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Povos e comunidades tradicionais avaliam política nacional

6 de julho de 2018 - Notícias - Thays Puzzi / Assessoria de Comunicação Rede Cerrado

Segundo dia do Seminário Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais foi dedicado aos
debates em torno da Política Nacional; MPF, que participou do evento recolhendo denúncias
de violações de direitos, apresentou proposta de identificação de territórios

Reunidos em um território marcado pela resistência e trajetória de luta, representantes


de povos e comunidades tradicionais (PCTs) dedicaram o dia 4 de julho para a
avaliação da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentavel dos Povos e
Comunidades Tradicionais (PNPCT), criada em 2007 a partir do nº Decreto 6.040.

O objetivo da política é garantir e fortalecer os direitos desses povos, tendo como


perspectiva a valorização de suas identidades. No entanto, desde a sua criação,
apenas algumas das ações foram concretizadas, com o a criação do Plano Nacional
de Fortalecimento da Agricultura, que abrange determinados seguimentos extrativistas
dos povos tradicionais.

A implementação da política é uma das ferramentas fundamentais de combate ao


estado de violência e violação de direitos pelos quais muitos povos e comunidades
tradicionais passam de norte a sul do país. Dentre os pontos que aguardam
implementação, o principal é o eixo referente à regularização fundaria, que torna os
PCTs vulneráveis diante dos conflitos rurais.

Foi nesta perspectiva que os participantes do Seminário Nacional de Povos e


Comunidades Tradicionais: Protagonistas da sua História, que ocorreu na
Comunidade Quilombola de Monte Alegre, em São Luís Gonzaga, no Maranhão, se
dividiram em quatro grupos para a avaliação dos avanços e das ameaças de cada eixo
da política: acesso aos territórios, infraestrutura, inclusão social e fomento e produção
sustentável.

A atual flexibilização da legislação brasileira em favor do capital – como a aprovação


na comissão especial da Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 6.299/2002, o PL
do Veneno, que libera o amplo uso de agrotóxicos, incluindo substâncias cancerígenas
que atualmente são proibidas no Brasil, o avanço do agronegócio, principalmente na
região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e a implantação de
grandes projetos que afetam diretamente os modos de vida desses povos, como os da
mineração – foram as ameaças destacadas durante os debates. A luta pela garantia
dos territórios tradicionais foi ressaltado como uma estratégia fundamental de
resistência.

Outro ponto preocupante salientado pelos participantes foi o grande avanço, de âmbito
nacional, muitas vezes promovido e influenciado pelo próprio estado, de ações que
visam a divisão dos territórios dos povos e comunidades tradicionais que são,
primordialmente, de uso coletivo. A ideia de que é preciso ter titularidade individual de
um território que é de uso comum tem gerado sérios conflitos dentro das
comunidades.

Um exemplo emblemático é a situação que vive o próprio quilombo de Monte Alegre,


como lembrou o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Edmundo Antônio
Dias Netto Júnior. A comunidade, que acolheu o seminário, está dividida: enquanto
parte das famílias querem continuar seus modos tradicionais de vida, compartilhando
a terra que é de uso coletivo, outras foram convencidas de que é melhor a divisão, ou
seja, o parcelamento da comunidade em lotes. “A divisão desse território não pode
acontecer neste momento. Isso porque já está em curso o processo de
reconhecimento do território como quilombola. Estamos na fase de elaboração do
Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), que é uma das etapas de
todo o processo realizado pelo INCRA para a regularização do território”, observou
Júnior. Até lá, nada pode ser feito no território. A comunidade, que na década de 1970
sofreu um forte ataque, quando 97 casas foram incendiadas, agora, vive uma
realidade com ainda mais dor: um conflito entre irmãos.

“Ataque às casas, às vidas das pessoas, especialmente, às mulheres. Ser expulso de


sua própria casa é a violência mais forte que uma pessoa pode sofrer. Vivenciamos
um processo sistemático de violações”, lamentou o também procurador do MPF
Wilson Rocha Fernandes Assis. Ele destacou que os povos e comunidades são,
geralmente, reativos, ou seja, reagem quando têm algum dos seus direitos violados. “É
preciso que a gente construa uma agenda proativa para termos avanços”.

Plataforma de territórios tradicionais

Neste contexto, o MPF, que participou de todo o seminário recolhendo denúncias,


trouxe para a avaliação dos povos e comunidades tradicionais a criação de uma
plataforma que identifique os territórios tradicionais de todo o Brasil.
A partir de uma demanda da antiga Comissão dos PCTs, hoje constituída como
Conselho Nacional que ainda não foi empossado, a plataforma será formada por um
banco de fontes secundárias, ou seja, com base em estudos e banco de dados já
existentes, como o Projeto Nova Cartografia Social. Com essa implementação será
possível verificar, pela internet, onde estão localizados os territórios tradicionais no
país e se estas terras convergem com outras áreas, por exemplo, fazendas, reservas,
entre outros. Para Assis, a ferramenta será um importante instrumento para a
legitimação e garantia de direitos de povos e comunidades tradicionais.

Um intenso e longo debate foi feito com os representes dos PCTs e assessorias que
participaram do seminário sobre a implantação ou não deste instrumento.
Preocupações, especialmente as relacionadas à proteção desses povos, foram
levantadas pela plenária que, por fim, aceitou, acendendo “uma luz amarela”, a
proposta do Ministério Público Federal. Ou seja, com a garantia de que o processo de
construção seja coletivo e permanente. Um comitê gestor será criado e a expectativa é
que os representantes se reúnam ainda este ano para começarem os trabalhos.