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O triunfo dos Direitos Humanos (09 de Agosto de 2018)

Pensar direitos humanos assim como direitos naturais é pensar em um elemento de um projeto de
sociedade e de um projeto de civilização, e de um projeto também de direito. Como a gente irá
pensar um direito que transcendi as fronteiras dos países, das regiões e os particulares culturais. Isso
tem muita coisa a ver com os direitos naturais.

Obs: Quando a gente estudou o jusnaturalismo moderno a pretensão de filósofos como Locke, por
exemplo, era pensar direitos com a estrutura semelhante às figuras geométricas. Nessa mesma
estrutura de pensamento, os direitos começaram a ser concebidos na modernidade como os direitos
universais que teriam eficácia em todo lugar, que seriam produtos da razão, a razão produziria esses
direitos, a razão universal iria produzir esses direitos. E os direitos humanos são descendentes dessa
tradição ai porque pensar em direitos naturais modernos é pensar em um projeto moderno, é pensar
também em iluminismo. Tudo isso tem haver com direitos naturais, tudo isso tem haver com a
genealogia dos direitos humanos.

Direitos humanos são também um discurso, e um discurso que transcende, que esta pra alem da
velha dicotomia entre direita, esquerda, ele une os dois ideais. É utilizado como discurso de
dominação para impor os valores de um país sobre o outro, é imposto para sub julgar inclusive para
propagandear guerras e mortes. No século XX foi um século que mais se falou de direitos, mas foi
também um século onde mais os direitos foram violados, teve e experiência do holocausto e diversas
outras experiências que todos sabemos muito bem. Trata-se de um ideal que é pregado por ambas as
partes, tanto pelos incidentes rebeldes, como por dominantes, os capitalistas.

Outro ponto que precisamos entender é que pensar em direitos humanos é pensar em tipo de
propriedade, que pressupõe a existência de um sujeito e como esse sujeito se pensa e se importam.

Relembrando: Porque que a escola histórica teve a necessidade de afirmar o aspecto passional e
obscura da alma humana! Porque o projeto iluminista afirmava que o sujeito é algo racional, sujeito
racional, propriedade racional, algum sujeito livre com capacidade de se alto determinar, escolher e
fazer suas escolhas e se alto determinar, é um sujeito absolutamente responsável pelas suas ações.
Quando estudamos em direito penal o principio da individualização da pena, percebemos que este
principio afirma que a pena não passa pela pessoa do condenado, porque ele é responsável por
aquilo que ele praticou. Isso são idéias que está ligada a tradição do iluminismo isso porque o sujeito
é racional, escolhe a vida que tem, tem condições de se alto determinar independentemente das suas
condições sociais de existência.

Outra característica do projeto moderno além do sujeito racional que existe até hoje no direito penal
também de forma não muito demonstrada, temos a dicotomia entre razão e mito. Um dos grandes
princípios que caracteriza o iluminismo é justamente a dicotomia entre razão e mito. A perspectiva
mitológica do mundo tem uma característica muito própria, que é contar a existência da humanidade
não a partir do que vai acontecer, mas a partir do que aconteceu. O rito de Adão e Eva tentam contar
a nossa existência a partir do passado, do que aconteceu. O mito de pandora também, é um mito que
tenta contar a existência do mundo a partir do que aconteceu, é sempre um olhar retrospectivo lá
para trás. E a perspectiva da razão segundo o projeto iluminista é justamente o oposto da perspectiva
mitológica porque ela exige que a gente pense na nossa existência não tanto olhando para trás, mas
olhando para frente, olhando para perspectiva de progresso, olhando para aquilo que a razão, aquilo
que o conhecimento pode fazer por uma sociedade, construindo uma sociedade melhor através da
ciência, a partir do conhecimento.
O iluminismo defende a perspectiva da razão contra a perspectiva mitológica porque o que vai
interessar para o projeto iluminista é justamente explicar a existência humana e a humanidade a
partir do progresso, que a razão pode propiciar a descoberta da ciência. E o discurso dos direitos
humanos faz parte desse projeto racional. O discurso dos direitos humanos que mencionamos acima
está ligado aos discursos naturais universais. E isso aponta justamente para a possibilidade de futuro.

Pensar nos direitos humanos nos obriga também a entender como se dá a passagem dos direitos
naturais clássicos para os direitos naturais modernos. Pensar em direitos naturais não é pensar em
conceitos que foram o mesmo durante toda a historia, ele passou por modificações. Se a gente, por
exemplo, pensar direito natural em Aristóteles vai ser diferente. Para Aristóteles o direito natural é
aquele que tem eficácia em todo lugar, mas Aristóteles é empirista. O direito natural tem eficácia em
todo lugar porque a partir da observação da experiência humana, que todo mundo produza aquela
mesma pratica é que conseguiríamos chegar à conclusão de que é um direito natural, porque é
natural! Porque tem eficácia em todo lugar, mas sempre a partir da realidade, nunca a partir da razão.

