Você está na página 1de 19

Capítulo 3

Seção 1
Positivismo lógico
A ideia de “imagem tradicional da ciência” é uma noção relativa, isto é, seu
sentido somente pode ser determinado em relação a algum período histórico.
Em relação à revolução científica iniciada no século XVI, por exemplo, a “ciência
tradicional”, à qual se opõe o método de Bacon, baseava-se no modelo
aristotélico. Já em relação ao início do século XX, a imagem tradicional da ciência
como um processo essencialmente indutivo (inspirada na proposta de Bacon)
será atacada por filósofos como Hempel e Popper, como você aprendeu no
capítulo anterior. Atualmente, é a vez do Positivismo lógico e do Racionalismo
crítico (Popper) ocuparem o lugar teórico de concepções tradicionais da Ciência,
frente às quais se opõem diversas perspectivas contemporâneas. Vamos iniciar
nosso estudo conhecendo mais de perto um movimento de grande impacto nas
primeiras décadas do século XX: o Positivismo lógico.

Não é difícil observar que o status da ciência como forma mais aprimorada do
conhecimento humano permanece como uma constante em nossa sociedade.
A confiança que depositamos nos médicos ou em qualquer técnico para cuidar
de nossos aparelhos eletrônicos demonstra, indiretamente, que o conhecimento
científico goza de grande aceitação em meio ao senso comum, representando
um sinônimo de certeza e segurança. Essa imagem popular da ciência
contemporânea sustenta características eminentemente positivistas, como
a noção de um desenvolvimento linear e progressivo da prática científica e a
própria confiabilidade intrínseca que devotamos aos resultados de pesquisas
científicas, considerando-os como verdades estabelecidas. Frederick Suppe
(1977) chama este estereótipo da prática científica de “visão recebida”. O
seu argumento é o de que a imagem comum que temos da ciência (que
definitivamente já não corresponde à imagem que as próprias teorias científicas
nos fornecem) tornou-se um ícone, introduzido pela concepção científica do
mundo, advogada pelos positivistas lógicos.

Para compreender essa influência, em primeiro lugar é preciso que você possa
distinguir entre o Positivismo, enquanto corrente filosófica do século XIX, e o
chamado Positivismo lógico ou Neopositivismo, originado no início do século XX,
a partir das discussões do Círculo de Viena.

1.1 Positivismo e Positivismo lógico


Veja no quadro abaixo as características gerais do Positivismo comtiano e do
Positivismo lógico, também chamado de Neopositivismo ou ainda Empirismo lógico.

80
Filosofia e Ciência

Quadro 3.1 – Positivismo e Positivismo lógico (Neopositivismo)

Positivismo Positivismo lógico (Neopositivismo)

Doutrina desenvolvida por Augusto Movimento filosófico nascido nas primeiras


Comte (1798-1857) no século XIX. décadas do século XX, por meio dos estudos
do chamado Círculo de Viena; um grupo de
Engloba a filosofia, a sociologia, a filósofos e cientistas interessados em estabelecer
política e a religião numa síntese uma fundamentação científica para a filosofia,
orientada pelo método empírico de rejeitando por completo a presença da metafísica
conhecimento fornecido pelas ciências. no pensamento teórico.

Fonte: Elaboração do autor, 2011.

Em linhas gerais, o Positivismo lógico assume os pressupostos básicos da


doutrina filosófica positivista estabelecida por Comte no século XIX. São eles:

•• Ênfase no método empírico das ciências como única fonte válida de


conhecimento.
•• Rejeição radical dos conceitos e explicações de ordem metafísica.
•• Concepção da ciência como o “motor” do progresso humano,
ao qual a filosofia deveria submeter-se, cumprindo um papel
instrumental.
Entretanto, a Filosofia Positiva desenvolvida por Augusto Comte consistia em
um amplo projeto de organização do conhecimento humano voltado para as
transformações sociais. Seus objetivos incluíam a reflexão sobre as leis lógicas
do espírito humano, uma reforma da educação, o progresso nas diversas áreas
da ciência e a reorganização da sociedade com base nas contribuições da
sociologia. Assim, embora definisse o método demonstrativo e experimental
das ciências como o modelo ideal para progresso do conhecimento, o
positivismo comtiano projetava-se muito além da prática científica, elaborando
uma ambiciosa síntese do pensamento filosófico e da reflexão histórica,
política e social. Os propósitos de Comte estendiam-se, inclusive, à proposta
de fundamentação de uma nova religião baseada no saber científico e no
desenvolvimento da humanidade. Acompanhe a descrição fornecida pelo autor:

O positivismo se compõe essencialmente duma filosofia e duma


política, necessariamente inseparáveis, uma constituindo a base,
outra a meta dum mesmo sistema universal onde inteligência
e sociabilidade encontram-se intimamente combinados. Duma
parte, a ciência social não é somente a mais importante de todas,
mas fornece o único elo, ao mesmo tempo lógico e científico,
que de agora em diante comporta o conjunto de nossas
contemplações reais. (COMTE, 1988, p.43).

81
Capítulo 3

O fascínio de Comte pelo desenvolvimento da ciência pode ser considerado


como uma continuidade dos ideais Iluministas de crença na razão e entusiasmo
pelo progresso da humanidade. Contudo, do final do século XIX às primeiras
décadas do século XX intensas transformações sociais na Europa (como as
duas Grandes Guerras) foram responsáveis por demonstrar as limitações do
conhecimento científico em proporcionar uma ampla melhoria na condição de
vida de todos os seres humanos. Neste contexto, muitas das aspirações da
filosofia positiva proposta por Comte mostraram-se ingênuas.

