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CORPO, MOVIMENTO E CONHECIMENTOS

FISIOLOGICOS
Luciana Carletti

Universidade Aberta do Brasil Educação Física


Universidade Federal do Espírito Santo
Licenciatura
1
C orpo, Movimento e Conhecimentos
Fisiológicos é uma das disciplinas
que se apropriaM dos saberes das áreas
biológicas e fisiológicas para promover
o conhecimento das minúcias do
funcionamento do corpo humano ao
movimentar-se.

Adentraremos na última disciplina


de estudo do organismo humano de
nosso currículo vigente, mas esperamos
convencê-los de que este não deve ser o
término dos investimentos nessa área de
estudo, pois o conhecimento da dinâmica
fisiológica humana é certamente mais
profundo e mutável do que imaginamos.

Organizamos esta disciplina em quatro


unidades. Na primeira estudaremos o
metabolismo energético para o movimento,
enfatizando os processos de transferência
e mensuração da energia para a contração
muscular. Em seguida será abordado o
sistema neuromuscular e o controle do
movimento, com destaque para a fisiologia
da contração muscular. Na terceira unidade
nos dedicaremos ao sistema cardiovascular
no exercício, viabilizando a compreensão
de respostas fisiológicas mensuráveis
ao esforço, tais como pressão arterial e
frequência cardíaca. Finalmente, vamos nos
debruçar no estudo do sistema respiratório
durante o esforço, interpretando variáveis
ventilatórias e de troca gasosa.

Como podem vislumbrar, há muito trabalho


pela frente, mas a motivação em nos
apropriar de novos saberes certamente será
o nosso guia.

Profª Luciana Carletti

2
UNIVERSIDADE F E D E R A L D O E S P Í R I TO S A N TO

Núcleo de Educação Aberta e a Distância

CORPO, MOVIMENTO E CONHECIMENTOS

FISIOLOGICOS

Luciana Carletti

Vitória
2011
Presidente da República Reitor Diretor do Centro de
Dilma Rousseff Prof. Rubens Sergio Rasseli Educação Física e Desporto
Valter Bracht
Ministro da Educação Vice-Reitor
Fernando Haddad Prof. Reinaldo Centoducatte Coordenação do Curso de Educação
Física EAD/UFES
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Educação Aberta e a Distância - ne@ad Design Gráfico
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Coordenadora do Sistema ne@ad


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(27)4009-2208
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Julio Francelino Ferreira Filho

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)


(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)


Carletti, Luciana.
C281c    Corpo, movimento e conhecimentos fisiológicos / Luciana Carletti. - Vitória :
UFES, Núcleo de Educação Aberta e a Distância, 2011.
66, [2] p. : il.

   Inclui bibliografia.
   ISBN:

   1. Fisiologia humana. 2. Movimento. 3. Exercícios físicos - Aspectos fisiológicos.


I. Título.

CDU: 612.766.1:796

LDI coordenação Ilustração


Heliana Pacheco, Hugo Cristo e Leonardo Trombetta Amaral e
Ricardo Esteves Gustavo Rodrigues
Gerência Capa
Isabela Avancini Gustavo Rodrigues
Editoração Impressão
Thiago Dutra GM Gráfica e Editora

A reprodução de imagens de obras em (nesta) obra tem o caráter pedagógico e cientifico, amparado pelos limites do
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ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização,
por escrito, da Coordenação Acadêmica do Curso de Licenciatura em Educação Física, na modalidade a distância.
“Vivo em mim próprio como num trem em movimento.
Não entrei nele por livre e espontânea vontade, não pude
escolher e sequer conheço o local de destino. Um dia,
num passado distante, acordei no meu compartimento e
senti o movimento. Era excitante, escutei o barulho das
rodas, pus a cabeça para fora da janela, senti o vento e
me deliciei com a velocidade com que as coisas passavam
por mim. Eu queria que o trem jamais interrompesse
a sua viagem. De maneira nenhuma eu queria que ele
parasse para sempre em algum lugar.”

Gregórius, personagem de Pascal Mercier no romance “Trem Noturno


para Lisboa”, 2004.
UNIDADE 1
Metabolismo energético para
o movimento humano

UNIDADE 2
O sistema neuromuscular e
o controle do movimento
humano

UNIDADE 3
O sistema cardiovascular no exercício

06
UNIDADE 4 CARTA AO
O sistema respiratório no exercício ALUNO

07
66 65 INTRODUÇÂO

68 CONSIDERAÇÕES
FINAIS
APÊNDICE A GLOSSÁRIO
REFERÊNCIAS
MANUAL DO
FASCÍCULO
Para melhor aproveitamento dos recursos oferecidos pelo EAD nesta dis-
ciplina, seguem algumas orientações:

1- Ao final do fascículo, na página 66, disponibilizamos um glossário de


termos que no decorrer da leitura dos capítulos aparecerão sinalizados
na cor azul.

2- Observe também os ícones que aparecem ao lado do corpo de texto.


Veja a seguir:

Conteúdos audiovisuais na plataforma - Este ícone


sinaliza que um conteúdo audiovisual sobre o assunto
abordado poderá ser visto na plataforma. Os conteúdos
disponíveis por meio da plataforma constituem uma
forma dinâmica e interativa de suporte ao conteúdo es-
crito e merecem sua atenção. Também estão disponíveis
no Apêndice A, devidamente identificados segundo a
página em que se encontram e acompanhados por um
link que pode ser digitado no browser do seu navegador
de internet para acesso direto.

Sugestões de leitura - No decorrer do fascículo este


ícone virá acompanhado de um número. Acesse cada
sugestão de leitura pelo número correspondente na pla-
taforma ou diretamente no browser do seu navegador
de internet pelo link disponível no Apêndice B.
Queridos alunos e alunas, sejam todos bem–vindos aos estudos da
disciplina “Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos”.

Sou a professora Luciana, atualmente responsável pela mesma disciplina


presencial do curso de Licenciatura em Educação Física da UFES.
Sinto um enorme prazer em participar deste desafio de estudar os
conhecimentos fisiológicos à distância, junto com vocês.

Acredito no nosso potencial para avançarmos neste trajeto, e por isso


cunhei um material diferenciado para atender as necessidades do curso
à distância.

Nesta disciplina estudaremos os fenômenos fisiológicos que ocorrem


no corpo em movimento, desbravando as aventuras dos movimentos
internos dos nossos sistemas fisiológicos – metabólico, neuromuscular,
cardiovascular e respiratório.

Pretendo conduzi-los ao desfrute desta interessante disciplina,


focalizando tópicos básicos e atuais de estudo. Mas tudo isso só se
tornará útil na formação de vocês se eu conseguir envolver-lhes na
tradução destas informações em conhecimento aplicado.

Imagino que o trajeto percorrido por muitos de vocês, na atuação com


a área de Educação Física Escolar, já foi capaz de enriquecê-los com
experiências acerca da resposta fisiológica do corpo em movimento. Por
isso, esperamos continuar alimentando-os em suas curiosidades, bem
como despertá-los para analisar com mais propriedade este foco.

Compreender a produção do movimento e os fenômenos fisiológicos


atrelados é um estudo bastante excitante! Portanto convido-os para
iniciarmos a nossa jornada.

Um abraço apertado,
Luciana Carletti
INTRODUÇÃO

Iniciaremos os estudos dos fenômenos fisioló- tarão em morrer por você – bilhões delas
gicos que ocorrem no corpo em movimento re- fazem isso diariamente. E durante toda
metendo-os a pensarem na célula humana, por a sua vida você jamais agradeceu a uma
onde a vida começa. Vamos fazer a leitura da delas que fosse.
citação seguinte.
Dessa forma, percebemos que, pela capacidade
A célula, ao adquirir a capacidade de se dupli- funcional complexa dos organismos celulares,
car, tornou-se capaz de formar um ser humano alcançamos a harmonia para o adequado fun-
com aproximadamente 10 trilhões de unidades cionamento de nosso corpo, até mesmo em situ-
celulares. Bryson (2006, p. 379), em seu livro ações intensamente estressantes, como é o caso
Breve história de quase tudo, retrata brilhante- do exercício físico. Foss e Keteyian (1998) re-
mente a fisiologia celular quando sugere: tratam essas adaptações com informações sobre
a dinâmica cardiovascular durante exercícios
Suas células são um país de 10 mil tri- de intensidade leve, moderada e máxima. Fa-
lhões de cidadãos, cada um dedicado de çam a leitura do parágrafo abaixo para auxiliar
forma intensivamente específica, ao seu essa compreensão.
bem-estar geral. Não há nada que elas
não façam por você. Elas permitem que Sabe-se que, quando executamos pequenos es-
você sinta prazer e formule pensamen- forços como aqueles das tarefas cotidianas de
tos. Graças a elas, você se levanta, se deslocamentos, serviços domésticos, ou de lazer,
espreguiça ou dá cambalhotas. Quando ocorrem alterações na dinâmica do fluxo san-
você come, são as células que extraem guíneo com elevações no fornecimento de san-
os nutrientes, distribuem a energia e eli- gue pela bomba cardíaca de 5.000ml/min em re-
minam os resíduos [...], mas também se pouso para até cerca de 9.000ml/min, dadas as
lembram de deixá-lo com fome, antes de alterações substanciais de demandas energéticas
mais nada, e o recompensam com uma do metabolismo humano. Agora, se pensarmos
sensação de bem-estar depois, de modo em atividades motoras de alto rendimento, como
que você não esquecerá de comer nova- provas de corrida e natação, que são duradouras
mente. Mantêm seus cabelos crescendo, e extenuantes, o aporte sanguíneo exigido pode
seus ouvidos com cera, seu cérebro ron- ser superior a 25.000ml/min! Ademais, os mús-
ronando. Administram cada cantinho de culos em atividade, que são os principais con-
seu ser. Virão em sua defesa no instante sumidores dessa demanda aumentada, alteram
em que você estiver ameaçado. Não hesi- o seu fluxo de 1.200ml/min, em repouso, para

  | 7
cerca de 22.000ml/min, no exercício máximo O interesse pela Fisiologia do Exercício surgiu
(FOSS; KETEYIAN, 1998). principalmente na Grécia antiga e na Ásia Me-
nor, porém a influência para a civilização oci-
Todas essas modificações e tantas outras mais dental veio dos médicos gregos da Antiguidade
que ocorrem nos sistemas fisiológicos são possí- – Herodicus (5º século a.C.), Hipócrates (460-
veis, uma vez que a lógica dos organismos vivos 377 a.C.) e Cláudio Galeno (131-201 d.C.). Os te-
é buscar a homeostase, ou seja, “[...] a capacidade mas de interesse na época eram voltados à me-
de manter o meio interno relativamente estável” dicina preventiva, com ênfase na alimentação
(SILVERTHORN, 2003, p. 6). Segundo a mesma saudável, treinamento físico e medidas higiê-
autora, homeostase é um processo contínuo que nicas nas quais se destacam as leis da saúde de
envolve o monitoramento de múltiplos parâme- Galeno que preconizavam benefícios da prática
tros, acompanhado da coordenação de repostas de exercícios físicos (McARDLE et al., 2003).
adequadas para minimizar quaisquer distúrbios.
As modulações de fluxo sanguíneo anteriormente Galeno dizia que as finalidades do exercício era
citadas configuram um processo de adaptações garantir dureza aos órgãos, o que resultaria, de
de homeostasia com características sistêmicas e acordo com o entendimento da época, em be-
propagadas com o intuito de prover os músculos nefícios individuais, como: maior força para as
esqueléticos com os nutrientes necessários para a tarefas; metabolismo acelerado; melhor difusão
realização de esforço físico. de todas as substâncias, resultando daí que os
sólidos são amolecidos, os líquidos diluídos e os
Vamos pesquisar sobre homeostase apresentando ductos dilatados (McARDLE et al., 2003).
outros exemplos e discutindo sobre eles?

Se refletirmos sobre essas descobertas, vamos


UM POUCO DE HISTÓRIA - Atualmente o constatar que é notável a influência desses
estudo da Fisiologia se ampliou consideravel- grandes estudiosos na Fisiologia do Exercício,
mente ao associar as técnicas de biologia celu- mesmo que tenham se passado mais de mil e
lar e molecular. Tem sido possível compreender quinhentos anos!
como os sinais químicos no corpo são recebi-
dos e interpretados pelas células, e isso permite
desvendar os mistérios de muitos processos.

Porém, nem sempre tivemos o privilégio atual de


dominar tantas técnicas de investigação, porque
tudo que se produziu inicialmente nessa área se
deve às observações de causa e efeito, bem como
de intervenções com dissecação de animais.

8 |
METABOLISMO
ENERGÉTICO PARA
O MOVIMENTO
HUMANO
UNIDADE

METABOLISMO ENERGÉTICO PARA O MOVIMENTO HUMANO

Ao observarmos crianças se movimentando com tanta “energia”


durante suas horas de lazer, é comum mencionarmos: “Quanta
energia tem esses pequenos!”. Então, podemos nos perguntar: “De
onde vem tanta energia?”. Essas e tantas outras perguntas devem
ser estudadas pelos profissionais de Educação Física, a fim de
compreenderem com mais propriedade o metabolismo energético e
sua importância para o funcionamento do corpo em movimento.

