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Guerreiro Ramos, A lberto.

A moderna em absorver , transformar e espec ífico, baseada em conceitos pro ·


Nova ciência das organizações: distorcer palavras e conceitos, cujos duzidos a partir de conhecimentos
uma reconceituação da riqueza significados origi nai s não dão conta derivados do e no processo de rea-
das nações. Rio de Janeiro , Edi - d e explicar os meios e processos de _lidade.
to ra da Fundação Getulio Var- sustentação dessa sociedade. 2 . Uma teoria substantiva de vida
O Prof. Guerreiro Ramos sustenta humana associada é algo que existe
gas, 1981 . XXI I, 21 Op.
a tese de q ue o funcionamento e de- há muito tempo e seus el ementos :,is-
senvolvimento de uma formação so- tem át icos podem ser enco ntrad os nos
ci al é mantido, em grande parte, pel a trabalhos dos pensadores d e todos o s
aceitação genera li zada, pelos seus tempo s, harmon izados ao sign ificado
membros, dos s ímbolos e cód igos q ue o senso comum at ri bui à razão.
t ransm itidos pelo p rocesso d e comu- 3 . Uma teoria substa ntiva envolve
nicação, at ravés d os q uai s essa forma- . uma supero rdenaç.ão ética d a teoria
ção of erece u ma interpretação de si pol (tica, so b re q ualq uer eventua l dis-
mesma. O processo de des natu ração ci plina q ue focal ize q uestões da vid a
da li nguagem signi fica o cam inho da hu mana associada.
soci aliza ção do indi víduo no si stema O li vro an alisa também a ideologia
industrial moderno. Através do con - subjacente à teoria das o rgan izações e
tro le da essên cia e das formas de lin- como esse campo do co nhecimento
guagem atualment e estabe lecidas, na tem evol u (d o at ravés de "descobertas
medida em que os conceito s são casuais" (serendípity) e da " coloca-
apropriados e t ransmitidos segundo ção inapropriad a d e conceitos",
uma p rát ica social própria, o sistema mu ito mais do que através da criação
d isto rcido d e co municação p revale- origi nal d ireta. " A mai o r parte da-
Este· livro apresenta uma reavaliação cente na soci ed ade moderna é uma quilo que é usua lmente denominado
cr(tica da ciênci a socia l em geral e, de conseqüência do dom fni o do "ethos" teo ria da organ ização é desp rov ida de
modo particu lar, da teo ria das organi- instrumental sob re o co m portãmento rigor c!ent(fico e é, antes, tautologia
zações e da ciência econômica. A p re- dos indi víduos. Neste sent id o, a disfarçada ou , quando muito, disfa r-
o cupação do autor é mostrar que os or ientação da pesquisa na ciência so- ç ado pensam ento o rganizacional,
probl emas pert inentes às sociedades c ial caminha para o contro le t écnico pensamento que aceita, po r seu va lor
industriai s ocidentais não podem ser da rea lidade. O conce ito de racional aparente, os critérios inerentes à o r-
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resolvidos e si m perpet uados, caso (e a pró pri a raci o nalidade atual) é ganização, e é, ele :"i1ssmo, subpro-
permaneçam vál idos os p rinc ípios empregado por cientistas socia is tan - duto d o próprio processo organiza-
epistemol ógicos que caracter izam as to q uanto po r leigos, mais no sentido cional. " A sfndro me comportamen-
ciências adm ini strativa e econômica instrum enta l, ou seja, pa ra exp licar o talista, incorporada pe la teoria o rga-
dominantes . A expressão "nova ci ên- ·funci on amento do existente como nizacional a partir da Escola de Rela-
ci a d as o rgani zações" deve ser: enten - desejáve l, para ind ica r o b om como ções Humanas e que tornou-se carac-
d ida em sent ido ample, incl ui ndo, fu ncio nal, e não como forma de or- ter (sti ca básica d as soci edades moder-
alé m de assuntos relativos às áreas de denamento da vida pessoal e so cial. nas, imp lica a ofuscação do senso co-
ad m inistração p úb lica e d e empresas Co mo ponto d e partida para o pa- mu m através de cri térios adequados à
privadas, t emas especff icos ao campo radigma da nova ciência d as organ i- conduta h uma na , numa perspectiva
d a eco nom ia, da ci ência p ol (tica, da zações, .o livro, a partir da d istinção de mentalidade imposta pelo merca-
ciência da form u lação d e polít icas, el aborada por Weber entre raciona- do, d a qua l podem ser destacados
enfim , da ciência soci al. lidad e formal e racionalidade subs- quatro t raços principais, analisado s
O autor analisa cr iticamente os tantiva , contrapõe ao modelo con- pelo autor : a ) a f lui dez da Ind ividua-
motivos e a lógica qu e co nduz iram ao temporâneo de ciência social um mo- lidade ; b) o perspecti vi smo; c ) o for-
atual mode lo de sociedade capita- d elo alternativo d enom inado teoria . mal ism o; d) o operacionalismo .