Afastando-se da doutrina filosófico-sociológica comtiana, pode-se dizer que


o positivismo lógico do século XX apenas retém o espírito positivista,
caracterizado pela rejeição da especulação metafísica e pela exaltação do
saber científico como forma superior do conhecimento humano. Segundo
Dutra (2005, p. 53):

Embora o positivismo comtiano seja uma doutrina antimetafísica,


podemos ver que ele está também claramente fundamentado
em uma metafísica, isto é, que se baseia em concepções da
história, da mente humana e da própria sociedade que não
são decorrências óbvias e incontestáveis de observações. […]
Embora haja semelhanças entre o positivismo de Comte e
aquele professado pelos autores do Círculo de Viena […] a maior
influência sobre estes últimos não veio da filosofia comtiana, mas
do pensamento de Ernst Mach, Ludwig Wittgenstein e Bertrand
Russell.

1.2 A bases filosóficas do Positivismo Lógico


Levando mais longe o ideal comtiano de distanciamento dos conceitos
metafísicos, os neopositivistas passam a enfatizar a importância da rigorosidade
lógica na construção de proposições de conhecimento. Em outras palavras,
nossa utilização livre da linguagem comum guarda muitas ambiguidades.
Sobretudo a filosofia moderna erigiu boa parte de suas reflexões e disputas em
torno de conceitos sobre os quais não se pode obter nenhum tipo de verificação
concreta. Assim, o modelo cognitivo das ciências naturais deveria fornecer o
padrão de objetividade responsável por orientar uma concepção de mundo
baseada na perspectiva científica.

Para compreender as motivações cientificistas sustentadas pelo Positivismo


Lógico, é preciso que você conheça um pouco da história do Círculo de
Viena. De forma genérica, é possível afirmar que o Positivismo Lógico
estabeleceu-se como um movimento de cooperação mútua entre filósofos e
praticantes da ciência em reação às especulações metafísicas sustentadas
pelas filosofias idealistas alemãs. A partir da primeira década do século XX, um

82
Filosofia e Ciência

grupo de filósofos austríacos dedicou-se a buscar, nas ciências, a base para a


fundamentação de uma nova postura filosófica, orientada tanto pelos avanços
da lógica e da matemática na virada do século quanto pelos novos paradigmas
da física contemporânea. Encontrando-se semanalmente na capital austríaca,
sob a coordenação do físico e filósofo da ciência Moritz Schlick, tal grupo ficaria
conhecido como o Círculo de Viena, cuja proposta foi publicada em 1929, sob
a forma de um manifesto intitulado A Concepção Científica do Mundo: o Círculo
de Viena. Entre seus principais membros encontravam-se Rudolf Carnap, Otto
Neurath e Hans Hahn, além das participações esporádicas de destacadas figuras
do meio filosófico e científico, como o matemático Kurt Gödel, Carl Hempel,
Tarski, Quine e A. J. Ayer.

Contudo, essa descrição genérica da formação do Círculo de Viena não revela o


cenário teórico a partir do qual as ideias deste grupo ganhou ampla difusão nos
anos 1930. Acompanhe no quadro abaixo uma exposição pormenorizada das
origens desta importante corrente do pensamento científico.

Círculo de Viena

A visão recebida é um produto do positivismo lógico, mas continuou a gozar de


popularidade mesmo depois da rejeição deste, pois se propunha a ser uma filosofia
da ciência, e não uma epistemologia geral.

Qual foi a origem do positivismo lógico? A resposta tradicional é que ele surgiu como
resposta aos excessos metafísicos de Hegel e de seus sucessores neo-hegelianos,
como MacTaggart, Bradley etc., que procuravam explicar a realidade em termos de
entidades metafísicas abstratas, como o absoluto ou enteléquias, que não podiam ser
especificados empiricamente.

Porém, essa não era a preocupação central nos primórdios do movimento. Com
a formação do Círculo de Viena e da Escola de Berlim, constituídos por cientistas,
matemáticos e filósofos educados como cientistas, estavam preocupados,
principalmente, com as questões filosóficas levantadas pelos avanços científicos
recentes.

O positivismo lógico é um movimento originário da cultura alemã. A universidade


alemã tinha seus departamentos organizados em torno de um professor [catedrático],
que escolhia os outros professores e pesquisadores segundo preferências
acadêmicas e até políticas. A ciência alemã no período entre 1850 e 1880 era
dominada pelo ponto de vista filosófico do materialismo mecanicista, uma mistura do
positivismo comtista [Comte, 1830], do materialismo e do mecanicismo. Essa postura
dominante entre os cientistas, porém, estava em oposição à filosofia “oficial” das
universidades do estado alemão, que era uma versão diluída do hegelianismo.

83
Capítulo 3

O porta-voz principal do materialismo mecanicista era Ludwig Büchner, que em


1855 rejeitava o idealismo e o “super-naturalismo” em favor da visão de que as leis
mecânicas seriam inerentes às coisas, e que toda a matéria, animada ou inanimada,
interage por meio de forças [e é imbuída de energia]. O método científico forneceria
conhecimento objetivo dessas leis, sem recurso à especulação filosófica, mas
apenas à investigação empírica. Não haveria conhecimento a priori, nem a
necessidade de uma mediação por meio de conceitos teóricos.

A partir de 1870, o materialismo mecanicista passou a ser questionado como


resultado dos avanços na psicologia e fisiologia. Hermann von Helmholtz (1863), por
exemplo, estudou a fundo a fisiologia dos sentidos da visão e audição, e salientou
a importância da mediação dos sentidos e da atividade pensante do sujeito no
crescimento do conhecimento científico.

Essa crise do materialismo mecanicista levou à ascensão de uma filosofia da


ciência neokantiana, desenvolvida inicialmente por Helmholtz e, de forma mais
importante, por Hermann Cohen e sua Escola de Marburgo, e posteriormente por
Ernst Cassirer. De acordo com Cohen (1871), o objetivo da ciência seria descobrir
as estruturas ou formas gerais das sensações, que constituem teias de relações
lógicas entre sensações. A ciência descobriria as estruturas dos fenômenos, não
das coisas-em-si. Essas estruturas teriam um caráter ideal, platônico, absoluto.

