São Francisco e sepultado “da grade para baixo”, na ermida
de São Tomé das Letras.24 A cegueira, provavelmente em consequência de
uma catarata, parece ter sido decorrente de uma doença congênita que per-
seguiu vários homens da família.25 Somente no final do século XIX alguns
dos descendentes tiveram condições de desfrutar dos recursos da medicina
e de se submeterem ao tratamento cirúrgico para correção do problema.
Aparentemente, João Francisco já sofria as consequências da doença havia
alguns anos, pois sua esposa, Elena Maria do Espírito Santo, determinou em
seu testamento, realizado em 1805, que seu filho Gabriel Francisco Junqueira
conservasse em sua companhia a sua irmã Genoveva e a casa fosse mantida
“no mesmo estado em que havia determinado enquanto fosse vivo seu pai”.26
Acertadamente, José Américo Junqueira de Mattos chama a atenção para o
fato de Elena acreditar que morreria primeiro, daí as suas recomendações
e cuidados em relação à filha e ao esposo – o que acabou se confirmando.
Ela morreu em 11 de outubro de 1810. Certamente, João Francisco tinha o
hábito de se locomover sozinho no interior da sede da fazenda, dispensando
a ajuda de outrem. Daí a importância de se manterem os móveis da casa na
mesma disposição.27
No ano da morte da esposa, João Francisco já tinha dividido seus bens
em favor de seus herdeiros, incluindo os da legítima paterna. Sobrevivia dos

23. IPHAN-SJDR, Testamento de João Francisco Junqueira (1820), caixa 70.


24. Registro de óbitos de Carrancas, 1816-1884, p. 37 e 37v, apud José Américo Junqueira de
Mattos, op. cit., p. 67-68.
25. José Américo Junqueira de Mattos (ibidem, p. 68) supõe que se tratava de catarata, doença
sem tratamento naquela época.
26. IPHAN-SJDR, Testamento de Elena Maria do Espírito Santo (1813), caixa 44.
27. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 68.

236
recursos que lhe tocavam na sua terça. Na época da realização de seu testa-
mento, informou que, dos bens referentes à sua terça, só havia um crédito
de 2:700$000, que lhe devia a esposa de seu filho João Francisco, já falecido.
A extensão dos bens acumulados pelo casal pode ser percebida a partir
da análise do inventário de Elena Maria do Espírito Santo, realizado em 1811.
O casal tinha, em dinheiro, 6:742$335, 45 carros de milho no paiol, 25 vacas,
98 garrotes, cinquenta vacas com crias, quarenta vacas falhadas, 17 novilhas,
25 bezerros, 11 novilhos para amansar, 11 bois de carro, trinta éguas, 150 car-
neiros e noventa porcos. Foram listadas ainda 14 bestas de tropas, meio de
transporte essencial para comercializar parte da produção da fazenda. Além
de um total de 53 escravos, os bens mais valiosos do casal eram as inúmeras
fazendas de cultura e de criar – como Campo Alegre, Favacho, Jardim e
Caxambu – que, depois, passaram a ser administradas pelos filhos. Também
eram proprietários de uma morada de casas “muito pequena e muito velha”
no arraial de São Tomé das Letras. O casal não acumulava dívidas passivas
e as ativas não chegavam a um conto de réis. Parte da herança foi adiantada
para alguns herdeiros, por meio da concessão de dotes.28 As filhas Maria
Francisca da Encarnação e Ana Francisca do Vale receberam dotes maiores,
ultrapassando a quantia de três contos de réis para cada uma. Os homens
foram contemplados com adiantamentos bem menores, nunca superiores
a trezentos mil réis. Francisco Antônio Junqueira, o filho do casal que se
tornou sacerdote, recebeu o adiantamento de apenas 90$000.29
Ainda que o documento brevemente descrito represente um retrato
parcial e datado da vida do casal, graças a ele é possível constatar a exten-
são dos negócios da família Junqueira e deduzir que a origem da fortu-
na por ela acumulada esteve na articulação entre atividades agropastoris
e a comercialização dos gêneros voltados para o abastecimento interno.
A localização das várias fazendas, próximas do Caminho Velho, certamen-
te facilitou esta articulação. A chegada da corte portuguesa em 1808 e o
processo de interiorização da metrópole, que se descortinou em seguida,

28. Para uma discussão sobre a prática de concessão do dote e de seu desaparecimento,
ver Muriel Nazzari, O desaparecimento do dote. Para uma discussão sobre o mesmo tema
na vila de São João del Rei, ver Sílvia Maria Jardim Brügger, Minas patriarcal, p. 187-197.
29. IPHAN-SJDR, Inventário de Elena Maria do Espírito Santo (1811), caixa 227.

237
contribuíram para que os filhos e os netos do casal continuassem a investir
seus recursos nas “fazendas de cultura e de criar”, sempre com numerosa
escravaria, comercializando parte da produção nos mercados locais e na
praça do Rio de Janeiro.

2. Caminhos da fortuna: família, negócios e política


Com base na análise da trajetória dos filhos e de alguns netos do casal
fundador da família Junqueira, percebe-se, claramente, que os caminhos
para o enriquecimento e a consolidação do nome da família estiveram,
quase sempre, na combinação das atividades agropastoris e comerciais e na
ocupação de cargos administrativos, civis, eclesiásticos e políticos.
João Francisco e Elena Maria do Espírito Santo tiveram 11 filhos, dos
quais sete chegaram à maioridade e somente seis deixaram descendência, a
saber: Maria Francisca da Encarnação, João Francisco Junqueira, Francisco
Antônio Junqueira, José Francisco Junqueira, Ana Francisca do Vale (ou Ana
Cândida Junqueira) e Gabriel Francisco Junqueira (ver diagrama 1). Como já
foi apontado anteriormente, as sesmarias de Campo Alegre e Favacho deram
origem a várias propriedades, administradas pelos filhos e pelos netos do casal.
A dispersão geográfica ficou por conta da segunda geração, ou seja, a dos netos,
por uma razão mais ou menos óbvia – a escassez de terras para a expansão
das atividades agropastoris. Também é na segunda geração que se pode veri-
ficar a importância dos casamentos endogâmicos e as escolhas matrimoniais
fora da parentela como estratégias de evitar o fracionamento do patrimônio
e/ou até mesmo de promover sua ampliação, na medida em que as alianças
matrimoniais fora da parentela eram devidamente calculadas e arranjadas.
Maria Francisca da Encarnação, a primeira filha do casal, casou-se com
o português Gabriel de Sousa Diniz, natural do termo de Barcelos/Braga,
na matriz de N. Sra. do Pilar, na vila de São João del-Rei, no dia 10 de abril
de 1780. Tiveram nove filhos que deixaram descendência (ver diagrama
2). Foram proprietários da fazenda Santo Inácio, localizada no curato de
Luminárias, freguesia de Carrancas. Na tradição histórica familiar ficaram
conhecidos como o “casal da Traituba”, talvez por serem pais de João Pedro

238
Diniz Junqueira, construtor da fazenda, uma vez que o casal residia na
Santo Inácio.
O tenente Gabriel de Sousa Diniz faleceu em 1811 e, dentre os seus bens
arrolados, destacam-se alguns bois de carro e pouco mais de 150 cabeças de
gado, 35 éguas, seis cavalos, sete jumentos, 35 ovelhas, cem porcos, 21 bestas
de carga e 35 cativos. A fazenda Santo Inácio era composta de casa de vivenda,
paiol, senzala e moinhos, tudo coberto de telha, além de quintal e curral
murado de pedra e cômodos de engenho e rego d’água. A propriedade fazia
divisa com as terras de seu sogro, João Francisco Junqueira, provavelmente
da fazenda Campo Alegre, e com a fazenda Traituba. Este é um dado muito
interessante, pois, segundo os documentos disponíveis e a tradição familiar,
a sede da fazenda Traituba foi construída pelo segundo filho do tenente
Gabriel, o coronel João Pedro Diniz Junqueira (ver figura 31). A construção
ter-se-ia iniciado em 1827 e foi concluída em 1831 (ver capítulo 3). Embora
não haja menção explícita ao proprietário da fazenda em 1811, não é difícil
especular que pertencesse a membros de sua família, já no final da primeira
década do século XIX. Dentre os bens de raiz pertencentes a Gabriel Diniz,
destacam-se ainda três casas de morada na rua da Ponte, e uma na rua da
Praia, na vila de São João del-Rei. As dívidas ativas ultrapassaram o valor de
10:000$000, sendo que mais de 60%, ou seja, 6:848$329 estavam nas mãos
de herdeiros (filhos e genros). Isto nos ajuda a compreender o significado
da família naqueles tempos, pois o sucesso e a ampliação dos negócios
exigiam o envolvimento de pais, filhos e genros, tanto na produção, quanto
na comercialização dos gêneros voltados para o abastecimento interno.30
Até 1811, os cinco primeiros filhos do casal, que já haviam contraído
matrimônio, receberam o adiantamento de parte da herança, sem que tenha
havido diferença nos valores recebidos e preterimento dos filhos em favor
das filhas. Todos receberam a mesma quantia em dinheiro, ou seja, 800$000
e mais três escravos cada um. Os filhos agraciados foram João Pedro Diniz
Junqueira, Francisco Antônio Diniz Junqueira, José Antônio Diniz Junqueira,
Maria Dorida Diniz Junqueira e Helena Francisca Diniz Junqueira.31

30. IPHAN-SJDR, Inventário de Gabriel de Sousa Diniz (1811), caixa 77.


31. Idem.

239
Em junho de 1829, dois anos antes de morrer, Maria Francisca da
Encarnação fez o seu testamento. Nessa época, todos os seus filhos esta-
vam casados. Grande parte da riqueza constituída no final do século XVIII
e início do XIX havia sido dividida entre os herdeiros, e Maria Francisca
sobrevivia com os recursos provenientes de sua terça. Ainda possuía uma sorte
de terras na fazenda Santo Inácio, que deixou a seus filhos José e Antônio.
Os 11 escravos que restavam em seu poder foram deixados para dois de seus
filhos, e a importância de 530$000 ela determinava que fosse distribuída
entre seus netos.32 Uma década mais tarde, iremos encontrar uma das filhas
do casal, Joaquina Diniz Junqueira, casada com Marcelino de Sousa de Diniz,
proprietária da fazenda Santo Inácio e com uma escravaria, nada desprezível,
de 39 cativos.33 Certamente, a criação de animais e a produção de gêneros
voltados para o abastecimento e a comercialização com praças regionais e
o Rio de Janeiro garantiram o sucesso dos empreendimentos agropastoris,
a que as gerações seguintes puderam dar continuidade.
A trajetória de maior sucesso na família de Gabriel de Sousa Diniz
foi, sem dúvida alguma, a de João Pedro Diniz Junqueira, que mais tarde
obteve a patente de coronel. Alguns indícios do seu sucesso podem ser per-
cebidos não só pela construção da sede da fazenda Traituba, mas também
pelo número de escravos que teve ao longo da década de 1830. Segundo os
mapas de população, em 1831 sua propriedade contava com oitenta cativos.
A extensão de seus empreendimentos e, consequentemente, de sua riqueza
pode ser inferida oito anos depois, em 1839, quando sua escravaria dobrou
de tamanho e passou a totalizar 163 cativos.34
João Pedro Diniz Junqueira era casado com sua prima Helena Constança
Junqueira e tiveram quatro filhos. Morreu em junho de 1853 na fazenda
Traituba, e sua esposa, em 1854. Alguns meses depois, realizou-se o auto
de partilha amigável, quando se pode ter uma dimensão mais apropriada
da fortuna amealhada pelo casal ao longo da primeira metade do século
XIX, embora, em alguns aspectos, a descrição dos bens seja bem resumida.
A fazenda Traituba foi avaliada em 50:570$000, a casa de vivenda e demais

32. Testamento publicado por José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 142.
33. APM, Listas nominativas do distrito de Luminárias (1838-1840).
34. APM, Listas nominativas do distrito de Carrancas (1831 e 1839).

240
benfeitorias, em 15:000$000. A mobília e as baixelas que havia no interior
das casas de vivendas foram avaliadas em 2:000$000. A fazenda da Ponte do
Angaí, em 6:400$000 e o rancho da mesma fazenda, em 170$000. Também
era proprietário de terras no Rio Preto, estimadas em 500$000, e no Parnaíba,
em Goiás, em 10:000$000. O número de cativos continuava praticamente
o mesmo de vinte anos atrás – 160 escravos, avaliados em 131:930$000.35
Os animais, pela importância que tinham para a família Junqueira, rece-
beram uma descrição mais detalhada. Foram arroladas oito éguas paridas
de burro, cinco ditas de cavalo, 18 sem crias e seis jumentos. Nove cavalos
foram descritos em separado, com seus nomes arrolados, provavelmente
pela importância e a qualidade da sua raça. Dos 32 muares, 15 eram de carga
e estavam arreados, demonstrando a importância do comércio que, quase
sempre, se realizava em lombo de burros. As cabeças de gado vacum foram
assim discriminadas: 29 garrotes, dos quais nove de corte, 43 vacas paridas,
26 sem crias, 37 bois de carro e quatro touros. Foram listados também 48
porcos e 139 carneiros. Ao que tudo indica não havia grandes criadores de
gado na comarca do Rio das Mortes, isto se considerarmos as informações
das fontes pesquisadas. Mesmo no caso da família Junqueira, mencionada
como grande pecuarista no relatório imperial da década de 1850, esta infor-
mação parece não se confirmar pelo número de animais relacionados nos
inventários (ver capítulo 2).
Como muitos fazendeiros/negociantes do Oitocentos, o coronel João
Pedro amealhou uma fortuna considerável para os padrões mineiros da
época, valendo-se de um leque diversificado de atividades. Atuava tanto
na produção, quanto na comercialização do excedente de sua propriedade.
A numerosa escravaria garantia o trabalho pesado do cotidiano das fazendas.
Ao que parece, muitos desses escravos foram adquiridos por ele mesmo,
pois atuou esporadicamente na transferência de uma quantidade razoável
de escravos para Minas (ver capítulo 3).36 Se levarmos em conta o que reza

35. IPHAN-SJDR, Inventário e partilha amigável dos bens que ficaram do finado coronel
João Pedro Diniz Junqueira e Elena Constança Junqueira (1853). Na época em que fotografei
os processos de Baependi, a documentação encontrava-se em fase de catalogação, daí a
ausência do número da caixa para os documentos relativos àquela vila.
36. Outros membros da família também se dedicaram, esporadicamente, ao tráfico interno
de escravos, mas João Pedro Diniz Junqueira é quem aparece remetendo mais escravos para

241
a tradição familiar, João Pedro gozava de prestígio junto ao imperador, de
quem era companheiro de caçadas e recebia presentes. Provavelmente, esta
relação de proximidade lhe trouxe vários benefícios, que transcenderam a
concessão de patentes militares, como, por exemplo, a de coronel, e pôde
resultar em facilidades para os seus negócios em Minas e na Corte.37
João Francisco Junqueira, homônimo do pai e segundo filho mais velho
do casal fundador, estabeleceu-se na fazenda do Favacho com sua esposa
Maria Ignácia do Espírito Santo, propriedade que seu pai comprou de José
Vieira de Almeida, no final do século XVIII. João Francisco e Maria Ignácia
tiveram oito filhos, sendo que alguns se estabeleceram no oeste da pro-
víncia de São Paulo, mais precisamente em Batatais e Franca, tornando-se
fazendeiros e criadores de gado, com grandes propriedades e significativo
número de escravos (ver diagrama 3). João Francisco fez fortuna consor-
ciando várias atividades, especialmente as ligadas ao comércio, e adquiriu o
título de capitão. Não há registros precisos sobre as datas de seu nascimento
e falecimento. Estima-se que tenha nascido no ano de 1759 e falecido com
pouco mais de 50 anos de idade, por volta de 1812.38 Segundo os estudos ge-
nealógicos e as memórias da família, boa parte de sua fortuna foi amealhada
com empréstimo de dinheiro em todo o vale do Paraíba. Essa informação
parece ser procedente por duas razões: primeiro, porque em seu inventário,
do monte-mor avaliado em 57:001$723, quase dois terços, ou seja, 39:749$546
correspondiam a “dinheiro cobrado” e “dívidas por crédito”.39 Os escravos
representavam pouco mais de um décimo de sua fortuna, ou seja, 6:874$000.
Em segundo lugar, porque aparentemente João Francisco Junqueira também
fornecia crédito e escravos para o vale do Paraíba, no início do século XIX.

Minas, um maior número de vezes: 2/3/1815 – 93 escravos; 24/12/1815 – 53 escravos; 8/2/1816


– 62 escravos novos e mais quatro que trouxe; 26/3/1830 – 54 escravos novos. AN, códice
421, v. 3, p. 390v; v. 6, p. 186; v. 6, p. 264; códice 424, v. 4, p. 104.
37. No dia 8 de dezembro de 1823, o coronel conseguiu interpor a sua representação e foi
condecorado com a Ordem de Cristo. AN, Decretos gerais, códice 15, v. 10, fl. 43, 1/12/1823.
Seu sobrinho, Gabriel Diniz Junqueira e Sousa, também recebeu a mercê de cavaleiro da
Ordem da Rosa, em 15/8/1830. AN, Decretos honoríficos, caixa 789, doc. 1, 15/8/1830.
38. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 531.
39. Auto de prestação de contas (1818) da viúva de João Francisco Junqueira, Maria Inácia
do Espírito Santo, e inventário (1826) de João Francisco Junqueira (filho). Esses documentos
encontram-se publicados no livro de Adélia Diniz Junqueira Bastos, Lendas e tradições da
família Junqueira, p. 74-112.

242
A extensão dos seus negócios verificou-se, ainda, na dificuldade que a viúva
teve ao receber as dívidas de pessoas que se localizavam na vila de Resende,
província do Rio de Janeiro, e na vila de Guaratinguetá, província de São
Paulo. “Que as dívidas descritas não tem cobrado mais do que declarado
[...] porque a maior parte dos devedores são existentes na vila de Resende,
capitania do Rio de Janeiro, e sua constituinte em razão de seu sexo não
poder por si mesma promover a dita cobrança.”40
Outro forte indício da atuação de João Francisco Junqueira como pres-
tamista no vale do Paraíba fluminense é mencionado por Stanley Stein, em
seu estudo sobre a expansão cafeeira no município de Vassouras.41 O autor
destaca a importância dos traficantes internos de escravos e dos prestamistas,
oriundos, em sua maioria, da comarca do Rio das Mortes, e o papel desem-
penhado por eles no desenvolvimento da economia agrícola daquela área.
Citando um autor desconhecido, refere-se a um mineiro, chamado João
Francisco Junqueira, como um importante traficante interno de escravos e
que abasteceu as fazendas da região com mais de dois mil cativos – vendidos
aos fazendeiros mediante o pagamento de cinco parcelas anuais, tendo como
garantia a produção dos cafezais já formados. “Conheci um mineiro, meu
íntimo amigo, João Francisco Junqueira que, por sua conta, vendeu mais de
dois mil escravos naquelas freguesias quando o café ali fora introduzido.”42
(grifos meus)
Parece que o texto anônimo, citado por Stanley Stein, se refere a João
Francisco Junqueira (Filho), pois se reporta ao processo inicial de ocupação
da região de Vassouras. O que interessa salientar é que o tráfico interno de
escravos não constituía uma atividade especializada, assim como outros
ramos do comércio. Representava mais uma mercadoria, entre tantas outras,
que era comercializada.43

40. Ibidem, p. 81.


41. Stanley J. Stein, Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900, p. 33-34.
42. Autor desconhecido, Recopilação do custo, despesas e rendimentos de um estabelecimento
da cultura do cafeeiro. Rio de Janeiro, 1835, apud Stanley J. Stein, Vassouras, p. 104.
43. Para uma discussão sobre o caráter restrito e imperfeito dos mercados não-capitalistas ou
pré-industriais, ver Fernand Braudel, Civilização material, economia e capitalismo, tomo 2.
Essas características também foram identificadas para o mercado mineiro do século XVIII
e para as demais capitanias da região Sudeste-Sul. Ver Cláudia Maria das Graças Chaves,
Perfeitos negociantes; João Luís Ribeiro Fragoso, Homens de grossa aventura.

243
Evidências suplementares de que alguns membros da família Junqueira
se dedicaram ao tráfico interno de cativos podem ser encontradas nos regis-
tros de passaportes das pessoas que remetiam escravos para Minas Gerais ou
para Resende. E vários membros da família Junqueira nele atuaram, seja para
abastecer suas propriedades, seja para a comercialização com outros fazendei-
ros. É o caso de João Francisco Junqueira (Filho), e João Francisco Junqueira
(Neto),44 filho de José Francisco Junqueira, assassinado pelos escravos em 1833.45
Outros membros da família também atuaram esporadicamente na remessa
de cativos para Minas, como João Pedro Diniz Junqueira, já citado, seu irmão
José Antônio Diniz Junqueira e José Frauzino Junqueira, filho do capitão
João Francisco Junqueira (Filho).46 Assim como nas atividades agropastoris,
o comércio acabava se constituindo num empreendimento familiar. Os filhos
poderiam ser iniciados, ainda bem jovens, na lida agrícola ou na mercantil e,
mais tarde, na idade adulta, seguiam os passos dos pais. Esta foi a trajetória
de vários filhos e netos de João Francisco. Em primeiro lugar, o seu filho pri-
mogênito e homônimo. Depois, os seus netos João Francisco Junqueira, José
Frauzino Junqueira, João Pedro Diniz Junqueira e José Antônio Junqueira,
só para ficar em alguns exemplos.
Ao que tudo indica, um ano antes de falecer, o capitão João Francisco ainda
atuava no comércio interno de cativos para Minas. No dia 30 de abril de 1811,
remeteu 44 escravos novos e três crias para Resende.47 Outras evidências das
estreitas ligações do capitão com o comércio por meio de tropas podem ser
constatadas pelo vaivém de seus escravos Antônio Angola e João, nos anos

44. Nenhum documento localizado refere-se ao parentesco no sobrenome dos homônimos.


Esta não era uma prática comum na composição dos nomes das famílias. A identificação só
foi possível com o cruzamento de documentos diversos e das datas de nascimento e óbito.
45. Outros indícios comprovam a atuação de João Francisco Junqueira (neto) nas atividades
mercantis. No dia 16 de junho 1815, entrou com uma petição na Junta de Polícia da Corte,
solicitando a ocupação do posto de fiscal do registro do Rio Preto, que ficava sob a respon-
sabilidade da Câmara de São João del Rei. AN, Decretos gerais, códice 4, fl. 93, 16/6/1815.
Também recebeu a carta patente para o posto de capitão da 7a Cavalaria de Milícias, em
28/9/1819, e foi nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo, em 2/12/1849. AN, Registro geral
das mercês, coleção 137, livro 54, fl. 96; Decretos honoríficos, caixa 787, doc. 149, 2/12/1849.
46. João Francisco Junqueira (neto) despachou escravos para Minas Gerais em duas ocasi-
ões: 24/1/1822 – 11 escravos novos; 10/5/1830 – 32 escravos novos; José Frauzino Junqueira:
5/12/1828 – cinco escravos novos. AN, códice 421, v. 16, p. 25; v. 23, p. 15; códice 421, v. 21, p. 230.
47. AN, códice 421, v. 2, p. 82, 30/4/1811. A remessa de cativos para o interior fluminense se
constituía numa estratégia para pagar menos tributos nos postos fiscais (capítulo 3). Ver João
Luís Fragoso e Roberto Guedes Ferreira, Alegrias e artimanhas de uma fonte seriada, p. 253.

244
de 1809 e 1811, respectivamente. João partiu para Minas Gerais, passando
pelo registro de Paraibuna, acompanhado de mais três escravos, que faziam
a viagem com ele, provavelmente também tropeiros, e mais um camarada.
Ainda em 1811, outros escravos, tropeiros do capitão, solicitaram passaporte
para se deslocarem para Minas Gerais, passando por Itaguaí. Desta vez, a
tropa parecia ser mais bem estruturada. Além de Salvador Crioulo, “de
estatura ordinária, rosto comprido e sobrancelha delgada”, compunham a
tropa mais dois parceiros e quatro camaradas.48
Nos séculos XVIII e XIX, o comércio constituía o caminho natural para
a acumulação de riquezas, em detrimento das atividades ligadas à agricul-
tura e à pecuária, embora os senhores de terras e escravos desfrutassem de
maior prestígio social e político.49 Há que destacar também a importância
da relação de complementaridade entre a atividade de fazendeiro e as con-
sideradas “capitalistas”50 (negócios mercantis e financeiros, empréstimo a
juros), que marcaram a trajetória dos grandes fazendeiros/negociantes do
oitocentos (ver capítulo 2).
Francisco Antônio Junqueira era o segundo filho mais velho do casal
fundador. Foi ordenado sacerdote na arquidiocese de Mariana, a 2 de junho
de 1787. Como muitos vigários de seu tempo, acabou deixando expressiva
descendência (ver diagrama 4). Teve vários filhos em união ilegítima, dois
com mãe desconhecida e cinco com Antônia Maria da Paixão, pelo menos
é o que atestam os livros de genealogia sobre a família.51 De acordo com

48. AN, códice 421, v. 1, p. 189, 30/10/1809; v. 2, p. 3, 01/10/1811; v. 2, p. 94, 04/05/1811.


49. Para uma discussão mais aprofundada sobre o tema, ver João Luís Ribeiro Fragoso e
Manolo Florentino, O arcaísmo como projeto.
50. O termo podia designar um leque diversificado de atividades, “mas entre elas sobressaía a
de usurário”. Ver Sheila de Castro Faria, Fortuna e família em Bananal no século XIX, p. 78.
51. A história da descendência do padre Francisco é bem conhecida na tradição familiar,
especialmente de suas ligações com Antônia Maria da Paixão, com quem teve a maioria
de seus filhos. Frederico Brotero, na primeira edição de sua obra (1956), menciona quatro
filhos de Francisco Junqueira, sem, provavelmente, saber que ele era padre. Já na segunda
edição (1959), excluiu a descendência do padre, por ter dúvidas e pela falta de documentos
que comprovassem a descendência. Indicou a necessidade de pesquisas mais detalhadas
sobre o assunto, mas acabou reproduzindo o testamento de Antônia Maria da Paixão e
indicando sua descendência da família Oliveira. José Guimarães também mencionou a
descendência ilegítima do padre, relacionando quatro de seus filhos e suas respectivas
descendências. O estudo mais instigante sobre o assunto e mais bem documentado foi
publicado recentemente por José Américo Junqueira de Mattos, e os referidos documen-
tos apresentam fortes indícios de que o padre Francisco Antônio Junqueira, de fato, teve

245
Frederico Brotero e a tradição corrente na família, Francisco Antônio nunca
manifestou vocação para o sacerdócio. Seguiu a carreira eclesiástica por de-
terminação e vontade de seu pai, que desejava ter um filho padre na família.52
Além de ser proprietário da fazenda do Jardim, no curato de São Tomé
das Letras, requereu sesmarias na paragem de Rio das Antas e Três Barras,
região que deu origem a Poços de Caldas. Os registros sobre sua atuação
como sacerdote podem ser encontrados nos livros paroquiais da capela
do Favacho, onde vários descendentes dos Junqueira foram batizados, se
casaram e tiveram suas almas encomendadas, e na matriz de São Tomé
das Letras, iniciada por seu pai, João Francisco, e concluída por seu irmão,
Gabriel Francisco Junqueira. O sacerdote podia, com tranquilidade, exercer
as funções requeridas pelo magistério sacerdotal e cuidar de seus animais e
plantações, em suas diversas propriedades. O exercício de outras atividades
pelos clérigos, além das atribuições ministeriais, já tinha sido observado
por Saint-Hilaire, quando passou por São João del-Rei, em março de 1819.
Os padres podiam ser boticários, fazendeiros, comerciantes e produzir tecidos.
“Nada mais comum ali do que padres fazendeiros.” O viajante também não
deixou de lançar sua ironia sobre o comportamento frequente dos vigários
em desrespeito ao voto de castidade. “Que se pode esperar de homens que
se afastam tão ostensivamente dos preceitos religiosos que deviam seguir,
sem falar em fatos mais escandalosos, que prefiro silenciar?”53
Além de muitos clérigos possuírem cativos e propriedades, certos
“padres da Regência” alcançaram grande projeção no cenário político im-
perial. Alguns dos mineiros tiveram atuação de destaque nesse período,
como, por exemplo, José Custódio Dias, José Bento Leite Ferreira de Melo
e José Antônio Marinho, todos pertencentes à facção liberal. O padre José
Custódio Dias foi vigário nas vilas de Sabará e Campanha, antes de ser
eleito deputado mineiro para as Cortes e deputado para a Constituinte de

sete filhos. Embora o vigário não tenha reconhecido nenhum deles, a preocupação com o
seu futuro foi algo que esteve sempre presente. Voltaremos a este tema mais adiante. Cf.
Frederico Barros Brotero, Memórias e tradições da família Junqueira, 1. ed., p. 115; 2. ed., p.
109-110; 908; 933-936; José Guimarães, As três ilhoas, p. 193-201; José Américo Junqueira de
Mattos, Família Junqueira, p. 683-691.
52. Frederico de Barros Brotero, Memórias e tradições da família Junqueira, 2. ed., p. 109.
53. Augusto de Saint-Hilaire, Viagens às nascentes do rio São Francisco, p. 80.

246
1823. Foi também eleito senador em 1835. Já José Bento Ferreira de Melo foi
o primeiro pároco de Pouso Alegre, vereador em Campanha, membro do
Colégio Eleitoral da província e eleito deputado para a Assembleia Geral
do Império, em 1826. Não se descuidou de suas bases eleitorais na região,
fundando, em 1831, O Pregoeiro Constitucional, primeiro jornal do sul de
Minas.54 O cônego José Antônio Marinho foi secretário do governo liberal
de 1842 e historiador do movimento.55 A caracterização mais correta desses
homens e de seu tempo talvez tenha sido dada por João Camilo de Oliveira
Torres: “O sacerdócio era uma ‘profissão’ como outra qualquer”,56 ou, num
sentido mais amplo, como afirma Lenharo, a projeção política dos padres
mineiros era expressão da estrutura de poder que representavam. As terras
no interior estavam concentradas nas mãos de famílias da elite, e o culto
religioso constituía uma das preocupações principais dos chefes de família.
Daí a origem de muitas povoações e cidades estar associada a uma capela
ou a igrejas patrocinadas por famílias influentes, nas quais, muitas vezes,
eram arregimentados os clérigos.57
Embora o padre Francisco Antônio Junqueira não tenha assumido
nenhum cargo político de importância, não se deve subestimar o signi-
ficado de se ter um filho padre na família e os ganhos que isto poderia
acarretar. Mesmo no universo mais restrito das vilas e dos arraiais, a figura
do sacerdote, assim como o espaço de poder que ocupava e as relações que
estabelecia, não pode ser menosprezada. Acabava se constituindo em um
capital político de grande importância para que uma família consolidasse
seu nome e ampliasse seu poder em determinada região. O vigário foi um
dos signatários da instalação da vila de Santa Maria de Baependi, em 1814.58
O padre Francisco morreu em 1829, provavelmente na fazenda Jardim,
em São Tomé das Letras. Esta propriedade também pertencia à sua irmã

54. Alcir Lenharo, As tropas da moderação, p. 107-132.


55. O historiador do movimento e secretário do governo liberal de Minas, em 1842, descreve
com detalhes os antecedentes da Revolta, o período de sua vigência (10/6 a 20/8/1842) e o
movimento de inspiração semelhante, ocorrido em São Paulo. Ver José Antônio Marinho,
História do movimento político que no ano de 1842 teve lugar na província de Minas Gerais.
56. João Camillo de Oliveira Torres, História de Minas Gerais, p. 888.
57. Alcir Lenharo, op. cit., p. 120.
58. J. A. Pelúcio, Baependi, p. 45-48.

247
Genoveva Francisca Junqueira, que faleceu solteira. Em 1839, a mesma pro-
priedade contava com a presença de 86 cativos e estava sendo administrada
por João Cândido da Costa, sobrinho do vigário e casado com sua prima,
Maria Marfisa da Costa, filha ilegítima do padre.59 Na partilha amigável,
realizada em 1857, depois da morte da esposa, percebe-se a importância
daquela unidade produtiva. Possuía sessenta cativos, ocupados na lida com
os animais, as plantações e o engenho. Foram arrolados 242 capados, cem
cabeças de gado vacum, 15 éguas, oito cavalos, 49 bestas, sendo que dez
eram de sela e 27, de carga. A produção de mantimentos era expressiva:
quarenta carros de milho no paiol, 28 alqueires plantados, 17 arrobas de
algodão e um “canavial para moer”, naquele ano. O engenho parecia ser de
certo porte, pois, além da aguardente, produzia diversos tipos de açúcar,
tendo sido mencionadas 42 arrobas de açúcar branco, 28 de açúcar branco
redondo claro, 43 de açúcar branco redondo e uma arroba e meia de masca-
vo. Arrolaram-se ainda 42 barris de cachaça e três pipas. Na fazenda Jardim
ocorreu o primeiro confronto com os escravos rebelados em 1833, quando
João Cândido da Costa, após armar parte de seus cativos de confiança, feriu
cinco dos insurgentes, inclusive o líder, Ventura Mina, contribuindo para a
dispersão dos revoltosos e o fim da rebelião (ver capítulo 5).
José Francisco Junqueira era o quarto filho do casal fundador da fa-
mília. Em 1790, casou-se com Antônia, filha do tenente João Garcia Duarte
e Antônia Maria de Jesus.60 O casal teve 13 filhos, dos quais 12 chegaram à
idade adulta e se casaram (ver diagrama 5). Foi proprietário da fazenda Bela
Cruz, onde ocorreu o massacre do maior número de vítimas da Revolta de
Carrancas. Na tarde do dia 13 de maio de 1833, José Francisco e todos os
membros da família que residiam na fazenda foram brutalmente assassina-
dos pelos escravos.61 Logo depois da rebelião, procedeu-se ao inventário dos
bens do casal e de seu genro, Manuel José da Costa, que também morava
na mesma propriedade. Gabriel José Junqueira foi inventariante dos pais e

59. APM, Listas nominativas de 1838-1840.


60. Frederico de Barros Brotero, op. cit., p. 455.
61. Foram mortos oito integrantes da família de José Francisco. Além dele e da esposa,
assassinaram uma filha, um genro, uma nora e três netos. Ver Marcos Ferreira de Andrade,
Rebeliões escravas na comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais: o caso Carrancas, p. 62.

248
residia fora da sede paterna. Pela descrição dos bens arrolados, nota-se que
o padrão era o mesmo já registrado para o restante da família. Tratava-se de
um fazendeiro/negociante envolvido com a produção agrícola, a criação de
animais e a comercialização de gêneros voltados para o abastecimento inter-
no. Possuía 6:463$280 em dinheiro, assim distribuídos: 331$480 em moedas
de ouro; 1:913$930 em moedas de prata; 1:385$870 em moedas de cobre e
2:283$000 em notas de banco. Entre a produção agrícola, destacavam-se cem
carros de milho novo e mais 25 de milho velho, 74 alqueires de feijão e 57
arrobas de algodão em caroço. Da produção voltada para a comercialização,
destacam-se 433 queijos, transportados no lombo dos burros e das bestas.
Das 29 bestas que possuía, 11 eram de carga e cinco, de sela. O gado perfa-
zia o total de 175 cabeças, além de 38 equinos, 87 porcos e setenta ovelhas.
A fazenda Bela Cruz foi avaliada em 12:000$000. Casa, paiol, moinhos,
senzalas, monjolo, chiqueiros, rancho de carros, quintal cercado com muros
de pedra e arvoredos de espinhos foram avaliados em 600$000. Outros bens
de raiz foram relacionados, como a fazenda Chapadão, na vila de Pouso
Alegre e uma “morada de casas baixa, coberta de telha”, no arraial de São
Tomé das Letras. A escravaria de José Francisco somava 59 cativos, isto se
considerarmos os 37 arrolados no inventário, mais os 22 que participaram
da rebelião. O total dos bens avaliados atingiu o montante de 51:865$994.62
Nota-se, pelos bens arrolados e pelo número de escravos, a fortuna que
poderia ser auferida com a criação de animais e a produção de gêneros para
o abastecimento. Em outros tempos, supõe-se que José Francisco desempe-
nhasse um papel de relativa importância na região, pois recebeu de d. João
VI a patente de alferes da Companhia de Ordenanças do distrito de São
Ignácio da Lavrinha, da freguesia de Lavras do Funil, termo da vila de São
João del-Rei.63 Já em 1833, encontrava-se em idade avançada e estava cego.
Parte da riqueza acumulada nas primeiras décadas do século XIX pode ter
sido distribuída entre os filhos, visto que sua prole era numerosa e a grande
maioria não mais residia na morada paterna. Provavelmente, o seu genro,

62. IPHAN-SJDR, Inventário de José Francisco Junqueira e Antônia Maria de Jesus (1833),
caixa 377.
63. AN, Registro geral das mercês, coleção 137, livro 12, fl. 137, 11/9/1810.

