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Pele de Cristal

Pele de Cristal
Helena Damasceno

A história e trajetória de uma mulher vítima


de violência sexual na infância
De vítima a sobrevivente, da dor à cicatriz...

– 2008 –
Pele de Cristal 3
Capa:
Concepção: Helena Damasceno
Design: Yuri Yamamoto
Revisão Ortográfica e Gramatical: Érica Azevedo
Revisão Final: Helena Damasceno
Diagramação: Wagner Moreira
Edição: Pouchain Ramos
1ª Edição

Contatos com a autora através do email


helena.damasceno@gmail.com

Todos os poemas ao longo dos capítulos são de autoria de Helena Damasceno

4 Helena Damasceno
“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu
Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil
Minha experiência maior seria ser o outro dos outros:
e o outro dos outros era eu”.

Clarice Lispector

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Dedico esse livro

A Deus que me oportuniza a experiência humana,


A Goretti Feitosa que sempre me ofertou o melhor de si com acolhimento e serenidade,
A Débora Machado pela gratidão, paciência e respeito,
A Pagú, minha cadelinha, que tanto me ensina sobre o cuidar e o amar,
A Karin Koshima que um dia brincou de alegria n’alma minha e me fez ouvir minha Palavra
de Criança com afeto e doçura.

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8 Helena Damasceno
Agradeço

À Funci – Fundação da Criança e da Família Cidadã – nas pessoas de Glória


Diógenes e Gilberto Braga e ao Fórum Cearense de Enfrentamento da Violência
Sexual Contra Crianças e Adolescentes na pessoa de Márcia Cristine Oliveira pelo
carinho e apoio financeiro.
Ao Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância – nas pessoas de Ana
Márcia Diógenes e Rui Aguiar pelo incentivo e apoio técnico.

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Sumário

Apresentação ............................................................................................ 13
Prefácio ...................................................................................................... 15
Introdução ................................................................................................. 17
A primeira carta ........................................................................................ 22
Capítulo I - Coragem pra falar ............................................................... 29
Capítulo II - Amarelinha pra pular ........................................................ 37
Capítulo III - Braile de calçada .............................................................. 43
Capítulo IV - Braços abertos quebrando o silêncio............................ 50
Capítulo V - Força de horizonte ............................................................ 58
Capítulo VI - Dona do dom ................................................................... 63
Capítulo VII - A mensagem da água ..................................................... 73
Capítulo VIII - Da gangorra das crises ................................................ 79
Capítulo IX - Hóspede do tempo.......................................................... 89
Capítulo X - Da beleza submersa ........................................................103
Capítulo XI - O que onda no mar .......................................................110
Capítulo XII - Mãos ao assalto da pantera sem cor..........................119
Capítulo XIII - Máscaras de azeviche .................................................126
Capítulo XIV - Suor de vidro...............................................................131
Capítulo XV - Diário de chão ..............................................................142
Capítulo XVI - O cale-se ......................................................................147
Capítulo XVII - Inverno .......................................................................154
Capítulo XVIII - Sobre o tempo: 1978 - 1985 ..................................161
Capítulo XIX - Do apego ao universo do cativeiro interior, as marcas
desse caminho.........................................................................................167
Capítulo XX - Percorrendo o caminho de amor, uma outra etapa ........ 174
Capítulo XXI - Meus sinais ..................................................................177
Capítulo XXII - O tratamento de adultos que foram vítimas de vio-
lência sexual quando crianças ...............................................................182
Capítulo XXIII – Comentários do Blog Pele de Cristal .................. 188

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12 Helena Damasceno
Apresentação

Posso dizer que desde o primeiro momento em que vi Helena um facho de


luz e força capturou o meu olhar. Em torno dela de maneira visível ou não, audível
ou não, circulavam música, dor e uma teia de afetos e amizade. Apenas uma sobre-
vivente tem o dom de movimentar-se em meio ao abandono, a fomes de todos os
tipos, a explorações diversas de tantas crianças e adolescentes, através da música e
da esperança.
“Pele de Cristal” traduz a fortaleza das almas delicadas. Logo nas primeiras
páginas, como quem adverte e sutilmente toma o leitor pela mão, ela anuncia, sem
nenhum movimento brusco: a violência sexual precisa ser desmistificada1. Ela inicia
a difícil tarefa de transformar o silêncio em palavras de alerta e de sinalização da
necessidade de cuidados com tantas crianças que inexplicavelmente se fecham e são
facilmente identificadas como “estranhas”. Como falar do indizível, de um senti-
mento que não pode ser decodificado por uma criança? Ora, se o adulto que deveria
proteger, que em tese tem autoridade em relação ao certo e ao errado é quem pro-
voca sensações tão cortantes? O agressor é uma pessoa em quem a vítima confia e que detém
um poder sobre ela.
Primeiro, a autora desses escritos fala da dor muda, da negação de um corpo
que precisou se esvaziar para não transbordar de pavor. A gente nega, nega muito até a
dor ser mais forte e sair gritando, explodindo. Bendito sejam aqueles que explodem tanto
até criar um novo canto para a sua dor e um outro rumo para as suas palavras. Por
tais razões, Helena fica o tempo necessário no seu quarto de dor. Nessa medida vai
descobrindo que pode ser feliz e que vale muito a pena viver. Ela pula a janela do seu quarto
e tenta abrir tantas outras janelas seladas pelo medo.
Uma criança/adolescente abusada sexualmente sente-se quase paralisada por
um perverso sentimento - a culpa é o alicerce central desse jogo. É por isso que Helena
decide dar voz às suas dores e abrir pequenas frestas no seu quarto de menina. É que
ela sabe que a violência sexual não vem sozinha, vem acompanhada de outras violências.
Foi movida com o emergente sentimento do cuidado consigo mesma e pelo
cuidado com o outro, que ela tenta produzir novas peles e novas defesas para ela e
tantas outras crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
Um sentimento de vingança alimentado por tantos silêncios, choros contidos,
abafados, por tantas negligências e agressões transmuda-se em atos de recriação da
vida. Crescer é um ato dinâmico. É uma dança que envolve o corpo condoído e a alma machucada,
num baile humano e divino. Ela então, como num ritual sagrado toma a água e banha-se
de amor e perdão. Pisa firme na terra e se reconstrói em cada passo, em cada ação
de libertação. Usa o fogo da paciência, da sabedoria para lançar fachos de luz e de
esperança. Abre o peito e faz jorrar um sopro de vida. Isso só se realiza através de

1 Todas as frases e palavras em destaque são citações literais da obra apresentada

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uma teia de afetos e da construção de outros patamares de direitos, de outros luga-
res de sujeitos.
Estamos enredadas, eu, você e muitos outros e outras nessa tarefa de fazer
valer a vida de tantas crianças e adolescentes que ainda gaguejam e apenas tateiam
oportunidades sólidas de crescimento e reconhecimento. Estar aqui “escrevinhan-
do” esse texto de apresentação muito me honra e me alegra. Isso significa dizer que,
de algum modo, pessoas como eu e você, obstinadas pela vida, embora delicadas,
envoltas em peles de cristal, não se deixam calar, não resumem suas existências entre
quatro paredes. Somos do mundo, do mundo em carne viva. Do mundo que dói e
encanta. E é isso que esse livro de Helena provoca, uma dor e uma vontade de nun-
ca mais calar, de fazer mover todos os sentidos, e velejar no oceano (...) do reencantamento
com a própria oportunidade que é a vida.

Glória Diógenes
Fortaleza, junho de 2008

14 Helena Damasceno
Prefácio
Lindo texto, forte texto, doce texto...
Poucos seriam os adjetivos para traduzir a beleza e importância desse livro e o
quanto ele toca na alma das pessoas que têm o privilégio de serem conduzidas por
Helena pelos caminhos melodiosos das suas palavras, que explodem incansavelmente.
Algumas vezes encantando e hipnotizando como as luzes, sons e cores dos fogos de
artifícios; outras vezes nos rasgando a alma como uma lança, um punhal que escancara
a verdade, expõe a carne, obrigando-nos a ver o que teimamos não enxergar.
Nestes últimos nove anos tenho convivido, a partir da minha inserção profis-
sional2, com situações de abuso sexual e lidado cotidianamente com os desafios que
essa questão lança diariamente sobre nós. Lembro-me particularmente das dificul-
dades iniciais, do esforço em construir um saber, em encontrar bibliografia na época
sobre o tema, em ir aos poucos montando esse quebra-cabeça.
Pele de Cristal não apenas socializa o conhecimento, o que por si só já seria
extremamente importante, mas Helena nos pega pela mão e nos faz acompanhar o
seu processo de elaboração simbólica diante do sofrimento, se propõe a socializar o
amor, as suas feridas, a sua historia, suas fraquezas, e essa atitude destaca-se como
extremamente bonita, importante e única. As marcas da violência sexual não se en-
cerram nas páginas de um livro teórico e este livro traz uma abordagem diferente
e complementar à bibliografia teórica.
Li atentamente Pele de Cristal e posso afirmar que foi um dos textos mais
profundos, fortes, honestos, ácidos e paradoxalmente mais lindos que já li, amplian-
do de forma decisiva a minha visão e entendimento sobre o assunto e sem dúvida
tornando-me uma profissional e pessoa melhor. Esses quase 10 anos de trabalho na
área me ensinaram que grande parte da nossa conduta profissional começa primei-
ramente com a nossa atitude individual como pessoa, com os nossos preconceitos
e valores, e também nessa perspectiva esse livro dá uma valiosa contribuição. É
impossível não ser afetado por ele.
À mercê da relevância do tema e do texto, da extrema sensibilidade com que
o assunto foi abordado, esse livro com certeza será de suma importância tanto na
formação de profissionais, oportunizando a potencialização do seu entendimento
acerca da dinâmica do abuso sexual, oferecendo outro olhar acerca da temática, con-
duzindo o leitor a percorrer a construção de caminhos resilientes, bem como poderá
auxiliar pessoas que como ela, vivenciaram a experiência da violência sexual, mos-
trando que é possível trilhar um caminho de superação e resiliência, reafirmando
o humano como aquele capaz de superar adversidades e situações potencialmente
traumáticas e rompendo com a noção na qual o sujeito se vê aprisionado a um ciclo
sem saída.
2 Inicialmente atendendo clinicamente crianças e adolescentes em situação de abuso sexual e atualmente
coordenando o setor psicossocial do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da Bahia (Cedeca) e
capacitando profissionais da área para esse atendimento especializado.

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O abuso sexual é um verdadeiro campo minado para todas as pessoas envol-
vidas, sejam as que sofreram abuso, as famílias, as que abusaram e os profissionais
envolvidos no tratamento e no cuidado. É grande o silêncio que cerca essa questão,
onde existe a reticência e o medo das crianças em falar, e a surdez e o medo dos
adultos e da sociedade, em escutá-las. Tais fatos permanecem dissimulados devido ao
silêncio que os cerca, sendo muito difícil formar uma idéia exata da amplitude desse
problema, por outro motivo não fosse a coragem de algumas vítimas em falar.
O relato de Helena deixa muito claro o que os livros tentam traduzir, de que
a criança abusada é sacrificada aos interesses de um outro, deixando evidente que
o trauma sofrido não se resume ao contato sexual propriamente dito e que muito
mais graves são as sevícias afetivas, a violência psicológica, o aniquilamento da auto-
estima que essas situações impõem. Helena enfrentou as próprias barreiras, estava
presa aos laços de ódio e apatia que a imobilizava, e como ela mesma diz, deixou
parir a dor, deixou fluir a energia que movimenta a vida, olhar pra ela de frente, de
cabeça erguida e ver que há outras possibilidades, descobrindo que “A dor não é
nossa única fonte de vida”. Helena nos ensina que as vítimas de violência sexual
habituam-se a sofrer e sentir dor, porque essa é a realidade que conhecem e que a
comodidade de já conhecer aquele movimento de culpabilização, aquela realidade
de sofrimento, acaba impedindo-as de gerar força e movimento, de deixar de lado a
comodidade imperativa pra saltar num abismo que não se conhece.
E Helena fez isso com uma coragem e força absurdas, abrindo a porta da sua
alma com delicadeza, presenteando a todos nós com uma oportunidade única de
compreender através de uma lente especial a sua trajetória, de ter acesso ao universo
subjetivo de quem passou pela experiência da violência sexual e por que não dizer
também, de receber o amor e positividade que ela irradia. Esse livro se apresenta
como uma esperança e, acima de tudo, reforça uma proposta ética que impulsiona
a ação e o engajamento.
É importante salientar que Helena nos traz o início da sua caminhada e que os
novos passos dessa caminhada acontecerão dentro de uma dinâmica ativa, ao longo
do ciclo normal da vida que ainda prossegue. A lição que o livro nos deixa, indepen-
dente das nossas histórias particulares de vida, é a possibilidade da construção de
novos caminhos e a necessidade de abandonar atitudes acomodadas e negativas, de
enfrentar com doçura e coragem as novas exigências, buscando a poesia nos deta-
lhes, explorando com toda a intensidade e entrega os acontecimentos e desafios que
se faz presente diante de nós, dia após dia.
Desejo sorte para Helena, para este trabalho e que ela continue trilhando
seu caminho, irradiando amor e a transparência dos cristais. Ler esse texto é sentir
cheiro de flor.

Karin Koshima
Salvador, fevereiro de 2007.

16 Helena Damasceno
Introdução

Durante muito tempo desejei que tudo que vivi fosse fruto de mera ficção,
mas não é, nunca foi. E nunca tinha pensado em escrever minha história, nunca.
Durante as sessões de psicoterapia recebia uma sugestão: “escreve sobre isso que
você tá falando Helena, vai ajudar tanta gente”. Eu ria, não entendia como uma história de
tanta dor pudesse ajudar alguém e, claro, tinha certeza de que a minha fala era um
conjunto de besteiras que mais ninguém, salvo minha psicóloga, devia ouvir.
Navegava pela Internet certo dia ruminando meus sentimentos, pensando na
sugestão recebida, quando decidi, quase que por intuição, criar o Blog Pele de Cristal.
Escrevi inicialmente um pequeno texto, sem pretensões outras. Depois de um mês,
escrevi outro e não parei por três meses. No início mal sabia o que estava fazendo,
escrevia tão somente seguindo o processo psicoterápico e a minha intuição, deixava
acender uma luz dentro do meu quarto de dor; e fazia isso inicialmente sem noção
alguma de que um livro se materializava ali, diante da tela do meu computador.
Logo na primeira semana, recebi alguns contatos que me parabenizavam pelos
capítulos do meu livro. Assustei-me e neguei, evidentemente, que estava escrevendo
um. Mas, com o tempo, percebi não só que Pele de Cristal tinha essa autonomia,
quase como uma “vida independente de mim”; como também fui naturalizando
meu processo, fui deixando minha criança machucada vir à tona e passei a cuidar das
minhas feridas com mais amor e respeito, aceitando assim, com coragem e delica-
deza, o livro Pele de Cristal.
Sacralizei minha dor num altar escuro de culpa, vergonha e medo por toda
a vida e decidi, nesse meu processo de cicatriz, expurgar todo esse peso e ser livre
e feliz, sem culpas ou medos. Quando comecei meu caminho sabia que tinha de
enfrentar um adversário poderoso: a culpa. Mesmo assim segui em frente porque já
sabia do passado, já o tinha vivido, e conhecia muito bem como era ficar enterrada
na revitimização dos medos e do vazio sem fim.
O que queria a partir dali era o contrário desse passado ruim, queria expe-
rimentar o que era bom, exercitar a delicadeza que havia em mim e degustar o
presente num prato cheio de vida, uma vida integral e mais leve; queria deixar que
as feridas cicatrizassem e viver o tempo de cada processo sem maiores dores e an-
siedades, enfrentar meus medos e todas as conseqüências da violência sexual que
sofri de cabeça erguida, com os pés no chão do presente de meus passos, não mais
num passado de dor e peso.
Assumi que é possível isso, e se assumir internamente é dar um passo signifi-
cativo, é movimentar-se nesse quarto pessoal de dor tão denso e tão cheio de pó. Nesse
processo de cicatriz, tenho enfrentado com dignidade toda a dor da minha história.
Juntar minhas pecinhas não é tão fácil assim, mas traz o significado da leveza e da
vitória, materializa essa leveza na minha vida e me torna leve e feliz.
O primeiro passo veio de um lugar que é conhecido pela frieza e pré-dis-

Pele de Cristal 17
posição aos golpes e afins: a Internet. Busquei ajuda no site de relacionamento
Orkut depois de sucessivas crises depressivas ao longo da vida e de terapias
quebradas, porque, interrompidas, não somavam sucesso efetivo. Havia escrito
uma carta muito dura e, depois de mais ou menos um mês tomando fôlego,
espiando e lendo os relatos nas comunidades, identificando-me com a maioria,
criei coragem e decidi publicar parte dessa carta numa das comunidades rela-
cionadas às vítimas de violência sexual na infância, naquele mesmo site. Postei
com foto e perfil identificados, nada de anonimato.
Naquele momento queria ajuda, buscava quase que minha última tentativa ali;
gritava socorro enquanto a dor me rasgava o resto de alma que ainda tinha, pois me
via sem vida, quase como um zumbi andarilho e solitário. E recebi de volta muito
afeto, respeito e dignidade das pessoas que entenderam e atenderam meu SOS. A
partir dali dei um passo mais quando conheci pessoas que tinham passado pela
mesma experiência de violência que eu. Pouco tempo depois estávamos já de mãos
dadas, numa relação de luz, apoio e incentivo, quase como um grupo de auto-ajuda
no espaço virtual. Não sabia como me faria bem conhecer alguém igual a mim e a
relação de amizade e afeto com as “meninas das comus”3 , como costumo carinho-
samente chamá-las, me foi peça fundamental para optar pela vida, para chegar até
aqui, nesse espaço de cristal, caminhando tão leve, segura e tranqüila.
Alguns dias depois desse momento inicial, passei a fazer psicoterapia com
uma profissional que me facilita, com doçura e ética, esse processo de reconstrução,
libertação e cura. Começamos a caminhar em seguida, já em psicoterapia, e sempre
acessando com seriedade, comprometimento e paciência meu quarto de dor, pusemo-
nos a mexer no baú da vitimização, do medo e da culpa. Foi duro... Nunca disse que
tem sido fácil esse enfrentamento, mas friso a importância da psicoterapia nesse
processo de amor e reconstrução.
Minha psicóloga sempre acessou com muita delicadeza minhas feridas, abrin-
do junto comigo, e, sem nenhum movimento brusco, minhas janelas para que eu
mesma percebesse quanta luz havia em mim. Destaco que deve existir, sempre e em
primeiro plano, um comprometimento interno, um movimento de seriedade e amor
por si mesma nessa ação de cuidar do eu, relativizando a paciência e a serenidade
para abrirmos nossas portas internas. Depois veio outra etapa: a de mexer nas fe-
ridas abertas e enfrentar mais intimamente meus fantasmas para me preparar para
outros processos; um deles, o livro. Sabia que muita poeira havia ainda debaixo do
meu tapete, muitas arestas ainda a compreender e a ressignificar nessa caminhada,
mas segui de cabeça erguida.
Divido minha história em três momentos para facilitar a apresentação e com-
preensão de todos que irão ler as páginas que se seguem a essas linhas. Tecnica-
mente chamo o primeiro momento de exercício direto da violência ou violência
ativa; o segundo de violência indireta e o terceiro de ressignificação. Cada etapa
3 Citação de referência às pessoas que participam das comunidades do site de relacionamento Orkut sob
a temática da violência sexual.

18 Helena Damasceno
sugere uma época específica, emocionalmente falando. O primeiro momento faz
referência aos primeiros anos de abuso sexual e todo o seu período de instalação ini-
cial. Vai do final dos anos 70 até meados dos anos 90, quando saio de casa e assumo
as conseqüências da violência duramente. O segundo momento arrasta-se a partir
deste e segue até 2005, quando começo a trilhar este caminho de ressignificação
através da psicoterapia, do blog e do livro.
Vários passados se encontram ao longo do livro. Não há uma ordem exata-
mente clara nos textos, uma ordem cronológica literária por assim dizer, mas há,
entretanto, uma cronologia emocional, a catarse de uma sincronia de fatos, épocas,
dados e datas que formam e exemplificam a teia incestogênica da família que me
desagregou o espaço do lar e o espaço interno durante algum tempo. É claro que
essa divisão é percebida apenas subjetivamente, pois todo esse livro é o resultado de
um processo psicoterápico específico e, esse relógio interior está sob tutela e ordem
da emoção. Portanto, esse link técnico, quase pedagógico, dá espaço ao longo do
livro Pele de Cristal à subjetividade e a uma intensa meditação interior. Há também
que se evidenciar, uma forte evolução no texto, de delicadeza ascendente no sentido
de superação e resiliência.
Segui quase o mesmo formato do blog, de postagens diárias, continuando a
linkar os textos entre si, salvo por algumas alterações imprescindíveis e determinan-
tes. Cada capítulo inicia com a idéia final do anterior para que a energia circulante
nos textos esteja equilibrada sempre. A primeira carta, que deu início a todo esse
movimento, abre o livro para que se evidencie meu ponto inicial; de onde saí cami-
nhando até os primeiros passos com a psicoterapia, o Blog e agora o livro. Fiz de-
pois uma releitura das publicações no Blog, juntei alguns textos, aprofundei outros,
outros mais excluí e dei uma identidade mais coesa e necessária ao livro.
Há ainda um capítulo interativo, uma construção coletiva que traz alguns dos
comentários que, ou recebi por e-mail, ou que foram publicados no Blog. Capítu-
lo esse que pelo qual, tenho um carinho especial. Denota toda a subjetividade da
partilha do Blog Pele de Cristal, o que ele trouxe e deixou em mim e nas “meninas
das comus”. É um capítulo de profundidade e entrega, de muita troca e pedidos de
ajuda, de sinceridade acima de tudo e de afetividade sempre.
Algumas participações muito especiais me foram presenteadas durante a or-
ganização deste livro. Glória Diógenes que nos presenteia com seu encantamento
pessoal e experiência profissional apresentando Pele de Cristal anunciando uma teia
de esperança e vida. Karin Koshima com a força do prefácio corrobora com sua ale-
gria pessoal e competência imprescindíveis. Débora Machado faz o mesmo trazendo
ao livro uma questão quase esquecida na bibliografia teórica: o tratamento de adultos
que foram vítimas de violência sexual quando crianças. Contribuições únicas e espe-
cialíssimas e que só abrilhantam com sua beleza e qualidade o objetivo deste livro.
Enfim, o universo de Pele de Cristal é forte e intenso, entretanto, cabe ao lei-
tor definir sua forma de interação com a história. Caso queira comece pelo fim, ou
quem sabe pelo meio, mas lembre-se de retornar ao início, pois toda essa história tem

Pele de Cristal 19
motivo na dor, e faz-se necessário que ela seja velada e posteriormente ressignificada
e reinterpretada.
É imprescindível notar quantas roupas vesti, quantos personagens vivi até
chegar a experienciar a verdadeira Helena, o Ser integral e livre a que caminho em
sua direção hoje. Mas nada foi perdido, nenhum descrédito ao que vivi. Meu mundo
é bem maior do que imaginava aos 13 anos e será mais ainda quando maturar-me à
melhor idade, ao melhor de mim.
Pele de Cristal é, portanto, o resultado do meu processo psicoterapêutico ini-
cial e de minha trajetória de luta pelo exercício de viver com dignidade, retirando o
peso da vitimização e da culpabilização das minhas costas e da minha alma. É, desta
feita, o início da minha caminhada de ressignificação e cicatrização, o resultado da
minha determinação e força pessoal e por que não dizer, da minha insistência em
viver.
Presenteio-vos com uma intensa e ácida, no entanto, linda viagem interior...
Bom passeio e seja muito bem vindo, ou bem vinda, ao meu cantinho...
Abra a porta, pode entrar...
Que Pele de Cristal lhe traga a mesma luz que me acendeu a vida!
Namastê!
Helena Damasceno
Fortaleza, dezembro de 2006.

20 Helena Damasceno
Sobre o tempo de dor e medo...

Fortaleza, 19 de outubro de 2005


A primeira carta
Acho que esse inferno não vai acabar nunca!
Minha auto-estima é do tamanho de uma formiga e não sou capaz de ir além
de planos que nunca saem do lugar... Não tenho forças pra resistir a qualquer coisa
que acho que não está legal... Tenho medo de me expor. Acredito ter sempre que
agradar a todo mundo.
Tenho medo das pessoas, de me envolver com elas e depois perder, e depois
ter certeza que sou menor que elas... Aliás, sempre me vejo menor, sempre acho que
quem está do meu lado, seja um colega de faculdade ou alguém do trabalho, quem
quer que seja, todos são sempre melhores que eu...
Meu inferno começou numa data que não sei precisar. Não me recordo se
tinha 6 ou 7 anos, mas sei que foi perto disso.
Tenho poucas recordações da minha infância. Desenvolvi uma série de arti-
fícios para evitar tocar na dor, no centro dela, mas tenho um monte de entraves que
me fazem sentir um peso enorme na vida!
Queria ser leve, encantar as pessoas com meu sorriso franco e iluminado,
mas não sou assim. Sou alguém presa ao passado, a um monte de pesadelos que me
assustam muito!
Sou pesada. Tenho 32 anos e não consegui superar! Que vergonha...
Me afastei da minha família quase que totalmente... Arranjei confusão com
muita gente porque não consigo me relacionar em paz com as pessoas... Falo de-
mais, preciso estar sempre em foco.
Sou DDA4 e ainda por cima desenvolvi uma série de fatores psicossomáticos
pra justificar minha intocável dor. Ansiedade, angústia, baixa auto-estima, alergias
de todo mote, coceiras pelo corpo todo, pareço estar sempre suja. Sou exagerada
em tudo...
Medo, medo, medo...
Tenho também umas dores inexplicáveis no útero. Meu médico nunca
conseguiu decifrar. Parece que ele está sendo arrancado de mim, é um horror, dói
muiiiiiiiito!
Sou cheia de medos, traumas, recalques, ansiedades... Sou depressiva por
profissão!
Já fiz terapia três vezes, mas sempre paro no meio do caminho.
Tenho pavor de baratas. É algo que me consome. Acho que tem alguma
ligação com tudo isso; não sei...
Não vou às minhas aulas na faculdade desde o dia que começaram porque
tenho medo de ser criticada. Tenho pavor de ser um fracasso. Minha família espe-

4 - O TDAH - Déficit de Atenção é uma condição de base orgânica, que tem por principais características
dificuldades em manter o foco da atenção, controle da impulsividade e a agitação - que é a hiperatividade. É
também chamado de DDA, THDA, TDAHI, entre outras siglas.
Fonte: http://www.dda-deficitdeatencao.com.br/

22 Helena Damasceno
rou isso de mim por muitos anos... Meu tio é um canalha, me usou e, sem saber,
acabou com a minha vida!
Apanhei muito quando criança; tive uma criação muito rígida. Não sei dan-
çar, acho meu corpo horroroso. Gente, eu até fedo! Sai um odor fétido de mim, por
mais que passe perfume, ou tome banho...
Não sei por que decidi escrever isso tudo... Talvez esperando que alguém me
diga que isso não é loucura, que também sente algo parecido. Ah! Morro de medo
de enlouquecer!
Quando era adolescente, contei pra uma professora de literatura, adorava
ela, achava que ela ia me ajudar! Ela disse que eu tinha que falar pra minha família
essas coisas. Uns dias depois, aconteceu de novo e contei novamente pra ela. Sabe o
que ela disse? “Ele estava armado? Te ameaçou? Ah! Então você gosta!”.
Me senti a pior das mulheres, mais imunda que nunca...
Ninguém nunca acreditou em mim, não quando eu precisava de ajuda!
Tinha vergonha de ir a uma delegacia, ia estragar a “harmonia” do meu lar.
Eu nunca tive um lar, aquilo era um inferno!
Saí pro mundo, gritei de muitas maneiras a minha dor, bebi, fiz inimizades,
me meti em fofocas, deixei o mundo pisar em mim. Mas aí dei o troco! Me transfor-
mei num poço de agressividade. Ninguém podia chegar perto de mim. Fiz trabalhos
voluntários pra desafiar a morte! Saía no meio da noite e voltava pra casa sempre
bêbada, a pé, esperando alguém pra me matar, ou me violentar.
A culpa me consumia...
Por dentro estava morta, não havia ninguém dentro de mim.
Briguei com Deus, seriamente. Abandonei-o várias vezes...
Contei outras vezes pra outras pessoas, mas elas só tiveram pena...
Fui noiva ainda adolescente, gostava da companhia dele. Passamos anos noi-
vos e nunca transamos. Na minha cabeça, ele me respeitava demais. Depois de um
tempo, terminei o noivado. A família dele me odeia até hoje, me chamam de “a
louca”. Doeu muito ouvir isso quase dez anos depois do fim de um relacionamento
pelo qual, na verdade, só queria fugir da vida infernal que tinha, fugir dos meus
pesadelos, e ele parecia ser a “chave do paraíso!”.
Meu paraíso se perdeu em algum lugar da minha história...
Ainda me sinto meio morta...
Lá em casa as pessoas sempre fingiram nada saber! Todos sabiam, agiam
como se fosse algo invisível, tão invisível que me tornei assim até pra mim mesma!
Minha mãe, meu pai, minhas tias, todos sabiam o que ele queria quando me chama-
va pro quarto dele ou pra qualquer outro lugar, aquele imundo!
Tenho nojo de bigodes, de cheiro de homem, de suor de homem! Tenho
nojo até de abraçar os homens que são meus amigos...
Tudo sempre foi muito ruim, muito difícil...
Minha família era daquele tipo: “Somos felizes lá fora, aqui dentro somos
um segredo, um disfarce”. Apanhava muito, por qualquer motivo. Pudera, tinha

Pele de Cristal 23
duas mães me disputando! Mãe e filha disputavam uma coisinha de pele e osso; meu
Deus, eu só tinha pele e osso! Fico imaginando como alguém pode ser tão doente
pra sentir prazer com uma criança!
Ele vendeu minha infância, minha inocência pro diabo! Perdi o melhor da
infância, da minha vida. Eu era um fantasma, tinha morrido pro mundo, estava mor-
ta por dentro e por fora. Eu não fui uma criança feliz. Vim pra droga desse mundo
pra servir de chacota pros titios alegres, palhaços. A mim pouco importa se eles
tinham tido uma vida difícil e escassa de bens materiais ou carinho dos pais...
EU NÃO ERA E NÃO SOU A RESPOSTA ÀS FRUSTRAÇÕES DE
NINGUÉM, DE NENHUM DELES!
Era uma criança que com 12, 13 anos teve pavor quando menstruou pela
primeira vez. Aquela criança pensava que ele a tinha ferido, pensava estar com uma
hemorragia, ou sei lá o quê!
Não entendi a cara de “feliz” da minha mãe biológica me entregando o ab-
sorvente, toda sorridente, pela porta do banheiro entreaberta. Nem sabia o que era
aquele sangue, e agora vinha aquele troço pra usar... E ela nem pra cuidar de mim,
pra me dizer que aquele sangue não era dele, não era de uma ferida aberta na véspera
que sangrava ali.
Fui uma criança que aos 15 anos ganhou de presente um estupro no jardim
de casa. As pessoas passando e aquela mão, aquela coisa me violentando, me usando
como se eu fosse uma caneta, um bombom, um nada.
Ele me chamava dizendo que uma amiga dele dos Estados Unidos tinha
mandado de presente pra mim uma cartela de adesivos da Pantera Cor de Rosa.
Adorava aquele desenho, era a isca que ele precisava. Eu ia, mas ele nunca me dava
a cartela, ficava só na promessa...
Queria ser professora, igual a ele. Minha mãe também queria que eu fosse
professora. Odiei por muitos anos essa profissão. Aquele palhaço me fez odiar mui-
ta coisa, e ainda faz.
Uma vez todo mundo lá de casa saiu. Papai e mamãe também, foram ao
supermercado. Estava sozinha em casa, um prato cheio; eu e meu bichinho de es-
timação à época.
Quando ele chegou entrei em pânico! Foi a primeira vez que aconteceu
numa cama. Ele me ameaçava, dizia palavras podres, ruins demais pra uma criança
ouvir. Aquele bigode imundo em mim, eu pedindo pra ele parar, mas não, não havia
nenhum movimento de arrependimento ou de dúvida. Ele estava determinado, e
me usou.
Chorava copiosa e mumificadamente. E não há como traduzir aqui a totalidade
dessa dor, porque não há palavras que a descrevam simplesmente, ou que objetivem
a profunda subjetividade desse momento. Meu animalzinho gritava no chão, de-
sesperado, parecia que ele ouvia meus gritos mudos e apavorados e gritava no meu
lugar. E o fazia certamente porque minha voz, muda e miúda, não conseguia dizer
nada, nenhuma gota de grito.

24 Helena Damasceno
Não tinha forças, me sentia um lixo absoluto! Naquele momento percebia
claramente que aquilo era um erro, mas nada podia fazer, ele era o filho perfeito da
mamãe: honesto, trabalhador. E ainda por cima dizia pra todo mundo que eu era a
sobrinha predileta dele. Ninguém ia acreditar em mim, iam dizer que era mais uma
das minhas mentiras, das minhas astúcias.
Aquele homem perguntava se fazia àquilo com outros, dizia que era gostosa.
Sentia um nojo descomunal, uma vontade agigantada de morrer! Mas não tinha
coragem nem pra me matar, nem pra isso servia! Era fraca até pra isso!
Quando ele terminou, levantou e saiu. Fiquei no quarto um tempo, quietinha,
chorando em silêncio. Minha alma sangrava gritante e muda, num carrossel confuso
demais pra minha cabecinha. Minhas pernas pesavam tanto que nem conseguia sair
do lugar. Fui pro banheiro quando a mamãe chegou. Fiquei lá por muito tempo.
Depois ela ficou reclamando do tempo que eu já estava no banheiro, batia
na porta e me mandava sair, dizia que estava gastando muita água; perguntava o
porquê da demora. Eu que chorava baixinho no chão, debaixo do chuveiro, fiquei
com ainda mais nojo de mim. Como ela podia não perceber nada?
Ele foi dormir, eu imunda, não consegui dormir bem, fiz xixi na rede e levei
uma surra na manhã seguinte por isso. Nada nunca foi fácil pra mim...
Mais ou menos nessa época, uma tia me conseguiu a prova do teste de sele-
ção de uma boa e tradicional escola católica. Todas as respostas certinhas. Bastava
que eu decorasse, apenas isso. Passei dias estudando, decorando a tal prova, fazendo
e refazendo as questões. Enfim o dia chegou, e zerei a prova, não acertei nenhuma
resposta. Na véspera, aconteceu de novo.
Não quero ter culpa, mas é difícil, difícil mesmo!
Minha tia deu um escândalo! Disse que eu era vagabunda, que nunca seria
alguém na vida, que ela tinha se esforçado tanto pra conseguir a prova, e nem pra
decorar eu servia.
Na verdade, ouvia isso seguidamente todos os dias depois de ter feito algo
errado. Quando derrubava algo, ou pegava o troco errado, quando queria dormir até
mais tarde no sábado, ou quando queria ouvir música – sempre gostei de música –,
quando não queria ajudar meu maravilhoso tio em algumas de suas tarefas, sempre
ouvia isso, mas naquele dia foi diferente.
Não entendia de verdade o que tinha acontecido. Tinha feito a prova tal
qual o modelo que a minha tia arranjou. Nunca entendi o que houve. Não sei o que
aconteceu com a minha cabeça. Era uma criança inteligente, mas a família em que
nasci dizia que eu era “astuciosa”. Na verdade, eu só queria fugir dali...
Todos os dias a família toda, todos os tios, tias, netos, todo mundo almoçava
na casa de mamãe, era um inferno pra mim! Depois da sesta do almoço todos senta-
vam no corredor e começavam a falar de esporte, violência, da vida dos outros; até
que entrava a mais nova bobagem da coisinha aqui. “Mas não tem jeito mesmo, essa daí
não vai ser nada mesmo. Te ajeita menina, vê se toma jeito, a vida não é uma brincadeira não”.
Eu sabia bem disso...

Pele de Cristal 25
A mesma tia que me arranjou a prova do colégio me obrigou a estudar lá
mesmo assim, por meio de uma bolsa de estudos. Só precisava estudar, criar vergo-
nha na cara. Mas meu tio não me deixava em paz. Ele me fazia ameaças e eu tinha
muito medo dele.
Reprovei na escola de maneira deplorável. Antes era uma boa aluna, com
notas regulares. Será que ninguém percebia que havia acontecido algo errado comi-
go? Que nada! O umbigo deles era mais importante! Minha família no lugar de me
apoiar, ria de mim porque era a “estranha”.
Sempre tive dificuldades em fazer amizades. Na escola eu preferia ser a pa-
lhaça, mas daí a dizer que eram meus amigos... Estava longe! Não conversava com
ninguém, não me revelava. Então comecei a escrever poesias, passei a ficar muito
tempo sozinha estudando, ouvindo música, lendo revistas, livros de literatura ou
ouvindo música clássica, blues, MPB, etc. Assumia a identidade de um ser estranho
a eles, diferente deles, com atitudes estranhas.
Isolava-me do mundo pra sobreviver, não confiava em ninguém. Na verdade
sabia pouca coisa da vida além das paredes da minha casa. E o que sabia, era tão
assustador e ruim, que preferia me esconder do mundo.
Quando tinha mais ou menos uns 14 anos, arranjei meu primeiro namorado,
ele era lindo! Mas não era apaixonada por ele. O que gostava mesmo era da compa-
nhia dele, me sentia segura do lado dele. Nada além disso aconteceu, nenhum con-
tato sexual. Tinha medo, afinal de contas, vivia um inferno. Sem motivos aparentes,
mamãe embargou nosso namoro. Penso hoje que ela teve medo de que revelasse
nosso “segredinho” para ele.
Meu tio enfim arranjou uma namorada séria e decidiu casar. Fui ao casa-
mento obrigada, mas sabe que nunca consegui me lembrar onde estava na hora da
foto, como voltei pra casa, o que disse ou fiz na igreja? Tomei um porre! Foi um
escândalo daqueles, mas pensei que, enfim, meu pesadelo tinha acabado. Qual nada!
Ele continuou a me infernizar. Aos 19 anos saí de casa definitivamente e depois de
algumas idas e vindas temporárias, nunca mais voltei.
Mamãe nunca entendeu o porquê de preferir morar na rua, ou em um lugar
que não era meu de verdade, dormir de favor na casa de amigos, ou ser humilhada
na casa dos outros, “passar necessidades” (como ela dizia), a dormir numa cama
quentinha e comer na hora certinha, na minha casa, com minha família. Queria
morrer, me punir pra sempre porque nunca falei nada, nunca gritei, porque deixei
acontecer.
Uma vez mamãe me perguntou por que não gostava dele. Papai olhou forte
pra mim esperando a resposta, mamãe encheu os olhos d’água e disse: “diga minha
filha, ele mexeu com você?” Calei. Nada disse, fiquei em silêncio, muda como ficava
nas horas em que ele me agredia o corpo, matando minha alma.
Perdi pra sempre a minha chance, eu sei. Mas me veio à cabeça aquele trecho
do Evangelho que diz assim: “É necessário que exista o escândalo, mas ai daquele
pelo qual a mão for motivo de escândalo”. Pode parecer besteira, mas se eu não

26 Helena Damasceno
tivesse pensado isso, eu teria dito, quem sabe... Mas me calei e me culpo até hoje
por isso.
Não sei o que será de mim, se um dia vou conseguir ser forte, segura, se vou
conseguir enfrentar minha dor de frente...
Sei que dói muito! E não sei o que fazer...
Mexer nisso tudo, em qualquer uma dessas coisas, me enche de dor. Uma dor
tão grande que não sei se consigo superá-la ou senti-la.
Ainda quero morrer, ainda estou meio morta, mas também quero viver, tam-
bém estou viva na outra metade de mim e que pede ajuda agora.
A confusão dentro de mim me impede de ir à faculdade, por exemplo, parece
que todos são melhores do que eu, ou parece que se eles souberem do meu passado,
irão fazer igual à minha professora de literatura: “Ah! Você gosta!” E não gosto,
nunca gostei, eu sofro. Ou então vão dizer que isso tudo é besteira minha, ou pior:
vão dizer que é mentira.
Socorroooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!
Tem muitas coisas mais que eu quero falar, mas por agora é só.

Pele de Cristal 27
Sobre o tempo de recomeçar...

Fortaleza, a partir de maio de 2006...


Capítulo I
“Com a mão outra matando a alegria da boca
saio, garganta cortada e nua...
Velo minha morte no chão da rua,
Calo-me diante do abismo crescido, da minha dor
Anágua rasgada e enlutada
Que me cospe o andor
Vestidos brutalmente surdos
gruta inutilmente abastada
Voz muda de medo e torpor...”
Coragem pra falar
Resolvi registrar minha história, escrever sobre o que me aconteceu e todo
o meu processo de recuperação. Quem sabe desta forma possa ajudar alguém que
ainda passa, ou passou pela mesma experiência que eu.
Violência alguma deve ser justificada ou escondida atrás de culpas e medos.
Não existe violência menor. Sempre dói, sempre fere e marca pelo tempo que for!
A família sempre foi, e ainda é, considerada um espaço onde a criança é
amada, respeitada e protegida. Deveria ser no lar, no convívio familiar harmônico
e saudável, que a criança encontraria a tranqüilidade e segurança primeira, a escola
inicial onde ela aprenderia os primeiros passos para a socialização em geral de ma-
neira saudável e integral.
Mitos à parte, nem sempre é assim. Comigo e com um número infindável de
mulheres e homens essa alegoria cultural adultocêntrica caiu por terra duramente.
Foi-nos apresentada uma realidade áspera demais e cheia de marcas profundas. Mar-
cas no corpo, na alma, no silêncio, no verbo e em tudo que somos e ainda seremos.
Não apenas no que é dito, mas também e principalmente no silêncio, naquilo que
não é dito, ficam guardadas as marcas e conseqüências da violência na criança, que
futuramente será um adulto pela metade.
A Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes precisa ser desmistifica-
da. Ela existe e acontece, infelizmente, todos os dias com meninas e meninos (sim,
meninos também sofrem violência sexual) dentro de suas casas e por pessoas que
têm sua confiança. Pais, tios, padrastos, irmãos, amigos da família, primos, profes-
sores, vizinhos, etc; personagens reais dessa violência e que são verdugos da criança,
que, indefesa, desconhece o que acontece com ela; “entende” a invasão da violên-
cia sexual como linguagem de afetividade, e quando percebe o que há por trás do
falso zelo e cuidado imposto, já está presa às ameaças psicológicas, morais e físicas
constantes.
Para a criança essa construção da violência sexual enquanto proposta de
afetividade dá-se de forma natural, pois desde o início de suas incursões invasivas, o
agressor legitima essa violência e naturaliza-a no cotidiano camuflando seu real im-
pacto para todos os envolvidos, especialmente a vítima. Muitos fatores contribuem
para isso. Um deles? A família. Algumas famílias contribuem com a omissão e ou
permissividade para que os abusos sexuais aconteçam cotidianamente no seio de
seu espaço de convivência.
Mas nesse caminho, até que a violência sexual se estabeleça, a criança sofre
outras violências, preponderantes e fundamentais para a sustentação da violência
sexual. Negligência, bullying5, ameaças, assédio moral, violência psicológica e física,
5 O termo BULLYING compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que
ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e
angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder. Portanto, os atos repetidos entre iguais
(estudantes) e o desequilíbrio de poder são as características essenciais, que tornam possível a intimidação
da vítima. Fonte: http://www.bullying.com.br/BConceituacao21.htm

30 Helena Damasceno
maus tratos, etc. Nesse processo, a criança se percebe com os olhos da família, que
tem com ela uma relação de transferência perversa. Em casos de famílias negligen-
tes a criança se percebe de modo pejorativo e inferior, assume uma imagem distor-
cida sempre relacionada à baixa auto-estima, ao desvalor e ao medo, ao pudor e à
vergonha. Daí pronto, posto esse cenário, a porta está aberta para o Abuso Sexual
Intrafamiliar. O agressor não bate à porta sem ter certeza de que está amparado pelo
silêncio e conivência da família.
A criança sempre dá sinais de que há algo de errado em sua sociabilidade
familiar, mas em geral, como os laços de verdade e confiabilidade desta convivência
estão fragilizados, o silêncio é um grande opressor da criança bem como uma forma
de controle para que se mantenha essa violência coadjuvante.
Em alguns casos, quando o abuso se torna evidente demais no cotidiano
dessa infância roubada, algumas famílias conseguem intervir assertivamente para
interromper o ciclo incestogênico e alternam o foco da violência, transformando
sua atenção em situações nas quais a criança será ouvida e cuidada, acolhida em suas
necessidades e Direitos Fundamentais. Nesses casos, que não são maioria, diga-se
de passagem, as crianças conseguem o apoio de algumas pessoas e, enfim, fecha-se
esse ciclo, abrindo-se um novo para ela e os demais envolvidos: como recomeçar
e superar a violência sofrida.
Mas quando a criança não tem apoio de ninguém? Quando ela sofre essa
violência em segredo e sem buscar ajuda por medo ou vergonha, assumindo todas
as responsabilidades dessa violência para si; o que acontece? Sem conseguir se ex-
pressar ou esboçar a reação que a sociedade espera (fácil e cômodo cobrar postura
de quem tem o corpo e alma invadidos e devidamente minados todos os dias um
pouco mais, até que a criança se torna uma presa fácil e sem reação), quando a sua
infância já foi devidamente roubada, quando seus sonhos pueris foram todos se-
qüestrados... O que acontece com essa vida 10, 15, 20 anos depois dessa violência?
A única resposta que tenho é a minha, é a minha estrada e o meu caminho
até aqui. Mais de 20 anos depois do abuso, dos estupros, da negligência e bullyng
sofridos, ainda estou a montar meu quebra-cabeça e a tentar aprender o caminho
do amor próprio para me libertar de uma culpa que não tenho e nunca tive, e desse
peso que é você ter sofrido Violência Sexual. Fui abusada sexualmente por um tio
durante grande parte da minha infância, mais ou menos a partir dos 5, 6 anos e por
toda a adolescência, até, aproximadamente, os 19, 20 anos.
A maior parte da minha vida, aquela que deveria ter sido de descobertas do-
ces e saudáveis, me foi um tornado destruidor, uma inundação de medos, violências,
dores e sofrimento. Esse período de adolescer significados e significantes saudáveis,
é de fundamental importância para o empoderamento adulto. Ali, eu deveria ensaiar
sobre as coisas da dignidade, dos valores que me sustentariam toda a vida. Mas não...
Aprendi que a dor e o sofrimento me seriam companheiras nefastas por muito ainda.
Quando tudo ao meu redor era medo e escuridão, o tempo me fez perceber
que tudo seria pior. O ponto alto desse horror veio com a menstruação. Compreendi

Pele de Cristal 31
os perigos de uma realidade mensalmente assustadora: o pesadelo real da gravidez.
Recordo de situações do mais profundo desespero quando de atrasos menstruais,
sempre o pavor de uma gravidez não planejada e mais que isso, profundamente
indesejada. Ninguém a me orientar sobre a vida de adulta na qual estava sendo violen-
tamente despejada. Muito medo me habitava, muitos nós atando meu caminho de
menina ainda, mas que enlutada pela condição de vítima de violência sexual.
Recalquei essa história por quase toda a minha vida. As conseqüências da
violência me dominavam totalmente, me impedindo de viver integralmente, bem
e feliz. Vergonha, medo, insegurança, ódio, revolta, culpa, baixa auto-estima, idéias
suicidas, problemas escolares, dificuldades de relacionamento, transtornos de ali-
mentação, desvalorização, depressão, etc; conseqüências muitas e que me levariam à
força até as mais variadas formas de culpabilização e revitimizações.
É claro que sabia que tinha sido abusada, mas negava o fato, interna e exter-
namente, porque negar me dava a possibilidade de não ter que mexer em nada disso,
porque doía demais falar sobre isso. Quando falamos sobre a violência admitimos
a dor, admitimos também que tudo aconteceu de verdade e que todo aquele horror
é real, foi real. Dá pra entender? Quando negamos a história não se torna real pra
nós, mesmo sabendo que aconteceu, quando aconteceu, como e onde aconteceu,
recalcamos e evitamos acessar qualquer coisa que nos diga sobre violência sexual.
A gente nega, e nega muito até a dor ser mais forte e sair gritando, explodin-
do tudo que encontra pela frente, derrubando amizades, relacionamentos, trabalhos,
nossa saúde física e mental, nossa vida, enfim.
A violência sexual nunca vem sozinha, vem sempre acompanhada de outras
violências e alicerçada pelo cotidiano enfermo. A criança cresce envolvida numa
teia perversa e de mão única, de inversão de papéis injusta e criminosa e quando do
adolescer, absorve essa identidade vitimada, assumindo todo o peso e responsabi-
lidades sobre o abuso sexual sofrido, fato que acarreta muitos danos à vida adulta.
A violência sexual não é relação saudável, não é sedução natural entre enamorados
emocionalmente iguais. Aqui se fala da relação que se constitui pelo abuso de poder
de um alguém mais forte biopsico-emocionalmente, em detrimento de um outro em
condição oposta, porém, da mesma ordem biopsico-emocional. Em outras palavras,
estamos falando aqui de uma relação entre uma criança e um adulto, estamos falan-
do de violência sexual.
A título de clarificar para aqueles que, por ventura, desconheçam a nomen-
clatura técnica, deixo posto o conceito de violência sexual de Azevedo e Guerra6.
De qualquer forma, nunca é demasiado debater e elucidar questões inerentes a este
fenômeno cotidiano, quase habitual numa cultura adulto e falocêntrica como a nos-
sa. A violência tem cara, cor, gênero e endereços conhecidos. As escritoras discor-
rem acertadamente sobre a questão, trazendo à tona esse universo obscuro de medo
e violência.

6 Crianças vitimizadas: A síndrome do pequeno poder.

32 Helena Damasceno
“É todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual cujo agressor
esteja em estado de desenvolvimento psicossexual mais avançado que a vítima, tendo por
intenção estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para obter satisfação sexual. Se caracteriza
como uma relação bilateral para atender a satisfação unilateral, onde não há consentimen-
to da vítima, ainda que esta seja coagida física, emocional ou psicologicamente. Compreen-
de desde atos libidinosos até estupro”.

Quando nasci, com oito dias, minha mãe biológica me deu pra mãe dela, a
minha avó. Eu nunca tive uma avó. Tive uma mãe em Dose Dupla, com poder duplo:
a força da avó, com a autoridade da mãe. Mas atenção: minha mãe biológica sempre
esteve presente; não pensem que ela andou ausente e que somente anos mais tarde
apareceu uma vizinha metida e linguaruda e finalmente descobri que tinha outra mãe.
Nada disso, de modo algum! Sempre soube e sempre tive uma mãe biológica e uma
mãe em dose dupla, as duas presentes, participando concomitantes da minha educa-
ção e disputando minha atenção, determinando minha vida e meus passos.
Fui uma daquelas crianças sem muitos direitos, sem exercitar vontade pró-
pria, ou me manifestar muito. Não podia escolher roupa, estilo de corte de cabelo,
muito menos, quais amigos poderia ter. Tudo tinha que estar dentro dos padrões da
família, tradicional e correta, sem muita heterogeneidade fora do clã cotidiano.
Quando o abuso ficou evidente demais pra esconder pros vizinhos e estra-
nhos, ou mesmo para os poucos que coabitavam o cotidiano da família em que nasci
(mesmo sem parentesco direto), de imediato alguém tratava de me esconder à estra-
nheza social. Afugentados foram todos que intrusos: colegas de escola, amiguinhos
da rua, pais dos amiguinhos, professores, enfim, qualquer pessoa a quem eu pudesse
confiar aquele segredo.
No início a criança não sabe o que acontece com ela. Ela não tem noção de
que o Abuso Sexual é uma invasão na perspectiva mais ampla e determinante da
palavra. Ela “pensa”, ela acredita que aquilo é uma forma de carinho, compreende
a violência como manifestação natural de afeto. A violência aqui se confunde com
a ludicidade da criança, com as defesas próprias da infância das quais o adulto pe-
dófilo se utiliza para justificar suas ações. É aí que ele transfere a responsabilidade
da violência porque atesta que a criança não o rejeitou, e esse crime aparentemente
silencioso, a olhos menos atentos, segue rasgando corpo, alma e sonhos definitiva
e silenciosamente.
A criança não tem um valor moral determinado. O que determina esse peso
moral, os valores que ela carregará durante toda a vida é o conjunto de valores que a
família e sua dinâmica familiar lhe apresentam. São os exemplos que ela verá desde
cedo, íntima e diretamente, no seio de seu lar que lhe formarão o conjunto de valo-
res morais e éticos que estruturará sua psique, sua estrutura emocional e social. No
caso de uma rotina incestuosa, jogo perverso e unilateral junto à criança, a família
permite e omite- se desde as primeiras carícias invasivas até as gradativas que culmi-
nam no abuso sexual físico em si.

Pele de Cristal 33
Aqui vale ressaltar que Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes é
algo mais profundo e complexo do que o senso comum compreende. Ela não se dá
somente nos casos em que ocorre a penetração; esse é o mais alto grau de violência
imposta à pessoa. Há uma dinâmica subjetiva, quase silenciosa e que compõe a
rotina perversa e unilateral da violência sexual. Quando a violência chega aí, nesse
grau de invasão, a criança já foi envolvida numa trama maquiavélica e cotidiana, já
teve seu corpo e sua alma investigada minuciosamente pelo horror da invasão sexual
diária e vil. Aí, nesse espaço de dor, a criança já teve seu corpo, sua auto-estima e seus
sonhos monitorados e roubados pelo agressor. Ou você acha que Violência Sexual
com penetração não tem antecedentes?
Ressalto que o agressor, em avassaladora maioria, não é aquele indivíduo que
faz o tipo machão, que grita e esbraveja, ameaçando a vítima com revólveres, facas
ou outros instrumentos intimidantes. A sua presença em si, já é uma ameaça real
e desagregadora. O agressor é uma pessoa em quem a vítima confia e que detém
poder sobre ela, é por assim dizer, um grande sedutor, educado e gentil, que seduz a
vítima pela confiança desde a primeira energia sexualizada, os primeiros olhares, até
que, paulatinamente, ele se sinta seguro para graduar a violência e envolver a criança
num aparente carinho de tio, pai, amigo, padrasto, irmão, professor, vizinho, etc. Ou
seja, de homem carinhoso e honesto, sempre acima de qualquer suspeita.
A capa não faz o livro. É preciso que se diga que uma criança jamais aventa
situações de violência sexual sem veracidade. Mesmo aquelas em que o juízo moral
e o senso comum questionam, pode-se até dizer, em supostas situações, que se pode
até inventar uma situação onde haja exercício de violência sexual. Entretanto, ne-
nhuma criança, por mais criativa que seja, não cria e ou fala com desenvoltura sobre
as sensações de uma relação sexual. Somente a vivência capta tais sensações.
É preciso que se diga que desde o primeiro toque a criança já tem sua alma
sobrepujada e devidamente controlada. A ameaça verbal vem somente depois, com
frases cheias de assédio: “se você falar pra sua mãe, ela não vai acreditar em você, vai dizer que
a culpa é sua, que você não presta, que foi você quem quis e se insinuou, você é uma safada mesmo,
todo mundo sabe disso, e não adianta fugir, se tentar eu te mato”. E pasmem os mais céticos
e frios: nós acreditamos mesmo no que eles dizem. E sabe por quê? Porque eles são
pessoas em que confiamos, são homens em quem acreditamos afetivamente e que
exercem poder sobre nós, inquestionavelmente. Eles são os adultos. Nós somos as
crianças vazias, sem “querer”, como prega o cotidiano (criança não tem querer, não
tem vontade própria), eles que sabem das verdades do mundo simplesmente porque
são adultos.
Ora, nossa sociedade é adultocêntrica. Somente a partir de 1990 surgiu uma
Lei para dizer, no frigir dos ovos, algo simples e objetivo: crianças são sujeitos de
direitos, são seres humanos em formação. Vivemos num país onde é necessário que
haja uma Lei para efetivar que uma criança tenha diretos e que seja reconhecida en-
quanto um Ser de Direitos Constitucionais, Sociais e Humanos. Infelizmente, a Lei
do Estatuto da Criança e do Adolescente não desconstruiu o muro de silêncio da tradi-

34 Helena Damasceno
ção adultocêntrica. Ser reconhecido enquanto um Ser de Direitos ainda está muito
no âmbito do papel, bem distante ainda da realidade de muitas crianças vítimas das
mais variadas violências, inclusive a sexual.
Em geral ainda reconhecemos a criança socialmente tal qual um adulto em
miniatura, potencialmente uma transferência de nossas frustrações e medos. E to-
dos os dias um número incontável de crianças e adolescentes sofrem todo tipo de
descasos, negligências, maus tratos e violências. Meninas e meninos têm seu corpo
invadido constantemente. Saem de casa uns, outros tentam sobreviver a essa vio-
lência com as ferramentas das quais dispõem, retroalimentando o jogo de silêncio
absurdo, assumindo culpas que não são suas, enquanto seus agressores têm a impu-
nidade garantida ou por leis ultrapassadas e discriminatórias, ou por essa tradição
adulto e falocêntrica.
Comigo não foi diferente...
Minha história é cheia dessas marcas, de muitos altos e baixos e tentativas
falidas de suicídio – se não as declaradamente, aquelas planejadas e devidamente
arquitetadas, trazia marcas de um suicídio lento, de morte moral, e de amor próprio
–, de muita dor e culpa acumuladas, medos, ansiedades, distúrbios de aprendizagem
e alimentação, e de muitos distúrbios da felicidade, longe do estado de Ser Integral
e saudável, feliz.
Acreditei, assim como todas as pessoas que sofreram violência sexual, que a
culpa era minha porque eu o seduzi, que tinha uma marca na testa a qual me iden-
tificava sempre, e era exatamente por isso que acreditava que todos os homens do
mundo queriam abusar sexual e emocionalmente de mim, pois sabiam que eu era
fácil, que eu era um lixo.
Numa sociedade hipócrita como a nossa, na qual estamos todas e todos sub-
mersos na mediocridade coletiva da mais valia humana, aparentemente, o melhor
que se tem a fazer é deixar-se levar pela mesmice da impunidade medíocre, pelo
peso da culpa que não nos pertence de fato, mas que acabamos por assumir e, a
partir daí, seguimos numa cadeia pejorativa e densa corrompendo-nos nos vícios, na
auto-sabotagem, no medo e nos acúmulos de vergonha e inseguranças amplificadas
e alicerçadas pela transferência de responsabilidades.
Sempre acreditei que não merecia ser feliz, que não era nada e que nunca
seria alguém na vida. Reproduzi a vida inteira o que ouvi daquele que me tinha a
confiança porque era adulto e tio e a cada abuso, a cada incursão invasiva no meu
corpo e na minha alma, mumificava minha autonomia e liberdade. Soma-se a isso
um cabedal de comandos que recebi da família em que nasci. “Você nunca vai ser
nada, não serve pra nada, tu é astuciosa demais, é desastrada demais, não leva jeito pra nada, só
sabe fazer besteira menina, te ajeita”. Uma coleção variada de insultos deliberadamente
injustos e que são parte mantenedora da violência sexual característica das famílias
incestogênicas.
Sabe por que eles fazem isso? Porque precisam nos prender às situações de
inferioridade, detrimento e medo para que possam calar nossa voz e atirar nossa

Pele de Cristal 35
auto-estima no ralo da vergonha e da culpa. Eles precisam retirar a culpa das costas
deles e depositar na nossa. Mas calma! Tudo isso faz parte de um padrão negativo
que você pode inverter! Você pode e tem o direito de quebrar esse padrão. Você tem
o direito de sair desse chão porque merece ser feliz, porque todas nós merecemos
ser felizes!
A felicidade não é uma condição impossível, faz-se necessário romper a cre-
dibilidade que demos ao agressor e à falsa imagem que fazemos de nós mesmas.
Nós não somos pessoas feias ou más, sem valor ou sem escrúpulos. Nós não temos
culpa. Não acabamos com a paz de ninguém, não seduzimos ninguém! Não somos
fracas, nem inúteis. Somos capazes, somos luz! Nada é impossível quando entramos
em contato com a alegoria interna de nossa caverna7...
A gente pode e a gente vai!

7 Alusão ao Mito da Caverna de Platão

36 Helena Damasceno
Capítulo II

“Meu sentimento escorre da boca qual ácido em grama.


