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V.

Raymond Edman
A vida e os métodos do
evangelista mais bem sucedido
desde o apóstolo Paulo.
»
O nome de Charles Crandison Finney se destaca
entre os dos maiores evangelistas de todos os
tempos por uma razão: CERCA DE OITENTA
POR CENTO DAS PESSOAS CONVERTIDAS
EM SEU MINISTÉRIO PERMANECERAM FI­
ÉIS NAS IGREJAS!
Enquanto nós, atualmente, prolongamos os apelos
para que “mais uma pessoa se decida”, Finney,
muitas vezes, se recusava a fazer apelo enquanto
as pessoas não estivessem profundamente conven­
cidas de pecado. Enquanto esta convicção ia-se
formando, o evangelista, às vezes, fazia uma “leve
concessão” e permitia que os pecadores mais des­
pertados se assentassem no “banco dos ansiosos”
durante as reuniões.
Mas, embora fosse comedido nos apelos, não
perdia oportunidades para falar de Cristo. Onde
quer que ele fosse, sua presença era marcada por
despertamentos e por um reavivamento espiritual.
Numa época como a nossa, em que a palavra
“reavivamento” quase que perdeu seu significado,
e as decisões são deixadas de lado com a mesma
facilidade com que foram tomadas, a vida e os
métodos de Finney, compilados e comentados por
um outro homem de Deus, V. Raymond Edman,
agora falecido, são leitura imprescindível.

Editora Beídnia
Cx. Postal 10 — 30.000 Venda Nova, MG
Cx. Postal 21.477 - 01.000 São Paulo, SP
Cx. Postal 1165 ZÇ-00 - 20.000 Rio de Janeiro. RJ

6006
DESPERTAMENTO:
ACIENCIA
DE UM
MILAGRE
V.Raymond
Edrnan

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Título do original em inglês:
Finney Lives On
Copyright © 1951 by Scripture Press Foundation
Tradução de W. S. Goldsmith
Terceira edição brasileira, revisada — janeiro de 1975
As duas edições anteriores foram
publicadas com o título
Finney Vive Ainda
Todos os direitos reservados pela
Editora Betânia S/C
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30.000 Venda Nova, MG
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permissão por escrito dos editores.
Composto e impresso nas oficinas da
Editora Betânia S/C
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Belo Horizonte (Venda Nova) MG
Printed in Brazil
Índice

Prefácio: O Reavivamento em Nossos D ia s..................7

PARTE UM: O HOMEM


1 — O Penitente O ra.....................................................9
2 — O Pregador Aprende............................................. 23
— A Plenitude do Espírito
— Oração Vitoriosa
— Obedecer É Melhor que Sacrificar
— O Trabalho Tem Suas Tristezas
— A Necessidade de um Coração Sensível
3 — As Multidões Revivem ......................................... 43
— O Fogo do Avivamento em Outras Terras
— Rochester: O Relato de Finney
— Finney Visto por um Contemporâneo
PARTE DOIS: OS MÉTODOS
4 — Como Acontecem os Avivamentos..................... 61
— A “Ciência do Avivamento”
— Quando Há Necessidade de Avivamento
' — A Mensagem do Avivamento
— Os Bancos e o Púlpito
— Testemunho Pessoal
5 — O Preço do Avivamento...................................... 95
— Se nos Humilharmos
— Se Orarmos
— Se Formos Cheios do Espírito
6 — Os Perigos do Avivamento.................................121
— Um Avivamento Pode Ser Impedido?
— Os Novos Métodos
— São Inevitáveis os Excessos?
— Conselhos Enganosos.

Conclusão......................................................................161

S
Prefácio

O REAVIVAMENTO EM NOSSOS DIAS


Este volume sobre Finney foi escrito e compilado por
um homem de coração abrasado e cônscio de sua grande
responsabilidade.
Há um anseio por dias de avivamento, por refrigério
do alto, por “dias de céu sobre a terra”, conforme o que
lemos acerca da experiência do povo de Deus em dias
passados.
De tudo que tenho lido sobre reavivamento, nada
achei que se igualasse às Preleções Sobre Reavivamento,
de Finney. Essas Preleções, constituem' lições que o servo
de Deus aprendera em dias quando dezenas de milhares
recebiam um conhecimento salvador do Senhor Jesus.
Não conheço. nada que fale tão profundamente ao
coração, nada mais pungente e poderoso, e que satisfaça
tanto, quanto estas mensagens de Finney.
Contudo, as preleções, na sua forma original, são por
demais longas e pormenorizadas, com muito material
notadamente fora de época: extensas referências às
“Novas Luzes” e “Velhas Luzes” , a personalidades e
controvérsias já inteiramente esquecidas. Decidi-me,
então, por uma condensação das Preleções Sobre Reavi­
vamento, em que toda a substância do ensino de Finney
fosse preservada, nas próprias palavras dele. Teríamos
assim, uma espécie de “Reader’s Digest” condensado em
forma sumária e concisa, facilmente acessível ao povo de
Deus. E foi com um coração abrasado e cônscio da
grande responsabilidade, que a condensação foi prepara­
da e é aqui apresentada. Às Preleções Sobre Reaviva-
7
mento adicionei um estudo biográfico de Finney, de
modo a termos o evangelista e a sua mensagem no seu
próprio ambiente histórico.
Este livro é publicado e enviado a todas as partes,
com ardente intercessão para que seja lido e implicita­
mente obedecido, de modo a haver um REAVIVAMEN-
TO EM NOSSOS DIAS!

V. R. EDMAN
"Westgate”
Wheaton College
Wheaton, Illinois

8
Parte um: O Homem

CAPÍTULO 1

O Penitente Ora

Finney vive ainda!


Esteve muito ativo durante sua longa carreira de
oitenta e quatro anos, e o crepúsculo da vida achou-o
ainda com notável vivacidade mental e vigor espiritual.
A maioria dos quadros ainda correntes do grande
evangelista apresenta-nos um senhor bem maduro, que
aparentava ainda mais anos do que sua idade já
avançada, em virtude da barba inteira que ostentavam os
cavalheiros americanos do meado do século dezenove. A
meu ver, porém, devemos rememorá-lo nos dias da sua
pujança, incansável entre seus trinta e quarenta anos,
destemido entre quarenta e cinqüenta, abrasado entre
cinquenta e sessenta, quando era o profeta de fogo do
avivamento nas- colônias florestais e cidade litorâneas da
América, e além-mar na Grã-Bretanha.
Como jovem, foi o típico rapaz americano: com
um metro e oitenta e oito de altura, afeito aos trabalhos
árduos da fazenda pioneira, rude e atlético, filho das
matas e também das águas. Era um exímio atirador e,
mesmo em idade já avançada, ele ainda gostava de caçar
na floresta e no campo aberto. Os conhecimentos
marítimos adquiridos a bordo dos pequenos barcos à
vela no lago Ontário foram-lhe muito úteis mais tarde na
vida, principalménte por ocasião de uma visita que fez ao
Mediterrâneo em um pequeno brigue, cujo capitão,
embriagado, Finney teve de substituir. Escreveu-se a
respeito de Finney: “Quando tinha vinte anos, excedia,
em toda espécie de trabalho e esporte, a todo homem ou
9
moço que enfrentava. Ninguém o derrubava, ninguém
lhe arrancava o chapéu, ninguém o vencia na corrida, no
salto de distância ou de altura, ninguém lançava a bola
com mais força ou precisão.”
Seu pai, Sylvester Finney, era fazendeiro e veterano
da Guerra Revolucionária. Finney nasceu a 29 de agosto
de 1792 em Warren, Condado de Litchfield, Estado de
Connecticut. Embora não fosse bandeirante, pertenceu à
geração dos agricultores pioneiros da Nova Inglaterra
que se voltaram das áreas mais populosas da “terra de
costumes firmes” para se aventurarem nos sertões do
centro do Estado de Nova York, então apenas parcial­
mente desbravados.
Em carros de bois e carroças cobertas, os soldados da
Revolução, com suas famílias, cruzaram o rio Hudson
para campos ainda por conquistar, e com eles, quando
Charles tinha a idade de dois anos, foi a família Finney
para o Condado de Oneida no mesmo Estado de Nova
York. Ainda seguindo aquela onda de migrações, mu-
dou-se para Kirkland e mais tarde para as proximidades
do Porto de Sackett, nas margens do lago Ontário.
Finney foi, portanto, herdeiro do espírito e tradição de
fronteira que formou americanos fortes naqueles tempos
•rudes e agrestes. Nele se percebem os traços de indepen­
dência e autoconfiança, de otimismo, fortes convicções,
engenho, não-conformismo com padrões e praxes artifi­
ciais, e a consciência do destino americano, característi­
cos da fronteira. Era absolutamente democrático em seu
modo de encarar a vida: tinha confiança no critério do
povo para resolver seus próprios assuntos, e, depois de
convertido, sustentou vigorosamente que o governo deve
ser conduzido no temor de Deus. *
A instrução que adquiriu nas escolinhas locais
construídas com toras de madeira e no Instituto Hamil­
ton de Oneida, ainda que muito deixasse a desejar,
representava o aproveitamento máximo, por parte do
jovem Finney, das oportunidades que se lhe depararam.
Durante alguns anos lecionou em escolas rurais nos
Estados de Connecticut e Nova Jersey, o que provou ser
um excelente preparativo para o seu ministério posterior

10
como ensinador da Palavra entre os homens. Dissuadi­
ram-no de ir para a Universidade de Yale, embora já
fosse adiantado nos clássicos, alegando-lhe que podia
aprender por iniciativa própria a essência do programa
universitário. Era amante da música, e investiu seus
primeiros proventos em um violoncelo, do qual se tornou
exímio instrumentista.
Antes de seus vinte e seis anos resolveu seguir a
advocacia. Assim, em 1818 entrou como aprendiz para o
escritório jurídico do Juiz Benjamim Wright, em Adams,
Condado de Jefferson, Estado de Nova York. Com seu
costumeiro zelo e dedicação, Finney aplicou-se com
afinco a seus estudos de direito, bem como à vida social
da comunidade; após um período de dois anos, foi
admitido aos tribunais e se tornou sócio da firma jurídica
do juiz. A carreira jurídica oferecia grandes possibilida­
des nos primeiros decênios da República Americana: a
nação estendia-se para o oeste; o comércio e a indústria
multiplicavam-se; os fazendeiros tinham tempos bons e
outros não tão bons; um advogado tinha diante de si
oportunidade de alcançar grande sucesso. Finney era um
advogado de ação e um bom profissional.
Até os vinte e nove anos, o professor e advogado deu
pouca atenção a assuntos religiosos. Seus pais não se
interessaram pelo evangelho, e pouca ou nenhuma
instrução religiosa deram aos filhos. Vez por outra,
Finney assistia a um culto, porém achava os sermões
vazios de vida e interesse, e os que ouviu quando
lecionava em Nova Jersey eram em língua alemã. Ele
mesmo afirmou: “Quando fui para Adams estudar
direito, eu era quase tão ignorante no campo espiritual
quanto um pagão. Fora criado principalmente na mata.
Reverência pelo domingo eu não tinha quase nenhuma,
nem conhecimentos nítidos das verdades religiosas.’’
Em Adams ele ouviu pela primeira vez a prédica de
um ministro culto, o Reverendo George W. Gale,
formado na Universidade de Princeton. O jovem pastor e
o jovem advogado tornaram-se amicíssimos, apesar de
não se compreenderem um ao outro. Gale era discípulo
da “Velha Escola” e sua posição teológica só se podería

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classificar como “ultra-calvinista” . Finney nada sabia
ainda sobre teologia sistemática. Em seus estudos de
direito, deparara com muitas citações bíblicas, principal­
mente da lei mosaica, o que o levou a comprar para si
uma Bíblia, que tinha começado a ler com interesse,
porém com pouca compreensão. As conversas do prega­
dor com o advogado deixaram este mais mistificado do
que esclarecido. Para um homem da agudeza mental de
Finney, parecia-lhe que muitas perguntas ficavam sem
resposta e muitos termos sem definição. Finney escreveu:
“Que queria ele dizer com arrependimento? Seria um
simples sentimento de tristeza pelo pecado? Seria um
estado inteiramente passivo da mente, ou havería nele
um fator voluntário? Se era mudança de pensamento, em
que sentido o era? Que queria ele dizer com o termo
regeneração? Qual o sentido dessa palavra quando era
aplicada a uma mudança espiritual? Que queria ele dizer
com fé? Seria um estado puramente intelectual? Seria
uma simples convicção ou persuasão de que as afirma­
ções do evangelho eram verdadeiras?”
As perguntas do advogado permaneciam sem respos­
ta, e sua perplexidade se tomava ainda maior, diante da
aparente incoerência entre as orações dos crentes e a
falta de respostas. A ele, lhe parecia que oravam sem
esperar nenhuma resposta, e isso apesar das promessas
encontradas nas Escrituras. Suplicavam por um aviva-
mento, porém nada acontecia. Com perspicácia caracte­
rística comentou com alguns de seus vizinhos: “Desde
que assisto a estas reuniões, vocês têm orado o suficiente
para expulsar daqui de Adams o diabo, se é que há poder
em suas orações. No entanto, vocês ainda continuam
orando e se lastimando.” Finney iria aprender mais tarde
que há muitas questões que não se resolvem com uma
simples definição de termos, nem com destreza de
argumentos, mas tão-somente por meio do conhecimento
pessoal do Senhor Jesus Cristo, em quem estão escondi­
dos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.
Então compreendería que “o temor do Senhor é o
princípio da sabedoria” .
Entretanto, a experiência de Finney deve nos servir

12
como aviso de que pode haver muitos interessados
sinceros que deixam de encontrar o caminho porque nós,
seus amigos crentes, não encaramos de frente seus
problemas e suas perplexidades. Dogma sem definição
de termos pode significar ausência de vida; teologia sem
raciocínio pode ser confusão; linguagem bíblica sem a
iluminação do Espírito pode ser “cheiro de morte que
leva à morte” . Nossa terminologia pedante ou linguagem
bombástica, levará o descrente ponderado antes à
confusão do que à conversão.
A despeito das dificuldades intelectuais que não
puderam ser dissipadas pelo pregador ou seus paroqui-
anos, Finney acabou chegando à convicção de que a
Bíblia era a verdadeira Palavra de Deus. “Resolvida essa
dúvida (acrescenta) achei-me a braços com o dilema de
aceitar a Cristo conforme é apresentado no evangelho, ou
de seguir um curso de vida mundano. Nesse período,
segundo pude compreender mais tarde, o Espírito Santo
estava trabalhando em meu coração de tal modo que eu
não podia adiar por muito tempo essa questão, nem
hesitar demoradamente entre os dois modos de vida que
se me apresentavam.”
A narrativa da conversão de Finney assemelha-se em
muitos sentidos à de Saulo de Tarso. Na verdade, Finney,
em contraste com o discípulo de Gamaliel, não possuía
instrução religiosa, nem se opunha ao evangelho; porém,
ambos foram homens maduros, vigorosos, enérgicos,
inteligentes, inquiridores, alertas, dinâmicos e de fortes
convicções. Em ambos os casos a conversão foi radical,
uma reviravolta completa no modo de vida anterior.
Parece que ambos chegaram a acarear-se com o Salvador
e, então, quebrantados no orgulho humano e na auto­
confiança, saíram da sua transformadora experiência
com Cristo, para se tornarem ganhadores de almas.
Como o grande apóstolo, Finney não encontrou de início
inteira aceitação entre os seus, e parece ter passado um
ano e meio a dois anos em uma experiência espiritual
semelhante à do apóstolo na Arábia, aprendendo, em
semanas e meses de quietude, o evangelho pelas Escri­
turas.

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Em muitas ocasiões o Apóstolo Paulo relatou como­
vido a experiência do seu encontro com o Salvador às
portas de Damasco; semelhantemente Finney jamais
esqueceu a alegria do momento em que chegou ao
conhecimento salvador do Senhor Jesus. Devemos deixar
que ele conte sua própria história, cuja narração, por si
só, constitui um clássico. Ei-la:
Certa tarde de domingo, no outono de 1821, tomei a
decisão de resolver de vez a questão da salvação de
minha alma e, caso fosse possível, reconciliar-me com
Deus, Como, porém, andava ocupadíssimo no gabinete,
eu sabia que jamais conseguiría resolver de modo efetivo
aquele assunto, a não ser que a ele me aplicasse com
grande firmeza de propósito. Tomei pois, naquela hora,
a resolução de pôr de lado, até onde fosse possível, todo o
meu serviço e tudo quanto pudesse distrair-me a atenção,
dedicando-me exclusivamente ao trabalho de assegurar a
salvação da minha alma. Levei a cabo essa resolução com
o rigor e decisão que m efòi possível. Eu era obrigado a
permanecer bastante tempo no gabinete, porém, por
providência de Deus, não fu i muito procurado na
segunda nem na terça-feira, de modo que pude ler minha
Bíblia e ocupar-me em oração durante a maior parte do
tempo.
Nesses dois dias minhas convicções aumentaram,
porém me parecia que meu coração se endurecia mais.
Não derramava uma lágrima; não podia orar. Minha
oração não passava de um sussurro, e de vez em quando
sentia que, se pudesse estar sozinho em um lugar onde
erguesse a vóz e me sentisse em liberdade, encontraria
alívio na oração. Tornei-me esquivo, evitando, o quanto
podia, falar com quem quer que fosse sobre qualquer
assunto. Procurei, entretanto, fazer isso sem levar
ninguém a desconfiar que eu estava em busca da
salvação da minha alma.
Na noite de terça-feira eu já estava muito nervoso, e
durante a noite me veio uma estranha impressão, como
se estivesse prestes a morrer. Eu sabia que, se morresse,
estaria no inferno, porém me acalmei o quanto pude até
o amanhecer.

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Saí cedo para o escritório. Pouco antes de chegar, fu i
desafiado com perguntas— na verdade, parecia que elas
vinham de dentro de mim, como se uma voz interior me
dissesse: “Que está esperando? Não prometeu seu
coração a Deus? Por que se esforça? Está querendo
alcançar a justiça por si mesmo?"
Nessa alturaK abriu-se diante do meu pensamento
todo o plano de Deus para a salvação do homem, de uma
forma que achei muitíssimo maravilhosa naquela hora.
Parece-mè que vi, então, tão claramente como nunca na
minha vida, a realidade e plenitude da obra expiatória de
Cristo. Vi que era uma obra consumada; que, em lugar
de ter ou precisar de alguma justiça minha para
recomendar-me a Deus, eu tinha de submeter-me à
justiça de Deus por intermédio de Cristo. A salvação
apresentou-se-me como uma oferta a ser aceita; era
plena e completa, e nada mais era necessário da minha
parte senão obter meu próprio consentimento para
abandonar meus pecados, e aceitar Cristo. A salvação —
assim me parecia agora — ao invés de ser conquis­
tada pelas minhas próprias obras, devia ser encon­
trada somente em Jesus Cristo, que se apresentava
diante de mim como meu Deus e meu Salvador.
Sem o perceber claramente, eu tinha parado na rua
no momento em que a voz interior pareceu intimar-me.
Quanto tempo permanecí naquela posição, não posso
precisar; mas depois que aquela revelação nítida ficara já
algum tempo diante da minha mente, pareceu que me fo i
dirigida a pergunta: “Você o aceitará agora, hoje?" Res­
pondí: “Sim, hei de aceitá-lo hoje, ou hei de morrer na
tentativa."
No alto da colina ao norte da povoação havia um
bosque, no qual eu costumava caminhar quase diaria­
mente quando o tempo estava ameno. Como agora
começava o inverno, já tinha passado o tempo dos meus
passeios mais frequentes ao local. Contudo, em lugar de
ir para o escritório, voltei-me e caminhei em direção ao
bosque, pois sentia que precisava estar a sós, longe de
todo o olho e ouvido humano, para que eu pudesse
derramar meu coração na presença de Deus...

15
Quando, porém, tentei orar, verifiquei que meu
coração não queria orar. Eu supusera que, se ao menos
pudesse estar em um lugar onde, falando em voz alta,
não fosse ouvido por ninguém, eu podería orar livremen--
te; mas eis que, quando tentei, estava mudo, ou seja, eu
nada tinha a dizer a Deus; quando muito, pude proferir
umas poucas palavras, e mesmo assim, de forma
mecânica. Quando tentava orar, parecia-me ouvir um
crepitar das folhas; parava e olhava para ver se alguém
vinha chegando. Isso aconteceu várias vezes.
Por fim me senti chegando às raias do desespero.
Disse a mim mesmo: ‘‘Não posso orar. Meu coração está
morto para Deus e não quer orar. ” Reprovei então a mim
mesmo, por ter prometido entregar meu coração a Deus
antes de sair do bosque. Quando tentava, verifiquei que
não conseguia entregar o coração a Deus. Minha alma no
íntimo detinha-se; não havia movimento do meu coração
em direção a Deus. Comecei a sentir profundamente que
era tarde, que eu devia ter sido abandonado por Deus e
que não havia mais esperança para mim.
Angustiava-me ao pensar na imprudência da minha
promessa, de entregar o coração a Deus naquele dia ou
morrer na tentativa. Pareceu-me que aquele voto com­
prometia minha alma, entretanto não ia cumpri-lo. Veio
sobre mim um profundo desânimo e desalento; senti-me
fraco para me manter ereto sobre os joelhos.
Nesse momento preciso, pareceu-me novamente estar
ouvindo a aproximação de alguma pessoa, e abri os olhos
para verificar. Então me fo i revelado claramente que o
orgulho de meu coração era o grande obstáculo que me
entravava o caminho. Um senso esmagador da minha
vileza, em me envergonhar de que um ser humano me
visse de joelhos perante Deus, apoderou-se de mim de tal
modo que gritei a plenos pulmões, bradando que não
sairía do lugar ainda que me cercassem todos os diabos
do inferno. “O quê" — disse — "um pecador miserável
como eu, de joelhos confessando meus pecados ao
grandioso e santo Deus, com vergonha de que um ser
humano, pecador como eu mesmo, me encontre de
joelhos buscando a paz com Deus a quem ofendi?!” O

16
pecado pareceu-me terrível, infinito. Quebrantou-me
perante o Senhor.
Nessa altura, raiou na minha mente esta passagem da
Escritura, como se fora uma enchente de luz: “Então
ireis e a mim dirigireis a vossa oração, e eu vos ouvirei.
Então me buscareis e me achareis, quando me buscardes
de todo o coração." Imediatamente o meu coração se
agarrou a essa palavra. Eu já cria intelectualmente na
Bíblia, porém nunca a minha mente alcançara a verdade
que a fé era uma confiança voluntária e não um estado
intelectual. Naquele momento eu estava tão consciente de
ter confiado na veracidade de Deus, quanto o estava de
minha própria existência. De certa forma eu sabia que
aquela era uma passagem da Escritura, embora eu não
tenha consciência de a ter lido antes. Sabia que era a
Palavra de Deus e, por assim dizer, a voz de Deus que me
falava. Clamei: "Senhor, apego-me ao que dizes. Sabes
que na verdade eu te busco de todo o coração, e que aqui
vim para clamar a ti; e prometeste ouvir-me."
Isso parecia encerrar a questão de que eu podería,
naquele dia, cumprir meu voto. O Espírito pareceu dar
ênfase a esta idéia no texto: “quando me buscardes de
todo o coração". A questão de quando, ou seja, do tempo
presente, pareceu entrar-me fundo no coração. Falei ao
Senhor que me apegava à sua palavra; que ele não podia
mentir, e que por isso eu tinha certeza de que ele me
ouvia a oração e havia de ser achado por mim...
Caminhei calmamente em direção ao povoado. Tão
perfeita era a calma da minha mente que me parecia que
toda a natureza escutava. Foi no dia 10 de outubro,
numa bela manhã. Eu fora para o bosque logo após o
café, que tomara muito cedo; quando voltei à povoação,
verifiquei que era a hora do almoço. Eu, porém, estivera
de todo inconsciente da passagem do tempo; parecia que
tinha estado pouco tempo ausente da aldeia...
Fui almoçar, mas não tinha apetite. Fui então para o
escritório; Dr. W. tinha ido almoçar. Tirei meu violonce­
lo e. como estava acostumado afazer, comecei a tocar e
cantar algumas peças de música sacra. Porém, quando
cantava aquelas palavras inspiradas, começava a chorar.

17
Parecia que meu coração estava derretido; era tal o meu
estado emocional que não podia ouvir minha própria voz
cantar sem que a minha sensibilidade extravasasse.
Admirei-me disso e procurei reprimiras lágrimas; porém,
não pude. Então guardei o instrumento e porei de cantar.
Depois do almoço estivemos muito ocupados transfe­
rindo nossos livros e móveis para outra sala, de modo que
quase não houve conversa durante a tarde. A minha
mente, porém, permanecia naquele estado de profunda
tranquilidade. Havia grande doçura e ternura em meus
pensamentos e sentimentos. Tudo me parecia correr
bem; nada me perturbava ou incomodava.
Pouco antes de terminarmos, um pensamento tomou
conta de mim: assim que eu me achasse a sós no novo
escritório, procuraria orar novamente; não iria me
descuidar da vida espiritual, de modo algum, e portanto,
embora não tivesse mais ansiedade pela minha alma, eu
continuaria a orar.
Até à noitinha estávamos com os livros e móveis
arrumados; acendi um bom fogo na lareira aberta,
esperando passar sozinho as horas noturnas. Ao anoite­
cer, o Dr. W., vendo que tudo estava arrumado, deu-me
boa-noite efoi para casa. Eu o acompanhei até a porta;
ao fechá-la e voltar-me, meu coração parecia estar
derretido dentro de mim. Todos os meus sentimentos
pareciam surgir e transbordar, e a expressão do meu
coração foi: ‘‘Quero derramar a minha alma diante de
Deus.' ’Foi tal o arrebatamento da minha alma, que corrí
para o quarto atrás do escritório, para orar.
Não havia fogo, nem luz no quarto; contudo pareceu-
me que estava perfeitamente claro. Ao entrar e fechar a
porta atrás de mim, pareceu-me que encontrei o Senhor
Jesus Cristo face a face. Não me ocorreu naquela hora,
nem por algum tempo depois, que aquilo tudo se passara
na minha mente. Ao contrário, parecia-me vê-lo como
veria a qualquer homem. Ele nada disse, porém olhou
para mim de tal modo que me levou a prostrar-me a seus
pés. Desde então, sempre considerei isso uma experiên­
cia mental formidável; pois parecia-me realidade, que
ele estava em pé diante de mim, e eu me prostrei a seus
18
pés e derramei perante ele a minha alma. Chorei alto
como criança, e fiz as confissões que pude, com meu
falar engasgado. Pareceu-me que lhe banhei os pês com
minhas lágrimas; contudo não tive a impressão clara de
tocá-lo, pelo que me lembro.
Devo ter permanecido bastante tempo assim, mas a
minha mente estava demasiado absorta pela entrevista
para que eu possa recordar algo do que lhe disse. O que
sei é que, assim que minha mente se acalmou o bastante
para interromper a entrevista, voltei ao escritório e
encontrei quase totalmente consumida a lenha grossa
com que eu fizera ofogo na lareira. Ao voltar-me, porém,
no intuito de sentar-me à beira do fogo, recebi um
poderoso batismo do Espírito Santo. Sem que o estivesse
esperando, sem que jamais mê passasse pela mente o
pensamento de que houvesse tal coisa para mim, sem ao
menos qualquer recordação de ter ouvido alguém neste-
mundo mencionar semelhante fenômeno, o Espírito
Santo desceu sobre mim de maneira que parecia
perpassar-me, corpo e alma. Pude sentir a impressão,
como uma onda de eletricidade, perpassando-me vez
após vez. De fato parecia vir em ondas e mais ondas de
amor líquido — pois não sei de outra maneira de
expressar o que senti. Parecia o próprio sopro de Deus.
Recordo claramente que parecia soprar sobre mim como
se fossem asas imensas abanando.
Não há palavras que exprimam o maravilhoso amor
que fo i derramado em meu coração. Chorei alto, de
alegria e amor; e não tenho certeza mas eu diria que
saíam aos borbotões as emoções inexprimíveis de meu
coração. Essas ondas vieram sobre mim, e vieram, e
vieram, uma após outra, até que, lembro-me, bra­
dei: “Morrerei, se estas ondas continuarem a vir
sobre mim." Eu disse: "Senhor, não suporto mais";
contudo, não tinha medo da morte.
Não sei quanto tempo continuei nesse estado, com
esse batismo continuando a envolver-me e perpàssar-me.
Sei que já era tarde quando um dos componentes do meu
coro veio falar comigo — pois eu era dirigente do coro.
Ele era membro da igreja. Encontrou-me nesse estado de

19
pranto #perguntou: “Sr. Finney, que há com o senhor?”
Durante algum tempo não pude responder. Ele então
perguntou: “O senhor está sentindo dor?" Dominando-
me da melhor forma que pude, respondí “Não; porém
tão feliz que nem posso viver..."
Dormi logo, mas quase em seguida acordei de novo
por causa do grandefluir do amor de Deus que havia em
meu coração. Estava tão repleto de amor, que não podia
dormir. Logo dormi de novo, e acordei do mesmo modo.
Quando acordava, vinha sobre mim a tentação da dúvida
e arrefecia o amor que parecia estar no meu coração;
assim que dormia, porém, sentia o seu calor dentro de
mim, de maneira que tomava a despertar. Assim conti­
nuei até que, altas horas, consegui repousar tranquila­
mente.
Quando acordei pela manhã, o sol já tinha saído e
derramava sua claridade no quarto. Palavras não podem
exprimir a impressão que essa luz do sol me fez.
Imediatamente o batismo que eu recebera na noite
anterior voltou sobre mim do mesmo modo. Ergui-me de
joelhos sobre a cama e chorei alto de alegria; permanecí
algum tempo de tal maneira arrebatado pelo batismo do
Espírito, que nada podia fazer senão derramar a minha
alma diante de Deus. Pareceu-me que esse batismo
matinal era acompanhado de suave censura; o Espírito
parecia perguntar-me: “Duvidarás?” Clamei: “Não!
não duvidarei; não posso duvidar.” Ele então esclareceu
aquele assunto em minha mente de tal modo, que era
impossível duvidar de que o Espírito de Deus controlava
todo o meu ser.
Enquanto eu estava assim, pude entender a doutrina
da justificação pela fé como experiência real. Este
assunto nunca tomara posse da minha mente ao ponto de
eu considerá-lo distintamente como doutrina fundamen­
tal do evangelho. Realmente, eu nem mesmo compreen­
dia seu verdadeiro significado. Agora, porém, eu perce­
bia o que significava a passagem: “Sendo justificados
pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus
Cristo. ” Pude ver que, no momento em que cri, lá no
bosque, todo o senso de condenação desaparecera

20
completamente do meu pensamento, e que, a partir
daquele momento, eu não conseguia, por nenhum
esforço, reaver um senso de culpa ou condenação. O
sentimento de culpa se desvanecera; foram-se os meusr
pecados, e não acho que eu tinha mais senso de culpa do
que teria se nunca tivesse cometido pecado.
Era exatamente essa a revelação de que eu precisava.
Senti-me justificado pela fé, e, pelo que podia ver,
achava-me em estado no qual eu não pecava. Ao invés de
sentir que eu estava pecando sem cessar, meu coração
estava tão cheio de amor que transbordava. Meu cálice
transbordava de bênção e de amor, e eu sentia que não
estava mais pecando contra Deus. Além disso, nunca
mais tive o menor sentimento de culpa pelos pecados que
já cometera. Dessa experiência, pelo que me recordo, eu
nada disse a ninguém na ocasião — isto é, dessa
experiência de justificação.
Charles Grandison Finney — americano — jovem
agricultor — homem das matas — professor — advoga­
do — fora conduzido da incerteza e da angústia de
coração para a novidade.de vida em Cristo, para ser filho
de Deus. Sua experiência, talvez mais vivida e dramática
que a de muitos outros, ostentava os moldes da fé que
salva: a persuasão de que a salvação de sua alma era de
maior importância do que seu êxito na profissão; seu
desespero de salvar a si mesmo; o receio dos homens, que
o impedia de encarar o Salvador; o orgulho que deu
lugar à humilhação; as Escrituras que constituíam a base
da sua fé. Ele nasceu de novo pela Palavra e pelo Espí­
rito.
Justificado pela fé e cheio do Espírito de Deus, Finney
era realmente uma nova criatura, para quem todas as
coisas se tomaram novas. Sua ilimitada energia e
ambição estavam agora consagradas à pessoa do Salva­
dor e não mais a si mesmo; ao serviço de seu Mestre e
não mais aos próprios interesses; ao bem-estar de outras
almas e não mais a entesourar riquezas para si mesmo. A
lei de Deus agora superava as leis do país, por mais justas
e benéficas que fossem estas, e ele proclamava a
severidade daquela lei e o terrível juízo, conseqüência
21
inevitável para quem a transgredisse. Falava até que os
corações sentissem a própria culpa e buscassem o trono
da graça'divina. O advogado, remido e renovado, saiu a
interceder no tribunal dos corações humanos, para ali
apresentar o pecado em todo o seu horror e baixeza, e
também para mostrar a maravilhosa oportunidade de
salvação. Pelo sangue da Cruz do Calvário, o coração
carregado de pecados podia tornar-se puro como a
branca neve, tal como acontecera a ele próprio, naquele
banco silvestre de réu, onde encontrara o Salvador.

22
CAPÍTULO 2

O Pregador Aprende
Quem almejar ser um bom mestre hâ-de ser, ele
mesmo, acessível ao ensino e bem instruído. Antes de
ingressar na advocacia e se tornar cristão, Finney fora
professor rural, e, além de transmitir os conhecimentos
rudimentares às crianças sob seus cuidados, aprendera
muitas lições sobre a natureza humana. Durante seu
longo e abençoado ministério, o ex-professor foi sempre
um aprendiz das verdades profundas de Deus, como
também expositor das Escrituras e evangelista extraordi­
nário. Entre as muitas lições que veio a aprender, todas
de excepcional proveito para nós, destacam-se estas: seu
conhecimento de que a energia do Espírito de Deus está
à disposição de todo crente; que as horas particulares de
estudo e meditação são indispensáveis para o desenvolvi­
mento da vida cristã; que a oração vitoriosa transforma
as coisas e os corações; que a obediência à vontade de
Deus precisa ser imediata e sem reserva; que o serviço
abençoado geralmente acarreta a inveja e a oposição de
alguns; que o coração sempre sensível é o real segredo do
avivamento pessoal e perene.

A PLENITUDE DO ESPÍRITO

Logo no início da sua vida cristã, Finney veio a saber,


pela experiência em primeira mão, o significado destas
palavras bíblicas: “Recebereis poder, ao descer sobre vós
o Espírito Santo” , e: “Enchei-vos do Espírito”. O poder
e a plenitude da unção divina que recebera estavam sobre
23
ele desde o início de seu trabalho. Seus primeiros dias e
semanas como cristão fornecem testemunho eloqüente
do fato de que um cristão cheio do Espírito é uma luz que
arde e alumia, por mais tenebrosa que seja a sua geração.
* No dia seguinte ao da sua conversão, Finney falou
com muitos dos seus vizinhos e amigos, e pôde registrar:
“Creio que o Espírito de Deus deixou impressões
duradouras em cada um deles. Não me recordo de
nenhum com quem falei, que não se tenha convertido
dentro de pouco tempo.”
A primeira pessoa que ele viu no escritório foi seu
sócio, o Juiz Wright. Às primeiras palavras de Finney
sobre a questão da salvação, o sócio mais velho, depois de
encará-lo com espanto, baixou a cabeça, e poucos
minutos depois saiu do escritório sob profunda convicção
do Espírito de Deus. Não se converteu senão alguns dias
mais tarde, em grande parte por orgulho e por medo das
opiniões alheias, tal como no caso de Finney. Enquanto
se achava sob convicção, o juiz procurou orar em
particular, até mesmo com desespero, porém estava
resolvido que não iria ao bosque para orar. Chegou,
porém, o dia em que do bosque voltou ao escritório para
dizer: “Chegou! chegou!” e cair então de joelhos
rendendo graças a Deus. Finney acrescenta: “Relatou-
nos então a sua experiência, e por que razão não
alcançara uma esperança senão agora. Disse que, assim
que abandonou aquela resolução e foi para o bosque,
encontrou alívio; quando se ajoelhou a orar, o Espírito de
Deus veio sobre ele, enchendo-o de indizível alegria.,.”
A segunda pessoa que entrou no escritório na manhã
após a conversão de Finney foi um diácono da igreja, o
qual contratara o jovem advogado para uma causa a ser
julgada às dez horas. Disse-lhe Finney: “Estou contrata­
do pelo Senhor Jesus Cristo para advogar a causa dele, e
não poderei advogar a sua” — acrescentando então o seu
testemunho. O diácono “baixou a cabeça e, sem dar
resposta, saiu. Daí a alguns momentos, ao passar perto
dà janela, notei que o Diácono B. estava em pé na rua,
parecendo estar meditanto profundamente. Conforme
vim a saber depois, retirou-se e imediatamente entrou em

24
acordo com seu adversário. Deu-se em seguida à oração
e, dentro em pouco tempo, alcançou o nível espiritual
mais elevado que experimentara em sua vida.”
Saiu então o neo-converso às ruas da aldeia para falar
com outros a respeito da salvação de suas almas.
Pesava-lhe grandemente a urgência do evangelho. Em
sua mente não restava a menor dúvida quanto a seu
chamado para ser testemunha de Cristo e pregador do
evangelho. Passou primeiro na loja de um sapateiro
crente, que naquele momento se achava em conversa
com um moço que estava defendendo o universalismo.
Os argumentos do universalista foram imediatamente
destruídos pelo advogado recém-convertido. Sem dar
resposta, o moço retirou-se, e ao sair dali foi até o bosque
para meditar. Na mesma tarde voltou dando radiante
testemunho de fé em Cristo.
Dyrante uma visita a outros amigos, mais tarde no
mesmo dia, Finney foi convidado a dar graças pela
refeição. Um jovem que era pensionista na casa e
empregadoem destilaria de uísque, dizendo-se universa­
lista, retirou-se correndo da mesa, trancou-se em seu
quarto; saiu na manhã seguinte, crente em Cristo.
Tornou-se depois ministro do evangelho.
Sem que houvesse para isso convite de qualquer
espécie, naquela noite o povo de Adams se dirigiu à
igreja presbiteriana, e Finney com eles. Desse culto ele
escreveu: “Ninguém parecia estar disposto a abrir a
reunião, mas a casa estava repleta. Não esperei por
ninguém: levantei-me e comecei dizendo que eu agora
sabia que a fé vinha de Deus. Prossegui narrando da
minha experiência aquilo que me pareceu de mais
importância contar.” Seu testemunho, sem afetação e na
plenitude do Espírito, impressionou profundamente o
povo. Um incrédulo rebelde levantou-se, atravessou a
multidão e saiu deixando atrás o chapéu. Um advogado
saiu dizendo: “Ele é sincero, disso não há dúvida; mas
está demente, isso é claro.”
Nisso o pastor se levantou para fazer humilde
confissão de que não tivera fé para crer que Finney se
convertesse. O culto foi longo e abençoado.

