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ANAIS DA X MOSTRA CIENTÍFICA DO CESUCA – NOV.

/ 2016
ISSN – 2317-5915

Sistemas matemáticos e ancestralidade negra: a base numérica


binária e o jogo de búzios

Adriana Santos Pereira Henriques1


Carmen Rosa Rabelo Florentino2
Gabriel Buss de Oliveira3
Mailson da Silveira Porto4
Raquel Gomes da Silva5
Sandra Mara Maia Wurlitzer6
Celso Pessanha Machado7

Resumo: O presente artigo tem como objetivo apresentar os números binários e a sua relação com
a matemática do continente africano através do jogo de búzios, compreendendo seu funcionamento
e como este tipo de costume tem relevância na formação cultural do Brasil. Apresenta-se a história
do sistema de numeração binária, o sistema binário no jogo de búzios e sua relevância nas práticas
religiosas brasileiras. O trabalho foi realizado através de dados coletados e analisados pela
metodologia de pesquisa bibliográfica, enfatizando a importância da elaboração das construções e
formulações de conceitos pela utilização de recursos didáticos. O intuito deste projeto é demonstrar
que os números binários tem relação com os jogos de búzios, apresentando inicialmente a diferença
de sua trajetória da matemática presente no continente africano (na antiguidade) e a evolução do
sistema de numeração binária. Neste contexto foram contempladas as principais hipóteses no
desenvolvimento do artigo e nas considerações finais verificou-se que Pingala foi um matemático
que contribuiu e desenvolveu o sistema numérico binário unindo à listagem das métricas védicas
utilizando sílabas longas e curtas, que são utilizadas por quase todos os computadores modernos e
telefones celulares. A matemática na antiguidade do continente africano relata que os povos
viveram em múltiplos lugares, tiveram culturas diversas e distintos desafios para resolver seus
problemas de maneiras diferentes, desenvolvendo habilidades conforme suas necessidades.
Concluiu-se também que há diferentes matemáticas, muitas ainda esperando reconhecimento, pois
a universalização desta ciência impôs um método único para o pensamento humano. Foi visto que à
religiosidade eram impostas exceções pelo colonizador branco europeu, que tentou definir o
catolicismo como única verdade religiosa. Dentre as tradições religiosas o candomblé se destacou
em virtude da forte relação com os descendentes de africanos e pelo reconhecimento de todas as
camadas da população.

Palavras-chave: Jogo de Búzios; Matemática Africana; Números Binários.

Abstract: This article aims to present the binary numbers and their relationship with the
mathematics of the African continent through the shell game, including its operation and how this
kind of custom has relevance in the cultural formation of Brazil. They come from the history of the

1
Acadêmica do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: drikasape@hotmail.com
2
Acadêmica do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: carmengoldani@hotmail.com
3
Acadêmico do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: gabrielbuss45@gmail.com
4
Acadêmico do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: msporto95@gmail.com
5
Acadêmica do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: queugs@gmail.com
6
Acadêmica do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: sandramaramw@gmail.com
7
Professor do Curso de Matemática da Cesuca Faculdade Inedi. E-mail: celsomachado@cesuca.edu.br
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binary numbering system to the list of binary numbers with mathematics in Africa. The work is
done through data collected and analyzed by the literature search methodology, as well as
emphasizing the importance of preparation of constructions and formulations of concepts for the
use of resources. The purpose of this project is to demonstrate that binary numbers has to do with
the shells games, first presenting the difference in its trajectory of this math in Africa (in ancient
times) and the evolution of the binary numbering system. In this context it was awarded the main
assumptions in the development of the article and in the final considerations it was found that
Pingala was a mathematician who contributed and developed the binary number system joining the
list of Vedic metrics using long and short syllables and is used by almost all computers modern and
mobile phones. The mathematics in antiquity of Africa reports that people lived in distant places,
have different cultures and different challenges to solve their problems differently, so taking skills
as needed. It is also concluded that there are different mathematics, which have not been developed
since the universalization of this science has imposed a unique method for human thought. And as
to religion were imposed exceptions by white European colonizers, who tried to define Catholicism
as the only religious truth. Among the religious traditions Candomblé stood out because of so many
followers in all regions of the country.