Vê a minha cabeça...
Ela é feita de raspas de algodão
cozido na panela de lua e não na panela de flor.
Talvez por isso, reste em mim o zunido da noite (...)”.
Amarelinha pra pular
A felicidade não é uma condição impossível, faz-se necessário romper a cre-
dibilidade que demos ao agressor e à falsa imagem que fazemos de nós mesmas.
Nós não somos pessoas feias ou más, sem valor ou sem escrúpulos. Nós não temos
culpa. Não acabamos com a paz de ninguém, não seduzimos ninguém! Não somos
fracas, nem inúteis. Somos capazes, somos luz! Nada é impossível quando entramos
em contato com a alegoria interna de nossa caverna...
A gente pode e a gente vai!
Não estou dizendo que é fácil, que existe um botão que você aperta e bum, lá
vem o sol. Nada disso, longe disso! A gente pode, e precisa enfrentar a dor, porque
estão dentro de nós as ferramentas para o acolhimento e o enfrentamento de nossas
feridas, com todas as conseqüências da violência nessa jornada interna, pessoal.
Estão dentro de nós nossos desejos, sonhos e todas as ferramentas para a materia-
lização deles na nossa vida.
Para superar a dor, precisamos entender algo fundamental: não vai doer mais
do que já doeu; aconteceu sim, você e eu fomos abusadas sexualmente, mas a culpa
não é nossa, não é minha ou sua. A responsabilidade não é nossa. O exercício de
remoção da culpa de nossas costas, braços e pernas, corpo e alma, além de legítimo,
é absolutamente necessário para o enfrentamento da dor e suas conseqüências, mo-
vimento esse que nos traz alento e luz.
Você merece e pode ser feliz, superar tudo que aconteceu e ter uma vida sau-
dável, sem altos e baixos. O que estou dizendo é que é possível sair do chão, voltar
a sorrir sem peso. É possível termos uma vida leve, sem pesadelos suados à noite,
sem maiores inseguranças nesse exercício de viver, sem crises de pânico em pleno
meio dia ou mesmo sem mendigar o amor de ninguém, sem medo de sair à rua, pra
que ninguém veja nossa sujeira. É possível viver sob outras perspectivas, sem tantas
algemas a nos prenderem à ilusão do sofrimento.
Ah, outra coisa: não estou dizendo que já consegui. Estou dizendo que estou
fazendo esse caminho, estou dizendo que estou conseguindo. Cansei de me escon-
der e de assimilar comandos negativos como a desvalorização, o medo, a insegu-
rança e as inúmeras depressões sem fim, fobias em geral, a compulsão por comida
e bebida, enfim. Eu cansei dessa corrupção interna, cansei desse peso todo, dessa
montanha russa de dor e culpa que acaba comigo!
Estou vivendo um processo de superação e decidi dividir isso com vocês.
Digo que é possível, porque hoje eu sei que é possível. Olho pra trás, dez, quinze
anos e vejo como estou hoje, quantas mudanças! Vejo as coisas que fiz pra matar
aquela dor, as várias vezes em que arrisquei minha vida bebendo desesperadamente
durante dias, pedindo a Deus que viessem me assaltar, ou que me matassem. Pra
mim minha vida que não valia nada, então o mundo não perderia grande coisa!
Algumas vezes, durante as escassas crises e que pouco duram, ainda me re-
meto àquelas lembranças de dor e me escondo da luz do amor por mim, digo coisas

38 Helena Damasceno
horríveis como qualquer uma de vocês e sinto a dor de ter sido machucada, a dor
das tardes de violência. Mas hoje essa dor assume um significado outro: o de me
mobilizar, não mais de me paralisar, de me desestruturar e me deixar em crises que
duravam 365 dias por ano, ou quase isso.
O que tenho aprendido é que a crise vai passar certamente, que ela é neces-
sária ainda para que eu ressignifique meus caminhos e meu quarto pessoal. Mas ela não
me anula, não é absoluta e tirana dentro de mim! Hoje sei disso. Antes pensava que
a crise era permanente e que seria para todo o sempre! A crise é necessária porque é
a sua dor gritando, é o seu instinto de conservação pedindo ajuda, pedindo socorro,
é a sua lagarta esperando para transformar-se numa borboleta linda!
A gente não agüenta mais sentir dor, é verdade. Algumas vezes planejamos
desistir de tudo, não é mesmo? Exatamente por isso, o apoio psicoterapêutico é
fundamental. Um bom psicólogo, uma boa psicóloga vai auxiliá-la nesse processo,
porque sozinhas nos perdemos; mas acredite: é você que vai sentir a dor quando
ela vier. E você se tornará mais madura e mais liberta para superar a dor e ser feliz
quando perceber que as escolhas são suas.
Você pode não compreender isso agora e se quiser me xingue! Muitas vezes, gritei
com uma antiga psicóloga porque sentia a maior dor do mundo e ela dizia assim: “Calma,
isso vai passar”. Ai meu Deus! Eu tinha vontade de enforcar aquela mulher! Quem ela pen-
sava que era pra saber o que eu estava sentindo? A minha dor existia, não era um exagero
bobo, era a maior dor do mundo. Como ia passar simples assim? Num passe de mágica,
é? E como ela podia saber? Ela não morava dentro de mim!
Ei, a dor é a maior do mundo mesmo, é insuportável mesmo! Ficamos sem
ar, com aquele nó na garganta, sem chão, as pernas doem, o corpo dói, vem a ver-
gonha e a culpa, o medo de que todo mundo saiba e a trate com desdém. Aquele
choro inexplicável em pleno shopping que te engasga e aumenta a dor enquanto
todas as pessoas olham-na estranho e inquiridoras; e você, claro, tem certeza que
estão julgando-a. É tudo isso mesmo! Mas é necessário que eu diga que é somente
através do enfrentamento de seus fantasmas, que essa sensação de pânico e terror
que guardamos dentro de nós pode passar, é somente no embate verdadeiro e afe-
tivo com nosso quarto de dor, com tudo isso que dói e agride nossa vida, que vamos
amadurecer e transformar as feridas em cicatrizes.
E tem uma coisa mais: lembrar do que aconteceu não é acontecer de novo!
Já aconteceu, então não vai doer mais do que já doeu. E é verdade mesmo: isso vai
passar! Agora é a hora em que você me xinga, ou ri.
No meu processo, fiz terapia algumas vezes. Compreendo que o apoio psi-
coterápico é fundamental no caminho de acolhimento e enfrentamento dessa dor e
da superação dela, em qualquer caso. A família em que nasci acreditava que terapia
é coisa pra doido ou desocupado. Eles tinham muito receio de que quebrasse o có-
digo perverso de silêncio, tinham verdadeiro pavor que falasse pra alguém. Óbvio,
né? Nessas situações, há um acordo construído no cotidiano que garante o silêncio
e a transferência da culpa para a vítima.

Pele de Cristal 39
Portanto, ouça com atenção: a culpa não é sua! É muito importante que você
diga isso pra você um número incontável de vezes por dia. Quando bebo água falo
isso, quando assisto à TV, vejo um filme, ou uma cena de novela qualquer repito isso,
quando respiro digo isso. Estou envolta num jogo perverso de anos! Fui inserida
nesse jogo, não me inseri. A criança vítima de violência sexual é inserida nesse jogo,
saiba disso. Então vá para o espelho do banheiro e diga pra você mesma: Eu não
tenho culpa! Uma hora dessas, seu cérebro recebe esse comando sem encaminhá-lo
para alguma gaveta protetora, ou sua pele pára de rejeitar essa verdade e você passa
a perceber que é possível sim!
É um processo e não há uma velocidade determinada, um prazo fixado em
nenhum código internacional, qualquer que seja ele. O tempo é seu, o movimento é
seu, é individual. Não há regras ou fórmulas mágicas. Vá pro espelho, ou pra onde
você quiser, mas volte pra você!
Estou voltando pra casa agora, mas passei por muitas fases, quase todas
autodestrutivas e sabotadoras. Vivia como se quisesse beber o mundo num único
gole. Uma sede incontrolável, interminável e dormente fez com que engolisse a vida
exageradamente. Fiz tudo que a família em que nasci esperava que fizesse: entreguei-
me à bebida, às farras, à desordem, ao medo e à culpa. Tentei de todas as formas não
decepcioná-los em suas expectativas de me tornar o fracasso previsto e evidente.
Fazia tipo o tempo todo, como se estivesse num palco o tempo inteiro. Nun-
ca era eu... Ora era a Francisca Helena, uma menina simbolicamente retraída, desajei-
tada e fugidia, insegura e maltrapilha, que caminhava com lençóis sujos mendigando
o afeto alheio. Ora era a Kaena, uma personagem irresponsável, inconseqüente e
dependente de comida, bebida e sexo, viciada em mentiras e culpabilizações.
A compulsão foi uma porta que abri bastante. Saía pelo mundo bebendo
durante dias, muitos dias. Ia para uma farra e retornava depois de uns 15 dias ainda
bêbada, suja, sem dinheiro, sem pudor, sem alma. Pulava de casa em casa, de “ami-
go” em “amigo”, aqui e ali, onde dava, onde me davam pouso ficava. Vivi assim,
desesperadamente, porque a dor que sentia era muito, muito maior que eu. Ainda
me sentia aquela criança de cinco anos sendo abusada, uma menina assustada e
indefesa. Então, gritava com o mundo e o tratava mal antes que me fizessem isso.
Só esperava desconfianças, descrédito, ameaças e arrogância. Não acreditava que
alguém podia me ajudar, ou me amar, nem eu mesma.
Passei muitos anos pra “saber” de fato o que havia acontecido na minha
infância. Bloqueei muitos fatos, muitas lembranças, tinha medo. Passei anos sem
querer tocar no assunto, sentia uma dor enorme, vivia em crises de depressão, mas
não queria mexer nas feridas, nem pensava nisso!
Hoje, em psicoterapia, algumas recordações têm voltado com força. Mas já
tenho uma estrutura melhor, mais sólida e a psicoterapia me é fundamental e indis-
pensável nesse processo. Tenho pequenos flashes, pequenos trechos “descolados”
um dos outros que me vêm à mente sem uma ordem cronológica clara, e embora
aparentemente desconexos, cada um têm um sentido único na ressignificação da

40 Helena Damasceno
minha história.
Minha história começou como muitas. Mudam os personagens, mas o pano
de fundo é o mesmo: a intenção sexual invasiva, o abuso sexual. Então, facilmente
identificamos os mesmos sinais entre as vítimas: carinhos invasivos, uma mão que
atravessa o corpo com rispidez, as brincadeiras no colo do titio (ou papai, priminho,
seja quem for), passeios, presentinhos, etc. No meu caso, o grau de violência foi
aumentando à medida que fui crescendo. Ele foi se sentindo mais seguro ao longo
do tempo para aprofundar sua incursão perversa pela minha alma e corpo.
Por defesa própria, “engavetamos” a dor numa espécie de porão, de quarto de
dor. Mas o fato é que sempre sentimos a dor evidente, e de quando em vez vivemos
aquelas crises insuportáveis e duras, sempre muito duras. A crise é a dor em super-
lativo, é a criança que sofreu toda a violência pedindo socorro, berrando em nossos
ouvidos, do adulto cego e impassível, um pedido de ajuda, gritando praquilo acabar.
Muitas vezes neguei esse pedido, minha voz interior me ensurdecia, mas
preferia não dar ouvidos. A vida toda que seja dito. Não foi por um período alterna-
tivo de tempo, foi até aqui, um momento atrás, quando ainda não estava pronta pra
mexer naquele quarto de dor. O que fazia geralmente era sair pelo mundo e encher a
cara, ou transar com quem fosse, não importava se tinha conhecido há dez minutos
ou meia hora. Meu eu sagrado, meu corpo já havia sido invadido, portanto, eu não
estaria perdendo nada me revitimizando em relacionamentos doentios, uma espécie
de reedição da violência sexual sofrida tempos antes. Eu não tinha nenhum contato
com meu amor próprio, nenhum respeito por mim.
A dor nos faz lembrar de tudo, não é mesmo? Cheiros, pele, gosto, toques,
odor, nojo, a violência toda! Por isso é tão difícil falar sobre ela, ou “senti-la” no-
vamente, mesmo em psicoterapia, ou através das catarses necessárias à cicatrização
interna. Parece que é mais fácil fugir... Fugir das crises, encher a cara, usar drogas,
pensar em suicídio, comer, fumar, cheirar, ficar anestesiada. Parece que é melhor
isso que enfrentar, mas só parece!
Enfrentar as lembranças é estar no comando, é guiar sua própria vida
e redescobrir o caminho para o amor próprio.
Demorei longos anos para perceber que aquela “crise existencial”, típica da
adolescência, no meu caso, não era nada disso. Não havia uma crise, simplesmente,
solta no ar da inquietude momentânea do adolescer. Havia na minha vida um histórico
de violência, abandono, negligência, cumplicidade e omissão. Não tenho certeza se co-
meçou aos cinco, seis anos anos, talvez tenha começado antes até, não sei. Mas sei que
“terminou” quando decidi sair do juízo de valor e do domínio físico do meu algoz. As
aspas são para denotar que a violência física findou com minha ação ao sair de casa,
mas as conseqüências dos anos de dolo permaneceram ao longo da vida.
Sofri muito até aqui, passei por muitos obstáculos. Mas, foi a minha manei-
ra, eu repito, sair de casa foi a minha maneira de lidar, de sobreviver a tudo e estar
aqui hoje, contando isso para vocês. Não estou aqui para aconselhar ninguém. Conto
apenas minha história sob o prisma da delicadeza, do contato com o amor próprio e

Pele de Cristal 41
respeito, e digo que é possível superar todas as angústias, marcas e asperezas deixadas
pelo abuso sexual. Estou escrevendo minha história para, quem sabe, auxiliar alguém
que passa ou passou por algo semelhante, a acreditar nas próprias forças, na própria
coragem. Mas as ferramentas que você vai usar fazem parte do seu caminho, da sua es-
trada, e saiba que elas já moram em você. Toque-as no seu tempo de amor e cicatriz.
Quando percebi o que acontecia comigo, lá pelos meus 10 anos, minha pri-
meira reação foi vergonha. Do meu corpo, da minha alma, de qualquer coisa que
lembrasse a mim mesma. Passei a ter nojo de mim, queria morrer, precisava morrer!
Na verdade, emocionalmente eu já estava morta, não havia vácuo de expectativas
outras em mim.
Muitas vezes pensei comigo mesma se valia a pena viver. Só sentia dor, vivia
em crise 24 horas por dia, não conseguia me sentir bem em nenhum lugar, nem na
companhia de ninguém. Era uma mulher sozinha na multidão. Hoje reavalio meus
passos e sensações, e respondo pra mim mesma que sim, vale muito a pena viver;
vale estar aqui, acolher minha menina ferida, enfrentar tudo e dar a volta por cima!
Quando pensei em escrever minha história, minha trajetória até aqui, sabia que
sentiria medo, que lembraria dos odores, da cor da pele, do olhar doentio dele. Não
sabia se conseguiria ajudar alguém, nem mesmo a mim. Mas tem sido bom expurgar,
exorcizar essas sensações e sair caminhando, seguindo meu próprio sol, meu brilho!
Cada dia é um dia de pequenas e generosas conquistas. Não quero mais me esconder,
por isso minha Pele é de Cristal. É transparente, é de verdade. Levanto minha mão, mi-
nha história com delicadeza e coragem, e estendo-a como um feixe de afeto a espreitar
cada uma de vocês. Sou como o cristal que ao quebrar-se, permite-se ser esculpido
novamente pela mão do artista que transforma a peça em outra jóia.
É bem verdade que não é fácil, que enfrentamos no caminho um universo
de dificuldades construídas algumas vezes por outras pessoas e alimentadas por nós,
ou o contrário, construídas por nós mesmas, pelo nosso medo de ir em frente. E é
natural que tenhamos medo, nós somos de carne e osso. O medo faz parte da natu-
ralidade das coisas de viver, não é uma fotografia tirada pela violência sexual. É claro
que, dada nossa exposição ao abuso sexual, somos mais propensas a desconfiar e a
desacreditar das coisas de estar vivo. Mas é possível superar tudo isso!
Quando você perguntar se vale a pena viver, diga que sim! Vale por você!
Volte para o espelho do banheiro e veja seu rosto. Ele é seu e nada vai mudar
isso! Esse corpo é seu, é sua casa nessa oportunidade que é a experiência humana.
Dispa-se do peso para seguir viagem mais leve. Repita a frase: eu não tenho culpa!
Olhe novamente para o seu rosto, não tenha medo. Você não é mais aquela criança
que um dia, morrendo de medo, foi brincar com a pessoa errada e foi machucada.
Acostume-se: não se pode separar do pássaro a asa!
Era na minha cabeça que estava a vergonha e a culpa, não no meu corpo.
Queria ser como borboletas que vivem num para sempre de 25 minutos... Mas sou
Helena que plana num vôo de um milhão de minutos, num para sempre até o fim,
até sempre! E orgulho-me do meu vôo.

42 Helena Damasceno
Capítulo III

“Tenho pressa...
a lenha cinzou na fogueira branca...
a vida passou deixando flores cor de dor
a chuva se aposentou
o peso da água passou...
Minha alma se alimentou
da mais turbulenta canção...
Quero ser asa pra poder ser chão!”
Braile de calçada
Era na minha cabeça que estava a vergonha e a culpa, não no meu corpo.
Queria ser como borboletas que vivem num pra sempre de 25 minutos... Mas sou
Helena que plana num vôo de um milhão de minutos, num para sempre até o fim,
até sempre! E orgulho-me do meu vôo.
Foram muitas as estradas para chegar até aqui, pra começar a me dizer que
sou uma pessoa boa, para redescobrir os caminhos da alegria, do reencantamento de
mim. E quantos passos foram dados! Muitas calçadas sujas, muita dor e mágoas acu-
muladas, muito álcool, muitas mentiras para me desvalorizar, muito medo e frio.
Teve uma vez que cheguei num estágio de desvalorização tamanha que eu
mesma tive uma pena enorme de mim, e pena é um sentimento deplorável. Na
verdade, precisava pouco para que me auto-infligisse pena, mas aquela era uma cena
de degradação total, não precisaria muito para alimentar-me dela. Estava toda arru-
mada, muito bem vestida. Era a inauguração de um barzinho e fui com uma turma
enorme. Só andava em bandos, era mais fácil não ser ninguém quando estava em
multidão. Já estava bebendo nem sei há quantos dias, mas não consegui evitar uma
garrafa de vinho de 5 litros. Não agüentei, estava completamente embriagada. Com
vergonha de mim mesma, olhei ao redor e fiz aquela pergunta: “que que eu tô fazendo
aqui”? Saí de fininho porque queria chorar, sair correndo, gritar, queria explodir!
Ainda não me admitira enquanto vítima de violência sexual.
Saí do bar e fui andar sozinha, pela rua. Tinha uns 20 anos, não morava mais
na casa de mamãe, não tinha emprego, vivia de favores e na casa de amigos de farra,
amigos de bar. Passei tanto tempo fora que notaram minha ausência. Começaram
a me procurar, mas sem sucesso. Ninguém sabia que eu estava dormindo no chão,
numa calçada algumas ruas acima do bar. Quando acordei, foi com “alguém”, algu-
ma coisa sussurrando no meu ouvido: “Acorda”! De sobressalto, olhei ao meu redor.
Tinha um homem vindo na minha direção, saí correndo assustada. Nunca disse
onde havia estado naqueles minutos de ausência, tive vergonha de contar o que
tinha acontecido. Mas sabia que era um prato cheio. Uma mulher sozinha e bêbada
dormindo no meio da rua. Fui salva por um anjo talvez, não vou teorizar sobre isso.
O fato é que estava em perigo, porque tinha me colocado naquela situação. Sentia-
me tão culpada que acreditava merecer sofrer a todo custo!
Fazia questão de aventuras como essa porque precisava correr riscos de
morte, mas o que procurava na verdade era matar a dor, não a mim verdadeiramen-
te, mas àquele sofrimento todo, entretanto, não tinha essa compreensão, confundia
isso com me matar e saía por aí, expondo-me às mais variadas formas de vacilação e
flagelo. Mas sabe, a verdade é que quando tinha uma chance de morrer, uma opor-
tunidade exata me agarrava com tanta força à vida que chegava a me assustar com
tamanha vontade de viver!
Estava cega na minha dor, só havia ela, nada mais. Precisava ser castigada
por ter sido uma “menina má”. Queria perder tudo que cria ter, porque na minha

44 Helena Damasceno
cabeça não merecia nada de bom.
Quando ele me via seus olhos pareciam me falar da sujeira toda, de todo
o desejo clandestino dele, de todas as formas, as mais vis e torpes, as quais ele me
usaria. Algumas vezes me sentia investigada, quase como um rato de laboratório.
Era como se eu fosse a cobaia pras experiências dele, como se eu não fosse a úni-
ca, mas aquela em que ele testava suas formas de exploração e acinte. Bastava esse
olhar pra me arremessar nos esconderijos desse exercício de dor. Tudo que vinha
dele pra mim era nojo. E eu, acabei sendo o maior dos ascos. A obra mais suja que
ele conseguira criar.
Anos muitos permaneci em inalterado estado de dormência, uma garota
vestida de medo e sombras. Eu havia me deixado transformar numa coisa, na tris-
teza personificada. Se os olhos dele me arrepiavam de pavor, os meus flagravam a
degradação que me habitava. Sem brilho, sem vida, sem nada.
A primeira vez em que entrei num consultório de uma psicóloga disse assim:
“preciso de ajuda”! Sempre me disponibilizei a cuidar das minhas feridas, sabia que
precisa fazer alguma coisa por mim, havia um comprometimento meu, só que não
estava preparada para fazer esse caminho antes. Tudo era muito doloroso pra mim e
quando começava a doer, saía correndo das terapias e afins, fugia de qualquer ajuda.
Na verdade fugia de mim mesma, porque quando se entra em contato com seu quarto
pessoal pra mexer nas suas feridas, você também mantém contato com sua sabedoria
interna e a maturidade é um movimento inevitável, retirando algumas cristalizações
densas e pejorativas desse espaço de poder momentâneo, deslocando esse poder para
o que lhe cabe de fato: o reencantamento pessoal e a descoberta do seu mundo.
Desconhecia outra forma de viver, portanto, se eu só sabia viver assim, so-
frendo e chorando, me revitimizando e me culpabilizando sempre; cuidar de mim
seria permitir-me ver oportunidades outras além destas, e isso, de alguma forma,
àquele momento significaria me abandonar no caminho. Entendia, erroneamente,
que meu estado de vítima me garantiria eternamente a segurança de ser cuidada, de
receber atenção e carinho sempre que expusesse algo do meu grande sofrimento.
Passei anos agarrada à idéia da vingança como única forma de fazer justiça. Vivi a
cristalização da idéia fixa de ser a coitadinha de vidro, frágil, fraca e desprotegida e que,
a qualquer momento, de tão quebradiça, pode estilhaçar-se e morrer.
Quando papai morreu, vejam só, culpei-me pela morte dele. Mas que loucu-
ra! Como eu podia ter culpa pela morte de alguém? Quão exagerado era o exercício
de culpabilizações o qual me aviltava! Estava ficando cada vez mais exigente e ca-
prichada quando das revitimizações, ao passo que, até mesmo sobre a dinâmica da
vida, eu deveria ter alguma culpa. Quanto à morte física de papai decidi me punir
e, assim feito, entrei em longa e forte depressão. Não me permitia ouvir música,
rir, sair com amigos, não me dava o direito de estar bem, ou de ser feliz, de ter al-
gum êxito porque eu havia matado meu pai. Nenhuma simbologia Freudiana nisso,
apenas o sofrimento da punição, hábito da violência sexual anos antes. E precisava
sofrer...

Pele de Cristal 45
Algum tempo depois, todos ao meu redor passaram a se incomodar com
meu sofrimento sem fim, e alguns amigos me instigaram a buscar ajuda. Mas que
fique claro que, em nenhum momento, rastreava a possibilidade de me assumir
enquanto vítima de violência sexual. Fui cuidar especificamente da depressão pela
morte física de papai. Entretanto, a psicoterapia trilhou caminhos outros e me levou
a perceber e admitir a violência sexual. Foi a primeira vez que admiti tudo e passei a
“ter consciência” dos motivos pelos quais sofria tanto. Passei algum tempo com essa
psicóloga, mas não concluí esse processo; não estava pronta.
Nas primeiras vezes que ia só chorava, não dizia palavra que fosse voz. Fi-
quei assim durante meses até conseguir começar a falar. Inicialmente não sabia de
fato porque estava ali, pagando aquele mulher pra me ver chorar. Mas sabia que
precisava dela, que precisava daquele espaço. Ali eu poderia ser eu mesma, estava
segura. Quando comecei a falar, me escondia nas justificativas evasivas e afirmava
sempre ter tido “problemas de família”, que ninguém gostava de mim, coisas típicas
daqueles “papos de adolescente”. Depois de uns meses fui encaminhada pra um
psiquiatra porque precisava de medicação. Não conseguia reagir, vivia sob a lógica
da depressão.
Depois de um tempo acompanhada conjuntamente pelo psiquiatra e pela
psicóloga, larguei os dois e caí na roda da vitimização de novo. Novamente era mais
fácil ser vítima, isso é fato, mas é necessário que se diga que há também o fato de
que eu não estava pronta para viver todo o processo de cura e reconstrução de hoje.
Ainda doía demais e não me permitia perceber nenhuma possibilidade outra além
da dor e do sofrimento.
Já tive muita vergonha de mim, muita mesmo! E isso só fazia aumentar a
culpa, porque não havia nada que explicasse o porquê de todas as coisas que fazia,
minhas atitudes “meio loucas” e irresponsáveis, minhas crises de choro, a agressi-
vidade gratuita, ou minha atitude de largar um bom emprego. No fundo, bem lá no
fundo, na minha verdade pessoal, sabia o porquê e chorava, sofria. Quer saber se tenho
vergonha? Não mais! Estou na fase de jogar fora tudo que não me serve para a fe-
licidade, para a leveza interior. Mas nem sempre foi assim. A todo e qualquer custo
me machuquei severamente até os meus 28 anos. De lá pra cá tenho conseguido
firmar os pés no chão, no desejo de superar toda a dor e de demover a injustificada
culpa que acumulei tantos anos.
Fui um joguete nas mãos do tio-agressor que sempre, e até hoje, é visto
como um bom homem. Honesto, justo, que paga seus impostos, lava, passa, cozi-
nha e cuida do filho, divide as tarefas com a esposa. Um homem acima de qualquer
suspeita. Eles são sempre assim mesmo, faz parte do perfil do agressor sexual essa
falsa identidade que os protege do juízo de valor da sociedade. Esse é um papel
que eles têm que impor nesse jogo. A violência sexual é um jogo perverso e não há
nenhuma leveza nele.
Sentimo-nos mal porque admitimos uma culpa que não nos pertence de
fato, nem de direito. Quando somos vítimas de violência sexual perdemos a fé em

46 Helena Damasceno
nós mesmas; julgamo-nos culpadas pelo silêncio, ou por não reagirmos tal qual o
senso comum espera e, desta forma, admitimo-nos fracas e culpadas. A minha cabe-
ça também pensava assim e me julgava sempre. Mas sabe por que acreditava nisso?
Porque fui programada pra isso, para elaborar meus pensamentos assim, e também
porque não conhecia outra forma de viver.
Essa lógica de que você pode se defender gritando, ou que pode correr,
fugir, revidar, devolver a violência ferindo ou punindo “dente por dente” a agressão
sofrida, pertence ao senso comum. Só quem sentiu na pele a experiência da violên-
cia sexual sabe o que significa estar vítima, como ficamos, e o que sentimos. Mais
ninguém pode dizer verdadeiramente como é ter a alma assassinada todos os dias,
até que o vazio lhe determina a morte mental e psíquica, porque a subjetividade da
alma é particular e individual.
A culpa é o alicerce central desse jogo. É ela que nos mantém aprisionada
nesse castelo solitário de dor, mas não precisamos desse sofrimento que nos macula
a sociabilidade e a dinâmica da vida. Precisamos buscar, no próprio caminho, o
encontro com o amor próprio e o perdão para com nossa criança machucada. Ge-
ralmente ocorre que buscamos esse amor fora de nós, ou em situações que nos ge-
rem sensações de insegurança, vergonha, ansiedade e medo, ou em relacionamentos
repetitivos e de co-dependência, nos quais seguimos um padrão de peso e desvalia,
sempre em segundo plano porque acreditamos que o outro é mais importante.
Dentro de nós tem uma garotinha assustada, então porque abandoná-la?
Porque não tomá-la nos braços e niná-la como fazemos com nossos “outros”, os
namorados, maridos, companheiros, amigos, etc? Precisamos mesmo desse peso
todo para viver? Saiba que você é a pessoa mais importante da sua vida! A sua fe-
licidade, os passos que você vai trilhar são seus, mais ninguém poderá vivê-los por
você! Nem sua psicóloga, ou sua mãe, seu namorado ou qualquer outra pessoa, mas
apenas e somente você! Você merece ser feliz porque é forte, é boa e maravilhosa! É
claro que você pode levar alguns anos ou a vida toda pra perceber isso! Aquiete seu
coração, porque cada pessoa tem seu próprio movimento, seu próprio tempo.
Nesse processo, tenho buscado fundamentalmente a minha leveza. Até ten-
tei fazer isso outras vezes, mas sempre esbarrei no meu medo e na minha postu-
ra rígida e vitimizada. Na verdade eu nunca percebi (ou acreditei) que essa leveza
estivesse dentro de mim, mas está! Ver para crer? Às vezes basta crer para que se
personalize em nossas vidas o objeto de pensamento idealizado.
Desconhecia meu próprio ser; a mim, enquanto Ser Integral, filha de Deus
ou de uma Inteligência Suprema, assim você queira, não vou teorizar sobre isso,
mas eu, um ser com virtudes e vícios como qualquer outro, mas que desconhecia sua
força e caminho. Era como se em cada situação de desvalia que me envolvia, preci-
sasse provar pra mim que não prestava mesmo. A cada copo de cerveja ou cachaça,
a cada cigarro, a cada mesa de bar, precisasse me provar quão deplorável e suja eu
era. Pensamentos que tinham origem na culpa que sentia, mas que alimentava com
minha atitude pálida. Mas pensamento não é rígido, ele se constrói e se modifica de

Pele de Cristal 47
acordo com nossos desejos.
Quais são os seus objetos de pensamento? Você sabe? Pensamento tem vida,
quer você acredite ou não! Você conhece a si mesma? Você está aí, quer acredite ou
não! Desconhecemos nosso próprio potencial e nos privamos da doce companhia
de alguém especial, nós mesmas, em plenitude de Ser e de crescimento porque a
nossa história tem uma marca gigantesca de dor. E isso é verdade, não estou di-
zendo o contrário, negando ou diminuindo a realidade dessa dor. Mas o fato é que
retroalimentamos os padrões quando do abuso sexual e o replicamos, a posteriori, e
sempre, nas relações de co-dependência vividas depois; superlativamos as sensações
de desvalia e dolo porque essa é a vida que conhecemos, é a forma que conhecemos
e a identificamos como nosso saber viver.
Você já pensou realmente como seria viver sem todas as sensações, toda a
dor? Você acha isso possível, de verdade? Ah, muito difícil fazer, fácil falar! Não re-
conhecemos de pronto esse prisma, porque não é fácil superar mesmo! Temos que
nos disponibilizar a mexer naquele baú empoeirado, largado num quarto escuro de dor
da nossa alma. Mesmo que de quando em vez, entremos em contato com esse quarto
pessoal, a dor é tamanha que nos assustamos e corremos quase que imediatamente.
Mas é acolhendo sua criança ferida e enfrentando esse quarto de dor que caminhare-
mos, que daremos O passo.
E é ainda mais difícil porque, apesar de toda a dor e de todas as conseqüên-
cias e traumas, pernas falsas, muletas e do nosso desejo de superação, essa situação
de dolo e peso nos aquece de alguma forma. É a ressonância secundária que nos
esconde dos enfrentamentos do mundo. E por mais estranho que possa parecer,
isso nos é cômodo! Não estou dizendo que você e eu não superamos essa situação
porque somos fracas ou porque gostamos de sofrer, nada disso! Estou dizendo que
estar nessa situação é a realidade que conhecemos, nos habituamos a ela e, como
tudo na vida, enfrentar o novo assusta, emudece e relutamos, enfim. A maioria das
pessoas vive com medo e assustada com as mudanças, que são inevitáveis, diga-se de
passagem. É natural temer o novo, claro! Mudar dói, mexe com as nossas estruturas.
Por isso achamos tão difícil, tão doloroso mexer no nosso “mundinho” de falsa se-
gurança para que possamos abrir, cabeça, alma e a vida para as mudanças!
Fácil falar, difícil fazer não é? Difícil sim, impossível não! Requer disponibi-
lidade, comprometimento interior, muita força de vontade e paciência. E não diga
que você não tem nada disso, que essas características estão longe da sua vida ou de
você! Se você está lendo esse livro agora, é porque você quer e busca ajuda. Você crê
que é possível, lá no fundo, no seu quarto pessoal! Se você está aqui é porque acredita
que há uma possibilidade. E lhe digo: há não somente uma possibilidade, como
também a concretude dela! Não é um sonho impossível, uma utopia humanitária ou
altruísta! É real! Estou conseguindo, estou fazendo esse caminho, e não sou especial,
ou diferente de você, somos iguais.
Mas quando submersas na dor, precisamos dessa falsa segurança, desse ga-
nho secundário que nos alimenta e condena a permanecer num estágio de sofrimen-

48 Helena Damasceno
to, como se estivéssemos ainda sob o julgo do agressor, no momento direto da vio-
lência. Mas não estamos, nem somos indefesas! Estivemos indefesas, por instantes
apenas. Estar não significa ser. E você pode mudar esse padrão de medo e culpa
sim! Busque sua Caixa de Pandora e abra-a com carinho e cuidado. Há feridas aber-
tas? Busque quem pode ajudar a tratá-las. Há algum medo de não conseguir, algum
medo do fracasso? Ouça sua voz interior, sinta-a... Você sabe aquela que lhe fez vir
aqui, ler tudo isso, acompanhar a história e trajetória dessa mulher sobrevivente de
violência sexual na infância, e que quase deixou que a dor destruísse a própria vida.
Mas estou aqui, não é mesmo, e sou igual a você, certo?
Não é impossível remover nossas montanhas internas petrificadas de dor. A
cicatriz desejada virá, entretanto, haverá a lembrança, sempre seremos sobreviventes
de violência sexual. Mas isso será apenas um eco, uma lembrança remota que diag-
nostica a cicatrização. A lembrança sempre existirá, mas como uma cicatriz que não
nos derruba nem enfraquece, tal como outras feridas de infância que nos marcaram
as pernas ou joelhos. Brincar era bom, mas de quando em vez caíamos, certamente
sentíamos dor, não é mesmo? Mas deixávamos de brincar? Que nada! Íamos de
novo ao encontro da brincadeira até aprendermos a não cair. A maturidade vem
com a flexibilidade da prática. Não mudamos. Essa força, essa determinação está
dentro de nós, com a mesma vontade daquela época!
Pensava que tinha deixado naquela calçada meu amor próprio, meu valor, as-
sim como pensei que deixai minha alma naquelas paredes geladas e brancas da casa
de mamãe. Mas o que sou e quem sou está a minha espera, com alegria e delicadeza
ao fim desse caminho que é a experiência humana.
Nunca acreditei que tivesse direito à felicidade, mas cá estou a buscá-la...
Consulte seu Delfos, solte sua águia, não deixe que Píton acomode sua alma na
inquietude da falsa segurança. Busque seu Apolo e siga à batalha inevitável consigo
mesma. Seus sonhos, valores, dores, seus medos mais obscuros, enfim, questione-se
e caminha.
Disponha-se a uma faxina interior, veja o que a ajuda a ser feliz e o que a
impede. Destrói seu cemitério particular de zumbis e alça vôo sereno e paciente; cons-
truindo seus castelos de areia, certamente, na praia de sua felicidade, e segue viagem
rumo ao seu templo interno. Somente você pode entrar no seu quarto pessoal, retirar
a poeira ou acomodá-la o mais confortavelmente possível. Torna-te quem tu és!

Pele de Cristal 49
Capítulo IV

“Fui limpar a morte...


retirar minha poesia da prole inunda
que me imunda a nau.
Afoguei-me
Venci o porto num letal
Um gás trifásico e alucinógeno de Deus..
deveras folhas em mim, me são breu.”
Braços abertos quebrando o silêncio
Disponha-se a uma faxina interior, veja o que a ajuda a ser feliz e o que a
impede. Destrói seu cemitério particular de zumbis e alça vôo sereno e paciente; cons-
truindo seus castelos de areia, certamente, na praia de sua felicidade, e segue viagem
rumo ao seu templo interno. Somente você pode entrar no seu quarto pessoal, reti-
rar a poeira ou acomodá-la o mais confortavelmente possível. Torna-te quem tu és!
Essa busca me levou por caminhos torpes. Muitos trilhei, outros tive medo
de seguir, mas ao longo dos anos tive muitos acessos a várias possibilidades ruins e
pesadas. Conheci muita gente disposta a me conduzir por estradas escuras. Drogas,
álcool desmedido, cigarro à vontade, sexo irresponsável, uma vida de “tudo ao mes-
mo tempo agora”. Estive aberta a todas as calçadas dessas ruas esquisitas.
Na minha cabeça não tinha saída: não tinha dinheiro, trabalho fixo, ou se-
quer um amparo solícito e desinteressado. Aliás, sempre pensava que quem se apro-
ximava de mim tinha algum interesse escuso: ou sexual – porque assumira a imagem
de vítima em potencial –, ou na minha habilidade musical, porque sentia que era
interessante andar com “alguém que tocava violão”. Outro personagem. Não era
eu, dá pra entender? Sempre me escondia atrás de alguma coisa, ou alguém. Nesse
caso, me escondia atrás do instrumento; tinha medo de que me vissem como fraca
ou uma vadia. Refletia sempre uma imagem opaca do retrato que diziam de mim,
assumia o “espelho meu” que enxergava através dos outros. Recusei todas as possi-
bilidades de ajuda concreta porque não estava preparada pra receber essa ajuda, pra
mexer no meu quarto de dor. Então, fui deixando a vida me levar, fui bebendo a vida
com aquela sede interminável, me expondo a vários perigos e à morte física para
matar aquela dor interminável.
O irônico é que pra muita gente era uma pessoa feliz e sem muitos proble-
mas. Filha única, estudiosa, inteligente, poeta, cantora, simpática, alegre... Blá blá
blá! Tudo pose! Minha aparente alegria, falsamente disfarçada, pra um observador
lento, bem lento mesmo, era desmascarada na primeira cena: uma atriz ruim que
encenava uma felicidade clandestina. Quem quer que fosse, na minha cabeça, era um
inimigo explosivo e disfarçado de amigo. Nunca confiei de verdade em alguém!
Então precisava vestir papéis e jamais deixar que me conhecessem de verdade, nem
eu mesma. Sentia-me abusada ainda, abusada sempre.
Sempre uma vítima e em qualquer situação. Atraía pra mim um leque de tris-
tezas e peso, mas não percebia. Minha vida era um gigantesco Dejà-vu, um ioiô de dor
que carregava pra todos os meus espaços de convivência. Mas era à noite, quando
deitava a cabeça pra dormir, que sentia o peso da solidão, a angústia de não confiar em
ninguém e desejar isso, mas não conseguir fazer nada pra mudar aquele inferno todo.
Contei pra algumas pessoas ao longo da vida. Alguns amigos, professores,
os poucos namorados, uns desconhecidos em mesa de bar durante uma farra ou
outra. As sensações variavam, desde a revolta à pena, ou à impossibilidade real de
ajuda. Mas o que não sabia é que apenas eu poderia entrar no meu quarto e varrê-lo,

Pele de Cristal 51
limpá-lo, mudar as coisas de lugar, abrir as janelas, deixar a luz passar. Somente eu
poderia abrir e ou botar os meus cadeados.
Certa época, passei a morar na casa de pessoas que tinha conhecido numa
farra. Não pagava aluguel, não trabalhava, mas a minha companhia simpática e o
meu violão pagavam a hospedagem. É claro que ia e vinha em casas outras; nunca
estive numa única morada. Ficava dias sem conseguir parar de beber, fumar ou
tocar nos bares da vida. Ninguém notava, mas era tão infeliz que a felicidade alheia
me inspirava um desejo confuso de querer algo impossível. Vivia me metendo em
confusões, arrumava uma a cada 15 dias. Difícil não ser vítima, não estar presa às
menores manifestações de rancor e desdém alheio. Acontece que teve um furto na
casa de uma dessas minhas companhias de farra, e é claro, fui a maior suspeita.
É óbvio que nunca furtei nada, mas penso que minha conduta vulnerável e
inconstante permitiu tal questionamento, e embora tenha dito um milhão de vezes
que não furtara nada, não acreditaram em mim. Passei anos ruminando o rancor do
descrédito, me alimentando desse fato como justificativa para manter internamen-
te outras tantas culpas: “eu não presto mesmo, não sirvo pra nada, ninguém gosta de mim,
ninguém acredita em mim, eu não sirvo nem pra ser amiga de ninguém!”. Era absolutamente
necessário que me mantivesse em cativeiro a qualquer custo. Então me permitia
situações, relações como essa, em que me desvalorizava porque era não tratada com
respeito. Aliás, diga-se de passagem, nem eu me respeitava, como poderia pedir o
mesmo dos outros?
Fui e voltei muitas vezes na casa da minha mãe biológica, muitas vezes ao
longo dos anos. Acredito que fazia isso para chocá-la, pra ver se ela me explicava
por que me abandonou ou não impediu o abuso, porque ela não estava lá pra me
defender, porque deixou que tudo aquilo acontecesse. Já falei que num caso de Abu-
so Sexual Intrafamiliar a família toda é envolvida e incestuosa. Toda ela contribui de
alguma forma, permitindo ou se omitindo à questão do abuso sofrido pela criança
ou adolescente. Assim forma-se o muro de silêncio, o pacto vil de silêncio.
No álbum de fotografias da família em que nasci, minhas fotos eram sempre
as mais escuras, em menor quantidade, as menos expressivas quando de felicidade
exposta. Uma menina magrela e desajeitada que tinha medo de tudo e todos era
sempre fotografada diante da omissão dessa família que, escolheu o caminho da
mudez ante a desacomodação de sua superficialidade. Sempre fui pessimista, nunca
acreditei que poderia fazer alguma coisa que prestasse. Minha cabeça sonhava mui-
to, sonhava alto, acreditava que o inferno do abuso sexual teria um fim, que alguém
naquela casa perceberia e, mesmo que não revelasse aos gritos aquele segredo vil,
ficaria do meu lado, me acolheria. Ilusão que, aos poucos, desisti de alimentar. Can-
sada, mais tarde optei pelo silêncio, tristeza, revolta e medo.
Nunca consegui terminar nada! Péssima em processos, sempre sofri com
eles. Uma ansiedade terrível, um medo de ir em frente e dar errado ou pior: medo
de dar certo, medo de ser um sucesso em qualquer coisa. Sempre tive mais medo
do que podia ser bom. Essa era uma realidade que, por mais que eu desejasse, fugia

52 Helena Damasceno
desesperada, como se fosse a pior coisa do mundo viver feliz e bem. Fui treinada
a acreditar no lado ruim das coisas; na injustiça, no medo, a acreditar que nada me
salvaria. A verdade é que sempre me afastei de pessoas e coisas que pudessem me
ajudar de alguma forma, porque sempre tive medo de ser feliz!
A culpa... de novo essa palavra tão “poderosa” pra nós! Mas poder muda de
lugar. Só tem poder o que damos poder. Levei mais de 20 anos pra entender essa
possibilidade. Hoje curto meu processo sem maiores sofrimentos ou angústias. Claro
que dói ainda, não digo o contrário, mas esse processo tem me trazido uma energia tão
boa, a segurança de que é possível superar! E isso me move, me traz um oxigênio de
forças minhas surpreendentes e móveis. Dá ansiedade, é claro. Mas é até uma ansieda-
de boa, saber que se está caminhando para a superação seguindo uma estrada coerente
com sua saúde mental, física, psicológica, emocional e espiritual. Traz um otimismo
renovador saber que ao final desse processo, dessa estrada de refazimento, você estará
madura e feliz, livre enfim! É nisso que acredito hoje: na minha felicidade.
Quando percorri todas aquelas estradas escuras, mesmo sem perceber, vivi
o paradoxo de um processo de sobrevida e recuperação. Mesmo superlativando a
vitimização e a culpa, sem dar nenhuma credibilidade à minha própria recuperação,
não parei, segui em frente e busquei ajuda em muitos lugares. A maioria de forma
errada é claro, pois não tinha estrutura para elaborar toda essa história antes. Mas o
fato é sempre busquei apoio.
Por muitos anos ficava triste quando acordava ainda viva, ainda aqui e do
mesmo jeito que dormira, com tudo igual, a mesma vidinha de sempre, o mesmo
caos. Mas a verdade é que nunca desejei morrer. Como já disse antes: desejava matar
a dor e confundia essa idéia com a falsa compensação da morte física.
Mas não se iluda: o que aconteceu já aconteceu! Acolher e enfrentar a sua
realidade de violência sexual não a tornará menor ou fraca. Esse caminho não é
revitimizar, é superar. E vale a pena mesmo falar, desenhar, escrever, gritar, chorar,
compor, criar, correr, fazer psicoterapia porque tudo isso converge no processo de
cura. É sim um processo doloroso, mas também e, principalmente, generoso e de
sabor inconfundível, afinal, caminha-se para si mesmo. E o tempo é nada quando se
encontra a si mesmo! Quando você sentir o gostinho da própria liberdade, do seu
caminho de resiliência abrindo-se à cura interior, sua vontade será a de ir em frente
sempre, sem parar, acolhendo e enfrentando cada momento vivido em catarse, cada
crise e cada medo porque você sente e sabe que isso vai passar, e que está caminhan-
do, saindo do lugar de dor para o lugar de amor próprio e perdão.
O abuso sexual deixa muitas marcas e elas passam muito tempo entrando
em seus poros, alma e vida. Não pense que em alguns meses tudo vai acabar, que
basta fazer psicoterapia, duas vezes por mês, e depois de três ou quatro meses tudo
vai passar. Saiba que não há milagres! Não há uma fórmula mágica de um bolo da
felicidade! É necessário dedicação, força de vontade, paciência e fé em si mesma! É
necessário tempo, muito trabalho e dedicação pessoais, um compromisso interno
e por você.

Pele de Cristal 53
Na hora em que percebi que apenas eu poderia abrir meus braços e mudar
alguma coisa, me assustei tal qual criança medrosa, fugidia. Mas minha vida tocou
num único e preciso momento o cristal límpido e doce da liberdade, ainda em pedra
bruta é verdade, mas de visível teor livre, e me permiti ser feliz desta vez. Não me
fechei à felicidade. Escolhi a mim nesse processo de luz e sigo caminhando com
delicadeza e paciência, sem pressa... sei que chegarei.
Quando abri meus braços tive vontade de não fechá-los nunca mais. De
quando em vez fecho-os para dar passagem à minha criança interior, minha Le-
lezinha linda, a menininha meiga de vestidinho no balanço no jardim. Busco hoje
conhecer cada pedacinho meu com a energia da delicadeza e da doçura. E mais que
isso, busco amar cada um desses pedacinhos. São meus, fazem parte de mim, ajuda-
ram a construir o que sou e reconhecer o que há dentro de mim foi uma de minhas
maiores conquistas! Se roubaram nossos sonhos e nossa infância, não fizeram o
mesmo com nossa essência. O que somos está bem guardado, quietinho dentro de
nós, esperando pela acolhida de nosso perdão. Basta que nos dispusamos a acessar
esse caminho de ressignificação. E nada é mais delicioso que descobrir a si mesmo.
Vê que a hora de cuidar de ti é hoje, não no passado ou num dia outro depois de
amanhã. O amanhã é agora.
Durante o meu tempo de cuidar de mim, tenho aprendido coisas signifi-
cativas sobre o que nossos olhos vêem, quais coisas deixamos em foco principal,
quais deixamos passar e como facilitamos o processo de viver e ver as coisas. Tenho
percebido ao longo da minha caminhada que retroalimentamos vários padrões de
vitimização. Acreditamos totalmente numa fraqueza nossa (suposta tão somente,
acredite), numa vulnerabilidade absoluta. Mas não somos impotentes, muito menos
fracas. Por isso é tão importante a psicoterapia nesse caminho de ressignificação.
Importante e essencial para o acolhimento de nosso quarto pessoal, para que seja faci-
litada a conexão entre nosso caminho de dor e a cicatrização deste através do amor
e do perdão para conosco.
Cotidianamente repito para mim comandos de otimismo, reivindico a pró-
atividade de algumas frases aparentemente soltas, mas que juntas, contribuem sig-
nificativamente para o meu processo de cura. Abro e fecho o ciclo de frases com
a mesma idéia central: eu não tenho culpa. É um passo decisivo e libertador en-
frentar a culpa, os medos e todas as desordens internas acumuladas nesse processo
de transferência de responsabilidades para tentar modificar esse padrão. E decidir
enfrentá-lo é já uma grande vitória. No começo era mesmo muito estranho dizer
tudo isso pra mim, enfrentar meu olhar descrente e desdenhoso no espelho e repe-
tir essas palavras, assumir internamente o entendimento delas. Mas envio-me esses
comandos voluntariamente, repito-os esurdecedoramente para que meu cérebro
perceba que há outras portas para abrir e outras conexões para fazer.
Busco nesse exercício abstrair o medo e os temores provenientes da jornada.
Vivo a experiência humana e o medo faz parte da nossa natureza. É uma estrada
afinal e há vento, sede e frio. Mas a mim é mais latente a beleza da paisagem e o calor

54 Helena Damasceno
da jornada que a ansiedade da chegada.
Sei exatamente quais os passos dei, quais as estradas as quais andei abrupta
e duramente e preciso da minha coragem, da minha fortaleza e delicadeza para ser
feliz e inteira. E assim como eu, você também tem essa fortaleza dentro de si, dentro
do mesmo quarto pessoal em que guardas o medo e a culpa. Repito que é possível
trilhar outras possibilidades além da dor, que é possível ser feliz.
Quando estou sozinha, me observo nesse processo, sinto como se fosse ain-
da metade menina, metade mulher. Minha Lelezinha ainda tem medo e sente dor, é
natural. Foram anos de violência conjunta e abandono. A natureza não dá saltos e,
busco o equilíbrio e a serenidade acima de qualquer coisa. Assim posso seguir com
tranqüilidade, confiança e segurança. O mais evidente pra mim é que tudo de que
preciso para superar minha dor está dentro de mim, e ter percebido isso é o meu
grande passo! Tomar consciência de si é o primeiro trajeto a ser seguido. A coragem
e o medo se fundem, contrabalanceando-se, brincado nessa alegoria de equilíbrio.
Mas como é um processo, é natural que se tenha medo. Mas a força do medo não é
maior que a coragem, a vontade e a certeza de chegar à reta final.
Passei a me preocupar com tudo que absorvo, quais os alimentos que ingiro
voluntariamente. Não apenas a comida que conhecemos mais comumente (carne,
arroz, feijão, macarrão, etc.), mas o alimento emocional, espiritual e psicológico. O
que alimento para manter a culpa, os medos, a vergonha? Pôr essa comida pra den-
tro significa dar guarida a um padrão de comportamento pesado, repleto de valores
e significados que conspiram a rotina de dor e medo que conhecemos. E quando se
refere a abuso sexual, sofremos muito porque nos punimos cotidianamente.
Comer, esse verbo transitivo que pede a contrapartida do alimento, constrói
nossa capa protetora que retroalimenta o medo, as culpas, angústias, fobias, a vergo-
nha, estagnação e todo o peso que nos imobiliza.
Disse antes que o abuso sexual deixa marcas visíveis e palpáveis e que elas
passam muito tempo penetrando nossos poros, alma e vida. Já que nos culpamos
pelo abuso sofrido, nos percebemos burras, fracas, medrosas, magras demais ou
feias demais, dentuças, quadradas, nojentas, inferiores, quase um “monstrinho” am-
bulante não é mesmo? Precisamos fugir da imagem à época da violência a qualquer
custo, e para tanto, nos submetemos a qualquer espaço de sofrimento. Nesse jogo
perverso e abusivo desenvolvemos uma série de capas protetoras, coisas que nos
dão uma falsa sensação de segurança.
Incorremos no erro de “matar” o que somos, ser diferentes do que éramos
quando do abuso para afastar, tanto nosso agressor, quanto outros possíveis, pois já
que o seduzimos, se fomos capazes de atraí-lo, é bem possível que possamos fazê-lo
outras vezes com outras pessoas. Então comemos muito ou comemos pouco, nos
deixamos relapsas, sem cuidar do nosso corpo, engordamos demais ou emagrece-
mos demais, deixamo-nos sem vaidade, sem saúde, sem zelo. Ficamos out, fora mui-
to tempo! Na tentativa de fugir da dor e escapar do sofrimento, seguimos caminhos
inversos ao processo de cura nos afastando de nós mesmas e nos impondo uma

Pele de Cristal 55
série de punições, mas fazemos isso sem clareza de consciência, é claro! É a culpa
que nos acorrenta e nos priva do direito da felicidade, causa primeira da nossa estada
nesse plano, nesse espaço de convivência que é a vida.
Tornei-me uma criança desleixada ao extremo. Mal tomava banho, não me
limpava direito, não escovava os dentes, nem me cuidava de nenhum modo, espe-
rando assim, que o tio-agressor tivesse por mim o mesmo nojo que eu. A maioria
das crianças, especialmente as meninas por conta da questão de gênero, apreendem
desde cedo uma cultura da feminilidade, uma vaidade que zela e as prepara para a
vida adulta. É como se elas fossem aos poucos aprendendo a cuidar de si e depois
da casa, a fazer “coisas de menina”, a vestir seus papéis sociais. Mas eu não queria
fazer nada dessas “coisas de menina”, queria sumir daquela casa, daquela família.
Ninguém me ouvia...
Lavar os cabelos pra mim era um tormento, precisavam estar sempre em desa-
linho, assanhados e feios. Tomar banho seria uma atitude extremosa, só o fazia quan-
do a “coisa estava feia”. Lavar minhas calcinhas, manter ouvidos, unhas e pés limpos
e cuidados eram algo irrelevante, nada interessante pra mim. Precisava me manter
suja pra que ele não me desejasse. Ajudar minha mãe a arrumar a casa então era um
tormento! Sentia como se ela me preparasse para ele, pro agressor que me impunha
àquele inferno todo dia. Pra que aprender a cozinhar, varrer casa, lavar, passar?
Eram constantes as discussões e ofensas porque minha roupa era sempre
suja, porque cheirava mal, tinha feridas nas pernas e não cuidava, não tomava banho,
nem me vestia feito menina comportada. Meu corpo era apenas uma imagem de como
me sentia por dentro. Se eu pudesse, vestia a mesma calcinha um número incontável
de vezes, até que apanhava e era obrigada a um asseio monitorado, pois se fosse ao
banheiro sozinha passava sabonete nos braços e pescoço, fingindo o asseio. Nin-
guém parecia perceber, mas eu estava morta.
Mas o pior estaria por vir. Comecei a descontar na comida toda a mágoa e
peso da dor sufocante. É claro que esperava ficar feia, precisava ficar horrorosa. Mas
novamente digo que essa ferramenta é inconsciente. Ninguém planeja sofrer, ficar
feia e suja. É no peso da culpa que alicerçamos essa engrenagem. Engordei 28 kg,
sem perceber, ao longo dos últimos anos, numa ação violenta e compulsiva, destrui-
dora. E não percebi mesmo que engordei tanto. Algumas vezes, encontrava uns ami-
gos antigos e a primeira coisa que acontecia era um susto generalizado. Fitavam-me
com aquele olhar de espanto, como podia aquele peso todo em tão pouco tempo?
Inevitáveis as “brincadeiras” de mau gosto. A situação piorava pra mim,
sentia-me mais envergonhada ainda e isso acabava fazendo com que eu comesse
mais e mais, muito mais! Eu me sabotava o tempo todo, me entregava totalmente
ao medo e a vergonha e precisava o tempo inteiro ser aprovada em testes doentios
e cada vez mais autodestruidores. Mas nem percebia que aquilo me fazia tanto mal,
era como uma droga que vicia e que você não consegue largar.
O que queria mesmo era me esconder do mundo e encontrei esse refúgio
na comida. Precisava engordar porque necessitava parecer feia, velha e gorda, para

56 Helena Damasceno
que ninguém se aproximasse. Era absolutamente necessário estar bem longe daque-
la imagem à época do abuso. O tio-agressor me fazia “elogios”, dizia sandices no
meu ouvido e dialogava sozinho num carrossel doentio e imaginário, porém num
pesadelo bem real pra mim. Então aquela imagem que o atraía precisava morrer, e
foi o que fiz, inevitavelmente.
Quando meus “amigos” me encontravam e me chamavam de gorda, ficava
triste sim, aquilo me incomodava muito, mas lá no fundo, bem lá no fundo, me sen-
tia segura. Acreditava (erradamente) que não era mais aquela menininha abusada,
que estava a salvo. Que nada! Eu era ainda a mesma menininha assustada, falsa-
mente protegida por uma capa de gordura que a aquecia. Uma série de compulsões
somou-se a essa depois, mas a verdade é que nunca me senti protegida de fato. Sem-
pre estava à espera de um ataque, sempre vivi na defesa. Quando punha a cabeça no
travesseiro, sentia um medo avassalador de que ele me encontrasse. Ninguém sabia
onde eu morava, mas ainda assim, sentia medo de, de novo, ser abusada por ele.
Ainda me sentia a mesma menina indefesa, gorda ou não. Essa era a verdade. Agora
que fachada! A gente se culpa, se enche de comida ou de remédios, de medos ou de
qualquer coisa que destrua aquela imagem antiga de menina abusada e machucada,
e nos acorrenta ainda mais a esse novelo de auto-sabotagens e sofrimentos. Isso não
nos liberta, aprisiona!
Mas e quanto ao alimento que não é produzido nas lavouras e digerido nas
refeições em casa, nos self-services, lanchonetes ou barzinhos? Em que palavras, sen-
timentos e sensações estarão os focos do nosso olhar? Que peso e que valor damos
às coisas à nossa volta e, que contribuem todas, inevitavelmente, para a nossa ali-
mentação por assim dizer?
Quando nos envolvemos em relacionamentos doentios que se repetem ao lon-
go dos anos, nos quais nos projetamos sempre em segundo plano, e em detrimento
próprio, ou em situações de mendicância ao amor do outro; onde nossa felicidade é
e está sempre nesse outro; alimentamo-nos mal, comemos muito colesterol ruim, bus-
cando fora de nós o que, na verdade, está dentro. Isso só nos mostra que ainda nos
sentimos aquela menininha assustada, com medo da mão invasiva, do suor invasivo e
que precisa ser protegida do mundo que quer abusar dela de novo e sempre.
Quando não percebemos nossas qualidades em detrimento à culpa e ao
medo, apontamo-nos um caminho de sombras onde, de quando em vez, podemos
até notar alguma luz, mas sempre debaixo de algo que é maior que nós. Mas não
há situação essa que não possamos ultrapassar e não há nenhum igual, nenhum ser
humano maior ou melhor que nós. Estamos todos no mesmo barco, na mesma
dinâmica da vida.
Veja quais alimentos consome cotidianamente. Perceba se eles nutrem somen-
te e necessariamente o que você precisa para ser feliz, para estar inteira na sua cami-
nhada. Na sua asa, só cabe o que podes levar em vôo seguro. Lembre-se que a força do
medo não é maior que a coragem, a vontade e a certeza de chegar à reta final.