Vamos começar nos fazendo alguns questionamentos:

a) De onde provém a energia para a contração muscular e o


funcionamento dos órgãos?

b) Todos os movimentos humanos utilizam as mesmas fontes


energéticas?

c) Como é possível mensurar o gasto energético no movimento


humano?

Essas perguntas serão nosso direcionamento para nos


aprofundarmos na compreensão do metabolismo energético durante
o movimento humano.

  INTRODUÇÃO A TRANFERÊNCIA DE ENERGIA  11    TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA PARA O MOVIMENTO HUMANO  13   
  MEDIDA DO CONSUMO DE ENERGIA HUMANA  18 
INTRODUÇÃO A TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA

De onde provém a energia?

O movimento humano gera um trabalho biológico, nem sempre per-


ceptível, mas que consome muita energia. Esse trabalho biológico
pode ser de três tipos:

Trabalho mecânico  traduzido pelo esforço da contração muscular,


solicitado em todas as tarefas motoras, bem como para a contração
dos músculos cardíaco e liso, que compõem as paredes musculares
dos órgãos internos;

Trabalho químico  dispêndio energético para a síntese de molécu-


las celulares. Para ilustrar esta via, podemos citar a conversão de
moléculas de glicose em glicogênio, para servirem de estoques he-
páticos e musculares; a síntese de triglicerídeos a partir dos ácidos
graxos e glicerol, a fim de ser depositado no adipócito; e a formação
de proteínas pelos aminoácidos, que irão catalisar inúmeras reações
químicas no nosso organismo, ou servir como transportadores de
moléculas no sangue e na célula;

Trabalho de transporte  consiste no gasto de energia para trans-


porte de substâncias de ambientes intra ou extracelulares nos quais
a molécula se direciona contra um gradiente de concentração. Po-
demos ilustrar o transporte de sódio (Na+) para o meio extracelular
e o de potássio (K+) para o meio intracelular, que são cruciais para
manter o potencial de repouso da célula.

A energia necessária para a realização de trabalho mecânico, químico


e de transporte provém da molécula de ATP (trifosfato de adenosina).

O ATP, que se encontra estocado especialmente nas células, possui


moléculas de adenosina e ribose, bem como ligações entre fosfatos
que concentram grande quantidade de energia. A presença da água
(H2O) associada a uma enzima, ATPase, provoca a reação de hidrólise
do ATP, liberando uma molécula de fosfato mais energia, formando o
ADP (adenosina trifosfato). Veja o esquema da Figura 1.

UNIDADE 1 - Metabolismo energético para o movimento humano  | 11


Molécula de ATP
Ligação de
ade alta energia
ade - adenosina
rib - ribose
Pi - fosfato inorgânico
rib P P P

ATP

Liberação de energia pelo ATP

ATP = Adenosina Energia Pi Energia Pi Energia Pi

ATP Adenosina Pi Pi Pi
ATPase

Figura 1  A molécula de ATP liberando energia ADP Adenosina Pi Pi + Pi + Energia

O ATP não é encontrado na corrente sanguínea. Existe em peque-


nas quantidades nas células, por isso ele precisa ser constante-
mente ressintetizado.

Diariamente, ressintetiza-se ATP correspondente a cerca de 75% da massa


corporal Isso significa dizer que o organismo de uma criança de 15kg tra-
balha diariamente para ressintezar cerca de 11kg de ATP; ou que um adulto
de 75kg ressintetizaria cerca de 56kg de ATP (McARDLE et al., 2003).

Como não é possível estocar grandes quantidades de ATP nas célu-


las, o sistema energético humano funciona voltado a dois objetivos:

1  formar e conservar ATP;


2  utilizar a energia química do ATP para o trabalho biológico.

Veja no esquema da Figura 2 o fornecimento de energia pelo ATP e o


processo inverso de ressíntese de energia, demonstrado pela reação
da direita para a esquerda, na qual o ADP sofre fosforilação.
Figura 2  Hidrólise do ATP Miosina
Nota: O ATP encontra a molécula de água, ATPase
e mediante ação da enzima miosina
ATPase, presente no músculo, sofre ATP +H2O ADP + P(7,3 Kcal/mol)
fracionamento em ADP e fornece energia
para a movimentação dos músculos.

12 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Energia para ressíntese de ATP

A formação da molécula de ATP necessita da energia proveniente


dos alimentos, que serão digeridos e armazenados na forma de subs-
tratos energéticos. Os estoques de substratos são assim distribuídos
no organismo:

Fosfatos de alta energia  ATP e Fosfocreatina (PC). Os estoques de


ATP são de 3 a 8 mMol/kg de músculo, e os de PC são 4 a 5 vezes
dos de ATP;

Carboidratos  glicose plasmática (15g), glicogênio hepático (110g) Essa estimativa foi baseada num indi-
e muscular (250g); víduo com peso corporal médio de 65kg
e 12% de gordura corporal, conforme
Gorduras  reservas musculares (161g) e subcutâneas (7.800g). Wilmore e Costill (2001).

TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA PARA


O MOVIMENTO HUMANO
A formação do ATP, a partir dos substratos energéticos disponíveis
– fosfatos de alta energia, carboidratos, gorduras e proteínas – se dá
por meio de processos bioquímicos complexos. Nessa etapa, vamos
apenas apresentar uma síntese de alguns elementos importantes a
serem recordados (Quadro 1), para que, em seguida, seja detalhado o
metabolismo energético no movimento humano.

Quadro 1 – Sistemas de fornecimento de energia

Potência máxima Potência máxima


Sistema energético Substratos Via bioquímica
(moles de ATP/min) (moles de ATP/min)

Energia imediata (ATP-PC) ATP e PC (fosfagênios) Anaeróbica alática 3,6 0,7

Energia de curta duração Glicogênio e Glicose Anaeróbica lática ou 1,6 1,2


(anaeróbico lático) glicolítica

Energia de longa duração Glicogênio, ácidos Aeróbica ou oxidativa 1,0* 90*


(aeróbico) graxos e proteínas

*A partir da molécula do glicogênio

UNIDADE 1 - Metabolismo energético para o movimento humano  | 13


Todos os tipos de movimentos utilizam as mesmas fontes energéticas?

Para analisar essa questão, vamos compreender o movimentar-se


do ser humano na especificidade dos esportes e atividades lúdicas.
Como vislumbrado no Quadro 1, existem três vias para ressíntese
de ATP. A contribuição de cada uma dessas vias depende primaria-
mente do requerimento de intensidade e duração do esforço físico
realizado. Sendo assim, vamos fazer uma breve análise de cada
uma dessas vias.

Sistema de Energia Imediata – ATP-PC

Para realizar esforços intensos e de curtíssima duração, é preciso


utilizar uma via energética de ressíntese de ATP que ofereça uma
grande produção por minuto, mesmo que a capacidade total seja
limitada. Essa via consiste na cisão anaeróbica da molécula de fos-
focreatina (PC). Veja a reação esquematizada abaixo:

CP C + P = Energia

Figura 3  Sistema de energia imediata

Nota: A fosfocreatina sofre cisão por


ação da enzima creatina quinase, ATP + H2O ADP + P + Energia
liberando energia da ligação fosfato
(1). Essa energia será aproveitada pela
célula para a ressíntese do ATP a partir da
molécula de ADP (2). Finalmente, o ATP
será disponibilizado para o processo de Contração muscular
contração muscular (3).

Assim que aumenta a disponibilidade de ATP, como é o caso do perí-


odo de recuperação do esforço, a reação segue no sentido oposto, e a
molécula de ATP é clivada para ressintetizar a fosfocreatina.

Essa via de ressíntese é bastante rápida, mas de duração muito breve,


alcançando seu potencial máximo de produção em cerca de dez se-
gundos após a solicitação. Sendo assim, podemos exemplificar alguns
tipos de atividades que predominam na utilização dessa via, tais como:

1  corridas de 100m, natação de 25m, levantamento de peso;


2  brincadeiras, como pular corda e amarelinha, e estafetas, desde
que executadas por período breve.

14 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Faz-se necessário relatar que, nas transições de intensidades de es-
forço, como acontece em muitas modalidades esportivas, como fute-
bol, vôlei, handebol, e na maioria das brincadeiras de crianças, o sis-
tema ATP-CP é que garante a maior parte da transferência de energia.

Para depletar os estoques intramusculares de fosfatos de alta energia


(ATP-PC), é necessário: 1 minuto de caminhada; 20 a 30 segundos de cor-
rida num ritmo de maratona; ou 5 a 8 segundos de corrida máxima?

Sistema de Energia de Curta Duração - Anaeróbico Lático

Para que o exercício extenuante possa continuar após 10 a 15seg,


o ATP deve ser ressintetizado por outra via com maior capacidade.
Essa via, conhecida como anaeróbica lática ou glicolítica, é mais
duradoura que a via alática, predominando a partir de 40seg de
exercício e permanecendo como principal via de ressíntese de ATP
até cerca de 2min a 3min.

Como pode ser observado no Quadro 1, esse sistema de ressíntese de


ATP apresenta capacidade e potência intermediárias, quando com-
parado com o sistema ATP-PC e com o sistema aeróbico. O único
substrato energético metabolizado nesta via são os carboidratos,
por isso é denominada via glicolítica.

O esquema a seguir apresenta resumidamente o trajeto bioquímico


deste sistema de ressíntese de ATP (Figura 4).

Glicólise anaeróbica

Glicose (6 carbonos) Glicogênio

Divisão
Glicose - 6 - fosfato
(2 moléculas de 3 carbonos)

Cascata de reações
Produto final 2 Ácido pirúvico + 2NADH + 2ATP

Figura 4  Reação da glicólise anaeróbica

Nota: Etapa citoplasmática de produção


Ciclo de Krebs de energia com concomitante formação de
Ácido lático
mitocôndrias ácido lático.

UNIDADE 1 - Metabolismo energético para o movimento humano  | 15


Observe que a molécula de glicose é fosforilada e clivada em duas
moléculas de três carbonos cada uma que darão origem a duas mo-
léculas de ácido pirúvico, que carregarão com elétrons (H) duas
coenzimas nicotinamida-adenina dinucleotídeo (NAD+ → NADH) e
formarão dois ATPs.

Na ausência de oxigênio, que é o caso desta via, o ácido pirúvico se


liga a dois íons hidrogênios do NADH, convertendo-se em ácido lá-
tico, com o auxílio da enzima desidrogenase lática. No sangue e nos
músculos, o ácido lático se desvincula de um íon hidrogênio e se
converte para lactato. O lactato produzido é prontamente oxidado
pelas células musculares vizinhas com uma alta capacidade oxida-
tiva, ou nos tecidos mais distantes, como o coração. Dessa forma,
o acúmulo de lactato não se torna significativo nos exercícios de
intensidade leve a moderada, uma vez que seu ritmo de produção
se equilibra com a capacidade de remoção.

Entretanto, nos esforços mais duradouros, a capacidade do orga-


nismo de oxidar o lactato é inferior à sua produção do mesmo. O
acúmulo torna-se, então, significativo e impacta no nível de aci-
dose muscular causando fadiga.

As atividades de intensidade elevada e duração entre 40seg e 2min


estão relacionadas com a alta produção de lactato, resultando, con-
sequentemente, em fadiga muscular, como as corridas de 400m, as
provas de 200m de nado livre, muitas brincadeiras infantis e ativi-
dades esportivas que se enquadram nas características de intensi-
dade e duração requeridas por esse sistema de fornecimento de ATP.

Sistema de Energia de Longa Duração - Aeróbico

A energia aeróbica é derivada de um espectro mais amplo de subs-


tratos energéticos – carboidratos, gorduras e proteínas. É conside-
rada uma fonte de ressíntese de ATP ilimitada, dada a sua grande
capacidade de produção.

As demandas advindas do metabolismo de repouso são quase total-


mente supridas pela via aeróbica. Nossos músculos respiratórios, os
batimentos cardíacos, a sustentação da postura e o movimento dos

16 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


órgãos internos são alguns exemplos do contínuo suprimento de
energia solicitado por nosso organismo em repouso.

Como observado no Quadro 1, a via aeróbica requer a presença de


oxigênio para as suas reações catabólicas e possui velocidade de res-
síntese de ATP bastante lenta. Os movimentos corporais que solicitam
duração de esforço superior a 3min se enquadram nesta categoria,
como provas de corrida 2 milhas (3km), nado livre de 1.500m e ativi-
dades contínuas de duração prolongada, como caminhada e ciclismo.