Na idade média o direito natural está ligado aos direitos divinos, à vontade de Deus. Se pegarmos
dois grandes pensadores medievais como Santo Thomas de Aquino e Santo Agostinho iremos
encontrar duas perspectivas clássicas do direito natural. Pra Santo Agostinho a justiça não é algo
desse mundo, é sempre algo da “cidade de deus”, a justiça seria algo de outro mundo, seria a justiça
divina nesse caso. E o que seria o direito na nossa sociedade, na sociedade dos homens! Seria uma
mera imitação da justiça divina que existe em outro mundo. Então o direito na cidade dos homens é
algo sempre falho da verdadeira justiça que existe em outro mundo que é na cidade de deus. Então
para Santo Agostinho não existe dialogo de continuidade entre o direito natural e o direito dos
homens, que existe uma separação que jamais vai ser vencida porque nós homens somos
condenados pelo pecado original e nada que o homem faça pode fazer com que essa situação mude.
Para Santo Agostinho os homens bons que iam ganhar a salvação estariam condenados a perambular
pelo mundo até conseguir entrar na cidade de deus. O mundo é a constituição para Santo Agostinho
da soma de todos os pecados de todas as falham que cometemos diariamente. Então pensar em
cidade dos homens para Santo Agostinho é pensar em corrupção. Para Santo Agostinho o direito
servia para controlar libido, apenas isso. O direito no mundo dos homens jamais será justo, ele vai
servir apenas para controlar o desejo humano.

São Thomas de Aquino que tem outra perspectiva do direito natural clássico encontramos uma
continuidade entre o direito natural e a sociedade humana. O mundo inteiro para São Thomas de
Aquino reflete uma ordem nacional. O mundo inteiro reflete o equilíbrio e existe para Thomas de
Aquino um equilíbrio entre direito (que é a ordem criada pelos homens) e a ordem criada por Deus,
que está no topo, segundo ele. A igreja iria conseguir mediar a mensagem de deus, trazer a
mensagem de Deus. A igreja seria como uma repetição do céu no mundo dos homens e a função do
estado é justamente obedecer aquilo que a igreja determina.

O estado jurídico na concepção de Tomás de Aquino tem como alicerce o mundo divino, isto é, uma
concepção metafísica, o papel fundamental da igreja seria interpretar (de forma teológica-
hermenêutica) os mandamentos divinos e aplica-los a realidade, ou seja, a igreja era a
intermediadora (intérprete) entre a mensagem de Deus para com os a ordem na terra.

O direito natural moderno tem como foco a cognoscibilidade, aqui o direito não está mais atrelado a
conceito de empiria (a prática filosófica grega) e nem ao mandamento divino, mas diretamente a
razão, ao ceticismo. Os direitos naturais modernos aqui são declarados universais, inalienáveis e com
eficácia erga omnes. O direito natural aqui é entendido como a libertação do sujeito, aqui a
concepção que temos do homem é que ele está mais livre, tem mais direitos diferentes da Idade
Média, onde ele tinha limitações divinas, o sujeito aqui se configura mais livre, no entanto, o único
limite dele é o direito alheio.

A ideia inicial no que diz respeito aos cárceres é a de ressocialização do sujeito, isto é, resgatar o
sujeito humano e traze-lo novamente ao convívio social. As constituições carcerárias modernas têm
como norteador a ideia humanista, pois, o intuito de privar a liberdade do indivíduo é somente faze-
lo repensar na quebra de condutas probas e restaurá-lo eticamente. Alguns autores também já se
manifestaram sobre o tema, Foucalt em sua obra Vigiar e Punir alerta sobre o tema, no tocante das
penas capitais ele afirma que para além da morte o corpo (a parte material) também sofre mesmo o
apenado já castigado, Bentham, filósofo britânico, afirmava que a ideia do cárcere era somente
corrigir o sujeito para trazê-lo novamente ao convívio social, pois, para ele somente o corpo não se
penalizava, mas era como um processo de “purificação da alma do sujeito”, surge a ideia da
“penitenciária” (pagar penitência).

Os direitos humanos são vistos também como um produto parcial, fruto dos direitos naturais, as
revoluções modernas (a exemplo, a francesa) foram executadas pela burguesia pela necessidade do
desenvolvimento do comercio para impedir os altos impostos através do Estado, os sujeitos
precisavam de liberdade (comprar e vender) para comercializar as propriedades. Marx, irá criticar tais
direitos, pois, afirmava que estes eram produtos da burguesia. Pensar hoje nos direitos humanos
como parciais já não tem muita força, pois, os direitos humanos focam para além dessas
parcialidades, há uma neutralidade no que diz respeito aos interesses de classe.