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Conservação da água

e do solo, e gestão Devanir Garcia dos Santos1


Paulo Afonso Romano2

integrada dos recursos


hídricos
Introdução vamente, o quadro atual de degradação, desde
que observados esses novos paradigmas voltados
A conservação da água e do solo é de
à maior participação da comunidade, à inserção
fundamental importância para a gestão dos
da dimensão ambiental em todas as atividades e
recursos hídricos. As ações conservacionistas de
à adequada regulamentação da legislação no
água e solo compreendem um conjunto de
tocante a incentivos à execução de ações
medidas que possibilitam a gestão da oferta, ao
conservacionistas; sendo essa última uma forma
aumentar a quantidade de água disponível nas
da sociedade reconhecer e pagar pela parcela
bacias, por meio da adequada recarga dos aqüí-
de benefícios da qual se apropria quando da
feros, e a melhoria de sua qualidade, ao reduzir
recuperação hidroambiental das bacias.
os processos erosivos e o volume de efluentes
lançados nos corpos de água. Outro efeito é que
a visão de conservação promove a gestão da
demanda, utilizando técnicas e procedimentos
Práticas insustentáveis
voltados à racionalização dos usos nos diversos É sempre oportuno salientar que, na natu-
setores usuários e ao estimular o reuso. reza, “é melhor prevenir que remediar”. Às vezes,
os custos de recuperação são insuportáveis para
Entretanto, a universalização do uso das
a sociedade, e o que é pior, raramente consegue-
práticas conservacionistas, notadamente no meio
se o retorno natural anterior à degradação.
rural, é ainda uma realidade bem distante, em que
pese os avanços alcançados nas 2 últimas O processo de desenvolvimento das bacias
décadas. hidrográficas brasileiras revela que os mais fortes
e mais amplos impactos ambientais são muito re-
A partir da reflexão sobre esse tema e sobre
centes, tendo como causas de maior repercussão:
a análise da legislação vigente, busca-se consoli-
dar alguns conceitos – muitas vezes imperceptí- a) a intensa, rápida e desordenada urbani-
veis para o cidadão urbano – e propõe-se, também, zação e início da industrialização a partir
a adoção de novos paradigmas capazes de da década de 1950;
dinamizar a implementação das ações conserva-
b) o desmatamento como fonte de energia
cionistas.
para a construção, e, principalmente,
Prevê-se que, mudanças em médio e em para a produção de carvão (insumo básico
longo prazo, são capazes de alterar, significati- da siderurgia);
1
Engenheiro agrônomo, M.Sc. em Gestão Econômica do Meio Ambiente. Atualmente, é gerente de Conservação de Água e Solo da Agência Nacional de Águas
(ANA).
2
Engenheiro agrônomo e consultor.

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c) o intensivo uso do solo para a agricul- sociedade para esse novo processo que signi-
tura (grãos) iniciado há apenas 25 anos, fica um pacto para mudança com objetivos e
com eliminação da maior parte da aspirações compartilhadas.
cobertura vegetal (Cerrado); Uma forma já aceita e aprovada, mas não
d) a conseqüente construção de uma rede concretizada, deve ser o apoio à construção
ampla de estradas vicinais precárias (fonte de Agenda 21 local (municipal), com forte
de erosão), seja para carvoejamento, para participação da sociedade, a partir da discussão
a agropecuária, ou entre comunidades; dos já conhecidos problemas da bacia e dos
princípios estabelecidos para os programas e
e) a existência de pecuária com superpas- para a ação do governo. Esse seria o início da
toreio e conseqüente degradação das constituição de um pacto social e político para
pastagens (compactação do solo); assegurar a recuperação e a conservação das
f) a construção de represas para geração bacias hidrográficas. Assim, as ações seriam
de hidroeletricidade, com forte alteração definidas, caracterizadas e hierarquizadas, bem
do regime hídrico do rio e suas conse- como os responsáveis por elas.
qüências. Tendo como certo que as principais fontes
Tudo isso ocorreu sob paradigmas antigos, de degradação hidroambiental das bacias são
mas os processos nos quais se assentam as a poluição (qualidade de água) e a erosão
atividades urbanas, industriais, minerais, rurais, (quantidade) e que a população local tem uma
etc., geralmente ainda são insustentáveis. cultura acomodatícia sobre esses problemas, é
Portanto, o grande desafio é o da inserção da mister estimular e orientar a discussão, inclusive
dimensão ambiental em todos os processos que, para identificar que são as atividades locais que
em síntese, existem e existiram por demanda os geram, requerendo, portanto, iniciativas
da sociedade e que em sentido amplo atendem também locais para a solução de tais problemas.
a objetivos socioeconômicos. Exemplo emblemático é o caso da erosão
e da poluição difusa causadas pelo manejo
Em outras palavras, trata-se de construir
inadequado do solo, na agricultura. Todo o esforço
parâmetros de sustentabilidade com participação
de preservação ou de recuperação será em vão,
dos segmentos produtivos e das comunidades
se ao processo de produção já instalado (que
considerando, articuladamente, os aspectos
tende a se ampliar e a se intensificar) não forem
sociais, econômicos, ambientais e, em alguns
incorporadas tecnologias, processos ou práticas
casos, culturais.
de conservação de solo e de água que tenham
Nessa perspectiva, os parâmetros da aplicação ampla no processo produtivo, de
sustentabilidade devem ser considerados e se pequenos, médios e de grandes produtores em todo
tornarem o fio condutor do processo de conser- o território da bacia.
vação de água e solo das bacias hidrográficas
Exemplo típico seria a substituição do
brasileiras. Como instrumento, os programas
plantio convencional que utiliza práticas mecâ-
devem servir como balizadores, articuladores
nicas, as quais causam danos ao solo (aração e
e promotores da organização de agendas de
gradagem para o revolvimento), pelo método
sustentabilidade que poderiam ser iniciadas e
do plantio direto que utiliza e valoriza princípios
construídas por segmento produtivo e por
físicos, orgânicos e biológicos (cobertura com
ecossistema, mas sempre valorizando a ação
matéria seca) que protege o solo, acolhendo e
descentralizada.
conservando a água das chuvas, amenizando
Assim, as subbacias constituiriam a base e regularizando a temperatura, e evitando a
geográfica natural e os municípios seriam os erosão. É possível fazer significativas mudan-
pontos focais do sistema federativo. Somente ças, sem a necessidade de grandes investi-
assim será possível e eficaz a mobilização da mentos por parte do governo, apenas com