As reações do metabolismo aeróbico são apresentadas na Figura


5, destacando alguns trajetos bioquímicos que ajudam os alunos
na sequência do nosso estudo. Essa figura retrata as etapas me-
tabólicas do fracionamento de gorduras, carboidratos e proteínas.
A etapa anaeróbica da reação compõe todas as fases que ante-
cedem o ciclo de Krebs. Observa-se que, a partir da molécula de
glicose/glicogênio, é possível formar duas moléculas de ATP, com
fracionamento incompleto da glicose. A partir da conversão do
ácido pirúvico em acetil e da acoplagem da coenzima A, forma-se
a acetil-coA que dará prosseguimento às reações de fracionamento
da molécula de glicose. Esta etapa, composta do Ciclo de Krebs
e cadeia de transporte de elétrons, é denominada fase aeróbica e Figura 5  Vias metabólicas de fracionamento dos
acontece no interior da mitocôndria. carboidratos, gorduras e proteínas

GORDURAS CARBOIDRATOS PROTEÍNA


Liberação de CO2
ácidos graxos + glicerol Glicose/ glicogênio aminoácidos
Formação de 2 ATPs

Carregamento do NAD e FAD com


elétrons do hidrogênio
GLICÓLISE DESAMINAÇÂO

BETA OXIDAÇÃO Piruvato


Oxalacetato
Lactato

Acetil-CoA Ciclo de Krebs

Formação de 2 ATPs na etapa anaeróbica da glicólise

UNIDADE 1 - Metabolismo energético para o movimento humano  | 17


Em síntese, até esta etapa de nossos estudos, compreendemos que a
energia química dos alimentos é transferida para o nosso organismo
a fim de ressintetizar moléculas de alta energia – o ATP. Aprende-
mos também que o consumo de energia é variável de acordo com a
1 intensidade e duração do exercício e que a energia do nosso corpo,
embora não seja estocável em quantidades suficientes para o nosso
Assista ao vídeo sobre o processo de ressíntese esforço diário, é continuamente reciclada por meio das vias metabó-
aeróbica do ATP e em seguida responda as
questões postadas na plataforma Moodle. licas de ressíntese de ATP.

MEDIDA DO CONSUMO DE ENERGIA


Como é possível mensurar o gasto energético
no movimento Humano?

Agora que entendemos um pouco mais das necessidades energéticas


para o movimento humano, vamos aprender sobre as formas de ava-
liar o consumo energético.

Sabe-se que todos os processos metabólicos humanos resultam em


produção de calor. Portanto, a mensuração do calor produzido é
utilizada para a determinação da taxa metabólica. A essa técnica
denominamos calorimetria direta (Figura 6).

Água Isolamento
fria

Calor Calor

Saída Entrada
de ar de ar

Figura 6  Câmara de mensuração do


metabolismo humano, por meio de Água aquecida
calorimetria direta

Nota: O calor produzido pelo corpo é Absorvedor


transferido para o ar e para as paredes da de CO2 Suprimento de O2
câmara. Esse calor é mensurado pelo registro
da alteração da temperatura no ar e na água
que fluem em volta da parede da câmara. Circuito de resfriamento

18 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Outra medida laboratorial do metabolismo se baseia na premissa de
que todas as reações que liberam energia no corpo dependem essen-
cialmente da utilização de oxigênio. A mensuração do consumo de
oxigênio de uma pessoa durante as atividades físicas fornece uma
estimativa indireta, porém altamente precisa do dispêndio energé-
tico – calorimetria indireta (teste cardiopulmonar).

O teste cardiopulmonar, aplicado num esforço progressivo, vem


sendo uma boa alternativa na prática clínica para avaliação das
condições do sistema cardiorrespiratório em fornecer oxigênio para
as funções fisiológicas.

Quando a mensuração da capacidade de produzir energia é aplicada


para atividades duradouras, referimo-nos à medida da capacidade
aeróbica, classificada pelo consumo máximo de oxigênio – VO2 máx.
No entanto, a energia pode ser proveniente de reações rápidas e de
grandes intensidades de esforço físico. Neste caso, dizemos que a
mensuração é da capacidade anaeróbica – lática ou alática.

Embora muito eficientes, os métodos laboratoriais de mensuração da


capacidade energética humana são bastante onerosos e pouco acessí-
veis aos profissionais que atuam no campo da Educação Física Escolar.

Contudo, conhecer e aplicar esses testes de medidas fisiológicas torna-


se importante aos profissionais da Educação Física, uma vez que eles
lhes permitem apropriar-se de informações relacionadas com a apti-
dão física e melhorias nas condições físicas advindas do treinamento,
que são necessárias para a utilização no âmbito educativo.

UNIDADE 1 - Metabolismo energético para o movimento humano  | 19


20 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos
O SISTEMA NEUROMUSCULAR
E O CONTROLE DO
MOVIMENTO HUMANO
UNIDADE

O SISTEMA NEUROMUSCULAR E O CONTROLE DO MOVIMENTO HUMANO

O estudo do controle do movimento humano é


fascinante! Pense no emaranhado de conexões
neuromusculares que envolve o controle motor durante
uma partida de futebol.

Enquanto o jogador se desloca no campo, ao mesmo


tempo, é necessário dominar o movimento da bola,
protegê-la da abordagem do adversário, manter a
visão de seu posicionamento no campo e de seu alvo...
Tudo isso somado ao som e à visão da multidão que
esbraveja, do técnico que orienta... (grita!)

Enfim, são múltiplas as informações sensoriais e as


respostas motoras que dependem de aprendizagem e
controle emocional.

Vamos agora, então, adentrar por esse interessante


campo de estudo, iniciando pelo (re)conhecimento das
características morfológicas e funcionais dos músculos
e do sistema nervoso. Vamos lá!

  MÚSCULO ESQUELÉTICO: ESTRUTURA E FUNÇÃO  23    A TEORIA DOS FILAMENTOS DELIZANTES  26 
  CONTROLE NEUROMUSCULAR DO MOVIMENTO  27    CONTRAÇÃO MUSCULAR  29 
  TIPOS DE FIBRAS MUSCULARES  31 
MÚSCULO ESQUELÉTICO:
ESTRUTURA E FUNÇÃO

Como é organizado o tecido muscular?

No fascículo de Corpo, Movimento e Conhecimentos Biológicos,


vocês viram que existem três diferentes tipos de tecidos muscula-
res com características morfológicas e fisiológicas diferenciadas: os
músculos liso, cardíaco e esquelético.

Neste capítulo, vamos abordar especialmente o músculo esquelético,


uma vez que se trata do tecido muscular responsável pelo movi-
mento locomotor humano. No entanto, destacamos que muitas in-
formações que aqui serão tratadas servem de base para a compreen-
são da funcionalidade dos outros tipos musculares.

A constituição da fibra muscular

A organização do tecido muscular pode ser compreendida melhor


no detalhamento da Figura 7, na qual se observa um músculo em
um corte transversal, recoberto externamente por um envoltório de
tecido conjuntivo – epimísio; mais internamente veem-se feixes de
fibras musculares envoltos pelo perimísio; e cada fibra muscular, por
sua vez, é recoberta pelo endomísio. Essa organização interna do
músculo garante a perfeita fixação do tecido muscular nas alavan-
cas ósseas, pela formação dos tendões, e ainda favorece a contração
do músculo esquelético em conjunto, visto que as fibras musculares
que estão em contração arrastam as demais para o encurtamento,
pois se encontram ancoradas umas às outras.

Epimísio Figura 7  Organização estrutural da


Endomísio Sarcômero fibra muscular
Miofilamento

Fibra Muscular
Miofibrila
Feixe
Muscular Perimísio
Sarcolema

Músculo

UNIDADE 2 - O sistema neuromuscular e o controle do movimento humano  | 23


Debaixo do endomísio e circundando cada fibra muscular, existe o
sarcolema, que é constituído da membrana plasmática (plasmalema)
estrutura responsável por envolver o conteúdo celular, permitindo o
transporte seletivo de íons e substâncias para o interior e exterior da
célula (Figura 7). Dessa forma, a fibra muscular conduz uma onda
eletroquímica capaz de produzir a contração muscular, como vere-
mos mais adiante.

O interior aquoso da célula, denominado sarcoplasma, é composto


de enzimas, íons, substratos energéticos, vesículas e uma organela
importante no processo contrátil – o retículo sarcoplasmático.

O retículo sarcoplasmático (RS), ilustrado na Figura 8, é essencial


para o armazenamento e fornecimento de cálcio (Ca++), um íon cru-
cial para disparar o processo de contração muscular. Essa organela
encontra-se dilatada nas suas extremidades, formando as cisternas
terminais, que interagem com o plasmalema na região dos túbulos
transversos (túbulos “T”).
Miofibrila

Sarcolema

Banda I Zona Z Túbulo


Transversal

Zona H
Banda A
Túbulos do retículo
sarcoplasmático
Figura 8  O sistema de condução
eletroquímica da fibra muscular

Nota: Cada miofibrila possui retículos Cisterna


sarcoplasmáticos muito desenvolvidos Banda I Zona Z terminal do retículo
que terminam em cisternas terminais, que sarcoplasmático
interagem com invaginações do plasmalema
(túbulos transversos)

24 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Cada fibra muscular é formada pela agregação de unidades funcio- Figura 9   Esquema da estrutura
microscópica do músculo
nais menores, localizadas paralelamente ao eixo longitudinal da fi-
bra – as miofibrilas (Figura 9) – que são constituídas principalmente Nota: Observa-se a fibra muscular
extensivamente capilarizada e as miofibrilas,
por filamentos de proteínas motoras (85%) actina e miosina; e em constituídas das proteínas contráteis actina e
miosina, que formam os sarcômeros
sua menor parte, por proteínas estruturais ou proteínas modulató-
rias da contração muscular. Tendão

As proteínas estruturais (nebulina, proteína C, proteína M, α-actinina,


desmina e titina) mantêm a integridade do sarcômero; enquanto as prote- Músculo

ínas modulatórias (troponina e tropomiosina) formam um complexo pro- Membrana


teico que libera a interação entre a actina e miosina.

As miofibrilas apresentam faixas claras e escuras, que conferem um


Fibras musculares
aspecto estriado para o músculo. Na Figura 10, observa-se a menor
Capilares
unidade contrátil do músculo – o sarcômero que é delimitado por
duas linhas “z” nas extremidades, formando as faixas “I” ou isotró-
picas, constituídas de filamentos finos de actina, que apresentam
coloração mais clara, e as faixas “A” ou anisotrópicas, formadas por Feixe
filamentos grossos de miosina e actina, e com coloração escura. No de fibras

centro do sarcômero na faixa “A”, encontra-se a zona “H”, que é


Miofibrila
uma região onde se concentra a parte filamentosa da miosina.

A compreensão da organização dos componentes da fibra muscular,


das proteínas contráteis (actina e miosina), da existência de prote-
ínas modulatórias (troponina e tropomiosina) e proteínas estrutu-
Sarcômero
rais (nebulina, proteína C, proteína M, α-actinina, desmina e titina)
certamente facilitará o entendimento do mecanismo de contração
muscular, que é sem dúvida um evento fisiológico muito importante
para o nosso aprofundamento acadêmico.

Filamento
grosso

Disco Z Disco Z

Filamento grosso (miosina) Figura 10   O sarcômero e sua organização estrutural Cabeça de


Molécula de
em faixas claras e faixas escuras, dada pela distribuição miosina
Filamento fino actina
das proteínas actina e miosina.
Molécula de
miosina

UNIDADE 2 - O sistema neuromuscular e o controle do movimento humano  | 25


A TEORIA DOS FILAMENTOS DELIZANTES

Como o músculo contrai?

Muito bem! Agora que vocês leram com atenção o assunto anterior,
e após analisarem com muito cuidado cada uma das figuras apre-
sentadas, podemos nos concentrar em compreender o mecanismo da
contração muscular.

A teoria dos filamentos delizantes  Inicialmente, é necessário escla-


recer que a explicação para o processo de contração muscular ainda
é considerada uma teoria, uma vez que não há comprovações con-
clusivas para explicar o fenômeno. No entanto, as evidências que
sustentam a teoria do “Modelo do filamento deslizante” proposto
por Hugh e Andrew Huxley, na década de 1950, são consideráveis
(SILVERTHORN et al., 2003).

A teoria propõe que um músculo se encurta ou se alonga porque os


filamentos espessos (miosina) e finos (actina) deslizam uns sobre os
outros. As pontes cruzadas de miosina, que se fixam à actina, rodam
e se separam ciclicamente dos filamentos de actina com a energia
proveniente da hidrólise do ATP. Isso modifica o tamanho dentro das
zonas e faixas do sarcômero, produzindo força ao nível da linha “z”
(Figura 11).
Faixa A
Linha Z Zona H Linha Z

Repouso:
comprimento do sarcômero = 4,0 μm

Filamento fino Filamento


espesso

Figura 11  Arranjo estrutural das


proteínas motoras actina e miosina
no repouso e em níveis diferentes de
encurtamento muscular Contração: comprimento do sarcômero = 2,7 μm

26 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


CONTROLE NEUROMUSCULAR DO MOVIMENTO

A inervação do músculo

Agora que já entendemos o processo mecânico da contração muscu-


lar, precisamos compreender como é disparado o estímulo nervoso
que permite a propagação de potencial elétrico no músculo (despo-
larização) para iniciar a contração muscular.