Assim, na passagem do século, o senso comum da comunidade científica alemã


era de que a ciência seria um conhecimento absoluto, não relativista. Esta seria
a concepção que seria chacoalhada com o surgimento, na física, das teorias da
relatividade e da mecânica quântica. A maior parte da comunidade científica alemã
seria hostil a essas novas teorias até o período nazista, devido à sua posição
predominantemente neo-kantiana e ao preconceito contra os judeus, que tiveram
um papel destacado nas duas revoluções da física. (...)

O neokantismo não foi a única filosofia da ciência adotada como reação ao


materialismo mecanicista. Outra escola baseava-se no neopositivismo de Ernst
Mach, e teve influência em um número menor de universidades, incluindo Göttingen
e Berlim. Mach partira, em 1868, de uma posição neokantiana, segundo a qual
toda teoria científica contém um elemento a priori, de caráter puramente formal.
Posteriormente, no entanto, ele veio a rejeitar quaisquer elementos a priori na
constituição do conhecimento das coisas. A ciência seria uma reflexão conceitual
sobre fatos, cujos elementos seriam os conteúdos da consciência dados pelos
sentidos.

Neste quadro filosófico, não havia uma doutrina de espaço e tempo absolutos,
ideia esta que influenciaria Einstein.

Para Mach, enunciados científicos devem ser verificados empiricamente, ou seja,


devem ser redutíveis a enunciados sobre sensações. Em 1886, procurou construir

84
Filosofia e Ciência

os princípios da ciência como descrições abreviadas de sensações, mas fracassou


ao tentar reduzir relações matemáticas às sensações. Seu projeto foi retomado
pelos cientistas William Clifford (1885), Karl Pearson (1892) e Heinrich Hertz (1894),
que, no entanto, introduziram um elemento a priori na ciência – porém, um a priori
sem conteúdo factual. Henri Poincaré também seguiu esta linha em 1902.

Com o surgimento da teoria da relatividade e o lento desenvolvimento da teoria


quântica, considerou-se que as três escolas de filosofia da ciência mencionadas
– o neokantismo, o neopositivismo machiano e o materialismo mecanicista – não
conseguiam dar conta dos novos avanços científicos. As escolas neokantianas
e materialistas – incluindo as universidades de Heidelberg, Würzburg, Jena e
Munique – rejeitavam o abandono da física clássica. Já as escolas neopositivistas
eram simpáticas à Relatividade e à Quântica, mas essas exigiam um abandono da
adesão estrita ao positivismo machiano.

Surgiu assim uma crise nas filosofias da ciência. Como incorporar as revoluções
da fìsica? Qual é a natureza da investigação científica? Uma das direções seguidas
para superar a crise foi produzir um neokantismo modificado, como o de Cassirer
(1910). A outra direção, que acabou sendo mais influente, foi abraçar uma versão
enfraquecida do neopositivismo machiano, inicialmente com Moritz Schlick (1918),
em Viena, e Hans Reichenbach (1924), em Berlim.

Ambos aceitavam o critério de significado de Mach, segundo o qual os conceitos


teóricos deveriam ser verificáveis, mas concluíram que ele estava errado ao não dar
um lugar para a matemática. Para introduzir a matemática, seguiram a proposta de
Poincaré (1902) – antecipada por Hertz (1894) – de que as leis científicas em geral
seriam meras convenções a respeito de fatos (por exemplo, a lei de conservação
de energia). As regularidades observadas nos fenômenos seriam caracterizadas por
termos teóricos, que seriam convenções, no sentido de que qualquer afirmação
feita usando termos teóricos poderia também ser feita em linguagem fenomênica.
Ou seja, termos teóricos seriam definidos explicitamente em função dos
fenômenos, sendo meras descrições abreviadas de fenômenos.

Eis então a base da visão recebida, mas ainda falta um elemento: a lógica. Os
matemáticos e alguns dos filósofos do Círculo de Viena conheciam bem os avanços da
matemática feitos por Frege, Cantor e Russell, que culminaram com a obra Principia
Mathematica de Whitehead & Russell (1910-13), que axiomatizava a matemática com
base na lógica. Isso sugeriu aos membros do Círculo de Viena que os enunciados
matemáticos das leis científicas, assim como as definições dos termos teóricos,
poderiam ser dados em termos da lógica matemática. Modificaram, assim, sua síntese
de Mach e Poincaré, resultando na versão original da Visão Recebida (Carnap, 1923).

(SUPPE, 1977, p. 6-12).

85
Capítulo 3

As ideias avançadas pelos positivistas lógicos envolvem uma comparação crítica


das proposições de conhecimento até então formuladas pela filosofia e pela
ciência. O conhecimento científico é verdadeiro na medida em que se relaciona,
em alguma dimensão, à experiência, podendo ser comprovado de forma empírica.
Proposições que se referem a conceitos dos quais não podemos ter nenhuma
experiência ou verificação, por outro lado, carecem de uma base positiva, sendo
considerados enunciados metafísicos destituídos de sentido. Assim, o positivismo
lógico sustenta uma perspectiva de cunho empirista, procurando na experiência
o valor de verdade último de suas proposições, auxiliado pelas regras da nova
lógica e dos procedimentos matemáticos. As ciências positivas encontram as
leis que descrevem adequadamente as relações entre os fenômenos. Caberia à
filosofia, portanto, a tarefa de livrar-se das proposições sem sentido, assumindo
o papel de organizadora do saber e redefinindo seus métodos e objetos de
investigação conforme o exemplo de rigor e objetividade fornecido pelas ciências.