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mobilização, apoio à organização, treinamento, As propostas de ações, programas e proje-
adequação de linhas de crédito, estímulo aos tos desenvolvidos com o objetivo de conservação
agricultores, etc. da água e do solo devem procurar internalizar,
Temos de considerar que no passado adequadamente, esses dois conceitos, por
recente, diversos programas de conservação de representarem os novos paradigmas capazes de
água e de solo foram idealizados e implemen- tornarem a atividade, além de ambientalmente
tados no Brasil, mas poucos conseguiram sustentável, economicamente atrativa e finan-
modificar, significativamente, a trajetória de ceiramente exeqüível.
degradação ambiental, gerando benefícios
além das áreas de abrangência dos chamados
projetos-piloto, o que somente seria conseguido Compreendendo
se tais experiências fossem auto-sustentáveis, a sustentabilidade3
condição essa que possibilitaria a expansão e
a perpetuação dessas iniciativas. A conservação dos recursos hídricos, tema
que preocupa o homem há muito tempo, assume,
Tal fato decorre da falta de percepção sobre atualmente, caráter prioritário e vital, dada a
a natureza dos ganhos que podem ser alcançados
escassez de água observada em várias regiões
com a adequada conservação da água e do solo.
do mundo, e as projeções, nada animadoras, de
Atualmente, preocupa-se muito com o custo dos
crescentes conflitos pelo uso da água.
investimentos, com os responsáveis por sua
execução e com o retorno no curto prazo, Na natureza, a permanência dos recursos
esquecendo-se de se avaliar aspectos da maior hídricos, em termos de regime de vazão dos
importância, os quais poderão alterar, significativa- córregos, ribeirões e rios, assim como da qualidade
mente, a equação, tornando mais fácil a execução da água que emana das microbacias hidrográ-
do ponto de vista do financiamento das ações e ficas, decorre de mecanismos naturais de controle
fazendo com que os programas tornem-se desenvolvidos ao longo de processos evolutivos
economicamente sustentáveis. Dentre tais da paisagem, que constituem os chamados
aspectos, destacam-se: serviços proporcionados pelo ecossistema.
a) do ponto de vista do agricultor, Um desses mecanismos é a estreita rela-
propriedade sustentável é propriedade valoriza- ção que existe entre a cobertura florestal e a
da, pois todos estão dispostos a pagar um pouco água, principalmente nas regiões de cabe-
mais por uma propriedade que tenha disponibili- ceiras, onde estão as nascentes e os nasce-
dade de água, uma reserva legal, que não douros dos rios.
esteja danificada pela erosão e que possua boas
estradas, entre outros fatores; Essa condição natural de equilíbrio vem
sendo constantemente alterada pelo homem, por
b) do ponto de vista da sociedade, é meio do desmatamento, da expansão da
necessário compreender que os benefícios agricultura, da abertura de estradas, da urbani-
advindos da conservação de água e do solo zação e de vários outros processos de transfor-
extrapolam os limites da propriedade rural e mação antrópica da paisagem, que alteram os
geram benefícios sociais, na medida que ciclos biogeoquímicos e o ciclo da água.
possibilitam a melhoria da infiltração e ade-
quada alimentação do lençol freático e Levando-se em conta a população atual
conseqüentemente aumento e regularização da e as projeções de seu crescimento, não há
oferta da água. Assim, a sociedade deve estar dúvida de que os impactos ambientais causados
disposta a pagar por esses benefícios na forma por essas transformações proporcionalmente
de incentivos à execução dessas ações. maiores começam a ameaçar a sustentabili-

3
Baseado em textos de autoria do engenheiro agrônomo Maurício Roberto Fernandes, técnico da Emater/ MG.

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dade dos recursos hídricos. Já é do conhecimento Na realidade, essa separação é mera-
de todos, exemplos locais e regionais que já mente didática, uma vez que os três fatores são
comprometem a sustentabilidade de alguns interdependentes.
ecossistemas.
Levando-se em conta esses três fatores-
Pode-se afirmar que, dentre os grandes chave, o monitoramento da saúde da subbacia
desafios que a humanidade enfrenta atualmente, hidrográfica pode fornecer indicações sistê-
a recuperação, a conservação e o manejo micas a respeito de mudanças desejáveis ou
sustentável dos recursos hídricos são, sem indesejáveis que estejam ocorrendo com os
dúvida, os mais críticos e urgentes. recursos hídricos como conseqüência de
Devido à complexidade natural dos práticas de manejo. Partindo-se desse ponto de
sistemas ecológicos, e ao próprio conceito de vista, pode-se definir “manejo de microbacias
sustentabilidade – que é multidimensional por hidrográficas” como a estratégia de uso da terra
natureza –, envolvendo aspectos econômicos, que leva em conta a manutenção da saúde da
sociais, ambientais e culturais, o manejo subbacia ao longo do tempo.
sustentável deve ser entendido como uma eterna As práticas de manejo dos recursos
busca de passar das condições existentes, de
naturais que estejam em sintonia com essa
contínua degradação, para condições ambiental-
estratégia holística ou sistêmica são práticas que
mente mais desejáveis e que possam ser medidas
concorrem para a sustentabilidade dos recursos
por indicadores que envolvam noções de
hídricos.
integridade e de saúde da subbacia.
A integridade de uma subbacia reflete as Por sua vez, identificam-se várias ações
condições decorrentes dos processos de incompatíveis com essa sustentabilidade, ações
evolução natural do ecossistema, ou seja, é o estas que podem ocorrer em diferentes escalas.
resultado da integração natural da subbacia na Na escala micro, ou seja, na escala da
paisagem ao longo do processo evolutivo. unidade de manejo da propriedade rural, a
Fornece, assim, a base ou a referência para a compactação do solo, a destruição da matéria
comparação das mudanças ocorridas em função orgânica edos microorganismos do solo
das mudanças causadas pela atividade humana. prejudicam a manutenção dos recursos
Por sua vez, a saúde da subbacia deve hídricos, uma vez que degradam o mais
ser entendida como uma condição viável, um importante fator hidrológico dessa manutenção,
estado sustentável, de equilíbrio dinâmico, que o processo de infiltração de água no solo.
seja compatível com a necessidade de uso dos Na escala meso – a própria escala da sub-
recursos naturais para a produção de bens bacia hidrográfica –, identificam-se outros
demandados pela sociedade. Uma boa
indicadores de sustentabilidade dos recursos
condição dessa saúde pode ser avaliada por sua
hídricos, tais como o traçado das estradas e as
capacidade de sustentar, concomitantemente
condições da zona ripária. Um traçado de
com o uso dos recursos naturais pelo homem,
estradas que não leva em conta os valores da
os seguintes atributos ou indicadores:
sub-bacia sempre constitui um foco permanente
• perpetuação de seu funcionamento de erosão, voçorocas e assoreamento dos
hidrológico (regime de vazão, quantidade cursos d’água, que degradam o potencial
e qualidade da água); produtivo do solo, além de reduzir a quantidade
• potencial produtivo do solo ao longo do de água e afetar a qualidade.
tempo (biogeoquímica); Por sua vez, as zonas ripáriasque incluem
• biodiversidade (mata ciliar, zonas as áreas permanentemente saturadas das
ripárias e reservas de vegetação natural, cabeceiras e das margens dos cursos d’água,
etc. ocupam as partes mais dinâmicas da paisagem,