Keywords: Game of Buzios; African Mathematics; Binary numbers.

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho almeja investigar a relação matemática dos Números Binários


com o Jogo de Búzios. Para isso com base em pesquisa bibliográfica, traz alguns enfoques
relevantes sobre o tema em questão, tais como uma breve descrição sobre a História do
Sistema de Numeração Binária, A matemática na Antiguidade do Continente Africano e
Odú Oráculo Binário dos Orixás. Tendo como problematização da pesquisa: o jogo de
Búzios tem relação com os números binários?

É importante compreender a matemática como uma construção histórico-étnico-


social que desencadeou novas formas de pensar o mundo ao nosso redor e embasou as
descobertas das antigas civilizações, às quais serviram de referência para o
desenvolvimento do conhecimento científico nos tempos contemporâneos.

A cultura africana contribuiu significativamente para esta nova perspectiva, que


embasa os estudos em Etnomatemática e reconhece a importância dos conhecimentos
matemáticos peculiares a um determinado meio cultural, que não compartilha dos estudos
de matemática formal e acadêmica, mas nem por isso deixa de constituir um papel
fundamental no entendimento da matemática e sua relação com os diferentes ambientes de
aprendizagem do dia a dia.

2 HISTÓRIA DO SISTEMA DE NUMERAÇÃO BINÁRIA

Em meados do século III a. C., o matemático indiano Pingala idealizou o sistema


de numeração binário e apresentou a primeira descrição que ficou conhecida por sistema

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numérico binário. Ele desenvolveu o sistema atrelando à listagem das métricas védicas
com sílabas longas e curtas. A sua altercação sobre a combinação de métrica corresponde
ao teorema binomial. O uso do zero por muitas vezes não é utilizada de certa forma
denominado a Pingala devido à sua discussão sobre números binários, comumente
representados usando 0 e 1 na discussão moderna, porém ele usou sílabas longas e curtas.
Em binário, "0000", quatro sílabas curtas, no sistema de Pingala, representam o número
um, e não o zero. Ainda usado atualmente no processamento de todos os computadores
modernos, o sistema estabelece que sequências de uns e zeros possam representar qualquer
número.

É utilizado para representar o sistema numérico valores numéricos utilizando dois


números: 0 e 1. O costume de base -2 representa sistema de notação posicional com um
rádio de 2. Com a implantação direta em circuitos eletrônicos digitais usando portas
lógicas, o sistema binário é usado internamente por quase todos os modernos
computadores e dispositivos computacionais, tais como telefones celulares.

Um conjunto de 8 trigramas e 64 hexagramas, paralelos a números binários com


precisão de 3 e 6 bits, foram utilizados pelos antigos chineses no texto clássico I Ching.
Conjuntos parecidos de combinações binárias foram utilizados em sistemas africanos de
adivinhação tais como o Ifá, bem como na Geomancia do medievo ocidental. Uma
sistematização binária dos hexagramas do I Ching, representando a série decimal de 0 a 63,
e um processo para gerar tais sequências, foi desenvolvida pelo filósofo e estudioso Shao
Yong no século XI. Porém, não há evidências que Shao Yong chegou à aritmética binária.

O sistema numérico binário moderno foi registrado de forma abrangente por


Gottfried Leibnizno século XVIII em seu artigo "Explication de l'Arithmétique Binaire". O
sistema de Leibniz utilizou 0 e 1, da mesma forma que o sistema numérico binário atual.
Em 1854, o matemático britânico George Boole publicou um artigo básico detalhando um
sistema lógico que se tornaria conhecido como Álgebra Booleana. Seu sistema lógico
tornou-se eficaz para o desenvolvimento do sistema binário, particularmente sua aplicação
a circuitos eletrônicos. Em 1937, Claude Shannon produziu sua tese no MIT que
implementava Álgebra Booleana e aritmética binária empregando circuitos elétricos pela
primeira vez na história. Nomeado "A Symbolic Analysis of Relay and Switching
Circuits", a tese de Shannon fundou o projeto de circuitos digitais.