O sistema nervoso é didaticamente dividido em sistema nervoso


central (SNC), compreendendo as regiões protegidas pelo esqueleto
da calota craniana e coluna vertebral (encéfalo e medula espinhal)
e sistema nervoso periférico (SNP), no qual se incluem todos os
nervos sensoriais ou aferentes, que levam informações sensitivas
para o SNC; e os nervos motores ou eferentes, que executam as or-
dens do SNC, ou seja, levam informações motoras para a periferia
do corpo (Figura 12).
Cérebro

No sistema nervoso central,


mais especificamente no
córtex motor, é disparado Sistema
nervoso
um estímulo nervoso que central
trafega por um nervo motor
até a unidade motora que,
por sua vez, distribui para
Medula
as diversas junções mio- espinhal
neurais ou placas motoras,
que consistem no ramo de
um nervo motor em co-
nexão com uma única fi-
Sistema
bra muscular (Figura 13). nervoso
periférico
A porção neural da placa
motora e é constituída de
vesículas sinápticas que
armazenam o neurotrans-
missor acetilcolina, que irá
interagir com receptores
na fibra muscular, despo-
larizando-a (Figura 14). Figura 12  Organização do sistema nervoso.

UNIDADE 2 - O sistema neuromuscular e o controle do movimento humano  | 27


Córtex motor

Cérebro
Córtex sensitivo

Medula espinhal

Nervo sensitivo

Nervo motor

Pele

Figura 13  O trajeto sensitivo e motor cortical

Nota: O córtex motor envia um estímulo através


de um nervo motor para a unidade motora, e esta
distribui para cada fibra muscular, através da
Receptores sensitivos placa motora ou junção neuromuscular
Placa motora Músculos

Vesículas sinápticas

Bulbo axônio

Neurotransmissores
Figura 14  A placa motora (junção mioneural) Fenda sináptica

28 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


A CONTRAÇÃO MUSCULAR

Sequência de eventos da contração muscular

Assim que o estímulo chega à placa motora, é liberado o neuro-


transmissor acetilcolina, que se encontra armazenado na porção
terminal do nervo motor. A acetilcolina age em receptores de mem-
brana na fibra muscular, abrindo canais iônicos de sódio (Na+),
despolarizando a fibra, ao longo de toda a membrana, inclusive
nos túbulos transversos. A mudança de voltagem interna da célula
favorece a liberação de cálcio, armazenado no retículo sarcoplas-
mático, e a entrada de cálcio (Ca++) extracelular. Essa abrupta alte-
ração na concentração intracelular de íons Ca++ estimula a proteína
troponina, que possui um sítio de ligação para esse íon. A tropono-
nina, que é ligada à tropomiosina, ao ser ativada, movimenta este
complexo (troponina-tropomiosina) liberando o sítio de ligação da
actina com a miosina, favorecendo a interação para a formação
das pontes cruzadas (actina-miosina), que irão se movimentar, en-
curtando o músculo.

Além da ativação das proteínas motoras, mediada pelo Ca++, outro


elemento essencial para a contração muscular é a presença de ener-
gia (ATP). A hidrólise do ATP ocorre continuamente na cabeça da
miosina, mediada pela enzima miosina ATPase, liberando energia
para a movimentação da miosina e interação com a actina.

Portanto, sem a presença de Ca++, mesmo que haja energia suficiente


para movimentar a miosina sobre a actina, não há interação entre
elas, pois é esse íon que permite a liberação da área de acoplagem.

Os eventos elétricos e mecânicos responsáveis pelo processo de con-


tração muscular podem ser sintetizados na Figura 15.
2
Vamos agora assistir a alguns vídeos sobre o sistema muscu-
lar e a teoria da contração? Em seguida, retomem a Figura Este vídeo está dividido em 4 partes
15 para verificar a compreensão do assunto.

UNIDADE 2 - O sistema neuromuscular e o controle do movimento humano  | 29


1
Vesículas As vesículas saciformes dentro do
sinápticas axônio terminal liberam ACh que se Túbulo T
difunde através da fenda sináptica e se
fixa aos receptores especializados de
ACh sobre o sarcolema. 2
O potencial de ação do músculo
despolariza os túbulos transversos na
junção A-I do sarcômero.

ACh

Onda de despolarização

3
A despolarização do sistema de
túbulos T acarreta a libaração de
Fenda Ca2+ pelos sacos laterais do retículo
sinápticas Receptor de ACh
sarcoplasmático.

8 Quando a estimulação muscular cessa, a


Ca2+
concentração de Ca cai rapidamente e
2+ Ca2+
o Ca2+ desloca-se de volta para os sacos Ca 2+
Ca 2+
Ca2+
laterais do retículo sarcoplasmático graças Ca2+
ao transporte ativo que depende da Ca2+
hidrólise do ATP. Ca 2+ Ca2+
Ca2+
Ca2+ Ca2+ Ca2+
9 A remoção de Ca restaura a ação inibitória
2+

de troponina-tropomiosina. Na presença de Ca 2+

ATP, actina e miosina continuam no estado


dissociado e relaxado.
Filamento de Retículo 4
Ca2+ Ca2+ Ca2+ Ca +2 fixa-se à troponina-tropomiosina
actina sarcoplasmático
nos filamentos de actina. Isso elimina a
inibição que impedia a combinação de
Ca2+ Ca2+ Miosina ATPase
Ca2+ actina com miosina.

Locais de Ca2+ Ca2+ Ca2+


Complexo troponina
fixação da
miosina
ADP ATP Ca2+
5 Movimento da ponte cruzada
Durante a contração muscular, a actina combina-se com
miosina ATPase para fracionar o ATP com liberação de
energia. A tensão produzida pela liberação de energia
produz movimentação das pontes cruzadas de miosina
Ca2+
Filamento de Ca2+
Ca2+
miosina Ca2+
ATP ATP A ponte cruzada se dissocia

6
7 O ATP une-se à ponte cruzada de miosina, rompendo a
A ativação das pontes cruzadas prossegue quando ligação actina-miosina permitindo que a ponte cruzada
a concentração de Ca2+ continua alta (em virtude da se dissocie da actina. Isso dá origem ao deslizamento dos
despolarização da membrana) para inibir a ação do filamentos espessos e finos, que acarreta o encurtamento
complexo troponina-tropomiosina do músculo

Figura 15  Eventos elétricos e mecânicos da contração e relaxamento muscular.

Nota: O neurotransmissor acetilcolina (ACh) é liberado pelas vesículas saciformes dentro do axônio terminal, facilitando a transmissão nervosa na junção
neuromuscular; o sinal eletroquímico “salta” através da fenda sináptica chegando à fibra muscular, na junção da banda A e I (A-I); ativando a liberação de cálcio
do retículo sarcoplasmático, que vai acionar a maquinaria contrátil do músculo.

30 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


TIPOS DE FIBRAS MUSCULARES

Todas as fibras musculares possuem


as mesmas características?

Nossos estudos, até o momento, esclareceram sobre o mecanismo da


contração muscular em sua base molecular. No entanto, podemos
observar que, no cotidiano, somos capazes de realizar diferentes in-
tensidades e durações de contração muscular. Quando trabalhamos
em nossas aulas de Educação Física atividades, por exemplo, o fu-
tebol, notamos que nossos alunos correm mais intensamente nos
momento de contra-ataque e que eles se deslocam mais lentamente
para movimentar-se e posicionar-se no jogo. Vemos ainda que o
chute para marcação de um pênalti pode ser mais forte que um passe
para um colega que está próximo. Todo esse controle motor é ditado
por estruturas do SNC que são capazes de interpretar o ambiente e a
situação do jogo para solicitar as fibras musculares mais capacitadas
para essa ação.

Portanto, ao seguir esta lógica, somos capazes de concluir que exis-


tem diferentes tipos de fibras musculares, que exibem o mesmo me-
canismo de contração muscular, mas com capacidades energéticas e
contráteis diferenciadas.

No Quadro 2, são apresentadas as características das fibras muscula-


res, de acordo com a capacidade contrátil – contração lenta (tipo I)
e contração rápida (tipo II A e IIB).

A análise do Quadro 2 deste capítulo revela a presença


de diferentes tipos de fibras musculares. Com base nesse
conteúdo, faça uma lista de pelo menos três atividades que
podem ser trabalhadas nas aulas de Educação Física, ca-
racterizando o tipo de fibra muscular mais solicitada em
cada uma delas.

UNIDADE 2 - O sistema neuromuscular e o controle do movimento humano  | 31


Quadro 2 - Características morfológicas, histoquímicas e contráteis das fibras musculares

Contração Lenta Contração rápida

Morfologia I IIA IIB

Cor Vermelha Vermelha/branca Branca

Diâmetro Pequeno Intermediário Grande

Volume mitocondrial Alto Intermediário Baixo

Capilares (mm2) Altos Intermediários Baixos

HISTOQUÍMICA/BIOQUÍMICA

Miosina ATPase Baixa Alta Alta

Capacidade manipular Ca++ Baixa Intermediária Alta

Capacidade glicolítica Baixa Alta Alta

Capacacidade oxidativa Alta Intermediária Baixa

FUNÇÃO E CONTRATILIDADE

Velocidade contração Lenta Rápida Rápida

Velocidade relaxamento Lenta Rápida Rápida

Resistência à fadiga Alta Intermediária Baixa

Capacidade força Baixa Intermediária Alta

32 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


O SISTEMA CARDIOVASCULAR
NO EXERCÍCIO
UNIDADE

O SISTEMA CARDIOVASCULAR NO EXERCÍCIO

A evolução da vida se configurou pela


associação dos organismos unicelulares em
colônias cooperativas, que passaram a ter maior
facilidade de sobrevivência nessa relação simbiótica e
evoluíram posteriormente para organismos multicelulares.

Embora essa evolução representasse um extraordinário


avanço, que culminou na formação do fabuloso organismo
humano, um problema foi instalado: esses seres multicelulares
precisavam trocar nutrientes e oxigênio com o ambiente, e
o processo de difusão tornara-se bastante limitado, dado o
aumento de tamanho dos organismos.

A solução encontrada pela natureza foi o desenvolvimento evolutivo do


sistema cardiovascular, uma vez que a centralização das estruturas corporais
que ocorreu nesse trajeto de aprimoramento da vida exigiu um sistema de
distribuição de elementos vitais e integração entre os sistemas corporais.

Atualmente sabemos que o sistema cardiovascular se constitui de uma


bomba cardíaca que propulsiona o sangue através de um sistema de
vasos arteriais fechados, onde o fluxo sanguíneo tramita numa rota
unidirecional, distribuindo nutrientes, gases, moléculas sinalizadoras e
removendo resíduos das células e líquidos corporais.

  ESTRUTURA E FUNÇÃO CARDIOVASCULAR  35    DISTRIBUIÇÃO DO DÉBITO CARDÍACO NO REPOUSO E NO EXERCÍCIO  42   
  PRESSÃO ARTERIAL NO REPOUSO E NO EXERCÍCIO  45 
No entanto, na Antiguidade, acreditava-se que o
sangue era produzido pelo fígado e distribuído pelo
corpo através das veias, e que os pulmões recebiam
o ar atmosférico e enviavam ao coração, onde era
digerido e transformado em “espíritos vitais” a se-
rem distribuídos para o corpo pelas artérias.

Essa teoria foi contestada por William Harvey


(Figura 16) que calculou a quantidade de sangue
bombeada pelo coração em uma hora, constatando
que o peso dessa produção era superior ao peso
corporal, e com isso comprovou a incapacidade do
fígado de produzir essa quantidade total de sangue
para prover o corpo com os elementos vitais.

Atualmente muitos conhecimentos foram produ-


zidos, o que nos permite conhecer, com bastante
propriedade, o funcionamento do sistema cardio-
vascular. Portanto, eu os convido a percorrermos
algumas trilhas deste fascinante campo de estudo.

Considerando a teoria antiga de que todo o


sangue necessário ao corpo era continuamente produzido Figura 16  William Harvey (1578 – 1657)

pelo fígado, analisem, assim como Harvey, o total de sangue Nota: Esse cientista descreveu detalhes do
necessário para uma hora de vida. Como referência, vamos sistema cardiocirculatório no século XVII

considerar que o coração bombeia cerca de cinco litros de


sangue por minuto.

ESTRUTURA E FUNÇÃO CARDIOVASCULAR

O sistema cardiovascular é formado por uma conexão contínua de


uma bomba – o coração; um circuito de distribuição de sangue com
alta pressão – as artérias e as arteríolas; os canais de permuta – os
capilares; e um circuito de coleta e de retorno do sangue, de baixa
pressão – as vênulas e veias.

Esse circuito disposto em linha reta pode atingir uma extensão de


160.000km de vasos sanguíneos (McARDLE et al., 2003) figura 17.