249
Manuel José da Costa, era quem administrava os negócios da família, uma
vez que os outros moradores eram, em grande parte, mulheres e crianças.
Manuel, sua esposa e dois filhos foram assassinados pelos escravos e
não deixaram herdeiros diretos. Apesar de residir na mesma propriedade
do sogro, seus bens foram arrolados em separado e seu pai, João da Costa
Lourenço, acabou sendo seu inventariante. Dentre os bens inventariados,
destacam-se 3:884$480, dos quais 3:588$000 em notas de banco.64 A sua
escravaria somava 14 cativos, dois dos quais eram tropeiros. Tinha 57 cabeças
de gado, dez bestas de carga e seis cavalos, perfazendo um total de 10:197$480.
Se somarmos alguns desses bens, teremos a real dimensão da contribuição
da família para o sucesso dos empreendimentos agropastoris. Ainda que os
bens tenham sido descritos em separado para efeito de divisão da herança,
a residência na mesma sede resultaria em atividades em conjunto, seja na
produção ou na comercialização dos produtos. José Francisco e seu genro
possuíam mais de duzentas cabeças de gado, mais de setenta cativos, quase
quarenta bestas de carga arreadas e alguns escravos tropeiros. São indícios
claros dos caminhos do enriquecimento, quase sempre ligado às atividades
agropastoris, à produção e à comercialização de gêneros voltados para o
mercado interno.
Ana Francisca do Vale, assim batizada em homenagem à avó paterna, era
mais conhecida como Ana Cândida Junqueira, seu nome de casada. Quinta
filha dos fundadores, casou-se com Joaquim Bernardes da Costa, natural
de Campanha, filho de português, descendente dos primeiros povoadores
da região de Baependi.65 O casal teve nove filhos, dos quais oito deixaram
descendência (ver diagrama 6). Grande parte dos filhos do casal requereu
sesmarias na região de Poços de Caldas, por orientação do pai, depois que
fizera uso das águas quentes de Caldas, entre 1812 e 1815. Os Costa Junqueira
são considerados os povoadores da região.66

64. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem de Manuel José da Costa e Emiliana Francisca
Junqueira (1833), caixa 351.
65. Frederico de Barros Brotero, op. cit., p. 654.
66. José Guimarães, As três ilhoas, p. 217; José Américo Junqueira de Mattos, Família
Junqueira, p. 1.093.

250
Ana Francisca do Vale faleceu no dia 10 de fevereiro de 1806, na fazenda
Lambari Pequeno, vila de Baependi. O inventário de seus bens teve início
em 1810 e só terminou em 1825, tendo seu esposo como inventariante. Além
da fazenda, avaliada em 4:800$000, era proprietária da metade de uma
casa de morada em São Tomé das Letras, de parte em um pasto fechado
na vila de Campanha e de 27 cativos. Os animais arrolados eram 54 vacas,
49 cabeças de gado solteiro, trinta novilhas, 93 bois, 16 bois de carro, 49 éguas,
cinco potros, sete burros e seis bestas. Seu monte-mor foi de 15:318$825.67
Embora os valores sejam bem menores, se comparados com os exemplos
citados até o momento, percebe-se o mesmo caminho de constituição da
riqueza encontrado para os outros membros da família.
Alguns dos filhos de Ana Francisca do Vale puderam ampliar sua for-
tuna graças a bons arranjos matrimoniais fora da parentela. Esse parece ter
sido o caso de Mariana Tridentina Junqueira, que se casou, em 1818, com
o capitão Manuel José Ribeiro de Carvalho, também conhecido como o
“velho de Pouso Alegre”. Além de ser considerado fazendeiro importante
no sul de Minas, exerceu atividades ligadas ao comércio e dispunha de
numerosa escravaria. Na lista nominativa de 1831, sua propriedade aparece
com 129 cativos.68 Era proprietário da fazenda Pouso Alegre, localizada na
freguesia do Carmo (atual Carmo de Minas), termo da vila de Santa Maria
de Baependi. A freguesia ficava nas proximidades da povoação do Espírito
Santo dos Cumquibus, que mais tarde constituiria o termo de Cristina,
região que adquiriu larga tradição na cultura do fumo.69
Manuel José Ribeiro de Carvalho morreu em 1835 e, pela descrição de
seus bens, nota-se claramente a relação de complementaridade existente

67. Dados citados por José Américo Junqueira de Mattos, idem.


68. APM, Listas nominativas de 1831-1832 do termo de Baependi.
69. Segundo o Almanaque sul-mineiro, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo pertencia
ao município de Cristina e a “cultura do fumo e da cana [constituía] o principal gênero de
lavoura de seus habitantes, exportando-se anualmente cerca de 18 mil arrobas de fumo; cria-se
também gado e porcos”. Ver Bernardo Saturnino da Veiga, Almanaque sul-mineiro, p. 120.
Dez anos mais tarde, os mesmos gêneros continuavam sendo produzidos e comercializados
com a Corte. “O fumo é a cultura mais usada, engordando-se e criando-se muitos porcos
e gado para se exportar para a Côrte. A exportação de fumo é de cerca de 12.000 arrobas
anuais e toucinho de 10 a 12.000 arrobas anuais. Fabrica-se grande quantidade de queijo,
também para exportação [...].” Ver Almanaque sul-mineiro, p. 493.

251
entre a atividade de fazendeiro e a de negociante, característica observada
quase sempre entre os grandes proprietários sul-mineiros. Além da fazen-
da Pouso Alegre, possuía parte nas terras da fazenda das Caldas, metade
da fazenda do Lambari (de seu sogro) e parte na fazenda Bocaina, do Rio
Verde. A escravaria havia aumentado um pouco, atingindo o número de
134 cativos. A criação de animais parece não ter sido a atividade principal
de sua unidade produtiva, uma vez que entre seus bens foram relacionados
apenas algumas dezenas de gado vacum, exceto algumas centenas de gado
lanígero. Tinha vinte bois de carro, cinco inferiores, três marruás,70 16 va-
cas, seis garrotes, seis novilhas, sete éguas, sete cavalos, duas éguas velhas,
três poldros, um jumento e duzentas cabeças de ovelhas. Aparentemente, a
maioria de seus escravos atuava no comércio, como tropeiros, e na produção
de fumo. Foram arroladas oito bestas crioulas, 38 bestas arreadas, três bestas
novas, sete bestas velhas, dez bestas de sela velhas e duas bestas de sela novas.
A importância das tropas pode também ser inferida pelos poucos escravos
que tiveram a ocupação declarada. Um foi qualificado como tropeiro, outro
como armador e dois como ferreiros. Dentre os bens descritos, destacam-se
uma tenda de ferreiro, material para ferragem de tropa, bigornas, martelos e
cravos de ferrar. A quantidade de fumo arrolada também não foi desprezível,
nada menos que 663 arrobas, avaliadas em 1:697$280. Foram relacionadas,
ainda, 370 sacas de sal que, provavelmente, deveriam ser vendidas para
fazendeiros da região.
A ligação de Manuel José com o mundo do comércio também pode
ser inferida das dívidas ativas discriminadas no inventário em “dívidas em
rol” e “dívidas por crédito”. As primeiras eram de pequeno valor e estavam
nas mãos de 17 pessoas, atingindo uma cifra de poucos mais de 600$000.
A maior parte se encontrava na segunda categoria e concentrava-se nas
mãos de onze pessoas, muitas delas aparentadas com o credor. Atingiu a
cifra de 24:418$530, correspondendo a aproximadamente 20% do valor total
dos bens inventariados.71 Quase metade de sua fortuna estava investida em

70. Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, marruá significa “novilho que não foi
domesticado”. Novo dicionário da Língua Portuguesa, p. 1.097.
71. Parece bastante provável a hipótese de que o fazendeiro atuasse como prestamista para
alguns proprietários da região. Lucila Reis Brioschi e José Américo Junqueira de Mattos

252
escravos, pois os cativos foram avaliados em 59:050$000 e o monte-mor do
inventário atingiu a cifra de 124:216$433.72
Gabriel Francisco Junqueira, futuro barão de Alfenas, era o filho mais
novo do casal fundador. Em 11 de junho de 1808 desposou Inácia Constança
de Andrade, neta de portugueses, com quem teve 11 filhos, dos quais oito
deixaram descendência (ver diagrama 7 e figuras 56 e 57). Herdou de seu
pai a fazenda Campo Alegre, dando continuidade à agricultura e à pecuária
na região. Além de grande proprietário, foi um líder político de destaque na
comarca do Rio das Mortes, elegendo-se deputado pela província de Minas
Gerais no parlamento nacional, por três legislaturas seguidas, ao longo da
década de 1830 e ainda liderou a coluna dos insurgentes na Revolta Liberal
de 1842. Sua trajetória sociopolítica e econômica está intimamente ligada à
história de sua família e do segmento social que representava, o dos grandes
proprietários envolvidos na produção e na comercialização de gêneros vol-
tados para o abastecimento interno. Sua história também nos permite tecer
considerações sobre a atuação das elites regionais no cenário político, em dois
momentos cruciais da construção do Estado imperial brasileiro: a Regência
e o início do Segundo Reinado, que serão objeto de reflexão mais adiante.
Primeiramente, vejamos algumas evidências da fortuna amealhada
pelo deputado, ao longo da primeira metade do século XIX. Para sorte
do historiador, os aspectos relacionados à trajetória socioeconômica de
Gabriel Junqueira podem ser pinçados graças à três tipos de fontes: as listas
nominativas de 1839; o inventário de sua esposa, realizado em 1859; e o seu
inventário, datado de 1868. Esses documentos precisam ser interpretados
levando em consideração três momentos distintos da história do deputado:

afirmam que Manuel José Ribeiro de Carvalho era “capitalista”, com base nas informações
que constam no Almanaque sul-mineiro. Neste aspecto, há um equívoco por parte dos au-
tores, pois a relação que aparece no Almanaque é datada de 1874 e o biografado em questão
faleceu em 1835. Bernardo Saturnino da Veiga menciona como fazendeiro importante um
homônimo e, como capitalista, Manuel José Ribeiro de Carvalho Guimarães, prováveis
descendentes da mesma família. Ver Lucila Reis Brioschi, Família e genealogia, p. 211;
José Américo Junqueira Mattos, Família Junqueira, p. 1.172; Bernardo Saturnino Veiga,
Almanaque sul-mineiro, p. 122.
72. CEMLBT. Inventário post mortem de Manuel José Ribeiro de Carvalho (1835). Na época
em que o documento foi consultado o acervo encontrava-se em fase de catalogação, daí a
ausência da referência ao códice.

253
na década de 1830, tornou-se um dos principais representantes da facção
liberal moderada mineira no parlamento nacional; na década de 50, con-
seguiu amealhar uma fortuna considerável, em razão das atividades ligadas
ao abastecimento interno. No final da década de 1860, já se encontrava em
idade avançada e cego, talvez mantendo a memória e o respeito construídos
em tempos passados e também o título de barão, que recebera do imperador
em 1848.73 Mesmo assim, ainda era dono de uma fortuna considerável para
os padrões da época.
Em 1839, sua propriedade aparece relacionada na lista nominativa de
habitantes do curato de São Tomé das Letras, freguesia de Carrancas. Residia
na fazenda Campo Alegre, com sua família e mais 103 cativos. Nessa época
estava com 57 anos de idade e sua esposa, com 56, vivendo na companhia
de seis filhos, que ainda eram solteiros e residiam na mesma propriedade.
A importância de sua unidade produtiva pode ser inferida pelo número de
escravos que possuía.
Na década de 1830, Gabriel Francisco Junqueira fazia frequentes viagens
ao Rio de Janeiro para exercer suas atividades parlamentares. A adminis-
tração da fazenda ficava a cargo do seu filho, Gabriel Francisco de Andrade
Junqueira, que também se ocupava da fiscalização do trabalho dos escravos,
além de exercer a função de juiz de paz do curato de São Tomé das Letras.
Foi numa dessas ausências do deputado que os seus escravos deram início
à Revolta de Carrancas, assassinando, primeiramente, o seu filho Gabriel,

73. Gabriel Francisco Junqueira foi agraciado com o título de barão de Alfenas, por decreto
assinado em 11 de outubro de 1848. Juntamente com ele, mais dois proprietários do sul de
Minas receberam o mesmo título: João Antônio de Lemos, barão do Rio Verde, e Francisco
Teodoro da Silva, barão de Pouso Alto. Mais seis proprietários de diferentes lugares rece-
beram o baronato no mesmo decreto: barão de Pitangui, de Iguape, de Itu, de Mogi Mirim,
de Paraguaçu e de Moroim. Segundo José Murilo de Carvalho, os títulos mais baixos da
hierarquia nobiliárquica foram largamente distribuídos entre os grandes proprietários do
Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de São Paulo, especialmente entre os que se distinguiam
pelo seu poder e pela sua riqueza e não propriamente pela sua projeção na vida política.
O autor concorda com a afirmação de Justiniano José da Rocha de que a distribuição de
títulos representava uma tentativa de aproximar os proprietários da monarquia, uma
forma de cooptação, mas o seu aumento expressivo na década final do Império representou
também uma tentativa de compensação. “A Coroa tentava pagar em símbolo de status o
que tirava em interesse material.” Ver José Murilo de Carvalho, A construção da ordem;
Teatro de sombras, p. 238.

254
enquanto supervisionava o trabalho dos cativos nas terras da fazenda Campo
Alegre (ver capítulo 5).
Inácia Constança Junqueira morreu no dia 27 de junho de 1858, na
fazenda Campo Alegre, freguesia de São Tomé das Letras, que, na época,
pertencia ao termo de Baependi. O inventário teve início quase um ano de-
pois, em março de 1859. Em suas “terras de cultura de criar”, plantava milho,
feijão, cana, criava animais (gado, cavalos, porcos, ovelhas) e produzia açúcar.
Para comercializar parte dessa produção, a tropa era essencial. Como muitos
grandes proprietários do seu tempo, também tinha dinheiro em espécie e
investiu parte de sua fortuna em ações.74 Em dinheiro, possuía a quantia de
8:550$000. As ações estavam assim distribuídas: vinte da Estrada de Ferro
D. Pedro II, avaliadas em 4:000$000, quatro da Estrada do Mucuri, estimadas
em 1:200$000, quatro da Estrada de Magé, em 400$000, e mais 144$000 de
dividendos na mesma estrada.
Dentre os bens de raiz, destacam-se as moradas que tinha em São Tomé
das Letras, avaliadas em 500$000, os engenhos de cana e de serra e as demais
benfeitorias da fazenda Campo Alegre, calculadas em 4:900$000. A casa
de vivenda, “mobília e trastes nela existentes” totalizaram 2:500$000, sem
discriminar o que havia no interior da sede da fazenda. A importância das
“terras de cultura e campos de criar” da fazenda fica patente pelo valor por
que foram estimadas: 120:000$000. A parte de terras que tinha na fazenda
Bela Cruz valia 4:000$000 e, na fazenda Santo Inácio, 5:220$200.
A maior parte da fortuna do barão estava investida em escravos, num
total de 111, avaliados em 141:910$000. Sua escravaria representava cerca
de 43% de sua fortuna, seguida pelas terras, que correspondiam a 39% do
seu patrimônio. Foram relacionados poucos devedores da casa, somando o
montante de 5:000$000. Sobre a alta porcentagem dos escravos na compo-
sição de sua riqueza, tem de se considerar também o contexto da abolição

74. Guardadas as devidas proporções do tamanho das fortunas, a trajetória de Gabriel


Francisco Junqueira lembra muito a do maior cafeicultor de Bananal, Manuel Aguiar Valim,
pelo menos no que se refere à diversificação das atividades e das opções de investimento dos
recursos que possuía. Ver Sheila de Castro Faria, Fortuna e família em Bananal no século
XIX; João Luís Fragoso e Ana Maria Lugão Rios, Um empresário brasileiro do oitocentos.
Ver também Hebe Maria Mattos de Castro e Eduardo Schnoor (orgs.), Resgate: uma janela
para o oitocentos, p. 63-98; 197-224.

255
do tráfico internacional, logo após o ano de 1850, que resultou na elevação
dos preços da mão de obra cativa. Um escravo especializado e em idade
produtiva poderia chegar a custar quase o mesmo preço de uma sorte de
terras, das que o barão tinha na fazenda Bela Cruz. Este foi o caso do escravo
crioulo chamado Arcenio. Era casado, com idade de 35 anos, se ocupava dos
ofícios de carpintaria na fazenda e foi avaliado em 3:200$000.
Entre os gêneros produzidos e listados na ocasião do inventário, desta-
cam-se uma roça de milho, sessenta arrobas de açúcar redondo ordinário,
25 arrobas de açúcar claro, 16 arrobas de açúcar mascavo e setenta barris
de cachaça. Possuía ainda 358 cabeças de gado vacum, assim distribuídas:
21 garrotes de três anos, 22 de dois anos, 14 bezerros, 23 bezerras, 36 novilhas
de dois anos, 36 novilhas de três anos, 74 vacas solteiras, 37 vacas com crias
maiores, 26 vacas com crias novas, cinco vacas de corte velhas, cinco tou-
ros e 58 bois de carro. Além disso foram listados 104 porcos e 68 carneiros.
Os cavalos, tão apreciados pelos Junqueira, mereceram descrição mais de-
talhada, ao menos em alguns casos, como, por exemplo, o do cavalo Castelo
e o de um potro pampa de três anos, que foram avaliados em 100$000 e
120$000, respectivamente.75 Havia também uma égua com cria de burro,
uma com cria de cavalo e 19 sem cria, além de quatro potros e quatro ca-
valos mansos. Também foram relacionadas 33 bestas, 12 das quais estavam
arreadas e eram essenciais para o transporte das mercadorias e o comércio
dos gêneros produzidos em sua propriedade.76
Os bens arrolados demonstram os caminhos do enriquecimento e da
fortuna que o barão conseguiu amealhar ao longo do século XIX, que, evi-
dentemente, têm ligação direta com sua atuação política e com o segmento
social que representava. Assim como muitos outros grandes proprietários
citados ao longo deste trabalho, o deputado não fugia à regra, consorciava
diversas atividades em sua propriedade e comercializava parte da produção
em outras praças, especialmente na Corte.

75. Considerando o alto valor da avaliação dos dois animais, provavelmente deveriam ser
cavalos mangalarga, da raça introduzida pelos Junqueira. Ver José Américo Junqueira de
Mattos, op. cit., p. 1.256.
76. IPHAN-SJDR, Inventário de Inácia Constança Junqueira (1859), Baependi.

256
Quase dez anos depois, morreu, aos 87 anos idade. Tal como diversos
membros de sua família, ele sofria de uma doença congênita que causava
cegueira. Embora naquela época parte dos seus bens já tivesse sido distri-
buída entre os herdeiros, por ocasião da morte da esposa, os números ainda
impressionavam. Entre os bens arrolados, a escravaria ainda era considerável,
nada menos que 92 cativos. A produção agrícola era bastante diversificada,
destacando-se vários alqueires de plantação de feijão, milho e arroz, sem
esquecer a cana e o fumo. As benfeitorias da fazenda demonstravam que a
produção agropastoril estava entre as atividades que fizeram a fortuna da
família. As atividades comerciais ligadas ao abastecimento interno podem
ser deduzidas tomando-se por base as benfeitorias localizadas nas fazendas
Campo Alegre, Narciso e Boa Vista, onde havia referências à existência
de casas para tropas e para queijos, além de engenhos de cana e de serra,
moinhos e monjolos, currais e casas de fumo.
A fazenda Campo Alegre foi avaliada em 57:000$000. Gabriel Francisco
Junqueira era dono de vinte arrobas de algodão e cinquenta sacas de sal,
essencial para o gado. Em dinheiro, possuía as quantias de 12:908$000 em
notas, e 285$140 em moedas. Foram relacionadas também quatro apólices,
no valor de 4:000$000 e dívidas por crédito na quantia de 49:030$939.
O monte-mor atingiu a importância de 261:040$939.77
Tem-se constatado ao longo deste trabalho que os grandes escravistas
sul-mineiros enriqueceram graças à produção de gêneros voltados para o
abastecimento interno e à sua vinculação mercantil com a praça carioca,
por meio do consórcio de várias atividades, particularmente no momento
em que tais atividades eram extremamente rentáveis. O detalhamento das
unidades produtivas, verificado nos inventários, seja dos membros da família
Junqueira, ou dos demais casos analisados, constitui uma demonstração
clara da importância socioeconômica e política que os representantes desse
segmento adquiriram na primeira metade do século XIX.

77. IPHAN-SJDR, Inventário post mortem de Gabriel Francisco Junqueira (1868). Agradeço a
José Américo Junqueira a cópia, reprográfica, deste inventário, uma vez que a documentação
de Baependi estava em fase de organização no momento em que foi realizada a pesquisa e
não tive como consultar o original.

257
A trajetória socioeconômica de Gabriel Francisco Junqueira não pode
ser dissociada de sua história familiar, dos cargos que ocupou e de sua
atuação como importante líder político na província de Minas Gerais. Por
isto, talvez sua história nos ajude a compreender um pouco mais o papel
desempenhado pelas elites regionais em um momento crucial da história
do Império do Brasil, especialmente no período em que se desencadearam
calorosos debates e ações em torno da construção do Estado e da formação
da nacionalidade brasileira.78 Sua atuação foi marcante em dois momen-
tos-chave da história política do Império: na Regência e em 1842, quando
ocorreram as revoltas liberais. Determinemos o contexto de sua atuação e
as interpretações historiográficas mais relevantes sobre o período.
Considerado um dos períodos mais agitados e fascinantes da história do
Império do Brasil, a Regência foi marcada por violentos protestos coletivos,
como sedições militares, motins, revoltas escravas, revoltas provinciais e
regionais. Como afirma Ilmar Rohloff de Mattos, os anos que se seguiram
à Abdicação foram “anos de levantes, revoltas, rebeliões e insurreições. De
sonhos frustrados e de intenções transformadas em ações virtuosas. Foram,
sem dúvida, anos emocionantes para aqueles que viveram no Império do
Brasil”.79 Segundo Francisco de Paula Ferreira de Resende, ao registrar suas
memórias e recordar seu tempo de menino na vila de Campanha, o Brasil
vivia “muito mais na praça pública do que mesmo no lar doméstico”.80 Esse
período foi também marcado por mudanças na ordem jurídica, política

78. A construção do Estado e a formação da nacionalidade brasileira são processos correla-


cionados, que remetem ao de emancipação política, mas que “possuem temporalidades que
não são redutíveis a um mesmo e único processo”, como observa Andréa Lisly Gonçalves,
Mobilizações populares e a formação do Estado e da nação no Brasil: Minas Gerais, 1831-
1833; ou como chama atenção Jurandir Malerba: “compartilhamos da periodização proposta
por Sérgio Buarque de Holanda, corroborada por Evaldo Cabral de Melo, que distingue
a Independência, entendida como processo de emancipação política (e que pode se situar
entre 1808 e 1831), do processo de construção do Estado imperial (que, sem dúvida, se
inicia neste interregno, com as atividades da Assembleia Constituinte em 1823, a outorga
da Carta em 1824 e a aprovação do Código Criminal em 1830) e da formação de uma nacio-
nalidade brasileira, esta ainda mais posterior”. Em Esboço crítico da recente historiografia
sobre Independência do Brasil (desde 1980). Working paper number CBS-45-03. Center for
Brazilian studies University of Oxford, p. 18, apud Andréa Lisly Gonçalves, op. cit., p. 3.
79. Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema, p. 2.
80. Francisco de Paula Rezende, Minhas recordações, p. 67.

258
e administrativa, resultado das disputas travadas entre diversos grupos e
facções políticas (liberais exaltados, liberais moderados e restauradores).81
Embora se trate de uma narrativa ficcional, ambientada no Segundo
Reinado, um diálogo descrito no romance A menina morta, de Cornelio
Penna, acaba por traçar um quadro bastante apropriado sobre o tempo das
Regências. O Comendador, dono da fazenda Grotão, em conversas como
Sr. Aguilar, recém-chegado da Corte, teceu os seguintes comentários sobre a
situação política do Império. “O Brasil é muito vasto (...) e o nosso Império é
um colosso formado de pequenos pedaços mal ligados que deixam inúmeras
fendas entre eles. Qualquer gota d’água, qualquer sopro, se infiltra nessas
fissuras e dificilmente depois se evaporam...”82
José Murilo de Carvalho chamou a atenção para a relação entre a elite
e o Estado no final da década de 1830. Segundo o autor, com o regresso con-
servador, “as incertezas e turbulências da Regência começaram a dar lugar a
um esboço de sistema de dominação mais sólido, centrado na aliança entre,
de um lado, o rei e alta magistratura, e, de outro, o grande comércio e grande
propriedade, sobretudo a cafeicultura fluminense”.83 O período regencial
constitui, para o autor, a melhor indicação dos limites de implantação de um
sistema nacional de dominação monárquico. Divide as rebeliões regenciais
em dois grupos: o primeiro, iniciando-se com a abdicação de d. Pedro I,
terminando no ano de 1835 (um ano após a promulgação do ato adicional);
o segundo, posterior à promulgação do ato adicional, estendendo-se até o
Segundo Reinado, com a Revolta Praieira, em 1848.84 O período regencial
também foi marcado por um avanço liberal, sobretudo em seus primeiros
anos, quando aprovadas algumas leis que resultaram em mudanças na or-
dem político-administrativa, de conteúdo descentralizador: a criação da

81. Em um dos capítulos de minha dissertação de mestrado, fiz um levantamento dos


conflitos ocorridos em Minas no tempo das regências, demonstrando que a província foi
assolada por vários motins, sedições e rebeliões, não se restringindo somente ao episódio
da Sedição Militar de 1833 ou à Revolta do Ano da Fumaça. Ver A província de Minas Gerais
no período regencial, p. 39-74.
82. Cornelio Penna, A menina morta, p. 899.
83. José Murilo de Carvalho, A construção da ordem, p. 229.
84. Ibidem, p. 230-231.

259
Guarda Nacional (18 de agosto de 1831), o Código de Processo Criminal (23
de novembro de 1832) e o ato adicional (12 de agosto de 1834).
A aprovação do Código de Processo Criminal de 1832, complementando
o Código Criminal de 1830, introduziu significativas mudanças, que faziam
parte do ideário dos liberais, particularmente dos exaltados – a descentraliza-
ção. O novo código estava dividido em duas partes: uma, sobre a organização
judiciária, e outra, sobre a forma do processo. A nova organização judiciária
garantia o fortalecimento dos municípios e dos governos locais, conferindo
poderes extraordinários aos juízes de paz, escolhidos pelo voto popular
desde 1827. Como afirma Thomas Flory, especialmente após a promulgação
do Código de Processo Criminal de 1832, o juiz de paz acumulou funções
administrativas, judiciárias e policiais, identificando-se, simbolicamente, às
ideias liberais em voga no período.85
O ato adicional à Constituição, aprovado em 12 de agosto de 1834,
também continha algumas das reivindicações dos liberais, ao propiciar
a descentralização política e a autonomia das províncias. Concedia-lhes
o poder de criar assembleias legislativas provinciais, em substituição aos
conselhos gerais, referidos na Constituição de 1824. Para os conservadores,
a fragilidade das medidas liberais contribuiu para as diversas convulsões
sociais do período. Esta contradição conduziu à retomada do processo de
centralização, culminando no Regresso conservador, esboçado a partir de
1837 e empreendido com a justificativa de fortalecimento das instituições,
em razão do enfraquecimento gerado pelas medidas liberais adotadas an-
teriormente.86 Reinterpretou-se o ato adicional, em 12 de maio de 1840, e
restaurou-se o Conselho de Estado. O Código de Processo Criminal foi
reformado no dia 3 de dezembro de 1841, substituindo-se o juiz de paz pelo
chefe de polícia.
O tema descentralização e centralização, tratado antes genericamente
pela historiografia, tem sido objeto de análise mais cuidadosa por estudos
recentes, que procuram empreender análises mais circunstanciadas acerca da

85. Thomas Flory, El juez de paz y el jurado en el Brasil Imperial, 1808-1871.


86. Sobre o “Regresso conservador”, ver Magali Engels, Regresso, p. 626-628.

260
administração e do funcionamento da Justiça nas primeiras instâncias.87 As
reformas conservadoras, que vigoraram a partir da década de 1840, também
têm sido objeto de releitura por parte dos estudiosos. Miriam Dolhnikoff,
ao analisar a relação entre os governos das províncias de São Paulo, Rio
Grande do Sul e Pernambuco com o Estado, constatou que a autonomia
introduzida pelo ato adicional de 1834 não foi substancialmente alterada pela
reinterpretação de 1840. Mesmo após o Regresso, as assembleias legislati-
vas provinciais ainda podiam contar com autonomia tributária, o que lhes
garantia recursos suficientes “para atender as demandas da elite da região,
fosse em termos econômicos, fosse na manutenção da ordem interna, fosse
na capacidade de negociação política”.88
Após o Sete de Abril, delinearam-se três facções políticas principais,
tendo como tendência vencedora a dos liberais moderados ou chimangos,
que congregava políticos de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro em torno da
Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional. Dentre os
políticos de maior expressão, destacaram-se o mineiro Bernardo Pereira
de Vasconcelos, o paulista e futuro regente padre Diogo Feijó, e Evaristo
da Veiga, responsável pelo principal periódico do Rio de Janeiro, a Aurora
Fluminense, o mais importante jornal liberal da época.
Na oposição, colocavam-se outras duas tendências. De um lado, estavam
os liberais exaltados (farroupilhas ou jurujubas), defendendo a autonomia
das províncias, a federação e as liberdades individuais, ideais articulados em
torno da Sociedade Federal. Ao exigirem reformas político-administrativas
profundas, apelavam especialmente para os movimentos populares de cará-
ter urbano e para a sublevação dos escalões inferiores das forças militares.

87. Cabe citar aqui dois estudos recentes que analisam a criminalidade em Minas Gerais,
no século XIX, especialmente na comarca do Rio das Mortes. Resguardadas as devidas
diferenças de enfoque e recorte, os autores se debruçam sobre o emaranhado complexo
da administração da justiça na referida comarca, demonstrando os limites, os conflitos
e contradições instaurados a partir das mudanças e das reformas na legislação a partir
de 1827. Ver Ivan Vellasco de Andrade, As seduções da ordem: violência, criminalidade e
administração da justiça – Minas Gerais, século XIX; Maria Tereza Pereira Cardoso, Lei
branca e justiça negra: crimes de escravos nas vilas de São João del Rei e São José (1814-1852).
88. Miriam Dolhnikoff, O lugar das elites regionais, p. 118. Ver, ainda, da mesma autora,
Elites regionais e construção do Estado nacional; e Construindo o Brasil: unidade nacional
e pacto federativo nos projetos das elites.

261
Algumas das reivindicações dos liberais exaltados foram atendidas por um
conjunto de medidas político-administrativas de caráter descentralizador,
adotadas nos primeiros anos da Regência. O aparente predomínio liberal,
também conhecido como uma “experiência republicana”, se estendeu até 1837. 89
De outro lado, estavam os restauradores ou caramurus, partidários do
retorno de d. Pedro I ao trono, da conservação da Constituição de 1824 e
contrários às reformas de cunho liberal. Entre seus representantes, desta-
cam-se pessoas ligadas à administração do Primeiro Reinado, pertencentes
à alta burocracia imperial, militares de alto escalão e ricos comerciantes
de importação e exportação, tendo como associação política a Sociedade
Conservadora da Constituição Brasileira e, mais tarde, a Sociedade Militar.
Esta facção perde o sentido com a morte do imperador, em 24 de setembro
de 1834.90
Estudos recentes têm chamado a atenção para o reducionismo com
que foi compreendida a participação política de moderados, exaltados e
restauradores. Como afirma Marco Morel, nessa época ainda não existia
“partido político” no sentido moderno do termo. Ao contrário, partida-
rização tinha conotação pejorativa, pois poderia comprometer a unidade
nacional. Havia várias formas de organização política e o partido, tal como
era denominado na época,
[...] constituía-se em formas de agrupamento em torno de um líder, ou
através de palavras de ordem e da imprensa, em determinados espaços
associativos ou de sociabilidade e a partir de interesses e motivação
específicas, além de se delimitarem por lealdades ou afinidades (inte-
lectuais, econômicas, culturais etc.) entre seus participantes.91

Portanto, ser “moderado”, “exaltado” ou “caramuru” fazia parte de um


processo complexo de construção de identidades e de participação polí-
tica, “cuja manipulação significava para aqueles que ora estigmatizavam,
ora eram estigmatizados, a possibilidade de, através de um complexo jogo

89. Sobre as sociedades políticas da Regência e o papel dessas instituições para a veiculação
das ideias e dos embates travados entre as facções políticas da época, ver Augustin Wernet,
Sociedades políticas (1831-1832).
90. Augustin Wernet, O período regencial: 1831-1840, p. 45-49.
91. Marcos Morel, O período das regências, p. 32.

262
de atribuições e representações, afirmar seus interesses, justificar os seus
projetos e legitimar as suas expectativas”.92
Pode-se afirmar que a Regência é um dos períodos menos conhecidos
da história do Império.93 Isto se justifica pela sua complexidade, revelada
não só pelas inúmeras rebeliões provinciais, mas também pelo calor das
discussões em torno da construção da nacionalidade, das ideias liberais e
da formação do Estado etc. Parte-se aqui do mesmo pressuposto de Marco
Morel, que considera o período como “um grande laboratório de formu-
lações e de práticas políticas e sociais”,94 dentre as quais uma se distinguiu:
a dos liberais moderados. Em meio a tantas propostas e embates, foram os
moderados que deram a direção política durante a Regência. Assim como a
Corte, a província de Minas Gerais será palco de disputas entre as principais
facções políticas da época, destacando-se os moderados e os restauradores.
A dimensão e a importância desses conflitos culminaram com a Sedição
Militar de 1833, também conhecida como a Revolta do Ano da Fumaça,
quando um grupo alcunhado de restauradores tomou o poder na capital
da província durante os meses de abril e maio.95
Por muito tempo a historiografia tratou de forma generalizante essas
disputas, sem perceber as distinções e os significados que esses termos
carregavam e a apropriação dos sentidos que ora poderia ser feita por uma
facção, ora por outra, ou mesmo por segmentos marginalizados da socie-
dade, como os escravos. Alguns trabalhos recentes apresentam uma outra
leitura dessas disputas e da sedição propriamente dita. Francisco Eduardo
de Andrade considera o ano de 1833 como um marco decisivo da subordi-
nação das câmaras municipais ao poder provincial e a Sedição Militar de

92. Santiago Silva Andrade, “Ser vil, infame e safado”: o jogo das identidades políticas na
Corte Imperial (1831-1834), p. 4.
93. Neste aspecto, concordo inteiramente com Marco Morel, ao apontar a necessidade de
se compreender melhor o tempo das regências, sem desconsiderar os inúmeros desafios e
cuidados que terão de ser enfrentados por qualquer pesquisador que se aventure a estudar
aquela época. Ver O período das regências.
94. Ibidem, p. 9.
95. As interpretações mais conhecidas da Sedição de 1833 foram elaboradas por Francisco
Iglésias, Minas Gerais, p. 364-412; e Paulo Pereira de Castro, A “experiência republicana”,
1831-1840, p. 9-67.

263
1833 como a expressão significativa deste conflito.96 Já Wlamir Silva discute
a construção da hegemonia liberal moderada em Minas e ressalta os meios
utilizados pelos liberais para identificar os seus adversários, qualificando-os,
geralmente, de caramurus, restauradores, absolutistas ou anarquistas.97
Nessa época, vários mineiros tiveram significativa atuação política, tanto
no cenário provincial, quanto no imperial. A maioria desses personagens
foi bem retratada pela historiografia, com destaque para os aspectos bio-
gráficos, a origem socioeconômica, a a participação política e intelectual.98
A historiografia privilegiou, quase sempre, os políticos que se distinguiram
como propagadores do pensamento liberal, excluindo os proprietários que
não se sobressaíram na pedagogia liberal.99 Embora o nosso personagem
não se tenha projetado como um grande orador, formulador de ideias e de
significativos projetos de cunho liberal, a sua liderança política regional
foi relevante, seja como deputado no parlamento nacional, nos primeiros
anos da década de 1830, seja como líder militar na Revolta Liberal de 1842.
A análise de sua trajetória familiar, socioeconômica e política é fundamental
para se compreender a sua atuação naquele contexto.
O início da ação política de Gabriel Francisco Junqueira esteve ligado
diretamente aos acontecimentos que antecederam à abdicação do imperador,
quando este empreendeu sua segunda viagem a Minas, com a finalidade
de recuperar seu prestígio político, subjugar a facção liberal e patrocinar

96. Francisco Eduardo Andrade, Poder local e herança colonial em Mariana: faces da revolta
do “Ano da Fumaça (1833)”, p. 127-138.
97. Ver Wlamir Silva, Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderada na
província de Minas Gerais (1830-1834). As apropriações e os usos desses enquadramentos
não estavam restritos aos membros da elite. Poderiam ser feitos pelos segmentos margi-
nalizados da sociedade, como, por exemplo, os escravos. Ver Marcos Ferreira de Andrade,
Rebeldia e resistência, p. 198-199.
98. Ver, entre outros, Otávio Tarquínio de Souza, História dos fundadores da história do
Império do Brasil; Alfredo Valladão, Vultos nacionais; José Pedro Xavier Veiga, Efemérides
mineiras. No capítulo 4 de sua tese, Wlamir Silva retrata os principais atores da elite polí-
tica mineira que tiveram papel de destaque nos primeiros anos da Regência. Ver Liberais
e povo, p. 106-132.
99. Este foi o enquadramento utilizado por Wlamir Silva para definir a atuação política de
Gabriel Francisco Junqueira e de José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, dono de lavras de
mineração no distrito de Santa Bárbara, vila de Caeté. Ver Liberais e povo, p. 131. O autor
parte do conceito de “classe dirigente” ou “classe política” do pensador italiano Antônio
Gramsci para identificar os “intelectuais orgânicos”, construtores da hegemonia liberal.