lista, que conside ra o mercado como substantiva da vida humana asso- A discip lina organi zacional e nsi-
centro determi nante em t orno do dada, cujas três q ualificações gerais nada nas escolas e un iversidades , ape-
qu al gravitam os ind iv íduos. Sem des- permitem disti ngui -l a da teoria fo r- sar de apre senta r suas fases de evolu-
contar os m étodos clássicos que estu- . mal d a vida h umana associada: ção, desde a abordagem d o " ho mem
d am as transformaçõ es da era p ré- econômi co " d a Escol a Clássica para
moderna para a moder na, através do 1. Um a teor ia d a vida humana asso- as de natureza hu man ista e integra-
desen volvimento tecnológico e dos ciada é subst~ n tiva qua ndo a razão, cionista, nada mai s fa z do que obs-
processos de acum ul ação e con cen- no se ntido substantivo, é sua princi- cu recer a própria rea lidade exi stent e,
tração do capi tal, sua preocupação é pal categoria de análise. A razão subs- na med ida em q ue o ho m em como
mais no sent ido de mostrar como a t antiva é entend ida co mo uma cate- ,u m se r econômico faz parte da pró·
reificação d a real idade at ual tem re- goria "ordenativa", implicando um a pr ia lóg ica da sociedade cap italist a. A
sultado da capacidade da sociedade teoria subst antiva normativa de t ipo t eoria organ izaciona l só poderá at in-

Resenha bibliográfica
gir um nível de saber crít ico, um isonômicos e fenonômico s. Os siste- diante o máximo uso de recursos re-
n ível de ciência , continua o autor, se mas econômicos são context os orga- nováveis e o m (nimo uso razoável dos
for capaz de se desenvo lver em cará- nizac ionais altamente ordenados, es- não-renováveis. O equ ilíbrio de recur-
ter crítico e, a partir de si mesma, tabelec idos para a prod ução d e bens sos significa a coexistênci a de sist e-
extrai r suas bases epistemológicas. e (ou) para a prestação de serviços, mas de orientação mutuária , nos
" A formulação de uma abordagem que podem compreender t anto os quais os respectivos mem bros produ-
substantiva para a organização inclui mo nopó iios, firmas com petidoras, or- zem para si mesmos, sob ori entação
d uas t a.refas distintas: gan izações de fins não lucrativos, co- de reci procidade, gra nde parte do
mo agências governamenta is. Os siste- q ue consomem, e de si st emas orienta-
a) o desenvo lvimento de um tipo de mas isonômicos com preendem Oiga- , dos para o lucro, nos quais os ind i-
onái ise capaz de detectar os ingred i- n!zações ou comunidades onde as in- _víduos dependem de empregos para
entes epistemológ icos dos vários ce- terações sociais entre os indiv íduos se manutenção de um pode r aq uisitivo
nários o rganizacionai s; dão de forma igualitári a ou anárquica que lhes proporcio ne os bens e servi-
b) o desenvolvimento de ·um tipo de (entendida a anarquia no seu sentido . ços de que necessitam. De o utro la- ·
análise organizacional expurgado de etimológico ). As associações de pais e do, o int eresse ecológico deve det er- .
padrões distorcidos de linguagem e mestres, as associações de estudar.tes mi nar um replanejamento das orga-.
conceptualizaçã~. ~~ e de minorias, as empresas de pro- nizações econôm icas, na medi da em
A partir desta visão ,..delimitação" priedade dos trabalhadores e as co- que são as que precisamente ma is uti-
da teoria organizacional e dos vários operativas dos vários t ipos são exem-· · lizam recursos não-renováveis.