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 35


Cabeça e braços

Veias provenientes da parte Artérias para a parte


superior do corpo Artéria superior do corpo
pulmonar

Veia cava Aorta


superior Veia pulmonar

Pulmão Pulmão

2
4
Veia cava
inferior
Veias hepáticas Artérias hepáticas
Veias provenientes da parte
inferior do corpo

Legenda Fígado
Veia porta
1 - Átrio esquerdo
2 - Ventrículo esquerdo Canal alimentar Artérias para a parte
3 - Átrio direito inferior do corpo
4 - Ventrículo direito

Rins

Pernas

Figura 17  O sistema cardiovascular

Nota: A bomba cardíaca direciona o sangue


para os vasos arteriais onde seguirá para a
circulação sistêmica ou pulmonar

36 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Cada um dos constituintes do sistema cardiovascular esboça proprie-
dades funcionais importantes para garantir a homeostasia do sistema.

O coração

O coração é o órgão central do sistema cardiovascular, também cha-


mado de bomba cardíaca. Localiza-se na região ventral da cavidade
torácica, entre os dois pulmões (Figura 18). A parte inferior do coração
é denominada ápice e a parte superior é a base. Externamente, o órgão
é envolvido por uma membrana de tecido conjuntivo com fluido, que
permite a movimentação da bomba cardíaca reduzindo o atrito.

Glândula tireóide
Traqueia

Pulmão Primeira costela

Diafragma

Ápice do coração
Diafragma Pericárdio

A B
O coração está na parte
ventral da cavidade torácica, O coração está envolvido dentro de
posicionado entre os pulmões. um saco embranoso, preenchido
com fluido, o pericárdio.

O coração é constituído de quatro câmaras, os átrios direito e es- Figura 18  A bomba cardíaca

querdo, e os ventrículos direito e esquerdo (Figura 19). Os átrios Nota: Localizada na cavidade torácica entre os
estão posicionados na base do coração e recebem o sangue prove- dois pulmões (A), e o coração envolvido pelo
pericárdio (B).
niente do retorno venoso da circulação sistêmica (veias cavas su-
periores e inferiores), ou dos pulmões (veias pulmonares direita e
esquerda), após o processo de hematose.

Na Figura 19, é possível observar ainda as grandes artérias pulmo-


nares, a aorta ascendente e descendente, as válvulas atrioventricula-
res (tricúspide e mitral), válvulas pulmonares e aórtica.

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 37


Veia cava superior
Aorta

Artéria
pulmonar
direita Artéria pulmonar esquerda

Veia pulmonar esquerda

Figura 19  Anatomia cardíaca: ventrículos, Átrio direito Válvula pulmonar


átrios, artérias pulmonares e aorta, veias
cava superior e inferior, veias pulmonares e Válvula átrio-ventricular
válvulas cardíacas. esquerda-mitral (bicúspide)
Válvula
átrio-ventricular
direita-tricúspide

3 Ventrículo
esquerdo
Veia cava
inferior
Para complementar os seus estudos,
veja alguns vídeos sobre o ciclo cardíaco
disponíveis na plataforma. Esse conteúdo Ventrículo direito
Aorta descendente
encontra-se dividido em 3 partes.

Miocárdio - o músculo cardíaco

O músculo cardíaco, denominado miocárdio, possui propriedades


contráteis semelhantes às do músculo esquelético, ou seja, é consti-
tuído de proteínas motoras que deslizam umas sobre as outras para
promover a contração do miocárdio – sístole; ou relaxam para ocor-
rer a diástole. As duas etapas, sístole e diástole, são respectivamente
os momentos de ejeção cardíaca e enchimento cardíaco.

A contração do miocárdio é também mais dependente de cálcio


extracelular, uma vez que o retículo sarcoplasmático cardíaco não
apresenta capacidade suficiente de armazenamento de cálcio. Sendo
assim, o coração é mais sensível a alterações de cálcio plasmático.

Apesar de muitas similaridades entre o miocárdio e o músculo es-


quelético, é necessário destacar também particularidades importan-
tes que favorecem o funcionamento do órgão cardíaco. O coração
exibe fibras musculares mais curtas que se organizam à maneira de
uma treliça, favorecendo o contato entre as células do miocárdio
– os cardiomiócitos. Existem ainda as junções comunicantes, que
são canais proteicos continuados entre dois cardiomiócitos (Figura

38 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


20). Essas características permitem a propagação da estimulação, ou
seja, a despolarização de uma única célula se difunde para as seguin-
tes. Consequentemente, o coração funciona tal como uma unidade,
bombeando o sangue com eficiência.
Retículo sarcoplasmático

Junções comunicantes
Desmossomos

Sarcômero

Figura 20  Ilustração esquemática


do músculo cardíaco com as junções
Túbulos “T” Zônulas de adesão comunicantes e zônulas de adesão.

A condução elétrica cardíaca


o sistema de His- Purkinkje

Vocês observaram, no vídeo indicado, que o coração possui um


sistema especializado para condução do impulso elétrico. É como
se o impulso, à semelhança de uma via de tráfego urbana, devesse
seguir por ruas e avenidas específicas para chegar mais rapida-
mente ao seu destino.

Esse sistema denominado sistema de His-Purkinkje, consiste em um


trajeto de células especializadas do miocárdio que possuem capaci-
dade de despolarização mais rápida, e por isso coordena a condução
do impulso cardíaco e, consequentemente, a contração sincrônica do
miocárdio (Figura 21).

O sistema de condução elétrico-cardíaca se inicia no nodo sinu-


sal ou sinoatrial (SA), posicionado junto à entrada da veia cava
(átrio direito), e é considerado o marca-passo cardíaco, pois é nele
que se inicia o impulso de propagação. Em seguida, o impulso
é distribuído aos átrios direito e esquerdo pelas vias internodais;

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 39


passando para o nodo atrioventricular (AV), que retarda o estímulo
para permitir que a contração atrial anteceda a contração ventricu-
lar. Posteriormente, o estímulo tramita pelo septo interventricular
e adentra para o interior das paredes ventriculares, favorecendo a
contração ventricular.

Nodo sinusal - SA
Ramos atriais
Nodo atriventricular Feixe de HIS
Ramos direito e
esquerdo de purkinje

Ramos direito e
esquerdo de HIS
Figura 21  Sistema de condução
elétrica do coração

Eletrocardiograma  A condução elétrico-cardíaca é registrada na clínica


4 médica por meio dos sinais eletrocardiográficos. A observação do eletro-
cadiograma (ECG) nos permite identificar se há anormalidades no ritmo
cardíaco, revelando importantes patologias que podem ser tratadas por
Veja a animação da condução cardíaca e a
relação desta com os sinais eletrocardiográficos. intervenções dos profissionais de saúde.

Os vasos sanguíneos

Os vasos sanguíneos constituem o sistema de transporte e distribui-


ção do sangue. A estrutura dos componentes vasculares é variável
de acordo com a solicitação hemodinâmica imposta.

Sendo assim, encontramos nas artérias, que são tubos de alta pressão
para impulsão do sangue para os tecidos, uma espessa camada de
músculo liso, que garante o controle da tonicidade vascular e, con-
sequentemente, do diâmetro da luz vascular, ou lúmen (Figura 22).

A tonicidade vascular diz respeito ao nível de contração sustentada do


músculo liso vascular. Pode ser modulada por mecanismos neurais, hormo-

40 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


nais ou parácrinos, determinando o aumento da luz vascular – vasodilata-
ção ou a redução da luz vascular – vasoconstrição.

Capilares

Adventícia
Músculo liso vascular
Endotélio
Lúmen vascular

Figura 22  Os vasos sanguíneos provenientes


do coração - artérias, arteríolas e capilares; e de
Do coração - Artéria Para o coração - Veia retorno cardíaco – vênulas e veias

À medida que se progride em direção aos tecidos, os vasos tornam-


se menos calibrosos e mais ramificados – são as arteríolas que for-
mam uma extensa rede de distribuição sanguínea em direção aos
capilares teciduais.

Nos capilares, encontramos vasos com parede muito delgada, de-


nominada endotélio, e ainda mais ramificados. É nos capilares que
ocorre o processo de troca entre os elementos vasculares e intersti-
ciais, para provimento dos tecidos corporais.

Após passagem pelos capilares, o sangue reduz seu estoque de oxi-


gênio, uma vez que uma importante fração desse gás é destinada
aos tecidos, tais como: músculos esqueléticos, músculos lisos do
trato gastrointestinal, rins, cérebro, fígado, pele e demais vísceras
e glândulas corporais.

Você sabia que alguns tecidos extraem uma fração pequena de oxigênio do
sangue arterial? É o caso do músculo esquelético, que geralmente apro-
veita apenas 20% a 25% do oxigênio circulante, enquanto o miocárdio,
em geral, extrai cerca de 70% a 80% de oxigênio ofertado.

O retorno do sangue é garantido pelos vasos venosos, ou seja, as


vênulas e veias. As veias possuem camadas teciduais semelhantes

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 41


às artérias, porém mais delgadas. O fluxo sanguíneo que passa pelos
vasos venosos segue de maneira unidirecional para o coração, uma
vez que existem válvulas que impedem o contrafluxo de sangue
causado por ação gravitacional.

DISTRIBUIÇÃO DO DÉBITO CARDÍACO


NO REPOUSO E NO EXERCÍCIO
A cada batimento cardíaco, o coração de um homem adulto, de esta-
tura mediana, ejeta cerca de 71ml de sangue na circulação sistêmica;
e, a cada minuto, o coração é capaz de contrair e, consequentemente,
ejetar em torno de 70 vezes. Então, conforme ilustrado, podemos di-
zer que, por minuto, a bomba cardíaca trabalha com a capacidade de
ejetar cerca de 4.970ml de sangue, ou seja, quase 5l/min!

Esse parâmetro é denominado débito cardíaco, que consiste na


quantidade de sangue bombeada pelo coração durante o período de
um minuto.

Débito Cardíaco = Frequência Cardíaca x Volume Sistólico

É importante ressaltar que o débito cardíaco é um parâmetro bas-


tante variável, que se adapta às solicitações metabólicas de nosso
corpo. Portanto, quando observamos elevações da frequência cardí-
aca de nossos alunos durante as aulas de Educação Física, podemos
concluir que isso ocorre para elevar a quantidade de sangue dispo-
nibilizada pelo coração – o débito cardíaco.

Então, se o coração responde às necessidades sanguíneas do corpo,


como é distribuído o débito cardíaco ao longo dos sistemas corporais?

Para responder a essa pergunta, vamos observar o quadro 3, que


apresenta a distribuição do débito cardíaco através dos órgãos cor-
porais, no repouso e no esforço físico.

Observa-se que, no repouso, a região do abdome, que representa


uma área corporal pequena, comparada com a massa muscular de
todo o corpo, recebe cerca de 24% de todo o débito cardíaco. Nesse

42 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


mesmo raciocínio, nota-se que os rins são também claramente mais
perfundidos, com um fluxo de 19%, assim como o cérebro (13%).

Quadro 3 - Distribuição do débito cardíaco nos órgãos e áreas corporais,


em repouso, no exercício leve, extenuante, e máximo

Repouso Exercício leve Exercício extenuante Exercício máximo

Cérebro 750 (13%) 750 (8%) 750 (4%) 750 (3%)

Coração 250 (4%) 350 (3,5%) 750 (4%) 1000 (4%)

Músculo 1200 (21%) 4500 (47%) 12500 (72%) 22000 (88%)

Pele 500 (8,5%) 1500 (16%) 1900 (11%) 600 (2,5%)

Rim 1100 (19%) 900 (9,5%) 600 (3,5%) 250 (1%)


Abdôme 1400 (24%) 1100 (11,5%) 600 (3,5%) 300 (>1%)
Outros 600 (10,5%) 400 (0,5%) 400 (2%) 100 (<1%)
Total 5800 ml (100%) 9500 (100%) 17500 (100%) 25000 (100%)

Esse privilégio na perfusão sanguínea desses órgãos (vísceras gas-


trintestinais e rins) se justifica pela intensa atividade metabólica
dessas áreas no processo de digestão e filtragem sanguínea. Quanto
ao cérebro, é perceptível a necessidade de maior aporte sanguíneo,
em qualquer situação (repouso ou esforço físico), uma vez que se
trata do sistema primário à manutenção da coordenação de todas as
demais funções fisiológicas.

No entanto, à medida que nos movimentamos da intensidade leve


até o esforço máximo, observa-se que ocorre aumento expressivo
do débito cardíaco de até cerca de 25.000ml (FOSS; KETEYIAN,
1998). Um aumento de quase cinco vezes do parâmetro de repouso!

E para onde se destina esse aumento do débito cardíaco?


E para quê?

Continue observando o quadro 3, para analisar quais órgãos e


estruturas corporais são mais privilegiados com aporte sanguí-

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 43


neo durante o exercício. Discuta com os colegas sua interpre-
tação. Sugestão de leitura: McArdle et al. (2003, cap. 17).