264
a reeleição do deputado Silva Maia, seu ministro. João Armitage chama a
atenção para a frieza e até mesmo a oposição com que o monarca foi recebido
nesta segunda viagem, quando em algumas vilas “celebravam-se as exéquias
fúnebres em honra do assassinado Badaró, mesmo debaixo das vistas da
imperial comitiva”.100 A resposta dos mineiros veio no resultado das eleições.
Os jornais da época, pesquisados por José Pedro Xavier da Veiga, noticiaram
o resultado eleitoral de 30 de janeiro de 1831, nos mais importantes colégios
eleitorais da província, salientando a vitória exemplar de Gabriel Francisco
Junqueira. Na vila de Campanha, por exemplo, ele obteve a totalidade dos
votos, isto é, nada menos que 106 eleitores lhe garantiram a vitória.101
As evidências sobre sua atuação política no Império são muito escas-
sas. Nos anais do parlamento brasileiro, durante o período de 1831 a 1836,
seu nome aparece 27 vezes. Participou de 16 votações, fez duas nomeações,
apresentou somente duas emendas a projetos de lei e foi indicado para a
Comissão de Minas e Bosques, com 23 votos, juntamente com outros dois
deputados mineiros, Albuquerque Maranhão e José Custódio. Ao que tudo
indica, o futuro barão de Alfenas trabalhou nos bastidores da política e do
parlamento, pois jamais discursou ou apresentou um projeto de lei. Por outro
lado, revelou-se um líder regional de grande influência, defendendo os inte-
resses econômicos de sua família e de uma parcela da elite a qual pertencia
e que possuía estreitos vínculos comerciais com a praça carioca. A única
emenda que apresentou, e que mereceu registro nos anais do parlamento,
evidencia claramente esta relação, já que, em 26 de agosto de 1836, buscou
reduzir em 50% a tributação sobre porcos e carneiros. Os primeiros seriam
taxados em 0$400 em vez de 0$800 e os segundos, em 0$200 em vez de
0$400.102 O exercício do mandato de deputado no parlamento nacional e o

100. Citado por José Pedro Xavier da Veiga, op. cit., p. 1.095.
101. A dimensão da derrota que sofreu o candidato do imperador e da força política de Gabriel
Francisco Junqueira pode ser percebida pelo número expressivo de votos que este obteve
em várias vilas mineiras. “Ouro Preto: Junqueira – 29, Maia – 5; Queluz: Junqueira – 26,
Maia – 3; Barbacena: Junqueira – 41, Maia – 3; São João del Rei: Junqueira – 33, Maia – 0;
Campanha: Junqueira – 106, Maia – 0; Baependi: Junqueira – 40, Maia – 1.” Em poucas
vilas, infelizmente não mencionadas pelo autor, o ministro Maia obteve maioria dos votos.
Citado por José Pedro Xavier Veiga, op. cit., p. 1.095.
102. Anais do Parlamento Brasileiro, Câmara dos Deputados, sessão de 1836. Brasília: Câmara
dos Deputados; Centro de Documentação e Informação, Coordenação de Publicações,

265
contato com a Corte e os representantes da elite política do Império repre-
sentavam oportunidades de ganhos pessoais, de defesa dos interesses de sua
família e do segmento social de que fazia parte. Aí reside a importância de
sua atuação política no cenário imperial.
A política, os negócios e a família constituíam os três pilares de sus-
tentação e consolidação do prestígio e do poder de determinados membros
da elite escravista. Mediante a conjugação desses três elementos, grandes
proprietários poderiam ampliar seus negócios, fixar a identidade da paren-
tela e garantir, assim, a continuidade das atividades políticas.103 No período
regencial, a inserção do setor abastecedor na praça carioca, em particular
o proveniente de Minas Gerais, possibilitou a projeção de alguns de seus
representantes políticos, explicitado tão apropriadamente por Alcir Lenharo.
E, com certeza, Gabriel Francisco Junqueira é um caso exemplar deste tipo
de trajetória.104
Instalados na Corte, os políticos do interior não perdiam os vínculos
com suas propriedades, mantendo cuidados, fosse com a produção, fosse
com os negócios. A permanência dos interesses no interior é ilustrativa
de uma situação onde as atividades econômicas se faziam simultanea-
mente ao desempenho de funções políticas e administrativas.105

Desempenhou papel de destaque na Revolta Liberal de 1842, coman-


dando a coluna Junqueira, juntamente com seu cunhado Tomás José de
Andrade, ao reunir cerca de 1.200 proprietários, comerciantes e “capitalistas”
da região de Baependi e Aiuruoca em defesa dos princípios de cunho liberal,

1982, v. 2, p. 214.
103. Este também foi o caminho encontrado por algumas famílias da elite da vila de São
João del Rei. Ver Silvia Maria Jardim Brügger, Minas patriarcal, em especial o capítulo 4,
p. 244-297; Afonso Alencastro Graça Filho, A princesa do Oeste. Ver também os resultados
encontrados para a Zona da Mata mineira, indicando que a elite agrária manteve uma
atuação política somente no nível local, em Mônica Ribeiro Oliveira, Negócios de família.
104. João Antônio de Lemos, o barão do Rio Verde e dono da fábrica de chapéus finos de
São Gonçalo, também teve uma trajetória similar à de Gabriel Francisco Junqueira. Além
de proprietário e dono de manufatura, ocupou os cargos de vereador, deputado provincial,
deputado no parlamento nacional e foi um dos defensores do projeto de criação da província
de Minas do Sul (ver capítulo 2).
105. Alcir Lenharo, As tropas da moderação, p. 119.

266
envolvendo as províncias de São Paulo e Minas Gerais.106 A Revolta Liberal
de 1842 esteve diretamente ligada à direção saquarema, que tomou a política
no Império, representada pelas reformas regressistas de 1841 (restauração
do Conselho de Estado e reforma do Código de Processo Criminal) e pela
dissolução da Câmara dos Deputados de maioria liberal, em 1º de maio de
1842.107 Essas reformas interferiram na correlação de forças políticas de vá-
rias localidades mineiras. Francisco de Paula Ferreira de Resende explicita
bem o efeito de tais reformas depois da nomeação de um novo delegado de
polícia para a cidade de Campanha e da posterior perseguição aos liberais,
obrigando-os a assinar um termo. Este ato, ao contrário de promover inti-
midações, serviu de estopim para congregar vários proprietários em torno
da resistência liberal. Muitos deles saíram de Campanha e se refugiaram
na fazenda Ribeirão, de propriedade de Manuel Nogueira de Sá, inclusive
o pai do memorialista, e formaram a coluna Junqueira, liderada pelo futuro
barão de Alfenas.
[...] meu parente Gabriel Francisco Junqueira; depois barão de Alfenas, já
tratava de ajuntar forças para a revolução num lugar chamado Galinhas,
e depois na fazenda do Ribeirão, que pertenciam ao município de
Baependi; muitos foram os liberais da Campanha, que dali furtivamente
se escapando, a elas se foram ajuntar; e deste número foi o meu pai. 108

Outras indicações que permitem compreender o envolvimento de


Gabriel Francisco Junqueira e a sua liderança política regional podem ser
encontradas, novamente, nas anotações do memorialista. É possível concluir
que as razões apontadas por ele, para a escolha de José Feliciano como líder
dos insurgentes na província de Minas Gerais, sejam perfeitamente cabíveis
para se entender a liderança do ex-deputado Gabriel Francisco Junqueira no
movimento. Ferreira de Rezende destaca pelo menos três: a firmeza de suas
convicções partidárias e o respeito que tinha por parte de seus seguidores;

106. Essas informações fazem parte do relato apaixonado do cônego José Antônio Marinho
e, certamente, esses números são exagerados. Ver História do movimento político que no
ano de 1842 teve lugar na província de Minas Gerais, v. I, p. 131; Francisco de Paula Rezende,
Minhas recordações, p. 152.
107. Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema, p. 97-102.
108. Francisco de Paula Rezende, Minhas recordações, p. 152.

267
a sua fortuna, que poderia não ser colossal, mas talvez fosse bem maior do
que a da maioria dos insurgentes; e, por último, por ser ele o “chefe e muito
prestigioso de uma família muito importante e muito numerosa”.109 Estas
três razões se encaixam no perfil de Gabriel Francisco Junqueira e certa-
mente contribuíram para a consolidação de sua liderança. Sua família teve
como berço a região da comarca do Rio das Mortes, mas se espraiou por
grande parte do sul da província de Minas Gerais, ocupou áreas a nordeste
da província de São Paulo e do triângulo mineiro, e se fixou até mesmo em
algumas freguesias da província do Rio de Janeiro.
As redes familiares e de parentesco, estabelecidas por meio de casamen-
tos entre famílias abastadas, tiveram um papel de extrema importância na
conjuntura política de 1842, tanto no sentido de demarcar as disputas e as
divisões entre as famílias e, não raras vezes, dentro de uma própria família,
como nas alianças feitas posteriormente, no sentido de anistiar os insurgentes.
No período em questão, o nome da família Junqueira já estava conso-
lidado do ponto de vista econômico e político-social. Na Revolta Liberal de
1842, embora Gabriel Francisco Junqueira tenha se tornado uma liderança
de expressão, nem todos os membros da família faziam parte do coro dos
insurgentes. Reza a tradição (infelizmente não se obteve nenhuma evidên-
cia documental a respeito) que, em 1842, a fazenda Traituba serviu de asilo
político tanto para legalistas (conservadores), quanto para os insurgentes
(liberais). Politicamente, a família se encontrava dividida, pois o coronel João
Pedro Diniz Junqueira era liberal e sua esposa representava a outra facção,
uma vez que seu irmão Manuel Ananias de Assis Junqueira, morador em
Aiuruoca, tornou-se um dos principais líderes do Partido Conservador.
Segundo os genealogistas, a única condição imposta para receber os hóspedes
era a de que ninguém poderia discutir assuntos políticos.110
Outro aspecto a considerar é o papel que as relações de parentesco,
rituais ou familiares, poderiam representar em determinados contextos, em
especial naqueles em que as famílias de elite se encontravam envolvidas em

109. Ibidem, p. 147.


110. Frederico Brotero, Memórias e tradições da família Junqueira, 1. ed., p. 771-772. Lucila
Reis Brioschi e José Américo Junqueira também acabam reiterando a mesma tradição, mas
sem apresentar nenhuma evidência documental.

268
disputas políticas, cindidas internamente e entre iguais, como no caso da
Revolta de 1842.111 Novamente, é Francisco de Paula de Resende quem nos
fornece as evidências. Ao tecer comentários sobre a prisão e o julgamento
dos rebeldes, acabou chamando a atenção para algo bastante conhecido, que
é a anistia de todos os insurgentes. O pai do autor foi preso na cadeia de
Campanha e, segundo ele, a prisão não tinha “nada de mortificante”. Muito
pelo contrário, lá se encontravam “as melhores famílias do município” e os
rebeldes presos não ficavam nas enxovias, e sim na própria sala da câmara.
Nas palavras do autor, “a cadeia estava sempre cheia de visitas e distrações
nunca faltavam, mas ainda gozavam todos de uma excelente mesa, visto que
ia para cada preso a sua bandeja de comida em que cada uma das famílias
se esmerava [...] fazendo-se de tudo uma só mesa”. Comenta ainda sobre a
atitude do tenente-coronel Lourenço Xavier da Veiga, “um dos conservado-
res mais exaltados” e “mais ou menos odiado por quase todos os liberais”,
segundo suas palavras, ao envidar todos os esforços para livrar da prisão o
liberal Joaquim Delfino Ribeiro da Luz. A análise que o memorialista faz
do ato de Lourenço nos remete à importância das relações de amizade e
de parentesco, e também da troca de favores naquele contexto. “E o que é
certo é que, ou fosse levado por aquela amizade, ou pela esperança talvez
de angariar para o partido conservador aquele rebelde e com ele parte da
família, que era toda muito liberal [...].”112
Joaquim Ribeiro foi “despronunciado” não só por interferência de
Lourenço Xavier da Veiga, mas pela ação do doutor Tristão Antônio de
Alvarenga, simpático à causa dos liberais e juiz de direito da comarca do Rio
Verde, cuja sede ficava em Campanha, naquela época.113 A importância das
redes de amizade com base no parentesco familiar aparece claramente neste
caso, pois o referido juiz era casado na família Junqueira, com uma neta do

111. Esta discussão remete à permanência de algumas características da sociedade do tipo


Antigo Regime que ainda podiam ser percebidas na sociedade brasileira no contexto analisado,
onde as relações de parentesco envolviam obrigações mútuas, trocas de favores, relações de
dependência e amizade e relações clientelísticas. Sobre o tema, ver Manoel Hespanha e Ângela
Barreto Xavier, As redes clientelares; Guilherme Pereira Neves e Ronaldo Vainfas, Antigo
Regime, p. 43-46. Sobre a “economia do dom”, ver Marcel Mauss, Sociologia e antropologia.
112. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas recordações, p. 162.
113. Ibidem, p. 163.

269
irmão do ex-deputado, e, provavelmente, deve ter contribuído também para
despronunciá-lo.114 Como afirma Richard Graham, a “proteção em troca de
lealdade, imposta pelos vínculos familiares, estendia-se primeiramente a uma
ampla gama de relacionamentos consanguíneos e, em seguida, a um número
igualmente grande de ligações por meio de casamentos. Embora um pouco
mais tênues, os laços de parentesco ritual também eram importantes”.115
Como compreender a trajetória do barão na história política do Império
nesses dois momentos? No primeiro, consegue derrotar o candidato do
imperador e se projeta como líder da facção liberal moderada em Minas
Gerais. Já em 1842, ainda consegue manifestar sua capacidade de articulação
e liderança junto à elite proprietária do sul da província, chefiando a coluna
dos insurgentes, que levava o sobrenome de sua família. É de se acreditar que
a sua liderança e participação política consista numa forte evidência para
se entender o papel das elites regionais na construção do Estado brasileiro.
Considerando esses aspectos há que se concordar com Miriam
Dolhnikoff quando afirma que
A consequência fundamental foi que as elites regionais tiveram papel
decisivo na construção do Estado, impondo suas demandas e consti-
tuindo-se como elite política que, ao mesmo tempo em que assumia o
compromisso com a condução e preservação do Estado, mantinha seus
laços com sua região de origem, o que conferiu um determinado perfil

114. Tristão Antônio de Alvarenga era casado com Mariana da Costa Junqueira e Alvarenga,
filha de Maria Marfisa da Costa, que era filha não reconhecida do padre Francisco Antônio
Junqueira. Graduou-se em direito, em 1832. Foi juiz de fora e o primeiro juiz de direito da
comarca do Rio Sapucaí, criada em outubro de 1833, cuja sede era em Campanha. Foi de-
putado provincial por Minas e deputado geral em três legislaturas. Também foi nomeado
desembargador do Tribunal da Relação da província do Maranhão, mas faleceu antes de
assumir o cargo. Ver Bernardo Saturnino da Veiga, Almanaque sul-mineiro, p. 63. O cônego
José Marinho informa que Tristão Antônio de Alvarenga foi castigado com remoção para
outra comarca, embora não informe o local, em virtude de o juiz de direito não pronunciar
alguns liberais; entre eles, provavelmente, estava Gabriel Francisco Junqueira. Talvez tenha
sido na primeira de suas prisões que o ex-deputado obteve a liberdade por intermédio de
recurso concedido por Tristão de Alvarenga. Segundo o autor, “o respeitável Junqueira
foi preso, remetido para a corte, e duas vezes processado na província, bem que absolvido
houvesse sido da primeira, por via de recurso” (grifos meus). Ver José Antônio Marinho,
op. cit., v. II, p. 59.
115. Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX, p. 37.

270
e uma determinada agenda para o Estado brasileiro. A autonomia era
condição para viabilizar a unidade nacional, desejada tanto por liberais
como pelos conservadores. Desde o início a unidade nacional esteve
entre as prioridades de ambos os grupos, e esta só poderia ser alcançada
se preservada a autonomia de modo a cooptar os grupos dominantes
regionais para o interior do Estado.116 (grifos meus)

As considerações da autora nos ajudam a repensar os esquemas in-


terpretativos acerca da natureza das relações entre as municipalidades, as
províncias e o Estado imperial. Baseado nas observações do visconde do
Uruguai, José Murilo de Carvalho chama a atenção para o poder ilusório
representado pela centralização política do Estado e para a visibilidade deste
poder, manifestada pela própria monarquia, com os rituais, as pompas e
o carisma da figura do imperador. O autor acentua que a “burocracia do
Estado era macrocefálica: tinha a cabeça grande, mas braços muito curtos.
Agigantava-se na Corte mas não alcançava as municipalidades e mal atingia
as províncias”. Como estratégia de cooptação, compensação e nacionalização
da monarquia, d. Pedro II distribuiu vários títulos de barão aos grandes
proprietários do sudeste escravista, que se distinguiam por seu poder e por
sua riqueza.
A reflexão talvez deva partir de outra perspectiva, pelo menos para o
contexto ora analisado. Em que medida as demandas impostas pelas elites
proprietárias regionais conferiram “um determinado perfil e uma determi-
nada agenda” para o Estado brasileiro?
Percebe-se, diante das evidências apresentadas, que, pelo menos entre
1831 e 1842, Gabriel Francisco Junqueira mostrou ser uma das principais
lideranças políticas do sul de Minas Gerais, com destaque no cenário pro-
vincial, apresentando uma projeção um pouco mais discreta, porém não
menos importante, no parlamento nacional. Acabou se tornando um dos
representantes primordiais da elite proprietária ligada ao setor do abaste-
cimento interno e também dos moderados, facção política que congregava
os interesses deste grupo. Além disso, não se pode desconsiderar o peso

116. Miriam Dolhnikoff, O lugar das elites regionais, p. 118.

271
político que sua família representava, a ponto de a coluna dos insurgentes
de 1842, no sul de Minas, levar o seu sobrenome.
No contexto da política imperial, como compreender a atuação desse
personagem? Partindo da mesma perspectiva de Alcir Lenharo, após a morte
de Evaristo da Veiga, nos primeiros meses de 1837, o golpe decisivo se deu
com a mudança de Bernardo Jacinto da Veiga para o lado conservador,117
desfazendo-se a “conexão política de base entre os moderados na Corte e
sua clientela interiorana”. Parece haver uma coincidência entre os fatos, pois
foi justamente nesse período que Gabriel Francisco Junqueira encerrou sua
carreira política no parlamento.118
Os dois irmãos de Evaristo, Bernardo Jacinto da Veiga e Lourenço
Xavier da Veiga, que se mudaram para Campanha nas primeiras décadas do
século XIX, seguiram caminhos semelhantes ao do irmão, dedicando-se à
imprensa local, ao comércio e também às atividades políticas. Como Evaristo
se elegeu deputado por Minas Gerais, durante três legislaturas, a atuação
dos irmãos na formação de uma base política regional no sul de Minas foi
de extrema importância para a sua atuação parlamentar, especialmente num
período de grande desenvolvimento socioeconômico da região, em virtude
das ligações comerciais com a Corte.
Bernardo Jacinto da Veiga teve relevante participação política nos ní-
veis local e provincial. Foi vereador em Campanha, deputado provincial
nas duas primeiras legislaturas (1835-1839), deputado geral e presidente da
província de Minas entre 1838 e 1840, e de maio de 1842 a março de 1843.119
E justamente em maio de 1842, quando se iniciou a Revolta Liberal em Minas
Gerais, Bernardo Jacinto assumiu a presidência de Minas, contribuindo

117. Alguns anos antes, Bernardo Jacinto da Veiga ainda fazia parte das hostes dos mode-
rados. Seu nome aparece como um dos signatários da Sociedade Defensora da Liberdade e
Independência Nacional da vila de Campanha. AN, Série Interior – Negócios de províncias
e Estados – IJJ9532, 23/2/1834.
118. Nos Anais da Câmara há o registro de sua participação em sessões realizadas entre
agosto de 1831 e setembro de 1836. Ver NEGRÃO DE MELLO, Maria Tereza. Índice ono-
mástico dos Anais da Câmara dos Deputados. Brasília/São Paulo: Câmara dos Deputados/
EDUSP, 1978, p. 1411.
119. Bernardo Saturnino da Veiga, Almanaque sul-mineiro, p. 444-454. Também foi o respon-
sável pela criação do primeiro periódico da vila, o Opinião Campanhense, fundado em 1832.

272
decisivamente para debelar o movimento insurgente. Parece que seu irmão,
Lourenço Xavier da Veiga, teve atuação mais localizada em Campanha, onde
exerceu a atividade de publicista, editou jornais, abriu uma livraria e elegeu-
se vereador por algumas legislaturas (1841-1853).120 A perspectiva de Alcir
Lenharo talvez seja bastante apropriada para se compreender o papel da
Revolta Liberal de 1842 e, particularmente, a trajetória de Gabriel Francisco
Junqueira – “1842 revela, antes de tudo, o enfraquecimento dos liberais na
província. Sem espaço político na Corte, eles buscaram na província suas
bases de sustentação para tentar a cartada decisiva. A dilapidação de suas
bases explica o inteiro fracasso da iniciativa armada”.121

120. CEMEC-SM, Atas da Câmara Municipal de Campanha (1841-1845; 1853-1856), CAMP


LAC 4; CAMP LAC 5. Embora não tenha cursado nenhuma academia, foi um autodidata e
tinha talento literário. Publicava seus textos em periódicos cariocas e nos que havia fundado
em Campanha, como, por exemplo, o Nova Província e o Sul de Minas. Através da imprensa
local, os Veiga acabaram divulgando a ideia de criação da província de Minas do Sul, que
era acalentada desde 1843 por Bernardo Jacinto da Veiga. O projeto foi malogrado, embora a
proposta tenha sido apresentada em três momentos distintos no parlamento nacional (1854,
1862 e 1868). Depois da morte de seu irmão Evaristo, tornou-se um dos mais importantes
líderes conservadores da região. Teve atuação destacada na Revolta de 1842, recebendo a
patente de tenente-coronel pelos serviços prestados. Ainda atuou como delegado e subde-
legado de polícia, substituto de juiz municipal e de direito. Faleceu em Campanha, no ano
de 1863. José Pedro Xavier Veiga, Efemérides mineiras, p. 943-944. Bernardo Saturnino da
Veiga, op. cit., p. 62, 455-457.
121. Alcir Lenharo, op. cit., p. 139.

273
João Francisco Junqueira Elena Maria do Espírito Santo

274
Diagrama 1
B: 28/11/1727; C: 16/01/1758; B: 16/06/1737; C: 16/01/1758; F: 11/10/1810
Casal Fundador
F: 05/04/1810 O: Braga O: S.J.Del Rei - Filha ou neta de português

Maria Francisca Gabriel de Souza Diniz


da Encarnação O: Braga
C: 10/04/1780;
F: 28/05/1831
Maria Inácia do Espírito Santo João Francisco
O: Campanha da Princesa Junqueira
Francisco Antonio Junqueira (Padre)
B: 19/06/1764 - S.J. Del Rei
F: 04/01/ - São Tomé das Letras
Antonia Maria de Jesus José Francisco Junqueira
F: 13/05/1833 (assassinada pelos escravos) B: 21/10/1764 Cap. do Favacho
O: São João Del Rei C: 10/02/1790
F: 13/05/1833 (assassinado pelos escravos)

Legenda Joaquim Bernardo da Costa Ana Francisca do Vale


N: Nascimento O: Campanha da Princesa B: 29/05/1768 - Capela do Favacho
B: Batismo C: 10/06/178 - Ermida de S. Tome das Letras
C: Casamento F: 10/02/1806 - Lambari / Baependi
F: Falecimento Ignácia Constança de Andrade Gabriel Francisco Junqueira
O: Origem O: Neta de portugueses de Braga N: 1782 - Fazenda Campo Alegre
F: 27/06/1858 - Fazenda Campo Alegre C: 11/06/1808
F: 18/01/1868 - São T. das Letras
Diagrama 2
1a. Filha do Casal
Maria Francisco da Encarnação Gabriel de Souza Diniz

João Pedro Diniz Junqueira Helena Constança Junqueira


B: 09/07/1782 - Favacho; N: 09/07/1792 - Carrancas
C: 1810; F: 1854 - Baependi
F: 30/06/1853 - Faz. Traituba
Maria Constância de Andrade Francisco Antonio Diniz
(1as N) Junqueira Guarda-Mor Carlota de
Ana Teodoro Monteiro de Barros B: 04/03/1784 – Baependi Jo s é A nton i o Souza Diniz
(2as. N. – 1825; 0: Aiuruoca) F: 1852 – Franca/SP Diniz Junqueira Junqueira
João José de Carvalho Helena Francisca Diniz
F: 28/11/1853- Batatais/SP B: 13/08/1788 – Lavras
Francisco José de Andrade Maria Dorida Diniz
Junqueira
F: 12/07/1851
São Tomé das Letras
Legenda
Cinza: primo(a) Luiz Antônio de Souza Diniz Ana Claudina Diniz Junqueira
N: Nascimento B: 25/09/1783 – Três Pontas B: 02/04/1792 – Favacho/Baependi
F: 29/92/1856 – São Simão/SP F: 01/05/1864 – São Simão/SP
B: Batismo
C: Casamento Genoveva Flora Antonio Sancho Diniz Junqueira
B: 02/07/1802 - Favacho B: 06/04/1794 – Favacho
F: Falecimento
C: 1819
O: Origem
Francisco Antonio Junqueira Genoveva Clara Diniz Junqueira
1as. N.: 1as. Núpcias B:12/07/1792 – São Tomé das Letras N: 1790 - Carrancas
2as. N: 2as. Núpcias F: 30/04/1848 – Batatais/SP F: 1850 – Batatais/SP

275
Marcelino de Souza Diniz Joaquina Delfina Junqueira
B: 13/04/1784 – Três Pontas C: 02/09/186 – Carrancas
Diagrama 3 João Francisco Junqueira Maria Inácia do Espírito Santo

276
2o. Filho do Casal Francisco Diniz Junqueira Ana Hipólita Vilela
B: 03/03/1790 – S. Tomé (1as. N. – 01/03/1813)
F: 10/10/1862 – Batatais/SP Antônia Clara de Jesus
( 2as. N.)
Antonio Luiz de Noronha e Silva Ana Dolida Junqueira
(2as. N..)
N: 1795
Genoveva Clara Diniz Junqueira Francisco Antonio Junqueira
N: 1790 – Carrancas B: 12/07/1792 – S. Tomé
F: 1850 – Batatais C: 30/04/1848- Batatais
João Pedro Diniz Junqueira Helena Constança Junqueira
B: 09/07/1782 – Favacho N: 09/07/1792 - Carrancas
F: 30/06/1853 – Faz. Traituba C: 1810; F: 1854 - Baependi
Antonio Sancho Diniz Junqueira Genoveva Flora Junqueira
B: 06/04/1794 – Favacho B: 02/07/1802 – Favacho
Legenda
C: 1819
Cinza: Primo (a)
N: Nascimento Maria Clara Diniz Junqueira Manoel Ananias de Assis Junqueira
B: Batismo B: 1821 – Favacho-Baependi B: 24/06/1803 – Favacho-Baependi
C: Casamento C: 1835 – Faz. Angahy-Aiuruoca
F: Falecimento F: 10/03/175- Aiuruoca
O: Origem Inácia Fortes Silva José Frauzino Junqueira
1as. N.: 1as. Núpcias F:17/04/1857 – Favacho-Baependi B: 24/08/1806 – Favacho – Baependi
2as. N: 2as. Núpcias F: 18/11/1880 - Baependi
Diagrama 4
3o. Filho do Casal
Francisco Antonio Junqueira

Maria Marfisa da Costa João Cândido da Costa


B: 28/01/1796 B: 1792 – Favacho
C: 18/01/1816 - Baependi F:06/09/1857
F:07/11/1854 – São Tomé
Ignácia Justina Alves Antonio Glauceste Junqueira
(1as. N. 13/09/11820 – São Tomé) N: 1799 – São Tomé
Maria Cândida de Barros
(2as. N. 09/02/1843)
Joaquim José de Oliveira Francisca Cândida de Oliveira
F: 21/02/1871 C: 03/06/1829 - Carranca
Luiz Antonio de Oliveira Maria Clementina da Paixão
C: 04/06/1829 - Caldas
Legenda
Cinza: Primo (a) José Paulino da Costa (1as. N.) Ana Teresa da Paixão
N: Nascimento Domingos Moreira de Souza (2as. N.)
B: Batismo João Thomas de Andrade Maria Laurentina da Paixão
C: Casamento N. 1815 (1as. N. ); F: 18/09/1838 - Caldas
F: Falecimento F: 17/11/1887 – São João da
O: Origem Boa Vista/SP
1as. N.: 1as. Núpcias
2as. N: 2as. Núpcias

277
Diagrama 5

278
4o. Filho do Casal José Francisco Junqueira Antonia Maria de Jesus

João Francisco Maria Teodora Maria Francisca Joaquim


Junqueira Neto Vilela Junqueira Leonel Vilela
C: 10/08/1815
Ana Cândida da Costa Francisco José
F: 13/05/1833 – (assassina- Junqueira Cândida Bernardina Gabriel José
da pelos escravos). de Andrade Junqueira
N: 1815 B. 1798; C:1828
Tomás José de Andrade Antonia Francisca Junqueira Antonio Rabelo de Carvalho Ana Francisca Junqueira
B: 09/01/1789 - Carrancas (1as. N. - 04/06/1810 ) F: 18/02/1855 – Faz. Chapadão F: 04/09/1879 – Faz.
F:16/03/1871 – Espírito Santo B: 2/101792 – São Tomé – Caldas/MG Chapadão – Caldas/MG
do Rio do Peixe/SP F: 06/06/1824 - Caldas
Joaquim Bernardes da Ignácia Leopoldina Junqueira
Maria Silvéria Vilela (1as. N. – 31/07/1815) José Francisco Junqueira
Costa Junqueira B: 08/11/1804 – Favacho
Luiza Bernardina de São José (2as. N. B: 02/11/1792 – Favacho
N: 06/03/1792 – Faz. Campo C: 1822 – 1as. Núpcias
– 10/08/1830)
Alegre F: 15/07/1828 -Caldas
Francisca Xavier de Jesus (3as. N. )
F: 07/05/1876
Manoel Joaquim Vilela Helena Francisca Junqueira Manoel José da Costa Emiliana Francisca Junqueira
B: 01/01/1781 – Aiuruoca B:06/05/1793 – Faz.Santo Inácio F: 13/05/1833 – assassinado B: 05/11/1807 – São Tomé
pelos escravos C: 1827; F: 13/05/1833 – assassi-
Tomás José de Andrade Francisca Maximiniano
nada pelos escravos
B: 09/01/1789 - Carrancas Junqueira
Rita de Cássia de Andrade Antonio Francisco Junqueira
F:16/03/1871 – Espírito Santo do (2as. N. – 02/08/1825)
(1as. N. 21/09/1833 – São Tomé) B: 14/08/1811 – Favacho
Rio do Peixe/SP B:08/06/1806
Maria Madalena de Jesus F: 10/08/1893 – Franca/SP
F:21/09/1834
(2as. N. 05/11/1864 – Franca/SP)
Maria Eufrosina de Jesus – 3as. N.
Ana Francisca do Vale Joaquim Bernardes da Costa
Diagrama 6
5o. Filho do Casal Ana Cândida da Costa André Martins de Andrade
B: 29/06/1790 – Carrancas
Ignácia Leopoldina Junqueira Joaquim Bernardes da Costa
C: 1822 – 1as. Núpcias Junqueira
Jesu[ina Amália Vilhena (2as. N.) N: 06/03/1792 – Faz. Campo Alegre
Luiza Ferreira Bretãs (3as. N.) F: 07/05/1876
Maria Marfisa João Cândido da Costa
B: 28/01/1796 B: 1792 – Favacho
F: 07/11/11854 - São Tomé C: 18/01/1816
F:06/09/1857 – São Tomé
Marciana Jesuína de Andrade Gabriel Flávio da Costa
N: 1813 B: 25/03/1795 – Favacho
F: 1875 - Lavras
Ignácia Cândida de Andrade José Bernardes da Costa Junqueira
F: 24/11/1884 B: 1798 – Favacho/Baependi
C: 1832
F: 18/05/1879 – Franca/SP
Manoel José Ribeiro Maria Tridentina Junqueira
Legenda B: 15/08/1803 – Favacho
de Carvalho
Cinza: Primo (a) C: 14/10/1818 – Baependi
Cinza: Sobrinho (a) F: 05/08/1887
Ana Lucrecia da Costa Antonio Faxardo da Costa Junqueira
B: 1804 – Favacho
C: 17/108/1833 – São Tomé

279
Maria Áurea Diniz Junqueira Tristão Severo da Costa
B: 28/02/1806 – Favacho
Gabriel Francisco Junqueira Ignácia Constança de Andrade
Diagrama 7
Mariana Victória de Andrade Junqueira José Ribeiro Da Luz

280
6o. Filho do casal B: 28/11/1816 – Favacho F: 29/01/1867 SãoTomé
C: 18/02/1833 –Campo Alegre
F: 20/05/1872 – Santo Inácio
Gabriela Angelina de Andrade Joaquim Tibúrcio Junqueira
B: 29/07/1828 – Campo Alegre;
F: 02/10/1873 – Faz. Boa Vista/São Tomé
Maria Ribeiro de Carvalho Francisco de Andrade Junqueira
N:1826 N: 1815
F: 21/01/1901- São Tomé
Helena Ribeirode Andrade Junqueira Antonio Gabriel Junqueira
N:08/10/1833 B: 25/03/1795 – Favacho
F:04/107/1877 F: 1875 - Lavras
João Pedro Diniz Junqueira Ana Gabriela Junqueira
(filho de João Pedro Diniz Junqueira, B: 10/051830 -Favacho
construtor da fazenda Traituba)
F: 25/04/1873

José Procópio de Azevedo Paiva Rita de Cássia de Andrade


Legenda Junqueira
(2as. N. 08/04/1845 – São Tomé)
Cinza: Primo (a)
Cinza: Sobrinho (a) Antonio José de Carvalho Helena Nicésia Junqueira
B:12/08/1811 –Favacho
José Procópio de Azevedo Paiva Maria de Andrade Junqueira
(1 as. N. 11/06/1835 – Campo
Alegre); F:03/06/1843 -São Tomé

José Peixoto de Andrade Genoveva Urbana Junqueira


3. Alianças matrimoniais e endogamia: estratégias de manutenção
e ampliação das fortunas e fixação da identidade da parentela
O papel desempenhado pelas alianças matrimoniais e pela endogamia
foi vital para a manutenção e a ampliação das fortunas, bem como para a
fixação da identidade da parentela da família Junqueira. Considerando es-
ses aspectos, a estratégia adotada por essa família não difere muito das que
foram empregadas pelas demais famílias pertencentes à elite agrária, em
vários pontos do Império do Brasil. Tampouco foram diferentes os recur-
sos utilizados para minimizar o fracionamento do patrimônio através das
heranças. Já na segunda geração, alguns filhos do casal migraram para áreas
de fronteira, justamente em virtude da ausência de novas oportunidades e
terras nas áreas ocupadas de início pela família e também como estratégia
pensada de ocupação de novas áreas.122
Entre os recursos familiares adotados para evitar o fracionamento do
patrimônio estava a endogamia, muito comum entre famílias poderosas e
tradicionais. Viu-se, pela trajetória do casal-fundador, que João Francisco era
de naturalidade portuguesa e que também se casou com uma descendente
de portugueses. Os casamentos dos filhos se deram, em sua grande maioria,
com membros de famílias fixadas em Campanha e São João del-Rei, ainda
que uma das filhas tenha se casado com um português, natural de Braga, e
um dos filhos, com uma neta de portugueses, da mesma região (ver diagrama
1). Quase todos os filhos se casaram no último quartel do século XVIII. Os
casamentos endogâmicos são passíveis de verificação a partir da terceira
geração, ou seja, dos netos do casal-fundador.
Embora não se esteja fazendo um estudo comparativo com outras fa-
mílias da elite da região, o quadro traçado por Sílvia Brügger, que detectou
um aumento do número de casamentos consanguíneos no século XVIII e

122. Sem desconsiderar as diferenças regionais e de abordagem, esses aspectos foram de-
tectados por vários autores que analisaram a trajetória das famílias pertencentes à elite
agrária, durante a Colônia e o Império. Ver, entre outros, Sheila de Castro Faria, A colônia
em movimento; Alida Christine Metcalf, Families of planters, peasants an slaves; Linda
Lewin, Política e parentela na Paraíba; Dora Isabel e Paiva Costa, Herança e ciclo de vida;
Carlos de Almeida Prado Bacellar, Os senhores da terra; Sílvia Maria Jardim Brügger, Minas
patriarcal; Mônica Ribeiro de Oliveira, Negócios de família.

281
começo do XIX, nos ajuda a compreender a opção por este tipo de união
entre os membros da terceira geração da família Junqueira. Este fechamento
das famílias em torno de si mesmas não foi um processo circunscrito à região
da comarca do Rio das Mortes, também foi constatado por outros autores,
em outras áreas do Império.123 As razões para a escolha dos “casamentos
entre iguais” e dentro da parentela podem ser explicadas pela estabilidade
econômica, já registrada em vários trabalhos para a comarca do Rio das
Mortes, particularmente na primeira metade do século XIX. E, neste caso,
parece que a trajetória da família se constitui em um caso exemplar. A maioria
dos casamentos dos netos se deu no contexto de estabilidade econômica da
região e também de expansão e consolidação socioeconômica e política da
família. Além disso, deve-se destacar que é justamente na terceira geração
(dos netos do casal-fundador) que as possibilidades dos casamentos entre
primos, tios e sobrinhos estavam colocadas. As oportunidades de alianças
matrimoniais dos filhos, isto é, da segunda geração, só poderiam se efetivar
com parentes maternos ou com não-parentes.
Examinemos as alianças matrimoniais endogâmicas da terceira geração.
O que primeiramente chama a atenção é a quantidade de casamentos entre
primos e, em algumas situações, de tios com sobrinhas. Da descendência
da primeira filha do casal, mais da metade dos filhos se casou com primos.
Quanto a João Francisco Junqueira, segundo filho do casal-fundador, dos
sete filhos que deixaram descendência, três se casaram com primo(a)s e um
se casou com uma sobrinha. Mesmo no caso da descendência ilegítima do
padre Francisco Junqueira, foi possível detectar um padrão semelhante ao
encontrado para os outros irmãos, ou seja, metade dos filhos do padre se
casou com primos. O menor número registrado de casamentos entre pri-
mos foi o do quarto filho do casal, José Francisco Junqueira. Ainda assim,
a porcentagem não foi inexpressiva, pois esse tipo de aliança representou
mais de 40% dos casamentos. Já na descendência de Ana Francisca do Vale,
quinta filha do casal, é que se constata o maior número de casamentos
endogâmicos: dos oito filhos que constituíram alianças matrimoniais, sete

123. Sílvia Maria Brügger, op. cit., p. 308-310; Sheila de Castro Faria, op. cit.; Kátia de Queirós
Mattoso, Bahia, século XIX.