25
Nò calor da sua experiência transformadora, Finney
entregou-se incansável ao testemunho do Salvador. O
trabalho estendeu-se entre todas as classes, e isso não só
através de toda a aldeia mas também pelos arredores, em
todas as direções. “Meu coração estava tão cheio que,
durante mais de uma semana, pouca disposição senti
para dormir ou comer. Parecia que eu tinha uma comida
que o mundo desconhecia. Não sentia necessidade nem
do alimento nem do sono. Minha mente estava cheia a
transbordar do amor de Deus... A Palavra de Deus tinha
maravilhoso poder; diariamente eu me surpreendia ao
verificar que umas poucas' palavras dirigidas a uma
pessoa ficavam cravadas no seu coração como uma seta.”
Pouco tempo depois, esse homem que testemunhava
de Cristo teve oportunidade de visitar sua própria casa
em Henderson. Da sua família, somente o caçula tinha
aceitado a Cristo. Finney, saudado pelo pai no portão da
casa, respondeu: “ Estou bem, meu pai, de corpo e de
alma. Mas, meu pai, o senhor já é idoso; todos os seus
filhos já são adultos e deixaram sua casa; e eu nunca ouvi
uma oração em casa de meu pai.” Ao ouvir isso, o velho
irrompeu em pranto, disse ao filho que entrasse em casa
para orar. Como resultado seus pais ficaram profunda­
mente comovidos, e pouco tempo depois se converteram.
Foi então com o irmão mais moço a um culto unionista
realizado por batistas e congregacionais do lugar. Ali o
Espírito de Deus veio com tal poder, que durante muito
tempo ninguém podia levantar-se dos joelhos, mas
somente chorar, confessar e derramar-se perante o
Senhor.
O que se verificou nesses primeiros dias da experiên­
cia cristã de Finney, da dinâmica do Espírito de Deus
sobre ele, verificou-se através de todo o seu ministério.
Em suas Memórias lemos freqüentes referências deste
tipo: "O Espírito foi derramado, e antes do fim da
semana todas as reuniões estavam abarrotadas...” A
respeito de Evans Mills, onde seu ministério público teve
início, ele relembra: "O Espírito Santo éstava sobre mim,
e me senti confiante de que, chegando a hora de entrar
em ação, eu saberia o que pregar... O Espírito de Deus

26
veio sobre mim com tal poder,’ que foi como a abertura
de fogo de uma bateria sobre eles. Durante mais de uma
hora, talvez hora e meia, a Palavra de Deus veio ao povo
através de mim, de forma a levar tudo diante de si,
conforme pude perceber.” Muito mais tarde na sua vida,
foi iniciado o trabalho em Oberlin. Desse trabalho temos
o seguinte registro: “O Espírito Santo veio sobre a
congregação de mapeira sobremodo notável. Grande
número de pessoas baixaram a cabeça, e alguns gemiam
de tal modo, que eram ouvidos por toda a casa. Em várias
partes, crentes nominais compreendiam ser falsa a espe­
rança que tinham quanto à salvação.”
É portanto perfeitamente compreensível o comentá­
rio zeloso e incisivo de Finney, feito sem cerimônia, a
respeito de seu pastor, que não soubera ajudar o jovem
advogado: “Se era de fato convertido a Cristo, deixara de
receber a divina unção do Espírito Santo que o tornaria
poderoso, no púlpito e na sociedade, para a conversão de
almas. Deixara de receber o batismo do Espírito Santo,
indispensável ao bom êxito ministerial... Sem o ensino
direto do Espírito Santo, um homem nunca fará muito
progresso na pregação do evangelho. A verdade é que, se
ele não puder pregar o evangelho como experiência
própria, apresentar aos homens a fé como matéria de
conhecimento próprio, as suas especulações e teorias
ficarão muito aquém de ser pregação do evangelho.”
Finney cedo aprendeu que, a não ser que um homem
testifique e pregue no poder do Espírito Santo, suas
palavras são vãs, vazias e sem efeito. Sem o Espírito,
Finney nada podia fazer. Nem tampouco nós o podemos.

ORAÇÃO VITORIOSA

Desde o início de seu serviço para Cristo, Finney


começou a aprender a importância e o poder da oração
incessante.,Dos primeiros dias, em Adams, pôde escre­
ver: “Eu passava muito tempo em oração; às vezes, achei
que orava, literalmente, ‘sem cessar’ . Encontrei tam­
bém muito proveito, e me sentia muito inclinado a
jejuar freqüentemente, em particular. Naqueles dias
procurava estar inteiramente a sós com Deus: geralmen­
27
te ia passeando pela mata, ou ficava na casa de reunião
ou em outro local, completamente sozinho.”
Nessas primeiras experiências de comunhão com
Deus, compreendeu o erro de ficar a olhar para dentro de
seu próprio coração e a examinar seus próprios senti­
mentos, conforme ele e seus concidadãos haviam apren­
dido. Pela introspecçâo não conseguia progresso espiri­
tual, porém voltando o olhar para o Senhor Jesus Cristo e
deixando que o Espírito operasse segundo sua vontade,
Finney encontrou bênção, instrução e orientação, de
modo que pôde dizer: “Verifiquei que não podia viver
sem gozar a presença de Deus; e, se alguma vez uma
nuvem vinha sobre mim, eu não conseguia descansar,
nem estudar, nem cuidar de coisa alguma com a menor
satisfação ou proveito, enquanto não estivesse novamente
claro o céu entre minha alma e Deus” .
Chegou a conhecer a realidade do “penoso trabalho
da alma” — a oração que se apega às promessas de Deus
a despeito de todos os assaltos do adversário. Ao saber do
desesperado estado físico da cunhada do Juiz Wright, a
qual não era crente, o encargo da oração pesou de tal
modo sobre Finney, que parecia que o havia de esmagar.
Por muito tempo ficou a sós em seu quarto, diante de
Deus, apenas gemendo e chorando, sem exprimir em
palavras o seu desejo. Por fim entregou sua carga ao
Senhor e obteve a convicção de que a doente não
morreria naquela noite, nem tampouco antes de se
converter. Não nos surpreende, portanto, a informação:
“Ela sarou, e pouco depois alcançou a salvação em
Cristo.”
Um tanto perplexo com sua experiência, Finney
consultou um cristão sincero de mais idade, que lhe
explicou pela Bíblia o sentido do “penoso trabalho da
alma” . "Muitas experiências semelhantes teve o jovem
avivalista, e mais adiante em seu ministério pôde compre­
ender com maior clareza a realidade e intensidade da in-
tercessão eficiente. Em suas Preleções Spbre Avivamento
consagrou várias mensagens fervorosas, apaixonadas
mesmo, ao assunto da oração vitoriosa, as quais devem
ser lidas com muita meditação e oração. Chegou a

28
conhecer sem sombra de dúvida os versículos que
afirmam: “Não tendes porque não pedis, ou porque
pedis mal”, e: “Muito pode por sua eficácia a súplica do
justo.”
OBEDECER Ê MELHOR QUE SACRIFICAR

Finney aprendeu que a obediência à vontade revelada


de Deus deve ser imediata, sem reservas e irrevogável. No
momento da sua conversão ele soube que era chamado
para pregar o evangelho. Quando começou a sentir a
convicção do Espírito, ocorreu-lhe que, no caso de
tornar-se um cristão, poderia ter que abandonar a
advocacia para se tornar pregador. A idéia de deixar de
exercer sua profissão, que lhe era tão cara, foi-lhe um
empecilho até que se converteu; então pôde dizer:
"Depois de ter recebido o batismo do Espírito, eu estava
plenamente disposto a pregar o evangelho. Mais do que
isso: achei-me indisposto para fazer outra coisa. Não
tinha mais desejo de exercer a advocacia... Não tinha ne­
nhuma disposição para acumular dinheiro. Não tinha
fome ou sede pelos divertimentos mundanos de
nenhuma espécie. Toda a minha mente estava ocupada
com Jesus e sua salvação, e o mundo pareceu-me de
muito pouco valor. Nada — assim me parecia — podia
competir com o valor da alma, nem algum trabalho ser
tão grato, nenhuma obra tão exaltada, quanto era o
levantar Cristo diante de um mundo que perecia.”
Quando começou seu ministério público, não pensara
ainda em buscar as aldeias maiores ou as cidades, mas
em consagrar todo seu tempo às zonas negligenciadas
dos sertões e matas. Vez após vez em suas Memórias
verificamos que não seguia nenhum plano pré-estabeleci-
do, mas era guiado de um povoado para outro,
permanecendo às vezes semanas inteiras em lugares
antes não considerados, tudo e tão-somente de acordo
com a direção do Espírito de Deus.
Pouco depois de seu casamento em outubro de 1824,
foi para Evans Mills para uma segunda série de cultos de
avivamento, pensando em voltar dentro de uma semana
a fim de levar sua esposa para o novo campo de trabalho.

29
O avivamento difundiu-se poderosamente de Evans Mills
em várias direções, de modo que o jovem pregador foi
levado a passar algum tempo em pequenos povoados
como Rio Perch, Brownsville e mais tarde Gouverneur.
Em vista disso escreveu à sua jovem esposa que não
podería voltar para buscá-la, até que o inverno terminas­
se. Não era de modo algum indiferente em seu amor
conjugal, mas consagrara-se antes de tudo ao Senhor
Jesus Cristo. Quando, por fim, viajou para buscar a
esposa na primavera de 1825, foi impedido por um
avivamento em Le Rayville, lugarejo pequenino ao sul de
Evans Mills, onde se detivera para mandar ferrar seu
cavalo. Fazia já seis meses que estava longe da esposa, e
com pouca oportunidade para troca de cartas em virtude
das condições primitivas do serviço postal naqueles
tempos, .porém, quando instado a pregar em Le Rayville
aquela tarde, foi obedientemente à escola para o culto.
Não nos admiramos, portanto, do que se seguiu.
“Enquanto eu pregava, o Espírito de Deus desceu com
grande poder sobre o povo. Tão grande e evidente foi o
derramamento do Espírito que, atendendo às súplicas do
povo, resolví pernoitar lá e pregar novamente à noite. Mas
o trabalho se expandiu cada vez mais: à noite marquei
outra reunião para a manhã seguinte, e pela manhã mais
outra para a noite. Vi logo que não conseguiría
prosseguir em busca de minha esposa, e falei com um
irmão que, se ele quisesse levar meu cavalo e trenó e ir
buscar minha esposa, eu ficaria. Assim fez, e eu
continuei pregando dia após dia, e noite após noite;
houve um poderoso avivamento.’' Esse tipo de obediên­
cia marcou o ministério longo e frutífero do evangelismo
de Finney. Para ele o centro da vontade de Deus era de
maior importância que a sociedade ou o sucesso, ou
mesmo a doçura e o aconchego do lar. O reino de Deus
tinha o primeiro lugar em seu coração.
Até o ocaso de sua vida Finney continuou na mesma
atitude de profunda entrega a toda a vontade de Deus. O
Inimigo procurou-o muitas vezes com fortes tentações,
para desviá-lo da cruz e do caminho do “Cristo crucifica­
do, porém encontrava o velho guerreiro de Deus firme na

30
sua consagração à ordem divina. A seu Pai celestial ele
podia dizer sem hesitação: “Não, nada retiro. Não tenho
motivo para retirar coisa algujna, pois em votos e
compromissos não fiz nada além do que era razoável.
Não tenho razões para retirar coisa alguma, nem tenho
vontade de fazer isso.” Por essa razão pôde testificar:
"Nada me atormentava. Eu não me entusiasmava nem
desalentava; parecia que hem a alegria nem a tristeza
podiam abalar-me. Minha confiança em Deus era
completa; minha aceitação da sua vontade, sem reservas;
minha mente, calma como o céu.” Tal obediência honra
o Altíssimo, que diz: “Àos que me honram, honrarei/’
O TRABALHO TEM SUAS TRISTEZAS
Entre as lições aprendidas pelo grande evangelista
através dos muitos anos de seu serviço, destaca-se a
verdade que um servo útil e bem sucedido na causa de
Deus atrai fatalmente a inveja e a oposição por parte de
muitos, tanto descrentes como crentes. Por parte dos
incrédulos, pode-se esperar uma reação violenta, princi­
palmente quando seus interesses econômicos ou sociais
são prejudicados pelo evangelho, ou quando sentem a
convicção do Espírito de Deus. Os Atos dos Apóstolos
nas Escrituras fornecem muitos exemplos da oposição
levantada contra Paulo e seus cooperadores, como por
exemplo no cruel espancamento e prisão em Filipos, no
motim provocado em Éfeso pelos ourives de prata cuja
indústria de ídolos estava ameaçada, e na cólera da
multidão no templo de Jerusalém.
Em Evans Mills, seu primeiro campo de trabalho,
Finney sentiu-se no dever de instar com a congregação
interessada, para que tomasse uma decisão, e quando ele
"assim os pressionou, ficaram enraivecidos, levantaram-
se em massa e saíram”. Um velho incrédulo da aldeia,
em meio a injúrias e blasfêmias, caiu da sua cadeira, em
casa, com um derrame e balbuciou suas últimas pala­
vras: “Não deixem Finney orar sobre o meu cadáver.”
Um homem violento, cuja esposa era crente, jurou que
havia de matar o avivalista, e foi ao culto com sua pistola
carregada. O pretenso assassino foi tomado de forte

31
convicção do Espírito de Deus, e no meio do sermão caiu
*do assento ao chão, gritando que estava indo para o
inferno. Alguns amigos ajudaram-no a voltar para casa.
Depois de uma noite em claro, saiu para a floresta, onde
pudesse derramar a alma diante de Deus, e lá achou o
perdão de seus pecados. Ameaças de castigos violentos e
ao mesmo tempo humilhantes eram comuns nos primei­
ros tempos da experiência de Finney, nas zonas da mata
e comunidades pioneiras; nas cidades civilizadas e aristo­
cratas do litoral leste houve repetidas tentativas de for­
mas mais refinadas de violência física. Finney chegou a
conhecer o sentido da palavra de Paulo: “Todos que qui­
serem viver piamente em Cristo Jesus sofrerão persegui­
ção.”
Muito mais sutil e perigosa era a oposição vinda de
cristãos •professos. Logo no início do seu testemunho de
Cristo em sua própria comunidade, Finney propôs à
mocidade que se unisse em uma corrente de oração pelo
avivamento e que cada um orasse ao nascer do sol, ao
meio-dia e ao pôr do sol. Depois organizou uma reunião
diária de oração, que se realizava antes do romper do
dia, resultando no surgimento de poder vivificador na
comunidade. E então, para sua tristeza, começou a saber
que os membros mais velhos da igreja o criticavam e a es­
se novo movimento entre os neo-conversos. “Tinham ciú­
me. Não sabiam explicar aquilo, e achavam que os novos
convertidos estavam-se excedendo muito na sua insistên­
cia com os membros mais velhos. Essa atitude por fim
entristeceu o Espírito de Deus.” Como é comum, e como
é triste, essa vexperiência na vida de jovens crentes
animados e zelosos. Semelhantemente, e não raro,
diferenças denomijiacionais criavam antagonismo contra
a mensagem de evangelizaçâo. Em Gouverneur, nos
primeiros tempos, Finney verificou que “logo ao irromper
o avivamento (entre os presbiterianos), atraindo a atenção
geral, os irmãos batistas começaram a opor-se. Falavam
contra, e usavam meios extremamente censuráveis para
impedir que progredisse. Isso estimulou uma turma de
rapazes a se unirem para formar uma frente de oposição
ao trabalho.” Foi preciso que o irmão Nash, companhei-
32
rapazes, até que estes começaram a quebrantar-se
perante o Senhor, e a oposição desapareceu.
Sem dúvida, a experiência mais amarga de Fínney e
seus amigos veio da oposição encabeçada por destacados
evangélicos, como o evangelista de Connecticut, Asahel
Nettleton, e o Dr. Lyman Beecher, de Boston. Nettleton
era o principal avivalista entre as igrejas presbiterianas,
calvinistas e congregacionais. Formado na Universidade
de Yale nos dias de avivamento, no período em qúe
Timothy Dwight foi reitor, trabalhou durante muitos
anos e com bons resultados em Nova Inglaterra e Nova
York. Por índole e educação, era um homem calmo, sem
pretensão e reservado. Os “novos expedientes” que se
dizia serem adotados por Finney e aos quais os críticos se
referiam desfavoravelmente no centro do Estado de Nova
York, foram para Nettleton motivo de alarma.
Dr. Bennet Tyler apresenta o problema do ponto-
de-vista de Nettleton.
"No ano de 1826 houve uma intensificação das
atividades religiosas nas regiões central e oeste do Estado
de Nova York, ocasionada principalmente pelos traba­
lhos do reverendo Charles G. Finney, um evangelista de
grande zelo e de considerável eloqüência natural. Fora
advogado, e tendo, como acreditava, se convertido a
Cristo, ingressou no ministério Com pouco estudo prepa­
ratório. Era franco, ousado e ardoroso em seus modos.
Repreendia com aspereza e grande severidade, não
somente os transgressores e os pecadores impeni-
tentes de toda a sorte, mas também os crentes professos e
os ministros do evangelho. Não raro, fazia alusões muito
diretas e pessoais em suas orações. Como resultado de
tudo isso, encontrou não somente violenta oposição dos
inimigos da religião, mas muitos cristãos e ministros
tidos como dos mais prudentes também não se dis­
puseram a apoiar seu procedimento. Outros se
tomaram seus amigos e adeptos, e, embebendo-se do
mesmo espírito, acusavam seus irmãos de frios e mortos,
inimigos dos avivamentos. ”
O ponto fundamental das críticas parece ter sido a
ousadia da pregação de Finney, a conseqüente excitação

33
entre o povo, em contraste com a calma do ministério de_
Nettleton, e também fatores como: um espírito de
denúncia que, segundo se alegava, dividia igrejas; a
intimidade na oração que, para alguns doutores em
teologia, parecia “irreverente” como, por exemplo, “a
oração em voz alta por pessoas do sexo feminino, em
assembléias mistas” e o uso do “banco dos decididos”
para onde se dirigiam aqueles que se sentiam convictos,
em busca de assistência espiritual e oração. Para
Nettleton, Beecher e outros, Finney era um inovador e
um perturbador da paz, que na opinião deles ameaçava
de destruição os avivamentos, por extravagâncias e
divisões.
Parece que muitas das informações transmitidas aos
críticos de Finney partiam de William R. Weeks, pastor
da Igreja Congregacional de Paris Hill, Nova York, o
qual defendia tão extremado determinismo na soberania
de Deus, que para ele tanto o pecado como a santidade
são produzidos por um ato direto do Todo-poderoso, e
que Deus fazia dos homens, pecadores ou santos,
segundo sua soberana vontade por um ato tão irresistível,
quanto o da própria criação. Em razão da oposição de
muitos a seus ensinos, Weeks foi obrigado a retirar-se do
presbitério da sua região, e formou sua própria associa­
ção. Era dono de uma vasta correspondência, enviando
cartas e relatórios para vários lugares. Na mesma
ocasião, começaram a aparecer impressos injuriosos
contra Finney, como por exemplo um panfleto escrito
por um membro da Igreja Unitariana em Trenton, Nova
York, de cujo conteúdo pode-se fazer uma idéia pela
primeira página, que dizia:

34
UMA LUTA DE BUNtfER HILL
1826
Entre a

“Santa Aliança" pelo Estabelecimento da Hierar­


quia e do Domínio Eclesiástico sobre a Mente
Humana

eos

Defensores da Livre Indagação, da Religião Bíbli­


ca, Liberdade Cristã e Civil.

REV. CHARLES FINNEY,


“Missionário Interno’’ e Sumo Sacerdote da Alian­
ça no Interior de Nova York.
Sede: Condado de Oneida

Quando Finney chegou a Auburn, Nova York, para


cultos de avivamento, percebeu a oposição e a espiona­
gem então realizadas. Apresentou vividamente a sua
reação, na descrição que fez da profunda operação de
Deus em sua alma:
Eu nada disse publicamente, nem mesmo (pelo que
me recordo) particularmente, a ninguém sobre o assunto,
porém dediquei-me à oração. Busquei a Deus com
grande fervor, dia após dia, para que me dirigisse,
pedindo-lhe que me indicasse o caminho do dever e me
desse graça para atravessar a tempestade.
Tamais me esquecerei da experiência que tive um dia
em meu quarto em casa do Dr. Lansing. O Senhor me
mostrou, como se fora numa visão, o que me aguardava.
Ele chegou tão perto de mim, enquanto eu orava, que
minha carne literalmente tremia nos meus ossos. Eu
tremia da cabeça aos pés com a plena consciência da
presença de Deus. De princípio, e durante algum tempo,
tive mais a impressão de estar no alto do Sinai, entre seus
trovões, do que na presença da cruz de Cristo.

35
Nunca na vida, que me recorde, estive tão ater­
rado e humilhado diante de Deus, como estive nessa ho­
ra. Contudo, ao invés de sentir desejo de jugir, sentia-me
atraído cada vez para mais perto de Deus — cada vez
para mais perto da Presença que me enchia de tão
indizível temor e tremor. Após um tempo de profunda
humilhação perante o Senhor, segUiu-se uma grande
consolação. Deus assegurou-me que estaria comigo e me
sustentaria, que nenhuma oposição havia de prevalecer
contra mim, e que eu nada tinha que fazer a respeito
desse assunto senão prosseguir no meu trabalho e
esperar a salvação de Deus.
A consciência da presença de Deus, e tudo que se
passou entre ele e a minha alma naquela hora, jamais
poderei descrever. Isso levou-me a uma inteira confiança,
a uma calma perfeita, e a sentimentos exclusiva e
perfeitamente caridosos para com todos os irmãos que
estavam errados e se levantavam contra mim. Senti-me
confiante de que tudo sairía bem; que o meu dever era de
deixar tudo com Deus e prosseguir no meu trabalho. À
medida que a procela se armava e a oposição aumentava,
nunca por um momento duvidei do resultado que teria.
Nunca me perturbou, nunca passei uma hora acordado a
pensar no caso quando, ao que se via, parecia que todas
as igrejas do país, com exceção daquelas onde eu
trabalhara, se uniríam para excluir-me de seus púlpitos.
A experiência profunda do profeta Jeremias confor­
me a descreve no capítulo 20, w. 7-12, serviu de bênção
para o perplexo, porém confiante evangelista. Mais tarde
no mesmo ano, em Troy, Nova York, Finney teve a
oportunidade de encontrar Nettleton, que era mais velho
e de larga experiência, e a respeito d a entrevista escreve:
“Naquela ocasião ele podería ter-me moldado à vontade,
porém nem uma palavra me disse sobre minha maneira
de conduzir avivaitientos, nem alguma vez me escreveu
uma palavra sobre o assunto. Manteve-se reservado, e
embora, confortae eu já disse, conversássemos sobre
alguns pontos teológicos que eram então muito discuti­
dos, ficou evidente que ele não estava disposto a falar em
avivamentos, e não permitiu que eu o acompanhasse à
reunião.”
36
O biógrafo de Nettleton afirma ter havido duas
entrevistas com Finney, visando a harmonizar os dois e
possibilitar a cooperação, mas que nelas Nettleton ficou
‘‘dolorosamente decepcionadq. Verificou que o Sr.
Finney não se dispunha a abandonar certas medidas que
ele (Nettleton) sempre considerava extremamente cala­
mitosas para a causa dos avivamentos e que evidente­
mente, não podia sancionar. Percebeu também que não
podia haver esperança de convencer o Sr. Finney de seus
erros enquanto tinha o apoio e estímulo de ministros de
alta categoria.”
Em julho de 1827, após muita troca de correspondên­
cia entre Nettleton, Beecher e outros líderes eclesiásticos,
realizou-se uma conferência em New Lebanon, Nova
York, para esclarecer todo o assunto. Beecher e Nettleton
quiseram impedir que pregadores que haviam participa­
do dos avivamentos de Finney falassem a favor dos
métodos do evangelista e dos resultados de seu ministé­
rio, porém a impugnação não foi aceita. Foi lida uma
longa e pormenorizada “carta histórica” de Nettleton,
que tinha sido enviada em forma de circular a seus
amigos e, mais tarde, publicada para confusão de
muitos. Finney contestou a veracidade de todas as
acusações feitas na carta, acrescentando: “Estão presen­
tes aqui todos os irmãos em cuja companhia tenho
realizado os trabalhos em questão, e eles sabem se eu sou
ou não culpado de .alguma dessas coisas, em suas
congregações. Se eles sabem ou acreditam que alguma
dessas acusações a meu respeito é verdadeira, que o
digam agora.”
A conferência, que não tinha caráter oficial, prepa­
rou algumas resoluções de natureza geral a respeito de
avivamentos, e foi dissolvida. Lyman Beecher em suas
Memórias declara que ele disse: “Finney, eu conheço o
seu plano e você sabe disso. Você pretende vir a
Connecticut, e levar um rasgo de fogo a Boston. Mas se
tentar fazê-lo, tão certo quanto vive o Senhor, eu o*
encontrarei na divisa do Estado, chamarei todos os
homens da artilharia, lutarei através de cada polegada
do caminho para Boston, e então o enfrentarei lá.” Da

37
sua parte Finney declara que não se recorda de nenhuma
afirmação em tal sentido, e que não tinha nem intenção
nem desejo de ir nem a Connecticut nem a Boston. No
ano seguinte um grupo de clérigos reunidos em Filadélfia
discutiu o problema e chegou à conclusão de que
mais correspondência e controvérsia só trariam prejuízo à
causa de Cristo.
A controvérsia foi motivo de grande pesar e tristeza
para Finney e também para seus críticos. Perto do fim de
sua vida, Finney afirmou: “Como, depois disso, trabalhei
extensivamente neste país e na Grã-Bretanha, e não
houve objeções a meus métodos, tem-se presumido e
asseverado que, depois da oposição levantada pelo Sr.
Nettleton e Dr. Beecher, eu me reformei, tendo abando­
nado os métodos de que eles se queixaram. Não é
verdade. Sempre e em todos os lugares tenho usado os
métodos que usei naqueles avivamentos, e muitas vezes
tenho acrescentado outros, sempre que achei convenien­
te. Não sinto que haja qualquer necessidade de reforma
nesse sentido. Se tivesse de viver minha vida novamente,
creio que, com a experiência de mais de quarenta anos
em trabalhos de avivamento, adotaria, nas mesmas
circunstâncias, praticamente os mesmos expedientes que
então empreguei.”
A crítica aos grandes homens por seus companheiros
de menor calibre está entre as circunstâncias mais co­
muns da vida. Moisés, o legislador, enfrentou a crítica
acerba de príncipes como Datã e Abirã, e mesmo de seus
próprios irmãos Arão e Miriã. O apóstolo Paulo passou
pela experiência de ver todos os cristãos da Ãsia Menor
voltarem-lhe as costas. E quem alguma vez foi mais
vilipendiado que Martinho Lutero ou João Wesley? O
santo e erudito Jonathan Edwards foi expulso da sua
igreja em Northampton depois de muitos anos de
trabalho. O Senhor Jesus sofreu a ironia mordaz de seus
irmãos e vizinhos, e bem pôde declarar que o servo não
está acima de seu Senhor. Os inimigos de Finney fizeram
muitas críticas visando diminuí-lo e provocar confusão,
tais como a afirmação ridícula de que ele se tinha na
conta de “general de brigada” do Senhor. A história teve

38
larga circulação, e se voltou de modo muito interessante
contra um que a tinha acreditado. Lewis Tappan, um
leigo unitariano de Boston e destacado comerciante,
ouviu a história da boca de um clérigo da sua igreja e
repetiu-a a seu irmão Arthur e outros na cidade de Nova
York. O irmão, um negociante que era crente fervoroso,
declarou que não era verdade, e pediu as provas, que
Lewis não duvidava que conseguiría. Quando não
apareceu prova nenhuma, apesar do oferecimento de
prêmio substancial, Lewis Tappan ficou profundamente
incomodado e desapontado. Mais tarde foi ouvir a
pregação de Finney e converteu-se. E então se tornou
“tão firme e zeloso no apoio das convicções ortodoxas e dos
avivamentos espirituais, quanto o havia sido na oposição”.
A NECESSIDADE DE UM CORAÇÃO SENSÍVEL
Entre as lições que Finney aprendeu, destaca-se a
necessidade da meditação pessoal na leitura bíblica e
oração diárias, e a necessidade contínua de uma renova­
ção no quebrantamento do coração. Antes de converter-
se, já começara a ler a Bíblia, porém, depois daquela
experiência transformadora, tornou-se ávido estudante
das Escrituras Sagradas. Sobre os seus primeiros tempos
na fé, quando perplexo por causa de dogmas que não
pareciam ter base bíblica, Finney afirmou: “Muitas
vezes ao separar-me do Sr. Gale, ia para meu quarto e
passava miiito tempo de joelhos com a minha Bíblia. De
fato, li de joelhos muitas vezes a minha Bíblia naqueles
dias de conflito, implorando ao Senhor que me desse a
sua interpretação daqueles pontos. Eu não tinha aonde
recorrer senão diretamente à Bíblia, e à filosofia ou
operações da minha própria mente, conforme reveladas
no consciente.”
Durante toda a sua vida Finney anelava profunda­
mente a comunhão com o Altíssimo e a completa
conformidade com a süa vontade. Criou-se uma oposição
a suas convicções sobre a santificação como experiência
real na vida do crente, porém Finney prosseguiu avante
com Deus. Certa vez, no inverno, quando ele estava no
Tabernáculo Broadway na cidade de Nova York e
ausente das classes em Oberlin, teve um período de
39
profundo e doce refrigério, que descreveu com fervor e
eloquência: “Depois de um tempo de profundo exame
íntimo de coração, ele me trouxe, como muitas vezes o
tem feito, para um lugar espaçoso, e me deu à alma
muito daquela divina doçura, da qual fala o Presidente
Edwards, ao contar o que ocorreu na sua experiência.
Naquele inverno, passei por um completo quebranta-
mento — tanto assim que, às vezes, por tempo considerá­
vel, eu não podia senão prantear à vista de meu próprio
pecado, e do amor de Deus em Cristo.”
Alguns anos mais tarde, quando pregava em Boston,
conforme recorda em suas Memórias:
0 Senhor renovou completamente o meu interior, e
me concedeu novo batismo de seu Espírito... Entreguei-
me a muita oração. Depois dos meus cultos à noite,
recolhia-me o mais cedo possível; levantava-me, porém,
às quatro da manhã, pois não conseguia mais dormir; ia
imediatamente para o escritório de estudo e me ocupava
em oração... Meus dias eram gastos, tanto quanto
possível, no exame das Escrituras; todo aquele inver­
no não li nada senão a Bíblia, e grande parte dela
pareceu nova para mim... Toda a Escritura me parecia
inundada de luz, e não só de luz: parecia que a Palavra
de Deus estava repleta da própria vida de Deus.
Naqueles dias veio profundo desânimo para sondar-
lhe o coração e para provar a sua consagração a toda a
vontade de Deus. Foi nessa ocasião que sua alma foi
provada na luta de uma consagração mais profunda do
que jamais experimentara e que incluiu sua esposa e seus
filhos. Através de uma entrega, absoluta e sem reservas,
a tudo quanto pudesse ser a vontade de Deus, chegou a
descansar mais profunda e perfeitamente naquela vonta­
de como jamais o fizera.
Nessa ocasião parecia que a minha alma estava
desposada em Cristo, de uma forma que eu jamais
pudera imaginar. A linguagem do Cântico de Salomão
era-me tão natural quanto meu próprio fôlego. Achei que
bem compreendia o seu estado de alma quando compôs o
cântico, e cheguei à conclusão, que ainda sustento, de
que ele o fez depois de ter-se recuperado da sua

40
ro de Finney na oração, repreendesse severamente os
apostasia. Eu tinha não somente todo o frescor do meu
primeiro amor, mas um vasto acréscimo kao rríesmo. De
fato, o Senhor me elevou de tal modo acima de tudo
quanto eu jamais experimentara, e ensinou-me tanto do
significado da Bíblia, da intimidade de Cristo, de seu
poder e sua boa disposição, que muitas vezes me
surpreendia a dizer-lhe: ‘Eu não sabia nem imaginavd
que tal coisa fosse verdade’. Compreendí então o que
significava a palavra, que ele e poderoso para fazer
infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou
pensamos’. Sim, porque naquele tempo ele de fato me
ensinou infinitamente mais do' que tudo quanto eu
jamais pedira ou pensara. Eu não tinha tido nenhuma
concepção do comprimento e da largura, da altura, e
profundidade, e da eficiência da sua graça."
Depois desse encontro com seu Mestre, nunca mais
vieram a Finney aquelas lutas, aqueles longos períodos
de oração angustiosa a respeito da vontade de Deus.
Alcançara antes uma calma e uma confiança perfeita no
cumprimento da vontade divina; chegara a dizer: “Ele
agora me capacita a descansar nele, deixando tudo
mergulhar-se na sua perfeita vontade, e isso com muito
maior prontidão do que antes da experiência daquele
inverno. Tenho sentido desde então uma liberdade
religiosa, uma alegria espiritual, um deleite em Deus e na
sua Palavra, uma firmeza de fé, uma liberdade cristã e
amor transbordante, que antes experimentara (posso
dizer) apenas ocasionalmente... Parece-me que encontro
Deus dentro de mim, de modo que posso descansar nele e
estar quieto, depositar meu coração em suas mãos,
aninhar-me na sua perfeita vontade, sem sombra de
cuidado ou ansiedade.”
Alguns anos depois veio a suprema prova de sua
confiança em Deus. Quando veio a chamada para sua
esposa, o servo de Deus pôde dizer, apesar do profundo
golpe: “Não senti murmuração, nem a menor resistência,
à vontade de Deus. Entreguei-a a Deus, sem qualquer
resistência, ao que me possa lembrar.” Ao Senhor
aprouve tornar-lhe real a felicidade inefável do céu que a
ex-companheira de sua vida agora gozava, de maneira
41
que o céu se tornou mui real e maravilhoso para o esposo
enlutado.
Finney aprendeu que parece serem poucos os que
compreendem a experiência de descansar em Deus.
"Mas na prédica, tenho verificado que em nenhum lugar
posso pregar aquelas verdades nas quais minha própria
alma se deleita em viver, e ser compreendido, a não ser
por um número muito pequeno. Nunca encontrei,
mesmo entre minha própria gente, mais do que uns
pouquíssimos que apreciassem e aceitassem aqueles
aspectos de Deus e de Cristo, e da plenitude de sua livre
salvação, nos quais minha alma ainda se nutre e deleita.”
Finney foi sempre homem do povo, porém em sentido
mais amplo, um homem de Deus. Estava quase que
constantemente entre o povo para testificar-lhes da graça
salvadora de Deus, para ajudar e ensiná-los; ao mesmo
tempo seu próprio coração se encontrava aconchegado
ao Altíssimo. Sempre agindo e avançando a serviço de
seu semelhante, achava-se também de modo real em uma
comunhão íntima com Deus, o que enchia sua própria
alma de temor, admiração e poder. Seu espírito hauria as
fontes ocultas da salvação — como o justo do Salmo
primeiro, que, tendo seu prazer na lei do Senhor e nela
meditando de dia e de noite, se tornou como a árvore
plantada junto à corrente das águas.
O rude regime da vida infundiu-lhe antes maior
doçura do que azedume. As duras lições do ódio humano
para com o evangelho e aqueles que o proclamam
impeliram-no aos joelhos e à Bíblia, para ali encontrar o
conhecimento do Crucificado que, nos dias de sua carne,
fora homem de dores e que sabia o que é padecer. Como
seu Mestre, Finney foi amado por muitos, e também mal
compreendido e vilipendiado por outros. A notícia falsa
não o intimidava, nem a má compreensão o atordoava.
Estava sempre aprendendo, sempre prosseguindo avante
com Deus, persuadido, como o apóstolo, de que “nem
olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou
em coração humano o que Deus tem preparado para
aqueles que o amam; mas Deus no-lo revelou pelo
Espírito...”

42
CAPÍTULO 3

As Multidões Revivem
Quando Finney se converteu com a idade de vinte e
nove anos, nunca até então tinha visto um avivamento
nem assistido a um culto de evangelizaçâo. Na verdade,
antes de ir para Adams, com vinte e seis anos incomple­
tos, assistira a bem poucos cultos religiosos. Tão
dinâmica e transformadora foi a sua experiência de fé em
Cristo, que ele se tornou imediatamente uma testemunha
do Salvador, primeiro entre seus vizinhos e amigos,
depois em sua família; e depois de um ano ou mais de
trabalho pessoal, unido a muita oração e estudo bíblico,
começou o seu ministério público.
Conforme dissemos em outra parte destas páginas,
ele não tinha a intenção de ingressar formalmente no
ministério como pastor de uma determinada igreja; mas
sentiu-se chamado aos sertões negligenciados. Durante
mais de três anos trabalhou em pequenos centros de
população na parte oeste da região central do Estado de
Nova York aldeias cujos nomes já desapareceram ou
se obscureceram por completo no desenvolvimento da­
quele estado que é um império. Guiado pelo Espírito de
Deus, consagrou longos períodos de tempo a lugarejos
pequeníssimos como Evans Mills, Antwerp, Gouverneur
e Western, antes de ser chamado a Rome, Utica, Auburn
e Troy.
Depois da conferência sobre “Novos Expedientes”,
realizada em New Lebanon em 1826, Finney, atendendo
ao convite urgente de cristãos fervorosos que desejavam o
avivamento, começou a visitar grandes centros. De 1827
43
a 1829 esteve em Wilmington e Filadélfia, e no ano
seguinte realizou seus primeiros cultos de avivamento na
cidade de Nova York. Mais tarde, em 1830, dirigiu os
primeiros esforços no sentido de levar o avivamento a
Rochester, cidade que tornou a visitar em 1842 e 1855.
De cada vez sentia uma repulsa íntima pela visita a
Rochester, apesar de admirar grandemente a nova e
próspera cidade e de amar seu povo. Somente depois de
vencer seus sentimentos íntimos é que para lá se dirigia,
para a realização de grandes triunfos evangelísticos.
Parece que o Inimigo da alma humana tinha o propósito
de impedir que Finney pregasse o evangelho em Ro­
chester.
Em 1831 esteve em Nova Inglaterra, primeiro em
Providence, mais tarde convidado a Boston pelo Dr.
Lyman Beecher e outros pastores. Finney afeiçoou-se
grandemente ao “Eixo do universo”, e em quatro
ocasiões posteriores realizou prolongadas séries de reuni­
ões naquela cidadela do unitarismo. O inverno de
1841-2 tornou-se conhecido como a época do “Grande
Avivamento de Boston”, durante o qual o evangelista
batista, Ancião Jacob Knapp, e também Edward N.
Kirk, realizaram cultos de avivamento simultanea­
mente com os de Finney. Um dos problemas surgidos
durante a campanha de Boston foi o alvoroço suscitado
pelos milleritas, que estavam alarmando o povo de Nova
Inglaterra com a asserção de que a Segunda Vinda de
Cristo se daria em 23 de abril de 1843. No mesmo inverno
William Ellery Channing, célebre líder unitariano, estava
em seus dias de declínio, quando se interessou profunda­
mente pelo avivalismo de Finney. A um de seus
paroquianos manifestou o desejo de conversar com
Finney, a quem, entretanto, não chegou a ver, pois veio a
falecer em Vermont enquanto lá estava em visita. Outras
campanhas.foram realizadas em Boston em 1843, 1856-7
e 1858-9.
Voltando à cronologia: em 1832 Finney tornou-se
pastor da Capela da Rua Chatham na cidade de Nova
York, que depois se tornou o Tabernáculo da Broadway.
Foi nessa ocasião que Finney rompeu finalmente com a

44
igreja presbiteriana, que o ordenara, e o novo Tabemá-
culo da Broadway foi organizado em moldes congrega-
cionai.s. Seu pastorado continuou até 1837.
Foi durante seu ministério na cidade de Nova York
que proferiu suas PreleçÕes Sobre Avivamento, dadas
depois de ter ele passado vários meses no Mediterrâneo
recuperando a saúde. Em 1835 aceitou o convite para
ocupar a cadeira de teologia na nova universidade em
Oberlin, Ohio. As aulas eram realizadas no verão, o que
deixava o outono e o inverno disponíveis para o
ministério de Finney em Nova York.
Após ter-se demitido do pastorado em Nova York,
tornou-se pastor interino da igreja em Oberlin durante
algum tempo, além de ser professor de teologia. Mais
tarde assumiu o pastorado definitivo, e embora tivesse
que ausentar-se em frequentes campanhas evangelísti-
cas, permaneceu como pastor até 1872. Em 1851 foi
elevado à direção do Oberlin College, cargo que
ocupou durante quatorze anos. Quando em 1865 ele
deixou a administração, o educandário crescera tanto em
número como em influência, a despeito do período difícil
da Guerra entre os estados. Houve campanhas de
avivamento em regiões tanto novas como antigas dos
Estados Unidos: Cleveland, Cincinnati, Detroit, Hart­
ford e Syracuse, além de novas visitas a muitos lugares
onde fizera campanhas anteriores. Por duas vezes Finney
realizou extensos trabalhos nas Ilhas Britânicas, primei­
ro em 1849-50 e mais tarde, em 1858-9. Nesta última
ocasião ele foi à Grã-Bretanha com esperança de que a
dinâmica tremenda dos avivamentos de 1857 e 1858 nos
Estados Unidos se transmitisse para além do Atlântico,
expectativa que não deixou de concretizar-se.
Pode-se justificar a afirmação de que Finney foi o
avivalista número um dos Estados Unidos? Nenhuma
narrativa de sua vida, por breve e limitada que seja, deve
omitir inteiramente algum relato dos avivamentos verifi­
cados sob sua direção. Suas Memórias apresentam um
relato amplo e muito interessante das campanhas e
fazem de sua autobiografia um sucesso perene de
livraria. Eis alguns dos pontos altos de seus trabalhos,
em lugares pequenos e grandes.
45
Com o mínimo de preparo oficial, mas com muito
estudo bíblico e oração, Finney iniciou seu ministério em
Evans Mills e Antwerp, pequenas comunidades no norte
do Condado de Jefferson, Estado de Nova York. O
historiador eclesiástico, Sweet, em seu livro Revivalism in
America, resume o advento de Finney ao cenário
americano com a declaração: “Evans Mills e Antwerp
eram comunidades rudes e agrestes, mas imediatamente,
com a pregação vivida do ex-advogado, uma onda de
avivalismo começou a varrer toda a região. Finney
pregava ao ar livre, em paióis, em escolas, e assim
começou uma das carreiras mais notáveis da história do
avivalismo moderno.”
O recém-consagrado missionário pioneiro começou
seu trabalho com relativamente pouca saúde; porém nas
viagens a cavalo, os trabalhos incessantes no serviço de
Deus, e o evangelismo dinâmico, ao que parece, cura­
ram-no da tuberculose incipiente. Quando houve pouca
reação às suas primeiras mensagens, ele insistiu com seu
auditório para que se decidisse, o que lhe valeu crescente
oposição, inclusive ameaças de grandes humilhações. A'
oração, a sós e em companhia de Nash, o “homem que
orava”, trouxe novamente a maré espiritual, e o povo do
campo, largando suas ferramentas agrícolas, abarrotava
escolas e igrejas para receber o Salvador. Certa vez,
convidado a pregar em uma comunidade rural que lhe
era completamente desconhecida, mesmo de nome,
sentiu-se compelido a pregar sobre “Ló fugindo de Sodo-
ma” , para depois saber que o lugar era popularmente
conhecido por Sodoma, por causa da sua iniqiiidade, e o
seu hospedeiro por Ló. Não admira pois que, de início, a
sua mensagem fosse recebida com feroz antagonismo,
porém dentro em breve os “alcançados pelo Senhor”
eram inúmeros.
Os avivamentos na região de Western, comunidade
próxima a Rome, Estado de Nova York, começaram a
.despertar largo interesse. Chegando à localidade, Finney
foi convidado a um culto de oração, que foi extremamen­
te desanimador e sem vida. Pode-se compreender a ira do
auditório quando o avivalista visitante, ao levantar-se

46
para pregar, declarou que a reunião de oração deles fora
uma farsa. Quando parecia que a reunião se desfaria, o
guia leigo irrompeu em pranto e caiu de joelhos para
orar. Finney recordou que “todo o mundo caiu de
joelhos... todos choravam e confessavam, quebrantando
seus corações perante Deus. Essa cena perdurou, supo­
nho, durante uma hora, e poucas vezes presenciei
contrição e confissão mais completas. O resultado foi que
o avivamento percorreu toda a comunidade, e famílias
inteiras se converteram.” Durante um ano e meio Finney
trabalhou em Filadélfia, a primeira grande cidade do
litoral leste que conheceu o “novo evangelismo” vindo do
oeste de Nova York. Os conversos foram numerosos em
todas as partes da cidade, porém não temos registro da
extensão do avivamento. Uma demonstração incomum e
notável do poder de Deus verificou-se na evangelização
dos madeireiros que vinham das cabeceiras do rio
Delaware à cidade, para vender suas enormes balsas de
toras. Provinham de uma região rude, de população
escassa e sem escolas ou igrejas. Finney recorda-se deles
em suas Memórias:
Esses homens que descem o rio com a madeira
assistiram às nossas reuniões, e um bom número deles
auspiciosamente converteu-se. Voltaram para o sertão e
começaram a orar pelo derramamento do Espírito Santo,
a contar aos moradores ao redor o que tinham presenci­
ado em Filadélfia, e a exortá-los a que cuidassem de
voltar-se para Deus. Seus esforços foram abençoados, o
avivamento começou a tomar posse e a espalhar-se entre
aqueles madeireiros. Prosseguiu deforma notável e com
grande poder. Difundiu-se a tal ponto, que em muitos
casos, ficavam convictas e se convertiam pessoas que não
tinham assistido a qualquer reunião e que eram quase
tão ignorantes quanto pagãos. Homens que estavam
tirando madeira, vivendo sozinhos em pequenas caba­
nas, ou onde dois ou três ou mais moravam juntos, eram
tomados de convicção tal que saíam andando em busca
de quem lhes dissesse o que haviam de fazer: e se
convertiam, e assim o avivamento se espalhou. Havia a
máxima simplicidade no procedimento dos conversos...