As adaptações de fluxo sanguíneo decorrentes do exercício físico


não poderiam ser explicadas apenas pelas alterações na capacidade
de bombeamento cardíaco, uma vez que o território vascular tam-
bém interfere na distribuição de sangue para os tecidos corporais.

Então, precisamos entender ainda o que acontece com os vasos san-


guíneos durante o esforço físico. Como mencionado, os vasos arte-
riais exibem capacidade de se dilatarem ou contraírem, modulando
a passagem do sangue pelo lúmen. Dessa forma, o mecanismo de
vasodilatação torna-se predominante nas áreas onde o metabolismo
se encontra mais elevado. No caso do exercício, podemos desta-
car os músculos esqueléticos ativos e o miocárdio como as regiões
preferenciais para desvio seletivo do fluxo sanguíneo mediado pelo
mecanismo de vasodilatação (Figura 23).

Óxido nítrico
(ON)

Luz arterial

Células
endoteliais

Células
musculares
lisas
Figura 23  Mecanismo de regulação
local do fluxo sanguíneo. Vasodilatação Tecido
mediada por fatores relaxantes derivados conjuntivo
do endotélio (óxido nítrico) fibroso

Ao contrário, nas áreas de menor atividade metabólica (vísceras ab-


dominais), o fluxo sanguíneo encontra-se limitado pelo mecanismo
de vasoconstrição. Portanto, mesmo com o aumento do débito car-
díaco, essas áreas passam a receber menor quantidade de sangue por
restrição mecânica do vaso sanguíneo.

A vasodilatação metabólica é um mecanismo miogênico, ou seja,


acontece apenas no músculo liso vascular, mediado pela liberação
de fatores relaxantes derivados do endotélio, por exemplo, o óxido

44 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


nítrico, enquanto o mecanismo de vasoconstrição é de ordem neural,
controlado pelos estímulos do sistema nervoso autônomo simpático.

PRESSÃO ARTERIAL NO REPOUSO


E NO EXERCÍCIO
Agora que já conhecemos as alterações cardiovasculares do exercício,
vamos estudar um importante parâmetro clínico que tem merecido a
atenção dos profissionais ligados à área de saúde - a pressão arterial.

A pressão arterial é a tensão gerada no sistema arterial quando da


passagem do sangue. Dessa forma, a cada contração do ventrículo
esquerdo, uma onda de sangue é impulsionada através da aorta. Os
vasos periféricos não permitem o escoamento do sangue para dentro
do sistema arterial com a mesma rapidez com que é ejetado pelo co-
ração, e isso faz com que a aorta, que é distensível, armazene parte
do sangue, criando uma pressão no sistema arterial (Figura 24).

Válvula Válvula aórtica Válvula aórtica


pulmonar fechada aberta
Sístole atrial
fechada
Diástole

Válvula
pulmonar
aberta

Figura 24  O ciclo cardíaco e a pressão arterial

Nota: no momento do relaxamento ventricular


Sístole (diástole) A, a válvula aórtica está fechada e o
Diástole ventricular sistema arterial, que se inicia na aorta, exibe
ventricular a mais baixa pressão de todo o ciclo cardíaco
– pressão arterial diastólica. Assim que o
ventrículo se contrai (sístole), a aorta recebe
bruscamente uma onda de sangue, gerando a
Abertura das válvulas Fechamento das mais alta pressão do ciclo cardíaco – pressão
atrioventriculares válvulas arterial sistólica.

Nos vasos arteriais, é possível mensurar duas fases distintas de pres-


são arterial – sistólica e diastólica - que são apresentadas grafica-
mente na Figura 25.

Portanto, podemos concluir que a pressão arterial reflete os efeitos


combinados do fluxo sanguíneo arterial por minuto (débito cardíaco)

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 45


e da resistência a esse fluxo oferecida pela árvore vascular periférica:
Pressão arterial = Débito cardíaco X Resistência periférica total.

Pressão arterial sistêmica (mm Hg)


120

100
Pressão arterial sistólica

80

Pressão arterial diastólica


60

Legenda
40 1 Aorta
2 Artérias grandes
20 3 Artérias pequenas
4 Arteríolas
0 5 Capilares
6 Vênulas
1 2 3 4 5 6 7 8 9
7 Veias pequenas
Distância do ventrículo esquerdo 8 Veias grandes
Figura 25  Medida intra-arterial da pressão
arterial ao longo do sistema arterial e venoso 9 Veia cava

Pressão arterial no exercício


5|6
Agora, vamos compreender as alterações de pressão arterial decor-
Assista as animações disponíveis na rentes do exercício físico, para identificarmos a importância fisioló-
plataforma para conhecer mais sobre a
técnica de medida da pressão arterial. gica desse parâmetro.

Para tal tarefa, sabemos que será necessário relembrar as alterações


do débito cardíaco e da resistência vascular ao exercício. O débito
cardíaco, como visto no quadro 3, aumenta progressivamente com a
elevação da intensidade do esforço, estabelecendo uma relação es-
treita com as demandas metabólicas corporais, enquanto a resistên-
cia vascular periférica, determinada pela vasodilatação nos grandes
vasos arteriais dos músculos em atividade, tende a reduzir. Dessa
forma, temos mecanismos concorrentes a modulação da pressão ar-
terial no exercício, pois, enquanto o aumento de débito cardíaco se
torna favorável à elevação da pressão arterial, especialmente a sis-
tólica, a redução da resistência vascular pode favorecer a queda da

46 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


pressão arterial, especialmente a diastólica. O que temos, durante o
exercício, é a elevação da pressão arterial, mais nítida no momento
da sístole, acompanhada de uma alteração discreta da pressão dias-
tólica, geralmente na cifra de 15mmHg.

O aumento da pressão arterial durante o exercício tem importante


papel na impulsão do sangue para os capilares, onde ocorre a troca
de nutrientes e gases. Volte para o quadro 5 e observe como a pressão
nos capilares é proporcional à pressão arterial gerada nos grandes
vasos. Portanto, a elevação da pressão arterial no exercício, dentro
de limites aceitáveis, é um mecanismo favorável à perfusão vascular
dos tecidos corporais. Entretanto, não podemos confundir a elevação
7
aceitável da pressão arterial, durante o exercício, com a hipertensão.
Esta se trata de uma doença crônica que causa intensos danos à Para complementar seus estudos, veja
este pequeno documentário sobre a
estrutura vascular, ao coração e aos demais órgãos do corpo, como hipertensão arterial.

rins, pulmões, cérebro e olhos.

Avaliação nível II
Ver atividade avaliativa na plataforma moodle.

UNIDADE 3 – O sistema cardiovascular no exercício  | 47


O SISTEMA RESPIRATÓRIO
NO EXERCÍCIO
UNIDADE

O SISTEMA RESPIRATÓRIO NO EXERCÍCIO

O sistema respiratório dos mamíferos terrestres surgiu


a partir da necessidade de se manter uma área de troca
gasosa com uma membrana aquosa a qual os gases
hidrossolúveis que mantêm a vida podem atravessar.
Segundo McArdle et al. (2003, p. 259):

Se o suprimento de oxigênio aos seres humanos


dependesse apenas da difusão através da pele,
não se poderia atender à demanda energética
basal, e muito menos os 4 a 5 litros de consumo
de oxigênio por minuto e de eliminação de
dióxido de carbono necessários para correr uma
maratona [...].

A função respiratória é essencial à vida, ou seja,


garante a homeostase dos sistemas corporais, pois
realiza a difusão do gás oxigênio (O2) advindo do ar
fresco, e do dióxido de carbono (CO2) proveniente das
reações químicas do corpo.

Nesta unidade vamos transitar pelos conhecimentos


básicos que nos permitem interpretar melhor as
funções respiratórias e sua importância para prover o
corpo durante o movimento humano.

  ESTRUTURA E FUNÇÃO PULMONARES  51    MECÂNICA RESPIRATÓRIA  52 


    VOLUMES E CAPACIDADES PULMONARES  55    PERMUTA E TRANSPORTE DE GASES  57 
  RESPOSTAS VENTILATÓRIAS NO EXERCÍCIO  60 
ESTRUTURA E FUNÇÃO PULMONARES

As estruturas pulmonares atuam para garantir o processo de ventila-


ção, ou seja, o processo pelo qual o ar ambiente penetra nos pulmões
e é permutado pelo ar existente em seu interior.

Didaticamente, são compreendidas três vias morfofuncionais vincu-


ladas ao processo de ventilação (Figura 26):

Vias de transporte ou condução  cavidade nasal, faringe, laringe,


traqueia, brônquios e bronquíolos;

Vias de transição  bronquíolos respiratórios;

Vias de troca gasosa  pulmões (alvéolos).

Rede capilar sobre a


superfície alveolar

Cavidade nasal
Capilares
Alveólo pulmonares
Faringe
Laringe
Traqueia

Pulmão

Bronquíolo

Brônquios principais Figura 26  Estrutura morfofuncional do


sistema respiratório.

O ar que penetra nas vias de condução é aquecido para se ajustar à


temperatura corporal, e umedecido devido à intensa rede vascular que
perfunde a cavidade nasal. Também é filtrado pelos cílios que com-

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 51


põem a mucosa das vias de condução. Quando chega à traqueia, o ar
está quase completamente preparado para o processo de troca gasosa.
Ao longo dos dois brônquios, o ar continua sendo condicionado e
propulsionado em direção aos numerosos bronquíolos que o condu-
zem aos microscópios alvéolos que compõem o tecido pulmonar.

Os pulmões proporcionam a superfície de permuta gasosa, essencial


para a aeração do sangue. A superfície úmida e altamente vasculari-
zada dos pulmões se encaixa dentro da cavidade torácica, envolvida
pela pleura – uma dupla membrana (parietal e visceral) constituída
entre elas de uma cavidade (cavidade pleural), que é ocupada por
uma pequena quantidade de líquido para a lubrificação das pleuras,
denominado de líquido pleural (Figura 27).

Pleura

Figura 27  Vista frontal dos dois pulmões


envolvidos pela pleura.
A função do líquido pleural é a lubrificação e facilitação dos mo-
vimentos dos pulmões durante a mecânica da ventilação pulmonar.

MECÂNICA RESPIRATÓRIA

O processo de inspiração e expiração do ar depende de mudanças


de pressão na cavidade torácica, provocadas pela expansão ou pela
retração do tecido pulmonar, garantido pela contração dos músculos
da ventilação (Figura 28).

52 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Esternocleidomastóide

Escalenos

Intercostais
internos

Intercostais
externos

Diafragma

Figura 28  Músculos da ventilação.


Abdominais
Nota: Do lado esquerdo, os músculos
inspiratórios (diafragma, intercostais externos,
escalenos, esternocleidomastoides); à direita, os
músculos expiratórios (intercostais internos e
Inspiração Expiração abdominais).

Durante a inspiração, a cavidade torácica aumenta de tamanho no


sentido anteroposterior e vertical, porque as costelas sobem, por ação
dos músculos intercostais externos; e o diafragma desce, ao se con-
trair. Isso reduz a pressão intratorácica, comparada com a pressão
atmosférica, fazendo com que o ar penetre nos pulmões (Figura 29).
Durante a expiração, as costelas oscilam para baixo e o diafragma
retorna a uma posição relaxada. Isso reduz a cavidade torácica, au-
mentando a pressão intratorácica, e o ar é expelido.

Costelas e o esterno se
elevam com a contração dos
intercostais externos

Figura 29  Mudanças nos diâmetro


anteroposterior e vertical durante a inspiração.

Nota: as costelas se elevam por contração dos


músculos intercostais externos, e o diafragma
O diafragma se move se contrai, abaixando e aumentando o diâmetro
inferiormente durante a vertical, o que propicia redução de pressão
contração intratorácica, sugando o ar do ambiente.

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 53


Você sabia que no exercício, os movimentos altamente eficientes do dia-
fragma, das costelas e dos músculos abdominais são sincronizados de
forma a contribuir para a expiração e inspiração?

A expiração, durante o repouso e o exercício leve, representa um


processo passivo de movimento do ar para fora dos pulmões, pro-
vocado pelo recuo elástico dos pulmões, e pelo relaxamento dos
músculos inspiratórios. Apenas durante o exercício extenuante é que
os músculos intercostais internos e abdominais são estimulados para
promover o recuo da cavidade torácica favorecendo a exalação vi-
gorosa e rápida.
8
Veja como funciona a mecânica respiratória Mecânica da Respiração  Vamos fazer uma experiência?
nesta interessante animação
Nosso objetivo é simular a ação do músculo diafragma na
expansão pulmonar. Para isso, vamos precisar de:

a) uma garrafa pet (600ml) cortada horizontalmente. Apro-


veite a parte superior do gargalo;

b) um tubo de plástico (pedaço de mangueira) de aproximada-


mente 20cm (com diâmetro próximo ao do gargalo da garrafa);

c) uma bola de soprar grande (bexiga) amarrada ao tubo de


INSPIRAÇÃO plástico;
O diafragma desce

d) uma membrana de borracha (pode ser uma bexiga cortada)


amarrada à garrafa pet;

e) um metro de barbante para amarrar a bola ao tubo e para


amarrar a borracha à garrafa (veja a Figura 32).