282
se casaram com parentes, cinco com primos e houve dois casos de tios que
se casaram com suas respectivas sobrinhas. Também se observa a presença
de casamentos endogâmicos entre os filhos de Gabriel Francisco Junqueira,
filho mais novo do casal-fundador. Cerca de 38% dos casamentos de seus
filhos foram realizados entre primos (ver diagramas 2, 3, 4, 5 e 6).124
Outro aspecto importante a considerar é que as alianças exogâmicas
eram realizadas entre “iguais”, quer dizer, com famílias também pertencentes
à elite agrária, proprietárias de grandes glebas de terras e de muitos escra-
vos. As alianças matrimoniais fora do círculo familiar eram devidamente
analisadas e calculadas, admitidas na medida em que somavam prestígio
socioeconômico. Percebe-se uma clara preferência de alianças matrimoniais
com as famílias Vilela, Andrade e Ribeiro de Carvalho, que podem ser en-
contradas nas descendências do primeiro, segundo, terceiro e sexto filho do
casal-fundador. Até mesmo no caso de Ana Francisca do Vale, em que se
verifica a quase totalidade dos casamentos entre parentes, a única filha que
não se casou na parentela uniu-se em matrimônio a Manuel José Ribeiro
de Carvalho, o “velho de Pouso Alegre”, grande proprietário de terras e es-
cravos da freguesia de Carmo do Pouso Alto, como já mencionado. Outro
descendente dos Ribeiro de Carvalho acabou se casando entre os Junqueira
e estreitando mais os laços entre as duas famílias. Antônio José Ribeiro de
Carvalho, mais conhecido como o “velho do Condado”, e irmão de Manuel
José Ribeiro, casou-se com Helena Nicésia Junqueira, filha do ex-deputado
Gabriel Francisco Junqueira e Inácia Constança de Andrade (ver capítulo
2). É importante salientar que muitos dos casamentos entre primos eram
fruto das alianças exogâmicas feitas anteriormente, como se pode verificar
pelo sobrenome de alguns dos netos (ver os diagramas citados).
Como assinala Linda Lewin, as estratégias matrimoniais endogâmicas
não representavam somente a consolidação da propriedade rural e da riqueza
de determinada família, ao limitar o fracionamento da riqueza por meio do
sistema de herança baseado na partilha. Em certos locais onde a endogamia

124. Não constitui objetivo deste estudo trabalhar com a quarta geração, mas Lucila Reis
Brioschi acabou detectando um percentual ainda bastante alto de casamentos endogâmicos
para os bisnetos, embora tenha constatado uma ampliação das alianças matrimoniais com
não-parentes. Cf. Lucila Reis Brioschi, Família e genealogia, p. 222-255.

283
era muito alta, a família poderia tornar-se “sinônimo da sociedade ao ní-
vel municipal”. “Os casamentos de elite entre primos e até mesmo parentes
colaterais mais próximos ilustra como a força do parentesco consolidava e
mantinha redes de poder econômico e político, bem como a coesão social
do grupo familiar.”125 Conforme já foi registrado, alguns membros da família
Junqueira ocuparam cargos políticos, eclesiásticos e administrativos, e muitos
ostentavam patentes de capitão, coronel e tenente-coronel da Guarda Nacional.
As alianças fora da parentela se deram com famílias pertencentes ao mesmo
grupo social. A título de exemplo, pode-se citar o casamento de José Frauzino
Junqueira, filho de João Francisco (filho) e de Maria Inácia do Espírito Santo,
com Inácia Carolina Fortes Silva, descendente das famílias Fortes, Sá Fortes
e Bustamante, que gozavam de grande prestígio na região de Barbacena.126
O pai de Inácia, o coronel Antônio Luiz de Noronha, foi casado em segundas
núpcias com Ana Dolida Junqueira, irmã de José Frauzino. Portanto, o pai
de Inácia veio a ser sogro e cunhado de José Frauzino, ao mesmo tempo,
reforçando as alianças entre as duas famílias.
A dispersão geográfica de vários membros da família se deu a partir
da terceira geração (netos), seja pela escassez de recursos e terras nas áreas
ocupadas inicialmente pelas primeiras gerações, seja por uma estratégia
pensada de investimento em áreas em expansão, o que contribuía para a
ampliação da riqueza e do poder da parentela. Conforme se nota nos dia-
gramas apresentados, vários netos migraram para outras regiões localizadas
mais ao sul da província de Minas, como Caldas, e são considerados os
seus primeiros povoadores. A área foi ocupada por alguns filhos de João
Francisco, entre eles o padre Francisco Antônio Junqueira, e pelo esposo
de Ana Francisca do Vale, o capitão Joaquim Bernardes da Costa, que se
dirigiu à região para fazer uso das águas. Como se tratava de um lugar de
fronteira, com excelentes pastagens naturais, acabou persuadindo seus filhos,
o major Joaquim Bernardes Junqueira e José Bernardes da Costa Junqueira,
a requererem sesmarias naquela localidade.127 Alguns filhos ilegítimos do
padre também deram continuidade à ocupação da área (ver diagrama 4).

125. Linda Lewin, Política e parentela na Paraíba, p. 131.


126. Frederico Brotero, Memórias e tradições..., p. 58; Lucila Reis Brioschi, op. cit., p. 195;
José Américo Junqueira de Mattos, Família Junqueira, p. 631-632.
127. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 1.093.

284
Outros membros da família Junqueira partiram para o sertão do Rio
Pardo, nordeste paulista – associando o sobrenome da família ao surgimento
de vários municípios daquela região (Franca, Batatais, São Simão etc.) –,
e também para o Triângulo Mineiro.128 Este foi o caso de um dos netos do
casal-fundador, filho de João Francisco Junqueira e Maria Inácia do Espírito
Santo. O tenente-coronel João Francisco Diniz Junqueira (Neto) foi casado
em primeiras núpcias com Ana Hipólita Vilela. Segundo os recenseamentos
de 1831 e de 1833, ele já residia na freguesia de Cana Verde, termo de Franca,
província de São Paulo, possuindo uma escravaria de 58 e 70 cativos, respec-
tivamente, com engenho de serrar madeira. Além de grande proprietário
e escravista, foi uma liderança política local expressiva, tornando-se, em
1857, chefe do estado-maior da Guarda Nacional em Franca, com patente
de tenente-coronel. Seu irmão, Francisco Antônio Junqueira, também se
estabeleceu na região, tendo sido grande fazendeiro e criador de gado, com
significativo número de escravos, assim como João José de Carvalho, casa-
do com Helena Francisca Diniz, filha de Maria Francisca da Encarnação e
Gabriel de Souza Diniz.129
Alguns descendentes dos Junqueira se deslocaram para a província do
Rio de Janeiro. Trata-se de dois bisnetos do casal-fundador e filhos do coronel
João Pedro Diniz Junqueira, que migraram para a freguesia de Dores do
Piraí, província do Rio de Janeiro, e deram origem às fazendas do Aterrado
e do Barro Vermelho.130 Pela escassa correspondência familiar existente na

128. O processo de ocupação da freguesia do Rio Pardo ganhou destaque a partir de 1800,
em virtude da divulgação da existência de áreas desocupadas e boas para o plantio e a
criação de animais. Data desta época a chegada de grandes proprietários, com expressivo
contingente de cativos, como, por exemplo, os já citados membros da família Junqueira e os
Pereira Lima. Para maiores informações sobre o processo de expansão e ocupação daquela
área, ver Carlos Almeida Bacellar e Lucila Reis Brioschi (orgs.), Na estrada do Anhanguera,
especialmente os capítulos 3 e 4, p. 55-116. Ver também Lucila Reis Brioschi et al., Entrantes
do sertão do Rio Pardo.
129. Lucila Reis Brioschi, Família e genealogia, p. 193; Segundo José Américo Junqueira de
Mattos, o capitão João Francisco Junqueira se estabeleceu em Franca. Já Francisco Antônio
Junqueira e João José de Carvalho apossaram-se de “uma imensa área, tanto à direita, atuais
municípios de Orlândia, Morro Agudo, São Joaquim da Barra, Ipuã, Guaíra, Miguelópolis
e a Fazenda Melancias (esta já na província de Minas Gerais); como à margem esquerda do
rio Pardo, em que hoje se localizam os municípios de Barretos, Viradouro, Colina, Terra
Roxa, Jaborandi, Monte Azul etc.”. Família Junqueira, p. 538.
130. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 144.

285
fazenda Traituba e analisada no próximo capítulo, os proprietários também
se dedicaram ao cultivo e à produção do café naquela província.
Ao que parece, a necessidade de migrar esteve presente, principalmente,
para os filhos que se casaram primeiro e precisaram deixar a casa paterna.
O adiantamento de parte da herança poderia representar a garantia de um
novo começo e até mesmo de sucesso em áreas de fronteira, como de fato
ocorreu nas terras que alguns membros da família ocuparam. Aos filhos mais
novos coube a responsabilidade de continuar os negócios nas propriedades
mais antigas. Pelo menos este foi o caso do deputado Gabriel Francisco
Junqueira, que permaneceu na fazenda Campo Alegre, de propriedade do
casal-fundador, até a sua morte. Boa parte de sua descendência também
permaneceu na região, fazendo com que as propriedades antigas conti-
nuassem nas mãos da família. Somente uma de suas filhas, Ana Gabriela
Junqueira, migrou para a freguesia de Dores do Piraí, acompanhando seu
marido, o homônimo e filho de seu sobrinho, o coronel João Pedro Diniz
Junqueira (ver diagrama 7).
O mesmo padrão de opção pelos casamentos consanguíneos e pelas
escolhas bem-sucedidas nas alianças fora da parentela também foi seguido
pelos descendentes da família que migraram para o nordeste de São Paulo
(ver figuras 54 e 55), conforme constatou Carlos de Almeida Bacellar. Este
padrão evitava a fragmentação das posses e fortalecia social e politicamente
o nome da família.
Cabe, em especial, destacar o caso da família Junqueira, que, após
adquirir enormes extensões de terras, logrou, através de repetidos
casamentos consanguíneos e alianças matrimoniais bem definidas,
com grupos restritos, trabalhar a fragmentação da terra no interior de
um círculo familiar fechado, evitando ao máximo a dispersão e frag-
mentação excessiva que viessem a inviabilizar a propriedade da terra.131

131. Carlos de Almeida Bacellar, Uma rede fundiária em transição, p. 102.

286
4. Patriarcalismo em Minas Gerais: o caso Junqueira
Os estudos mais tradicionais sobre família no Brasil sempre se re-
portaram às noções de “família patriarcal” e de “clãs feudais e parentais”,
elaboradas com base na leitura e na interpretação das obras de Gilberto
Freyre e Oliveira Vianna, respectivamente.132 A família brasileira do tipo
patriarcal era fruto da herança ibérica; a estruturação da economia e da
sociedade colonial, assentada na grande propriedade, na monocultura de
exportação e na mão de obra escrava, reforçava este padrão. Como afirma
Freyre, “nas casas-grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter
brasileiro; a nossa continuidade social”.133 A família patriarcal não se desen-
volveu somente no complexo açucareiro do nordeste, mas também no sul,
com a cultura cafeeira.
O modelo patriarcal de família brasileira estava alicerçado numa vasta
parentela que apresentava uma estrutura dupla: um núcleo central, composto
por chefe da família, esposa e descendentes legítimos e um periférico, do qual
faziam parte parentes, filhos ilegítimos, afilhados, agregados e escravos. Este
domínio poderia ser estendido a vizinhos, trabalhadores livres e migrantes,
por razões econômicas e políticas.134
Essa visão idealizada e estática da família brasileira manteve-se durante
longo tempo como a única interpretação possível, modelo que foi levado
às últimas consequências, apoiado nas interpretações de Antônio Cândido.
A formação social brasileira era vista como resultante de quatro séculos de
vigência da família patriarcal.135
A partir da década de 1980,136 alguns estudiosos contestaram a noção
desse tipo de família. Mariza Corrêa apresentou de forma mais sistematizada
os contornos dessa crítica.

132. Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala; Oliveira Vianna, Populações meridionais do


Brasil. Ver outros autores que corroboram esta interpretação: Luís Aguiar Costa Pinto,
Lutas de família no Brasil; Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante.
133. Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, p. 56.
134. Eni de Mesquita Samara, Patriarcalismo, família e poder na sociedade brasileira (séculos
XVI-XIX), p. 12-13; Sheila de Castro Faria, Patriarcalismo, p. 470-471.
135. Antonio Candido Souza, The Brazilian family.
136. Para uma discussão pormenorizada das contribuições da demografia histórica e da
história da família no Brasil, ver Sheila de Castro Faria, História da família e demografia
histórica, p. 252-258.

287
A chamada “família patriarcal brasileira” era o modo cotidiano de viver
a organização familiar no Brasil colonial, compartilhado pela maioria
da população, ou é o modelo ideal dominante, vencedor sobre várias
formas alternativas que propuseram concretamente no decorrer de
nossa história?137

Procurou-se pensar a família brasileira reconhecendo a sua diversida-


de no tempo e no espaço, a convivência de várias formas de organização
familiar, as variações dos papéis masculinos e femininos, em função da
pluralidade de modelos familiares. Neste sentido, os estudos demográficos e
fundamentados em extensa base empírica foram importantes para se ques-
tionar a predominância do modelo de “família extensa do tipo patriarcal”.138
Se, por um lado, as pesquisas mais recentes confirmam que o patriar-
calismo e a família extensa não são sinônimos e nem foram os padrões
predominantes, por outro, não se pode desconsiderar o papel político, so-
cial e econômico desempenhado pelas famílias mais abastadas em pontos
distintos da Colônia e do Império.139
Conforme constata Silvia Brügger, há certo consenso na historiografia
sobre a ausência ou a extrema debilidade das relações familiares e sobre
o patriarcalismo em Minas Gerais, particularmente no século XVIII, em
virtude do papel desempenhado pela mineração e da formação social es-
pecífica daquele período.140
Luciano Figueiredo afirma que o modelo patriarcal de família teria
encontrado espaço para se desenvolver especialmente a partir da crise da

137. Mariza Corrêa, Repensando a família patriarcal brasileira, p. 16.


138. Esta constatação se verifica para São Paulo e algumas paróquias de Minas Gerais. Maria
Luiza Marcílio, A cidade de São Paulo; Iraci del Nero Costa, Elementos da estrutura de
posse de escravos em Lorena no alvorecer do século XIX, p. 319-345; Donald Ramos, City
and country; Eni de Mesquita Samara, op.cit., p. 7-35; Luciano Raposo Figueiredo, Barrocas
famílias. Kátia Mattoso também demonstra a pluralidade de famílias existentes na cidade de
Salvador, estabelecendo uma tipologia das famílias baianas, em Bahia, século XIX, p. 142-169.
139. Ronaldo Vainfas chama a atenção para os significados distintos de “família extensa”
e patriarcalismo, considerando que família conjugal e patriarcalismo não se excluem. Ver
Ronaldo Vainfas, Trópicos dos pecados e Sheila de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 49.
140. Os autores que se situam nesta perspectiva são, entre outros: Laura de Mello e Souza,
Os desclassificados do ouro; Kenneth Maxwell, A devassa da devassa; Luciano Raposo
Figueiredo, Barrocas famílias. Para uma discussão pormenorizada destes autores e das
pesquisas de cunho demográfico para Minas Gerais, ver Sílvia Maria Jardim Brügger,
Minas patriarcal, p. 47-50.

288
mineração, quando se verificou um processo de ruralização da sociedade
mineira.141 Silvia Brügger questiona esta perspectiva ao destacar a importância
da família desde o início do processo de colonização das Minas e também
da vila de São João del-Rei.142
Embora a historiografia atribua a Gilberto Freyre um profundo apreço
pelo modelo de família patriarcal, Ronaldo Vainfas e Silvia Brügger cha-
maram a atenção para o fato de o autor jamais negar a ocorrência de outras
formas familiares.143
De acordo com Gilberto Freyre, “devemo-nos recordar de que o fami-
lismo no Brasil compreendeu não só o patriarcado dominante – e formal-
mente ortodoxo do ponto de vista católico – como outras formas de família:
parapatriarcais, semipatriarcais e mesmo antipatriarcais”.144
Tendo em vista que um dos objetivos deste trabalho também é o de
destacar o caráter patriarcal da sociedade mineira, particularmente por meio
do estudo de caso da família Junqueira, a perspectiva de compreensão do
patriarcalismo, acentuada por Ronaldo Vainfas, Sheila de Castro Faria e Sílvia
Brügger, parece bastante adequada. Com base numa releitura da obra de
Gilberto Freyre, os autores consideram o patriarcalismo como um universo
de valores e de ideais, no qual os vínculos familiares desempenharam um
papel de suma importância, tanto na economia, quanto nas relações pessoais
e políticas, que não ficou restrito às famílias mais abastadas.145
Nos tópicos anteriores, foram apresentados alguns aspectos que apontam
para o caráter patriarcal da família Junqueira, como a fortuna acumulada
ao longo da primeira metade do século XIX – representada pelas grandes
propriedades e escravarias – e a ocupação de cargos políticos, administrativos
e eclesiásticos. Também se destacam as estratégias na constituição das alian-
ças matrimoniais, com forte predominância dos casamentos endogâmicos.
As alianças fora da parentela foram realizadas no sentido de reforçar o prestí-
gio e o poder da família, já consolidados na primeira metade do século XIX.

141. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo, op. cit., p. 168.


142. Sílvia Maria Jardim Brügger, op. cit., p. 54-59.
143. Ibidem, p. 52; Ronaldo Vainfas, Trópico dos pecados, p. 118.
144. Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala, nota 55 do capítulo 1, p. 137.
145. Ronaldo Vainfas, op. cit., p. 52; Sílvia Maria Jardim Brügger, op. cit., p. 59; Sheila de
Castro Faria, A colônia em movimento, p. 49.

289
Existem determinados elementos que reforçam a importância dos va-
lores patriarcais, presentes na sociedade mineira da primeira metade do
oitocentos, considerando o estudo de caso em questão. É muito interessante
verificar as estratégias utilizadas pela parentela, para consolidar o nome da
família, protegê-lo, e reforçar o significado de pertencer a uma grande estirpe.
Primeiro, examinemos a questão do sobrenome familiar. João Francisco
era natural de São Simão da Junqueira e acabou incorporando ao seu sobre-
nome o nome do lugar onde nascera. Até aí nenhuma novidade. Esta era
uma prática mais ou menos comum entre os portugueses sem sobrenome
de importância. O que interessa acentuar é justamente quando o sobrenome
Junqueira adquiriu prestígio e passou a ser sinônimo de uma família de
grandes posses e de poder. Ao que parece, o casamento de João Francisco
com Elena Maria do Espírito Santo se constituiu numa boa estratégia de
inserção em uma família estabelecida e de relativas posses na comarca do
Rio das Mortes. A ocupação de áreas próximas às rotas de abastecimento,
já exploradas por outros patrícios, acabou se constituindo no caminho para
o enriquecimento de João Francisco e de sua família. Quando morreu, em
1819, o nome de sua família já estava consolidado.
Em seu testamento, há uma evidência clara dessa relação e do que pas-
sou a representar o sobrenome Junqueira, tanto para ele, quanto para a sua
descendência. Ao registrar as suas disposições testamentais, declarou que
era “natural de São Simão da Junqueira, termo de Barcelos, arcebispado de
Braga, filho legítimo de João Manuel Junqueira e Ana Francisca do Vale, já
falecidos”.146 (grifo meu). O que chama mais a atenção nesse registro é que seu
pai se chamava João Manuel e, como já mencionado, seus pais eram campo-
neses pobres e viviam de “poucos recursos”. Como, na época em que se fez
o registro, o nome da família já estava consolidado, João Francisco decidiu
nomear um ascendente – seu pai – como membro da família Junqueira.147

146. IPHAN-SJDR, Testamento de João Francisco Junqueira (1819), caixa 70.


147. José Américo Junqueira destaca que, nos inúmeros documentos pesquisados sobre os
pais de João Francisco, em todos só aparece grafado João Manoel. O autor tenta explicar a
inclusão do sobrenome Junqueira pela via psicanalítica, especulando que João Francisco
teria alguma razão inconsciente para tomar tal atitude. Ver Família Junqueira, p. 67.

290
Outras indicações do valor da família para os seus membros e das es-
tratégias de fixação da parentela podem ser depreendidas pela importância
que alguns locais adquiriram no imaginário familiar, como a fazenda do
Favacho e a Campo Alegre. Estas duas sedes tinham um significado especial
para a família, notadamente a fazenda do Favacho. Embora não tenha sido
construída pelos Junqueira, foi ali que se realizaram vários batizados, casa-
mentos e alguns integrantes foram enterrados.148 O arraial de São Tomé das
Letras também se tornou um espaço de grande significação para a família,
tanto que João Francisco Junqueira iniciou a construção da igreja matriz,
que foi terminada por seu filho Gabriel Francisco Junqueira.
Linda Lewin constata que na Paraíba também existia
[...] uma propriedade considerada como o berço da família, local de
nascimento de pelo menos duas gerações, onde residia a família nuclear
de mais prestígio do grupo. A identificação coletiva de um conjunto de
propriedades rurais específicas ou com um município correspondia à
identidade quase-corporativa estabelecida pela maior parte dos grupos
familiares extensos.149

Várias propriedades da família converteram-se em locais de encontros


para diversão, como, por exemplo, a realização das tão apreciadas caçadas.
Dentre elas, destacam-se as fazendas do Favacho e da Traituba (ver capítulo 3).
As estratégias familiares adotadas para proteger o nome da família
podem ser vislumbradas na história da descendência do padre Francisco
Antônio Junqueira, o quarto filho de João Francisco Junqueira e Elena Maria
do Espírito Santo. A considerar as pesquisas feitas pelos genealogistas até
o momento, Francisco Antônio Junqueira teve sete filhos, dos quais cinco
com maternidade reconhecida. Com mãe desconhecida, o vigário teria tido
dois filhos: Maria Marfisa da Costa e Antônio Glauceste Junqueira e, com
Antônia Maria da Paixão, cinco filhos, a saber: Francisca Cândida de Oliveira,
Maria Clementina da Paixão, Ana Tereza da Paixão, Mariana Laurentina da

148. Informações sobre os registros de batismo, casamento e óbitos dos familiares podem
ser encontrados na obra recente de José Américo Junqueira de Mattos (ibidem), ricamente
documentada e com transcrições de vários documentos paroquiais e cartoriais para as
primeiras gerações.
149. Linda Lewin, Política e parentela na Paraíba, p. 124.

291
Paixão e Gabriel Francisco.150 O que chama a atenção no caso dos filhos do
padre são os subterfúgios utilizados pela família para encobrir a paternidade
e, por outro lado, os caminhos utilizados para a inserção desses membros
na família ou a preocupação em “arranjar” bons casamentos para os filhos
não reconhecidos.
Primeiramente, é bom lembrar que o vigário não reconheceu a pa-
ternidade de nenhum dos filhos. Em seu testamento, aberto em janeiro de
1829, afirmou que sempre fora celibatário e que nunca teve “herdeiro algum
descendente e tendo morrido os ascendentes” lhe era livre a disposição dos
bens. Acabou instituindo como herdeiro universal o seu irmão, o alferes
Gabriel Francisco Junqueira, futuro barão de Alfenas.151 Já o testamento de
Antônia Maria da Paixão tem muito a dizer, por aquilo que omite. O pai de
seus filhos também não é mencionado e, muito menos, que ela foi casada
oficialmente com Thomé Ferreira da Silva, embora este reconhecesse a pater-
nidade dos filhos que, supostamente, teria tido com ela. Em seu testamento,
Antônia Maria da Paixão declarou a posse de parte que tinha em fazendas
localizadas na freguesia de São João da Boa Vista, Caconde, província de
São Paulo e no distrito de Caldas, em Minas Gerais, além de 32 escravos,
que distribuía entre seus herdeiros (filhos, netos) e afilhados.152
José Américo Junqueira de Mattos acabou apresentando argumentos
e evidências consistentes que comprovam a paternidade não reconhecida
dos filhos do padre, especialmente no que se refere ao processo de dis-
pensa de consanguinidade de Joaquim José de Oliveira Filho e sua prima
Helena Cândida da Costa, datado de 1852. Esta era filha de João Cândido
da Costa e de Maria Marfisa da Costa, primeira filha do padre, com mãe
desconhecida. O noivo era filho de Francisca Cândida de Oliveira, filha do
padre com Antônia Maria da Paixão, casada com seu primo Joaquim José
de Oliveira (ver diagrama 4). Os noivos se achavam ligados “com impedi-
mento de consanguinidade em 2o grau da linha transversal, porque a mãe

150. José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 686.


151. IPHAN-SJDR, Testamento do padre Francisco Antônio Junqueira (1829).
152. Testamento de Antônia Maria da Paixão (1863). Transcrito e publicado primeiramente
por Frederico Brotero de Barros e, recentemente, por José Américo Junqueira de Mattos,
op. cit., p. 683-685.

292
da oradora dizem ser irmã da mãe do orador por pai”. Portanto, o padre
era pai da mãe do noivo e da mãe da noiva. O mesmo aconteceu com Luiz
Antônio de Oliveira, irmão de Joaquim José de Oliveira Filho, que se casou
com Francisca Cândida de Oliveira, irmã de Helena Cândida da Costa.153
Talvez um dos casos mais interessantes dos filhos do padre seja o que
se refere ao único que herdou o sobrenome da família. Antônio Glauceste
Junqueira nasceu em 1799, em São Tomé das Letras, e foi exposto na casa
do padre Francisco Antônio Junqueira, ou seja, trata-se do único filho cria-
do pelo pai. A comprovação do parentesco com a família está evidente no
processo instaurado por ocasião da Revolta de Carrancas, em 1833, quando
Antônio Glauceste, arrolado como testemunha, “disse ser sobrinho e afilhado
de Gabriel Francisco Junqueira”, que era irmão do padre.154
Outras evidências dos cuidados do padre para com sua prole podem ser
percebidas na história de sua primeira filha, Maria Marfisa da Costa, casada
com seu primo, o capitão João Cândido da Costa, filho de Ana Francisca
do Vale (irmã do padre) e Joaquim Bernardes da Costa (ver diagramas 4 e
6). No seu registro de batismo, datado de 28 de janeiro de 1796, há a decla-
ração de que tinha sido “exposta em casa de Justo Domingues Maciel”. No
casamento de sua filha, o reverendo acabou sendo uma das testemunhas.155
Profundamente interessado na história de seus ascendentes, José
Américo Junqueira de Mattos desvendou, apropriadamente, vários aspectos
das relações familiares com aparentados ou não que procuraram resguardar
a imagem do padre e também de sua prole e garantiram a inserção de seus
filhos e filhas na parentela, especialmente por meio de casamentos arranjados,
prática comum entre as famílias da elite. Domingos Maciel, por exemplo,
apareceu como testemunha no testamento lavrado pelo patriarca da família,
João Francisco Junqueira, em 1820. Ao acolher Maria Marfisa em sua casa,
Justo Domingos Maciel provavelmente estava fazendo um favor a um amigo

153. Apud José Américo Junqueira de Mattos, op. cit., p. 708.


154. IPHAN-SJDR, Processo crime de Insurreição (1833), caixa PC 29-01. Depoimento da
testemunha Antônio Glauceste Junqueira, fls. 97v.
155. Os registros paroquiais citados encontram-se reproduzidos na obra de José Américo
Junqueira de Mattos, op. cit., p. 687.

293
e resolvendo uma dificuldade que não era só do padre Francisco Antônio
Junqueira, mas de toda a família.156
Outro caso que chama a atenção é a história do suposto filho mais novo
do padre. Gabriel Francisco foi batizado no dia 9 de julho de 1823 por seu
próprio pai, e Tomé Ferreira da Silva assumiu a paternidade do filho, junto
com a mãe verdadeira, Antônia Maria da Paixão. Nove anos depois, Gabriel
Francisco morreu e foi registrado como filho de Antônia Maria da Paixão e de
“pai incógnito”. Teria sido uma estratégia utilizada por Antônia para não incri-
minar o vigário, pai verdadeiro do menino, e não dar a paternidade a quem de
fato não a tinha? Este foi o raciocínio de José Américo Junqueira de Mattos.157
Diante do que foi analisado, constatou-se o processo de expansão e
consolidação da família Junqueira, tanto pela fortuna acumulada em terras e
escravos, como pelo capital político construído em torno do nome da família,
da expansão geográfica e da fixação da identidade da parentela. Todos esses
fatores constituem-se em fortes indícios do significado do patriarcalismo e
da importância da família no contexto estudado.
No próximo capítulo, serão discutidas as relações entre os senhores
e os seus cativos, considerando as estratégias senhoriais na composição
das escravarias, tomando novamente como exemplo a trajetória da família
Junqueira. Foi justamente no momento em que se verificou a ascensão
socioeconômica e política da família, que seus membros foram vítimas da
ação coletiva por parte de seus cativos, resultando na maior rebelião escrava
do sudeste do Império brasileiro. E na releitura que se procedeu da revolta
houve a preocupação de analisar a sua repercussão nas instâncias políticas
do Império e as estratégias das elites diante de um confronto direto com os
escravos, além de maiores detalhes sobre a insurreição propriamente dita.

156. Idem.
157. Os registros de batismo e óbito pertencem ao arraial de Caldas e se encontram repro-
duzidos na íntegra no livro citado de José Américo Junqueira de Mattos, p. 689.

294
54 - Francisco Marcolino Diniz Junqueira, Capitão Chico, e sua esposa Maria de Paula
Franco. Herdou as terras da Fazenda Invernada, em 1848, após a morte de seu pai,
Francisco Antônio Junqueira. Fonte: Acervo família Junqueira.

295
296
55 - Três filhas de Francisco Marcolino Diniz Junqueira, “Capitão Chico”, casadas com três filhos de José Frauzino Junqueira. Da esquerda
para a direita: Helena e Antônio Torquato Fortes Junqueira; Genoveva e José Frauzino Fortes Junqueira Neto; Adelina e Francisco Olynto
Fortes Junqueira. 23/04/1884. Os casamentos consanguíneos e as alianças matrimoniais bem definidas evitavam a dispersão da fortuna e foram
estratégias largamente utilizadas pelas famílias da elite do Império. Fonte: Acervo família Junqueira.
56 - Gabriel Francisco Junqueira, barão de Alfenas, e seu filho Tiburcinho. s/d.
Fonte: Acervo família Junqueira.

297
57 - Gabriel Francisco Junqueira, barão de Alfenas. Óleo s/ tela do pintor italiano Nicolau
Antônio Facchinetti, 1876. Devido ao precário estado de conservação, a obra ficou ina-
cessível à visitação pública, o que contribuiu para o surgimento da hipótese de que o
quadro estivesse desaparecido. O quadro foi restaurado recentemente pelas especialistas
em conservação/restauração de bens culturais Fernanda Tozzo Machado e Raquel Teixeira.
Fonte: Acervo particular de Fernanda Tozzo Machado e Raquel Teixeira.

298
5

Senhores e escravos na região dos Campos

Agosto de 1855. No primeiro dia do mês, morreu dona Isabel Maria do


Espírito Santo, moradora na fazenda dos Lobos, freguesia de Pouso Alto,
termo da vila de Santa Maria de Baependi. Era filha legítima de Antônio
Vieira Carneiro e de Inácia Maria da Silva. Foi casada com o capitão Miguel
Pereira da Silva, com quem teve vários filhos, mas, quando da realização do
seu testamento, em 1836, apenas dois ainda viviam: Vicente da Silva Pereira e
Rita de Cássia, casada com o sargento-mor Francisco Teodoro da Silva, barão
de Pouso Alto, que foi seu inventariante. O que mais impressiona, à primeira
vista, é o grande número de escravos que possuía, nada menos que 259.
Como a maioria dos grandes proprietários de seu tempo, Isabel era dona
de engenho, criava gado nas três fazendas listadas (Ribeirão, Pessegueiros e
Engenho) e produzia alimentos.1 A avaliação das três propriedades somava
33:280$000. Ainda havia a “casa da Lapa”, administrada em sociedade com
Antônio Caetano Rodrigues Horta, avaliada em 10:336$739.
Criavam-se animais e produziam-se mantimentos em todas as pro-
priedades, contudo algumas delas mereceram descrições mais detalhadas.
A fazenda do Engenho, como o próprio nome já diz, era a única em que se
produzia açúcar. Nela, foram relacionadas quarenta arrobas de açúcar branco
e dez de redondo, além de setenta carros de milho, 160 alqueires de feijão,
110 de arroz, cinco arrobas de algodão em rama e setenta porcos de criar.
Na fazenda Pessegueiros, foram mencionados oitenta carros de milho, 229
alqueires de feijão, sessenta porcos de criar e 140 arrobas de fumo, de três
anos. Nessa fazenda parecia ficar a tropa de burros pertencente à família –

1. Para uma descrição dos bens que havia no interior das “casas de vivenda”, ver capítulo 3.

299
essencial para comercializar parte da produção das propriedades – pois nela
foram listadas 37 bestas de carga.
Havia outras evidências da importância das atividades comerciais para a
formação da fortuna da inventariada. Isabel possuía em dinheiro, 31:267$570,
além de 10:000$000 em banco. Também foram mencionadas 180 apólices da
província do Rio de Janeiro a 500$000 cada uma, totalizando 90:000$000, e
vinte ações na estrada de ferro,2 no valor de 200$000, para as quais já havia
entrado na primeira chamada, com 400$000.
Também impressionam a morada de casas localizada no arraial de Pouso
Alto, avaliada em 6:000$000 e o sobrado na cidade do Rio de Janeiro, com
três andares, localizado na rua do Carmo n° 57, em 20:000$000. Embora o
inventário não forneça informações detalhadas que permitam vislumbrar
as conexões mercantis com a praça carioca, como, por exemplo, a relação
de credores e devedores, pelos bens listados é possível perceber a projeção
conquistada pela família. O sobrado na Corte é uma forte evidência da
fortuna amealhada pela família e da importância que uma sede no Rio de
Janeiro representava para a condução dos negócios e a comercialização dos
gêneros produzidos nas fazendas do arraial de Pouso Alto, em Minas Gerais.
A diversificação das atividades e as opções de investimento da rique-
za são visíveis na atuação do genro de Isabel, o barão de Pouso Alto, que,
além de possuir dinheiro “proveniente de cobranças”, era o responsável
pela compra das ações da estrada de ferro, das apólices e pela aplicação do
dinheiro em banco.3
Os cativos representavam 39,5% da fortuna da família, ou seja,
174:680$000. As dívidas ativas correspondiam a quase 10% do total dos

2. Provavelmente, tratava-se da Estrada de Ferro Dom Pedro II, embora não haja referência
explícita no inventário.
3. Informações mais detalhadas sobre a extensão dos negócios da família não puderam
ser obtidas por meio do inventário, pois nele os bens são relacionados de forma bastante
genérica, como, por exemplo, os “gêneros da casa da Lapa”. No inventário, os bens de
cada propriedade foram citados em separado. Na casa da Lapa, além de móveis, animais e
produção agrícola, foram mencionados “os gêneros existentes”, apresentando apenas seu
valor. Esta propriedade não era administrada pela inventariada ou pelo seu genro e, sim,
por um sócio, chamado Antônio Caetano Rodrigues Horta. IPHAN-SJDR, Inventário de
Maria Isabel do Espírito Santo (1855). Falta o número da caixa porque, na época em que foi
consultada, a documentação ainda estava em fase de catalogação.

300
bens – 41:168$880. Deste total, cerca de 20% estavam nas mãos do genro
e inventariante, por “saldos de contas”. O barão de Pouso Alto parecia ser
quem administrava os negócios da propriedade de Isabel, já que era o único
herdeiro do sexo masculino na família, pois o filho da inventariada havia
morrido antes do término do inventário. O total dos bens avaliados atingiu
o monte-mor de 441:945$984.
Isabel Maria do Espírito Santo era senhora de muitos negros. Talvez,
por isto mesmo, fosse temida e respeitada, tanto pelos seus escravos como
pelos outros senhores. Em seu inventário, os avaliadores foram generosos e
metódicos com algumas informações, visto que registraram a origem (afri-
cana ou crioula), o sexo, a idade e o estado civil dos cativos. Infelizmente,
raras vezes foi citada a ocupação, exceto os ofícios mais especializados, como
tropeiro, ferreiro, carreiro, carpinteiro, sapateiro e alfaiate. As ocupações
ligadas às atividades agrícolas não foram mencionadas, provavelmente por
não serem dignas de nota na avaliação dos louvados. Mas as demais infor-
mações relacionadas são de grande relevância para se compreender um
pouco da lógica senhorial na composição das escravarias, especialmente
após a abolição do tráfico internacional de cativos.
Examinemos os números: dos 259 escravos que Isabel possuía, 77 (30%)
eram africanos; 149 (57%), crioulos, e 33 (13%) não tiveram a origem men-
cionada. O investimento na constituição de famílias e, consequentemente,
na reprodução natural da escravaria aparece não só no número de escravos
casados, mas também no número de crianças arroladas. Mais da metade
dos escravos crioulos – 79 – era de crianças de zero a dez anos, enquanto
os casados representavam um terço do total. Foram também relacionados
vinte viúvos. Os sinais de mudança na composição da escravaria podem ser
percebidos ainda pela pequena diferença entre a quantidade de homens e
mulheres: 136 homens e 123 mulheres.4
Esses dados indicam uma crioulização da escravaria, que pode ser ex-
plicada pela grande quantidade de cativos que dona Isabel possuía e talvez
pelo fato de se tratar de unidades produtivas mais antigas. O investimento
na formação de famílias e no crescimento natural dos escravos era uma boa

4. Idem.

301
estratégia de reposição e ampliação da mão de obra escrava. Os mesmos
números também escondem algumas diferenças importantes de acentuar,
que guardam conexões com a conjuntura anterior. Os homens africanos
constituíam a maioria, tanto os casados como os solteiros, denotando a
dependência do tráfico internacional anteriormente. Havia 60 homens e 17
mulheres – todos africanos.
A história de dona Isabel foi selecionada com o objetivo de introduzir
a discussão acerca da lógica senhorial na composição de suas escravarias,
sem desconsiderar, evidentemente, as transformações ocorridas no contexto
espacial e cronológico em que se arrolaram seus bens. Ao longo deste traba-
lho, ficou demonstrada a importância do termo de Campanha no cenário
econômico e sociopolítico da província de Minas Gerais e do Império, com
destaque para a trajetória da família Junqueira, que se assemelha, em muitos
aspectos, à de muitas outras famílias de grandes proprietários escravistas da
área em estudo. Por ora, é importante analisar como os grandes senhores
compunham as escravarias e quais as suas estratégias de controle da população
escrava, observando em que medida elas poderiam ou não ser bem-sucedidas.
Evidentemente, não será desconsiderada a participação escrava no processo
de negociação e ampliação de certos “espaços de autonomia”, discussão já
bastante recorrente na historiografia brasileira relativa à escravidão.5
A relação entre senhor e escravo era marcada pela tensão e pelo temor
cotidiano. Ambos manipulavam, cada um a seu modo, a possibilidade de

5. Os estudos sobre a escravidão no Brasil, produzidos ao longo das duas últimas déca-
das, acompanharam as novas tendências da historiografia norteamericana, do marxismo
revisionista de Thompson e da “Nova História” francesa. A utilização de novas fontes e
metodologias contribuiu para alargar o campo de possibilidades no estudo das formas de
resistência escrava, enfatizando as relações de acomodação, as lutas cotidianas e as estra-
tégias adotadas pelos escravos para a preservação e a ampliação de espaços tradicionais de
autonomia. Algumas obras foram pioneiras e acabaram inspirando uma série de estudos
sobre o tema, entre elas: Kátia M. de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil; Leila Mezan
Algranti, Estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro; Stuart B. Schwartz, Segredos
internos; Sidney Chalhoub, Visões da liberdade; Sílvia Hunold Lara, Campos da violência;
Maria Helena Machado, Crime e escravidão. Ver, ainda, alguns trabalhos recentes que
fazem um balanço da produção historiográfica brasileira sobre a escravidão: Sheila de
Castro Faria, O cotidiano dos negros no Brasil escravista; Stuart Schwartz, A historiografia
recente da escravidão brasileira, in Escravos, roceiros e rebeldes, p. 21-82; Sílvia Hunold Lara,
Conectando historiografias, p. 21-38.