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tanto em termos hidrológicos, como ecológicos Numa escala macro ou regional, um
e geomorfológicos. indicador de sustentabilidade dos recursos
hídricos, em função do manejo ou do uso dos
Essas zonas ripárias estão intimamente
recursos naturais, seria, por exemplo, a própria
ligadas aos cursos d’água e participam de
disponibilidade natural de água, a qual pode
processos vitais para a manutenção da saúde
ser quantificada pelo balanço hídrico. Assim,
da sub-bacia e dos recursos hídricos, que dizem
uma ação é, por exemplo, a necessidade do
respeito à geração do escoamento direto nas
zoneamento agroecológico, com a finalidade
microbacias em decorrência das chuvas.
de disciplinar a ocupação dos espaços produ-
Para que essas áreas críticas possam tivos da paisagem de acordo com suas poten-
exercer essa função hidrológica de maneira cialidades naturais, que deve incluir a análise
eficaz, é fundamental que elas estejam das disponibilidades hídricas para os vários
protegidas com a vegetação que normalmente usos.
se desenvolve nessas áreas, chamada de
Destaca-se, assim, a necessidade imperati-
ambiente ripário, vegetação ripária, florestas
va da busca da agricultura sustentável e do manejo
beiradeiras, mata ciliar, mata de galeria, etc.
florestal sustentável, ou seja, a busca do desenvol-
A mata ciliar, que isola, o curso d’água dos vimento rural sustentável, que inclui, além de
terrenos mais elevados da subbacia – onde são outros critérios, a manutenção dos recursos
realizadas as práticas de manejo –, desempenha hídricos e deve estar comprometida com a
ação eficaz de filtragem superficial dos sedimentos manutenção da saúde da subbacia hidrográfica.
e reduz a chegada de herbicidas e defensivos
químicos aos cursos d’água. Similarmente, tem
também capacidade de filtrar superficial e Agricultura sustentável
subsuperficialmente nutrientes que, de outra forma,
Do ponto de vista ambiental, a substitui-
poderiam chegar a esses cursos d’água, alterando
ção dos sistemas de rotação com alta diversi-
a qualidade da água.
dade cultural por sistemas simplificados, basea-
Do ponto de vista quantitativo, em médio dos no uso intensivo de insumos industriais
e em longo prazo, pela conseqüente químicos e em processos motomecanizados,
degradação da zona ripária, a destruição da afetou, drasticamente, o equilíbrio ambiental na
mata ciliar pode diminuir a capacidade de produção agrícola. A destruição das florestas e
armazenamento de água da subbacia, o que da biodiversidade genética, a erosão dos solos
concorre para a alteração do regime de vazão e a contaminação dos recursos naturais e dos
dos rios. Aliada a essa função hidrológica – já alimentos tornaram-se quase que inerentes à
em si vitalmente importante para a manutenção
produção agrícola.
dos recursos hídricos –, a mata ciliar pode,
também, contribuir para a melhoria do nível de A crescente preocupação com o ambiente
diversidade biológica ao longo da paisagem, e com a qualidade de vida no planeta levou ao
atuando como corredores de fluxo gênico e surgimento de um novo “paradigma” das
para o movimento da fauna. sociedades modernas: a “sustentabilidade
agropecuária”.
É importante salientar que o elevado
impacto erosivo da água de chuvas a partir de Esse novo paradigma procura transmitir
topos de morros “pelados” e encostas sem a idéia de que o desenvolvimento e o
vegetação, com pastagens degradadas ou crescimento da agricultura devem atender às
submetidas a plantio por métodos convencionais, necessidades desta e das próximas gerações,
torna a mata ciliar (já escassa em nossa realidade) ou seja, deve ser algo benigno para o ambiente
incapaz de cumprir seu papel. e para a sociedade, durante longos períodos.