Observe que as manipulações na membrana (simulando os


movimentos do diafragma) provocam alterações internas na
pressão da garrafa (cavidade torácica) que favorecem a ex-
EXPIRAÇÃO
pansão ou a retração pulmonar.
O diafragma sobe

movimentos do diafragma) provoca alterações internas na

Figura 30  Experiência da mecânica da


pressão da garrafa (cavidade torácica) que favorecem a ex-
respiração. Ação do diafragma. pansão ou retração pulmonar.

54 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


VOLUMES E CAPACIDADES PULMONARES

Como já sabemos, os movimentos respiratórios são garantidos por


contrações de músculos esqueléticos, que resultam em mudanças
de pressões intratorácicas. Dessa forma, mobilizam volumes de ar
para dentro e fora dos pulmões. Então, vamos interpretar os volumes
pulmonares para entendermos a capacidade humana de modificar a
profundidade da respiração.

A Figura 31 apresenta as mensurações dos volumes pulmonares que


afetam nossa capacidade respiratória. Faça a atividade proposta em
seguida, comparando sua vivência com o registro da espirometria Figura 31  Mensurações estáticas dos
representado na figura. volumes pulmonares

Volume / capacidade pulmonar Definição Valores Médios (ml)


Homens Mulheres

Volume corrente (VC) Volume inspirado ou expirado por incursão respiratória 600 500

Volume reserva inspiratório (VRI) Inspiração máxima no final da inspiração corrente 3.000 1.900

Volume reserva expiratório (VRE) Expiração máxima no final da expiração corrente 1.200 800

Capacidade pulmonar total (CPT) Volume nos pulmões após uma inspiração máxima 6.000 4.200

Volume pulmonar residual (VPR) Volume nos pulmões após uma expiração máxima 1.200 1.000

Capacidade vital forçada (CVF) Volume máximo expirado após uma inspiração máxima 4.800 3.200

Capacidade inspiratória (CI) Volume máximo inspirado após uma expiração corrente 3.600 2.400

Capacidade residual funcional (CRF) Volume nos pulmões após uma expiração corrente 2.400 1.800

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 55


Para compreender melhor sobre os volumes pulmonares, faça
os seguintes procedimentos:

a) Observe a profundidade de sua respiração em residual pul-


monar repouso. Esse é o volume corrente, representado na
figura como 500 a 600ml.

b) Em seguida, faça uma inspiração bem profunda. Esse é o


seu volume de reserva inspiratório (1900 a 3000ml).

c)Retorne ao volume corrente (respiração de repouso) e exale


todo o ar que for possível. Esse é o seu volume de reserva
expiratório (800 a 1200ml).

d)A soma de toda a sua capacidade inspiratória e expiratória


de reserva compreende sua capacidade vital forçada (3200
a 4800ml).

e) Embora você tenha feito bastante esforço ao expirar, nem


todo o ar dos pulmões foi exalado. Existe ainda o volume
pulmonar residual (1000 a 1200ml).

Os volumes pulmonares até então estudados são chamados de volu-


mes estáticos, pois são medidos a cada incursão respiratória e apre-
sentam relação com o tempo despendido para mobilizá-los. Os vo-
lumes pulmonares dinâmicos são determinados em função do tempo
para mensurá-los. Por isso são mais eficientes para detectar doenças
pulmonares graves e para interpretar as variações ventilatórias do
exercício físico.

A ventilação pulmonar representa um volume dinâmico, pois de-


pende de dois fatores: o volume corrente e a frequência respiratória.
A frequência respiratória normal durante o repouso é, em média, de
12 incursões por minuto, e o volume corrente médio é de 0,5 litros de
ar por incursão. Consequentemente, o volume de ar respirado a cada
minuto, denominado ventilação minuto, é de aproximadamente seis
litros. No entanto, esse volume ventilatório pode aumentar em até
20 vezes, no exercício intenso. Durante o exercício moderado, a ven-

56 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


tilação aumenta para 75 litros/min e, no exercício vigoroso, pode
atingir níveis de 150 litros/min! Veja no quadro seguinte:

Quadro 4 - Valores típicos de ventilação pulmonar durante o repouso e o exercício moderado e vigoroso

Condição Frequência respiratória Volume corrente Ventilação pulmonar


(incursões/min) (l/incursão respiratória) (l/min)

Repouso 12 0,5 6

Exercício moderado 30 2,5 75

Exercício vigoroso 50 3,0 150

Como vimos, o nosso sistema respiratório é capaz de atender às


demandas de ar fresco para o nosso organismo, modificando a pro-
fundidade da respiração e a velocidade das incursões respiratórias.

Vamos agora prosseguir em nossos estudos interpretando o meca-


nismo de troca gasosa em nível alveolar e tecidual.

PERMUTA E TRANSPORTE DE GASES

Como pode ser contemplado na Figura 26, existe uma proximidade


estreita entre a membrana alveolar e os capilares, que facilita o pro-
cesso de troca gasosa. Adicionalmente, o gradiente de concentração
entre os gases que se encontram no alvéolo (onde a concentração de
O2 é mais elevada) e no capilar pulmonar (onde a concentração de
CO2 é mais elevada) favorece o deslocamento desses elementos para
o ambiente menos concentrado. Sendo assim, durante o processo de
hematose, o O2 se desloca para os capilares, para, em seguida, ser
distribuído para todos os tecidos corporais; e o CO2, para os alvéo-
los, a fim de ser eliminado.

Em nível tecidual, o deslocamento dos gases é contrário ao que


ocorre nos alvéolos, pois o gradiente de concentração do O2 é
menor no músculo, o que atrai esse gás para os tecidos, enquanto
o CO2 é atraído para os capilares a fim de ser eliminado. Observe,

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 57


na Figura 32, a representação gráfica da dinâmica de troca gasosa
alveolar e tecidual.

Ar inspirado Figura 32  Trocas gasosas em nível


alveolar e pulmonar
Po2 = 159 mm Hg
PCo2 = 0,3 mm Hg Nota: O movimento dos gases nas membranas
alveolocapilar e tecidual-capilar se processa
Traquéia sempre de uma área de pressão parcial mais
Po2
alta para uma de pressão parcial mais baixa.
149 mm Hg
PO2 – pressão parcial do oxigênio; PCO2 – pressão
PCo2 parcial do dióxido de carbono.
0,3 mm Hg

Sangue venoso Sangue arterial

Po2 40 mm Hg Po2 100 mm Hg Po2 100 mm Hg


PCo2 46 mm Hg PCo2 40 mm Hg PCo2 40 mm Hg

Alvéolo

Capilar pulmonar

Capilar tecidual

Po2 46 mm Hg Po2 46 mm Hg Po2 40 mm Hg


PCo2 40 mm Hg PCo2 40 mm Hg PCo2 100 mm Hg

Capilar tecidual

Transporte do oxigênio

A passagem do oxigênio pela membrana alveolocapilar deve ser


muito rápida a fim de garantir que o sangue que transita no alvé-
olo em repouso, durante apenas 0,75 segundos, seja capaz de cap-
turar esse O2 para as células vermelhas, ou seja, as hemácias, que,
por sua vez, contêm as hemoglobinas, importantes carreadores do
oxigênio (Figura 33).

A hemoglobina é uma molécula proteica, formada por quatro subunidades


de cadeias polipeptídicas, que possuem um único átomo de ferro em cada
uma delas, que atrai o oxigênio.

58 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Molécula de Hemoglobina
Glóbulo vermelho

Heme

A B
Figura 33  As hemácias contendo o composto
Os glóbulos vermelhos contém várias Os glóbulos vermelhos contém várias proteico hemoglobina (A), e a fixação do oxigênio
moléculas de hemoglobina, que moléculas de hemoglobina, que no grupo heme onde o ferro irá atrair esse gás,
transportam oxigênio transportam oxigênio para transportá-lo pela corrente sanguínea (B)

À medida que se intensifica a intensidade do exercício físico, o


tempo de trânsito do sangue pelos capilares alveolares encurta para
cerca de 0,4 segundos, porém ainda continua sendo suficiente para
que haja aeração completa no pulmão sadio.

O oxigênio pode também ser carreado dissolvido no sangue, no en-


tanto, dada a sua baixa solubilidade, uma porção pequena consegue Líquido
interstical
ser transportada dessa forma. Essa pequena quantidade de oxigê-
nio que é possível transportar dissolvida no plasma seria capaz de CO2

manter a vida por cerca de quatro segundos (MCARDLE


et al., 2003). Visto de outra forma, se o oxigênio em so- Plasma CO2
lução fosse nossa única fonte de oxigênio para o corpo,
Hgb + CO2
cerca de 80 litros de sangue teriam que circular a cada +
H2O
minuto para atender às demandas em repouso, e um Hgb · CO2
Anidrase carbônica
fluxo duas vezes maior seria necessário para o exercício
(MCARDLE et al., 2003). H2CO3 HHgb
H2O
+
Transporte do dióxido de carbono Cl- HCO3- + H+ Hgb -

H2O
O dióxido de carbono (CO2), formado na célula, é difun- Cl- C02 transportado como:
dido para o sangue venoso e precisa de um mecanismo HCO3 -
CO2 = 7%
eficiente para seu transporte até os pulmões. Uma pe- Hemácia Hgb · CO2 = 23%
HCO3- = 70%
quena parte do CO2 é transportada em solução no plasma
(5%), e o restante é encaminhado à hemácia, onde poderá Capilar
ser convertido para bicarbonato (60 a 80%), ou compe- Figura 34  As formas de transporte do
tirá com o oxigênio pela hemoglobina (Figura 34). dióxido de carbono na corrente sanguínea

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 59


Em síntese, o sistema respiratório tem um papel importante na re-
ciclagem gasosa do sangue. Para exercer essa função, é necessária
uma adequada ventilação e difusão alveolar, somadas à competente
extração de oxigênio tecidual. Dessa forma, observa-se a necessá-
ria integração dos sistemas respiratórios, cardiovascular e muscular
para suprimento de oxigênio, transporte e utilização (Figura 35).
Figura 35  Os sistemas respiratório e circulatório
trabalham juntos intimamente para atender, em Coração esquerdo Átrio
todas as condições, às demandas de permuta e
transporte de gases por parte das células.

Sangue arterial
Capilar pulmonar
Ventrículo

Capilar muscular
O2
O2
CO2
Aovéolo
CO2

Fibra muscular

Sangue venoso

Átrio

Ventrículo

Coração direito

RESPOSTAS VENTILATÓRIAS NO EXERCÍCIO

Agora que conhecemos os princípios básicos da fisiologia respira-


tória, vamos compreender a dinâmica do sistema respiratório na
solicitação do exercício físico. Para articular esses conhecimentos,
baseamo-nos em três importantes variáveis que revelam a eficiência

60 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


respiratória no exercício: a ventilação pulmonar, a difusão alveolar e
a diferença arteriovenosa de oxigênio.

Ventilação pulmonar

Como já mencionado, a ventilação consiste no processo pelo qual


o ar ambiente penetra nos pulmões e é permutado pelo ar existente
em seu interior. Esse parâmetro é um importante indicador da ca-
pacidade pulmonar de disponibilizar o oxigênio para o processo de
difusão alveolar.

A ventilação é modulada por ajustes na frequência e na profundi-


dade da respiração. Fatores neurais e humorais garantem a afinada
sintonia da ventilação, à medida que se praticam atividades físicas.
Os estímulos neurais são disparados pelo córtex motor antecipa-
damente ao início do exercício e se amplificam com a retroali-
mentação de informações advindas do movimento corporal, tais
como: informações de sensores mecânicos do músculo e articula-
ções, sensores mecânicos de distensibilidade dos pulmões, sensores
de temperatura central (hipotálamo), sensores químicos da corrente
sanguínea (artérias aorta e carótida) e sensores químicos centrais,
localizados no tronco encefálico (bulbo).
Ventilação
pulmonar
(I/min)
Na Figura 36, observa-se o comportamento da ventilação durante
Início Interrupção
diferentes intensidades de exercício. Verifica-se, neste registro, que 120

a ventilação é proporcional à intensidade do exercício e que, no 100

início do estímulo do movimento, ocorre um aumento rápido da 80


ventilação, ocasionado por estímulos neurais antecipatórios, seguido 60
de aumento adicional, que será mantido numa característica estável, 40
indicando que se atingiu a sintonia respiratória adequada à solicita- 20
ção do esforço físico. Nesse estado estável, é reconhecida a partici- 0
pação integrada dos mecanismos neurais e hormonais para garantir -2  -1  0   1 2  3  4  5  6  7
Tempo (min)
o ajuste fino da ventilação. Entretanto, no esforço mais intenso, Figura 36  Comportamento Legenda
não ocorre o estado estável de ventilação, que pode ser atribuído à da ventilação pulmonar
durante exercício de carga Intenso
grande intensidade do exercício que dificultaria os ajustes humorais constante, nas intensidades Moderado
leve, moderada e intensa. Leve
necessários para atingir o equilíbrio respiratório no esforço.