[...] Levou mais de um século para que George Boole publicasse a álgebra
booleana (em 1854), com um sistema completo que permitia a construção de
modelos matemáticos para o processamento computacional. Em 1801 apareceu o
tear controlado por cartão perfurado, invenção de Joseph Marie Jacquard, no
qual buracos indicavam os uns, e áreas não furadas indicavam os zeros.
O sistema está longe de ser um computador, mas ilustrou que as máquinas
poderiam ser controladas pelo sistema binário.

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Figura 01: Ilustrou que as máquinas poderiam ser controladas pelo sistema binário .

3 MATEMÁTICA NA ANTIGUIDADE DO CONTINENTE AFRICANO

Segundo Newton Freire Maia, para a humanidade a agricultura sempre foi


fundamental. Sempre instigando a pergunta “Como os egípcios conseguiam prever as
enchentes do Nilo para realizar as suas plantações?” Segundo ele todos estes os outros
povos precisaram desenvolver artifícios para gerar a sua comodidade como a produção de
alimentos, roupas, criação de animais, construção de moradia e de objetos. No espaço e no
tempo também se dedicaram em localizar-se. Criando formas de classificação dentro das
necessidades, medir, comparar, ordenar, quantificar e inferir; desta forma, deram início a
aumentar as noções básicas do que titulamos de matemática.

A matemática é conhecida como uma ciência universal sendo um padrão em todos


os povos, Maia se perguntava também se resolviam os problemas com as mesmas
estratégias da mesma forma.

Na antiguidade os povos que viviam em lugares diferentes, tinham diferentes


desafios, por isso resolviam seus problemas de maneiras diferentes, desenvolvendo
habilidades conforme suas necessidades, os Egípcios precisavam contar até milhões, já
índios mundurucus era suficiente até cinco.

Os povos antigos viviam em lugares distintos, sobreviviam em circunstâncias


diferentes, portanto, resolviam seus problemas de maneiras específicas.
Desenvolveram técnicas próprias segundo a interpretação e a imaginação que
tinham frente a um determinado desafio. Para os egípcios a necessidade de
contagem ultrapassavam os milhões, porém para os índios mundurucus não é
necessário contar além de cinco (CARVALHO, 2014).

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São observados alguns dados em comum entre os povos na história da humanidade


como construções, religiões, o comércio, formas de plantações e artes embora as
similaridades todos tenham uma tradição exclusiva e individual. Em relação a matemática
não difere, ela não é universal é diferente para diversos povos, a matemática é cultural, a
única relação entre a ciência destes povos são os padrões.

Segundo D'Ambrósio a matemática, diferente da religião, da língua, culinária e


medicina, se universalizou. D'Ambrósio, ressaltou que:

Enquanto nenhuma religião se universalizou, nenhuma língua se universalizou


nenhuma culinária nem medicina se universalizaram, a matemática se
universalizou, deslocando todos os demais modos de quantificar, de medir, de
ordenar, de inferir e servindo-se de base, se impondo, como modo de
pensamento lógico e racional que passou a identificar a própria espécie
(D'AMBRÓSIO, 1998).

Porém Carvalho diz:


[...] os estudos históricos mostram que o modo ocidental de contar não é o único
e que povos de diferentes regiões e culturas desenvolveram métodos próprios
para solucionar problemas e que são usados até hoje. As descobertas reúnem
diferentes maneiras de contar, medir, marcar o tempo e entender o Universo
(2014).

Por serem escassas e fragmentadas as fontes de estudos tense dificuldades de


conseguir materiais para o conhecimento da matemática de diferentes povos.

No continente Africano acumula vários modelos dos pilares da matemática


ocidental.

O arqueólogo belga Jean de Heinzelin, nos anos 50, realizou escavações na


República Democrática do Congo e achou um osso petrificado, de 10 cm de comprimento,
enfeitado com um cristal em uma ponta e que tinha três filas de entalhes agrupados. O
achado feito em um sítio perto da aldeia de Ishango foi muito importante para batizar a
África como berço desta ciência.

O artefato possui entre 20 mil e 25 mil anos, e embora a antiguidade possua um


estilo matemático extraordinário. O bastão permite em suas colunas pequenos grupos de
marcas que compõem um padrão aritmético e pode ter sido usado como um jogo com
operações de duplicação entre as colunas ou como um calendário lunar. Deste modo este
pequeno artefato descoberto na África 15 mil anos antes dos primeiros cálculos dos faraós
e 18 mil anos antes do aparecimento da matemática na Grécia. Este achado surpreendeu a
comunidade científica, por as circunscrições agrupadas demonstrava uma lógica que
resultava da necessidade de pensar numericamente e fez estas multidões humanas
inventassem métodos e ferramentas matemáticas.