302
um confronto. Esta é a faceta mais conhecida da escravidão e a mais estu-
dada pela historiografia. Como atestam Manolo Florentino e José Roberto
Góes, os recursos utilizados pelos escravos para transformar a desavença
em solidariedade foram menos analisados, notadamente em um contexto
de renovação constante da mão de obra, que marcou a conjuntura anterior
ao fim do tráfico internacional.6 Provavelmente, a mesma assertiva vale para
as estratégias senhoriais para se buscar a “paz nas senzalas”.
Não se trata, de modo algum, de negar as estratégias utilizadas pelos
escravos para sobreviverem no mundo da escravidão, ou, ao contrário, de
colocar o devir da história na vontade senhorial. De acordo com os mesmos
autores, era justamente na humanidade dos escravos que a escravidão se
assentava, pois, do contrário, “bastariam bois e cavalos”.7 Perceber as práti-
cas urdidas pelos senhores para lidar com suas escravarias é o desafio a ser
enfrentado neste capítulo.

1. População livre e escrava


Antes de tecermos considerações a respeito das práticas senhoriais, será
necessário traçar um quadro geral da população escrava da região, levando
em conta variáveis como a origem (africana ou crioula) e a procedência dos
cativos africanos. Para esta discussão, se lançará mão dos dados constantes
das listas nominativas de 1831-1832, dos assentos paroquiais e de alguns in-
ventários, particularmente os da família Junqueira, para uma investigação
pormenorizada das escravarias.
O percentual de cativos no termo de Baependi (tabela 18) era superior
a 40%, em razão do número de distritos em que os escravos constituíam
a maioria da população. Dos dez distritos para os quais existem listas no-
minativas, mais da metade possuía uma população escrava acima desse
percentual, e em outros, como é o caso da capela de São José do Favacho
e do Varadouro, os escravos representavam mais de 60% do total. Na re-
alidade, esses distritos caracterizavam-se por vastas áreas rurais e grande
concentração de escravos nas mãos de poucos proprietários.

6. Manolo Florentino e José Roberto Góes, A paz das senzalas, p. 171-172.


7. Ibidem, p. 172.

303
Tabela 18
População livre e escrava dos termos de Baependi e Campanha, distribuí-
da por distritos – 1831-1832
Distritos Livres % Forros % Escravos % Total
Baependi
1 500 62,3 0,0 302 37,7 802
2 1.061 63,8 49 2,9 554 33,3 1.664
3 1.425 62,4 6 0,3 852 37,3 2.283
4 1.916 56,3 87 2,6 1.398 41,1 3.401
5 601 62,2 47 4,9 319 33,0 967
6 325 34,0 44 4,6 588 61,4 957
7 585 50,8 0,0 567 49,2 1.152
8 1.122 49,8 57 2,5 1.072 47,6 2.251
9 2.182 51,9 26 0,6 1.998 47,5 4.206
10 162 32,3 3 0,6 337 67,1 502
Total 9.879 54,3 319 1,8 7.987 43,9 18.185
Campanha
1 987 57,2 0,0 738 42,8 1.725
2 2.993 64,7 2 0,0 1.632 35,3 4.627
3 1.017 63,7 0,0 579 36,3 1.596
4 1.285 62,6 0,0 769 37,4 2.054
5 864 55,5 198 12,7 494 31,7 1.556
6 2.108 52,9 1 0,0 1.875 47,1 3.984
7 2.258 63,5 0,0 1.300 36,5 3.558
8 1.236 61,2 386 19,1 398 19,7 2.020
9 1.015 69,8 27 1,9 413 28,4 1.455
10 375 70,8 0,0 155 29,2 530
11 802 82,8 0,0 167 17,2 969
12 620 33,7 500 27,2 719 39,1 1.839
13 2.273 59,7 529 13,9 1.004 26,4 3.806
14 187 30,3 0,0 430 69,7 617
Total 18.020 59,4 1.643 5,4 10.673 35,2 30.336

a) Distritos do termo de Baependi: 1 - Capela da Alagoas, freguesia de Aiuruoca; 2 -


Paróquia da Aiuruoca; 3 - Capela do Espírito Santo; 4 - Capela de Nossa Senhora
do Carmo de Pouso Alto; 5 - Capela de Senhora Santa Ana da Goapera, freguesia de

304
Aiuruoca; 6 – Capela de São José do Favacho; 7 - Capela de São Vicente, freguesia
de Aiuruoca; 8 - Capela do Serrano, da freguesia de Aiuruoca; 9 - Curato do Turvo,
freguesia da Aiuruoca; 10 - Capela de Varadouro.
b) Distritos do termo de Campanha: 1 - Capela do Espírito Santo da Mutuca; 2 - Matriz
Nova de Itajubá; 3 - Capela do Lambari; 4 - Paróquia de Santa Catarina; 5 - Capela
de Santa Rita; 6 - Paróquia de Santo Antônio do Vale da Piedade; 7 - Paróquia de São
Gonçalo; 8 - Capela de São José do Campo da Formiga, freguesia de Pouso Alegre;
9 - Capela de São Sebastião da Capituba; 10 - Capela de São Sebastião e São Roque
do Bom Retiro; 11 - Curato do Senhor Bom Jesus das Antas; 12 - Capela de Três
Corações de Jesus, Maria e José do arraial do Rio Verde; 13 - Distrito de Santana do
Sapucaí; 14 - Distrito de Nossa Senhora da Soledade.
Fonte: APM, Listas nominativas de 1831-1832 – banco de dados elaborado por
Clotilde Paiva, CEDEPLAR/UFMG.

Para o termo de Campanha, os índices de concentração da população


cativa eram menores, mas em vários distritos o percentual ultrapassava 40%.
Quase um terço dos distritos se enquadrava nesse percentual, incluindo a
sede da vila, a paróquia de Santo Antônio do Vale da Piedade, cuja população
escrava representava 47,1%. Os distritos menos populosos e com a maioria
dos habitantes concentrada em áreas rurais, como era o caso da capela de
Nossa Senhora de Soledade e do Espírito Santo da Mutuca, se enquadravam
nas mesmas razões apontadas para alguns distritos do termo de Baependi.
Esses índices evidenciam não só a importância da mão de obra escrava
para o desenvolvimento das atividades econômicas ligadas ao abastecimento
interno, mas o seu constante processo de renovação, gerado pela dependên-
cia em relação ao tráfico internacional de escravos. Com isto não se está
desconsiderando a possibilidade de reprodução natural das escravarias e
da constituição de famílias. Esta questão será investigada com maior rigor
a partir da análise dos inventários de alguns proprietários.

2. População escrava: africanos e crioulos


A dependência em relação ao tráfico internacional pode ser visualizada
tomando por base a porcentagem de africanos na população escrava.8 Assim
como na tabela anterior, essas informações foram consideradas por distrito.

8. O termo “africano” é extemporâneo e se constitui de uma identidade criada a partir da


abolição do tráfico.

305
O que primeiramente chama a atenção é que, apesar de o contingente cativo
do termo de Campanha ser menor, em números percentuais, os índices de
africanos são praticamente os mesmos de Baependi, ou seja, mais de 45%
dos cativos eram de origem africana. Estes dados confirmam os argumentos
defendidos ao longo deste trabalho quanto à dependência da área em estudo
com relação ao tráfico internacional de escravos. Analisando-se os distritos
em separado, será possível detectar algumas diferenças marcantes. Em três
distritos de Baependi, por exemplo, mais de 45% dos cativos eram de origem
africana, sendo que, em dois deles, a capela do Espírito Santo e a de Carmo
do Pouso Alto, este percentual ultrapassava 60%.9 Já no caso de Campanha,
em pelo menos seis distritos a população de cativos africanos atingia níveis
acima de 45% e, em dois deles, o número ultrapassava 60% (ver tabela 19).

Tabela 19
População escrava dos termos de Baependi e Campanha, distribuída por
distritos – 1831-1832
Distritos Africano % Crioulo % Total
Baependi
1 93 30,8 209 69,2 302
2 225 40,6 329 59,4 554
3 523 61,4 329 38,6 852
4 970 69,4 428 30,6 1.398
5 100 31,3 219 68,7 319
6 261 44,4 327 55,6 588
7 237 41,8 330 58,2 567
8 447 41,7 625 58,3 1.072
9 758 37,9 1.240 62,1 1.998
10 159 47,2 178 52,8 337
Total 3.773 47,2 4.214 52,8 7.987

9. Em estudo anterior, constatei altos índices de concentração da população cativa, nota-


damente a de origem africana, em alguns distritos selecionados da freguesia de Carrancas,
localizados nos termos de São João del-Rei e Baependi. Os números encontrados para os
distritos de Carrancas, Espírito Santo de Carrancas, São Tomé e para o curato do Saco
ultrapassavam o percentual de 45% de africanos e, em alguns casos, chegavam a mais de
60%. Ver Rebeldia e resistência, p. 147-150.

306
Distritos Africano % Crioulo % Total
Campanha        
1 291 39,4 447 60,6 738
2 1.065 65,4 564 34,6 1.629
3 391 67,5 188 32,5 579
4 424 55,1 345 44,9 769
5 277 56,1 217 43,9 494
6 764 40,7 1.111 59,3 1.875
7 631 48,5 669 51,5 1.300
8 169 42,5 229 57,5 398
9 175 42,4 238 57,6 413
10 44 28,4 111 71,6 155
11 50 30,1 116 69,9 166
12 259 36,0 460 64,0 719
13 350 34,9 654 65,1 1.004
14 215 50,6 210 49,4 425
Total 5.105 47,9 5.559 52,1 10.664

Fonte: APM, Listas nominativas de 1831-1832 – banco de dados elaborado por Clotilde
Paiva, CEDEPLAR/UFMG.

Estes dados só confirmam o que a historiografia tem demonstrado até


então, ou seja, que várias regiões da província de Minas Gerais, cuja econo-
mia era orientada para o abastecimento interno, participaram ativamente
do tráfico negreiro internacional, pelo menos até o início da década de 1830.
Segundo João Luís Fragoso, entre 1825 e 1833, Minas Gerais absorveu nada
menos que 48% da população africana que chegava ao Brasil através do porto
carioca, contrastando com as áreas exportadoras do vale do Paraíba e do
Norte Fluminense, que, juntas, absorviam 36,5% dos cativos importados.10
Diferentemente de Fragoso, cremos que as grandes unidades escravistas
foram subestimadas em estudos anteriores (ver capítulos 1 e 2).
Ainda que, num primeiro momento, os pequenos senhores de escra-
vos tenham predominado, a concentração de cativos nas mãos de grandes
senhores não era desprezível. Se analisarmos mais detidamente a compo-

10. João Luís Ribeiro Fragoso, Homens de grossa aventura, p. 177.

307
sição das escravarias para alguns distritos, veremos que uma significativa
porcentagem de cativos vivia em grandes propriedades. E isto poderia fazer
uma notável diferença nas relações entre senhor e escravo e na construção
de estratégias de sobrevivência de ambos os lados.
Vejamos a seguir o que as fontes indicam acerca da procedência dos
cativos que chegavam à província de Minas Gerais. As listas nominativas
não constituem uma fonte apropriada para recuperar este tipo de informa-
ção, pois nelas existem poucos dados e, quando existem, vêm registrados
de modo bastante genérico. No distrito de São Sebastião da Capituba, por
exemplo, são relacionados 32 negros africanos da “Costa”. Outro termo
bastante recorrente e de pouco significado é escravo de “Nação”, que aparece
com mais frequência e para um número maior de distritos.11 Neste caso, as
fontes mais apropriadas são os inventários.
As fontes paroquiais também podem fornecer alguns indicativos a
respeito, tanto da porcentagem de africanos, quanto da sua procedência,
quando se considera, especialmente, as informações existentes para os pais
de batizandos escravos. Selecionou-se alguns livros de assentos de batismo
para as freguesias de Aiuruoca, Baependi e Campanha, que podem contribuir
para elucidar o perfil da população escrava da área em estudo.
Primeiramente, é importante fazer algumas ponderações acerca da utili-
zação deste tipo de fonte para os aspectos que se pretende aqui enfatizar. De
repente, o que pode chamar mais a atenção nas tabelas 20 e 21 é o número de
registros para os quais não consta informação. Em alguns casos, isto ocorre
em relação à origem dos pais, como no livro da freguesia de Campanha
para o período de 1806-1813. As informações dos assentos paroquiais, as-
sim como de outras fontes, dependiam muito do zelo do responsável pelo
seu registro. Em alguns livros, um número maior de pais teve sua origem e
procedência declaradas, em outros, esses dados quase não aparecem. Mas
isto não é motivo para desprezá-los. Para a elaboração das tabelas, foram
considerados somente os batizandos que tiveram a sua nomeação explícita
como escravos nos registros e o mesmo valeu para os pais, nas informações
referentes à condição e à origem, ou à procedência, no caso de africanos.

11. APM, Listas nominativas de 1831-1832 – termo de Campanha.

308
Sem desconsiderar a sub-representação dos dados, as tabelas acabaram
confirmando as tendências verificadas nas listas nominativas de 1831-1832.

Tabela 20
Batizados de escravos, segundo a origem do pai – freguesias de Aiuruoca,
Baependi e Campanha, séculos XVIII e XIX
Paróquia Período Africanos % Crioulos % Não Consta % Total
1781-1790 114 26,6 13 3,1 301 70,1 428
1 1797-1808 394 44,8 119 13,6 368 41,8 881
1781-1829 64 54,7 18 15,3 35 30,0 117

1784-1793 94 69,1 6 4,4 36 26,5 136


2 1791-1802 61 41,2 9 6,1 78 52,7 148
1803-1826 77 41,2 18 9,7 92 49,1 187

1784-1788 129 67,9 13 6,9 48 25,2 190


3
1791-1805 126 24,5 33 6.4 356 69,1 515
1806-1813 14 4,4 11 3,4 297 92,2 322

Fonte: ACDC, Assentos de batismo das paróquias de Aiuruoca (1), Baependi (2)
e Campanha (3).

Os dados da tabela anterior apontam a tendência, já constatada pela


historiografia, acerca da predominância do número de escravos do sexo
masculino entre a população de origem africana. Até a extinção do tráfico
negreiro internacional, havia um processo de renovação constante das es-
cravarias com a chegada de “negros novos”, homens, em sua grande maioria.
Isto acabava se refletindo na composição das escravarias em Minas Gerais,
particularmente dependente do tráfico internacional, nas primeiras déca-
das do século XIX.12 Já no caso específico das mães, há uma porcentagem
maior de nascidas no Brasil, indicando a importância da família escrava,
mesmo num contexto de permanente entrada de africanos, que perdurou
pelo menos até o fim do tráfico (ver tabela 21).13

12. Sobre o tráfico internacional de escravos, em especial sobre os “negros novos” que che-
gavam ao Brasil pelo porto carioca, ver Manolo Florentino, Em costas negras.
13. Para uma discussão da família escrava no contexto do tráfico internacional de africanos,
ver Manolo Florentino e José Roberto Góes, op. cit.

309
Tabela 21
Batizados de escravos, segundo a origem da mãe – freguesias de
Aiuruoca, Baependi e Campanha, séculos XVIII e XIX
Paróquia Período Africanas % Crioulas % Não Consta % Total
1781-1790 90 12,4 150 20,6 488 67,0 728
1 1797-1808 299 23,3 470 36,7 514 40,0 1283
1781-1829 40 26,1 53 34,6 60 39,3 153

1784-1793 65 28,0 75 32,3 92 39,7 232


2 1791-1802 41 16,4 53 21,1 157 62,5 251
1803-1826 61 15,0 119 29,2 227 55,8 407

1784-1788 80 25,8 137 44,2 93 30,0 310


3
1791-1805 90 9,0 255 25,7 650 65,3 995
1806-1813 7 1,1 50 8,5 595 91,4 651

Fonte: ACDC, Assentos de batismo das paróquias de Aiuruoca (1), Baependi (2)
e Campanha (3).

3. Procedência dos cativos africanos


No geral, as fontes que contemplam algum tipo de informação em
relação à população escrava, as dividem em dois grandes grupos: crioulos,
nascidos no Brasil, ou africanos. Do primeiro grupo fazem parte crioulos,
pardos, cabras e mulatos. O segundo está definido por critérios de origem
como, por exemplo, os mina, os angola, os benguela, os cabinda, os caçan-
je e muitos outros. Como tem alertado a historiografia, esses termos não
correspondem a denominações étnicas, pertencem a uma nomenclatura do
tráfico e referem-se a regiões ou a portos da África.14
Segundo Waldemar de Almeida Barbosa, nas primeiras décadas do
século XVIII houve uma importação, em larga escala, de escravos da África
Ocidental para Minas, definidos genericamente como “negros mina”.15 Estudos

14. Ver Mariza de Carvalho Soares, Mina, Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro
setecentista, p. 73-93.
15. Waldemar de Almeida Barbosa, Negros e quilombos em Minas Gerais, p. 296.

310
recentes têm demonstrado que, desde a segunda metade do setecentos,
ocorreu uma mudança na rota do tráfico, passando a predominar os escravos
oriundos do centro-oeste africano, especialmente os angola.16
Mary Karasch constatou que a grande maioria dos escravos que de-
sembarcaram na cidade do Rio de Janeiro, na primeira metade do século
XIX, procedia do centro-oeste africano. Mesmo no período em que houve
um decréscimo na representação deste grupo, nunca ficou abaixo de 66%.
Os escravos da África Oriental vinham em segundo lugar, oscilando entre
16% e 26%, seguidos, por último, pelos cativos da África Ocidental, com
cifras que não ultrapassavam 7%. O centro-oeste africano era dividido em
três regiões principais: Congo Norte (Cabinda), Angola e Benguela. Como
reitera a autora, “o significado destes termos variava muito e o uso deles no
tráfico de escravos não era consistente com a verdadeira identidade étni-
ca, nem com os nomes nacionais cariocas”.17 Isto não quer dizer que essas
referências devam ser menosprezadas. Estudos recentes têm demonstrado
as formas de apropriação dos nomes de procedência e sua utilização na
configuração de novas identidades nas relações do cativeiro, especialmente
nas de compadrio, na formação da família escrava, nas irmandades religiosas
e nas revoltas escravas.18
Se uma grande parte dos cativos que desembarcava no porto do Rio de
Janeiro tinha como destino a província de Minas Gerais, é mais ou menos
evidente que as informações constantes dos registros locais corroborem
os dados encontrados pelos autores que estudam a demografia do tráfico
na Corte. Ao analisar uma lista de remessa de escravos para Minas Gerais,
entre 1831-1832, Mary Karasch encontrou os seguintes percentuais: 40,6% do
centro-oeste africano, 38,4% da costa oriental e 7,5% da África Ocidental.19
Como constatam João Luís Fragoso e Roberto Guedes Ferreira, ao exami-

16. Mariza Soares, Os mina em Minas: tráfico atlântico, redes de comércio e etnicidade;
Silvia Hunold Lara, Os mina em Minas: linguagem, domínio senhorial e etnicidade; Hebe
Maria Mattos, Os mina em Minas: as “Áfricas” no Brasil e a pesquisa em história social
da escravidão.
17. Mary Karasch, A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), p. 50.
18. Ver, entre outros, Robert Slenes, Na senzala, uma flor; Mariza de Carvalho Soares,
Devotos da cor; João José Reis, Rebelião escrava no Brasil.
19. Mary Karasch, op. cit., p. 97.

311
narem os dados dos despachos e dos passaportes da Intendência de Polícia
da Corte, entre 1819 e 1833, as fontes tendem a acompanhar os resultados
das estimativas do tráfico internacional, uma vez que, entre 1795 e 1840,
cerca de 81,8% dos navios negreiros procediam da África Central. Em 1831,
por exemplo, 63% dos cativos registrados nos despachos e nos passaportes
eram provenientes da África Central, 24% da Oriental e 9% da Ocidental.20
Com base no levantamento sistemático das informações sobre a origem
dos cativos, contidas em inventários post mortem dos termos de São João
del-Rei, São José del-Rei, Vila Rica e Mariana (1715-1888) e Diamantina
(1790-1888), Laird Bergard também chega a conclusões semelhantes. Dos
escravos africanos que tiveram a origem mencionada, os que ocupavam
maiores índices eram os banguela (28,3%), os angola (23,9%) e os congo
(10,7%), ou seja, a grande maioria dos cativos era procedente da África
Central Atlântica. Os mina correspondiam a 10,5%.21
O autor fez um levantamento sistemático das informações contidas em
10.028 inventários, arrolando um total de mais de 110 mil cativos. As princi-
pais críticas ao seu trabalho foram formuladas por Douglas Cole Libby e se
referem aos limites das fontes utilizadas, e, particularmente, ao fato de ele
desconsiderar as diferenças no tempo e no espaço para algumas regiões das
Minas Gerais. Embora o argumento central de Laird Bergard seja a ênfase
na capacidade de reprodução natural da população escrava, hipótese que
não é de modo algum negada por outros estudiosos, as discordâncias se
manifestam nos percentuais apresentados para algumas regiões, sobretudo
aquelas localizadas nos termos de São João, São José e Diamantina, áreas
com alto nível de desenvolvimento econômico e um percentual de africanos
bem maior do que o encontrado por Laird Bergard.22 Os dados levantados
para os termos de Campanha e Baependi confirmam o que a historiografia
mineira e do tráfico tem enfatizado, ou seja, que a região participou ativa-
mente do tráfico negreiro internacional pelo menos até os primeiros anos
da década de 1830.

20. João Luís Fragoso e Roberto Guedes Ferreira, Alegrias e artimanhas de uma fonte seriada,
p. 267-269. Ver também Manolo Florentino, Em costas negras, p. 234.
21. Ver Laird W. Bergard, Slavery and the demographic and economic history of Minas Gerais,
Brasil, 1720-1888, p. 148-152.
22. Ver Douglas Cole Libby, Minas na mira dos brasilianistas, p. 279-304.

312
Tabela 22
Batizados de escravos, segundo a procedência africana do pai – freguesias de Aiuruoca, Baependi e Campanha, séculos
XVIII e XIX
África Ocidental África
Centro-Oeste Africano Total
Paró- Oriental
Período
quia Ban- Ben- Gan- Caçan- Cabun- Mofum- Quiçá- Moçam-
Mina % Angola Congo Cabinda Monjo-lo Rebolo Total % %
guela guela guela je dá be mane bique
1781-1790 12 10,5 62 32 3 1 1 3 102 89,5 114

1 1797-1808 4 1,0 159 144 3 1 8 28 14 1 5 5 21 389 99,0 1 0,3 393

1781-1829 1 1,6 12 17 6 4 7 1 5 7 1 3 63 98,4 64

1784-1793 7 7,5 45 10 17 2 8 1 3 86 92,5 1 1,1 93


2
1791-1802 2 3,3 28 2 24 2 3 59 96,7 61
 
1803-1826 5 6,5 27 7 26 4 3 3 2 72 93,5 77

1784-1788 6 4,7 73 31 8 7 1 3 123 95,3 129


 
3 1791-1805 2 1,6 51 5 46 2 1 5 3 1 10 124 98,4 126
 
1806-1813 1 7,1 2 1 3 1 2 1 1 2 13 92,9 14

Fonte: ACDC, Assentos de batismo das paróquias de Aiuruoca (1), Baependi (2) e Campanha (3).

313
314
Tabela 23
Batizados de escravos, segundo a procedência africana da mãe – freguesias de Aiuruoca, Baependi e Campanha, séculos
XVIII e XIX

África Ocidental Centro-Oeste Africano África Oriental


Paró-
Período Total
quia Ban- Ben- Gan- Cas- Cabun- Mon- Mo- Quiçá- Moçambi-
Mina % Angola Congo Rebolo Songo Total % %
guela guela guela sanje dá jolo fumbe mane que
1781-1790 6 6,7 58 20 1 1 1 1 1 1 84 93,3 90

1 1797-1808 2 0,7 111 150 4 4 3 4 1 16 4 297 99,3 299

1781-1829 0,0 4 19 10 2 4 39 100,0 1 2,6 39

1784-1793 1 1,5 33 10 19 1 1 64 98,5 65

2 1791-1802 0,0 22 1 16 1 1 41 100,0 41

1803-1826 0,0 16 8 29 2 2 2 2 61 100,0 61

1784-1788 9 11,3 45 1 14 2 1 8 71 88,8 80

3 1791-1805 1 1,1 44 1 30 1 4 1 8 89 98,9 90

1806-1813 1 14,3 1 1 2 2 6 85,7 7

Fonte: ACDC, Assentos de batismo das paróquias de Aiuruoca (1), Baependi (2) e Campanha (3).
Uma primeira leitura das tabelas 22 e 23 confirma os estudos da demo-
grafia do tráfico internacional, em especial no que se refere à procedência
dos cativos. A grande maioria dos que vieram para Minas Gerais, nas pri-
meiras décadas do século XIX, era proveniente da África Central. Em todas
as freguesias, o percentual de cativos desta área, quase sempre ficou acima
de 90%, com predominância para os angola, os banguela e os benguela. Em
segundo lugar, estavam os cativos oriundos da África Ocidental, qualificados
genericamente como “mina”. Constata-se que o percentual oscilava entre 6%
e 11% e, a considerar as informações encontradas nos registros paroquiais,
a entrada de cativos da África Ocidental nas freguesias do sul de Minas foi
maior na década de 1780.
Os dados apresentados reforçam as evidências de que o sul da capitania e
depois província de Minas Gerais participou intensivamente do tráfico inter-
nacional nas primeiras décadas do século XIX e, em muitas vilas e distritos,
a população escrava de origem africana atingia percentuais comparáveis às
áreas de agroexportação. Seguindo as tendências do tráfico internacional,
esses escravos eram procedentes, em sua maioria, da África Central. Em que
medida este quadro, descrito até o momento, poderia ser encontrado nas
escravarias dos mais abastados proprietários sul-mineiros? Até que ponto os
grandes senhores estavam condicionados à lógica do tráfico internacional
para a composição de suas escravarias? Para responder a essas e a outras
questões, foram selecionados alguns inventários da família Junqueira, consi-
derando as transformações conjunturais da primeira metade do oitocentos.

4. Estratégias senhoriais na composição das escravarias


Viu-se que a família Junqueira detinha consideráveis escravarias, com
números que oscilavam entre trinta e até mais de cem cativos. Tratava-se de
grandes senhores escravistas, fazendeiros/negociantes, que consorciavam
várias atividades e produziam gêneros voltados para o abastecimento interno.
Mencionou-se também que alguns deles se dedicavam esporadicamente ao
tráfico interno de cativos do Rio de Janeiro para Minas Gerais (ver capítulo 4).
Para a composição da tabela 24, selecionaram-se alguns inventários
da família Junqueira, que cobrem a primeira metade do século XIX e os

315
primeiros anos após o fim do tráfico internacional. A análise desses dados
permite perceber determinadas estratégias senhoriais na composição de suas
escravarias, tanto numa conjuntura de entrada maciça de “negros novos”
como também após o fim do tráfico. Evidentemente, nem todos os avaliadores
foram prestimosos em indicar a procedência dos cativos ou o estado civil.
Vejamos, primeiramente, o caso da escravaria do casal fundador da
família. O inventário de Elena Maria do Espírito Santo foi realizado em 1811.
Residente na fazenda Campo Alegre, no curato de São Tomé das Letras,
freguesia de Carrancas, ela possuía 53 cativos.
O que de início chama a atenção é o percentual de crioulos em relação
aos africanos. Aqueles representavam mais de 60% dos cativos da proprie-
tária. Os africanos eram, em sua maioria, procedentes da África Central.
As denominações predominantes foram benguela, congo, rebolo, cabundá,
caçanje e angola. Também foram relacionados dois escravos mina.
Apesar de as informações sobre estado civil serem escassas, mais de 25%
da escravaria era composta de crianças, na faixa etária de zero a dez anos.
Os dados sugerem que João Francisco Junqueira, pelo menos até aquele
momento, estaria criando oportunidades para a reprodução natural de sua
escravaria. É importante colocar esta ressalva, pois o inventário tratado
desta forma nos permite contemplar apenas um retrato parcial e circuns-
tancial da vida material do proprietário. A situação poderia inverter-se dali
a cinco, dez ou vinte anos. Uma série de fatores influiria na composição das
escravarias e não estava circunscrita à dependência do tráfico internacio-
nal. A composição também dependia do cabedal de cada proprietário, da
extensão dos empreendimentos e do tempo de existência de determinada
unidade produtiva.
Considerando as evidências, predominantemente na década de 1830, a
família atingiu significativa projeção do ponto vista econômico e político. Na
conjuntura conturbada da Regência, Gabriel Francisco Junqueira tornou-
se um dos principais representantes da facção política liberal moderada na
província de Minas, elegendo-se deputado no Parlamento Nacional por
três legislaturas (1831-1837). Dois anos após o encerramento de seu mandato
legislativo, seu nome era arrolado na lista nominativa de 1838. Naquele ano,
residia em sua propriedade, com a esposa Elena Constança, acompanhado

316
de quatro filhos, um cunhado e 103 cativos. Tudo indica que o filho acabou
seguindo a mesma estratégia do pai na composição da escravaria, pois os
cativos crioulos representavam 72% do total. Os de origem africana não
chegavam a 30%, totalizando 29 cativos.

Tabela 24
Escravarias da família Junqueira – Inventários selecionados (1811-1859)
Origem não
Africanos Crioulos Total
Proprietário / local Data Sexo / estado civil mencionada
N. % N. % N. % N. %
Elena Maria do
1811 Homens solteiros 1 1,9 1 1,9
Espírito Santo
Fazenda Campo
Mulheres solteiras 2 3,8 2 3,8
Alegre -
São Tomé das Letras Homens casados 3 5,7 3 5,7
  Mulheres casadas 0,0 3 5,7 3 5,7
Homens s/
  9 17,0 19 35,8 1 1,9 29 54,7
informação
Mulheres s/
  3 5,7 12 22,6 0,0 15 28,3
informação
Total 18 34,0 34 64,2 1 1,9 53 100,0
Gabriel de Souza Diniz
1811 Homens solteiros 0,0
Junqueira

Fazenda Santo Inácio -  Mulheres solteiras 0,0

São Tomé das Letras   Homens casados 4 11,4 4 11,4


    Mulheres casadas 4 11,4 4 11,4
Homens s/
    14 40,0 5 14,3 2 5,7 21 60,0
informação
Mulheres s/
    2 5,7 2 5,7 2 5,7 6 17,1
informação
Total 24 68,6 7 20,0 4 11,4 35 100,0
André Martins de
1821 Homens solteiros 0,0 0,0 0,0 0 0,0
Andrade
Fazenda Campo Belo -  Mulheres solteiras 0,0 0,0 0,0 0 0,0
Freguesia de Santa
  Homens casados 6 16,2 2 5,4 1 2,7 9 24,3
Ana
das Lavras do Funil   Mulheres casadas 3 8,1 4 10,8 2 5,4 9 24,3
Homens s/
    6 16,2 5 13,5 2 5,4 13 35,1
informação
Mulheres s/
    1 2,7 5 13,5 0,0 6 16,2
informação
Total 16 43,2 16 43,2 5 13,5 37 100,0

317
Origem não
Africanos Crioulos Total
Proprietário / local Data Sexo / estado civil mencionada
N. % N. % N. % N. %
José Francisco
1833 Homens solteiros 2 5,6 2 5,6
Junqueira
Fazenda Bela Cruz -   Mulheres solteiras 2 5,6 2 5,6
São Tomé das Letras   Homens casados
    Mulheres casadas

    Homens s/ infor. 1 2,8 16 44,4 17 47,2

    Mulheres s/ infor. 0,0 15 41,7 15 41,7

Total 5 13,9 31 86,1 36 100,0

Manoel José da Costa 1833 Homens solteiros

Fazenda Bela Cruz -   Mulheres solteiras


São Tomé das Letras   Homens casados
    Mulheres casadas
    Homens s/infor. 1 7,1 7 50,0 8 57,1
    Mulheres s/ infor. 2 14,3 4 28,6 6 42,9
Total 3 21,4 11 78,6 14 100,0
Maria Dorida Diniz
1851 Homens solteiros
Junqueira
    Mulheres solteiras
    Homens casados 3 13,0 1 4,3 4 17,4
    Mulheres casadas 4 17,4 4 17,4
    Homens s/ infor. 2 8,7 8 34,8 10 43,5
    Mulheres s/ infor. 1 4,3 4 17,4 5 21,7
Total 10 43,5 13 56,5 23 100,0
Maria Marfiza 1857 Homens solteiros
Fazenda Jardim -   Mulheres solteiras
São Tomé das Letras   Homens casados 2 3,3 2 3,3
    Mulheres casadas 2 3,3 2 3,3
    Homens s/ infor. 23 37,7 16 26,2 1 1,6 40 65,6
    Mulheres s/ infor. 3 4,9 14 23,0 17 27,9
Total 30 49,2 30 49,2 1 1,6 61 100,0
Inácia Constança de
1859 Homens solteiros
Andrade
Fazenda Campo
  Mulheres solteiras
Alegre

318
Origem não
Africanos Crioulos Total
Proprietário / local Data Sexo / estado civil mencionada
N. % N. % N. % N. %
São Tomé das Letras   Homens casados 11 9,8 10 8,9 1 0,9 22 19,6
    Mulheres casadas 8 7,1 10 8,9 4 3,6 22 19,6
    Homens s/ infor. 12 10,7 29 25,9 41 36,6
    Mulheres s/ infor. 1 0,9 26 23,2 27 24,1
Total 32 28,6 75 67,0 5 4,5 112 100,0

Fonte: Inventários post mortem de alguns membros da família Junqueira (ver a relação
de fontes citadas ao final deste trabalho).