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Dentro desse enfoque, surgiram várias Assumindo que para se ter uma agricultura
definições, procurando explicar o que se entende sustentável, é necessário um manejo
por agricultura sustentável, quase todas sustentável, a Organização das Nações Unidas
expressando insatisfação com o padrão dito para a Agricultura e Alimentação (FAO),
“moderno” da agricultura e defendendo a constituiu um grupo internacional de trabalho
necessidade de um novo padrão, que garanta a para estabelecer a base do entendimento e do
segurança alimentar e que não agrida o meio conceito de manejo sustentável. Para esse grupo
ambiente. (NOVAIS; SMYTH.1999) manejo sustentável
Foram, então, formulados conceitos que combina tecnologias, políticas e atividades,
permitem abrigar interesses, que abrangem integrando princípios socioeconômicos com
desde setores mais conservadores, que se preocupações ambientais, de modo que se
contentariam com simples ajustes nos atuais possa, simultaneamente, promover os cinco
padrões produtivos, até tendências radicais que objetivos típicos do desenvolvimento, a saber:
defendem mudanças em todo o sistema • manter ou melhorar a produção e os
agroalimentar. serviços (produtividade);
Apesar de contradições em relação ao • reduzir o nível de risco da produção
teor de mudanças, há um consenso para que (segurança);
agricultura sustentável tenha um objetivo a ser
atingido, e que este signifique “renda para o • proteger o potencial dos recursos naturais
agricultor e conservação ambiental”. e prevenir a degradação da qualidade do
solo e a água (proteção);
Assim, a definição de agricultura
sustentável, proposta pelo National Research • ser economicamente viável/viabilidade; e
Council dos Estados Unidos, em 1991 • ser socialmente aceitável (aceitabili-
(MACHADO et al., 2005. p. 5), é uma das mais dade).”
aceitas internacionalmente:
Esses cinco objetivos, ou seja, produtivi-
Agricultura sustentável não constitui dade, segurança, proteção, viabilidade e
algum conjunto de práticas especiais, mas um
aceitabilidade – acima mencionados –, são os
objetivo, que é o de alcançar um sistema
pilares (fundação), sobre os quais o paradigma do
produtivo de alimento e fibras que possibilite:
manejo sustentável é construído. Para se atingir a
(a) aumentar a produtividade dos recursos sustentabilidade completa, é necessário alcançar
naturais e dos sistemas agrícolas, esses cinco objetivos.
permitindo que os produtores respondam
aos níveis de demanda engendrados pelo
crescimento populacional e pelo Contextualização da
desenvolvimento econômico;
problemática do uso da água
(b) produzir alimentos sadios e nutritivos
Embora seja difícil segmentar a avaliação
que permitam o bem-estar humano;
do contexto, para orientação da análise,
(c) garantir renda líquida suficiente para propõe-se discussão e reflexão e, para melhor
que os agricultores tenham um nível de entendimento, as seguintes abordagens:
vida aceitável e possam investir no
De ordem cultural – Com base numa real
aumento da produtividade do solo, da
e aparente abundância na oferta de água e solo,
água e de outros recursos; e
foram geradas posturas acomodatícias e
(d) corresponder às normas e expectativas perdulárias no País inteiro, exceto em parte do
da comunidade”. Nordeste brasileiro. Não deve ser por outra

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razão que, até recentemente, os livros escolares De ordem ambiental – Na relação da
repetiram, por gerações, o ensinamento de que a água com o solo e a planta, a observação dos
“água é um recurso natural renovável”. processos naturais revela a mais íntima e direta
Amadurecida a reflexão, com a promulgação da interação. Por exemplo, solo poluído, águas
Lei no 9433, de 8 de janeiro de 1997, começou a poluídas. E vice-versa. Há uma verdadeira
ser difundido o conceito de que “água é um cumplicidade nos resultados (positivos ou
negativos): sem água as plantas e toda a
recurso finito e vulnerável” (BRASIL,1997).
microfauna da terra não vicejam.
Como todo processo de mudança cultural,
No ciclo hidrológico, um dos momentos
esse marco de identificação das duas fases não mais sublimes é aquele em que, após as chuvas
gera nenhuma transformação, por si, apenas a terra recolhe a água, e em seu aconchego,
promove o primeiro passo em sua direção, seja filtra-lhe e reservá-a para, através da recarga
pela nova base regulatória, seja pela rica do lençol freático, alimentar todos os corpos
discussão sobre tema Água pela Sociedade. d’água novamente no período de estiagem.
Essa é uma mudança de paradigmas.
De ordem econômica, social e política –
Em abordagem de cunho cultural e São inumeráveis as perdas pela falta de
sociológico, a sociedade brasileira saiu da carac- conservação da água e do solo. A maioria delas
terística tipicamente rural para a urbana, inver- deriva da falta de percepção, ignorância mesmo,
tendo a posição de 20% da população na área dos processos que ocorrem no cotidiano, fazendo
urbana para os atuais 80%, e vice-versa. Em escala com que problemas ambientais se confundam com
mundial, não se tem notícia de tão rápida transição mazelas sociais, gerando um círculo vicioso entre
em pouco mais de duas gerações. pobreza e degradação ambiental, com uma forte
relação causal.
Por isso, atualmente, as pessoas, as empre-
Nesse círculo vicioso, há também a
sas e os órgãos fornecedores de água, e a mídia,
pobreza política (dos governantes e cidadãos)
em geral, discutem questões relacionadas à em que ocorre falta de prioridade para a
conservação de água no espaço físico e de conservação da qualidade da água nas zonas
consumo que vai da captação ou estação de urbanas pelo não-tratamento do esgoto,
tratamento até as torneiras dos consumidores. prevalecendo ainda a máxima dos adminis-
Isso revela a cultura arraigada à utilidade e tradores locais de épocas passadas: “obra
conveniências imediatas, passando ao largo da enterrada não dá voto” (e assim era aceito pela
perspectiva transcendental de que a conserva- população). Como conseqüência, as perdas
ção da quantidade e da qualidade da água em econômicas e de vida continuam sendo
seu sentido amplo atende ao mais nobre elevadas. Até hoje, cerca de 60% das interna-
objetivo de manutenção, reprodução e evolução ções pediátricas ocorrem por doenças
da vida em suas variadas manifestações e veiculadas pela água. Parcela importante da
dimensões. zona rural próxima às cidades é servida por
água contaminada.
Imediatismo e imprevidência são faces de
No espaço rural, não tem sido tradicio-
nossa cultura. Além disso, a sociedade brasileira
nalmente diferente. A riqueza brasileira
pouco valoriza os processos coletivos, inte-
construída inicialmente pelo uso dos bons solos
grados e transversais, que sempre são reque- – cujo acesso exigiu a retirada da mata –
ridos na complexa questão ambiental. Geral- gerando, com o uso continuado, um empo-
mente, as pessoas ainda pensam nas questões brecimento que em apenas 50 anos transformou
ambientais como responsabilidades mais do parte da exuberante Mata Atlântica em áreas
governo do que pública. com sinais de desertificação.