A matemática dos africanos não foi descoberta apenas na aritmética, foi notada na
arquitetura, no artesanato nos tecidos, e nos penteados típicos da região na forma de

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fractais. Este tipo de padrão foi estudado nos anos 70, e nada mais é do que um desenho
que contém várias cópias menores dele mesmo infinitamente.

Figura 02: Cantarias da Mauritânia. Fonte: www.ccd.rpi.edu

Figura 03: Tecido de Tuareg. Fonte: www.ccd.rpi.edu

Um conhecimento antigo da Angola são os “Sona”, gráficos na areia empregados


na comunicação do saber aos jovens por meio de provérbios, jogos, animais, fábulas e
enigmas. Estes símbolos destacassem por utilizarem vértices (pontos) e arestas (linhas)
formando tramas de acordo com as figuras:

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Figura 04: Lusona desenhado na areia. Fonte: www.ccd.rpi.edu

Figura 05: Desenhos tradicionais Tchokwé (Angola). Fonte: www.ccd.rpi.edu

4 O CANDOMBLÉ E O JOGO DE BÚZIOS

O povo brasileiro é constituído de pessoas oriundas de diversas partes do globo, que


contribuíram com seus hábitos e costumes para a formação da cultura nacional. Os povos
oriundos da África sub – saariana tem relevante participação na formação cultural do
Brasil, com ritmos que forneceram as bases para o samba e o axé e uma culinária com
variados sabores. Outro aspecto que recebeu a herança africana é a religiosidade, apesar
das restrições impostas pelo colonizador branco europeu, que tentou impor o catolicismo
como única verdade religiosa.

Dentre as tradições religiosas, o candomblé pode ser destacado, em virtude do


grande número de adeptos em todas as regiões do país. De acordo com Santos (2016) estão
mapeados 1165 terreiros somente em Salvador, representando quarenta e oito nações8

8
Uma nação de candomblé identifica-se pela maneira como realiza seus rituais, pela língua do ritual, pelo
conjunto de mitos nos quais baseia seus ritos, pela maneira como toca seus tambores, pelas cantigas que
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diferentes, todavia é difícil calcular exatamente o número de seguidores, pois é comum no


Brasil o fato do fiel participar de cultos das religiões cristãs tradicionais, e frequentar casas
de religião de origem africana.

Segundo Prandi (2004) o candomblé constituiu-se na Bahia no século XIX como


religião dos orixás9, formando uma instituição de resistência cultural, resistindo
primeiramente a escravidão e posteriormente as ferramentas de domínio da sociedade
cristã. Os cultos receberam outras denominações regionais, como o Xangô em
Pernambuco, o tambor de mina no Maranhão e o batuque no Rio Grande do Sul.

Um dos instrumentos rituais do candomblé é o jogo de búzios, cujas características


serão abordadas na próxima sessão.

O jogo de búzios é um sistema que utiliza cascas de moluscos para conhecer as


orientações dos orixás a respeito das dúvidas apresentadas pelos adeptos do candomblé. De
acordo com D'Osogiyan (2012), uma das formas difundidas no Brasil é o Mérìndilogún, ou
jogo de 16 búzios. Uma das características do jogo é interpretar os avisos a partir da
posição em que as conchas caem após serem jogadas, pois elas caem com a parte aberta ou
com a parte fechada voltada para a cima, em um sistema binário, e a análise básica
principia a partir das combinações, algumas das quais serão descritas a seguir É importante
ressaltar as palavras de D'Osogiyan (2011), quando afirma que trata-se de “uma leitura
básica sem predizer nada, apenas uma síntese e com profundo respeito a Orunmilá, peço
agô”, com o mesmo respeito pelos orixás compartilhado pelos autores deste texto.

O jogo tem 16 Búzios e 16 odús principais, sendo:

Òkàràn Méjì – 1 aberto e 15 fechados odú principal de Exú, podem aparecer Egun,
Oyá. Caminho que representa a magia boa e ruim.

