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USO DE ARTIFÍCIO PIROTÉCNICO PARA DESMONTE DE ROCHA EM

ZONAS URBANAS DE ALTA COMPLEXIDADE – PORTO ALEGRE – RS

Rudolf G. Schaarschmidt 1; João Paulo Zanette Oppermann 2; Luciano Barsé 3;


Enrique Munaretti 4; Jair Carlos Koppe 5

Resumo – Esse estudo de caso foi conduzido em duas obras civis de alta complexidade no
município de Porto Alegre – RS, Brasil. A sensibilidade dos locais devido à zona residencial
densamente povoada exigiu o uso de artifício pirotécnico como solução viável para a execução
das escavações necessárias. Toda complexidade somada às características geológicas do local
descartaram as outras maneiras de fragmentação existentes, sendo pela dureza do material a
desmontar inviabilizando a fragmentação mecânica ou ainda em virtude da proximidade das
edificações e questões de licenciamento, o que dificultava o uso de explosivos. Dessa forma, o
uso de artifício pirotécnico figura como uma alternativa para o desmonte de rocha. Para garantir a
integridade das estruturas, monitoramentos sismográficos foram realizados em todas as
fragmentações durante o desenvolvimento das atividades. Foram considerados os resultados da
vibração em termos de PPV (peak particle velocity), frequências (Hz) e sobre-pressão acústica
(dBL), assim como ultralançamento de fragmentos para fora da área de operação através de
filmagem de cada uma das aplicações conforme rege a norma NBR 9653:2005 para desmontes
em áreas urbanas. Os resultados, tanto quanto a fragmentação, como aos efeitos provocados por
vibração ou ruído, são demonstrados a seguir.

Abstract – This case study was conducted in two civil works of high complexity in Porto Alegre -
RS, Brazil. The sensitivity of the sites due to densely populated residential area required the use of
pyrotechnic devices as a viable solution for the implementation of the necessary excavations.
Because of the rock hardness, mechanical excavation was not possible, as well as explosives due
to proximity of constructions and licensing. Thus, the use of pyrotechnic devices figures as an
alternative to the regular rock blasting. To ensure the integrity of structures, seismographic
monitoring were performed in all activities, the results of vibration have been considered adequate
in terms of PPV (peak particle velocity), frequency (Hz) and acoustic over-pressure (dBL). In
addition no flyrock was observed and the standard NBR 9653: 2005 for urban areas was
respected. The results, as well as fragmentation, as the effects caused by vibration or noise, are as
follows
Palavras-Chave – Artifício pirotécnico; Desmonte; Vibração; Ambiental.

1
Eng. de Minas, Projemine Mineração e Meio Ambiente: Carlos Barbosa – RS, (51) 9920-0081, rudolf@projemine.com
2
Eng. de Minas, Nitro Representações: Porto Alegre – RS, (51) 8423-7054, jotapezeo@yahoo.com.br
3
Eng. de Minas, Msc, Projemine Mineração e Meio Ambiente: Carlos Barbosa – RS, (51) 9838-9929, luciano@projemine.com
4
Eng. de Minas, PhD, Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre - RS, (51) 3308-9484, enrique@ufrgs.br
5
Eng. de Minas, PhD, Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Porto Alegre - RS, (51) 3308-9481, 00002146@ufrgs.br
15º Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia e Ambiental 1
1. INTRODUÇÃO

Cada vez mais se faz necessário a busca pelo melhor aproveitamento dos imóveis para
edificações em zonas urbanas de grande densidade populacional de modo a suprir a demanda de
moradia ou mesmo intervenções urbanas para satisfazer o abastecimento de água, saneamento,
energia e gás. O setor de construção civil vem crescendo e realizando muitas escavações,
inclusive em rocha, sendo então necessário o uso de explosivos. Infelizmente em muitas
situações o uso de explosivos em áreas urbanas tem causado desconforto e incomodação,
principalmente em situações criticas de muita proximidade a estruturas. Nesses casos, os
chamados “artifícios pirotécnicos” surgem como uma alternativa interessante, pois diferentemente
do mecanismo tradicional dos explosivos que funciona com onda de choque e expansão de gás,
estes são propelentes que utilizam somente a ação de expansão de gás. O sistema descrito
nesse estudo é um dispositivo gerador de gás em alta velocidade, não necessita autorizações
junto ao Exército Brasileiro e é classificado como artificio pirotécnico industrial 1.4S UN 0432 e
nível de controle 3. Possui como principais características: a baixa velocidade de queima (abaixo
de 450 m/s) ocasionando reduzido deslocamento de ar e ausência de onda de choque.
O controle de vibração e ruído ocasionado pela fragmentação de rochas no uso de qualquer
tipo de desmonte, seja mecânico ou com emprego de explosivos, é imprescindível para preservar
a integridade do meio físico no entorno. Sendo assim, no uso dos “artifícios pirotécnicos”, essa
metodologia também se faz necessária e foi adotada em todos os testes realizados. Segundo a
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), os limites de vibração são determinados
através da NBR 9653:2005, onde constam os limites de velocidade de partícula de pico ou peak
particle velocity (PPV) em função da frequência correspondente (Figura 1). Para frequências de
pico de 4 a 15, a PPV vai de 15 a 20 mm/s; Para frequências de pico de 15 a 40 Hz, a PPV limite
vai de 20 a 50 mm/s; Para frequências acima de 50 Hz o limite de PPV é constante de 50 mm/s.
Deve, no entanto, qualquer forma de fragmentação respeitar tal Norma.

