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Fanon, F. 2005. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Ed. UFJF.

1. DADOS BIOGRÁFICOS

 Frantz Fanon (Martinica, 1925 – EUA,1961) foi um psiquiatra, filósofo e ensaísta


marxista francês de ascendência franco-africana;
 Fortemente envolvido na luta pela independência da Argélia, foi também um influente
pensador do século XX sobre os temas da descolonização e da psicopatologia da
colonização;
 Esteve na Argélia, onde trabalhou como médico psiquiatra no hospital do exército
francês. Lá testemunhou as atrocidades da guerra de libertação travada pela Frente de
Libertação Nacional contra a dominação colonial francesa, unindo-se mais tarde à
resistência argelina, participando posteriormente de maneira ativa na política africana
pós-colonial.

2. INFORMAÇÕES SOBRE A OBRA

• Fruto das experiências de Fanon na Argélia, evidencia a relação deste país, em


especial do evento revolucionário ocorrente, com os demais países que sofreram o
processo de colonização;
• Escrita peculiar: o livro foi ditado por Fanon à mulher;
• Fanon falece antes de ver o livro publicado.

3. APORTE TEÓRICO
• O autor expõe as influências do pensamento de Sartre, que prefacia a obra,
especialmente a questão da liberdade na visão do filósofo. Também intelectuais como
Marx, Engels e Césaire.

4. CITAÇÕES E COMENTÁRIOS DA OBRA


4.1. SOBRE A VIOLÊNCIA

Neste capítulo, o autor vai pensar a violência como tema central das relações de poder
e domínio que caracterizam o sistema de colonização. Uma violência a qual não se dá apenas
no âmbito físico, ainda que também neste, é impressa nos corpos dos sujeitos colonizados a
fim de tirar-lhes a humanidade. Na realização deste processo uma série de instituições
geradoras e que constituem a “máquina colonial” são utilizadas para o alcance desses
propósitos de inferiorização do ‘outro’, isto é, do autóctone e/ou aquele que não é europeu tais
como a polícia colonial, a igreja institucionalizada etc.

Ao encarar as colônias (especialmente as sul-americanas e africanas) a partir de uma


sensibilidade de mundo marcada pela violência, Fanon propõe que somente a violência pelas
mãos do colonizado é capaz de gerar a derrocada do sistema colonial, e por conseguinte a
descolonização, e com isto a organização de um novo regime.
Fanon defende aqui que o processo de descolonização é um processo de criação de
novos homens e novas mulheres para a obtenção de outra lógica de mundo. Aqui temos a
construção de que deve-se desumanizar o colonizado dos moldes eurocentrados (que foi a
todo o momento desumanizado pelo sistema colonial) para humanizá-lo em outra perspectiva.

Libertação nacional, renascimento nacional, restituição da nação ao povo, Commonwealth,


quaisquer que sejam as rubricas utilizadas ou as fórmulas novas introduzidas, a
descolonização é sempre um fenômeno violento. Em qualquer nível que seja estudada,
encontros interindividuais, novas apelações de clubes esportivos, composição humana de
festas, da polícia, de conselhos de administração dos bancos nacionais ou privados, a
descolonização é, simplesmente, a substituição de uma “espécie” de homens por outra
“espécie” de homens. Sem transição, há substituição total, completa, absoluta. Certamente,
também se poderia mostrar o surgimento de uma nova nação, a instalação de um Estado novo,
suas relações diplomáticas, sua orientação política e econômica. Mas decididos, precisamente,
falar dessa espécie de tábua rasa que define, no início, toda descolonização. Sua importância
inabitual é que ela constitui, desde o primeiro dia, a reivindicação mínima do colonizado [...]
A importância estraordinária dessa transformação é que ela é desejada, reclamada, exigida.
[...] Mas a eventualidade dessa mudança é também vivida sob a forma de um futuro
terrificante na consciência de uma outra “espécie” de homens e mulheres: os colonos. (p. 51-
52)

A descolonização, que se propõe a mudar a ordem do mundo é, como se vê um programa de


desordem absoluta. Mas ela não pode ser o resultado de uma operação mágica, de um abalo
natural ou de um entendimento amigável. A descolonização, como sabemos, é um processo
histórico: isto é, ela só pode ser compreendida, só tem a sua inteligibilidade, só se torna
translúcida para si mesma na exata medida em que se discerne o movimento historicizante
que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitalmente
antagonistas, que têm precisamente a sua origem nessa espécie de substantificação que a
situação colonial excreta e alimenta. O primeiro confronto dessas forças se desenrolou sob o
signo da violência, e sua coabitação – mais precisamente a exploração do colonizado pelo
colono – prosseguiu graças às baionetas e aos canhões. [...] Foi o colono que fez e continua a
fazer o colonizado. O colono tira a sua verdade, isto é, os seus bens, do sistema colonial.(p.
52)

A descolonização é verdadeiramente a criação de homens novos. Mas essa criação não recebe
a sua legitimidade de nenhuma potência sobrenatural: a “coisa” colonizada se torna homem
no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (p. 53)

Apresentada em sua nudez, a descolonização deixa adivinhar através de todos os seus poros,
balas vermelhas, punhais sangrentos. Se os últimos devem ser os primeiros, só pode ser em
consequência de um enfrentamento decisivo e mortífero dos dois protagonistas. Essa vontade
afirmada de trazer os últimos para o começo da fila [...] só pode triunfar se são jogados na
balança todos os meios, inclusive, é claro, a violência. (p. 53)