·t ipos de organização existentes ou pios de sistemas isonô micos. Sistemas F inal mente, cabem ser mencio-
emergentes na sociedade moderna, o sociais fenonômicos são aqueles de nados três aspectos para os quais o
livro apresenta um modelo multidi - caráter esporád ico o u mais ou menos autor chama a nossa atenção:
mensional para a an álise e formula- estável, iniciados e d irígidos por um
ção dos sistemas sociais, denominado indivíduo, ou por um pequeno gru- . 1. O livro deve ser entendido como
"paradigma paraeco nômico" ou " pa- po, e que permitem a seus membros enu nciação teór ica prelim inar da
radigma delirnitativo'i, como o pró- o máximo de opção pessoal e um "nova ciênci a das organizações".
prio Prof. Guerreiro Ramos o classi- mínimo de subordinação a prescri- Questões como, de que · manei ra po-
ficou em pa lestra proferida no pri - ções operacionais formais. Atividades deria o Estado, sistematicamente, im-
meiro semestre de 1980 na EAESP/ como a do artesão, da pequena pro- plementar e administrar os sistemas
FGV. O referido paradigma considera dução doméstica de utilidades ou de sociais delimitados, ou diretrizes ope-
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o mercado e as organizações econô- alimentos, pequenas oficinas de pin- raciona is para o planejamento, a im-
micas (focos centrais de análise do tores, escritores, artistas, são exem- p1ementação e a manutenção arti-
ensino e da prática administrativa) plos de sistemas fenonômicos. culada dos variados e complemen-
como enclaves sociais legftimos e ne- Convém lembrar, no entanto, co- tares sistemas sociais não foram res-
cessários, porém limitados e regula- mo adverte o auto r, que a classifi- pondidas. Referidos pontos fazem
dos. "O ponto central desse modelo cação sugerida é no sentido do "tipo parte de pesquisas a serem desenvol-
multidimensional é a noção de deli- ideal", ficando claro, portanto, que a vidas, depois da articulação, em ter-
mitação organizacional, que envolve : constatação, ao n ível concreto, de mos teóricos, da condição do indi-
sistemas mistos deverá ser muito mais víduo na sociedade centrada no mer-
a) uma vi são da sociedade como sen- freqüente que o tipo ideal. Um tó- cado e da sua libertação psicológica
do constituída de uma variedade de pico fundamental para a organização da lógica do mercado.
enclaves (~os quais o mercado é ape- e o desenho dos vários sistemas so- 2. O cenário proposto não admite o .
nas um), onde o homem se empenha ciais é manter determinadas variáveis socialismo, tal como ele se apresenta
em tipos nitidamente diferentes, em- em termos adequados a eada tipo de atualmente em determinados países.
bora verdadeiramente integrativos, de sistema. O autor chama a atenção e Exige, porém, uma redefinição das
atividades substantivas; fornece algumas discussões teóricas metas e prioridades do Estado.
b) um sistema de governo social ca- sobre os aspectos de tecnologia, ta- 3. Muito do que constitui o para-
paz de formular e implementar as po- manho, nfveis de cognição, espaço e digma paraeconômico representa
1 íticas e decisões distributivas reque- tempo de duração que devem preo- uma categorização de tendências bá-
ridas para a promoção do tipo ótimo cupar os encarregados do planeja- sicas da emergente sociedade pós-in-
de transações em tais enclaves so- mento e implementação dos vários dustrial , ou seja: "A nova ciência das
ciais." sistemas sociais. organizações não é realmente nova,
Uma visão de sociedade multidi- São também objetivos do para- porque é tão velha, quanto o senso
mensional comporta uma interação digma paraeconômico o equilíbrio na comum. O que é novo são as circuns-
de sistemas sociais que têm por fim a alocação · de recursos entre os sis- tâncias, nas quais precisamos, mais
maximização da utilidade e sistemas temas de orientação mutuária e os uma vez, começar a dar ouvidos ao
que objetivam a atualização pessoal. sistemas de orientação para o lucro, nosso eu mais íntimo." O
Podem ser identificados três tipos de além da produção de bens e a presta-
sistemas sociais básicos: econômicos, ção de servjços ser promovida me- Tomás de A. Guimarães

Revista de Administração de Empresas