O conteúdo filosófico das teses sustentadas pelo Positivismo lógico conjuga


diversas contribuições da lógica, da matemática e das descobertas científicas do
início do século XX, adentrando ao domínio da filosofia da linguagem, sobretudo,
na reflexão acerca do significado de sentenças ou proposições. Conheça alguns
dos principais elementos que influenciaram a perspectiva neopositivista:

•• Convencionalismo — Em oposição a Kant, o matemático, físico


e filósofo da ciência Henri Poincaré (1854-1912) rejeitara a ideia
de que as proposições da geometria seriam conhecimentos
necessários e sintéticos a priori, isto é, estariam dados de forma
absoluta no entendimento, independentemente de
De fato, Einstein
qualquer tipo de experiência. O convencionalismo procura
utilizara em sua
demonstrar que a geometria utilizada na descrição do
Teoria da relatividade
geral uma geometria
mundo (geometria euclidiana) seria resultado de uma
não euclidiana, convenção, podendo ser substituída por outras
provando que seria tentativas igualmente válidas de apreender a
um erro considerar a realidade, fundadas a partir de axiomas distintos. A
geometria euclidiana tese convencionalista forneceu um sólido argumento
como a única para que os positivistas lógicos pudessem rejeitar
explicação possível o compromisso da filosofia com conteúdos não
do espaço. empíricos, ou seja, os juízos sintéticos a priori
kantianos.
•• Programa logicista — Gottlob Frege (1848-1925) revolucionou
a lógica, a matemática e a filosofia da linguagem do século XX,
ao desenvolver sua Lógica matemática, introduzindo o chamado
cálculo proposicional e exprimindo sentenças lógicas a partir
de termos algébricos. O programa logicista desenvolvido por
Frege e Bertrand Russell consistia em tentar demonstrar que

86
Filosofia e Ciência

a aritmética seria totalmente derivada de princípios lógicos.


Esta tentativa foi frustrada posteriormente pela descoberta do
Paradoxo de Russell. De qualquer modo, a utilização de uma
lógica simbólica e matematizada para interpretar o significado
de proposições linguísticas e formular frases com sentido
rigorosamente determinado apontava o caminho para uma
maneira científica de filosofar, capaz de escapar às confusões
geradas por proposições de sentido obscuro ou indeterminado. Eis
a direção tomada pelo positivismo lógico na busca pela construção
do conhecimento exclusivamente a partir de proposições cujo
significado fosse claramente determinado e estabelecido como
logicamente válido.
•• Filosofia como análise da linguagem — Em 1921, Ludwig
Wittgenstein (1889-1951) publica o seu Tractatus Logico-
Philosophicus, obra fundamental para o desenvolvimento da
filosofia analítica e principal influência para o positivismo lógico. O
Tractatus procurava elucidar as condições lógicas suficientes para
que o pensamento e a linguagem pudessem representar de forma
satisfatória o mundo. Em outras palavras, uma frase ou proposição
seria como uma espécie de fotografia da realidade. Para decidirmos
se ela é significativa ou não, é preciso compará-la com os fatos
reais. Num sentido amplo, a influência da filosofia de Wittgenstein
para o positivismo lógico encontra-se na delimitação de um novo
campo de atividade para a filosofia, a saber, a análise da linguagem.
Se à ciência caberia a investigação empírica da realidade,
a filosofia deveria dedicar-se à análise e reflexão sobre o
sentido das proposições de conhecimento, estabelecendo-
se como um poderoso instrumento crítico. Num sentido mais
específico, o positivismo lógico vai debruçar-se sobre a sugestão
wittgensteiniana de que o significado das proposições estaria ligado
à sua noção de verificabilidade.

1.3 Positivismo e verificacionismo


A tese filosófica central sustentada pelo positivismo lógico pode ser denominada
como a Teoria Verificacionista do Significado. Admitindo que uma proposição
busca representar a realidade, então, o sentido desta proposição (ou a falta dele)
deve aparecer justamente quando tentamos compará-la com o próprio mundo.
Portanto, à exceção das proposições analíticas da matemática e da lógica – cujo
significado não se refere às coisas no mundo – conclui-se que afirmações de
conhecimento em geral têm significado apenas na medida em que sejam
empiricamente verificáveis. Em outras palavras, o significado de proposições

87
Capítulo 3

sintéticas é o próprio método da sua verificação. O caminho para efetuar tal


verificação é o da análise lógica da linguagem. Eis o chamado princípio de
verificação, que se tornou a regra de ouro dos positivistas lógicos.

A análise lógica de proposições adotada pelos neopositivistas consiste na


tentativa de redução dos termos complexos de uma afirmação a termos mais
simples, passíveis de serem verificados empiricamente. Verificar empiricamente
uma proposição significa poder decidir, por meio da observação, se ela é
verdadeira ou falsa. Proposições inverificáveis, por outro lado, são enunciados
metafísicos destituídos de sentido, uma vez que não é possível decidir sobre
sua veracidade ou falsidade por meio da experiência. Uma proposição como “o
cérebro humano representa apenas 2% do peso do corpo”, por exemplo, é uma
proposição com sentido, uma vez que um fisiologista pode provar a veracidade
ou falsidade dessa afirmação por meio de medições comparativas. Note que
todos os termos da proposição (cérebro, peso, corpo) podem ser claramente
definidos quanto à sua significação. Por outro lado, uma proposição como “a
alma encontra-se no corpo, mas sua origem é espiritual” não seria passível de
comprovação mediante a observação empírica, sendo, portanto, destituída de
sentido para o conhecimento objetivo.

Essa estratégia de verificação lógica do sentido das proposições será levada ao


extremo pela filosofia de Rudolf Carnap (1891-1970), um dos mais destacados
integrantes do Círculo de Viena. Compreendendo o positivismo lógico como
uma proposta de renovação da filosofia a partir dos avanços da ciência e da
lógica, Carnap declara guerra aos “pseudoproblemas” filosóficos, originados de
proposições metafísicas sem um sentido empiricamente determinado. Em sua
obra A construção lógica do mundo (1928), o autor apresenta o seu Sistema
construcional, uma tentativa de estabelecer uma ciência unificada sobre as
bases de uma linguagem rigorosamente determinada pela lógica. Cada termo de
uma proposição com sentido, segundo Carnap, deveria ter um correlato direto
em nossa experiência sensível, ou ser reduzido a um termo mais simples capaz
de ser diretamente relacionado às coisas. Com isso, estariam condenadas as
proposições metafísicas da filosofia tradicional, abrindo-se um novo campo para
a filosofia na direção da reflexão lógica sobre a linguagem.