Pele de Cristal 57
Capítulo V
“Mudei... fui embora de mim.
Saí em desalinho, em desajuste,
em constante amparo e convexo.
Cumpri minha bênção diária...
Saí pelo meio dos ventos
desafiando tempestades e folhas de nácar
Nunca mais serei ferida
Agora sou casca”!
Força de horizonte
Na sua asa, só cabe o que podes levar em vôo seguro. Lembre-se que a força
do medo não é maior que a coragem, a vontade e a certeza de chegar à reta final.
Sempre me achei fraca, uma menininha boba e sem graça, sem sal, sem be-
leza, sem nada! Fazia coisas estúpidas e pedia licença pro mundo pra qualquer coisa:
“ôôô dá licença eu respirar, posso passar por aqui, posso ser sua amiga, eu sei que não tenho culpa,
mas me desculpa mesmo assim viu?”. Exagero? Nenhum!
Todas as minhas atitudes e posturas, tudo o que fazia, onde quer que estives-
se, no trabalho, em casa, vivendo relacionamentos de amizade ou afetivos outros,
em apresentações em barzinhos fosse o que fosse, onde fosse, lá estava eu com um
enfeitado pedido de desculpas bem amarelo no rosto. Sempre tive uma vergonha
gigantesca de mim, de quem era ou viria a ser, de tudo que havia em mim.
Escondia-me atrás de tipos ou personagens. Numa fase estava palhaça de-
mais, rindo e tirando sarro da cara de todo mundo, geralmente com um bom reper-
tório de piadas (hahaha) bem desagradáveis e acorrentadas a um humor sarcástico e
de mau gosto, numa volúvel e superficial simpatia. Antes atacar do que o contrário,
sempre a melhor defesa - minha transparente capa de proteção!
Outras vezes era indiferente demais, quando estava nas minhas fases intros-
pectivas. Mal falava, não saía de casa ou atendia telefones, nem ia a barzinhos, nada
enfim! Outras era a chatice em pessoa, melhor dizendo: em fardo. Resmungava o
tempo todo, reclamando da vida, dos preços altos, das feridas que ainda sangravam
abertas dentro de mim, mas que ninguém via, ou cuidava, de tudo enfim!
Resumindo: ou me achavam simpática demais, ou grossa demais, chata de-
mais, quieta demais, algo sempre demais! Blá blá blá.! Daí pra frente não parou
mais! Sempre tinha um modelo, novo ou não, mas sempre tirava um fake da minha
cachola mágica e protetora. Expunha-me ao julgamento alheio, me esquecera que, a
bem da verdade, eu é que tinha que achar alguma coisa sobre mim mesma.
Não sabia quem era a mulher que via diante do espelho nos últimos anos.
Quem era essa desconhecida que se aventurava comigo num eterno pique esconde
com suas virtudes, belezas, erros e vícios? Eu estava mesmo disposta a conhecê-la?
Como eu poderia conhecer essa mulher se justificava sua existência como um erro?
Nascer tinha sido uma fatalidade, pois, afinal de contas, tinha nascido pra que? Pra
ser infeliz? Pra ser um brinquedo sexual comprado numa sexshop ruim?
Via-me sem perspectivas. Não permitia que ninguém, nem mesmo eu, ti-
vesse o prazer de me conhecer de verdade, de me ver de verdade. Disfarçava senti-
mentos, sensações, vestia variados papéis na busca de negar quem era de fato e de
essência. Minha fortaleza parecia estar no horizonte de uma praia qualquer, bem
longe de mim. Sempre fora de mim, não é mesmo? Meu foco, minha maneira de ver
as coisas, estava habituado a essa lógica limitada.
O nosso olho vê apenas o que está no foco central da íris. Ele não percebe o
que está para além dele, então isso “se perde”. Nossa visão fica limitada pelo padrão

Pele de Cristal 59
que seguimos mental e cotidianamente. Por isso o conceito sistêmico vem avan-
çando espaços e ampliando consciências. O Ser é e faz parte de muitos sistemas ao
longo de sua vida. Família, escola, comunidade, todos os espaços de convivência o
alimentam e convergem para o tudo que ele é. Aumentar o foco da sua vida dentro
de um sistema, amplia o conhecimento de si e das coisas ao redor, abre o leque de
possibilidades. Você pode ir muito além da íris, ver bem mais do que aquilo que ora
se apresenta à sua lógica espacial, palpável.
O que quero dizer é que nos acostumamos com a rigidez de nossas centra-
lizações e podemos mudar de foco, ampliá-lo. Experimente exercitar isso com pe-
quenas coisas do dia-a-dia. Amplie sua visão, sua forma de ver e perceber as coisas,
pessoas, possibilidades, sonhos, dores, medos, culpas... Até a dor quando olhamos
para ela, se o fizermos do chão ela parecerá maior.
Todo movimento é dado a partir de um pequeno desejo, de um conjunto
desses desejos unidos em prol de. Cada um na sua velocidade, no seu tempo. É
importante perceber a cristalização do que focamos, mas existem degraus: da per-
cepção aos questionamentos, à mudança de alimentação emocional. Faxinar nosso
quarto pessoal demanda tempo, paciência e amor.
Como não sabia disso, ia à praia e me sentava à beira mar, passava horas ali,
olhando profundamente pro mar, praquela linha enorme e imaginária. Secava-o
numa sede interminável por mim, buscava a solução pros meus problemas e luta-
va pelo fim da minha dor, mas esquecia que era dentro de mim que estava minha
força, não naquele horizonte algumas vezes personificado em relações amorosas
patológicas, numa extensão clara da culpa e da vergonha que sentia, ou em compul-
sões e somatizações sem fim. Essa metáfora do horizonte me assegurava o foco de
justificativas para me manter segura. Esse era o padrão de medo e culpa que repetia
mental e fisicamente num cansativo carrossel de dolo e inocência, vivendo eventuais
altos e baixos.
Superar a dor do abuso em si é como olhar pro horizonte: parece que é
impossível chegar lá, não é mesmo? Mas nosso horizonte interno não se constitui
de uma linha imaginária ou lapso óptico. Somos fruto de nossas experiências e
acumulamo-las em nosso quarto pessoal, inevitavelmente. Chegar ao horizonte inter-
no é fazer o caminho de amor por si mesma conhecendo suas fronteiras, assumindo
a posse de sua essência e vida com coragem e delicadeza. Superar é um passo dado
todos os dias quando você acorda e decide viver, por aquele dia que seja. Viver é
uma experiência ímpar, delicada como semear, acolher e colher um roseiral. É um
plantio diário e efetivamente afetivo para que nossa rosa floresça no tempo certo.
Espinho e flor...
Mas houve época em que minha cabeça só pensava em fracasso, não conse-
guia imaginar nenhuma possibilidade além da dor. Queria sim superar, até esquecer
o que tinha acontecido, mas não estava preparada para o enfrentamento com a dor.
Não podia e nem queria superá-la. Então negava tudo que tinha me acontecido e
continuava vivendo anestesiada. Mas tem uma coisa: a violência sexual que aconte-

60 Helena Damasceno
ceu comigo e com você é real, aconteceu sim! Nada vai mudar isso! Sei que quando
negamos, isolamos esse pedaço doloroso da nossa vida num quarto ermo, bem
distante da nossa rotina. É como se isso deixasse de existir, como se nunca tivesse
acontecido nada daquilo, não é mesmo? Mas esse quarto pessoal acumula poeira e de
quando em vez, essa poeira vem à tona lembrar que existe dor e que precisamos
de luz e dedicação para sair dali, do chão da dor, para que possamos transformar e
ressignificar essa experiência dolorosa em amadurecimento e libertação. Continuo
dizendo que não é fácil, continuo dizendo que é possível, que é real. Lembre-se que
enfrentar as lembranças é estar no comando, é guiar sua própria vida e redescobrir
a si própria.
Quando era criança queria ser astronauta, parapsicóloga, médica, freira, de-
senhista de cartoons, cantora, escritora, queria tocar violão e ser artista. Na verdade,
queria ser primavera além do inverno que se estabelecera na minha casa, na minha
alma. Sonhava em ser livre... Na verdade, era livre somente no pensamento. Dentro
da minha cabeça ninguém podia entrar, me invadir e ou monitorar minha essência.
Criava estórias na minha imaginação onde a heroína sempre era corajosa, forte, sem
papas na língua, simpática, linda, meiga e doce. A heroína era eu, o que queria ser, ou
vir a ser. Nessa brincadeira de “faz de conta” – só faz de conta, porque na verdade
o que sonhava era assumir a mulher que era –, nessa brincadeira infantil, consegui
preservar o que há de melhor em mim. A verdade é que aquela mulher forte, bonita
e corajosa, que conseguiu manter sua essência alegre e guerreira foi absolvida ali,
nos canteiros imaginários de minha infância.
Porém sempre fui considerada uma criança estranha, cheia de tiques e des-
tabanada. Na verdade haviam transformado minha imagem totalmente. Gaguejava
quando nervosa, não me expressava direito, vivia doente, tímida demais, anti-social,
magrela demais, desengonçada – vivia derrubando as coisas e quebrando tudo, não
tinha vaidade, era feia. Quase nada ficava inteiro na minha mão. Se ganhava um pre-
sente o perdia, quebrava ou desaparecia. Tinha medo só de pensar no que ouviria da
família quando eles soubessem de “mais uma das minhas”.
Meus peixes morriam de fome, meus gatos eram jogados fora porque nunca
cuidava deles direito, meus cachorros cheiravam mal porque não os banhava, meus
pezinhos de feijão nem chegavam a florescer. Tudo meu era perdido ou aos peda-
ços. Não conseguia cuidar de nada porque não me ensinaram a fazer isso. Pra cuidar
de algo teria de ter sido habituada a essa prática.
A família em que nasci tratou de fechar os olhos para a violência sexual que
eu sofria. Hoje, não os vejo, mal sei deles. De quando em vez entro em contato com
minha mãe biológica e a visito esporadicamente. Nunca conversei com eles sobre o
abuso, nunca rasguei o verbo digamos assim. Sempre tive medo de ser tratada como
louca, mentirosa ou sem vergonha, de ouvir que eu o provoquei e o seduzi.
Quando a fala da criança ameaça quebrar o muro de silêncio, a família se
organiza quase que instintivamente para desmoralizá-la, devastado-a de dor e pres-
sionando-a com a imposição do silêncio. É um mito quebrado dizer que a família

Pele de Cristal 61
é um espaço seguro, no qual a criança está segura. O lar e o espaço da família são
também ambiente onde a criança não está a salvo. É preciso desnaturalizar essa
idéia e admitir a possibilidade dessas laços estarem fragilizados. Somente depois
disso poderemos transvalorar sobre tais relações.
Quando acreditamos que somos sujas e culpadas, estamos reproduzindo os
padrões da revitimização. Não fique pensando sobre os motivos e porquês dessa
violência. Trate de cuidar de você, do seu espaço de conquistas pessoais, da ação de
quebrar esse ciclo de dor, medo e culpa. Mude o foco do seu olhar, amplie-o. Mudar
faz parte da vida. Mudamos o tempo inteiro, mesmo sem perceber. Não receie, você
não é mais aquela criança assustada e ferida. Você está viva, aproveite a oportunida-
de de viver a experiência humana. Não viemos pra cá para sofrer ou pagar dívidas.
Viemos apreender harmonia, equilíbrio, amor, respeito e solidariedade. Aproveite as
coisas de estar viva e planeje do que você precisa para viver.
Quando caminhamos, até os passos dados se olharmos, são inevitavelmente
uma permuta de equilíbrio, de passado e presente, de futuro. Andar é fruto do dese-
quilíbrio aparente entre um passo e outro, é mudar a tempo real, perceber o instante
em que saímos do lugar. Saia do lugar.
O que você quer para sua vida?
Tudo que você quer ser está dentro de você!

62 Helena Damasceno
Capítulo VI

“Estava só, nada ouvia.


E no cinema de minhas mãos,
beijava minha carne fria,
Cadavérica no espelho da cor que não via.
Estava muda...
E mesmo assim perdia vozes nos dedos da lua
Daquilo que me desconcertava
os ouvidos e esquecia...”
Dona do dom
Andar é fruto do desequilíbrio aparente entre um passo e outro, é mudar a
tempo real, perceber o instante em que saímos do lugar. Saia do lugar... O que você
quer para sua vida? Tudo que você quer ser está dentro de você!
Sinto-me um ser mais livre hoje, menos distante da liberdade e da maturi-
dade, caminhando para mim mesma sem pressa e com prazer. Busco a integração
comigo mesma e com tudo que vive. Quando digo que cansei de me esconder, falo
que caminho hoje para a vida de forma mais inteira, buscando o sabor das coisas de
estar viva com mais tranqüilidade, equilíbrio e delicadeza.
Cansei de dormir em calçadas sujas e de correr riscos desnecessários, de me
sabotar expulsando-me de todas as possibilidades de felicidade, de me por sempre em
segundo plano, segundo lugar, esquecendo da tarefa primeira para comigo: o amor
próprio, o aprendizado de crescer enquanto ser humano e ser espiritual. Acredito na
vida além dos muros de silêncio e dor, acredito em tudo que é possível realizar de
bom enquanto vivemos essa fantástica experiência humana. Não é apenas a coragem
que me move, é a vida em sua grandeza e primazia, é o desejo de estar dentro dela
da forma mais aberta e clara possível, mais liberta e integral. A sede que tenho hoje
é mais serena e benfazeja. Não bebo o mundo com pressa e de forma inconseqüente
para comigo ou outrem, estou mais responsável e leve com meu caminho. As som-
bras do passado hoje me mostram apenas quão valorosa eu sou.
Por muitos anos evitei me socializar como se fosse possível crescer sozinha.
Tudo porque achava que podia me esconder de todos e de mim mesma, já que só
esperava o pior. Hoje percebo a grandeza que é caminhar junto com o outro, com
tudo que tem vida nesse planeta. Fazemos parte desse elo que liga o segredo da vida
com os mistérios da divindade, somos parte da luz e da felicidade.
Passei anos da minha vida me fazendo perguntas, me perdendo entre os in-
vestigativos porquês do que me aconteceu na infância e adolescência. E sofria, me
angustiava com as perguntas e o vazio das respostas, nada explicava ou justificava. E
nada justifica uma violência, nada mesmo! Mas buscava explicar não para entender,
mas para provar pra mim mesma o quanto era uma pessoa ruim e merecia de alguma
forma ter passado por tudo aquilo. Mas não mereço e nunca mereci ser abusada e
negligenciada.
Você já imaginou se fosse possível colocar uma pedra tapando a boca de um
vulcão, o que aconteceria? Seria possível, desta forma, evitar sua erupção? Meio di-
fícil não é mesmo? Pois é o que fazemos conosco. Somos vulcões explodindo todos
os momentos num intenso movimento contínuo, um ir e vir interno, uma incansável
busca por crescimento e felicidade.
Crescer gera um movimento algumas vezes imperceptível a olho nu, mas
quando vários movimentos se unificam ocorre uma erupção inevitável e clara. Cres-
cer dói e arrasta tudo que está pela frente tal a simbologia do vulcão que destrói com
sua força o que encontra pelo caminho transformando-os em vestígios apenas.

64 Helena Damasceno
Quando nos dispomos a mexer no nosso quarto de segurança (falsa segurança)
estamos indo de encontro a esse vulcão. Pode-se até tentar evitar esse encontro com
o crescimento e a maturidade, temos livre arbítrio pra isso, é claro, mas é como por
a pedra na boca do vulcão. Estamos vivos e em constante e inevitável movimento.
Mais dia menos dia, entraremos em erupção, botando pra fora tudo que estava apa-
rentemente guardado.
Algumas vezes quando estamos em crise, sentindo a dor em estado ininter-
rupto e com toda a sua força, nos deixamos levar pelo grau exagerado da violência
que tudo arrasta. Esquecemos de notar que esse caos é momentâneo e aparente.
É mudança simplesmente e toda ela traz dor porque retiramos a poeira do lugar,
retiramos as coisas do seu espaço de segurança (falsa segurança); e o aparente estado de
constipação traz amadurecimento quando percebido sob a ótica da transformação
e da maturidade.
A crise é o vulcão em movimento de erupção, arrastado pela dança da mu-
dança. Não somos seres estáticos, a vida é um dom em movimento. Li uma vez que
o tempo é como uma criança que quanto mais damos atenção, mais ele se mostra.
Assim são as ansiedades, angústias e os temores da transformação. Se as cercamos
de atenção, mais elas ganham força e poder na nossa vida. O tempo é um dom que
temos ao nosso dispor para enfeitar a vida de tudo que cabe em nosso coração.
Disponibilize-se às mudanças, abra seu coração ao convívio com você mes-
ma, ouça o que sua voz interior tem a dizer, grite se for o caso, saia a correr, respire
fortemente, rasgue uns cadernos velhos, dispa-se de falsos pudores, enfrente-se!
Dói mesmo, não negue isso. Admitir que dói, admitir o que aconteceu não é sinal
de fraqueza, mas sim de coragem! A dor faz parte de você e negá-la traz angústia e
ansiedade no processo de cura que fica mais longe de ti. Mas não se acostume à idéia
da dor, não se permita o vício do sofrimento. Não negue nada em seu processo,
todo ele é válido e, aos poucos, você perceberá que muitos sentimentos são naturais
a qualquer situação.
Algumas vezes pensamos que ser vítima de violência sexual nos marca de
uma maneira diferente, mas não somos diferentes, somos iguais a qualquer pessoa
que passa por uma situação de dificuldade. É claro que especificamente a violência
sexual, deixa marcas absurdamente violentas, mas não precisamos eternizar o mo-
mento em que estivemos indefesas. A mania de sofrer é que prende e contamina.
Portanto, abra seu ser às mudanças, saia do lugar...
Sentir medo, frio, fome, coragem, fé, descrença, tédio, amor, faz parte das
coisas de estar viva. Portanto, cada passo que você dá é somatório no seu caminho, é
a vida que se apresenta para ser vivida integralmente. A violência sofrida não é fruto
da sua negligência ou da sua culpa. Não precisamos carregar o fardo pesado dessa
culpa até sempre e com a mesma perspectiva de vitimização. Não precisamos de
rótulos depreciativos. É natural subir e descer porque estamos em constante estado
de aprendizado, estamos em estado de crescimento. E tudo nesse caminho de viver
é válido porque é soma no resultado você.

Pele de Cristal 65
Escolha o que você quer da rosa... Seu perfume e beleza ou os espinhos?
Mas lembre-se que os espinhos fazem parte da rosa sem ladrar-lhe a beleza e a sen-
sibilidade. E todas as rosas têm espinhos inevitavelmente. Mas sua forma e beleza
são tão evidentes que a nos é muito maior o desejo de ver a beleza da rosa que os
espinhos. Podíamos nos perceber rosa todos os dias, educando os nossos filhos tal
como as flores que precisam de cuidado e dedicação, apesar dos espinhos. Ah, e
cada rosa é individual com sua beleza especificamente individual.
Insisto que a violência sexual intrafamiliar é um ardil construído no coti-
diano. A criança tem suas defesas mutiladas todos os dias até que se torne presa
fácil ao abuso sexual e nem reaja mais. Ela não ousa, não reage, não pensa, e morre
ali, um pouco mais todos os dias até que se finde esse processo e se inicie o de dar
passagem à recuperação. Anos a fio podem separar esses momentos. No meu caso,
pra ser bem específica, 20 anos.
Quando me vi sozinha, totalmente presa e dominada pela família e pelo tio
agressor, com os abusos e as humilhações ocorrendo num grau de violência grada-
tiva e cada vez mais freqüente, me senti desamparada e sem forças. Mas precisava
sair dali, daquela situação. E saí. Para a família em que nasci foi muita audácia sair de
casa sem eira nem beira, mas precisava sair do julgo da violência sexual. Não tinha
trabalho, era uma menina medrosa e cheia de tabus, fobias e inseguranças; não tinha
amigos que pudessem me dar uma guarida imediata e a partir dali, tinha que decidir
sozinha, escolher sozinha como viver de acordo com meus passos. Ninguém me
havia ensinado a viver, haviam me doutrinado da maneira errada. E eu estava agora à
mercê da escola da vida que me conduziria até aqui a um custo bem alto, mas repito
que foi minha única alternativa de sobrevivência.
Foi difícil sim, mas saí com a mamãe chorando atrás de mim, me pedindo
pra não fazer aquilo, me fazendo promessas que sabia que não deixariam de ser isso,
promessas. Seguia na frente dela andando de um lado pro outro, sem olhar pra trás
ou pra ela. Ia catando algumas roupas num choro compulsivo e interminável. Mas
não podia morrer por ela e ficar naquela casa significaria morrer. Nunca consegui
dizer pra ela qual verdadeiro motivo me levou a sair de casa; me sentia culpada
demais e se falasse qualquer coisa, pensava que ela deixaria de me amar, porque o
tio-agressor me disse isso por muitos anos. E acreditei em todas as mentiras que ele
disse! Passei a vida toda justificando minha existência como um erro da Divindade
porque acreditei em tudo que ele me disse. Hoje sei que ele precisava manter seu
segredo e dinamitou minha auto-estima pra isso.
Fui pro mundo qual passarinho que cai do bico da mãe. Cai machucado,
busca cuidado, mas tem de seguir a jornada sozinho. O passarinho machucado não
confia em ninguém, ele tem medo de quem tem 32 dentes. Vez outra, o passarinho
cria coragem e vem cantar vôo fora da casa de proteção dele. Ele sabe que precisa
de ajuda, que precisa aprender a voar e vem brincar, mas tem medo do mundo e se
esconde de novo.
Relacionar-se com o mundo é quase um tormento pra quem foi vítima de

66 Helena Damasceno
abuso sexual! Ora, pois, se nós confiamos num homem que nos enganou de forma
torpe e vil, como confiar no resto das pessoas se quando fizemos, fomos enganadas
e abusadas? Como saber o que é verdade e quem a diz? Tudo é muito confuso pra
nós. Por isso insisto na importância da psicoterapia como ferramenta fundamen-
tal no processo de cura. A psicoterapia toca no centro da dor e nos auxilia nesse
caminho rumo ao autoconhecimento, facilitando junto conosco essa jornada de
superação, maturidade e liberdade. Enquanto casulos preparamo-nos à beleza para
alçar outros vôos. Enquanto borboletas voamos buscando as rosas, as flores com
espinhos e beleza evidentes e em equilíbrio.
O caminho é buscar ajuda, não desistir nunca de você, fazer o percurso da
sua história de vida libertando-se da vergonha e da culpa. Não precisamos negar ou
fugir do passado, nos esconder feito ladras. Eles, os agressores, é que precisam de
esconderijos. É um engano pensar que negar o abuso nos liberta de fato. É a pedra
na boca do vulcão, e nossa boca fala mesmo que em silêncio! Não somos culpadas,
não seduzimos ninguém, não cometemos nenhum crime! Quando aceitamos a cul-
pa, negamos a nós mesmas, o direito de ressignificar todo o sofrimento, toda a dor,
negamo-nos à possibilidade do auto-cuidado e do aprendizado do amor próprio.
Chego hoje aqui, nesse espaço de resiliência e liberdade com sensibilidade
ao olhar pra trás e ver que sou uma bela mulher caminhando com dignidade para
tornar-se o que é verdadeiramente: um ser sem amarras, sem entraves, com simpli-
cidade. Cada um de nós tem um tempo, uma velocidade para habituar-se às coisas
de estar vivo. Não há fórmulas mágicas! Aponto apenas o caminho do autoperdão,
da libertação da culpa e dos medos para sermos livres e felizes porque esse é um
caminho de amor e não de medo.
Durante mais de 20 anos acreditei cegamente que não merecia e nem podia
ser feliz. Dizia-me muito grata pela educação que tinha recebido. Enganava-me o
tempo inteiro, dizia pra mim mesma e pros outros que tinha recebido tudo do bom
e do melhor, que a família em que nasci havia tido muito zelo e esmero para co-
migo, que mal discutíamos e que éramos uma família unida e feliz, quase perfeita.
Negava o abuso em todos os detalhes possíveis. Como minha família é incestuosa e
negligente, dizer o contrário traria alento e esquecimento à minha história de abuso
sexual intrafamiliar e de todas as suas conseqüências.
Contava estórias onde minha mãe era louca por mim! Dizia que ela me ama-
va tanto, que nos dias que fazia frio, ela esquentava minha água ao acordar e que
quando saía do banho, meu café já estava posto. Sempre quis uma família de pro-
paganda de margarina. Conhecia muitas pessoas que tinham uma família mais ou
menos tranqüila, não podia ser diferente de ninguém, então negava meu histórico
de abuso e violência e ficava com a fama de louca e irresponsável. Assumi esse
papel porque me sentia em débito com eles, a gratidão filial que confundia com
justificativas banhadas de culpas. Por muitos anos deixei de fazer o que gosto, deixei
de saber quem de fato sou e de correr atrás dos meus sonhos, nem acreditava neles.
Vivi nessa fantasia de família de propaganda de margarina até confundir realidade e

Pele de Cristal 67
mentira. Menti tanto pra mim que houve um momento em que não sabia mais nada
de mim, era uma completa estranha.
Vivi relacionamentos doentios, nos quais me submetia sempre, (em segundo
lugar, em segundo plano) andava sem cuidados para comigo, sem buscar equilíbrio
em nada. Nos grupos em que andei, fui acusada de roubo, de mentirosa, me envolvi
em fofocas, discussões e atritos, mas dependia desse ciclo vicioso e desvairado. Pra
sobreviver trocava minha música por alguns trocados, por comida ou por um bom
lugar pra dormir mesmo. Era minha forma de me relacionar com as pessoas e co-
migo: eu sempre em desvantagem e co-dependente. Não estava pronta para viver
equilibradamente porque não sentia o equilíbrio dentro de mim e o buscava nas
coisas mais torpes, traía a mim mesma fazendo isso.
Fui e voltei muitas vezes na casa de minha mãe biológica. Ela sempre vinha
com a cobrança de que eu fosse a “filha perfeita” que eu nunca conseguira ser, e me
sentia então, a pior das criaturas, incapaz de gerenciar a própria vida! Eram muitas
as acusações e discussões sobre “o que eu estava fazendo da minha vida”. E não
conseguia falar nada, tinha medo de tudo, de que ela nunca mais quisesse sequer
saber de mim ou me ver de novo. Algumas vezes estamos tão dentro desse ciclo
de dor e culpa que não percebemos que é isso um jogo, uma troca cruel de valores
incoerentes com o equilíbrio da vida, com as coisas de sermos e estarmos humanos
em dignidade e integridade maior.
Entrei pra universidade e, apesar de não ser o curso que queria, a família
ficou toda orgulhosa, tinham, afinal de contas, um troféu meu para exibir, algo
que sinalizasse que todo o investimento feito em mim havia valido a pena. Nunca
terminei esse curso. Ele representa todo esse período de dor. Era como se quando
entrasse por aqueles corredores, bebesse de novo toda a desvalia que absorvi a vida
inteira, como se aquele orgulho da minha mãe me ferisse mortalmente. Hoje repen-
so muitas coisas, inclusive minha profissionalização. Mas estou tranqüila quanto às
prioridades de hoje, mais leves e saudáveis. Do passado nada quero além do apren-
dizado e da cicatriz.
Considero minha trajetória sem maiores dores e danos, sem esse pesar de
ter tido culpa do abuso e de todas as conseqüências dele. Fui vítima de violência
sexual, sim, e isso não me diminui em nada! Busco nesse processo chegar ao auto-
conhecimento e amor próprio. Libertar-me da culpa e dos medos é mais que uma
possibilidade, é realidade que se aproxima em constante alegria.
Quando criança brincava fazendo bolinhas de sabão. Li um livro anos depois
descrevendo o amor como a estrutura de uma bolha de sabão. Esse desconhecido
amor por mim, composição doce eternizada nas brincadeiras e sonhos de infância,
volta aos poucos para seu lugar de afeto e de direito. Saber quem sou e assumir
minha identidade sem medos, culpas ou vergonhas, sem me sabotar e me punir
pelo passado é um passo que já foi dado, é estrada que se abre doce à minha frente.
Outras pessoas já traçaram essa estrada, não sou a única. Conheço gente que sabe,
assim como eu e você, a cor do fundo do poço. Mas saiu dele vitoriosamente, veste

68 Helena Damasceno
hoje outras cores pintando a vida com outra poesia, outra tela além da dor pesada
e injusta que carregamos. Mesmo que seja difícil enxergá-la, a felicidade é o destino
de todo ser que vive a jornada humana. Perceba-a nas pequenas coisas doces da sua
vida, em sua essência.
Dentro de você existem pólos de felicidade que se unem em prol da obra
de sua vida, amenizando os momentos de dor e ressignificando-os quando neces-
sário. Sintonize-se, abra seus espaços a esse caminho. Se seu coração está cheio de
dor, mágoas, medos e culpas, seu pensamento será organizado dessa forma, sem
ver possibilidade de mudar de foco, de sintonia. Mude o foco de seus sentimentos,
sintonize-se no afeto e no equilíbrio interior e do que está ao redor, na bioética
essencial da vida. Busque encontrar a fonte da mudança na magia da simplicidade
das coisas de estar vivo.
A maioria das vezes foi difícil me deixar crescer, porque precisava pra isso
deixar vir à tona todas as minhas feridas, acolhê-las e tratá-las com amor e respeito.
E não sabia se conseguiria. Abandonei muitas vezes coisas que eram importantes
pra mim. A universidade foi uma delas. Me contorcia de culpa depois, me punindo
porque não devia ter feito isso, o que só aumentava a sensação de vítima impotente
e culpada. Abandonava as coisas como se estivesse abandonando meu próprio sofri-
mento ou a mim mesma, só que não compreendia que fazendo isso só aumentariam
minhas preocupações e problemas. Além disso, vivia com muito medo, quase como
um pânico ou uma fobia social. Não confiava em nada nem em ninguém, então
como me relacionar? Ir pra aula significava me relacionar com as pessoas e eu não
sabia se estava preparada pra isso.
Mas um belo dia pensei em enfrentar meus fantasmas; e lá estava eu pedindo
formalmente para retornar à Universidade. Qual não foi minha surpresa ao receber
meu pedido foi deferido. Voltei empolgadíssima e segui bem, ia às aulas apesar de
tudo. Até que afundei numa das maiores crises depressivas da minha vida, crise
esta que se arrastou longa e dolorosamente. Deixei de ouvir música, tocar violão,
abandonei novamente a Universidade e passava os dias comendo compulsivamente
e chorando. Quando tinha uma oportunidade enchia a cara, bebia toda a dor pra que
ela se afogasse. Mas quem se afogava na violência do sofrimento era eu, estava per-
dendo a minha vida. De quebra estava numa situação financeira complicada e não
conseguia um trabalho extra pra melhorar a renda. Pensei mais uma vez em desistir
de tudo e me entregar ao cansaço, talvez morresse. Era mais fácil fugir.
No meio da crise escrevi um dos textos mais duros sobre minha história
de abuso. Despejei no papel toda a intensidade da dor que carregava e todo o peso
que guardara por anos a fio. Esse texto é o mesmo que abre esse livro, a primeira
carta. Não tinha forças sequer para pedir ajuda, só chorava, só sofria. Dias inteiros
sem uma aparente explicação “concreta” pra dar aos mais próximos. Por que tan-
to sofrimento? Por que eu não conseguia terminar nada na vida? O que afinal de
contas me maltratava tanto? Escondia-me da vida e afundava junto com a dor que
se tornara grande, um monstro me digerindo sem dó. Tinha abandonado a terapia,

Pele de Cristal 69
não tinha dinheiro e nem interesse real em voltar a fazer. Pela primeira vez me vi
sem saída alguma.
Nunca tinha encontrado alguém que tivesse sofrido violência sexual na in-
fância. Certo dia recebi um convite para o site de relacionamentos Orkut, e confesso
que achei aquilo uma grande bobagem, sem nenhuma rapidez ou praticidade, como
eu poderia aderir àquilo? Mas o fiz, e, aos poucos, fui percebendo uma cumplicidade
peculiar nas gavetas orkutianas, as chamadas comunidades. Passei a buscar o assunto
violência sexual e, ao encontrar, um milagre interno me aconteceu: encontrei pes-
soas como eu. Li alguns textos antes de entrar na primeira comunidade. Mostrei a
cara e publiquei minha dor com parte daquela carta que escrevi tão dolorosamente.
A essa altura já havia feito terapia três vezes sem sucesso algum e sem conseguir
percorrer o trajeto até o final. Não estava nem disposta e nem preparada ao enfren-
tamento de todas as conseqüências do abuso sexual. Mas ali, naquele cantinho azul,
desde o início, recebi todo o apoio possível e, de imediato, fiz contatos e amizades
que me questionaram toda a estrutura em que montara a minha vida vitimizada.
O milagre da vida estava ali me mostrando que outras pessoas haviam passa-
do pela mesma experiência, que eu não era a única e que todas elas, apesar dos pro-
cessos distintos, não haviam desistido de viver. Percebi que é possível estender uma
mão sem acorrentar almas. Ali, naquele espaço de exposição, descobri e re-conheci
que é possível confiar, estabelecer laços fraternos e de trocas afetivas responsáveis,
simples como ver o mar. O abuso não matou minha essência, minha identidade.
Tudo estava morno, quieto dentro de mim, me aguardando para navegar no oceano
interno de minha maturidade. Minha caminhada começou no instante em que me
abri para essas amizades trocando experiências afins num intercâmbio de forças,
afeto, respeito, humildade e paciência; reaprendendo a confiar nas pessoas e na vida.
Nunca disse isso pra minhas irmãs de alma, mas a presença de cada uma, foi e é
imprescindível nesse meu processo de cura.
O fato de a Internet ser um lugar de fakes e insegurança, onde a mente hu-
mana em desalinho com a ordem excelsa, a utiliza erradamente e espalha crimes, fez
com que eu acreditasse que a extensão desse braço de desafeto e medo me acharia
inclusive ali. Isso só seria a comprovação de que é mesmo impossível confiar no ser
humano. O tempo fez-me ver que há possibilidades muitas quando abrimo-nos às
oportunidades de coração e alma em sintonia com o Bem na perspectiva de superar
os traumas sem medos, de cara limpa. O milagre da vida invadiu o espaço ciberné-
tico e me trouxe esperanças no espaço real.
O milagre foi acreditar que nada ocorre ao acaso, que a folha da vida sopra
em meu rosto porque mereço ser feliz. O milagre foi crer... Na simplicidade das
relações, nas possibilidades que se abrem a todo instante, na capacidade que tenho
de estar no comando, respeitando-me e reconhecendo-me, aprendendo a me amar
e a crer que é possível superar, libertando-me das culpas, do medo, e do amparo da
ansiedade e da vergonha. Não preciso sentir vergonha pelo que me que aconteceu
porque não tenho culpa, porque não errei! Não preciso ter vergonha dos caminhos

70 Helena Damasceno
que trilhei... Se demorei, cheguei no tempo exato de encontrar vocês aqui. E não
perdi tempo algum pra chegar aqui, ganhei vivências... Duras, sim, é verdade, entre-
tanto, todas são parte do que me transformou em Helena.
Pergunte-se até quanta carga pode carregar, quanto de dor você acha que ain-
da cabe dentro de você. Onde você pensa que vai com esse peso? Como você pensa
conquistar a leveza, a superação dos medos e conseqüências do abuso? Por que es-
tivemos indefesas uma, duas ou mais vezes você acredita ser assim e ser sempre? A
violência sexual deixa marcas profundas e que carregamos mui dolorosamente por
toda uma vida. Podemos explodir violentamente se não cuidarmos de nós a conten-
to, se nossa atenção não estiver voltada para nós numa prudente busca pela leveza
dos dias a serem vividos, pela nossa libertação e maturidade. Não é justo conosco
seguirmos carregando o peso da culpa, da responsabilidade do abuso sofrido.
Sei que algumas vezes é difícil, que dói tanto, nos angustia tanto que nem se
gritássemos até perder o rubor da voz, conseguiríamos melhorar. Dias havia em que
minhas forças não me moviam do lugar, passava semanas sem comer, sem tomar
banho e sem sair de casa, num desleixo total comigo. Quando ia às ruas, o pavor de
encontrá-lo era tamanho que me tomava de sobressalto a cada esquina, com qual-
quer coisa. Parecia uma menina assustada e perdida procurando abrigo e proteção.
Em meados da década de 90, quase no inicio dos anos 2000, passei a dormir
na universidade. Mesmo sem assistir as aulas, ia pra lá, gostava de permanecer em
lugares públicos, me sentia segura assim. Era lá que fazia meu asseio diário (ou quase
isso), dormia, lia, estudava, comia e tentava esquecer das tantas dores acumuladas.
Buscava esse lugar de apoio nos sítios mais distantes do “lar” que havia tido. Certa
vez na universidade, encontrei um amigo que me estirou a mão sem jamais pedir
nada em troca. Ele me levou à sua casa, me deu guarida, comida, arranjei trabalho,
a família dele meio que me adotou e eles me ajudaram bastante. Mas nunca tinha
tido uma família estável, não sabia o que fazer com uma e muito menos como lidar
com essa situação.
Tive comportamentos irresponsáveis e opostos. Uma hora era doce e amiga,
noutros momentos nem aparecia e me distanciava do cotidiano da casa. Resultado:
perdi meu amigo e saí de lá, sem nenhuma explicação coerente, aparentemente ló-
gica. Fiz isso a vida toda, tinha oportunidades e as jogava fora porque precisa me
punir e sofrer muito pelo que aconteceu. Saí da casa daquela família para morar
numa caixa de quatro paredes azuis e pequenas, sozinha, sem comida, sem amigos e
diante dum silêncio que se igualava à minha alma cheia de dor.
Vivia submersa numa dor infernal que me absorvia a vida. Eu era uma mu-
lher de sorrisos fabricados na cerveja, nas farras e na fome de relacionamentos
vazios. Apaixonava-me a cada três meses, num carrossel tumultuado de paixões
doentias e relações afins. Quando a relação ficava monótona ou não agüentavam
meu feixe de desilusões, logo me encantava com outro relacionamento, outra muleta
e fugia.
Distanciei-me de tudo e de todas as possibilidades boas porque merecia o

Pele de Cristal 71
pior da vida. A culpa era avassaladora e me consumia numa compulsão superlativa.
Quando algo me lembrava do abuso, da família em que nasci, ou dele, minha cabeça
ficava tonta, cheia de mágoas e de muito ódio, mas também de muitos medos e
culpas. Até as paredes da casa da mamãe me faziam mal...
O que posso dizer é a culpa de ter sofrido abuso sexual não é sua. Não há
uma marca na sua testa, ou algo que o valha. O que ocorre é que nos punimos pelo
abuso sofrido em primeira instância então, entramos num ciclo vicioso de medos,
culpas, vergonha, compulsões, vícios, etc. Arriscamo-nos em relações doentias nas
quais precisamos viver o ruim, seguir o padrão negativo de desvalor que assumimos
quando do abuso. Na nossa cabeça, esperamos sempre o pior porque merecemos
viver esse pior. O agressor sexual se aproxima de alguém que ele supõe indefesa e
vulnerável, ele percebe que estamos assim. Mas repito que estar vulnerável, estar
indefesa não é ser indefesa ou ser vulnerável. Estar não é ser.
O processo de libertação, na minha modesta contribuição, começa quando
se quebra o silêncio. Falar sobre é um bom caminho. O apoio psicoterápico, uma
amizade virtual saudável, ou mesmo de outro espaço onde você se sinta segura e
acolhida, quem sabe conversar com um amigo real; tudo isso converge para o pro-
cesso de cura. Mas para caminhar você precisa sair do lugar não é mesmo? Um pé
depois o outro. Não é a coisa mais fácil do mundo, nunca disse isso, mas é absoluta-
mente possível libertar-se a partir do enfrentamento de seus fantasmas e dores e da
sabedoria interior, do conhecimento de si mesma.
Passei por diversas fases, vários estágios até aqui. Desde a negação total do
abuso até a revolta, da dormência à anestesia da culpa, da vingança ao ódio desme-
dido. Não estou nesse estágio de ódio colossal, não mais. Estou mais preocupada
comigo, deixei de esperar atitudes que não virão, reconhecimentos que não chega-
rão. Cansei de esperar por algo que não depende de mim.
Cuidar de mim e reaprender o caminho para o amor num processo de liber-
tação, sem medo de mim e do que sou é o que importa. Libertar-me da culpa é um
todo dia que vivo devagar, sem pressa de chegar. Sei que chegarei, sei que tomarei
o doce de viver e sorverei, madura e serena, meus próprios caminhos sem dor ou
culpas indesejáveis.
Apenas sorrio e lhe desejo vir.

72 Helena Damasceno
Capítulo VII
“O trem partiu, deixou-me só
Sou um compartimento vazio e cheio...
Muitas gavetas, muitos espelhos...”
A mensagem da água
Libertar-me da culpa é um todo dia que vivo devagar, sem pressa de chegar.
Sei que chegarei, sei que tomarei o doce de viver e sorverei, madura e serena, meus
próprios caminhos sem dor ou culpas indesejáveis. Apenas sorrio e lhe desejo vir.
O cotidiano de amor é meio que uma tela do que oferecemos ao outro e a
nós mesmos. O que externalizamos é a nossa paisagem interior personificada em
sentimentos, ações, palavras, em movimento, enfim. Por isso, tão importante cuidar
do jardim pessoal para que as sementes a frutificar sejam leves e sadias. O pensamento
é uma idéia que se materializa de diversas formas, inclusive através de palavras que,
aliás, têm um poder gigantesco, nem imaginamos o quanto! Pensamento é energia
que se move rapidamente a partir da sensação ou sentimento. O momento em que
o criamos mentalmente é fundamental porque é nele que construiremos as pontes
e conexões necessárias para a materialização da idéia-pensamento. O pensamento
cria vida desde o momento em que o idealizamos ainda na mente e, mesmo que não
o externalizemos, ele já tem vida própria e se conecta à nossa paisagem interna e às
nossas emoções, sensações, e ou padrões neurais e anímicos. Ou seja, o pensamento
se liga ao que for necessário para que se possa materializar dentro e fora de nós. Seu
desejo é uma ordem!
Nossa mente não faz nenhuma distinção entre o que assistimos fisicamente,
com os olhos do corpo, e o que avistamos mentalmente, com os olhos criativos
do pensamento. O que imaginamos, para o cérebro, para a mente, é algo tão real e
palpável quanto possível seja. Aquela idéia de ver para crer se inverte. Para o cérebro
o que vale mesmo é crer para ver. Só enxergamos e validamos o que habita nossa
paisagem interna e que retroalimentamos em conexões estabelecidas a partir das
idéias-pensamentos construídas nas emoções que nutrimos cotidianamente.
De que alimentamos nossos pensamentos? O que ingerimos que nos man-
tém conectadas ao desgaste, ao desvalor e às situações de sofrimento, vivendo pas-
sivamente a vida, presas a cristalizações negativas e inalteradas ao longo do tempo,
como se não pudéssemos reconstruir, reconectar nosso espaço interno a outras
fontes e conexões, mais equilibradas e atreladas ao amor, ao auto-perdão, ao equilí-
brio e à maturidade?
O que nos mantém vivos ininterruptamente a cada dia de nossa jornada
humana é a idéia da razão, da elaboração de pensamentos através da cognição; por
isso somos humanos e vivemos essa experiência fantástica da vida: porque temos
o poder de alterar e moldar a realidade conforme nossa inspiração, sonhos, anseios
e pensamentos. Quando cremos na legitimidade da culpa da violência sexual como
peso único de nossa existência, assim o será, pois, desenvolvemos uma série de co-
nexões que tornam possível essa realidade dentro de nossa mente e fora de nós.
Água é vetor de energia em todos os espaços, transporta correntes elétricas
de impulsos e intenções levando o elemento a ser depositado em seu destino, seja
o bom e o belo ou o contrário. Assisti a um documentário sobre física quântica e vi

74 Helena Damasceno
uma experiência muito interessante acerca da força da intervenção do pensamento
sobre água. Esse documentário, chamado Quem Somos Nós?, facilita esse entendi-
mento através de uma abordagem simples e interessante. Ocorre que ele demonstra
um experimento científico onde é proposto que um pouco de água seja fotografada
antes e depois de uma intercessão científica; sua imagem é ampliada um número de
vezes que a torne possível ser percebida a olho nu durante esse episódio. Algumas
palavras e frases são “ditadas” para a água durante o ensaio fotográfico. Na verdade,
a água é submetida a alguns indicativos de amor, ódio, saúde, alegria, perdão, etc.
O efeito da palavra amor se assemelha a um caleidoscópio de cristais em
harmonia numa dança elétrica de movimento e luz, resultando numa bela imagem a
ser contemplada. A frase “eu te odeio e vou matar você” tem um efeito tão desordenado
e em tamanho desequilíbrio que sua imagem não nos traz boas sensações. O mal
estar e sobressalto que sentimos ao visualizar a imagem fotografada é fato. Ou seja,
a mesma água adquiriu formas distintas para adaptar-se a diferentes comandos de
idéias-pensamentos. O desejo, a intenção modificou e movimentou as molécu-
las, a imagem da água e nossas percepções sobre ela.
Tudo é quântico ecoando vida nos elementos fundamentais da realidade hu-
mana. O ser humano é um transmissor natural de correntes elétricas preenchidas
de inspiração, sonhos, anseios e pensamentos; e deposita esses elementos em seu
cotidiano, na sua vida. Em média, 70% do corpo humano é composto de água,
portanto, se podemos fazer isso à água, simplesmente a partir da idéia-pensamento
jorrada, descarregada nela, o que seremos capazes de fazer a nós mesmos, com o
nosso corpo físico e mental? Recebemos a energia do pensamento ou da palavra
oferecida (mesmo que não dita) em sua essência, bem como de todas as benesses e
ou malefícios gerados pela energia de contemplação ou transtornos gerados.
Insisto na força que depositamos nas palavras, no superlativo poder que
damos à dor que sentimos, que é real é claro, mas a empoderamos enquanto “nossa
senhora absoluta das dores eternas”, permitindo-lhe a posse e propriedade de nossos
espaços de viver, de todas as nossas decisões e atitudes, de nossa forma de nos rela-
cionarmos com a vida, outras pessoas e conosco.
O que o seu olho vê é realmente o que você deseja? O que você quer pra
dentro da sua cabeça? Libertar-se significa conhecer a si próprio, tomar conta de
seus espaços de sociabilidade e das coisas de estar vivo. É estar no comando e ressigni-
ficar seus pensamentos, fazendo novas conexões, religando-se ao amor e ao auto-
perdão. Você conseguirá sim... Dói, mas não doerá mais do que já doeu. A dor que
você carrega dentro de si não será maior se você resolver enfrentá-la com paciência,
comprometimento pessoal e determinação.
Faça psicoterapia, observe seus pensamentos, perceba de que você se ali-
menta, decida se seus pensamentos continuarão comendo o peso e a dor, ou se você
fará uma reeducação alimentar, levando uma vida mais sadia e leve. Siga em frente,
não tenha medo da água que existe em você, liberte-se dos medos e da culpa bem
devagar, sem pressa de chegar, ou de não chegar. Você vai chegar. Transforme sua

Pele de Cristal 75
forma de ver o mundo e as coisas, mude sua forma de olhar você! Acarinhe-se, a si
e a seus passos, às suas possibilidades. Você não consegue vê-las? Olhe com calma,
mude o foco de atenção, amplie sua consciência.
E eu que nunca acreditei nas possibilidades boas da vida, que nunca acreditei
que seria capaz de superar, nem mesmo quando procurava a terapia ou alguma ou-
tra forma de ajuda, estou aqui, refazendo meu caminho com amor e coragem. Não
acreditava antes porque tinha um pensamento cristalizado na minha cabeça e que
guiava minha vida: “eu mereço sofrer”! Demorei muitos anos pra começar a pensar
na possibilidade de sair do chão. Vivia cabisbaixa, sempre chorando e implorando
que me tivessem pena porque era a “coitadinha”, a que mais sofria e que merecia
isso.
Pena não é um sentimento leve de receber ou sentir. Pena vem sempre com
o peso da imobilidade, do amortecimento da apatia densa que a tudo faz mal e
corrompe. Acreditava que se meu sofrimento acabasse, acabaria a pena e também
a relação que havia construído em torno de mim, de co-dependência eterna. Eu
era a primeira a ter pena, implorava e ordenava que o mundo me visse como uma
pessoa suja, irresponsável e coitada. Montei um julgamento interno e eu mesma me
sentenciei culpada. Tinha tanta culpa, tanta raiva por ter-me “permitido” o abuso se-
xual, que não me reconhecia em nenhuma foto antiga. Aliás, tenho poucos registros
fotográficos porque me detestava, odiava aquela criança fraca. Nunca me reconheci
naquela menina triste das fotos de infância...
A verdade é que tinha raiva dela, tinha nojo culpava- a o tempo todo pelo
“seu” silêncio e impassibilidade diante do abuso. Repetia sempre as perguntas frias e
insensíveis de algumas pessoas que encontrei ao longo da vida: “porque você não gritou?
Porque não disse nada pra sua mãe?” Cobrava da minha Lelezinha uma decisão que ela
nunca teve estrutura emocional ou psicológica para assumir. Esqueci que àquela
época era tão somente uma criança enfrentando a autoridade de um mundo adulto
e falocêntrico, da realidade da violência sexual.
Minha culpa e meu tormento só aumentavam...
Quando papai morreu, estava tendo certa estabilidade. Estava namorando,
tinha um emprego e moradia fixa, até tentava refazer os laços com minha mãe bio-
lógica, ia a casa dela com mais freqüência e menos embriagada. Engraçado, pra não
dizer irônico, era quando ela dizia assim: “vê se tu te sustenta nesse emprego... ta tudo muito
difícil, quem tem o seu que segure... vê se não faz besteira...”. Acho que minha mãe biológica
sempre esperou o pior de mim, como se já tivesse uma frase pronta para as horas em
que apareceria para ela evidenciando-lhe todo o meu fracasso, apresentando mais
uma coisa que tinha tentado fazer, mas que não tinha dado certo. Sempre foi muito
difícil nossa convivência, parecíamos mais duas concorrentes. Nunca entendi o por-
quê, e não espero mais por essa resposta. O que sei é que uma criança não começa
uma competição com quem quer que seja. Cuido por agora do que está dentro de
mim e do que depende de mim. Não espero mais pelo que não posso responder.
Culpei-me pela morte de papai e abandonei o emprego, entrei numa fase

76 Helena Damasceno
de depressão profunda e pela primeira vez precisei de medicação. Deixei de tocar
em barzinhos, terminei meu relacionamento, e algumas vezes saía pelas ruas desba-
ratinada à procura de fé, perguntava pras pessoas o que era fé e como eu poderia
encontrá-la ou cultivá-la. Nunca obtive respostas satisfatórias, claro! Estavam em
mim todas as respostas. O que queria mesmo era apertar um botão e fazer a dor
passar, ou quem sabe comprar uma vida novinha em folha no supermercado mais
próximo.
A cada dia minha cabeça tentava elaborar com precisão milimétrica a profu-
são de informações negativas que gerava a meu respeito e os inúmeros comandos
de culpa, vergonha e medo. Nada me demovia da culpabilidade do mundo. Carrega-
va-o nas costas num processo de punição e vitimização intenso e violento. Tudo que
acontecia de errado, de alguma forma, a culpa era minha e a assumia violentamente.
Mas algumas perdas são necessárias... Quais? Perder o medo do enfrentamento da
dor, perder o trunfo que a culpa mantém sobre nossas vidas .
A relação que mantinha com as pessoas do meu círculo emocional eram
sempre desajustadas e de co-dependência, viciadas nessa proposta vitimada da qual
já estava dependente. Sentia um peso que chegava a me sufocar, vivia em constante
desequilíbrio e desenvolvia algumas doenças, até certo ponto, resultado de soma-
tizações emocionais. Andava curvada, sempre carregada por essa terceira perna
de dor e culpa, me arrastando dia após dia e cheia de autocomiseração, seguia meu
padrão de vitimização; sempre na defensiva, sem me envolver profundamente com
ninguém porque não havia confiança, e sem me deixar levar quando havia essa
possibilidade; punia-me em demasia, evitando o que a vida pudesse me oferecer de
bom.
Meus pensamentos coordenaram minha vida até aqui de modo carregado
e em desalinho. E agora o fazem novamente, mas demito esse padrão de medo,
sofrimento e solidão. Eu sei quais passos dei para estar aqui, sei por quantas e quais
ruas andei; sei quantas vezes engoli lágrimas e quantas vezes roguei aos céus que
me tirassem aquela dor. Esqueci que somente eu poderia entrar no meu quarto de
proteção, tirar algo do lugar ou jogar fora simplesmente. Somente eu posso enfrentar
esse processo, com a ajuda da psicoterapia, é claro, mas somente eu posso mexer
no meu quarto de dor.
Não digo que os perdoei, ainda não. Mas não penso mais neles com o peso
da raiva ou da vingança absolutas. Digo apenas que por agora não carrego gotas
de ódio desmedido. Deles, a vida se encarregará da maturidade e responsabilização
pessoal. Repito que não há fórmulas mágicas. Cada um de nós seguirá em seu pro-
cesso de cura com seus próprios pés e ferramentas. Cuido de mim, por assim dizer,
caminhando mais leve, tirando meus pés da lama das conseqüências do abuso e de
tudo que sofri.
O meu primeiro passo foi acreditar em mim enquanto Ser capaz de modi-
ficar minha própria vida, foi me dispor a trilhar o caminho do amor próprio e do
auto-perdão. Banhar-me nas águas do amor, sorver a alegria da sabedoria interior

Pele de Cristal 77
e sentir orgulho de mim mesma é caminho de alegria e folguedo. Celebro a vida
todos os dias com a leveza do sorriso e da certeza da cura. Viver é uma experiência
fantástica e permanecer nesse espaço de aprendizagem, podendo apreender conhe-
cimento, sabedoria, maturidade e felicidade é chegar ao final da estrada livre, um Ser
claro, amplo, de liberdade consciente e feliz.
Caminho com meus próprios pés, os dois, um passo depois o outro, sem
pressa de chegar, curtindo cada etapa do caminho, saboreando cada vivência, cada
momento de superação. A gente se supera quando decide quebrar o muro de
silêncio e medo, quando acreditamos em nós mesmos e abrimo-nos às demais
possibilidades da vida. Superar é um todo dia, tal o sol que nasce incansável numa
dança harmônica de cotidiano e luz.
Não podemos mudar o passado, mas podemos nos cobrir com vestes mais
leves e doces como o amor próprio e o autoconhecimento, e menos levianas que
a culpa e o medo. Podemos trazer ao presente a possibilidade da esperança e da
cura.

78 Helena Damasceno
Capítulo VIII

“Caíram de minhas mãos


um punhado de lágrimas,
algumas certezas de febre,
algumas mechas de chão...”
Da gangorra das crises
Não podemos mudar o passado, mas podemos nos cobrir com vestes mais le-
ves e doces como o amor próprio e o autoconhecimento e menos levianas que a culpa
e o medo. Podemos trazer ao presente a possibilidade da esperança e da cura.
Vivia em solidão, andava em bandos como que a buscar uma identidade.
Tinha mais necessidade das coisas que do contato com as pessoas. Não me dei con-
ta de que havia me tornado uma criatura arredia, seguindo o padrão de “a melhor
defesa é o ataque”, me envolvendo em brigas de rua, discussões, fofocas, mentiras,
embriaguez e desordens internas e externas, em situações muitas de sofrimento e
pesar. Muitos baixos para pouquíssimos altos. Vivia numa euforia sem limite, bus-
cando sofrer sempre, me punir sempre. Às vezes pedia que viessem me assaltar ou
algo parecido, daí poderia me punir e autoflagelar.
Uma vez lembro-me de que tinha bebido muito, já estava bêbada quando
decidi ir pra casa da minha mãe biológica, estava por perto. Saí em plena madrugada
sozinha e tentando não errar o caminho. Quando percebi, havia um homem numa
moto me acompanhando lentamente. Ele parou ao meu lado e disse que eu subisse
na garupa, que ele me levaria pra casa. Ri e perguntei se ele achava que eu era boba,
“não saio com desconhecidos”, disse-lhe seca. Ele tirou o capacete e falou: “e agora você
me reconhece”? Sim, o conhecia. Aquele homem era um jornalista afamado na minha
cidade àquela época. Emudeci... Ele me deu um baita sermão, me disse que era
perigoso andar sozinha de madrugada e ainda por cima bêbada, que eu podia me
machucar, ser assaltada, estuprada, e blá blá blá! Apenas o observava quieta e em
silêncio. Repetia, silenciosamente, pensamentos de “e daí? Não tenho mais nada a perder
mesmo! Quem se importa”? Mal sabia ele que fazia aquilo e me arriscava conscientemen-
te, precisava punir a mim, mas também à minha mãe e à família em que nasci por
toda a dor, pelo abuso que sofri e pelas violências conjuntas. “Se algo me acontecesse de
bem trágico eles sofreriam a dor que eu sentia”, pensava em silêncio.
O jovem jornalista me deixou em segurança na porta da casa da minha mãe
biológica e disse que rezaria por mim, me emocionei... Sentia que de alguma forma
precisava sobreviver a tudo aquilo, que precisava lutar pela minha vida, mas não
entendia como faria isso e nem como conseguiria, pois não tinha forças pra reagir à
tamanha dor. Sentia-me ainda uma criança abandonada e sozinha.
Saía a qualquer hora do dia ou da noite e me expunha a perigos desnecessá-
rios por conta da culpa que carregava. Volta e meia me lembrava que tinha sofrido o
abuso, ficava pra morrer de vergonha! Era como se tivesse uma marca na testa que
me denunciava, acreditava que todo mundo sabia e que me destratavam por conta
disso. Eu queria parar de sentir dor, mas não tinha forças, então seguia vivendo
daquele jeito, gritando aqui e ali, tentando vomitar a dor que não acabava nunca.
Desconfiava de qualquer pessoa que se aproximasse de mim, mas sempre permitia
que, de algum modo, me abusassem novamente, fosse numa relação de trabalho, de
amizade ou qualquer outra.

80 Helena Damasceno
Houve outro momento em que estava bebendo num bar quando acabou o
dinheiro, não havia mais nenhuma possibilidade de continuar com a farra. Como
tocava violão, troquei o pagamento da conta pelos meus serviços musicais. Deu
certo, seguimos a beber a noite toda, mas a ressaca moral no dia seguinte só aumen-
tou a vergonha e me assumia cada vez mais como uma mulher estranha, grosseira e
esquisita, me sentia um peso!
Fiz trocas cegas nessas gangorras de dor. Troquei sexo por bebida, noites
de violão por cigarro, gargalhadas falsas disfarçadas de amor e amizade por noites
em pousadas regadas a muito sexo, drogas e rock’n roll. Nunca usei nenhuma droga
ilícita, salvo quando beijava alguma boca usuária. Mas era dependente da dor, preci-
sava dela pra ficar dormente e fingir que nada havia acontecido. E droga é algo que
gera dependência, torpor e sofrimento retroalimentando seus fantasmas, culpas e
temores. Então me drogava das relações que encontrava.
Algumas vezes quando me deixava levar demais pela culpa e me envolvia em
relações doentias e de co-dependência, chorava me sentindo suja e feia, me sentia
indigna de viver, sentia vergonha demais! Entre um processo terapêutico e outro ao
longo de mais de 10 anos, perdi as contas de quantas vezes pensei em tirar minha
vida porque não era boa o suficiente para merecê-la, tinha nojo de mim. Então lar-
gava a terapia porque não acreditava que aquilo pudesse ajudar; mas a verdade era
que eu tinha medo de entrar no meu quarto pessoal e mexer no meu cemitério par-
ticular de zumbis, tinha medo de demiti-los e ficar sozinha. Sempre que começava
a mexer nas minhas feridas doía tanto que não me achava capaz de suportar a dor,
de enfrentá-la e superar tudo. Sentia-me fraca demais. Esqueci de mim todos esses
anos. Por isso tão importante e significativo esse auto cuidado, esse contato com
meu espaço pessoal, o redescobrir do meu jardim de amor e auto-perdão.
Quando falo que cuido de mim, me dedico a tratar de cada ferida aberta,
nenhuma ainda de todo cicatrizada, é claro, ainda dolorida, mas em processo de.
Quando falo que cheguei até aqui buscando não semear mais vergonha, medos e
culpas é que venho aprendendo a saborear esse caminho com mais alegria e ânimo,
porque eu mereço ser feliz e porque não tenho culpa. Tenho aprendido que sim, fui
machucada, mas nem por isso preciso machucar a quem quer que seja, nem mesmo
a mim! Crescer é um processo doloroso de enfrentamento com o que se tem medo,
com o que nos desagrada. Mas é um processo rico pela maturidade e pelas possibili-
dades de Ser, pela liberdade de consciência que advém desse movimento de crescer,
de sair do lugar.
As pessoas que nos agrediram e nos abandonaram não são merecedoras do
nosso sofrimento. Não precisamos nos esconder de ninguém porque não temos
culpa pelo que nos aconteceu! Não digo pra sair por aí, publicando sua história a
esmo, nada disso! Digo tão somente para sairmos do casulo da vergonha alçando
vôo pela vida plena, darmo-nos uma oportunidade! Temos a vida pela frente, não
nos envergonhemos dela ou de nós! Repito que é possível caminhar para a cura,
que se libertar é uma realidade do enfrentamento com seu quarto de dor, realizado

Pele de Cristal 81
todos os dias numa caminhada de amor e delicadeza; assim queiras. A esse processo
chamo viver e ele te fará seguir nessa estrada de cura e maturidade.
Cuide de você, do seu espaço de conquistas pessoais, cuide de quebrar esse
ciclo de dor, esse padrão negativo que nos acorrenta ao medo e à culpa. Lembre-se
de que é ela a base desse jogo díspar, que nos mantém aprisionada nesse castelo
solitário de dor. Não precisamos de culpa alguma! Temos alternativas. Não precisa-
mos sentir medo ou vergonha! Não é uma dor eterna. Viver é uma oportunidade em
movimento. A vida é um rico e intenso processo de se tornar!
Assim como você em algum momento, eu não também tinha a menor idéia
de que era possível superar todas as conseqüências da violência sexual. Quando eu
tinha 10 anos a incursão do abuso já acontecia há pelo menos 5 e eu já demonstrava
alguns sinais de que algo de errado acontecia comigo. Tinha caído de rendimen-
to na escola drasticamente, havia muitas dificuldades visíveis de aprendizagem, era
uma criança que evitava se socializar com as demais, já tinha tentado fugir de casa;
evitava falar e me relacionava com dificuldade com as pessoas, era arisca e andava
cabisbaixa, carregava o peso do mundo nas costas. Era claro que nesse cenário havia
algo fora do lugar.
Apanhei muito da minha mãe biológica porque ela me chamava de preguiço-
sa, repetia sempre que eu não queria ser alguém na vida. Ela não sabia a que inferno
era submetida ali, bem debaixo do seu nariz? Quanto mais ela me batia, mais me
fechava no meu casulo de proteção, num espaço onde somente eu pudesse entrar e
sonhar em segurança, onde quem sabe, houvesse uma saída daquela situação.
Detesto tabuada de 7, 8 e 9, nunca aprendi. Apanhei muito na cabeça pra de-
corá-la e, quanto mais apanhava menos aprendia, chorava mais e compulsivamente,
num soluço que marcava muito mais a minha alma que ao meu corpo. Não impor-
tava os puxões de cabelo que levava ou os impropérios que ouvia. Não conseguia
aprender porque minhas prioridades, minhas preocupações não eram as de uma
criança comum. Precisa descobrir fórmulas de escapar e ou sobreviver à violência
sexual. As fórmulas matemáticas eram insignificantes pra mim.
Desenvolvi uma técnica associativa de aprendizagem muito particular. Fazia
combinações de coisas, fatos e cores, desenvolvia estímulos para que meu cérebro
pudesse adolescer seus talentos cognitivos. Só assim aprendi a ler, escrever e a tomar
parte das coisas técnicas da vida.
A família em que nasci tem a peculiaridade de ser matriarcal, com a figura
masculina supostamente ausente no papel do homem, mas com suas funções sendo
executadas pela figura feminina. Eu tinha 4 referências filiais, mas nenhuma identi-
dade filial. A minha cabeça era um emaranhado de confusões explodindo a cada 2
ou 3 dias num intercâmbio de papéis avassalador e indigesto. Cada pai e mãe tinha
a sua função específica, por assim dizer. Um pagava a escola, outro me escondia as
chupetas e me paparicava, um era o coibidor, enquanto outro tinha o trabalho de me
ensinar as tarefas, outro mais me escondia das surras de um deles, e por aí vai. Esses
papéis se intercalavam e se complementavam cotidianamente, ininterruptamente.