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Nesse processo de degradação ambiental, alimentar os fluxos contínuos que vão abastecer
sobressai a impossibilidade de infiltração da água o lençol freático subterrâneo e gerar as
no solo pela predominância de pastagens nascentes, que formarão os cursos d’água.
degradadas (principalmente compactadas). Mais
Quebrado o ciclo nesse processo estraté-
uma vez, a ruptura do ciclo hidrológico revela-se
causa de destruição. É sabido que a quantidade gico, o resultado conhecido é a redução da oferta
de chuvas não se alterou em longo período. Então, e da boa distribuição de água, no tempo e no
por que nascentes e córregos secaram? espaço, incluindo a eliminação de corpos d’água
(especialmente os superficiais) que antes exer-
De ordem institucional/legal – A Constitui- ciam funções vitais nas comunidades. Infeliz-
ção Brasileira estabelece que a água, além de mente, isso é comum, pois a maior parte da área
ser um bem comum, é um bem público de domínio ocupada com a agropecuária está assentada em
dos estados ou da União; seus principais usuários pastagens degradadas, precária rede de estradas
geralmente são agentes privados (agricultores, vicinais, além de formas tradicionais de cultivo.
indústrias, usinas hidrelétricas, empresas de água
e saneamento). É importante notar que, por motivo de
facilidade de acesso e economia, a sociedade
No espectro institucional e legal, pode-se
brasileira desenvolveu forte cultura voltada à
ainda ressaltar o que a Lei das Águas (Lei no 9.433,
sua relação com as águas superficiais, que, por
de 8 de janeiro de 1997) (BRASIL, 1997), dentre
sua condição de ser exposta, tornam-se
outros fundamentos dispõe que “a gestão dos
recursos hídricos deve proporcionar sempre seus extremamente vulneráveis e incapazes de
usos múltiplos, ser descentralizada e contar com suportar os impactos antrópicos como
a participação do Poder Público, dos usuários e lançamento de lixo, esgoto, sedimentos, etc.
das comunidades”. É decorrência da cultura urbana, que
As diretrizes gerais de ação estabelecem, órgãos e gestores de recursos hídricos não
expressando a clareza das leis naturais, que na valorizem o processo de gestão que ocorre no
implementação da Política Nacional de Recursos espaço rural. Mais fácil ainda é entender por
Hídricos, os planejamentos dos recursos hídricos que a força política não chega a mobilizar seu
e dos setores de usuários, e o planejamento poder para esse espaço que abriga, de maneira
regional, estadual e nacional devem estar articu- difusa, apenas 20% da população.
lados. Além disso, é destacada a diretriz sobre a No Brasil, as atividades rurais ocupam um
necessária “articulação da gestão de recursos amplo território. Portanto, é necessário reverter
hídricos com a do uso do solo” (BRASIL, 1997). o processo de contínuas perdas para a natureza
Montesquieu, em O Espírito das Leis, de e a sociedade, em função da negligência
1748 (MONTESQUIEU,1982), sinaliza para a quanto à conservação de solo e água. Mas, para
integração do processo de abastecimento e isso, é preciso compreender que o uso dos
saneamento em toda sua abrangência e comple- recursos hídricos nos centros urbanos são, em
xidade. Isso implica considerar um dos passos última análise, possibilitados pela adequada
mais importantes do ciclo da água, que é, após as gestão de recursos hídricos no espaço rural.
chuvas, sua infiltração e mistura ao solo, e a
formação do complexo solo-água-planta. É nesse
momento de profunda interação que a água Os problemas de poluição,
exerce uma de suas mais nobres funções, a de
possibilitar a produção econômica e a manu- de qualidade e a legislação
tenção da biodiversidade. de recursos hídricos
Também, nesse processo, ao se infiltrar e A concentração da população em
se percolar no solo, a água estará sendo determinadas regiões, cidades e áreas metro-
armazenada e liberada, lentamente, para politanas é um dos principais aspectos a ser

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considerado na gestão integrada de recursos de recursos hídricos.
hídricos, uma vez que implica demanda As iniciativas do governo para o ordena-
crescente de água, tanto para abastecimento mento da gestão de recursos hídricos, decorrente
público, quanto para dissolução das cargas da criação, em 1995, da Secretaria de Recursos
poluidoras urbanas. Hídricos (SRH) no âmbito do Ministério do Meio
A situação da poluição hídrica tem-se Ambiente e da Agência Nacional de Águas (ANA),
agravado no País, considerando-se o aumento em 2000 (BRASIL, 1998), representam os grandes
das cargas poluidoras urbanas e industriais, marcos para o início da reversão desse processo.
manejo inadequado do solo, erosão, desma- Esses novos marcos institucionais chegam num
tamento, uso inadequado de insumos agrícolas momento crítico.
e mineração. Os problemas vêm-se acumulando e
requerem atenção especial para se alcançar o
Esses fatores, associados à
desenvolvimento econômico e social de uma
distribuição anual de chuvas e às características
maneira sustentável e proporcionar a gestão dos
climáticas, levam a danos ambientais, entre os recursos hídricos observando: (i) conservação,
quais se destacam o aumento do transporte de (ii) preservação, (iii) uso eficiente, (iv) eqüidade
sedimento e a contaminação orgânica e química econômica e social na alocação dos recursos
das águas. hídricos entre usuários, (v) melhoria na operação
Os impactos decorrentes da poluição de dos reservatórios de águas superficiais, e (vi)
águas fluviais provocados pelos pólos agroindus- melhoria na monitoria da quantidade e da
triais no Sul do Brasil (principalmente suinocultura qualidade e na prospecção de águas
e avicultura) e os relacionados à agroindústria subterrâneas (BRASIL, 2004).
sucro-alcoleira no Nordeste, exemplificam É essencial a implementação de ações
alterações significativas dos recursos hídricos no direcionadas a resolver, ou pelo menos mitigar
Brasil. essas questões, para poder-se promover o
desenvolvimento sustentável do uso desses
Destaca-se, ainda, o alto grau de compro-
recursos.
metimento ambiental dos recursos hídricos da
Região Carbonífera também no Sul do País e da Os objetivos do gerenciamento dos
Região de Garimpo e de Mineração no Norte do recursos hídricos no Brasil devem ser consis-
País, onde não se utiliza tecnologia ambien- tentes com as políticas econômicas e institucio-
talmente adequada para exploração e processa- nais do País e com a estratégia setorial dos
mento desses recursos minerais. recursos hídricos. Os principais objetivos são:
promover condições para o uso sustentável e
Outras atividades causadoras de poluição alocação intersetorial dos recursos hídricos
das águas são as termelétricas e os complexos progressivamente escassos, oferecer processos,
siderúrgicos que ainda operam com processos informações confiáveis e ferramentas eficazes
industriais antigos e não contam com a para tomada de decisão dentro de um marco
instalação de equipamentos adequados de legal (regulamentar – institucional) justo e
controle da poluição ambiental. moderno que considere a participação de todos
os agentes envolvidos na tomada de decisão.
Os conflitos de interesses com relação ao
uso da água representados pelo setor hidroelé- O Código das Águas, estabelecido pelo
trico, pelos complexos industriais, pelas neces- Decreto Federal nº 24.643, de 10 de julho de
sidades de abastecimento urbano, irrigação e 1934 (DNAEE, 1980), consubstancia a legisla-
adensamento urbano-industrial, evidenciam a ção básica brasileira de águas. Foi a primeira
necessidade de articulação interinstitucional norma legal que possibilitou ao Poder Público
para a adoção de política de gestão integrada disciplinar o aproveitamento industrial das águas