Esse mundo compartimentado, esse mundo cortado em dois é habitado por espécies
diferentes. A originalidade do contexto colonial é que as realidades econômicas, as
desigualdades, a enorme diferença dos modos de vida não conseguem nunca mascarar as
realidades humanas. Quando se percebe na sua imediatez o contexto colonial, é patente que
aquilo que fragmenta o mundo é primeiro o fato de pertencer ou não a tal espécie, a tal raça.
Nas colônias, a infraestrutura econômica é também uma superestrutura. A causa é
consequência: alguém é rico porque é branco, alguém é branco porque é rico. É por isso que
as análises marxistas devem ser sempre ligeiramente distendidas a cada vez que se aborda o
problema colonial. [...] A espécie dirigente é primeiro aquela que vem de fora, aquela que não
se parece com os autóctones, “os outros”. (p. 56-57)

A violência que presidiu ao arranjo do mundo colonial, que ritmou incansavelmente a


destruição das formas sociais indígenas, demoliu sem restrições os sistemas de referências da
economia, os modos de aparência, de indumentária, será reivindicada e assumida pelo
colonizado no momento em que, decidindo ser a história em atos, a massa colonial irromperá
nas cidades proibidas. Explodir o mundo colonial é doravante uma imagem de ação muito
clara, muito compreensível e que pode ser retomada por cada um dos indivíduos que
constituem o povo colonizado. Desmantelar o mundo colonial não significa que depois da
abolição das fronteiras, serão construídas vias de passagem entre as duas zonas. Destruir o
mundo colonial é, nem mais nem menos, abolir uma zona, enterrá-la no mais profundo do
solo ou expulsá-la do território. (p. 57)

4.2. GRANDEZA E FRAQUEZAS DA ESPONTANEIDADE

Neste segundo capítulo Fanon se propõe a verificar as formas pelas quais os discursos
coloniais ainda se encontram presentes na organização política das ex-colônias europeias
mesmo aqueles onde o processo de descolonização já foi realizado. Para isso o autor observa
as divisões existentes entre os indivíduos da “cidade” e os do “campo” e como o processo
político invisibiliza este último. Ao analisar os sindicatos no contexto urbano e a lideranças
que os compõem, bem como o projeto nacionalista ali desenvolvido, o autor percebe um sutil
alinhamento a propostas eurocêntricas, ao ‘marginalizar’ o camponês da política nacional. Há
nesse caso uma falta de espontaneidade nesses países colonizados em libertar-se dessas
concepções europeias propor outras formas de gerir seu ‘próprio mundo’ a partir deles
mesmos.

Os partidos nacionalistas não compreendem êsse fenômeno nôvo que lhes precipita a
desagregação. O súbito aparecimento da insurreição nas cidades modifica a fisionomia da
luta. As tropas colonialistas, que se tinham dirigido em massa para os campos, voltam
precipitadamente para as cidades a fim de garantir a segurança das pessoas e dos bens. A
repressão dispersa as próprias fôrças, o perigo está presente por tôda a parte. É o solo
nacional, é a totalidade da colônia que entram em transe. Os grupos camponeses armados
assistem ao afrouxamento da opressão militar. A insurreição nas cidades é um balão de
oxigênio inesperado.

Os dirigentes da insurreição que vêem o povo entusiasta e ardente desferir golpes resolutos na
máquina colonialista reforçam sua desconfiança com respeito à política tradicional. Cada
vitória obtida legitima-lhes a hostilidade ao que daí por diante passam a chamar de gargarejo,
verbalismo, agitação estéril. Passam a odiar a "política", a demagogia. Por isso é que no início
assistimos a um verdadeiro triunfo do culto da espontaneidade.

As múltiplas revoltas nascidas nos campos atestam, por tôdas as partes em que surgem, a
presença ubiqüitária e geralmente densa da nação. Cada colonizado em armas é um pedaço da
nação doravante viva. Tais revoltas põem em perigo o regime colonial, mobilizam-lhe as
fôrças ao mesmo tempo que as dispersam, ameaçando a todo instante asfixiá-las. Obedecem a
uma doutrina simples: façamos com que a nação exista. Não há programa, não há discurso,
não há resoluções, não há tendências. O problema está enunciado com clareza: é necessário
que os estrangeiros partam. Constituamos uma frente comum contra o opressor e reforcemos
essa frente com a luta armada. (p. 107-108. Edição de 1968).

4.3. GUERRA COLONIAL E DISTÚRBIOS MENTAIS

O imperialismo que hoje se bate contra uma autêntica libertação dos homens abandona por
tôda a parte germes de podridão que temos implacavelmente de descobrir e extirpar de nossas
terras e de nosso cérebro.

Abordamos aqui o problema das perturbações mentais nascidas da guerra de libertação


nacional empreendida pelo povo argelino.

Poderão parecer inoportunas - e singularmente deslocadas em tal livro estas notas de


psiquiatria. Nada podemos fazer a êsse respeito.

Não dependeu de nós que nesta guerra os fenômenos psiquiátricos. as perturbações do


comportamento e do pensamento tenham avultado nos atôres da "pacificação" ou no seio da
população "pacificada". A verdade é que a colonização, em sua essência, se apresentava já
como uma grande fornecedora dos hospitais psiquiátricos. Em diversos trabalhos científicos
temos, desde 1954, chamado a atenção dos psiquiatras franceses e internacionais para a
dificuldade que havia de "curar" corretamente um colonizado, isto é, de o tornar homogêneo
de parte a parte com um meio social de tipo colonial.

Por ser uma negação sistematizada do outro, uma decisão furiosa de recusar ao outro qualquer
atributo de humanidade, o colonialismo compele o povo dominado a se interrogar
constantemente: "Quem sou eu na realidade?” (p. 211-212)

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