82 Helena Damasceno
Era como se eu tivesse saído de dois espermatozóides e dois ovários ao mesmo
tempo. Agora imaginem a confusão na minha cabeça: soma-se a isso um quadro
de bullyng, assédio moral e violência sexual. Tinha que ser uma criança “estranha”
mesmo!
Vivia doente porque me sentia segura dentro do hospital. Lá dentro nin-
guém podia abusar de mim, então passava uma semana internada, depois duas em
casa sob cuidados e orientação médica, em seguida voltava ao hospital e ficava nesse
movimento incessantemente. Não tomava banho, não cuidava dos dentes, sorria
pouco, mal penteava o cabelo, não brincava na rua porque não tinha amiguinhos. E
eu só estudava e entrava cada vez mais no meu mundo, talvez achasse um espaço em
que de fato eu me sentisse segura.
Comecei a pensar porque tinha nascido, pra sofrer? Nunca acreditei nisso!
Era atribuir um valor humano demais a um Deus que sempre me foi amoroso e
amigo. Falando de Deus, minha inocência infantil é de uma delicadeza que sempre
me surpreende! Quando criança acreditava que Deus era um homem. Como toda
criança eu era louca por balas e doces e saía escondido para comprá-los na mercearia
da esquina. Minha mãe biológica brigava comigo por conta das cáries, dos vermes,
dessas coisas de adoecer. Ela me dizia que se eu comesse escondido, Deus, que era
muito amigo dela e que sabia de tudo que acontecia, ia me ver e contaria pra ela.
Como tinha certeza de que Deus era um homem, pra enganar a Ele e à minha mãe,
lá ia eu comer doce escondido no banheiro, porque homem não acompanhava a
menina no banheiro, então meu segredo estaria seguro. Foi quando rompi pela 1ª
vez meus laços com esse deus humano. Havia um homem na minha vida que não só
entrava no banheiro comigo, como abusava de mim da maneira mais violenta e abo-
minável possível. Fiquei sem referência de fé por muitos anos, desde a mais terna
infância até a juventude quando reencontrei Deus mais amoroso e menos humano.
Mas a imagem lúdica e pueril da criança que acredita na simplicidade do respeito en-
tre os seres é tamanha, que me emociona e acompanha até hoje, basta recordar pra
sentir a emoção. Exercitava a imaginação doce e ingênua da infância como forma
de preservar-me do espaço frio de alguns adultos, especialmente da família em que
nasci com suas características peculiares.
Acreditar no respeito e na igualdade entre os seres me fez comer doce escon-
dido e também me fez chegar até aqui, para que eu pudesse crer na oportunidade
humana enquanto casa de aprendizado e amor, não como espaço de medo e torpor.
Recuperar minha história é também reaprender a amar minhas pecinhas internas, os
pedaços de mim que se somaram nessa trajetória me transformando na mulher que
sou. É também olhar para trás e não me envergonhar dos passos idos, ou sentir pena
do caminho trilhado. O que foi passou, já foi, nada vai mudar isso.
O que fica da experiência do tempo é o aprendizado da maturidade.
Quando saí do alcance da família em que nasci, rompendo aquele ciclo de
violência vivida na conivência do cotidiano, escapei do alcance da mão do abuso
diretamente, mas suas conseqüências e o padrões de co-dependência permaneceram

Pele de Cristal 83
grudados na minha trajetória até quase agora, um tempo atrás, quando decidi por
mim e percebi que era necessário me desligar dessa tomada enferrujada e fria. O ato
de se desligar dessa tomada de dor é algo que precisamos fazer freqüentemente, sem
medo de ir, lutando só por hoje e por agora, e o fazemos quando decidimos por nós,
quando lutamos para viver sem o peso da culpa, do medo e da vergonha do abuso.
Para viver nossas próprias vidas precisamos sentir nossas emoções sem car-
gas de vergonha e culpa, precisamos do encontro e enfrentamento com nosso quar-
to de dor, com nossos zumbis de plantão até que nos desliguemos desse objeto de
peso e dor. Não somos doentes, não somos alvo a vida inteira de abusos outros e
co-dependência.
“O segredo não é correr atrás das borboletas! É cuidar do seu jardim, para
que elas venham até você8”!
Era uma criança que não dava muitos motivos de orgulho para a família em
que nasci; nem de longe lhes era a menina dos olhos. O fato é que os desagradava. Para
piorar a situação vivia doente e tinha muitas verrugas e feridas no corpo. Avisava o
tempo inteiro que minha alma estava ferida, estava marcada...
A criança que sofreu abuso sexual não percebe que é vítima de um jogo
sexual perverso no qual o adulto pedófilo a envolve no cotidiano, seduzindo-a com
falsos carinhos e presentes mantendo seu silêncio; primeiro por meio desses arti-
fícios e, em seguida, com ameaças e afirmações falsas sobre a identidade dela e da
responsabilidade do abuso, numa transferência clara de responsabilidades e papéis.
Abuso Sexual não acontece apenas quando ocorre penetração vaginal ou
anal. Acontece quando a criança é invadida em suas vivências, em seu corpo infan-
til e na delicadeza de seus sonhos por esse jogo perverso e unilateral do adulto. A
criança não tem responsabilidade alguma sobre essa intervenção violenta, não há
espaços para exceções.
Algumas vezes a criança manifesta uma precocidade ou curiosidade sexual
que não procede com sua idade emocional e ou cronológica. Caso ocorra de ela
“acelerar” seu desenvolvimento sexual mostrando-se em brincadeiras sexualizadas
com outras crianças ou até mesmo outros adultos, isso denota tão somente o fato
de que ela já teve sua sexualidade e afetividade invadidas, seu corpo e seu espaço
interno já estão bagunçados, vigiados e monitorados.
Sem saber como lidar com isso, a criança tende a desorganizar seu espaço
externo de convivência de acordo com as ferramentas e comandos os quais rece-
beu ao longo de sua pequena caminhada. Algumas quebram coisas, ou não param
quietas, incomodam os adultos, chamam sua atenção como podem. Mas não há
regras. Nenhum ser humano pode ser mapeado, há apenas apontamentos, sinais
que podem indicar um estado de dor latente, comportamentos que podem indicar
uma violência, ou não.
Minha vida foi um redemoinho de dor, um muro de lamentações onde des-
carregava na raiva, de tudo e de todos, a culpa que sentia. Sempre me perguntei o
8 Mário Quintana

84 Helena Damasceno
porquê de tanta dor e violência na minha vida, ficava repetindo aquela história de
que “isso só acontece comigo”. Implorava pena e mendigava afeto. Sempre achei que
tinha uma marca na testa ou um imã, algo que avisasse a todos que eu era alvo fácil
para outras formas de abuso.
Eu achava que tinha perdido muito tempo na vida, que não tinha termina-
do a faculdade, não tinha emprego fixo e ou concursado, não tinha casa própria,
enquanto que metade dos meus amigos de infância já estava casada e com uma
vida ótima. Ou tinham passado em algum concurso, ou tinham um emprego fixo e
estável, ou então tinham um bom relacionamento com a família, enfim, a vida deles
era sempre melhor e mais equilibrada que a minha. Mas a grama do vizinho não é
mesmo mais verde que a nossa!
Tinha uma corda me enforcando o pescoço a vida inteira. Carregava a culpa
de ter seduzido o tio-agressor, de ter abandonado a família, de não ter sido a filha
ideal, de não ter feito o curso superior que tanto orgulharia minha mãe. Enfim,
sempre tinha uma culpa jovem, e quando não, dava um jeito de arrumar uma novi-
nha em folha, ou então alimentava as antigas.
Por isso tão importante percebermos de que nos alimentamos, o que deixa-
mos dentro de nós e que efeito tem esses alimentos na nossa vida. Quando a gente
acha que não vale a pena investir em psicoterapia, nesse processo de enfrentamento
com a dor, estamos deixando parte de nós no caminho da vida, estamos admitindo
uma culpa que não nos pertence e carregamos esse fardo pesado durante anos, até
quase nosso esgotamento físico, emocional e mental.
Muitas de nós somatizam a dor transformando em doença física o que nunca
nos pertenceu: a responsabilidade do abuso. Compulsões alimentares de toda or-
dem, distúrbios do sono, fobias em geral, patologias de ordem psicológica e mental,
relações de co-dependência, sintomatologias físicas de qualquer espécie, etc, fazem
parte da rotina de muitas de nós, vítimas de violência sexual, dando-nos a falsa idéia
de vida em desalinho e confirmando essa mesma falsa idéia de marca na testa, de vítima
eterna.
A corda que me sufocou o pescoço durante anos não está mais tão apertada
assim, vem perdendo força nesse meu processo de cura, desde o momento em que
decidi crer na minha própria força e determinação. Percebi que a minha vida é mais
importante e não há dor alguma que possa me imobilizar para sempre. Somos mais
fortes e delicadas do que podemos ver. Reconhecemo-nos ainda pelos olhos do
agressor, nos vemos ainda com os olhos do desdém e da violência, da culpa que nos
alimenta e nos pune severamente. Sei que é um processo difícil e que muitas vezes
sentirei dor, mas sei que sairei das crises mais madura e fortalecida.
Cuidar de você e do seu espaço interno é um processo legítimo, não se cul-
pabilize pelo que não lhe pertence, não compre culpas e ou responsabilidades que
invariavelmente não lhe cabem. Assuma apenas as conseqüências das suas escolhas
de hoje, por agora. A sua dor é legítima, não há fita métrica para medi-la. Dor é dor,
violência é violência e, em qualquer situação, nada a justifica!

Pele de Cristal 85
Nunca disse que seria fácil, não existem fórmulas mágicas! Aponto tão so-
mente o caminho do amor e do auto-perdão para sairmos da inércia que a dor nos
impõe, para que vejamos as possibilidades que a vida nos apresenta; porque o cami-
nho do amor traz leveza e o caminho da culpa e do medo traz escuridão.
A psicoterapia tem sido fundamental nesse meu processo, e não importa a
sua idade, profissão, ou credo: nada interfere no resultado. O que importa na ver-
dade é o seu foco em você mesma, no auto-perdão e no cuidar de si mesma. O seu
foco na cura contribui para a libertação da culpa e das coisas do medo. Lembra que
o que foi conjuga passado, algo que não se pode mudar. Mas podemos modificar
a importância e o peso desse passado na nossa vida, a partir do momento em que
nos despedimos dele sem maiores dores. Quando mudamos e saímos do lugar da
mesmice e da vitimização, fazemos com que o ciclo da vida pegue passagem rumo
a outros espaços de convivência.
Viver é um movimento de troca entre as energias que se comprimem e as
que se espaçam. Perceba-se num movimento circular de vida, de energias que se
acumulam e saem de você, cristalizando seus pensamentos e idéias, dores, sensa-
ções, sentimentos, etc. Tudo cola em você feito casca. Se forem coisas boas, elas
far-te-ão leve, se ruins sentirás o peso. Quando estivermos cansadas e sem fôlego,
acreditando em perspectivas de culpa e medo, lembremo-nos que o mar nos dá uma
lição simples de movimento e vida: ele vai e vem, num indo e vindo infinito, trocan-
do energias com a natureza e conosco numa dança lúdica de viver.
Foram muitos os altos e baixos em minha vida e os perseguia alucinadamen-
te, meio que à força, deixando a vida me levar e me arrastar num vai e vem zonzo.
Andava como que um fantasma sem esperança alguma de viver sem aquele peso
todo.
Fiz terapia outras vezes e a cada vez que um processo terapêutico se apro-
ximava das feridas que o abuso deixou, fugia desesperadamente. Fugi muitas vezes
desse enfrentamento porque tinha medo da dor, tinha medo de não ser capaz de
suportá-la e morrer por causa dela, morrer de dor num exagero simbólico e real.
Ainda morava na casa da mamãe quando criei coragem e decidi contar pra
uma professora de literatura de quem eu gostava muito. Admirava aquela mulher,
queria ser professora de literatura só por causa dela. Ela era o modelo de gente que eu
queria ser. Achava que ela poderia me entender, me ajudar, quem sabe. Sentia-me
segura, embora tivesse muita vergonha e medo do julgamento dela, mas como ela
era um ícone, não hesitei. Num primeiro momento, ela me apoiou e me acolheu, me
estimulou a fazer uma denúncia, esbravejou dizendo que aquilo era intolerável, que
eu precisava ir numa delegacia. Ora, há 20 anos, quem ousaria entrar numa delegacia
para contar para um homem, que na minha casa, havia outro homem que abusava
sexualmente de mim e que eu não dizia nada? Como fazer isso numa época na qual
não existia nenhum sistema de garantia de direitos? Calei, engoli a seco sua revolta
e sugestões, disse que ia pensar e passei a ignorá-la na escola. Não queria que ela me
obrigasse a fazer aquilo, tinha medo, vergonha, pavor!

86 Helena Damasceno
Mas a violência partilhava do meu cotidiano de modo ardil, tentava escapu-
lir em vão do abuso que sempre era mais veloz e sagaz que a minha adolescência
infantil. Já era submetida àquela época à rotina da agressão e da cumplicidade da
negligência e minha professora esqueceu-se disso, ou não sabia. Na verdade ela mal
se esforçou para querer saber um pouco sobre o que se é ser vítima de violência se-
xual. Ela passou a me ver cabisbaixa e chorosa pelos cantos da escola e me chamou
pra conversar. Perguntou-me o que havia e eu lhe disse, vergonhosamente, que tinha
acontecido novamente, ele havia abusado novamente de mim. Rispidamente ela me
questionou se ele tinha usado alguma arma ou coisa parecida. Disse que não. Ela
perdeu a educação, a solidariedade e a paciência rasgando-me uma frase que jamais
consegui esquecer: “ah minha filha, então você gosta, faça-me o favor”!
Ela não sabia que uma pessoa vítima de violência sexual na infância é víti-
ma no cotidiano e que desde muito cedo ela é presa àquele padrão de sofrimento,
controle e dolo. Ela não sabia que ficamos amarradas por laços traçados a partir da
falsa idéia de culpa, vergonha e medo das ameaças verbais e da violência física. Ela
não sabia que uma pessoa vítima de violência sexual na infância não tem identidade
formada na imagem de si a partir da educação saudável e da vivência de experiências
igualmente saudáveis.
A criança vítima de violência sexual se vê a partir dos olhos da família inces-
togênica e dos olhos do agressor que a vê como indefesa, frágil, pequena e sem va-
lor. É exatamente assim que nos vemos durante a vida: indefesas, frágeis, pequenas
e sem valor. Mas repito que estivemos indefesas, não somos. Estar não é ser!
A criança vítima de violência sexual perde o sentido de organização espa-
cial e temporal, fica perplexa e tomada pelo assalto da violência que seqüestra seus
sonhos, sua saúde e infância. Ficamos perdidas nesse espaço de dor e culpa, visi-
velmente deslocadas de nosso centro de auto-estima e amor. Por isso tão difícil
conviver com a insegurança, os pesadelos, medos, fobias, compulsões, depressões,
somatizações, com a auto-piedade e as relações de co-dependência. Essa é a lingua-
gem que conhecemos porque fomos levadas a ela, essa é a vida que (re) conhecemos
e que sabemos viver porque estamos sufocadas na dor e na culpa do que não nos
pertence de fato. Por isso nos vemos tão distantes da superação e não cremos nela.
Essa idéia de que não é possível viver sem essa dor é uma ilusão que está
cristalizada na nossa vida e guardada dentro das feridas que o abuso sexual nos
deixou. Mas não se iluda: para superá-las você terá que quebrar o pacto de silêncio
com sua falsa segurança e comodidade. Enfrentar as conseqüências da violência sexual
não vai doer mais do que já doeu porque o abuso já passou. O que você sente são
as conseqüências dele, a dor da violência. E mexer nas feridas não vai doer mais que
a vivência da violência no momento em que acontecia. Falar sobre o que aconteceu
ou fazer psicoterapia, escrever, pintar, gritar essa dor, seja qual for a ferramenta que
você utilizar, nada disso é vivê-la de novo.
As coisas me eram mais importantes que os sentimentos e ou as pessoas. A
dor me era a fonte mais fiel em que bebia minha vida e mesmo quando já estava

Pele de Cristal 87
fora da casa da mamãe, não me era possível ser inteira comigo ou viver uma relação
saudável.
Assustava-me com qualquer coisa, tinha pesadelos à noite, não conseguia
dormir, me alimentava mal, bebia desesperadamente, fumava pra esquecer o mundo,
usava máscaras de alegria mostrando pros outros que eu era feliz, mas na verdade,
não queria que ninguém se aproximasse de mim ou se metesse na minha vida. Tinha
medo de sofrer, de envolver-me e depois perder, sempre perdia tudo! Sentia-me
inferior em tudo, sempre um peso, sempre um fardo. Tinha medo de dormir e ser
abusada novamente. Andava nas ruas com aversão de encontrar o tio-agressor nos
rostos alheios, ou no dele próprio.
Na verdade essa sensação de medo, os pesadelos sempre violentos e que me
colocavam em situações de desvalor e demérito, as máscaras que usava para afastar
de mim qualquer pessoa que quisesse entrar no meu quarto de proteção tudo isso era na
verdade, um sistema de defesa que criei internamente, uma resposta inconsciente da
insegurança que sentia quando de possíveis sociabilidades. Para quebrar esse padrão
e interromper seu campo de ação foi necessário falar. Falar é estabelecer confiança
consigo mesma e descobrir um caminho de acesso à sua criança machucada.
Não tenho ilusões acerca do enfrentamento e da libertação para que cami-
nho. Sei que se faz necessário mexer nas feridas para que eu possa pôr o remédio
devido, para que eu me liberte de todas as conseqüências da violência do abuso.
Isso demanda tempo, coragem e dedicação, e não há fórmulas mágicas pra isso, a
natureza não dá saltos! Leva-se tempo cuidando do jardim interno.
Ando hoje curtindo cada momento, vibrando a cada pequena conquista,
descobrindo a mim mesma com afetividade e doçura, tomando posse da minha pró-
pria vida sem me preocupar com o tempo que passou, sem comprar novas culpas,
ou novos medos. Fiz o que sabia como faço agora!
O abuso sexual tem conseqüências funestas e deixa muitas sombras e es-
treitamentos muitos espantando os caminhos de leveza. Passamos por vários está-
gios: negação, culpa, medo, desequilíbrios emocionais, psicológicos e físicos, fobias,
vazio, fugas; até que estejamos prontas para cuidar desse espaço com delicadeza e
paciência.
Cuide de você, preocupe-se com suas feridas internas, trate-as com o pró-
prio amor e redescubra esse caminho de ternura e cicatriz com suas próprias ferra-
mentas. Procure ajuda. O apoio terapêutico é fundamental. Busque um caminho de
amor para consigo, não o peso do contrário.
O que importa nessa ciranda de silêncio e verbo é você!

88 Helena Damasceno
Capítulo IX

“O medo me fazia morrer,


fazia matar o querer (...)
deixa o peso da água vazar,
deixa a dor passar... vai passar!”
Hóspede do tempo
Cuide de você, preocupe-se com suas feridas internas, trate-as com o pró-
prio amor e redescubra esse caminho de ternura e cicatriz com suas próprias ferra-
mentas. Procure ajuda. O apoio terapêutico é fundamental. Busque um caminho de
amor para consigo, não o peso do contrário.
O que importa nessa ciranda de silêncio e verbo é você!
Quando era criança pensava no que ia ser “quando crescer”. Sempre me
imaginava linda, gigante, cheia de coisas boas pra fazer e ser, com uma família linda,
uma vida de sucesso e alegria. Fazia muitos planos, traçava meus passos como se
fosse possível prever isso milimetricamente e sonhava, ah como sonhava! Só esqueci
de um pequeno detalhe: cada um de nós passa a vida inteira crescendo, utilizando
os espaços e os processos de convivência e crescimento para evoluir durante a jor-
nada humana, para ser feliz, para ser melhor e mais inteiro consigo e com a vida
em geral.
Nunca acreditei em mim como esse Ser efetivo de crescimento, sempre me
questionei enquanto ser humano digno, enquanto mulher que um dia seria livre, que
tinha qualidades e que era bela. Nunca acreditei em mim. Havia uma fenda na minha
alma e no meu corpo que me afastavam da própria luz e de tudo de bom que a vida
me preparava. Sempre me culpei pelo abuso, por minha mãe ter me abandonado,
por não ter sido a filha que ela sonhou.
Lembro de uma vez em que ela disse assim: “porque tu só faz o que eu não gosto?”
Parece ironia, eu fazer o que ela queria. Logo eu que nunca me imaginei preenchen-
do as expectativas e necessidades dela, daquela mãe carrasca e ausente, distante do
afeto e do respeito, distante de mim anos tantos! Respondi que fazia o que eu queria,
o que eu gostava, simplesmente. Ali morava o meu grito rasgado, era eu cansada de
sofrer e de não ser amada por ela. É, sempre esperei ser amada por ela, queria que
ela se orgulhasse de mim enquanto sua filha. Mas nunca fui de fato filha dela. Pais e
filhos são ligados pelo afeto e pelo amor construído no cotidiano saudável, lar que é
morada de respeito mútuo pelos que coabitam a rotina em família.
As mulheres, as mães em especial, têm um papel peculiar no abuso sexual
intrafamiliar. Elas, em geral, se opõem à verdade dos fatos. Algumas ficam ao lado
do agressor pondo um véu sobre a violência, cobrindo a vista para a situação. Os
panos quentes algumas vezes explicam- se pelo fato de o agressor ser o provedor da
família, outras pelo poder exercido por aquele homem no espaço do lar, mas nada
disso deve justificar o exercício da violência sexual, nada justifica o abuso!
Enquanto adolescente mal saía de casa, meu primeiro namorado “sério”,
aqueles que vão até a casa e pedem em namoro, foi aos 16 anos. Havia tido outros 2
antes, mas nenhum fora tão significativo quanto esse. Pouco tempo depois ficamos
noivos. Ele era, a bem da verdade, mais um alguém com o qual conversava que um
namorado propriamente dito. Ainda morava na casa da mamãe e o abuso sexual
acontecia constantemente. Tinha verdadeiro pavor de me envolver com alguém,

90 Helena Damasceno
mas ele foi minha primeira possibilidade concreta de me libertar daquele pesadelo
todo. Apesar de gostar dele, sei que nossa relação não foi muito legal, eu não o
amava o suficiente para me casar, mas não via outra forma de sair daquela situação.
Apesar disso não casei com ele, na verdade, nunca passamos da fase da ami-
zade, se é que me faço compreender. Tinha medo de que ele me machucasse. Trans-
feri para ele o pavor da relação de violência que vivia. Novamente calava e sofria, em
silêncio seguia com meus medos e culpas. Sentia vergonha da família dele, da minha
família e de tudo que podíamos ter vivido juntos. Terminei o relacionamento sem
maiores explicações e nunca mais o vi.
Sempre foi mais fácil ser vítima. Eu havia sido programada tal o elefantinho
que tem um barbante amarrado ao pé. Os circos faziam isso para condicioná-lo ao
medo e a dor nas tentativas frustradas de tentar fugir. Por mais que ele tentasse se
soltar não conseguiria, o barbante era sempre atado à sua patinha causando-lhe dor
imediata e, ao longo do tempo, ele desistia de soltar-se, não conseguiria mesmo. Fica,
então, aquele elefante enorme preso a um pequeno barbante, que lhe lembra das dores
antigas. Ele está condicionado à dor que lhe feria a perna, nem tenta mais fugir.
É o mesmo que acontece conosco. Fomos programadas a acreditar que a
culpa é nossa, que não vamos sobreviver sem esse peso, sem essa dor, que somos
podres e incapazes, quase imprestáveis! Paramos de acreditar e de nos movimentar
porque “dói a perna machucada”. Não existem cicatrizes ainda, somente cascas
que rasgam vez outra e se abrem, deixando a ferida aberta, o sangue escapar, a dor
passar.
Durante minhas crises, violentas crises, saía pelas madrugadas à procura da
anestesia do álcool, não importava o horário. Acreditava que tinha um imã, ou uma
frase na minha testa escrita assim: disponível, abuse e use. Na minha cabeça culpada
todos os homens do mundo me viam como um brinquedo sexual, uma espécie de
depósito de esperma. Bom, eu pensava assim. E algumas vezes buscava estar em
situações que me levassem a ocupações de abuso e submissão como essa, apenas
para comprovar tais argumentos e justificar minha revitimização.
Às vezes ia a boates ou barzinhos e recebia contatos para sexo em grupo,
sexo selvagem, sexo sado, sexo pago, sexo virtual, sexo fácil, sexo, sexo, sexo! Numa
dessas noites de oportunidades sexuais volúveis, sempre regadas pelo álcool e frieza
fugaz, um carro passou a me acompanhar, lentamente. Percebi seu movimento, mas
estava tão embriagada que nem me importei. Sequer respondia às suas investidas ini-
ciais. Assobios, buzinas leves, depois insistentes, acenos aparentemente despojados,
a insistência na conversação. De sobressalto o convite em meio a risadas e baforadas
de cigarro. “Só quero conversar, depois te deixo em casa”.
Aquele desconhecido garantia que me levaria pra casa, sem segundas inten-
ções. Vencida pela persistência, parei. Minha cabeça dizia tudo e dizia nada. Sentia-
me tão usada, tão inquestionavelmente nada que entrei no carro dele sem ques-
tionar. Desenvolto e simpático, durante todo o trajeto ele puxava assunto, sempre
solícito e educado. Inicialmente ele cumpria sua promessa e me levava pra casa sem

Pele de Cristal 91
tentar alterar o caminho. Seguia minhas orientações à risca quando, de repente, ele
pára o carro numa rua erma e me propôs sexo ali, em plena madrugada. Um homem
que eu nunca tinha visto e que nunca mais veria. Tive medo dele, de um estupro,
ou de outras violências. Permiti, mumificada pela desvalorização, pela revitimização
automática.
Bêbada, deixei aquele homem fazer o que queria comigo, chorava por dentro
me perguntando até quando isso ia continuar acontecendo. Mas não era capaz de
resistir, medrosa sempre cedia. Acostumara-me com as imposições do sofrimento,
com as investidas da escravidão e da subserviência. Meu lamento era tentar pagar a
conta da vida pra nunca mais lembrar do abuso sexual. Eu era um imenso elefante
amarrado ao barbante da culpa e do medo.
Já na porta da casa da minha mãe biológica, desci do carro e chorei até solu-
çar, até acordá-la. Foi uma confusão daquelas! Ela me perguntou quando eu ia tomar
jeito. Às vezes, nessas horas de crise, tinha vontade de vomitar tudo pra ela, simples
assim, gritar sem parar até a voz sumir da garganta. Mas tinha muito medo dela.
Medo de ela me abandonar pra sempre e de nunca mais encontrar uma mãe. Pen-
sava que ela ainda poderia me amar se eu calasse, se tentasse me esforçar pra tentar
ser a filha que ela queria. Quando a dor me tomava de sobressalto e me arrebentava
a alma e o corpo explodindo feito dinamite verbal, tinha vontade de deflagrar uma
guerra, de gritar a esmo, de dizer-lhe quão “perfeita” era a minha vida, queria ironi-
zar tudo, mas não conseguia, não tinha forças. Sempre achei que ela nunca acredita-
ria em mim já que ela sempre me viu como uma menina louca e irresponsável e que
nunca seria alguém na vida.
Demorou duas décadas para que percebesse o jogo sexual perverso o qual
estava inserida. Pouco falo com minha mãe biológica salvo raras exceções. Precisei
me afastar dela e de toda aquela família para sobreviver e permanecer lúcida. Eles
me faziam mal, me feriam sem nem saber...
Hoje dona de mim e de minhas elaborações individuais, sigo hóspede do
tempo acarinhando minha alma e minhas feridas, curando-me aos poucos do fardo
do medo, da culpa e da vergonha desse passado doloroso. Tiro lentamente o peso
das minhas costas, devagar, no meu tempo e velocidade individuais, respeitando o
meu tempo de amor por mim. Não espero mais pela aprovação, pelo amor da mi-
nha mãe biológica. Se ela não me quis, eu me quero! Não acredito mais nas palavras
insanas daquele homem quando do abuso... Sou mais livre, sou mais eu!
Eu cá com meus botões de carne e osso decido o que entra na minha alma,
purifico meu corpo que merece o melhor porque é minha morada nessa experiência
humana, porque sou um Ser em construção, porque sou Helena, única e bela, pronta
para os meus sonhos pueris, para reencontrar o amor e a liberdade.
O tempo... Ah o tempo! O tempo nos dá a dimensão exata dos passos que já
caminhamos, faz leituras da nossa vida e de tudo que somos e queremos ainda ser.
As feridas que carrego são marcas profundas que cicatrizarão e que levarei
para sempre comigo. É o modo que percebo essas feridas, em processo de cicatriz,

92 Helena Damasceno
que será diferente de agora e de antes. Como diz Clarice Pinkola Esthés no livro
Mulheres que Correm com os Lobos, “embora haja cicatrizes inúmeras, é bom lem-
brar que, em termos de resistência à tração e capacidade de absorver pressão, uma
cicatriz é mais forte do que a pele”.
Sempre acreditei que não merecia o amor de ninguém, nem mesmo o meu,
porque adulta, acreditava nunca ter sido amada, acreditava que havia tido uma infân-
cia totalmente infeliz e que não tinha recebido afeto de ninguém. Só se discorre da
linguagem que conhecida interna e anteriormente. Mas estrelas há, maiores e mais
significativas nesse palco além das máscaras de dor que me esculpiram o corpo por
anos e que agreguei valor superlativo.
Lembrei que papai brincava comigo, que me contava histórias reais, de per-
sonagens reais. Sem perceber, papai me ensinava a lutar, me ensinava a acreditar
em mim mesma e nos meus sonhos, independente das circunstâncias que se apre-
sentassem na minha vida. Papai, o avó que me acolheu em seu coração como filha,
era o meu herói de papel, que mesmo sem impedir as violências que sofri, me
mostrou um caminho de sobreviver a elas. Lá na casa de mamãe as relações eram
sempre muito superficiais, as aparências precisavam ser mantidas a qualquer custo e
o silêncio era um preço alto, mas pago por trocas injustas e inversão de papéis. Pra
mim papai também sofria nas mãos das brincadeiras que eram criadas a partir dos
lapsos de memória e esquecimentos dele. E eu sofria com ele. Ficava pra morrer,
enlouquecia de raiva e comprava brigas por ele, que retribuía o carinho me fazendo
afagos no cabelo e montando meu balanço na goiabeira do quintal.
Tenho redimensionado esse pai, tenho descoberto que ele me ensinou a
acreditar na força dos sonhos, no respeito para com os outros. E embora papai
não tenha conseguido evitar ou parar o abuso, ele me deu amor, me balançou no
jardim, me contou suas histórias de luta e compartilhou seus sonhos. O herói não
me salvou, mas o pai afetivo me apontou o caminho do amor para ultrapassar as
adversidades da vida.
A criança que fui, que acreditava na alegria da vida, na ludicidade das brinca-
deiras ao vento, daquele balançador no quintal, me esculpiu de retidão de caráter, de
integridade. Fui sim uma menina abusada por um homem que pôs na lama a con-
fiança que depositei nele. Mas papai me foi o companheiro dos pequenos festejos
cotidianos. Papai foi um ramo de alegria que coloriu minha infância me permitindo
acreditar (mesmo que inconsciente) na minha própria capacidade de superação e
resiliência. Detalhe apagado do meu tempo de adolescer e juventude que a dor do
abuso e suas conseqüências danosas pregoaram em mim. O conjunto de violências
que sofri me impediu de ver outras coisas da vida, o outro lado da moeda que havia
na minha história.
A cada abuso ocorrido trancava- me mais no meu quarto de dor, punia- me
mais e profundamente, escondendo de mim e do mundo, minha beleza e possibili-
dades que tinha de Ser, de crescer enquanto vivência humana. Ficava horas no ba-
nheiro me lavando e me sentindo imunda. Depois do exercício direto de violência,

Pele de Cristal 93
sentia-me tão suja que precisava, a qualquer custo, limpar minha mente e meu corpo.
É difícil explicar com palavras, mas posso afirmar que nenhum produto de higiene
podia me limpar a alma. Não haviam medicamentos que me tratassem das feridas
abertas e em estado de septicemia bio-psíquica. Depois de tentar me limpar, de
jogar fora aquela sujeira toda, passava dias sem tomar banho ou escovar os dentes.
Precisava evitar que ele se aproximasse novamente e repetisse o abuso. Por isso a
escassa higienização. Posso afirmar, entretanto, que a sujeira externa era um retrato
mal fadado de como estava por dentro.
Usei chupeta até os doze anos, fazia xixi na rede ou na cama quase todas
as noites. Tinha pesadelos constantes e violentos em que era estuprada por muitos
homens animalizados das maneiras mais violentas e torpes, embora vivesse o pesa-
delo real da violência sexual cotidianamente. Quando via aquele homem bastava seu
olhar para me paralisar e me assombrar. Pelo olhar dele já sabia se seria estuprada,
se demoraria, ou seria em casa, ou n’algum outro lugar. Apavorava-me... Ele me ha-
via dinamitado todas as forças e me dominava totalmente. Mas meu herói de papel
estava lá pra me acarinhar, para me acolher depois da violência. Se ele não chegava
antes, tinha seu carinho depois, tinha o afago de suas mãos na minha face e a pre-
sença do seu amor a me marcar para sempre.
Como já era bem “grandinha”, mamãe escondia minha chupeta para ver se
parava de usar. Lá estava papai de novo. De noite ele chegava de mansinho na minha
rede, não para invadir meu espaço, mas para me beijar a face e por na minha boca a
segurança da chupeta; só assim conseguia dormir.
Pode ser que esteja sendo condescendente demais, você pode dizer isso. O
fato é que estou redescobrindo o amor paterno, o amor primeiro e que me é impor-
tante. Eu tinha uma idéia maluca de que não conhecia o amor, então não poderia
amar. Mas conheci sim! O amor discreto, mas sempre presente e eficaz. O amor de
papai me trouxe doçura nesses dias de tormento. Papai não me salvou do abuso, é
fato. Mas me apontou um caminho de resistência e fé na minha própria força. Só é
seu aquilo que você dá e papai me deu o exemplo de sua força e carinho, me ensinou
o caminho da resiliência pelo auto-amor, pelo autoconhecimento e dignidade.
Alguma coisa há para que minha criança ainda seja mantida de forma lúdica
aqui, dentro de mim. É a ternura da infância apesar da dor. A ternura e a leveza estão
sendo lapidadas pela minha mobilidade nesse processo de cura e reconstrução.
Encontro-me emotiva demais, comemorando cada pequena conquista, cada
detalhe nesse meu processo de libertação e cura definitivas. Aproximo-me dos 33 anos
muito diferente de como estava aos 32. Ali, naquele momento de 32 anos, estava cru-
cificada na dor; não queria ver ninguém, desejava me esconder do mundo todo; dos
meus amigos e das pessoas que convivia em outros espaços de sociabilidade. Esperava
enfiar a cabeça num buraco e quem sabe, seria engolida, desaparecesse.
Via-me como um fardo pesado e incômodo, era carente profissional 24 ho-
ras por dia; contrabandeava minhas forças e exportava qualquer alegria que ousasse
se aproximar para um lugar bem longe do meu alcance. Lembrava-me do meu pas-

94 Helena Damasceno
sado ruim, de tudo que aconteceu e sentia muita vergonha, muito medo, muita cul-
pa. Passava dias chorando por nada, me via sozinha e abandonada. Passeava numa
tarde de um dia qualquer e do nada, senti a essência do “perfume” dele. Na frente de
todo mundo comecei a chorar, a me descabelar, saí em disparada, sem dizer palavra
alguma, morta de vergonha! Sempre foi duro conviver com os fantasmas da violên-
cia sexual. Alimentava-os com minha rotina vitimizada e mania de sofrer. Eu tinha o
meu cemitério particular de zumbis.
Sempre me senti um imenso fracasso, a pior das mulheres, a que mais sofria.
Sempre estive totalmente envolvida na teia da culpa e da vergonha, não via nada de
bom na minha vida, não tinha orgulho de nada em mim! Tudo que tivesse feito para
mim era motivo de pena e desajuste. Sentia-me uma grande mentira! Escondia dos
meus amigos mais próximos a dor e o peso que carregava, dizia estar bem e que
tinha apenas uma forte depressão ocasionada pelo estresse no trabalho, ou algo as-
sim. Carregava o peso e a vergonha de ter sido abusada sexualmente. Não me sentia
à vontade com a vida, nem com ninguém. Mas nunca foi fácil explicar o que sentia.
A violência ainda me ensurdecia.
Era um tormento viver naquela casa, e ninguém parecia perceber minhas
angústias e sofrimento. Quando ele vinha (o tio-agressor), meu coração disparava de
medo, de pavor, de culpa. Aquele homem discorria frases inteiras sozinho quando
do abuso e chegava aos diálogos mais insanos quando encolerizado pela posse da
minha alma e do meu corpo. Houve época em que as perseguições tornaram-se mais
violentas e freqüentes e foi nesse momento que percebi que se não saísse daquela
casa morreria de qualquer jeito, de uma forma ou de outra: se não por suicídio dire-
to, o seria de outras maneiras, pois já me sentia morrer aos poucos todos os dias.
Quando ele casou dei graças! Enfim, meu pesadelo tinha acabado. Tomei um
porre tão grande na sua festa de casamento que nunca (até hoje) consegui lembrar
onde estava, o que fiz, ou como cheguei à casa de mamãe. Não há em minhas me-
mórias nenhum registro fotográfico dessa noite. Mas o fato é que tinha certeza de
que estava livre, que ele sairia da casa de mamãe e pronto, nada mais me aconteceria,
meu pesadelo teria fim. Triste engano. Ele não se afastou de mim sequer um mês e
meu tormento teve continuidade gradativamente mais violenta.
Não discuto se é alguma psicopatologia, falha de caráter, as duas coisas jun-
tas, algo mais ou qualquer outro fator. O fato é que o agressor tem sempre respon-
sabilidade sobre a vítima, nunca o contrário, nada justifica a violência sexual.
Esquecemos disso e saímos comprando culpas, pesos e vaias por toda a vida.
Mas somos maiores que o abuso, não somos apenas ele. O uso das palavras aqui não
é mera questão de semântica. Há poder e força, intenções e sentimentos deposita-
dos nas palavras ditas e silenciadas; assimilamos cada significado e os adequamos a
vitimização e falsa responsabilidade da violência. Emanamos o tempo inteiro cada
pensamento e cada idéia-pensamento, seja qual for, cristalizando as sensações de
dor, medo, vergonha ou até mesmo alegria, força, superação e resiliência. Sentimen-
tos e percepções complexas e em completude às nossas vidas e que construímos

Pele de Cristal 95
constantemente. Nada é estático dentro de nós.
Romper o silêncio e o medo de seguir adiante correspondendo às nossas
expectativas de superação ou nosso anseio de liberdade, é caminho a ser traçado
inevitavelmente. Faz-se necessária essa intervenção interna para que possamos sair
do lugar, para que possamos superar as crises e conseqüências da violência sexual.
O que me conduz ao caminho da cura é a vontade de viver a experiência
humana com dignidade, ultrapassando os percalços como uma guerreira em batalha,
mas com a delicadeza do nascedouro das flores. Não é fácil de fato, nunca disse
isso, mas acreditar na cristalização do impossível é deixar-se presidir pela rigidez e,
na verdade, impossível é uma linha imaginária criada pela energia dos pensamentos
densos, alicerçados na culpa e medos que sentimos e retroalimentamos.
No dia do meu aniversário, data ressignificada por minha vontade de viver,
estarei comemorando mais um ciclo de libertação. Passos muitos hei de dar, é claro,
mas certamente o caminho que me fez chegar aqui é hoje acolhida e morada do
amor e autoconhecimento que já moram em mim.
Quando falamos sobre a violência sexual que sofremos externalizamos o
que dói, botamos pra fora o dolo e o peso e expurgamos a poeira do nosso quarto
de dor. E esse é o momento de abrirmo-nos ao processo psicoterápico de cura e
reconstrução, de ferimento aberto e a ser tratado. Ao romper o ciclo de dor e silêncio
do qual muramos nossa casa interna, elaboramos os fatos e podemos observá-los sob
outros ângulos e possibilidades, daí passamos a perceber e admitir outras portas
além das que nos levam sempre ao sofrimento e à dor.
Pretendo me conhecer mais e melhor dando- me sempre a oportunidade do
afeto e do respeito próprio, amando-me a cada dia um pouco mais, oportunizando-
me a felicidade e a liberdade real. Onda no mar sou eu em processo de libertação
e cura. A festa é estender minhas mãos livremente e caminhar buscando viver com
maturidade, equilíbrio e afeto. A festa é seguir caminhando de pé, com dignida-
de apesar da dor que ainda é ferida, mas que será cicatriz ao final da estrada.
Durante muitos anos fechei-me no meu aniversário com vergonha e dores físi-
cas e emocionais insuportáveis. Sentia-me imunda, indigna. No dia em que fiz 15 anos,
fui estuprada no jardim da casa de mamãe. Ele se sentia tão seguro que não havia im-
pedimento algum, nem mesmo o movimento das pessoas quase à nossa frente na cal-
çada. Era um dia como outro qualquer. Mamãe queria comemorar com uma daquelas
festas onde a família apresenta a debutante à sociedade, mas eu não queria nada disso,
nenhum alarde. Nem festa, nem bolo, nada! Pra mim seria ridículo, afinal de contas, ia
comemorar o que mesmo? Ninguém nunca entendeu porque não quis um baile, bolo
chique, festa em clube, missa, docinho, salgados fritos, refrigerante e champanhe. Se
me perguntassem que presente gostaria de ganhar... Ah, se ousassem saber!
Queria paz, queria viver sem ter um homem me procurando toda semana,
quase todo dia, invadindo meu corpo. De longe, senti o perfume dele me procuran-
do com o olhar. Sua presença me sufocava, mas como a casa estava cheia de gente,
fiquei tranqüila. O olhar dele exprimia, no entanto, meu passaporte só de ida para a

96 Helena Damasceno
“ilha do terror” e eu nem imaginava o que ocorreria logo em seguida. Cego em sua
obsessão ele nada via, não se importava com as conseqüências e assim, fui compe-
lida a ir até o jardim, quase arrastada pela mão do seu desejo vil. A possibilidade de
ser apanhado não o inibia, ao contrário. Parecia-lhe uma aventura, um desafio que
levava sua adrenalina aos sorrisos, mas a mim, aquela ameaça transtornava, estava
apavorada. Talvez pela simbologia da data, quem sabe pelo atrevimento e violência
dele, mas até então, nunca havia me sentido tão drasticamente suja, tão podre.
Fui ao banheiro e chorei em silêncio. Desejei morrer, mais que isso, tentei
matar-me. Ao sair do banheiro estava revoltada, saí arrumando confusão, discutindo
com quem estivesse pela frente. Dizia que qualquer coisa seria melhor que aquela
vida e aquele inferno, que seria melhor a morte a ter nascido naquela casa, com
aquelas pessoas, que ninguém se importava comigo. Ninguém entendeu nada. Levei
uma surra, chorei aos berros, solucei e dormi. De madrugada fui até o pequeno
bar que papai mantinha e me embriaguei com uma garrafa de uísque. Misturei com
alguns analgésicos e esperei a morte chegar. Acabei dormindo por sobre a garrafa
vazia. Vencida pelo medo do flagrante, ainda de madrugada acordei e fui ao banhei-
ro tentar limpar meu corpo e lavar minha alma. Ninguém soube o que aconteceu na-
quela noite. Enrolei a garrafa numas roupas sujas minhas e depois as depositei numa
sacola velha. Joguei fora depois, não queria ver nunca mais aquelas roupas, aquele
vidro vazio de álcool, repleto de luto e tristeza. De uma forma simbólica, quando
jogava a garrafa e as roupas fora, fazia meu enterro, velava minha angústia e morte
simbólica. Rezei uma ave-maria, um pai nosso e fui pra casa, de volta ao inferno.
Quando meu aniversário se aproximava me escondia dos amigos tentando
evitar uma comemoração desagradável. Um deles, certa vez, caiu num domingo
e comecei a beber logo na sexta. Quando cheguei à casa de minha mãe biológica,
ainda bêbada e suja, ela me mandou voltar pra onde estava. Nem pestanejei, voltei e
continuei bebendo por mais uma semana. Era mais fácil assumir a culpa que enfren-
tar a violência, era mais fácil viver anestesiada.
Explodia de dor, tremia de medo, ficava sem força nas pernas, lembrava dos
odores, das mãos dele, do seu suor, dos gestos e movimentos dele e me sentia fraca,
uma mulher vazia e sem vontade de viver e que, aliás, nem merecia viver.
É necessário que saibamos que a violência sexual não vem sozinha, vem
acompanhada de outras violências que são suporte de manutenção e apoio para que
o agressor aja confiante de sua impunidade, minimizando a ação de defesa da vítima,
garantindo o muro de silêncio que assegura o segredo da violência e seqüestrando
sua auto-estima e sua saúde. Ao contrário do que algum desavisado possa dizer, o
abuso sexual não acontece quando o agressor está impulsionado pela bebida que o
impede do domínio pleno da razão.
Estatisticamente a maioria dos casos não ocorre através da imposição de
armas físicas, não somos tomadas à força e de sobressalto porque já somos a presa
dinamitada e construída ao longo do caminho para a violência sexual. Não estou
dizendo que a violência sexual não é uma violência física, longe disso. Apenas a

Pele de Cristal 97
título de esclarecimento, digo que não são freqüentes (estatisticamente, eu repito)
os estímulos de violência física tais como surras e tapas, por exemplo, ou ameaças e
coerções através de revólveres, ou outras armas.
A violência sexual intrafamiliar é uma violência armada de sedução e con-
quista cotidiana, de seqüestro habitual da vítima sutil e subjetivo, da imposição de
um em detrimento do outro. É claro que as estatísticas não cobrem totalmente a
verdade, existe a violência sexual acompanhada por ameaças à integridade física da
pessoa. No meu caso, nunca tive uma arma apontada para a cabeça ou algo afim
porque não havia necessidade. Já estava dominada pelas violências simbólicas im-
postas pelo dia-a-dia, pela dinâmica cotidiana da violência.
O perfil mais comum do agressor sexual é o de um homem acima de qualquer
suspeita. Educado, de bom convívio social, simpático e sedutor, que tem a confiança
plena da vítima e que convive com ela, direta ou indiretamente, cotidianamente. Ele
faz parte de suas relações de convívio e proximidade. Pode ser um primo, tio, pai ou
padrasto, ou mesmo um vizinho ou professor, quem sabe um amigo da família, um
irmão, ou até mesmo padres e pastores. Também não estão excluídas as mulheres
dessa lista. É que estatisticamente elas não edificam o perfil comum de agressores
sexuais, mas há casos onde mulheres assumem o papel de agressoras sexuais.
Mas o que é interessante pontuar é que aquele estereótipo machão, grosso
e mal educado está distante da realidade da maioria de nós. Casos com esse perfil
não são maioria, mas merecem a mesma atenção e especificidades legais e psicote-
rápicas.
Não há como se medir uma invasão sexual. Não há fita métrica para a dor.
Dói, invade e fim. Não há portas abertas para exceções, discussões de perfis ou
teses. Enquanto discutimos especificidades e detalhes acerca da violência sexual, a
vítima precisa de cuidados e apoio psicoterápico e legal. Invasão sexual é violência,
em qualquer circunstância.
Sofri muitos anos em silêncio, marchando triste e dolorosamente sob a dire-
ção de minha dor permanecendo acorrentada ao padrão de culpa, medo e vergonha
até cansar das gangorras de crise, dos tantos altos e baixos. Não suportava mais esse
inferno de nunca estar bem, de nunca ser firme e saber dizer não, de não me deixar
usar nas relações do meu dia-a-dia. Chefes, amigos de mesa de bar e de farras sem
felicidade, professores, a família. Em tudo reafirmava a violência punindo-me seve-
ramente e revitimizando-me, afinal de contas, merecia sofrer e perder sempre.
Palavras entram na cabeça inicialmente pelos ouvidos e em seguida o co-
ração acolhe seus zumbidos. Depois disso entram na rotina de nossa alma e fica
mais complicado acreditar em expressões contrárias às primeiras. Minhas primeiras
palavras foram ditas sob o julgo da falsidade e da violência. Enfiaram n’alma minha
a faca seca da dor e minha estrutura interna ficou sustentada por esse artífice, foi
desenvolvida nesse cenário, inicialmente. Tenho então, ressignificado minhas expe-
riências até aqui. Vê-las sob a ótica da leveza e não mais da violência amiúde.
Em 2003 fui assistir a um filme sobre uma serial killer que havia sido abusada

98 Helena Damasceno
sexualmente durante sua infância e foi prostituída em seguida, fato este que desen-
cadeou um processo lesivo para ela e para os que passaram por sua vida. Assisti-lo
me explodiu, acabou comigo! A história verídica entrou tão forte dentro da minha
cabeça que fiquei três dias chorando sem parar, sem comer, sem fazer nada. Só so-
fria. Fui trabalhar aos prantos, não conseguia conter o choro, era mais forte que eu.
Pensava no que havia me diferenciado dela.
Sempre quando voltava a sentir dor, tudo era mais forte que eu. A cada dia
as crises eram mais fortes e mais difíceis de superar e nem pensava em sair dessa
gangorra de dor, do chão frio e áspero que me consumava. Que linha tênue é essa que
me prendia à sanidade e me mantinha viva e lúcida? Ficava me perguntando quando
tudo isso ia acabar, me sentia presa a um inferno de recordações tristes, pesadas e
cíclicas. Dar a volta por cima era algo impossível pra mim.
Tenho aprendido muitas coisas nesse novo caminho de amor e autoconhe-
cimento. Tenho aprendido a tocar minha essência e a oferecer-me amor, a partilhar
esse amor por mim. Quando decidimos quebrar o ciclo de dor enfrentando a situação
de cara limpa e peito aberto, decidimos por nós, optamos pela nossa vida e por tudo
de bom que temos, somos e ainda seremos.
Ressignifiquei meu aniversário porque renasço todo ano para a minha vida e
pra ter novas oportunidades de refazimento a caminho da elaboração da minha his-
tória. Não vou poder apagar nada do me aconteceu, é verdade. Mas tenho encontra-
do a dignidade que preciso para permanecer de pé, para me sentir limpa novamente,
um ser humano em constante movimento e crescimento.
Crescer é sair do campo de ação do agressor, é deixar de ser vítima para ser
sobrevivente, é galgar outros degraus além da dor e da culpa. Sem maiores punições,
sem vergonha de olhar para trás. Sigo passo a passo na estrada guiada pela essência
pueril, fonte criadora de amor e leveza. Fui machucada sim, mas apenas ao meu
corpo a dor atingiu. Minha essência jamais foi afetada, continua aqui, veloz e sagaz
a me espreitar os caminhos pela vida.
Estão dentro de nós as ferramentas que precisamos para ultrapassar todo
o peso da violência sexual. Sei que é difícil perceber isso, levei mais de 20 anos
para vislumbrar alguma possibilidade além do sofrimento. Hiperfocamos a dor e as
conseqüências da violência sexual sofrida, e quando imersas no exercício das crises,
nossa visão turva nos impede de ver outras arestas, outras probabilidades. Seguimos
a vida empoderando a culpa, o medo, o muro de silêncio, o peso, a vergonha e a res-
ponsabilidade do abuso sexual. Há um acordo construído no cotidiano que garante
o silêncio e a transferência de culpa para a vítima. Mas poder muda de lugar. Só tem
poder o que damos poder.
Sempre enfatizo que cada pessoa tem seu tempo e sua velocidade de cami-
nho. Não se torture, não busque comprar novas culpas ou alimentar as antigas. Você
merece ser feliz! Você pode ser feliz! Mas saiba que enfrentar suas lembranças é pas-
so decisivo de afeto e libertação, não de peso e culpa para consigo e sua trajetória.
Houve um tempo em que via dentro de mim apenas um pequeno David que

Pele de Cristal 99
lutava sem muitas chances contra um Golias gigante, sempre forte, sempre vence-
dor. Eu me enxergava através das lentes da dor, potencializava o peso do abuso e
vivia constantemente com os dentes trincados de ódio, de raiva. Sempre me senti
abandonada demais, uma fera ferida com um vulcão aberto por dentro e explodindo
a cada dois dias, espalhando aquela dor gigantesca pra quem quer que convivesse
comigo.
Mesmo fora da casa de mamãe seguia o padrão da violência, quando da
época de violências conjuntas e do abuso sexual, me sentindo abusada constante
e diariamente. Sempre achei que se mexesse nesse quarto de dor veria tão somente
coisas ruins como o medo e a solidão, veria uma menina fraca e suja, ou seja, minhas
expectativas eram sempre as piores. Era uma sensação tão forte que acreditava que
viveria uma crise eterna, a grande crise e que jamais conseguiria sair dela. Quando
decidi pelo enfrentamento da dor e de meus fantasmas particulares, percebi que ha-
via duas forças opostas meio que coordenando meus passos e minhas percepções
sobre o mundo e as coisas de estar viva. Mas percebi fazendo esse caminho, que
no comando estou eu! Não duas forças opostas, não mais um Davi e um Golias,
simbologia válida para falar que dentro de mim moram dois gigantes numa arena
lúdica, numa batalha heróica em processo de cura.
Dois gigantes, não mais dois oponentes desiguais, não mais duas forças
opostas, um gigante esmagando seu opositor devidamente fraco e menor. Custou
muito para que pesasse na minha balança pessoal com mais equilíbrio e delicadeza
a força dessas duas metáforas: Davi e Golias. Mas só consegui perceber isso a partir
do momento em que decidi por mim, pela minha vida, pela minha libertação. Quan-
do acreditei na possibilidade de viver sem a dor, quando aceitei ousar e experimentar
um movimento de desejar viver livremente e acreditei que podia enfrentar a dor
retirando de mim todo o medo, culpa e vergonha, passei a me conhecer melhor e
mais profundamente.
Elaborar a dor da violência sexual e as conseqüências dela nesse processo de
cura, de enfrentamento direto e em psicoterapia, é redimensionar-se nesse caminho
de reconstrução, libertação e cicatriz, é ver-se verdadeiramente pela primeira vez. O
seu espelho diante de si, seus gigantes revisitados e reconstruídos, você descobrindo
as cores e as dimensões do seu quarto pessoal. A batalha de agora, de crescimento e
libertação, suplanta o duelo de titãs do qual sempre saía derrotada pelo meu próprio
medo, pela culpa que nunca me pertenceu e pela vergonha que me enfraquecia a
alma machucada.
No começo foi difícil, mas ao longo desse processo admiti que o enfren-
tamento de meus fantasmas particulares é algo que, além de necessário, é passível de
materialização nesse caminho de ressignificação do eu. Particularmente, essa foi uma de
minhas grandes conquistas e, certamente, me foi um primeiro passo de amor diante
de mim mesma. Admitir que me libertar é um processo de autoconhecimento e
amor, que esse processo é uma equação de luz a me guiar ante a leveza e a serenida-
de que sempre desejei e que sempre moraram em mim, mostrou-me o quanto sou

100 Helena Damasceno


capaz de superar as dificuldades diárias e marcas deixadas pela violência sexual.
Inquilina da vida e de meus próprios passos sigo a jornada humana rumando
à luz que se acende tranqüilamente em meu caminho de amor por mim. A coragem
de amar quem sou me faz luzir tal pirilampo em noite festiva. Parei de esperar pelos
outros, de jogar minhas expectativas de felicidade fora de mim. Percebi que é dentro
de mim que está o que me impede de ser feliz, ou de ser mais leve, de ser livre.
Entretanto, há ainda muita poeira concentrada no meu quarto de dor, muitas janelas
a abrir para deixar entrar a luz que me tirará o resto do pó. É um passo de todo dia,
não há truques mágicos. Nesse caminho, a psicoterapia é ferramenta indispensável
e necessária à cicatriz. Sozinhas, o caminho é, certamente, mais tormentoso, porque
nos perdemos diante de todo o sofrimento e dor.
Por muitos anos me acostumei a viver aquela dor insuportável, assumindo to-
das as marcas que o abuso deixou na minha alma e corpo. Era mais fácil ser vítima
daquilo que já conhecia que enfrentar a dor e arriscar viver o desconhecido de
ser livre. E o desconhecido dá medo, a gente tende naturalmente a se afastar.
Libertar-se das crises, do peso da dor e das ansiedades é uma batalha coti-
diana, é um todo dia de criar novos hábitos, novos padrões e mais leves, é buscar e
encontrar o caminho para si. Não está fora de você o que você quer ser. O caminho,
as ferramentas, as propriedades necessárias, tudo enfim está dentro de você!
Mas presas ao abuso deixamos de crescer por medo de mexer no quarto de
dor, de bater a poeira e não saber o que fazer com ela, por medo de não ter forças,
de não conseguir. Achamos que estamos seguras dentro desse falso conforto que a dor
dá. O medo é alimentado pelo hábito nocivo de vitimização, em postura sempre
secundária e passiva diante da própria vida; o medo é cristalizado dentro dos nos-
sos atos cotidianos pela retroalimentação densa que fazemos e que nos impede de
arriscar, de sair do lugar. Ousar não é apenas um sonho, é assumir desejar, é querer
libertar-se!
A liberdade mais parece um fantasma elástico que nos segue e apavora, que
uma possibilidade real de cura. Liberdade dá trabalho porque é construída ao longo
da vida, todos os dias e por nossas mãos, ações, palavras e gestos.
Somos co-responsáveis pela nossa felicidade hoje, sem maiores lamentações
e novas culpas ou medos. Jogar fora o que não nos serve de fato, enfrentando cada
espaço estreito, cada entrave e detalhe doloroso faz parte de nosso estado de direi-
tos adquiridos. Ser feliz é deste mundo e seguir esse caminho começa pela procura
sensível e sadia de si a partir do amor próprio, da paciência com suas pequenas
ausências e fragilidades, da descoberta do mundo pessoal e do invólucro de ser
humano.
Na palma da sua mão cabe tudo o que você quer do vôo interior de vi-
ver. Veja se vale a pena continuar sofrendo, culpando-se e subjugando-se, sentindo
medo, ansiedade e insegurança. Não são apenas palavras despejadas num papel.
Aqui escrevo minha vida, deposito minhas experiências e minha trajetória. Galguei
muitas praias, muitos becos escuros, tomei muita chuva até aqui, me embriaguei

Pele de Cristal 101


demais e sempre me detestei, nunca me acreditei e tinha nojo de mim, dos meus
pequenos detalhes às grandes coisas. Nunca pensei ser possível fazer grandes feitos
e sempre me vi como um lixo humano, um nada!
Meu grande feito foi assumir o comando da minha vida, foi ousar fazer e ser
diferente. Escolho eu mesma o que quero pra minha vida. Decidi deixar de lado a
vitimização absoluta, aquela que nos abate e deixa sem forças e sem possibilidades
de crescimento e libertação, que nos limita os passos e nos deixa inertes. Decidi
enfrentar a dor de cara aberta, sem medo de não conseguir, sei que vou conseguir!
Sorrio serenamente porque vivo a experiência saborosa de libertação nesse processo
de cura. E estou conseguindo.
Precisei enfrentar minhas próprias barreiras para começar a limpar meu quar-
to de dor e bater a poeira pesada da culpa e da vergonha. “O ser humano é do tama-
nho do seu sonho!”. Meu sonho sou eu.