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e, de modo especial, o aproveitamento e a A Lei das Águas baseia-se nos seguintes
exploração da energia hidráulica. fundamentos:
O referido Código assegura uso gratuito • a água é um bem de domínio público;
de qualquer corrente ou nascente de água para
• a água é um recurso natural limitado, e
as primeiras necessidades da vida e permite a
dotado de valor econômico;
todos usar águas públicas, conformando-se com
os regulamentos administrativos. Impede a • em situações de escassez, o uso prio-
derivação das águas públicas para aplicação ritário dos recursos hídricos é o consumo
na agricultura, indústria e higiene, sem a humano e a dessedentação de animais;
existência de concessão no caso de utilidade
• a gestão dos recursos hídricos deve
pública e de autorização nos outros casos. Em
sempre proporcionar o uso múltiplo das
qualquer hipótese, dá preferência à derivação
águas;
para abastecimento das populações.
• a bacia hidrográfica é a unidade
Estabelece, também, que a ninguém é
territorial para implementação da Política
lícito conspurcar ou contaminar as águas que
Nacional de Recursos Hídricos e atuação
não consome, com prejuízos a terceiros.
do Sistema Nacional de Recursos Hídri-
Ressalta que os trabalhos para salubri- cos;
dade das águas serão realizados à custa dos
infratores que, além da responsabilidade • a gestão dos recursos hídricos deve ser
criminal, se houver, responderão pelas perdas descentralizada e contar com a partici-
e danos que causarem. pação do Poder Público, dos usuários e
das comunidades.
Aborda ainda, de forma clara e objetiva, a
questão das águas subterrâneas, com orientação Ao instituir a Política Nacional de Recur-
quanto à localização e às condições em que é sos Hídricos (BRASIL, 1997), a Lei definiu,
permitido suspender seu aproveitamento. claramente, seus objetivos, as diretrizes gerais
de ação e os instrumentos necessários à sua
A Constituição da República Federativa execução.
do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988,
trata de águas apenas no que diz respeito à Seus objetivos são: (i) assegurar à atual e
competência para legislar sobre elas e no que às futuras gerações a necessária disponibilidade
tange a seu domínio. Nada dispõe sobre a de água; (ii) utilização racional e integrada dos
disciplina de seu uso. recursos hídricos; e (iii) prevenção e defesa
contra eventos hidrológicos críticos.
A Lei 9.433/97, chamada de Lei das Águas
(BRASIL, 1997), é um dos dispositivos mais São suas diretrizes gerais de ação: (i)
democráticos aprovados pelo Congresso gestão sistemática dos recursos hídricos, sem
Nacional, em todos os tempos. Ela, apesar de dissociação dos aspectos de quantidade e de
manter as responsabilidades dos níveis federais qualidade; (ii) adequação da gestão de recursos
e estaduais no tocante a proporcionar meios que hídricos às diversidades físicas, bióticas,
possibilitem a adequada gestão dos recursos demográficas, econômicas, sociais e culturais
hídricos, transfere para a comunidade, repre- nas diversas regiões do País; (iii) integração da
sentada pelo seu Comitê de Bacia, a gestão de recursos hídricos com a gestão
responsabilidade pela tomada de decisão sobre ambiental; (iv) articulação do planejamento de
o que fazer e que meios serão empregados para recursos hídricos com os dos setores usuários e
a consecução dos objetivos. Ou seja, a decisão com os planejamentos regional, setorial e
passa a ser tomada no nível local, onde se nacional; (v) articulação da gestão de recursos
detém o maior conhecimento dos problemas.

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hídricos com a do uso do solo; e (vi) integração por prazo determinado, nos termos e nas
da gestão das bacias hidrográficas com a dos condições expressas no respectivo ato. Por seu
sistemas estuarinos e zonas costeiras. caráter disciplinatório, ela é o elemento central
de controle para o uso racional dos recursos
A Lei 9.433/97 definiu como instrumentos
hídricos.
de gestão:
A outorga tem por objetivos assegurar ao
Os Planos de Recursos Hídricos, como
usuário o efetivo exercício dos direitos de acesso
estabelece o Art. 6º da Lei 9.433/97, são planos à água e atuar como instrumento de controle
que visam fundamentar e orientar a implemen- quantitativo e qualitativo dos usos da água.
tação da Política Nacional de Recursos Hídricos
e seu gerenciamento. Trata-se de um documento A cobrança pelo uso da água é essencial
sem o caráter de produto final consolidado, para criar as condições de equilíbrio entre as
ensejando, ao contrário, inserções e ajustes de forças da oferta (disponibilidade de água) e da
forma a manter-se sempre atualizado. demanda, promovendo, em conseqüência, a
harmonia entre os usuários competidores. Tem
Assim, de acordo com o que determina a objetivos bastante claros, a saber: (i) reconhecer
Lei das Águas, os planos de recursos hídricos a água como bem econômico dando ao usuário
vão além da mera expressão de racionalismo uma indicação do seu real valor; (ii) incentivar
sobre o uso, proteção e conservação dos a racionalização do uso da água; e (iii) obter
recursos hídricos, pois acima de tudo, devem recursos financeiros para implementação de
ter conteúdo e proposições perfeitamente programas e intervenções contemplados nos
coerentes com as aspirações da comunidade planos de recursos hídricos.
que habita a bacia hidrográfica em estudo. Compete aos Comitês de Bacias Hidro-
O enquadramento dos corpos de água em gráficas decidir sobre a cobrança pelo uso da
classes, segundo os usos preponderantes da água e propor os valores a serem cobrados.
água, é de fundamental importância para O Sistema Nacional de Informações sobre
estabelecer-se um sistema de vigilância sobre Recursos Hídricos tem por finalidade coletar,
os níveis de qualidade da água dos mananciais. organizar, criticar e difundir, em âmbito nacional,
Além disso, trata-se de um instrumento que a base de dados relativa aos recursos hídricos,
permite garantir a indissociabilidade dos nos seus aspectos qualitativos e quantitativos, seus
aspectos qualitativos e quantitativos e a gestão usos, o balanço hídrico de cada bacia e prover os
da qualidade da água. Em outras palavras, gestores, a sociedade civil e outros usuários das
fortalece a relação entre a gestão dos recursos informações necessárias para embasar o processo
hídricos e a gestão do meio ambiente, porque decisório fornecendo, paralelamente, subsídios
sua execução baseia-se na Política Nacional para a elaboração dos planos de recursos hídricos.
do Meio Ambiente, por meio da Resolução nº
O Sistema Nacional de Gerenciamento
20, do Conselho Nacional do Meio Ambiente de Recursos Hídricos foi criado com as
(Conama). finalidades de coordenar a gestão integrada das
O enquadramento visa assegurar, às águas, arbitrar administrativamente os conflitos
águas, qualidade compatível com os usos mais relacionados com os recursos hídricos,
exigentes a que forem destinadas e diminuir os implementar a Política Nacional de Recursos
custos de controle da poluição das águas Hídricos, planejar, regular e controlar o uso, a
mediante ações preventivas permanentes. preservação e a recuperação dos recursos
hídricos e promover a cobrança pelo uso desses
A outorga de direito de uso dos recursos recursos.
hídricos é um ato administrativo, mediante o
qual o Poder Público outorgante faculta ao A Lei 9.433/97 – Estabeleceu um arranjo
outorgado o uso de determinado bem público, institucional claro para a gestão compartilhada