47
Eu disse que este trabalho começou na primavera de
1829. Na primavera de 1831 estive de novo em Aubum.
Dois ou três homens dessa zona da madeira foram
ver-me e indagar como podiam conseguir alguns minis­
tros para lá. Afirmaram que havia naquela região
florestal nada menos do que cinco mil pessoas converti­
das; que o avivamento se estendera por cento e vinte
quilômetros, e que não havia lá um só ministro do
evangelho.
Nunca estive naquela região, mas, por tudo que tenho
ouvido a respeito, considero aquele como um dos mais
notáveis avivamentos ocorridos no país. Prosseguiu
praticamente sem assistência ministerial, entre uma
classe muito ignorante no que se refere à instrução
comum, porém tão claros e maravilhosos foram os
ensinos de Deus que, segundo tudo que pude saber, o
avivamento se processou, notavelmente livre de fanatis­
mo e de tudo que se pudesse censurar.
As três campanhas de avivamento em Rochester
constituem possivelmente o ponto mais alto do sucesso
do trabalho de Finney. Ele foi para o trabalho vencendo
uma relutância íntima, e encontrou ali grande aceitação
ao evangelho. Foi em Rochester que primeiro se sentiu
levado a criar o “banco dos decididos” , para onde
os penitentes se dirigiam para a oração. Quando o
Espírito de Deus começou a mover as multidões infun­
dindo-lhes profunda convicção de pecado e depois fé
salvadora no Senhor Jesus, elas provinham de todas as
camadas da sociedade, porém principalmente de entre
as profissões liberais e do alto comércio. Um estudante
da Academia de Rochester, Charles P. Bush, que mais
tarde se tornaria um pastor de destaque na cidade de
Nova York, foi levado a Cristo no ministério de Finney, e
a respeito daquele primeiro avivamento em sua cidade
natal ele escreveu:
Todo o povo se alvoroçou. Os assuntos espirituais e-
ram o tópico das conversas, em casa, na loja, no escritó­
rio e na rua... O único teatro da cidade fo i convertido em
cavalariça, o único circo, em fábrica de velas e sabão. Os
botequins cerraram as portas; o domingo era santificado
48
ao Senhor; os templos ficaram abarrotados de alegres
adoradores; um novo impulso foi dado a todos os
empreendimentos filantrópicos; havia uma onda de a-
mor fraternal, e os homens viviam para fazer o bem.
Merece atenção o fato de que grande número dos
homens principais da cidade estavam entre os converti­
dos: advogados, juizes, médicos, comerciantes, banquei-
tos e engenheiros. Desde o início estas classes foram
movidas mais do que qualquer outra: imponentes
“carvalhos” tombavam como que pelo ímpeto do fura­
cão; céticos e mofadores foram ganhos, e grande número
dos jovens mais promissores. Afirma-se que pelo menos
quarenta deles ingressaram no ministério...
Não é exagero dizer que o caráter da cidade inteirafo i
transformado por aquele avivamento. Tendo a maioria
dos líderes da sociedade se convertido e exercendo
influência dominante na vida social, comercial, e civil,
Cristo ficou entronizado de um modo que raramente
tem-se verificado... Os próprios tribunais e prisões
testificaram dos efeitos abençoados, pois houve extraor­
dinária diminuição de crimes: os tribunais pouco tinham
para fazer, e a cadeia pública ficou quase vazia durante
anos.
A extensão da obra de avivamento percebe-se através
da palavra singela de Finney:
A grandeza do trabalho em Rochester naquela
ocasião chamou tanto a atenção de ministros e crentes
por todo o Estado de Nova York, pela Inglaterra e em
muitas partes dos Estados Unidos, que a própria fama
dessa obra fo i um instrumento eficiente na mão do
Espírito de Deus, para promover grande avivamento
espiritual, por todo o país, jamais experimentado antes.
Anos depois, em conversa com Dr. Beecher a respeito
desse poderoso avivamento e seus resultados, ele comen­
tou; “Aquela fo i a maior obra de Deus, e o maior
reavivamento espiritual, que o mundo já assistiu em
prazo tão curto. Cem mil pessoas, segundo os relatórios,
filiaram-se às igrejas como resultado daquele avivamen­
to. Esse fato é sem paralelo na história da Igreja e no
progresso do cristianismo. “Ele referiu-se a isso como

49
trabalho de um ano, e disse que não consta, na hiitôriai
da era cristã, outro ano em que houvesse tamanhci
avivamento espiritual. ” j
As duas campanhas posteriores em Rochester foram
tamb.ém coroadas de notável êxito. Em ambas o impacto!
maior, desde o início, foi sobre as camadas superiores da
sociedade. Sobre a última campanha naquela cidade
amada — talve? a predileta de Finnev — escreveu-se:
Como no avivamento anterior, hakve neste muitos\
casos notáveis de conversão. A obra estendeu-se e\
despertou tanto interesse que se tomou o tópico geral da.
conversa em toda a cidade e na região ao redor.
Comerciantes organizaram seu serviço de modo que seus
empregados comparecessem, parte deles em um dia,
parte no outro. A obra se generalizou de tal modo por
toda a cidade, que em todos os lugares públicos — nas
lojas, nos bares, nos bancos, na rua, nos veículos
públicos, enfim em toda parte — o assunto que a todos
empolgava era a obra de salvação que se verificava.
Homens que se tinham endurecido em movimentos
anteriores, muitos deles, desta vez, curvaram-se diante
de Cristo. Homens que abertamente desrespeitavam].o
domingo, outros que eram ostensivamente profanos,
enfim, todas as classes de pessoas, das mais altas atè qs
mais.baixas e das mais ricas até as mais pobres, forãrrj .
visitadas pelo poder desse avivamento e trazidas a Cristo, r
Permanecí ali durante todo o inverno, o despertamento
aumentando continuamente, atè o fim. O Rev. Dr.
Anderson, reitor da universidade, empenhou-se no
trabalho com grande interesse, e, segundo pude saber,
muitos dos estudantes da universidade converteram-se
nesta ocasião. Os pastores das duas igrejas batistas
também se identificaram com o movimento, e preguei
várias vezes em suas igrejas.
Durante o avivamento de 1857-8 que abrangeu todo o
país, Finney esteve em Nova York e Boston, e Se
empolgou com a magnitude da obra de Deus naqueles
dias inspiradores. Ele fez a seguinte declaração:
O inverno de 1857-8 será lembrado como a ocasião em
que um grande despertamento espalhou-se através de

50
\,todos os estados do. Norte. Varreu a terra com tal poder
tque, por algum tempo, fo i estimado que não menos de
tcinqüenta mil conversões ocorriam em uma semana.
'àEsse avivamento teve características de particular inte­
resse. Desenvolveu-se em grande parte por influência
■leiga, de tal modo a quase lançar os ministros à sombra.
,'Uma reunião diária de oração vinha-se realizando havia
,alguns anos em Boston; e no outono anterior ao grande
irrompimento, fora estabelecida a reunião diária de
oração na Rua Fulton, Nova York, a qual continua até
*hoje. De fato, foram criadas reuniões diárias de oração
por toda a extensão dos estados do Norte. Lembro-me de
que, em uma das nossas reuniões de oração em Boston
naquele inverno, um senhor se levantou e disse: “Eu sou
de Omaha, no Nebrasca. Na minha viagem para o Leste
encontrei sempre uma reunião de oração por todo o
caminho. De Omaha a Boston são 3.000 km, e parecia
que havia apenas um grupo de oração, que tinha a exten­
são de 3.000 km.
. .' *
* ,0 FOCO DO AVIVAMENTO EM OUTRAS TERRAS
,
• ^ .Quando o casal Finney foi pela primeira vez à
ínglaterra, no outono de 1849, cidadãos americanos não
< eram particularmente bem-vindos nas Ilhas Britânicas.
&inda não havia bem uma geração desde a cessação de
■Hostilidades entre os dois países; durante aqueles decê­
nios tinhafm sido tratados com altivo desdem, pelos
viajantes ingleses, os direitos de fronteira dos america­
nos, e em retribuição a cauda do leão tinha sido repetidas
vezes torcida por americanos muito sensíveis. O ministé­
rio de Finney começou na aldeia de Houghton, onde o
trabalho evangélico estava em maré-baixa. Foi pela
instrumentalidade de um industrial, Potto Brown, mem­
bro da Sociedade de Amigos (“Quákers”), que o
avivalista americano foi levado a esse local. Brown tinha
lido as Lectures on RevivalA por conselho de seu
pastor, e estava profundamente interessado no bem-estar
temporal e eterno de seus empregados e vizinhos. Um
avivamento irrompeu imediatamente; espalhou-se entre
todas as classes e até às aldeias vizinhas. De Houghton,
IPreleções Sobre Avivamento. ‘
51
os Finney foram convidados para ir a Birmingham, e li
pregaram a mensagem avivalista em várias igrejas, “<
houve um poderoso movimento como nunca antes tinhan
visto. Varreu a congregação com grande poder, e unu
porcentagem muito elevada dos impenitentes voltaram
se para Cristo”.
Mais tarde, veio um convJU para o Tabernáculo dei
Whitefield em Londres, do qual era então pastor o Dr;
John Campbell. O trabalho de Finney iniciou com várias
semanas de ensino bíblico aos crentes, até que finalmen-
te chegou o tempo do convite para “a segunda reunião” .
Atendendo ao pedido de Finney de uma sala de
interessados, o pastor ofereceu uma sala de jardim de
infância que comportaria trinta ou quarenta pessoas.
Ficou muito admirado ao saber que Finney queria uma
sala que comportasse algumas centenas de pessoas; em
parte talvez por patuscada — de qualquer maneira não
foi por fé — ofereceu um salão de conferências situado a
um quarteirão do Tabernáculo onde se podia acomodar
mil e quinhentas pessoas ou ainda mais.
O avivalista americano esclareceu muito bem. ao
auditório no Tabernáculo, que não estavam convidados à
segunda reunião nem os professos cristãos nem os
pecadores indiferentes. “São convidados a assistir aque­
les, e somente aqueles, que, não sendo crentes ainda,
anseiam pela salvação de suas almas e desejam receber a
instrução direta sobre a questão de seu atual dever para
com Deus.” Dito isso, a reunião regujar foi despèdida, e
aqueles que estavam ansiosos dirigiram-se, pela rua
afora, ao local preparado. O salão de conferências ficou
logo repleto, para admiração do bom ministro que, de
uma das janelas da igreja, observara seus paroquianos
caminhando em busca do Salvador. Finney explicou
cuidadosa'e incisivamente à assembléia de interessados a
mensagem do evangelho, após o que todos se ajoelharam
para se entregar inteiramente ao Salvador. Finney
procurou evitar que houvesse muita emoção ou clamor, a
fim de que todos pudessem ouvir a palavra do evangelho;
apesar disso “houve um grande soluçar e prantear em
todas as partes da casa”.

52
Em reuniões posteriores “os corredores daquela casa
ücaram tão abarrotados que foi impossível usar o chama­
do banco dos decididos, e as pessoas nem podiam
mover-se dentro da congregação... Se a casa tinha
realmente tantos lugares quanto se supunha, houve
ocasiões em que não menos de duas mil pessoas se
punham de pé quando se fazia o apelo... Era grande o
número de assistentes cada semana, e as conversões se
multiplicaram. Chegavam, segundo fiquei sabendo, de
toda parte da cidade. Muitas pessoas caminhavam vários
quilômetros cada domingo para assistir as reuniões.”
O impacto do avivamento não se limitou ao Taberná-
culo, porém estendeu-se a muitas congregações em
diversas partes da cidade. Um pároco anglicano ficou tão
preocupado com sua congregação que logo tratou de
revivificar sua grande paróquia. Organizou vinte grupos
para reuniões de oração, e o próprio ministro se deu à
prédica, diretamente a seu povo, e, em conseqüência,
mais de 1.500 pessoas se converteram. Outras igrejas
anglicanas participaram do despertamento.
Em virtude dos extraordinários avivamentos nos
Estados Unidos no inverno de 1857-8, Finney foi
persuadido a ir novamente à Grã-Bretanha. Em todos os
lugares onde serviu, na Inglaterra e na Escócia, houve
. grandes avivamentos. Em Huntington, onde até então
não se manifestara o avivamento, houve uma profunda
operação do Espírito de Deus que transformou cristãos
professos e depois “estendeu-se largamente entre os
descrentes, mudando de modo notável a vida espiritual
dos habitantes da cidade” .
Finney pregou em Edimburgo, e também em Aberde-
en no norte da Escócia, o cenário dos grandes avivamen­
tos do tempo de MacCheyne. Mais tarde, na região de
Manchester e principalmente em Bolton, cidade manu-
fatureira nas proximidades daquela metrópole, verifi*
cou-se um avivamento avassalador. Realizaram-se cultos
unionistas, e na ocasião os crentes de Bolton demonstra­
ram zelo em anunciar as reuniões e em visitar os lares
com literatura evangelística. “Todas as classes se interes­
saram: ricos e pobres, nobres e plebeus, homens e

■53
os Finney foram convidados para ir a Birmingham, e lí
pregaram a mensagem avivalista em várias igrejas, “c
houve um poderoso movinlbnto como nunca antes tinhan
visto. Varreu a congregação com grande poder, e unu
porcentagem muito elevada dos impenitentes voltaram
se para Cristo” .
Mais tarde, veio um convite para o Tabernáculo de
Whitefield em Londres, do qual era então pastor o Dr
John Campbell. O trabalho de Finney iniciou com várias
semanas de ensino bíblico aos crentes, até que finalmen-!
te chegou o tempo do convite para “a segunda reunião”.!
Atendendo ao pedido de Finney de uma sala de
interessados, o pastor ofereceu uma sala de jardim de
infância que comportaria trinta ou quarenta pessoas.
Ficou muito admirado ao saber que Finney queria uma
sala que comportasse algumas centenas de pessoas; em
parte talvez por patuscada — de qualquer maneira não
foi por fé — ofereceu um salão de conferências situado a
um quarteirão do Tabernáculo onde se podia acomodar
mil e quinhentas pessoas ou ainda mais.
O avivalista americano esclareceu muito bem. ao
auditório no Tabernáculo, que não estavam convidados à
segunda reunião nem os professos cristãos nem os
pecadores indiferentes. “São convidados a assistir aque­
les, e somente aqueles, que, não sendo crentes ainda,
anseiam pela salvação de suas almas e desejam receber a
instrução direta sobre a questão de seu atual dever para
com Deus.” Dito isso, a reunião regular foi despedida, e
aqueles que estavam ansiosos dirigiram-se, pela rua
afora, ao local preparado. O salão de conferências ficou
logo repleto, para admiração do bom ministro que, de
uma das janelas da igreja, observara seus paroquianos
caminhando em busca do Salvador. Finney explicou
cuidadosa'e incisivamente à assembléia de interessados a
mensagem do evangelho, após o que todos se ajoelharam
para se entregar inteiramente ao Salvador. Finney
procurou evitar que houvesse muita emoção ou clamor, a
fim de que todos pudessem ouvir a palavra do evangelho;
apesar disso “houve um grande soluçar e prantear em
todas as partes da casa”.

52
Em reuniões posteriores “os corredores daquela casa
ficaram tão abarrotados que foi impossível usar o chama­
do banco dos decididos, e as pessoas nem podiam
mover-se dentro da congregação... Se a casa tinha
realmente tantos lugares quanto se supunha, houve
ocasiões em que não menos de duas mil pessoas se
punham de pé quando se fazia o apelo... Era grande o
número de assistentes cada semana, e as conversões se
multiplicaram. Chegavam, segundo fiquei sabendo, de
toda parte da cidade. Muitas pessoas caminhavam vários
quilômetros cada domingo para assistir as reuniões.”
O impacto do avivamento não se limitou ao Taberná-
culo, porém estendeu-se a muitas congregações em
diversas partes da cidade. Um pároco anglicano ficou tão
preocupado com sua congregação que logo tratou de
revivificar sua grande paróquia. Organizou vinte grupos
para reuniões de oração, e o próprio ministro se deu à
prédica, diretamente a seu povo, e, em consequência,
mais de 1.500 pessoas se converteram. Outras igrejas
anglicanas participaram do despertamento.
Em virtude dos extraordinários avivamentos nos
Estados Unidos no inverno de 1857-8, Finney foi
persuadido a ir novamente à Grã-Bretanha. Em todos os
lugares onde serviu, na Inglaterra e na Escócia, houve
grandes avivamentos. Em Huntington, onde até então
não se manifestara o avivamento, houve uma profunda
operação do Espírito de Deus que transformou cristãos
professos e depois “estendeu-se largamente entre os
descrentes, mudando de modo notável a vida espiritual
dos habitantes da cidade” .
Finney pregou em Edimburgo, e também em Abetde-
en no norte da Escócia, o cenário dos grandes avivamen­
tos do tempo de MacCheyne. Mais tarde, na região de
Manchester e principalmente em Bolton, cidade manu-
fatureira nas proximidades daquela njetrópole,. verifb
cou-se um avivamento avassalador. Realizaram-se cultos
unionistas, e na ocasião os crentes de Bolton demonstra­
ram zelo em anunciar as reuniões e em visitar os lares
com literatura evangelística. “Todas as classes se interes­
saram: ricos e pobres, nobres e plebeus, homens e

53
mulheres... Era grande o «úmero dos que iam à frente,
rompendo caminho da melhor maneira que pudessem,
através das densas massas que enchiam todos os cantos
da casa... Depois que os decididos iam à frente,
realizávamos uma reunião em que várias pessoas oravam
enquanto os interessados permaneciam ajoelhados pe­
rante o Senhor.”
Finney teve oportunidade de falar aos empregados de
uma grande tecelagem, e no despertamento que se seguiu
quase todos chegaram ao conhecimento de Cristo. Pela
operação profunda do Espírito de Deus, crentes e
descrentes ficaram convictos de erros que, para seu
endireitamento, dependiam de restituição. Em alguns
casos a importância em dinheiro era considerável, como,
por exemplo, o do homem que restituiu o equivalente a
mais de seis milhões de cruzeiros que tinha recebido
indevidamente. O jornal The Revival afirmou que em
uma semana houve 400 conversões, e 2.000 profissões na
campanha toda.
Pode-se ter uma idéia do impacto do avivalismo com
Finney, examinando seleções de relatos contemporâneos.
Para nós, no século vinte, a profundidade e a extensão
dos avivamentos do século dezenove são bastante estra­
nhas, e quando lemos a narrativa, surge em nós um
desejo insaciável: “Ô Deus, permite que em breve
tenhàmos novamente dias como os de Finney.” Vamos
primeiro deixar que o próprio Finney nos dê seu relato do
primeiro despertamento em Rochester; depois, ouvire­
mos o ponto de vista de um contemporâneo de outra
denominação, escrevendo na American Baptist Maga­
zine.

ROCHESTER; O RELATO DE FINNEY

Em pouco tempo houve conversões notáveis. Uma


das primeiras pessoas que se converteram era a esposa de
um advogado de destaque na cidade. Era uma mulher de
alta posição, uma senhora culta e de grande influência.
Sua conversão causou impacto. A primeira vez que a vi,
uma sua amiga, cristã, levou-a à minha sala e a

54
apresentou, pois observara sua preocupação espiritual e
convencera-a a ir ver-me.
A Sr. “ M. era grande apreciadora dos prazeres e das
alegrias do mundo; gostava muito da sociedade. Contou-
me depois que ficou muito apreensiva com a minha
chegada, pois receava que houvesse um avivamento, o
que viria a interferir nos prazeres e divertimentos que ela
planejara para aquele inverno. Ao conversar com ela,
verifiquei que, de fato, o Espírito do Senhor estava
trabalhando em seu coração. Estava abatida por uma
profunda convicção de pecado. Depois de uma longa
conversa, insisti com ela para que renunciasse ao pecado,
ao mundo, e a si mesma — tudo, por Cristo. Percebi
que se tratava de uma pessoa muito orgulhosa; tive a
impressão de que o orgulho era o traço marcante de seu
caráter. Concluída a conversa, ajoelhamo-nos para orar,
e como meu pensamento estava fixo na questão do
orgulho daquele coração, conforme se podia observar,
introduzí logo o texto: “Se não vos converterdes e não vos
tomardes como crianças, de modo algum entrareis no
reino dos céus." Enfatizei essas palavras em minha
oração, e logo ouvi aquela senhora, ajoelhada a meu
lado, repetindo o texto: “Se não vos converterdes e não
vos tomardes como crianças... como crianças... Se não
vos converterdes e não vos tomardes como crianças..."
Observei que o seu pensamento estava absorto com isso e
que o Espírito de Deus calava essas palavras em seu cora­
ção. Por isso continuei a orar, fixando aquele assunto
diante da sua mente e levando-a a Deus como necessita­
da exatamente disso: converter-se, e tomar-se como
criança.
Senti que o Senhor respondia a oração. Tinha certeza
de que ele fazia justamente a obra que eu lhe pedia que
fizesse, pois o coração daquela senhora derreteu-se, sua
sensibilidade irrompeu, e antes de nos levantarmos, ela
era realmente uma criança. Qpando parei de orar, abri
os olhos e olhei para ela, seu rosto estava voltado para o
céu, as lágrimas desciam copiosas; sua atitude era a de
quem desejava tomar-se novamente criança. Levantou-
se, ficou serena, recebeu a alegria da fé e se retirou. A

55
partir daquele moinbnto tomou-se corajosa para falar de
suas convicções religiosas, zelosa pela conversão de suas
amigas. Como era natural, sua conversão repercutiu
profundamente entre a classe de pessoas a que
pertencia...
Havia em Rochester, naquele tempo, um colégio
presidido por um certo Sr. B., filho de A. B„ então pastor
da igreja em Brighton, perto de Rochester. O Sr. B. era
cético, porém estava na direção de um educandário
muito grande e florescente. Como o colégio tinha alunos
e alunas, uma certa Srt.a A. era sua assistente e
cooperadora no colégio naquele tempo. Ora, a Srt.a A.
era crente. Os estudantes assistiam aos cultos religiosos,
e muitos logoficaram profundamente ansiosos a respeito
de suas almas. Certa manhã o Sr. B. verificou que seus
alunos não conseguiam recitar. Quando os chamava,
estavam tão perturbados que choravam, e ele percebeu
que se achavam num estado tal que, ficou confundido.
Chamou sua assistente, Srt.a A„ disse-lhe que os jovens
estavam de tal modo preocupados a respeito de suas
almas, que não conseguiam recitar, e perguntou se não
convinha chamar o Sr. Firiney para dar-lhes instruções.
Ela depois me contou isso; disse que ficou contentíssima
por ele ter feito essa pergunta e aconselhou-o com
empenho que me mandasse chamar. Ele o fez, e 0
avivamento tomou conta daquele colégio.O próprio Sr.
B. converteu-se dentro em pouco, e quase todas as
pessoas do colégio. Há poucos anos, a Srt.a A. me
informou que mais de quarenta dos que foram então
convertidos no colégio, se tomaram ministros. Desse fato
eu não soubera antes. Ela citou-me muitos dos nomes na
ocasião. Muitos deles se tomaram missionários em
outras terras...
Eu já disse que o aspecto moral das coisas foi
grandemente modificado por esse avivamento. Era uma
cidade recêm-criada, cheia de atividade e de prosperida­
de, e também de pecado. Os habitantes eram inteligentes
e empreendedores no mais alto grau; mas à medida que o
avivamento varria a cidade e convertia a grande massa
das pessoas de maior influência, tanto homens como

56
mulheres, foi maravilhosa a mudança na ordem, sobrie­
dade e moralidade do lugar...

FINNEY VISTO POR UM CONTEMPORÂNEO

Os recentes avivamentos espirituais, conforme têm


sido chamados, parece terem começado na região oeste
de Nova York, em Rochester e na região ao seu redor, no
outono de 1830. Durante os três ou quatro meses
seguintes a obra se estendeu velozmente, abrangendo
grande parte do estado. No decurso do inverno, sinais
favoráveis foram observados na cidade de Nova York, os
quais, no princípio da primavera, assumiram aspecto
muitíssimo animador e decisivo. Quase todas as igrejas
evangélicas da capital tomaram parte no avivamento, e
milhares de pessoas, segundo se espera, nasceram de
novo. Enquanto a obra penetrava assim na cidade e no
Estado de Nova York, apareceu também nas regiões do
oeste de Massachusetts, e em vários lugares em Connec-
ticut. Ao mesmo tempo os sinais da presença e poder de
Deus se manifestavam em algumas das principais
cidades do Maine. Por volta do dia primeiro de março,
fo i despertado nas igrejas de Boston um espírito in-
comum de oração, e começou a tomar-se evidente que
o Senhor estava ali. Desde aquela ocasião, o trabalho
vem progredindo em Boston e na região em derredor, e
muitos são alcançados pela graça renovadora. Enquanto
o avivamento assim se estendia para leste, estava-se
espalhando também para o sul e oeste. Filadélfia,
Charleston, o Distrito de Colúmbia, Cincinnati e vários
locais nos estados do Centro, Sul e Oeste foram visitados,
e em quase todos os lugares a que a obra chegou,
continuava ainda em marcha. Alguém que deu atenção
particular ao assunto e que possui os melhores meios
para estabelecer um juízo estimou que o elevado número
de mil congregações nos Estados Unidos têm sido
visitadas, em maior ou menor medida, dentro do período
de seis meses, por avivamentos espirituais, e que o
número total de conversões não é inferior a cinquenta
mil. Na verdade esta é uma obra grande e gloriosa, capaz
de encher de humildade e gratidão os corações do povo
57
de Deus, e suas bocas de ações de graças! Uma obra,
para cuja realização todos têm se unido e os santos na
terra e nos céus regozijam-se.
Essa obra adquire maior importância em virtude da
posição e categoria de muitos dos principais lugares que
têm sido visitados. Ê interessante notar que os lugares
que mais têm participado das bênçãos são aqueles que
maior influência exercem na sociedade. Nas Cidades e
Universidades o interesse tem sido mais profundo, como
que indicando que o Espírito divino deseja corrigir as
correntes da influência moral purificando-lhes as fontes.
As universidades mais beneficiadas são Vale, Amherst,
Middlebury, Bowdoin, Williams, Hamilton, Jefferson,
Kenyon, Union, Hampden Sydney, New Jersey, Western
Reserve e a de Ohio. Segundo consta, o número■total de
estudantes que se converteram nessas instituições, no
atual avivamento, ascende a trezentos e vinte. Os efeitos
dessa transformação não se limitarão a esses jovens:
centenas, milhares, sem dúvida, experimentarão como
resultado uma transformação semelhante, ao seu caráter
e no seu destino eterno, e uma multidão que ninguém
pode enumerar se regozijará etemamente com os efeitos.
Essa obra de salvação tem atingido pessoas de todas
as categorias, idades e classes. A criança de seis e sete
anos, ainda no jardim da infância, e o pecador macróbio
que já viveu oitenta anos na rebelião, são trazidos
juntamente aos pês de Jesus nq mesma congregação, e
ainda outros de todas as idades intermediárias. Os
grande e doutos oficiais de Estado, e os mais iletrados
servidores, são encontrados juntos na mesma reunião de
oração, nivelados perante o trono de Deus. O rico e o
pobre unem-se para suplicar a misericórdia daquele
que não faz acepção de pessoas. Acredita-se, contudo,
que nenhum avivamento anterior tenha atingido tanto a
riqueza, erudição e influência da sociedade. Literatos e
profissionais livres que encabeçam a sociedade, dando o
tom ao sentimento público, são agregados ao reino em
número muito maior do que em qualquer época anterior.
Homens de boa moral, que se consideravam aprovados
por Deus em razão da pureza de suas vidas, juntamente

58
com os libertinos e profanos, têm se humilhado igual­
mente perante Deus pela sua vileza e a justa sentença da
ira que pesava sobre todos. Em muitos casos, êbrios,
quase à beira do sepulcro, têm sido recuperados pela
soberana misericórdia de Deus e transformados em
cristãos morigerados e sóbrios. De toda espécie e condição
de vida têm sido tomados alguns, para que em nenhum
caso percamos a esperança, mas antes trabalhemos e
oremos com esperança e fé a favor de todos.
Em algumas congregações, principalmente na região
oeste do Estado de Nova York, a obra tem sido tão geral
e completa que até os costumes sociais têm se transfor­
mado. Divertimentos e todas as práticas de caráter
duvidoso, cujo objetivo é simplesmente o prazer, são
abandonados, em troca de outros prazeres mais elevados
e nobres como a meditação e os empreendimentos que
visam à glória de Deus e à salvação dos homens...
O avivamento, aquele suave sopro do Espírito de
Deus sobre os ossos secos de uma ortodoxia mumificada
ou de uma impiedade audaciosa, no ministério de Finney
se tornou em furacão. Cristãos professos experimenta­
ram uma vida nova e alcançaram firmeza na fé em
consequência do arrependimento e confissão de pecados.
Igrejas antigas foram revitalizadas e igrejas novas
estabelecidas, pecadores indiferentes foram despertados
para a convicção de seu estado de perdição e para uma
conversão profunda e radical. Criancinhas e anciãos,
sertanejos, fazendeiros, mecânicos, advogados e comerci­
antes, uma multidão que era acrescentada ao reino de
Deus. Êbrios foram transformados, botequins abando­
nados, igrejas ficaram repletas e cárceres vazios. A
retidão de palavras e ações tornou-se o padrão geral na
vida americana, desde o negociante rural atrás de seu
rústico balcão até o legislador nos salões nobres do
Congresso. A América tornou-se muito diferente e
melhor em virtude dos avivamentos que vieram com
Finney e seus contemporâneos; e a América de hoje pode
ser transformada pelo mesmo poder.
Para completar este breve relato da sua vida longa e
frutífera, devemos acrescentar que Finney foi casado três

59
vezes, e, à semelhança de um seu contemporâneo de
igual experiência, Adoniram Judson, da Birmânia, en­
controu em cada companheira, real ajuda no serviço de
Deus. O ocaso da vida tornou-se o período mais
tranqüilo da vida que freqüentemente foi marcada pela
luta e pela tempestade. Ao término de um domingo
muito tranqüilo, encerrou em Oberlin seus trabalhos
terrenos em 16 de agosto de 1875. Fora durante mais de
meio século uma testemunha a grandes e pequenos, a
iletrados e eruditos, na América rural pioneira como
também em algumas das cidades altaneiras do mundo,
tanto o Novo como o Velho. Londres, Edimburgo, Nova
York, Boston. Mesmo estando morto ainda nos fala que
o avivamento é o método divino de se difundir a boa nova
da salvação em Cristo para as multidões da terra, e é a
dinâmica que pode transformar indivíduos, nações e o
curso da história humana.

60
Parte dois: Os Métodos

CAPÍTULO 4

Como Acontecem os Avivamentos

Um avivamento legítimo é uma operação maravilho­


sa do Espírito de Deus em uma comunidade ou todo um
país — operação da graça que enternece e atrai a si. Ê
tido comumente como um ato da soberania divina,
outorgado pelo Deus todo-poderoso segundo sua vonta­
de, sob sua direção. O homem, no caso, é considerado
inteiramente incapaz de promover ou impedir semelhan­
te manifestação de poder soberano. A evidência da
experiência cristã não confirma a exatidão de tal
conceito, e a verdade é que parece concludente haver
muito que os crentes devem fazer na preparação e
promoção do verdadeiro avivamento. Estudaremos o
assunto do ponto-de-vista prático e pragmático, conforme
aparece na experiência do povo de Deus em dias
passados.
A “CIÊNCIA DO AVIVAMENTO”

O editor da edição de 1832 do Faithful Narrative and


Thoughts on Revival de Edwards fez a seguinte observa­
ção muito pertinente a respeito da importância do estudo
desse assunto pelo povo de Deus, a fim de que este se
prepare e a seus patrícios para um poderoso derramamen­
to do Espírito de Deus em poder vivificador e salvador.
Compete pois à igreja, preparar-se para o avivamento
uma vez que podemos apressá-lo. Este assunto deve ser
mais estudado e mais bem compreendido. E o espírito
dos avivamentos deve ser cultivado com mais diligência.
Que impulso não seria dado à preparação para a guerra,
61
se fosse previsto que o país estaria logo a braços com
semelhante calamidade. Por que então não se toma
assunto de estudo geral, na igreja, a ciência dos
avivamentos e o curso de ação que exigem? Não há
dúvida de que os ministros têm ainda muito a aprender a
respeito de avivamentos, os sinais de sua aproximação, os
meios de produzi-los, como prevenir dificuldades e
assegurar os resultados mais felizes. E todo crente deve
entender de avivamentos, pois cada um tem um papel a
exercer com referência a eles. Existe uma convicção
crescente, na igreja, da responsabilidade que pesa sobre
cada cristão, em tempos de avivamento. Nessas ocasiões
toma-se manifesto o quanto a conduta de cada um pode
auxiliar ou impedir o efeito da verdade divina. Mas, sem
conhecimento do assunto, ninguém pode cumprir corre­
tamente seu dever em tempo de avivamento. E, a não ser
que uma pessoa entenda os princípios que se lhes
aplicam, é impossível que esteja devidamente preparada
para agir nas múltiplas emergências que um avivamento
nunca deixa de apresentar. Que calamidade seria
impedir ou destruir-se um avivamento por falta de saber
como agir no caso! Ou resistir e extinguir um legítimo
avivamento sob a impressão errônea de ser falso! Ou
estimular e fomentar um falso movimento supondo-o
uma obra genuína do Espírito de Deus! Ou fazer com
que fiquem mirrados ou diminuídos os frutos que
poderíam surgir de um avivamento, mediante procedi­
mentos tolos ou mal-calculados!
Finney é explícito e exigente na sua explicação de que
um avivamento espiritual, como ele o chamava, “não é
milagre” mas antes “o resultado do emprego acertado
dos meios apropriados” . Acompanhe-se cuidadosamente
a exposição que ele deu à base de longa experiência.
UM AVIVAMENTO ESPIRITUAL
NÃO Ê UM MILAGRE
1. Define-se geralmente um milagre como uma
interferência divina Que põe de lado ou suspende as leis
da natureza. Ora, um avivamento não ê um milagre
nesse sentido. Todas as leis da matéria e da mente

62
permanecem em funcionamento; não são suspensas nem
postas de lado em um avivamento.
2. Não é milagre, se dermos outra definição ao termo,
a saber: algo superior aos poderes comuns da natureza,
antes, consiste no exercício acertado dos poderes da
natureza. É exatamente isso e nada mais...
3. Não é milagre, nem depende de milagre, em
nenhum sentido. Ê resultado puramente filosófico do
emprego acertado dos meios comuns, tal como qualquer
resultado que se obtenha empregando métodos apropria­
dos. Pode haver um milagre entre suas causas anteceden­
tes, ou pode não haver. Os apóstolos empregavam
milagres simplesmente como meios de chamar a atenção
para sua mensagem e de estabelecer a autoridade divina
dessa mensagem. Mas o milagre não era o avivamento...
Afirmei que o avivamento é o resultado do emprego
acertado dos meios adequados. Os meios que Deus
determinou para a operação de um avivamento, sem
dúvida possuem tendência natural para produzir um
avivamento, senão Deus não os teria determinado. Mas,
conforme todos sabemos, os meios não produzirão um
avivamento sem a bênção de Deus. Ê-nos impossível dizer
que não há a mesma influência ou ação direta da parte
de Deus para produzir uma colheita de cereais ou para
promover um avivamento...
Desejo que esse conceito se imprima na mente de
todos nós, pois faz muito tempo que prevalece uma idéia
de que na pregação do evangelho existe alguma coisa
muito particular que não deve ser julgada pelas leis
comuns de causa e efeito. Não há doutrina mais perigosa
para a prosperidade da igreja do que essa, nem nada
mais absurdo.
Suponhamos que um homem fosse pregar essa
doutrina entre agricultores, com referência à plantação
de cereais. Diga-lhes ele que Deus é soberano e lhes
concederá uma colheita somente quando lhe aprouver;
que arar a terra, semear e cultivar como quem espera uma
colheita, está muito errado; é tirar a obra das mãos de
Deus, é interferir na sua soberania, ê labutar com suas
próprias forças; que não existe, entre os meios e o

63
resultado, nenhuma ligação de que possam depender. E
suponhamos que os agricultores aceitassem tal doutrina.
Ora, poriam o mundo a morrer de fome. Pois os mesmos
resultados advirão se a Igreja se deixar convencer de que
a expansão do evangelho è matéria misteriosamente
sujeita à soberania divina, que não existe conexão
natural entre os meios e o fim.
Debaixo do governo de Deus há uma verdade digna
de observação universal e de eterna lembrança, que é
esta: as coisas mais úteis e importantes são as mais fáceis
e certamente alcançadas pelo emprego dos meios apro­
priados. Esse é evidentemente um princípio da adminis­
tração divina. Daí, todas as necessidades da vida são
obtidas com grande segurança pelo emprego dos meios
mais simples. Esse princípio opera também no governo
moral, e, como as bênçãos espirituais são de suprema
importância, é de se esperar que a sua obtenção esteja
ligada com muita segurança ao uso dos meios apropria­
dos. Ê o que de fato verificamos, e creio firmemente que,
caso pudéssemos saber todos os fatos, verificaríamos
que, quando os meios determinados são usados acerta-
damente, as bênçãos espirituais são alcançadas com
maior uniformidade que as temporais.