102 Helena Damasceno


Capítulo X

“Deixei de brincar de cega,


de sair vizinha nua
a esconder-me o fôlego e o mar...
Pedra cozida no oco do pé”.
Da beleza submersa
Decidi enfrentar a dor de cara aberta, sem medo de não conseguir, sei que
vou conseguir! Sorrio serenamente porque vivo a experiência saborosa de libertação
nesse processo de cura. E estou conseguindo. Precisei enfrentar minhas próprias
barreiras para começar a limpar meu quarto de dor e bater a poeira pesada da culpa e
da vergonha. “O ser humano é do tamanho do seu sonho!”. Meu sonho sou eu.
Andava em círculos. Meu castelo de sonhos fora construído em bases are-
nosas, sem estabilidade alguma no amor e não enxergava nenhuma alternativa de
melhora. Estava cega e sem saída. Queria morrer a cada dois dias, ou ser assaltada
e ficar em coma semanas até que a família em que nasci ficasse sabendo e se com-
padecesse. Queria punir todos que me haviam feito sofrer. A vingança era minha
dona e senhora. Não havia nenhum sentimento de justiça, apenas juras de rancor e
desforra.
Acredito sim que deva haver justiça, pois, é a impunidade um dos fatores que
alicerça e mantêm a violência sexual até hoje. Mas acredito na justiça como uma for-
ça constituída nas esferas da Lei, que nos é Direito Constitucional e que nos faz ver
que cidadania não é somente exercício de voto. Denunciar é uma arma advogada em
prol das vítimas de violência sexual. Mas a denúncia não se dá apenas quando se uti-
liza da ferramenta no âmbito jurídico. A primeira denúncia nasce na subjetividade,
no espaço interno de cada pessoa que sofreu violência sexual. Denunciamos, também,
quando quebramos o silêncio e decidimos cuidar das feridas internas tecnicamente,
por meio da Psicoterapia, por exemplo.
Levei tempo para cuidar de mim porque não estava preparada para nenhum
tipo de enfrentamento com a dor que carregava. Vivia entre devaneios de vingança
e apatia, me entorpecia de raiva e ódio retroalimentando aquele ciclo de dependên-
cia de todos que me haviam feito sofrer. Percebi que, de alguma forma, o ódio me
mantinha ligada a eles. E nesse meu processo de cura, percebi que meu caminho
pedia um movimento muito particular de auto-cuidado, auto-amor. Mas para tanto,
precisava romper com o que me ligava aos agressores, romper com o ódio, mesmo
que indiretamente.
Não falo aqui do perdão automático e superficial, não o estou defendendo
como uma arma mágica, tal uma varinha de condão que a tudo resolve e que deve
ser aplicada agora e já, longe disso. Defendo tão somente a idéia da quebra desse
silêncio e momento pleno de auto-cuidado como único caminho de refazimento,
reconstrução e cura. Somos sistêmicos, precisamos de várias ferramentas, de vários
elementos de ressignificação.
No meu caso, digo apenas que abandonei o ódio desmedido como uma das
minhas ferramentas desse caminho. Estabeleci outras escolhas, outras prioridades,
fui cuidar de mim, fui limpar meu quarto de dor. Segui o caminho do auto-perdão, do
autoconhecimento, do enfrentamento aberto com a dor e todas as conseqüências
do abuso, como minhas ferramentas nesse processo de cura. E enfrentar a dor da

104 Helena Damasceno


violência sexual é encontrar-se no caminho, é bater a poeira do quaro de dor e atri-
buir movimento à sua vida oportunizando tratamento às feridas abertas e deixadas
ao longo da vida.
Atualmente existem órgãos de defesa e responsabilização e que são atuantes
em suas áreas, apesar da necessidade qualitativa (não entrarei no mérito dessa ques-
tão), mas existem e funcionam hoje em dia, isso é fato. Procure-os sem receio, os
profissionais saberão receber-lhe com respeito, escuta e afetividade.
Mas e quanto ao passado, para quem sofreu violência sexual há 10, 20 anos?
Existem com certeza muitas dificuldades, muitas marcas deixadas na alma e no cor-
po, e que o braço da justiça deve alcançar com a mesma precisão e cuidado. Mesmo
que essa justiça seja o seu caminho de cicatriz e cura, sejam a sua decisão por percor-
rer a estrada de amor e auto-perdão, autoconhecimento. Mas é você quem decide e
faz o seu caminho. Cubra-o de amor apenas, não se machuque mais, nem se permita
ser machucada novamente. Você merece ser feliz!
Não perdoei ainda nenhum daqueles que me feriram dentro desse caminho
da violência sexual. Estou ainda em processo de cura e essa é, certamente, outra jor-
nada a ser percorrida mais tarde. Por hoje e por agora meu caminho sou eu e apenas
eu. Cuido-me com delicadeza para que esse caminho seja preenchido de luminosida-
de e respeito, muito respeito. Esse eu tem um sentido de amor maior, de luzir uma
transformação profundamente verdadeira, não uma simbologia egocêntrica, mas
uma conjunção humana mais ética e livre, feliz e leve.
Uma das primeiras coisas que fiz foi começar a cortar as rédeas de poder que
cada um tinha na minha vida. Desisti da idéia compulsiva de vingança e tirei deles
aquela influência plena que me dominava e imobilizava, mesmo que à distância.
Afastar-me deles foi a única forma de me fazer lúcida, mas repito que esse foi o meu
caminho, não estou aqui dando receitas mágicas.
Por muitos anos quis matar e ferir, quis vingança contra tudo e contra todos
que me haviam abandonado e agredido. Depois essa idéia enfraquecia e percebia
que dentro de mim havia alguém que merecia bem mais atenção e cuidado que eles:
eu mesma. Pois é, lá estava eu, bem quietinha e em aparente silêncio, sem conver-
sar com ninguém, sem dividir todo aquele peso, com uma dor insuportável e que
me tirava da cabeça qualquer idéia que não fosse sofrer e me execrar. Nunca me
ensinaram a percorrer, sequer a reconhecer outro caminho que não fosse o do ódio,
o da dor. Amor pra mim era coisa de novela, todo mundo vivendo aquele mundo
fantástico onde no final a mocinha sempre se saía bem e ficava com o mocinho,
todo mundo muito feliz! Felicidade não era pra mim. Apesar disso, quem convivia
comigo dizia que eu era uma pessoa bem alegre, bem feliz, trouxe pra vida real, a
fantasia das novelas. Acreditava que era possível enganar os outros e enganava, dis-
farçava muito bem minha tristeza e todo o pesar que me habitava.
Quando dormia na casa de alguém e acordava de noite tendo pesadelos
horríveis ficava morrendo de vergonha, não dizia o verdadeiro teor e me escondia,
mentia dizendo que não era nada demais. Mentia... A mentira foi minha companhei-

Pele de Cristal 105


ra de esconderijo por muitos anos. Percebi que mentindo, não precisava explicar
pra ninguém o verdadeiro motivo da minha tristeza sem fim e já que os enganava,
achava que poderia fazer o mesmo comigo.
Mentia para acreditar que eu era outra pessoa, nunca foi maldade ou falha de
caráter, era fuga, a minha única alternativa de sabotar com precisão aquele passado
de horror. Então mentia pra me proteger e acreditava nas minhas fantasias, preci-
sava desse artifício pra esconder de todos e de mim a vergonha, a culpa. Menti pra
fugir de mim e o preço foi muito alto!
A responsabilidade da mentira começou a pesar demais. Fui obrigada várias
vezes a me confrontar com a verdade da violência sexual. Tinha pena de mim, sentia
vergonha demais e pra fugir disso, já que mentir não resolvia mais, busquei o álcool
como meu parceiro de pique esconde. Nem a mentira, nem o álcool, nem a vergo-
nha, nem a culpa, nem a vontade de morrer, nada disso me abraçava com carinho ou
me fazia respirar aliviada por um dia que fosse, nada era suficiente, nada me cabia.
Vivia três meses em crise e dois dias em euforia, mas alegria, alegria mesmo,
ou algo que se parecesse com felicidade nem fazia questão de conhecer. Felicidade
vinha cheia de culpa, não merecia ser feliz e se pensasse em alguma possibilidade de
felicidade, eu me boicotava e me punia severamente. Fazemos isso conosco. A dor é
tão grande que sentimos pena de nós mesmos, não conseguimos deixar o chão frio,
não dá pra parar de gritar que dói porque dói muito mesmo. É a maior dor do mun-
do. Mas essa não é a única porta de convivência que dispomos, não é a única saída!
Precisamos parir essa dor, deixá-la ir, deixar fluir a energia que movimenta
a vida, olhar pra ela de frente, de cabeça erguida e ver que há outras possibilidades.
Estamos vivas, fazemos parte das coisas de viver, fomos abusadas sexualmente sim,
é verdade, e nada vai mudar isso! Mas quem disse que somos inferiores por isso?
Olhe-se no espelho, aberta e corajosamente. Veja a sua imagem. É isso mes-
mo que é você? É assim mesmo que você quer ser? Perceba que a vida é sua, é você
quem respira, abrindo seus alvéolos para o oxigênio, é você quem sente seu coração
em sístole e diástole, é o seu peito que bate, movimentando-se e levando sangue e
vida para todos os pequenos organismos do seu corpo. É você a pulsão de morte e
vida de si mesma!
Assim como eu que percebi esse caminho de amor próprio, essa luz de amor
que se ascendeu assim que me assumi dona de mim, assim como eu que sigo esse
caminho solidário para comigo, você também pode ver e seguir! E não há nada que
nos separe além da geografia estática! Mas apenas a geografia é estática, a vida não
é estática!
Deixe que o movimento da vida que habita em você inevitavelmente flua...
Perceba-se enquanto Ser que vive, que intervém no próprio caminho e é sujeito de
escolhas e direitos, veja que é você a luz da própria estrada. O caminho que sigo é o
do amor, do auto-perdão, do autoconhecimento. Essa é a porta que deixo aberta e
que divido com vocês, tão somente, porque esse é caminho de amor e luminosidade,
não de sombras e dor. A dor não é nossa única fonte de vida! Olhe-se no espelho e

106 Helena Damasceno


pergunte-se: quem é dona de quem? Minha dona sou eu, e nada me difere de você.
Sou eu quem coordena meus passos, que faço minha história construída a
partir de o que faço com minhas experiências, mesmo as ruins, a partir das idéias-
pensamentos que me facilito, dos meus desejos e sonhos, das minhas construções
mentais e físicas, da maturidade e felicidade que construo ou afasto. Eu que sou
dona de mim, do dom da minha vida!
Quando estava dentro daquela casa, sufocada pelo branco cor de gelo das pa-
redes do quarto dele ou pelo azul rebocado e desbotado da sala em que dormia, não
precisava muito, rapidamente sabia reconhecer o perigo em seus gestos codificados.
Bastava apenas um olhar dele pra saber se seria abusada, ou se seria “apenas” uma
ameaça emocional, esta que era a garantia cotidiana do meu silêncio, enquanto ele
estaria seguro e impune quando da violência sexual e física em si. Sinto nojo dele,
mas não quero sentir nada, nem nojo, nem rancor, não quero alimentar sentimento
algum que me prenda a ele de alguma forma. A barba, o perfume, as mãos, o suor,
a voz, os trejeitos, o olhar, não quero nenhuma recordação em minha mente. Sei
exatamente o que passei em suas mãos.
Algumas vezes ele apenas se aproximava quase em silêncio, mas eu sabia
reconhecer suas intimidações. Tinha medo de que ele as materializasse: contar pra
mamãe que eu não prestava e que lhe havia seduzido perfidamente. Tinha medo de
ser abandonada novamente. Minha mãe biológica, apesar de conviver diariamente
comigo na mesma casa, me era uma “mãe” punitiva, tão somente cumpridora de
algumas das tarefas filiais obrigatórias: ensinar-me as tarefas da escola, custear a
educação básica e coisas afins. Ela nada interviu, nada interrompeu.
Parecia que ninguém percebia as grades invisíveis que me aprisionavam ali.
Era como uma coisinha de estimação, sempre me senti assim. Se fizesse algumas
gracinhas, recebia agrados e elogios, caso contrário nada recebia. Como com o tem-
po fui me tornando uma criança introspectiva e estranhamente solitária. Mais fácil
era me ignorar e neutralizar-me com outras violências, simbólicas e decisivas para a
sustentação da teia incestogênica a qual fui inserida.
Tenho muito a comemorar, mas minha maior conquista é, sem dúvida algu-
ma, a coragem de ousar, de desejar viver plenamente. Sei exatamente como cheguei
aos 32 anos, arrasada e sem forças, atingida pela maior crise que já vivi. Percebo-me
hoje mais jovem, mais forte e com firmeza de caráter, sem maiores ansiedades ou
maiores culpas, caminhando de forma coerente nesse processo de reconstrução,
libertação e cura.
Por isso valorizo tanto todas as minhas pequenas conquistas. Tenho muito
respeito por todas as batalhas ainda por vir, ainda muito pó a tirar nesse quarto de dor.
Não menosprezo nenhum de meus detalhes e comemoro minha vida partilhando
sem economia de felicidade meu caminho e trajetória. Tenho certeza de que muitos
passos ainda serão dados e que ainda falta muito, mas hoje olho pra dor sem estar
cabisbaixa, sem vitimização e sem me submeter aos seus caprichos intermináveis.
Saí desse papel de vitimização absoluta, vejo saídas para superar e ser feliz, não

Pele de Cristal 107


me atrai mais permanecer no passado como a única forma de vida. E eu posso ser
livre!
Por isso desejo não sentir mais nada por ele, nem nojo. O quero longe de
mim simplesmente, mas não apenas fisicamente. O quero longe energeticamente,
simbolicamente, metaforicamente, o quero fora dos meus pensamentos, fora da
minha vida, sem deixar rastros, sem deixar pó. Manter algum sentimento é como
manter um laço com ele, e não o tomo mais sob nenhum aspecto na minha vida.
Demiti-o do papel de poder que ele dispunha na minha vida. Aliás, como é gostoso
vibrar essa energia na minha vida! A vida é minha, eu que vivo, que sou minha dona.
Nada pode me impedir de desejar e amar, de viver e me libertar, nada pode me
impedir de ser Helena.
Vivi anos muito duros, senti muita dor e muita pena de mim. Não desejo a
ninguém a mesma trajetória, a mesma estrada desse ponto de partida: de dor abso-
luta. Ninguém merece sofrer violência sexual, ninguém. A invasão da mão no nosso
corpo, na nossa pele, que rasga e fere a alma tanto ou mais que a pele, porque carre-
gamos dentro de nós todo o peso da dor, não apenas fora, mas nas feridas invisíveis
que nos machucam depois e sempre, isso ninguém merece sofrer.
Acredito em cada pessoa que lê esse livro, acredito na sua força para superar
todas as conseqüências da violência, porque ler a minha história é, de algum modo,
desejar sair do caos e deixar de lado a vitimização absoluta, deixar de alimentar pos-
turas pejorativos. Eu sei o quanto é difícil, nunca disse que seria fácil. Não critico
quem não consegue ver o que vejo agora, porque sei que cada um tem seu tempo,
sua velocidade de vivência e maturidade, de ver outros ângulos. Mas fico aqui, inco-
modando sua falsa sensação de segurança, alternando a realidade que você está vivendo
com a minha trajetória e movimentação de luz que vivo hoje. Mas em nenhum
momento critico seus passos, sei que você os dá com vontade e coragem, com as
ferramentas as quais dispões agora.
Eu mesma passei muitos anos com a dor encravada na alma. Apenas gritava
de dor, chorava, comia demais ou comia de menos, bebia demais, tentando fazer
adormecer o que me doía e me penalizava exageradamente, arrastando todas as cor-
rentes de autoflagelo e comiseração. Outras vezes entrava numa euforia superlativa
e me ensurdecia nas farras ou no sexo irresponsável, em desalinho com minha au-
toconservação. Esbravejava com o mundo e explodia com as pessoas que nunca en-
tendiam porque doía tanto, porque não conseguia superar, ou fazer parar de doer.
E já ouvi de tudo um pouco. “Ah é que você não se esforça... É que você só pensa
nisso... Você gosta de sofrer, Ah! É que você gosta de ser vítima...”. Não, nada disso! Não
gostamos de sentir dor ou de ser vítimas, mas a comodidade de já conhecer aquele
movimento de culpabilização, aquela realidade de sofrimento, nos impede de sair do
lugar, de mexer na dor e tocá-la a fundo, de gerar força e movimento. Habituamo-
nos a sofrer e sentir dor porque essa é a realidade que conhecemos e, sair dela, é
deixar de lado a comodidade imperativa pra saltar num abismo desconhecido.
Minha psicóloga diz que eu “vivia na merda” e que “viver na merda” nos aquece

108 Helena Damasceno


de alguma forma, porque ela é quentinha. Dá pra entender que a dor, o abuso se-
xual é a única realidade que conhecemos e que nos habituamos a sentir dor e, com
isso, estamos nos impedindo de ampliar o movimento e o foco do olhar, sabotamos
nosso próprio movimento de mudança?
Mas ninguém faz isso porque quer, que isso fique bem claro. O ser humano,
naturalmente, não gosta de enfrentar as ordens da mudança, que é algo inerente a
ele, diga-se de passagem. Temos receio das mudanças, de todas elas! Mas mudamos
o tempo todo. Só que temos livre arbítrio para escolher a velocidade e a ordem delas
na nossa vida. Só vemos aquilo que queremos.
Nosso olho faz parte de uma engrenagem muito complexa que atende aos
comandos dos nossos desejos mais longínquos, das ações humanas mais remotas
e cotidianas, das nossas idéias-pensamentos formuladas a todo instante, indepen-
dentemente se materializadas numa ação externa, ou se arquivadas na mente, tão
somente. Quanto tempo levará para que você alcance a idéia de amor de que a culpa
não é, nunca foi, e nunca será sua? Quanto tempo levará para que você se perceba
passarinho machucado, mas que cuidado com amor e movimentando-se em prol do
perdão a si mesma, você enquanto passarinho, volta a voar mais tranqüilo e sereno,
sem maiores pesos ou medos dessa natureza? Tudo que precisa mora em você ago-
ra. A bagagem que levas nos ombros é sua, as ferramentas que disponibilizas à sua
caminhada são suas, o olho que se amplia ou se contrai é o seu. Nada desse espaço
de dor lhe pertence mais. Nem o medo, nem a culpa, nem a vergonha.
Nenhuma pessoa é vítima de abuso sexual porque quer, você não o seduziu,
não o estimulou em nenhum momento, não se puna por ter calado ou por apenas
ter chorado, não se puna por nada! Estivemos vítimas da violência sexual porque
estivemos vulneráveis, éramos crianças! Crianças minadas por outras violências co-
tidianamente, assegurando a intervenção do adulto agressor sexual. Não se assuste,
não há nenhum monstro àsua espreita.
Olhe para o seu quarto de dor e pegue o que está mais fácil, mais a mão. Não
se apresse em rebuscar seu caminho de cicatriz, simplifique-o com a serenidade do
autoconhecimento e do amor próprio. Caminhe de acordo com seus passos, respei-
tando suas fragilidades e potencialidades, abrindo-se a outras oportunidades além
do abismo conhecido. Oportunize-se, deixe o bom entrar! É por você que vale a
pena viver, que vale abrir-se ao movimento da vida. Aceite o bem!

Pele de Cristal 109


Capítulo XI

“Faltou água na casa...


faltou álcool na sala...
Meu verbo se escondeu do vento
Minha carne se escondeu do lacre.
Quero força pra ser fera
Quero mar pra ser tarde”!
O que onda no mar...
Olhe para o seu quarto de dor e pegue o que está mais fácil, mais a mão. Não
se apresse em rebuscar seu caminho de cicatriz, simplifique-o com a serenidade do
autoconhecimento e do amor próprio. Caminhe de acordo com seus passos, respei-
tando suas fragilidades e potencialidades, abrindo-se a outras oportunidades além
do abismo conhecido. Oportunize-se, deixe o bom entrar! É por você que vale a
pena viver, que vale abrir-se ao movimento da vida. Aceite o bem!
Sempre permaneci em silêncio, sem nada falar sobre o que acontecia comi-
go, porque tinha vergonha da mamãe, de ficar cara a cara com a verdade e o juízo de
valor das pessoas, da sociedade em si. Por isso calei, engoli a seco o peso e acumulei,
sozinha, todas as conseqüências da violência sexual.
Houve um momento em que quase falei pra ela, foi durante uma das nossas
discussões. Brigávamos muito, principalmente quando ela insistia em saber o porquê
detestava o filho dela, que era tão bom pra mim. Bom filho, bom profissional, bom
tio, bom em tudo! Lembre-se de que eles são sempre acima de qualquer suspeita.
Aquele mito do estereótipo machão, grosso e mal educado não corresponde em
toda verdade. A maioria seduz a vítima e mina suas defesas na convivência, no coti-
diano, silenciosa e “educadamente”.
Estávamos na sala de casa eu, ela e papai quando veio a pergunta: “minha
filha me diga, ele lhe fez algum mal”? Na hora veio à minha cabeça aquela frase da bíblia
que diz que o escândalo é necessário, mas ai daquele pelo qual a mão for motivo de escândalo.
Senti-me um escândalo gigante e calei, travei a garganta e a fala. Não consegui dizer
nada, nem que sim, nem que não. Fugi da conversa e da vergonha que sentiria, fugi
simplesmente.
Supunha sempre envolvida pela coerção física e verbal quando do abuso
sexual, que ninguém acreditaria em mim, que todos me diriam coisas horríveis, que
me responsabilizariam e abandonariam. Mesmo sem saber direito o que fazia, desde
então me puni, agregava esse valor abjeto a mim e me culpava pela violência sofrida,
sentia vergonha de mim, do meu corpo e da minha vida, e alimentava esse padrão
negativo me sufocando e me escondendo das coisas de viver, dando guarida ao
muro de silêncio e torpor que me foi imposto pelo tio-agressor. Culpei-me a vida
toda por ter calado naquele momento. Acreditava que aquele dia na sala de casa
havia sido a única oportunidade clara que tinha tido de falar a verdade e a tinha
desperdiçado de modo infantil.
Quando ocorre violência sexual intrafamiliar, a família é chamada de incesto-
gênica não por acaso. Toda ela contribui de algum modo, ou com permissividade, ou
participando em outras violências que alicerçam o abuso, ou fazendo “vistas gros-
sas”, omitindo-se à realidade dos fatos. Mas de algum modo, toda a família retroali-
menta a violência sexual e constrói, em seu cotidiano, em sua sociabilidade pessoal,
o pacto de silêncio que mantém o segredo da violência sexual, salvaguardando-a
de prestar contas à sociedade e seqüestrando a vítima de sua inocência. Só assim o

Pele de Cristal 111


abuso sexual transcorre com segurança para o agressor.
Nunca tive culpa porque calei naquele momento, hoje sei disso. Nunca tive
culpa de ter sofrido violência sexual, nunca seduzi aquele homem, de nenhuma
forma, em nenhum aspecto. Era somente uma criança que fora envolvida num jogo
sexual sujo e violento. Fora roubado de mim a infância e o crescimento saudável das
coisas de viver, o descobrir da sexualidade pós-puberdade, a adolescência tranqüila
de “aborrecente” ou não, foram roubados de mim meus sonhos e minha infância.
Quem não viveu o absurdo do abuso sexual não sabe de verdade quais as
marcas que trazemos na alma. Desconhece a subjetividade da absurda e violenta dor
que trazemos, mas isso não impossibilita ninguém de nos prestar apoio, nem nos
impede da possibilidade de recebê-lo.
Demorei muito tempo para perceber que, mesmo as pessoas que queriam
me ajudar ao longo da caminhada, algumas não estavam preparadas para me auxiliar
a enfrentar a realidade da violência sexual, ou por não saber o que dizer e ou fazer,
simplesmente; ou por recusa mesmo, falta de tato ou mesmo sensibilidade.
Eu sei o que você sente porque vivi esse horror por muitos anos. Passei por
muitas etapas, muitos caminhos, perdi e joguei muita coisa fora, me envolvi em
relações doentias, de submissão e diminuição, de retroalimentação dos padrões de
medo e abuso, de vergonha e culpa absurda e vil. Eu sei exatamente onde aperta o
seu pé, sei onde dói sua alma. Sei o que quer dizer quando diz que não agüenta mais,
quando cala ou quando grita, quando perde a vontade de sair de casa porque nada
lhe completa, quando não sorri mais porque nada é colorido, quando come deses-
peradamente ou bebe desmedidamente, quando sai de casa sem rumo esperando a
morte física, ou quando chora compulsivamente no meio da tarde. Conheço esse
grito, sei de que é feito.
Mas o que podemos dizer a partir do que escrevi acima é que não somos
diferentes ou inferiores, não temos uma marca de indigência que nos afasta da fe-
licidade e cura porque fomos vítimas da violência sexual, não somos inferiores a
nada, nem a ninguém. É importante que vejamos que estão dentro de nós nossas
ferramentas de movimento. Não é no outro que está nosso processo de cura, ao
contrário! A psicoterapia é fundamental nesse processo de auto-acolhimento e en-
frentamento de seus fantasmas pessoais, mas não se engane: é você que vai sentir
toda a dor. Ninguém poderá viver esse processo por você.
Enfrentar a dor e as conseqüências da violência sexual é um exercício nosso
e somente a nós compete saborear todas as conquistas e vitórias de estar nesse pro-
cesso de reconstrução, libertação e cura. É nesse enfrentamento que está a chave
de saída do quarto de dor, onde nos encontramos com nossa verdade interior, com
nossa essência pura e singular. Nosso corpo foi machucado, nossa alma foi machu-
cada, mas nossa essência guarda o que somos verdadeiramente.
Guardamos dentro de nós toda a nossa força e coragem individuais, a es-
sência original de andar e de movimentar nossas narinas impulsionando ar puro, ou
não. Dentro de nosso quarto pessoal abrigamos a relatividade das coisas de estar vivo

112 Helena Damasceno


na consciência de viver a experiência humana, alimentamos a elasticidade da nossa
determinação nas projeções mentais que construímos, expulsamos e ou atraímos
para perto de nós, para dentro de nós. Trazemos nosso instinto de conservação
dentro do mesmo espaço onde guardamos a dor, dentro do nosso quarto pessoal
empoeirado onde visitamos vez outra durante as crises inevitáveis, expectorantes
de movimento, da poeira absurda que acumulamos oriunda da dor, que não nos
pertence enquanto unidade de Ser, pois não merecemos sofrer. Não alimente essa
idéia de falsa compensação.
Esquecer do enfrentamento da dor é esquecer a nós mesmas num labirinto
de espelhos. É enfraquecer nosso caminho de amor aludindo às feridas com uma
eternidade etérea e diminuta. De nada adianta afogar as estruturas da dor, escon-
dendo-as num quarto empoeirado e distante de nossas vidas. Fomos vítimas de uma
violência sem precedentes, não apagaremos isso assim, simplesmente. Ao olhar para
a dor não tenha medo, enfrente-a, não a superlative ou a empodere de valores tor-
pes. Olhe para você tentando enxergar algo além da dor e da culpa, veja-se! Procure
ajuda da psicoterapia, descubra um novo mundo dentro de suas próprias potenciali-
dades, redescubra-se a partir da beleza que tem inevitavelmente, quer queira ou não,
quer perceba ou não.
Se eu consegui me ver com outros novos velhos olhos, verdadeiros olhos, sem
maiores culpas e inquietudes, se consigo hoje caminhar me apoiando na tranqüili-
dade dos dias vividos é porque desafiei minha falsa sensação de comodidade, mi-
nha errônea sensação de imparcialidade e intervenção indireta na minha própria
vida. Eu depositava nos outros minhas expectativas de felicidade. Arrombei mi-
nhas portas internas e fui buscar-me na longevidade da essência valente, guerreira
e selvagem. Sou eu que faço meu caminho, que sorrio, respiro e redescubro minha
individualidade. E vibro, todos os dias, com minhas pequenas e grandes conquistas.
Não há mais um interlocutor externo a me conduzir pelos caminhos do medo, da
culpa e da vergonha.
Muitos passos foram dados evidentemente. Alguns de muita dor, outros de
passividade e apatia, uns de medo exagerado, outros de euforia, mas tudo o que
vivi até aqui, faz parte do que sou hoje. Não posso apagar meu passado e não ve-
nho crescendo, percorrendo esse caminho de reconstrução, libertação e cura sem
esforço pessoal, sem garra e determinação, saiba disso. Olhar pra trás é meu maior
estímulo, porque sei exatamente onde e o que vivi. E nada me difere de você, apenas
a geografia estática e inalterada salvo pela ação da mão do ser humano, que, mesmo
sem alterar a distância, muda a paisagem a seu favor. Mude sua paisagem interna.
Nesse enfrentamento com o holocausto da dor e com todas as conseqüên-
cias do abuso sofrido vivi muitas coisas dolorosas, alimentei-me de falsos argumen-
tos cristalizados n’alma minha, duma vergonha inenarrável de mim e de meu corpo,
de minha voz, minha vida, minha cara, meu tudo. Vivia submersa em muitas mágoas
e assuntos inacabados, em muito rancor e raiva, muito ódio, principalmente de mim.
Havia muitas cobranças e muita culpa no meu caminho. Tinha receio de enfrentar

Pele de Cristal 113


a verdade e sentir ainda mais vergonha, de ver uma menininha fraca e medrosa que
não soube lutar, que não soube o que fazer com a própria vida, apenas morreu,
apenas calou.
Hoje olho para trás com poucos resquícios de vergonha e medo. O que vivi
já foi, pertence ao ontem, e não poderei jamais alterar o que já está impresso nas
telas invasivas e incestogênicas da violência sexual. Mas posso fazer muitas coisas a
partir dessa tela pintada pela mão invasiva da dor. Posso mudar a moldura, ou quem
sabe mudar o quadro de lugar, ou até mesmo ver outras figuras dele, imagens que
antes não percebia; ou até mesmo, quem diria, posso até pintar um novo quadro.
Quão significativo esse verbo, essa ação direta de intervenção oportuna e minha:
eu posso!
Cansei de me esconder, de enganar minhas digitais punindo-me por um crime
que nunca cometi e que não me dispus à cumplicidade em nenhum momento, sob
qualquer hipótese. Pele de cristal é a alegoria de uma mulher que saiu da caverna da
dor e do medo absoluto de cara aberta, corajosamente, é a alegoria da caverna dessa
mulher que percebeu, enfim, que podia ser livre e leve e que a justiça primeira deveria
estar dentro dela própria a libertar-lhe os primeiros e definitivos passos.
A violência do abuso sexual me invadiu e me coordenou os passos e a vida
por longos anos, agora não mais. Estou viva, sou dona de minhas idéias e da minha
vida. Eu dito como quero vivê-la, eu desejo o que fazer para ser o que quero: leve
e feliz, um Ser mais essencialmente humano nessa experiência de viver. Tenho me
percebido uma mulher gigante nessa caminhada de redescobrimento e refazimento
do meu quarto pessoal, onde nesse caminho de amor e autoperdão, prefiro retirar a
poeira da dor e deixar que as cicatrizes permanentes me acarinhem e me balsamizem
o fôlego e os passos. Foi sim uma experiência muito ruim, mas tenho percebido que
tudo é experiência e que o que faz você caminhar é o movimento que você faz com
as experiências vividas. É como você as vê, como reage a elas e partilha o efeito
delas nos seus espaços de convivência.
Tenho muito orgulho de mim, não me envergonho de ter sofrido violência
sexual, não tenho mais aquele medo injustificado, meus pés estão tranqüilos no
chão, caminhando sem pressa e com alívio pela leveza de quem retira o peso e a ver-
gonha das costas ressecadas. Orgulhe-se de si mesma, não se envergonhe da história
dolorosa que traz consigo.
Acreditando na nossa capacidade de ser mais, na nossa capacidade de viver
a experiência humana em sua plenitude é que chegaremos a perceber as belezas de
nosso espaço interior. Somente assim, poderemos ver que no nosso quarto pes-
soal, além da dor e das conseqüências dela, há também as ferramentas de beleza e
resiliência, de força e coragem, de auto-amor e autoperdão que tanto nos acolhe e
necessitamos ao movimento de luz e refazimento. E estamos sim aptas à vivência
desse caminho luminoso de reconstrução, libertação e cura!
A felicidade é um movimento de simplicidade, de interação aberta entre você

114 Helena Damasceno


e sua caverna interior na alegoria simbólica de escuridão e claridade, de deslocamen-
to ou afastamento do equilíbrio interno. Felicidade está no intercâmbio, seu com
seus espaços de convivência e conveniência. E está no ínterim de seus subterfúgios
quanto ao enfretamento da caixa de sua Pandora, ou da fuga dela.
Cabe somente a você seguir abrigando todo o dolo e ônus da responsabili-
dade do abuso sexual, ou largar a terceira perna de medo e insegurança seguindo a
estrada da reconstrução interior, libertação e cura. Temos a capacidade criativa de
construir o que queremos ser, viver e sentir, fazer ou desfazer, amar ou destruir. E
fazemos isso conosco.
Ao longo da caminhada desenvolvemos uma série de transtornos na tentati-
va de afogar a dor nas máscaras da fuga, do esquecimento empoeirado do quarto de
dor. Fobias, compulsões alimentares, distúrbios do sono, síndrome do pânico, bor-
derline9, psicopatologias de várias ordens e graus, sintomas físicos reais e constantes,
somatizações do imenso fardo carregado. O fato é que, consumidas pela culpa, vi-
vemos o holocausto da dor absurda e violenta a cada instante e torturamo-nos com
lâminas, tesouras, com as mãos em paredes, portas e escadas, na alimentação desme-
dida, na exposição às situações de perigo, em relações patológicas, numa vitimização
permanentemente aberta e compulsiva em todos os espaços de sociabilidade.
No ano de 2005, em meados de dezembro, após uma seção psicoterápica
muito intensa onde abri algumas janelas internas e percebi quanto medo e culpa
moravam em mim, me machuquei forte e violentamente. Já tinha feito isso através
de outras ferramentas, mas assim, utilizando o autoflagelo e auto-espancamento, foi
a primeira vez, e foi muito ruim. Machuquei meu corpo atirando-o contra paredes,
despejando minhas mãos com intensa ira na pele condoída, repetindo comandos
maléficos e autopunitivos, chorando muito, gritando comigo mesma até ensurdecer
a dor, procurando única e simplesmente uma saída imediata, o alívio para a carga
pesada do abuso sexual. Não agüentava mais sofrer e, de fato, tinha chegado ao meu
limite. Mas usei a ferramenta da punição como meio e fim. E o fiz erroneamente. A
crise durou uns vinte minutos, o suficiente para luxar meu corpo, para fazer doer a
cabeça e rasgar a epiderme, ferindo-a e sangrando-a.
Depois da agressão, senti tanta vergonha que não consegui me ver no espe-
lho, falar com alguém ou me perdoar. Queria me punir mais, ficar sozinha porque
tinha vergonha e tinha medo de que me culpassem por isso também; fiquei com
medo de ser abandonada pelas pessoas que me haviam dado uma mão. Mas há
uma diferença sutil entre dar uma mão e acorrentar uma alma... Minha alma estava
acorrentada no lodo da culpa e do medo, na insegurança absoluta e na incredulidade
em mim mesma. Tive uma ressaca moral de tamanha magnitude que mal consegui
olhar-me no espelho, até porque se olhasse veria as marcas físicas que já estavam
9 É um transtorno de personalidade que se caracteriza por um padrão de relacionamento emocional in-
tenso, porém confuso e desorganizado. A instabilidade das emoções é o traço marcante deste transtorno,
que se apresenta por flutuações rápidas e variações no estado de humor de um momento para outro sem
justificativa real. Seu comportamento impulsivo freqüentemente é autodestrutivo.
Fonte: http://www.psicosite.com.br/tra/out/personalidade.htm#borderline

Pele de Cristal 115


dispostas escancaradamente. Machuquei-me porque precisava arrancar de mim a
dor da agressão sexual, porque não suportava mais ouvir perguntas secas e frias de
dentro e de fora de mim, sobre minha apatia e permanência naquele estado de imo-
bilidade e impassibilidade. Queria resolver na porrada aquela situação!
Precisamos nos perdoar, encontrar um espaço de amor onde possamos legi-
timar e exercitar um pouco de respeito e afeto conosco, compreender que, mais que
autopunição, necessitamos de amor e perdão. Precisamos compreender que nossas
limitações não são fraquezas e que somente enfrentando a dor é que sairemos da
condição de vítima. É necessário percorrer a estrada de cicatriz sem pressa, sem
intervenção de máscaras e das falsas sensações de comodidade e culpabilidade.
Esperei julgamentos e obtive amor, compreensão e zelo. Recebi afeto e clari-
dade quando me expus aos amigos e expulsei de mim o que havia feito. Desconhecia o
amor nessa instância de partilha saudável, de amizade sem precedentes nocivos e cheia
de desejos de prosperidade e saúde. Desconhecia essa linguagem de afeto e respeito,
mas quando me abri às possibilidades além da dor e da violência que operava para
comigo, me infligindo uma multidão de mazelas físicas, morais, peso e culpabilização,
descobri o casulo da ternura e do abrigo da amizade. Percebi naquele momento, pós-
agressão violentamente física, moral e emocional, que não estava sozinha e que havia
um caminho a ser trilhado mais leve e dignamente à minha frente.
Não é um caminho fácil, mas é um caminho necessário, é o remédio que
arde, porque vamos mexer nas feridas inevitavelmente abertas e não tratadas, mas
que cicatrizarão certamente após o exercício do enfrentamento, da psicoterapia e do
caminho do autoperdão e amor próprio.
O exercício da fala, e em psicoterapia, é um sujeito de importância peculiar e
único nesse processo de enfretamento, de visita ao seu quarto de dor para que a faxina
se processe no seu tempo, na sua velocidade rítmica.
Abrir sua caixa de pandora é tarefa reveladora e única, fonte de refazimento
interior e reconstrução. Crescer dói, mas não vai doer mais do que já doeu. Não é si-
nal de fraqueza admitir que se passou pela experiência da violência sexual. É preciso
muita coragem para isso. E essa dor já foi, está nas coisas do passado, e enfrentá-la,
junto com as conseqüências da violência sexual, é laboratório de cotidiano e luz,
de materialização da vida que pulsa ávida dentro de você. É certo que passamos
por dificuldades muitas e assumimos muitas culpas. E até que o remédio do verbo
venha fazer-se presente na rotina de vida individual, rodamos em círculos batendo a
cabeça na parede da dor e do sofrimento. Daí nos punimos muito e fingimos viver
uma vida de dolo que não nos pertence jamais, em tempo algum.
Mas algumas vezes estamos tão submersas na episteme da palavra dor, cálice
que reina absoluto em nossa vida enquanto permanecemos no chão, seguindo o
padrão de vitimização e culpabilização que, atingidas pela apatia, pelo medo sempre
fugaz e arredio, pela culpa e vergonha, encontramo-nos demasiadamente distantes
de nós mesmas para atingir essas palavras em essência positiva e benfazeja. Precisa-
mos então de um binóculo ou de algo que o valha para que se faça esse novo foco,

116 Helena Damasceno


essa nova fonte de olhar para o quarto de dor.
O binóculo aqui é o caminho de amor e perdão, do autoconhecimento e
da paciência para com sua realidade interior. É também o caminho do processo
terapêutico, facilitador das técnicas de reconstrução e libertador de almas, inevita-
velmente, quando estamos abertas às possibilidades do movimento de mudança.
Devagar e sempre, aberta e claramente indo de encontro à sua experiência de dor,
mas potencializando a crença em si e na fortaleza que se tem essencialmente.
Viver uma relação saudável, buscar equilíbrio nas pequenas coisas de viver,
conviver com os espaços de rotina sem ansiedades e amarguras, confiar nas pessoas
e na nossa capacidade de construir belezas, acreditar em nós mesmos, nas nossas po-
tencialidades de amor, notar que dentro de nós há um ser brilhante e potencialmente
vivo, cheio de desejos e sonhos, de expectativas assertivas e sadias, um ser potencial-
mente gerador, dotado de criatividade e luz, com qualidade de vida e saúde física,
mental, emocional, espiritual; não são apenas palavras soltas num pedaço de papel. É
energia e fonte criadora de luminosidade e movimento que fazem criar e construir.
Nunca construí nada de amor... Só me cabiam dúvidas e medo.
Por muitos anos me questionei se eles eram cegos, ou o quê. A família em
que nasci fechou-se nela mesma e omitiu-se à violência que sofri ali, bem debaixo de
seu nariz. Mas afirmo que eles sabiam do que acontecia. Primeiro porque essa é uma
das características de famílias incestogênicas: a cumplicidade pela omissão e ou per-
missividade. Segundo porque o abuso acontecia declaradamente, descaradamente, a
olhos perceptíveis caso fossem atentos. O abuso sexual transcorria claramente den-
tro das quatro paredes flácidas da casa de mamãe. Sempre durante o dia e geralmen-
te depois do almoço, quando estávamos todos em casa. Salvo quando ele me tirava
de casa e me levava a outros espaços de dor, onde lá ele estaria bem mais seguro de
si, mais donatário de meu corpo. Era durante a sesta da tarde que me acorrentariam
a alma por longos anos, a partir da intromissão da violência sexual.
Eles estão surdos! Meu corpo gritava silenciosamente, sangrava copiosamente
enquanto todos dormiam. Quando aquela mão me invadia o corpo, sentia um tor-
por imediato... Nojo e ânsia de vômito, impotência, medo, desvalor, a certeza da
inutilidade e da vergonha, a barriga franzindo diante da dor, o choro engolido quase
como um vômito... Sentia-me a pior das criaturas, a mais imunda, a mais podre. Não
havia um ruído de luz, nenhuma voz tentava me salvar, ou me compreender. Estava
só, era uma isca pra ele, que me utilizava sem decência.
Nesse jogo do abuso intrafamiliar, a troca perversa faz-se desde o momento
primeiro. Mas, a priori, é difícil identificar e modificar esse padrão. Primeiro porque
não queremos admitir, inicialmente, que fomos vítimas de tamanha violência. Admi-
tir é transformar em realidade toda a violência e sofremos diretamente os impactos
dela, quase sempre despreparadamente, sem apoio. Segundo porque já estamos en-
volvidas no jogo incestogênico, de família mito de felicidade e segurança, onde a criança
nada sabe, não tem valor de diretos construídos para além de ficar em silêncio, para
não ter voz, então calamos. Terceiro porque sozinhas, sem o amparo psicoterápico,

Pele de Cristal 117


não estamos preparadas para mexer nesse quarto de dor. Por conseguinte, pensamos
que ao falar, seremos confundidas com o juízo de valor externo. Ou com a calúnia,
sempre maldosa e indigna, ou com a “injustiça” reverberada por aqueles que nos
deram tudo, desde a vida no útero, ao alimento escolar, educacional e material, e nos
desdizem e silenciam diante do mundo.
A falsa gratidão filial, inquestionável e absoluta, reina até que quebremos o
ciclo da violência dentro de nossas cabeças, dentro dos padrões incestogênicos
que seguimos nas rotinas diárias. Falar é quebrar o ciclo de dor e medo, é recons-
truir a si mesma com o amor que, agora teu, te faltou inicialmente. Falar é dar-se a
oportunidade de exercitar direitos, que são nossos desde que nascemos, assim que
passamos a freqüentar essa escola de aprendizado humano. Quebrar os muros de
silêncio e medo fazem parte da caminhada rumo ao teu processo de cura e cicatriz.
Digo que colar com o amor e perdão nossos pedacinhos é reeditar nossa história,
é desvestir nossas costas do peso da culpa, do medo e da vergonha de um crime
sexual nunca cometido por nós. Continuo dizendo que não é fácil, continuo dizendo
que é necessário, continuo dizendo que é possível.
Esse desejo nosso de viver sem a dor do abuso e sem as dolorosas conseqü-
ências dele, sem o medo aparentemente interminável e sem as crises de choro, sem as
compulsões alimentares das mais variadas ordens, e as relações de co-dependência,
sem o absurdo vazio que nos coabita a face ocultando os sorrisos e a alegria natural;
esse desejo de viver sem as ansiedades que nos arrastam pela vida, sem a apatia e a
angústia de evitar o contato com a dor e com a verdade interior da força e da beleza
que temos e somos... isso mora em nós. Isso nos diz que crescer ultrapassa o valor
da infância e suplanta a vida adulta desacorrentando nossa alma machucada.
Crescer é um ato dinâmico. É uma dança que envolve o corpo condoído e a
alma machucada reunindo, num baile humano e divino, paradoxalmente, todos os
quatro elementos imprescindíveis e vitais...
Água para banhar a alma limpando-a da dor e lavando-a com a luz do amor
e do perdão para consigo.
Terra pra percorrer o caminho de reconstrução, libertação e cura, reorgani-
zando nosso quarto pessoal e trazendo claridade ao olharmo-nos nos espelhos dentro
de nós.
Ar para entrar nas narinas e bater o pó denso da vitimização e da culpabi-
lização, abrindo a vida para que seja cumprido o exercício de amor e equilíbrio, de
serenidade e pacificação interior.
Fogo para a chama que iluminará os passos na estrada de afeto e respeito,
de paciência e cuidado para conosco, para que as feridas olhem-se tranqüilamente e
percebam-se cicatrizes resilientes e fortes.
Crescer é um movimento que fazemos a cada instante, a cada milímetro per-
corrido na estrada da experiência humana. Oportunizemo-nos esse caminho diário
de refazimento e maturidade. E que venham as borboletas!

118 Helena Damasceno


Capítulo XII
“Silêncio!
Não quero acordar desse sonho de um dia sonhar em paz...
Quero viver de graça na casa dourada
e matar a solidão que me sufoca e desgraça...
Silêncio é o grito que me mata...”

Pele de Cristal 119


Mãos ao assalto da pantera sem cor
Crescer é um movimento que fazemos a cada instante, a cada milímetro per-
corrido na estrada da experiência humana. Oportunizemo-nos esse caminho diário
de refazimento e maturidade. E que venham as borboletas!
No assalto aos nossos sonhos, a violência sexual não se inquieta nem se
incomoda, em nenhum momento, com o alto preço pago por nós; a que custo o
agressor conseguirá realizar seu jogo sexual perverso, ou mesmo com o que sobrará
de nós pós-abuso sexual.
Ao agressor importa apenas a unilateralidade da sua própria segurança, basta
sentir-se amparado e alicerçado pelas violências conjuntas através da cumplicidade
incestogênica e silenciosa da família, que lhe assegura o exercício da violência, da
energia sexual invasiva e torpe na criança fragilizada e indefesa.
Não importa a idade em que se concretiza a violência sexual física, a energia
sexualizada e invasiva já se encontra no ar antes disso e se manifesta por outros
canais até que se concretize no corpo da criança enquanto exercício sexual perver-
so e desagregador. A energia sexual paira no ambiente da família mesmo que não
materializada fisicamente desde a primeira intenção sexualizada do agressor. Existe
um início antes da violência física e sexual em si. O agressor primeiramente
cerceia a vítima lentamente com coações outras, não necessariamente sexualizadas.
Ele geralmente é apoiado por membros da família e ou amigos que coabitam desse
espaço de convivência e que o auxiliam nas violências conjuntas ao abuso sexual.
Espancamentos, agressões físicas, morais, psicológicas, limitações da comu-
nicação da vítima a pequenos espaços de convivência, imposição de sociabilidade
restrita, super-proteção, cuidado excessivo, ou seja, antes que a violência sexual se
concretize no corpo físico da vítima, ele espanca, grita, ofende moral, física e psico-
logicamente, age deliberadamente a fim de satisfazer seus desejos sexuais injustificá-
veis. Ele garante o silêncio antes do grito.
O abuso sexual é sempre um crime arquitetado, devidamente pensado. Não
ocorre sem devida premeditação do agressor. A vítima está sempre envolta num
clima cotidiano propenso a violências conjuntas que potencializam a violência sexu-
al, num jogo de transferência de responsabilidades, em que lhe é imposta, além da
violência física, a violência simbólica.
Passei anos da minha vida tendo certeza de que era burra, uma lesma de
características ignóbeis sempre em desvantagem porque era feia, insegura, medrosa,
covarde, desleixada, podre, sem valor, magra demais, depois gorda demais, chata,
uma coisinha ambulante. Precisava da piedade alheia porque não conseguia me en-
carar no espelho, nem enfrentar todos os fantasmas das violências que sofri e dizer
pra mim mesma que não tinha culpa, que eu era uma pessoa bonita e que podia ser
gentil, ser doce, que era inteligente e corajosa. Mas sobrevivi a cada violência. Acor-
do de manhã para vida respirando com força e com muito desejo.
Eu aspiro ar pelas minhas narinas como se fosse um movimento voluntário,

120 Helena Damasceno


como se fosse o meu movimento de viver. Hoje descubro a teia a qual fui inserida
violenta e lentamente, e percebo a que grau de violência sobrevivi corajosamente. E
faço isso sem nenhuma piedade, sem medo dos julgamentos de quem quer que seja.
Já fui meu pior juiz, já me sentenciei à pior das penas quando permaneci trancada no
meu quarto de dor com medo, me sentindo ainda abusada, ainda sem valor.
Quando crianças, não percebemos esse jogo sexual porque não temos um
valor moral pré-existente, não temos uma identidade previamente estruturada. Esta-
mos em processo de, em formação dessa identidade, dessa auto-imagem. Portanto,
é a família responsável pela estruturação dessa auto-imagem e identidade a partir da
afetividade, segurança e da educação saudável, oportunizando experiências salutares
e educativas ou não. Em famílias incestogênicas o cotidiano se constrói em bases
ardis, na intenção sexualizada e no exercício de negligência e coerção.
Tive muitas “certezas” ao longo da vida...
Tinha certeza de que a culpa era minha porque ele, o adulto, repetia isso pra
mim. Na minha cabecinha infantil, eu o havia seduzido porque era bonita e gostosa
(como ele dizia) por isso a necessidade de “matar” aquela imagem quando do abuso
sexual, por isso engordava, modificava minha imagem física. Sempre tive certeza de
que havia sido uma péssima filha porque era ingrata, saí de casa e “abandonei” o lar.
Acreditei na inverdade de que se papai e mamãe soubessem me chamariam de louca
e mentirosa e me abandonariam para sempre. E não suportaria outro abandono
filial.
Tinha certeza de que morreria aos 30 anos porque não gostava de viver, isso
era um desperdício pra mim. Minha vida era um exercício carregado de angústias e
inseguranças, de medos e culpas irresponsavelmente atribuídos a mim. Tinha cer-
teza de que nunca superaria nada do que me aconteceu porque acreditava mesmo
naquela culpa toda, na vergonha que sentia cada vez que me olhava no espelho. Eu
me sentia um dantesco desastre humano!
Mentiras sustentadas pelas atitudes incestogênicas da família em que nasci.
Farpas que rasgaram minha pele enquanto permaneci descolada de mim mesma.
Mentira vil que dá voz ao medo, a culpa e a vergonha, que nos torna fracas e inde-
fesas. Mentira que ensurdece e discrimina quando nos permitimos ser julgadas pela
consciência nossa e alheia. Toda a família em que nasci está inserida nesse quadro de
violência sexual, toda ela contribuiu, de alguma forma, para o mapa de conseqüên-
cias dolorosas e pesadas que carreguei por todos esses anos e que me direcionavam
os passos e padrões doentios que me coordenavam ininterruptamente.
Mas somos tão mais fortes e mais sensíveis do que acreditamos, somos tão
mais corajosas e belas! É necessário o exercício da fala sim, a catarse terapêutica,
artística, verbal, corporal, visceral. Rasgue algumas das roupas sujas desse teu quar-
to pessoal, subjetivo e singular, ainda tão empoeirado e cheio de dor, mas também
cansado de acumular tamanho peso, tantas somatizações, culpas e vícios de medos e
dor. Cuide de você que é a pessoa mais importante da sua vida, sem falsos narcisos,
sem controversas colocações, dúbias por assim dizer.

Pele de Cristal 121


No seu quarto pessoal não há mais espaço para piedade, para a culpabilização
e vitimização. Aonde você pensa que vai carregando tanta dor, tanta escuridão?
Aonde você quer chegar? Pense nisso. Na morte física que desagrega e violenta, que
nos arrasta pela dúvida da continuidade, do que vem depois? Morremos quando
desistimos de viver e carregamos a culpa e a vergonha da violência sexual. Morre-
mos quando alimentamos o medo de enlouquecer e de sermos chamadas de chatas,
burras e culpadas. Morremos quando somos acusadas e nos submetemos ao julga-
mento social e externo, e morremos novamente quando isso se torna um hábito.
Morremos quando desistimos de lutar e de acreditar em nós, nas nossas possibili-
dades além da dor que nos acusa injustamente. A morte não é apenas a física. Há
muitas variações sobre a morte e o morrer e sentimos na pele muitas delas.
A nós foi imposta uma morte mental, cognitiva, física, moral, espiritual e
emocional. Esporadicamente migramos de um lado para outro porque nos sentimos
merecedoras da dor e da vergonha, nos sentimos parte da carga que despejamos em
nós mesmas. Podemos mudar isso. Lembre-se que ocorre primeiro internamente, na
nossa cabeça que retroalimenta o padrão de culpabilização e vitimização. Somente
depois disso é que externalizamos essas elaborações. Esse é um movimento que
ocorre de dentro pra fora, assim como deve ser o movimento de enfrentamento:
de dentro pra fora. A mesma funcionabilidade e padrão é então redimensionada e
reutilizada em prol do seu caminho de refazimento.
Aonde você acredita chegar com esse peso todo? Ascenda a luz do amor e
do perdão, do exercício tranqüilo da afetividade e da paciência para consigo. Diz
que amas alguém? Ame a si mesma! Diz que admira alguém? Admire a si que é flor
nascida de erosão e lodo. Diz que não agüenta mais? Não se machuque acumulando
novas culpas ou alimentando as antigas, não tens culpa alguma! Colha o dia percor-
rendo o caminho do perdão e do amor, um caminho de leveza e afeto, de respeito
e gentileza para consigo.
A criança é envolta, desde o princípio, numa teia em que o agressor demons-
tra uma falsa afetividade e um falso respeito por ela e, evidentemente, acreditamos
nisso. Somos crianças, afinal de contas. A infância denota a perspectiva do cresci-
mento paulatino, degrau por degrau. É importantíssima a vivência de uma infância
saudável e tranqüila para que sejamos adultos igualmente saudáveis e tranqüilos.
Num ambiente incestogênico e negligente, cremos que estamos seguras, confiamos
plenamente nos adultos que nos são fonte de afeto e exemplo, e não percebemos a
seqüência perversa a qual somos inseridas cotidianamente.
O pedófilo, o agressor sexual sempre precisa de algum artifício inicial, algo
que chame a atenção da vítima sem que ele se esforce muito pra isso. Ele precisa de
uma isca. Pode ser um brinquedo, ou um alimento que a criança goste muito, como
chocolate, por exemplo, ou pode ser um livro de figuras coloridas, enfim, pode ser
qualquer coisa. Ele se utiliza desse artifício para que a criança se convença de que
aquilo é uma demonstração de carinho. A criança é, portanto, seduzida sutilmente
e conduzida por esse jogo incestogênico através dos desejos sexuais, perversos e

122 Helena Damasceno


unilaterais do adulto pedófilo. É importante que se diga que o objeto de descarga
do fetiche perverso do pedófilo age como uma ferramenta de manifestação do in-
teresse e atenção da criança. A partir disso o jogo se inicia, e depois disso, o adulto
pedófilo encontra outras formas para manter esse jogo: a coerção verbal, física,
psicológica e emocional.
No meu caso não foi diferente, e claro que ele se utilizaria de um elemento
do qual já me interessava: fui inserida nesse jogo sexual por um presente que, na
verdade, nunca ganhei de fato. Recordo-me que ele me chamava atenção para ir ao
quarto dele sempre pra me dar um pequeno mimo que para mim era preciosíssimo.
Ficava toda contente por que ia “ganhar” uns adesivos da Pantera Cor de Rosa, que
eu a d o r a v a! A verdade é que nunca recebi aquele adesivo, sempre havia um im-
pedimento, uma frase repetida, velada e trancafiada nas paredes do quarto dele e na
minha alma: “amanhã eu te dou, pode acreditar, mas hoje não dá, deixa pra amanhã”. Era esse
o artifício primeiro que ele precisava para manter minha atenção naquele exercício
de envolvimento desleal na fantasia sexual dele. A Pantera Cor de Rosa aos poucos
se transformou na Pantera de Horror, no inferno real da violência sexual.
Fui uma criança negligenciada, nunca recebi muita atenção médica preventiva,
salvo quando percebei que, doente, estava segura. Então vivia no hospital, internada
entre tubos de aerosol, injeções, vacinas e biscoitos salgados com guaraná geladinho.
Essa era a parte boa das internações. A cada crise de asma ganhava a atenção que
tentava colecionar no cotidiano, mas que não recebia. Sabia que receberia uma boli-
nha num barbante quando saísse do hospital, e que ganharia uma boneca de pano no
sábado seguinte, comprada no mercado central. Mas essa rotina nunca me entediou,
ao contrário, era como se fosse um oásis, um contentamento sem fim! E ficava feliz
percebendo que a doença era uma forma de me perceberem vulnerável e de receber a
atenção que desejava. Então adoecer foi um veículo que utilizei bastante.
Mas quando cessava a doença, já não carecia da mesma atenção e retor-
navam meus fantasmas e demais inquilinos. Adorava quando recebia atenção dos
meus pais biológicos, mas isso não se dava com a freqüência e delicadeza que alme-
java. Eles sempre brigaram muito, verbal e emocionalmente e isso me incomodava
bastante. Tinha vergonha disso, era mais um peso pra mim. De certa forma acredita-
va que a culpa era minha, porque eu não estava lá para evitar as discussões e acintes.
Uma vez, durante uma discussão acalorada, tentei interferir e me dei mal... Nunca
soube qual dos dois me empurrou, tentei evitar a queda evidente amparando o peso
do meu corpo apenas com o braço direito. Impossível, já gritava de dor, machuca-
da, quando eles me perceberam no chão. Pararam de gritar, mas nunca me levaram
ao médico por conta disso, fiquei de braço imobilizado, deitado num travesseiro
bem grande. Tive febre e muita dor, mas pra eles não era necessário me levar a um
trauma-ortopedista, diziam que era frescura minha, que eu logo sarava. Nunca foi
frescura, aquela foi uma das maiores dores físicas que senti.
Uma das características da família incestogênica é a ação transgeracional, o
movimento que faz migrar a violência, a negligência e as demais especificidades de

Pele de Cristal 123


acordo com as atividades desse jogo. A família em que nasci não escapa da trans-
geracionalidade. Outro elemento familiar tem sérios comprometimentos quanto ao
exercício saudável de sua sexualidade. Há outro pedófilo, construído e acolhido pelo
ambiente familiar incestogênico, em exercício direto e ativo. Mas evidentemente,
um agressor sexual não se estabelece assim, num passe de mágica. Ele não acorda
um dia e pronto, encontra a capa da pedofilia e sai por aí, anônimo e em segurança
a abraçar a saga incestogênica. Há um comportamento e um movimento interno
reafirmado pelos exercícios de sociabilidade, desde já comprometidos com a omis-
são e a negligência, cúmplices da violência imposta pelo cotidiano patológico que
salvaguardam a continuidade do abuso sexual em outras gerações.
O pedófilo constrói o terreno para que a criança seja envolvida no jogo
sexual, para a realização do seu gozo individual e vil. Não importa a que preço, mas
apenas a segurança dele, a satisfação egocêntrica e egoísta. Tal o tio-agressor, outros
personagens dão seguimento ao ciclo de família incestogênica, mudam os persona-
gens, mas a estória segue o mesmo roteiro perverso.
Estudos e teorias há onde afiançam que algumas vítimas podem vir a ser
agressores em potencial. Bom, não desdigo os estudos teóricos, mas deixo minha
contribuição. Acredito que há algo no caráter, na estrutura e ou na essência desse
ser que se desvia e se abrem às portas da marginalidade. Somos sistêmicos portan-
to, não há uma única porta, mas várias portas distribuídas nos muitos corredores
internos e individuais.
É sempre muito difícil voltar à casa de mamãe, mesmo que mentalmente.
As paredes densas, carregadas de dor e das muitas recordações pesam ainda, e per-
cebo minha infância coberta das violências conjuntas que se agregavam à violência
sexual, compactuando e compartilhando o silêncio doloroso, a violência ingente.
Mas vejo a criança apesar de tudo, a delicadeza e beleza. Percebo quão gigante sou
eu para sobreviver humana e digna, trigo em meio ao joio e à rudeza daquela família
comprometida com a negligência e a dor.
Sempre fico surpresa quando observo o que se pode fazer com um ser hu-
mano. Podemos destruir a vida de alguém com meia dúzia de palavras repetidas,
podemos assassinar a auto-estima de alguém com o despotismo de mãos que acor-
rentam uma alma ainda a florescer. É na infância que desenvolvemos os alicerces de
sobrevivência, de caráter, de altruísmo ou não, de lodo e vícios que nos acorrentam
violentamente a posteriori. Fomos acorrentadas à violência sexual quando tivemos
o espaço do corpo e da alma invadidos por essa energia sexualizada e torpe.
Fui joguete num espaço onde deveria ser amada e cuidada, onde minha alma
deveria ser semeada pelo jardim das descobertas saudáveis, paulatinas, da alimenta-
ção cotidiana tranqüila, romântica e poética de vida simples e ética, fui roubada, não
tive nada disso. Estive numa família consangüínea sufocada pelas inúmeras tenta-
tivas insanas, mas sempre injustificáveis de que me tornasse aquela pessoa volúvel,
sem preocupar-me com a experiência humana na dimensão de que humanidade é a
minha casa, é o meu corpo, são meus amigos de ontem e de amanhã.