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do uso da água. A seguir, são descritos os para a recuperação hidroambiental das bacias
organismos criados a partir da instituição do hidrográficas, ao estabelecer no seu Art. 4º inciso
novo sistema: XVII que a ANA pode “propor ao Conselho Nacio-
Conselho Nacional de Recursos Hídricos nal de Recursos Hídricos o estabelecimento de
(CNRH) – Órgão mais elevado da hierarquia incentivos, inclusive financeiros, à conservação
do sistema em termos administrativos, a quem qualitativa e quantitativa de recursos hídricos”.
cabe decidir sobre as grandes questões do setor, Somente a partir desse dispositivo, torna-
além de dirimir as contendas de maior vulto. O se possível a participação financeira da
CNRH foi criado pelo Decreto Nº 2.612, de 3 sociedade nos trabalhos de revitalização das
de junho de 1998, como órgão máximo norma- bacias hidrográficas, o que é bastante justo, uma
tivo e deliberativo. vez que os benéficos advindos dessa prática
extrapolam os limites da propriedades rurais e
Agência Nacional de Águas (ANA) –
criam externalidades positivas ampliando a
Entidade federal de implementação da Política
oferta de água em qualidade e quantidade a
Nacional de Recursos Hídricos. todos os habitantes da bacia.
Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos Por sua vez, esse dispositivo cria a
– São instâncias recursais, com referência às possibilidade da implementação de programas
decisões tomadas pelos Comitês de Bacias como o Produtor de Água, o qual visa remunerar
Hidrográficas de rios de domínio estadual. os produtores rurais que, voluntariamente,
Comitês de Bacias Hidrográficas – Tipo utilizam práticas conservacionistas capazes de
de organização inteiramente novo na reduzir a erosão, melhorar a infiltração de água
administração dos bens públicos, contando com no solo, contribuindo assim para a melhoria da
a participação dos usuários, das prefeituras oferta de água de boa qualidade.
municipais, da sociedade civil organizada, das Como se vê, os mecanismos para
administrações estaduais e federal, e destinados gerenciar a distribuição de águas em termos
a agir como o “parlamento das águas da bacia”, quantitativos e qualitativos estão bem deli-
pois são os comitês os fóruns de decisão no neados. Assim, é importante que se dê mais
âmbito de cada bacia hidrográfica. atenção às questões que envolvem derivações
de recursos hídricos mais significativas,
Agência de Água (Agência de bacia) –
ressaltando as atividades agropecuárias, cuja
Funciona como o braço executivo técnico de demanda corresponde a mais da metade de
seu(s) correspondente(s) comitês, destinada a todo o consumo do País, com tendências a
gerir os recursos oriundos da cobrança pelo uso atingir cifras bem superiores.
da água, desenvolvendo a chamada enge-
nharia do sistema. Cerca de 6% da área plantada no Brasil
é irrigada e responde por 16% de sua produção
Organizações Civis de Recursos Hídricos total. Além disso, os 3 milhões de hectares
– Entidades atuantes no setor de planejamento atualmente irrigados correspondem apenas a
e gestão do uso dos recursos hídricos e que 10% do seu potencial irrigável, o que, aliado à
podem ter destacada participação no processo crescente demanda mundial por alimentos,
decisório e de monitoramento das ações. confirma a tendência de crescimento da
A Lei 9.984, de 17 de julho de 2000 – Criou atividade no Brasil.
a Agência Nacional de Águas (ANA), além de Por sua vez, em todo o mundo, a expan-
regulamentar artigos da Lei das Águas, deu maior são da área irrigada é cada vez mais proble-
transparência a um dos aspectos fundamentais mática não só devido à indisponibilidade
crescente dos recursos hídricos (qualitativa e