O OUEÊ UM AVIVAMENTO
£ a revivificação do primeiro amor dos crentes,
resultando no despertamento e na conversão dos pecado­
res a Deus. No sentido popular, um avivamento espiritu­
al em uma comunidade ê o despertamento, revivificação
e recuperação da igreja mais ou menos fria ou decadente
e o despertamento mais ou menos generalizado de todas
as classes, assegurando que sejam atendidas as reivindi­
cações de Deus.
Pressupõe-se que a igreja se acha em estado de
resfriamento e indiferentismo espiritual; um avivamento
consiste na volta da igreja de seu resfriamento e na
conversão de pecadores.
1. Um avivamento sempre inclui convicção de pecado
por parte da igreja. Crentes decaídos não podem
despertar-se e começar logo no serviço de Deus, sem que

64
haja profundo esquadrinhamento do coração. As fontes
do pecado precisam romper-se.
2. Crentes que se acham em declínio espiritual serão
levados ao arrependimento. Um avivamento nada mais,
nada menos é do que um novo começo de obediência a
Deus. Tal como na conversão do pecador, o primeiro
passo é um arrependimento profundo, o quebrantamen-
to do coração, a prostração no pó perante Deus, com
profunda humildade e o abandono do pecado.
3. A fé dos crentes será renovada. Enquanto perma­
necem no resfriamento espiritual, são cegos para o
estado dos pecadores. Seus corações são empedernidos.
As verdades bíblicas têm para eles aspecto de sonho:
admitem que seja tudo verdade, sua consciência e seu
juízo assentem, porém sua fé não o vê destacado em alto
relevo, em toda a ardente realidade da eternidade.
Quando, porém, entram em um avivamento, não mais
vêem homens como árvores andando: enxergam as coisas
à luz fulgurante que renovará o amor de Deus em seus
corações, o que os levará a trabalhar com ardor para
trazer outros a Deus.
4. Um avivamento quebra o poder do mundo e do
pecado sobre os cristãos. Leva-os a alturas tais que
recebem novo impulso em direção ao céu. Antegozam
com nova apreciação o céu, desejam com novo empenho
a união com Deus; o encanto do mundo fica desfeito, e
vencido o poder do pecado.
5. Quando as igrejas forem assim despertadas e
reformadas, a reforma e conversão de pecadores virá a
seguir, atravessando as mesmas fases de convicção,
arrependimento e reforma. Seus corações ficarão contri­
tos e serão transformados...
A linguagem não pode ser fnais clara ou pertinente, e
temo que a razão dè não termos assistido ao avivamento
em larga escala em ilossos dias sejà porque temos ficado
à espera de que Deus opere aquilo que é, evidentemente,
nosso dever e nossa responsabilidade realizar. Em
Wheaton verificamos a verdade de 2 Crônicas 7.14: “Se o
meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar,
orar e me buscar, e se converter dos seus maus

65
caminhos...” A nós coube humilhar-nos até ao pó, orar
fervorosa e esperançosamente, buscar o Senhor, e
converter-nos de todo o pecado de que tivéssemos
consciência. Então veio bondosa e poderosa visitação do
céu. Compreendemos então o que Finney queria dizer em
sua clássica declaração sobre a soberania de Deus e o
emprego de recursos num avivamento, conforme se
verifica em todos os aspectos do governo divino.
“Muitas pessoas têm imaginado a soberania de Deus
como coisa muito diferente do que é. Têm-na concebido
como a disposição arbitrária dos acontecimentos, e
particularmente do dom de seu Espírito, de modo a
excluir o emprego racional dos meios para se promover o
avivamento. Não existe entretanto nenhuma evidência na
Bíblia que indique que Deus exerça semelhante espécie
de soberania. Não existem fatos que o comprovem. Ao
contrário, tudo indica que Deus, ao exercer sua sobera­
nia tem ligado os meios ao fim, e isso tanto na natureza
como na graça. Não há nenhum fato natural em que a
sua operação não se verifique. Deus não fez a criação
como uma vasta máquina que deve funcionar sozinha,
sem precisar mais do seu cuidado; ele não se retirou do
universo, deixando-o a funcionar sozinho. Afirmar isso é
simples ateísmo. Deus exerce superintendência e contro­
le universais. Entretanto cada fato da natureza acontece
pelo uso de meios naturais. Deus não exerce nem a provi­
dência nem a graça com aquela espécie de soberania que
dispensa o emprego das leis naturais; não há, em uma,
mais soberania que na outra.
“Apesar disso, certas pessoas ficam muito escandali­
zadas com o uso de recursos diretos para se alcançar o
avivamento; bradam: ‘Estão procurando conseguir um
avivamento com as próprias forças. Tomem cuidado.
Vocês estão intrometendo-se na esfera da soberania de
Deus. Será melhor que as coisas continuem no curso
normal, deixando que Deus dê um avivamento quando
ele julgar conveniente. Deus é soberano, e vocês proce­
dem muito erradamente ao tentar produzir um aviva­
mento, só porque julgam haver necessidade dele.’ É
exatamente essa a pregação que o diabo quer. Os ho­

66
mens não podem realizar mais eficientemente a obra do
diabo, do que pela exaltação da soberania de Deus como
razão para não expendermos esforços em prol do aviva-
mento.
A soberania divina designa dispositivos e moldes
para a operação e o sucesso dos propósitos divinos.

QUANDO HA NECESSIDADE DE AVIVAMENTO?

Em certo sentido, a necessidade do avivamento na


Igreja cristã existe sempre, pois necessitamos sempre do
poder integral do Espírito Santo; porém, de um modo
geral o avivamento não é contínuo, mas marca épocas e
em certas ocasiões temos necessidade mais urgente dele
do que em outras.
Finney, com sua costumeira perspicácia, sinceridade
e com amor cristão, aborda este ponto: Quando ê que há
necessidade de um avivamento religioso nas igrejas e
entre os crentes em Cristo? Segundo ele o avivamento é
indispensável quando se notam os seguintes sintomas;
1. Quando existe falta de amor fraternal e confiança
cristã entre os crentes, então há necessidade de um
avivamento; há um forte clamor para que Deus revivifi-
que sua obra. Quando os cristãos se acomodam a um
estado de inércia e frieza espiritual, já não possuem o
mesmo amor e a mesma confiança uns para com os
outros, que possuiríam se estivessem todos ativos e
vivendo vidas santas...
2. Quando existem dissenções, ciúmes e maledicên­
cias entre os irmãos, há grande necessidade de um
avivamento. Tais sintomas mostram que os crentes se
afastaram muito de Deus, e é tempo de se pensar
seriamente em voltar para ele. A Igreja não pode
prosperar enquanto houver tais coisas dentro dela, e
nada é melhor que o avivamento para eliminá-las.
3. Quando há mundanismo, a Igreja evidentemente,
toma-se fria e sem poder. Os crentes se conformam com
o mundo no vestuário, no luxo, nas festas sociais, na
busca dos divertimentos e da literatura que ele oferece.

67
Isso tudo demonstra que estão longe de Deus e precisam
do avivamento.
4. Quando os membros da igreja estão incorrendo em
pecados graves e escandalosos, então é tempo de ela
despertar e clamar a Deus por um avivamento, Quando
acontecem fatos que trazem oprôbrio sobre os crentes
perante os inimigos de Deus, ê tempo de a Igreja clamar:
“Que será de teu grande nome Senhor?"
5. Quando há contendas na Igreja ou no lugar, há
necessidade de avivamento. O espírito do evangelho não
é polêmica. Não pode haver prosperidade na causa,
quando o espírito de contenda prevalece.
6. Quando os ímpios triunfam sobre a Igreja e
ultrajam os cristãos, é tempo de se buscar um avivamen­
to.
7. Quando os incrédulos se mostram indiferentes,
insensíveis, caminhando descuidados para o inferno, è
necessário que a Igreja seja sacudida. Ela precisa
despertar, assim como o bombeiro precisa acordar
quando, em plena noite, irrompe um incêncio numa
cidade grande. A Igreja tem obrigação de combater o
fogo do inferno que ameaça qs ímpios. Dormir! Devem
os bombeiros dormir e deixar que a cidade seja
totalmente destruída? Que se diría de tais bombeiros?
Entretanto a sua falta nada seria em comparação com a
culpa dos cristãos que dormem enquanto os pecadores ao
seu redor caminham insensíveis para o inferno.
A situação espiritual da América por volta do século
XIX aproximava-se bastante do que é agora nos meados do
vigésimo: vazante da vida espiritual e falta do temor de
Deus. O ceticismo e indiferentismo então reinantes eram
o resultado do deísmo inglês trazido para as Colônias por
oficiais ingleses das guerras com os franceses e com os
índios; da incredulidade dos revolucionários franceses;
do impacto de duas guerras mundiais dentro de uma
geração (a Guerra de Sete Anos e a longa peleja contra a
França sob o domínio de revolucionários e Napoleâo), e o
impacto da “Idade da Razão” da Europa. Veio então o
Segundo Avivamento, que transformou a nova república
desde a costa do Atlântico até a mais longínqua fronteira

68
de Kentucky e Tennessee. As igrejas reviveram, as esco­
las prosperaram, a moralidade nacional atingiu um nível
elevado, e o destino americano sob o controle de Deus
continuou a caminhar para o oeste.
Faremos bem em aplicar os critérios de Finney às
condições espirituais do nosso tempo, e veremos que o
avivamento é a maior necessidade da hora. A esta análise
de situações que clamam por um avivamento, ele
acrescentou indícios ante os quais podemos esperar um
avivamento, e isso serve para sondar o nosso coração e
para nos encorajar. O avivamento está às portas,
declarou Finney:
1. Quando a providência de Deus assim nos revela. A
orientação de Deus neste sentido, è, às vezes, tão evidente,
que vem a ser uma revelação da sua vontade. Verifica-se
uma série de acontecimentos que servem para abrir o
caminho, uma preparação de circunstâncias favoráveis
ao avivamento, de modo que todos os que estão vigilantes
podem sentir que ele se aproxima, tão claramente como
se tivesse sido revelado do céu.
2. Quando a iniqüidade dos ímpios entristece,
humilha e aflige os cristãos. Há ocasiões em que parece
que os crentes não se incomodam com a iniqüidade ao
seu redor, ou, se falam a respeito, è de modo frio,
calejado e insensível, como se já não esperassem renova­
ção; são mais inclinados a condenar os pecadores do que
a sentir por eles a compaixão do Filho de Deus. Outras
vezes, porém, a conduta dos ímpios impele os cristãos à
oração, quebranta-os, entristece-os e lhes enternece o
coração, de maneira tal que dia e noite choram por eles e,
ao invés de censuras e reprovações, oram intensamente
em favor deles. Então podemos esperar um avivamento.
3. Quando os crentes intercedem pelo avivamento.
Com isso quero dizer, quando oram como quem tem o
coração posto neste ideal. As vezes os cristãos não oram
pelo avivamento, mesmo quando são fervorosos na
oração. Seus pensamentos concentram-se noutra coisa;
estão pedindo outra coisa, como por exemplo a salvação
dos pagãos, e não a sua própria revivificação. Mas,
quando sentem a necessidade de um avivamento, pe­

69
dem-no; sentem a miséria de suas próprias famílias e
vizinhos, e oram em seu favor como quem não se
conformará com o indeferimento... Essa luta da alma é
aquela profunda angústia que as pessoas sentem quando
se apegam a Deus em busca de tal bênção e não o largam
até que a recebem. Não quero dizer com isso que tal
angústia seja essencial ao espírito de oração pelo
avivamento. A condição a que esse espírito de oração nos
eleva, já por si é uma revivificação iniciada.
4. Quando a atenção dos ministros está focalizada
nesse objetivo, e quando a pregação e outros esforços
seus se dirigem particularmente à conversão dos pecado­
res. A maior parte do tempo, ao que parece, os trabalhos
dos ministros visam a outros objetivos; parece que
pregam e trabalham sem ter propriamente a intenção de
conseguir a conversão imediata dos incrédulos.:. Jamais
haverá avivamento enquanto alguém não envidar esfor­
ços especiais nesse sentido. Mas quando a atenção de um
ministro é dirigida ao estado das famílias em sua
congregação, quando ele emprega os recursos apropria­
dos a esse objetivo, então podemos nos preparar para
esperar o avivamento.
5. Quando os crentes começam a confessar seus
pecados uns aos outros. Em outras ocasiões, confessari­
am de uma forma geral e vaga, como se não estivessem
muito empenhados naquilo. Poderíam fazê-lo em lingua­
gem eloquente, porém isso nada significaria. Quando,
porém, se verificar um quebrqntamento genuíno, um
derramamento do coração aofazerem a confissão de seus
pecados, as comportas logo se romperão e a graça
salvadora transbordará por toda parte.
6. Sempre que os crentes estejam dispostos a pagar o
preço necessário para alcançá-lo. Devem estar prontos
para sacrificar seus sentimentos, seus negócios e seu
tempo em favor da obra. Os ministros precisam estar
prontos a dispor de suas forças, arriscando a saúde e a
vida.
7. Quando ministros e cristãos estão prontos a
admitir que Deus faça a obra por intermédio dos
instrumentos que lhe aprouverem. As vezes os ministros
não se dispõem para o avivamento, a menos que eles
70
possam dirigi-lo, ou que a sua atuação se destaque
dentro da obra. Querem determinar para Deus o que ele
deve dirigir e abençoar, que homens ele deve pôr em
foco. Não querem saber de novos métodos. Tais homens
continuarão dormindo sem o avivamento, até o dia em
que soar a trombeta dojuízo, a não ser que se disponham
a admitir que Deus venha a seu próprio modo, e a
permitir que seja usado qualquer meio e qualquer pessoa
que maior bem possa fazer.
Em tese eu deveria dizer que, quando esses requisitos
são preenchidos, o avivamento já existe. Na verdade, um
avivamento deve ser esperado sempre que haja necessi­
dade dele. Se precisamos de revivificação, temos que ser
revivijicados. Se é nossa obrigação, então, é possível, e
devemos tomar a decisão de ser avivados, e, apoiados na
promessa de Cristo de estar conosco sempre e em todo
lugar, devemos trabalhar para despertar os crentes e
converter os incrédulos na expectação confiante de obter
sucesso.
Um avivamento geralmente começa num determina­
do lugar, muitas vezes pequeno e sem importância, e dali
o fogo se alastra para outros lugares impulsionado pelo
sopro de Deus. Jonathan Edwards observou que o
despertamento em Massachusetts, no século XVIII,
começou “em uma pequena aldeia chamada Pascom-
muck, e achava-se restrito a umas poucas famílias
apenas” , em seguida Northampton pegou fogo. Com
Finney começou em uma pequenina comunidade rural
denominada Evans Mills. Muitas vezes ele ocorre simul­
taneamente, ou quase simultaneamente, em lugares
distantes uns dos outros, e se espalha às regiões
adjacentes. Assemelha-se à queima das folhas de outono:
acendem-se as mais externas, que estão secas; então, à
medida que as internas vão-se secando pelo calor e são
revolvidas pelo ancinho ou garfo, também se incendeiam.
As folhas aparentemente incombustíveis pegam fogo por
causa do calor das que já estão em chamas. É sempre
assim.
A MENSAGEM DO AVIVAMENTO
“A Palavra do Senhor não voltará vazia, porém
71
efetuará aquilo para o que Deus a enviou” , foi a
confiança de Isaías, o profeta evangélico da antiga
dispensação; e o pescador de almas da nova era — fez
referência calorosa àqueles que "pregaram o evangelho
pelo Espírito Santo enviado do céu” . Embora a mensa­
gem do avivamento em si não varie quase nada de uma
geração para outra, há sempre um modo bem peculiar de
apresentá-la, conforme o pregador e a época. A mensa­
gem deve ser o derramamento do Espírito através da
pessoa do pregador, e os métodos deverão variar
conforme a personalidade do mensageiro. As palavras
podem ser moderadas e contudo penetrantes, calmas e
assim mesmo convincentes, suaves como o orvalho do
céu, mas podem também cair com torrentes de emoção
que varrem à sua frente toda a oposição e indiferença.
Asahel Nettleton, evangelista americano, convertido
durante o avivamento de Yale, na época do erudito e
espiritual reitor Timothy Dwight, foi grandemente
usado por Deus na conversão de almas; sua pregação era
despretensiosa, sincera, não emotiva, porém grandemen­
te produtiva. Peter Cartwright, evangelista impetuoso,
metodista itinerante na fronteira de Illinois, era, como se
vê, quase o polo oposto de Nettleton. Finney ocupou
terreno intermediário entre o evangelismo calvinista,
erudito e convincente, de Nettleton, e o arminianismo
furioso de Cartwright. Finney foi autêntico, agindo
conforme o que considerava certo. Em suas Lectures on
Revival e seus sermões impressos temos muito a aprender
sobre a mensagem do avivamento como instrumento de
Deus.
O fator importante da mensagem avivalista é que seja
bíblica e doutrinária. Nesse ponto Nettleton e Finney
estavam de acordo. A prédica de Moody foi sempre vazia
enquanto ele não se tornou um homem do Livro no poder
do Espírito; Torrey tanto era mestre da Palavra, como
pregador; as mensagens de Billy Graham, que estão
levando fnilhares a Cristo, são bíblicas do princípio ao
fim. Ouçamos o que diz sobre o assunto um velho
teólogo, profundo conhecedor da Palavra e da experiên­
cia avivalista. Como pastor e mais tarde reitor de

72
Princeton, Ashbel Green escreveu baseado em larga
experiência:
Resumidamente, eu diría que não considero que a
mensagem em tempos de avivamento, deva ser meramen­
te exortativa e dirigida aos sentimentos, antes pelo
contrário estou convicto de que deve ser proeminente­
mente doutrinária. Ela deve certamente ser vivaz, cheia
de ternura, íntima e repleta de aplicação; porém, as
doutrinas fundamentais do evangelho devem ser expos­
tas com clareza, explicadas de forma bem simples,
apresentadas com insistência. Deve haver um bom
número do que eu chamaria de discursos discriminati-
vos, em que se faça distinção nítida entre o evangelho
verdadeiro e todas as falsificações. 0 perigo de se
abraçar uma esperança falsa e nela descansar deve ser
bem demonstrado. Não deve faltar aquilo a que chama­
mos, por excelência, a pregação do evangelho, a inteira
suficiência do Senhor Jesus Cristo para salvar mesmo o
principal dos pecadores; sua prontidão em recebê-los
quando o buscam com fé e num espírito contrito; sua
prontidão em purificá-los em seu sangue expiador,
revesti-los com sua perfeita justiça, santificá-los pelo seu
Espírito, adotá-los em sua família e coroá-los com eterna
glória — tudo isso deve ser- exposto de maneira clara e
persuasiva. A verdadeira natureza da regeneração deve
ser cuidadosamente explicada e ilustrada — a fé
evangélica, o genuíno arrependimento, a nova vida de
obediência. Deve ser frequentemente destacado o perigo
de entristecermos e assim afastarmos o Espírito da graça,
quando ele está agindo em nós, e ainda o perigo que re­
presenta toda demora em aceitar a dádiva do evangelho.
Àqueles que permanecem em seus pecados, deve-se lem­
brar muitas vezes o perigo de se estar adormecido e indi­
ferente, quando outros estão ansiosos e apressando-se a
entrar no reino de Deus.
Por sua vez Finney, com base no seu longo serviço na
plenitude do Espírito, comentou largamente o assunto da
mensagem avivalista:
As Escrituras atribuem a conversão do pecador a
quatro agentes: aos homens, a Deus, à verdade e ao

73
próprio pecador. O grupo maior de passagens é das que
atribuem à verdade. Ê surpreendente que os homens
tenham deixado de observar essa distinção e tenham
encarado a conversão como se fosse obra exclusiva de
Deus.
A Bíblia fala deste assunto exatamente do mesmo
modo que nós falamos de assuntos comuns. Vejamos,
por exemplo, um homem que esteve muito doente. Ê tão
natural que ele diga a respeito de seu médico: “Aquele
homem salvou-me a vida. ” Quer ele dizer com isso que o
médico lhe salvou a vida sem a interferência de Deus?
Em absoluto, a não ser que ele seja ateu. Deus fez o
médico e também os remédios. E ninguém pode provar
que a intervenção de Deus não seja tão real ao fazer com
que o remédio produza efeito salvando a vida, quanto o é
ao fazer com que a verdade produza efeito salvando a
alma. Afirmar o contrário é puro ateísmo. Portanto, é
verdade que o médico salvou aquele homem, e também é
verdade que Deus o salvou. De igual modo, è verdade
que o remédio lhe salvou a vida, e que ele salvou sua
própria vida tomando o remédio; pois o remédio não lhe
teriafeito nenhum benefício se ele, voluntariamente, não
o tomasse ou não entregasse o corpo à sua operação.
No processo da conversão é certo que o Espírito toma
a verdade eficaz para fazer o pecador voltar-se para
Deus. Ele è um agente ativo, voluntário e poderoso em
mudar-lhe o pensamento. Mas não é o único agente. A
pessoa que chama a atenção do incrédulo para a verdade
ê também um agente. Somos inclinados a considerar os
ministros e outros homens como meros instrumentos na
conversão dos pecadores. Mas não è bem assim. O
homem è algo mais que instrumento. A verdade, sim, é
mero instrumento inconsciente. Mas o homem é mais: é
um agente voluntário e responsável nesta empresa...
Suponhamos que estamos em pé à margem das quedas
do Niágara. De repente avistamos um homem que,
completamente distraído, vem-se aproximando da beira
do abismo sem a menor noção do perigo. Aproxima-se
cada vez mais, até que ergue o pé para dar o último passo
que o mergulhará na destruição. Nesse instante levanta­

74
mos a voz acima do rugirdas águas e bradamos: “Pára!”
O som penetra-lhe o ouvido e desfaz o encantamento que
o dominava. Imediatamente o homem pára e dá meia
volta. Pálido e horrorizado, retira-se, dizendo: “Aquele
homem me salvou a vida.” A í ele nos atribui a obra, e
inegavelmente ê verdade que o salvamos. Contando
depois ofato, ele diz: “Pára! Como essa palavra ressoa
aos meus ouvidos. Ah, essa foi, para mim, a palavra da
vida.” Agora ele atribui seu livramento à palavra que o
despertara, fazendo com que se voltasse. Continuando a
discorrer sobre o fato, ele acrescenta: “Se eu não me
tivesse voltado naquele instante, estaria morto. ” A í ele se
refere ao caso, e acertadamente, como seu próprio ato;
porém, em seguida o ouvimos exclamar: “Ah, a miseri­
córdia de Deus! Se Deus não interviesse, eu estaria
perdido. ” Ora, o único defeito dessa ilustração é este: no
caso imaginado, a intervenção de Deus fo i apenas
providencial, e o sentido em que a vida do homem fo i
salva por Deus é exclusivamente esse sentido providen­
cial. Na conversão do pecador, porém, entra mais
alguma coisa da parte de Deus, além da simples
providência; pois aqui, não apenas o pregador, na
providência divina, clama: Pára!, mas também o Espírito
de Deus cala no coração a verdade com poder tão
tremendo, que o pecador é induzido a parar...
Desse assunto, partem certos pormenores importan­
tes com referência à pregação do evangelho, e que
demonstram que uma grande sabedoria prática é indis­
pensável na conquista de almas para Cristo. Ei-los:
1. Toda pregação deve ser prática.
O objetivo natural de toda a doutrina é a prática. A
apresentação, cõmo doutrina, de qualquer coisa que não
possa ser utilizada na prática, deixa de ser pregação do
evangelho. Na Bíblia não existe tal mensagem; tudo nela
é prático.
“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o
ensino, para a repreensão, parà a correção, para a
educação na justiça, afim dé que o homem de Deus seja
perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra."

75
Grande parte das mensagens de hoje, como também do
passado, são chamadas de doutrinárias e se distinguem
da pregação prática. A própria idéia desta distinção é
invenção diabólica... Pregar doutrinas de modo abstrato,
e sem referência à prática, è absurdo. Deus sempre
introduz a doutrina para regular a prática. Apresentar
idéias doutrinárias com qualquer outra finalidade, não
só ê incoerente, como também pernicioso.
Há pessoas que são contrárias à prédica doutrinária.
Se estão acostumadas a ouvir a pregação de doutrinas de
modo frio e abstrato, não é de se admirar que lhe sejam
contrárias. £ o que devem ser. Mas que pode um homem
pregar, se não prega doutrina? Se não prega doutrina
não prega o evangelho e se não a prega de modo prático,
não prega o evangelho. Toda a mensagem deve ser
doutrinária, e também prática. O propósito da doutrina
ê regular a prática. Qualquer mensagem que se desvia
desse objetivo não está apresentando o evangelho. Um
tipo vago, exortativo de pregação poderá despertar os
sentimentos e produzir entusiasmo, porém jamais instru­
irá suficientemente o povo. para produzir frutos sólidos.
Por outro lado, pregar doutrinas de maneira abstrata
poderá encher a cabeça de noções, porém jamais
santijicará o coração ou a vida.
2. A mensagem deve ser direta. O evangelho deve ser
pregado aos homens e não acerca deles. O ministro deve
dirigir-se a seus ouvintes. Deve pregar a eles a respeito
deles mesmos, não dando a impressão de que lhes está
pregando a respeito de outra pessoa. Não há benefício
maior do que convencer a pessoa de que a mensagem é
para ela. Muitos pregadores, ao que parece, têm medo de
dar a impressão de que se referem a alguém em
particular. Pregam contra determinados pecados, porém
não que tenham alguma coisa a ver com o pecador. £ o
pecado e não o pecador que reprovam, e de modo algum
falariam de modo a dar a idéia de que eles supõem que
algum de seus ouvintes seja culpado de tão abomináveis
costumes. Ora, isso pode ser tudo, menos pregação do
evangelho. Assim não procederam os profetas, nem
Cristo, nem os apóstolos. Nem tampouco a fazem os

76
ministros que são bem sucedidos na pesca de almas para
Cristo.
3. Outra consideração muito importante com refe­
rência à pregação é que o ministro devi ir em busca dos
incrédulos e dos crentes onde quer que eles se tenham
entrincheirado na inatividade. A finalidade da pregação
não é pôr os homens sossegados e â vontade, e sim
levá-los a AGIR... O ministro deve conhecer as opiniões
religiosas de cada membro de sua congregação. De fato,
o ministro rural é geralmente inexcusável se as desconhe­
cer. Ele não tem desculpa por não conhecer os pontos-de-
vista religiosos de toda a sua congregação, e de quantos
estejam sob sua assistência, se tem tido oportunidade de
conhecê-los. De outro modo, como pode pregar-lhes?
Como pode levantar qualquer assunto aplicando mensa­
gem ao contexto em que vivem? Como poderá alcançá-
los se não souber onde se acham?
4. Outra consideração importante ê que o ministro
deve dedicar maior atenção aos assuntos mais necessá­
rios. Algumas vezes ele pode encontrar um povo acostu­
mado a confiar muito em suas próprias resoluções. Eles
pensam que podem acomodar-se às conveniências; mais
tarde tomarão uma decisão, quando se sentirem prepara­
dos para isso, independente da ação do Espírito de Deus.
O ministro deve combater tais idéias, demonstrando que
são absolutamente contrárias às Escrituras. Deve mos­
trar que, se o pecador continuar entristecendo o Espírito
de Deus até que este se retire, aquele, por mais capaz que
seja, certamente jamais se arrependerá, e que, mais
tarde, quando lhe for conveniente, não terá disposi­
ção interior. Pode encontrar um povo, com tais no­
ções a respeito da predestinação e da soberania divi­
na, que eles pensem que não há nada a fazer senão
aguardar o movimento das águas. O ministro deve
opor-sefrontalmente a tais idéias, e revelara necessidade
de obedecer a Deus, mostrar ao homem a parte que lhe
compete na salvação, e insistir até levá-lo a submeter-se e
ser salvo. Ele está escudado em noções erradas, e não há
nenhum meio de ganhá-lo a não ser destruindo sua falsa
segurança. Onde quer que o incrédulo esteja entrinchei­

77
rado, se não derramarmos a luz sobre ele ali, jamais
conseguiremos.
Tenho visitado muitos lugares em épocas de aviva-
mento, e nunca pude empregar exatamente o mesmo
curso de pregação em dois lugares. Algumas pessoas
estão entrincheiradas atrás de um refúgio, outras atrás de
outro. Em um lugar, a igreja é que necessita ser
doutrinada; em outro, os incrédulos. Em um lugar têm
carência de certas doutrinas, em outro lugar, de outras.
0 ministro precisa descobrir a falha para pregar de
acordo. Creio que ê essa a experiência de todos os pre­
gadores que são chamados para trabalhar de campo em
campo.
5. Se um ministro pretende trazer avivamento, ele
deve ter muito cuidado para não levantar polêmicas. Se o
fizer, afastará o Espírito de Deus. Ê desse modo,
provavelmente, que muitos avivamentos são sufocados.
Vejamos a história da Igreja desde o princípio, e
notaremos que geralmente os ministros são os responsá­
veis pelo afastamento do Espírito e pelo início dos de­
clínios, por causa de controvérsias. São os ministros que
levantam assuntos controvertidos para discussão; logo
desenvolvem grande zelo sobre o assunto; eníão envol­
vem a igreja em um clima de discussões, e assim o
Espírito de Deus, entristecido, se afasta... Se um ministro
encontrar a necessidade de, na pregação, abordar certos
pontos a cujo respeito os cristãos divergem, ao fazê-lo,
evite A TODO CUSTO o clima de discussão.
6. O evangelho deve ser pregado com tal senso de
'proporção de nossa parte, que todas as suas verdades
sejam apresentadas à consideração do povo, produzindo
o efeito necessário. Se dermos demasiada ênfase a
determinadas doutrinas, não formaremos um caráter
cristão equilibrado. Se tratarmos quase que exclusiva­
mente dos aspectos do evangelho que requerem grande
exercício do intelecto, sem a devida aplicação ao coração
e à consciência, verificaremos que a igreja aprenderá
aquelas doutrinas, todos terão as cabeças cheias
de conceitos, porém não ficarão despertados, ativos
e eficientes na evangelização. Se, por outro lado, a

78
pregação fo r vaga, indefinida, exortativa e altamente
apaixonada, a igreja será como um barco com excesso de
vela para o lastro que tem. Estará em perigo de ser
levada por uma tempestade de sentimentos, por não
haver conhecimento suficiente para evitar que seja
levada por todo vento de doutrina.
7. Ê de grande importância que se faça sentir ao
pecador a sua culpa, e que ele não seja deixado com a
impressão de que ê infeliz. Creio que essa é uma falta
muito generalizada, principalmente em livros sobre o
assunto, que tendem a levar o pecador a pensar mais em
suas tristezas do que em seus pecados, e a sentir que seu
estado é antes de infelicidade do que de crime...
8. O objetivo primordial do pregador deve ser o de
fazer o incrédulo sentir a necessidade de uma decisão
imediata. Creio que já conversei, com muitos milhares de
interessados, e tenho observado que muitos deles haviam
sentido a urgência da decisão imediata. Não ê muito
cothum os ministros, em sua pregação, enfatizarem para
o pecador que o tempo de arrepender ê AGORA. E se os
ministros supõem que dão essa impressão, enganam-se.
De um modo geral a impressão ê outra qualquer, menos
esta, que deles se espera que façam uma decisão “ago­
ra".
9. Deve-sefazer com que os incrédulos sintam que há
alguma coisa que eles têm a fazer: arrependerem-se; e
isso é algo que ninguém mais pode fazer por eles, nem
Deus, nem homem, mas que eles podem fazer; não é algo
para se esperar. E precisam fazê-lo agora, ou estarão em
perigo de morte eterna.
10. Os ministros nunca devem dar-se por satisfeitos
enquanto não tiverem ANIQUILADO toda desculpa do
pecador. A alegação de "incapacidade” è a pior de todas
as desculpas, pois difama a Deus, acusando-o da tirania
infinita de ordenar aos homens que façam aquilo que
eles não têm poder para fazer. Façamos o pecador ver e
sentir qual è, realmente, a natureza de sua falta. É
necessário fazê-lo ver que todas as alegações à guisa de
desculpa para não se submeter a Deus constituem ato de
rebelião contra ele. Precisamos arrancar a última MEN-

79
TIRA que ele conserva na mão, e fazê-lo sentir que está
irremediavelmente perdido diante de Deus.
11. Ê importante mostrar-lhe que, se entristecer e
afastar o Espírito de Deus, pode ficar perdido para
sempre. O perigo ê muito grande. Precisamos fazê-lo
compreender por que depende do Espírito, e que se não
tomar uma decisão, não é por incapacidade para fazer o
que Deus ordena, e sim porque não quer... Devemos
mostrar-lhe, também, que aquele que ouve o evangelho,
e se converte, geralmente converte-se logo. Quando a
verdade ê pregada, o pecador ou se endurece ou se
converte. Sabemos que alguns velhos corações endureci­
dos são, às vezes, quebrantados. Contudo, isso não ê
comum, mas representa algumas exceções.
As mensagens a respeito do inferno geralmente
aparecem durante os avivamentos, e são sempre critica­
das amargamente pelos não salvos e pelos indiferentes. A
terrível verdade do estado de perdição dos ímpios é
declarada nas Escrituras do princípio ao fxm. Jamais
houve coração mais terno do que o do Senhor Jesus,
entretanto ninguém jamais falou com mais autoridade
ou ênfase sobre a realidade do inferno Entre seus
muitos avisos encontramos: “Não temais aqueles que
matam o corpo e não podem destruir a alma; temei antes
aquele que pode destruir alma e corpo no inferno... Os
anjos sairão, separarão os ímpios dos justos e os lançarão
na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de
dentes... Pois que aproveitará o homem se ganhar o
mundo inteiro e perder a sua alma?... Melhor é entrares
na vida manco ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou
dois pés, seres lançado no fogo eterno...”
Em seu tempo, Edwards defendeu o uso da pregação
forte e apaixonada, não somente aos indiferentes como
também aos despertados.
Censurar um ministro por mostrar a verdade aos que
se despertam e não ministrar-lhes logo em seguida o
conforto, é como acusar um cirurgião, quando começa a
introduzir a lanceta, causando grande dor ao paciente,
pela crueldade de não retirar a mão, mas, ao cóntrário,
passar a introduzir mais ainda o ferro, até chegar à raiz

80
domai. Um médico que fosse tão compassivo que, assim
que o paciente começasse a recuar, retirasse a mão e
tratasse imediatamente de aplicar^ o esparadrapo, curan­
do superficialmente a ferida e deixando intacta a raiz,
seria desses que dizem: paz, paz, quando não há paz.
Finney pregava categórica, fervorosa e eficazmente
sobre a eternidade. Um estudo cuidadoso de sua
mensagem candente sobre “ Loucura Moral” mostrará
como eram profundos seus sentimentos sobre o assunto e
com que clareza ele apresentava a verdade do terrível
"manicômio do universo” onde os loucos espirituais, por
mais sãos que sejam intelectualmente, serão recolhidos
para sempre.
Essa é a mensagem que, no poder do Espírito de
Deus, produz o avivamento: prática, incisiva, definida,
pessoal e bem proporcionada. Deve-se dar ênfase em
todo lugar à importância de se pregarem verdades
negligenciadas, pois parece que o Espírito de Deus uti­
liza de modo peculiar a mensagem evangelística menos
conhecida. Nos dias de Edwards e Whitefield foi a
pregação do “novo nascimento” que despertou multi­
dões para sentirem sua necessidade do Salvador. No
Segundo Despertamento, Timothy Dwight'combateu a
incredulidade com todas as forças de sua lógica e
exortação, até que os estudantes de Yale começaram a
compreender que eram pecadores perdidos e não afeta­
dos filósofos. Finney pregou a responsabilidade e capaci­
dade humanas, em uma geração de ultracalvinismo e
universalismo.
Quais serão as doutrinas bíblicas que nós temos
negligenciado e que, quando forem pregadas, produzirão
avivamento?
OS BANCOS E O PÚLPITO
A mensagem mais poderosa do mundo jamais produ­
zirá avivamento enquanto perdurar incoerência ou indi-
ferentismo por parte do povo cristão. Se os crentes se
mostram descuidados e indiferentes, por que os pecado­
res hão de se preocupar? A igreja que é fria e
desinteressada nos valores eternos, preocupada quase
exclusivamente com os prazeres e tesouros passageiros
81
deste mundo, oferece falsos lenitivos aos descrentes.
Finney observou que, entre membros de igreja dessa
qualidade, “seu próprio modo de se retirarem da igreja
contradiz o sermão. Vão saindo contentes e acomodados,
saudando uns aos outros, como se nada houvesse de mal.
Pode o ministro avisar diariamente a todo homem, com
lágrimas, que nenhum efeito produzirá.”
A igreja que, pela sua vida descuidada, testifica
efetivamente contra a pregação do evangelho, deixará os
pecadores endurecidos. Uma vez, porém, que os crentes
comecem a acordar, a examinar seus próprios corações,
a obedecer a seu Senhor, e a viver em harmonia com a fé
que professam, então os endurecidos se tornarão sensí­
veis. Finney aprendeu pela experiência, que, “se os
cristãos vivessem, uma semana que fosse, como quem
realmente crê na Bíblia, os pecadores haviam de se
derreter perante eles.” Exortando os crentes à coerência
de vida, declarou: “Em cada passo que damos, pisamos
cordas que vibrarão por toda a eternidade. Toda vez que
nos movemos, tocamos teclas cujo som reverberará por
todos os montes e vales do céu, e por todos os recintos e
antros tenebrosos do inferno. A cada momento de nossa
vida estamos exercendo tremenda influência que refletirá
nos interesses imortais das almas ao nosso redor.
Porventura podemos dormir, enquanto toda a nossa
conduta está exercendo tamanha influência?”
De que modo, então, hão de os cristãos que ocupam
os bancos na igreja corroborar com o pregador no
púlpito? Finney deu resposta pertinente e incisiva:
Por preceito e por exemplo — em todas as ocasiões
oportunas, pelos lábios, mas principalmente por suas
vidas. Os crentes não têm o direito de manter silenciosos
seus lábios: devem ‘‘corrigir, repreender e exortar com
toda a longanimidade e doutrina". Mas sua influência
principal como testemunhas ê através de seu exemplo.
Deles se requer sejam testemunhas desse modo, porque o
exemplo ensina com muito mais força que o preceito.
Isso é universalmente reconhecido. Os atos falam mais
alto do que as palavras... Devem viver, na vida e
conversação diárias, como quem crê na Bíblia.