Éjì Oko Méjì – 2 abertos e 14 fechados. Nesse odú falam principalmente Oxalufon,
Ibeji, Irôko e Ajê Salugá. Representa a sabedoria, a consciência e a clarividência.

Ògúndá Méjì – 3 abertos e 13 fechados. odú principal de Ogun e nele podem


aparecer Omolú, Yemanjá e Oyá. Representa o esperma, o poder e a certeza.

Ìròsún Méjì – 4 abertos e 12 fechados. nesse odú falam Oyá, Egun, Yemanjá e
Oxóssi. Representa a cavidade, o abandono e a renúncia.

Òsé Méjì – 5 abertos e 11 fechados. Falam Omolú, Oxun, Yamí, podem aparecer
Oyá, Xangô e Exú. Representa a dor, o pesar, a espiritualidade e o sofrimento.

canta, pelas cores que usa no vestuário dos orixás, pelas folhas sagradas que usa em suas iniciações e magias,
enfim, por um corpo de práticas, símbolos e cultura material herdado dos antepassados (DE OBÁ, 2016).
9
Algumas tradições citam dezoito orixás como principais: Ewá, Exu, Iansã, Ibejis, Yemanjá, Iroko, Ogun
Nanã, Obá, Omulu, Xangô, Logun Edé, Oxalá, Oxalaguian, Oxóssi, Oxum, Oxumarê, Ossain (PAIOGUN,
2016).
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Òbàrà Méjì – 6 abertos e 10 fechados.Falam Airá, Oxóssi, Logun, Ori, Odé e Oxun
pode aparecer. Representa a nobreza e vaidade (+), inveja e roubo.

Òdí Méjì – 7 abertos e 9 fechados.Neste caminho falam Oxun, Omolú, Exú, podem
aparecer Odé, Ogun, Obá e Ajêxelugá. Representa: o avesso, o buraco e a derrota.

Èjì Onílè Méjì – 8 abertos e 8 fechados. Caminho principal de Osogiyan, podem


aparecer Iroko, Ogunjá, Modé, Iyagunté, Jibí e Arauwé. Representa a mutação constante,
vida e morte.

Òsá Méjì – 9 abertos e 7 fechados. -Neste caminho falam Yemanjá, Oyá, Orí e
podem aparecer babá Ajalá e babá Egun. Representa a renovação, a inteligência e a
gestação
Òfún Méjì – 10 abertos e 6 fechados. Principal Odú de Oxalufon, podem aparecer
Oxun, Orunmilá e Oduduwá, os funfun em geral. Representa o ciclo sem fim, o
nascimento, o mundo.

Òwónrín Méjì – 11 abertos e 5 fechados. Neste caminho falam Oyá, Exú, Ogun.
Representa as mudanças repentinas sobre qualquer ponto de vista, começo e fim.

Èjìlá Sebòra Méjì – 12 abertos e 4 fechados. Odú principal de Xangô e podem


aparecer Oba, Axabó, Yamassê, Irôko. Representa a união, ação e justiça.

Èjì Ológbon Méjì – 13 abertos e 3 fechados. Falam Nanã, Ikú, Omolú e Egun.
Representa a Àísí- a morte como parte da vida, o pó.

Ìká Méjì – 14 abertos e 2 fechados. -Neste caminho falam Oxumarê, Osanyin, Ewá
e podem aparecer, Omolú e Logun Edé. Representa a renovação, a beleza, o amor.

Méjì – 15 abertos e 1 fechado. Neste caminho fala Obà e pode aparecer Ewá, Ogun.
Representa apaga, a justiça com retidão.

Àláàfiá Méjì – 16 abertos. -Neste caminho fala Orunmilá e todos os Orixás podem
aparecer. Representa a vocação,a coerência, a integração: reconhecimento, saúde e paz.

Òpìrá – 16 fechados. Não é um odú e sim um sinal negativo, sem mensagem


alguma, o jogo está fechado. Quem estiver jogando não poderá mais jogar neste dia,
prenúncio fatídico, fatal.