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quantitativamente) como a severidade cres- para participar de um processo educativo
cente da legislação ambiental, das restrições eficiente e amplo direcionado à preservação
econômicas, da salinização, da desertificação ambiental e, ao mesmo tempo, apóie o
e outras formas de degradação do ambiente. estabelecimento de uma política global de
Entretanto, a expansão da agricultura disciplinamento do crescimento populacional
irrigada apresenta alto índice de uso consultivo que tem sido o fator mais relevante dos
que certamente afetará, de maneira significa- desequilíbrios socioeconômicos do mundo.
tiva, a disponibilidade de água para a produção
em áreas onde os estios podem comprometer
até o exercício do direito prioritário de uso para
Conclusão
o consumo humano. Contrapondo ao intenso intemperismo e,
Assim, observa-se a existência de um sobretudo à concentração das chuvas (fatores de
grande espaço para que a tecnologia e o erodibilidade) e conseqüentemente das atividades
de plantio em curto período de tempo, atualmente
manejo dos recursos hídricos aplicados na
o Brasil possui tecnologia e sistemas de produção
produção agropecuária venham a produzir
adequados sob o prisma da sustentabilidade.
expressiva economia desses, tendo-se em vista
as diversas oportunidades abertas para otimizar Um dos exemplos mais destacados é o do
o consumo de água na irrigação e na sua prote- plantio direto (sem revolvimento e pulverização
ção qualitativa e quantitativa. do solo e com manutenção de matéria vegetal
como cobertura do solo) que reverteu o processo
Entre essas providências, podem-se desta-
de degradação do solo associado à sua exploração
car: a conservação do solo; as técnicas de por métodos tradicionais.
cultivo mínimo; o bom dimensionamento dos
sistemas de irrigação e a utilização de métodos Como já evidenciado, o processo de uso
mais eficientes e seu manejo adequado; o do solo pela agricultura, pecuária ou pelas
manejo dos reservatórios; o aproveitamento estradas, principalmente as municipais e rurais (no
mais ousado da genética e da biotecnologia; o interior dos estabelecimentos) geralmente tem sido
melhor aproveitamento dos dados agrometeoro- insustentável.
lógicos; a utilização de produtos agrícolas de Contudo, as pastagens degradadas podem
forma mais vantajosa, tendo-se em vista a servir à necessária expansão da área agricultável
eficácia do seu uso; a minimização das perdas principalmente pela transformação delas em
agrícolas, etc. cultivos (com ou sem a rotação agricultura –
Sob o ponto de vista qualitativo, podem- pecuária), mediante utilização de técnicas de
integração lavoura – pecuária, que permite
se destacar a importância das técnicas conser-
recuperar áreas de pastagem aumentando sua
vacionistas, inclusive de manutenção perma-
produtividade e liberando áreas para outros usos.
nente da cobertura vegetal, a proteção das
nascentes e das matas ciliares; os cuidados de O Brasil está frente a um estimulante desafio
se evitar a poluição direta e indireta dos de expansão da produção agrícola de forma
mananciais; o correto emprego dos defensivos sustentável e, sobretudo, sem derrubada de
agrícolas; a utilização do controle biológico das florestas. Essa abordagem é estratégica. São
pragas; etc. extremamente oportunos o resgate e a
valorização do conceito de agricultura
Finalmente, vale ressaltar que todo o conservacionista e competitiva, com proteção das
esforço para amenizar os impactos decorrentes nascentes e conservação de água e solo, sob
do uso da água na agricultura poderá ser orientação das diretrizes legais (Lei 9.433 e
prejudicado, caso a sociedade não se mobilize decorrentes) e a energia de um novo período de

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gestão governamental. c) protagonismo;
Do lado da gestão de recursos hídricos d) empreendedorismo;
representa uma contribuição e um exercício de e) mobilização social;
integração e resgate e ordenamento de
responsabilidades institucionais, sociais e legais f) capacitação.
dos ministérios do Meio Ambiente, da Agricultura Como no exercício federativo, também
Pecuária e Abastecimento e do Desenvol- deverá ser intensa a busca da interação e da
vimento Agrário, organizações públicas e sinergia entre os organismos ambientais e seto-
privadas e de produtores rurais, significando um riais, de um lado, e entre esses e os produtores
passo importante para: (atores principais do processo) de outro.
• atender aos preceitos de produção Certamente, esse será um profundo,
sustentável; profícuo e amplo exercício do princípio da
• ampliar a competitividade internacional; transversalidade para conservar e revitalizar
solos e recursos hídricos como parte nobre do
• desbloquear barreiras não-tarifárias que patrimônio social e nacional, pois integrará
se relacionam às exigências da qualidade de vertical e horizontalmente agentes públicos e
produtos obtidos dentro de certos padrões privados, além de diferentes disciplinas e
ambientais (como conservação de água, solo e interesses. Tudo, com um objetivo comum: o
biodiversidade, seqüestro de carbono, etc.); desenvolvimento sustentável.
• possibilitar a certificação de produtos e É oportuno entender que a interferência do
rastreabilidade, assegurando melhores qualidade homem é fundamental no processo de conser-
e segurança para o comprador, bem como vação e que o único momento de distribuição
condições de marketing no plano internacional e natural e plenamente democrática da água é
nacional; quando ela se oferece em forma de chuvas. A partir
• ampliar a oferta e melhorar a qualidade daí, dependendo de como é tratada, a água fica
da água. longo tempo gerando benefícios no espaço do solo
onde cai ou próximo dele ou escorre, causando
Para a cadeia do agronegócio e regiões
produtoras, amplia emprego, renda e, sobretudo erosão e perdas, tornando-se indisponível, tanto
estabilidade via melhoria de renda, competitivi- o solo como a água, em curto prazo.
dade e imagem junto ao mercado. Tudo isso em
conjunto significa alcançar o desejável nível de
sustentabilidade do agronegócio. Referências
A grande diversidade dos problemas e sua BRASIL, Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos
distribuição geográfica acrescidas dos diferen- e da Amazônia Legal. Secretaria de Recursos Hídricos.
tes extratos de tamanho das propriedades, de Recursos hídricos no Brasil. Brasília, DF, 1998, 52 p.
nível de renda e de informação dos produtores BRASIL. Lei 9.433 de 08 de janeiro de 1997. Estabelece a
são fatores que não permitem simplificar Política Nacional de Recursos Hídricos. Diário Oficial [da]
soluções. Ao contrário, suscitam a busca de República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 09 dez. 1997.
estratégias diferenciadas, visão de futuro e BRASIL, Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Recursos
persistência para assegurar o alcance de metas Hídricos. Recursos hídricos: conjunto de Normas Legais.
de curto, de médio e de longo prazos. Brasília, DF, 2004.
A complexidade remete, naturalmente, DNAEE. Código de Águas. Brasília: Ministério das Minas e
para uma abordagem multidisciplinar e interins- Energia–Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica,
titucional, devendo, atender, decidida-mente, 1980.
a diretrizes básicas como: MACHADO, J.: SANTOS, D. Garcia dos; FÉLIX, A. Domingues.
A gestão de recursos hídricos e o uso da água na agricultura
a) descentralização; irrigada. Brasília, DF: MMA–Agência Nacional de Águas,
b) compartilhamento; 2005. 18 p.
NOVAIS, R. F.; SMYTH,T. J. Fósforo em solo e planta sob
condições tropicais. Viçosa: UFV, 1999. 399 p.
MONTESQUIEU, C. L. de S. O Espírito das Leis. Tradução de
Ano XIV – Nº 2 – Abr./Maio/Jun. 2005
Fernando Henrique 64
Cardoso e Leônio Martins Rodrigues.
Brasília, DF: Editora da Universidade de Brasília, 1982. 712 p.
p. 25. (Pensamento Político, 61).