82
1. Como quem crê que a alma é imortal, e que a
morte não é o término de sua existência, porém a
entrada para um estado imutável. Deverão viver de modo
a dar profundamente a impressão disso a todos a seu
redor.
2. A vaidade e insatisfação das coisas deste mundo.
Daremos testemunho disso com a nossa vida. O fracasso
nesse ponto é a grande pedra de tropeço no caminho da
humanidade. Aqui, mais do que em qualquer outro
setor, existe a necessidade do testemunho dos filhos de
Deus. Os homens se entretêm de tal modo com os objetos
dos sentidos, que muito facilmente excluem de suas
mentes a eternidade...
3. A satisfação que provém de Deus. Os cristãos não
podem deixar de demonstrar pela sua conduta que eles
estão realmente satisfeitos com os prazeres do espírito,
sem as pompas e as vaidades do mundo. Devem
manifestar que este mundo não è seu lar. Vivem na
confiança de que o céu é uma realidade, e que esperam lá
habitar para sempre.
4. A culpa e o perigo dos pecadores. Os crentes têm a
obrigação de avisar os pecadores de sua triste condição,
exortá-los a fugir da ira vindoura e lançar mão da vida
eterna. Mas quem é que não sabe que a maneira de se
fazer isso é que é tudo? Muitas vezes o pecador é tomado
de convicção pela simples maneira de se fazer uma coisa.
Havia certa vez um homem que era muito contrário a
determinado pregador. Quando lhe pediram que especi­
ficasse a razão, ele respondeu: “Não suporto ouvi-lo, pois
ele pronuncia a palavra INFERNO de tal modo que me
fica ecoando, muito tempo depois, nos ouvidos. Ele
estava contrariado justamente com aquilo que constituía
o poder de pronunciar aquela palavra.
Mulher, suponhamos que você diga a seu marido
descrente, com ares de brincadeira e riso: “Meu bem,
creio que você está caminhando para o inferno” — ele
lhe dará crédito? Se a sua vida for folgazã e frívola, você
mostrará ou que não acredita no inferno, ou que deseja
que ele vá para lá e está procurando evitar que se
converta. Você tem filhos que ainda não se converteram?

83
Se nunca lhes diz uma palavra a respeito do evangelho,
ou, quando fala com eles, o faz de modo tão frio, duro e
seco que demonstra não ter sentimento — imagina que
lhe dão crédito?
5. O amor a Cristo. Temos que dar testemunho da
realidade do amor de Cristo pelo acatamento que
demonstramos para com seus preceitos, sua honra, seu
reino. Devemos demonstrar que cremos que ele morreu
pelos pecados do mundo todo, e que é inadmissível o
fato de o homem rejeitar essa grande salvação. Ê essa a
única forma legítima pela qual podemos impressionar os
incrédulos com o amor de Cristo. Ao invés de assim fazer,
muitos crentes vivem de modo a dar aos pecadores a
impressão de que Cristo é tão compassivo que eles pouco
têm a temer da parte dele.
6. A necessidade da santificação para se entrar no
céu. Aqui, as palavras não resolvem. Os crentes têm que
viver vidas santas, e assim testificar que os homens não
devem esperar a salvação se não forem santos.
7. A necessidade da abnegação. Os cristãos devem
mostrar pelo seu exemplo, qual a qualidade de vida que
se espera dos homens. Essa é, afinal, a pregação mais
poderosa e que mais probabilidade tem de exercer
influência sobre os ímpios, fazendo-os ver a grande
diferença que há entre eles e òs crentes.
8. Mansidão, humildade e espiritualidade. O povo de
Deus deve revelar sempre um espírito como o do Filho de
Deus que, ultrajado, não revidava com ultraje... Não há
nada que impressione mais o pecador, que cause maior
peso à sua consciência, do que ver um crente, como
Cristo, suportando afrontas e injúrias com a mansidão
do cordeiro. Corta como espada de dois gumes.
9. A necessidade de absoluta honestidade por parte
do cristão. Um campo enorme para comentários se abre
aqui! Mas não posso entrar em detalhes agora. Esta
questão estende-se a todos os setores da vida. Os crentes
precisam dar toda atenção à integridade em todos os
setores de negócios, e nas suas relações com os semelhan­
tes. Se cada cristão revelasse o mais escrupuloso respeito
pela honestidade, e fosse sempre consciencioso em

84
proceder com absoluta correção, seríamos uma poderosa
influência nas mentes das pessoas quanto à realidade dos
princípios cristãos.
Somente à medida que os cristãos que ocupam os
bancos nos templos substanciarem, por palavra e vida, o
que o pregador anuncia do púlpito, é que a mensagem
evangélica poderá produzir avivamento.

TESTEMUNHO PESSOAL

“O que ganha almas é sábio” , disse o mais sábio dos


homens dos tempos do Antigo Testamento. “Vinde após
mim, e eu vos farei pescadores de homens”, declarou o
Salvador ao chamar os primeiros discípulos a seu serviço.
Não apanham peixes os pescadores descuidados ou
displicentes que nada procuram saber do habitat e dos
hábitos dos moradores das águas, nem tampouco almas
são ganhas para o Salvador por testemunhas sem
interesse ou instrução nesse mister. A pesca de almas é o
mais importante trabalho, o que mais satisfaz e
melhor recompensa. Não declarou Daniel: “Os que
forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamen­
to; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as
estrelas sempre e eternamente” ?
Finney foi um mestre pescador, e da sua larga e
eficiente experiência pode dar-nos informações preciosas
sobre a maneira de se tratar com os pecadores, tanto
aqueles que permanecem descuidados e indiferentes,
como aqueles que estão despertados, porém ainda não
salvos.

A MANEIRA DE SE TRATAR COM


PECADORES INDIFERENTES

Quanto ao tempo. Ê importante escolhermos a hora


certa para tentar criar uma impressão séria na mente de
um pecador indiferente. Muito depende de escolhermos
o momento adequado. Pois, se deixarmos de acertar
nessa escolha, ê provável não lograrmos êxito. Podemos
dizer que è nosso dever avisar a todo tempo os pecadores
e procurar acordá-los para pensarem na alma. Ê
85
verdade; entretanto, se não dermos a devida atenção ao
tempo e à oportunidade, nossas esperanças de êxito
poderão ser muito duvidosas.
1. Ê conveniente, se fo r possível, só falar a uma
pessoa indiferente quando estiver livre de outras ocupa­
ções. Quando a sua atenção estiver ocupada com outro
assunto, será difícil despertá-la para sua ^situação espiri­
tual. As pessoas que permanecem desinteressadas ou
indiferentes quanto à vida espiritual, longe de se
sentirem beneficiadas, muitas vezes se ofendem se são
desviadas de afazeres importantes e legítimos.
2. Ê importante abordar a pessoa, se possível, em
hora em que não esteja muito empolgada com outro
assunto. Se estiver, não será um momento próprio para
ouvir sobre sua necessidade espiritual.
3. Verifiquemos se a pessoa está perfeitamente nor­
mal. Houve tempo em que era mais comum do que agora
as pessoas tomarem bebidas alcoólicas diariamente e
ficarem mais ou menos embriagadas. Quanto menos
sóbrias estiverem, mais incapacitadas estarão para ouvir
o evangelho.
4. Se possível, quando quisermos conversar com um
homem sobre a salvação, abordemo-lo quando estiver de
bom humor. Se o encontrarmos de mau humor, é
provável que se zangue■e nos insulte. Será melhor
deixá-lo dessa vez, senão poderemos apagar o Espírito. Ê
possível que nossa conversa possa arrefecer-lhe o mau
humor, porém não é provável.
5. Se possível, procuremos conversar com pessoas
indiferentes quando estiverem sozinhas. A maioria dos
homens é orgulhosa, para que se possa falar livremente
com eles, a seu próprio respeito, na presença de outras
pessoas, ainda que estas sejam de sua própria família.
Em tais circunstâncias um homem reúne todas as suas
forças para se defender, enquanto que, se estivesse
sozinho, seria mais acessível à verdade. Ele resistirá à
verdade, ou procurará levar o assunto na brincadeira,
com receio de que, se mostrar seus sentimentos, alguém
vá contar que ele está preocupado. Ao visitar uma
família, ao invés de reunir seus membros para falar a

86
todos juntos, o caminho mais acertado é falar, com
todos, sim, porém, com um de cada vez.
6. Procuremos aproveitar a oportunidade para falar
com um pecador indiferente quando os acontecimentos
da providência divina parecem favorecer nosso intento.
Se ocorrer determinado fato, que contribua para criar
um clima favorável, não deixemos de aproveitar a
ocasião da melhor maneira possível.
7. Aproveitemos a primeira oportunidade para con­
versar com os indiferentes ao nosso redor. Não adiemos
de um dia para o outro, pensando que virá oportunidade
melhor.
8. Se sentirmos zelo espiritual por um pessoa, procu­
remos uma oportunidade para falar-lhe enquanto esse
sentimento perdura.
COMO EVANGELIZAR OS INDIFERENTES
1. Ao nos aproximarmos de um indiferente com o
intuito de despertar nele interesse pela sorte de sua alma,
façamo-lo bondosamente. Deixemos que ele perceba que
nos dirigimos a ele, não para provocá-lo nem questionar
com ele, mas porque amamos a sua alma e lhe desejamos
o maior bem aqui e na eternidade.
2. Sejamos sérios. Evitemos toda a leviandade, no
modo ou na linguagem. A leviandade poderá produzir
qualquer impressão, menos aquela que queremos dar.
Devemos sentir que estamos empenhados num trabalho
seríssimo que afetará o caráter de nosso amigo ou vizinho
e provavelmente determinará seu destino para a eterni­
dade.
3. Mostremos respeito. Há quem suponha ser neces­
sário mostrar-se brusco, indelicado e áspero em seu
modo de tratar com incrédulos e desviados. Não pode
haver erro maior. O apóstolo Pedro nos dá uma regra
melhor no assunto, quando diz: “Sede... misericordiosos,
humildes, não pagando mal por mal ou injúria por injú­
ria; antes, pelo contrário, bendizendo...”
4. Tenhamos o cuidado de ser muito claros. Não
devemos encobrir nenhuma circunstância do caráter da
pessoa e de suas relações com Deus. Coloquemos tudo às
87
claras, não para ofender ou feri-la, mas porque é
necessário. Antes de poder curar um ferimento, precisa­
mos sondá-lo até o fundo. Não retenhamos nenhuma
parte da verdade, mas deixemos que se desenrole diante
da pessoa.
5. Procuremos apelar para sua consciência. Nos
sermões públicos, muitas vezes os ministros se dirigem
aos sentimentos e assim despertam a mente. Na conversa
particular, porém, não podemos fazer isso: não podemos
derramar a verdade de modo apaixonado e violento. E se
não nos dirigirmos à consciência, não atingiremos a
mente.
6. Apliquemos à mente da pessoa as verdades
fundamentais. Os pecadores têm muita tendência
para desviar o assunto para algum pretexto ou ponto
secundário, principalmente de sectarismo... Digamos-lhe
que o interesse do momento è salvar-lhe a alma e não
resolver questões controvertidas de teologia. Prendamo-
lo aos pontos fundamentais, através dos quais ele há-de
salvar-se ou perder-se.
7. Sejamos muito pacientes. Se ele tiver alguma
dificuldade real em mente, sejamos muito pacientes até
descobrir o que é, e então esclareçamo-lha... Não
procuremos respondê-la por argumentos, antes mostre­
mos-lhe que ele não è sincero em apresentá-la.
8. Tenhamos cuidado para conservar sempre a
calma. Há muitas pessoas que não têm calma suficiente
para conversar com aqueles que apresentam forte
oposição ao evangelho. Para tais pessoas, não há vitória
mais almejada do que a de nos ver zangados. Sairá
exultante porque conseguiu descontrolar um crente,
9. Se o pecador estiver inclinado a entrincheirar-se
contra Deus, tomemos cuidado para em nada tomar ja
partido dele. Ai vezes um pecador indiferente se põe a
criticar os crentes. Não tomemos partido nem a favor
nem contra ele. Façamo-lo ver simplesmente que ele não
terá que responder pelos pecados deles e que melhor lhe
será cuidar de si.
10. Falemos de seus próprios pecados. Falar do
pecado em termos gerais não dará resultado. Necessita­

88
mos fazer sentir ao homem que estamos falando dele.
11. De modo geral convém ser breve e não prolongar
aquilo que tivermos a dizer. Devemos ir diretamente ao
ponto importante, dizer poucas coisas, frisando-as, e
levando-as a um desfecho. Se fo r possível, façamos com
que se arrependam e se entreguem a Cristo na hora. Esse
é o objetivo real. Evitemos cuidadosamente dar a
impressão de que não esperamos que se arrependam
AGORA.
12. Se possível, quando conversarmos com pecadores,
não deixemos de orar com eles. Se conversarmos e os
deixarmos sem orar, nosso trabalho ficará incompleto.
COMO EVANGELIZAR OS INTERESSADOS

1. Devemos ter o cuidado de distinguir entre um


pecador despertado e um que está sob convicção.
Quando encontrarmos uma pessoa sensível às verdades
eternas, não podemos presumir que ela está convicta da
sua condição de pecadora, deixando por isso de empre­
gar esforços para demonstrar-lhe seu pecado. Muitas
vezes alguém é despertado por alguma circunstância
providencial, tal como enfermidade, uma tempestade,
pestilência, morte na família, decepção, etc., ou pelo
Espírito de Deus, de modo a estar com os ouvidos abertos
e prontos para ouvir o evangelho com atenção, seriedade
e algum sentimento. Se verificarmos que a pessoa está
despertada, seja como for, não demoremos a trazer luz à
sua mente. Uma vez conseguida a atenção do pecador,
muitas vezes sua convicção e conversão ê trabalho de
poucos momentos. Podemos às vezes conseguir mais em
cinco minutos, do que em anos ou mesmo na vida inteira,
quando a pessoa está insensível e indiferente.
Tenho ficado estupefato com o procedimento de
certos chefes de família, que permitem que uma pessoa
interessada passe dias e semanas em sua casa, e não lhe
dizem uma só palavra sobre o evangelho. Ora, dizem, se
o Espírito de Deus começou uma obra nela, por certo irá
continuá-la! A pessoa interessada deve ser visitada
imediatamente, assim que se mostra despertada, e a
verdade do evangelho esclarecida em sua mente, sem
89
demora. Se aquele momento favorável for perdido,
jamais poderá ser reavido.
Muitas vezes tenho visto, nos avivamentos, crentes
que estavam constantemente em vigilância para notar se
algumas pessoas pareciam estar despertadas. E assim
que viam alguém começar a manifestar sensibilidade
durante a pregação, marcavam-no e, terminada a
reunião, convidavam-no para uma sala, conversavam e
oravam com ele, evitando, se possível, de deixá-lo
enquanto não estivesse convertido.
COMO EVANGELIZAR ALGUÉM QUE ESTA
SOB CONVICÇÃO DE PECADO

O homem que está sob convicção de pecado sente-se


condenado pela lei de Deus como réu. Ele está suficiente­
mente instruído para compreender alguma coisa da
extensão da lei de Deus, percebe e sente seu estado de
culpa e sabe qual ê o remédio. Evangelizar pessoas assim
exige, muitas vezes, grande sabedoria. Em. certos casos, é
extremamente difícil saber como tratá-los.
I. Quando alguém está convicto e não convertido,
mas permanece em estado de ansiedade, há geralmente
uma razão específica. Assim sendo, não adianta exortá-
lo a arrepender-se, nem explicar-lhe a lei. Tudo isso ele
sabe; compreende esses pontos gerais. Mas mesmo assim
não se arrepende. Ora, deve haver algum problema em
particular a ser resolvido. Podemos ficar prçgando e
orando, e exortando a vida inteira sem nada conseguir.
Precisamos então tratar de descobrir qual é aquele
problema. O médico que, ao ser chamado para visitar
um doente, encontrá-lo sofrendo dè determinada enfer­
midade, administra primeiro os remédios gerais aplicá­
veis àquela doença. Se não produzem efeito e a moléstia
continua, ele terá de examinar o caso, conhecer o
organismo do doente, seus hábitos, regime alimentar,
modo de vida, etc., para descobrir que é que há, que não
permite ao remédio fazer efeito. Ê o mesmo caso com o
pecador que está convencido e não convertido. Se nossas
instruções e exortações comuns não produzem efeito,
deve haver um problema. Muitas vezes o próprio
90
indivíduo sabe qual é esse problema, mas ele o conserva
oculto. /4s vezes é alguma coisa que escapou até mesmo à
sua própria observação.
1. Algumas vezek a pessoa tem um ídolo, alguma
coisa que ela preza mais do que a Deus e que a impede de
se entregar. Precisamos procurar descobrir o que è que
ela não quer deixar.
2. Talvez a pessoa tenha praticado contra alguém
uma ofensa que exige reparação e que ela não se dispõe a
confessar ou recompensar com justiça. Ora, enquanto
não confessar e abandonar esse pecado, ela não encon­
trará misericórdia. Se for possível descobri-lo, devemos
dizer-lhe claramente e com franqueza que, enquanto não
se dispuser a confessá-lo e fazer o que lhe compete, não
haverá esperança para ela.
3. Algumas vezes há um determinado pecado que a
pessoa não quer abandonar; acha que ê muito pequeno,
ou procura convencer-se de que não é pecado. Ora, pode
ser muito pequeno, mas a pessoa jamais poderá entrar no
reino de Deus enquanto não o abandonar.
4. Verifiquemos se não há alguma restituição que a
pessoa deva fazer. Talvez tenha defraudado alguém em
negócio ou usufruído alguma vantagem desonesta, em
desacordo com a regra áurea de fazer aos outros o que
deseja que se lhe faça, e não está disposta a fazer
restituição. Ora, é evidente que para tais pessoas não
haverá perdão enquanto não fizerem o que devem.
5. Talvez estejam teimosos e obstinados a não ceder
em algum ponto. vezes firmam-se na decisão de não
irem a determinada reunião, talvez a reunião de interes­
sados, ou alguma reunião de oração, ou não admitem
que uma pessoa ore com eles, ou se recusam a sentar no
banco dos decididos. Alegam que podem converter-se
mesmo sem fazer isso ou aquilo, pois a religião não
consiste em ira uma reunião, tomar um lugar ou atitude
em oração. Isso é verdade: são eles que, tomando esse
ponto-de-vista, tomam-no em ponto capital. E enquanto
se mantiverem entrincheirados ali e decididos afazer com
que Deus aceite as condições deles, nunca se poderão
converter. Muitas vezes o pecador cederá em tudo mais e

91
fará qualquer coisa neste mundo, exceto ceder no ponto
em que se comprometeu intimamente com o pecado e
tomou posição contra Deus. Não será quebrantado
enquanto não ceder naquele ponto, seja o que Jbr.
6. vezes tem preconceito contra alguém, talvez um
crente tenha usado de alguma franqueza para exortá-lo,
ou talvez um mau exemplo de outro crente o escandali­
zou, e ele se amarra a isso. Jamais se converterá
enquanto não superar esses impedimentos.
7. Talvez sinta antipatia por alguém, ou esteja com
raiva e guarde ressentimentos que o impedem de obter a
misericórdia de Deus. "E quando estiverdes orando, se
tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que
vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se
não perdoardes, também vosso Pai celeste não vos
perdoará as vossas ofensas.
8. Ê possível que tenha uma noção errada do que se
deve fazer para obter a salvação ou da maneira como
fazê-lo, e isso o impeça de aceitar a Cristo. Talvez esteja
esperando por Deus. Está convencido de que merece o
inferno, e irá para lá se não se converter, porém está
esperando que Deus faça alguma coisa para que ele o
aceite. Na verdade, está esperando que o próprio Deus
faça para ele a parte que cabe ao pecador.
Parece que está esperando mais convicção de pecado.
Muitas pessoas não compreendem o que é este estado de
convicção e pensam que ainda lhes falta alguma coisa
para que possam crer. quando, na verdade, estão
sentindo os efeitos de forte convicção de pecado.
vezes, tal pessoa pensa que seus pecados são
demasiado grandes para que possam ser perdoados, ou
que entristeceu tanto o Espírito de Deus, que este a
deixou, quando, na realidade, o Espírito a está conven­
cendo. Está dizendo, com isso. que seus pecados são
maiores do que as misericórdias de Cristo, insultando
assim o Senhor Jesus Cristo.
Algumas vezes os pecadores têm a idéia de que Deus
os abandonou e que agora não podem ser salvos. Muitas
vezes é difícil tirar-lhes essa idéia. Muitos dos casos mais
aflitivos que tenho encontrado eram dessa natureza, de

92
pessoas que insistiam em dizer que estavam abandona­
das, e nada podería transformá-las.
Há pessoas que sustentam firmemente que comete­
ram o pecado que não tem perdão. Quando essa idéia
lhes entra na cabeça, voltarão contra si próprias tudo que
lhes dissermos. Ê comum que as pessoas em tais casos
mantenham a visão voltada para si mesmas; encerram-se
dentro de si e insistem em contemplar suas próprias
trevas, ao invés de olharem para Cristo. Se pudermos
tirar seus pensamentos de si próprias e conseguir que
pensem em Cristo, pode ser que as tiremos da preocupa­
ção com seus próprios sentimentos presentes e consiga­
mos que lancem mão da esperança que lhes é proposta
no evangelho.
II. Ao conversar com pessoas sob convicção de
pecado, tenhamos o cuidado de não ser condescendentes
com elas em qualquer ponto em que tenham dificulda­
de. Se transigirmos, elas não deixarão de aproveitar e
assim adquirir uma falsa esperança. Os pecadores
muitas vezes acham difícil abandonar certos pecados aos
quais estão mais presos, ou ceder em algum ponto em
que a consciência e o Espírito Santo estão lutando dentro
deles. E se acharem uma pessoa que lhes conceda aquele
ponto, sentem-se melhor e mais felizes, e pensam que
estão convertidos. Há pessoas que manifestam uma forte
tendência para transigir com o pecado. Fazem perguntas
deste tipo: se não achamos que uma pessoa possa ser
crente e assim mesmo fazer tais e tais coisas, ou se não
pode ser crente mas deixar de fazer tais e tais coisas. Ora,
não devemos ceder uma polegada sequer em tais ques­
tões. As próprias questões poderão, muitas vezes, mos­
trar-nos o ponto exato que está ocupando seu pensamen­
to: revelarão que ê a vaidade, ou o amor ao mundo ou coi­
sa semelhante que os está impedindo de se tomarem
cristãos.
,j Tenhamos cuidado de fazer um trabalho completo
nessa questão do amor ao mundo. Creio que têm sido
erigidas maisfalsas esperanças sobre instruções errôneas
aí, do que em qualquer outro setor.
Tratemos adequadamente desse ponto, pois a

93
Igreja se acha hoje repleta de hipócritas, porque nunca se
lhes exigiu que abandonassem o mundo. Muitos pensam
que podem ser cristãos, e ainda assim ir levando a vida a
seu bel-prazer, usando para si mesmos todo o seu tempo
e bens, apenas dando um pouco de vez em quando para
salvar as aparências, pois podem fazê-lo sem nenhum'
incômodo. Mas é um lamentável erro, e descobrirão isso
se não empregarem para Deus as suas energias.
Ao tratarmos com um pecador convicto, não deixe­
mos de arrancá-lo de todo refúgio; não lhe deixemos uma
polegada de terreno em que se manter em pé, enquanto
ele resistir a Deus. Isso não precisa levar muito tempo.
Quando o Espírito de Deus está operando, em luta com o
pecador, éfácil arrancá-lo de seus refúgios. Veremos que
a verdade será como martelo, esmagando onde quer que
repercutir. Façamos uma limpeza em ordem, de tal
modo que ele abandone tudo por Deus.

94
CAPITULO 5

O Preço do Avivamento

O avivamento, conforme tivemos ocasião de observar,


é a vinda do Espírito de Deus, indizivelmente terno e
suave, ao meio de seu povo, com poder convencedor e
transformador. O derramamento do Santo Espírito é o
aspecto divino do avivamento: a nossa parte é a
preparação do coração. Muitas das promessas de Deus
registradas nas Escrituras são condicionais, dependendo
o seu cumprimento da preparação de coração da nossa
parte. O salmista declarou peremptoriamente: “ Se eu
contemplar a iniqüidade no meu coração, o Senhor não
me ouvirá.” O Senhor Jesus, ao ensinar a seus discípulos
a verdadeira fé em Deus, disse: “Quando estiverdes
orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai,
para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas,
mas, se não perdoardes, também vosso Pai celeste não vos
perdoará as vossas ofensas.” João, que fora transforma­
do de “Boanerges” ou o irascível “filho do trovão” — em
discípulo do amor, ensinou durante sua longa vida aquilo
que lhe fora ensinado: “Se andarmos na luz, como ele na
luz está, mantemos comunhão uns com os outros, e o
sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o
pecado... Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e
justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda
injustiça.” Perdão, se; purificação do pecado, se; comu­
nhão, sei No cumprimento dessas bondosas promessas
temos a nossa parte; quando a tivermos cumprido, Deus
é fiel no cumprimento da sua parte.
Uma das promessas mais conhecidas na Bíblia —
mais conhecida talvez na teoria do que na prática — é 2

95
Crônicas 7.14, onde nos é apresentado, de modo impres­
sionante e inequívoco, o preço do avivamento:
Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se
humilhar, orar e me buscar, e se converter dos seus maus
caminhos, então eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus
pecados e sararei a sua terra.
Uma das principais lições a serem aprendidas no
avivamento é a magna importância de tomarmos tempo
para que o nosso ouvido interior se afine à voz do
Espírito de Deus; para que o nosso coração se derreta
pela sua presença em nós; para que estejamos prontos a
enfrentar a nós mesmos e ao nosso pecado, e a
abandoná-lo. Então começamos a entender por que, em
tempo de avivamento, o povo de Deus se tem demorado
na sua presença, e que não lhes tem parecido de alguma
importância o tempo nem o lugar, à luz da eternidade e
do céu. Entendemos então como o remanescente de
Israel, que voltara com Esdras para Jerusalém, pôde se
sentar "na praça da casa de Deus tremendo por causa
desta coisa e por causa das grandes chuvas” . É que o
povo chegara a sentir as suas transgressões, e Esdras
orara e reconhecera que Deus lhes tinha estendido a sua
misericórdia “para nos reviver, para levantar a casa do
nosso Deus, para restaurar as suas ruínas. Ah! Senhor
Deus de Israel, justo és... Eis que estamos diante de ti em
a nossa culpa.”
Quando o Espírito de Deus veio a nós na capela do
Wheaton College, pudemos bem apreciar a razão pela
qual, nos dias de Neemias, o povo permaneceu na praça
"desde a alva até ao meio-dia” ouvindo a leitura da
Palavra de Deus, e por que, por causa daquela Palavra,
"todo o povo chorava” . Pudemos entender por que, mais
tarde, “os da linhagem de Israel se apartaram de todos
os estranhos, puseram-se em pé e fizeram confissões dos
seus pecados e das iniqiiidades de seus pais; levantando-
se no seu lugar, leram no livro do Senhor seu Deus uma
quarta parte do dia; em outra quarta parte dele, fizeram
confissão e adoraram ao Senhor seu Deus”.
Jonathan Edwards, na sabedoria e graça que lhe
foram concedidas, fez observação do mesmo fator,

96
afirmando que necessitamos do “exercício de grande
paciência ao esperarmos em Deus".
E uma vez que esta época singular exige de nós uma
grande paciência uns para com os outros, também
devemos esperar de Deus a manifestação de sua provi­
dência, quando estivermos atravessando um período de
dificuldades e problemas dessa natureza; muitos setores
da igreja que se vivijica estarão, temporariamente,
envolvidos com problemas, em razão daquilo que perma­
nece da velha moléstia, da corrupção geral da Igreja
visível. Não podemos esperar que, após longo período de
declínio e depravação no estado espiritual da Igreja, tudo
se endireite de uma vez. Levará tempo, e se o povo de
Deus fo r demasiado apressado e radical, estando resolvi­
do a ver tudo retificado imediatamente, ou então
libertar-se à força, através de cisões e separações,
fatalmente impedirá a volta de tudo ao que devia ser,
atrasando-as e arriscando esfacelar tudo.
Finney conhecia o fenômeno da vinda do Espírito de
Deus a uma reunião, sondando profundamente os
corações dos crentes e trazendo angústia aos pecadores;
sabia que, nessas circunstâncias, despedir a reunião era
destruí-la e dissipar o poder convencedor e curador do
Espírito. Como Edwards antes dele, Finney foi alvo de
fortes críticas por causa de “reuniões prolongadas” ; mas
a pessoa que conhece o movimento do Espírito de Deus
nos corações humanos não teme a crítica causticante
daqueles que não estiveram presentes ao trabalho ou lhe
eram contrários.
Como era de se esperar, em Wheaton fomos severa­
mente censurados por alguns, por causa de uma reunião
que se estendeu por toda a noite de quarta-feira, o dia e a
noite de quinta-feira, entrando ainda na sexta-feira. O
New York Times de 12 de fevereiro de 1850, noticiando
as reações ao avivamento, citou opiniões de delegados em
um congresso denominacional em Columbus, Estado de
Ohio. Alguns líderes religiosos estavam dispostos a
aguardar os resultados do despertamento, porém “um
delegado, que pediu não fosse divulgado o seu nome,
criticou severamente o presidente do colégio por permitir

97
que a reunião se prolongasse por tanto tempo. Acusan­
do-o de “falta de compreensão da adolescência juvenil” ,
afirmou que, em circunstâncias “normais” e face a face
com sèmelhante conjuntura, um educador religioso
capacitado proporia que os estudantes continuassem
suas “confissões” em oração “honesta” e “em particu­
lar” .
A única resposta a tal crítica é esta: se o crítico
estivera também conosco na presença de Deus, tenho a
certeza de que ele também teria percebido a solenidade e
o temor da presença divina e a sua necessidade de
esperar em Deus. Teria chegado, como nós chegamos, a
entender o que Andrew Murray nos diz em seu Secret o f
Adoration:
Toma tempo. Dá tempo a Deus para que ele se revele
a ti. Dá tempo a ti mesmo para estares em silêncio e
calma, diante dele, esperando receber, por intermédio do
Espírito, a certeza da sua presença contigo, do seu poder
operando em ti. Toma tempo para ler a sua Palavra na
sua presença, para que, por meio dela, possas saber o que
ele te pede e o que ele te promete. Permite que a Palavra
crie em tomo de ti, sim, dentro de ti, uma atmosfera
santa, uma santa luz celestial, na qual a tua alma encon­
tre refrigêrio e sefortaleça para o trabalho da vida diária.
SE NOS HUMILHARMOS
Sentarmo-nos com paciência e calma na presença de
Deus, é chegarmos a conhecer o nosso próprio coração.
Quando isso se realiza, sabemos o que é humilharmo-nos
perante ele. Aprendemos que o segredo real do aviva-
mento está no acerto, por ^arte dos crentes, da sua
situação com Deus, custe-lhes o que custar. Então não é
difícil entender o que Jonathan Edwards tinha em mente
quando disse:
Devemos cuidar em primeiro lugar de remover as
pedras de tropeço, e para isso haverá grande necessidade
de confessarmos as ofensas a Deus e ao próximo, pois,
inegavelmente, são muitas e grandes as faltas cometidas
nas discórdias e confusões desses últimos tempos. Talvez
não exista atitude mais difícil para nossa natureza cor­

98
rompida, nem mais mortificantepàra.o orgulho humano,
mas precisa ser executado. O arrependimento das ofen­
sas é um dever, principalmente quando 6 reino de Deus
está às portas, ou quando temos particular esperança ou
desejo que venha, conforme verificamos na pregação de
João Batista. E se Deus agora nos exorta em alta voz para
que nos arrependamos, também nos exorta a que faça­
mos a devida manifestação do nosso arrependimento.
A confissão deve ser particular ou pública conforme a
falta. Se ofendemos em pensamento a alguém, a confis­
são será feita ao Senhor no altar do nosso coração. Se,
por outro lado, causamos dano a alguma pessoa, ou ao
grupo, nossa confissão deve ser feita também a estes.
Edwards continua falando sobre a confissão:
E por outro lado, se aqueles que se mostram zelosos
na promoção da obra, tiverem, em qualquer dos casos
citados, se desviado abertamente do caminho e praticado
aquilo que ê contrário às normas cristãs, tendo com isso
causado evidente dano a outros ou desrespeitado grave­
mente a boa ordem, e assim causado escândalo ao
evangelho, hão de confessá-lo publicamente e se humi­
lhar, como quem remove as pedras preparando o
caminho do povo de Deus. Aqueles que têm colocado
grandes pedras de tropeço no caminho de outros pela
transgressão aberta, têm a obrigação de removê-las pelo
seu arrependimento aberto.
O coração contrito e obediente chega assim a
conhecer a realidade de Provérbios 28.13: “O que
encobre suas transgressões, jamais prosperará; mas o
que as confessa e deixa, alcançará misericórdia.”
A fim de tornar urgente e enfática essa condição
imprescindível do avivamento — o humilharmo-nos à
vista de Deus e perante os homens — Finney teceu este
comentário em torno da palavra do profeta Oséias:
“Lavrai os vossos pousios, porque é tempo de buscar ao
Senhor.” Que vem a ser, pergunta ele, lavrar os pousios?
Aqui está sua resposta pertinente e penetrante:
Lavrar os pousios (terrenos em repouso, ou seja,
terrenos cuja cultura se interrompeu) é lavrarmos os
nossos corações e prepararmos as nossas mentes para

99
produzirmos fruto para Deus. Muitas vezes, na Bíblia, a
mente do homem é comparada ao terreno, a Palavra de
Deus à semente que nele é lançada, e o fruto são as ações
e os’sentimentos daqueles que a recebem. Lavrar o terreno
pousio, pois, é preparar a mente e pô-la em condições de
receber a Palavra de Deus. Algumas vezes os nossos
corações ficam calcados e secos, tomando-se como
terrenos baldios e incapazes de produzir frutos enquanto
não forem arados e abrandados, a fim de ficar em
condições de receber a Palavra de Deus. Ê esse abranda­
mento do coração, a fim de que possa sentir a verdade,
que o profeta chama de lavragem de terreno pousio.
Como há de ser lavrado o pousio?
Não é mediante esforços para sentir. Muitas pessoas
erram nesse ponto por falta de levar em consideração as
leis da mente; de fato, ocorre muita confusão no que
concerne às leis que governam a mente. Ouvimosfalar em
sentimentos religiosos como se fosse possível despertar
tais sentimentos por meio de esforços diretos. Mas não é
assim que funciona a nossa mente. Ninguém pode criar
sentimentos em si mesmo através de esforço próprio. Os
sentimentos da mente não estão sob nosso controle
direto: não podemos, pelo querer, pela volição direta,
despertar sentimentos religiosos. Estes podem, contudo,
ser controlados de modo indireto. Se assim não fora enão
houvesse possibilidade de controlá-los, nossos sentimen­
tos não teriam caráter moral.
Se um homem, longe da família, pensar nela, não
terá saudades? Não é porém, dizendo a si próprio:
agora vou sentir profundamente a falta de minha
família. O que o homem pode fazer, com referência às
pessoas que devem despertar-lhe sentimentos, é dirigir-
lhes seu pensamento e sua atenção; assim procedendo,
ele provocará os sentimentos apropriados. Se evocar na
mente o seu inimigo, surgirão sentimentos de inimizade.
E se pensar em Deus, prendendo sua atenção a determi­
nadas feições do cqráter divino, ele sentirá que, pelas pró­
prias leis da sua níente, surgirão emoções. Se ele fo r ami­
go de Deus, deveicontemplâ-lo como Ser bondoso e santo,
e emoções de amizade se acenderão na sua mente. Se fo r

100
inimigo de Deus, deve por diante de si o verdadeiro
caráter de Deus, contemplá-lo, dirigir sua atenção para
ele, e então, ou crescerá sua inimizade contra o Criador,
ou ficará quebrantado e entregará a ele o coração.
Se quisermos “lavrar o pousio" dos nossos corações,
havemos de começar examinando o coração: examinan­
do e observando o estado da nossa mente e a situação em
que achamos.
Esse auto-exame consiste em fazermos um retros­
pecto da nossa vida e descobrir a realidade do que vive­
mos até aqui.
Passemos em revista a história do nosso passado.
Tomemos, um a um, os nossos próprios pecados e
examinemo-los. Não quero dizer que devemos dar um
simples relance à vida passada, verificando que fo i
repleta de pecados, para então ir a Deus fazendo-lhe uma
espécie de confissão geral e pedindo o seu perdão. Não é
assim. Temos de tomá-los um a um. Seria aconselhável
tomar nota de cada um à medida que nos lembrarmos.
Devemos revê-los com o mesmo cuidado que um
comerciante revisa os seus livros, e todas as vezes que nos
vier à memória um pecado, acrescentemo-lo à lista.
Confissões gerais de pecados não servem. Nossos pecados
foram cometidos um a um, e até onde nos fo r possível
apurá-los, devemos nos arrepender de um por um.
Pecados de omissão:
1. Ingratidão. Tomemos, por exemplo, esse pecado, e
anotemos todas as situações que pudermos lembrar,
quando fomos abençoados por Deus e depois não
lembramos mais de agradecer. De quantos casos vamos
lembramos? Um acontecimento providencial ou mara­
vilhosa mudança de circunstância que veio evitar uma
derrocada. Registremos as manifestações da bondade de
Deus para conosco quando estávamos no pecado, antes
da nossa conversão. E depois á misericórdia de Deus
revelada na nossa salvação, pela qual a nossa gratidão
ainda não fo i a metade do que devia ser. As numerosas
bênçãos que dali para cá temos recebido. Ê tão longa a
lista, e a nossa ingratidão tão negra, que somos levados a
esconder o rosto, envergonhados! E agora ajoethemo-nos

101
confessando-as uma por uma a Deus pedindo-lhe per­
dão.
2. Falta de amor para com Deus. Procuremos recor­
dar todas as ocasiões em que não dedicamos ao Senhor
todo o amor que lhe devemos.
3. Negligência da Bíblia. Quantas vezes passamos
dias, semanas, e até meses inteiros sem ter prazer na
Palavra de Deus. Não lemos um só capítulo talvez, ou, se
lemos, fizemo-lo de um modo que desagrada ainda mais
a Deus. Muitas pessoas leem um capítulo todo de modo
tal que, se fossem argüidas, após a leitura, para contar o
que leram, não seriam capazes. A Palavra de Deus ê a
regra do nosso viver. Será possível que lhe damos tão
pouca atenção, que não nos lembramos do que lemos? Se
assim for, não è de se admirar que vivamos ao léu e que a
nossa vida espiritual seja um completo fracasso.
4. Incredulidade. Quantas vezes nós praticamente
acusamos Deus de ser mentiroso pois não cremos nas
suas promessas.
5. Negligência na oração. Ocasiões em que fomos
relaxados quanto à oração a sós, nas reuniões de oração,
no culto doméstico, ou oramos de tal modo que
ofendemos a Deus mais do que se não orássemos.
6. Negligência em buscarmos ocasiões para nos
apropriarmos da graça de Deus. Quando deixamos que
motivos de pouca importância nos impedissem de assistir
aos cultos, realmente negligenciamos e desprezamos
oportunidades, dadas por Deus, de recebermos da sua
graça; e isso, simplesmente por desinteresse nos deveres
espirituais.
7. A maneira de cumprirmos esses deveres: falta de
sentimento, falta de fé, disposição mundana, de modo
que as nossas palavras se tomam vazias.
8. Nossa falta de amor pelas almas dos nossos
semelhantes. Olhemos à nossa volta para nossos amigos e
parentes, e consideremos a nossa falta de compaixão por
eles. Estivemos sempre alheios, vendo-os caminhar
diretamente para o inferno, e, ao que parece, isso pouco
nos importava. Quanto tempo se passou sem que a
condição dessas pessoas perdidas nos despertasse para a