88
Filosofia e Ciência

Figura 3.1 – Rudolf Carnap

Fonte: UCLA Philosophy Department, 2014.

Essa perspectiva radical de aplicação do princípio de verificação logo mostrou-


se impraticável. Afinal, se todos os termos de uma afirmação precisam ter um
correspondente direto em nossa experiência sensível, nem mesmo os axiomas da
lógica poderiam ser aceitos como proposições válidas. Boa parte dos esforços
de Carnap consistiram em repetidas tentativas de flexibilização do princípio de
verificação, sem a perda da “barreira antimetafísica” sustentada pelo Círculo de
Viena. Segundo Fatturi:

Carnap tornou mais agudo seu critério, ao exigir que sentenças


bem-formadas fossem aquelas que possuíssem termos
redutíveis aos termos que ocorrem em afirmações de evidência
pertencentes às ciências. Com isto, Carnap elaborou o
critério que permitia que as sentenças quantificadas da lógica
pudessem ser admitidas, desde que estivessem sintática e
terminologicamente corretas. Enquanto o critério de Carnap não
exigia nem verificação nem a falsificação, mas, apenas, a mera
testabilidade parcial, ao mesmo tempo o critério de Carnap
permitiu sentenças contendo termos disposicionais – que
podem ser usados para construir sentenças psicológicas –,
desde que estes possuíssem termos redutíveis à experiência.
Esta liberalização empírica de Carnap, contudo, permitia que
determinadas afirmações científicas que não possuem base
empírica pudessem ser elaboradas e, com isto, permitindo
novamente que a metafísica pudesse fazer parte da ciência. No
entanto esta não era sua intenção. Este problema foi seriamente
discutido nas reuniões do Círculo, mas ficou sem uma solução
adequada. (FATTURI, 2010, p.144).

89
Capítulo 3

Em resumo, a teoria verificacionista do significado, defendida pelos positivistas


lógicos, terá um duplo desdobramento:

a. Na filosofia, trata-se da consolidação da tradição analítica


iniciada por Frege. Apropriando-se das primeiras reflexões de
Wittgenstein e Russell sobre a linguagem, os positivistas lógicos
passam a conceber como principal tarefa do filósofo, a reflexão
sobre o sentido das proposições linguísticas e a avaliação de suas
pretensões de conhecimento.
b. Na ciência, trata-se do estabelecimento do método
verificacionista como procedimento padrão para a aceitação de
hipóteses e teorias científicas, conforme você estudou no capítulo
anterior.

1.4 A imagem tradicional do pensamento científico


O Positivismo lógico foi responsável pela ampla divulgação do conhecimento
científico e, sem dúvida, pelo alto nível de confiabilidade atribuído à pesquisa
na atualidade, instaurando a ciência como o paradigma de conhecimento válido
em nosso tempo. Deriva da perspectiva positivista, a imagem popular e, muitas
vezes, caricatural do cientista como aquele que apenas se deixa orientar pelos
conhecimentos científicos, permanecendo completamente alheio aos costumes,
crenças, convenções sociais e outras formas de conhecimento. Embora
inúmeros cientistas contemporâneos não compartilhem de semelhante posição,
mostrando-se abertos ao diálogo com a filosofia e a própria religião, de fato
essa imagem tradicional do pensamento científico como “verdade inexorável” se
mantém viva, e sua origem remonta à concepção positivista da ciência.

Veja algumas de suas características:

Quadro 3.2 – A imagem positivista da ciência

Característica Descrição
Ciência como As proposições de conhecimento da ciência procuram
conhecimento objetivo atingir a verdade objetiva sobre os fatos, sem qualquer
resquício de subjetividade. Seus métodos e procedimentos
visam a encontrar um resultado que esteja afastado
de qualquer posição pessoal, mantendo-se apenas
fundamentado nos próprios fatos.

90
Filosofia e Ciência

Ciência como única forma Dado que apenas o conhecimento científico é capaz de
de conhecimento válido expressar-se em proposições empiricamente verificáveis,
nenhuma outra forma de saber pode pretender-se
logicamente válida (embora não esteja excluída a
possibilidade de que aí se encontrem afirmações
verdadeiras, de forma isolada).

Ciência como O conhecimento científico é preciso justamente porque se


conhecimento preciso e encontra estruturado por uma metodologia bem definida.
metódico Tal metodologia é discutida e aceita consensualmente pela
comunidade científica, bem como a linguagem utilizada
para expressar teorias, minimizando a possibilidade de
ambiguidades.

Ciência como A ciência progride pelas críticas e contribuições de seus


conhecimento praticantes. O conhecimento científico, portanto, é um
progressivamente saber cumulativo e alcança níveis cada vez maiores de
aperfeiçoado explicação, predição e controle.

Ciência como A ciência não pertence a nenhuma ideologia ou credo


conhecimento específico, buscando o conhecimento pelo conhecimento,
desinteressado sem a influência de motivações externas.

Ciência como Os resultados da ciência convertem-se em aplicações


conhecimento aplicável e capazes de melhorar a vida humana. O conhecimento
necessário científico, portanto, é indispensável para o avanço da
civilização humana.

Ciência como a união A ciência não se baseia simplesmente na observação,


entre raciocínio lógico e traça planos racionais de observação controlada mediante
experimentação a construção de experimentos científicos. O raciocínio
(ciências formais) e a experiência (ciências factuais) se
combinam para produzir um conhecimento rigoroso.

Ciência como O conhecimento científico é conjectural e baseado


conhecimento hipotético em testes que permitam estabelecer com precisão a
que busca leis e teorias veracidade das proposições de conhecimento. Hipóteses
confirmadas são consideradas como leis científicas. Teorias,
por sua vez, são constituídas a partir de um conjunto de
leis e (ou) hipóteses que possam ser verificadas.

Ciência como explicação e Conhecendo as leis da natureza, o cientista é capaz de


previsão explicar porque acontecem determinados fenômenos e
prevê-los. Previsões científicas sempre se baseiam em
explicações suficientes, sem apelar a eventos misteriosos.