Figura 1. Representação dos limites de velocidade de vibração de partícula de pico por


faixas de frequência (ABNT 9653:2005).

2. LOCALIZAÇÃO

As duas obras civis onde ocorreram os testes foram realizadas em zona urbana no
município de Porto Alegre-RS, sendo uma drenagem urbana do Departamento de Esgotos
Pluviais (DEP) e uma subestação de energia da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE).
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A primeira obra descrita aqui se refere a trincheira escavada em rocha para canalização de
água em atendimento a condomínio localizado na rua Atílio Superti, onde os pontos mais críticos
de incomodação eram residências e uma escola. O trânsito de veículos foi interrompido durante a
obra em virtude da largura da trincheira, porém a passagem de pedestres ocorreu de forma
normal.
Na segunda obra foi necessária escavação em rocha para instalar uma subestação que
hoje atende mais de 30 mil clientes da CEEE. O trânsito nessa situação não chegou a ser
interrompido, porém pontos críticos próximos consistiram de posto de combustível, bar, casa
noturna, prédio residencial, restaurante, além de gasoduto. A própria construções das edificações
da subestação representavam um ponto de preocupação durante a escavação.

3. METODOLOGIA

A aplicação do artifício pirotécnico segue características que fogem do plano de fogo


convencional sugeridos por Konia (1995) ou Oloffson (1990). Sendo seu espaçamento e
afastamento menores, não existe o conceito carga de coluna e é baixa a razão de carga. O modo
de iniciação se dá por uma descarga elétrica que inicia cartuchos de forma instantânea
deflagrando a todos de uma só vez. Este artifício pirotécnico, de uso técnico, é composto pela
mistura de propelente de baixa velocidade de deflagração. São comercializados em forma de
cartuchos cilíndricos com diâmetro de 32 milímetros e foram utilizados cartuchos de 100 e 200
gramas de 20 e 33 cm de comprimento, respectivamente, nos testes realizados.
Foram monitorados a vibração e ruído com sismógrafos tipo White Seis Mini Seis® (Figura
2). O sensor de vibração foi fixado no solo (geofone) a uma profundidade de 15 cm de acordo com
a Norma Brasileira NBR 9653:2005. O geofone capta velocidades de vibração de partícula nas
três direções perpendiculares, longitudinal, vertical e transversal conforme solicitado pela norma.
Um microfone é instalado em uma haste, fixa no solo com 1 m de altura para medir sobre pressão
acústica. O desmonte de trincheira foi realizado sob uma cobertura de terra de modo a minimizar
chance de ultralançamento. Os dados registrados foram armazenados na memória interna do
equipamento, sendo posteriormente analisados no software Seismograph Data Analisys V 11.

Figura 2. Instalação do sismógrafo Mini Seis próximo à trincheira.

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4. RESULTADOS OBTIDOS E ANÁLISE DOS DADOS

4.1. Drenagem urbana - Trincheira


Este desmonte de trincheira de 2 metros de largura, 40 m de comprimento e profundidade
média de 2 m ocorreu em granito utilizando artifício pirotécnico Pyroblast-C. A remoção dos
fragmentos foi feita com escavadeira hidráulica. Um ponto de monitoramento foi definido em área
considerada mais próxima às residências e sujeita aos efeitos da geração de ondas sísmicas,
onde então se procedeu à coleta de informações ocorrida entre 29 de outubro a 28 de novembro
de 2014. Foram realizadas 13 aplicações num total de 466 furos com diâmetros de 42 a 45 mm. A
profundidade média dos furos foi variável de acordo com cada aplicação entre 1,1 e 2,2 m e uma
razão de carga média de 0,767 kg/m3. O total de material desmontado foi de aproximadamente
155 m3. A Figura 3 mostra detalhes da trincheira com as últimas aplicações ocorrendo a cerca de
10 metros de uma escola de ensino fundamental. O trânsito de pedestres foi interrompido
somente no momento do acionamento das cargas.