102
intercessão ou, pelo menos, para um ardente desejo pela
sua salvação?
9. Nosso desinteresse por missões. Indiferença tão
completa talvez, que nem ao menos procuramos conhe­
cer tal trabalho ouvindo ou lendo a respeito dos campos
missionários. Pensemos nisso e vejamos em que realmen­
te importa o nosso cuidado pelos pagãos; registremos
honestamente quanto sentimos por eles e quanto almeja­
mos a sua salvação. Meçamos o nosso interesse pela sua
salvação através do sacrifício que fazemos para dar dos
nossos bens a fim de lhes enviar o evangelho.
10. A negligência nos deveres familiares. Como tem
sido a nossa vida perante os filhos? Temos orado? Que
tipo de exemplo estamos dando a eles? Que temos feito
em favor do seu bem-estar espiritual? Que dever não
temos negligenciado?!
11. Negligência de deveres sociais.
12. Falta de zelo pela nossa própria vida. Quantas
vezes cumprimos apressadamente nossas obrigações
pessoais, e não nos reprovamos nem prestamos contas
honestamente a Deus, pelas ocasiões em que deixamos
de ser vigilantes em nossa conduta, fomos imprudentes e
pecamos diante do mundo, da igreja e perante Deus.
13. Falta de zelo por nossos irmãos. Quantas vezes
falhamos em nosso dever de zelar por eles no Senhor!
Quão pouco sabemos ou nos importamos com o estado
de suas almas! Quando nos interessamos em saber de
suas condições espirituais? Vejamos a lista, e onde
verificarmos a negligência, anotemo-la. Quantas vezes
percebemos que nosso irmão estava esfriando na fé e não
o avisamos? Nós percebemos quando começou, aos
poucos, a afastar-se das coisas de Deus, mas não o
exortamos com amor fraternal. Nós o vimos cair no
pecado e ficamos parados. E ainda queremos dizer que
temos amor. Que hipocrisia!
14. Falta de abnegação. muitos crentes que estão
dispostos a fazer quase tudo para Deus desde que não
implique em sacrifício. Quando são chamados a realizar
alguma coisa que o exige, isso ê demais para eles. Não
aceitam, de boa-vontade, o opróbrio pelo nome de Cristo,

103
nem se privam dos confortos da vida, a fim de salvar
almas do inferno. Longe de se lembrarem de que o negar
a si mesmo é condição do discipulado, eles nem ao menos
conhecem a abnegação. Alguns contribuem da sua
abundância, e, contribuindo largamente, estão prontos a
acusar aqueles que dão menos, quando a verdade è que
não dão nada que pudesse fazer-lhes falta, que pudessem
gozar se o guardassem para si.
Pecados de comissão:
1. Materialismo. Qual tem sido a inclinação do nosso
coração no que se refere aos bens terrenos? Temos
considerado esses bens como sendo nossos, e como se
tivéssemos o direito de dispor deles segundo nossa própria
vontade? Se assim for, registremo-lo. Se temos amado as
coisas materiais e as temos buscado como um objetivo
em si, ou para satisfazer desejos ou ambições, ou com
espírito materialista, ou para entesourar para nossos
filhos, pecamos e devemos arrepender-nos.
2. Vaidade. Procuremos recordar todas as vezes em
que agimos segundo a vaidade. Uma forma é a vaidade
de nossa própria aparência. Muitas vezes temos uma
preocupação exagerada com nossa aparência? Quantas
vezes, quando vamos à igreja dedicamos mais atenção,
mais esforço e mais tempo à nossa aparência pessoal do
que â preparação da mente para o culto a Deus? Vamos
à casa de Deus, cuidando mais da nossa aparência
exterior à vista de homens imortais, do que no aspecto
que apresenta nossa alma à vista de um Deus que
esquadrinha o coração.
3. Inveja. Examinemos as ocasiões em que tivemos
inveja daqueles que supúnhamos estarem acima de nós
em algum particular. Ou talvez invejemos algumas
pessoas ao ponto de não suportar que sejam elogiadas.
Temos maior prazer em salientar as suas faltas, do que
as suas virtudes, os seus fracassos do que os seus
sucessos. Sejamos honestos conosco, e se tivermos dado
guarida a esse espírito diabólico, arrependamo-nos
profundamente diante de Deus, pois caso contrário ele
jamais nos perdoará.
4. Inclinação para a censura. Cçisqs em que manifes­

104
tamos um espírito de amargura efalamos de irmãos, com
absoluta falta de caridade e amor — da caridade que
exige sempre que esperemos o melhor e que demos a
interpretação mais favorável à conduta ambígua.
5. Calúnia. As vezes em que falamos, na ausência das
pessoas, de suas faltas reais ou imaginadas, sem necessi­
dade ou sem razão suficiente. Isso ê calúnia. Para
caluniar, não ê necessário que mintamos: dizer a verdade
com intuito de prejudicar, também é calúnia.
6. Leviandade. Quantas vezes somos mais levianos
diante de Deus do que ousaríamos ser na presença de um
poderoso da terra? Ou fomos inconseqüentes e nos
esquecemos de que Deus existe, ou tivemos menor
respeito por ele e sua presença, do que teríamos por um
juiz humano.
7. Mentira. Entendamos agora o que é a mentira.
Qualquer espécie de engano intencional com motivo
egoísta é mentira. Se o engano não for propositado, não é
mentira. Se, porém, procurarmos dar impressão diversa
da simples verdade, mentimos. Registremos todos os
casos que pudermos lembrar. Não devemos dar-lhes
outro nome mais suave: Deus os chama de MENTIRAS,
e nos considera MENTIROSOS, portanto convêm que
nos acusemos acertadamente.
8. Dolo. Escrevamos todos os casos em que, tratando
com nosso semelhante, lhe fizemos aqitilo que não
gostaríamos que nos fizessem. Pois isso é dolo.
9. Hipocrisia. Por exemplo, nas' nossas orações e
confissões a Deus. Anotemos os casos em que pedimos
coisas que não desejávamos realmente. A prova è que, ao
terminar a oração, não seriamos capazes de repetir o que
pedimos. Quantas vezes confessamos pecados que não
pretendíamos abandonar, e quando não tínhamos um
sagrado propósito de não mais incidir neles? Sim,
confessamos pecados quando nos sentíamos tão inclina­
dos a repeti-los quanto a viver.
10. Roubando a Deus. Ocasiões em que desperdiça­
mos tempo e esbanjamos horas que Deus nos deu para
servi-lo e para salvar almas, ocupando-as em diversões
vãs ou conversas banais, na leitura de novelas, ou em não

105
fazer nada; situações em que aplicamos mal os talentos e
a capacidade intelectual; em que esbanjamos dinheiro
com nossos próprios apetites ou o empregamos na
aquisição de objetos de que não tínhamos necessidade e
que não nos beneficiavam a saúde, nem o conforto, nem
a utilidade.
11. Mau humor. Talvez tenhamos maltratado a
esposa, os filhos, os pais, empregados ou vizinhos.
Anotemos tudo.
12. Impedindo a utilidade de outros. Talvez tenha­
mos minado a sua influência por meio de insinuações
contra eles. Não só roubamos a Deus deixando de
dedicar-lhe os nossos talentos, como também amarramos
as mãos de outrem. Que servo perverso aquele que,
desperdiçando, ele mesmo, tempo, ainda estorva os
companheiros!
Se verificarmos que cometemos uma falta contra
alguém e esse alguém está ao nosso alcance, procuremo-
lo, confessemos o quanto antes a falta, afastando assim o
impedimento. Se a pessoa a quem prejudicamos estiver
muito longe para que a procuremos, podemos escrever-
lhe uma carta, confessando a falta. Se defraudamos
alguém, mandemos o dinheiro — a importância total e os
juros.
Façamos tudo isso com empenho. Façamo-lo agora;
não procrastinemos, pois isso só tomará pior o caso.
Confessemos a Deus os pecados que praticamos contra
ele, e ao homem os pecados cometidos contra o homem.
Não pensemos em escapar, contornando as pedras de
tropeço: é preciso tirá-las do caminho. Ao lavrar o pousio
temos que remover todo obstáculo. Talvez permaneçam
coisas que julgamos pequenas, e não sabemos por que
razão não nos sentimos como desejaríamos estar espiri­
tualmente — a razão é que nossa mente orgulhosa e car­
nal encobriu alguma coisa que Deus exigia que confes­
sássemos e removéssemos. Aremos todo o terreno e revol­
vamo-lo.
Ao percorrer o catálogo dos nossos pecados, não
deixemos de tomar a resolução de fazer uma reforma
presente e completa. Onde encontrarmos algo errado,

106
imediatamente, no poder de Deus, decidamos não pecar
mais naquilo. Não vamos auferir vantagem alguma desse
auto-exame, a não ser que resolvamos consertar em todos
os particulares aquilo que encontrarmos errado no
coração, propósito ou conduta.
Essa lavragem do pousio — essa humilhação do cora­
ção pela contrição, pelo arrependimento e pela confissão
— é o primeiro passo em direção ao avivamento. Sem esse
abrandamento dos nossos corações duros, a Palavra de
Deus neles não forma raízes e não haverá o fruto do
Espírito. O lavrar o terreno é nossa responsabilidade:
‘‘Se o meu povo... se humilhar”, declara o Senhor.
SE ORARMOS
A segunda condição do avivamento conforme 2 Crôni­
cas 7.14 é: “e orar” . Uma vez humilhado o nosso coração
na mais absoluta contrição, então nos compete a oração
eficaz. Cedo na sua vida cristã Finney aprendeu a orar, e
após uma vida de intercessão e serviço tornou-se apto a
falar sobre o assunto.
A oração (disse ele) ê um elo indispensável na
corrente das causas que conduzem ao avivamento —
tanto quanto o é a verdade. Alguns têm usado a Palavra
com grande zelo, para a conversão de almas, porém
descuidam-se da oração. Têm pregado efalado, têm feito
distribuição de folhetos com grande zelo, e depois
estranham a escassez dos resultados. A razão é que se
esqueceram da outra parte: a oração eficaz. Deixaram de
levar em conta que a mensagem por si só não produzirá
os efeitos, sem o Espírito de Deus, e que o Espírito é dado
a nós através da oração. Às vezes acontece que os mais
empenhados em levar a mensagem não são os mais
empenhados na oração. Essa é sempre uma circunstân­
cia infeliz, pois a não ser que eles, ou então alguém por
eles, tenham o espírito de oração, a mensagem só por si
nada fará, senão endurecer o coração dos homens.
Certamente ficará comprovado, no dia do juízo, que ja ­
mais se realiza alguma coisa através simplesmente da ver­
dade, por maior que seja o esforço para transmiti-la, se
não houver, junto com a mensagem, a oração.

107
Outros, porém, fazem o contrário. Não é que dêem
demasiada ênfase à oração, porém, 4squècem-se de que
se pode orar a vida inteira que, sem ação, nada se
realizará.
1. Suas orações têm que ser definidas em seu objetivo.
Não poderão ser ejicazes se não tiverem um alvo distinto
e definido. Ê necessário ter em mente um objetivo
definido. Refiro-me agora à oração a sós. Muitas pessoas
se trancam em seus quartos para fazer suas orações.
Quando chega a hora que costumam separar para a
oração, seja pela manhã, ao meio-dia ou seja qual fo r a
hora, ao invés de ter alguma coisa a dizer, algum alvo
definido em seus pensamentos, põem-se de joelhos e
pedem simplesmente o que lhes vem à cabeça; oram por
tudo que lhes ocorre naquela hora, e, ao terminar, mal
podem dizer uma palavra daquilo por que oraram. Isso
não é oração eficaz.
Um homem precisa ter algum objeto definido diante
de si. Não pode orar como convém, por diversos objetivos
de uma só vez. A mente humana é constituída de tal
maneira, que não pode concentrar intensamente seus
desejos sobre uma porção de coisas a um só tempo.
Todos os exemplos de oração eficaz na Bíblia foram da
espécie que estamos visando: sempre que a bênção
almejada ha oração fo i obtida, fo i porque a oração
visara diretamente aquela bênção.
2. A oração para ser eficaz, tem que estar de acordo
com a vontade revelada de Deus. Pedir coisas que
contrariam essa vontade é tentar a Deus. Há três formas
em que a vontade de Deus ê>revelada 'aos homens para
sua orientação na oração:
a) Mediante as promessas expressas na Bíblia, de que
Deus dará ou efetuará determinadas coisas: quer por
promessas explícitas, quer por promessas feitas em
termos gerais, de modo a podermos aplicá-las a determi­
nadas coisas.
b) vezes, Deus revela sua vontade pela sua
providência. Quando ele toma claro que tais e tais fatos
estão para acontecer, é uma revelação tão real como se
estivesse escrita em sua Palavra.

108
c) Pelo seu Espírito. Quando os servos,de Deus se
acham sem saber o que pedir de acordo com sua vontade,
muitas vezes seu Espírito os instrui. Quando não existe
nenhuma revelação específica, a providência nada
esclarece, e não sabemos o que pedir como devemos, ‘‘o
Espírito nos assiste em nossa fraqueza" e "intercede por
nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis”.
3. Para que possamos orar eficazmente, temos que
orar submissos à vontade de Deus. Não confundamos
porém a indiferença com a submissão.
Não confundamos submissão na oração com uma
confiança geral em que Deus operará o que fo r melhor.
De fato devemos ter essa confiança em Deus, que em
todas as coisas ele fará o que fo r acertado. A submissão,
porém, é outra coisa. O que quero dizer por submissão
na oração é a aquiescência à vontade revelada de Deus.
Submetermo-nos a qualquer ordem de Deus é obede­
cê-la.
4. Na oração que chega a Deus, o empenho em obter
a resposta demonstra a sua importância. Se uma pessoa
busca ardentemente uma bênção, o anelo do seu coração
deve corresponder à grandeza dessa bênção.
a) De acordo com a benevolência de Deus. Se a
bênção é desejável, se, pelo que vemos> sua satisfação
seria um ato de benevolência da parte de Deus, então, só
o fato de Deus ser benevolente é uma evidência
presumível de que ele a concederá.
b) Se somos motivados pelo amor cristão a desejar e
buscar uma bênção, há fortes razões para crermos que ê
o Espírito de Deus quem desperta em nós esse desejo e
nos incita a rogar por aquilo. Em semelhantes casos,
devemos nos empenhar e insistir na oração; o cristão
pode, por assim dizer, aproximar-se e agarrar a mão de
Deus. Vejamos o caso de Jacó, quando exclamou, em
verdadeira angústia de alma: “Não te deixarei ir, se me
não abençoares. ” Deus manifestou desagrado com sua
ousadia e insistência? Em absoluto; ao contrário, conce­
deu-lhe exatamente aquilo que pedia.
Em nossos dias, muitas vezes vemos cristãos assim,
intercessores que chegaram a tal ponto de insistência e

109
santa ousadia que, depois, recordando o fato, ficaram,
eles próprios, atemorizados e surpreendidos, ao pensar
que se atreveram a lutar com Deus daquela forma.
Entretanto essas orações têm logrado êxito e têm
alcançado a bênção. E muitas dessas pessoas, minhas
conhecidas, estão entre as mais santas que conheço neste
mundo.
5. A oração que Deus responde deve ser inspirada
por motivos elevados. Não deve ser egoísta e sim
motivada pela suprema consideração da glória de Deus.
Há muitas orações que nascem somente do egoísmo. A
esposa ora às vezes pelo marido, para que se converta,
pois pensa: "Seria muito mais agradável se ele fosse
comigo à reunião” — e assim por diante. Parece não ver
que seu marido está desonrando a Deus com seus
pecados, nem que Deus seria engrandecido pela sua
conversão. Assim também acontece muitas vezes com os
pais: não se conformam que os seus filhos se percam.
Oram por eles com muito fervor. Mas, quando conversa­
mos com esses pais, eles nos falam de como seus filhos
são bonzinhos, como respeitam a religião, enfim até
parece que já são crentes, e assim falam como quem
receia que ofendamos seus filhos se lhes dissermos a
verdade. Não se importam com o fato de que esses filhos
tão amáveis e simpáticos estão desonrando a Deus pelos
seus pecados; pensam somente que seria uma coisa
terrível se eles fossem para o inferno. Ah! se seus
pensamentos não subirem para um nível mais elevado,
jamais prevalecerão com um Deus santo. A tentação dos
motivos egoístas ê tão forte, que há razões para se recear
que muitas orações de pais nunca se elevem acima dos
anseios da ternura paternal. E é essa a razão por que
tantas orações não são ouvidas e por que tantos pais
piedosos têm filhos descrentes.
6. A oração, para que seja eficaz, deve nascer da
intercessão do Espírito. Sem o Espírito jamais podere­
mos orar de acordo com a vontade de Deus.
7. A oração tem que ser perseverante. De um modo
geral, os cristãos que estão vivendo em declínio espiritual
e perderam o costume de orar, não conseguem formar

110
logo o hábito da oração perseverante. Não estão prepara­
dos; não conseguem ficarfirmes até que a bênção venha.
Se sua fé permanecesse inalterável até a resposta,
poderíam obter vitória desde o início, e não somente
depois de pedirem muitas vezes a mesma coisa.
8. Agora, não nos enganemos pensando que nossa
oração será respondida, se não tivermos o desejo intenso
de alcançar a bênção. Não o creio. Na intercessão só
alcançamos a vitória através do anelo angustioso do
espírito. O apóstolo Paulo chama a isso a agonia da
alma.
9. Se quisermos uma vida de oração vitoriosa, temos
que ser constantes em orar. Afirmava-se a respeito do
apóstolo Tiago que, depois de morto, verificaram que, de
tanto orar, tinha osjoelhos calejados como os do camelo.
A í estava o segredo do sucesso daqueles primitivos
ministros.
10. Se quisermos que a oração seja eficaz, precisamos
fazê-la em nome de Cristo. Não podemos buscar a Deus
em nosso próprio nome, nem alegar nossos próprios
méritos.
11. Não podemos vencer na oração sem renunciar a
todos os nossos pecados. Não basta recordá-los: é
necessário que realmente renunciemos a eles, abando­
nando-os; que no propósito do coração renunciemos a
todos para sempre.
12. Devemos orar com fé, na expectativa de alcançar
aquilo que pedimos. Não precisamos esperar resposta se
orarmos sem a confiança de que realmente seremos
atendidos.

SE FORMOS CHEIOS DO ESPÍRITO

“Nâo por força nem por poder, mas pelo meu


Espírito” — disse por intermédio de Zacarias o Todo-
poderoso aos desnorteados e abatidos remanescentes de
Israel, ocupados em reconstruir sua cidade e seu templo
em face de inimigos implacáveis. A Palavra da verdade é
oportuna para o povo de Deus em todas as gerações, pois
a obra de Deus nâo depende, em última análise, de nossa

111
força ou poder, e sim da operação de seu Espírito. “Se
Deus é por nós, quem será contra nós?”
Na noite da sua conversão a Cristo, Finney conheceu
a plenitude do Espírito em sua vida, e através de seu
ministério experimentou, conforme vimos notando, o
derramamento freqüente do Espírito Santo em poder
vivificador. Por essa razão dava muita ênfase à èxperiên-
cia de um revestimento da plenitude do Espírito por
parte do crente, para que ele seja um servo de Deus
eficaz e obediente.
“Por que deve o cristão ser cheio do Espírito?”
perguntava ele, e então respondia com ardor:
“Se o meu povo... orar... então ouvirei do céu e
sararei a terra" — é a promessa do Altíssimo. Estamos
fazendo a nossa parte, orando? "Muito pode, pela sua
eficácia, a súplica do justo."
I. Podemos ter o Espírito. Não que seja questão de
justiça da parte de Deus dar-nos seu Espírito, mas
porque ele prometeu concedê-lo aos que o pedissem.
"Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos
vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus
dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem?” Deus
promete que, se pedirmos o Espírito Santo, ele o dará.
Ademais, Deus nos ordena tê-lo: "Enchei-vos do
Espírito." Ora, quando Deus nos manda fazer alguma
coisa, è essa a melhor prova de que podemos realizá-la.
Uma ordem da parte de Deus equivale a um juramento
de que podemos executá-la, pois ele não teria o direito de
ordenar se não tivéssemos a possibilidade de obedecer.
Não podemos fugir à conclusão de que, se Deus dá
ordens impraticáveis, ele é um imenso tirano.
II. Ê nosso dever
b) porque Deus o ordenou;
c) porque é essencial, para nosso crescimento na
graça, que sejamos cheios do Espírito;
d) porque é tão importante quanto a nossa santifi­
cação;
e) porque é tão necessário quanto q sermos úteis e
fazermos o bem neste mundo;
f) porque se não tivermos em nós o Espírito Santo,

112
desonraremos a Deus e envergonharemos a Igreja.
III. Por que muitos não têm o Espírito. Há crentes
que dizem: "Nada sei sobre isso; nunca tive semelhante
experiência; ou não existe, ou eu estou completamente
errado."Não há dúvida de que estamos completamente
errados se não conhecemos nada da influência do
Espírito. Quero apresentar algumas das razões que
podem impedir que sejamos cheios do Espírito.
a) Pode ser que estejamos levando uma vida de
hipocrisia. Nossas orações não são conscientes nem de
boa fé. Além de levarmos uma vida espiritual apenas de
aparências, também não somos sinceros nas nossas
relações com as outras pessoas. Assim entristecemos de
muitos modos o Espírito, de maneira que ele não pode
habitar conosco.
b) Outros são tão fúteis, que o Espírito não pode
habitar com eles. O Espírito de Deus é prudente e sério, e
não habita com aqueles que se deixam dominar por
futilidades.
c) Os vaidosos também não recebem o Espírito.
Gostam tanto do luxo, da vida sofisticada, dos prazeres
do mundo, da moda, que não ê de se admirar que não
sejam cheios do Espírito. Entretanto tais pessoas muitas
vezes se fingem incapazes de compreender por que não
têm prazer nas coisas de Deus.
d) Alguns são apegados às coisas do mundo, são
amantes das posses, preocupam-se apenas em enrique­
cer. Como pode o Espírito habitar em sua companhia,
quando eles têm o pensamento ocupado com as coisas do
mundo e toda a sua capacidade empenhada na busca de
riquezas?
Há muitas outras coisas semelhantes que também
entristecem o Espírito de Deus. As pessoas chamam-nas
de pecados pequenos, porém Deus não os considera
pequenos. É essa frouxidão de princípios morais, essa
falta de escrúpulos para com as pequenas falhas, tão
comum na Igreja, que afasta o Espírito Santo. Ora, Deus
é santo e não pode habitar no coração de alguém que se
aproveita de seu semelhante e lesa o direito do próximo,

113
só porque tem oportunidade de fazê-lo sem ser desco­
berto.
e) Outros não confessam nem abandonam, comple
tamente, seus pecados; por isso não podem gozar a
presença do Espírito. Talvez confessem os pecados em
termos gerais, e estejam prontos a reconhecer que são
pecadores. Talvez até confessem em parte alguns peca­
dos específicos; fazem-no, porém, com reservas, altiva-
ménte, cautelosamente, como quem tem medo de dizer
um pouco mais do que o estritamente necessário, isto
quando chegam a confessar ao próximo o mal que lhe
fizeram. Fazem-no de modo que revela que a confissão,
ao invés de brotar espontaneamente de um coração
sincero, está sendo arrancada deles pela mão da consci­
ência que os agarra. A não ser que nos humilhemos
inteiramente, confessemos nossos pecados honestamente
e façamos restituição onde causamos prejuízo, nenhum
direito temos de esperar que o Espírito nos encha.
f) Outros estão negligenciando algum dever, e ê por
isso que não têm o Espírito. Alguns não oram em família,
apesar de saberem que deveríam fazê-lo, mas querem ser
cheios do Espírito! Há muitos jovens que sentem no
coração a chamada para o ministério, e não têm o
Espírito porque têm diante de si alguma ambição
material que os impede de se consagrarem à obra.
Conhecem o seu dever, recusam-se a executá-lo, e agora
pedem a direção do Espírito de Deus. Não podem tê-la.
Conheci esposas que sentiam o dever de falar com os
maridos descrentes e orar com eles, porém negligen­
ciavam sua responsabilidade e por isso eles continuam
nas trevas. Sabiam qual era o dever e recusaram
executá-lo; contomaram-no, e ali perderam o Espírito.
Se negligenciamos nossa responsabilidade e assim
perdemos a bênção do Espírito, precisamos primeiro
ceder. Há um obstáculo entre nós e Deus; recusamos
obedecê-lo, e teremos agora de voltar atrás. Podemos ter
esquecido o assunto, mas Deus não o esqueceu; temos
que lembrá-lo e nos arrependermos. Deus nunca cederá
nem nos dará o seu Espírito, enquanto não nos arrepen­
dermos.
114
g) Talvez estejamos resistindo ao Espírito de Deus.
Quem sabe adquirimos o hábito de resistir ao Espírito?
Ao ouvir a pregação, quando uma palavra nos atinge
diretamente, nosso coração se rebela. Muitos estão
prontos a ouvir mensagens diretas e acusadoras, desde
que possam aplicá-las aos outros; um espírito misantró-
picofaz com que sintam satisfação em ver outros serem
acusados e repreendidos, porém, se a verdade os atinge,
logo replicam que a mensagem fo i muito ofensiva. Será
esse o nosso caso?
h) A verdade ê que não desejamos realmente o
Espírito. Ê o caso de todos que não o têm. Há certas
coisas que não estamos dispostos a abandonar. Sabemos
que, se o Espírito de Deus nos encher, teremos de levar
outra vida, teremos de abandonar o mundo, fazer
sacrifícios, romper com amigos mundanos, e fazer
confissão de nossos pecados. E assim na realidade, não
resolvemos deixá-lo vir, a não ser que ele consinta em
habitar conosco deixando-nos viver como queremos. Mas
isso ele jamais fará.
i) Talvez não estejamos pedindo ou, se pedimos, não
agimos de acordo com nossas orações. Nossa atitude
contraria nossas orações. Ou talvez peçamos, mas assim
que o Espírito vem e começa a operar na nossa mente,
nós o entristecemos e afastamos completamente, não
querendo andar com ele.
IV. O grande pecado de não ter o Espírito de Deus.
1. Nosso pecado é tão grande, quanto é grande a
autoridade de Deus que ordena que nos enchamos do
Espírito. Deus o ordena e, portanto, a desobediência é
tão grande quanto o praguejar, e roubar, o adulterar ou o
profanar o dia do Senhor. Pensemos nisso. Mesmo assim
muitas pessoas não consideram pecado o fato de não
terem o Espírito. Ao contrário, elas se têm na conta de
bons cristãos porque assistem às reuniões de oração,
participam da Ceia e tudo mais, embora vivam ano após
ano sem o Espírito de Deus.
2. Nosso pecado é equivalente ao bem que poderi­
amos realizar se tivéssemos o Espírito Santo na medida

115
que é de nosso dever e em que poderiamos, tê-lo. Esta
bênção nos fo i prometida e podemos recebê-la se
unicamente cumprirmos esse dever. Somos inteiramente
responsáveis, perante Deus e a Igreja, por todo o bem
que poderiamos fazer. Um homem é responsável por
aquilo que ê capaz de realizar.
3. Nosso pecado ê também comparado ao mal que
fazemos quando não temos o Espírito. Desonramos o
evangelho de Jesus Cristo. Somos pedra de tropeço na
igreja, e também no mundo. Nossa culpa è agravada
pelas diversas influências que exercemos. Todas essas
coisas serão manifestas no dia do juízo.
V. As conseqüências de possuir o Espírito.
1. Seremos tachados, de excêntricos, e com razão,
pois seremos excêntrico^. Ainda não conhecí ninguém
cheio do Espírito, que não fosse assim classificado. O
motivo é que essas pessoas são diferentes das outras. Há
sempre uma comparação. A í está, portanto, a melhor
explicação para o fato de tais pessoas parecerem
excêntricas, é que elas agem levadas por influências
diferentes, adotam pontos-de-vista diferentes, são movi­
das por outros motivos e conduzidas por outro Espírito.
Devemos, portanto, esperar tais apreciações.
2. Se tivermos muito do Espírito de Deus, é bem
possível que muitos nos considerem dementes. Julgamos
alguém demente quando procede de modo diverso
daquele que nos parece prudente e de bom senso, e
quando suas conclusões, a nosso ver, não têm bom
fundamento. Paulo foi acusado de demência por quem
não entendia os pontos-de-vista que orientavam o seu
proceder. Sem dúvida Festo pensou mesmo que ele
estivesse louco e que as muitas letras o faziam delirar.
Paulo, porém, afirmou: "Não estou louco, ó excelentís­
simo Festo..” Teremos que nos conformar com isso, e
quanto mais nos afastarmos do mundo e andarmos com
Deus, pior será nossa situação perante os outros.
3. Se tivermos o Espírito de Deus, devemos estar
preparados para sentir uma profunda tristeza diante da
situação da Igreja e do mundo. Os epicureus espirituais

116
pedem o Espírito Santo porque pensam que a presença
dele os tomará permanentemente alegres. Há quem
pense que os cristãos espirituais estão sempre muito
alegres e livres de tristeza.
Nunca houve maior equívoco. Se lermos a Bíblia,
veremos como os profetas e apóstolos viviam aflitos e
angustiados à vista das condições da Igreja e do mundo.
O apóstolo Paulo diz que levava sempre no corpo o
morrer de Jesus “dia após dia morro!” — declara ele.
Conheceremos o que é sentir com o Senhor Jesus Cristo, e
ser batizado com o seu batismo. Que agonia sentiu ele à
vista da condição dos pecadores! Como sua alma sofreu
pela sua salvação! Quanto mais tivermos do seu Espírito,
mais sensíveis seremos à condição dos pecadores e mais
abatidos ficaremos por sua causa. Muitas vezes teremos
a impressão de que não podemos mais viver perante tal
situação; nossa angústia será inexprimível.
4. Muitas vezes ficaremos tristes com o estado
espiritual do pastor. Há alguns anos me encontrei com
uma senhora que fazia parte de uma das igrejas desta
cidade. Indaguei dela sobre a condição espiritual do
lugar. Mostrou-se reservada e não quis comentar a
situação a não ser em termos vagos, mas por fim seus
olhos encheram-se de lágrimas, e ela disse: “Ah! parece
que a mente do nosso pastor está muito obscurecida. ” Os
crentes espirituais geralmente se sentem assim e derra­
mam muitas lágrimas por isso. Já observei isto várias
vezes, e quase sempre encontro crentes que choram e se
afligem secretamente quando reconhecem que há trevas
na vida espiritual dos ministros — materialismo, respei­
tos humanos; porém não ousam mencioná-lo com receio
de serem repreendidos e ameaçados, e talvez expulsos da
igreja.
5. Se tivermos grande porção do Espírito Santo de
Deus, encontraremos muita oposição, tanto na igreja
como no mundo. Ê muito provável que os principais
homens da igreja estejam contra nós^ Sempre houve
oposição na Igreja. Foi assim quando Cristo estava sobre
a terra. Se estivermos muito acima do seu modo de
sentir, os membros da igreja ficarão contra nós. Se

117
alguém quiser viver uma vida santa em Cristo Jesus, pode
esperar a perseguição. Muitas vezes os anciãos, e até
mesmo o ministro, estarão contra nós se estivermos
cheios do Espírito de Deus.
6. Podemos estar certos de que vamos enfrentar lutas
freqiientes e terríveis com Satanás. Ele tem pouco
trabalho com os cristãos que são momos, ociosos e
mundanos... Mas os cristãos espirituais, conforme ele
muito bem compreende, estão-lhe causando imenso
dano, e por isso ele os ataca constantemente. Tais crentes
costumam ter lutas terríveis; sofrem tentações com as
quais jamais sonharam: pensamentos de blasfêmia,
incredulidade, impulsos para atos de maldade, para
tirarem a própria vida, e assim por diante. Se decidirmos
viver pelo espírito, podemos esperar todas essas lutas
terríveis.
7. Teremos conflitos interiores bem maiores do que
poderiamos imaginar. Veremos, às vezes, nossas in­
clinações carnais prevalecendo sobre o espírito. “A
carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a
carne." Em tais condições o cristão se sente, muitas
vezes, preocupado com o poder de sua própria carne.
8. Teremos, porém, a paz com Deus. Se a igreja, os
pecados e o diabo se nos opuserem, haverá um com quem
teremos paz. Lembrem-se aqueles que passam por estas
provações, lutas e tentações, os que gemem, oram,
choram e sentem partidos seus corações: sua paz, no que
concerne seus sentimentos para com Deus, fluirá como
um rio.
9. Também, se formos conduzidos pelo Espírito,
teremos paz na consciência. Não seremos constantemen­
te atormentados nem torturados pela consciência. Ela
estará calma e tranquila, imperturbável como as águas
veranis de um lago.
10. Se estivermos cheios do Espírito, seremos úteis, e
nem podería ser de outra forma. Mesmo que estivésse­
mos enfermos, privados de sair do quarto, de conversar
ou de receber visitas, seríamos, dez vezes mais úteis do
que uma centena de crentes comuns, sem espirituali­
dade.

118
11. Na plenitude do Espírito, não nos sentiremos
agastados, perturbados ou ofendidos quando falarem
contra nós. Quando vejo pessoas que se irritam e
incomodam com a menor coisa que as atinge, estou certo
de que elas não têm o Espírito de Cristo. De Jesus Cristo
podiam dizer tudo quanto a malícia possa inventar, que
ele não se perturbava em absoluto. Se quisermos ser
mansos na perseguição, exemplificar o ânimo do Salva­
dor e dessa maneira glorificar a Deus, precisaremos da
plenitude do Espírito.
12. Teremos sabedoria para levar os incrédulos à
conversão. Se o Espírito de Deus estiver em nós, ele nos
guiará como convém, de maneira adequada ao objetivo,
para evitar que os frutos se percam.
13. Seremos calmos na aflição; não ficaremos con­
fundidos nem perturbados ao ver a procela que se
aproxima. As pessoas ao redor vão ficar maravilhadas
com a nossa calma e ânimo nas grandes provações, não
conhecendo o apoio interior que possuem aqueles que
são cheios do Espírito.
14. Seremos resignados na morte; sentir-nos-emos
sempre prontos para morrer, e disso não teremos receio;
após a morte seremos muito mais felizes para sempre no
céu.
VI. Conseqüências de não sermos cheios do Espírito.
1. Duvidaremos muitas vezes, e com razão, se somos
ou não cristãos. Sentiremos dúvidas que de fato devemos
sentir. Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de
Deus. Se não formos guiados pelo Espírito, que motivo
temos para pensar que somos filhos?
2. Seremos sempre instáveis em nossas convicções
sobre a oração da fé. Esse assunto é de tal modo
espiritual, matéria de experiência e não de especulação,
que quem não fo r espiritual não poderá compreendê-lo
plenamente Podemos falar a respeito da oração da fé, ao
ponto de, na hora, ficarmos plenamente convencidos.
Nunca, porém, teremos firmeza suficiente para fazer
nossa mente permanecer descansada na promessa, e
dentro de pouco tempo estaremos cheios de incerteza.
3. Se não tivermos o Espírito, estaremos sujeitos a

119
vacilar diante daqueles que o têm. Teremos dúvidas
quanto à propriedade de seu procedimento. Talvez até
duvidemos de sua sinceridade. Procuraremos sempre
censurá-los a fim de nos justificarmos.
4. Seremos muito considerados entre os incrédulos,
que vão nos classificar como cristãos racionais, orto­
doxos e coerentes. Estaremos em perfeitas condições
para acompanhá-los, pois estaremos concordes.
5. Estaremos muito preocupados com o fanatismo.
Sempre que houver avivamentos, veremos logo fortes
tendências para o fanatismo; ficaremos preocupados e
incomodados, ou, melhor, contrários a esses movimentos.
6. Vamos nos perturbar muito com os métodos
adotados nos avivamentos. Se forem adotados recursos
que são decididos e direitos, eles vão nos parecer novos,
e maior motivo de tropeço vão ser, quanto maior fo r
nossa falta de espiritualidade.
7. Seremos causa de escândalo para o evangelho. Os
incrédulos ora vão nos elogiar porque nos parecemos
muito com eles, ora vão rir de nossa hipocrisia.
8. Teremos poucos conhecimentos de Bíblia.
A falta da plenitude no Espírito toma o crente fraco,
vacilante, tímido, superficial, às vezes cínico e sempre
ineficaz. Permanecer sem a plenitude do Espírito ê
deixar de valer-se da graça divina, ou desconhecê-la, ou
desprezá-la. Inversamente, a plenitude do Espírito toma
o cristão forte, inabalável, intrépido, profundo, estabili­
zado e eficaz, dependente do poder de Deus, entregue à
sua vontade e usado para a glória do Salvador.

120
CAPÍTULO 6

Os Perigos do Avivamento
A obra de revivificação pode ser impedida, antes de
seu início ou depois de estar já ém curso, pela oposição
humana ou satânica. Segundo o modo de pensar de
alguns, os avivamentos são milagres da graça e do poder
de Deus, não podendo ser promovidos nem impedidos
pelas atitudes ou pelos atos de homens ou demônios.
Esse ponto-de-vista, porém, não condis com a experiên­
cia da Igreja Cristã através dqs séculos. Pode parecer-nos
estranho que os homens tenham capacidade para esten­
der a mão contra a atividade divina, a ponto de fazê-la
parar, ou que o inimigo da alma humana possa distrair
ou desviar a obediência dos homens ao Espírito de Deus
e sua cooperação com ele, de maneira a derrotar
trabalhos de avivamento. Que queria o apóstolo das
gentes dizer quando declarou: “Por isto quisemos ir até
vós (pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas
duas), contudo Satanás nos barrou o caminho” ?
UM AVIVAMENTO PODE SER IMPEDIDO?
Edwards e Finney, baseados em larga e profunda
experiência, escreveram longamente sobre este assunto
dos impedimentos da revivificação. Leiamos e pondere­
mos suas palavras, por elas esquadrinhando nosso
próprio coração. Ouçamos primeiro o depoimento de
Finney, acrescentando, a seguir, os parágrafos pertinen­
tes preparados pelo pregador de Northampton:
O que se tem verificado, sempre que os servos de

121
Deus realizam alguma coisa em sua causa e parece haver
probabilidade de sucesso, é que Satanás, através de seus
agentes, infalivelmente procura desviar suas mentes e
anular seus esforços. Assim tem acontecido durante os
últimos dez anos, em que tem havido tão notáveis
avivamentos através do país. Esses avivamentos têm sido
mui grandes e poderosos, e também extensos. Tem-se
calculado que não menos de duzentas mil pessoas se
converteram a Deus nesse período. E o diabo tem sido
incansável com seus ardis para desviar e distrair o povo
de Deus, desencaminhando suas energias, para que não
prossiga na proclamação da grande obra de salvação.
Influências várias que podem sustar um avivamento:
Certas pessoas têm dito muitas tolices sobre esse
assunto, dando a entender que nada poderá danificar um
avivamento genuíno. Dizem: "Se a sua obra é de Deus,
não pode ser impedida: podería uma criatura impedir a
Deus?” Ora, isso ê absurdo. Antigamente, pensava-se
que um avivamento não podia ser impedido, porque era
obra de Deus. E assim imaginava-se que ele continuaria,
ainda que se fizesse de tudo para* impedi-lo, dentro ou
fora da igreja. Nèsse caso um agricultor, raciocinando da
mesma forma, podería arrasar seus campos de trigo
achando que não prejudicaria a èeara, pois quem faz
crescer o grão é Deus. Um avivamento ê obra de Deus da
mesma forma que um campo de trigo, e Deus emprega os
recursos naturais tanto no primeirp como no segundo
caso. Portanto um avivamento está tão sujeito a ser
danificado, quanto um campo de trigo.
1. Um avivamento será interrompido sempre que a
igreja acreditar que ele vai acabar. Os membros da igreja
são os instrumentos com que Deus executa essa obra.
Precisam trabalhar voluntariamente e de coração. Nada
ê mais fatal para a continuação de um avivamento do
que os crentes predizerem que vai parar. Quando os
crentes começarem a profetizar que o avivamento está no
fim, devem ser repreendidos em nome do Senhor. Se essa
idéia começar a tomar conta e não fo r possível neutrali-
zá-la e desarraigá-la, o avivamento acabará inevitavel­
mente.