124 Helena Damasceno


A Pantera Cor de Rosa foi um artifício violentamente maquiavélico. E apesar
de tudo isso, de todas as dores acumuladas em 15 anos de convivência incestogênica
direta, e de todas as conseqüências difíceis de lidar, estou aqui, sobrevivi com dignida-
de e qualidade de vida. Respeito a experiência humana que dialoga através do afeto e
da simplicidade. Gosto de viver, de compartilhar as coisas simples e boas da vida.
Deles restam apenas umas lembranças dolorosas, mas que me fazem ter a
certeza da caminhada honrada e corajosa que segui pra chegar aqui; apenas algumas
dores mais, uma poeira ainda batida nas paredes do meu quarto, mas que aspiro e
expurgo sem pressa, sem saltos. Dessa poeira toda, nada sobrará.
A Pantera Cor de Rosa que virou Pantera cor de dor vêm sendo ressignifica-
da, vem me alimentar na experiência do enfrentamento, no desejo de cicatriz. Nesse
caminho de refazimento, de reconstrução, libertação e cura, caminho nos corredo-
res da casa de mamãe a espreitar a criança que hoje acolho e abraço, simbólica e
significativamente, abrigando sua infância e sonhos coloridos.
Venho dizer que você pode, sim, adentrar no silêncio do seu quarto pessoal, no
sagrado que lhe habita para que lhe seja revelada a beleza do autoconhecimento e da
receptividade, do processo de cicatriz que se faz presente e palpável quando desse
encontro. Faça-se a vida em si, sinta-a, toque-a...
Não importam as feridas, nem seu tamanho, nem seus espaços.
Enfrente-as com a fala do afeto e do amor, do perdão e do autoconhecimen-
to para que as cicatrizes revelem-se, serena e concretamente.

Pele de Cristal 125


Capítulo XIII

“Eu de vestidinho na varanda


minha vida brincando na janela
se não sou eu, quem é ela”?
Máscaras de azeviche
Não importam as feridas, nem seu tamanho, nem seus espaços. Enfrente-as
com a fala do afeto e do amor, do perdão e do autoconhecimento para que as cica-
trizes revelem-se, serena e concretamente.
A vida inteira vivi sob a custódia do medo, da mendicância da vida dos ou-
tros, da opinião alheia. Tudo e todos sempre eram mais importantes que eu. Não
confiava em ninguém, mas era impossível viver sem me relacionar com alguém. O
que queria mesmo era me perder numa ilha deserta e viver lá até morrer, pescando
peixe e colhendo frutas. Mas impossível ser feliz sozinha sem perceber outras ilhas
ao redor, a paisagem humana que inevitavelmente, aparece pra dizer que não esta-
mos sós.
Apesar dos inúmeros medos, comecei a me relacionar afetivamente com o
mundo porque apesar de tudo, ainda queria confiar nas pessoas e acreditar na vida
e na felicidade. Queria deixar aquele pesadelo pra trás, bem lá atrás. Fiz muitos ami-
gos, conheci muita gente nessa vida. Conheci muitas pessoas nas farras e calçadas,
nas idas e vindas das casas dos outros, nas praias e madrugadas, um bar aqui outro
ali, um encontro, um olhar e pronto, o cupido tinha cumprido mais uma missão. Eu
tinha mesmo muita sede de ser amada, de encontrar alguém pra viver uma relação
inteira, uma relação de confiança e respeito. Queria apagar aquele pesadelo do pas-
sado e “ser normal”, viver uma “vida normal”. Quando comecei a namorar outro
tormento começou, outra etapa dos meus medos e angústias: o sexo. Como é que
explicaria o medo da relação sexual sem ferir, sem melindrar ninguém, como tocar
nesse assunto, sem ter que me expor, sem ter medo de ser abandonada de novo?
Sexo pra mim era um assombro, uma terrível página que queria rasgar da mi-
nha vida, mas que não podia fazer isso assim tão simples, pois sempre haveria uma
segunda pessoa envolvida. Então como viver escondendo que não sentia prazer e
que tinha medo do contato sexual, como explicar que sentia nojo do toque da mão
estranha na minha pele menina ainda, como dizer que eu tinha medo de enlouque-
cer com os pesadelos e as lembranças que me apareciam fatalmente, como dizer que
tinha medo de ser usada de novo, como explicar que eu tinha medo de tudo? Não
dizia nada, chorava, me punia e me trancava silenciosamente naquele quarto de dor
lacrado pela desesperança e fingia, mentia porque precisava daquele afeto temporá-
rio pra não surtar, pra não perder totalmente o resto de fé que tinha na vida e nas
pessoas e porque não dizer, em mim mesma.
Mendigava afeto nas relações me submetendo aos caprichos do outro por-
que me via sem valor. Era como uma alma perdida que quando vê ascender uma luz
segue sem perguntar que é a luz e pra onde ela vai. Mendiguei muitos amores, mui-
tos favores, fingi prazer naquele contato momentâneo e frenético de falso deleite.
Era a pena que sentia de mim que me fazia enxergar nessas relações a falsa
sensação de segurança. É claro que me sentia mal, sabia que estava sendo usada no-
vamente, de outra forma, mas me permitia esse tipo de situações, e o fazia porque

Pele de Cristal 127


acreditava não ser digna de viver uma relação diferente e pior: tinha certeza de que
modificaria as atitudes do outro, acreditava que mudaria o outro com o meu amor.
Como podia desejar mudar a vida de outra pessoa se não mudava nem mes-
mo a minha? Era pela culpa que carregava devidamente guardada naquele quarto de
dor empoeirado e fedido, cheio de prateleiras de amargura, que acreditava precisar
daquelas relações doentias onde, sempre em segundo plano, me submetia a viver
uma vida que não era a minha, mas que me dava a sensação alucinógena de que
estava salva e feliz.
Quando vivia sob o julgo físico do tio-agressor, acreditava que nada podia
ser pior do que já vivera. Mas houve um momento em que meu tormento virou um
pesadelo de proporções muito maiores. Até menstruar, “ficar mocinha” como dizia
mamãe, o nojo e a vergonha do abuso sexual me acompanhavam rotineiramente.
Mas ainda não sabia que poderia ser pior, nem imaginava que o inferno poderia ser
maior. Com a menstruação, o pesadelo ficou um monstro gigante, incontrolável e
assustador. Nós éramos aquela família tradicional que não dialoga e que cria os fi-
lhos tão somente, em maiores preocupações e segundo as normas sociais dos bons
costumes e dos tabus arraigados alguns até os dias de hoje.
Na véspera de “virar mocinha”, aproximadamente aos 12 anos, fui de novo
abusada, e dessa vez violentamente. Lembro-me de que fiquei horas no banheiro
depois chorando compulsivamente e tomando um banho interminável, me lavando
sem parar, até quase o sabonete acabar. Sentia-me a pessoa mais imunda do mundo,
a mais podre e feia, a mais suja.
Até ali, naquele divisor de 12 aninhos, onde o abuso ganharia um caráter de-
finitivamente mais violento, o pesadelo real que vivia era, digamos assim, um pouco
menos assustador. Havia outra margem daquele rio ainda desconhecida pra mim,
mas que se abriria definitiva e dolorosamente. Nem cogitava a idéia de ser mãe, isso
me apavorava. Eu vivia o pesadelo de uma possível gravidez todo mês. Enlouquecia,
gritava de medo, desejava morrer só de pensar na hipótese de ter um filho daquele
homem asqueroso. Chegava a pedir pra Deus matar minha alma. Sempre acreditei
que somos seres espirituais vivendo uma experiência humana, e no meu desespero,
queria encontrar Deus e pedir que ele matasse minha alma, anulasse minha carta de
passagem pras experiências humanas.
Gravidez, nem pensar! Nem menina, nem menino. Tinha receio de ter uma
filha e de abandoná-la como fizeram comigo, ou pior, tinha medo de vê-la vítima
dele também, eu que era uma menina fraca e medrosa, tinha medo de que minha
filha fosse igual a mim, porque filho de peixe... Depois pensava na idéia de ter um
menino. Era ainda mais pavorosa. E se a criança fosse igual a ele, se fosse o retrato
do homem que eu tinha ódio, pavor? Tinha pesadelos terríveis pensando nessas
duas hipóteses.
O tabu da sexualidade vem carregado do fardo pesado dos séculos ante-
riores; séculos que conviveram com uma sexualidade silenciosa, com a evolução
das organizações sociais em torno dos movimentos culturais e antropológicos que

128 Helena Damasceno


regem nossos comportamentos, padrões e a construção social da realidade hoje. O
tabu do silêncio prega a tradição: não se dialoga com os filhos sobre sexo, sobre as
responsabilidades sexuais, sobre dignidade emocional e ética, sobre a cidadania que
se encontra nos mais variados movimentos de sociabilidade.
Criamos nossos filhos até hoje. A bem da verdade, sempre me peguei refle-
tindo sobre a frase “criar filhos” e o que está incluso nela cultural, histórica e social-
mente. Sempre pensei que seres humanos não deviam ser criados, deviam, sim, ser
educados, amados e orientados à experiência de viver com dignidade e amor. Pra
mim que fui criada, há uma diferença gigantesca. Não é mera questão de semântica,
há um corte funcional nas palavras criação e educação, há uma separação real e que
macula a experiência infantil do peso cultural que cada palavra carrega.
Quando se educa um ser humano, cuidamos de seus primeiros passos com
amor e carinho, facilitando o processo de aprendizagem com serenidade, apontando
valores solidários e justos. Apoiamos seus passos na delicadeza da segurança pri-
meira e cuidamos dos primeiros espaços de sua vida com amor, e o amor retribuirá
profícuo e certamente. Comunicamo-nos, a priori, a partir da linguagem que nos é
facilitada, daquela que nos é apresentada no ambiente da família, primeiro contato
nosso com a sociabilidade. Depois expandimos o aprendizado que foi o acumulado
a partir desse contato para a escola, para a comunidade e para os demais espaços de
convivência.
Criar um ser humano é diferente de educá-lo porque, quando criamos, aper-
tamos o botão automático da materialidade, do que está posto cultural e historica-
mente sobre a palavra criação. Basta que suas necessidades materiais básicas sejam
atendidas e tudo bem. Casa, comida, vestimenta, atendimento médico, remédios,
materiais de higiene pessoal e pronto, temos na contabilidade filial, um saldo de-
vedor eterno e justo para aqueles que, donos do investimento, esperam retorno
equivalente. Afeto se “paga” com afeto. Eu que fui devidamente criada, carreguei
o peso histórico dos pecados e dos tabus envoltos no diálogo da sexualidade, na
socialização e na legitimação dos ardis sociais.
Para mim sexo passou a ser motivo de inquietação e angústia interior. Al-
quebrada pelas vivências dolorosas, vivia relações doentias e me escondia na falsa
segurança do álcool para sobreviver. Geralmente estava bêbada quando me relacio-
nava sexualmente e consegui me enganar bastante até que me envolvi numa relação
mais séria e, dividir o espaço do lar foi de um constrangimento inevitável. Não podia
estar bêbada todos os dias, isso é fato. Sabia que agredia a mim enquanto mulher e
ao meu corpo, destruía minha saúde. Sentia-me a mais imunda das mulheres, mas
não conseguia impor nenhum limite, nenhum desejo, nenhuma vontade. Só o outro
poderia desejar e sentir, e limitar.
Sexo era uma coisa suja, nojenta, algo imundo e que me trazia, além de
péssimas recordações, muito medo. Eu acreditava que tinha sempre que satisfazer
o outro de todas as formas. Sexo era sempre aquela via de mão única e ruim. Sem
pensar em mim, na minha lucidez física e emocional me submetia às relações mais

Pele de Cristal 129


doentias e severas: medo, desvalor, pesadelos, co-dependência, sensação de inferio-
ridade, ansiedades, angústias, fobias, compulsões alimentares, medo da gravidez; a
mesma menina ainda abusada no jardim de casa. Acreditava na minha inferioridade
enquanto ser humano e mendigava afeto em relações difíceis, sempre exagerada-
mente dependentes e violentas.
Traí, fui traída, fui motivo de apostas pejorativas, de fofocas, de humilhações
e desdém coletivo, menti e mentiram pra mim, fingi alegria, prazer e felicidade,
chorava e sofria pelo fim das relações doentias, não me alimentava, não me cuidava
a saúde, dormi em calçadas sujas, em camas medíocres, me escondi no álcool, no
vício do medo e na comodidade da exclusão, da agressão física e verbal minha para
com o mundo, que me pagava na mesma moeda.
Machucava-me fisicamente mentindo pra mim que aquilo dava alívio porque
precisava explodir, precisava gritar e ser ouvida, ser amada, mas pareciam que to-
dos estavam surdos. Também estava surda nesse processo de dinamite, de azeviche
amargo que quase me levou para a insanidade real, para outros caminhos bem mais
turbulentos que esse que segui. Custei muito para perceber que nada é definitivo,
que a vida é somente minha, e que sou eu que dirijo o carro da minha vida para
chegar, senhora de mim, ou não, ao capítulo final dessa experiência humana.
Ser livre e viver sem os pesadelos, sem as angústias da violência sexual, sem
sentir medo de sair à rua ou de me relacionar com as pessoas, viver acreditando em
mim, na minha força e coragem, na minha sensibilidade e beleza, mulher gigante
que sou e que tenho orgulho, é isso é o que me movimenta, é o que me faz tirar o
pé do lacre daquele quarto de dor, o qual visito e enfrento de cabeça erguida, sem
vergonha e sem peso, retirando tudo do lugar, batendo o pó da dor e da culpa para
viver dignamente. Percebi felizmente que minha felicidade, minhas expectativas de
afeto e luminosidade estão verdadeiramente em mim. O outro era apenas um sím-
bolo do que queria pra mim, mas que evitava enfrentar porque estava tudo guardado
naquele quarto de dor, lascado pela violência sexual que sofri; o outro era o espelho de
mim mesma que evitava e atraía.
Viver é hoje e o que foi, está lá, no lugar do ontem, para que possa ser perce-
bido enquanto experiência. E nada me difere mesmo de você. Se posso ver e ouvir
o caminho de reconstrução, libertação e cura, você também pode, porque somos
e temos a mesma experiência, somos a mesma carne, a mesma alma. Isso que dói
dentro de ti, também passa!

130 Helena Damasceno


Capítulo XIV

“Morri e não sabia,


desconhecia a vida...
Nem nasci...
Fui um esgoto de leito escroto
que me esqueceu na dor...”
Suor de vidro
Viver é hoje e o que foi, está lá, no lugar do ontem, para que possa ser perce-
bido enquanto experiência. E nada me difere mesmo de você. Se posso ver e ouvir
o caminho de reconstrução, libertação e cura, você também pode, porque somos
e temos a mesma experiência, somos a mesma carne, a mesma alma. Isso que dói
dentro de ti, também passa!
Quando estava sob o julgo daquele homem, me sentia a pior das mulheres,
a mais imunda. Tinha nojo dele, da voz dele, do suor dele que me rasgava a alma
como vidro cortado e arrastado sobre a minha pele virgem e menina, ele me matava
por dentro. Tinha nojo da barba dele me violentando o pescoço, daquelas mãos
investigando meu corpo como a descobrir novos espaços de dor, regiões ainda des-
conhecidas pra ele, mas que fazia questão de invadir e deixar suas marcas de homem
sem caráter, sem escrúpulos.
Nunca consegui gritar... Pra dizer a verdade, mal conseguia respirar, ou me
mexer. Ficava que nem um bichinho acuado e sem saída, inerte. Ele me dizia que
estava me ensinando a ser esperta, a ser uma “mulher sem frescuras”, dizia que meu
marido ia adorar porque não teria que me ensinar nada!
Palhaço! A que preço ele calculava a compra da minha alma que, na verdade,
nunca esteve à venda?
Acreditei nele quando ele disse que não ia doer, era uma menininha ingê-
nua...
Acreditei quando ele fingiu um afeto desinteressado, acreditei que era de
verdade, acreditei quando ele dizia me proteger e me assegurar uma vida saudável e
tranqüila, sem pesadelos de terror, só a alegria de um parque de diversões em pleno
domingo de festa. Acreditei nele quando ele disse que aquele era “nosso segredi-
nho”, e acreditei novamente quando ele me disse que se o revelasse, todos ririam de
mim e que meus pais me odiariam e me abandonariam, e o fiz porque ele me fez crer
que a culpa era minha. Mentiras construídas sob meu inferno gigante.
Na primeira vez, era uma menininha assustada, sem saber que aquela coisa era
uma invasão e que ali, teria minha infância seqüestrada, levada de mim violentamente.
Nas outras vezes tinha vergonha, medo, pavor... Mas já estava desfalcada minha condi-
ção de criança, era uma menina já sem vida, morta pelas mãos, pela violência de um ho-
mem inescrupuloso que me desmontou as defesas cotidianamente, silenciosamente.
Quando ele invadia meu corpo, ou quando sentia a pele dele se aproximando
da minha, o suor dele me rasgando a alma ou o odor fétido de seu hálito me inva-
dindo a garganta, um pavor tão grande me acometia, um desespero gigantesco me
consumia por dentro. E não conseguia reagir, só chorava, só perecia...
Pedia a Deus pra que eu morresse ali mesmo, pedia pra que Ele pusesse um
fim na minha vida de uma vez por todas. Mas ninguém parou aquele homem, nin-
guém conseguiu detê-lo, nem Deus. Nos momentos mais desesperadores, quando
ele me avisava com aquele olhar de delírio maldito que aquela era a minha hora do

132 Helena Damasceno


pesadelo, ficava pálida, com aquela cara de enterro, com cara de dor e que todo
mundo vê, todo mundo sabe que você está sofrendo. Não se disfarça a dor da vio-
lência sexual, ela fica estampada na nossa cara, aparecem as marcas da desesperança
total, da dor tirana que corrói nossos sonhos e nossa alegria. Ficamos de luto, cho-
ramos pelo assassinato dos nossos sonhos, da nossa infância e identidade pueril.
Apenas quem passou por uma perda grande, sabe o que significa o luto.
Luto a gente carrega quando uma parte da gente morre, desaparece fisicamente dos
nossos olhos. Pode ser alguém da família, pode ser algo da gente mesmo. Minha
alma morreu quando aquela mão me inspecionou a infância e seqüestrou minha
auto-estima, meus direitos e minha vida saudável, quando me roubou o melhor,
quando me flagelou a estirpe.
Quando a mão dele estava dentro de mim, ou desertificando o meu corpo,
implorava pela morte física ou por uma salvação, um milagre. Minha cabeça dese-
nhava um monte de possibilidades. Pensava em gritar, em me esconder, em fugir,
mas sabia que ele sempre me encontraria, porque eu era uma criança, tão somente.
Dependia da barganha filial para tudo, então pensava nas mais variadas tentativas.
Minha idéia favorita era fingir que estava morta. Quem sabe ele se assustaria e sairia
dali, me deixando em paz, ao menos naquele instante. Minha pequena lógica infantil
me impedia de pensar na fuga para a próxima tentativa dele. Tentava me salvar por
um dia que fosse. Qual nada! Numa lógica esdrúxula e inescrupulosa, ele con-
versava sozinho, sem nenhuma participação direta minha, quer seja na elaboração
daquelas frases perversas, quer fosse nas respostas que ele mesmo criava e dizia. Ele
elaborava diálogos inteiros, criava e fazia muitas perguntas, que ele mesmo respon-
dia, e sempre na mesma velocidade e confusão mental que as inventava.
Mas quero enfatizar um dado importante: deixo claro que ele sempre esteve
bem lúcido. Para ser mais precisa ele nunca esteve bêbado ou drogado, por exemplo,
quando abusava de mim. Ele sempre estava lúcido quando me perseguia, ou quando
me observava tomar banho, ou mesmo quando retirava minhas calcinhas sujas do
roupeiro pra cheirar, um souvenir de sua ação violenta. Ele sempre esteve sóbrio e
lúcido quando investia sobre meu corpo, o peso do seu e de todos os seus fetiches
perversos. Ele sabia o que fazia, sabia que me invadia, que transferia pra mim toda
a responsabilidade daquele horror, ele sempre soube que seus atos eram um crime
sexual, que me confiscava a alma n’algum lugar deserto e sem vida.
Nas raras vezes em que conseguia juntar minhas precárias forças na tentativa
de gritar, ou coisa parecida, quase não conseguia deixar escapar a voz da garganta,
não porque não quisesse, mas porque não tinha forças. Da minha boca só saía um
ruído ralo, fraco. Pedia, implorava pra que ele parasse com aquilo, mas ele nunca me
ouviu, ficava ali, como se estivesse sozinho, dialogando com seus devaneios e lou-
curas, usando meu corpo como se fosse um depósito de lixo líquido, repetindo que
eu era “esperta”, que tinha “nascido praquilo”. Nunca foi uma incursão ao acaso ou
involuntária, foi uma ação devidamente arquitetada no convívio familiar, uma intro-
missão maldita e que ele construiu premeditadamente, na rotina daquele lar.

Pele de Cristal 133


A família em que nasci contribuiu com a negligência direta, fazendo vistas
grossas ao abuso sexual diário e habilitando silenciosamente as demais violências,
para que estas sustentassem a tranqüilidade com que o agressor se movimentava no
meu corpo, na minha alma.
Lembro-me de uma tia, irmã dele que sempre que podia, dinamitava minha
auto-estima em formação. Ela repetia que eu morava naquela casa de favor, que não
era filha da mãe dela (minha avó, mas como já disse, não sei o que é ter uma avó,
tive uma mãe em dose dupla), que era astuciosa porque era diferente, uma criança
arredia, sem vaidades e estranhamente pálida e seca. Fui uma pessoa que viveu sem
prazer na minha vida até alguns anos, um tempo atrás. Também não confiava em
ninguém, não acreditava que ia melhorar e que pudesse viver sem me sentir sufoca-
da pelo medo, sem sentir angústias, vergonha ou culpa.
Era tão arredia ao contato do afeto, que certa vez, uma amiga, que semeio
até hoje, veio me abraçar. Fugi dela com uma cara tão assustada, tive medo de ela
abusar de mim de algum modo. Desconhecia o abraço enquanto ferramenta de
proximidade saudável ou como demonstração de afeto benfazejo. Ela me sorriu
tranqüilamente e me acarinhou com a afabilidade do respeito. Aprendi com ela o
significado de um abraço verdadeiro, de um afago sincero e despretensioso, aprendi
que afeto se constrói numa relação saudável, sem rodeios, sem hipocrisias, e que é
possível se construir relações assim. Percebi, por meio da amizade dela, que não
estava sozinha, que podia aprender sobre a delicadeza da vida, não apenas conhecer
o lodo e a dor.
Mantive contato com o pior que pode haver no ser humano: a mentira, a
inveja, a falta de caráter, a violência e a crueldade. Mas também conheci pessoas
generosas, gente de verdade e que me ensinou a reconhecer minha beleza, caráter e
energias mais gentis e verdadeiramente solidárias.
Lentamente levanto-me do chão, serenamente retiro o peso da culpa das vio-
lências que sofri; tranqüilamente me preparo para o que há de melhor e mais doce, me
abro para as possibilidades do bem, da delícia de viver a leveza e a gentileza de estar
viva sem medo, sem vergonha, sem me escravizar a alma e a experiência humana.
Nunca foi nada fácil... Não engano ninguém com uma fantasia de sábado
de carnaval. Pra gente é quarta-feira de cinzas. É difícil mesmo porque temos que
mexer na falsa idéia de que nunca conseguiremos sair disso. Idéia propagada pela
irresponsabilidade daqueles que nos feriram torpe e violentamente. A eles interessa
a culpa, o medo e a vergonha, não a nós.
Acumulamos a gordura da vergonha, o peso do medo do contato social, do
envolvimento e do toque emocional e afetivo com o outro. Amontoamos a culpa
da violência sexual, do “abandono” das pessoas que passaram por nós e não fica-
ram, dos muitos medos que adicionamos ao peso do nosso corpo e da nossa alma
calejada. Pagamos um preço muito alto pela grade (in) visível que nos acorrenta e
cerceia nossa pele e vida a parir do abuso sexual que sofremos. Cair vamos muitas
vezes, porque andar traz o movimento do desequilíbrio, e que dança mágica é o

134 Helena Damasceno


movimento, saímos do lugar! Para andar, os pés caminham numa dança de alego-
ria interior de perda e reconstrução. Ir e vir simbolicamente na magia da vida sem
perdas e danos maiores.
O mais difícil foi vir até aqui. Não há inferno maior que aquele que vivi.
Daquele passado de odor forte quero apenas a cicatriz. Renasci das cinzas desse tor-
por com asas de um Ícaro meu, um Ícaro real nesse caminho de luz. Sigo à estrada
com asas de amor e perdão e sobrevôo minha própria maturidade nesse caminho
de cicatriz e cura com gentileza e segurança. Mas fui presa fácil da desilusão muito
tempo. Quando mamãe morreu, me vi absolutamente órfã e sozinha num mundo
gigantesco onde não amava ninguém, não confiava em ninguém e tudo e todos eram
estranhos pra mim.
Minha hora de enfrentamento havia enfim chegado, mui dolorosamente.
Passei por todas as etapas de desprendimento daquele momento. Vi a mãe que a
vida me deu de presente ser embalada numa caixa de madeira e despedir-se de mim
sem que eu pudesse evitar. Mamãe passou mal e quando cheguei ao hospital encon-
trei com aquela família toda num sofrimento assustador. Tive uma rápida conversa
com ela dois dias antes de ela deixar aquele corpo material. Disse-lhe que ia ficar
tudo bem, que ela não se assustasse, pois não estava sozinha, que tudo era natural...
Sem saber, me despedia dela. Mas na verdade, quem estava assustada era eu. Sentia-
me novamente aquela menininha abandonada, largada à estranheza do mundo sem
direito a nenhuma intervenção naquele quadro de partida.
Mamãe saiu de mim às 14 horas de uma tarde difícil e dolorosa. Busquei
seu corpinho desabitado e cuidei dele até o último instante. Elaborei aquela dor
enquanto pude, porque não queria beber novamente aquela dose ingrata de culpa
que acumulei quando da morte física de papai. Foi difícil entrar no jazigo e deixá-la,
ver toda a família alquebrada porque sempre fomos matriarcais e nossa Matre Dona
estava ali, sem movimento algum, seu corpo silenciosamente depositado naquela
urna de madeira.
Numa cultura ortodoxa como a nossa, ocidental e judaica cristã, a morte é
um fardo pesado demais para se carregar. Tememos o que não conhecemos e há
uma repulsa natural ao enfrentamento das coisas que se partem e se vão para longe
de nossas vidas. Sofremos as perdas e a isso chamamos luto. Sobre a morte e o
morrer das coisas e das pessoas diz-se que se faz necessário elaborar a perda, atra-
vessando alguns estágios que vão desde a negação até a aceitação e superação. Penso
que esse ritual de despedida do elemento de partida é absolutamente necessário para
que se chegue ao último estágio com saúde mental e emocional consideráveis.
Nunca pensei sobre vingança de modo articulado, frio. É claro que sempre
desejei que aqueles que me feriram, sentissem alguma dor, alguma perda grande
para que compreendessem meus movimentos de dor, meus altos e baixos e minhas
aparentes irresponsabilidades. Sabia que aquele ritual seria fundamental no processo
de elaboração da perda física da mãe dele (do tio-agressor). E ele não estava lá. Al-
gumas circunstâncias o impediam de vivenciar todo o processo fúnebre da própria

Pele de Cristal 135


mãe e eu pensei enfim que ele sofreria uma dor real, uma dor que o abateria pro-
funda e violentamente. Senti inevitável sabor de desforra e não me considero uma
pessoa ruim por conta disso. Não há nenhum peso hipócrita e moral nisso e não me
justificarei, sob nenhum aspecto, não é preciso.
Passado o tormento dos primeiros dias, vi-me realmente sozinha e órfã na-
quele mundo novo e estranho. Surtei, entrei numa crise depressiva enorme, passei 1
mês consecutivo sem trabalhar, fora as ausências diárias e semanais, fiquei muito mal.
Ora, pois se passei a vida toda guardando o segredo da violência sexual, justificando
nas figuras de papai e mamãe todo esse peso e silêncio, o que fazer a partir dali, sem a
presença física de ambos, sem as correntes físicas a me sufocar a alma? Foi então que
percebi que havia outra família, a consangüínea primeira, a umbilical por assim dizer e
talvez fosse aquela a hora de refazer esses laços. Quem sabe seria interessante ressigni-
ficar minha identidade filial e aquele parecia um momento propício.
Mudei pra casa de minha mãe biológica tentando encontrar uma mãe na
mulher que me havia ferido o corpo e a alma com o abandono primeiro, com tan-
tas surras e humilhações (tanto morais quanto emocionais) e disputas infantis ao
longo da vida. Na verdade éramos duas estranhas dentro de casa, na casa dela, sem
significado afetivo, sem nenhum aparte de amor. Não sabíamos nada uma da outra.
Ela até tentou assumir aquele papel de mãe preocupada e cuidadosa, mas estávamos
distante demais para encontrar esse caminho, e nem sei se estávamos dispostas a
reencontrá-lo e trilhá-lo. Já totalmente independente, saía e voltava de sua casa a
qualquer hora, e ela interveio subitamente sobre isso. Reclamava, insistia que não
estava certo, mas não havia a possibilidade do diálogo, ela despediu essa hipótese
anos antes quando entregou sua primeira e única filha mulher para a própria mãe.
Não renego nem papai, nem mamãe, mas essa confusão de papéis, esse
abandono filial primeiro e essa confusão de casa, pai e mãe, tudo isso deixou um
terreno preparado para que o tio-agressor apoiasse suas intenções vis. E mesmo
que ela, a mãe biológica sempre tenha estado presente, não há partilha saudável na
alegoria de duas mães, não há possibilidade de haver dois úteros para um único feto.
Às vezes me sentia uma aberração da biologia. Pertencia àqueles dois úteros como
se estivesse partida ao meio.
Não se pode recuperar o que nunca nos pertenceu; ela não me podia recu-
perar o afeto, o respeito filial. Tenho apreço por ela, mas aquele amor incondicional
de mãe e filho, essa relação, vivi na alma com aquela que me despedi da presença
física tão dificilmente.
Não há um mapa para se chegar ao coração de um ser humano. O amor não
é uma varinha mágica que aparece de repente. O amor é construído na delicadeza dos
gestos primeiros, na fortuna do coração que habita a mãe no momento em que perce-
be sua cria pela primeira vez. Pode-se até levar um tempo para se perceber a própria
cria, mas não há mágica, há o enlace do amor construído. A construção do amor é um
fato, não há ilusão de amor quando ele coabita a essência interior e perpassa da expe-
riência humana individual para a partilha conjunta de viver em sociabilidade.

136 Helena Damasceno


Não podia dar certo mesmo nós duas dividindo o mesmo espaço de mo-
rada. Éramos duas mulheres chorando uma única mãe. Estávamos as duas de luto
pela morte física da mesma pessoa, falávamos nela com emoção, com saudade das
sandálias dela arrastadas pela casa, da voz dela falando das tarefas de mulher forte
e matriarca, saudades de sua presença marcante e firme. Como poderíamos reco-
nhecer alguma identidade maternal nossa, naqueles laços tão escassos? Saí de lá um
tempo depois. Mas tentei sim, muitas vezes ao longo dos anos, recuperar aquela fa-
mília de propaganda de margarina. Dói muito perceber que não vivi numa família de
construções saudáveis. Toda ela estava comprometida com violências seqüenciais,
algumas sutis outras menos hipócritas.
Dói ver-se envolvida nesse jogo sujo, amoral e antiético. Aquela casa me fere
ainda, ela ainda guarda segredos invasivos, violências e dores muitas, acumuladas nas
“brincadeiras” de mau gosto, na vivência dolorosa de abuso sexual habitual, na se-
qüência de agressões físicas e verbais que atingiam, não só meu corpo, mas também
a alma minha. Fui agredida dentro daquelas paredes hipócritas. Quantos segredos,
quanta superficialidade e aparências...
Não sou mais aquela menina assustada, envolvida nesse jogo sujo e perverso.
Sou uma bela mulher de 33 anos que caminha para si mesma e encontra o amor e
o perdão para libertar-se em definitivo, sem pressa, vibrando com serenidade e ma-
turidade cada conquista sutil. Encontrar-me é o grande laço que ato e desato nesse
caminho de cicatriz. E encontro-a na minha frente luzindo livre, o amor e a luz.
Nenhum deles pode me invadir por agora. Não permito nenhuma mão inva-
siva a me dinamitar os dentes. Não permito mais que me digam como devo viver. A
vida me foi dada para sentir, escolho agora o que quero pra viver, o que sinto. Não
mais alguma febre ou calor de medo, de culpabilização, de vitimização sombria.
O que quero tem o nome de liberdade, mas igualmente, mais profunda e su-
tilmente, o que quero atende pelo pronome pessoal e intransferível, reto e luminoso.
O que quero sou eu. E mais que reorganizar meu espaço interno, mais que crer nes-
sa minha experiência humana enquanto oportunidade de viver, mais que isso, quero
ousar acreditar nos meus desejos, nas minhas possibilidades de Ser.
Mas como foi duro chegar aqui sã! Os pedacinhos que me somam dizem
muito sobre as coisas de viver, da dinâmica de sorrir e chorar a qual vivi.
Sempre gostei de dormir até tarde, de deitar na rede e ficar sem me mexer
pelo menos uns 15 minutos antes de levantar. Sonhava acordada enquanto lavava
louça e cantava, cantava muito. Em contrapartida nunca gostei muito das tarefas
domésticas. Varrer a casa e engomar eram um tormento pra mim. Gosto das coisas
nas quais há o contato da água com a minha pele, água que me refresca e limpa. Do
que é seco e pó sinto repulsa.
Mas não haviam muitas escolhas, tinha que aprender a ser uma menina boazinha,
devidamente comportada e bem dentro dos padrões tradicionais, bem característicos das
famílias em geral, e em especial, as do século XX. Tinha que aprender as “prendas do lar”
como se tivesse uma doença que me impedisse de exercer outras atividades.

Pele de Cristal 137


A mulher do século XX, envolvida pelas energias transformadoras caracte-
rísticas desse momento histórico, ainda aprendia a rebelar-se contra os comandos
de uma sociedade construída sob a cultura do masculino. Com o advento do femi-
nismo e a abertura cultural, com o começo dos novos movimentos sociais, culturais
e políticos, com a chegada da revolução tecnológica que mudaria definitivamente o
cenário do mundo no século das contradições e dos extremos, o contexto histórico
do papel da mulher nessa sociedade galgou outros espaços e modificou, indiscuti-
velmente, a sua participação nas conquistas sociais, garantindo sua fatia nesse bolo
de humanidade e legitimidade histórico-político-social.
Em plena década de 80, a mulher já estava pronta para trabalhar fora de casa,
fazer cursos de nível superior, invadir os espaços da política ou outras áreas tipica-
mente masculinas, e ainda encontrar tempo e gentileza para alimentar os filhos e ser
a esposa conservadora que a tradição esperava dela, cumprindo com seus deveres
conjugais e cotidianos. Mas ali, em meio à explosão sócio-cultural daquela década,
enquanto o Brasil buscava sair dos anos de chumbo e a sociedade acalentava novos
sabores políticos e sociais, a juventude, e em especial a juventude feminina, ainda
trincava os dentes para os mais ortodoxos e tradicionais.
Ser a esposa fiel e comportada me era a única alternativa apresentada diante
dos bons costumes e das atividades de uma menina prendada e boazinha, típica
desse movimento mutante do século XX. Mas fui violentamente furtada dos meus
direitos constitucionais e humanos, direitos de ir e vir em segurança e liberdade.
Vivi intensamente a década de 80 e penso que esse momento tem grande sig-
nificado na construção de minha trajetória enquanto ser humano. Fez-me bem, me
manteve viva e lúcida acreditar na democracia, nos direitos civis e na cidadania de
fato. Aprendi nessa época a lutar e a acreditar na minha capacidade de enfrentar
as adversidades; só não sabia que muitas ainda estariam por vir tão dolorosamente.
Como sempre me vi como um fardo pesado demais, tinha medo de me
relacionar com as pessoas e não confiava em ninguém. E era muito difícil crer nos
homens enquanto livres de hipocrisia e leviandade. Tenho medo deles, tenho receio
de ficar perto deles, de ser amiga deles... É-me difícil confiar, ainda. Mas apesar
disso, do meu receio relacionado a esse fantasma do passado, tenho bons amigos,
homens que me são fiéis apesar de. Descobri que podia tentar vencer meus medos,
que podia entrar no meu cemitério particular de zumbis e modificá-lo, a paisagem e a
estética. Descobri que no meu comprometimento com o enfrentamento estava o
passo decisivo que me tiraria do lugar.
Não é fácil. Sempre me vem à cabeça as imagens de medo e todas as sensa-
ções de desconfiança e dor. Pensei sobre outros homens que passaram pela minha
vida e que, de algum modo, também abusaram de mim, ou de minha boa vontade
e honestidade, ou de minha vitimização. Claro que eles não sabiam o que guardava
n’alma, mas havia uma energia pesada em mim e que sinalizava verde constantemen-
te, quase que um caminho aberto para que me usassem de algum modo.
Descobri que sempre havia outro homem a abusar de mim novamente. Ge-

138 Helena Damasceno


ralmente o abuso segue com outros homens porque nos vemos numa condição de
vítimas eternas e apresentamo-nos frágeis. Para homens que sentem isso, essa nossa
vulnerabilidade, e têm uma intenção criminosa, somos um prato cheio, e seguimos
esse padrão de culpa e medo, levando-o para as demais sociabilidades experimen-
tadas por nós.
Lembro que conheci um homem bem mais velho que eu uma época, acho
que eu tinha uns 14 anos, ele devia ter uns 35, não tenho certeza. Foi na rua mes-
mo, passando pra padaria, ou quando ia à escola, o caminho mais rápido passava
perto da casa dele. Nem sei o nome da criatura, mas da noite pro dia ele passou a
me perseguir. Ele me procurava na rua, ficava me esperando voltar da escola, me
vigiava pelas esquinas, na pracinha ou perto de casa, aonde quer que eu fosse, lá
estava aquele estranho se dizendo apaixonado por mim. Agora vejam só, se eu lá
queria mais agressor na minha vida! Ele me pedia beijos, mandava bilhetes, peque-
nos presentinhos, chocolates, recadinhos apaixonados, bombons e eu bem conhecia
aqueles artifícios. Não caí na teia dele, nunca cheguei a permitir que ele se aproxi-
masse de mim de forma mais incisiva. Mas eu não conseguia ser definitiva e direta,
suficientemente clara. Ele fazia-se de ingênuo, recusava-se a compreender o limite
que tentava lhe impor, parecia que eu falava outro dialeto, ele era insistente demais!
De repente ele me pediu em casamento, me parou no meio da rua me em-
purrando contra uma parede, me obrigando a um beijo asqueroso. Percebi que o
agravante da imposição estava cada vez mais forte e fiquei apavorada, agora não
tinha paz nem dentro, nem fora de casa, vi-me obrigada a agredi-lo física e verbal-
mente. Disse com ele, tudo o que talvez quisesse dizer ao tio-agressor, mas que não
conseguia por medo. Pensam que aquele outro homem parou? Ele disse que gostava
de mim porque eu era sincera. Ele só parou de me perseguir de fato quando caí no
mundo e saí da casa de mamãe, nunca mais o vi, graças a Deus!
Mas o medo me habitava quando do contato social. Sempre tive dificuldades
em me relacionar socialmente. As relações sociais, cheias de contratos de superficia-
lidade, de toques físicos necessários à manutenção das trocas e dos encontros me
eram um tormento. Não conseguia ficar bem e tranqüila quando o assunto dizia sair
de casa, ver gente e me relacionar. Apesar de ter vontade de confiar nas pessoas, de
tentar crer que seria possível confiar no outro e nas respostas a partir desse contato
de socialização, havia uma fenda na minha alma, uma dor enorme que me fazia
desconfiar de tudo e de todos e que me impedia de viver com leveza. Quando um
amigo vinha me abraçar, por exemplo, tinha medo de encostar minha pele na dele,
medo das lembranças que me vinham à cabeça livremente: do odor do suor, das
mãos me invadindo, da barba no pescoço, dos pêlos a bordo da minha pele menina
ainda, de tudo enfim. E era inevitável fazer tais associações.
Tive sérias dificuldades em resposta das violências sofridas. Problemas ao me ali-
mentar, por exemplo. Qualquer coisa pontuda me enojava e necessariamente, ou vomita-
va, ou ficava nauseada, instantaneamente. Escovar os dentes, então, era uma tortura! Não
conseguia suportar a escova na boca mesmo sabendo que ela me fazia o asseio necessário.

Pele de Cristal 139


Era difícil cuidar do meu templo interno em meio a tantos recalques.
Meu corpo havia sido transformado num sepulcro vazio, eu não era nada,
nem ninguém. Não andava faceira como uma daquelas meninas que riem das coisas
da vida descobertas ao passo da curiosidade natural. Era eu uma menina morta que
vestida de um corpo de mulher imaginário e letal quando do abuso sexual, perdeu-
se de si, menina que foi machucada e largada numa gangorra de crises densas e
profundas, feridas que perduraram por toda uma vida. Fui uma menina forçada a
desacreditar da vida e que se carregava aos trancos e barrancos, que se arrastava aos
favores alheios e que nunca foi feliz.
Vomitei muitas vezes antes e depois do exercício da violência sexual. Um
nojo indescritível, mas que não preciso explicar. Algumas vezes, aquele homem de-
senvolvia novas táticas, novas facetas no jogo perverso e sexual. Na frente dos de-
mais membros da família, ele brigava comigo e me chamava atenção por qualquer
bobagem, desde a comida que deixei sobrar no prato, até minha preguiça nas tarefas
domésticas. “Cuidado não com essa menina... ela está ficando relaxada demais! Olho nela!”.
Outras vezes ele ia a outro extremo e me tratava muitíssimo bem, dizendo pra quem
quisesse ouvir que eu era “a sobrinha favorita dele”, que queria me ajudar nas tarefas
de escola e nos conselhos de homem adulto e responsável para que eu me tornasse
uma boa menina, uma pessoa direita.
Boa menina... Eu bem sei que boa menina ele queria que eu fosse. Uma me-
nina silenciosa, uma bonequinha de pele e osso que satisfaria seus desejos pedófilos!
E apesar de já estar submersa no pacto vil de sigilo e dolo, pacto esse que os reais
agressores obrigatoriamente nos impõem nesse jogo sujo e incestogênico, eu ousava
demonstrar, mesmo que sutilmente, alguns pequenos sinais de rebeldia. Repetia que
o detestava e deixava bem claro meu asco àquele homem, da voz à existência dele.
Essa minha atitude, de resistência e delação, só piorava o assédio moral e o bullyng
que sofri conjuntamente e, a posteriori, pois, sempre fui considerada uma “menina
maluquinha, irresponsável e louca”, uma rebelde sem causa, sem nenhuma lógica
aparente que justificasse minhas agressões verbais e comportamentais para com
aquele homem tão bonzinho e exemplar.
Meu primeiro beijo inocente foi escondido atrás da mão do garotinho, da
mesma idade que eu. Era meu descobrir saudável das coisas de estar viva que ainda
se exercitava, se rebelava em mim. Teimava ainda em acreditar nas coisas belas e
benfazejas, ousava ainda sonhar quando estava fora das grades invisíveis que me cer-
ceavam a sanidade. Às vezes parecia que teria uma vida normal, como a de qualquer
outra menina nascida de uma família tradicional: crescer, namorar, noivar, casar, ter
filhos e daí começar tudo de novo, só que com meus filhos e netos.
Essa idéia poética e romântica me foi assassinada muito cedo. Aquele homem
me agrediu os espaços do corpo rotulando minha alma numa prisão de culpa e medo,
aquecida pelo peso das lembranças físicas, mentais e emocionais, meus pesadelos coti-
dianos. E ele fez da minha vida um inferno, um tormento por muitos anos.
Eu sei exatamente o que passei por não suportar o peso do abuso sexual,

140 Helena Damasceno


da vergonha de me olhar no espelho sem conseguir escovar os dentes direito, salvo
com minha própria mão, sem conseguir cuidar da saúde do meu corpo a contento,
nem confiar em ninguém, seja em outros homens ou não, me tornando ao longo
dos anos uma pessoa amarga e pesada, sei bem o que foi ter sido criada por uma
tradição adulto e falocêntrica, sendo preparada para ser uma esposa certinha, sem
voz diante do marido autônomo e meu senhor, uma boa menina.
Nunca consegui mesmo aprender a varrer uma casa... Queria mesmo era ser
dona da minha casa interior, varrer o meu quarto pessoal batendo todo o pó e abrindo
as janelas de minha alma para que o sol do amor e da vida entrasse, luzindo perdão e
maturidade serenamente. Queria mesmo era ser senhora dos meus desejos e sonhos,
sem sinhozinho, sem casa grande e senzala.
Fez-me muito mal viver naquela roda gigante de violências. Mas aos poucos
abro as janelas do meu quarto para a luz do perdão que trouxe vida para minha alma.
Aos poucos escovo meus dentes e me liberto do asco das coisas da dor, do medo e
da culpa. Aos poucos venho aprendendo a dizer sim às novas amizades, aos homens
que me percebem hoje como amiga e vice-versa. Aos poucos tenho compreendido
a grandeza de viver os dias com plenitude apesar de. Apesar das dificuldades existi-
rem, desabilito-as. Sou mais forte que todo o medo, que toda a dor.
Sou tudo que trago dentro de mim. Sou forte, corajosa e sã, uma bela mulher
sorrindo pra si mesma sem desvios, sem pressas ou culpas. Estou em busca do que
sou verdadeiramente, sem vestígios outros que não eu mesma ou minha própria liber-
dade. Sou o que sou simplesmente e não mais o que querem que eu seja e acumule.

Pele de Cristal 141


Capítulo XV

“Não sei bem o que me rasga,


o que fere, o que me arde...
Sei só o que me é carne,
Chuva de um tempo,
gota a gota que me cabe...”
Diário de chão
Sou tudo que trago dentro de mim. Sou forte, corajosa e sã, uma bela mulher
sorrindo pra si mesma sem desvios, sem pressas ou culpas. Estou em busca do que
sou verdadeiramente, sem vestígios outros que não eu mesma ou minha própria
liberdade. Sou o que sou simplesmente e não mais o que querem que eu seja e
acumule.
No meu quarto pessoal tem paredes que foram pintadas a grosso modo e
cobertas pela tinta da mentira e da dor, do sofrimento. Mas tudo que quero ser está
dentro de mim e nesse quarto pessoal, há também a fortaleza que me processa esse
caminho de refazimento e luminosidade. Muitos passos até aqui, muitas visitas ao
fundo do que há de pior.
Acho que é fuligem. É... Se não me falha a memória, e se não houve uma
ilusão de óptica, a cor do fundo do poço é essa: fuligem. Terrível e frio, sem cobertas
a aquecer o corpo cansado, sem carinho de amigos ou conhecidos, sem nada! Lá
tudo é escuro e seco, não há afeto ou silêncio, tudo é inferno!
Quando desisti de viver e entreguei-me ao cansaço de não suportar mais
aquela dor, quando superlativei meus medos e minha insegurança e assimilei as res-
ponsabilidades de uma culpa que nunca foi minha, desacreditei em mim mesma e
perdi o gosto pela vida. Entrei de cabeça no fundo do poço, nem vi se tinha fundo
mesmo, e fui caindo, caindo, caindo... Bati a cabeça no chão violentamente. Mas ne-
nhuma dor podia ser maior que aquela que carregava na alma. Aquela sim era mestra
em me destruir e me sabotar as poucas tentativas de felicidade.
Em 2005 cheguei ao meu limite. Não dava mais pra suportar fingir de viver,
brincar de existir e não agüentava mais sofrer, não confiar em ninguém, chorar sem
parar, me esconder da vida e ter medo, me sentindo sempre inferior, sempre um
nada. Muitas coisas a remoer e reorganizar...
Sabe quando você é atingida por um tiro bem no meio da boca e a bala fica
presa na sua garganta, entalando e impedindo a passagem de ar? Não sabe não é?
Quem leva um tiro assim fatalmente deve falecer. Mas essa é uma alegoria cabal de
como me senti ali: morta, envergonhada, sem chão e sem fôlego.
Tinha passado muitos anos sofrendo por ser rejeitada, por não ser a boa
menina, prodígio e certinha que minha mãe biológica tinha querido sempre. Sofri
muitas vezes por não ser o que eles queriam, por ser estranha, feia e desajeitada e
por não ser uma pessoa leve e gentil, branda e feliz, alegre e corajosa. Era um ser
esquisito, desastrado e irresponsável.
Sofri muito ao longo dos anos, porque assumi que era burra e astuciosa e
admiti, erradamente, que havia jogado fora minha oportunidade de viver feliz e em
família quando desagreguei o lar, deixando-o friamente. Mas não éramos uma famí-
lia, nunca fomos. Éramos um grupo de pessoas reunidas em torno da força matri-
monial de um casal que havia sido desfeito pela finitude material há alguns anos.
Pensava que mais nada do que dissessem ou fizessem pudesse me surpreen-

Pele de Cristal 143


der mais, me abater mais. Em família, conversamos sobre um ato de violência sexual
cometido internamente e ouvi, seca e friamente, que uma menina de 13 anos havia
seduzido um bom e ingênuo rapaz que agira tão somente com o falo e guiado pela
cultura hipócrita do macho, que não pode pôr em cheque sua virilidade. Ouvi uma
voz seca me dizer o absurdo de que aquela menina não era vítima porque não era
mais “moça”, que ela que se ofereceu, que se jogou pra cima dele pois sabia muito
bem o que estava fazendo, afinal de contas, ela já tinha 13 anos e já estava “na vida”
há muito tempo.
Sociedade hipócrita demais, medíocre demais! Perdi a cabeça, rasguei umas
frases engasgadas e saí atônita, cuspindo fogo que nem um dragão de mau humor.
Fiquei muito mal depois que saí de lá porque na minha cabeça, esse era um recado
muito bem dado pra mim. E pra bom entendedor...
Ouvia aqueles absurdos num silencio doloroso. Nas entrelinhas me diziam
que a culpa havia sido minha porque sou mulher, porque seduzi o bom rapaz, ingê-
nuo e de conduta irrepreensível, com minha conduta duvidosa. Chorava silencio-
samente e, novamente, deixava aquela casa e aquela família sem nada dizer. Mesmo
adulta ainda havia dentro de mim uma criança machucada e profundamente ferida.
Ouvi absurdos de muitas pessoas. Estranhas, conhecidas, familiares, colegas,
“amigas”... Também ouvi muitos absurdos da mãe que me pariu e faz algum tempo
que deixei de desejar encontrar nela o amparo e a solidez de uma mãe no sentido
genuíno de maternidade, de generosidade para com a cria que a completa enquanto
Ser, enquanto mulher. Chorei muitas vezes me sentindo sozinha e abandonada, im-
prestável e suja. Muito ruim se sentir rejeitada pela mulher que pariu você. Parece
que se ela fez isso mais ninguém vai você ou desejar você porque você não presta,
não merece sequer ser amada, nem por ela, nem por ninguém. Sentia-me inferior
porque havia sido rejeitada. Já tinha a auto-estima comprometida, então quando o
tio-agressor veio com seu jogo perverso, eu já estava frágil, uma menininha-presa fácil
demais.
As afinidades são absolutas na escolha do cotidiano. Amor e afetividade se
constroem na comunhão diária de idéias, vidas e práticas cotidianas, de tudo enfim.
Muito fácil desacreditar a criança e suas falas submetendo-a ao juízo hipócrita e mo-
ralista geral, deixando-a acumular sozinha dor e marcas da violência sexual. Atitudes
como essas são uma realidade há muito tempo, isso não é novidade. A sociedade é
condescendente com crimes sexuais porque o tabu da sexualidade e do sexo é muito
grande, não há uma discussão saudável, não há um comprometimento apropriado
para a saúde emocional e integridade física e econômica das vítimas.
Saber da hipocrisia dessa sociedade me impediu sempre de fazer a denúncia.
Não estava preparada para esse enfrentamento com a falsidade e a mentira social,
com o juízo de valor de uma sociedade machista, adulto e falocêntrica. Calei en-
quanto criança e hoje não sei se, pra mim, a denúncia teria sido um bom caminho
àquela época. Dependia daquela família para absolutamente tudo: do alimento à
educação e não tinha estrutura alguma para enfrentar nem eles, nem os fantasmas

144 Helena Damasceno


do abuso sexual. E, é claro, não existia rede de atendimento, Estatuto da Criança e
do Adolescente, Delegacias Especializadas, nada! Como enfrentar o mundo sozinha
e desamparada?
Minha mãe biológica dizia que enquanto estivesse na casa dela, comeria do
seu pirão. Repetia que se quisesse viver de forma diferente, tinha que ter a minha
casa, minhas coisas, tinha que comer muito feijão. Saí pro mundo, e comi. Caí na
tempestade do mundo meio que subitamente, sem saber direito o que estava fazen-
do e como faria para sobreviver. Mas saí do alcance deles. Passei por muitas difi-
culdades, não somente financeira, mas dificuldades emocionais e sociais. Mas estou
aqui, inteira e determinada, com qualidade de vida e de Ser.
Por muito tempo pintei de preto as paredes do meu quarto pessoal, apaguei
sua luz central e me sentei sozinha num cantinho, fiquei quietinha, sem vela, sem
fósforo, sem luz, sem nada; permaneci morta pra mim e pra vida. Foi muito duro
ouvir aqueles absurdos todos, que era burra e não servia pra nada, que nunca seria
ninguém. Mas tudo isso serviu para que eu os visse com olhos frios, sem lágrimas a
me escorrer pela face, sem aquela culpa filial, aquela gratidão pela experiência da vida
a me acorrentar. Antes eu pensava que tinha que agüentar qualquer coisa porque eles
me deram a vida, porque ela me dera o útero e a oportunidade do corpo e da vida.
Sim, é verdade que nasci por ela, a partir dela, é verdade que meu corpo foi
gerado dentro daquele útero aquoso, mas seco de afetividade. Todavia nem minha
alma, nem minha essência, nem minha unidade de Ser, dependeram alguma vez de
sua individualidade. Meio Otherkin10, trouxe comigo um quê de beleza apesar das
violências sofridas. Fui mais forte e determinada quando me mantive sã, quando
me cultivei semente e flor de amor e afeto, humildade, respeito e solidariedade nos
muitos passos dados até aqui e nos muitos que certamente ainda virão.
Minha mãe biológica fez-me muito mal e ainda faz quando insiste em me
ver como uma menina irresponsável e louca, quando insiste em me aproximar do
homem que me foi agressor sexual, quando não me conhece e nem se digna a co-
nhecer, quando fala comigo sem amor, sem afeto. Sempre choro quando visitamos,
uma a vida da outra, sem delicadeza e luminosidade. Sua voz vem pra mim sempre
cheia de sal, cheia de um buraco gigante que nos separa da gentileza e do amor.
Apanhei muito dela, fui surrada muitas vezes com suas mãos, pernas, com
sua voz, já tomei banho com caco de telha, fui agredida tendo o cabelo cacheado e
embaraçado rasgado por suas mãos frias e abruptas. Parecemos mais duas criaturas
estranhas que mãe e filha. Sempre houve uma energia pesada no nosso ar, nosso
oxigênio é cheio de dor e disputas, de mágoas acumuladas, de pesadelos de rudeza.
Quando nos falamos, geralmente pouco ou nenhum afeto, nenhuma delicadeza nas
palavras, não há habilidade com o amor filial.

10 Um otherkin é basicamente uma pessoa que não consegue se adaptar às características de sua espécie
e se sente deslocado no meio da sociedade. Não existe tradução literal dessa palavra para português, mas
a melhor definição seria “de outra família” ou “de outra espécie”.
Fonte: http://www.newagepunk.com/tranzine/15/otherkin.html

Pele de Cristal 145


Gostaria de compreender porque ela ainda me fala dele, do tio-agressor com
insistência de aparente ternura. Nada quero dele, nada quero dessa família que me
aproxime da dor.
Não importa que ele pareça ser um bom e qualitativo homem, acima de
qualquer suspeita aos olhos da sociedade hipócrita. Ele se esconde no silêncio de
atitudes sombrias como a violência sexual. Não importa se ele é casado, se tem sua
família aparentemente sólida e bem estruturada, se seu filho é bem educado, sadio e
feliz, e sua boa esposa é uma indelével companheira. Ele parece ser um bom rapaz,
mas não é. Ele é um homem de areia desfeito à primeira onda: a verdade do próprio
espelho estampado quieto no quarto da violência sexual.
É preciso quebrar o muro de silêncio para enfrentarmos as escotilhas es-
condidas do sofrimento da violência sexual; não tivemos culpa, joguemo-la fora,
deixemo-la ir-se embora! Quando falamos decidimos por nós e pelo enfrentamento
necessário, trazemos luz ao nosso quarto pessoal e oportunizamos a justiça do per-
dão e do amor para conosco.
Muitos passos depois, caminho mais serena e senhora de mim com a res-
ponsabilidade do não silêncio, de ir além e gritar: que violência é essa que se esconde e
mutila alma e corpo de uma infância, de um adolescer ainda por vir? O que se pode fazer para
interrompê-la, e à dor que corrói e mata aos poucos?
Quando me vi submersa àquela água lodosa no fundo do poço, quando
espreitei o caminhar sozinha, sem fôlego, sem forças, atônita ainda, sentindo frio,
medo, fome de alegria e de surpresas doces e vi-me acumulada pela dor que me
consumia indiferente e violenta, sem me deixar espaço pra felicidade, vi-me cansada
e quebrada.
Muitas vezes desejei sair dali e deixar o chão. Desejei ver o sol que me es-
quentava a alma e me dava a força do calor da vida, a força de estar viva. Mas nem
sabia o que fazer e nem via as forças necessárias à resiliência da dolorosa experiência
da violência sexual. Procurei ajuda profissional algumas vezes, mas sempre ficava
por vir esse caminho de libertação. Via a vida como uma coisa sem sentido, sem
graça, sem saber a que tinha vindo. Mas quando decidi movimentar-me ousei sair
do chão e acender a luz do meu quarto pessoal, bater o pó que se acumulava inevita-
velmente e enfrentar aquela dor, invariavelmente abjeta.
Não somos apenas vítimas de uma violência execrável, de um crime nefasto.
Somos mais que isso, mais que vítimas. Somos mulheres e homens merecedores
de felicidade, somos seres espirituais vivendo a experiência humana. Pois, que a
façamos buscando no amor próprio, na caminhada da afetividade e do perdão para
com nossa alma, a alquimia das feridas em cicatriz. Vencer nossos próprios medos
e barreiras é o primeiro obstáculo preso ao nosso pé. É o primeiro passo que o pé
dá gerando movimento e dança.
Dá poder ao que realmente te faz bem e te tornarás livre.

146 Helena Damasceno


Capítulo XVI

“Mumifiquei a água, tudo que dela vinha...