Fonte: Adaptação de CUPANI, 1985, p.13-20.

91
Capítulo 3

Como você pode perceber, analisando as características descritas acima, a


corrente do positivismo lógico mantinha, no início do século XX, uma imagem
extremamente otimista da ciência, considerando-a como um valor incontestável
e o único caminho possível para o desenvolvimento da civilização humana. Em
maior ou menor intensidade, essa imagem da ciência foi amplamente aceita pela
comunidade científica e pelo senso comum. Entretanto, o positivismo lógico e sua
perspectiva sobre o conhecimento científico também será alvo de muitas críticas
por parte de filósofos e pesquisadores. Entre eles, Karl Popper e a corrente do
Racionalismo crítico, como veremos a seguir.

Seção 2
Racionalismo crítico
O positivismo lógico adotou sem reservas o método verificacionista como parte
essencial do procedimento científico. Admitia-se que hipóteses científicas
rigorosamente verificadas por testes e experimentos empíricos tornam-se leis
e teorias verdadeiras, contribuindo para a construção do sólido edifício da
Ciência. Mas você se lembra, tendo estudado a unidade anterior, como Popper
critica duramente este método em favor de seu falsificacionismo? Tal crítica
se estenderá não apenas ao verificacionismo enquanto método de pesquisa,
mas também a alguns pressupostos fundamentais da imagem positivista da
ciência. As críticas popperianas deram origem à corrente denominada como
Racionalismo crítico.

Enquanto o Positivismo lógico se estabeleceu como o pensamento comum a um


grupo de pensadores, o Racionalismo crítico está mais especificamente ligado
às ideias de Popper. Segundo Peluso, por meio do Racionalismo crítico, “Popper
apresenta os fundamentos de uma nova teoria da ciência, que corresponderia ao
desenvolvimento de um certo modelo de racionalidade inspirado na prática dos
cientistas do século XX” (PELUSO, 1995, p.11). Assim, o falsificacionismo é uma
tese instrumental relativa à metodologia científica. Ela deriva do Racionalismo
crítico, compreendido como a posição filosófica de Popper no âmbito geral da
teoria do conhecimento e da filosofia da ciência.

Curiosamente, alguns livros incluem Popper no grupo dos Positivistas


lógicos e não é incomum encontrarmos essa mesma informação em
pesquisas genéricas feitas na internet. Há uma explicação para isso:
A primeira obra de Popper, Lógica da descoberta científica (1934),
apresentava o conceito de falseabilidade e uma série de argumentos
críticos em relação à filosofia neopositivista. Contudo, ela foi publicada
numa série dirigida por Moritz Schilick (Coordenador do Círculo de Viena),
cujo objetivo era o de divulgar o pensamento positivista. Por esta razão, o

92
Filosofia e Ciência

pensamento de Popper até hoje é vinculado ao positivismo lógico. Alguns


autores o consideram, de fato, um positivista que teria se afastado dessa
corrente posteriormente. Para Marcondes, Popper seria “o principal
herdeiro do positivismo lógico, embora de uma perspectiva bastante crítica”
(MARCONDES, 1998. p.223).

2.1 Racionalismo crítico e a oposição ao verificacionismo


No capítulo anterior, você pôde acompanhar as críticas de Popper ao
verificacionismo do ponto de vista da prática científica. Vamos retomar
brevemente os pressupostos básicos da tese falsificacionista proposta pelo autor.

•• A confirmação de uma teoria por testes experimentais (verificação)


não é condição absoluta de sua validade. Teorias científicas devem
ser suscetíveis de refutação. A irrefutabilidade de uma teoria não é
uma virtude, mas sim um vício.
•• A maneira correta de testar hipóteses científicas é conceber meios
experimentais para tentar refutá-las; e não confirmá-las. Desse
modo, a testabilidade equivale à refutabilidade. Algumas teorias são
mais testáveis e, por isso, estão mais expostas à refutação. Isso as
torna potencialmente mais fortes do que as demais.
•• Quando novos fatos descobertos mostram-se de acordo com as
predições de uma teoria, essa é apenas corroborada, mas não
confirmada de forma definitiva. Uma teoria é corroborada quando
passa por um teste, isto é, quando uma observação cujo resultado
poderia eventualmente refutá-la não se confirma.
Agora, considerando que a principal tese epistemológica do Neopositivismo é a
teoria verificacionista do significado, você está em condições de compreender
qual a diferença básica entre essa corrente do pensamento científico e o
Racionalismo crítico de Popper. Acompanhe o raciocínio:

Nesta direção, os ••Os positivistas lógicos julgavam ter encontrado


positivistas lógicos na análise das proposições uma ferramenta capaz de
são frequentemente
acusados de
determinar de uma vez por todos os limites entre ciência
adotar condições e não ciência: à ciência caberia ocupar-se exclusivamente
epistemológicas tão de proposições de conhecimento empiricamente
estritas ao ponto de
determináveis. Todo enunciado incapaz de passar na
eliminar não somente
a metafísica, mas prova da verificação seria destituído de sentido objetivo,
também grande parte revelando-se como metafísico ou pseudocientífico.
das ciências empíricas
como a psicologia, por
exemplo.