122
2. Um avivamento cessará quando os crentes assim o
consentirem. vezes os cristãos percebem que o
avivamento está em perigo ãe cessar é-que, se eles não
tomarem medidas apropriadas,»ele acabará. Se isso os
incomodar e os impelir à oração e ao trabalho, a obra
não irá parar. Quando os crentes amam o trabalho de
Deus e a salvação das almas de tal modo, que se afligem
com o simples temor de um declínio, isso os impelirá,
angustiados, à oração e ao trabalho. Mas, se assim não
acontecer, se não procurarem desviar o perigo nem
renovar a obra, estarão colaborando para o seu fim.
3. Um avivamento cessará sempre que o trabalho dos
crentes cair na rotina. Quando a fé está firme, os
corações abrasados e sensíveis, as orações cheias de
fervor e poder, então a obra prossegue. Quando, porém,
suas orações começarem a tomar-se frias e sem fervor,
seu sentimento profundo desaparecer, e eles trabalharem
mecanicamente, usando as palavras sem senti-las, então
o avivamento cessará.
4. O avivamento será interrompido sempre que os
cristãos acharem que a obra prosseguirá sem seu auxílio.
Os crentes são cooperadores de Deus na promoção do
avivamento; a obra irá até onde a igreja a quiser levar, e
nem um palmo a mais. Os incrédulos não podem ser
salvos se eles próprios não fizerem sua parte, pois a
conversão consiste em se volverem, voluntariamente,
para Deus. Tampouco se converterão se não receberem
as influências morais apropriadas para que se arrepen­
dam, ou seja, se a verdade e a realidade das coisas não
forem colocadas em cheio diante de sua mente, quer por
revelação direta, quer pelos homens. Deus não salva o
homem pela força bruta: ele depende da influência
moral da igreja.
5. A obra cessará quando os crentes preferirem
cuidar de seus próprios negócios, em vez de cuidar do
trabalho de Deus. Isso não qtier dizer que os homens
tenham negócios que sejam propriamente seus, porém
eles assim pensam, e na prática preferem cuidar daquilo
que consideram seu, a trabalhar para Deus. Começam a
achar que não podem tirar de suas atividadês seculares

123
tempo suficiente para gastar na obra do avivamento.
Alegam então que estão impossibilitados de se dedicar à
obra e com isso deviam-se levar pelos cuidados do
mundo. Dessa forma, naturalmente, o avivamento cessa­
rá.
6. Quando os crentes se tomam espiritualmente
orgulhosos, sofrerão inevitavelmente a queda. Refiro-me
àqueles que são usados pelo Senhor. vezes uma
operação poderosa nessa ou naquela igreja se toma
manchete de jornais, e os crentes empenhados na obra
ficam conhecidos; logo começam a pensar no quanto
estão sendo apreciados pelas outras igrejas em todo o
país. por causa de seu grande avivamento. Ficam
envaidecidos e soberbos e, em consequência, perdem a
comunhão da presença de Deus; o Espírito se retira
deles, e cessa o avivamento.
7. O avivamento acabará quando a igreja se deixar
esgotar pelo trabalho. Há crentes que cometem um grave
erro. Desprezando o bom senso e a temperança, deixam
que sua vida se desorganize, entregam-se tão desordena­
damente ao trabalho, que descuidam de tudo mais;
enfim, deixam-se levar pelo entusiasmo e abusam de suas
energias; pela falta de prudência se esgotam logo, e não
podem depois continuar na obra.
8. Um avivamento cessará quando a igreja começar
Com especulações sobre doutrinas abstratas que nada
têm a ver com a prática. Se os crentes desviarem sua
atenção dos princípios da salvação e começarem a
estudar e discutir pontos abstratos, o avivamento cessa­
rá, naturalmente.
9. Quando houver proselitismo entre os cristãos.
Quando houver sectarismo de batistas contra presbite­
rianos, ou de presbiterianos contra batistas ou de ambos
contra os metodistas, ou de episcopais contra os demais,
que tudo querem fazer para levar os convertidos a se
filiarem à sua própria denominação, veremos logo o fim
do avivamento.
10. Quando os crentes não contribuem segundo as
manifestações da graça divina. Essa é uma causa grave de
declínio espiritual. Quando Deus abre asjanelas do céu a

124
uma igreja, derramando bênçãos, ele espera, e com
razão, que seus filhos tragam todos os dízimos à casa do
tesouro, que trabalhem e sejam liberais para com a sua
Casa. Mas, se eles se recusam e não se dispõem a servir à
causa de Cristo, isso entristece o Espírito e extingue a
bênção. Tem havido casos em que se verificou um grande
retrocesso, porque a igreja não quis ser liberal, enquanto
Deus se mostra tão generoso.
11. Quando os cristãos de algum modo entristecerem
o Espírito Santo.
a) Quando não estiverem dependentes do Espírito.
Sempre que os crentes confiam em sua própria força,
Deus suspende a bênção. Em muitos casos os cristãos se
esquecem das misericórdias que receberam; ficam orgu­
lhosos com'o sucesso, tomando para si o louvor, e não
dando toda a glória a Deus. Esta ê, sem dúvida, uma
grande tentação que exige, por parte dos ministros e das
igrejas, a máxima vigilância, para não entristecer o
Espírito com a vanglória dos homens.
b) Alguns, sob o pretexto de divulgar notícias para
louvor e glória de Deus, publicam coisas que revelam tão
claramente o desejo de se exaltarem, realçando com
destaque a sua própria participação, que deixam uma
triste impressão. Num avivamento em certa cidade, há
quatro anos, os jornais publicaram tantas coisas que
cheiravam a exaltação própria, que fiquei com receio de
permitir reportagens. Não estou censurando o costume
de se publicar notícias sobre o avivamento, porém a
maneira de fazê-lo é de tremenda importância. Se fo r
feito de modo a provocar envaidecimento, os resultados
serão danosos para a obra.
c) Assim também o Espírito é entristecido quando se
proferem ou publicam palavras tendentes a desmerecer a
obra de Deus. Quando desmerecemos uma obra aben­
çoada de Deus, não rendendo a ele a glória devida a seu
nome, o Espírito se entristece. Se hâ algo que deve ser
dito a respeito de um avivamento, então que se relatem
apenas os simples fatos, sem comentários, e que os fatos
falem por si.
12. Pode-se esperar a cessação de um avivamento

125
quando os cristãos perdem o espírito dè amor fraternal.
A bênção de Deus no avivamento não perdura quando os
crentes deixam de exercer o amor fraternal. Quando os
crentes estão no verdadeiro espírito do avivamento,
sentem profundamente esse amor. Ainda não vi, e creio
que nunca houve um avivamento, onde não existisse esse
amor. Quando ele começa a murchar, o Espírito de
Deus se entristece e se retira do meio dos crentes.
13. O avivamento entrará em declínio e cessará, a não
ser que os crentes se reconsagrem. Quero dizer com isso
que os cristãos, a fim de permanecerem no Espírito do
avivamento, precisam estar constantemente contritos,
humilhados, quebrantados diante de Deus e reconsagra-
dos. Quando falamos na reconsagração do crente, muitos
não entendem. Mas a verdade é que, no avivamento, o
coração do crente está sujeito a ficar, por assim dizer,
coberto de crosta, perdendo seu fino paladar pelas coisas
de Deus; diminui-se-lhe a unção e a vitória na oração, e
então ele precisa de uma nova consagração. Ê impossível
permanecermos numa condição espiritual que não preju­
dique a obra, a não ser que constantemente passemos
por essa reconsagração. Nos avivamentos em que traba­
lhei nunca tive em minha companhia alguém que
perseverasse na obra e estivesse sempre em condições de
levar avante o trabalho, sem ter que passar por essa
experiência de quebrantamento, pelo menos de duas em
duas semanas. Os avivamentos, comumente, entram em
declínio, porque não conseguimos que os cristãos sintam
seus pecados e sua miséria, ao ponto de se quebrantarem
diante de Deus.
14. Um avivamento não pode continuar quando os
cristãos não se dispõem a negar a si mesmos. Quando os
crentes têm a experiência da revivificação, mas só
querem deleitasse com ela, o avivamento cessa logo. A
menos que os cristãos queiram ser conforme o Filho de
Deus, que tudo deixou para salvar os pecadores; a menos
que se disponham a abrir mão de seus privilégios, seu
comodismo, e se entregar à obra, não esperem que o
Espírito de Deus seja derramado sobre eles. £ essa, sem
dúvida, uma das principais causas do declínio espiritual
do crente.
126
15. Um avivamento será sustado por controvérsias a
respeito de novos métodos. Não há nada pior que isso
para derrotar um avivamento. Como, porém, minha
última conferência versou sobre os novos métodos, não
preciso prolongar-me agora a respeito.
16. Os avivamentos podem ser sufocados pela contí­
nua oposição da Velha Escola, combinada com a
rebeldia da Escola Nova. Se os inativos, que em nada
contribuem para o avivamento, continuarem na sua
oposição, e se os que trabalham para promovê-lo se
tomarem impacientes e ressentidos, o avivamento cessa­
rá. Cuidem eles de seu trabalho; e não se preocupem em
discutir a oposição, nem em pregar ou escrever a'respeito
dela. Se os outros houverem por bem publicar suas
injúrias e críticas, prossigam os servos do Senhor no seu
trabalho, que todos os artigos e injúrias não farão parar o
avivamento, enquanto aqueles que nele estão empenha­
dos cuidarem de si e de seu trabalho. É deveras
admirável como isso se comprova na prática.
Se, pelo contrário, aqueles que trabalham ativamente
na obra se contrariarem com a injustiça e a insistência
das críticas, achando-as insuportáveis, perdendo a paci­
ência e sentindo-se na obrigação de se defender e de
refutar as calúnias, não permanecerão nos muros como
Neemias, mas descerão ao Vale de Ono e a obra cessará.
17. Qualquer coisa que desvie a mente do povo para
outra direção impedirá um avivamento. Tudo que
conseguir afastar a atenção dos crentes interromperá os
trabalhos. Se um anjo viesse do céu e andasse pregando
pelas ruas, podería ser a coisa mais prejudicial a um
avivamento, pois desviaria a atenção dos pecadores de
seus próprios pecados e a da igreja, da oração pelas
almas, para seguirem e contemplarem esse ser glorioso
— e o avivamento teria fim.
18. Outro fator que impede os avivamentos é a
indiferença para com o trabalho missionário. Se os
crentes não se incomodarem com a sorte dos perdidos; se
não procurarem se informar sobre as necessidades
espirituais do mundo; se rejeitarem a luz que Deus põe
adiante deles e não quiserem atender ao chamado de

127
Deus para trabalhar nessa causa, o Espírito de Deus se
apartará deles.
19. Quando a igreja deixar de lançar aos jovens o
desafio para se dedicarem à seara do Mestre, ela estará
impedindo e extinguindo o avivamento. As igrejas já não
insistem com os jovens sobre o dever de ingressarem no
ministério. Ora, Deus derrama o seu Espírito sobre as
igrejas, converte centenas de milhares de almas, e, se
nem assim saem os trabalhadores para a seara, que se
pode esperar senão que a mão do Senhor pese sobre as
igrejas, seu Espírito se retire e cessem os avivamentos?
20. A difamação dos avivamentos muitas vezes pode
extingui-los. 0 grande avivamento ocorrido na época do
Reitor Edwards sofreu bastante por causa do proce­
dimento da igreja. Não è de se estranhar que os inimigos
de Deus difamem, caluniem e propaguem falsas notícias
a respeito do avivamento. Quando, porém, a própria
igreja toma parte nisso; quando muitos de seus membros
mais influentes cooperam e contribuem.para caluniar e
depreciar uma obra gloriosa de Deus, é compreensível
que o Espírito, se retire entristecido.
21. As dificuldades eclesiásticas têm a faculdade de
entristecer o Espírito e destruir os avivamentos. Essa tem
sido sempre a política do diabo: desviar a atenção dos
ministros, da obra do Senhor para disputas e litígios
eclesiásticos. Tenho visto os mais competentes pastores
interromperem sua ocupação primeira de ganhar almas
para Cristo, para ficarem vários dias, e até mesmo
semanas, a refutar acusações levantadas contra eles, ou
contra colegas seus de ministério, as quais, afinal, não
tinham nenhum fundamento.
22. Outro fator que pode impedir os avivamentos é o
espírito de crítica, de qualquer das duas partes, e
principalmente daqueles que são ativos na obra. Ê de se
esperar que os inimigos da obra estejam à espreita das
falhas dos obreiros dedicados; que os critiquem naquilo
em que estiverem errados e, muitas vezes, até mesmo
quando estão certos. Ê de se esperar que muitos
comentários ásperos e indignos sejam feitos, principal­
mente a respeito dos obreiros mais necessários ao

128
desenvolvimento da obra. Mas estas criticas, por parte
dos que se opõem ao trabalho — quer dentro quer fora
da igreja — não irão, por si, pôr termo ao avivamento.
Enquanto os líderes se conservarem humildes e no
espírito de oração; enquanto não revidarem mas se
houverem com paciência; enquanto não se deixarem
distrair, recriminar e afugentar o espírito da oração, a
obra prosseguirá.
Jonathan Edwards aprendeu que o espírito de crítica,
principalmente para com outros cristãos, era “a pior
moléstia que se tem manifestado nesse irabalho, a mais
contrária ao espírito e às regras do cristianismo, e das
piores conseqüências". Não só os membros de igreja
eram tentados a criticar acerbamente outros cristãos
que, na sua opinião, ostentavam apenas uma aparência
de conversão, com também os ministros do evangelho
tinham colegas de ministério na conta de pessoas que
deveríam ser expulsas da igreja como Cristo expulsou os
compradores e vendilhões do templo. Edwards conside­
rava essa atitude errônea e anticristã. Qual o homem
que pode saber quem realmente está salvo, ou será salvo,
ainda que no momento seja perseguidor da igreja, como
era Saulo de Tarso? Percebem-se as feridas profundas do
coração do sensível e amoroso Edwards, em suas
observações sobre o espírito ferino e destruidor da
censujra:
A ordem terminante de Deus para que não julguemos
nossos irmãos parece basear-se não só no seu conheci­
mento de que somos demasiadamente crianças, infinita­
mente fracos, falíveis e cegos para um julgamento
acertado, como também no conhecimento de que não è
trabalho apropriado ao nosso coração vaidoso; que
havíamos de ficar ensoberbecidos, como se fôramos
senhores dos nossos semelhantes. Julgar um irmão,
condenando-o, parece um ato que requer autoridade,
para emitir um juízo sobre a condição interior de
alguém, a qual é responsável pela sua condenação
eterna. Isto se toma evidente pelo que lemos nos
versículos que se seguem, onde o desafio de Deus faz-nos
sentir, envergonhados, o nosso nada, a nossa cegueira e

129
inutilidade: Rm 14.4 — “Quem és tu que julgas o servo
alheio? Para seu próprio Senhor ele está em pé ou cai” —
e Tg 4.12 — "Um só é legislador e juiz, aquele que pode
salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és que julgas ao
próximo?" Nosso sábio e misericordioso Pastor teve, na
sua bondade, o cuidado de não colocar em nosso
caminho semelhante tentação à vaidade; desarraigou das
pastagens tais raizes venenosas; por isso não nos convém
desejar que sejam replantadas.
Essa raiz amarga do Espírito de crítica há de ser
totalmente desarraigada, se quisermos preparar o cami­
nho do Senhor. Ela tem nutrido e sustentado muitas
outras coisas contrárias à humildade, à mansidão e ao
amor do evangelho. De certa forma, muitos se têm
conduzido por um triste caminho na vida espiritual. Há
um tipo de severidade que não condiz com o caráter
manso, doce, como de cordeiro, que fica bem ao cristão.
Muitos estão há tanto tempo habituados com esse
espírito, que não sabem livrar-se dele: a severidade
precisa ser amenizada, e precisamos aprender outro meio
de manifestar zelo por Deus.
Assim como Finney, Edwards, com a experiência,
aprendeu que a vaidade espiritual está por baixo de
muitas das dificuldades que impedem o progresso dos
avivamentos. Sua enérgica e eíoqüente advertência deve
ser atendida por todos que têm o coração faminto de
revivificação.
A vaidade espiritual leva-nos a falar dos pecados de
outras pessoas, sua inimizade contra Deus e seu povo, a
lamentável ilusão dos hipócritas, sua inimizade contra a
piedade vital, e a frieza de alguns cristãos — com amar­
gura, ou com risos e leviandade, com ar de desprezo —
ao passo que a pura humildade cristã se dispõe antes a
calar-se a respeito, ou a falar com tristeza e sentimento.
Em flagrante contraste com isso, está o costume de
alguns lugares, ou pelo menas de fdgumas pessoas, de
falarem de quase todos os erros que veem nos outros,
com palavras ásperas, severas e terríveis. Ê comum co­
mentarem a conduta ou conselho dos outros, sua frieza,
seu silêncio, sua cautela, moderação, prudência e muitas

130
outras qualidades que manifestam, que são do diabo ou
do inferno; que tal coisa é diabólica, infernal ou maldita;
que tais pessoas estão servindo ao diabo, ou que o diabo
está nelas, que são assassinas de almas, e assim por
diante; de modo que os termos diabo e inferno estão
quase continuamente em seus lábios. E empregam essa
linguagem, não só referindo-se a incrédulos, mas também
àqueles que eles mesmos admitem que são verdadeiros
filhos de Deus, e até a ministros do evangelho e outras
pessoas que lhes são superiores. E consideram virtude e
grande vantagem assim portar-se. “Ora (dizem eles)
havemos de serfrancos e ousados por Cristo; havemos de
declarar guerra ao pecado onde quer que o vejamos; não
devemos medir palavras na causa de Deus e quando
falamos para Cristo.” Fazer-se qualquer distinção entre
as pessoas, ou falar com mais brandura porque aquilo
que está errado aparece em um superior, consideram
muito mesquinho para um seguidor de Cristo, quando
fala pela causa de seu Mestre.
Que terrível ardil do diabo é esse, que desfaz toda a
mansidão e brandura cristãs, ou mesmo a aparência e
demonstração delas, enchendo de imundícia a boca dos
filhos de Deus e introduzindo a linguagem de marujos
vulgares entre os seguidores de Cristo, sob a capa de
grande santidade, de zelo e de ousadia em nome de
Cristo! £ realmente um exemplo bem claro da fraqueza
da mente humana, e de quanto o diabo é por demais
astuto para nós!
O cristão verdadeiramente humilde é, por assim
dizer, revestido de submissão, brandura, mansidão,
docilidade de espírito e de procedimento; sua atitude é
tema, afável, condescendente e simpática. Tais coisas lhe
servem de vestimenta; ele está inteiramente revestido
dessas qualidades. ”E revesti-vos da humildade. ” "Re­
vesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de
temos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade,
de mansidão, de longanimidade."
A humildade cristã genuína desconhece a rudeza, o
desprezo, a violência e a amargura; torna como uma
criança aquele que a possui: inofensivo, inocente, alguém

131
de quem não se precisa ter medo; ou seja, como um
cordeiro, isento de toda amargura, ira, cólera e gritaria,
de acordo com Efésios 4.31.
A incredulidade, o comodismo, a indiferença, o
egoísmo, a ingratidão, a vaidade, a controvérsia, a
calúnia, o espírito de crítica — eis as pedras de tropeço
do avivamento, as pedras de moinho ao redor do pescoço
dos perdidos. Se os crentes são tão contenciosos entre si e
tão indiferentes a nosso respeito, por que havemos de
tornar-nos cristãos? — raciocinam os incrédulos, e com
razão. A responsabilidade primária dos crentes é pôr em
primeiro lugar o reino de Deus e a salvação dos perdidos,
e em último lugar os interesses pessoais e suas irrelevan­
tes divergências e discordâncias. A exemplo de nosso
Salvador, não podemos salvar os outros e a nós mesmos.
OS NOVOS MÉTODOS
Se por um lado há princípios espirituais, geralmente
reconhecidos, de operação na vinda e na difusão de um
movimento de revivificação pelo Espírito de Deus, isto
não quer dizer que devam ser conservadas velhas práticas
e processos. O estudo do avivamento em diferentes séculos
leva-nos a crer que os princípios são os mesmos, porém
os métodos podem variar largamente de época para
época e de lugar para lugar. Parece que o Altíssimo quer
quebrar o molde da nossa rotina éSlésiástica para que
possa haver o fluir de seu Espírito para os corações
sedentos. “ Novos métodos” parecem surgir em cada
grande campanha de avivamento, despertando a oposi­
ção tenaz de alguns que confundem determinada ordem
ou ritual eclesiástico com vida espiritual; sendo, porém, re­
cebidos com entusiasmo por aqueles que percebem novos
canais para o divino Espírito. No tempo de Edwards, por
exemplo, houve críticas causticantes porque os conversos
testificavam publicamente e com prazer, costume pouco
usado naquela época; ou porque usaram hinos em
substituição à versão métrica dos Salmos, cantada
durante séculos.
Outros criticaram a inovação de se criar reuniões
especiais para crianças, costume até então absolutamen­

132
te desconhecido. Até hoje ainda há quem acredite que o
evangelismo não tem mensagem alguma para as crianci­
nhas, a despeito da eficiência comprovada da evangeliza-
ção de crianças, das cruzadas evangelísticas para a
juventude e outros trabalhos semelhantes que visam
levar o Salvador aos pequeninos. Entretanto, há dois
séculos, o culto e paciente Edwards respondeu a tais
críticas:
Tenho visto muitas reuniões para crianças, com
resultados bastante animadores; Deus as tem abençoado
maravilhosamente nessas reuniões; tem realmente desci­
do do céu para estar entre elas. Já encontrei vários casos
de conversão de crianças em tais reuniões. Acho,
portanto, que, se as crianças s&o levadas a uma decisão
realmente por interesse espiritual e não meramente pela
afetação infantil de imitar ós adultos, não devem
de modo algum ser dissuadidas ou desaprovadas.
Contudo os pais e os pastores devem dispensar-lhes um
cuidado especial, instruindo-as e guiando-as, para corri­
gir os exageros ou irregularidades que forem observados,
ou qualquer coisa mediante a qual o diabo possa
perverter ou destruir o objetivo do trabalho. Devemos
ter o cuidado de não criticar nem desprezar, por um
princípio errado, a fé infantil, para que não sejamos
como os principais sacerdotes e os escribas, que muito se
agastaram com o culto e os louvores das criancinhas, e
com as honras que prestaram a Cristo no templo.
Finney enfrentou muitos críticos em razão das
inovações que foram introduzidas nas reuniões de
avivamento, tais como: reuniões para os decididos,
reuniões demoradas, e o banco dos decididos; assim
como Moody foi ridicularizado por causa do chamado ao
altar e Billy Sunday pela trilha do pó de serra. Finney deu
uma resposta cabal em seu livro Preleções Sobre Aviva-
mentos:
1. Se examinarmos a História da Igreja, verificaremos
que nunca houve uma reforma de vulto sem a introdução
de novos métodos. Sempre que as igrejas se acomodam a
determinado modo de fazer as coisas, logo passam a
contar com a sua execução exterior, e assim preservam a

133
forma da religião enquanto perdem a substância. Com
isso toma-se impossível despertá-los para que deixem os
pecados e busquem o avivamento, se insistirmos nas
velhas fórmulas pré-estabelecidas. Talvez não seja de­
mais dizer que o próprio Deus utiliza sempre métodos
diferentes para fazer sua obra no meio do povo.
2. Substancialmente sempre houve as mesmas diver­
gências em todas as épocas de reforma e avivamento.
Sempre houve aqueles que se apegaram particularmente
às suas formas, noções e maneira exata de fazer as coisas,
como quem tivesse um “Assim diz o Senhor” para cada
uma delas.
Em tais casos, as igrejas aos poucos vão perdendo sua
confiança na oposição aos processos novos, e o clamor
contra as “inovações" deixa de alarmá-las. Veem que a
bênção de Deus está com aqueles que são acusados de
usarem novos métodos e inovações, de modo que a
continuada oposição da Velha Escola, ao lado do êxito
continuado da Escola Nova, destrói sua confiança na
oposição.
3. 0 atuql clamor contra os novos métodos é alta­
mente ridículo quando consideramos de onde parte, e
todas as circunstâncias do caso. Ê muito estranho que os
ministros se sintam ainda alarmados com os novos
métodos de hoje, como se eles mostrassem uma novida­
de totalmente inédita, como se a forma e maneira atual
de sefazerem as coisas viessem desde os apóstolos e tives­
sem sido estabelecidas por um decreto divino, quando a
verdade ê que cada passo no avanço da Igreja para fora
das densas trevas do papismo tem sido dado através da
introdução de consecutivos métodos novos.
4. Compreendemos por que razão não têm tido êxito
aqueles obreiros que fazem tanto barulho por causa dos
novos métodos. Eles têm-se preocupado com os inconve­
nientes, reais ou imaginados, que têm acompanhado eàtd
grande e abençoada obra de Deus. Que tem havido
inconvenientes, ninguém quererá negar. Creio, porém,
que nenhum avivamento houve, desde o princípio da
cristandade, de poder e extensão comparáveis com este
que se verifica nos últimos dez anos, que não tenha sido

134
acompanhado de inconvenientes iguais ou maiores.
Enquanto os homens se preocupam com os males e não
com as excelências de uma obra abençoada de Deus,
como podemos esperar que sejam úteis a ela? Digo isso
com o mais alto espírito de amor cristão, porém não devo
me calar a respeito desse assunto.
5. Sem os novos métodos, a Igreja não conseguirá
despertar o mundo para o evangelho. Os recursos dos
políticos, dos ateus e dos heréticos; a corrida atrás das
riquezas; o aumento do luxo; as múltiplas influências
empolgantes e contrárias que incidem sobre a Igreja e
sobre o mundo — conseguirão desviar do santuário e dos
altares do Senhor a atenção dós homem, a não ser que
cresçamos em sabedoria e no amor cristão, adotando
novos métodos que despertem a atenção dos homens
para o evangelho de Cristo. Já observei antes, no decurso
das presentes preleções, que as novidades não devem ser
introduzidas mais depressa do que o necessário. Devem
ser introduzidas com a máxima sabedoria e cautela, com
muita oração, e de maneira a despertar a menor oposição
possível. Mas não podemos dispensar os novos métodos.
E que Deus não permita que a Igreja se acomode num
conjunto deformas, ou deixe que a sua atual ou futura
maneira de agir se tome estereotipada.
6. Evidentemente precisaremos de uma mensagem
mais vibrante que consiga comunicar, em face do caráter
e das exigências da época. De um modo geral, os
ministros estão começando a descobrir isso. Alguns
reclamam contra tal mudança, atribuindo-a aos novos
métodos, como eles os chamam. O caráter da época já é
outro, e esses homens ainda não se conformaram:
conservam o mesmo estilo seco, formal e prosaico da
mensagem que servia há meio século.
7. Compreendemos a importância de os jovens minis­
tros terem um ponto-de-vista correto a respeito dos
avivamentos. Muitas vezes observo que os mais velhos
procuram amedrontar os jovens que se preparam para o
ministério, prevenindo-os contra os males das avivamen­
tos, novos métodos e coisas semelhantes. Esses moços,
em alguns seminários teológicos aprendem a considerar

135
os novos processos como se fossem verdadeiras invenções
do diabo. Como pode haver avivamento entre tais
homens?
Será que sempre vai ser assim? Vamos preparar os
jovens para o ministério, para depois vê-los saírem com
medo dos novos métodos, como se tal coisa nunca tivesse
existido? Eles devem saber que novos recursos no
trabalho não constituem nenhuma novidade na Igreja.
Que AVANCEM e trabalhem, eles mesmos, sem se
assustarem com os processos modernos.
Que o ministro se dedique inteiramente a seu
trabalho, e, sempre que perceber a necessidade de
qualquer medida para mostrar mais poderosamente a
verdade ao povo, que a adote sem medo, pois Deus não
reterá a sua bênção. Se os ministros não quiserem
avançar, pregar o evangelho com poder efervor, nem sair
da sua rotina para fazer nada novo com o propósito de
salvar almas, estarão afastando o Espírito Santo, Deus
retirará a sua bênção e levantará outros ministros para
realizarem a sua obra no mundo.
8. Ê direito e dever dos ministros usarem medidas
novas para promover avivamentos. Algumas igrejas se
opõem ao trabalho do ministro que procura empregar os
meios que Deus tem abençoado, a fim de trazer o
avivamento, chegando ao ponto de abandonar as reuni­
ões de oração, parar de trabalhar para ganhar almas e
colocar-se à margem de tudo, só porque o ministro
adotou o que chamam de métodos modernos. E assim eles
caem pelo caminho, afastam entristecido o Espírito de
Deus e Jazem cessar o avivamento, enquanto o mundo
em volta deles caminha para o inferno.
Finalmente, esse apego escrupuloso a determinadas
formas e modos de se trabalhar na seara, o qual tem
levado a Igreja a resistir a inovações em matéria de
processos, demonstra forte fanatismo. E o que é mais
estranho é que tais fanáticos são sempre os primeiros a
gritar “fanatismo".
A única ênfase a ser dada com respeito aos métodos de
trabalho, sob a dispensação do evangelho, ê que haja
decência e ordem. “Tudo seja feito com decência e

136
ordem." Devemos nos guardar de toda a confusão e
conduta desordeira. Mas que é decência e ordem?
Podería alguém dizer que a reunião para os .decididos, a
reunião demorada, ou o banco dos' decididos, seja
incompatível com a decência e a ordem? Eu seria o
primeiro a censurar, e a me opor com bastante firmeza
a tudo quanto fosse indecente e desordeiro no culto da
casa de Deus. Mas não posso aceitar que tenhamos por
"ordem" uma determinada forma fixa, de acordo com a
qual uma igreja tenha sido acostumada a realizar seu
culto.
Uma vez que haja, nas reuniões de avivamento,
“decência e ordem” , não podemos deixar os pormenores
dos métodos para a direção do Espírito de Deus, para os
obreiros que ele escolheu?
SÃO INEVITÁVEIS OS EXCESSOS?

Uma das principais queixas dos não-convertidos


contra o avivamento na igreja é o aparente abuso da
emotividade, que, segundo alegam, traz consigo toda
sorte de “excessos” . Os assuntos espirituais, afirmam os
não-salvos, devem ser tratados com sobriedade, discre-
ção, inteligência, solenidade e formalidade. Devem
apresentar o belo e o nobre da vida, devem interpretar as
obras do Criador e considerar os pensamentos dos
homens cultos, devem apelar ao intelecto e não às
emoções. Deixemos de lado o emocionalismo, pois ele
distoa da reverência do culto de Deus!
Finney aprendeu que, sem a emoção, o homem não é
despertado ao ponto de tomar atitude em uma determi­
nada questão, seja política ou religiosa. Por natureza
física e intelectual, somos inclinados à inércia espiritual
até que nossos sentimentos sejam profundamente agita­
dos. O grande avivalista declara categoricamente:
Deus tem visto a necessidade de aproveitar a
emotividade natural do homem, antes de levá-lo a
obedecer. O homem está, espiritualmente, sem vida; há
tantas influências para desviar sua mente das coisas
eternas e combater a verdade do evangelho, que é
necessário agitá-lo até que a corrente chegue ao ponto de

137
levar os obstáculos que intervém. Para que ele obedeça a
Deus, as emoções precisam ser agitadas ao ponto de
irromperem por essas influências contrárias. Isso não
quer dizer que a emoção seja manifestação do espírito;
pelo contrário, o desejo, o apetite e os sentimentos
excitados impedem o espírito. A vontade está, em certo
sentido, escravizada pelos desejos carnais e mundanos.
Daí a necessidade de despertar os homens para um senso
de culpa e de perigo, provocando desse modo emoções
contrárias e um desejo que romperá o domínio do desejo
carnal e mundano, deixando a vontade livre para
obedecer a Deus.
Há na Igreja tão pouco senso de princípios, tão pouca
firmeza e estabilidade de propósito que, se o sentimento
religioso nãofor despertado e alimentado, os sentimentos
e as emoções contrárias acabarão dominando e os
homens não obedecerão a Deus. Eles conhecem tão pou­
co, seus princípios são tão fracos, que, se o sentimento
não for conservado, voltarão do caminho do dever e nada
furão para promover a glória de Deus. Muitos bons
obreiros pensavam e ainda pensam que a melhor
maneira de evangelizar é persistir no trabalho regular e
ganhar os incrédulos aos poucos e sem emocionalismo.
Ainda que, em tese, esse raciocínio pareça certo, os fatos
demonstram a sua futilidade. Se a Igreja estivesse
suficientemente madura e estável para permanecer
alerta, tal critério seria viável; mas a Igreja ê tão pouco
esclarecida, e há tantos fatores contrários, que ela não
ficará firm e na ôbra sem que um interesse especial seja
despertado.
Como Finney, admitimos que o avivamento está
sujeito a perigos de abusos. “Nos grandes movimentos,
quer religiosos ou não, é natural que surjam certos
males, de certa forma casuais. Isso, porém, não é
motivo para desânimo. As melhores coisas sempre estão
sujeitas a abusos.’’ O estudo dos avivamentos em vários
séculos e diversos países demonstra que a reação
emocional de crentes e descrentes ao poder'do Espírito
varia grandemente de acordo com as características do
indivíduo e da comunidade. No Segundo Despertamento
Americano, em princípios do século XIX, os avivamentos
138
em Yale na época do Reitor Timothy Dwight foram
praticamente isentos de manifestações externas. O
Espírito de Deus veio como o orvalho do céu, sem que o
olho o pudesse vér ou a mão o pudesse sentir, porém
muitas vidas foram quebrantadas perante o Senhor e
derramaram silenciosamente lágrimas de arrependimen­
to. Na mesma época, os avivamentos nas fronteiras, no
Kentucky e no Tennessee, foram acompanhados de
grandes “excessos” emocionais: desmaios, gritos e histe-
rismos. Quando o Espírito de Deus nos visitou na capela
de Wheaton, houve tranqüilidade celestial; não houve
gritos nem choro alto, frenesi nem “línguas” , mas
apenas o suave soluçar de corações quebrantados e o
silencioso, descer das lágrimas.
Receber o avivamento deve ser o maior desejo do
cristão, nunca um motivo para receios. Devemos ter
medo de Deus? A mensagem que apela somente às
emoções será forçosamente superficial e efêmera em seus
efeitos, ao passo que a pregação da Palavra no poder do
Espírito de Deus despertará as emoções a fim de que o
coração se volte ao Salvador.
Um bom argumento contra aqueles que se preocu­
pam demasiadamente com possíveis excessos e erros nos
tempos de despertamento foi apresentado por Robert
Murray McCheyne em sua carta de dezembro de 1840 ao
presbitério de Aberdeen na Escócia. (McCheyne foi
contemporâneo de Finney, embora não se conhecessem.
Não raras vezes avivamentos na Grã-Bretanha e no
continente europeu têm coincidido com despertamentos
na América.) Dada a importância e a pertinência do
material em apreço, apresentamo-lo por extenso. A bem
da clareza, reproduzimos as respostas após cada pergun­
ta, e não separadamente conforme a apresentação
original.
1. Têm-se verificado avivamentos em sua paróquia
ou distrito? Caso afirmativo, qual a sua extensão, sua
instrumentalidade e como se manifestaram?
Resposta: Perante o Senhor, tenho afirme convicção
de que está-se verificando nesta paróquia e seus arredo­
res uma obra de Deus, mui notável e gloriosa, manifesta­
da na conversão dos pecadores e na edificação dos
139
santos. Venho observando essa obra desde o inicio de
meu ministério neste local em novembro de 1836, e ela
continua até o presente momento; tomou-se, porém,
muito mais notável no outono de 1839, quando eu estava
ausente, ocupado em uma Missão de Investigação aos Ju­
deus, quartdofu i substituído pelo Rev. W. C. Bums. A n­
tes de minha viagem e vários meses depois, os trabalhos
realizados eram os comuns. Além dos cultos de domingo,
no verão de 1837fo i iniciada na igreja uma reunião às
quintas-feiras à noite para oração, doutrinamento e lei­
tura de noticias sobre missões e avivamentos religiosos,
etc.; os crentes organizaram escolas dominicais e criaram
grupos de oração e duas classes semanais para rapazes e
moças e afrequência era excelente. Esses recursos foram
muitas vezes, coroados de bênçãos.
Entretanto, somente em agosto de 1839 fo i que
houve um movimento visível e geral entre o povo. Após a
inauguração do trabalho do Senhor em Kilsyth, a Palavra
de Deus chegava com tal poder aos corações dos
perdidos, e tomou-se tão intensa a sede de ouvi-la, que as
classes noturnas na sala da escola se transformaram em
reuniões na igreja, com grandes auditórios. Durante
quase quatro *meses os cristãos houveram por bem
realizar um culto público quase todas as noites. Na
mesma ocasião foram estabelecidas muitas reuniões de
oração, algumas das quais eram estritamente particula­
res ou de comunhão; outras, dirigidas por pessoas de
alguma experiência cristã, eram abertas às pessoas
interessadas no evangelho. Por ocasião de meu regresso
da Missão aos Judeus, encontrei trinta e nove dessas
reuniões por semana que eram realizadas junto com a
Igreja, sendo que cinco delas eram dirigidas e frequenta­
das exclusivamente por crianças. Atualmente, embora
tenha havido muitas modificações, creio que o número
dessas reuniões não diminuiu muito. Agora, porém,
quase todas são mais restritas. A ansiedade geral e
profundd que fo i a razão de muitas das reuniões serem
abertas, decresceu bastante. Entre os muitos ministros
que têm ajudado aqui, e principalmente no outono de
1839, posso citar o Sr. MacDonald, de Urquhart, Sr.