Comi o tempo onde meu nome não tinha”
O cale-se...
Não somos apenas vítimas de uma violência execrável, de um crime nefasto.
Somos mais que isso, mais que vítimas. Somos mulheres e homens merecedores de
felicidade, somos seres espirituais vivendo a experiência humana. Pois, que a façamos
buscando no amor próprio, na caminhada da afetividade e do perdão para com nossa
alma, a alquimia das feridas em cicatriz. Vencer nossos próprios medos e barreiras
é o primeiro obstáculo preso ao nosso pé. É o primeiro passo que o pé dá gerando
movimento e dança. Dá poder ao que realmente te faz bem e te tornarás livre.
Aprendi muito cedo a me calar porque não era ninguém, não tinha desejos,
minha voz era nada e porque nunca representei um poder significativo na família em
que nasci. Fui daquelas crianças que mal saiam de casa e só o fazia quando acom-
panhada de algum adulto. Mas nada disso impediu a violência sexual que acontecia
dentro das paredes secas daquela casa.
Tive muitas dificuldades desde a infância até a vida adulta. Sempre faço essa
ressalva para fique claro que sou igual a você. Tive e ainda tenho muitas seqüelas do
abuso sexual. Ruins, difíceis e comprometedoras quando se diz respeito à qualidade
de vida, mas enfrento-as, uma a uma, sem medo de não conseguir, porque estou
conseguindo modificar esse padrão de culpa e vitimização. E se estou conseguindo
superar, se estou conseguindo ultrapassar a gangorra das crises, apesar de todas as
conseqüências que carreguei por tanto tempo, você também pode porque nada me
difere de você, nada mesmo!
Apanhei muito quando criança, não podia dizer o que queria ou o que sentia
porque tudo era frescura, tudo que fazia era astúcia minha, portanto não era levado
em consideração. Tinha que corresponder aos padrões estabelecidos pela tradição
da família. Se desejasse algo fora desses padrões? Era uma discussão enorme. Havia
sucessivamente um atropelo de meus desejos e sonhos, não podia seguir desejando
ou sonhando, nem pensar falar alto desses objetos de desejo. Tinha que ser a boa
menina e boas meninas não questionam, obedecem apenas.
Aprendi muito cedo a calar a voz quando há um incômodo alheio. Percebei
que ali naquela casa, naquela família, não havia espaço pra mim, não haveria lugar de
vontade, salvo pela distância que se fazia cada vez maior entre nós, ou pelo silêncio
que se apresentava como alternativa de personagem, não do que sou de fato, mas do
que eles queriam que eu fosse. Não podia dizer o que queria, nem entender quem
era, quais meus sonhos e desejos, qual meu papel nesse planeta; tudo era motivo de
negativa, não havia espaço para qualquer questionamento ou busca interior.
Mas na minha cabeça, dentro de mim, ninguém mandava, ninguém podia
monitorar meus pensamentos e sonhos, nem meus arquétipos, nada! Na minha ca-
beça, eu que coordenava os passos e me organizava os pequenos sonhos infantis.
Dentro de mim, morava uma Helena gigante, bonita e heróica, que sempre lutava e
vencia, nunca calava e sempre sorria. Mas fora de mim, havia uma menina medrosa,
desconstruída em seu cotidiano pelas violências que lhe ladraram o próprio cami-

148 Helena Damasceno


nho de luz e alegria.
Apanhava por tudo e por nada, qualquer coisa, não havia maiores justifica-
tivas. Lembro da minha primeira semana na escola. “Não sei bem porque” (é claro
que sei), mas assustei-me em estar naquele espaço desconhecido, até então sem
amigos, sem afeto, um lugar frio que chamavam de escola e que diziam ser bom
para minha educação. A escola é um espaço de socialização sui generis na formação
da criança. Lá ela percebe outros ambientes de convivência e põe em prática seus
primeiros exercícios de sociabilidade apreendidos em família.
Nos primeiros dias de aula, eu só chorava, esperneava o tempo inteiro, gri-
tando e berrando sem parar, dava escândalo para voltar pra casa, pra pequena segu-
rança que acreditava ter. Se já era difícil confiar nas pessoas da família que, inclusive,
me negligenciavam, quiçá nos estranhos do mundo que conheceria a partir dali!
Confiava na mamãe, apenas nela, no seu afeto de Matre Dona e não entendia o
porquê de ela me deixar naquele lugar frio, onde só havia estranhos.
Como dava muitos “escândalos”, era difícil ficar na escola e chorava pra ir
embora, pro colinho da mamãe. No fim da primeira semana, minha mãe biológica
foi me deixar lá fazendo juras de que me daria uma lição, de que eu ficaria lá sem
pedir pra ir embora, sem aquele escândalo todo dos dias anteriores.
Eu tinha 5 anos tão somente...
Ela me deu uma surra inesquecível na frente de todas as pessoas que estavam
lá, deixando seus filhos e filhas. Nunca me esqueci das palavras dela, da voz dela em
riste me ferindo a pele e marcando minha alma com cicatrizes tão dolorosamente
profundas.
Aprendi desde muito cedo que aquela mãe que me tinha a posse definitiva
do corpo e da alma, talvez desejasse dar cabo das próprias dores e lembranças más,
ruins quando da gravidez, ou da vida difícil e ferida, mas em nenhum momento me
percebo como a resposta à infelicidade dela, às expectativas de dor, ou de alegria
dela.
Aprendi muito cedo a me afastar daquela voz, daquela figura de mulher ma-
terna, de índole imprevisível e não gentil, aprendi a abandoná-la em definitivo e en-
quanto mãe ali, no portão daquela escola, uma mãe que ela nunca foi de fato porque
pra mim mãe não é parir. Ser mãe é amar, é entregar-se ao desconhecido de se jogar
num abismo pr’outro ser sem distinção, sem rodeios, sem medos.
Cheia de dores e marcas no corpo, entrei pra assistir aula, soluçando minhas
mágoas e minha revolta na raiva, cerceando minha voz em definitivo na vergonha
que me seria companheira de jornada naquela casa por muitos anos ainda por vir.
Digo que ela me abandonou em primeiro plano, e repito que isso foi funda-
mental ao homem que me foi horror e dor nos anos seguintes. Quando ele chegou
já encontrou um terreno de abandono e medo, arado por ela, pela mão que nunca
me afagou e nunca me acolheu com o amor filial e cotidiano.
Numa noite de Natal há muitos anos, levei uma surra enorme porque havia
“roubado” dela as tampinhas de um refrigerante em promoção. Ouvi uma música

Pele de Cristal 149


que tocava na TV enquanto apanhava, enquanto ela descontava suas frustrações no
meu corpo e na minha alma. Até hoje choro silenciosamente quando escuto essa
música.
Tampinhas de refrigerante...
Não sei quem é a mulher que há 33 anos, grávida de mim, me pariu e me en-
tregou pra outra pessoa 8 dias depois. É fato que essa outra pessoa não era alguém
distante de afetividade familiar. Mas ninguém nunca me perguntou o que senti por
não ter tido minha mãe biológica assumido totalmente esse papel. Pra mim, esse
abandono primeiro é definitivo para que as violências que me aprisionaram tanto
tempo, fossem materializadas, em particular e de modo mais vil, o abuso sexual.
Naquela casa sempre me senti menor, carregada pela gratidão da vida, pelo
corpo físico que habito enquanto exercício humano, pelo alimento, pelas vestes, pela
morada e pela educação adquirida, um débito filial urgente e eterno, um débito mo-
ral que nunca existiu. Nasci e tinha direito à vida como qualquer ser humano. Não
se negocia, nem os direitos, nem as necessidades básicas de um ser em formação,
em construção. Gratidão não é prisão, não é ferramenta que trava e agoniza a vida
de quem quer que seja.
Sou igual a você que tem medo e insegurança, que se vê acuada e sozinha,
que sente frio e solidão, que não confia em ninguém com 32 dentes, que tem medo,
medo, medo, medo... Mas descobri que o medo é uma coisa tão somente, nada mais,
nada além. E que, nesse processo de viver, é natural sermos humanos, em todos os
níveis. E o medo faz parte das coisas de estar vivo, ele não é uma medalha aplicada à
nossa vida por osmose pela mão da violência sexual. É que algumas vezes agiganta-
mos essas conexões densas e pejorativas, sentimo-nos pequenas e reduzimos nossas
vidas somente ao abuso. Não somos só o abuso, somos mais que isso, muito mais!
Nunca mais ser infeliz, ser pouca, estar presa numa culpa que nunca foi mi-
nha; nunca mais viver no limite entre a doçura e a agressão física para comigo e para
com os outros. Do pó quero apenas a cicatriz, da dor não quero nada!
Sempre quis encontrar neles a família das propagandas de margarina que via
na TV, desejei muitos anos lembrar um passado de natais coloridos e festivos, cheios
de amor e luminosidade. Lembro que meu pai biológico me contava estórias para
dormir, que me beijava a face antes de cair de sono. Adorava quando ele o fazia, me
sentia a salvo. Ele era meu herói, meu ídolo de primeira grandeza desfeito subita-
mente quando ele foi embora para outra cidade, aumentando a confusão na minha
cabeça e superlativando o abandono filial, o medo da solidão que carregava na alma
minha. Se nem ele me salvou, quem poderia? E porque ele não me queria, porque
ele me abandonava também?
Discutimos muito fortemente uma vez, há muitos anos, ficamos sem nos
falar por um bom tempo. Despejei nele todas as cobranças minhas. Queria saber
onde ele estava quando mais precisei dele, porque ele não me valorizava enquanto
ser humano, porque era tão difícil ele perceber que uma mulher pode e deve ser
autônoma para conduzir sua vida sem necessariamente depender de um homem.

150 Helena Damasceno


Ele fez que não entendia do que se tratava e me apontava como rebelde e
irresponsável. Muito fácil pra ele, cômodo demais. Fazia parte da tradição da família
esse sentimento tradicional, aquela imagem arcaica e sectária da mulher dependente
e submissa, até de uma incapacidade dessa mulher diante da sociedade. Uma mulher
que tomava cerveja, que saía e voltava pra casa sozinha, desacompanhada de um
bom rapaz e que fazia seus planos de vida independente da figura masculina, bus-
cando sua autonomia e independência, pra eles era um sinal de “mulher perdida” e
isso não seria bem visto nem pelos vizinhos, nem por eles, todos iriam comentar e
falar mal.
O medo deles sempre esteve naquilo que os outros iam pensar, ou dizer des-
se meu comportamento independente. Exercia meu direito de ir e vir tão somente.
Nunca me importei com o que os vizinhos diziam. Na verdade, até me importava,
mas aproveitava isso pra os desafiar. E essa era uma de minhas armas, das ferramen-
tas que dispunha e me agarrava a elas.
Sempre gostei de sair sozinha e me enlouquecia a idéia de não trabalhar, de
ser dependente de qualquer pessoa. E eles sempre me cobraram aquela postura de
menina comportada. Fui uma criança e uma adolescente problemática e deveras
contestadora. Fui à contramão de tudo que eles apontaram como certo e perfeiti-
nho. Enquanto eles me enfeitavam e se preocupavam com o que os outros iam dizer
ou pensar, eu sofria violência sexual ali, bem debaixo daquele nariz incestogênico.
Dentro daquela casa é que não estava segura, havia um homem, um adulto pedófilo
que apoiava seus desejos perversos na minha alma e no meu corpo. E eles queriam
dizer que em casa estava segura e que a rua apresentava muitos perigos? A rua era
talvez o espaço onde me sentia menos vulnerável.
Apesar de ele me perseguir depois na escola ou em outros lugares públicos,
ainda me sentia mais segura na rua que em casa, certamente. Calava, sofria, sentia-
me sufocar pela dor e o desdém daqueles que me viram nascer e que me viam cres-
cer sem felicidade e sem fé. Aparentemente era bem mais cômodo calar, afastar-se
dos enfrentamentos óbvios, das responsabilidades sobre a violência sexual que me
era algoz e porta de dor. Ali me encontrava indefesa e era envolvida num jogo de
cotidiano maquiavélico.
Quando quis aprender a tocar violão, lá pelos meus 12 anos, me disseram
rispidamente que não, que violão não era um instrumento para uma delicada moça
de família tocar, eu devia aprender tricô ou piano, quem sabe até fazer dança moderna,
essas coisas tipicamente tradicionais. A realidade que me invadia o corpo era muito
mais cruel e não me dava escolha, não havia nenhuma delicadeza no abuso sexual
que sofria em plena luz dos dias.
Fui cerceada no cotidiano. No almoço, no jantar, nas tarefas de escola, na pia
da pequena cozinha, no banheiro solitário e frio, no quarto dele ou no das tias dis-
tantes do diálogo, no jardim quase público, quase na rua, em plena luz do dia. Não
havia mais limites para que ele usasse seu poder de adulto pedófilo. Ele se sentia
seguro para ousar qualquer coisa.

Pele de Cristal 151


Meu pesadelo tornou-me inicialmente uma criança estranha e depois uma
adolescente suicida e depressiva, assustada com uma gravidez não desejada a qual-
quer mês e consumida pela vergonha latente de ser descoberta. E ele já havia ga-
rantido a transferência de culpa, eu já a assumira. Repetia mentalmente que não
prestava, que era um lixo humano e que servia apenas aos caprichos sexuais do um
bom rapaz.
Na sala da casa de mamãe tem, até hoje, um expressivo quadro talhado à
mão, uma madeira rústica desenhando a face de Cristo, de olhos fechados, sempre a
lamentar algo. Nas duas extremidades, duas telas daquele homem guardam o Cristo
cego, concomitantes e silenciosas... Até hoje. Naquela casa, morava um Cristo de
olhos fechados, entrecortado pelas telas daquele homem. Uma alegoria do meu
desespero, do meu desamparo.
Perdi as contas de quantas vezes chorei desesperada, gemendo quietinha
e gritando em silêncio, explodindo dentro da minha cabeça coisas horríveis sobre
mim ou pedindo ajuda inutilmente deixando escapar um pedido de socorro rouco
e mudo, calado pela negligência e pela co-participação e co-responsabilização in-
cestogênica dos que me habitavam aquele tabuleiro aborrecível chamado família.
Implorava ajuda daquele Cristo cego e pálido. Pessoas muitas iam e vinham naquela
casa, sempre cheia, sempre ocupada. E todos estavam ocupados demais para per-
ceber minha angústia e desespero e era muito cômodo, muito fácil negar que havia
tamanha violência ali, naquela família modelo, exemplo de felicidade e união.
Perdi as contas de quantas vezes chorei sozinha logo depois. De quantas
vezes fiquei sentada no chão do banheiro me lavando, expurgando de mim aquele
odor, aquelas marcas; de quantas vezes bebi vinho quente, tentando me embriagar
e esquecer aquela vidinha nada prosaica, vida infeliz. Ficava dias sem tomar banho,
não lavava minhas calcinhas, era uma criança magrela, sem seios a aflorar, dentes
sujos, sem graça e fraquinha, quebrável de tão pequena, e mesmo assim, tão violen-
tamente, aquele homem invadiu as fronteiras da minha sanidade, da minha infância
e roubou meus primeiros dias de alegria, de construções assertivas e associações
saudáveis.
Quando sentia aquela mão na minha pele, não conseguia ver sentido na
vida... Doía, doía demais!
Não foi uma violência silenciosa, ao contrário! Meus gritos mudos, meus si-
nais claros de que havia algo errado, de que havia algo doendo, minhas dificuldades
na escola durante o aprendizado cognitivo, em minhas dificuldades de sociabilidade,
nas brincadeiras de “namoro sério” com os brinquedos e bonecas, meus choros
compulsivos e a quantidade inenarrável de vezes em que perdi o controle e urinei
nas calças somente ao vê-lo inesperadamente, ou à noite quando deitava o corpo
alquebrado e sofrido. Foram muitos os sinais, muitas pérolas jogadas aos porcos
insensíveis e que me mantinham num cativeiro legalizado chamado família.
Algumas vezes me pego de súbito, me admirando, me osculando a alma
num sorriso aliviado por ter conseguido me distanciar daquela matilha de dissabores

152 Helena Damasceno


insanos. Apaixonada pela mulher que sou, feliz por olhar para trás e ver a soma do
que me tornei, em sensibilidade e respeito, em dignidade e fortaleza, caminho hoje
sem passos de elefante, mais serenamente e aprendiz da alma minha, da delicadeza
e liberdade minha.
Nesse caminho que faço, onde reconstruo minhas pecinhas de ser abso-
lutamente humana, ainda há muito para ser trabalhado, sei disso. No meu quarto
pessoal, há ainda algumas cortinas a bater; estantes a organizar, culpas a expulsar e
responsabilidades a devolver num prazo de validade único porque faço uma faxina
completa e liberta de maiores medos ou vergonhas injustificadas. No meu planeta,
o corpo é o invólucro de minha alma que me aguarda gentil e livre a me espreitar
pelos caminhos de amor, perdão e cura.
Nenhum Cale-se! fez-me parar o desejo de libertação e cicatriz, nenhum
muro há a esconder minha beleza e visão de mundo, nada é mais forte que minha
determinação em chegar à maturidade resiliente e benfazeja, com delicadeza e lu-
minosidade.
Nenhum mal me fará parar, nada me fará!

Pele de Cristal 153


Capítulo XVII

“Desejos à parte, sou calabouço e escada


vaia peleja e ovacionada
na gargalhada do bréu... que horas são? Sou eu!”
Inverno...
No meu quarto pessoal, há ainda algumas cortinas a bater; estantes a orga-
nizar, culpas a expulsar e responsabilidades a devolver num prazo de validade único
porque faço uma faxina completa e liberta de maiores medos ou vergonhas injustifi-
cadas. No meu planeta, o corpo é o invólucro de minha alma que me aguarda gentil
e livre a me espreitar pelos caminhos de amor, perdão e cura.
Nenhum Cale-se! fez-me parar o desejo de libertação e cicatriz, nenhum
muro há a esconder minha beleza e visão de mundo, nada é mais forte que minha
determinação em chegar à maturidade resiliente e benfazeja, com delicadeza e lumi-
nosidade. Nenhum mal me fará parar, nada me fará!
Quando eu tinha uns 8, 9 anos escrevi um bilhetinho num papel amassado
de um caderno de folhas amareladas. Arrumei uns panos num pedaço de lençol
juntei tudo num cabo de vassoura velho e saí pelo portão da frente, fui embora de
casa. Quer dizer, eu bem que tentei. Acharam muito rapidamente o bilhete e me
encontraram quase com os pés na esquina. Foi uma gargalhada coletiva, juntaram-
se todos fazendo um círculo sonoro e angustiante, cercando-me de risadas e piadas
bobas, perguntas sarcásticas e dedos em riste no meu rostinho de infância. Ninguém
tentou, e nem quis entender, os motivos pelos quais levaram uma criança mal saída
das fraldas a tentar escrever um bilhete mal rabiscado, garranchudo e desengonçado
e despontar por aí, largando seus sonhos e o conforto de sua família e de seu lar, à
procura de quê, não quiseram saber.
Segurança, afeto, respeito, confiança, ou tudo isso e mais algumas coisas em
bloco, embaladas pra presente num papel bem colorido e vibrante. Queria sossego,
ser amada, sentir-me segura e tranqüila. O que via na rua tão menina ainda? Cer-
tamente o mundo me era percebido com menos acidez, com espinhos menores e
menos ferozes.
Lembro que passei anos indo de locadora em locadora perguntando sobre um
filme que pensava ter assistido quando criança. A cena era de um horror, para mim,
impressionante. Uma criança chorava soluçando assustada e copiosamente, agarrada
a uma boneca de pano presa numa cacimba, ou numa espécie de quarto escuro. Ela
sentia frio, medo, fome, terror. Uma série de sensações ruins fizeram-se presentes
superlativadas pela escuridão e odor fétido do ambiente e pelo desejo desesperado
de esconder-se de alguém, de fugir. Pensei muito sobre essa cena, nunca achei vídeo
algum, filme nenhum que retratasse essa lógica abominável de frieza e coerção.
Minha psicóloga maravilhosa a qual declaro minha admiração e respeito, fez-
me pensar bastante sobre essa cena e me fez enfrentá-la dolorosamente. Facilitou
o processo de meus sentimentos para que sentisse novamente aquele frio e torpor
para que eu, alegoria da minha própria caverna, não me sobrepujasse àquela dor sucum-
bindo a ela, para que eu pudesse sair daquela caverna de dor.
Catarse talvez seja expulsar monstros que se acumularam em você e que te
fazem zumbis de pesadelos e horrores muitos. Dor foi o que senti quando revisitei

Pele de Cristal 155


essa cena. Dor... Uma menininha, assustada e escondida, fugindo daquele que lhe
seria patrão dos maiores pesadelos. Assustada, desesperada, sozinha. O simbólico e
o real se confundem pelo constrangimento da violência sexual. Os desassossegos e
a morte da alegria e da infância desenhavam meu horizonte de silêncio e peso.
Tenho medo de baratas, medo não, tenho pavor! Não consigo ir ao banheiro
se percebo uma, ou até mesmo dormir se percebo uma no quarto, por exemplo.
O pavor é tamanho que até consigo ouvir as antenas assustadoramente afinadas
quando próximas de um bote, de um vôo daqueles sempre na direção de quem tem
medo, no meu caso: sempre voando pra cima de mim. Minha mãe biológica saía
correndo atrás de mim segurando uma barata pelas antenas, jogava-a em cima de
mim e me assustava, me apavorava.
Ela ria, se divertia muito, se divertia sempre, Eu corria, chorava, gritava, im-
plorava para que ela parasse. Assim como pedi para que ele parasse, para que ele me
desse paz. Assim como ele, ela não parou. Um para o outro, um começava, o outro
concluía. Eles precisavam inconscientemente um do outro para me manter presa
ao medo, à dor, à culpa e à vergonha de ser envolvida nas violências conjuntas que
somaram a violência sexual.
Algumas vezes se aquietava aquela coisa de dor e vazio. Meus péssimos hóspe-
des se ajeitavam num cantinho da minha casa e deitavam silentes, ressonavam seus
gritos e ameaças de solidão e rancor no silêncio da apatia e, por instantes que fos-
sem, eu vivia aparentemente tranqüila. Às vezes, quando estava tudo mais ou menos
quieto pensava que aquele sofrimento não voltaria nunca mais, ou então acreditava
que tinha dado um jeito em tudo, que quem sabe tudo demoraria a voltar, talvez
tivesse vencido a dor pelo cansaço. Nessas horas, sempre acontecia alguma coisa
que me tirava do eixo e bum, explodia em nova crise, experimentava uma nova faceta
daquela dor, que aparecia cada vez mais dura e mais cruel, quase invencível.
É preciso que se diga que a dor não vai embora sozinha, sem que a convide-
mos a sair da nossa casa, sem que haja um enfrentamento nosso com ela, de peito
aberto para que todas as suas facetas e esconderijos sejam um vão desarmado e sem
fôlego, sejam nada de peso, sejam cicatrizes apenas. Sabe dor de dente que perturba
sem que paliativo algum possa minimizar seus transtornos ou incômodos? Até que,
enfim, vamos ao dentista e tratamos rigorosamente do que dói? A diferença é que
não podemos arrancar a dor e as conseqüências do abuso sexual assim tão fácil, tal
como com alguns dentes que incomodam e doem insuportavelmente.
O fato é que a dor da violência sexual fica até que a enfrentemos em definiti-
vo. Sei que é preciso coragem para mexer no que dói, sei disso. É preciso falar, gritar,
chorar, enfrentar o medo, a baixa estima, retirar os odores fétidos e o pó das gavetas
empoeiradas e sujas. É preciso falar, entrar em alfa e catarse de passos e movimentos
e sair do lugar, deixar de ser vítima para ser sobrevivente e depois livre.
A terapia, a fala em catarse psicoterápica é o remédio forte pra ferida aberta,
não tratada ainda, que arde no início e talvez um pouco mais depois, mas que balsa-
miza em seguida e decididamente. Enfrentar a dor não é vivê-la novamente. Nada

156 Helena Damasceno


vai doer mais do que já foi e mexer no seu quarto de dor, naquela falsa segurança
de conhecer o cotidiano de hoje (medos, angústias, inseguranças, ansiedades, com-
pulsões, transtornos, somatizações, etc.), não vai lacrimejar mais ainda a alma te fa-
zendo infeliz pra sempre, ao contrário. Mexer nesse quarto pessoal de dor é modificar
as telas, é criar um novo ambiente de foco e olhar, de movimento mais leve, mais
sutilmente libertador e maduro.
É preciso que seja dito que é tão somente pelo enfrentamento, do que dói e do
que está dentro e fora de nós, desses detalhes que coabitam nosso empoeirado quarto de
dor; que é a partir da catarse em psicoterapia, que geramos movimentos que nos impulsio-
nam no processo de cura e que se constituem caminho rumo à cicatriz e libertação.
A terapia não vai curar imediatamente, é claro. É muita dor absorvida, mui-
tas culpas injustificadas, grudadas nas paredes desse quarto pessoal e nosso. Não
pense que em 2, 3 meses de terapia, 2 vezes por semana, ou de silêncio e quietude
aparente da sua dor, pronto, estará curada! É preciso tempo, nosso hospedeiro de
serenidade e equilíbrio que nos apontará os caminhos a seguir. Mas o tempo de
cicatriz é seu. É você quem coordena esse movimento. Portanto, não se aflija com
o tempo vivido, tome-o para si com doçura e tranqüilidade, sem a pressa dos que
querem água no deserto. Lembre-se de que há sempre um tempo de semear e um
de colher. E nenhum remédio, com exceção da sua própria força e determinação
em conhecer a si percorrendo um caminho de perdão e luz, de amor para consigo,
a possibilitará a cicatriz almejada.
Quando decidi mexer nas feridas, sabia que sentiria o incômodo de recordar
do que, ruim, me aprisionou tantos anos. Mas é fato que ao fazê-lo, liberto-me das
correntes da vergonha e da culpa, do medo sem brios e escuro.
Cansei de mentir pra mim mesma, de me esconder dos outros e de carregar
um fardo que nunca foi meu. Sofri demais só para evitar esse enfrentamento, para
esquecer do passado, que tinha sido envolvida num jogo sexual perigoso e perverso;
que fui sendo negligenciada à luz do dia pela família em que nasci.
Fugi de mim mesma e me escondi novamente no quarto escuro e frio, sim-
bologia da minha amargura, do meu desespero. Não quero mais esse peso. Ele me
impedia de ver a mim mesma, a minha alegria e minha vida. A verdade é que irei
até o fim e que lutarei por mim nesse universo de reconstrução, libertação e cura. A
verdade é que saí da caverna fria e escura para saborear meu eu gigante, para andar
na chuva dos meus dias de Helena livre e madura, para caminhar nos meus jardins
redesenhados e descobertos mais leves e livres. Quero ser asa para poder ser chão!
Nesse caminho de casulo sinto as delícias de viver a vida, pela primeira vez,
sendo dona da minha história. Não há intermediários, ou donatários outros que não
meus próprios desejos e sonhos. Resgato minha essência pueril entrando em con-
tato com minha delicadeza de infância e menina flor de girassol forte. Sou girassol
que se abre à noite, desafiando o intervalo noturno em busca do meu sol, da minha
alegria de terra firme.
Comecei a andar quando me vi submersa na dor. Quando olhei para os

Pele de Cristal 157


últimos 10 anos e senti o peso do sofrimento acumulado, vi o quanto já tinha supor-
tado, e admiti pela 1ª vez que merecia ser feliz. Na verdade nem percebi em que dia
comecei a mexer nas feridas. Não sei se foi dia 13 do mês tal, às 14:34, ou se foi dia
20 do mês seguinte, isso não importa. Importante foi acreditar em mim, acreditar
que podia enfrentar, que podia desejar outra vida, sonhar com outra realidade que
não aquela fria e dolorosa.
O que mais acreditamos depois da violência sexual é que não devemos mudar
essa sensação de responsabilidade porque somos fracas e culpadas, por isso merece-
mos sofrer a qualquer custo, qualquer sofrimento. E algumas vezes, ainda achamos
pouco. Por isso sinto que minha primeira vitória foi acreditar que merecia ser feliz,
que não tinha culpa e que era forte o suficiente para encarar o processo de enfrenta-
mento. Minha primeira vitória foi escolher a mim nesse processo, foi decidir enfrentar
tudo de frente, de cabeça erguida e abraçar esse caminho, apesar de tudo.
Ao olhar-se no seu espelho pessoal o que de fato interessa é perceber a gran-
diosidade dos seus pensamentos movimentando-se em torno da cura, incomodando
aquela falsa sensação de conforto e tirando as coisas do seu empoeirado quarto pesso-
al de lugar. Há um espaço sagrado dentro de nós e ao entrarmos em contato com ele
nos conectamos com o mais profundo eu, com nossos medos e frustrações, nossa
fortaleza e delicadeza, com nossa essência e nosso arbítrio.
O que aconteceu foi que acordei depois de semanas, meses e anos chorando
sem parar, arrastando uma depressão sem fim e atormentada pelos fantasmas da
violência sexual, do medo de me relacionar, medo de ser usada novamente, medos
e mais medos injustificados e irracionais. Vi-me cansada, enfastiada em demasia.
Não tolerava mais aquela mesma rotina, a mesma vidinha sem sentido e sem graça.
Assumira uma identidade quebrada, uma sobrevida comprada num supermercado
qualquer. Vivia uma vida que não era minha, mas que adotara porque precisava ves-
tir um papel, qualquer que fosse ele. Mas já estava cansada daquilo, estava entediada
demais com tanto sofrer, tantos medos e traumas sem fim. Ninguém me suportava
mais, nem mesmo eu.
Então um dia fui pro espelho do banheiro e me perguntei: Quem é você? Que
rosto é esse que me é tão estranho? Quem é essa mulher que me habita a experiência humana?
Porque tanto medo? Para que me serve esse peso todo? Pra quê? Não obtive resposta alguma.
Pra mim era aos 32 anos uma estranha de aparência conhecida, mas sem muitas
respostas satisfatórias e com muitas adversidades acumuladas no corpo e n’alma
minha, muitos entraves.
Passei a questionar tudo que dizia respeito a minha vida, a me perguntar o
que me impedia de ser feliz, o que queria da vida, como queria estar daqui a uns 10
anos, como vivi os últimos 10, quem era Helena e do que gostava, o que não gosta-
va; quais minhas possibilidades, quais meus sonhos e o que me impedia de realizá-
los, o que me escravizava à dificuldade em dizer não, me fazendo submissa nas
relações de convivência sempre, o que me prendia ao medo e à culpa, enfim. Dos
pequenos detalhes às grandes aflições, me dispus a enfrentar cada uma das minhas

158 Helena Damasceno


inquietudes, dores e medos antigos que me habitavam o cemitério particular de zumbis.
No começo eram algumas racionalizações, elaborações no âmbito cognitivo
“apenas”, mas que me trouxeram a sutileza desse processo de cicatriz. Foi ali que
acreditei ser possível, depois passei a internalizar, a elaborar emocionalmente, afeti-
vamente e a enxergar melhor minha maturidade e lucidez.
Meu processo de cura começou quando me percebi enquanto ser huma-
no, quando comecei a indagar minha alma à procura de mim mesma para resgatar
meu espaço sagrado e legitimar minha reconstrução, libertação e cura; quando ousei
desejar, sair daquele quarto de dor, frio e escuro e ver a vida de outra forma, mais
leve e mais saudável. Não queria mesmo seguir caminhando com tamanho peso,
aliás, mal conseguia andar. Pesava 84 kg de corpo e 500 kg de alma. E eu queria ser
leve... Mas como se carregava o peso do mundo nas costas? Não dava mesmo pra
me mexer com liberdade de expressão e corpo, de exercício de desejos e prazeres
pueris ou mundanos.
Mas começou ali, naquele espelho. Naquele espaço de meditação cotidiana
se iniciou meu processo de refazimento, a minha busca pelo meu caminho de amor
e autoconhecimento, de enfretamento. Levava pra psicoterapia todas as perguntas,
cada angústia, cada medo, cada ansiedade. Aos poucos me despia do peso da vitimi-
zação e da culpabilização. É importante que eu diga que nada foi camuflado, nem de
mim, nem da terapia. Há um movimento interno, um movimento pessoal de com-
prometimento comigo mesma que me oportuniza o caminho de cicatriz. Enfrentei
de cara aberta todas as ansiedades, medos e dúvidas até hoje, e permanecerei assim,
com a mesma garra e fé até que esse ciclo seja definitivo e pleno.
Definitivo foi o meu movimento de olhar para trás e constatar que já sofrera
demais. Os passos que dei dolorosamente, os guetos que me submeti andar, as estra-
das de terra batida na minha carne, sangrando medo, culpas, vergonhas e dor, muita
dor. Foi o que vivi no passado que me fez lutar para modificar os próximos 10 anos
e o resto da minha existência. Gritei um: “Basta, quero ser feliz”!
Quando entrei nesse processo de psicoterapia fui decidida a deixar esse pesa-
delo pra trás. Tudo bem confesso que não acreditava muito inicialmente, mas com o
passar do tempo, fui percebendo que quando mexia nas feridas sentia dor sim, mas
percebi também que não eram crises eternas e que saía das crises mais fortalecida.
Percebi que quando entrava no meu quarto de dor e me permitia tirar as coisas de
lugar, abrindo um novo olhar para as coisas da dor, ampliando meu foco de ação em no-
vas possibilidades de convivência, mais leves e mais fraternas, inclusive e, principalmente,
para comigo; tinha aberto minha Caixa de Pandora. A partir dali, a viagem seria um gran-
de investimento na minha própria felicidade. E tem valido muito a pena!
Não me envergonho porque gritei e esperneei, porque sofri e chorei publica-
mente enfrentando as críticas e os olhares severos dos que não se permitem a emo-
ção da proximidade com o que lhe é estranho. Não me envergonho mais por ter-me
escondido tantas vezes da mãe biológica que me abandonou logo no início da jorna-
da, não me culpabilizo mais por aqueles que me feriram injustificadamente.

Pele de Cristal 159


Sempre digo que não há uma receita mágica de um bolo da felicidade, mas
numa redundância lúdica e necessária, aponto o caminho da terapia, do amor e do perdão
para com nossas feridas e dores para que o medo seja balsamizado e sigamos à estrada da
resiliência e do refazimento agasalhadas pelo afeto e pela delicadeza. Precisamos entrar
em contato com nosso eu sagrado para que encontremos a força necessária à alquimia das
feridas machucadas em cicatrizes resistentes e definitivas. Há um rio de alegria exultante
que espera por você no caminho para aliviar suas dores e marcas, para crescer com você
nesse enfrentamento tão necessário à sua resiliência e liberdade.
Jogue fora algumas revistas velhas, bote as roupas que sevem no varal do
olhar e sem pesar, exclua as que não servem mais. Expulse o que vem fazer peso
no seu saldo pessoal, nesse guarda-roupas interno que nos alimenta ou desnutre.
Abra as janelas da tua alma e redescubra o prazer de ver-se no espelho, de gostar
de si como é e de saber que pode modificar sua paisagem interna ou externa, assim
queira e deseje.
Não sei quais suas ferramentas, mas sei que você as tem, inevitavelmente, quer
queira ou não. O que você vai fazer com o que fizeram com você? Não permita que
a violência sexual percorra suas veias feito sangria desatada, adoecendo numa hemor-
ragia lenta e áspera. Não se submeta às relações doentias, de sub-valor, de submissão
perversa, de letargia e medo. Não escondas sua própria beleza. Entra em contato com
seu material sagrado, com o interior de identidade ímpar que é o teu ser.
Viver a experiência humana é um cotidiano de laços. Atamo-los e desatamo-
los conforme nossos desejos. Não há diferenças entre nós e aqueles que sonham.
A felicidade é tangível e cabe na mão que nos acolhe ou devora.

160 Helena Damasceno


Capítulo XVIII

“Vê a minha cabeça...


Ela é cartomante de culturas,
de prosas que se perdem cruas
quando desenho vogais e as como,
formando a língua, o verbo e a pátria”
Sobre o tempo: 1978 - 1985
Viver a experiência humana é um cotidiano de laços. Atamo-los e desatamo-
los conforme nossos desejos. Não há diferenças entre nós e aqueles que sonham.
A felicidade é tangível e cabe na mão que nos acolhe ou devora.
Sempre tive dificuldades em datar o tempo, pra ser mais exata, em lembrar
das coisas do meu tempo pessoal, não tenho uma memória temporal cronologica-
mente organizada. Engraçado como aos poucos isso vem se modificando.
1978 foi um ano definitivo pra mim. Foi ali, bem ali, vendo aquela tarja da
censura na TV à frente de todos os meus programas favoritos, que comecei a sentir
as primeiras energias invasivas, o carinho diferente no meu corpo. Enquanto levava
minha vidinha infantil sem maiores preocupações e tensões, o tio-agressor me cer-
ceava os passos paulatinamente, abusando primeiro da confiança e do afeto que eu
depositava nele, depois do meu corpo e da minha alma.
Era como as tantas crianças de 5 anos: ingênua, sem nada saber das coisas da
vida adulta, da mediocridade do mundo e das pessoas ou das complicações materiais
e cotidianas. Minha vida deveria ser brincar, sonhar e aprender. Mas me foi furtada
essa realidade. Muito cedo tive preocupações adultas, tarefas de sofrimento a me
assustar o sono e os passos. Dói perceber como ele usou e abusou da confiança que
tinha nele por ser da família, por ser gentil comigo, por ser adulto e tio. Dói ainda.
A teia incestogênica se enraíza aí, nessa fase tão fundamental para a vida de
uma pessoa e que deve ser vivida com tranqüilidade e qualidade, afeto e dedicação.
Ali começava o jogo de anular minha alma. Comecei a ser a tal criança estranha
com a qual aquela família sempre se irritava e minava com outras violências e outras
coerções emocionais e afetivas. Foi difícil aprender a ler, tinha dificuldade em juntar
as palavras, de fazer as associações necessárias para crescer forte e saudável. Passei
a ter sérios problemas ao me alimentar, não conseguia comer, tinha nojo e muita
repulsa da comida. Fechei-me no meu mundo.
Lembro que adorava assistir ao Sítio do Pica-Pau-Amarelo. Voltava pra casa
correndo depois da escola, toda animada pra ligar a televisão. Mas houve uma época
em que não queria mais voltar pra casa, nem pra assistir aos meus desenhos favo-
ritos. Minha rotina tinha sido bruscamente alterada pela mão do homem que, até
então, me era um tio confiável e carinhoso.
Algumas vezes até ia rapidamente pra casa, mas quando chegava, me tranca-
va correndo no quarto da mamãe. Ali no quarto dela ainda me sentia segura, acredi-
tava que o retrato que tinha (e tem até hoje) de Nossa Senhora segurando com amor
o menino Jesus no colo, aquele pedaço de papel envolvido pela madeira, por si só
me protegeria. Acreditava que a mamãe me protegeria de alguma forma. A verdade
é que nunca estive segura dentro daquela casa. Nada, nem ninguém, em momento
algum, parou aquele homem.
Consegui sair da alfabetização aos trancos e barrancos, mas não pude seguir
com minha turma da escola. Era evidente para a professora que eu não tinha condi-

162 Helena Damasceno


ções de passar para um nível mais avançado. Os professores e todos os profissionais,
aliás, todos os adultos que convivem com uma criança podem e devem ficar atentos
para perceber qualquer sinal diferente no cotidiano e na movimentação dela. E dei
muitos sinais... Mas nenhuma alma mais atenta me alcançou com sensibilidade e
precaução.
Sentia que tinha algo diferente em mim, mas não conseguia explicar porque
não conseguia entender todos aqueles símbolos, aquelas letras todas e muito menos,
conseguia juntá-las numa frase organizada. Meu espaço interno estava desorgani-
zado. Havia sido invadida pela violência física e emocional mais dura que conheci,
alojava na minha pele o asco pelo exercício da violência sexual. Como manter meu
espaço externo organizado, como poderia estar e ser saudável?
Não conseguia acompanhar minha turma inicial, não conseguia seguir o de-
senvolvimento natural das outras crianças. Minha dificuldade à época pode ser re-
presentada hoje com algo parecido com o distúrbio de aprendizagem. Para a família que
me acolheu nessa jornada humana e que deveria ter-me sido mais atenta e amorosa
e não incestogênica, o que eu tinha era preguiça. Para eles eu era somente um adulto
em miniatura e não um ser humano em formação; ou eu tinha astúcia suficiente para
saber o que estava fazendo e manipulava todos que caíam na minha esperteza, na
minha lábia. Preguiça, astúcia e manipulação. Uma criança dissimulada e que precisa
de atenção; o porquê não se sabia, já que sempre tive tudo.
Lembro de uma cena que me marcou muito profundamente. Mal saía de
casa porque me diziam que a rua era muito perigosa, que os estranhos podiam me
fazer algum mal. Nunca entendi quão pior podia ser esse mal! Estudava perto de
casa e um dia à tarde fui pra escola fazer uma tarefa em equipe. Qual não foi a minha
surpresa quando vi minha mãe biológica chegar por lá e na investigação maluca dela
diante da obsessão de o que eu estava fazendo e com quem, o que eu tinha dito,
por que disse, etecétera e tal; ela pega a folha de respostas da minha contribuição
do trabalho.
Sempre que ela ia à escola ficava morta de vergonha e de medo porque sabia
que seria exposta a alguma situação vexatória; e naquele dia apanhei ali, diante de
todo mundo, dentro daquele espaço que me era um dos poucos em que eu podia
ser por alguns instantes, livre. Naquele dia levei muitos tapas no rosto, na cabeça,
puxões de orelha e de cabelo. Tudo para que eu apagasse o que tinha escrito e fizesse
de novo, do jeito certo, do jeito dela. Como me recusava, apanhava mais. Ninguém
chegou perto de mim, nenhum outro adulto, todos os meus coleginhas tinham-se
ido para longe, por precaução ou receio, não sei.
Lembro dos gritos dela, fortes e gigantes dentro da minha cabeça que há
muito já explodia de dor. Fui obrigada a escrever tudo de novo, já que ela tinha
apagado o que levei a tarde inteira pra fazer. O que eu queria nunca foi levado em
consideração. Sempre havia outra forma de fazer as coisas, um jeito que nunca foi
meu.
Era um trabalho sobre um santo católico que tinha morrido jovem; um bom

Pele de Cristal 163


homem e milagroso que atendia aos pedidos feitos com fé. À essa época eu ainda
acreditava em milagres e fiz meu pedido com toda a fé que sabia conhecer até então.
Tinha escrito na última questão, que era sobre um pedido que devíamos fazer ao
santo, que meu sonho era morrer aos 21 anos, no máximo, queria morrer jovem.
Acabei entregando um trabalho todo amassado, documentando um pedido que não
era meu, com palavras que nunca estiveram, nem na minha boca, nem em meus
pensamentos: “quero ser uma boa menina, me formar e ajudar minha mãe”. Nunca quis
isso!
Foi assim, me arrastando na escola, sendo obrigada a fazer o que não queria,
sendo investigada a toda e qualquer hora, que cheguei em 1984 pronta para o 1º grau
que equivale hoje ao ensino médio. Tinha uma tia que trabalhava num dos melhores
colégio da minha cidade, e ela queria porque queria que estudasse no tal colégio.
Lá vai ela então, me arranjar a prova pro teste de seleção, devidamente respondida.
Meu trabalho seria apenas o de estudar, ou seja, decorar a prova. Todas as tardes
sentava na escrivaninha dela e estudava, lia, fazia e refazia os cálculos, as questões,
tudo enfim, todos os dias.
E todos os dias eu também tinha a alma e o corpo dilacerados, assaltados
por aquele homem. Meu pedido pro santo já tinha sido atendido, mesmo que não
escrito. Na minha cabeça aquele trabalho estava todo gravado, então fiz outro traba-
lho, dessa vez mental, para que ela não pudesse rasgar, amassar e modificar minhas
idéias. Estava morta, tinha um buraco dentro do meu peito maior que o Grand
Canyon.
Na minha cabeça a prova estava fechada, toda resolvida e decorada. Minha
vaga estava, portanto, garantida, e até fazia planos de estudar noutro colégio e ter
novos amigos; e como ele ficava longe de casa, minha mãe não poderia ir até lá
me buscar, então não passaria mais vergonha. Seria o máximo! Ter novos amigos
e ainda por cima, demorar pra chegar em casa e não ter minha mãe biológica por
perto. Meus sonhos duravam pouco, pouco mesmo. O que era doce acabou como
diz a cantiga de roda da minha infância dolorosa. Ao fazer a prova deixei a sala com
a certeza de que tinha fechado na nota máxima, meus cálculos eram os mesmos, as
palavras também, tudo era exatamente igual, mas qual não foi minha surpresa ao ver
minha tia chegar em casa e disparar um monte de absurdos.
“Você não serve nem pra decorar nada, você é mesmo uma vagabunda, tu nunca vai ser
nada, não vai ser ninguém, como é que pode? Eu te dei a prova. Eu fiquei lá morrendo de vergonha
quando a irmã me mostrou a prova. Você foi a única que zerou e era a única que teve a prova na
mão antes. Vou te arranjar um emprego numa rádio”!
Ela dizia isso porque a música era um dos meus poucos alentos, me era um
refúgio cantar, mesmo que baixinho, porque se cantasse alto, essa mesma tia dizia
que eu era astuciosa demais porque cantava tremendo a voz, fazendo uma referência
ao vibrato natural que tinha, ao talento musical que já despontara ali.
Não consegui acertar uma única questão da prova, nenhumazinha. Zerei
tudo! Fui humilhada perante todos que estavam em casa, presenciando meu fra-

164 Helena Damasceno


casso. Tornei-me ainda mais arredia, me tranquei mais ainda no meu mundo. Olhei
praquele Cristo mudo e cego e chorei. Nada entendia, como pode? Tinha feito tudo
direitinho, li e reli a prova várias vezes; estudei mesmo porque precisava provar pra
mim mesma que era diferente, que não era burra e preguiçosa como eles falavam.
Mas ali estava “a prova”. Eu era mesmo uma garota burra e preguiçosa, não acertara
nada, nenhum cálculo, nenhuma palavra, nada! Eles estavam certos afinal. Não valia
a pena me enganar mais, eu era estupidamente burra.
O ano de 1985 foi um dos piores da minha vida. Fui abusada quase todos os
dias e cada vez mais violentamente, tinha a certeza de que era burra e que merecia
todos os castigos, tanto o que aquele homem me dava, me roubando o melhor de
mim, quanto às agressões verbais e morais que ouvia todos os dias. Rendi-me a eles
ali, em 1985, quando fui obrigada a estudar no colégio que me atestou a incapacida-
de cognitiva e ainda por cima, tinha que agradecer a tia cuidadosa que me cedeu uma
bolsa de estudos, mesmo sendo uma menininha burra e preguiçosa, imprestável. Tinha
apenas que criar vergonha na cara e ser uma boa menina; tinha que estudar.
Eu tinha vergonha na cara, nas orelhas, nos braços, na boca, no nariz, no
umbigo, na bochecha, nas pernas, no sexo, nos joelhos, nos pés, nas costas e na
alma. Morria de vergonha de ter aquela vida, mas ouvia todos os dias que era bur-
ra, que não prestava e que nunca seria alguém na vida. Eles, os adultos que faziam
tudo por mim, me davam casa, comida, escola e roupas, tinham que ser velados na
gratidão eterna.
Aqui se encontra o fio da meada da culpa, do medo e do pacto de silêncio
tenebroso que a família em que nasci, incestogênica e vil, construiu para me calar,
me culpabilizar. Perdi o ano no colégio, passei todo ele me punindo, me escondendo
daquele homem que sempre me achava e me violentava sem pudor e sem medo,
porque já sabia estar totalmente seguro e alicerçado pela família que lhe acolhia o
jogo perverso.
Durante toda a minha vida, acreditei neles. Sempre duvidei da minha inteli-
gência, do meu caráter, da minha beleza. Duvidei não, na verdade não a via porque
pra mim, sempre fui burra e feia. Eles conseguiram me fazer acreditar que eu era
mesmo burra, astuciosa, manipuladora e preguiçosa. E como demorou para que eu
visse o contrário, para que admitisse para mim mesma que tudo isso é uma mentira
execrável!
Quando alguém elogiava um poema meu, um texto, uma melodia ao violão,
ou mesmo uma música composta delicadamente, morria de vergonha, me escondia
com medo da decepção deles na constatação de que aquilo não existia, era uma gra-
de mentira afinal de contas! “Não, nada disso, sou burra, não presto, não valho nada e nunca
serei alguém, vocês não conseguem ver isso?”
Choro e me emociono agora... Como pode um ser humano ou um conjunto
deles, dizer meia dúzia de palavras repetidas e destruir o que há de mais belo noutro
ser humano? Por isso e por muito mais, nada quero deles, nem a presença física,
nem energética, nem as lembranças. Quero tirar qualquer sombra de significado

Pele de Cristal 165


deles na minha vida. Sei exatamente o que sofri dentro daquela casa, cujas paredes
ainda sangram secas e frias dentro de mim.
Hoje sei que sou gente, que sou vencedora, porque nunca soube o que era
ser humana, já que não pude ser, não tive o direito de crescer delicadamente, de
ver nascer uma rosa, e depois vê-la desabrochar sabiamente. Tudo me foi súbito e
abruptamente violento. Hoje me valorizo e quando leio meus poemas, ouço minhas
músicas, delicio-me com minha voz e violão, ou assisto a meus vídeos vejo-me linda,
sensível e delicada!
Caminho doce, linda e guerreira me acarinhando as idéias e a alma meiga
sem maiores sustos e medos, porque sei que ao acordar encontrarei o amor. Não
mais o medo da surra depois da rede molhada, não mais as agressões físicas, verbais
e morais que me dinamitaram a saúde e a integridade física, mental, emocional e
moral por tantos anos.
Hoje sei o que sou, sei quem sou, e assumo minha natureza de delicadeza e
poesia, de mulher gigante e bela, profunda. Mais que inteligente, sei que sou verda-
deira, linda e inteligente e isso me basta.
Vou deixar Helena me levar, enfim!

166 Helena Damasceno


Capítulo XIX

“Meu barulho partiu, abandonou minha alma aberta às locações


aos espelhos das mil maravilhas
Minha água sorriu, foi-se pro sol do luar...
Não quero escrever sobre salas, quero respirar”!
Do apego ao universo do cativeiro interior, as marcas
desse caminho...
Caminho doce, linda e guerreira me acarinhando as idéias e a alma meiga
sem maiores sustos e medos, porque sei que ao acordar encontrarei o amor. Não
mais o medo da surra depois da rede molhada, não mais as agressões físicas, verbais
e morais que me dinamitaram a saúde e a integridade física, mental, emocional e
moral por tantos anos.
Hoje sei o que sou, sei quem sou, e assumo minha natureza de delicadeza e
poesia, de mulher gigante e bela, profunda. Mais que inteligente, sei que sou verda-
deira, linda e inteligente e isso me basta. Vou deixar Helena me levar, enfim!
O que você vai fazer com tudo isso que é você? Você já olhou para si com
afeto e delicadeza, com a coragem etnográfica da coleta subjetiva e diária, com a
ludicidade da tua criança machucada, mas que te solicita afeto e respeito cotidiana-
mente? O que você vai fazer com tudo isso que é você? Onde você acredita ir com
tanto peso, com tanta culpa, tanto medo?
Não temos vocação para o desdém ou para a demasia do apego, do sofri-
mento creditado n’algum conflito gerado pela nossa aparente culpabilidade. Nota-
damente apenas nós, seres que experimentam a oportunidade da prova humana,
temos a capacidade da modelagem, da adaptação e reorganização do nosso espaço,
pessoal e ou coletivo. Quando algo não vai bem, ou não está em conformidade
com nossas idealizações, podemos modificar esse quadro de insatisfação e interferir
no meio, interno ou externo, alterá-lo a paisagem e a tela na qual é impressa nossa
sociabilidade.
Não somos meros expectadores de vivências, ou seres outros que, assumindo
um papel secundário no crescimento social e individual, apenas absorvem as ordens
do meio em que vivem. Somos mais que isso. Nosso habitat natural é a razão, a inter-
venção natural que nos permite propor e intervir nas ações, gerar movimentos que
transcendam limites e obstáculos pré-definidos, pré-estabelecidos. Somos mais que
força nêurica, mais que genes inter-relacionados. Somos também um corpo mental
que assume as elaborações criadas na individualidade da mente, fator indispensável
de colaboração para nosso comportamento e realizações físicas, nossos comprome-
timentos com a plenitude das saúdes física, emocional, psíquica, espiritual.
Internamente, criamos primeiro a idéia-pensamento que cristalizará nossos
movimentos ou a apatia do apego, das depressões ou da caminhada saudável das
mobilizações pró-ativas e delicadas. Depois alimentamos esse movimento de desejo
com cristalizações mentais, força necessária à sua materialização. Geramos mental-
mente a força ou coragem, a falsa fragilidade temporária que nos guia os passos,
ou a delicadeza do aprendizado sem cativeiros de vitimização ou culpabilizações
sem fim. Cremos na fome que alimentamos mentalmente, e a materializamos em
seguida em nosso comportamento social. Vamos beber na fonte que cristalizamos
internamente.
168 Helena Damasceno
Temos mania de sofrer, estamos impregnados e impregnadas desse véu de
apego e peso, em que justificamos nossa vida aparentemente diminuta, assumin-
do posturas medíocres, verberando substantivos preconcebidos nos laboratórios
da culpa e da falsa sensação de segurança. Quão confortável a prisão conhecida!
Quanto assombro nos invade quando da ação de entregarmo-nos ao abismo des-
conhecido do enfrentamento, de mexer, movimentar nossas engrenagens internas,
oportunizando-nos à própria luminosidade, às próprias possibilidades além do ca-
tiveiro do sofrimento.
É claro que a invasão da violência sexual nos causa dor. Nunca disse o con-
trário, Mas assumimos uma postura rígida diante das marcas e da dor do abuso sexu-
al. Assumimos uma postura de não superação, de incompetência, de mudez, de fra-
queza. E nada disso é verdade. Mas sabe, também já fiz o mesmo que você. Entrei e
saí de muitos psicólogos, ou nem dava credibilidade a eles, bebia transloucadamente,
me maltratava o corpo com cigarros e alimentos dispersos, ou então me vitimiza-
va em depressões sem fim, me oportunizando situações de perigo, assumindo ser
sempre um alvo fácil às mais variadas posições de dolo; já busquei a morte física, a
morte psíquica, a morte mental do esquecimento da dor, já quis morrer dormindo,
ou me afogando no álcool e na irresponsabilidade. Já me submeti a relacionamentos
dolorosos, doentes e difíceis, sempre me colocando em segundo plano, segundo
lugar, um lugar de medo e vergonha.
Já me matei e morri muitas vezes, e voltei de cada uma delas sempre culti-
vando a paciência e a insistência em vencer, ultrapassar todo aquele inferno. Sei que
também não sou responsável pela finitude e pequenez das ações da mediocridade
dos homens envolvidos na ilusão da realização tétrica de seus pequenos poderes.
Pra mim também já foi muito confortável não mexer em nada que doía
dentro de mim. Também já joguei em todas as outras pessoas do mundo, a respon-
sabilidade pela minha dor, pelo meu sofrimento. Já me machuquei muitas vezes nas
portas, no silêncio, no torpor, na dor.
É não existe mesmo uma receita, talvez alguns caminhos de leveza e sabe-
doria interior. Talvez o amor, o autoconhecimento, a psicoterapia, o entendimento
dos pormenores que ligam as conexões que nos mantêm presos ou libertos, nossas
ferramentas de libertação e desprendimento.
Quem sabe a paciência, o amor, o perdão, a coragem de acolher sua criança
ferida, de caminhar mãos dadas com a dor, percebê-la em sua real dimensão, não
dando maior ou menor valor, mas apenas e tão somente, o que lhe cabe. Talvez
o desejo de ousar, o desejo de querer escolher você nesse caminho de amor e re-
construção. Quem sabe a coragem de assumir a própria delicadeza e mansidão, as
próprias feridas, deixando de lado a rigidez de comportamentos pré-definidos cul-
pados, deixando as portas do seu quarto pessoal abertas à libertação, à ressignificação
da sua história e trajetória. Quem sabe a oportunidade de velejar no oceano da sub-
jetividade, do reencantamento com a própria oportunidade da vida, da experiência
humana.

Pele de Cristal 169


Abandone a mania de sofrer, liberte-se da sofreguidão do medo. A dor é
quase que uma naturalidade da experiência humana, o sofrimento não. Podemos
desconstruir esse poder dado ao sofrimento, deixar para ele apenas a vivência da
oportunidade, da experiência vivida e ultrapassada. Olhar a dor sob o prisma da
possibilidade de aprendizado, não mais como um cativeiro a algemar a vida, pren-
dendo seus passos no calabouço do medo, da vergonha e da passividade, da culpa-
bilização.
Conheçamos nossos inimigos internos, deixemo-los morrer de fome. O ali-
mento das depressões, da permissividade, do tédio da imobilidade e do medo é a
porta que abrimos mentalmente à culpa, são as construções das formas-pensamento
densas, cristalizadas na vergonha da vitimazinha que, culpada, sofre justificadamen-
te. Somos nós que retro-alimentamos o universo do cativeiro interior.
Libertemos, pois, nossa criança machucada, acolhendo-a com a delicadeza
da escuta afetiva, com nossa alma voltada para a libertação e cicatrização, não mais
para o medo e a sombra da dúvida. Sem pressa, no seu movimento interno, pessoal,
na sua velocidade, no seu tempo de amor por você. Redescubra-se e liberte-se. Vi-
ver é um cotidiano de construção. Desejo-lhe a claridade da Luz, das descobertas
pessoais, da oportunidade do crescimento, do amor. Desejo-lhe vir!
Muitas marcas ficaram, muita dor acumulada, sofrida e retroalimentada des-
de o momento primeiro, da primeira energia sexualizada e invasiva, desde a tarja da
censura simbólica a cumprir seu papel a me sufocar e a me prender a vida diante das
teias da culpa e da vitimização, das mãos de ferro da família em que nasci.
Sempre me foi claro, desde que comecei a trilhar esse processo de cicatriz,
que havia sido envolvida num jogo de sedução maquiavélica, adulto e falocêntrica,
numa teia em que o silêncio, a dor e a culpa eram um rolo compressor que me macu-
laria a alma para sempre. Para sempre até aqui apenas, não mais guardar nas minhas
gavetas particulares essa névoa carregada de culpa, medo e vitimização. De vítima a
sobrevivente para depois ser livre. Esse é o meu caminho, esses são os passos que
dou com a firmeza da minha delicadeza de amor por mim. São os passos que sigo
apesar de todas as dificuldades vividas, apesar da dor que ainda tiro de mim e do
cansaço natural que vez outra me fazem companhia.
Antes passava 2, 3 dias “bem”, se é que podia chamar aquele estado de estar
bem. Ficava eufórica e fingia que nada acontecia, vestia um personagem falante e
simpático, mas que por dentro, estava aos farrapos. Algumas vezes a dor dava uma
trégua e conseguia me enganar. A mim era sempre mais difícil, pois a maioria das
pessoas que conheço, nem imaginam que vivia assombrada por um passado tão
perverso. Mas a verdade é que durante a maior parte do tempo, eu andava curvada,
em crises terríveis. Temia o julgamento da sociedade caso soubesse da minha histó-
ria. Tinha pavor a ser depreciada e condenada culpada – mal sabia que já me havia
condenado, acumulando uma culpa que nunca me pertenceu, mas que alimentava
porque ainda me via como a menina no jardim, abusada pelo tio sempre gigante,
sempre poderoso. Demovo-o desse poder. Poder tenho eu, gigante sou eu e perce-

170 Helena Damasceno


ber isso, foi o meu primeiro passo, o meu grande passo para reaprender a me amar,
para redescobrir as coisas mais lindas que há dentro de mim, ou simplesmente me
ver como mulher forte e profunda, delicada e leve, uma mulher que vive a experiên-
cia humana seguindo a própria luz, a própria vitalidade.
Esses dias, tenho recordado com muita clareza, inclusive de datas, meus pas-
sos delicados e doídos dentro daquela casa. Tal qual um tabuleiro de xadrez no qual
cada uma das peças tem uma função estratégica. Cada um naquela casa, tinha sua
função no abuso sexual que sofri. À criança não compete proteger-se simplesmente.
Todavia tende a família oportunizar um lar saudável para que a auto-estima e identi-
dade da criança sejam concomitantes com o bem-estar e a segurança cotidiana.
Tenho visto esse tabuleiro à minha frente numa visão tridimensional. Per-
cebo cada um, cada cena. Recordo algumas das intervenções sexuais, e cada uma
das minhas tentativas frustradas de fugir dele, de alterar aquela violência. Todas as
sensações do depois, os inúmeros sinais que dei, minha reclusão, minhas esquisitices
como diziam, minhas lágrimas no chuveiro do banheiro, minha voz declarando meu
ódio por ele, as marcas no corpo, na saúde frágil, nos muitos cuidados que exigia,
na ausência da alegria pueril, no silêncio. Palavras vãs que se perderam no tempo
daquela casa, que se prenderam às paredes frias e secas daquela gente e daquela casa
silenciosa e tortuosa.
Minha consciência está sendo ampliada para que eu veja e sinta novamente
as cenas que estavam meio que desbotadas na minha cabeça, na minha consciên-
cia. Um artifício de defesa do meu inconsciente para me proteger, para me privar
de uma dor maior, de conseqüências maiores e mais desastrosas quando do meu
despreparo emocional e psicológico ao longo dos anos. Tenho retirado das minhas
costas essa culpa que nunca me pertenceu.
Visitando aquela casa, vendo sob vários ângulos esse tabuleiro tridimensio-
nal, me percebo uma criança medrosa, insegura, arredia, fugidia e que se mordia
(literalmente) de medo daquele homem. Algumas vezes vomitei nele, no chão do
banheiro, no quarto vazio de respeito e afeto verdadeiro. Outras vezes ele me obri-
gava a limpar o resultado de seu deleite solitário e abominável. O fazia sob ameaças,
sob pressão de quem se acreditava meu dono e senhor.
Sempre tive muito medo de ser revelada, de que todos me vissem como
responsável por aquele horror, e ele se aproveitou bem de todos os meus medos
infantis e adolescentes, utilizou os recursos de me violentar e me aprisionar antes
a alma e a voz, para que lhe fosse garantida a realização dos seus atos de violência.
Somente depois ele me abusou do corpo, somente quando da sua segurança e tran-
qüilidade. Um ato premeditado e construído cotidianamente.
Sentia-me pior que qualquer criminoso. Ele me repetia sempre que se falasse
pra alguém nunca acreditariam em mim, e que se acreditassem, diriam que a culpa era
minha, pois o seduzira, tinha nascido praquilo, tinha “talento pra ser vagabunda”.
A criança é um ser humano em formação constante, e desde o ventre da
mãe ela apreende informações, sensações, valores, exemplos a ser seguidos e repli-

Pele de Cristal 171


cados. Ela percebe seu ambiente a partir do contato com os adultos, mais precisa-
mente através da família que é seu primeiro espaço de socialização e cotidiano. Por
isso tão importante crescer num ambiente saudável com adultos que possibilitem
uma educação tranqüila e de qualidade, resultando num desenvolvimento cognitivo,
emocional e psicológico saudáveis em cada uma das etapas de sua vida, em todos os
níveis de desenvolvimento.
Nunca disse que seria fácil, mas reafirmo que é possível. E tem sido possível
sim. Tenho revivido experiências de dores violentas, difíceis de elaborar, mas através
da psicoterapia e alicerçada pelo desejo de superação, sigo libertando-me das culpas
acumuladas. Ascendo uma luz em meu favor e de todas as pessoas que me acolhem
em suas histórias. É por mim que sigo, que encho o peito de ar e saio de manhã a
me ninar diante da vida, a me livrar da vergonha do chão frio porque não sou mais
aquela menininha assustada no jardim de casa.
Cuido do meu tempo de cicatriz...
Tenho revisitado minha história e trajetória com muita coragem e muito
amor para comigo e minhas feridas, agora abertas e devidamente medicadas. Voltei
ao meu quarto de dor, a todas as paredes daquela casa, meu cemitério particular de
zumbis e seus componentes. Vislumbrei minhas recordações mais remotas, redes-
cobrindo seus significados e sua imponência na minha vida hoje. Demito o que não
me serve para a felicidade.
Fui fundo em cada terapia, em cada rememoração, senti tudo abertamente.
Rememorei minha história com riqueza de detalhes e precisão, a maioria não escrita
porque nunca quis fornecer nenhum tipo de material detalhadamente constrange-
dor ou fonte de sofrimento maior para alguém; minha intenção sempre foi outra, a
de dar uma mão e nunca acorrentar uma alma. Esclareço também que nunca quis
escrever material para nenhum pedófilo, nunca quis alimentar nenhum pesar para
quem lê minha história, que é de vitória e não de demérito.
Comecei essa caminhada me redescobrindo uma mulher corajosa, gentil
e forte que passou por experiências dolorosas e traumáticas, mas que conseguiu
manter sua individualidade e delicadeza, sua serenidade e fé na experiência humana
apesar de tudo.
Chego aqui, pronta para elaborar toda a violência bem mais profundamente
e em terapia, numa catarse necessária ao meu tempo de cicatriz, um tempo necessá-
rio de elaborar todo o material da minha vida, da minha história com um sabor de
maior tranqüilidade, num silêncio necessário, anárquico e libertador, deixando que a
ferida descanse na minha serenidade de flor ao desabrochar.
A minha alma se completa e refaz seus caminhos na tranqüilidade do equi-
líbrio, da paz que me abre as portas de sua casa agora, sorrindo e me acenando de
uma janela dourada e leve, encontrando na maturidade da alegria sua luz sagrada que
reconecta o amor e a segurança individual sem medos, sem vaias.
Trato de minhas feridas agora em casca, ainda abertas, mas devidamente tra-
tadas e remediadas com o amor e a auto-estima da alma minha, em festa por libertar

172 Helena Damasceno


a criança que sofria e sangrava dentro daquele quarto escuro e frio. Vou na paz da
maturidade, na atenção de cuidar do meu tempo de deixar pousar o remédio, para
que minha voz ouça o próprio som da liberdade mais alegre e mais vívida.
Acolho na alma minha, as palavras e emoções aqui retratadas com fidelidade
e equilíbrio, e cuido hoje, mais delicadamente, do meu tempo de amor por mim.
Porque minha Pele, agora e para sempre, é de Cristal.