As oportunidades de constituição de laços familiares não estavam res-


tritas aos escravos crioulos, ainda que fossem a maioria. Dos 38 casados, 22
eram crioulos e 16, africanos. Os indícios de reprodução natural da escravaria
também podem ser percebidos pelo número de crianças de zero a dez anos,
que totalizavam pouco mais de 30% dos cativos do deputado. Embora se
perceba uma opção pela crioulização crescente da escravaria, a desproporção
entre os sexos não era desprezível. Havia sessenta cativos homens, dos quais
35% eram de origem africana.
Por outro lado, iremos encontrar proprietários da mesma família em
situação praticamente inversa à descrita acima. Gabriel de Sousa Diniz
era dono da fazenda Santo Inácio e casou-se na família Junqueira com
a filha mais velha de João Francisco. Em 1811, com uma escravaria bem
menor, composta por pouco mais de trinta cativos, os africanos somavam
quase 70%. Provavelmente, tratava-se de uma unidade produtiva mais re-
cente, constituída no contexto de vigência do tráfico atlântico de cativos.
O desequilíbrio entre os sexos também era expressivo, visto que os homens
representavam mais de 70% dos escravos. As oportunidades para a formação
de famílias estariam facultadas a poucos africanos e a reprodução natural
estava condicionada à renovação constante da escravaria. Havia apenas um
escravo abaixo da idade de dez anos. Novamente, as informações referentes
à procedência dos cativos acompanham os resultados das estimativas para
o tráfico internacional. Prevaleciam os da África Central, seguidos por
alguns poucos da Ocidental. Sua escravaria era composta de cinco angola,

319
três cabundá, três rebolo, dois benguela, dois songo, dois mofumbe, um
ganguela e três mina.
Os sinais de dependência do tráfico internacional também aparecem na
escravaria do capitão André Martins de Andrade, apesar de haver um apa-
rente equilíbrio, em termos percentuais, de seus cativos, no que diz respeito
à origem – metade era africana, metade crioula. O capitão era casado com
Ana Cândida da Costa, neta de João Francisco Junqueira, e foi proprietário
da fazenda Campo Belo, em São Tomé das Letras. A oportunidade de es-
tabelecer laços familiares foi reservada aos cativos do sexo masculino e de
origem africana. Entre as mulheres não houve muita diferença em termos
percentuais. Havia sete escravos com idade de zero a dez anos, indicando as
oportunidades de crescimento natural da escravaria. Constata-se, mais uma
vez, o mesmo padrão de procedência dos cativos – a maioria era formada
por banguela e cabinda, seguida por alguns mina.
Os inventários da década de 1830 se referem aos cativos de José Francisco
Junqueira e Manuel José da Costa, proprietários da fazenda Bela Cruz,
assassinados pelos escravos em 1833. Os avaliadores não deram maiores
informações sobre origem e procedência, nem sobre o estado civil dos ca-
tivos. Por outro lado, verifica-se que a grande maioria dos cativos daquela
propriedade que participaram da rebelião eram oriundos da África Central
e estavam assim distribuídos: cinco angola, cinco benguela, quatro congo,
dois caçanje, um mofumbe e um mina.23
Na década de 1850, algumas escravarias da família Junqueira ainda
eram compostas por um contingente expressivo de africanos, superior a
40%, o que demonstra a dependência do tráfico internacional em décadas
anteriores. Em 1859, praticamente a metade da escravaria de Maria Marfisa,
proprietária da fazenda Jardim, na freguesia de São Tomé das Letras, era de
origem africana. As informações referentes às possibilidades de constituição
de laços familiares são escassas e não mereceram registros. Exatamente duas
décadas antes, João Cândido da Costa, seu marido, foi localizado na lista
nominativa de 1839. Já naquela época, dos 87 cativos que possuía, quarenta
eram de origem africana, ou seja, mais de 45%.24

23. Marcos Ferreira Andrade, Rebeldia e resistência, p. 190.


24. APM, Listas nominativas de 1838-1840.

320
Sem dúvida alguma, o inventário mais indicado para discutir as estra-
tégias senhoriais na composição das escravarias no contexto subsequente ao
fim do tráfico internacional é o da esposa do barão de Alfenas. No começo
deste capítulo relatou-se um pouco da trajetória de dona Isabel e de suas
estratégias para composição da escravaria numa conjuntura imediatamente
posterior ao fim do tráfico, apontando a opção de uma crioulização cres-
cente e a constituição de laços familiares, embora os sinais de vínculo com
o tráfico internacional estivessem presentes no número de cativos africanos
que ainda possuía.
Mesmo que o recorte deste trabalho se restrinja à primeira metade do
século XIX, será muito interessante voltarmos à fazenda Campo Alegre,
que continuava nas mãos do filho mais novo de João Francisco, o ex-de-
putado e barão de Alfenas. Depois de duas décadas, é possível identificar
algumas mudanças significativas na composição da escravaria do barão.
O processo de crioulização crescente da mão de obra, detectado já na pri-
meira metade do século XIX, continuou em expansão. Desta vez, os louvados
foram prestimosos e metódicos na descrição da escravaria, discriminando
primeiramente os cativos casados, depois os solteiros (embora não utilizas-
sem esta expressão) e, por último, as crianças. Em 1859, o barão de Alfenas
possuía 112 cativos assim distribuídos: 75 crioulos, 32 africanos e cinco sem
informação sobre a origem. Percebe-se que, em termos percentuais, não
houve uma mudança significativa em relação à situação encontrada em 1839.
O que de início salta aos olhos é a ausência de informação sobre a
procedência. Assim como nas listas nominativas, os louvados acabaram
por registrar os escravos, utilizando-se apenas da terminologia “de nação”.
Hebe Maria Mattos já havia assinalado o silêncio sobre a “cor” nos registros
da segunda metade do século XIX, qualificando este processo como um dos
“mais intrigantes e irritantes” para o pesquisador que se dedica a investigar
a história da escravidão no Brasil.25 A mesma observação pode ser estendida
para as informações referentes à origem dos cativos do barão de Alfenas.
Parece que, nesse caso, estamos diante de um processo paulatino de “esma-
ecimento das origens étnicas”, como constataram Manolo Florentino e José

25. Hebe Maria Mattos, Das cores do silêncio, p. 94-97.

321
Roberto Góes, ao analisarem a escravaria de Manuel Aguiar Valim, o maior
cafeicultor de Bananal.26 Diferentemente do caso aqui examinado, Valim
teve a preocupação de arrolar os seus cativos desde meados da década de
1860 e, naquela época, registrou a região de onde provinham. O processo
de omitir a proveniência dos cativos africanos ocorreu, especialmente, na
matrícula de 1872. Como a conjuntura da segunda metade do século XIX não
é objeto deste trabalho, não há como afirmar se o caso do barão de Alfenas
constitui uma exceção, ou se este procedimento tornara-se prática corrente
nas décadas seguintes à abolição do tráfico internacional.
As indicações de que havia incentivo à constituição de laços familiares
podem ser confirmadas pela porcentagem de escravos casados e pelo número
de crianças arroladas. Quase 40% eram casados, sem muita desproporção
quanto à origem. Dos 22 homens casados, 11 eram africanos, dez crioulos
e um, sem informação. No que se refere às mulheres, também não houve
muita variação, embora constituíssem a maioria das cativas casadas: dez
eram crioulas, oito africanas e cinco sem informação de procedência. As
32 crianças relacionadas representavam quase 30%. Estes dados indicam o
processo crescente de crioulização que já vinha ocorrendo havia algumas
décadas, pelo menos nessa propriedade da família.
Se os inventários tratados de modo isolado criam certa dificuldade
para que se apontem as transformações e tendências do período em re-
lação à mão de obra escrava, este problema pode ser resolvido, em parte,
por meio da análise de alguns dos fogos da família Junqueira, relacionados
na lista nominativa de 1831-1832. Trata-se de uma época particularmente
interessante do Império, em que a pressão inglesa para pôr fim ao tráfico
internacional de escravos acabou contribuindo para aumentar a entrada de
“negros novos” no Brasil. Manolo Florentino calcula que, entre 1825 e 1830,
foram desembarcados nada menos que 213.720 escravos africanos no porto
do Rio de Janeiro.27 E, como a historiografia tem demonstrado, uma grande

26. Manolo Florentino e José Roberto Góes, Parentesco e família entre os escravos de Vallim,
p. 149.
27. Na tabela 3, o autor demonstra a quantidade de escravos desembarcados no porto do
Rio de Janeiro entre 1790 e 1830. Entre 1826 e 1830, verificou-se um aumento da entrada de
cativos africanos, provavelmente influenciado pela assinatura do tratado antitráfico entre

322
porcentagem desses cativos era remetida para as propriedades localizadas na
província de Minas Gerais, dentre as quais estavam as da família Junqueira.
O que primeiramente chama a atenção na tabela 25 é o percentual de
africanos nas escravarias de alguns membros da família Junqueira. Em todos
os fogos localizados na lista de 1831-1832, esse índice ultrapassa 50% e em três
residências, os africanos constituíam mais de 70% da população escrava. São
índices que confirmam a dependência do tráfico internacional, num contexto
de entrada contínua de “negros novos” e de renovação das escravarias.
Como já observado anteriormente, o número de homens em idade
adulta era bem maior que o de mulheres, pelas razões já apontadas. A título
de exemplo, vejamos o caso dos dois irmãos da família Ribeiro de Carvalho
que se casaram na família Junqueira. O “velho do Condado” e o “velho de
Pouso Alegre”, como eram popularmente conhecidos, residiam na freguesia
de Carmo do Pouso Alto, termo de Baependi. Ambos possuíam escravos do
sexo masculino que representavam mais de 60% do total de suas respectivas
escravarias, configurando a imagem clássica das senzalas das grandes pro-
priedades, no contexto de dependência do tráfico internacional.

Tabela 25
Escravarias dos Junqueira – Famílias localizadas na lista nominativa de
1831-1832
Africanos Crioulos Total
Proprietário/Local Sexo/Estado civil
N. % N. % N. %
Antônio José Ribeiro de Carvalho Homens solteiros 21 22,6 8 8,6 29 31,2
Freguesia do Carmo – Baependi Mulheres solteiras 4 4,3 1 1,1 5 5,4
  Homens casados 16 17,2 4 4,3 20 21,5
  Mulheres casadas 14 15,1 7 7,5 21 22,6
  Não mencionados*   0,0 18 19,4 18 19,4
Total 55 59,1 38 40,9 93 100,0
Manoel José Ribeiro de Carvalho Homens solteiros 33 27,7 9 7,6 42 35,3
Freguesia do Carmo – Baependi Mulheres solteiras 7 5,9 1 0,8 8 6,7

Brasil e Inglaterra, em 1826, e que foi ratificado em 1827. Ver Manolo Florentino, Em costas
negras, p. 51.

323
Africanos Crioulos Total
Proprietário/Local Sexo/Estado civil
N. % N. % N. %
  Homens casados 25 21,0 1 0,8 26 21,8
  Mulheres casadas 16 13,4 8 6,7 24 20,2
  Não mencionados   0,0 19 16,0 19 16,0
Total 81 68,1 38 31,9 119 100,0
Maria Inácia do Espírito Santo Homens solteiros 17 25,8 7 10,6 24 36,4
Fazenda do Favacho – Baependi Mulheres solteiras 8 12,1 2 3,0 10 15,2
  Homens casados 11 16,7   0,0 11 16,7
  Mulheres casadas 11 16,7   0,0 11 16,7
  Não mencionados   0,0 10 15,2 10 15,2
Total 47 71,2 19 28,8 66 100,0
João Pedro Diniz Junqueira Homens solteiros 22 27,5 8 10,0 30 37,5
Fazenda Traituba – Baependi Mulheres solteiras   0,0 8 10,0 8 10,0
  Homens casados 17 21,3 4 5,0 21 26,3
  Mulheres casadas 13 16,3 8 10,0 21 26,3
  Não mencionados   0,0   0,0 0  
Total 52 65,0 28 35,0 80 100,0
Antonio Luis de Noronha e Silva Homens solteiros 25 25,3 8 8,1 33 33,3
Capela do Varadouro – Aiuruoca Mulheres solteiras 7 7,1 10 10,1 17 17,2
  Homens casados 13 13,1 2 2,0 15 15,2
  Mulheres casadas 6 6,1 9 9,1 15 15,2
  Não mencionados 2 2,0 17 17,2 19 19,2
Total 53 53,5 46 46,5 99 100,0
Antônio Sancho Diniz Junqueira Homens solteiros 17 29,8 6 10,5 23 40,4
Carrancas – São João del-Rei Mulheres solteiras 4 7,0 8 14,0 12 21,1
  Homens casados 10 17,5 1 1,8 11 19,3
  Mulheres casadas 11 19,3   0,0 11 19,3
  Não mencionados   0,0   0,0 0 0,0
Total 42 73,7 15 26,3 57 100,0

324
Africanos Crioulos Total
Proprietário/Local Sexo/Estado civil
N. % N. % N. %
Francisco José de Andrade Homens solteiros 39 42,4 10 10,9 49 53,3
Carrancas – São João del-Rei Mulheres solteiras 10 10,9 11 12,0 21 22,8
  Homens casados 7 7,6 4 4,3 11 12,0
  Mulheres casadas 11 12,0   0,0 11 12,0
  Não mencionados   0,0   0,0 0 0,0
Total 67 72,8 25 27,2 92 100,0
Joaquim Leonel Vilela Homens solteiros 13 40,6 3 9,4 16 50,0
Boa Esperança – São João del-Rei Mulheres solteiras   0,0 6 18,8 6 18,8
  Homens casados 4 12,5 1 3,1 5 15,6
  Mulheres casadas 4 12,5 1 3,1 5 15,6
  Não mencionados   0,0   0,0 0 0,0
Total 21 65,6 11 34,4 32 100,0

Fonte: APM, Listas nominativas de 1831-1832. Base de dados elaborada por Clotilde
Paiva – CEDEPLAR/UFMG.
*São registros em que não houve menção ao estado civil. Tratava-se, em sua grande
maioria, de crianças na faixa etária de zero a nove anos e alguns poucos escravos acima
dos 70 anos de idade.

O grande percentual de africanos contribuía para que as opções de


constituição de laços familiares estivessem colocadas para os cativos deste
grupo. A princípio, a desproporção entre os sexos, já mencionada, poderia
representar um impedimento para a formação da família, mas, nas duas
escravarias ora analisadas, verifica-se que a possibilidade de formar famílias
era dada a alguns cativos, sobretudo aos de origem africana (ver tabela 25).
Neste caso, as especulações de Hebe Maria Mattos são bem apropriadas
para para se entender as estratégias adotadas por esses dois proprietários.
O desequilíbrio por sexo dos plantéis, mesmo em fazendas antigas,
realimentado pelo constante ingresso de recém-chegados, não im-
possibilitava as relações familiares, mas fazia da família e dos recursos
que comumente a ela estiveram associados, como a roça do escravo,
possibilidades abertas, mas não acessíveis a todos.28

28. Hebe Maria Mattos, Das cores do silêncio, p. 126.

325
Tome-se como exemplo o caso da escravaria de Maria Inácia do Espírito
Santo, esposa de João Francisco Junqueira (filho) e moradora na fazenda
do Favacho, considerada o berço da família Junqueira. Em 1831, já viúva,
administrava a fazenda junto com seu filho, José Frauzino Junqueira. Pode-
se ver claramente que sua escravaria era majoritariamente africana e, apesar
de os cativos solteiros representarem a maioria, as opções de constituição
de laços familiares eram restritas a alguns africanos, cerca de 33% do total
dos escravos.
Em outros casos, encontra-se a imagem clássica das escravarias for-
madas no contexto de vigência do tráfico internacional, com alto índice de
solteiros, desequilíbrio entre os sexos e poucos escravos casados. Era essa
a situação na propriedade de Francisco José de Andrade, onde os homens
representavam mais de 65% da população total da senzala. Os cativos do
sexo masculino constituíam mais de 70% da população de origem africana.
A possibilidade de constituição de laços familiares estava reservada a pouco
mais de 20% da população escrava da mesma origem.
Em dezembro de 1816, Saint-Hilaire fez a sua primeira viagem à pro-
víncia de Minas Gerais. Ao passar pelo caminho do Paraibuna, depois de
percorrer as povoações de Simão Pereira, Matias Barbosa, Juiz de Fora e
Ribeirão, encontrou uma choça com alguns escravos que cuidavam de uma
plantação de milho. O viajante reproduz um provável diálogo que teve com
um desses cativos, bastante esclarecedor sobre as relações entre senhor e
escravo, as divisões entre os cativos e o papel que a família representava para
ambos os lados. Ao perguntar ao escravo se era casado, este lhe respondeu
negativamente, mas afirmou que se casaria em breve.
[...] quando se fica assim, sempre só, o coração não vive satisfeito.
Meu senhor me ofereceu primeiro uma crioula, mas não a quero mais;
as crioulas desprezam os negros da costa. Vou me casar com outra
mulher que minha senhora acaba de comprar; essa é da minha terra e
fala minha língua.29 (grifos meus)

29. Augusto de Saint-Hilaire, Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, p. 53.

326
Esta passagem é bastante citada pela historiografia para discutir as
divisões étnicas entre os cativos e a sua interferência no processo de cons-
tituição dos vínculos familiares. A historiografia brasileira tem evidenciado
o papel desempenhado pelos escravos na conquista de certos espaços de
autonomia, incluindo a preservação dos laços familiares. Por outro lado,
a suposta fala do escravo também indica a interferência do senhor nos
arranjos matrimoniais entre os cativos. Mesmo Robert Slenes, que procura
analisar a constituição dos laços familiares entre os escravos, considerando
o seu poder real na escolha de cônjuges, chama a atenção para o limite deste
exercício, que invariavelmente “esbarrava na prepotência dos senhores”.30
Na primeira metade do século XIX, a margem de autonomia que os
senhores tinham para a composição de suas escravarias esteve, quase sempre,
condicionada à conjuntura internacional do tráfico. Ainda que investissem
na divisão dos escravos, considerando a origem (africana e crioula), e pro-
curassem manipular estas diferenças a favor da “pacificação das senzalas”,
este recurso esteve limitado pela procedência dos cativos, já que a grande
maioria de recém-chegados ao sudeste escravista era originária da África
Central Atlântica. E, certamente, isto fez bastante diferença, tanto para as
estratégias dos senhores como para as dos cativos.
A importância dos vínculos familiares na vida dos escravos não constitui
um problema ou um tema polêmico na historiografia brasileira. O assunto
tem sido cada vez mais investigado por pesquisadores e não se pretende
fazer aqui um inventário desses estudos, até porque a família escrava está
sendo pensada dentro do conjunto das estratégias senhoriais na composição
de suas escravarias. E, como acertadamente assinalam Manolo Florentino
e José Roberto Góes, essas estratégias eram, “antes de mais nada, políticas”,
e as relações familiares cumpriam um papel essencialmente político no ca-
tiveiro.31 Para os autores, a família escrava era o pilar do sistema escravista,
promovia a “paz das senzalas” e gerava uma “renda política” para o senhor,
particularmente no contexto de dissensão, disputa e rivalidades étnicas, em
razão da entrada contínua de africanos novos pelo tráfico.

30. Robert Slenes, Na senzala, uma flor, p. 94.


31. Manolo Florentino e José Roberto Góes, A paz das senzalas, p. 30.

327
No Brasil, o processo de produção social deste tipo específico de tra-
balhador iniciava-o o mercado, pela introdução do estrangeiro, e con-
cluía-o o próprio escravo, tornado africano e brasileiro, membro de
uma comunidade, de um nós cativo. Apenas, assim, era possível ao
senhor auferir uma renda política sem a qual o seu retorno ao mercado
estaria comprometido.[...] O cativeiro era estruturalmente dependente
do parentesco cativo.32

A discussão a respeito do tema remete a um debate relativamente recente


da historiografia brasileira acerca da importância da herança cultural africana
e da possível constituição de comunidades escravas marcadas por laços de
solidariedade e sociabilidade, sem desconsiderar as divergências étnicas
impostas pela demografia do tráfico e corroboradas pela ação dos senhores.
Hebe Maria Mattos, ao analisar a conjuntura da segunda metade do
século XIX, ressaltou as diferenças e os conflitos existentes no interior das
escravarias, que acabavam por contribuir para o enfraquecimento dos laços
de solidariedade entre os cativos e para a não conformação de uma iden-
tidade étnica comum. A possibilidade da constituição de laços familiares
não era um recurso acessível a todos os cativos. “É sobre a mulher cativa e
seus filhos crioulos (nascidos no Brasil) que se constrói a possibilidade da
família escrava.”33 As diferenciações sociais forjadas no interior das senzalas
impediam a formação de uma identidade étnica a partir da experiência do
cativeiro. Nos momentos de tensão e rebeldia, a noção de “parceiro” era
ressignificada e se podia vislumbrar a superação das diferenças étnicas nas
senzalas. Entretanto, como reitera a autora, o “cotidiano no cativeiro tendia
[...] a valorizar a construção de identidades sociais outras, que não aquelas
impostas pela condição cativa”.34
Robert Slenes propõe uma outra perspectiva da família escrava, contra-
pondo-se às abordagens anteriormente mencionadas. Parte da hipótese de
que as “experiências e memórias” engendradas e transmitidas no interior da
família escrava contribuíram para a formação de uma “consciência cativa”, que

32. Ibidem, p. 37.


33. Hebe Maria Mattos, Das cores do silêncio, p. 126.
34. Ibidem, p. 135.

328
poderia desestabilizar o sistema escravista.35 No sudeste do Brasil, sobretudo
na primeira metade do século XIX, havia a possibilidade de constituição
de uma identidade social dos escravos de origem africana, em especial pela
proximidade linguística e cultural existente entre os procedentes da África
Central, formando o que o autor denomina de “protonação” banto. As dife-
renças étnicas seriam de certo modo superadas em virtude da redefinição e
da reelaboração de suas referências culturais de origem. O autor questiona
ainda a considerável distância sociocultural entre os africanos novos e la-
dinos e os crioulos, enfatizada por Hebe Mattos. A constituição de laços de
parentesco e a dependência demandavam muito tempo e, particularmente
na primeira metade do século XIX, a distância entre africanos e crioulos
não era tão grande assim, pois boa parte dos cativos brasileiros eram filhos
de africanos.36
Embora esta reflexão sobre a importância dos laços familiares entre a
comunidade de cativos não parta da perspectiva escrava, e sem desconsiderar
as divergências de abordagens entre os autores mencionados, algumas de suas
ponderações são de extrema relevância para se pensar o papel dos senhores
na composição de suas escravarias. A perspectiva de Manolo Florentino e
José Roberto Góes mostra-se a mais adequada para a linha de investigação
proposta no início deste capítulo, que é a de perceber a “renda política”
auferida pelos senhores com as relações de parentesco de seus cativos. Pelos
exemplos citados, foi possível constatar que a dependência do tráfico inter-
nacional e a entrada constante de “negros novos” interferiam na composição
das escravarias, seja pelo número de escravos do sexo masculino, ou pelas
possibilidades de constituição de laços familiares. Por outro lado, nem to-
das as grandes escravarias estavam condicionadas ao tráfico internacional.
Pelo menos esse foi o caso de uma das principais e mais antigas fazendas
da família Junqueira, onde se detectou uma preferência pela reprodução
natural da escravaria.
As reflexões de Hebe Maria Mattos são igualmente relevantes para se
pensar que a família escrava não era um recurso disponível a todos. Num

35. Robert Slenes, Na senzala, uma flor, p. 46.


36. Ibidem, p. 52.

329
contexto de acentuada entrada de “africanos novos”, as opções de consti-
tuição de laços familiares ficaram restritas aos africanos, como se verificou.
Também foi possível comprovar que a maioria dos cativos vindos para
a província de Minas acompanhava a origem dos portos de embarque no
continente africano, ou seja, era formada por angolas, benguelas, congos,
caçanjes etc., oriundos da África Central. Considerando este aspecto, a pers-
pectiva de Robert Slenes é particularmente interessante para se compreender
o envolvimento dos cativos na Revolta de Carrancas, a ser analisada adiante.

5. Representações do escravo na visão senhorial


A correspondência particular trocada entre os parentes dos grandes
proprietários nos oferece informações bem interessantes acerca das relações
entre senhores e escravos e de como aqueles qualificavam seus cativos. Por
sorte, foram encontradas duas cartas, datadas de 1873 e 1882, que perten-
cem ao acervo particular dos atuais proprietários da fazenda Traituba, em
Cruzília, Minas Gerais. Embora transcendam o recorte cronológico que está
sendo investigado, as poucas linhas em que houve algum tipo de comentário
relativo à mão de obra escrava são bastante esclarecedoras da representação
que os senhores poderiam ter de sua escravaria.
As cartas foram dirigidas a José Frauzino Fortes Junqueira, o segundo
proprietário da fazenda Traituba, neto de João de Francisco Junqueira, por
seus parentes que residiam nas fazendas Barro Vermelho e Aterrado, ambas
localizadas na freguesia de Dores do Piraí, província do Rio de Janeiro (ver
capítulo 3 e 4). A primeira foi escrita pela sua prima Ana, moradora na fazenda
Barro Vermelho, em 1873. Além de comentar assuntos pessoais, referentes
à morte de seu irmão, informava sobre os escravos que levavam a carta e
outras encomendas. Parece que, nessa época, em sua propriedade, estava
se iniciando o cultivo do café, pois enviava nove arrobas da rubiácea para o
seu primo em Minas. Na carta, Ana não deixou de reiterar as qualidades dos
escravos cujas atividades requeriam maior especialização, como os pedreiros
e os carpinteiros. “Vão os escravos, Marcos é bom pedreiro, aproveite para
fazer o seu rancho e o Américo pode dar bom carpinteiro [...].” (grifos meus)

330
Na documentação referente às famílias estudadas, as ocupações dos
escravos não foram relacionadas com muita frequência, mas as atividades
que exigiam um certo grau de especialização mereceram registro, revelando
sua importância no cotidiano das fazendas. Aquelas associadas ao tropeirismo
são encontradas sob denominações diversas, como, por exemplo, “tropeiro”,
“ “arreador”, “armador” e “ferreiro”. Todos os proprietários mencionados
tinham algum escravo dedicado à atividade de tropas. Como vimos na carta
de Ana, os pedreiros, os carapinas e os carpinteiros eram essenciais para
a construção dos ranchos e das fazendas, daí seus ofícios serem referidos
com mais frequência. Em 1859, os avaliadores dos bens da esposa do barão
de Alfenas, Elena Constança Junqueira, registraram a ocupação de aproxi-
madamente 20% dos 112 cativos da família. Foram relacionados 13 roceiros,
seis carpinteiros, dois tropeiros, um sapateiro e um alfaiate.37
Visto que os cativos representavam “as mãos e os pés do senhor”, como
dizia Antonil,38 Ana não deixou de demonstrar sua preocupação com as do-
enças que assolavam os negros naquele tempo, especialmente a bexiga. No
mesmo trecho da carta, há uma passagem interessante sobre o nascimento
de uma criança, provavelmente filha de uma escrava, pelos termos utiliza-
dos, que indicam com clareza uma distinção social pela cor “em Areias já
havia 11 bexiguentos, e ao pé do Turvo já tem dois. A Paulinha de Amélia
teve uma filha pretinha como um carvão e a sua Romana já no seu estado
interessante [...].”39 (grifos meus)
A segunda carta foi escrita por sua irmã Rita de Sá Fortes Junqueira,
que se casou com um primo. Também residia em Dores do Piraí, só que na
fazenda Aterrado. O que mais chama a atenção nessa carta é o comentário
registrado por Rita acerca dos escravos, considerando-os ingênuos, “entes
miseráveis” e sem vontade própria.
Recebi sua carta e sinto que ainda tenhas sofrido além do incômodo de
Sinhazinha, com o Américo, e que saindo a Serafina você resolvesse a

37. IPHAN-SJDR, Inventário de Elena Constança Junqueira (1859), Baependi.


38. André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil, p. 89.
39. Correspondência de Ana ao “Tio Zé”, como era popularmente conhecido José Frauzino
Fortes Junqueira. Fazenda Barro Vermelho, 23 de outubro de 1873. Acervo particular de
dona Alice Junqueira. Fazenda Traituba, Cruzília (MG).

331
trazer a sinhazinha por meu irmão. Cá os espero com muito e muito
prazer e há de fazer o que puder para tratá-la bem como merece, quanto
a escravos, esses são entes tão miseráveis que nem se deve dar apreço a
seus gostos.40 (grifos meus)

O comentário de Rita deixa algumas interrogações que ficaram sem


respostas, embora não impeça que se especule sobre o que está contido
nas entrelinhas de sua carta. Será que José Frauzino estava aborrecido com
algumas exigências ou atitudes de seus escravos ou com o comportamento
deles em relação à lida diária na fazenda? Como não se encontraram as
cartas que o fazendeiro remetia a seus parentes no Rio de Janeiro, fica difícil
juntar as duas metades desta troca de confidências. Contudo isso não tem
tanta importância, exceto para os aspectos para os quais se quer chamar a
atenção. Na visão senhorial, o escravo poderia ser representado, no mínimo,
de duas maneiras: ora como inimigo, ora como “bom escravo”. A primeira
ocorria nas ocasiões em que o escravo se confrontava diretamente com o
poder senhorial, seja por meio da prática de crimes, como, por exemplo,
assassinatos de seus senhores e familiares, seja fugindo ou promovendo
rebeliões organizadas. A visão do “bom escravo” foi a que mais se enraizou
no sistema escravista e envolvia uma série de códigos, interpretados tanto
por senhores como por escravos com base em leituras diferentes dos deveres
e das obrigações de cada parte.41
Como afirma Eugene Genovese, ao analisar o sistema escravista do velho
Sul dos Estados Unidos, a proximidade física de senhores e escravos nas
grandes propriedades encorajava o fortalecimento das relações paternalistas.

40. Correspondência de Rita Junqueira a seu irmão José Frauzino Fortes Junqueira. Fazenda
Aterrado, 28 de junho de 1883. Acervo particular de dona Alice Junqueira. Fazenda Traituba,
Cruzília (MG).
41. A ênfase na subjetividade escrava já foi objeto de intensa discussão e pesquisa pela his-
toriografia brasileira, especialmente a partir da década de 1980, como tive oportunidade de
apontar. Essas interpretações tiveram como objetivo a desmistificação do escravo-objeto ou
do escravo-coisa, tendo como resultado a construção de uma nova perspectiva das relações
entre senhor e escravo, na qual o escravo aparece como sujeito e portador de certos espaços
de autonomia e decisões. Interpretações mais recentes têm chamado a atenção para os
limites dessa perspectiva, pois esses recursos não estavam disponíveis a todos. Ver Sheila
de Castro Faria, A colônia em movimento, p. 290-293, e Hebe Maria Mattos Castro, Das
cores do silêncio, p. 125-127.

332
Para os senhores, o paternalismo representava uma tentativa de superar a
contradição fundamental da escravidão: a impossibilidade de os escravos
virem a tornar-se coisas que se supunha que fossem. O paternalismo
definia o trabalho involuntário dos escravos como legítima retribuição
à proteção e à direção que lhes davam os senhores. No entanto, a ne-
cessidade que tinham estes de ver seus escravos como seres humanos
aquiescentes constituía uma vitória moral para os próprios escravos.42

O autor destaca que o paternalismo era aceito tanto por senhores como
por escravos, com interpretações que diferiam profundamente.43 A visão
dos escravos como “vítimas”, “entes miseráveis”, “seres que nem se deve dar
apreço a seus gostos”, está muito próxima da que fundamentava as relações
paternalistas, na perspectiva dos senhores. Esse ponto de vista se manifestou
mesmo em momentos de confronto direto com os senhores, quando os es-
cravos tornaram-se o “inimigo mais temível”. Em 1833, ali mesmo, nas terras
dos Junqueira, os escravos deixaram de ser “bons cativos” e se tornaram o
“inimigo mais temível” dos brancos, dizimando nove membros da família
com extrema violência, o que aterrorizou não apenas a elite escravista re-
gional mas o sudeste do Império e a Regência.44

42. Eugene D. Genovese, A terra prometida, p. 23.


43. Em outro trabalho, o autor chama a atenção para a perspectiva dos senhores: Eugene
D. Genovese, O mundo dos senhores de escravos.
44. A peça processual montada para se apurar os fatos e punir os escravos rebeldes é rica
em detalhes e passível de diversas interpretações. Nela, foram registrados vários discursos
que se confrontam: o dos agentes do judiciário, o das autoridades policiais, o dos mem-
bros da elite, o dos agregados e dos forros que atuaram como testemunhas, dos escravos
sobreviventes que foram interrogados, entre outros. Depoimentos de determinadas teste-
munhas confirmam uma mesma versão acerca do ritual na execução das mortes. Algumas
vítimas foram castradas e tiveram as mãos machucadas com pedras, depois de mortas. É o
que confirma o relato de uma das testemunhas. O marceneiro Raimundo José Rodrigues,
natural da província do Maranhão, era agregado e morador da fazenda Traituba, proprie-
dade próxima à fazenda Bela Cruz, palco do momento mais dramático da rebelião. Em seu
depoimento, a testemunha afirmou que os escravos, em número de trinta, armados de paus,
foices e machados, invadiram a fazenda Bela Cruz e “mataram barbaramente a todos os seus
senhores com aqueles instrumentos, não respeitando mesmo os cadáveres, pois consta que
depois de mortos os castraram, machucaram-lhe as mãos e fizeram outras barbaridades”,
IPHAN - SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Depoimento de
Raimundo José Rodrigues, fls. 62v.

333
6. Senhores e escravos em confronto: a Revolta de Carrancas
As principais freguesias que compunham o sul da província de Minas
Gerais eram altamente dependentes da entrada contínua de “negros novos”,
notavelmente na década de 1830. Grande parte procedia da África Central
Atlântica, corroborando a lógica do tráfico internacional. Pôde-se constatar
as mesmas influências quando foi reduzida a escala de observação, ao ana-
lisar as escravarias selecionadas de alguns membros da família Junqueira.
Também foi possível registrar que as estratégias senhoriais esbarravam na
própria conjuntura do tráfico internacional, ainda que os grandes senhores
tivessem certa margem de manobra na composição de suas escravarias,
como, por exemplo, ao possibilitarem e até incentivarem a formação de
laços parentais entre os cativos. Em algumas unidades mais antigas, como
a fazenda Campo Alegre, a opção dos proprietários parece ter sido pelo
investimento na reprodução natural da escravaria. Entretanto, essas estra-
tégias não foram suficientes para garantir a “paz nas senzalas”. O temor de
uma rebelião coletiva dos escravos, medo que eles sabiam manipular muito
bem, se concretizou nas terras dos maiores proprietários do sul da província
de Minas Gerais.
A revolta eclodiu na tarde do dia 13 de maio de 1833. Iniciou-se na
fazenda Campo Alegre, de Gabriel Francisco Junqueira, então o principal
representante da facção liberal moderada, eleito deputado em 1831. Os es-
cravos, liderados por Ventura Mina, mataram o filho do deputado, Gabriel
Francisco de Andrade Junqueira, enquanto este supervisionava o trabalho
dos cativos, nas roças da fazenda. O “senhor moço”, como era chamado,
também ocupava um cargo de importância naquele contexto. Era o Juiz de
Paz do Distrito de São Tomé das Letras. Os escravos não atacaram a sede da
fazenda Campo Alegre por suspeitarem de que a família tinha sido avisada
do que havia ocorrido na roça e porque o terreiro da casa-grande estava
guarnecido por capitães-do-mato. O grupo liderado por Ventura Mina
logo se dirigiu à fazenda Bela Cruz e se associou a outros escravos daquela
propriedade e assassinaram oito integrantes da família do irmão do depu-
tado, José Francisco Junqueira, incluindo três crianças e duas pessoas “de
cor”, segundo os autos. Parte do grupo permaneceu na fazenda Bela Cruz e

334
preparou uma emboscada para assassinar o genro de José Francisco, Manuel
José da Costa, o que ocorreu assim que ele cruzou a porteira.
Os demais cativos rebeldes dirigiram-se para a fazenda Bom Jardim,
onde encontraram forte resistência por parte do proprietário e de alguns
de seus escravos. Os cativos Ventura Mina, João Inácio, Firmino, Matias
e Antônio Cigano foram mortos no confronto. João Cândido da Costa
Junqueira, proprietário da fazenda Jardim, já havia se informado dos acon-
tecimentos funestos de Campo Alegre e Bela Cruz e, rapidamente, armou
parte de sua escravaria de confiança, os reuniu numa sala e ficou à espera
dos insurgentes. Depois de um tempo, Ventura Mina e seu grupo apareceram
e foram dispersados com dois tiros.45 As informações sobre este confronto
são escassas e não mereceram registros nos autos, mas é difícil acreditar
que os escravos rebeldes tenham sido dissipados apenas com dois tiros e
que cinco deles tenham morrido desta forma. Provavelmente, o confronto
entre os escravos e as forças repressoras, compostas por proprietários e seu
exército de cativos, tenha durado alguns dias. Os rebeldes embrenharam-se
nas matas e nos campos e levaram algum tempo para serem capturados.
Sobre o número de escravos que participaram do levante, as informações
também são escassas. Alguns juízes de paz registraram que o número ul-
trapassou a sessenta. Em outros depoimentos, há referências de que até
mulheres e crianças acompanharam o grupo liderado Ventura Mina em
direção à fazenda Bom Jardim.46
Os acontecimentos de Carrancas tiveram grande repercussão e o clima
de terror atingiu toda a vizinhança, especialmente devido ao grau de violência
com que foram executadas as mortes. As câmaras das áreas mais próximas

45. Ibidem, Libelo acusatório.


46. Maiores detalhes sobre esta rebelião podem ser encontrados em minha dissertação de
mestrado e nos textos que publiquei sobre o tema. Ver Rebeldia e resistência, p. 175-206;
Rebeliões escravas na comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais, p. 45-82; Violência, crimi-
nalidade e controle social, p. 437-452; Revolta de Carrancas, p. 635-637; Revolta de Carrancas.
In: Dicionário do Brasil Imperial. VAINFAS, Ronaldo. (Dir.) Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
p. 635-637; Negros rebeldes nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas (1833). Base
de dados de processos criminais da comarca do Rio das Mortes – século XIX. São João del Rei,
Departamento de História, Universidade Federal de São João del Rei, 2004 (em CD-ROM).
Também disponível em: http://www.documenta.ufsj.edu.br/modules/wfdownloads/singlefile.
php?cid=8&lid=15. Acessado em: 25/12/2012; O outro 13 de maio. Revista de História. Rio
de Janeiro, Biblioteca Nacional, Ano 1, no. 2, agosto de 2005, p. 69-73;

335
foram logo informadas da rebelião, e, por sua vez, comunicaram-se com as
vilas limítrofes, localizadas nas Províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo.
No dia 15 de maio de 1833, o juiz de paz da freguesia de Pouso Alto colocou
a Câmara Municipal de Resende a par dos acontecimentos de Carrancas,
pois os escravos planejavam atacar outras fazendas, como a do Favacho e
Traituba e depois se dirigir a Baependi e outros lugares (ver capítulo 3). O juiz
lembrou ainda o risco que poderia representar a dispersão dos insurgentes
e a necessidade de se tomar medidas preventivas no sentido de evitar novos
levantes, já que a vila de Resende era limítrofe à freguesia.47
O Juiz recomendou ainda aos vereadores da vila de Resende que fos-
sem transmitidas essas informações à Câmara Municipal de Areias e de
Bananal e a outras que julgasse conveniente. Como eram regiões com grande
concentração de escravos em função da expansão da cultura cafeeira, os
vereadores de Bananal foram imediatamente convocados para uma sessão
extraordinária e secreta, no dia 21 de maio, onde ficou acertada uma série
de medidas para que se evitassem maiores repercussões dos acontecimentos
de Minas na região. Por exemplo, no centro da vila se colocaria uma força
de quarenta soldados, parte da cavalaria e parte da infantaria, devidamente
munida de pólvora e bala.48
Nas partes do processo definidas como auto de corpo de delito e libe-
lo-crime acusatório é possível encontrar uma descrição detalhada de como
foram executadas as mortes. O relato foi elaborado com base no depoimento
de três testemunhas, todas moradoras no arraial de São Tomé das Letras,
que viram o estado em que se encontravam os corpos das vítimas, algum
tempo depois de reprimida a rebelião. O Juiz de Paz de São Bento do Campo
Belo, Manoel Joaquim Álvares, ficou encarregado de proceder ao auto de
corpo de delito indireto, uma vez que o Distrito de São Tomé encontrava-se
sem autoridade competente para fazê-lo, pois a daquele distrito havia sido
assassinada pelos escravos.49

47. Arquivo Público do Estado de São Paulo – APESP. Ofícios diversos de Bananal, cx 28,
p. 02, doc. No. 58.
48. APESP, Ofícios Diversos de Bananal, cx. 28, p. 2, doc. nº 62-A; APESP, Ofícios Diversos
de Areias, cx. 14, p. 2, doc. nº 79.
49. IPHAN-SJDR. Processo-crime de Insurreição (1833), caixa PC 29-01, Auto de corpo de
delito. fls. 09-12.