140
Cumming, de Dumbamey; Sr. Bonar, de Delso, e Sr.
Somerville, de Anderston. Alguns desses estiveram aqui
durante bastante tempo, e tenho boas razões para crer
que foram grandemente aprovados por Deus na obra que
realizaram.
Quanto à extensão desta obra de Deus, parece-me
impossível afirmar categoricamente. A igreja está situa­
da no subúrbio de uma cidade de 60.000 habitantes. A
obra atingiu pessoas residentes em todos os bairros da
cidade e de todas as camadas sociais e denominações
religiosas. Continuamente, muitas centenas de pessoas,
sob uma profunda convicção de pecado, têm vindo
conversar com os ministros, de modo que estou convenci­
do de que o número daqueles que foram salvos só será
conhecido no dia do juízo.
2. Tem conhecimento do caráter e dos costumes
anteriores dos grupos?
3. Já houve casos de pessoas conhecidas pelo vício da
embriagues ou outras imoralidades, pela negligência dos
deveres familiares e perturbações da ordem pública, que
abandonaram seus maus costumes e se tomaram notá­
veis pela sua diligência ao serem alcançados pela graça?
Resposta: Ao que parece, havia todo tipo de pessoas
entre as que se converteram. Poderiamos citar não
poucas nas camadas sociais mais elevadas, as quais
apresentam todos os sinais de se terem tomado novas
criaturas, sendo que anteriormente levavam uma vida
mundana, porém não assinalada por impiedade aberta.
Muitos outros, antes crentes nominais, agora são cristãos
verdadeiros. Poderiamos mencionar, porém, um número
muito maior de pessoas que têm voltado de uma vida de
pecados e devassidão, encontrando perdão e pureza no
sangue do Cordeiro e pelo Espírito de nosso Deus, de
maneira que a eles podemos dizer, como Paulo aos
coríntios: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos
lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justifica­
dos." Penso, muitas vezes, quando converso com alguns
destes, que a transformação que sofreram bastaria para
convencer um'ateu de que Deus existe, ou a um incrédulo
de que há um Salvador.
4. Poderia dizer quantos casos desses ocorreram?
141
Resposta: Para um ministro, em um campo como
este, não é fácil saber a conta exata de todos os casos de
despertamento e conversão que ocorrem, e além disso,
pode haver muitos que não lhe chegam ao conhecimento.
Tenho procurado sempre tomar nota de cada um dos
decididos que me procuram e o seu número total tem
sido muito elevado. Só no decorrer do outono de 1839,
não menos de 600 a 700 vieram conversar com os
ministros a respeito de suas almas, e houve ainda muitos
outros, também convertidos que nunca se apresentaram
desse modo. Conheço muitos que parecem ter-se
convertido, contudo nunca me procuraram em particu­
lar. De vez em quando, encontro casos de que não tinha
conhecimento. A verdade é que somente a eternidade
poderá revelar o número real dos verdadeiros filhos de
Deus entre nós.
5. Todos os grupos de decididos têm apresentado
uma conduta condizente, e quanto tempo faz que se
converteram?
Resposta: Quanto â perseverança daqueles que,
segundo cremos, se converteram, posso dizer de início que
è inegável e deve ser claramente compreendido, que
muitos dos que chegaram a preocupar-se com a sal­
vação e durante algum tempo pareciam estar profun­
damente convictos do pecado, voltaram para o mundo.
Creio que, naquele extraordinário período de 1839,
foram poucas as pessoas que assistiram às reuniões e não
foram abaladas em maior ou menor medida. Naquela
época o Senhor fez cair sobre a mente do povo a
consciência da tremenda importância das coisas divinas.
Na verdade, aquele fo i o nosso dia de misericordiosa
visitação. Muitos, porém, deixaram-no passar e não
encontraram a salvação, e esses, como era de se esperar,
voltaram para sua vida anterior de indiferença e rebel­
dia. Lamentavelmente, há entre nós alguns cujo próprio
aspecto nos lembra a solene advertência: "Não apagueis
o Espírito.''
Limitando-nos, porém, àqueles que, até onde os
ministros puderam julgar pelas normas da Palavra de
Deus, pareceram ter-se convertido para a salvação, posso

142
dizer com segurança que não sei de mais do que um ou
dois que definitivamente abandonaram a decisão que
haviam feito. Podem ter ocorrido outros casos dessa
natureza, porém não chegaram a meu conhecimento.
Outros, sem dúvida, poderão ocorrer ainda, pois a
Palavra de Deus nos ensina a esperar tais coisas. Alguns
dos que se converteram já há quatro anos, estão vivendo
corretamente, mas a maior parte aceitou a Cristo há um
ou dois anos. Alguns têm passado por crises na vida
espiritual, abrindo assim a boca aos adversários, porém o
próprio alarde causado por esses fatos demonstra que
são muito raros. Alguns têm caído em trevas espirituais;
receio que muitos tenham deixado seu primeiro amor;
em tudo isso, porém, não vejo nada diferente do que se
dá em toda Igreja cristã. Muitos há entre nós que
estão vivendo na luz e gozando paz, sendo em tudo
exemplos aos que crêem.
Tivemos um período de comunhão quando voltei do
continente — a ocasião em que experimentei maior gozo
e santidade em minha vida. A segunda-feira foi dedicada
inteiramente a ações de graças, efo i levantada entre nós
uma oferta de gratidão a Deus pelas suas grandes
misericórdias. Os tempos eram penosos, e meu povo
estava longe de ser rico, entretanto o total alcançado foi
de 71 libras. Essa importância foi dedicada totalmente a
Jins missionários. É bem verdade que, muitas vezes,
aqueles que considero cristãos verdadeiros me entriste­
cem pelas suas fraquezas, porém, ainda assim, não posso
deixar de pensar que, se o mundo estivesse repleto de
cristãos, teríamos chegado ao dia no qual “não se fará
mal nem dano algum em todo o santo monte de Deus".
6. Os métodos a que se atribuem os avivamentos têm
demonstrado efeitos benéficos sobre o estado religioso
do povo em geral?
Resposta: No decorrer desta obra de Deus, não só
tem havido muitas conversões, mas também temos
observado efeitos importantes sobre o povo em geral. Na
verdadeficamos perplexos, e deveras contristados, ao ver
que milhares que vivem nas imediações do local onde
Deus está operando pela sua imensa graça, ainda

143
permanecem na mais profunda apatia no que çonceme
às coisas espirituais, ou continuam vivendo nas paixões
da carne. Enquanto muitos, vindos de longe, tomaram-
se herdeiros da glória, multidões, infelizmente, dos que
moram ao alcance do som dos sinos dominicais conti­
nuam vivendo no pecado e na miséria. Mesmo assim,
contudo, são marcantes os efeitos verificados na comuni­
dade. Parece que, agora, até os mais ímpios admitem que
realmente existe um fenômeno conhecido por novo
nascimento. Os homens não podem mais negá-lo.
0 dia do Senhor agora ê observado com maior
reverência que antes, e parece haver muito mais temor
nos corações dos homens do que havia anteriormente.
Sinto que agora podemos chegar aos incrédulos, no meio
do seu pecado, e fazê-los parar para ouvir-nos, o que
antes não conseguíamos. As várias reuniões de oração
têm contribuído para criar um ambiente de influência
suave. Há muito mais solenidade na casa de Deus, e
pregar ao povo agora é coisa muito diferente do que era
antigamente. Qualquer ministro, espiritualmente sensível
percebe que há na congregação muitas pessoas que
oram. Quando chéguei aqui, pelo sistema local, não me
era possível criar escolas dominicais, ao passo que agora,
bem recentemente, foram estabelecidas com facilidade
dezenove escolas com bons professores e boa assistência.
1, Houve manifestações públicas ou agitação física
evidenciada em soluços ou gemidos audíveis, brados ou
gritos?
8. Tinham reações fora do comum?
9. Houve desmaios, convulsões ou alguma outra
forma de enfermidade?
Resposta: Conforme jà esclarecí, o período mais
notável da operação do Espírito de Deus neste local foi
em 1839, quando eu estava ausente. Nesse período houve
muitas ocasiões de grande quebrantamento, quando a
casa de Deus se tomou literalmente um Boquim — lugar
dos pranteadores. Aqueles que tiveram o privilégio de
estar presentes nessas reuniões, creio que jamais se
esquecerão delas. Desde meu regresso, contudo, vi
muitas vezes a pregação da Palavra apresentada com tan­
to poder, e o reino de Deus tão próximo, que ninguém pô­
144
de conter a emoção do povo. Nessas ocasiões observei que
a congregação era dominada por um silêncio de causar
suspense; cada ouvinte se inclinava para frente numa ati­
tude de atenção extasiada; homens importantes cobriam
o rosto orando para que o Espírito Santo atuasse com po­
der nos corações dos pecadores.
Algumas vezes ouvi um suspiro mal suprimido
escapar de muitos lábios; já vi muitos rostos banhados
em lágrimas. Outras vezes ouvi fobes soluços em vários
pontos do templo, enquanto uma atmosfera de profunda
reverência dominava toda a congregação. Em certas
ocasiões ouvi pessoas gritarem em alta voz como se
tivessem sido atingidas por uma seta. Essas cenas de
emoção foram presenciadas na pregação de vários
ministros e por vezes ocorriam durante os mais tocantes
apelos. Certa ocasião, por exemplo, quando o ministro
falava de modo comovente sobre o tema: “Ele ê
totalmente desejável", a cada frase ouviam-se gemidos
de profunda angústia. Em ocasiões como essa, já vi
pessoas ficarem tão quebrantadas, que nem ao menos
podiam andar ou ficar em pé, sem auxílio.
Tenho conhecido casos em que crentes foram atingi­
dos de modo semelhante pela plenitude de sua alegria.
Muitas vezes tenho visto tais despertamentos resultarem
no que creio ser verdadeira conversão. Eu podería
mencionar os nomes de muitos dos crentes niais humildes
e mansos, que em ocasião de profunda agoniajá gritaram
na igreja. Outras vezes a visão de corações quebrantados,
fo i um instrumento que Deus usou para despertar os
pecadores indiferentes que haviam ido para zombar.
Longe de mim pensar que essas manifestações de
profunda emoção resultem sempre na conversão, nem
tampouco que o Espírito de Deus deixe de operar
muitas vezes de maneira mais calma. Penso que ele ora
vem como chuva torrencial, ora como orvalho suave.
Contudo eu afirmaria, com humildade, minha convicção
de que é dever de todos os que buscam a salvação das
almas, e principalmènte dever dos pastores, anelar e
pedir a Deus por esses tempos de refrigêrio, quando pos­
samos alcançar grande vitória sobre os inimigos do Rei e

145
nossas congregações adormecidas sejam levadas a cla­
mar: “Que faremos, irmãos?"
10. Na sua experiência, até que hora se prolongam as
reuniões de avivamento?
11. De um modo geral, essas reuniões têm ou não
a sua aprovação? Seja como for, queira dizer suas razões.
Resposta: Nenhum dos ministros que se têm ocupado
no trabalho de Deus neste local, jamais empregou a
expressão “reunião de avivamento", nem tampouco
aprovam seu emprego. Lemos, em Atos, que os apóstolos
pregavam e ensinavam diariamente o evangelho; contu­
do suas reuniões nunca são chamadas de avivamento.
Aqui nunca tivemos reuniões diferentes das que se
realizam para a pregação e o ensino do evangelho, e para
oração. Ninguém dirá que as reuniões realizadas domini­
calmente no santuário tenham em vista outro objetivo que
não seja reviver o genuíno cristianismo através da
conversão de pecadores e da edificação dos santos. Todas
as reuniões aqui foram realizadas, eu creio, com esse
único objetivo. Portanto, não nos parece apropriada a
aplicação desse termo a nenhuma das nossas reuniões. Ê
bem verdade que nas reuniões noturnas da semana não
há geralmente a formalidade do domingo: o povo assiste
com trajes de serviço, e o ministro fala com menos
preparação formal.
Durante o outono de 1839 as reuniões eram encerra­
das geralmente às dez horas; entretanto, várias vezes a
congregação parecia encontrar-se em condições tais que
era indispensável que ministros permanecessem por mais
tempo a fim de aconselhar os despertados e orar com
eles. Eu mesmo vi, uma ou duas vezes, reuniões
prolongarem-se até perto da meia-noite. Nessas ocasiões
havia tão grande emoção durante a pregação da Palavra
que, após o pronunciamento da bênção apostólica, à
hora costumeira, a maior parte do^povo permanecia em
seus lugares ou ocupava os corredores, de modo que era
impossível ir embora. Em virtude disso, dávamos mais
uma palavra de exortação aos interessados, e o resto do
tempo era ocupado com cânticos de hinos e oração.
Assim a reunião se prolongava conforme a situação
exigisse.
146
Diversas ocasiões desejei que estivessem presentes
todos os pastores da Escócia, para que conhecessem mais
profundamente a verdadeira finalidade do nosso minis­
tério comum. Nessas reuniões nunctf presenciei, nem tive
notícia de qualquer coisa indecordsa; e os sentimentos
que sempre me enchiam a alma eram um profundo senso
de reverência, uma grande compaixão pelas almas
aflitas, e uma indizível consciência da dureza de meu
próprio coração. De fato, eu aprovo integralmente essas
reuniões, pois creio que estejam de acordo com a Palavra
de Deus, e sejam dirigidas pelo Espírito Santo de Cristo,
e que ali, com freqüência, são salvas almas preciosas e
imortais. A minha fervorosa oração é que ainda venha­
mos a ver coisas maiores do que estas em todas as partes
da Escócia.
12. Houve alguma morte, real ou supostamente
causada por superexcitamento em qualquer um desses
casos? Se houve, relatar os fatos, até onde sejam de seu
conhecimento.
Resposta: Verificou-se uma morte em circunstâncias
muito estranhas, na época da operação de Deus neste
lugar, efoi atribuída, por muitos adversários, à excitação
religiosa. Mas os fatos reais, os quais foram divulgados
na ocasião, demonstram tratar-se de uma calúnia sem
fundamento.
13. Relatar quaisquer outras circunstâncias ligadas
aos avivamentos em sua igreja ou cidade e que, embora
não estejam mencionadas nos tópicos anteriores, possam
também projetar luz sobre este assunto.
Resposta: Fui levado a examinar com cuidado
particular as narrativas que nos foram deixadas das
maravilhosas obras de Deus no passadotanto em nosso
país como em outras partes do mundo, a fim de
confrontá-las com aquilo que recentemente temos teste­
munhado em Dundee e em outras partes da Escócia.
Atrãvés desse estudo, fiquei plenamente convicto dos
seguintes fatos: o derramamento do Espírito Santo na
igreja de Shotts e um século depois em Cambuslang
(ambos na Escócia), e ainda na América, durante o
ministério do Rev. Edwards, fo i acompanhado das

147
mesmíssimas manifestações da obra em nossos dias. Ê
tão notável a coincidência tanto da sua natureza como
das circunstâncias que o acompanharam, que não ouvi
nenhuma objeção contra a obra de Deus na atualidade,
que não tenha sido refutada da maneira mais bíblica e
decisiva pelo Sr. Robe em sua Narrativa, e pelo
Rev. Edwards em sua preciosa obra, Considerações
Sobre o Avivamento da Nova Inglaterra: “Não há dúvida
de que, se isto não for uma grande obra de Deus, teremos
então de deixar de falar em conversão e em experiência
cristã, jogar a Bíblia fora e abandonar a vida cristã.”
14. Quais os fatores na mensagem ou no ministério
dos obreiros que parecem ter produzido resultados em
todos os casos particulares que teve oportunidade de
observar?
Resposta: Desconheço qualquer elemento, no minis­
tério dos que têm ocupado o púlpito da minha igreja, que
se possa com propriedade chamar de peculiar, ou que
seja diferente do que a meu ver deve ser característico
dos serviços de todos os verdadeiros ministtos de Cristo.
Até onde posso julgar, eles nada têm pregado senão o
'evangelho puro da graça de Deus. Isso eles têm feito, de
maneira clara, total e séria; com discernimento, insistên­
cia e amor. Nenhum deles lê os sermões.
Todos, pelo que me parece, buscam a conversão
imediata dos ouvintes e crêem que, com um ministério
evangélico vivo, o êxito è a regra geral e o fracasso,
apenas uma exceção. Creio que eles, de um modo geral,
cultivam uma vida de oração, e têm também o costume
de orar muito em conjunto quando se reúnem, e
principalmente intercedem antes e depois de assumir o
púlpito. Alguns têm sido abençoados no ministério de
anunciar os juízos do Senhot, outros em expor a
plenitude e graça de Cristo como Salvador dos pecado­
res, e esses mesmos homens, em outras ocasiões, já foram
grandemente abençoados nos dois ministérios. Ao que eu
saiba, nenhuma doutrina em desacordo com as Escritu­
ras foi ensinada, nem tampouco omitimos parte alguma
de “todo o desígnio de Deus”.
15. A pessoa ou as pessoas mencionadas como os

148
obreiros usados na obra advertiram sobre falar de Cristo
às crianças? Quando? Em que termos especiais? E qual
seria a idade mínima para que fossem evangelizadas?
Resposta: Os ministros ocupados na obra de Deus
neste lugar, creem que os meninos também estão
perdidos e que, pela graça, podem ser salvos. Por isso
têm falado a eles tão livremente quanto aos adultos; e
Deus tem abençoado tão grandemente esta obra que
muitos meninos e meninas, da idade de dez anos em
diante, têm dado plena evidência de um novo nascimen­
to, Não tenho conhecimento de reuniões que tenham sido
promovidas especialmente para crianças, com exceção
das escolas dominicais, das reuniões de oração de
crianças, e um sermão para crianças na segunda-feira à
noite, depois da Santa Ceia. Era geralmente nos cultos
no templo que as crianças recebiam bênçãos, e muitas
vezes também nas suas próprias reuniõezinhas, sem a
presença do pastor. (26 de março de 1841.)
Os chamados “excessos” do avivamento são grande­
mente exagerados pelos inimigos do evangelho, que se
entusiasmam com a política ou o esporte, mas não se
interessam pela salvação da alma. A manifestação
emocional de arrependimento, com lágrimas, ou de
alegria pelos pecados perdoados, não deve inspirar receio
a verdadeiros crentes cheios do Espírito. O avivamento é
o meio divino de vivificar ou fortalecer a obra de Deus no
mundo. Concordamos com Finney em que o avivamento
é “o único meio possível para purificar a Igreja e restituir
o cristianismo ao lugar que deve ocupar no respeito do
povo... é indispensável para desviar da Igreja o juízo de
Deus... e para restaurar o amdr cristão e a confiança
entre os membros das igrejas.” O cristianismo sem
avivamentos perde depressa a vida e a utilidade, e “os
inconvenientes às vezes apresentados são, quando de fato
existem, incidentais e de escassa importância em com­
paração com os benefícios que resultam dos aviva­
mentos”.
CONSELHOS ENGANOSOS
Outro perigo sutil, que ameaça o sucesso de um
movimento de vivificação, é o superficialismo. Os impedi­
149
mentos podem ser vencidos pela graça e bondade cristãs,
pelo desejo e pela devoção; o clamor contra os métodos e
excessos pode ser desprezado ou desmentido, porém o
trabalho de evangelização será inútil se os cristãos
contribuírem para que os incrédulos alimentem falsas
ilusões acerca da salvação. Finney conheceu esse perigo
através de longa experiência, e dava enérgicas advertên­
cias contra qualquer conselho ou procedimento que
pudesse impedir o pecador de vir “tal qual ele é” ao
Salvador:
/. Uma das maneiras de se dar um falso consolo aos
pecadores aflitos, é perguntar-lhes: “Mas afinal, o que
foi que você fez? Você não ê tão mau assim"...
Ao filho que está em conflito, a mãe diz que ele fo i
sempre um menino obediente, bondoso, bonzinho, que
não precisa ficar assim tão preocupado. O marido diz à
esposa que ela é muito boa, ou esta ao esposo que ele ê
muito bom, e pergunta: “O que vocêfez, afinal?"... Ora,
nunca um pecador julgou seus pecados maiores do que
são. Ao contrário, nenhum homem fa z uma idéia exata
da gravidade de seus pecados. É provável que ninguém
agiientaria viver diante da plena visão de seus erros.
Deus, na sua misericórdia, poupou a todas as criaturas a
mais terrível das visões: um coração humano posto a nu.
A culpabilidade do pecador ê muito mais profunda e
condenável do que ele pensa, como também o perigo que
corre è muito maior do que ele imagina; se visse seus
pecados como são, provavelmente não permanecería vivo
por mais de um instante. Dizer a uma pessoa moralista
e amável, que a sua bondade é bastante, ou que a sua
maldade não é tão grande quanto ela está imaginando,
não é dar-lhe consolo racional, porém é enganá-la e
destruir-lhe a alma. Aqueles que o fazem, tomem
cuidado!
2. Outros dizem aos interessados que "a conversão è
uma obra progressiva”, aliviando assim sua ansiedade.
Quando um homem fica preocupado ao reconhecer que è
um grande pecador e que, se não se voltar para Deus,
estará perdido, sente grande alívio quando algum amigo
lhe diz que ele pode melhorar aos poucos e que ele está

150
progredindo, pouco a pouco. A verdade é que a
regeneração, ou a conversão, não ê obra progressiva. Que
è regeneração? Que é senão o início da obediência a
Deus? E o início de alguma coisa pode ser progressivo? £
o primeiro ato de genuína obediência a Deus — a
primeira ação voluntária da mente a qual Deus aprova,
ou que pode ser considerada obediência a Deus. Isso é
que ê conversão.
3. Outra maneira de os descrentes serem iludidos
com uma esperança ê pelo conselho de adiar o problema
por enquanto. Homens que pretendem ser sábios e bons
têm-se presumido mais sábios do que Deus: quando o
Senhor está falando pelo Espírito a um pecador e
procurando levá-lo a uma decisão, acham que Deus está
forçando demais e que eles precisam intervir, aconse­
lhando a pessoa a fazer um passeio, procurar a compa­
nhia dos amigos, ocupar-se com os negócios, enfim, com
qualquer coisa que lhe alivie um pouco a mente, pelo
menos por enquanto. Semelhante conselho, desde que
seja realmente a convicção de pecado que aflige o
pecador, ê simplesmente inadmissível. As lutas do
Espírito, empenhado em tomar o pecador consciente da
verdade, jamais lhefarão mal, nem o enlouquecerão. Ele
poderá, na verdade, desequilibrar-se pela resistência,
mas è uma verdadeira blasfêmia imaginar que o bendito,
sábio e benevolente Espírito tde Deus pudesse ser tão
descuidado que viesse a transtornar è destruir a alma que
ele veio santificar e salvar. O caminho certo a tomar com
o pecador, quando a operação do Espírito o deixa aflito,
é instruí-lo, dando~lhe esclarecimentos, corrigindo-lhe
os equívocos e tomando-lhe tão claro o caminho da
salvação, que ele o veja na sua frente. LEMBREMO-
NOS: se um pecador despertado alguma vez chegar a
encerrar voluntariamente o assunto, ê provável que
jamais volte a ele.
4. .Ás vezes oferecemos a um pecador despertado o
consolo de lhe dizer que o sentimento religioso não traz
desconforto. Ouvi falar uma vez de um doutor em
teologia que disse isso a um pecador angustiado e
inquieto quanto ao destino de sua alma. Disse: "A vida

151
cristã é alegre, não é melancólica; não se aflija;
console-se, deixe seus temores, você não deve ficar assim
abatido” — tentando confortá-lo com palavras tão tolas
quando, na realidade, o homem tinha toda a razão de
estar aflito, pois estava resistindo ao Espírito Santo e
correndo o risco de afastá-lo para sempre.
Ah! Aliviar a consciência do incrédulo é um artifício
diabólico para induzir o rebelde a não temer a ira divina.
Qual a razão da sua aflição senão a sua própria rebeldia?
Ele não encontra consolo porque se recusa a ser
consolado. Deus está pronto a confortá-lo. Não precisa­
mos pensar em ser mais compassivos do que Deus. Ele
encherá de conforto o pecador em um momento, desde
que se submeta.
5. Tudo que envolve as coisas espirituais numa
atmosfera de mistério, ténde a proporcionar ao pecador
uma falsa ilusão.
Quando o incrédulo está preocupado com a questão
da salvação, se o envolvermos em mistério, ele se sentirá
aliviado. A angústia do pecador vem da pressão de uma
obrigação presente. Se o esclarecermos nesse ponto e ele
não quiser se submeter, sua angústia se tomará maior.
Se, porém, lhe dissermos que o novo nascimento é um
mistério, algo que ele não pode entender, ,e o deixarmos
todo confuso e às escuras, ficará aliviada a sua angústia.
O que provoca sua angústia é a cohtpreemfio clara da
natureza e dever do arrependimento1. Uma vez dissimu­
lada essa verdade, sua ansiedade logo diminuirá. Se,
porém, tomarmos a verdade bem clara diante dele,
vamos provocar uma angústia muito grande em seu
coração.
6. Tudo que afasta do pecador a consciência de culpa
provoca uma falsa ilusão.
Quanto mais o homem sente sua culpa, mais
profunda é sua angústia. Tudo, porém, que lhe minora
esse senso de culpa diminui naturalmente sua angústia,
mas è um consolo carregado de Aborte. Se alguma coisa o
ajudar a repartir a culpa, lançando sobre Deus uma
parte, vai adormecer a consciêlacia, mas é um consolo
que destrói a alma.

152
7. Insistir em sua incapacidade é um falso consolo. Se
dissermos ao pecador ansioso: “Que você pode fazer? £
uma criatura pobre e frágil, não pode fazer nada" —
faremos com que ele sinta uma espécie de desânimo, po­
rém não será aquela agonia aguda de remorso com que
Deus abate a alma quando quer submetê-la e levá-la ao
arrependimento.
8. Tudo que dá ao pecador a impressão de que ele
deve ficar passivo quanto ao problema da salvação, lhe
trará um falso conforto.
Dar-lhe a idéia de que ele nada tem a fazer senão
aguardar a hora de Deus; dizer-lhe que a conversão é
obra de Deus e que deve deixar o assunto com ele, tendo
muito cuidado para não querer tirar da mão de Deus
essa obra — é fazer com que ele tire a conclusão {como
acima) de que não tem culpa, e se sentirá aliviado. Se ele
tem apenas que ficar quieto e deixar que Deus faça o
trabalho, como o homem que fica quieto enquanto lhe
fazem a amputação de um braço, ele se sente aliviado.
Tal orientação, porém, está completamente errada. Se o
pecador deveficar assim quieto e deixar que Deus opere,
logicamente ele não tem culpa pelo fato de nada fazer.
9. Dizer ao pecador que aguarde a hora de Deus.
Vejamos, por exemplo, um incrédulo rebelde. Deus
apresenta-se com o perdão em uma das mãos e o juízo
na outra, dizendo ao pecador que se arrependa e receba o
perdão, ou se recuse e pereça. E vem, então, um ministro
do evangelho e lhe diz que “aguarde a hora de Deus".
Com efeito está dizendo que Deus não quer que ele se
arrependa agora, nem quer perdoá-lo agora; dessaforma,
está lançando a culpa da sua insubmissão sobre Deus.
Tenho pensado muitas vezes que tais ensinadores
precisam recçber a repreensão de Elias aos sacerdotes de
Baal; "Clamai em altas vozes, porque ele é deus; pode
ser que esteja meditando, ou atendendo a necessidades
ou de viagem, ou a dormir, e despertará." O ministro que
se arrisca a sugerir que Deus não está pronto e diz ao
pecador que espere a hora de Deus, quase podería
também dizer-lhe que no momento Deus está dormindo,
ou de viagem, e não pode atendê-lo agora. São, com

153
efeito, pobres consoladores. Essa atitude é quase uma
violenta afronta a Deus. E quantos não morreram
culpados da perdição das almas que eles enganaram e
destruíram dizendo que Deus não estava pronto para
salvá-los e que deviam aguardar a hora de Deus.
10. Dizer ao incrédulo despertado que faça pela sua
tranquilidade, aquilo que puder, em vez de aconselhá-lo
a obedecer a Deus, traz uma paz ilusória.
v4s vezes o descrente está disposto a fazer tudo, menos
aquilo que Deus requer dele: irá aos confins da terra, ou
dará seu dinheiro, suportará sofrimento — tudo, menos
a plena e imediata submissão a Deus. Ora, se contempo­
rizarmos e lhe apresentarmos alternativas, evitando a
exigência única, eleficará muito consolado. Esse conse­
lho lhe agrada; diz: “Pois não, farei isso mesmo: gosto
daquele pastor, ele não é tão severo, parece que
compreende meu caso particular, sabefazer concessões."
Mencionarei algumas das alternativas que costumam
sugerir a um pecador rebelde:
a) Dizem-lhe que ele precisa fazer boas obras e
cumprir as ordenanças. Se dissermos isso a um pecador
em conflito, eleficará aliviado: “Pois não, se é só isso, eu
farei. Pensei que Deus exigisse que eu me arrependesse e
me submetesse agora a ele, mas, se boas obras e
ordenanças bastam, vou fazer isso de todo o coração. ”
b) Mandam que peça a Deus um coração novo. Por
acaso Deus diz: “Pede-me um coração novo"? Não! Ele
ordena: “Criaiem vós coração novo. "Não devemos dizer
ao homem que peça a Deus para cumprir por ele seu
dever, e sim que vá ele mesmo cumpri-lo. Sei que o
salmista, um homem piedoso, orou: “Cria em mim um
coração puro e renova dentro em mim um espírito reto. ”
Ele tinha fé e orou com fé. Coisa muito diferente ê pôr um
rebelde renitente a pedir um coração novo. Sem dúvida,
um pecador em conflito ficará satisfeitíssimo com
semelhante orientação. Ele dirá: “Ora, eu já sabia que
preciso de um coração novo e que devo arrepender-me,
mas pensava que eu mesmo tivesse que tomar tal decisão;
não tinha vontade nenhuma de fazê-lo, porém não tenho
nenhuma objeção a que Deus o faça por mim, se ele

154
quiser; se o que tenho a fazer é só pedir, eu pedirei. ”
c) Aconselham o incrédulo a ser perseverante. Ora,
perseverar em quê? Em sua luta contra Deus? É
exatamente essa a orientação que o diabo daria. Seu
único desejo ê que ele continue resistindo, pois assim sua
destruição estará garantida.
d) Dizem ao incrédulo para continuar caminhando.
Isso pressupõe que ele esteja caminhando para o céu,
quando na realidade está indo para o inferno, e estará
cada vez mais próximo dele, enquanto estiver resistindo
ao Espírito Santo. O que devemos dizer-lhe é: “ALTO!
Pare, pecador! Nem mais um passo nessa direção, pois
ela conduz ao inferno."
e) Dizem ao pecador que deve esforçar-se para se
arrepender e entregar o coração a Deus. Esse conselho dá
a entender que è muio difícil arrepender-se, talvez
impossível, e tudo que o pecador pode fazer é esforçasse
para ver se o consegue ou não. Isso nada mais é que
substituir o mandamento de Deus pelo do homem. Deus
exige o arrependimento e um coração santo. Para os que
não preencherem essas condições, qualquer conforto será
vão, pois “das vossas respostas resta falsidade"..
f) Dizem-lhe para pedir a Deus o arrependimento. E
ele diz: “Ora, está bem, se è só isso, eu pedirei
arrependimento. Eu estava em conflito porque pensava
que Deus exigisse de mim o arrependimento, mas se ele
vai operá-lo, posso esperar." E assim se sente aliviado e
bem consolado.
g) Dizem ao pecador que peça convicção, ou peça ao
Espírito Santo que lhe mostre seus pecados, ou procure
mais esclarecimento, sobre a questão de sua culpa, a fim
de aumentar sua convicção.
Tudo isso é exatamente o que o pecador deseja, pois
vai aliviá-lo da pressão da responsabilidade presente. Ele
quer ganhar tempo. Tudo que afastar aquela pressão do
momento, aquela obrigação de arrepender-se imediata­
mente, é um alívio. Tudo isso consola oi pecador,
pondo-o a fazer aquilo que ele pode, quando não quer
submeter seu coração a Deus.
11. Outra maneira de dar uma falsa ilusão aos

155
pecadores em conflito ê dizer-lhes que Deus está
provando sua fé mantendo-os na fornalha, e que devem
esperar com paciência no Senhor — como se Deus fosse
responsável, ou pusesse obstáculos para que não se
tomassem cristãos. Como se fosse possível um pecador
rebelde ter fé. Deus não se põe a atormentar o pecador
ou a ensinar-lhe lições de paciência. Ele está esperando
pelo pecadçr, e trabalhando para trazê-lo imediatamente
a um estado de mente que lhe possibilite encher sua alma
com a paz do céu.
12. Outro falso consolo ê dizer ao pecador: Cumpra
seu dever, e deixe sua conversão com Deus. Ê o mesmo
que dizer-lhe que não é seu dever converter-se agora. Que
absurdo! Então ele pode cumprir o dever sem converter-
se. Como se Deus transformasse o pecador enquanto este
se limita a cumprir ordenanças e fazer boas obras. Não.
Deus exige dele que crie em si um novo coração.
Tenhamos cuidado, pois, para não dar ao incrédulo uma
falsa esperança de salvação.
13. Algumas vezes os crentes, procuram animar o
incrédulo dizendo-lhe: "Nãofique desanimado; eu estive
muito tempo assim antes de encontrar paz." Dizem-lhe:
"Eu estive sob convicção de pecado durante muitas
semanas (ou meses, ou anos); passei por tudo isso e sei
exatamente como se sente; sua experiência é idêntica à
minha, e depois de muito tempo encontrei paz; tenho
certeza de que você logo a encontrará. Não desanime,
Deus o consolará muito em breve. ”Dizer ao pecador que
se anime na sua rebelião! Que coisa horrível!
14. "Eu tenho fé que você vai se converter."
Temos fé para crer! E em que se baseia essa fé? Na
promessa de Deus? Na influência do Espírito Santo?
Então estamos trabalhando contra nossa própria fé. O
propósito do Espírito de Deus é arrancar do pecador
seu último vestígio de esperança enquanto permanecer
no pecado, remover todo ponto de apoio a que ele
procure agarrar-se. Pois o nosso objetivo em instruí-lo
deve ser o mesmo. Devemos nos identificar com o plano
de Deus. Somente desse modo poderemos prestar-lhe
algum beneficio, encostando-o à parede a fim de que se

156
submeta sem demora e deixe sua alma nas mãos de
Deus.
15. “Vou orar por você. ” .As vezes os crentes procu­
ram confortar o pecador em conflito dizendo-lhe: "Vou
orar por você. ” Isso é uma falsa esperança, pois ê levar o
pecador a confiar nessas orações ao invés de confiar em
Cristo.
16. “Fico contente que você esteja interessado no
evangelho e espero que seja fiel e continue assim." Que
queremos dizer com isso, senão que estamos alegres com
a rebelião dele contra Deus? — pois ê precisamenie nesse
ponto que ele está: está resistindo à convicção de
pecado, à consciência, ao Espírito Santo, contudo nos
regozijamos em vê-lo assim e esperamos que ele seja fiel.
Em lugar de ficarmos alegres, devíamos sentir verdadeira
angústia ao vê-lo assim resistindo ao Espírito Santo, pois
cada momento que permanecer assim estará correndo o
risco de ser deixado por Deus e entregue à sua dureza de
coração e ao desespero.
17. "Mais tarde Deus vai recompensá-lo.” Sim, se
algum dia vocêfor recompensado, será no inferno. Certa
vez ouvi um pecador dizer: “Estou sofrendo muito: tenho
muita fé que vou receber a recompensa. ” Depois a
mesma pessoa disse: "Não existe pecador pior do que eu,
e nenhum pecado da minha vida me parece tãogrande e
terrível quanto essa frase que eu disse."
18. Outro consolo falso é dizer ao pecador que ele
ainda não está muito arrependido. A verdade é que ele
não se arrependeu nem muito nem pouco. Assim que o
pecador se arrepende. Deus logo o conforta. Essa diretiva
dá a entender que os seus sentimentos estão certos até
onde vão. Dar-lhe a entender que ele tem algum
arrependimento ê mentir-lhe e impedir que busque a
salvação.
19. Há quem anime o incrédulo com as palavras: "Se
você for um dos escolhidos, será salvo. ” Ouvi contar o
caso de uma pessoa que, numa grande aflição de espírito,
foi enviada a conversar com um ministro das proximida­
des. Conversaram muito tempo. Quando a pessoa se
retirava, o ministro disse-lhe: "Gostaria de mandar umas

157
linhas a seu pai, por seu intermédio. ” O pai era um bom
homem. O ministro escreveu a carta e esqueceu-se de
fechá-la. No caminho para casa, o moço viu que a carta
não estava fechada; pensou que, provavelmente, o pastor
tivesse escrito a seu respeito, e a curiosidade enfim
levou-o a abri-la e ler. Dizia o seguinte: “Prezado senhor:
Percebi que seu filho está sob convicção de pecado e em
grande angústia. Não me parece fácil dizer-lhe algo que o
alivie. Se, porém, ele fo r um dos escolhidos, será salvo,
sem dúvida,” O ministro queria dizer alguma coisa para
consolar o pai. Agora, porém, observemos: aquela carta,
quase causou a perdição do rapaz. Ele descansou na
doutrina da predestinação — “se eu fo r dos escolhidos,
vou ser salvo” — e a sua convicção de pecado se
desvaneceu. Anos mais tardefo i despertado e convertido,
porém só depois de grande luta e depois que se apagou
de sua mente aquela impressão errônea: compreendeu
que ele não tinha absolutamente nada a ver com a
doutrina da predestinação e que, se não se arrependesse,
estaria perdido.
20. Ê muito comum algupias pessoas dizerem ao
pecador despertado: “Você está no caminho certo. Fico
satisfeito com isso, e estou entusiasmado com você.” O
que o Espírito Santo quer mostrar ao pecador é que
todos os seus caminhos estão errados e levam para o
inferno. No entanto, muitos crentes procuram dar
impressão do contrário. O Espírito está procurando
desanimá-lo, mas eles o encorajam; o Espírito quer que
sinta tristeza pelo seu pecado, mostrando-lhe que está
completamente errado, mas eles o confortam, dizendo
que tudo vai bem.
21. Outra atitude muito prejudicial aos pecadores é a
de aplicar a eles certas promessas bíblicas que se
destinam somente aos santos.
(a) “Bem-aventurados os que choram, porque serão
consolados.” Quantas vezes essa passagem tem sido
aplicada a pecadores em conflito, os quais se achavam
em angústia, porque não queriam submeter-se a Deus:
“Bem-aventurados os que choram." Realmente, isso é
verdade, quando choram com a tristeza de Deus. Mas

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esse pecador está chorando por quê? Porque a lei de
Deus è santa e o plano divino para a salvação do homem
está traçado de talforma, que o pecador não pode fazê-lo
descer até a sua mente. Dizer a semelhante rebelde que
são bem-aventurados os que choram, tem tanto cabi­
mento quanto aplicar a promessa aos que estão no
inferno. Ali também há choro.
(b) "O que busca, encontra." Quem diz isso ao
incrédulo, quer dar a entender que o pecador em
conflito, está buscando a salvação. A promessa, porém,
fo i feita para os cristãos que pedirem com fé e buscarem
fazer a vontade de Deus; não se aplica a quem busca
esperança ou conforto, e sim a um objetivo justo.
Aplicá-la ao pecador incrédulo é enganá-lo, pois a sua
busca não tem esse caráter.
(c) “Não vos canseis de fazer o bem, porque a seu
tempo ceifareis se não desfalecerdes. ” Aplicar isso a um
pecador para confortá-lo ê simplesmente absurdo. Então
ele está fazendo alguma coisa que agrade a Deus?! Ele
nunca fez o bem, e nunca agiu pior do que agora. De
modo que, o pecador que está em luta, se não abandonar
seus pecados, herdará a morte eterna.
22. Alguns crentes, quando vão conversar com des­
crentes interessados, gostam muito de dizer: “Vou
contar-lhe a minha experiência.” Pode ser um perigoso
ardil do diabo para confundir o incrédulo, levando-o a
procurar imitar a experiência daquele crente.
23. Muitas vezes dirão ao pecador em conflito que
Deus começou nele uma boa obra, e há de aperfeiçoá-la.
Conheço casos de pais que falavam assim com os filhos e,
assim que os viam interessados no evangelho, deixavam
de incomodar-se, achando que Deus, tendo começado
uma boa obra em seus filhos, havia de continuá-la. Seria
igualmente lógico um fazendeiro dizer assim de seus
cereais, logo que a semente brotasse: “Bem, Deus
começou uma boa obra em meu campo e vai continuá-
la.” Que pensaríamos de um fazendeiro que se descui­
dasse em construir a cerca porque Deus já começara a
boa obra e havia de lhe dar a colheita? Se falarmos assim
com o não-crente e ele nos der crédito, isto será sua

159
perdição, pois ele deixará de fazer aquilo que ê absoluta­
mente indispensável para sua salvação.
24. Alguns dizem ao pecador: “Bem, mas você
rompeu com seus pecados, não ê verdade?" “Ê verda­
de", responde o pecador — no entanto isso é mentira,
pois ele não abandonou absolutamente os pecados;
apenas trocou uma forma de pecado por outra, colocan­
do-se numa nova atitude de resistência. Dizer-lhe que já
rompeu com o velho homem ê dar-lhe um falso conforto.
25. Há crentes que, para aliviar a consciência do
incrédulo, lhe dão o seguinte conselho: “Faça o que
puder, e Deus fará o resto.” Ora, muitas vezes os
incrédulos pensam terfeito tudo que podiam, quando na
realidade ainda não fizeram nada a não ser resistir a
Deus com todas as forças.
26. Outrossim, dizem: “Devemos ser gratos a Deus
pelo quejá temos, e esperar por mais." Se o pecador está
convicto, dizem-lhe que deve dar graças a Deus pela
convicção e esperar pela conversão. Ê ridículo dizermos a
algúém que deve ser grato a Deus peto estado de espírito
em que se acha, quando esta pessoa está obstinadamente
resistindo ao Criador com todas as forças que possui.
Uma orientação errada a um motorista que indaga
sobre o caminho, pode ter graves coqseqüências, ou
quando nada, causar-lhe aborrecimentos,- mas orientar
mal a um pecador que procura o caminho do céu poderá
acarretar sua eterna perdição.

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CONCLUSÃO
Assim foi Charles Grandison Finney, o rapaz que
cresceu no interior ainda inculto da América, sem
qualquer conhecimento do evangelho, o jovem advogado
que se encontrou com Jesus em genuíno espírito de
arrependimento e oração, o homem adulto inteira­
mente devotado às Escrituras e ao seu Salvador, o
avivalista operoso e incansável, que por décadas sacudiu
a América e a Inglaterra dominadas pelas trevas da
cupidez humana e indiferença espiritual, o pastor e
diretor de colégio cujo ministério conduziu multidões
ao Mestre e levou muitos a se disporem a dedicar as suas
vidas ao serviço dele, o servo de Cristo que VIVE AINDA
no coração dos cristãos e faz ouvir a sua voz no mundo
inteiro quando, de modo eloqüente, nos fala através de
suas Memórias, Preleções Sobre Avivamentos, e Prele-
ções Para Cristãos.
Finney VIVE AINDA nos corações que necessitam
de reavivamento. Oremos por um reavivamento, e
aprendamos dele os segredos que abrem as suas portas.

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