Pele de Cristal 173


Capítulo XX

“Permito os acordes de uma revolução, de estrelas de circo e amor


dentro do sol poente que habita a cor...
O vento acabou indo embora...
A realidade é mesmo um transtorno de dante...”
Percorrendo o caminho de amor, uma outra etapa
Trato de minhas feridas agora em casca, ainda abertas, mas devidamente tra-
tadas e remediadas com o amor e a auto-estima da alma minha, em festa por libertar
a criança que sofria e sangrava dentro daquele quarto escuro e frio. Vou na paz da
maturidade, na atenção de cuidar do meu tempo de deixar pousar o remédio, para
que minha voz ouça o próprio som da liberdade mais alegre e mais vívida.
Acolho na alma minha, as palavras e emoções aqui retratadas com fidelidade
e equilíbrio, e cuido hoje, mais delicadamente, do meu tempo de amor por mim.
Porque minha Pele, agora e para sempre, é de Cristal.
Minha caminhada atual tem me feito refletir bastante sobre tudo que me
aconteceu, mas tenho buscado fazer esse percurso com mais delicadeza, reencon-
trando a alegria das coisas de estar viva. A paz e o equilíbrio que tanto busquei fora
de mim sinalizam agora sua luz serenamente, acomodadas que estão no meu quarto
pessoal, esperando-me sorridentes e com mãos desacorrentadas.
Sempre me foi difícil visitar mentalmente a casa de mamãe onde vivi todo o
conjunto de violências e negligências que legitimaram a violência maior do Abuso
Sexual. Mas sempre visitei aquela casa, presa que estava à culpa e ao medo. Sem-
pre me foi duro essa visualização mental, mas nessa minha caminhada atual, decidi
que deveria enfrentar meus fantasmas e desabilitar meu cemitério particular de zumbis.
Primeiro reconhecendo-os, admitindo sua materialidade na minha cabeça. Depois,
desabilitando-os com coragem, reconhecendo, também, minha fortaleza, minha de-
terminação e resiliência que me mantiveram viva até aqui, e sempre com a marca da
dignidade. Um caminho de coragem, de enfrentamento sério e comprometimento
com a minha oportunidade humana. Reconhecer para materializar e depois desabi-
litar o poder que essa casa e essa família, através da culpa, têm na minha vida.
Sempre que posso reafirmo que esse caminho, o do enfrentamento, é abso-
lutamente necessário, mas não fácil. Não há um truque debaixo da cartola, um passe
de mágica e plim, tudo estará resolvido e o passado será apenas uma lembrança
turva e demonstrativa. Nosso passado nunca poderá ser modificado, isso é fato.
Fomos vítimas de um jogo sexual perverso, no qual a violência sexual nos calamitou
corpo e alma num redemoinho escravizante durante anos, até aqui. Padrões, peças
que podemos ressignificar certamente quando desse enfrentamento, desse compro-
metimento, seu com a sua história e oportunidade humana.
Voltei na casa onde tudo aconteceu. Tudo está lá no mesmo lugar, tudo con-
gelado no tempo, como uma fotografia embaçada. Todas as dores, a mesma tinta
usada para pintar as paredes, os mesmos enfeites, o mesmo silêncio reticente, vio-
lento. Todos os segredos mumificados. Sentei-me no sofá da sala, diante do Cristo
cego e das telas do tio-agressor. Despejei novamente tudo o que dizia àquela época,
todos os meus pedidos desesperados de que aquilo tudo tivesse um fim. Nunca teve
um fim, terá agora, a partir daqui, do meu Retorno de Saturno no meu quarto de dor,
que agora se veste de luz e pede passagem à Vida Integral.

Pele de Cristal 175


Sentada ali, enfrentando os meus fantasmas, diante deles com a mesma cora-
gem que me fez começar esse caminho, tive a certeza de o quanto sou uma mulher
vitoriosa, o quanto minha história, é uma história de vitória. Há ainda muita dor acu-
mulada naquelas paredes, muito silêncio e medo. Senti medo o tempo inteiro, minha
humanidade se fez habitar consciente ali, quando visitei toda a casa, percorrendo os
corredores, os quartos, os quintais. Foi difícil não chorar ali, e depois dali.
Reconheço meus fantasmas para saber onde estão minhas fragilidades e qual
o caminho a seguir agora. Vendo as fotos que tirei, percorrendo imaginária e vir-
tualmente os cômodos daquela casa, admito que não tinha como escapar. Não fui
um ser escolhido segundo sua inferioridade, nada disso. A família em que nasci é
incestogênica, isso me liberta, me abre as portas para um novo passo nesse trajeto:
reconhecer que a culpa não é minha, que foi um jogo unilateral e perverso, de trans-
ferência de responsabilidades.
Nunca fui fraca ou medrosa, nunca fui estranha porque sou um fracasso,
nunca fui pequena. Nesse novo processo – sendo ele a continuidade da caminhada
de reconstrução, libertação e cura –, tenho enfrentado com muito amor minha his-
tória de dor, resiliência e vitória. Porém mais que uma história de violência, minha
alma conta e reconta, ressignifica com delicadeza minha coragem, minha essência
de mulher guerreira, ética e forte.
Nada me fará voltar, não há passos, mais firmes e mais fortes que os meus
próprios, que me determinem o retorno àquela situação de culpabilidade e vitimi-
zação. Nunca mais ser pouca, nunca mais! Quero a lucidez da coragem, a voz solta
depois de embargada tantos anos. Venho dizer que apesar de todas as dificuldades
vale muito a pena o enfrentamento, a varredura do pó da culpa e do medo das
nossas vidas.
Gritei tudo que quis e preparo-me agora para outra etapa de reconstrução:
minha libertação e cura na cicatrização das feridas em relevo. Todos os fantasmas
moram dentro daquela casa e aquela casa mora em mim ainda. Sigo firme na minha
caminhada de amor por mim e, apesar de todos os fantasmas, continuo aqui porque
sou forte, porque mereço o que há de melhor.
Faz-se necessário explodir aquela casa dentro do meu quarto de dor, explodir
tudo que me habilita os medos e a culpa desmedida. Por agora venho dizer que
tenho escolhido a dinamite do amor próprio e da luminosidade do afeto para alçar
meu vôo de fé, reconstrução e cura. Sou gigante, e só começo a ver isso porque me
escolhi nesse caminho, escolhi um caminho de amor e perdão. Por mim, pela minha
dignidade, pela minha caminhada até aqui.
Nunca mais ser vítima, nunca mais padrões de medo e dor. A vida me é um
castelo de rosas construído delicada e lentamente no quintal da minha história. A
generosidade da beleza e do perfume das rosas é mais doce e mais encantadora que
a presença dos espinhos. Curtindo minha paisagem interior, voltando pra minha
casa de amor, libertação e luz.
Sua força está exatamente onde precisa, dentro de você.

176 Helena Damasceno


Capítulo XXI

“Me mantive anônima, inclusive de mim, por mil anos ou mais...


Distancie-me do clã da felicidade e me aproximei das feras...
As feridas que trago na alma são capotes de negligência
São apóstrofos em meio a uma multidão de espinhos”
Meus sinais...
Nunca mais ser vítima, nunca mais padrões de medo e dor. A vida me é um
castelo de rosas construído delicada e lentamente no quintal da minha história. A
generosidade da beleza e do perfume das rosas é mais doce e mais encantadora que
a presença dos espinhos. Curtindo minha paisagem interior, voltando pra minha
casa de amor, libertação e luz. Sua força está exatamente onde precisa, dentro de
você.
Durante uma semana estive numa capacitação em atendimento a crianças e
adolescentes vítimas de violência sexual. Discussões interessantes sobre um tema
tão violentamente danoso às nossas vidas. Somos pessoas com muitos compro-
metimentos e transtornos, já falei de muitos deles aqui. Mas sabe, é fundamen-
tal que exista um atendimento às crianças e adolescentes, que exista uma rede de
atendimento e proteção às vítimas de violência sexual, mas falta algo. Talvez um
profissional com um olhar mais delicado, digamos assim, menos arrogante e mais
dedicado, menos deus e mais humano. É isso. Sim, é isso! Há um quê diferente entre
o discurso e a prática.
Durante uma palestra, foram anunciados alguns “indicadores” da violência,
tipo: como identificar na criança algum sinal, como percebê-lo. Comecei tentando
marcar alguns, tentar identificar os meus sinais, fiquei pelo caminho porque minha
mão não acompanhou o contingente. Medos aparentemente injustificáveis, angús-
tias sem fim, distúrbios de alimentação muitos, sonambulismo, insônia, obesidade,
Dst’s, insegurança, desconfiança coletiva, depressão, crises de pânico, etc, etc, etc.
Fiquei ali, olhando aquela tela de power point à minha frente, dizendo secretamente:
ei, eu te conheço.
Acredito que muito ainda precisa ser feito pelo bom atendimento às crianças
e adolescentes vítimas de violência hoje. Mas que bom que elas podem contar com
uma escuta que vai lhes dar a credibilidade do afeto às suas falas. Precisamos ser ou-
vidas, nossas escutas internas precisam do atendimento humano, do valor do amor,
do ouvido atento à nossa alma.
Que bom que hoje pode existir um atendimento que se organiza e estuda um
melhor acolhimento, que se reúne em prol de qualificar sua escuta, seu eu profissio-
nal. Mas digo que não basta tão somente o eu profissional se qualificar. É preciso abrir
as janelas da alma, deixar entrar outras cores, talvez até criar algumas, deixarmo-nos
levar pela infância mais remota e descobrir enfim, que também fomos crianças, que
essa infância ainda mora em nós. É preciso talvez deixar vir essa infância, trazê-la
para esse eu profissional e junto com o adulto, formar um eu maior, mais total.
Esbarrei em muitos profissionais distantes dessa minha leitura, talvez alguns
até me dissessem assim: quem você pensa que é? Eu sou Doutor fulano de tal, tenho graduação em
tal escola de tal, sou formado na faculdade tal. Ainda não tenho nenhuma dessas coisas de di-
ploma, não tenho um pedaço de papel estampado na sala da minha casa, me provando
que deixei de ser criança e que sou um adulto com responsabilidades e maturidade.

178 Helena Damasceno


Vi muitos psicólogos, conselheiros tutelares, advogados, enfermeiros, coor-
denadores, enfim, esbarrei na arrogância do saber que se pressupõe absoluto e pode-
roso, tutelado pela ciência específica do papel de graduação, especialização, mestre,
doutor. É claro que se faz necessária a teoria, aquela que é ferramenta indispensável
e que ajudará o profissional a percorrer os caminhos obscuros da violência sexual.
Em nenhum momento desdigo a importância da aplicabilidade da teoria, primo pela
qualificação do profissional enquanto ser humano, social e coletivo, e também pela
qualificação deste enquanto indivíduo que traz suas experiências, inclusive seus pré-
conceitos, formados desde a mais tenra infância para o atendimento e acolhimento
às pessoas atingidas pela violência sexual. E saiba: todo mundo teve infância, todo
mundo teve medo. Mas algumas crianças crescem e esquecem desse detalhe.
Ao profissional cabe-lhe o direito do papel na estante da sala ou na parede,
embrulhado em qualquer lugar e largado, ou devidamente mostrado. Não importa,
não é essa a questão. O que penso é sobre a soma de seus eus, seus inúmeros olhares
adultos e infantis sob aquela infância roubada: a violência sexual.
Também vi profissionais que me deixaram boquiaberta: delicados, humanos,
simples como um sorriso. Mais pareciam palhaços lúdicos a recuperar a infância dos
sonhos pueris. A criança vítima de violência sexual não ousa sonhar. E ela esqueceu
como se faz isso e até para que serve sonhar. Mas existem palhaços de jaleco ima-
ginário, no sentido mais doce e infinito de infância, psicoterapeutas da alma e do
amor, que nos fazem ver a magia de nosso eu, que nos fazem entrar em contato com
nosso quarto de dor com delicadeza e espontaneidade.
É do olho antenado na alma que falo. Quantos profissionais o têm?
Critico o profissional pedante que se deixa embriagar pelo ópio do saber e da
titularidade, esquecendo de seu papel de facilitador de uma vida. A pessoa vítima de
violência sexual é que abre a porta de sua alma para falar do que dói no corpo e na
sua psique. Ao médico, ao psicólogo, ao enfermeiro, ao profissional que nos atende
cabe a mão de facilitar nosso processo, não os de donatários de nossas coordenadas
e destino terapêutico.
Que bom que as crianças de hoje têm esses ouvidos abertos ao acolhimento
de suas dores. Basta que se qualifiquem a fala e a escuta, que suas janelas da alma
sejam abertas e libertas num domingo mágico de circo e pipoca, numa troca de
partilhas seguras para a criança machucada e ferida.
Perdemos alguns momentos mágicos durante essa semana, e mesmo assim,
foi bom. Mas falar sobre a dor teria sido importante. Teria feito despertar um mi-
lhão de palhaços nos adultos mais frios, ou mais próximos da titularidade e mais
distantes da alma ferida.
Que dor é essa? Como ela é? Que poder tão absoluto é esse que a família e
o agressor têm sobre nossas vidas mesmo 10, 20 anos depois? Onde se escondem
nossos sonhos que ainda têm medo de serem furtados, mesmo depois de tanto
tempo? Onde estamos nós dentro desse quarto escuro de dor? Em qual pedaço
de nossa infância roubada está a Helena, a Maria, o João, a Francisca? A verdadeira

Pele de Cristal 179


margem do rio está na nossa força interior. O caminho somos nós, a nossa voz, o
nosso comprometimento, a delicadeza ou a rispidez de nossas palavras e ações.
Também me preocupo com a reedição da violência sexual. E as mulheres de
hoje vítimas na criança machucada anos antes? Algumas são mães de outras vítimas,
outras tantas surram suas filhas buscando matar novamente suas angústias e dores
cada vez mais flagrantes e terríveis, aparentemente inexplicáveis aos olhos alheios
e desatentos, outras caladas pelo vergonhoso pacto de transferência de culpa anos
antes, outras mais sofrendo copiosa e duramente, amarguradas e trancafiadas em
uniões infelizes e frustradas, algumas mais silenciosas, depressivas e solitárias. Que
sabemos delas?
E dos homens de hoje, alguns pais distantes ou arredios, desconhecedores
da afetividade saudável do corpo e em plena confusão psíquica e emocional, ou-
tros mais pedófilos ativos ou mesmo sufocando suas dores e angústias desprepa-
radamente e sem nenhum acompanhamento terapêutico, outros tantos igualmente
depressivos e solitários, também aprisionados em uniões igualmente frustradas e
infelizes. Que sabemos deles?
Esse universo não avançou porque registramos nossa dor no silêncio do
medo e na maternidade de uma culpa que nunca foi nossa. Congelamos essas in-
formações num labirinto silencioso que não aparece nas estatísticas. Camuflamos
nossas vidas num cotidiano de dores e inalterabilidades dolorosas e depressivas, sem
deixar que nos vejam ou nos ajudem, e quem sabe, até ajudar outros iguais, seguimos
reprimidos pelo silêncio e pela dor.
Por isso, sigo, avanço na minha determinação de acender uma luz em nosso
favor, por nossa libertação. Serei psicóloga, ou artesã de almas, não importa. O fato
é que distribuirei, à luz da teoria e da prática, uma mão que pode unir outras mãos
e sementear um jardim, e depois um campo imenso de fé, libertação e cicatrizes, e
depois, quem sabe.
Palmas para quem dedica parte de sua vida a uma causa tão nobre com gen-
tileza e humildade, qualificando sua escuta e abrindo sua alma a uma vida que não é
sua. Luz a quem ainda confunde a delicadeza do seu papel na reedição das dores e
sombras de uma vida caracterizada pela violência sexual, com vaidade e poder, com
arrogância e aparências.
Quem nunca caiu, abrindo o chão uma ferida dolorosa e insolente no corpo,
deixando as marcas abertas e algumas vezes, sem médico e sem apoio, a ferida toma
partes maiores e invade outros segmentos da pessoa, quem não passou por isso, não
precisa sofrer para sentir suas conseqüências e sensações. Basta abrir sua alma com
delicadeza e humildade.
Mas o nosso papel também é importante, é significativo e imprescindível
nesse caminho de ressgnificação da violência sexual. Faz-se necessário abrirmos
nossas portas internas, nosso quarto de dor para receber esse apoio e deixar fazer
uma faxina profunda e intensa, comprometida apenas conosco e com nossa liberda-
de, reorganizando nossas prioridades a partir desse encontro com a psicoterapia e

180 Helena Damasceno


do nosso com o amor-próprio, o autoperdão e o autoconhecimento.
O caminho a seguir é o do amor que acende uma inenarrável e delicadeza luz
em nossas vidas, traz magia e contentamento em nosso benefício. Quando acreditei
em mim percebi que nada do que tinha me acontecido desapareceria, mas que pre-
cisava modificar a maneira de visitar minha história e meus passos. Cada letra e cada
emoção trazida aqui foi vivida sob uma nova perspectiva: a do amor e do perdão. Eu
não tive culpa, fiz o que sabia como faço agora. Foi quando comecei a me perdoar
que comecei a sair do lugar.
É o que decidi fazer com a experiência que passei que me reconectou às
vibrações de leveza e delicadeza num movimento interno e único. Quando me dei
uma chance de ser feliz comecei a viver. Desejo-te o mesmo. Vasculhe sua alma
com a delicadeza do amor, cuide-se e busque ajuda, sozinhas nos perdemos pelo
caminho. Ame-se com paciência e delicadeza. Aceite o bem!

Pele de Cristal 181


Capítulo XXII
O tratamento de adultos que foram vítimas de
violência sexual quando crianças
Por Débora Machado11

Estou com a difícil tarefa de escrever um capítulo sobre o tratamento de


adultos que foram vítimas de abuso sexual na infância para o Pele de Cristal. Vou
procurar desenvolver um texto técnico sobre o assunto, mas com uma linguagem
simples para que todos entendam, profissionais e interessados.
Helena escrevia alguns tópicos nas comunidades sobre abuso sexual no
Orkut12, quando pedi para que ela escrevesse sobre o que estava passando, reunindo
tudo em um único local com a intenção de ajudar outras vítimas de abuso sexual que
me procuravam e buscavam respostas, pessoas que achavam não ter mais soluções
para sua vida.
Trata-se de um assunto delicado, machuca muito tanto quem relembra o que
passou, quanto para quem ouve de quem passou. Para a vítima, é possível viver sem
essa dor através de uma psicoterapia, de preferência com alguém especializado na
área. Não estou falando aqui de esquecer o passado, mas de poder viver sem que a
sua história lhe faça mal.
A solução não é simples, fácil ou rápida; estamos falando de feridas profun-
das que para curá-las será preciso tocá-las, e isso dói. Contudo, não dói mais do que
já doeu algum dia; se já sobreviveu uma vez a esta dor, vai sobreviver novamente.
Quando a criança, vítima indefesa da violência13, alcança a adultidade, chega
nesta fase emocionalmente dilacerada, com baixa auto-estima, dificuldades nos re-
lacionamentos amorosos e sexuais, com uma auto-imagem distorcida, com medos
irracionais de tudo e de todos e, principalmente, com muita culpa e vergonha. Culpa
até por viver!
Diante de tanta culpa, vergonha e medo14, ela não procura ajuda profissional,
não se sente merecedora de coisas boas por mais que deseje isso. Ela inconsciente-
mente se boicota. Quando consegue procurar ajuda profissional, quase sempre por
alguma conseqüência do passado, não traz para a terapia o abuso sofrido na infân-
cia, dificultando o trabalho do profissional que a está atendendo. É comum passar
11 Psicóloga Clínica especialista no atendimento a vítimas de violência sexual
12 Site de relacionamento da Internet.
13 Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, entende-se por violência qualquer ação ou omissão prati-
cada pelos pais ou responsáveis que possam desencadear na criança danos físicos, emocionais ou sexuais.
14 Ferenczi, 1992, explica a culpa através da identificação com o agressor, pois ocorre uma mudança pro-
vocada no psiquismo infantil com uma identificação ansiosa, fazendo com que o agressor desapareça da
memória e se torne intrapsíquico. A mudança significativa provém de uma introjeção do sentimento de
culpa do adulto que através da clivagem e colagem (Conceito trabalhado por Gerard Bayle em seu artigo
“Traumatismo e Clivagem Funcional” para explicar como se dá o processo de identificação com o agressor.)
transforma a criança merecedora de punição. A criança fica dividida entre inocente e culpada, a confiança em
seus próprios sentidos fica abalada; somando-se a isto temos um comportamento irritativo e atormentado
pelo remorso do agressor, que faz a criança mais consciente “de seu erro” e ainda mais envergonhada.

Pele de Cristal 183


por diversos psicólogos até se sentir segura o suficiente para se abrir.
Esta pessoa carrega um grande peso em sua vida. Busca se punir o tempo
todo. Todo e qualquer ato que a deixe bem consigo mesma é boicotado. Vive bus-
cando uma saída, mas esta saída é sentida internamente como uma coisa boa, por-
tanto, também é tolhida. A procura de uma psicoterapia para ajudá-la é o primeiro
passo para quebrar esse ciclo vicioso, e a manutenção deste tratamento também.
Motivos lógicos e coerentes aparecerão para a não continuidade do tratamento, pois
outra característica encontrada é a da meta não finalizada. Ela começa muitas coisas
e nunca termina, por isso, estabelecer e alcançar objetivos é um dos pontos centrais
da terapia.
Quebrar a barreira do silêncio e iniciar uma psicoterapia é apenas o início
de uma série de dificuldades, a começar pelo profissional que a está atendendo. A
produção de pesquisas sobre crianças vítimas de violência tem apresentado avanços
e crescimento desde que o ECA – Estatuto da Criança e Adolescente, Lei 8069, que
passou a vigorar em 1990. Mas o mesmo não pode ser dito em relação ao problema
do tratamento do adulto que fora vítima na infância. As observações e recomenda-
ções aqui sugeridas são fruto de estudos inferidos, pinçados, em vasta literatura, e
da experiência que tenho tido neste tipo de atendimento.
Quando tratamos uma criança vítima de violência sexual encontramos o
medo, a vergonha e a culpa, entre outras características. Os mesmos são comuns no
adulto que foi vítima na infância. O que as diferencia é o fato da criança se sentir
protegida, acolhida por adulto ou um sistema. A vítima, já adulta, se sente sozinha
no mundo, ela não foi protegida, não foi acolhida, e muitas vezes foi obrigada a viver
com seu abusador, em silêncio. Não conseguem confiar em ninguém e normalmen-
te culpa todos os adultos significativos de sua vida pelo abuso que sofreu, mesmo
que estes não tenham sido os culpados direto da violência sofrida. Esta pessoa se
sente órfã de pais vivos.
Depois de superar a vergonha, de falar sobre o assunto em terapia, come-
ça uma longa caminhada, cheia de crises que precisam ser acolhidos com muito
amor e carinho pelo profissional. A imparcialidade e a neutralidade que muitas li-
nhas psicológicas adotam não ajudam nestes casos. É preciso ter muita paciência e
ensiná-la, como uma mãe ou pai, a amar e confiar novamente sem deixar de ser o
psicólogo(a).
O profissional encontrará uma vítima com a constante necessidade de provar
que ela não vale a pena, que nada nela vale nossa atenção ou a atenção de alguém.
A baixa auto-estima e a constante necessidade de aceitação criam um mecanismo de
nada para si e tudo para os outros, aumentando ainda mais a sua vitimização diante
do mundo, assunto delicado de se mostrar ao paciente, pois a resistência em perce-
ber esse mecanismo é muito grande.
A criança vítima de abuso sexual aprende de maneira errada que amar, de-
monstrar afeto está ligado à sexualidade. A confusão entre sexualidade, afetividade e
amor é levada para a vida adulta através de dificuldades em relacionamentos amoro-

184 Helena Damasceno


sos e interpessoais. Um toque, um cumprimento, um beijo no rosto, coisas normais
da sociedade, é visto com conotação sexual e muitas vezes sentido pela vítima com
repulsa. Ensiná-la que é possível amar com ternura, como coloca Ferenczi15, não é
tarefa fácil, principalmente em amá-la a si mesma sem a conotação sexual.
Durante o tratamento fica claro uma cisão na personalidade da vítima, parte
dela se torna adulta junto com seu corpo, a outra fica estagnada no momento que se
iniciou a violência. É este caminho de volta e resgate que precisa ser feito. A vítima
já adulta, diante da figura do seu agressor, se vê indefesa através dos olhos desta
criança interior e muitas vezes replica a violência se expondo a outros episódios de
abusos e estupros.
Esta replicação da violência acontece de maneira direta e é diferente do me-
canismo de compulsão à repetição16, que também acontece, sendo observado nos
demais âmbitos de sua vida.
Neste caminho de volta e resgate, a pessoa começa a reviver os sentimentos
e emoções intensamente, muito do que estava recalcado começa a ser resgatado.
Medo, pânico, pesadelos, tristeza profunda, surtos de infantilismo e imaturidade,
fazem parte deste processo. Chega a parecer que o paciente está piorando, mas na
realidade isso faz parte do processo terapêutico.
Estar disponível 24 horas por dia para estes casos é fundamental, pois o
paciente não se percebe entrando nestas crises e somente com a ajuda profissional
entende e supera o momento que está passando. No início do processo terapêutico
as crises são mais intensas e freqüentes, com o passar do tempo elas se espaçam e
se tornam mais amenas.
Os sentimentos em relação ao abusador passam por diversas etapas: amor,
indiferença, ódio, desejo de vingança, entendimento e por fim o perdão. O perdão
é um sentimento que não pode ser forçado, a vítima perdoa ou não. O fato de en-
tender e perdoar o agressor não significa que a vitima não vá denunciar e quebrar
a barreira do silêncio. Percebi na prática que pular uma destas fases não gera uma
libertação verdadeira no final do processo, e a pessoa continua sofrendo. No entan-
to estas fases podem aparecer misturadas ou com uma variação em sua ordem, mas
sempre se iniciará com o amor e terminará com o perdão, estas não mudam.
Como muitos dos abusadores estão dentro da própria família da vítima, são
os pais, tios e avós, a criança ama esta pessoa incondicionalmente, o lado bom da
situação, os carinhos a atenção fora dos episódios de abusos e estupros, a conforta.
A vítima já adulta presa a esta fase, sabe que o acontecido foi errado, e ama o seu
agressor dizendo que o perdoou. Mas, observando a dinâmica de sua vida fica claro
que ela não é capaz de se defender, é extremamente apática e espera migalhas de

15 FERENCZI, Sándor (1992) “A Adaptação da Família à Criança” in: Obras Completas; Vol IV; São Paulo,
SP; Ed. Martins Fontes; 1927.
16 Compulsão à repetição é um mecanismo pelo qual a pessoa se coloca em situações similares às ex-
periências traumáticas vividas numa tentativa inconsciente de encontrar uma solução de alívio e seguir
sua vida.

Pele de Cristal 185


amor e carinho de qualquer pessoa.
Na fase de indiferença a vítima faz de conta que nada aconteceu, numa ne-
gação absoluta. Ocorre um afastamento e uma indiferença em relação ao agressor,
mesmo que ainda conviva com ele.
O ódio e o desejo de vingança às vezes aparecem juntos, isto porque existe
o entendimento e a percepção de que o ocorrido foi “errado”. Quando a vítima
é obrigada a conviver com seu agressor, observa-se uma relação hostilizada, seus
familiares a acusam de injusta e mal agradecida.
A fase do entendimento aparece depois de muito caminhar na terapia. Ela
consegue se perceber como vítima, como viciada no sofrimento. Descobre-se como
indivíduo, recupera sua auto-estima, e principalmente entende e aceita da doença de
seu agressor17.
O perdão surge naturalmente, mais para si do que para os outros. Não exis-
tem sentimentos de ódio ou amor pelo agressor. Uma página virada na vida da
pessoa.
As lembranças não irão se apagar, a dor de ter sofrido a violência sempre irá
existir, mas a dor latente, o peso do mundo nas costas, o sofrimento que sempre as
acompanha, entre outros, estes sim não irão mais incomodar.
Resumido assim parece um processo rápido e fácil, mas é doloso, longo, que
varia muito com o fôlego de cada um. Para o profissional é preciso muita paciência
e dedicação, pois não serão apenas as horas fechadas em consultório, para a vítima
muito auto-enfrentamento e coragem. Medos todos têm, tanto quem sofreu ou não
violência, o que os diferencia é a maneira que reagimos diante deste medo, é preciso
enfrentá-lo!

Características das crianças vítimas de violência sexual


• pânico, medo, pavor;
• fobias intensas relacionadas à sexualidade;
• reagem com um estado de estresse muito intenso a qualquer situação apa-
rentemente simples;
• agitação psicomotora;
• perturbações do sono;
• isolamento e retraimento afetivo;
• poucos amigos;
• choro sem causa aparente;
• mutismo;
17 Os abusadores também precisam de tratamento psicológico. São pessoas muito comprometidas em
sua maneira de se relacionar com o próximo. Não conseguem amar uma mulher/homem, pois estão
presas em etapas de seu desenvolvimento sexual primitivo/infantil, não sentindo desejos reais por eles.
Também não conseguem amar adequadamente seus filhos porque confundem seu desejo sexual com o
amor de ternura que deveriam ter por eles, desrespeitando-os e levando-os erradamente a se relacionar
com o outro de forma perversa.

186 Helena Damasceno


• depressão;
• agressividade;
• regressão a um comportamento muito infantil;
• aumento ou diminuição do peso (principalmente em meninas);
• anorexia e/ou bulimia;
• baixo rendimento escolar com prejuízo das funções intelectuais e criadoras;
• enurese18;
• dificuldade de concentração;
• encoprese;
• dores abdominais sem causas orgânicas;
• náuseas, vômitos;
• relutância em voltar para casa;
• fugas ou tentativas de fugas de casa;
• idéias e tentativas de suicídio;
• auto-flagelação;
• comportamento rebelde;
• doenças sexualmente transmissíveis;
• comportamento sexualmente explícito, inapropriado para a sua idade.

Características das pessoas que foram vítimas de abu-


so sexual na infância:
• vivencias diárias do abuso sexual através de sonhos e pesadelos causando
distúrbios do sono;
• baixa auto-estima;
• necessidade de ser aceita e agradar;
• falta de acabativa. Começam e não conseguem terminar nada em sua vida,
podem variar de uma simples tarefa doméstica a um projeto de vida como uma
faculdade;
• medos irracionais ;
• insegurança e falta de confiança principalmente em pessoas do mesmo
sexo do abusador;
• Se sentem culpadas, sujas e merecedoras de punição;
• dificuldades sexuais;
• dificuldade nos relacionamentos amorosos;
• tendências à compulsividade que variam de sexo e jogos à alimentação.

18 Enurese e enurese noturna: emissão involuntária de urina quando esta ocorre depois da idade em que
o controle da bexiga tenha sido supostamente adquirido, por volta dos 3/4 anos de idade.

Pele de Cristal 187


Capítulo XXIII
Comentários do Blog Pele de Cristal

Todos os comentários são anônimos para garantir a privacidade de quem os fez.

• Lelê, é com enorme prazer que venho parabenizá-la pela CORAGEM de


colocar em público o seu SILÊNCIO. Você vai estar nos representando na força,
na luta, na FÉ, no se amar. Vai levar a nós que é possível vencermos barreiras, mes-
mo que estas sejam à primeira vista difíceis de serem encaradas, mas você esteve à
frente e venceu. Me emociono mesmo ao tê-la como amiga, acredito que todas nós
estamos aprendendo muito com você, eu em especial, tenho me espelhado em você
e muitas outras como a XXX, a XXX, a XXX, a XXX, enfim são tantas as que se
permitiram transpor as suas dificuldades não é mesmo. Eu também vou poder che-
gar lá como mãe de dois adolescentes que também passaram por esta adversidade
que a vida nos apresentou. Doces beijos em seu coração querida!!!

• Querida Lelê, não sofri abuso e, portanto, só posso imaginar o tamanho


da dor que se sente. Porém, muitas vezes durante ou após um atendimento chorei
ao entrar em contato com tamanha dor. Por isso, fico feliz de ver alguém com a sua
coragem de falar, e desta forma mostrar a todos que é possível romper o silêncio e
ser feliz. Um grande beijo.

• A coragem eu tive depois que o marido da minha tia a chamou e disse


que havia algo muito errado comigo, ele havia conhecido o marido da minha mãe
biológica e percebido nele certas semelhanças com o pai abusador das irmãs. Minha
tia me falou sobre isso e neguei, chorei muito e dias depois admiti pra um amigo,
um ex-namorado muito amigo e por último pra minha tia. Juntas chamamos minha
mãe e contamos, na frente das duas falei. Ela não moveu um único músculo, ficou
ali parada, nenhuma reação. Foi assim. Nenhuma reação de ninguém. Deixamos
passar... Eu por medo, pânico, e os outros... São covardes... até hoje covardes.

• Me contorci de dor, lembrei de mim, eu me vi quando li seu blog. Olha


Lelê você não tem idéia de quanto está me ajudando. Quem sabe um dia desses eu
vou pro espelho. Não pare, por favor.

• Você não tem idéia de como está ajudando,maravilhoso seu jeito de escre-
ver, de transmitir. Obrigada, estava precisando ler minha historia através de quem
sabe se expressar. Gostaria de manter contato.
• Lelê, estou na fase das culpas, me lembrando do passado por ser uma
data que me marcou muito. E me sinto culpada por muita coisa. Por não ter amado
sempre a XXXXX. Por ter desejado a morte dela, por não ser uma boa mãe pra ela.

Pele de Cristal 189


Mas sei que hoje tenho ajuda e quem sabe ainda vou sair dessa.

• Que lindo Lê!! Ainda não estou nesse estágio, mas seu depoimento faz
com que eu veja muitas coisas, muitas coisas até então inexplicáveis para mim. Sen-
timentos perdidos, confusos, que já não sou mais capaz de descobrir sozinha. Mas
não desisti não e vou até o fim. Até o fim ou início de tudo? Provavelmente, o início
de tudo, de uma nova vida, de uma nova pessoa. Desta vez, sem medos, sem mis-
térios, sem medo de sorrir, de ser feliz... Estou orgulhosa de você e te admiro cada
vez mais minha amiga-irmã d’alma.

• Oi meu amorzinho! Nossa seu blog tá fantástico e fiquei tão feliz de ver
que você tá chegando lá, tá vencendo. Lembro das primeiras vezes que falávamos, de
algumas crises que você enfrentou com a gente antes de ter prós na net, e nossa, te
admiro, por toda essa forca, por essa coragem. Você não sabe o orgulho que tenho
de você! Tudo isso que acabei de ler são puras verdades. E sim tudo isso é difícil,
mas como você disse, não é impossível. E isso é sempre bom repetir, cada segundo
cada dia, e gostei da historia do passarinho... que o passarinho não pode se separar
da asa. Ao mesmo tempo fiquei triste em saber que você passou por tudo isso, não
conhecia sua historia por completo, mas te admiro ainda mais por saber que você
venceu cada vício desses e hoje tá ai, espantando cada “fantasma” daí de dentro.
Parabéns meu amorzinho, a única coisa q posso dizer q e estou tremendamente feliz
por estar te vendo assim, e também morrendo de saudades dos nossos longos papos
no MSN. Espero que você consiga entrar um dia... Te amoooo irmanguxa, te amo
demais da conta... Ps: esse seu blog ta maravilhoso e com certeza, ajudando muitas
pessoas, encontrando em uma delas eu mesma... beijinhos!!!

• É incrível o jeito que você escreve, sempre como se tivesse falando comi-
go. Sempre me achei a mulher mais nojenta do mundo. Nunca me dei valor algum.
Me sinto como uma mulher da vida. Mas ler o que você escreve me da esperança de
tudo mudar. Venho todo dia ler o que você escreve, é sempre muito bom mesmo.

• Nossa, Lelê. O que você disse é verdade. E essa semana vou conhecer
o mar, e vou poder olhar pra esse horizonte diferente. E já vou olhar com novos
olhos. A dor existe e ainda está presente. Mas ela já é conhecida e a gente já esta
aprendendo a lidar com ela.

• Vim pela primeira vez no seu blog, fiquei curioso porque tava numa comu-
nidade e vi as pessoas falando que era bom. Não acreditei em nada, achava que era
impossível alguém superar, até te mandei um e-mail sem nem ler o blog. Hoje criei
coragem, tô sozinho em casa, sofrendo e chorando muito. Me sinto um peso pra
minha família e meus amigos, tenho medo de tudo até de sair na rua e alguém me
perguntar às horas. Mas li sua história e parei nesse pedaço que diz que a gente tem

190 Helena Damasceno


direito a ser feliz. Gostei da estória da flor e do espinho. To cheio de espinhos e so-
zinho. Mas você me deu esperança e pela primeira vez acho que pode ser diferente.
Vou voltar aqui todo dia e esperar minha esperança nova. Obrigado Lelê.

• Que depoimento impressionante! Fiquei emocionada e fui às lágrimas!


Você conseguiu transmitir todo o seu sentimento de maneira clara, simples e verda-
deira. Parabéns, me ajudou e com certeza vai ajudar muitas pessoas!

• Oi Lelê! Lindo seu post de hoje. Inspirador eu diria, num momento em


que cheguei a pensar se valia mesmo à pena à comunidade, se dedicar em entrar no
sofrimento de tantas daquelas pessoas que entram e pedem ajuda. Muito obrigada
por me lembrar que vale a pena. Beijos!!!

• Parece que escreveu para mim. Hoje parece que não nasci para ser feliz e
para dar felicidade às pessoas, hoje, agora, é assim que estou me sentindo. Não sei
se um dia serei capaz de ser feliz. Obrigada Lelê, por tudo o que tem feito, por esse
blog e por tudo que é.

• Fico emocionada ao ler seus depoimentos, pois eles conseguem expressar,


com certeza, a dor de quem já viveu uma história de abuso. E melhor ainda é conse-
guir mostrar as pessoas que existe uma caminho de recuperação, que mesmo sendo
longo permite que se veja uma luz no final do túnel. Muita paz e alegria pra você.
Beijos.

• Gosto de saber como você está melhorando, que passos deu para começar.
Tenho feito algumas perguntas, pensado muito nisso: se você conseguiu, eu também
consigo. Tenho medo de não conseguir, mas sempre que venho aqui me encho de
coragem.

• Lelê, também estou sobrevivendo a cada dia. a cada luta com o gigante.
Enfrentei um nessa semana mas sinto que ele já esta se desequilibrando e vai cair. E
outro gigante vai vir mas com o tempo vou crescendo e ficando mais forte também.
E logo vai parecer que o gigante não é tão grande assim como eu pensava. Eu que
era pequena. Porque na verdade, é a nossa visão de criança de que o outro e grande
que muitas vezes nos derruba. Mas agora, vamos crescendo e espero não ser uma
gigante que amedronte ninguém mas que leve amor e segurança pras pessoas. Segu-
rança que ainda não tenho mas que espero ainda alcançar. Te amo muito. beijos

• Fico cheia de vontade de chegar onde você tá Lelê, você me deu esperança
de mudar de vida, de melhorar, quem sabe até de me amar. Não pare de escrever,
me sinto como se tivesse andando com você, e fico feliz por que me sinto sua amiga,
fico cheia de vida. Ler você me deu vontade de viver. Obrigada lê.

Pele de Cristal 191


• Fiquei pensando muito na ultima frase. Eu sou diferente, hoje me sinto di-
ferente Lelê. Me sinto fraco, péssimo, um covarde. Não sei se vou consegui suportar
por muito tempo. Penso em morrer mas venho aqui e leio você, talvez eu desista.
Você tem me ajudado muito, mas eu sou diferente mesmo. Queria ser você, ter a sua
força. Quem sabe.

• Oi amiga, é assim que me sinto hoje, envergonhada, mas em uma luta


constante, pois não quero me envergonhar, pois a lógica diz que não há porque me
envergonhar. Quero me libertar disso, me assumir de verdade. Não sei o que está
faltando, mas ainda há um vazio..um buraco.

• Muito difícil não sentir nada quando venho aqui. Hoje não me cortei, você
tocou bem dentro da minha ferida. Tive tanta raiva de mim ontem porque tive medo
e me machuquei. Mas hoje consegui evitar. Lelê eu queria te conhecer pra poder di-
zer que você tá mudando a minha vida, você ta me mostrando que posso melhorar.
Você acha que eu vou conseguir? Às vezes tenho muito medo.

• Achei você através da comunidade do orkut. Sou homem, tenho 22 anos


e estou em processo de recuperação. Bem devagar, bem lentamente, de abusos que
vieram desde a minha tenra infância. Ler você foi muito bom, me identifiquei com
várias coisas. Ainda não tenho a sua força, mas você se tornou para mim um exem-
plo. Deus te abençoe muito pela sua coragem. Meu processo tem sido muito facili-
tado pela coragem de pessoas como você, que mesmo que eu não conheça, tem um
laço comigo, um laço de dor e de recuperação. Deus te dê muita força na sua cami-
nhada, seu texto fez brotar em mim muito amor, e eu peço a Deus sinceramente que
você seja feliz. É a sua coragem que faz o caminho mais fácil para pessoas como eu,
muito obrigado.

• Fortes as suas palavras, me emociono quando leio, quando percebo que


temos vidas muito parecidas, A diferença é que não consegui melhorar, não vivo
alegre, nem acreditando em nada. Outra diferença é que sou alcoólatra, dependo
de drogas e sou borderline. Me corto muito, mas sabe Lê, hoje tento me controlar
lendo você. Já tem uma casca de ferida no meu braço, e faz tempo que isso não
acontecia. Você não imagina a revolução que está fazendo na minha vida. Você é
muito importante pra mim. Eu acredito em você, você passa verdade, escreve o que
se passa na minha cabeça, conversa com meus medos. Sou uma mulher de 42 anos
que nunca conseguiu ser feliz.

• Sei o que é uma gravidez assim, de menina e de menino. Isso sempre vai
me acompanhar, mesmo amando demais eles. Tenho muito cuidado e o melhor é
ser acompanhado por tanta gente legal que me ensina a cuidar deles. E o meu amor
por eles tem superado tudo, mas entendo o seu medo. E ainda tenho ele comigo.

192 Helena Damasceno


Mas ainda bem que você tá superando tudo quando fala desses assuntos tão difíceis.
Te amo muito. Beijos

• Lelê, como sempre, fala pra mim também. Quando você diz: “Algumas
pessoas às vezes se afastam de nós, por medo, por incapacidade de nos curar, ou
por falta de tato mesmo.” Senti isso forte comigo. E por isso, muitas vezes tenho
medo de ser amada. Saber que nem todos são assim mas vocês tem me ensinado que
posso ser amada, mesmo com as quedas que levo. Obrigada por ser uma das pessoas
que tem me ensinado isso. Te amo. Beijos.

• Lelê linda, suas palavras são tão intensas e tão fortes que muitas vezes leio
por cima, assim meio sem querer ler, sem querer entender. Mas outro dia volto e
leio. E este texto, em especial, foi um bálsamo nas minhas feridas. Hoje dei mais um
passo, e é grande coisa sabe por quê? Porque é o meu passo.
• Você tem me mostrado uma vida nova, um caminho novo Lê. A cada dia
acredito um pouquinho mais na vida, e você sabe como isso é quase impossível. Mas
a sua estória me faz mudar de idéia. Comecei a fazer terapia essa semana, pela 1ª
vez, ainda tenho muito medo, mas consegui sair de casa e chegar ao consultório do
psiquiatra. Chorei a sessão toda, não disse uma única palavra, só meu nome. Mas me
senti tão bem, acho que tudo vai melhorar agora. Obrigada por me mostrar que dá
certo se a gente acreditar e eu acredito Lê muito mais em você do que em mim. Sei
que uma hora isso também vai mudar, que vou acreditar mais em mim que em você,
mas até lá, a sua estória é a ponte que eu preciso atravessar para viver. Obrigada por
existir e por fazer da sua estória um estimulo pra mulheres como eu. Você é um
exemplo pra mim.
• Impressionante tua história, tua coragem e determinação, saiba que está
sendo uma lição de vida para todas as pessoas que sofreram algum tipo de violência
e não conseguem livrar-se dos fantasmas do passado, tomara a Deus que um dia os
seres humanos deixem para trás toda a sorte de barbáries e que possamos viver em
amor pleno. Felizes daqueles que perdoaram seus algozes, que creio eu, sofrem o
pior dos martírios, a dor da consciência, um forte abraço!

• Que coisa linda Lelê! Cada vez que venho aqui me encho de energia e de
vontade de viver! Você é fabulosa, escreve com uma intensidade, ensina a gente a
vencer os limites. Com você tenho aprendido a sonhar. Leio seu blog e vejo as cenas
que você passou na minha cabeça, sinto raiva dos que te fizeram mal, mas fico feliz
porque você venceu todos eles e está aqui hoje, escrevendo e estimulando pessoas
como eu a viver e a ser feliz. Você é mesmo tudo de bom!
• Uma das coisas mais fortes que você escreveu. Lelê você é linda, cheia de
coragem e riqueza. Deus te fez para encher de esperança mulheres como eu, tristes
e sozinhas. Quero tanto chegar onde você tá, sabe, enfrentando tudo, acreditando
na vida, mas dói muito e choro, me corto, como feito uma maluca e fico com medo.

Pele de Cristal 193


Sou feia, horrorosa, gorda, chata, ninguém gosta de mim, ninguém me compre-
ende. Mas sabe Lelê, você consegue dizer coisas pra mim que não ouviria de mais
ninguém. Chorei tanto lendo esse texto, ele é forte e verdadeiro. Gosto de ler você,
você escreve muito bem. Deus te ilumine linda Lelê.

• Hoje Lelê você foi fundo, tão fundo que nem sei onde foi parar, não sei
explicar de que forma me atinge, mas sei que hoje chorei tão sofrido, chorei igual a
criança que eu era, me perguntando todos os porquês daquele horror todo, porque a
família não via ou fingia não ver, e porque ninguém me salvou???? Hoje chorei e estou
chorando as dores, elas estão saindo e saindo com elas a doença que ma mata aos pou-
cos. É o choro de pôr pra fora da dor que saí. Hoje tomarei outros rumos, hoje darei
novos passos e depois que acabar de chorar tudo o que eu mereço chorar vou fazer
uma oração pela Lelê e agradecer muito pelo bem que ela me faz. Amiga, obrigada.

• Queria dizer que você tem mudado a minha vida. Tenho pensado muito
sobre tudo que aconteceu, sobre a vergonha de me olhar no espelho e me sentir
velha e gorda, suja e feia. Você diz que isso é um reflexo do abuso, que a gente quer
fugir daquilo que a gente era quando aconteceu. Lê é verdade, pelo menos comigo.
Eu era uma menininha tão linda, tão meiga! Hoje sou uma pessoa horrorosa e sem
vontade de viver. Deixei que ele roubasse minha auto-estima. Como eu faço pra vol-
tar a viver Lê? Como você começou a querer mudar tudo isso? Sabe você diz coisas
fantásticas, muito sutis, pela primeira vez não me sinto obrigada a mudar. Você me
faz refletir por que escreve com carinho.
• Hoje olhei uma foto minha, aquelas de identidade sabe? “Tira a maquia-
gem, tira o cabelo da testa”. Arghhhhh! Ficamos horrendas com cara de matem os
fotógrafos!!! Olhei, olhei e... me achei bonita, achei a pele bonita, o formato dos
olhos, a boca, mas eu olhei tantas e tantas vezes, e tantas, e tantas vezes falei para
os outros: “nem veja to horrorosa”. Aliás, eu dizia isso de todas as minhas fotos.
Mas hoje eu olhei e vi que diferença está no meu jeito de olhar, hoje eu vi que algo
mudou. Lelê, você faz parte disso, do meu novo olhar... É o meu caminho de mãos
dadas com você. Um beijo minha doce amiga.

• Lelê, não consigo ver nada disso, não consigo me olhar no espelho, ter paz
de espírito. Pra onde olho vejo o rosto daquele bandido. Bandido né? Porque bandi-
do é quem comete um crime e o que ele fez comigo foi um crime. Odeio os homens,
detesto! Não comigo ter amizade com nenhum, não consigo respeitar nenhum, pra
mim todos são uma caralhudos, uns Filhos da puta. Desculpe, escrever isso aqui,
nesse teu espaço tão bonito. Mas não suporto mais viver com o pesadelo desse crime.
Eu me odeio também. Sou uma mulher de merda que não consegue ser feliz. Eu rezo
por você Lelê para que você não pare de escrever e de ter essa coragem que você tem.
Mesmo sem conseguir ser como você, o que você escreve me ajuda, me alivia. Sabe
queria ser como você. Você é um exemplo de garra, de coragem. Deus te abençoe.

194 Helena Damasceno


• Oi Lelê. Exatamente sua saída foi estratégica, bem como o da sua iniciação
da MULHER que está se dando a oportunidade de visitar o seu subconsciente ir e
vir. Foi delicioso acompanhar os seus posts, mesmo na abordagem da grande vio-
lência que é a violação dos direitos de uma criança, você usou do que você tem de
melhor e sempre teve, apenas veio a reforçar a todas nós a sua preciosidade como
ser humano, a delicadeza, a meiguice, a forma de amar as pessoas. Suas contribui-
ções foram mágicas para muitas de nós, e tenha a certeza que já elaborei sim a minha
contribuição ao visitar diariamente o seu blog. Faço meus desejos de que você venha
a realizar este seu projeto de sonhos, de fé de esperança e muito amor, revelando à
sociedade este livro.

• Lelê.. Agora eu entendi muita coisa. Porque completou nossa conversa de


amor de hoje. Aquela pequena luz, tá crescendo. Hoje já vejo mais coisas. Já posso
enxergar parte do caminho. Já posso sentir que existe mais saídas. E fiquei feliz
em pensar que você esta se preparando pra ajudar muitas pessoas. Porque sei que
você já tem ajudado e que você tem capacidade pra isso. Você escreve bem. E sabe
como chegar às pessoas que ainda estão sofrendo com o que passaram. Que ainda
não aprenderam a falar sobre isso. Que vão aprender a por pra fora aquilo que as
machucam tanto. Te amo muito, viu?

• Oi Lelê linda da estrela!! Ai Lelê, teu texto me deu uma angustia da não
compreensão, do não ser ouvida do ser apenas sintomas. Quero ser gente, hoje não
consigo ser menos emocional porque estou muito chocada com o caso da XXX,
mas suas palavras arrancam de mim todos os sentimentos que não consigo expres-
sar sozinha. Obrigada minha linda, por acalmar meu coração

• Faz tempo que não visitava seu blog. Vim hoje e tive muitas surpresas.
Você é poetisa também! Que coisa linda Lelê! Você sempre me deu muita força,
mesmo a gente morando tão longe. Hoje estou tentando fazer coisas diferentes: eu
me separei de um marido que me espancava muito, tô fazendo terapia de novo e
não me recuso mais a tomar os remédios que preciso pra controlar minha depressão
e minha ansiedade. Você tem um papel muito grande na minha vida. Pela primeira
vez alguém que tinha passado pela mesma violência que eu, me falava de superação.
Eu confesso que no início você pra mim era uma fraude, eu achava que você queria
chamar atenção. Mas depois eu percebi o quanto você é uma pessoa de aço e de ver-
dade também. Você é igual a mim Lelê. Você tem medo e é forte, enfrenta tudo isso
com a cara e a coragem. Você sente as mesmas coisas que eu porque você não é uma
invenção Lelê. Você é de verdade. Uma vez você me tocou tão forte que passei dias
sem entrar na Internet. Mas hoje eu venho aqui te agradecer e te dizer que você é
uma mulher linda, assim como eu. Você que me ensinou isso: a ser forte, a acreditar.
Obrigada Lelê. Deus te abençoe.

Pele de Cristal 195


• Lelê Linda da estrela!!! Você resumiu todos os meus sentimentos nas últi-
mas palavras, como sempre traduziu meu interior e me deixou comovida, emocio-
nada. Eu também Lelê, eu também sempre quis ser eu!! Te adoro! Beijos

• Sem palavras pra descrever o que senti lendo este post. Lágrimas escorrem
minha face, um dia vou descobrir como é ser EU MESMA, ver que você já se des-
cobriu é mais que um incentivo pra procurar minha verdadeira identidade perdida
em algum lugar. Beijos e que Deus te abençoe sempre. Saudades.

• Oi, Lelê. Quero que você saiba que to com você nessa sua luta, mesmo
não sendo lá tão experiente como você, eu quero pelo menos tá do seu lado sempre.
Você diz coisas que as vezes ainda não entendo mas eu sei a dor que você passou,
pois também sinto ela. Mas o que importa é que um dia ainda vamos ser felizes e
livres. Te amo muito. Beijos.
• Oi Lelê :) Nem sei se você lembra d mim, mas eu sempre lembro de você
e das suas palavras. É tão difícil reconhecer q a gente é forte, porque eu sei que sou
forte, mas eu sei também q sou fraca diante de muita coisa na minha vida. Acredito
q a maturidade me trará mais equilíbrio, porque eu preciso muito.

• Ah, que mundo de sentimentos eu descobri através das palavras da Lelê.


Me encontrei em ti Lelê. Comecei minha busca por ajuda na Internet através de
comunidades no orkut sobre abuso sexual. Encontrei historias muito tristes, muito
parecidas com a minha própria historia e enquanto lia e chorava juntava os pedaços
da minha vida, ficando muito confusa,aliviada por reconhecer nas outras as minhas
atitudes, ver que éramos iguais na dor e nas historias, mas faltava algo, fui ficando
muito deprimida de ver os lamentos e a não reação. Era assim que eu estava, parada,
esperando a morte chegar até que um dia eu vejo um tópico anunciando um novo
blog: era o Pele de Cristal.
Não tive duvida e pronto, estavam lá todas as minhas respostas. Alguém
havia sobrevivido e eu também tinha uma esperança, era uma pessoa aberta que
escrevia lindamente os horrores do abuso sexual que sofreu. Em todos os posts eu
vivia junto a situação, mas não mais de forma negativa. Eu sabia que ela era uma
vencedora e sabia que podia contar com ela pra me levar pela mão, enquanto eu não
conseguisse andar sozinha. Mandei um e-mail me identificando e logo éramos as
melhores amigas, estávamos juntas a caminho da libertação. Eu não perdia um só
dia dos posts e ela escrevia tão intensamente, que muitas vezes, eu só lia por cima e
depois de uns dias ia ler integralmente, para estar forte o suficiente.
Embora com histórias diferentes eu revivi a minha na historia dela, porque
ela expressa tão bem as emoções e sentimentos que parecia que, finalmente eu con-
seguira botar pra fora os esqueletos do meu armário. Através do blog eu pude rever
os horrores e lembrar de muita coisa e isso é muito importante para um completo
desmembramento dos acontecimentos, também me informei mais a respeito dos

196 Helena Damasceno


sinais que eu apresentava quando criança e compreendi a culpa que ainda sinto. Mas
acima de tudo o blog me deu esperança de cura, de vida. Muitas vezes quando já
decidida a dar um fim em tudo eu voltei lá e li novamente e tirei da Lelê as forças
que nem ela sabia que estava me dando.
É um relato de amor a vida, de fé, de recomeço,de carinho,de atitude,de
força,de encantamento. O que fez comigo? Me fez querer viver!! Quer mais que
isso?Olha a importância disso? As palavras da Lelê me fizeram ver alem do abuso,
além do estupro, me fizeram pensar..”Eu sou mais que isso”, “Vocês não consegui-
rão, não vão me destruir!” Claro, eu ainda tenho momentos terríveis, mas nesses mo-
mentos eu dou a mão pra Lelê, e como ela eu também sou transparente e clara, como
ela e com ela eu caminho pra libertação, e como nós muitas outras, através do agora
livro irão também sobreviver e superar. Lelê você é um presente de Deus. Beijos

• Fiz uma pesquisa sobre pele de cristal e achei isso: Quem sonha com uma pele
limpa e uma expressão mais suave, mas tem pavor do desconforto provocado pelo peeling químico,
agora tem uma alternativa - de mesmo efeito: peeling de cristal. Aí fiquei pensando no pele de
cristal da Lelê. Tem o mesmo significado, mas pra alma. Uma alternativa mais suave
pra ter uma pele da alma limpa. Sem o desconforto da quimica. É um tratamento
que fala da delicadeza da Lelê. Uma pessoa forte e frágil ao mesmo tempo. Sabe o
que isso significa pra mim? Que existe esperança...
Pode parecer confuso a muitos, mas sei que pra nós é tudo muito claro hoje.
Já foi escuro e estamos encontrando a saída do tunel. E é tão lindo ver o dia claro, o
sol, o céu tão azul. Lembro do outro blog da Lelê que tinha um riozinho. Acho que
era uma cachoeirinha, Sei que falava da agua e a gente sempre falava do que a agua
representava pra gente. Muitas vezes, eu não entendia algumas palavras do texto
mas o barulhinho da agua caindo, me fazia entender os seus sentimentos que eram
tão parecidos com o que eu sentia. E aí veio o pele de cristal. Lembro do primeiro
layout. Eu não gostei pois tinha muito vermelho, era muito forte. Não parecia com
o novo momento da Lelê. Falei com ela que pra mim, o pele de cristal falava mais
de transparencia e suavidade. Apesar de ser tão menina, ela me ouviu, eu acho. Quer
dizer, não sei se ela mudou porque eu falei isso mas ela mudou pra um rosa mais
claro, mais translúcido. Achei lindo e amei cada coisa que ela escreveu lá. De novo
teve algumas coisas que não entendi, algumas palavras que tive que olhar no dicio-
nário mas que foram aprendizado pra mim. Mas a essência do que ela escrevia, me
fazia ver a delicadeza e a transparencia de quem abria a sua alma pra gente. E pelo
que eu sentia, ela abria sua alma tambem pra ela mesma. E fomos testemunha da sua
mudança. Como ela tem sido da minha.
Agora vem a nova etapa. O blog virando livro. E as mudanças da Lelê não
param. Ela tá estudando pra ser psicologa e ajudar tanta gente. E continua cantora
e vai ser escritora. Tantas Lelê numa só. Mas que na essencia é o que ela é mesmo.
Uma pessoa especial, que nasceu pra brilhar nesse mundo, pra levar luz pra tanta
gente.

Pele de Cristal 197


Hoje ela me mostrou a capa do livro. Tão lindo... E me perguntou se eu gos-
tei. Ela achou que eu não tinha gostado mas como eu não ia gostar da simplicidade
que eu tanto gosto nela. Uma capa simples, limpa, com a sua suavidade, sua delica-
deza numa rosa, na sombra que mostra a transparencia da sua vida, que ela mostra
pra quem quiser ver. Sua história, seu exemplo. Simplesmente Lelê.
Da sua caçulinha, que mesmo crescendo, vai sempre andar atras de voce pra
aprender mais...

198 Helena Damasceno


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