336
O momento mais dramático da revolta teve como cenário a Fazenda
Bela Cruz, onde os escravos assassinaram todos os brancos ali existentes.
Os escravos invadiram a sede da fazenda, investindo diretamente contra José
Francisco Junqueira, sua mulher, Antônia Maria de Jesus, que se recolheram
rapidamente e se trancaram num quarto, mas nem por isso escaparam da
violência dos cativos. O escravo Antônio Retireiro buscou um machado
na senzala e o “entregou a Manoel das Vacas o que ficou trabalhando para
arrombar a porta, enquanto aquele voltou a senzala, e trouxe uma pistola
carregada saltando o muro, e foi arrombar a outra porta de trás”.50 Depois de
arrombarem a porta do quarto, Antônio Retireiro, com a arma que tinha na
mão, disparou na face de seu senhor, ficando mortalmente ferido e “ainda teve
que sofrer muitos maiores tormentos, com sua mulher, filha e neta, os quais
foram todos massacrados com inaudita crueldade dentro daquele quarto a
olho de machado, tendo parte nesta incrível matança todos os escravos vindos
de Campo Alegre (...) e grande parte dos da Bela Cruz”.51 No auto de corpo de
delito consta que a mulher de José Francisco Junqueira, além de apresentar
ferimentos no rosto, couro cabeludo e grande efusão de sangue, cujas feridas
foram feitas com instrumentos cortantes, também se encontrava bastante
ensanguentada da cintura para baixo, causando certo constrangimento às
testemunhas, impedindo que dessem prosseguimento ao exame.52
Ana Cândida da Costa, viúva de Francisco José Junqueira e duas crianças
foram as próximas vítimas dos escravos. Esta foi morta a golpes de foice e
cacetadas no quintal da dita fazenda pelos escravos Sebastião, Pedro Congo,
Manoel Joaquim e Bernardo. O estado em que foi encontrada era lastimável,
pois sua cabeça e rosto estavam irreconhecíveis e não se achava “unida ao
corpo”. Já o menino José “foi morto pelo crioulo André, e o mesmo Pedro
Congo e Manoel Joaquim, a menina Antonia (...) foi morta pelo Manoel
das Caldas, Sebastião e Bernardo, e a criança de peito (...) foi morta pelo
crioulo Quintiliano que a mandou lançar pelo Euzébio no cubo do moinho”.53

50. Idem. Libelo-crime acusatório. fl. 118.


51. Idem. Libelo-crime acusatório. fl. 118v.
52. Idem. Auto de Corpo-delito. fl. 10.
53. Idem. Libelo-crime acusatório. fl. 118v.

337
Até o dia 13 de maio de 1833, tudo parecia transcorrer satisfatoriamente
nas grandes propriedades dos senhores mais abastados do sul de Minas.
A produção de gêneros voltados para o abastecimento garantia a expansão
dos negócios da família, reforçada pelo estreitamento das relações mercantis
com a Corte. A presença e atuação discreta do deputado Gabriel Francisco
Junqueira no Parlamento nacional comprovava que a política, os negócios
e a família constituíam o tripé de sustentação e consolidação da fortuna e
do prestígio familiar, contribuindo para a construção de sua liderança no
sul da província de Minas Gerais e a representação dos interesses do grupo
social ligado às atividades do abastecimento no cenário imperial.
A rebelião iniciada pelos escravos de Gabriel, e depois engrossada pelos
cativos de alguns de seus familiares, ocorreu no momento em que a família
adquiria grande expressão política e econômica na província e no Império.
Além disso, é preciso ressaltar que, naquela ocasião, vários projetos políticos
estavam em discussão, e a elite encontrava-se cindida em várias facções.
A face mais visível desse conflito em Minas Gerais se deu com a Sedição
Militar de 1833 (ver capítulo 4). A Revolta de Carrancas está interconectada
a todos esses acontecimentos, o que torna a sua leitura e interpretação de
extrema complexidade.54
Para a elite sul-mineira e do sudeste do Império, o que representou a
Revolta de Carrancas? Em que medida as estratégias da elite, na composição
de suas escravarias, foram insuficientes para evitar a associação entre os cativos
de diversas procedências? Como os senhores e as autoridades interpretaram a
ação dos escravos? Quais as medidas adotadas pela elite provincial e imperial
para minorar o temor instaurado pela Revolta de Carrancas?
O fato em questão é exemplar para discutir os limites não só da ação
senhorial, mas também das estratégias adotadas posteriormente a um con-

54. Em publicação recente, Marco Morel comenta brevemente a Revolta de Carrancas,


inserindo-a no contexto das rebeliões regenciais, aspecto que eu já havia salientado em
minha dissertação de mestrado. Embora se trate de um texto de divulgação para um público
mais amplo, o que exige que as referências sejam citadas no final, o autor faz apenas um
breve comentário sobre as pesquisas recentes, divulgadas no Dicionário do Brasil Imperial.
As informações citadas no livro foram retiradas do verbete específico sobre a Revolta
de Carrancas, que tive oportunidade de publicar no referido dicionário. Marco Morel,
O período das regências, p. 57.

338
fronto direto com os cativos. Depois do 13 de maio de 1833, a história não
seria mais a mesma, nem para os membros da família Junqueira e muito
menos para os escravos.55 De um lado, quase foi extirpada uma descendência
de um dos filhos de João Francisco Junqueira. Do outro, além da punição
exemplar, não é difícil imaginar o estigma que esses negros carregaram
durante décadas e que, provavelmente, acompanhou as gerações seguintes.
Embora os cativos pudessem ser qualificados como “bons escravos” pela
sua habilidade no trabalho, ou mesmo como “entes miseráveis”, o confronto
individual ou coletivo com os senhores era a face mais temida da escravidão.
Nas propriedades compostas de grande número de cativos esse temor ainda
poderia ser maior.
Voltemos às fazendas da família Junqueira em 1831, dois anos antes da
revolta dos escravos. Nos fogos relacionados naquela época, quase sempre
os cativos compunham a grande maioria do contingente populacional das
fazendas. O coronel João Pedro Diniz Junqueira, proprietário da fazenda
Traituba, na ocasião do recenseamento, estava acompanhado somente da
esposa e de oitenta cativos; Antônio Sancho Diniz Junqueira, com mais
duas pessoas livres e 57 cativos; Francisco José de Andrade, com mais três
membros de sua família e 92 escravos. Na fazenda do Favacho, Maria Inácia
do Espírito Santo foi arrolada com mais três pessoas livres e 66 escravos; e
Manuel José Ribeiro de Carvalho, morador na freguesia do Carmo de Pouso
Alto, com sete pessoas livres e 112 escravos. O cenário que se vislumbra é
o de grandes propriedades em áreas rurais, com muitos escravos, onde os
brancos eram minoria. Não é difícil imaginar a tensão existente nas relações
entre senhores e escravos naquele contexto e como, tanto de um lado quanto
de outro, havia a manipulação da expectativa do confronto
Dentre as estratégias senhoriais, destacavam-se a possibilidade de com-
posição de suas escravarias, de investirem nas dissensões e nas disputas
entre os cativos, impedindo-lhes os mecanismos de associação, facultando

55. Nos livros de memória e genealogia da família, a rebelião ficou conhecida como o “mas-
sacre da Bela Cruz”. O levante foi atribuído a “absolutistas” ou “caramurus”, em vingança
pela vitória de Gabriel Francisco Junqueira nas eleições para deputado, dois anos antes, em
1831. José Guimarães, As três ilhoas, p. 203. A mesma hipótese é apresentada por Lucila Reis
Brioschi, Família e genealogia, p. 187-188; e Ana Helena Botelho Chaves, Gabriel Francisco
Junqueira: sua atuação política, p. 225.

339
a alguns grupos a formação de laços familiares e o cultivo de roças etc., ou,
por outro lado, dividindo os escravos por ocupações e castigando aqueles
considerados indolentes e insubordinados. Evidentemente, todas essas es-
tratégias eram construídas com a participação e a interferência dos cativos,
pois a escravidão assentava-se justamente na humanidade do escravo.
De início, a Revolta de Carrancas representou a confirmação da pos-
sibilidade de articulação entre escravos e a declaração de “guerra contra os
brancos”.56 A contínua entrada de “africanos novos” via tráfico internacional e
o aumento da população cativa em algumas regiões do Império contribuíram
para exacerbar o temor de vários segmentos da elite, visto que o fantasma
da revolta dos negros do Haiti rondava o interior das casas-grandes dos
senhores e pairava na mente das autoridades policiais e políticas. Como
afirma João José Reis, o “haitinismo” representava “um desses pesadelos
senhoriais que retornavam a cada rumor de revolta, não só na Bahia, mas
em todo o Brasil – na verdade em toda a América escravocrata”.57
Os senhores, especialmente os membros da família Junqueira, devem
ter especulado sobre as prováveis causas da revolta e em que medida as suas
estratégias foram insuficientes para garantir a ordem e a “paz das senzalas”.
Vimos que a maioria dos cativos pertencentes à família vivia em grandes
escravarias, marcadamente compostas por africanos, denotando uma clara
dependência da reposição da mão de obra por meio do tráfico internacional.
Certamente, este é um elemento de extrema importância a se considerar
para entender o contexto da rebelião. Em algumas propriedades, havia
grande desproporção entre os sexos e a possibilidade de se constituírem
laços familiares era um recurso disponível a um pequeno grupo, formado,
na sua maioria, por africanos. Um aspecto bastante inusitado é que a revolta
se iniciou justamente na propriedade em que houve um investimento maior
na formação de laços familiares e na crioulização da escravaria. Infelizmente,
nem o nome de Gabriel Francisco Junqueira, nem o de sua esposa ou de seus
filhos aparecem na lista nominativa de 1831-1832. Isto talvez se explique pela
ausência do distrito de São Tomé das Letras na referida lista.

56. Termo que aparece com recorrência no processo crime de insurreição produzido depois
da Revolta de Carrancas.
57. João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, p. 534.

340
Ainda que os senhores possuíssem alguma margem de manobra na
composição de suas escravarias, investindo nas dissensões existentes entre
os grupos de procedências distintas e mesmo na constituição de vínculos
familiares entre os cativos, havia sempre o limite, dado pela conjuntura
internacional do tráfico. As escravarias da família Junqueira não fugiam ao
padrão das encontradas em outras áreas escravistas do sudeste do Império,
no mesmo período. A população cativa era majoritariamente africana e
proveniente da África Central, com alguns poucos escravos da Ocidental.
A diversidade étnica e o número expressivo de crioulos em certas pro-
priedades dos Junqueira também não representaram um impedimento
para que os escravos se tornassem “parceiros” e a experiência do cativeiro
juntamente com a expectativa da liberdade parecem ter sido os elementos
que contribuíram para a associação dos cativos. Nesse caso, as reflexões de
Hebe Mattos e Robert Slenes – sem entrar no mérito das divergências de
interpretação entre ambos a respeito da família escrava – parecem perfei-
tamente adequadas ao contexto da Revolta de Carrancas.
Hebe Mattos afirma que é justamente no contexto de tensão e conflito
que os cativos poderiam ressignificar o conceito de “parceiro”, contribuindo
para o surgimento de ações conjuntas, como é o caso de uma rebelião.58
A perspectiva de Robert Slenes a respeito da importância dos elementos
culturais e das visões cosmológicas comuns entre os bantos e a possibilidade
de formação de “comunidades escravas”, que poderiam ameaçar o sistema
escravista, é também estimulante para se compreender a Revolta de Carrancas
e a ação dos cativos. Os escravos que dela participaram eram, em sua grande
maioria, procedentes da África Central, portanto, bantos. Mas não se pode
esquecer que a revolta contou com a participação de escravos “mina”, in-
clusive na sua liderança, e de cativos nascidos no Brasil. Entretanto, como
reitera o autor, na primeira metade do século XIX, é provável que os crioulos

58. Gostaria de chamar a atenção para o fato de que, mesmo num contexto de tensão e
conflito, as dissensões entre os cativos também se tornavam evidentes. Esses aspectos são
passíveis de verificação, notadamente no depoimento daqueles cativos que não tiveram
participação direta nas mortes e que estão relacionadas à posição que ocupavam no cativeiro,
pois dispunham de uma relação de maior proximidade com seus senhores. Ver Rebeliões
escravas na comarca do Rio das Mortes, p. 73-74.

341
estivessem muito mais próximos do universo dos africanos, especialmente
pelas relações parentais criadas no cativeiro.59
No caso da Revolta de Carrancas, existe pelo menos uma evidência desta
possibilidade, que encontrada no depoimento do escravo crioulo André,
que pertencia a Gabriel Francisco Junqueira e trabalhava na fazenda Campo
Alegre como roceiro e carreiro. André participou ativamente da revolta de
1833, acompanhando seu pai, o principal líder da rebelião, o escravo Ventura
Mina, na execução das mortes de alguns integrantes da família Junqueira
nas fazendas Campo Alegre e Bela Cruz, e fez parte do grupo dos 16 cativos
condenados à pena de morte por enforcamento.
A Revolta de Carrancas não esteve circunscrita às relações entre os
grandes proprietários da família Junqueira e seus cativos. Sem dúvida, essa
é uma dimensão importante e o objetivo da releitura que se está tentando
empreender a respeito da revolta. Por outro lado, acredita-se que a ação dos
escravos esteve relacionada à leitura que eles fizeram do contexto de disputa
e dissensão entre brancos, quadro característico da década de 1830, não só
em Minas Gerais, mas em todo o Império.60
E para a elite escravista, como foi interpretada a ação dos escravos? Em
virtude do sentido paternalista predominante nas relações entre senhores e
cativos, esta interpretação poderia adquirir várias conotações. O discurso
presente nas diversas falas do processo criminal era variável e oscilava entre
atribuir sagacidade, engenhosidade e capacidade de articulação aos cativos,
particularmente ao líder Ventura, ou em desqualificá-los, classificando-os
de ingênuos, “vítimas” dos boatos de alforria e seres de fácil manipulação e
agenciamento por parte do branco Francisco Silvério Teixeira.61

59. Robert Slenes, op. cit. Em textos recentes, tenho chamado a atenção para a importân-
cia da composição étnica dos escravos de Carrancas. Ver Revolta de Carrancas, p. 635-
637; Negros rebeldes nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas (1833). Base de
dados de processos criminais da comarca do Rio das Mortes – século XIX. São João del Rei,
Departamento de Ciências Sociais – DECIS - Curso de História, Universidade Federal de
São João del Rei, 2004 (em CD-ROM).
60. Esta foi a hipótese central que norteou a interpretação da rebelião, divulgada nos tra-
balhos que produzi e já foram citados.
61. Em publicação recente de seu livro sobre a genealogia da família, José Américo Junqueira
de Mattos dedica um capítulo à Revolta de Carrancas, que a intitula como “Levante da Bella
Cruz”. O autor desconsidera o potencial de articulação, a sagacidade e a organização dos
escravos, aspectos que tive oportunidade de enfatizar e comprovar em meu trabalho de

342
Ventura Mina foi apontado como líder e principal articulador da re-
volta, realizando contatos com escravos das diversas fazendas da região.
Na noite que antecedeu à rebelião, foi à Bela Cruz e “estivera na senzala de
Joaquim Mina, onde mandara chamar alguns outros escravos da mesma
fazenda, e aí trataram de romper insurreição no outro dia [...]”.62 Apesar de
ter sido morto no confronto, seu espírito de liderança foi destacado tanto
pelos escravos, quanto pelas testemunhas e autoridades da época. Outras
qualificações apareceram no libelo acusatório, demonstrando que ele estava
longe de ser um “bom escravo”, Possuidor de um “gênio fogoso e ardente,
era empreendedor, ativo, laborioso, tinha uma grande influência sobre os
réus e estranhos de quem era amado, respeitado e obedecido”.63
Outra versão corrente no discurso das autoridades e das testemunhas
era a de que os escravos teriam sido “agenciados” por Francisco Silvério
Teixeira e se rebelaram por acreditar que os cativos da capital da província
haviam sido libertados. Quando as testemunhas foram inquiridas sobre a
possível participação de pessoas livres no agenciamento dos escravos para a
insurreição, Francisco Silvério Teixeira aparece como o principal suspeito e
responsável pelos acontecimentos desastrosos de Campo Alegre e Bela Cruz.
Os escravos, ao serem interrogados sobre a mesma questão, remetem-se ao
contato que Francisco Silvério tivera com o líder Ventura. Teriam ouvido

mestrado. Acaba se aproximando bastante do que seria talvez a interpretação de muitos


membros da elite daquela época, ou seja, a de que a revolta dos escravos de Carrancas foi
movida por “mentira, fantasia, desorganização e paranoia”, nas palavras do autor. Ainda
segundo o genealogista, tratava-se de “poucos fatos e uma imensa profusão de desvairados
devaneios, meras quimeras a povoar o imaginário de seres oprimidos em busca da liberda-
de”. Discordo de tal interpretação, embora não deixe de reconhecer que ela apresenta uma
outra leitura dos fatos, de quem se propôs a fazer um registro da história de sua família;
em muitos aspectos, o trabalho tem vários méritos e se constitui numa excelente fonte de
pesquisa. Ver José Américo Junqueira de Mattos. Família Junqueira, p. 94-95.
62. Versão dada conforme o depoimento de João Leonardo Cressoil, homem branco, solteiro,
natural dos Estados Unidos, morador na Aplicação do Favacho, onde vive de seu ofício de
carpinteiro. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01, fls. 79.
63. IPHAN-SJDR, Libelo acusatório, fls. 116v. A partir das informações apontadas nos
autos, especulei que Ventura Mina poderia ter sido um rei mina em sua terra de origem
ou até, quem sabe, ter recriado este tipo de liderança em território brasileiro. Além das
referidas qualificações do libelo acusatório, o juiz de paz de Baependi se referiu ao escravo
Ventura, como aquele “que se havia coroado Rei”. Ver Rebeliões escravas na comarca do
Rio das Mortes, p. 69.

343
de Ventura que “Francisco Silvério era a causa disso dizendo que no Ouro
Preto havia muitas pessoas voltadas com a boca para cá a fim de matarem
todos os brancos e ficarem os negros forros”.64
Além de ser acusado de agenciar os escravos e incitá-los à rebeldia,
pesava sobre ele a suspeita de promover a insurreição com o objetivo de
desviar a atenção da marcha de combatentes que se formava na vila de São
João del-Rei, a fim de combater os sediciosos de Ouro Preto. Segundo os
autos, Francisco Silvério “se encontrou tanto interessado na sedição de 22 de
março do Ouro Preto, que dissuadiu os guardas nacionais para não marcha-
rem contra os sediciosos, e ele mesmo nessa ocasião girava continuamente
do Ouro Preto para as partes de Carrancas e vice-versa”.65 Por ocasião da
Sedição Militar, entre março e maio de 1833, o governo legal foi transferido
para a vila de São João del-Rei. Segundo consta nos autos, Francisco Silvério
teria orientado os escravos a se rebelarem, utilizando como artifício para
seduzi-los falsas notícias, como, por exemplo, a de que os caramurus já
haviam libertado os escravos de Ouro Preto e que era o momento de em
Carrancas se fazer o mesmo.
Esta não era uma estratégia pouco comum naqueles tempos. As facções
políticas da época, especialmente os restauradores e os exaltados, tinham
o costume de estimular as camadas pobres ou mesmo de se utilizar delas,
inclusive dos escravos, nas suas lutas políticas. Como afirma Mary Karasch,
os escravos traziam vários benefícios para os senhores. Além de riqueza e
herança para legar aos filhos, constituíam também um pequeno exército a
ser utilizado pelos senhores quando fosse necessário.66 Alberto da Costa e
Silva destaca que o escravo armado era “personagem antigo” na maioria
dos sistemas escravocratas, sendo utilizado como guardião dos bens de seu
senhor, capanga ou soldado.67
No caso da Revolta de Carrancas, o proprietário da fazenda Jardim, João
Cândido da Costa, teve de armar parte de sua escravaria para enfrentar os

64. IPHAN-SJDR, Auto de perguntas feitas a Domingos Crioulo, escravo da fazenda Campo
Alegre, fls. 129. Esta é uma versão recorrente no depoimento de quase todos os cativos.
65. IPHAN-SJDR, Libelo crime acusatório contra o réu Francisco Silvério Teixeira, fls. 201.
66. Mary Karasch, A vida dos escravos no Rio de Janeiro, p. 360.
67. Alberto da Costa Silva, A manilha e o libambo, p. 94.

344
cativos rebeldes das fazendas Campo Alegre e Bela Cruz. Tratava-se de uma
estratégia muito arriscada naquele contexto, mas a alternativa encontrada
pelo proprietário foi mobilizar seu “pequeno exército” de escravos que, na
realidade, não era tão pequeno assim.
A instrumentalização dos cativos, em momentos de dissensão entre
elites, não representa nenhuma novidade, seja em conflitos de caráter res-
trito, envolvendo disputas locais, ou em contextos mais amplos, das rebe-
liões ocorridas nas províncias. E a Regência foi um dos períodos propícios
para se verificar a manipulação e a utilização dos cativos de acordo com os
interesses de certas facções políticas e de potentados locais, em diversos
pontos do Império.
Os escravos da família Junqueira se apropriaram, a seu modo, do con-
texto de rivalidade entre os membros da elite naquela ocasião, inclusive dos
apelidos que os diferentes grupos utilizavam para desqualificar ou enquadrar
seus oponentes. O depoimento de Maria Joaquina do Espírito Santo, mu-
lher parda, agregada e moradora na fazenda Bom Jardim é revelador, neste
aspecto. O grupo de escravos, liderados por Ventura, que se dirigiu para
aquela fazenda, na noite do dia 13, passou pela casa da testemunha. Depois
de ameaçá-la, exigiu que lhe entregasse logo as espingardas que havia na
casa. Um dos integrantes do grupo, o africano Antônio Benguela, “pulava
no seu terreiro e batia nos peitos dizendo para ela e seu companheiro vocês
não costumam falar nos Caramurus, nós somos os Caramurus, vamos arrasar
tudo [...]”.68 (grifos meus)
Como afirma Marco Morel, a “presença das camadas pobres nas lutas
políticas era resultado de um jogo de mútuas tentativas de manipulação e
apropriação: constantemente a atividade política escapava ao controle dos
grupos privilegiados”.69
Embora vários setores da elite tivessem o hábito de se utilizar dos es-
cravos e de outros segmentos marginalizados em suas desavenças e disputas,
costumavam distinguir os movimentos que eles próprios lideravam dos que
contavam com a participação de escravos, homens livres pobres e forros.

68. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Depoimento de


Maria Joaquina do Espírito Santo, fls. 49.
69. Marco Morel, O período das regências, p. 38.

345
O depoimento de Francisco Sales Torres Homem, ao se referir à Revolta
Praieira (1848), comparando-a com a Revolta Liberal de 1842, é bastante
ilustrativo de como foi construída esta percepção.
[...] nas revoltas subsequentes à abdicação, o que aparecia era o desenca-
deamento das paixões, dos instintos grosseiros da escória da população;
era a luta da barbaridade contra os princípios regulares, as conveni-
ências e necessidades da civilização. Em 1842 pelo contrário, o que se
via à frente do movimento a braços com o soldado mercenário, era a
flor da sociedade brasileira, tudo o que as províncias contavam de mais
70
honroso e eminente em ilustração, em moralidade, em riqueza [...].
(grifos meus)

O discurso de Torres Homem sintetiza a leitura que a elite fazia das


inúmeras rebeliões do tempo das Regências, dividindo-as em dois grupos:
as promovidas pela “escória da população”, que, na sua visão, diferiam ra-
dicalmente daquelas organizadas pela “flor da sociedade brasileira”.
Porém, o seu discurso esconde que, nas várias rebeliões daquele período,
os setores mais pobres da sociedade, incluindo os escravos, foram arregi-
mentados em larga escala e compuseram as hostes militares nos inúmeros
enfrentamentos e sedições arregimentados por vários segmentos da elite,
particularmente nas revoltas liberais de 1842.
O cônego José Antônio Marinho, historiador e contemporâneo do
movimento, autor de um relato apaixonado e muitas vezes exagerado sobre
o conflito, afirmou que, após a chegada da tropa de linha dos legalistas, “a
província foi inundada de nuvens de nagôs e minas, que levaram a toda
a parte a devastação e o saque”.71 Em seu relato ainda denunciava que os
legalistas armavam os escravos dos insurgentes para se rebelarem contra
seus senhores.
Gabriel Francisco Junqueira teve atuação destacada na Revolta Liberal de
1842, inclusive liderou uma coluna que levou o seu sobrenome (ver capítulo
4). O cônego Marinho comenta que os legalistas ameaçaram o ex-deputado,

70. Apud Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema, p. 104.


71. José Antônio Marinho, História do movimento político que no ano de 1842 teve lugar na
província de Minas Gerais, v. 2, p. 23.

346
recordando-lhe os acontecimentos desastrosos de 1833 em sua família, o
que teria contribuído para a dissolução da coluna e a deposição das armas.
O historiador do movimento acabou concluindo que os legalistas de 1842
eram os mesmos facciosos de 1833 e estavam dispostos, novamente, a insuflar
a escravaria da família Junqueira.
Quando alguns legalistas, achando-se nos maiores apuros na província
de Minas, souberam que o governo geral lhes mandara um socorro de
cassanges e moçambiques, compreenderam (bem que muito poucos)
que era um rasgo de alta política armar contra seus senhores a escrava-
tura dos insurgentes. Já em 1833 havia tido esse partido uma tão infernal
ideia, e a família Junqueira foi quase toda massacrada pelos escravos,
que em uma das fazendas não deixaram vivo nenhum menino de peito;
e existem nos cartórios da cidade de S. João d’El-Rei provas irrefragáveis,
e os desembargadores Manuel Machado Nunes e Gabriel Mendes dos
Santos são testemunhas irrecusáveis de que essa catástrofe fora promovida
pelos facciosos de 1833, que foram os legalistas de 1842. (grifos meus)
72

Ao se referir à coluna Junqueira, o cônego Marinho afirma que era


composta por cerca de 1.300 homens, na sua maior parte “proprietários, nego-
ciantes e capitalistas dos municípios de Baependi e Aiuruoca”. Provavelmente,
os escravos não integravam somente as hostes dos legalistas, pois, como já
foi visto, a configuração demográfica da região era marcada por grandes
escravarias e a população livre representava a minoria. Muitos angolas, ben-
guelas, congos e caçanjes também devem ter feito parte da coluna Junqueira.
Voltemos a um dos personagens-chave desta história, até porque um
dos objetivos da releitura da Revolta de Carrancas consiste em compreen-
der as estratégias dos proprietários e das autoridades policiais e judiciárias
num contexto em que os escravos conseguiram atemorizar a elite senhorial.
O ambiente de disputas políticas da Regência é essencial para se com-
preender o comportamento da elite no momento da deflagração de uma
rebelião de escravos. Para isto, é necessário voltar a 1831. Dois anos antes da
eclosão da Revolta de Carrancas, Gabriel Francisco Junqueira impôs uma

72. Ibidem, v. 2, p. 24.

347
derrota fragorosa ao candidato do imperador, o ministro Maia. Depois,
conseguiu reeleger-se por mais duas legislaturas seguidas e tornou-se a
principal liderança da facção moderada no sul da província de Minas Gerais
(ver capítulo 4). Entre 1831 e 1833, as disputas políticas entre moderados e
restauradores na província tomaram grandes proporções, culminando com
a Sedição Militar de 1833. A projeção socioeconômica e política que a família
Junqueira conquistara, certamente, não agradava a todos.
Algumas testemunhas inquiridas no processo confirmam tais impressões.
José Rodrigues Carneiro, homem branco, natural da freguesia de Aiuruoca
e morador no termo de Lavras do Funil, quando esteve na vila de São João
del-Rei, em abril de 1831, fez referência a um comentário de Manuel José da
Costa Machado, em conversa que teve com ele, no balcão de sua loja. Naquela
ocasião, Gabriel Francisco Junqueira passava pela rua e Costa Machado lhe
havia dito: “ali vai o seu deputado de merda” – mostrando descontentamen-
to por ele ter sido eleito e conseguido derrotar o ministro Maia. Naquela
mesma noite, estando a testemunha a conversar sobre “negócios políticos
e divisões de partido”, o mesmo Costa Machado lhe dissera que “para as
coisas tomarem jeito, e ficarem em sossego, era necessário tirar-se um par
de cabeças na freguesia de Carrancas”.73
Ainda segundo o depoimento da testemunha Ana Matildes de Nazareth,
mulher branca, viúva e natural da freguesia de Carrancas, “havia pessoas que
apostavam contos de réis, em como o deputado Gabriel Francisco Junqueira
seria morto em Caminho, na ida [ou] na volta da sessão presente”.74 Em
função dessas disputas, alguns oponentes da família Junqueira poderiam
muito bem utilizar-se de seus cativos para porem fim a seu domínio na
região. Como afirma Richard Graham,
As famílias representavam importante fonte de capital político.
Naturalmente [...] elas dedicavam-se a aumentar sua propriedade, e,
ao longo de várias gerações sucessivas, famílias bem-sucedidas acu-
mularam recursos significativos. Os vínculos que levavam homens a
cargos oficiais e ao domínio local constituíam parte importante desses

73. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Depoimento de


José Rodrigues Carneiro, fl. 93v.
74. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Depoimento de
Ana Matildes de Nazareth, fl. 95.

348
recursos e, através da política, famílias lutavam para preservá-los, muitas
75
vezes contra outras famílias.

Que interesses moviam Francisco Silvério a incitar os escravos a se


insurgirem contra alguns membros da família Junqueira? Esta não seria
uma estratégia muito arriscada também para ele, que possuía um número
razoável de escravos, ou para outros proprietários, igualmente pertencen-
tes a esta mesma elite? Certamente que sim, mas nem por isto os escravos
deixaram de ser instrumentalizados e armados pelos senhores em várias
situações de disputa entre os membros da elite, como eleições, conflitos
locais e sedições de maior vulto. O poder de um grande proprietário tinha
ligação direta com o exército de escravos que possuía e que, em geral, era
acionado em momentos de confronto com outros proprietários ou sedi-
ções. Evidentemente, nem sempre essa estratégia resultava em sucesso e a
visão paternalista dos senhores em relação aos cativos poderia falhar, como
aconteceu em Carrancas.
Quem era este homem que conseguiu mobilizar e instruir os escravos a
se rebelarem, isto se for considerada como procedente a versão do processo?
Examinem-se os indícios existentes sobre ele nos autos. Francisco Silvério
Teixeira morava havia mais de vinte anos no distrito do Rio do Peixe, fre-
guesia de Três Corações do Rio Verde, termo de Campanha, onde vivia da
agricultura, da criação de animais e de cobranças. Possuía uma prole nu-
merosa, 14 filhos no total, além de 19 cativos. Em dezembro de 1833, época
de seu interrogatório, estava com 73 anos de idade.
A atividade de negociante também pode ser confirmada por alguns
outros indícios presentes nos autos. Ao que tudo indica, sua ocupação lhe
exigia uma circulação mais ou menos frequente entre os caminhos e as
propriedades da região. No dia da rebelião, passou pelas fazendas da família
Junqueira, acompanhado de um cargueiro, pois, “achando-se caída a ponte
do rio Grande do Saco, em maio de 1833, o réu teve a necessidade de ir passar
na ponte dos Tavares, e por isso foi que seguiu sua jornada da fazenda do
Campo Alegre a do Campinho e Pitangueiras”.76

75. Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX, p 35.


76. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Interrogatório do
réu Francisco Silvério Teixeira, fls. 205.

349
Em seu interrogatório, o réu afirmou ter caído um carro de boi na tal
ponte, e necessário que o juiz de paz, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira,
despachasse logo um requerimento que “ele respondente lhe tinha entregue
sobre uma estrada a respeito da qual ele [tinha] demanda”. Nos autos não há
maiores referências à abertura desta estrada, mas, ao que parece, era uma
rota importante para Francisco Silvério e outros proprietários da região.
Já na contestação do libelo, Francisco Silvério afirmou ter passado pela
fazenda do deputado para pedir um despacho a respeito da abertura de “uma
estrada litigiosa com Antônio da Costa Silva e outros”.77 O adendo ao libelo
acusatório, interposto pelo autor da queixa, o deputado Gabriel Francisco
Junqueira, contribui para elucidar alguns aspectos do litígio. Tudo indica
que esta contenda já durava alguns anos e Francisco Silvério não conseguira
do presidente da província, Manuel Inácio de Melo e Sousa, um despacho
favorável à construção da estrada. Assim que o presidente foi deposto, logo
depois de iniciada a Sedição de 1833, Manuel Soares do Couto, líder dos
revoltosos, autorizou a abertura da estrada.
A maioria das fortunas dos grandes proprietários, constituídas ao longo
da primeira metade do século XIX, foi resultado de um consórcio de ativida-
des, dentre as quais se destaca a produção de gêneros voltados para o abas-
tecimento interno. O bom estado e o conhecimento das estradas e caminhos
eram essenciais para a comercialização dos produtos, especialmente com a
província do Rio de Janeiro. A área em estudo estava localizada em um ponto
estratégico, próximo às rotas de comércio regionais e interprovinciais, e os
proprietários sabiam muito bem que o sucesso de seus negócios dependia
do acesso a estes caminhos e do controle sobre eles. Certamente, a estrada
litigiosa que Francisco Silvério desejava abrir atendia a seus interesses e ao
de outros proprietários, que se confrontavam com os interesses da família
Junqueira e também com os de outras famílias a ela aliadas.
As novas leituras da Sedição Militar de 1833 têm demonstrado que não
se tratava simplesmente de um movimento restaurador ou de inspiração
caramuruana. Evidentemente, os significados que os termos “ximango”

77. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Contestação do


libelo acusatório, fls. 212.

350
e “caramuru” carregavam eram apropriados e ressignificados por vários
grupos sociais, dependendo do contexto e dos interesses. O caminho mais
adequado para se compreender a Sedição Militar de 1833 e a Revolta de
Carrancas será examinando a complexa rede de interesses e disputas locais
entre os grandes proprietários e as famílias abastadas, e sua relação com o
governo provincial e imperial.
É provável que, em outros tempos, Francisco Silvério gozasse de prestígio
e talvez fosse um dos aliados da família Junqueira, visto que era compadre
78
do deputado Gabriel Francisco Junqueira. Em sua defesa, o réu alegou que
jamais havia contribuído para a insurreição e muito menos para a morte
do juiz de paz e dos demais membros da família, pois tinha muita amizade
79
com o “falecido, com seus pais e toda a sua família”.
Embora fossem compadres, o deputado não estava convencido da ino-
cência do réu e, no adendo ao libelo acusatório, chamou a atenção para o
comportamento de Francisco Silvério, que havia denunciado o seu sobri-
nho, o coronel João Pedro Diniz Junqueira, como quem teria instruído o
líder Ventura a promover a insurreição. Na versão do deputado, Francisco
Silvério apresentou alguns embargos e justificações no Juízo de Campanha
e Pouso Alegre, alegando que o coronel João Pedro “prometera 200$000 a
um capitão do mato Pires, para este matar ao preto Ventura a fim de que
este nunca descobrisse o autor da insurreição”.
Ainda segundo Gabriel Francisco Junqueira, Manuel Joaquim Alves,
suposto aliado de Francisco Silvério, castigou um dos pretos da fazenda da
80
Prata, enquadrado como “cabeça” da insurreição, obrigando-o a confessar
que o coronel João Pedro tinha tramado a rebelião, juntamente com o preto
Ventura. Mesmo sob castigo, o escravo teria confirmado que Francisco

78. Um dos últimos documentos anexos ao processo é uma carta do deputado a Francisco
Silvério, desistindo de ser parte acusadora. Nesta correspondência, o deputado se refere
a Francisco Silvério Teixeira como seu “compadre”. IPHAN-SJDR, Processo crime de
insurreição (1833), caixa PC 29-01, fls. 231.
79. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01. Contestação do
libelo acusatório, fls. 212.
80. Trata-se de um dos escravos de Ana Luiza Gonçalves, proprietária da fazenda da Prata.
Roque e Jerônimo eram escravos tropeiros e crioulos e, segundo os autos, estavam encarre-
gados de trazer armamento da Corte a pedido de Francisco Silvério Teixeira. Ver Rebelião
escrava na comarca do Rio das Mortes, p. 71.

351
Silvério era o responsável pelo agenciamento da revolta. Este passou 19 meses
preso e só foi solto depois que o deputado Gabriel Francisco Junqueira e o seu
sobrinho, filho de José Francisco Junqueira, proprietário assassinado da fazenda
Bela Cruz, abriram mão do processo. Os autores da queixa, em particular o
deputado, não estavam convencidos da inocência do réu. Gabriel Junqueira só
retirou a acusação depois que Francisco Silvério desistiu “daqueles imundos,
81
nojentos e caluniosos embargos e justificações” contra seu sobrinho.
O coronel João Pedro Diniz Junqueira tornou-se um importante pro-
prietário na década de 1830, dono de uma das maiores escravarias da família
Junqueira e foi o construtor da imponente fazenda Traituba (ver capítulo 3 e
4). Parece pouco provável que tivesse vínculos com a rebelião dos escravos,
colocando em risco a vida de seus parentes próximos e a de sua própria família.
Neste caso, esta pode ter sido uma estratégia utilizada por Francisco Silvério
para desviar a atenção dos fatos e, consequentemente, tentar eximir-se da
culpa que lhe foi imputada. Mas não deixa de ser bastante intrigante a atitude
do deputado, pois se ele não estava convencido da inocência do réu, por que
acabou desistindo da acusação?
Montar o quebra-cabeças desta história não é tarefa das mais fáceis e,
muitas vezes, algumas peças não se encaixam e outras parecem não existir
ou não serem dignas de menção, ou mesmo que possa ter havido um “pacto
de silêncio” entre os envolvidos.
Os acontecimentos de Carrancas não ficaram restritos ao domínio pri-
vado dos senhores, particularmente os Junqueira. Num primeiro momen-
to, representou um duro golpe para uma família que havia adquirido gran-
de expressão no cenário socioeconômico e político provincial e imperial.
A rebelião atemorizou a elite senhorial do sul de Minas Gerais e repercutiu
nas províncias limítrofes do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobretudo nas áreas
cafeeiras em expansão, como as vilas de Areias, Bananal, Lorena e Resende.82
A Regência também dela se ocupou. O então presidente da província de
Minas Gerais, Manuel Inácio de Melo e Sousa, com o governo sediado na vila
de São João del-Rei, tratou logo de informar o ministro e secretário de Estado

81. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição (1833), caixa PC 29-01, fls. 230v.
82. APESP, Ofícios diversos de Bananal, caixa 28, p. 2, doc. n. 62-A; APESP, Ofícios diversos
de Areias, caixa 14, p. 2, doc. n. 79.