5 ODÚ ORÁCULO BINÁRIO DOS ORIXÁS

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Muitos definem Odù como os símbolos usados para marcar os sinais recebidos
durante processo de adivinhação, para essas pessoas são os símbolos sagrados que
garantem a existência. Eles são mapas abrangentes que traçam o movimento dinâmico da
energia e identificam as forças mais primordiais do mundo natural. Os Odús são símbolos
transcendentais, também conhecidos como mandalas, que marcam as energias ativas e
inativas de uma situação com exatidão inusitada.

Como pontos brilhantes de luz estabelecidos em torno da circunferência do


Universo, Odù são as estrelas cuja procedência sagrada, mundos nascem. Eles são o sangue
e os ossos da existência natural e sobrenatural. Desinibido de espaço e tempo, Odù é o
idioma primário dos antepassados e dos Orixás. Eles são a voz pura da potestade que se
profere na perfeição binária plena.

Assim como o I-Ching, antigos Iorubás conheciam a lógica e números binários


muito antes de conhecermos os números decimais. O interessante é que na aplicação do
código eles utilizavam números de 1 a 16 e seus multiplicadores, sem o uso do "zero", cujo
também não se torna indispensável a esta forma de cálculo. Um exemplo clássico está na
aplicação dos símbolos dos Omo Odús (16 signos primários de Ifá) que em suas derivações
formam combinações de 256.

Figura 06: Odú Oráculo Binário dos Orixás. Fonte: http://www.cienciaoculta.com.br/

O jogo de opelé ifá baseia-se num sistema matemático, em que se estabelece 256
combinações resultantes dos 16 odús usados no jogo de búzios multiplicado por 16. Nada
se faz sem que antes se consulte o oráculo, quanto mais séria a questão a ser resolvida,
maior a responsabilidade da pessoa que faz o jogo.

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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verificou-se que o exemplo histórico mencionado desse continente tão rico em


culturas e povos diferentes pode concluir que existem diferentes matemáticas, que não
foram desenvolvidas, pois a universalização desta ciência impôs um método único para o
pensamento humano.

O colonizador das Américas não se interessou em promover em suas colônias a


cultura e o saber dos povos que escravizaram, impondo uma imagem que definia a Europa
como centro do conhecimento. Os grupos que concentraram o poder nas épocas pós-
independência perpetuaram o conceito eurocêntrico, e apenas há poucas décadas houve
mudanças, com o reconhecimento das estruturas complexas do conhecimento e os saberes
da Etnomatemática. Os estudos de vários grupos apontaram para uma diversidade do
pensamento matemático, indicando diferentes maneiras e composições de pensamento.

A matemática dos povos africanos constitui um rico referencial de conhecimentos


culturalmente acumulados ao longo da história. Essa prática tradicionalmente estabelecida
enaltece os costumes religiosos peculiares aos povos que utilizavam o jogo de búzios como
método de comunicação com as suas divindades.

REFERÊNCIAS
CARVALHO, Wellington Schühli. Matemática na Antiguidade: Continente Africano.
Ciência e Diversão, 2014. Disponível em: http://parquedaciencia.blogspot.com.br/
2014/08/matematica-na-antiguidade-continente.html. Acesso em: 12 out. 2016.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Volta ao mundo em 80 matemáticas. Scientific American Brasil,


São Paulo, 2ª Edição, nº 35, página 6 - 9.

DE OBÁ, Mãe Marta. As nações. Disponível em: http://www.maemartadeoba.com.br


/orixas %20mitos%20e%20lendas/as%20nacoes%202.htm. Acesso em 5 out. 2016.

D'OSOGIYAN, Fernando. Mérìndilogún – O Jogo de 16 Búzios. Disponível em:


https://ocandomble.com/2011/10/08/merindilogun-16-buzios/. Acesso em 12 out. 2016.

GASPAR, José. Matemática na África. Matemática no Planeta Terra, 2013. Disponível


em: http://www.mat.uc.pt/~mat0703/PEZ/Civiliza%C3%A7%C3%A3oafricana2.htm.
Acesso em: 13 out. 2016.

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ANAIS DA X MOSTRA CIENTÍFICA DO CESUCA – NOV. / 2016
ISSN – 2317-5915

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PLANTIER, Renato Duarte. O que é o Sistema Binário? Cultura Mix, 2011. Disponível
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PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso.


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