93
Capítulo 3

•• Para o Racionalismo crítico, entretanto, o critério de demarcação


entre ciência e não ciência deixa de vincular-se ao sentido lógico
das proposições, convertendo-se no próprio falsificacionismo.
Em outras palavras, o que separa o conhecimento científico da
pseudociência é a refutabilidade de suas proposições.
•• Assim, a condição de refutabilidade proposta por Popper permite
traçar uma linha divisória entre o discurso científico e outros
tipos de conhecimento, sem se ater a um critério de sentido
ou significação dependente de uma teoria filosófica acerca da
linguagem.
•• Com isso, altera-se a própria relação da ciência com a metafísica.
Para Popper, as afirmações de caráter metafísico não possuem
estatuto científico, apenas porque não são suscetíveis ao
falseamento. A questão sobre seu sentido ou significação — fonte
de extensa discussão na filosofia contemporânea — não é posta
em causa, isto é, não precisa ser resolvida antes que se possa
compreender a natureza das proposições científicas. Em sua obra
O futuro está aberto o autor escreve:

A tarefa primordial para uma demarcação entre a ciência e a


metafísica consiste em libertar a metafísica. […] É ridículo proibir
que se fale de qualquer coisa que não pertença à ciência. Foi o
que o Círculo de Viena tentou fazer. […] O bem mais precioso do
homem são as ideias. Nunca temos ideias suficientes. Daquilo
que nos ressentimos é da escassez de ideias. E as ideias são
um bem prestimoso, por isso, devemos tratar a metafísica com
respeito e discutir – talvez das suas ideias surja alguma coisa.
(POPPER, s/d, p.60-64)

O Racionalismo crítico, portanto, desvincula a reflexão sobre a prática


científica de uma ligação necessária com o debate acerca da linguagem e
do sentido das proposições de conhecimento em geral. A crítica de Popper
ao verificacionismo concentra-se na questão metodológica, envolvendo a
aceitação de hipóteses, como você estudou anteriormente.

À primeira vista, a proposta falsificacionista pode ser tomada sob uma


perspectiva ingênua, segundo a qual a ciência deva operar somente com
testes de falseamento, banindo de uma vez por todas a confirmação de
hipóteses. Porém, o Racionalismo crítico de Popper passou a adotar uma
versão sofisticada de falsificacionismo, postulando que há diferentes graus de
falsificabilidade de uma teoria. Quanto mais a ciência avança, mais aumenta

94
Filosofia e Ciência

o grau de falsificabilidade de cada nova teoria. Em geral, quando uma teoria


bem estabelecida é falseada, surgem hipóteses audaciosas de explicação dos
fenômenos. Tais conjecturas apontam certas previsões, que devem ser testadas
e eventualmente confirmadas pelas experiências. A confirmação de hipóteses,
portanto, não se encontra completamente banida da prática científica. Ela pode
representar justamente o falseamento de uma teoria mais antiga. “A confirmação
de uma conjectura audaciosa pode envolver a falsificação de alguma parte do
conhecimento prévio em relação à qual a conjectura era audaciosa.” (CHALMERS,
1993, p. 86).

Em resumo, o falsificacionismo sofisticado elaborado a partir das reflexões de


Popper não mantém os testes de falseamento como “regra de ouro” da prática
científica (tal como faziam os neopositivistas com o seu princípio de verificação).
Para o Racionalismo crítico, teorias devem ser falseadas, mas, para isso, novas
conjecturas precisam ser confirmadas. Somente o falseamento de uma teoria
não é, necessariamente, garantia de avanço da ciência. O que mais importa é o
caráter informativo contido tanto no falseamento de hipóteses pertencentes ao
conhecimento prévio quanto na confirmação (provisória) de novas conjecturas
audaciosas. A ciência avança na medida em que é capaz desestruturar o
conhecimento anteriormente estabelecido, a partir de novas conjecturas e
refutações.

2.2 Outras oposições ao positivismo lógico

Na base do modelo verificacionista, afirma Popper, está implícita a ideia de que


a observação pode ser fonte segura do conhecimento. Segundo este modelo, o
cientista deveria poder observar e experimentar a realidade sem pressupostos e
sem preconceitos, tal como sugere a imagem positivista da ciência ao classificar
o conhecimento científico como conhecimento desinteressado. Assim, tendo
realizado inúmeras observações, verificado metodicamente suas hipóteses e
testado suas teorias, estabelecendo-as como verdadeiras, o pesquisador estaria
produzindo um conhecimento absolutamente objetivo e livre de ambiguidades.
Essa seria sua contribuição para o avanço cumulativo da ciência e, a partir de
suas aplicações, para o progresso da civilização rumo ao pleno conhecimento
e controle sobre a natureza. Contudo, revendo cada passo deste “roteiro ideal”,
o Racionalismo crítico apresenta algumas oposições, esboçando uma imagem
diferente do procedimento científico.

Em primeiro lugar, ao vincular diretamente a verificação de proposições e


hipóteses científicas à capacidade de observação, os positivista permanecem
ligados à indução. Para Popper, entretanto, é falso que em qualquer momento
da pesquisa o cientista deva partir de observações, tentando generalizá-las,
de modo que o Racionalismo crítico rejeita completamente o recurso
à indução na prática científica. Embora alguns adeptos do Positivismo

95
Capítulo 3

lógico, como Carl Hempel, tenham aderido à crítica da perspectiva indutivista


tradicional da ciência no século XIX, o fato é que o próprio esquema positivista
da verificação permanece implicitamente ligado à indução na medida em que
pretende que observações experimentais de casos particulares possam confirmar
definitivamente uma hipótese de conhecimento universal.

Outro aspecto importante na perspectiva racionalista crítica é a chamada


precedência da teoria à observação. Segundo Popper, tanto na vida cotidiana
como no domínio da prática científica, a observação não é o primeiro passo;
há sempre algo que orienta o conhecimento. Em outras palavras, mesmo
em relação à nossa experiência visual, tendemos a enxergar os elementos
previamente conhecidos, que se encontram de acordo com nossas antecipações
e expectativas. Da mesma forma, a observação científica é sempre seletiva, pois
nunca se resume a percepções aleatórias, senão que se processa já de acordo
com algum conhecimento anterior (background knowledge). Assim, um cientista
observa e constroi experimentos sempre em função de problemas, teorias
e modelos que determinam previamente sua determinação. Ao sustentar que
toda observação é precedida por alguma teoria, o Racionalismo crítico levanta
simultaneamente duas oposições contra a imagem positivista da ciência:

1. Os saberes não científicos não devem ser simplesmente excluídos


como pseudoconhecimento destituído de sentido. Ao contrário, em
seus períodos iniciais a própria ciência somente pôde desenvolver-
se pela influência da filosofia e de proposições metafísicas. Da
mesma forma, diversas fontes de conhecimento podem estimular o
cientista em seu processo de descoberta, ainda que de forma não
sistemática.
2. Se toda teoria científica pressupõe uma espécie de “conhecimento
de fundo” e pode sofrer influências externas ao domínio da
pesquisa, então, não é possível sustentar a concepção positivista
da história da ciência como um gradual e sistemático acúmulo
de saberes estritamente científicos. Em outras palavras, pelo
Racionalismo crítico a noção de um progresso uniforme do
conhecimento científico, por meio da soma de observações e
teorias, começa a ser posta em cheque. Segundo Popper, a
origem da ciência está nos problemas. A própria história da ciência
consiste em um desenvolvimento problemático em que, por meio
de tentativas e erros, alguns problemas vão sendo resolvidos e
outros vão sendo criados.
Em resumo, pode-se dizer que o Racionalismo crítico mantém o ideal metódico
e objetivo que orienta a prática científica, mas transforma o esquema teórico
oferecido pela imagem positivista da ciência:

96
Filosofia e Ciência

•• Em lugar da indução (passagem da observação a hipóteses)


coloca-se a conjecturação, isto é, a formulação criativa de
possíveis soluções para um problema, sob a forma de hipóteses
ou conjecturas. Somente com base em conjecturas iniciais, um
pesquisador pode direcionar sua observação.
•• Em lugar da verificação de hipóteses, entra em cena o
falsificacionismo. O progresso da ciência exige que as teorias sejam
cada vez mais falsificáveis e, em consequência, retenham cada vez
mais informação.
•• A objetividade das teorias científicas não mais deve ater-se
ao sentido de suas proposições, mas às suas condições de
refutabilidade.

2.2 Racionalismo crítico como corrente tradicional do


pensamento científico
A partir das conversões teóricas listadas acima, Popper influenciou
profundamente o surgimento de novas reflexões sobre o método científico e a
filosofia da ciência, abrindo caminho para a contestação da imagem tradicional
da ciência mantida pelo positivismo lógico. Um de seus alunos, Paul Feyerabend,
tornou-se notório por sua visão anarquista da ciência, rejeitando a existência de
regras metodológicas universais. Entretanto, apesar das consistentes críticas ao
positivismo, há motivos para considerar o Racionalismo crítico ainda como uma
corrente tradicional do pensamento científico.

De um ponto de vista histórico, as reflexões de Popper serão sucedidas por uma


grande transformação nas discussões sobre a Ciência e seu desenvolvimento.
Trata-se do impacto da tese de Tomas S. Kuhn sobre as chamadas revoluções
científicas, considerada como um ícone na filosofia da ciência contemporânea.
Nesse sentido, o Racionalismo crítico, embora opondo-se ao positivismo,
conserva certas posições sobre a prática científica contestada pela “nova”
filosofia da ciência, desenvolvida a partir dos anos 1960.

Em termos filosóficos, pode-se dizer que, embora reformulando os instrumentos


teóricos da metodologia científica, Popper ainda compartilha de uma imagem
da ciência que a conecta diretamente a mais alta expressão da racionalidade
humana. Tal imagem, cujas origens remontam ao próprio desenvolvimento
da ciência moderna a partir do século XVIII, encontra-se plenamente exposta
pela corrente neopositivista, persistindo no Racionalismo Crítico por meio da
associação entre o conhecimento científico e o conceito de verdade.

Seja na perspectiva verificacionista, seja no falsificacionismo popperiano,


podemos encontrar uma concepção de ciência regulada pelo conceito de

97
Capítulo 3

verdade como correspondência. Em outras palavras, ainda que Popper


estabeleça o caráter eternamente provisório das teorias científicas, de algum
modo cada falseamento conduz a ciência a uma espécie de adequação entre
o intelecto e as coisas tal como são; entre a racionalidade do pesquisador e a
realidade efetiva por ele pesquisada. Tal perspectiva realista, anexada à plena
atribuição de objetividade e neutralidade das ciências naturais, permanece como
aspectos tradicionais associados ao Racionalismo crítico.

Popper também divide com os positivistas a ideia geral de progresso científico.


Em outras palavras, teorias que sobrevivem aos testes de falseamentos, bem
como novas conjecturas que surgem como alternativas a teorias rejeitadas,
contribuem para o crescimento da ciência. Embora rejeite a ideia de que a ciência
avança de modo cumulativo, o Racionalismo crítico dá ênfase à concepção
da ciência como “um corpo de conhecimento em crescimento e evolução”.
(CHALMERS, 1993, p.79).

Seção 3
Thomas Kuhn e a Estrutura das revoluções
científicas
Estudando os capítulos anteriores, você provavelmente já pôde identificar um
movimento dialético no desenvolvimento do conhecimento científico. Ou seja,
repetidas vezes, ao longo da história, em oposição a uma perspectiva “tradicional”
surgem novas compreensões sobre o método científico, os propósitos da
ciência e sua posição em relação ao conhecimento humano. Em geral, estas
novas compreensões tendem a negar variados aspectos da compreensão
anterior, mostrando-se como a sua antítese. Precisamente, essa dinâmica de
desenvolvimento será enfatizada pelo filósofo da ciência Thomas Kuhn, como
o modo característico da produção do conhecimento científico, por meio das
chamadas revoluções científicas. Essa imagem se opõe radicalmente à
concepção positivista da ciência como procedimento linear e cumulativo. Embora
escrita na metade do século XX, a obra de Kuhn continua a figurar como um
trabalho de extrema importância para o debate atual em Filosofia da Ciência.

Thomas S. Kuhn (1922-1996), um físico norte-americano que passou a lecionar


História da ciência nas universidades de Harvard e Berkeley, publicou, em 1962,
A estrutura das revoluções científicas. Sua obra rapidamente tornou-se um ícone
ao apresentar uma análise de ciência que abandona a abordagem tradicional,
admitindo fatores extracientíficos na produção do conhecimento científico. Para
Kuhn, o desenvolvimento da ciência se processa de forma revolucionária, ou seja,

98