352
dos Negócios da Justiça do Império, Honório Hermeto Carneiro Leão, sobre
a rebelião e as consequências dramáticas do ocorrido.
Levo ao conhecimento de V. Sa., por ser presente a Regência em nome
do imperador, que infelizmente no dia 13 do corrente mês alguns es-
cravos do deputado Gabriel Francisco Junqueira assassinaram a um
filho deste, estando na roça, que fica no distrito de Carrancas, e daí
partiram para a fazenda de um irmão do mesmo, onde reunindo-se
com outros escravos daquele assassinaram a todas as pessoas brancas
da família, e a duas de cor preta.83

O deputado Gabriel Francisco Junqueira encontrava-se na Corte, par-


ticipando das atividades parlamentares, quando os escravos assassinaram
parte de sua família. Como era de se esperar, só recebeu a notícia alguns
dias depois do ocorrido, em razão do tempo que se levava para estabelecer
as comunicações entre Minas e o Rio de Janeiro. Cinco dias depois, apre-
sentou ao parlamento um ofício, solicitando dispensa de suas atividades e
“licença para ir à sua casa, na província de Minas Gerais, pela urgentíssima
necessidade que o obriga a ir com violência dar indispensáveis providências
à sua família”. A comissão concedeu a licença no dia 21 de maio de 1833.84
Provavelmente nessa data o deputado já estava a caminho de sua residência
em Minas Gerais, atordoado com os acontecimentos, talvez sem entender
muito bem o que havia se passado em sua propriedade e por quais motivos
seus escravos haviam se rebelado e assassinado parte de sua família.
Outras alusões à Revolta de Carrancas também aparecem no discurso
proferido pelo deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos na Câmara dos
Deputados, na sessão do dia 4 de julho de 1833, quase dois meses após a
rebelião. Logo no início, fez referência a uma carta proveniente de Minas
Gerais, apresentada ao parlamento, afirmando que aquela província “estava
em guerra civil, que a maior perturbação ali existia”.

83. AN, Série Justiça, IJ1 763. Correspondência do presidente da província de Minas ao
ministro da Justiça do Império, 18/5/1833.
84. Anais do Parlamento Brasileiro, Câmara dos Deputados, sessão de 1836. Brasília: Câmara
dos Deputados, Centro de Documentação e Informação, Coordenação de Publicações,
1982, tomo primeiro, p. 171.

353
Bernardo Pereira de Vasconcelos assegurou que a ordem já estava res-
tabelecida, mas não deixou de responder aos comentários do deputado
Montezuma sobre as perseguições que alguns proprietários de Minas Gerais
vinham sofrendo, depois dos últimos acontecimentos. Há um trecho do
discurso de Bernardo Pereira de Vasconcelos fundamental para se compre-
ender o comportamento e as ações tomadas pelas autoridades legislativas
em caso de rebeliões escravas.
Diz o ilustre deputado: “Os proprietários de Minas estão assuntados!”85
Que proprietários? A sedição limitou-se à capital da província; um ou
outro proprietário de fora, muito poucos tiveram nela parte, porque
um proprietário não pode deixar de ter o maior horror a tudo quanto
tenda a perturbar a tranquilidade pública.
Mas disse-se: Joaquim Silvério é proprietário e está preso.
Nisto há inexatidão: Joaquim Silvério está preso no Ouro Preto, por
suspeito de ter concorrido para um assassinato, cometido em um velho
pai de família, em mulher, filhos e filhas, assassinando-se até crianças
de peito. Eis por que está preso.86 (grifos meus)

Em nenhum momento de sua resposta aos questionamentos de


Montezuma, Bernardo Pereira de Vasconcelos referiu-se à Revolta de
Carrancas, embora não deixasse de citar as mortes ocorridas na família
Junqueira, mas sem mencioná-las explicitamente e omitindo o fato de que
se tratava da família de um colega de parlamento. Sequer comenta o envol-
vimento dos escravos na execução das mortes e até mesmo grafa incorre-
tamente o nome de Francisco Silvério.
Na realidade, o que se apresenta em seu discurso é uma tentativa de
desqualificação dos acontecimentos, inclusive da Sedição Militar de 1833,
procurando demonstrar que a província gozava de tranquilidade e a ordem
havia sido restabelecida. É provável que tenha ocorrido nesse caso uma “es-
tratégia de desinformação e censura” com o intuito de evitar o pânico entre

85. Não sei se foi erro de impressão ou edição, mas acredito que a fala do deputado Montezuma
deve ter sido no sentido de dizer que os proprietários de Minas estavam assustados e não
“assuntados”.
86. Discurso de Bernardo Pereira de Vasconcelos na Câmara dos Deputados, sessão de
4/7/1833, em José Murilo de Carvalho (org. e introd.), Bernardo Pereira de Vasconcelos, p. 206.

354
a elite e a perda de controle da situação.87 Afinal de contas, o fantasma do
“haitinismo” pairava sobre a cabeça dos senhores e este temor tenderia a se
agravar em situações de ousadia e rebeldia escrava ou de outros segmentos
marginalizados da sociedade imperial, como aconteceu em Carrancas.
Se, por um lado, houve um “pacto de silêncio” por parte de autorida-
des legislativas, administrativas e judiciárias e até de proprietários, com a
finalidade de coibir uma onda sucessiva de levantes e evitar o pânico da
população, por outro, a repressão foi eficaz e exemplar. Os escravos rebel-
des de Carrancas foram exemplarmente punidos, sendo 16 condenados à
pena de morte por enforcamento e executados em praça pública, em dias
alternados, e com cortejo da Irmandade da Misericórdia, na vila de São João
del-Rei, “com grande número de espectadores”.88 Alguns escravos foram
condenados como cabeças da insurreição, de acordo com o artigo 113 do
Código Criminal, que estabelecia a pena capital para crimes desta natureza.
Outros foram condenados pelo crime de homicídio qualificado, artigo 192
do mesmo código. Trata-se de uma das maiores condenações coletivas à
pena de morte aplicada a escravos na história do Brasil Império. Ainda que
na Revolta dos Malês houvesse um número semelhante de condenados à
pena máxima, somente quatro escravos foram fuzilados, o restante teve a
sentença convertida para açoites ou galés em segundo julgamento.89

87. Esta foi a hipótese central do estudo de Maria Helena Machado ao abordar os inúmeros
conflitos suscitados a partir da década de 80, no contexto de desagregação do sistema escra-
vista, que mereceram das autoridades policiais uma estratégia de desinformação e censura no
tratamento público da rebeldia escrava e da ousadia dos abolicionistas, no sentido de evitar
o pânico geral das populações. Também considero perfeitamente cabível esta hipótese para
o contexto do período regencial e, particularmente, para o caso da Revolta de Carrancas.
Cf. Maria Helena Machado, O plano e o pânico.
88. Doze réus foram condenados entre os dias 4, 5 e 6 de dezembro de 1833, a saber: Julião
Congo, Domingos Crioulo, Antônio Retireiro e Manuel das Vacas; Julião Crioulo, Quintiliano
Crioulo, Pedro Congo e Sebastião Angola; Bernardo Congo, Manuel Joaquim, Lourenço
da Costa e Manuel das Caldas, respectivamente. Os quatro últimos escravos condenados
demoraram alguns meses para ser executados. Fazia parte deste grupo o escravo Antônio
Resende, que acabou servindo de algoz do grupo, uma vez que teve sua pena comutada em
galés perpétuas. Os escravos Joaquim Mina, João Cabundá, André Crioulo e José Mina
foram executados no dia 23 de abril de 1834. IPHAN-SJDR, Processo crime de insurreição
(1833), caixa PC 29-01, fls. 170v, 174v, 178 e 191v.
89. João José Reis, Rebelião escrava no Brasil, p. 452-466.

355
Somente Antônio Resende, escravo do deputado Gabriel Francisco
Junqueira, conseguiu impetrar uma petição de graça ao imperador e teve a
vida poupada, pois serviu de algoz de seus companheiros. Primeiramente,
foi preso na cadeia de Ouro Preto, de onde fugiu em 1835. Tinha “estatura
ordinária, cheio de corpo, beiços grossos, ponta de buço, rosto liso, chato”.90
Em julho de 1848, encontrava-se preso na cadeia de São João del-Rei e soli-
citava a transferência para a Santa Casa de Misericórdia, a fim de tratar de
inflamações e dores no peito, sendo identificado na petição como Antônio
Resende, o carrasco.91 Aparentemente, a função de algoz lhe serviu de al-
cunha para o resto da vida. Depois desta data, não se conseguiu localizar
mais nenhuma informação sobre ele. O mais provável é que tenha morrido
na cadeia de São João del-Rei.
Os acontecimentos de Carrancas atemorizaram não só os proprietários
mineiros, como também as regiões limítrofes à comarca do Rio das Mortes,
e até mesmo o governo da Regência. Dentre os quatro projetos enviados
à Câmara dos Deputados, no dia 10 de junho de 1833, um era referente ao
julgamento dos crimes de escravos. Segundo João Luiz de Araújo Ribeiro,
esse projeto tem ligação direta com os acontecimentos de Carrancas. Foi
amplamente discutido no Senado e na Câmara, antecipando, em muitos
pontos, o texto da lei nefanda de 10 de junho de 1835, que estabeleceu a
pena de morte para escravos envolvidos no assassinato de seus senhores,
familiares e prepostos. No projeto de 1833, previa-se a supressão do júri para
julgamento de crimes desta natureza, sendo substituído por uma junta de
juízes de paz da região onde ocorresse o crime.92
Francisco de Paula de Resende, ao se reportar à Sedição Militar de 1833
e à participação dos guardas nacionais do sul de Minas, acabou fazendo
referências à Revolta de Carrancas e aos serviços prestados por seu avô, na
qualidade de comandante superior da Guarda Nacional, para combater os
insurgentes e restabelecer a ordem no sul da província.

90. APM, SP PP1/18, caixa 42, 1835/02/07, doc. 14. Agradeço à professora Maria Tereza Pereira
Cardoso (UFSJ) a indicação deste documento.
91. IPHAN-SJDR, Petição de Antônio Resende (1848), caixa 05-14.
92. João Luiz de Araújo Ribeiro, No meio das galinhas as baratas não têm razão: a lei de 10
de junho de 1835 – os escravos e a pena de morte no Império do Brasil, 1822-1889, p. 43-67.

356
Quanto ao outro serviço, ele o prestou [...] por ocasião de uma insurreição
de escravos que se deu na fazenda de um dos meus parentes Junqueiras.
Os escravos cometeram contra a família do senhor as maiores atrocidades;
a insurreição se estendia; e as circunstâncias se tornavam extremamente
graves; quando meu avô ao ter notícia do que se passava, mesmo sem
ordem, fez partir a Guarda Nacional; a insurreição foi imediatamente
abafada; e as medidas que ele tomou tão prontas e tão acertadas, que
segundo ele dizia, mereceram do governo a mais completa aprovação
e elogio.93 (grifos meus)

Curioso notar que, sem precisar bem a data dos acontecimentos de


Carrancas, o memorialista também levantou a hipótese, já no final da década
de 1880, de que a lei de 10 de junho tinha sido consequência da Revolta de
Carrancas. “É, pois de supor que fosse antes de 1836 e se foi, como suponho,
em 1834 ou no princípio talvez de 1835, é muito provável, que essa insurreição
fosse a causa ocasional dessa tão célebre lei de 10 de junho, de cuja revogação
se trata agora.”94 (grifos meus)
Se, por um lado, os proprietários, os parlamentares, as autoridades e
até mesmo o governo da Regência se utilizaram de “estratégias de desin-
formação e censura” para evitar o pânico entre a população e uma onda
sucessiva de novos levantes, por outro, a punição dos escravos rebeldes foi
exemplar e até mesmo o projeto de uma nova jurisprudência foi objeto de
discussão, caracterizando o temor latente na sociedade escravista de um
possível confronto direto com os escravos.
Na primeira metade do século XIX, as estratégias utilizadas pela família
Junqueira para a composição de suas escravarias foram as possíveis, num
contexto de renovação da mão de obra escrava através do tráfico internacio-
nal. De modo geral, as senzalas possuíam um grande número de cativos de
origem africana, procedentes, em sua maioria, da África Centro-Ocidental,
e as oportunidades de constituição de laços familiares estiveram restritas
a um pequeno grupo de africanos. Outros artifícios também puderam ser

93. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas recordações, p. 65-66.


94. O autor escreve suas memórias no final do século XIX, mais precisamente, em 1887.
Ibidem, p. 66.

357
utilizados, como o investimento na constituição de laços familiares, aumen-
tando o número de cativos crioulos, particularmente nas propriedades mais
antigas, como foi o caso da fazenda Campo Alegre. Nem todos os estrata-
gemas da família foram capazes de gerar a “paz nas senzalas”. Ao contrário,
a autonomia dos senhores esbarrava na humanidade dos escravos.

358
Conclusão

Francisco de Paula Ferreira de Rezende, ao escrever suas “recordações”,


a partir de 1887, sem querer registrou inúmeros aspectos sociopolíticos e
culturais do tempo do Império, particularmente transcorridos na vila mais
antiga do sul de Minas. “Campanha do Rio Verde, Campanha da Princesa ou
simplesmente Campanha, é a primeira cidade e é a primeira vila que existiu
no sul de Minas; assim também foi ela, de Baependi para baixo, a primeira
paróquia e a mais antiga povoação que ali se fundou.”1 O memorialista tinha
fortes razões pessoais, familiares e sentimentais para registrar boa parte de
suas reminiscências de infância, vivida em uma vila que conquistou grande
projeção demográfica, econômica e política nas primeiras décadas do século
XIX. Membro de uma família da elite, dedicou suas “recordações” aos filhos,
deixando para a história um texto/documento que, se confrontado com
outras fontes, nos ajuda a compreender um pouco do cotidiano daquele
tempo e dos segmentos pertencentes à “boa sociedade”.
Evidentemente, as razões para a escolha da região e do tema são de outra
ordem e já foram explicitadas ao longo deste livro. O fato de Campanha ter
sido a primeira vila do sul de Minas também não constitui um aspecto de
grande relevância. Trata-se apenas de um detalhe a mais sobre a história da
região. O que interessa apontar é em que medida aquele território ganhou
expressão, tanto em termos populacionais como políticos, culminando com
a emancipação da vila, no final do século XVIII.
Pôde-se constatar que a economia sul-mineira esteve assentada em um
leque diversificado de atividades, com especial atenção para as agropastoris
e a comercialização em praças regionais e interprovinciais. Um grande pro-
prietário escravista poderia ser dono de engenho, pecuarista, produtor de

1. Francisco de Paula Ferreira de Rezende, Minhas recordações, p. 41.

359
alimentos, dono de lavra e comercializar parte de sua produção nas vilas e
nos distritos mais próximos e, em especial, na Corte. A origem da riqueza
estava relacionada ao consórcio de várias atividades e, quase sempre, um
grande fazendeiro também era negociante.
Um pouco do cotidiano da elite escravista sul-mineira, na maioria
das vezes ambientada em áreas rurais, pode ser detectado pela análise do
que havia no interior e no exterior das casas de vivenda e morada. Da mes-
ma forma, foi possível chamar a atenção para as mudanças nos hábitos e
nos costumes dos que viviam nos núcleos urbanos de maior importância.
A vinculação mercantil com a praça carioca contribuiu decisivamente para
essas transformações, e a tradição secular do tropeirismo foi fundamental
para a difusão das novidades da moda e da política, articulando o interior
da província de Minas Gerais ao Rio de Janeiro, e vice-versa.
A trajetória da família Junqueira consistiu em um estudo de caso típico
de uma família da elite nos tempos do Império. Assim como os diversos
exemplos citados ao longo deste livro, vários membros da família eram
grandes proprietários de terra e de muitos escravos. A origem das fortunas
estava associada à diversificação das atividades e à comercialização de parte
da produção em praças regionais e na Corte. Os caminhos do enriquecimento
poderiam ser encontrados por meio da conjugação das atividades econômi-
cas (agropastoris, comerciais, etc.) com os laços familiares e a ocupação de
cargos políticos. A trajetória de Gabriel Francisco Junqueira, deputado liberal
moderado, é um exemplo marcante desse tipo de correlação, e ele se tornou
uma das principais lideranças regionais do sul de Minas na década de 1830.
Sua atuação no Parlamento nacional foi bem discreta e o único projeto que
apresentou deixava transparecer os interesses do segmento social do qual
fazia parte e representava. Na revolta liberal de 1842, ainda despontava como
uma liderança política expressiva, congregando os proprietários insurgentes
em torno da coluna que levou o sobrenome de sua família.
O recurso empregado para limitar o fracionamento e até mesmo ga-
rantir a ampliação das fortunas foi a realização de casamentos endogâmicos
e de alianças matrimoniais com outras famílias de prestígio e de posses.
Importante assinalar que esse conjunto de estratégias também foi utilizado
pelos membros da família Junqueira que migraram e adquiriram sesmarias

360
no sertão do Rio Pardo. A necessidade de migrar para áreas de fronteira se
impôs para alguns membros da terceira geração, em virtude da ausência
de novas oportunidades nas áreas inicialmente ocupadas pelos ancestrais e
talvez por uma estratégia pensada de investimento em áreas de expansão,
que acabaram contribuindo para a fixação da identidade da parentela num
território muito vasto do sul de Minas, no nordeste de São Paulo e mesmo
em algumas freguesias do Rio de Janeiro.
Destacou-se também o caráter patriarcal da sociedade mineira através
do estudo de caso já mencionado, definindo-se o patriarcalismo como um
conjunto de valores e ideias, no qual as relações familiares desempenharam
papel de suma importância, seja na economia, ou nas relações pessoais e
políticas. O significado de pertencer a uma grande família pode ser cons-
tatado nas estratégias utilizadas pelos Junqueira para consolidar o próprio
nome, ou mesmo para protegê-lo, como no caso da descendência ilegítima
do padre Francisco Antônio Junqueira.
Por fim, discutiu-se a importância da mão de obra escrava para o sul
de Minas. As fazendas escravistas voltadas para o abastecimento interno
demandavam grande contingente de cativos, daí o percentual expressivo da
população escrava nas vilas, nos distritos e nas grandes propriedades rurais.
A dependência do tráfico internacional pode ser verificada pelo número de
africanos que chegavam à região e também pela procedência dos cativos, a
maioria oriunda da África Centro-Ocidental. Foi nesse contexto, marcado
pela expansão das atividades mercantis e agropastoris e pela entrada con-
tínua de cativos africanos, que se consolidou a trajetória de uma das mais
prestigiosas famílias do sudeste escravista.
Ao longo das primeiras décadas do século XIX, os Junqueira concentra-
ram poder, riqueza e prestígio, visíveis na consolidação do nome da família,
na posse de grandes propriedades e escravarias, e na ocupação de cargos
administrativos, eclesiásticos e políticos. Assim como em outras histórias,
as incertezas e os infortúnios também foram capítulos importantes a relatar.
Justamente no momento em que a trajetória da família estava consolidada,
alguns de seus membros foram vítimas da ação coletiva e organizada de seus
cativos, que resultou na Revolta de Carrancas – uma rebelião de escravos
que atemorizou não só a elite proprietária sul-mineira, mas boa parte do

361
sudeste escravista. Os acontecimentos acarretaram em pelo menos dois
tipos de estratégia por parte da Regência. Por um lado, tratou de punir
exemplarmente os culpados, condenando-os à pena máxima, “morte por
enforcamento”. Por outro, fez uso de uma “estratégia de desinformação e
censura”,2 temendo uma onda sucessiva de levantes em áreas próximas,
que possuíam grande contingente de cativos, como as áreas cafeeiras em
expansão no vale do Paraíba paulista e fluminense.
O estudo das trajetórias das famílias da elite e, em particular, do sul de
Minas, possibilitou-nos não só compreender a dinâmica socioeconômica
e política daquela área, considerando a conjuntura da primeira metade
do século XIX, mas também aprofundar o conhecimento do contexto em
que se deu a Revolta de Carrancas. A percepção das estratégias adotadas
pela elite em momentos de confronto direto com os escravos permitiu-nos
complementar as discussões iniciadas em trabalhos anteriores.
O estudo de caso empreendido e, em especial, a trajetória política de
Gabriel Francisco Junqueira nos ajuda a pensar sobre o lugar das elites
regionais na construção do Estado imperial, notadamente no período das
Regências e no início do Segundo Reinado. Ao mesmo tempo em que im-
punham suas demandas, as elites se tornavam ou não aliadas na preservação
do Estado e da unidade nacional. A consolidação de uma grande liderança
regional era medida pela fortuna, pelas convicções políticas e pelo respeito
adquirido em determinado grupo, mas particularmente pelo capital político
representado por uma extensa parentela. O deputado Gabriel Francisco
Junqueira acionou todos esses elementos e, assim como muitos líderes po-
líticos regionais de outras áreas escravistas do Império, teve um papel de
destaque no cenário político da Corte, e aproveitou o espaço conquistado
em âmbito nacional para impor suas demandas pessoais, familiares e do
grupo social que representava.

2. Maria Helena Pereira Toledo Machado, O plano e o pânico.

362
Anexo I

Relação nominal dos inventários de Campanha (1802-1865)


– CEMEC-SM
Inventariado Data Caixa
Ana Josefa 1802 02
Albina Alves Ferreira 1803 02
Luzia Moreira 1806 02
Francisco Tavares da Cunha 1808 02
Maria Portes d’el Rei 1808 02
Joanna Maria de Araujo 1810 02
Joaquim Alves de Lima 1811 02
Manoel João Vieira 1812 02
Lauriana Gonçalves de Britto 1814 02
Ana Barbosa Fermina de Oliveira 1816 02
Maria Justina da Silva 1816 02
Luis Antonio Azevedo 1817 03
Luis Antonio Gonçalves 1817 03
Manoel Gonçalves de Sousa 1817 03
Manoel Jose de Azevedo 1819 03
Diogo Rodrigues da Cunha (Capitão) 1820 03
Maria da Assunção Pinto 1820 03
Jose Marques de Oliveira 1821 04
Ana de Oliveira Rosa 1822 04

363
Inventariado Data Caixa
Francisco de Salles Xavier Tolledo (Coronel) 1822 04
Luiz Mariano de Almeida (Capitão) 1822 04
Thomaz de Almeida Trant (Tenente Coronel) 1822 04
Baltazar Gomes de Lima 1823 04
Bernardo Joaquim Pereira 1823 04
Jacinto da Silva Lopes 1823 04
José Joaquim de Paiva 1823 04
João Baptista da Silveira 1824 04
Manoel José Ferreira 1824 04
Joaquim José da Silva Ribeiro 1825 04
João Batista da Costa 1825 04
Maria Joepha de Jesus 1825 04
Maria Lucia 1826 04
Maria Angélica do Espírito Santo 1827 05
Francisco Jose de Andrade e sua Mulher Joaquina 1828 05
Escolástica
Lourenço Gonçalves 1828 05
Pedro Domingues da Silva 1828 05
Alexandre Mendes Barreto 1829 05
Francisca de Paula 1829 05
Antônio Goulart Brum 1830 05
José Martins Novaes 1830 05
Antônio José das Neves 1831 05
José Pinto Ribeiro (Capitão) 1831 05
Antônia Maria 1832 05
José Joaquim Ferreira 1832 05
Josefa Maria de Jesus 1832 05
Manoel Alves de Gusmão 1832 05
Ana Francisca de Jesus 1833 06

364
Inventariado Data Caixa
Antônio Lopes da Silva Araujo (Capitão) 1833 06
Bárbara Maria São José 1833 06
Francisca de Paula Gualdino de Rezende 1833 06
Francisco Barbosa Sandoval 1833 06
Maria Antônia de Jesus 1833 06
Maria Cristina dos Reis 1833 06
Maria Victoria da Silva 1833 06
Ana Inocência de Jesus 1834 07
Ana Irene da Conceição 1834 07
Joaquim da Costa Silva 1834 07
José Alves Paredes 1834 07
José da Costa Rios (Guarda-Mor) 1834 07
José Felisberto Reis 1834 07
Maria Inácia de Jesus 1834 07
Narcisa Maria de Jesus 1834 07
Antônio Luís Pinto (Capitão) 1836 08
Fermiano Dias Xavier Pereira Leite 1836 08
Joaquina Maria 1836 08
Joaquim Gonçalves Pedreira 1836 08
José Lion (francês) 1836 08
Justino Lemes de Andrade 1836 08
Maria Jacinta de São José 1836 08
Antônio Correia de Lemos 1835 08
Francisco Alves da Cunha 1835 08
Joaquim Ferreira Ribeiro 1835 08
José Rodrigues Goulart 1835 08
Paulina Honória de São José 1835 08
Antônio José Fernandes de Macedo 1836 08

365
Inventariado Data Caixa
Lourenço Domingues da Silva 1837 09
Maria Bárbara da Conceição Dias de Jesus 1837 09
Maria Cândida da Silva 1837 09
Tereza Maria de Jesus 1837 09
Valentim Fernandes Maciel e sua Primeira Mulher 1837 09
Ana Alves Paredes
Ana Victoria de Jesus 1837 09
Brígida Maria de Jesus 1837 09
Cândida da Silva 1837 09
Florêncio Ignácio Rodrigues 1837 09
Francisco Pereira da Fonseca 1837 09
Joaquim da Silva Povas 1837 09
Leonor Luiza Garcez de Melo Trant 1837 09
Ana Jacinta Pereira 1838 10
Ana Pereira do Nascimento 1838 10
Antônio Rodrigues Airão 1838 10
Francisco Manoel Coelho 1838 10
Joaquim Alves Paredes 1838 10
Tomas Joaquim De Almeida (Tenente Coronel) 1838 10
José Muniz da Rosa 1838 10
Manoel Izidoro de Magalhães (Capitão) 1838 10
Roque de Souza Magalhães (Coronel) 1838 10
Simão Lopes de Araujo (Capitão) 1838 10
Benedito Mathias da Costa 1839 10
Francisco Domingues da Silva 1839 10
José Custódio Pereira 1839 10
Jerônimo Gonçalves Leite 1839 10
Joana Colleta da Fonseca 1839 10
João Paulo de Morais 1839 11

366
Inventariado Data Caixa
João Ribeiro de Matos 1839 11
Maria Lucia 1839 11
Tereza Cândida de Jesus 1839 11
Escolástica Theodora de Jesus 1840 11
Felicidade Perpétua de Souza 1840 11
João da Costa Rios (alferes) 1840 11
João da Silva Gago (alferes) 1840 11
Ana Francisca de Jesus 1841 12
Antônio Gonçalves Vallim 1841 12
Antônio Soares de Alvarenga 1841 12
Felisberto José da Silva 1841 12
Felizardo José Boeno 1841 12
Francisco Luís de Oliveira 1841 12
Francisco Silvério Teixeira (capitão) 1841 12
João Bernardes Pinto Magno 1841 12
João Carlos de Oliveira 1841 12
Liberato José Tiburcio 1841 12
Manoel da Costa Torres 1841 12
Manoel Gonçalves Leite (alferes) 1841 12
Manoel Lopes de Figueiredo 1841 12
Manoel Pinto de Andrade (tenente coronel) 1841 12
Maria Rita Vieira 1841 12
Rita Angélica Zeferina 1841 12
Zeferino José De Brito Lambert (capitão) 1841 13
Ana Josefa Dias 1842 13
Ana Luiza de Resende 1842 13
Antônio Coutinho da Nóbrega 1842 13
Antônio Rodrigues de Souza 1842 13

367
Inventariado Data Caixa
Felipe Alves Vieira 1842 13
João Bernardes da Costa Barros 1842 13
Mafalda Ananias de Jesus 1842 13
Maria Felicia Pereira 1842 13
Maria Joaquina 1842 13
Maria José Pereira 1842 13
Rita de Cassia Lopes 1842 13
Thereza Clara Rosa da Silva 1842 13
Thereza de Jesus 1842 13
Vicente Ferreira Damaceno Sales e sua Mulher 1842 13
Umbelina Cândida de Sales
Ana Joaquina de Jesus 1843 14
Ana Luiza de Resende 1843 14
Ana Ricarda de Alexandria 1843 14
Antônio Ribeiro de Nazaré 1843 14
Francisco Gonçalves Lima (capitão) 1843 14
Francisco José de Sales 1843 14
João Cristovão da Chagas 1843 14
João Francisco Duarte 1843 14
Joaquim da Silva Campos 1843 14
Joaquim Gonçalves Teixeira 1843 14
Joaquim José Rabelo (alferes) 1843 14
José Antônio da Fonseca 1843 14
José Ribeiro e Francisca Cândida Ribeiro 1843 14
Luiza Amalia de Lemos 1843 15
Manoel Gonçalves de Souza 1843 15
Manoel Teixeira de Melo (capitão) 1843 15
Maria Xavier da Silva 1843 15
Miguel Arcanjo de Ataide (alferes) 1843 15

368
Inventariado Data Caixa
Rita Lopes de Jesus 1843 15
Severino Eulogio Ribeiro De Resende (coronel) 1843 15
Thome Gonçalves de Souza e sua Mulher Madalena 1843 15
Francisca de Jesus
Valeriano Caetano Rodrigues 1843 15
Ana Bárbara 1844 16
Ana Joaquina de Jesus 1844 16
Ana Vitória de Jesus 1844 16
Domiciano Correia de Carvalho 1844 16
Domingas Alves Paredes 1844 16
Ignacio Alves Negrão 1844 16
Januario Tavares Da Silva 1844 16
João Borges Leite 1844 16
José Bento Ferraz Ribas 1844 16
José de Carvalho Mourão 1844 16
Jose Joaquim Carneiro de Miranda Costa 1844 16
(desembargador)
Maria Domingues da Silva 1844 16
Maria Escolástica de Araujo 1844 16
Maria Luiza de Almeida 1844 16
Maria Thereza de Jesus 1844 16
Rita Marcelina de Oliveira 1844 16
Sabino Antônio de Castro (Capitão) 1844 16
Ana Maria da Conceição 1845 17
Ana Victoria De Jesus 1845 17
Antonio Borges da Fonseca 1845 17
Antônio José de Freitas 1845 17
Antônio Ribeiro de Mattos 1845 17
Clara Maria do Carmo 1845 17

369
Inventariado Data Caixa
Domingos Antônio Ferreira 1845 17
Francisco Ferreira de Toledo 1845 17
Francisco Xavier de Sales 1845 17
Inácia Maria de Jesus 1845 17
Luís Mariano da Silva 1845 17
Manoel Gonçalves Leite 1845 17
Manoel Joaquim Fagundes 1845 17
Ana Inácia 1846 18
Ana Joaquina dos Reis 1846 18
Ana Rodrigues da Silveira 1846 18
Antônio Joaquim Gomes 1846 18
Bárbara Jesuína Ferreira 1846 18
Clementina Cândida de Jesus 1846 18
João Bueno da Silva 1846 18
João da Mata Ferreira 1846 18
João Gomes do Nascimento 1846 18
Joaquim Vieira da Silva 1846 18
José Antônio da Silva 1846 18
José de Souza Lima (vigário) 1846 18
Luís Antônio Xavier dos Reis 1846 18
Maria Bernardes Pinto 1846 18
Maria Joaquina de Carvalho 1846 18
Maria Marcelina do Espírito Santo 1846 18
Rafael Vieira dos Anjos 1846 18
Ana Esmeria da Cunha 1847 19
Caetana Maria de Jesus 1847 19
Francisco Borges Xavier (guarda-mor) 1847 19
Gaspar José de Paiva (sargento mor) 1847 19

370
Inventariado Data Caixa
Geraldo Moreira Neves 1847 19
José Jacinto Pereira de Magalhães 1847 19
José Manoel do Nascimento 1847 19
José Pedro Xavier de Sales (capitão) 1847 19
Luiza Maria de Jesus 1847 19
Manoel Cassiano Fernandes 1847 19
Manoel Faustino Vieira 1847 19
Manoel Vitorino Teixeira 1847 19
Mariana Francisca de Jesus 1847 19
Mariana Joaquina Paredes 1847 19
Maria Pereira Caxeta 1847 19
Salvador Francisco do Prado 1847 19
Theodora Placidina de São José 1847 19
Ana da Piedade Castro 1848 20
Ana Joaquina de Toledo 1848 20
Antônio Alves Moreira 1848 20
Domingos Gonçalves de Souza 1848 20
Escolástica Maria de Jesus 1848 20
Fortunato Moreira de Souza 1848 20
Francisca de Paula 1848 20
Francisco Alves Silva (capitão) 1848 20
Jerônimo Pereira Lagos 1848 20
Joaquina Jesuína do Nascimento 1848 20
Josefa Maria de Moraes 1848 20
José Joaquim dos Reis 1848 20
José Teixeira Portes 1848 20
Leonardo Alves de Mello 1848 20
Luiz José de Paiva 1848 20

371
Inventariado Data Caixa
Narciso Quaresma de Carvalho 1848 20
Ana Andreza dos Santos 1849 21
Ana Francisca das Neves 1849 21
Ana Joaquina do Espírito Santo 1849 21
Antônio Amaro Gonçalves de Brito 1849 21
Antônio Caetano de Souza 1849 21
Antônio Manoel Xavier 1849 21
Beraldo José Pereira 1849 21
Escolástica Joaquina 1849 21
Feliciana Maria do Nascimento 1849 21
Francisco Pinto Ribeiro 1849 21
Gabriel Alves de Moraes 1849 21
João Antônio Rodrigues 1849 21
João Teixeira de Mendonça 1849 21
Joaquina Alves Paredes 1849 22
José Joaquim Bueno 1849 22
Manoel João de Castilho 1849 22
Maria Bento Carneiro 1849 22
Maria Constancia das Dores 1849 22
Maria Luiza da Silveira 1849 22
Maria José do Nascimento 1849 22
Maria Mathias 1849 22
Maria Thereza de Jesus 1849 22
Rita Maria de Jesus 1849 22
Simão Boeno da Silva 1849 22
Vitória Fidencia Cassimira 1849 22
Ana Joaquina de Jesus 1850 23
André Rodrigues de Faria (capitão) 1850 23

372
Inventariado Data Caixa
Antônio Coelho 1850 23
Francisco Antônio Xavier 1850 23
Francisco de Paula de Carvalho Pinto 1850 23
Inácio José Bueno 1850 23
Isabel Francisca de Jesus 1850 23
José de Melo Ferrao 1850 23
José Teixeira Rios 1850 23
Manoel Borges da Costa 1850 24
Maria do Carmo de Jesus 1850 24
Maria Escolástica 1850 24
Olinda Delfina de Oliveira 1850 24
Rodrigo Antônio de Lemos 1850 24
Thereza Maria de Jesus 1850 24
Vicente Gonçalves de Castilho 1850 24
Ana Francisca do Carmo 1851 25
Ana Joaquina de Jesus 1851 25
Ana Silveria de Jesus 1851 25
Antônio Ferreira Martins 1851 25
Antônio Martins Coelho 1851 25
Bento Antônio dos Santos 1851 25
Domingos de Oliveira Carvalho 1851 25
Francelina Cândida de Jesus 1851 25
Jerônimo José de Sousa 1851 25
João Luís de Araujo Ribeiro 1851 25
Joaquina Maria do Espírito Santo Moraes 1851 25
Luís Gonzaga Branquinho (alferes) 1851 25
Manoel da Luz Duarte 1851 25
Ana Vitória Lina de Jesus 1852 26

373
Inventariado Data Caixa
Ana Zeferina de Almeida 1852 26
Angélica Clara dos Santos 1852 26
Bárbara Maria de Jesus 1852 26
Esméria Maria de Jesus 1852 26
Florentina Flávia da Silva 1852 26
Francisca das Chagas de Oliveira 1852 26
Francisca de Paula Xavier 1852 26
Francisco Alves Fagundes 1852 26
Francisco Antônio de Azevedo 1852 26
Francisco Ribeiro de Jesus 1852 26
Joana da Silva Goulart 1852 26
João Antônio Azevedo 1852 26
João de Abreu Armeno Coutinho 1852 26
João Evangelista da Fonseca 1852 26
João Ferreira Martins 1852 26
João Moreira de Oliveira 1852 26
João Pereira da Fonseca e sua Mulher Narcisa Maria 1852 26
de Jesus
Jose Alves de Gusmão 1852 27
Josefa Maria de Jesus 1852 27
Manoel Francisco Marques 1852 27
Manoel Joaquim Correa 1852 27
Manoel Rodrigues da Costa (alferes) 1852 27
Maria Aurea Diniz 1852 27
Maria Eufrasia Marins 1852 27
Maria Genoveva Hermelinda 1852 27
Maria Herculana Lustoza Pimentel 1852 27
Maria Joaquina Pereira 1852 27
Maria Magdalena do Nascimento 1852 27

374
Inventariado Data Caixa
Mariana Felicia do Nascimento 1852 27
Romana Maria de Oliveira 1852 27
Vitoriano Jose de Souza 1852 27
Ana Hipolita da Silveira 1853 28
Ana Luiza de Souza 1853 28
Ana Theodora de Andrade 1853 28
Candido Jose de Araujo Pinto 1853 28
Constancia Lopes de Figueiredo 1853 28
Francisca Teresa Conceição 1853 28
Francisco Gonçalves Neto 1853 28
Isabel Caetana de Novaes 1