Sabe-se, portanto, que, no exercício intenso, quando a produção


continuada de ácido lático é tamponada, geram-se reações químicas

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 61


que irão provocar a produção adicional de dióxido de carbono e
este, por sua vez, pronuncia os mecanismos humorais de modulação
respiratória. Veja o esquema abaixo:

1  O ácido láctico produzido na célula muscular encontra na cor-


rente sanguínea o bicarbonato de sódio:

-
C3H6O3 (ÁCIDO LÁTICO) + NaHCO3 (BICARBONATO DE SÓDIO)

2  O ácido lático perde um íon hidrogênio para o bicarbonato, for-


mando lactato de sódio e ácido carbônico:

NaC3H5O3 (LACTATO DE SÓDIO) + H2CO3 (ÁCIDO CARBÔNICO)

3  Nos pulmões, o ácido carbônico se dissocia formando água e


dióxido de carbono:

H2O + CO2 (eliminado pelos pulmões)

4  O aumento na produção de CO2 ativa os quimiorreceptores cen-


trais e periféricos aumentando a ventilação.

Difusão alveolar

Agora, que já estudamos a capacidade de ajuste da ventilação ao es-


forço físico, é necessário compreender se os aumentos ventilatórios
são acompanhados de elevação na capacidade difusora dos alvéolos.

A capacidade difusora de oxigênio depende da aeração alveolar


somada ao aumento da perfusão sanguínea. Em repouso, cerca de
23ml de oxigênio difundem-se no sangue pulmonar a cada minuto.
Durante o exercício, ocorre um aumento da capacidade difusora de
50ml/min ou mais, chegando até taxas de 80ml/min, encontradas
em remadores altamente treinados (WILMORE; COSTILL, 2001). Essa
melhoria na difusão se explica pelo aumento significativo no débito
cardíaco, que irá proporcionar maior aporte de sangue para os capi-
lares alveolares, aumentando a área de troca gasosa.

62 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


Dessa forma, verificamos que a eficiência ventilatória aumentada,
somada a uma capacidade de transporte de oxigênio para o sangue
implementada, garante ao corpo uma maior oferta de oxigênio du-
rante o exercício. Portanto, resta-nos agora compreender como fica
a extração muscular desse oxigênio ofertado.

Diferença arteriovenosa de O2
Suprimento tecidual

A diferença arteriovenosa (dif. A-V O2) é um indicador da extração


tecidual de oxigênio. Em repouso, o conteúdo arterial de oxigênio
é cerca de 20ml por 100ml de sangue. Esse conteúdo cai para 15 ou
16ml de oxigênio para cada 100ml de sangue, quando o sangue circula
dos capilares para o sistema venoso. Essa diferença reflete a diferença
arteriovenosa de O2, que, em repouso, consiste em 4 a 5ml de oxigênio
para cada 100ml de sangue que perfundem os tecidos corporais.

A quantidade de oxigênio captada é proporcional à utilizada, por


isso, durante o exercício intenso, a diferença A-V O2 pode atingir
15ml de O2.

Veja na Figura 37 a elevação progressiva na diferença arteriovenosa


de O2 observada com o aumento na intensidade do esforço físico.

terial
Capacidade ar
20
Conteúdo arterial
Conteúdo em oxigênio do sangue  mI/dI

16

12

Con
teúd
4 o ve
nos
om
isto
Figura 37  A diferença
arteriovenosa de O2 durante
esforço progressivo.
1 2 3 4
Captação de oxigênio (I/min)

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 63


Utilizando a Figura 37, calcule a diferença A-V O2 pra um
exercício cuja intensidade se encontra a dois litros de con-
sumo de O2 por minuto.

Assim, somos capazes de concluir que os parâmetros respiratórios são


ajustados para ofertar mais oxigênio para o corpo em atividade.

A redução do conteúdo de ferro da hemácia, ou do número de


hemácias, caracteriza um quadro de anemia que, por sua vez,
reduz a capacidade de o sangue carrear oxigênio. Essa condi-
ção compromete também a resposta cardiovascular ao esforço
físico. Observe, no quadro abaixo, a resposta da frequência
cardíaca de indivíduos anêmicos, comparados com os normais,
e discuta com os grupo sobre o motivo do comportamento di-
ferenciado da frequência cardíaca nos anêmicos.

Quadro 5 - Níveis de hemoglobina (Hb) e respostas da frequência cardíaca ao


exercício de indivíduos normais e anêmicos

Hb Frequência cardíaca
(G por DL de sangue) máxima do exercício

Normais

Homens 14,3 14,3

Mulheres 13,9 13,9

Deficiência de ferro

Homens 7,1 7,1

Mulheres 7,7 7,7

Fonte - McArdle et al. (2003).

64 |   Corpo, Movimento e Conhecimentos Fisiológicos


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Queridos alunos, chegamos ao fim desta disciplina com o desejo de que


hoje vocês compreendam muito mais o nosso incrível corpo humano, e se
vitalizem para continuarem em constante aprendizagem. Para provocá-los
a esta busca incessante por conhecimentos, deixo um pequeno trecho da
intrigante letra da música de Chico Buarque – Almanaque:

“Diz quem foi que fez o primeiro teto que o projeto


não desmoronou/Quem foi esse pedreiro, esse ar-
quiteto, e o valente primeiro morador/ Diz quem
foi que inventou o analfabeto e ensinou o alfabeto
ao professor/ Me responde por favor/Pra onde vai o
meu amor/Quando o amor acaba (...)”

Um abraço a todos, e que o trajeto da vida seja marcado por muito cres-
cimento pessoal!

UNIDADE 4 - O sistema respiratório no exercício  | 65


GLOSSÁRIO
Actina  também denominada filamento fino, é uma pro- Neste processo o ocorre o reabastecimento de oxigênio (O2) e
teína globular com propriedade contrátil que é formada a extração de dióxido de carbono (CO2).
por uma dupla cadeia de monômeros entrelaçada. A actina
interage com a miosina promovendo o encurtamento da Hidrólise  reação química de catabolização de moléculas
contração muscular. orgânicas complexas em formas mais simples, para que o
corpo consiga absorver e assimilar.
Anisotrópicas  propriedade que uma estrutura possui de
dispersão não uniforme da luz. Humorais  diz respeito aos fatores que modificam o es-
tado químico do sangue, tais como alterações no conteúdo
Clivada  cortada, fragmentada. de oxigênio, dióxido de carbono, pH.

Córtex motor  é uma região do cérebro, no lobo frontal, Isotrópica  propriedade que uma estrutura possui de per-
responsável pelo controle dos movimentos voluntários. mitir o deslocamento da luz em velocidade uniforme.

Depletar  diminuir a quantidade no organismo. Miogênico   capacidade autônoma do músculo de respon-


der a estímulos
Despolarização  A despolarização de uma célula é um fe-
nômeno de mudança na voltagem interna da mesma, (que Miosina  também denominada filamento grosso, tem uma
em repouso é negativa) provocado pela entrada de íons porção filamentosa e possui peptídeos enrolados em hélice,
sódio (carga positiva). que possuem uma saliência globular (cabeça), com locais
específicos para combinação com o ATP e dotada de ativi-
Endotélio  é um tecido epitelial específico dos vasos san- dade ATPásica. Nesta parte existe também o local de com-
guíneos que permite a troca de elementos entre os tecidos binação com a actina.
vasculares adjacentes, e ainda libera substâncias regulado-
ras da tonicidade vascular. Nervo Motor  é formado pelos axônios de células nervosas
que conduzem estímulos do sistema nervoso central para a
Fosfocreatina (PC)  também conhecida como creatina periferia do corpo.
fosfato ou PCr, é uma mólecula de creatina fosforilada que
é um importante depósito de energia no músculo esquelé- Neurotransmissores  são sinalizadores químicos libera-
tico, já que transporta uma ligação fosfato de alta energia dos pelos neurônios, que agem em receptores de membra-
similar às ligações do ATP. nas para promover a sinalização nervosa.

Fosforilação  é a adição de um grupo fosfato (PO4) a uma Oxidação  reações que envolvem perda de elétrons, com
proteína ou outra molécula. ganho correspondente em termos de valência.

Hematose  consiste no processo de troca gasosa, que ocorre Perfundidos  relativo à perfusão; perfusão - passagem de
entre os capilares pulmonares e os alvéolos pulmonares. líquido através de um órgão.

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Pressão parcial  pressão parcial é a pressão que um gás Unidade motora  é a unidade funcional do movimento;
exerce numa mistura de gases. Está diretamente relacio- essa unidade anatômica consiste no neurônio motor e nas
nada a sua concentração. fibras musculares específicas que inerva.

Proteínas estruturais  as proteínas estruturais tais como Valência  é um número que indica a capacidade que um
a nebulina, proteína C, proteina M, α-actinina, desmina e átomo de um elemento tem de se combinar com outros áto-
titina; mantêm a integridade estrutural do sarcômero. mos, capacidade essa que é medida pelo número de elétrons
que um átomo pode dar, receber, ou compartilhar de forma
Proteínas modulatórias  as proteínas modulatórias, tro- a constituir uma ligação química.
ponina e tropomiosina, estão localizadas no filamento fino
e formam um complexo protéico que bloqueia o sítio de in- Ventilação  processo pelo qual o ar ambiente penetra nos
teração da actina com a miosina. Quando ativados pelo cál- pulmões e é permutado pelo ar existente em seu interior.
cio, a movimentação do complexo troponina-tropomiosina,
libera a interação entre a actina e miosina.

Redução  envolve qualquer processo no qual os átomos


em um elemento ganham elétrons, com redução correspon-
dente de valência.

Sistema nervoso autônomo  localiza-se no bulbo (tronco


encefálico), e é responsável pelo controle de atividades vitais
tais como: batimento cardíaco, respiração, digestão, etc.

Sistema nervoso autônomo simpático  é um dos com-


ponentes autonômicos que no sistema cardiovascular tem
efeito excitatório sobre o coração e vasos sanguíneos.

Tonicidade vascular  diz respeito ao nível de contração


sustentada do músculo liso vascular. Pode ser modulada
por mecanismos neurais, hormonais ou parácrinos, deter-
minando o aumento da luz vascular – vasodilatação ou a
redução da luz vascular – vasoconstrição.

Túbulos transversos  ou túbulos “T” são invaginações


da membrana plasmática que permitem a passagem da
onda de despolarização (ver definição neste glossário)
com maior eficiência ao longo da fibra muscular.

  | 67
Apêndice A
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       tinyurl.com/cmcf-02-ed-d Página 47   tinyurl.com/cmcf-07-edf 

Página 38   tinyurl.com/cmcf-03-ed-a Página 54   tinyurl.com/cmcf-08-edf


       tinyurl.com/cmcf-03-ed-b
       tinyurl.com/cmcf-03-ed-c

REFERÊNCIAS
AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. Diretri- JUNQUEIRA, L.C.; CARNEIRO, J. Histologia básica.
zes do ACMS para teste de esforço e sua prescrição. 7ed. 8.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 488p.
Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 266p.
MCARDLE, W.D.; KATCH, F.I.; KATCH, V.L. Fisio-
BRYSON, B. Breve História de quase tudo. 1.ed. São logia do exercício: energia, nutrição e desempenho
Paulo: Companhia das Letras, 2005. 541p. humano. 6.ed. Rio de Janeiro:. Guanabara Koogan,
2003. 1113p.
FOSS, M.F.; KETEYIAN, S.J. Bases Fisiológicas do Exer-
cício e do Esporte. 6ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koo- SILVERTHORN, D.U. Fisiologia Humana: uma abora-
gan, 2000. 559p. gem integrada. 2ed. São Paulo:. Manole, 2003. 816p.

HANSEN, J.T.; LAMBERT, D.R. Anatomia clínica de WILMORE, J. H.; COSTILL, D. L. Fisiologia do esporte
Netter. São Paulo: Artmed, 2007. 668p. e do exercício. 2ª ed. São Paulo: Manole, 2001. 709p.

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Luciana Carletti
Graduação em Educação Física pela
Universidade Federal do Espírito Santo
(1991); mestrado (1998) e doutorado
(2005) em Ciências Fisiológicas
(PPGCF) pela Universidade Federal do
Espírito Santo; professora da disciplina
Corpo, Movimento e Conhecimentos
Fisiológicos (Licenciatura em Educação
Física) e da disciplina Corpo, Movimento
e Fisiologia Aplicada I (Bacharelado
em Educação Física) do Centro de
Educação Física e Desportos da
UFES. Atualmente é coordenadora
do Laboratório de Fisiologia da UFES
(LAFEX), desenvolvendo pesquisa na
área de Fisiologia cardiorrespiratória do
exercício em adolescentes e também
estudos epidemiológicos de atividade
física e sedentarismo em crianças.

  | 69
www.neaad.ufes.br
70 | (27) 4009 2208