40 metros

2 metros

Figura 3. Localização da trincheira.

Conforme os monitoramentos realizados, nota-se na Figura 4 que todos os registros de


velocidades de vibração de partícula nas três direções perpendiculares, longitudinal, vertical e
transversal atendem a NBR9653. É visível que a faixa de frequências está, normalmente, entre de
30 a 130 Hz, o que permite trabalhar com maiores PPV’s e em consequência, maior carga
máxima por espera sem ocasionar danos às residências e estruturas próximas.

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PPV versus Frequência - SINTRA-DEP
100
VELOCIDADE DE PARTÍCULA (mm/s)

LIMITES
VV
10
VL
VT

1
1 10 100 1000

FREQUÊNCIA (Hz)

Figura 4. Valores de velocidade e frequência segundo ABNT 9653 referentes às aplicações da


obra de drenagem urbana.

Quanto a sobre pressão acústica, o maior valor registrado foi de 124 dBL a 9,9 metros de
distância. Todos os outros 13 registros apresentam valores inferiores a 116 dBL com distâncias
variadas de 7 a 24 metros. A profundidade da rocha fragmentada pode ser visto na Figura 5.

Profundidade de

Rocha Fragmentada

Figura 5. Profundidade da rocha fragmentada.

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4.2. Obra de escavação para subestação
Nesta obra era necessária a fragmentação de granito em maciço rochoso com dimensões
de cerca de 7 m de largura, 18 m de comprimento e até 2,8 m de altura com remoção dos
fragmentos através de escavadeira hidráulica. O ponto de monitoramento foi definido em área
considerada próxima a um muro já danificado (Figura 6) na divisa do terreno onde ocorreram as
escavações entre os dias 20 de fevereiro e 28 de março de 2015.

Figura 6. Muro danificado com registro fotográfico realizado


anteriormente às aplicações.

A empresa contratada para a obra optou por um artifício pirotécnico exatamente pela
proximidade de edificações como uma casa noturna, a própria subestação em funcionamento,
posto de combustível, prédio residencial, além de gasoduto (Figura 7).
Foram realizadas 36 desmontes com artifício pirotécnico num total de 470 furos com
diâmetros de 42 a 45 mm. A profundidade média dos furos foi variável de acordo com cada plano
de aplicação com valores entre 1,1 e 1,6 m. A razão de carga média foi de 0,325 kg/m3. O total de
material desmontado in situ foi de aproximadamente 230 m3 de granito.

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18 metros

7 metros

Figura 7. Localização da subestação.

Pode-se notar na Figura 8 que todos os registros de velocidades de vibração de partícula


nas três direções perpendiculares, longitudinal, vertical e transversal atendem a NBR 9653. A
faixa de frequências está entre 55 a 256 Hz.

PPV versus Frequência - ALTUS-CEEE


100
VELOCIDADE DE PARTÍCULA (mm/s)

LIMITES
VV
10
VL
VT

1
1 10 100 1000

FREQUÊNCIA (Hz)

Figura 8. Valores de velocidade e frequência segundo ABNT 9653 referentes às aplicações da


obra da subestação.

Quanto a sobre pressão acústica, o maior valor registrado foi de 128 dBL a 4 metros de
distância em um total de 36 registros com distâncias variadas de 3 a 21 metros. O resultado da
fragmentação pode ser visto na Figura 9.

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1,6 metros

Figura 9. Resultado da fragmentação.

5. CONCLUSÕES

Através dos diversos monitoramentos sismográficos realizados em duas obras envolvendo


alta complexidade, é possível perceber a importância do artifício pirotécnico como alternativa para
evitar danos irreversíveis em edificações ou outros meios físicos e a integridade das pessoas,
além do ruído e lançamento de fragmentos. Com isso, a execução dessas obras pode se tornar
viável dentro dos grandes centros urbanos e locais de grande sensibilidade às vibrações e a
segurança.
As altas frequências ligadas às características da rocha fragmentada possibilitam trabalhar
com velocidades de pico de partícula de até 50 mm/s, pois em faixas de 40 Hz em diante aquelas
são as PPV’s permitidas. Os resultados de vibração obtidos foram inferiores aos limites da norma
NBR9653 em todas as aplicações monitoradas, mantendo-se sempre as mesmas cargas máximas
por espera após os primeiros registros.

REFERÊNCIAS

KONIA, C.J., 1995, “Blasting Design”. Intercontinental Development Corporation, Montville, Ohio,
USA.
NBR 9653:2005, “Guia para avaliação dos efeitos provocados pelo uso de explosivos nas
minerações em áreas urbanas”, Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), Rio de
Janeiro, RJ.
OLOFSSON, S. O., 1990, “Applied Explosives Technology for Construction and Mining,
Pennsylvania, USA.

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